Acasto.
- Não pode ela falar?
Osvaldo
- Se falar é tão-somente fazer ouvir sons por meio da língua e dos lábios. e aquela criatura muda; mas se tão maravilhosa faculdade consiste também em tornar compreensíveis os menores pensamentos por acionados e expressivos gestos, pode dizer-se que ela a possui, pois seus olhos cheios de eloqüência têm uma linguagem inteligível, embora falha de sons de palavras.
(Antiga Comédia Inglesa citada por Walter Scott).
Deixamos Inocência tão abatida de corpo, quanto resoluta de espírito.
Pressentia os choques que tinha de suportar, e robustecia a alma na meditação continua e firme de sua infelicidade.
Estava de joelhos diante da imagem de Nossa Senhora, quando a voz de seu pai a fez levantar.
-Nocência! chamava ele.
Rapidamente passou a pobrezinha a mão pelo rosto para apagar os vestígios de copioso pranto, e com passo quase seguro penetrou na sala.
Estavam Pereira e Manecão sentados junto à mesa. O anãozinho Tico aquecia-se aos pálidos raios de um Sol meio encoberto e, sentado à soleira da porta, brincava com umas palhinhas.
-Estou aqui, papai, disse Inocência em voz alta e um pouco trêmula.
Encarou-a Manecão com ar entre sombrio e apaixonado.
Julgou dever dizer alguma coisa.
-Até que afinal a dona saiu do ninho... E que hoje o dia está de sol, não é?
A moça nada lhe respondeu; fitou-o com tanta insistência que o fez abaixar os olhos.
-Ela esteve doente, desculpou Pereira.
E voltando-se para a filha:
-Sente-se aqui bem perto de nós... O Manecão quer conversar com você em negócios particulares.
- Bem percebe ela, observou o desazado noivo intentando abrir o motivo para risos.
Inocência replicou em tom incisivo:
-Não percebo.
-Está se... fazendo de... engraçada, balbuciou Manecão. Pois já... se esqueceu... do que tratei com seu pai?... Parece que comeu muito queijo.
Com a mesma entoação e cortando-lhe a palavra retorquiu ela:
-Não me lembro.
Houve uns minutos de silencio.
Acumulava-se a cólera no peito de Pereira; seus olhares irados Iam rápidos de Manecão à imprudente filha.
-Pois, se você não se lembra, disse ele de repente, eu cá não sou tão esquecido,
-Ora, recomeçou Manecão levantando-se e vindo recostar-se à beira da mesa para ficar mais chegado à moça, faz-se de enjoada a toa... o nosso casamento...
-Seu casamento? perguntou Inocência fingindo espanto.
-Sim...
-Mas com quem?
-Ué, exclamou Manecão, com quem há de ser... Com mecê...
Pereira fora-se tornando lívido de raiva.
O anão acompanhava toda essa cena com muita atenção Cintilavam seus olhinhos como diamantes pretos; seu corpo raquítico estremecia de impaciência e susto.
A resposta de Manecão, levantou-se rápida Inocência e, como que acastelando-se por detrás da sua cadeira, exclamou:
-Eu? .. Casar com o senhor?! Antes uma boa morte!... Não quero... não quero... Nunca... Nunca...
Manecão bambaleou.
Pereira quis por-se de pé, mas por instantes não pôde.
-Está doida, balbuciou, está doida.
E, segurando-se à mesa, ergueu-se terrível.
-Então, você não quer? perguntou com os queixos a bater de raiva.
-Não, disse a moça com desespero, quero antes...
Não pode terminar.
O pai agarrara-a pela mão, obrigando-a a curvar-se toda.
Depois, com violento empurrão, arrojou-a longe, de encontro à parede.
Caiu a infeliz com abafado gemido e ficou estendida por terra amparando o peito com as mãos. Mortal palidez cobria-lhe as faces e de ligeira brecha que se abrira na testa deslizavam gotas de sangue
Ia Pereira precipitar-se sobre ela como para esmagá-la debaixo dos pés, mas parou de repente e, levando as mãos ao rosto, ocultou as lágrimas que dos olhos lhe saltavam a flux.
Manecão não fizera o menor gesto. Extático assistira a toda essa dolorosa cena. A fisionomia estava impassível, mas, por dentro, seu coração era um vulcão.
Lúgubre silencio reinou por algum tempo naquela sala.
O anão chegara-se a Inocência, tomando-lhe uma das mãos: depois, a fizera sentar e, no meio de carinhos, mostrara-lhe por sinais a necessidade de retirar-se.
A custo pôde ela seguir aquele conselho. Quase de rastos e ajudada por Tico é que saiu da presença do pai e de seu perseguidor.
Nenhum movimento fizeram os dois para retê-la. Calados como estavam, deixaram-se ficar de pé, um ao lado do outro, ambos acabrunhados pela grandeza daquela desgraça.
Com frenesi cofiava Manecão o basto bigode.
Pereira tinha a cabeça pendida sobre o peito.
Afinal, exclamou:
-É preciso que eu desembuche o que tenho cá dentro, senão estouro .. Quem for homem que seja... Manecão, Nocência para nós está perdida... para nós, porque um homem lhe deitou um mau-olhado . . .
-E que homem é esse? perguntou em tom surdo e ameaçador o outro.
-Agora vejo como tudo foi... Eu mesmo meti o diabo em casa... Estive alerta... mas o mal já caminhava.
-Mas, quem é ele? tornou a perguntar com impaciência Manecão.
-Um maldito! um infame, um estrangeiro que aqui esteve... Roubou-me o sossego que Deus me deu...
Contou então às pressas Pereira todas as tentativas do alemão Meyer, tentativas que haviam sido descobertas, mas que infelizmente, pelo menos assim supunha, já haviam produzido os seus danosos frutos.
-Ah! disse por fim abaixando a voz, pensou aquele cachorro que tudo era namorar mulheres e depois dar com os pés em polvorosa, não é?... Amanhã mesmo eu lhe saio no rasto.
-Para quê? interrompeu Manecão.
-Respondam os urubus...
-Para matá-lo?
-Sim...
Houve breve pausa.
-Não será, o senhor, disse o capataz, que lhe há de dar cabo da pele.
-Por quê?
-É negócio que me pertence. O senhor é pai.,. eu porem sou.,. noivo. Mangaram com os dois... mas o alamão fica no chão.
-Pois seja, concordou Pereira, parta amanhã mesmo ou hoje... agora, se possível for. Cão danado deve logo ser morto, para que a baba não dê raiva. Vá depressa e venha contar-me que aquele homem já não existe... Como velho, como pai... abençôo a mão que o há de matar. Cala o sangue que correr... sobre os meus cabelos brancos . . .
Havia toda esta conversa sido atentamente ouvida por alguém: o anão Tico.
Viera a pouco e pouco aproximando-se da mesa com os olhos a fulgir.
De repente, colocou-se resolutamente entre Manecão e Pereira.
-Que quer você aqui? perguntou o mineiro com aspereza.
Começou então o homúnculo a explicar por gestos vagarosos, mas muito expressivos, que de tudo estava ciente, participando de todos os projetos e do mesmo sentimento de indignação e desespero que enchia os dois ofendidos.
Depois, apressando mais a gesticulação e por sons meio articulados, fez ver que Pereira laborava em engano, tão-somente quanto a pessoa.
Com multa propriedade de imitação e perfeita mímica, ora levantando o braço para caracterizar as fisionomias, tão exatamente representou Meyer e Cirino, que o mineiro logo os reconheceu.
-Bem sei, bem sei, Tico, murmurou ele. Você fala do doutor e daquele...
Ai o anão fez um gesto de negação e, apontando para o quarto de Inocência, indicou que nada tinha ela com o alemão.
Ficaram pasmos os dois.
- Então, balbuciou Pereira, quem será?... Ci...rino, meu Deus?!
-Sim... Sim! gritou o anão com violento esforço abaixando muitas vezes a cabeça.
-Qual! protestou Pereira, o doutor?...
Com muita habilidade e segurança Tico desenvolveu as provas que tinha.
Gesticulou como um possesso; correu para fora de casa; denunciou as entrevistas; reproduziu ao vivo todas as passadas de Cirino; mostrou o lugar do laranjal donde vira tudo, o galho quebrado em razão da sua queda; repetiu o grito que dera; lembrou a cena da madrugada, findando com aqueles tiros; exprimiu-se por sinais tão adequados e tais movimentos de cabeça e fisionomia, que toda a dúvida desapareceu do espírito de Pereira.
Então tudo se lhe descortinou claro e deslumbrante, e sua cólera subiu a um grau de violência inexprimível.
Esteve a cair fulminado.
-Infame, murmurou roxo de ira, tu me pagas!
-Infame... Infame!
Depois voltando-se para Manecão:
-Dê-me esse... eu o quero...
Abanou o capataz a cabeça.
- Não, respondeu surdamente. Esse me pertence... Caçoou com o senhor... e fez de mim chacota.
-Então, disse apressadamente Pereira, parta hoje... parta já . E quando voltar, diga só: estamos desagravados... Inocência será sua...
Parando um pouco. concluiu tomado de enleio:
-Se quiser aceitá-la.
-Havemos de conversar,
Teve o mineiro uma explosão de desespero
-Meu Deus, exclamou com dor, em que mundo vivemos nos? Um homem entra na minha casa, come do que eu como, dorme debaixo do meu teto, bebe da água que carrego da fonte, esse homem chega aqui e, de uma morada de paz e de honra, faz um lugar de desordem e vergonha! Não, mil raios me partam!... Não quero mais saberque esse miserável respire o ar que respiro. Não! mil vezes, não! E desde já enxoto a canalhada que trouxe, gente do inferno como ele! . . . Hei de cuspir-lhes na cara. . . Pinchá-los fora como cães que são!... Ladrões! .. Eu... Interrompeu-o Manecão com calma:
-Não faça nada... E preciso que ninguém saiba do que se está passando aqui... Ninguém!... percebe?
-E então?
-Faça de conta que recebeu uma letra de Sant'Ana. O cujo foi quem a mandou, para que os camaradas o vão esperar no Leal... Ouviu?
Pereira fez sinal de tudo compreender.
-Depois, acrescentou Manecão com voz sinistra, mãos a obra.
-Você diz bem, retorquiu Pereira, tenha pena de mim... Estou com esta cabeça corno um cortiço de guaxupés... E um zumbido!... Mostre que já é dono desta casa e faça como entender... Entrego-me de pés e mãos atados a você... Tudo lhe pertence... Enquanto a honra do mineiro não for desafrontada .. não levanto o rosto... Meu Deus, meu Deus, que vergonha! .
-Coragem, coragem, aconselhou o outro.
-Se este socavão não chegar para esconder minhas misérias... mudo-me para as bandas do Apa... Parece que vou morrer... sinto fogo dentro da cabeça...
E, vencido pela emoção, encostou a testa à mesa, deixando cair os braços.
Bateu-lhe Manecão no ombro.
-Que é isso, meu pai? animo! De que serve ser homem?... Olhe cara a cara a sua desgraça... que também é minha. Não o consola a certeza de que aquele homem brevemente...
-Sim, replicou Pereira levantando a cabeça e reparando que o anão se retirara, mas que faremos deste tico de gente, que sabe tudo ?
-Não o deixe sair mais de casa.
-Qual!... É que nem muçu. Quando a gente mal pensa, surge no Sucuriú e até no Corredor.
-Pois bem... Ficará sabendo que... um só piscar de olho... pode sair-lhe caro... muito caro.
-Então implorou Pereira, vá quanto antes limpar o meu paiol daquela gente vá... Se eu pudesse ainda dormir... esquecia um pouco, mas .
Com estas palavras retirou-se a custo o mineiro.
Incontinenti foi Manecão despachar os camaradas de Cirino, os quais, pouco depois saiam com destino à casa do Leal.
Em seguida, montando o tropeiro a cavalo, partiu em carreira desapoderada para a Vila de Sant'Ana do Paranaíba, onde chegou alta noite.
Estão contados os grãos de areia que compõem a minha vide. É aqui que devo tombar. É aqui que ela há de acabar.
(Shakespeare, Henrique V, Ato 1)
Eis que vi um cavalo amarelo, e quem o montava, era a morte.
(São João Apocalipse)
Durante três dias, foi Cirino rigorosamente espreitado pelo noivo de Inocência.
Com a cautela própria dos seus hábitos esquivos, soube Manecão acompanhar-lhe todos os passos sem ser pressentido.
Assim notou que o rival montava a cavalo e ia até certo ponto da estrada como que esperar por alguém que não chegava. Na ida, mostrava impaciência e inquietação; na volta vinha melancólico e curvado sobre si mesmo, absorto em fundo meditar.
Ia o infeliz mancebo ao encontro de Cesário; mas este não aparecia.
Estava quase expirado o prazo combinado, e prestes a soar a hora do completo desengano.
Oh! se ele pudera!... Agarraria com forças de Josué esse Sol que lhe marcava os dias e o deixaria imóvel, até que o seu salvador se resolvesse a estender-lhe a mão.
E já ia findando a semana!...
Completo o círculo de horas, se Cesário não aparecesse, começava a imperar o juramento que dera, irrevogável, implacável!
-Matar-me-ei, dizia Cirino; ficarão sabendo que não menti às minhas palavras.
Nessa firme resolução saiu da vila; passou o Rio Paranaíba e, como costumava, caminhou pela estrada de São Francisco de Sales, talvez três léguas. Contava pousar por aqueles sítios de modo que alongava o seu passeio.
Claro era o dia; lindo:
Por toda parte cantavam mil pássaros. Gritavam as gralhas nos cerrados; piavam as perdizes no relvoso chão.
Cirino ia multo agitado. Nada ouvia; os seus olhos, fitos sempre na frente, buscavam na estrada, ansiosos, o vulto de um cavaleiro.
Soou-lhe de repente aos ouvidos o tropel de um animal.
Alguém vinha a galope.
Seu coração pulsou que parecia ter entrado também a galopar.
Mas o som partia de detrás.
Sem dúvida, algum viajante vindo da vila.
Continuou Cirino na vagarosa marcha.
O estrupido vinha indicando carreira folgada e que breve consigo estaria emparelhando, quem extravagantemente em hora tão imprópria corria à desfilada.
O mancebo de nada cuidava, tanto que mal reparou que alguém a trote largo passara por perto de si, quase a rogar animal contra animal.
Dali a pouco, novo galope se fez ouvir.
Parecia que o mesmo cavaleiro havia dado de rédeas, cortando o rumo que levava.
Dessa vez, porém, Cirino acordou do letargo, esporeou vigorosamente a sua cavalgadura e... esbarrou com Manecão.
Instintivamente empalideceu. O outro estava também muito descorado.
Estacaram eles os animais e fitaram-se alguns minutos, de um lado com desconfiança e pasmo, de outro com mal concentrado furor.
-Patrício, interpelou por fim o capataz em tom provocador, que faz mecê por aqui?
-Eu? perguntou Cirino.
-Nhor-sim, mecê mesmo.
-É boa... viajo.
-Ah! viaja! replicou Manecão. Então é andejo?
-Andejo, não, contestou Cirino com força. Não sou nenhum bruto.
E por prevenção levantou a capa do coldre em que havia uma pistola, fazendo menção de a sacar.
-Não será andejo, continuou o capataz, mas então o que é?
-Sou o que sou, não é da sua conta.
Contraiu-se o rosto de Manecão.
De um tranco chegou o cavalo bem junto a Cirino e disse-lhe em voz surda:
-É um ladrão... é um cachorro! .
A esse insulto, puxou Cirino a pistola.
-Mato-o já, bradou com violência se continua a destratar-me.
Sorriu-se o capataz com desprezo.
-Gentes, observou cuspindo para um lado, vejam só que valentão... E sabe manejar garrucha!...
-Acabemos com isso, gritou Cirino.
-Acabemos, retorquiu Manecão com fingida calma.
-Mas quem é o Sr.? perguntou Cirino.
-Eu?
-Sim!... sim!...
-Então não me conhece?
-Não, balbuciou Cirino.
-Conhece Nocência? uivou Manecão com voz terrível
E de supetão tirando uma garrucha da cintura, desfechou-a à queima-roupa em Cirino.
Varou a bala o corpo do infeliz e o fez baquear por terra.
Dois gritos estrugiram.
Um de agonia, outro de triunfo.
Ficara Cirino estendido de bruços. Reunindo as forças, que se lhe escapavam com o sangue, voltou-se de costas e prorrompeu em vociferações contra o inimigo, que o contemplava sardônico.
-Matador!. vil! .. sim! .. conheço Inocência... Ela é minha .. Infame! .. Mataste-me... mas mataste também a ela!... Que te fiz eu?... Deus te há de amaldiçoar... sim, meu Deus, meus Santos .. maldição sobre este assassino... Foge, foge... minha sombra há de seguir-te sempre...
-Melhor, interrompeu Manecão do alto do cavalo, isso mesmo é 0 que eu quero.
-Ah! queres? continuou Cirino com voz rouquejante, não é?... Pois bem!... De noite e de dia... minha alma há de estar contigo . . sempre, sempre! . . .
Calou-se por um pouco e, revolvendo-se no chão, passou a mão pela testa. Lentejava-lhe dos poros o suor frio e visguento da morte.
Foi seu rosto abandonando a expressão de rancor; a respiração tornou-se-lhe mais difícil
-Não murmurou com pausa e gravidade, não quero morrer... assim. Devo sair desta vida... como cristão... Hei de saber perdoar... E reunindo as forças, acrescentou com unção e energia: Manecão... eu te perdôo... por Cristo... que morreu... na cruz, para nos salvar... eu te perdôo Nosso Senhor tenha pena de ti... Eu te perdôo, ouviste?
A medida que o moribundo pronunciava estas palavras, esbugalhara Manecão os olhos de horror com o corpo todo a tremer.
-Não quero o teu perdão, bradou ele a custo.
-Não importa, respondeu-lhe Cirino com voz suave. Ele é... dado do fundo d'alma... Cata sobre tua cabeça...
Quero, quero morrer como cristão... Que me importa agora o mundo, a vingança... tudo?... só Inocência!... Coitada de Inocência... Quem sabe... se... ela... não morrerá? Manecão, dá-me água. Água pelo amor de Deus! . . . Desce do cavalo, homem. . . É um defunto que te pede... Desce!...
E com os braços erguidos acenava para Manecão.
-Água, bradou o mancebo forcejando por levantar-se, dá-me água... eu te dou a salvação...
Sentia o capataz escorrer-lhe o suor dentre os cabelos. Queria fugir e não podia. Parecia que os seus olhos tinham de acompanhar passo a passo a agonia da sua vitima. Aquela cena, se lhe afigurava um pesadelo, e completo torpor lhe tolhia os membros.
Tirou-o desse enleio o bater das patas de um animal que vinha pela estrada a trote.
Ouvira também Cirino o estrupido e arregalara com ansiedade os olhos.
Desabrochou-lhe nos lábios um sorriso de acre tristeza.
Alguém vinha chegando.
Esporeou Manecão com vigor o cavalo e, levantando uma nuvem de poeira, desapareceu num abrir e fechar de olhos.
Nisto assomava um cavaleiro numa das voltas do caminho.
Era Antônio Cesário.
Vendo um homem estirado por terra apressou o passo.
- O doutor?! exclamou apeando-se rapidamente e todo horrorizado.
-Eu mesmo, respondeu Cirino com voz fraca.
-Mas, quem lhe fez este dano, santo Deus?
E correndo para o moço ajoelhou-se junto dele e levantou-lhe o corpo.
-Quem foi o assassino?
-Ninguém, rouquejou o mísero, foi... destino... Morro contente... Dê-me água .. e fale-me de Inocência...
-Água? exclamou Cesário com desespero, aqui no meio do cerrado?... O córrego fica a três léguas pelo menos...
-Ah! replicou Cirino meio desvairado, se não há... com que estancar a sede do corpo... estanque a... da alma... Inocência... onde esta? quero vê-la... Diga-lhe que morri... por causa dela...
-Mas, quem o matou? bradou o mineiro.
-Não vale a pena dizê-lo, respondeu o mancebo entre gemidos. Cuide agora... só de mim... Olhe nunca fui mau... não tenho pecados .. grandes... Acha que Deus me... há de perdoar?
- Acho, respondeu Cesário com força ..
-Que fiz eu... na minha vida? Talvez... enganasse os outros... dizendo que era .. médico... Mas também curei alguns . De nada mais me recordo . . . Ah! sim . . . uma divida de honra . . . Na minha carteira... há uns seiscentos mil-réis; pague... trezentos -ao Totó Siqueira, da vila; de... cinqüenta mil-réis. a cada camarada... meu... o mais... distribua.. todo... pelos pobres, sobretudo... morféticos... depois das .. missas... que por mim... mandar... rezar... ouviu?... ouviu?
Fez o mineiro sinal que sim.
Vinha a morte desdobrando as suas sombras no rosto de Cirino. Ia-se-lhe empanando o brilho dos olhos; ficara a língua trôpega, afilara-se-lhe o nariz e sinistro palor mais realçava a negra cor dos seus cabelos e barbas.
Sentara-se Cesário no chão para segurar com mais jeito o corpo do moribundo. Duas lágrimas vinham-lhe sulcando as másculas faces.
Ligeiro estremecimento agitava o corpo de Cirino.
-Agora, acrescentou com voz muito sumida, chegou... o meu dia... Mas... eu lhe peço... nada diga... à sua afilhada... Não consinta... que case com... Manecão.
-Então, interrompeu Cesário, foi ele quem?...
-Não, não, contestou Cirino, mas... ela havia de ser... infeliz... Ouviu? Promete-me?
-Prometo, respondeu Cesário com firmeza. Juro até...
-Pois bem, suspirou o agonizante, agora... agradeço a morte. Quero apegar-me... às Santas do Paraíso... e chamo por...
E com esforço, no último alento, murmurou mais e mais baixo:
-Inocência!
Na tarde deste dia, o viajante que passasse por aquele sitio poderia ver uma cova coberta de fresco, sobre a qual se erguia uma cruz tosca feita de dois grossos paus amarrados com cipós.
Eram mostras da caridade do mineiro Antônio Cesário
Epílogo
Reaparece Meyer
Possuí-te do justo orgulho o coroem os louros de Apolo tua cabeça.
( Horácio ).
No dia 18 de agosto de 1863, presenciava a cidade de Magdeburgo pomposo espetáculo, há muito anunciado no mundo científico da sabia Germânia.
Era uma sessão extraordinária e solene da Sociedade Geral Entomológica, a qual chamava a postos não só todos os seus membros efetivos, honorários, correspondentes, como muitos convidados de ocasião, a fim de acolher e levar ao capitólio da glória um dos seus mais distintos filhos, um dos mais infatigáveis investigadores dos segredos da natureza, intrépido viajante, ausente da pátria desde anos e de volta da América Meridional, em cujas regiões centrais por tal forma se embrenhara, que impossível havia sido seguir-lhe o roteiro, até nos mapas e cartas especiais do grande colecionador Simão Schropp,
Revestira-se de mil galas a ciência. Todos os sócios de casaca preta, gravata e luvas brancas alguns com discursos nos bolsos, enchiam a sala das sessões muito antes da hora marcada; a orquestra executava a sonata nº 26 de Ludwig van Beethoven, e senhoras ostentavam toilettes ricas e de aprimorado gosto.
De repente atroou um grito:
-Vivat Meyer! Hurrah! Vivat! Hoch! Hoch!...
E, ao passo que todos os pescoços se estiravam para ver quem entrava sacudiam-se no ar com entusiasmo lenços e chapéus.
Acalmada a ruidosa manifestação, levantou-se o presidente da Sociedade Entomológica, um presidente magro como um espeto e ornamentado de ruiva cabeleira que lhe dava o aspecto de um projeto de incêndio.
-Sim! exclamou ele depois de ter bebido uns goles d'água açucarada e de haver preparado a garganta; eis enfim, aqui, no meio de nós, o grande, o vencedor, o incomparável Guilherme Tembel Meyer! . . .
E neste gosto falou duas horas seguidas
No dia seguinte, traziam as gazetas de Magdeburgo extensa relação da festa, transcreviam o discurso do presidente e, como apêndice às notas biográficas relativas a Meyer, enumeravam os prodígios entomológicos que havia recolhido em suas dilatadas peregrinações.
"O que há de mais digno de admiração, dizia O Tempo (Die Zeit), em toda a imensa e preciosíssima coleção trazida pelo Dr. Meyer das suas viagens, é sem contestação uma borboleta, gênero completamente novo e de esplendor acima de qualquer concepção. É a Papilo Innocentia... (Seguia-se uma descrição de minuciosidade perfeitamente germânica).
"O nome, acrescentava a folha, dado pelo eminente naturalista àquele soberbo espécime foi graciosa homenagem à beleza de uma donzela (Mädchen) dos desertos da Província de Mato Grosso (Brasil), criatura, segundo conta o Dr. Meyer, de fascinadora formosura. Vê-se, pois, que também os sábios possuem coração tangível e podem por vezes, usar da ciência como meio de demonstrar impressões sentimentais de que muitos não os julgam suscetíveis."
* * *
Inocência, coitadinha...
Exatamente nesse dia fazia dois anos que o seu gentil corpo fora entregue a terra, no imenso sertão de Sant'Ana do Paranaíba, para ai dormir o sono da eternidade.
Fonte: www.bibvirt.futuro.usp.br