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Conto de Inverno

William Shakespeare

Personagens

LEONTES, Rei da Sicília.
MAMÍLIO, jovem Príncipe da Sicília.
CAMILO, nobre da Sicília.
ANTIGONO, nobre da Sicília.
CLEÓMENES, nobre da Sicília.
DION, nobre da Sicília.
POLÍXENES, Rei da Boêmia.
FLORIZEL, seu filho.
ARQUÍDAMO, um nobre da Boêmia.
UM MARINHEIRO.
UM CARCEREIRO.
UM VELHO PASTOR, pai putativo de Perdita.
O BOBO, seu filho.
Um criado do velho pastor.
AUTÓLICO, um mariola.
HERMÍONE, esposa de Leontes.
PERDITA, filha de Leontes e de Hermíone.
PAULINA, esposa de Antígono.
EMÍLIA, uma dama, do serviço da rainha.
Outras damas, do serviço da rainha.
MOPSA, Pastora.
DORCAS, Pastora.
Nobres e damas da Sicília, criados, guardas, sátiros, pastores, pastoras, etc.
O Tempo, como coro.

ATO I
Cena I

Antecâmara do palácio de Leontes. Entram Camilo e Arquídamo.

ARQUÍDAMO — Se alguma vez, Camilo, tiverdes oportunidade de visitar a Boêmia, em missão idêntica à que me trouxe aqui, vereis, como disse, a grande diferença que existe entre nossa Boêmia e vossa Sicília.

CAMILO — Creio que no próximo verão o Rei da Sicília pretende pagar ao Rei da Boêmia a visita que lhe deve.

ARQUÍDAMO — Então, a nossa hospitalidade nos vai deixar envergonha dos, mas o nosso amor nos justificará, porque...

CAMILO — Suplico-vos...

ARQUÍDAMO — É verdade; falo com conhecimento de causa. Não nos será possível, com tanta magnificência... uma tão rara... Não sei como expressar-me. Teremos de dar-vos alguma bebida soporífica, para que vossos sentidos, não percebendo nossa insuficiência, ainda que não nos possam elogiar, pelo menos não nos censurem.

CAMILO — Avaliais muito alto o que vos dado de boa vontade.

ARQUÍDAMO — Podeis crer que falo de acordo com meu entendimento e como impõe a honestidade.

CAMILO — Com relação à Boêmia, Sicília nunca poderá mostrar excesso de amabilidade. O Rei da Sicília e o da Boêmia passaram juntos a mocidade, tendo entre eles a amizade criado tão profundas raízes, que não poderá deixar de produzir galhos. Desde que a compostura da idade viril e as obrigações reais os separaram, suas relações, ainda que não diretas, têm sido mantidas regiamente por meio de mimos, cartas e em baixadas amistosas, de forma que pareciam continuar juntos, embora es tivessem separados e que se apertavam as mãos por sobre um grande abismo e se abraçavam dos confins dos ventos contrários. Que o céu conserve essa amizade.

ARQUÍDAMO — Penso que não há no mundo malícia nem pretexto que possam modificá-la. Vosso jovem Príncipe Mamílio vos proporciona me fável satisfação não conheço gentil-homem de maiores esperanças.

CAMILO — Nesse ponto, concordo convosco; é uma criança admirável, que cura, realmente, seus sdditos e deixa vigorosos os corações envelhecidos. As pessoas que já usavam muletas antes do seu nascimento, ainda querem viver para vê-lo homem feito.

ARQUÍDAMO — E a não ser por esta razão, morreriam de grado?

CAMILO — Sim, no caso de não terem outra desculpa para quererem viver mais tempo.

ARQUÍDAMO — Se o rei não tivesse filho eles desejariam continuar vivendo até que lhe nascesse um.

Cena II

O mesmo. Um quarto de Estado no palácio.Entram Leontes, Políxenes, Hermíone, Mamílio, Camilo e séquito.

POLÍXENES — Já serviu de sinal por nove vezes o úmido astro ao pastor, dês que deixamos sem fardo nosso trono. Igual espaço de tempo, caro mano, deveríamos encher com nossos agradecimentos, mas como vosso devedor perpétuo, ainda assim, nos partíramos. Por isso, tal como um zero em ponto vantajoso, multiplico por um “muito obrigado” todos os que antes dele se encontrarem.

LEONTES — Deixai de lado os agradecimentos por algum tempo, para no-los dardes no instante da partida.

POLÍXENES — Amanhã mesmo, senhor, há de ser isso. Inquieto deixam-me os meus receios sobre o que é possível germinar ou nascer em nossa ausência. Não sopre em casa vento algum maligno, que me faça dizer: “Os meus temores eram justificados” Além disso, já cansei por demais Vossa Realeza.

LEONTES — Nosso vigor, querido mano, pode opor-se a mais do que isso.

POLÍXENES — É-me impossível ficar mais tempo.

LEONTES — Uma semana, ao menos.

POLÍXENES — Não; impossível; amanhã.

LEONTES — O tempo dividamos, então, sem que eu aceite, desta vez, objeções.

POLÍXENES — Não insistais, por favor, assim tanto. Voz nenhuma, no mundo inteiro, sim, me poderia convencer como a vossa, o que sem dúvida agora se daria, caso houvesse qualquer motivo urgente em vossos rogos e em mim fortes razões para esquivar-me. Meus negócios me atraem para casa; se insistirdes comigo, me castiga vossa amizade. Minha permanência vos é pesado fardo, a um tempo, e incômodo. Para obviar a ambos, mano, despeçamo-nos.

LEONTES — Emudeceu minha rainha, acaso? Dizei alguma coisa.

HERMÍONE — Tencionava, senhor, ficar calada até que houvésseis dele arrancado o juramento explícito de que não ficará. Tentais vencê-lo com frieza excessiva. Declarai-lhe que tendes a certeza de que tudo na Boêmia está bem, como o proclamam as novas recebidas ontem mesmo. Falai-lhe assim, porque dessa maneira o batereis, no seu melhor reduto.

LEONTES — Muito bem dito, Hermíone.

HERMÍONE — Se acaso tivesse dito que quer ver o filho, fora razão de peso. Ele que o jure; depois deixa-o partir. Ele que o jure, que aqui não ficará, pois haveremos de tocá-lo com nossas próprias rocas. (A Políxenes.) Ora a pedir me atrevo uma semana de vossa real presença. Ao visitar-vos na Boêmia meu senhor, dar-lhe-ei licença para ficar um mês além do prazo marcado para a volta, embora, Leontes, não te ame menos uma pancadinha de relógio do que qualquer esposa que acate seu marido. Resolvestes ficar?

POLÍXENES — Senhora, não.

HERMÍONE — Sim, ficareis.

POLÍXENES — Em verdade, é impossível.

HERMÍONE — Em verdade? Escusais-vos com juras muito fracas. Mas embora com vossos juramentos das esferas os astros arrancásseis, eu vos diria: ”Não, senhor, é inútil falardes em partir.” De forma alguma. Esse “de forma alguma” pronunciado por uma dama é tão potente como se dito por um rei. Não resolvestes ainda? Então, forçada sou a deter-vos como meu prisioneiro, não como hóspede. Pagareis, desse modo, ao vos partirdes, vossa estada entre nós sem esbanjardes os agradecimentos. Que dizeis? Hóspede ou prisioneiro? Pelo vosso terrível “em verdade” é inevitável: tereis de ser um ou outro.

POLÍXENES — Então, vosso hóspede, senhora, pois ser vosso prisioneiro, para mim fora ofensa mais difícil de cometer, que para vós puni-la.

HERMÍONE — Não serei carcereira, então, mas vossa hospedeira bondosa. Vamos; quero dirigir-vos perguntas sobre todas as peraltices que com meu marido fizestes quando crianças. Ambos éreis, de certo, nobrezinhos mui galantes.

POLÍXENES — Pois não, formosa soberana, moços que criam sempre ter diante de si dias em tudo iguais e que haveriam de ser sempre rapazes.

HERMÍONE — Meu mando, decerto, era, dos dois, o mais terrível.

POLÍXENES — Éramos como dois cordeiros gêmeos que um para o outro balavam, saltitantes ao sol, de tão contentes. Permutávamos nossa inocência apenas, inocência. A doutrina do mal desconhecendo, nem sequer conceber então podíamos que alguém a conhecesse. Se tivéssemos continuado a viver dessa maneira, sem que nossos espíritos ingênuos, pelo sangue levados, se exaltassem, com ousadia ao céu nos fora lícito responder: “Não culpados”, excetuando-se nossa herança mortal.

HERMÍONE — De onde concluímos que tropeçastes, desde então, por vezes.

POLÍXENES — Ó mui prezada dama! Desde essa época temos sido tentados, pois naqueles dias implumes, minha atual esposa ainda era bem menina, e não havia também vossa preciosa formosura caído sob as vistas do meu jovem camarada de jogo.

HERMÍONE — Deus nos guarde! Não tireis conclusões, que poderíeis chamar-me e a vossa esposa de demônios. Mas prossegui sem medo; respondemos pelos pecados que por nossa causa cometestes então, caso conosco, só, tivésseis pecado e só conosco persistísseis nesse erro, sem que houvésseis tido amores com outra até ao presente.

LEONTES — Convenceste-o?

HERMÍONE — Não partirá, senhor.

LEONTES — Recusou-se a ficar a meu pedido. Hermíone querida, nunca a ponto falaste como agora.

HERMÍONE — Nunca?

LEONTES — Nunca, tirante uma só vez.

HERMÍONE — É, então, verdade? Falei bem duas vezes? E a primeira, quando foi? Por obséquio, dize logo. Enche-me de elogios e me deixa tão gorda como as aves bem tratadas. A boa ação que morre sem encômios, mata milhares que esperavam isso. Nossa paga é o elogio. Por mil milhas com um beijo terno podereis levar-nos, sem que nos faça um passo andar a espora. Mas voltemos ao ponto de partida. Minha última ação boa foi pedir-lhe que ficasse. E a primeira? Se interpreto corretamente o que dizeis, aquela teve uma irmã mais velha. Oh! se seu nome fosse Graça! É, então, certo? Uma vez, antes, eu falei com propósito. Mas, quando? Oh! Permiti que o saiba! Estou ansiosa.

LEONTES — Ora, foi quando três azedas luas mui demoradamente se finaram, antes de eu conseguir que essa mão branca se abrisse e confirmasse o teu afeto, depois do que, em resposta, me disseste: “Sou vossa para sempre”.

HERMÍONE — Sim, foi graça. Falei bem duas vezes, não é certo? Uma, para alcançar o real esposo; outra, a fim de reter um pouco o amigo. (Estende a mão a Políxenes.)

LEONTES (à parte) — Muito quente! Muito quente! Unir as afeições de tal maneira, é unir, também, o sangue. Estou sentindo “tremor cordis”; o coração me dança, mas não é de alegria. O acolhimento pode ficar de rosto descoberto, condescender, até, em liberdade, por generosidade e exuberância, mesmo, do coração. Até aí, concedo. Mas baterem palminhas, beliscarem-se os dedos, como o fazem neste instante, permutarem sorrisos estudados, como em frente do espelho e, após, suspiros soltarem, como toque de buzina que a morte propalasse do veadinho... Oh! Tal acolhimento é-me contrário, visceralmente, ao peito e ao sobrecenho. Vem Mamílio; és meu filho?

MAMÍLIO — Sim, bondoso senhor.

LEONTES — Verdade? Então és meu fedelho. Quê? Sujaste o nariz? Todos afirmam que é igualzinho ao meu. Vem, capitão; precisamos ser limpos, capitão; nada devemos carregar na testa, conquanto a vaca, o boi e o bezerrinho passem por muito limpos. — Como! Ainda tocando virginal sobre as mãos dela? — Então, bezerro libertino? És mesmo meu bezerrinho, não?

MAMÍLIO — Se vos agrada tal coisa, meu senhor.

LEONTES — Para isso falta-te cabeça dura e as minhas excrescências. Ficarias como eu. Como dois ovos, dizem todos, nós somos. As mulheres é que o dizem... Precisam dizer algo. Mas embora tão falsas elas fossem como a cor preta de tintura nova, ou como o vento e as águas, e até os dados que o jogador cobiça, quando linha divisória entre o teu e o meu não traça: verdadeiro seria asseverarem que o menino comigo se parece. Senhor pajem, olhai-me com esses olhos da cor do céu. Meu vilãozinho, caro, caríssimo pedaço de mim mesmo! Tua mãe poderia... É, então, possível? Instinto, teus impulsos no alvo acertam; possível deixas o que nunca fora sequer imaginado; ajuda encontras até nos sonhos; vais achar aliado no próprio irreal e ao nada te associas. Depois te tornas crível, pois te juntas a alguma coisa. Agora fazes isso sem justificações, e o sinto fundo, pois o cérebro tenho envenenado e a fronte endurecida.

POLÍXENES — Que se passa com Sua Majestade da Sicília?

HERMÍONE — Parece preocupado.

POLÍXENES — Então, senhor? Como passais? Que tem o caro mano?

HERMÍONE — Dais a impressão de que na fronte tendes grande preocupação. Estais zangado?

LEONTES — Falando sério, não. Como é freqüente trair a natureza a sua própria loucura, seu desvelo, transformando-se em objeto de escárnio para os peitos endurecidos! Contemplando os traços do rosto de meu filho, pareceu-me recuar vinte e três anos no passado, vendo-me quando calça eu não usava, com meu casaco de veludo verde, a espada amordaçada, porque o dono não chegasse a morder, assim tornando-se — como com os ornamentos acontece — perigosa demais. Quão parecido, pensava então, eu era a este grãozinho, a este pirralho, a este cavalheiro! Honesto amigo, aceitaríeis ovos em lugar de dinheiro?

MAMÍLIO — Não, milorde; primeiro, brigaria.

LEONTES — Assim, valente? Desse modo, irás longe. Caro mano, sois tão ligado ao vosso jovem príncipe como nós parecemos ser ao nosso?

POLÍXENES — Senhor, em casa ele é meu passatempo, minha alegria, objeto de cuidados; ora amigo jurado, ora inimigo, parasita da corte, meu soldado, ministro, tudo, em suma. Deixa os dias de julho curtos como os de dezembro com seu gênio infantil sempre variável, curando-me de certos pensamentos que, de outro modo, o sangue me engrossaram.

LEONTES — No que me diz respeito, a mesma coisa se dá com este escudeiro. Agora vamos passear, senhor, e vos deixar com vossos pensamentos mais graves. Cara Hermíone, revela na acolhida a nosso mano todo o amor que nos votas. Que para ele fique barato quanto nós tivermos de caro aqui. Depois de ti e deste pequeno vagabundo, é ele, sem dúvida, quem mais de perto o coração me toca.

HERMÍONE — Se quiserdes achar-nos, estaremos às ordens no jardim. Vireis depressa?

LEONTES — Fazei como quiserdes; hei de achar-vos onde quer que estejais ao descampado. (À parte.) Agora estou pescando, muito embora eles não vejam como eu solto a linha. Muito bem! Muito bem! Como a boquinha ela para ele estende, ou melhor, o biquinho! E como ao braço dele se apóia com a desenvoltura das mulheres que têm marido dócil! (Saem Políxenes, Hermíone e o séquito.) Bem, já se foram. Lama até aos joelhos; excrescências acima das orelhas... Brinca, menino, brinca; tua mãe também está brincando. Eu também brinco, mas meu papel é tão ignominioso, que acabará com vaia no meu túmulo. Como dobre vou ter pateada e escárnio. Vai brincar, rapazinho; vai. Já houve antes de mim maridos enganados, se nisso não me iludo, como muitos deve haver, no momento em que isto falo, que a esposa ao braço levam, sem que a mínima suspeita de que houvesse ela as comportas aberto, permitindo que o vizinho do lado pescar viesse no seu tanque, sim, seu vizinho, o tal senhor Sorriso. Serve, até, de consolo, imaginarmos que outros homens também possuem portas que se abrem como as minhas, sem que os donos tenham vontade disso. Se os maridos de esposas infiéis desesperassem, enforcar-se-ia, certamente, a décima parte da humanidade. Não há cura para esse mal. Influência é de um planeta lascivo, que revela seus efeitos onde é predominante, parecendo-me que a leste, a oeste, ao norte e ao sul tem força. Em conclusão: não pode haver barreiras que a entrada a um ventre impeçam. Ficai certos do seguinte: o inimigo elas permitem sair e entrar com armas e bagagens. Milhares dentre nós sofrem da doença, sem que suspeitem disso. Então, menino?

MAMÍLIO — Pareço-me convosco, dizem todos.

LEONTES — Isso consola. Quê! Camilo aqui?

CAMILO — Sim, meu senhor.

LEONTES — Mamílio, vai brincar; és honesto. (Sai Mamílio.) Camilo, este importante senhor vai demorar.

CAMILO — Muito trabalho tivestes para que a âncora pegasse; escapulia sempre que a jogáveis.

LEONTES — Observaste isso?

CAMILO — Às vossas insistências não queria ceder, sempre alegando negócios de importância.

LEONTES — Percebeste-o? (À parte.) Já se fala baixinho a meu respeito: “O soberano da Sicília é um...” Custou-me percebê-lo. — Por que causa, ele ficou, Camilo?

CAMILO — Ante as instâncias da bondosa rainha.

LEONTES — Da rainha, poderá ser; “bondosa”, fora certo; mas, sendo o que é, não é. Compreendeu isso outra cabeça astuta além da tua? Pois teu entendimento chupa, absorve mais que os blocos comuns. Terá sido isso notado só por naturezas raras, por alguns indivíduos de cabeça mais do que extraordinária, sendo o vulgo cego, talvez, para essas coisas? Dize.

CAMILO — Que coisas, meu senhor? Penso que todos são de pensar que o Rei da Boêmia espicha demais sua visita.

LEONTES — Como?

CAMILO — Espicha demais sua visita.

LEONTES — Bem; e a causa?

CAMILO — Para satisfazer Vossa Grandeza e aos pedidos de nossa mui graciosa soberana.

LEONTES — Satisfazer! É boa. De vossa soberana? É quanto basta. Até agora, Camilo, te confiava não somente segredos que me tocam de perto o coração, como os de Estado, e, como sacerdote, me aliviavas o peito. Como penitente absolto de ti sempre partíamos. Mas fomos iludidos com tua integridade, ou com a que como tal considerávamos.

CAMILO — Deus não o queira, senhor!

LEONTES — Para de novo dizer-te o meu pensar: não és honesto, ou, se para isso fores inclinado, és um covarde que o jarrete cortas, por trás, à honestidade, de seu curso natural impedindo-a. Ou te devo considerar um servo que na minha confiança calou mui profundamente e, por isso, relapso, ou como um tolo que observa o jogo que se faz em casa, nota o ganho excessivo e toma tudo como simples pilhéria.

CAMILO — Meu gracioso senhor, eu posso ser relapso, tolo, medroso, se o quiserdes, falhas essas de que ninguém pode julgar-se isento, para afirmar que nunca, em meio aos fatos infinitos do mundo, houvesse sido medroso, tolo ou mesmo negligente. Se alguma vez, senhor, cons­cien­te­men­te negligenciei no que se relaciona aos vossos interesses, foi tolice de minha parte; se papel de tolo consciente fiz, foi minha negligência que teve a culpa, por haver deixado de pensar até ao fim nas conseqüências; e se medroso me mostrei, por vezes, de fazer algo cujo resultado me parecia incerto, revelando-se o plano não isento de perigo, era isso um medo de que os mais sisudos nem sempre se livraram. Essas falhas, senhor, são permitidas, sendo certo que a própria honestidade delas sofre. Mas seja Vossa Graça mais explícito, mostrando-me de frente minhas falhas; se eu as negar, é que não me pertencem.

LEONTES — Nunca viste, Camilo — mas não pode haver sobre isso dúvida; seria preciso que tivesses as janelas dos olhos mais compactas do que os cornos de marido enganado — ou nunca ouviste — pois ante um fato desses, tão visível, não fica mudo o boato — ou não pensaste — pois quem não pensa nisso é destituído de reflexão — que minha esposa é infiel? Confessa-o logo — a menos que te insurjas com impudência contra os próprios olhos, os ouvidos e o juízo — e me declara que minha esposa é uma prostituta e que merece o nome vergonhoso que às fiandeiras de linho sempre damos, por se entregarem antes do consórcio. Vamos, confirma tudo.

CAMILO — Não; jamais diante de mim ninguém insultaria minha nobre senhora desse modo, sem que vingança, logo, eu não tomasse. Maldito eu tenha o coração, mas nunca dissestes nada mais de vós indigno do que neste momento. Insistir nisso, fora pecado mais hediondo ainda do que aquele, se fosse verdadeiro.

LEONTES — E o falar baixo, nada representa? Encostarem-se as faces? os narizes? beijarem-se nos lábios? com um suspiro interromper o curso de um sorriso — prova infalível de infidelidade — encontrarem-se os pés, andarem sempre pelos cantos, quererem que os relógios fossem menos morosos, que os minutos fossem horas, o dia, noite escura? E todo o mundo — menos eles, claro; excetuando-se os dois — com catarata nos olhos, para que pecar pudessem sem ninguém o notar... Tudo isso é nada? Então é nada o mundo todo e tudo que nele se contém; o céu é nada, Boêmia é nada, minha esposa é nada, são nada todos esses nadas, caso for nada quanto passa.

CAMILO — Meu bondoso senhor, curai-vos sem demora dessas fantasias doentias; quase sempre são muito perigosas.

LEONTES — Dize: é certo.

CAMILO — Não, não, senhor!

LEONTES — É certo; estás mentindo. Torno a dizer, Camilo: estás mentindo. Odeio-te! Confessa que não passas de um rústico grosseiro, de um escravo negligente, e até mesmo de um tranqüilo contemporizador que a vista lanças indiferente para o bem e o mal, propenso a aceitar ambos. Se tivesse minha mulher o fígado infectado como sua própria vida, nem uma hora viveria ela agora.

CAMILO — Quem lhe causa semelhante infecção?

LEONTES — Quem? Justamente quem a usa tal qual uma medalha pendente do pescoço: o Rei da Boêmia. Se eu tivesse comigo servidores de confiança, com olhos, a um só tempo, para ver minha honra e seu proveito, para vantagem própria, ora fariam algo que desfaria muita coisa. Sim, tu, seu escanção — que de uma humilde condição eu tirei, grande fazendo-te, e podes ver, mais claramente, ainda, do que o céu vê a terra e a terra o céu, como sou ultrajado — poderias temperar a bebida numa copa que para o meu amigo resultasse um sono duradouro. Tal mistura me fora um cordial.

CAMILO — Senhor, meu príncipe, é certo: eu poderia fazer isso, sem recorrer, até, a essas bebidas de ação muito violenta, mas valendo-me de um licor vagaroso, que não age com a visível malícia dos venenos. Mas crer não posso que haja semelhante mácula em minha augusta e alta senhora, tão soberanamente honrada e digna. Sempre te amei...

LEONTES — Se acaso ainda o duvidas, que a peste te carregue. Então me julgas tão mal equilibrado, a tal extremo perturbado que, sem necessidade, me forje esses tormentos? Sujar queira a pureza, a brancura de meu leito que, sem isso, repouso me aprestara, mas, manchado, é aguilhão, espinho, urtiga, ferrão de abelhas? Infamar quisesse o sangue deste príncipe, meu filho, que eu amo como meu e que presumo seja realmente meu? Será possível que eu fizesse tudo isso? Há alguém tão louco?

CAMILO — Sou forçado, senhor, a dar-vos crédito. Creio no que dizeis. O Rei da Boêmia vai desaparecer, ficando assente, no entanto, que, uma vez ele afastado, receberá de novo Vossa Alteza, como antes, a rainha, se não fosse por outra causa, por amor ao príncipe, mas também para pôr cobro na língua dos maldizentes das vizinhas cortes onde tendes amigos ou aliados.

LEONTES — Teu conselho coincide justamente com o que eu comigo mesmo decidira. Disso sua honra não sairá manchada.

CAMILO — Meu soberano, saí, portanto, e com fisionomia tão prazenteira como só a amizade mostra em dia festivo, tratai sempre o Rei da Boêmia e vossa alta senhora. Eu sou o escanção dele; se bebida salutar eu lhe der, excluí-me logo do número de vossos servidores.

LEONTES — É tudo; se o fizeres, a metade terás do coração que aqui me bate; caso contrário, o teu terás partido.

CAMILO — Fá-lo-ei, senhor.

LEONTES — Hei de mostrar-me afável, como me aconselhaste. (Sai.)

CAMILO — Oh mulher infeliz! Mas qual é a minha situação? É preciso que eu propine veneno ao bom Políxenes, não tendo razão para isso, afora a obediência que devo ao meu senhor, o qual, achando-se em rebelião consigo mesmo, exige de seus homens idêntica atitude. Promovido serei se fizer isso. Mas ainda que eu achasse mil exemplos de pessoas que, tendo da existência privado o ungido do Senhor, levassem depois vida feliz, não no faria. Mas já que a pedra, o pergaminho e o bronze um só exemplo disso não nos contam, que a própria vilania o repudie. Preciso, pois, abandonar a corte. Faço-o... Não o faço... De qualquer maneira quebrarei o pescoço. Os passos guia-me, feliz estrela! O Rei da Boêmia chega.

(Entra Políxenes.)

POLÍXENES — É estranho! É muito estranho! Só parece que meu favor aqui está em declínio. Não me falar! Ora essa! Boa-tarde, Camilo.

CAMILO — Salve, muito real senhor.

POLÍXENES — Que novidades há na corte?

CAMILO — Nada particular, senhor.

POLÍXENES — Pelo semblante do rei dir-se-ia que ele uma província perdeu ou alguma terra que estimasse tanto como a si mesmo. Neste instante o encontrei, e o saudei como de hábito. Mas ele a vista desviando e os lábios contraindo num gesto de desprezo, afastou-se depressa, a sós deixando-me a pensar no que pode estar em curso para causar alteração tão grande.

CAMILO — Não me atrevo a sabê-lo, meu senhor.

POLÍXENES — Quê! Não vos atreveis? Sabeis de tudo, e não vos atreveis a revelar-mo? O caso é assim, porque para vós mesmo o que sabeis contais, sem responderdes que não vos atreveis. Meu bom Camilo, vosso rosto alterado ora me serve de espelho em que também mudados vejo meus traços fisionômicos. Forçoso, pois, é que eu tenha alguma parte nisso, para me ver assim tão transtornado.

CAMILO — Uma doença atacou alguém na corte, mas não posso nomeá-la; foi pegada de vós, que, no entretanto, estais sadio.

POLÍXENES — Como! Pegou de mim? Mas certamente não me fareis possuidor da vista do basilisco. Olhei para milhares de pessoas, que muito prosperaram por esse fato, sem causar a morte de ninguém só por isso. Bom Camilo, sois, sem dúvida alguma, um gentil-homem e, além do mais, instruído — o que à nobreza serve de adorno não menor que o nome de nossos genitores, cujo brilho nos serve de elevar — instantemente vos suplico se acaso sabeis algo de que eu precise ter conhecimento, não o deixeis permanecer oculto nas prisões da ignorância.

CAMILO — Responder-vos não me é possível.

POLÍXENES — Transmiti doença e me acho tão sadio? Não; preciso obter uma resposta. Estás me ouvindo, Camilo? Ora conjuro-te, por tudo quanto a honra pode permitir a um homem — não sendo a menor parte este pedido — que me esclareças tuas conjeturas acerca da desgraça não visível que para mim se esgueira. Ainda está longe? Já vem próxima? Como preveni-la? Ou então, de que maneira suportá-la?

CAMILO — Vou contar-vos, senhor, o que se passa, pois intimado fui em nome da honra por quem honrado eu julgo. Ouvi, portanto, meu conselho, que deve ser seguido no mesmo instante em que o tiver exposto; se não, só restará para nós ambos gritar “Perdidos” e nos dar boa-noite.

POLÍXENES — Fala, então, bom Camilo.

CAMILO — Estou incumbido por ele de matar-vos.

POLÍXENES — Ele quem, Camilo.

CAMILO — O rei.

POLÍXENES — E a causa?

CAMILO — Ele presume, não, jura com inteira segurança, como se o houvesse visto ou sido o ferro que vos tivesse atarraxado nisso, que tocastes por modo criminoso na rainha sua esposa.

POLÍXENES — Que em geléia pútrida se me altere o melhor sangue e que meu nome sob o jugo fique lado a lado do que traiu o Altíssimo, que meu nome ilibado, de tal modo podre se torne que, onde quer que eu chegue, cause nojo aos narizes mais obtusos; que de minha presença todos fujam, não, que todos a temam mais ainda do que a peste mais grave de que se haja falado ou dado a conhecer por livros.

CAMILO — No que respeita ao pensamento dele, poderíeis jurar pelas estrelas do céu, uma por uma, e seus influxos, mas o mesmo seria pretenderdes proibir que o mar à lua não seguisse, como o edifício sacudir de sua loucura, de alicerces assentados na crença inabalável e que vida terá tanto quanto ele.

POLÍXENES — De que modo nasceu tudo isso?

CAMILO — Ignoro-o. Mas certeza tenho completa de que é preferível fugir das conseqüências dessa idéia, a procurar saber como nasceu. Assim, no caso de confiança terdes em minha honestidade — que heis de logo levar como penhor — fugi esta noite. Secretamente contarei aos vossos seguidores o que há, providenciando para que saiam da cidade em grupos de dois ou três, apenas, por poternas de meu conhecimento. Enquanto a mim, junto de vós irei tentar a sorte, por esta confissão, aqui perdida. Não vacileis; pela honra dos meus entes mais queridos, contei-vos a verdade. Não me é possível esperar, no caso de quererdes mais provas, pois o risco correis de quem se achasse condenado pelo próprio monarca e cuja morte jurada já estivesse.

POLÍXENES — Creio em tudo; o coração no rosto ele mostrava. Dá-me a mão; de piloto ora me serve, que vizinho do meu será teu posto. Meus navios já se acham preparados e há dois dias meus homens só me esperam para partirmos. Este ciúme atinge pessoa mui preciosa. Será forte quão valiosa ela for, e tão violento quanto o marido for mais poderoso. Pensando que se encontra desonrado por quem lhe dedicara sempre afeto, com mais furor há de querer vingar-se. O medo me conturba. Feliz viagem, sê minha amiga e de consolo serve à graciosa rainha, alvo de suas suspeitas infundadas, mas sem parte nenhuma ter em nada. Vamos logo, Camilo. Como pai hei de acatar-te, se a vida me salvares. Estou pronto.

CAMILO — Minhas atribuições me facilitam as chaves das poternas. Saiba Vossa Grandeza aproveitar-se da hora urgente. Vamos, senhor! Depressa!

(Saem.)

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