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Varíola

A varíola foi a primeira doença infecciosa extinta da face da Terra pela vacinação preventiva.

A história da vacina antivariólica merece ser relembrada pela magnitude da vitória alcançada e pela esperança que o método nos trouxe de obter a erradicação de outras doenças infecciosas.

Até o final do século XVIII a varíola constituía verdadeiro flagelo humano, ceifando vidas ou desfigurando o rosto dos sobreviventes com cicatrizes indeléveis e perda de visão. Calcula-se que no século XVIII houve, somente na Europa, 60 milhões de vítimas de varíola.

A varíola foi introduzida no Brasil pelos colonizadores portugueses, vinda tanto da Europa como da África. A primeira epidemia de varíola ocorreu em 1563, iniciando-se na Bahia e causando cerca de 30.000 mortes. Os indígenas eram particularmente vulneráveis e muitas tribos foram dizimadas por verdadeiras epidemias de varíola. Calcula-se que a varíola tenha ocasionado maior número de óbitos nos três primeiros séculos de colonização do que todas as outras doenças reunidas.

Na luta contra a varíola, os povos orientais utilizavam há mais de mil anos a chamada "variolização", que consistia na inoculação de material retirado das pústulas de um enfermo, na pele de um indivíduo são. Este adquiria a enfermidade em forma mais branda do que através do contágio natural. Contudo, apesar de sua relativa benignidade, a doença se manifestava com todo o seu cortejo sintomático, deixando, por vezes, cicatrizes no rosto e no corpo das pessoas inoculadas.

Lady Mary Wortley Montagu

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O método da variolização estendeu-se aos países do ocidente no século XVIII, graças sobretudo à esposa do embaixador inglês em Constantinopla, Lady Montagu, famosa por sua beleza e elegância. Em 1717 ela fez inocular seu filho de 3 anos de idade e, em 1721, já de volta à Inglaterra, sua filha de 5 anos.

A corte real inglesa interessou-se pelo método, que passou a ser chamado de bizantino, em alusão à Bizâncio, antigo nome de Constantinopla (hoje Istambul). A variolização difundiu-se prontamente na Inglaterra e teve defensores ilustres em outros países, como Von Haller na Alemanha, Voltaire na França, e Benjamin Franklin nos Estados Unidos.

A 17 de maio de 1749 nascia na pequena cidade de Berkeley, na Inglaterra, Edward Jenner, predestinado a revolucionar o método de prevenção da varíola.

Submetido ele próprio, na infância, à variolização, o que mais o impressionou não foi tanto a inoculação em si, porém os preparativos para a mesma, que consistiam em sangria, purgativos e dieta de fome.

Na região de Gloucestershire, na Inglaterra, onde se localiza a cidade de Berkeley, o gado era acometido com freqüência de uma doença com alguma semelhança com a varíola humana, conhecida por cowpox.

As vacas acometidas por esta doença apresentavam vesículas e pústulas no ubre e as pessoas que as ordenhavam adquiriam a doença, manifestando lesões semelhantes nas mãos, lesões estas que desapareciam espontaneamente.

Era observação corrente entre a população rural que as pessoas que adquiriam a cowpox ficavam protegidas da varíola humana, conhecida em inglês por smallpox.

Varíola

Edward Janner

Decidido a estudar medicina, Jenner freqüentou inicialmente o Serviço de um reputado médico, Ludlow, em Sodbury, onde certa vez ouviu uma paciente dizer: "eu não posso ter smallpox, pois já tive cowpox". Esta frase ficou retida em sua memória e foi o leit-motiv de todas as suas observações em anos posteriores.

Transferindo-se para Londres a fim de dar continuidade aos seus estudos, conheceu o cirurgião e grande pesquisador, que foi John Hunter, de quem se tornou discípulo dileto e com quem adquiriu o gosto pela observação meticulosa e pela investigação científica. Voltando a clinicar em Berkeley, a idéia de proteger as pessoas contra a varíola humana (smallpox) por meio da varíola bovina (cowpox) tornou-se uma obsessão.

Durante 20 anos, Jenner, pacientemente, colecionou observações que demonstravam que os indivíduos previamente contaminados pela doença bovina ficavam refratários à varíola.

Em maio de 1796 realizou a sua experiência crucial. Uma mulher, de nome Sara Nelmes, havia adquirido a varíola bovina ordenhando vacas doentes. Jenner inoculou a linfa retirada de uma vesícula da mão direita de Sara Nelmes na pele do braço de um menino de 8 anos, de nome Jacobo Phipps.

A criança desenvolveu a conhecida reação eritêmato-pustulosa no local da escarificação e escassos sintomas gerais. Decorridas 6 semanas Jenner inoculou o pus da varíola humana na criança, com resultado negativo. Estava descoberta a vacina antivariólica.

Varíola

Jenner, Sara Nelmes e Jacobo Phipps

Somente em 1798, depois de ter inoculado com sucesso mais três pacientes, fez a sua primeira comunicação à Royal Society, de Londres, da qual era membro. Recebeu em resposta uma advertência de que "deveria zelar pelo bom conceito de que desfrutava na Sociedade por suas comunicações anteriores e que não deveria arriscar o seu nome expondo ante a sábia Sociedade nada que estivesse em desacordo com os conhecimentos consagrados". As comunicações anteriores de Jenner a que aludia a Royal Society referiam-se à história natural do cuco, ave comum na Europa.

A atitude da Royal Society, uma respeitável instituição científica, pode parecer ridícula nos dias de hoje. Em todas as épocas, entretanto, as grandes inovações são recebidas com reserva e até hostilidade por seus contemporâneos.

Os próprios amigos de Jenner, em Berkeley e em Londres, opuseram-se à idéia de inocular a vacina de origem bovina em seres humanos. Jenner chegou a ser ridicularizado.

Decidiu então publicar o resultado de suas observações por conta própria, sem aprovação da Royal Society, o que fez em um pequeno livro de 74 páginas, intitulado "An inquiry into the causes and effects of the Variolae vaccinae, a disease discovered in some of the Western Counties of England, particularly Gloucestershire and known by the name of cowpox" (Investigação sobre as causas e efeitos da varíola da vaca, uma doença descoberta em algumas províncias a oeste da Inglaterra, particularmente Gloucestershire e conhecida pelo nome de cowpox.

Por algum tempo houve muita resistência e crítica ao método de Jenner. Parecia absurdo introduzir no corpo humano o germe de uma doença de animal.

Apesar disso, a vacinação antivariólica difundiu-se por todo o mundo. Muito contribuiu para a sua credibilidade a decisão de Napoleão Bonaparte mandando vacinar o exército francês, que ficou imune à varíola.

Jenner tornou-se famoso e o Parlamento inglês concedeu-lhe um prêmio de 10.000 libras esterlinas em 1802 e outro de 20.000 libras em 1807.

Varíola

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No Brasil, a vacinação antivariólica foi tornada obrigatória ainda no século XVIII, porém era praticada de maneira irregular e ao mesmo tempo combatida e rejeitada pela população. Os surtos epidêmicos continuaram ocorrendo no século XIX e a vacinação só se tornou efetiva a partir do século XX, após a campanha iniciada no Rio de Janeiro por Oswaldo Cruz.

Em 1980, menos de 200 anos após a descoberta da vacina, a Organização Mundial de Saúde declarava erradicada a varíola da face da Terra.

O adjetivo latino vaccinae (de vaca) foi substantivado e adaptado a todos os idiomas de cultura: inglês, vaccine; francês, vaccin; alemão, vakzine; espanhol, vacuna; italiano, vaccino; português, vacina. Por analogia, passou a designar todo inóculo dotado de ação antigênica, independente de sua origem.

A vaca, considerada um animal sagrado em certas seitas religiosas da India, foi, assim, consagrada também pela ciência no termo vacina.

Joffre M de Rezende

Fonte: usuarios.cultura.com.br

Varíola

Varíola

A possibilidade de usar uma única vacina contra todas as formas clínicas da varíola encorajou a Organização Mundial de Saúde (OMS) a tentar a erradicação total da doença em todo o mundo.

Aparentemente, o projeto foi bem-sucedido: aos dois milhões de mortos por varíola em 1967, contrapôs-se a marca de nenhum caso registrado entre 1977 e 1980.

Varíola é uma doença infectocontagiosa provocada por um agente virótico da família dos poxvírus. Letal em cerca de trinta por cento dos casos, determina complicações em diferentes órgãos e tecidos do corpo. Descrita na China em 1122 a.C., a doença é mencionada também em antigos textos indianos em sânscrito. A cabeça mumificada do faraó egípcio Ramsés V, morto por volta de 1156 a.C., apresenta evidências da infecção. No Brasil, a varíola é conhecida também como bexiga e, em sua forma mais branda, como alastrim.

O primeiro sintoma é a febre súbita, acompanhada de mal-estar, prostração, dores de cabeça, no abdome e na coluna vertebral. Cerca de dois dias depois, surgem erupções que caracterizam o período de contágio e que passam sucessivamente pelos estágios de mácula, pápula, vesícula e pústula, com formação de crostas que secam e finalmente se destacam ao término da terceira semana.

A distribuição da erupção é importante para o diagnóstico clínico: comumente simétrica e generalizada, é mais extensa nas áreas irritadas, proeminências e superfícies extensoras do que nas áreas protegidas, depressões e superfícies flexoras. Aparece primeiro e é mais ativa na face, depois nos antebraços e nos punhos. É mais abundante nos membros do que no tronco; e nos ombros e no peito, do que no dorso e no abdome.

Manifestações mais brandas podem ocorrer em indivíduos vacinados cuja imunidade esteja declinando. Às vezes, as lesões são tão esparsas que passam despercebidas. Mais raramente, são precedidas por outras manifestações cutâneas, como manchas vermelhas. A ocorrência de pontos hemorrágicos subcutâneos indica infecção severa, em geral fatal.

A transmissão se verifica por contato direto com o paciente, ou por seu hálito, a curtas distâncias. O poxvírus é muito resistente, tendo sido relatada sua sobrevivência em algodão por 18 meses. Todas as peças de tecido em contato com o doente podem, portanto, ser agentes de contaminação.

Mesmo assim, a varíola não é considerada altamente infecciosa: geralmente um paciente infecta no máximo uma ou duas pessoas muito próximas. O risco de contágio é maior nas formas brandas da doença, cujos portadores, em geral vacinados, podem inadvertidamente disseminá-la em suas formas letais. Para evitá-lo, é necessário manter em observação todos os que tiverem contato direto com um doente, até ter certeza de que não se contaminaram, e isolá-los ao primeiro sinal de infecção.

A vacinação antivariólica protege também contra doenças assemelhadas, como a varicela. A partir do final da década de 1970, a vacinação de rotina foi interrompida em inúmeros países. O vírus da varíola é mantido em apenas quatro laboratórios, em todo o mundo, para a eventualidade de que seja necessário retomar a fabricação da vacina.

Fonte: www.psfmonteverde.hpg.ig.com.br

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