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Otelo, O Mouro de Veneza

William Shakespeare

Personagens

O Doge de Veneza.
BRABÂNCIO, senador. Outros senadores.
GRACIANO, irmão de Brabâncio.
LUDOVICO, parente de Brabâncio.
OTELO, mouro nobre, a serviço da República de Veneza.
CÁSSIO, seu tenente.
IAGO, seu alferes.
RODRIGO, fidalgo veneziano.
MONTANO, governador de Chipre antes de Otelo.
BOBO, criado de Otelo.
DESDÊMONA, filha de Brabâncio e esposa de Otelo.
EMÍLIA, esposa de Iago.
BIANCA, amante de Cássio.
Marinheiro, oficiais, gentis-homens, mensageiros, músicos, arautos, criados.

ATO I

Cena I

Veneza. Uma rua. Entram Rodrigo e Iago.

RODRIGO — Cala-te! Não me fales. Aborrece-me demais verificar que justamente tu, Iago, que dispunhas à vontade de minha bolsa, como se teus fossem seus cordões, conhecesses isso tudo...

IAGO — Mas escuta-me, ao menos! Se eu já sonhei alguma vez com isso, podes abominar-me.

RODRIGO — Dito me havias que lhe tinhas ódio.

IAGO — Despreza-me, se não for assim mesmo. Três pessoas de grande influência aqui vieram falar-lhe, chapéu na mão, com humildade, para que fizesse de mim o seu tenente. E por minha fé de homem, tenho plena consciência do que valho; não mereço posto menor do que esse. Ele, no entanto, consultando somente o orgulho e os próprios interesses, furtou-se com fraseado bombástico, recheado só de epítetos de guerra. Em conclusão: não entendeu aos meus intercessores. “Pois já escolhi meu oficial”, lhes disse. E quem é ele? Ora, por minha fé, um matemático, um tal Micael Cássio, um florentino, um tipo quase pelo próprio inferno fadado a ser uma mulher bonita, que nunca comandou nenhum soldado em campo de batalha e que conhece tanto de guerra como uma fiandeira; erudição de livros, simplesmente, sobre o que podem dissertar com a mesma proficiência que a dele os nossos cônsules togados; palavrório sem sentido, carecente de prática: eis sua arte. No entanto, meu senhor, foi o escolhido; ao passo que eu, que aos próprios olhos dele provas cabais já dera em Chipre e Rodes e em muitos outros pontos habitados por cristãos e pagãos, terei de, agora, ficar a sota-vento e calmaria, só por causa do dever-e-haver de um simples calculista, que — oh tempos! — vai tornar-se tenente, enquanto que eu — Deus me perdoe! — continuarei sendo do Mouro o alferes.

RODRIGO — Pelo céu, preferira ficar sendo carrasco dele.

IAGO — Já não há remédio. É a maldição do ofício: as promoções se obtêm só por pedidos e amizades, não pelos velhos meios em que herdava sempre o segundo o posto do primeiro. Ora, senhor, ajuizai vós mesmos se razões tenho para amar o Mouro.

RODRIGO — Assim, eu não ficara sob suas ordens.

IAGO — Ó senhor, acalmai-vos. Se me ponho sob suas ordens é só em proveito próprio. Mestres nem todos podem ser, nem todos os mestres podem ter bons servidores. Já tereis visto por aí bastantes sujeitos obsequiosos, de flexíveis joelhos que, apaixonados pela própria escravidão, o tempo todo gastam como o asno do amo, só pela comida; e, quando ficam velhos: despedidos. Chicote nessa gente muito honesta! Outros há que sabendo a forma externa revelar do dever, as feições próprias, o coração conservam sempre atentos no proveito pessoal; enquanto aos amos dispensam mostras de serviço, apenas, prosperam muito bem, e, ao mesmo tempo que os casacos lhes forram, a si próprios prestam boa homenagem. Esses tipos têm alguma alma, e entre eles eu me incluo, posso afiançar-vos. Pois senhor, tão certo como serdes Rodrigo, se em verdade eu fosse o Mouro, não queria um Iago sob minhas ordens, pois seguindo-o, apenas sigo a mim próprio. O céu é testemunha: não me move o dever nem a amizade, mas, sem o revelar, só o interesse. Se as mostras exteriores de meus atos me traduzissem os motivos próprios do coração em traços manifestos, carregaria o coração na manga, para atirá-lo às gralhas. Ficai certo: não sou o que sou.

RODRIGO — Que sorte a desse tipo de lábios grossos, se puder, realmente, levar isso até ao fim.

IAGO — Chama o pai dela; desperta-o; corre atrás do Mouro, põe-lhe veneno na alegria; o nome dele proclama pelas ruas, os parentes dela deixa excitados, e ainda que ele more em clima adorável, atormenta-o com praga de mosquitos. Muito embora sua alegria seja verdadeira, com tais contrariedades o persegue, que a cor a perder venha.

RODRIGO — Fica aqui mesmo a casa do pai dela; vou chamar em voz alta.

IAGO — Mas com vozes de medo e uivos terríveis, como quando por negligência, à noite, o fogo estala num burgo populoso.

RODRIGO — Olá, Brabâncio! Senhor Brabâncio, olá!

IAGO — Ladrões! Brabâncio! Brabâncio, despertai! Ladrões! Ladrões! Cuidai de vossa casa, vossa filha, de vossos cofres! Acordai! Ladrões!

(Brabâncio aparece na janela.)

BRABÂNCIO — Qual é o motivo de tão grande bulha? Que aconteceu?

RODRIGO — Senhor, tendes aí dentro toda vossa família?

IAGO — Vossos quartos estão fechados?

BRABÂNCIO — Ora, qual a causa de perguntardes isso?

IAGO — Com mil diabos, senhor, fostes roubado; por vergonha, ide vestir a toga; arrebentado tendes o coração; metade da alma já vos foi alienada. Agora mesmo, neste momento, um velho bode negro está cobrindo vossa ovelha branca. Tocai o sino, para que despertem os cidadãos que roncam; do contrário, o diabo vos fará ficar avô. Despertai! É o que eu digo.

BRABÂNCIO — Mas que é isso! Perdestes o juízo?

RODRIGO — Venerável senhor, reconheceis-me pela voz?

BRABÂNCIO — Não; mas quem sois?

RODRIGO — Rodrigo; assim me chamo.

BRABÂNCIO — Pior nome não podias revelar-me. Não te proibi de me rondar a casa? Não me ouviste dizer, com leal franqueza, que para ti não era minha filha? Por que me vens agora, transtornado pela ceia e os vapores da bebida, com tua tratantagem maliciosa perturbar-me o repouso?

RODRIGO — Meu senhor, senhor, senhor...

BRABÂNCIO — Mas podes ficar certo de que minha coragem e meu posto na república têm poder bastante para fazer-te amargurar por isso.

RODRIGO — Paciência, bom senhor.

BRABÂNCIO — Por que me falas em roubo? Estamos em Veneza; minha casa não é uma granja.

RODRIGO — Venerável senhor, vim procurar-vos com lisura.

IAGO — Ora, senhor! Sois uma dessas pessoas que se negariam a servir a Deus, se fosse o diabo que lhes ordenasse. Por que viemos prestar-vos um serviço e nos tendes na conta de velhacos, quereis que vossa filha seja coberta por um cavalo berbere e que vossos netos relinchem atrás de vós? Quereis ter cordeis como primos e ginetes como parentes?

BRABÂNCIO — Quem és tu, miserável licencioso?

IAGO — Sou um homem, senhor, que vim revelar-vos que vossa filha e o Mouro se acham no ponto de fazer o animal de duas costas

BRABÂNCIO — Sois um vilão.

IAGO — E vós... um senador.

BRABÂNCIO — Vais pagar-me. Conheço-te, Rodrigo.

RODRIGO — Responderei por tudo. Mas pergunto-vos, senhor, se foi com vosso assentimento, vosso sábio conselho — como quase fico a pensar — que vossa linda filha, na calada de noite tão escura, saiu em companhia de um sujeito nem melhor nem pior do que um velhaco por qualquer alugado, num gondoleiro, para aos abraços torpes entregar-se de um Mouro luxurioso; se, realmente, sabeis de tudo e concordais com isso, bem: nesse caso é certo vos fazermos inominável e atrevida ofensa. Mas se desconheceis o que se passa, ensina-me o costume que não tendes razão de censurar-nos desse modo. Não creiais que tão falho eu me revele de cortesia, para vir agora zombar de vossa grande reverência. Vossa filha — de novo vos declaro — se não lhe destes permissão, mui grave pecado cometeu, unindo o espírito, a beleza, o dever e seus haveres a um estrangeiro andejo e desgarrado daqui e de toda parte. Convencei-vos neste momento: se no quarto dela fordes achá-la, ou mesmo em toda casa, entregai-me à justiça da república por vos ter enganado desse modo.

BRABÂNCIO — Acendei fogo! Olá! Dai-me uma vela! Despertai todo mundo. Este incidente não destoa dos sonhos que já tive. Só de pensar em tal, me sinto opresso. Luz, repito! Um vela!

(Retira-se da janela.)

IAGO — Adeus; não posso ficar mais tempo aqui. Não é prudente — dado o meu posto — nem recomendável ser chamado a juízo contra o Mouro, o que aconteceria se eu ficasse. Pois sei-o bem: o Estado, muito embora venha a afligi-lo com alguma crítica, não pode dispensar-lhe os bons serviços sem correr grande risco. Com tão fortes razões o encarregaram da campanha contra os chipriotas — que ora se acha em curso — que para a vida assegurar de todos não encontram ninguém de igual calibre capaz de dirigir esse negócio. Por isso, muito embora lhe vote ódio como às penas do inferno, sou forçado pelas necessidades do presente a arvorar a bandeira da amizade que não passa de simples aparência. Para terdes certeza de encontrá-lo, encaminhai na direção do albergue do Sagitário os que hão de procurá-lo. Lá, como ele estarei. E agora, adeus. (Sai.)

(Entram Brabâncio e criados, com tochas.)

BRABÂNCIO — Minha infelicidade é mais que certa. Fugiu mesmo. Do tempo desprezível que me resta de vida não espero senão tão-só tristezas. Onde a viste, Rodrigo? — Oh! que menina sem juízo! — Junto com o Mouro, foi o que disseste? — Quem quisera ser pai! — Por quais indícios vieste a reconhecê-la? Oh! Iludiu-me de modo inconcebível. Que te disse? — Olá! Trazei mais velas! Despertai todos os meus parentes! — Acreditas que se tenham casado?

RODRIGO — É o que parece, para vos ser sincero.

BRABÂNCIO — Oh céus! Que meios ela encontrou para sair de casa? Oh! que traição do sangue! Doravante, pais, não confieis no espírito das filhas só por suas ações. Não há feitiços capazes de alterar as qualidades das virgens inocentes? Nunca lestes, Rodrigo, qualquer coisa a esse respeito?

RODRIGO — Em verdade, senhor, li qualquer coisa.

BRABÂNCIO — Ide chamar o mano. — Oh! se a tivésseis desposado! — Cada um vá por um lado. — Sabeis onde podemos apanhá-la juntamente com o Mouro?

RODRIGO — Estou bem certo de poder encontrá-los, se quiserdes dar-me uma boa escolta e vir comigo.

BRABÂNCIO — Servi de guia. Baterei em todas as casas; meu poder é muito grande. — Trazei armas, olá! Fazei que venha logo a ronda! — Sigamos, bom Rodrigo; hei de saber vos ser agradecido.

(Saem.)

Cena II

Outra rua. Entram Otelo, Iago e criados com tochas.

IAGO — Muito embora no ofício de soldado eu já tenha matado muita gente, assunto considero de consciência premeditar um crime. Muitas vezes pensei nove ou dez vezes em furá-lo aqui, sob a costela.

OTELO — Está melhor como está.

IAGO — Sim; porém ele palrava de tal modo e assacava tais vilezas contra vossa honra, que o meu pouco temor de Deus a custo conseguiu sofrear-me. Uma só coisa vos pergunto, senhor: estais realmente casado? Há segurança? Uma certeza podereis ter: que é muito venerado entre nós e Magnífico, valendo sua voz como a do doge em tudo quanto nele toca de perto. Se o divórcio não conseguir levar a cabo, ele há de causar-vos tanto incômodo e desgosto quanto o Direito, com sua força toda, lhe afrouxar as amarras.

OTELO — Desabafe como bem entender, porque os serviços que eu prestei ao Conselho, suas queixas todas suplantarão. Eis o momento de se saber — o que tornarei público quando essa ostentação constituir honra — que o ser e a vida eu recebi de berço de descendência real e que meus méritos aspirar podem, de cabeça erguida, à posição que até hoje me alcançaram. Porque te juro, Iago: se não fosse o amor que voto à mui gentil Desdêmona, eu não iria pôr a minha livre condição de solteiro em nenhum elo que viesse confiná-la. Não; por todos os tesouros do mar. Mas olha: luzes! Vêm nesta direção.

IAGO — É o pai, decerto, com os parentes que foram despertados. Seria mais prudente retirar-vos.

OTELO — De forma alguma! Quero que me encontrem. Meus serviços, meu posto, a alma tranqüila vão demonstrar-lhes quem eu sou, de fato. Mas são eles?

IAGO — Por Jano! Não parece.

(Entram Cássio e certos oficiais, com tochas.)

OTELO — São pessoas do doge e o meu tenente. Que a noite vos proteja, bons amigos. Que novidades há?

CÁSSIO — O doge manda saudar-vos, general, e vos convida com o máximo de pressa a aparecerdes agora mesmo na presença dele.

OTELO — Sabeis para que seja?

CÁSSIO — Algum assunto com relação a Chipre, é o que presumo; negócio muito urgente. Já mandaram das galeras uns doze mensageiros desde que ficou noite, um após o outro. Muitos dos membros do Conselho foram despertados e estão junto com o doge. Com bastante insistência vos procuram, e, como em casa não vos encontrassem, enviaram mensageiros por três partes diferentes, a fim de vos chamarem.

OTELO — Foi bom haver sido eu por vós achado. Vou apenas dizer duas palavras a esta casa; depois vos acompanho. (Sai.)

CÁSSIO — Alferes, que faz ele aqui?

IAGO — Ora essa! Esta noite abordou uma caraca terrestre. Sendo a presa declarada legítima, realmente, ele está feito.

CÁSSIO — Não compreendo.

IAGO — Casou.

CÁSSIO — Casou com quem?

IAGO — Ora essa, com... (Volta Otelo.) Não vamos, capitão?

OTELO — Estou pronto.

CÁSSIO — Aí vem uma outra tropa, para vos convocar.

IAGO — Muito cuidado, general! É Brabâncio. Ele não vem com boas intenções.

(Entram Brabâncio, Rodrigo e oficiais, armados e com tochas.)

OTELO — Olá! Parai!

RODRIGO — Senhor, é o Mouro.

BRABÂNCIO — Morte a esse ladrão!

(De ambos os lados se desembainham espadas.)

IAGO — Vós, Rodrigo? Senhor, estou convosco.

OTELO — Guardai essas espadas, que o sereno vai causar-lhes ferrugem. Venerável senhor, maior autoridade vossos anos impõem que todas essas armas.

BRABÂNCIO — O infame raptor! onde escondeste minha filha? Infernal como és, decerto a enfeitiçaste. Apelo para todos os seres de sentido: se não fosse ter sido presa por cadeias mágicas, como uma jovem tão formosa e terna, tão feliz, tão avessa ao casamento que evitava a presença dos mancebos ricos e de cabelos anelados de nosso Estado, como poderia, expondo-se à irrisão de toda gente fugir de seu guardião, para abrigar-se no seio escuro e cheio de fuligem de uma coisa como és, mais feito para susto causar do que qualquer deleite? Sirva de testemunha o mundo inteiro de como praticaste encantamentos com ela, abomináveis, abusaste de sua mocidade inexperiente com inúmeras drogas que no espírito atuam e o enfraquecem. Vou prová-lo. É fato indiscutível, evidente. Por isso te detenho e prendo como a embusteiro universal, que exerce arte ilegal proibida pelo Estado. Prendei-lo logo. Caso vos resista, usai de força, embora com perigo de perder ele a vida.

OTELO — As mãos detende, tanto os que estão comigo como os outros. Se minha deixa fosse de combate, dispensaria o ponto. Aonde é preciso que eu vá, para vos dar cabal resposta sobre o de que me argüis?

BRABÂNCIO — Para a prisão, até que decorrido o tempo certo a uma sessão legal tu compareças, para me responderes.

OTELO — E no caso de vos obedecer? Como há de o doge mostrar-se satisfeito, se ao meu lado tenho seus emissários, incumbidos de me levarem para onde ele se acha, para tratar de assuntos de república?

OFICIAIS — Muito nobre senhor, o que ele disse é tudo verdadeiro. O doge se acha no Conselho, e estou certo de que Vossa Nobreza foi chamado.

BRABÂNCIO — Como! O doge convocou o Conselho? E em plena noite! Levai-o! Minha causa é de importância; o próprio doge e os manos do governo hão de sentir a ofensa como própria. Se um crime tal não for bem castigado, pagãos e escravos mandarão no Estado.

(Saem.)

Cena III

A Câmara do Conselho. O doge e senadores, sentados à mesa. Oficiais de pé.

DOGE — As notícias não são de todo acordes, porque possamos dar-lhes muito crédito.

PRIMEIRO SENADOR — É certo; minha carta fala em cento e setenta galeras.

DOGE — Fala a minha só em cento e quarenta.

SEGUNDO SENADOR — Pois a minha se refere a duzentas. Mas embora não haja acordo nesse ponto — como sói dar-se quando é feito o cômputo por simples conjeturas — todas elas concordes são em afirmar que a armada do turco ora veleja para Chipre.

DOGE — É quanto basta para um juízo certo. Um erro de minúcias não me impede de ficar apreensivo quanto ao ponto de maior importância.

MARINHEIRO (dentro) — Olá! Olá!

OFICIAL — Um novo mensageiro das galeras.

(Entra um marinheiro.)

DOGE — Então, que novas há?

MARINHEIRO — A armada turca veleja para Rodes, é o recado que ao senado mandou o signior Ângelo.

DOGE — E agora que dizeis dessa mudança?

PRIMEIRO SENADOR — Não pode ser; é contra a boa lógica. É uma ilusão, tão-só, para obrigar-nos a olhar para o outro lado. Reflitamos na importância de Chipre para o turco, muito maior ainda que a de Rodes e como lhe será muito mais fácil conquistá-la, por ter poucas defesas, enquanto Rodes está muito armada: se em tudo isso pensarmos, haveremos de compreender que o turco não é tão cego que para último deixe o que lhe importa primacialmente, abrindo mão de um ganho mais do que certo e, sobretudo, fácil, para correr um risco sem proveito.

DOGE — Não se trata de Rodes, é certeza.

OFICIAL — Chega outra novidade.

(Entra um mensageiro.)

MENSAGEIRO — Os otomanos, reverendo e gracioso, estão de rota batida para Rodes, e em caminho se reforçaram com uma nova armada.

PRIMEIRO SENADOR — Tal qual como pensei. E quantas velas imaginais que sejam?

MENSAGEIRO — Trinta. E agora fazem caminho inverso, dirigindo, sem rodeios o curso para Chipre. É o que o signior Montano, vosso bravo e dedicado servidor, vos manda comunicar com a liberdade própria de seu dever, pedindo inteiro crédito para a notícia.

DOGE — Assim, é mais que certo vão para Chipre. E na cidade se acha Marcos Luccico?

PRIMEIRO SENADOR — Não; está em Florença.

DOGE — Escrevei-lhe de nossa parte e urgência, muita urgência, inculcai-lhe.

PRIMEIRO SENADOR — Aí vem Brabâncio com o valente Mouro.

(Entram Brabâncio, Otelo, Iago, Rodrigo e oficiais.)

DOGE — Bravo Otelo, precisamos mandar-vos neste instante contra o inimigo comum, contra o otomano. (A Brabâncio.) Não vos vira, gentil senhor; bem-vindo. Vosso conselho e ajuda nos faltaram na reunião desta noite.

BRABÂNCIO — E a mim os vossos. Perdoe-me Vossa Graça, mas não foram minhas obrigações nem quaisquer novas relativas ao Estado que do leito me tiraram a esta hora; os interesses gerais me importam pouco, pois a minha mágoa particular é de tal modo transbordante e impetuosa que em seu curso submerge e absorve todas as tristezas sem se alterar em nada.

DOGE — Que foi que houve?

BRABÂNCIO — Oh! Minha filha! Minha filha!

DOGE e SENADORES — Morta?

BRABÂNCIO — Sim, para mim. Foi seduzida, foi-me roubada, corrompida por feitiços e drogas adquiridas de embusteiros. Para que se desgarre a natureza por modo tão absurdo, sem que seja nem defeituosa, coxa dos sentidos, nem privada de vista, é necessário que haja feitiçaria.

DOGE — Seja quem for que tenha usado desses processos vis para deixar privada vossa filha do juízo e, assim, vós mesmo de vossa própria filha: o sanguinário livro das leis haveis de interpretá-lo como vos aprouver, no mais amargo sentido das palavras, sim, ainda que nosso próprio filho fosse o objeto de tal acusação.

BRABÂNCIO — Humildemente vos agradeço. Aqui se encontra o homem, este Mouro, que foi, ao que parece, por especial recado aqui chamado para assuntos do Estado.

DOGE e SENADORES — Penaliza-nos semelhante notícia.

DOGE (a Otelo) — E vós, que tendes sobre isso a responder?

BRABÂNCIO — Nada; é assim mesmo.

OTELO — Muito acatados, graves e potentes senhores; muito nobres e aprovados mestres, em tudo justos; que eu tivesse raptado a filha deste senhor velho, é mais do que verdade, como é certo já tê-la desposado. A fronte e o cimo de minha ofensa vão até a esse ponto, nem mais nem menos. Rude sou de fala, estranho ao doce linguajar da paz, pois desde que estes braços alcançaram a força de sete anos, até agora, deduzidas algumas nove luas, tão-somente, em mais nada se empregaram com mais amor do que às ações dos campos abarracados. Sobre muito pouca coisa posso falar no vasto mundo se não for de batalhas e contendas. Por isso, quando exponho assunto próprio não saberei orná-lo com vantagens. Mas se vossa graciosa paciência me permitir, um pálido relato farei, sem digressões, de todo o curso de meu amor, que drogas, que feitiços, que conjuros, que mágica potente — pois disso tudo, agora, é que me acusam — usei para ganhar a filha dele.

BRABÂNCIO — Uma jovem tão tímida, de espírito tão sossegado e calmo, que corava de seus próprios anseios! E a despeito da natureza, do país, da idade, do crédito, de tudo, apaixonar-se do que de olhar, tão-só, a apavorava! Só um juízo coxo e falho é que afirmara que desviar-se a saúde poderia das leis da natureza. É necessário que as infernais astúcias admitamos, quanto tal coisa ocorre. Por tudo isso, de novo afirmo que, com algum composto de influência sobre o sangue, ou beberagem enfeitiçada para tal efeito, ele sobre ela atuou.

DOGE — Somente a simples afirmação não basta para a prova, porque, sem testemunho mais patente, não passa de suspeitas e aparências sem consistência o que afirmais contra ele.

PRIMEIRO SENADOR — Mas, Otelo, falai! Por meios indiretos e violentos dominastes, acaso, e envenenastes o amor dessa donzela? Ou deu-se tudo por meio de declarações e ditos sinceros, como uma alma a outra alma fala?

OTELO — Suplico-vos mandar buscar a dama no Sagitário, permitindo que ela diante do próprio pai relate o caso. Se em sua fala encontrardes algo indigno sobre minha pessoa, despojai-me do meu ofício, da confiança antiga que em mim depositáveis; mais: que vossa sentença atinja minha própria vida.

DOGE — Trazei aqui Desdêmona.

OTELO — Ide, alferes, buscá-la, pois sabeis onde ela se acha. (Saem Iago e alguns criados.) E enquanto ela não vem, quero, com a mesma lealdade com que o céu confesso as faltas do meu sangue, contar a esses ouvidos severos como pude apaixonar-me dessa donzela e ser por ela amado.

DOGE — Contai-nos isso, Otelo.

OTELO — O pai dela me amava; convidou-me muitas vezes, fazia-me perguntas sobre a história de toda a minha vida, ano por ano, prélios, cercos, lances por que passara. E narrava-lhe tudo, desde os dias de minha infância, até o momento em que ele me mandara falar, enumerando-lhe situações perigosas, acidentes no mar e em terra, em tudo emocionantes, como salvei a vida por um fio, na brecha perigosa, como fora pelo insolente inimigo aprisionado, vendido como escravo, e de que modo, depois, me resgatara, e dos sucessos que em minhas viagens a esses se seguiram, quando, então, lhe falava de cavernas descomunais, rochedos escabrosos, ilhas desertas, montes cujos picos no céu iam tocar. E assim por diante, no mesmo tom dos canibais falava, que uns aos outros se comem, de antropófagos e de homens com cabeça sob os ombros. Para isso ouvir, Desdêmona se achava sempre inclinada; mas os afazeres da casa muitas vezes a obrigavam a se afastar, o que ela quase sempre depressa arrematava, porque viesse novamente, com ávidos ouvidos, devorar meu discurso. Percebendo-o, da hora me aproveitei e encontrei meios de lhe arrancar a súplica ardorosa, para que lhe contasse sem rodeios as minhas aventuras, cuja história só por partes ouvira, desconexas. Fiz-lhe a vontade; e muitas vezes pude roubar-lhe algumas lágrimas, no instante de lhe narrar algum sucesso triste por que passara minha mocidade. Minha história concluída, ela me dava por tanta dor um mundo de suspiros e jurava em verdade, que era estranho, mais do que estranho, por demais tocante, muito comovedora. Desejara jamais a ter ouvido, mas quisera que o céu houvesse feito dela esse homem. Agradeceu-me e disse-me que, quando algum amigo eu viesse a ter, que a amasse, bastaria ensinar-lhe o modo simples de contar minha história, para que ele, sem falta, a conquistasse. Aproveitando tal insinuação, disse-lhe tudo. Ela me amou à vista dos perigos por que passei, e muito amor lhe tive, por se ter revelado compassiva. Foi essa toda a minha bruxaria. Mas aí vem a dama; ela que fale.

(Entram Desdêmona, Iago e pessoas do séquito.)

DOGE — Quero crer que uma história tal como essa seduziria minha própria filha, caro Brabâncio. Examinai por outro prisma o assunto que se acha mutilado. É mais vantagem fazermos uso de armas já partidas, do que das mãos vazias.

BRABÂNCIO — Por obséquio, permiti que ela fale. Dizendo ela que assim favoreceu essa conquista, caia-me a destruição sobre a cabeça, se novamente eu dirigir a este homem qualquer doesto ofensivo. Aproximai-vos, gentil menina, e respondei-me: acaso percebeis neste círculo seleto alguém a quem deveis mais obediência?

DESDÊMONA — Meu nobre pai, percebo um dividido dever: A vida e a educação vos devo, educação e vida que me ensinam a saber respeitar-vos. Sois o dono do meu dever, sendo eu, pois, vossa filha. Mas também aqui vejo meu marido; e quanto minha mãe vos foi submissa, preferindo-vos mesmo aos próprios pais, tanto agora pretendo revelar-me em relação ao Mouro, a quem pertenço.

BRABÂNCIO — Deus esteja convosco. Já acabei. Se Vossa Graça desejar, passemos a tratar dos negócios da república. Antes filha adotiva que gerada. Mouro, vem para cá. De todo o coração te dou aquilo que se já teu não fosse, eu recusara de todo o coração. Por vossa causa, minha jóia, sinto a alma jubilosa, por não ter outra filha; tua fuga ensinado me houvera a ser tirano, pondo-a no cepo. Terminei, senhor.

DOGE — Permiti-me falar como vós mesmo de certo falaríeis, pronunciando uma sentença que degrau e escada vai ser para que os dois enamorados possam vir a integrar-se novamente no vosso afeto. O que não tem remédio está sanado só em ver o perigo já passado. Chorar, depois de salvo, uma desgraça, é chamar outra ainda mais feia e crassa. O que nos for tirado pela sorte, qual perda há de ser tido não de porte. O roubado que ri, rouba ao ladrão; o que chora, a si rouba outra porção.

BRABÂNCIO — Que o Turco, então, roubar-vos Chipre venha; vamos rir e cantar com voz roufenha. Só escuta de bom grado uma setença quem em proveito próprio nela pensa. Mas fica duplamente atribulado quem perder a paciência ante o recado. Conselhos, ou de açúcar ou de fel, ambíguos sempre são como hidromel. Palavras são palavras; pelo ouvido jamais o coração será atingido. Humildemente suplico a Vossa Graça que passemos aos assuntos do Estado.

DOGE — O Turco se dirige para Chipre com preparativos poderosos. Otelo, conheceis perfeitamente os meios de defesa daquela praça. E embora tenhamos nela um lugar-tenente de indiscutida competência, a opinião pública, a mais alta soberana do êxito, vos distingue com o seu voto. Por isso, será forçoso embaçardes o brilho de vossa recente fortuna com esta expedição por demais teimosa e barulhenta.

OTELO — A tirania do hábito, severos senadores, da cama de aço e pedra da guerra fez-me um leito de penugem. Confesso que as empresas arriscadas sempre me deixam álacre e disposto. Assim, aceito a direção da guerra contra esses otomanos. Mas, curvando-me mui respeitosamente ante vós outros, suplico que tomeis as convenientes disposições para que minha esposa alojamento venha a ter e trato condignos de seu alto nascimento.

DOGE — Em casa do pai dela.

BRABÂNCIO — Não concordo.

OTELO — Nem eu.

DESDÊMONA — Nem eu tampouco. Não desejo voltar a morar lá, porque não deixe de meu pai os sentidos impacientes com minha vista. Mui gracioso doge, favoráveis ouvidos concedei para o que vou dizer, porque na vossa palavra eu achar possa um privilégio para minha fraqueza.

DOGE — Que desejas, Desdêmona?

DESDÊMONA — Eu amei o Mouro, para viver junto com ele, é o que proclama ao mundo todo minha ação violenta. Submeteu-se-me o coração à essência mesma de meu marido, vi o retrato de Otelo em seu espírito, e a suas honras e partes valorosas, minha sorte e a alma inteira dediquei. Assim, meus caros senhores, se eu ficar qual parasita da paz e ele partir para essa guerra, privada me verei das qualidades que amá-lo me fizeram, sobre ser-me necessário agüentar esse intervalo moroso e fatigante de sua ausência. Deixai, pois, que com ele eu também siga.

OTELO — Dai-lhe essa permissão. Por testemunha invoco o céu de como fazendo esse pedido não desejo dar pábulo ao paladar dos apetites nem acalmar o ardor da mocidade — que já deixei de lado — ou secundárias satisfações pessoais, mas tão-somente para fazer justiça a seu espírito. E não permita o céu que em vossos puros corações a admitir venhais que eu possa prejudicar negócios de tal monta, de tanta gravidade, só porque ela vai ficar ao meu lado. Não; se um dia o alado devaneio de Cupido me selar com sensual embotamento as faculdades especulativas e os órgãos para a ação, vindo os prazeres a manchar meu dever e corrompê-lo, que do meu elmo vossas cozinheiras façam um caldeirão, e os mais indignos opositores se levantem contra o apreço em que sou tido.

DOGE — Seja como vos aprouver, ou ela fique ou siga. O assunto exige pressa; diligente deve ser a resposta.

PRIMEIRO SENADOR — É necessário partirdes esta noite.

OTELO — De bom grado.

DOGE — Amanhã às nove horas voltaremos a reunir-nos aqui. Deixai, Otelo, um oficial, para que vos transmita nossas ordens e o mais que diz respeito a vosso posto e às honras inerentes.

OTELO — Se concordais, o alferes é pessoa honesta e de confiança. A seus cuidados confio minha esposa e tudo quanto Vossa Graça quiser depois mandar-me.

DOGE — Que seja assim. Boa noite para todos. (A Brabâncio.) Muito nobre senhor, se de beleza a virtude não for destituída, mais belo é vosso genro do que preto.

PRIMEIRO SENADOR — Adeus, valente Mouro; sê bondoso para Desdêmona.

BRABÂNCIO — Cuidado, Mouro! Se olhos tens, abre-os bem em toda a parte; se o pai ela enganou, pode enganar-te.

(Saem o doge, senadores, oficiais, etc.)

OTELO — Pela sua lealdade empenho a vida! Honesto Iago, confio-te Desdêmona. Dá-lhe por companheira tua esposa e, logo que te for possível, leva-a para junto de mim. Vamos, Desdêmona; só disponho de uma hora para assuntos mundanos e ordens várias, que há de ser-te dedicada também. É necessário ao tempo nos mostrarmos obedientes.

(Saem Otelo e Desdêmona.)

RODRIGO — Iago!

IAGO — Que disseste, nobre coração?

RODRIGO — Que imaginas que eu vou fazer?

IAGO — Ora, deitar-te e dormir.

RODRIGO — Vou imediatamente afogar-me.

IAGO — Bem; se fizeres tal coisa, nunca mais te terei amizade. E por que isso, meu tolo?

RODRIGO — É tolice viver quando a vida é um tormento, dispondo nós da prescrição de morrer, quando a morte é nosso médico.

IAGO — Oh, miserável! Contemplo o mundo há quatro vezes sete anos, e desde que me tornei capaz de distinguir de uma injúria um benefício, nunca encontrei um homem que soubesse como amar a si mesmo. Antes de eu dizer que pretendia afogar-me por causa de uma galinha-d’angola, trocaria a forma humana pela de um bugio.

RODRIGO — Que devo fazer? Confesso que me sinto envergonhado, por me sentir a esse ponto tomado de paixão; mas não encontro em minha virtude o remédio para isso.

IAGO — Virtude? Uma figa! Depende de nós mesmos sermos assim ou assado. Nossos corpos são nossos jardins, cujos jardineiros são nossas vontades; de modo que se quisermos plantar urtiga e semear alface, deixar hissopo ou arrancar tomilho, provê-los apenas de determinada espécie de erva ou enchê-los de muitas variedades, esterilizá-los pela preguiça ou cultivá-los pelo trabalho... Ora, o poder exclusivo e a força reguladora de tudo reside apenas em nossa vontade. Se a balança de nossa vida não dispusesse de um prato de razão para contrabalançar o da sensualidade, o sangue e a baixeza de nossa natureza nos conduziriam às mais absurdas situações. Mas possuímos a razão para acalmar nossos instintos furiosos, os acúleos da carne, os desejos desenfreados. De onde concluo que o que denominais amor não é mais do que um sarmento ou uma vergôntea.

RODRIGO — Não pode ser.

IAGO — É apenas um apetite do sangue e uma concessão da vontade. Vamos! Sê homem! Afogares-te? Faze isso com gatos e cãezinhos recém-nascidos. Declarei que sou teu amigo e me confesso ligado ao teu serviço por cabos de resistência à toda prova. Nunca te poderei ser tão útil como agora. Põe dinheiro na bolsa, toma parte nesta guerra, desfigura as feições com uma barba postiça. Repito: põe dinheiro na bolsa! Não é possível que Desdêmona continue apaixonada do Mouro por muito tempo — põe dinheiro na bolsa! — nem ele dela. Foi um começo muito violento, da parte dela, ao que ainda verás seguir-se uma separação correspondente. Põe dinheiro na bolsa! Esses mouros são muito inconstantes em suas inclinações — enche de dinheiro tua bolsa! — O prato que para ele, agora, é tão agradável como alfarroba dentro de pouco lhe será tão amargo como coloquíntida. É fatal que ela o troque por um moço; quando ficar saciada do corpo dele, perceberá o erro da escolha que fez. Terá de trocá-lo por outro: é fatal. Por isso, põe dinheiro na bolsa! Mas se queres absolutamente condenar-te às penas eternas, fazê-o por um processo mais delicado do que o afogamento. Arranja quanto dinheiro puderes! Se a santidade de um juramento frágil entre um bárbaro errático e uma veneziana arquisabida não for coisa muito dura para minha inteligência e para todas as tribos do inferno, acabarás gozando-a. Por isso, trata de arranjar dinheiro! A peste para o teu afogamento! Nada tem que ver com este negócio. Farás melhor enforcando-te depois de satisfazeres os teus desejos do que afogando-te sem proveito nenhum.

RODRIGO — Dispões-te a apoiar minhas esperanças, no caso de eu me firmar nesse propósito?

IAGO — Podes contar comigo. Vai; arranja dinheiro. Já te disse muitas vezes e tomo a dizê-lo pela centésima vez: odeio o Mouro; tenho para isso motivos arraigados no coração. Não te faltam, também, para isso razões igualmente ponderosas. Unamo-nos, portanto, para nos vingarmos dele. Se lhe puseres um par de chifres, para ti será um prazer, e para mim um divertimento. O seio do tempo encerra muitos acontecimentos que terão de concretizar-se. Em frente! Marcha! Trata de arranjar dinheiro. Amanhã voltaremos a falar sobre isso. Adeus.

RODRIGO — Onde nos encontraremos amanhã?

IAGO — No meu aposento.

RODRIGO — Estarei lá bem cedo.

IAGO — Vai; adeus. Compreendeste, Rodrigo?

RODRIGO — Que dissestes?

IAGO — Afastai a idéia de afogamento, estais ouvindo?

RODRIGO — Já refleti melhor; vou tratar de vender todas as minhas terras.

IAGO — Vai; adeus. Põe bastante dinheiro na bolsa. (Sai Rodrigo.) Assim, de um tolo faço minha bolsa. Profanaria, meus conhecimentos, se gastasse meu tempo com um idiota desta marca, a não ser para proveito próprio ou por distração. Odeio o Mouro. Há quem murmure que ele o meu trabalho já fez em meus lençóis. Se é certo, ignoro-o. Pelo sim, pelo não, agir pretendo como se assim, realmente, houvesse sido. Tem-me afeição. Meu plano, desse modo, sobre ele vi atuar com mais certeza. Cássio é um homem de bem. Ora vejamos como posso alcançar o lugar dele e enfeitar meu desejo com dobrada patifaria. Como? De que modo? Reflitamos. Deixar passar o tempo e embair-lhe os ouvidos, declarando-lhe que Cássio mostra muita intimidade com a mulher dele. O exterior de Cássio e seu todo insinuante o predispõem a tomar-se suspeito facilmente. Foi feito para seduzir mulheres. De natureza é o Mouro livre e aberta; honesto julga ser quem aparenta, tão-só, honestidade. Sem trabalho pelo nariz poderá ser levado, tal qual os asnos. Pronto; já está gerado. A noite e o inferno à luz hão de trazer meu plano eterno. (Sai.)

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