PREFÁCIO
Havendo em 1872 sido eleito deputado por Goyaz à 15ª legislatura e em 1875reeleito, entendeu o autor deste volume, como preito ao eleitorado que o havia delegadoao Parlamento, escrever uma memória analisando a contribuição da província, querepresentava, à Exposição Nacional do Rio de Janeiro, preparatória à do Brasil nogrande certame universal da Filadélfia, em 1876, comemorativo do primeiro centenárioda independência dos Estados Unidos da América.
É esta memória que hoje se republica em segunda edição, mercê do carinho comque os meus prezados amigos os srs. Weiszflog Irmãos1 se têm empenhado em oferecerao público brasileiro uma edição completa das obras de meu pai, já hoje constante de 32volumes.
Mereceu o estudo do Taunay largo apreço do público. Há quase meio séculoesgotou-se a sua primeira edição. Os exemplares que dela andam nas livrarias de obrasbrasileiras atingem preços significativos do empenho dos candidatos à sua posse.
Freqüentemente vêm as suas páginas citadas na imprensa e em obras que se ocupam dogrande Estado central. É um livro, por assim dizer, inédito, pois que hoje tenho a honrade apresentar ao público brasileiro.
Em anexo à obra de meu pai resolvi publicar valioso trabalho oficial referente aum dos maiores problemas de Goyaz e do Brasil Central – o estabelecimento danavegação franca dos dois imensos caudais, o Araguaia e o Tocantins.
Subscreve-o um nome glorioso nos fastos militares brasileiros: o de AntônioFlorêncio Pereira do Lago, o heróico soldado que foi uma das mais notáveis figuras dacampanha de Mato Grosso, sobretudo da Retirada da Laguna,2 e mais tarde prestouainda, valiosíssimos serviços ao Brasil, como proficiente engenheiro militar e sertanistaafeito a todas as rudezas da vida.
É-me sobremodo grato associar neste volume as obras de dois companheiros dearmas, irmanados por uma amizade que jamais sofreu uma diminuição por pequena que
1 Trata-se de Otto e Alfried Weiszflog, editores originários de Hamburgo (Alemanha),fundadores da Weiszflog Irmãos & Cia., mais tarde Companhia Melhoramentos, ainda hoje em atividade.
2 Episódios da Guerra do Paraguai (1864-70), da qual Taunay participou como engenheiromilitar. Sua experiência na campanha do Paraguai rendeu pelo menos duas obras: Diário do Exército
(1870) e A Retirada da Laguna (1871).
fosse, e de que meu pai, biógrafo de seu amigo, imenso se desvanecia.
É hoje raro este documento valioso, este relatório de Pereira do Lago aoGoverno Imperial, por quem foi publicado na Imprensa Nacional em 1876. Os queamam o estudo das coisas da nossa terra apreciarão certamente estas páginas de tãoprestante quanto indefesso servidor do Brasil que foi Antônio Florêncio Pereira doLago.
S. Paulo, 3 de setembro de 1931Affonso de E. Taunay
GOYAZ
IO grande certame universal de Filadélfia em 1876.
O convite dos Estados Unidos ao Brasil
Para comemorar o primeiro centenário de sua heróica e penosa independência,teve a grande confederação norte-americana um pensamento elevado e digno semduvida daquele memorável dia.
Congregar em tomo de si todas as nações do mundo civilizado para aglorificação, em comum, do trabalho, que tanto a exaltou; fazer das riquezas do globo edas maravilhas da indústria humana auréola à grandiosa recordação; apelidar todos ospovos à vasta e incruenta arena, como rememoração de sanguinolentas vitórias: tal foi arealização daquela idéia que o orbe acolheu jubiloso, porque com razão ligou a essamajestosa festa o sentimento consagrador de um dos mais esplêndidos e duradourostriunfos da liberdade.
Na história das duas Américas a exposição universal de Filadélfia por certomarcará era notável. Significa a confiança e a força que a atividade e a união produzem:significa o progresso e a prosperidade do novo mundo que, sem receio do julgamentodos países europeus, os convida a virem dar maior realce às suas festividades.
Para todos os povos destes dois grandes continentes, a ocasião é, pois, solene.
Pela vez primeira voltar-se-ão as vistas da Europa para além-Atlântico, acontemplar não o embate das armas, o encontro de exércitos a se despedaçarem, masesperando com curiosidade, e talvez sobressalto, o resultado do pleito pacífico em quese empenhou ao lado de povos que ela viu nascer e formou, que são seus filhos epupilos – crianças quase, a competir com velhos.
Outra consideração de mais vulto ainda se prende também àquela solenidade.
Ali serão, embora em resumido quadro, descortinadas a opulência e possança danatureza americana e como, sem contestação, são eles os mais poderosos auxiliares dohomem na aplicação de sua energia, terão, pela admiração que incutirem, decisivainfluência na questão hoje vital para qualquer das nacionalidades da América: aemigração.
Ah! Se o Brasil, este dilatado Império que há tantos anos goza os benefícios desábias instituições e as doçuras de inalterável ordem e tranqüilidade; se este país, regidopor libérrima norma, que só pela grandeza territorial logo se impõe à atenção de quemlança os olhos para um mapa-múndi: se ele pudesse aproveitar o ensejo e, ao passo quedesdobrasse ante as vistas maravilhadas do mundo a assombrosa magnificência de suanatureza, proclamasse a quantos se achem peados, infelizes, descontentes oudesanimados no seu torrão natal:– Vinde, vinde! Aqui encontrareis a hospitalidade na sua mais bela e amplaforma – a grande naturalização. Vinde! Aqui achareis todas as leis protetoras, a práticadas aspirações generosas do século, a garantia para vossas famílias, a liberdade, asegurança e a paz! Trazei-me o concurso de vossa inteligência, de vossa ilustração, devossa atividade, de vosso trabalho, e eu, ajudado por esta natureza que vos obumbra,dar-vos-ei riqueza e felicidade, consideração e amor.
Ah! Se o Brasil dissesse isso, a exposição de Filadélfia devera ser abençoada porquantos estremecem a pátria e impacientes quereriam vê-la marchar pujante, como édigna, como pode, entre as primeiras nações do mundo...
IIA exposição nacional brasileira de 1875.
O apelo às diversas circunscrições do país.
A resposta goiana
A falta desse deslumbrante programa que ainda não podemos apregoar,busquemos aparecer de modo condigno na festa a que fomos convidados, mostrandoque temos sabido caminhar, senão com pasmosa celeridade, em todo caso comseriedade e tino, na carreira da vida.
Realização de tão justo empenho foi sem dúvida a exposição nacionalorganizada no palácio do Ministério da Agricultura. Ali se reuniram todos os produtosenviados por cada uma das vinte províncias do Império, a fim de serem sujeitos arigoroso exame e irem depois conjuntamente representar o Brasil no que tem deimportante, de útil, curioso e interessante, no que patenteia o seu incremento e justificaas fagueiras esperanças do futuro.
Como todas as outras, foi a província de Goyaz convidada a cooperar com ocontingente que em suas forças coubesse; convite obrigatório que, nas circunstânciasespeciais em que se acha, trazia-lhe grave o custoso compromisso.
Só de um lado houve logo e devia haver nos seus nobres filhos o desejopatriótico de acudir ao chamado do país, de outro era-lhe natural, e bem desculpável, osentimento de esquivança em vir entrar em desvantajosa competência com outrasporções do Império privilegiadas pela força das coisas ou pelo favor dos homens, eexibir apoucadas amostras daquilo que por si é grandioso e infunde grata surpresa.
Nessa alternativa, a província de Goyaz procedeu com a lealdade e clareza quelhe são costumadas e, com os recursos financeiros de que dispõe, à exposição nacionalenviou o que pôde, unicamente como inequívoca prova de boa vontade, e não comorepresentação do que é, do que vale, do que poderá ser e há de valer um dia.
Basta enumerar a soma empregada na aquisição e remessa dos produtosagrícolas e industriais, que deviam viajar por terra centenas de léguas antes de chegaremàs prateleiras onde estiveram dispostos, basta enunciá-la para dar plena justificação àsingeleza daquela exposição e ver que baldados haviam do ser os esforços dos filhos detão longínqua zona e do seu digno, probo e estimado administrador: um conto eseiscentos mil réis!
IIIVariedade e exuberância dos recursos goianos.
Goyaz e as outras províncias do Império.
O papel civilizador de S. Paulo
E entretanto Goyaz, pela variedade e exuberância, dos recursos naturais queencerra, é uma província imensa, uma região favorecida dos mais opulentos eapetecidos dons da criação.
Grandes rios por toda a parte lhe cortam a extensa área, como que incitando ocomércio interno e a permuta: campos ubérrimos se alongam desertos e inaproveitados;metais preciosos jazem ocultos nas entranhas da terra; matas de alentados madeirosorlam os caudais e cobrem o dorso de serras salpicadas de custosos cristais: todos ostesouros, enfim, da natureza acham-se ali espalhados com inexcedível profusão, tãoabundante quão abandonados.
Quantas vezes não fica o viajante extasiado ao ver desenrolarem-se ante seuspassos dilatadas e verdejantes campinas, esmaltadas de um sem-número de floressilvestres, sulcadas de córregos limpidíssimos, ornadas de majestosos buritis, e ao longeemolduradas por linhas de montanhas caprichosamente recortadas?Quantas?É isto que Goyaz não pôde enviar ao palácio da exposição nacional.
Se o painel é mágico, em compensação as sombras são carregadas.
Goyaz, essa região favorecida, é o centro do Brasil, cuja maior vitalidade ecivilização concentram-se, como é sabido, na orla marítima, embora se alargue de diapara dia.
Goyaz não tem população para bem povoar uma zona sequer de seu imensoterritório; não tem hábitos de trabalho constante, pois não vê a retribuição imediata dolabor; não sente em si a evolução do progresso; vive vida lânguida e desanimada e,prostrado sobre minas riquíssimas de ouro, não possui um real de seu.
Amazonas e Mato Grosso podem à primeira vista parecer ainda mais malaquinhoados e infelizes; mas elas [as províncias] têm o Amazonas e o Paraguai, riosfrancos, navegados sem interrupção e que são outros tantos braços do oceano a levaremao centro das mais remotas localidades o alento e o comércio.
Sertão no Brasil quer dizer terreno ainda não de todo ganho ao trabalho e àcivilização. Todas as províncias limítrofes de Goyaz o têm largo e até mal conhecido;mas agora aos pontos mais extremos do Pará, Maranhão, Piauí, Bahia, Minas Gerais, S.
Paulo e Mato Grosso, somem-se as léguas e léguas que é preciso vencer para chegar àcapital de Goyaz e às suas cidades, senão florescentes, em todo o caso não moribundas,e ter-se-á consideração para quem vive tão segregado e talvez esquecido da comunhãobrasileira.
Vai nisto uma increpação, uma censura, um queixume?Não, até certo ponto.
Ninguém pode ser culpado das desvantagens topográficas com que luta aprovíncia; ninguém pode de chofre remediá-las. Ela tem irremessivelmente que esperarque as irmãs que a cercam ganhem forças e progridam, a fim de receber a influiçãoexterna e, cobrando robustez, concorrer lambem para o engrandecimento da pátriacomum.
E, como S. Paulo, relembrado da antiga e assombrosa energia, marcha nairradiação do progresso novamente para o norte, desta feita assinalando seus passos comtriunfos mais duráveis, é por aquele lado que, com razão, esperam os goianos maisdepressa receber o abalo que os sacuda do entorpecimento de letal prostração.
Chegue, com efeito, uma linha férrea às margens do majestoso rio Grande – eesse dia não está distante –, e logo raiará, se não para a província toda, com certeza parasua parte meridional, mais povoada e laboriosa, uma era de real prosperidade e deesperanças, ainda não conhecida.
Esse dia, esse momento, Goyaz terá tido o merecimento raro de esperá-lopaciente e resignadamente que é triste viver-se em terra que vai em decadência, sem queao longe se veja luzir promessa de melhores tempos.
IVA fase da mineração aurífera.
Dias de esplendor. Decréscimo de mineração.
Desmembramento do território goiano
Foi a sede de ouro que trouxe o descobrimento de Goyaz. Aventureiros de toda acasta seguiram as pisadas de Pascoal Paes de Araújo, Manuel Correia, e, sobretudo deBartolomeu Bueno da Silva – o Anhangüera – e de seu filho, que, varando ínviossertões, arremessando diante de si hordas de índios, embora pacíficos, e, escravizandoos,foram ter às margens do Araguaia.
As descrições da região [das tribos] dos araés ou aracis, onde eram de ouro asmontanhas, de prata o fundo dos lagos encantados e nas rochas viam-se gravados osmartírios de Nosso Senhor Jesus Cristo, inflamavam a imaginação daqueles intrépidosexploradores, possuídos todos da febre das riquezas e os impeliam em numerosas edesordenadas chusmas a buscarem as sonhadas maravilhas.
Apesar do que encontraram, do muito ouro que o seio das terras freneticamenterevolvido, os rios desviados do curso, as montanhas cortadas a talho aberto,desvendaram, tantos foram os malogros, tamanhos os desenganos que as povoações deGoyaz, às pressas constituídas, nunca tiveram, para assim dizer, um período deverdadeiro florescimento.
Já em 1785 o governador Tristão da Cunha3 assinalava seu profundoabatimento, quando [as povoações] apenas datavam de 1726.
3 Tristão da Cunha Menezes, governador da capitania de Goiás de 27 de junho de 1783 a 25 defevereiro de 1800.
Com efeito, diz um escritor notável, o general Cunha Matos,4 os anos de 1761 e seguintes forame têm sido anos diversos dos que haviam decorrido desde a descoberta da província. O ourodiminuiu, as fábricas dessecaram-se, os trabalhos extinguiram-se, e os habitantes de Goyazsentiram a mão férrea da desgraça ir pesando sobre suas cabeças. Endividados com a fazendapública, com as praças de comércio de beira-mar, com o juízo dos defuntos e ausentes, com ocofre dos órfãos, e com os particulares que os haviam acreditado, perseguidos pelos inexoráveisagentes fiscais e pelos credores, viram-se eles despojados de suas efêmeras riquezas, e reduzidosrepentinamente à última indigência.
As coisas nesse declive foram a pior, e, quando Augusto de Saint-Hilaire,5 em1819, visitou a província, pôde nas seguintes palavras reunir o seu passado e o que elevia com os olhos da mais escrupulosa imparcialidade:
Minas de ouro descobertas por alguns homens audazes e empreendedores; uma multidão deaventureiros precipitando-se sobre riquezas anunciadas com a exageração da avidez e daesperança; uma sociedade que ganha hábitos de ordem sob o rigor da disciplina militar e cujoscostumes foram se abrandando pela influência de clima abrasador e mole ociosidade; curtosinstantes de esplendor e prodigalidade; ruínas e contristador decaimento; tal é em poucaspalavras a história da província de Goyaz.
E como consolo, acrescenta:
É mais ou menos a de todas as regiões auríferas.
Naquelas dolorosas circunstâncias, certo parecia o aniquilamento total.
O que, porém, impediu, que todos os arraiais fossem progressivamente seextinguindo, como aconteceu com tantos de que resta tão-somente o nome, que aspopulações desacoroçoadas para sempre deixassem os lugares que não podiam maissatisfazer suas largas ambições?Foi uma nobre resolução.
Os filhos daqueles inquietos exploradores compreenderam que era impossívelcontinuar a ingrata mineração que exaure o solo e só enriquece o forasteiro, e entãopuseram-se não mais a cavar a terra, mas a cultivá-la, e de pronto colheitas feracíssimas,
4 Raimundo José da Cunha Matos, autor de Itinerário do Rio de Janeiro ao Pará e Maranhãopelas províncias de Minas Gerias e Goyaz e Corografia histórica da província de Goyaz, publicadosrespectivamente em 1836 e 1874. Veja também bibliografia no final.
5 Naturalista francês (1799-1853), viajou por Goiás entre maio e setembro de 1819, autor de
Voyages dans l´intérieur du Brésil, 3ème partie: Voyages aux sources du Rio S. Francisco et dans laprovince de Goyaz, publicado na França entre 1847 e 1848. Veja também bibliografia no final.
umas após outras, cada qual mais copiosa, recompensaram o abençoado trabalho.
Tanta fartura, excedente de muito às necessidades do limitado consumo, foientão aos poucos, mas seguidamente, atraindo nova emigração de gente, e estamoralizada e afeita às lidas da agricultura. Foi assim que milhares de mineiros, paulistase cearenses vieram e vêm sucessivamente vindo povoar e fertilizar os sertões de Goyaz,trazendo para essa nova terra de promissão todos os benefícios da confiança no futuro.
Daquela transformação difícil, que honra a província e que ainda se estáoperando, surgiu o apego que todo goiano tem à terra em que nasceu. Pode achá-latristonha, entorpecida, isolada, mas ama-a com todas as forças do coração.
As mutilações que já sofreu e ainda receia, à vista das pretensões das provínciasconfinantes, doem-lhe fundamente, e não por tacanho egoísmo, que são as mesmasporções destacadas e unidas a corpos mais vigorosos que se queixam e protestam.
Foi por isto, foi inspirado nesse arreigado e veemente sentimento que, comorepresentante de Goyaz na última legislatura, com tenacidade me opus à projetadadesanexação da importante comarca da Boa Vista6 em favor do Pará.
Para tais desmembramentos acabou o pretexto sempre renascente. Hoje Goyaz,sobretudo daquele lado, tem limites perfeitamente naturais, limites como nenhuma outraprovíncia; deve conservá-los e esperar unido dias mais felizes e a que tem pleno direito.
Ou então, atendendo a considerações de ordem elevada e para ativar aqueleresultado, seja pelo Poder Legislativo definitivamente separado em duas vastas zonas,ambas com sobejos elementos de engrandecimento e que de certo progredirão mais oumenos rapidamente: uma ao sul, em contato com a prosperidade de S. Paulo: outra aonorte, por meio de navegação dos rios Araguaia e Tocantins.
VO sistema hidrográfico goiano.
O que pode dar a navegação fluvial
Depois daquela bela e inesperada transmutação de região metalúrgica em zonameramente agrícola, como causa principal do estado estacionário e de desalento em que
6 Atual Tocantinópolis, no Estado do Tocantins.
ainda se acha a província, assinalam-se as distâncias enormes que se interpõem entrequalquer de seus pontos e o animado litoral do oceano Atlântico.
Quantos, porém, conhecem o seu sistema hidrográfico ponderamconceituosamente “que a natureza parece ter-lhe preparado meios de comunicação, quetão-somente esperam por população mais condensada para fazer florescer o comércio opermitir-lhe enviar seus produtos às duas extremidades do Brasil”, de um lado pelanavegação dos rios Meia Ponte, Turvo, dos Bois, Paranaíba e Rio Grande ou Paraná; dooutro pelo Araguaia e Tocantins, até a capital do Pará.
Estas linhas fluviais são com efeito de espantoso desenvolvimento; mas, cumpredizê-lo, cheias de obstáculos, canseiras e perigos, que, se não impediram sua completaexploração, fizeram pelo menos desacoroçoar quantos as seguiram depois dos primeirosdescobridores, necessitando em muitos pontos dos melhoramentos embora não custososda arte.
A do sul, que, pelo Tietê, pôde levar ao coração da província de S. Paulo, foiardida e desastradamente encetada por Estanislau Gutierres em 1808; depois, commelhor êxito levada em 1816 à conclusão pelos intrépidos José Pinto da Fonseca e JoãoCaetano da Silva, alcançando este com relativa facilidade o povoado de Piracicaba, emS. Paulo.
No ano de 1824, Antônio Leite, desceu os rios Turvo e dos Bois, entrou noParanaíba e, navegando-o águas acima, foi, depois de subir durante seis dias o rio dasVelhas, ter à povoação de Santa Ana, na província de Minas Gerais.7
Ultimamente, em fins de 1873, um juiz de direito, o dr. Aguiar Whitaker,explorou o rio Meia Ponte, que na ocasião pela extrema seca não dava navegação, masque, em tempo de cheias presta-se perfeitamente ao movimento de vapores. Entrou nomajestoso Paranaíba, subiu os rios dos Bois e Turvo, que dão ótimo trânsito emqualquer tempo e voltou ao Paranaíba, cujo curso sulcou a montante e a jusante. Diz ele:
Em nenhum ponto por onde passei deixa esse grande rio de dar fundo para uma nau, nem tãopouco o canal se estreita a menos de vinte braças. A não ser em alguns lugares sinuoso e rápido,fora de navegação franca e cômoda, circunstância, porém, que não impede de modo algum apassagem de embarcações menores e de fácil governo. Principalmente para cima pode-seestabelecer sem risco nem incômodo algum uma linha de vapores desde o canal S. Simão até acachoeira Dourada, 25 a 30 léguas.
7 Na época, o topônimo rio das Velhas era usado para diversos cursos d´água. Na região,designava tanto um afluente do Paranaíba como outro do rio Grande, ambos em Minas Gerais .
Só serão, contudo, devidamente auferidas todas as vantagens dessas largas viasde comunicação, depois de melhoradas e apropriadas ao comércio, quando uma estradade ferro tiver, como eu já disse, alcançado ou a barranca direita do rio Grande ou a vilade Santa Ana do Paranaíba.8
A linha fluvial do norte consta de dois gigantescos caudais, que, depois decolherem o tributo de inúmeros confluentes, vão em comum levar as águas ao Guajará,braço mais meridional do grandioso Amazonas.
Para o incremento do Norte da província de Goyaz, e reflexamente de toda ela,bastará a navegarão seguida e fácil de um só desses dois rios; mas a natureza, parecendopródiga em suas dádivas, salpicou-os ambos de tantas cachoeiras, itaipavas e penedias,que só a poder de muita constância e perícia podem ser aproveitados.
Apesar de tudo, tem sido essa navegação de todo o tempo considerada como umdos mais valiosos elementos da prosperidade da terra goiana e representa uma somaenorme de esforços feitos pelos homens que consagraram e consagram àquela belaprovíncia amor e interesse.
Afluente do Tocantins, nasce o Araguaia (ou Ara-raguaya), aos 19 graus delatitude S. na serra do Caiapó, corre mais de 200 léguas de S.S.O. a N.N.E. e antes deperder, talvez injustamente, o nome, absorve o contingente de 16 caudalosos rios e deum sem-número de tributários de menor importância.
O Tocantins, primitivamente chamado Paraopeba, e formado de três grandesramos – o Uru, o das Almas e o Maranhão – recebe, no seu curso de 370 léguas, ocabedal de 40 grossos feudatários, alguns dos quais imensos como o Paraná,9 o doSono, o Manoel Alves, etc.; toma por algum tempo direção quase paralela ao Araguaia;inclina-se depois como que a formar um ângulo agudo e afinal descreve um extensoarco de círculo, que vai findar no ponto de confluência, onde se levanta o presídio10 deS. João das Duas Barras.11
8 Atual cidade de Paranaíba, no Mato Grosso do Sul.
9 Trata-se na verdade do rio Paranã.
10 Nesta acepção designa sede de guarnição militar.
11 Atual São João do Araguaia, no Estado do Pará.
VIA navegação do Araguaia e do Tocantins.
Primeiras expedições fluviais. Esquisita pretensão de Castelnau
Deixando de lado a singular pretensão de Castelnau,12 que, por ter viajado o rioAraguaia no ano de 1844, como que chama a si as glórias de primeiro explorador, aponto de declará-lo à peu près inconnu13 e querer batizá-lo, vemos que sua navegação,com fins de buscar ouro ou catequizar indígenas, data dos tempos dos mais remotosdescobrimentos na zona central do Brasil.
Em 1669, Manoel Brandão e Gonçalo Paes, vindos do Pará, subiram o Tocantinse, vencendo os óbices da zona encachoeirada, entraram no Araguaia, cujo curso, porém,só foi conhecido até a ilha do Bananal, depois da viagem do capitão Diogo Pinto deGaya, em 1720.
Com vistas comerciais foi o Tocantins o primeiro navegado, pois em 1772 ogovernador de Goyaz, José de Almeida e Vasconcelos,14 incumbiu Antônio LuizTavares Lisboa de levar um carregamento de gêneros de permuta a Belém.
Concluída a arriscada empresa, viu-se Lisboa, contra suas esperanças,maltratado pelo governador do Grão-Pará, ficando-lhe terminantemente proibido voltarpor onde viera, o que o obrigou a passar para o Maranhão, donde por terra seguiu paraGoyaz.
Entretanto, só no ano de 1791 foi que Tomás de Souza Villa Real desceu, nogoverno de Tristão da Cunha e Menezes,15 o Araguaia, com destino a trocar na praça doPará alguns couros, e muitas arrobas de cristal de rocha.
Desta vez, porém, o fato pareceu de tal importância e tamanhas asconseqüências, que o governo português por carta régia de 1798 recomendou ao capitão
12 Francis Castelnau (1812-1880), naturalista francês. Viajou por Goiás entre fevereiro edezembro de 1844, autor de Expedition dans les parties centrales d l´Amérique du Sud, publicado emParis em 1850. Veja também bibliografia no final.
13 Em francês: meio desconhecido.
14 Governador da capitania de Goiás de 26 de junho de 1772 a 17 de maio de 1778.
15 Governador da capitania de Goiás de 27 de junho de 1783 a 25 de fevereiro de 1800.
general nomeado para Goyaz, d. João Manoel de Menezes,16 se dirigisse em pessoa pelorio Araguaia a tomar conta da administração em Vila Boa de Goyaz, o que na verdadefoi cumprido.
Apesar da expressa indicação real para favonearem-se aqueles ardidoscometimentos e de algumas tentativas feitas no sentido de ajudá-los eficazmente, quemprocurou dar verdadeiro impulso à navegação do Araguaia e Tocantins, desviando aindamais os povos do mister ingrato da mineração para incliná-los ao moralizador empenhodo lavramento das terras, foi sem dúvida alguma d. Francisco de Assis Mascarenhas,17
posteriormente Conde e Marquês de S. João da Palma.
Achando no desembargador Joaquim Teotônio Segurado,18 primeiro ouvidor dacomarca de S. João das Duas Barras, um auxiliar precioso, encarregou-o do promover oaproveitamento do rio Tocantins e voltou exclusivamente sua atenção para o Araguaia,em cujo vale enxergava auspicioso futuro.
Para realizar seus planos escreveu antes de tudo ao governador do Grão-Pará,pedindo-lhe auxílios e cooperação.
Não teve resposta, ou se a teve foi seca e desanimadora. Malgrado tal frieza,mais um empecilho aos tantos com que lutava; malgrado um naufrágio no rio do Peixeou Tesoura, que lhe ia custando a vida, não sentiu arrefecidos os impulsos do zelo, e, emmaio de 1806, conseguiu fazer partir do porto de Santa Rita uma monção de cincocanoas, a que se agregaram mais quatro pertencentes a particulares, tripuladas por 94pessoas, e levando um carregamento de 1.640 arrobas em açúcar, couros, algodão,quina, fumo e vários outros gêneros.
No ano seguinte, pela mesma época, novo comboio, com carga quase igual, foidespachado para o Pará, a cujo governador, d. Francisco, como prova do quantointeressava à população de todo o interior do Brasil o prosseguimento regular dessasexpedições, escreveu extensa carta, na qual se liam as seguintes linhas:
Esta capitania toda de Goyaz tem colocado única e exclusivamente as esperanças de seu futuromelhoramento na adoção dos planos oferecidos por mim ao ministério, porém unanimementeaprovados pelos interessados deles.
16 Governador da capitania de Goiás de 25 de fevereiro de 1800 a 27 de fevereiro de 1804.
17 Governador da capitania de Goiás de 27 de fevereiro de 1804 a 28 de novembro de 1809.
18 Autor de Memória econômica e política sobre o comércio ativo da capitania de Goyaz,
publicado na cidade de Goiás em 1806.
Em 1808 ainda saiu outra esquadrilha, mas já com muito menor carregamento, e,o que mais triste era, levando em seu seio o desânimo e o receio. Os riscos danavegação eram avultados, exagerados ainda mais pelos tímidos e descontentes; ascachoeiras extensas; as itaipavas contínuas; as febres mortíferas e as margens numaextensão de mais de 300 léguas completamente desertas ou antes cheias de traições eocultos perigos, pois não raro se transformavam os selvagens, de índole emborapacífica, em denodados defensores da ínvia região para onde haviam sido rechaçados.
Além disto nenhuma das risonhas e um tanto precipitadas previsões de d.
Francisco se tinha realizado. Como dantes continuaram despovoadas as vizinhanças dogrande rio; ninguém as procurou para fixar residência; nenhum núcleo de populaçãocorajosa e trabalhadora se formou, ficando sem execução as bondosas promessas dacarta régia de 7 de janeiro de 1806, a custo alcançada, que por dez anos isentava detodos os dízimos a quantos fossem organizar lavoura nas margens do Tocantins,Maranhão e Araguaia.
Também a 26 de novembro de 1809, de Goyaz partia d. Francisco de AssisMascarenhas para tomar as rédeas do governo de Minas Gerais, e a navegação doAraguaia, que jubilosamente sobressaltara o coração dos goianos, caiu novamente nocírculo das grandes empresas tão ambicionadas quão difíceis de ser realizadas.
VIIAinda a navegação do Araguaia.
Reforma dos hábitos das populações
E o que fizeram os sucessores de d. Francisco? – pergunta Alencastre na suahistória da província de Goyaz.19
Quase nada, para destruir os preconceitos populares, para prosseguir com coragem na obra tãobem começada, e dar-lhe o último remate: o que estava feito, desapareceu. O governo matou anavegação do Araguaia, condenando-a por impossível; o povo repetiu o anátema, e os selvagens,mansos e pacíficos nas suas aldeias, nunca mais viram nessas águas descer as canoas dosousados aventureiros carregadas de mercadorias, nunca mais foram perturbados em seu tranqüilorepouso.
19 Veja bibliografia no final.
A censura não cabe a quem a faz, pois José Martins Pereira de Alencastre,quando presidente da província de Goyaz,20 voltou, durante o proveitoso período de suacurta administração, as vistas para o Araguaia e Tocantins, devendo-se às suasperseverantes reclamações o restabelecimento do presídio de Santa Maria,21 cujadestruição importara o total abandono da navegação para o Pará.
A quem cabe, porém, a glória incontestada de ter completado a obra de d.
Francisco, conseguindo mais do que ele, mais do que ninguém, é ao dr. José VieiraCouto de Magalhães, um dos nomes mais justamente conhecidos e populares não só nointerior do país, como em todo o Brasil.
Tomando a navegação do Araguaia, desde os dias de sua presidência (1863-1864)22 em Goyaz, para motivo de constante e verdadeiro apostolado: arriscando porvezes a vida nos inúmeros parcéis dos dois grandes rios; viajando de contínuo e semprea estudar, ora as raças aborígines, seus costumes, índole, tradições, ora os meios maiscertos de desenvolver a grande zona central deste Império; fazendo entusiásticapropaganda já na Corte, já no fundo dos sertões, teve por fim a felicidade de vercoroados tantos esforços, tanta dedicação e fadiga pelo decreto legislativo de 20 deagosto de 1870, que autorizou o governo para mandar estudar a região encachoeirada doAraguaia e Tocantins e abrir estradas marginais, auxílio poderoso à navegação a vaporque, apenas estabelecida, foi subvencionada com a quantia anual de 73:000$000, dosquais 40:000$000 fornecidos até 30 anos, pelo cofre geral, sendo o resto preenchidopelos do Pará e Goyaz.
Esta província, ao receber tão assinalado beneficio, cuidou chegada a hora daressurreição. O porto de Leopoldina,23 sito na confluência do Araguaia e do rioVermelho e a 29 léguas da capital, manifestou vivo incremento; os presídios todos, deItacaiúnas, Monte Alegre, Santa Maria, S. José dos Martírios e S. João das Duas Barras,estabelecidos à margem do grande rio, só reanimaram; a catequese tomou impulso novo,e a vida como que se infundiu naqueles inanimados desertos.
Ainda porém desta feita os resultados ficaram muito aquém da expectação.
20 Entre 21 de abril de 1861 e 26 de junho de 1862.
21 Atual Araguacema, no Estado do Tocantins.
22 Couto Magalhães foi presidente da província de 8 de janeiro de 1863 a 5 de abril de 1864. Éautor de Viagem ao Araguaia, publicado na cidade de Goiás em 1863. Veja também bibliografia no final.
23 Atual Aruanã.
Embora fosse o silvo dos vapores acordar os ecos daquelas impenetráveis solidões, tãodifíceis de serem devassadas, embora lutasse pertinazmente o dr. Couto de Magalhães,escassearam as viagens; as sezões assolaram tudo; apagou-se o curto entusiasmo; oscarregamentos faltaram e, mal encetada a carreira comercial entre Goyaz e Pará, ficouela interrompida por mais de três anos.
É o que nos diz o último relatório do atual presidente, o dr. Antero Cícero deAssis,24 o qual, tendo necessidade de formar um comboio para o Pará, viu-se em sériasdificuldades para achar quem o dirigisse, conseguindo a custo fazer partir, a 29 demarço de 1875, diminuta esquadrilha que, além de cargas do governo e passageiros,levava 28 animais muares, 400 couros de boi e 650 arrobas de cristal de rocha.
Sem dúvida alguma a navegação do Araguaia é um grande passo, mas ao mesmotempo medida parcial e que não se prende a um sistema bem travado de indispensáveisprovidências. No estado de completo abandono em que jaz a imensa bacia daquelecaudal, no pé desordenado dos presídios militares que são núcleos de vícios edesmandos e nunca centros de onde possa irradiar população amiga do trabalho,cumpriria concomitantemente tratar de colonizar o ubérrimo vale, de atrair gente eprendê-la à terra.
A linha do Alto Tocantins, seguida, se não ativamente, pelo menos quase seminterrupção, desde que foi explorada, por iniciativa particular e sem auxílios nemmelhoramentos, essa linha que tende a desenvolver-se apesar de muito mais penosapelas cachoeiras e itaipavas, além de escassez de pescado, é prova evidente de que,apenas se congregue alguma população na bacia do Araguaia, serão derrocados todos ostropeços e devidamente utilizadas as facilidades que oferece em seu longo curso.
De importação estrangeira não se formarão decerto os pontos coloniais.
Será preciso reunir com jeito e persistência, dirigir e educar com firmeza ebenevolência, a gente esparsa, inativa, indolente, que é uma das pragas do interior doBrasil e de Goyaz; essa gente que, como diz Cunha Matos, tem os paióis debaixo dacama, que é numerosa, superior a todo cômputo. Será preciso ativar a catequese,aproveitando a brandura natural dos índios e ensinando-lhes outros hábitos deexistência, e, antes de tudo, reformar a organização das colônias militares, conservandoaspara segurança da vida e bens dos raros que já por lá se acham e dos muitos quetalvez forem se estabelecer, mas modificando radical e salutarmente o plano que as
24 Presidente da província de Goiás de 25 de abril de 1871 a 25 de junho de 1878.
criou, e cortando de raiz as conseqüências perniciosas que gradualmente se originaramdo isolamento e da impunidade.