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Curdistão

     
     

Curdistão. Nunca existiu e, provavelmente, nunca existirá. Não viu a sua identidade política reconhecida e, até há bem pouco tempo, mesmo a identidade cultural lhe era negada. Mas lá que há curdos, há, e foram eles que inventaram a palavra Curdistão. Viagem ao leste da Turquia, ou melhor, ao Curdistão, o país que nunca chegou a nascer.

O País do Nunca

A história dos curdos já tem barbas, mas continua a repetir-se: um povo tribal que passa o tempo em guerras internas, não se organiza como nação e perde todas as oportunidades de fazer frente aos inimigos comuns, ou de criar uma forte e duradoura identidade política. O resultado é acabarem distribuídos por áreas entretanto retalhadas em países pelos mais fortes, divididos, espalhados em diáspora para sempre.

Jovens curdas
Jovens curdas

As maiores comunidades vivem hoje no Norte do Iraque, Noroeste do Irão e no Leste da Turquia. Neste último país, o número parece ultrapassar os onze milhões, transformando a Anatólia Oriental na “pátria curda” por excelência. Só que nenhum destes países tem a mínima intenção de ceder um milímetro, quanto mais um quilómetro, e os curdos continuam a viver como estrangeiros exilados em terras que sempre foram suas.

No Iraque, são conhecidas as atrocidades do regime contra os curdos após a invasão do Kuwait; no Irão, as curdas fazem questão de manter os seus trajes tradicionais ultra-garridos, contra a triste monotonia do tchador imposto às mulheres - nas aldeias junto à fronteira turca, provavelmente as mais miseráveis e abandonadas do país, parecem princesas em redor das ruínas dos seus castelos. Do lado turco, as coisas não melhoram. A miséria é quase igual, e a fortíssima presença militar, conjugada com as queixas permanentes dos curdos, dão uma triste ideia da sua situação social e política.

ERZURUM, PARA LÁ DA TURQUIA CONHECIDA

Erzurum é a porta de entrada na que é considerada a área mais tradicional e conservadora do país. A presença do Islão salta aos olhos, nas roupas excessivas das mulheres que é difícil surpreender sem lenço, e nos ocasionais tchadores pretos à moda do Irão. Aqui despojamo-nos da Turquia que conhecemos e entramos numa área de culturas multifacetadas: para Noroeste, são evidentes as influências da Geórgia e da Arménia; mais para Sul estende-se uma zona que já foi fértil e rica - a bacia dos rios Tigre e Eufrates -, funcionando ao longo da história como cruzamento e campo de batalha de civilizações, mas transformada hoje numa das mais pobres da Turquia.

Paláio de Isak Paxá, Dogubeyazit, Curdistão, Turquia/
Paláio de Isak Paxá, Dogubeyazit, Curdistão, Turquia

A paisagem, amarela e ondulante, imagina-se facilmente pintada de branco, como no filme de Yilmaz Guney, “Yol”. As casas são baixas e têm pátios de terra, onde grasnam enormes gansos e ladram cães felpudos. De vez em quando passa uma manada de vacas conduzida por um vaqueiro e aves de rapina mantêm-se de atalaia, penduradas nos fios eléctricos. A electricidade parece já ter chegado a todo o lado, mas as patelas de bosta seca ainda se empilham nos muros e ao lado das casas, para servirem de combustível no Inverno.

O nosso percurso levou-nos a Kars, Dogubeyazit, no sopé do monte Ararat, contornando depois o lago Van até Tatvan e Adilcevaz. Seguimos para Sul até Diyarbakir e Harran, já às portas da Síria. A paisagem não muda muito, limita-se a desenrolar um tapete de planícies polvilhada de aldeias pobres de pedra vulcânica ou de tijolos e terra amassada, contornando montanhas precocemente nevadas, no meio das quais surge o belo lago de Van.

Quer queiramos quer não, vai-se formando a imagem de um país diferente, cheio de gente tisnada pelo ar das montanhas, elas de roupas multicolores, saias compridas e aspecto cigano até nos lenços, eles de bigode farto e cabeleira escura. Uma boleia bem-humorada, entre o palácio de Isac Pasha e Dogubeyazit, mencionou o nome proibido pela primeira vez. Baixando o volume da música estridente, olhou pelo retrovisor e anunciou: “Música curda. Aqui é o Curdistão, não é a Turquia.”

CURDISTÃO, PAÍS SECRETO

Só os curdos parecem conhecer este país secreto, que não vem assinalado nos mapas. Alguns gostam de dizer que a sua pátria era a Mesopotâmia, a “terra entre os rios”, como lhe chamaram os gregos. Abraçada pelos rios Tigre e Eufrates, esta zona fértil prolonga-se pelo Iraque e abrigou um bom punhado de civilizações e povos, entre as quais os curdos. Aqui foi inventada a roda e a escrita cuneiforme, que precedeu os alfabetos actuais. Já 7.500 anos antes de Cristo a Mesopotâmia era habitada pelos sumérios, que construíram as primeiras cidades-estado do mundo, como Uruk e, mais tarde, Babilónia. Assírios, em 700 A.C., e persas sassânidas, em 539 A.C., tornaram-se os novos senhores da região. Seguiram-se invasões e misturas de colonos vindas de Oriente e Ocidente: os gregos e macedónios de Alexandre o Grande, tribos beduínas e árabes, tribos hebraicas e aramaicas, caucasianos, otomanos...

Igreja arménia na ilha de Akdamar, lago Van, Curdistão
Igreja arménia na ilha de Akdamar, lago Van, Curdistão

Sabe-se que no século XI, as tribos da montanha (arménios e curdos) estão bem instaladas a Norte da Mesopotâmia, na zona do lago Van. Mas a origem da sua chegada não é certa. Pensa-se que os curdos são descendentes de vários grupos étnicos, provavelmente originários dos montes Zagros (Irão) ou dos montes Hakkari (Turquia). Sabe-se que foram sempre nómadas e pastores de ovinos e cavalos - os turcos chamaram-lhes por muito tempo “turcos das montanhas”, não os distinguindo como uma etnia diferente. Nunca tiveram um estado independente, sempre divididos em tribos, cada uma com o seu chefe. Falam uma língua indo-europeia relacionada com o persa, em vários dialectos compreensíveis entre si. Marco Pólo descreve-os, no século XIII, como “tribos sem princípios, cuja ocupação consiste em assaltar e roubar os mercadores”; três séculos mais tarde, António Tenreiro, um cavaleiro português da Ordem de Cristo viajando por terra entre a Índia e Portugal, menciona os “curdis, os quais são umas gentes brancas. Vivem por criações de gados, são pouco domésticas e não costumam habitar senão em terras despovoadas de montanhas e serras, porque não querem ser senhoreados por ninguém”.

Dando azo à sua tradição marcial, algumas tribos curdas lutaram pelos sultões otomanos na Pérsia, na Rússia e, mais tarde, contra arménios e gregos. Mas o mais próximo que conseguiram estar da formação de um estado independente foi o famigerado Tratado de Sèvres, no qual os Aliados, mais para humilhação do governo otomano do que com real intenção de salvaguardar direitos políticos ou humanos, obrigavam os turcos à formação de um estado arménio e outro curdo. Apesar de apontados como excelentes soldados, a recompensa que os curdos tiveram, após a vitória turca de 1922 e a subida ao poder de Kemal Ataturk, foi a recusa em obterem quaisquer direitos ou privilégios especiais.

Castelo de Hosap
Castelo de Hosap

Começaram então as rebeliões, que foram subindo de tom até à formação do PKK, (Partia Karakaris Kurdistan), o Partido dos Trabalhadores Curdos de orientação marxista-leninista, que exigia nada menos que a independência. Depois do golpe militar de 1980, o PKK iniciou uma série de ligações perigosas que iria levar ao endurecimento da oposição turca: campos de treino de actividades terroristas no Líbano e na Síria, ligações à OLP de Arafat. O exército turco instalou a lei marcial nas áreas curdas e fez incursões em território sírio. Começou uma guerra suja em que cada uma das partes rivalizava com a outra em requintes de malvadez: ataques a civis, bombardeamento e evacuação forçada de aldeias, criação de milícias armadas favoráveis a Ankara, ataques a escolas e professores, acusados de promoverem a cultura turca, coação de jovens para se juntarem a um lado ou a outro, gente obrigada a tomar partido para acabar assassinada pela facção oposta. A vida em certas zonas tornou-se insustentável e o número de refugiados dentro e fora do país disparou; só na zona de Diyarbakir, considerada a capital do Curdistão turco, os mortos da guerra entre o exército e o PKK de Ocalan ficou em trinta a quarenta mil mortos e muitos dos seus habitantes são refugiados de aldeias destruídas ou esvaziadas pelo exército.

INCOMPREENSÕES

Os turcos não os compreendem. Dois jovens de Istambul que ousavam acampar nas margens do lago Van confessaram-nos com um ar espantado: “São iguais a nós. E são tão simpáticos!” Intoxicados por uma imprensa escrava da política governamental, os turcos imaginam os curdos como gentinha inculta, retrógrada, dada a violências e que os odeia profundamente. E só a última parte é que é verdade.

Família de Diyarbakir, Curdistão
Família de Diyarbakir, Curdistão

Amigos de Trabzon tinham-nos falado das famílias enormes, a religião levada muito a sério, “não seria pior usares um lenço na cabeça”. O fantasma do fundamentalismo e do terrorismo, o peso da pobreza que os arrasta para o fundo, afastando-os da tão ansiada meta da Comunidade Europeia. Em Dogubeyazit e Diyarbakir alimentam-se os ódios com histórias de assassinatos cometidos pela polícia e pelo exército. Face à repressão, os curdos definem-se pelo antagonismo com a Turquia. O que é um curdo? É um não-turco, de língua curda e nacionalidade turca, que odeia turcos.

A prisão de Ocalan em 1999, a que se seguiu o seu apelo ao fim da luta armada, inicia uma nova era. O PKK anunciou a sua dissolução e transformou-se no Kadek, o Congresso para a Liberdade e Democracia no Curdistão, que pede a autonomia cultural em vez da independência. O povo curdo vai ter de se redefinir para viver com o inimigo. O verdadeiro curdo vai ter de deixar de ser o que odeia os turcos, mas aquele que sabe, de facto, quem é. Em breve não vai bastar ouvir música curda às escondidas - agora até já nem é preciso -, ou dizer “Kurdistan” baixinho, enquanto fazem sinal de silêncio com o dedo, passando-o depois rapidamente pelo pescoço, numa explicação óbvia. Estes pequenos sinais de união curda, prontamente desfeita à primeira trica, vai desmoronar-se com a proporção e a velocidade com que a Turquia desistir da pesada repressão que tem usado nas últimas décadas. A música e a língua já não são proibidas; o Parlamento aprovou este ano uma lei que permite o seu uso e aprendizagem na televisão e - viva o luxo - nas escolas. O que vão os curdos fazer com tanta liberdade?

CURDOS CONTRA CURDOS

Os velhos trejeitos tribais ainda não desapareceram. Quando não estão a bater nos turcos, os curdos batem uns nos outros. Dogubeyazit, à sombra do monte Ararat e das dezenas de tanques e armamento pesado do exército, é um perfeito exemplo do tribalismo existente. Há três grandes famílias na cidade, cujos laços de parentesco, sejam primos por parte do avô ou casados com o cunhado do tio, implicam protecção mútua nas adversidades. Nem que seja preciso matar. Contaram-nos diversos episódios em que se demonstrava que a força de uma família consiste nesta união, e no número de homens que pode disponibilizar em caso de “guerra”.

Loja em Kars, Turquia
Loja em Kars, Turquia

Um exemplo prosaico foi o de um rapaz que angariava turistas para um hotel no terminal de autocarros, quando foi abordado por um taxista de outra família que o mandou ir-se embora, já que aquele lugar lhe pertencia e estava a tentar levar turistas para outro hotel. À troca de ameaças seguiu-se a retirada estratégica do rapaz para chamar alguns do seu clã, que vieram dar uma valente sova no taxista e continuar o seu “serviço turístico”. A coisa só não continuou com represálias porque um tio mais velho e respeitável convenceu os jovens a encontrarem-se, pedir desculpas e beijarem-se na sua presença, com a promessa de deixar o assunto ficar por ali. Mas nem sempre as coisas acabam tão bem. Há quem recuse os beijos e jure que só pára quando matar.

Soubemos de um desses casos da última vez que visitámos a cidade. Um homem matou outro e desapareceu. A família do falecido fez saber que não aceitava os mil dólares que é costume pagar por “dívidas de sangue”, e jurou vingança. Quando deixámos Dogubeyazit, um sobrinho da vítima, militar, tinha vindo do quartel para procurar o assassino a monte, e um cunhado preparava-se para mandar os filhos adolescentes “de férias” para Istambul, evitando que se juntassem aos que preparam o próximo crime...

O nosso amigo Mehmet lamenta esta mentalidade. “Curdos contra curdos. Nunca nos conseguimos unir.” - diz com tristeza. “Conheço muitos que fogem destes problemas e vão para a Holanda e a Alemanha a gritar aos quatro ventos que são refugiados políticos, em vez de ficarem aqui para mudar isto. Perguntem-lhes onde estão as mulheres da família, que ficam viúvas e sem nada, e não podem fugir a estas situações!” Se forem curdas tradicionais estão em casa a cuidar da dezena de filhos que lhes coube na sorte. Alguém nos disse que cinco, oito filhos, são números perfeitamente normais. Mas tinha um tio com vinte e um. Só que tinha três mulheres. “Nas aldeias, ainda há alguns assim...”

AS BELEZAS DO CURDISTÃO TURCO

Entalado entre as montanhas de Erzurum, Erzincan e Diyarbakir, o Curdistão turco é um belo país. A paisagem é demasiado dura e agreste para não marcar quem lá mora. Imaginemos uma espécie de Trás-os-Montes cheia de pastores-guerreiros de bigode farfalhudo. E muita, muita neve. Cá em baixo cultiva-se cereais e usa-se o pasto, embora o nomadismo já seja raro. Terra seca, poucas árvores (amendoeiras, pistaceiras, choupos...), algum algodão, muitos rios, horizontes imensos. E tanques, guaritas, soldados, controlos militares por todo o lado.

Mesquita em Ani, Curdistão
Mesquita em Ani, Curdistão

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