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Síndrome Burnout

A Síndrome do Burnout : a Saúde em Docentes de Escolas Particulares

Saúde e Qualidade de Vida são dois conceitos que estão presentes hoje em todos os contextos vitais: família, escola, trabalho, mídia. Se constituem em prioridades que almejamos conquistar e defender frente aos ataques quotidianos das pressões ambientais. Sucumbir ao infarto, ser consumido pelo câncer, padecer cronicamente de dores musculares, dores de cabeça, estar constantemente irritado e impaciente... são formas de vida e morte que ninguém quer para si mesmo. Ou será que o docente não acha tão ruim ‘o adoecimento no trabalho’?.

Estamos perante um assunto extremamente sério e relevante. A saúde é um bem essencial, é o amor pela vida. Entendemos por saúde como um construto multidimensional composto por uma dimensão externa constituída pelo ambiente ou contexto onde estamos inseridos e pelo grupo social ao qual pertencemos, com suas normas, suas crenças sobre o que é normal e patológico, suas formas de ser e se relacionar. Estas duas dimensões externas formam o ecossistema (Eco de ‘oikós’, em grego, casa, ‘habitat’). Este sistema o contexto contribui para nos proteger ou nos destruir na função docente.

Ao mesmo tempo, e em íntima conexão com esse sistema, estão as dimensões internas: o corpo ou dimensão biológica e a dimensão psico-social, que constituem nosso organismo entendido como uma unidade integrada. Na interação do sujeito com o contexto, o comportamento humano se manifesta de forma saudável ou doentia. A saúde, portanto, está alicerçada multidimensionalmente, diferente de outros tempos em que era colocada no sujeito a responsabilidade pelo seu adoecer . São diversos os fatores para analisar e avaliar no sentido de concluir que estamos vivendo num ambiente saudável e que promove ou não nossa qualidade de vida.

Nos podemos perguntar: o quanto de saúde possuímos ? Ou será que ter ou não ter saúde é algo assim como ter ou não ter carro?

Ledo engano. Estamos constantemente oscilando, em uma tensão constante, entre forças de saúde e de doença. A saúde não se tem, se conquista todos os dias. É como si fosse um continuum linear onde num extremo está a doença e morte e no outro a saúde e vida. Só atingiremos o completo estado de bem-estar na hora da morte. Uma área de estudos recente é a denominada ‘Saúde do Trabalhador’. Ela se preocupou inicialmente com a saúde física do trabalhador, evitando os acidentes de trabalho, extremamente caros para o Sistema de Saúde... Atualmente, existe uma visão mais favorável ao trabalhador desde uma perspectiva bio-psico-social, com equipes interdisciplinares preocupadas com a promoção e prevenção da saúde, buscando as empresas, desde a responsabilidade social, maior qualidade de vida no trabalho. No entanto, ainda há uma mentalidade empresarial de que, preenchidas as necessidades materiais, o trabalhador não tem outras necessidades a satisfazer (valorização, participação, realização pessoal e profissional...). Além da preocupação com o atendimento às necessidades do trabalhador por parte de algumas empresas, existe certo tipo de trabalho que, pelas suas características, exige muita maior atenção e desgaste emocional, são as atividades desenvolvidas em constante interação com as pessoas (pacientes, alunos). Quando o trabalhador envolvido nestas atividades não consegue manter seu equilíbrio pessoal, poderá apresentar um tipo de doença chamada de Síndrome do Desgaste Profissional ou Burnout (Maslach e Leiter, 1999). O Burnout é um estado de estresse cronificado. Todos padecemos de estresse, e um mundo de estressores está sempre presente no quotidiano das nossas vidas. Mas, quando não sabemos lidar com o estresse, podemos sucumbir. Uns lidam com a situação de estresse, fugindo da mesma, outros tentam ignora-la ou nega-la, e outros procuram fazer frente a ela, encontrando alternativas saudáveis para lidar com a situação. Para chegar a se constituir em uma síndrome, nosso organismo nos alerta antes e busca formas de combate ou compensação, até verificar, em certos casos, que a luta é inglória e cronifica-se o estrese como um traço ou uma síndrome, que poderá desembocar em doenças físicas, psicossomáticas, psíquicas (depressão), ou sociais (psicopatias). A Sindrome de Burnout é constituída, segundo Maslach e Leiter (1999), por três dimensões:

Exaustão Emocional: Falta de energia, sentimento de esgotamento afetivo. Despersonalização: Estabelecimento de relações interpessoais de forma fria, caracterizando insensibilidade emocional. Baixa realização pessoal: Auto-avaliação negativa, falta de motivação para o trabalho.

Será que esta Síndrome caracteriza aos docentes de escolas particulares? Wanderley Codo (1999) encontrou em amostra de 39.000 docentes dos diferentes estados do Brasil que 48,4% possuem comprometimento em alguma das três dimensões do Burnout, sendo o Rio Grande do Sul, o sétimo estado com ‘pior’ saúde docente. Por outro lado, em amostra de professores de escolas particulares dos três níveis de ensino, de uma cidade do interior do RS, Moura (2000) observou a presença de Burnout em níveis médios. A autora explica que para manter em equilíbrio o funcionamento psíquico, os docentes desenvolvem formas de resistência ou enfrentamento como a procura de auto-regulação permanente, que se afastados da saúde (pólo prazer-saúde), pode levar à doença. Assim, ao mesmo tempo que os professores avaliam a profissão como ‘um jogo que desafia e gratifica’, também a qualificam como profissão ‘desgastante, explorada e desvalorizada’, denominando esta atitude patogênica como de ‘normalidade sofredora’. Outras pesquisas de caráter qualitativo desenvolvidas por Volpi (1994), Mosquera e Stobäus (1996) e Nunes e Teixeira (2000), explicitam algumas causas apontadas pelos docentes entrevistados como desencadeadores do mal-estar docente:

Falta de tempo para realizar bem o trabalho (cada vez mais alunos, mais aulas, mais conteúdos fora da área de formação); Burocratização do trabalho, planilhas, dados a preencher, controle avaliativo,,, Conflito de papéis: ora professor, ora pesquisador, ora administrador; Exigências acadêmicas: novos curriculuns, avaliações MEC, novas tecnologias; Invasão do espaço privado: trabalho em casa, à noite, finais de semana Trabalho que exija concentração, escrever artigos, preparar aula, somente fora do ambiente de trabalho; Preocupação da escola com desempenho acadêmico e tecnologia, sem valorizar a qualidade de vida do professor, os valores humanos prescritos da Instituição.

Essas e outras fontes de estresse no contexto educativo constituem aspectos diante dos quais podemos ser vulneráveis ao Burnout. Por outro lado existem fontes de gratificação que auxiliam no equilíbrio do professor. Um bom número de docentes consideram a sua profissão como ‘desafiadora’ e estimulante perante os novos cenários educativos (Moura, 2000). A interação professor-aluno é o suporte mais forte da vinculação saudável do professor com o seu trabalho. Na interação com o aluno muitos encontram o sentido do trabalho docente, junto com a liberdade que ainda existe, do professor na sala de aula. É interessante observar que ‘o ato educativo’ na sua essência é um fator preponderante de saúde e ancoragem dos professores. O que acontece com toda essa estrutura escolar, fora da sala de aula, que está sendo tão negativa para os docentes? Dejours (1992), no seu livro ‘A loucura no trabalho’, nos auxilia na compreensão da estrutura organizacional no seu papel na Saúde do Trabalhador.

Para o autor deve-se analisar três aspectos que configuram a psicodinâmica do trabalho:

As condições de trabalho; As relações no trabalho; A organização do trabalho, diferenciando a organização ‘prescrita’ (ideário, filosofia, normas) e a ‘real’ (construída).

Podemos enumerar em cada um destes aspectos o perfil que caracteriza a instituição onde o leitor está inserido. Participantes do sétimo CEPEP (Congresso Estadual de Professores de Escolas Particulares do RGS) trouxeram alguns dados.

Um deles tem a ver com as condições de trabalho: será que existe algum espaço na Instituição para o professor poder relaxar, ter um lugar de descanso nos intervalo das aulas? Parece que a Instituição está muito preocupada com investir em mais salas de aula, mais computadores para os alunos, melhor infraestrutura para fazer frente à concorrência, do que investir no professor, onde a preocupação com seu bem-estar? Os custos sociais de um docente são altos, será que isso justifica sobrecarregar de aulas a um número reduzido de professores? Outro aspecto se refere às relações de trabalho. Eu me deparei atônito com o depoimento de um professor sobre o autoritarismo de alguma escola particular. Será que os gestores destas instituições não estão interassados em ter os seus professores como aliados? A direção de escola que não se abra para a participação dos seus professores nos diferentes níveis de gestão, dificilmente terá seus docentes identificados com ela. O clima escolar participativo e democrático, longe de representar um perigo institucional, gera bem-estar, saúde, compromisso, sentido de pertença, identidade com os objetivos da Instituição. A organização do trabalho prescrita ou real, nos situa numa encruzilhada. As escolas particulares, geralmente confessionais, norteiam seus fins e metas dentro do espírito cristão, com a finalidade de desenvolver valores humanos. Até aqui o ideal, o prescrito. Na prática existem sérias dificuldades no desenvolvimento destes valores. Alguns autores como Tamayo, Mendes e Paz, (2000), e Schein (2001), assinalam sérias incongruências entre os valores estabelecidos no papel e os que realmente são praticados pela organização. Os valores ‘vividos’ e não prescritos dentro de uma organização são aqueles nos quais mostra-se a essência da cultura, valores e crenças apreendidos em conjunto, que são compartilhados e tidos como corretos a medida que a organização consegue ter sucesso nos seus objetivos (Schein, 2001). Os valores organizacionais e as possíveis distâncias ou incongruências entre o ‘ideal’ e o ‘real’ poderão estar relacionados com o processo saúde/doença, como foi verificado por Borges e cols. (2002), em profissionais da área da saúde, na relação significativa obtida entre Burnout e valores organizacionais. Uma vez identificadas possíveis fontes de Burnout no âmbito do trabalho, passamos a propor formas de prevenir ou fazer frente a esta Síndrome.

Expomos algumas estratégias que privilegiam a saúde e qualidade de vida no contexto escolar:

Transformar a escola em um contexto saudável, desenvolvendo as modificações necessárias no âmbito das relações, das condições e da organização do trabalho

Propiciar o fortalecimento (empowerment) pessoal e coletivo, desenvolvendo capacidades de lidar com o estresse, valorização pessoal e grupal, controle das situações de conflito, modificando o contexto e canalizando necessidades e aspirações (Montero, 2003)

Desenvolver redes de apoio social, formando grupos de discussão entre professores, oportunizando reflexões entre líderes institucionais e professores, reunindo alunos e pais para apresentação de trabalhos, experiências, chamando aos pais para trocas sobre modelos educativos e formas de lidar com os alunos, chamando aos alunos para participarem de jornadas, criando fóruns permanentes de diálogo e co-responsabilidade educativa.

Implementar recursos, pessoais e ambientais, que propiciem melhoria na qualidade de vida dos docentes.

E, para concluir, com o próprio Maslach e Leitter (1997/1999), uma das principais estratégias para prevenir a síndrome, é a de enfatizar a promoção dos valores humanos no ambiente de trabalho ou,. como nos lembram as conclusões do trabalho de Borges e cols. (2002), adotar valores mais orientados para a coletividade, em oposição aos valores mais individualistas. Se queremos não somente ‘sobreviver’ no trabalho e sim fazer do trabalho uma fonte de saúde e realização cabe a cada um de nós mas do que chorar e lamentar, iniciar um processo de mudança pessoal e institucional, com propostas construtivas e participativas, ou, se os nossos ambientes são mais fechados e resistentes, administrar a própria saúde e buscar aliados para iniciar um movimento que leve a construção de espaços mais saudáveis no contexto de trabalho.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Borges, L.O., Argolo, J.C.T., Pereira, A.L.S., Machado, E.A.P., Silva, W.S. (2002). A Síndrome de Burnout e valores organizacionai: Um estudo comparativo em hospitais universitários. Psicologia: Reflexão e crítica, 15 (1), pp.189-200. Codo, W. & Batista, A. S. (1999). O que é burn-out. Em Educação Carinho e Trabalho (pp.237-253). Codo, W. (org.) Petrópolis: Editora Vozes. Maslach, C. & Leiter, M.P. (1999). Trabalho: Fonte de prazer ou desgaste? Guia para vencer o estresse na empresa (M.S. Martins, Trad.). Campinas: Papirus. ((original publicado em 1997). Montero, M. (2003). Teoria y Práctica de la Psicología Comunitaria: la tensión entre la comunidad y sociedad. Buenos Aires: Piados. Mosquera, J. & Stobäus, C.D. (1996). O mal-estar na docência: Causas e conseqüências. Educação – Porto Alegre, 31, 139-146. Moura, E.P.G. (2000). Esgotamento profissional (burnout) ou Sofrimento Psíquico no Trabalho: O caso dos professores da Rede de ensino particular. In Sarriera. J.C. (Org). Psicologia Comunitária - Estudos Atuais. Porto Alegre: Sulina. Nunes. M.L. & Teixeira, R.P. (2000). Burnout na carreira acadêmica. Educação – Porto Alegre, 41, 147-164. Schein, E.H. (2001). Guia de sobrevivência da cultura corporativa. Rio de Janeiro: José Olympia. Tamayo, A., Mendes, A. M., Paz, M.G.T. (2000). Inventário de valores organizacionais. Estudos de Psicologia (Natal), 5 (2). Volpi, M. (1994). Testemunho de professores sobre sua ação profissional e a responsabilidade social da universidade: docentes da PUCRS pensam sua universidade. Tese de doutorado não-publicada, Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, Rio Grande do Sul, Brasil.

Jorge Castellá Sarriera

Fonte: www.sinpro-rs.org.br

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