Introdução
O conhecimento fenológico das espécies nativas torna-se uma necessidade, visto que problemas de obtenção de sementes de espécies arbóreas causam transtornos ao segmento florestal, quando se trabalha com produção de mudas.
O objetivo do estudo da fenologia é descobrir quais fatores induzem ou pelo menos limitam as mudanças fenológicas observadas. Os fatores indutores de um determinado evento fenológico não são necessariamente as causas que selecionaram sua evolução. Mudanças fenológicas podem ser, por exemplo, uma resposta evolutiva às pressões exercidas por certos animais, embora as plantas utilizem um fator abiótico como pista ou gatilho para desencadear tais mudanças. A relação entre fenologia e fatores indutores pode ser avaliada diretamente, mas para entender o papel e a importância evolutiva de eventos fenológicos não basta encontrar correlações: estudos experimentais e comparações entre espécies precisam ser realizados (REICH, 1995) .
O estudo sobre fenologia de plantas perenes vem sendo utilizado, no Brasil, para ampliar os conhecimentos em silvicultura, melhoramento genético, medicina popular, ecologia, paisagismo, turismo, manejo e outras áreas afins, assim como a preservação dos ecossistemas tropicais (MORELLATO, 1991).
O interesse pelo cultivo de Erytrina falcata Benth. (Fabaceae: Papilionoideae), também conhecida como corticeira-da-serra, está relacionado principalmente ao seu valor ornamental, pois pode ser utilizada em parques, jardins e sistemas agroflorestais, restauração da mata ciliar, em locais com surtos de inundação durante o ano e na recuperação de ecossistemas degradados. A Erythrina falcata tem potencialidade para fixar N e suas flores produzem néctar, apreciado por beija-flores e outros pássaros polinizadores. A propagação da corticeira por sementes é difícil. Em condições naturais, somente 20 % dos óvulos disponíveis produzem sementes e a relação de flores para frutos é muito baixa, em torno de 1 % (NEVES et al., 2006).
Este trabalho teve como objetivo monitorar a corticeira-da-serra, visando fornecer informações sobre seu comportamento fenológico vegetativo e reprodutivo, em áreas da Floresta Ombrófila Mista (Floresta Atlântica).
Os estudos de campo foram desenvolvidos em áreas onde a vegetação predominante é a Floresta Ombrófila Mista, nos municípios de Colombo (22 º 42' 30'’ S e 47 º 38’00'’ W) e Curitiba (25 0 25’ 47" S e 49 0 16’ 19"W), no Estado do Paraná, com altitude média de 950 m. O clima da região é classificado por Cfb, temperado úmido, sem estação seca, segundo o Sistema Climático de Köeppen (KÖEPPEN, 1948). A temperatura média anual dos últimos 10 anos é de 17,3 0C , enquanto que nas décadas anteriores, a média anual era de 16,5 0C; pluviosidade de 1.500 mm/ano, sendo janeiro o mês mais chuvoso (média de 165 mm) e o período menos chuvoso (abril/agosto), com 90 mm/ano (Anexo1)
As coletas de dados das fenofases vegetativas e reprodutivas foram efetuadas quinzenalmente, no período de cinco anos (agosto de 2002 a setembro de 2006), em sete árvores localizadas em áreas fragmentadas da Floresta com Araucária (Ombrófila Mista), no Município de Colombo e em parques municipais da cidade de Curitiba, PR.
Foi utilizado o método proposto por Fournier & Charpentier (1975), que estima a intensidade (%) de cada fenofase, por meio de uma escala intervalar semiquantitativa de cinco categorias (0 a 4), com intervalos de 25 % entre cada uma delas, sendo: zero = ausência de fenofase, 1 = presença da fenofase com magnitude entre 1 a 25 %, 2 = presença de fenofase com magnitude entre 26 % a 50 %, 3 = presença de fenofase com magnitude entre 51 % a 75 % e; 4 = presença de fenofase com atingindo entre 76 % a 100 %.
Os critérios utilizados para definição das estratégias de floração e frutificação (fenofases) seguiram as recomendações de Morellato & Leitão Filho (1990), onde: Periodicidade - regularidade do ciclo fenológico; Freqüência - número de ciclos por unidade de tempo, expresso em múltiplos de ano (sub-anual = mais de um ciclo por ano, anual = um ciclo por ano, supra-anual = menos de um ciclo por ano); Duração - período do ano em que uma planta permanece em uma determinada fase; Época - dia, mês e ano em que o evento ocorre; Sincronia - proporção de indivíduos amostrados que estão manifestando determinado evento fenológico.
Para as observações e registros dos parâmetros fenológicos, foram utilizados binóculos, guindaste (12 m de altura) acoplado a um caminhão e anotações de campo. Na tabela 1, estão registradas as categorias fenológicas adaptadas da metodologia usada por Fournier (1974), para esta espécie
Tabela 1. Observações fenológicas para a corticeira-daserra (Erytrina falcata). Colombo, PR.
A partir dos valores médios mensais, foram elaborados gráficos mostrando a evolução de cada parâmetro (fases das fenofases), durante o período de observação. Os dados meteorológicos de precipitação (mm), temperatura (0 C) e umidade relativa do ar (%) foram cedidos pelo Instituto Tecnológico SIMEPAR, sendo referentes à Estação de Pinhais, PR, distante cerca de 12 km da área de estudo.
Os dados fenológicos foram analisados pelo programa estatístico SAS, fornecendo as ocorrências de cada fenofase, para cada mês, por árvore e por ano de observação. Para testar a significância dos coeficientes, foi usada a função desvio (deviance), com distribuição gama (Pearson X2 ). Não foi realizada correlação dos dados das fenofases com os climáticos.
Resultados e Discussão
A análise da variância da fenologia (vegetativa e reprodutiva) revelou diferença significativa, ao nível de 1 % de probabilidade, para anos, meses, árvores e dias, para a maioria das fases. No entanto, a fase do término da floração e emissão de folhas novas dentro de cada ano não revelou diferenças significativas. A fase da semente dispersando não mostrou diferenças significativas entre as árvores e dias. Observou-se que as fases de frutos novos e maduros não mostraram significância, revelando que houve uma sincronia desses parâmetros, para ano, meses, árvores e dias (Tabela 2).
Tabela 2. Análise de variância. Fenologia da corticeira-da-serra (Erytrina falcata Benth). Colombo, PR.
ns - não significativo.
** - significativo a 1 % de probabilidade.
BF= Botão floral; FLOAD= Floração adiantada; FTER= Floração terminando; FN= Frutos novos presentes; FM= Frutos maduros; SD= Semente disseminando;
QF= Queda das folhas ou árvore desfolhando; FLN= Folhas novas ou brotamento; FLV= Folhas velhas ou copa completa.
Floração
A floração da corticeira-da-serra se deu entre os meses de agosto a dezembro (Figuras 1, 2 e 3). Registraram-se os maiores percentuais da fase de botão floral nos meses de setembro e outubro, no final da estação fria e início do período (outubro a março) de maior pluviosidade. Simultaneamente, foi registrada a produção de flores na maioria dos indivíduos. A fase de plena floração permaneceu durante 105 dias, com picos no mês de outubro, começando a diminuir a partir da segunda quinzena de novembro, no período de temperaturas mais elevadas (Anexo 1). A estratégia de floração foi a periódica anual sazonal. A média de duração da floração, no período de menor pluviosidade, foi de 11,4 semanas e na estação úmida foi de 8,6 semanas.
Embora tenham ocorrido flutuações desorganizadas entre os indivíduos, a floração da Erytrina falcata ocorreu com intensidade no período de chuvas (outubro/novembro) e de temperaturas mais elevadas, em cada ano, mostrando um padrão de floração periódica, anual e sazonal. A tendência de florir no período de início do período úmido, em regiões de climas sazonais, também foi observado por Araújo (1970), em árvores na Reserva Florestal de Ducke, em Manaus, AM; por Morellato et al. (1990), numa floresta de altitude em Jundiaí, SP; por Alencar (1990), na Reserva Biológica de Campina do INPA, em Manaus, AM, e por Ferraz et al., (1999), na Reserva Florestal da Cidade Universitária “Armando de Salles Oliveira”, em São Paulo, SP. Segundo Aximoff & Freitas (2006), a floração da Erytrina falcata, no Parque da Itatiaia (PARNA Itatiaia), ocorreu com intensidade no período de junho a setembro.