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Goyaz

Visconde de Taunay

XIIIPlantas úteis têxteis. A árvore-do-papel.

A flora medicinal. O fumo e o algodão.

Os cereais e o café. Árvores frutíferas

Entre os outros produtos fitológicos e de origem vegetal expostos, devia, antesde todos, merecer atenção a árvore-do-papel ou pau-do-papel, cujas amostras consistemem dois pedaços de ramos, um deles esgalhado, ambos de mais de polegada dediâmetro, secos e com a casca facilmente separável do lenho. A epiderme, composta dedensa camada de lâminas papiráceas extremamente finas, pode esfoliar-se toda, dandotiras de aspecto e consistência que de pronto lembram o papel.

A cor delas é, segundo o dr. Weddel,48 de admirável alvura; segundo Saint-Hilaire, perfeitamente branca. Talvez seja assim na árvore em vida, mas nos espécimesque se viram na exposição distinguem-se logo três camadas de coloração diferente. Asde cima são de um amarelo-canário pálido; as do meio um tanto pardacentas; as debaixo então bastante alvas e mais adelgaçadas.

Observando-se com algum cuidado o tecido, notam-se muitos pontinhossalientes, e aqui, acolá, com tal ou qual profusão, como que círculos em ressalto, uns

48 Henry Weddel , médico inglês que viajou o interior da América do Sul entre 1843 e 1847 e fezextensas pesquisas com plantas da região.

juntos, dois a dois, outros separados. Será a impressão ou molde deixado pelos estomasdas camadas superficiais?A lâmina de papel não é muito rúptil. Pode-se até escrever nela com pena deaço, melhor ainda umedecendo-a. Recebe a tinta, mas não a chupa. N’água custa maisque o papel a impregnar-se de umidade.

Esfregada entre os dedos, deixa uma sensação passageira de resina. Queima comrapidez, depositando cinza que, comprimida, reduz-se a pó sutilíssimo.

Segundo ensaios que fiz, é indiferente à tintura de tornassol, mas amarela muitona de violeta. Não é atacada nem pelo ácido azótico49 nem pelo clorídrico; tratada,porém, pelo sulfúrico, precipita-se sob a forma de pó pardacento, desprendendo-sedurante a reação bastante calor.

O dr. João Emmanuel Pohl, que viajou na província de Goyaz em 1819,classificou esta curiosa árvore entre as me1astomáceas, família característica do Brasil,o à qual pertencem os paus-de-quaresma,50 cujas flores roxas, brancas e cor-de-rosa,conforme as variedades, tanto realce dão, nos meses de fevereiro e março, às matas dosarredores do Rio de Janeiro, principalmente da Tijuca. O gênero é Lasiandra, a espécie

papyrus.

Saint-Hilaire, que naquele mesmo ano de 1819 a viu, não pôde determinar ogrupo de plantas a que pertencia, por estar então completamente despida de folhas.

Bastara, contudo, uma única delas para logo denunciar-lhe a família, uma das maisnaturais do reino vegetal, clara e perfeitamente diferençada pela disposição longitudinaldas nervuras e fácies daqueles órgãos.

À pág. 397 do 1o volume da sua obra Reise im Innern von Brasilien,51 diz Pohl oseguinte:

Também achei nesses campos algumas plantas raras, principalmente uma nova espécie dogênero Lasiandra, outrora Rhexia, que denominei Lasiandra papyrus. O povo a chama árvoredo-papel por crer que das brancas camadas da casca, que se separa (abloset) do mesmo modoque a nossa bétula, pode-se fazer papel.

Eis a descrição científica:

L. arborea, trunco tereti, epidermide lutescente niveae secedente obducto; ut in

49 O mesmo que ácido nítrico.

50 Quaresmeiras.

51 Veja informações sobre a edição brasileira na bibliografia.

Betula alba; ramis teretibus, junioribus subtetragonis, setoso-hispidis; foIiispetiolatis, oblongo-ovatis, acutis, mucronaiis, quinquenerviis, superno setososcabris, subtus tomentosis; nervis setis rigidis adpressis obductis; pedicellisaxilIaribus unifloris racemosis, calici tubo campanulato setoso, lobis longiore.

Há na China e no Japão uma árvore do gênero Broussonnetia e da família dasurticáceas, que tem também a qualificação de papyrifera, o que fez com que o padreManoel da Silva, tratando dos produtos naturais de Goyaz, dissesse: “A árvore-dopapel,de que os asiáticos o formam e lhe dão o nome de moreira, há na serra Dourada”.

O modo por que se extrai papel da Broussonnetia é, porém, muito diverso.

Depois de macerada a casca em banho alcalino, forma-se espessa massa que, diluída emágua de arroz e imprensada, dá por fim aquele teçume delicado, no qual fazem osartistas chineses prodígios de paciência à ponta de pincel.

Por que razão declara peremptoriamente Weddel que as lâminas da árvore-dopapelnão podem ter aplicação útil?Exclusivamente numa área muito limitada de Goyaz é ela encontrada. Só nachapada da serra Dourada, a qual passa a 5½ léguas sul da capital e, a rumo de nordestea sudoeste, vai se ligar à de Caiapó, só aí foi que a viram os naturalistas Weddel, Pohl eSaint-Hilaire.

Há de necessariamente provocar curiosidade e interesse na Filadélfia.

Depois da árvore-do-papel, vejamos mais alguns produtos vegetais da exposiçãogoiana.

Entre as resinas figuraram:A de jatobá, também conhecida por goma-copal ou resina animada, e degrande utilidade na indústria dos vernizes e na medicina. A verdadeiracopal, denominação de origem mexicana que se tem aplicado a muitasresinas, provém de uma Hymenaea de Madagáscar, mas não da espécie

courbaril, como é esta, a qual dá o âmbar-branco do Brasil ou copaltenro.

A de cajueiro, naturalmente o silvestre ou bravo (Trichospermum lichen)tão comum nos chapadões áridos de Goyaz.

A do pinheiro, com a qual se fazem umas espécies de bengalas.

A de mil-homens, cuja procedência parece incerta. Por aquele nome seconhecem umas plantas muito freqüentes nos campos e distintas pelasformas singulares de suas flores, mas estas são tênues trepadeiras.

Destilarão resina, ou em Goyaz haverá outro vegetal com aquelaespecificação?Muitas províncias expuseram borracha de mangabeira, árvore que nãodesmente a família – apocynea – pois deita abundante suco leitoso, malseja ferida.

As amostras do fumo foram muito limitadas e infelizmente, porque já nomercado do Rio o tabaco goiano é procurado com lisonjeiro empenho.

Diz o catálogo da exposição que no ano de 1873-1874 a província exportou9.478 quilogramas, no valor de 4:745$000. A informação ficou muito aquém daverdade. De um mapa estatístico, feito há alguns anos e com cuidado, vejo que aprodução anual do tabaco em 15 municípios subia a 106.050 quilogramas, dos quais46.652 eram exportados. O ramo de comércio tem tomado extensão justamente pelaprocura do gênero, mas, aceitando ainda que se conservasse estacionário, ter-se-ia emtodo caso uma saída, de 33:000$000.

O fumo mais estimado é o amarelo de Jaraguá, também chamado cheiroso peloaroma valente que possui e que entontece a quem, apesar de fumante, dele usa pelaprimeira vez. As sementes desta variedade têm sido inutilmente plantadas em outraszonas: nasce o pé de tabaco, mas a qualidade do fumo é a comum.

Outras interessantes amostras em seguida se apresentaram, mas não podendonem devendo ir por demais alongando esta notícia que já muito além passou dos limitesque eu em mente delineara, não farei senão considerá-las muito por alto.

Trigo: Plantado outrora com vantagem em Santa Luzia e Meia Ponte,dele só se colhem hoje uns centos de alqueires, isto mesmo de qualidadeinferior. No Norte era cultivado em Cavalcante e na chapada de Traíras.

O café, que em Goyaz começou a ser conhecido em 1819, vingaexcelentemente. Nos quintais da capital ha muitas pessoas que de algunspés tiram para uso próprio a preciosa baga. Vi em Santa Marta umcafeeiro que tinha o viso de bela laranjeira e estava carregado de frutos.

Com certeza será um dos mais profusos gêneros de exportação, logo quese facilitem os meios de ligação com a extrema dos caminhos de ferro deS. Paulo. Há ali verdadeira reserva para o futuro da prosperidade doBrasil. Faz dez anos, a produção anual era de 259.490 quilogramas, aexportação de 132.945, e desde aquela época a cultura não temdeclinado.

O algodão é de superior qualidade, tanto no norte, margens do Araguaiae Tocantins, como no sul, onde a produção, pelo documento já citado,chegava anualmente a 180.595 quilogramas, dos quais tinham saída15.495.

O milho, o feijão e o arroz deram sempre tanto, desde os primeirosperíodos da desalentada agricultura goiana, que o alqueire, em que erame são ainda medidos para a venda, é o dobro em capacidade do de MinasGerais ou Mato Grosso.

As videiras em algumas comarcas crescem e engrossam singularmente.

Proporcionam dentro do ano duas colheitas, se houver o cuidado depodá-las, depois da primeira, que é em fevereiro. Com a uva chamada daseca,

faz-se vinho tão puro e perfumado que Saint-Hilaire o julgava nocaso de vir ao mercado do Rio de Janeiro competir com certos deprocedência estrangeira e afugentá-los; com a uva-das-águas muito bomvinagre se fabrica.

Vê-se por este resumido quadro que o solo de Goyaz só pede amanho.

Muito além das esperanças recompensa, não já quantos o reguem com o custososuor de insano labor, mas simplesmente aqueles que lhe consagrarem no dia algumashoras de boa vontade e animado trabalho.

Em plantas medicinais quase nada mandou Goyaz, do muito que podia terremetido.

Num pouso chamado Buracão e em terras da província, observei um dia porindicações do prático, que então tinha a coluna expedicionária de Mato Grosso, um sr.

Ferrugem, extraordinária quantidade desses úteis vegetais dentro de restrito círculo. Erauma verdadeira flora medicinal.

Havia muito velame (Croton fulvus), lindíssima plantinha de folhas prateadas; acurraleira (Croton anti-syphiliticum), excelente diurético; a douradinha (Palicureaaurata): a lixeira miúda (Dilleniacea) de ótima aplicação nas orquites; a contra-erva(Dorstrenia), preconizada nas disenterias; a jarrinha (Aristolochea galeata), com suasflores de um amarelo-sujo-esverdeado e de curiosas formas imitativas aconselhadacontra mordeduras de cobras; o ruibarbo-do-campo e muitos outros.

Na exposição figuraram: a sucupira, a quina-do-campo também chamadaparatudo (Strychnos pseudoquina), favas-de-santo-inácio (Anisosperma passiflora)empregadas contra dispepsias e também chamadas nhandirobas, raízes de sassafrás,

maririçó e sândalo, poaia, batatas de Amaro Leite,52 etc.

É de sentir, e a falta foi geral em todas as províncias, não ver uma só coleção dosfrutos do sertão, ou conservados por algum processo ou secos.

Ter-se-iam: a tão falada mangaba (Hancornia speciosa), o profuso murici(Byrsonima verbascifolia), o marmelo-do-campo, as guabirobas (Eugenia sp.) asaborosa guavira, o belíssimo pêssego-do-campo (Eugenia dysenterica), o suculentofruto-de-veado, a rubra uralha, o umbu, os araticus, cajás, pitombas, maracujás, tarumãsque os índios tanto apreciam, sapucaias, araçás, goiabas, o lindo e gostoso cajuí(Anacardium humile) cujos pés baixinhos e viçosos cobrem largas extensões, asinúmeras qualidades de cocos, etc.

Na província já foi muito cultivado o marmelo, principalmente em Santa Luzia ehoje ainda o é bastante. Dele e da goiaba fazem-se doces em massa, dos quais foramenviadas algumas amostras. Era um dos gêneros de maior lucro que em 1865, 1866 e1867 de Goyaz iam para as forças expedicionárias do Mato Grosso. No mercadoimprovisado do Coxim subiram as caixinhas de goiaba a 12$000 e 14$000; nos doTaboco, Miranda e Nioaque baixaram algum tanto em preço, pela concorrência e tabelasde preço que se organizaram, mas tinham sempre rápida extração, ainda que muitas emuitas vezes fosse a pretendida goiabada feita da insípida, embora inocente, fruta-delobo(Solanum lycocarpum), como era corrente. O sabor contudo, ou igual ou quaseaproximado, não fazia queixosos.

Diz Cunha Matos:

Enfim, a província de Goyaz é extremamente produtiva de vegetais, tanto para alimentos, comopara curativo; e se não se encontram em maior abundância, atribua-se a culpa aos homens e nãoàs terras, porque estas são ubérrimas, enquanto aqueles, descuidados ou contentes com os meiosde sustentação, trabalham quanto basta para conservar a vida sem aspirarem a superfluidades.

XIVRiqueza mineralógica. Jazidas minerais.

Os magníficos cristais

52 Atual Mara Rosa.

A coleção mineralógica que ocupava as duas primeiras prateleiras da exposiçãogoiana, bem que incompleta em todos os sentidos, ainda assim era digna sem dúvida deexame um tanto detido.

Viam-se amostras bastante volumosas de minérios ferruginosos; pequena deferro especular; lâminas quadradas, bem cortadas e perfeitas de mica branca e preta;alguns pedaços de mármores; bonito espécime de serpentina; engrupações de quartzohialino; belo cristal de rocha pouco límpido, mas puro nas formas geométricas; outroafumado; várias ágatas; hiálito; larga folha de itacolomito ou pedra elástica; cristais decarbonato calcário; algumas piritas de ferro; grande bloco de asbesto; ardósias; um paude oca, etc.

Adiante, dentro de uma redoma de vidro, cujas bordas aderiam à mesa por meiode tiras de papel colado, e entre trabalhos de crivo e bordados à mão, de valor inferior,estavam em tubozinhos vários diamantes miúdos e ouro em palhetas, em pó e pepitas.

Em garrafinhas, ao lado, ficaram os cativos, pedrinhas roliças, umas pretas e redondas,outras aciculares e finas, que nas lavras denunciam a presença da mais procurada eperfeita das gemas.

O ferro é abundantíssimo em Goyaz. Ou forma conglomerados e em vastas áreasconstitui as camadas superiores dos terrenos, ou acha-se naquela terra que produz oterrível e insinuante pó vermelho das estradas do sertão do interior, terra sulcada deveios vivamente corados, que em S. Paulo tem o nome de terra roxa e é o tipo dos solosfecundos, maravilhoso às vezes em sua força de produção. De mistura com areiasquartzosas, cobre, como em Minas Gerais observou o dr. Lund,53 vales extensos emontes de altura considerável.

Quanto a depósitos que se prestem com vantagem a fáceis trabalhosmetalúrgicos, os há na província muitos: por exemplo, em Aranha, Traíras, S. José deTocantins e S. Félix, onde já se fabricaram excelentemente ferro e aço, vendidos a 300réis a libra, até para exportação. Como no mais, veio, porém, o desânimo, e em todo oGoyaz não se viu, durante lustros inteiros, um só objeto desse metal, uma enxada, ummachado, que não tivesse vindo do Rio de Janeiro, depois de meses de morosa viagem,ficando, portanto, o preço do instrumento do trabalho onerosamente gravado do custodo transporte da matéria-prima.

53 Peter Wilhelm Lund, naturalista dinamarquês. Viveu em Lagoa Santa (MG) a partir de 1835, efoi um dos precursores da arqueologia no Brasil.

Felizmente raia agora uma esperança. Além de forjas pequenas, mas que podemprestar ótimos serviços, estabelecidas há pouco tempo em dois ou três pontoslongínquos da província, o último relatório do digno e atual presidente, o dr. AnteroCícero de Assis, traz a grata notícia de já se achar em atividade, a légua e meia dacapital e no lugar chamado Areias, uma fábrica de fundição, que se inaugurou no dia 25de abril do ano passado.

Seja coroada, do mais amplo e proveitoso resultado tão benéfica iniciativa, filhaunicamente do esforço e de capitais particulares, a fim de com largueza dotar Goyazdesse grande impulsor do progresso, desse indispensável auxiliar da atividade humana:o ferro!

Lâminas de mica: As expostas mereceram o aplauso dos que asobservaram mais atentamente. Eram brancas e de cores, largas,perfeitamente transparentes, muito finas e com superfície lisa e brilhante.

De aspecto metalóide, têm estes minerais uma composição muitocomplicada, em que entram como constantes a sílica e alumina, variandoa potassa, ferro e magnésia e mais ou outras substâncias. Apresentam-secomumente debaixo de duas formas: ou lamelífero pulverulento oufoliáceo, podendo neste caso destacar lâminas delicadíssimas de muitosmetros de extensão. Têm também o nome de vidros de Moscóvia porserem empregados na Rússia, vindos da Sibéria, nas vidraças de casas emais particularmente de vasos de guerra, pois, pela elasticidade que lhesé própria, resistem a à pressão do ar atmosférico por ocasião das seguidasdescargas de artilharia.

A indústria utiliza-se da mica para diversos fins; entretanto não tirou ainda todoo proveito desejável dessa bela substância, tão flexível e transparente, inalterável aofogo e à água e sobremaneira maleável, sem perder nunca tenacidade.

Em S. José do Tocantins e Traíras extraem-se grandes folhas de mica oumalacacheta. Na cidade de Bonfim todas as casas têm dessas vidraças; na capital as hánas divisões interiores. O preço durante muito tempo foi de 280 réis por quinze vidrosde seis polegadas de lado.

Em quartzos apareceram diversas engrupações de cristal de rocha, uns claros,outros leitosos ou afumados, dois belos tipos isolados; ágatas e um pedaço de hiálito.

Em cristal de rocha é a província de Goyaz tão rica, que, segundo Cunha Matos,poderia abastecer as manufaturas do mundo inteiro.

A serra dos Cristais, ramo quase perpendicular da do Albano e 12 léguas maisou menos distante da divisa de Minas Gerais, está salpicada deles, havendoprincipalmente, a uma légua para oeste, diversos núcleos e uma gruta de onde foramextraídos em quantidade prodigiosa. Explorada com imperícia e sofreguidão, alagou-se,logo nos primeiros tempos, com as águas de um riacho que desajeitadamente desviaramde seu curso.

A cada passo aí ao viajante se deparam vistosos cristais, uns amarelos, doschamados topázios de Goyaz, outros roxos (ametistas), avermelhados ou maisfreqüentemente brancos, tendo alguns fragmentos destes muitas arrobas de peso, demaneira que Pohl diz que com o que está fora de terra esparso aqui e acolá, poder-seiamcarregar algumas centenas de carros.

Dentre os já muito apreciados de coloração amarela são raros os cor-de-vinho, eainda mais os colofônios.

O comércio dessas pedras já foi bastante ativo, entretido quase todo pelascidades de Paracatu e Formiga, em Minas Gerais, as quais mandavam tropas demercadorias até Santa Luzia, a 5½ léguas da serra, para voltarem com carregamentos decristais. Pohl cita o fato de um tenente de Paracatu que, encetando com poucos meioseste gênero de negócio, em três anos ajuntou uma fortuna de 30.000 cruzados, o que decerto é de contentar aos mais ambiciosos.

Este movimento entre Santa Luzia e Formiga, muito seguido, segundoinformações do meu amigo o sr. major João Teixeira de Carvalho, até ao ano de 1840, eainda hoje existente, faz-me com tal ou qual convicção de certeza acreditar que os doisimensos cristais de mais de duas arrobas de peso que se viam na exposição de MinasGerais, como vindos da Formiga, tenham sido trazidos de Goyaz e da serra dos Cristais.

Pedra laminosa elástica: Era o mais raro e interessante tipo da coleção e foienviado pelo virtuoso prelado que com tanto amor e carinhosa solicitude dirige adiocese de Goyaz.

Considerada a principio como fóssil, a pedra luminosa tomou seu lugar entre asrochas, sendo também conhecida em geologia sob as seguintes denominações: grésxistoso elástico, grés clorítico, grés-de-vila-rica, grés-da-serra-do-frio, itacolomito egrés flexível do Brasil.

O povo desde muito lhe chamava pedra elástica.

Como seus componentes principais entram o quartzo, em estado dedecomposição muito saliente, e o talco. A textura é laminosa e granular, o queconjuntamente com a grossura das folhas, cor e unctuosidade, a afasta da mica, com aqual tem aliás muitos pontos de contato.

O itacolomito costitui montanhas inteiras. Grandes zonas de Goyaz oapresentam com abundância, mais ou menos modificado em seu aspecto e formas,conforme o predomínio do talco, ou do quartzo e mistura de outros elementos minerais.

A formação geológica do terreno em que assenta a capital é toda dessa rocha, alterada aípela presença da mica e pela sobrepujança do talco, que se torna às vezes isolado eforma as chamadas pedras de sabão.

Lomonosov,54 poeta e mineralogista ao mesmo tempo, quis considerá-lo matrizdo diamante, mas foi-lhe com razão objetado que, sendo o grés uma rocha de transporte,a presença daquela gema podia ser meramente acidental.

O quartzo no itacolomito é quase sempre branco, raramente escuro ouavermelhado; o talco, no mais das vezes branco, vermelho e verde.

Como minerais estranhos pode conter: quartzo comum e branco, cristal de rocha,mica, talco, esteatita, feldspato comum, ouro, enxofre, piritas de ferro, sulfureto dearsênico, e ferro oligisto.

As lâminas sólidas de itacolomito são aproveitadas em Goyaz para cobrir murose separações de quintais, e para lajedos, como se vê na cidade de Meia Ponte.

A variedade elástica é usada, em lugar de chapas de ferro, nos fornos de tocar eserrar farinha de milho e mandioca.

XVOuro e diamantes. Mármores e serpentinas

Continuando no exame dos minerais enviados de Goyaz, notavam-se:

Mármores e serpentinas: As amostras calcárias não pareciam de má qualidade,com quanto fossem de cores vulgares. A de serpentina, que é um mármore talcoso, poismármore é toda pedra susceptível de tomar polimento, apresentava bonitos veios verdessobre fundo um tanto escuro. Com os mesmos elementos que o talco, dele se distingue

54 Mikhail Vassiliévitch Lomonosov (1711-1765). Poeta e gramático russo, defendia oconhecimento científico como parte imprescindível na formação do gosto artístico e presente na própriagênese da poesia de qualidade. Estudou ciências naturais, história e filosofia e foi um dos idealizadores daUniversidade de Moscou, que leva hoje seu nome.

por conter sílica e água em maior proporção: é infelizmente muito mole, podendo serfacilmente riscada pela unha e esfoliando-se toda em laminazinhas, o que a tornaimprópria para a decoração monumental. Toma todavia verniz, ficando um pouco maisdura e com as cores mais vivas. Abunda nos arredores da capital; transformação, comojá ficou dito, do itacolomito; assim nas margens do rio Vermelho a N.O. da cidade e noouteiro distante umas 300 braças, sobre o qual se ergue a pitoresca ermida de SantaBárbara.

Havia ainda um espécime de pequenos cristais de carbonato de cal, agrupadosem drusa; algumas lâminas de ardósia; piritas, salitre refinado e um pedaço de amianto.

A este cabia melhor a denominação de asbesto, reservada para as variedades doanfibólio que se mostram debaixo da forma de filamentos aglutinados paralelamente edotados de tal ou qual rijeza, e não como o amianto que os tem flexíveis e acetinados.

Diamantes: Os que foram descobertos até agora em Goyaz pertencem quaseexclusivamente à bacia do Araguaia e mais particularmente aos rios Caiapó e Claro, eseus afluentes. No ano de 1746 deram-se os primeiros achados, sendo então fundado oarraial do Senhor do Bonfim ou de Pilões, hoje do rio Claro, a 20¾ léguas da capital.

Destruído três anos depois pelos índios caiapós, impôs o governo português em 1749aos dois irmãos Joaquim e Felisberto Caldeira Brant, que haviam arrendado as lavras doTijuco,55 na província de Minas Gerais, a obrigação de enviarem para as margens do rioClaro um serviço diamantino de 200 escravos.

Depois disto, ficou durante quarenta anos rigorosamente proibida qualquermineração naquela zona, até que em 1801 d. João Manoel de Menezes, capitão doregimento de Freire de Andrada e governador da província de Goyaz, permitiu aospovos a abertura de lavras, sendo estabelecido no arraial, que novamente se ergueu em1804, um registro para verificar a identidade dos passageiros de Cuiabá, fazer a permutado ouro e arrecadar, mediante prêmios estabelecidos, os diamantes.

De muito boa água e peso notável os tem o rio Claro, cuja límpida linfa favoreceo trabalho, o da Fartura, de Pilões, Três Barras, Desengano e Caiapozinho.

Também no tempo seco, de julho a setembro, nos arredores só ajunta muitagente, para mais de 700 forasteiros, que vêm formar garimpos, acima e abaixo doarraial.

Muitos deles só querem diamantes: não desperdiçam o tempo em catar o ouro

55 Atual Diamantina, em Minas Gerais.

que abunda no cascalho.

Para procurá-los, usam no geral da canoa, da cuiaca e da bateia, sendo este meiomais especialmente empregado pelos trabalhadores isolados e pobres ou faiscadores.

De diversas qualidades são os cativos ou pedrinhas roliças e muito polidas queindicam sempre a presença das ambicionadas gemas: há os pingos-d’água e palha-dearroz

que são pedacinhos de quartzo; ferro oxidado que tem o nome de fava preta,agulha siricoria, etc. Desses indícios precursores do mineral que Plínio chamou “a maispreciosa de todas as produções da natureza”56 vieram também algumas amostras.

Ouro: Diz Eschwege na sua bela e erudita obra Pluto brasiliensis:57

De todo o Brasil, a província de Goyaz é uma das mais ricas em ouro. Suas montanhas nãoforam ainda escavadas; quando muito em alguns lugares arranhou-se-lhes tão-somente asuperfície. [...] No dia em que a população for mais densa e que os brasileiros souberem explorarsuas minas de modo regular, hão de auferir vantagens que hoje só seriam possíveis com imensossacrifícios.

Por toda a parte, com efeito, contém ouro o solo do Goyaz. Na antiga comarcado Sul, todos os arraiais lhe deveram a fundação, e mais tarde os do Norte, ondetambém é espalhado com extraordinária profusão.

A principio tirado às arrobas das tênues camadas exteriores, escasseourapidamente; obrigou a grandes trabalhos, mas por estar ou em pontos por demais áridosou em outros exageradamente fartos de água, tanto que passou em anexim dizer-se quea água de mais ou de menos em Goyaz não deixa fazer fortuna, o certo é que trouxegrandes malogros e produziu esse abatimento fatal, que a província a custo sacudiu.

Entretanto, é fora de dúvida que nas entranhas da terra jazem ainda ocultosverdadeiros tesouros de Aladim.

Manuel Correia, o primeiro paulista que pisou o território hoje de Goyaz,58 dasua arrojada excursão voltou a Piratininga59 com dez oitavas de ouro, com as quaisconcorreu para um diadema destinado à imagem de Nossa Senhora da Ponte de

56 A citação é retirada da Historia naturalis, enciclopédia das ciências naturais em 37 volumes,publicada em 77 AD, do autor romano Plínio, o Velho (23/24-79).

57 Riqueza brasileira, obra publicada em 1823, em que o naturalista alemão Wilhelm vonEschwege descreve ocorrências minerais do território brasileiro. Veja bibliografia no final.

58 Em 1647. Entretanto, sabe-se hoje que desde o século XVI as atuais terra de Goiás já vinhamrecebendo expedições saídas de S. Paulo, como a de Sebastião Marinho em 1590.

59 Antigo nome da Capitania de S. Paulo.

Sorocaba.

Bartolomeu Bueno, o Anhangüera, trouxe já muito maior porção; mas seu filho,depois da segunda e longa peregrinação, pôde doar o governador geral de S. Paulo com8.000 oitavas.

Nomeado por isto capitão-mor regente das terras de Goyaz,60 continuou aenriquecer, até que, chegando a hora da desgraça, perdeu tudo quanto tinha ganho e viusena contingência de receber, por empréstimo, de d. Luís Mascarenhas61 uma arroba deouro. Tendo sido tal despesa reprovada pelo governo português, caiu Bueno na maiormiséria, vendeu todos os bens, até jóias da mulher, e, acabrunhado de desgostos, morreuno arraial da Barra que fundara e onde tivera começo sua vertiginosa fortuna.

Depois destes, milhares de ousados exploradores alcançaram grandes cabedais;milhares pereceram à mingua; milhares só colheram desenganos; milhares se viramrepentinamente arruinados, quando em si supunham cumulados os favores da sorte.

No Sul de Goyaz o terreno é copiosíssimo em ouro de primeira qualidade: assimo solo da capital, o de Ferreiro a uma légua E.N.E., o de Ouro Fino a três léguas, o deSanta Rita a 14, o de Pilar a 33, cuja montanha Muquém é da maior riqueza, o de BoaVista, onde trabalharam já 9.000 escravos, o de Bonfim, a 38 léguas, em cujasvizinhanças vêem-se grandes escavações, o dos arraiais, outrora florescentes, hoje tãocompletamente extintos que nem sinais ficaram, do Buriti Queimado, de Calhamares ed. Miguel de Tesouras.

Em Anicuns, a 13½ léguas S.E. da capital, as pedreiras descobertas só no ano de1809 em pouco tempo produziram 200.000 cruzados (Memórias goianas)62 de ouro de18 quilates, mas como os poços foram mal-cavados, depressa as águas correram paraeles e os alagaram todos. Cessaram em conseqüência os trabalhos até 1821, data em quese organizou uma sociedade para esgotar as inundações e continuar a mineração commais método e cautela. O fundo da associação foi de 256 ações, devendo cada sócioentrar com 12$500 em dinheiro e um escravo vestido e ferramentado, conforme diz aletra do compromisso.

Começaram então as obras com vigor e animação, dessecando-se os poços e

60 Em 14 de março de 1731.

61 Luís de Assis Mascarenhas, entre 12 de fevereiro de 1739 e 24 de agosto de 1748 governadorda capitania de S. Paulo, à qual pertenciam as Minas de Goyaz.

62 Trata-se provavelmente de Memória estatística da província de Goyaz, obra do cônego LuizAntônio da Silva e Souza publicada no Rio de Janeiro em 1832. Veja bibliografia no final.

construindo-se entre duas montanhas um bicame ou aqueduto de madeira para levarágua às máquinas. Não tardaram, porém, a avultar as despesas; morreram muitosescravos; só se passaram 54 ações, de modo que, arcando a companhia com milembaraços, em breve achou-se desamparada, com pouco crédito e empenhada em18.000 cruzados, o que pôs definitivo termo às suas tentativas.

XVIO ouro no Norte de Goyaz. Extensão da mineração.

Futuro da zona setentrional

No lado setentrional da província não são menos deslumbrantes as notíciashistóricas do começo de suas povoações e seu fugaz florescimento, nem menos rápidase contristadoras as de sua decadência e definhamento.

Riquíssimos foram S. José e sobretudo Água Quente, onde chegaram a trabalharnas minas 16.000 escravos, e se acharam folhetas do peso, uma de quase arroba e meia,outras de seis a dez libras e muitas de 30 oitavas, e que assenta a curta distância dogrande confluente do Tocantins, o rio Maranhão, cujas águas rolam ouro a rodo.

Com efeito, a meia légua do arraial, no lugar chamado Machadinho, o desviaramnuma ocasião do curso natural, o que chamam virar, por meio de um dique ou açudeque poucas horas pôde durar, e assim mesmo o trabalho ficou compensado, pois aquantidade de metal recolhido nas areias do álveo foi computada em 900 oitavas.

Nessa penosa e mortífera lida de desvio das águas do Maranhão é que sobretudose empenharam os exploradores, malgrado as epidemias, sezões e maleitas que naestação das chuvas de uma feita destroçaram 12.000 trabalhadores, matando-os aos 50por dia.

Quando não lhes era possível virar a corrente, buscavam as intaipavas ou

travessões naturais de pedra que ligam uma margem à outra, e da rocha vivaarrancavam o ouro com o auxílio de um alvião de ferro, chamado almocafre. Esse meioviolento de mergulho era quase sempre substituído por outro mais suave, o qualconsistia em arrastar pelo leito do rio um saco de couro preso à extremidade decomprida vara e ao lado de um ferro de ponta, que, com o movimento que lhe imprimiao operário, ia revolvendo a terra do fundo.

Riquíssimos foram o arraial do Cocal, o qual teve 17.000 escravos e 1.400livres, em constante serviço; o da Natividade, em cujas cercanias contavam-se para maisde 40.000 cativos;63 o de S. Félix com suas valiosas minas de Carlos Marinho; o deCajazeiros e o de Arraias que dava o ouro chamado podre, em razão da cor parda quetinha. Ali de uma só bateada tiraram-se de uma vez 60 oitavas, e numa única noitecertos ladrões conseguiram de um vieiro extrair três arrobas.

O quinto que o governo português levantava em Vila Boa de Goyaz para a partemeridional e em S. Félix para a setentrional, apesar do contrabando e das sonegações,chegou em 1755 a render 169.080 oitavas, no sul, e 59.596, no norte, o que perfaz asoma de 352:914$000, moeda antiga, variando naquele tempo a oitava de 1$200 a1$800.

O decrescimento do pesado imposto foi rápido: no ano de 1805 não produziu emVila Boa de Goyaz senão 12.308 oitavas e em S. Félix 3.300, ou ao todo 23:412$000.

Daí por diante diminuiu cada vez mais, tanto que a casa de fundição de S. Félix passousepara Cavalcante, e em 1807, por ordem do Conde da Palma, foi afinal fechada eextinta.

O ouro que nos nossos dias se extrai na província de Goyaz é para glória efelicidade sua, quase nenhum, devendo quantos amam aquela bela região fazer votospara que não voltem os tempos da exploração, senão debaixo de muito método, ordem emoralidade.

Atualmente não passará de 5.000 oitavas a quantidade em pó que se tira emtodos os municípios do norte e sul, sendo os do Pilar, S. José de Tocantins e Carmo queentram com maior porção, o primeiro deles com 1.500 oitavas.

Daí não provirá de certo a desgraça da província. Os terrenos que ela possui,

63 Estes dados são tirados da Corografia histórica da província de Goyaz, escrita pelo marechalRaimundo José da Cunha Matos e impressa no tomo XXXVII da Revista do Instituto Histórico eGeográfico Brasileiro. Consultei também as obras de Saint-Hilaire, Martius, dr. Pohl, Natterer, Castelnau,Eschwege, Silva e Souza, Alincourt [veja bibliografia no final] e vários relatórios de presidentes daprovíncia. Corre por conta de todas essas autoridades, sobretudo da primeira, o que me parece haver deexageração em tais números.

Pelo imposto da capitação, sabe-se que com tal ou qual certeza que em meados do séculopassado havia em Goyaz 31.500 escravos empregados na mineração. Cunha Matos faz ascender o númerodeles a mais de 100.000.

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cobertos de fecundo húmus, não devem ser imprudentemente golpeados,desordenadamente revolvidos e a esmo esterilizados. O que cumpre, muito pelocontrário, é arroteá-los com cuidado, abrir em sua superfície os sulcos benéficos dacultura, ligando-se cada vez mais o homem à terra que o viu nascer, que ele conheceuinfeliz, arredada de todos e desconsolada, mas que com seu trabalho, sua perseverança,sua confiança na boa vontade e eqüidade de todos os brasileiros, sua índole ordeira epacífica, há de ir e tem ido gradualmente se erguendo do abatimento a que a haviamreduzido circunstâncias aniquiladoras.64

Aí é que está a verdadeira mina: o vieiro de imensas riquezas. Penetre-se cadagoiano da necessidade de trabalhar com vigor e constância, sem desânimos nemambições repentinamente exageradas; melhore os produtos que já tem; cultive outros;procure para eles escoadouro; resista com valor ao desalento e, dentro dos limites dorestrito dever, com um contingente relativamente mínimo, concorrerá para grande eauspicioso resultado.

Com uma população que em 1801 na sua Memória estatística65 o padre LuizAntônio da Silva e Souza calculava em 50.135 indivíduos, dos quais 19.285 escravos;que em 1809 O Patriota66 elevava a 50.365, entre os quais 20.027 cativos; Pizarro67 a53.422; o general Cunha Matos em 1824 a 62.518; Kitter68 em 1845 a 97.572 e que a

64 De nove qualidades eram os impostas que pagava Goyaz: 1) Direito de entrada; 2) Dízimos; 3)Passagem de rios; 4) Arrematação de ofícios; 5) Imposto sobre a venda de carnes verdes; 6) Décimas,selos e sizas; 7) O quinto do ouro; 8) Rendimentos de coletores; 9) Imposto sobre casas de negócio emfavor do Rio de Janeiro.

O primeiro, que gravava as mercadorias importadas, antes de 1738 de três em três anos produziu8 arrobas de ouro; de 1762 a 1765, 40 contos e tantos mil réis; de 1765 a 1774, 96:000$000; de 1774 a1782, 26:000$000. decrescendo sempre até os princípios deste século.

Em 1823 as rendas todas da província só deram 21:000$300, subindo a despesa a 53:080$325.

A receita orçada para o exercício de 1875-1876 é de 133:996$707 e a despesa em 201:099$261,havendo pois o déficit de 70:102$537.

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65 Memória Estatística da província de Goyaz, publicada em 1832. Veja bibliografia no final.

66 Jornal publicado no Rio de Janeiro na primeira metade do século XIX.

67 José de Souza Azevedo Pizarro e Araújo, mais conhecido como monsenhor Pizarro. Vejabibliografia no final.

68 Trata-se provavelmente do missionário metodista norte-americano Daniel Kidder, quepercorreu o interior do Brasil a partir dos idos de 1830 com o intuito de difundir a Bíblia. Veja

estatística de 1874, ainda aquém da realidade, fez subir a 108.929 almas, sendo tãosomente 10.548 escravos, com uma população dessas, que vai aumentando sempre,Goyaz não deve ter receios do futuro.

XVIINecessidade da instrução.

Perspectivas de futuro notável

No estado atual das coisas, o primeiro e mais veemente empenho da provínciadeve ser ver derramada a instrução por todas as classes de sua sociedade, difundidasquanto possível por todos os pontos de seu vastíssimo território as luzes do espírito,que, abrindo horizontes novos à inteligência, firmando melhor a doce e imprescindívelimposição da moral, e alargando as raias da iniciativa, aviventam no coração humano oamor da família e da pátria, e no cidadão exaltam esses sentimentos nobres e dignos,que todos derivam da consciência de si o do valor da personalidade.

Possuídos desta verdade, já de muito se esforçam os filhos de Goyaz porpoderem, como hoje fazem, com justo orgulho e depois de muitos sacrifícios, proclamarque em sua terra não há localidade, por mais insignificante, que não tenha uma escolafreqüentada por numerosas turmas de educandos.

Convém, ainda mais, cuidar, sobretudo, na parte meridional, das estradasabertas, conservá-las com zelo, rasgar outras conforme as necessidades das povoações;nos rios mais fundos e caudalosos lançar pontes; regularizar os meios de transposiçãodos rios mais largos, e abaixar os impostos do pedágio, preparando assim todos osmeios de comunicação, como que à espera do momento em que sibilar a primeiralocomotiva naqueles distantes centros.

Tem sido, faça-se justiça, um dos mais constantes e louváveis cuidados doíntegro e atual presidente, o sr. Antero Cícero de Assis, a execução desse programa, ecom leal satisfação, com viva e grata surpresa verifica, o viajante a sensível diferençaque presentemente existe entre as estradas de Goyaz e as outras províncias confinantes.

Também não podia o respeitável e estimado administrador encontrar mais ativo

bibliografia no final.

e inteligente auxiliar do que o dr. Joaquim Rodrigues de Moraes Jardim, diretor dasobras provinciais e formado na escola militar do Rio de Janeiro, na qual ocupou comoestudante em todos os anos do difícil e longo curso de engenharia um dos mais distintoslugares, sustentando sempre, a par de seu digno irmão, a honra do nome goiano.

Do quanto se aplica à sua especialidade nos lazeres que lhe deixam ascontinuadas viagens, do amor que vota ao torrão natal, bem clara prova deu com aorganização de um belo trabalho – A carta da província de Goyaz –, o qual figuroutambém na exposição. Refundindo diversos mapas corográficos, cujo mais importante ecopioso em informações é incontestavelmente a Carta plana da província de Goyaz edos julgados do Araxá e Desemboque, levantada pelo eminente marechal Cunha Matose publicada em 1830, aproveitando o conhecimento exato que tem das distâncias epovoados, retificando posições astronômicas, consultando todas as fontes de sériaindicação, corrigiu o dr. Jardim muitos erros, preencheu muitas lacunas e apresentou umdocumento consciencioso, digno de si e de grande valor para os que se aplicam àgeografia do Brasil.

Conclusão

Terminada, embora imperfeita e desalinhadamente, a grave tarefa quevoluntariamente me impus, resta-me exarar um voto partido do fundo da alma e oriundode imensa gratidão: é que a província de Goyaz, a quem tanto devo, rompendo de todoas barreiras que se opõem ao seu progresso, grandeza e felicidade, utilizando osinúmeros recursos naturais que lhe constituem inexaurível cabedal, e pondo em ação ocomprovado patriotismo de seus habitantes, alcance por fim, e em dia não muitoafastado, o lugar que lhe compete entre as filhas desta grande pátria, a que todospertencemos, o Império do Brasil!

Fonte: www.dominiopublico.gov.br

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