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Breves Contos

 

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Voltaire

Apresentação

Em “Breves Contos” reunimos oito textos de Voltaire. São curtos, mas contêm todo o estilo inigualável do filósofo. O espírito crítico, com a peculiar ironia e irreverência do autor estão presentes em todos eles, lado a lado com as suas profundas e atraentes reflexões.

“Aventura da Memória” contém uma apologia da teoria na qual se defende que nossos conhecimentos decorrem da experiência; é também uma crítica à teoria cartesiana das idéias inatas.

“O Sonho de Platão” traz algumas idéias do filósofo grego, em que ele sonha sobre a criação do mundo pelo grande Demiurgo e os equívocos cometidos pelos gênios que receberam a incumbência de adaptar parte do universo às suas próprias concepções.

“Carta de um Turco” é uma crítica aos ascetismo cristão e ao misticismo oriental.

“Pequena Digressão” e “Aventura Oriental” são dois capítulos de uma obra maior: “O Filósofo Ignorante”. O primeiro conto trata da cegueira, o segundo trata da insatisfação das plantas, dos animais e dos homens com sua própria natureza.

“Elogio Histórico da Razão” traz uma crítica aos homens que se deixam dirigir por inúmeros impulsos, inclusive os mais cruéis, e não se aproximam da Razão.

“O Carregado Zarolho” e “Cosi-Sancta” são trabalhos de 1747. Demonstram profunda influência de Boccaccio, cuja obra fizera muito sucesso na França do século XVI.

Nélson Jahr Garcia

AVENTURA DA MEMÓRIA

O gênero humano pensante, isto é, a centésima-milésima parte do gênero humano, quando muito, acreditara por muito tempo, ou pelo menos por muitas vezes o repetira, que nós não tínhamos idéias senão por intermédio dos sentidos, e que a memória era o único instrumento com o qual podíamos reunir duas idéias e duas palavras.

Eis por que Júpiter, símbolo da natureza, se enamorou, à primeira vista, de Mnemósine, deusa da memória; e desse casamento nasceram as nove Musas, que inventaram todas as artes.

Este dogma, no qual se fundam todos os nossos conhecimentos, foi universalmente aceito, e até mesmo a Nonsobre o adotou, embora se tratasse de uma verdade.

Algum tempo depois surgiu um argumentador, metade geômetra, metade lunático, o qual se pôs a argumentar contra os cinco sentidos e contra a memória. E disse ao reduzido grupo do gênero humano pensante:
— Até agora estivestes enganados, porque os vossos sentidos são inúteis, porque as idéias são inatas em vós, antes de que qualquer dos vossos sentidos possa ter operado; porque já tínheis todas as noções necessárias quando viestes ao mundo; porque já sabíeis tudo sem nunca haver sentido nada; todas as vossas idéias, nascidas convosco, se achavam presentes em vossa inteligência, chamada alma, e sem auxílio da memória. Esta memória não serve para coisa alguma.

A Nonsobre condenou tal proposição, não porque fosse ridícula mas porque era nova. No entanto, quando em seguida um inglês começou a provar, e a provar longamente, que não havia idéias inatas, que nada era tão necessário como os cinco sentidos, que a memória muito servia para reter as coisas recebidas pelos cinco sentidos, a Nonsobre condenou suas próprias idéias, visto que eram agora as mesmas de um inglês. Ordenou por conseguinte ao gênero humano que acreditasse dali por diante nas idéias inatas, e perdesse toda e qualquer crença nos cinco sentidos e na memória. O gênero humano, em vez de obedecer, pôs-se a rir da Nonsobre, a qual entrou em tamanha fúria, que quis mandar queimar a um filósofo. Pois dissera esse filósofo que era impossível formar idéia completa de um queijo sem o ter visto e comido; e chegou o celerado a afirmar que os homens e mulheres jamais poderiam fazer trabalhos de tapeçaria se não tivessem agulhas e dedos para as enfiar.

Os liolistas juntaram-se à Nonsobre pela primeira vez na vida; e os sejanistas, inimigos mortais dos liolistas, reuniram-se por um momento a estes. Chamaram em seu auxílio os antigos dicastéricos; e todos eles, antes de morrer, baniram unanimemente a memória e os cinco sentidos, e mais o autor que dissera bem dessa meia dúzia de coisas.

Um cavalo que estava presente ao julgamento estatuído por aqueles senhores, embora não pertencesse à mesma espécie e houvesse muita coisa que os diferenciava, tal como a estatura, a voz, as crinas e as orelhas, esse cavalo, dizia eu, que tanto possuía senso como sentidos, contou a história a Pégaso, na minha estrebaria, e Pégaso, com a sua ordinária vivacidade, foi repeti-la às Musas.

As Musas que, durante uns cem anos, vinham singularmente favorecendo o país, por tanto tempo bárbaro, onde se passava esta cena, ficaram muito escandalizadas; amavam ternamente a Memória, ou Mnemósine, sua mãe, à qual essas nove filhas são credoras de tudo quanto sabem. Irritou-as a ingratidão dos homens. Não satirizaram os antigos dicastéricos, os liolistas, os sejanistas e a Nonsobre, porque as sátiras não corrigem ninguém, irritam os tolos e os tornam ainda piores. Elas imaginaram um meio de esclarecê-los, punindo-os. Os homens haviam blasfemado contra a memória; as Musas lhes tiraram esse dom dos deuses, a fim de que aprendessem de uma vez por todas, a que se fica reduzido sem o seu auxílio.

Aconteceu, pois, que durante uma bela noite todos os cérebros se obscureceram, de modo que no dia seguinte, de manhã, todos se acordaram sem a mínima lembrança do passado. Alguns dicastérios, deitados com as suas mulheres, quiseram aproximar-se delas por um resto de instinto Independente da memória. As mulheres, que só muito raramente possuem o instinto de entrar em contato com os maridos, repeliram asperamente as suas desagradáveis carícias, e a maioria dos casais acabou aos tapas.

Alguns senhores, encontrando um chapéu, serviram-se dele para certas necessidades que nem a memória nem, o bom senso justificam. E senhoras empregaram para o mesmo uso as bacias de rosto. Os criados, esquecidos do contrato que haviam feito com os patrões, entraram no quarto dos mesmos, sem saber onde se achavam; mas, como o homem nasceu curioso, abriram todas as gavetas; e, como o homem ama naturalmente o brilho da prata e do ouro, sem ter para isso necessidade de memória, apanharam tudo o que estava a seu alcance. Os patrões quiseram bradar contra ladrão; mas, tendo-lhes saído do cérebro a idéia de ladrão, não pôde a palavra lhes chegar à língua. Cada qual, tendo esquecido o seu idioma, articulava sons informes. Era muito pior que em Babel, onde cada um inventava imediatamente uma língua nova. A inata inclinação dos criados moços pelas mulheres bonitas se manifestou com tal premência que os atrevidos se lançaram irrefletidamente sobre as primeiras mulheres ou raparigas que encontraram, fossem elas taberneiras ou presidentas; e estas, esquecidas das leis do pudor, deixaram-se manobrar com toda liberdade.

Foi preciso almoçar; ninguém sabia o que fazer para isso. Ninguém fora ao mercado, nem para vender nem para comprar. Os criados tinham vestido a roupa dos patrões, e os patrões a dos criados. Todo mundo se olhava aparvalhado. Os que tinham mais jeito para obter o necessário (e era a gente do povo) conseguiram um pouco com que viver; aos outros, faltou-lhes tudo. O ministro e o arcebispo andavam inteiramente nus, e seus palefreneiros passeavam, uns de hábito vermelho, outros com dalmáticas: tudo estava confundido, iam todos morrer de miséria e de fome, por falta de mútuo entendimento.

Ao cabo de alguns dias, as Musas tiveram piedade dessa pobre raça: elas são boas afinal, embora algumas vezes façam sentir aos maus a sua cólera; suplicaram, pois, à mãe, que devolvesse àqueles blasfemos a memória que lhes havia tirado. Mnemósine desceu à região dos contrários, onde tão temerariamente a tinham insultado, e falou-lhes nos seguintes termos:
— Perdôo-vos, imbecis; mas lembrai-vos de que sem sentido não há memória e sem memória não há senso.

Os dicastéricos agradeceram-lhe secamente, e decidiram fazer-lhe uma admoestação. Os sejanistas publicaram toda essa aventura na sua gazeta; viu-se que ainda não estavam curados. Os liolistas transformaram o caso numa intriga de corte. Mestre Coger, pasmado da aventura e sem compreender patavina daquilo tudo, disse a seus alunos do quinto ano este belo axioma: Non magis musis quam hominibus infensa est ista quae vocatur memoria. (O que se chama memória não é mais infenso às musas que aos homens)

SONHO DE PLATÃO

Platão sonhava muito, e não menos se tem sonhado até agora. Imaginava ele que o ser humano era outrora duplo e que, como castigo de suas faltas, foi dividido em macho e fêmea.

Demonstrara que não pode haver senão cinco mundos perfeitos, porque, na matemática, só há cinco corpos regulares. A sua República foi um de seus grandes sonhos. Sonhara ainda que o dormir nasce da vigília e a vigília do dormir, e que se perde infalivelmente a vista contemplando um eclipse, a não ser numa bacia d'água.

Eis aqui um de seus sonhos, que não é dos menos interessantes. Fantasiou que o grande Demiurgo, o eterno Geômetra, depois de povoar o infinito de globos inumeráveis, quis experimentar a ciência dos gênios que haviam testemunhado o seu trabalho. Deu a cada um deles uma pequena porção de matéria para que a afeiçoasse a seu modo, da mesma forma que Fídias e Zeuxis distribuiriam a seus discípulos o material para fazerem estátuas e quadros, se é permitido comparar as pequenas coisas às grandes.

Demogórgon recebeu, como partilha a porção de lama que se chama a terra; e, tendo-a arranjado tal como hoje a vemos, julgava ter feito uma obra-prima. Pensava haver subjugado a inveja e esperava elogios, até mesmo de seus confrades; muito surpreso ficou de ser recebido com forte vaia.

Um deles, que não poupava gracejos, disse-lhe:
— Na verdade, fizeste um excelente trabalho: dividiste o teu mundo em dois e puseste um grande espaço d'água entre os dois hemisférios, a fim de que não houvesse comunicação entre ambos. Os humanos vão enregelar-se nos teus dois pólos e morrer de calor na tua linha equatorial. Distribuíste prudentemente, pelas terras, grandes desertos de areia, para que os viajantes morressem de fome e de sede. Estou muito satisfeito com os teus carneiros, as tuas vacas e as tuas galinhas; mas, francamente, não vou muito com as tuas cobras nem com as tuas aranhas. As tuas cebolas e alcachofras são excelentes; mas não concebo qual foi a tua intenção ao cobrir a terra de tantas plantas venenosas, a menos que tivesses o desejo de envenenar seus habitantes. Parece-me, por outro lado, que formaste umas trinta espécies de macacos, muito mais espécies de cães e apenas quatro ou cinco espécies de homens; é verdade que deste a este último animal aquilo a que chamas razão; mas, para te falar com toda a sinceridade, essa tal razão é demasiado ridícula e muito se aproxima da loucura. Parece-me aliás que não fazes grande caso desse animal de dois pés, visto lhe haveres dado tantos inimigos e tão pouca defesa, tantas doenças e tão poucos remédios, tantas paixões e tão pouca sabedoria. Pelo que se vê, não queres que fiquem muitos desses animais sobre a face da terra: pois, sem contar os perigos a que os expões, arranjaste de tal modo as coisas que um dia a varíola arrebatará regularmente todos os anos a décima parte dessa espécie e a irmã dessa varíola envenenará a fonte da vida nos nove décimos restantes; e, como se ainda não bastasse, fizeste de modo que metade dos sobreviventes se ocupará em demandas e a outra metade em matar-se. Eles, sem dúvida, muito te ficarão devendo, e fizeste na verdade uma bela obra.

Demogórgon enrubesceu: bem sentia que na sua obra havia mal moral e mal físico; mas sustentava que havia mais bem que mal
— É fácil criticar – disse ele, – mas achas tão fácil fazer um animal que seja sempre razoável, que seja livre, e que jamais abuse da sua liberdade. Pensas que, quando se tem de nove a dez mil plantas para fazer proliferar, seja tão fácil impedir que algumas dessas plantas tenham qualidades nocivas? Imaginas que, com certa quantidade de água, de areia, de lama e de fogo, não se possa ter nem mar nem deserto? Acabas, senhor trocista, de arranjar o planeta Marte; veremos como te houveste com os teus costados e que belo efeito não hão de fazer as tuas noites sem lua; veremos se entre a tua gente não há nem loucura nem doença.

Com efeito, os gênios examinaram Marte e caíram de rijo sobre o galhofeiro. Nem o grave gênio que modelara Saturno foi poupado; seus confrades, os fabricadores de Júpiter, de Mercúrio, de Vênus, tiveram cada um de suportar censuras.

Escreveram grossos volumes e brochuras; disseram frases de espírito; fizeram canções, ridicularizaram-se uns aos outros; as facções se desmandaram na linguagem; até que o eterno Demiurgo impôs silêncio a todos:
— Fizestes (lhes disse ele) coisas boas e coisas más, porque tendes muita inteligência e sois imperfeitos; as vossas obras durarão somente algumas centenas de milhões de anos; após o que, já possuindo mais experiência, haveis de fazer coisa melhor: só a mim é dado fazer coisas perfeitas e imortais.

Eis o que Platão ensinava aos discípulos. Quando parou de falar, um deles disse-lhe: E ai então vós acordastes.

CARTA DE UM TURCO SOBRE OS FAQUIRES E O SEU AMIGO BABABEC

Quando me achava na cidade de Benarés, à margem do Ganges, antiga pátria dos brâmanes, procurava instruir-me. Compreendia passavelmente o hindu; escutava muito e observava tudo. Parava em casa de meu correspondente Omri, o homem mais digno que já conheci na vida. Era ele da religião dos brâmanes; quanto a mim, tenho a honra de ser muçulmano; mas nunca trocamos uma palavra mais alta a respeito de Maomé e de Brama. Fazíamos as abluções cada qual para o seu lado; bebíamos da mesma limonada, comíamos do mesmo arroz, como irmãos.

Fomos um dia juntos ao pagode de Gavani. Vimos ali vários bandos de faquires. Uns eram janguis, isto é, faquires contemplativos; e os outros eram discípulos dos antigos ginossofistas, que levavam uma vida ativa. Possuem, como é sabido; uma língua erudita, que é a dos mais antigos brâmanes, e, nessa língua, um livro chamado os Vedas. É certamente o mais antigo livro de toda a Ásia, sem excetuar o Zend Avesta.

Passei por um faquir que lia esse livro.

— Ah! desgraçado infiel! – exclamou ele. – Tu me fizeste perder o número das vogais que eu estava contando; e por isso a minha alma vai passar para o corpo de uma lebre, em vez de ir para o de um papagaio, como eu tinha motivos de crer.

Dei-lhe uma rúpia para consolá-lo. Dali a alguns passos, aconteceu-me a desgraça de espirrar, e o ruído que fiz despertou um faquir que se achava em êxtase.

— Onde estou? – disse ele. – Que horrível queda! Não vejo mais a ponta do nariz; a luz celeste dissipou-se.

— Se sou o causante – disse-lhe eu – de que afinal enxergues além da ponta do nariz, eis uma rúpia para reparar o mal. Retoma a tua luz celeste.

Depois de assim contornar discretamente a situação, fui ter com os ginossofistas: vários deles me trouxeram uns preguinhos muito bonitos, para os fincar em meus braços e coxas, em honra de Brama. Comprei-lhes os pregos, com os quais mandei pregar meus tapetes. Outros dançavam sobre as mãos; outros na corda bamba; outros andavam num pé só. Havia uns que carregavam correntes, outros uma sela, outros que conservavam a cabeça dentro de uma caixa: de resto, a melhor gente do mundo.

Meu amigo Omri levou-me à cela de um dos mais famosos; chamava-se Bababec: estava nu como um macaco e trazia ao pescoço uma grossa cadeia que pesava mais de sessenta libras. Achava-se sentado em um banco de madeira, lindamente guarnecido de pregos que lhe penetravam nas nádegas, e dir-se-ia que estava num leito de cetim. Muitas mulheres vinham consultá-lo; era o oráculo das famílias; e pode-se dizer que gozava de grande reputação. Fui testemunha da longa conversa que Omri teve com ele.

— Acreditas, meu pai – perguntou-lhe Omri, – que, após haver passado pela prova das sete metempsicoses, possa eu chegar à morada de Brama?
— Isto é conforme – disse o faquir. – Como vives?
— Trato – disse Omri – de ser bom cidadão, bom esposo, bom pai, bom amigo. Empresto dinheiro sem juros aos ricos e dou aos pobres. Incentivo a paz entre meus vizinhos.

— Não metes algumas vezes pregos no ânus?
— Nunca, reverendo.

— Sinto muito: dessa maneira, só irás para o décimo-nono céu; e é uma pena.

— Qual! Está certo. Sinto-me muito contente com a minha parte. Que me importa o décimo-nono ou o vigésimo, contanto que eu cumpra o dever na minha peregrinação, e seja bem recebido na última morada. Não será suficiente ser um homem direito neste país e depois um homem venturoso no país de Brama? Para que céu pretendes ir então, com os teus pregos e as tuas correntes?
— Para o trigésimo-quinto – disse Bababec.

— És muito engraçado – replicou Omri – com isso de quereres ficar alojado acima de mim: talvez não seja mais que um sinal de excessiva ambição. Se condenas aqueles que buscam honrarias nesta vida, por que então ambicionas honrarias tão grandes na outra? E de resto, por que motivo pretendes ser mais bem tratado do que eu? Fica sabendo que dou em esmolas, em dez dias, mais do que te custam em dez anos todos os pregos que fincas no traseiro. A Brama, pouco se lhe dá que passes o dia nu, com uma corrente ao pescoço. Belo serviço prestas assim à pátria. Considero cem vezes mais a um homem que semeia legumes ou planta árvores do que todos os teus camaradas que olham para a ponta do nariz ou carregam uma sela, por excesso de nobreza d'alma. Depois de assim falar, Omri se abrandou, mostrou-se gentil, acarinhou-o, persuadindo-o enfim a que deixasse os pregos e as correntes, e fosse viver uma vida às direitas, na sua companhia.

Tiraram-lhe o cascão, aspergiram-no de perfumes, vestiram-no decentemente.

Viveu quinze dias muito sensatamente, e confessou que era mil vezes mais feliz do que antes.

Mas desacreditava-se entre o povo e as mulheres não vinham mais consultá-lo. Ele deixou Omri e voltou a seus pregos para ter consideração.

PEQUENA DIGRESSÃO

Logo no começo da fundação dos Quinze-Vingts, sabe-se que os asilados eram todos iguais e seus assuntos se decidiam por votação. Distinguiam perfeitamente, pelo tato, a moeda de cobre da de prata; nenhum deles tomou jamais vinho de Brie por vinho de Borgonha. Seu olfato era mais fino que o de seus patrícios que tinham dois olhos. Aprofundaram-se perfeitamente nos quatro sentidos, Isto é, ficaram sabendo acerca deles tudo quanto é possível; e viveram tranqüilos e felizes na medida em que os cegos o podem ser. Infelizmente, um de seus professores julgou possuir noções claras sobre o sentido da vista; fez-se ouvir, intrigou, granjeou partidários; reconheceram-no afinal como chefe da comunidade. Pôs-se a julgar soberanamente em matéria de cores, e ai é que foi a perdição.

Esse primeiro ditador dos Quinze-Vingts formou primeiro um pequeno conselho, com o qual se tornou depositário de todas as esmolas. Por esse motivo, ninguém se atreveu a resistir-lhe. Decidiu ele que todas as roupas do Quinze-Vingts eram brancas; os cegos acreditaram; não falavam senão de seus belos trajes brancos, embora não houvesse entre eles um único dessa cor. Como todo o mundo começasse então a zombar deles, foram queixar-se ao ditador, que os recebeu muito mal; tratou-os de inovadores, de espíritos fortes, de rebeldes, que se deixavam seduzir pelas opiniões errôneas daqueles que tinham olhos e ousavam duvidar da infalibilidade de seu senhor. Dessa querela, formaram-se dois partidos.

O ditador, para os apaziguar, baixou um decreto segundo o qual todas as suas vestes eram vermelhas. Não havia uma única veste vermelha entre os Quinze-Vingts. Riram-se deles mais do que nunca. Novas queixas da comunidade. O ditador enfureceu-se, os outros cegos também. Disputaram longamente, e só se restabeleceu a concórdia quando foi permitido, a todos os Quinze-Vingts, suspenderem o juízo sobre a cor de sua roupa.

Um surdo, ao ler esta pequena história, confessou que os cegos tinham feito muito mal em querer julgar a respeito de cores, mas permaneceu firme na opinião de que só aos surdos compete falar de música.

AVENTURA INDIANA TRADUZIDA PELO IGNORANTE

Durante a sua estada na Índia, Pitágoras aprendeu com os ginossofistas, como todos sabem, a linguagem dos animais e das plantas. Passeando um dia por um campo à beira-mar, ouviu estas palavras: “Que desgraça a minha ter nascido relva! Mal chego a duas polegadas de altura, vem logo um monstro devorador, um animal horrível, que me aplastra com seus largos pé; a sua boca é armada com uma dupla fila de foices cortantes, com a qual me arranca, me tritura e me engole. Os homens, chamam a esse monstro de ovelha. Não creio que haja no mundo mais abominável criatura.”
Pitágoras avançou alguns passos e topou com uma ostra que bocejava sobre um rochedo. O filósofo ainda não havia adotado essa admirável lei que nos proíbe comer aos animais nossos semelhantes. Ia, pois, engolir a ostra, quando a pobre pronunciou estas comoventes palavras: “Ó Natureza! Como é feliz a relva, que é, como eu, obra tua! Ela, depois de cortada, renasce: é imortal. E nós, miseráveis ostras, em vão somos defendidas por uma dupla couraça; e uns celerados nos comem às dúzias, ao almoço, e tudo se acaba para sempre. Que terrível o destino de uma ostra, e como são bárbaros os homens!”
Pitágoras estremeceu; sentiu a enormidade do crime que ia praticar: debulhado em pranto, pediu perdão à ostra e colocou-a cuidadosamente sobre o seu rochedo.

De regresso à cidade, a meditar profundamente sobre essa aventura, viu aranhas que comiam moscas, andorinhas que comiam aranhas, gaviões que comiam andorinhas. “Esse pessoal todo – dizia ele consigo – não tem a mínima filosofia”.

Ao entrar na cidade, foi Pitágoras atropelado, contundido, derrubado por uma multidão de cretinos e cretinas que corriam a gritar: “Bem feito! Bem feito! É mesmo merecido!”
— “Quem? O quê? Como!” – disse Pitágoras, erguendo-se do chão. E a gente sempre a correr, exclamando: “Ah! como não vai ser bom vê-los cozer!”
Pitágoras julgou que falavam de lentilhas ou quaisquer outros .legumes; absolutamente: tratava-se de dois pobres hindus. “Ah, sem dúvida – pensou Pitágoras – são dois grandes filósofos que estão cansados da vida e querem renascer sob outra forma; é um prazer mudar de casa, embora se fique sempre mal alojado; de gostos não se discute.”
Avançou com a multidão até a praça pública e foi lá que viu uma grande pira acesa e, defronte a essa pira, um banco a que chamavam tribunal, e, nesse banco, uns juizes, e esses juizes seguravam todos uma cauda de vaca e usavam todos um barrete que se assemelhava perfeitamente às duas orelhas do animal que transportou Sileno, quando este veio outrora à Índia em companhia de Baco, depois de atravessarem a seco o mar Eritreu e terem feito parar o sol e a lua, como vem fielmente descrito nas Órficas.

Entre esses juizes. havia um excelente homem conhecido de Pitágoras. O sábio da Índia explicou ao sábio de Samos em que consistia a festa que iam oferecer ao povo indiano.

“Os dois hindus” – disse ele – “não têm o mínimo desejo de ser queimados; os meus graves confrade condenaram ambos a esse suplício: um por haver dito que a substância de Xaca não é a substância de Brama; e o outro, por haver suspeitado que se podia agradar ao Ser Supremo pela simples virtude, sem que seja preciso, à hora da morte, segurar uma vaca pela cauda; pois que, dizia ele, a gente pode ser sempre virtuoso, mas nem sempre se encontra uma vaca à mão. De tal forma se horrorizaram as boas mulheres da cidade com tão heréticas proposições que não deram descanso aos juizes enquanto estes não mandaram os dois infelizes para a fogueira.”
Pitágoras considerou que, desde a relva até o homem, há sobejos motivos de aborrecimento. No entanto, fez que os juizes, e até mesmo os devotos, ouvissem a voz da razão; e foi essa a única vez em que tal coisa aconteceu.

Em seguida foi pregar tolerância em Crotona; mas um intolerante lhe ateou fogo à casa: e Pitágoras morreu queimado, ele que tirara dois hindus da fogueira...

Salve-se quem puder!

ELOGIO HISTÓRICO DA RAZÃO PRONUNCIADO EM UMA ACADEMIA DE PROVÍNCIA por M...

Fez Erasmo, no século XVI, o elogio da Loucura. Vós me ordenais que vos faça o elogio da Razão. Essa Razão, com efeito, só costuma ser festejada duzentos ano após sua inimiga, e às vezes muito mais tarde; e existem nações onde ela ainda não foi vista.

Era tão desconhecida entre nós, no tempo do. druidas, que nem sequer tinha nome em nossa língua. César não a levou nem à Suíça, nem a Autan, nem a Paris, que não passava então de uma aldeola de pescadores; e ele próprio quase a não conhecia. V
Possuía tantas e tamanhas qualidades que a Razão não pode encontrar lugar em meio delas. Esse magnânimo insensato saiu de nosso país devastado para ir devastar o seu e para deixar-se mimosear com vinte e três punhaladas por vinte e três outros ilustres furiosos que estavam longe de emparelhar com ele.

O sicambro Clodvich, ou Clóvis, cerca de quinhentos anos depois, veio exterminar parte da nossa nação e subjugar a outra. Não se ouviu falar em razão, nem no seu exército nem nas nossas infelizes aldeias, a não ser na razão do mais forte.

Apodrecemos por muito tempo nessa horrível e aviltante barbárie, da qual as Cruzadas não nos tiraram. Foi essa, ao mesmo tempo a mais universal, a mais atroz, a mais ridícula e desgraçada das loucuras. A essas longínquas cruzadas, sucedeu a abominável loucura da guerra civil e sagrada que exterminou tanta gente da língua de OC e da língua de OIL. A Razão não tinha como achar-se ali. Em Roma reinava então a Política, que tinha como ministras suas duas irmãs, a Velhacaria e a Avareza. Via-se a Ignorância, o Fanatismo, a Fúria, percorrerem sob suas ordens a Europa toda; a Pobreza lhes seguia o rastro; a Razão ocultava-se num poço, como a Verdade sua filha. Ninguém sabia onde ficava esse poço, e, se o farejassem, ali teriam descido para degolar mãe e filha.

Depois que os turcos tomaram Constantinopla, redobrando os espantosos males da Europa, dois ou três gregos, ao fugir, tombaram nesse poço, ou antes, nessa caverna, semimortos de fadiga, de fome e de medo.

A Razão recebeu-os com humanidade, deu-lhes de comer sem distinção de carnes (coisa que jamais haviam conhecido em Constantinopla). Receberam dela algumas instruções, em pequeno número: pois a Razão não é prolixa. Obrigou-os a jurar que não revelariam o local do seu retiro. Partiram, e chegaram, depois de muito andar, à corte de Carlos Quinto e Francisco I.

Receberam-nos ali como a prestidigitadores que viessem fazer seus passes de mágica para distrair a ociosidade dos cortesãos e das damas, no intervalo de seus encontros galantes. Os ministros dignaram-se olhá-los nos momentos de folga que lhes pudessem permitir a lufa-lufa dos negócios. Chegaram até a ser acolhidos pelo imperador e pelo rei de França, que lhes lançaram um olhar de passagem, quando iam ter com suas amantes. Mas eles colheram melhor fruto nas pequenas cidades, onde encontraram alguns burgueses que ainda tinham, não se sabia como, algum vislumbre de senso comum.

Esses flébeis clarões se extinguiram em toda a Europa, entre as guerras civis que a assolaram. Duas ou três faíscas de razão não podiam aclarar o mundo no meio das tochas ardentes e das fogueiras que o fanatismo acendeu durante tantos anos. A Razão e sua filha ocultaram-se mais do que nunca.

Os discípulos de seus primeiros apóstolos suicidaram-se, com exceção de alguns que foram bastante desavisados para irem apregoar a Razão desarrazoadamente, e fora de tempo: isso lhes custou a vida, como a Sócrates; mas ninguém prestou atenção à coisa. Nada mais desagradável do que ser enforcado obscuramente. Por tanto tempo se havia a gente ocupado com noites de S. Bartolomeu, massacres da Holanda, cadafalsos da Hungria, e assassínios de reis, que não havia nem tempo, nem suficiente liberdade de espírito para pensar nos crimes miúdos e nas calamidades secretas que inundavam o mundo, de um extremo a outro.

A Razão, informada do que ocorria por alguns exilados que se haviam refugiado no seu retiro, sentiu-se tomada de compaixão, embora não passe por ser muito terna. Sua filha que é mais ousada do que ela, animou-a a que fosse ver o mundo e tratasse de curá-lo. Apareceram as duas, falaram mas encontraram tantos malvados interessados em contradizê-las, tantos imbecis a soldo desses malvados, tantos indiferentes apenas preocupados consigo mesmos e com o momento atual e que não se importavam nem com elas nem com seus inimigos, que resolveram ambas voltar muito sabiamente para o seu asilo.

Todavia, algumas sementes dos frutos que elas carregam sempre consigo, e que haviam espalhado, germinaram na terra; e até sem apodrecer.

Enfim, há algum tempo lhes deu vontade de ir em peregrinação a Roma, disfarçadas e anônimas, por medo da Inquisição. Logo de chegada, dirigiram-se ao cozinheiro do papa Ganganelli – Clemente XIV. Sabiam que era o menos ocupado cozinheiro de Roma. Pode-se até dizer que era, depois de vossos confessores, o homem mais folgado da sua profissão.

Esse homem, depois de ter servido às duas peregrinas uma refeição quase tão frugal quanto a do papa, levou-as à presença de Sua Santidade, a quem encontraram lendo os Pensamentos de Marco Aurélio. O papa reconheceu os disfarces e beijou-as cordialmente, apesar da etiqueta.

“— Minhas Senhoras, se eu pudesse imaginar que estavam neste mundo, ter-lhes-ia feito a primeira visita.”
Após os cumprimentos, trataram de negócios. Logo no dia seguinte, Ganganelli abulia a bula In coena Domini, um dos maiores monumentos da loucura humana, que por tanto tempo ultrajara a todos os potentados. No outro dia, tomou a resolução de destruir a companhia de Garasse, de Guiguard, de Garnet, de Busenbaum, de Malagrida, de Paulian, de Patouillet, de Nonnotte; e a Europa bateu palmas. No terceiro dia, diminuiu impostos de que o povo se queixava. Animou a agricultura e todas as artes; fez-se estimado de todos aqueles que passavam por inimigos de seu posto. Disseram então, em Roma, que não havia mais que uma nação e uma lei no mundo.

As duas peregrinas, atônitas e satisfeitas, despediram-se do papa, que lhes fez presente, não de agnus e de relíquias, mas de uma boa carruagem para continuarem a viajar. A Razão e a Verdade não tinham até então o hábito de andar a gosto.

Visitaram toda a Itália, e surpreenderam-se de encontrar, em vez do maquiavelismo, uma verdadeira emulação entre os príncipes e as repúblicas, desde Parma a Turim, para ver quem tornaria seus súditos mais honrados, mais ricos e mais felizes.

Minha filha – dizia a Razão à Verdade, – creio que o osso reinado bem poderia começar, após tão longa prisão. Alguns dos profetas que nos foram visitar no poço devem ter sido mesmo muito poderosos em palavras e obras, para assim mudarem a face da terra. Bem vês que tudo vem tarde. Era preciso passar pelas trevas da ignorância e da mentira antes de entrar em teu palácio de luz, de que foste escorraçada comigo durante tantos séculos. Acontecerá conosco O que aconteceu com a Natureza; esteve ela coberta de um véu, e toda desfigurada, durante inumeráveis séculos. Afinal chegou um Galileu, um Copérnico, um Newton, que a mostraram quase nua, fazendo os homens se enamorarem dela.“
Assim conversando, chegaram a Veneza. O que consideraram mais atentamente foi um procurador de S. Marcos que segurava um grande par de tesouras, diante de uma mesa toda coberta de jarras, de bicos e de plumas negras.

Ah! – exclamou a Razão, – Deus me perdoe, lustrissimo Signor, mas creio que essa é uma das tesouras que levava para o meu poço, quando ali me refugiei com minha filha! Como a obteve Vossa Excelência, e que faz com ela?
— Lustrissima Signora – respondeu o procurador, – bem pode ser que a tesoura tenha pertencido outrora a Vossa Excelência; mas foi um chamado Fra Paolo que no-la trouxe há muito, e dela nos servimos para cortar as garras da Inquisição, que vedes espalhadas sobre esta mesa.

Essas plumas negras pertenciam a harpias que vinham comer o alimento da república; nós lhes aparamos todos os dias as unhas e a ponta do bico. Se não fora essa precaução, teriam acabado por devorar tudo; nada teria sobrado para os grandes, nem para os pregadi, nem para os cidadãos.

Se passardes pela França, talvez encontreis em Paris vosso outro par de tesouras, em poder de um ministro espanhol, que as empregava da mesma forma que nós em seu país, e que será um dia abençoado pelo gênero humano..

Depois de terem assistido à Ópera veneziana, partiram as duas viajantes para a Alemanha. Viram com satisfação esse país, que no tempo de Carlos Magno não passava de uma floresta imensa entrecortada de pântanos, coberto agora de cidades florescentes e tranqüilas; esse país, povoado de soberanos outrora bárbaros e pobres, e agora todos polidos e magníficos; esse país, cujo sacerdócio, nos tempos antigos, só era constituído por feiticeiras, que então imolavam criaturas humanas sobre pedras grosseiramente talhadas; esse país que fora depois inundado por seu próprio sangue, para saber ao certo se a coisa era in, cum, sub, ou não; esse país que enfim acolhia ao seio três religiões inimigas, espantadas de viver pacificamente juntas.

“Louvado seja Deus! – disse a Razão. – Essa gente veio afinal a mim, à força de demência.”
Conduziram-nas à presença de uma imperatriz muito mais que sensata, pois era generosa. Tão contentes ficaram com ela as peregrinas, que não levaram em conta alguns costumes que as chocaram; mas ambas se enamoraram do imperador seu filho.

Redobrou-lhes o espanto ao chegarem à Suécia. “Como!” – diziam, – “uma revolução tão difícil e no entanto tão rápida! tão perigosa e no entanto tão pacifica! E, desde esse grande dia, nem um só dia perdido para a prática do bem, e tudo isso na idade que é tão raramente a da razão! Bem fizemos em sair de nosso esconderijo quando esse grande acontecimento enchia de admiração a Europa inteira!”
Dali, atravessaram às pressas a Polônia. “Ah! minha mãe, que contraste! – exclamou a Verdade. – Dá-me até vontade de voltar para o poço. Eis no que dá ter esmagado sempre a mais útil porção do gênero humano e tratado aos lavradores – pior do que eles tratam aos animais que os servem! Esse caos de anarquia só podia redundar em ruína: já o haviam predito claramente. Lamento um monarca virtuoso, sábio e humano; e ouso esperar que ele seja feliz, pois os outros reis começam a sê-lo, e as vossas luzes se comunicam gradualmente.

“Vamos ver – continuou ela – uma transformação mais favorável e surpreendente. Vamos a essa imensa região hiperbórea, tão bárbara há oitenta anos e hoje tão esclarecida e invencível. Vamos contemplar aquela que cumpriu o milagre de uma nova criação...” Lá acorreram, e confessaram que não lhes haviam exagerado.

Não cessavam de admirar o quanto mudara o mundo em alguns anos. Concluíram que talvez um dia o Chile e as Terras Centrais fossem o centro da civilização e do bom gosto e que se teria de ir ao pólo antártico para aprender a viver.

Chegadas que foram à Inglaterra, disse a Verdade à sua mãe:
— Parece-me que a felicidade desta nação não é constituída como a das outras; foi mais louca, mais fanática, mais cruel e mais infeliz do que qualquer uma das que eu conheço; e eis que instituiu um governo único, no qual conservou tudo o que a monarquia tem de útil e tudo o que uma república tem de necessário. É superior na guerra, nas leis, nas artes, no comércio. Apenas a vejo embaraçada com a América setentrional, que conquistou num extremo do universo, e com as mais belas províncias da Índia, subjugadas no outro extremo. Como carregará ela esses dois fardos da sua felicidade?
— O peso é considerável – disse a Razão, – mas, desde que ela me escute um pouco, há de encontrar alavancas que o tornarão mais leve.

Afinal a Razão e a Verdade passaram pela França, onde já haviam feito algumas aparições, tendo sido dali escorraçadas. “Não vos lembrais – dizia a Verdade à sua mãe – do grande desejo que tivemos de nos estabelecer entre os franceses nos belos dias de Luis XIV? Mas as impertinentes querelas dos jesuítas e dos jansenistas nos obrigaram a fugir em seguida. Não mais nos chegam agora os apelos contínuos do povo. Ouço as aclamações de vinte milhões de homens que abençoam os Céus. Este acontecimento, dizem uns, é tanto mais jubiloso porquanto não nos custa nada essa alegria. Bradam outros: O luxo não é mais que vaidade. Os empregos acumulados, as despesas supérfluas, os lucros extraordinários, tudo isso vai ser cortado. E têm razão. Todo e qualquer novo imposto será abolido. E nisso não têm razão: pois cumpre que cada particular pague alguma coisa em proveito da felicidade geral.

“As leis vão ser uniformes. Nada mais desejável, mas nada tão difícil. Vão ser distribuídos, aos indigentes que trabalham, e sobretudo aos pobres operários, os bens imensos de certos ociosos que fizeram voto de pobreza. Essa gente de mão-morta não mais terá, por sua vez, escravos de mão-morta. Não mais se verão esbirros de monges escorraçar da casa paterna órfãos reduzidos à mendicidade, para enriquecerem com os seus despojos a um convento no gozo de direitos senhoriais, que são os direitos dos antigos conquistadores. Não mais se verão famílias inteiras pedindo inutilmente esmola à porta do convento que as despoja. Praza aos Céus. Nada é mais digno de um rei. O rei da Sardenha acabou com esse abominável abuso, Queira Deus que esse abuso seja exterminado em França.

“Não ouvis, minha mãe, todas essas vozes que dizem: Os casamentos de cem mil famílias úteis ao Estado não mais serão considerados concubinagens; e os filhos não mais serão declarados bastardos pela lei? A natureza, a justiça e vós, minha mãe, tudo reclama para esse assunto um sábio regulamento, que seja compatível com o repouso do Estado e com os direitos de todos os homens,
“Tornar-se-á a profissão de soldado tão digna que ninguém mais será tentado a desertar. A coisa é possível mas delicada.

“As pequenas faltas não serão punidas como grandes crimes, pois que em tudo é preciso proporção. Uma lei bárbara, obscuramente enunciada, mal interpretada não mais fará perecer nas barras de ferro e nas chamas a jovens indiscretos e imprudentes, como se tivessem assassinado os próprios pais.

Deveria ser este o primeiro axioma da justiça penal.

“Não mais serão confiscados os bens de um pai de família, pois os filhos não devem morrer de fome por causa das faltas dos pais, e o rei não tem nenhuma necessidade desse miserável confisco. Maravilhoso! Isso é digno da magnanimidade do soberano.

“A tortura, Inventada outrora pelos ladrões de estrada para forçar as vítimas a revelar seu tesouro, e empregada hoje em pequeno número de nações, para salvar o culpado robusto e perder o inocente fraco de corpo e de espírito, só será utilizada nos crimes de lesa-sociedade, na pessoa do chefe, e somente para conseguir a revelação dos cúmplices. Mas tais crimes jamais serão cometidos. Nada melhor. Eis os votos que ouço por toda parte, e escreverei todas essas grandes mudanças nos meus anais, eu que sou a Verdade.

“Ouço ainda proferir em torno de mim, em todos os tribunais, estas palavras notáveis: Não citaremos jamais os dois poderes, pois só pode existir um: o do, rei, ou da lei, em uma monarquia; o da nação, em uma república. O poder divino é de natureza tão diferente, tão superior, que não deve ficar comprometido por uma mescla profana com as leis humanas. O infinito não se pode juntar ao finito. Gregório VII foi quem primeiro ousou chamar o infinito em seu auxílio, nas suas guerras, até então inauditas, contra Henrique IV, imperador demasiado finito; quero dizer: limitado. Por muito tempo essas guerras ensangüentaram a Europa; mas, afinal separaram essas entidades veneráveis, que nada têm em comum: e é o único meio de garantir a paz.

“Essas coisas, que proferem todos os ministros das leis, me parecem assaz fortes. Sei que não se reconhecem dois poderes nem na China, nem na Índia, nem na Pérsia, nem em Constantinopla, nem em Moscou, nem em Londres, etc... Mas fio-me em vós, minha mãe. Nada escreverei que não me seja ditado por vós.”
Respondeu-lhe a Razão:
— Bem vês, minha filha, que eu sinto mais ou menos as mesmas coisas, e muitas outras Tudo isso demanda tempo e reflexão. Sempre fiquei muito contente quando, em meio às minhas dores, consegui parte do alívio que desejava.

“Não te lembras do tempo em que quase todos os reis da terra, estando em completa paz, se divertiam em decifrar enigmas, e em que a bela rainha de Sabá ia em pessoa propor logogrifos a Salomão?”
— Sim, minha mãe; bom tempo aquele, mas não durou muito.

Pois bem – tornou a mãe, – este é infinitamente melhor; só se pensava então em mostrar um pouco de espírito; e vejo que há dez ou doze anos os europeus se vêm empenhando nas artes e virtudes que abrandam a amargura da vida. Parece que em geral se combinaram para pensar mais solidamente do que o haviam feito durante milhares de séculos. Tu, que nunca pudeste mentir, dize-me que tempo terias preferido ao presente para morar na França.

— Tenho a reputação – respondeu a filha – de gostar de dizer coisas assaz duras às pessoas entre as quais me encontro; mas confesso que só tenho a louvar o tempo presente, a despeito de tantos autores que só louvam o passado.

“Devo atestar à posteridade que foi nesta época que os homens aprenderam a garantir-se de uma doença terrível e mortal, tornando-a menos funesta na transmissão; a restituir à vida aqueles que a perdem por afogamento; a governar e desafiar ao raio; a prover ao ponto fixo que em vão se deseja do ocidente ao oriente. Muito mais se fez em moral. Ousou-se pedir justiça às leis contra leis que haviam, condenado a virtude ao suplício; e essa justiça foi algumas vezes obtida. 0usou-se, enfim, pronunciar o nome da tolerância.”
— Pois bem, minha filha, gozemos destes belos dias; fiquemos por aqui, se durarem; e, se vierem tempestades, voltemos a nosso poço.

O CARREGADOR ZAROLHO

Os dois olhos que temos em nada melhoram a nossa condição; serve-nos um para ver os bens, e o outro para ver os males da vida. Muita gente possui o mau hábito de fechar o primeiro, e poucos fecham o segundo; eis por que há tantas pessoas que prefeririam ser cegos a ver, tudo o que vêem. Felizes os zarolhos que só são privados desse olho mau que estraga tudo quanto a gente olha! Era o caso de Mesrour.

Seria preciso ser cego para não ver que Mesrour era zarolho. Era-o de nascença; mas era um zarolho tão satisfeito com a sua condição que jamais se lembrara de desejar outro olho. Não eram os dons da fortuna que o consolavam dos malefícios da natureza, pois não passava de um simples carregador e não tinha outro tesouro senão os seus ombros; mas era feliz, e mostrava que mais um olho e menos trabalho pouco contribuem para a felicidade. O dinheiro e o apetite lhe vinham sempre em proporção com o exercício que fazia; trabalhava de manhã, comia e bebia de tarde, dormia de noite, e considerava cada dia como uma vida à parte, de modo que a preocupação do futuro jamais lhe perturbava o gozo do presente. Era (como o vedes) ao mesmo tempo zarolho, carregador e filósofo.

Viu por acaso passar numa suntuosa carruagem uma grande princesa que tinha um olho mais do que ele, o que não o impediu de achá-la muito bela, e, como os zarolhos não diferem dos outros homens senão em que têm um olho de menos, apaixonou-se perdidamente pela princesa. Dirão talvez que, quando se é carregador e zarolho, o melhor é a gente não se apaixonar, principalmente por uma grande princesa e, o que é mais, uma princesa que tem dois olhos; no entanto, como não há amor sem esperança, e como o nosso carregador amava, ousou esperar.

Tendo mais pernas que olhos, e boas pernas, seguiu durante quatro léguas o carro da sua deusa, que seis grandes cavalos brancos puxavam velozmente. Era moda, naqueles tempos, entre as damas, viajar sem lacaios e sem cocheiro, conduzindo elas próprias o carro; queriam os maridos que elas andassem sempre sozinhas, para ficar mais seguros da sua virtude; o que é diametralmente oposto ao parecer dos moralistas, que dizem que não há virtude na solidão.

Mesrour continuava a correr junto às rodas do carro, voltando seu olho bom na direção da dama, espantada de ver um zarolho com tamanha agilidade. Enquanto ele provava assim o quanto se é infatigável quando se ama, um animal selvagem, perseguido por caçadores, atravessou a estrada, espantando os cavalos, que tomaram o freio nos dentes e já arrastavam a bela para um precipício. Seu novo apaixonado, ainda mais assustado do que ela, embora a princesa o estivesse bastante, cortou as correias com maravilhosa habilidade; somente os seis cavalos deram o salto mortal, e a dama, que não estava menos branca do que eles, apenas passou por um grande susto.

— Quem quer que sejas – disse-lhe ela; – jamais esquecerei que te devo a vida; pede-me o que quiseres: tudo o que tenho está a teu dispor.

— Ah! com muito mais razão – respondeu Mesrour – posso eu oferecer-vos outro tanto; mas, assim fazendo, sempre vos oferecerei menos; pois só tenho um olho, e vós tendes dois; mas um olho que vos contempla vale mais que dois olhos que não vêem os vossos.

A dama sorriu: pois as galanterias de um zarolho são sempre galanterias; e as galanterias sempre fazem sorrir.

— Eu desejaria dar-te um outro olho – disse ela – mas só a tua mãe podia dar-te esse presente; mas continua a acompanhar-me.

Dizendo essas palavras, desce ela do carro e prossegue o caminho a pé; seu cãozinho também desceu e marchava ao lado da dona, ladrando para a estranha figura do seu escudeiro. Faço mal em lhe dar o título de escudeiro, porque, por mais que ele lhe oferecesse o braço, não quis a dama aceitá-lo, sob o pretexto de que o braço estava muito sujo; e ides ver agora como a princesa foi vítima de seu próprio asseio. Tinha ela uns pequeninos pés, e uns sapatinhos ainda menores, de maneira que não era feita para longas caminhadas, nem estava devidamente calçada para isso.

Lindos pezinhos consolam de ter pernas débeis, quando se passa a vida numa espreguiçadeira, em meio de uma porção de peralvilhos; mas de que servem sapatos bordados e lantejoulados em um caminho pedregoso, onde só podem ser vistos por um carregador e, ainda por cima, por um carregador que só tem um olho?
Melinade (é este o nome da dama, que tive minhas razões para calar até agora, visto que ainda não fora inventado), Melinade avançava como podia, amaldiçoando o seu sapateiro, escorchando os pés, e dando um mau jeito a cada passo. Fazia hora e meia que ela marchava como as grandes damas, isto é, já fizera perto de um quarto de légua, quando tombou de fadiga.

Mesrour, cujos serviços ela recusara enquanto estava de pé, hesitava em lhos oferecer, por medo de a macular com o seu contato; pois bem sabia que não estava limpo (a dama claramente lho dera a entender), e a comparação que fizera em caminho entre a sua pessoa e a da sua amada ainda lho mostrava com maior clareza. Tinha ela um leve vestido cor de prata, semeado de guirlandas, que lhe ressaltava a beleza do talhe; e ele, um blusão pardacento, todo manchado, rasgado e remendado, e de tal maneira que os remendos ficavam ao lado dos buracos e não por baixo, onde estariam mais no seu lugar. Havia comparado as suas mãos musculosas e cobertas de calos com as duas pequenas mãos mais brancas e delicadas do que lírios. Vira enfim os lindos cabelos loiros de Melinade, que se entremostravam através de um véu de gaze, penteados em tranças e cachos; e ele, para colocar ao lado disso, não tinha mais que umas eriçadas crinas negras, cujo único ornamento era um turbante roto.

No entanto Melinade tenta erguer-se, mas tomba em seguida, e tão desastradamente, que o que ela deixou ver a Mesrour tirou-lhe o pouco de razão que a vista de seu rosto pudera deixar-lhe. Esqueceu que era carregador, que era zarolho, e não mais pensou na distância que a fortuna pusera entre ambos; mal se lembrou que amava, pois faltou à delicadeza que dizem inseparável de um verdadeiro amor, e que às vezes lhe constitui o encanto, e muitas vezes o aborrecimento; serviu-se dos direitos à brutalidade que lhe dava a sua condição de carregador; foi brutal e feliz. A princesa, então, estava, sem dúvida desmaiada, ou lamentava a sua sorte; mas, como tinha um espírito justo, abençoava decerto o destino pelo fato de todo infortúnio trazer consigo o seu próprio consolo.

A noite estendera os véus no horizonte, e ocultava na sua sombra a verdadeira felicidade de Mesrour e a pretensa desgraça de Melinade; Mesrour desfrutava os prazeres dos perfeitos amantes, e desfrutava-os como carregador, quer dizer (para vergonha da humanidade) da maneira mais perfeita; os desmaios de Melinade voltavam-lhe a cada momento, e a cada momento o seu amante recuperava forças.

— Poderoso Maomé – disse ele uma vez, como homem arrebatado, mas como péssimo católico, – só o que falta à minha felicidade é ser sentida por aquela que a causa; enquanto estou no teu paraíso, divino profeta, concede-me ainda um favor, o de ser para os olhos de Melinade o que ela seria para os meus olhos, se houvesse luz.

Acabou de rezar e continuou a gozar. A aurora, sempre demasiado diligente para os amantes, surpreendeu a ambos na atitude onde ela própria poderia ter sido surpreendida um momento antes, com Titono. Mas qual não foi o espanto de Melinade quando, abrindo os olhos aos primeiros raios do dia, viu-se num lugar encantado, com um homem de nobre estrutura, cujo rosto se assemelhava ao astro cuja volta a terra aguardava! Tinha faces de rosa, lábios de coral; seus grandes olhos, ao mesmo tempo ternos e vivos, exprimiam e inspiravam volúpia; seu carcaz de ouro, ornado de pedrarias, pendia-lhe do ombro e só o prazer fazia ressoar as suas flechas; sua longa cabeleira, presa por um atilho de diamantes, flutuava-lhe livremente sobre os rins, e um tecido transparente, bordado de pérolas lhe servia de veste, sem nada ocultar da beleza do seu corpo.

— Onde estou, e quem és – exclamou Melinade no auge da surpresa.

— Estais – respondeu ele – com o miserável que teve a ventura de vos salvar a vida, e que tão bem cobrou o seu trabalho.

Melinade, tão satisfeita quanto espantada, lamentou que a metamorfose de Mesrour não tivesse começado mais cedo. Aproxima-se de um magnífico palácio que lhe atraíra o olhar e lê esta inscrição na porta: “Afastai-vos, profanos; estas portas só se abrirão para o senhor do anel.” Mesrour aproxima-se por sua vez para ler a mesma inscrição, mas viu outros caracteres e leu estas palavras: “Bate sem receio.” Bateu, e em seguida as portas se abriram por si mesmas com fragor. Os dois amantes entraram, ao som de mil vozes e de mil instrumentos, num vestíbulo de mármore de Paros; dali passaram para uma sala soberba, onde os esperava há mil duzentos e cinqüenta anos um festim delicioso, sem que nenhum dos pratos houvesse esfriado: puseram-se à. mesa e foram servidos cada um por mil escravas da maior formosura; a refeição foi entremeada de concertos e danças; e, quando terminou, todos os gênios vieram, na maior ordem, em diferentes grupos, com vestuários tão suntuosos quão singulares, prestar juramento de fidelidade ao senhor do anel, e beijar o dedo sagrado que o carregava.

Ora, havia em Bagdad um muçulmano muito devoto que, não podendo ir lavar-se na mesquita, fazia a água da mesquita vir à sua casa, mediante uma pequena retribuição que pagava ao sacerdote. Acabava ele de fazer a quinta ablução, a fim de se preparar para a quinta prece. E a sua criada, rapariga estouvada e muito pouco devota, desembaraçou-se da água santa lançando-a pela janela. A água caiu sobre um infeliz profundamente adormecido junto a um marco que lhe servia de apoio. Acordou-se com o choque. Era o pobre Mesrour que, voltando do seu passeio encantado, perdera na viagem o anel de Salomão. Deixara as soberbas vestes e retomara o seu blusão; seu belo carcaz de ouro havia-se transformado num porta-fardos de madeira e, para cúmulo da desgraça, tinha deixado um dos olhos no caminho. Lembrou-se então de que bebera na véspera grande quantidade de aguardente, que lhe adormentara os sentidos e aquecera a imaginação. E Mesrour, que até aquele instante amara essa bebida por gosto, começou a amá-la por gratidão, e voltou alegremente ao trabalho, resolvido a empregar o salário daquele dia na aquisição dos meios para tornar a ver a sua querida Melinade. Qualquer outro ficaria desolado de ser um mísero zarolho depois de ter tido dois lindos olhos; de sofrer as recusas das varredeiras do palácio depois de haver gozado os favores de uma princesa mais bela do que as amantes do califa; e de estar a serviço de todos os burgueses de Bagdad depois de haver reinado sobre todos os gênios; mas Mesrour não possuía o olho que vê o lado mau das coisas.

COSI-SANCTA UM PEQUENO MAL POR UM GRANDE BEM

É uma das tantas máximas falsamente acreditadas, essa de que não é permitido fazer um pequeno mal de que possa resultar um bem maior. Mas era assim que pensava Santo Agostinho, como se pode depreender da narrativa desta pequena aventura acontecida na sua diocese, sob o proconsulado de Septímio Acindino, e que vem no livro da Cidade de Deus.

Havia em Hipona um velho cura, grande inventor de confrarias, confessor de todas as raparigas da vizinhança, e que passava por homem inspirado de Deus, pois costumava deitar sortes, ofício de que se desempenhava assaz passavelmente.

Levaram-lhe um dia uma jovem chamada Cosi-Sancta; era a mais bela criatura da província. Tinha pais jansenistas que a haviam educado nos princípios da mais rígida virtude; e, de todos os pretendentes que tivera, não houvera um só que lhe causasse um momento de distração nas suas preces. Fazia alguns dias que fora ela prometida a um velhote encarquilhado, chamado Capito, conselheiro do presidial de Hipona. Era um homenzinho brusco e rabugento a quem não faltava inteligência, mas que era ríspido de conversação, escarninho, e amante de brincadeiras de mau gosto; e, de resto, ciumento como um veneziano, e que por nada no mundo se teria conformado em ser amigo dos galanteadores da esposa. A jovem criatura fazia o possível para amá-lo, pois que ele deveria ser seu marido; mas por maior boa-fé com que se empenhasse em tal coisa não conseguia nada.

Foi pois consultar o seu cura para saber se seria feliz no casamento. O nosso padre disse-lhe num tom profético:
Minha filha, a tua virtude causará desgraças, mas serás um dia canonizada por teres sido três vezes infiel a teu esposo.

Esse espantoso oráculo escandalizou cruelmente a inocência da bela rapariga. Ela pôs-se a chorar; depois pediu explicações, julgando que tais palavras ocultavam, algum sentido místico; mas a única explicação que conseguiu foi que as três vezes não deviam ser interpretadas como três encontros com o mesmo amante, mas sim como três aventuras diferentes.

Cosi-Sancta pôs-se então aos gritos; chegou até a dizer algumas injúrias ao bom do cura, e jurou que nunca seria canonizada. E no entanto o foi, como já ides ver.

Casou-se pouco depois: as núpcias foram esplêndidas; ela suportou muito bem todos os maus discursos que teve de ouvir, todos os trocadilhos sem graça, todas as grosserias mal disfarçadas com que costumam constranger o pudor das noivas. Dançou de bom grado com alguns jovens muito bem parecidos e com os quais o marido não simpatizou absolutamente.

E foi deitar-se ao lado do pequeno Capito, com um pouco de repugnância. Passou boa parte da noite a dormir; e acordou-se muito pensativa. Mas o assunto das suas cismas não era tanto o marido, e sim um jovem chamado Ribaldos, que lhe tomara conta do pensamento, sem que ela propriamente o suspeitasse. Esse jovem parecia formado pelas mãos do Amor, de quem tinha as graças, a ousadia e o espírito travesso; era um pouco indiscreto, mas só com aquelas que no fundo assim queriam: era a coqueluche de Hipona. Incompatibilizara todas as mulheres da cidade umas com as outras e, por sua vez, estava incompatibilizado com todos os maridos e todas as mães. Amava, de ordinário, por estouvamento, e um pouco por vaidade; mas amou Cosi-Sancta por gosto, e tanto mais perdidamente quanto mais difícil se lhe antolhava a conquista.

Como homem de espírito que era, aplicou-se de início em agradar ao marido. Fazia-lhe mil cumprimentos, felicitava-o por sua boa fisionomia e seu espírito arejado e galante. Perdia para ele no jogo, e todos os dias lhe fazia alguma pequena confidência. Cosi-Sancta achava-o a criatura mais amável do mundo. Já o amava mais do que supunha; era verdade que não o suspeitava, mas o marido suspeitou por ela. Embora tivesse todo o amor-próprio que um homenzinho possa ter, não deixou de desconfiar que as visitas de Ribaldos não eram somente para ele. Rompeu com este sob qualquer pretexto, e proibiu-lhe a entrada em casa.

Cosi-Sancta ficou muito aborrecida, mas não ousou dizê-lo; e Ribaldos, cujo amor crescera com as dificuldades, passava todo o tempo a espiar uma oportunidade para a ver. Disfarçou-se de monge, de vendedora de roupas, de apresentador de títeres. Mas não fez o bastante para triunfar de sua amada, e fez demasiado para que não fosse reconhecido pelo esposo. Se Cosi-Sancta estivesse em combinação com ele, saberiam ambos como tomar as necessárias medidas para que o marido nada suspeitasse; mas, visto que ela combatia as suas inclinações, e nada tinha a censurar-se, salvava tudo, fora as aparências, e o marido a julgava culpabilíssima.

O homenzinho, que era muito colérico e que imaginava que a sua honra dependia da fidelidade da mulher, ultrajou-a cruelmente, e puniu-a pelo fato de a acharem bela. E Cosi-Sancta se viu na mais horrível situação em que possa estar uma mulher: acusada injustamente e maltratada por um marido a quem era fiel, e dilacerada por uma paixão violenta que procurava dominar.

Achou que, se o seu apaixonado parasse com as perseguições, poderia o marido parar com as injustiças, e que ela se daria por muito feliz curando-se de um amor que nada mais alimentava. Nessa intenção, aventurou-se a escrever a Ribaldos a seguinte carta:
Se tendes virtude, deixai de tornar-me infeliz: vós me amais, e o vosso amor me expõe às suspeitas e às violências de um senhor que eu me impus para o resto da vida. Quem dera que fosse esse o único risco em que eu incorro! Por piedade, deixai de perseguir-me; conjuro-vos a isso por este mesmo amor que constitui vossa desgraça e a minha, e que jamais vos poderá fazer feliz.

Não previra a pobre Cosi-Sancta que uma carta tão terna, embora tão virtuosa, causasse um efeito inteiramente contrário ao que esperava. Só serviu para inflamar mais do que nunca o coração de seu enamorado, que resolveu expor a vida para avistar-se com ela..

Capito, que era assaz tolo para querer ser informado de tudo e que tinha bons espiões, foi avisado de que Ribaldos se disfarçara em carmelita pedinte para ir implorar caridade à sua mulher. Julgou-se perdido: imaginou que um hábito de carmelita era muito mais perigoso que qualquer outro para a honra de um marido. Contratou alguns homens para darem uma sova no irmão Ribaldos, no que foi muito bem servido. O jovem, ao entrar na casa, foi recebido pelos tais senhores: por mais que bradasse que era um honrado carmelita e que não era assim que se tratavam pobres religiosos, recebeu valente sova, vindo a morrer dali a quinze dias de um golpe que recebera na cabeça. Choraram-no todas as mulheres da cidade. Cosi-Sancta ficou inconsolável. O próprio Capito aborreceu-se muito, mas por outro motivo: é que se metera numa terrível situação.

Ribaldos era parente do procônsul Acindino. Quis esse romano dar um castigo exemplar àquele assassínio, e, como outrora tivera algumas questões com o presidia de Hispano, não se incomodou em achar tal pretexto para enforcar um conselheiro; e ainda mais se agradou de que a sorte coubesse a Capito, que era na verdade o mais vaidoso e insuportável togado da região.

Cosi-Sancta vira pois assassinarem o seu apaixonado, e estava prestes a ver enforcarem o marido; e tudo isso por ter sido virtuosa. Porque, como já disse, se houvesse concedido seus favores a Ribaldos, o marido teria sido muito menos enganado.

Eis como se cumprira a metade da predição do cura. Cosi-Sancta lembrou-se então do oráculo, e muito se arreceou de cumprir o resto. Mas, tendo refletido que não se pode vencer o destino, entregou-se à Providência, que a levou ao fim pelos mais honestos caminhos do mundo.

O procônsul Asinino era um homem mais debochado que voluptuoso, que muito pouco se divertia nas preliminares, um sujeito brutal, sem cerimônias, verdadeiro herói de guarnição, muito temido na província, e com quem todas as mulheres de Hispano haviam tido um caso, unicamente para evitar complicações.

Mandou chamar a senhora Cosi-Sancta. Ela chegou banhada em lágrimas, o que não deixava de lhe aumentar os encantos.

— Vosso marido, Senhora, vai ser enforcado, e só de vós depende a sua salvação.

— Eu daria a minha vida pela sua – respondeu-lhe a dama.

— Ha! mas não é isso que se vos pede – replicou o procônsul.

— Que é preciso então fazer? – indagou ela.

— Desejo apenas unia de vossas noites – tornou o procônsul.

— Elas não me pertencem – disse Cosi-Sancta. – São um bem de meu marido. Darei meu sangue para salvá-lo, mas não posso dar a minha honra.

— Mas se vosso marido consentir? – perguntou o procônsul.

— Ele é o proprietário – respondeu a dama – e cada qual tem o direito de dispor dos seus bens como lhe aprouver. Mas conheço meu marido, não abrirá mão de nada; é um sujeitinho cabeçudo, que preferirá deixar-se enforcar a permitir que me toquem com um dedo.

— É o que veremos – disse o juiz, encolerizado.

Imediatamente manda chamar o criminoso; propõe-lhe ou a forca ou um par de ornamentos: não havia outra alternativa. O homenzinho começou com coisas. Mas afinal fez o que qualquer outro teria feito no seu lugar. Sua esposa, por pura caridade, salvou-lhe a vida. E foi essa a primeira das três vezes.

No mesmo dia o seu filho caiu doente de uma enfermidade assaz extraordinária e que nenhum médico de Hipona conhecia. Só havia um que estava a par dos segredos dessa doença, mas que morava em Áquila, a algumas léguas de Hipona. Era então proibido que um médico estabelecido numa cidade saísse desta para ir exercer em outra a sua profissão. Cosi-Sancta viu-se obrigada a ir procurá-lo pessoalmente em Áquila, com um irmão que tinha e a quem estimava muito. No caminho foi detida por salteadores. O chefe dos referidos cavalheiros achou-a muito bonita. E, como o irmão de Cosi-Sancta estava prestes a ser morto, aproximou-se e disse-lhe que, se ela tivesse um pouco de complacência, não lhe matariam o irmão e que isso afinal não lhe custaria nada. A coisa era urgente. Cosi-Sancta acabava de salvar a vida do marido, a quem não amava; ia perder um irmão a quem estimava muito; por outro lado, alarmava-a o perigo de seu filho; não havia um minuto a perder. Ela encomendou-se a Deus, e fez tudo o que quiseram. E foi essa a segunda das três vezes.

No mesmo dia chegou em Áquila e foi ter com o médico. Era um desses médicos da moda que as mulheres mandam chamar quando têm vapores ou quando não têm absolutamente nada. Era confidente de umas e amante de outras; homem polido, condescendente, um pouco estremecido aliás com a Faculdade, contra a qual fizera a propósito uns bem aplicados gracejos.

Cosi-Sancta lhe expôs a doença do filho e ofereceu-lhe um sestércio grande. (E notai que um desses sestércios corresponde, em moeda de França, a mais de mil escudos.)
— Não é. com essa moeda que eu pretendo ser pago, Senhora – respondeu o galante médico. – Eu próprio vos ofereceria todos os meus haveres, se quisésseis cobrar as curas que podeis fazer: curai-me apenas do mal que me causais, e eu devolverei a saúde a vosso filho. -
A proposta pareceu extravagante à dama, mas o destino a acostumara às coisas mais estranhas. O médico era um teimoso que não queria outro preço pelo seu remédio. Cosi-Sancta não tinha o marido à mão, para o consultar. Mas como deixar morrer um filho a quem adorava, por falta daquele pequeno auxílio que ela lhe poderia dar?! Era tão boa mãe quanto boa irmã. Comprou o remédio pelo preço que lhe pediram. E foi essa a última das três vezes.

Voltou a Hipona com o irmão, que não cessava de agradecer-lhe, durante o caminho, a coragem com que lhe salvara a vida.

Assim Cosi-Sancta, por ter sido, demasiado virtuosa, fez morrer o seu amado e condenar o marido à morte, e, por ter sido complacente, conservou os dias do irmão, do filho e do marido. Acharam que uma mulher como essa era muito necessária em uma família, canonizaram-na após a morte, por ter feito tanto bem a seus parentes, mortificando-se, e gravaram-lhe no túmulo: UM PEQUENO MAL POR UM GRANDE BEM.

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