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Rei Lear

William Shakespeare

Personagens Trágicos

LEAR, rei da Bretanha.
O rei da França.
O duque de Burgúndia.
O duque de Cornualha.
O duque de Albânia.
O conde de Kent.
O conde de Gloster.
EDGAR, filho de Gloster.
EDMUNDO, filho bastardo de Gloster.
CURAN, um cortesão.
OSVALDO, intendente de Goneril.
Um velho, caseiro de Gloster.
Um médico.
O bobo.
Um oficial, empregado por Edmundo.
Um gentil-homem, ligado a Cordélia.
Um arauto.
Criados de Cornualha.
GONERIL, filha de Lear
REGANE, filha de Lear
CORDÉLIA, filha de Lear
Cavaleiros do séqüito de Lear, oficiais, mensageiros, soldados e criados.

ATO I
Cena I

Salão nobre do palácio do Rei Lear. Entram Kent, Gloster e Edmundo.

KENT — Sempre pensei que o rei fosse mais afeiçoado ao duque de Albânia do que ao de Cornualha.

GLOSTER — Era o que também me parecia; mas agora, na divisão do reino, não se pode saber qual dos dois duques ele aprecia mais, porque as partes foram pesadas com tal eqüidade, que a mais impertinente curiosidade não saberá decidir-se por nenhuma delas.

KENT — Este rapaz é vosso filho, milorde?

GLOSTER — Sua educação, senhor, esteve a meu cargo. Tantas vezes corei de confessá-lo, que presentemente já me encontro calejado.

KENT — Não posso compreender-vos.

GLOSTER — Mas a mãe deste mancebo o compreendia perfeitamente, senhor; tanto assim, que ficou com o ventre arredondado com um filho que arranjou para seu berço, antes de conseguir um marido para o seu leito. Percebeis alguma falta nisso?

KENT — Não posso desejar que a falta não houvesse sido cometida, à vista da graça de suas conseqüências.

GLOSTER — Mas possuo um filho legítimo, senhor, coisa de um ano mais velho do que este, que nem por isso tenho em mais alta estima. É verdade que este peralta veio ao mundo com certo descoco, antes de ser chamado; mas também é verdade que sua mãe era muito linda. Foi gerado na folia, sendo-me agora preciso reconhecer o bastardo. Conheceis este gentil-homem, Edmundo?

EDMUNDO — Não, milorde.

GLOSTER — É o milorde de Kent; de agora em diante lembra-te dele como de honrado amigo meu.

EDMUNDO — Ao dispor de Vossa Senhoria.

KENT — Desejo amar-vos e peço que me ensejeis oportunidades de conhecer-vos mais de perto.

EDMUNDO — Esforçar-me-ei por merecê-lo, senhor.

GLOSTER — Esteve fora nove anos e precisará sair de novo. O rei vem vindo.

(Fanfarra. Entram Lear, Cornualha, Albânia, Goneril, Regane, Cordélia e séqüito.)

LEAR — Gloster, fazei entrar na sala os nobres da França e da Burgúndia.

GLOSTER — Neste instante, meu soberano.

(Saem Gloster e Edmundo.)

LEAR — Enquanto isso, mostrar pretendo nossos desígnios mais recônditos. Um mapa! Ficai sabendo, assim, que dividimos nosso reino em três partes, sendo nossa firme intenção livrar-nos, na velhice, dos cuidados, bem como dos negócios, para confiá-los a mais jovens forças, e, assim, nos arrastarmos para a morte, de qualquer fardo isento. Nosso filho de Cornualha, assim como vós, Albânia, filho também não menos caro, temos o propósito certo, neste instante, de declarar publicamente o dote de nossas filhas, para que a discórdia futura fique obviada desde agora. Os príncipes da França e da Burgúndia, grandes rivais no amor de nossa filha mais nova, em nossa corte já fizeram sua parada longa e apaixonada. Ora aguardam resposta. Minhas filhas — já que neste momento nos despimos do governo, não só, dos territórios e cuidados do Estado — ora dizei-me qual de vós mais amor nos tem deveras, porque alargar possamos nossa dádiva onde contende a natureza e o mérito. Fale primeiro Goneril, a nossa filha mais velha.

GONERIL — Senhor, amo-vos mais do que as palavras poderão exprimir, mais ternamente do que a visão, o espaço, a liberdade, muito mais do que tudo que é prezado, raro ou valioso, tanto quanto à vida com saúde, beleza, honras e graça, como jamais amou filha nenhuma ou pai se viu amado; é amor que torna pobre o alento e o discurso balbuciante. Amo-vos para além de todo extremo.

CORDÉLIA (à parte) — Cordélia que fará? Ama e se cala.

LEAR — Todo este trecho aqui, de uma a outra linha, com suas matas e campinas ricas, com rios caudalosos e seus prados de larga bordadura, te pertencem. De tua prole e de Albânia, como posse perpétua vai ficar. Que diz agora nossa segunda filha, a queridíssima Regane, esposa de Cornualha? Fala.

REGANE — De igual metal que minha irmã sou feita e pelo preço dela me avalio. No imo peito descubro que ela soube dar expressão ao meu amor sincero. Mas ficou muito aquém, pois inimiga me declaro de quantas alegrias se contenham na mui preciosa esfera dos sentidos tão-só. Achei minha única felicidade na afeição de Vossa mui querida Grandeza.

CORDÉLIA (à parte) — Então, coitada de Cordélia! Contudo, nem por isso, pois estou certa de que meu afeto mais rico é do que a língua.

LEAR — Que para ti e os teus fique de herança permanente este terço avantajado do nosso belo reino, em rendas, graças e extensão não menor em nenhum ponto do que o que em sorte coube a Goneril. Nossa alegria, agora, conquanto a última, não a menor, e cujo afeto jovem os vinhedos da França e o branco leite da Burgúndia disputam: que podeis dizer-nos para um terço mais opimo virdes a obter do que os das vossas manas? Falai.

CORDÉLIA — Meu senhor, nada.

LEAR — Nada?

CORDÉLIA — Nada.

LEAR — De nada sairá nada. Novamente dizei alguma coisa.

CORDÉLIA — Oh desditosa! Trazer não posso o coração à boca. Amo a Vossa Grandeza como o dever me impõe, nem mais nem menos.

LEAR — Que é isso, Cordélia? Concertai um pouco vossas palavras, para não deitardes a perder vossa dita.

CORDÉLIA — Meu bondoso senhor, vós me gerastes, educastes e me amastes, pagando eu todos esses benefícios qual fora de justiça: com obediência e amor vos honro sempre extremamente. Por que têm maridos minhas irmãs, se dizem que vos amam sobre todas as coisas? Se algum dia vier a casar, há de seguir o dono do meu dever apenas a metade de meu amor, metade dos cuidados e das obrigações. Certeza é nunca vir a casar-me como as duas manas, para amar a meu pai por esse modo.

LEAR — Do coração te veio o que disseste?

CORDÉLIA — Sim, meu senhor.

LEAR — Tão jovem e tão áspera?

CORDÉLIA — Tão jovem, meu senhor, e verdadeira.

LEAR — Então vai ser teu dote só a tua veracidade. Pois pela sagrada irradiação do sol, pelos mistérios de Hécate e, assim, da noite, pelas grandes operações dos orbes que nos fazem viver e definhar: desde este instante me desligo dos laços consanguíneos, preocupações de pai e parentesco, passando a te considerar como uma pessoa estranha a mim e a meu afeto, de agora para sempre. O cita bárbaro ou selvagem que faz da prole pábulo para o apetite, há de ser mais vizinho do meu seio, acolhido e consolado, do que tu, que não és já filha minha.

KENT — Meu senhor...

LEAR — Kent, silêncio; não te metas entre o dragão e sua grande cólera. Predileção lhe tinha e pensei sempre que haveria de achar grato repouso em seus carinhos. Foge-me da vista! Tão certo como eu ter paz no sepulcro, o coração de pai lhe tiro agora. Chamai França! Que é que ainda se mexe? Chamai Burgúndia aqui! Cornualha e Albânia, acrescentai mais este dote aos outros de minhas duas filhas. Que se case com ela o orgulho, a que franqueza chama. Juntamente comigo vos invisto no meu poder, minhas prerrogativas e em todas as extensas dignidades que à majestade se unem. Nós, seguindo nisso o curso mensal e reservando cem cavaleiros, cujo encargo fica por vossa conta, nossa casa havemos de na vossa fazer por modo alterno. De rei, o nome apenas reteremos, com suas dignidades; mas o mando, a execução das leis, as rendas, tudo, caros filhos, é vosso. E como certo penhor do que ora afirmo, esta coroa dividirei entre ambos.

KENT — Real Lear, a quem como meu rei acatei sempre, amei como a meu pai, acompanhei como a senhor e a quem nas minhas preces tinha como padroeiro...

LEAR — O arco está armado; sai da frente da seta!

KENT — Não; dispara-a, embora a farpa o coração me atinja. Descortês será Kent, se é louco Lear. Que estás fazendo, velho? Acaso pensas que o dever tenha medo de falar, quando o poder se abaixa até à lisonja? A honra obriga à franqueza, quando tomba na loucura, assim tanto, a majestade. Anula o teu decreto, e recorrendo aos teus mais ponderosos argumentos, reprime logo essa medonha pressa. Minha vida em penhor do que te afirmo; afeição inferior não te dedica tua terceira filha, nem tampouco sentirão menos as pessoas cuja voz grave não ressoa no vazio.

LEAR — Por tua vida, Kent, nem mais um pio!

KENT — Penhor a vida me foi sempre, para contra os teus inimigos arriscá-la. Perdê-la não receio, quando o exige tua própria salvação.

LEAR — Fora da minha vista!

KENT — Vê melhor, Lear, e ora consente que a mira de teus olhos eu me torne.

LEAR — Agora, por Apolo...

KENT — Por Apolo, agora em vão juraste por teus deuses.

LEAR — Oh vassalo! Insolente! (Leva a mão à espada.)

ALBÂNIA e CORNUALHA — Não; detende-vos, caro senhor.

KENT — Manda matar teu médico e impura doença entrega os honorários! Revoga o teu decreto; do contrário, enquanto alento me restar no peito, direi que estás errado.

LEAR — Ouve-me, biltre! Por teu dever de vassalagem, ouve-me! Já que tentaste provocar a quebra de nosso voto o que jamais fizemos — e com teimoso orgulho te meteste entre nossa sentença e nosso trono — o que não pode suportar a nossa natureza, nem menos nosso posto — de pé nosso poder, toma tua paga: cinco dias te damos, porque possas contra os males do mundo premunir-te; ao sexto voltarás o dorso odioso a todo o nosso reino; e se no décimo esse corpo banido for achado dentro de nossas terras, esse instante será tua morte. Já daqui! Por Júpiter, não haverá revogação agora.

KENT — Adeus, rei. Declarar quero a verdade: o exílio é aqui, e longe, a liberdade. (A Cordélia.) Possam os deuses te amparar, menina, cujo pensar com o bom discurso afina. (A Regane e Goneríl.) Que por bons atos sejam confirmados vossos largos discursos e empolados. — Kent, assim, se despede dos presentes e a novas terras leva os pés dolentes. (Sai.)

(Fanfarra. Volta Gloster com França, Burgúndia e pessoas do séqüito.)

GLOSTER — Senhor, França e Burgúndia estão presentes.

LEAR — Milorde de Burgúndia, primeiramente a vós nos dirigimos, que sois rival, com este soberano, na corte à nossa filha. Qual o mínimo que exigis como dote e em cuja falta desistis do pedido?

BURGÚNDIA — Muito nobre majestade, não peço nada acima do que já ofereceu Vossa Grandeza, que menos não dará.

LEAR — Nobre Burgúndia, quando cara nos era, nós a tínhamos nesse preço; mas ora baixou muito. Senhor, ali está ela. Se algum traço dessa coisinha de nenhum realce ou até mesmo ela toda, redobrada de nosso desfavor, sem mais acréscimo, pode do agrado ser de Vossa Graça: ela aqui está; pertence-vos.

BURGÚNDIA — Ignoro que responder.

LEAR — Quereis, com as faltas todas que lhe são próprias, sem nenhum amigo, adotada por nosso recente ódio, com toda nossa maldição por dote, expulsada por nosso juramento, levá-la ou recusá-la?

BURGÚNDIA — Real senhor, perdão; mas nessas condições, é claro, ninguém faz uma escolha.

LEAR — Então deixai-a, senhor; porque vos assevero, em nome do poder que me criou, que toda a sua fortuna é o que vos disse. (A França.) Vós, potente soberano, de vosso amor não quero tão longe me afastar, que almeje ver-vos unido a quem odeio. Assim, suplico-vos desviar vossa afeição para um objeto mais dígno do que a mísera criatura que a natureza quase se envergonha de declarar por sua.

FRANÇA — É muito estranho que aquela que, até há pouco, era a mais rara jóia de vosso afeto, o tema excelso de vossos elogios, vosso bálsamo na velhice, a melhor, a mais querida, pudesse cometer assim, de pronto, um crime tão monstruoso que desmanche tantas pregas da graça. Com certeza mui contrário à natura foi seu crime, e muito a deturpou, se vosso afeto tão notório não é o que antes era. Acreditar tal coisa a seu respeito, só com o auxílio da fé, pois, sem milagre, a isso a razão jamais me levaria.

CORDÉLIA — Suplico entanto a Vossa Majestade — pois careço dessa arte lisa e untuosa de falar em contrário ao próprio intento, pois o que fazer quero já realizo, mesmo antes de falar — que deixeis claro não ter sido nenhum vício infamante, velhacaria alguma, ato impudico, nem qualquer passo menos decoroso que de vosso favor e vossa graça me privou neste instante, mas apenas a carência daquilo que me deixa mais rica ainda: o olhar adulador e língua que não ter muito me alegra muito embora essa falta seja a causa de me fazer perder vossa amizade.

LEAR — Melhor te fora nunca ter nascido, do que deixares de agradar-me agora.

FRANÇA — Então, foi isso apenas? Uma certa lentidão natural, que, muitas vezes, deixa de relatar a própria história do que fazer pretende? Que dizeis, milorde de Burgúndia, desta noiva? O amor não é amor, quando se mescla de considerações que muito aberram da meta principal. Ficais com ela?

BURGÚNDIA — Dai-lhe, real Lear, unicamente a parte que havíeis prometido, e, neste instante, tomo Cordélia pela mão e a faço Duqueza de Burgúndia.

LEAR — Nada; sou firme; fiz um juramento.

BURGÚNDIA — Muito me pesa, então, que após haverdes perdido o pai, também percais o esposo.

CORDÉLIA — Seja a paz com Burgúndia! Já que havia em seu amor intuitos de riquezas, não serei sua esposa.

FRANÇA — Linda Cordélia, pobre, ainda és mais rica; mais procurada, ainda, no abandono, e mais amada, quando desprezada: de ti, dessas virtudes, apodero-me neste momento. Seja, assim, legítimo apanhar o que foi jogado fora. Que estranho, ó deuses! que um glacial desprezo o respeito me inflame e deixe preso! Deserdando tua filha, ó rei! deste ansa para rainha eu a fazer da França. Nenhum dos duques da Burgúndia aquosa a noiva minha levará preciosa. Cordélia, adeus lhes dize, cruéis embora; perdes aqui, para ganhar lá fora.

LEAR — França, leva-a contigo; é tua; nós tal filha já não temos, não, e após o que houve ela perdeu, por mais que faça, nosso amor, nossa bênção, nossa graça. Vamos, nobre Burgúndia.

(Fanfarras. Saem Lear, Burgúndia, Cornualha, Albânia, Gloster e séqüito.)

FRANÇA — Dizei adeus agora a vossas manas.

CORDÉLIA — Jóias de nosso pai, com olhos úmidos Cordélia ora vos deixa. Eu vos conheço, mas como irmã não quero dar o nome verdadeiro de vossas faltas todas. Cuidai de nosso pai; entrego-o a vossos peitos que os próprios méritos proclamam. No entanto, ai! se em sua graça eu me encontrasse, talvez melhor asilo lhe mostrasse. Assim, adeus para ambas.

REGANE — Não queirais ensinar nossos deveres.

GONERIL — Procurai agradar vosso marido que como esmola vos pegou da sorte. Revelastes caráter obstinado; digna, portanto, sois do vosso fado.

CORDÉLIA — O tempo há de mostrar quem tem malícia, que a vergonha é o castigo da estultícia. Passai bem.

FRANÇA — Vamos, linda Cordélia.

(Saem França e Cordélia.)

GONERIL — Mana, não é pouco o que tenho a dizer sobre um assunto que nos toca muito de perto. Creio que nosso pai vai partir esta noite.

REGANE — Isso é certeza, e em vossa companhia. No próximo mês ficará conosco.

GONERIL — Vistes como sua velhice é caprichosa; não é das menos valiosas a observação que tivemos oportunidade de fazer; sempre revelou muito mais afeição para nossa irmã, transparecendo agora claramente a falta de senso com que acaba de expulsá-la.

REGANE — É a fraqueza da idade, sendo certo que ele sempre se conheceu mal.

GONERIL — Até mesmo na melhor idade e de mais vigor, costumava revelar precipitação. Por isso, preparemo-nos para receber de sua velhice não somente os defeitos enraizados de longa data, como também as rabugices inconvenientes que trazem consigo os anos achacosos e irritáveis.

REGANE — Teremos de assistir ainda a muitas explosões súbitas, como essa de que resultou o banimento de Kent.

GONERIL — Ainda terão de realizar-se as cerimônias complementares da despedida entre ele e França. Unamo-nos, é o que vos peço; se nosso pai conservar o poder com semelhante disposição, essa última abdicação de sua vontade só nos poderá ser prejudicial.

REGANE — Havemos de refletir melhor sobre isso.

GONERIL — Precisaremos fazer qualquer coisa, enquanto o assunto está quente.

(Saem.)

Cena II

Sala no castelo do conde de Gloster. Entra Edmundo com uma carta.

EDMUNDO — Sê minha deusa agora, natureza! A tuas leis empenho meus serviços. Porque terei de me curvar à peste do costume e deixar que a impertinência das nações me despoje, tão-somente porque nasci algumas doze luas, ou catorze, depois de qualquer mano? Por que bastardo? Por que mal nascido, se minhas proporções são tão bem feitas, a alma tão franca e a compostura toda tão certa como a de qualquer rebento de uma senhora honesta? Por que causa, pois, nos estigmatizam de baixeza, bastardo, baixo, baixo?... Por que baixos todos nós que no furto deleitoso da natureza recebemos partes mais ajustadas e mais alto espírito do que acontece nos cansados leitos, antiquados e insípidos, só feitos para criar uma chusma de casquilhos, entre o sono e a vigília concebidos? Assim, Edgar legítimo, preciso ficar com vossas terras. Tem o afeto de nosso pai não só o bastardo Edmundo, como o filho legítimo. “Legítimo!” bela expressão! Espero, meu legítimo, que se esta carta for bem despachada e meu plano der certo, o baixo Edmundo vai passar o legítimo. Prospero... Cresço... Amparai, ó deuses! os bastardos.

(Entra Gloster.)

GLOSTER — Banido Kent assim! França, colérico, se despediu, e o rei partiu à noite! Resignou ao poder, tendo ficado com pensão reduzida! E tanta coisa em menos de um segundo! Olá, Edmundo, que novidades há?

EDMUNDO (escondendo a carta) Não há novidades, se não for do desagrado de Vossa Senhoria.

GLOSTER — Por que escondeis com tanta precipitação essa carta?

EDMUNDO — Não sei de nenhuma novidade, senhor.

GLOSTER — Que papel estáveis lendo?

EDMUNDO — Nada, milorde.

GLOSTER — Nada? Que necessidade havia, então, de enfiá-lo tão depressa no bolso? O que em si mesmo é nada, não tem necessidade de ser escondido desse modo. Deixai-me ver! Vamos! Se for mesmo nada, não precisarei de óculos.

EDMUNDO — Peço-vos, senhor, que me perdoeis; é uma carta de meu irmão, que eu ainda não li até ao fim; mas pelo que pude ver assim por cima, penso que seu conteúdo é impróprio para vossa vista.

GLOSTER — Dai-me essa carta, senhor!

EDMUNDO — Farei mal tanto em recusá-la com em dar-vo-la. Seu conteúdo, pelo que pude alcançar, é censurável.

GLOSTER — Quero vê-la; quero vê-la.

EDMUNDO — Quero crer, como justificativa de meu irmão, que ele escreveu apenas com o intuito de provar ou confirmar minha virtude.

GLOSTER — “Nossas instituições e o respeito à velhice tornam o mundo amargo para os nossos melhores anos, privam-nos dos bens até que nossa caduquice não se possa aproveitar deles. Começo a ver uma escravidão inútil e presunçosa na opressão da tirania envelhecida, que governa não porque tenha poder, mas por ser tolerada. Procurai-me, para que eu possa expandir-me a esse respeito. Se nosso pai dormisse até que eu o despertasse, gozaríeis para sempre da metade das rendas dele e seríeis o bem-amado de vosso irmão Edgar.” — Hum! Conspiração! “Se dormisse até que eu o despertasse, gozaríeis da metade das rendas dele.” — Meu filho Edgar teve mão para escrever isto? coração e cérebro para concebê-lo? Como te veio isto ter às mãos? Quem te trouxe esta carta?

EDMUNDO — Não foi trazida, senhor, e nisso é que consiste toda a treta; foi jogada pela janela de meu quarto.

GLOSTER — Reconheceis a letra de vosso irmão?

EDMUNDO — Se o assunto fosse bom, milorde, eu iria jurar que a letra é dele; mas quando o considero mais de perto, quero crer que não seja.

GLOSTER — É dele, sim.

EDMUNDO — A mão é dele, milorde; mas espero que o coração não esteja no conteúdo.

GLOSTER — Antes, ele nunca vos sondou a esse respeito?

EDMUNDO — Nunca, milorde; mas por várias vezes já o ouvi asseverar que quando os filhos atingem a idade adulta e os pais começam a declinar, o pai deveria tornar-se como que pupilo do filho, ficando seus bens sob a direção deste.

GLOSTER — Oh celerado! celerado! A mesma coisa que ele diz na carta! Celerado execrável! Celerado desnaturado, odioso, bestial! Pior do que bestial! Vai buscá-lo imediatamente. Vou prendê-lo. Abominável celerado! Onde está ele?

EDMUNDO — Ao certo não sei, milorde. Se concordardes em sustar vossa indignação contra meu irmão, até que possais tirar dele melhores testemunhos de suas intenções, seguireis por um caminho certo; ao passo que se procederdes com violência e vos enganardes quanto aos seus planos, abrireis em vossa honra uma grande brecha e destruireis o próprio coração de sua obediência. Atrevo-me a apostar a vida em como ele escreveu isso tudo apenas para pôr à prova a afeição que eu voto a Vossa Honra, sem qualquer intenção maldosa.

GLOSTER — Pensais desse modo?

EDMUNDO — Se Vossa Honra concordar, eu vos colocarei em um lugar de onde possais ouvir-nos conversar a esse respeito, vindo desta arte a convencer-vos pelo próprio testemunho dos ouvidos, e isso sem delongas, ainda esta tarde.

GLOSTER — Não é possível que ele seja tão monstruoso...

EDMUNDO — De forma alguma; tenho certeza.

GLOSTER — ... com relação a seu próprio pai, que lhe dedica amor tão terno e desinteressado... Céu e terra! Edmundo, ide procurá-lo; sondai-o, por obséquio; arranjai tudo de acordo com vossa sabedoria. Daria todos os meus haveres para poder alcançar plena certeza a esse respeito.

EDMUNDO — Vou procurá-lo, senhor, neste momento; farei tudo do melhor modo possível e vos porei a par do que houver.

GLOSTER — Esses últimos eclipses do sol e da lua não nos anunciam nada bom. Muito embora a ciência da natureza possa explicá-los desta ou daquela maneira, a própria natureza se sente chicoteada pelos efeitos que se lhes seguem. O amor esfria, a amizade desaparece, os irmãos se desavêm; nas cidades, tumultos; nos campos, discórdias; nos palácios, traições, rompendo-se os laços entre filhos e pais. Esse meu filho desnaturado confirma aqueles sinais: é filho contra pai. O rei se afasta da trilha da natureza: é pai contra filho. Já vimos o melhor de nosso tempo: maquinações, imposturas, traições e toda sorte de desordens ruinosas nos acompanham sem sossego até à sepultura. Vai buscar-me esse celerado, Edmundo; nada terás a perder. Procede com cautela. E o nobre e magnânimo Kent, banido! Seu crime, a honestidade! É muito estranho! (Sai.)

EDMUNDO — Essa é a maravilhosa tolice do mundo: quando as coisas não nos correm bem — muitas vezes por culpa de nossos próprios excessos — pomos a culpa de nossos desastres no sol, na lua e nas estrelas, como se fôssemos celerados por necessidade, tolos por compulsão celeste, velhacos, ladrões e traidores pelo predomínio das esferas; bêbedos, mentirosos e adúlteros, pela obediência forçosa a influências planetárias, sendo toda nossa ruindade atribuída à influência divina... Ótima escapatória para o homem, esse mestre da devassidão, responsabilizar as estrelas por sua natureza de bode. Meu pai se juntou à minha mãe sob a cauda do Dragão e minha natividade se deu sob a Grande Ursa: de onde se segue que eu tenho de ser violento e lascivo. Pelo pé de Deus! Eu teria sido o que sou, ainda que a mais virginal estrela do firmamento houvesse piscado por ocasião de minha bastardização. Edgar... (Entra Edgar.) Pronto! Ei-lo que chega, tal qual a catástrofe na velha comédia. Minha deixa é “Melancolia pérfida”, com um suspiro como os de Tom de Bedlam. Oh! Esses eclipses pressagiam as desordens que vemos. Fá, sol, lá, mi!

EDGAR — Olá, mano Edmundo! Que graves meditações são essas?

EDMUNDO — Estava pensando, mano, numa predição que li num dia destes, sobre o que há de seguir-se a estes eclipses.

EDGAR — Preocupai-vos com essas coisas?

EDMUNDO — Posso afirmar-vos que por infelicidade se realizam os efeitos anunciados, tal como: sentimentos contra as leis da natureza entre pais e filhos; mortes, fome, dissolução de amizades antigas, divisões no Estado, ameaças e maldições contra os reis e os nobres, suspeitas injustificadas, proscrição de amigos, dispersão de coortes, infrações conjugais e não sei o que mais.

EDGAR — Há quanto tempo sois sectário da astronomia?

EDMUNDO — Vamos, vamos... Quando vistes meu pai pela última vez?

EDGAR — Ontem à noite.

EDMUNDO — Falastes-lhe?

EDGAR — Sim; duas horas seguidas.

EDMUNDO — Despedistes-vos em bons termos? Não observastes nele nenhum sinal de descontentamento, quer na fisionomia, quer nas expressões?

EDGAR — Absolutamente nenhum.

EDMUNDO — Refleti melhor sobre o que poderíeis ter feito para ofendê-lo, e fazei-me neste ponto a vontade, evitando sua presença, até que o tempo se incumba de esfriar o ardor de seu desagrado, que neste momento de tal modo se mostra revolto, que dificilmente poderia acalmar-se com maltratar vossa pessoa.

EDGAR — Algum celerado me fez isso.

EDMUNDO — É o que eu receio. Peço que o eviteis com paciência, até que se torne mais vagaroso o ímpeto de sua cólera. E, como disse, retirai-vos para os meus aposentos, onde disporei as coisas de modo que possais ouvir milorde conversar. Ide logo, por obséquio. Se vos arriscardes a sair, que seja armado.

EDGAR — Armado, irmão?

EDMUNDO — Mano, eu vos aconselho para vosso bem; saí armado. Não quero ser homem de bem, se em tudo isso houver algo de bom para vós. Contei-vos o que vi e ouvi, mas muito por cima, sem vos apresentar a imagem horrorosa da coisa. Peço-vos, ide logo.

EDGAR — Terei logo notícias vossas?

EDMUNDO — Neste negócio estarei a vosso inteiro dispor. (Sai Edgar.) Um pai simplório e um mano em tudo nobre, que, pela própria condição, tão longe se acha de qualquer mal, que nem suspeitas sobre isso pode ter e em cuja tola probidade montar vai facilmente minha velhacaria. A coisa é clara: terras vou ter, ganhando-as com finura; falhando o berço, o espírito as segura. (Sai.)

Cena III

Um quarto no palácio do duque de Albânia. Entram Goneril e seu intendente Osvaldo.

GONERIL — Meu pai bateu no gentil-homem, por ter este ralhado com o bobo dele?

OSVALDO — Sim, minha senhora.

GONERIL — Dia e noite me ofende. Não se passa nenhuma hora sem que ele não fuzile com qualquer grosseria, que a nós todos traz somente discórdia. Não o suporto; turbulentos estão seus cavaleiros e a censurar-nos ele próprio vive por dá cá aquela palha. Não pretendo falar com ele, quando vier da caça. Dizei que estou doente; e, se cumprirdes com certa negligência algum serviço, estará bem; responderei por tudo.

OSVALDO — Ei-lo, senhora; ouço o barulho dele.

(Ouve-se toque de trompa.)

GONERIL — Mostrai a negligência que quiserdes, vós e os outros de casa, pois desejo que me venha falar a esse respeito. Se não gostar, então que se transfira para a casa da mana, cujo modo de pensar, estou certa, está de acordo com o meu, em não querer ser governada. Velho caduco, a pretender o mando sobre o que já doou! Por minha vida, os velhos tontos são de novo crianças; com ralhos, só, precisam ser tratados. Lembrai-vos do que eu disse.

OSVALDO — Sim, senhora.

GONERIL — E lançai frio olhar para seus homens. Pouco importa o que vier; avisai todos. Quero achar nisso tudo algum pretexto para poder falar. Sem mais delongas, escreverei à mana, para que ela faça como eu. Prepara logo a ceia.

(Saem.)

Cena IV

Uma sala no mesmo. Entra Kent disfarçado.

KENT — Se eu puder conseguir uma outra fala que torne a minha estranha, é bem possível que minha boa empresa a alcançar venha o êxito pleno pelo qual as próprias feições desfigurei. Banido Kent, se ora servir puderes lá mesmo de onde há pouco foste expulso, pode se dar que o mestre a que tanto amas te encontre serviçal.

(Toque de trompa. Entram Lear, cavaleiros e séqüito.)

LEAR — Não me façam esperar nem um segundo pelo jantar. Vai logo aprontá-lo. (Sai o criado.) Então, quem és tu?

KENT — Um homem, senhor.

LEAR — Qual é a tua profissão? Que pretendes de nós?

KENT — Minha profissão é não ser menos do que pareço; servir fielmente a quem confiar em mim; amar quem for honesto; conversar com quem for sábio e falar pouco; temer a justiça; brigar quando não houver outro jeito, e não comer peixe.

LEAR — Quem és tu?

KENT — Um tipo de coração honesto e tão pobre quanto o rei.

LEAR — Se como súdito és tão pobre quanto ele como rei, és, realmente, paupérrimo. Que desejas?

KENT — Serviço.

LEAR — A quem queres servir?

KENT — A vós.

LEAR — Conheces-me, companheiro?

KENT — Não, senhor; mas revelais algo em vossa postura, que me leva a vos chamar de mestre.

LEAR — E que coisa é essa?

KENT — Autoridade.

LEAR — Que serviços podes prestar?

KENT — Sei guardar um segredo honesto, montar a cavalo, correr, estropiar uma história interessante, dizer grosseiramente uma mensagem fácil. Tudo o que um homem ordinário pode fazer, eu também posso, sendo o melhor em mim a diligência.

LEAR — Que idade tens?

KENT — Não sou tão jovem, senhor, para amar uma mulher por causa de seu canto, nem tão velho para me apaixonar por ela sem motivo: tenho quarenta e oito anos na carcunda.

LEAR — Segue-me; irás servir-me. Se depois do jantar não me pareceres pior, não nos separaremos muito logo. O jantar, olá! Onde está o meu rapaz? O meu bobo? — Vós, aí: ide chamar o meu bobo. (Sai um criado.) (Entra Osvaldo.) Vós aí, maroto: onde está minha filha?

OSVALDO — Se o permitis... (Sai.)

LEAR — Que foi que disse aquele tipo? Chamai-me aqui esse rústico. (Sai um cavaleiro.) Onde está o meu bobo, eh! Só parece que o mundo está dormindo. Então, onde está esse mastim?

(Volta o cavaleiro.)

CAVALEIRO — Ele disse, milorde, que vossa filha não está passando bem.

LEAR — Por que motivo aquele escravo não voltou, quando o chamei?

CAVALEIRO — Senhor, ele me respondeu redondamente que não queria voltar.

LEAR — Não queria?

CAVALEIRO — Senhor, não sei o que acontece, mas, a meu ver, Vossa Alteza não é tratado com a afeição cerimoniosa a que estáveis acostumado. Observa-se sensível quebra de carinho, não só com relação à conduta da criadagem, como com a do próprio duque e a de vossa filha.

LEAR — Ah! És dessa opinião?

CAVALEIRO — Suplico-vos, milorde, que me perdoeis, se eu estiver enganado, mas o meu zelo não pode ficar calado, quando penso que Vossa Alteza está sendo prejudicado.

LEAR — Fazes-me lembrado de minha própria percepção; ultimamente tenho notado um certo quê de negligência, que eu atribuía mais à minha própria natureza desconfiada do que a qualquer intenção real e ao propósito de descortesia. Vou examinar isso de mais perto. Mas onde está o meu bobo? Há dois dias que não o vejo.

CAVALEIRO — Desde que a minha jovem senhora partiu para a França, senhor, o bobo definhou bastante.

LEAR — Sobre isso, basta; já o havia notado muito bem. — Vós aí! Ide dizer a minha filha que desejo falar-lhe. (Sai o criado.) E vós, ide chamar o meu bobo! (Sai outro criado.) (Entra Osvaldo.) Oh! Vós, Senhor! Vinde cá, senhor! Quem sou eu, senhor?

OSVALDO — O pai da senhora.

LEAR — “O pai da senhora”? O criado do senhor, cão! Bastardo, escravo, maroto!

OSVALDO — Com vossa permissão, milorde, mas não sou nada disso.

LEAR — Atreves-te a fitar-me desse modo, biltre? (Bate-lhe.)

OSVALDO — Não consinto que me batam, milorde.

KENT — Nem que te dêem um pontapé, meu jogador de futebol? (Dá-lhe um pontapé.)

LEAR — Agradeço-te, companheiro; tu me serves, e eu passarei a estimar-te.

KENT — Vamos, senhor, levantai-vos! Fora daqui! Vou ensinar-vos a distinguir as pessoas. Fora! Fora! Se quiserdes medir outra vez vosso comprimento de labrego, é só continuardes aqui. Caso contrário, fora! Vamos! Não tendes senso? Assim! (Empurra Osvaldo para fora.)

LEAR — Muito obrigado, amigo servidor; aqui está pelo teu serviço.  (Dá dinheiro a Kent.)

(Entra o bobo.)

BOBO — Eu também desejo recompensá-lo; aqui está o meu barrete. (Oferece o gorro a Kent.)

LEAR — Então, meu belo peralta, que estás fazendo?

BOBO — Amigo, farias bem em aceitar o meu gorro.

KENT — Por quê, bobo?

BOBO — Por teres tomado o partido de quem já caiu no desagrado. É assim; se não puderes sorrir do lado do vento, em pouco tempo apanharás resfriado. Toma; fica como meu gorro. Ora vê, este sujeito baniu duas de suas filhas e fez um grande favor à terceira, contra a própria vontade dela. Se vais segui-lo, precisarás usar o meu gorro. Então, meu tio? Quisera ter dois gorros e duas filhas.

LEAR — Por quê, menino?

BOBO — Se eu chegasse a lhes dar todos os meus haveres, me reservaria os gorros. Este aqui me pertence; pede outro a tuas filhas.

LEAR — Toma cuidado com a chibata, maroto!

BOBO — A verdade é um cachorro que se mete na casinha e precisa ser chibateada para sair, enquanto a senhora galga pode ficar a feder junto do fogo.

LEAR — Pestilência amarga para mim!

BOBO (a Kent) — Amigo, vou ensinar-te um discurso.

LEAR — Ouçamo-lo.

BOBO — Toma nota, tio: Não esbanjes teu estado; embora o saibas, calado; não andes, sejas levado; no aprender, muito cuidado; guarda sempre o maior bocado; deixa as mulheres e o vinho; não te metas com o vizinho, porque em uma e outra dezena terás mais uma vintena.

KENT — Isso tudo e nada é a mesma coisa, bobo.

BOBO — Então é como discurso de advogado sem salário. Destes-me nada por ele. Tio, poderíeis fazer algum uso de nada?

LEAR — Não, menino; nada pode ser feito de nada.

BOBO (a Kent) — Por obséquio, dize-lhe a quanto monta a renda de suas terras; ele não acredita num bobo.

LEAR — Um bobo amargo.

BOBO — Saberás dizer, meu rapaz, que diferença há entre um bobo amargo e um bobo doce?

LEAR — Não, menino; ensina-ma.

BOBO — Quem o conselho te deu de doar todas as tuas terras põe aqui ao lado meu, e o dele toma; não erras: verás logo, lado a lado, o doce bobo e o amargoso; um aqui, sarapintado, o outro aí mesmo, achacoso.

LEAR — Com isso queres dizer que eu sou bobo, menino?

BOBO — Já abriste mão de todos os outros títulos; esse é o único que te veio do berço.

KENT — Milorde, o que ele disse não é inteiramente destituído de senso.

BOBO — Não, por minha fé; os senhores e os grandes não permitirão que eu fique sozinho; se eu obtiver o monopólio, eles hão de querer sua parte, e as senhoras também; não deixarão que toda a loucura fique comigo; virão arrebatar-me um pedaço. Tio, dá-me um ovo, que te darei duas coroas.

LEAR — Que espécie de coroas?

BOBO — Ora, depois de haver cortado o ovo em duas partes e comido o seu conteúdo, as duas coroas do ovo. Quando partiste pelo meio a tua coroa e deste as duas metades, carregas-te o burro às costas através do atoleiro. Não tinhas espírito em tua coroa calva, quando fizeste presente da de ouro. Se eu falar sobre isso como costumo, que seja chicoteado o primeiro que me compreender.

Nunca os lobos passaram tanto apuro.

O sábio é tolo e fraco;

a mente não podendo usar no escuro,

vive como macaco.

LEAR — Desde quando ficaste tão amigo de canções, maroto?

BOBO — Ora, tio, desde que de tuas filhas fizeste tuas mães. Porque desde que lhes entregaste a vergasta e desceste os calções, elas choram de alegria; de tristeza eu rio e canto, por ver um rei na folia mas na cabeça, nem tanto. Tio, por obséquio, arranja um mestre-escola que ensine teu bobo a mentir. Desejara muito aprender a mentir.

LEAR — Se mentires, maroto, serás açoitado.

BOBO — Não posso compreender que tu e tuas filhas sejais aparentados; elas me açoitam por eu dizer a verdade, enquanto tu pretendes fazer o mesmo no caso de eu mentir, sem contarmos que algumas vezes tenho sido açoitado por estar quieto. Quisera ser tudo neste mundo, menos bobo, mas não desejo ser o que és, tio; dos dois lados raspaste o espírito, sem deixar nada no meio. Aí vem vindo uma das raspadoras.

(Entra Goneril.)

LEAR — Então, filha? Por que esse diadema carrancudo? Ultimamente só parece que andais sempre de sobrecenho fechado.

BOBO — Tu eras um belo tipo, quando não precisavas preocupar-te com as suas carrancas; agora és um zero sem número. Presentemente, sou mais do que tu; sou um bobo, ao passo que tu és nada. (A Goneril.) Pois não, pois não! Vou segurar a língua, que é o que vossa fisionomia me está ordenando, muito embora nada houvésseis dito. Mum, mum! Quem não guardou mel nenhum, tem de viver em jejum. Ali está uma ervilha sem grão. (Apontando para Lear.)

GONERIL — Não somente, senhor, o vosso bobo, que se permite muitas liberdades, como outros cavaleiros insolentes de vosso séqüito, a cada hora brigam e suscitam questões, fazendo arruaças de todo intoleráveis. Pois, senhor, pensei que, pondo-vos a par do fato, acharia remédio; mas começo, realmente, a me temer, pelo que há pouco dissestes e fizestes, que esse abuso apoio encontra em vós, tomando alento em vossa tolerância. Se for isso, não deixará de ser punida a falta nem de velar os meios de defesa que, ao bem-estar de todos só visando, poderá ofender-vos por maneira que, em outras conexões, fora aprobriosa, mas que a necessidade o nome empresta de conduta discreta.

BOBO — Porque, como sabeis, tio, tanto ao pardal o cuco deu bom milho, que a cabeça esmagou-lhe o próprio filho. E assim a luz se apagou e nós ficamos no escuro.

LEAR — Sois nossa filha?

GONERIL — Desejara que usásseis o bom senso de que vos sei provido e que pusésseis de lado essas disposições recentes que a tal ponto vos tem mudado a essência.

BOBO — Não saberá um asno, quando a carroça puxa o cavalo? “Toca, Jug! Eu te amo!”

LEAR — Conhece-me ainda alguém? Não, não é Lear. Andava Lear assim? Falava assim? Onde terá os olhos? Há de fraca ter a razão e rombos os sentidos. Estarei acordado? Não. Quem pode vir-me contar quem em verdade eu seja?

BOBO — A sombra de Lear.

LEAR — Desejaria aprender isso, porque pelos atributos da soberania, do conhecimento e da razão, eu seria levado a crer que tive filhas.

BOBO — Que fariam de vós um pai obediente.

LEAR — Como vos chamais, bela senhora?

GONERIL — Esse espanto, senhor, é mui do gosto de vossa nova telha. Desejara que compreendêsseis bem minha intenção. Por velho e venerável, deveríeis ser sensato também. Uma centena de cavaleiros e escudeiros tendes para servir-vos, gente de tal modo desordeira, atrevida e depravada, que nossa corte, corrompida pelas práticas deles todos, se assemelha a taberna em motim. O epicurismo e a torpeza fizeram-na tornar-se mais taberna e bordel do que palácio cheio de tradições. O próprio pejo está a exigir uma medida urgente. Deixai-vos, pois, rogar por quem, sem isso, vos tomara o que pede, isto é, de um pouco reduzir vosso séqüito, devendo ser o restante, apenas, destinado a vos cuidar da idade e, sobretudo, ter consciência de vós e dessa gente.

LEAR — Demônio e inferno! Tragam meu cavalo! Reuni logo meu séqüito! Bastarda degenerada, não desejo ser-te pesado em nada. Resta-me outra filha.

GONERIL — Bateis na minha gente, e essa canalha desordenada trata os superiores como se fossem criados.

(Entra Albânia.)

LEAR — Ai de quem se arrepende tardiamente! (A Albânia.) Ó senhor, vós aqui? São ordens vossas? Falai, senhor! — Olá! Mandai trazer-me o meu cavalo! — Ingratidão, demônio de coração de mármore, mais feio, quando numa criança se revela, do que o monstro marinho.

ALBÂNIA — Por obséquio, senhor, ficai mais calmo.

LEAR (a Goneril) — Detestável harpia, estás mentindo! Minha gente toda é escolhida e de costumes limpos; conhecedores são de seus deveres e com muito cuidado mantêm sempre a honra do próprio nome. Ó faltazinha, como em Cordélia apareceste feia! Tu, como banco de tormento, as traves de minha natureza deslocaste de seu estado fixo e todo o afeto me chupaste do peito, transformando-o no fel mais amargoso. Ó Lear! Ó Lear! (Batendo na testa.) Bate agora a esta porta, que a loucura deixou entrar e o teu tão caro juízo permitiu que saísse. Vamos, vamos, minha gente!

ALBÂNIA — Senhor, sou inocente, como não sei também qual o motivo que vos deixou colérico.

LEAR — É possível, meu senhor. Natureza, agora me ouve! Deusa querida, atende-me! Suspende teus desígnios, se acaso pretendias deixar fecunda agora esta criatura; ao ventre lança-lhe a esterilidade, ressequidos lhe deixa os órgãos todos da procriação, não permitindo nunca que lhe nasça do corpo desprezível uma criança que a possa honrar um dia. Se tiver de procriar, que tenha um filho feito só de malícia, porque viva para um desnaturado e pervertido tormento lhe ser sempre. Que lhe faça muitas rugas nascer na fronte jovem e, com ardentes lágrimas, profundos sulcos lhe abra nas faces; que compense com chacotas e riso os sofrimentos e cuidados maternos, para que ela possa ver como dói mais fundamente que o dente da serpente a filha ingrata. Fora daqui! Partamos!

ALBÂNIA — Deuses do alto, que adoramos, que é que houve?

GONERIL — Não vos seja preocupação saberdes o motivo. Que seus caprichos tenham livre o campo que sua caduquice lhes confere.

(Volta Lear.)

LEAR — Como! Cinqüenta dos meus homens, postos de lado, de uma vez, em quinze dias?

ALBÂNIA — Que aconteceu, senhor?

LEAR — Já vou contar-te. (A Goneril.) Vida e morte! Envergonha-me que tenhas poder para abalar dessa maneira minha virilidade e que estas lágrimas escaldantes, que à força se me escapam, te façam parecer condigna delas. Caiam em ti nevoeiros e rajadas. Que as feridas profundas da paterna maldição os sentidos te corroam. Velhos olhos e tontos, se chorardes novamente essa causa, hei de arrancar-vos para ao barro atirar-vos e, com as gotas que estiverdes perdendo, amolecê-lo. Chegamos a este ponto? Pois que seja! Outra filha me resta, estando eu certo de que ela é para mim bondosa e afável. Quando vier a saber o que fizeste, há de com as próprias unhas arranhar-te essas feições de lobo. Então, a forma me verás reassumir que ora presumes perdida para sempre. É o que te digo.

(Saem Lear, Kent e o séqüito.)

GONERIL — Ouvistes tudo?

ALBÂNIA — Goneril, não posso ser tão parcial, embora vos estime...

GONERIL — Por obséquio, é o bastante. Olá! Osvaldo! (Ao bobo.) Vós, senhor, mais velhaco do que bobo, segui vosso patrão.

BOBO — Tio Lear! Tio Lear! Espera aí e leva o bobo contigo! Se uma raposa eu pegasse com sua filha repace e o couro dela tirasse... De gorro assim sobre a face, seria o bobo da classe. (Sai.)

GONERIL — Esse homem tem razão: cem cavaleiros! Fora boa política, em verdade, deixá-lo com cem homens que, por nada, qualquer queixa, capricho ou fantasia, armas à caduquice lhe dariam, ficando dependendo nossas vidas só de sua mercê. Olá, Osvaldo!

ALBÂNIA — Vosso medo é excessivo.

GONERIL — É mais seguro do que confiar demais. E preferível o obstáculo afastar de que me temo, a temer ser pegada de surpresa. Conheço-o muito bem; já por escrito comuniquei à mana o que ele disse. Se ela o aceitar com todos os seus homens depois de eu ter mostrado... (Entra Osvaldo.) Então, Osvaldo, já escrevestes a carta para a mana?

OSVALDO — Sim, escrevi, senhora.

GONERIL — Levai convosco alguns dos nossos homens e parti a cavalo. Dai-lhe plenas informações de tudo o que receio, acrescentando o que quiserdes, para reforçar o recado. Parti logo, e, assim, voltai depressa. (Sai Osvaldo.) Não, milorde, essa brandura que mostrais, leitosa, conquanto eu não censure, permiti-me que vos diga, porém: mais censurado sois por falta de senso do que mesmo louvado por bondoso em demasia.

ALBÂNIA — Não sei até onde vosso olhar alcança, mas temo que estragueis a boa usança.

GONERIL — Então...

ALBÂNIA — Bem, bem; os fatos o dirão. (Saem.)

Cena V

Pátio diante do mesmo. Entram Lear, Kent e o bobo.

LEAR — Parti na frente, para Gloster, com estas cartas. Não conteis a minha filha do que sabeis senão o que ela vos perguntar com relação ao assunto da carta. Se não fordes muito diligente no recado, chegarei lá primeiro.

KENT — Não dormirei, senhor, enquanto não tiver entregue vossa carta. (Sai.)

BOBO — Se o homem tivesse o cérebro no calcanhar, não correria o risco de apanhar frieira?

LEAR — Correria, pequeno.

BOBO — Então peço-te que fiques alegre, porque o teu espírito não irá andar de chinelas.

LEAR — Ah, ah, ah!

BOBO — Vais ver como tua outra filha te trata bem, porque embora ela se pareça tanto com esta aqui como uma maçã silvestre com uma maçã comum, posso dizer o que posso dizer.

LEAR — Que é que podes dizer, pequeno?

BOBO — Que ela te vai ser de gosto tão idêntico ao gosto desta como o de duas maçãs silvestres. Saberás dar-me a razão de termos o nariz no meio do rosto?

LEAR — Não.

BOBO — Ora, é para ficarmos com um olho de cada lado do nariz, a fim de espiarmos o que não pudermos cheirar.

LEAR — Fui injusto com ela...

BOBO — Sabes como é que a ostra fabrica a valva?

LEAR — Não.

BOBO — Nem eu; mas poderei dizer-te porque o caracol tem casa.

LEAR — Por que é?

BOBO — Ora, é para guardar a cabeça e não a dar às filhas ficando, assim, sem ter onde guardar os cornos.

LEAR — Quero esquecer minha natureza. Um pai tão carinhoso! Estão prontos os cavalos?

BOBO — Teus asnos foram procurá-los. A razão por que sete estrelas não são mais de sete é muito interessante.

LEAR — Não é por não serem oito?

BOBO — Justamente. Darias um excelente bobo.

LEAR — Retomá-lo pela força! Ingratidão monstruosa!

BOBO — Se tu fosses o meu bobo, tio, eu te daria uma sova por teres ficado velho antes do tempo.

LEAR — Como assim?

BOBO — Não devias ter envelhecido antes de ficares sábio.

LEAR — Não quero ficar louco, céu bondoso! Mantém-me o juízo; tudo menos louco! (Entra um gentil-homem.) Então, estão prontos os cavalos?

GENTIL-HOMEM — Estão prontos, senhor.

LEAR — Vamos, pequeno.

BOBO — A donzela que rir de mim neste momento, donzela não será, se é certo o que ora avento.

(Saem.)

ATO II
Cena I

Pátio diante do castelo do duque de Gloster. Entram Edmundo e Curan, que se encontram.

EDMUNDO — Deus te guarde, Curan.

CURAN — E a vós também, senhor. Estive com vosso pai e lhe dei a notícia de que o duque de Cornualha e Regane sua duquesa chegarão aqui esta noite.

EDMUNDO — E por que isso?

CURAN — Ignoro-o. Não ouvistes as notícias que correm por aí? Refiro-me apenas às que são cochichadas e que não são mais do que assuntos soprados aos ouvidos.

EDMUNDO — Eu? Não. Por obséquio, quais são elas?

CURAN — Não ouvistes dizer que é muito provável uma guerra entre os duques de Cornualha e de Albânia?

EDMUNDO — Nem uma palavra.

CURAN — Então ainda haveis de ouvir algo a esse respeite. Passai bem, senhor. (Sai.)

EDMUNDO — O duque aqui esta noite? Melhor... Ótimo! Isso cai mesmo certo no meu plano. Meu pai pôs gente em busca de meu mano e um negócio nauseoso ainda me resta para ser posto em prática. Mãos à obra. Celeridade e sorte! Mano, mano! Uma palavra! Vinde! Estou chamando! (Entra Edgar.) Meu pai está de espreita. Oh! Fugi logo; deixai o esconderijo, que este ponto já se tornou sabido. É conveniente aproveitar a noite. Por acaso não vos manifestastes em prejuízo do duque de Cornualha? Ele vem vindo para aqui, apressado, em plena noite, e Regane com ele. Não dissestes a favor dele nada, contra o duque de Albânia? Pensai bem.

EDGAR — Não disse nada, tenho certeza.

EDMUNDO — Ouço meu pai que chega. Perdoai-me, mas por fingimento, apenas, tirai também a espada e defendei-vos, só por simulação. Parti, agora. — Rendei-vos! Vamos ante nosso pai! Luz, aqui! — Fugi, mano! — Tochas! Tochas! — Assim. Adeus, adeus. (Sai Edgar.) Agora um pouco de sangue há de fazer nascer a idéia de um combate mais sério. (Fere-se no braço.) Já vi bêbedos fazer por brincadeira mais do que isso. Pai! Pai! Prendei! Prendei! Ninguém me ajuda?

(Entram Gloster e criados, com tochas.)

GLOSTER — Edmundo, onde está o biltre?

EDMUNDO — Aqui se achava, no escuro, espada em punho, depravados conjuros resmungando e, como a dama auspiciosa, a invocar a própria lua.

GLOSTER — Mas onde está?

EDMUNDO — Senhor, estou sangrando.

GLOSTER — Mas onde está esse vilão, Edmundo?

EDMUNDO — Fugiu por lá, senhor, quando viu que era de todo inútil...

GLOSTER — Lá? Ide atrás dele! (Saem alguns criados.) “De todo inútil...” Quê?

EDMUNDO — Sim, persuadir-me a vos tirar a vida. Respondi-lhe que os deuses vingadores desferiam seus duros raios contra os parricidas; lembrei-lhe os laços múltiplos e fortes que aos pais os filhos prendem. Em resumo, senhor: vendo o desgosto que eu opunha a suas intenções desnaturadas, enraivecido, espada em punho, ataca-me o corpo exposto e o braço aqui me fere. Mas ao ver que os espíritos eu tinha bem despertos e que pela justeza da causa a combatê-lo se atreviam, ou por eu ter muito barulho feito, de repente, fugiu.

GLOSTER — Pode esconder-se onde quiser, que neste território encontrado há de ser. E, uma vez preso... liquidado. Meu mestre, o nobre duque, meu mui dígno patrono e amado príncipe chega esta noite. Assim, proclamarei, com sua autoridade, que há de nossa graça alcançar quem quer que encontre o biltre e o covarde assassino entregue ao cepo. E se alguém o esconder, morra igualmente!

EDMUNDO — E quando procurava dissuadi-lo de semelhante intento, achando-o cada vez mais determinado em realizá-lo, e ameacei denunciá-lo, respondeu-me: “Bastardo sem haveres, então pensas que, se acareados fôssemos, alguma confiança em teu valor, virtude ou mérito reforçar poderia o que dissesses? Não; pois o que eu negasse — e hei de fazê-lo, embora apresentasses cartas minhas — atribuiria tudo a teus conselhos, traça e manobras pérfidas. Preciso fora deixares tolo o mundo inteiro, para que ninguém visse quanto o lucro de minha morte te seria estímulo para que a procurasses”.

GLOSTER — Celerado teimoso e endurecido! Negaria sua própria carta? Não, não é meu filho. (Fanfarras.) Atenção! As trombetas são do duque. Não sei por que motivo nos visita. Os portos fecharei, para que o biltre não nos possa escapar. O duque me há de permitir isso. Espalharei por toda parte o retrato dele; assim, o reino conhecerá seus traços. Minhas terras, rapaz fiel e natural, recursos hei de arranjar para que a herdá-las venhas.

(Entram Cornualha, Regane e séqüito.)

CORNUALHA — Então, meu nobre amigo? Desde o instante que aqui cheguei — e foi neste momento — soube coisas mui raras.

REGANE — Confirmadas, toda vingança ainda não bastara para ir sobre o ofensor. Então, milorde?

GLOSTER — Ó senhora, senhora! Espedaçado ficou-me o coração. Espedaçado!

REGANE — Como! O afilhado de meu pai tentou contra vossa existência? Aquele mesmo em que meu pai pôs nome? Vosso Edgar?

GLOSTER — Ó senhora! A vergonha ora me manda ficar calado.

REGANE — Acaso ele não era companheiro dos homens turbulentos que servem a meu pai?

GLOSTER — Não sei, senhora Oh! É terrível tudo!

EDMUNDO — Sim, senhora; pertencia a esse bando.

REGANE — Se assim é, não admira que mostrasse sentimentos tão baixos. Partiu deles a idéia de matar o velho, para desbaratarem logo seus haveres. De minha irmã recebi hoje cedo boas informações sobre essa gente, com tantas advertências, que, se acaso quiserem ir parar em minha casa, não me encontrarei lá.

CORNUALHA — Nem eu, Regane. Edmundo, soube agora que prestastes a vosso pai serviços de bom filho.

EDMUNDO — Só fiz o meu dever.

GLOSTER — Fez frustrar a manobra do outro, tendo recebido a ferida que aqui vedes, quando tentou prendê-lo.

CORNUALHA — Seguiu gente no encalço dele?

GLOSTER — Sim, meu bom senhor.

CORNUALHA — Sendo apanhado, havemos de deixá-lo em condições de nunca mais receio vir a causar a alguém. Tomai vós mesmo todas as providências e disponde do meu poder como vos for do agrado. E vós, Edmundo, tão recompensado neste momento, assim pela obediência como pela virtude, sereis nosso. Pessoas de lealdade tão provada são muito necessárias. Começamos, assim, por nos apoderar de vós.

EDMUNDO — Embora mais não faça, hei de lealmente servir a meu senhor.

GLOSTER — Muito agradeço por ele a Vossa Graça.

CORNUALHA — Com certeza não sabeis a razão desta visita...

REGANE — . . .assim fora de tempo, abrindo nosso caminho pela noite de olhos negros. Motivos, nobre Gloster, de algum peso tornam vossos conselhos necessários. Nosso pai nos escreve, e nossa mana, sobre certos dissídios, parecendo-me mais acertado responder a todos longe de nossa casa. Os mensageiros estão aqui à espera da resposta. Velho e bondoso amigo, deixai calmo, de todo, o coração, e em nosso auxílio vinde com bons conselhos sobre assunto que exige muita urgência.

GLOSTER — Ao vosso inteiro dispor, senhor, me encontro. Vossas Graças são bem-vindas aqui.

(Saem.)

Cena II

Diante do castelo de Gloster. Entram Kent e Osvaldo, por lados diferentes.

OSVALDO — Boa manhã para ti, amigo; és desta casa?

KENT — Sou.

OSVALDO — Onde poderemos pôr os cavalos?

KENT — No charco.

OSVALDO — Informa-me, por obséquio, se me tens amizade.

KENT — Não te tenho amizade nenhuma.

OSVALDO — Nesse caso não me preocuparei contigo.

KENT — Se eu te pegasse no curral de Lipsbury, obrigar-te-ia a te preocupares comigo.

OSVALDO — Por que me tratas desse modo? Não te conheço.

KENT — Mas eu te conheço, traste.

OSVALDO — Por quem me tomas tu?

KENT — Por um biltre, um canalha, devorador de restos; um biltre ignóbil, atrevido, oco, indigente, de três librés, massabruta, imundo, de meias estragadas; um biltre com fígado de lírio, um chicanista; nascido na sarjeta, namorador do espelho, espinha mole, petimetre; um lacaio que só herdou uma roupa, um tipo que servirá de alcoviteiro, à guisa de bons serviços, mas que não passa de um misto de velhaco, mendigo, covarde, alcoviteiro e herdeiro de uma cadela bastarda; um tipo em que darei uma coça de arrancar rugidos, no caso de contestares a menor sílaba de todos estes teus títulos honoríficos.

OSVALDO — Ora, que sujeito monstruoso és tu, para deblaterares contra uma pessoa que nem te conhece nem é conhecida por ti?

KENT — Que tipo de cara de bronze és tu, para dizeres que não me conheces, se há dois dias eu te dei um pontapé na frente do rei? Saca a tua espada, pulha; ser noite não importa, visto que há luar; vou fazer de ti uma sopa à luz da lua. (Sacando da espada.) Vamos, desembainha também a tua espada, maroto, coisa à toa, peralvilho! Vamos, desembainha!

OSVALDO — Retira-te daqui! Não tenho nada que ver contigo.

KENT — Desembainha, maroto! Trouxestes cartas contra o rei e tomais o partido da boneca vaidosa, contra a realeza do pai dela. Saca a espada, biltre; se não retalho-te as canelas. Saca da espada, biltre! Toma posição!

OSVALDO — Socorro! Olá! Assassino! Socorro!

KENT — Ataca, escravo! Defende-te, patife! Defende-te! Vamos, ataca, lacaio! (Bate-lhe.)

(Entra Edmundo, de florete na mão.)

EDMUNDO — Então, que aconteceu?

KENT — É convosco, se vos aprouver, meu rapazinho. Vinde, meu jovem mestre, que desejo dar-vos uma lição.

(Entram Cornualha, Regane, Gloster e criados.)

GLOSTER — Espadas! Armas! Que se passa aqui?

CORNUALHA — Por vossa vida, paz! Morre quem prosseguir. Que é que se passa?

REGANE — Os mensageiros são do rei e da mana.

CORNUALHA — Qual o motivo dessa briga? Vamos!

OSVALDO — Quase não posso respirar, milorde.

KENT — Não admira, pois forçaste demais a valentia. Pulha covarde! A natureza te renega; foste feito por algum alfaiate.

CORNUALHA — És um tipo curioso; um alfaiate fazer um homem?

KENT — Sim, um alfaiate, senhor; um escultor ou um pintor não o teriam feito tão mal, ainda que só trabalhassem duas horas.

CORNUALHA — Falai vós agora: que foi que originou essa briga?

OSVALDO — Este velho desordeiro, senhor, cuja vida eu poupei só por causa daquelas barbas brancas...

KENT — Ó amaldiçoado! Letra inútil! Milorde, se o permitirdes, amassarei num pilão esse vilão grosseiro, para enlambuzar com ele as paredes da latrina. Então poupastes-me as barbas brancas, meu ranheta?

CORNUALHA — Silêncio, biltre! Grosseirão, desconheces o respeito?

KENT — Conheço, sim senhor; mas é que a cólera também tem privilégios.

CORNUALHA — Por que causa ficastes tão colérico?

KENT — Por ver de espada um pulha destituído de honestidade. Os biltres sorridentes como este aqui, tal qual os ratos, roem os laços sacrossantos que, por fortes, não podem desmanchar; adulam todas as paixões que refervam no imo peito de seus amos; no fogo põem mais óleo; mais neve, nos humores, de si frios; afirmam, negam, viram seus pescoços de alcião, de acordo com as menores brisas e variações dos amos, ignorando, como os cães, tudo o mais, senão seguir. A peste nessa cara de epiléptico! Do meu discurso ris como de um tolo? Ganso, se eu te apanhasse na planície de Sarnum, tocar-te-ia a Camelot, fazendo-te grasnar.

CORNUALHA — Que é isso, velho? Ficastes louco?

GLOSTER — Qual a razão disso? Vamos, falai.

KENT — Não pode haver contrários que revelem maior antipatia do que eu e esse patife.

CORNUALHA — Por que causa o chamas de patife? Que te fez?

KENT — Não vou com a cara dele.

CORNUALHA — Nem com a minha não é assim? E a deste aqui, e a dela?...

KENT — Senhor, tenho por hábito ser franco: em minha vida toda já vi rostos mais agradáveis do que quantos posso discernir sobre os ombros dos presentes.

CORNUALHA — É algum sujeito que por já ter sido louvado de franqueza, usa linguagem rude e insolente, contra as próprias vestes de sua natureza. É-lhe impossível adular. Não! Caráter reto e honesto. Só diz o que é a verdade; os mais que a aceitem, se puderem; se não, falou sincero. Conheço muito bem esses bargantes, cuja franqueza abriga mais enganos e corruptos intentos do que vinte desses coitados cheios de zumbaias que cumprem belamente seus deveres.

KENT — Por minha alma, senhor, pela verdade, com a permissão de vosso augusto aspecto, cujo poder é como a auréola rútila da cabeça de Febo coruscante...

CORNUALHA — Que pretendeis com isso?

KENT — Deixando de lado meu estilo, que tanto desaprovais, senhor, sei perfeitamente que não sou bajulador. Quem vos enganou com fraseado polido não passava de um velhaco, o que, de minha parte, não pretendo ser, ainda que disso me adviesse conquistar o vosso desagrado.

CORNUALHA — Que ofensa lhe fizestes?

OSVALDO — Eu? Nenhuma. Por um mal-entendido, não faz muito, aprouve ao rei, seu mestre, castigar-me. Para adular-lhe a cólera, atirou-se-me este aqui por detrás e derrubou-me, sobre insultar-me, por me ver caído, remoques atirando-me e estadeando tanta virilidade, como se algo, de fato, fosse, e encômios ganhou logo do rei, porque atacara quem já estava vencido por si mesmo. E ora, animado pelo êxito de tão grandioso feito, me atacou novamente.

KENT — Todos esses covardes e mandriões fazem de bobo ao próprio Ajax.

CORNUALHA — Tragam-me logo o cepo! Maroto pertinaz, encanecido fanfarrão, haveremos de ensinar-vos...

KENT — Senhor, para aprender sou muito velho. Para mim não mandeis trazer o cepo. Pertenço ao rei, e foi por seu mandado que vos vim procurar. Revelaríeis pouco respeito e excesso de arrogância contra a pessoa e a graça de meu amo, pondo no cepo o mensageiro dele.

CORNUALHA — Trazei-me o cepo! Por minha alma e honra, há de ficar aí até ao meio-dia.

REGANE — Meio-dia? Até à noite, meu senhor; a noite toda, aliás.

KENT — Como, senhora! Se eu fosse o cão de vosso pai, decerto não me daríeis esse tratamento.

REGANE — Mas dou-vo-lo, por serdes seu criado.

CORNUALHA — Este tipo é da cor dos que nos fala nossa irmã. Vamos; tragam logo o cepo!

(O cepo é trazido.)

GLOSTER — Deixai-me suplicar a Vossa Graça que não façais tal coisa. Sua falta foi grande; mas o rei, seu bondoso amo, saberá castigá-lo. A pena baixa que ora lhe destinais só é aplicável aos mais vis transgressores, por delitos ordinários ou crimes de pilhagem. O rei há de achar mal ver-se tratado com tão pouco respeito no emissário que aqui vai ficar preso.

CORNUALHA — Isso é comigo; responderei por tudo.

REGANE — Pior ainda há de achar minha irmã que houvesse sido agredido e insultado o gentil-homem da parte dela. — Assim; prendei-lhe os pés. Caro senhor, partamos.

(Kent é posto no cepo.)

(Saem todos, com exceção de Gloster e Kent.)

GLOSTER — Amigo, dás-me pena; mas o duque foi que o determinou, sabendo todos que seu temperamento não suporta ser friccionado em nada ou posto em xeque. Hei de pedir por ti.

KENT — Não, por obséquio, senhor; não dormi nada e andei bastante. Parte do tempo dormirei; o resto passarei assobiando. Pode dar-se que pelos calcanhares cresça a sorte de um homem de valor. Dou-vos bom dia.

GLOSTER — Está errado o duque. Isto vai mal. (Sai.)

KENT — Bom rei, confirmas o brocardo antigo: deixas as bênçãos de um céu calmo e límpido pelo sol escaldante. Vem para perto, luz do mundo baixo, porque eu consiga ler esta missiva sob os teus raios brandos. Quase nunca vemos milagres, se não for apenas quando infelizes. Veio-me esta carta, sei-o bem, de Cordélia, que, por sorte, ficou sabendo de meu curso obscuro e há de achar ocasião, nesta nossa época desordenada, para dar remédio ao que estiver doente. Tão cansados por contínuas vigílias, alegrai-vos, olhos pesados, por não conseguirdes ver bem neste aposento vergonhoso. Fortuna, passa bem; sorri de novo e faze andar mais uma vez a roda. (Adormece.)

Cena III

Uma parte da charneca. Entra Edgar.

EDGAR — Eu próprio ouvi o pregão em que diziam que me acho foragido, tendo à caça conseguido escapar no oco de uma árvore. Não há porto algum livre, nenhum ponto em que não haja guarda e rigorosa vigilância, no intuito de apanhar-me. Salvo estarei enquanto fugir deles, pretendendo assumir a mais abjeta, mais humilde aparência com que nunca, no seu desprezo aos homens, a miséria dos animais se houvesse aproximado. Lama no rosto hei de passar, nos lombos porei qualquer coberta, desmanchados trarei sempre os cabelos, e, com minha nudez patente, hei de enfrentar a fúria dos ventos e do céu. Tenho modelos e precedentes aqui mesmo, nesses mendigos tresloucados que, com urros, nos braços nus e entorpecidos cravam alfinetes, espinhos, pregos, ramos de rosmaninho e, assim, de aspecto horrível, nas cabanas, nas vilas miseráveis, nos apriscos de ovelhas, nos moinhos, com imprecações de loucos ou com rezas a caridade forçam. Pobre Tom! Pobre Turlu! Já sou alguma coisa; mas, como Edgar, serei coisa nenhuma. (Sai.)

Cena IV

Diante do castelo de Gloster. Kent no cepo. Entram Lear, o bobo e um gentil-homem.

LEAR — É estranho que de casa se partissem sem me terem reenviado o mensageiro.

GENTIL-HOMEM — Pelo que saber pude, até esta noite tenção não tinham de sair de casa.

KENT — Salve, meu nobre mestre!

LEAR — Como! Fazes da vergonha recreio?

KENT — Não, milorde.

BOBO — Ah! ah! Usa ligas muito duras. Os cavalos são amarrados pela cabeça; cachorros e ursos, pelo pescoço; os macacos, pela cintura, e os homens pelas pernas. Quando alguém tem as pernas muito desenvoltas, calça meias de pau.

LEAR — Quem errou a tal ponto com teu posto, para te pôr aí?

KENT — Foi ele e ela; o filho e a filha vossa.

LEAR — Não!

KENT — É certo.

LEAR — Não, repito.

KENT — O contrário eu também digo.

LEAR — Não fariam tal coisa.

KENT — Pois fizeram.

LEAR — Juro por Júpiter que não.

KENT — Por Juno, torno a jurar que sim.

LEAR — Não o ousariam, não poderiam tê-lo feito. For a pior do que um assassínio tal ultraje ao respeito infligir. Com a mais decente pressa agora me conta de que modo pudeste merecer, ou antes, eles infligir-te essa pena, se aqui vieste de nossa parte como mensageiro.

KENT — No instante em que, senhor, na casa deles a missiva entreguei de Vossa Alteza, sem que tivesse tido tempo ainda de alçar-me do lugar em que se achava meu dever ajoelhado, fumegante chegou um correio, em água todo esfeito de tanta pressa, o fôlego cortado, a arquejar cumprimentos de sua ama, Goneril. Entregou-lhes uma carta — sem se importar com meu recado em curso — que lida foi de pronto, e a cujo assunto os homens logo reúnem, vão diretos para os cavalos, dizem-me que os siga e o vagar da resposta aqui esperasse, dirigindo-me sempre olhares frios. Tendo o outro mensageiro aqui encontrado, cuja chegada, vira-o bem, a minha havia envenenado — e que era o mesmo velhaco que se comportara contra Vossa Alteza com tanto atrevimento — mostrando-me mais homem do que sábio, saquei da espada, enquanto ele alarmava toda a casa com berros de covarde. Acharam, vosso filho e vossa filha, essa infração bastante grave, para o opróbrio merecer por que ora passo.

BOBO — O inverno ainda não passou, no caso de voarem nesta direção os patos selvagens. Quando os pais só vestem trapos, os filhos nem querem vê-los; quando são ricos e guapos, são para eles só desvelos. A Fortuna marafona sempre os pobres abandona. Mas apesar de tudo, tuas filhas te proporcionarão mais dólares do que possas contar em um ano.

LEAR — Oh! Como ao peito esta paixão me sobe! Desce, “histerica passio”, dor que sobe! É em baixo teu lugar. E onde está a filha?

KENT — Senhor, com o conde, aí dentro.

LEAR — Não me sigas; espera aqui. (Sai.)

GENTIL-HOMEM — Nenhuma ofensa, acaso, fizestes, a não ser a que contastes?

KENT — Nenhuma. Mas por que traz o rei tão pouca gente?

BOBO — Se tivesses sido posto no tronco por essa pergunta, fora bem merecido.

KENT — Por quê, bobo?

BOBO — Vamos pôr-te a aprender com uma formiga, que te ensinará que no inverno não há trabalho. Todas as pessoas que seguem o nariz são levadas pelos olhos, com exceção dos cegos, não havendo um só nariz, entre vinte, que não perceba quem está fedendo. Solta a roda grande, quando ela começar a rolar colina abaixo, se não quiseres quebrar o pescoço; mas quando a roda grande subir a colina, bem: que te arraste atrás dela. Quando um sábio te der melhor conselho, dá-lhe o meu de retorno. Quisera que só fosse seguido pelos velhos, por ser conselho de bobo. Quem a outrem serve e lucro tem em mira, e tudo o mais desleixa, se chove, apronta a trouxa e se retira, e no pegão o deixa. Mas eu não fugirei; o bobo fica; seja o sábio fujão. Bobo se torna um biltre, quando estica; mas biltre o bobo, não.

KENT — Onde aprendeste isso, bobo?

BOBO — Não foi no cepo, bobo.

(Volta Lear, com Gloster.)

LEAR — Recusam-se a falar-me? Estão doentes? Fatigados? Viajaram toda a noite? Meras tretas; imagens, tão-somente, de revolta e abandono. Arranja-me outra resposta mais razoável.

GLOSTER — Meu querido senhor, conheceis bem a natureza colérica do duque e como sempre persistente se mostra e irredutível em quanto determina.

LEAR — Vingança! Peste! Morte! Confusão! Colérica? Que natureza? Ó Gloster, escuta: falar quero, neste instante, com o Duque de Cornualha e sua esposa.

GLOSTER — Pois não, senhor; já lhes mandei recado.

LEAR — “Já lhes mandei recado!” Entendes-me, homem?

GLOSTER — Entendo, bom senhor.

LEAR — O rei deseja conversar com Cornualha, o pai querido deseja conversar com a própria filha; quer ser obedecido. Já lhes deram semelhante “recado”? Sangue e vida! Colérico! O duque é mui colérico! Dizei ao duque ardente... Não; é cedo. Pode ser que se encontre doente mesmo. A descuidar nos levam sempre as doenças dos deveres que impõe, sempre, a saúde. Já não somos nós mesmos, quando, opressa, ordena a natureza ao próprio espírito que padeça com o corpo. Esperar devo; combater quero este pendor violento que me leva a tomar o acesso mórbido pelo homem são. Que morra o meu prestígio! (Olhando para Kent.) Por que razão ele se encontra ali? Esse ato me persuade de que a ausência do duque e da duquesa é fingimento. Ponham logo meu criado em liberdade! Ide dizer ao duque e sua esposa que desejo falar-lhes neste instante; agora mesmo! Saiam para ouvir-me; se não, em frente aos aposentos deles irei tocar tambor de dar a morte ao sono com o barulho.

GLOSTER — Quem me dera que entre vós tudo viesse a concertar-se! (Sai.)

LEAR — Ai de mim! Sinto o coração subir. Para baixo, de novo!

BOBO — Grita com ele, tio, como fazia a cozinheira com as enguias, ao pô-las vivas na frigideira. Batia-lhes na cabeça com uma vara e gritava-lhes: “Para baixo, mal-educadas! Para baixo!” No entanto, tinha um irmão que, por pura bondade, passava manteiga no feno do cavalo.

(Entram Cornualha, Regane, Gloster e criados.)

LEAR — Bom dia aos dois.

CORNUALHA — E salve Vossa Graça.

(Kent é posto em liberdade.)

REGANE — Fico alegre por ver Vossa Grandeza.

LEAR — Sim, Regane, sei disso; como as causas também de pensar dessa maneira. Se o não ficasses, eu me divorciara da tumba de tua mãe como da de uma mulher adúltera. (A Kent.) Então, liberto? Depois falamos nisso. Minha cara Regane, ah! tua irmã não vale nada. Ó Regane! a maldade corroedora ela amarrou aqui, como um abutre. (Indica o coração.) Mal te posso falar. Não poderias conceber a maneira desumana... Ah, Regane!

REGANE — Por obséquio, senhor, tende paciência. Penso que estais tão longe de apreciar-lhe todo o mérito, como de esquecer-se ela de seus deveres.

LEAR — De que modo?

REGANE — Não posso crer que minha irmã se tenha descuidado no mínimo de suas obrigações. Se acaso, meu senhor, procurou restringir a turbulência de vossos seguidores, deu-se tudo com bases tais e tão recomendáveis intenções, que de toda pecha a expungem.

LEAR — Lanço-lhe a maldição!

REGANE — O senhor, já estais velho! A natureza chegou em vós ao seu confim postremo. Devereis ser guiado e governado por alguém que, melhor do que vós mesmo, vossas necessidades compreendesse. Assim, vos peço, retornai para ela, senhor, e confessai que injusto fostes.

LEAR — Eu, pedir-lhe perdão? Vede como isso vai bem com nossa casa: Amada filha, confesso que sou velho, sendo certo que a velhice é trambolho. Assim, de joelhos, (Ajoelha-se.) peço-vos conceder-me cama, roupa e um pouco de alimento.

REGANE — Meu bondoso senhor, não prossigais. São descabidas essas momices. Retornai para ela.

LEAR (levantando-se) — Jamais, Regane; ela cortou-me o séqüito de metade dos homens, dirigiu-me olhares carrancudos, alcançando-me o coração com a língua viperina. Que em sua fronte ingrata caiam todas as vinganças que o céu guardado tenha. Insuflai-lhe nos ossos jovens, ares pestilenciais, humores deformantes!

CORNUALHA — Ora, senhor, que coisa!

LEAR — Lançai-lhe, raios ágeis, vossas flamas ofuscantes nos olhos desdenhosos! Infectai-lhe a beleza, brumas densas aspiradas dos charcos e engendradas pelo potente sol, para que venha a abater-se-lhe o orgulho e encarquilhar-se.

REGANE — Oh deuses abençoados! Iguais votos me fareis, quando vosso humor violento tomar conta de vós.

LEAR — Jamais, Regane; jamais terás a minha maldição. Teu ser mui delicado não te leva a nenhuma aspereza. Os olhos dela são ferozes; os teus, porém, confortam, não causam queimaduras. Não se casa com tua natureza rogar praga contra minhas vontades, reduzir-me o séqüito, lançar-me termos ásperos, limitar-me a pensão e, finalmente, ferrolhos antepor à minha entrada. Não; mais do que ela sabes os deveres da natureza, obrigações dos filhos, o que a delicadeza impõe a todos e à gratidão devemos. Esquecida não estás da metade do meu reino, que te entreguei por dote.

REGANE — Retornemos ao assunto, senhor.

LEAR — Quem pôs meu homem no cepo?

(Ouve-se toque de trombeta.)

CORNUALHA — Que trombeta será essa?

REGANE — Conheço o toque; é minha irmã. Sua carta fica assim confirmada com a notícia de que viria aqui. Chegou a senhora?

(Entra Osvaldo.)

LEAR — Eis um escravo, cujo orgulho fácil e barato repousa nos favores instáveis da senhora a que ele serve. Fora da minha vista, sacripanta!

CORNUALHA — Que quer dizer com isso Vossa Graça?

LEAR — Quem ao cepo prendeu este meu criado? Regane, espero que não saibas disto. Mas quem vem lá? (Entra Goneril.) Ó céus, se amais os velhos, se com a obediência vosso cetro brando se compadece, se também sois velho, tomai o meu partido e vinde pôr-vos ao meu lado. (A Goneril.) Não tens vergonha, acaso, de olhar para estas barbas? Ó Regane! tomá-la pelas mãos?

GONERIL — Por que não há de fazê-lo, meu senhor? Qual foi meu erro? Nem tudo é ofensa que a tolice julga e a loucura nomeia.

LEAR — Ó flancos! duros sois por demais! Resistireis ainda? Por que no cepo foi parar meu homem?

CORNUALHA — Fui eu que o pus aí, senhor; mas suas desordens não faziam jus a tanta promoção.

LEAR — Como assim! Fostes vós mesmo?

REGANE — Por obséquio, meu pai; já que sois fraco, comportai-vos de acordo. Se até ao prazo final de vosso mês vos conformardes em voltar para a mana, e lá ficardes, despedindo metade desse séquito, vinde, então, para mim. Agora me acho fora de casa, sem dispor dos meios necessários a vosso tratamento.

LEAR — Procurá-la de novo? Cinqüenta homens despedidos? Jamais! Preferiria abjurar todo abrigo e expor-me à própria inimizade do ar, em companheiro transformar-me do lobo e da coruja, sob a dura pressão da adversidade. Voltar para ela? Esse ardoroso França, que recebeu sem dote minha filha mais nova, para mim fora mais fácil diante do trono dele ir ajoelhar-me e, tal qual escudeiro, mendigar-lhe pensão mesquinha que esta vida abjeta permita sustentar. Voltar para ela! Antes tornar-me escravo ou ser azêmola deste palafreneiro detestável. (Mostrando Osvaldo.)

GONERIL — Senhor, à vossa escolha.

LEAR — Filha, peço-te que não me deixes louco. Não desejo, menina, incomodar-te por mais tempo. Adeus. Não nos veremos nunca mais; nunca mais voltaremos a encontrar-nos. Mas és meu sangue, minha carne: filha. Ou melhor: uma doença em minha carne, a que forçado sou a chamar minha; és um inchaço, uma úlcera pestosa, um carbúnculo podre e tumefeito no meu sangue corrupto. Contudo, não quero repreender-te. Que a vergonha venha quando quiser; não vou chamá-la. Não pedirei ao portador de raios que troveje, nem nada a teu respeito direi de mal a Jove, o juiz supremo. Se puderes, emenda-te; melhora quando quiseres. Posso ser paciente. Posso ficar em casa de Regane com meus cem cavaleiros.

REGANE — Mais cuidado! Não contava convosco, nem me encontro preparada para vos dar condigno acolhimento. Ouvi, senhor, a mana. Quem põe razão nesses acessos vossos facilmente conclui que já estais velho. Logo... Ela sabe o que convém ao caso.

LEAR — Isso foi bem falado?

REGANE — Quero crê-lo, senhor. Como! Cinqüenta seguidores? Não vos bastam? Quereis mais gente ainda? Precisareis de tantos? Sim, que os próprios perigos e as despesas esse número desaconselham. Como poderia haver paz numa casa entre tão grande número de homens sob comando duplo? É difícil se não quase impossível.

GONERIL — Por que não poderíeis ser servido pela gente da mana ou pela minha?

REGANE — Por que não, meu senhor? Se qualquer deles de vós se descuidasse, fora fácil repreendê-los por isso. Se quiserdes, assim, morar comigo — e agora vejo que tal coisa é arriscada — pediria que trouxésseis apenas vinte e cinco. Para mais não terei lugar nem mesmo disposição.

LEAR — Fui eu que vos dei tudo...

REGANE — E em tempo certo o destes.

LEAR — Instituí-vos minhas depositárias e tutoras, reservando-me apenas uma escolta desse número. Como! Deveria procurar-vos, então, com vinte e cinco? Regane, assim falastes?

REGANE — E repito-o; nem mais um, meu senhor.

LEAR — Certas criaturas boa aparência apresentar conseguem, quando outras em maldade as sobrepujam. Não sendo as piores, cabem-lhe elogios. Contigo ficarei; os teus cinqüenta o dobro são dos vinte e cinco dela, e o seu amor tu vales duas vezes.

GONERIL — Senhor, ouvi-me. Que necessidade tendes de vinte e cinco, dez, ou cinco pessoas para vos servir, em casa que dispõe até mais do dobro disso para tratar de vós?

REGANE — E por que de uma?

LEAR — Oh! não faleis sobre a necessidade. Nossos mendigos mais necessitados muita coisa supérflua ainda possuem. À natureza concedei apenas o que ela própria exige, e a vida humana tão barata será como a das feras. És uma dama. Se já fosse luxo andarmos aquecidos, não teria necessidade alguma a natureza dessas vestes luxuosas que em matéria de aquecimento em nada te protegem. Mas a necessidade verdadeira... Ó céus, dai-me paciência! É de paciência que necessito agora. Ó deuses! vedes aqui um pobre velho, tão pesado de anos que de cuidados, duplamente desgraçado! Se acaso levantastes o coração das filhas contra os pais, não me deixeis tão parvo que suporte tudo isso humildemente; nobre cólera fazei que em mim desperte, sem deixardes que as armas da mulher, as gotas de água, as faces varonis manchar me venham. Não, bruxas desumanas! Tal vingança hei de tomar de vós, que o mundo inteiro... Farei tais coisas — quais, ainda o ignoro — que hão de ser o terror de toda a terra. Pensais talvez que vou derramar lágrimas? Não, não hei de chorar. Tenho causas sobejas para tanto; mas antes de fazê-lo, há de partir-se-me o coração em vinte mil pedaços. Bobo, vou ficar louco!

(Saem Lear, Gloster, Kent e o bobo.)

CORNUALHA — Recolhamo-nos; vai haver tempestade.

(Ouve-se a tempestade à distância.)

REGANE — É mui pequena a casa para comportar o velho e mais seus seguidores.

GONERIL — É só dele toda a culpa. Privou-se do conforto, tendo, assim, de provar da própria insânia.

REGANE — De grado o acolheria; mas só ele, sem nenhum de seus homens.

GONERIL — É o que eu penso, também. Mas onde está milorde Gloster?

CORNUALHA — Acompanhou o velho. Ei-lo de volta.

(Volta Gloster.)

GLOSTER — Está furioso o rei.

CORNUALHA — Para onde foi?

GLOSTER — Pede cavalos; mas não sei para onde tenciona dirigir-se.

CORNUALHA — Pois deixemo-lo; saberá conduzir-se.

GONERIL — Não insteis, senhor, de jeito algum para que fique.

GLOSTER — Oh céus! A noite vem baixando, e os ventos penetrantes já sopram com veemência. Em muitas milhas em redor não se acha facilmente um arbusto.

REGANE — Ora, senhor! os teimosos aprendem com os incômodos que a si mesmos procuram. Fechai logo vossas portas; os homens que o acompanham são capazes de tudo. O que eles podem induzi-lo a fazer — sendo de ouvidos tão fáceis de enganar — manda a prudência que com razão temamos.

CORNUALHA — Fechai logo vossas portas, senhor. Minha Regane vos dá um bom conselho. A noite é horrível; saí da tempestade. Recolhamo-nos.

(Saem.)

ATO III
Cena I

Uma charneca. Tempestade, com trovões e relâmpagos. Entram Kent e um gentil-homem, que se encontram.

KENT — Além do tempo mau, quem está aí?

GENTIL-HOMEM — Alguém inquieto como o próprio tempo.

KENT — Conheço-vos. E o rei, que faz agora?

GENTIL-HOMEM — Luta com os elementos agitados; manda ao vento que ao mar atire a terra, ou eleve as ondas crespas muito acima dos continentes, para que se mudem todas as coisas, ou de vez acabem; puxa os cabelos brancos que as rajadas impetuosas em seu furor apanham com cega raiva, reduzindo a nada; em seu mundo pequeno de homem, luta por zombar do conflito sempre móvel dos ventos e da chuva. Nesta noite, em que, depois de amamentar os filhos, a ursa não se levanta, e o leão e o lobo famintos sem molhar a pele ficam, cabeça descoberta ele se agita, à destruição total jogando tudo.

KENT — E quem está com ele?

GENTIL-HOMEM — O bobo, apenas, que tenta dissipar-lhe com gracejos a dor do coração tão trabalhado.

KENT — Conheço-vos, senhor; por isso atrevo-me, sob o penhor de tal conhecimento a vos contar um caso muito grave. Há discórdia, conquanto ainda encoberta se ache de parte a parte pela astúcia, entre Albânia e Cornualha. Eles possuem — o mesmo não se dá com todos quantos a grande estrela exalta e põe num trono? — criados, ao parecer, mas que, de fato, são espias de França e informadores, e que se encontram sempre a par de tudo que aqui se passa: as rixas e as conjuras dos dois duques e, após, o modo altivo que contra o velho rei têm revelado, ou algo porventura mais profundo de que seja tudo isso mero apêndice: o certo é que um exército da França penetrou neste reino dividido, o qual o pé firmou muito em segredo, valendo-se de nossa negligência, no nosso melhor porto, e ora se encontra no ponto de mostrar os estandartes. Ora é convosco: se puderdes algo construir sobre as minhas referências a ponto de ir a Dover sem demora, encontrareis decerto ali quem há de saber agradecer-vos, quando justo relato lhe fizerdes das tristezas desnaturais e em tudo abaladoras por que o rei tem passado. Por sangue e educação sou gentil-homem; é com conhecimento, pois, de causa, e confiança que disso vos incumbo.

GENTIL-HOMEM — Falaremos sobre isso mais de espaço.

KENT — De forma alguma. Para convencer-vos de que eu sou muito mais do que pareço, ficai com o conteúdo desta bolsa. Se avistardes Cordélia — o que há de dar-se, ficai bem certo disso — apresentai-lhe este anel, que ela, então, vos dirá logo quem é o camarada que nesta hora ainda não conheceis. Mas que tormenta! Vou procurar o rei.

GENTIL-HOMEM — Dai-me a mão. Nada mais quereis dizer-me?

KENT — Pouco; porém, de fato, mais que tudo: Quando acharmos o rei — deveis, por isso, seguir por este lado; eu, por aquele — quem primeiro o encontrar grita para o outro.

(Saem por lados diferentes.)

Cena II

Outra parte da charneca. A tempestade continua. Entram Lear e o bobo.

LEAR — Ventos, soprai de arrebentar as próprias bochechas! Enraivai! Soprai com força! Trombas e cataratas, derramai-vos até terdes coberto os campanários e afogado seus galos! Sulfurosos raios, velozes como o pensamento, vanguarda dos coriscos que os carvalhos abrem de meio a meio, chamuscai-me a cabeleira branca! E tu, trovão de tudo abalador, achata a espessa redondeza do mundo, quebra os moldes da natureza e de uma vez desfaze todos os germes geradores do homem sem gratidão.

BOBO — Ó tio, mais vale água benta no pátio de uma casa seca, do que toda esta água de chuva ao ar livre. Vai para dentro, bom tio, e pede a bênção de tuas filhas. Uma noite como esta não se apiada nem de sábios nem de bobos.

LEAR — Deixa o vento roncar! Escarra, fogo! Jorra, chuva! Os trovões, o vento, o fogo, minhas filhas não são. Não vos acuso de ingratos, elementos. Nunca um reino vos dei, nem vos chamei sequer de filhos. Não me deveis nenhuma obediência. Que caia, pois, vosso prazer horrível. Aqui me encontro, vosso escravo, um velho pobre, fraco, sem forças, desprezado. No entretanto, declaro-vos ministros servis, pois com duas filhas perniciosas, travais vossas batalhas de alta origem contra uma fronte tão encanecida e tão velha como esta. Oh! Que vergonha!

BOBO — Quem tem uma casa onde enfiar a cabeça, dispõe de um bom chapéu. Quando a braguilha quer casa, sem que o dono tenha abrigo dos piolhos é a grande vasa, que isso é vida de mendigo. Quem põe o dedão do pé onde tem o coração, vive a gemer — a-la-fé! — por calos que insônia dão, pois nunca houve mulher bonita que não fizesse caretas ao espelho.

(Entra Kent.)

LEAR — Quero ser um modelo de paciência; não direi nada.

KENT — Quem está aí?

BOBO — Ora, uma majestade e uma braguilha, isto é, um sábio e um bobo.

KENT — Oh senhor! Vós aqui? Nenhuma coisa que da noite se agrada, se acomoda a uma noite como esta. Os céus furiosos metem medo até mesmo nos rondantes da escuridão, retendo-os em seus antros. Desde que me fiz homem não me lembro de ter presenciado tantas faixas de fogo, tanto estouro de terríficos trovões, tantos lamentos e bramidos dos ventos e da chuva. A natureza do homem não pode suportar o medo e a aflição que vêm disso.

LEAR — Grandes deuses, que tanto estrondo sobre nós retendes, agora procurai vossos inimigos! Treme, malvado, em quem se ocultam crimes pela justiça ainda não punidos! Mão sanguinária, oculta-te! Perjuro, tu também; como tu, falso virtuoso, que praticas o incesto! Em estilhaços arrebenta, bargante, que atentaste contra a vida de alguém sob aparência tranqüila e sedutora! Atrocidades no fundo ocultas, estourai as capas que vos escondem e implorai as graças desses admoestadores pavorosos! Quanto a mim, sou mais vítima de culpa, do que mesmo culpado.

KENT — Oh! que tristeza! Cabeça descoberta! Meu gracioso soberano, aqui perto há uma cabana, que oferecer-vos pode algum abrigo contra o mau tempo. Recolhei-vos a ela, enquanto eu volto àquela casa dura — mais dura do que as pedras de que é feita, e que, há momentos, quando eu pretendia saber notícias vossas, me negou até mesmo a entrada — para que lhes force a avara cortesia.

LEAR — Sinto o espírito girar em torno. Vamos, meu pequeno! Como te sentes, caro? Muito frio? Eu também. Companheiro, onde é que há palha? É por demais estranha a arte dos pobres que faz preciosas as mais baixas coisas. Vossa cabana... Seja! Pobre bobo, tenho no coração um lugarzinho que se apiada de ti.

BOBO — Se não perdeste de todo a mente, com hei com hô, com tamanha chuva, com a própria sorte fica contente, embora chova todos os dias.

LEAR — É certo, meu pequeno; vamos, leva-nos para essa tal cabana.

(Saem Lear e Kent.)

BOBO — Eis uma bela noite para deixar fria uma cortesã. Mas antes de sair quero fazer uma profecia: Quando por obras converter a Igreja e água puser o dono na cerveja; quando o nobre for mestre do alfaiate, e a fogueira não mais o herege mate, mas apenas o amante apaixonado; quando só houver processo bem julgado, dívidas não tiver o cavaleiro e a calúnia poupar o mundo inteiro; quando evitar o experto a turbamulta e a arca do avaro não ficar oculta; quando as alcoviteiras eloqüentes construírem templos caros e imponentes: cairá em confusão este reino de Albion. Então verá quem vivo ainda estiver que com os pés andam o homem e a mulher. Esta profecia será feita por Merlin, porque eu vivo antes do tempo dele. (Sai.)

Cena III

Um quarto no castelo de Gloster. Entram Gloster e Edmundo.

GLOSTER — Ah, Edmundo, Edmundo! Não me agrada esse procedimento desnaturado. Quando lhes pedi permissão para apiedar-me dele, privaram-me do uso de minha própria casa, proibindo-me, sob pena de seu perpétuo descontentamento, de falar a respeito dele, de interceder a seu favor ou de ir-lhe em auxílio de qualquer maneira.

EDMUNDO — Por demais selvagem e contrário à natureza.

GLOSTER — Acomoda-te; não digas nada. Há divisão entre os duques, e pior do que isso. Esta noite recebi uma carta. É perigoso falar nisso. Tranquei-a no meu gabinete. Os sofrimentos por que o rei agora está passando, serão oportunamente vingados. Parte do exército já desembarcou; teremos de ficar do lado do rei. Vou procurá-lo secretamente e ajudá-lo. Ide conversar com o duque, para que não seja percebida minha caridade. Se ele perguntar por mim, estou doente e de cama. Ainda que eu venha a perder a vida — que é o menos com que estou ameaçado — é preciso que o rei, meu velho amo, seja socorrido. Há alguma coisa muito estranha em perspectiva, Edmundo. Aconselho-vos cautela. (Sai.)

EDMUNDO — A caridade que te foi proibida será comunicada logo ao duque, como a carta também, o que parece serviço meritório que me rende quanto meu pai perder, a saber: tudo. Exulta o moço, o velho fica mudo. (Sai.)

Cena IV

A charneca. Diante de uma choupana. Entram Lear, Kent e o bobo.

KENT — É aqui, senhor. Meu bom senhor, entrai. É por demais severa a tirania da noite descoberta, para as forças de nossa natureza.

(A tempestade continua.)

LEAR — Não; afasta-te! Desejo ficar só.

KENT — Entrai aqui, senhor.

LEAR — Quereis partir-me o coração?

KENT — Primeiro partiria o meu. Bondoso senhor, entrai.

LEAR — Estais fazendo grande cabedal desta chuva revoltada, que nos molha até os ossos. É que a sentes dessa maneira. Porém quando a doença maior penetra, as outras não se sentem. Se corres do urso, mas em tua fuga fores bater nas ondas rugidoras, voltarás frente para a goela dele. Livre o espírito, o corpo é delicado. A tempestade que na mente eu trago nada me deixa perceber por meio dos sentidos, afora o que ali bate: a ingratidão filial. Não fora o mesmo, se a boca decepar quisesse a mão que até ela se alça para alimentá-la? Mas saberei tomar cabal vingança. Cessarei de chorar. Fechar-me a porta numa noite como esta! Mais! Despeja, que hei de agüentar! E numa noite assim! Ah Goneril! Regane! Vosso velho pai, tão bondoso, que vos dera tudo com franco coração! Oh! A loucura vem desse lado. Vamos evitá-la. Sobre isso, basta.

KENT — Bem, milorde; entremos.

LEAR — Não; por favor, primeiro tu; procura tua comodidade. Este aguaceiro me impede de cuidar de muitas coisas que muito maior dor me causariam. Mas vou entrar. (Ao bobo.) Menino, vai na frente. Pobreza sem abrigo... Entra, entra logo. Rezo primeiro; dormirei depois. (O bobo entra na choupana.) Onde quer que estejais, pobres sem roupa, que os golpes suportais desta impiedosa tempestade, dizei-me: de que modo vossos flancos mirrados e as cabeças desprotegidas, vossos trapos ricos em furos e janelas hão de o corpo vos proteger numa estação como esta? Oh! muito pouco me ocupei com isso! Cura-te, fausto! Vai sentir o mesmo que os miseráveis sentem, porque possas sobre eles derramar o teu supérfluo e os céus mostrar mais justos.

EDGAR (dentro) — Pobre Tom! Braça e meia! Braça e meia!

(O bobo sai a correr da choupana.)

BOBO — Não entres aí, meu tio! Há um espírito lá dentro. Socorro! Socorro!

KENT — Dá-me a mão. Quem está lá?

BOBO — Um espírito! Um espírito! Ele disse que se chama o pobre Tom.

KENT — Quem és tu, que te pões a rosnar assim na palha? Vem para fora!

(Entra Edgar, disfarçado de demente.)

EDGAR — Afastai-vos, que o inimigo me acompanha. Através do espinheiro sopra o vento; vê se te aqueces em teu leito frio.

LEAR — Deste às tuas duas filhas tudo o que tinhas, para ficares desse jeito?

EDGAR — Quem dá alguma coisa para o pobre Tom? O malígno o levou através do fogo, através da flama, através do vau e do redemoinho, através do lamaçal e do charco; pôs facas embaixo de seu travesseiro e corda em sua cama; armou ratoeira em sua sopa; deixou-o orgulhoso por poder montar num cavalo baio trotão, por cima das pontes de quatro polegadas, em perseguição da própria sombra, como um traidor. Que sejam abençoados os teus cinco espíritos. Tom está com frio. Oh! do dê, do dê, do dê! Que o céu te ampare contra os furacões, estrelas funestas e malefícios. Fazei alguma caridade ao pobre Tom, que o demônio impuro atormenta. Poderia pegá-lo agora, e aqui, e ali outra vez, e aqui...

LEAR — Como! Suas filhas o trouxeram a isso? Nada te reservaste? Deste tudo?

BOBO — Não! Ele reservou para si um cobertor; caso contrário, teríamos do que nos envergonharmos.

LEAR — Que caiam sobre tuas filhas todas as misérias que impendem do ar e ameaçam os pecados dos homens!

KENT — Senhor, ele não tem filhas.

LEAR — Morre, traidor! Pois nada poderia rebaixar de tal modo a natureza, senão filhas ingratas. Será moda que os pais, depois de despedidos, tenham tão pouca pena de sua própria carne? Castigo judicioso, que essa carne deu nascimento às filhas-pelicanas.

EDGAR — Pilicoc se achava empoleirado no monte Pilicoc! Alô! Alô! Oh oh!

BOBO — Esta noite gelada vai acabar fazendo de nós todos bobos ou loucos.

EDGAR — Acautela-te contra o malígno; obedece a teus pais; mantém tua palavra; não jures; não cometas adultério com a esposa legítima do teu próximo; não enfeites tua morada com atavios vãos. Tom está com frio.

LEAR — Que eras antes?

EDGAR — Um moço de servir, de coração e espírito altivos, que frisava os cabelos, trazia luvas no chapéu, satisfazia a luxúria da patroa, perpetrando com ela o ato das trevas; fazia tantos juramentos quantas palavras pronunciava, para violá-los ante a doce face do céu; um tipo que adormecia com planos de libertinagem e acordava para pô-los em prática. Amava de coração o vinho, os dados, com a máxima ternura; e com relação às mulheres, metia na massa o próprio turco; coração falso, ouvidos levianos, mãos sanguinárias. Porco, na preguiça; raposa, na astúcia; lobo, na voracidade; cão, na raiva; leão, na pilhagem. Não deixes que o ranger dos sapatos e o ruído das sedas entregues às mulheres teu pobre coração. Mantém os pés fora dos bordéis, as mãos fora do colete, as pernas longe do livro do onzeneiro e desafia o malígno. O vento frio ainda sopra através do espinheiro, gritando zum, mum, ha hô, no ni! ... Delfim, meu filho, meu filho! Cessa! Deixa-o trotar!

(A tempestade continua.)

LEAR — Estarias melhor na sepultura do que enfrentando com o corpo descoberto estes extremos da estação. Não é o homem mais do que isto? Considerai-o bem. Ao verme não deves a seda, ao animal o abrigo, ao carneiro a lã e ao gato de algalia o perfume. Ah! Dos presentes, três somos adulterados; tu és a coisa em si. O homem sem atavios não passa de um pobre animal, nu e fendido como tu. Fora, fora com todos estes empréstimos! Vamos! Desabotoai-me aqui. (Rasga as vestes.)

BOBO — Tio, por obséquio, fica quieto; a noite está muito ruim para nadarmos. Neste momento, um pequeno fogo em campo grande faria o efeito do coração de um velho libertino: uma faiscazinha de nada, e o resto do corpo, que nem gelo. Vê, aí vem vindo um fogo ambulante.

(Entra Gloster com uma tocha.)

EDGAR — É o demônio impuro Flibbertigibbet; chega com o toque de apagar fogo e ronda até ao primeiro canto do galo; produz belidas e catarata, olho vesgo e beiço-de-lebre; faz embolorar o trigo branco e atormenta a pobre criatura terrestre. Três vezes São Vital percorre os trilhos, e achando a mula-sem-cabeça e os filhos, mandou que ali parasse e preito lhe prestasse. Sai logo, bruxa! Deixa limpa a estrada!

KENT — Como passa Vossa Graça?

LEAR — Quem é?

KENT — Quem está aí? A quem procurais?

GLOSTER — Quem sois? Como vos chamais?

EDGAR — O pobre Tom que se alimenta de rãs nadadoras, sapos, girinos, lagartixas e água; que na fúria de seu coração, quando o inimigo imundo esbraveja, devora estrume de vaca como se fosse salada; engole ratos velhos e cachorro pirento; bebe o manto verde do charco estagnado; que é chibateado de paróquia em paróquia, posto no cepo ou na prisão; que já teve três mudas para o dorso, seis camisas para o corpo, cavalo para montar e espada para carregar. Há sete anos que Tom só se conserva com ratazanas, ratos e caterva. Tomai cuidado com o meu perseguidor. Fica quieto, Smulkin! Fica quieto, demônio!

GLOSTER — Como! Não tem Vossa Graça melhor companhia?

EDGAR — O príncipe das trevas é um gentil-homem; chama-se Modo e Mahu.

GLOSTER — A tal ponto, senhor, degenerados temos o sangue e a carne, que a odiar chegam a quem vida lhes deu.

EDGAR — O pobre Tom está com frio.

GLOSTER — Senhor, vinde comigo. Não se dobra meu dever às sentenças implacáveis de vossas filhas. Muito embora tenham dado ordem para que eu fechasse a porta, a esta noite terrível entregando-vos, ousei vir procurar-vos, porque possa levar-vos onde há fogo e mesa pronta.

LEAR — Primeiro permiti que a este filósofo dirija umas perguntas. Qual é a causa do trovão?

KENT — Aceitai, senhor, o invite que ele vos faz; à casa recolhei-vos.

LEAR — Uma palavra a este tebano sábio: em que vos aplicais?

EDGAR — Em fugir do demônio e matar piolho.

LEAR — Desejo vos pedir algo em segredo.

KENT — Insisti outra vez, senhor, com ele, para abrigar-se. Já revela indícios de que não tem bastante firme o espírito.

(A tempestade continua.)

GLOSTER — Poderás censurá-lo? Suas filhas querem a morte dele. Ah! o bom Kent! Disse que tudo a dar viria nisto. Pobre exilado! Asseveraste há pouco que o rei está ficando louco. Digo-te, que eu também estou quase nesse ponto. Tive um filho, que se acha desde pouco banido do meu sangue. Contra a minha vida tentou — agora mesmo, agora! — Amava-o como pai tão ternamente jamais ao filho amou. Para ser franco contigo, a dor me perturbou o espírito. (A tempestade continua.) Que noite! Peço, instante, a Vossa Graça...

LEAR — Peço perdão, senhor. Nobre filósofo, fazei-nos companhia.

EDGAR — Tom está com frio.

GLOSTER — Amigo, vem para a cabana; aquece-te.

LEAR — Entremos todos.

KENT — Por aqui, milorde.

LEAR — Junto com ele; quero ficar sempre perto do meu filósofo.

KENT — Fazei-lhe nisso a vontade, bom senhor, deixando-o levar esse homem.

GLOSTER — Bem; cuidai vós dele.

KENT — Vamos, amigo; vem também conosco.

LEAR — Vamos, bom ateniense.

GLOSTER — Quietos! Vamos!

EDGAR — O cavaleiro Rolão chegou perto do bastião dizendo fim, fu e fão! Sinto cheiro de bretão.

(Saem.)

Cena V

Um quarto no castelo de Gloster. Entram Cornualha e Edmundo.

CORNUALHA — Hei de vingar-me antes de deixar a casa dele.

EDMUNDO — As censuras, milorde, de que eu poderei ser alvo, por permitir que a natureza ceda a tal ponto à lealdade, deixam-me bastante apreensivo.

CORNUALHA — Percebo agora que não foram absolutamente as más inclinações de vosso irmão que o levaram a procurar a morte dele, senão o meritório impulso que se viu estimulado pela ruindade condenável dele próprio.

EDMUNDO — Como é pérfido o meu destino, que me leva a arrepender-me de ser justo! Aqui está a carta de que ele falou; traz a prova de que é partidário dos interesses da França. Oh céus! Quem me dera que não houvesse semelhante traição, ou que não fosse eu o delator!

CORNUALHA — Vem comigo procurar a duquesa.

EDMUNDO — Se for verdadeiro o conteúdo dessa folha, tendes em mãos um negócio muito sério.

CORNUALHA — Verdadeiro ou falso, ele te fez conde de Gloster. Descobre onde está teu pai, para que eu providencie logo sua prisão.

EDMUNDO (à parte) — Se eu o encontrar confortando o rei, isso virá reforçar as suspeitas do duque. — Hei de manter-me na trilha da lealdade, por mais doloroso que seja o conflito entre ela e meu sangue.

CORNUALHA — Depositarei em ti minha confiança; em meu amor encontrarás um pai mais carinhoso.

(Saem.)

Cena VI

Uma cabana próxima do castelo. Entram Gloster, Lear, Kent, o bobo e Edgar.

GLOSTER — Aqui é melhor do que ao ar livre; aceitai de bom coração. Vou providenciar para o vosso conforto como me for possível; não me demorarei.

KENT — Toda a força de seu espírito cedeu diante da indignação. Que os deuses recompensem vossa bondade.

(Sai Gloster.)

EDGAR — Frateretto me chama para dizer que Nero é um pescador no lago das trevas. Reza, inocente, e toma cuidado com o inimigo impuro.

BOBO — Tio, por obséquio, dize-me se um louco é gentil-homem ou fazendeiro.

LEAR — Um rei! Um rei!

BOBO — Não; foi o fazendeiro que teve um filho gentil-homem; porque é preciso ser fazendeiro louco, para deixar que o filho se torne gentil-homem antes dele.

LEAR — Oh! Se mil, a um só tempo, de espetos rubros, se atirassem sobre elas, assobiando...

EDGAR — O demônio impuro está me mordendo as costas.

BOBO — Louco é quem se fia na mansidão do lobo, na saúde do cavalo, no amor de um rapaz e no juramento de uma prostituta.

LEAR — Assim farei. Vou intimá-las já. (A Edgar.) Senta-te aqui, doutíssimo juiz. (Ao bobo.) E vós, aqui, sábio senhor. E agora passemos às raposas.

EDGAR — Vede! está ele com os olhos fixos! Precisas de olhos para o processo, madame? Vem para cá, Bessy; pula o regato.

BOBO — O barco dela é furado; por isso ela tem cuidado. Por que, então, não arrisca a vir por cima?

EDGAR — O demônio impuro persegue o pobre Tom sob a voz de um rouxinol; Hopdance grita na barriga de Tom por dois arenques brancos. Pára de coaxar, anjo negro! Não tenho alimento para dar-te.

KENT — Como passais, senhor? Ficai mais calmo. Não quereis repousar no travesseiro?

LEAR — Primeiro quero ver o julgamento. Trazei as testemunhas. (A Edgar.) Juiz togado, senta-te logo. (Ao bobo.) E tu, seu companheiro de jugo na Justiça, ao lado dele. (A Kent.) Vós sois da comissão; sentai-vos aí!

EDGAR — Procedamos com justiça. Dormes ou velas, belo pastorzinho? teu anho está no trigo. Mas a um grito de tua rósea boca, não correrá perigo. Prrr! O gato é cinzento.

LEAR — Citei esta em primeiro lugar; é Goneril. Presto juramento diante desta honrada assembléia em como ela deu um pontapé no pobre rei seu pai.

EDGAR — Vinde mais para a frente, moça! Vosso nome é Goneril?

LEAR — Não poderá negá-lo.

BOBO — Peço desculpas, mas tomei-vos por um tamborete.

LEAR — Aqui está a outra, cujo olhar de esguelha proclama o que no coração se abriga. Prendei-a logo! Armas! espada, fogo! A corrupção campeia! Juiz corrupto, por que deixaste que ela fosse embora?

EDGAR — Abençoados sejam teus cinco espíritos!

KENT — Oh! piedade, senhor! Onde pusestes a paciência de que faláveis tanto, jurando conservá-la?

EDGAR (à parte) — Tanto as lágrimas ficam do lado dele, que me ameaçam estragar todo o plano.

LEAR — Este cãozinho, vede, e os outros, Gracioso, Fiel e Neve, se atiram contra mim.

EDGAR — Tom vai atirar-lhes sua própria cabeça. Fora daqui, mastins! De goelas brancas ou pretas, dentes sujos e caretas, mastim, galgo ou perdigueiro, molosso tardo ou ligeiro, de pêlo curto ou lanzudo, Tom vai dar cabo de tudo. Contra eles o coco atiro, fazendo-os correr em giro. Do, de, de, de. Sessa! Vamos, marchai para as festas de igreja, feiras e mercados. Pobre Tom, teu chifre está vazio.

LEAR — Agora dissequem Regane, para ver o que brota de junto do coração dela. Há alguma causa natural que torne endurecidos esses corações? (A Edgar.) Vós, senhor, considero-vos um dos meus cem homens; apenas não me agrada o corte de vossas vestes. Ireis dizer-me que foram feitas à moda persa. Contudo, será conveniente mudá-las.

KENT — Agora, meu bom senhor, ide deitar-vos um pouco, para repousar.

LEAR — Nada de barulho, nada de barulho... Correi a cortina... Assim, assim, assim... Pela manhã cearemos. Assim, assim, assim...

BOBO — E ao meio-dia irei deitar-me.

(Volta Gloster.)

GLOSTER — Aproxima-te, amigo. Onde está o rei, meu mestre?

KENT — Aqui, senhor; mas não o perturbeis; perdeu a razão.

GLOSTER — Carrega-o, caro amigo, por obséquio. Há uma conjura contra a vida dele. Aqui perto há uma maca; deita-o nela e corre, amigo, para Dover, onde irás achar boa acolhida e amparo. Levanta teu senhor; se demorares meia hora que seja, a vida dele, como a tua e a de todos os que o seguem, correm para uma perda inevitável. Levante-o com bom jeito e vem comigo, que vou prover-te com bastante urgência do que for necessário.

KENT — A natureza cansada adormeceu. Este repouso poderia deitar-te um linimento nos nervos torturados, que, na falta de boas condições, dificilmente chegarão a sarar. (Ao bobo.) Vamos, ajuda-me a carregar teu mestre. Tu não podes, também, ficar aqui.

GLOSTER — Vamos logo.

(Saem Kent, Gloster e o bobo, carregando Lear.)

EDGAR — Ao veres teu senhor sofrer teus males, convences-te de que de nada vales. Quem sofre só, padece em pensamento, por na dita passada estar atento. O espírito não fica em desalinho, quando consegue a dor algum vizinho. Quão leve me parece o fardo ingente que me deixa encurvado e o rei gemente! Fez-me meu pai o que para ele as filhas. Tom, cuidado com as vozes! Tu te humilhas somente enquanto a falsidade dura te conservar desviado da ventura. Venha o que vier, contanto que o rei fuja. Atenção! Atenção! (Sai.)

Cena VII

Um quarto no castelo de Gloster. Entram Cornualha, Regane, Goneril, Edmundo e criados.

CORNUALHA — Parti com toda pressa para onde está milorde vosso marido e mostrai-lhe esta carta. O exército da França desembarcou. — Procurai o traidor Gloster.

REGANE — Enforcai-o imediatamente.

GONERIL — Arrancai-lhe os olhos.

CORNUALHA — Deixai-o aos cuidados do meu desprazer. Edmundo, fazei companhia a nossa irmã; as vinganças que vamos ser forçados a tomar de vosso pai traidor não são adequadas para vossa vista. Avisai o duque, para a casa de quem vos dirigis, que se prepare com a maior urgência possível, porque faremos o mesmo. Nossos correios não se pouparão, para manter entre nós o entendimento preciso. Adeus, querida irmã; adeus, milorde de Gloster. (Entra Osvaldo.) Então! Onde está o rei?

OSVALDO — Levou-o para longe lorde Gloster. Cerca de trinta e cinco ou trinta e seis de seus homens, sequiosos de encontrá-lo, o esperaram à porta, e em companhia de outros homens do lorde se fizeram no caminho de Dover, onde todos se jactam de possuir sócios armados.

CORNUALHA — Prepara a condução para a senhora.

GONERIL — Adeus, doce senhor; adeus, irmã.

CORNUALHA — Adeus, Edmundo. (Saem Goneril, Edmundo e Osvaldo.) Ide e trazei-me Gloster, esse traidor; os braços algemai-lhe como a um ladrão e em nossa frente o ponde. (Saem outros criados.) Embora não possamos pronunciar-nos, sem as formas legais, contra sua vida, poderá nossa força cortesia fazer à nossa cólera, o que os homens talvez censurem, mas obstar não podem. Quem vem lá! Ó traidor?

(Voltam os criados, com Gloster.)

REGANE — Raposa ingrata! É ele mesmo.

CORNUALHA — Amarrai-lhe os braços leves.

GLOSTER — Que intendem Vossas Graças? Bons amigos, considerai que sois aqui meus hóspedes. Não me trateis, amigos, com desprezo.

CORNUALHA — Amarrai-o, já disse!

(Os criados amarram Gloster.)

REGANE — Com mais força! Traidor infecto!

GLOSTER — Dama sem piedade, não sou o que dizeis.

CORNUALHA — Nesta cadeira; amarrai-o! Vilão, vais ver agora...

(Regane puxa a barba de Gloster.)

GLOSTER — Pelos deuses bondosos, é ignomínia puxar-me pela barba.

REGANE — Tão branco e tão traidor!

GLOSTER — Perversa dama, os fios que do queixo ora me arrancas, hão de ficar de pé para acusar-te. Meus hóspedes sois todos; não devíeis com mãos rapaces machucar-me os traços de dono desta casa. Que quereis?

CORNUALHA — Vamos, senhor; dizei-me: que notícias recebestes de França?

REGANE — Sede breve no que disserdes, pois sabemos tudo.

CORNUALHA — E que pacto firmastes com os traidores que saltaram há pouco em nosso reino?

REGANE — A que mãos entregastes o rei louco? Falai!

GLOSTER — Às mãos me veio uma missiva baseada em conjeturas de pessoa neutra e imparcial, não de qualquer inimigo.

CORNUALHA — Astuciosa.

REGANE — Traidora.

CORNUALHA — E o rei, para onde o enviaste?

GLOSTER — Para Dover.

REGANE — Por que Dover? Avisado não foras, sob o risco...

CORNUALHA — Por que Dover? Primeiro responde a isso.

GLOSTER — Estou atado ao poste; é-me impossível fugir destes assaltos.

REGANE — Por que Dover?

GLOSTER — Porque essas unhas cruéis não lhe arrancassem os pobres olhos, velhos e cansados, nem tua irmã selvagem lhe enterrasse no corpo ungido as presas de javardo. O mar em tempestade como a que ele suportou na cabeça descoberta nesta noite infernal, se empolaria para apagar o fogo das estrelas. E o pobre coração, tão velho, a chuva do céu fez aumentar! Se os próprios lobos, com um tempo destes, ululado houvessem diante de tuas portas, certamente terias dito: “Bom porteiro, vira depressa a chave!” Todas as crueldades ficariam riscadas. Mas ainda hei de ver a vingança de asas fortes cair sobre tais filhos.

CORNUALHA — Veres? Nunca! Segurai a cadeira com firmeza. Vou pôr os pés em cima de teus olhos.

GLOSTER — Quem espera viver até à velhice, venha ajudar-me agora. Oh monstro! Oh deuses!

(É arrancado um dos olhos de Gloster.)

REGANE — O outro também, para não rir daquele.

CORNUALHA — Se virdes a vingança...

PRIMEIRO CRIADO — Suspendei, milorde, a mão. Servi-vos desde criança; mas nunca vos prestei tão bom serviço, como ao pedir agora que parásseis.

REGANE — Como, cachorro?

PRIMEIRO CRIADO — Se trouxésseis barba no queixo eu a arrancara nesta briga. Que pretendeis?

CORNUALHA — Um dos meus criados? Como! (Saca da espada.)

PRIMEIRO CRIADO — Avançai, pois, e vos medi com a cólera. (Desembainha a espada; lutam.)

(Cornualha é ferido.)

REGANE — Empresta-me tua espada. Rebelar-se um rústico a este ponto! (Toma da espada e fere o criado pelas costas.)

PRIMEIRO CRIADO — Oh! Estou morto! Ainda vos resta um olho, milorde, para vê-lo desgraçado. (Morre.)

CORNUALHA — Porque não posso ver, façamos isto: fora, geléia vil! Qual é teu brilho neste momento?

GLOSTER — Escuro em toda parte, desolação total. Onde se encontra meu filho Edmundo? Edmundo, acende as chispas da natureza e vinga este ato horrível!

REGANE — Vilão traidor, invocas quem te odeia. Foi ele próprio quem nos deu notícia de tua falsidade, ele em pessoa. É bom demais para de ti ter pena.

GLOSTER — Oh! Que tolo que fui! Então Edgar foi caluniado! Deuses bons, perdoai-me, e que ele possa prosperar.

REGANE — Jogai-o fora da porta e que procure a estrada de Dover pelo cheiro. (Sai um criado conduzindo Gloster.) Então, milorde, como estais?

CORNUALHA — Recebi uma ferida. Senhora, acompanhai-me. Jogai fora esse vilão sem olhos; no monturo atirai esse escravo. Estou sangrando demais, Regane; veio-me este golpe muito fora de tempo. Dai-me o braço.

(Sai Cornualha apoiado em Regane.)

SEGUNDO CRIADO — Não quero ter preocupação alguma com qualquer vilania, se este tipo vier ainda a acabar bem.

TERCEIRO CRIADO — Se vida longa ela tiver e, ao fim, achar o curso comum da morte, todas as mulheres virarão monstros.

SEGUNDO CRIADO — Vamos à procura do velho conde, para que levado seja pelo maníaco para onde ele o determinar. Suas manias de vagante se prestam para tudo.

TERCEIRO CRIADO — Vai; enquanto isso, arranjarei um pouco de linho e clara de ovo, para pôr-lhe no rosto ensanguentado. O céu que o ajude!

(Saem por lados diferentes.)

ATO IV
Cena I

A charneca. Entra Edgar.

EDGAR — Melhor assim: saber que é desprezado do que sê-lo sob capa de lisonja. O mais ínfimo ser, com mais desprezo tratado pela sorte, ainda conserva certa esperança e vive sem temores. Só muda para pior o que é perfeito; o pior volta à alegria. Sê bem-vindo, portanto, ar impalpável que respiro! O infeliz que jogaste tão por baixo a essas tuas rajadas nada deve. Mas quem vem vindo aí? (Entra Gloster, conduzido por um velho.) Como! Meu pai, trazido por um pobre? Ó mundo! mundo! Sem tuas mutações inesperadas que nos levam a odiar-te, nunca a vida chegara até à velhice.

O VELHO — Ó bom senhor, de vosso pai e vosso fui rendeiro por volta de oitenta anos.

GLOSTER — Bem; retira-te, bondoso amigo. Vai-te. Teus consolos bem algum me farão, mas poderiam prejudicar-te.

O VELHO — Não vereis a estrada.

GLOSTER — Não tenho estrada; não preciso de olhos. Tropecei, quando via. Muitas vezes já se tem visto o bem-estar deixar-nos preocupados e a necessidade redundar em proveito. Ó meu querido filho Edgar, alimento da iludida cólera de teu pai, se eu tiver vida para te ver ainda, pelo tato, direi que achei os olhos.

O VELHO — Quem vem lá?

EDGAR (à parte) — Oh deuses! Quem diria: “Não é possível chegar a pior estado!” Nunca estive em piores condições.

O VELHO — É Tom, o louco.

EDGAR (à parte) — E mais ainda poderei descer. Nunca sofremos o pior, enquanto dizer podemos: “Isto é o pior de tudo”.

O VELHO — Para onde vais, amigo?

GLOSTER — É algum pedinte?

O VELHO — Pedinte, a um tempo, e louco.

GLOSTER — Um pouco de razão ainda conserva, sem o que mendigar não poderia. Na noite que passou, da tempestade, vi um sujeito assim, que ao pensamento me trouxe que o homem não é mais que um verme. Lembrei-me de meu filho, muito embora dificilmente, então, amigo dele meu espírito fosse. Depois disso aprendi muito. O que para os garotos são as moscas, nós somos para os deuses: matam-nos por brinquedo.

EDGAR (à parte) — Que é que importa tudo isso? Triste é a profissão que obriga a zombar da desgraça, para incômodo de si próprio e dos outros. (A Gloster.) Salve, mestre!

GLOSTER — É o tal mendigo nu?

O VELHO — Ele, milorde.

GLOSTER — Por favor, então deixa-me. Se acaso quiseres, por amor de mim, buscar-nos daqui a uma milha ou duas, no caminho de Dover, faze-o por antigo afeto, e traze roupa para esta alma nua, a quem vou explicar que me conduza.

O VELHO — Oh senhor! Ele é louco!

GLOSTER — Esse é o castigo do tempo, conduzir ao cego o louco. Faze o que eu disse, ou faze o que quiseres; mas, sobretudo, vai-te.

O VELHO — Vou dar-lhe a minha melhor roupa, venha-me disso seja o que for. (Sai.)

GLOSTER — Eh! Homem nu!

EDGAR — O pobre Tom tem frio. (À parte.) É-me impossível fingir mais tempo.

GLOSTER — Vem aqui, amigo.

EDGAR (à parte) — Mas é preciso. — Abençoados sejam teus doces olhos, pois estão sangrando.

GLOSTER — Conheces o caminho para Dover?

EDGAR — Cancelas e porteiras, caminhos de cavalo e de pé. Espantaram o espírito do pobre Tom. Filho do homem pio. Deus te preserve do demônio impuro. Cinco demônios entraram a um só tempo no pobre Tom: Obidicut, o demônio da luxúria; Obbididance, príncipe do mutismo; Mahu, do roubo; Modo, do homicídio; e Flibbertigibbet, das caretas e contorções, que desde então deixou possessas as criadas e governantes. Salve, portanto, mestre!

GLOSTER — Fica com esta bolsa, ó tu, que as pragas do céu aos golpes todos humilharam. Minha desgraça mais feliz te deixa. Procedei sempre assim, ó céus! Que o homem saturado de bens e de prazeres que deixa subservientes vossas máximas e nada vê porque não sente nada, sinta depressa toda vossa força. A divisão, assim, destrói o excesso, tocando a todo o mundo alguma coisa. Conheces Dover?

EDGAR — Sim, conheço, mestre.

GLOSTER — Lá se encontra um penhasco de cabeça alta e inclinada, que olha com receio para o abismo horroroso. Vamos; leva-me até ao rebordo dele, que hei de a tua miséria remediar com algum objeto de valor que ora trago. Daí em diante dispensarei teus passos.

EDGAR — Dá-me o braço; o pobre Tom vai te servir de guia.

(Saem.)

Cena II

Diante do palácio do Duque de Albânia. Entram Goneril e Edmundo.

GONERIL — Sois bem-vindo, senhor. Estranho muito que o nosso brando esposo não nos tenha saído a receber. (Entra Osvaldo.) Que é de vosso amo?

OSVALDO — Senhora, está lá dentro; porém nunca homem nenhum mudou, como ele, tanto. Contei-lhe que desembarcaram forças. Sorriu à nova. Disse-lhe que vínheis para cá; respondeu: “Tanto pior”. Ao lhe falar da alta traição de Gloster e da lealdade de seu filho Edmundo, chamou-me de papalvo, declarando-me que eu havia tomado o pior partido. Tudo quanto ele detestar devia, lhe ensejava prazer.

GONERIL (a Edmundo) — Não é preciso, portanto, irdes mais longe. É seu espírito covarde e aterrorado que não ousa decidir-se por nada. Não deseja sentir o ultraje que à resposta o force. Os votos que fizemos em caminho talvez se efetuarão. Voltai, Edmundo, para o mano; reuni seus homens logo e o comando assumi de seu exército. Terei de me aprestar com nossas armas e pôr na mão de meu marido a roca. Este fiel servidor irá servir-nos de intermediário. Dentro de pouquinho — se algo arriscardes para vosso ganho — ordens recebereis de vossa dama. Usai isto. (Dá-lhe uma prenda.) Poupai qualquer discurso. Abaixai a cabeça. Ora, este beijo se a falar se atrevesse, exalçaria teu espírito às nuvens. Vai; compreende e passa bem.

EDMUNDO — Confesso-me por vosso nas fileiras da morte.

GONERIL — Meu caríssimo Gloster! (Sai Edmundo.) Oh! Que distância vai de um homem para outro! Bem mereces os serviços de uma mulher. Meu bobo é que me usurpa presentemente o leito.

OSVALDO — Aí vem meu amo. (Sai.)

(Entra Albânia.)

GONERIL — Antes eu merecia um assobio.

ALBÂNIA — Ó Goneril, digna não sois da poeira que vos atira ao rosto o vento rude. Inspira-me pavor vosso caráter. Quando renega um ser a própria origem, em si mesmo contido não prossegue. Quem se arranca a si próprio e se desgalha da seiva substancial, é inevitável que a secar venha e pela morte caia.

GONERIL — Basta; o texto é cretino.

ALBÂNIA — Para o baixo o saber e a bondade são mesquinhos. Só a si mesma aprecia a sujidade. Que perpetrastes? Tigres, sim, não filhas: que fizestes? Um pai, um velho afável, cuja figura régia até mesmo um urso preso à corda afagara, por vós duas — degeneradas! bárbaras! — lançado foi à loucura. Como se compreende que meu bondoso irmão o permitisse, um nobre, um homem que por ele próprio fora beneficiado a mãos repletas? Se o céu não enviar logo seus espíritos visíveis para que aqui em baixo venham reprimir essas vis atrocidades, será fatal: vão devorar-se os homens uns aos outros, como os monstros do abismo.

GONERIL — O sujeito de fígado de leite, com rosto para receber pancada e fronte para insultos! Não tens olhos que possam distinguir a honra do insulto. Desconheces que são somente os tolos que mostram compaixão do celerado, quando a pena recebe, antes de tempo ter de fazer o mal. Onde se encontra teu tambor? Já desfralda os estandartes a França em nossa terra silenciosa. Teu matador, com elmo empenachado, te ameaça, e tu, meu tolo moralista, permaneces sentado e choramingas: “Ah! Por que fez ele isso?”

ALBÂNIA — Olha em ti própria, demônia! A original deformidade não é tão repelente nos demônios, como numa mulher.

GONERIL — Oh tolo tímido!

ALBÂNIA — Cria vergonha, criatura falsa, que de ti própria retiraste a máscara, e cessa de animalizar os traços! Se me ficasse bem deixar que ao sangue as mãos obedecessem, mui capazes seriam de quebrar-te os ossos todos e lacerar-te as carnes. Mas embora sejas o próprio diabo, ora te ampara a forma de mulher.

GONERIL — Como valente se tornou num instante!

(Entra um mensageiro.)

ALBÂNIA — Que há de novo?

MENSAGEIRO — Senhor, morreu o duque de Cornualha. Matou-o um criado, quando pretendia arrancar o segundo olho de Gloster.

ALBÂNIA — Como! Os olhos de Gloster?

MENSAGEIRO — Um dos próprios servidores, por ele mesmo criado, se opôs ao ato, a espada então sacando contra seu grande mestre, o qual, colérico contra ele se lançou e o prostrou morto, não, porém, sem aquele fatal golpe que depois o matou.

ALBÂNIA — Isso demonstra que morais aí em cima, ó Justiceiros! para punirdes com tamanha pressa os crimes cá de baixo. Mas é certo que perdeu o outro olho o pobre Gloster?

MENSAGEIRO — Ambos, senhor. Resposta urgente exige, senhora, esta missiva. Vem da parte de vossa irmã.

GONERIL (à parte) — Agrada-me isso a meias. Mas estando viúva e ao lado dela meu Gloster se encontrando, é bem possível que os castelos de minha fantasia esmagar venham minha vida odiosa. Porém por outro lado essa notícia não me parece má. (Ao mensageiro.) Vou lê-la e logo responderei. (Sai.)

ALBÂNIA — E onde se achava o filho, no momento em que os olhos lhe arrancaram?

MENSAGEIRO — Para cá tinha vindo com a senhora.

ALBÂNIA — Mas aqui não se encontra.

MENSAGEIRO — Não, milorde; encontrei-o de volta novamente.

ALBÂNIA — Soube ele dessa infâmia?

MENSAGEIRO — Sim, bondoso senhor; o delator foi ele próprio, tendo saído para que o castigo tivesse livre curso.

ALBÂNIA — Gloster, vivo para te dar os agradecimentos pelo amor que mostraste ao rei e para vingar teus olhos. Vem aqui, amigo; conta o mais que souberes.

(Saem.)

Cena III

O acampamento francês, perto de Dover. Entram Kent e um gentil-homem.

KENT — Por que o rei da França retornou com tanta pressa? Sabeis a razão?

GENTIL-HOMEM — Deixou em suspenso algum assunto de Estado, que o preocupa desde que de lá partiu e que, importando para o reino muito temor e perigo, impôs como necessidade urgente a volta do rei.

KENT — Quem deixou ele atrás como general?

GENTIL-HOMEM — O Marechal de França, Monsieur La Far.

KENT — Vossas cartas arrancaram da rainha alguma demonstração de tristeza?

GENTIL-HOMEM — Pois não, senhor; tomou-as e na minha presença as leu. De quando em quando lágrimas as faces delicadas lhe sulcavam. Parecia a rainha da tristeza que, tal como os rebeldes, procurava dominá-la de vez.

KENT — Oh! comoveu-se!

GENTIL-HOMEM — Mas sem ficar colérica; a paciência e a dor lutavam para apresentá-la sob o mais grato aspecto. Com certeza já vistes sol e chuva ao mesmo tempo; pois nela mais encantadores ainda eram o riso e o choro. Os sorrisinhos graciosos que na boca lhe brincavam, pareciam não ter conhecimento dos hóspedes dos olhos, que deixavam a grata hospedaria como pérolas que caem de diamantes. Em resumo: a tristeza seria raridade muito querida, se ficasse em todas as pessoas tão bem.

KENT — Não fez perguntas?

GENTIL-HOMEM — Sim, suspirou por uma ou duas vezes o nome “pai”, gemendo, dolorida, como se o coração ele abafasse. Clamava: “Irmãs! Vergonha das mulheres! Irmãs! Kent! Meu pai! Como! De noite? Na tempestade? A compaixão é um mito!” A água benta, depois, cair deixando dos olhos celestiais, que lhe os queixumes umedeciam, súbito partiu-se para lutar sozinha com sua mágoa.

KENT — São os astros, os astros lá de cima, que determinam nossas condições; se não, o mesmo par não poderia filhos gerar assim tão diferentes. Falastes-lhe depois?

GENTIL-HOMEM — Não.

KENT — E isso tudo se deu antes da volta do monarca?

GENTIL-HOMEM — Não; depois.

KENT — Muito bem, senhor; o pobre e inditoso Lear se acha na cidade. Por vezes, quando está mais bem disposto, ocorre-lhe a razão de nossa vinda. Porém de modo algum quer ver a filha.

GENTIL-HOMEM — Por quê, meu bom senhor?

KENT — Vergonha extrema tanto o deprime — a rispidez com que ele privou da bênção sua própria filha, entregando-a a acidentes estrangeiros e transferindo a bela herança dela para as irmãs de coração canino — tudo isso o coração de tal maneira com dardo venenoso lhe transpassa, que uma vergonha abrasadora longe de Cordélia o detém.

GENTIL-HOMEM — Ah! pobre rei!

KENT — E nada ouvistes sobre os dois exércitos, de Cornualha e de Albânia?

GENTIL-HOMEM — Estão em marcha.

KENT — Pois muito bem, senhor; vou conduzir-vos a nosso mestre Lear, lá vos deixando para tratardes dele. Alguns negócios de importância a ficar me obrigam ainda mais algum tempo oculto. Porém logo que eu revelar quem sou, não tereis causa de vos arrepender desta amizade. Por obséquio, segui-me.

(Saem.)

Cena IV

O mesmo. Uma tenda. Entram com toque de tambor e bandeiras desfraldadas Cordélia, o médico e soldados.

CORDÉLIA — É ele mesmo, ai de mim! Neste momento foi visto, tão furioso como o oceano revoltado, a cantar alto e sozinho, coroado de áspera fumária, urtiga, cicuta, cardamina, pegamassa, joio, cizânia e quanta erva daninha viceja em nosso trigo alimentício. Mandai cem homens; que examinem jeira por jeira da lavoura já crescida, e a nossa vista o tragam. (Sai um oficial.) Com que meios conta a sabedoria humana, para restituir-lhe a razão? Quanto possuo ficará sendo de quem quer que o cure.

O MÉDICO — Há recursos, senhora. A ama de nossa natureza é o repouso, justamente o de que ele carece, o que é possível nele obter pela ação de muitos simples que baixarão a pálpebra da angústia.

CORDÉLIA — Surgi com minhas lágrimas, segredos abençoados, virtudes ainda ocultas da natureza! Vinde em nosso auxílio, remediando a desgraça do bom velho! Procurai-o depressa! Procurai-o, antes que seu furor desordenado lhe dissolva a existência carecente de eficaz direção.

(Entra um mensageiro.)

MENSAGEIRO — Novas, senhora! As forças da Bretanha se aproximam.

CORDÉLIA — Disso conhecimento já tivemos, e à sua espera estamos. É a tua causa, querido pai, que eu sirvo. Esse o motivo de ter-se o grande França de meu choro apiedado e de meu luto. A vazia ambição não foi que o braço nos armou para a luta, mas apenas o amor, o terno amor, bem como a causa de nosso idoso pai. Pudesse eu vê-lo dentro de pouco e ouvi-lo!

(Saem.)

Cena V

Um quarto no castelo de Gloster. Entram Regane e Osvaldo.

REGANE — Mas as forças do mano estão em campo?

OSVALDO — Sim, senhora.

REGANE — E ele próprio à frente delas?

OSVALDO — Com muita relutância; vossa mana é melhor combatente.

REGANE — Lorde Edmundo não falou com vosso amo em casa deste?

OSVALDO — Não, senhora.

REGANE — Qual pode ser o assunto da carta dela, então?

OSVALDO — Não sei, senhora.

REGANE — É certeza ter sido enviado em muito séria missão. Foi erro indesculpável deixar Gloster com vida, após os olhos lhe termos arrancado. Onde aparece levanta os corações, contra nós todos. Edmundo, quero crer, compadecido de sua dor, foi dar remate logo a sua vida enoitada e, ao mesmo tempo, tentar saber das forças do inimigo.

OSVALDO — Preciso partir logo, para a carta, senhora, lhe entregar.

REGANE — As nossas tropas partirão amanhã. Fica conosco, pois não há segurança nas estradas.

OSVALDO — Senhora, não é possível; a patroa confia em minha diligência nisso.

REGANE — Qual a necessidade que ela tinha de escrever a Edmundo? Não podíeis transmitir verbalmente seu recado? Talvez... Alguma coisa... Como posso sabê-lo? Amar-te-ia imensamente se permitisses que eu abrisse a carta.

OSVALDO — Preferira, senhora...

REGANE — Não ignoro que vossa ama não gosta do marido. Tenho certeza disso. Quando da última vez ela esteve aqui, lançou estranhos olhares, eloqüentes sobremodo, para o nobre Edmundo. Confidente dela sei bem que sois.

OSVALDO — Como! Eu, senhora?

REGANE — Sei o que estou dizendo: confidente, tenho certeza disso. Mas sugiro-vos aceitar meu conselho. Meu marido faleceu; eu e Edmundo já falamos a esse respeito, sendo mais razoável, assim, que ele me peça a mão, deixando de lado a mana. Deduzi o resto. Se o encontrardes, dai-lhe isto, por obséquio. E quando conversardes com vossa ama sobre este assunto, peço concitarde-la a readquirir sua usual prudência. Portanto, passai bem. Se vierdes a encontrar o traidor cego, ganhará muito quem der cabo dele.

OSVALDO — Oh! Quem dera que o visse! Assim, mostrara de que lado me encontro.

REGANE — Passai bem.

(Saem.)

Cena VI

Região perto de Dover. Entram Gloster e Edgar vestido como camponês.

GLOSTER — Quando estarei no cimo da colina?

EDGAR — Já estais subindo. Vede nosso esforço.

GLOSTER — Tenho a impressão de que o terreno é plano.

EDGAR — Horrivelmente abrupto. Não ouvis o barulho do mar?

GLOSTER — Não, em verdade.

EDGAR — E que os outros sentidos tendes fracos pelo que os olhos sofrem.

GLOSTER — É possível. Parece-me que tens a voz mudada e que com mais sentido agora falas e melhor expressão.

EDGAR — É puro engano de vossa parte; em nada estou mudado, se não for nestas vestes.

GLOSTER — Não; parece-me que te exprimes melhor.

EDGAR — Vamos, senhor; eis o lugar. Chegamos. Ficai quieto. Como é terrível! É de dar vertigens olhar nesta distância para baixo. Como os corvos e as gralhas que transvoam o ar intermédio ficam pequeninos como besouros! Vê-se à meia altura, suspenso, um homem que procura funcho. Profissão arriscada! A impressão tenho de que ele é do tamanho da cabeça. Os pescadores que andam pela praia parecem-se com ratos; a barcaça ali ancorada, tão pequena se acha como o próprio escaler, e este se encontra reduzido a uma bóia, pequenina demais para ser vista. As marulhosas vagas que batem nos inumeráveis e preguiçosos seixos não se fazem ouvir de tanta altura. É-me impossível olhar mais tempo assim, pois tenho medo de vir a ter vertigens, atirando-me a vista de cabeça para baixo.

GLOSTER — Coloca-me no ponto em que te encontras.

EDGAR — Dai-me a mão; só um passo vos separa da borda extrema. Por quanto há debaixo da lua, eu não saltara dessa altura.

GLOSTER — Solta-me a mão; recebe esta outra bolsa; dentro dela há uma jóia que merece ficar com algum pobre. Os deuses todos e as fadas te protejam. Vai-te embora; dize adeus, pois desejo ouvir teus passos.

EDGAR — Passai bem, bom senhor.

GLOSTER — Agradecido de todo coração.

EDGAR (à parte) — A brincadeira que faço com a desgraça dele, visa, tão-somente, curá-lo.

GLOSTER — Ó deuses grandes, renuncio a este mundo e, em vossa vista, paciente, me despojo do meu grande sofrimento! Pudesse eu suportá-lo por mais tempo, sem luta abrir com vossa vontade irresistível, este abjeto morrão da natureza se deixara consumir até ao fim. Se ainda com vida estiver meu Edgar, oh! abençoai-o! E agora, amigo, adeus. (Cai para a frente.)

EDGAR — Adeus, senhor; já fui embora. (À parte.) Conceber não posso como a imaginação roubar consegue da vida a rara jóia, quando a própria vida se presta ao roubo. Se se achasse onde pensava estar, neste momento pensar já não pudera. Vivo ou morto? (A Gloster.) Então, senhor! Amigo! Estais me ouvindo? Poderia morrer... Mas não; revive. Que sois, senhor? Dizei-me.

GLOSTER — Vai-te embora e deixa-me morrer.

EDGAR — Se algo mais fosses do que ar, teia de aranha, leve pluma, caindo assim de tantas braças do alto, partido já estarias como um ovo. Mas respiras, possuis pesado corpo, não perdes sangue, estás inteiro, filas. Dez mastros superpostos não bastaram para medir a altura de onde caíste perpendicularmente. Verdadeiro milagre é tua vida. Vamos, fala!

GLOSTER — Mas eu caí ou não?

EDGAR — Sim, lá do pico desta penha calcária. Olha para o alto; ver e ouvir não se pode a cotovia de garganta estridente. Olha para o alto!

GLOSTER — Ai de mim! Não tenho olhos! É negada à desgraça o benefício de pôr termo com a morte á própria angústia. Era consolo para o sofrimento poder lograr a raiva do tirano e frustrar seus intentos orgulhosos.

EDGAR — Dai-me o braço. De pé! Então, e agora? Sentis as pernas? Eis-vos levantado.

GLOSTER — Bem; muito bem.

EDGAR — Tudo isso é muito estranho. Que era que estava no alto do penhasco e se apartou de vós?

GLOSTER — Um miserável. Um mendigo infeliz.

EDGAR — Daqui debaixo onde me achava, pareciam duas luas os olhos dele. Dotado era de mil narizes, cornos retorcidos e ondeados como os sulcos do mar bravo. Decerto era um demônio. Por tudo isso, lembra-te, feliz pai, que os deuses claros que da importância dos mortais constroem toda sua glória, a vida te salvaram.

GLOSTER — Agora penso nisso; de hoje em diante pretendo suportar o sofrimento até que por si mesmo ele me grite: “Basta! Basta!” e pereça. Por um homem tomei a coisa a que vos referistes. Dizia muitas vezes: “O demônio!” Foi ele que me pôs naquela ponta.

EDGAR — Possas agora ter só pensamentos tranqüilos e confiantes. Mas, que vejo! Quem vem aí? (Entra Lear, fantasticamente enfeitado com flores.) Jamais a sã razão vestirá seu senhor dessa maneira.

LEAR — Não; não poderão pegar-me por cunhar moedas; sou o rei.

EDGAR — Oh espetáculo de transpassar o coração!

LEAR — Nisto a natureza sobrepuja a arte. Eis vosso soldo. Aquele sujeito maneja o arco como se fosse um espantalho... Cortai-me uma jarda de pano. Vede! Um rato! Paz! Paz! Este pedaço de queijo frio resolverá o assunto. Eis minha luva; medir-me-ei com um gigante. Trazei as alabardas escuras. Oh! Bonito vôo, passarinho! No alvo! No alvo, hu! A senha, vamos!

EDGAR — Doce manjerona.

LEAR — Passai.

GLOSTER — Conheço essa voz.

LEAR — Ah! Goneril de barba branca! Adularam-me como um cão e me disseram que os pêlos brancos de minha barba nasceram antes dos pretos. Responder “sim” e “não” a tudo o que eu dizia! “Sim” e “não” ao mesmo tempo não era boa teologia. No dia em que a chuva veio para molhar-me e o vento para me fazer bater o queixo, e em que o trovão se recusava a obedecer-me, foi quando as encontrei; foi quando lhes percebi o cheiro. Ide embora; não têm palavra. Disseram-me que eu era tudo. É mentira! Não estou à prova de febre.

GLOSTER — Lembro-me dessa voz perfeitamente. Não é o rei?

LEAR — Rei da cabeça aos pés. Vede os vassalos como tremem, quando fito neles os olhos. Ora apraz-me perdoar a este homem. Qual o crime dele? Adultério? Não morrerás! Morrer por adultério? Não; isso faz o pintassilgo, e à minha vista a mosca dourada é libertina. Porque o filho bastardo do bom Gloster foi melhor para o pai que minhas filhas lealmente geradas. A vontade, luxúria, em toda parte! Preciso de soldados. Vede aquela senhora sorridente, cujo rosto anuncia pura neve na união das coxas. Só virtude mostra, sacudindo a cabeça sempre que ouve o nome do prazer. O furão e o corcel arrebatado não revelam mais lúbrico apetite. Abaixo da cintura são centauros, muito embora mulheres para cima. Até à cintura os deuses é que mandam; para baixo, os demônios. Ali é o inferno, escuridão, abismo sulfuroso, calor, fervura, cheiro de podridão... Xi! Xi! Pá! Ó bondoso boticário, dá-me uma onça de almíscar, para eu temperar a imaginação. Aqui tens dinheiro.

GLOSTER — Deixai-me beijar essa mão.

LEAR — Primeiro deixai que a limpe; cheira a mortalidade.

GLOSTER — Ó arruinada peça da natura! O imenso mundo há de gastar-se todo, reduzindo-se a nada. Reconheces-me?

LEAR — Lembro-me perfeitamente de teus olhos. Estás piscando para mim? Não, Cupido cego; por mais que faças, não chegarei a amar-te. Lê este desafio; observa bem o traço das letras.

GLOSTER — Se outros tantos sóis fossem, não as vira.

EDGAR (à parte) — Se mo dissessem, não o acreditara. No entanto é certo e o coração me parte.

LEAR — Lê!

GLOSTER — Como! Com as órbitas apenas?

LEAR — Oh! oh! Alcançastes-me nesse ponto? Nem olhos na cabeça, nem dinheiro na bolsa? Tendes os olhos pesados e a bolsa leve; no entanto, podeis ver como vai o mundo.

GLOSTER — Vejo-o porque o sinto.

LEAR — Como! Estais louco! A gente pode ver sem olhos como vai o mundo. Olha com as orelhas; vê como aquele juiz invectiva contra um simples ladrão. Escuta aqui, só uma palavrinha ao ouvido. Muda de lugar... Um, dois, três! E agora: qual é o ladrão? Qual é o juiz? Já viste um cachorro de fazendeiro ladrar para um mendigo?

GLOSTER — Já, sim senhor.

LEAR — E a criatura fugir do mastim? Nisso poderás contemplar a grande imagem da autoridade: um cachorro no desempenho de suas funções é obedecido. Oficial de justiça desonesto, suspende a mão sangrenta! Por que açoitas essa pobre rameira? Vira contra ti próprio essa chibata. Estás ardendo de desejos de com ela realizares o ato por que a castigas. O onzeneiro põe na forca o ladrão. As faltazinhas se deixam ver nos furos dos andrajos; mas as togas e as peles tudo encobrem. Forra de ouro o pecado, e a forte lança da Justiça se quebra sem feri-lo; cobre-o de trapos, e uma simples palha vibrada por pigmeu vai transpassá-lo. Ninguém comete falta, é o que te afirmo; ninguém. A todos sirvo de fiador. Podes acreditar-me, amigo; fala-te quem força tem para fechar a boca da acusação. Arranja umas lunetas e, como vil político, imagina ver coisas que não vês. Bum, bum, bum, bum! Tirai-me as botas. Força! Força!... Assim...

EDGAR (à parte) — Que mistura de senso e de incoerência! A razão na loucura.

LEAR — Toma meus olhos, se chorar desejas minha infelicidade. Sei de sobra quem és. Teu nome é Gloster. Pois bem sabes: ao respirarmos pela vez primeira, choramos e gememos. Vou fazer-te sobre isso um bom sermão; sê, pois, atento.

GLOSTER — Oh dia triste!

LEAR — Mas nascemos, choramos por nos vermos neste grande tablado de dementes. Que bela forma de chapéu! Seria idéia mui sutil pôr ferraduras de feltro nos cavalos de uma tropa. Vou tentá-lo; e, uma vez caindo em cima de meus genros: matar, matar, matar!

(Entra um gentil-homem, com criados.)

GENTIL-HOMEM — Oh, ei-lo aqui! Com jeito segurai-o. Meu senhor, vossa filha muito amada...

LEAR — Não há socorro! Como! Prisioneiro? Sou realmente joguete da fortuna. Tratei-me bem; pagar-vos-ei resgate. Trazei-me um cirurgião, pois tenho o cérebro muito ofendido.

GENTIL-HOMEM — Haveis de ter de tudo.

LEAR — Ninguém vem ajudar-me? Estou sozinho? Isso em homem de sal mudara um homem, para fazer de irrigador os olhos, sim, e a poeira do outono deixar úmida.

GENTIL-HOMEM — Meu bom senhor...

LEAR — Morrerei como bravo, como noivo... Como! Jovial hei de mostrar-me. Vamos! Sou rei, meus mestres; ignorais tal coisa?

GENTIL-HOMEM — É rei notável, a quem muito amamos.

LEAR — Então ainda há vida. Se a alcançardes, há de ser na carreira. Sá, sá, sá!... (Sai; os criados o acompanham.)

GENTIL-HOMEM — Lastimoso já fora este espetáculo no mais ínfimo ser e desgraçado. Num rei, não cabe no discurso humano. Uma filha ainda tens que a natureza limpa da maldição geral que as outras fizeram vir sobre ela.

EDGAR — Salve, senhor.

GENTIL-HOMEM — Senhor, o céu vos guarde. Que desejais?

EDGAR — Ouvistes, porventura, falar de uma batalha a ser travada?

GENTIL-HOMEM — É certo e mui sabido. Todo o mundo que sons distingue, ouviu falar sobre isso.

EDGAR — Mas, por obséquio: a que distância se acha o outro exército?

GENTIL-HOMEM — Perto, e vem com pressa. À vista surgirá dentro de uma hora; é o que se espera.

EDGAR — Agradecido. É tudo.

GENTIL-HOMEM — Muito embora a rainha aqui se encontre por um motivo especial, o exército dela avançou.

EDGAR — Bem; muito agradecido.

(Sai o gentil-homem.)

GLOSTER — Ó deuses sempre bons! tirai-me a vida, não permitindo que meu mau espírito tentar me venha novamente, para que à vossa revelia eu peça a morte.

EDGAR — Pai, rezais muito bem.

GLOSTER — Quem sois, amigo?

EDGAR — Indivíduo mui pobre, que os reveses da fortuna amansou e que pela arte das desgraças alheias e das próprias à compaixão se revelou sensível.

GLOSTER — Do imo peito agradeço. Que a bondade do céu e sua bênção te acompanhem sempre e sempre.

(Entra Osvaldo.)

OSVALDO — Oh! Cabeça posta a prêmio! Encontro mui feliz! Essa cabeça sem olhos só criou carne porque a minha fortuna prosperasse. Miserável traidor, concentra-te depressa, a espada que vai tirar-te a vida está sacada.

GLOSTER — Então põe força em tua mão amiga.

(Edgar se interpõe.)

OSVALDO — Por que te atreves, rústico atrevido, a amparar um traidor, publicamente como tal proclamado? Vai-te embora; do contrário, a infecção da sorte dele passará para ti. Larga-lhe o braço!

EDGAR — Não largo ele, seu moço; não há percisão disso.

OSVALDO — Solta-o, escravo! Do contrário, morrerás.

EDGAR — Ide embora, seu moço; ide embora e deixai o pobre viver. Se as ameaças pudessem tirar-me a vida, esta teria sido encurtada de uma quinzena. Não vos aproximeis do velho; ficai de longe, é o que eu digo, ou então vamos tirar a prova para ver o que é mais duro, se vosso coco ou este meu cacete. Gosto de franqueza.

OSVALDO — Sai da frente, monturo!

EDGAR — Vou curar vossos dentes, seu moço. Vinde. Vossos botes não me metem medo.

(Batem-se; Edgar o abate.)

OSVALDO — Oh! matas-te-me, escravo! Coisa à-toa, fica com minha bolsa. Se desejas prosperar, sepultura dá a meu corpo e entrega as cartas que aqui trago a Edmundo, conde de Gloster. Morte intempestiva! (Morre.)

EDGAR — Sei quem és, um velhaco diligente; tão dedicado aos vícios da patroa quanto a maldade desejar pudera.

GLOSTER — Como! Morreu?

EDGAR — Pai, repousai; Sentai-vos. Revistemos-lhe os bolsos. Essas cartas de que falou serão talvez amigas. Morreu; só me aborrece não ter ele tido um outro carrasco. Mas vejamos. Permiti mole cera; e vós, costumes, não nos culpeis; porque saber possamos as idéias de nossos inimigos os próprios corações lhes abriríamos. Abrir cartas, assim é mais legítimo. “Lembrai-vos de nossos juramentos recíprocos. Tendes muitas oportunidades de suprimi-lo; se vontade não vos faltar, oportunidade e lugar haveis de ter de sobra. Nada se terá feito se ele voltar como vencedor, porque ficarei como sua prisioneira e o leito dele como minha prisão. Libertai-me, portanto, desse calor odioso, e, pelo vosso trabalho, ficai com o lugar dele. Vossa — esposa é o que eu desejara chamar-me — serva afetuosa Goneril.” Oh insondável campo da perfídia feminina! Uma conjura contra a vida de um marido tão virtuoso, para ser por meu mano substituído! Vou enterrar-te aqui na areia mesmo, sacrílego correio de assassinos luxuriosos, a fim de em tempo certo ferir a vista do ameaçado duque com este papel fatal. E está com sorte por eu poder contar-lhe de tua morte.

GLOSTER — O rei ficou insano; quão teimoso meu vil juízo se mostra, permitindo-me ficar de pé e intacto me deixando o sentido de minha dor imensa. Fora melhor ficar de todo louco. Assim se apartariam das tristezas os pensamentos, que as desgraças perdem a autoconsciência, quando sob o império de errôneas fantasias.

(Ruído de tambor ao longe.)

EDGAR — Dai-me a mão. Ouço ao longe um tambor, se não me engano. Vamos, pai; vou confiar-vos a um amigo.

(Saem.)

Cena VII

Uma tenda no acampamento francês. Entram Cordélia, Kent, um médico e um gentil-homem.

CORDÉLIA — Ó meu bondoso Kent, de que maneira posso viver e agir, para que a tua bondade recompense? Minha vida será curta demais, sem que eu disponha de medida adequada.

KENT — Já me sobram, senhora, os vossos agradecimentos Vai de par meu relato com a mais simples verdade, sem acréscimos nem falhas.

CORDÉLIA — Veste roupa melhor; essa roupagem faz lembrar dos momentos muito tristes. Por favor, troca-a.

KENT — Não, cara senhora; perdoai-me; mas prejudicara muito meus planos dar-me a conhecer agora. Como graça vos peço continuardes sem me reconhecer, até que o tempo e eu concordemos nisso.

CORDÉLIA — Pois que seja, meu bondoso senhor. (Ao médico.) Que faz o rei?

O MÉDICO — Ainda dorme, senhora.

CORDÉLIA — Ó divindades piedosas, deixai boa a grande brecha de sua natureza maltratada! Afinai os sentidos em desordem e dissonantes deste pai que em criança voltou a transformar-se.

O MÉDICO — Vossa Alteza permitirá que o rei nós despertemos? Já dormiu muito.

CORDÉLIA — Segui nisso apenas vossos conhecimentos, procedendo como melhor julgardes. Já o vestiram?

(Entra Lear numa cadeira, carregado por criados.)

GENTIL-HOMEM — Já sim, senhora, pois no mais pesado do sono lhe trocamos toda a roupa.

O MÉDICO — Ficai junto, senhora, no momento de o despertarmos, pois não tenho dúvidas quanto a suas melhoras.

CORDÉLIA — Muito bem.

(Música.)

O MÉDICO — Aproximai-vos, por favor. A música, aí, mais alto!

CORDÉLIA — Ó meu querido pai! Em meus lábios suspende teus remédios, convalescença, e deixa que este beijo repare a imensa dor que minhas manas produziram em tua reverência.

KENT — Minha boa princesa e mui querida!

CORDÉLIA — Mesmo que pai não fosse delas duas, estes cabelos brancos lhes teriam forçado à compaixão. Uma cabeça como esta poderia ser exposta à fúria das rajadas? defrontar-se com o trovão pavoroso e o mais terrível ziguezaguear de temerosos raios? Ficar de guarda — pobre sentinela! — com este elmo tão fino? O próprio cão do meu inimigo, embora me tivesse mordido, houvera, numa noite dessas, permanecido junto do meu fogo. E tu, meu pobre pai, foste forçado a abrigar-te com porcos e mendigos numa pouca de palha embolorada! Ai, que dor. Maravilha é não haveres a um só tempo perdido a vida e o espírito. Vai acordar; falai-lhe.

O MÉDICO — Vós, senhora; será melhor.

CORDÉLIA — Como se sente agora meu real senhor? E Vossa Majestade como passa?

LEAR — Foi mal de vossa parte retirar-me do túmulo. És uma alma da bem-aventurança; eu, porém, me acho a uma roda de fogo sempre atado, que minhas próprias lágrimas escaldam como chumbo fundido.

CORDÉLIA — Conheceis-me, senhor?

LEAR — És um espírito; conheço-te. Desde quando morreste?

CORDÉLIA — Divagando sempre por muito longe.

O MÉDICO — Concedei-lhe mais algum tempo; despertou há pouco.

LEAR — Onde estive? Onde estou? É dia claro? Oh! Procederam muito mal comigo; morrer de compaixão eu poderia, se visse alguém tratado desse modo. Não sei o que dizer; jurar não quero que estas mãos sejam minhas. Mas vejamos: sinto esta alfinetada. Quem me dera saber quem sou, realmente.

CORDÉLIA — Senhor, olhai para o meu lado, e as mãos estendei sobre mim, para abençoar-me. Não, meu senhor! Não vos ponhais de joelhos!

LEAR — Ah! Não zombeis de mim, é o que vos peço. Sou um velho imprestável e caduco, para cima de oitenta, nem uma hora mais nem menos. E, para ser sincero, receio ter o espírito avariado. Creio vos conhecer e, assim, a este homem; mas em dúvida me acho, pois ignoro de todo onde me encontro, sem que possa lembrar-me destas vestes. De igual modo não sei onde passei a última noite. Oh! não riais de mim! Porque tão certo como eu ser homem, quer afigurar-me que esta dama é Cordélia, minha filha.

CORDÉLIA — Sou ela mesma, meu senhor; sou ela.

LEAR — Tendes lágrimas úmidas? Realmente. Não choreis, é o que peço. Se tiverdes veneno para dar-me, hei de bebê-lo. Sei que amor não me tendes. Vossas manas — tanto quanto me lembro — procederam comigo muito mal. Mas tendes causa; ao passo que nenhuma delas tinha.

CORDÉLIA — Nenhuma causa! Não; nenhuma causa!

LEAR — Estou na França?

KENT — Em vosso próprio reino, senhor.

LEAR — Não me enganeis.

O MÉDICO — Ficai tranqüila, boa senhora. Já está morta nele, como estais vendo, a grande fúria. Agora perigoso é fazê-lo novamente subir ao longo do perdido tempo. Levai-o para dentro, sem cansá-lo com perguntas, até que se refaça.

CORDÉLIA — Quererá Vossa Alteza andar um pouco?

LEAR — Precisareis comigo ter paciência. Esquecei e perdoai-me, por obséquio. Estou velho e caduco.

(Saem Lear, Cordélia, o médico e os criados.)

GENTIL-HOMEM — Confirmou-se a notícia, senhor, de que o duque de Cornualha foi morto?

KENT — Perfeitamente, senhor.

GENTIL-HOMEM — Quem está à testa de seus homens?

KENT — Ao que dizem, o filho bastardo de Gloster.

GENTIL-HOMEM — Dizem que Edgar, seu filho exilado, está na Alemanha com o conde de Kent.

KENT — Os boatos variam. É tempo de abrirmos os olhos; as forças do reino se aproximam com presteza.

GENTIL-HOMEM — A decisão promete ser sangrenta. Passai bem, senhor. (Sai.)

KENT — Ou boa ou má, a minha conclusão os golpes de hoje à luz sair farão. (Sai.)

ATO V
Cena I

O acampamento inglês, perto de Dover. Entram, com tambores e bandeiras desfraldadas, Edmundo, Regane, oficiais, soldados e outras pessoas.

EDMUNDO — Ide saber do duque se seu último projeto está de pé, ou se por causas intercorrentes já mudou de plano. Instável sempre se revela e cheio de queixas de si próprio. Sua firme decisão me trazei.

REGANE — O mensageiro de minha mana se perdeu, decerto.

EDMUNDO — É o que devemos recear, senhora.

REGANE — Já conheceis, meu caro lorde, quanto bem vos quero. Dizei-me francamente uma verdade só: amais à mana?

EDMUNDO — Sim, com amor honroso.

REGANE — Mas acaso nunca o caminho achastes de meu mano, para o lugar proibido?

EDMUNDO — Tal idéia, senhora, vos ofende.

REGANE — Tenho medo de com ela ligado vos achardes e de tal modo unido, que podíeis ser tido como dela.

EDMUNDO — Por minha honra, senhora, o afirmo.

REGANE — Nunca o permitira. Não vos mostreis tão familiar com ela, caro senhor.

EDMUNDO — Podeis ficar tranqüila. Ela aí vem, com o duque, seu marido.

(Entram, com tambores e bandeiras desfraldadas, Albânia, Goneril e soldados.)

GONERIL (à parte) — Preferira perder esta batalha a perdê-lo por causa desta mana.

ALBÂNIA — Muito querida irmã, feliz encontro. Senhor, soube que o rei se uniu à filha — com outros que o rigor de nosso jogo a protestar forçou. — Onde não posso mostrar-me honesto, nunca sou valente. Esta campanha nos atinge apenas por haver França entrado em nossas terras, não por ter ajudado o rei e os outros que se levantam contra nós, receio, por motivos mui justos e de peso.

EDMUNDO — Falastes nobremente.

REGANE — Qual a causa de discutirmos isso?

GONERIL — Dirijamos nossas forças conjuntas contra o inimigo; são fora de propósito essas tricas particulares e questões domésticas.

ALBÂNIA — Estudemos então nossa estratégia com o alferes da guerra.

EDMUNDO — A vossa própria tenda irei procurar-vos neste instante.

REGANE — Vireis conosco, irmã?

GONERIL — Não.

REGANE — Seria conveniente. Por obséquio, vinde também.

GONERIL (à parte) — Oh oh! Compreendo o enigma. (Alto.) Irei.

(Entra Edgar, disfarçado.)

EDGAR — Se em algum tempo Vossa Graça já conversou com um pobre tão humilde, ouvi-me uma palavra.

ALBÂNIA — Já vos ouço.

(Saem Edmundo, Regane, Goneril, oficiais, soldados e criados.)

EDGAR — Antes da pugna, lede esta missiva. No caso de vencerdes, que a trombeta chame seu portador. Embora aspecto tão pobre eu apresente, tenho meios de fazer vir um campeão que pode provar tudo o que aí está afirmado. Se vierdes a perder, vossos negócios mundanos chegarão também ao termo, terminando as intrigas. Que a Fortuna vos acompanhe.

ALBÂNIA — Ficai até que eu leia a carta.

EDGAR — Foi-me proibido fazer isso. Mas no tempo preciso, bastará que o arauto chame, para que eu me apresente.

ALBÂNIA — Então, adeus. Vou ler o teu papel.

(Sai Edgar.)

(Volta Edmundo.)

EDMUNDO — O inimigo está à vista. Ponde em linha vossos soldados. Eis aqui o cômputo de seu poder exato e de suas forças, segundo explorações bem conduzidas. Mas o momento vos obriga à pressa.

ALBÂNIA — Saberemos saudar o tempo certo. (Sai.)

EDMUNDO — Jurei amor às duas; uma da outra desconfia, tal como da serpente, quem picado já foi. Qual me reservo? Ambas? Uma? Nenhuma? Com nenhuma me alegrarei, ficando vivas ambas. Ficar com a viúva é exasperar a outra, Goneril; é deixá-la como louca, não podendo eu ganhar minha partida, se seu marido continuar com vida. Aproveitemo-nos de seu prestígio para a batalha em curso. Uma vez ganha, ela, então, que de grado o despachara, os recursos mais aptos excogite de logo liquidá-lo. No que tinge ao plano dele de a Cordélia e Lear conceder o perdão, ganha a batalha e eles em nossa mão, jamais tal graça chegará a alcançar. Impõe-me o posto pouco falar e trabalhar com gosto. (Sai.)

Cena II

Um campo entre os dois acampamentos. Alarma. Com tambores e estandartes desfraldados, entram Lear, Cordélia e suas tropas. Saem. Entram Edgar e Gloster.

EDGAR — Acolhei-vos aqui, pai, a esta sombra de árvore como a um hospedeiro grato. Rezai para que vença a boa causa. Se algum dia eu voltar, será para trazer-vos doce alívio.

GLOSTER — Possa a Graça, senhor, acompanhar-vos.

(Sai Edgar.)

(Alarma. Depois, retirada. Volta Edgar.)

EDGAR — Fujamos, velho! Dai-me a mão. Fujamos! Perdeu rei Lear: presos, ele e a filha. Dai-me a mão; vamos logo.

GLOSTER — Não, senhor; não darei nem mais um passo. Pode-se apodrecer em qualquer parte.

EDGAR — Como! De novo pensamentos negros Precisamos mostrar-nos conformados com a nossa vinda ao mundo e ao nos partirmos. Estarmos preparados é o que importa. Vamos daqui.

GLOSTER — Tudo isso é muito certo.

(Saem.)

Cena III

O acampamento inglês, perto de Dover. Entra Edmundo, como vencedor, com tambores e bandeiras; Lear e Cordélia, prisioneiros; oficiais, soldados, etc.

EDMUNDO — Alguns oficiais os levem logo. Que fiquem bem guardados, até que a alta vontade se conheça das pessoas que terão de julgá-los.

CORDÉLIA — Os primeiros não somos a ficar sobre braseiros com boas intenções. Rei oprimido, por ti, somente, falta-me o sentido, que eu, por mim, poderia, carrancuda, enfrentar as carrancas da Fortuna. Tais irmãs e tais filhas não veremos?

LEAR — Não, não, não, não! Levai-nos para o cárcere. Nós dois, sozinhos, cantaremos como pássaros na gaiola. No momento de a benção me pedires, eu me ajoelho e te imploro perdão. Dessa maneira viveremos, dizendo nossas preces, cantando e velhos contos enarrando, rindo das borboletas variegadas e ouvindo os pobres diabos discorrerem sobre os boatos da corte, aos quais, decerto, nos juntaremos para dar palpite sobre quem perde ou ganha, quem se encontra no alto da escada ou em baixo, discorrendo sobre os altos mistérios do universo como se espiões de Deus, acaso, fôssemos. Gastaremos, assim, no duro cárcere, os partidos e as lutas dos graúdos que com a lua sobem sempre e descem.

EDMUNDO — Levai-os!

LEAR — Sobre um sacrifício destes, minha boa Cordélia, os próprios deuses jogam incenso. Tenho-te bem presa? Quem quiser separar-nos há de um facho trazer do céu, para tocar-nos, como a raposas. Enxuga, enxuga os olhos. A carne e a pele a peste há de comer-lhes antes de que eles a chorar nos forcem. Primeiro morrerão de fome. Vamos!

(Saem Lear e Cordélia, escoltados.)

EDMUNDO — Capitão, vem aqui. Toma este escrito. Ouve-me atento. Segue-os até o cárcere. Já te beneficiei de um grau; no caso de cumprires esta ordem, o caminho terás franqueado da mais nobre sorte. Reflete no seguinte: os homens mudam conforme as épocas. Uma alma terna não se casa com a espada. Este mandato não permite objeções: ou vais cumpri-lo, ou procura subir por outros meios.

OFICIAL — Senhor, hei de cumpri-lo.

EDMUNDO — Cuida disso, e, feito isso, feliz te considera. Ouve-me bem: sem perda de um momento, e cumpre as minhas instruções à risca.

OFICIAL — Puxar carro não sei, nem comer feno; mas se é trabalho de homem, já está feito. (Sai.)

(Fanfarra. Entram Albânia, Goneril, Regane, oficiais e criados.)

ALBÂNIA — Senhor, mostrastes vossa altiva raça e bem guiado fostes pela sorte. Tendes os prisioneiros que adversários nossos foram na luta deste dia. De vós os requeremos, para dar-lhes tratamento conforme o próprio mérito o exigir e, assim, nossa segurança.

EDMUNDO — Pareceu-me, senhor, mais conveniente mandar o velho e desgraçado rei para alguma prisão, sob guarda certa, pois de grande feitiço se revela sua díade e, ainda mais, o próprio título para arrastar o coração do vulgo, voltar fazendo contra nossos olhos as lanças que nós mesmos alistamos. Pelas mesmas razões foi a rainha juntamente com ele. Ambos se encontram prontos, amanhã cedo ou mais de espaço, para comparecer onde quiserdes formar o tribunal. De suor e sangue todo coberto ainda estou; o amigo perdeu o amigo e, no calor, as lutas mais altas são amaldiçoadas pelos que o corte delas sentem. O problema de Cordélia e do pai requer um sítio mais conveniente.

ALBÂNIA — Não vos desagrade, senhor, mas nesta guerra considero-vos súdito, não irmão.

REGANE — Irmão, lhe digo, o que me apraz dele fazer. Parece-me que devia ter sido consultado nosso prazer antes de tal discurso. Foi nosso general, representante de mim própria e de minha dignidade, intimidade que bem pode a fronte levantar para vosso irmão chamar-se.

GONERIL — Por que tanto calor? Seu próprio mérito o exalta mais que vossas distinções.

REGANE — Com meus direitos, minha investidura, aos melhores se iguala.

GONERIL — Atingiria, decerto, o ápice, vindo a desposar-vos.

REGANE — Por vezes os trocistas se revelam verdadeiros profetas.

GONERIL — Olará! O olho que vos disse isso estava vesgo.

REGANE — Não estou bem, senhora; não fora isso, vos daria a resposta merecida. General, toma conta dos meus homens, dos prisioneiros, meus haveres todos. Dispõe deles, de mim; teu é este burgo. Seja o universo testemunha em como te creio agora meu senhor e mestre.

GONERIL — Pensais que já sois dele?

ALBÂNIA — Não depende de vós a permissão.

EDMUNDO — Oh! nem de ti!

ALBÂNIA — Depende, sim, tipo de meio sangue.

REGANE — Faze soar o tambor, e que este prove que meu título é teu.

ALBÂNIA — Um momentinho; a razão escutai: Edmundo, prendo-te por traição capital, e juntamente contigo esta serpente cheia de ouro, (Apontando para Goneril.) porque, formosa irmã, me oponho a vossas pretensões, no interesse, tão-somente, de minha esposa, que ligada se acha a este senhor por um formal contrato. Eu, seu marido, oponho-me, portanto, a esses vossos proclamas. Se quiserdes casar, fazei-me a corte, que esta dama já está comprometida.

GONERIL — Que comédia!

ALBÂNIA — Gloster, estás armado. Que a trombeta dê logo o toque. Caso ninguém venha para ao rosto lançar-te as tuas próprias traições odiosas, múltiplas e claras, aqui está meu penhor. (Atira a luva.) Nessa cabeça demonstrarei antes de novamente provar pão, que és tudo isso que ora afirmo.

REGANE — Oh! doente, muito doente!

GONERIL (à parte) — De outro modo não voltara a confiar na medicina.

EDMUNDO — Eis meu penhor, também. (Joga a luva.) Em todo o mundo quem quer que de traidor ouse chamar-me, mente como um vilão. Soe a trombeta! Contra quem se atrever a apresentar-se, contra ele, contra vós, contra quem seja, firme defenderei a honra e a lealdade.

ALBÂNIA — Eh! Um arauto!

EDMUNDO — Olá! O arauto! O arauto!

ALBÂNIA — Confia apenas na coragem própria; pois teus soldados, alistados todos em meu nome, já foram licenciados.

REGANE — Meus incômodos crescem!

ALBÂNIA — Não se encontra passando bem; levai-a para a tenda. (Sai Regane, amparada.) Aproxima-te, arauto. (Entra um arauto.) Que a trombeta soe logo e, depois, proclama isto.

OFICIAL — Soe a trombeta!

(Ouve-se um toque de trombeta.)

ARAUTO — “Se houver nas fileiras do exército qualquer homem de qualidade ou posição que queira sustentar contra Edmundo, suposto conde de Gloster, que ele é muitas vezes traidor, apresente-se ao terceiro toque da trombeta. Edmundo está decidido a defender-se.”

EDMUNDO — Tocai!

(Primeiro toque.)

ARAUTO — Outra vez!

(Segundo toque.)

ARAUTO — Outra vez!

(Terceiro toque.)

(Uma trombeta responde dentro.)

(Entra Edgar, armado, precedido de um trombeteiro.)

ALBÂNIA — Interrogai-o sobre seus intuitos e porque veio ao toque da trombeta.

ARAUTO — Quem sois vós? Vosso nome? Vosso estado? Por que viestes aqui a esta chamada?

EDGAR — Meu nome se perdeu, ficai sabendo. Roeu-o o dente da traição, deixando-o lacerado de todo. Mas sou nobre tanto quanto o adversário que procuro.

ALBÂNIA — Quem é esse adversário?

EDGAR — Quem responde pelo conde de Gloster, por Edmundo?

EDMUNDO — Ele próprio. Que tens para dizer-lhe?

EDGAR — Saca da espada, para que, no caso de um nobre coração vir meu discurso magoar, justiça obtenhas por teu braço. Eis aqui a minha, como privilégio de minha qualidade, juramentos e honrarias, que aqui venho afirmar-te, apesar de tua força, mocidade, posição e alto estado; não obstante tua sorte forjada há pouco tempo e a espada vitoriosa, tua grandeza, valentia e coragem, que és traidor, falso aos deuses, ao próprio irmão e ao pai, conspirador contra este ilustre príncipe, e que do ponto extremo da cabeça ao mais baixo do pé que pisa a poeira, és um traidor manchado como o sapo. Se “Não” disseres, esta espada, o braço, minha melhor coragem vão provar-te no coração que mentes.

EDMUNDO — A prudência me mandaria perguntar teu nome. Mas visto teres um exterior tão belo, tão marcial, e expressar os pensamentos tua língua com nobreza, com desprezo ponho de lado todas as delongas que as próprias regras da cavalaria sem desdouro nenhum me asseguraram. Essas traições, em tua fronte as jogo, e o coração aperto-te na própria calúnia odiosa como o duro inferno. De leve, tão-somente, me tocaram. Por isso, minha espada vai mostrar-lhes neste instante o caminho para o ponto em que repouso irão achar eterno. Falai, trombetas!

(Alarma; batem-se; Edmundo cai.)

ALBÂNIA — Poupai-lhe a vida!

GONERIL — É uma cilada, Gloster! Segundo as leis das armas, não devias aceitar luta com um desconhecido. Vencido não caíste; foste vítima do embuste e da traição.

ALBÂNIA — Fechai a boca, senhora; do contrário, eu mesmo a tapo com esta carta. Olha para este lado, senhor, pior do que os mais feios nomes; lê teu próprio delito. Não, senhora! Não a rasgueis! Vejo que a conheceis. (Dá a carta a Edmundo.)

GONERIL — E se fosse esse o caso? A lei é minha, não tua. Quem me chamará a juízo? (Sai.)

ALBÂNIA — Oh! Monstruoso! Conheces essa carta?

EDMUNDO — Oh! não me pergunteis o que eu conheço.

ALBÂNIA — Ide atrás dela; está desesperada. Vigiai-a bem.

(Sai o oficial.)

EDMUNDO — Sim, perpetrei os crimes de que ora me acusais, e muitas coisas, ainda, muitas mais. Aos poucos há de revelá-las o tempo. Mas tudo isso já passou, tal como eu. Mas quem és tu, que tal vantagem sobre mim tiveste? Se fores nobre, o meu perdão concedo-te.

EDGAR — Então reciproquemos caridade. Não é menor que o teu meu sangue, Edmundo. Se maior for, maior será tua culpa com relação a mim. Chamo-me Edgar; sou filho de teu pai. Justos os deuses sempre são, e instrumentos de castigo fazem de nossos vícios agradáveis. Custou-lhe os olhos o lugar vicioso onde foste gerado.

EDMUNDO — Com acerto falaste; é verdadeiro o que disseste. Estou aqui: ficou completo o círculo.

ALBÂNIA — Bem vi que tua forma revelava uma nobreza real. Quero abraçar-te. Que a dor me parta o coração, se acaso te tive ódio, ou a teu pai, em qualquer tempo.

EDGAR — Sei disso, digno príncipe.

ALBÂNIA — Em que ponto vos escondestes? Como a saber viestes das misérias de vosso pobre pai?

EDGAR — Tratando delas, meu senhor, apenas. Ouvi uma história curta, e logo que ela tiver sido contada, oh! que me estale de dor o coração. Da sanguinária proclamação porque escapar pudesse, que tão de perto os passos me seguia — Ó doçura da vida, que nos fazes preferir morrer de hora em hora as dores da morte a de uma vez morrer de todo! — precisei disfarçar-me com os andrajos de um demente, assumindo uma aparência que até mesmo os cachorros repelia. Com essas vestes fui achar meu pai, cujos anéis sangrentos as preciosas pedras tinham perdido. Transformei-me em seu guia, pedi para ele esmola, por toda parte o conduzi, salvei-o do desespero, sem que nunca — oh falta! — lhe houvesse revelado quem eu era, senão há cerca de meia hora, quando já me encontrava armado. Não me achando seguro de vencer, pedi-lhe a bênção e minha peregrinação contei-lhe, do começo até ao fim. Mas seu rachado coração, ah! muito fraco porque a luta pudesse suportar dos dois extremos da paixão, alegria e sofrimento, sorrindo arrebentou.

EDMUNDO — Vosso discurso me comoveu, sendo possível, mesmo, que produza algum bem. Mas prossegui; parece que ainda não contastes tudo.

ALBÂNIA — Se houver outras misérias, ocultai-as, porque no ponto de chorar me encontro, ouvindo o que contastes.

EDGAR — Julgaria quem não amasse a dor que esse relato já representa tudo. Porém se outro viesse juntar-se ainda a tantos males, ampliando-os muito e muito, ultrapassara decerto o ponto extremo. Quando a clamar de dor eu me encontrava, chegou um homem que me vira em minha ínfima condição e se esquivara de minha companhia repelente, mas que, ao notar, então, quem era o grande sofredor, em seus braços vigorosos me apertou o pescoço, urrou a ponto de arrebentar o céu, lançou-se em cima do corpo de meu pai e a mais dorida história me contou sobre ele e Lear, que jamais percebeu o ouvido humano. Ao relatá-la, a dor o dominava, começando a estalar-lhe as próprias cordas da vida. Mas nessa hora duas vezes soou a trombeta e exânime o deixei.

ALBÂNIA — Mas quem é ele?

EDGAR — Kent, senhor; o mesmo Kent exilado, o qual sob um disfarce seguia o rei seu inimigo, tendo lhe prestado serviços nada próprios, ai! nem mesmo de escravos.

(Entra um gentil-homem com uma faca ensangüentada.)

GENTIL-HOMEM — Aqui, socorro! Socorro, aqui!

EDGAR — Socorro de que jeito?

ALBÂNIA — Fala, homem.

EDGAR — E essa faca ensangüentada?

GENTIL-HOMEM — Está quente; fumega; neste instante saiu do coração dela... Oh! Morreu!

ALBÂNIA — Quem morreu, homem? Fala.

GENTIL-HOMEM — Vossa esposa, senhor, vossa consorte, e a irmã por ela envenenada; confessou o fato.

EDMUNDO — Fiquei noivo das duas; na mesma hora casamo-nos os três.

EDGAR — Kent aí vem vindo.

ALBÂNIA — Trazei os corpos, mortos ou com vida. Este juízo dos céus, que nos abala, não nos deixa, por isso, enternecido. (Sai o gentil-homem.) (Entra Kent.) Oh! É ele mesmo? Não permite o tempo saudá-lo como a cortesia manda.

KENT — Só vim aqui para dizer boa noite ao meu rei e senhor. Não se acha aqui?

ALBÂNIA — Oh! Esquecemos do que mais importa! Dize-nos, Edmundo, onde está o rei? Onde ficou Cordélia? Kent, vês isto?

(São trazidos os corpos de Goneril e Regane.)

KENT — Oh! Como aconteceu?

EDMUNDO — No entanto, Edmundo foi amado! Uma deu veneno à outra, por minha causa, e se matou depois.

ALBÂNIA — Justamente; cobri-lhes ora o rosto.

EDMUNDO — A vida já me foge, mas quisera fazer ainda algum bem, embora contra minha própria feição. Mandai depressa, bem depressa, ao castelo. Meu escrito ameaça a vida de Cordélia e Lear. Não percais tempo.

ALBÂNIA — Corre! Corre! Corre!

EDGAR — Para onde, meu senhor? Qual a pessoa que está disso incumbida? É necessário enviares um penhor como contra-ordem.

EDMUNDO — Foi bem pensado; toma minha espada e a entrega ao capitão.

ALBÂNIA —Por tua vida, não percas tempo.

(Sai Edgar.)

EDMUNDO — A comissão tem ele de tua esposa morta e minha, para na prisão a Cordélia dar a morte, atribuindo, depois, ao desespero dela mesma sua própria destruição.

ALBÂNIA — Que os deuses a protejam! Retirai-o.

(Entram Lear, com Cordélia nos braços, morta; Edgar, oficiais e outras pessoas.)

LEAR — Uivai! Uivai! Uivai! Sois empedrados! Se vossas línguas e olhos eu tivesse, usara-os de tal modo, que faria rachar a abóbada celeste. Foi-se para sempre! Conheço muito bem quando alguém está morto ou quando vive. Morta está como terra. Ide buscar-me um espelho; no caso de seu hálito embaçar ou cobrir a superfície, então é que ela ainda está com vida.

KENT — Este é o fim prometido?

EDGAR — Ou bem a imagem de tanto horror?

ALBÂNIA — Cai de uma vez e acaba.

LEAR — A pluma está a mexer! Ela está viva! Oh! se for assim mesmo, é uma ventura que recompensa todos os pesares por que tenho passado.

KENT (ajoelhando-se) — Oh meu bom mestre!

LEAR — Sai, por favor!

EDGAR — É Kent, o vosso amigo.

LEAR — A peste sobre vós, traidores todos! Sois todos assassinos! Poderia tê-la salvo, mas foi-se para sempre. Ó Cordélia! Cordélia! Espera um pouco! Ah! Que disseste? A voz tinha sempre branda, agradável e baixa, predicado na mulher de valor inestimável. Matei o escravo, quando te enforcava.

OFICIAL — É certo, meu senhor; matou-o, de fato.

LEAR — Não é verdade, amigo? Já houve tempo em que com minha espada de bom gume os fazia dançar. Ora estou velho e estes trabalhos todos me deprimem. Quem sois? Não vejo bem. Vou já dizer-vos.

KENT — Se blasona a fortuna de a dois seres ao mesmo tempo haver odiado e amado, a um deles aqui vemos.

LEAR — Tenho a vista um tanto baça. Acaso não sois Kent?

KENT — O mesmo; Kent, o vosso servidor. Onde se encontra vosso criado Caius?

LEAR — Um bom sujeito, posso asseverar-vos; sabe bater nos outros com aprumo. Está morto e bem podre.

KENT — Não, bondoso senhor; sou ele mesmo...

LEAR — Verei isso neste momento.

KENT — ...que desde o começo de vossos infortúnios e declínio vos tem seguido os lastimosos passos.

LEAR — Sois bem-vindo.

KENT — Ninguém é aqui bem-vindo. Tudo é sem alegria, escuro e morto. Vossas filhas mais velhas se mataram, morrendo em desespero.

LEAR — Oh! Acredito-o.

ALBÂNIA — Já não sabe o que diz; absurdo fora tentarmos conversar com ele.

KENT — É inútil.

(Entra um oficial.)

OFICIAL — Edmundo faleceu, milorde.

ALBÂNIA — Nada significa isso agora. Vós, senhores e meus caros amigos, comunico-vos minha intenção, que é dar todo o conforto que com esta grande ruína se coadune. Enquanto a nós, durante a vida desta cândida majestade, conferimos-lhe todo o nosso poder. (A Kent e Edgar). A vós, as vossas honrarias, que vossos grandes préstimos mais do que mereceram. Os amigos receberão a paga da virtude provando todos nossos inimigos da copa do castigo. Oh! Vede! vede!

LEAR — Foi enforcada minha bonequinha! Não, não! Vida nenhuma! Por que causa terá vida um cavalo, um cão, um rato, e tu, fôlego algum? Não voltarás, oh! nunca, nunca, nunca, nunca, nunca! Por obséquio, soltai-me este botão. Obrigado, senhor. Oh! vedes isto? Olhai para ela! Vede os lábios dela! Olhai aqui! Olhai aqui! (Morre.)

EDGAR — Desmaia! Senhor! Senhor!

KENT — Estala, coração! Estala, peço-te.

EDGAR — Senhor, olhai-me!

KENT — Não lhe molesteis a alma. Que se fine. Ódio lhe tem quem desejar deitá-lo por mais tempo no banco de tormentos deste mundo tão duro.

EDGAR — Já não vive, realmente.

KENT — O que é admirável é que tenha agüentado a esse ponto. Sua vida já era usurpada.

ALBÂNIA — O corpo removei. Luto geral vai ser a nossa ocupação precípua. (A Kent e Edgar.) Amigos d’alma, governai o Estado, que tão ferido se acha e malfadado.

KENT — Para uma viagem longa vou partir. O mestre é que me chama; tenho de ir.

ALBÂNIA — Do tempo triste somos os arrimos; digamos tão-somente o que sentimos. Muito o velho sofreu; mais desgraçada nossa velhice não será em nada.

(Saem ao som de uma marcha fúnebre.)

Fonte: www.dominiopublico.gov

 

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