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No Declínio

Visconde de Taunay

I

Chamava-se Lucinda – Lucinda Mendes Soares – vestida sempre muito elegante, sem cores vivas em exageros, e arvorando um lutozinho aliviado, que se resumia com muita discrição nos laços e enfeites de leve arroxeados do corpete ou nas plumas e flores ligeiramente violáceas do chapéu.

De longos anos viúva, rica e formosa, ninguém lhe podia imputar a mínima imprudência ou decaída, qualquer incidente menos correto que desse azo a censuras e até a simples reparos.

Impossível! Murmuravam entre si os eternos maldizentes, quando muito, será mais jeitosa, mais segredista que as outras.

Virtudes... neste fim de século... e no gozo de absoluta liberdade... um milagre, um absurdo! E, de mais a mais, nada devota, propensa sequer à igreja... Nem constava que o marido lhe houvesse merecido lá muito... tivesse sido algum prodígio ou ídolo, credor de altares e sacrifícios póstumos... Depois, quanto tempo não fazia, que essa figura incolor se afundara na eternidade, carregando para o outro mundo a sua nulidade e os seus contínuos bocejos?! Então... não estava tudo bem claro? Comentavam os menos ferinos, que tudo afinal era possível.

Que idade, porém, teria essa viúva tão interessante, de rosto morno, corado, tez lisa sem uma rugazinha, olhos cintilantes, pestanudos, bem talhados e fascinadores em sua constante serenidade, isentos, nos cantos, dos mais sutis vincos, boca purpurina, dentes esplendidos, cabelos negros com um ou outro impertinente fio de prata, cintura fina, nadar garboso e firme, porte altivo – e tudo com encantador perfume de tanta sisudez? Por mais cedo que tivesse casado, contaria 16 anos... pusessem 15, muito bem... mas isso em 1870... estava na lembrança de todos... Tivesse, portanto, ela a santa paciência: passava já dos 40.

Pois, deveras, não parecia.

Via-se perfeitamente nos eu todo a mulher calma, metida consigo, sem filhos, bem equilibrada... Além do bom dote que levara, fora herdeira universal do marido.

Com o quê o tio ramos, o forreta (que miserável, esse Ramos!) dera formidável cavaco, tanto assim que se dispensara de ir ao enterro do pobre sobrinho... Sim, senhor, uma viúva de truz, um modelo, fruta rara na espécie entre tantas coitadinhas, estonteadas, sujeitas, aliás, a mil seduções e perigos numa sociedade maldosa, sem piedade nem entranhas, ávida de escândalos para os quais concorre o que depois profliga com fingida indignação.

E nesse gosto falavam horas e horas.

Era, com efeito, Lucinda Soares, pouco mais ou menos, aquilo que dela diziam os bisbilhoteiros inclinados a certa condescendência.

Desposara, muito jovem, um tal Ramos Soares, rapaz rico, fundamentalmente insignificante, nem peixe nem carne, sem vícios, mas igualmente sem valia, sem animação e estímulos, incapaz até de qualquer esforço para sair do estreito círculo de idéias e de hábitos em que desde menino girara como um caxinguelê na sua gaiola rotatória.

Amigo de vestir bem, com apuro britânico – mandava vir tudo da alfaiataria Cool and Brother, de Londres – não sabia ao certo se a existência era coisa alegre e divertida ou triste e enfadonha, risonho favor da sorte ou carrancudo gravame.

Gostava razoavelmente da Europa, isto é, da Praça da Concórdia, dos campos Elíseos e boulevards de Paris; mas, também, sentia pronunciado fraco pela rua do Ouvidor, afeiçoado aos pontos de parada habituais que adotara, o Farani, o Bernardo das perfumarias e bibelôs, hoje Casa postal, salvo erro, - o Arthur Napoleão, onde costumava puxar uma cadeira e ficar uma ou duas horas sentado, a ver distraidamente passar gente e a fumar um legítimo Havana.

Apreciava, sobretudo, uma coisa: viagens de alto mar, transatlânticas, mas a bordo de paquetes ingleses, a “Royal Mail”, só ingleses.

Os únicos que lhe inspiravam confiança pela severidade de costumes e disciplina.

Aliás, mal arranhava a língua dos intrépidos e rigoristas marujos, filial da velha Albion.

- Eu deveria ter sido oficial de Marinha, costumava dizer à mulher num tom dolente e de vago cismar.

Nunca enjoei, nunca; ouviste, Lucinda? Pelo contrário, sempre bem disposto... nos dias de maior temporal, pois... apanhei-os muito sérios; por exemplo... na baía de Biscaia... E lá vinham umas histórias que o faziam bocejar a ele próprio que as contava.

Também, como a mulher jamais contestasse a possibilidade de tal vocação, do mesmo modo que qualquer outra afirmativa, a pouco e pouco se lhe metera na cabeça que errara a carreira... um desastre!... tudo, porém, sem desgostos retrospectivos, numa descorada meia tinta de mal definida displicência.

No mais sistemático como raros, nos atos da vida, por menores que fossem.

Ele mesmo, todas as manhãs, engraxava, melhor do que faria qualquer especialista italiano, as suas botinas; escovava a roupa; limpava-a com miudado zelo, revistavalhe os botões, a consolidar os que encontrasse meio vacilantes na obrigatória fixidez; trazia o fato todo e acessórios arrolados, catalogados, cada objeto em seu lugar constante, de maneira que sempre lhe ficasse à mão, num automático estender de braço.

Para tanto tinha tempo de sobra – toda a fortuna em apólices da dívida pública e bons prédios nas ruas de maior comércio, alugados por empenho e por semestres adiantados, além de luvas e outras vantagens, décimas e mais impostos pagos.

Metodizara todas as horas do dia sobre as quais de contínuo pairava aquela tênue tristura e preocupação de não haver seguido a profissão do mar – isso ninguém sabia por quê.

Casara-se, ou melhor, deixara que a mãe, quando assim julgou oportuno, o casasse.

Nem tivera nunca o menor motivo de arrependimento, pois, Lucinda, filha de boa família e muito ajuizada desde criança, foi, como se costuma dizer, luva para a sua mão.

Feiazinha, ao ser levada ao altar, tomara progressivamente carnes, arredondando as formas e caminhando para uma dessas expansões completas e eurrítmicas que, pela solidez e harmonia de todas as partes constitutivas do organismo, tiram proveito do decorrer dos anos e transmudam uma magricela em mulher perfeita e formosa.

Viveram os dois como bons e leais companheiros, na placidez de absoluto acordo de vistas, preferindo aos ostentosos bailes e brilhantes reuniões, onde ambos se aborreciam, o bom lírico nas noites de inverno e, no verão, os passeios por distantes arrabaldes, estada em confortáveis hotéis na Tijuca, em Palmeiras, Petrópolis ou Nova Friburgo, distrações pacatas, de razoável entretenimento.

Morrera-lhes a mãe e sogra, e aos dois lhes haviam servido de bem valioso lenitivo a solicitude e dedicação dos parentes e amigos.

Aliás, fora o enterro pomposo, com luzido séqüito de carros – cinqüenta e seis, eles mesmos os tinham contado por detrás dos postigos das janelas cerradas, cinqüenta e sete, pretendia ela.

E, meses depois, ainda nisso falavam, agitando aquela dúvida, enternecidos e com desvanecimento.

Após uma dessas palestras, mescladas de melancolia e vaidade, dissera, um dia, Ramos Soares à mulher: - E – sabes que mais? – preciso fazer o meu testamento.

- Deixa-te disso, protestou Lucinda meio assustada.

- Não, preciso; é questão de ordem e precaução na vida, já que não temos filhos.

E andou bem, porquanto, semanas depois, foi salteado de violenta febre, que zombou de todos os esforços e o levou inconsciente desta para melhor.

Quando muito, ouviram-no balbuciar em momentos de delírio: - Que pena!... tão bom... oficial... de Marinha! Legava à mulher todos os seus bens, uns duzentos e oitenta contos de réis, boa e sólida maquia, naquela época de câmbio a 24, pelo menos.

E ela, da sua parte, tinha de seu cento e vinte e cinco contos bem aplicados.

II

Foi o bom do Ramos Soares chorado, a princípio, convulsa e impetuosamente, depois com mais calma, ainda que sempre absoluta sinceridade.

O que, mais que tudo, agoniava Lucinda era ter ficado sozinha no mundo, sem o camarada de viagem pela existência, naqueles anos decorridos tão depressa.

- Que há de ser de mim? Perguntava ela, de instante a instante, a si mesma, tomada de susto.

Como cuidar dos meus dinheiros e negócios? O Roberto bem me explicou tudo; mas eu tenho a cabeça tonta, perdida!... Que me reserva a sorte? Que mudança, que reviravolta de todos os meus hábitos, tão doces e queridos! Isto é o que mais a pungia.

Coube-lhe, porém, naqueles penosos primeiros tempos de iniciação em vida nova, a felicidade de encontrar preciosíssimo auxiliar na pessoa do velho Policarpo Dias, um desses procuradores que não procuram para si, procurador único, talvez por ser de longa data amigo da família do defunto.

Foi-lhe a viúva seguindo os conscienciosos conselhos e depressa tomou pé na gerência, aliás, nada complicada dos seus haveres, porque, para frutificarem, bastava que neles ninguém mexesse.

E, à medida que Lucinda foi adquirindo conhecimento exato da sua fortuna, mais gosto achava em dirigi-la, advindo daí o grato sentimento da sua completa independência.

No fim do segundo semestre do falecimento de Ramos Soares, fora ela própria no seu bom landau, à Caixa de Amortização e aos bancos e companhias para receber juros e dividendos, cuidando, ainda mais, da cobrança de aluguéis das casas e terrenos que tinha lá para os lados do Engenho Velho e Andaraí Pequeno.

Entendia-se, por fim, diretamente com os inquilinos até de esfera inferior, e tanto sabia com eles lidar, que o Policarpo se sentia todo orgulhoso de tal discípula.

- Uma senhora de mão cheia, proclamava o velho entusiasmado.

Boa, generosa, eqüitativa; mas também, se a querem embaçar, zanga-se, bate o pé, puxa pelo seu direito.

É de força, a D. Lucinda! Quando o honrado procurador – pérola rara nos mares dos interesses forenses – por seu turno veio a morrer, estava ela já traquejada em todas as passadas que, no começo, tanto lhe haviam conturbado o espírito.

Sem consultar ninguém, mas não sem longamente meditar no caso e em todas as conseqüências, abalançou-se até uma operação financeira de vulto, cujo resultado a tornou sobremaneira ufana.

Aceitou a conversão Ruy Barbosa das suas apólices todas ao tipo 45 em ouro, recebeu os proventos a ele inerentes, nos áureos tempos da república e – o que mais ajuizado e rendoso fora – quando, pela descida do câmbio, viu a enorme alta daqueles títulos, vendeu-os sem hesitação e, com os lucros, os fez voltar ao primitivo empréstimo de 5% ao ano.

Neste entrementes, organizara o seu modo de viver com muita ponderação e acerto.

Comprou, na rua dos Voluntários da Pátria, espaçosa e elegante vivenda cercada de vasto terreno, e nela se estabeleceu com o maior conforto, quase luxo, e um pessoal doméstico restrito, mas com toda a confiança – casal de espanhóis que a serviam há anos, o marido jardineiro, a mulher cozinheira e muito entendida no seu ofício, e mais um copeiro, branco também, já avelhentado e pesadão, sério, porém, fiel, inteligente e sempre cerimonioso na compostura e no trajo.

Criada de quarto, não achara ainda a seu jeito; e isso a aborrecia bastante – uma das suas preocupações.

Nessa casa morava, sozinha e respeitada, Lucinda Soares, que tinha os seus dias ocupadíssimos, já no arranjo e direção internos, já no trato das suas mimosas e caras plantinhas, begônias, caladios, samambaias, e muitas variedades de lindíssimas orquídeas, com as quais formava grupos a todo o instante modificados.

Os mássicos de ardísias, azaléias, fúcsias e jurujubas do seu jardim chamavam as vistas de quantos transitavam por diante das grades e que admiravam também a beleza e o aveludado da relva, campo dos constantes desvelos do Sr. Benito Cardenas.

Gostava Lucinda de passar bem, com certo requinte de mesa.

Não raro, dava delicados jantares a parentes um tanto chegados, quase todos do lado do marido, e recebia muitas visitas de senhoras amigas, que retribuía à risca, mas sem precipitação.

Uma vez, até, abrira as suas salas para concorrida e animada soirée que, se provocou falatórios, foi no teor dos mexericos esboçados em começo desta verídica história.

Na quadra lírica, como era fanática por música, - e roçava regularmente piano, sem ligeireza na técnica, mas com muita expressão – alugava o seu bom camarote na ordem nobre e consigo levava umas primas do Soares, que acudiam sôfregas ao convite – uma delas, a Hercília, bem bonita, notável beleza até, filha daquele Ramos forreta que se mostrara tão despeitado na ocasião da morte do sobrinho, por causa o testamento.

E, Lucinda achava especial agrado em fazer valer os encantos daquela meiga e dócil menina, um tanto acanhada de modos e de espírito.

Impossível mais equilíbrio em todos os fatos da vida moral e material.

Tinha alma bem serena em corpo admiravelmente são.

Livre da ação intelectual do marido – verdadeiro éteignoir na frase francesa – embora a ele ainda presa por mil invisíveis fios, pois, conforme a sentença positivista, os mortos guiam os vivos, lia, todas as manhãs, com especial cuidado, vários jornais do dia, acompanhando, já o movimento político da situação, já as oscilações do câmbio.

Nem dava de mão ao romance estrangeiro do momento ou ao livro brasileiro que conseguia nomeada; tudo, porém, sem fogosidade nem arrebatamento.

As obras de unho naturalista demasiado flagrante causavam-lhe tédio, nojo; atirava-as, logo às primeiras páginas, para um canto, repelindo-as da sua estante de autores prediletos; aborrecia também, quase a par, as de feição piegas e açucarada, achando-as perigosas para as índoles fracas e irresolutas.

Era, por natureza, casta, avessa de todo a complicações sentimentais e misteriosos arrastamentos.

Desagradava-lhe tudo quanto se afastava da simplicidade e franqueza chã e sem refolhos.

Jamais pensava baixinho o que não pudesse dizer bem alto.

Para assim dizer, nunca observara o seu corpo; não lhe conhecia as intimidades, nem poderia asseverar ao certo se tal ou tal sinal, esta ou aquela pintazinha negra, aveludada, lhe marchetava a nuca, o ombro direito ou esquerdo.

Entrava no largo e amornado banho diário, derramando previamente nele um preparado perfumoso que opalizava a água, quebrando-lhe a transparência.

Do seu todo, só contemplava, e de contínuo, a cabeça, o rosto.

Achava-se bem parecida, bonita, e disso tirava prazer honesto, puro, tão somente para si, por sentimento estético, sem nenhuma faceirice.

Experimentaria fundo desgosto se se visse ao espelho feia, subordinada à ação do tempo, com a consciência de não poder mais agradar aos próprios olhos, numa decadência sensível, irrecusável.

Tratava muito dos cabelos, que sabia ajeitar com perfeição a todas as prescrições da volúvel moda, e particularmente lhe assentava o penteado à Cleo de Merode, com os lobulozinhos das orelhas apenas fora, pelo realce que dava ao rosto oblongo e de tipo angelical.

Cuidava também com especial carinho das unhas, que trazia sempre aparadinhas por causa do piano, mas brunidas, lustrosas, cor de rosa – um mimo! Dos tempos de casada, como que não lhe restavam vagas reminiscências, envolvido o passado numa névoa em que bailava um ou outro raio de luz, esta ou aquela impressão mais viva, certa noite do lírico, alguma paisagem notável, a estada no animado Petrópolis ou nas solidões da Bocaina e dos Campos do Jordão.

Afigurava-se-lhe, por vezes, que a sua existência fora sempre a mesma, como a do presente, e certas recordações, que depressa afastava, faziam-na enrubescer às ocultas, a lhe rememorarem coisas, senão pecaminosas e desagradáveis, pelo menos não muito de acordo com o que lhe ia no íntimo.

Se gostava de lembrar-se do marido, era somente na sua feição de bom camarada de viagens e passeios, no seu caráter de apoio social, na sua convivência polida e respeitosa, embora sempre convencional e monótona.

III

Na cuidadosa e pausada formação do seu modus vivendi, uma das maiores dificuldades, ou antes, um dos maiores e mais repetidos aborrecimentos de Lucinda Soares, foi o sítio à sua pessoa e a necessidade de defender-se com valentia de um sem número de apaixonados candidatos, não poucos dos quais, mais ousados, sem rebuço lhe pleiteavam a posse pour le mauvais motif – uns, presos, desde muito, nos férreos laços matrimoniais, outros desquitados e, portanto, à meia corrente ou então declaradamente noivos e quase em vésperas de trocar os anéis da recíproca submissão.

A todos soubera ela afastar ou de pronto repelir com a máxima calma e dignidade, tornando-se, por fim, perita na arte de dar a tábua, brasileirismo bem nosso, talvez curiosa corruptela da locução portuguesa mandar à tabúa.

Tinha uma maneira de olhar tão franca, tão plácida e frente a frente, que desnorteava os mais teimosos e amestrados em lidar com mulheres.

Quando preciso, lá vinha também uma frase, uma observaçãozinha adequada e de sentido nada dúbio, que punha fora do selim os mais destros cavaleiros; tudo, porém, sem alarde, altivez, nem ares de pundonor ofendido.

Não queria casar – era a resposta certa, infalível – pretendia não se casar mais.

Tão feliz havia sido com o marido, que receava ter de se arrepender de algum novo enlace.

Só pedia que a deixassem sossegada, não se intrometessem na vida modesta e retraída que adotara, mas que condizia perfeitamente com o seu gênio.

Algumas vezes, franzia o sobrolho, tão desanuviado quase sempre na sua bela curvatura – aliás, por pouco tempo, minutos quando muito – e indignava-se ao ter de rechaçar tentativas mais acentuadas, se não insultuosas; outras, porém – e era o caso mais comum – ria-se a achava certo sainete nas conferências declaratórias e para logo resolutivas.

Realmente dessas cenas de assalto várias foram bem cômicas.

Assim, por exemplo, o apoio dado a uma candidatura aceitável, e até lisonjeira, por um parente paulista, fazendeiro no Bananal, já entrado em anos e primo afastado de Lucinda, mas a quem, desde criança, chamava tio, o Sr. Rafael Mascarenhas.

Apareceu-lhe este, num belo dia, com a sua costumada sem-cerimônia e aspecto de tabaréu finório, chapéu do Chile à cabeça e bengalão em punho, acolhido, aliás, com expansiva cordialidade.

- O tio por cá? Exclamou ela, que boa lembrança vir logo me ver.

- É fato, prima, e sem mais aquela, venho pedir-lhe de jantar.

- Otimamente... Diga-me, porém, porque não respondeu à minha última carta... de há seis meses?... - Ora, você é uma letrada, e eu não passo de um roceiro, um ignorantão... - Deixe-se de histórias!... Antes e depois do jantar, e este foi, como de costume, suculento, fino, não fez Mascarenhas senão admirar a viúva e enchê-la de gabos, não poucos de um requinte superior aos seus hábitos.

O Merdoc e o Pomarod, à mesa, lhe haviam merecido estalos de língua expressivos, mas bastante deslocados naquela elegante vivenda.

- Daqui a pouco, avisou ele, dir-lhe-ei o que me trouxe cá... negócio de muita circunstância.

Afinal, saiu-se com a novidade.

Um vizinho, o coronel Junqueira Prates, arrebentara-lhe no terreiro, certa manhã, bom vizinho, amigo de mais de quarenta anos.

Vinha, muito aflito, incumbi-lo de tarefa difícil e maçante.

O filho, no Rio de Janeiro, embeiçara-se por uma pessoa... um rabicho valente, que o pusera bambo de vez, doente... - Eis aí, concluiu ele; por isso venho pedir essa pessoa em casamento... - Mas quem é ela? - Quem há de ser senão você, prima? O pobrezinho está chumbado deveras, mete pena.

Ao ouvir aquele nome de Prates, sorrira-se Lucinda, pois, com efeito, o filho do tal fazendeiro andava, desde muito, lhe fazendo corte rasgada, por sinal bem incômoda pelos arcaicos processos usados para demonstrar o incêndio em que ardia – olhares lânguidos, intermináveis, de carneiro morto, nos teatros, reuniões, por toda a parte, contínuas idas e vindas pela rua dos Voluntários da Pátria, montado em garboso, mas bem manso ginetezinho, e tudo o mais que constituía a velha pragmática do sentimentalismo piegas.

- Você, observou o diplomata da roça, tem, é certo, bem bons patacos; mas o rapaz, do seu lado, é filho de gente rica; está já estabelecido no Rio e vai otimamente.

Moço de salão – devia ser, pelo menos, ele não entendia do riscado – não lhe faltavam partidos de mão cheia... Com lealdade dissera ao pai, reparasse bem que a prima era mais velha que o filho um bom par de anos... Sim, era preciso pôr tudo em pratos limpos para que depois não dissessem: “Ah! O Rafael nos enganou” e mais isto e mais aquilo... Qual! A coisa estava já por tal modo entroviscada, que nem pai nem filho tinham querido ouvir a menor objeção... se chegaram a bota-lo fora de casa... dos seus cômodos... seus chinelos velhos!... Visse Lucinda que não era graça... Desse o sim... Fizesse-lhe esse grande favor.

Queria obsequiar o compadre Junqueira e acabar depressa com aquela trapalhada toda... Cruzes! As mulheres punham a gente tonta! Uma desgraça! Desfiou Lucinda o rosário das habituais razões – não queria casar-se, pretendia até não se casar mais etecétera, etecétera.

E, à medida que ela se desculpava, o fazendeiro a fitava curioso, absorto.

Em certo ponto, exclamou: - E não é que o tal pelintra tem muito bom gosto?!... Você é uma mulherona... Sim, senhora! E eu que nunca reparei nisso... Depois de algum tempo de silêncio, perguntou: - Então mesmo, o meu candidato não lhe quadra?... Que hei de fazer? Enfim, não posso, simples matuto, querer entender mais do que lhe serve, que você... E nesse gosto discorreu largamente.

Pareceu, ao ouvir bater 8 horas, querer levantar-se; chegou a levantar-se, mas tornou a sentar-se.

Via-se que vacilava em dizer qualquer coisa de mais difícil enunciação.

Afinal, com alguma timidez, que não lhe assentava nada, continuou, meio a gaguejar: Dissesse-lhe com franqueza: se ele lhe prepusesse outro pretendente?... Esse de peso... Homem considerado... Possuidor de sólida fortuna, já e já?... Ora, com a breca, Não era de caixas encouradas nem fingimentos... Viera-lhe à idéia isso, assim de repente, sem esperar: Por que não havia ela de aceitá-lo por marido? Viúva havia mais de vinte anos, sem filhos, era senhor de uma fazenda modelo... Mais de mil contos de réis, em metal sonante... Já fizera os seus 58 anos, lá isto confessava, mas... Sentia-se... Forte, bem disposto... Capaz de constituir família.

Havia ela (é duvidoso se não lhe escapou haverá) de ser uma fazendeira chibante!... Enfim, falara com o coração na mão... Uma palavrinha e, logo, zás, traz, que darás, nó cego... - Então, chasqueou Lucinda com um sorrisozinho zombeteiro, o tio põe assim de lado o seu protegido e a amizade de mais de 40 anos do vizinho Junqueira? Mil milhões de diabos levassem para os infernos todos os Junqueiras do bananal! Agora, tratava-se dele! Estava cuidando dos seus interesses e via zelar o seu futuro, ver o que mais lhe convinha... a ambos.

Aquele rapaz não podia ser nenhum fura-paredes, pois o pai não passava de um pobre coitado... muito tapado... bom homem, não havia dúvida, mas uma porta... Demais, quando poderia o tal biltrezinho dispor de toda aquela fortuna? O compadre era legítimo jequitibá; a comadre vivia vida de roça, onde quase não se morre... Nada, nada! Dizia a Lucinda com toda a sinceridade... esse casamento não lhe podia convir... contasse até com a sua oposição... Que o cujo estivesse apaixonado como um louco, não duvidava... Quem podia vê-la sem ficar...abombado, assim como ele? Repetia-lhe, nunca a imaginara tão bonita... Nem sabia com que olhos até então a enxergara... Verdade, que estivera alguns anos doentes, fracalhões... mas agora, iche, valia mais que uma peroba... afirmava-o à prima da sua alma! E foi-se inflamando por tal modo, que assustou um tanto a Lucinda, apesar de toda a sua calma.

Parecia que a tal peroba pegava fogo de alto a baixo, como imenso brandão.

Eram 10 horas, e ainda dissertava o tio fazendeiro a assentar a sua inopinada candidatura.

Já fatigada, tangeu Lucinda, em certo trecho, uma campainhazinha, que fez logo surgir, gravibundo como um diplomata às direitas, esse, na sua irrepreensível casaca e imaculada gravata branca, o pesadão do Jacinto.

- Acompanhe meu tio ao portão, disse ao criado, por causa dos cachorros.

E estendendo a destra ao fazendeiro, que, atônito, se pusera de pé num pulo: - Então, boa viagem.

E apareça por cá, sempre que vier ao Rio.

Ao sair, quis o desastrado intermediário insinuar, não poderia dizer porquê, na mão do solene fâmulo uma nota de 20$000.

- Nesta casa, repeliu Jacinto com suma dignidade, não se recebem gorjetas.

No bonde, Rafael Mascarenhas foi reflexionando: - Salta que gente essa, toda metida em tamancos altos! E, como o ar picante da noite houvesse dissipado as fumaçazinhas do Saint Julien Médoc e do Pomard e, no fundo, o homem tinha bom senso, não pôde deixar de concordar, de si para si, que representara papel muito ridículo, mas muito – culpa toda do bestalhão do compadre Junqueira e do patetíssimo filho.

IV

Outra tentativa matrimonial, breve e expedita também, ainda mais graça e originalidade teve; desses fatos da vida real que, contados, levantam logo suspeição por inverosimilhantes.

Não nos disse, porém, já o poeta “Le vrai peut quelquefois n’être pas vraisemblable?”.

Em cálida tarde, antes da hora do jantar, estava Lucinda passeando pela frente do jardim, quando viu parar diante do portão um bonde da Gávea e dele pular alguém que lhe era absolutamente desconhecido, todo de preto, mal encobertos por leve sobretudo os trajos rigorosistas das grandes ocasiões.

Com o apreender de olhos rápido e próprio das mulheres, relanceou ela um rapaz alto, reforçado, de cara larga, faces rúbidas, mãos e pés grandes, muito grandes, metidos em botinas inglesas de couro engraxado e sola grossa, que, a par da falta de luvas, destoavam da casaca e gravata branca dos momentos solenes.

- V. Excia. , disse com desembaraço o recém-chegado, aproximando-se respeitoso, de chapéu claque na mão – e aí punha à mostra cabelos negros grudados ao casco de tão emplastados de óleo fortemente perfumado – V. Excia. , por certo, não tem idéia de quem eu seja; é natural... Nunca me viu mais gordo, como se costuma dizer – e um largo sorriso lhe distendeu ainda mais a carantonha – eis, porém, o meu cartão de visita, Siqueira Arroxelas... pediria uns minutos de atenção... sei não ser importuno... Aberta a sala e sentados os dois, foi ele, sem demora, respondendo às tácitas perguntas indicadas pela reserva da dona da casa.

Era, Excelentíssima, começou fechando com certo estrépito o claque e colocando-o numa cadeira ao lado, um homem franco e muito prático.

Poucos dias antes, completara os seus 32 anos... Não pouco tempo fazia que conhecia Lucinda e tomava a liberdade, para encurtar razões, de lhe dizer que, desde muito, lhe dedicava o mais submisso e honesto amor.

Perdoasse essa declaração, que não podia ofendela... Morara naquela rua, onde tivera um grande e bem sortido armazém de víveres, o que os antigos chamavam secos e molhados.

Tratavam-no, na redondeza, o Ruxelinhas.

Era português e ia regularmente nos seus negócios.

Nem pensara nunca andar tão depressa e ser tão feliz, tanto assim que acabava de abrir no Catete, um estabelecimento modelo – Empório Comercial – cujo prospecto tinha a honra de lhe oferecer.

E passou a Lucinda um grande cartão em papel glacé.

Francamente dizia, estava no caminho da fortuna e podia – sem ser um desmiolado... ou visionário – pensar numa comenda e até mesmo num baronato por Portugal, pelos muitos serviços que já prestara à Sociedade Beneficente Filhos da Lusitânia, de que era presidente.

Nascera na aldeia de Montargão do Avel e não tinha vergonha de seus pais e parentes... gente limpa e trabalhadeira... dispunham até, para a terra, de alguma coisa de seu; mas, como sempre fora muito arrojado nos seus planos, viera sem receio para o Brasil a tentar fortuna.

No princípio, quando aqui aportara, fora um inferno, tivera logo a bicha... a febre amarela e das piores, quase batera a bota, escapara arranhando, para depois comer o pão que o diabo amassou.

Com o tempo, porém, havia serenado a barafunda, e Deus e a Virgem Santíssima o iam ajudando, como bem provava o pé em que se achava o Empório Comercial... Ora, muito que bem.

Desde que Lucinda se mudara para a rua dos Voluntários, sentia-se ele não sabia como... todo abalado e macambúzio... Entretanto, muito vexado de levantar os olhos para pessoa de tanta circunspeção e que lhe metia até medo... Ainda hoje sabia que era tolice, grossa asneira, o passo que dava; mas, que fazer? Quantas vezes, não dissera com os seus botões: “Ora, Manuel, tu és um bobalhão... Pois a Sra. D. Lucinda é lá para os teus beiços?”.

E o ar com que o Siqueira Arroxelas desenrolava tudo aquilo era tão sincero e lealmente bom que Lucinda o ia ouvindo curiosa e complacente.

Qual! Continuou ele, por mais que procurasse distrair-se, o coração a bater-lhe lá dentro umas marteladas, a ferra-lhe pontadas de o deixar sem fôlego.

Ora, isso perturbava muito os seus negócios e estudos... Porque, à noite, acabada a escrituração da casa, costumava estudar bastante com bons explicadores.

Já sabia o seu francês menos mal, e estava-se enfronhando no inglês.

Não achava a Excelentíssima que fazia bem? - Perfeitamente, Sr. Arroxelas.

Vejo que é pessoa ajuizada.

Ah! Lá isso era, modéstia à parte; mas sempre a lembrança da Sra. Lucinda a girar-lhe na cachola... Assim não vamos bem, dissera lá... consigo... Era preciso dar um jeito à coisa e de vez... ou sim ou não.

Demais, quem não arrisca não petisca; e eis a razão por que ali se achava naquela sala... Despachado como poucos! Poderia ter trazido bons empenhos... padrinhos de posição; por exemplo, o conselheiro Malaquias, que o honrava com a sua amizade; mas entendera que, nessas questões, bem se aplica o dito: quem tem boca vai a Roma... Ora, francamente, que adiantava ter ao lado, nesse momento, o seu amigo conselheiro Malaquias? - Boa dúvida, concordou a viúva, não tinha importância alguma... O senhor aí andou assisadamente.

Muito o penhorava esse juízo.

Vinha, portanto, expor, como pudesse, a sua história.

Precisava casar-se... e, com franqueza, desejava achar quem tivesse também alguma chelpa de seu.

Entendia bem de tudo quanto fosse negócio... Por exemplo, aquelas terras de Vila Isabel, era para D. Lucinda já ter mandado construir uma cortiçada valente, coisa de dar muito dinheiro, casinhas para a pobreza... Com um procurador ladino, que apertasse em regra os inquilinos e não se deixasse levar por choradeiras e cantarolas, não havia melhor emprego de dinheiro... ficasse certa.

Depois, aquele capinzal do Andaraí Grande estava arrendado por uma ninharia... uma miséria! O seu compadre Travassos por ele oferecia, de olhos fechados, o dobro, se não mais.

- Exatamente, observou Lucinda, discípula aproveitada do velho Policarpo, termina este mês o contrato, e não estou nada satisfeita com o alugador.

Pois então! Exclamara Arroxelas com um sorriso triunfante que l\he alargou a cara meio palmo mais, hein? Amanhã mesmo havia de mandar lá o Travassos... homem de toda a confiança... E, consentisse uma confissão franca: havia sido aquele capinzal que o empurrara de uma vez a vir dar o seu recado... Possuía um terrenozinho ao lado... e a possibilidade de arredonda-lo de repente... A ambição do homem... a idéia de que uma senhora, nas suas condições, precisava sempre de quem lhe zelasse a fortuna... Não levasse a mal, ouvia? Em todo o caso, o compadre Travassos estaria amanhã... rente... - Não se incomode, Sr. Arroxelas.

Incômodo, santo Deus?! Por ela iria ao fim do mundo... Pelo menos queria ser... como dizer ?... Faltavam-lhe palavras... amigo... humilde... pequenino criado... muito pago do modo por que estava sendo tratado... a desembuchar tanta baboseira... Saberia mostrar-se grato... Mas, com mil perdões, que dizia da sua ousada pretensão?... Queria ouvir um “não” redondo, para tirar do bestunto aquelas minhocas... sem lhe ficar querendo o menor mal... pelo contrário, muito reconhecido e honrado sempre... Conhecia o que era e o que valia... Mesmo comendador ou barão, nunca havia de ter bazófias tolas, fumaças e pataratas.

- Muito bem... Viera, sabia-o belamente (e o Sr. Arroxelas dizia ainda veladamente), comprar um desengano, mas viera para que não pudesse mais dizer com os seus botões: “Ó Manuel, foste um pedaço de asno com os teus acanhamentos.

Faze, pelo menos, como os outros!”.

E, como os outros, apresentara-se para ser taboqueado... Ouvira falar do tal filho de fazendeiro... Ah! Que gostinho lhe dera a Excelentíssima, quando o mandara plantar batatas!... Um desfrutável!... Levara uma queda do tal cavalicoque... Mas... desculpasse muito, estava se excedendo... Fora sempre assim... quando lhe davam corda, propenso a abusar.

Aí, Lucinda expôs às pressas as razões de costume, que o ingênuo – proprietário do Empório Comercial foi aplaudindo com expressivo movimento da oleosa cabeça.

Levantou-se também logo com mostras do maior acatamento, ainda que meio triste e um tanto descorado.

- Darei aviso à minha gente cá de casa, disse-lhe Lucinda a título de consolação, para que se afreguezem no seu estabelecimento... Catete... número? - 280... Um servo de S.

Excia.

Quando quisesse qualquer coisa... o mandasse logo chamar.

O menor recadozinho... era uma ordem... Quanto antes, o Travassos... podia fiar-se nele... português de lei.

E após cumprimento muito rasgado, lá se foi o Sr. Siqueira Arroxelas, tomando na ante-sala o seu sobretudo leve, apresentado pelo Jacinto.

- E não é dos piores, observou lá consigo a bela viúva.

V

Perto de dois anos já havia, que Lucinda Soares adquirira uma amiga mais do peito e com quem, de encontro ao seu programa, estreitara relações: Helena Glerk, viúva como ela, filha de pai irlandês e mãe brasileira, quase cinquentona, e essa, mostrando bem às claras a idade – aliás, destituída de toda e qualquer pretensão – excelente senhora, gárrula sem malícia, nada tola, mas de contínuo no mundo da lua, alheia a tudo e sempre surpresa de quanto lhe contassem.

Muito devota e dada a prodigalizar-se em incessantes obras de beneficência, possuía de seu alguns haveres, obrigada, contudo, pelos incoercíveis hábitos da generosidade, por vezes exagerada, a adstringir-se, em relação a si própria, a regras da mais apertada ordem e até severa economia.

Vivia para os pobres e para a igreja.

Afeiçoara-se muito a Lucinda, de quem era vizinha uns cinco ou seis jardins intermédios, e, por isso, sobremaneira se atormentava por achá-la e vê-la, se não rebelde às coisas da religião, pelo menos bastante morna e esquiva nos atos e na prática.

Andava, em contraposição, tão absorvida neles, que não tinha tempo para mais nada.

Chegava, depois de apegada à nova amiga, a acusar-se e lançar-lhe a culpa de esquecer-se dos seus mais rigorosos deveres.

Donde penitências sobre penitências e duros jejuns de expiação.

Parecia, já dissemos, morar no mundo da lua; também era de ver o contínuo pasmo ao saber do mínimo fato já, de há muito, entrado na circulação geral e de todos conhecido; daí, um chuveiro de exclamações: “Como? Não é possível! Estou assombrada! Nem é para menos! O mundo é muito mau! O maligno anda a solta! Então fulana vai casar? Não diziam que ela queria ser irmã de caridade? Cicrana, também? Pois, essa não saía da Matriz.

Aonde vamos parar, Nossa Senhora da Piedade?” e assim por diante.

Se lhe referiam jeitosamente algum escandalozinho – e nisso tinha particular gosto uma pessoa da vizinhança.

D. Matilde Pereira – ficava a princípio boquiaberta, estatelada, sem poder tomar respiração, até abrir o dique às interjeições: “Misericórdia! Em que tempo vivemos nós?! Não há dúvida, isto tudo está a acabar! Quantos Padre-nossos e Ave-Marias não tenho que rezar por tanta desgraça? Eu que já estou em atraso para com vários santos.

Felizmente, trago tudo registrado... Deus me perdoe; mas deveras dá à gente vontade de morrer! Tanta perversidade em mundo tão pequeno!” E, no rosto e no gesto, patenteava verdadeira aflição, quase angústia, que dava à maldosa D. Matilde um sabor de resaibozinho especial.

Impusera-se Helena Glerck difícil tarefa, verdade é que bem gloriosa: quando não converter Lucinda Soares, chamá-la, pelo menos, mais atenta e assídua ao grêmio da Igreja.

Para tanto não poupava esforços, alguns dos quais, pelo inocente e até comovedor empenho, faziam sorrir docemente a amiga e a enterneciam quase.

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