
Tróia. Cidade histórica erguida por colonos gregos por volta do ano 700 a.C. Base dos épicos de Homero, identificada com uma das nove cidades superpostas descobertas na colina Hissarlik, na Turquia.
Mais de mil anos antes de Cristo, perto da extremidade oriental do Mediterrâneo havia uma cidade muito rica e poderosa que não tinha rival no mundo inteiro.
Seu nome era Tróia, e não existe, ainda hoje, cidade cuja fama se lhe compare. A causa dessa fama tão duradoura foi uma guerra contada em um dos maiores poemas da humanidade, a Ilíada, e a causa dessa guerra remonta a uma disputa entre três deusas enciumadas.
A deusa da Discórdia, Éris, não era por certo muito popular no Olimpo, e normalmente não era convidada quando os deuses ofereciam algum banquete. Profundamente ressentida com isso, resolveu criar confusão. Durante um casamento muito importante, o do rei Peleu com a ninfa marinha Tétis, para o qual ela fora a única das divindades a não ser convidada, Éris fez chegar ao local onde se realizava o banquete uma maçã dourada onde estavam gravadas as palavras "Para a mais bela".
Todas as deusas queriam ficar com a maçã, mas, no final, a escolha ficou restrita a três: Afrodite, Hera e Atena. Pediram a Zeus que atuasse como juiz, mas ele, muito sabiamente, recusou-se e deixou claro que nada tinha a ver com o assunto.
Disse-lhes que fossem ao Monte Ida, perto de Tróia, onde o jovem príncipe Páris, também chamado Alexandre, guardava os rebanhos do pai. Segundo Zeus, não havia ninguém melhor para julgar a beleza feminina. Apesar de ser príncipe real, Páris trabalhava como pastor porque Príamo, que era seu pai e rei de Tróia, tinha sido advertido de que algum dia esse príncipe se tornaria a ruína de seu país, e ao saber disso mandara-o embora. No momento, Páris vivia com uma ninfa encantadora, Enona.
Páris ficou espantado ao ver diante dele surgir as formas maravilhosas das três grandes deusas. Não lhe pediram, porém, que examinasse suas divindades radiantes e escolhesse a mais bela; pelo contrário, instaram com ele para que levasse em consideração os subornos que lhe ofereciam, e dentre eles escolhesse o que lhe parecesse mais vantajoso.
A decisão não foi fácil. Tudo o que os homens mais apreciam estava ali, ao seu alcance: Hera prometeu fazer dele o Senhor da Europa e da Ásia; Atena ofereceu-lhe a chefia dos troianos em uma guerra vitoriosa contra os gregos, guerra que deixaria a Grécia em ruínas; Afrodite assegurou-lhe que teria a mais bela mulher de todo o mundo. Páris, que além de fraco era um tanto covarde, como os acontecimentos futuros tão bem mostrariam, ficou com a última oferta, e deu a Afrodite a maçã dourada.
A mais bela mulher do mundo era Helena, filha de Zeus e de Leda e irmã de Castor e Pólux. A fama de sua beleza tinha corrido mundo, e todos os jovens príncipes da Grécia a queriam por esposa. Quando os pretendentes se reuniram em sua casa para lhe pedirem formalmente a mão, eram tantos que o rei Tíndaro, considerado pai de Helena ficou temeroso de que a escolha de um pudesse implicar em revolta e união dos demais contra o favorito.
Exigiu, antes de mais nada, que fizessem um juramento solene,comprometendo-se a defender a causa do marido de Helena, fosse ele quem fosse, se algum problema lhe surgisse em decorrência do casamento. Afinal, o juramento era conveniente para todos os pretendetnes; como cada um deles esperava ser o escolhido, ficariam todos obrigados a castigar terrivelmente aquele que raptasse ou tentasse raptar Helena.
Tíndaro então escolheu Menelau, irmão de Agamenon, e também o fez rei de Esparta.
Assim estavam as coisas quando Páris deu a maçã dourada a Afrodite. A Deusa do Amor e da Beleza sabia muito bem onde a mais bela mulher do mundo podia ser encontrada. Ignorando solenemente a existência de Enone, levou o jovem pastor diretamente a Esparta, onde ele foi muito bem recebido por Menelau e Helena. Os laços entre convidado e anfitrião eram muito fortes; deviam sempre ajudar-se, sem jamais prejudicar-se mutuamente. Mas Páris rompeu esse laço sagrado. Com plena confiança nele, Menelau deixou-o em sua casa e partiu para Creta. Então,
"Páris, que chegou
E foi amavelmente recebido por um amigo,
Envergonhou a mão que ali o alimentou,
Raptando uma mulher."
Quando Menelau voltou, Helena tinha desaparecido, e ele então conclamou toda a Grécia a ir em seu auxílio. Os líderes de todos os grupos responderam ao seu apelo, como, de resto, estavam obrigados a fazer. Vieram ansiosos para participar da grande empresa de atravessar o mar e reduzir a cinzas a poderosa Tróia.
Estavam ausentes, porém, dois dos mais importantes: Odisseu, rei da ilha de Ítaca, e Aquiles, filho de Peleu e da ninfa marinha Tétis.
Odisseu, que era um dos homens mais sagazes e sábios da Grécia, não queria abandonar sua casa e sua família para lançar-se em uma aventura romântica de além-mar cuja razão de ser era simplesmente uma mulher infiel. Então fez-se de louco, e, quando o mensageiro do exército grego chegou, encontrou o rei arando um campo e semeando-o com sal, em vez de sementes.
Mas o mensageiro também era esperto. Agarrou o filhinho de Odisseu e o colocou diretamente diante do arado. No mesmo instante o pai desviou o instrumento, com o que provou que estava em seu perfeito juízo. Assim, por mais que relutasse, não teve outra saída a não se juntar-se ao exército.
Aquiles tinha sido impedido de partir por sua mãe. A ninfa marinha sabia que, se ele fosse para Tróia, dali não voltaria com vida. Mandou-o para a corte de Licomedes, o rei que matara Teseu à traição, e fez com que usasse roupas femininas e se ocultasse entre as mulheres. Os chefes dos guerreiros mandaram Odisseu ir procurá-lo; disfarçado de vendedor ambulante, foi para a corte onde se dizia que o jovem estava escondido. Levava consigo todos os belos ornamentos que as mulheres tanto apreciam, e também algumas armas excelentes. Enquanto as jovens se deleitavam com as bugigangas, Aquiles manipulava as espadas e adagas, com o que deu-se facilmente a conhecer a Odisseu.
Foi facílimo convencê-lo a não tomar conhecimento das preocupações da mãe e seguir com ele para o acampamento grego.
Assim, a grande armada finalmente completou-se. As hostes gregas ocupavam mil navios. Encontraram-se em Áulis, um lugar de ventos fortes e perigosas marés. Enquanto soprasse o vento norte, era impossível partir, e este continuava a soprar dia após dia.
"Angustiava os corações dos homens,
Não poupando navios nem amarras.
O tempo todo se arrastava,
Demorando o dobro para passar".
O exército estava despreparado.
Finalmente Calcas, o adivinho, declarou que os deuses tinham lhe falado: Ártemis estava furiosa. Uma de suas mais amadas criaturas, uma lebre, fora morta pelos gregos juntamente com sua cria. A única maneira de acalmar o vento e assegurar uma viagem sem problemas para Tróia seria sacrificar-lhe uma jovem real, Ifigênia, filha mais velha do comandante-em-chefe, Agamenon. A condição imposta era terrível para todos, mas para o pai era insupotável.
"Devo então matar
Minha filha, a alegria de minha casa?
Ter minhas mãos de pai
Manchadas com o negro fluxo
Do sangue de uma criança
Abatida diante do altar?"
Não obstante, cedeu. Estavam em jogo a sua reputação junto ao exército e sua ambição de conquistar Tróia e enaltecer com isso a Grécia.
"Ousou cometer o ato
De matar a filha para ajudar a guerra".
Mandou buscá-la em casa, e escreveu à mulher que tinha arranjado um excelente casamento para Ifigênia: ela ia casar-se com Aquiles, que já dera provas de ser o maior e melhor de todos os chefes guerreiros. Assim que chegou, porém, foi levada para o altar e oferecida em sacrifício.
"Nem suas preces e súplicas ao pai,
Nem o frescor de sua juventude
Tiveram qualquer significado
Para os guerreiros selvagens, loucos pelo combate".
Morreu, e o vento norte deixou de soprar. Os navios gregos avançavam por águas serenas, mas o preço terrível que tinham pago faria com que, algum dia, o mal também se lançasse sobre eles.
Quando chegaram à foz do Símois, um dos rios de Tróia, o primeiro homem a descer à terra foi Protesilau. Foi um feito heróico, pois o oráculo havia dito que o primeiro a desembarcar seria o primeiro a morrer. Portanto, ao ser morto por uma lança troiana, os gregos prestaram-lhe honras fúnebres como se ele fosse um ser divino, e os próprios deuses lhe concederam as suas maiores graças. Permitiram que Hermes fosse buscá-lo no reino dos mortos, para que pudesse ver pela última vez sua mulher Laodamia, mergulhada em luto profundo. Ela não pretendia, porém, apartar-se dele pela segunda vez, e suicidou-se assim que ele partiu de volta para o mundo subterrâneo.
Os mil navios transportavam um imenso número de combatentes, e o exército grego era muito forte e poderoso, mas a cidade de Tróia era igualmente poderosa.
Príamo, o rei, e a rainha Hécuba, tinham muitos filhos destemidos, todos eles ávidos por liderar o ataque e defender as muralhas. Dentre eles destacava-se Heitor, de quem se dizia que não tinha igual em matéria de bravura e nobreza; como guerreiro, só podia ser superado por Aquiles, o paladino dos gregos. Os dois tinham a consciência de que morreriam antes da tomada de Tróia.
Aquiles fora avisado pela própria mãe: "Será muito breve a tua vida.
Quanto me alegraria que estivesse agora livre de lágrimas e preocupações, pois não viverás muito, meu pequeno. Teu quinhão de vida será muito menor que o da maioria dos homens, ó digno de compaixão". Nenhuma divindade dissera o mesmo a Heitor, mas ele também estava certo de morrer cedo. "Sei bem, do fundo do meu coração e de minha alma", disse ele a sua mulher, Andrômaca, "que chegará o dia em que a sagrada Tróia será arrasada, e Príamo e seu povo serão exterminados". Os dois heróis sempre combateram sob a sombra da morte iminente.
Durante nove anos, a vitória oscilou para um lado e para o outro, nenhum dos quais conseguia uma vantagem que lhe permitisse esperar pela vitória certa. Então eclodiu entre dois gregos, Aquiles e Agamenon, uma disputa que, por algum tempo, fez com que a maré se tornasse favorável aos troianos.
Mais uma vez, o pomo da discórdia foi uma mulher - Criseida, filha do sacerdote de Apolo, que os gregos tinham raptado e oferecido a Agamenon. O pai veio pedir-lhe que a libertasse, mas Agamenon não permitiu que ela partisse. Então o sacerdote orou ao deus poderoso ao qual servia, e Apolo ouviu suas súplicas.
De seu carro doe Sol, lançou flechas incandescentes sobre o exército grego, e os homens adoeciam e morriam em tão grande número que as piras fúnebres ardiam permanentemente.
Por fim, Aquiles convocou uma assembléia dos chefes. Disse-lhes que não era possível continuar enfrentando simultaneamente a peste e os troianos, e que deviam, portanto, ou encontrar uma maneira de aplacar a ira de Apolo, ou voltar para casa. Então Calcas, o profeta, ergueu-se e disse que sabia porque o deus estava irado, mas que só falaria se Aquiles garantisse sua segurança. "É o que farei", respondeu-lhe o herói, "mesmo que tuas palavras impliquem a acusação do próprio Agamenon". Todos os homens presentes entenderam aquelas palavras, pois sabiam de que de modo o sacerdote de Apolo tinha sido tratado. Quando Calcas declarou que Criseida devia ser devolvida ao pai, todos os chefes concordaram com ele, e Agamenon, profundamente contrariado, foi obrigado a ceder.
"Mas, se vou perder aquela que era o prêmio da minha honra", disse ele a Aquiles, "vou arranjar outra que lhe tome o lugar".
Portanto, depois que Criseida foi devolvida ao pai, Agamenon enviou dois de seus escudeiros à tenda de Aquiles, com a finalidade de que este lhe entregasse o seu troféu, a jovem Briseida. Muito contra a vontade, fora e ali ficaram, de pé e guardando um pesado silêncio diante do herói. Aquiles, porém, sabendo da natureza da missão que os trazia ali, disse-lhes que a injúria que lhe estava sendo dirigida nada tinha a ver com eles. Que levassem a jovem e não temessem por suas vidas, mas que primeiro o ouvissem jurar diante dos homens e dos deuses que Agamenon havia de pagar um alto preço por seu gesto.
Nesta noite a mãe de Aquiles, a ninfa marinha Tétis, de pés de prata, veio a ter com o filho. Estava tão furiosa quanto ele. Disse-lhe que deixasse os gregos entregues à própria sorte, e em seguida subiu ao Olimpo para pedir a Zeus que concedesse o sucesso aos troianos. Zeus relutou em atender semelhante pedido.
A esta altura, a guerra já chegara ao Olimpo - os próprios deuses tomavam partidos diferentes, o que os levava a uma permanente situação de discórdia. Afrodite, certamente, estava do lado de Páris.
Também era evidente que Hera e Atena estavam contra ele. Ares, o Deus da Guerra, sempre tomava o partido de Afrodite, enquanto Posseidon, o Senhor dos Mares, favorecia os gregos, esse povo marítimo no qual abundavam os grandes marinheiros. Apolo preocupava-se com Heitor, e assim auxiliava os troianos, e Ártemis, sua irmã, fazia o mesmo. Em termos gerais, Zeus gostava mais dos troianos, mas optou por uma posição de neutralidade, tendo em vista que Hera se tornava insuportavelmente desagradável sempre que ele tomava uma posição contrária à dela. Contudo, não podia resistir a Tétis. Passou maus bocados com Hera, que como sempre adivinhou quais eram as intenções do marido. Por fim, foi obrigado a dizer-lhe que lhe daria uma surra se ela não parasse de falar. Hera então emudeceu, mas seus pensamentos estavam o tempo todo ocupados com as possíveis maneiras de ajudar os gregos e ludibriar Zeus.
O plano de Zeus era simples. Sabia que, sem Aquiles, os gregos eram inferiores aos troianos, e enviou um sonho mentiroso a Agamenon, prometendo-lhe a vitória desde que tomasse a iniciativa do ataque. Enquanto Aquiles estava em sua barraca, seguiu-se uma batalha feroz, a mais sangrenta de todas as que até então tinham ocorrido. No alto das muralhas de Tróia sentavam-se, a observar o combate, o velho rei Príamo e os demais anciãos, todos eles sábios conhecedores das peripécias guerreiras. Helena veio juntar-se a eles, ela que era a causa de toda aquela agonia e morte; ao verem-na, porém, não sentiam vergonha ou arrependimento. "Os homens devem mesmo lutar por mulheres assim", disseram uns aos outros. "Seu rosto se assemelhava ao de um espírito imortal". Ela ficou ali junto deles, dizendo-lhes os nomes deste ou daquele guerreiro grego, até que, para espanto geral, a batalha cessou. Os dois exércitos recuaram, e no espaço que se formou entre eles surgiram Páris e Menelau, frente a frente. É evidente que se havia chegado à decisão sensata de deixar que os dois maiores interessados na guerra se digladiassem sem qualquer intermediação.
Páris desferiu o primeiro golpe, mas Menelau aparou a lança em seu escudo, e então lançou o próprio dardo. Seu golpe rasgou a túnica de Páris, mas não o feriu.
Menelau sacou da espada, que era a sua única arma; ao fazê-lo, porém, ela caiu-lhe das mãos, quebrada. Impávido, apesar de desarmado, lançou-se sobre Páris, agarrou-o pela crista do elmo e o lançou aos seus pés. Não fosse a intervenção de Afrodite, tê-lo-ia arrastado vitoriosamente até os gregos. A deusa rasgou a tira que mantinha o elmo preso à cabeça, de tal modo que Menelau vou-se apenas com um capacete nas mãos. Quanto a Páris, que na verdade só tinha lutado quando atirou a lança, Afrodite fez com que uma nuvem de fumaça o envolvesse e levou-o de novo para Tróia.
Furioso, Menelau irrompeu pelas fileiras troianas à procura de Páris; este era odiado por todos os homens ali, os quais, na verdade, teriam de bom grado ajudado Menelau a encontrá-lo, mas o fato é que desaparecera, ninguém sabia como ou para onde. Agamenon então falou aos dois exércitos, que declarando que Menelau era o vencedor e pedindo aos troianos que devolvessem Helena. Era justo, e os troianos teriam concordado com o pedido se Atena, instigada por Hera, não tivesse interferido. Hera tinha decidido que a guerra não terminaria enquanto Tróia não estivesse em ruínas. Atena, descendo ao campo de batalha, convenceu o coração insensato de Pândaro, um troiano, a romper a trégua e lançar uma flecha contra Menelau. Foi o que ele fez. Menelau foi apenas levemente ferido, mas os gregos enfurecidos pela traição, avançaram contra os troianos e reiniciaram a batalha. O Terror, a Destruição e o Conflito, cuja fúria nunca se abranda, todos eles amigos do Deus da Guerra assassino, ali estavam para instigar os homens a trucidarem uns aos outros. Então foram ouvidos gemidos dos agonizantes e os brados triunfais dos vencedores, e a terra parecia transformada em um rio de sangue.
Com Aquiles desaparecido, do lado dos gregos os dois grandes campeões era Ájax e Diomedes. Lutaram gloriosamente naquele dia, e foram inúmeros os troianos que deixaram com o rosto mergulhado no pó. O mais valente dos troianos depois de Heitor, o príncipe Enéias, por pouco não morreu nas mãos de Diomedes. Seu sangue era mais que real; sua mão de Diomedes. Seu sangue era mais que real; sua mãe era a própria Afrodite, e, ao vê-lo ferido por Diomedes, a deusa foi salvá-lo no campo de batalha.
Ergueu-o em seus braços, mas Diomedes, sabendo ser ela uma deusa covarde e muito diferente de Atena, que impera nos campos onde os guerreiros combatem, investiu sobre ela e feriu-lhe a mão. Afrodite soltou um grito de dor e deixou cair o filho; chorando, foi para o Olimpo, onde Zeus, divertido por ver a deusa das risadas banhada em lágrimas, disse-lhe que ficasse distante da batalha e não se esquecesse nunca de que tinha por função cuidar do amor e não da guerra.
Porém, ainda que sua mão lhe tivesse faltado, Enéias não foi morto. Apolo fez com que uma nuvem o envolvesse e levou-o a Pérgamo, o lugar sagrado de Tróia, onde Ártemis cuidou dos ferimentos.
Diomedes, porém, prosseguia com sua devastação. Foi sucessivamente destruindo as fileiras troianas, até que se viu frente a frente com Heitor. Para sua grande aflição, deparou-se também com Ares. O sanguinário Deus da Guerra estava do lado de Heitor na batalha. Ao vê-lo, Diomedes vacilou e gritou aos gregos que recuassem lentamente, mas que mantivessem os rostos voltados para os troianos. Então Hera enfureceu-se.
Apressou seus cavalos em direção ao Olimpo, e pediu a Zeus que lhe permitisse retirar aquela maldição dos homens, Ares, do campo de batalha. Zeus, que como Hera não tinha por ele nenhum apreço, ainda que ele fosse filho de ambos, concordou de boa vontade com o pedido. Ela desceu imediatamente para junto de Diomedes, e instou com ele para que castigasse o terrível deus, e que o fizesse sem medo algum. Ao ouvir essas palavras, o coração do herói encheu-se de júbilo. Lançou-se sobre Ares e arremessou a lança em sua direção. A lança foi guiada por Atena, e penetrou o corpo de Ares.
O Deus da Guerra lançou um grito que reverberou com a intensidade de dez mil brados de guerra; o som tenebroso fez-se ouvir por todo o campo de batalha e foi abalar ambas as facções, tanto a grega quanto a troiana.
Ares,, que na verdade nada mais era que um fanfarrão incapaz de suportar o sofrimento que infligia a um número incontável de homens, fugiu para o Olimpo em busca de Zeus, a quem queixou-se amargamente da violência de Atena. Zeus, porém, olhou severamente para ele e lhe disse que era tão intolerável quanto a mãe, ordenando que parasse naquele mesmo instante com suas lamúrias. O afastamento de Ares, contudo, forçou os troianos a retroceder. Em meio à crise, um irmão de Heitor, muito hábil em conhecer a vontade dos deuses, exortou Heitor a dirigir-se imediatamente à cidade e dizer à rainha, sua mãe, que oferecesse a Atena o mais belo de seus vestidos e implorasse sua misericórdia. Heitor percebeu a sabedoria contida no conselho, e no mesmo instante dirigiu-se ao palácio, onde sua mãe fez exatamente o que pediu.
Mandou buscar um vestido tão maravilhoso que cintilava feito uma estrela, e, colocando-o sobre os joelhos da deusa, implorou-lhe: "Atena, minha deusa, poupa a cidade, as mulheres troianas e as crianças!" Atena, porém, não lhe ouviu a prece.
Ao voltar para o campo de batalha, Heitor se deteve para ver mais uma vez, talvez pela última, a mulher que amava tão ternamente, Andrômaca, e o filho Astíanax. Encontrou-a na muralha para onde tinha ido, aterrorizada, observar a luta depois de ficar sabendo que os troianos batiam em retirada.
Ao seu lado, uma aia levava ao colo o pequeno Astíanax. Heitor sorriu e olhou para eles em silêncio, mas Andrômaca tomou-lhe as mãos entre as suas e disse, chorando: "Meu amado senhor, vós que sois para mim pai, mãe, irmão e marido, ficai aqui ao nosso lado! Que eu não me torne em breve uma viúva, nem fique órfão o vosso filho!" Gentilmente, ele recusou-lhe o pedido. Não podia acovarda-se, disse-lhe. Precisava lutar, e fazê-lo sempre na linha de frente. E, no entanto, ela sabia que ele nunca cessava de lembrar-lhe da angústia que ela sentiria quando o soubesse morto. Era esse o pensamento que mais preocupava, mais ainda que qualquer outra de suas aflições. Voltou-se para partir, mas antes estendeu os braços para o filho.
Apavorada, a criança afastou-se, com medo do elmo e da vigorosa osculação do penacho. Heitor riu, e tirou da cabeça o elmo reluzente.
Então, tomando o filhos nos braços, acariciou-o e orou:
"Oh, Zeus, que nos anos vindouros possam os homens dizer, deste meu filho em regresso do campo de batalha, que foi muito mais grandioso do que seu pai!"
Devolveu o filho à mulher, e esta, sorrindo e já com os olhos cheios de lágrimas, apertou-o junto ao peito.
Heitor ficou com pena dela, e lhe disse, enquanto a acariciava com grande ternura: "Minha querida, não te atormentes assim! É preciso cumprir aquilo que nos foi determinado, mas, contra o meu destino, não existe homem capaz de matar-me!" Em seguida pegou o elmo e partiu. Ela voltou para a casa, e chorando amargamente enquanto olhava para trás até vê-lo desaparecer à distância.
Novamente no campo de batalha, Heitor lançou-se à luta com disposição redobrada, e, por algum tempo, foi favorecido pela sorte. A esta altura, Zeus lembrara-se de que prometera a Tétis vingar a injúria praticada contra Aquiles. Ordenou a todos os imortais que ficassem no Olimpo, e desceu sozinho à terra para auxiliar os troianos. A partir daí, a situação dos gregos tornou-se terrível.
Seu grande herói estava distante: sentado a sós em sua tenda, Aquiles meditava sobre as suas desventuras. Enquanto isso, o grande campeão troiano mostrava-se mais indômito e brilhante que nunca. Heitor parecia invencível.
Os troianos sempre o chamavam de "domador de cavalos", e ele justificava plenamente o título: lançava seu carro por entre as fileiras gregas como se condutor e cavalos estivessem animados do mesmo espírito. Seu elmo reluzente podia ser visto por toda parte, e os mais valiosos guerreiros iam sucessivamente caindo por terra sob sua terrível lança de bronze. Quando a noite chegou e pôs fim ao combate, os troianos tinham forçado os gregos a recuar até bem perto de seus navios.
Tróia viveu uma noite de festa, mas os sofrimento e o pesar tomavam conta do acampamento grego. O próprio Agamenon esta convencido de que o melhor era desistir e voltar o quanto antes para a Grécia.
Nestor, porém, que era o mais velho dos chefes guerreiros , e portanto o mais sábio, mais sábio ainda que o próprio Odisseu, disse ousadamente para Agamenon que, não tivesse ele enfurecido Aquiles, não estariam eles ali a amargar aquela derrota humilhante. "Tenta encontrar alguma forma de apaziguá-lo", afirmou Nestor, "em vez de retornares desonrado para casa". Todos aplaudiram o conselho,e Agamenon admitiu que agira feito um tolo. Prometeu-lhes que devolveria Briseida a Aquiles, q que junto enviaria magníficos presentes. Pediu a Odisseu que levasse suas oferendas a Aquiles.
Odisseu e dois outros chefes escolhidos para o acompanharem encontraram o herói na companhia de seu amigo Pátroclo, o homem que lhe era mais caro na Terra. Foram muito cordialmente recebidos por Aquiles, que lhes deu de comer e beber; quando, porém, lhe disseram o motivo pelo qual ali estavam e falaram dos magníficos presentes que lhe tinham trazido, implorando-lhe que tivesse pena de sues compatriotas tão sofridos, a resposta foi uma recusa irreversível.
Disse-lhes que nem todos os tesouros do Egito poderiam comprá-lo; estava partindo de volta para a pátria, e, se fossem sensatos, fariam o mesmo.
Quando Odisseu voltou com a resposta, todos os gregos rejeitaram o conselho. No dia seguinte estavam novamente no campo de batalha, desta vez com a coragem de homens destemidos que se vêem acuados.
Mais uma vez tiveram de recuar, até que os combates passaram a ser travados na praia em que os seus navios estavam ancorados. A ajuda providencial, porém, estava prestes a chegar. Hera tinha feito os seus planos. Tinha visto Zeus sentado no Monte Ida a observar a vitória dos troianos, e sentiu o quanto o detestava.
Sabia, no entanto, que só existia uma maneira de conseguir dele o que queria: embelezar-se a ponto de ficar irresistível, e ir então procurá-lo. Quando ele a tomasse nos braços, ela faria com que um doce sono lhe cerrasse os olhos, e ele esqueceria por completo dos troianos. E foi o que fez. Retirou-se para os seus aposentos e usou todos os artifícios que conhecia para tornar-se incomparavelmente bela.
Por último, pediu emprestado a Afrodite o cinto no qual todos os seus encantos estavam encerrados e, munida desse encanto adicional, apresentou-se diante de Zeus. Ao vê-la, o coração do deus encheu-se de amor, e ele esqueceu-se por completo da promessa feita a Tétis.
De imediato, a luta começou a ser favorável aos gregos. Ájax lançou Heitor por terra, mas, antes que pudesse feri-lo, Enéias ergueu-o e levou-o consigo. Com Heitor fora de combate, os gregos conseguiram fazer com que os troianos recuassem para bem longe dos navios, e Tróia teria sido saqueada nesse mesmo dia se Zeus não tivesse acordado. Pôs-se de pé de um salto, e viu os troianos batendo em retirada e Heitor caído, respirando com dificuldade. Tudo ficou muito claro então, e ele enfureceu-se contra Hera. Só podia ter sido obra dela, disse de si para si, sempre tão cheia de astúcia e truques desonestos. Estava propenso a dar-lhe uma surra, e, como ela sabia que não tinha como defender-se, tratou logo a dizer que nada tinha a ver com a derrota de Tróia. O culpado era Posseidon, disse ela. O Deus do Mar de fato tinha ajudado os gregos, contrariando as ordens de Zeus, mas só o fizera em atendimento a um pedido de Hera. Zeus, porém, deu-se por satisfeito com a desculpa, o que o eximiu de dar-lhe a surra prometida.
Mandou Hera de volta ao Olimpo e convocou Íris, a mensageira do arco-íris, para que levasse a Posseidon a ordem de retirar-se do campo de batalha. Mal-humorado, o Deus do Mar obedeceu, e mais uma vez a maré voltou-se contra os gregos.
Apolo reanimara Heitor, já sem forças, e insuflara-lhe um poder insuperável. Diante de ambos, o deus e o herói, os gregos pareciam um bando assustado de cordeiros a fugir de leões. Fugiam em confusão para os navios, e a muralha que tinham construído para se defenderem ruiu como um desses castelos de areia que as crianças constroem na praia e depois, por brincadeira, resolvem desmanchar. Os troianos já estava quase ateando fogo aos navios, e os gregos indefesos, só pensavam em morrer como bravos.
Pátroclo, o querido amigo de Aquiles, via com horror a debandada em tumulto. Nem mesmo por Aquiles era-lhe possível ficar mais tempo afastado dos combates. "Tu podes continuar guardando o teu ódio enquanto os teus compatriotas são arrasados", gritou ele a Aquiles, "mas eu não. Dá-me a tua armadura.
Se me confundirem contigo os troianos podem fazer uma pausa, e os gregos exaustos terão ao menos uma pausa para respirar. Nós dois estamos descansados, e poderíamos ainda fazer com que o inimigo batesse em retirada. Mas, já que pretendes ficar aí alimentando a tua ira, deixa ao menos que eu leve a tua armadura."
Assim que terminou de falar, um dos barcos gregos explodiu em chamas. "Desse modo, podem até mesmo impedir a retirada do exército", disse Aquiles. "Vai, leva minha armadura e também os meus homens, e defende os navios. Não posso ir, sou um homem desonrado. Quanto aos meus navios, vou detê-los se a batalha se aproximar deles. Mas não pretendo lutar por homens que me desgraçaram."
Pátroclo então vestiu a esplêndida armadura que todos os troianos conheciam e temiam, e conduziu os Mirmidões, os homens de Aquiles, para o combate. Na primeira investida desse novo grupo de guerreiros, os troianos vacilaram, pois achavam que Aquiles os liderava. E, na verdade, por algum tempo Pátroclo lutou tão gloriosamente quanto o teria feito o próprio herói. Finalmente, porém, viu-se frente a frente com Heitor, e seu destino fixou-se inexoravelmente quanto o de um javali que se vê diante de um leão. A lança de Heitor feriu-o de morte, e sua alma voou para o Hades. Heitor então tirou-lhe a armadura, e vestiu-a depois de lançar fora a que estava usando. Foi como se também houvesse assimilado a força de Aquiles, tornando-se assim imbatível para qualquer grego.
Com o anoitecer, a luta chegou ao fim. Aquiles estava sentado em sua tenda, aguardando o regresso de Pátroclo. Em vez disso, viu que corria em sua direção o filho do velho Nestor, Antíloco, aquele cujos pés tem velocidade da seta. Enquanto corria, seus olhos vertiam lágrimas amargas. "Más notícias", disse ao chegar.
"Pátroclo está morto, e Heitor tem agora a sua armadura". Aquiles deixou-se tomar por uma dor tão intensa que todos os que o cercavam temeram pela sua vida. Do fundo das cavernas marinhas, a mãe soube de seu sofrimento e subiu para reconfortá-lo. "Não vou continuar vivendo entre os homens", disse o filho, "se não for capaz de fazer com que o próprio Heitor pague com sua própria vida a morte de Pátroclo".
Então Tétis, chorando, implorou-lhe que se lembrasse do destino a que estava condenado: morrer imediatamente após Heitor. "Assim seja", respondeu Aquiles.
"Já que não auxiliei meu amigo no terrível momento em que tanto precisou de mim, vou matar aquele que a vida de quem eu tanto amava. Depois disso, aceitarei a morte quando ela chegar".
Tétis não tentou convencê-lo a ficar. Disse-lhe apenas: "Espera pelo menos o amanhecer, para que não tenhas que ir desarmado para o combate. Vou trazer-te armas feitas pelo armeiro divino, o próprio deus Hefesto".
As armas que Tétis trouxe eram de fato maravilhosas e dignas de seu criador. Nenhum homem tinha, até então, usado algo de semelhante. Os Mirmidões olharam-nas com admiração e reverência, e o brilho de uma alegria feroz iluminou os olhos de Aquiles assim que terminou de armar-se com elas. Ele deixou, então, a tenda onde tinha ficado por tanto tempo, e desceu até o local em que os gregos estavam reunidos.
Era um grupo deplorável: Diomedes estava gravemente ferido, e assim também Odisseu, Agamenon e muitos outros. Sentiu-se envergonhado diante deles, e confessou que entendia agora a extensão de sua loucura ao permitir que a simples perda de uma jovem o levasse a esquecer-se de tudo o mais. Mas tudo mudara, e agora estava pronto a liderá-los como antes. Que se preparassem imediatamente para a batalha. Todos os chefes aplaudiram e se rejubilaram, mas Odisseu falou por todos quando disse que, principalmente, deviam tomar sua porção de alimento e vinho, pois homens em jejum não são bons guerreiros.
"Nossos companheiros jazem mortos no campo de batalha e o que tu queres comer?", perguntou-lhe com sarcasmo Aquiles. "Por minha garganta não descerá comida ou bebida enquanto meu querido amigo não tiver sido vingado".
E acrescentou, falando de si para si: "Oh, meu amado amigo, tua falta é tão grande que não posso comer, não posso beber!"
Depois que os outros haviam comido, Aquiles liderou o ataque. Seria esse o último embate entre os dois heróis, e disso sabiam todos os mortais. Sabiam, também, qual seria o resultado da luta. Zeus, o pai, pegou sua balança de ouro e nela colocou , num e no outro prato o peso da morte de Heitor e o peso da morte de Aquiles. O lado de Heitor mostrou-se mais pesado, e ele foi designado para morrer.
Não obstante, a vitória não parecia pender nitidamente para um dos lados. Liderados por Heitor, os troianos lutavam como bravos diante das paredes de seus próprios lares. Até mesmo o grande rio de Tróia, que os deuses chamavam de Xanto e os homens de Escamandro, participou dos combates, tentando afogar Aquiles no momento em que ele atravessava suas águas. Mas tentou em vão, pois nada podia deter o herói em sua feroz investida; deixava atrás de si um rastro de destruição enquanto lançava-se por toda parte à procura de Heitor.
A esta altura, os próprios deuses também lutavam tão furiosamente quanto os homens, e Zeus, sentado no Olimpo, divertia-se a valer com o espetáculo dos deuses lutando entre si: Atena lançava Ares ao chão; Hera arrancava o arco dos ombros de Ártemis e, com ele, golpeava-lhe as orelhas; Posseidon insultava Apolo com a finalidade de levar o deus a atacá-lo primeiro. O Deus do Sol, porém, recusava-se a aceitar o desafio, pois sabia que era inútil lutar por causa de Heitor.
A esta altura as portas, as grandes porta Céias de Tróia estavam escancaradas, pois os troianos finalmente fugiram em grande confusão e apinhavam-se dentro da cidade. Só Heitor se mantinha imóvel diante da muralha. Das portas, o velho Príamo, seu pai, e Hécuba, sua mãe, gritaram-lhe que entrasse e se pusesse a salvo, mas ele não se moveu.
Estava pensando: "Estive à frente dos troianos, e sou eu, portanto, o único culpado por essa derrota.
Como, pois, pensar em poupar-me: E, contudo... estaria tudo resolvido se eu depusesse o escudo e a espada e fosse dizer a Aquiles que lhe devolveremos Helena acompanhada de metade dos tesouros de Tróia. Mas seria inútil. Ele me mataria, e eu chegaria ao fim, desarmado como uma mulher. O melhor é prosseguir com a luta, mesmo que apenas para morrer".
Por fim, Aquiles se aproximou, glorioso como o sol nascente. Trazia Atena a seu lado, mas Heitor estava sozinho. Apolo deixara-o entregue à própria sorte.
Quando os dois se aproximaram, Heitor voltou-se e correu. Feito caça e caçador, deram três voltas à muralhas de Tróia, e parecia que tinham asas nos pés.
Atena então fez Heitor parar, aparecendo-lhe na forma de seu irmão Deífobo, e com esse suposto aliado Heitor resolvera enfrentar Aquiles.
Gritou-lhe: "Se eu te matar, entregarei teu corpo a teus amigos, e quero que faças o mesmo comigo".
Aquiles , porém, respondeu-lhe: "Louco! Não existe acordo possível entre lobos e cordeiros, e o mesmo se aplica a nós". Assim dizendo, desferiu um golpe com a lança. Errou o alvo, mas Atena trouxe-a de volta.
Então Heitor arremessou sua lança com pontaria certeira, e a arma foi atingir o centro do escudo de Aquiles. Mas para quê? O escudo era mágico e não podia ser trespassado.
Voltou-se rapidamente para Deífobo, em busca da lança do irmão, mas não o encontrou.
Então deu-se conta da verdade: Atena tinha-o enganado, e agora não tinha como fugir. "Os deuses me designaram para morrer", pensou ele. "Ao menos não vou morrer sem lutar, mas em meio a um feito heróico que será contado por todas as gerações que me sucederem!" Desembainhou a espada, sua única arma agora, lançou-se contra o inimigo. Aquiles, porém, estava ainda com a lança que Atena lhe recuperara. Conhecia bem a armadura que Heitor tomara de Pátroclo, depois de tê-lo morto; sabia que a mesma tinha uma abertura perto da garganta, e antes que Heitor se aproximasse lançou a arma nessa direção. Heitor caiu, e instantes depois morria.
Ao exalar o último suspiro, suplicou: "Devolve o meu corpo ao meu pai e à minha mãe!" "Nada de súplicas, cão imundo", respondeu Aquiles. "Meu desejo seria capaz de devorar tua carne, tão grande é o mal que me causaste!" Depois, a alma de Heitor soltou-se do corpo e foi para o Hades, lamentando seu triste destino, deixando para trás a força e a juventude.
Aquiles arrancou a armadura ensangüentada do cadáver enquanto os gregos ali corriam, admirados com a estatura de Heitor e com a nobreza que dele emanava.
O espírito de Aquiles, porém, estava voltado para outras questões. Furou os pés do morto e prendeu-os com correias à parte posterior de seu carro, deixando a cabeça rente ao chão. Então chicoteou os cavalos, e foram arrastando tudo o que restava do glorioso Heitor ao longo de muitas voltas pelas muralhas de Tróia.
Por fim, quando seu espírito feroz já estava saciado de vingança, colocou-se ao lado do corpo de Pátroclo e disse: Ouve-me, mesmo que estejas em tua morada no Hades. Arrastei Heitor com meu carro, e agora vou entregá-lo aos cães para que o devorem ao lado de tua pira fúnebre".
No Olimpo, imperava a discórdia. Esse abuso de um morto desagradava a todos os imortais, com exceção de Hera, Atena e Posseidon. Desagradava sobretudo a Zeus, que mandou Íris em busca de Príamo. O grande deus ordenava a este último que, sem nada temer, fosse procurar Aquiles e lhe oferecesse um grande resgate em troca do cadáver de Heitor. Ela devia dizer-lhe que, por mais violento que fosse Aquiles, não era realmente mau, e trataria cortesmente um suplicante.
Então o velho rei encheu um carro com os mais magníficos tesouros, tudo o que de melhor existia em Tróia, e atravessou a planície em busca do acampamento grego. Hermes foi encontrar-se com ele, disfarçado de um jovem grego qualquer que se oferecia para guiá-lo até a tenda de Aquiles. Com tal companhia, o velho rei passou pelos guardas e chegou à presença do homem que tinha matado e maltratado o seu filho. Segurou-lhe os joelhos e beijou-lhes as mãos; assim que o fez, Aquiles e todos os outros presentes foram tomados por um sentimento de respeito que os levou a trocar olhares inquiridores.
"Lembra-te, Aquiles", disse Príamo, "de teu pai, tão entrado em anos quanto eu, e que também está mergulhado em sofrimento pela perda de um filho. Sou, porém, ainda mais desgraçado, pois aqui estou com a coragem que nenhum outro homem teve antes de mim: a coragem de estender a mão ao assassino do filho."
Ao ouvir essas palavras, o coração de Aquiles encheu-se de dor. Gentilmente, ajudou o ancião a erguer-se. "Senta-te a meu lado", disse-lhe, "e deixa que a nossa tristeza se assente em nossos corações. Todos os homens estão destinados ao mal, mas é preciso manter a coragem." Então ordenou aos servos que levassem e ungissem o corpo de Heitor, e o cobrisse com vestes macias para que Príamo não pudesse vê-lo, terrivelmente mutilado como estava, e não se deixasse dominar pela ira. Se Príamo o perturbasse, tinha medo de não conseguir dominar-se. "Quantos dias pretende que dure os seus funerais?", perguntou-lhe. "Durante o tempo que disseres que manterei os gregos afastados da batalha". Então Príamo levou Heitor para casa, em Tróia, e ali ele foi chorando como ninguém antes dele. Até mesmo Helena chorou por ele. "Os outros troianos me censuraram", disse ela, "mas de ti tive sempre o conforto de tua delicadeza de alma e de tuas palavras gentis. Eras o meu único amigo".
Por nove duas o prantearam, ao fim dos quais seu corpo foi colocado em uma altíssima pira. Quando o fogo já consumira tudo, apagaram as chamas com vinho e juntaram os ossos em uma urna de ouro, envoltos na mais fina púrpura. Colocaram a urna em uma sepultura rasa, e por cima empilharam grandes pedras.
Assim foram os funerais de Heitor, o domador de cavalos.
Fonte: www.naiade.hpg.ig.com.br

A Ilíada, um dos épicos de Homero, narra a guerra que causou a destruição da Tróia lendária.
A Tróia histórica constitui um dos mais ricos e extensos sítios arqueológicos do mundo antigo.
Tróia é uma cidade proto-histórica, atualmente identificada com uma das nove cidades superpostas descobertas na colina Hissarlik, na Turquia.
Foi erguida por colonos gregos, por volta do ano 700 a.C., no estreito de Dardanelos, no extremo noroeste da Anatólia, um local que já havia sido ocupado por sucessivas populações pré-helênicas.
A lenda do conflito entre aqueus e troianos pela posse da cidade forneceu o argumento da Ilíada e obras posteriores. Entre 1870 e 1890, Heinrich Schliemann identificou o local da antiga Tróia na colina de Hissarlik, e ali descobriu sete cidades superpostas, destruídas por guerras ou catástrofes. Wilhelm Dörpfeld, que o auxiliava desde 1882, prosseguiu as escavações e identificou restos de mais duas cidades.
Os estudos que o americano Carl William Blegen realizou entre 1932 e 1938 confirmaram a existência das nove cidades. Tróia I, o estrato mais antigo, data de 3000 a 2600 a.C., primeira fase do bronze antigo.
É um pequeno recinto fortificado com menos de cinqüenta metros na parte mais larga.
Tróia II, ainda bem pequena e fortificada, tinha cem metros de extensão máxima.
Seria mais um castelo simples, porém rico, destruído pelo fogo por volta de 2300 a.C.
Nesse estrato descobriu-se jóias e objetos preciosos que Schliemann, acreditando que se tratava da Tróia homérica, denominou tesouro de Príamo. Tróia III, IV e V foram cidades de importância local que existiram no período de 2300 a 1900 a.C., quando terminou o bronze antigo. Tróia VI, bem mais importante e rica, surgiu pouco antes de 1725 a.C. e foi destruída por um terremoto em aproximadamente 1275 a.C.
De suas ruínas ergueu-se Tróia VII-a, a verdadeira Tróia épica, destruída por volta de 1200 a.C.
Tróia VIII é da época clássica da Grécia e Tróia IX pertence ao período helenístico-romano, quando Alexandre nela fez um sacrifício dedicado a Aquiles, de quem julgava descendente. No século IV d.C., desapareceram completamente os vestígios históricos da cidade.
Páris, filho do rei Príamo de Tróia, raptara Helena, esposa de Menelau, rei de Esparta e famosa por sua beleza. Para se vingar, Menelau formou um poderoso exército comandado por Agamenon e no qual se destacaram Aquiles e Ulisses.
O cerco de Tróia, de dez anos, foi marcado por feitos heróicos de ambos os lados, até que, sob inspiração de Ulisses, os gregos construíram um gigantesco cavalo de madeira e o abandonaram perto das portas de Tróia, fingindo uma retirada. Apesar dos presságios de Cassandra, os troianos levaram para dentro da cidade o cavalo, que trazia em seu interior os guerreiros de Ulisses. Abertas as portas, os gregos saquearam e destruíram Tróia.
O herói troiano Enéias, filho de Vênus, escapou com alguns partidários e, depois de muitas aventuras, se instalou no Lácio.
Os descendentes desse grupo deram origem ao povo romano. É quase certo que a lenda tenha um núcleo de verdade, mas é impossível provar-lhe a historicidade.
Uma interpretação de documentos hititas, feita em 1957, favoreceu a hipótese de que os aqueus fossem um povo pré-helênico originário da Europa.
Na época de Tróia VI, os aqueus, a partir da região, teriam se espalhado pelo Egeu e formado colônias de micenianos, de onde mais tarde saíram conquistadores de Tróia VII-a. As freqüentes migrações de povos nessa época, no entanto, não permitem comprovar a hipótese.
Fonte: www.nomismatike.hpg.ig.com.br