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Coriolano

William Shakespeare

PERSONAGENS

CAIO MÁRCIO, depois Caio Márcio Coriolano.
TITO LÁRCIO, General contra os volscos.
COMÍNIO, General contra os volscos.
MENÊNIO AGRIPA, amigo de Coriolano.
SICÍNIO VELUTO, Tribuno do povo.
JÚNIO BRUTO, Tribuno do povo,
O jovem Márcio, filho de Coriolano.
Um arauto romano.
Tulo Aufídio, general dos volscos.
Tenente de Aufídio.
Conspiradores com Aufídio.
Nicanor, um romano.
Um cidadão de Ântio.
Adriano, um volsco.
Dois guardas volscos.
VOLÚMNIA, mãe de Coriolano.
VERGÍLIA, mulher de Coriolano.
VALÉRIA, amiga de Vergília.
Damas, ao serviço de Vergília.
Senadores romanos e volscos, patrícios, edis, lictores, soldados, cidadãos, mensageiros, criados de Aufídio e outros servidores.

ATO I
Cena I

Entra um grupo de cidadãos amotinados, com bastões, varas e outras armas.

PRIMEIRO CIDADÃO — Antes de irmos adiante, ouvi-me.

TODOS — Falai! Falai!

PRIMEIRO CIDADÃO — Estais mesmo decididos a morrer, de preferência a passar fome?

TODOS — Estamos! Estamos!

PRIMEIRO CIDADÃO — Inicialmente, sabeis que Caio Márcio é o principal inimigo do povo.

TODOS — Sabemos! Sabemos!

PRIMEIRO CIDADÃO — Matemo-lo, portanto, e teremos trigo pelo preço que bem entendermos. Resolvido?

TODOS — A esse respeito, nem mais uma palavra. Passemos à ação. Vamos! Vamos!

SEGUNDO CIDADÃO — Uma palavra, bons cidadãos.

PRIMEIRO CIDADÃO — Somos tidos na conta de cidadãos pobres; só os patrícios é que são bons. O que deixa fartos os dirigentes bastaria para aliviar-nos. Se nos cedessem apenas as sobras deles, que ainda estivessem em boas condições, poderíamos imaginar que eles nos aliviavam humanamente. Mas acham que somos por demais caros. A magreza que nos aflige, retrato de nossa miséria, é como que o inventário minucioso da riqueza de todos eles. Para eles nosso sofrimento é lucro. Vinguemo-nos, portanto, com nossos bastões, antes de ficarmos reduzidos a ripas; pois os deuses sabem que o que me faz dizer isso é a fome de pão, não a sede de vingança.

SEGUNDO CIDADÃO — Quereis agir especialmente contra Caio Márcio?

PRIMEIRO CIDADÃO — Contra ele em primeiro lugar; é um verdadeiro cão para o povo.

SEGUNDO CIDADÃO — Já pensastes nos serviços que ele prestou ao país?

PRIMEIRO CIDADÃO — Perfeitamente, e com muito gosto lhe faria por isso boas referências; mas ele se apaga com o próprio orgulho.

SEGUNDO CIDADÃO — Ora! falai sem maldade.

PRIMEIRO CIDADÃO — É o que vos digo. O que ele fez de glorioso foi apenas para esse fim. Muito embora as pessoas de consciência delicada possam dizer com suficiência que ele fez tudo isso pela pátria, fê-lo para agradar a mãe e por causa do seu próprio orgulho, que, sem dúvida, vai de par com seu merecimento.

SEGUNDO CIDADÃO — Considerais vício nele o que é inerente à sua natureza. Pelo menos não podereis dizer que ele seja cúpido

PRIMEIRO CIDADÃO — Se não posso dizê-lo, nem por isso fico sem acusações contra ele. Tem defeitos de sobra, que cansaria enumerar. (Gritos ao longe.) Que gritos serão esses? O outro lado da cidade já se revoltou. E nós que fazemos aqui, a tagarelar? Ao Capitólio!

TODOS — Vamos! Vamos!

PRIMEIRO CIDADÃO — Silêncio! Quem vem aí?

(Entra Menênio Agripa.)

SEGUNDO CIDADÃO — É o digno Menênio Agripa. Sempre se mostrou amigo do povo.

PRIMEIRO CIDADÃO — É muito honesto. Quem nos dera que todos fossem como ele.

MENÊIO — Que tendes, meus concidadãos, em mira? Para onde ides com paus e cachaporras? Que se passa? Dizei-me, por obséquio.

PRIMEIRO CIDADÃO — Nossa causa não é desconhecida do senado; nestes quinze dias eles já farejaram o que pretendemos fazer e que vamos mostrar-lhes agora com os próprios fatos. Eles dizem que os suplicantes pobres têm fôlego comprido; mas hão de ver que nossos braços também são compridos.

MENÊIO — Mestres, caros amigos, bons vizinhos, quereis arruinar-nos?

PRIMEIRO CIDADÃO — Isso não será possível, senhor; já estamos arruinados.

MENÊIO — Acreditai-me, amigos: os patrícios têm por vós todos a mais caridosa solicitude. Com respeito a vossas necessidades e o que estais sofrendo com essa carestia, tanto vale bater no céu com todas essas armas, como jogá-las no romano Estado, que seguirá seu curso, arrebentando dez mil freios mais fortes do que quanta resistência pudésseis antepor-lhe. No que respeita à carestia — os deuses, não os patrícios, são seus causadores — remédio lhe virá de vossos joelhos, não dos braços. Oh céus! Fostes levados pela calamidade aonde maiores, ainda, vos esperam. Caluniastes os pilotos do Estado, que de todos vós cuidam como pais, sempre zelosos, enquanto os insultais como a inimigos.

PRIMEIRO CIDADÃO — Cuidam de nós? Muito certo, realmente! Nunca se incomodaram conosco; deixam-nos morrer de fome, enquanto seus celeiros estão abarrotados de trigo; promulgam editos sobre a usura, para favorecerem os onzeneiros; revogam diariamente dispositivos estabelecidos contra os ricos e promulgam todos os dias estatutos cada vez mais vexatórios, para encadear e oprimir o povo. Se as guerras não nos devorarem antes, eles o farão. É esse todo o amor que revelam a nosso respeito.

MENÊIO — De duas uma: ou confessais que sois muito maldosos, ou tolos por demais. Vou relatar-vos uma fábula muito interessante. Decerto a conheceis; mas como serve muito bem a meus fins, vou arriscar-me a contá-la de novo.

PRIMEIRO CIDADÃO — Muito bem; vamos ouvi-la, senhor; mas não vades imaginar que podereis chasquear de nossa miséria com uma fabulazinha qualquer. Não tem importância; quando quiserdes podereis principiar.

MENÊIO — Contra o estômago os membros se insurgiram certo dia, acusando-o de no meio do corpo colocar-se, preguiçoso sempre e inativo, e, como sorvedouro, absorver, insaciável, a comida, sem nunca contribuir com sua parte para o comum trabalho, enquanto os outros órgãos viam, andavam, refletiam, sentiam e falavam, contribuindo cada um, assim, com sua parte, para proverem às comuns necessidades e apetites do corpo. Respondeu-lhes o estômago...

PRIMEIRO CIDADÃO — Ora bem, senhor: qual foi a resposta do estômago?

MENÊIO — Vou dizer-vos, senhor. Com uma espécie de sorriso, que não se originava dos pulmões, um sorriso deste modo — pois, no final de contas, tanto posso dotar o estômago de fala como fazer que ele sorria — com um sorriso desdenhoso falou aos insurrectos, aos membros sediciosos que invejavam suas atividades absorventes, tal como ora fazeis, só por maldade, com nossos senadores, por não serem em tudo iguais a vós.

PRIMEIRO CIDADÃO — Mas a resposta do estômago? Que disse? Se a cabeça de real coroa, os olhos vigilantes, o conselheiro coração, os braços nossos soldados, os corcéis — as pernas — a língua nosso trombeteiro e as outras aparelhagens e menores peças de nossa construção, se todos, disse...

MENÊIO — E então? E então? Mas como ele é eloqüente! E então, que aconteceu?

PRIMEIRO CIDADÃO — Se todos ficam lesados pelo estômago voraz, que é a sentina do corpo...

MENÊNIO — Bem, e agora?

PRIMEIRO CIDADÃO — Se eles, os principais, fizeram queixa, que poderia responder o estômago?

MENÊIO — Já vou dizer-vos. Se me concederdes um pouco do que quase nada tendes, que é paciência, direi sua resposta.

PRIMEIRO CIDADÃO — Quantas voltas fazeis para dizê-la!

MENÊIO — Atenção, caro amigo! Nosso estômago, sempre grave, manteve-se tranqüilo, sem revelar exaltação nenhuma, como seus detratores. Deste modo lhes respondeu: “É certo, meus amigos incorporados”, disse, “que eu recebo, antes de outro qualquer, todo o alimento de que viveis, e é justo que assim seja, por ser eu o depósito e celeiro de todo o corpo. Mas se estais lembrados, pelos canais de vosso sangue tudo de novo mando à corte, ao coração, à alta sede do cérebro, e assim, pelos sinuosos passos da oficina humana, os nervos mais potentes e as menores arteríolas de mim recebem tudo de quanto necessitam para a vida. E muito embora todos vós, a um tempo, meus bons amigos...” isso disse o estômago, observai bem.

PRIMEIRO CIDADÃO — Pois não, senhor. Adiante!

MENÊIO — “E muito embora todos vós, a um tempo, não vejais o que eu dou em separado para cada um, mui fácil é provar-vos por um cálculo certo e rigoroso, que recebeis de mim toda a farinha, sobrando-me de tudo só o farelo.” Que dizeis a isso?

PRIMEIRO CIDADÃO — Foi resposta boa. E a sua aplicação?

MENÊIO — Os senadores de Roma são esse bondoso estômago; vós, os membros rebeldes. Seus conselhos examinai, suas canseiras todas, e heis de reconhecer que os benefícios gerais que recebeis vêm tão-somente da parte deles, nunca de vós mesmos. E vós aí, que pensais disto, sendo, como sois, o dedão do pé do grupo?

PRIMEIRO CIDADÃO — Eu, o dedão do pé? Por que o dedão?

MENÊIO — Porque sendo, como és, um dos mais baixos, mais pobres e ordinários desta muito sapiente rebelião, vais sempre à frente. E se assim fazes, é porque farejas qualquer vantagem própria. Vamos! Ide preparar vossas clavas resistentes, vossos bastões, que Roma está no ponto de bater-se com os ratos. Um dos lados terá de ser malhado. (Entra Caio Márcio.) Nobre Márcio, Salve!

MÁRCIO — Muito obrigado. Que acontece, marotos rezingueiros, que de tanto coçar a pobre crosta da vaidade vos transformais em sarna?

PRIMEIRO CIDADÃO — Só palavras boas é que nos dais.

MÁRCIO — Quem vos desse palavras boas vos adularia de produzir engulhos. Que vos falta, cães ordinários, se não vos agrada nem a paz nem a guerra? Esta vos causa pavor; aquela vos aumenta a empáfia. Quem se fiasse de vós, na hora precisa, em vez de leões encontraria lebres; em lugar de raposas, simples patos. Não; mais seguros não vos mostrais nunca do que um carvão ardente sobre o gelo, ou saraiva no sol. Vossa virtude consiste em exaltar quem abatido se acha das próprias faltas, para, logo, malsinar a justiça. Quem se mostra merecedor de glória, de vosso ódio também se mostra. Tal como os desejos de certos doentes são vossos impulsos, que visam sobretudo quanto possa aumentar-lhes a doença. Quem depende de vossa graça nada com espadanas de chumbo e abate robles com gravetos. Enforcai-vos! Confiar em vós? Mudais de idéia a cada instante; achais que é nobre quem vosso dio até há pouco merecia, e infame o que era vosso emblema máximo. Que aconteceu? Por que motivo em vários quarteirões da cidade gritais tanto contra o nobre senado que sob a égide dos deuses vos mantém sempre com medo, que, do contrário, vos devoraríeis uns aos outros? — Dizei: que é que eles querem?

MENÊIO — Trigo por preço que eles estipulem, pois acham que há bastante na cidade.

MÁRCIO — Vão todos se enforcar! Acham? Ao fogo! Ficam sentados e saber presumem quanto no Capitólio está passando: quem poderá subir, quem enriquece, quem declina; a facções diversas se unem, conjeturais alianças põem por terra, reforçam seus partidos e enfraquecem os que no desagrado lhes caíram, pondo-os abaixo dos sapatos rotos. Acham que há muito trigo? Se a nobreza pusesse a compaixão de lado e a espada deixasse que eu usasse, logo um monte faria de pedaços desses biltres, da altura desta lança.

MENÊIO — Não; estes estão já persuadidos, pois embora lhes falte em grande escala qualquer discernimento, são covardes a mais não poder ser. Mas, por obséquio, que diz o outro magote?

MÁRCIO — Dispersaram-se. Que se enforquem! Disseram-se esfomeados. Sopravam certas máximas: que a fome rompe muralhas; ou que até cachorro precisa de alimentos; que comida foi feita para as bocas, e que os deuses não deram trigo apenas para os ricos. Com esses trapos é que fazem vento para suas lamúrias. Responderam-lhes, e tendo sido satisfeito numa das exigências — coisa perigosa, de arrebentar o próprio coração da generosidade e deixar pálido o poder mais altivo — logo os gorros a jogar para cima começaram, como se pretendessem espetá-los lá nos cornos da lua, arrefecendo de pronto a grande ardência.

MENÊIO — E que vitória aí alcançaram?

MÁRCIO — A de terem cinco tribunos, por escolha livre deles, para defesa da sabedoria do populacho. Júnio Bruto é um deles, e Sicínio Veluto, e... os outros. — Bolas! — Como posso saber? Destelharia primeiro essa canalha Roma inteira, antes de obter de mim uma tal coisa. O tempo os deixará mais fortes, sobre dar nascimento a temas de mais peso, para novas revoltas.

MENÊIO — É curioso!

MÁRCIO — Ide embora, fragmentos! Para casa!

(Entra apressadamente um mensageiro.)

MENSAGEIRO — Onde está Caio Márcio?

MÁRCIO — Aqui. Que é que houve?

MENSAGEIRO — Senhor, a novidade é que esses volscos estão em armas.

MÁRCIO — Muito isso me alegra; assim, teremos oportunidade de ventilar um pouco as nossas sobras emboloradas. Vede, aí vêm vindo nossos graves anciões.

(Entram Comínio, Tito Lárcio e outros senadores; Júnio Bruto e Sicínio Veludo.)

PRIMEIRO SENADOR — Márcio, é verdade quanto nos referistes não faz muito: que se haviam os volscos levantado.

MÁRCIO — É que eles têm um chefe, Tulo Aufídio, que vos dará trabalho. Tenho inveja, confesso-o, da nobreza que lhe é própria. Não fosse eu ser eu mesmo, desejara ser ele, tão-somente.

COMÍNIO — Já tivestes ocasião de com ele medir forças.

MÁRCIO — Se metade do mundo se encontrasse com a outra parte em luta, e ele estivesse do meu lado, eu passara para o inimigo, só para o combater, só pelo orgulho de caçar esse leão.

PRIMEIRO SENADOR — Então, meu digno Márcio, servi sob a ordem de Comínio.

COMÍNIO — Assim o prometestes.

MÁRCIO — Sim, confirmo, senhor, minha promessa; sou constante. Tito Lárcio, hás de ver-me novamente atacar Tulo Aufídio. Como! Coxo? Vais ficar fora?

TITO — Não, meu Caio Márcio; antes firmar-me numa das muletas e combater com a outra, do que ver-me excluído dessa pugna.

MENÊIO — Oh sangue nobre!

PRIMEIRO SENADOR — Ide conosco até ao Capitólio, onde os nossos melhores companheiros, tenho certeza, estão nossa espera.

TITO (a Comínio) — Ide na frente. (A Márcio.) Acompanhai Comínio; seguiremos atrás. A precedência o mérito é que indica.

COMÍNIO — Nobre Márcio!

PRIMEIRO SENADOR (aos cidadãos) A vossa casas recolhei-vos. Vamos!

MÁRCIO — Não; que nos sigam todos. Têm os volscos bastante trigo; levai esses ratos para roerem os celeiros deles. Dignos amotinados, vosso brio já começa a dar frutos. Vinde! Vinde!

(Saem os senadores, Comínio, Márcio, Tito e Menênio; os cidadãos se dispersam.)

SICÍNIO — Há alguém, como este Márcio, tão soberbo?

BRUTO — Não há ninguém como ele.

SICÍNIO — Quando escolhidos fomos para o cargo de tribunos do povo...

BRUTO — Não notastes os olhos dele e os lábios?

SICÍNIO — Não; apenas seus sarcasmos.

BRUTO — Achando-se irritado, não teme criticar os próprios deuses.

SICÍNIO — Nem fazer troça da modesta lua.

BRUTO — Que esta guerra o devore! Está ficando muito infindo de sua valentia.

SICÍNIO — Tal natureza, lisonjeada pelo grande êxito, desdenha a própria sombra em que pisa de dia. Só me admiro de que sua insolência se conforme em ficar sob o mando de Comínio.

BRUTO — A fama a que ele visa e que de graças já o cumulou bastante, nunca pode ser obtida tão bem como num posto subalterno ao primeiro, porque todos os reveses à conta são lançados do general somente, muito embora este tivesse feito o que cabia nos recursos humanos, e a censura leviana, então, houvera proclamado: “Oh! se Márcio estivesse frente disto!”

SICÍNIO — Além do mais, correndo bem as coisas, a opinião, que de Márcio tanto pende, roubará de Comínio todo o mérito.

BRUTO — Sim; metade das glórias de Comínio será de Márcio, muito embora Márcio não as tenha ganhado, e suas faltas redundarão, também, em glória deste, conquanto não lhe caiba nenhum mérito.

SICÍNIO — Vamos saber agora as providências determinadas e com que recursos, além de seu valor, ele se apresta para a presente guerra.

BRUTO — Vamos logo.

(Saem.)

Cena II

Coríolos. O senado. Entram Tulo Aufídio e senadores.

PRIMEIRO SENADOR — Assim, Aufídio, sois de parecer que os de Roma conhecem nossos planos e a par estão de quanto ora intentamos.

AUFÍDIO — Não é o vosso também? Qual é a idéia que já foi agitada em nosso Estado e em nosso Estado realizar-se pôde sem que, antes, Roma a não deixasse frustra? Há quatro dias, só, ouvi sobre isso, estas mesmas palavras... Não, presumo que a carta está comigo. Aqui está ela. “Aliciaram soldados; não se sabe, porém, se é para leste ou para oeste. É grande a carestia; amotinado se acha o povo, e o boato está correndo por aqui fora que Comínio, Márcio, vosso velho inimigo — mais odiado da própria Roma do que de vós mesmo — e Tito Lárcio, esse viril romano, que os três dirigirão os contingentes para onde se destinam, sendo quase certo que é contra vós. Pensai no caso.”

PRIMEIRO SENADOR — Já temos nossas forças na campanha. Não duvidamos nunca de que prontos para a guerra os romanos estivessem.

AUFÍDIO — Nem se vos figurou nunca tolice guardar sigilo sobre o plano ousado, até que por si mesmo se mostrasse. Mas pelo jeito, Roma soube disso ainda na chocadeira. Semelhante particularidade nos encurta demais o plano de tomar de assalto muitas cidades antes de ter Roma notícia de que estávamos em campo.

SEGUNDO SENADOR — Assumi vosso posto, nobre Aufídio, tomando logo a direção das tropas. De guarda ficaremos em Coríolos. Se eles vierem cercar-nos, trazei logo para aqui vossos homens. Mas eu penso que seus preparativos não vos visam.

AUFÍDIO — Oh! não o duvideis; falo com provas. Mais, ainda: uma parte de seus homens já está em marcha, e para nossas bandas. Deixo Vossas Nobrezas. Se eu e Caio Márcio nos encontrarmos, já fizemos o juramento de lutar sem pausa, até que um de nós dois fique por terra.

TODOS — Que os deuses vos assistam.

AUFÍDIO — E conservem Vossas Honras em paz.

PRIMEIRO SENADOR — Adeus.

SEGUNDO SENADOR — Adeus.

TODOS — Adeus.

(Saem.)

Cena III

Roma. Um quarto em casa de Márcio. Entram Volúmnia e Vergília; sentam-se em dois tambores e começam a costurar.

VOLÚMNIA — Cantai alguma coisa, filha, por obséquio, ou exprimi-vos por qualquer outro modo prazenteiro. Se meu filho fosse meu marido, eu me mostraria mais alegre com essa ausência, em que ele ganha honra, do que com os abraços do leito nupcial com que ele me testemunhasse mais amor. Quando ele ainda era grácil de corpo e o único filho de minhas entranhas; quando sua adolescência, com a graça muito própria, atraía todos os olhares; quando qualquer outra mãe, ainda que instada durante um dia todo por um rei, não se teria privado de uma hora da satisfação de contemplá-lo: eu, considerando que o mais adequado adorno de sua beleza seria a glória e que ele valeria tanto como um quadro pendurado na parede, se aquela não o animasse, aprazia-me em mandá-lo procurar perigo onde pudesse encontrar a fama. Mandei-o para uma guerra cruel, de onde ele retornou com a fronte coroada de louros. Digo-te, filha, que não foi menor a minha alegria ao ouvir que havia dado à luz a um varão, do que ao saber pela primeira vez que ele se afirmara como homem.

VERGÍLIA — Mas se ele tivesse morrido nesse negócio, senhora: que aconteceria depois?

VOLÚMNIA — Depois, o meu filho ficaria sendo seu belo nome, que me teria dado posteridade. Permite que te confesse com sinceridade: se eu tivesse uma dúzia de filhos, todos iguais em meu amor, e nenhum menos caro do que o teu e o meu bom Márcio, preferira ver onze morrer nobremente por sua pátria a que um somente se fartasse numa inação cheia de volúpia.

(Entra uma dama.)

DAMA — A senhora Valéria veio ver-vos.

VERGÍLIA — Dai-me licença para retirar-me.

VOLÚMNIA — Não; de jeito nenhum. Só me parece que ouço o tambor, daqui, de vosso esposo; vejo-o a puxar pelo cabelo Aufídio, fugindo dele os volscos como as crianças fogem dos ursos; vejo-o como bate com o pé no chão, assim, e como grita: “Poltrões, segui-me! Concebidos fostes no medo, embora em Roma ao mundo viésseis!” A fronte ensangüentada, então, limpando com a mão de malha, segue para diante, tal como o ceifador que recebera por tarefa segar toda a lavoura, se receber quiser o estipulado.

VERGÍLIA — A fronte ensangüentada! Oh não! Por Júpiter! Sangue, não!

VOLÚMNIA — Oh! calai-vos, minha tola. Sangue é adorno mais belo, para os homens, do que troféu dourado. O seio de Hécuba amamentando Heitor, mais agradável aparência não tinha do que a fronte do próprio Heitor, quando estilava sangue nos prélios contra os gregos. A Valéria dize que ela é bem-vinda a nossa casa.

(Sai a dama.)

VERGÍLIA — Que os céus amparem meu marido contra o terrível Aufídio!

VOLÚMNIA — Ele há de a fronte fazer vergar de Aufídio até aos joelhos, e o pescoço pisar-lhe.

(Volta a dama com Valéria e um porteiro.)

VALÉRIA — Minhas senhoras, bom dia para ambas.

VOLÚMNIA — Querida senhora!

VERGÍLIA — Alegro-me por Vossa Graça.

VALÉRIA — Como estais passando? Ambas sois notoriamente caseiras. Que estáveis cosendo? Belo modelo, em verdade. Como está vosso filhinho?

VERGÍLIA — Fico muito agradecida a Vossa Graça: está passando bem, minha boa senhora.

VOLÚMNIA — Ele prefere ver espadas e ouvir tambor, a olhar para o mestre-escola.

VALÉRIA — Dou minha palavra em como é igualzinho ao pai. Iria jurar que é uma criança linda. Por minha fé, na quarta-feira eu o contemplei durante meia hora: tem uma fisionomia decidida. Vi-o correr empós de uma borboleta dourada; depois de a ter pegado, soltou-a de novo; depois, tornou a persegui-la por várias vezes, sempre a correr atrás dela, até tornar a apanhá-la. Por último, ou por ter ficado exasperado por ter caído, ou por outra razão qualquer, rangeu os dentes assim e a despedaçou. Oh! deveríeis ter visto como a deixou em pedacinhos!

VOLÚMNIA — Revela os mesmos caprichos do pai.

VALÉRIA — Realmente; é uma nobre criança.

VERGÍLIA — É muito esperto, minha senhora.

VALÉRIA — Vamos, ponde de lado essa costura; passareis comigo a tarde de hoje como donas de casa desocupadas.

VERGÍLIA — Não, minha boa senhora; hoje não porei os pés fora da porta.

VALÉRIA — Não poreis os pés fora da porta?

VOLÚMNIA — Sim, sim; ela o fará.

VERGÍLIA — Não, não, se mo permitirdes. Não transporei o umbral da casa enquanto meu senhor não voltar da guerra.

VOLÚMNIA — Ora! Encarcerais-vos por maneira absurda. Vamos; precisais ir visitar a boa senhora que teve criança.

VERGÍLIA — Almejo-lhe pronto restabelecimento e a visitarei com minhas orações, mas não poderei ir à sua casa.

VOLÚMNIA — E por quê, pergunto-vos?

VERGÍLIA — Não será para furtar-me a esse trabalho, nem por falta de amizade.

VALÉRIA — Deveríeis ser uma segunda Penélope. No entanto há quem diga que toda a lã que ela fiou na ausência de Ulisses só serviu para encher Ítaca de traças. Vinde; desejara que vossa cambraia fosse tão sensível quanto vossos dedos, para que, por compaixão, deixasses de espetá-la. Vamos; tereis de sair conosco.

VERGÍLIA — Não, minha boa senhora; desculpai-me, mas não sairei de casa.

VALÉRIA — Por minha fé, vinde comigo, que vos darei excelentes notícias de vosso esposo.

VERGÍLIA — Oh! minha boa senhora; não pode ter chegado ainda nenhuma notícia.

VALÉRIA — É certo; não estou brincando: chegaram notícias ontem à tarde.

VERGÍLIA — É verdade, senhora?

VALÉRIA — Falando com toda a seriedade: é certo. Ouvi-as da boca de um senador. Passou-se deste modo: os volscos têm em campo um exército, contra o qual partiu Comínio, na qualidade de general, com parte de nossas forças romanas. Vosso marido e Tito Lárcio puseram cerco cidade de Coríolos. Eles não têm a menor dúvida com respeito à vitória e ao término da campanha. Eis a verdade, por minha honra. Assim, vos peço, vinde conosco.

VERGÍLIA — Perdoai-me, minha boa senhora; porém mais tarde vos serei obediente em tudo o mais.

VOLÚMNIA — Deixemo-la sozinha, minha senhora; no estado em que está, só poderá estragar-nos a alegria.

VALÉRIA — Realmente, é também o que penso. Passai bem, então. Vamos, boa e querida senhora. Por obséquio. Vergília, põe tua solenidade porta fora e vem passear conosco.

VERGÍLIA — Não, decididamente, minha senhora.

VALÉRIA — Está bem. Então, adeus.

(Saem.)

Cena IV

Diante de Coríolos. Entram com tambores e estandartes Márcio, Tito Lárcio, oficiais e soldados. Depois, aproxima-se um mensageiro.

MÁRCIO — Ali vem novidade. Apostar quero em como houve combate.

LÁRCIO — Meu cavalo contra o vosso: não houve.

MÁRCIO — Aceito.

LÁRCIO — Aceito.

MÁRCIO — Dize: encontrou o general os volscos?

MENSAGEIRO — Estão à vista, mas não se falaram.

LÁRCIO — O bom cavalo é meu.

MÁRCIO — Compro-o de volta.

LÁRCIO — Não o vendo nem o dou, mas vo-lo empresto por cinqüenta anos. Intimai Coríolos para parlamentar.

MÁRCIO — A que distância os dois corpos estão?

MENSAGEIRO — Há milha e meia.

MÁRCIO — Então é certo ouvirmos seus rebates e eles os nossos. Marte, ouve meu voto! Dá que possamos terminar logo isto, para, de espadas fumegantes, irmos auxiliar os amigos na campanha. Corneteiro, o sinal! (Toque para parlamentar. Sobre os muros aparecem dois senadores e vários cidadãos.) Dentro dos muros se encontra Tulo Aufídio?

PRIMEIRO SENADOR — Não; não temos na cidade ninguém que vos receie menos que ele, o que é menos do que nada. (Toque de tambor.) Ouvi! Nossos tambores os mancebos levam para o combate. Antes, decerto, derruirmos nossos muros, que ficarmos encurralados neles. Nossas portas, que julgais bem trancadas, estão presas apenas por caniços: por si mesmas hão de se escancarar. Ouvi ao longe! (Rebate longínquo.) É Tulo Aufídio. Ouvi de longe o estrago que ele faz, como fenda, em vosso exército.

MÁRCIO — Então já se atracaram.

LÁRCIO — Que esse estrondo nos sirva de lição. Escadas, eh!

(Os volscos passam para o palco.)

MÁRCIO — Não nos temem, pois saem da cidade. Em frente ao coração ponde os escudos e combatei com corações mais duros do que os próprios escudos. Bravo Tito, para a frente. O desdém que eles demonstram ultrapassa de muito o que pensávamos. Suo de indignação. Meus companheiros, avançai! Tomarei por um dos volscos quem eu vir a recuar, e hei de mostrar-lhe se meu aço é cortante.

(Alarma. Os romanos são repelidos até suas próprias trincheiras. Volta Márcio.)

MÁRCIO — Que os flagelos do sul sobre vós caiam! Sois o opróbrio de Roma, sois rebanho... Que as úlceras e as chagas vos emplastrem, para que vos torneis aborrecidos antes mesmo de terdes sido vistos, e cada um a infecção transmita aos outros, contra o vento, a uma milha de distância. Almas de pato com feitio de homens! Fugis de escravos. Até mesmo os monos os teriam batido. Pluto e inferno! Todos feridos por detrás! As costas rubras e as faces pálidas de medo febril, todos fugis! Voltai à carga, pelos fogos do céu! Caso contrário, deixarei o inimigo e farei guerra contra vós todos. Tende mais coragem! Vinde! Se persistirmos, a eles todos para as próprias esposas tocaremos, como conosco estão fazendo agora para nossas trincheiras. (Novo rebate. Tornam a entrar os volscos e os romanos, sendo renovada a pugna. Os volscos se retiram para Coríolos, perseguindo-os Márcio até às portas da cidade.) Vede, as portas estão escancaradas; secundai-me. A sorte se abre para os que perseguem, não para os fugitivos. Vede tudo que eu fizer e segui-me. (Entra na cidade.)

PRIMEIRO SOLDADO — Que loucura! Não o acompanharei.

SEGUNDO SOLDADO — Nem eu, tampouco.

(Fecham-se as portas da cidade.)

TERCEIRO SOLDADO — Ei-lo trancado.

TODOS — Está perdido, aposto.

(O alarma continua.)

(Volta Tito Lárcio.)

LÁRCIO — Que foi feito de Márcio?

TODOS — Morto, chefe, sem dúvida nenhuma.

PRIMEIRO SOLDADO — Perseguindo bem rente aos calcanhares os fugintes, entrou com eles. Mas a porta, súbito, sobre ele se fechou. Está sozinho, para a toda cidade fazer frente.

LÁRCIO — Ó nobre companheiro! que insensível! sendo, faz mais do que o insensível gládio e firme se mantém onde este dobra! Estás abandonado, Caio Márcio. Uma pedra preciosa de teu porte não fora jóia de maior valia. Eras guerreiro em tudo condizente com os votos de Catão: não só com golpes rudes e violentos, mas também com a tua mirada pavorosa e as atroadoras pancadas de tua voz, os inimigos estremecer fazias, parecendo que tremia de febre o mundo todo.

(Volta Márcio, coberto de sangue, perseguido pelos inimigos.)

PRIMEIRO SOLDADO — Olhai, senhor!

LÁRCIO — É Caio Márcio! Vamos libertá-lo ou, se não, morrer com ele.

(Batem-se, entrando todos na cidade.)

Cena V

Coríolos. Uma rua. Entram alguns romanos, com despojos.

PRIMEIRO ROMANO — Levo isto para Roma.

SEGUNDO ROMANO — E eu, isto aqui.

TERCEIRO ROMANO — Ora que peste! Parecia prata!

(O tumulto prossegue ao longe.)

(Entram Márcio e Tito Lárcio, com um corneteiro.)

MÁRCIO — Vede essa gente ativa, que avalia seu tempo pelas dracmas já, fendidas. Só colheres de chumbo, travesseiros, ferro velho, gibões como os carrascos com os próprios donos enterrar costumam... É o com que estes escravos se preocupam antes de estar a pugna terminada. Abaixo com eles todos! Vede a bulha que faz o general! Vamos salvá-lo! Eis ali o ódio de minha alma, Aufídio, a espetar os romanos... Nobre Tito, ficai com gente suficiente para segurar a cidade, enquanto eu corro com os que forem dotados de coragem, a socorrer Comínio.

LÁRCIO — Caro amigo, estás sangrando muito; teu esforço foi por demais violento, para em outra refrega te arriscares.

MÁRCIO — Deixai desses elogios, senhor, que meu trabalho não me esquentou ainda. Passai bem. O sangue extravasado é mais saudável para mim que nocivo. É deste modo que quero ver Aufídio e combatê-lo.

LÁRCIO — Agora que Fortuna, a bela deusa, se enamore de ti e com seus grandes encantamentos deixe confundidas as espadas imigas. Destemido gentil-homem, que tenhas como pajem sempre a felicidade.

MÁRCIO — E que não menos amiga se te mostre, como a quantos ela mais favorece. E agora, adeus!

LÁRCIO — Oh meu notável Márcio! (Sai Márcio.) Vai logo soar o toque de trombeta na praça do mercado, convocando todos os oficiais do burgo, para ficarem conhecendo nosso intento. Depressa!

(Saem.)

Cena VI

Perto do acampamento de Comínio. Entra Comínio com suas forças, em retirada.

COMÍNIO — Tomai fôlego, amigos. Combatemos muito bem. Procedemos em tudo isto como romanos: nem sem pouco tino em nossa resistência, nem covardes na hora da retirada. Acreditai-me, senhores, vamos ter novo recontro. Enquanto nos batíamos, nas pausas, o vento nos fazia ouvir a bulha dos ataques de nossos companheiros. Deuses romanos! dai que eles alcancem tudo o que para nós também queremos, porque nossos exércitos se juntem com faces sorridentes e vos prestem, em gratidão, solene sacrifício! (Entra um mensageiro.) Que aconteceu?

MENSAGEIRO — Os homens de Coríolos as portas transpuseram da cidade e em luta se acham já com Lárcio e Márcio. Vi nossos homens repelidos para nossas trincheiras. Nisso, vim correndo.

COMÍNIO — Embora digas a verdade, creio que não falaste bem. Há quanto tempo foi isso?

MENSAGEIRO — Há mais de uma hora, meu senhor.

COMÍNIO — Daqui lá há uma milha. Há pouco ouvimos seus tambores. Por que gastaste uma hora para andar uma milha e nos trazeres notícias atrasadas?

MENSAGEIRO — Sentinelas volscas me perseguiram, obrigando-me a fazer uma volta de três milhas ou quatro, mais ou menos. Não fora isso, meu senhor, eu teria em meia hora cumprido esta missão.

COMÍNIO — Quem aparece naquele ponto, como se tivesse sido esfolado vivo? Oh deuses grandes! tem a forma de Márcio, sendo certo que já o vi desse modo.

MÁRCIO (dentro) — Cheguei tarde?

COMÍNIO — Não distingue o pastor com mais acerto entre o trovão e o rufo de tambores, como eu distingo a voz do grande Márcio entre outras mais humildes.

(Entra Márcio.)

MÁRCIO — Cheguei tarde?

COMÍNIO — Sim, caso não tragais sangue inimigo como manto, mas próprio.

MÁRCIO — Num abraço como do meu noivado vos aperto de encontro ao coração tão jubiloso como no casamento, quando tochas para o leito de núpcias me levavam.

COMÍNIO — Flor dos guerreiros, que é de Tito Lárcio?

MÁRCIO — Está ocupado apenas com decretos, uns à morte condena, outros, a exílio; deste se compadece, a um outro ameaça, aceita o preço do resgate de outro, Coríolos conservando para Roma tal como dócil galgo na correia que à vontade afrouxamos.

COMÍNIO — Onde se acha o poltrão que me disse que vós tínheis recuado até às trincheiras? Onde se acha? Chamai-o aqui.

MÁRCIO — Deixai-o, pois vos disse, tão-somente, a verdade. Quanto a nossos cavalheiros, a plebe numerosa — a peste em todos! e vão ter tribunos! — nunca do gato correu tanto o rato, como eles de poltrões piores do que eles.

COMÍNIO — Teremos tempo para tais histórias? Onde está o inimigo? Sois senhores do campo? Se o não sois, por que parastes antes de sê-lo?

COMÍNIO — Márcio, não tivemos sorte no encontro e fomos obrigados a recuar até aqui, por estratégia.

MÁRCIO — Onde está o inimigo? Sabeis a ordem de suas tropas e onde dispuseram seus homens de confiança?

COMÍNIO — Penso, Márcio, que as tropas da vanguarda são de antíates, as de maior confiança, sob o mando de Aufídio, o próprio coração de suas mais gratas esperanças.

MÁRCIO — Pelos prélios em que já temos combatido juntos; pelo sangue que, juntos, derramamos; por nossos votos de amizade eterna, conjuro-vos a enviar-me sem demora ao encontro de Aufídio e seus antíates. Não deixeis escapar a conjuntura; mas, enchendo o ar de espadas e de lanças, aproveitemos a hora.

COMÍNIO — Muito embora preferisse vos ver num grato banho e, após, os membros reforçar com bálsamo, não ouso denegar vosso pedido: escolhei, pois, os que melhor vos podem auxiliar nessa empresa.

MÁRCIO — Os mais capazes são os de boa vontade. Assim, vos digo: se houver alguém aqui — fora pecado duvidá-lo que tenha amor à tinta com que me vejo agora besuntado; que por sua pessoa menos tema do que por um mau nome, e considere que é preferível uma heróica morte à vida mal vivida; alguém que a pátria coloque muito acima de si mesmo: que esse valente — seja um só, ou muitos — agite o braço assim, para mostrar-nos sua disposição, e siga Márcio. (Todos prorrompem em exclamações, agitam as espadas, carregam Márcio e jogam os bonés para o alto.) Oh, deixai-me! Pensais que eu seja espada? Se essas demonstrações forem sinceras, quem não valerá mais que quatro volscos? Não há entre vós outros quem não possa antepor um escudo ao grande Aufídio, tão duro quanto o dele. Muito embora a todos agradeça, um certo número, somente, escolher vou. Em qualquer outro recontro os mais terão a sua parte, conforme as circunstâncias o exigirem. Em frente, pois. E agora, bem depressa, quatro entre vós escolham para minha sortida os mais dispostos.

COMÍNIO — Ide, amigos, a lealdade provai de vosso gesto; conosco parte igual tereis em tudo.

(Saem.)

Cena VII

As portas de Coríolos. Tito Lárcio, tendo posto sentinelas nas portas de Coríolos, sai da cidade com tambor e corneta, para ir ao encontro de Caio Márcio, acompanhado de um tenente, um destacamento de soldados e de um batedor.

LÁRCIO — Assim; guardai as portas; cumpri todas as minhas instruções. Enviai-me aquelas centúrias, se eu mandar pedir reforço.

TENENTE — Podeis ficar tranqüilo.

LÁRCIO — Entrai, fechando sobre nós vossas portas. Vamos, guia; conduze-nos ao campo dos romanos.

(Saem.)

Cena VIII

Um campo de batalha entre o acampamento dos romanos e dos volscos. Alarma. Entram por lados diferentes Márcio e Aufídio.

MÁRCIO — Só lutarei contigo, pois te odeio mais ainda que a um perjuro.

AUFÍDIO — Justamente como eu a teu respeito. Não possui a África uma serpente que eu odeie mais do que a tua glória insuportável. Firma o pé.

MÁRCIO — Como escravo do outro morra quem primeiro correr e que o condenem depois os imortais.

AUFÍDIO — Se eu fugir, Márcio, escorraça-me como a lebrezinha.

MÁRCIO — Há pouco menos de três horas, Tulo, sozinho combati em vossos muros. Fiz lá o que bem quis. Não é meu sangue que vês a revestir-me. Para tua vingança, pois, arma tua força ao máximo.

AUFÍDIO — Ainda que Heitor tu fosses, o flagelo de que se ufana vossa altiva raça, não poderias escapar-me agora. (Batem-se. Entram alguns volscos em socorro de Aufídio.) Serventes, não guerreiros, vosso auxílio amaldiçoado me cobriu de opróbrio!

(Saem combatendo, perseguidos por Márcio.)

Cena IX

O acampamento romano. Rebate. Toque de retirada. Fanfarras. Entram, por um lado, Comínio e soldados romanos; por outro, Márcio com o braço na tipóia, e outros romanos.

COMÍNIO — Tivesse eu de contar-te os feitos todos que hoje fizeste, não darias crédito algum ao que eu dissesse. Mas reservo-me para narrá-los onde os senadores vão misturar com lágrimas sorrisos, onde os grandes patrícios a princípio encolherão os ombros, acabando por demonstrar espanto; onde as senhoras, com medo e a estremecer alegremente, quererão ouvir mais; onde os tribunos obtusos e os plebeus embolorados, que ódio entranhado a tua glória votam, a seu mau grado exclamarão: “Aos deuses agradecemos terem dado a Roma semelhante guerreiro!” De nossa festa só terás migalhas, pois já comeste à farta.

(Entra Tito Lárcio com suas tropas, de volta da perseguição ao inimigo.)

LÁRCIO — Ó general! eis o corcel; nós somos a gualdrapa, tão-somente. Não viste...

MÁRCIO — Deixai disso, por favor. Minha mãe, que carta branca possui para exaltar seu próprio sangue, me ofende ao elogiar-me. Não fiz nada que não houvésseis feito, isto é: o possível... Como vós, animado... Pela pátria foi tudo. Quem mostrou boa vontade, fez o que eu fiz.

COMÍNIO — Não ireis ser o túmulo de vosso próprio mérito; é preciso que Roma venha a conhecer seus filhos. Fora receptação pior do que roubo, tão vil como a calúnia, vossos feitos ocultar e calar os elogios do que, elevado aos galarins da fama, parecera modesto. Assim, vos peço, em sinal do que sois, não como prêmio do que fizestes, que eu, em vossa frente fale a nossos soldados.

MÁRCIO — Tenho algumas feridas pelo corpo, que me doem, quando são relembradas.

COMÍNIO — Se as deixarmos no esquecimento a ingratidão podia fazê-las gangrenar, vindo a curá-las, assim, com a própria morte. Dos cavalos apreendidos — e há muitos e excelentes de todos os tesouros que reunimos na cidade e no campo de batalha, o décimo vos damos, que apartado deverá ser por vossa própria escolha, antes da divisão do grande espólio.

MÁRCIO — Agradecido, general, vos fico; contudo, o coração não me consente receber peita para minha espada. Recuso-me a aceitá-la, persistindo em reclamar o lote, simplesmente, que me toca em comum com os que tomaram parte ativa no feito.

(Fanfarra prolongada. Todos gritam: “Márcio! Márcio!” e atiram os bonés e as lanças. Comínio e Lárcio descobrem a cabeça.)

MÁRCIO — Que não tomem a soar os instrumentos que profanais assim. Se aduladores na campanha os tambores e as cornetas a tal ponto se mostram, que nas cortes e cidades pulule o servilismo de refalsado olhar. Quando o aço fica tão brando quanto a seda do vadio, façamos desta a proteção da guerra. Basta, vos digo. Por não ter ainda lavado o sangue do nariz nem posto por terra algum coitado, o que fizeram muitos outros também sem mais alarde, exaltais-me com vivas exagerados, como se eu gostasse de alimentar a minha pouquidade com louvores molhados em mentiras.

COMÍNIO — É excesso de modéstia. Revelais-vos mais desumano para vossa glória do que reconhecido aos companheiros que vo-la damos com sinceridade. Com vossa permissão, mas se violência contra vós próprio praticais, algemas vos poremos — tal como se procede com quem se prejudica — e, após, falamos com calma e segurança. Assim, que fique conhecido de nós, do mundo todo, que a Márcio toca a palma da vitória. Em testemunho disso, presenteio-o com meu nobre cavalo, conhecido no nosso acampamento, acompanhado de todos os pertences. De hoje em diante, por causa de seus feitos em Coríolos, será — com a aclamação de todo o exército — chamado Caio Márcio Coriolano! Possas usar o nome com nobreza.

TODOS — Caio Márcio Coriolano!

(Fanfarra. Sons de trombetas e tambores.)

CORIOLANO — Vou lavar-me; depois de limpo o rosto, vereis se eu coro ou não. De qualquer forma, vos fico agradecido. De bom grado monto em vosso cavalo, prometendo trazer esse bonito sobrenome como penacho do elmo e enaltecê-lo quanto em mim estiver.

COMÍNIO — Agora vamos para as tendas; mas antes do descanso escreveremos para Roma sobre nosso grande sucesso. Tito Lárcio, tereis de retornar para Coríolos e nos mandar os cidadãos mais dignos com quem posamos conversar acerca dos nossos interesses e dos deles.

LÁRCIO — Assim farei, senhor.

CORIOLANO — Já começaram os deuses a zombar de mim. Havendo neste momento recusado dádivas principescas, forçado ora me vejo a pedir um favor ao general.

COMÍNIO — De antemão está feito. Que desejas?

CORIOLANO — De uma feita em Coríolos hospedei-me em casa de um pobre homem, que acolhida muito amiga me deu. Vi-o há momentos prisioneiro; gritou para o meu lado. Mas nesse instante descobri Aufídio, abafando-me a cólera a piedade. Requeiro-vos, assim, a liberdade de meu pobre hospedeiro.

COMÍNIO — Oh! bem pedido! Fosse ele o matador de um de meus filhos, livre seria como o próprio vento. Tito, soltai-o.

LÁRCIO — Márcio, e o nome dele?

CORIOLANO — Por Júpiter, esqueci! Estou cansado. Sinto a memória fraca. Não teremos vinho aqui perto?

COMÍNIO — Vinde a nossa tenda. Está secando o sangue em vosso rosto. É tempo de cuidarmos disso. Vamos.

(Saem.)

Cena X

O acampamento dos volscos. Fanfarra. Toque de corneta. Entra Tulo Aufídio, coberto de sangue, acompanhado de dois ou três soldados.

AUFÍDIO — Foi tomada a cidade!

PRIMEIRO SOLDADO — Vai ser restituída em vantajosas condições.

AUFÍDIO — Condições! Quisera ser romano, pois não posso, como volsco, ser tudo o que sou mesmo. Condições! Que tratado conter pode condições boas para uma das partes que à mercê está da outra? Cinco vezes, Márcio, lutei contigo, e cinco vezes fui derrotado, o que se dará sempre, quero crer, se medíssemos as forças o número de vezes que comemos. Oh! pelos elementos! Se de novo com ele me encontrar barba com barba, meu será ou eu dele. Já não mostra meu ardor a lealdade costumeira. Antes, pensava em vir a dominá-lo em iguais condições de resistência: espada honrosa contra espada... Agora, se de novo o atacar, de qualquer jeito hei de vencê-lo: por astúcia ou força.

PRIMEIRO SOLDADO — Ele é o demônio.

AUFÍDIO — Muito mais ousado, mas menos astucioso. Envenenado meu valor se acha agora pela ofensa feita por ele. Só por causa dele fugirá de si mesmo. Nem santuário, nem sono, o estado de nudez, de doença, nenhum templo, nem mesmo o Capitólio, a hora do sacrifício, as santas preces dos sacerdotes, todos esses óbices antepostos à fúria, nada pode doravante antepor seus privilégios e usos embolorados contra o grande ódio que eu voto a Márcio. Vindo a achá-lo, seja na minha casa, sob a guarda de meu irmão, e até contra o direito sagrado que a todo hóspede devemos, no sangue de seu coração pretendo lavar a mão feroz. Ide à cidade saber que força há lá e que pessoas como reféns terão de ir para Roma.

PRIMEIRO SOLDADO — E vós, não vindes?

AUFÍDIO — Não; vou esperar-vos no bosque de ciprestes. For obséquio — fica no sul dos moinhos da cidade — ide contar-me como vai o mundo. Conforme os passos dele, hei de esforçar-me por apressar os meus.

PRIMEIRO SOLDADO — Pois não, senhor.

(Saem.)

ATO II
Cena I

Roma. Uma praça pública. Entram Menênio, Sicínio e Bruto.

MENÊIO — O áugur me disse que esta noite vamos ter notícias.

BRUTO — Boas ou más?

MENÊNIO — Pouco conformes aos votos do povo, pois ele não gosta de Márcio.

SICÍNIO — A natureza ensina os animais a conhecer os amigos.

MENÊIO — For obséquio, a quem ama o lobo?

SICÍNIO — Ao cordeiro.

MENÊIO — Sim, para devorá-lo, tal como os plebeus famintos desejariam fazer com Márcio.

BRUTO — É um cordeiro, com efeito, que bala como urso.

MENÊIO — É um urso, com efeito, que vive como cordeiro. Ambos vós sois velhos; respondei ao que vos vou perguntar.

SICÍNIO e BRUTO — Perfeitamente, senhor.

MENÊIO — De que enormidade é Márcio pobre, que não tenhais em abundância?

BRUTO — Ele não é pobre de nenhum defeito, senão bem provido de todos eles.

SICÍNIO — Principalmente de orgulho.

BRUTO — E a todos ultrapassa em jactância.

MENÊIO — É extraordinário! Não sabeis em que conceito sois tidos aqui na cidade, quero dizer, por nós outros da ala direita? Não o sabeis?

AMBOS — Como assim? De que nos censuram?

MENÊIO — Já que falais de orgulho... Mas não ireis ficar zangados, não?

AMBOS — Falai, senhor! Falai!

MENÊIO — Ora, não tem muita importância, porque o pequeno ladrão oportunidade vos roubará uma grande dose de paciência. Soltai as rédeas ao capricho e ficai aborrecidos quanto quiserdes, no caso de encontrardes prazer nisso. Censurais Márcio por causa de seu orgulho?

BRUTO — Não somos os únicos a fazê-lo, senhor.

MENÊIO — Sei muito bem que, sozinhos, fazeis muito pouca coisa, porque sem bastantes auxiliares vossos feitos se tornam espantosamente escassos. Tendes qualidades muito infantis para, sozinhos, realizardes muita coisa. Falais de orgulho... Oh! se pudésseis virar a vista para a nuca e passar em revista vosso interior! Oh! se o pudésseis!

BRUTO — Que aconteceria, senhor?

MENÊIO — Ora, então descobriríeis um par de magistrados — aliás bobos — orgulhosos, sem merecimento, arbitrários e cabeçudos, como não há iguais em toda Roma.

SICÍNIO — Menênio, vós também sois bastante conhecido.

MENÊIO — Sim, sou conhecido como um patrício bem humorado, que aprecia um bom copo de vinho quente sem mistura de nenhuma gota do Tibre; que passa por ter o pequeno defeito de prestar ouvidos às primeiras reclamações; vivo e inflamável aos menores estímulos; um sujeito que se mostra mais familiar com o traseiro da noite do que com a fronte da manhã... Digo o que penso, gastando nesse esforço toda a minha maldade. Ao encontrar dois conselheiros como vós — não poderei dizer que sois Licurgos redivivos — no caso de me ser desagradável ao paladar a bebida que me derdes, faço logo uma careta. Não poderei dizer que Vossas Senhorias elucidaram bem a matéria, quando descubro asneira em todas as vossas palavras; e conquanto precise mostrar-me satisfeito com os que dizem que sois pessoas graves e reverendas, ainda assim mentem descaradamente os que afirmam que tendes fisionomias agradáveis. Se ledes todas essas coisas no mapa de meu microcosmo, conclui-se que sou bastante conhecido? Que defeito poderá descobrir em meu caráter vossa sagacidade míope, admitindo-se que eu seja mesmo tão conhecido assim?

BRUTO — Vamos, senhor; vamos; conhecemos-vos perfeitamente.

MENÊIO — Não me conheceis, como não conheceis a vós mesmos nem a coisa nenhuma. Só ambicionais os chapéus e as pernas dos pobres diabos; gastais uma saudável e santa manhã só em ouvir uma disputa entre um taberneiro e uma vendedora de laranja, e adiais para outra audiência essa controvérsia que não vale três vinténs. Quando estais ouvindo a discussão entre as partes, se por acaso sois pinçados pela cólica, fazeis caretas de mascarados; levantais a bandeira vermelha contra toda paciência e, reclamando aos gritos um urinol, despedis uma controvérsia sangrenta, que fica ainda mais enleada depois de vossa audiência, consistindo todo o vosso acordo em chamardes de marotos a ambos os litigantes. Um bem estranho par é o que sois.

BRUTO — Vamos, vamos, senhor; vê-se perfeitamente que sois mais hábil como palhaço de mesa do que como juiz no Capitólio.

MENÊIO — Até os nossos sacerdotes se tornam zombadores, quando encontram tipos ridículos como vós. O que dizeis com mais discernimento não paga o trabalho que tendes com agitar a barba, não merecendo vossas barbas túmulo mais honroso do que servir de enchimento de travesseiro. No entanto dizeis que Márcio é orgulhoso, Márcio que, num cálculo muito por baixo, vale por todos os vossos antepassados até Deucalião, muito embora seja bem possível que os melhores dentre eles não tivessem passado de carrascos hereditários. Muito boa tarde para Vossas Senhorias. Uma conversação mais prolongada convosco poderia infectar-me o cérebro, por serdes pastores dos bestiais plebeus. Tomo a ousadia de despedir-me de ambos. (Bruto e Sicínio se afastam.) (Entram Volúmnia, Vergília e Valéria.) Então, minhas formosas e nobres damas — e a lua, se fosse terrena, não teria mais nobreza — para onde vos leva os olhos com tanta pressa?

VOLÚMNIA — Digno Menênio, o meu nobre Márcio está a chegar. Pelo amor de Juno, vamos logo!

MENÊIO — Como! Márcio está de volta?

VOLÚMNIA — Está, meu digno Menênio; com a mais feliz confirmação.

MENÊIO — Fica com o meu boné, Júpiter, e ainda te agradecerei. Olá! Márcio está de volta!

VOLÚMNIA e VERGÍLIA — É certo! É certo!

VOLÚMNIA — Aqui está uma carta dele; o governo recebeu outra; sua esposa, uma terceira, e eu penso que em casa há outra para vós.

MENÊIO — Hoje à noite porei minha casa de pernas para o ar. Uma carta para mim!

VERGÍLIA — Sim, é isso; uma carta para vós. Eu própria a vi.

MENÊIO — Uma carta para mim! Isso me deixa com saúde para sete anos, durante os quais assobiarei para o médico. Comparada com esse cordial, a mais soberana prescrição de Galeno não passa de mezinha ridícula, que vale tanto como remédio de cavalo. Não foi ferido? Ele sempre costumava voltar ferido para casa.

VERGÍLIA — Oh! não, não, não!

VOLÚMNIA — Oh, sim! Está ferido; dou graças aos deuses por semelhante fato.

MENÊIO — Como eu também o faço, se as feridas não forem perigosas. Traz a vitória no bolso? As feridas sempre lhe vão bem.

VOLÚMNIA — Na fronte, Menênio; pela terceira vez ele retorna da guerra com a coroa de carvalho.

MENÊIO — E Aufídio, ele castigou com vontade?

VOLÚMNIA — Tito Lárcio escreveu que eles se bateram, mas Aufídio conseguiu escapar.

MENÊIO — Escapou a tempo, posso asseverar-lhe; que se ele houvesse persistido, eu não desejara ser aufidiuzado daquele jeito nem por todas as arcas de Coríolos. O senado já foi informado de tudo?

VOLÚMNIA — Sigamos, boas senhoras. Sim, sim, sim; o senado recebeu cartas do general, que atribui a meu filho toda a glória da guerra. Nesta campanha ele ultrapassou do dobro suas proezas anteriores.

VALÉRIA — Realmente, contam-se coisas prodigiosas a seu respeito.

MENÊIO — Prodigiosas, sim, posso garantir-vos, e não sem o devido mérito de sua parte.

VERGÍLIA — Permitam os deuses que sejam verdadeiras.

VOLÚMNIA — Verdadeiras? Ora! ora!

MENÊNIO — Verdadeiras, sim. Fosso jurar em como são verdadeiras. Onde é que ele foi ferido? (Aos tribunos.) Deus guarde Vossas Reverências! Márcio está de volta; traz novos motivos de orgulho. (A Volúmnia.) Onde é que ele foi ferido?

VOLÚMNIA — No ombro e no braço esquerdo. Ficará com cicatrizes grandes, para mostrar ao povo, quando tiver de pleitear um posto. Na expulsão de Tarquínio ele recebeu sete ferimentos.

MENÊIO — Um no pescoço e dois na coxa... Que eu saiba, são nove.

VOLÚMNIA — Antes desta expedição ele tinha vinte e cinco cicatrizes.

MENÊNIO — Então, agora tem vinte e sete; cada fenda representa o túmulo de um inimigo. (Fanfarras e aclamações.) Escutai: trombetas!

VOLÚMNIA — São os emissários de Márcio; à frente ele traz barulho; atrás só deixa lágrimas. O gênio escuro traz no braço forte; feroz o vibra: é para todos morte.

(Sinal de advertência. Trombetas. Entram Comínio e Tito Lárcio; entre eles, Coriolano com a coroa de carvalho, capitães, soldados e um arauto.)

ARAUTO — Fica sabendo, Roma, que, sozinho, Márcio lutou nas portas de Coríolos, onde ganhou, com honra, mais um nome, que a Caio Márcio seguirá com glória: Coriolano! Bem-vindo sois a Roma, glorioso Coriolano!

(Fanfarras.)

TODOS — Sois bem-vindo, glorioso Coriolano!

CORIOLANO — Basta! basta! Isso magoado o coração me deixa. For obséquio, é o bastante.

COMÍNIO — Olhai, senhor, vossa mãe.

CORIOLANO — Oh! Já sei que conjurastes todos os deuses para o meu bom êxito. (Ajoelha-se.)

VOLÚMNIA — Não! de pé, meu soldado valoroso, meu gentil Márcio, meu mui digno Caio, e o nome ganho com recentes glórias... Como é?... Devo chamar-te Coriolano? Mas, oh! tua mulher!

CORIOLANO — Meu gracioso silêncio, salve! Como! Terias rido, acaso, se eu tivesse voltado num esquife, já que choras por me veres em triunfo? Ó minha cara! Olhos assim, somente têm as viúvas de Coríolos e as mães que os filhos choram.

MENÊIO — Possam os deuses coroar-te agora.

CORIOLANO — Como! Ainda vives? (A Valéria.) Oh! perdão, senhora!

VOLÚMNIA — Não sei para onde me virar. Bem-vindo! Bem-vindo, general, e assim vós todos.

MENÊIO — Um milhão de bem-vindos. Posso, a um tempo, chorar e rir; estou pesado e leve. Bem-vindo sois. Que a maldição atinja de cheio o coração de quem não fica contente por te ver. Roma devia por vós três estar sempre apaixonada. Mas pela fé, em nossas terras temos umas macieiras bravas que não podem ser enxertadas para vosso gosto. Não importa. Bem-vindos sois, guerreiros! Urtiga é sempre urtiga; não lhe damos outro nome; e os defeitos da estultícia serão sempre tolices.

COMÍNIO — Muito certo.

CORIOLANO — Menênio, sempre! sempre!

ARAUTO — Abri caminho por ali e avançai.

CORIOLANO — A mão... A vossa também. Antes de em casa ir a cabeça refrescar, tenho de ir fazer visita àqueles bons patrícios que me encheram não só de cumprimentos, mas, com estes, um fardo de honrarias.

VOLÚMNIA — Tive vida bastante para ver meus mais ardentes desejos realizados e concluído o edifício de minha fantasia. Só uma coisa ainda falta que, estou certa, nossa Roma terá de conceder-te.

CORIOLANO — Ficai sabendo, boa mãe: prefiro servi-los como entendo a ser partícipe do comando como eles entenderem.

COMÍNIO — Ao Capitólio, vamos!

(Fanfarras de cornetas. Saem solenemente como entraram; os tribunos ficam.)

BRUTO — Todas as bocas falam dele, e para vê-lo as vistas já turvas põem óculos. Vossa ama tagarela seu pimpolho deixa gritar a ponto de afogar-se. só para falar nele; a varredora de cozinha ata em torno do pescoço pouco limpo seu pano mais valioso e, para olhá-lo, se pendura ao muro. As lojas, as sacadas, as janelas estão cheias, repletos os telhados; as cumeeiras, montadas por figuras as mais variadas, todos empenhados, tão-só, em contemplá-lo. Os próprios flâmines, tão raramente vistos, se comprimem por entre a multidão e ora se esbofam para um lugar obterem junto à plebe. Nossas damas de véus a guerra entregam entre o rosado e o branco em suas faces belamente pintadas aos estragos livres dos beijos do ardoroso Febo. Tamanha é a confusão, que até parece que o deus que o guia houvesse, de mansinho, penetrado em seu corpo transitório, para graça emprestar-lhe à compostura.

SICÍNIO — Afirmo desde já que vai ser cônsul.

BRUTO — Nossas funções, então, em seu governo poderão cochilar.

SICÍNIO — Ele não há de ter o comedimento necessário para até ao fim levar as honrarias; acabará perdendo o que ganhou.

BRUTO — É o que nos deixa, em parte, mais tranqüilos.

SICÍNIO — Não o duvideis um só momento: o povo, que nós representamos, com seu velho e habitual ódio, ao menor pretexto há de esquecer seus títulos recentes, sendo ele mesmo que há de oferecer-lhes essa oportunidade, estou certíssimo, máxime porque timbra em demonstrá-lo.

BRUTO — Jurar o ouvi que se a pleitear o posto viesse de cônsul, não se mostraria na praça do mercado, nem as vestes sujas dos suplicantes vestiria, nem, como de uso, mostraria as suas cicatrizes ao povo de mau hálito, para pedir-lhes voto.

SICÍNIO — É muito certo.

BRUTO — Foram suas palavras: preferira não alcançar o posto, a vir a obtê-lo por outro meio que não seja o voto dos senhores e o anelo da nobreza.

SICÍNIO — Nada me agrada tanto como vê-lo persistir nessa idéia e pô-la em prática.

BRUTO — É o que fará, decerto.

SICÍNIO — E que há de em nosso proveito redundar, sendo para ele segura destruição.

BRUTO — Se não a dele, então será a de nossa autoridade. For isso relembremos aos do povo o ódio que Márcio votou sempre a todos e como, se pudesse, os transformara em animais de carga, silenciara seus defensores e cortara todas as suas liberdades, sobre tê-los em tal conceito quanto aos atos próprios do ser humano e o esforço produtivo, que mais alma não chega a conceder-lhes do que aos próprios camelos de campanha, que alimentos só obtêm, quando carregam pesados fardos, e pancada a rodo, quando caem sob a carga.

SICÍNIO — Tal idéia, como o dissestes, sugerida a tempo, quando sua insolência insuportável houver deixado o povo mais alerta — sendo que essa ocasião virá depressa, se excitá-lo soubermos, o que muito mais fácil nos será do que cachorros açular contra ovelhas — esse o fogo vai ser que incendiará sua palha seca, e cujas labaredas para sempre vão deixá-lo tisnado.

(Entra um mensageiro.)

BRUTO — Que há de novo?

MENSAGEIRO — No Capitólio vos reclamam. Dizem que Márcio vai ser cônsul. Apertarem-se vi mudos para vê-lo, e muitos cegos para ouvi-lo falar. Nossas matronas atiram luvas; damas e meninas, lenços e charpas à passagem dele. Dobram-se os nobres como se estivessem ante a estátua de Jove, tendo os próprios comuns feito uma chuva de trovoada com seus gorros e vivas. É inaudito.

BRUTO — Vamos ao Capitólio; disponhamos de olhos e ouvidos para o dia de hoje, mas de disposição para o que possa resultar de tudo isso.

SICÍNIO — Irei convosco.

(Saem.)

Cena II

O mesmo, O Capitólio. Entram dois oficiais para colocar almofadas.

PRIMEIRO OFICIAL — Vamos! vamos! Eles já vêm perto. Quantos são os candidatos para o consulado?

SEGUNDO OFICIAL — Três, é o que dizem; mas todos estão certos de que Coriolano ganhará o pleito.

PRIMEIRO OFICIAL — É um sujeito valente, mas orgulhoso a conta inteira, e não gosta do povo comum.

SEGUNDO OFICIAL — For minha fé, há muitas personagens de projeção que adularam o povo, sem nunca lhes terem dedicado a menor afeição, como há outros que o povo amou sem saber porquê. Ora, se o povo ama sem saber porquê, também odeia sem maior fundamento. Assim, não se preocupando nem com o amor nem com o ódio que os plebeus possam votar-lhe, Coriolano prova que conhece perfeitamente a disposição de todos eles, o que revela à saciedade com sua nobre indiferença.

PRIMEIRO OFICIAL — Se ele não se preocupa nem com o ódio nem com o amor dos plebeus, mantém-se em equilíbrio, sem lhes fazer bem nem mal. Mas a verdade é que procura o ódio deles com mais empenho do que eles poderiam ser capazes de revelar-lho, sem deixar por fazer nada que possa apresentá-lo como inimigo declarado de todos. Ora, procurar tão abertamente o ódio e o descontentamento do povo é tão prejudicial como o que ele próprio reprova; adulá-lo para obter-lhe as graças.

SEGUNDO OFICIAL — Ele se tornou benemérito da pátria; sua ascensão não se fez por degraus tão suaves como os dos que subiram à força de se mostrarem insinuantes e corteses para o povo, desfazendo-se em zumbaias, sem que nada mais houvessem feito para se afirmarem em sua estima e apreciação. Não; de tal modo plantou ele a honra nos olhos de todos e seus grandes feitos no coração do povo, que ficarem caladas as bocas, sem proclamarem essa verdade, fora ingratidão culposa, e contestá-lo, maldade inominável que, dando a si própria o desmentido, provocaria de quem quer que o ouvisse protestos e reprovações.

PRIMEIRO OFICIAL — Bem; não falemos mais dele; é um homem digno. Abramos caminho, que eles já estão chegando.

(Toque de trompa. Entram, precedidos de lictores, o Cônsul Comínio, Menênio, Coriolano, grande número de senadores, Sicínio e Bruto. Os senadores sentam-se em seus lugares; os tribunos sentam-se à parte.)

MENÊIO — O negócio dos volscos terminado e após termos mandado a Tito Lárcio ordem para voltar, o assunto máximo desta nossa reunião extraordinária vai consistir em premiar os nobres serviços de quem soube com tal êxito defender sua pátria. Assim, vos resta pedir agora, venerandos padres, que o atual cônsul que na feliz campanha foi nosso general nos conte um pouco de todas as ações extraordinárias feitas por Caio Márcio Coriolano, a quem agradecer agora vamos e enaltecer com honras dignas dele.

PRIMEIRO SENADOR — Bom Comínio, falai, sem omitir nada por ser extenso, convencendo-nos de que antes poderá mostrar-se Roma deficiente no prêmio do que falhos de gratidão seus filhos. (Aos tribunos.) De vós outros, tribunos populares, reclamamos amigável ouvido e, após, a vossa benigna interferência junto ao povo, para que aprove quanto aqui fizermos.

SICÍNIO — Aqui comparecemos convocados para um pacto amigável, encontrando-nos de coração dispostos a dar honras ao assunto agitado e a incentivá-lo.

BRUTO — O que faremos tanto mais felizes, se doravante ele mostrar que o povo tem em mais alto apreço do que sempre revelou no passado.

MENÊIO — Vamos logo! Passemos ao que importa. Preferível fora nada dizer. Não quereríeis ouvir falar Comínio?

BRUTO — De bom grado; mas minha restrição tem mais cabida do que vossa censura.

MENÊIO — Ele aprecia vosso povo; mas não deveis forçá-lo a dormir a seu lado. Agora fale o mui digno Comínio. (Coriolano se levanta e faz menção de retirar-se.) Não; ficai.

PRIMEIRO SENADOR — Sentai-vos, Coriolano, sem corardes das gloriosas ações que praticastes.

CORIOLANO — Nobres, perdoai-me; mas preferiria ter de pensar de novo estas feridas a ouvir contar como cheguei a obtê-las.

BRUTO — Quero crer, meu senhor, que não deixastes vosso lugar por causa do que eu disse.

CORIOLANO — Oh não, senhor! Porém já se tem dado resistir eu a golpes e, no entanto, pôr-me em fuga por causa de palavras. Não me adulastes; logo, não feristes. Vosso povo, avalio-o pelo peso.

MENÊIO — For obséquio, sentai-vos.

CORIOLANO — Preferira que ao sol o crânio todo me arranhassem, quando soasse o alarma, a aqui sentar-me sem fazer coisa alguma e ouvir meus nadas transformados em monstros assombrosos. (Sai.)

MENÊIO — Homens do povo, como poderia ele adular vossa cambada infinda — onde, entre mil, um bom, somente, se acha — quando, como estais vendo, ele prefere todos os membros arriscar pela honra, a deixar que um só ouvido ouça seus feitos? Comínio, principiai.

COMÍNIO — A voz me falta. Proclamados não podem ser os feitos de Coriolano por um peito débil. A virtude suprema — afirmam todos — é a coragem, que mais que tudo os homens eleva e dignifica. Sendo certa semelhante premissa, em todo o mundo não há quem possa ser equiparado ao varão de que falo. Quando tinha dezesseis anos e Tarquínio contra Roma se levantou, ele nas pugnas se distinguiu de todos. O então nosso ditador, a quem cito com louvores, o viu lutar, tendo testemunhado como ele, com seu queixo de amazona, correr fazia lábios bigodudos. Defendeu um romano que caíra, tendo, à vista do cônsul, derrubado três dos opositores. Sim, ao próprio Tarquínio se atreveu e o fez, de um golpe, tocar com o joelho em terra. Nesse dia de altos feitos, em que ele poderia representar como mulher na cena, provou ser o mais farte da campanha e alcançou a coroa de carvalho. Tendo passado, assim, da adolescência para virilidade tão gloriosa, como o oceano cresceu, e no entrechoque de dezessete pugnas, depois disso, os louros empalmou dos gládios todos. De seu último feito, diante e dentro de Coríolos, confesso que não posso, falar como devera. Fugitivos soube deter, e por seu raro exemplo fez os covardes terem por brinquedo quanto era, então, terror. Como sargaços diante da quilha de um navio à vela, dobravam-se os imigos e ficavam debaixo de seu beque. Sua espada, timbre da morte, não deixava nunca de marcar no alvo certo. Da cabeça aos pés era uma coisa só de sangue, cujas passadas eram concertadas com gritos de agonia. Ele, sozinho, entrou na mortal porta da cidade que tingiu com o destino inevitável; sem auxílio, escapo e, de repente, com súbito reforço foi em cima, de Coríolos cair como um planeta. Tudo, então, lhe pertence. E quando, aos poucos, o clangor da batalha o ouvido fino começou de ferir-lhe, in continenti duplamente restauram-lhe os espíritos o que na carne se encontrava lasso, e voltou para a luta, onde passava fumegante por sobre a vida de homens como se fosse a destruição perpétua. E só quando a cidade e o vasto campo pudemos chamar nosso, foi que pausa ele se permitiu, para que fôlego viesse enfim a tomar.

MENÊIO — Digno romano!

PRIMEIRO SENADOR — Adequadas à sua envergadura são as honras que vamos conferir-lhe.

COMÍNIO — Em nosso espólio deu com o pé, olhando para as coisas mais ricas, como se elas não passassem de escória vil terrena. Cobiça menos do que poderia dar-lhe a própria miséria. A recompensa de seus atos, e encontra-a em realizá-los, e, arrematando-os, passa alegre o tempo.

MENÊIO — É nobre em toda linha. Convocai-o.

PRIMEIRO SENADOR — Que chamem Coriolano!

OFICIAL — Já vem vindo.

(Volta Coriolano.)

MENÊIO — Alegra-se o senado, Coriolano, em fazer de ti cônsul.

CORIOLANO — Minha vida sempre lhes deverei e meus serviços.

MENÊIO — Só falta dirigirdes-vos ao povo.

CORIOLANO — Peço-vos dispensardes-me desse uso, pois não posso vestir a loba humilde, de cabeça despida apresentar-me e suplicar ao povo que por minhas feridas me conceda seus sufrágios Dispensai-me, vos peço, dessa parte.

SICÍNIO — Senhor, o povo deve ter seu voto. Jamais abaterão uma partícula desse cerimonial.

MENÊIO — Não forceis muito, por favor; conformai-vos a essa praxe e recebei essa honra como todos vossos predecessores: como é de uso.

CORIOLANO — É uma comédia que eu só represento vermelho de vergonha e que podia muito bem ser do povo retirada.

BRUTO (à parte, a Sicínio) — Estais vendo?

CORIOLANO — Gabar-me diante deles: “Fiz isto e aquilo!” patentear-lhes minhas cicatrizes inócuas, que de todos eu devera ocultar, como se houvesse ganho essas marcas só pelo salário do hálito deles todos!

MENÊIO — Basta! Basta! Não insistais sobre isso. A vós, tribunos do povo, apresentamos a proposta, e ao nosso nobre cônsul desejamos honra e felicidade!

SENADORES — A Coriolano honra e felicidade!

(Fanfarra. Saem todos, com exceção de Sicínio e Bruto.)

BRUTO — Só por isso, vedes como ele vai tratar o povo.

SICÍNIO — Oh! possam eles perceber-lhe o intento! Irás falar-lhes como quem se indigna de que dependa deles conceder-lhes o que lhes vai pedir.

BRUTO — Vamos embora. Vou informá-los do que aqui fizemos. Tenho ciência de que nos esperam na praça do mercado.

(Saem.)

Cena III

O mesmo. O foro. Entram vários cidadãos.

PRIMEIRO CIDADÃO — Em resumo: se ele pedir nossos votos, não devemos negar-lhos.

SEGUNDO CIDADÃO — Poderemos, senhor, se o quisermos.

TERCEIRO CIDADÃO — Temos esse direito; mas é um direito que não temos o direito de exercer. Forque se ele nos mostrar suas feridas e nos relatar seus feitos, teremos de emprestar nossas vozes àquelas feridas e de falar por elas. Desse modo, se ele nos contar seus nobres feitos, por nossa parte teremos de exprimir-lhe nossa nobre aprovação. A ingratidão é coisa monstruosa; deixar que a multidão se torne ingrata é transformá-la em monstro; ora, sendo nós membros da multidão, passaremos a ser membros monstruosos.

PRIMEIRO CIDADÃO — Não será precisa muita coisa para que não seja muito melhor do que isso o juízo que ele faz de todos nós, porque no tempo em que nos amotinamos por causa do trigo ele não vacilou em chamar-nos de monstro de mil cabeças.

TERCEIRO CIDADÃO — Muita gente já nos tem dado esse nome, que não vem do fato de haver entre nós cabeças louras, castanhas, pretas ou calvas, mas de termos o espírito de colorido diferente. E, em verdade, estou convencido de que se todos os nossos pensamentos tivessem de sair de um só crânio, voariam de pronto para leste, norte e sul, só havendo unanimidade, quanto ao caminho direito, em se dispersarem imediatamente pelos quatro pontos cardeais.

SEGUNDO CIDADÃO — Essa é a vossa opinião? Para que lado, então, pensais que meu pensamento voaria?

TERCEIRO CIDADÃO — Ora, vosso pensamento não escaparia tão velozmente como o de qualquer outra pessoa; está muito fortemente encavilhado numa cabeça de pau. Mas no caso de libertar-se, é certeza que seguiria para o lado do sul.

SEGUNDO CIDADÃO — E por que para esse lado?

TERCEIRO CIDADÃO — Para perder-se num nevoeiro; depois de ficar com três quartas partes dissolvidas nas brumas pútridas, retornaria a quarta, por questão de consciência, para ajudar-vos a arranjar uma mulher.

SEGUNDO CIDADÃO — Estais, sempre com brincadeiras. Continuai! continuai!

TERCEIRO CIDADÃO — Estais, portanto, resolvidos a dar o vosso voto? Pouco importa. É a maioria que decide. Penso que se ele se inclinar para o povo, não haverá homem mais digno. (Entra Coriolano, com traje humilde, e Menênio.) Aí vem ele com vestes humildes; observai sua atitude. Não devemos ficar juntos; passemos por ele insuladamente, ou em grupos de dois e de três. Terá de fazer o pedido a cada cidadão, com o que cada um de nós ganhará honra em dar-lhe o voto com a própria voz e a própria boca. For isso, acompanhai-me, que eu vos indicarei o modo de vos aproximardes dele.

TODOS — De acordo! de acordo!

(Saem os cidadãos.)

MENÊIO — Senhor, estais errado; pois decerto sabeis que os cidadãos mais conceituados assim mesmo fizeram.

CORIOLANO — De que modo falar-lhes? “Peço-vos, senhor...” Malditos! Não posso pôr a língua nesse passo. “Contemplai, meu senhor, estas feridas; no serviço da pátria ganhei todas, quando muitos dos vossos companheiros aos urros debandavam, só de ouvirem nossos próprios tambores.”

MENÊIO — Pelos deuses! não faleis assim. Deveis levá-los a pensar sobre vós.

CORIOLANO — Pensar em mim? Que se enforquem! Prefiro que se esqueçam do que me diz respeito, como o fazem com a virtude que, em pura perda, os padres gastam com eles todos.

MENÊIO — Desse modo estragaríeis tudo. Vou deixar-vos. For obséquio, falai-lhes, por obséquio, por maneira razoável.

CORIOLANO — Nesse caso mandai que todos vão lavar o rosto e limpar mais os dentes. (Sai Menênio.) Eis que chega uma parelha deles. (Voltam dois cidadãos.) Com certeza sabeis, senhor, por que me encontro aqui.

PRIMEIRO CIDADÃO — Perfeitamente, senhor; dizei-nos o que vos levou a isso.

CORIOLANO — Meu próprio mérito.

SEGUNDO CIDADÃO — Vosso próprio mérito!

CORIOLANO — Sim, que não foi meu desejo.

PRIMEIRO CIDADÃO — Como! Não vosso desejo?

CORIOLANO — Não, senhor, pois nunca desejei incomodar com pedidos os pobres.

PRIMEIRO CIDADÃO — Deveis imaginar que se vos dermos alguma coisa será com a esperança de obter alguma recompensa.

CORIOLANO — Então dizei-me, por obséquio, qual é o preço do consulado?

PRIMEIRO CIDADÃO — O preço é um pedido delicado.

CORIOLANO — Delicado! Ora, senhor! concedei-mo, por obséquio. Tenho que mostrar-vos cicatrizes, o que poderei fazer em particular. Vosso bom voto, senhor... Que me dizeis?

SEGUNDO CIDADÃO — Será vosso, digno senhor.

CORIOLANO — Negócio feito, senhor. Ao todo, já mendiguei dois dignos votos. Aceito vossos óbolos. Adeus.

PRIMEIRO CIDADÃO — Tudo isso é um pouco estranho!

SEGUNDO CIDADÃO — Se tivéssemos de concedê-lo de novo... Ora! não importa.

(Saem os dois cidadãos.)

(Voltam dois outros cidadãos.)

CORIOLANO — Por obséquio, se se concilia com o tom de vossa voz que eu venha a ser cônsul, aqui me encontro com as vestes do estilo.

TERCEIRO CIDADÃO — Tomastes-vos com nobreza merecedor da pátria, e não vos tomastes merecedor com nobreza.

CORIOLANO — Vossa charada?

TERCEIRO CIDADÃO — Fostes flagelo para os inimigos dela; fostes açoite para seus amigos. O certo é que jamais amastes o povo comum.

CORIOLANO — Tanto maior é o cabedal de virtude que deveríeis levar à minha conta, por eu não ter sido comum em minhas afeições. Vou adular, senhor, meus irmãos jurados, as pessoas, do povo, para merecer deles mais cordial estima... por ser essa a condição que eles consideram amável. E por preferirem eles, em sua sabedoria, meu chapéu a meu coração, vou exercitar-me nas curvaturas aduladoras, para sair-me do caso com o mais-completo fingimento. Quero dizer, senhor, vou imitar a fascinação de algum homem popular e concedê-la a mancheias a quantos a desejarem. Por isso, concordai, vos peço em que eu venha a ser cônsul.

QUARTO CIDADÃO — Esperamos encontrar em vós um amigo; por isso, de coração vos damos nossos votos.

TERCEIRO CIDADÃO — Recebestes muitas feridas na defesa da pátria.

CORIOLANO — Não desejo selar vosso conhecimento com mostrar-vo-las. Farei grande cabedal de vossos votos, não desejando incomodar-vos por mais tempo.

AMBOS OS CIDADÃOS — Que os deuses vos dêem alegria, senhor, de todo o coração.

(Saem.)

CORIOLANO — Que votos agradáveis! Antes morrer de fome, alarvemente, do que ter de pedir a tanta gente quanto já nos pertence. Como logo vestido, assim, que faço — grande bobo! — pedindo a Pedro e a João o voto estulto? Chamam a isso costume; é quase um culto; mas se seguirmos o costume em tudo, o pó do tempo ficará rabudo, e tal montanha de erros se levanta, que a verdade, de vez, enfim suplanta. Se não quiser estupidificar-me deixemos logo o ofício com seu carme para quem se dispõe a exercitá-lo. Já consegui vencer meio intervalo. Ora, tendo sofrido uma metade, a outra, por isso, perecer não há de. Eis outros votos que nos chegam. (Voltam mais três cidadãos.) Vossos votos, senhores. Foi por vossos votos que eu combati; velei por vossos votos; recebi duas dúzias de feridas, ou mais, por vossos votos. Vi batalhas e ouvi três vezes seis; só pelos vossos votos fiz muitas coisas; umas, grandes; outras, pequenas. Bem; os vossos votos. Desejara ser cônsul.

QUINTO CIDADÃO — Ele se conduziu com nobreza, não podendo, portanto, deixar de alcançar o voto das pessoas honestas.

SEXTO CIDADÃO — Então, que se torne cônsul. Que os deuses lhe concedam alegria e o façam amigo do povo.

TODOS — Amém! Amém! Deus te proteja, nobre cônsul!

(Saem os cidadãos.)

CORIOLANO — Dignos votos!

(Volta Menênio, com Bruto e Sicínio.)

MENÊIO — Passastes bem o prazo estipulado. Os tribunos vos dão a voz do povo. Agora só vos resta pôr as vestes oficiais e logo ir para o senado.

CORIOLANO — Aqui já terminou?

SICÍNIO — Satisfizestes os costumes do rogo. Assim, o povo vos aprova, ficando convocado para a confirmação de vossa escolha.

CORIOLANO — Onde isso? No senado?

SICÍNIO — Sim, lá mesmo.

CORIOLANO — Posso trocar de roupa?

SICÍNIO — Sim, mui digno senhor; podeis.

CORIOLANO — Vou fazer isso logo; e, depois de voltar a ser eu mesmo, irei para o senado.

MENÊIO — Irei convosco. Não vindes?

BRUTO — Vamos esperar o povo.

SICÍNIO — Passai bem. (Saem Coriolano e Menênio.) Alcançou o que queria. No olhar revela, quero crer, o ardor que tem no coração.

BRUTO — Com que arrogância envergou ele as vestes da humildade! Despedireis o povo?

(Voltam os cidadãos.)

SICÍNIO — Então, meus mestres? Elegestes esse homem?

PRIMEIRO CIDADÃO — Teve os nossos votos, senhor.

BRUTO — Só peço aos deuses que ele mereça vosso amor.

SEGUNDO CIDADÃO — Amém, senhor. Segundo minha humilde observação, de nós zombava ao nos pedir os votos.

TERCEIRO CIDADÃO — É certo: motejou de ponta a ponta.

PRIMEIRO CIDADÃO — Não, não zombou de nós; fala assim mesmo.

SEGUNDO CIDADÃO — A não ser vós, há quem não afirme que nos tratou com insolência extrema. Não nos mostrou as cicatrizes de honra que recebeu lutando pela pátria.

SICÍNIO — Como! Mostrou; tenho certeza disso.

TODOS — Não! Não! Ninguém as viu.

TERCEIRO CIDADÃO — Somente disse que tinha cicatrizes e que estava pronto a mostrá-las em particular. Agitando, depois, com ar de escárnio, deste modo, o chapéu, “Desejaria ser cônsul” disse, “e cônsul não consente o uso antigo que seja sem que obtenha vossos votos. Por isso: vossos votos!” E após lhos concedermos: “Agradeço”, prosseguiu, “vossos votos; obrigado vos sou por esses votos inefáveis. Mas, uma vez que vos comprometestes, liquidemos as contas”. Não é isso, dizei, puro sarcasmo?

SICÍNIO — E como fostes tão ignaros que não o percebestes, ou, tendo-o percebido, revelastes tamanha ingenuidade, para dar-lhe vosso voto amigável?

BRUTO — Não podíeis ter-lhe dito, tal como vos instruímos, que quando ele não tinha força alguma, qual subalterno servidor do Estado, era vosso inimigo, falou sempre contra vosso direito e os privilégios de que gozais no corpo da república? E agora, após ter alcançado um posto poderoso no leme do governo, se continuar a se mostrar inimigo maligno dos plebeus, não poderia dar-se que vossos votos a ser venham a maldição que contra vós se vira? Deveríeis ter dito que assim como seus dignos feitos mereciam quanto pretendia ele então, também seria de esperar que ele em sua natureza graciosa se lembrasse de vós todos e dos votos pedidos, transformando-se em amizade a sua malquerença e ele em vosso afetuoso protetor.

SICÍNIO — Essa linguagem, como vos dissemos antecipadamente, lhe teria calado fundo na alma e posto à prova seu pendor verdadeiro, sobre ter-lhe promessas amigáveis arrancado, de que depois vos aproveitaríeis conforme as ocasiões; ou então deixara corroída sua natureza abrupta, que não se dobra a imposição nenhuma. Ora, uma vez zangado, poderíeis ter tirado partido de sua cólera, para não elegê-lo.

BRUTO — Percebestes o sarcasmo com que ele vos falava, pedindo vosso apoio, quando tinha necessidade de alcançar uns votos, e imaginais que seu desprezo nunca virá a vos ser nocivo, quando força ele tiver para esmagar a todos? Como! Não tendes coração no corpo? Só língua para gritar contra os próprios preceitos da razão?

SICÍNIO — Já recusastes muitos pedintes, para agora dardes a quem nada pediu e riu de todos, vossos sufrágios tão solicitados?

TERCEIRO CIDADÃO — Não foi ainda confirmado; fácil nos fora recusá-lo.

SEGUNDO CIDADÃO — E assim furemos; tenho quinhentos votos desse timbre.

PRIMEIRO CIDADÃO — E eu duas vezes isso, sem contarmos os votos dos amigos deles todos.

BRUTO — Ide logo dizer a esses amigos que eles agora um cônsul elegeram que os privará de suas liberdades e a voz dos cães, apenas, vai deixar-lhes, nos quais batemos por ladrarem, sendo que os criamos para isso.

SICÍNIO — Ide reuni-los; e que, após julgamento mais sadio, essa escolha desfaçam mais que estúpida. Insisti sobre o orgulho e no velho ódio que sempre vos dicou, e, sobretudo, não deixeis de falar no alto desprezo com que envergou as vestes da humildade; como vos desprezava com toda a alma. Lembrai, porém, que vossas simpatias, tomando em conta seus atuais serviços, a esquecer vos levou sua conduta neste momento, impertinente e fútil, pauta apenas no ódio inveterado que a todos vós dedica.

BRUTO — Toda a culpa descarregai em nós, vossos tribunos, dizendo que nos esforçamos para remover os obstáculos, fazendo que vossa escolha recaísse nele.

SICÍNIO — Dizei-lhes que o escolhestes mais por nossas injunções do que mesmo iluminados por vossos verdadeiros sentimentos; e que, tendo ocupado, assim, o espírito mais com o que vos impunham do que mesmo com o que fazer, apenas, deveríeis, contra vossos desejos o elegestes para esse cargo. Ponde em nós a culpa.

BRUTO — Isso! Não nos poupeis, dizendo a todos como vos doutrinamos várias vezes sobre os serviços que ele, ainda tão jovem, prestou a nossa terra e continua prestando, e sobre o trono originário, a casa nobilíssima dos Márcios, de onde Anco Márcio veio, aquele filho de uma filha de Numa, que o reinado aqui teve depois do grande Hostílio. Da mesma casa foram Públio e Quinto, que a melhor água por canais nos deram... Mais: Censorino, assim apelidado — com honra, pois censor foi duas vezes — foi mui glorioso antepassado dele.

SICÍNIO — Com uma origem dessas e, por cima, com predicados próprios que o tornavam digno do posto, fui recomendado por nós a vossa estima. Mas achastes, depois de sopesar sua conduta presente com o passado, que ele é vosso figadal inimigo e que, por isso, retirais vosso voto irrefletido.

BRUTO — Dizei-lhes que jamais teríeis feito tal coisa — insisti muito nesse ponto — sem nossa sugestão. E quando todos estiverem reunidos, dirigi-vos direto ao Capitólio.

TODOS — Assim faremos. Quase todos estão arrependidos de semelhante escolha.

(Saem os cidadãos.)

BRUTO — Que prossigam. Será melhor correr os riscos deste levantamento do que, sem certeza, condições mais propícias esperarmos. Se, com o gênio que tem, ficar furioso com a recusa deles, observemos bem sua cólera e tiremos dela o máximo proveito.

SICÍNIO — Ao Capitólio! Antes da onda do povo lá estaremos, parecendo, o que em parte é verdadeiro, que por impulso próprio agiram, quando, de fato, os aguilhoamos.

(Saem.)

ATO III
Cena I

Roma. Uma rua. Cornetas. Entram Coriolano, Menênio, Comínio, Tito Lárcio, senadores e patrícios.

CORIOLANO — É certo, então, que Tulo Aufídio se acha novamente de pé?

LÁRCIO — Perfeitamente, senhor, sendo essa a causa de nos termos unido tão depressa.

CORIOLANO — Então os volscos se encontram como no princípio, prontos, conforme as circunstâncias, a atacar-nos.

COMÍNIO — Tão gastos, senhor cônsul, estão todos, que mui dificilmente em nossas vidas veremos seus pendões outra vez soltos.

CORIOLANO — Vistes Aufídio?

LÁRCIO — Veio procurar-me com passe livre, tendo amaldiçoado todos os volscos, por cedido haverem a cidade com tanta covardia. Retirou-se para Ântio.

CORIOLANO — Falou de mim?

LÁRCIO — Falou, senhor,

CORIOLANO — Mas como? Que disse?

LÁRCIO — Que convosco se encontrara muitas vezes, espada contra espada; que não há coisa alguma sobre a terra de que ele, como a vós, tanto ódio tenha, e que de grado arriscaria todos os seus bens em parada perigosa, contanto que pudesse ser chamado de vosso vencedor.

CORIOLANO — Vive ora em Ântio?

LÁRCIO — Em Ântio.

CORIOLANO — Desejara ter motivo para ir lá procurá-lo e, assim, opor-me de cheio, ao seu rancor. Sois mui bem-vindo. (Entram Sicínio e Bruto.) Os tribunos do povo, vede! a língua da boca dos comuns! Tenho por eles só desprezo, por causa da maneira por que se pavoneiam nos seus cargos. Não há paciência nobre que os suporte.

SICÍNIO — Parai aí!

CORIOLANO — Que é que houve? Que acontece?

BRUTO — Seria perigoso ir mais adiante.

CORIOLANO — Qual foi a causa de uma tal mudança?

MENÊIO — Que aconteceu?

COMÍNIO — Não foi, acaso, eleito pelos nobres e, assim, pelos comuns?

BRUTO — Não, Comínio; não foi.

CORIOLANO — Então só obtive votos de criança?

PRIMEIRO SENADOR — Abri-nos o caminho, tribunos; ele vai para o mercado.

BRUTO — Exaltado contra ele se acha o povo.

SICÍNIO — Detende-vos; se não, sairá barulho.

CORIOLANO — Esse é o vosso rebanho? Será digno de votar quem promete seu sufrágio para, no mesmo instante, retirá-lo? Que foi feito de vossa autoridade? Se a boca sois do povo, por que causa não dirigis seus dentes? Porventura não os espicaçastes?

MENÊIO — Calma! calma!

CORIOLANO — É de caso pensado; houve conjura para dobrar o voto da nobreza. Tolerai isso e, após vivei com quem não sabe nem mandar nem ser mandado.

BRUTO — Não faleis de conjura. O povo grita que o ludibriastes e que há pouco tempo, quando foi distribuído trigo grátis, vós murmurastes e fizestes troça de seus representantes e os chamastes de criados do momento, aduladores, inimigos dos nobres.

CORIOLANO — Mas tudo isso era mais que sabido.

BRUTO — Não de todos.

CORIOLANO — Quer dizer que depois os informastes?

BRUTO — Eu, informá-los? Como!

CORIOLANO — Sois capazes de semelhantes atos,

BRUTO — Pelo menos sou capaz de melhores do que os vossos.

CORIOLANO — Então, por que eu teria de ser cônsul? Oh! pelas nuvens! Arranjai um jeito de, como vós, eu me tornar inepto e me nomeai tribuno ao vosso lado.

SICÍNIO — Revelais em excesso o que tem feito tanto excitar o povo. Se quiserdes alcançar o alvo a que visais, forçoso vos será procurar a estrada certa, de que vos afastais, com outro espírito, ou nunca alcançareis o nobre posto de cônsul, nem sereis jungido ao lado dele como tribuno.

MENÊIO — Ficai calmos.

COMÍNIO — Semelhantes trapaças não são dignas de Roma, nem merece Coriolano que atiremos com tanta falsidade na estrada reta de seu grande mérito lixo tão desonroso.

CORIOLANO — Ora! falarem-me de trigo! Novamente vou dizer-vos qual foi o meu discurso.

MENÊIO — Não agora! Depois! Depois!

PRIMEIRO SENADOR — Nem nesse estado de alma, caro senhor.

CORIOLANO — Por minha vida, agora! Quero falar. Meus nobres companheiros, peço vosso perdão. Quanto aos muitos, mutáveis sempre, e sempre mal cheirosos, que em mim venham mirar-se — que eu a ninguém adulo — e se conheçam. Repito: lisonjeando-os desse modo, contra nosso senado alimentamos o germe da revolta, da insolência, da rebelião, lançado por nós próprios no sulco aberto e no terreno ao longe semeado e dispersado, com os termos trazido para o número dos nobres que de virtude nem poder carecem, senão das que deixamos aos mendigos.

MENÊIO — É o bastante! É o bastante!

PRIMEIRO SENADOR — Nem mais uma palavra, por obséquio.

CORIOLANO — Nem mais uma? Como! Do mesmo modo que na guerra o sangue derramei por minha pátria sem temer força externa, hão de palavras cunhar os meus pulmões até pararem, contra estes lazarentos, que receamos possam contaminar-nos, mas fazemos tudo para pegar a doença deles.

BRUTO — Falais do povo como se um deus fôsseis para punir, e não um homem fraco como qualquer um deles.

SICÍNIO — Bom seria que fôssemos falar ao povo disso.

MENÊIO — Como! Falar de quê? De sua cólera?

CORIOLANO — Cólera? Embora eu fosse calmo como o sono da meia-noite — pelo grande Jove! — meu modo de pensar seria o mesmo.

SICÍNIO — É um modo de pensar que ficar deve, como veneno que é, no lugar próprio, sem que continuar possa a ser nocivo.

CORIOLANO — Deve ficar? Ouvistes o que disse o tritão das sardinhas? Percebestes seu absoluto “deve”?

COMÍNIO — Foi um lapso de expressão.

CORIOLANO — Como! “Deve”? Ó generosos mas levianos patrícios! Como, graves senadores, porém imprevidentes, permitistes a essa hidra que escolhesse representante para, com um “deve” impudente, ele que é, tão-só, a tromba e o barulho do monstro, ter o ousio de pretender mudar num fosso estreito a corrente de vossa autoridade, transformando no dele vosso leito? Se ele é potente, então acomodai-vos em vossa estupidez; se não, que acorde vossa indulgência mais que perigosa. Se sois esclarecidos, que não seja vossa conduta como a dos idiotas; não o sendo, então, que eles também se sentem ao vosso lado em moles almofadas. Sois plebeus, se eles forem senadores; e menos não serão desde que, tendo misturado seus votos com os dos nobres, sente o fino padar ao gosto deles. Escolheram os seus representantes do tipo deste que antepôs seu “deve”, seu “deve” popular, a este conclave de graves senadores, como nunca franziu outro na Grécia o cenho augusto. Por Jove! Isso rebaixa nossos cônsules. Sofro até o fundo da alma, quando vejo dois poderes de pé, sem que o primado nenhum alcance, e como facilmente penetra a confusão no espaço entre ambos, vindo, assim, mutuamente a se destruírem.

COMÍNIO — Bem: mas vamos à praça do mercado.

CORIOLANO — Quem teve a idéia de distribuir grátis o trigo dos depósitos, tal como algumas vezes já se fez na Grécia...

MENÊIO — Muito bem! muito bem! Sobre isso basta.

CORIOLANO — ...embora o povo lá tivesse muito mais força que entre nós, com isso apenas trabalhou para a ruína da república.

BRUTO — Como! Poderá o povo dar seu voto para quem fala assim?

CORIOLANO — Vou dar-vos minhas razões, que valem mais que o voto deles. Eles tinham certeza de que o trigo que lhe demos não era recompensa por coisa alguma, pois jamais haviam feito jus a tal prêmio. Quando instados para a guerra, no instante em que a república atingida se via nas entranhas, não ousaram pôr pé fora das portas. Merecerá serviço desse gênero distribuição de trigo? Na campanha, seus motins e revoltas, com os quais todos sobretudo mostravam valentia, a favor deles não falavam nunca. As recriminações que, tão freqüentes, contra nosso senado levantaram, todas elas de causa inexistente, não poderiam nunca ser motivo de dádiva tão franca. Bem; e agora? Como essa multidão de vista curta digere a cortesia do senado? Que traduzam seus atos os discursos em tudo iguais àqueles: “Exigimos; somos a grande massa, tendo sido por puro medo que eles concederam tudo quanto pedimos”. Rebaixamos, assim, a natureza do mandato, justificando que a canalha o nome de medo dê ao que é solicitude. Dentro de pouco, as portas do senado serão forçadas e no seu recinto os corvos bicarão as próprias águias.

MENÊIO — Vamos; já chega.

BRUTO — Chega com excesso.

CORIOLANO — Não, ouvi o que falta. Quanto as juras constituem, humanas e divinas, sele agora o meu fecho. Esse o governo de dois poderes, no qual uma parte sente desprezo, com razão, da outra, sendo por ela, sem nenhum motivo, coberta só de injúrias; em que os títulos, a experiência, a nobreza não conseguem decidir coisa alguma sem que alcancem o sim ou o não da estupidez dos muitos: acabará das reais necessidades se descuidando, para ver-se presa da inconstante fraqueza. Quando todos os propósitos, todos, morrem frustros, tudo passa a ser feito sem propósito. Por isso vos conjuro, vós que menos medrosos quereis ser do que discretos; que amais os fundamentos da república bastantemente para não quererdes vê-los modificados; que uma vida com nobreza antepondes à existência prolongada e sem cor, e arríscaríeis aplicar um remédio perigoso num corpo que, sem isso, perecera: já já tirai à multidão a língua; que ela não lamba o mel que é seu veneno. Vosso rebaixamento deixa em postas o são juízo e priva o alto governo da inviolabilidade, indispensável, que nenhum bem agora fazer pode pelo mal que o dirige.

BRUTO — Falou muito.

SICÍNIO — Falou como traidor, devendo a pena receber dos traidores.

CORIOLANO — Grande tolo, que o desprezo te esmague! Que é que pode fazer o povo com tribunos calvos? Porque depende deles, nega toda reverência ao poder mais elevado. Foi uma rebelião que os elegeu, quando a coação é lei, não o direito. Denominai, numa hora mais propícia, direito o que é direito e ao pó da rua atirai seu poder.

BRUTO — Traição patente!

SICÍNIO — Isto é ser cônsul? Nunca!

BRUTO — Olá! Edis! Venham logo prendê-lo.

(Entra um edil.)

SICÍNIO — Chama o povo, (Sai o edil.) em cujo nome eu te detenho, como inovador traiçoeiro e da república declarado inimigo. Ordeno-o; segue-me e entrega-te à justiça.

CORIOLANO — Velho bode, para trás!

SENADORES — De caução lhe serviremos.

COMÍNIO — Velho, abaixai a mão!

CORIOLANO — Sai, coisa podre! do contrário, farei saltar-te os ossos de dentro dessa roupa.

SICÍNIO — Cidadãos! Socorro, cidadãos!

(Entram outros edis, com um magote de cidadãos.)

MENÊIO — De ambos os lados, mais reflexão.

SICÍNIO — Ali podeis ver o homem que quisera deixar-vos sem direitos.

BRUTO — Edis, prendei-o!

CIDADÃOS — Abaixo! Abaixo!

SENADORES — Armas! Armas! Armas! (Correm todos, aos gritos, para o lado de Coriolano.) Tribunos! Cidadãos! Patrícios! Oh! Sicínio! Bruto! Coriolano! Amigos! Paz, paz! Detende-vos! Silêncio! Paz!

MENÊIO — Que se vai dar? Estou quase sem fôlego. Estamos na iminência de um desastre. Não sei falar... Tribunos populares, vós aí... Coriolano, mais paciência! Bom Sicínio, falai!

SICÍNIO — Povo, escutai-me!

CIDADÃOS — Nosso tribuno vai falar! Ouçamo-lo! Paz! Silêncio!... Falai, falai, falai!

SICÍNIO — Arriscados estais a perder todas as vossas liberdades; desejara Márcio vo-las tirar, Márcio que cônsul acabais de eleger.

MENÊIO — Ora, que coisa! Isso é aumentar, não extinguir a chama.

PRIMEIRO SENADOR — A cidade destruir, arrasar tudo.

SICÍNIO — E que é a cidade, se não for o povo?

CIDADÃOS — Sim, é certo: a cidade é o próprio povo.

BRUTO — Fomos eleitos seus representantes pelo voto geral.

CIDADÃOS — E nesse posto continuareis.

MENÊIO — É o que parece, mesmo.

COMÍNIO — Esse é o caminho de arrasar os muros, de pôr o teto rente aos alicerces e enterrar quanto ainda se acha em ordem sob um montão de ruínas.

SICÍNIO — Será a morte para isso a pena certa.

BRUTO — Ou damos prova de nossa autoridade, ou perdê-la-emos definitivamente. Declaramos, pois, em nome do povo, cuja força nos elegeu representantes dele, que Caio é digno de imediata morte.

SICÍNIO — Segurai-o, portanto, e o levai logo para a rocha Tarpéia, de onde seja precipitado e morto.

BRUTO — Edis, prendei-o!

CIDADÃOS — Márcio, entrega-te!

MENÊIO — Ouvi-me num palavra. Conjuro-vos, tribuno: uma palavra, tão-somente.

EDIS — Silêncio! Paz!

MENÊIO — Agora sede o que pareceis: amigos certos de vossa pátria e procedei com calma para o conserto do que por violência pretendeis corrigir.

BRUTO — Senhor, processos frios como esse, que com mui prudentes recursos se assemelham, são veneno quando o mal é violento. — Segurai-o! Para a rocha arrastai-o!

CORIOLANO — Não; primeiro me tirarão a vida. (Arranca a espada.) Alguns dos vossos Já me viram lutar. Vinde e em vós próprios experimentai o que fazer me vistes.

MENÊIO — Abaixai essa espada! Retirai-vos, tribunos, um momento.

BRUTO — Segurai-o!

MENÊIO — Socorrei Márcio! — Aqui! Socorrei Márcio. vós da nobreza! Aqui, moços e velhos!

CIDADÃOS — Abaixo Coriolano! Abaixo! Abaixo!

(No tumulto os tribunos, os edis e o povo são repelidos.)

MENÊIO — Já! retirai-vos para vossas casas; se não, tudo irá mal.

SEGUNDO SENADOR — Sim, retirai-vos!

CORIOLANO — Fiquemos firmes, pois é igual o número de amigos e inimigos.

MENÊIO — Chegaremos a esse ponto?

PRIMEIRO SENADOR — Que os deuses não o permitam! Peço-te, nobre amigo, por obséquio, vai para casa e deixa a nosso cargo o tratamento disto.

MENÊIO — Dói-nos muito não poderdes pensar vós mesmo a chaga. Por favor, retirai-vos.

COMÍNIO — Vinde, vinde, meu senhor!

CORIOLANO — Desejara que eles fossem bárbaros — como o são, embora tenham tido todos em Roma a manjedoura — não romanos — o que não são, realmente, muito embora paridos tenham sido todos junto ao portão do Capitólio...

MENÊIO — Retirai-vos, sem pôr em vossa boca tanta cólera nobre. Ainda veremos o dia da vingança.

CORIOLANO — Em campo liso bateria quarenta desses biltres.

MENÊIO — Eu próprio me incumbira de um par deles, os mais valentes, sim, os dois tribunos.

COMÍNIO — Mas a desproporção agora é enorme; passa da conta, merecendo o nome de loucura a coragem que se oponha a um edifício que a cair esteja. Não quereis ir antes que a corja volte? Sua raiva parece-se com a água represada, que vence os altos diques que vencê-la soíam.

MENÊIO — Ide, peço-vos. Quero ver se ainda dá meu velho espírito para tratar com quem nenhum possui. É indiferente a cor do pano usado como remendo.

COMÍNIO — Vamos, vamos logo.

(Saem Coriolano, Comínio e outros.)

PRIMEIRO PATRÍCIO — Este homem estragou a própria sorte.

MENÊIO — De natural é em demasia nobre para este mundo. Não adularia Netuno sob ameaça do tridente, nem Jove pela força de seu raio. A boca é o coração; ao que se forja dentro do peito a língua dá saída. Chega a esquecer, quando encolerizado, que o nome ouviu da morte em qualquer tempo. (Barulho dentro.) Vamos ter coisa.

SEGUNDO PATRÍCIO — Fossem para as camas!

MENÊIO — No Tibre é que os quisera. Com os demônios! Mas por que causa não falou com modos?

(Voltam Bruto e Sicínio, com a ralé.)

SICÍNIO — Onde está aquela víbora que Roma quisera despovoar para tornar-se todo o mundo ele só?

MENÊIO — Dignos tribunos...

SICÍNIO — Com rigorosas mãos será atirado já da rocha Tarpéia. Resistiu à lei; por isso a lei desprezar deve quaisquer formalidades e entregá-lo ao rigor do poder do próprio povo por ele desprezado tanto e tanto.

PRIMEIRO CIDADÃO — Fique ele, assim, sabendo que os tribunos são a cabeça do povo e nós, seus braços.

CIDADÃOS — Oh! vai ficar sabendo.

MENÊIO — Mas senhores...

SICÍNÍO — Calai-vos!

MENÊIO — Não griteis “Avança!” quando caçar só poderíeis com direitos em tudo relativos.

SICÍNIO — Por que causa, meu senhor, o ajudastes nesta fuga?

MENÊIO — Ouvi-me um pouco. Assim como conheço todo o valor do cônsul, também posso apontar suas faltas.

SICÍNIO — Cônsul? Que cônsul!

MENÊIO — O cônsul Coriolano.

BRUTO — Cônsul, ele?

CIDADÃOS — Não, não, não, não!

MENÊIO — Se com o consentimento dos tribunos e o vosso, meu bom povo, eu conseguisse dizer-vos uma ou duas palavrinhas, quando muito algum tempo perderíeis.

SICÍNIO — Então sede sucinto, porque estamos determinados a matar aquele viperino traidor. Grande perigo fora expulsá-lo; nossa morte certa, conservá-lo entre nós. Ficou assentado, por isso, que esta tarde a morrer venha.

MENÊIO — Os deuses não permitam que a famosa Roma, cujo alto apreço por seus filhos meritórios impresso está no livro do grande Jove, mãe desnaturada se revele, comendo os próprios filhos.

SICÍNIO — É doença que precisa ser cortada pela raiz.

MENÊIO — Oh não! É um membro doente, tão-somente. Cortá-lo é perigoso; curá-lo é fácil. Que fez ele a Roma que só mereça a morte? Ter matado nossos inimigos? Quando perdeu sangue — que ultrapassa de muitas onças, posso vos afirmar, quanto ele ainda possua — derramado foi todo pela pátria. Se sua pátria agora derramasse o pouco que lhe resta, para todos nós que nisso tivermos parte, ou formos simples espectadores, fora infâmia que duraria até acabar o mundo.

SICÍNIO — Pura tolice, tudo.

BRUTO — E sem propósito. Quando ele amou a pátria, esta o exaltou.

MENÊIO — Se nosso pé gangrena, deixaremos de estimar seus serviços anteriores?

BRUTO — Basta de palavrório. Ide buscá-lo em sua própria casa, de lá mesmo tirando-o à força, para que essa doença, que pega facilmente, não se alastre.

MENÊIO — Uma palavra, ainda; uma palavra! Essa fúria de pés de tigre, quando perceber os prejuízos resultantes da precipitação, há de, mui tarde, desejar ter nos pés libras de chumbo. Prossegui desse modo, para verdes — que ele é muito estimado — levantarem-se os partidos em luta e ser saqueada a grande Roma pelos próprios filhos.

BRUTO — Se tal se desse...

SICÍNIO — Para que falardes? Já não ficamos conhecendo a sua desobediência? Não nos desafiou? Não bateu nos edis? Sigamos logo.

MENÊIO — Refleti que ele criado foi nas guerras desde que pôde manejar a espada, mal iniciado foi nos artifícios da linguagem polida, misturando sem distinção a boa e a má farinha. Se me derdes licença, irei buscá-lo, para que ele responda legalmente, em paz, correndo os riscos e perigos que ele próprio criou.

PRIMEIRO SENADOR — Nobres tribunos, esse é o caminho humano; o outro processo por demais sanguinário se revela, não conhecendo o fim seu próprio início.

SICÍNIO — Ireis ficar, então, nobre Menênio, como oficial do povo. Abaixai vossas armas, meus mestres.

BRUTO — Não vos recolhais.

SICÍNIO — Ide já para a praça do mercado. (A Menênio.) Lá vos esperaremos; mas no caso de não levardes Márcio, em nosso plano prosseguiremos.

MENÊIO — Não; hei de levá-lo. (Aos senadores.) Desejo que me acompanheis; forçoso será que venha; do contrário, graves serão as conseqüências.

PRIMEIRO SENADOR — Então vamos.

(Saem.)

Cena II

O mesmo. Um quarto em casa de Coriolano. Entram Coriolano e patrícios.

CORIOLANO — Ainda mesmo que todos eles venham dilacerar-me a orelha, ou ameaçar-me de morte pela roda ou esquartejado por cavalos selvagens; ainda mesmo que dez colinas empilhadas ponham sobre a rocha Tarpéia, porque a queda se venha a dar sem que a visão a alcance: não modificarei minha atitude.

PRIMEIRO PATRÍCIO — Tanto mais nobre ela será em tudo.

CORIOLANO — O que me admira é ver que não concorda comigo minha mãe sobre este ponto, ela que sempre lhes chamou escravos de roupa de algodão, coisinhas feitas para o comércio de vintém, apenas, e para nas reuniões aparecerem de cabeça despida, boca aberta, sem dizerem palavra, revelando grande espanto, quando um do meu calibre se alça para falar de paz e guerra. (Entra Volúmnia.) Falo de vós. Por que desejaríeis ver-me mais brando? Preferis que eu seja infiel à minha própria natureza? Fora melhor quererdes que meu próprio papel eu represente.

VOLÚMNIA — Oh homem! homem! homem! Quisera que primeiro o posto tivésseis alcançado, embora viésseis depois a malgastá-lo.

CORIOLANO — Pouco importa.

VOLÚMNIA — Poderíeis ter sido inteiramente o homem que sois, sem tanto empenho em sê-lo. Vossas disposições teriam vindo a encontrar menos óbices, no caso de não terdes mostrado aos adversários quais elas eram antes que eles força pudessem ter para contradizer-vos.

CORIOLANO — Ora! forca para eles.

VOLÚMNIA — E fogueira.

(Entram Menênio e vários senadores.)

MENÊIO — Vamos, vamos! Vós fostes muito brusco, muito brusco, realmente. É necessário virdes conosco, para endireitardes o que foi feito.

PRIMEIRO SENADOR — Não há outro meio. Caso não concordeis com isso, nossa boa cidade ficará cindida em duas partes, vindo a destruir-se.

VOLÚMNIA — Sede cordato, peço-vos. Possuo também um coração tão impetuoso quanto o vosso. Contudo, tenho cérebro que sabe dirigir a estuosa cólera para vantagem própria.

MENÊIO — Muito certo, nobre dama! Antes que ele se curvasse perante a turba, se violenta crise do tempo não pedisse esse remédio, para que todo o Estado a sarar viesse, envergaria eu próprio minhas armas que mal sustentar posso.

CORIOLANO — Que é preciso que eu faça?

MENÊIO — Ir para junto dos tribunos.

CORIOLANO — Muito bem! Muito bem! E depois disso?

MENÊIO — Retratar-vos de tudo o que dissestes.

CORIOLANO — Como! Perante o povo? Se nem mesmo perante os deuses poderei fazê-lo serei forçado agora a retratar-me?

VOLÚMNIA — Sois muito rigoroso. Muito embora grande nobreza em tudo revelásseis, fala a necessidade. Não dissestes uma vez que na guerra a astúcia e a honra, como grandes amigas, de mãos dadas andam todos os dias? Concedei-me esse ponto e dizei-me em que uma delas pode perder na paz, para que tenha de separar-se da outra?

CORIOLANO — Basta! Basta!

MENÊIO — Excelente questão.

VOLÚMNIA — Se em vossas guerras for honra parecer o que não sois — o que, para ganhar, vos manda a astúcia — em que será menor ou deprimente as duas amizades não fazerem na paz como na guerra, se isso exigem ambas com o mesmo empenho?

CORIOLANO — Por que causa sobre isso insistis tanto?

VOLÚMNIA — Porque importa muito falardes hoje para o povo, não segundo a experiência vos ditar, nem como o coração vos aconselha, mas com palavras que só tenham curso superficial na língua, pensamentos bastardos e fraseado sem nenhuma relação com a lealdade do imo peito. Ora, isso vos desonra tanto como tomar um burgo com palavras brandas sem as quais vos veríeis obrigado a confiar na fortuna sempre móvel e a arriscar muito sangue. Eu dissimularia a natureza, quando a própria fortuna e a dos amigos em perigo o exigissem de minha honra. É assim que eu penso, vossa esposa, o filho, todos os senadores, nossos nobres. Mas preferis mostrar aos farrapentos como franzis o cenho, a um sorrisinho gastar com eles, para que a herdar viésseis o que, de outra maneira, se perdera.

MENÊIO — Nobre senhora! Vamos! Vamos logo! Falai direito para remediardes não somente o presente perigoso, como os males passados.

VOLÚMNIA — Sim, meu filho, dirige-te para eles com teu gorro na mão, assim, levando-o bem à frente, e deixa que teu joelho beije a terra, porque nesses assuntos a eloqüência melhor é o gesto; muito mais instruído é o olho do ignorante do que o ouvido; inclina a fronte assim, que muitas vezes o altivo coração te repreendeu, e tão humilde a deixa como a amora madura que mal pede ser tocada. Ou então lhes dize que és soldado deles, e por teres crescido nas campanhas desconheces os meios delicados — confessarás também — mais condizentes com a atitude que fora de exigir-se de quem implora o bom favor de todos: mas que ao feitio deles, em verdade, pretendes adaptar-te quanto a tua pessoa e as energias permitirem.

MENÊIO — Fazei apenas quanto ela aconselha e tereis ganho o coração de todos, pois a perdoar tão prontos estão, sempre, quando solicitados, como fáceis se mostram de palavras sem propósito.

VOLÚMNIA — Vamos; sê comedido, por obséquio, embora eu saiba que preferirias ir em perseguição de teu inimigo num abismo de chamas, a adulá-lo num relvado macio. Aí vem Comínio.

(Entra Comínio.)

COMÍNIO — Venho da praça pública; é preciso, senhor, que reforceis vossos adeptos ou que cuideis de vossa salvação pela moderação ou pela ausência. A indignação é grande.

MENÊIO — Dirigi-lhes palavras amigáveis.

COMÍNIO — Suficientes poderão ser, tenho certeza disso, se o gênio ele dobrar nesse sentido.

VOLÚMNIA — Há de fazê-lo e de bom grado. Vamos! dizei que assim quereis e parti logo.

CORIOLANO — Será preciso, então, mostrar a todos a cabeça raspada? Com fingida língua imporei ao coração altivo uma mentira dessas? Bem; que seja. Mas se em perigo apenas estivesse este terrão, o molde deste Márcio, antes disso o teriam reduzido a poeira fina e a arremessado aos ventos. Bem; para a praça pública! Impusestes-me um papel que jamais será possível representar direito.

COMÍNIO — Vamos, vamos; serviremos de ponto.

VOLÚMNIA — Eu te suplico, meu caro filho: tens asseverado que ficaste guerreiro tão-somente pelos meus elogios. Ora cumpre representares um papel inédito.

CORIOLANO — Bem; representá-lo-ei. Fora, nativa disposição! De mim se aposse agora o espírito de alguma prostituta. Minha goela guerreira, que fazia coro com meu tambor, torne-se cânula tão fina como a voz de eunuco ou virgem, quando no berço embala as criancinhas. Que em minhas faces fixe moradia o riso dos poltrões; tape as janelas de meus olhos o choro de meninos; que em minha boca a língua de mendigo se ponha em movimento e que estes joelhos armados, nunca afeitos a dobrarem-se senão para montar, ora se curvem como os do pobre que recebe esmola! Não! Não farei tal coisa, que não posso deixar de honrar minha verdade intrínseca, o que faria se, pela atitude do corpo, à alma ensinasse tal baixeza.

VOLÚMNIA — Como queiras, então; maior desonra é para mim pedir-te do que mesmo dirigires-te ao povo. Venha abaixo tudo quanto há, que é preferível dares a sentir a tua mãe teu grande orgulho a fazê-la recear-se, em qualquer tempo, de tua perigosa teimosia, pois rio-me da morte com tanto ânimo como tu próprio. Faze o que quiseres; teu heroísmo vem de mim; mamaste-o com meu leite; porém todo esse orgulho só a ti mesmo deves.

CORIOLANO — Por obséquio, mãe, acalmai-vos. Vou para o mercado; já decidi. Parai com esses ralhos. Pretendo escamotear o amor de todos, o coração furtar-lhes, retornando adorado por todos os artífices de nossa Roma. Vede: já vou indo. Dai recomendações a minha esposa. Voltarei como cônsul; do contrário, nunca mais confiarei em minha língua no que à bajulação disser respeito.

VOLÚMNIA — Fazei o que quiserdes. (Sai.)

COMÍNIO — Vamos logo! Os tribunos já estão à vossa espera. Disponde-vos a lhes falar com calma, pois em reservas, dizem todos, têm acusações mais forte do que quantas já vos houvessem feito.

MENÊIO — “Brandamente”, é a senha de hoje.

CORIOLANO — Vamos, por obséquio. Que inventem contra mim o que quiserem, que minha honra será toda a resposta.

MENÊIO — Com brandura, porém.

CORIOLANO — Sim, com brandura. Que seja: com brandura!

(Saem.)

Cena III

O mesmo. O foro. Entram Sicínio e Bruto.

BRUTO — Sobre esse ponto carregai com força: que ele aspira ao poder da tirania. No caso de escapar-nos, acusai-o de odiar o povo e de não ter, até hoje, feito a distribuição do grande espólio conquistado na guerra dos antíates. (Entra um edil.) Como é: vem ou não vem?

EDIL — Já está chegando.

BRUTO — E quem agora vem com ele?

EDIL — O velho Menênio e os senadores que costumam satisfazê-lo em tudo.

SICÍNIO — Conseguistes organizar a lista, por cabeça, das vozes que do nosso lado se acham?

EDIL — Consegui; está pronta.

SICÍNIO — Organizaste-las segundo as tribos?

EDIL — Sim.

SICÍNIO — Então, depressa convocai todo o povo. No momento em que me ouvirem declarar: “De acordo com o direito e a vontade dos comuns, será desta maneira”, quer se trate de morte, multa ou banimento, todos, se eu disser: multa! gritar devem “Multa” se: morte! gritem “Morte”, persistindo nos velhos privilégios e na força da verdade da causa.

EDIL — Hei de informá-los do que dizeis.

BRUTO — E desde que tiverem começado a gritar, não se detenham; com confuso alarido exijam pronta execução de quanto resolvermos, seja qual for a pena.

EDIL — Muito bem.

SICÍNIO — Fortes os conservai e sempre atentos ao sinal que teremos de fazer-lhes.

BRUTO — Ponde pressa em tudo isso. (Sai o edil.) Tratai logo de deixá-lo colérico. Ele se acha acostumado a dominar em tudo, afirmando o valor na resistência. Uma vez alterado, não se deixa refrear pela prudência e fala tudo que tem no coração, só parecendo que se empenha, com nossa interferência, em quebrar o pescoço.

SICÍNIO — Aí vem ele.

(Entram Coriolano, Menênio, Comínio, senadores e patrícios.)

MENÊIO — Calma, é só o que vos peço.

CORIOLANO — Sim, tal como o servente que por íntima moedinha engole pencas de “velhacos” que os altos deuses sempre amparem Roma, as cadeiras provejam da justiça com pessoas de bem, e entre nós todos a concórdia semeiem. Que com cenas de paz apinhem sempre nossos templos, não as ruas com mostras belicosas.

PRIMEIRO SENADOR — Amém.

MENÊIO — Um nobre voto.

(Volta o edil, seguido de cidadãos.)

SICÍNIO — Aproximai-vos, povo!

EDIL — Ouvi os tribunos! Prestai toda atenção. Silêncio! digo.

CORIOLANO — Permiti que eu comece.

AMBOS OS TRIBUNOS — Bem; falai. Silêncio, aí!

CORIOLANO — Acabarão, acaso, minhas acusações com essas de hoje?

SICÍNIO — Pergunto se vos submeteis ao voto do povo, se aceitais seus magistrados e concordais em que se instaure pronta sindicância com relação às faltas que imputadas vos forem.

CORIOLANO — Sim, concordo.

MENÊIO — Cidadãos! Ele disse que concorda. Considerai agora seus serviços durante a guerra a refleti nas marcas que no corpo ele traz e que parecem sepulturas num santo cemitério.

CORIOLANO — Pequenos arranhões de espinho, apenas, esfoladuras que provocam riso.

MENÊIO — Além do mais, consideremos que ele não fala como cidadão, a todos qual soldado se mostra, não devendo, portanto, serem tidos seus acentos ásperos como fala maliciosa. mas, como disse, própria de um soldado, sem que possa ofender-vos.

COMÍNIO — Bem; já basta.

CORIOLANO — Por que motivo, tendo eu sido eleito por unanimidade para o posto de cônsul, na mesma hora sofro a afronta de minha indicação ver anulada?

SICÍNIO — A vós é que compete responder-nos.

CORIOLANO — Falai; é certo.

SICÍNIO — Nós vos acusamos de tentar suprimir de Roma todos os postos constituídos e de ao mando tirânico aspirar, assim tornando-vos traidor ao povo.

CORIOLANO — Como assim! Traidor?

MENÊIO — Com mais calma. Lembrai-vos da promessa.

CORIOLANO — Que as chamas do mais baixo inferno envolvam de uma vez esse povo! Eu, insultado de traidor, e por ti, tribuno infame! Embora nesses olhos se assentassem vinte mil mortes e em tuas mãos crispadas outros tantos milhões, em tua língua caluniosa os dois números somados, dir-te-ia “Mentes!” com uma voz tão livre como quando oro aos deuses.

SICÍNIO — Observastes o que ele disse, povo?

CIDADÃOS — Para a rocha! Para a rocha com ele!

SICÍNIO — Não! Silêncio! Não precisamos de matéria nova para contra ele fazer carga. Tudo quanto o vistes fazer e dele ouvistes: de insultos vos cobrir, bater em vossos representantes, pela força bruta às leis se opor, desafiar agora a autoridade que julgá-lo iria... Este atentado, por si só, tão grande, merece a pena de mais dura morte.

BRUTO — Mas, à vista de ter servido Roma...

CORIOLANO — Por que tagarelar de meus serviços?

BRUTO — Digo o que sei.

CORIOLANO — Quem? Vós?

MENÊIO — Essa é a promessa que a vossa mãe fizestes?

COMÍNIO — Por obséquio, ficai sabendo...

CORIOLANO — Não! Não quero coisa nenhuma. Eles que me condenem à alcantilada morte da Tarpéia, ao vagabundo exílio, a me arrancarem aos poucos toda pele, a definhar-me lentamente no cárcere, só tendo por alimento um grão em cada dia: não comprarei nunca o favor deles à custa de um só termo delicado, nem a minha coragem eu refreara por todos seus presentes, muito embora só “Bom dia” dizer-lhes me custasse.

SICÍNIO — Tendo-se em vista que por várias vezes — quanto dele, somente, dependia — conspirou contra o povo, procurando meios para privá-lo dos poderes, chegando a se valer recentemente da violência culposa, o que foi feito não só em frente da justiça augusta, mas até na dos próprios servidores que incumbidos estão de ministrá-la: em nome, assim, do povo e dos poderes que nos são inerentes, nós, tribunos, o declararmos, a partir de agora banido da cidade, não podendo, sob pena de jogado ser a rocha Tarpéia, nunca as portas transpor de Roma. Em nome, pois, do povo, repito-o: assim será!

CIDADÃOS — Assim será! Assim será! Que parta!

COMÍNIO — Ouvi-me, mestres e comuns amigos...

SICÍNIO — Já foi dada a sentença; agora é tarde.

COMÍNIO — Permiti que vos fale. Já fui cônsul, podendo vos mostrar no corpo as marcas dos golpes dos inimigos da cidade. Dedico ao bem-estar de minha pátria mais respeitoso amor e mais profundo, mais terno e sacrossanto que a mim mesmo, minha esposa estimada, seus rebentos, tesouros de meus flancos. Vou dizer-vos...

SICÍNIO — Já sabemos qual seja vosso intento. Vamos! Que ireis dizer?

BRUTO — Já não há nada para dizer, senão que está banido como inimigo do povo e da cidade. Assim será!

CIDADÃOS — Assim será! Assim será!

CORIOLANO — Vil matilha de cães, cujo mau hálito odeio como o pântano empestado, e cuja simpatia estimo tanto quanto o cadáver insepulto e podre que deixa o ar corrompido e irrespirável: sou eu que vos desterro, e aqui vos deixo com vossa inconsistência. Que o mais fraco rumor o coração vos deixe inquieto, e que só com moverem seus penachos vos insuflem terror os inimigos. Ficai com força para banir todos os vossos defensores, até o dia em que vossa ignorância, que só entende quanto venha a sentir, tiver limpado com todos, menos vós — os inimigos de vós mesmos — alfim vos entregando como fracos escravos a algum povo que vos conquiste sem fazer esforço. Por vossa causa desprezando Roma dou-lhe as costas. O mundo é muito grande.

(Saem Coriolano, Comínio, Menênio, senadores e patrícios.)

EDIL — O inimigo do povo já partiu!

CIDADÃOS — Foi-se nosso inimigo! Está banido! Hu! Hu!

(Todos prorrompem em aclamações e atiram os gorros para o alto.)

SICÍNIO — Acompanhem-no todos até à porta, como ele fez convosco, demonstrando-lhe o máximo desprezo. Atormentai-o, que ele bem o merece. Mandai uma guarda nos escoltar pela cidade.

CIDADÃOS — Vamos! Acompanhemo-lo até à porta! Vamos todos! Os deuses nos conservem sempre os nobres tribunos! Vamos todos!

(Saem.)

ATO IV
Cena I

Roma. Em frente da porta da cidade. Entram Coriolano, Volúmnia, Vergília, Menênio, Comínio e muitos jovens patrícios.

CORIOLANO — Vamos, vamos! parai com essas lágrimas. Apenas uma despedida rápida. Empurra-me o animal de mil cabeças. Ora, mãe! Onde está vossa coragem? Costumáveis dizer que a adversidade põe à prova os espíritos; que os homens comuns suportam bem as ocorrências mais vulgares; que estando o mar sereno, bons veleiros são todos os navios; mas que quando a fortuna assesta os golpes com força, para os suportar com calma faz-se mister de nobre habilidade. Muitas e muitas vezes carregastes-me de regras que invencível deixariam o coração que viesse a assimilá-las.

VERGÍLIA — Oh céus! Oh céus!

CORIOLANO — Não, por favor, querida...

VOLÚMNIA — Que a peste rubra agora ataque todos os artesãos e extinga seus ofícios.

CORIOLANO — Tá, tá, tá! Tornar-me-ei querido deles. quando a sentir vierem minha falta. Assim não, mãe! Mostrai aquele espírito que a dizer vos levava tantas vezes que se tivésseis sido esposa de Hércules teríeis feito seis de seus trabalhos e muito suor poupado a vosso esposo. Adeus, Comínio! Levantai a fronte. Adeus, esposa! Minha mãe, adeus! Tudo acabará bem. Meu fiel e velho Menênio, mais amargas são tuas lágrimas do que as de um moço e, assim, mais venenosas para teus olhos. Meu antigo chefe, severo já te tenho visto, e muitas vezes já contemplaste cenas duras, de deixarem de pedra o coração: explica a estas mulheres pesarosas que tão pueril é lastimar os golpes inevitáveis como zombar deles. Minha mãe, bem sabeis que meus perigos sempre grande alegria vos causaram; podeis crer firmemente que, partindo sozinho como parto, solitário dragão vou parecer que de seu charco mais medo infunde e assanha comentários do que se deixa ver. Ou vosso filho se elevará de muito sobre a plebe, ou será preso pelas armadilhas e laços da traição.

VOLÚMNIA — Meu primogênito, para onde irás? Leva até certo ponto contigo o bom Comínio; toma alguma decisão quanto ao teu itinerário, sem te expores a todos os acasos que te possam surgir na estrada incerta.

CORIOLANO — Oh deuses!

COMÍNIO — Ficarei um mês contigo; combinaremos o retiro juntos, para que possas receber notícias de nós e nós de ti. Assim, no caso de nos lançar o tempo algum pretexto para te repatriar, nós não teremos necessidade de correr o mundo tão vasto em busca de uma só pessoa, sem que venhamos a perder o ensejo que sempre se arrefece, quando ausente se acha o necessitado.

CORIOLANO — Adeus a todos. Tens muitos anos sobre ti e te achas por demais carregado das orgias da guerra para ires correr mundo com quem ainda está sem pisaduras. Vem até à porta; vem, querida esposa, minha adorada mãe, caros amigos de nobre toque! Quando além dos muros eu estiver, dizei-me adeus sorrindo. Vamos, vamos, vos peço. Enquanto firme eu estiver na terra, haveis de novas ouvir a meu respeito, porém nada que não seja tal como eu antes era.

MENÊIO — Nada mais digno ouviu orelha alguma. Paremos de chorar. Ah! se eu pudesse tirar das velhas pernas e dos braços pelo menos sete anos, pelos deuses bondosos, passo a passo te seguira.

CORIOLANO — Dá-me a mão. Vamos! Vamos!

(Saem.)

Cena II

O mesmo. Uma rua perto da porta da cidade. Entram Sicínio, Bruto e um edil.

SICÍNIO — Mandai que se recolham; já partiu. Vamos parar aqui, que os nobres se acham irritados conosco, pois bem vimos como todos ficaram de seu lado.

BRUTO — Tendo provado nossa força, vamos mostrar mais humildade após o feito do que durante a ação.

SICÍNIO — Mandai que todos vão para suas casas. O inimigo máximo, lhes direis, já foi embora, tendo eles recobrado a força antiga.

BRUTO — Mandai que se recolham para casa. (Sai o edil.) (Entram Volúmnia, Vergília e Menênio.) Aí vem a mãe dele.

SICÍNIO — Retiremo-nos.

BRUTO — Por que razão?

SICÍNIO — Dizem que ficou louca.

BRUTO — Já nos viu; continuemos o caminho.

VOLÚMNIA — Oh! chegais muito a tempo. Recompense-vos os deuses a afeição com seus flagelos acumulados.

MENÊIO — Paz! Falai mais baixo.

VOLÚMNIA — Não fossem minhas lágrimas, havíeis de ouvir-me... Não! Tereis de ouvir um pouco. (A Bruto.) Já quereis ir embora?

VERGÍLIA (A Sicínio) — É necessário que também vós fiqueis. Ah! se eu pudesse dizer a mesma coisa a meu marido!

SICÍNIO — Sois ser humano, acaso?

VOLÚMNIA — Sim, idiota; será vergonha sê-lo? Que cretino! Não foi homem meu pai? E tu, que espécie de raposa serás, para banires de Roma o herói que a seu favor mais golpes dera do que palavras já disseste?

SICÍNIO — Oh céu bendito!

VOLÚMNIA — Mais gloriosos golpes pela causa de Roma do que em todas as sensatas palavras de tua vida. Vou dizer-te... Não; vai... É bom que fiques. Quisera que meu filho se encontrasse na Arábia, e diante dele tua tribo à distância de sua boa espada.

SICÍNIO — Bem; e depois?

VERGÍLIA — Depois? Extinguiria tua posteridade.

VOLÚMNIA — Sim, bastardos e tudo o mais. Quantas feridas ele recebeu pela pátria!

MENÊIO — Vamos! Vamos!

SICÍNIO — Quisera que ele houvesse continuado como de início, sem soltar o laço glorioso que o prendia à sua pátria.

BRUTO — Eu também.

VOLÚMNIA — Eu também? Gatos! Todos vós apreciar podeis seu grande mérito como eu penetrar posso nos mistérios que o céu não quer que a terra a saber venha.

BRUTO — Partamos, por favor.

VOLÚMNIA — Sim, homens, ide! Realizastes um ato de bravura! Mas antes de vos irdes ouvi isto: Como ultrapassa o Capitólio as casas mais humildes de Roma, assim, meu filho que foi por vós banido — o esposo desta senhora que aqui vedes — vos excede. Sim, a vós todos.

BRUTO — Bem; vamos deixar-vos.

SICÍNIO — Por que ficarmos tanto tempo imóveis, servindo de alvo para as invectivas de uma pessoa que perdeu o juízo?

VOLÚMNIA — Levai as minhas preces. (Saem os tribunos.) Desejara que nada mais para fazer tivessem os deuses a não ser dar cumprimento às minhas maldições. Se os encontrasse uma vez, pelo menos, cada dia, aliviaria o coração do peso que tanto o oprime.

MENÊIO — Destes-lhes de rijo. E com razão, por minha fé, vos digo. Vamos cear.

VOLÚMNIA — Meu alimento é a cólera; ceio a mim mesma; e, assim, morro de fome, de tanto me fartar. Vamos embora. Parai com esses pios abafados e lamentai-vos tal como eu: colérica, como outra Juno! Vamos! vamos! vamos!

MENÊIO — Ora! ora!

(Saem.)

Cena III

Estrada real entre Roma e Ântio. Um romano e um volsco se encontram.

ROMANO — Conheço-vos, senhor; como vós também me conheceis. Se não me engano, chamais-vos Adriano.

VOLSCO — É isso mesmo, senhor. Mas, por minha fé, não me recordo de vós.

ROMANO — Sou de Roma; mas, como vós, trabalho contra os romanos. Reconheceis-me agora?

VOLSCO — Nicanor, não?

ROMANO — Ele mesmo, senhor.

VOLSCO — Tínheis mais barba, quando vos vi pela última vez; mas, pela voz, reavivam-se-me na memória vossos traços fisionômicos. Que novidades há em Roma? Recebi do governo volsco a incumbência de procurar-vos lá; poupastes-me um dia de caminho.

ROMANO — Em Roma houve insurreições extraordinárias: o povo contra os senadores, patrícios e nobres.

VOLSCO — Houve? Então já terminaram? Nossos governantes não pensam desse modo; estão promovendo enormes preparativos bélicos, esperando surpreender os romanos no maior ardor de suas dissenções.

ROMANO — As labaredas mais fortes já passaram; mas a menor coisa poderá reavivá-las. Porque os nobres se apaixonaram a tal ponto com o banimento de Coriolano, que se encontram maduramente dispostosa retirar todo o poder do povo e privar este para sempre de seus tribunos. É uma brasa debaixo de cinza, posso afiançar-vos, que se acha quase no ponto de reacender-se com violência.

VOLSCO — Coriolano, banido?

ROMANO — Banido, senhor.

VOLSCO — Com essa notícia, Nicanor, sereis bem-vindo.

ROMANO — A ocasião lhes é propícia. Tenho ouvido dizer que a melhor hora para seduzir uma mulher é quando ela briga com o marido. Vosso nobre Tulo Aufídio vai sobressair-se nestas guerras, uma vez que seu grande adversário. Coriolano, ficou sem função em sua pátria.

VOLSCO — Não tem por onde escolher. Considero-me feliz, por vos ter acidentalmente encontrado. Convosco termina minha missão; com muito prazer vos acompanharei até vossa casa.

ROMANO — Até à hora da ceia vos contarei coisas miríficas dos romanos, tendentes todas para a felicidade de seus adversários. Estais novamente com um exército em pé de guerra, não é verdade?

VOLSCO — E um exército verdadeiramente real. Os centuriões e seus corpos já se encontram nos quartéis, a soldo do governo, prontos a marchar com uma hora de aviso.

ROMANO — Alegra-me saber que estão de prontidão, parecendo-me que sou eu o homem que os vai pôr em movimento. Assim, senhor, dou-vos de coração as boas-vindas e me declaro encantado com vossa companhia.

VOLSCO — Assim me privais do que me pertence, senhor; sou eu que tenho mais razões para alegrar-me com a vossa.

ROMANO — Muito bem; sigamos juntos.

(Saem.)

Cena IV

Ântio. Defronte da casa de Aufídio. Entra Coriolano, disfarçado, com vestes humildes e a cabeça encoberta.

CORIOLANO — Bela cidade, esta Ântio. Tuas viúvas, ó cidade! fui eu que fiz. Inúmeros herdeiros destes belos edifícios em minhas guerras vi precipitarem-se com estertores. Não me reconheças agora, para que, de espeto armadas tuas mulheres, e de pedra os filhos, não me venham matar numa batalha que pareça de anões. (Entra um cidadão.) O céu vos guarde, meu senhor.

CIDADÃO — Como a vós.

CORIOLANO — Se vos agrada, mostrai-me onde reside o grande Aufídio. Está em Ântio?

CIDADÃO — Está, e nesta noite dá para os nobres da cidade, em sua própria casa, uma festa.

CORIOLANO — Por obséquio, onde fica essa casa?

CIDADÃO — É essa que vedes em vossa frente.

CORIOLANO — Muito agradecido, meu senhor; passai bem. (Sai o cidadão.) Ó mundo, mundo, de voltas inconstantes! Dois amigos jurados, que nesta hora pareciam ter um só coração no duplo peito; cujos leitos, lazeres, exercícios e refeições de acordo sempre andavam, gêmeos ao parecer, inseparáveis pela força do amor: dentro de uma hora, por uma divergência de coisinha, na mais amarga divergência explodem. Assim também ferrenhos inimigos, cujas paixões e planos destrutivos impediam de ao sono se entregarem, por um simples acaso, algum pretexto que não vale um centil, tornam-se amigos do peito e dão-se em casamento os filhos. Assim se dá comigo: odeio a pátria; amo agora a cidade do inimigo. Vou entrar. Caso a vida ele me tire, fará, tão-só, justiça; em me acolhendo, à pátria dele prestarei serviço. (Sai.)

Cena V

O mesmo. Vestíbulo em casa de Aufídio. Música dentro. Entra um criado.

PRIMEIRO CRIADO — Vinho! vinho! vinho! Que serviço dessa gente! Só parece que todos estão dormindo! (Sai.)

(Entra outro criado.)

SEGUNDO CRIADO — Onde está Cotus? O patrão está chamando. Cotus! (Sai.)

(Entra Coriolano.)

CORIOLANO — Bela casa! A ceia cheira bem; eu é que não pareço hóspede.

(Volta o primeiro criado.)

PRIMEIRO CRIADO — Que desejais, amigo? De onde sois? Aqui não há lugar para vós. Ficai na porta, por obséquio. (Sai.)

CORIOLANO — Não mereço acolhida mais afável, já que sou Coriolano.

(Volta o segundo criado.)

SEGUNDO CRIADO — De onde sois, senhor? O porteiro estará com os olhos no lugar, para permitir a entrada a um tipo desses? Por obséquio, ide embora.

CORIOLANO — Arreda!

SEGUNDO CRIADO — “Arreda?” Vós é que tereis de arredar-vos.

CORIOLANO — Mostrai-vos insolente.

SEGUNDO CRIADO — Ah! sois tão valente assim? Já vamos ter uma conversazinha.

(Entra o terceiro criado; volta o primeiro.)

TERCEIRO CRIADO — Quem é esse sujeito?

PRIMEIRO CRIADO — É um tipo original, como nunca vi outro assim. Não consigo fazê-lo sair daqui. Vai chamar o patrão, por obséquio.

TERCEIRO CRIADO — Amigo, que tens a fazer aqui? Por obséquio, evita esta casa.

CORIOLANO — Permiti que me conserve de pé; não causarei dano à lareira.

TERCEIRO CRIADO — Quem sois?

CORIOLANO — Um gentil-homem.

TERCEIRO CRIADO — Admiravelmente pobre.

CORIOLANO — É o que sou, de fato.

TERCEIRO CRIADO — Por favor, gentil-homem pobre, escolhei pousada. Aqui não há lugar para vós. Ide embora, por obséquio. Vamos!

CORIOLANO — Continuai com vossas ocupações; empanturrai-vos de frios. (Dá-lhe um empurrão.)

TERCEIRO CRIADO — Ah! não quereis? Por favor, faze saber ao patrão que hóspede estranho ele tem aqui.

SEGUNDO CRIADO — Vou já. (Sai.)

TERCEIRO CRIADO — Onde moras?

CORIOLANO — Debaixo da abóbada.

TERCEIRO CRIADO — “Debaixo da abóbada?”

CORIOLANO — Sim.

TERCEIRO CRIADO — E onde fica isso?

CORIOLANO — Na cidade dos milhanos e dos corvos.

TERCEIRO CRIADO — “Na cidade dos milhanos e dos corvos?” Que grande asno! Nesse caso, moras também com as gralhas?

CORIOLANO — Não; não estou a serviço de teu patrão.

TERCEIRO CRIADO — Como assim, senhor! Tendes alguma coisa que ver com meu patrão?

CORIOLANO — Sim, alguma coisa mais honesta do que seria intrometer-me com tua patroa. Não paras de falar. Leva teu prato! Fora daqui! (Expulsa-o com pancada.)

(Entra Aufídio e o primeiro criado.)

AUFÍDIO — Quem é esse camarada?

SEGUNDO CRIADO — Aqui, senhor. Eu o teria batido como num cão, se não fosse o receio de incomodar lá dentro os nobres.

AUFÍDIO — Que queres? De onde vens? Qual o teu nome? Por que não falas? Vamos, homem: fala! Como te chamas?

CORIOLANO (descobrindo o rosto) — Se não me conheces ainda, Tulo, e, vendo-me, não pensas quem eu seja, de fato, será força que eu mesmo me nomeie.

AUFÍDIO — Qual teu nome?

(Os criados se afastam para o fundo.)

CORIOLANO — Um nome dissonante para os volscos e duro aos teus ouvidos.

AUFÍDIO — Dize: o nome? Tens aspecto sanhoso, mas revelas o mando nas feições, e embora roto tragas todo o velame, inculcas barco de nobre compostura. Qual teu nome?

CORIOLANO — Então prepara a fronte; vais franzi-la. Inda não me conheces?

AUFÍDIO — Não; teu nome?

CORIOLANO — Meu nome é Caio Márcio, que a ti próprio e aos volscos todos causa foi de males e prejuízos inúmeros, conforme meu sobrenome o prova: Coriolano. Os trabalhos penosos, os perigos por que passei, as incontáveis gotas de sangue derramadas pela minha pátria de todo ingrata, me valeram tão-somente este nome, monumento magnífico e penhor do ódio e repulsa que me deves votar. Resta-me apenas esse título. A inveja e a má vontade do povo, consentidas pelos nossos nobres bastardos, que me abandonaram, tudo o mais consumiram. Sim, deixaram que de Roma eu chegasse a ser expulso pela voz dos escravos. Foi tão grande calamidade que ao teu lar me trouxe; não na esperança — quero que me entendas — de conservar a vida. Se eu tivesse medo da morte, dentre os homens todos, de ti, principalmente, fugiria. Foi o rancor, apenas, o desejo de com meus proscritores justar contas que à tua frente me trouxe. Se tiveres um coração cheio de raiva, pronto para vingar os males a ti feitos e endireitar os aleijões que o opróbrio em tua pátria causou: não percas tempo e de minha desgraça te aproveita; usa-a de forma que meus vingadores serviços favoreçam teus intentos, pois combater pretendo minha pátria gangrenada com toda a odiosidade dos demônios do inferno. Mas no caso de não quereres arriscar-te a tanto, de já estares cansado de aventuras... Para ser breve: mais do que enfarado da vida me declaro e ao teu antigo rancor estendo agora este pescoço. Tolo te mostrarás, se o não cortares, pois teus passos segui sempre com ódio, do seio de tua pátria toneladas de sangue fiz correr, já não podendo viver senão para teu grande opróbrio, a menos que serviços te prestasse.

AUFÍDIO — Ó Márcio! Márcio! Uma por uma as tuas palavras arrancaram-me do peito as raízes de meu rancor antigo. Se Júpiter, com sua voz divina, do alto daquela nuvem me dissesse: “É certo!” não lhe dera maior crédito do que te dou, meu Márcio, em tudo nobre. Deixa que eu passe os braços nesse corpo em que cem vezes eu quebrei a lança e de estilhaços arranhei a lua. Cinjo a bigorna, assim, de minha espada, e com tanta veemência e com nobreza luto com teu afeto, como sempre lutei com fúria cobiçosa contra tua bravura. A ti, somente, o digo: amava a jovem que ora é minha esposa. Jamais noivo nenhum soltou suspiros tão sinceros que os meus. Porém, ao ver-te neste momento — a ser em tudo nobre! — mais enlevado o coração no peito sinto saltar, do que quando a soleira transpôs de casa pela vez primeira minha esposa recente. Ora te conto, Marte, que já aprestamos Outro exército, e que eu tinha a intenção de novamente tentar das carnes arrancar-te o escudo, ou perder nisso o braço. Derrotaste-me doze vezes a fio, e desde essa época sonhei todas as noites com recontros entre nós dois. Travados, no meu sono, rolávamos no chão, o capacete um do outro a desatar, e nos pescoços, encrispados, os dedos, do que sempre meio morto sem causa eu despertava. Digno Márcio, se mais nenhuma queixa de Roma nós tivéssemos, afora teres sido banido, alistaríamos de doze até setenta os homens todos e nas entranhas dessa ingrata Roma faríamos correr a guerra como rio impetuoso que transborda e alaga. Vem para dentro e aperta a mão amiga de nossos senadores, que aqui vieram trazer-me as despedidas, pois armado ora estou contra vossos territórios, muito embora não contra a própria Roma.

CORIOLANO — Ó deuses, abençoais-me?

AUFÍDIO — Assim, guerreiro sem par, se a direção tomar quiseres de tua própria represália, aceita metade de meus homens e, de acordo com teu alto saber neste domínio, já que conheces a fraqueza e a força de teu país, regula a tua marcha, ou seja para contra as próprias portas dos romanos bater, ou com violência visitá-los nas partes mais remotas e derrotá-los antes de destruí-los. Mas entra! Quero logo apresentar-te aos que terão de dizer “Sim” a todos os teus desejos. Vezes mil boas-vindas! E agora mais amigo do que sempre fui inimigo. E, Márcio, eu o fui de fato. Vossa mão. Sois bem-vindo.

(Saem Coriolano e Aufídio.)

PRIMEIRO CRIADO (avançando) — Eis aí uma modificação extraordinária.

SEGUNDO CRIADO — Por esta mão, tinha pensado em bater-lhe com um porrete; mas agora me diz o espírito que a roupa dele não dizia o que ele era.

PRIMEIRO CRIADO — E que punho ele tem! Só com um dedo e o polegar fez-me rodar que nem um pião.

SEGUNDO CRIADO — Pelo rosto eu vi que ele não era pouca coisa. Homem, ele tinha feições, parece-me... Nem sei como caracterizá-las.

PRIMEIRO CRIADO — É certo. Parecia... Quero ser enforcado se eu não suspeitei de que ele encerrava mais do que eu poderia imaginar.

SEGUNDO CRIADO — Eu também posso jurá-lo. É simplesmente o homem mais raro do mundo.

PRIMEIRO CRIADO — É isso mesmo; mas decerto conheceis um guerreiro maior do que ele.

SEGUNDO CRIADO — Quem é? Meu amo?

PRIMEIRO CRIADO — Isso nem se pergunta.

SEGUNDO CRIADO — Vale seis como ele.

PRIMEIRO CRIADO — Não, não tanto assim; mas considero-o maior guerreiro.

SEGUNDO CRIADO — Com a breca! Ora vede... A gente nem sabe como dizer, mas para a defesa de uma cidade, nosso general é excelente.

PRIMEIRO CRIADO — Sim, e também para um assalto.

(Entra o terceiro criado.)

TERCEIRO CRIADO — Ó escravos! Posso contar-vos novidades! Novidades, marotos!

PRIMEIRO e SEGUNDO CRIADOS — Quais! quais? quais? Conta-nos algumas.

TERCEIRO CRIADO — Entre todos os povos, não quisera ser romano; equivaleria a estar condenado.

PRIMEIRO e SEGUNDO CRIADOS — Por quê? Por quê?

TERCEIRO CRIADO — Ora, acha-se lá dentro quem estava acostumado a zurzir nosso general: Caio Márcio.

PRIMEIRO CRIADO — Por que dissestes: “zurzir nosso general?”

TERCEIRO CRIADO — Não digo que ele tenha zurzido nosso general; mas sempre lhe deu muito trabalho.

SEGUNDO CRIADO — Vamos, aqui entre nós, somos amigos e companheiros; foi sempre muito duro para ele; ouvi o próprio general dizer-lhe isso.

PRIMEIRO CRIADO — Era muito duro para ele. Para dizer a verdade sem rodeios: diante de Coríolos ele o cortou e retalhou como um carbonado.

SEGUNDO CRIADO — E se tivesse natureza de canibal, o teria comido assado.

PRIMEIRO CRIADO — Mas continua a contar as novidades.

TERCEIRO CRIADO — Ora, lá dentro ele está sendo tratado como se fosse filho e herdeiro de Marte; deram-lhe a cabeceira da mesa; nenhum senador lhe faz qualquer pergunta, a não ser de pé, na frente dele e de cabeça descoberta. Até nosso general o trata como a namorada, benze-se com uma das mãos e revira os olhos, quando ele fala. Mas o ponto principal da novidade é que o nosso general foi cortado em dois, já não sendo senão a metade do que era ontem, porque o outro ficou com a outra metade, por instância e consentimento de toda a mesa. Diz ele que vai puxar as orelhas do porteiro de Roma; vai ceifar tudo o que encontrar, deixando raso o caminho.

SEGUNDO CRIADO — E ele é tão capaz de fazer isso, como qualquer pessoa que eu imagine.

TERCEIRO CRIADO — Capaz? Há de fazê-lo. Porque, ora vede, senhor: tanto ele tem amigos como inimigos, os quais amigos, senhor — por assim dizer — não ousam — ora vede, senhor — como dizemos — declarar-se amigos, enquanto o virem na indireção.

PRIMEIRO CRIADO — Indireção? Que quer dizer isso?

SEGUNDO CRIADO — Mas quando eles virem, senhor, o homem em condições, com a crista novamente de pé, todos eles sairão das tocas como coelhos depois que chove e virão banquetear-se com ele.

PRIMEIRO CRIADO — Mas para quando será isso?

TERCEIRO CRIADO — Amanhã, hoje, neste momento. Hoje à tarde ouvireis rufar o tambor. É, por assim dizer, a primeira parte do festim, para ser executada antes de limparem os lábios.

SEGUNDO CRIADO — Bem; nesse caso vamos ver outra vez o mundo de pernas para o ar. Esta paz só serve para enferrujar o ferro, engordar os alfaiates e aumentar o número dos fazedores de baladas.

PRIMEIRO CRIADO — Que venha a guerra, é o que eu digo; ela ultrapassa tanto a paz como o dia a noite; é lesta, de ouvido fino e cheia de atividades. A paz é uma verdadeira apoplexia, um letargo, obtusa, surda, sonolenta, insensível e é maior geradora de bastardos do que a guerra é destruidora de homens.

SEGUNDO CRIADO — É isso mesmo. E assim como a guerra, de algum modo, pode ser denominada o maior fautor de violação, não se pode negar que seja a paz grande fazedora de cabrões.

PRIMEIRO CRIADO — Sim, é causa de se odiarem os homens.

TERCEIRO CRIADO — E a razão é que eles, então, têm menos necessidade uns do outros. Guerra, custe quanto custar! Espero ver os romanos por preço tão barato quanto os volscos. Estão se levantando da mesa! Estão se levantando!

TODOS — Entremos! Entremos!

(Saem.)

Cena VI

Roma. Uma praça pública. Entram Sicínio e Bruto.

SICÍNIO — Nada ouvimos falar a seu respeito; não precisamos, pois, ter medo dele. Seu furor se acalmou com a paz reinante e a quietação do povo, que vivia em desordem selvagem. Seus amigos diante de nós envergonhados ficam por tudo correr bem; prefeririam muito embora também a sofrer viessem, ver desordeiros perturbar as ruas a ver os negociantes em suas lojas cantar alegremente ou dirigirem-se em paz para o trabalho.

(Entra Menênio.)

BRUTO — Soubemos escolher o tempo certo. Não é Menênio?

SICÍNIO — É ele! É ele! Amável se tem mostrado ultimamente. Salve, senhor!

MENÊIO — Meus cumprimentos.

SICÍNIO — Ninguém sente falta, senhor, de vosso Coriolano, excluídos seus amigos. A república continua de pé e assim ficara, embora mais raivoso ele se achasse.

MENÊIO — Tudo está bem; porém melhor seria se ele tivesse contemporizado.

SICÍNIO — Para onde foi? Sabeis?

MENÊIO — A esse respeito não ouvi coisa alguma. A mãe e a esposa não têm notícias.

(Entram três ou quatro cidadãos.)

CIDADÃOS — Deus a ambos ampare.

SICÍNIO — Boa tarde, vizinhos.

BRUTO — Boa tarde para todos! Boa tarde para todos!

PRIMEIRO CIDADÃO — Nós, com mulher e filhos, nos sentimos na obrigação de orar por vós de joelho.

SICÍNIO — Vivei e prosperai.

BRUTO — Adeus, vizinhos. Desejara que Márcio vos amasse como nós dois.

CIDADÃOS — Os deuses vos protejam.

SICÍNIO e BRUTO — Adeus! Adeus!

(Saem os cidadãos.)

SICÍNIO — O tempo agora é muito mais alegre e melhor de viver do que quando estes camaradas corriam pelas ruas gritando por socorro.

BRUTO — Caio Márcio na guerra sempre foi oficial digno, mas insolente, pelo orgulho inflado, ambicioso sem conta, muito egoísta...

SICÍNIO — E desejoso de estar só no trono, sem assistente algum.

MENÊIO — Não penso assim.

SICÍNIO — Para nosso pesar é o que teríamos verificado, se ele conseguisse ter sido cônsul.

BRUTO — Felizmente os deuses preveniram tal coisa e agora Roma sem ele continua calma e firme.

(Entra um edil.)

EDIL — Dignos tribunos, um escravo preso por nós e encarcerado trouxe a nova de que os volscos, em dois distintos corpos, os nossos territórios invadiram e com furor guerreiro incontrastável derrubam tudo o que acham no caminho.

MENÊIO — É Aufídio, que do exílio tendo ouvido do nosso Márcio, novamente ao mundo mostra os cornos, que sempre conservara dentro da concha, sem ousar tirá-los, quando ao lado de Roma estava Márcio.

SICÍNIO — Por que falais de Márcio?

BRUTO — Mandai logo chicotear esse espalhador de boatos. É impossível que os volscos se atrevessem a romper nossos pactos.

MENÊIO — É impossível? Sabemos muito bem que isso é possível; só em meu tempo vi três vezes isso. Mas convém conversar com esse escravo antes de castigá-lo, e perguntar-lhe onde ele se informou. Não aconteça virdes a chibatear o próprio aviso e dar no mensageiro que vos manda ter cautela com o que há de ser temido.

SICÍNIO — Não faleis nisso; sei que isso é impossível.

BRUTO — Não pode ser.

(Entra um mensageiro.)

MENSAGEIRO — Todos os nobres foram para o senado muito cabisbaixos. Chegou qualquer notícia que a eles todos deixou completamente transtornados.

SICÍNIO — Foi o escravo; mandai que o chibateiem diante do povo. Isso é trabalho dele; foi a notícia, apenas.

MENSAGEIRO — Sim, mui digno senhor; foi confirmada essa notícia, além de outras bem mais, bem mais terríveis.

SICÍNIO — Que outras notícias mais terríveis?

MENSAGEIRO — Fala-se por muitas bocas, claramente — ignoro quanto haja de verdade nisso tudo — que Márcio, juntamente com Aufídio, contra Roma dirige um grande exército, prometendo vingança da largura da distância que vai das coisas velhas às mais recentes.

SICÍNIO — É de acreditar.

BRUTO — Foi espalhada essa notícia apenas para que a gente de ânimo abatido deseje a volta do bondoso Márcio.

SICÍNIO — Eis todo o ardil da coisa.

MENÊIO — É inverossímil; ele e Aufídio concordam tanto como duas contradições irredutíveis.

(Entra outro mensageiro.)

SEGUNDO MENSAGEIRO — Do senado vos chamam. Um exército pavoroso, com Caio Márcio à frente, com Aufídio associado, assola nossos territórios; à força abrem caminho; o incêndio espalham e tomam tudo o que acham.

(Entra Comínio.)

COMÍNIO — Oh! realizastes um trabalho e tanto!

MENÊIO — Que aconteceu? Quais são as novidades?

COMÍNIO — Oh! violar conseguistes vossas filhas, sobre vossas cabeças todo o chumbo da cidade fundir, em vossos próprios narizes desonrar vossas esposas...

MENÊIO — Que novidades há? Que novidades?

COMÍNIO — Vossos templos queimados até à base, vossas imunidades, de que tanto caso fazíeis, apertadas dentro de um furo de verruma.

MENÊIO — Por obséquio, que novidades há? — Fizestes obra magistral, é o que temo. — Por obséquio, vossas notícias? Se, em verdade, Márcio com os volscos se juntou...

COMÍNIO — “Se?” É o deus dos volscos. Condu-los como um ser que houvesse sido por um criador formado, diferente da natureza e mais habilidoso na feitura dos homens, e eles todos sob sua direção avançam contra nossos bonecos tão confiantes como meninos que perseguem borboletas ou açougueiros quando matam moscas.

MENÊIO — Belo trabalho o vosso e o desses homens de avental, que importância dáveis tanto aos votos dos artífices e ao hálito dos comedores de alho.

COMÍNIO — Vossa Roma vai ele sacudir em vossas próprias orelhas.

MENÊIO — Tal como Hércules fazia nas árvores de frutas. Que trabalho admirável o vosso!

BRUTO — Mas é certo, senhor, o que dizeis?

COMÍNIO — Ora, certíssimo. Podeis tornar-vos pálido até achardes notícias em contrário. Sorridentes, passam-se muitos para os volscos; quantos procuram resistir são transformados em alvo de chacota pela ignávia valorosa, morrendo como todos de provada constância. Quem o pode censurar? Tanto os vossos inimigos como os dele o valor lhe reconhecem.

MENÊIO — Estaremos perdidos, se o mui nobre vencedor não tiver de nós piedade.

COMÍNIO — Quem irá suplicar-lhe? Por vergonha não o farão os tribunos, merecendo sua demência o povo como o lobo merece a do pastor. Se lhe dissessem seus melhores amigos: “Sê benigno para Roma”, teriam procedido como os que o ódio dele mereceram, comportando-se, assim, como inimigos.

MENÊIO — É certo; caso o viesse atear em minha casa o fogo que iria consumi-la, não teria coragem de dizer-lhe: “Parai, vos peço!” Bela mão tivestes nesse negócio, vós e todos esses artesãos de mãos destras. Trabalhastes belamente com as mãos.

COMÍNIO — Chamastes sobre Roma um tremor que desafia a cura.

SICÍNIO e BRUTO — Não digais que o chamamos.

MENÊIO — Como! É isso por caso, obra nossa? Nós o amávamos; porém como animais e nobres fracos o entregamos a vossa malta informe, que o expulsou, entre apupos, da cidade.

COMÍNIO — Mas receio que aos urros eles todos o reconduzam. Tulo Aufídio, o nome segundo entre os ilustres, obedece, como subordinado, às ordens dele. O desespero é toda a arte política, toda a força e defesa de que Roma ora dispõe contra ele.

(Entra um bando de cidadãos.)

MENÊIO — Aí vem o bando. — Então Aufídio está com ele? — Fostes vós que empestastes o ar, quando jogáveis para o alto vossos gorros fedorentos e engordurados, e soltáveis gritos pelo exílio de Márcio. Ele aí vem vindo, não havendo um cabelo na cabeça de seus soldados que ora não se mude num bom chicote. Todos os idiotas que para cima os gorros atiraram vai ele derrubar para pagar-se dos votos alcançados. Não importa; mesmo que ele a nós todos consumisse num só tição: de sobra o merecemos.

CIDADÃOS — Em verdade, a notícia é assustadora.

PRIMEIRO CIDADÃO — Por minha parte, quando eu disse: “Voto pela expulsão!” acrescentei: “E pena!”

SEGUNDO CIDADÃO — O mesmo eu fiz.

TERCEIRO CIDADÃO — Eu também; e, para dizer a verdade, muitos outros disseram a mesma coisa. O que fizemos foi pelo melhor, e embora tivéssemos concordado voluntariamente em que ele fosse banido, deu-se isso contra nossa vontade.

COMÍNIO — Bela coisa sois todos vós, com vossos votos!

MENÊIO — Ótima coisa vós e vossa malta conseguistes fazer. E agora, vamos ao Capitólio?

COMÍNIO — Sim, que mais faremos?

(Saem Comínio e Menênio.)

SICÍNIO — Ide, meus mestres, para vossas casas. Não fiqueis assustados. Esses fazem parte de um grupo que se alegraria se visse confirmado o que simula, tão-somente, temer. Ide, acolhei-vos a vossas casas, sem mostrar receio.

PRIMEIRO CIDADÃO — Que os deuses se amerceiem de nós! Vamos, mestres; vamos para casa. Eu sempre disse que procedíamos mal em bani-lo.

SEGUNDO CIDADÃO — E assim todos. Mas vamos para casa.

(Saem os cidadãos.)

BRUTO — Essa notícia não me agrada em nada.

SICÍNIO — Nem a mim.

BRUTO — Vamos ao Capitólio. Perderia metade de meus bens com muito gosto, só para desmenti-la.

SICÍNIO — Vamos logo.

(Saem.)

Cena VII

Acampamento a pequena distância de Roma. Entram Aufídio e seu tenente.

AUFÍDIO — Continua passando muita gente para o Romano?

TENENTE — Ignoro o seu feitiço, mas para vossos homens ele é a prece de antes das refeições, toda a conversa à mesa, e as graças quando se levantam. Nesta campanha, meu senhor, ficastes eclipsado até mesmo para os vossos.

AUFÍDIO — Não é possível fazer nada agora, para não estropiar a própria marcha de meus planos, com quanto ora empregasse. Sua atitude é muito mais altiva, até mesmo comigo, do que fora de imaginar no instante de abraçá-lo pela primeira vez. Inalterável, porém, é a sua natureza, sendo-me forçoso desculpar o que não pode jamais ser corrigido.

TENENTE — No entretanto, senhor, eu desejara — e só digo isso visando vosso bem — que não tivésseis a direção com ele dividido. Deveria o comando ser só vosso, ou dele, tão-somente.

AUFÍDIO — Sim, compreendo-te. Mas podes ficar certo de que quando ele tiver de prestar contas, hei de dele exigir o que ele nem suspeita. Muito embora pareça, e ele assim pense, e ao próprio olho do vulgo se afigure que ele administra bem o Estado volsco, luta como um dragão, bastando a espada sacar para vencer: algo ele deixa por fazer, que o pescoço irá quebrar-lhe, ou pôr o meu em risco, quando as contas tivermos de justar.

TENENTE — Uma pergunta, senhor: acreditais, realmente, que ele venha a conquistar Roma?

AUFÍDIO — Toma todos os burgos antes mesmo de cercá-los; a nobreza de Roma lhe pertence; amam-no os senadores e os patrícios; os tribunos não lutam, e seu povo será tão pressuroso em repatriá-lo como foi na expulsão precipitado. Sou de opinião que ele fará com Roma como com o peixe faz a águia marinha, que o apanha por direito soberano da natureza. Foi primeiro um nobre servidor do país, mas sempre inapto para mostrar moderação nas honras, fosse isso por orgulho, com que o êxito de todo dia mancha o homem de sorte, ou por qualquer defeito do juízo, que o impede sempre de tirar partido dos casos de que é dono; ou fosse efeito de sua natureza que não muda de atitude no casco e na almofada, levando-o a ser na paz tão rigoroso e austero que na guerra: uma somente dessas faltas — pois germe tem de todas — não todas — quero ser com ele justo — o fez temido, odiado e, alfim, banido. É grande o seu merecimento, é certo; mas asfixia-o quando o manifesta. Nossas virtudes são medidas pelo julgamento do tempo, não possuindo qualquer poder, de si recomendável, mais notório, sepulcro do que a cátedra de onde é feito seu próprio panegírico. O prego expulsa o prego; a chama, a chama; perante um título outro perde a fama. A força vence a força... Que prossiga! Quando tiveres Roma como amiga, caro Márcio, mais pobre ficarás e em pouco tempo em meu poder cairás.

(Saem.)

ATO V
Cena I

Roma. Uma praça pública. Entram Menênio, Comínio, Bruto, Sicínio e outros.

MENÊIO — Não, não irei; ouvistes o que disse ao seu antigo general; que o amava por maneira especial... Dava-me o nome de pai; mas que importa isso? Ide vós mesmos que o banistes; prostrai-vos a uma milha de sua tenda e percorrei, de joelhos, a estrada que possa ir diretamente à sua compaixão. Uma vez que ele não quis ouvir Comínio, vou deixando-me ficar por aqui mesmo.

COMÍNIO — Ele fingiu que não me conhecia.

MENÊIO — Estais ouvindo?

COMÍNIO — Mas uma vez chamou-me pelo nome. Falei-lhe em nossas relações antigas e nas gotas que, juntos, derramamos. Não atendeu ao nome “Coriolano”, proibindo-me de dar-lhe qualquer outro, por julgar-se sem título, uma espécie de coisa alguma, até que um novo nome na fornalha de Roma ele forjasse.

MENÊIO — Vedes que bela coisa realizastes? Dois tribunos que se sacrificaram no banco de tormentos, porque em Roma carvão barato houvesse. Belo feito!

COMÍNIO — Cheguei a lhe lembrar quanta nobreza há no perdão que já ninguém espera. Disse ser isso petição mesquinha de um Estado à pessoa que ele próprio mandara castigar.

MENÊIO — Perfeitamente. Poderia falar de outra maneira?

COMÍNIO — Procurei o interesse despertar-lhe para os amigos a ele mais chegados. Toda sua resposta foi que tempo não lhe sobrava para separá-los de um monte de refugos bolorentos. Era loucura, disse, só por causa de um pobre grão ou dois, não lançar fogo no monturo que o olfato nos ofende.

MENÊIO — Um pobre grão ou dois! Eu sou um deles. A mãe, a esposa, o filho, este valente companheiro os grãos somos. Os refugos bolorentos sois vós, cujo mau cheiro chega a passar a lua. Assim, teremos de ser queimados só por vossa causa.

SICÍNIO — Não, tende compaixão? Se vosso auxílio nos recusais numa necessidade tão grande como nunca, pelo menos exprobrar não queirais nossa desgraça. Mas é certeza: se vos resolvêsseis a causa a defender de vossa pátria, vossa bela palavra, mais potente, muito mais, do que a força que pudéssemos improvisar, deter conseguiria nosso compatriota.

MENÊIO — Não; não entro nisso. De forma alguma.

SICÍNIO — Ide falar-lhe, por compaixão.

MENÊIO — Que poderei fazer?

BRUTO — Tentar, apenas, o que para Roma junto de Márcio vosso amor consegue.

MENÊIO — Bem; mas digamos que ele me despeça, como fez com Comínio, sem ouvir-me... E depois? Um amigo molestado, atingido de cheio pela mágoa de sua grosseria... E se for isso?

SICÍNIO — Vossa boa vontade, nesse caso, terá alcançado a gratidão de Roma, por terdes procedido nobremente.

MENÊIO — Bem, vou tentar; espero ser ouvido. Mas ter mordido o lábio e resmungado para nosso Comínio, me apavora. Não foi bem apanhado; certamente ainda estava sem jantar. Vazias as veias, nosso sangue se arrefece, indispostos ficamos desde cedo, incapazes de dar e de perdoar. Mas quando enchemos os canais e as calhas de nosso sangue com comida e vinho, fica-nos a alma muito mais maleável do que durante esses jejuns de padre. Vou esperar, assim, que entre na dieta de meu pedido, para então falar-lhe.

BRUTO — Conheceis o caminho da bondade que lhe é própria; extraviar-vos é impossível

MENÊNIO — Por minha fé! vou pô-la à prova, venha daí o que vier. Dentro de pouco ficarei conhecendo meu prestígio. (Sai.)

COMÍNIO — Jamais ele o ouvirá.

SICÍNIO — Não?

COMÍNIO — É o que eu penso. Sentado está em ouro; os olhos, rubros como para lançar o incêndio em Roma, sendo sua própria injúria o carcereiro de sua compaixão. Ajoelhei-me na frente dele; muito vagamente murmurou: Levantai-vos! despedindo-me assim, com a mão muda. O que pretende fazer, depois mandou-me por escrito, e o que jamais fará; por juramento se acha obrigado a cumprir tudo à risca. Assim, não temos esperança alguma. a menos que sua nobre mãe e a esposa, conforme me disseram, se resolvam a lhe impetrar piedade para a pátria. Vamos, pois, procurá-las, apressando-as quanto estiver em nossa justa instância.

(Saem.)

Cena II

O acampamento volsco diante de Roma. Os guardas estão em seus postos; Menênio aproxima-se deles.

PRIMEIRO GUARDA — Alto aí! De onde vindes?

SEGUNDO GUARDA — Nem um passo mais para a frente!

MENÊIO — Sois, valentes guardas. Mas, com licença: oficial eu sou do Estado e vim falar com Coriolano.

PRIMEIRO GUARDA — De que parte?

MENÊIO — De Roma.

PRIMEIRO GUARDA — Então não pode; forçoso é que volteis; o nosso chefe não quer ouvir de lá coisa nenhuma.

SEGUNDO GUARDA — Vereis Roma entre chamas, antes mesmo de poderdes falar com Coriolano.

MENÊIO — Caros amigos, se já ouvistes vosso chefe falar de Roma e dos amigos que ele tem lá: aposto cem contra um que meu nome já vos feriu o ouvido: Menênio.

PRIMEIRO GUARDA — Pouco importa qual seja ele. Para trás, que a virtude desse nome aqui não tem passagem.

MENÊIO — Companheiro, teu general, repito, é meu amigo. O livro tenho sido de seus atos valorosos, no qual os homens leram sua fama sem par, até aumentada, que exaltar sempre eu soube meus amigos — dos quais ele é o primeiro — com a amplitude que a verdade comporta sem declínio. Algumas vezes, mesmo, como bola num terreno macio, estive a ponto de ultrapassar a meta; em louvor dele quase pus a chancela nas mentiras. Por isso tudo, amigo, é necessário deixardes-me passar.

PRIMEIRO GUARDA — Em verdade, senhor, ainda mesmo que houvésseis dito tantas mentiras a seu favor quantas palavras pronunciastes em vosso próprio proveito, não passaríeis aqui. Não; nem que fosse tão virtuoso mentir, como viver castamente. Por obséquio, retornai.

MENÊIO — Por obséquio, amigo, lembrai-vos de que meu nome é Menênio, adepto sempre entusiasta de vosso general.

SEGUNDO GUARDA — Ainda que tivésseis sido seu caluniador — como há pouco o confessastes — sou homem que digo a verdade sob as ordens dele, razão por que vos declaro que não podeis passar. Por isso, retornai.

MENÊIO — Poderás informar-me se ele já jantou? Porque só desejo falar-lhe depois do jantar.

PRIMEIRO GUARDA — Sois romano, não é verdade?

MENÊIO — Sou o que é teu general.

PRIMEIRO GUARDA — Nesse caso deveríeis ter ódio a Roma, como ele tem. Poderíeis, quando pusestes porta fora seu verdadeiro defensor, e, numa crassa ignorância popular, entregastes vosso escudo ao inimigo, poderíeis crer que seríeis capazes de conter sua vingança com os gemidos fáceis das velhas, as palmas virgens de vossas filhas ou com a interferência paralítica de um velho tonto como pareceis ser? Acreditais, mesmo que o incêndio que está prestes a destruir vossa cidade possa ser apagado com um sopro assim tão fraco? Não; estais enganado. Voltai, pois, para vossa Roma e preparai-vos para a execução. Estais condenados, nosso general não vos concederá trégua nem perdão.

MENÊIO — Maroto, se teu capitão soubesse que me encontro aqui, tratar-me-ia com consideração.

SEGUNDO GUARDA — Vamos! Meu capitão não vos conhece.

MENÊIO — Quero dizer: teu general.

PRIMEIRO GUARDA — Meu general não se preocupa convosco. Para trás! Já disse; do contrário, derramarei a meia pinta de sangue... Para trás!... que é só o que vos resta. Para trás!

MENÊIO — Sim... Mas, companheiro! companheiro!

(Entram Coriolano e Aufídio.)

CORIOLANO — Que é que há?

MENÊIO — Agora, companheiro, vou mostrar-vos como as coisas são; vereis em que conceito eu sou tido. Chegou o momento de verificardes que não cabe nas obrigações de um João-porteiro separar-me de meu filho Coriolano. Deduz, da maneira por que vou ser recebido, se não te encontras em perigo de ser enforcado ou de qualquer outra morte mais demorada para os espectadores e mais cruel para o paciente. Olha agora bem de frente e desmaia por causa do que te espera. (A Coriolano.) Que os deuses gloriosos se reúnam a todas as horas em conselho, para tratar de tua prosperidade, e que não te amem menos do que o teu velho pai Menênio. Ó meu filho! meu filho! Preparas fogo para nós. Olha: aqui trago água para apagá-lo. Custou-me a decidir-me a vir falar-te; mas por estar convencido de que somente eu poderia comover-te, deixei que os suspiros me trouxessem até vossas portas, para conjurar-te a perdoar a Roma e a teus compatriotas suplicantes. Que os deuses bondosos abrandem tua cólera e lancem sua borra sobre este tipo que, como um bloco de pedra, me negou acesso a tua presença.

CORIOLANO — Para trás!

MENÊIO — Como! Para trás!

CORIOLANO — Esposa, mãe e filho, desconheço-os. Confiados a outros tenho os meus negócios. É certo que a vingança me pertence; porém minha demência ora se encontra no coração dos volscos. A amizade que tivemos, primeiro o olvido ingrato deixará venenosa, que a piedade poderá avaliar. Por isso, parte. Mais fortes são os meus ouvidos contra vossos pedidos do que vossas portas contra minha investida. No entretanto, por já te ter amado, recebe isto. (Dá-lhe um papel.) Foi escrito somente por tua causa, e tencionava enviar-to. Outra palavra, Menênio, não desejo que me digas. Aufídio, este homem foi meu bem-amado na cidade de Roma. No entretanto, como vês...

AUFÍDIO — Revelai-vos sempre firme.

(Saem Coriolano e Aufídio.)

PRIMEIRO GUARDA — Então, senhor, vosso nome é Menênio?

SEGUNDO GUARDA — Como vistes, é uma palavra mágica, de grande eficiência. Agora aprendestes o caminho de casa.

PRIMEIRO GUARDA — Ouvistes como fomos censurados, por termos interceptado a passagem de Vossa Grandeza.

SEGUNDO GUARDA — Que razão imaginais que eu tenha para desmaiar?

MENÊIO — Não me preocupo nem com o mundo nem com vosso general. Seres como vós dois, nem chego a conceber que possam existir, tão insignificantes sois. Quem tem a possibilidade de morrer por suas próprias mãos, não tem medo de que os outros o matem. Que vosso general pratique as piores barbaridades. Quanto a vós, continuai por muito tempo sendo o que sois, e que com a idade aumente vossa miséria. Digo-vos o que me disseram: para trás! (Sai.)

PRIMEIRO GUARDA — Um nobre companheiro, posso asseverar.

SEGUNDO GUARDA — O companheiro mais digno é nosso general: é uma rocha, um carvalho, que vento algum consegue abalar.

(Saem.)

Cena III

Tenda de Coriolano. Entram Coriolano, Aufídio e outros.

CORIOLANO — Acamparemos amanhã defronte das muralhas de Roma. Como sócio meu que sois nesta empresa, aos comandantes volscos relatareis minha lisura em todo este negócio.

AUFÍDIO — Só cuidastes dos interesses deles, e os ouvidos fechastes para as súplicas romanas; não admitistes o menor cochicho de ninguém, nem ainda dos amigos que se prezavam de maior prestígio.

CORIOLANO — O último, aquele velho que eu reenviei com o coração partido para Roma, tinha por mim mais do que amor paterno. Sim, chegava a endeusar-me. A vinda dele representa o último recurso. Embora me mostrasse com ele muito ríspido, levando em conta nosso antigo afeto de novo ofereci-lhes as primeiras condições, já por eles recusadas e que, por isso, não serão aceitas. Fiz isso para prestigiar o amigo que alcançar muito mais imaginava. Cedi, alguma coisa. Doravante, porém, ouvidos não terei para outras embaixadas ou súplicas, ou venham do Estado, ou dos amigos, meus privados. (Clamor fora.) Que clamor será esse? Porventura quererão obrigar-me a ser perjuro na hora precisa em que formulo o voto? Tal não farei. (Com vestes de luto entram Vergília, Volúmnia que conduz o jovem Márcio, Valéria e criadas.) À frente, minha esposa; depois, a honrosa forma em que este tronco foi plasmado, trazendo pela mão o neto de seu sangue. Fora, fora, compaixão! Arrebentem-se os liames e os privilégios todos da natura. Ser obstinado, agora, é ser virtuoso. Que significam essas reverências, esses olhos de pomba, que podiam deixar perjuros até aos próprios deuses? Comovo-me. Não sou feito de argila mais forte do que os outros. Até ao solo se curva minha mãe, como se o Olimpo diante de um monte de toupeira viesse, humilhado, abaixar-se; e meu filhinho feições de suplicante ora apresenta, que a declarar obriga a natureza: “Não recuses!” Que os volscos arem Roma e o rastrilho por toda a Itália passem. Nunca o papel farei dos gansozinhos que ao instinto obedecem; mas como homem resistirei, que houvesse de si mesmo sido gerado e que não conhecesse nenhum parente.

VERGÍLIA — Meu senhor e esposo!

CORIOLANO — Não vejo as coisas como via em Roma.

VERGÍLIA — A tristeza que tanto nos transforma é que vos faz pensar dessa maneira.

CORIOLANO — Tal como ator estúpido, esqueci-me do meu papel e fui vaiado e expulso. Ó tu, parte melhor de minha carne, perdoa ao meu rigor, mas não me digas que aos romanos perdoe. E agora um beijo tão longo quanto meu exílio, doce como minha vingança. Pela cólera da rainha do céu, digo-te que este beijo eu tomei de ti, minha querida, e desde então a minha fiel boca virgem se conservou. Oh deuses! Falo sem medida, e a mais nobre mãe do mundo deixo sem saudação! Dobra-te, joelho, até ao chão e na terra imprime marcas de tua reverência mais profundas que as do filhos comuns.

VOLÚMNIA — Oh, não! Levanta-te e sê bendito. Eu, sim, que em almofada mão mais mole que a pedra, dobro os joelhos diante de ti e impropriamente mostro reverência, tal como se durante toda a vida enganado me tivesse com a atitude dos pais para seus filhos.

CORIOLANO — Como! Diante de mim vos ajoelhais? Então, que os seixos da marinha praia nos astros vão bater. Então, que os ventos amotinados lancem contra o ardente sol os cedros altivos, o impossível matando, com deixar trabalho fácil o que não pode ser.

VOLÚMNIA — És meu guerreiro; foste feito por mim. Não reconheces esta senhora aqui?

CORIOLANO — É a nobre irmã de Publícola; a lua ela é de Roma, casta como o cristal feito da neve mais pura que do templo de Diana estivesse a pender: cara Valéria.

VOLÚMNIA — Este é um pobre resumo de vós próprio, que com o aperfeiçoamento do futuro talvez consiga vos pegar em tudo.

CORIOLANO — Que o deus dos combatentes, com a anuência de Júpiter supremo, de nobreza te inspire o pensamento, porque possas mostrar-te invulnerável ao opróbrio e ficar nas batalhas como grande baliza que resiste às tempestades e salva a quantos para ti olharem.

VOLÚMNIA — Pequeno, ajoelha-te.

CORIOLANO — É o meu bravo filho.

VOLÚMNIA — Sim, ele, vossa esposa — esta senhora — e eu própria somos vossos suplicantes.

CORIOLANO — Por obséquio, calai-vos. Ou, no caso de falardes, lembrai-vos de que nunca podeis considerar como recusa de minha parte o que por juramento obrigado me vejo a recusar-vos. Não mandeis que eu despeça meus soldados ou que a capitular de novo venha com os artesãos de Roma. Não desejo que me mostreis o em que desnaturado pareço agora, nem que minha cólera e meu rancor tenteis tranqüilizar com o frio raciocínio.

VOLÚMNIA — Oh! basta! basta! Não nos concedeis nada, já o dissestes, pois a pedir não temos outra coisa a não ser o que já nos recusastes. Contudo, vamos formular a súplica, pois se nos recusardes o pedido só em vosso rigor recaia o opróbrio. Por isso, ouvi-nos.

CORIOLANO — Tomai nota, Aufídio; e vós, volscos, também; pois não queremos ouvir de Roma coisa alguma à parte. Qual é o vosso pedido?

VOLÚMNIA — Se ficássemos calados, sem dizer palavra alguma, nossas vestes e o estado destes corpos mostrariam a vida que levamos depois de teu exílio. Considera quanto mais infelizes do que todas as mulheres nós somos no momento de procurar-te, pois a tua vista, que deveria, de prazer, os olhos marejar-nos de lágrimas e aos saltos o coração deixar-nos, de conforto, de pavor e tristeza força aqueles a chorar e a este deixa estremecido, com obrigar a esposa, a mãe e o filho a verem o marido, o filho e o pai as entranhas rasgar da própria pátria. A nós, coitadas, muito mais que às outras é teu ódio fatal, pois nos impede de aos deuses dirigirmos nossas súplicas, o que grande conforto é para todas, com exceção de nós. Pois como fora possível — ai de nós! — como nos fora possível implorar por nossa pátria — como é nosso dever — e, ao mesmo tempo, pedir que possas alcançar vitória, como é nosso dever? Ah! é preciso que percamos a pátria, a ama querida, ou então tua pessoa, nosso amparo e alegria na pátria. Inevitável calamidade sobre nós se apresta, seja qual for o voto que se exalce quanto à final vitória. Pois forçoso será que, como um malfeitor estranho, passes em ferros pelas nossas ruas, ou que pises triunfante nos escombros de tua pátria e a palma a alcançar venhas por haveres o sangue derramado bravamente da esposa e de teu filho. Porque, meu filho, protelar não hei de até que possa decidir a sorte sobre o fim desta guerra. Se impossível me é de todo fazer que, enfim, te mostres com as duas partes nobre e generoso, em vez de a ruína de uma procurares, fica sabendo que não hás de os muros assaltar da cidade — isso é certeza — sem passares primeiro sobre o ventre da mãe que te deu vida.

VERGÍLIA — E também sobre o meu, onde gerado foi teu filho, porque teu nome nele perpetuasses.

MENÊIO — Sobre o meu corpo ele não pisa, que hei de sair correndo, e quando ficar grande, volto para brigar.

CORIOLANO — Se não quisermos na alma ter de mulher a semelhança, ver não devemos nem mulher nem criança. Já esperei muito tempo. (Levanta-se.)

VOLÚMNIA — Desse modo não nos deixeis. Se nossa interferência a favor dos romanos implicasse a destruição dos volscos, a serviço dos quais estais agora, poderíeis ver em nós o veneno de vossa honra. Não; não há tal. Queremos, tão-somente, que a reconciliação façais entre eles, de forma que dizer os volscos possam: “Mostramo-nos clementes”, e os romanos: “Com relação a nós”, rompendo todos em calorosos vivas para tua pessoa com dizerem: “Sê bendito por semelhante paz!” Meu grande filho, como bem sabes, toda guerra é incerta. Mas uma coisa é certa: se chegares a ganhar Roma, lucrarás apenas um nome que há de ser por toda parte dito com maldição e cuja crônica repetirá: “Era pessoa nobre. mas com o último feito rebaixou-se: destruiu a pátria, havendo transmitido para a posteridade um nome abjeto”. Fala, meu filho. Sempre te esforçaste por ter os delicados traços da honra, por imitar dos imortais a graça, com teus trovões dilacerando as largas bochechas do ar, mais disparando um raio capaz apenas de fender um roble. Por que não dizes nada? Acaso pensas que seja honroso para um nobre sempre relembrar as injúrias? Falai, filha; ele não dá valor ao vosso choro. Menino, fala tu, é bem possível que comovê-lo possa mais que nossas razões tua inocência. Não há filho que mais deva a sua mãe; no entanto, deixa-me falar agora sem parar, tal como condenado no cepo. Em toda a vida nunca deste a tua mãe prova de afeto. Ela — pobre ave! não se preocupava com segunda ninhada — para as guerras com seu cacarejar sempre te enviava e, coberto de glória, te fazia voltar são para casa. Dize apenas que meu pedido é injusto e me repele. Mas, se tal não se der, faltas com a honra, castigando-te os deuses por me haveres recusado a obediência que me toca por direito de mãe. Ele se vira! De joelho, damas! Possam humilhá-lo nossas genuflexões. O sobrenome Coriolano lhe infunde mais orgulho que compaixão todas as nossas súplicas. De joelhos; acabemos. Vai ser a última tentativa. Voltemos para Roma e com nossos vizinhos pereçamos. Não; olha para nós. Este menino que não sabe dizer o que pretende, mas apenas se ajoelha e as mãos levanta, traz razões mais potentes do que possas aduzir em contrário. Mas voltemos. Por mãe este homem teve mulher volsca; a esposa está em Coríolos; o filho só por acaso tem os traços dele. Mas despachemo-nos; quero ficar quieta até nossa cidade ver em chamas; depois ainda direi alguma coisa.

CORIOLANO — (tomando Volúmnia, que se cala, pela mão.) Mãe! ó mãe! que fizestes? Oh! entreabrem-se os céus, e os deuses que nos vêem riem desta cena contrária à natureza. Ó minha mãe! Ó mãe! Ó minha mãe! Ganhastes para Roma uma vitória muito feliz, mas para vosso filho, podeis crer-me — oh! podeis — prevalecestes sobre ele por maneira perigosa, se mortal não lhe for. Porém que venha. Aufídio, muito embora eu já não possa dirigir guerra leal, ao menos posso concluir honrosa paz. Bondoso Aufídio, se em meu lugar agora vos achásseis, teríeis, porventura, ouvido menos vossa mãe, caro Aufídio, ou concedido menos do que pedisse?

AUFÍDIO — Comovido fiquei, confesso.

CORIOLANO — Eu o asseveraria. E, amigo, podeis crer que pouca coisa dos olhos não me faz pingar piedade. Meu bondoso senhor, aconselhai-me sobre a paz que quereis fazer com eles. Por minha parte não irei a Roma; retornarei convosco. Por obséquio, neste passo auxiliai-me. Oh mãe! oh esposa!

AUFÍDIO (à parte) — Muito me alegra ver que em tua alma lutam a compaixão e a honra. Com isso tudo saberei refazer a antiga sorte.

(As senhoras fazem sinal a Coriolano.)

CORIOLANO — Neste momento. Mas bebamos juntos, e levareis a Roma um testemunho melhor do que palavras, que haveremos de subscrever em condições idênticas. Vamos, entremos juntos. Vós, senhoras, um templo mereceis que vos construam; as espadas da Itália, suas armas confederadas, nunca chegariam a alcançar uma paz como a de agora.

(Saem.)

Cena IV

Roma. Uma praça pública. Entram Menênio e Sicínio.

MENÊIO — Estais vendo aquela saliência do Capitólio, a pedra angular?

SICÍNIO — Estou; mas a que vem isso?

MENÊIO — Se conseguirdes abalá-la com o dedo mínimo, haverá alguma esperança de que as damas de Roma, principalmente a mãe dele, consigam alguma coisa. Mas, como disse, não há esperança; estamos com as gargantas sentenciadas à espera somente da execução.

SICÍNIO — Será possível que um tempo tão curto modifique a esse ponto a natureza de uma pessoa?

MENÊIO — Há muita diferença entre a crisálida e a borboleta; no entanto, a borboleta já foi crisálida. De homem, este Márcio se transformou em dragão; adquiriu asas; é algo mais do que um ser que rasteja.

SICÍNIO — Era muito afeiçoado à mãe.

MENÊIO — Como a mim também o foi. Mas agora ele se recorda tanto de sua mãe como de um cavalo de oito anos. A aspereza de seu rosto azeda uvas maduras. Quando anda, move-se como uma máquina de guerra, rachando-se o solo às suas passadas. Só com o olhar é capaz de furar um arnês; fala como um dobre de finados e seu murmúrio é uma bateria. Senta-se em sua cadeira como quem representa Alexandre. O que ele ordena que se faça, fica feito só com a simples ordem. Para ser um deus só lhe falta a eternidade e um céu para servir-lhe de trono.

SICÍNIO — Oh! compaixão! se o descreveis com fidelidade.

MENÊIO — Na descrição atenho-me ao seu caráter. Observai a graça que sua mãe alcançou junto dele. Há piedade nele como leite em um tigre macho, é o de que terá de certificar-se nossa cidade. E tudo isso é trabalho vosso.

SICÍNIO — Que os deuses se compadeçam de todos nós.

MENÊIO — Não; num caso destes eles não se compadecerão de nós. Quando banimos Coriolano, não fizemos conta dele; voltando Coriolano agora para cortar-nos o pescoço, não farão conta de nós.

(Entra um mensageiro.)

MENSAGEIRO — Senhor se amais a vida, recolhei-vos para casa. Os plebeus se apoderaram de vosso companheiro de mandato, dão-lhe empurrões e juram que se as damas romanas não trouxerem boas novas, hão de tirar-lhe a vida aos pedacinhos.

(Entra outro mensageiro.)

SICÍNIO — Que novidades há?

SEGUNDO MENSAGEIRO — Boas notícias? Boas notícias! boas! Às matronas prevaleceram. Já o acampamento os volscos levantaram, Márcio foi-se. Nunca viu Roma tão alegre dia, nem mesmo quando expulso foi Tarquínio.

SICÍNIO — Amigo, tens certeza do que dizes? Não haverá engano?

SEGUNDO MENSAGEIRO — Tenho tanta certeza como de que o sol é fogo. Por onde vos metestes, para terdes dúvida sobre o que houve? Nunca as águas da maré se comprimem com tanto ímpeto debaixo do arco, como os aliviados se atiram pelas portas da cidade. Mas Ouvi! (Soam trombetas, oboés e tambores em confusão; aclamações dentro.) Sacabuxas, harpas, pífaros, trombetas, címbalos, tambores, vivas dos romanos à dança o sol arrastam. (Aclamações dentro.) Estais ouvindo?

MENÊIO — É muito boa a nova. Vou ao encontro das senhoras. Essa Volúmnia vale uma cidade cheia de senadores, cônsules e nobres; de tribunos assim, um mar repleto, toda a terra. Soubestes rezar hoje. Esta manhã eu não daria um óbolo para comprar dez mil gargantas vossas. Ouvi, quanta alegria!

(Aclamações e música.)

SICÍNIO — Inicialmente, abençoem-vos os deuses pelas novas; depois vos dou meus agradecimentos.

SEGUNDO MENSAGEIRO — Motivos todos nós temos bastantes para agradecimentos sublimados.

SICÍNIO — Já se estão da cidade aproximando?

SEGUNDO MENSAGEIRO — Já no ponto de entrar.

SICÍNIO — Saiamos todos a encontrá-los e o júbilo aumentemos.

(Retiram-se.)

(Atravessam o palco as damas acompanhadas dos senadores, patrícios e povo.)

PRIMEIRO SENADOR — Vede a vida de Roma, a protetora de todos nós! Reuni todas as tribos; orai aos deuses e acendei fogueiras de regozijo; atapetai de flores o caminho por onde elas passarem. Com novos vivas abafei os gritos que de Roma expulsaram Caio Márcio. Nas saudações da mãe chamai-o à pátria. Gritai todos: Senhoras, sois bem-vindas!

TODOS — Senhoras, sois bem-vindas!

(Fanfarras e tambores. Saem todos.)

Cena V

Coríolos. Uma praça pública. Entra Tulo Aufídio com criados.

AUFÍDIO — Anunciai aos senhores da cidade que eu já cheguei e dai-lhes este escrito. Depois de o terem lido convocai-os para o mercado, onde, no ouvido deles e nos do povo provarei tudo isso. Quem eu acuso já transpôs as portas da cidade e pretende apresentar-se ante o povo, esperando com palavra justificar-se. Muita pressa em tudo. (Saem os criados.) (Entram três ou quatro conspiradores do partido de Aufídio.) Sede bem-vindos.

PRIMEIRO CONSPIRADOR — Como vai passando o nosso general?

AUFÍDIO — Como pessoa envenenada pela própria esmola e que a bondade mata.

SEGUNDO CONSPIRADOR — Muito nobre senhor, se persistirdes no projeto para o qual desejastes nosso auxílio, nós nos incumbiremos de livrar-vos dessa grande coação.

AUFÍDIO — Nada vos posso dizer, senhor; teremos de portar-nos conforme virmos que se mostra o povo.

TERCEIRO CONSPIRADOR — O povo ficará sempre indeciso, enquanto entre vós dois houver discórdia. A queda de um fará de tudo herdeiro o que sobreviver.

AUFÍDIO — É muito certo. Os motivos que tenho de atacá-lo são mais do que plausíveis. Elevei-o e por sua lealdade empenhei a honra. Mas ele, uma vez no alto, as novas plantas irrigou com o orvalho da lisonja, seduziu meus amigos, violentando para esse fim sua própria natureza, conhecida até então como indomável, independente e brusca.

TERCEIRO CONSPIRADOR — Sua empáfia, senhor, quando ele obteve o consulado, que a perder veio por não ter sabido tergiversar em tempo...

AUFÍDIO — Ia falar-vos a esse respeito. Tendo sido expulso por isso mesmo, veio a minha casa e o pescoço estendeu à minha faca. Acolhi-o; fiz dele meu consócio, dei-lhe azo a que os desejos expandisse. Fiz mais: deixei que ele escolhesse dentre meus próprios contingentes os melhores e mais dispostos homens, porque a cabo levasse seus projetos. Em pessoa servi aos seus desígnios, ajudando-o a madurar a fama que na ceifa para ele, só, ficou, tendo ele orgulho revelado em fazer-me essa injustiça. Em remate, chegamos a tal ponto, que mais seu subalterno eu parecia do que mesmo parceiro, tendo-me ele recompensado com seus ademanes como se mercenário dele eu fosse.

PRIMEIRO CONSPIRADOR — Justamente, senhor; e muito espanto causou isso no exército. Por último, quando Roma já tínhamos vencido e fé todos fazíamos no espólio, como na glória...

AUFÍDIO — É aí que bate o ponto, contra ele tenso meus tendões deixando. Por algumas gotinhas de catarro de umas senhoras, que são tão baratas quanto mentiras, o trabalho e o sangue vendeu ele de nosso esforço ingente. Por isso morrer deve; sua queda me fará levantar. Mas, escutemos!

(Barulho de trombetas e de tambores, de mistura com aclamações do povo.)

PRIMEIRO CONSPIRADOR — Como se fôsseis um correio entrastes na cidade natal, sem que boas-vindas tivésseis de ninguém; mas ele volta rasgando o ar com o barulho.

SEGUNDO CONSPIRADOR — Esses pacíficos todos a quem ele privou dos filhos, rasgam as goelas vis no louvor deles.

TERCEIRO CONSPIRADOR — Para vossa vantagem, desse modo, antes que ele se expanda e possa o povo comover com discursos, vossa espada dai-lhe a provar, que vos secundaremos. Jogando ele por terra, sua história contada a vosso jeito, juntamente com o corpo enterrará seus argumentos.

AUFÍDIO — Nem mais uma palavra; eis os senhores.

(Entram os nobres da cidade.)

NOBRES — Sois entre nós bem-vindo.

AUFÍDIO — Não mereço semelhante acolhida. Mas senhores, lestes atentamente meu escrito?

NOBRES — Lemos, sim.

PRIMEIRO NOBRE — E ficamos contristados. Suas primeiras faltas, é o que penso, podiam ser sanadas facilmente. Mas terminar onde primeiro estava, abrir mão das vantagens do armamento, à nossa própria custa indenizar-nos, onde houve rendição firmar tratados, desculpas não admite.

AUFÍDIO — Ei-lo que chega; vós próprios o ouvireis.

(Entra Coriolano com tambores e bandeiras; grande número de cidadãos o segue.)

CORIOLANO — Salve, senhores! Como vosso soldado aqui retorno, sem que do amor da pátria ora me encontre mais infectado do que no momento em que parti daqui, mas o supremo comando vosso obediente sempre. Passo a dizer-vos que com muita sorte fiz esse ataque, tendo por caminhos sanguinosos levado vossas guerras até às portas de Roma. O que trouxemos como espólio ultrapassa pelo menos de um terço das despesas da campanha. Concluímos uma paz tão digna para vós antíates como vergonhosa para os romanos. Eis que vos transmito, pelos patrícios assinado e os cônsules, juntamente com o selo do senado, o acordo que firmamos com os romanos.

AUFÍDIO — Nobres senhores, não leiais o escrito, mas dizei ao traidor que em grau muito alto ele abusou de vossa autoridade.

CORIOLANO — Traidor! Como?

AUFÍDIO — Traidor, Márcio. Isso mesmo.

CORIOLANO — Márcio?

AUFÍDIO — Sim, Márcio: Caio Márcio. Pensas, acaso, que enfeitar-te vou com o nome roubado, Coriolano, e isso em Coríolos? Senhores e cabeças da república, ele traiu os vossos interesses perfidamente, e por algumas gotas salgadas entregou vossa cidade, Roma — sim, digo: vossa! — à mãe e à esposa, rompendo os juramentos e os propósitos como um laço de fita apodrecida. Nunca ouviu um conselho de campanha, mas da mãe ante as lágrimas pôs fora, choramingando e urrando, vossos louros, o que os pajens deixou enrubescidos e os homens de valor fez entreolharem-se, tomados de estupor.

CORIOLANO — Ouviste, Marte?

AUFÍDIO — Não invoques o deus, chorão menino.

CORIOLANO — Ah!

AUFÍDIO — Não prossigas.

CORIOLANO — Mentiroso imenso, grande demais o coração deixaste-me, para caber no peito. Quê! “Menino?” Miserável... Perdoai-me, meus senhores; é a vez primeira que a insultar me forçam. Vosso juízo, ponderados nobres, vai dar o desmentido a este cachorro; e sua própria consciência — que as estrias de meus golpes ainda tem presentes, marcas que há de levar ao próprio túmulo — há de vos secundar no desmentido.

PRIMEIRO NOBRE — Ficai quietos e deixai que eu fale.

CORIOLANO — Cortai-me em pedacinhos, volscos! Homens e moços, vinde em mim manchar os gládios. “Menino!” Cão hipócrita! Se houvésseis vossos anais escrito com verdade, lá poderíeis ler que tal como águia num pombal pus em fuga os vossos volscos, em Coríolos. Eu, eu só! “Menino!”

AUFÍDIO — Como! nobres senhores, quereis mesmo que as façanhas da sorte dele cega — vosso opróbrio — vos sejam relembradas por este fanfarrão desnaturado, ante vossos ouvidos, vossos olhos?

CONSPIRADORES — Que ele morra por isso.

TODOS OS CIDADÃOS — Espedaçai-o, já já! — Matou meu filho! — Minha filha!- Matou meu pai! — Matou meu primo Marco!

SEGUNDO NOBRE — Silêncio aí! Nada de insultos. Calma! É um homem nobre e sua fama ocupa o orbe todo da terra. A última ofensa que nos fez há de ser regularmente em juízo discutida. Pára, Aufídio; não perturbes a paz.

CORIOLANO — Ah! se o tivesse com seis outros Aufídios e sua tribo ao alcance de minha leal espada!

AUFÍDIO — Celerado insolente!

CONSPIRADORES — Morte! Morte para ele! Morte! Morte!

(Aufídio e os conspiradores sacam da espada e matam Coriolano, que cai. Aufídio põe o pé sobre o cadáver.)

NOBRES — Não! Parai! Parai! Parai! Parai!

AUFÍDIO — Meus nobres mestres, deixai que vos explique o que houve.

PRIMEIRO NOBRE — Oh Tulo!

SEGUNDO NOBRE — Chora a coragem ante o que fizeste.

TERCEIRO NOBRE — Não o piseis. Senhores, acalmai-vos! Guardai vossas espadas.

AUFÍDIO — Meus senhores, quando a saber chegardes — o que neste grande furor, por ele suscitado, possível não será — todo o perigo com que nos ameaçava a vida dele, ficareis satisfeitos por ter sido morto ele deste modo. Vossas Honras podem chamar-me à frente do Senado, que hei de provar que sou vosso fiel servo, ou submeter-me a vosso grave juízo.

PRIMEIRO NOBRE — Levai daqui o corpo. E pranteai-o. Será tido na conta do mais nobre cadáver que já foi acompanhado pelo arauto até à urna funerária.

SEGUNDO NOBRE — Seu arrebatamento justifica por uma boa parte o erro de Aufídio. Tiremos disso todas as vantagens.

AUFÍDIO — Minha fúria passou. Sinto-me agora tomado de tristeza. Levantai-o. Ajudai três guerreiros, dos melhores; serei o quarto. Bate em teu tambor, de forma que ele fale tristemente. Abaixai vossas lanças. Muito embora tenhamos ainda na cidade muitas mulheres que sem filhos, sem maridos ele deixou e que ainda se ressentem de seus golpes até este momento, há de alcançar mui nobre monumento. Carreguemos.

(Saem levando o corpo de Coriolano, ao som de uma marcha fúnebre.)

Fonte: www.dominiopublico.gov.br

 

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