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CARTAS CHILENAS

Tomás Antônio Gonzaga

CARTA l0ª

Em que se contam as desordens maiores que Fanfarrão fez no seu governo.

Quis, amigo, compor sentidos versos

A uma longa ausência e, para encher-me

De ternas expressões, de imagens tristes,

A banca fui sentar-me, com projeto

5 -- De ler, primeiramente, algumas obras

No meu já roto, destroncado Ovídio.

Abri-o nas saudosas alegrias

E, quando me embebia na leitura

Dos casos lastimosos, que ele pinta,

10 -- Na passagem que fez ao Ponto Euxínio

Encontro aqueles versos que descrevem

As ondas decumanas; de repente

Me sobe ao pensamento que estas eram

Do nosso Fanfarrão imagem viva.

15 -- Os mares, Doroteu, jamais descansam;

Agitam sem cessar as verdes águas,

E, depois que levantam ondas nove,

Com menos fortidão, despedem outra,

Que corre mais ligeira e que se quebra

20 -- Nos musgosos rochedos com mais força.

Assim o nosso chefe não descansa

De fazer, Doroteu, no seu governo,

Asneiras sobre asneiras e, entre as muitas,

Que menos violentas nos parecem,

25 -- Pratica outras que excedem muito e muito

As raias dos humanos desconcertos.

Perdoa, minha Nise, que eu desista

Do intento começado. Tu mil vezes

Nos meus olhos já leste os meus afetos,

30 -- Não careces de os ler nos meus escritos.

Perdoa, pois, que eu gaste as breves horas

A contar as asneiras desumanas

Do nosso Fanfarrão ao caro amigo.

E tu, meu Doroteu, antes que leias

35 -- O que vou a contar-te, jurar deves

Pelos olhos da tua amada esposa,

Por seu louro cabelo, e pelo dia

Em que viste, na sua alegre boca,

O primeiro sorriso, que não hás-de

40 -- Duvidar do que leres, bem que sejam

Desordens que pareçam impossíveis.

A Junta, Doroteu, a quem pertence

Evitar contrabandos, prende, envia

A sabia Relação do Continente

45 -- A trinta delinqüentes, para serem

Castigados conforme os seus delitos.

Entende o nosso chefe que esta Junta

Não devia mandar aos malfeitores

Sem sua autoridade e, dela, toma

50 -- O mais estranho, bárbaro despique.

Manda embargar aos presos na cadeia

Do nosso Santiago, e manda ao pobre

Do condutor meirinho que os sustente,

Assistindo, também, aos que enfermarem,

55 -- Com médicos, remédios e galinhas.

Acaba-se o dinheiro que lhe deram

Para fazer os gastos do caminho;

Recorre, neste aperto, ao bruto chefe,

Expõe-lhe que não tem com que alimente

60 -- Ao menos a si próprio; pede e roga

Que o deixe recolher à pátria terra,

Para nela exercer seu pobre oficio.

Tão terna rogativa não merece

Do chefe a compaixão; antes lhe ordena

65 -- Que assista, como dantes, aos culpados

De todo o necessário, na enxovia;

Que, a faltar-lhe o dinheiro para os gastos,

Ou que o peça, ou que o furte. Caro amigo,

Da boca de uma Fúria sairia

70 -- Mais dura decisão? Por que motivo

Deve um pobre meirinho dar sustento

A mais de trinta presos? São seus filhos?

E, ainda a serem filhos, um pai justo,

Que fazenda não tem, vive obrigado

75 -- A sustentar infames malfeitores,

Por meio de culpáveis latrocínios?

Suponho, Doroteu, suponho ainda

Que a Junta fez excesso na remessa

Dos presos, sem licença. Neste caso

80 -- Merece o condutor algum castigo?

Ele fez outra coisa que não fosse

Cumprir o que mandaram seus maiores?

Podia repugnar-lhes, sem delito?

Amigo Doroteu, o nosso chefe

85 -- É qual mulher ciosa, que não pode

Vingar no vário amante os duros zelos,

E vai desafogar as suas iras,

Bebendo o sangue de inocentes filhos.

Depois de se passarem alguns anos,

90 -- Depois que o bom meirinho já não tinha

Vestido que vendesse, nem pessoa

Que um chavo lhe fiasse, o bruto chefe

Passa a fazer-um novo despotismo:

Ordena que os culpados sejam soltos,

95 -- E, dizem, lhes mandava vinte oitavas,

Para os gastos fazerem da fugida.

Até aqui pagou o seu desgosto

O pobre condutor; agora o paga

A triste, aflita pátria, pois lhe aumenta,

100 -- Dos torpes malfeitores, a quadrilha.

É esta, Doroteu, a sua gente;

Trafica em coisa santa, no comércio

Da compra e mais da venda de seixinhos,

Negócio avantajado e mais seguro

105 -- Que o meter entre os fardos das baetas,

Os pesados galões e as drogas finas.

Preza o bravo leão aos leões bravos,

A fraca pomba preza as pombas fracas,

E o homem, apesar do raciocínio

110 -- Que a verdade lhe mostra, estima aos homens

Que têm iguais paixões e os mesmos vícios.

Avisam ao bom chefe que um ministro

Queria que os soldados lhe mostrassem

As ordens, com que entravam a fazerem

115 -- Prisões no seu distrito. Investe o bruto

Qual touro levantado, a quem acenam,

C’os vermelhos droguetes, os capinhas;

Escreve-lhe uma carta, em que lhe ordena

Lhe dê logo as razoes, em que se funda.

120 -- Inda pede as razões, e já lhe estranha

O néscio proceder. Aqui não para

Tão rápida desordem: manda um corpo

De ousados militares, que conduzam,

Ao magistrado, a carta, e lhes ordena

125 -- Que fiquem nesta vila sustentados

A custa, Doroteu, do aflito povo.

Não se concede ao pobre que sustente,

Em casa, o seu soldado; manda o chefe

Que a cada um se dê, em cada um dia.

130 -- Para sustento, meia oitava de ouro,

Fora milho e capim para o cavalo;

E não entrando aqui o régio soldo.

Que santo proceder! Um Deus irado,

Se houvessem sete justos, perdoava

135 -- Os imensos delitos de Sodoma,

E o nosso grande chefe, pelo crime,

Pelo sonhado crime de um só homem,

Castiga, como réu de majestade,

Formado de inocentes, todo um povo.

140 -- Faz penhora Macedo em certas barras

Que, a um seu devedor, devia Mévio;

Recorre ao magistrado Silverino,

Pedindo que mandasse que o dinheiro

A juízo viesse, pois queria

145 -- Sobre ele disputar a preferência,

Na forma que concede a lei do reino.

Cita-se ao triste Mévio e deposita

As barras em juízo, prontamente.

Conhece Silverino que Macedo

150 -- Para a vitória tem melhor direito,

Não quer seguir a causa na presença

De um reto magistrado, que profere,

Na forma que as leis mandam, as sentenças.

Recorre ao general, e o bruto chefe

155 -- Decide desta sorte o longo pleito:

Habita nesta terra um homem rico,

Que tem de Albino o nome, e, dizem, trata

A Mévio, devedor,--por seu sobrinho.

Manda pois, Doroteu, o grande chefe

160 -- Que Albino se recolha na cadeia

E more com os negros na enxovia,

Enquanto não pagar a Silverino

Outra tanta quantia, quanta Mévio

Depositou, doloso, por que houvesse

165 -- Entre os dois acredores um litígio.

Eis aqui, Doroteu, o que é ciência!

As nossas leis não querem que o pai solva

O calote que fez o próprio filho

E quer um general que Albino pague

170 -- Da sórdida masmorra, novamente,

A soma que pagou o bom sobrinho!

Aonde existe o dolo? A lei não manda

Que todo o que temer que alguém lhe peça

Segundo pagamento, se segure

175 -- Metendo no depósito o que deve?

Pois se isto nos faculta o são direito,

Que delito comete aquele triste

Que a dívida em juízo deposita,

Quando o sábio juiz assim o manda,

180 -- Porque o mesmo credor assim o pede?

E se Mévio fez dolo, por que causa

Há-de Albino pagar a culpa dele?

Porque lhe aconselhou que não pagasse

Outra tanta quantia a Silverino?

185 -- Aconselhar conforme as leis do reino

É culpa que mereça um tal castigo?

E pode ser castigo regulado

Pagar o conselheiro aquela soma

Que o mesmo aconselhado não devia?

190 -- Não é isto furtar? Não é violência?

Ah! pobre, ah! pobre povo, a quem governa

Um bruto general, que ao céu não teme,

Nem tem o menor pejo de lhe verem

Tão indignas ações os outros homens!

195 -- Há neste regimento um moço Adônis,

Amores de uma escrava, cuja dona

Depois de cativar a muitos peitos, . .

Ao nosso herói atou, também, ao carro

Dos seus cruéis triunfos. Cego nume!

200 -- Qual é, qual é dos homens que não honra,

Com puros sacrifícios, teus altares?

Tu vences os pequenos, mais os grandes,

Tu vences os estultos, mais os sábios,

Tu, vences, que inda é mais, as mesmas feras

205 -- E, bem que cinja o grosso peito d'aço,

Não pode resistir às tuas setas

O duro coração do próprio Marte.

Intenta este soldado que o ministro

Lhe remate umas casas e consegue

210 -- Um despacho do chefe, em que decreta

Que nelas ninguém lance: coisa estranha

Que, entendo, nunca viu nenhuma idade!

O reto magistrado, que respeita,

Mais que ao chefe, as leis do seu monarca,

215 -- Ordena que o porteiro, incontinenti,

As pertendidas casas meta a lanço.

Honrado cidadão o preço cobre;

O porteiro passeia pela rua,

Repete, em alta voz, o lanço novo

220 -- E prossegue a falar, assim dizendo:

"Dou-lhe uma, dou-lhe duas, dou-lhe três,

Dou-lhe outra mais pequena, afronta faço,

Se ninguém mais me oferece, arremato".

Ao lanço do Brandúsio ninguém chega,

225 -- Informado o juiz, ordena e manda

Que o prédio se remate; então se chega

O porteiro risonho ao licitante,

E lhe diz -- "que lhe faça bom proveito"

Ao mesmo tempo que lhe entrega o ramo.

230 -- Parte logo o soldado e conta ao chefe

O sucesso da praça. O bruto monstro,

Julgando profanado o seu respeito,

Manda lançar no pobre licitante

Um pesado grilhão e manda pô-lo,

235 -- Ajoujado com um despido negro,

A trabalhar nas obras da cadeia.

O preso injuriado desfalece

E o chefe desumano desce à rua

Para que possa, de mais perto, vê-lo.

240 -- Sucede a um desmaio outro desmaio;

O negro companheiro, então, lhe acode,

Nos braços compassivos o sustenta;

Porem o velho chefe, que deseja

O vê-lo, ali, morrer, por um soldado

245 -- Manda ao negro dizer que ao preso deixe

E cuide em prosseguir no seu trabalho.

Os mesmos desumanos, que rodeiam

Tão bruto general, aqueles mesmos

Que, alegres, executam seus mandados,

250 -- Apenas escutaram tal preceito,

Um pouco emudeceram e tiveram

Os rostos tristes, muito tempo, baixos.

Os outros, Doroteu, deram suspiros

E, bem que forcejaram, não puderam

255 -- Fazer que os olhos não se enchessem d'água.

Eu creio, Doroteu, que tu já leste

Que um César dos romanos pertendera

Vestir, ao seu cavalo, a nobre toga

Dos velhos senadores. Esta história

260 -- Pode servir de fábula, que mostre

Que muitos homens, mais que as feras brutos,

Na verdade conseguem grandes honras!

Mas ah! prezado amigo, que ditosa

Não fora a nossa Chile se, antes, visse

265 -- Adornado um cavalo com insígnias

De general supremo, do que ver-se

Obrigada a dobrar os seus joelhos

Na presença de um chefe, a quem os deuses

Somente deram a figura de homem!

270 -- Então, prezado amigo, o néscio povo

Com fitas lhe enfeitara as negras clinas,

Ornara a estrebaria com tapetes,

Com formosas pinturas, ricos panos,

Bordados reposteiros e cortinas;

275 -- Um dos grandes da terra lhe levara

Licor, para beber, em baldes d'ouro,

Outro lhe dera o milho em ricas salvas;

Mas sempre, Doroteu, aqueles néscios

Que ao bruto respeitassem, poderiam

280 -- Servi-lo acautelados e de sorte

Que dar-lhes não pudesse um leve coice.

Eis aqui, Doroteu, o que nos nega

Uma heróica virtude. Um louco chefe

O poder exercita do monarca

285 -- E os súditos não devem nem fugir-lhe

Nem tirar-lhe da mão a injusta espada.

Mas, caro Doroteu, um chefe destes

Só vem para castigo de pecados.

Os deuses não carecem de mandarem

290 -- Flagelos esquisitos; quasi sempre

Nos punem com as coisas ordinárias.

O mundo inda não viu senão um corpo

Em branco sal mudado, e só no Egito

Fez novas penas de Moisés a vara.

295 -- Perguntarás agora que torpezas

Comete a nossa Chile, que mereça

Tão estranho flagelo? Não há homem

Que viva isento de delitos graves,

E, aonde se amontoam os viventes

300 -- Em cidades ou vilas, ai crescem

Os crimes e as desordens, aos milhares.

Talvez prezado amigo, que nós, hoje,

Sintamos os castigos dos insultos

Que nossos pais fizeram; estes campos

305 -- Estão cobertos de insepultos ossos

De inumeráveis homens que mataram.

Aqui ou europeus se divertiam

Em andarem à caça dos gentios

Como à caça das feras, pelos matos.

310 -- Havia tal que dava, aos seus cachorros,

Por diário sustento, humana carne,

Querendo desculpar tão grave culpa

Com dizer que os gentios, bem que tinham

A nossa semelhança, enquanto aos corpos,

315 -- Não eram como nós, enquanto às almas.

Que muito, pois, que Deus levante o braco

E puna os descendentes de uns tiranos

Que, sem razão alguma e por capricho,

Espalharam na terra tanto sangue.

CARTA 11ª

Em que se contam as brejeirices de Fanfarrão.

No meio desta terra há uma ponte,

Em cujos dois extremos se levantam

De dois grossos rendeiros as moradas;

E, apenas, Doroteu, o sol declina

5 -- A descansar de Tétis no regaço,

Neste agradável sitio vão sentar-se

Os principais marotos e, com eles,

A brejeira família de palácio.

Aqui, meu bom amigo, aqui se passam

10 -- As horas em conversa deleitosa:

Um conta que o ministro, à meia noite,

Entrara no quintal de certa dama;

Diz outro que se expôs uma criança

A porta de Florício, e já lhe assina

15 -- O pai e mais a mãe; aquele aumenta

A bulha que Dirceu com Lauro teve

Por ciúmes cruéis', da sua amásia;

Este chama a Simplicio caloteiro

E mofa, ao mesmo tempo, de Frondélio,

20 -- Que o seu dinheiro guarda. Enfim, amigo,

Aqui, aqui de tudo se murmura.

Só se livra da língua venenosa

O que contrata em vendas de despachos

E quem se alegra ao ver que a sua moça

25 -- Ajunta, pela prenda, um par de oitavas:

Que os membros do congresso são prudentes

E não querem que alguns dos companheiros

Tomem esta conversa em ar de chasco.

Amigo Doroteu, ah! neste sitio

30 -- Eu não me dilatara um breve instante

Em dia de trovões, bem que estivesse

Plantado todo de loureiros machos!

Por este sítio, pois, passei há pouco

Cuidando que, por ser mui cedo ainda,

35 -- Não toparia a corria dos marotos.

Mas, apenas a vi, fiquei tremendo

Qual fraco passageiro, quando avista,

Em deserto lugar, pintadas onças.

Contudo, Doroteu, criei esforço

40 -- E fui atravessando pelo meio,

Rezando sempre o credo e, por cautela,

Fazendo muitas cruzes sobre o peito.

Apenas me salvei daquele risco,

Um suspiro soltei, que encheu os ares,

45 -- E, voltando o semblante para o sitio,

Em que os tais\mariolas se assentavam,

Meneando a cabeça um par de vezes

E soltando um sorriso, em ar de mofa,

Dentro do meu discurso, assim lhes falo:

50 -- "Vocês, meus mariolas, meus tratantes,

Estão contando histórias das pessoas

De quem não são afetos, por que as levem,

Aos ouvidos do chefe, os seus lacaios;

Pois eu também já vou contar verdades,

55 -- Em que possam falar os homens sérios

Inda daqui a mais de um cento de anos.

Recolhi-me à choupana e, de repente,

Sem tirar a gravata do pescoço,

Entrei a pôr em limpo esta cartinha,

60 -- Que já, pelo caminho, vim compondo.

Entendo, Doroteu, que as nossas almas

Não são todas iguais; que o grande Jove

Fez umas de matéria muito pura,

Fez outras de matéria mais grosseira,

65 -- Por não perder as borras que ficaram.

Entendo, ainda mais, que o dispenseiro,

Quando lhe vão pedir algumas almas,

Vai dando aquelas que primeiro encontra.

Por isto, às vezes, nascem os mochilas

70 -- Com brios de fidalgos, outras vezes

Os nobres com espíritos humildes,

Só dignos de animarem vis Lacaios.

O nosso Fanfarrão, prezado amigo,

Vos dá mui boa prova: não se nega

75 -- Que tenha ilustre sangue, mas não dizem,

Com seu ilustre sangue, as suas obras.

Apenas, Doroteu, a noite chega,

Ninguém andar já pode, sem cautela,

Nos sujos corredores de palácio,

80 -- Uns batem com os peitos noutros peitos;

Outros quebram as testas noutras testas;

Qual leva um encontrão, que o vira em roda;

E qual, por defender a cara, fura,

Com os dedos que estende, incautos olhos.

85 -- Aqui se quebra a porta e ninguém fala;

Ali range a couceira e soa a chave;

Este anda de mansinho, aquele corre;

Um grita que o pisaram, outro inquire

"Quem é? " a um vulto, que lhe não responde.

90 -- Não temas, Doroteu, que não é nada,

Não são ladrões que ofendam, são donzelas

Que buscam aos devotos, que costumam

Fazer, de quando em quando, a sua esmola.

Chegam-se, enfim, as horas, em que o sono

95 -- Estende, na cidade, as negras asas,

Em cima dos viventes espremendo

Viçosas dormideiras. Tudo fica

Em profundo silêncio, só a casa,

A casa aonde habita o grande chefe.

100 -- Parece, Doroteu, que vem abaixo.

Fingindo a moça que levanta a saia

E voando na ponta dos dedinhos,

Prega no machacaz, de quem mais gosta,

A lasciva embigada, abrindo os braços;

105 -- Então o machacaz, mexendo a bunda,

Pondo uma mão na testa, outra na ilharga,

Ou dando alguns estalos com os dedos,

Seguindo das violas o compasso,

Lhe diz--"eu pago, eu pago"--e, de repente,

110 -- Sobre a torpe michela atira o salto.

Ó dança venturosa! Tu entravas

Nas humildes choupanas, onde as negras,

Aonde as vis mulatas, apertando

Por baixo do bandulho a larga cinta,

115 -- Te honravam, c'os marotos e brejeiros,

Batendo sobre o chão o pé descalço.

Agora já consegues ter entrada

Nas casas mais honestas e palácios!

Ah! tu, famoso chefe, dás exemplo.

120 -- Tu já, tu já batucas, escondido

Debaixo dos-teus tetos, com a moca

Que furtou, ao senhor o teu Ribério!

Tu também já batucas sobre a sala

Da formosa comadre, quando o pede

125 -- A borracha função do santo entrudo.

Ah! que isto, sendo pouco, é muito!

Que os exemplos dos chefes logo correm

E corre muito mais, quando fomentam

Aqueles vícios, a que os gênios puxam.

130 -- O tempo, Doroteu, voando foge

E nunca os de palácio imaginaram

Que tão veloz fugia, como agora.

Acaba-se a função, e chega o dia;

vem abrir as janelas um criado,

135 -- E o chefe lhe pergunta que algazarra

Fizeram os mais servos toda a noite,

Que o não deixou dormir um breve instante.

O criado, que sabe que o bom chefe

Só quer que lhe confessem a verdade,

140 --O sucesso lhe conta, desta sorte:

“Fizemos esta noite um tal batuque!

Na ceia todos nós nos alegrávamos,

Entrou nele a mulher do teu lacaio;

Um só, senhor, não houve que, lascivo,

145 -- Com ela não brincasse; todos eles,

De bêbedos que estavam, não puderam

O intento conseguir; só eu, mais forte...”

Apenas isto diz o vil criado,

O chefe as costas vira e lhe responde,

150 -- Soltando um grande riso: “fora, fracos!”

Já disse, Doroteu, que as mocetonas

Só entram em palácio quando estende

A noite, sobre a terra, a negra capa;

Que a formosa virtude da cautela

155 -- Até parece bem, naquele mesmo

A quem a profissão lhe não exige

Que viva recatado, como vivem

As moças, que inda querem ser donzelas.

Agora, Doroteu, julgar já podes

160 -- Que saem de palácio muito cedo.

Assim é, Doroteu; as donzelinhas,

Pela porta travessa, vão saindo,

Mal tocam as garridas à primeira.

Mas a bela Rosinha fica e dorme,

165 -- Nos braços de Matúsio, a madrugada;

Só sai de dia claro, e o grande chefe

Lhe atira uma pedrinha da janela,

Só para que lhe dê um ar de graça!

Que grande estimação, Rosica bela!

170 -- Aqui se mostra bem, que as outras mocas

Não trazem, como trazes, lucro à casa.

Não há, prezado amigo, quem não queira

Mostrar-se liberal com sua dama.

Para dar-lhe o vestido, mais a capa,

175 -- O manto, a saia, a meia, a fita, o pente.

Tira o pobre de si e, destro, furta

O peralta rapaz ao pai jarreta.

Eu mesmo, Doroteu, que fui dos santos

Que em Salamanca andaram, umas vezes

180 -- Doenças afetava, outras fingia

Necessitar de livros, ou de um traste,

Para mandar de mimo a certo lente.

Maldita sejas, tu harpia Olaia,

Que, enquanto não abria a minha bolsa,

185 -- Não mostravas, também, alegre, os dentes!

Esta paixão, amigo, que nos vence,

Nos próprios animais também se observa:

Esgravatam os galos sobre a terra

E, mal topam o grão ou a migalha,

190 -- Contentes cacarejam, porque a moça

Se vá utilizar do seu trabalho.

O nosso ilustre chefe, que se julga

De mui diversa massa do que somos,

Neste ponto, também, também conhece

195 -- Que está sujeito à miséria d’homem.

Nas obras, doce amigo, da cadeia,

Trabalham jornaleiros por salário.

Aqueles que carregam cal e pedra,

Só ganham, por semana, meia oitava;

200 -- Aqueles que trabalham de canteiro,

Ao menos ganham, cada dia. um quarto.

Tem, pois, certa mocinha, quatro negros

Que apenas são serventes, mas o chefe

Ordena que, na féria, se lhes pague

205 -- A quarto os seus jornais, e creio, amigo,

Que ainda não consente se descontem

Os muitos dias que nas obras faltam.

As casas onde mora esta madama

Ainda não estavam acabadas;

210 -- Agora já de longe a cal alveja,

Quem entra dentro delas já recreia

Os olhos nas pinturas das paredes

E teto apainelado, a quem, um dia,

Supria, Doroteu, a grossa esteira.

215 -- Não quis o nosso herói chamasse a moça,

Para mestre das obras, um pedreiro,

Entregou o conserto ao grão-tenente,

Que o fez baratinho, c’o massame

Que pertencia às obras da cadeia.

220 -- Entende Fanfarrão que não devia

Deixar ao desamparo a sua dama;

Que a lei da Igreja pede que amparemos

As que, por nossa culpa, se perderam,

E a lei da fidalguia, que professa

225 -- O nosso chefe, manda que ele ampare

As mesmas, que na fama já têm nota,

Contanto que isto seja à custa alheia.

Chama, pois, o bom chefe a um peralta,

Que era cabo de esquadra, e lhe comete

230 -- A glória de casar com uma dama

Que, se não fez descer dos céus à terra

Ao Supremo Tonante, fez, contudo,

Humanizar um chefe, que descende

Da mais distinta, mais soberba raça.

235 -- Que súbita alegria banha o rosto

Deste inocente cabo! Nos seus olhos

As lágrimas rebentam, e os seus beiços

Formar não podem uma só palavra.

A dita, Doroteu, é muito grande.

240 -- Que fortuna não é casar um pobre

Com a rica viúva de um fidalgo?

Chamar ao fidalguinho, que ele deixa,

Ou enteado ou filho? Aparentar-se

Com todos os magnates desta terra

245 -- Em grau tão conhecido e tão chegado?

Esta grande ventura, doce amigo,

Para todos não é. O negro demo

A quadra para prêmio dos serviços

Dos chefes principais dos seus bandalhos.

250 -- Mas ah! prezado amigo, que o bom chefe

Já manda aparelhar as magras bestas,

Que têm de conduzir-lhe o pobre fato

Que trouxe lá da corte, e se o casquilho

Não chega a receber a cara esposa

255 -- Primeiro que ele, no governo, morra,

Bem pode ser. amigo, se arrependa

E que, depois de ter cingido a banda

E empunhado o bastão, lhe pregue o mono.

Faltaram às promessas outros homens,

260 -- Que, de honrados, nos deram muitas provas.

Como faltar não pode ao seu ajuste

Um fraco coração, uma alma indigna

Que, por tão baixo preço, a honra vende?

Cautela e mais cautela; sim, o chefe

265 -- Não saberá mandar armadas tropas,

Nem saberá reger as cultas gentes,

Mas, para o não lograrem, sabe, astuto,

Dar todas as cadimas providências.

Escreve ao velho bispo e lhe suplica

270 -- Que em todos os três banhos o dispense;

Não expende razão que justa seja,

Porem o velho bispo tem bom gênio

E em todos os proclamas o dispensa;

Que ele tem grandes letras e bem sabe

275 -- Que os cânones da igreja não pensaram

Da espécie singular de quando um chefe

Quer, à pressa, casar a sua amásia.

Ah! se ele estas desordens não fizera,

Não daria motivo a ser cantado

280 --Por sábia, oculta musa, em um poema!

Agora inquirirás, prezado amigo,

Se é este sábio bispo aquele mesmo,

Que o bruto Fanfarrão, em certo dia,

Meteu na sua sege, ao lado esquerdo?

285 -- É este, sim. senhor. o mesmo bispo,

A quem o nosso chefe desalmado,

Enquanto governou a nossa Chile,

Já dentro de palácio e já na rua,

Tratou como quem trata um vil podengo.

290 --De novo inquirirás: "Então um chefe,

Que trata, dessa sorte, ao seu prelado,

Atreve-se a pedir-lhe que lhe faça

Dispensa em uma lei, a benefício

Da sua torpe amásia?" Eu, doce amigo,

295 -- Ainda duvidara, se pedira

Me desse absolvição dos meus pecados,

Ao ver-me para dar, a Deus, minha alma.

O mesmo, Doroteu, também fizeras;

Mas tu, prezado amigo, não conheces

300 -- O sistema que tem tão vil canalha.

Uma mui grande parte destes chefes

Assenta em procurar seu interesse

Por todos os caminhos, e acredita

Que o brio e pundonor, que nós prezamos,

305 -- São umas vãs fantasmas, que só devem

Honrar de simples voz aqueles homens,

Que vêm de uma distinta e velha raca.

Para estes a nobreza está nos termos

Do sórdido monturo em que se deita

310 -- Quanta imundície têm as velhas casas.

Ditoso de quem vive, neste mundo,

No estado de ver rir os outros homens

Das suas vis ações, sem que lhe suba

Um vermelho sinal de pejo à cara!

315 -- Mas ah! meu doce amigo, quanto, quanto

Se enganam estes monstros, que a nobreza

É um vestido branco, aonde, logo,

Aos olhos aparece a leve mancha!

Já chega, Doroteu, o alegre dia.

320 -- O dia venturoso do noivado.

Entra, no santo templo, a linda esposa,

Coberta toda de umas novas graças.

Os seus louros cabelos não flutuam,

Levados pelo vento, a toda parte;

325 -- Em tranças se dividem e se prendem

No pente, a quem esconde um branco laço;

Nos cabelos da frente resplandecem

Das pedras de mais custo, os fogos vários;

A sua testa iguala à pura neve

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