- Se assim é, por que não pensar na solução mais
própria e razoável, no casamento? E a disparatada desproporção
de idade? Ela com quarenta e quatro anos já feitos, ele com vinte e
oito! Que mundo de desgostos para ambos, que futuro de agruras, uma vez dissipado
o violento capricho, ligados para sempre um ao outro! Concordou plenamente
Belmiro de Andrade.
Via nessa preocupação dominante e tão justa evidente
prova de que, uma vez livre Lucinda da momentânea obsessão, havia
de recuperar de todo a liberdade de ação.
- A mulher que pensa assim, filha, não ama, está claro, sobretudo
chegada ao ponto da vida em que a senhora se encontra.
Tire, porém, bem a limpo a dúvida que aflige o seu espírito.
Para tanto lhe lembro este expediente: saia do Rio e fique uns quinze ou vinte
dias a sós, em algum ponto por aí perto, Tijuca, Petrópolis
ou qualquer outro.
Se, nesse período de ausência e quebra de hábitos, se
achar bem, como que aliviada de grande peso, alheia à constante recordação
desse homem, poderá nutrir a convicção de que o seu coração
não se deixou prender.
No caso contrário, se experimentar angustiosa, impaciência, indefinível
mal estar, então não poderá mais contar consigo; terá
partilhado o sentimento que, estou certo, a contragosto inspirou.
- Oh! Sim, asseguro-lhe que não concorri para isso, declarou Lucinda
com absoluta sinceridade.
E quedou-se um tanto acabrunhada.
Admiraram então o Corot, Belmiro com entusiasmo de perito e provecto
amador a apontar todos os primores do painel – um radiante e melancólico
crepúsculo.
- Veja filha, quanta luz por toda a parte, que fulguração nos
céus, que toques divinais na paisagem inteira! Não se diria,
porém, que tudo isso é por pouco tempo? Que essa magia como
que se está amortecendo, vai morrer daqui a pouco? - E não é,
mais ou menos, o meu caso.
Sr. padre, já que ainda me querem?
- Ora, contrariou Belmiro, deixe-se dessas idéias; a sua forte razão
formalmente as reprova.
Ao despedir-se, entregou-lhe Lucinda uma formosa moeda de ouro portuguesa,
datada de 1745; D. João V no verso, as armas reais no anverso, magistralmente
gravados.
- Que magnífico presente! Observou ele mirando a dádiva com
grata surpresa, os olhos cobiçosos, esperto logo.
Será uma das jóias da minha coleção numismática.
E acompanhou até a porta do jardim a donairosa cliente, depois de lhe
ter graciosamente ofertado um galhozinho de três lindas rosas marechal
Niel.
Como correram rápidos aqueles dias passados na Tijuca! Abraçando
o alvitre sugerido pelo padre, mandara logo Lucinda convidar a prima Hercília,
já noiva do seu deputado federal e chamara para acompanhá-las
naquela estada fora da cidade uma antiga e avelhentada aia de casa, a Sra.
Maria Rosa, conhecida de largo tempo, excelente criatura, sempre às
ordens para casos tais.
Morando com uma neta casada, muito protegida por Lucinda, de rara devotação,
só tinha aquela boa mineira o defeito de suspirar pela fortuna, a aventar
de contínuo hipóteses impossíveis, se fosse rica.
Tomando aposentos no hotel White, tão bem situado para quem vai em
busca de sossego e solidão, abrigado na encosta de agrestes morrarias,
espécie de grotão risonho, só a Anselmo Guerra comunicara
Lucinda o ponto dos arrabaldes que escolher para aquele experimento de caráter
especial.
E dele não tirou senão motivos de aplauso e quietude.
Achou-se perfeitamente a gosto, libertada de uma atmosfera elétrica,
logo com ótimo apetite, excelentes sonos, despertar leve e pronto sem
mornos apegos ao leito, pulando da cama cedo e vestindo-se às pressas
para longos e matutinos passeios.
Retemperada por aquele vivificante e amplo banho de ar e luz, no retiro que
buscara para sondar com pausa e calma o seu íntimo, aproveitava manhãs
de indizível suavidade e não se cansava de percorrer e esquadrinhar
as pitorescas cercanias do hotel, galgando célere as subidas dos declives,
alguns bem íngremes, ou por eles descendo em rápido impulso
com a ligeireza de saltitante corça.
Por seu lado, não cabia Hercília em si de contente, mostrando
a mais comunicativa alegria, que não deixava de causar certa estranheza
à prima.
- Então, menina, não a matam as saudades do noivo? - Assassinas,
assim, não, respondia a gentil rapariga; algumas... Aliás, prometeu
vir ver-nos... mas eu me sinto tão bem! Ah! pobrezinha, quão
diversa, se o outro, o belo oficial de Marinha, cujos olhos debalde procurara
na festa do bazar ingenuamente prender, a houvesse distinguido? Ah! sim, como
não mudariam as coisas de figura? Havia, sem relutância, aceitado
o sôfrego pedido em casamento do embelezado pretendente e não
lhe desagradava o enlace já próximo; no fundo, porém,
residia certo pungirzinho que, de vez em quando, lhe dava às faces
desusado rubor, um esfoguear de purpurinas rosas que desabrocham juntas, encostadinhas
umas às outras.
Quem não apreciava lá muito as intermináveis excursões
por veredas e azinhagas, ainda molhadas do rocio da manhã ou por umbrosas
matas, era a Sra. Maria Rosa.
Embora magra e seca, com penas de vinte anos, murmurava brandas queixas num
tom dolente e arrastado.
- Se eu fosse rica, dizia com resignado sorriso, não sairia nunca da
cama senão lá pelas 10 ou 11 horas do dia, talvez mais tarde
até.
- Pois amanhã, gracejava Lucinda, acordá-la-emos antes da madrugada!
- Virgem Santíssima! E as duas riam-se a perder da boa mineira.
- Se você fosse rica, perguntou-lhe a viúva em certo trecho de
encantadora digressão no seio de copado capoeirão, cortado de
abertas sobre dilatada paisagem, se fosse rica, não gostaria de ver
tudo isto? - Preferiria muito mais andar de carro pela cidade.
Há tantos, tantos anos que não entro numa sege! E lá
iam todas três, valentes, incansáveis.
Não havia recantos da Floresta da Tijuca que afinal não conhecessem,
voltando de contínuo a lhes admirar as incomparáveis belezas.
E, na realidade, quantas! Parece que por aí sobrepaira ainda a alma
criadora daquelas maravilhas todas, o influxo do barão de Escragnolle,
tão preso àqueles floridos bosquetes, àquelas frondosas
avenidas, aos serpeantes regatos, aos mínimos detalhes e acidentes
do vastíssimo parque, uma das raras paragens, nos arredores desta capital,
em que ainda se ouvem as plangentes notas do sabiá e o gorjeio das
avezinhas, tanto os defendia ele, vigilante e indignado, dos tiros de bárbaros
passarinheiros! Também, só o gênio desse administrador
modelo, pensativo e retraído, entusiasta da natureza, só uma
índole poética e elevada, como a dele, poderia ter casado a
graça, a majestade e exuberância da luxuriante flora intertropical
com as mil finuras, intenções e graciosidades da arte européia,
imprimindo cunho tão original e idealista aos primores que sugestivamente
foi apelidando “Gruta de Paulo e Virgínia”, “Cascata
diamantina”, “Vista do almirante” e outros, e outros; acima,
porém, de todos o “Excelsior”, teatral rasgão de
vista sobre a larga baixada em que se encastoa a baía do Rio de Janeiro,
fechado todo o colossal panorama pela linha do alto mar, o oceano além,
a confundir o brumoso horizonte com o esbatido azul dos céus! Em todos
aqueles sítios de tão penetrante enlevo e robustas auras, esquecia-se
Lucinda de tudo.
Nas horas, entretanto, de mais concentração, amolecida pelo
calor do dia em apertado quarto de hotel, lembrava-se de Eduardo Glerk com
alguma insistência pouco grata, decerto, porquanto nesse recordar preponderava
uma Omo trepidação de sobressalto.
Estavam-lhe bem presentes as fascinações que cercavam aquele
homem de quase fúlgida auréola e tanto o salientavam de entre
os mais.
Esse mesmo brilho, porém, fazia-lhe mal aos olhos, punha-lhe trevas
no coração; essa superioridade era base e tema de agitados encontros
a que buscava subtrair-se, colhendo rédeas à imaginação
e espraiando o seu espírito, tão propenso ao quietismo.
Fora, aliás, a última entrevista tormentosa, quase agressiva
por vezes, ela em guarda, acautelada, ele nervoso, incoerente, ora súplice,
dócil, ora quase frenético.
- A minha paixão, dissera a morder os lábios de despeito, não
faz senão importuná-la.
Pois bem, libertá-la-ei da minha presença; não sei ainda
como, mas tomarei resolução digna de mim.
Impossível é continuarmos assim.
- Mas afinal, que quer o senhor de mim? Casamento/ Concordará que fora
insanável ridículo para ambos, quando... E aí parou um
pouco.
- ... Quando eu poderia... ser sua mãe.
Então, o quê? Tornar-me sua amante? Ecoaram estas palavras tão
estridentes, tal conturbação infundiram quer num quer noutro,
que nos seus rostos se desenhou o pasmo, quase terror.
Fez-se profundo silêncio, que, só a custo, Eduardo Glerk rompeu,
falando com dorida emoção, a voz estrangulada de soluços,
os olhos rasos de mal contido pranto.
Era com efeito um louco, sim, um louco varrido.
Em nada cogitara, entregandose àquele amor, sem medir conseqüências.
Imaginasse um homem caído no fio das ondas de espumante e vertiginosa
corrente, com os braços e pernas atados, sem possibilidade de qualquer
ação.
Tal fora tão funesto arrastamento.
Desde logo náufrago, só conhecia que o abismo o ia irremediavelmente
tragar.
Ah! Quanto mais depressa melhor! De relance avaliava a extensão do
mal que o condenava implacável, ainda assim feliz por vê-la dele
preservada.
Não mais a perseguiria com as suas preces, os seus lamentos e desesperos;
saberia recalcá-los com a valentia de um gigante e a resignação
de um mártir.
Arredasse, porém, justiceira, do seu espírito suscetibilizado
a idéia de que jamais lhe houvesse passado pela mente, nos seus maiores
desvarios o pensamento de desrespeitá-la, de apeá-la do puríssimo
pedestal a que a guindara a sua humilde adoração, para torná-la
alvo de indignos instintos e ignóbeis cálculos.
Não, mil vezes, não! Jurava em nome de Deus, como crente e homem
de honra.
A tudo servia de atenuação o inferno de agonias a que lhe dilaceravam
o íntimo com garras de fera.
Mostrava aquela suspeita o desprezo em que o tinha, o conceito vil e baixo
que dele fazia.
Esperasse, porém, pelos fatos; haviam de implorar em seu favor, de
levantá-lo do pó a que fôra jogado com tanto escárnio.
Não lhe quisesse mal de todo; não o varresse da memória,
quando longe, longe, nas sombras de esvaído passado.
E grossas lágrimas então lhe deslizavam pelas faces, ora lívidas,
ora abrasadas.
De tudo isso bem se recordava Lucinda, mas, já aí, como de história
acabada, irrecomeçável, um tanto orgulhosas da sua firmeza naquele
arriscado passo.
Num dos dias seguintes ao da volta à rua dos Voluntários da
Pátria, entrou, de manhã, correndo pelo jardim como uma doida,
D. Helena Glerk, sem chapéu, desgrenhada, apenas envolvida num velho
chalé preto.
Contra todos os hábitos, mal aberta a porta galgou quatro a quatro
os degraus da escada e subiu aos aposentos interiores da amiga, batendo portas
e soluçando alto.
- Lucinda, Lucinda, exclamou numa irrepreensível explosão, Eduardo,
o meu Eduardo, está a morrer! E caiu desfalecida numa cadeira, enquanto
a outra a fitava muda, estarrecida, estatelada.
- Não é possível! Não é possível!
Balbuciou por fim, branca como uma pétala de magnólia.
- Ah! sim, que noite! Que noite, minha Nossa Senhora! E Helena, deixando-se
escorregar de joelhos sobre o tapete do quarto, bradou, com os braços
hirtos para o teto: - Deus de misericórdia, ó Deus, tomai a
minha triste existência, levai-me deste mundo, mas poupai meu filho!
Já que a vossa justiça tem de pulverizar alguém, transferi
para mim todas as culpas, todos os erros e desmandos desse adorado ente!...
Afinal, mais tranqüila, contou ofegante o que sucedera.
Bem previra que o estado normal de Eduardo, para o qual não achara
ainda explicação, deveria dar em desastre.
Desde a sua chegada, não tivera ele um dia só de sossego, não
comia, não dormia, numa inquietação contínua,
sem nome.
Por vezes até, como que ia perder o juízo, chamando-se a completo
mutismo ou então discorrendo com estranhável volubilidade sobre
mil futilezas.
Aí, de repente, resolvera aceitar nova omissão do governo à
Europa; e ela, Helena, embora desgostosa, vira nisso uma solução
àquele incompreensível drama a que assistia apavorada, sem poder
intervir.
Isso quando Lucinda partira para fora, sem Dara viso a ninguém.
Nesse tempo, parecera Eduardo melhorar, mostrara-se mais calmo, ocupando-se
com atividade dos preparos da viagem, escolhera os companheiros que deviam
acompanhalo e gracejara até das saudades prévias da pobre tia.
Na véspera, estivera o dia quase todo em casa, trancado em cima, a
escrever cartas, alegava.
Nem descera para jantar, pedindo apenas uma asa de frango e uma xícara
de café carregado.
Às 8 horas da noite, viera combinar com ele certas medidas um dos camaradas
nomeado.
Havia luz no quarto.
Batera em vão.
Espiando pelo buraco da fechadura, pudera então ver o amigo a rolar
sobre o leito, agitando os braços, arquejante, denunciando sofrer mil
mortes.
- Arrombamos a porta, continuou Helena; ah! que cena! Que cena! O infeliz
tinha à cabeceira vários frascos de remédios; acredita-se
que se enganara e ingerira grande dose de veneno... - E depois? Indagou a
custo Lucinda.
- Aí encetamos tremenda luta.
Felizmente acudiram logo médicos que, pela madrugada, o declararam,
senão de todo salvo, pelo menos fora de perigo iminente... Virgem,
Virgem das Dores, será crível que o meu Eduardo, tão
religioso, tão sensato, tivesse podido atentar contra a própria
vida, faltando a todos as leis divinas e humanas?... Não, não
é possível!... Aí houve uma troca fatal de vidros...
Pois só conciliava ligeiros sonos a poder dos mais fortes narcóticos...
É um desgraçado!... Assim, antes a morte! Helena Glerk e Lucinda,
estreitamente abraçadas, choraram, largos, largos minutos, lágrimas
bem amargas.
Afinal, aquietaram-se um pouco.
- Diga a seu sobrinho que viva, recomendou a viúva sem pensar muito
nas palavras que proferia.
Refira-lhe o abalo que sofri... não podia ser maior... - Ah! sim, o
seu coração é todo bondade! - Olhe, anuncie-lhe uma próxima
visita minha...bem para ele.
Um desses dias, irei em pessoa saber notícias.
Quero achá-lo de pé, se for possível.
Agora, nada de imprudências e precipitações... - Mas...
salvar-se-á... com o desgosto que mostra pela vida? Quando o moral
está assim afetado, difícil é resistir a choques desses...
E quanto é ele estimado, D. Lucinda! Não esvazia a casa... verdadeira
romaria.
Se houvesse alívio possível à minha desgraça,
ficaria menos desconsolada... Afinal, a humanidade não é tão
má como propalam.
Ah! que olhar, o de Eduardo Glerk, ao penetrar Lucinda no seu quarto de enfermo!
Só por ele deveria a boa da tia ter de relance desvendado o mistério
que a desnorteava, se não fosse a tudo tão cega.
Era aquele olhar um poema de indefinida gratidão, um hausto de insaciável
avidez, um espasmo de exaltação, todo um conjunto do quanto
pode exprimir a alma de um homem, de um forte, arrebatado pelo torvelinho
da mais íngreme paixão, a rolar pelas esferas ideadas por Dante.
E dele se sentiu por tal forma percutida Lucinda que, descorando como se fora
perder os sentidos, mal pôde articular umas palavras banais.
Por que, aliás, se fizera tão arrebatadora, tanto zelara a sóbria
e elegantíssima toalete, com tamanho capricho escolher o mimoso chapéu
de betados cambiantes que mais assentava ao seu gênero de beleza? -
Obrigado... obrigado, balbuciava Eduardo num como delírio, os lábios
secos, a respiração opressa.
Quanto... sou ridículo!... Mas, também, quanto bendigo o leal
esforço que fiz!... Agora... porém, posso... e devo abraçar-me
à vida.
Não preciso de mais nada.
Tenho forças para a existência inteira.
- Boa dúvida, concordou D. Helena desfeita em riso, deixe-se de idéias
sinistras, que tanto dano lhe causaram.
E a mim? Olhe, quer saber uma engraçada novidade? Não é
que o Sr. Gregório... o tal Gregório de que lhe falei, D. Lucinda,
o velho de quase 90 anos, escapou arranhando? Arribou, depois de já
amortalhado.
E está contentíssimo, a fazer cálculos para daqui a dez
anos!... Não, Cruz, assim também é demais! Nas despedidas,
em baixo, a gárrula senhora, entre mil protestos de ilimitado reconhecimento,
mostrou-se seriamente apreensiva.
- Receio bem, segredou abaixando a voz, que o Eduardo fique desconcertado
da cabeça.
Fala tanta coisa inconseqüente... sem nexo, nem cabimento! Não
pensou, uma vez sequer, na religião! Ah! minha amiga estamos atravessando
uma crise extraordinária, sem explanação possível.
Deus quer pôr à prova o meu poder de resignação,
e com muito vexame confesso, não me tenho achado na altura da tremenda
situação.
Dias depois – e exatamente por esse tempo Anselmo Guerra andava com
umas febres que o obrigavam a não sair à noite – Eduardo
Glerk, embora ainda fraco e mal convalescente, foi à casa de Lucinda
agradecer-lhe a fineza excepcional que merecera.
E com tanto baralhamento se expressava, numa frase trôpega e alucinada
e em tom por tal modo baixo e singular, que ela mal o entendia.
- A minha salvação única, disse entre outras coisas,
é... o casamento.
Se me acha digno de alguma compaixão, confie em mim... Sei bem que
o mundo verá nisso torpe especulação da minha parte...
por causa da sua fortuna... Hoje, porém, pouco se me dá o juízo
dos mais... Nem imagina quanto me apunhala a idéia, quanto mais abomino
a sua riqueza... Embora! Pelo amor de Deus, conceda-me essa mão que...
encerra os meus destinos e de que... depende a minha morte... Havemos de alcançar
a meta da felicidade, como... jamais a tiveram mortais na terra.
Abanava tristemente Lucinda a bel cabeça, a lutar entontecida com um
começo de vertigem.
E, a pouco e pouco, achou-se de novo naquele encantado sítio a que
a levava a fantasia, na noite das primeiras juras de amor.
Estava, porém, aí, deserto de todo, abandonado, sem sequer um
silfozinho de tantos que lá brincavam, sem uma só das gentis
e miúdas fadas, que procissionalmente o percorriam.
Por toda a parte, a solidão, ainda que impregnada das harmonias estranhas
de um sibilo a modular, já melodias ternas, mas sem conexão,
já sons quase ásperos, desafinados, espécie de insistente
e longínquo apito.
Cobrara, entretanto, a natureza mais viço, revestira-se a paisagem
de mais galas, tornara-se a luz azulada mais intensa, abrira-se o horizonte
mais largo, transmudada a cor uniforme da perspectiva em planos destacados,
vigorosamente iluminados nos vaivens de nuvens a correr pelo céu, uns
em plena e ofuscante claridade, outros mergulhados em espessa escuridão,
formando duros contrastes à vista.
As flores, porém, muito mais pululantes que da vez primeira, atapetavam
o chão, arrebentavam do solo, instantâneas, compactas, com um
crepitarzinho sonoro, umas rasteiras, pegadas à relva, outras subindo
alto, como jatos de cristalino repuxo, erguidas no topo de enormes pedúnculos
quase ao nível do rosto de Lucinda, corolas gigantes a despejarem embriagadoras
emanações, essências que evolavam como ardência
de abrasadas caçoilas, fluidos sutis e coloridos dos mais variegados
reflexos, vaporezinhos iriados prendidos de largos turíbulos balouçados
por uma aragem quase violenta, candente, de eflúvios entorpecedores,
narcotizantes.
Aí viu ela a seus pés Eduardo Glerk, em cujo semblante desatinado
leu uma despedida de morte.
Segunda vez não erraria a mão homicida.
E imensa onda de comiseração inundou-lhe os seios d’alma.
Não houve instinto de piedade, meiguice e cordura, tão da índole
da Mulher, nascida para o sacrifício, não houve incitamento
desinteressado e generoso, que não lhe transbordasse do peito, que
não a impelisse sem hesitação, que a não empurrasse
para o báratro, prestes a devorá-la.
Tudo faria para salvar aquele homem! E ela própria, inconsciente, lhe
estendeu os braços... Sentiu-se então empolgada por férreo
e delirante amplexo que lhe cortou o alento e a contundiu em todos os átomos
da sua carne, beijada por boca açorada, voraz, o mais capitoso dos
flóreos e venenosos hálitos que já tanto a haviam inebriado.
E esses beijos, fragrantes, sugadores, entornavam-se-lhe pelos ombros, cabelos,
testa, faces.
Afinal, lábios em fogo colaram-se aos seus.
Quis desprender-se, reagir; não pode.
Descorporizou-se todo o seu ser, fundiu-se em inefável delíquio,
num quebrantamento passivo de quem vai soltar o derradeiro suspiro, presa
de fatal síncope, em que o corpo baqueia exânime e a alma se
ala pelos espaços além, num arranco de asas para os páramos
do Ideal!... Quando, momentos depois, Lucinda recuperou um pouco os sentidos,
não pertencia mais a si; pertencia a Eduardo Glerk... Entreolharam-se
como dois criminosos irremissivelmente perdidos, condenados pela vendeta pública
e divina; ela esmagada, desfalecida, Eduardo atônito, indignado contra
si mesmo, precipitados ambos no fundo de tenebroso abismo, cercados de caliginosa
treva, sem esperança de salvamento.
- Perdão, suplicou ele de mãos postas, nada me lavará
dessa... indignidade... inaudita, de tão horrendo sacrilégio...Sou
um réprobo... Anátema sobre mim! Erguera-se Lucinda com esforço,
o corpo sacudido por calafrios a fuzilar-lhe pela espinha dorsal e por frêmito
interno que, de instante a instante, lhe fazia bater os queixos, e tornara
a cair sentada.
Ah! se, pelos menos, lhe fora dado chorar! Mas, não; no lento tombar
das pálpebras, que mal podia depois entreabrir de tão pesadas,
plúmbeas, sentia os olhos vazios, secos, áridos, sem mais linfa,
à maneira de escassa fonte, cuja última gota acaba de ser sorvida
por extenso areal.
Espaçados minutos decorreram para ambos, torporizados num confrangimento
acabrunhador, de ignara desolação para Lucinda, de insano gozo
e repassado de cólera para Eduardo Glerk.
De repente, estremeceram.
Parara à porta do jardim um carro.
Lá fora tangeram a campainha elétrica.
Houve tumulto de gente, vozes que indagavam... Uma visita naquelas circunstâncias,
misericórdia de Deus! A sorte tem por vezes refinamentos de atroz maldade...
Felizmente, após momentos de estupefação, o carro tornou
a rodar.
Houvera equívoco de casa, que o criado Jacinto fora logo desfazer.
- Perdão, voltou a implorar o moço num soluço de exortação.
Afinal, com voz exausta e gesto que, súplice e imperioso, arredava
o amante, replicou ela: - Tenha, por quem é, dó de mim!... Deixe-me...
Mais tarde, muito mais tarde, falaremos... Por enquanto, anelo uma coisa unicamente:
ficar só, entregue a mim mesma... - Obedeço, obedeço,
aquiesceu Eduardo, inclinando-se submisso.
Peço, porém, leia isto; é um resumo desconexo da minha
vida... a história dos meus suplícios.
E, precipitado, sacou do bolso volumosa carta fechada que entregou a Lucinda,
sem reparar que, ao mesmo tempo, caíra no tapete um bilhetezinho aberto.
Retirou-se então com trôpego passo.
E ali se quedou a infeliz, a remoer a sua dor naquela sala garrida e luxuosa,
que se lhe afigurava mortuária capela, no silêncio do retirado
bairro, ao passo que um bico de gás continuava a silvar em assobio
fino, um tanto estrídulo às vezes, outras com modulações
quase harmoniosas.
Decerto, ah, sim! Para todos haveria perdão, indulto pleno, para ela
não, pelo desapreço em que, no próprio conceito, para
sempre afundara, pelo opróbrio a que se deixara arrastar! Se, ao menos,
o tivesse amado!... Não, a sua vida era finda... estancada, em todo
o caso, a estima da vida... Fenecera com o irremediável desfalecimento...
Deixara de ser o que fora, uma mulher honesta, pura, cata, ciosa dos seus
brios, ainda mais que do seu nome, e, quase sem transição, entrara
no rol de tantas... tantas... por í! E para essas, ainda havia justificações
aceitáveis, atenuantes.
Para si, nenhuma... nenhuma possível! Julgava-se com imparcialidade
e não encontrava pena assaz severa proporcional à sua falta,
ao seu crime.
Era a sua dignidade, o seu orgulho de virtude inata, desacostumada de lutas,
tão superior a elas, que deixara às tontas crestar.
Quando e como poderia recobrar a paz de outrora, uma vez cravado esse perenal
acúleo, essa inaplacável causa de remorso e pungimento na alarmada
e cativa consciência? Ah! quanto não sofreu Lucinda naquela febril
e atrevada convulsão, a girar em estreitíssimo círculo,
como furacão que redemoinha nas dobras de apertado vale! Parecia-lhe
acima das forças arrancar-se daquele canto de canapé, onde se
conservava imóvel, numa postura de insuperável esmagamento,
numa dormência geral, as pálpebras tetânicamente cerradas.
Onze horas, afinal, soaram, e Jacinto, suspendendo o reposteiro da porta da
sala, perguntou, reverente, se podia fechar a casa.
- Sim, sim, concordou ela vagamente.
E levantou-se.
Ao primeiro passo, viu logo sobre o tapete um bilhete.
Apanhou-o e, automaticamente, sem compreender o que lia, percorreu-o vagarosa.
Datado de S.
Petersburgo dizia o seguinte: Mon Édouard, Qui sait je ne réaliserai
pás le rêve que nous avons fait ensemble à Paris, um jour?...
Je frémis encore de jalousie, em pensant à cette dame âgée
que tu as tellement courtisée à l'Opéra... Du reste,
je me sens plus malhereuse que jamais!... Ta maîtresse pour la vie Nadia.
Acasos há que semelham sarcásticas caretas do destino.
Deparou-se-lhe adiante, no chão, em fragmentos, a anforazinha de Sévres
que o padre Belmiro tanto admirara.
Um movimento brusco de Eduardo fizera-a baquear e partir-se em pedaços.
Amargo e dorido sorriso crispou os lábios de Lucinda.
- Ah! a minha felicidade! Murmurou irônica.
Eis o que dela resta!... Depôs, alheia a tudo, a carta e o bilhete no
lugar onde estivera o simbólico artefato e dali saiu como uma sonâmbula.
Toda a noite ardeu em febre, cercada de pavorosos fantasmas que se riam a
bandeiras despregadas da sua desgraça e, com clarins e tubas atroadoras,
proclamavam aos mais distantes recantos do universo a suprema vergonha daquela
mísera mulher.
Felizmente ainda se não havia retirado para casa da neta a Sra. Maria
Rosa.
De manhã, mandou ela chamar a toda a pressa o velho e experimentado
médico Dr. Ribeiro de Almeida, que não ocultou a gravidade do
mal.
Fora Lucinda salteada de febre cerebral, com sintomas de violenta excitação
nervosa.
Tinha os olhos injetados, a respiração curta, difícil,
o corpo todo moído, a cabeça a latejar com lancinantes pontadas
que lhe arrancavam agudíssimos gritos, os gestos desordenados; repelia
de si, nos paroxismos do delírio, medonha visão e dava saltos
no leito, trêmula e tresloucada.
- Quero morrer, arquejava ela.
Abram já e já... as vidraças... preciso... atirarme pela
janela fora... desprender a minha alma... deste... corpo que me causa... nojo!
Assim esteve sete dias.
E se não fora a proficiência, calma e atilamento do provecto
facultativo e a admirável solicitude da enfermeira que não arredou
pé daquele quarto de tamanho sofrimento, com certeza se houvera cumprido
o voto da malsinada Lucinda.
Uma insônia rebelde a todas as prescrições, a ânsia
de querer dormir e não poder matava-a, não lhe consentia um
momento de sossego.
E, nesse labutar de intermináveis horas, com o aposento completamente
às escuras, perseguia-a, esmagava-a uma obsessão tenebrante,
pondo-lhe ante os olhos fatos e coisas que jamais vira e de que nunca sequer
cogitara, senão quiçá em rápida leitura de algum
livro de reconstituição histórica.
Achava-se numa festa imensa, estupenda – salas e salas de opulentíssimo
palácio do tempo da Renascença, maravilhosa vivenda de um desses
príncipes italianos, malvados, salteadores, capazes de todos os crimes
e que amalgamavam os últimos requintes da suntuosidade romana com as
tétricas tradições da Idade Média – talvez
castelo de algum César Bórgia e Sforza ou alcaçar de
Aretino.
No seguimento daquelas salas, cortadas de altíssimas janelas, iam do
chão ao teto agigantadas colunas dos mármores mais raros, versicolores,
inteiriças, várias de lápis-lazúli, outras de
malaquite, de puríssimo azul ou de esmeraldino verde, com fios de ouro
maciço nas caneladuras dos fustes, nos capitéis de bronze dourado
e nos pedestais de prata lavrada, tudo a fulgir deslumbrantemente com as cintilações
desferidas a flux de colossais candelabros e serpentinas, lustres de cristal
e lampadários da altura de dois homens.
Eram esses focos de luz ligados uns aos outros, já para cima, já
paralelamente à linha da base, por maciços festões das
mais vivas e olentes flores, entremeadas de folhagem com uma graça
e gosto sem par.
O soalho feito, em largos trechos, de mosaico de riquíssimas madeiras,
encerado e escorregadio, noutros de branco mármore polido ao último
grau refletia invertidos todos os objetos, como a superfície de plácido
lago, dando-lhes vertiginosa profundidade.
O forro da abóbada, estucado, listrado de largas faixas áureas,
com incrustações nacaradas, tinha os intervalos cobertos das
mais finas pinturas a fresco, com tal leveza que, nalguns pontos, parecia
não existir, rasgando clareiras num céu insondável e
estrelado.
Não havia recanto, em que grandes e desdobrados panos de variegado
e precioso veludo, franjado de ouro, não se casassem com as mais pesadas
sedas da China e do Japão, furta-cores, coruscantes, achamalotadas,
brocados de preço inestimável, tapetes da Pérsia de admirável
tecido com mil caprichosos desenhos, os mais complicados arabescos, dominando
a eterna e hierática palmeta de Cachemira.
E, sobre todos eles, jaziam atirados a esmo, como que jogados de roldão,
vasos de matérias mais peregrinas, cinzelados por geniais artistas,
que neles haviam gasto anos e anos de insano labor.
Nos entrecolúnios, pendiam das paredes imensos painéis de inspirados
mestres, sobretudo venezianos, na rutilação do inimitável
colorido; e as carnações vividas e palpitantes das figuras contrastavam
com a branquidão das primorosas estátuas eretas em frente sobre
alterosos sócos.
Tudo aquilo, porém, tamanhos valores, encontravam-se numa promiscuidade
disparatada, esparsos ou acumulados numa desordem de causar tonturas, provisoriamente
amontoados, à maneira de encantado antro que de pouco recebesse os
despojos de muitas cidades opulentas, saqueadas por ávidos piratas.
E, com efeito, acre bafagem de morticínio e monstruosos atentados pairava
naquele ambiente, a despeito dos incensos e resinas que, despejando densas
e tortuosas espiras, ardiam num sem-número de caçoilinhas atiradas
ao acaso, espalhadas as brasas sobre os mais ricos estofos, ateando, aqui
e ali, começos de incêndio.
Acariciadora e voluptuosa música, só de instrumentos de corda,
mágicas rabecas, violoncelos e contrabaixos de feitios esquipáticos,
partia, a um tempo, de muitos grupos de artista pitorescamente vestidos de
hábitos talares de veludo azul, carmesim e preto, betados de arminho
e forrados de martas-zibelinas, descidos das telas de Ticiano, Tintoreto e
Paulo Cagliari, o veronês, onde deixavam largas lacunas.
A princípio, aqueles intermináveis e tão extraordinariamente
decorados paços estavam, em parte desertos; mas, a pouco e pouco, iam-se
enchendo de povo, repletos afinal de homens trajados com roupagens de todos
os séculos e países, sobretudo do Oriente, cobertos esses de
custosas pedrarias.
Tornara-se também o espetáculo deslumbrante, indescritível.
E, por cima dessa multidão que se congregava compacta e já mal
se podia mexer e circular, passavam, de vez em quando, uns clangores de trombetas
vindos de longe e que ensurdeciam os ecos, abafando, de súbito, o concertante
dos músicos venezianos.
Rompeu, então, de todos os peitos um grito ingente: - Aí vêm
elas; aí vêm elas! – ao passo que arautos medievais proclamavam
aos brados: - Glória aos símbolos da mocidade e da beleza vencedora!
– E aquela gente toda ansiosa, ardente, abria sinuosas e compridas alas
a bandos de mulheres completamente nuas, de rara formosura e em plena irradiação
da juventude, quem com os seus cabelos longos, louros, castanhos, negros,
soltos sobre as roliças espáduas, vinham em desapoderada carreira,
rindo-se como perdidas, numa onda irresistível de insânia e de
luxúria.
E por instantes, estacavam nas atitudes mais graciosas, elegantes e lascivas
que poderiam idear um cérebro de artista em fremente exaltação!
Oh! que aparição estranha! Quanto brilhavam ebúrneas,
à claridade dos feixes de luz, aquelas carnaduras alvinitentes, acetinadas,
com leves graduações do mais risonho rosicler, e patenteando
incomparáveis encantos! Iguais, só Vênus anadíomene
desvendara, ao surgir da espuma do cíprio mar, deslumbrando a vista
dos fanáticos da Forma! E que olhares vorazes, que vesânico fervilhar
de confrontos e cortejos no rápido instante da caprichosa parada, ao
tomarem elas momentâneo alento! No meio de tantas rivais, como dizer
qual a mais bela, qual a triunfante? Que disparidade na simples conformação
dos seios! Que róseos matizes nas auréolas dos túmidos
biquinhos e nos peitos pontiagudos, desde o carmesim da polposa pitanga, até
o desmaiado da mangaba que vai amadurecer! Quanta diversidade na flexuosa
linha da cintura, no descambar dos quadris, no abaulado dos marfíneos
ventres, nos contornos calipígios, nas curvas das coxas e joelhos,
ligeiramente valgos, nos artelhos e tornozelos adelgaçados, atestando
puras raças, a aristocracia da escala étnica! Nos ares estrugiam
súbitos bramidos.
Eram mancebos, tomados de tantálica fúria, que perdiam a razão
e se apunhalavam com aguçadas adagas.
Caíam agonizantes, a estrebuchar, calcados logo pelos muitos que, mais
e mais, a todo transe, se queriam acercar daquelas fascinadoras criaturas,
origem de tanta alucinação.
Eis que nessa mó de gente se produziu, como ao sopro de repentina ventania,
um impulso que a levou para cenário ainda mais largo e grandioso, monumental
exedro, terminado por mirífico hemiciclo.
E nele s mesclavam os maiores esplendores da arquitetura, escultura e pintura,
realçados pelos mais cobiçados artefatos de todos os povos da
terra.
Tinha, porém, um quê de trágico na magnificência,
com perspectivas tão bem combinadas e extensas que simulavam entrar
pelos espaços infindos.
Como no oico coríntio, alteavam-se, em derredor, inúmeras colunas,
não poucas de pórfiro e verde antigo, unidas por um atiço
que suportava o teto, furado de janelas, óculos e abertas, e ornamentado
de pilastras, a dar-lhe feição e semelhança de aérea
basílica.
De todos os lados faiscavam os mármores, o jaspe, enormes placas de
calcedônias, ágatas, granadas e esmaltes, embutidos de ônix,
laca, âmbar, quando não drusas de esmeraldas nativas e núcleos
de diamantes brutos.
No desdobrar de tantas pompas e gozos parecia, contudo, iminente formidável
catástrofe.
Por sobre leitos dourados, cravejados de gemas, rebolcavam-se os convivas
da babilônica orgia, coroados de pampanos e rosas, servidos por centenares
de pajens, juvenis escansões, ou núbeis escravas de todo o ponto
despidas e que, ágeis e esbeltas, corriam carregando elegantíssimos
vasos de cristal de rocha e vertendo a ufa nas lavradas taças vinhos
das mais antigas e afamadas adegas.
Voluptuosos hinos e cântico enlanguesciam os sentidos.
Os sibaritas, de fartos, enxotavam de si a vergastadas o enxame de despejadas
cortesãs e mercenárias bailarinas, que a eles se atiravam, ébrias,
sedentas de amor, e rolavam pelos felpudos tapetes ou sobre cetins de Macau,
gorgorões e montes de rendas e gaze, varias marmorizadas logo por fulminante
sono, nas posições mais impudicas e provocantes, um sorrisinho
alvar estereotipado aos venais e carmíneos lábios entreabertos.
Tiritava de horror Lucinda por se achar, sem saber como, nesse infernal pandemônio.
Percebia vagamente, nas intermitências do sub-delírio, que tudo
aquilo não passava de flagelante pesadelo, que lhe cumpria vencer e
dominar; mas tinha as faces abrasadas de pejo por lhe perpassar na mente tanta
coisa insólita, tão antagônica à sua existência
inteira de castidade e modéstia.
De que incógnitos recantos saíam em tropel todas aquelas imprevistas
e extravagantes evocações, esse encadeamento de cenas tão
pasmosas?! Em que lôbregos e negrejantes recônditos do íntimo
haviam hibernado tantas minúcias, eivadas de infame e requintada lascívia?
Quão deletério e contaminador o hálito da culpa, por
débil e rápido que sopre! De súbito desperta e subleva
nunca sonhados temporais na alma mais pura, mais honesta, mais acostumada
à prática do bem e ao respeito de si mesma.
Agravava-se, porém, a abominável opressão.
Via Lucinda no fundo hemiciclo, centro de amortecida refulgência, enorme
tálamo de ébano, pau cetim e sândalo em forma de concha,
e nele fofamente estirado sobre púrpura e finíssimos linhos
o monstro da Luxúria.
Rodeavam-no, servis, bajuladores, os seus sequazes, em parte armados de cotas
de malha de reluzente aço, que lhes protegiam os musculosos troncos,
alguns com argênteos capacetes encimados de flutuantes plumas, outros
de faceiros gorros à cabeça, cada qual simbolizando já
a Audácia, já o Dolo, a Mentira, a Surpresa, o Perjúrio
e tantos outros atributos da concupiscência.
E de junto ao leito, de vez em quando, se afastavam para arrebanhar, em holocausto
à Insaciabilidade, as mais formosas e tenras vítimas, empurrando-as
sarcásticos, beluinos, até ao toro do odioso e sonolento Moloch.
Se muitas das tristes sacrificandas se deixavam tanger passivas e resignadas,
outras lutavam frementes, debatiam-se clamando socorro que não chegava,
atiradas ao chão, zurzidas, puxadas pelos cabelos no meio de escandalosas
risadas, baldões e sacrílegos insultos.
No turbilhão delas foi de envolta Lucinda até ser alcançada
pelas garras do Monstro.
Este, porém, contemplou-a com olhos esbugalhados, estupefatos e, levantandose
a meio, ordenou, rubro de cólera, gaguejante de furor, com gesto fulminatório:
- Expulsem... daqui... esta velha! E uma surriada de impropérios, uma
gargalhada nunca ouvida, de fazer desabar muros e abóbadas, estourou,
reboou por todas as concavidades, enchendo os ecos distantes e repercutindo
ao longe: “Fora a velha, fora a velha!” Lucinda, com passo tropeçante,
as roupas dilaceradas, quase em andrajos, fugia trepida, louca, quando por
acaso avistou Eduardo Glerk.
- Salve-me... salve-me! Exortou meio moribunda.
Serei sua para sempre! Aí reparou que conversava com uma mulher na
flor doa anos e de ofuscadores encantos – era Nádia! Encarou-a
o amante com fisionomia impassível, frígida, sem sinal de qualquer
emoção de lástima e muito menos alegria.
- Salva-la?... Não a conheço... Não sei quem seja...
- Sou Lucinda... Lucinda Soares! Nada mais me falta neste mundo!... - Mais
c’est la dame âgée de l’Opera! Exclamou a outra em
francês.
Instantaneamente, porém, se transmudou o oficial de Marinha no padre
Belmiro.
E este, após umas arrebicadas palavras de fútil consolo, explicou-lhe
bm claro a razão de tanta indiferença, tamanha ingratidão.
- filha, a tua beleza está irremediavelmente perdida.
Dependia apenas do perfeito equilíbrio do teu viver.
Levou-a o sopro letal da paixão, por mais que dele te quisesses resguardar.
Para resistir a abalos desses, tão somente o viço e a fortaleza
da mocidade.
Do que foste, só restam agora desoladas ruínas, apagados vestígios...
De hoje em diante, vais caminho da velhice... Nisto, um urro, enfeixando mil
gritos de horror, retumbou medonho: “Fogo! Fogo! O palácio está
em chamas!”.
Precedidas de esparsas faíscas, umas pontazinhas de labaredas, esguias,
tremeleantes e como curiosas de assistir também à estrondosa
festa, tomaram de assalto portas e janelas, e, num ápice, galgaram
o teto, ao passo que rolos e enormes bulcões de asfixiante fumo jorravam
pelas abertas, à maneira de vagalhões de nego oceano, a bramir
de fúria.
Dali a nada, no seio da escuridão rasgada por apavorantes clarões,
rompeu do alto um dilúvio de metais derretidos, pedras, vigas ardentes,
trechos inteiros de estuque que esmagavam a multidão num torvelinho
e pânico que mais aumentavam o morticínio e a alucinação.
Sentiu-se aí abarcada Lucinda por dois braços hercúleos
que, instantes depois, a depuseram fora, sobre o frio chão, enquanto
o palácio, teatro de nefandas orgias, se abismava, transformado em
cratera de vingador vulcão, com explosões, uivos e estampidos,
que sacudiam a terra até às entranhas.
Quem a salvara, fora Anselmo Guerra! Desmaiou então e pôde conciliar
um sono reparador de quase vinte e quatro horas seguidas.
XXIX
Se a convalescença foi rápida e sem oscilações,
não teve, contudo, a doçura daquele meigo e penetrante júbilo
de quem se sente voltar à vida, período de inenarrável
beatitude, em que a natureza se nos afigura de uma louçania toda nova,
em plena ressurreição, prometedora de bens e felicidades que
não mais hão de acabar.
Arrancou-lhe surdo gemido o primeiro olhar que, depois de tantas provações,
deitou Lucinda ao espelho.
Nunca imaginara tamanhos estragos, tão completamente confirmado o vaticínio
do padre, no final de terrível pesadelo.
Não havia contestar, tudo estava consumado! Bem no alto da cabeça
alargava-se, desde a testa, uma faixa de cabelos brancos, contrastando com
o negrume dos que, para os lados e nas têmporas, não haviam encanecido.
A cútis, tão igual e aveludada quinze dias antes, ressecara-se,
cortada de vincos e rugas, sulcos riscados pela unha da fatalidade; a comissura
dos lábios perdera o seu frescor, rijeza e graça, a boca, talvez
até um tanto contorcida; apertavam-se-lhe os olhos sob pálpebras
flácidas, quase empapuçadas.
Era outra mulher! Disso não lhe restava a menor dúvida.
Quisera ter morrido, quisera ter ficado prostrada na luta e descansar, vencida,
na inalterável paz do cemitério, tendo levado para o regaço
da protetora Mãe a sua cara beleza, de que tanto gozo imaterial haurira.
Pensou, por momentos, em rebelar-se contra a sentença do fado, em buscar
recompor pelo artifício os encantos espezinhados, fenecidos.
Curta, porém, foi a perplexidade e decidiu aceitar a existência
tal qual se lhe apresentava.
Recomeçara, aliás, o organismo o seu trabalho de reconstituição.
Voltava-lhe o apetite, a necessidade de agitar-se, de mudar-se daquele aposento
em que tanto havia padecido, o desejo de respirar ar livre, vivificante.
Tudo se ia repondo no seu lugar, menos aquele adorável simulacro de
mocidade, zelado por tantos anos e que de chofre se esvaíra, como delicado
e preciosos frasco de pompeana sala, derruída em seus alicerces por
ingente terremoto, após séculos de milagrosa preservação.
No fim de uma semana, pôde Lucinda descer ao pavimento térreo
e, com certo enternecimento, esteve, na saleta da entrada, a remexer a cesta
de bilhetes de visita, atulhada de cartões.
Quanta gente viera saber notícias da querida enferma! Mais que a vizinhança,
o bairro em peso acudira inquieto; a cada momento D. Helena Glerk.
Do sobrinho, então, a cópia de cartões indicava bem a
ansiedade em que vivera todo esse tempo.
No meio de tantas tarjetas, uma, ilustrada de espalhafatosa heráldica,
deu que pensar a Lucinda.
- Quem é esse visconde de Margão do Avél? Perguntou a
si mesma sem atinar quem fosse semelhante titular.
De Anselmo Guerra havia uma carta única.
Com letra muito tremida, participava ele, em lacônicas linhas, que,
após mortífero acesso de febre, fora levado para fora do Rio
de Janeiro por um primo seu.
Achava-se um pouco melhor, numa fazenda distante, e contava ficar restabelecido
dentro de vinte ou trinta dias.
Tudo ignorava.
- O bom Anselmo, murmurou melancólica Lucinda.
E reportando-se ao pesadelo da febre: - Foi o meu salvador! Será o
companheiro fiel e sempre respeitoso dos meus velhos dias! Repetiu, então,
baixinho o terceto final de um soneto do inigualável poeta português
que, na véspera, lhe havia prendido os olhos, por singular coincidência:
“Triste de quem se sente magoado De erros que não pode haver
perdão, Sem ficar na alma a mágoa do pecado!” Estava ela
nesse indefinível e pungitivo cismar, quando o criado Jacinto lhe anunciou
uma visita – Eduardo Glerk.
Quis recusar-se; achou-se vestida com demasiada simplicidade, sem preparo
algum, os cabelos à chinesa, puxados para trás, a grande faixa
branca bem em evidência.
Encolheu, porém, os ombros e mandou-o entrar.
O primeiro ímpeto de Eduardo foi tolhido por doloroso pasmo que se
lhe tornou impossível disfarçar.
- D. Lucinda! exclamou estacando irresoluto.
- Quase me não reconhece, não é verdade? Observou ela
com velado entono, estou tão... mudada... desfigurada! - A senhora
deve ter sofrido muito, balbuciou ele.
- Muito... muito... impossível mais! Que quer? Não é
brinquedo uma transformação radical de existência.
E com forçada expressão de gracejo: - Fiz o inverso da borboleta...
entrei para o casulo... donde nunca mais me mexerei.
Com gesto um tanto frio, convidou-o então a sentar-se.
Largo tempo ficaram silenciosos.
E, de vez em quando, erguia-se o olhar de Eduardo Glerk, ora atônito
a tentar recompor o adorado semblante, ora submisso a interrogar o que lhe
cumpria fazer, numa hesitação de quem está sonhando acordado.
A custo venceu esse enleio.
- Não me queira mal, disse comovido; eu também, do meu lado,
padeci morte e paixão todo esse tempo atroz... O porvir nos compensará
de tudo isso... ligada como está a nossa sorte... pois agora... - Não
podem, replicou vagarosamente Lucinda atalhando-o, estar a um tempo ligados
o passado e o futuro – fora um contra-senso.
O senhor caminha para a luz, eu dela me aparto... Um vai ao encontro da claridade,
outro da sombra.
Escusado é observar-me mis do que você já fez.
Devem-lhe ter caído desfolhadas, mortas, todas as ilusões! 69
- Lucinda! implorou o moço procurando pegar-lhe na mão e com
lágrimas nas pontas dos cílios, que linguagem tão cruel
e desalentada! Continua o meu amor o mesmo... incondicional.
- Não poderá dar-me aos cabelos a cor que para sempre perderam.
Não... E, interrompendo o que ia dizer, levantou-se: - A nossa separação
impõe-se irrevogável... Parta quanto antes, se me amou deveras...
Parta!... Na generosidade dos seus sentimentos, nada mais tente... Fora inútil
e... demasiado torturante para ambos... um misto de impossível e de
ridículo... E tirando a carta ainda fechada de Eduardo e o bilhete
de Nádia do lugar em que haviam ficado desde a noite fatal, disse com
lentidão: - Tome... tudo isto... é seu... Descorou muito o mancebo
e ansiado murmurou: - Maldito bilhete... tanto o procurei!... Aliás...
Cortou-lhe brandamente a palavra Lucinda: - Em nada influiu na minha inabalável
resolução... Estendeu-lhe, então, a destra gélida,
mas que não tremia: - Adeus... adeus! Siga o seu destino, que é
brilhante... Esqueça-se de mim... Fico no meu papel de mulher mal ferida,
mas quase resignada... a um canto obscuro... deste mundo.
E... dele não quero sair, nem a troco de todas as promessas e grandezas
da Terra!
Fonte: www.virtualbooks.com.br