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Conto de Inverno

William Shakespeare

Personagens

LEONTES, Rei da Sicília.
MAMÍLIO, jovem Príncipe da Sicília.
CAMILO, nobre da Sicília.
ANTIGONO, nobre da Sicília.
CLEÓMENES, nobre da Sicília.
DION, nobre da Sicília.
POLÍXENES, Rei da Boêmia.
FLORIZEL, seu filho.
ARQUÍDAMO, um nobre da Boêmia.
UM MARINHEIRO.
UM CARCEREIRO.
UM VELHO PASTOR, pai putativo de Perdita.
O BOBO, seu filho.
Um criado do velho pastor.
AUTÓLICO, um mariola.
HERMÍONE, esposa de Leontes.
PERDITA, filha de Leontes e de Hermíone.
PAULINA, esposa de Antígono.
EMÍLIA, uma dama, do serviço da rainha.
Outras damas, do serviço da rainha.
MOPSA, Pastora.
DORCAS, Pastora.
Nobres e damas da Sicília, criados, guardas, sátiros, pastores, pastoras, etc.
O Tempo, como coro.

ATO I
Cena I

Antecâmara do palácio de Leontes. Entram Camilo e Arquídamo.

ARQUÍDAMO — Se alguma vez, Camilo, tiverdes oportunidade de visitar a Boêmia, em missão idêntica à que me trouxe aqui, vereis, como disse, a grande diferença que existe entre nossa Boêmia e vossa Sicília.

CAMILO — Creio que no próximo verão o Rei da Sicília pretende pagar ao Rei da Boêmia a visita que lhe deve.

ARQUÍDAMO — Então, a nossa hospitalidade nos vai deixar envergonha dos, mas o nosso amor nos justificará, porque...

CAMILO — Suplico-vos...

ARQUÍDAMO — É verdade; falo com conhecimento de causa. Não nos será possível, com tanta magnificência... uma tão rara... Não sei como expressar-me. Teremos de dar-vos alguma bebida soporífica, para que vossos sentidos, não percebendo nossa insuficiência, ainda que não nos possam elogiar, pelo menos não nos censurem.

CAMILO — Avaliais muito alto o que vos dado de boa vontade.

ARQUÍDAMO — Podeis crer que falo de acordo com meu entendimento e como impõe a honestidade.

CAMILO — Com relação à Boêmia, Sicília nunca poderá mostrar excesso de amabilidade. O Rei da Sicília e o da Boêmia passaram juntos a mocidade, tendo entre eles a amizade criado tão profundas raízes, que não poderá deixar de produzir galhos. Desde que a compostura da idade viril e as obrigações reais os separaram, suas relações, ainda que não diretas, têm sido mantidas regiamente por meio de mimos, cartas e em baixadas amistosas, de forma que pareciam continuar juntos, embora es tivessem separados e que se apertavam as mãos por sobre um grande abismo e se abraçavam dos confins dos ventos contrários. Que o céu conserve essa amizade.

ARQUÍDAMO — Penso que não há no mundo malícia nem pretexto que possam modificá-la. Vosso jovem Príncipe Mamílio vos proporciona me fável satisfação não conheço gentil-homem de maiores esperanças.

CAMILO — Nesse ponto, concordo convosco; é uma criança admirável, que cura, realmente, seus sdditos e deixa vigorosos os corações envelhecidos. As pessoas que já usavam muletas antes do seu nascimento, ainda querem viver para vê-lo homem feito.

ARQUÍDAMO — E a não ser por esta razão, morreriam de grado?

CAMILO — Sim, no caso de não terem outra desculpa para quererem viver mais tempo.

ARQUÍDAMO — Se o rei não tivesse filho eles desejariam continuar vivendo até que lhe nascesse um.

Cena II

O mesmo. Um quarto de Estado no palácio.Entram Leontes, Políxenes, Hermíone, Mamílio, Camilo e séquito.

POLÍXENES — Já serviu de sinal por nove vezes o úmido astro ao pastor, dês que deixamos sem fardo nosso trono. Igual espaço de tempo, caro mano, deveríamos encher com nossos agradecimentos, mas como vosso devedor perpétuo, ainda assim, nos partíramos. Por isso, tal como um zero em ponto vantajoso, multiplico por um “muito obrigado” todos os que antes dele se encontrarem.

LEONTES — Deixai de lado os agradecimentos por algum tempo, para no-los dardes no instante da partida.

POLÍXENES — Amanhã mesmo, senhor, há de ser isso. Inquieto deixam-me os meus receios sobre o que é possível germinar ou nascer em nossa ausência. Não sopre em casa vento algum maligno, que me faça dizer: “Os meus temores eram justificados” Além disso, já cansei por demais Vossa Realeza.

LEONTES — Nosso vigor, querido mano, pode opor-se a mais do que isso.

POLÍXENES — É-me impossível ficar mais tempo.

LEONTES — Uma semana, ao menos.

POLÍXENES — Não; impossível; amanhã.

LEONTES — O tempo dividamos, então, sem que eu aceite, desta vez, objeções.

POLÍXENES — Não insistais, por favor, assim tanto. Voz nenhuma, no mundo inteiro, sim, me poderia convencer como a vossa, o que sem dúvida agora se daria, caso houvesse qualquer motivo urgente em vossos rogos e em mim fortes razões para esquivar-me. Meus negócios me atraem para casa; se insistirdes comigo, me castiga vossa amizade. Minha permanência vos é pesado fardo, a um tempo, e incômodo. Para obviar a ambos, mano, despeçamo-nos.

LEONTES — Emudeceu minha rainha, acaso? Dizei alguma coisa.

HERMÍONE — Tencionava, senhor, ficar calada até que houvésseis dele arrancado o juramento explícito de que não ficará. Tentais vencê-lo com frieza excessiva. Declarai-lhe que tendes a certeza de que tudo na Boêmia está bem, como o proclamam as novas recebidas ontem mesmo. Falai-lhe assim, porque dessa maneira o batereis, no seu melhor reduto.

LEONTES — Muito bem dito, Hermíone.

HERMÍONE — Se acaso tivesse dito que quer ver o filho, fora razão de peso. Ele que o jure; depois deixa-o partir. Ele que o jure, que aqui não ficará, pois haveremos de tocá-lo com nossas próprias rocas. (A Políxenes.) Ora a pedir me atrevo uma semana de vossa real presença. Ao visitar-vos na Boêmia meu senhor, dar-lhe-ei licença para ficar um mês além do prazo marcado para a volta, embora, Leontes, não te ame menos uma pancadinha de relógio do que qualquer esposa que acate seu marido. Resolvestes ficar?

POLÍXENES — Senhora, não.

HERMÍONE — Sim, ficareis.

POLÍXENES — Em verdade, é impossível.

HERMÍONE — Em verdade? Escusais-vos com juras muito fracas. Mas embora com vossos juramentos das esferas os astros arrancásseis, eu vos diria: ”Não, senhor, é inútil falardes em partir.” De forma alguma. Esse “de forma alguma” pronunciado por uma dama é tão potente como se dito por um rei. Não resolvestes ainda? Então, forçada sou a deter-vos como meu prisioneiro, não como hóspede. Pagareis, desse modo, ao vos partirdes, vossa estada entre nós sem esbanjardes os agradecimentos. Que dizeis? Hóspede ou prisioneiro? Pelo vosso terrível “em verdade” é inevitável: tereis de ser um ou outro.

POLÍXENES — Então, vosso hóspede, senhora, pois ser vosso prisioneiro, para mim fora ofensa mais difícil de cometer, que para vós puni-la.

HERMÍONE — Não serei carcereira, então, mas vossa hospedeira bondosa. Vamos; quero dirigir-vos perguntas sobre todas as peraltices que com meu marido fizestes quando crianças. Ambos éreis, de certo, nobrezinhos mui galantes.

POLÍXENES — Pois não, formosa soberana, moços que criam sempre ter diante de si dias em tudo iguais e que haveriam de ser sempre rapazes.

HERMÍONE — Meu mando, decerto, era, dos dois, o mais terrível.

POLÍXENES — Éramos como dois cordeiros gêmeos que um para o outro balavam, saltitantes ao sol, de tão contentes. Permutávamos nossa inocência apenas, inocência. A doutrina do mal desconhecendo, nem sequer conceber então podíamos que alguém a conhecesse. Se tivéssemos continuado a viver dessa maneira, sem que nossos espíritos ingênuos, pelo sangue levados, se exaltassem, com ousadia ao céu nos fora lícito responder: Não culpados”, excetuando-se nossa herança mortal.

HERMÍONE — De onde concluímos que tropeçastes, desde então, por vezes.

POLÍXENES — Ó mui prezada dama! Desde essa época temos sido tentados, pois naqueles dias implumes, minha atual esposa ainda era bem menina, e não havia também vossa preciosa formosura caído sob as vistas do meu jovem camarada de jogo.

HERMÍONE — Deus nos guarde! Não tireis conclusões, que poderíeis chamar-me e a vossa esposa de demônios. Mas prossegui sem medo; respondemos pelos pecados que por nossa causa cometestes então, caso conosco, só, tivésseis pecado e só conosco persistísseis nesse erro, sem que houvésseis tido amores com outra até ao presente.

LEONTES — Convenceste-o?

HERMÍONE — Não partirá, senhor.

LEONTES — Recusou-se a ficar a meu pedido. Hermíone querida, nunca a ponto falaste como agora.

HERMÍONE — Nunca?

LEONTES — Nunca, tirante uma só vez.

HERMÍONE — É, então, verdade? Falei bem duas vezes? E a primeira, quando foi? Por obséquio, dize logo. Enche-me de elogios e me deixa tão gorda como as aves bem tratadas. A boa ação que morre sem encômios, mata milhares que esperavam isso. Nossa paga é o elogio. Por mil milhas com um beijo terno podereis levar-nos, sem que nos faça um passo andar a espora. Mas voltemos ao ponto de partida. Minha última ação boa foi pedir-lhe que ficasse. E a primeira? Se interpreto corretamente o que dizeis, aquela teve uma irmã mais velha. Oh! se seu nome fosse Graça! É, então, certo? Uma vez, antes, eu falei com propósito. Mas, quando? Oh! Permiti que o saiba! Estou ansiosa.

LEONTES — Ora, foi quando três azedas luas mui demoradamente se finaram, antes de eu conseguir que essa mão branca se abrisse e confirmasse o teu afeto, depois do que, em resposta, me disseste: “Sou vossa para sempre”.

HERMÍONE — Sim, foi graça. Falei bem duas vezes, não é certo? Uma, para alcançar o real esposo; outra, a fim de reter um pouco o amigo. (Estende a mão a Políxenes.)

LEONTES (à parte) — Muito quente! Muito quente! Unir as afeições de tal maneira, é unir, também, o sangue. Estou sentindo “tremor cordis”; o coração me dança, mas não é de alegria. O acolhimento pode ficar de rosto descoberto, condescender, até, em liberdade, por generosidade e exuberância, mesmo, do coração. Até aí, concedo. Mas baterem palminhas, beliscarem-se os dedos, como o fazem neste instante, permutarem sorrisos estudados, como em frente do espelho e, após, suspiros soltarem, como toque de buzina que a morte propalasse do veadinho... Oh! Tal acolhimento é-me contrário, visceralmente, ao peito e ao sobrecenho. Vem Mamílio; és meu filho?

MAMÍLIO — Sim, bondoso senhor.

LEONTES — Verdade? Então és meu fedelho. Quê? Sujaste o nariz? Todos afirmam que é igualzinho ao meu. Vem, capitão; precisamos ser limpos, capitão; nada devemos carregar na testa, conquanto a vaca, o boi e o bezerrinho passem por muito limpos. — Como! Ainda tocando virginal sobre as mãos dela? — Então, bezerro libertino? És mesmo meu bezerrinho, não?

MAMÍLIO — Se vos agrada tal coisa, meu senhor.

LEONTES — Para isso falta-te cabeça dura e as minhas excrescências. Ficarias como eu. Como dois ovos, dizem todos, nós somos. As mulheres é que o dizem... Precisam dizer algo. Mas embora tão falsas elas fossem como a cor preta de tintura nova, ou como o vento e as águas, e até os dados que o jogador cobiça, quando linha divisória entre o teu e o meu não traça: verdadeiro seria asseverarem que o menino comigo se parece. Senhor pajem, olhai-me com esses olhos da cor do céu. Meu vilãozinho, caro, caríssimo pedaço de mim mesmo! Tua mãe poderia... É, então, possível? Instinto, teus impulsos no alvo acertam; possível deixas o que nunca fora sequer imaginado; ajuda encontras até nos sonhos; vais achar aliado no próprio irreal e ao nada te associas. Depois te tornas crível, pois te juntas a alguma coisa. Agora fazes isso sem justificações, e o sinto fundo, pois o cérebro tenho envenenado e a fronte endurecida.

POLÍXENES — Que se passa com Sua Majestade da Sicília?

HERMÍONE — Parece preocupado.

POLÍXENES — Então, senhor? Como passais? Que tem o caro mano?

HERMÍONE — Dais a impressão de que na fronte tendes grande preocupação. Estais zangado?

LEONTES — Falando sério, não. Como é freqüente trair a natureza a sua própria loucura, seu desvelo, transformando-se em objeto de escárnio para os peitos endurecidos! Contemplando os traços do rosto de meu filho, pareceu-me recuar vinte e três anos no passado, vendo-me quando calça eu não usava, com meu casaco de veludo verde, a espada amordaçada, porque o dono não chegasse a morder, assim tornando-se — como com os ornamentos acontece — perigosa demais. Quão parecido, pensava então, eu era a este grãozinho, a este pirralho, a este cavalheiro! Honesto amigo, aceitaríeis ovos em lugar de dinheiro?

MAMÍLIO — Não, milorde; primeiro, brigaria.

LEONTES — Assim, valente? Desse modo, irás longe. Caro mano, sois tão ligado ao vosso jovem príncipe como nós parecemos ser ao nosso?

POLÍXENES — Senhor, em casa ele é meu passatempo, minha alegria, objeto de cuidados; ora amigo jurado, ora inimigo, parasita da corte, meu soldado, ministro, tudo, em suma. Deixa os dias de julho curtos como os de dezembro com seu gênio infantil sempre variável, curando-me de certos pensamentos que, de outro modo, o sangue me engrossaram.

LEONTES — No que me diz respeito, a mesma coisa se dá com este escudeiro. Agora vamos passear, senhor, e vos deixar com vossos pensamentos mais graves. Cara Hermíone, revela na acolhida a nosso mano todo o amor que nos votas. Que para ele fique barato quanto nós tivermos de caro aqui. Depois de ti e deste pequeno vagabundo, é ele, sem dúvida, quem mais de perto o coração me toca.

HERMÍONE — Se quiserdes achar-nos, estaremos às ordens no jardim. Vireis depressa?

LEONTES — Fazei como quiserdes; hei de achar-vos onde quer que estejais ao descampado. (À parte.) Agora estou pescando, muito embora eles não vejam como eu solto a linha. Muito bem! Muito bem! Como a boquinha ela para ele estende, ou melhor, o biquinho! E como ao braço dele se apóia com a desenvoltura das mulheres que têm marido dócil! (Saem Políxenes, Hermíone e o séquito.) Bem, já se foram. Lama até aos joelhos; excrescências acima das orelhas... Brinca, menino, brinca; tua mãe também está brincando. Eu também brinco, mas meu papel é tão ignominioso, que acabará com vaia no meu túmulo. Como dobre vou ter pateada e escárnio. Vai brincar, rapazinho; vai. Já houve antes de mim maridos enganados, se nisso não me iludo, como muitos deve haver, no momento em que isto falo, que a esposa ao braço levam, sem que a mínima suspeita de que houvesse ela as comportas aberto, permitindo que o vizinho do lado pescar viesse no seu tanque, sim, seu vizinho, o tal senhor Sorriso. Serve, até, de consolo, imaginarmos que outros homens também possuem portas que se abrem como as minhas, sem que os donos tenham vontade disso. Se os maridos de esposas infiéis desesperassem, enforcar-se-ia, certamente, a décima parte da humanidade. Não há cura para esse mal. Influência é de um planeta lascivo, que revela seus efeitos onde é predominante, parecendo-me que a leste, a oeste, ao norte e ao sul tem força. Em conclusão: não pode haver barreiras que a entrada a um ventre impeçam. Ficai certos do seguinte: o inimigo elas permitem sair e entrar com armas e bagagens. Milhares dentre nós sofrem da doença, sem que suspeitem disso. Então, menino?

MAMÍLIO — Pareço-me convosco, dizem todos.

LEONTES — Isso consola. Quê! Camilo aqui?

CAMILO — Sim, meu senhor.

LEONTES — Mamílio, vai brincar; és honesto. (Sai Mamílio.) Camilo, este importante senhor vai demorar.

CAMILO — Muito trabalho tivestes para que a âncora pegasse; escapulia sempre que a jogáveis.

LEONTES — Observaste isso?

CAMILO — Às vossas insistências não queria ceder, sempre alegando negócios de importância.

LEONTES — Percebeste-o? (À parte.) Já se fala baixinho a meu respeito: “O soberano da Sicília é um...” Custou-me percebê-lo. — Por que causa, ele ficou, Camilo?

CAMILO — Ante as instâncias da bondosa rainha.

LEONTES — Da rainha, poderá ser; bondosa”, fora certo; mas, sendo o que é, não é. Compreendeu isso outra cabeça astuta além da tua? Pois teu entendimento chupa, absorve mais que os blocos comuns. Terá sido isso notado só por naturezas raras, por alguns indivíduos de cabeça mais do que extraordinária, sendo o vulgo cego, talvez, para essas coisas? Dize.

CAMILO — Que coisas, meu senhor? Penso que todos são de pensar que o Rei da Boêmia espicha demais sua visita.

LEONTES — Como?

CAMILO — Espicha demais sua visita.

LEONTES — Bem; e a causa?

CAMILO — Para satisfazer Vossa Grandeza e aos pedidos de nossa mui graciosa soberana.

LEONTES — Satisfazer! É boa. De vossa soberana? É quanto basta. Até agora, Camilo, te confiava não somente segredos que me tocam de perto o coração, como os de Estado, e, como sacerdote, me aliviavas o peito. Como penitente absolto de ti sempre partíamos. Mas fomos iludidos com tua integridade, ou com a que como tal considerávamos.

CAMILO — Deus não o queira, senhor!

LEONTES — Para de novo dizer-te o meu pensar: não és honesto, ou, se para isso fores inclinado, és um covarde que o jarrete cortas, por trás, à honestidade, de seu curso natural impedindo-a. Ou te devo considerar um servo que na minha confiança calou mui profundamente e, por isso, relapso, ou como um tolo que observa o jogo que se faz em casa, nota o ganho excessivo e toma tudo como simples pilhéria.

CAMILO — Meu gracioso senhor, eu posso ser relapso, tolo, medroso, se o quiserdes, falhas essas de que ninguém pode julgar-se isento, para afirmar que nunca, em meio aos fatos infinitos do mundo, houvesse sido medroso, tolo ou mesmo negligente. Se alguma vez, senhor, cons­cien­te­men­te negligenciei no que se relaciona aos vossos interesses, foi tolice de minha parte; se papel de tolo consciente fiz, foi minha negligência que teve a culpa, por haver deixado de pensar até ao fim nas conseqüências; e se medroso me mostrei, por vezes, de fazer algo cujo resultado me parecia incerto, revelando-se o plano não isento de perigo, era isso um medo de que os mais sisudos nem sempre se livraram. Essas falhas, senhor, são permitidas, sendo certo que a própria honestidade delas sofre. Mas seja Vossa Graça mais explícito, mostrando-me de frente minhas falhas; se eu as negar, é que não me pertencem.

LEONTES — Nunca viste, Camilo — mas não pode haver sobre isso dúvida; seria preciso que tivesses as janelas dos olhos mais compactas do que os cornos de marido enganado — ou nunca ouviste pois ante um fato desses, tão visível, não fica mudo o boato — ou não pensaste pois quem não pensa nisso é destituído de reflexão — que minha esposa é infiel? Confessa-o logo — a menos que te insurjas com impudência contra os próprios olhos, os ouvidos e o juízo — e me declara que minha esposa é uma prostituta e que merece o nome vergonhoso que às fiandeiras de linho sempre damos, por se entregarem antes do consórcio. Vamos, confirma tudo.

CAMILO — Não; jamais diante de mim ninguém insultaria minha nobre senhora desse modo, sem que vingança, logo, eu não tomasse. Maldito eu tenha o coração, mas nunca dissestes nada mais de vós indigno do que neste momento. Insistir nisso, fora pecado mais hediondo ainda do que aquele, se fosse verdadeiro.

LEONTES — E o falar baixo, nada representa? Encostarem-se as faces? os narizes? beijarem-se nos lábios? com um suspiro interromper o curso de um sorriso — prova infalível de infidelidade encontrarem-se os pés, andarem sempre pelos cantos, quererem que os relógios fossem menos morosos, que os minutos fossem horas, o dia, noite escura? E todo o mundo — menos eles, claro; excetuando-se os dois — com catarata nos olhos, para que pecar pudessem sem ninguém o notar... Tudo isso é nada? Então é nada o mundo todo e tudo que nele se contém; o céu é nada, Boêmia é nada, minha esposa é nada, são nada todos esses nadas, caso for nada quanto passa.

CAMILO — Meu bondoso senhor, curai-vos sem demora dessas fantasias doentias; quase sempre são muito perigosas.

LEONTES — Dize: é certo.

CAMILO — Não, não, senhor!

LEONTES — É certo; estás mentindo. Torno a dizer, Camilo: estás mentindo. Odeio-te! Confessa que não passas de um rústico grosseiro, de um escravo negligente, e até mesmo de um tranqüilo contemporizador que a vista lanças indiferente para o bem e o mal, propenso a aceitar ambos. Se tivesse minha mulher o fígado infectado como sua própria vida, nem uma hora viveria ela agora.

CAMILO — Quem lhe causa semelhante infecção?

LEONTES — Quem? Justamente quem a usa tal qual uma medalha pendente do pescoço: o Rei da Boêmia. Se eu tivesse comigo servidores de confiança, com olhos, a um só tempo, para ver minha honra e seu proveito, para vantagem própria, ora fariam algo que desfaria muita coisa. Sim, tu, seu escanção — que de uma humilde condição eu tirei, grande fazendo-te, e podes ver, mais claramente, ainda, do que o céu vê a terra e a terra o céu, como sou ultrajado — poderias temperar a bebida numa copa que para o meu amigo resultasse um sono duradouro. Tal mistura me fora um cordial.

CAMILO — Senhor, meu príncipe, é certo: eu poderia fazer isso, sem recorrer, até, a essas bebidas de ação muito violenta, mas valendo-me de um licor vagaroso, que não age com a visível malícia dos venenos. Mas crer não posso que haja semelhante mácula em minha augusta e alta senhora, tão soberanamente honrada e digna. Sempre te amei...

LEONTES — Se acaso ainda o duvidas, que a peste te carregue. Então me julgas tão mal equilibrado, a tal extremo perturbado que, sem necessidade, me forje esses tormentos? Sujar queira a pureza, a brancura de meu leito que, sem isso, repouso me aprestara, mas, manchado, é aguilhão, espinho, urtiga, ferrão de abelhas? Infamar quisesse o sangue deste príncipe, meu filho, que eu amo como meu e que presumo seja realmente meu? Será possível que eu fizesse tudo isso? Há alguém tão louco?

CAMILO — Sou forçado, senhor, a dar-vos crédito. Creio no que dizeis. O Rei da Boêmia vai desaparecer, ficando assente, no entanto, que, uma vez ele afastado, receberá de novo Vossa Alteza, como antes, a rainha, se não fosse por outra causa, por amor ao príncipe, mas também para pôr cobro na língua dos maldizentes das vizinhas cortes onde tendes amigos ou aliados.

LEONTES — Teu conselho coincide justamente com o que eu comigo mesmo decidira. Disso sua honra não sairá manchada.

CAMILO — Meu soberano, saí, portanto, e com fisionomia tão prazenteira como só a amizade mostra em dia festivo, tratai sempre o Rei da Boêmia e vossa alta senhora. Eu sou o escanção dele; se bebida salutar eu lhe der, excluí-me logo do número de vossos servidores.

LEONTES — É tudo; se o fizeres, a metade terás do coração que aqui me bate; caso contrário, o teu terás partido.

CAMILO — Fá-lo-ei, senhor.

LEONTES — Hei de mostrar-me afável, como me aconselhaste. (Sai.)

CAMILO — Oh mulher infeliz! Mas qual é a minha situação? É preciso que eu propine veneno ao bom Políxenes, não tendo razão para isso, afora a obediência que devo ao meu senhor, o qual, achando-se em rebelião consigo mesmo, exige de seus homens idêntica atitude. Promovido serei se fizer isso. Mas ainda que eu achasse mil exemplos de pessoas que, tendo da existência privado o ungido do Senhor, levassem depois vida feliz, não no faria. Mas já que a pedra, o pergaminho e o bronze um só exemplo disso não nos contam, que a própria vilania o repudie. Preciso, pois, abandonar a corte. Faço-o... Não o faço... De qualquer maneira quebrarei o pescoço. Os passos guia-me, feliz estrela! O Rei da Boêmia chega.

(Entra Políxenes.)

POLÍXENES — É estranho! É muito estranho! Só parece que meu favor aqui está em declínio. Não me falar! Ora essa! Boa-tarde, Camilo.

CAMILO — Salve, muito real senhor.

POLÍXENES — Que novidades há na corte?

CAMILO — Nada particular, senhor.

POLÍXENES — Pelo semblante do rei dir-se-ia que ele uma província perdeu ou alguma terra que estimasse tanto como a si mesmo. Neste instante o encontrei, e o saudei como de hábito. Mas ele a vista desviando e os lábios contraindo num gesto de desprezo, afastou-se depressa, a sós deixando-me a pensar no que pode estar em curso para causar alteração tão grande.

CAMILO — Não me atrevo a sabê-lo, meu senhor.

POLÍXENES — Quê! Não vos atreveis? Sabeis de tudo, e não vos atreveis a revelar-mo? O caso é assim, porque para vós mesmo o que sabeis contais, sem responderdes que não vos atreveis. Meu bom Camilo, vosso rosto alterado ora me serve de espelho em que também mudados vejo meus traços fisionômicos. Forçoso, pois, é que eu tenha alguma parte nisso, para me ver assim tão transtornado.

CAMILO — Uma doença atacou alguém na corte, mas não posso nomeá-la; foi pegada de vós, que, no entretanto, estais sadio.

POLÍXENES — Como! Pegou de mim? Mas certamente não me fareis possuidor da vista do basilisco. Olhei para milhares de pessoas, que muito prosperaram por esse fato, sem causar a morte de ninguém só por isso. Bom Camilo, sois, sem dúvida alguma, um gentil-homem e, além do mais, instruído — o que à nobreza serve de adorno não menor que o nome de nossos genitores, cujo brilho nos serve de elevar — instantemente vos suplico se acaso sabeis algo de que eu precise ter conhecimento, não o deixeis permanecer oculto nas prisões da ignorância.

CAMILO — Responder-vos não me é possível.

POLÍXENES — Transmiti doença e me acho tão sadio? Não; preciso obter uma resposta. Estás me ouvindo, Camilo? Ora conjuro-te, por tudo quanto a honra pode permitir a um homem — não sendo a menor parte este pedido — que me esclareças tuas conjeturas acerca da desgraça não visível que para mim se esgueira. Ainda está longe? Já vem próxima? Como preveni-la? Ou então, de que maneira suportá-la?

CAMILO — Vou contar-vos, senhor, o que se passa, pois intimado fui em nome da honra por quem honrado eu julgo. Ouvi, portanto, meu conselho, que deve ser seguido no mesmo instante em que o tiver exposto; se não, só restará para nós ambos gritar “Perdidos” e nos dar boa-noite.

POLÍXENES — Fala, então, bom Camilo.

CAMILO — Estou incumbido por ele de matar-vos.

POLÍXENES — Ele quem, Camilo.

CAMILO — O rei.

POLÍXENES — E a causa?

CAMILO — Ele presume, não, jura com inteira segurança, como se o houvesse visto ou sido o ferro que vos tivesse atarraxado nisso, que tocastes por modo criminoso na rainha sua esposa.

POLÍXENES — Que em geléia pútrida se me altere o melhor sangue e que meu nome sob o jugo fique lado a lado do que traiu o Altíssimo, que meu nome ilibado, de tal modo podre se torne que, onde quer que eu chegue, cause nojo aos narizes mais obtusos; que de minha presença todos fujam, não, que todos a temam mais ainda do que a peste mais grave de que se haja falado ou dado a conhecer por livros.

CAMILO — No que respeita ao pensamento dele, poderíeis jurar pelas estrelas do céu, uma por uma, e seus influxos, mas o mesmo seria pretenderdes proibir que o mar à lua não seguisse, como o edifício sacudir de sua loucura, de alicerces assentados na crença inabalável e que vida terá tanto quanto ele.

POLÍXENES — De que modo nasceu tudo isso?

CAMILO — Ignoro-o. Mas certeza tenho completa de que é preferível fugir das conseqüências dessa idéia, a procurar saber como nasceu. Assim, no caso de confiança terdes em minha honestidade que heis de logo levar como penhor — fugi esta noite. Secretamente contarei aos vossos seguidores o que há, providenciando para que saiam da cidade em grupos de dois ou três, apenas, por poternas de meu conhecimento. Enquanto a mim, junto de vós irei tentar a sorte, por esta confissão, aqui perdida. Não vacileis; pela honra dos meus entes mais queridos, contei-vos a verdade. Não me é possível esperar, no caso de quererdes mais provas, pois o risco correis de quem se achasse condenado pelo próprio monarca e cuja morte jurada já estivesse.

POLÍXENES — Creio em tudo; o coração no rosto ele mostrava. Dá-me a mão; de piloto ora me serve, que vizinho do meu será teu posto. Meus navios já se acham preparados e há dois dias meus homens só me esperam para partirmos. Este ciúme atinge pessoa mui preciosa. Será forte quão valiosa ela for, e tão violento quanto o marido for mais poderoso. Pensando que se encontra desonrado por quem lhe dedicara sempre afeto, com mais furor há de querer vingar-se. O medo me conturba. Feliz viagem, sê minha amiga e de consolo serve à graciosa rainha, alvo de suas suspeitas infundadas, mas sem parte nenhuma ter em nada. Vamos logo, Camilo. Como pai hei de acatar-te, se a vida me salvares. Estou pronto.

CAMILO — Minhas atribuições me facilitam as chaves das poternas. Saiba Vossa Grandeza aproveitar-se da hora urgente. Vamos, senhor! Depressa!

(Saem.)

ATO II
Cena I

Sicília. Um quarto no palácio. Entram Hermíone, Mamílio e damas da corte.

HERMÍONE — Levai daqui o menino. É insuportável; cansa-me por demais.

PRIMEIRA DAMA — Vinde comigo, meu gracioso senhor; brinquemos juntos.

MAMÍLIO — Não, não quero; de vós não quero nada.

PRIMEIRA DAMA — Por quê, caro senhor?

MAMÍLIO — Beijais-me muito duramente e falais comigo como se eu ainda fosse criança. Antes aquela.

SEGUNDA DAMA — E o motivo, senhor, me quererdes?

MAMÍLIO — Não há de ser por terdes sobrancelhas escuras, muito embora todos digam que as sobrancelhas dessa cor assentam muito bem nas mulheres, se não forem muito espessas, somente um semicírculo ou meia-lua, como feita à pena.

SEGUNDA DAMA — Quem vos ensinou isso?

MAMÍLIO — Ora, aprendi-o no rosto das mulheres. Por obséquio: de que cor são as vossas sobrancelhas?

PRIMEIRA DAMA — Azul, milorde.

MAMÍLIO — Ora, isso é brincadeira. Nariz azul já vi numa senhora; mas sobrancelhas, nunca.

SEGUNDA DAMA — Ora escutai-nos. Vossa mãe, a rainha, está engordando. Dentro de poucos dias passaremos a servir outro belo e jovem príncipe. Então, só podereis brincar conosco, se tiverdes vontade.

PRIMEIRA DAMA — Ultimamente, de fato, está ficando muito gorda. Que tenha um bom trabalho.

HERMÍONE — De que assunto vos ocupais com tanta seriedade? Vinde, senhor; sou novamente vossa. Contai-nos uma história.

MAMÍLIO — Alegre ou triste?

HERMÍONE — A mais alegre que vos for possível.

MAMÍLIO — Vai melhor com o inverno história triste. Conheço uma de espíritos e duendes.

HERMÍONE — Vamos ouvi-la, bom senhor; sentai-vos aqui junto de mim, e que me causem medo vossos espíritos. Sois forte para contar histórias. Começai.

MAMÍLIO — Era uma vez um homem...

HERMÍONE — Não, sentai-vos, para depois falar.

MAMÍLIO — ...que residia perto do cemitério. — Aqueles grilos poder-me-iam ouvir; vou falar baixo.

HERMÍONE — Então vinde falar-me aqui no ouvido.

(Entram Leontes, Antígono, nobres e outras pessoas.)

LEONTES — Encontraste-lo ali? Com todo o séquito? Camilo estava junto?

PRIMEIRO NOBRE — Atrás do bosque de pinheiros. Jamais tamanha pressa vira em ninguém, assim. Acompanhei-os com a vista até aos navios.

LEONTES — Quão ditoso me julgo por sentir-me verdadeiro! Como as minhas suspeitas se confirmam! Antes soubesse menos! Quão maldito nessa felicidade É concebível que uma aranha se esgueire para o copo de que venha a servir-se uma pessoa que, após, o larga, sem que do veneno sinta qualquer efeito: é que infectada não lhe estava a consciência. Mas se aos olhos o nojoso ingrediente lhe apresentam, e ver lhe fazem como usara o copo, logo a garganta e os flancos se lhe estalam sob esforços violentos. No meu caso, bebi a aranha e a vi. De alcoviteiro Camilo lhe serviu, serviu de cúmplice contra a coroa. Ficam confirmadas, assim, minhas suspeitas. Esse falso vilão que eu empregava, já se achava contratado por ele; descobriu-lhe meus planos, entregando-me ao ridículo, mais do que isso: em peteca transformando-me que, à vontade, eles todos sopapeassem. Como foram franqueadas as poternas sem maior embaraço?

PRIMEIRO NOBRE — Tão-somente em virtude da grande autoridade de que ele desfrutava e que, por vezes, mais do que isso alcançou sob vossas ordens.

LEONTES — Sei isso muito bem. — Dai-me o menino! Foi ventura não o teres criado ao peito. Muito embora nos traços se pareça muito comigo, sobra nele o sangue que só de vós provém.

HERMÍONE — Que é isso? Graça?

LEONTES — Levai daqui o menino; junto dela não convém que ele fique. Logo! Logo! (Sai Mamílio, acompanhado.) Ela que brinque com o de que está grávida. Quem te deixou tão gorda foi Políxenes.

HERMÍONE — Digo que não foi ele, e o juro, certa de que me dareis crédito, conquanto propenso vos acheis para negá-lo.

LEONTES — Senhores, contemplai esta mulher. Examinai-a bem. Certo diríeis: “Muito bela pessoa!” Mas, de pronto, vos fórçara a dizer a honestidade do coração: “Que pena não ser pura, mas desonesta!” Elogiai-lhe apenas a aparência exterior — que, sem ressalvas, merece alto discurso — que, de pronto vereis os “Ahs!” e os “Huns!” e o encolher de ombros e todas essas pequeninas armas com que a calúnia atua... Oh! enganei-me! com que a piedade atua, que a calúnia mina a própria virtude — o encolher de ombros, e os “Ahs!” e os “Huns!”, no instante em que dissésseis “Como é formosa!” vos impediriam de acrescentar: “É honesta”. Assim, que fique conhecido por quem mais sofre ante essa revelação: é adúltera.

HERMÍONE — Se acaso fosse isso dito por um celerado, o mais completo que no mundo houvesse, mais celerado ainda se tornara. Mas vós, senhor, vos enganais apenas.

LEONTES — Minha senhora, houve um pequeno engano, tão-só, de vossa parte: em vez de Leontes, Políxenes. Ó coisa à-toa. Deixo de chamar-te criatura de teu posto, para que o barbarismo, aproveitando-se desse meu precedente, não aplique o mesmo nome a todas as pessoas, as posições deixando confundidas de nobres e mendigos. Disse: é adúltera, e o nome declarei de seu comparsa. Digo mais: é traidora, e tem por cúmplice Camilo, que se encontra a par de quanto comunicar para ela fora opróbrio, tirante o seu parceiro: é prostituta tão baixa como aquelas a que o vulgo dá nomes pouco limpos. Mais: é cúmplice na fusa deles.

HERMÍONE — Não, por minha vida; não sou cúmplice em nada. Que remorsos não sentireis, quando tiverdes plena certeza da injustiça que, de público, me fazeis neste instante! Meu prezado senhor será satisfação pequena dizerdes-me que estáveis enganado.

LEONTES — Não; se eu me engano quanto à segurança dos alicerces sobre que edifico, não é forte bastante o próprio centro da terra para sustentar o peso de uma simples pitorra de estudante. Para a prisão com ela! Quem por ela quiser interceder, é criminoso só por haver falado.

HERMÍONE — Algum planeta nocivo está imperando; é necessário mostrar paciência, até que o céu assuma feição mais favorável. Meus bondosos senhores, nunca fui propensa ao choro, como em geral se dá com o nosso sexo. Possivelmente a falta desse inútil orvalho secará vossa piedade. Mas aqui sinto aquela dor honrosa que abrasa em demasia, porque possa ser apagada por algumas lágrimas. A todos vós, senhores, peço, instante, que me julgueis com ânimo tão brando quando ditar vos possa a caridade. Seja feita a vontade do monarca.

LEONTES (aos guardas) — Serei obedecido?

HERMÍONE — Quem vem comigo? Peço a Vossa Alteza deixar que minhas damas me acompanhem, pois bem o vedes, meu estado o exige. Bobinhas, não choreis; não há motivo. Se porventura ouvirdes que vossa ama mereceu ficar presa, a flux chorai quando me libertarem. A presente acusação vai ser-me proveitosa. Adeus senhor; jamais quis ver-vos triste, mas triste heis de ficar, tenho certeza. Vinde senhoras; tendes permissão.

LEONTES — Fazei o que eu mandei. Levai-a logo! (Sai a minha, escoltada, e as damas de companhia.)

PRIMEIRO NOBRE — Suplico a Vossa Alteza que de novo mande vir a rainha.

ANTÍGONO — Agi com muita cautela, meu senhor, porque a justiça não se mude em violência, o que seria causa de sofrimento triplicado: para vós, vossa esposa e vosso filho.

PRIMEIRO NOBRE — Por ela, meu senhor, empenho a vida — como o faço; aceitai-a — em como é pura ante os olhos do céu e vossa vista, no que respeita à acusação de há pouco.

ANTÍGONO — Se se provar que ela não é honesta, farei uma cocheira do meu quarto de casado e andarei emparelhado sempre com minha esposa, sem que venha dela a me fiar daí por diante, a menos que a veja ou toque nela. Se a rainha não for séria, não há no mundo todo uma só polegada de mulher, uma dracma de carne delas todas, que falsa não se mostre.

LEONTES — Ficai quietos.

PRIMEIRO NOBRE — Meu bom senhor...

ANTÍGONO — Por vós é que falamos, não por nós mesmos. Fostes iludido por algum intrigante que, por isso, há de ser condenado eternamente. Se eu soubesse quem é este canalha, fá-lo-ia achar na terra o próprio inferno. Ela prevaricar!... Tenho três filhas: a mais velha de onze anos; as menores, de sete, uma, e a outra cinco, mais ou menos. Se for verdade, hão de pagar-me todas. Hei de esterilizá-las... Por minha honra. Não chegarão a completar quatorze, porque a gerar não venham filhos falsos. São co-herdeiras; mas prefiro ver-me mutilado, a que tenham só bastardos.

LEONTES — Basta! Parai com isso! Nisso tudo tomais da coisa o cheiro com sentido frio como o nariz de um próprio morto. Mas eu a vejo e sinto, como agora sentis o que vos faço, e mais: percebo, o órgão com que sinto isso.

ANTÍGONO — Sendo certo, cavar não precisamos sepultura, para nela enterrar a honestidade. Não remanesce dela parte mínima, para purificar esta esterqueira que abrange toda a terra.

LEONTES — Como! Vejo que não acreditais no que vos digo.

PRIMEIRO NOBRE — Sobre esse assunto, meu senhor, prefiro que sejais vós, não eu, o mentiroso. Mais me alegra saber que ela está pura do que ver confirmada esta suspeita, por mais que nisto o mundo vos censure.

LEONTES — Por que vos dar explicação do caso? Antes obedecer ao próprio impulso. Dispensar podem nossos privilégios vosso conselho em tudo, sendo apenas nossa bondade inata que vos chama para dar opinião. Assim, se agora — por estardes perplexos ou fingirdes grande estupefação — não conseguirdes, ou não quiserdes, como nós, dobrar-vos à verdade dos fatos, ficai certos de que vos dispensamos o conselho; o fato, a perda, o lucro, todo o curso, só a nós dirá respeito.

ANTÍGONO — E eu desejara, meu soberano, que em silêncio houvésseis considerado o assunto, sem lhe terdes dado publicidade.

LEONTES — Como fora possível fazer isso? Ou vos tomastes, com os anos, ignorante, ou já nascestes rematado pateta. Bastariam a fuga de Camilo e a mui notória familiaridade entre eles — tão patente como jamais suspeita alguma vira, e que faltava apenas ser notada, para ser confirmada integralmente, provando o fato as outras circunstâncias — para levar-me a agir dessa maneira. Contudo, para ver minha conduta mais reforçada ainda — que em assunto de tanta relevância, condenada fora qualquer violência — mensageiros despachei ao sagrado Delfo, ao templo de Apolo: Dion e Cleómenes, bastante conhecidos de vós, como homens íntegros. Dessa resposta tudo ora depende.,O divino conselho irá acalmar-me ou esporear-me ainda mais. Não estou certo?

PRIMEIRO NOBRE — Certíssimo, senhor.

LEONTES — Embora convencido eu já me encontre, sem precisar de saber mais, o oráculo virá servir para acalmar o espírito dos que, como este, por credulidade da ignorância, não podem convencer-se da verdade dos fatos. Desse modo, de bom aviso pareceu-nos pô-la sob chaves, para que ela não consiga levar a cabo a trama forjicada pelos dois que fugiram. Vinde logo; público vou tornar o que ora passa. Este negócio vai movimentar-nos.

ANTÍGONO (à parte) — Para boas risadas, é o que eu penso, se a verdade chegar a ser sabida.

(Saem.)

Cena II

O mesmo, O interior de uma prisão. Entram Paulina e alguns criados.

PAULINA — O carcereiro da prisão! Chamai-o.,Dizei-lhe quem eu sou. (Sai um dos criados.) Nobre senhora! Não há corte na Europa suficiente para tua pessoa. E agora presa! (Volta o criado com o carcereiro.) Bom senhor, conheceis-me?

CARCEREIRO — Se conheço? Sim, como uma senhora muito digna, a quem muito venero.

PAULINA — Nesse caso, por obséquio, levai-me até à rainha.

CARCEREIRO — É impossível, senhora, pois tenho ordens expressas em contrário.

PAULINA — Quanta formalidade, para o acesso impedir de visitas amistosas à honestidade e à honra! É permitido, dizei-me, ver uma de suas damas? Emília, por exemplo?

CARCEREIRO — Se quiserdes, minha senhora, retirar os criados, mandarei vir Emília.

PAULINA — Então chamai-a. Retirai-vos.

(Saem os criados.)

CARCEREIRO — Contudo, é necessário que eu assista à conversa.

PAULINA — Pois que seja. (Sai o carcereiro.) Ultrapassa os preceitos da própria arte todo esse esforço para deixar preto o que é, em si mesmo, branco. (Volta o carcereiro, com Emília.) Gentil dama, a graciosa rainha como passa?

EMÍLIA — Tão bem quanto, reunidos, o permitem tão alto posto e tanta desventura. Os sustos e as tristezas — jamais dama tão delicada suportou tamanhas — provocaram-lhe o parto antes do tempo.

PAULINA — Menino?

EMÍLIA — Não, menina; bela criança, forte e cheia de vida. Sua vista consola a rainha, que lhe fala: “Minha pequena prisioneira, somos ambas inocentes”

PAULINA — Atrevo-me a jurá-lo: malditos sejam esses perigosos acessos do monarca. E necessário contar-lhe o que houve; tem de saber tudo. Isso compete a uma mulher; incumbo-me de lhe dar a notícia. Se disser-lhe palavras doces, quero que na língua me rebentem feridas, cessando ela de servir de trombeta para a minha cólera de feições congestionadas. Emilia, por obséquio, recomenda à rainha meus préstimos. No caso de ela querer confiar-me a pequerrucha, mostrá-la-ei ao monarca, prometendo servir-lhe de advogado diligente. Quem sabe se ele ficará mais brando à vista da menina? Muitas vezes o silêncio da cândida inocência persuade onde os discursos fracassaram.

EMÍLIA — Muito digna senhora, tão patente é vossa honra e a bondade muito própria, que não pode deixar de ter bom êxito vossa nobre entrepresa. Não conheço senhora alguma mais talhada para tão grande iniciativa. Queira Vossa Senhoria esperar no quarto anexo, que logo eu vou participar rainha vossa nobre proposta. Hoje mesmo ela pensara nisso; mas não se atrevera a dar essa incumbência a qualquer nobre, com medo de um fracasso.

PAULINA — Emilia dize-lhe que eu saberei uso fazer da língua. Se fluir dela eloqüência como audácia no peito ora me estua, é quase certo ser eu bem sucedida.

EMÍLIA — Deus vos guie. Vou ver logo a rainha. Por obséquio, vinde para mais perto.

CARCEREIRO — Se a rainha se decidir a vos confiar a criança, não sei ao que me exponho, pois careço de ordens nesse sentido.

PAULINA — Ora, senhor, não precisais ter medo; prisioneira do ventre era essa criança; mas por normas e processos da grande natureza conseguiu resgatar-se e ficar livre. Participar não pode, assim, da cólera do soberano, nem tem culpa alguma da falta da rainha se houve falta.

PAULINA — Podeis ficar tranqüilo.Por minha honra, hei de pôr-me de permeio entre vós e o perigo.

(Saem.)

Cena III

O mesmo. Um quarto no palácio. Entram Leontes, Antígono, nobres e pessoas do séquito.

LEONTES — Repouso algum de dia nem de noite. É sinal de fraqueza suportarmos o mal dessa maneira; só fraqueza. Se ao menos estivesse a causa extinta... parte da causa: a adúltera; que o biltre do rei se encontra longe do meu braço, fora do alvo e mirada de meus planos, completamente impune. Mas não posso passar o gancho nela. Se deixasse de existir, consumida pelas chamas, metade do repouso, certamente, de novo alcançaria. Quem vem lá?

PRIMEIRO CRIADO — Meu soberano...

LEONTES — Como está o menino?

PRIMEIRO CRIADO — Dormiu a noite toda. É de esperar-se que se restalebeça.

LEONTES — Para a sua nobreza contemplar! Tendo a desonra compreendido da mãe, começou logo a estiolar-se, murchou, sentindo muito profundamente tudo o que passara. Aceitou a vergonha como própria; perdeu toda a alegria, a fome, o sono, e entrou de definhar. Deixai-me só. Ide ver como passa neste instante. (Sai o Criado.) Oh vergonha! tiremo-lo da idéia. O pensamento de querer vingar-me se vira contra mim. É poderoso por demais, em si mesmo, além da ajuda dos parentes e aliados. Pois deixemo-lo, até que o tempo nisso me auxilie. Por enquanto, a vingança a atinge, apenas. Zombam de mim Camilo e o Rei da Boêmia; brincam com minha dor. Mas muito tempo não hão de rir, que hei de alcançá-los breve. Tampouco rirá ela, porque a tenho bem presa agora.

(Entra Paulina, com uma criança nos braços.)

PRIMEIRO NOBRE — Não podeis entrar.

PAULINA — Ora, meus bons senhores, ajudai-me, que o podeis. Mais valor dais à tirânica cólera dele do que à própria vida da rainha? Ela, uma alma tão graciosa, que mais pureza tem do que ele ciúme?

ANTÍGONO — É quanto basta.

SEGUNDO CRIADO — Toda a noite insone, senhora, ele passou, tendo dado ordem para que ninguém viesse perturbá-lo.

PAULINA — Menos calor, meu bom senhor. Eu venho trazer-lhe sono, apenas. As pessoas como vós, que se esgueiram perto dele como se fossem sombras, e suspiram quantas vezes sem causa ele se agita, é que alimentam toda a sua insónia. Eu, palavras lhe trago, assim verazes como medicinais, tenções honestas para purgá-lo desse humor nocivo, que o impede de dormir.

LEONTES — Quem faz barulho?

PAULINA — Não é barulho, meu senhor; apenas uma conversa necessária, acerca de alguns compadres para Vossa Alteza.

LEONTES — Como! Levai daqui essa audaciosa! Antígono, eu te havia prevenido de que não deveria essa mulher chegar perto de mim. Sabia que ela tentaria isso mesmo.

ANTÍGONO — Disse-lhe isso, meu senhor, e observei que ela incorria no desagrado vosso e meu, se acaso tentasse visitar-vos.

LEONTES — Como! Falta-te energia? Não mandas então nela?

PAULINA — Para impedir de fazer mal, decerto. Mas nisto, a menos que vos siga o exemplo, prendendo-me por presa da honra achar-me, ficai certo de que ele em mim não manda.

ANTÍGONO — Vós a ouvistes? Quando ela toma as rédeas nos dentes, disparar a deixo sempre. Nunca tropeça.

PAULINA — Venho, meu bondoso soberano, pedir que me escuteis. Vossa leal serva eu sou, sou vossa médica, conselheira obediente e dedicada. Mas para vossa cura não me atrevo a me insinuar, tal como o fazem muitos daqui mesmo. Da parte venho, disse, de vossa boa esposa.

LEONTES — Boa esposa!

PAULINA — Boa esposa, milorde; boa esposa. Repito: boa esposa; e pelas armas isso mesmo provara, se homem fosse, o pior dentre os presentes.

LEONTES — Expulsai-a daqui!

PAULINA — Quem não prezar os próprios olhos, de leve ora me toque. Por vontade sairei. Antes, porém, darei remate à missão a que vim. A boa rainha — pois boa ela é — teve uma filha vossa. Ei-la! Para ela pede a vossa bênção. (Depõe a criança no berço.)

LEONTES — Fora daqui, virago feiticeira! Alcoviteira infame!

PAULINA — Não sou isso. Tão ignorante sou de tal ofício, quanto vós em me dardes esse título, e tão honesta sou quanto vós, louco, o que, no estado em que se encontra o mundo, posso afiançar-vos, chega até de sobra para a gente ser tida como honesta.

LEONTES — Traidores! Não a jogareis lá fora? Entregai-lhe a bastarda! (A Antígono.) Velho tonto, títere das mulheres, que abandonas o poleiro por causa destes gritos! Levai daqui a bastarda e a entregai logo a essa velha sem dentes.

PAULINA — Desonradas as mãos te fiquem sempre, se tocares na princesa, depois do termo baixo que ele falou.

LEONTES — Tem medo da mulher!

PAULINA — Quisera que da vossa vos temesseis, pois desse modo, com maior certeza, de vossos chamaríeis vossos filhos.

LEONTES — Ninhada de traidores!

ANTÍGONO — Não sou traidor; por esta luz divina.

PAULINA — Nem eu, tampouco; nem ninguém, exceto, dos presentes, um só, que é ele mesmo, pois sua honra sagrada, a da rainha, do filho esperançoso, desta criança, à calúnia entregou, cujos acúleos ferem mais do que a espada. Ele recusa-se — e no caso presente é verdadeira maldição não podermos constrangê-lo a extirpar uma idéia que é tão podre quanto o carvalho e a pedra são sadios.

LEONTES — Uma ralheta de infindável língua, que bateu no marido e ora me atiça. Não é minha essa criança; é de Políxenes; retirai-a daqui e, juntamente com a mãe, lançai-a ao fogo.

PAULINA — É vossa filha, sim. O antigo provérbio poderia ter hoje aplicação: “Tão parecida convosco, que dá pena”. Contemplai-a, senhores: muito embora seja a cópia por demais reduzida, o texto inteiro reproduz o do pai. A boca, os olhos, o todo carrancudo, a testa, o riso, as covinhas das faces e do queixo, o feitio exatíssimo dos dedos, das unhas, da mão toda... Natureza, deusa bondosa, que fizeste, para tanto ela ao genitor ser parecida? Se a alma também plasmares, o amarelo de entre as cores exclui, para que um dia, como ele, a suspeitar ela não venha que não são do marido os próprios filhos.

LEONTES — Bruxa grosseira! E tu, sujeito à-toa! Merecias a forca por não teres poder para fazê-la ficar quieta.

ANTÍGONO — Enforcai os maridos que não podem realizar essa proeza, e escassamente vos sobrará um súdito.

LEONTES — De novo vos ordeno: tirai-a daqui logo!

PAULINA — O mais desnaturado e indigno esposo não faria pior.

LEONTES — Quisera-ver-te numa fogueira.

PALINA — Pouco me incomodo. Herético é quem lança fogo à pira, não quem nela se extingue. Não vos chamo de tirano; porém o modo indigno por que tratais a esposa — sem poderdes acusá-la de nada, afora a vossa própria imaginação tão mal parada — mostra certo sabor de tirania, deixando-vos ignóbil, mais do que isso: vergonha para o mundo.

LEONTES — Pelo vosso penhor de vassalagem, retirai-a daqui, sem mais tardança. Se eu, de fato, fosse tirano, ela estaria viva? Se tivesse certeza de que eu o era, não me viria agora dizer isso. Levai-a daqui logo!

PAULINA — Por obséquio, não precisais puxar-me; irei sozinha. Tomai conta, senhor, de vossa filha; é vossa. Possa Jove conceder-lhe melhor anjo da guarda. Para que essas mãos sobre mim? Mostrando-vos zelosos a esse ponto com todas as loucuras que ele fizer, só lhe sereis nocivos. Deixai! Deixai! Meus. Já nos partimos. (Sai.)

LEONTES — Traidor, isso é obra tua. Espicaçaste contra mim tua esposa. Minha a filha! Levai-a daqui logo! E se te mostras tão compassivo assim, carrega-a. Vamos! E que depressa as chamas a consumam. Tu, justamente! Tu! Carrega-a logo! Antes de uma hora volta com a notícia de que foram cumpridas minhas ordens. Mas bem testemunhado! Do contrário, hei de tirar-te a vida e o que mais tenhas. Se te recusas, pretendendo contra minha cólera opor-te, dize logo, que com estas mãos farei saltar o cérebro desta bastarda. Leva-a para o fogo, já que atiçaste contra mim tua esposa.

ANTÍGONO — Não fiz tal, meu senhor. Estes fidalgos, meus nobres companheiros, se o quiserem, podem justificar-me.

PRIMEIRO NOBRE — Sim, podemos, meu soberano; não tem culpa alguma da vinda da mulher.

LEONTES — Sois mentirosos, sem exceção de um só.

PRIMEIRO NOBRE — Vossa Grandeza poderia ter-nos em melhor conta. Sempre vos servimos fielmente; fora justo que nesta hora reconhecêsseis isso. Suplicamo-vos de joelhos, como prêmio dos serviços — passados e futuros que esse intento vos apraza mudar. É horrível, tão sanguinário, para que não tenha conseqüências nefastas. Ajoelhamo-nos todos a um tempo.

LEONTES — Sou pluma que se agita a qualquer vento? Terei de ver um dia essa bastarda vir ajoelhar-se em minha frente, para dar-me o nome de pai? É preferível queimá-la agora, a ter de amaldiçoá-la. Pois veja. Fique viva. Será o mesmo: não viverá. (A Antígono) Senhor, aproximai-vos. Já que mostrais tão grande empenho, ao lado dessa parteira, dona Margarida, para salvar a vida da bastarda — pois é o que ela é; tão certo como achar-se grisalha minha barba — que faríeis para salvar a vida desta coisa?

ANTÍGONO — Tudo o de que eu fosse capaz, milorde, e que a honra não condene. Ao menos isto: empenharei o sangue que me resta, para a vida salvar desta inocente. Tudo o que for possível.

LEONTES — Vou mandar-te fazer algo possível. Jura agora por esta espada que hás de obedecer-me.

ANTÍGONO — Obedeço, senhor.

LEONTES — Toma bem nota, e cumpre o que eu mandar — estás ouvindo? — pois o não cumprimento de uma parte qualquer das instruções, implica morte não para ti, apenas, para a tua mulher de língua solta, a que perdoamos por esta vez. Ordeno-te, portanto, já que és nosso vassalo, de pegares esta bastarda e a transportares para qualquer lugar deserto e bem distante, fora de nossas terras, aí deixando-a sem mais piedade, entregue à sua própria proteção e à mercê do áspero clima. Acaso estranho a nossas mãos a trouxe. Com justiça, pois, ora te encarrego — sob ameaça de morte e de torturas — de estranhamente nalgum ponto a pores, onde o acaso a alimente ou a estruí-la venha. Vamos: leva-a daqui!

ANTÍGONO — Juro fazê-lo, embora a morte rápida lhe fosse caridade maior. Que algum espírito potente ensine aos corvos e aos milhanos a te servirem de ama. Os próprios ursos e os lobos, dizem, da ferocidade natural se despindo, já mostraram tais provas de piedade. Feliz sede, senhor, mais do que o pede esta façanha. E que a bênção celeste te proteja, pobre coisinha condenada à morte. (Sai, levando a criança.)

LEONTES — Não, não hei de criar filhos dos outros.

(Entra um criado.)

CRIADO — Se Vossa Alteza o permitir, há uma hora chegou o correio, novas nos trazendo da embaixada que enviastes ao oráculo. Já voltaram de Delfo Dion e Cleômenes; pisaram terra e marcham para a corte.

PRIMEIRO NOBRE — Com permissão, senhor, mas essa pressa ultrapassa qualquer expectativa.

LEONTES — Vinte e três dias lhes durou a viagem. Tal rapidez é indício de que Apolo deseja que a verdade logo surja. Convocai logo uma sessão, senhores, ante a qual possa aparecer a nossa muito desleal esposa. Tendo sido de público acusada, é necessário que a sentença também seja solene. Ser-me-á o coração peso angustioso enquanto ela viver. Deixai-me agora e refleti em tudo o que vos disse.

(Saem.)

ATO III
Cena I

Sicília — Rua numa cidade. Entram Cleômenes e Dion.

CLEÔMENES — O clima é delicado, o ar muito ameno, por demais fértil a ilha, ultrapassando de muito o templo os usuais encômios.

DION — Elogiar-me apraz o que mais fundo me impressionou: as vestes celestiais — esse é o termo apropriado, me parece — e a dignidade de seus graves donos. E o sacrifício? Quão cerimonioso, solene e extraterreno foi o ofício!

CLEÔMENES — A voz atroadora, sobretudo, do oráculo, que lembra o próprio estrondo dos trovões do alto Jove, surpreendidos os sentidos deixou-me, aniquilando-me.

DION — Se o resultado dessa nossa viagem for tão feliz para a rainha — Oh! seja dessa maneira, sim! — como agradável nos foi, rápida e rara, não teremos perdido nosso tempo.

CLEÔMENES — Grande Apolo, dá bom êxito a tudo! Não me agradam essas proclamações que insistem tanto sobre faltas de Hermíone.

DION — A violência com que é levado avante esse processo, vai pôr fim ao assunto ou esclarecê-lo. Quando for lido o oráculo, selado pelo antiste de Apolo, algo mui raro ficará conhecido. Vamos logo. Cavalos frescos, e que venturoso seja o fim de tudo isto.

(Saem.)

Cena II

Sicília. Uma corte de justiça. Leontes, nobres e oficiais.

LEONTES — Esta sessão — com grande pesadume é que o dizemos nos abala o peito. A ré é filha de um monarca e nossa muito prezada esposa. A pecha tira-nos de tirania o fato de ser público todo o processo, que há de seguir nisso seu curso natural, até à sentença condenatória ou à plena absolvição. Trazei a prisioneira.

OFICIAL — Apraz a Sua Alteza que a rainha apareça em pessoa ante esta corte. Silêncio!

(Entram Hermíone, com guardas, Paulina e damas de companhia.)

LEONTES — Lede a acusação.

OFICIAL — “Hermíone, esposa do digno Leontes, Rei da Sicília, és acusada e aqui citada por crime de alta traição, por teres cometido adultério com Políxenes, Rei da Boêmia, e conspirado com Camilo para tirar a vida do rei, nosso soberano senhor, teu real esposo. Tendo sido esse propósito descoberto em parte pelas circunstâncias, tu, Hermíone, contrariamente à fidelidade e obediência próprias de um leal súdito, entraste em conchavo com eles e os ajudaste, para sua maior segurança, a fugir durante a noite?”

HERMÍONE — Já que quanto eu pudesse ora dizer-vos consistiria apenas no protesto contra essa acusação, não me amparando E nenhuma testemunha, afora eu própria, quase não me aproveita declarar-me “Não culpada”. Uma vez que está estimada minha virtude como hipocrisia, quanto eu viesse a dizer, do mesmo modo será interpretado. Apenas isto: se os poderes divinos se interessam pelos atos humanos, como o fazem, não duvido de que minha inocência fará corar a acusação indébita e tremer, ante a calma, a tirania. Vós, meu senhor, sabeis perfeitamente — conquanto simuleis ora o contrário — que toda minha vida foi tão pura, tão leal e casta, quanto desgraçada presentemente sou, mais do que todos os exemplos da história, sem excluirmos os casos de invenção postos em cena, para abalar o público. Ora vede-me: companheira de leito de um monarca, tendo direito a parte igual no trono, filha de um grande rei e mãe de um príncipe esperançoso, compareço à barra de um tribunal, para falar acerca da honra e da vida, ante qualquer pessoa que me deseje ouvir. A vida, estimo-a como dor, que de grado evitaria; quanto à honra, é herança que transmito aos meus. Por isso, defendê-la me proponho. Senhor, apelo para vossa própria consciência. Antes de haver a vossa corte Políxenes chegado, não me achava na vossa graça, e digna não me tinha dela sempre mostrado? E, após sua vinda, por que conduta extraordinária, acaso, me mostrei censurável, para, agora, ser citada a esta côrte? Se os limites da honra ultrapassei de um fio, apenas; se por ações ou pensamentos a isso me sentisse inclinada, endurecido torne-se o coração dos que me escutam, e que as pessoas que me são mais próximas a pelo sangue me insultem sobre o túmulo.

LEONTES — Jamais ouvi dizer que esses ousados vícios fossem dotados de impudência menor para negar seus próprios atos, que para os praticar.

HERMÍONE — É muito certo; conquanto isso, senhor, não se me aplique.

LEONTES — Não quereis confessar.

HERMÍONE — Não me é possível reconhecer senão os meus defeitos inevitáveis. Quanto ao Rei Políxenes, de quem me fazeis cúmplice, confesso que amor lhe dedicava tal como ele de mim, sem quebra de honra, esperaria, uma espécie de amor que condissesse com minha posição, amor em nada diferente do que vós próprio havíeis recomendado que lhe revelasse. Se então eu me tivesse conduzido por outro modo, certo eu me mostrara desobediente em relação a vós e ingrata para o amigo, cujo afeto, desde que falar pôde, desde a infância, se declarou por vosso, livremente. Quanto à conspiração, o gosto ignoro-lhe, muito embora me fosse ela servida, porque dela provasse. Só o que posso dizer é que Camilo é homem probo. Mas a razão de haver ele deixado vossa corte, se os deuses, sobre o assunto, souberem o que eu sei, são ignorantes.

LEONTES — Sabíeis, sim, da parte dele, como também sabíeis quanto era preciso fazer em sua ausência.

HERMÍONE — Não compreendo, senhor, vossa linguagem. Minha vida se acha a tiro, tão-só, de vossos sonhos; aqui vo-la deponho.

LEONTES — Vossos atos são meus sonhos; sonhei que de Políxenes tivestes um bastardo. Distanciada vos achais da vergonha — que as mulheres dessa laia o estão sempre — como longe da verdade dos fatos. Contestá-los vos compete, sem que isso, agora, possa vos ser de algum proveito, pois tal como jogado fora foi o teu produto — destino justo — por ser carecente de um pai que o reclamasse — maior culpa te cabe neste ponto do que a ele — agora vais sentir nossa justiça, que em seu curso mais brando, nada menos do que pena de morte te comia.

HERMÍONE — Poupai vossas ameaças; o espantalho com que me amedrontais, eu o procuro. Já não posso ter gosto nesta vida; sua coroa e máxima ventura — vossa confiança — dou como perdida, pois sinto que se foi, embora ignore como isso aconteceu. Minha segunda alegria, primícias deste corpo, me foi tirada, como se terrível infecção eu tivesse. Meu terceiro consolo, malfadada pelos astros, dos seios me arrancaram — leite puro na boquinha tão pura! — para à morte ser arrastada. Eu própria, proclamada pelos postes como uma prostituta; um ódio cego me negou o direito de parto, concedido às mães de todas as posições. Por fim, fui arrastada para aqui, em pleno ar, antes de as forças haver recuperado. Ora dizei-me, meu soberano, que felicidades esperar posso, ainda, desta vida, para temer a morte? Por tudo isso, prossegui; mas ouvi-me estas palavras; minha vida, avalio-a como palha. Quanto à minha honra, desejara vê-la sem mancha alguma. Sendo eu condenada por suspeitas, apenas, dormitando todas as provas favoráveis, menos as que vosso ciúme ora desperta, digo que isso é crueldade, não justiça. A vós nobres, declaro que confio plenamente no oráculo. Há de Apolo ser meu juiz.

PRIMEIRO NOBRE — É justo esse desejo. Em nome, pois, de Apolo, que se tornem conhecidas de vez suas palavras.

(Saem alguns oficiais.)

HERMÍONE — O Imperador da Rússia foi meu pai. Oh! Se vivo estivesse e, agora, visse sua filha ante os juízes! Contemplara minha total miséria; mas com olhos brandos de compaixão, não de vingança.

(Voltam os oficiais, com Cleômenes e Dion.)

OFICIAL — Agora ides jurar sobre esta espada da justiça, Cleômenes e Dion, que estivestes em Delfo e que trouxestes de lá, realmente, este selado oráculo, recebido das mãos do sacerdote do grande Apolo, e que de então até hoje não tivestes o ousio de violá-lo, quebrando o sacro selo, para o texto secreto conhecerdes.

CLEÔMENES e DION — Sim, juramos.

OFICIAL — “Hermífone é casta; Políxenes, sem mancha; Camilo, um súdito leal; Leontes, um tirano ciumento; seu inocente filho, legitimamente concebido; e o rei viverá sem herdeiro, se não for achado o que foi perdido.”

NOBRES — Bendito seja o grande Apolo!

HERMÍONE — Seja louvado eternamente.

LEONTES — Leste certo?

OFICIAL — Sim, milorde; tal como se acha escrito.

LEONTES — Não há verdade alguma nesse oráculo. Continue a sessão. É só mentira.

(Entra um criado.)

CRIADO — Senhor! O rei! O rei!

LEONTES — Que acontece?

CRIADO — Ó senhor, vou tornar-me odiado, apenas por vos dar a notícia; mas o príncipe, vosso filho, de medo e de tristeza pela sorte da rainha, acabou indo.

LEONTES — Acabou indo, como?

CRIADO — Sim, morreu.

LEONTES — Apolo está zangado; o próprio céu me castiga a injustiça. (Hermíone desmaia.) Então? Levai-a!

PAULINA — A nova foi fatal para a rainha. Vede o que a morte está fazendo nela.

LEONTES — Retirai-a daqui. Muito oprimido tem ela o coração. Vai refazer-se. Dei crédito excessivo às minhas próprias suspeitas. Por obséquio, ministrai-lhe drogas que a façam retornar à vida. (Saem Paulina e as damas, sustentando Hermíone.) Perdoa, Apolo, a minha irreverência com relação ao teu sagrado oráculo. Hei de reconciliar-me com Políxenes, reconquistar a esposa, o bom Camilo chamar de novo, proclamando-o súdito verdadeiro e bondoso, pois, levado por pensamento sanguinário à idéia de vingança escolhi Camilo para dar veneno ao meu quase irmão Políxenes, o que teria sido executado, se Camilo, de espírito bondoso, não houvesse atrasado minhas ordens precipitadas, ainda que com prêmios e ameaças rigorosas eu tivesse querido intimidá-lo e encorajá-lo Nada fazendo, tudo fez; Camilo, com muita humanidade e a honra escutando, contou todo o meu plano ao meu real hóspede, abandonou seus bens, que eram vultosos, como o sabeis, e se confiou de todo ao jogo certo da fortuna instável, sem mais riqueza que a honra. Como a minha ferrugem lhe ressalta o brilho próprio! Como a sua piedade torna as minhas ações mais pretas ainda!

(Volta Paulina.)

PAULINA — Que desgraça! Vinde desapertar-me o laço, para que, fazendo-o romper, não se me estale de todo o coração.

PRIMEIRO NOBRE — Que houve, senhora?

PAULINA — Tirano, que tormentos inventaste para minha tortura? Que fogueiras, rodas, tratos, flagelos, que fervuras, em óleo ou chumbo, para mim se aprestam? Que martírios, antigos ou recentes, me esperam, se cada uma das palavras que eu disser, em resposta, só merece quanto de pior tiveres inventado? A tua tirania, trabalhando com teu ciúme de comum acordo — fantasias mui fracas para crianças, tolas e ociosas para raparigas de nove anos — Oh! vê o que fizeram e, depois, enlouquece inteiramente! — pois as tuas tolices anteriores condimento, tão-só, foram desta última. O teres sido falso para o amigo — Políxenes — foi nada; pois, com isso, te revelaste, apenas, inconstante, infernalmente ingrato e mentecapto. Outrossim, não foi muito desejares envenenar a honra de Camilo, querendo que ele a um rei a morte desse — pecado à-toa, logo ultrapassado por outros mais monstruosos, como teres jogado aos corvos tua própria filha — pouco ou nada, realmente, embora um diabo primeiro ao fogo arrancaria lágrimas, antes de fazer isso. Não te culpo, também, diretamente, pela morte do príncipe gentil, cuja noção de honra — noção muito alta para a idade — partiu-lhe o coração, ao pensamento de que um pai tão grosseiro quanto louco sua mãe graciosa houvesse difamado. Não, também disso não te faço carga. Mas o último — Ó senhores! deveis todos gritar “Desgraça!” ao dizer eu qual seja — a rainha, a rainha, a mais querida e inefável criatura, já não vive... E a vingança ainda não caiu sobre ele!

PRIMEIRO NOBRE — Que os poderes de cima o não consintam!

PAULINA — Já disse que morreu, e agora o juro. Mas se nem juras, nem palavras, podem convencer-vos, vós mesmos ides vê-la. Se conseguirdes dar-lhe cor aos lábios, ou brilho aos olhos, o calor externo, por dentro o hálito vivo, hei de servir-vos como o faria a deuses. Mas não tenhas remorsos, tirano, por tudo isso! São fatos por demais pesados, para que com tua dor consigas abalá-los. Entrega-te somente ao desespero. Mil joelhos, dez mii anos sem parada, inteiramente nu, jejuns terríveis numa montanha desolada, inverno perpétuo, tempestade irreprimível, não poderiam demover os deuses a olhar para o lugar em que estiveres.

LEONTES — Vai-te, vai-te; jamais dirás bastante. Mereço quanto de pior disserem todas, todas as línguas.

PRIMEIRO NOBRE — Ficai quieta! Por mais que tenha acontecido, falta mui grave cometeste, com tamanho despejo de linguagem.

PAULINA — Dá-me pena; quando cometo alguma falta, logo que venho a conhecê-la, me arrependo. Que desgraça! Mostrei como as mulheres são, no comum, demais precipitadas O nobre coração mostra abalado. O que passou e já não tem remédio, lastimar não devemos. Dor alguma deveis mostrar, senhor, ante o que eu disse. Pelo contrário, peço-vos punir-me por vos haver lembrado o que devíeis deixar no esquecimento. Meu bondoso soberano, senhor, meu real senhor, perdoai a uma estouvada; mas o afeto que a vossa esposa... Oh! novamente louca! Maior estouvamento! Não desejo falar dela outra vez, nem dos meninos, vossos filhos; não hei de recordar-vos, também, de meu senhor, que está perdido, do mesmo modo. Sede, pois, paciente, que não direi mais nada.

LEONTES — Não, falaste somente o que se deu. Prefiro todas essas verdades a que me lastimes. Por obséquio, levai-me para a sala onde está o corpo dela e o do menino. Terão um só sepulcro; sobre a lápide gravada vai ficar a verdadeira causa da morte de ambos, para nossa vergonha sempiterna. Diariamente, hei de a capela visitar em que eles se acharem repousando. Meu consolo vai consistir nas lágrimas vertidas sobre essa laje. E enquanto a natureza me permitir fazer esse exercício, prometo repeti-lo diariamente. Conduzi-me a essas dores.

(Saem.)

Cena III

Boêmia. Lugar deserto, perto do mar. Entram Antígono, com a criança, e um marinheiro.

ANTÍGONO — Estás bem certo de que o nosso barco veio ter aos desertos da Boêmia?

MARINHEIRO — Sim, senhor; e receio que tenhamos descido em ruim hora. Enfarruscado vejo o céu, e a ameaçar-nos iminente tempestade. Sinceramente o digo: ele reprova o nosso empreendimento; por isso está sombrio.

ANTÍGONO — Seja feita sua vontade. Volta para bordo; vai vigiar teu barco; não demora, e estarei de retorno.

MARINHEIRO — Ponde pressa no que fizerdes, sem vos arriscardes demais pelo interior, pois é certeza vir por aí borrasca. Além de tudo, é conhecida esta região, por causa dos animais de preia que aqui vivem.

ANTÍGONO — Volta, que já te sigo.

MARINHEIRO — Estou contente, de coração, por não ter parte nisso. (Sai.)

ANTÍGONO — Vem, coitadinha! Embora eu nunca tenha dado crédito, ouvi dizer que o espírito dos mortos aqui voltam. Se for certo, tua mãe me apareceu na última noite, pois nunca tive um sonho assim tão próximo do estado de vigília. Aproximou-se-me um vulto que a cabeça balouçava para um lado e para outro. Nunca vira um vaso de tristeza assim tão cheio e de aspecto de tanta dignidade. Com vestes de cor branca, cintilante como a própria pureza, aproximou-se do camarote em que eu dormindo estava. Diante de mim três vezes inclinando-se e tentando falar, se lhe tornaram duas fontes os olhos. Mas contendo-se, o silêncio rompeu desta maneira: “Já que o destino, meu bondoso Antígono, te escolheu, contra o teu melhor intuito, para jogares fora minha filha — ao que, por juramento, estavas preso — lugares afastados há bastantes na Boêmia. Num deles, entre lágrimas, deixa-a, a chorar. E como para todos ela perdida está, o nome dá-lhe de Perdita, te peço. Mas por este serviço ingrato, que por meu marido te foi imposto, nunca mais tua esposa Paulina hás de rever” E assim, com guinchos, desapareceu no ar. Aterrorado, logo me recompus, tendo concluído que sonhado não fora tudo aquilo, senão pura verdade. Brincadeiras são sempre os sonhos, mas com este, apenas, supersticiosamente embora, quero com acerto orientar-me. Estou convicto de que Hermífone é morta e que é vontade de Apolo, já que é filha de Políxenes esta criança, que seja aqui deixada — para viver ou para ser destruída — em terra do verdadeiro pai. Botão, floresce! (Deposita a criança no chão.) Fica aí. Eis teu nome. Toma isto, também. (Depõe um embrulho junto da criança.) Se for do gosto da fortuna, dará para te criar, ainda sobrando-te alguma coisa. Aí vem a tempestade. Coitadinha! Por causa dos pecados de tua mãe, exposta à morte e ao resto. Chorar não me é possível, porém sangra-me o coração. Maldito eu sou por ver-me forçado a fazer isto. Adeus. O dia se embrusca mais e mais. Vais ser amada com uma canção muito áspera. Tão negro, durante o dia, nunca o céu esteve. Que selvagem clamor! O mais prudente será ir para bordo. É uma caçada. Estou perdido! (Sai, perseguido por um urso.)

(Entra um pastor.)

PASTOR — Desejara que não houvesse idade entre dezesseis e vinte e três anos, ou que a mocidade dormisse todo esse tempo, que só é ocupado em deixar com filhos as raparigas, aborrecer os velhos, roubar e provocar brigas. Escutai! A quem ocorreria caçar com semelhante tempo, se não a esses cérebros ferventes, de dezenove a vinte e dois anos? Fizeram tresmalhar-se dois dos meus melhores carneiros, e eu receio que o lobo os encontre primeiro que seu dono. Se eu tiver de encontrá-los, há de ser para o lado da praia, onde vão pastar a erva. Boa sorte, se assim o quiseres. Mas, que temos aqui? (Levantando a criança.) Misericórdia! Uma criança! Uma linda criança! Será menino ou menina? Uma menina linda, muito bonita, mesmo. Decerto, algum passo em falso. E embora eu não seja letrado, posso ler que se trata de passo em falso de alguma dama de posição. Houve algum trabalho de escada, ou de baú, no ângulo de qualquer porta. Mais calor tinham os que geraram isto do que esta pobre coisinha. Só por piedade vou ficar com ela, mas vou esperar até que meu filho chegue. Neste momento ele gritou. Olá! Oh!

(Entra o bobo.)

BOBO — Olá! Oh!

PASTOR — Como! Estavas tão perto? Se quiseres ver uma coisa de que falarás até depois de morto e podre, vem aqui. Por que estás a chorar, homem?

BOBO — Eu vi duas dessas visões, no mar e em terra; mas não posso dizer se foi no mar, porque agora tudo é céu, entre a terra e o firmamento não se pode enfiar a ponta de um alfinete.

PASTOR — Que queres dizer com isso, rapaz?

BOBO — Desejara que vísseis como ela ronca, como se enfurece, como bate na praia. Mas isso não importa. Oh! os gritos lastimáveis das pobres almas! Às vezes, percebendo-os; outras vezes, sem distinguir ninguém; agora, o navio a tocar a lua com o mastro principal, para, logo, ser sorvido pela escuma e pela geada, como quando a gente atira uma rolha dentro de um barril. E agora, o que se passou em terra: assistir como o urso lhe lacerava as espáduas; como ele me gritava por socorro, e dizia que era nobre e se chamava Antígono. Mas, para acabar com o navio: ver como o mar o absorvia, porém, antes, como as pobres al mas rugiam e o mar zombava deles; e como o cavalheiro rugia, e o urso zombava dele, rugindo ambos mais alto do que o mar e a tempestade.

PASTOR — Em nome da Misericórdia! Quando se passou isso, rapaz?

BOBO — Agora mesmo; ainda não tive tempo de piscar uma vez, desde que vi essas coisas. Os homens ainda não tiveram tempo de esfriar de baixo da água, nem o urso de jantar a metade do gentil-homem. Foi neste momento.

PASTOR — Quisera ter estado presente, para ajudar o velho.

BOBO — Quisera que tivésseis estado ao lado do navio, para ajudá-lo, também; porque então a vossa caridade não tomaria pé.

PASTOR — Histórias tristes! Histórias tristes! Mas olha para aqui, rapaz, e abençoa a tua felicidade. Encontraste em teu caminho só coisas que se extinguem; eu, algo que começa a viver. Eis um espetáculo para ti; contempla isto, uma capa de batismo próprio para a filha de um fidalgo. Olha! Toma, rapaz! Toma! Abre isso. Vamos ver. Já me profetizaram que as fadas me deixariam rico. Deve ser alguma criança enjeitada. Abre logo. Que é que há dentro, rapaz?

BOBO — Sois um velho rico. Se os pecados da mocidade vos forem perdoados, ireis viver muito bem. Ouro! Tudo ouro!

PASTOR — É ouro de fadas, rapaz, como o tempo o provará. Vamos, carrega firme! Para casa, logo, pelo caminho mais curto. Tivemos sorte, rapaz; e para continuarmos sempre assim, bastará sermos discretos. Deixa os carneiros correrem. Vamos, meu bom menino; vamos logo para ca sa, pelo caminho mais curto.

BOBO — Segui direto com o vosso achado, que eu vou ver se o urso já deixou o gentil-homem, e quanto comeu dele. Só são temíveis, quando estão com fome. Se sobrou alguma coisa do homem, dar-lhe-ei sepultura.

PASTOR — É uma boa ação. Se puderes identificá-lo pelo que houver sobrado dele, vai buscar-me, para que eu também o veja.

BOBO — Muito bem; farei isso mesmo, e vós me ajudareis a sepultá-lo.

PASTOR — Hoje é um dia feliz, rapaz, em que nos cumpre praticar boas ações.

(Saem.)

ATO IV

Entra o Tempo, como coro.

TEMPO — Eu, que a todos castigo, alegro e espanto bons e maus, erro muito e, no entretanto, descubro os erros, ora determino usar as asas com bastante tino, sob a forma do Tempo. Por tudo isso, à conta não leveis de mau serviço dezesseis anos haver eu pulado, sem ao menos deixar assinalado quanto passou durante esse intervalo, que em meu poder está, sem grande abalo, dobrar a lei, numa hora muito minha, e hábitos velhos alterar asinha. Aceitai-me qual sou, qual tenho sido antes de o uso vetusto haver nascido e o que ora ainda impera. Estive junto da hora que os viu nascer e do conjunto, também, do que há de vir, pois tudo passa, sendo certeza que eu deixarei baça toda esta luz, tal como na memória dos presentes se encontra a antiga história. Assim, se o permitir vossa paciência, virarei a ampulheta, porque urgência ponha no conto, como se dormindo passado houvésseis esse tempo infindo. Deixando Leontes — que de tal maneira se mostra arrependido da cegueira de seu grande ciúme, que fechado se mantém todo o tempo — transportado, gentis espectadores, para a linda Boêmia imaginai-me, e mais, ainda: deveis estar lembrados que de um filho do rei já vos falara. Assim, com brilho vos direi o seu nome: Florizel. Mas deixando de lado esse donzel, falemos de Perdita que, entretanto, adquiriu tanta graça, que de espanto enche quantos a vêem. Não direi nada do que se vai passar, que à hora azada tudo a saber vireis. Ora o argumento do Tempo é a filha de um pastor e um cento de coisas correlatas. Concedei-me toda vossa paciência. E, então, dizei-me se algum dia já vistes passatempo tão mesquinho. Se não, o próprio Tempo vos diz que almeja, mui sinceramente, que outro não possais ver como o presente. (Sai.)

Cena I

Boêmia. Um quarto no palácio de Políxenes. Entram Políxenes e Camilo.

POLÍXENES — Por favor, meu bom Camilo, não insistas. Recusar-te alguma coisa, deixa-me doente; e morto, conceder o que me pedes.

CAMILO — Há quinze anos não vejo a minha pátria; embora eu tenha passado no estrangeiro a maior parte da vida, desejaria deixar lá os ossos. Além do mais, o rei penitente, meu senhor, mandou chamar-me. Poderei levar algum alívio para a sua tristeza; pelo menos tenho essa presunção, o que também me anima a partir.

POLÍXENES — Se me amas, Camilo, não anules todos os serviços que me prestaste, deixando-me neste momento. Tua própria bondade é a causa de eu não poder dispensar-te. Melhor teria sido nunca te haver conhecido, do que vir a perder-te. Havendo tu dado início a vários assuntos que ninguém mais poderá levar a cabo, será forçoso ou ficares, para que tu mesmo os arremates, ou levares contigo os próprios serviços que me prestaste. Se eu não te recompensei como o mereces — impossível me fora fazer mais — procurarei esforçar-me para mostrar-me mais reconhecido, lucrando com isso apertar ainda mais os laços da amizade que nos liga. Peço-te, portanto, que não me tornes a falar dessa terra fatal, a Sicília, cujo nome, só por si, me martiriza, por me fazer lembrado do rei penitente, como lhe chamaste, o meu reconciliado irmão. A perda de sua esposa insubstituível, e de seus filhos, agora e sempre é de lamentar-se. Dize-me, quando viste meu filho, o Príncipe Florizel? Os reis são tão infelizes quando verificam tendências menos graciosas em seus filhos, como quando perdem os que eram adornados só de virtudes.

CAMILO — Senhor, há três dias que não vejo o príncipe. Quais possam ser suas felizes ocupações, não sei dizê-lo. Mas com pesar observei que ultimamente ele anda muito arredio da corte e que é menos assíduo do que antes aos seus exercícios principescos.

POLÍXENES — Observei isso também, Camilo, o que me deixou assaz preocupado, indo a ponto de vigiar o retraimento com os olhos dos meus auxiliares. Por estes soube que ele freqüenta a casa de um humilde pastor, um homem que, segundo se propala, do nada, com grande estupefação dos vizinhos, chegou a uma situação inexplicável.

CAMILO — Já ouvi falar, senhor, desse homem, que tem uma filha da mais rara beleza. A fama de tal beleza se espalhou muito mais do que fora de esperar da que se originasse de uma choupana humilde.

POLÍXENES — Foi isso também o que me disseram. Receio que seja esse o engodo que atrai meu filho. Vais acompanhar-me até essa choupana, para, sem nos darmos a conhecer, conversarmos com o pastor. Penso que nos será fácil obter de sua simplicidade que nos revele o verdadeiro motivo das visitas de meu filho. Peço-te, pois, que me ajudes neste passo pondo de lado a idéia de voltares para a Sicília.

CAMILO — De muito bom grado obedecerei a vossas ordens.

POLÍXENES — Meu bravo Camilo! Teremos de nos disfarçar.

(Saem.)

Cena II

O mesmo. Uma estrada perto da cabana do pastor. Entra Autólico, cantando.

AUTÓLICO — Quando os narcisos nascem no vale — Viva! — e a zagala corta a campina, Que belo tempo! — Ninguém me fale — À neve pálida o sangue anima. O linho branco da sebe pende — Viva! — Que canto, o dos passarinhos! Se os apanhasse! Quem não me entende? Cerveja límpida aos canequinhos... Canta a calhandra. Que melodias! — Viva! — Respondem-lhe o galo e o tordo. Para mim cantam e minhas tias... E nós no feno... Que dia gordo! Já servi o Príncipe Florizel, e no meu tempo só vestia veludo de três pelos... Mas agora estou aposentado. Mas vou chorar só por isso? A lua brilha, querida. Quanto menos o serviço, mais alegre será a vida. Se licença o caldeireiro tem de andar de alforje às costas, confesso tudo, ligeiro, sem que me façam em postas. Negocio com camisas; quando o milhano faz o ninho, cuidado com as peças menores. Meu pai me pôs o nome de Autólico... Tendo nascido ele, como eu, sob a influência de Mercúrio, foi também batedor de coisinhas sem valor. Os dados e as mulheres me deixaram deste modo, provindo toda a minha renda de roubos insignificantes. A forca e as varas são por demais poderosas na estrada larga do roubo. A idéia de ser malhado ou enforcado, constitui para mim verdadeiro pesadelo. Na outra vida não quero pensar nisso. Uma presa! Uma presa!

(Entra o bobo.)

BOBO — Vejamos: cada onze carneiros dão vinte e oito libras de lã; cada vinte e oito libras de lã rendem uma libra e um xelim... Quinhentos carneiros tosquiados, quanta lã darão ao todo?

AUTÓLICO (à parte) — Se o laço não escapar, o galo é meu.

BOBO — Não poderei fazer a conta sem o auxílio de um calculador. Vejamos: que precisarei comprar para a festa da tosquia de nossos carneiros? Três libras de açúcar, cinco de passas de Corinto, arroz...” — Que pretenderá esta minha irmã fazer com arroz? Mas meu pai a pôs como rainha da festa, e ela sabe o que faz. Ela me confeccionou vinte e quatro ramalhetes para os tosadores, que são cantores a três vozes, e dos melhores. A maior parte são tenores e baixos, só havendo entre eles um puritano que canta salmos na cornamusa. Preciso de açafrão para dar cor à torta de peras; de arilo e tâmara, nada, que isso não está na nota; noz-moscada, sete; uma ou duas raízes de gengibre isso eu poderei pedir em qualquer parte — quatro libras de ameixas e outras tantas de passas.

AUTÓLICO — Oh! Se eu nunca tivesse nascido! (Atira-se ao chão.)

BOBO — Em meu nome!

AUTÓLICO — Socorro! Socorro! arrancai-me estes trapos, e depois, a morte!

BOBO — Ah, pobre alma! Precisas, mas é que te ponham mais trapos em cima do corpo não que te despojem dos que tens.

AUTÓLICO — O senhor! mais me faz sofrer a repugnância que por eles sinto do que os golpes que recebi, que, no entanto, foram bem violentos e se contaram por milhões.

BOBO — Ah, pobre homem! Um milhão de pauladas é coisa séria.

AUTÓLICO — Fui roubado, senhor, e espancado. Arrancaram-me o dinheiro e as vestes, e me puseram sobre o corpo estes farrapos detestáveis.

BOBO — Foi algum pedestre que te fez isso ou algum homem de cavalo?

AUTÓLICO — Foi um pedestre, meu caro senhor; pedestre.

BOBO — Realmente, pela roupa que ele deixou contigo, deve ser mesmo pedestre. Se isso é cota de cavaleiro, já viu trabalho muito crespo. Dá me a mão; vou ajudar-te. Vamos; dá-me a mão. (Ajuda-o a levantar-se.)

AUTÓLICO — Ó meu bom senhor! Devagar!

BOBO — Ah, pobre alma!

AUTÓLICO — Ó meu bom senhor! Devagar, meu bom senhor; receio estar com a omoplata fora do lugar.

BOBO — E agora? Podes ficar de pé?

AUTÓLICO — Docemente, meu senhor. (Rouba a bolsa de dentro do bolso do bobo.) Docemente! Acabastes de me prestar um serviço caritativo.

BOBO — Estás sem dinheiro? Posso dar-te algum.

AUTÓLICO — Não, meu bom senhor. Não. Por obséquio, senhor. Tenho um parente que mora a uns três quartos de milha daqui, para onde justamente vou indo. Lá, encontrarei dinheiro e tudo o mais de que precisar. Não me ofereçais dinheiro, por obséquio; isso me parte o coração.

BOBO — Que espécie de sujeito era o que vos roubou?

AUTÓLICO — Um tipo, senhor, que eu vi correndo a redondeza com o jogo de “Trou Madame”. Sei que antes disso ele esteve a serviço do príncipe. Não poderei dizer-vos, meu caro senhor, por qual teria sido de suas virtudes; mas o certo é que ele foi expulso da corte a chibatadas.

BOBO — Vícios, quereis dizer, sem dúvida; a virtude nunca é expulsa da corte a chibatadas. Por lá tratam-na muito bem, com o fito de retê-la quanto possível; no entanto, está sempre de passagem.

AUTÓLICO — Era vício mesmo que eu queria dizer, meu senhor. Conheço muito bem esse tipo. Depois disso ele já andou por aí tudo, carregando um macaco; depois, foi servente de processo, beleguim; depois, adquiriu um conjunto de títeres que representavam “O Filho Pródigo”, e se casou com a mulher de um caldeireiro, a uma milha do lugar em que tenho minhas terras e meus bens, e depois de exercer todas as profissões velhacas, acabou tornando-se um maroto de marca maior. Algumas pessoas lhe dão o nome de Autólico.

BOBO — A forca para ele! Um ladrão, por minha vida! Um ladrão! Ele gosta de freqüentar as festas noturnas, as feiras e os combates de urso.

AUTÓLICO — Perfeitamente, senhor; é esse mesmo; foi esse o maroto que me deixou nestes trajes.

BOBO — Em toda a Boêmia não há maroto mais covarde; se o tivésseis encarado com firmeza e cuspido no rosto dele, é certeza que se poria a correr.

AUTÓLICO — Devo confessar-vos, senhor, que não sou lutador. Para tanto, falta-me coragem, o que decerto ele bem sabia, podeis crer-me.

BOBO — Como vos sentis agora.

AUTÓLICO — Bem melhor do que antes, meu doce senhor; já posso ficar de pé e andar um pouco. Poderei, até, despedir-me de vós, para dirigir-me devagarinho até à casa de meu parente.

BOBO — Queres que te acompanhe até à estrada?

AUTÓLICO — Não, meu belo senhor; não, meu doce senhor.

BOBO — Então, adeus; preciso ir comprar temperos para a festa da tosquia dos nossos carneiros.

AUTÓLICO — Muitas felicidades, meu doce senhor. (Sai o bobo.) Vossa bolsa não tem calor suficiente para comprar esses temperos. Hei de fazer-vos companhia em vossa festa. Se eu não conseguir desdobrar este roubo e não transformar os tosadores em carneiros, quero deixar de fazer parte da lista dos profissionais, para ter o nome inscrito no livro da virtude. Sigamos por este atalho, alegre o dia inteirinho, oh! Quem vive preso ao trabalho, alvo é sempre de escarninho, oh!

Cena III

O mesmo. Clareira diante da cabana do pastor. Entram Florizel e Perdita.

FLORIZEL — Essas vestes estranhas vos emprestam maior relevo s graças. Não pastora, sois Flora empós de abril. Essa tosquia tão álacre é reunião de belos deuses, dos quais sois a rainha.

PERDITA — Meu gracioso senhor, bem não me fica censurar-vos pelo vosso exagero. Sim, perdoai-me por falar desse modo. Mas vossa alta pessoa, adorno máximo do reino, abatestes com essas vestes rústicas, enquanto a mim, humilde rapariga, me enfeitastes qual deusa. Se esta festa não fosse constituída por loucuras, sempre, de toda sorte, que os convivas, por hábito, digerem, eu corara por vos ver desse jeito, desmaiando, quero crer, se ao espelho me enxergasse.

FLORIZEL — Bendigo o instante em que o meu bom falcão o vôo dirigiu por sobre as terras de vosso pai.

PERDITA — Que Jove vos confirme. No que me diz respeito, a diferença de nossas posições me deixa pávida. Vossa Grandeza não conhece o medo; mas tremo à idéia de que poderia vosso pai, por capricho do momento, vir também por aqui. Oh Fados! Como não ficaria à vista de sua obra, com trajes tão grosseiros? Que diria? E como eu conseguira, sob o peso deste luxo de empréstimo, encarar-lhe toda a severidade?

FLORIZEL — Só com coisas alegres devereis ora ocupar-vos. Os próprios deuses, humilhando a sua divindade ante o amor, variadas formas de animais assumiram. Jove em touro se mudou e mugiu; Netuno, o verde, baliu como carneiro; e o deus de vestes de chamas, o áureo Apolo, como humilde pastor se viu, tal como o faço agora. Nenhum deles jamais mudou de forma por beleza mais rara, nem por móveis tão puros como os meus, pois meus desejos não marcham diante da honra, nem mais quente do que a fé a paixão se me revela.

PERDITA — Mas meu senhor, jamais vosso propósito firme assim ficará, se for chocar-se — o que será fatal — de encontro ao grande poderio do rei. Uma de duas coisas forçosamente há de passar-se: renunciareis de todo ao vosso intento, ou eu à própria vida.

FLORIZEL — Minha cara Perdita, não enubles, por obséquio, a alegria da festa com tão loucas suposições. Minha lindeza, caso eu não possa ser teu, do mesmo modo não serei de meu pai, pois impossível me será pertencer-me, ou ser de alguém, se a ti não pertencer. Persisto nisso, muito embora o Destino diga “Não”. Fica alegre, querida, e cuida agora de dissipar os pensamentos tristes com o auxílio do que vires. Nossos hóspedes estão chegando. Faze alegre o rosto, como se já estivéssemos no instante de celebrar as núpcias que juramos para um futuro próximo.

PERDITA — Ó Fortuna, sede-nos auspiciosa!

FLORIZEL — Vede! Vossos hóspedes se aproximam. Recebei-os com afabilidade e que o semblante irradie alegria.

(Entram Polírenes e Camilo, disfarçados, o pastor, o bobo, Mopsa, Dorcas e outros.)

PASTOR — Ora, filha! Nas festas deste dia, quando ainda viva estava minha velha, ela era ao mesmo tempo despenseira, padeira, cozinheira, ama e criada; cumprimentava a todos e os servia, cantava suas coisas e dançava suas voltas, também; ora se achava nesta ponta da mesa, ora no meio, ora apoiava-se ao ombro dos convivas, de toda gente. O rosto era só fogo, pela labuta e pelo que bebia para aplacar as chamas, não deixando ninguém de acompanhá-la nesses brindes. Vós ficais isolada, parecendo mais um dos convidados, do que mesmo a dona dos festejos. Por obséquio, dá as boas-vindas a estes dois amigos desconhecidos, que esse é o melhor meio de nos tornarmos conhecidos deles e, assim, amigos certos. Vamos logo, apagai o rubor e revelai-vos o que sois: a rainha desta festa. Acolhei-nos alegre, por estarmos presentes aos festejos da tosquia. Assim, prosperará vosso rebanho.

PERDITA (a Políxenes) — Sois bem-vindo, senhor. Meu pai quer que hoje fique eu sendo a rainha desta festa. (A Camilo.) Sois bem-vindo. Dá-me essas flores, Dorcas. Reverendos senhores, ofereço-vos arruda e rosmaninho; a cor e o cheiro essas flores conservam todo o inverno. Como lembrança e graça conservai-as de nossa parte. Sede, pois, bem-vindos.

POLÍXENES — Pastora — sois uma pastora linda — muito de acordo com a nossa idade, flores do inverno nos oferecestes.

PERDITA — Senhor, quando o ano vai ficando velho, sem ser a morte do verão ainda, nem do trêmulo inverno o nascimento, as flores mais gentis são, tão-somente, cravo vermelho e goivo variegado, a que muitos dão o nome de bastardo da natureza. Dessa espécie, o nosso jardim silvestre nada ora apresenta. Nunca procuro obter muda nenhuma.

POLÍXENES — Por que, gentil menina, as desprezais?

PERDITA — Por ter sabido que nas suas cores, ao lado da criadora natureza a arte também influi.

POLÍXENES — Que seja assim; mas em nada melhora a natureza, senão por meios que ela mesma cria. Assim, essa arte a que vos referistes, que ajuda a natureza, uma arte feita por ela própria. Assim, gentil menina, enxertamos num galho em tudo rústico alguma planta rara, vindo a casca de baixa espécie alimentar o broto de uma raça mais nobre. Essa arte, certo, corrige a natureza... não, transforma-a; mas é uma arte que é a própria natureza.

PERDITA — Tendes razão.

POLÍXENES — Enriquecei, portanto, vosso jardim com goivos, sem lhes dardes o nome de bastardos.

PERDITA — Jamais hei de pegar do sacho para plantar uma muda sequer, tal como não quisera — se pintada estivesse — que este jovem me elogiasse por isso, declarando que a mim, por noiva, apenas, desejara. Aceitai estas flores: alfazema, hortelã, segurelha, manjerona, e esta aqui, malmequer, que se recolhe com o sol, para com ele levantar-se também, cedo, a chorar. Flores são todas do meio do verão, próprias para homens de meia idade, creio. Sois bem-vindo.

CAMILO — Esquecer-me-ia de pastar se fosse um dos vossos carneiros, e vivera só de vos contemplar.

PERDITA — Oh, coitadinho! Tão magro ficaríeis, que as rajadas de janeiro, sem custo, vos passaram de lado a lado. Agora, belo amigo, para vós desejara ter algumas flores primaveris, que condissessem com vossa mocidade. E para vós, também, e para vós, que nesses cândidos ramos trazeis de vossa virgindade ainda os botõezinhos. Ó Prosérpina! Não dispor eu das flores que do carro de Dis, só de pavor, cair deixaste! Os narcisos que a aparecer se atrevem antes das andorinhas, e que os ventos de março enleiam no seu grande encanto; as violetas escuras, mas mais doces do que de Juno as pálpebras ou o hálito de Citeréia; as descoradas prímulas, que fenecem solteiras, sem que tenham visto o brilhante Febo em sua força — doença muito freqüente entre as donzelas — verbasco altivo, imperial coroa, lírios de toda espécie, incluída entre eles a flor-de-lis. Oh! faltam-me essas flores para tecer grinaldas, caro amigo, e com elas cobrir-te.

FLORIZEL — Como a um corpo sem vida?

PERDITA — Não; não como a um corpo morto; como num leito onde brincasse amor. Ou então... Não para dar-lhe sepultura, mas para recebê-lo nestes braços. Aceitai vossas flores, Só parece que eu represento como vi nas festas da pastoral da Páscoa. Este vestido, certamente, me fez mudar de gênio.

FLORIZEL — Sempre ultrapassa o que fazeis a tudo quanto está feito. Se falais, querida, desejaria que falásseis sempre; quando cantais, quisera que, cantando, vendêsseis e comprásseis e, cantando, distribuísseis esmolas, murmurásseis vossas preces, bem como dirigísseis vossos negócios. Se dançais, acaso, desejara que fosseis uma vaga, para que não fizésseis senão isso, em movimento sempre, sempre a mesma, sem mais função alguma. Vosso modo de proceder, tão singular em cada caso à parte, tal como o mais recente, coroa vossos feitos. Desse modo, vossas ações em tudo são rainhas.

PERDITA — Ó Dóricles, vossos encômios pecam pelo exagero! Se não fôsseis jovem e não deixásseis vislumbrar um sangue tão verdadeiro e leal, que vos revela qual pastor sem defeito, eu poderia mui sabiamente, meu querido Dóricles, considerar que me fazeis a corte por um caminho errado.

FLORIZEL — Tão sem jeito, quero crer, vos mostrais de ter receio, como eu de provocá-lo. Mas agora vamos dançar; a mão, minha Perdita, por obséquio. Assim ficam duas pombas que não tencionam separar-se nunca.

PERDITA — Por isso eu juro.

POLÍXENES — Entre as campônias rústicas nunca donzela mais encantadora deslizou no relvado. Tudo quanto diga ou faça, revela uma criatura maior do que ela própria. É muito nobre para o meio em que está.

CAMILO — Algo ele diz-lhe que a faz ficar corada. Não há dúvida: é a rainha do leite e da coalhada.

BOBO — Música, vamos!

DORCAS — Se dançais com Mopsa, os beijos dela temperai com alho.

MOPSA — Ora, que coisa!

BOBO — Basta de palavras. Temos os nossos hábitos. Comecem! Música, vamos!

(Música. Dançam pastores e pastoras.)

POLÍXENES — Bom pastor, por obséquio, quem é aquele rapaz bem apessoado que ora dança com vossa filha?

PASTOR — Dóricles lhe chamam; ele se orgulha de possuir pastagens de subido valor. Sei isso, apenas pelo que ele contou, mas acredito, pois parece sincero. Também o creio, pois nunca a lua se mirou no lago, como ele se detém a ler nos olhos de minha filha. Para dizer tudo: penso que meio beijo não decide qual dos dois mais amor dedica ao outro.

POLÍXENES — Ela dança com muita graça.

PASTOR — É certo; e assim faz tudo, embora não me fique bem falar desse modo. Se o mancebo Dóricles vier a conquistá-la, a noiva lhe levará de dote alguma coisa com que ele nem sonhou.

(Entra um criado.)

CRIADO — Ó senhor! Se pudésseis ouvir o bufarinheiro que está aí fora, nunca mais dançaríeis ao som do tamboril e da gaita. Sim, nem mesmo uma cornamusa vos poderia abalar. Canta melodias mais depressa do que vós contais dinheiro e as pronuncia como se houvesse engolido baladas, estando todos os ouvidos pendentes de suas modulações.

BOBO — Não poderia ter chegado em melhor ocasião. É preciso fazê-lo entrar. Aprecio enormemente as baladas, quando tratam de assunto triste, posto em música alegre, ou de qualquer coisa agradável cantada num tom melancólico.

CRIADO — Sabe cantigas para homens e mulheres de todas as idades Nenhum comerciante de luvas serviria melhor os seus fregueses. Sa as mais lindas canções de amor para raparigas, e isso sem nenhuma cabrosidade, o que é raro, com um mundo de refrães delicados, de dildãos e tralalás. “Bate nela! Dá socos nela!” e quando algum maroto de boca larga pretende, por assim dizer, tomar a coisa ao pé da letras e pôr em prática o conselho, ele faz a rapariga responder. “Olá! Não me façais mal, bom homem!” dar-lhe um empurrão e escapar com um “Olá! Não me façais mal, bom homem!”

POLÍXENES — Um companheiro e tanto!

BOBO — Podeis estai certo de que vos referistes a um tipo admirável. Por acaso, não terá ele bordados para vender?

CRIADO — Tem fitas de todas as cores do arco-íris; mais agulhetas que poderiam com erudição desembaraçar todos os advogados da Boêmia, ainda que lhes viessem às grosas; lãs, algodão, cambraia. Ele canta como se fossem deuses e deusas. Imaginaríeis que uma cana é um anjo, de tal modo ele vos fala de suas mangas e dos bordados.

BOBO — Por obséquio, traze-o logo, fazendo que ele entre a cantar.

PERDITA — Convém adverti-lo de que não deve usai palavras inconvenientes em suas canções.

(Sai o criado.)

BOBO — Esses bufarinheiros, irmã, trazem mercadorias que nem podeis imaginar.

PERDITA — Sim, bondoso mano, ou que nem me darei ao trabalho imaginar.

(Entra Autólico, cantando.)

AUTÓLICO — O linho é branco de neve, ao corvo o crepe não deve; luvas de vários matizes, máscaras para narizes, delicadas como rosas, para cutes melindrosas; braceletes e colares e perfumes para os lares, coifas douradas, corpinhos — rapazes, que presentinhos! — alfinetes, boa tala para os vestidos de gala... Comprai-me logo, rapazes, quanto ora fordes capazes, sem deixar que vossas belas fiquem tristes e amarelas. Comprai! Comprai!

BOBO — Se eu não estivesse apaixonado por Mopsa, tu não me arrancarias um tostão; mas estando preso a ela, como me encontro, não poderei escapar da peia de algumas luvas e fitas.

MOPSA — Que me foram prometidas antes da festa, mas que, ainda assim, não chegam com muito atraso.

DORCAS — Ele te prometeu muito mais do que isso, se entre nós não houver mentirosos.

MOPSA — E para vós ele deu tudo o que prometera, se é que não deu também alguma coisa, cuja restituição, agora, vos deixaria envergonhada.

BOBO — As moças de hoje já não terão bons modos? Usarão elas as saias onde deveriam ter o rosto? Não vos sobra tempo, por ocasião da ordenha, ou quando vos recolheis, ou quando limpais o forno, para falar baixinho sobre essas intimidades? Será preciso tagarelar desse modo diante de todos os convidados? Por sorte, eles conversam baixo. Abafai as línguas, e nem mais uma palavra!

MOPSA — Já terminei. Vamos; tínheis-me prometido um lenço de seda para o pescoço e um par de luvas perfumadas.

BOBO — Não te contei como fui roubado no caminho, tendo ficado sem nenhum dinheiro?

AUTÓLICO — É fato, senhor; há muitos malandros por aí afora; por isso, é preciso estar sempre com os olhos abertos.

BOBO — Não tenhas medo, homem, que aqui não perdereis nada.

AUTÓLICO — Assim o espero, senhor; porque trago comigo muita coisa de valor.

BOBO — Que tens ai? Algumas baladas?

MOPSA — Por favor, compra-me algumas; gosto muito de baladas impressas porque assim temos a certeza de que são verídicas.

AUTÓLICO — Aqui está uma de toada muito triste: Como a mulher de um usurário deu à luz vinte sacos de moedas de ouro de uma só vez e como ela desejava comer assados de cabeças de víboras e de sapos.

MOPSA — E acreditais que isso seja verdade?

AUTÓLICO — Pura verdade; aconteceu há um mês.

DORCAS — Deus me livre de casar com um usurário.

AUTÓLICO — Vem citado aqui o nome da parteira, uma tal Mistress Taleporter, e de cinco ou seis mulheres que estiveram presentes ao parto. Por que haveria eu de espalhar mentiras?

MOPSA — Por favor, compra essa.

BOBO — Que seja, então; deixa essa de lado; mas primeiro mostra-nos outras baladas. Depois compraremos alguma coisa mais.

AUTÓLICO — Aqui está outra, de um peixe que apareceu na costa, na quarta-feira de oitenta de abril, a quarenta mil braças acima da água, e cantou esta balada contra o duro coração das raparigas. Há quem diga que ele tinha sido mulher, que fora transformada em um peixe frio por ter querido trocar carne com quem lhe dedicava amor. Essa balada é muito triste e igualmente verídica.

DORCAS — E pensais que essa também seja verdadeira?

AUTÓLICO — Cinco juízes a subscrevem, havendo mais testemunhas para o caso do que eu poderia carregar.

BOBO — Deixa essa também de lado. Mostra-nos outra.

AUTÓLICO — Esta aqui é uma balada alegre, mas muito interessante.

MOPSA — Precisamos também de algumas alegres.

AUTÓLICO — Esta é bastante alegre, sendo cantada com a música de “Duas raparigas que faziam a corte ao mesmo homem”. Em todo o Oeste não há quase rapariga que não a saiba de cor. É muito procurada, posso assegurar-vos.

MOPSA — Nós duas poderemos cantá-la; se quiseres fazer uma das vozes, poderás ouvi-la. É a três vozes.

DORCAS — Aprendemos essa música há um mês.

AUTÓLICO — Posso cantar a minha voz; deveis saber que é esse o meu ofício. Estou pronto.

AUTÓLICO — Já vou; não ireis comigo; para onde vou, não vos digo.

DORCAS — Para onde?

MOPSA — Oh! aonde?

DORCAS — Para onde?

MOPSA — Não deverias ter medo de revelar-me um segredo.

DORCAS — Nem a mim... Nin­guém res­pon­de?

MOPSA — Se vais à granja ou ao moinho,

DORCAS — desviado estás do caminho.

AUTÓLICO — Eu, não.

DORCAS — À granja?

AUTÓLICO — Lá, não.

DORCAS — Juraste-me amor eterno.

MOPSA — E que me serias terno. Para onde iremos, então?

BOBO — Em pouco tempo nós mesmos a cantaremos. Meu pai e o gentil-homem estão conversando assunto sério; não os perturbemos. Vem comigo e traze os teus embrulhos. Raparigas, vou comprar muita coisa para vós duas. Bufarinheiro, dá-nos a primazia na escolha. Meninas, acompanhai-me.

(Sai o Bobo, com Dorcas e Mopsa.)

AUTÓLICO — E haveis de pagar bem caro. Não quereis comprar-me fita para a capinha bonita, minha pombinha, trá-la? Seda fina, lã espessa, enfeites para a cabeça da última moda, trá-la. Todos ao bufarinheiro! Quem tiver muito dinheiro comprará tudo, trá-la!

(Volta o criado.)

CRIADO — Mestre, chegaram agora três carreteiros, três ovelheiros, três boiadeiros e três guardadores de porcos, que se disfarçaram em homens de cabelo. Eles mesmo se denominam Sátiros e sabem uma dança que as raparigas, por não tomarem parte nela, dizem que não passa de uma misturada de pulos, conquanto elas próprias concedam que há de agradar muito, no caso de não ser a dança muito forte para quem está habituado a danças delicadas.

PASTOR — Que se retirem! Não queremos saber disso agora; já temos loucuras em excesso. Percebo que vos fatigamos, senhor.

POLÍXENES — Não fatigais senão os que vos distraem. Por obséquio, deixai-nos ver esses quatro ternos de pastores.

CRIADO — Três dentre eles, segundo eles próprios o disseram, já dançaram na presença do rei, saltando o pior dos três doze pés e meio de comprido.

PASTOR — Parai com essa tagarelice. Já que estes bons senhores se comprazem em vê-los, fazei-os entrar, mas que seja logo.

CRIADO — Como não! Eles já estão à porta, senhor. (Sai.)

(Volta o criado com doze campônios disfarçados de sátiros. Estes dançam e se retiram.)

POLÍXENES (ao pastor) — Sim, pai; depois vos falarei sobre isso. (A Camilo.) Já foram longe por demais. É tempo de separá-los. O pastor é simples e diz o que não deve. (A Florizel.) Então, galante pastor? O coração tendes tomado por algo que da festa vos afasta. Pois em verdade, quando eu era moço e, como vós, ficava apaixonado, enchia minha bela de presentes. Já teria saqueado as sedas todas daquele vendedor, sendo forçoso que ela viesse a aceitá-las. Mas deixastes que ele partisse sem comprar-lhe nada. Se vossa apaixonada interpretasse mal toda essa reserva, e a definisse como falta de amor, quando não fosse de generosidade, ficaríeis atrapalhado para responder-lhe, mormente se fizerdes grande empenho de vir a conquistá-la.

FLORIZEL — Venerando senhor, eu sei que ela dá pouco apreço a essas quinquilharias. Os presentes que ela de mim almeja, bem guardados tenho-os no coração. Todos são dela, muito embora não os tenha ainda entregue. (A Perdita.) Permite que o imo peito eu patenteie diante deste senhor, que, tudo o indica, o amor já conheceu. A mão te pego, esta mão tão macia quanto o peito das cândidas pombinhas, e tão brancas como dentes de etíope, ou qual neve que o vento norte joeira duas vezes.

POLÍXENES — Que virá depois disso?, Com que delicadeza o pastorzinho lavar parece a mão, de si tão branca? Mas vejo que vos distraí. Ouçamos o juramento, pois saber desejo como empenhais a fé.

FLORIZEL — Vou já fazê-lo; nisso, me servireis de testemunha.

POLÍXENES — Servir pode também o meu vizinho?

FLORIZEL — Não ele só, os homens, toda a terra, o firmamento, tudo: que se eu fosse coroado rei do mais possante império, e digno desse posto me mostrasse; se o mancebo mais lindo eu fosse, acaso, que olhar já enfeitiçou, e dispusesse de saber e de força mais que humanos, tudo eu desprezaria, se privado de seu amor me visse. A seu serviço poria essas vantagens; dedicara tudo à sua pessoa, ou, decidido, sacrificara tudo, se a perdesse.

POLÍXENES — Solene juramento!

CAMILO — Que revela mui sincera afeição.

PASTOR — E tu lhe dizes o mesmo, minha filha?

PERDITA — É-me impossível falar tão bem, nada fazer tão bem, nem traduzir melhor os sentimentos; contudo, sei medi-los na pureza dos sentimentos dele.

PASTOR — Aqui, as mãos. Negócio feito. Ireis ser testemunhas, caros desconhecidos, do contrato. Minha filha lhe entrego, e o dote dela ao dele igualarei.

FLORIZEL — Sim, poderíeis fazê-lo apenas com a virtude dela. Quando alguém falecer, hei de herdar tanto como nem mesmo em sonho poderíeis imaginar sequer; o suficiente para vos assombrar. Porém uni-nos diante destes senhores.

PASTOR — Dai-me a mão. Filha, a vossa também.

POLÍXENES — Um momentinho, mancebo, por obséquio. Tendes pai?

FLORIZEL — Tenho, sim; mas, que importa?

POLÍXENES — E ele se encontra ciente do que se passa?

FLORIZEL — Não, nem nunca virá a saber de nada.

POLÍXENES — Parece-me que um pai, nas núpcias de seu filho é o convidado que mais condiz à mesa. Respondei-me de novo, por obséquio: já se encontra vosso pai, porventura, inteiramente incapaz de tratar de assunto sério? A idade e o reumatismo deprimente deixaram-no abobado? Pode, acaso, falar? Entende o que se diz? Distingue bem as pessoas? Gere os seus negócios? Preso ao leito se encontra, e em quanto faça parece criança?

FLORIZEL — Não, meu bom senhor; tem bastante saúde e ainda revela vigor acima dos da sua idade.

POLÍXENES — Se for assim, por esta barba branca, não procedeis, em relação a ele, como a um filho compete. A razão manda que meu filho por si escolha esposa; mas a mesma razão fala bem alto que o pai — cuja maior felicidade consiste em ter uma bonita prole — também opine em semelhante caso.

FLORIZEL — Concedo tudo; mas por outras causas; reverendo senhor, que não vos posso revelar, a meu pai não direi nada com respeito a este assunto.

POLÍXENES — Não; contai-Ihe.

FLORIZEL — É impossível.

POLÍXENES — Falai-lhe, por obséquio.

FLORIZEL — Não poderá saber o que se passa.

POLÍXENES — Meu filho, usa com ele de franqueza; não ficará zangado ao ter ciência da escolha que fizeste.

FLORIZEL — Vamos! Vamos! É impossível. Firmemos nossa união.

POLÍXENES (descobrindo-se) — Vosso divórcio, moço, a quem não devo dar o nome de filho, pois te mostras vil demais para que eu te reconheça. Um herdeiro do cetro, que prefere cajado de pastor!... Só o que me pesa, velho traidor, é reduzir-te a vida de uma semana apenas, como mandar-te pendurar numa forca. E tu, bonito tipo de feiticeira, que sabias muito bem que real tolo tinhas preso...

PASTOR — Que dor no coração!

POLÍXENES — Hão de os espinhos arranhar-te a beleza, até a igualarem à tua condição. — E tu, pateta, se eu souber que suspiras de saudades desta coisa nenhuma — que é certeza nunca mais a reveres — destituo-te da sucessão do trono, declarando-te estranho a nosso sangue e a nossa casa, e tão distante dela como o próprio Deucalião. Toma nota do que eu digo: retoma para a corte. E tu, saloio, por esta vez, embora incorrido hajas em nosso desprazer, de ti desviamos a punição fatal. E vós, feitiço — digna bastante para um pegureiro... Sim, para este também, que se revela — não se opusesse a tanto o nosso nome — pouco digno de ti — se em algum tempo descerrares os rústicos ferrolhos, para deixá-lo entrar, ou se nos braços o prenderes de novo, hei de uma morte tão cruel te reservar quanto franzina fores para enfrentá-la. (Sai.)

PERDITA — Aniquilada completamente, embora não ficasse muito atemorizada, pois estive uma ou duas vezes para lhe ser franca, dizendo-lhe que o mesmo sol que brilha sobre sua corte não esconde o rosto de nossa pobre choça e ambas contempla. Não vos dignais, senhor, de partir logo? Já vos havia dito como tudo viria a terminar. Cuidai, vos peço, de vossa posição, que este meu sonho... Uma vez despertada, não prossigo no papel de rainha um só momento; voltarei a ordenhar minhas ovelhas e a chorar.

CAMILO — Pai, que é isso? Dize algo, antes de vir a morte.

PASTOR — É-me impossível pensar ou dizer nada, sem que possa atrever-me a saber o que sabia... Ó príncipe! Matastes quem chegara aos oitenta e três anos calculando baixar tranqüilamente à sepultura, morrer no leito em que meu pai morrera, e ao lado de seus ossos venerandos encontrar o repouso. Mas agora, algum carrasco o corpo há de envolver-me num lençol e depô-lo onde não haja sacerdote que poeira jogue nele. Ó coisa desprezível! Tu sabias que era o príncipe! Como te atreveste a fazer essa aliança? Estou perdido completamente! Se a morrer eu viesse neste instante, teria arrematado minha existência como o desejara. (Sai.)

FLORIZEL — Por que me olhais assim? Estou somente penalizado, mas não sinto medo. Houve atraso, mas não se alterou nada. O que eu era, ainda sou; tanto mais força faço para avançar, quanto mais sinto que me puxem por trás. É com protestos que me sinto no ajoujo.

CAMILO — Meu gracioso senhor, não ignorais como é o caráter de vosso pai. Nestas primeiras horas não admite conversa, estando eu certo de que não pretendeis insistir nisso. Dificilmente, temo, há de ele vossa presença suportar. Será prudente, pois, evitá-lo até que fique calmo.

FLORIZEL — Não tenho essa intenção. Mas, sois Camilo?

CAMILO — Ele mesmo, senhor.

PERDITA — Oh! Quantas vezes vos disse que tudo isso se daria? Quantas vos repeti que só durara minha grandeza, até que se tornasse conhecida a verdade?

FLORIZEL — Isso só for a possível se perjuro eu me tornasse. Então, que a natureza aperte os flancos da terra e moa todas as sementes que ela no bojo tem. Eleva o olhar. Agora, pai, deserda-me, se o queres, que herdeiro passo a ser de meu afeto.

CAMILO — Atendei a conselhos.

FLORIZEL — Sim, do próprio coração. Se a razão a obedecer-lhe se resolver, razoável vou mostrar-me. Do contrário, os sentidos à loucura se inclinarão, dando-lhe as boas-vindas.

CAMILO — Isso revela desespero, príncipe.

FLORIZEL — Podeis chamar-lhe assim; mas se é verdade que me reforçam juras, dou-lhe o nome de honestidade. Nem por toda a Boêmia, Camilo, nem as honras que eu pudesse receber, nem por tudo que o sol veja, ou que a terra contenha; nem por quanto possa o mar esconder nas profundezas de braças insondáveis, hei de as juras quebrar que fiz à minha linda amada. Por tudo isso vos peço, já que sempre fostes amigo certo de meu pai, quando ele vier a dar por minha falta — pois não pretendo nunca mais revê-lo — a cólera acalmai-lhe com conselhos adequados, pois doravante vamos lutar: eu e a fortuna. Assim vos digo, e podereis contar-lhe, que me empego com quem não posso proteger na praia. E, por felicidade, de um navio disponho aqui, bem perto, que eu não tinha para isso aparelhado. O itinerário não precisais saber; não me compete, portanto, revelá-lo.

CAMILO — Ó caro príncipe! Desejara que o espírito tivésseis mais acessível a um conselho honesto ou mais forte na própria adversidade.

FLORIZEL — Ouve, Perdita. (A Camilo.) Logo vos atendo.

CAMILO — Mostra-se inabalável; é certeza partir. Feliz eu fora se pudesse utilizar sua saída, para servir aos meus intentos, preservá-lo dos perigos da ausência, demonstrar-lhe todo o respeito e amor, sendo esse o preço de voltar a rever minha Sicília, bem como aquele infeliz rei, meu amo, como tanto desejo!

FLORIZEL — Bom Camilo, tanto agora me apremam coisas graves, que vou deixar de lado a cerimônia.

CAMILO — Quero supor, senhor, que já tivestes conhecimento de como eu dedico todo o meu pobre préstimo ao serviço, tão-só, de vosso pai.

FLORIZEL — Sim, com nobreza sempre o servistes. A meu pai é música elogiar vossos feitos, não lhe dando pouca preocupação o pensamento de premiá-los à altura.

CAMILO — Bem, meu príncipe; se estais certo do amor que ao rei eu voto, e, por seu intermédio, a quem mais perto dele se encontra — vossa própria Alteza graciosa — consenti que eu vos dirija, caso vosso projeto bem pensado possa ser alterado. Por minha honra, um lugar vos indico em que acolhida Vossa Alteza achará em tudo digna, onde vos lograreis de vossa amada, de quem, agora o vejo, nada pode vos separar, senão tão-só — que os fados não o permitam! vossa própria ruína, e onde a desposareis. Em vossa ausência tudo farei para acalmar a cólera do descontente pai e por deixá-lo disposto como dantes.

FLORIZEL — De que modo, Camilo, poderá ser isso feito — quase um milagre! — para que eu te chame mais do que humano e em tudo em ti confie?

CAMILO — Já decidistes o lugar em que heis de procurar acolhida?

FLORIZEL — Não, ainda; mas como foram fatos positivos a causa de partirmos tão de súbito, escravos confessamo-nos do acaso, que os ventos tocam para qualquer parte.

CAMILO — Então ouvi-me e nisto obedecei-me. Se persistis no intento e quereis mesmo levar a termo a fuga, dirigi-vos para a Sicília, e lá apresentai-vos com vossa esposa — pois princesa, vejo-o bem, será logo ao Rei Leontes. Recebida será conforme o título de vossa própria esposa. Só parece que estou vendo: Leontes abre os braços a chorar e vos dá as boas-vindas, pedindo-vos perdão, como se fosseis vosso pai em pessoa, as mãos oscula da nova princesinha e uma e mais vezes volta a tratar dos sentimentos próprios a ingratidão e o amor — enviando aquela para o inferno e almejando que este cresça mais depressa que o tempo ou o pensamento.

FLORIZEL — Mas meu digno Camilo, que pretexto darei para a visita?

CAMILO — Sois enviado, direis, de vosso pai, para saudá-lo e levar-lhe conforto. Toda vossa conduta, as coisas que deveis dizer-lhe como se vosso pai por vós falasse — e que só nós sabemos — por escrito, príncipe vos direi, com minuciosas indicações do que será preciso dizer em cada audiência. Desse modo, não poderá deixar de ficar crente de que representais o pensamento de vosso pai e que falais por ele de todo o coração.

FLORIZEL — A vós me entrego; o plano é promissor.

CAMILO — Muito mais viável de que vos atirardes sem destino a águas nunca sulcadas ou a paragens com que nunca sonhastes, na certeza de misérias sem número, só tendo para cairdes noutra. Não padece dúvida que o melhor que vossas âncoras vos fariam, seria fundear sempre onde ficar não vos agrade nunca. Ademais, é a ventura, sabeis disso, o laço mais potente para o amor, cuja estrutura grácil e, por ela, também o coração, com a adversidade por demais se ressente.

PERDITA — Uma de vossas proposições é certa: a adversidade pode influir nas feições, mas nunca pode vencer o coração.

CAMILO — É desse modo que pensais? Outra filha assim, na casa de vosso pai não há de vir ao mundo nestes sete anos. Meu bondoso amigo, tão à frente ela vai da instrução própria, quanto a retarda o berço.

CAMILO — Quem dissesse que lhe falta instrução, cometeria erro palmar, pois mestra ela parece de muitos professores.

PERDITA — Oh! Perdoai-me, senhor, mas coro só de agradecer-vos.

FLORIZEL — Minha linda Perdita! Mas estamos pisando sobre espinhos. Bom Camilo, salvador de meu pai e agora nosso, médico de nós todos: que faremos? Não estamos vestidos como filhos do Rei da Boêmia, para aparecermos na corte da Sicília.

CAMILO — Não seja isso, senhor, razão de vos deixar inquieto. Como o sabeis, é lá que tenho toda minha fortuna. Todo meu cuidado consistirá, portanto, em aprestar-vos com pompa real, tal como se realmente representásseis uma cena minha. Por exemplo, senhor. Ouvi-me, para vos convencerdes de que tendes tudo.

(Conversam à parte.)

(Entra Autólico.)

AUTÓLICO — Ah! Ah! Que louca é a Honestidade! E como é simplória a Confiança, sua irmã de juramento! Vendi todas as minhas bugigangas: pedras falsas, fitas, espelhos, vidrinhos de perfume, broches, caderninhos de notas, baladas, facas, luvas, cordão de sapatos, braceletes, brincos, nada me ficou! Era mais quem empurrava os outros, querendo todos ser os primeiros a comprar, como se as minhas frioleiras fossem santificadas e valessem como bênçãos para os compradores. Desse modo, pude ver quais eram as bolsas de melhor aparência, o de que não me esquecerei na ocasião oportuna. Meu Bobo — muito pouca coisa lhe falta para que ele seja um homem sensato — de tal modo ficou tomado de paixão pelas baladas das raparigas, que não arredou pé enquanto não aprendeu a toada e as letras, o que atraiu para o meu lado o resto do rebanho, cujos sentidos se concentraram nos ouvidos. Poderíeis desapertar as vestes de qualquer pessoa e retirar-lhe dos bolsos uma moeda, que ninguém sentia nada. Poderia ter roubado chaves pendentes de correntes; ninguém percebia coisa alguma, não ouvia outra coisa a não ser a canção de meu homem, boquiabertos diante de sua absoluta desvalia. Desse modo, aproveitando-me do letargo universal, cortei o cordão da maior parte das bolsas festivas e apropriei-me delas. E se não fosse ter aparecido o velho, a fazer um barulhão por causa de sua filha e do filho do rei, espantando-me do restolho os corvos, não teria deixado com vida uma só bolsa em todo o exército.

(Camilo, Florizel e Perdita vêm para a frente.)

CAMILO — Chegando minhas cartas, pelos meios de que já vos falei, ao mesmo tempo que vós, desmancharão qualquer suspeita.

FLORIZEL — E as cartas que obtiverdes do Rei Leontes...

CAMILO — Deixarão satisfeito vosso pai.

PERDITA — Sede feliz; quanto dizeis inculca boa aparência.

CAMILO (percebendo Autólico) — Quem é esse tipo? Como instrumento, poderá servir-nos. Não convém omitir coisa nenhuma.

AUTÓLICO (à parte) — Se eles ouviram o que eu disse, o fim é a forca.

CAMILO — Então, amigo? Por que tremes desse jeito? Não tenhas medo, homem; ninguém pensa em te fazer mal.

AUTÓLICO — Eu sou um pobre camarada, senhor.

CAMILO — Pois então, continua a sê-lo, que nenhum de nós tenciona privar-te dessa vantagem. Contudo, podemos fazer uma barganha com a aparência de tua pobreza. Por isso, despe-te imediatamente — basta saberes que há grande urgência — e troca de roupa com este gentil-homem. Embora só ele tenha a perder com a troca, fica com mais isto, de crescença.

AUTÓLICO — Sou um pobre camarada, senhor. (À parte.) Conheço-vos perfeitamente.

CAMILO — Vamos! Por obséquio, despacha-te! O cavalheiro já está meio despido.

AUTÓLICO — Estais falando sério, senhor? (À parte.) Estou farejando uma cilada em tudo isso.

FLORIZEL — Vamos logo, por obséquio.

AUTÓLICO — É certo que já recebi o penhor; mas, em consciência, não posso aceitá-lo.

CAMILO — Desabotoa! Desabotoa logo! (Florizel e Autólico trocam as vestes respectivas.) Feliz senhora — que se concretize quanto ora profetizo! — retirai-vos para um lugar discreto; na cabeça ponde o chapéu de vosso apaixonado, puxando-o para os olhos; cobri o rosto, trocai de roupa, transformai-vos quanto vos for possível, alterando vossa aparência verdadeira, para que possais — pois receio que vos vejam — chegar a bordo sem que vos conheçam.

PERDITA — Vejo que tenho o meu papel na peça.

CAMILO — Não há remédio. Pronto?

FLORIZEL — Poderia conversar com meu pai, sem que ele o nome de filho seu me desse.

CAMILO — É necessário ficardes sem chapéu. Vinde, senhora. Adeus, adeus, amigo.

AUTÓLICO — Meus, senhor.

FLORIZEL — Ó Perdita! Esquecemos uma coisa! Vem! Uma palavrinha!

(Falam à parte.)

CAMILO (à parte) — Consiste agora todo o meu cuidado em revelar ao rei a fuga deles e o lugar do refúgio, tendo quase certeza de chegar a convencê-lo de seguir-lhes no encalço. Assim, eu junto, vejo outra vez Sicília, o que desejo fazer com impaciência feminina.

FLORIZEL — Que a sorte nos ajude. E assim, Camilo, vamos ganhar a praia.

CAMILO — Toda a pressa nunca será demais.

(Saem Florizel, Perdita e Camilo.)

AUTÓLICO — Entendo do negócio; farejo-o de longe. Ouvido aberto, mirada rápida e mãos leves são indispensáveis a todo batedor de carteira. Um bom nariz também faz parte dos requisitos, para farejar trabalho para os demais sentidos. Percebo que estamos em uma época em que os desonestos prosperam. Que barganha magnífica já não seria a que eu fiz, ainda que não me tocasse nenhum lucro de crescença! E que lucro enorme com a troca! Não há dúvida: este ano os deuses estão coniventes conosco, sendo-nos permitido tudo fazer ex tempore. O próprio príncipe está no ponto de realizar alguma patifaria, fugindo do domicílio paterno com as peias nos pés. Se eu estivesse certo de que era ato de honestidade comunicar ao rei o que se passa, não lhe diria nada. Considero maior velhacaria guardar sigilo sobre o caso, com o que me mantenho coerente com a minha profissão. Afastemo-nos! Eis que vêm chegando mais ocupações para um cérebro quente. Todo beco, toda loja, igreja, sessão, todo enforcamento dá trabalho a quem quer que cuide de seus interesses.

(Voltam o bobo e o pastor.)

BOBO — Vede que homem sois agora. Não há outra saída, senão revelardes ao rei que ela é uma criança encontrada, sem nenhuma relação com vossa carne e com vosso sangue.

PASTOR — Não; escuta-me.

BOBO — Não; escutai-me.

PASTOR — Então, prossegue.

BOBO — Uma vez que ela não é nem vossa carne nem vosso sangue, vossa carne e vosso sangue não ofenderam o rei; assim sendo, nem vossa carne nem vosso sangue se tornaram passíveis de punição. Mostrai-lhe os objetos que encontrastes juntamente com ela, todos eles misteriosos, com exceção dos que ela traz consigo. Uma vez feito isso, deixai que a lei assobie, é o que vos digo.

PASTOR — Contarei tudo ao rei, palavra por palavra, sim, sem omitir a partida que lhe pregou o próprio filho, que não procede como homem de bem, posso afirmá-lo, nem com relação ao pai, nem com relação a mim, ao querer fazer-me cunhado do rei.

BOBO — De fato, cunhado era o menos que poderíeis ser dele, depois do que ficaríeis com o sangue mais caro não sei quanto a onça.

AUTÓLICO (à parte) — Muito bem pensado, meus basbaques.

PASTOR — Vamos então procurar o rei. Levamos-lhe neste embrulho alguma coisa que o fará coçar a barba.

AUTÓLICO (à parte) — Não compreendo em que essa revelação poderá prejudicar a fuga do meu senhor.

BOBO — Tomara que ele esteja em palácio.

AUTÓLICO (à parte) — Embora eu não seja naturalmente honesto, às vezes o sou por acaso. Ponhamos no bolso esta excrescência de mascate. (Arranca a barba postiça.) Então, rústicos, para onde vos atirais?

PASTOR — Vamos a palácio, com permissão de Vossa Senhoria.

AUTÓLICO — Que negócio tendes lá? Quais? Com quem? Que contém esse embrulho? Onde morais? Como vos chamais? Quantos anos tendes? Vossos recursos? Família? Em suma: revelai-me tudo que for conveniente saber.

BOBO — Somos gente simples, senhor.

AUTÓLICO — Mentira! Sois ásperos e peludos; não me venhais com mentiras. Mentir só é próprio de comerciantes, que por vezes nos impingem petas, a nós outros, soldados. Mas nós lhes pagamos com moeda batida, não com ferro que bate; por isso eles não nos mentem.

BOBO — Vossa Senhoria esteve no ponto de nos apanhar numa mentira, se nós não tivéssemos sido surpreendidos na hora.

PASTOR — Sois da corte, senhor, se não vos desagrada?

AUTÓLICO — Agrade-me ou não me agrade, sou cortesão. Não percebes o ar da corte nesta indumentária? Não ando no compasso da corte? Teu nariz não percebe em minha pessoa o odor da corte? Não faço reflexos em tua baixeza com o meu desprezo de cortesão? Sou cortesão da cabeça aos pés, alguém que poderá fazer avançar ou retardar teus interesses na corte. Por isso, ordeno-te que me reveles o que te leva lá.

PASTOR — Certo negócio, senhor, com o rei

.

AUTÓLICO — E com que advogado contas para isso?

PASTOR — Não sei, senhor, com permissão de Vossa Senhoria.

BOBO — Advogado, na linguagem da corte, quer dizer faisão. Dizei-lhe que não tendes nenhum.

PASTOR — Realmente, senhor; não tenho nenhum faisão; nem macho nem fêmea

AUTÓLICO — Como somos felizes por não sermos gente desse quilate! A natureza, contudo, poderia ter-me feito como eles são. Não devo desprezá-los.

BOBO — Deve ser um grande cortesão.

PASTOR — As vestes são ricas, mas ele não as usa com elegância.

BOBO — Quanto mais original, mais nobre parece. Um grande homem, posso afiançar-vos; conheço pela maneira de palitar os dentes.

AUTÓLICO — E aquele embrulho? Que contém? Para que é essa caixa?

PASTOR — Neste embrulho, senhor, e nesta caixa há segredos que só podem ser revelados ao rei, o que se dará dentro de uma hora, se eu conseguir falar-lhe.

AUTÓLICO — Pois perdeste o trabalho, meu velho.

PASTOR — Por quê, senhor?

AUTÓLICO — O rei não se acha no palácio; foi para bordo de um novo navio, a fim de purgar sua melancolia e tomar ar. Se fores capaz de compreender assuntos sérios, deves saber que o rei está cheio de preocupações.

PASTOR — É o que dizem, senhor, por causa de seu filho, que queria casar com a filha de um pastor.

AUTÓLICO — Se esse pastor ainda não está na grade, que trate de fugir. As maldições que vão cair em cima dele, as torturas que terá de suportar, quebrariam o dorso a qualquer homem e o coração de um monstro.

BOBO — Pensais assim, meu senhor?

AUTÓLICO — Não é ele somente que há de sofrer o que a maldade possa inventar de pesado e a vingança de amargoso; todos os seus parentes, até o qüinquagésimo grau, serão também entregues ao carrasco. É pena, mas é inevitável. Um velho assobiador de ovelhas, um guardador de carneiros, que queria que sua filha se tornasse fidalga! Há quem diga que vai ser apedrejado; mas eu penso que essa morte, para ele, seria pouco branda. Puxar nosso trono para uma cabana de pastor! Todas as mortes são poucas, e a mais cruel ainda será muito branda.

BOBO — Já ouvistes dizer, senhor, se não vos desagrada, que esse velho tenha algum filho?

AUTÓLICO — Tem um filho, que vai ser esfolado vivo, depois besuntado de mel e posto ao lado de um vespeiro, onde o deixarão até ficar morto três quartas e uma dracma. A seguir, fá-lo-ão reanimar com aquavitae ou qualquer outra infusão quente. Depois, escalavrado como estiver, no dia mais quente previsto pelo almanaque, será colocado contra um muro de tijolos, onde o sol olhará para ele com o seu olho sul e o ficará contemplando até que as moscas o liquidem. Mas, por que falarmos desses velhacos e traidores, cujas misérias só nos provocam riso, tão graves foram seus crimes? Dizei-me pois pareceis gente honesta e simples — que é que levais para o rei. Gozando de certa consideração, poderei guiar-vos até a bordo do navio em que ele se acha, levar-vos à sua presença e segredar-lhe algumas palavrinhas a vosso favor. Se há alguém — tirante o rei — que poderá dar boa conclusão a vossas pretensões, aqui está essa pessoa.

BOBO — Parece gozar de grande autoridade. Instai com ele; dai-lhe ouro; porque embora a autoridade seja um urso teimoso, muitas vezes, vista de ouro, deixa-se conduzir pelo nariz. Mostrai o interior de vossa bolsa ao exterior da mão dele, e nem mais uma palavra. Não vos esqueçais: Apedrejado” e “esfolado vivo!”

PASTOR — Se quereis ter a bondade, senhor, de patrocinar nosso negócio, aqui tendes o ouro de que disponho. Poderei arranjar outro tanto, deixando este jovem como penhor, até que vos traga a outra porção.

AUTÓLICO — Depois de eu ter feito o que prometi?

PASTOR — Perfeitamente, senhor.

AUTÓLICO — Muito bem. Então, entrega-me essa metade. E tu, também estás interessado nesse negócio?

BOBO — De certo modo, senhor; mas embora minha pele não seja lá das melhores, espero que não me façam sair dela contra minha vontade.

AUTÓLICO — Oh! Isso só acontecerá com o filho do pastor. À forca com ele, para que sirva de exemplo.

BOBO — Coragem! Coragem! Teremos de procurar o rei e mostrar-lhe esses objetos estranhos. É preciso que ele fique sabendo que ela não é vossa filha nem minha irmã. Do contrário, estaremos perdidos. Senhor, uma vez concluído o negócio, dar-vos-ei tanto quanto vos deu este velho, ficando, como ele disse, na qualidade de penhor, até que ele traga o resto da importância.

AUTÓLICO — Tenho confiança em vós. Ide na frente, em direção do mar. Vou só ver o que se passa do outro lado da sebe, e já vos alcançarei.

BOBO — Para nós este homem foi uma bênção, pode-se dizer; verdadeira bênção.

PASTOR — Vamos na frente, conforme ele ordenou que o fizéssemos. Foi a Providência que no-lo enviou.

(Saem o pastor e o bobo.)

AUTÓLICO — Estou vendo que se eu quisesse ser honesto, a Fortuna não o consentiria; ela própria faz que as presas me venham cair na boca. Sou cortejado agora por uma dupla vantagem: obter ouro e prestar um bom serviço ao príncipe meu senhor. Quem sabe até que ponto isso poderá redundar em seu proveito? Vou levar-lhe a bordo essas duas toupeiras, esses dois cegos. Se ele achar proveito em recambiá-los para terra, por julgar que não lhe diz respeito a petição que eles tencionam apresentar ao rei, que me dê o nome de maroto, por me ter mostrado tão serviçal; já estou à prova de fogo com tudo o que diz respeito a semelhante título e ao opróbrio inerente a ele. Vou apresentá-los ao príncipe; pode ser que isso me renda alguma coisa. (Sai.)

ATO V
Cena I

Sicília. Um quarto no palácio de Leontes. Entram Leontes, Cleômenes, Dion, Paulina e outros.

CLEÔMENES — Senhor, fizestes muito; o sofrimento que revelais é próprio só de mártires. Quantos erros houvésseis praticado, já se acham redimidos, que ultrapassa de muito a penitência vossas altas. Como remate, o céu imitai nisso, esquecendo vosso erro, e, tal como ele, a vós mesmo perdoando.

LEONTES — Em todo o tempo que dela eu me lembrar e de seus dotes, impossível ser-me-á lançar no olvido quanto fui mau em relação a ela, quanto comigo injusto, indo até ao ponto de deixar sem herdeiro o próprio trono e de matar a mais distinta esposa com que sonhar pudesse qualquer homem.

PAULINA — É certo, meu senhor; é muito certo. Se desposásseis todas as mulheres do mundo, uma por uma, ou se de quantas agora existem retirásseis tudo que de mais alto as orna, para a esposa perfeita conseguirdes, impossível vos fora, ainda, pô-la em paralelo com aquela que matastes.

LEONTES — É o que eu penso, também. A que eu matei... Sim, dei-lhe a morte; foi o que fiz. Porém me feres fundo, falando desse modo. Tão amarga te sabe à língua essa lembrança, como à minha retentiva. Assim me fala, boa amiga, mas muito mais de espaço.

CLEÔMENES — Não, jamais, boa dama. Poderíeis ter falado mii coisas que mais úteis fossem neste momento e mais de acordo com a bondade que tanto ws distingue.

PAULINA — Sois um daqueles que desejam vê-lo novamente casado.

DION — Se não fordes desses também, é que não tendes pena das condições do Estado, nem das glórias vos importais de seu ilustre nome, não vos incomodando os grandes riscos que o reino ameaçar podem, se Sua Graça continuar desse modo sem herdeiros, a morrer vindo os que se mostrem dúbios. Que fora mais piedoso do que júbilo revelar pela bem-aventurança de que se goza a falecida rainha? Que mais piedoso, ainda, porque o trono mais firme se tornasse, para nosso consolo e bem das gerações futuras, do que de novo abençoar o leito de Sua Alteza com uma grata esposa?

PAULINA — Nenhuma é digna disso, se pensarmos naquela que morreu. Demais, os deuses hão de querer que em tudo se confirmem seus desígnios ocultos. Não é certo ter-se manifestado o divo Apolo, e dito expressamente o seu oráculo que sem herdeiro ficaria Leontes, enquanto não aparecesse a filha que ora perdida está? Mas tão obstrusa para nossa razão será tal coisa, como quebrar a tumba o meu Antígono e voltar para mim, pois que é certeza por minha vida o juro — ter morrido juntamente com ela. Ora, assim sendo, desejais que meu amo ao céu se oponha, que despreze seus planos? (A Leontes.) Não vos seja motivo de cuidado a descendência. A coroa há de achar seu próprio herdeiro. O famoso Alexandre deixou a sua para o mais digno, tendo, assim, o trono passado para um sucessor condigno.

LEONTES — Boa Paulina, sei que ainda cultuas a memória de Hermíone. Oh! tivesse seguido teus conselhos! Ainda hoje contemplaria minha cara esposa e um tesouro colhera de seus lábios.

PAULINA — Deixando-os mais valiosos depois disso.

LEONTES — Só falas a verdade. Igual esposa já não se encontra. Logo, não me falem mais em casar. Uma pior consorte, que de mim recebesse mais afagos, obrigaria seu sagrado espírito a voltar para o corpo e vir ao. palco em que eu — seu assassino — ainda me encontro, para, com desespero, perguntar-me: “Por que me fazeis isso?”

PAULINA — Se tivesse poder para isso, causa lhe sobrara.

LEONTES — Não lhe faltara, certo; e me induzira a matar a mulher que eu desposasse.

PAULINA — Se espectro errante eu fosse, é o que faria. Mandar-vos-ia contemplar-lhe os olhos, e depois perguntara: “Esse olhar morto foi que vos atraiu?” Depois, soltara tão forte guincho, que vos deixaria de ouças arrebentadas, despedindo-se com vos dizer: “Recorda-te de mim!”

LEONTES — Estrelas cintilantes, verdadeiras estrelas, não passando os outros olhos de carvões apagados. Não receies outra mulher, Paulina; jamais hei de casar de novo.

PAULINA — Não quereis jurar-me que não vos casareis, sem que para isso vos dê consentimento?

LEONTES — Quero, boa Paulina; juro-o pela vida eterna.

PAULINA — Tomai nota, senhores, desta jura.

CLEÔMENES — A excessivo tormento o submeteis.

PAULINA — A menos que lhe surja aos olhos outra que se pareça tanto com Hermíone como sua própria imagem.

CLEÔMENES — Boa dama...

PAULINA — Cheguei ao fim. Se o meu senhor, de fato, quer casar outra vez — se decidistes, senhor, sobre esse ponto — reservai-me a incumbência de esposa procurar-vos. Não há de ser tão jovem quanto Hermíone, mas de tal aparência, que se o espírito da morta retornasse, se alegrara de vê-la em vossos braços.

LEONTES — Minha boa Paulina, não nos casaremos antes de nos dares licença.

PAULINA — Será isso quando voltar à vida vossa esposa. Antes, jamais.

(Entra um gentil-homem.)

GENTIL-HOMEM — Alguém que se apresenta como o Príncipe Florizel, descendente de Políxenes, com sua esposa — a mais formosa jovem que eu jamais vi — deseja ser trazido diante de Vossa Alteza.

LEONTES — Que acontece?. Não chega como fora de esperar-se da grandeza do pai. Essa visita tão despida de toda cerimônia, tão súbita, nos diz que não se trata de uma visita regular, mas de algo forçado ou acidental. Qual é o seu séquito?

GENTIL-HOMEM — Poucas pessoas; todas, gente simples.

LEONTES — Vem com ele, dissestes, a princesa?

GENTIL-HOMEM — A mais linda porção de argila, creio, que o sol em qualquer tempo haja alumiado.

PAULINA — Ó Hermíone! Como em todos os tempos o presente se vangloria à custa do passado, teus encantos agora o lugar cedem diante dos mais recentes. Cavalheiro, vós mesmo já dissestes e escrevestes — mas vosso escrito, agora, está mais frio do que seu próprio tema — que ela nunca fora igualada e não o seria nunca. Desse modo, com sua formosura, defluía vosso verso; mas vazante muito grande se deu, para dizerdes que alguém vistes mais bela do que Hermíone.

GENTIL-HOMEM — Perdão, senhora; uma, porém, eu tinha — com vossa permissão — quase esquecido. Mas esta agora, quando for notada por vossos olhos, obterá, sem dúvida, irrestritos encômios. É criatura que se fundar quisesse alguma seita, faria arrefecer aos próprios chefes das outras o entusiasmo, convertendo para a sua a quem quer que ela acenasse.

PAULINA — Inclusive mulheres?

GENTIL-HOMEM — As mulheres hão de dedicar-lhe amor, por estar ela muito acima dos homens, e estes todos, por ser ela a mais rara das mulheres.

LEONTES — Ide, Cleômenes. E vós, com vossos mais distintos amigos, conduzi-os para que os abracemos. (Saem Cleômenes, nobres e o gentil-homem.) Mas é estranho que venha por maneira tão furtiva!

PAULINA — Se estivesse com vida o nosso príncipe — a pérola das crianças — formaria com este nobre um par digno de ver-se, pois entre a idade de ambos não havia um mês de diferença.

LEONTES — Por obséquio,não prossigas. Bem sabes que ele morre para mim novamente, quando nele qualquer pessoa fala. No momento em que eu vir esse

NOBRE — estou bem certo — tuas palavras hão de sugerir-me pensamentos que louco vão deixar-me. Mas eis os visitantes. (Volta Cleômenes com Florizel, Perdita e outros.) Caro Príncipe, vossa mãe foi fiel ao matrimônio, porque reproduziu, ao conceber-vos, a imagem fiel de vosso nobre pai. Se vinte e um anos eu tivesse agora — de tal maneira os traços fisionômicos de vosso pai em vós se reproduzem, toda sua postura — vos daria o título de irmão, como com ele costumava fazer naquele tempo, e de alguma loucura vos falara que praticado houvéssemos pouco antes. De coração vos dou as boas-vindas e a vossa bela esposa — vera deusa! — Oh céus! Perdi dois filhos, um casal, que se entre o céu e a terra ainda estivessem, espanto despertaram como agora, par gracioso, o fazeis. Por culpa própria, perdi a companhia e o grande afeto de vosso nobre pai. Pelo infortúnio dobrado como estou, desejaria viver ainda só para revê-lo.

FLORIZEL — Por ordem dele vim até à Sicília e de sua parte trago-vos saudares como um amigo e rei a um mano envia. E se a fraqueza própria da velhice do consueto vigor não o tivesse, de algum modo, privado, ele, em pessoa, medido então teria a terra e os mares que entre o seu trono e o vosso se interpõem, com o fito de vos ver, a vós, a que ele — mandou que vos dissesse amor dedica maior que aos tronos todos e aos monarcas que, vivos, nele se acham.

LEONTES — Que bondoso gentil-homem! Que irmão! Todos os males que te causei, de novo me compungem e essa tua mensagem tão tocante me exprobra a negligência. Sois bem-vindo como o é a primavera sobre a terra. Como! Expôs ele esta criatura linda ao jogo perigoso, ou, quando nada, pouco agradável do feroz Netuno, só para vir saudar quem não é digno dessas canseiras nem de que se arrisque tão preciosa pessoa?

FLORIZEL — Meu bondoso soberano, da Líbia ela procede.

LEONTES — Onde o valente Esmalo, esse guerreiro nobre e honrado, é temido e venerado?

FLORIZEL — De lá, real senhor, da parte dele, cujas lágrimas, quando nos partimos, a proclamavam filha muito amada. De lá, precisamente, um vento próspero do sul nos trouxe, para cumprimento darmos às ordens de meu pai, de a Vossa Grandeza visitarmos. Quase todo meu séquito, ao tocarmos na Sicília, foi por mim dispensado, não somente porque levada à Boêmia fosse a nova do meu bom êxito na Líbia, como por dar notícias que eu com minha esposa chegamos bem onde ora nos achamos.

LEONTES — Que os deuses caridosos purifiquem de qualquer infecção nossa atmosfera todo o tempo que aqui permanecerdes. Tendes um pai piedoso, um gentil-homem de nobreza sem jaça, contra cuja santa pessoa eu cometi pecado. Como castigo disso, o céu colérico me deixou sem herdeiro, enquanto vosso bendito pai — merecedor de tudo com que o céu o abençoe — feliz se encontra convosco, digno dele. Oh! A que altura não teria eu chegado, se pudesse ver uma filha e um filho tão perfeitos com o par que ora vejo!

(Entra um nobre.)

NOBRE — Muito nobre senhor, não merecera nenhum crédito quanto vos vou dizer, se não tivéssemos as provas aqui perto. Grande príncipe, Boêmia pessoalmente vos saúda, valendo-se do meu modesto préstimo. A deter vos concita o filho dele que, esquecido do cargo e dos deveres, fugiu do pai, das próprias esperanças, com a filha de um pastor.

LEONTES — Onde está Boêmia?

NOBRE — Nesta cidade; acabo de falar-lhe. Sei que falo sem nexo, mas de acordo com meu espanto e esta mensagem rara. Ao vir depressa para vossa corte, seguindo o rasto, pelo que suponho, deste belo casal, deu em caminho com o pai desta princesa improvisada e o irmão dela, que a pátria abandonaram em companhia deste jovem príncipe.

FLORIZEL — Camilo me traiu, ele que à prova do tempo a honestidade e a honra pusera.

NOBRE — Podeis fazer-lhe cargà disso mesmo, pois com o rei vosso pai ele se encontra.

LEONTES — Quem! Camilo?

NOBRE — Camilo, sim, milorde: falei-lhe agora mesmo. Interrogados por ele os dois coitados estão sendo. Nunca vi infelizes tremer tanto; ajoelham-se a toda hora, a terra beijam, outra coisa não dizem senão juras. O Rei da Boêmia as mãos leva aos ouvidos e os ameaça de morte com suplícios.

PERDITA — Meu pobre pai! O céu mandou espias sobre nós; não consente que levemos ao fim nosso esposório.

LEONTES — Sois casados?

FLORIZEL — Não, senhor; nem jamais nos casaremos. Será mais fácil, pelo que parece, virem beijar os vales as estrelas. Quem poderá ganhar com dados falsos?

LEONTES — E ela, senhor, é filha de um monarca?

FLORIZEL — Será, quando tornar-se minha esposa.

LEONTES — Quero crer que esse “quando”, com a chegada de vosso pai, vem muito lentamente. Causa-me pena, muita pena mesmo, ver que os laços rompestes da amizade a que o dever vos conservava preso, como verificar que vossa escolha não seja, em posição, tão opulenta como o é em formosura, porque fosse natural que a possuísseis.

FLORIZEL — Alça a vista, minha querida. Ainda que a Fortuna, nossa inimiga declarada, ao lado de meu pai nos dê caça, força alguma tem de modificar, de um fio apenas, nosso sincero amor. Senhor, suplico-vos lembrardes-vos do tempo em que devíeis tanto à idade quanto eu. Com os sentimentos de então sede advogado em minha causa. Meu pai, se lhe falardes, não vos há de negar nenhum pedido, dando como ninharias as coisas mais valiosas.

LEONTES — Se isso fosse verdade, eu lhe pedira vossa amada preciosa, que ele julga não valer coisa alguma.

PAULINA — Meu senhor, nos olhos tendes muita mocidade; um mês antes da morte da rainha, muito mais digna desse olhar era ela do que a pessoa que ora estais olhando.

LEONTES — Olhando esta, era nela que eu pensava. (A Florizel.) Não respondi a vossa petição. Vou ao encontro, já, de vosso pai. Desde que não tisnou mancha nenhuma dos desejos vossa honra, considero-me amigo vosso e deles. Vamos juntos e vede o que eu fizer. Vinde, meu caro.

(Saem.)

Cena II

O mesmo. Diante do palácio. Entram Autólico e um gentil-homem.

AUTÓLICO — Por obséquio, senhor, estivestes presente a essa história?

GENTIL-HOMEM — Estive presente, quando abriram o embrulho e ouvi como o velho pastor contou como o havia encontrado, ao que se seguiu uma fase rápida de espanto, tendo-nos sido dada ordem para que saíssemos da sala. Parece que ouvi ainda o pastor dizer que havia achado a criança.

AUTÓLICO — Desejaria muito saber o desenlace disso.

GENTIL-HOMEM — Fiz uma exposição muito incompleta do que houve; mas as alterações que eu percebi no rei e em Camilo eram indicadoras de extrema perplexidade. Pela maneira que se olhavam, dir-se-ia que os olhos iam saltar-lhes das órbitas; havia eloqüência no mutismo deles e linguagem em seus próprios gestos. Davam a impressão de estarem ouvindo falar de mundos resgatados ou destruídos. Revelavam sinais de grande estupefação; mas qualquer testemunha sagaz, que só formasse opinião pelo que visse, não saberia dizer se toda aquela emoção era fruto de alegria ou de tristeza, sendo certeza que só poderia tratar-se de um desses dois sentimentos, elevado ao máximo. (Entra outro gentil-homem.) Aí vem um gentil-homem que talvez nos possa informar de mais alguma coisa. Quais são as novidades, Rogero?

SEGUNDO GENTIL-HOMEM — Nenhuma, senão fogos de alegria. Cumpriu-se o oráculo: a filha do rei foi encontrada. Tantas coisas espantosas se tornaram conhecidas nesta hora, que os fazedores de baladas não serão capazes de dar-lhes expressão adequada. (Entra um terceiro gentil-homem.) Aí vem o intendente da senhora Paulina. Ele vos contará mais algumas particularidades. Então, senhor, em que ponto estão as coisas? As novidades que nos são dadas como puras verdades, parecem-se tanto com um velho conto, que a veracidade do fato se nos afigura muito suspeita. É certo que o rei encontrou a herdeira.

TERCEIRO GENTIL-HOMEM — Certíssimo, se em qualquer tempo a verdade já foi demonstrada pelas circunstâncias. Poderíeis jurar que vistes que tudo o que vos contam, tal é a coerência das provas. O manto da Rainha Hermíone, a jóia que a criança trazia ao pescoço, as cartas de Antígono, cuja letra foi reconhecida, a majestade da senhorita, a semelhança com a mãe, a expressão de nobreza, muito acima de sua educação, e denotadora de origem mais elevada, e muitas outras evidências proclamam, sem sombra de dúvida, que ela é mesmo a filha do rei. Vistes o encontro dos dois monarcas?

SEGUNDO GENTIL-HOMEM — Não.

TERCEIRO GENTIL-HOMEM — Então perdestes um espetáculo que não pode ser contado; precisava ter sido visto. Teríeis visto como as alegrias se coroavam sucessivamente, e de forma tal que só parecia que a tristeza chorava por despedir-se deles, de tal modo a alegria patinhava em lágrimas. Ambos não faziam senão olhar para o céu e levantar as mãos, com tão perturbados modos, que só eram reconhecíveis pelas vestes, não pela fisionomia. Nosso rei, como se quisesse sair de si mesmo, de alegria por haver encontrado a filha, como se de súbito essa alegria se houvesse transformado em dor, gritava: Oh, tua mãe! Tua mãe!” Depois, pedia perdão ao Rei da Boêmia; depois abraçava o genro; depois, corria a abraçar açodadamente a filha. Agradece ao velho pastor, que se mantinha como uma figura de chafariz estragada pelo tempo durante muitas gerações de reis. Nunca ouvi falar de um encontro como esse; deixa manca qualquer relação que dela se queira fazer e desafia qualquer descrição.

SEGUNDO GENTIL-HOMEM — Dizei-me, ainda, por obséquio, que aconteceu com Antígono, que fora incumbido de expor a criança?

TERCEIRO GENTIL-HOMEM — Ainda no jeito dos velhos contos, em que há muito que dizer, muito embora cochile a credulidade e nenhum ouvido fique atento: foi estraçalhado por um urso, conforme o afirma o filho do pastor, cuja palavra é reforçada não somente por sua própria ingenuidade — que parece grande, realmente — como também por um lenço e os anéis que Paulina reconheceu como tendo pertencido ao marido.

PRIMEIRO GENTIL-HOMEM — E que foi feito do navio dele e de seus tripulantes?

TERCEIRO GENTIL-HOMEM — Foi a pique no momento preciso em que morria o dono, e à vista do pastor, de forma que todos os instrumentos que haviam tomado parte no ato de ser exposta a criança se perderam no momento em que ela foi encontrada. Mas, oh! que nobre combate se travava em Paulina, entre a alegria e a tristeza! Um dos olhos se abaixava pela perda do marido, enquanto o outro se elevava por ter sido cumprido o oráculo; levantava do solo a princesa e a abraçava com tamanho ardor, como se a quisesse cravar no coração, para que não viesse a correr o risco de vir novamente a perder-se.

PRIMEIRO GENTIL-HOMEM — — A grandeza dessa cena merecia um auditório de reis e de príncipes, por serem tais os seus atores.

TERCEIRO GENTIL-HOMEM — Um dos acidentes mais comovedores, que chegou a pescar nos meus olhos — só tendo apanhado água, sem pegar peixe algum — à relação da morte da rainha e da causa que a provocou — admiravelmente confessada e lastimada pelo rei — foi a tensão dolorosa da filha, que, num crescendo de manifestação de sofrimento, por último, com uma exclamação, poderia dizer, sangrou em lágrimas, pois estou certo de que o meu coração também chorava sangue. Dos assistentes, os mais de pedra mudaram de cor; alguns desmaiaram; todos se mostravam profundamente comovidos, e se o mundo inteiro houvesse presenciado a cena, a tristeza teria sido universal.

PRIMEIRO GENTIL-HOMEM — Já voltaram para a corte?

TERCEIRO GENTIL-HOMEM — Não; que a princesa ouviu falar da estátua de sua mãe, que se acha sob a guarda de Paulina — trabalho que requereu anos e que foi recentemente concluído por Júlio Romano, o grande mestre italiano, que, se fosse imortal, insuflaria alento em sua criação e usurparia a própria função da natureza, tal é a perfeição com que a imita. Fez uma Hermíone tão semelhante a Hermíone, que, segundo dizem, a gente fala com ela e fica à espera de resposta. Para lá se dirigiram todos com a sofreguidão da afeição, pretendendo cear lá mesmo.

GENTIL-HOMEM — Hermíone, duas ou três vezes por dia ela se dirigia sozinha para essa casa apartada. Não quereis ir também lá, para nos associarmos à alegria geral?

PRIMEIRO GENTIL-HOMEM — Haverá quem não queira ir, gozando do benefício do acesso? A cada piscar de olhos pode nascer um novo motivo de alegria. Nossa ausência nos deixaria privados de informações. Sigamos.

(Saem os gentis-homens.)

AUTÓLICO — Agora, se não fosse a mácula de minha vida anterior, choveriam sobre mim as promoções. Fui eu que levei o velho e seu filho para bordo do navio do príncipe e lhe disse que os surpreendera a falar de certo embrulho e de não sei que mais. Mas nessa ocasião o príncipe se encontrava obcecado pela filha do Pastor — ainda a tinha nessa conta — que começava a sofrer de enjôo, não estando ele tampouco muito mais firme, porque a tempestade não parara. Daí não ter sido descoberto nessa ocasião o segredo. Mas para mim, tanto faz. Se tivesse sido eu o descobridor do segredo, isso não anularia minhas velhacarias anteriores. Aí vêm os dois, aos quais eu fiz bem sem o querer; encontram-se em pleno desabrochar da fortuna.

(Entram o pastor e o bobo.)

PASTOR — Vamos, menino; outros filhos não posso ter; mas teus filhos e tuas filhas hão de nascer fidalgos.

BOBO — Belo encontro, senhor. Há dias não vos quisestes bater comigo, por eu não ser gentil-homem de nascimento. Vedes esta roupa? Dizei que não a estais vendo e continuai a pensar que eu não sou gentil-homem de nascimento. Faríeis melhor se dissésseis que esta roupa não é de gentil-homem de nascimento. Experimentai desmentir-me, para verdes se eu sou ou não um gentil-homem de nascimento.

AUTÓLICO — Agora sei, senhor, que sois, realmente, um gentil-homem de nascimento.

BOBO — Sim, e sempre o fui, desde as últimas quatro horas.

PASTOR — Eu também, rapaz.

BOBO — Sim, vós também; mas eu me tornei gentil-homem de nascimento antes de meu pai, porque o filho do rei me tomou pela mão e me chamou de irmão. Foi só depois que os dois reis deram o nome de irmão a meu pai e que o príncipe meu irmão e a princesa minha irmã chamaram de pai a meu pai, tendo nós, então, chorado as primeiras lágrimas de gentil-homem.

PASTOR — Ainda poderemos viver, filho, para chorar muitas mais.

BOBO — É certo; do contrário, seria verdadeira infelicidade, dada a nossa posição tão despropositada.

AUTÓLICO — Humildemente vos suplico, senhor, que me perdoeis todas as faltas cometidas em relação a Vossa Senhoria, e que vos digneis dizer a meu favor uma palavrinha ao príncipe, meu amo.

PASTOR — Peço-te, meu filho, que faças isso; precisamos mostrar-nos generosos, agora que somos gentis-homens.

BOBO — Prometes que te corrigireis?

AUTÓLICO — Sim, com a permissão de Vossa Senhoria.

BOBO — Dá-me a mão; vou jurar ao príncipe que tu és um sujeito tão honesto como quem quer que o seja na Boêmia.

PASTOR — Poderás dizer isso, porém sem jurar.

BOBO — Não jurar, agora que sou gentil-homem? Camponeses e burgueses que se contentem em falar; eu, hei de jurar.

PASTOR — E se for falso?

BOBO — Por mais falso que seja, um gentil-homem poderá afirmar em juramento, quando se trata de favorecer a um amigo. Vou jurar ao príncipe que tu és bom de mãos e que não te embriagas, ainda que eu saiba que não és de mão muito boa e que te embriagas. Mas hei de jurá-lo, desejando que sejas muito bom de mãos.

AUTÓLICO — Hei de esforçar-me para sê-lo, senhor, quanto em mim estiver.

BOBO — Sim, prova-me isso por todas as maneiras. Se eu não me admirar de tu ousares embriagar-te sem seres bom de mãos, nunca mais acredites em mim. Escutai! Os reis e os príncipes, nossos parentes, vão indo ver a estátua da rainha. Vamos; acompanha-nos; seremos bons para ti.

(Saem.)

Cena III

O mesmo. Uma capela em casa de Paulina. Entram Leontes, Políxenes, Florizel, Perdita, Camilo, Paulina, nobres e séquito.

LEONTES — Quanto consolo, minha boa e digna Paulina, estou a dever-te!

PAULINA — Se por vezes, meu soberano, errei, não foi por gosto. Todos os meus serviços sempre foram compensados de sobra. Mas o fato, senhor, de não vos terdes dedignado, com vosso irmão coroado e os dois herdeiros, de visitar a minha pobre casa, é excesso de bondade que impossível em toda a vida me será pagar-vos.

LEONTES — Oh Paulina! Só incômodo vos damos com a honra que dizeis. Mas aqui viemos, para a estátua admirar de nossa esposa. Atravessamos vossas galerias não sem grande prazer, proporcionado pela vista de tantas raridades que nela se contêm; mas ainda falta ver o que minha filha tanto almeja: a estátua da mãe dela.

PAULINA — Assim como ela não teve em vida quem se lhe igualasse, do mesmo modo, creio, sua imagem inanimada excede tudo quanto pela mão do homem foi jamais criado. Eis a razão de a conservar à parte. Aqui está ela. Agora preparai-vos para ver como a vida simulada zomba da própria vida, como nunca da morte o sono o fez. Ei-la! Mirai-a e dizei que é perfeita! (Paulina afasta uma cortina, deixando ver Hermíone, em posição de estátua.) Esse silêncio diz bem de vosso espanto; isso me agrada. Mas dizei qualquer coisa. Vós, primeiro, meu soberano; não é mais ou menos parecida?

LEONTES — Tal qual como era em vida. Não me censures, pedra idolatrada, se eu disser que és realmente a minha Hermíone. Não, sem me censurares é que és ela, que sempre foi tão branda como a própria infância, como a graça. Mas, Paulina, Hermíone não tinha tantas rugas; não tinha a idade que aparenta agora.

POLÍXENES — Oh! muito menos!

PAULINA — Tanto mais nos forçam à admiração os méritos do artista, que a fez envelhecer dezesseis anos, plasmando-a como se hoje ela vivesse.

LEONTES — Como podia estar ainda, tanto para minha alegria, quanto agora me punge o coração. Oh! Desse mesmo modo ela estava, com igual aprumo de nobre majestade — vida quente, que ora o calor perdeu — quando a primeira declaração lhe fiz. Oh! envergonho-me! A pedra não irá lançar-me em rosto que mais pedra do que ela ora eu pareço? O real obra-prima! Há força mágica em tua majestade, que me evoca neste momento todos os meus crimes e priva minha filha estarrecida da vida dos sentidos, transformando-a em pedra, como tu.

PERDITA — Oh! Permiti-me, sem me tachardes de supersticiosa, que eu me ponha de joelho e bênção peça. Senhora, soberana mui querida, que vos finastes quando eu vim ao mundo, dai-me a mão, porque a beije!

PAULINA — Oh! mais paciência! A estátua foi concluída há pouco tempo; as cores ainda não estão bem secas.

CAMILO — Meu senhor, vossa dor tem sido grande todo esse tempo. Dezesseis invernos não a apagaram; dezesseis estios não puderam secá-la. Nunca vive tanto a alegria; em muito menos tempo qualquer outra tristeza se matara.

POLÍXENES — Permiti, caro irmão, que quem foi causa de tudo isto, de seu poder se valha para de vós tirar parte da pena que a ele próprio acabrunha.

PAULINA — Com franqueza, meu senhor, se eu tivesse imaginado que vos abalaríeis tanto à vista de minha pobre estátua — pois a pedra me pertencia — não vo-la mostrara.

LEONTES — Não corras a cortina.

PAULINA — É conveniente não a verdes mais tempo; em vosso enlevo poderíeis pensar que ela se move.

LEONTES — Deixa! Deixa! Quisera estar sem vida, se morto eu já não parecesse há muito. Quem foi o autor da estátua? Vede, príncipe, não tendes a impressão de que respira? de que estas veias contêm mesmo sangue?

POLÍXENES — É uma obra-prima; nesses lábios pulsa mais quente a própria vida.

LEONTES — A fixidez do olhar tem movimento. Só parece que a arte zomba de nós.

PAULINA — Não; vou tapá-la. Tão abalado meu senhor se encontra que há de acabar pensando que ela vive.

LEONTES — Cara Paulina, deixa-me durante vinte anos na ilusão de que é assim mesmo. Toda a razão do mundo vale menos do que a ventura de uma tal insânia.

PAULINA — Causa-me pena, meu senhor, o ter-vos abalado a esse ponto. Poderia vos causar aflição mais acendrada.

LEONTES — Faze-o, Paulina. Essa aflição me sabe mais docemente que qualquer cordial. Mas sempre quer-me parecer que dela vero alento se evola. Mas quando houve quem na pedra gravasse o próprio anélito? Podem zombar de mim, mas vou beijá-la.

PAULINA — Perdão, meu soberano, mas a tinta dos lábios ainda não secou de todo; com vosso beijo iríeis retirá-la, sobre sujar-vos de óleo da pintura. Puxo a cortina?

LEONTES — Não, nestes vinte anos.

PERDITA — Tanto tempo eu também ficara olhando-a.

PAULINA — Agora decidi-vos; ou da sala vos retirai já já, ou preparai-vos para maior assombro. Se puderdes olhar a estátua ainda, farei que ela se mova, desça e pela mão vos tome. Mas então heis de crer — o que protesto — que algum poder perverso me auxilia.

LEONTES — Verei contente tudo o que mandares que ela faça, e ouvirei também de grado quanto ela me disser, pois é tão fácil fazer que fale, como que se mexa.

PAULINA — É preciso ter fé. Silêncio agora! Ninguém se mexa, salvo se há quem pense que o que eu vou praticar é condenável. Esse que se retire.

LEONTES — Continua;ninguém sairá daqui.

PAULINA — Desperta-a, música! (Música.) Cessai de ser de pedra! É tempo. Vinde! Tocai em todos que vos olham, cheios de admiração. Descei; deixarei cheio vosso sepulcro. Sim, aproximai-vos! Legai à morte esse torpor, que a vida já vos libertou dela. Vede-a; move-se. (Hermíone desce do pedestal.) Não vos mostreis estupefactos; todos seus atos são sagrados, como foram lícitos meus conjuros. Recebei-a; do contrário, faríeis que morresse, o que fora matá-la duas vezes. A mão lhe dai; já a corte lhe fizestes, quando éreis moço. Mas agora, idoso, ela é que vos corteja.

LEONTES (abraçando Hermíone) — Oh! Está quente! Se magia for tudo, seja uma arte tão lícita como o ato de comer.

POLÍXENES — Ela o beijou.

CAMILO — Prendeu-se-lhe ao pescoço. Se está viva, que fale.

POLÍXENES — E nos declare onde viveu até hoje e como à morte conseguiu escapar.

PAULINA — Se vos tivessem dito que ela vivia, certamente riríeis como de uma história antiga; mas que vive é evidente, embora ainda não nos tenha falado. Um momentinho, por obséquio. Formosa senhorita, é tempo de intervirdes. Ajoelhai-vos. Boa senhora, ouvi: nossa Perdita foi encontrada. (Paulina apresenta Perdita, que se ajoelha diante de Hermíone.)

HERMÍONE — Ó deuses, contemplai-nos, e de vossas crateras consagradas derramai graças sobre minha filha! Dize-me, cara, como te salvaste? Onde viveste até hoje? De que modo pudeste achar a casa de teu pai? Pois devo te dizer que, tendo ouvido de Paulina que o oráculo nos dera esperança de seres encontrada, deixei-me ficar viva, porque visse como isso acabaria.

PAULINA — Para tanto, tempo haverá de sobra. Do contrário, perturbareis com vossa narrativa a grande dita de hoje. Ora reuni-vos, vós todos que lucrastes neste dia, e aos demais transmiti vossa ventura, enquanto eu, pobre rola envelhecida, subirei para algum mirrado galho, para chorar o esposo que nunca há de retornar para mim, aí deixando-me ficar até morrer.

LEONTES — Oh! não, Paulina! De minha mão receberás marido, como eu de ti a esposa. Isso é um contrato que entre juras firmamos. Devolveste-me a minha. Como a achaste... eis o problema; pois eu a vi, ao parecer, defunta, e em vão rezei em sua sepultura. Não terei precisão de ir muito longe — pois em parte conheço os sentimentos dessa pessoa — para achar um digno marido para ti. Camilo, adianta-te, e pela mão a toma, pois seu mérito e sua honestidade são notórios e por dois reis agora confirmados. Saiamos da capela. Como! Os olhos dirige ao meu irmão. Perdão vos peço, por haver posto meu molesto ciúme entre vossos olhares inocentes. Eis vosso genro, filho de um monarca, que por disposição do céu se torna de vossa filha noivo. Generosa Paulina, leva-nos daqui, para onde possamos com vagar interrogar-nos e responder sobre o papel que todos representam no intervalo grande que se escoou desde a época remota em que nos separamos. Vai na frente.

(Saem.)

Fonte: www.dominiopublico.gov.br

 

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