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Síndrome Burnout

A Síndrome do Burnout: a Saúde em Docentes de Escolas Particulares

Saúde e Qualidade de Vida são dois conceitos que estão presentes hoje em todos os contextos vitais: família, escola, trabalho, mídia. Se constituem em prioridades que almejamos conquistar e defender frente aos ataques quotidianos das pressões ambientais. Sucumbir ao infarto, ser consumido pelo câncer, padecer cronicamente de dores musculares, dores de cabeça, estar constantemente irritado e impaciente... são formas de vida e morte que ninguém quer para si mesmo. Ou será que o docente não acha tão ruim ‘o adoecimento no trabalho’?.

Estamos perante um assunto extremamente sério e relevante. A saúde é um bem essencial, é o amor pela vida. Entendemos por saúde como um construto multidimensional composto por uma dimensão externa constituída pelo ambiente ou contexto onde estamos inseridos e pelo grupo social ao qual pertencemos, com suas normas, suas crenças sobre o que é normal e patológico, suas formas de ser e se relacionar. Estas duas dimensões externas formam o ecossistema (Eco de ‘oikós’, em grego, casa, ‘habitat’). Este sistema o contexto contribui para nos proteger ou nos destruir na função docente.

Ao mesmo tempo, e em íntima conexão com esse sistema, estão as dimensões internas: o corpo ou dimensão biológica e a dimensão psico-social, que constituem nosso organismo entendido como uma unidade integrada. Na interação do sujeito com o contexto, o comportamento humano se manifesta de forma saudável ou doentia. A saúde, portanto, está alicerçada multidimensionalmente, diferente de outros tempos em que era colocada no sujeito a responsabilidade pelo seu adoecer . São diversos os fatores para analisar e avaliar no sentido de concluir que estamos vivendo num ambiente saudável e que promove ou não nossa qualidade de vida.

Nos podemos perguntar: o quanto de saúde possuímos ? Ou será que ter ou não ter saúde é algo assim como ter ou não ter carro?

Ledo engano. Estamos constantemente oscilando, em uma tensão constante, entre forças de saúde e de doença. A saúde não se tem, se conquista todos os dias.

É como si fosse um continuum linear onde num extremo está a doença e morte e no outro a saúde e vida. Só atingiremos o completo estado de bem-estar na hora da morte. Uma área de estudos recente é a denominada ‘Saúde do Trabalhador’. Ela se preocupou inicialmente com a saúde física do trabalhador, evitando os acidentes de trabalho, extremamente caros para o Sistema de Saúde...

Atualmente, existe uma visão mais favorável ao trabalhador desde uma perspectiva bio-psico-social, com equipes interdisciplinares preocupadas com a promoção e prevenção da saúde, buscando as empresas, desde a responsabilidade social, maior qualidade de vida no trabalho. No entanto, ainda há uma mentalidade empresarial de que, preenchidas as necessidades materiais, o trabalhador não tem outras necessidades a satisfazer (valorização, participação, realização pessoal e profissional...). Além da preocupação com o atendimento às necessidades do trabalhador por parte de algumas empresas, existe certo tipo de trabalho que, pelas suas características, exige muita maior atenção e desgaste emocional, são as atividades desenvolvidas em constante interação com as pessoas (pacientes, alunos). Quando o trabalhador envolvido nestas atividades não consegue manter seu equilíbrio pessoal, poderá apresentar um tipo de doença chamada de Síndrome do Desgaste Profissional ou Burnout (Maslach e Leiter, 1999).

O Burnout é um estado de estresse cronificado. Todos padecemos de estresse, e um mundo de estressores está sempre presente no quotidiano das nossas vidas. Mas, quando não sabemos lidar com o estresse, podemos sucumbir. Uns lidam com a situação de estresse, fugindo da mesma, outros tentam ignora-la ou nega-la, e outros procuram fazer frente a ela, encontrando alternativas saudáveis para lidar com a situação. Para chegar a se constituir em uma síndrome, nosso organismo nos alerta antes e busca formas de combate ou compensação, até verificar, em certos casos, que a luta é inglória e cronifica-se o estrese como um traço ou uma síndrome, que poderá desembocar em doenças físicas, psicossomáticas, psíquicas (depressão), ou sociais (psicopatias).

A Sindrome de Burnout é constituída, segundo Maslach e Leiter (1999), por três dimensões:

Exaustão Emocional: Falta de energia, sentimento de esgotamento afetivo.
Despersonalização:
Estabelecimento de relações interpessoais de forma fria, caracterizando insensibilidade emocional. Baixa realização pessoal: Auto-avaliação negativa, falta de motivação para o trabalho.

Será que esta Síndrome caracteriza aos docentes de escolas particulares? Wanderley Codo (1999) encontrou em amostra de 39.000 docentes dos diferentes estados do Brasil que 48,4% possuem comprometimento em alguma das três dimensões do Burnout, sendo o Rio Grande do Sul, o sétimo estado com ‘pior’ saúde docente. Por outro lado, em amostra de professores de escolas particulares dos três níveis de ensino, de uma cidade do interior do RS, Moura (2000) observou a presença de Burnout em níveis médios. A autora explica que para manter em equilíbrio o funcionamento psíquico, os docentes desenvolvem formas de resistência ou enfrentamento como a procura de auto-regulação permanente, que se afastados da saúde (pólo prazer-saúde), pode levar à doença. Assim, ao mesmo tempo que os professores avaliam a profissão como ‘um jogo que desafia e gratifica’, também a qualificam como profissão ‘desgastante, explorada e desvalorizada’, denominando esta atitude patogênica como de ‘normalidade sofredora’.

Outras pesquisas de caráter qualitativo desenvolvidas por Volpi (1994), Mosquera e Stobäus (1996) e Nunes e Teixeira (2000), explicitam algumas causas apontadas pelos docentes entrevistados como desencadeadores do mal-estar docente:

Falta de tempo para realizar bem o trabalho (cada vez mais alunos, mais aulas, mais conteúdos fora da área de formação); Burocratização do trabalho, planilhas, dados a preencher, controle avaliativo,,,
Conflito de papéis:
ora professor, ora pesquisador, ora administrador.
Exigências acadêmicas:
novos curriculuns, avaliações MEC, novas tecnologias.
Invasão do espaço privado:
trabalho em casa, à noite, finais de semana Trabalho que exija concentração, escrever artigos, preparar aula, somente fora do ambiente de trabalho; Preocupação da escola com desempenho acadêmico e tecnologia, sem valorizar a qualidade de vida do professor, os valores humanos prescritos da Instituição.

Essas e outras fontes de estresse no contexto educativo constituem aspectos diante dos quais podemos ser vulneráveis ao Burnout. Por outro lado existem fontes de gratificação que auxiliam no equilíbrio do professor. Um bom número de docentes consideram a sua profissão como ‘desafiadora’ e estimulante perante os novos cenários educativos (Moura, 2000). A interação professor-aluno é o suporte mais forte da vinculação saudável do professor com o seu trabalho. Na interação com o aluno muitos encontram o sentido do trabalho docente, junto com a liberdade que ainda existe, do professor na sala de aula. É interessante observar que ‘o ato educativo’ na sua essência é um fator preponderante de saúde e ancoragem dos professores. O que acontece com toda essa estrutura escolar, fora da sala de aula, que está sendo tão negativa para os docentes? Dejours (1992), no seu livro ‘A loucura no trabalho’, nos auxilia na compreensão da estrutura organizacional no seu papel na Saúde do Trabalhador.

Para o autor deve-se analisar três aspectos que configuram a psicodinâmica do trabalho:

As condições de trabalho; As relações no trabalho; A organização do trabalho, diferenciando a organização ‘prescrita’ (ideário, filosofia, normas) e a ‘real’ (construída).

Podemos enumerar em cada um destes aspectos o perfil que caracteriza a instituição onde o leitor está inserido. Participantes do sétimo CEPEP (Congresso Estadual de Professores de Escolas Particulares do RGS) trouxeram alguns dados.

Um deles tem a ver com as condições de trabalho: será que existe algum espaço na Instituição para o professor poder relaxar, ter um lugar de descanso nos intervalo das aulas? Parece que a Instituição está muito preocupada com investir em mais salas de aula, mais computadores para os alunos, melhor infraestrutura para fazer frente à concorrência, do que investir no professor, onde a preocupação com seu bem-estar? Os custos sociais de um docente são altos, será que isso justifica sobrecarregar de aulas a um número reduzido de professores?

Outro aspecto se refere às relações de trabalho. Eu me deparei atônito com o depoimento de um professor sobre o autoritarismo de alguma escola particular.

Será que os gestores destas instituições não estão interassados em ter os seus professores como aliados? A direção de escola que não se abra para a participação dos seus professores nos diferentes níveis de gestão, dificilmente terá seus docentes identificados com ela. O clima escolar participativo e democrático, longe de representar um perigo institucional, gera bem-estar, saúde, compromisso, sentido de pertença, identidade com os objetivos da Instituição.

A organização do trabalho prescrita ou real, nos situa numa encruzilhada. As escolas particulares, geralmente confessionais, norteiam seus fins e metas dentro do espírito cristão, com a finalidade de desenvolver valores humanos. Até aqui o ideal, o prescrito. Na prática existem sérias dificuldades no desenvolvimento destes valores. Alguns autores como Tamayo, Mendes e Paz, (2000), e Schein (2001), assinalam sérias incongruências entre os valores estabelecidos no papel e os que realmente são praticados pela organização. Os valores ‘vividos’ e não prescritos dentro de uma organização são aqueles nos quais mostra-se a essência da cultura, valores e crenças apreendidos em conjunto, que são compartilhados e tidos como corretos a medida que a organização consegue ter sucesso nos seus objetivos (Schein, 2001). Os valores organizacionais e as possíveis distâncias ou incongruências entre o ‘ideal’ e o ‘real’ poderão estar relacionados com o processo saúde/doença, como foi verificado por Borges e cols. (2002), em profissionais da área da saúde, na relação significativa obtida entre Burnout e valores organizacionais. Uma vez identificadas possíveis fontes de Burnout no âmbito do trabalho, passamos a propor formas de prevenir ou fazer frente a esta Síndrome.

Expomos algumas estratégias que privilegiam a saúde e qualidade de vida no contexto escolar:

Transformar a escola em um contexto saudável, desenvolvendo as modificações necessárias no âmbito das relações, das condições e da organização do trabalho
Propiciar o fortalecimento (empowerment) pessoal e coletivo, desenvolvendo capacidades de lidar com o estresse, valorização pessoal e grupal, controle das situações de conflito, modificando o contexto e canalizando necessidades e aspirações (Montero, 2003)
Desenvolver redes de apoio social, formando grupos de discussão entre professores, oportunizando reflexões entre líderes institucionais e professores, reunindo alunos e pais para apresentação de trabalhos, experiências, chamando aos pais para trocas sobre modelos educativos e formas de lidar com os alunos, chamando aos alunos para participarem de jornadas, criando fóruns permanentes de diálogo e co-responsabilidade educativa.
Implementar recursos, pessoais e ambientais, que propiciem melhoria na qualidade de vida dos docentes.

E, para concluir, com o próprio Maslach e Leitter (1997/1999), uma das principais estratégias para prevenir a síndrome, é a de enfatizar a promoção dos valores humanos no ambiente de trabalho ou,. como nos lembram as conclusões do trabalho de Borges e cols. (2002), adotar valores mais orientados para a coletividade, em oposição aos valores mais individualistas. Se queremos não somente ‘sobreviver’ no trabalho e sim fazer do trabalho uma fonte de saúde e realização cabe a cada um de nós mas do que chorar e lamentar, iniciar um processo de mudança pessoal e institucional, com propostas construtivas e participativas, ou, se os nossos ambientes são mais fechados e resistentes, administrar a própria saúde e buscar aliados para iniciar um movimento que leve a construção de espaços mais saudáveis no contexto de trabalho.

Jorge Castellá Sarriera

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Borges, L.O., Argolo, J.C.T., Pereira, A.L.S., Machado, E.A.P., Silva, W.S. (2002). A Síndrome de Burnout e valores organizacionai: Um estudo comparativo em hospitais universitários. Psicologia: Reflexão e crítica, 15 (1), pp.189-200.
Codo, W. & Batista, A. S. (1999). O que é burn-out. Em Educação Carinho e Trabalho (pp.237-253). Codo, W. (org.) Petrópolis: Editora Vozes.
Maslach, C. & Leiter, M.P. (1999). Trabalho: Fonte de prazer ou desgaste? Guia para vencer o estresse na empresa (M.S. Martins, Trad.). Campinas: Papirus. ((original publicado em 1997).
Montero, M. (2003). Teoria y Práctica de la Psicología Comunitaria: la tensión entre la comunidad y sociedad. Buenos Aires: Piados.
Mosquera, J. & Stobäus, C.D. (1996). O mal-estar na docência: Causas e conseqüências. Educação – Porto Alegre, 31, 139-146.
Moura, E.P.G. (2000). Esgotamento profissional (burnout) ou Sofrimento Psíquico no Trabalho: O caso dos professores da Rede de ensino particular. In Sarriera. J.C. (Org). Psicologia Comunitária - Estudos Atuais. Porto Alegre: Sulina.
Nunes. M.L. & Teixeira, R.P. (2000). Burnout na carreira acadêmica. Educação – Porto Alegre, 41, 147-164.
Schein, E.H. (2001). Guia de sobrevivência da cultura corporativa. Rio de Janeiro: José Olympia.
Tamayo, A., Mendes, A. M., Paz, M.G.T. (2000). Inventário de valores organizacionais. Estudos de Psicologia (Natal), 5 (2).
Volpi, M. (1994). Testemunho de professores sobre sua ação profissional e a responsabilidade social da universidade: docentes da PUCRS pensam sua universidade. Tese de doutorado não-publicada, Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, Rio Grande do Sul, Brasil.

Fonte: www.sinpro-rs.org.br

Síndrome de Burnout

Conceitos

O termo burnout foi conhecido pela primeira vez vindo de um psicólogo clínico familiar, Hebert Freudenberger pelo ano de 1974. Explica FREUDENBERGER (1974, p.238) "(...) burnout é falhar, desgastar-se ou sentir-se exausto devido as demandas excessivas de energia, força ou recursos". Apesar de ter sido Freudenberger a pessoa que deu origem ao conceito de burnout, foi a pesquisadora Christina Maslach que no ano de 1982 definiu a síndrome de uma forma contundente. A definição estabelecida por MASLACH (1986) é "Síndrome de fadiga emocional, despersonalização e de uma auto-estima reduzida, que pode ocorrer entre indivíduos que trabalham em contato direto com clientes ou pacientes". A literatura internacional indica que não existe uma definição única sobre burnout, mas é considerado como por exemplo, uma resposta do stress laboral crônico, não devendo contudo ser confundido com stress. FARBER (1995) realiza uma revisão dos conceitos, da síndrome de burnout, agrupando algumas definições e seus respectivos autores.

Seguem abaixo: as definições da síndrome de burnout. FREUDENBERGER (1974) apud MASLACH (1986), a partir de uma perspectiva clínica, considera que burnout representa um estado de exaustão resultante de trabalhar exaustivamente, deixando de lado até as próprias necessidades. MALASCH; JACKSON (1986) representam uma abordagem socio-psicológica da síndrome, apontam como o estresse laboral leva ao tratamento mecânico do cliente. Burnout aparece como uma reação à tensão emocional crônica gerada a partir do contato direto e excessivo com outros seres humanos, já que cuidar exige tensão emocional constante, atenção permanente e grandes responsabilidades profissionais.

Em resumo: o trabalhador se envolve afetivamente com seus clientes, desgasta-se, não agüenta mais, desiste, entra em burnout. Para esses pesquisadores o mal afeta com maior freqüência profissionais da área da educação e saúde. CHERNISS (1995) a partir de uma perspectiva organizacional, argumenta que os sintomas que compõe a síndrome de burnout são respostas possíveis para um trabalho estressante, frustrante ou monótono. Para FARBER (1991), burnout é uma síndrome do trabalho, que se origina da discrepância da percepção individual entre esforço e conseqüência esta percepção está influenciada por fatores individuais, organizacionais e sociais. AMORIM; TURBAY (1998), afirmam que a síndrome é uma experiência subjetiva, que agrupa sentimentos e atitudes implicando alterações, problemas e disfunções psicológicas com conseqüências nocivas para a pessoa e a organização sendo que esta afeta diretamente a qualidade de vida do indivíduo. Por isso, é necessário um estudo também filosófico onde se explica a natureza humana e, principalmente, as dinâmicas interpessoais que possam interferir no desempenho e produtividade no trabalho. GOLEMBIEWSKI; DOLY (1995) acrescentam que desde a Teoria das Organizações, burnout é entendido como conseqüência de um desajuste entre as necessidades do trabalhador e dos interesses da empresa.

A música Burnout, do Grupo GREENDAY (1999), nos dá uma concepção sintética e popular da Síndrome, traduzida no sentimento que a letra expressa tão apropriadamente:

Burnout

I declare I don't care no more I'm burning up and out and growing BORED In my smoked out BORING room My hair is shagging in my eyes Dragging my feet to hit the street tonight To drive along these shit town lights I'm not growing up, I'm just burning out And I stepped in line to walk amongst the DEAD Apathy has rained on me Now I'm feeling like a soggy dream So close to drowning but I DON'T MIND I've lived in this mental cave Throw my emotions in the grave Hell, who needs them anuway I'm not growing up, I'm just burning out And I stepped in line to walk amongst the DEAD (3x)

BURNOUT

Eu declaro que não me importo mais Estou "queimando" e ficando ENTEDIADO. Em meu ABORRECIDO quarto enfumaçado Meu cabelo está entrando em meus olhos Arrastando meus pés para a rua esta noite Para dirigir entre as luzes dessa cidade de merda Eu não estou crescendo, estou só "queimando" E me alistei para caminhar entre os MORTOS. Choveu apatia em mim Agora eu me sinto como um sonho ensopado Tão perto de me afogar, mas EU NÃO LIGO. Eu vivi nessa caverna de metal Atiro meus sonhos no túmulo INFERNO, quem precisa deles, afinal Eu não estou crescendo, estou só "queimando" E me alistei para caminhar entre os MORTOS. Grupo Greenday (1999) As pesquisas demonstram que o burnout ocorre em trabalhadores altamente motivados, que reagem ao stress laboral trabalhando além dos seus limites até que entram em colapso. Burnout é o sentimento de discrepância entre o que o trabalhador dá (o que ele investe no trabalho) e aquilo que ele recebe (reconhecimento de superiores e colegas e no caso aqui, de resultados no comportamento geral do aluno). O conflito provindo das atividades inseridas nas profissões de ajuda isto é, que exigem cuidados, configura-se sob dois canais, sendo um afetivo e outro racional.

Dependendo das características de personalidade de cada trabalhador, irão se valer de um enfrentamento mais afetivo do conflito, enquanto as outras, de um enfrentamento mas racionalizado. Desta forma, o sofrimento vai se manifestar através de uma conjunção de sintomas através de ansiedade exacerbada como também da excitação total desta, com o conseqüente endurecimento emocional.

DEJOURS (1987, p.15) esclarece o conceito de sofrimento e sua relação com o trabalho, talvez seja oportuno citar esta explicitação: O sofrimento designa então, em uma primeira abordagem, o campo que separa a doença da saúde. Dentro de uma segunda acepção, o sofrimento designa um campo pouco restritivo. Ele é concebido como uma noção específica válida em Psicopatologia do Trabalho, mas certamente não transferível a outras disciplinas, notadamente à psicanálise. Entre homem e a organização prescrita para a realização do trabalho, existe, às vezes, um espaço de liberdade que autoriza uma negociação, invenções e ações de modulação do modo operatório, isto é, uma invenç ão do operador sobre a própria organização do trabalho, para adaptá-la às suas necessidades, e mesmo para torná-la mais congruente com seu desejo. Logo que esta negociação é conduzida a seu último limite, e que a relação homem organização do trabalho fica bloqueada, começa o domínio do sofrimento – e da luta contra o sofrimento. Em outras palavras, o sofrimento surge assim que a relação do homem com a organização do trabalho é permanentemente bloqueada. Portanto esta teoria sugere que burnout ocorre quando certos recursos pessoais são perdidos, ou inadequados para atender às demandas ou não proporcionam retornos esperados. Faltam estratégias de enfrentamento.

Características da Síndrome

A Síndrome é entendida por MASLACH; JACKSON (1986) como um conceito multidimensional que envolve três componentes:

a) exaustão emocional – situação em que os trabalhadores sentem que não podem dar mais de si mesmos em nível afetivo. Percebem esgotada a energia, os recursos emocionais próprios, devido ao contato diário com os problemas.
b) despersonalização –
desenvolvimento de sentimentos e atitudes negativas e de cinismo às pessoas destinatárias do trabalho (usuários/clientes) – endurecimento afetivo, "coisificação" da relação.
c) falta de envolvimento pessoal no trabalho –
tendência de uma "evolução negativa" no trabalho, afetando a habilidade para realização do trabalho e o atendimento, ou contato com as pessoas usuárias do trabalho, bem como com a organização.[1]

DELVAUX apud FRANÇA; RODRIGUES (1997, p.28), caracteriza Burnout emocional da seguinte maneira:

Exaustão emocional – ocorre quando a pessoa percebe nela mesma a impressão de que não dispõe de recursos suficientes para dar aos outros. Surgem sintomas de cansaço, irritabilidade, propensão a acidentes, sinais de depressão, sinais de ansiedade, uso abusivo de álcool, surgimento de doenças psicossomáticas.
Despersonalização –
corresponde ao desenvolvimento por parte do profissional, de atitudes negativas e insensíveis em relação às pessoas com as quais trabalha tratando-as como objetos.
Diminuição da realização e produtividade profissional –
geralmente conduz a uma avaliação negativa e baixa de si mesmo.
Depressão –
sensação de ausência de prazer de viver, de tristeza que afeta os pensamentos, sentimentos e o comportamento social. Estas podem ser breves, moderadas ou até graves.

Para LAMBERT (1997), a instalação da síndrome de Burnout ocorre de maneira lenta e gradual, acometendo o indivíduo progressivamente. GELEO; RIOS (1991), distinguem três momentos para a manifestação da síndrome. Em um primeiro momento, as demandas de trabalho são maiores que os recursos materiais e humanos, o que gera um stress laboral no indivíduo. Neste momento, o que é característico é a percepção de uma sobrecarga de trabalho, tanto qualitativa quanto quantitativa. No segundo momento, evidencia-se um esforço do indivíduo em adaptar-se e produzir uma resposta emocional ao desajuste percebido.

Aparecem então sinal de fadiga, tensão, irritabilidade e até mesmo ansiedade. Assim, essa etapa, exige uma adaptação psicológica do sujeito, a qual reflete no seu trabalho, reduzindo o seu interesse e a responsabilidade pela sua função. E no terceiro momento, ocorre o enfrentamento defensivo, ou seja, o sujeito produz uma troca de atitudes e condutas com a finalidade de defender-se das tensões experimentadas ocasionando comportamentos de distanciamento emocional, retirada, cinismo e rigidez. BELCASTRO et al (1983), afirmam não ser possível determinar, com exatidão, nem a seqüência, nem os correlatos das diferentes fases implicadas no desenvolvimento desta síndrome. Já GIL-MONTE (1993) considera que, no primeiro momento, o indivíduo percebe a evidência de uma tensão, o stress. No segundo momento, aparecem sintomas de fadiga e esgotamento emocional, concomitantemente a um aumento do nível de ansiedade e, finalmente o indivíduo desenvolve estratégias de defesa, que utiliza de maneira constante. Essas estratégias consistem em mudanças de atitudes e comportamentos que incluem diferença e distanciamento emocional do trabalho.

Diferenças entre Burnout e Stress

Burnout envolve atitudes e condutas negativas com relação aos usuários, clientes, organização e trabalho, é assim uma experiência subjetiva, envolvendo atitudes e sentimentos que vêm acarretar problemas de ordem prática e emocional a trabalhador e à organização. Stress por outro lado, envolve mais atitudes e condutas, é um esgotamento pessoal com interferência na vida do indivíduo e não necessariamente a sua relação com o trabalho.

HART (1982) aponta algumas diferenças:

QUADRO 1 - DIFERENÇAS ENTRE BURNOUT E STRESS
BURNOUT STRESS
        é uma defesa caracterizada pela desistência caracteriza-se pelo super envolvimento
as emoções tornam-se embotadas as emoções tornam-se hiper-reativas
o principal dano é emocional é físico
a exaustão afeta a motivação e a iniciativa a exaustão afeta a energia física
produz desmoralização produz desintegração
pode ser melhor entendido como uma perda de ideais e esperança como uma perda de combustível e energia
a depressão é causada pela mágoa engendrada pela perda de ideais e esperança a depressão é causada pela necessidade do organismo de se proteger e conservar energia
produz uma sensação de abandono e desesperança produz uma sensação de urgência e hiperatividade
produz paranóia, despersonalização e desligamento produz desordens associadas ao pânico, fobias e ansiedades
não mata, mas pode fazer com que uma vida longa pareça não valer a pena ser vivida pode matar prematuramente, e o indivíduo não terá tempo para concluir o que começou

Exaustão no trabalho como é oficialmente reconhecida no código internacional de doenças, provoca desgaste e sofrimento. Embora haja uma grande diferença entre stress e exaustão profissional, já mencionada no Quadro acima, nem sempre os médicos têm conseguido fazer um diagnóstico preciso da doença, muitas vezes atêm-se mais aos sintomas e não a causa da doença. Segundo matéria publicada no Jornal do Administrador, ano XXIV, abril/2001,p.14-15, uma das dimensões mais importantes da síndrome de burnout são aquelas relacionadas aos efeitos fisiológicos, psicológicos e de conduta que esta síndrome provoca nos profissionais.

A síndrome age minando a resistência do organismo, e suas vítimas apresentam algumas manifestações:

Distúrbios Fisiológicos ou orgânicos: falta de apetite, hipertensão, disfunção digestiva, problemas cardíacos e dermatológicos, dores musculares e de cabeça, insônia.
Distúrbios Psicológicos:
insegurança, medo, ansiedade, inquietação, aflição.
Alterações comportamentais:
Dificuldades na resolução de problemas do cotidiano, procrastinação, impaciência em relação aos outros, indiferença, irritabilidade, intolerância.
Mudança no estado de ânimo:
Apatia em relação à organização, aumento de absenteísmo, baixo rendimento com baixa qualidade de trabalho, chegar tarde e sair mais cedo, atitude cínica e fadiga emocional; aumento do uso do café, álcool, barbitúricos e outros. Incapacidade de sentir satisfação na execução de tarefas, um sentimento de tristeza profunda e infelicidade.

[1] Cada um dos componentes deve ser analisado separadamente como uma variável contínua com níveis alto, moderado e baixo e não como uma variável dicotômica, onde existe ou não existe a presença do sintoma. Pela combinação do nível de cada um dos três componentes se obtém o nível do burnout do indivíduo ou categoria. Deve-se observar que um nível moderado de burnout já é preocupante do ponto de vista epidemiológico, sendo passível de intervensão, uma vez que o processo já se encontra em curso.

Fonte: www.fesppr.br

Síndrome de Burnout

Conhecida como a doença dos idealistas, esta síndrome é desencadeada por situações estressantes e caracteriza-se por uma desilusão profunda em relação ao próprio trabalho

GUILHERME GENESTRETI

Perfeccionismo é fator de risco para esta doença insidiosa, que ataca a motivação de gente que rala, sem distinção de cargos hierárquicos. O "burn out", termo que em inglês designa a combustão completa, está incluído no rol dos transtornos mentais relacionados ao trabalho. Foi a terceira maior causa de afastamento de profissionais em 2009, segundo dados da Previdência Social. A síndrome é bem mais que "mero" estado de estresse, não pode ser confundida. Esse transtorno psíquico mescla esgotamento e desilusão. Pode ser desencadeado por uma exposição contínua a situações estressantes no trabalho, explica a psicóloga Ana Maria Rossi, presidente no Brasil da Isma (International Stress Management Association), entidade que pesquisa o "burn out". "A doença é gerada pela percepção de que o esforço colocado no trabalho é superior à recompensa. A pessoa se sente injustiçada e vai se alienando, apresentando sintomas como depressão, fobias e dores musculares." É a doença dos idealistas, diz Marilda Lipp, do Centro Psicológico de Controle do Stress e professora de psicologia da PUC-Campinas. "O 'burn out' é um desalento profundo, ataca pessoas dedicadas demais ao trabalho, que descobrem que nada daquilo pelo que se dedicaram valeu a pena." O estresse, compara Lipp, tem um componente biológico forte, ligado a situações em que o corpo tem de responder ao perigo. Já o "burn out" é um estado emocional em que a pessoa não sente mais vontade de produzir. "Tem a ver com o valor depositado no trabalho", diz Lipp. "Quem apresenta exaustão emocional, não se envolve mais com o que faz e reduz as ambições pode estar sofrendo do transtorno."

O diagnóstico não é fácil: a apatia gerada pelo "burn out" pode sugerir depressão ou síndrome do pânico. Médicos, professores e policiais são grupos de risco, diz Duílio de Camargo, psiquiatra do trabalho ligado ao Hospital da s Clínicas.

DESMAIOS

O professor Cláudio Rodrigues, 43, entrou em combustão total por duas vezes. Começou como um estresse, que foi se acumulando ao longo de dez anos. Ele lecionava 13 horas por dia numa escola da zona sul de São Paulo. E se frustrava com salas lotadas e alunos desinteressados, conta. "Via um aluno meu entregando pizza junto com alguém que nunca tinha estudado. Eu me sentia impotente como professor". Deprimido, se manteve afastado das salas por dois anos.

Em 2004, depois de receber acompanhamento psiquiátrico e tomar medicação, voltou. Em maio deste ano, recaiu. "Nada tinha mudado na escola, estrutura péssima. Eu me sentia responsável por estar levando todos os alunos a um caminho sem futuro." No meio de uma aula, o professor começou a suar e sentir o corpo ficar mole. Saiu e desmaiou na escada. Na semana seguinte, enquanto caminhava para o trabalho, desmaiou de novo. Está afastado desde entã o. "Sinto uma insatisfação por ver que o meu trabalho não vale a pena", desabafa. A vigia Lucimeire Stanco, 34, também passou um tempo licenciada por causa de "burn out". Em 2006, ela fazia a ronda noturna em um colégio da zona leste. Passava a noite só e por duas vezes teve que se esconder quando tentaram invadir o lugar.

"Sentia desânimo porque não me tiravam daquela situação. Me sentia rejeitada, vítima." Ela se tratou e se readaptou. Hoje, só trabalha de dia, e acompanhada de outros vigias. Casos como esses são tratados com psicoterapia e antidepressivos mas, segundo Marilda Lipp, a medicação só combate os sintomas. "A pessoa precisa reavaliar o papel do trabalho em sua vida, aprender a dizer não quando não tem condições de executar algo e reconhecer o próprio valor, mesmo que outros não o façam."

FACA NA GARGANTA

"Eu era infeliz e não sabia", afirma a empresária Amália Sina, 45. Hoje ela é a dona do negócio, mas há quatro anos, era a vice-presidente, na América Latina, de uma multinacional e responsável pelas atividades da empresa em 22 países. "Dava aquela impressão de que o mundo girava em torno do trabalho, sempre com a faca na garganta", diz. Para a empresária, o apoio que teve da família e a prática de exercícios a ajudaram a suportar as pressões. Até ela deixar a função executiva. A empresária adotou a estratégia correta para prevenir um "burn out", segundo o psiquiatra Duílio de Camargo. "A pessoa chega a esse estado sem saber o que tem. Se não tiver acolhimento da família, o desconforto aumenta." Na visão de Eugenio Mussak, fisiologista e professor de gestão de pessoas, as providências para prevenir essa patologia do trabalho devem partir tanto do sujeito quanto da empresa. Segundo Mussak, todo mundo que trabalha bastante deve se permitir algumas atividades diárias cuja única finalidade seja o prazer , para compensar o clima estressante. E se o ambiente de trabalho puder criar um "estado de férias", melhor ainda. "Chefes compreensivos, que valorizam o esforço e respeitam os limites de seus subordinados criam um ambiente menos favorável ao "burn out'", diz o professor.

Ele continua: "É preciso respeitar o limite entre o que é profissional e o que é pessoal, e a empresa deve estimular o trabalhador a respeitar esses limites também."

Fonte: www.feebrs.org.br

Síndrome de Burnout

BURNOUT EM PROFESSORES UNIVERSITÁRIOS: ADOECENDO PELO TRABALHO

1. INTRODUÇÃO Na atualidade, as áreas da educação e saúde têm sido influenciadas por elementos significativos de mudança, como fatores sócio-políticos, avanços científicos e tecnológicos, ambiente altamente competitivo, recessão, diminuição do valor intrínseco do trabalho dando lugar à busca de recompensa extrínseca , fatores esses que exercem forte influência na sociedade e cenário profissional com conseqüências pessoais para os trabalhadores que atuam nestas áreas e para os que dela dependem. É importante destacar que este processo de mudanças, mesmo que de modo não uniforme e com deslocamentos temporais entre nações e continentes, veio se desenvolvendo ao longo do século XX, em particular a partir de sua segunda metade, à medida que a ciência e tecnologia foram se incorporando de modo intenso aos processos de trabalho, produzindo, em decorrência sensações de mal-estar de diversas ordem e natureza sobre o cotidiano das pessoas que trabalham. Nesse sentido, conforme destaca Trivinho,

Já nos anos 50 e 60, Marcuse discorria sobre o novo princípio de realidade da sociedade tecnológica, o princípio do desempenho , que exigia dos indivíduos uma repressão adicional da satisfação da libido em prol de um dispêndio maior de investimentos sublimado tanto na esfera da produção, marcada pela instabilidade e norteada por valores de competição extrema, quanto na esfera do tempo livre, articulada igualmente por todos os vetores que organizam o universo da produtividade (Trivinho, 2001, p 105).

Extrapolando sua análise a todo o campo das relações sociais, vale dizer culturais, o autor, recorrendo a Baudrillard, observa que este processo assume “a forma de um mais-mal-estar, portanto, de um mais-mal-ser, cuja reversibilidade anômala recai, de forma daninha, virulenta, sobre as bases da alegria do viver, comprometendo-a na mesma proporção em que entrega o ser à hipertelia . (Trivinho, 2001, p.106). Ao enfrentar-se cotidianamente com as demandas e a necessidade de recursos de toda ordem para a realização de seu trabalho, o professor é submetido a situações que afetam sua atividade, sendo que efeitos negativos do seu contato com o aluno, colegas e chefias podem imprimir no docente um visível desgaste físico e psíquico. Esse processo continuado acaba por levar o professor à situação de Burnout A Síndrome de Burnout apresenta-se atualmente como um problema psicossocial que afeta profissionais chamados “doadores de cuidado”, como enfermeiros e professores. Devido às conseqüências individuais e organizacionais e conseqüências nas relações interpessoais do educador, essas interferências podem gerar neste profissional a perda de auto-estima e desprezo por sua profissão, situações de ansiedade, insegurança, sensação de risco, ilegibilidade das necessidades e ações desenvolvidas no trabalho, levando ao absenteísmo e, no limite, ao abandono do seu ofício.

2. DESCRIÇÃO DA PESQUISA

O presente texto é parte da revisão bibliográfica da pesquisa de natureza qualitativa e comparativa sobre a Síndrome de Burnout em Professores do Ensino Superior no Paraná, iniciada em 2004 e ainda em curso. A pesquisa tem como objetivos verificar a ocorrência desta síndrome e identificar suas conseqüências no trabalho destes professores. A metodologia da pesquisa envolve revisão bibliográfica, aplicação à amostra selecionada de entrevista semi-estruturada e de um questionário-padrão desenvolvido por MASLACH JACKSON e LEITER (1997), o MBI – Maslach Burnout Inventary, a fim de apontar e qualificar a ocorrência de Burnout.

O universo pesquisado é o ensino superior no Estado do Paraná, em duas amostras diferenciadas: uma, de professores da Universidade Federal do Paraná - Curso de Enfermagem e outra, do CEFET-PR - Curso de Engenharia Elétrica. A partir dos dados coletados em campo, e à luz do referencial teórico-metodológico estabelecido, faremos a sistematização dos dados e a análise dos resultados obtidos.

3. O TRABALHO SOB O CAPITALISMO ATUAL E A SAÚDE DO TRABALHADOR

Do ponto de vista ontológico, o trabalho é a categoria central da sociabilidade humana, pois é através da atividade que o homem transforma a natureza e, em relação com os demais da espécie, mediante a (co) laboração, divisão de tarefas e (co) operação, produz os valores úteis e necessários à vida social. Nestes termos, ao trabalhar o homem transforma a natureza e a si, isto é, o homem é tal como se produz (MARX, 1978; Marx e Engels, 1977). Por outro lado, mediante o processo de complexificação da sociedade, o trabalho assume formas históricas diferenciadas que caracterizam os diversos modos de produção.

Assim, na hegemonia do modo de produção capitalista, o trabalho, além de produtor de valor de uso, é também produtor de mercadorias, isto é, valores de troca. Dado que esta forma histórica é caracterizada pela propriedade privada dos meios de produção e pela apropriação privada do produto do trabalho, resta ao trabalhador utilizar-se a si mesmo, em potencialidade e ação, comercializando a mercadoria que dispõe, isto é, sua força de trabalho. Assim, o trabalho converte-se em valor de troca, e é nesta dupla condição contraditória (valor de uso x valor de troca) que se caracteriza a sociedade capitalista. Desse modo, o trabalhador, submetido a esta contradição, vê destituída de sentido a sua própria atividade, já que o resultado dela não lhe pertence, decorrendo daí alienação e estranhamento. Nesse processo, o homem moderno está sendo acometido de diversos distúrbios comportamentais e psicossomáticos, sendo que o principal deles, o estresse é gerado muitas vezes pela insegurança social e profissional. SENNETT (2004) alerta para a característica ilegível desse novo sistema. Uma dessas ilegibilidades diz respeito à dificuldade de definição das qualificações necessárias para uma função. O desenvolvimento acelerado da tecnologia e as constantes inovações removeram aos poucos a necessidade do conhecimento de “como fazer”, característico do produtor artesanal.

Um outro tipo de ilegibilidade diz respeito às próprias pessoas: sua compreensão a respeito do trabalho que desempenham é fraca, inconsistente, o que leva as pessoas a perderem a identificação com seus cargos. Porém, a mais forte característica do novo capitalismo é a de nos incitar e, podemos mesmo dizer, nos obrigar a assumir riscos. Organizações mais flexíveis - e por esse motivo mais instáveis - impõem tacitamente aos trabalhadores a necessidade de mudanças arriscadas, buscando uma estabilidade mais real. Porém o arriscar-se tem conseqüências danosas; esforços desmedidos que não são recompensados, mudanças incessantes que não levam a lugar algum ou que não trazem vantagens, tudo isso torna o indivíduo preso ao momento atual e sem uma visão temporal mais abrangente, sem perspectivas, imediatista. Assim, quando a narrativa individual é uma somatória repetitiva desses elementos (o risco e a mudança), nada há de experiência concreta e aproveitável no passado que sirva de rumo ao presente, o indivíduo se torna apreensivo e ansioso, em um quadro que visa somente a ampliar-se, principalmente se nos apercebermos de que o resultado, no que diz respeito a valor pessoal e experiência pessoal, após alguns anos, é nulo; este processo gera um indivíduo vazio e sem rumo, de caráter inconsistente. Esse sentido de perda de referenciais históricos, o domínio da espacialidade por um presentismo alucinógeno e a diluição da ação concreta dos sujeitos são descritos por Jameson (1997) como elementos característicos do pós-modernismo, identificado por este autor como a lógica cultural do atual capitalismo. Nesta perspectiva, destacamos em trabalhos anteriores, que neste processo de ruptura da temporalidade histórica

“... o sujeito perde a sua capacidade de organizar seu passado e seu futuro como uma experiência coerente, o que implica que a produção cultural (e mesmo a material) reduz-se a um amontoado de fragmentos, produzidos a esmo, de modo aleatório e sem referentes. Ou seja, perde-se a própria condição ontológica e teleológica de sujeito de história” (LIMA FILHO, 2004).

Apesar de o homem moderno passar grande parte de seu tempo no trabalho, devido à competitividade, imediatismo das tarefas e a exigências de toda ordem dificultam seu relacionamento interpessoal, ocasionando sobrecarga, tanto física como psíquica. Para DEJOURS (1992), o sofrimento mental resulta da organização do trabalho sob o modo de produção capitalista, designado por divisão e conteúdo da tarefa, relações de poder e responsabilidade. Percebe-se o homem moderno definindo-se pela sua profissão e encontrando dificuldade em dar sentido à vida se não for pelo trabalho.

O mesmo autor a esse respeito destaca que “...trabalhar não é apenas ter uma atividade, mas também viver: viver a experiência da pressão, viver em comum, enfrentar a resistência do real, construir o sentido do trabalho, da situação e do sofrimento. ”

4. O ADOECER PSÍQUICO NA EDUCAÇÃO

A problemática acerca do bem estar dos profissionais que trabalham diretamente com pessoas, vem tomando, hoje em dia, uma importância mais acentuada, pois, na sociedade atual, transformações complexas do trabalho aparecem como fonte geradora de tensão e sobrecarga física e psíquica, sendo que tais transformações refletem nos sistemas educativos, afetando em maior ou menor grau seu quadro docente, prejudicando relações profissionais e interpessoais, levando deterioração crescente da qualidade de vida nos diversos âmbitos do trabalho humano.

Nesse cenário, o professor é encarregado de uma das mais difíceis tarefas que um profissional pode ter: formar o trabalhador, produtivo ao capital, ou educar o ser humano emancipado? (FRIGOTTO E CIAVATTA, 2003). Esta contradição é a própria marca do processo educacional sob a hegemonia do capitalismo, pois a lógica funcional deste sistema, baseada na exploração do trabalho humano é por natureza incompatível e contraditória com um processo de emancipação plena.

Logo, desde o princípio, o professor trabalha sob condições sociais e históricas adversas: o pleno desempenho de seu trabalho, criador da produção, transmissão e apropriação de saberes práticos é aprisionado - ainda que parcialmente, pois há o espaço da resistência - pela lógica do modo de produção, que submete, ou busca submeter toda a ação a uma funcionalidade do capital: formar o futuro profissional e criar capacidades e habilidades com a finalidade de produzir um profissional flexível, polivalente e competitivo. Além disso, apresentam-se outras situações adversas, pois o professor, submetido às exigências atuais do mercado de trabalho, pode apresentar no corpo as marcas do sofrimento, sob a forma de doenças ocupacionais relacionadas à saúde mental, sendo que o psiquismo humano é afetado pelo sentimento de impotência e desvalorização. As pesquisas de CODO (1997) sugerem que o trabalho está diretamente ligado ao processo saúde-doença, pois, segundo o mesmo autor, "o sofrimento psíquico e a doença mental ocorrem quando e apenas quando, afeta esferas da nossa vida que são significativas, geradoras e transformadoras de significado". O trabalho do professor é um dos mais desafiadores do ponto de vista psicológico, pelo fato de que se faz obrigatória a construção de uma relação de afetividade com o aluno, para que o trabalho possa ser realizado com qualidade. É através do afeto e da confiança que se dá o processo de aprendizagem, e ela deve ser buscada pelo educador.

No entanto, uma das dificuldades que acometem os professores se dá justamente devido a isso: o ciclo afetivo professor-aluno-professor nunca se fecha totalmente, ou seja, o investimento de energia afetiva por parte do professor não retorna na sua totalidade, dissipando-se frente a diversos fatores mediadores da relação. Para CODO (1999), “... através de um contato tácito, onde o professor se propõe a ensinar e os alunos se dispõem a aprender, uma corrente de elos de afetividade vai se formando, propiciando uma troca entre os dois”. Dentro desta mesma idéia, o professor precisa desenvolver uma profunda sensibilidade para com o aluno, antecipando suas dificuldades.

Sobre isso, CODO (1999) sugere que “... o educador faz parte do trabalhador que tem sido chamado de care givers, doadores de cuidado, como os enfermeiros ou assistentes sociais: desenvolve um trabalho onde a atenção particularizada ao outro atua como diferencial entre fazer ou não fazer sua obrigação”.

Historicamente, o ofício docente não é um dos mais fáceis e temos vários motivos para acreditar nisso: salários baixos, condições precárias, falta de flexibilidade na administração de recursos, pouca perspectiva de progressão na carreira, trabalho ao mesmo tempo importante, exigente e sem reconhecimento adequado; poderia, assim, parecer-nos a pior profissão que pode ser exercida por um indivíduo. Em contrapartida, para exercer esse trabalho, é necessário o melhor tipo de profissional, com o maior número de qualidades, como diz CODO (1999),

tem iniciativa própria, é ousado, cria e assume a responsabilidade de suas inovações. Onipotente na medida exata, pois, ao mesmo tempo em que sabe o valor que tem enquanto educador e da importância do trabalho que realiza, é capaz de buscar e oferecer ajuda. Sabe que seu ofício é nobre, grandioso e por isso requer competência de grupo, união.

Podemos nos questionar, então, o motivo de tão excepcionais indivíduos trabalharem num dos piores ambientes profissionais.

Uma hipótese pode ser aventada, a de que o motivo é tão somente o da satisfação.

Mesmo nessas condições adversas, não falta o fundamental: o sentido e o significado daquilo que se faz. Ter reconhecimento do produto final do seu trabalho - mesmo que subjetivamente - fortalece a identidade do trabalhador. Com relação a este aspecto, que revela a dicotomia, o sofrimento e o prazer, é interessante atentar para o caráter marcadamente singular das instituições educacionais públicas, que conforme BRITO e ATHAYDE, envolve conflito de valores, tanto aqueles relativos ao trabalho educativo, quanto aos defendidos pelos grupos de trabalhadores em cada escola. Estes autores destacam que tais conflitos de valores se manifestam nas situações concretas de trabalho, como por exemplo, “a professora que decide elaborar as apostilas para uso dos alunos, mesmo sem ser remunerada por isso; [ou] a merendeira que chega mais cedo na escola para que a refeição fique pronta na hora esperada” (BRITO e ATHAYDE, 2003, p. 247). No entanto, as adversidades da profissão docente, tanto as originadas da condição contraditória da relação trabalho-educação no capitalismo, quanto àquelas relativas à condição geral do trabalhador e o confronto entre os recursos disponíveis à realização de seu trabalho, as demandas sociais e a (des) valorização de sua condição de trabalhador, passaram a afetar o cotidiano docente negativamente, ocasionando sentimentos crônicos de desânimo, de apatia e de despersonalização. É nesse contexto mais geral das relações de produção capitalistas que emergem doenças profissionais físicas e psíquicas com conseqüências graves para a vida dos trabalhadores.

Nesse quadro, situa-se a Síndrome de Burnout. MASLACH e JACKSON (1981) definem Síndrome de Burnout como:

“... uma reação à tensão emocional crônica gerada a partir do contato direto e excessivo com outros seres humanos, particularmente quando estes estão preocupados ou com problemas.” E ainda: “... o trabalhador se envolve afetivamente com seus clientes, se desgasta e, num extremo, desiste, não agüenta mais, entra em Burnout”.

O Burnout faz com que os trabalhadores percam o sentido de suas relações com o trabalho, de forma que as coisas não apresentem mais significado e que qualquer esforço pareça ser inútil.

Vista como um conceito multidimensional, essa síndrome envolve três componentes: exaustão emocional, onde os trabalhadores sentem que não podem dar mais de si mesmos a nível afetivo; despersonalização, gerando cinismo, desafetação e esfriamento no trato com o outro; e falta de envolvimento pessoal no trabalho, com tendência a uma “evolução negativa” no trabalho, com perda da qualidade. O trabalhador que sofre desse mal assume uma posição de frieza em relação aos clientes, não se envolvendo com seus problemas e dificuldades, o que é preocupante quando se trata da relação professor-aluno; as relações interpessoais são cortadas ou tornam-se desprovidas de calor humano e o profissional apresenta maior irritabilidade. Ocorre, então, ansiedade, melancolia, baixa auto-estima e sentimento de exaustão física e emocional. ESTEVE (1999) usa o termo “mal estar docente” para descrever “... efeitos de caráter negativo que afetam a personalidade do professor, como condições psicológicas e sociais em que se exerce a docência”. É uma situação aflitiva que condiciona a qualidade do trabalho do professor e que pode imprimir no docente um visível desgaste físico e psíquico. Esteve descreve o mal-estar docente como fenômeno mundial, que teve seus sintomas feitos mais claros a partir da década de oitenta, nos países mais desenvolvidos. Como principais causas, cita a precariedade dos recursos materiais e humanos, as modificações no contexto social das últimas décadas, o perfil do professor e as exigências pessoais, e como conseqüência os absentismos e licenças, assim como o estresse e a ansiedade, que afetam tanto os professores novos quanto os veteranos.

A diversidade de estudos sobre o tema nos mostra: o estudo de perspectiva psicológica, sobre estresse e ansiedade na classe docente, e o enfoque sociológico, sobre as mudanças surgidas atualmente, as expectativas sociais que se projetam sobre os professores e as variações introduzidas em seu ambiente profissional. As conseqüências do mal-estar docente são muitas. Citamos inicialmente a questão do absentismo trabalhista e o abandono da profissão docente, que são as reações mais freqüentes.

O absentismo surge como uma forma de alívio, através da qual o professor busca escapar momentaneamente das tensões acumuladas em seu trabalho, e pode ocorrer de dois modos: falta ou licença médica.

A última instância é o abandono da profissão docente.

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

O adoecer psíquico e o Burnout trazem conseqüências sobre o estado de saúde do educador e sobre seu desempenho, o que ocasiona tanto problemas organizacionais quanto nas relações interpessoais desse profissional. Como não é visto apenas como prejudicial ao trabalhador, várias entidades estão atendo-se a pesquisas sobre a Síndrome de Burnout, pois cada vez mais as organizações estão tendo altos gastos com doenças, absenteísmo, conflitos, desmotivação e abandono da profissão. Para o educador, é muito difícil desistir de sua dedicação ao ensino, pois o trabalho educacional, além de envolvente, lhe propicia (ou deveria propiciar) outras recompensas, que não apenas as financeiras.

Os efeitos negativos do contato com o aluno, colegas, chefias e práticas pedagógicas, podem afetar habilidade profissional e a disposição de atender às necessidades dos estudantes: os professores sentem suas qualidades pessoais definharem, adoecem e entram em Síndrome de Burnout. Além da aplicação do MBI-ES (MBI Educators Survey) para quantificar e apontar o Burnout no trabalhador em educação, como complementação pode-se realizar um mapeamento de causas e atividades geradoras de estresse, buscando maneiras de minimizar seus efeitos sobre a rotina dos educadores, alertando-o para os sinais de aparecimento do Burnout, que como doença relacionada trabalho, deve ser tratada como tal.

Flavia Luiza Nogueira Santos

Domingos Leite Lima Filho

Referências Bibliográficas

BECK, Ulrich. Un nuevo mundo feliz: la precaridad del trabajo en la era de la globalización.
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BRITO, Jussara & ATHAYDE, Milton. O Ponto de Vista Enigmático da Atividade. In: Trabalho,
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CODO, Wanderley (coordenador). Educação: carinho e trabalho. Confederação Nacional
DEJOURS, Christophe. A Loucura do Trabalho: estudo de Psicopatologia dos Trabalhadores em
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Vozes/Brasília, 1999.
ESTEVE, José M. O mal-estar docente: a sala de aula e a saúde dos professores. Tradução de Durley
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JAMESON, F. Pós-modernismo: a lógica cultural do capitalismo tardio. São Paulo, Ática, 1977.
LIMA FILHO, Domingos Leite. Dimensões e limites da globalização. Petrópolis, Vozes, 2004.
MARX, Karl & ENGELS, Friedrich. A ideologia alemã. São Paulo, Grijalbo, 1977
MARX, Karl. O Capital. l.1, v.1, São Paulo, Difel, 1978.
MASLACH, C.; JACKSON, S. The Measurement of Experienced Burnout. Journal of Occupational
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MASLACH, C.; LEITER, M. P. (1981). The truth about Burnout: how organizations cause personal
stress and what to do about it. Califórnia, USA: Jossey – Bass Publishers. 1997, p.186.
SENNETT, R. La corrosión del carácter: las consecuencias personales del trabajo en el nuevo
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Trabalho. 5ª edição São Paulo: Cortez-Oboré, 1992
TRIVINHO, Eugenio. O mal-estar da teoria. São Paulo, Quartet, 2001

Fonte: artigocientifico.com.br

Síndrome de Burnout

A chamada Síndrome de Burnout é definida por alguns autores como uma das conseqüências mais marcantes do estresse profissional, e se caracteriza por exaustão emocional, avaliação negativa de si mesmo, depressão e insensibilidade com relação a quase tudo e todos (até como defesa emocional).

O termo Burnout é uma composição de burn=queima e out=exterior, sugerindo assim que a pessoa com esse tipo de estresse consome-se física e emocionalmente, passando a apresentar um comportamento agressivo e irritadiço.

Essa síndrome se refere a um tipo de estresse ocupacional e institucional com predileção para profissionais que mantêm uma relação constante e direta com outras pessoas, principalmente quando esta atividade é considerada de ajuda (médicos, enfermeiros, professores).

Outros autores, entretanto, julgam a Síndrome de Burnout algo diferente do estresse genérico. Para nós, de modo geral, vamos considerar esse quadro de apatia extrema e desinteresse, não como sinônimo de algum tipo de estresse, mas como uma de suas conseqüências bastante sérias.

De fato, esta síndrome foi observada, originalmente, em profissões predominantemente relacionadas a um contacto interpessoal mais exigente, tais como médicos, psicanalistas, carcereiros, assistentes sociais, comerciários, professores, atendentes públicos, enfermeiros, funcionários de departamento pessoal, telemarketing e bombeiros. Hoje, entretanto, as observações já se estendem a todos profissionais que interagem de forma ativa com pessoas, que cuidam e/ou solucionam problemas de outras pessoas, que obedecem técnicas e métodos mais exigentes, fazendo parte de organizações de trabalho submetidas à avaliações.

Definida como uma reação à tensão emocional crônica gerada a partir do contato direto, excessivo e estressante com o trabalho, essa doença faz com que a pessoa perca a maior parte do interesse em sua relação com o trabalho, de forma que as coisas deixam de ter importância e qualquer esforço pessoal passa a parecer inútil.

Entre os fatores aparentemente associados ao desenvolvimento da Síndrome de Burnout está a pouca autonomia no desempenho profissional, problemas de relacionamento com as chefias, problemas de relacionamento com colegas ou clientes, conflito entre trabalho e família, sentimento de desqualificação e falta de cooperação da equipe.

Os autores que defendem a Síndrome de Burnout como sendo diferente do estresse, alegam que esta doença envolve atitudes e condutas negativas com relação aos usuários, clientes, organização e trabalho, enquanto o estresse apareceria mais como um esgotamento pessoal com interferência na vida do sujeito e não necessariamente na sua relação com o trabalho.

Entretanto, pessoalmente, julgamos que essa Síndrome de Burnout seria a conseqüência mais depressiva do estresse desencadeado pelo trabalho.

Os sintomas básicos dessa síndrome seriam, inicialmente, uma exaustão emocional onde a pessoa sente que não pode mais dar nada de si mesma. Em seguida desenvolve sentimentos e atitudes muito negativas, como por exemplo, um certo cinismo na relação com as pessoas do seu trabalho e aparente insensibilidade afetiva.

Finalmente o paciente manifesta sentimentos de falta de realização pessoal no trabalho, afetando sobremaneira a eficiência e habilidade para realização de tarefas e de adequar-se à organização.

Esta síndrome é o resultado do estresse emocional incrementado na interação com outras pessoas. Algo diferente do estresse genérico, a Síndrome de Burnout geralmente incorpora sentimentos de fracasso.

Seus principais indicadores são: cansaço emocional, despersonalização e falta de realização pessoal.

Quadro Clínico

O quadro clínico da Síndrome de Burnout costuma obedecer a seguinte sintomatologia:

1. Esgotamento emocional, com diminuição e perda de recursos emocionais
2.
Despersonalização ou desumanização, que consiste no desenvolvimento de atitudes negativas, de insensibilidade ou de cinismo para com outras pessoas no trabalho ou no serviço prestado.
3.
Sintomas físicos de estresse, tais como cansaço e mal estar geral.
4.
Manifestações emocionais do tipo: falta de realização pessoal, tendências a avaliar o próprio trabalho de forma negativa, vivências de insuficiência profissional, sentimentos de vazio, esgotamento, fracasso, impotência, baixa autoestima.
5.
É freqüente irritabilidade, inquietude, dificuldade para a concentração, baixa tolerância à frustração, comportamento paranóides e/ou agressivos para com os clientes, companheiros e para com a própria família.
6. Manifestações físicas:
Como qualquer tipo de estresse, a Síndrome de Burnout pode resultar em Transtornos Psicossomáticos. Estes, normalmente se referem à fadiga crônica, freqüentes dores de cabeça, problemas com o sono, úlceras digestivas, hipertensão arterial, taquiarritmias, e outras desordens gastrintestinais, perda de peso, dores musculares e de coluna, alergias, etc.
7. Manifestações comportamentais:
probabilidade de condutas aditivas e evitativas, consumo aumentado de café, álcool, fármacos e drogas ilegais, absenteísmo, baixo rendimento pessoal, distanciamento afetivo dos clientes e companheiros como forma de proteção do ego, aborrecimento constante, atitude cínica, impaciência e irritabilidade, sentimento de onipotência, desorientação, incapacidade de concentração, sentimentos depressivos, freqüentes conflitos interpessoais no ambiente de trabalho e dentro da própria família.

Apesar de não ser possível estabelecer uma fórmula mágica ou regra para análise do estresse no trabalho devido a grande diversidade entre as empresas, vejamos agora algumas situações mais comumente relacionadas ao estresse no trabalho, de um modo geral.

Considera-se a Síndrome Burnout como provável responsável pela desmotivação que sofrem os profissionais da saúde atualmente. Isso sugere a possibilidade de que esta síndrome esteja implicada nas elevadas taxas de absenteísmo ocupacional que apresentam esses profissionais.

Segundo pesquisas (Martínez), a epidemiologia da Síndrome de Burnout tem aspectos bastante curiosos. Seu detalhado trabalho mostrou que os primeiros anos da carreira profissional profissional seriam mais vulneráveis ao desenvolvimento da síndrome.

Há uma preponderância do transtorno nas mulheres, possivelmente devido à dupla carga de trabalho que concilia a prática profissional e a tarefa familiar. Com relação ao estado civil, tem-se associado a síndrome mais com as pessoas sem parceiro estável.

Fonte: www.psiqweb.med.br

Síndrome de Burnout

Síndrome de Burnout é uma das causas do esgotamento profissional de docentes

Com a aproximação das férias é comum o sentimento de cansaço e fadiga, ambos resultados do esgotamento físico e psicológico do ser humano. Muito além deste tradicional ciclo, porém, cada vez mais pessoas têm sofrido com o estresse profissional, especialmente aquelas que se interrelacionam com outras pessoas para o desempenho de sua função. Um bom exemplo disso é o professor, que tem sido apontado como uma das maiores vítimas do estresse profissional, mais conhecido como Síndrome de Burnout.

A Síndrome de Burnout é causada por circunstâncias relativas às atividades profissionais, ocasionando sintomas físicos, comportamentais, afetivos e cognitivos. Inicialmente foi observada em trabalhadores da área da saúde que desempenham uma função assistencial, caracterizada por um estado de atenção intenso e prolongado com pessoas em situação de necessidade e dependência. Com o passar do tempo, pôde ser identificada em outras profissões, entre elas a de professor. De acordo com a pesquisadora do Laboratório de Psicologia do Trabalho da UnB (Universidade de Brasília), Iône Vasques-Menezes, no caso do professor, a razão para a incidência da síndrome está ligada, sobretudo, à falta de reconhecimento. "A desvalorização do professor, seja ela por parte do sistema, dos alunos e da própria sociedade, é um dos maiores agentes para a ocorrência do Burnout", explica. O Burnout em professores pode ser caracterizado por um estresse crônico produzido pelo contato com as demandas do ambiente acadêmico e suas problemáticas. Para a pesquisadora, especialmente aquelas que não dependem apenas da ação dos docentes para serem resolvidas. "Existem problemas que estão muito além da ação direta dos professores, principalmente onde há uma situação de degradação do sistema. Nestes casos, a sensação de impotência é mais acentuada", revela. Além disso, o posicionamento dos alunos em sala de aula também contribui para um maior desgaste. Em muitos casos, a indisciplina é a grande responsável por uma eventual sensação de frustração e até a desmotivação do profissional. Segundo Iône, não são raros os professores que se queixam da falta de interesse dos alunos e assumem a culpa por este fato acreditando que deveriam dominar as mais diferentes técnicas para estimular o aprendizado. Um exemplo disso é o depoimento, abaixo, do professor da Unisant´Anna, Fernando Pachi, de São Paulo. "Acredito que a situação de maior estresse para o professor continua sendo a indisciplina em sala de aula. Mediar a relação com os alunos fica dez vezes mais desgastante em situações em que você tem de chamar a atenção, interromper a aula, pensar sempre como motivar os alunos, erguer o tom de voz. Tudo isso contribui ao longo do tempo - podem ser em meses - para uma situação de estresse e desmotivação. Isso porque o foco é sempre motivar os alunos! Aí a cobrança interna fica também bem maior, e vem uma certa sensação de fracasso quando os resultados esperados não são atingidos, ou seja, quando o curso não corre bem, por conta de uma "interação em sala de aula mal resolvida". É importante destacar que os alunos também desempenham um papel de extrema importância no aprendizado, sejam estes de ensino fundamental, médio ou superior. Neste último caso, embora ainda em menor escala do que no ambiente escolar, tem sido freqüente a incidência de casos do Burnout - ainda que os professores não possam ser considerados os únicos responsáveis pelo desempenho de uma turma ou de determinados alunos, seja ele bom ou ruim. (Leia mais no link "Orientador e não detentor único do conhecimento").

O peso do Burnout

O fato mais curioso na síndrome de Burnout é que ela atinge trabalhadores motivados, que reagem a este desequilíbrio trabalhando ainda mais. "Farber, um dos pesquisadores do Burnout discute como tema central deste sofrimento a discrepância entre o que o trabalhador investe no trabalho e aquilo que ele recebe, ou seja, os resultados obtidos. Por isso, voltamos à questão do não reconhecimento e desvalorização do professor", lembra Iône.

O modelo de progressão do Burnout é composto pelas seguintes etapas: a fase de idealismo e entusiasmo, com expectativas excessivas a respeito do trabalho; fase de progressivo estancamento e queda a respeito das expectativas iniciais; decepção e frustração e, por fim, a fase de apatia, ou seja, atitudes negativas frente ao trabalho.

Características do Burnout

Exautão emocional: situação em que os trabalhadores sentem que não podem dar mais de si mesmos em nível afetivo
Falta de envolvimento pessoal no trabalho:
tendência a uma "evolução negativa" no trabalho, afetando a habilidade para sua realização
Despersonalização:
desenvolvimento de sentimentos e atitudes negativas e de cinismo às pessoas destinatárias do trabalho

Segundo Iône, é importante estar atento a esta síndrome, porque além do esgotamento psicológico, despersonalização dos profissionais e disfunções no desempenho profissional, o Burnout pode causar ainda complicações de saúde decorrentes do stress crônico e deterioração da qualidade de vida.

Com isso, a pesquisadora destaca a importância de treinar habilidades de auto-controle, identificação de pensamentos negativos, controle do estresse, utilização de apoio social com a equipe, além de trabalhar a informação sobre os aspectos de sua carência como profissional. "Estas seriam algumas das alternativas para combater o estresse profissional na busca pelo bem-estar e melhor qualidade de vida", encerra.

Fonte: www.universia.com.br

Síndrome de Burnout

INTRODUÇÃO

A Síndrome de Burnout é caracterizada por Maslach e Jackson (1981) como uma reação à tensão emocional crônica gerada a partir do contato direto e excessivo com outros seres humanos, principalmente nas profissões que inclui cuidado ou formação, como professores, enfermeiros, terapeutas, psicólogos, entre outras.

A Síndrome de Burnout ocorre em indivíduos altamente motivados e jovens, que reagem ao estresse laboral trabalhando ainda mais até que entram em colapso, sendo que alguns autores (Maslach, Shaufeli e Leiter, 2001) consideram que a Síndrome de Burnout ocorre mais freqüentemente em profissionais que não atingiram os trinta anos, pois estes, não aprenderam ainda a lidar com suas frustrações e com as tensões diárias decorrentes da profissão. Porém, outros autores (Codo, 1999 e Firth, 1985) referem que o Burnout pode atingir também os profissionais com mais tempo de carreira, porque pode vir a se exteriorizar após o acúmulo de um estresse crônico ao longo dos anos de trabalho.

Três dimensões caracterizam essa Síndrome, são elas: a exaustão emocional, a despersonalização e a baixa realização profissional. A primeira, a exaustão emocional, surge quando o trabalhador percebe sua energia esgotada devido ao contato e cuidado diário com os problemas dos alunos, além dos seus próprios.

A segunda, a despersonalização, ocorre um “endurecimento” afetivo e o professor passa a ter atitudes negativas com seus alunos. A terceira, a baixa realização profissional, o professor não desenvolve seu ofício com habilidade nem com os usuários do trabalho, nem com a própria organização além de não perceber seu trabalho valorizado e reconhecido gerando uma insatisfação profissional.

Os problemas decorrentes da Síndrome de Burnout não se restringem apenas à vida profissional, mas também a vida pessoal e familiar do individuo. No âmbito profissional as conseqüências desses problemas incidem diretamente no desempenho do professor na medida em que ele muda seu comportamento em sala de aula, reduzindo, por exemplo, a explicação dos conteúdos, estando constantemente desmotivado, expondo sua aula de forma mais rígida, tratando seus alunos com atitudes negativas e se afastando emocionalmente dos mesmos, além de apresentarem um elevado nível de absenteísmo, podendo chegar até mesmo na desistência da carreira do magistério (ZARAGOZA, 1999). Do ponto de vista pessoal é relevante salientar que o professor em Burnout perde também o interesse pelas suas atividades diárias dentro de casa, assim como o interesse em lazer e a motivação para a interação com os amigos.

Para compreender a Sindrome de Burnout no quotidiano dos professores atualmente, é necessário levar em conta que o contexto educacional mudou muito se comparado ao de alguns anos atrás. Historicamente os professores eram vistos como profissionais de grande importância para a sociedade, mas, gradativamente, foram perdendo esse status. Assim, as mudanças sociais, econômicas e culturais têm forte influência no desenvolvimento de sintomas sugestivos de Burnout.

Essas considerações mostram que a Síndrome de Burnout é um problema importante que pode estar sendo enfrentado por um grande número de profissionais devendo, portanto, ser objeto de preocupação não apenas dos estudiosos das áreas da educação e da saúde, mas, especialmente das instâncias sociais e políticas responsáveis pelos trabalhadores dessas áreas. A responsabilidade com relação ao enfrentamento do problema em questão se intensifica justamente pelo fato de o professor ser um profissional que desempenha um papel fundamental no processo do desenvolvimento humano, com a missão de educar para a vida e de formar cidadãos críticos para atuar na sociedade. Apesar dessa importância, na região onde a presente pesquisa está sendo desenvolvida, até o momento, não foram encontrados estudos nem outros registros que demonstrem a preocupação com a Síndrome de Burnout. Este estudo foi desenvolvido justamente com o propósito de buscar elementos que possam contribuir para o conhecimento de Burnout, e constitui-se em uma etapa inicial do processo de construção do conhecimento acerca do problema, na qual a prioridade é buscar subsídios que possam dar sustentação para que, posteriormente, na continuidade dos estudos, seja possível pensar-se em estratégias de enfrentamento da Síndrome de Burnout.

OBJETIVO

Identificar manifestações sugestivas da Síndrome de Burnout em professores do ensino fundamental.

MÉTODO

Este estudo, de natureza qualitativa, exploratório e descritivo, foi desenvolvido junto a um grupo de 15 professores do ensino fundamental, séries finais que trabalham em escolas públicas municipais da cidade do Rio Grande/RS. Os dados foram coletados na primeira quinzena de agosto de 2006, através de entrevistas semi-estruturadas. As entrevistas foram realizadas com os professores individualmente nas escolas respectivas em que os mesmos lecionavam, tendo sido gravadas e posteriormente transcritas na íntegra.

O roteiro da entrevista estava constituído de três questões que abordavam as dimensões da Síndrome de Burnout, segundo a literatura utilizada: a exaustão emocional, a despersonalização e a baixa realização profissional. As entrevistas foram, portanto, direcionadas para a investigação destas dimensões já pré-estabelecidas e que se tornaram as categorias para análise. Para a análise dos dados deste estudo foi utilizada a técnica de análise de conteúdo de Bardin (1979). A análise de conteúdo é uma técnica que por meio da leitura e interpretação do conteúdo das falas dos participantes permite descrições objetivas, sistemáticas, qualitativas, auxiliando na compreensão aprofundada dos significados (BARDIN, 1979).

A análise de conteúdo dos dados deste estudo desdobrou-se em três fases: a pré-análise, onde foram organizadas as entrevistas, as quais foram transcritas na íntegra e constituiu o corpo da pesquisa, a exploração do material, onde as entrevistas foram submetidas à análise de sentido e seu conteúdo foi separado através de unidades de registro, vizando sua categorização. As categorias reuniram um grupo de elementos (unidades de registro) em razão de características comuns. Para a escolha de categorias deste estudo foi utilizado o critério de temas, onde todos os temas que se agrupavam por sentido foram fazendo parte de uma categoria.

Como o tema deste estudo já era previamente categorizado em três dimensões (as quais compunham as características da Síndrome de Burnout), foi utilizado o sistema de “caxias” de Bardin (1979), onde à medida em que os temas com mesmo sentido foram encontrados eram repartidos nas categorias já existentes , e, o tratamento dos resultados obtidos e sua interpretação, onde os resultados foram tratados de maneira a serem significativos e válidos. Os resultados foram submetidos a interpretações a propósito dos objetivos previstos e de acordo com o referencial teórico abordado.

RESULTADOS

A primeira categoria do estudo, a exaustão emocional, foi relatada pelos professores como resultado do desgaste que vivenciam rotineiramente no quotidiano escolar.

Esses profissionais evidenciaram como fatores primordiais para o surgimento de exaustão emocional os seguintes aspectos: uma geração de alunos cujos pais não acompanham adequadamente o desenvolvimento escolar dos seus filhos que, em decorrência manifestam o que se poderia chamar de “comportamento sem limite”, o acúmulo de papéis que precisam desempenhar tendo que desenvolver além das suas funções docentes, o que os deixa emocionalmente desgastados, e, os sintomas físicos apresentados devido ao trabalho desenvolvido em um ambiente escolar estressante que propicia o aparecimento dos mesmos. Os professores manifestaram na sua totalidade algum tipo de problema de saúde associado ao magistério, muitos têm dores de cabeça constante, ansiedade, hipertensão, depressão, labirintite. A segunda categoria, a despersonalização, pôde ser constatada através de atitudes frias, distantes e sem um vínculo emocional com o aluno. Os professores, na grande maioria, disseram desenvolver atitudes distantes por proteção, para não permitir intimidade com o aluno para tentarem se preservar, além disso, muitos assumiram uma posição fria e sem afeto para com seu aluno, justificando assim um comportamento característico de Burnout. A terceira categoria do estudo é a baixa realização profissional. Os professores mostraram que apesar de gostarem de ser professores, não se sentem realizados profissionalmente. É um dado controverso, mas verdadeiro. Muitos justificaram que falta incentivo do governo, da sociedade, dos pais dos alunos. Não atribuem ao salário essa falta de incentivo, é claro que manifestaram ter que trabalhar em vários estabelecimentos para conseguirem ter um salário melhor, que a remuneração é muito baixa, mas disseram principalmente, que atualmente ninguém reconhece o trabalho do professor como importante, que essa importância fica restrita apenas ao discurso, mas que na prática, não sentem seu trabalho reconhecido. A soma de todos esses fatores associados reflete nos profissionais um profundo sentimento de frustração profissional, um sentimento de não ter mais condições de trabalhar com competência, dedicação, e principalmente com saúde. Pode-se atestar que os professores desse estudo manifestaram sim características da Síndrome de Burnout, que cada profissional tem uma forma de lidar com as adversidades de suas práticas profissionais, mas que de alguma forma ou de outra desenvolvem reações que podem ser sugestivas de Burnout.

DISCUSSÃO DOS RESULTADOS

Hoje em dia o trabalho do professor passa por mudanças que justificam o sentimento de frustração desses profissionais. A geração de alunos que freqüenta as escolas atualmente está vivenciando uma inversão de valores que dificulta o trabalho do professor. Segundo a percepção dos professores desse estudo o fato dos pais precisarem trabalhar muito hoje em dia para garantir o sustento de suas famílias, pode ser uma justificativa para o atual comportamento dos alunos, já que quando estão em casa os pais são muito permissivos por se sentirem culpados, (é uma hipótese), de não terem tempo para seus filhos. Além dessa permissividade por parte dos pais, o contexto da família mudou, as mães que antes tinham esse papel, hoje também trabalham, reduzindo, significativamente, sua participação na vida escolar de seus filhos. Assim, ao professor cabe uma sobrecarga de papeis e tarefas, pois este assume, além daquelas inerentes ao seu ofício, também as funções de pais muitas vezes. Decorrente da vivência nesse contexto, os professores se sentem muito cansados, sendo este um cansaço que extrapola o que poderíamos considerar como “normal” após um dia de trabalho. Referem sentimentos de tristeza quanto à rotina de sala de aula e não manifestam satisfação de educar, mas sim, um cansaço sem retorno. Relataram que este cansaço vem acontecendo atualmente depois de um algum tempo de magistério e que no inicio da atividade docente o cansaço era diferente, pois eles acreditavam que o esforço era válido, que seus alunos os respeitavam e os valorizavam na sua profissão.

Todos os professores deste estudo referiram o desgaste emocional como conseqüência de anos de trabalho. Ao nos referirmos à despersonalização, esta se fez presente principalmente quando o professor atribuiu ao seu comportamento posturas de distanciamento e diminuição do afeto para com seu aluno. De modo geral, os professores consideraram esta maneira de agir como uma forma de proteção que os ajuda a suportar a rotina em sala de aula. Relataram, também, que além de manterem suas posturas distantes por proteção, tem medo de proporcionarem um diálogo aberto com seus alunos e estes extrapolarem os limites. Então, se limitam a ensinar apenas o necessário e não se expor além do que consideram “seguro” e “permitido”. Esse tipo de comportamento dos professores dificulta ou, em alguns casos, impede a construção de uma relação mais humana com seus alunos como precisa acontecer no magistério para que o processo ensino-aprendizagem possa se efetivar. É indiscutível que esta relação proporciona um desgaste emocional maior nos professores, porém neste processo a qualidade da relação professor aluno é decisiva e imprescindível. Codo e Gazzotti (1999), afirmam que se alunos ou professores não se envolvem, poderá até ocorre algum tipo de fixação de conteúdo, mas certamente não ocorrerá nenhum tipo de aprendizagem significativa. Reafirmam esses autores que é mediante o estabelecimento de vínculos afetivos que ocorre o processo ensino-aprendizagem.

Outra situação vivenciada pelos participantes deste estudo que remete para a despersonalização nos mesmos é a diminuição da tolerância e do carinho para com seus alunos. Os professores relataram que com o tempo de trabalho vão perdendo a paciência para com seus alunos e culpabilizam o comportamento dos alunos que não valorizam seu trabalho como profissional e não correspondem ao empenho do professor. A maioria dos professores se encontra atualmente nesta situação depois de já terem tentado várias formas de desenvolver seu trabalho de uma maneira melhor e chegaram nesse ponto, sem paciência, sem interesse, como resposta ao comportamento do aluno, também desinteressado. Além disso, muitos professores disseram que com o passar do tempo desenvolveram outras atitudes (caracterizadas por eles próprios como de cinismo) como forma de amenizar os problemas que ocorrem em sala de aula. Ainda complementam dizendo não sentir mais vontade de tratar seu aluno de forma diferente, pois estão cansados e se mostram exaustos para a troca afetiva com o mesmo. A despersonalização se mostrou muito presente na fala dos profissionais que serviram como participantes deste estudo. O sentimento de distanciamento do professor em relação ao seu aluno ocorre também com o tempo de serviço, uma vez que com as dificuldades diárias, o comportamento dos alunos leva o professor a se distanciar para tentar se preservar, além de tratar seu aluno de forma não ideal, com cinismo, sem afeto. Porém, essa atitude não preserva ninguém somente afasta o professor do aluno e faz com que este não trabalhe como deveria, pois a docência só se completa com a troca afetiva entre professor e aluno. Uma atitude referida pelos professores deste estudo que também caracteriza a despersonalização é o afastamento destes profissionais ao que se refere ao tratamento com seus colegas de trabalho. Foi constatado que apenas dois professores dos quinze entrevistados dizem manter laços de amizade com seus colegas de trabalho, justificando esta postura na facilidade de trabalhar em uma ambiente onde se têm amigos.

Chambel (2005) dá sustentação a esse conceito quando refere que o suporte social é uma importante fonte de prevenção da Síndrome de Burnout, uma vez que a reflexão e a partilha entre colegas permite a cada professor perceber que seus problemas não são exclusivos, e que pode desabafar entre seus pares, além de perceberem que em conjunto pode ser possível progredir na resolução de problemas. Contrária a esta postura, todos os outros professores deste estudo atribuem ao seu comportamento com seus colegas um relacionamento distante, apenas cordial e superficial. Deve ser mencionado, todavia, que este comportamento pode ser atribuído à realidade atual de trabalho dos professores. Antigamente os professores tinham mais tempo de convívio na escola, hoje, a carga horária de trabalho é bem maior fazendo com que os professores apenas confraternizem rapidamente no intervalo das aulas e no recreio escolar. Devemos considerar que a maior parte dos professores deste estudo trabalha em mais de uma escola e lecionam uma carga horária excessiva, limitando o tempo de convívio com seus colegas, visto que até para a família o tempo é restrito.

A carga horária e o número de escolas em que lecionam os professores é um fator relevante para a Síndrome de Burnout. Soratto e Pinto (1999) relatam que professores com mais de um emprego têm mais chances de desenvolver Burnout.

Essa propensão é mais acentuada quando o professor trabalha em dois ou mais estabelecimentos com vinte horas em cada um do que aquele que trabalha quarenta horas no mesmo local, visto que dois empregos implicam em maior número de deslocamentos, mais tempo para preparação de aulas, maior esforço para adaptação em ambientes distintos, além de restringir o contato com os colegas, como é o caso dos professores que participaram deste estudo que a maior parte trabalha em mais de uma escola, tem uma carga horária superior a vinte horas semanais e mantém com seus colegas um relacionamento apenas cordial e, ainda, vivenciam uma forte competição pelos melhores horários, melhores turmas e regalias profissionais, o que torna difícil fazer amigos no trabalho.

É importante destacar que neste estudo a diferenciação nas respostas quanto ao relacionamento com os colegas se apresentou de duas maneiras: aqueles que não faziam questão de fazer amigos porque acreditavam ser um ambiente de muita competição, de concorrência, e aqueles que mencionaram a mudança do trabalho do professor, sendo exigido atualmente uma alta carga horária que impediria o professor de estreitar laços de amizade com seus colegas.

Ao nos referirmos à baixa realização profissional, pode-se relatar desde fatores macro sistêmicos como, por exemplo, o conjunto de leis que atualmente regem o sistema educacional; a burocracia e a falta de infra-estrutura que dificulta o trabalho do professor; a falta de interesse dos alunos, a forma como a sociedade vê atualmente o trabalho do professor, e o baixo salário dos profissionais da educação. Esses fatores, que segundo Benevides-Perreira (2002) vão reduzindo a satisfação do professor e evidenciando o sentimento de insuficiência, de baixa auto-estima, revelando baixa eficiência no trabalho e, por conseguinte uma insatisfação profissional e que levam o professor a não se sentir valorizado e respeitado. A partir da implantação do Estatuto da Criança e do Adolescente (BRASIL, 1990) e da nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação (BRASIL, 1996), os direitos dos alunos foram destacados. Alguns professores chegam a dizer que depois dessas leis o aluno tudo pode, e que o professor deve se submeter à decisão de promotores, conselhos tutelares e família que não conhecem e não vivenciam a rotina escolar.

Um exemplo disso é o que diz o artigo 24 parágrafo V da LDB quanto à verificação do rendimento escolar que deve ser observado os seguintes critérios:

a) avaliação continua e cumulativa do desempenho do aluno, com prevalência dos aspectos qualitativos sobre os quantitativos e dos resultados ao longo do período sobre os de eventuais provas finais
b)
possibilidade de aceleração de estudos para alunos com atraso escolar
c)
obrigatoriedade de estudos de recuperação, de preferência paralelos ao ano letivo, para os casos de baixo rendimento escolar, a serem disciplinados pelas instituições de ensino em seus regimentos

Segundo o ponto de vista de alguns professores, na prática, isto faz com que o aluno não estude mais para provas, não tenha mais o receio de repetir o ano, porque além da média de aprovação ser de 50% ele sabe que os aspectos qualitativos devem prevalecer sobre os quantitativos e que mesmo assim se ele não atingir média cabe ao professor recuperá-lo até a aprovação. Quanto à burocracia e a falta de infra-estrutura que referida pelos professores como fatores que dificulta o trabalho e o andamento do ensino chama atenção o fato do professor tentar, muitas vezes, realizar um trabalho diferenciado, buscar recursos que lhe permita ir além do quadro negro e do giz, mas a burocracia para realizar qualquer atividade diferente se faz muito presente no quotidiano escolar.

Chambel (2005) refere essa questão quando diz que, atualmente as escolas têm falta de materiais audiovisuais e livros, falta de colaboração dos serviços administrativos, falta de condições físicas ideais, ausência de autoridade por parte dos órgãos diretivos. Todos esses fatores somados levam o professor a continuar trabalhando com uma prática pedagógica tradicional e ultrapassada levando-o a uma insatisfação profissional. Muitos professores deste estudo são o espelho deste conceito expresso acima quando relataram que gostam de ser professores, que não gostariam de ter outra profissão, mas que contrário a isso, a realidade de trabalho vai sendo fonte continua de insatisfação, gerando um profissional mais descomprometido e insatisfeito com seu trabalho e com ele mesmo. Alguns têm consciência desse processo e se sentem culpados pelo fato de não conseguirem modificar o seu trabalho. Outro aspecto abordado nas entrevistas pelos professores é a falta de interesse dos alunos, a qual é considerada como conseqüência direta da falta de realização do professor. Este sente que seu trabalho não está sendo bem aproveitado gerando uma frustração profissional. Os professores que participaram deste estudo percebem que seus alunos não valorizam seu trabalho e isto gera neles um sentimento de baixa realização profissional. A partir deste sentimento de frustração o profissional passa por situações que não sabe como melhorar, e vai reduzindo sua satisfação profissional até chegar num ponto difícil de reverter. Outra importante fonte de desvalorização profissional é o desprestígio do papel do professor, no âmbito da sociedade em geral, dos pais e dos próprios alunos. Muitos pais não querem nem pensar na possibilidade do filho ser professor. Esta atitude se constitui numa fonte inesgotável de insatisfação em relação ao trabalho do professor e está presente nas falas e nos comportamentos dos entrevistados. Zaragoza (1999) fala que a mudança do contexto da educação mudou o status atribuído ao professor. Nos anos quarenta e cinqüenta se atribuía ao mestre um status social e cultural elevado, atualmente esse status declinou e junto com isso a remuneração, tornando a “vocação” e sua cultura hoje em dia descartáveis.

Para muitos pais, os filhos escolherem o magistério é sinônimo de incapacidade de fazer “algo melhor”, ou seja, na sociedade atual, no tempo em que vivemos, dedicar-se a outra profissão que dê mais dinheiro. Essa percepção depreciativa do próprio professor faz com que este se sinta realizando um trabalho sem importância, sem reconhecimento. Interessante ressaltar que mesmo com todos esses argumentos negativos, muitos professores que participaram deste estudo dizem sentir-se realizados profissionalmente, embora as condições não sejam adequadas, os próprios professores atribuem ao seu trabalho um significado e uma importância que os outros não vislumbram, mas que justifica a escolha por essa profissão tão mal vista e mal remunerada. Para reafirmar esta posição resgatamos o fato que, neste estudo, apenas um professor referiu o salário como parte importante para a realização profissional. Embora seja uma questão verdadeiramente importante e até mesmo reveladora do valor social de uma profissão, é importante registrar que o grupo de participantes deste estudo julga importante sim, rever a remuneração docente, mas não atribuem a este fato o problema da realização profissional, consideram como mais relevantes às questões abordadas anteriormente. Ao apresentar a maneira como os professores apresentaram as características da Síndrome de Burnout através das categorias acima, pude visualizar que mesmo com a totalidade dos entrevistados manifestando as dimensões de Burnout, a forma como esse processo se desenvolveu dependeu de múltiplos fatores envolvidos. Por essa razão, vejo que o entendimento de Burnout, deve ser feito como uma síndrome multidimensional sim, porque a forma como os professores apresentaram as características da Síndrome de Burnout dependeu diretamente das suas características pessoais, variando de acordo com suas personalidades, com as interações que aconteceram ao longo de suas vidas e de como cada professor lidou com esses acontecimentos através do tempo, uma vez que a maior parte dos entrevistados já tinha vários anos de magistério e sofreram de maneiras diferentes as mudanças do contexto e do trabalho do professor.

Os professores relataram estar vivendo atualmente uma fase difícil no que se refere ao contexto educacional. Referem que há alguns anos atrás eram valorizados, respeitados, e muitas vezes, tinham seu trabalho almejado por muitos de seus alunos. Suas falas revelam sentimentos de perda, pois não têm mais o respeito dos pais, dos alunos, da sociedade, ou seja, não têm o reconhecimento pela sua profissão. Essa percepção, somada às péssimas condições de trabalho resulta em profissionais desgastados, desmotivados com uma sensação de não ter mais o que acrescentar ao seu fazer quotidiano.

Se retomarmos a questão norteadora deste estudo que indagava se os professores da rede municipal de ensino séries finais da cidade do Rio Grande estão desenvolvendo manifestações que possam ser sugestivas da Síndrome de Burnout, a resposta é afirmativa, pois a totalidade dos profissionais referiu características que podem ser incluída em uma das três categorias que classicamente os autores nomeiam como características de Síndrome de Burrnout.

Outro aspecto importante a registrar é que esta pesquisa foi desenvolvida com uma metodologia qualitativa, o que difere da maioria dos estudos que investigam este tema, os quais utilizam predominantemente métodos quantitativos, em geral, com aplicação de instrumentos fechados em sua estrutura. Sem desconsiderar o valor de cada um desses métodos para a construção do conhecimento específico acerca da Síndrome de Burnout, foi justamente a metodologia qualitativa que permitiu adentrar no viver diário dos professores, visualizar suas rotinas de trabalho, suas fraquezas, suas angústias e as peculiaridades que justificam uma intervenção neste espaço tão caótico em que se encontra a educação.

Conforme foi referido anteriormente, este estudo representa apenas uma etapa inicial para a construção do conhecimento da Síndrome de Burnout em professores. Em sua continuidade, devem ser incluídos não só os professores de séries finais, mas de todos os níveis, de tal forma que se possa conhecer a extensão desse problema, especialmente nesta região para, após, investir na construção de estratégias de enfrentamento para essa síndrome, pois os profissionais com Burnout precisam ser tratados e terem sua saúde restabelecida.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Para finalizar, é relevante salientar que a Síndrome de Burnout embora seja um tema amplamente estudado atualmente, precisa ser melhor conhecido e divulgado. Trata-se de uma síndrome presente nas mais diversas profissões com repercussões negativas tanto na vida profissional quanto na vida pessoal dos que manifestam a mesma.

A Síndrome de Burnout precisa ser entendida como uma questão multidisciplinar onde deve ser tratada de acordo com a maneira como é apresentada.

Fernanda Gomes Teixeira

REFERÊNCIAS

BARDIN, L. Análise de Conteúdo. 70 ed. Lisboa, 1979.
BENEVIDES-PEREIRA, A. M. Quando o trabalho ameaça o bem estar do trabalhador. 2 ed. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2002. BRASIL, Lei nº 8069, de 13 de julho de 1990. Estatuto da Criança e do Adolescente. Brasília: 1990. BRASIL. Lei nº 9394/96, de 20 de dezembro de 1996. Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Brasília: 1996.
CHAMBEL, M. J. O Stress na Profissão Professor. Proformar on line, Almada, n. 7, jan. 2005. Internet. Disponível em http://www.proformar.org/revista/edição-7 acesso em 12 mar. 2005. CODO, W. Educação: carinho e trabalho. Burnout, a síndrome da desistência do educador, que pode levar a falência da educação. Petrópolis: Vozes, 1999. CODO, W.;
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ZARAGOZA, J. M. E. O Mal estar docente: a sala de aula e a saúde dos professores. São Paulo: EDUSC, 1999.

Fonte: www.ceamecim.furg.br

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