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Otelo, O Mouro de Veneza

William Shakespeare

Personagens

O Doge de Veneza.
BRABÂNCIO, senador. Outros senadores.
GRACIANO, irmão de Brabâncio.
LUDOVICO, parente de Brabâncio.
OTELO, mouro nobre, a serviço da República de Veneza.
CÁSSIO, seu tenente.
IAGO, seu alferes.
RODRIGO, fidalgo veneziano.
MONTANO, governador de Chipre antes de Otelo.
BOBO, criado de Otelo.
DESDÊMONA, filha de Brabâncio e esposa de Otelo.
EMÍLIA, esposa de Iago.
BIANCA, amante de Cássio.
Marinheiro, oficiais, gentis-homens, mensageiros, músicos, arautos, criados.

ATO I

Cena I

Veneza. Uma rua. Entram Rodrigo e Iago.

RODRIGO — Cala-te! Não me fales. Aborrece-me demais verificar que justamente tu, Iago, que dispunhas à vontade de minha bolsa, como se teus fossem seus cordões, conhecesses isso tudo...

IAGO — Mas escuta-me, ao menos! Se eu já sonhei alguma vez com isso, podes abominar-me.

RODRIGO — Dito me havias que lhe tinhas ódio.

IAGO — Despreza-me, se não for assim mesmo. Três pessoas de grande influência aqui vieram falar-lhe, chapéu na mão, com humildade, para que fizesse de mim o seu tenente. E por minha fé de homem, tenho plena consciência do que valho; não mereço posto menor do que esse. Ele, no entanto, consultando somente o orgulho e os próprios interesses, furtou-se com fraseado bombástico, recheado só de epítetos de guerra. Em conclusão: não entendeu aos meus intercessores. “Pois já escolhi meu oficial”, lhes disse. E quem é ele? Ora, por minha fé, um matemático, um tal Micael Cássio, um florentino, um tipo quase pelo próprio inferno fadado a ser uma mulher bonita, que nunca comandou nenhum soldado em campo de batalha e que conhece tanto de guerra como uma fiandeira; erudição de livros, simplesmente, sobre o que podem dissertar com a mesma proficiência que a dele os nossos cônsules togados; palavrório sem sentido, carecente de prática: eis sua arte. No entanto, meu senhor, foi o escolhido; ao passo que eu, que aos próprios olhos dele provas cabais já dera em Chipre e Rodes e em muitos outros pontos habitados por cristãos e pagãos, terei de, agora, ficar a sota-vento e calmaria, só por causa do dever-e-haver de um simples calculista, que — oh tempos! — vai tornar-se tenente, enquanto que eu — Deus me perdoe! — continuarei sendo do Mouro o alferes.

RODRIGO — Pelo céu, preferira ficar sendo carrasco dele.

IAGO — Já não há remédio. É a maldição do ofício: as promoções se obtêm só por pedidos e amizades, não pelos velhos meios em que herdava sempre o segundo o posto do primeiro. Ora, senhor, ajuizai vós mesmos se razões tenho para amar o Mouro.

RODRIGO — Assim, eu não ficara sob suas ordens.

IAGO — Ó senhor, acalmai-vos. Se me ponho sob suas ordens é só em proveito próprio. Mestres nem todos podem ser, nem todos os mestres podem ter bons servidores. Já tereis visto por aí bastantes sujeitos obsequiosos, de flexíveis joelhos que, apaixonados pela própria escravidão, o tempo todo gastam como o asno do amo, só pela comida; e, quando ficam velhos: despedidos. Chicote nessa gente muito honesta! Outros há que sabendo a forma externa revelar do dever, as feições próprias, o coração conservam sempre atentos no proveito pessoal; enquanto aos amos dispensam mostras de serviço, apenas, prosperam muito bem, e, ao mesmo tempo que os casacos lhes forram, a si próprios prestam boa homenagem. Esses tipos têm alguma alma, e entre eles eu me incluo, posso afiançar-vos. Pois senhor, tão certo como serdes Rodrigo, se em verdade eu fosse o Mouro, não queria um Iago sob minhas ordens, pois seguindo-o, apenas sigo a mim próprio. O céu é testemunha: não me move o dever nem a amizade, mas, sem o revelar, só o interesse. Se as mostras exteriores de meus atos me traduzissem os motivos próprios do coração em traços manifestos, carregaria o coração na manga, para atirá-lo às gralhas. Ficai certo: não sou o que sou.

RODRIGO — Que sorte a desse tipo de lábios grossos, se puder, realmente, levar isso até ao fim.

IAGO — Chama o pai dela; desperta-o; corre atrás do Mouro, põe-lhe veneno na alegria; o nome dele proclama pelas ruas, os parentes dela deixa excitados, e ainda que ele more em clima adorável, atormenta-o com praga de mosquitos. Muito embora sua alegria seja verdadeira, com tais contrariedades o persegue, que a cor a perder venha.

RODRIGO — Fica aqui mesmo a casa do pai dela; vou chamar em voz alta.

IAGO — Mas com vozes de medo e uivos terríveis, como quando por negligência, à noite, o fogo estala num burgo populoso.

RODRIGO — Olá, Brabâncio! Senhor Brabâncio, olá!

IAGO — Ladrões! Brabâncio! Brabâncio, despertai! Ladrões! Ladrões! Cuidai de vossa casa, vossa filha, de vossos cofres! Acordai! Ladrões!

(Brabâncio aparece na janela.)

BRABÂNCIO — Qual é o motivo de tão grande bulha? Que aconteceu?

RODRIGO — Senhor, tendes aí dentro toda vossa família?

IAGO — Vossos quartos estão fechados?

BRABÂNCIO — Ora, qual a causa de perguntardes isso?

IAGO — Com mil diabos, senhor, fostes roubado; por vergonha, ide vestir a toga; arrebentado tendes o coração; metade da alma já vos foi alienada. Agora mesmo, neste momento, um velho bode negro está cobrindo vossa ovelha branca. Tocai o sino, para que despertem os cidadãos que roncam; do contrário, o diabo vos fará ficar avô. Despertai! É o que eu digo.

BRABÂNCIO — Mas que é isso! Perdestes o juízo?

RODRIGO — Venerável senhor, reconheceis-me pela voz?

BRABÂNCIO — Não; mas quem sois?

RODRIGO — Rodrigo; assim me chamo.

BRABÂNCIO — Pior nome não podias revelar-me. Não te proibi de me rondar a casa? Não me ouviste dizer, com leal franqueza, que para ti não era minha filha? Por que me vens agora, transtornado pela ceia e os vapores da bebida, com tua tratantagem maliciosa perturbar-me o repouso?

RODRIGO — Meu senhor, senhor, senhor...

BRABÂNCIO — Mas podes ficar certo de que minha coragem e meu posto na república têm poder bastante para fazer-te amargurar por isso.

RODRIGO — Paciência, bom senhor.

BRABÂNCIO — Por que me falas em roubo? Estamos em Veneza; minha casa não é uma granja.

RODRIGO — Venerável senhor, vim procurar-vos com lisura.

IAGO — Ora, senhor! Sois uma dessas pessoas que se negariam a servir a Deus, se fosse o diabo que lhes ordenasse. Por que viemos prestar-vos um serviço e nos tendes na conta de velhacos, quereis que vossa filha seja coberta por um cavalo berbere e que vossos netos relinchem atrás de vós? Quereis ter cordeis como primos e ginetes como parentes?

BRABÂNCIO — Quem és tu, miserável licencioso?

IAGO — Sou um homem, senhor, que vim revelar-vos que vossa filha e o Mouro se acham no ponto de fazer o animal de duas costas

BRABÂNCIO — Sois um vilão.

IAGO — E vós... um senador.

BRABÂNCIO — Vais pagar-me. Conheço-te, Rodrigo.

RODRIGO — Responderei por tudo. Mas pergunto-vos, senhor, se foi com vosso assentimento, vosso sábio conselho como quase fico a pensar — que vossa linda filha, na calada de noite tão escura, saiu em companhia de um sujeito nem melhor nem pior do que um velhaco por qualquer alugado, num gondoleiro, para aos abraços torpes entregar-se de um Mouro luxurioso; se, realmente, sabeis de tudo e concordais com isso, bem: nesse caso é certo vos fazermos inominável e atrevida ofensa. Mas se desconheceis o que se passa, ensina-me o costume que não tendes razão de censurar-nos desse modo. Não creiais que tão falho eu me revele de cortesia, para vir agora zombar de vossa grande reverência. Vossa filha — de novo vos declaro — se não lhe destes permissão, mui grave pecado cometeu, unindo o espírito, a beleza, o dever e seus haveres a um estrangeiro andejo e desgarrado daqui e de toda parte. Convencei-vos neste momento: se no quarto dela fordes achá-la, ou mesmo em toda casa, entregai-me à justiça da república por vos ter enganado desse modo.

BRABÂNCIO — Acendei fogo! Olá! Dai-me uma vela! Despertai todo mundo. Este incidente não destoa dos sonhos que já tive. Só de pensar em tal, me sinto opresso. Luz, repito! Um vela!

(Retira-se da janela.)

IAGO — Adeus; não posso ficar mais tempo aqui. Não é prudente — dado o meu posto — nem recomendável ser chamado a juízo contra o Mouro, o que aconteceria se eu ficasse. Pois sei-o bem: o Estado, muito embora venha a afligi-lo com alguma crítica, não pode dispensar-lhe os bons serviços sem correr grande risco. Com tão fortes razões o encarregaram da campanha contra os chipriotas — que ora se acha em curso — que para a vida assegurar de todos não encontram ninguém de igual calibre capaz de dirigir esse negócio. Por isso, muito embora lhe vote ódio como às penas do inferno, sou forçado pelas necessidades do presente a arvorar a bandeira da amizade que não passa de simples aparência. Para terdes certeza de encontrá-lo, encaminhai na direção do albergue do Sagitário os que hão de procurá-lo. Lá, como ele estarei. E agora, adeus. (Sai.)

(Entram Brabâncio e criados, com tochas.)

BRABÂNCIO — Minha infelicidade é mais que certa. Fugiu mesmo. Do tempo desprezível que me resta de vida não espero senão tão-só tristezas. Onde a viste, Rodrigo? — Oh! que menina sem juízo! — Junto com o Mouro, foi o que disseste? — Quem quisera ser pai! — Por quais indícios vieste a reconhecê-la? Oh! Iludiu-me de modo inconcebível. Que te disse? — Olá! Trazei mais velas! Despertai todos os meus parentes! Acreditas que se tenham casado?

RODRIGO — É o que parece, para vos ser sincero.

BRABÂNCIO — Oh céus! Que meios ela encontrou para sair de casa? Oh! que traição do sangue! Doravante, pais, não confieis no espírito das filhas só por suas ações. Não há feitiços capazes de alterar as qualidades das virgens inocentes? Nunca lestes, Rodrigo, qualquer coisa a esse respeito?

RODRIGO — Em verdade, senhor, li qualquer coisa.

BRABÂNCIO — Ide chamar o mano. Oh! se a tivésseis desposado! — Cada um vá por um lado. — Sabeis onde podemos apanhá-la juntamente com o Mouro?

RODRIGO — Estou bem certo de poder encontrá-los, se quiserdes dar-me uma boa escolta e vir comigo.

BRABÂNCIO — Servi de guia. Baterei em todas as casas; meu poder é muito grande. — Trazei armas, olá! Fazei que venha logo a ronda! — Sigamos, bom Rodrigo; hei de saber vos ser agradecido.

(Saem.)

Cena II

Outra rua. Entram Otelo, Iago e criados com tochas.

IAGO — Muito embora no ofício de soldado eu já tenha matado muita gente, assunto considero de consciência premeditar um crime. Muitas vezes pensei nove ou dez vezes em furá-lo aqui, sob a costela.

OTELO — Está melhor como está.

IAGO — Sim; porém ele palrava de tal modo e assacava tais vilezas contra vossa honra, que o meu pouco temor de Deus a custo conseguiu sofrear-me. Uma só coisa vos pergunto, senhor: estais realmente casado? Há segurança? Uma certeza podereis ter: que é muito venerado entre nós e Magnífico, valendo sua voz como a do doge em tudo quanto nele toca de perto. Se o divórcio não conseguir levar a cabo, ele há de causar-vos tanto incômodo e desgosto quanto o Direito, com sua força toda, lhe afrouxar as amarras.

OTELO — Desabafe como bem entender, porque os serviços que eu prestei ao Conselho, suas queixas todas suplantarão. Eis o momento de se saber — o que tornarei público quando essa ostentação constituir honra — que o ser e a vida eu recebi de berço de descendência real e que meus méritos aspirar podem, de cabeça erguida, à posição que até hoje me alcançaram. Porque te juro, Iago: se não fosse o amor que voto à mui gentil Desdêmona, eu não iria pôr a minha livre condição de solteiro em nenhum elo que viesse confiná-la. Não; por todos os tesouros do mar. Mas olha: luzes! Vêm nesta direção.

IAGO — É o pai, decerto, com os parentes que foram despertados. Seria mais prudente retirar-vos.

OTELO — De forma alguma! Quero que me encontrem. Meus serviços, meu posto, a alma tranqüila vão demonstrar-lhes quem eu sou, de fato. Mas são eles?

IAGO — Por Jano! Não parece.

(Entram Cássio e certos oficiais, com tochas.)

OTELO — São pessoas do doge e o meu tenente. Que a noite vos proteja, bons amigos. Que novidades há?

CÁSSIO — O doge manda saudar-vos, general, e vos convida com o máximo de pressa a aparecerdes agora mesmo na presença dele.

OTELO — Sabeis para que seja?

CÁSSIO — Algum assunto com relação a Chipre, é o que presumo; negócio muito urgente. Já mandaram das galeras uns doze mensageiros desde que ficou noite, um após o outro. Muitos dos membros do Conselho foram despertados e estão junto com o doge. Com bastante insistência vos procuram, e, como em casa não vos encontrassem, enviaram mensageiros por três partes diferentes, a fim de vos chamarem.

OTELO — Foi bom haver sido eu por vós achado. Vou apenas dizer duas palavras a esta casa; depois vos acompanho. (Sai.)

CÁSSIO — Alferes, que faz ele aqui?

IAGO — Ora essa! Esta noite abordou uma caraca terrestre. Sendo a presa declarada legítima, realmente, ele está feito.

CÁSSIO — Não compreendo.

IAGO — Casou.

CÁSSIO — Casou com quem?

IAGO — Ora essa, com... (Volta Otelo.) Não vamos, capitão?

OTELO — Estou pronto.

CÁSSIO — Aí vem uma outra tropa, para vos convocar.

IAGO — Muito cuidado, general! É Brabâncio. Ele não vem com boas intenções.

(Entram Brabâncio, Rodrigo e oficiais, armados e com tochas.)

OTELO — Olá! Parai!

RODRIGO — Senhor, é o Mouro.

BRABÂNCIO — Morte a esse ladrão!

(De ambos os lados se desembainham espadas.)

IAGO — Vós, Rodrigo? Senhor, estou convosco.

OTELO — Guardai essas espadas, que o sereno vai causar-lhes ferrugem. Venerável senhor, maior autoridade vossos anos impõem que todas essas armas.

BRABÂNCIO — O infame raptor! onde escondeste minha filha? Infernal como és, decerto a enfeitiçaste. Apelo para todos os seres de sentido: se não fosse ter sido presa por cadeias mágicas, como uma jovem tão formosa e terna, tão feliz, tão avessa ao casamento que evitava a presença dos mancebos ricos e de cabelos anelados de nosso Estado, como poderia, expondo-se à irrisão de toda gente fugir de seu guardião, para abrigar-se no seio escuro e cheio de fuligem de uma coisa como és, mais feito para susto causar do que qualquer deleite? Sirva de testemunha o mundo inteiro de como praticaste encantamentos com ela, abomináveis, abusaste de sua mocidade inexperiente com inúmeras drogas que no espírito atuam e o enfraquecem. Vou prová-lo. É fato indiscutível, evidente. Por isso te detenho e prendo como a embusteiro universal, que exerce arte ilegal proibida pelo Estado. Prendei-lo logo. Caso vos resista, usai de força, embora com perigo de perder ele a vida.

OTELO — As mãos detende, tanto os que estão comigo como os outros. Se minha deixa fosse de combate, dispensaria o ponto. Aonde é preciso que eu vá, para vos dar cabal resposta sobre o de que me argüis?

BRABÂNCIO — Para a prisão, até que decorrido o tempo certo a uma sessão legal tu compareças, para me responderes.

OTELO — E no caso de vos obedecer? Como há de o doge mostrar-se satisfeito, se ao meu lado tenho seus emissários, incumbidos de me levarem para onde ele se acha, para tratar de assuntos de república?

OFICIAIS — Muito nobre senhor, o que ele disse é tudo verdadeiro. O doge se acha no Conselho, e estou certo de que Vossa Nobreza foi chamado.

BRABÂNCIO — Como! O doge convocou o Conselho? E em plena noite! Levai-o! Minha causa é de importância; o próprio doge e os manos do governo hão de sentir a ofensa como própria. Se um crime tal não for bem castigado, pagãos e escravos mandarão no Estado.

(Saem.)

Cena III

A Câmara do Conselho. O doge e senadores, sentados à mesa. Oficiais de pé.

DOGE — As notícias não são de todo acordes, porque possamos dar-lhes muito crédito.

PRIMEIRO SENADOR — É certo; minha carta fala em cento e setenta galeras.

DOGE — Fala a minha só em cento e quarenta.

SEGUNDO SENADOR — Pois a minha se refere a duzentas. Mas embora não haja acordo nesse ponto — como sói dar-se quando é feito o cômputo por simples conjeturas — todas elas concordes são em afirmar que a armada do turco ora veleja para Chipre.

DOGE — É quanto basta para um juízo certo. Um erro de minúcias não me impede de ficar apreensivo quanto ao ponto de maior importância.

MARINHEIRO (dentro) — Olá! Olá!

OFICIAL — Um novo mensageiro das galeras.

(Entra um marinheiro.)

DOGE — Então, que novas há?

MARINHEIRO — A armada turca veleja para Rodes, é o recado que ao senado mandou o signior Ângelo.

DOGE — E agora que dizeis dessa mudança?

PRIMEIRO SENADOR — Não pode ser; é contra a boa lógica. É uma ilusão, tão-só, para obrigar-nos a olhar para o outro lado. Reflitamos na importância de Chipre para o turco, muito maior ainda que a de Rodes e como lhe será muito mais fácil conquistá-la, por ter poucas defesas, enquanto Rodes está muito armada: se em tudo isso pensarmos, haveremos de compreender que o turco não é tão cego que para último deixe o que lhe importa primacialmente, abrindo mão de um ganho mais do que certo e, sobretudo, fácil, para correr um risco sem proveito.

DOGE — Não se trata de Rodes, é certeza.

OFICIAL — Chega outra novidade.

(Entra um mensageiro.)

MENSAGEIRO — Os otomanos, reverendo e gracioso, estão de rota batida para Rodes, e em caminho se reforçaram com uma nova armada.

PRIMEIRO SENADOR — Tal qual como pensei. E quantas velas imaginais que sejam?

MENSAGEIRO — Trinta. E agora fazem caminho inverso, dirigindo, sem rodeios o curso para Chipre. É o que o signior Montano, vosso bravo e dedicado servidor, vos manda comunicar com a liberdade própria de seu dever, pedindo inteiro crédito para a notícia.

DOGE — Assim, é mais que certo vão para Chipre. E na cidade se acha Marcos Luccico?

PRIMEIRO SENADOR — Não; está em Florença.

DOGE — Escrevei-lhe de nossa parte e urgência, muita urgência, inculcai-lhe.

PRIMEIRO SENADOR — Aí vem Brabâncio com o valente Mouro.

(Entram Brabâncio, Otelo, Iago, Rodrigo e oficiais.)

DOGE — Bravo Otelo, precisamos mandar-vos neste instante contra o inimigo comum, contra o otomano. (A Brabâncio.) Não vos vira, gentil senhor; bem-vindo. Vosso conselho e ajuda nos faltaram na reunião desta noite.

BRABÂNCIO — E a mim os vossos. Perdoe-me Vossa Graça, mas não foram minhas obrigações nem quaisquer novas relativas ao Estado que do leito me tiraram a esta hora; os interesses gerais me importam pouco, pois a minha mágoa particular é de tal modo transbordante e impetuosa que em seu curso submerge e absorve todas as tristezas sem se alterar em nada.

DOGE — Que foi que houve?

BRABÂNCIO — Oh! Minha filha! Minha filha!

DOGE e SENADORES — Morta?

BRABÂNCIO — Sim, para mim. Foi seduzida, foi-me roubada, corrompida por feitiços e drogas adquiridas de embusteiros. Para que se desgarre a natureza por modo tão absurdo, sem que seja nem defeituosa, coxa dos sentidos, nem privada de vista, é necessário que haja feitiçaria.

DOGE — Seja quem for que tenha usado desses processos vis para deixar privada vossa filha do juízo e, assim, vós mesmo de vossa própria filha: o sanguinário livro das leis haveis de interpretá-lo como vos aprouver, no mais amargo sentido das palavras, sim, ainda que nosso próprio filho fosse o objeto de tal acusação.

BRABÂNCIO — Humildemente vos agradeço. Aqui se encontra o homem, este Mouro, que foi, ao que parece, por especial recado aqui chamado para assuntos do Estado.

DOGE e SENADORES — Penaliza-nos semelhante notícia.

DOGE (a Otelo) — E vós, que tendes sobre isso a responder?

BRABÂNCIO — Nada; é assim mesmo.

OTELO — Muito acatados, graves e potentes senhores; muito nobres e aprovados mestres, em tudo justos; que eu tivesse raptado a filha deste senhor velho, é mais do que verdade, como é certo já tê-la desposado. A fronte e o cimo de minha ofensa vão até a esse ponto, nem mais nem menos. Rude sou de fala, estranho ao doce linguajar da paz, pois desde que estes braços alcançaram a força de sete anos, até agora, deduzidas algumas nove luas, tão-somente, em mais nada se empregaram com mais amor do que às ações dos campos abarracados. Sobre muito pouca coisa posso falar no vasto mundo se não for de batalhas e contendas. Por isso, quando exponho assunto próprio não saberei orná-lo com vantagens. Mas se vossa graciosa paciência me permitir, um pálido relato farei, sem digressões, de todo o curso de meu amor, que drogas, que feitiços, que conjuros, que mágica potente — pois disso tudo, agora, é que me acusam — usei para ganhar a filha dele.

BRABÂNCIO — Uma jovem tão tímida, de espírito tão sossegado e calmo, que corava de seus próprios anseios! E a despeito da natureza, do país, da idade, do crédito, de tudo, apaixonar-se do que de olhar, tão-só, a apavorava! Só um juízo coxo e falho é que afirmara que desviar-se a saúde poderia das leis da natureza. É necessário que as infernais astúcias admitamos, quanto tal coisa ocorre. Por tudo isso, de novo afirmo que, com algum composto de influência sobre o sangue, ou beberagem enfeitiçada para tal efeito, ele sobre ela atuou.

DOGE — Somente a simples afirmação não basta para a prova, porque, sem testemunho mais patente, não passa de suspeitas e aparências sem consistência o que afirmais contra ele.

PRIMEIRO SENADOR — Mas, Otelo, falai! Por meios indiretos e violentos dominastes, acaso, e envenenastes o amor dessa donzela? Ou deu-se tudo por meio de declarações e ditos sinceros, como uma alma a outra alma fala?

OTELO — Suplico-vos mandar buscar a dama no Sagitário, permitindo que ela diante do próprio pai relate o caso. Se em sua fala encontrardes algo indigno sobre minha pessoa, despojai-me do meu ofício, da confiança antiga que em mim depositáveis; mais: que vossa sentença atinja minha própria vida.

DOGE — Trazei aqui Desdêmona.

OTELO — Ide, alferes, buscá-la, pois sabeis onde ela se acha. (Saem Iago e alguns criados.) E enquanto ela não vem, quero, com a mesma lealdade com que o céu confesso as faltas do meu sangue, contar a esses ouvidos severos como pude apaixonar-me dessa donzela e ser por ela amado.

DOGE — Contai-nos isso, Otelo.

OTELO — O pai dela me amava; convidou-me muitas vezes, fazia-me perguntas sobre a história de toda a minha vida, ano por ano, prélios, cercos, lances por que passara. E narrava-lhe tudo, desde os dias de minha infância, até o momento em que ele me mandara falar, enumerando-lhe situações perigosas, acidentes no mar e em terra, em tudo emocionantes, como salvei a vida por um fio, na brecha perigosa, como fora pelo insolente inimigo aprisionado, vendido como escravo, e de que modo, depois, me resgatara, e dos sucessos que em minhas viagens a esses se seguiram, quando, então, lhe falava de cavernas descomunais, rochedos escabrosos, ilhas desertas, montes cujos picos no céu iam tocar. E assim por diante, no mesmo tom dos canibais falava, que uns aos outros se comem, de antropófagos e de homens com cabeça sob os ombros. Para isso ouvir, Desdêmona se achava sempre inclinada; mas os afazeres da casa muitas vezes a obrigavam a se afastar, o que ela quase sempre depressa arrematava, porque viesse novamente, com ávidos ouvidos, devorar meu discurso. Percebendo-o, da hora me aproveitei e encontrei meios de lhe arrancar a súplica ardorosa, para que lhe contasse sem rodeios as minhas aventuras, cuja história só por partes ouvira, desconexas. Fiz-lhe a vontade; e muitas vezes pude roubar-lhe algumas lágrimas, no instante de lhe narrar algum sucesso triste por que passara minha mocidade. Minha história concluída, ela me dava por tanta dor um mundo de suspiros e jurava em verdade, que era estranho, mais do que estranho, por demais tocante, muito comovedora. Desejara jamais a ter ouvido, mas quisera que o céu houvesse feito dela esse homem. Agradeceu-me e disse-me que, quando algum amigo eu viesse a ter, que a amasse, bastaria ensinar-lhe o modo simples de contar minha história, para que ele, sem falta, a conquistasse. Aproveitando tal insinuação, disse-lhe tudo. Ela me amou à vista dos perigos por que passei, e muito amor lhe tive, por se ter revelado compassiva. Foi essa toda a minha bruxaria. Mas aí vem a dama; ela que fale.

(Entram Desdêmona, Iago e pessoas do séquito.)

DOGE — Quero crer que uma história tal como essa seduziria minha própria filha, caro Brabâncio. Examinai por outro prisma o assunto que se acha mutilado. É mais vantagem fazermos uso de armas já partidas, do que das mãos vazias.

BRABÂNCIO — Por obséquio, permiti que ela fale. Dizendo ela que assim favoreceu essa conquista, caia-me a destruição sobre a cabeça, se novamente eu dirigir a este homem qualquer doesto ofensivo. Aproximai-vos, gentil menina, e respondei-me: acaso percebeis neste círculo seleto alguém a quem deveis mais obediência?

DESDÊMONA — Meu nobre pai, percebo um dividido dever: A vida e a educação vos devo, educação e vida que me ensinam a saber respeitar-vos. Sois o dono do meu dever, sendo eu, pois, vossa filha. Mas também aqui vejo meu marido; e quanto minha mãe vos foi submissa, preferindo-vos mesmo aos próprios pais, tanto agora pretendo revelar-me em relação ao Mouro, a quem pertenço.

BRABÂNCIO — Deus esteja convosco. Já acabei. Se Vossa Graça desejar, passemos a tratar dos negócios da república. Antes filha adotiva que gerada. Mouro, vem para cá. De todo o coração te dou aquilo que se já teu não fosse, eu recusara de todo o coração. Por vossa causa, minha jóia, sinto a alma jubilosa, por não ter outra filha; tua fuga ensinado me houvera a ser tirano, pondo-a no cepo. Terminei, senhor.

DOGE — Permiti-me falar como vós mesmo de certo falaríeis, pronunciando uma sentença que degrau e escada vai ser para que os dois enamorados possam vir a integrar-se novamente no vosso afeto. O que não tem remédio está sanado só em ver o perigo já passado. Chorar, depois de salvo, uma desgraça, é chamar outra ainda mais feia e crassa. O que nos for tirado pela sorte, qual perda há de ser tido não de porte. O roubado que ri, rouba ao ladrão; o que chora, a si rouba outra porção.

BRABÂNCIO — Que o Turco, então, roubar-vos Chipre venha; vamos rir e cantar com voz roufenha. Só escuta de bom grado uma setença quem em proveito próprio nela pensa. Mas fica duplamente atribulado quem perder a paciência ante o recado. Conselhos, ou de açúcar ou de fel, ambíguos sempre são como hidromel. Palavras são palavras; pelo ouvido jamais o coração será atingido. Humildemente suplico a Vossa Graça que passemos aos assuntos do Estado.

DOGE — O Turco se dirige para Chipre com preparativos poderosos. Otelo, conheceis perfeitamente os meios de defesa daquela praça. E embora tenhamos nela um lugar-tenente de indiscutida competência, a opinião pública, a mais alta soberana do êxito, vos distingue com o seu voto. Por isso, será forçoso embaçardes o brilho de vossa recente fortuna com esta expedição por demais teimosa e barulhenta.

OTELO — A tirania do hábito, severos senadores, da cama de aço e pedra da guerra fez-me um leito de penugem. Confesso que as empresas arriscadas sempre me deixam álacre e disposto. Assim, aceito a direção da guerra contra esses otomanos. Mas, curvando-me mui respeitosamente ante vós outros, suplico que tomeis as convenientes disposições para que minha esposa alojamento venha a ter e trato condignos de seu alto nascimento.

DOGE — Em casa do pai dela.

BRABÂNCIO — Não concordo.

OTELO — Nem eu.

DESDÊMONA — Nem eu tampouco. Não desejo voltar a morar lá, porque não deixe de meu pai os sentidos impacientes com minha vista. Mui gracioso doge, favoráveis ouvidos concedei para o que vou dizer, porque na vossa palavra eu achar possa um privilégio para minha fraqueza.

DOGE — Que desejas, Desdêmona?

DESDÊMONA — Eu amei o Mouro, para viver junto com ele, é o que proclama ao mundo todo minha ação violenta. Submeteu-se-me o coração à essência mesma de meu marido, vi o retrato de Otelo em seu espírito, e a suas honras e partes valorosas, minha sorte e a alma inteira dediquei. Assim, meus caros senhores, se eu ficar qual parasita da paz e ele partir para essa guerra, privada me verei das qualidades que amá-lo me fizeram, sobre ser-me necessário agüentar esse intervalo moroso e fatigante de sua ausência. Deixai, pois, que com ele eu também siga.

OTELO — Dai-lhe essa permissão. Por testemunha invoco o céu de como fazendo esse pedido não desejo dar pábulo ao paladar dos apetites nem acalmar o ardor da mocidade — que já deixei de lado — ou secundárias satisfações pessoais, mas tão-somente para fazer justiça a seu espírito. E não permita o céu que em vossos puros corações a admitir venhais que eu possa prejudicar negócios de tal monta, de tanta gravidade, só porque ela vai ficar ao meu lado. Não; se um dia o alado devaneio de Cupido me selar com sensual embotamento as faculdades especulativas e os órgãos para a ação, vindo os prazeres a manchar meu dever e corrompê-lo, que do meu elmo vossas cozinheiras façam um caldeirão, e os mais indignos opositores se levantem contra o apreço em que sou tido.

DOGE — Seja como vos aprouver, ou ela fique ou siga. O assunto exige pressa; diligente deve ser a resposta.

PRIMEIRO SENADOR — É necessário partirdes esta noite.

OTELO — De bom grado.

DOGE — Amanhã às nove horas voltaremos a reunir-nos aqui. Deixai, Otelo, um oficial, para que vos transmita nossas ordens e o mais que diz respeito a vosso posto e às honras inerentes.

OTELO — Se concordais, o alferes é pessoa honesta e de confiança. A seus cuidados confio minha esposa e tudo quanto Vossa Graça quiser depois mandar-me.

DOGE — Que seja assim. Boa noite para todos. (A Brabâncio.) Muito nobre senhor, se de beleza a virtude não for destituída, mais belo é vosso genro do que preto.

PRIMEIRO SENADOR — Adeus, valente Mouro; sê bondoso para Desdêmona.

BRABÂNCIO — Cuidado, Mouro! Se olhos tens, abre-os bem em toda a parte; se o pai ela enganou, pode enganar-te.

(Saem o doge, senadores, oficiais, etc.)

OTELO — Pela sua lealdade empenho a vida! Honesto Iago, confio-te Desdêmona. Dá-lhe por companheira tua esposa e, logo que te for possível, leva-a para junto de mim. Vamos, Desdêmona; só disponho de uma hora para assuntos mundanos e ordens várias, que há de ser-te dedicada também. É necessário ao tempo nos mostrarmos obedientes.

(Saem Otelo e Desdêmona.)

RODRIGO — Iago!

IAGO — Que disseste, nobre coração?

RODRIGO — Que imaginas que eu vou fazer?

IAGO — Ora, deitar-te e dormir.

RODRIGO — Vou imediatamente afogar-me.

IAGO — Bem; se fizeres tal coisa, nunca mais te terei amizade. E por que isso, meu tolo?

RODRIGO — É tolice viver quando a vida é um tormento, dispondo nós da prescrição de morrer, quando a morte é nosso médico.

IAGO — Oh, miserável! Contemplo o mundo há quatro vezes sete anos, e desde que me tornei capaz de distinguir de uma injúria um benefício, nunca encontrei um homem que soubesse como amar a si mesmo. Antes de eu dizer que pretendia afogar-me por causa de uma galinha-d’angola, trocaria a forma humana pela de um bugio.

RODRIGO — Que devo fazer? Confesso que me sinto envergonhado, por me sentir a esse ponto tomado de paixão; mas não encontro em minha virtude o remédio para isso.

IAGO — Virtude? Uma figa! Depende de nós mesmos sermos assim ou assado. Nossos corpos são nossos jardins, cujos jardineiros são nossas vontades; de modo que se quisermos plantar urtiga e semear alface, deixar hissopo ou arrancar tomilho, provê-los apenas de determinada espécie de erva ou enchê-los de muitas variedades, esterilizá-los pela preguiça ou cultivá-los pelo trabalho... Ora, o poder exclusivo e a força reguladora de tudo reside apenas em nossa vontade. Se a balança de nossa vida não dispusesse de um prato de razão para contrabalançar o da sensualidade, o sangue e a baixeza de nossa natureza nos conduziriam às mais absurdas situações. Mas possuímos a razão para acalmar nossos instintos furiosos, os acúleos da carne, os desejos desenfreados. De onde concluo que o que denominais amor não é mais do que um sarmento ou uma vergôntea.

RODRIGO — Não pode ser.

IAGO — É apenas um apetite do sangue e uma concessão da vontade. Vamos! Sê homem! Afogares-te? Faze isso com gatos e cãezinhos recém-nascidos. Declarei que sou teu amigo e me confesso ligado ao teu serviço por cabos de resistência à toda prova. Nunca te poderei ser tão útil como agora. Põe dinheiro na bolsa, toma parte nesta guerra, desfigura as feições com uma barba postiça. Repito: põe dinheiro na bolsa! Não é possível que Desdêmona continue apaixonada do Mouro por muito tempo — põe dinheiro na bolsa! — nem ele dela. Foi um começo muito violento, da parte dela, ao que ainda verás seguir-se uma separação correspondente. Põe dinheiro na bolsa! Esses mouros são muito inconstantes em suas inclinações — enche de dinheiro tua bolsa! — O prato que para ele, agora, é tão agradável como alfarroba dentro de pouco lhe será tão amargo como coloquíntida. É fatal que ela o troque por um moço; quando ficar saciada do corpo dele, perceberá o erro da escolha que fez. Terá de trocá-lo por outro: é fatal. Por isso, põe dinheiro na bolsa! Mas se queres absolutamente condenar-te às penas eternas, fazê-o por um processo mais delicado do que o afogamento. Arranja quanto dinheiro puderes! Se a santidade de um juramento frágil entre um bárbaro errático e uma veneziana arquisabida não for coisa muito dura para minha inteligência e para todas as tribos do inferno, acabarás gozando-a. Por isso, trata de arranjar dinheiro! A peste para o teu afogamento! Nada tem que ver com este negócio. Farás melhor enforcando-te depois de satisfazeres os teus desejos do que afogando-te sem proveito nenhum.

RODRIGO — Dispões-te a apoiar minhas esperanças, no caso de eu me firmar nesse propósito?

IAGO — Podes contar comigo. Vai; arranja dinheiro. Já te disse muitas vezes e tomo a dizê-lo pela centésima vez: odeio o Mouro; tenho para isso motivos arraigados no coração. Não te faltam, também, para isso razões igualmente ponderosas. Unamo-nos, portanto, para nos vingarmos dele. Se lhe puseres um par de chifres, para ti será um prazer, e para mim um divertimento. O seio do tempo encerra muitos acontecimentos que terão de concretizar-se. Em frente! Marcha! Trata de arranjar dinheiro. Amanhã voltaremos a falar sobre isso. Adeus.

RODRIGO — Onde nos encontraremos amanhã?

IAGO — No meu aposento.

RODRIGO — Estarei lá bem cedo.

IAGO — Vai; adeus. Compreendeste, Rodrigo?

RODRIGO — Que dissestes?

IAGO — Afastai a idéia de afogamento, estais ouvindo?

RODRIGO — Já refleti melhor; vou tratar de vender todas as minhas terras.

IAGO — Vai; adeus. Põe bastante dinheiro na bolsa. (Sai Rodrigo.) Assim, de um tolo faço minha bolsa. Profanaria, meus conhecimentos, se gastasse meu tempo com um idiota desta marca, a não ser para proveito próprio ou por distração. Odeio o Mouro. Há quem murmure que ele o meu trabalho já fez em meus lençóis. Se é certo, ignoro-o. Pelo sim, pelo não, agir pretendo como se assim, realmente, houvesse sido. Tem-me afeição. Meu plano, desse modo, sobre ele vi atuar com mais certeza. Cássio é um homem de bem. Ora vejamos como posso alcançar o lugar dele e enfeitar meu desejo com dobrada patifaria. Como? De que modo? Reflitamos. Deixar passar o tempo e embair-lhe os ouvidos, declarando-lhe que Cássio mostra muita intimidade com a mulher dele. O exterior de Cássio e seu todo insinuante o predispõem a tomar-se suspeito facilmente. Foi feito para seduzir mulheres. De natureza é o Mouro livre e aberta; honesto julga ser quem aparenta, tão-só, honestidade. Sem trabalho pelo nariz poderá ser levado, tal qual os asnos. Pronto; já está gerado. A noite e o inferno à luz hão de trazer meu plano eterno. (Sai.)

ATO II

Cena I

Porto de mar em Chipre. Praça perto do cais. Entram Montano e dois gentis-homens.

MONTANO — Que distinguis no mar, desde essa ponta?

PRIMEIRO GENTIL-HOMEM — Nada a distância; as ondas se encapelam; entre o alto mar e o céu não se percebe vela nenhuma.

MONTANO — O vento falou alto para terra, parece-me. Jamais tão desenfreada tempestade abalou nossas ameias. Se em pleno mar rugiu dessa maneira, que costela de roble ficou firme no encaixe, ao derreterem-se sobre ela montanhas desse porte? Que teremos?

SEGUNDO GENTIL-HOMEM — A dispersão, tão-só, da armada turca. Basta a praia espumante examinares. Só parece que as ondas ralhadoras as nuvens chicoteiam; a mareta de crina gigantesca, sacudida pelo vento, parece jogar água na Ursa inflamável e apagar as guardas do pólo sempre fixo. Não vi nunca revolta assim das ondas irritadas.

MONTANO — Se não pôde abrigar-se a armada turca nalgum porto ou baía, está perdida. É impossível que houvesse resistido.

(Entra um terceiro gentil-homem.)

TERCEIRO GENTIL-HOMEM — Novas, rapazes! Acabou-se a guerra! Maltratou a furiosa tempestade os turcos de tal jeito, que seus planos ficaram mancos. Um navio nobre de Veneza assistiu ao pavoroso naufrágio e sofrimento da mor parte da armada deles.

MONTANO — Como! É então verdade?

TERCEIRO GENTIL-HOMEM — O barco está no porto; é de Veneza. Miguel Cássio, tenente do guerreiro mouro, Otelo, saltou em terra; o próprio Mouro se acha no mar, com carta branca, a caminho de Chipre.

MONTANO — Muito alegre me deixa essa notícia; é um muito digno governador.

TERCEIRO GENTIL-HOMEM — Mas esse mesmo Cássio, muito embora se exprima com confiança sobre as perdas dos turcos, está triste, rezando pela salvação do Mouro, pois violenta e medonha tempestade dele o fez separar-se.

MONTANO — O céu o atenda, pois servi sob o Mouro; ele é soldado na mais lata acepção. Mas vamos logo para o porto, não só porque vejamos o barco recém-vindo, como para olhar também do lado que há de vir-nos o bravo Otelo, até que a nossos olhos desapareça o mar e o azul-celeste.

TERCEIRO GENTIL-HOMEM — Façamos isso, sim; cada momento nos traz a expectativa de outros barcos.

(Entra Cássio.)

CÁSSIO — Meus agradecimentos aos valentes desta ilha valorosa, por mostrardes tanta afeição ao Mouro. Oh! Que lhe dêem os céus defesa contra os elementos pois o perdi num mar perigosíssimo.

MONTANO — Está num bom navio?

CÁSSIO — Seu barco tem altivos vigamentos e dispõe de piloto experimentado bastantes vezes, sendo só por isso que, não tendo esperança empanturrada para morrer, confio em sua cura.

VOZES (dentro) — Uma vela! Uma vela!

(Entra um mensageiro.)

CÁSSIO — E esses gritos?

MENSAGEIRO — Deserta está a cidade; sobre a borda do mar o povo todo, em filas, grita: Uma vela! Uma vela!

CÁSSIO — Diz-me o peito que é a do governador.

SEGUNDO GENTIL-HOMEM — Disparam tiros de cortesia. É amigo, pelo menos.

CÁSSIO — Por obséquio, senhor, ide informar-vos e trazei-nos notícias mais precisas.

SEGUNDO GENTIL-HOMEM — Perfeitamente. (Sai.)

MONTANO — Mas meu bom tenente, casou-se o vosso general?

CÁSSIO — Por sorte; traz uma esposa que ultrapassa toda descrição e alta fama, deixa longe os conceitos da pena aduladora, e que no respeitante às qualidades naturais da criação, deixa estafado, só com ela, o inventor. (Volta o segundo gentil-homem.) Então, quem era?

SEGUNDO GENTIL-HOMEM — É um certo Iago, alferes junto ao nosso general.

CÁSSIO — Realizou a travessia em boas condições e pouco tempo. A própria tempestade, o mar furioso. os ventos sibilantes, os penedos escarpados, os bancos movediços traidores de emboscada para os barcos inocentes prenderem — todos, todos, como se do sentido da beleza fossem dotados, transmudada sua natureza nociva, permitiram que por eles passasse, sã e salva, a divina Desdêmona.

MONTANO — Quem é ela?

CÁSSIO — A de quem vos falei, a capitoa de nosso capitão. Em companhia ele a mandou do destemido Iago, cuja vinda ultrapassa nossos cálculos de uma semana. O poderoso Jove, protege Otelo e enfuna suas velas com teu bafejo todo poderoso, porque abençoar ele nos venha o porto com seu navio, palpitar nos braços carinhosos de sua bem-amada, reacender-nos o espírito apagado e trazer alegria a toda Chipre! (Entram Desdêmona, Emília, Iago, Rodrigo e séquito.) Oh! Vede! Já desembarcados foram os tesouros do barco. Ajoelhai-vos, moradores de Chipre! Salve, dama! Possa diante de ti ficar a Graça celestial, por detrás, por toda a parte, envolvendo-te toda.

DESDÊMONA — Agradecida, valente Cássio. Que notícia tendes do meu marido?

CÁSSIO — Ainda não chegou. Não sei mais nada, salvo que ele se acha com saúde e que breve aqui estará.

DESDÊMONA — Contudo, tenho medo. Qual a causa por que vos separastes?

CÁSSIO — A atroz luta das águas e do céu me afastou dele. Mas, ouvi: uma vela!

VOZES (dentro) — Vela! Vela!

(Ouvem-se tiros de canhão.)

SEGUNDO GENTIL-HOMEM — O barco está saudando a cidadela. É outro amigo.

CÁSSIO — Vai ver o que há de novo. Bem-vindo, bom alferes. (A Emília.) Vós, senhora, também sois mui bem-vinda. Que não seja causa de se enturvar vossa paciência, bondoso Iago, a extensão dos meus saudares. É minha educação que me confere saudações de tamanho atrevimento. (Beija a Emília.)

IAGO — Se ela vos desse, meu senhor, dos lábios tanto quanto da língua me concede, em pouco tempo ficaríeis farto.

DESDÊMONA — Coitada, ela nem fala!

IAGO — Não? Demais. Quando quero dormir é que o percebo. Mas em frente de Vossa Senhoria a espertalhona guarda um pouco a língua no coração e ameaça em pensamento.

EMÍLIA — Não tendes causa para assim falardes.

IAGO — Vamos; fora de casa sois pinturas; nos quartos, sinos; na cozinha, gatos; santas, quando ofendeis; demônios puros, quando sois ofendidas; chocarreiras no governo da casa e boas donas do lar quando na cama.

DESDÊMONA — Oh! vai saindo, caluniador!

IAGO — Quero ser turco, caso não seja assim. Brincais o dia inteiro; só na cama há trabalho verdadeiro.

EMÍLIA — Não haveis de escrever meu elogio.

IAGO — Nem o desejo.

DESDÊMONA — E como escreverias, se incumbido te visses de elogiar-me?

IAGO — Cuidado, gentil dama, que outra coisa não sou, tirante um crítico modesto.

DESDÊMONA — Tentai, tentai! — Alguém foi até ao porto?

IAGO — Foi, sim, senhora.

DESDÊMONA — Alegre não me sinto, mas engano meu próprio estado, simulando o gosto. Vamos: de que maneira me elogiaras?

IAGO — Já estou quase no ponto; mas do casco me sai sempre a invenção como da bolsa visco de passarinho: vem o cérebro, e tudo o mais, grudado. Minha musa, porém, começa a sentir dores fortes e à luz, por fim, dá isto: Se ela tiver espírito e beleza, aquele é dádiva; natureza.

DESDÊMONA — Ótimo! E se for preta e espirituosa?

IAGO — Preta e espirituosa... Que mistura! Mas um branco há de achar para a feiúra.

DESDÊMONA — De mal para pior.

EMÍLIA — E se for bela e tonta?

IAGO — Mulher tonta não há, sendo bonita, pois sabe arranjar filho e ser catita.

DESDÊMONA — São paradoxos velhos, para fazer rir os tolos nas cervejarias. Que mísero elogio reservaste para as feias e tontas?

IAGO — Não há feia tão tola que não possa nas belas e sabidas fazer mossa.

DESDÊMONA — Oh ignorância maciça! Fizeste maior elogio das piores. Mas que dirás em louvor da mulher verdadeiramente merecedora de encômios, que, escudada em seu merecimento, obriga a render-se à própria maledicência?

IAGO — A que bela foi sempre, não vaidosa, e, podendo falar, não foi verbosa; a que, tendo ouro à larga, não se enfeita, e, coibindo-se, diz: numa outra feita; a que, ofendida e a ponto de vingar-se, sabe conter-se e a fúria deixa alar-se; a que não fosse néscia que trocasse salmão por bacalhau com alegre face; a que pensasse e não dissesse nada e aos chichisbéus fugisse recatada; tal mulher, se existisse, claro seja...

DESDÊMONA — De que fora digna?

IAGO — De criar pascácios e provar cerveja.

DESDÊMONA — Oh! Semelhante conclusão é por demais coxa, muito débil. Emília, não aprendas nada com ele, embora seja teu marido. Que pensais, Cássio? Não é um conselheiro licencioso e de muito má língua?

CÁSSIO — A linguagem dele é rude, de fato, minha senhora; é preciso ficardes apreciando nele mais o soldado do que o erudito.

IAGO (à parte) — Ele a segura pela mão. Muito bem! Cochicha-lhe aos ouvidos. Com uma teiazinha tão pequena assim, pretendo pegar uma mosca do tamanho de Cássio. Sim, dirige-lhe sorrisos; mais um pouco, e eu te amarrarei com tuas próprias cortesias. Tendes razão: é assim mesmo. Se vierdes a perder o posto de tenente por umas frioleiras desse porte, melhor vos teria sido não ter beijado tantas vezes os três dedos, como ainda vos mostrais disposto a fazer, para vos apresentardes como senhor de respeito. Muito bem! Belo beijo! Excelente cortesia! É assim mesmo, não há dúvida. Levais mais uma vez os dedos à boca? Quisera que vos servissem com outras tantas cânulas de clister... (Ouve-se toque de trombeta.) Mouro! Conheço o som da trombeta dele.

CÁSSIO — É ele mesmo.

DESDÊMONA — Vamos ao encontro dele para recebê-lo.

CÁSSIO — Ei-lo que chega.

(Entra Otelo e séqüito.)

OTELO — Minha linda guerreira!

DESDÊMONA — Caro Otelo!

OTELO — Tanto contentamento quanto espanto me causa ver que antes de mim chegastes. Ó alegria de minha alma! Caso viesse sempre depois da tempestade semelhante bonança, poderiam soprar os ventos de acordar a morte. Que o meu barquinho escale montes de água tão altos quanto o Olimpo e, após, afunde tanto quanto distar do céu o inferno. A morte, agora, para mim seria uma felicidade, pois tão grande é a ventura que da alma se me apossa, que não pode, receio-o, reservar-me outra igual o futuro nebuloso.

DESDÊMONA — Permita o céu que nosso amor e nossa felicidade cresçam como os dias que ainda temos de vida.

OTELO — Amém, poderes inefáveis! Não posso falar muito sobre esse assunto. Sinto-me abafado: é excessiva alegria. (Beijando Desdêmona.) Recebe este, e este também. Que a única discórdia de nossos corações tenha este aspecto.

IAGO (à parte) — Oh! Por enquanto estais bem afinados; mas eu me incumbo de afrouxar as cordas que produzem tal música; tão certo como eu ser gente honesta.

OTELO — Vamos logo para o castelo. Trago novidades, caros amigos. Acabou-se a guerra; os turcos se afogaram. Como passam os moradores da ilha, meus amigos? Vais ser amor, muito querida em Chipre. Em todos encontrei muita amizade. Ó minha doce amiga, estou pulando de um assunto para outro, desconexo; tanta felicidade me estonteia. Por obséquio, bom Iago, vai ao porto, desembarca meus cofres e conduze ao forte o comandante. É um homem digno; seus méritos impõem só respeito. Desdêmona, subamos. Novamente: és mui bem-vinda a Chipre.

(Saem todos, com exceção de Iago e Rodrigo.)

IAGO — Vai logo encontrar-me no porto. Aproxima-te. Se fores um rapaz valente, sendo verdade, como dizem, que as pessoas de baixa extração, quando apaixonadas revelam mais nobreza do que seria de esperar de sua natureza: escuta-me. Hoje à noite o tenente ficará de vigia no corpo da guarda. Para começar, preciso dizer-te o seguinte: Desdêmona está apaixonada por ele.

RODRIGO — Por ele? Não é possível.

IAGO — Põe o dedo assim e deixa que tua alma se instrua. Recorda a violência com que de início ela amou o Mouro, só por causa de suas fanfarronadas e de suas aventuras mentirosas. Amá-lo-ia sempre por sua tagarelice? Que o teu coração discreto não acredite em semelhante coisa. Ela precisará espairecer a vista; e que deleite poderá encontrar na contemplação do demônio? Quando o sangue se torna pesado pelo ato do prazer, para inflamá-lo de novo e para despertar o apetite à saciedade é preciso que o amante seja de aparência agradável e que haja uma espécie de simpatia quanto à idade, os costumes e os encantos pessoais, o de que o Mouro carece por completo. Ora, não existindo esses requisitos vantajosos, sua ternura delicada ficará desiludida, sentirá náuseas, revelando, por fim, repulsa e asco pelo Mouro. A própria natureza lhe ensinará essas coisas, levando-a a fazer uma segunda escolha. E agora, senhor, uma vez admitido isso — proposição mais do que certa e não forçada — quem se acha mais alto do que Cássio na escada dessa felicidade? É um tipo volúvel, cuja escrupulosidade só vai até ao ponto de permiti-lo assumir a simples forma de uma aparência afável e educada, para melhor satisfazer os apetites mais inconfessos e licenciosos. Ninguém mais! Ninguém mais! É um tipo astucioso e equívoco, sempre à cata de oportunidades, com um olho que pode cunhar e falsificar vantagens, muito embora a verdadeira vantagem nunca chegue a se apresentar... Um sujeito diabólico! Ao lado disso, de figura apresentável, moço, com todos os requisitos que atraem o olhar do povinho inexperiente e desmiolado; é um biltre pestilencioso a conta inteira, que já chamou a atenção da mulherzinha.

RODRIGO — Não posso acreditar em tal coisa, em se tratando dela; é exornada das mais celestes qualidades.

IAGO — Celestes, uma figa! O vinho que ela bebe é feito de uva; se fosse celeste, nunca se teria apaixonado do Mouro. Um pudim celeste! Não viste como ela brincava com a mão dele? Não observaste isso?

RODRIGO — Vi, sem dúvida; mas era por simples cortesia.

IAGO — Lascívia, por esta mão! Índice e prólogo obscuro de uma história de luxúria e de pensamentos libidinosos. Ficaram com os lábios tão próximos, que seus hálitos se abraçaram. Pensamentos torpes, Rodrigo! Quando essas reciprocidades iniciam a campanha, segue-lhe no rasto a manobra principal, a conclusão carnal. Ora! Mas, senhor, deixai-vos guiar por mim. Trouxe-vos de Veneza. Ficai de guarda hoje à noite; eu mesmo vos indicarei o ponto. Cássio não vos conhece; não ficarei muito longe. Arranjai oportunidade de irritar Cássio, ou falando-lhe muito alto, ou transgredindo suas determinações, ou por qualquer outro meio que a ocasião vos sugerir.

RODRIGO — Bem.

IAGO — Ele é violento e se encoleriza com facilidade, podendo acontecer que vos bata. Provocai-o, para que ele faça isso mesmo, pois pretendo valer-me desse pretexto, justamente, para amotinar o pessoal de Chipre, cuja pacificação só poderá ser restabelecida com a destituição de Cássio. Desse modo, encurtareis o caminho de vossos desejos, graças aos meios que eu arranjar para promovê-los, ficando removido com facilidade o obstáculo sem o qual não poderemos esperar nenhum êxito.

RODRIGO — É o que farei, no caso de encontrar oportunidade.

IAGO — Por isso eu me responsabilizo. Vai logo procurar-me no forte; tenho de desembarcar a bagagem do Mouro. Adeus.

RODRIGO — Adeus. (Sai.)

IAGO — Que amor lhe tenha Cássio, é o que acredito; que ela o ame, é quase certo e compreensível. O Mouro, embora eu suportar não o possa, por natureza é firme, nobre e amável, tendo eu plena certeza de que ele há de ser o marido ideal para Desdêmona. Mas eu também a amo, não por simples concupiscência, muito embora eu seja também passível dessa grande falta. Não; é para saciar minha vingança, pois suspeito que o Mouro luxurioso pulou na minha sela, pensamento esse que, como mineral nocivo, me corrói as entranhas, sem que nada possa ou deva deixar-me a alma aliviada antes de virmos nisso a ficar quites: é mulher por mulher. Falhando o plano, farei tal ciúme despertar no Mouro, que não possa curá-lo o raciocínio. Para obter isso — caso este sabujo de Veneza, que à trela sempre trago, saiba encontrar o rasto e correr firme — pegarei Miguel Cássio pelo flanco, pois temo que ele também tenha usado meu gorro de dormir. Assim, o Mouro me amará, ficar-me-á reconhecido, e um prêmio me dará por eu ter feito dele um asno completo, e o ter privado da paz e do sossego, até nas raias ir bater da loucura. Aqui está tudo. Meio confuso, é certo; mas, inteira, nunca se mostra, nunca, a bandalheira. (Sai.)

Cena II

Uma rua. Entra um arauto com uma proclamação; seguem-no pessoas do povo.

ARAUTO — É vontade de Otelo, nosso nobre e valente general, que, por motivo das notícias do complexo desbarato da arma da turca, festejem todos esse triunfo com trajes alegres, ou seja dançando, ou acendendo fogueiras, ou entregando-se aos divertimentos e prazeres a que estiverem mais inclinados. Porque além dessas notícias auspiciosas, celebra Otelo também o seu casamento. Assim, determinou que se fizesse esta proclamação. Todas as lojas ficarão abertas, havendo inteira liberdade de diversão, desde agora, cinco horas da tarde, até dar o sino o sinal das onze. Que o céu abençoe a ilha de Chipre e o nosso nobre general Otelo!

(Saem.)

Cena III

Uma sala no castelo. Entram Otelo, Desdêmona, Cássio e pessoas do séqüito.

OTELO — Caro Miguel, cuidai da guarda à noite. Mostremos pelo exemplo a decorosa moderação, porque não haja excesso nas festas permitidas.

CÁSSIO — Já dei ordens, para Iago, a esse respeito. Não obstante, pessoalmente irei ver tudo de perto.

OTELO — Iago é pessoa honesta. Boa noite, Miguel; quanto mais cedo for possível, vinde amanhã falar-me. (A Desdêmona.) Vamos, querida; já fizemos a compra; ora é preciso saber aproveitá-la com juízo.

(Saem Otelo, Desdêmona e séqüito.)

(Entra Iago.)

CÁSSIO — Sede bem-vindo, Iago. Precisamos ir para a guarda.

IAGO — Ainda falta muito tempo, tenente; não são dez horas. Nosso general nos despediu assim tão cedo por amor de sua Desdêmona, pelo que, aliás, não podemos censurá-lo; ainda não passou uma noite regalada com ela, que é um pratinho para Jove.

CÁSSIO — É uma senhora admirável.

IAGO — É deliciosa, posso asseverar.

CÁSSIO — Realmente, uma criatura muito louçã e delicada.

IAGO — E que olhos tem! Soam-me como um convite para o assalto.

CÁSSIO — Olhar atraente, de fato, mas muito modesto.

IAGO — E quando fala, não parece uma alvorada para o amor?

CÁSSIO — É, de fato, a perfeição em pessoa.

IAGO — Muito bem; felicidade para seus lençóis. Vamos, tenente; tenho um quartal de vinho e aí fora um par de galantes chipriotas que de bom grado beberiam à saúde do negro Otelo.

CÁSSIO — Não hoje à noite, meu bom Iago; tenho a cabeça muito fraca para bebidas. Desejara que a cortesia inventasse outras maneiras de manifestarmos a alegria.

IAGO — Oh! são nossos amigos! Um copo, somente; beberei em vosso lugar.

CÁSSIO — Só bebi esta noite um copo, e assim mesmo muito diluído; mas, apesar disso, podeis ver que desarranjo produziu aqui. É um defeito lastimável; não quero pôr à prova mais uma vez a minha fraqueza.

IAGO — Ora, homem! A noite, hoje, é de folia! Os rapazes que insistem.

CÁSSIO — Onde se encontram?

IAGO — Aqui, à porta; chamai-os, por obséquio.

CÁSSIO — Vou fazê-lo, mas a contragosto. (Sai.)

IAGO — Se eu puder empurrar-lhe mais um copo além do que ele já bebeu à tarde, ficará tão rixendo e quereloso como uma cadelinha. Aquele tonto, Rodrigo, a quem o amor virou no avesso, esta noite, à saúde de Desdêmona bebeu potes seguidos. Vai dar guarda. Mais três rapazes de alto e nobre espírito, que em distância prudente a honra conservam, elementos desta ilha belicosa, esta noite deixei meio confusos com copos transbordantes. Todos eles irão também dar guarda. Ora, no meio de tantos bêbados, farei que Cássio pratique qualquer ato que alboroto venha na ilha a causar. Ei-los que chegam. Se condisser com os sonhos a seqüela, meu barco correrá com vento e vela.

(Volta Cássio, acompanhado de Montano e vários cavalheiros. Entram criados com vinho.)

CÁSSIO — Por Deus! Já me fizeram beber uma boa caneca.

MONTANO — Pequenita, por minha fé; não chegava a uma pinta; tão certo como eu ser soldado.

IAGO — Tragam-nos vinho, olá! (Canta.) Fazei tinir a caneca! Fazei tinir a caneca!... A vida é quente, soldado é gente... Soldado... que leve a breca! Mais vinho, rapazes!

CÁSSIO — Por Deus, excelente canção.

IAGO — Aprendi-a na Inglaterra, onde se bebe, em verdade, largamente. Vosso dinamarquês, vosso alemão e vosso holandês pançudo — à saúde, olá! — são nada, comparados com os ingleses.

CÁSSIO — Vosso inglês é tão entendido em bebidas, assim?

IAGO — Ora, com a maior facilidade ele bebe de matar vosso dinamarquês não chega a suar para derrubar vosso alemão e faz vosso holandês vomitar antes de encherem de novo a caneca.

CÁSSIO — À saúde do nosso general!

MONTANO — O mesmo eu digo, tenente; faço-vos justiça.

IAGO — Oh, doce Inglaterra! (Canta.) O rei Estêvão, mui digno par, deu pelas calças uma coroa; mas achou caro; não quer pagar; chama o alfaiate de coisa à-toa. Era de casa de grande fama; mas tu não passas de um gafanhoto. O orgulho o reino joga na lama; por isso veste teu manto roto. Mais vinho, olá!

CÁSSIO — Essa canção é ainda mais esquisita do que a outra.

IAGO — Desejais que a repita?

CÁSSIO — Não, porque considero indigno de seu posto quem se conduz por esse modo. Sim, Deus está acima de tudo; há almas que devem salvar-se e há almas que não devem salvar-se.

IAGO — É certo, meu bom tenente.

CÁSSIO — No que me diz respeito — longe de mim a intenção de ofender o general ou qualquer outra pessoa de posição espero salvar-me.

IAGO — Eu também, tenente.

CÁSSIO — Sim; mas, com vossa permissão, não antes de mim; o tenente deve ser salvo antes do alferes. Não falemos mais disso; voltemos para nosso trabalho. Deus perdoe nossos pecados. Cavalheiros, cuidemos da obrigação. Não vades pensar, cavalheiros, que eu estou bêbado. Este aqui é o meu alferes; esta, a minha mão direita; esta, a esquerda. Agora não estou bêbado; posso manter-me de pé e falar sem atrapalhar-me.

TODOS — Perfeitamente!

CÁSSIO — Então, muito bem; não deveis imaginar que eu estejá embriagado. (Sai.)

MONTANO — À esplanada, senhores! Para a guarda!

IAGO — Vistes o tipo que saiu há pouco? É soldado que a César não desonra; digno de comandar. Mas vede o vício, equinócio adequado de seu mérito: um, tão longo quanto o outro. Faz-me pena. Temo sinceramente que a confiança que Otelo nele deposita, possa numa hora aziaga sacudir esta ilha.

MONTANO — Fica assim muitas vezes?

IAGO — Sempre o prólogo esse é do sono dele. Duas voltas completas do relógio ele consegue ficar de sentinela, quando o vinho não lhe sacode o leito.

MONTANO — Bom seria que ao general falássemos sobre isso. Decerto ignora tudo; ou, porventura, sua bondade louva em Cássio apenas a virtude aparente, sem das faltas tomar conhecimento. Não é verdade?

(Entra Rodrigo.)

IAGO (à parte, a Rodrigo) — Que há de novo, Rodrigo? Por obséquio, ide atrás do tenente.

(Sai Rodrigo.)

MONTANO — É lastimável que o nobre Mouro arrisque um lugar desse, em importância logo após o dele, com um sujeito tachado de fraqueza. Ação honesta fora alguém com o Mouro falar a esse respeito.

IAGO — Eu, não! Nem mesmo por esta formosa ilha. Gosto muito de Cássio; hei de fazer todo o possível para curá-lo dessa enfermidade. Mas, escutai! Que barulheira é essa?

GRITOS (dentro) — Socorro! Socorro!

(Entra Cássio, empurrando Rodrigo.)

CÁSSIO — Miserável! Patife!

MONTANO — Que acontece, tenente?

CÁSSIO — Um pulha destes, pretendendo ensinar-me o dever. Pois vou inflá-lo numa garrafa, à custa de pauladas.

RODRIGO — Bater em mim?

CÁSSIO — Ainda resmungas, choldrar? (Bate em Rodrigo.)

MONTANO (segurando Cássio) — Meu bom tenente, calma, por obséquio! Detende a mão.

CÁSSIO — Senhor, deixai-me livre; caso contrário, amasso-vos o crânio.

MONTANO — Deixai disso; estais bêbado.

CÁSSIO — Eu, bêbado?

(Lutam.)

IAGO (à parte, a Rodrigo) — Saí, vos digo. Ide tocar alarma. (Sai Rodrigo.) Não, meu caro tenente! Oh Deus! Senhores! Socorro, olá! Tenente! Bom Montano! Socorro, olá! Que bela guarda temos! (O sino toca.) Quem estará tocando o sino? Diabo! Vão alarmar toda a cidade. Calma! Calma, senhores! Calma! Para sempre vos heis de envergonhar.

(Entram Otelo e séqüito.)

OTELO — Que aconteceu?

MONTANO — Com a breca! Estou sangrando; estou ferido gravemente.

OTELO — Parai, por vossas vidas!

IAGO — Calma, tenente! Cavalheiros, calma! Porventura perdestes todo o senso do dever e lugar? Parai! Que opróbrio!

OTELO — Então, que aconteceu? Como foi isso? Viramos turcos para permitir-nos o que o céu não consente aos otomanos? Pelo pudor cristão, parai com essa gritaria de bárbaros. Aquele que se mexer para saciar a raiva, não faz caso da vida; é homem morto. Fazei calar esse terrível sino, que ele espanta a ilha e a tira de seus hábitos. Que aconteceu, senhores? Honesto Iago, pareces morto de tristeza; dize-me: quem começou? Por teu amor, intimo-te.

IAGO — Não sei; amigos éramos há pouco, neste momento, em termos como noivos, quando se despem antes de ir deitar-se. De repente, agorinha mesmo, como se algum planeta houvesse o mundo todo deixado dementado, espadas fora, visando o peito um do outro, em sanguinária oposição. Dizer não posso como principiou esta odiosa diferença. Fora melhor haver no campo de honra perdido as pernas que me conduziram para ser parte nisto.

OTELO — Qual a causa, Miguel, de vos haverdes esquecido de vós mesmo a este ponto?

CÁSSIO — Só vos peço que me perdoeis, porque falar não posso.

OTELO — Digno Montano, sempre fostes probo; conhece o mundo a calma e a gravidade de vossa mocidade; vosso nome grande é na boca dos juízes sábios. Que aconteceu, para que vossa fama desabotoeis assim e a vossa rica reputação gasteis só pelo nome de brigador noturno? Respondei-me.

MONTANO — Digno Otelo, ferido estou de morte. Iago, vosso oficial, pode informar-vos — porque eu me poupe, que falar me cansa — tudo o que sei. Não sei de nada errado que esta noite eu tivesse dito ou feito, a não ser que o amor-próprio seja um vício e pecado nos pormos em defesa, quando alguém nos ataca.

OTELO — Agora, pelo céu, sinto que o sangue começa a dirigir-me o entendimento, e que a paixão, já tendo obscurecido minha razão, procura arrebatar-me. Se eu me mexer ou levantar o braço, o melhor dentre vós cairá ao peso de minha repreensão. Dizei-me como teve princípio esse tropel estúpido, quem foi o causador. Quem quer que tenha sido o culpado de tão cru delito — irmão gêmeo me fosse, de um só parto — de mim o afastarei. Pois como! Numa praça de guerra inquieta ainda, todos com o coração a transbordar de medo, provocarem questões particulares, de noite e no local, precisamente, da guarda e segurança! Oh! É monstruoso.

MONTANO — Se razões de amizade ou de hierarquia a dizer te levarem mais ou menos do que a verdade, é que não és soldado.

IAGO — Não me aperte assim. Preferiria que da boca esta língua me cortassem, a ofender de algum modo a Miguel Cássio. Mas convencido estou de que a verdade mal nenhum lhe fará. Eis como tudo se passou, general. Eu e Montano a conversar estávamos. De súbito, a gritar por socorro entra um sujeito perseguido por Cássio, que, de espada desembainhada, a ponto se encontrava de desferir-lhe um golpe. Este fidalgo, senhor, deteve Cássio, procurando demovê-lo do intento. Eu saí logo em pós do tipo que corria aos berros, para ver se evitava que seus gritos — como se deu, de fato — provocassem o alarma na cidade. Mas, dotado de pé velozes, ele, em pouco tempo, me frustrou a intenção, tendo eu achado mais prudente voltar, por ter ouvido tinir de espadas e exaltadas juras proferidas por Cássio, o que impossível me fora acreditar até esta noite. Ao retomar porque tudo isso fora obra de alguns momentos — encontrei-os engalfinhados, em defesa e ataque, tal como estava, quando aqui chegastes, para vir separá-los. É tudo quanto sei sobre esse assunto. Mas os homens são homens, e por vezes o melhor pode errar. Embora Cássio houvesse feito alguma ofensa ao outro — pois quando arrebatados, machucamos até o melhor amigo — estou convicto de que ele recebeu do que fugia uma dessas injúrias nunca ouvidas, que admitir a paciência não consegue.

OTELO — Iago, sei bem que a tua honestidade e teu bom coração ora te levam a atenuar este assunto, para que ele pese menos em Cássio. Cássio, estimo-te; mas nunca mais serás meu oficial. (Entra Desdêmona, acompanhada.) Vede! Acordaram minha terna esposa! (A Cássio.) Um castigo exemplar pretendo dar-te.

DESDÊMONA — Que aconteceu?

OTELO — Tudo está bem querida. Retorna para o leito. (A Montano.) Desses golpes, senhor, o cirurgião serei eu próprio. Levai-o logo. (Montano é conduzido.) Iago, inspeciona bem toda a cidade e tranqüiliza os que essa vil querela possa ter alarmado. Vem, Desdêmona; é sempre assim a vida de um soldado: ter amiúde o sono despertado.

(Saem todos, com exceção de Iago e Cássio.)

IAGO — Quê! Estais ferido, tenente?

CÁSSIO — Sim, sem possibilidade de cura.

IAGO — Oh! Não o permita o céu.

CÁSSIO — Reputação, reputação, reputação! Oh! perdi a reputação, perdi a parte imortal de mim próprio, só me tendo restado a bestial. Minha reputação, Iago; minha reputação!

IAGO — Tão certo como eu ser um homem honesto, pensei que houvesses recebido algum ferimento no corpo; há mais prejuízo nisso do que na reputação. A reputação é um apêndice ocioso e enganador; obtido, muitas vezes, sem merecimento, e perdido sem nenhuma culpa. Não perdestes nenhuma reputação, a menos que vos considereis como tendo sofrido semelhante perda. Que é isso, homem! Há muitos meios de reconquistar a estima do general; fostes despedido apenas em um momento de mau humor; um castigo aplicado mais por considerações de ordem geral do que por maldade, justamente como no caso de bater alguém em seu cãozinho inofensivo, para amedrontar um leão temível. Implorai-lhe perdão e ele se tornará vosso outra vez.

CÁSSIO — Preferira implorar o seu desprezo a enganar um comandante tão bom com um oficial tão leviano, bêbado e indiscreto. Embriagado! Falando como papagaio! Provocar brigas, fazer fanfarronadas, jurar e falar empolado com a própria sombra! Ó espírito invisível do vinho! Se não és ainda conhecido por nenhum nome, recebe o de demônio.

IAGO — Quem era o sujeito a quem perseguíeis de espada em punho? Que vos havia feito?

CÁSSIO — Não sei.

IAGO — Será possível?

CÁSSIO — Recordo-me de uma infinidade de coisas, mas nada distintamente; de uma briga, porém não de seus motivos. Oh Deus! Terem os homens o inimigo na própria boca, para roubar-lhes o cérebro! Constituir para nós alegria, prazer, divertimento e júbilo isso de nos transformarmos em brutos!

IAGO — Mas é interessante que estais agora inteiramente lúcido! De que modo recuperastes os sentidos assim tão depressa?

CÁSSIO — Aprouve ao demônio da embriaguez ceder o lugar ao demônio cólera. Uma imperfeição me mostra outra, ensinando-me a detestar-me sem reservas.

IAGO — Ora, vamos; sois um moralista muito severo. Considerando-se o momento, o lugar e as condições da cidade, sinceramente, eu preferira que tudo isso não houvesse acontecido; mas já que é como é, tratai de consertar as coisas em proveito próprio.

CÁSSIO — Vou pedir-lhe que me reintegre no meu posto; ele vai responder-me que eu sou um bêbado. Se eu tivesse tantas bocas como a hidra, semelhante respostas mas entupiria todas. Há pouco eu era um indivíduo ajuizado; logo depois, um tolo; e neste momento, um bruto. Oh! é terrível! E amaldiçoado todo copo bebido fora da conta, sendo o seu conteúdo o próprio diabo.

IAGO — Vamos, vamos; o bom vinho é um camarada bondoso e de confiança, quando tomado com sabedoria; não continueis a falar mal dele. E, meu bom tenente, creio que tendes çerteza de que vos tenho amizade.

CÁSSIO — Já tive disso sobejas provas, senhor. Eu, bêbado!

IAGO — Ora, homem! Vós, ou qualquer pessoa viva podeis embriagar-vos de vez em quando. Vou dizer-vos o que deveis fazer. A mulher do nosso general é agora o general. Posso exprimir-me dessa maneira, por ter-se ele devotado e dedicado à contemplação, ao exame e à observação de suas partes e graças. Falai-lhe com franqueza; importunai-a, que ela vos ajudará a reconquistar esse lugar. É de uma disposição tão franca e generosa, tão bondosa e abençoada, que em sua bondade considera vício não fazer mais do que o que se lhe pede. Pedi-lhe que conserte a fratura da articulação existente entre vós e o marido dela. E todos os meus bens contra qualquer coisa sem valor em como essa fratura do vosso amor vai ficar mais forte do que era antes.

CÁSSIO — Dais-me um bom conselho.

IAGO — Podeis crer que o faço com a maior sinceridade e com afeição honesta.

CÁSSIO — Tenho certeza disso; logo que amanhecer, vou pedir à virtuosa Desdêmona que interceda a meu favor. Perderei a confiança na sorte, se ela me for contrária neste passo.

IAGO — Tendes razão. Boa noite, tenente; preciso ir para a guarda.

CÁSSIO — Boa noite, honesto Iago. (Sai.)

IAGO — Quem poderá dizer que eu represento papel de celerado, se o conselho que eu dei é honesto e leal, muito plausível e em verdade o caminho para ao Mouro vir a reconquistar? Sim, porque é muito fácil de conseguir que a complacente Desdêmona se empenhe em qualquer súplica honesta; é dadivosa com a terra. E para obter do Mouro qualquer coisa — muito embora para ele se tratasse de abrir mão do batismo, das insígnias e símbolos de uma alma redimida — tanto ele o coração traz encadeado na afeição de Desdêmona, que tudo fazer ou desfazer ela consegue, como entender, reinando como deusa sua vontade sobre o fraco esposo. Estarei sendo, acaso, um celerado, por ter mostrado a Cássio esse caminho que vai dar ao seu bem, diretamente? Divindades do inferno! Quando os diabos querem dar corpo aos mais nefandos crimes, celestial aparência lhes emprestam, tal como agora faço. Pois, enquanto este imbecil honesto pede à bela Desdêmona que cure a sua sorte, e ela sobre isso insiste junto ao Mouro, veneno deitarei no ouvido dele, com dizer que ela o faz só por luxúria; quanto mais houver feito ela por ele, mais, junto ao Mouro, há de perder o crédito. Transformarei em pez sua virtude, e com a própria bondade apresto a rede que há de a todos pegar. (Volta Rodrigo.) Então, Rodrigo?

RODRIGO — Sigo-te nesta caçada não como um cachorro que persegue, mas como o que apenas completa a matilha. Já gastei quase todo o meu dinheiro; esta noite fui sovado de rijo, estando certo de que o resultado final consistirá em ganhar experiência à custa própria, e, assim, sem dinheiro nenhum e com um pouco mais de sabedoria, voltar para Veneza.

IAGO — Quão pobre é quem carece de paciência! Qual é a ferida que não sara aos poucos? Bem sabes que eu trabalho com a cabeça, não por meio de mágica, e em tudo depende aquela do tardio tempo. Não vai tudo tão bem? Cássio bateu-te; e em troca dessas dores de brinquedo fizeste que ele o seu lugar perdesse. Posto sazone o sol todos os frutos, os da primeira floração se tornam maduros mais depressa. Sê paciente. Mas, pela Missa! Já é quase dia! Os folguedos e a ação as horas fazem parecer muito curtas. Mas retira-te; vai logo para o teu alojamento. Não te demores, digo; mais de espaço te contarei o que há. Vamos, retira-te. (Sai Rodrigo.) E agora, duas coisas: sobre Cássio, falar minha mulher junto à senhora; vou concitá-la já. Nesse entrementes, chamarei o Mouro para que venha encontrar Cássio, quando falando estiver este com Desdêmona. Esse é o caminho certo; que a tardança não me faça perder a segurança. (Sai.)

ATO III

Cena I

Chipre. Diante do castelo. Entram Cássio e alguns músicos.

CÁSSIO — Mestres, cantai; pagar-vos-ei o incômodo. Algo bem curto; e, ao fim, falai desta arte: “Bom dia, general!”

(Música.)

(Entra o bobo.)

BOBO — Olá, mestres! Vossos instrumentos estiveram em Nápoles, para falarem assim pelo nariz?

PRIMEIRO MÚSICO — Como assim, senhor?

BOBO — Por obséquio: é a isso que chamais instrumentos de vento?

PRIMEIRO MÚSICO — Perfeitamente, senhor.

BOBO — Então eles devem ter um apêndice.

PRIMEIRO MÚSICO — Como apêndice, senhor?

BOBO — Ora, senhor, como muitos instrumentos de vento que eu conheço. Mas, caros mestres, trago-vos este dinheiro. O general aprecia tanto vossa música, que em nome da amizade vos pede não continuardes com esse barulho.

PRIMEIRO MÚSICO — Perfeitamente, senhor; não continuaremos.

BOBO — Se tiverdes alguma música que não se ouça, então que venha essa; mas com a que se ouve, o general não se preocupa, nem eu tampouco.

PRIMEIRO MÚSICO — Dessa espécie não temos, senhor.

BOBO — Nesse caso, enfiai as flautas nos sacos, porque preciso retirar-me. Vamos! Desaparecei no ar! Toca!

(Saem os músicos.)

CÁSSIO — Estás ouvindo, meu honesto amigo?

BOBO — Não; não estou ouvindo vosso honesto amigo; estou vos ouvindo.

CÁSSIO — Por obséquio, pára com essas graças. Aqui tens uma pequena moeda de ouro. Se a dama de companhia da senhora do general já estiver de pé, dize-lhe que aqui fora se encontra um certo Cássio que solicita dela alguns momentos de atenção. Far-me-ás isso?

BOBO — Ela já está de pé, senhor; no caso de vir ela até este ponto, dar-lhe-ei vosso recado.

CÁSSIO — Sim, caro amigo. (Sai o bobo.) (Entra Iago.) Em feliz hora, Iago.

IAGO — Então, não vos deitastes?

CÁSSIO — Oh, não! Raiou o dia, quando nos separamos. Tomei, Iago, a liberdade de mandar um próprio chamar vossa mulher; quero pedir-lhe o obséquio de me obter uma entrevista com a virtuosa Desdêmona.

IAGO — Sem falta, farei que vos procure agora mesmo. Além do mais, vou arranjar um meio para distrair o Mouro e, assim, poderdes falar de vosso assunto livremente.

CÁSSIO — De todo coração vos agradeço. (Sai Iago.) Nunca vi florentino tão honesto e serviçal.

(Entra Emília.)

EMÍLIA — Bom dia, bom tenente. Estou penalizada por vos terdes desavindo com Otelo. Mas em pouco, tudo acabará bem. Neste momento o general e a esposa falam nisso, com ardor pleiteando ela vossa causa. Mas o Mouro lhe objeta que a pessoa que feristes é em Chipre conceituada e de alta parentela, aconselhando-o por isso, a demitir-vos a prudência. Por outro lado, afirma que vos ama, não tendo precisão de outros padrinhos além da afeição própria, e que só espera momento azado para reintegrar-vos.

CÁSSIO — Contudo, vos suplico — se julgardes conveniente ou possível — a vantagem me obterdes de eu falar a sós com ela, numa entrevista curta.

EMÍLIA — Por obséquio, acompanhai-me. Arranjarei as coisas de modo que possais com liberdade desafogar o peito.

CÁSSIO — Agradecido vos sou de todo o coração por isso.

(Saem.)

Cena II

Um quarto no castelo. Entram Otelo, Iago e gentis-homens.

OTELO — Iago, entrega estas cartas ao piloto, e que ao Senado ele me recomende. Nesse entrementes, vou olhar as obras; vai ter comigo lá.

IAGO — Perfeitamente, meu bom senhor.

OTELO — Quereis, meus caros nobres, inspecionar aquela fortaleza?

GENTIS-HOMENS — Estamos ao dispor de Vossa Graça.

(Saem.)

Cena III

Diante do castelo. Entram Desdêmona, Cássio e Emília.

DESDÊMONA — Podeis ficar tranqüilo, meu bom Cássio; farei por vós o que me for possível.

EMÍLIA — Sim, bondosa senhora; meu marido se aborreceu tanto com isso, como se fosse dele o caso.

DESDÊMONA — Oh! Que homem de valor! Não tenhais dúvida, Cássio, que hei de fazer que vós e Otelo vos torneis bons amigos como dantes.

CÁSSIO — Generosa senhora, seja a sorte qual for de Miguel Cássio, nunca ele há de ser outra coisa, senão tão-somente vosso leal servidor.

DESDÊMONA — Tenho certeza disso e vos agradeço. Amais a Otelo; há muito o conheceis. Ficai, pois, certo que a frieza dele durará somente, enquanto as conveniências o exigirem.

CÁSSIO — Pois não, senhora; mas as conveniências poderão ser morosas e viverem com dieta tão aguada e delicada ou com tais circunstâncias se nutrirem, que, ausente eu me encontrando e já ocupado meu posto, acabará por olvidar-se meu general do meu amor e préstimos.

DESDÊMONA — Que isso não te preocupe. Aqui, em frente de Emília te asseguro o antigo posto. Podes ficar tranqüilo; quando eu faço um voto de amizade, cumpro-o à risca. Meu marido não mais terá sossego; hei de amansá-lo à custa de vigílias; sua paciência será posta à prova; escola vai virar o leito dele; confessionário, a mesa. Em tudo quanto quiser fazer, misturarei a súplica de Cássio. Por tudo isso, Cássio, alegra-te; porque, antes de desistir de tua causa há de a vida perder teu advogado.

(Entram Iago e Otelo e se conservam a distância.)

EMÍLIA — Senhora, aí vem meu amo.

CÁSSIO — Senhora, aqui despeço-me.

DESDÊMONA — Esperai para ouvir-me defender-vos.

CÁSSIO — Noutra ocasião, senhora; estou indisposto e incapaz de servir meu próprio intuito.

DESDÊMONA — Como quiserdes.

(Sai Cássio.)

IAGO — Isso não me agrada!

OTELO — Como disseste?

IAGO — Nada, meu senhor; ou, talvez... Já não sei.

OTELO — Não era Cássio que estava a conversar com minha esposa?

IAGO — Cássio, senhor? Acreditar não posso que ele como culpado se esgueirasse, quando vos viu chegar.

OTELO — Creio que era ele.

DESDÊMONA — Oh! meu marido! Estive a conversr com um suplicante; que vosso desfavor faz definhar.

OTELO — A quem vos referis?

DESDÊMONA — Oh! a vosso tenente Cássio. Caro marido, se eu possuo graça ou força para vos comover, reconciliai-vos com ele desde já. Se não se trata de uma pessoa que vos é afeiçoada sinceramente, e errou mais por descuido do que por intenção, não sei, de fato, reconhecer uma feição honesta. Peço-te que o reintegres no seu posto.

OTELO — Daqui não saiu ele agora mesmo?

DESDÊMONA — Sim, e tão abatido que comigo deixou parte das mágoas que ainda me compungem. Chama-o, caro!

OTELO — Mais tarde, agora não, cara Desdêmona.

DESDÊMONA — Mas será logo?

OTELO — Logo que possível, minha querida, já que assim desejas.

DESDÊMONA — Hoje de noite, à ceia?

OTELO — A noite, não.

DESDÊMONA — Então amanhã cedo, à hora do almoço?

OTELO — Não estarei em casa amanhã cedo; almoçarei com os capitães no forte.

DESDÊMONA — Quando? Amanhã à noite? Ou terça-feira pela manhã? ou à noite? ou quarta-feira cedinho? Por obséquio: marca a data; contanto que não passe de três dias. Arrependeu-se, é certo. Aliás, seu erro, segundo o são juízo — se não fosse dizerem que na guerra é necessário castigar os melhores, para exemplo — é falta que mal pode ser punida. Quando poderá vir? Dizei-me, Otelo. Pergunto-me, admirada, o que podíeis pedir-me que eu negasse, ou me deixasse vacilante a esse ponto. É incompreensível! Miguel Cássio, esse mesmo que se achava convosco, quando a corte me fizestes, e que, mais de uma vez, se acontecia eu de vós dizer algo em desacordo, vos defendia logo: terei tanto trabalho para reempossá-lo agora? Acreditai-me: eu poderia muito...

OTELO — Por favor, não prossigas. Pois que venha, quando bem entender; não te recuso coisa nenhuma.

DESDÊMONA — Ora, isso não é graça; é como se eu pedisse que pusésseis as luvas ou comêsseis pratos pingues, não vos resfriásseis, insistindo muito sobre algo que vos fosse de proveito. Não; se vos faço algum pedido, para pôr vosso amor à prova, será sempre de muito peso e mui penoso fardo, de grave concessão.

OTELO — Não te recuso coisa nenhuma. Mas, por isso mesmo te suplico um favor; vais conceder-mo, deixando-me um pouquinho a sós comigo.

DESDÊMONA — Eu, recusar-to? Não. Adeus, senhor.

OTELO — Adeus, querida; é só por uns momentos.

DESDÊMONA — Emília, vamos logo. Seja tudo como vossos caprichos entenderem. Tal como fordes, hei de obedecer-vos. (Sai com Emília.)

OTELO — Adorável criatura! Que minha alma a apanhe a perdição, se eu não te amar; e se não te amo, que este mundo volte de novo para o caos.

IAGO — Nobre senhor...

OTELO — Que queres, Iago?

IAGO — Acaso Miguel Cássio estava a par de vossos sentimentos, quando a corte fizestes à senhora?

OTELO — Desde o início até o fim. Por que o perguntas?

IAGO — Para satisfazer o pensamento; não há malícia alguma.

OTELO — Como, Iago! Que pensamento?

IAGO — É que eu pensava que ele então não a conhecesse.

OTELO — Oh! Conhecia! Muitas vezes serviu de intermediário entre nós dois.

IAGO — Realmente?

OTELO — Sim, realmente. Encontras algo, nisso, censurável? Ele não é honesto?

IAGO — Honesto, meu senhor?

OTELO — Honesto, sim; honesto.

IAGO — Por tudo o que sei dele...

OTELO — E que é que pensas?

IAGO — Que penso, meu senhor?

OTELO — “Que penso, meu senhor?” Oh! Pelo céu! Ele me serve de eco! Só parece que traz no pensamento um monstro horrível, horrível por demais, para ser visto. Alguma coisa deves ter em mente. Há pouco, quando Cássio se afastava, Iago, disseste-me: “Isso não me agrada”. Que é que não te agrada? E ao declarar-te que ele de confidente me servira, quando eu fazia a corte à minha esposa, exclamaste: “Realmente?” e contraíste, fechaste o sobrecenho, parecendo que trancavas, então, dentro do cérebro, alguma idéia horrível. Caso me ames, revela-me o que pensas.

IAGO — Sabeis, senhor, quanto vos quero bem.

OTELO — Sei disso; e por saber quanto és honesto, quanta afeição albergas, e que pesas tuas palavras antes de insuflar-lhes o sopro animador, mais intranqüilo me deixa o interrompê-las. Se essas coisas se passassem com algum sujeito à-toa, sem lealdade nem fé, eu as tomara por manhas habituais. Em se tratando, porém, de um homem justo, são avisos e delações sinceras, escapadas de um coração que dominar não pode seus próprios movimentos.

IAGO — Quanto a Cássio, atrevo-me a jurar que ele é honesto.

OTELO — É também o que eu penso.

IAGO — Deveriam os homens ser somente o que parecem, ou então não parecer o que não fossem.

OTELO — Sim, deveriam ser o que parecem.

IAGO — Sendo assim, considero Cássio honesto.

OTELO — Não, não; ocultas algo. Peço-te que me fales o que pensas, como as idéias fores ruminando, e as mais terríveis digas com palavras mais terríveis também.

IAGO — Senhor, perdoai-me; mas conquanto obrigado esteja a todos os atos do dever, sinto-me livre para me recusar a fazer algo que dos próprios escravos não se exige. Qual é o palácio em que não se introduzem, por vezes, coisas sujas? E que peito tão puro pode haver, que não contenha culpáveis apreensões, que não se assentem nos tribunais, para emitir sentenças lado a lado às idéias mais legítimas?

OTELO — Conspiras, Iago, contra teu amigo se, julgando-o ultrajado, seus ouvidos deixas como estrangeiros ao que pensas.

IAGO — Suplico-vos, no caso de algo errôneo haver no que suspeito — pois confesso que minha natureza se ressente desse defeito de aventar maldades e que por vezes meu ciúme inventa faltas que não existem — que ora a vossa sabedoria não empreste a mínima importância a quem pensa por maneira tão defeituosa, nem fundeis vexames no que ele possa ter conjeturado por modo tão disperso e pouco firme. Não fora de vantagem para vosso repouso e paz de espírito, nem para minha sabedoria, honestidade, meus sentimentos de homens, conhecerdes o que ora estou pensando.

OTELO — Que pretendes dizer com isso?

IAGO — Um nome imaculado, caro senhor, para a mulher e o homem é a melhor jóia da alma. Quem da bolsa me priva, rouba-me uma ninharia; é qualquer coisa, nada; pertenceu-me, é dele, escravo foi de mil pessoas. Mas quem do nome honrado me espolia, me priva de algo que não o enriquece, mas me deixa paupérrimo.

OTELO — Pelo céu, saber quero o que ora pensas.

IAGO — Não o poderíeis, mesmo que tivésseis meu coração nas mãos, máxime, achando-se ele sob minha guarda.

OTELO — Ah!

IAGO — Acautelai-vos senhor, do ciúme; é um monstro de olhos verdes, que zomba do alimento de que vive. Vive feliz o esposo que, enganado, mas ciente do que passa, não dedica nenhum afeto a quem lhe causa o ultraje. Mas que minutos infernais não conta quem adora e duvida, quem suspeitas contínuas alimenta e ama deveras!

OTELO — Oh miséria!

IAGO — Quem com sua pobreza está contente, é rico, muito rico; mas riquezas infinitas são como o frio inverno, para quem medo tem de ficar pobre. Livrai-me, céu bondoso, e as almas todas de minha tribo, de sentir ciúmes!

OTELO — Por quê? Por que tudo isso? Crês, de fato, que eu passaria a vida tendo ciúmes e as mudanças da lua acompanhara com suspeitas crescentes? Não; a dúvida já me traria a solução do caso. Troca-me por um bode, se o andamento de minha alma eu torcer, com base apenas em infladas e vácuas conjeturas, como ora as apresentas. Não me deixa enciumado dizerem-me que minha mulher é linda, que aprecia a mesa, gosta da sociedade, é de linguagem mui desembaraçada, dança, canta e representa bem. Onde há virtude, tudo isso mais virtuoso, ainda, se torna. Não tirarei de meu modesto mérito o menor medo ou dúvida a respeito de seu procedimento; ela tinha olhos e me escolheu. Não, Iago; primeiro hei de ver para duvidar. E após a dúvida, precisarei de provas; feitas essas, uma só coisa resta: liquidemos de vez o amor e o ciúme.

IAGO — Isso me alegra, porque me enseja base suficiente para provar-vos com mais franco espírito a afeição e lealdade que vos voto. Assim, já que o dever a isso me obriga, sincero vou falar, mas não de provas, por enquanto. Vigiai vossa consorte; observai bem como ela e Cássio falam; lançai-lhe olhar assim, nem enciumado, nem confiante demais. Não desejara que vossa natureza leal e nobre vítima viesse a ser por causa, apenas, da generosidade que lhe é própria. Vigiai-os bem. Conheço minha terra; em Veneza as mulheres não se correm de confessar ao céu as leviandades que ocultam dos maridos. Para todas a virtude consiste apenas nisto: Não deixes de fazer, mas em segredo.

OTELO — Crês que seja assim mesmo?

IAGO — Ao pai ela enganou com desposar-vos; ao fingir que tremia à vossa vista, mais vos era afeiçoada.

OTELO — Isso é verdade.

IAGO — Tirai a conclusão: uma donzela que finge a ponto de deixar os olhos do pai como vendados, obrigando-o a achar que era feitiço... Mas confesso-me passível de censura. Humildemente vos peço me perdoeis tanta amizade.

OTELO — Obrigado te fico para sempre.

IAGO — Percebo que ficastes abalado com o que vos disse.

OTELO — Nada! Nem um pouco!

IAGO — Em verdade, receio-o. Mas espero que considerareis tudo o que eu disse como oriundo, tão-só, do meu afeto. Mas estais comovido. Instantemente vos peço não tirar de meu discurso forçadas conclusões, nem distendê-lo senão até à suspeita.

OTELO — Apenas isso.

IAGO — Se tal fizésseis, meu senhor, tiráreis de minha fala conseqüências crassas, que não me obriga a mente. Considero Cássio meu digno amigo. Porém vejo, senhor, quanto abalado...

OTELO — Nada disso! Mas não posso deixar de ter Desdêmona como muito virtuosa.

IAGO — Vida longa tenha ela assim, e vós também, guardando semelhante certeza.

OTELO — No entretanto, como pode transviar-se a natureza...

IAGO — Sim, esse é o ponto. Para falar franco convosco: recusado haver propostas de casamento de sua própria terra, estado e parentesco, em que se achara conforme em tudo a própria natureza... Bah! poder-se-ia farejar no caso uma vontade mais do que corrupta, instintos pervertidos, pensamentos contrários à natura. Mas perdoai-me; não avanço essas coisas, tendo em vista a ela precisamente, muito embora chegue a recear que seus desejos possam vir dar de encontro a um juízo mais sadio e com seus compatriotas confrontar-vos, levando-a, porventura, a arrepender-se.

OTELO — Adeus, adeus; se de algo mais souberes, não deixes de contar-mo. Dá à tua esposa a incumbência de espiá-la. Deixa-me, Iago.

IAGO — Despeço-me, senhor. (Retirando-se.)

OTELO — Por que casei? Esta criatura honesta sabe mais, muito mais do que revela.

IAGO (retornando) — Desejara, senhor, poder pedir-vos que não pensásseis mais sobre esse assunto. Confiai-o ao tempo. Embora Cássio deva ser reintegrado em seu antigo posto — em que, em verdade, ele se desempenha com muita habilidade — no entretanto se mantê-lo quisésseis afastado mais algum tempo, poderíeis logo conhecer o indivíduo e seus processos. Notai se vossa esposa pede a volta dele com insistência muito incômoda. Já fora muita coisa. Nesse em meio, deixai-me parecer exagerado nos meus receios — como tenho causas para pensar que o seja — e inteiramente livre a deixai; é o que a Vossa Honra eu peço.

OTELO — Serei discreto em tudo.

IAGO — Mais uma vez despeço-me. (Sai.)

OTELO — Esse rapaz é a própria honestidade; de espírito experiente, os móveis todos discernir sabe das ações humanas: Se ela se revelar falcão rebelde, ainda que seus atilhos fossem fibras do próprio coração que aqui me bate, assobiarei, soltando-a, para que alce vôo a favor do vento e faça presas como a sorte o ensejar. Porque sou negro e de fala melíflua não disponho qual petimetre, ou porque já me encontro no declive da idade — mas não tanto — ela se foi, havendo-me enganado. Meu consolo vai ser agora, apenas, ter aversão por ela. Oh! Maldição do casamento! Ser-nos facultado nossas chamas a essas criaturas frágeis e não seus apetites! Preferira ser um sapo e viver só dos vapores de um cárcere, a ceder uma partícula da coisa amada para que outrem a use. Serem os grandes sempre flagelados por ter quinhão menor que o dos pequenos, é coisa inevitável como a morte. Esta peste farpada já se achava para nós destinada ao nascimento. Mas vede que ela chega! Se for falsa, é que o céu de si próprio está zombando.

(Entram Desdêmona e Emília.)

DESDÊMONA — Então, querido Otelo? A ceia e os nobres insulanos que havíeis convidado estão à vossa espera.

OTELO — Sou passível de censura.

DESDÊMONA — Por que falais tão fraco? Sentis-vos indisposto?

OTELO — Dói-me a fronte.

DESDÊMONA — É que tendes velado todo o tempo. Há de passar; deixai que vos aperte bem a cabeça e heis de sarar numa hora.

OTELO — É por demais pequeno vosso lenço. (Desdêmona deixa cair o  lenço.) Deixai! Deixai! Vamos; irei convosco.

(Saem Otelo e Desdêmona.)

EMÍLIA — Fico contente por haver achado justamente este lenço, que é a primeira lembrança a ela ofertada pelo Mouro. Meu estranho marido umas cem vezes me pediu que o roubasse. Mas tão grato para ela é o mimo — por pedir-lhe o esposo que o conservasse sempre — que a toda hora o traz consigo, e o beija, e com ele fala. Mandarei que me tirem uma cópia e darei este a Iago. Qual a sua intenção, não sei dizê-lo; mas seus caprichos me despertam zelo.

(Entra Iago.)

IAGO — Que fazeis aqui só?

EMÍLIA — Não vos zangueis; tenho um presente a dar-vos.

IAGO — Um presente? Coisa é muito comum...

EMÍLIA — Ah!

IAGO — ... ter uma mulher louca.

EMÍLIA — Oh! nada mais? Então, que me daríeis por este lenço aqui?

IAGO — Como! Que lenço?

EMÍLIA — Que lenço? Ora, o que o Mouro deu como primeiro mimo de seu amor, e me mandastes tantas vezes roubar.

IAGO — Dela o tiraste?

EMÍLIA — Não; por descuido ela o deixou cair. Aproveitando o ensejo, estando eu perto, levantei-o do chão. Ei-lo; aqui o vedes.

IAGO — És uma rapariga e tanto! Dá-mo.

EMÍLIA — Que pretendeis fazer com ele, para que me pedísseis com tamanho empenho que o escamoteasse?

IAGO — E que vos importa isso?

(Arrebata-lhe o lenço.)

EMÍLIA — Se não for para alguma coisa boa, restituí-mo. Coitada da senhora! Ficará louca ao dar por falta dele.

IAGO — Finge que nada sabes. Tenho emprego para ele. Podes ir. (Sai Emília.) Dentro do quarto de Cássio jogarei o lenço, para que ele o venha a encontrar. As ninharias leves com o ar, para quem tem ciúmes, são verdades tão firmes como trechos da sagrada Escritura. Disto pode sair alguma coisa. Meu veneno já produziu alterações no Mouro. Certos conceitos são por natureza verdadeiros venenos que, de inicio, não provocam nenhuma repugnância, mas logo que no sangue atuam, queimam como mina de enxofre. Não me engano. Ei-lo que chega! (Entra Otelo.) Agora, nem papoula, mandrágora, nem todos os xaropes sonolentos do mundo poderiam dar-te de novo o doce sono de ontem.

OTELO — Ah! Ah! Ela, enganar-me?

IAGO — Então, meu general? Parai com isso.

OTELO — Retira-te! Retira-te! Puseste-me a tratos. Pelo céu, é preferível ser enganado muito, a saber pouco do que se passa.

IAGO — Como, meu senhor?

OTELO — Que percepção eu tinha de suas horas roubadas de luxúria? Não sabia de nada, não pensava em coisa alguma, nada me compungia. A noite toda dormia bem; livre me achava e alegre. Não encontrava em sua boca os beijos de Cássio. Quem não dá por falta nunca de algo que lhe tirassem, continue na ignorância, pois nunca foi roubado.

IAGO — Entristece-me ouvir-vos.

OTELO — Feliz teria sido, muito embora todo o campo, inclusive a recovagem, lhe tivesse provado o doce corpo, sem que eu conhecimento houvesse disso. Oh! mas agora, adeus tranqüilidade de espírito! Oh! Adeus, contentamento! Para sempre. Adeus, tropas de penacho, exércitos altivos, que em virtude mudam toda ambição! Adeus! Adeus! Adeus cavalos relinchantes, trompas belicosas, tambores animosos, pífaros estrindentes, reais bandeiras, tudo o que o orgulho constitui, a pompa e a aparelhagem da gloriosa guerra! E a vós também, adeus, mortais engenhos, cujas rudes gargantas os estrondos terrorantes imitam do alto Jove: a obra de Otelo já não tem sentido.

IAGO — É possível, senhor?

OTELO — Infame, dá-me a prova de que minha mulher é prostituta. Fica certo: quero prova evidente; ou, pelo mérito de minha alma imortal, melhor te fora teres nascido cão que responderes agora à minha cólera desperta.

IAGO — Chegamos a esse ponto?

OTELO — Quero prova visível ou, no mínimo, uma coisa que não tenha nem gancho nem presilha onde a dúvida possa pendurar-se. Se não, ai de tua vida!

IAGO — Muito nobre senhor...

OTELO — Se a caluniaste e me torturas, rezar já não precisas; abandona todo o remorso; sobre o horror empilha novos horrores; com teus crimes faze chover o céu, estarrecer a terra: não acrescentarás mais nada à tua condenação que aquilo sobrepuje.

IAGO — Oh Graça! Céu, ampara-me! Sois homem? Tendes alma e sentidos! Deus vos guarde. Tirai-me o posto. Ó desgraçado idiota, teres vivido até hoje, para veres tachar de vício tua honestidade! Mundo monstruoso! Toma nota, mundo! É perigoso ser sincero e honesto. Agradeço a lição; mas doravante renuncio à amizade, pois ofensa pode causar quem nisso menos pensa.

OTELO — Não, fica; deverias ser honesto.

IAGO — Não; devera ser sábio. A honestidade, como tolo, ao patrão só dá prejuízo.

OTELO — Pelo mundo! Ora penso que é virtuosa, ora penso que é infiel; sincero te acho, e, ao mesmo tempo, falso. Quero provas. O nome dela, que era tão singelo como o rosto de Diana, ora se encontra como meu próprio rosto: negro e sujo. Se cordas ainda houver, facas, veneno, fogo ou água asfixiante, então não hei de suportar esse insulto. Oh! se eu tivesse uma prova qualquer!

IAGO — Meu senhor, vejo que a paixão vos corrói. Arrependido me sinto por ter sido a causa disso. Quereríeis a prova?

OTELO — Quereria, não; quero!

IAGO — Podeis tê-la. De que modo? Como haveis de vos dar por convencido? Aberta a boca, ficareis no posto de espectador estúpido, no instante em que ela for coberta?

OTELO — Morte e inferno.

IAGO — Quero crer que seria uma tarefa assaz dificultosa convencê-los a se deixarem ver sob esse aspecto. O demo que os carregue, se possível for a olhar de mortais, tirante o deles, vê-los deitados juntos. Que me resta para dizer? Que provas posso dar-vos? Não vos será possível ver tal coisa, embora ardentes fossem como bodes, quentes como macacos, luxuriosos como lobos no cio e tão grosseiros como o ser mais alvar, quando embriagado. Contudo, vos direi, se alguns indícios, circunstâncias de peso, que conduzem diretamente à porta da verdade vos deixarem convicto, haveis de tê-las.

OTELO — Dá-me uma prova real de que ela é falsa.

IAGO — Não me agrada esse ofício. Mas já que fui tão longe nesse caso, levado pela honestidade estúpida e a amizade, tão-só, não me detenho. Passei com Cássio uma das noites últimas; mas por estar sentindo dor de dentes, não podia dormir. Ora, há pessoas de alma tão largada que no sono revelam seus negócios. Cássio é dos tais; pois estando a dormir, ouvi quando ele murmurava: “Desdêmona querida, sejamos cautelosos, encubramos bem nosso amor!” Então, senhor, pegando-me das mãos e as apertando, suspirava: “Oh criatura adorável!” e beijava-me com tamanho furor, como se os beijos pela raiz colhesse de meus lábios. Depois, a perna colocou por cima de minha coxa, suspirou, beijou-me de novo e disse: “Oh fado amaldiçoado, que te foi entregar para esse Mouro!”

OTELO — Oh! Monstruoso! Monstruoso!

IAGO — Mas tudo isso era somente sonho.

OTELO — Sim, mas sonho que experiências passadas nos inculcam; suspeita atroz, embora só de sonhos.

IAGO — E que podem deixar mais consistentes outras provas que tênues ainda se achem.

OTELO — Vou deixá-la em pedaços.

IAGO — Sede cauto; ainda não vimos nada; é bem possível que seja honesta. Ora dizei-me apenas o seguinte: não vistes porventura na mão de vossa esposa, algumas vezes, um lenço com bordados de morangos?

OTELO — Dei-lhe um assim; foi meu primeiro mimo.

IAGO — Ignorava esse fato; porém tenho certeza plena de ter hoje visto Cássio passar na barba um lenço desses, que foi de vossa esposa.

OTELO — Se era o mesmo...

IAGO — O mesmo, ou outro qualquer dos lenços dela, é prova muito forte, ao lado de outras.

OTELO — Oh! Se a escrava tivesse dez mil vidas! Uma só será pouco, muito pouco, para minha vingança. Agora vejo que tudo era verdade. Iago, olha aqui: sopro assim para o céu meu amor néscio; já não existe. Negra vingança, surge do oco inferno! Passa tua coroa, ó amor, e o trono do coração para o ódio mais ferino! Intumesce-te, peito, com tua carga de línguas de serpentes!

IAGO — Ficai calmo.

OTELO — Oh! Sangue! sangue! sangue!

IAGO —Ficai calmo, torno a dizer; podeis mudar de idéia.

OTELO — Jamais, Iago. Tal como o Ponto Euxino, cuja corrente fria e o forte curso não se ressentem do refluxo nunca, e seguem sem parar para a Propôntida, para o Helesponto: assim meus pensamentos sanguinários, com passos furibundos avançam sempre, sem jamais olharem para trás nem refluírem para o amor, até que uma vingança avassalante e ampla os envolva e absorva. (Ajoelhando-se.) Por aquele céu de mármore, empresto a essas palavras a gravidade de um sagrado voto.

IAGO — Não vos levanteis ainda. (Ajoelha-se.) Testemunhas me sede, luzes sempiternas do alto; vós, também, elementos, que por todas as partes nos cingis: Iago dedica as mãos, o coração e todo o espírito ao ultrajado Otelo. Dando ele ordens, por mais cruéis que sejam, será caso, para mim, de consciência, obedecer-lhe.

OTELO — Agradeço teu voto, não com termos formais, apenas, mas com sentimento de gratidão, estando decidido a recorrer já aos teus serviços: nestes três dias quero que me digam que Cássio já morreu.

IAGO — Morto está meu amigo; será feita vossa vontade. Mas poupai Desdêmona.

OTELO — Que baixe para o inferno essa lasciva prostituta! Que baixe para o inferno! Fica à parte comigo; retirar-me desejo, para refletir nalguma modalidade suave de extermínio para esse belo diabo. Doravante serás o meu tenente.

IAGO — E eu me declaro vosso por toda a vida.

(Saem.)

Cena IV

Diante do castelo. Entram Desdêmona, Emília e o bobo.

DESDÊMONA — Maroto, por acaso sabes onde pousa o tenente Cássio?

BOBO — Não me atrevo a dizer que ele pouse em qualquer parte.

DESDÊMONA — Por quê, homem?

BOBO — Por ser ele soldado; dizer que um soldado pousa, é arriscar-se a ser apunhalado.

DESDÊMONA — Vamos, dize, maroto! Onde ele mora?

BOBO — Se eu vos dissesse onde ele mora, era o mesmo que dizer onde iria pôr o pescoço.

DESDÊMONA — Haverá quem possa entender isso?

BOBO — Não sei onde ele mora; se lhe atribuísse qualquer morada e vos dissesse que ele se deita neste ou naquele lugar, seria pôr em risco o próprio pescoço.

DESDÊMONA — E não poderias informar-te a esse respeito?

BOBO — Vou catequizar o mundo inteiro a respeito dele, isto é, apresentar perguntas e responder a elas.

DESDÊMONA — Vai procurá-lo e dizer-lhe que venha até aqui. Participa-lhe que eu já deixei meu marido inclinado a seu favor, e que espero termine tudo bem.

BOBO — Semelhante incumbência cai dentro do âmbito do entendimento humano; por isso vou tentá-la. (Sai.)

DESDÊMONA — Onde eu deixei aquele lenço, Emília?

EMÍLIA — Não sei, minha senhora.

DESDÊMONA — Podes crer: preferira ter perdido minha bolsa, repleta de cruzados. Não fosse ter meu pobre Mouro o espírito estreme de suspeita e das escórias das criaturas ciumentas, essa perda poderia inspirar-lhe pensamentos de todo maus.

EMÍLIA — Ele não é ciumento?

DESDÊMONA — Quem? Ele? Ao vir ao mundo, estou bem certa, o sol lhe retirou do sangue todos os humores do ciúme.

EMÍLIA — Ei-lo que chega!

DESDÊMONA — Não o deixarei, enquanto no seu posto não tiver sido Cássio reintegrado. (Entra Otelo.) Como passais, senhor?

OTELO — Dai-me essa mão. Úmida está, senhora.

DESDÊMONA — Até este instante, não conheceu velhice nem cuidados.

OTELO — Isso revela desperdício e, em tudo, coração liberal. Úmida e quente! Esses sinais indicam que é preciso cercear a liberdade e, assim, impor-vos jejuns e rezas, pios exercícios e mortificações, pois um demônio suarento aqui demora, que costuma rebelar-se. A mão tendes muito boa, muito franca, em verdade.

DESDÊMONA — A vós assiste razão para afirmá-lo, pois foi ela que de meu coração vos fez presente.

OTELO — Mão liberal. Os corações antigos davam mãos; mas a nova ciência heráldica de coração carece; só tem mãos.

DESDÊMONA — Sobre isso nada entendo. Mas falemos outra vez da promessa.

OTELO — Que promessa, minha pomba?

DESDÊMONA — Mandei recado a Cássio, para vos vir falar.

OTELO — Estou sofrendo de um catarro importuno. Por obséquio, empresta-me teu lenço.

DESDÊMONA — Ei-lo, senhor.

OTELO — Aquele que vos dei.

DESDÊMONA — Não o tenho aqui.

OTELO — Não?

DESDÊMONA — Realmente, senhor.

OTELO — É grande falta. Esse lenço foi dado a minha mãe por uma egípcia. Era uma feiticeira que podia ler, quase, os pensamentos das pessoas. Disse-lhe, então, que enquanto o conservasse, grata a meu pai seria, e ao amor dela preso o teria sempre. Mas no caso de perdê-lo ou presente fazer dele, os olhos de meu pai com repugnância passariam a vê-la e seu espírito correria após outras fantasias. Ao morrer, minha mãe mo deu de herança, tendo recomendado que, no instante em que o destino me trouxesse esposa, com ele a presenteasse, o que já fiz. Tomai cuidado, pois, e o tende sempre como jóia tão cara quanto os olhos. Perdê-lo ou dá-lo a alguém fora desgraça de proporções incríveis.

DESDÊMONA — É possível?

OTELO — É como estou dizendo. Seu tecido contém virtude mágica; por uma sibila que na terra já contara do sol duzentas voltas foi bordado durante acessos de furor profético. De vermes consagrados viera o fio, que tinto foi no suco retirado de corações de virgens e habilmente conservado até então.

DESDÊMONA — Realmente! É certo?

OTELO — Mais do que certo. Assim, tomai cuidado.

DESDÊMONA — Quem dera, então, que nunca o houvesse visto!

OTELO — Oh! Por quê?

DESDÊMONA — Por que causa me falais assim brusco e violento?

OTELO — Foi perdido? Como? Dizei-me: não podeis achá-lo?

DESDÊMONA — O céu nos abençoe.

OTELO — Que disseste?

DESDÊMONA — Perdido não se encontra. Mas, no caso...

OTELO — Como?

DESDÊMONA — Repito: não está perdido.

OTELO — Então trazei-o aqui; desejo vê-lo.

DESDÊMONA — Ora, senhor; faria, se o quisesse; mas não agora. Vejo que isso é um meio para que eu não vos faça meu pedido. Por obséquio, chamai de novo Cássio.

OTELO — Ide buscar o lenço; meu espírito pressente algo funesto.

DESDÊMONA — Vamos, vamos; não achareis ninguém mais competente.

OTELO — O lenço!

DESDÊMONA — Por favor, falai de Cássio.

OTELO — O lenço!

DESDÊMONA — Uma pessoa que durante toda a vida fundou sua fortuna. sobre vossa amizade e sempre esteve nos perigos convosco.

OTELO — O lenço, digo!

DESDÊMONA — Sois digno de censura.

OTELO — Fora! Fora! (Sai.)

EMÍLIA — Então este homem não será ciumento?

DESDÊMONA — Nunca o vi assim antes. É certeza conter aquele lenço algo de extraordinário. Desolada me sinto com sua perda.

EMÍLIA — Nem dois anos são suficientes para conhecermos os homens. São estômago, somente, e nós, os alimentos. Todos eles nos devoram com ânsia; mas, repletos, nos vomitam. Oh! Cássio e meu marido!

(Entram Iago e Cássio.)

IAGO — Não há outro caminho senão esse; ela há de consegui-lo. Oh! Quanta sorte! Insisti junto dela.

DESDÊMONA — Então, bom Cássio, que há de novo convosco?

CÁSSIO — Ainda e sempre, minha senhora, aquele meu pedido. Peço-vos que, por vossa interferência virtuosa, eu existir outra vez possa, voltando a ser um membro da amizade de quem com todo o coração venero. Basta de dilações; se minha falta tão mortal se afigura, que os serviços passados, as tristezas do presente e a determinação de comportar-me melhor para o futuro não conseguem devolver-me a amizade de meu chefe, que ao menos disso eu possa ter certeza. Já me fizera bem, pois assumira alegria forçada e me dispunha a aguardar o que a sorte me aprestasse por vias diferentes.

DESDÊMONA — Oh, três vezes amável Cássio! Minha intercessão, neste momento, está desafinada. Otelo está mudado; não me fora fácil reconhecê-lo, se o caráter alterado tivesse como o rosto. Tão certo como eu desejar a ajuda dos espíritos do alto, vossa causa foi por mim defendida com carinho, chegando eu, até mesmo, a transformar-me no alvo do seu desgosto pela minha franqueza de falar. É necessário mostrardes-vos paciente. Farei quanto me for possível; farei mais, ainda, do que me atreveria em causa própria. Que isso vos satisfaça por enquanto.

IAGO — O general acaso está irritado?

EMÍLIA — Saiu daqui agora mesmo e, certo, num estado de estranha agitação.

IAGO — Ele, irritado? É incrível. Muitas vezes, muitas, vi o canhão lançar seus homens pelos ares e, como atroz demônio, seu próprio irmão dos braços arrancar-lhe. Mostrar-se ele irritado? Alguma coisa de grave aconteceu. Vou procurá-lo. Se está irritado, é que há motivo sério.

DESDÊMONA — Faze isso, por obséquio. (Sai Iago.) Algum negócio, certamente, de Estado, ou de Veneza, ou conluio, talvez, aqui de Chipre turvou-lhe o claro espírito. Em tais casos, da natureza humana é muito próprio irritar-se por coisas despiciendas, quando se ocupa com razões de peso. É sempre assim. Quando nos dói o dedo, aos membros sãos ele transmite o incômodo. Não pensemos que os homens sejam deuses; esperar deles não podemos sempre tratamento de noivos. Mas tens muita razão, Emília, para censurar-me, pois me portei como guerreira injusta, na alma o acusando de ter sido duro; mas vejo que peitei as testemunhas e o acusei falsamente.

EMÍLIA — Praza aos céus que só sejam, mesmo, assuntos de Estado, como credes, não caprichos nem veneta de ciúme, que vos digam respeito mui de perto.

DESDÊMONA — Oh dia infausto! Nunca lhe dei motivo para tanto.

EMÍLIA — Mas os ciumentos não atendem a isso; não precisam de causa para o ciúme: têm ciúme, nada mais. O ciúme é monstro que se gera em si mesmo e de si nasce.

DESDÊMONA — Que o céu proteja o espírito de Otelo de semelhante monstro.

EMÍLIA — Amém, senhora.

DESDÊMONA — Vou procurá-lo. Neste em meio, Cássio, ficai passeando aqui. Se o achar disposto, pleitearei vossa causa, sem recurso nenhum deixar de lado.

CÁSSIO — Agradecido vos fico humildemente.

(Saem Desdêmona e Emília.)

(Entra Bianca.)

BIANCA — Bom dia, amigo Cássio.

CÁSSIO — Que negócios vos tiraram de casa? Como passa minha formosa Bianca? Francamente, caro amor, ia agora procurar-vos.

BIANCA — E a vossa casa eu também ia, Cássio. Uma semana ausente? Sete dias e sete noites? Cento e sessenta horas com mais oito de quebra? E horas passadas longe do amante, que mais longas são cento e sessenta vezes do que as horas do mostrador. Oh cálculo penoso!

CÁSSIO — Bianca, perdão. Todo esse tempo estive premido por preocupações de chumbo. Mas quando eu dispuser de alguma folga, riscarei essas dívidas da ausência. Querida Bianca, (Dando-lhe o lenço de Desdêmona.) tira cópia disto.

BIANCA — De onde veio isto, Cássio? Algum presente, decerto, de outra amiga. Agora entendo o motivo da ausência tão sentida. Chegamos a esse ponto? Muito bem.

CÁSSIO — Saí daí, mulher! Jogai aos dentes do diabo vossas infernais suspeitas, pois dele as recebestes. Só ficastes com ciúme por pensardes que é lembrança de alguma amiga. Podeis crer-me, Bianca, juro que não.

BIANCA — Então, a quem pertence?

CÁSSIO — Não sei, querida; achei-o no meu quarto. Mas gostei do trabalho; e antes que o venham reclamar — o que certo não demora — quero mandar copiar esse desenho. Levai-o, pois, deixando-me sozinho.

BIANCA — Deixar-vos? Para quê?

CÁSSIO — Espero aqui o general e penso de nenhuma vantagem ser por ele visto na situação de amaridado.

BIANCA — E o motivo, senhor?

CÁSSIO — Não é por falta de amor da minha parte.

BIANCA — É só por falta de amor da vossa parte. Por obséquio, acompanhai-me um pouco e declarai-me se ainda vos verei antes da noite.

CÁSSIO — Não posso acompanhar-vos muito longe, pois neste ponto o espero. Será logo.

BIANCA — Que assim seja; terei de conformar-me.

(Saem.)

ATO IV

Cena I

Chipre. Diante do Castelo. Entram Otelo e Iago.

IAGO — Será crível tal coisa?

OTELO — Crível, Iago?

IAGO — Beijar às escondidas!

OTELO — Foram beijos proibidos.

IAGO — Ou ficar uma hora ou duas nua no leito, ao lado de um amigo, sem ruins intenções.

OTELO — Nua no leito, sem ruins intenções? Hipocrisia fora, com relação ao próprio diabo. Os que assim fazem com tenções virtuosas, a virtude lhes tenta o diabo, enquanto tentam eles o céu.

IAGO — Se nada fazem é um pecado venial. Porém no caso de eu dar um lenço à minha esposa...

OTELO — E então?

IAGO — Ora, senhor; seria dela o lenço. E, dela sendo, penso que podia dá-lo a quem entendesse.

OTELO — Da própria honra ela é também guardiã. Por isso pode fazer presente dela?

IAGO — A honra é uma essência que não cai na vista. Muitas vezes a tem quem nunca a teve. Mas quanto ao lenço...

OTELO — Pelo céu! Mui de grado me esquecera de semelhante coisa. Ias dizendo — Oh! à memória me retorna o assunto como o corvo aos lugares emprestados. gritando a todos — que ele tem meu lenço?

IAGO — Bem; e depois?.

OTELO — É coisa muito grave.

IAGO — E que se dera se eu tivesse dito que ele vos ultrajara, ou que falara por aí fora, como certos biltres que — tendo conquistado alguma dama, ou por impertinência nos assaltos, ou com o consentimento dela própria. depois de convencida — de indiscretos falam por toda a parte.

OTELO — E ele, disse algo?

IAGO — Sim, senhor. Mas podeis ter a certeza de que não disse nada que não possa negar sob juramento.

OTELO — Que disse ele?

IAGO — Oh céu! Que tinham... Que sei eu?... Que tinha...

OTELO — Quê? Quê? Falai.

IAGO — Deitado...

OTELO — Quê! Com ela?

IAGO — Com ela ou em cima dela, o que quiserdes.

OTELO — Deitar-se ele com ela! Em cima dela! Dizemos que alguém se deita por cima dela, quando a está cobrindo. Deitar-se ele com ela! Oh! é asqueroso! O lenço... a confissão... o lenço! Confessar, e, pelo trabalho: forca! Primeiro, a forca; depois a confissão. Estou tremendo. A natureza não se deixaria abafar por sentimentos tão escuros, se não se tratasse de alguma advertência. Não me deixo abalar assim por meias palavras. Ora! Narizes, orelhas, lábios... Será possível? Confessai!... O lenço... Oh, diabo! (Cai com um ataque.)

IAGO — Trabalha, meu veneno! Trabalha! Desse modo é que pegamos os idiotas crédulos. E é assim, também, que muitas damas dignas e castas, sem senão, ficam faladas. Olá, senhor! Senhor, repito! Otelo! (Entra Cássio.) Então, Cássio?

CÁSSIO — Que é que houve?

IAGO — É um ataque de epilepsia que teve o general. Este é o segundo, pois já teve um ontem.

CÁSSIO — Friccionai-o nas têmporas.

IAGO — Deixemo-lo. Deve seguir seu curso a letargia, sem atropelos. Do contrário, em breve, com a boca ficará cheia de espuma, caindo, após, em furioso acesso de loucura. Ora vede: já se mexe. Ficai de lado por alguns instantes. Ele vai despertar. Após sua ida, quero falar-vos de um assunto grave. (Sai Cássio.) Como então, general! Não machucastes a cabeça?

OTELO — De mim estás zombando?

IAGO — Eu, zombando de vós? Não, pelo céu. Como homem, suportai vosso destino.

OTELO — O homem de chifres é animal, é monstro.

IAGO — Então numa cidade populosa há muitos desses animais e muitos monstros civilizados.

OTELO — Ele próprio o contou?

IAGO — Meu bom senhor, sede homem e lembrai-vos de que todo tipo de barba, quando sob a canga, pode puxar convosco o mesmo carro. Há no mundo milhões de homens que dormem à noite em camas de outrem, cujos donos juram que são unicamente suas. Vosso caso é melhor. Oh! é ironia do inferno, arqui-sarcasmo do demônio beijar uma rameira em leito limpo e imaginá-la casta. Não; preciso saber o que há; sabendo o que sou mesmo, sei o que vai ser dela.

OTELO — Tens razão; é assim mesmo.

IAGO — Ficai um pouco à parte; numa liça paciente confinai-vos. Enquanto vos acháveis dominado por vossa grande dor — paixão imprópria de um homem como vós — Cássio chegou. Mandei-o embora, dando uma desculpa para vosso desmaio, mas lhe disse que aqui voltasse para conversarmos, no que ele concordou. Ficai de espia e observai seus remoques e sarcasmos, o notável desdém que se lhe expande do rosto todo, pois pretendo agora levá-lo a relatar-me outra vez tudo: como, onde, de que modo, há quanto tempo, quantas vezes deitou-se e há de deitar-se com vossa esposa. Os gestos observai-lhe. Mas é preciso calma. Do contrário, direi que estais colérico e não tendes de homem coisa nenhuma.

OTELO — Ouves-me, Iago? Vou mostrar-me astucioso em minha calma, porém — estás me ouvindo? — sanguinário.

IAGO — Não será mal; mas tudo tem seu tempo. Não quereis afastar-vos? (Otelo se coloca à parte.) Bem; agora vou conversar com Cássio sobre Bianca, rapariga que vende seus favores para comprar, com a venda, pão e roupa. É doidinha por Cássio; mas é sina das prostitutas enganarem muitos para por um, também, serem logradas. Quando ouve falar dela, quase estoura de tanto rir. A postos; aí vem ele. (Volta Cássio.) Com isso Otelo vai ficar furioso; seus ciúmes ignorantes hão de errôneo sentido dar aos gestos e sorrisos do pobre Cássio e à sua leviandade. — Então, tenente, como estais agora?

CÁSSIO — Tanto pior, por me dardes esse título, cuja falta me mata.

IAGO — Com Desdêmona falai sobre isso, que obtereis o posto. (Abaixando a voz.) Se de Bianca o pedido dependesse, tudo se arranjaria num momento.

CÁSSIO — Ah! Coitadinha dela!

OTELO (à parte) — Vede! Vede! Já começou a rir.

IAGO — Mulher alguma já vi que tanto amor tivesse a um homem, como ela vos dedica.

CÁSSIO — Pobre diaba! Creio que ela, realmente, me idolatra.

IAGO — Escuta, Cássio.

OTELO (à parte) — Agora ele o importuna, para que a história conte por miúdo. Continuai. Muito bem!

IAGO — Ela assoalha por aí fora que ides desposá-la. Haverá sombra de verdade nisso?

CÁSSIO — Ah ah, ah!

OTELO (à parte) — Romano, estás triunfando? Estás triunfando?

CÁSSIO — Eu, casar-me com ela? Uma mulher pública? Por favor, sede mais complacente com meu espírito, não imaginando que ele esteja tão depravado. Ah, ah, ah!

OTELO (à parte) — Assim, assim ri quem está ganhando.

IAGO — É o que vos digo: corre por aí o boato de que ides desposá-la.

CÁSSIO — Por favor, deixai de brincadeira.

IAGO — Quero ser um biltre, se não estiver dizendo a verdade.

OTELO (à parte) — Já me pusestes o ferrete? Muito bem.

CÁSSIO — E aquela macaca mesma que anda dizendo isso. A idéia de que eu possa desposá-la nasceu de sua própria ilusão, não de qualquer promessa de minha parte.

OTELO (à parte) — Iago me fez um sinal; vai começar a história.

CÁSSIO — Neste momento ela esteve aqui; persegue-me por toda arte.Há dias eu estava na praia a conversar com certos venezianos, quando, de repente, surge essa coisinha e me salta ao pescoço, deste modo...

OTELO (à parte) — A suspirar: “Meu querido Cássio!” O gesto expressivo.

CÁSSIO — Ela se pendura em mim, gruda-me comigo e chora e me puxa e me repele deste modo... Ah, ah, ah!

OTELO (à parte) — Ele está contando agora como ela o puxou para o meu quarto. Oh! Estou vendo vosso nariz, mas não sei ainda para que cão hei de atirá-lo.

CÁSSIO — Preciso afastar-me dela.

IAGO — Santo Deus! Ei-la que vem chegando!

CÁSSIO — E uma outra doninha e, ainda por cima, perfumada. (Entra Bíanca.) Que pretendeis comigo, para me perseguirdes desse modo?

BIANCA — Que o diabo e sua mãe vos persigam! Que pretendeis fazer com aquele lenço que me destes há pouco? Fui uma grande tonta em aceitá-lo. E para eu tirar uma cópia, pois não? E terei de acreditar que o achastes em vosso quarto, sem saber quem o deixara ali... É presente de alguma sirigaita, e eu ainda terei de copiar o modelo! Pois aqui o tendes; dai-o a vossa queridinha. Tenha ele vindo de onde quer que seja, não copiarei coisa nenhuma.

CÁSSIO — Como assim, minha querida Bianca! Como assim!

OTELO (à parte) — Pelo céu! Pode ser o meu lenço!

BIANCA — E se quiserdes vir cear esta noite, podereis fazê-lo. Caso contrário, vireis quando tiverdes vontade. (Sai.)

IAGO — Correi atrás dela! Correi atrás dela!

CÁSSIO — É o que precisarei fazer; se não, ela se porá a dizer disparates por aí fora.

IAGO — Pretendeis cear em casa dela?

CÁSSIO — Em verdade, pretendo.

IAGO — Bem; é possível que nos encontremos lá, porque tenho grande necessidade de falar-vos.

CÁSSIO — Sim, por obséquio. Ireis lá?

IAGO — Parti logo; nem mais uma palavra.

(Sai Cássio.)

OTELO (avançando) — Como fazer para matá-lo, Iago?

IAGO — Percebestes como ele ria de seu próprio ato pecaminoso?

OTELO — Oh, Iago!

IAGO — E vistes o lenço?

OTELO — Era o meu?

IAGO — Sim, o vosso, por esta mão. Vede em que apreço ele tem a tonta da vossa esposa. Ela lhe fez presente do lenço, e ele o deu a outra pessoa.

OTELO — Desejaria levar nove anos a assassiná-lo. Uma mulher tão bela, tão encantadora, tão meiga!

IAGO — Será preciso esquecer tudo isso.

OTELO — Que ela apodreça, que morra, que seja condenada esta noite mesmo. Porque não continuará viva. Não! Meu coração já se tornou de pedra; ao golpeá-lo, sinto que me dói a mão. Oh! Não havia criatura mais doce em todo o mundo; era digna de compartilhar do leito de um imperador e de ditar-lhe leis.

IAGO — Estais vos afastando do assunto principal.

OTELO — Ela que se enforque! Disse apenas o que ela era. Tão habilidosa na agulha! Tão admirável na música! Oh! Com uma canção poderia domesticar um urso. Com um espírito tão rico e elevado, tão inventivo!

IAGO — Tudo isso só deixa mais censurável sua conduta.

OTELO — Sim, mil vezes mais. E de um caráter tão franco!

IAGO — Sim, muito franco.

OTELO — Sem dúvida. Mas, que pena, Iago! Que pena, Iago!

IAGO — Se vos encontrais tão apaixonado de sua iniqüidade, concedei-lhe patente para pecar, porque se não fordes atingido, ninguém mais o será.

OTELO — Vou deixá-la reduzida a cacos... Enganar-me!

IAGO — Oh! É abominável!

OTELO — Com o meu oficial!

IAGO — Mais abominável, ainda.

OTELO — Arranja-me algum veneno, Iago. Esta noite. Não quero ter com ela nenhuma explicação, de medo que seu corpo e seus encantos me desarmem a intenção. Esta noite, Iago.

IAGO — Não deveis recorrer a veneno; estrangulai-a no leito, no próprio leito que ela poluiu.

OTELO — Bem, bem; agrada-me essa justiça. Muito bem.

IAGO — Quanto a Cássio, deixai a meu cargo essa tarefa. Lá pela meia-noite ouvireis mais alguma coisa a esse respeito.

OTELO — Excelente. (Ouve-se dentro um toque de trombeta.) Que trombeta é essa?

IAGO — Notícia de Veneza, certamente. É Ludovico, enviado pelo doge. E vede! Vossa esposa vem com ele.

(Entram Ludovico, Desdêmona e séqüito.)

LUDOVICO — Deus vos guarde, mui digno general!

OTELO — De todo coração vos agradeço.

LUDOVICO — O doge e os senadores de Veneza vos enviam saudar. (Entrega-lhe uma carta.)

OTELO — Beijo este intérprete das ordens deles todos. (Abre a carta e lê.)

DESDÊMONA — E as novidades, bom primo Ludovico?

IAGO — Muito alegre, signior, me deixa vossa vista. Sois bem-vindo a Chipre.

LUDOVICO — Agradecido. E como passa o tenente Cássio?

IAGO — Senhor, vivo.

DESDÊMONA — Houve uma certa desavença, primo, entre ele e meu marido. Mas espero que possais conciliá-los.

OTELO — Tendes plena certeza disso?

DESDÊMONA — Como, meu senhor?

OTELO — “Não deixeis de fazê-lo, quando houverdes...”

LUDOVICO — Não vos chamou; a carta é que o preocupa.

DESDÊMONA — Muito de lastimar. Daria tudo para reconciliá-los, pelo afeto que diquei sempre a Cássio.

OTELO — Fogo e enxofre!

DESDÊMONA — Meu senhor?

OTELO — Sois discreta?

DESDÊMONA — Que acontece, para ele estar zangado?

LUDOVICO — Com certeza isso é efeito da carta, pois parece-me que ordem lhe veio de ir para Veneza, deixando Cássio aqui no lugar dele.

DESDÊMONA — Isso me alegra, podeis crer-me.

OTELO — É certo?

DESDÊMONA — Meu senhor?

OTELO — Eu também fico contente por vos ver louca.

DESDÊMONA — Por que causa, Otelo?

OTELO — Demônia! (Dá-lhe uma bofetada.)

DESDÊMONA — Mereci receber isso?

LUDOVICO — Houve excesso, senhor, de vossa parte. Ninguém acreditara isso em Veneza, muito embora eu jurasse que o observara. Desculpas lhe pedi; está chorando.

OTELO — Oh, demônio! Demônio! Se, com lágrimas de mulher fosse a terra fecundada, cada gota gerara um crocodilo. Fora da minha vista!

DESDÊMONA — Já que minha presença vos ofende, eu me retiro. (Faz menção de retirar-se.)

LUDOVICO — Que esposa tão cordata! Senhor, tende a bondade de chamá-la.

OTELO — Senhora!

DESDÊMONA — Que ordenais?

OTELO — Dizei-lhe agora que quereis dela.

LUDOVICO — Eu, meu senhor?

OTELO — Vós mesmo. Pedistes que a chamasse. Ei-la, senhor. Ela pode virar uma e mais vezes, ir embora, voltar de novo. Pode, também, chorar, senhor; chorar. É muito cordata. Assim dissestes. Mui cordata. Continuai a chorar. — No que respeita a este assunto, senhor — oh sentimento bem pintado! — chamado fui de novo. — Podeis sair! mandar-vos-ei recado dentro de pouco. — Acatarei as ordens, senhor, e voltarei para Veneza. — Fora daqui! Depressa! — (Sai Desdêmona.) Deixo Cássio no meu lugar. Cearemos juntos hoje, caro senhor. Sois mui bem-vindo a Chipre. Bodes e micos! (Sai.)

LUDOVICO — É esse o nobre Mouro que nossos senadores não se cansam de proclamar perfeito e capacíssimo? A criatura de prol que sacudida nunca é pelas paixões? Cuja virtude jamais foi atingida pelos tiros da sorte e os arremessos da fortuna?

IAGO — Está muito mudado.

LUDOVICO — Estará no uso perfeito da razão? Não terá fraca, porventura, a cabeça?

IAGO — Ele é o que é. Manifestar não devo o meu juízo. Se ele não é o que devera ser... Prouvera ao céu que o fosse!

LUDOVICO — Inconcebível! Bater na própria esposa!

IAGO — Isso, em verdade, não fica bem. Mas só quisera, mesmo, saber que o pior foi essa bofetada.

LUDOVICO — É sempre assim? Ou, porventura, a carta no sangue atuando, à fala deu origem?

IAGO — Ai de mim! Será quebra de lealdade revelar o que sei ou tenho visto? Vós mesmo o observareis; sua conduta vai revelá-lo tal como é, poupando-me, assim, de dizer algo. Mas segui-o, para ver de que modo ele prossegue.

LUDOVICO — Dói-me ter-me enganado a seu respeito.

(Saem.)

Cena II

Um quarto no castelo. Entram Otelo e Emília.

OTELO — Nada vistes, então?

EMÍLIA — Nem ouvi nada, nem suspeitas tive.

OTELO — Porém com Cássio a conversar já a viste.

EMÍLIA — Mas nada vi de mal, e todas, todas as sílabas ouvi que pronunciaram.

OTELO — Então não cochichavam?

EMÍLIA — Nunca, nunca, meu senhor.

OTELO — Nem mandavam que saísses?

EMÍLIA — Nunca, também.

OTELO — Para ir buscar o leque, sua máscara, a luva, ou qualquer coisa?

EMÍLIA — Nunca, senhor.

OTELO — É estranho.

EMÍLIA — Apostaria que ela é honesta, senhor, pondo minha alma, por causa dela, a tratos. Se outras coisas imaginais, tirai-as da cabeça, que vos causam distúrbio. Se algum biltre vos fez acreditar em tal absurdo, que faça o céu cair sobre ele a própria maldição da serpente. Pois se honesta não for, casta e sincera, haver não pode marido algum feliz, porque a mais santa das esposas ainda é mais horrenda do que a própria calúnia.

OTELO — Vai chamá-la. (Sai Emília.) É uma sutil rameira, gabinete muito seguro, chave dos segredos mais íntimos. No entanto, ajoelhar pode para rezar. Já a vi nessa postura.

(Volta Emília com Desdêmona.)

DESDÊMONA — Que desejais, senhor?

OTELO — Aproximais-vos, minha pombinha.

DESDÊMONA — Que mandais que eu faça?

OTELO — Mostrai-me os olhos; frente a frente olhai-me.

DESDÊMONA — Que fantasia horrível é essa agora?

OTELO (a Emília) — Reassumi por um pouco vosso ofício, minha senhora, a sós alguns instantes deixando-nos procriar. Fechai a porta; tossi ou gritai “Hum!” se virdes gente. Vosso mister! Vosso mister! Depressa!

(Sai Emília.)

DESDÊMONA — De joelhos vos pergunto que é que exprime semelhante discurso. Entendo a cólera de vossas expressões, não as palavras.

OTELO — Ora, que és tu?

DESDÊMONA — Senhor, sou vossa esposa, vossa esposa leal e verdadeira.

OTELO — Vem jurar-me e condena-te, sim, para que, por um anjo te tomando, o diabo se tema de pegar-te. Assim, condena-te duas vezes, jurando que és honesta.

DESDÊMONA — O céu sabe de tudo.

OTELO — O céu bem sabe que és falsa como o inferno.

DESDÊMONA — Falsa como, meu senhor? Para quem? De que maneira vos tenho sido falsa?

OTELO — Oh céu! Desdêmona! Para trás! Para trás!

DESDÊMONA — Oh dia horrível! Por que chorais? Sou eu a causa dessas lágrimas, meu senhor? Se porventura suspeitais que meu pai tenha influído na ordem que vos mandaram a Veneza, não me imputeis a culpa. Se o perdestes, também eu o perdi.

OTELO — Se o céu tivesse querido pôr-me à prova de amarguras, mil cuidados e afrontas me fazendo cair sobre a cabeça, na miséria mais profunda até aos lábios me enterrando, e se me houvesse aprisionado e às minhas mais caras esperanças, eu teria nalguma parte de minha alma achado ao menos uma gota de paciência. Mas, ai! na estátua imóvel transformar-me que com o dedo que aos poucos se desloca marca a hora do escarninho... Também isso pudera suportar. Bem; muito bem. Mas onde eu tinha enceleirado o próprio coração, de onde eu tinha de ter vida, se morrer não quisesse; o nascedoiro que meu curso alimenta, para que ele não se resseque... Ser dali expulso, ou conservá-lo como uma cisterna cheia de horríveis sapos, que se juntam para reproduzir!... Empalidece paciência, querubim de lábios róseos, e enfarruscada fica como o inferno!

DESDÊMONA — Estou certa de que meu nobre esposo me considera honesta.

OTELO — Oh, sim! Sem dúvida! como as moscas no açougue, que recebem vida da podridão. Ó erva daninha, tão bela ao parecer e tão cheirosa que ofendes os sentidos! Oh! se nunca tivesses vindo ao mundo!

DESDÊMONA — Que pecado cheguei a cometer, sem que o soubesse?

OTELO — Teria sido feito um tão formoso papel, tão belo livro, para nele ficar escrito o nome “Prostituta”? Que cometeste? Como! Cometeste, mulher pública? Destas minhas faces faria fráguas que reduziriam a cinzas a modéstia, se eu chegasse a dizer o que fazes. Cometeste? Tapa o nariz o céu; a lua, os olhos; o zéfiro lascivo que, à passagem, beija tudo o que encontra, se acomoda no oco das minas para que não saiba tudo o que fazes. Como! Que fizeste, rameira descarada?

DESDÊMONA — Injustamente me acusais, pelo céu.

OTELO — Não sois rameira?

DESDÊMONA — Não; tão verdade, como eu ser cristã. Se este vaso guardar para o meu dono imune de qualquer contacto impuro for não ser prostituta, não sou isso.

OTELO — Como! Não sois rameira?

DESDÊMONA — Não; tão certo como quero ser salva.

OTELO — É então possível?

DESDÊMONA — Que o céu de nós se apiade.

OTELO — Nesse caso, peço perdão, pois tinha-vos tomado pela rameira astuta de Veneza que desposara Otelo. — E vós, senhora que o ofício oposto tendes de São Pedro na porteira do inferno! (Volta Emília.) Vós! Vós mesma! Já chegamos ao fim. Eis vossa paga. Passai a chave, por obséquio, e sede discreta nisto tudo. (Sai.)

EMÍLIA — Oh céus, que idéia veio a este cavalheiro? E vós, senhora, como vos encontrais? Que estais sentindo?

DESDÊMONA — Por minha fé, com muito sono.

EMÍLIA — Boa senhora, que acontece com meu amo?

DESDÊMONA — Com quem?

EMÍLIA — Ora, senhora; com meu amo.

DESDÊMONA — Quem é teu amo?

EMÍLIA — O vosso, boa dama.

DESDÊMONA — Amo não tenho, Emília; não me fales. Chorar não me é possível e não posso responder a não ser com muitas lágrimas. Por obséquio, esta noite põe na cama meu vestido de noiva. Não te esqueças. E chama teu marido.

EMÍLIA — Que mudança radical houve aqui! (Sai.)

DESDÊMONA — É muito justo que ele me trate assim; é muito justo. Que fiz eu para que ele pendurasse sua menor suspeita no mais ínfimo descuido meu?

(Volta Emília, com Iago.)

IAGO — Que desejais, senhora? Como passais?

DESDÊMONA — Dizer não posso nada. Os que educam crianças usam meios brandos e lhes impõem tarefas curtas. Ele bem poderia ter ralhado comigo desse modo, que, em verdade, sou como criança para ouvir censuras.

IAGO — Que aconteceu, minha senhora?

EMÍLIA — Oh, Iago! Chamou-a o general de prostituta e o rosto lhe atirou tão baixos termos, pesados e insultuosos, que um sincero coração suportar não poderia.

DESDÊMONA — Sou esse nome, Iago?

IAGO — Bela dama, que nome?

DESDÊMONA — O nome que ela disse há pouco, que o meu senhor dissera a meu respeito.

EMÍLIA — Chamou-lhe prostituta. Essa palavra nem mesmo um vagabundo, embriagado aplica à sua amásia.

IAGO — E a razão disso?

DESDÊMONA — Ignoro-a; porém sei que não sou isso.

IAGO — Não choreis! Não choreis! Oh dia triste!

EMÍLIA — Ter renunciado a tantos casamentos, ao próprio pai, à pátria, aos conhecidos, para chamada ser de prostituta! Não é para fazer chorar a gente?

DESDÊMONA — É o meu triste destino.

IAGO — Caiam nele todas as maldições. E de que modo lhe veio essa loucura?

DESDÊMONA — O céu o sabe.

EMÍLIA — Quero ser enforcada se tudo isso não for obra de algum vilão diabólico, de algum pulha insinuante e intrometido, de algum escravo que rasteja e adula para alcançar um posto e haja inventado semelhante calúnia. Que me enforquem, se não for isso.

IAGO — Ora essa! Não existe um bomem desse jeito. Não é possível.

DESDÊMONA — E caso exista, o céu que lhe perdoe.

EMÍLIA — Perdoe-lhe mas é a forca e lhe corroa o inferno os ossos todos. Por que causa lhe chamou prostituta? Que pessoa recebeu ela? Em que lugar? que tempo? sob que pretexto? O Mouro foi logrado por algum miserável, algum pulha de baixeza notória, algum tinhoso. Ó céu! por que não nos descobres o homem e um chicote não pões na mão de todas as pessoas honestas, porque o biltre seja açoitado, nu, por todo o mundo, de leste a oeste?

IAGO — Não faleis tão alto, que ouvir podem lá fora.

EMÍLIA — Que ouçam todos! Um tipo desses foi que vosso espírito virou no avesso, a suspeitar levando-vos de que eu com o Mouro tinha alguma coisa.

IAGO — Sois bem louca. Saí!

DESDÊMONA — Ó bondoso Iago, como devo fazer para que possa reaver o meu marido? Ide falar-lhe, meu caro, pois, por esta luz celeste, não sei como o perdi. Aqui me ajoelho. Se a seu amor, em qualquer tempo, a minha vontade transgrediu, ou pelos meandros do pensamento ou por ações concretas; se pelos olhos ou qualquer sentido me veio algum prazer com referência a outra pessoa que não fosse a dele; se como até hoje, agora e em todo o tempo não lhe dedico o afeto mais sincero, muito embora a atirar-me ele ainda venha ao divórcio indigente: que a alegria de todo me abandone. A grosseria consegue muito; sua austeridade pode destruir-me a vida, mas não há de jamais manchar-me o amor. Dizer não posso “Prostituta”; horroriza-me somente pronunciar esse termo, sem que todas as vaidades do mundo conseguissem levar-me a realizar o menor ato que me fizesse merecer tal nome.

IAGO — Sossegai; é um capricho passageiro; os negócios do Estado o irritam muito; por isso vos repreende.

DESDÊMONA — Oh! se fosse isso!

IAGO — Posso afiançar-vos; é isso, tão-somente. (Trombetas.) Ouvi! É o toque que anuncia a ceia. Os mensageiros de Veneza aguardam para serem servidos. Ide logo; não choreis; tudo ainda acaba bem.

(Saem Desdêmona e Emília.)

(Entra Rodrigo.)

RODRIGO — Acho que não estás procedendo lealmente comigo.

IAGO — Que tens a contestar?

RODRIGO — Todos os dias tu me logras com algum pretexto, Iago, parecendo-me, agora, que, muito longe de obteres para mim a vantagem da menor esperança, afastadas de mim todas as oportunidades. Estou decidido a não suportar por mais tempo semelhante situação, sem que me tenha convencido a digerir em silêncio tudo o que até agora venho sofrendo estupidamente.

IAGO — Quereis ouvir-me, Rodrigo?

RODRIGO — Em verdade, já vos ouvi demais, porque vossas palavras e vossas ações não têm nenhuma afinidade entre si.

IAGO — Acusais-me injustamente.

RODRIGO — Só digo o que é verdade. Dissipei toda a minha fortuna; as jóias que vos entreguei para que as désseis a Desdêmona, teriam bastado para corromper uma freira. Dissestes-me que ela as havia aceito e me destes esperanças e o consolo de uma aproximação e de favores para breve, sem que nada disso se concretize.

IAGO — Bem; continuai; muito bem!

RODRIGO — “Muito bem! Continuai!” Desse jeito, homem, não poderei continuar, nem vai muito bem coisa nenhuma. Por esta mão, afirmo que tudo isso é muito indecente e que já começo a perceber que estou sendo ludibriado.

IAGO — Muito bem.

RODRIGO — Torno a dizer que nada está muito bem. Vou procurar Desdêmona; se ela me devolver as jóias, paro com minhas pretensões e me arrependo das minhas solicitações ilícitas. Caso contrário, posso assegurar-vos, haveis de me dar satisfações.

IAGO — Já terminastes?

RODRIGO — Já, e não disse senão o que estou no firme propósito de realizar.

IAGO — Ora bem; começo a perceber que és um rapaz corajoso, e a partir deste momento passo a fazer de ti uma opinião mais lisonjeira do que antes. Dá-me a mão, Rodrigo; levantas-te contra mim uma objeção muito justa; no entanto, posso asseverar-te que tenho procedido com lisura neste negócio.

RODRIGO — Não parece.

IAGO — Realmente, concordo em que não parece, não sendo vossas suspeitas de todo carecentes de sentido e de sagacidade. Mas, Rodrigo, se possuis o que mais do que nunca eu tenho razões para imaginar que possuis, a saber: iniciativa, coragem e valentia, prova-o esta noite. Se na próxima noite não vieres a possuir Desdêmona, tira-me traiçoeiramente deste mundo e inventa suplícios para fazer-me morrer.

RODRIGO — Bem, de que se trata? É alguma coisa razoável e possível?

IAGO — Senhor, veio uma ordem especial de Veneza, para que Cássio fique no lugar de Otelo.

RODRIGO — Isso é verdade? Nesse caso Otelo e Desdêmona terão de voltar para Veneza.

IAGO — Oh, não! Ele vai para a Mauritânia e levará consigo a bela Desdêmona, a menos que sua permanência aqui seja prolongada por algum acidente, não havendo nenhum mais decisivo do que o afastamento de Cássio.

RODRIGO — E que entendeis por isso: “O afastamento de Cássio?”

IAGO — Ora, ficar incapaz de ocupar o lugar de Otelo, por lhe terem estourado os miolos.

RODRIGO — E é isso que desejais que eu faça?

IAGO — Sim, no caso de quererdes tirar partido com o exercício de vosso diretor. Hoje à noite ele vai jantar em casa de uma cortesã, onde pretendo visitá-lo. Ainda não sabe nada a respeito de sua honrosa felicidade. Se quiserdes ficar de espreita no momento em que ele se dirigir para lá o que arranjarei que se dê entre as doze e uma hora — podereis surpreendê-lo com segurança. Estarei por perto, para auxiliar-vos no ataque, sendo certeza que não nos escapará. Vamos, não fiqueis tão estupefacto; vinde comigo. Vou demonstrar-vos de tal modo a necessidade da morte dele, que vos sentireis na obrigação de matá-lo. Mas já estamos mais do que em tempo de cear, e a noite corre. Mão à obra!

RODRIGO — Desejo que me apresenteis razões mais convincentes.

IAGO — Haveis de ficar satisfeito.

(Saem.)

Cena III

Outro quarto no castelo. Entram Otelo, Ludovico, Desdêmona, Emília e criados.

LUDOVICO — Não vos canseis, senhor, por minha causa.

OTELO — Não é trabalho; faz-me bem passear.

LUDOVICO — Senhora, boa noite! Humildemente me despeço de Vossa Senhoria.

DESDÊMONA — Vossa Honra é mui bem-vindo.

OTELO — Vamos logo, meu senhor? Oh, Desdêmona!

DESDÊMONA — Senhor?

OTELO — Ide deitar-vos imediatamente; voltarei neste instante. Mandai a camareira embora. Cuidai disso.

DESDÊMONA — Assim farei, meu senhor.

(Saem Otelo, Ludovico e os criados.)

EMÍLIA — E como vão as coisas? Ele mostra-se agora mais afável.

DESDÊMONA — Avisou-me de que voltava logo, tendo dito que me deitasse e, após, vos despedisse.

EMÍLIA — Despedir-me!

DESDÊMONA — Sim; foram suas ordens. Por isso, boa Emília, dá-me logo minha camisa de dormir, e adeus. Convém não contrariá-lo em coisa alguma.

EMÍLIA — Desejara que nunca o houvésseis visto.

DESDÊMONA — Pois eu não. A tal ponto o recomenda meu amor, que até mesmo suas teimas, repreensões e violências são dotadas de certa graça e encanto.

EMÍLIA — Pus na cama os lençóis que pedistes.

DESDÊMONA — Está bem. Oh céus! Como por vezes somos loucas! Caso eu venha a morrer primeiro, envolve-me num lençol destes.

EMÍLIA — Ora, que tolice, tudo isso!

DESDÊMONA — Minha mãe teve uma criada de nome Bárbara. Ela amou a um moço que a abandonou, por ser um doidivanas. Cantar soía a letra do salgueiro, balada antiga, porém mui de acordo com seu destino. E se finou cantando-a. Essa balada não me sai da mente toda esta noite. Tenho de conter-me, para a cabeça não deixar pendida e, como a pobre Bárbara, cantá-la. Põe pressa nisso. Vamos!

EMÍLIA — Trago vossa camisa de dormir?

DESDÊMONA — Não; tira todos os alfinetes. Esse Ludovico é bem apessoado.

EMÍLIA — Bem bonito.

DESDÊMONA — Conversa muito bem.

EMÍLIA — Conheço uma senhora de Veneza que iria a pé à Palestina, descalça, só por um ligeiro contacto de seu lábio inferior.

DESDÊMONA — A suspirar cantava a coitadinha à sombra do salgueiro. Canto de dor coração lhe vinha: Oh salgueiro! salgueiro! Triste, ouvia-a o regato todo o dia: Oh salgueiro! salgueiro! O pranto a pedra dura amolecia. Deixa esse de lado. Oh salgueiro! salgueiro! Mais pressa, por favor; ele já chega. De salgueiro farei minha coroa. Não o censureis, que o seu desdém me é grato. Não é a vez disso. Escuta! Quem bateu?

EMÍLIA — Foi o vento.

DESDÊMONA — Chamei-o de perjuro. E ele, que disse? Elas me vêem... Conquista-os... Que tolice! Vai-te embora. Boa noite. Doem-me os olhos. Será indício de choro?

EMÍLIA — Coisa alguma!

DESDÊMONA — Ouvi dizer que sim. Oh! Esses homens! Esses homens! Em sã consciência, Emília, dize-me se acreditas que haja esposas capazes de enganar os seus maridos por modo tão grosseiros?

EMÍLIA — Sim, há algumas, não há dúvida.

DESDÊMONA — E tu, farias isso, por todo o mundo?

EMÍLIA — Ora essa! Não o faríeis?

DESDÊMONA — Não; pela luz celeste.

EMÍLIA — O mesmo eu digo: não pela luz celeste. Poderia fazê-lo, mas no escuro.

DESDÊMONA — Então farias isso por todo o mundo?

EMÍLIA — O mundo todo é muita coisa; preço exorbitante para um pequeno vício.

DESDÊMONA — Não, não creio que tu sejas capaz de fazer isso.

EMÍLIA — Em verdade, penso que sim, para desfazer depois o que houvesse feito. Não faria tal coisa por uma aliança dupla, nem por alguns côvados de cambraia, nem por vestidos, saias e toucas, nem por qualquer presentezinho de pouca monta. Mas pelo mundo todo! Que mulher não enganaria o marido, para fazê-lo monarca? Para tanto, eu arriscaria o purgatório

DESDÊMONA — Maldita eu venha a ser, se fizer isso, por todo o mundo.

EMÍLIA — Ora, o ultraje só é ultraje no mundo; e se ganhásseis o mundo por vosso trabalho, seria um ultraje em vosso próprio mundo que poderíeis corrigir rapidamente.

DESDÊMONA — Não creio que haja uma mulher assim.

EMÍLIA — Sim, há uma dúzia delas, e com tantas de crescença, que foram suficientes para prover o mundo que por prêmio lhes fosse dado. Mas estou convicta de que os maridos é que são culpados da queda das esposas. Logo, afrouxam de seus deveres, em regaço estranho derramam nossos bens, ou então explodem em ciúme impertinente, ou nos impõem peias de todo gênero, ou nos batem, fazendo pouco de quanto antes éramos. Ora, nós temos fel; e ainda que boas, poderemos vingar-nos. Os maridos devem se convencer de que as esposas têm sentidos como eles: vêem e cheiram, distinguir sabem o que é azedo e doce, tão bem como os maridos. Que é que fazem todos eles, trocando-nos por outra? Será que é diversão? Penso que sim. Haverá nisso amor? É bem possível. Será a fraqueza que erra tanto neles? Justamente. Ora bem. E nós, acaso não temos afeições, prazer não temos para os divertimentos, ou fraqueza, tal como os homens? Eles que nos tratem, portanto, bem, e saibam que é com eles que aprendemos também a zombar deles.

DESDÊMONA — Bem, boa noite! O céu me ajude, para do mal tirar toda a virtude.

(Saem.)

ATO V

Cena I

Chipre. Uma rua. Entram Iago e Rodrigo.

IAGO — Fica atrás do pilar; ele vem logo. Arranca a tua boa espada e vibra-a com segurança. Vamos logo! Vamos! Não tenhas medo, que eu estarei por perto. Disso depende tudo, não te esqueças: ou subirmos agora, ou nos perdermos. Afirma-te, portanto, no propósito.

RODRIGO — Ficai perto, que eu posso errar o golpe. (Afasta-se.)

IAGO — Estou à mão. Coragem! Vai, esconde-te.

RODRIGO — Não me sinto inclinado a fazer isso. Mas razões suficientes ele deu-me. Será um de menos. Vamos, minha espada; sai logo da bainha! Vou matá-lo.

IAGO — Esfreguei tanto esta borbulha jovem, de quase a arrebentar. Está arruinado. Agora, se ele matar Cássio, ou Cássio o eliminar, ou os dois se trucidarem, ganharei dos dois lados. Se Rodrigo ficar vivo, virá pedir-me a volta de tudo o que me deu em ouro e jóias, e que dele eu tirei sob o pretexto de presentear Desdêmona. Isso não pode ser. Sobrando Cássio, beleza cotidiana tem na vida que me deixa horroroso, sem contarmos que o Mouro pode revelar-lhe tudo. Corro grande perigo. Não; precisa morrer. Que morra, então. Ei-lo que chega.

(Entra Cássio.)

RODRIGO — Conheço o passo dele. Morre, biltre! (Dá um bote em Cássio.)

CÁSSIO — Quase inimigo meu fora esse golpe, se mais duro não fosse o meu casaco do que pensavas. Vou provar o teu. (Saca da espada e fere Rodrigo.)

RODRIGO — Oh! Oh! Estou ferido!

(Iago, por trás de Cássio o fere na perna e sai.)

CÁSSIO — E eu, aleijado para sempre. Socorro, oh! Assassino! (Cai,)

(Entra Otelo, a distância.)

OTELO — É a voz de Cássio; Iago tem palavra.

RODRIGO — Que miserável sou!

OTELO — É assim, de fato.

CÁSSIO — Socorro Luz! Socorro! Um cirurgião!

OTELO — É ele. Ó valente Iago, honesto e justo! Que nobreza revelas ante o ultraje de teu amigo! Ensinas-me Pombinha, teu querido está morto e teu destino já se aproxima. Aqui vou eu, rameira! Do coração retiro o teu feitiço; teu sangue mau vai terminar tudo isso. (Sai.)

(Entram Ludovico e Graciano, a distância.)

CÁSSIO — Ronda, olá! Ninguém vem? Crime! Assassino!

GRACIANO — O grito é de aflição. É coisa grave.

CÁSSIO — Socorro!

LUDOVICO — Escutai!

RODRIGO — Vilão maldito!

LUDOVICO — São dois ou três gemidos. É noite alta; pode ser fingimentos. É perigoso ir até lá sem termos um reforço.

RODRIGO — Ninguém me acode? Morro dessangrado.

LUDOVICO — Escutai.

(Volta Iago, com uma luz.)

GRACIANO — Eis alguém em camisa, com luz e arma.

IAGO — Quem está aí? Quem grita por socorro?

LUDOVICO — Não o sabemos. Ouvistes algum grito?

CÁSSIO — Aqui! Socorro! Pelo céu, socorro!

IAGO — Que aconteceu?

GRACIANO — Parece que é o alferes do general Otelo.

LUDOVICO — Ele, em pessoa, rapaz de muito mérito.

IAGO — Que tendes, para gritar assim tão dolorido?

CÁSSIO — É Iago? Uns assassinos me assaltaram. Presta-me algum socorro.

IAGO — Ó tenente, quem foi que vos fez isso?

CÁSSIO — Penso que um deles deve estar por perto; não pode ter fugido.

IAGO — Oh, miseráveis! (A Ludovico e Graciano.) Quem Sois? Vinde ajudar-me.

RODRIGO — Socorro! Aqui! Socorro!

CÁSSIO — É um dos meliantes.

IAGO — Oh, vilão! Assassino! (Apunhala Rodrigo.)

RODRIGO — Maldito Iago! Cão desumano!

IAGO — Assassinar pessoas no escuro! Esses bandidos sanguinários por onde se meteram? Que silêncio nesta cidade! Acudam! Homicídio! E vós, quem sois? Amigos ou inimigos?

LUDOVICO — Para louvar-nos, ponde-nos à prova.

IAGO — É o signior Ludovico?

LUDOVICO — Ele mesmo.

IAGO — Peço desculpas, mas aqui está Cássio ferido por ladrões.

GRACIANO — Cássio?

IAGO — Mano, que tens?

CÁSSIO — Feriram-me na perna.

IAGO — O céu não queira que seja assim. Senhores, luz! Com minha camisa vou pensá-lo.

(Entra Bianca.)

BIANCA — Que acontece? Quem gritou por socorro?

IAGO — Quem gritou?

BIANCA — Oh meu querido Cássio! Doce Cássio! Cássio, Cássio, Cássio!

IAGO — Oh notável rameira! Cássio, tendes, porventura, suspeita de quem sejam os ladrões que aleijado vos deixaram?

CÁSSIO — Não.

GRACIANO — Pesa-me por achar-vos nesse estado, pois vinha procurar-vos.

IAGO — Emprestai-me uma liga. Está bem. Ah! Se pudéssemos carregá-lo daqui numa cadeira!

BIANCA — Oh, desmaiou! Oh Cássio, Cássio, Cássio!

IAGO — Cavalheiros, suspeito que esta coisa tem parte neste crime. Ficai calmo, bondoso Cássio. Vamos, vamos logo. Iluminai aqui. Conheceremos esta fisionomia? Oh! Meu amigo, meu conterrâneo! És tu, Rodrigo? Não é... Sim... Com certeza. Oh céus! Rodrigo!

GRACIANO — Aquele de Veneza?

IAGO — Justamente. Conhecei-lo?

GRACIANO — Decerto que o conheço.

IAGO — Signior Graciano? Peço-vos desculpas; estas cenas sangrentas justificam minha conduta, assim vos esquecendo.

GRACIANO — Estou contente por vos ver de novo.

IAGO — Cássio, como ides? A cadeira logo!

GRACIANO — Rodrigo!

(Trazem uma cadeira.)

IAGO — Ele, ele mesmo. Enfim, eis a cadeira! Com cuidado alguns homens caridosos o transportem daqui. Vou buscar logo o cirurgião do general. Senhora, quanto a vós, não vos deis tanto trabalho. Cássio, o ferido, e eu somos amigos. entre vós dois havia alguma coisa?

CÁSSIO — Nada no mundo; não conheço o homem.

IAGO (a Bianca) — Por que ficais tão pálida? — Oh! Tirai-o do vento! (Cássio e Rodrigo são carregados para fora.) Não vos retireis, senhores. Mudais de cor, senhora? — Percebestes que ar espantado tem? Se estais atônitos, cedo haveremos de saber mais coisas. Observai-a, senhores, por obséquio. Viste-la, cavalheiros? Sim, a culpa se trai, embora a língua fique muda.

(Entra Emília.)

EMÍLIA — Que aconteceu, marido? Que foi que houve?

IAGO — Cássio foi atacado aqui no escuro, por Rodrigo e outros tipos que escaparam. Está grave; Rodrigo a morrer veio.

EMÍLIA — Bom gentil-homem! Ah! Bondoso Cássio!

IAGO — Tudo isso é por ter sido mulherengo. Mas procura saber, Emília, logo, onde ele ontem ceou. Como! Tremestes?

BIANCA — Ceou comigo; mas não fiquei trêmula.

IAGO — Ah, foi assim? Então acompanhai-me.

EMÍLIA — Ora, rameira à-toa!

BIANCA — Não sou isso; sou tão honesta como quem me insulta.

EMÍLIA — Como eu? Não tens vergonha?

IAGO — Cavalheiros, tratemos de pensar o pobre Cássio. Vós, agora, senhora, ireis contar-nos uma outra história. Corre ao forte, Emília, e dize tudo ao meu senhor e à esposa. Quereis passar à frente? (À parte.) Minha sorte se decide hoje: ou caio, ou fico forte.

(Saem.)

Cena II

Um quarto de dormir, no castelo. Desdêmona dorme, no leito. Uma candeia acesa. Entra Otelo.

OTELO — Esta é a causa, minha alma. Oh! Esta é a causa! Não vo-la nomearei, castas estrelas! Esta é a causa! Não quero verter sangue, nem ferir-lhe a epiderme ainda mais branca do que neve e mais lisa que o alabastro. Mas é fatal que morra; do contrário, virá ainda a enganar mais outros homens. Apaga a luz! Depois... Apaga a luz! Se te apagar, ministro flamejante, poderei restituir-te a luz primeira, se vier a arrepender-me. Mas extinta que seja tua luz, ó tu, modelo primoroso da excelsa natureza! de onde o fogo trazer de Prometeu, para dar nova luz à tua chama? Se tua rosa colher, é-me impossível o vital crescimento restituir-lhe: fatal é que feneça. Vou aspirá-la no próprio galho. (Beija-a.) O hálito aromoso, que quase a convencer chegaste a própria Justiça a espedaçar a sua espada! Mais um! Mais um! Se assim ficares, morta, quero tirar-te a vida, e, após, amar-te. Mais outro; será o último; um tão doce jamais foi tão fatal. Chorar preciso lágrimas impiedosas; é celeste meu sofrimento, pois castiga ao que ama. Vai acordar!

DESDÊMONA — Quem está aí? Otelo?

OTELO — Sim, Desdêmona.

DESDÊMONA — Não vindes para o leito, meu senhor?

OTELO — Desdêmona, rezastes esta noite?

DESDÊMONA — Oh, decerto, senhor!

OTELO — Se vos lembrardes de alguma falta não perdoada ainda pelo céu e sua graça, cuidai logo de tê-la redimida.

DESDÊMONA — Ó meu senhor! Que pretendeis dizer com isso?

OTELO — Bem; fazei o que vos disse e sede breve. Passarei nesse em meio; não desejo trucidar-vos o espírito manchado. Não pelo céu! Não vos matarei a alma.

DESDÊMONA — Quê! Falais em matar?

OTELO — Sim, é isso mesmo.

DESDÊMONA — Então que o céu de mim tenha piedade.

OTELO — Amém, de coração.

DESDÊMONA — Se assim falais, é que não pretendeis matar-me agora.

OTELO — Hum!

DESDÊMONA — Contudo, sinto medo, pois terrível sois sempre, quando revirais os olhos dessa maneira. A causa desse medo, não sei dizê-lo, pois não sou culpada; porém sinto que tenho muito medo.

OTELO — Pensa nos teus pecados.

DESDÊMONA — Só consistem no amor que vos dedico.

OTELO — Pois por ele vais agora morrer.

DESDÊMONA — É contra a natureza dar a morte a alguém por ter amor. Ah! Por que causa mordeis o lábio assim? Toda a postura tendes ora abalada, por alguma sanguinária paixão. É mau agouro; contudo espero, espero que nenhuma ameaça me comine.

OTELO — Paz e aquieta-te.

DESDÊMONA — Estou quieta. Que é que há?

OTELO — O lenço que te dei, que eu tanto amava, a Cássio o deste?

DESDÊMONA — Não, por minha vida, por minha alma, não o dei. Mandai chamá-lo e interrogai-o.

OTELO — Juízo, querida alma, não jures falso, pois estás agora no teu leito de morte.

DESDÊMONA — Sim, no leito, mas não para morrer.

OTELO — Sim, neste instante. Assim, confessa francamente a culpa, pois se com juramentos contestasses ponto por ponto, em nada isso alterara ou sustara o propósito em que me acho e que gemer me faz. Urge que morras.

DESDÊMONA — Que Deus de mim se apiade.

OTELO — Digo amém.

DESDÊMONA — Sede também piedoso. Em toda a vida jamais vos ofendi. Nunca amei Cássio, só lhe tendo dedicado essa amizade que o céu permite, e nunca o presenteei.

OTELO — Pelo céu, vi meu lenço na mão dele. Mulher perjura, em pedra me transmudas o coração e o nome dás de crime ao que eu pensava ser um sacrifício. Vi o lenço! Eu mesmo!

DESDÊMONA — Então, é que ele o achou. Nunca lho dei. Mandai chamá-lo, para vir confessar o que há.

OTELO — Já confessou.

DESDÊMONA — Confessou quê, senhor?

OTELO — Que te possuiu.

DESDÊMONA — Como? Ilicitamente?

OTELO — Sim.

DESDÊMONA — Absurdo! Não dirá isso.

OTELO — Não, porque tapada já tem a boca, pois o honesto Iago tomou suas providências.

DESDÊMONA — Oh! Meu medo tinha razão de ser! Então, morreu?

OTELO — Se seus cabelos todos vivos fossem, minha grande vingança os devorara.

DESDÊMONA — Ai de mim! Foi traído e estou perdida!

OTELO — Sai, prostituta infame! Vais chorá-lo na minha frente?

DESDÊMONA — Ó meu senhor! Bani-me de vossa vista, mas deixai-me viva.

OTELO — Para trás, prostituta!

DESDÊMONA — Hoje, não; amanhã! Deixai-me viva!

OTELO — Se resistires...

DESDÊMONA — Meia hora apenas.

OTELO — Não há trégua; está feito.

DESDÊMONA — O tempo, apenas, de rezar uma vez.

OTELO — É muito tarde. (Asfixia-a.)

EMÍLIA (dentro) — Senhor! Senhor! Olá Senhor! Senhor!

OTELO — Que ruído é esse? Como! Não morreu? Não morreu de uma vez? Embora eu seja cruel, sou compassivo. Não desejo causar-te sofrimento prolongado. Assim... Assim...

EMÍLIA (dentro) — Olá, senhor! Senhor!

OTELO — Quem está aí?

EMÍLIA (dentro) — Senhor, uma palavra convosco, por obséquio.

OTELO — Sim; é Emília... Devagar... Está morta... Com certeza vem me falar de Cássio; fez barulho. Como! Já não se mexe? Está quieta como uma sepultura... Deixo-a entrar? Seria de vantagem?... Penso que ainda se mexe um pouco. Não. Que fazer devo? Se eu deixar que entre, há de querer falar com minha esposa... Que esposa? É o que não tenho. Que hora pesada! Oh coisa insuportável! Fora bem se se desse um grande eclipse do sol como da lua e que o assustado globo em dois se fendesse a essa mudança.

EMÍLIA (dentro) — Por obséquio, senhor, uma palavra! Ó bondoso senhor!

OTELO — Ia esquecendo de ti. Oh, entra, Emília! Neste instante. — Só o tempo de correr estas cortinas. — Onde estás? (Abre a porta.) Que é que tens para dizer-me?

EMÍLIA — O bondoso senhor! Um crime horrível aconteceu lá fora!

OTELO — Como! Agora?

EMÍLIA — Neste momento, meu senhor.

OTELO — É efeito do desvio da lua; ela aproxima-se agora mais da terra do que de hábito, e deixa os homens loucos.

EMÍLIA — Cássio matou Rodrigo, meu senhor, um moço de Veneza.

OTELO — Quê! Rodrigo foi morto? E Cássio, também morto?

EMÍLIA — Não, não! Cássio não foi morto.

OTELO — Não foi morto? Então está fora de tom a morte e a agradável vingança desafina.

DESDÊMONA — Oh dor! Assassinada injustamente!

EMÍLIA — Que é que há? Que grito é esse?

OTELO — Como? Como?

EMÍLIA — Oh! É a voz da senhora. Aqui! Socorro! O senhora, falai de novo! Doce Desdêmona, falai! Minha senhora!

DESDÊMONA — Morro, e morro inocente.

EMÍLIA — Oh! Quem fez isso?

DESDÊMONA — Ninguém; eu mesma. Adeus! Faze que sempre de mim se lembre meu querido esposo. (Morre.)

OTELO — Por que haveria de ter sido morta?

EMÍLIA — Quem poderá sabê-lo?

OTELO — Ouvistes que ela disse que não fui eu.

EMÍLIA — Sim, ela o disse; vou espalhar a verdade.

OTELO — Para as chamas do inferno foi como uma mentirosa: quem a matou fui eu.

EMÍLIA — Tanto mais anjo ela é por isso; e vós, demônio negro.

OTELO — Entregara-se ao vício; era rameira.

EMÍLIA — Não passas de um demônio a caluniá-la.

OTELO — Era falsa como a água.

EMÍLIA — E tu és selvagem como o fogo, dizendo que era falsa. Não! Ela te era fiel celestialmente.

OTELO — Cássio a manchou. Pergunta a teu marido o mais que desejares. Condenado devera eu ser no ponto mais profundo do inferno, se tivesse procedido dessa maneira sem motivos justos. Teu marido está a par de tudo o que houve.

EMÍLIA — Meu marido?

OTELO — Sim, teu marido.

EMÍLIA — Que aos seus deveres ela fora falsa?

OTELO — Sim, com Cássio. Se fiel tivesse sido e o céu um mundo diferente houvesse feito de um só crisólito admirável, não o trocara por ela.

EMÍLIA — Meu marido!

OTELO — Sim, foi ele o primeiro a prevenir-me. É um homem muito honrado e odeia a lama que adere às ações baixas.

EMÍLIA — Meu marido!

OTELO — Ora, mulher! Por que repetes isso? Teu marido, já disse.

EMÍLIA — Oh, querida ama! Diverte-se com o amor a vilania. Meu marido afirmou que ela era falsa?

OTELO — Sim, mulher; ele mesmo, teu marido. Compreendes o que digo? Teu marido, meu amigo, o honesto Iago, mais que honesto...

EMÍLIA — Se ele for tal, que sua alma perniciosa meio grão apodreça cada dia. Mentiu conscientemente. Apaixonada ela estava de sua indigna escolha.

OTELO — Ah!

EMÍLIA — Faze o que houver de pior. Tão indigno é do céu este teu feito como és indigno dela.

OTELO — Mais lucraras se te calasses.

EMÍLIA — Não dispões de força que me faça sofrer nem a metade do que posso agüentar. Ó néscio! Ó estúpido! Tão ignorante como a própria lama! Cometeste uma ação... Não tenho medo dessa espada! Vou dar-te a conhecer, embora a perder venha vinte vidas. Socorro! Assassino! Olá! Socorro!

(Entram Montano, Graciano, Iago e outros.)

MONTANO — Que é que houve, general? Que aconteceu?

EMÍLIA — Ó Iago! também viestes? Procedestes otimamente, para que ao pescoço os homens seus delitos vos atirem.

GRACIANO — De que se trata?

EMÍLIA — Desmente este vilão, se fores homem. Ele afirmou que foi de ti que soube que a esposa lhe era infiel. Tenho certeza de que não poderias ter dito isso. Não és pulha a esse ponto. Fala logo, que tenho o coração por demais cheio.

IAGO — Disse-lhe o que pensava, sem que houvesse contado nada além do que ele próprio julgara natural e verdadeiro.

EMÍLIA — Mas dissestes-lhes que ela fora infiel?

IAGO — Disse.

EMÍLIA — Dissestes uma infâmia odiosa. Por minha alma, ele mente; é um pervertido. Ela, falsa com Cássio? E assim? Com Cássio?

IAGO — Com Cássio, sim senhora. Retirai-vos daqui e ponde cobro nessa língua.

EMÍLIA — Não ponho cobro em nada. Falar quero. Minha ama ali se encontra, assassinada.

TODOS — Não o permita o céu!

OTELO — Senhores, não vos espanteis; é a pura verdade o que ela disse.

GRACIANO — Muito estranha verdade!

MONTANO — Ato monstruoso!

EMÍLIA — Infâmia, infâmia! Penso nisso, torno a pensar... Suspeito... Oh vilania! Já havia suspeitado. Vou matar-me só de tristeza. Oh infâmia!

IAGO — Como! Ficastes louca? Retirai-vos para casa, já, já!

EMÍLIA — Caros senhores permiti-me falar. Sei que lhe devo plena obediência; não, porém, agora. Talvez, Iago, eu não volte para casa.

OTELO — Oh, oh, oh! (Atira-se sobre o leito.)

EMÍLIA — Sim, rebolca-te e ruge, pois a morte deste à mulher mais inocente e meiga que jamais viu a luz.

OTELO — Era culpada. Não vos reconheci, meu tio. Vossa sobrinha ali se encontra, cujo alento por estas mãos foi abafado há pouco.

GRACIANO — Pobre Desdêmona! Por sorte minha, teu pai já faleceu. Este consórcio para ele foi fatal: e débil fio da vida pela dor teve cortado. Se vivesse, esta vista o levaria, decerto, ao desespero, amaldiçoara seu anjo tutelar, escorraçando-o de seu lado e, com isso, se perdera.

OTELO — Dá-me pena; mas Iago sabe que ela com Cássio praticou mais de mil vezes o ato impudico. Cássio o confessou, tendo-lhe ela os trabalhos amorosos recompensado com o penhor e mimo de amor que, de princípio, eu lhe ofertara: era um lenço, lembrança muito antiga que a minha mãe meu pai outrora dera.

EMÍLIA — Oh céu! Poderes celestiais!

IAGO — Silêncio! Fica quieta!

EMÍLIA — Preciso dizer tudo! Preciso dizer tudo! Eu, ficar quieta, senhor? De forma alguma. Falar quero tão livre como o vento. O céu, os homens, todos os diabos, tudo, tudo pode exprobar-me esta ação, mas falar quero.

IAGO — Sê prudente e retorna para casa.

EMÍLIA — Não vou.

(Iago ameaça ferir Emília.)

GRACIANO — Virar contra a mulher a espada!

EMÍLIA — Ó Mouro bruto! o lenço de que falas foi por mim encontrado casualmente e dei-o a meu marido, pois bem vezes com mui séria insistência — mais, de fato, do que tal ninharia merecia — pedira que o roubasse.

IAGO — Vil rascoa!

EMÍLIA — Ela o ter dado a Cássio? Não! Achei-o e o dei a meu marido.

IAGO — É falso, imunda!

EMÍLIA — Pelo céu, cavalheiros, é a verdade. Oh palhaço assassino! Que haveria de fazer um cretino rematado com uma mulher tão boa?

OTELO — Por que as pedras todas do céu só servem para o raio? Celerado completo!

(Corre para Iago; Iago apunhala Emília e sai.)

GRACIANO — Ela desmaia! Creio que ele matou a própria esposa.

EMÍLIA — Ai, ai! Deitai-me ao lado de minha ama.

GRACIANO — Fugiu, mas a mulher deixou sem vida.

MONTANO — É um notório vilão. Guardai esta arma que eu ao Mouro tomei. Vigiai a porta, não deixando que saia. Antes, matai-o. Vou procurar aquele miserável; é um escravo maldito.

(Saem Montano e Graciano.)

OTELO — Já valente não sou; qualquer menino me desarma. Deve a honra viver mais do que a virtude? Que leve o demo tudo.

EMÍLIA — Que queria, senhora, pressagiar tua cantiga? Vou fazer como o cisne; morro e canto: Oh, salgueiro, salgueiro! Mouro, ela era casta. Cruel Mouro, ela o amava muito. Assim minha alma seja salva, como digo a pura verdade. Desse modo falando como penso... morro... morro. (Morre.)

OTELO — Tenho outra arma no quarto, antiga espada de Espanha, temperada em água fria. Ah! Ei-la! Tio, abri, para que eu saia.

GRACIANO (dentro) — Se tentares sair, custar-te-á caro. Não tens armas; preciso é, pois, que sofras.

OTELO — Então me olha e me fala; do contrário, embora desarmado, hei de assaltar-te.

(Volta Graciano.)

GRACIANO — Que é que se passa?

OTELO — Vê, tenho outra espada. Melhor do que esta nunca ao lado esteve da coxa de um soldado. Já vi o dia em que este curto braço e esta boa arma me franqueavam caminho com obstáculos vinte vezes mais sérios do que os vossos. Mas, oh bravata inútil! Quem o fado dominar pode? Já não é assim, Nada receies, por me veres de arma. Cheguei ao fim da viagem, esta é a meta, a baliza da minha última vela. Recuais pálido assim? É medo inútil. Se alguém vier contra Otelo com um caniço, Otelo recuará. Para onde iria? Que aspecto tens agora, malfadada rapariga? Da cor do teu sudário. Quando nos encontrarmos para o ajuste de contas, teu olhar há de minha alma precipitar do céu, apoderando-se dela os demônios logo. Estás gelada, minha menina, tão gelada como tua própria castidade. Oh! maldito, maldito celerado! Demônios, com açoites expulsai-me da vista desta aparição divina! Entregai-me aos tufões, no enxofre assai-me, em tanques me lavai de fogo líquido. Oh Desdêmona! Morta! Oh, oh! Desdêmona!

(Entram Ludovico, Montano, Cássio carregado em uma cadeira, e oficiais com Iago, prisioneiro.)

LUDOVICO — Onde está o violento e infeliz homem?

OTELO — Esse que foi Otelo? Aqui me encontro.

LUDOVICO — E onde se encontra a víbora? Trazei-nos esse infame.

OTELO — Procuro ver-lhe os pés. Mas não... É pura fábula. Se fores o diabo, não conseguirei matar-te. (Fere Iago.)

LUDOVICO — Tomai-lhe a espada.

IAGO — Estou ferido, apenas, senhor; mas não morri.

OTELO — Não me aborrece saber isso; é melhor que fiques vivo, pois a morte, a, meu ver, é grã-ventura.

LUDOVICO — Ó tu, Otelo, que tão bom já foste, como vieste a cair nas artimanhas de um celerado? Que dirão de ti?

OTELO — O que quiserem. Assassino honrado, se assim vos aprouver, porque fiz tudo pela honra, não por ódio.

LUDOVICO — Este patife já confessou em parte as vilanias. Mas é verdade, mesmo, que com ele tínheis premeditado matar Cássio?

OTELO — É...

CÁSSIO — Meu general, eu nunca vos fiz nada.

OTELO — Disso estou certo e peço-vos perdão. Perguntai, por favor, a este demônio porque a alma e o corpo me enleou a tal ponto.

IAGO — Não me pergunteis nada; o que sabeis, já sabeis. Não direi, de agora em diante, nem mais uma palavra.

LUDOVICO — Quê! Nem mesmo para rezar?

GRACIANO — Haveis de abrir a boca no banco de tormentos.

OTELO — Sim, faze isso.

LUDOVICO — Ireis saber agora tudo o que houve, senhor, o que decerto ainda ignorais. Esta carta se achava num dos bolsos do corpo de Rodrigo. Aqui está outra. Numa delas se lê que deveria Rodrigo matar Cássio.

OTELO — Oh, miserável!

CÁSSIO — Bárbaro a todo ponto e repulsivo.

LUDOVICO — Esta outra carta cheia de censuras também estava num dos bolsos dele. Parece que Rodrigo pretendia enviá-la a este malvado; mas decerto nesse em meio ele deu-lhe explicações.

OTELO — Oh biltre pernicioso! De que modo, Cássio, vos foi parar às mãos o lenço de minha esposa?

CÁSSIO — Achei-o no meu quarto, e o próprio Iago confessou, há pouco, que ali o jogara, tendo em vista um plano que muito lhe importava.

OTELO — Oh! Tolo, tolo!

CÁSSIO — Lêem-se também na carta de Rodrigo censuras dele a Iago por havê-lo forçado a provocar-me, quando estávamos de guarda, o que me fez perder meu posto. E agora mesmo, tendo de si voltado, depois de estar por morto, declarou-nos que Iago o ferira e que por ele mesmo tinha sido instigado.

LUDOVICO — Forçoso é que deixeis este aposento, para virdes conosco. Do comando já fostes destituído. Agora é Cássio quem manda em Chipre. Quanto a este bandido, se houver algum tormento prolongado que o faça durar muito, será dele. Ficareis como nosso prisioneiro, até que o Estado de Veneza tome conhecimento do que aqui fizestes. Vamos! levai-o logo!

OTELO — Docemente! Uma palavra ou duas antes de irdes. Prestei alguns serviços à República, o que é sabido. Mas sobre isso, basta. Peço-vos por favor que em vossas cartas, ao relatardes estes tristes fatos, faleis de mim tal como sou, realmente, sem exagero algum, mas sem malícia. Então a alguém tereis de referir-vos que amou bastante, embora sem prudência; a alguém que não sabia ser ciumento, mas, excitado, cometeu excessos, e cuja mão, tal como o vil judeu, jogou fora uma pérola mais rica do que toda sua tribo; a alguém com olhos vencidos e que embora pouco usados aos sentimentos moles, maior número de gotas derramaram do que as árvores da Arábia fazer soem com sua goma medicinal. Contai-lhes isso tudo. E também que em Alepo, certo dia, um turco de turbante e malicioso bateu num veneziano e em termos baixos falou do Estado, e que eu, pela garganta detendo aquele cão circuncidado, o feri deste modo, assim... assim... (Apunhala-se.)

LUDOVICO — Oh conclusão sangrenta!

GRACIANO — Foi inútil tudo quanto dissemos.

OTELO — Dei-te um beijo antes de te matar. Só me restava (Caindo sobre o corpo de Desdêmona.) morrer beijando a quem eu tanto amara. (Morre.)

CÁSSIO — Receava isso mesmo; mas sem armas julgava que estivesse. Era pessoa de grande coração.

LUDOVICO (a Iago) — Ó cão de Esparta, mais cruel que a fome, a angústia e o próprio oceano! Contempla nesse leito o fardo trágico. É tua obra. Envenena a vista o quadro. Tapemo-lo. Graciano, a casa, agora, vos pertence; guardai os bens do Mouro, pois sois o herdeiro dele. A vós compete, senhor governador, dar o castigo a este biltre infernal. Marcai o dia, o lugar e a tortura. Oh! rigorosa! De bordo escreverei para o senado, relatando tudo isto, angustiado.

(Saem.)

Fonte: www.dominiopublico.gov.br

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