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Simbolismo português

CAVADOR DO INFINITO

Com a lâmpada do Sonho desce aflito

e sobe aos mundos mais imponderáveis,

vai abafando as queixas implacáveis,

da alma o profundo e soluçado grito.

Ânsias, Desejos, tudo a fogo escrito

sente, em redor, nos astros infefáveis.

Cava nas fundas eras insondáveis

o cavador do trágico Infinito.

E quanto mais pelo Infinito cava

mais o Infinito se transforma em lava

e o cavador se perde nas distâncias...

Alto levanta a lâmpada do Sonho

e com seu vulto pálido e tristonho

cava os abismos das eternas ânsias!-

Vocabulário

Imponderável: que não se pode avaliar; indefinível;

Implacável: que não se pode abrandar; inexorável;

Inefável: que não se pode exprimir por palavras, indizível;

Insondável: cujo fundo não se pode atingir, inexplicável.

CÁRCERE DAS ALMAS

Ah! Toda a alma num cárcere anda presa,

Soluçando nas trevas, entre as grades

Do calabouço olhando imensidades,

Mares, estrelas, tardes, natureza.

Tudo se veste de uma igual grandeza

Quando a alma entre grilhões as liberdades

Sonha e sonhando, as imortalidades

Rasga no etéreo Espaço da Pureza.

Ó almas presas, mudas e fechadas

Nas prisões colossais e abandonadas,

Da Dor no calabouço atroz, funéreo!

Nesses silêncios solitários, graves,

Que chaveiro do Céu possui as chaves

Para abrir-vos as portas do Mistério?!

ANTÍFONA

Ó Formas alvas, brancas, Formas claras

De luares, de neves, de neblinas!...

Ó Formas vagas, fluídas, cristalinas...

Incensos dos turíbulos das aras...

Formas do Amor, constelarmente puras,

De Virgens e de Santas vaporosas...

Brilhos errantes, mádidas frescuras

E dotências de lírios e de rosas...

Indefiníveis músicas supremas,

Harmonias da Cor e do Perfume...

Horas do Ocaso, trêmulas, extremas,

Requiem do Sol que a Dor da Luz resume...

Visões, salmos e cânticos serenos,

Surdinas de órgãos flébeis, soluçantes...

Dormências de volúpicos venenos

Sutis e suaves, mórbidos, radiantes...

Infinitos espíritos dispersos,

Inefáveis, edênicos, aéreos,

Fecundai o Mistério destes versos,

Com a chama ideal de todos os mistérios.

Do Sonho as mais azuis diafaneidades

Que fuljam, que na Estrofe se levantem

E as emoções, todas as castidades

Da alma do Verso, pelos versos cantem.

Que o pólen de ouro dos mais finos astros

Fecunde e inflame a rima clara e ardente...

Que brilhe a correção dos alabastros

Sonoramente, luminosamente.

Forças originais, essência, graça

De carnes de mulher, delicadezas...

Todo esse eflúvio que por ondas passa

Do Éter nas róseas e áureas correntezas...

Cristais diluídos de clarões alacres,

Desejos, vibrações, ânsias, alentos

Fulvas vitórias, triunfamentos acres,

Os mais estranhos estremecimentos...

Flores negras do tédio e flores vagas

De amores vãos, tantálicos, doentios...

Fundas vermelhidões de velhas chagas

Em sangue, abertas, escorrendo em rios...

Tudo! vivo e nervoso e quente e forte,

Nos turbilhões quiméricos do Sonho,

Passe, cantando, ante o perfil medonho

E o tropel cabalístico da Morte...

Vocabulário

antífona: versículo que se anuncia antes de um salmo.
turíbulo: vaso em que se queima incenso nos templos.
ara - altar dos sacrifícios nos templos.
mádida: umedecida
dolência: mágoa, sofrimento.
réquiem: missa fúnebre
flébil: lacrimoso, choroso
edênico: paradisíaco
diafaneidade: transparência
alabastro: entre os gregos antigos, pequeno vaso sem asas utilizado para queimar perfumes.
eflúvio: emanação invisível que se desprende de um fluido; aroma, perfume.
álacre: alegre, jovial.
fulva: de cor amarelo-tostado, alourada.
acre: amargo, áspero.
tantálico: infernal.
quimérico: fantástico.
tropel: desordem, balbúrdia
cabalístico: secreto, misterioso, obscuro

MÚSICA DA MORTE...

A música da Morte, a nebulosa,

Estranha, imensa música sombria,

Passa a tremer pela minh'alma e fria

Gela, fica a tremer, maravilhosa...

Onda nervosa e atroz, onda nervosa,

Letes sinistro e torvo da agonia,

Recresce a lancinante sinfonia,

Sobe, numa volúpia dolorosa...

Sobe, recresce, tumultuando e amarga,

Tremenda, absurda, imponderada e larga,

De pavores e trevas alucina...

E alucinando e em trevas delirando,

Como um ópio letal, vertiginando,

Os meus nervos, letárgica, fascina...

Alphonsus de Guimaraens

(1870-1921)

DADOS BIOGRÁFICOS

Afonso Henrique da Costa Guimarães, nascido em Ouro Preto no ano de 1870, concluiu seus primeiros estudos na sua cidade natal. Aos dezoito anos, presenciou um fato que marcaria profundamente toda a sua vida e suas poesias: a morte de Constança (filha de Bernardo Guimarães), sua prima e noiva, às vésperas do casamento. O poeta nunca conseguiria superar o trauma da perda, e toda sua obra parece refletir essa amargura.

Logo vai para a cidade de São Paulo estudar Direito, vindo a se formar no ano de 1895. Na capital paulista, tomou contato com os ideais simbolistas e escreveu a maior parte de sua obra. Em viagem pelo Rio de Janeiro, conheceu com muito entusiasmo um outro verdadeiro ícone do Simbolismo: Cruz e Sousa. De volta a Minas Gerais, exerceu o cargo de juiz na cidade de Mariana, onde levou uma vida pacata com sua esposa, Zenaide de Oliveira, e seus catorze filhos. Viveu em Mariana até a morte, no ano de 1921.

CARACTERÍSTICAS LITERÁRIAS

A obra de Alphonsus de Guimaraens é toda marcada por uma profunda suavidade e lirismo, com uma linguagem simples e um ritmo bem musical, cheio de aliterações e sinestesias. Por ter uma formação mais clássica e uma influência de cunho medieval, há o emprego constante das redondilhas, além dos versos alexandrinos e decassílabos, com ênfase no soneto, forma pela qual o poeta domina com grande êxito. A presença da amada pedida, Constança, está sempre presente, retratada aos moldes medievais: uma divindade intocável, perfeita, livre de qualquer toque de erotismo e somente acessível através da morte. Por várias vezes ela é confundida com a imagem pura da Virgem Maria, de quem o poeta é profundamente devoto. Sua obra, aliás, é considerada a mais mística de nossa literatura. A morte é outro fator importante dentro de sua obra, o que o aproxima muito dos poetas românticos. Há a aceptividade, a simpatia e o desejo pela morte, já que ela é o único caminho para se chegar à amada. Ela é o destino último, insuperável, em contraste com a miséria do mundo real. Cria-se assim um ciclo de misticismo, amor idealizado e obsessão da morte, onde a melancolia é sempre um fator marcante, aliada aos sonhos e às amarguras pessoais do poeta, muitas vezes refletidas pelos traumas do passado.

PRINCIPAIS OBRAS

Poesia

Septenário das Dores de Nossa Senhora e Câmara Ardente (1899); Dona Mística (1899); Kyriale (1902), seu primeiro livro, publicado tardiamente; Pauvre Lyre (1921); Pastoral dos Crentes do Amor e da Morte (1923), A Escada de Jacó (1938); Pulvis (1938).

Prosa

Os Mendigos (1920).

Tradução

Nova Primavera (de Heine)(1838).

Antologia de Alphonsus de Guimarães

A CATEDRAL

Entre brumas, ao longe, surge a aurora.

O hialino orvalho aos poucos se evapora,

Agoniza o arrebol.

A catedral ebúrnea do meu sonho

Aparece, na paz do céu risonho,

Toda branca de sol.

E o sino canta em lúgubres responsos:

"Pobre Alphonsus! Pobre Alphonsus!"

O astro, glorioso segue a eterna estrada.

Uma áurea seta lhe cintila em cada

Refulgente raio de luz.

A catedral ebúrnea do meu sonho,

Onde os meus olhos tão cansados ponho,

Recebe a bênção de Jesus.

E o sino clama em lúgubres responsos:

"Pobre Alphonsus! Pobre Alphonsus!"

Por entre lírios e lilases desce

A tarde esquiva: amargurada prece

Põe-se a lua a rezar.

A catedral ebúrnea do meu sonho

Aparece, na paz do céu tristonho,

Toda branca de luar.

E o sino chora em lúgubres responsos:

"Pobre Alphonsus! Pobre Alphonsus!"

O céu é todo trevas: o vento uiva.

Do relâmpago a cabeleira ruiva

Vem açoitar o rosto meu.

E a catedral ebúrnea do meu sonho

Afunda-se no caos do céu medonho

Como um astro que já morreu.

E o sino geme em lúgubres responsos:

"Pobre Alphonsus! Pobre Alphonsus!"

PÁLIDA, PÁLIDA...

Pálida, pálida, revolto

Em ondas o basto cabelo,

O triste olhar como que solto

Do fundo de algum pesadelo...

Pálida, lívida talvez,

Desse palor que a Alma nos corta,

A macerada, a ebúrnea tez

Menos de viva que de morta...

Pálida... vi-te assim. Andando

De uma sonâmbula tu tinhas

O incerto passo miserando

E a fronte erguida das Rainhas...

Oh pálida... pálida... A cor

De Maria cheia de graça,

Vendo agoniar o Redentor,

Não era assim tão branca e baça...

Pálida... mas em que tragédia

Vi uma figura igual à tua?

Que monja ideal da Idade Média

Tinha essa lividez de lua?

Pálida... vi-te, oh! vi-te assim.

Do sol-das-almas o desmaio

Último vinha: era no fim

De uma tarde triste de maio...

ISMÁLIA

Quando Ismália enlouqueceu,

Pôs-se na torre a sonhar...

Viu uma lua no céu,

Viu outra lua no mar.

No sonho em que se perdeu,

Banhou-se toda em luar...

Queria subir ao céu,

Queria descer ao mar...

E, no desvario seu,

Na torre pôs-se a cantar...

Estava perto do céu,

Estava longe do mar...

E como um anjo pendeu

As asas para voar...

Queria a lua do céu,

Queria a lua do mar...

As asas que Deus lhe deu

Ruflaram de par em par...

Sua alma subiu ao céu,

Seu corpo desceu ao mar...

IMMACULATA

Quando te fores, branca, de mãos postas,

E me deixares neste val de pranto,

Deitada assim, como as demais, de costas

Sobre o teu leve esquife de pau-santo:

Quando as rosas dos seios, decompostas,

Vierem causar à própria morte espanto,

E nessas tábuas vis, onde te encostas,

Te for o lodo o derradeiro manto:

Ainda hei de ver as lúcidas violetas

Que floriram no teu olhar incerto,

Por sob as tuas sobrancelhas pretas...

Ai! como Inês tu não será rainha:

Mas amada hás de ser no céu decerto

Porque na terra nunca foste minha...

NOIVA

N'as-tu pas senti le gout des éternelles amours?

H. de Balzac

Noiva... minha talvez... pode bem ser que o sejas.

Não me disseste ao certo o dia em que voltavas.

O céu é claro como o teto das igrejas:

Vens de lá com certeza. Humildes como escravas,

Curvadas ainda estão as estrelas morosas;

E bem se vê que algum excelso vulto branco

Passou por elas, entre arcarias de rosas,

Revolto o manto de ouro, afagando-lhe o flanco.

Há tanto tempo que te espero, e espero embalde...

Não sabia que assim tão diferente vinhas.

Tinhas negro o cabelo: entanto a nuvem jalde,

Que o doura todo, o faz tão outro do que tinhas!

Quando morreste, o sol era morto, e ainda agora

Para mim se prolonga essa noite de guerra...

Acaso vens com o teu olhar de eterna aurora

Aclará-la outra vez, vindo de novo à terra?

Vejo-te a imagem tão destacada no fundo

Deste meu sonho, que é como se eu não sonhasse...

Cheio da nostalgia estelar de outro mundo,

Tem as mágoas de um astro o palor da tua face.

Caminhas, e os teus pés sublimes nem de leve

Tocam a flor do solo: o ar impalpável pisas.

Ora se abaixa, ou se ergue o teu corpo de neve...

Parece que te vão berçando auras e brisas.

O peristilo arcual da tua boa se move:

Soabre-se: a fulva luz que a ilumina contemplo...

Falas: como me pasma e inebria e comove

Toda a púrpura real do interior desse templo!

Parece que um hinal de suaves litanias

Acompanha a tua voz nas palavras que soltas.

Não sabia que assim tão outra voltarias:

Eras de negro olhar, de olhar azul tu voltas.

Que me admira se vens de olhar azul e louro

Cabelo? Não é a mesma a tua formosura?

Voltas do céu, e a cor celestial é azul e é ouro,

E é todo este clarão que a imagem te moldura.

Noiva... minha talvez... e por que não? Setembro

Volta. Setembro é o mês das laranjeiras castas.

Vens de grinalda branca, a voar... Ah! bem me lembro,

A veste com que foste é a mesma que hoje arrastas.

Foste de branco e vens de branco ainda trajada.

A túnica nupcial que em níveas dobras desce

Pelo teu corpo, tem a brancura sagrada

Dos alvos corporais do altar exposto à prece.

O parélio do gênio imortal que te anima

Surge no resplandor que te aureola a cabeça.

Atenta escutas os meus versos rima a rima,

E mandas que em cada um a tua Alma apareça.

Quero abraçar-te e nada abraço... O que me assombra

É que te vejo e não te encontro com os meus braços.

Morta, beijei-te um dia: hoje tu és uma sombra

Exilada do céu para seguir-me os passos.

Fonte: www.portrasdasletras.com.br

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