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No Declínio

Visconde de Taunay

- Se assim é, por que não pensar na solução mais própria e razoável, no casamento? E a disparatada desproporção de idade? Ela com quarenta e quatro anos já feitos, ele com vinte e oito! Que mundo de desgostos para ambos, que futuro de agruras, uma vez dissipado o violento capricho, ligados para sempre um ao outro! Concordou plenamente Belmiro de Andrade.
Via nessa preocupação dominante e tão justa evidente prova de que, uma vez livre Lucinda da momentânea obsessão, havia de recuperar de todo a liberdade de ação.
- A mulher que pensa assim, filha, não ama, está claro, sobretudo chegada ao ponto da vida em que a senhora se encontra.
Tire, porém, bem a limpo a dúvida que aflige o seu espírito.
Para tanto lhe lembro este expediente: saia do Rio e fique uns quinze ou vinte dias a sós, em algum ponto por aí perto, Tijuca, Petrópolis ou qualquer outro.
Se, nesse período de ausência e quebra de hábitos, se achar bem, como que aliviada de grande peso, alheia à constante recordação desse homem, poderá nutrir a convicção de que o seu coração não se deixou prender.
No caso contrário, se experimentar angustiosa, impaciência, indefinível mal estar, então não poderá mais contar consigo; terá partilhado o sentimento que, estou certo, a contragosto inspirou.
- Oh! Sim, asseguro-lhe que não concorri para isso, declarou Lucinda com absoluta sinceridade.
E quedou-se um tanto acabrunhada.
Admiraram então o Corot, Belmiro com entusiasmo de perito e provecto amador a apontar todos os primores do painel – um radiante e melancólico crepúsculo.
- Veja filha, quanta luz por toda a parte, que fulguração nos céus, que toques divinais na paisagem inteira! Não se diria, porém, que tudo isso é por pouco tempo? Que essa magia como que se está amortecendo, vai morrer daqui a pouco? - E não é, mais ou menos, o meu caso.
Sr. padre, já que ainda me querem?
- Ora, contrariou Belmiro, deixe-se dessas idéias; a sua forte razão formalmente as reprova.
Ao despedir-se, entregou-lhe Lucinda uma formosa moeda de ouro portuguesa, datada de 1745; D. João V no verso, as armas reais no anverso, magistralmente gravados.
- Que magnífico presente! Observou ele mirando a dádiva com grata surpresa, os olhos cobiçosos, esperto logo.
Será uma das jóias da minha coleção numismática.
E acompanhou até a porta do jardim a donairosa cliente, depois de lhe ter graciosamente ofertado um galhozinho de três lindas rosas marechal Niel.

XXIV

Como correram rápidos aqueles dias passados na Tijuca! Abraçando o alvitre sugerido pelo padre, mandara logo Lucinda convidar a prima Hercília, já noiva do seu deputado federal e chamara para acompanhá-las naquela estada fora da cidade uma antiga e avelhentada aia de casa, a Sra. Maria Rosa, conhecida de largo tempo, excelente criatura, sempre às ordens para casos tais.
Morando com uma neta casada, muito protegida por Lucinda, de rara devotação, só tinha aquela boa mineira o defeito de suspirar pela fortuna, a aventar de contínuo hipóteses impossíveis, se fosse rica.
Tomando aposentos no hotel White, tão bem situado para quem vai em busca de sossego e solidão, abrigado na encosta de agrestes morrarias, espécie de grotão risonho, só a Anselmo Guerra comunicara Lucinda o ponto dos arrabaldes que escolher para aquele experimento de caráter especial.
E dele não tirou senão motivos de aplauso e quietude.
Achou-se perfeitamente a gosto, libertada de uma atmosfera elétrica, logo com ótimo apetite, excelentes sonos, despertar leve e pronto sem mornos apegos ao leito, pulando da cama cedo e vestindo-se às pressas para longos e matutinos passeios.
Retemperada por aquele vivificante e amplo banho de ar e luz, no retiro que buscara para sondar com pausa e calma o seu íntimo, aproveitava manhãs de indizível suavidade e não se cansava de percorrer e esquadrinhar as pitorescas cercanias do hotel, galgando célere as subidas dos declives, alguns bem íngremes, ou por eles descendo em rápido impulso com a ligeireza de saltitante corça.
Por seu lado, não cabia Hercília em si de contente, mostrando a mais comunicativa alegria, que não deixava de causar certa estranheza à prima.
- Então, menina, não a matam as saudades do noivo? - Assassinas, assim, não, respondia a gentil rapariga; algumas... Aliás, prometeu vir ver-nos... mas eu me sinto tão bem! Ah! pobrezinha, quão diversa, se o outro, o belo oficial de Marinha, cujos olhos debalde procurara na festa do bazar ingenuamente prender, a houvesse distinguido? Ah! sim, como não mudariam as coisas de figura? Havia, sem relutância, aceitado o sôfrego pedido em casamento do embelezado pretendente e não lhe desagradava o enlace já próximo; no fundo, porém, residia certo pungirzinho que, de vez em quando, lhe dava às faces desusado rubor, um esfoguear de purpurinas rosas que desabrocham juntas, encostadinhas umas às outras.
Quem não apreciava lá muito as intermináveis excursões por veredas e azinhagas, ainda molhadas do rocio da manhã ou por umbrosas matas, era a Sra. Maria Rosa.
Embora magra e seca, com penas de vinte anos, murmurava brandas queixas num tom dolente e arrastado.
- Se eu fosse rica, dizia com resignado sorriso, não sairia nunca da cama senão lá pelas 10 ou 11 horas do dia, talvez mais tarde até.
- Pois amanhã, gracejava Lucinda, acordá-la-emos antes da madrugada! - Virgem Santíssima! E as duas riam-se a perder da boa mineira.
- Se você fosse rica, perguntou-lhe a viúva em certo trecho de encantadora digressão no seio de copado capoeirão, cortado de abertas sobre dilatada paisagem, se fosse rica, não gostaria de ver tudo isto? - Preferiria muito mais andar de carro pela cidade.
Há tantos, tantos anos que não entro numa sege! E lá iam todas três, valentes, incansáveis.
Não havia recantos da Floresta da Tijuca que afinal não conhecessem, voltando de contínuo a lhes admirar as incomparáveis belezas.
E, na realidade, quantas! Parece que por aí sobrepaira ainda a alma criadora daquelas maravilhas todas, o influxo do barão de Escragnolle, tão preso àqueles floridos bosquetes, àquelas frondosas avenidas, aos serpeantes regatos, aos mínimos detalhes e acidentes do vastíssimo parque, uma das raras paragens, nos arredores desta capital, em que ainda se ouvem as plangentes notas do sabiá e o gorjeio das avezinhas, tanto os defendia ele, vigilante e indignado, dos tiros de bárbaros passarinheiros! Também, só o gênio desse administrador modelo, pensativo e retraído, entusiasta da natureza, só uma índole poética e elevada, como a dele, poderia ter casado a graça, a majestade e exuberância da luxuriante flora intertropical com as mil finuras, intenções e graciosidades da arte européia, imprimindo cunho tão original e idealista aos primores que sugestivamente foi apelidando “Gruta de Paulo e Virgínia”, “Cascata diamantina”, “Vista do almirante” e outros, e outros; acima, porém, de todos o “Excelsior”, teatral rasgão de vista sobre a larga baixada em que se encastoa a baía do Rio de Janeiro, fechado todo o colossal panorama pela linha do alto mar, o oceano além, a confundir o brumoso horizonte com o esbatido azul dos céus! Em todos aqueles sítios de tão penetrante enlevo e robustas auras, esquecia-se Lucinda de tudo.
Nas horas, entretanto, de mais concentração, amolecida pelo calor do dia em apertado quarto de hotel, lembrava-se de Eduardo Glerk com alguma insistência pouco grata, decerto, porquanto nesse recordar preponderava uma Omo trepidação de sobressalto.
Estavam-lhe bem presentes as fascinações que cercavam aquele homem de quase fúlgida auréola e tanto o salientavam de entre os mais.
Esse mesmo brilho, porém, fazia-lhe mal aos olhos, punha-lhe trevas no coração; essa superioridade era base e tema de agitados encontros a que buscava subtrair-se, colhendo rédeas à imaginação e espraiando o seu espírito, tão propenso ao quietismo.
Fora, aliás, a última entrevista tormentosa, quase agressiva por vezes, ela em guarda, acautelada, ele nervoso, incoerente, ora súplice, dócil, ora quase frenético.
- A minha paixão, dissera a morder os lábios de despeito, não faz senão importuná-la.
Pois bem, libertá-la-ei da minha presença; não sei ainda como, mas tomarei resolução digna de mim.
Impossível é continuarmos assim.
- Mas afinal, que quer o senhor de mim? Casamento/ Concordará que fora insanável ridículo para ambos, quando... E aí parou um pouco.
- ... Quando eu poderia... ser sua mãe.
Então, o quê? Tornar-me sua amante? Ecoaram estas palavras tão estridentes, tal conturbação infundiram quer num quer noutro, que nos seus rostos se desenhou o pasmo, quase terror.
Fez-se profundo silêncio, que, só a custo, Eduardo Glerk rompeu, falando com dorida emoção, a voz estrangulada de soluços, os olhos rasos de mal contido pranto.
Era com efeito um louco, sim, um louco varrido.
Em nada cogitara, entregandose àquele amor, sem medir conseqüências.
Imaginasse um homem caído no fio das ondas de espumante e vertiginosa corrente, com os braços e pernas atados, sem possibilidade de qualquer ação.
Tal fora tão funesto arrastamento.
Desde logo náufrago, só conhecia que o abismo o ia irremediavelmente tragar.
Ah! Quanto mais depressa melhor! De relance avaliava a extensão do mal que o condenava implacável, ainda assim feliz por vê-la dele preservada.
Não mais a perseguiria com as suas preces, os seus lamentos e desesperos; saberia recalcá-los com a valentia de um gigante e a resignação de um mártir.
Arredasse, porém, justiceira, do seu espírito suscetibilizado a idéia de que jamais lhe houvesse passado pela mente, nos seus maiores desvarios o pensamento de desrespeitá-la, de apeá-la do puríssimo pedestal a que a guindara a sua humilde adoração, para torná-la alvo de indignos instintos e ignóbeis cálculos.
Não, mil vezes, não! Jurava em nome de Deus, como crente e homem de honra.
A tudo servia de atenuação o inferno de agonias a que lhe dilaceravam o íntimo com garras de fera.
Mostrava aquela suspeita o desprezo em que o tinha, o conceito vil e baixo que dele fazia.
Esperasse, porém, pelos fatos; haviam de implorar em seu favor, de levantá-lo do pó a que fôra jogado com tanto escárnio.
Não lhe quisesse mal de todo; não o varresse da memória, quando longe, longe, nas sombras de esvaído passado.
E grossas lágrimas então lhe deslizavam pelas faces, ora lívidas, ora abrasadas.
De tudo isso bem se recordava Lucinda, mas, já aí, como de história acabada, irrecomeçável, um tanto orgulhosas da sua firmeza naquele arriscado passo.

XXV

Num dos dias seguintes ao da volta à rua dos Voluntários da Pátria, entrou, de manhã, correndo pelo jardim como uma doida, D. Helena Glerk, sem chapéu, desgrenhada, apenas envolvida num velho chalé preto.
Contra todos os hábitos, mal aberta a porta galgou quatro a quatro os degraus da escada e subiu aos aposentos interiores da amiga, batendo portas e soluçando alto.
- Lucinda, Lucinda, exclamou numa irrepreensível explosão, Eduardo, o meu Eduardo, está a morrer! E caiu desfalecida numa cadeira, enquanto a outra a fitava muda, estarrecida, estatelada.
- Não é possível! Não é possível! Balbuciou por fim, branca como uma pétala de magnólia.
- Ah! sim, que noite! Que noite, minha Nossa Senhora! E Helena, deixando-se escorregar de joelhos sobre o tapete do quarto, bradou, com os braços hirtos para o teto: - Deus de misericórdia, ó Deus, tomai a minha triste existência, levai-me deste mundo, mas poupai meu filho! Já que a vossa justiça tem de pulverizar alguém, transferi para mim todas as culpas, todos os erros e desmandos desse adorado ente!... Afinal, mais tranqüila, contou ofegante o que sucedera.
Bem previra que o estado normal de Eduardo, para o qual não achara ainda explicação, deveria dar em desastre.
Desde a sua chegada, não tivera ele um dia só de sossego, não comia, não dormia, numa inquietação contínua, sem nome.
Por vezes até, como que ia perder o juízo, chamando-se a completo mutismo ou então discorrendo com estranhável volubilidade sobre mil futilezas.
Aí, de repente, resolvera aceitar nova omissão do governo à Europa; e ela, Helena, embora desgostosa, vira nisso uma solução àquele incompreensível drama a que assistia apavorada, sem poder intervir.
Isso quando Lucinda partira para fora, sem Dara viso a ninguém.
Nesse tempo, parecera Eduardo melhorar, mostrara-se mais calmo, ocupando-se com atividade dos preparos da viagem, escolhera os companheiros que deviam acompanhalo e gracejara até das saudades prévias da pobre tia.
Na véspera, estivera o dia quase todo em casa, trancado em cima, a escrever cartas, alegava.
Nem descera para jantar, pedindo apenas uma asa de frango e uma xícara de café carregado.
Às 8 horas da noite, viera combinar com ele certas medidas um dos camaradas nomeado.
Havia luz no quarto.
Batera em vão.
Espiando pelo buraco da fechadura, pudera então ver o amigo a rolar sobre o leito, agitando os braços, arquejante, denunciando sofrer mil mortes.
- Arrombamos a porta, continuou Helena; ah! que cena! Que cena! O infeliz tinha à cabeceira vários frascos de remédios; acredita-se que se enganara e ingerira grande dose de veneno... - E depois? Indagou a custo Lucinda.
- Aí encetamos tremenda luta.
Felizmente acudiram logo médicos que, pela madrugada, o declararam, senão de todo salvo, pelo menos fora de perigo iminente... Virgem, Virgem das Dores, será crível que o meu Eduardo, tão religioso, tão sensato, tivesse podido atentar contra a própria vida, faltando a todos as leis divinas e humanas?... Não, não é possível!... Aí houve uma troca fatal de vidros... Pois só conciliava ligeiros sonos a poder dos mais fortes narcóticos... É um desgraçado!... Assim, antes a morte! Helena Glerk e Lucinda, estreitamente abraçadas, choraram, largos, largos minutos, lágrimas bem amargas.
Afinal, aquietaram-se um pouco.
- Diga a seu sobrinho que viva, recomendou a viúva sem pensar muito nas palavras que proferia.
Refira-lhe o abalo que sofri... não podia ser maior... - Ah! sim, o seu coração é todo bondade! - Olhe, anuncie-lhe uma próxima visita minha...bem para ele.
Um desses dias, irei em pessoa saber notícias.
Quero achá-lo de pé, se for possível.
Agora, nada de imprudências e precipitações... - Mas... salvar-se-á... com o desgosto que mostra pela vida? Quando o moral está assim afetado, difícil é resistir a choques desses... E quanto é ele estimado, D. Lucinda! Não esvazia a casa... verdadeira romaria.
Se houvesse alívio possível à minha desgraça, ficaria menos desconsolada... Afinal, a humanidade não é tão má como propalam.

XXVI

Ah! que olhar, o de Eduardo Glerk, ao penetrar Lucinda no seu quarto de enfermo! Só por ele deveria a boa da tia ter de relance desvendado o mistério que a desnorteava, se não fosse a tudo tão cega.
Era aquele olhar um poema de indefinida gratidão, um hausto de insaciável avidez, um espasmo de exaltação, todo um conjunto do quanto pode exprimir a alma de um homem, de um forte, arrebatado pelo torvelinho da mais íngreme paixão, a rolar pelas esferas ideadas por Dante.
E dele se sentiu por tal forma percutida Lucinda que, descorando como se fora perder os sentidos, mal pôde articular umas palavras banais.
Por que, aliás, se fizera tão arrebatadora, tanto zelara a sóbria e elegantíssima toalete, com tamanho capricho escolher o mimoso chapéu de betados cambiantes que mais assentava ao seu gênero de beleza? - Obrigado... obrigado, balbuciava Eduardo num como delírio, os lábios secos, a respiração opressa.
Quanto... sou ridículo!... Mas, também, quanto bendigo o leal esforço que fiz!... Agora... porém, posso... e devo abraçar-me à vida.
Não preciso de mais nada.
Tenho forças para a existência inteira.
- Boa dúvida, concordou D. Helena desfeita em riso, deixe-se de idéias sinistras, que tanto dano lhe causaram.
E a mim? Olhe, quer saber uma engraçada novidade? Não é que o Sr. Gregório... o tal Gregório de que lhe falei, D. Lucinda, o velho de quase 90 anos, escapou arranhando? Arribou, depois de já amortalhado.
E está contentíssimo, a fazer cálculos para daqui a dez anos!... Não, Cruz, assim também é demais! Nas despedidas, em baixo, a gárrula senhora, entre mil protestos de ilimitado reconhecimento, mostrou-se seriamente apreensiva.
- Receio bem, segredou abaixando a voz, que o Eduardo fique desconcertado da cabeça.
Fala tanta coisa inconseqüente... sem nexo, nem cabimento! Não pensou, uma vez sequer, na religião! Ah! minha amiga estamos atravessando uma crise extraordinária, sem explanação possível.
Deus quer pôr à prova o meu poder de resignação, e com muito vexame confesso, não me tenho achado na altura da tremenda situação.

XXVII

Dias depois – e exatamente por esse tempo Anselmo Guerra andava com umas febres que o obrigavam a não sair à noite – Eduardo Glerk, embora ainda fraco e mal convalescente, foi à casa de Lucinda agradecer-lhe a fineza excepcional que merecera.
E com tanto baralhamento se expressava, numa frase trôpega e alucinada e em tom por tal modo baixo e singular, que ela mal o entendia.
- A minha salvação única, disse entre outras coisas, é... o casamento.
Se me acha digno de alguma compaixão, confie em mim... Sei bem que o mundo verá nisso torpe especulação da minha parte... por causa da sua fortuna... Hoje, porém, pouco se me dá o juízo dos mais... Nem imagina quanto me apunhala a idéia, quanto mais abomino a sua riqueza... Embora! Pelo amor de Deus, conceda-me essa mão que... encerra os meus destinos e de que... depende a minha morte... Havemos de alcançar a meta da felicidade, como... jamais a tiveram mortais na terra.
Abanava tristemente Lucinda a bel cabeça, a lutar entontecida com um começo de vertigem.
E, a pouco e pouco, achou-se de novo naquele encantado sítio a que a levava a fantasia, na noite das primeiras juras de amor.
Estava, porém, aí, deserto de todo, abandonado, sem sequer um silfozinho de tantos que lá brincavam, sem uma só das gentis e miúdas fadas, que procissionalmente o percorriam.
Por toda a parte, a solidão, ainda que impregnada das harmonias estranhas de um sibilo a modular, já melodias ternas, mas sem conexão, já sons quase ásperos, desafinados, espécie de insistente e longínquo apito.
Cobrara, entretanto, a natureza mais viço, revestira-se a paisagem de mais galas, tornara-se a luz azulada mais intensa, abrira-se o horizonte mais largo, transmudada a cor uniforme da perspectiva em planos destacados, vigorosamente iluminados nos vaivens de nuvens a correr pelo céu, uns em plena e ofuscante claridade, outros mergulhados em espessa escuridão, formando duros contrastes à vista.
As flores, porém, muito mais pululantes que da vez primeira, atapetavam o chão, arrebentavam do solo, instantâneas, compactas, com um crepitarzinho sonoro, umas rasteiras, pegadas à relva, outras subindo alto, como jatos de cristalino repuxo, erguidas no topo de enormes pedúnculos quase ao nível do rosto de Lucinda, corolas gigantes a despejarem embriagadoras emanações, essências que evolavam como ardência de abrasadas caçoilas, fluidos sutis e coloridos dos mais variegados reflexos, vaporezinhos iriados prendidos de largos turíbulos balouçados por uma aragem quase violenta, candente, de eflúvios entorpecedores, narcotizantes.
Aí viu ela a seus pés Eduardo Glerk, em cujo semblante desatinado leu uma despedida de morte.
Segunda vez não erraria a mão homicida.
E imensa onda de comiseração inundou-lhe os seios d’alma.
Não houve instinto de piedade, meiguice e cordura, tão da índole da Mulher, nascida para o sacrifício, não houve incitamento desinteressado e generoso, que não lhe transbordasse do peito, que não a impelisse sem hesitação, que a não empurrasse para o báratro, prestes a devorá-la.
Tudo faria para salvar aquele homem! E ela própria, inconsciente, lhe estendeu os braços... Sentiu-se então empolgada por férreo e delirante amplexo que lhe cortou o alento e a contundiu em todos os átomos da sua carne, beijada por boca açorada, voraz, o mais capitoso dos flóreos e venenosos hálitos que já tanto a haviam inebriado.
E esses beijos, fragrantes, sugadores, entornavam-se-lhe pelos ombros, cabelos, testa, faces.
Afinal, lábios em fogo colaram-se aos seus.
Quis desprender-se, reagir; não pode.
Descorporizou-se todo o seu ser, fundiu-se em inefável delíquio, num quebrantamento passivo de quem vai soltar o derradeiro suspiro, presa de fatal síncope, em que o corpo baqueia exânime e a alma se ala pelos espaços além, num arranco de asas para os páramos do Ideal!... Quando, momentos depois, Lucinda recuperou um pouco os sentidos, não pertencia mais a si; pertencia a Eduardo Glerk... Entreolharam-se como dois criminosos irremissivelmente perdidos, condenados pela vendeta pública e divina; ela esmagada, desfalecida, Eduardo atônito, indignado contra si mesmo, precipitados ambos no fundo de tenebroso abismo, cercados de caliginosa treva, sem esperança de salvamento.
- Perdão, suplicou ele de mãos postas, nada me lavará dessa... indignidade... inaudita, de tão horrendo sacrilégio...Sou um réprobo... Anátema sobre mim! Erguera-se Lucinda com esforço, o corpo sacudido por calafrios a fuzilar-lhe pela espinha dorsal e por frêmito interno que, de instante a instante, lhe fazia bater os queixos, e tornara a cair sentada.
Ah! se, pelos menos, lhe fora dado chorar! Mas, não; no lento tombar das pálpebras, que mal podia depois entreabrir de tão pesadas, plúmbeas, sentia os olhos vazios, secos, áridos, sem mais linfa, à maneira de escassa fonte, cuja última gota acaba de ser sorvida por extenso areal.
Espaçados minutos decorreram para ambos, torporizados num confrangimento acabrunhador, de ignara desolação para Lucinda, de insano gozo e repassado de cólera para Eduardo Glerk.
De repente, estremeceram.
Parara à porta do jardim um carro.
Lá fora tangeram a campainha elétrica.
Houve tumulto de gente, vozes que indagavam... Uma visita naquelas circunstâncias, misericórdia de Deus! A sorte tem por vezes refinamentos de atroz maldade... Felizmente, após momentos de estupefação, o carro tornou a rodar.
Houvera equívoco de casa, que o criado Jacinto fora logo desfazer.
- Perdão, voltou a implorar o moço num soluço de exortação.
Afinal, com voz exausta e gesto que, súplice e imperioso, arredava o amante, replicou ela: - Tenha, por quem é, dó de mim!... Deixe-me... Mais tarde, muito mais tarde, falaremos... Por enquanto, anelo uma coisa unicamente: ficar só, entregue a mim mesma... - Obedeço, obedeço, aquiesceu Eduardo, inclinando-se submisso.
Peço, porém, leia isto; é um resumo desconexo da minha vida... a história dos meus suplícios.
E, precipitado, sacou do bolso volumosa carta fechada que entregou a Lucinda, sem reparar que, ao mesmo tempo, caíra no tapete um bilhetezinho aberto.
Retirou-se então com trôpego passo.
E ali se quedou a infeliz, a remoer a sua dor naquela sala garrida e luxuosa, que se lhe afigurava mortuária capela, no silêncio do retirado bairro, ao passo que um bico de gás continuava a silvar em assobio fino, um tanto estrídulo às vezes, outras com modulações quase harmoniosas.
Decerto, ah, sim! Para todos haveria perdão, indulto pleno, para ela não, pelo desapreço em que, no próprio conceito, para sempre afundara, pelo opróbrio a que se deixara arrastar! Se, ao menos, o tivesse amado!... Não, a sua vida era finda... estancada, em todo o caso, a estima da vida... Fenecera com o irremediável desfalecimento... Deixara de ser o que fora, uma mulher honesta, pura, cata, ciosa dos seus brios, ainda mais que do seu nome, e, quase sem transição, entrara no rol de tantas... tantas... por í! E para essas, ainda havia justificações aceitáveis, atenuantes.
Para si, nenhuma... nenhuma possível! Julgava-se com imparcialidade e não encontrava pena assaz severa proporcional à sua falta, ao seu crime.
Era a sua dignidade, o seu orgulho de virtude inata, desacostumada de lutas, tão superior a elas, que deixara às tontas crestar.
Quando e como poderia recobrar a paz de outrora, uma vez cravado esse perenal acúleo, essa inaplacável causa de remorso e pungimento na alarmada e cativa consciência? Ah! quanto não sofreu Lucinda naquela febril e atrevada convulsão, a girar em estreitíssimo círculo, como furacão que redemoinha nas dobras de apertado vale! Parecia-lhe acima das forças arrancar-se daquele canto de canapé, onde se conservava imóvel, numa postura de insuperável esmagamento, numa dormência geral, as pálpebras tetânicamente cerradas.
Onze horas, afinal, soaram, e Jacinto, suspendendo o reposteiro da porta da sala, perguntou, reverente, se podia fechar a casa.
- Sim, sim, concordou ela vagamente.
E levantou-se.
Ao primeiro passo, viu logo sobre o tapete um bilhete.
Apanhou-o e, automaticamente, sem compreender o que lia, percorreu-o vagarosa.
Datado de S.
Petersburgo dizia o seguinte: Mon Édouard, Qui sait je ne réaliserai pás le rêve que nous avons fait ensemble à Paris, um jour?... Je frémis encore de jalousie, em pensant à cette dame âgée que tu as tellement courtisée à l'Opéra... Du reste, je me sens plus malhereuse que jamais!... Ta maîtresse pour la vie Nadia.
Acasos há que semelham sarcásticas caretas do destino.
Deparou-se-lhe adiante, no chão, em fragmentos, a anforazinha de Sévres que o padre Belmiro tanto admirara.
Um movimento brusco de Eduardo fizera-a baquear e partir-se em pedaços.
Amargo e dorido sorriso crispou os lábios de Lucinda.
- Ah! a minha felicidade! Murmurou irônica.
Eis o que dela resta!... Depôs, alheia a tudo, a carta e o bilhete no lugar onde estivera o simbólico artefato e dali saiu como uma sonâmbula.
Toda a noite ardeu em febre, cercada de pavorosos fantasmas que se riam a bandeiras despregadas da sua desgraça e, com clarins e tubas atroadoras, proclamavam aos mais distantes recantos do universo a suprema vergonha daquela mísera mulher.

XXVIII

Felizmente ainda se não havia retirado para casa da neta a Sra. Maria Rosa.
De manhã, mandou ela chamar a toda a pressa o velho e experimentado médico Dr. Ribeiro de Almeida, que não ocultou a gravidade do mal.
Fora Lucinda salteada de febre cerebral, com sintomas de violenta excitação nervosa.
Tinha os olhos injetados, a respiração curta, difícil, o corpo todo moído, a cabeça a latejar com lancinantes pontadas que lhe arrancavam agudíssimos gritos, os gestos desordenados; repelia de si, nos paroxismos do delírio, medonha visão e dava saltos no leito, trêmula e tresloucada.
- Quero morrer, arquejava ela.
Abram já e já... as vidraças... preciso... atirarme pela janela fora... desprender a minha alma... deste... corpo que me causa... nojo! Assim esteve sete dias.
E se não fora a proficiência, calma e atilamento do provecto facultativo e a admirável solicitude da enfermeira que não arredou pé daquele quarto de tamanho sofrimento, com certeza se houvera cumprido o voto da malsinada Lucinda.
Uma insônia rebelde a todas as prescrições, a ânsia de querer dormir e não poder matava-a, não lhe consentia um momento de sossego.
E, nesse labutar de intermináveis horas, com o aposento completamente às escuras, perseguia-a, esmagava-a uma obsessão tenebrante, pondo-lhe ante os olhos fatos e coisas que jamais vira e de que nunca sequer cogitara, senão quiçá em rápida leitura de algum livro de reconstituição histórica.
Achava-se numa festa imensa, estupenda – salas e salas de opulentíssimo palácio do tempo da Renascença, maravilhosa vivenda de um desses príncipes italianos, malvados, salteadores, capazes de todos os crimes e que amalgamavam os últimos requintes da suntuosidade romana com as tétricas tradições da Idade Média – talvez castelo de algum César Bórgia e Sforza ou alcaçar de Aretino.
No seguimento daquelas salas, cortadas de altíssimas janelas, iam do chão ao teto agigantadas colunas dos mármores mais raros, versicolores, inteiriças, várias de lápis-lazúli, outras de malaquite, de puríssimo azul ou de esmeraldino verde, com fios de ouro maciço nas caneladuras dos fustes, nos capitéis de bronze dourado e nos pedestais de prata lavrada, tudo a fulgir deslumbrantemente com as cintilações desferidas a flux de colossais candelabros e serpentinas, lustres de cristal e lampadários da altura de dois homens.
Eram esses focos de luz ligados uns aos outros, já para cima, já paralelamente à linha da base, por maciços festões das mais vivas e olentes flores, entremeadas de folhagem com uma graça e gosto sem par.
O soalho feito, em largos trechos, de mosaico de riquíssimas madeiras, encerado e escorregadio, noutros de branco mármore polido ao último grau refletia invertidos todos os objetos, como a superfície de plácido lago, dando-lhes vertiginosa profundidade.
O forro da abóbada, estucado, listrado de largas faixas áureas, com incrustações nacaradas, tinha os intervalos cobertos das mais finas pinturas a fresco, com tal leveza que, nalguns pontos, parecia não existir, rasgando clareiras num céu insondável e estrelado.
Não havia recanto, em que grandes e desdobrados panos de variegado e precioso veludo, franjado de ouro, não se casassem com as mais pesadas sedas da China e do Japão, furta-cores, coruscantes, achamalotadas, brocados de preço inestimável, tapetes da Pérsia de admirável tecido com mil caprichosos desenhos, os mais complicados arabescos, dominando a eterna e hierática palmeta de Cachemira.
E, sobre todos eles, jaziam atirados a esmo, como que jogados de roldão, vasos de matérias mais peregrinas, cinzelados por geniais artistas, que neles haviam gasto anos e anos de insano labor.
Nos entrecolúnios, pendiam das paredes imensos painéis de inspirados mestres, sobretudo venezianos, na rutilação do inimitável colorido; e as carnações vividas e palpitantes das figuras contrastavam com a branquidão das primorosas estátuas eretas em frente sobre alterosos sócos.
Tudo aquilo, porém, tamanhos valores, encontravam-se numa promiscuidade disparatada, esparsos ou acumulados numa desordem de causar tonturas, provisoriamente amontoados, à maneira de encantado antro que de pouco recebesse os despojos de muitas cidades opulentas, saqueadas por ávidos piratas.
E, com efeito, acre bafagem de morticínio e monstruosos atentados pairava naquele ambiente, a despeito dos incensos e resinas que, despejando densas e tortuosas espiras, ardiam num sem-número de caçoilinhas atiradas ao acaso, espalhadas as brasas sobre os mais ricos estofos, ateando, aqui e ali, começos de incêndio.
Acariciadora e voluptuosa música, só de instrumentos de corda, mágicas rabecas, violoncelos e contrabaixos de feitios esquipáticos, partia, a um tempo, de muitos grupos de artista pitorescamente vestidos de hábitos talares de veludo azul, carmesim e preto, betados de arminho e forrados de martas-zibelinas, descidos das telas de Ticiano, Tintoreto e Paulo Cagliari, o veronês, onde deixavam largas lacunas.
A princípio, aqueles intermináveis e tão extraordinariamente decorados paços estavam, em parte desertos; mas, a pouco e pouco, iam-se enchendo de povo, repletos afinal de homens trajados com roupagens de todos os séculos e países, sobretudo do Oriente, cobertos esses de custosas pedrarias.
Tornara-se também o espetáculo deslumbrante, indescritível.
E, por cima dessa multidão que se congregava compacta e já mal se podia mexer e circular, passavam, de vez em quando, uns clangores de trombetas vindos de longe e que ensurdeciam os ecos, abafando, de súbito, o concertante dos músicos venezianos.
Rompeu, então, de todos os peitos um grito ingente: - Aí vêm elas; aí vêm elas! – ao passo que arautos medievais proclamavam aos brados: - Glória aos símbolos da mocidade e da beleza vencedora! – E aquela gente toda ansiosa, ardente, abria sinuosas e compridas alas a bandos de mulheres completamente nuas, de rara formosura e em plena irradiação da juventude, quem com os seus cabelos longos, louros, castanhos, negros, soltos sobre as roliças espáduas, vinham em desapoderada carreira, rindo-se como perdidas, numa onda irresistível de insânia e de luxúria.
E por instantes, estacavam nas atitudes mais graciosas, elegantes e lascivas que poderiam idear um cérebro de artista em fremente exaltação! Oh! que aparição estranha! Quanto brilhavam ebúrneas, à claridade dos feixes de luz, aquelas carnaduras alvinitentes, acetinadas, com leves graduações do mais risonho rosicler, e patenteando incomparáveis encantos! Iguais, só Vênus anadíomene desvendara, ao surgir da espuma do cíprio mar, deslumbrando a vista dos fanáticos da Forma! E que olhares vorazes, que vesânico fervilhar de confrontos e cortejos no rápido instante da caprichosa parada, ao tomarem elas momentâneo alento! No meio de tantas rivais, como dizer qual a mais bela, qual a triunfante? Que disparidade na simples conformação dos seios! Que róseos matizes nas auréolas dos túmidos biquinhos e nos peitos pontiagudos, desde o carmesim da polposa pitanga, até o desmaiado da mangaba que vai amadurecer! Quanta diversidade na flexuosa linha da cintura, no descambar dos quadris, no abaulado dos marfíneos ventres, nos contornos calipígios, nas curvas das coxas e joelhos, ligeiramente valgos, nos artelhos e tornozelos adelgaçados, atestando puras raças, a aristocracia da escala étnica! Nos ares estrugiam súbitos bramidos.
Eram mancebos, tomados de tantálica fúria, que perdiam a razão e se apunhalavam com aguçadas adagas.
Caíam agonizantes, a estrebuchar, calcados logo pelos muitos que, mais e mais, a todo transe, se queriam acercar daquelas fascinadoras criaturas, origem de tanta alucinação.
Eis que nessa mó de gente se produziu, como ao sopro de repentina ventania, um impulso que a levou para cenário ainda mais largo e grandioso, monumental exedro, terminado por mirífico hemiciclo.
E nele s mesclavam os maiores esplendores da arquitetura, escultura e pintura, realçados pelos mais cobiçados artefatos de todos os povos da terra.
Tinha, porém, um quê de trágico na magnificência, com perspectivas tão bem combinadas e extensas que simulavam entrar pelos espaços infindos.
Como no oico coríntio, alteavam-se, em derredor, inúmeras colunas, não poucas de pórfiro e verde antigo, unidas por um atiço que suportava o teto, furado de janelas, óculos e abertas, e ornamentado de pilastras, a dar-lhe feição e semelhança de aérea basílica.
De todos os lados faiscavam os mármores, o jaspe, enormes placas de calcedônias, ágatas, granadas e esmaltes, embutidos de ônix, laca, âmbar, quando não drusas de esmeraldas nativas e núcleos de diamantes brutos.
No desdobrar de tantas pompas e gozos parecia, contudo, iminente formidável catástrofe.
Por sobre leitos dourados, cravejados de gemas, rebolcavam-se os convivas da babilônica orgia, coroados de pampanos e rosas, servidos por centenares de pajens, juvenis escansões, ou núbeis escravas de todo o ponto despidas e que, ágeis e esbeltas, corriam carregando elegantíssimos vasos de cristal de rocha e vertendo a ufa nas lavradas taças vinhos das mais antigas e afamadas adegas.
Voluptuosos hinos e cântico enlanguesciam os sentidos.
Os sibaritas, de fartos, enxotavam de si a vergastadas o enxame de despejadas cortesãs e mercenárias bailarinas, que a eles se atiravam, ébrias, sedentas de amor, e rolavam pelos felpudos tapetes ou sobre cetins de Macau, gorgorões e montes de rendas e gaze, varias marmorizadas logo por fulminante sono, nas posições mais impudicas e provocantes, um sorrisinho alvar estereotipado aos venais e carmíneos lábios entreabertos.
Tiritava de horror Lucinda por se achar, sem saber como, nesse infernal pandemônio.
Percebia vagamente, nas intermitências do sub-delírio, que tudo aquilo não passava de flagelante pesadelo, que lhe cumpria vencer e dominar; mas tinha as faces abrasadas de pejo por lhe perpassar na mente tanta coisa insólita, tão antagônica à sua existência inteira de castidade e modéstia.
De que incógnitos recantos saíam em tropel todas aquelas imprevistas e extravagantes evocações, esse encadeamento de cenas tão pasmosas?! Em que lôbregos e negrejantes recônditos do íntimo haviam hibernado tantas minúcias, eivadas de infame e requintada lascívia? Quão deletério e contaminador o hálito da culpa, por débil e rápido que sopre! De súbito desperta e subleva nunca sonhados temporais na alma mais pura, mais honesta, mais acostumada à prática do bem e ao respeito de si mesma.
Agravava-se, porém, a abominável opressão.
Via Lucinda no fundo hemiciclo, centro de amortecida refulgência, enorme tálamo de ébano, pau cetim e sândalo em forma de concha, e nele fofamente estirado sobre púrpura e finíssimos linhos o monstro da Luxúria.
Rodeavam-no, servis, bajuladores, os seus sequazes, em parte armados de cotas de malha de reluzente aço, que lhes protegiam os musculosos troncos, alguns com argênteos capacetes encimados de flutuantes plumas, outros de faceiros gorros à cabeça, cada qual simbolizando já a Audácia, já o Dolo, a Mentira, a Surpresa, o Perjúrio e tantos outros atributos da concupiscência.
E de junto ao leito, de vez em quando, se afastavam para arrebanhar, em holocausto à Insaciabilidade, as mais formosas e tenras vítimas, empurrando-as sarcásticos, beluinos, até ao toro do odioso e sonolento Moloch.
Se muitas das tristes sacrificandas se deixavam tanger passivas e resignadas, outras lutavam frementes, debatiam-se clamando socorro que não chegava, atiradas ao chão, zurzidas, puxadas pelos cabelos no meio de escandalosas risadas, baldões e sacrílegos insultos.
No turbilhão delas foi de envolta Lucinda até ser alcançada pelas garras do Monstro.
Este, porém, contemplou-a com olhos esbugalhados, estupefatos e, levantandose a meio, ordenou, rubro de cólera, gaguejante de furor, com gesto fulminatório: - Expulsem... daqui... esta velha! E uma surriada de impropérios, uma gargalhada nunca ouvida, de fazer desabar muros e abóbadas, estourou, reboou por todas as concavidades, enchendo os ecos distantes e repercutindo ao longe: “Fora a velha, fora a velha!” Lucinda, com passo tropeçante, as roupas dilaceradas, quase em andrajos, fugia trepida, louca, quando por acaso avistou Eduardo Glerk.
- Salve-me... salve-me! Exortou meio moribunda.
Serei sua para sempre! Aí reparou que conversava com uma mulher na flor doa anos e de ofuscadores encantos – era Nádia! Encarou-a o amante com fisionomia impassível, frígida, sem sinal de qualquer emoção de lástima e muito menos alegria.
- Salva-la?... Não a conheço... Não sei quem seja... - Sou Lucinda... Lucinda Soares! Nada mais me falta neste mundo!... - Mais c’est la dame âgée de l’Opera! Exclamou a outra em francês.
Instantaneamente, porém, se transmudou o oficial de Marinha no padre Belmiro.
E este, após umas arrebicadas palavras de fútil consolo, explicou-lhe bm claro a razão de tanta indiferença, tamanha ingratidão.
- filha, a tua beleza está irremediavelmente perdida.
Dependia apenas do perfeito equilíbrio do teu viver.
Levou-a o sopro letal da paixão, por mais que dele te quisesses resguardar.
Para resistir a abalos desses, tão somente o viço e a fortaleza da mocidade.
Do que foste, só restam agora desoladas ruínas, apagados vestígios... De hoje em diante, vais caminho da velhice... Nisto, um urro, enfeixando mil gritos de horror, retumbou medonho: “Fogo! Fogo! O palácio está em chamas!”.
Precedidas de esparsas faíscas, umas pontazinhas de labaredas, esguias, tremeleantes e como curiosas de assistir também à estrondosa festa, tomaram de assalto portas e janelas, e, num ápice, galgaram o teto, ao passo que rolos e enormes bulcões de asfixiante fumo jorravam pelas abertas, à maneira de vagalhões de nego oceano, a bramir de fúria.
Dali a nada, no seio da escuridão rasgada por apavorantes clarões, rompeu do alto um dilúvio de metais derretidos, pedras, vigas ardentes, trechos inteiros de estuque que esmagavam a multidão num torvelinho e pânico que mais aumentavam o morticínio e a alucinação.
Sentiu-se aí abarcada Lucinda por dois braços hercúleos que, instantes depois, a depuseram fora, sobre o frio chão, enquanto o palácio, teatro de nefandas orgias, se abismava, transformado em cratera de vingador vulcão, com explosões, uivos e estampidos, que sacudiam a terra até às entranhas.
Quem a salvara, fora Anselmo Guerra! Desmaiou então e pôde conciliar um sono reparador de quase vinte e quatro horas seguidas.

XXIX

Se a convalescença foi rápida e sem oscilações, não teve, contudo, a doçura daquele meigo e penetrante júbilo de quem se sente voltar à vida, período de inenarrável beatitude, em que a natureza se nos afigura de uma louçania toda nova, em plena ressurreição, prometedora de bens e felicidades que não mais hão de acabar.
Arrancou-lhe surdo gemido o primeiro olhar que, depois de tantas provações, deitou Lucinda ao espelho.
Nunca imaginara tamanhos estragos, tão completamente confirmado o vaticínio do padre, no final de terrível pesadelo.
Não havia contestar, tudo estava consumado! Bem no alto da cabeça alargava-se, desde a testa, uma faixa de cabelos brancos, contrastando com o negrume dos que, para os lados e nas têmporas, não haviam encanecido.
A cútis, tão igual e aveludada quinze dias antes, ressecara-se, cortada de vincos e rugas, sulcos riscados pela unha da fatalidade; a comissura dos lábios perdera o seu frescor, rijeza e graça, a boca, talvez até um tanto contorcida; apertavam-se-lhe os olhos sob pálpebras flácidas, quase empapuçadas.
Era outra mulher! Disso não lhe restava a menor dúvida.
Quisera ter morrido, quisera ter ficado prostrada na luta e descansar, vencida, na inalterável paz do cemitério, tendo levado para o regaço da protetora Mãe a sua cara beleza, de que tanto gozo imaterial haurira.
Pensou, por momentos, em rebelar-se contra a sentença do fado, em buscar recompor pelo artifício os encantos espezinhados, fenecidos.
Curta, porém, foi a perplexidade e decidiu aceitar a existência tal qual se lhe apresentava.
Recomeçara, aliás, o organismo o seu trabalho de reconstituição.
Voltava-lhe o apetite, a necessidade de agitar-se, de mudar-se daquele aposento em que tanto havia padecido, o desejo de respirar ar livre, vivificante.
Tudo se ia repondo no seu lugar, menos aquele adorável simulacro de mocidade, zelado por tantos anos e que de chofre se esvaíra, como delicado e preciosos frasco de pompeana sala, derruída em seus alicerces por ingente terremoto, após séculos de milagrosa preservação.
No fim de uma semana, pôde Lucinda descer ao pavimento térreo e, com certo enternecimento, esteve, na saleta da entrada, a remexer a cesta de bilhetes de visita, atulhada de cartões.
Quanta gente viera saber notícias da querida enferma! Mais que a vizinhança, o bairro em peso acudira inquieto; a cada momento D. Helena Glerk.
Do sobrinho, então, a cópia de cartões indicava bem a ansiedade em que vivera todo esse tempo.
No meio de tantas tarjetas, uma, ilustrada de espalhafatosa heráldica, deu que pensar a Lucinda.
- Quem é esse visconde de Margão do Avél? Perguntou a si mesma sem atinar quem fosse semelhante titular.
De Anselmo Guerra havia uma carta única.
Com letra muito tremida, participava ele, em lacônicas linhas, que, após mortífero acesso de febre, fora levado para fora do Rio de Janeiro por um primo seu.
Achava-se um pouco melhor, numa fazenda distante, e contava ficar restabelecido dentro de vinte ou trinta dias.
Tudo ignorava.
- O bom Anselmo, murmurou melancólica Lucinda.
E reportando-se ao pesadelo da febre: - Foi o meu salvador! Será o companheiro fiel e sempre respeitoso dos meus velhos dias! Repetiu, então, baixinho o terceto final de um soneto do inigualável poeta português que, na véspera, lhe havia prendido os olhos, por singular coincidência: “Triste de quem se sente magoado De erros que não pode haver perdão, Sem ficar na alma a mágoa do pecado!” Estava ela nesse indefinível e pungitivo cismar, quando o criado Jacinto lhe anunciou uma visita – Eduardo Glerk.
Quis recusar-se; achou-se vestida com demasiada simplicidade, sem preparo algum, os cabelos à chinesa, puxados para trás, a grande faixa branca bem em evidência.
Encolheu, porém, os ombros e mandou-o entrar.

XXX

O primeiro ímpeto de Eduardo foi tolhido por doloroso pasmo que se lhe tornou impossível disfarçar.
- D. Lucinda! exclamou estacando irresoluto.
- Quase me não reconhece, não é verdade? Observou ela com velado entono, estou tão... mudada... desfigurada! - A senhora deve ter sofrido muito, balbuciou ele.
- Muito... muito... impossível mais! Que quer? Não é brinquedo uma transformação radical de existência.
E com forçada expressão de gracejo: - Fiz o inverso da borboleta... entrei para o casulo... donde nunca mais me mexerei.
Com gesto um tanto frio, convidou-o então a sentar-se.
Largo tempo ficaram silenciosos.
E, de vez em quando, erguia-se o olhar de Eduardo Glerk, ora atônito a tentar recompor o adorado semblante, ora submisso a interrogar o que lhe cumpria fazer, numa hesitação de quem está sonhando acordado.
A custo venceu esse enleio.
- Não me queira mal, disse comovido; eu também, do meu lado, padeci morte e paixão todo esse tempo atroz... O porvir nos compensará de tudo isso... ligada como está a nossa sorte... pois agora... - Não podem, replicou vagarosamente Lucinda atalhando-o, estar a um tempo ligados o passado e o futuro – fora um contra-senso.
O senhor caminha para a luz, eu dela me aparto... Um vai ao encontro da claridade, outro da sombra.
Escusado é observar-me mis do que você já fez.
Devem-lhe ter caído desfolhadas, mortas, todas as ilusões! 69 - Lucinda! implorou o moço procurando pegar-lhe na mão e com lágrimas nas pontas dos cílios, que linguagem tão cruel e desalentada! Continua o meu amor o mesmo... incondicional.
- Não poderá dar-me aos cabelos a cor que para sempre perderam.
Não... E, interrompendo o que ia dizer, levantou-se: - A nossa separação impõe-se irrevogável... Parta quanto antes, se me amou deveras... Parta!... Na generosidade dos seus sentimentos, nada mais tente... Fora inútil e... demasiado torturante para ambos... um misto de impossível e de ridículo... E tirando a carta ainda fechada de Eduardo e o bilhete de Nádia do lugar em que haviam ficado desde a noite fatal, disse com lentidão: - Tome... tudo isto... é seu... Descorou muito o mancebo e ansiado murmurou: - Maldito bilhete... tanto o procurei!... Aliás... Cortou-lhe brandamente a palavra Lucinda: - Em nada influiu na minha inabalável resolução... Estendeu-lhe, então, a destra gélida, mas que não tremia: - Adeus... adeus! Siga o seu destino, que é brilhante... Esqueça-se de mim... Fico no meu papel de mulher mal ferida, mas quase resignada... a um canto obscuro... deste mundo.
E... dele não quero sair, nem a troco de todas as promessas e grandezas da Terra!

Fonte: www.virtualbooks.com.br

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