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Ricardo III

William Shakespeare

PERSONAGENS

RICARDO, Duque de Gloucester, (mais tarde Rei Ricardo III).
DUQUE DE CLARENCE, seu irmão, (mais tarde o seu fantasma).
SENHOR ROBERTO DE BRAKENBURY, Tenente da Torre.
SENHOR DE HASTINGS, o Camareiro-Mor, (mais tarde o seu fantasma).
DONA ANA, viúva de Eduardo, Príncipe de Gales, (mais tarde o seu fantasma).
TRESSEL, fidalgo do séquito de Dona Ana.
BERKELEY, fidalgo do séquito de Dona Ana.
Um alabardeiro
Um fidalgo
RAINHA ISABEL, mulher do Rei Eduardo IV
MARGARIDA, viúva do Rei Henry VI
SENHOR DE RIVERS, seu irmão
O SENHOR DE GREY, seu filho, (mais tarde o seu fantasma)
MARQUÊS DE DORSET, seu filho, (mais tarde o seu fantasma)
DUQUE DE BUCKINGHAM (mais tarde o seu fantasma).
STANLEY, CONDE DE DERBY
SENHOR GUILHERME CATESBY
Dois assassinos
Guarda da Torre
REI EDUARDO IV
SENHOR RICARDO DE RATCLIFFE
A DUQUESA DE YORK, mãe de Ricardo, Eduardo IV e Clarence
Menino, filho de Clarence
Menina, filha de Clarence
Três cidadãos
ARCEBISPO DE YORK
DUQUE DE YORK, filho mais novo do Rei Eduardo IV, (mais tarde o seu fantasma).
SENHOR CARDEAL BOURCHIER, Arcebispo de Gantuária
Alcaide de Londres
Um mensageiro
HASTINGS,
Um padre
SENHOR TOMÁS DE VAUGHAN
BISPO DE ELY, João Morton
DUQUE DE NORFOLK
SENHOR DE LOVELL
Um escrivão
Dois bispos (Shaa e Penkier)
Um pajem
SENHOR JAIME TYRREL
Quatro mensageiros
CRISTÓVÃO DE URSWICK, um padre
Xerife de Wiltshire
CONDE DE RICHMOND, depois Rei Henrique VII
CONDE DE OXFORD
SENHOR JAIME BLUNT
SENHOR WALTER HERBERT
CONDE DE SURREY
SENHOR GUILHERME DE BRANDON
Fantasma de EDUARDO, Príncipe de Gales, filho de Henrique VI
Fantasma do REI HENRIQUE VI
Um mensageiro
Guardas, alabardeiros, fidalgos, um passavante, senhores, criados, soldados.

ATO I
Cena I

(Entra Ricardo, Duque de Gloucester)

RICARDO (Duque de Gloucester) — O inverno do nosso descontentamento foi convertido agora em glorioso verão por este sol de York, e todas as nuvens que ameaçavam a nossa casa estão enterradas no mais interno fundo do oceano. Agora as nossas frontes estão coroadas de palmas gloriosas. As nossas armas rompidas suspensas como troféus, os nossos feros alarmes mudaram-se em encontros aprazíveis, as nossas hórridas marchas em compassos deleitosos, a guerra de rosto sombrio amaciou a sua fronte enrugada. E agora, em vez de montar cavalos armados para amedrontar as almas dos temíveis adversários, pula como um potro nos aposentos de uma dama ao som lascivo e ameno do alaúde. Mas eu, que não fui moldado para jogas nem brincos amorosos, nem feito para cortejar um espelho enamorado. Eu, que rudemente sou marcado, e que não tenho a majestade do amor para me pavonear diante de uma musa furtiva e viciosa, eu, que privado sou da harmoniosa proporção, erro de formação, obra da natureza enganadora, disforme, inacabado, lançado antes de tempo para este mundo que respira, quando muito meio feito e de tal modo imperfeito e tão fora de estação que os cães me ladram quando passo, coxeando, perto deles. Pois eu, neste ocioso e mole tempo de paz, não tenho outro deleite para passar o tempo afora a espiar a minha sombra ao sol e cantar a minha própria deformidade. E assim, já que não posso ser amante que goze estes dias de práticas suaves, estou decidido a ser ruim vilão e odiar os prazeres vazios destes dias. Armei conjuras, tramas perigosas, por entre sonhos, acusações e ébrias profecias, para lançar o meu irmão Clarence e o Rei um contra o outro, num ódio mortífero, e se o Rei Eduardo for tão verdadeiro e justo quanto eu sou sutil, falso e traiçoeiro, será Clarence hoje mesmo encarcerado devido a uma profecia que diz será um “gê” o assassino dos herdeiros de Eduardo. Mergulhai, pensamentos, fundo, fundo na minha alma. Ali vem Clarence. (Entram Clarence e Brakenbury com alguns guardas.) Irmão, bom dia. Que significam estes guardas armados ao serviço de Vossa Graça?

CLARENCE — Sua Majestade, interessada na segurança da minha pessoa, enviou esta escolta para me conduzir à Torre.

RICARDO (Duque de Gloucester) — E qual a causa?

CLARENCE — Porque o meu nome é George.

RICARDO (Duque de Gloucester) — Oh! Senhor meu, não, não é vossa a culpa. Deveria ele, por tal razão, prender vossos padrinhos. Oh, talvez Sua Majestade tenha intento de outra vez vos batizar na Torre. Mas que se passa, Clarence? Posso saber?

CLARENCE — Podes, Ricardo, quando eu próprio o souber, porque juro que não sei ainda, mas, pelo que ouvi, ele crê em profecias e em sonhos, e do alfabeto escolhe a letra “gê”, e diz que um mago feiticeiro lhe revelou que é por um “gê” que um dia será deserdada a sua prole e porque o meu nome começa por gê ele conclui que serei eu. Estas, quanto eu sei, e outras ninharias semelhantes levaram Sua Alteza a mandar-me prender.

RICARDO (Duque de Gloucester) — Pois assim é quando os homens são dominados por mulheres. Não é o Rei quem vos manda para a Torre, mas a senhora de Grey, sua esposa, Clarence, é ela quem o leva a tais extremos. Não foi ela e aquele homem que tem fama tão subida, Antônio de Woodville, esse seu irmão, que o fizeram mandar Hastings para a Torre, donde hoje mesmo sairá? Não estamos a salvo, Clarence, não estamos a salvo!

CLARENCE — Oh, céus, não creio que alguém esteja a salvo afora os parentes da Rainha e os mensageiros da noite que percorrem a distância entre o Rei e essa senhora Shore. Não ouviste dizer quantas humilhações sofreu o senhor de Hastings para conseguir a liberdade?

RICARDO (Duque de Gloucester) — Humildes súplicas a essa deidade concederam a Sua Excelência o Camareiro-Mor a liberdade. Uma coisa te direi: cuido que nosso caminho será, se nos quisemos manter nas boas graças de El-Rei, fazermo-nos servos dela e usar sua libré. Desde que nosso irmão as transformou em nobres damas, a viúva gasta e invejosa, e ela própria, são comadres poderosas neste reino nosso.

BRAKENBURY — Perdoem-me Vossas Graças: sua Majestade com rigor recomendou que ninguém, fosse quem fosse, pudesse em privado conversar com vosso irmão.

RICARDO (Duque de Gloucester) — Ah; sim? Se aprouver a Vossa Mercê, Brakenbury, podeis tomar parte em tudo o que dissemos. Não falamos de traição, homem, dizemos que o Rei é astuto e virtuoso, e a nobre Rainha bem conservada, formosa, e sem ciúme. Dizemos que a mulher de Shore tem pé de jaspe, boca de rubi, belos olhos, língua amável e fugaz; e que os parentes da Rainha agora são fidalgos. Que tendes a dizer, senhor? Ousais negar estas sentenças?

BRAKENBURY — Nada disso, senhor, me diz respeito.

RICARDO (Duque de Gloucester) — Nada, nem a senhora Shore? Digo-te, companheiro, que, a não ser um só, quem com ela tiver trato melhor fará que o faça secretamente, a sós.

BRAKENBURY — Quem é esse “um só”, senhor?

RICARDO (Duque de Gloucester) — O marido dela, velhaco! Querias trair-me.

BRAKENBURY — Imploro o perdão de Vossa Graça e ao mesmo tempo que cesse de falar com o nobre Duque.

CLARENCE — Sabemos o teu dever, Brakenbury, e obedeceremos.

RICARDO (Duque de Gloucester) — Somos os míseros servos da Rainha, somos forçados a obedecer. Irmão, adeus. Vou ao encontro de El-Rei, seja o que for que me mandeis fazer, mesmo chamar “irmã” à viúva do Rei Eduardo eu o farei para vos libertar. Entretanto, este rude golpe nos fraternos laços fere-me mais profundamente do que podeis cuidar. (Abraça Clarence, chorando)

CLARENCE — Eu bem sei que isso não apraz a nenhum dos dois.

RICARDO (Duque de Gloucester) — Bom, vossa prisão não será longa. Libertar-vos-ei, ou eu me enredarei por vós. Em tanto, sofrei com paciência.

CLARENCE — Assim por força terei de fazer. Adeus.

(Sai Clarence Brakenbury e guardas)

RICARDO (Duque de Gloucester) — Vai, percorre esse caminho que não terás regresso. Simples, incauto Clarence, hei por ti tamanho amor que em breve enviarei para o céu a tua alma, se o céu aceitar o dom feito assim por nossas mãos. Mas quem vem aí? Hastings neste instante libertado?

(Entra o senhor de Hastings)

HASTINGS — O meu bom dia a meu ilustre senhor.

RICARDO (Duque de Gloucester) — O mesmo desejo a meu bom senhor, o Camareiro-Mor; mui bem-vindo sois a este ar puro e livre. Como suportou Vossa Senhoria a prisão?

HASTINGS — Com paciência, nobre senhor, como é dever dos cativos, mas viverei, senhor, para dar graças aos que foram causa da minha prisão.

RICARDO (Duque de Gloucester) — Que assim seja! E o mesmo será com Clarence, porque os que eram inimigos vossos, dele o são também, e contra ele ganharam, como contra vós.

HASTINGS — Pena é haver águias prisioneiras quando milhafres e abutres rapinam em liberdade.

RICARDO (Duque de Gloucester) — Que novas haveis de fora? Não há, de fora, nova tão má como esta cá de dentro: o Rei está enfermo, fraco e melancólico, e os físicos temem por ele.

RICARDO (Duque de Gloucester) — Por São João essa nova é deveras má. Oh, ele teve por usança largo tempo nocivas regras e gastou em demasia sua real pessoa. É doloroso pensar em tal. Onde está ele, em seu leito?

HASTINGS — Em seu leito.

RICARDO (Duque de Gloucester) — I-vos adiante, eu vos seguirei. (Sai Hastings) Ele não viverá, assim espero, e não pode morrer antes de George ser mandado de carruagem para os céus. Vou procurar El-Rei para mais excitar seu ódio contra Clarence com mentiras temperadas de argumentos ponderosos; e se não errar este meu profundo intento, Clarence não terá nem mais um dia para viver. Feito isto, tenha Deus em sua misericórdia El-Rei Eduardo, e deixe a mim o mundo para eu me mover nele. Então desposarei a filha mais nova de Warwick. Que importa se lhe matei o marido e lhe matei o pai? A melhor forma de dar remédio ao mal que fiz à moça é tornar-me seu marido e seu pai também. É isto que eu quero, não tanto por amor mas por outro intento mui secreto que alcançarei casando-me com ela. Porém, cada coisa a seu tempo. Clarence ainda respira, Eduardo ainda vive e reina; quando eles já não forem, então farei contas aos meus ganhos. (Sai)

Cena II

(Entra o corpo de Henrique VI com uma guarda de alabardeiros, e Dona Ana conduz o préstito acompanhada por Tressel, Berkeley e outros nobres.)

ANA — Pousai, pousai vosso digno fardo se é que a dignidade pode ser amortalhada em ataúde, enquanto eu, em funérea cerimônia, lamento a queda prematura do virtuoso Lancastre. Pobre figura rígida e fria de um piedoso rei, pálidas cinzas da casa de Lancastre, tu, ó resto exangue daquele sangue real, que me seja permitido invocar o teu espírito para ouvir as lamentações da desafortunada Ana, esposa do teu Eduardo, teu filho assassinado, ferido por essa mesma mão que ora produziu estas feridas. Coitada de mim, nas frestas que deixam escoar a tua vida eu verto o bálsamo sem esperança destes meus coitados olhos. Oh, maldita seja a mão que causou estas feridas, maldito o coração que teve força de o fazer, maldito o sangue que derramou este sangue. Sobre o hediondo miserável que miseráveis nos tornou com a tua morte, mais horrores se abatam do que aqueles que posso desejar a serpentes, aranhas, sapos, a qualquer réptil venenoso que vivente seja. Se ele alguma vez tiver um filho, que seja aborto, temporão, monstruoso, de aspecto tão horrendo e desigual que temor terá, em o vendo, a esperançosa mãe, e que seja o herdeiro da sua má fortuna. Se ele algum dia tiver mulher, que ela por sua morte se sinta mais mísera e mesquinha do que eu me sinto agora pela do meu jovem senhor e pela tua. Vinde agora para Chertsey com vosso sagrado fardo trazido de Saint Paul para ali ser sepultado. E quantas vezes o peso vos cansar, descansai, enquanto eu choro o corpo do Rei Henrique.

(Entra Ricardo)

RICARDO (Duque de Gloucester) — Ficai, vós que transportais o corpo. Pousai-o aqui.

ANA — Que negro mago esconjura este inimigo para que faça impedimento a atos piedosos e devotos?

RICARDO (Duque de Gloucester) — Ruins vilões! Pousai o corpo, ou, por São Paulo, de quem desobedece farei eu um corpo morto!

GUARDA — Afastai-vos, senhor, e deixai passar o ataúde.

RICARDO (Duque de Gloucester) — Cão danado! Para quando te ordeno! Ergue a tua alabarda mais alto que o meu peito ou, por São Paulo, estendo-te a meus pés, e te esmago, miserável, pela tua ousadia.

ANA — O quê? Tremeis? Haveis medo? Pobre de mim, não vos posso censurar, que sois mortais, e os olhos dos mortais não podem sofrer o maligno. Vai-te de ante mim, temeroso ministro dos infernos! Tão só sobre seu corpo mortal tinhas poder; a alma, essa, não a podes ter; por isso, vai-te.

RICARDO (Duque de Gloucester) — Doce santa, por caridade, não blasfemeis assim.

ANA — Demônio imundo, vai-te por amor de Deus, e não nos atormentes; que da terra feliz fizeste o teu inferno, encheste-a com gritos de maldição e com profundos clamores. Se te deleitas em contemplar teus feitos odiosos, põe os olhos neste exemplo de tua carnificina. Oh, senhores! Olhai, olhai as feridas do Rei Henrique sem vida abrindo bocas congeladas e de novo sangrando. Vergonha para ti, vergonha, ó tu, massa informe de sórdida disformidade, pois que é tua presença que aqui faz verter o sangue das veias geladas e vazias onde o sangue já não tem morada! O teu feito inumano e contrário à natureza provoca este dilúvio contrário a toda a natureza. Oh, Deus! Tu que criaste este sangue, vinga a sua morte. Oh, terra! Tu que bebes este sangue, vinga a sua morte. Ou que os relâmpagos dos céus se abatam sobre o assassino, ou que a terra se abra e de súbito o devore, tal como tu, ó terra, sorves todo o sangue deste bondoso Rei que seu braço comandado pelo inferno tão cruelmente matou.

RICARDO (Duque de Gloucester) — Senhora minha, não conheceis as leis da caridade que mandam retribuir com o bem o mal, com bênçãos as maldições.

ANA — Pérfido, tu não conheces nem a lei de Deus nem a lei dos homens. Não há besta alguma, por mais feroz, que não conheça a piedade.

RICARDO (Duque de Gloucester) — Mas eu não a conheço, de sorte que não sou besta alguma.

ANA — Oh, maravilha, quando os demônios dizem a verdade!

RICARDO (Duque de Gloucester) — Mor maravilha quando os anjos se enfurecem desta sorte. Permiti, ó mulheril, divina perfeição, que me seja possível desses supostos crimes defender-me passo a passo.

ANA — Permite, ó varonil pestilenta infecção, que apenas me seja possível destes males conhecidos acusar tua maldita pessoa passo a passo.

RICARDO (Duque de Gloucester) — Ó mais formosa do que a língua pode dizer, dá-me um tempo paciente para me poder escusar.

ANA — Ó mais torpe do que o coração consegue imaginar, não podes manifestar outra escusa a não ser o teu próprio enforcamento.

RICARDO (Duque de Gloucester) — Esse desespero seria a minha acusação.

ANA — E por esse desespero serás tu escusado por, finalmente digno, teres vingado em ti a carnificina indigna que cometeste noutros.

RICARDO (Duque de Gloucester) — E se eu não os tivesse assassinado?

ANA — Então é porque não foram abatidos mas estão mortos, e por ti, ó escravo do diabo.

RICARDO (Duque de Gloucester) — Não matei o teu marido.

ANA — Então é que ele está vivo.

RICARDO (Duque de Gloucester) — Não, está morto, e foi abatido pela mão de Eduardo.

ANA — Maior mentira nunca o mundo ouviu. A Rainha Margarida viu a tua lâmina assassina fumegante do seu sangue, a mesma que apontaste contra o peito seu mas cuja ponta os teus irmãos desviaram.

RICARDO (Duque de Gloucester) — Fui provocado pela língua injuriosa da Rainha que lançava a culpa que eles tinham sobre os meus ombros sem culpa.

ANA — Foste provocado pelo teu espírito perverso que nunca sonha com mais nada senão carnificinas. Não mataste este Rei?

RICARDO (Duque de Gloucester) — Concedo-vos que sim.

ANA — Concedes-me, porco-espinho! Pois me conceda Deus também uma maldição sobre ti por esse feito perverso. Oh, como ele era amável, doce e virtuoso.

RICARDO (Duque de Gloucester) — Melhor para o Rei dos céus que o tem agora.

ANA — Está no céu, onde tu nunca entrarás.

RICARDO (Duque de Gloucester) — Deixai que ele me agradeça para lá tê-lo enviado, pois era o seu lugar, mais esse que na terra.

ANA — E o teu lugar não é senão o inferno.

RICARDO (Duque de Gloucester) — Sim, outro lugar ainda, se quiserdes que o nomeie.

ANA — Uma masmorra?

RICARDO (Duque de Gloucester) — A vossa alcova.

ANA — Que se abata a inquietude sobre a alcova onde te deitas.

RICARDO (Duque de Gloucester) — Assim acontece, senhora, até que me deite convosco.

ANA — Assim o espero!

RICARDO (Duque de Gloucester) — Eu sei que assim é. Mas, gentil Dona Ana, deixemos esta arguta querela de nossos engenhos e retomemos mais vagaroso método: não será o causador das mortes prematuras destes Plantagenetas, Henrique e Eduardo, tão culpado como o seu executor?

ANA — Tu foste a causa e o seu mais vil efeito.

RICARDO (Duque de Gloucester) — A vossa formosura foi causa de tal efeito,a vossa formosura que me perseguia em sonhos a fim de me dar cargo da morte do mundo inteiro para que pudesse uma hora só viver sobre o vosso suave peito.

ANA — Se eu tal cuidasse, digo-te, homicida, estas unhas arrancariam a formosura de meu rosto.

RICARDO (Duque de Gloucester) — Estes olhos meus não sofreriam os destroços dessa formosura, não vos desfiguraríeis, se eu estivesse ao pé de vós. Tal como o mundo todo se alegra com o sol, assim me alegro eu com vossa formosura, ela é o meu dia, ela é a minha vida.

ANA — Que a noite negra escureça teu dia, e a morte tua vida.

RICARDO (Duque de Gloucester) — Não te amaldiçoes, formosa criatura, tu és ambas as coisas.

ANA — Prouvera que fosse, para me vingar de ti.

RICARDO (Duque de Gloucester) — É uma disputa horrenda, vingares-te em quem te ama.

ANA — É uma disputa justa e conforme à razão vingar-me de quem matou meu marido.

RICARDO (Duque de Gloucester) — Quem te privou, senhora, de teu marido, fê-lo para te ajudar a encontrar marido melhor.

ANA — Não respira sobre a terra homem melhor do que ele.

RICARDO (Duque de Gloucester) — Está vivo quem te ama mais do que ele pôde.

ANA — Diz que nome tem.

RICARDO (Duque de Gloucester) — Plantageneta.

ANA — Isso era ele.

RICARDO (Duque de Gloucester) — O nome, o mesmo, mas alguém de mais nobre natureza.

ANA — Onde está ele?

RICARDO (Duque de Gloucester) — Aqui. (Ela cospe para cima dele) Porque me cospes?

ANA — Oxalá, para teu bem, fosse veneno mortal.

RICARDO (Duque de Gloucester) — Nunca de fonte tão doce brotou veneno.

ANA — Nunca escorreu veneno de sapo mais imundo. Fora da minha vista! Envenenas os meus olhos.

RICARDO (Duque de Gloucester) — Teus olhos, gentil senhora, envenenaram os meus.

ANA — Oxalá fossem basiliscos para te matarem.

RICARDO (Duque de Gloucester) — Oxalá fossem, para eu neste instante morrer, porque eles me matam agora de uma morte viva. Esses teus olhos arrancaram dos meus lágrimas amargas, envergonharam-lhes o aspecto com uma chuva de gotas infantis; estes olhos, que nunca derramaram uma só lágrima de remorso. Nem quando meu pai York e Eduardo choraram ao ouvir o queixume plangente que Rutland soltou quando o negro Clifford o trespassou com a espada, nem quando o teu belicoso pai, como criança, contou a triste história da morte de meu pai, e vinte vezes parou soluçando e chorando, de tal guisa que toda a companhia tinha as faces molhadas como árvores desfeitas pela chuva. Naquela hora triste meus olhos viris desprezaram até uma humilde lágrima. E o que estas penas não lograram causar, logrou tua formosura, e com o próprio choro os cegou. Nunca supliquei a amigo, a inimigo, minha língua nunca experimentou suave e lisonjeira fala, mas eis que tua formosura é o reino que eu desejo, o meu orgulhoso coração suplica, e força a minha língua a falar. (Ela olha para ele com escárnio) Não ensines a teus lábios escárnio tal, porque foram feitos, senhora, para beijar, e não para tal desdém. Se teu coração, prenhe de vingança, não pode perdoar, aqui está, entrego-te esta espada de ponta afiada, para que a enterres, se te apraz, neste peito leal, e deixa partir a alma que te adora, exponho-o nu ao golpe mortal e de joelhos, humilde, te imploro a morte. (Ajoelha-se descobre o peito, oferece-o ao mesmo tempo que a espada) Não, não hesites, porque eu matei o Rei Henrique, mas foi a tua formosura que a tal me conduziu. Vá, depressa, fui eu que apunhalei o jovem Eduardo, mas foi o teu rosto celestial que a isso me forçou. (Ela deixa cair a espada) Levanta a espada, ou levanta-me a mim.

ANA — Ergue-te, homem enganador. Embora eu deseje a tua morte. (Ele levanta-se) Não serei eu o teu carrasco.

RICARDO (Duque de Gloucester) — Ordena então que eu me mate, e fá-lo-ei.

ANA — Já ordenei.

RICARDO (Duque de Gloucester) — Isso foi em tua cólera. Repete agora, profere a palavra. Esta mão, que por teu amor matou o teu amor, matará, por teu amor, um amor bem mais leal. Cúmplice te tornarás em ambas essas mortes.

ANA — Quisera conhecer teu coração.

RICARDO (Duque de Gloucester) — Está espelhado na minha língua.

ANA — Temo que ambos sejam falsos.

RICARDO (Duque de Gloucester) — Então nunca existiu um homem verdadeiro.

ANA — Pois bem, embainhai então vossa espada.

RICARDO (Duque de Gloucester) — E tu diz que haverei paz.

ANA — Sabê-lo-ás mais tarde.

RICARDO (Duque de Gloucester) — Mas poderei viver com uma esperança?

ANA — Todos os homens, espero, vivem assim.

RICARDO (Duque de Gloucester) — Promete usar este anel.

ANA — Receber não é dar.

RICARDO (Duque de Gloucester) — Vê como o meu anel se ajusta ao teu dedo, tal como o teu peito encerra meu triste coração. Usa-los ambos, porque ambos são teus,e se for lícito a este teu pobre e dedicado servo implorar um favor à tua graciosa mão, para todo o sempre assim confirmarias a sua felicidade.

ANA — Qual favor?

RICARDO (Duque de Gloucester) — O favor de deixares estes tristes deveres a quem tem mais razão para lamentar a morte e de partir já para Crosby Place, onde eu, depois de solenemente enterrar no Mosteiro de Chertsey este nobre rei, e de molhar seu túmulo com arrependidas lágrimas, vos procurarei para vos servir. Por várias e ignotas razões vos suplico que me concedais este favor.

ANA — De todo o coração. Muito me alegra também ver-vos tão arrependido. Tressel e Berkeley, vinde comigo.

RICARDO (Duque de Gloucester) — Dizei-me adeus.

ANA — É mais do que mereceis, mas porque me ensinais a dar-vos louvores, imaginai então que já vos disse adeus.

(Saem Tressel e Berkeley com Ana)

RICARDO (Duque de Gloucester) — Senhores, levai o cadáver.

GUARDA — Para Chertsey, nobre senhor?

RICARDO (Duque de Gloucester) — Não, para Whitefriars. Esperai aí por mim. (Saem os fidalgos e alabardeiros com o cadáver) Terá havido mulher de tal sorte cortejada? Terá havido mulher de tal sorte conquistada? Será minha, mas não por largo tempo. Quê, eu que lhe matei o marido e a este o pai, conquistá-la quando ela tinha o coração cheio do ódio mais extremo, com maldições nos lábios e lágrimas nos olhos. Junto da sangrenta testemunha do seu ódio, tendo contra mim Deus, a sua consciência e estas teias. E sem amigos que ajuda me dessem nessa obra, só o demônio e estes olhares enganadores, e mesmo assim conquistá-la, tanta coisa para nada! Ha! Já terá ela esquecido o formoso Príncipe Eduardo, seu senhor, que eu, há cerca de três meses, agastado apunhalei em Tewkesbury? Fidalgo mais galante e mais gentil, fruto duma natureza generosa, jovem, animoso, sábio, e sem dúvida qualquer de régia estirpe, não pode o vasto mundo de novo engendrar. Porém, ela aceita baixar a vista sobre mim, que colhi a dourada primavera deste doce Príncipe e que a tornei viúva em doloroso leito? Sobre mim, que inteiro não igualo metade de Eduardo? Sobre mim, que coxeio e sou assim disforme? O meu ducado contra um mísero vintém, tenho, todo este tempo, medido mal minha pessoa! Por minha vida ela pensa — embora eu não — que sou um homem honesto e maravilhoso. Comprarei um espelho, e aprazarei mais de vinte, mais de trinta alfaiates para estudarem as vestes que adornarão meu corpo. Já que me deleito com as minhas próprias graças, farei dispêndios para que a coisa assim perdure. Mas primeiro deitarei aquele para a cova, e então, com lamentos, tornarei ao meu amor. Brilha Sol, luminoso, até eu comprar um espelho para que minha sombra possa eu ver enquanto passo. (Sai)

Cena III

(Entra a Rainha Isabel, o senhor de Rivers, o senhor de Grey e o Marquês de Dorset)


RIVERS — Tende paciência, senhora, Sua Majestade retomará em breve a sua costumada saúde.

GREY — Quanto maior ânsia manifestardes pior lhe fareis, por isso, pelo amor de Deus, alimentai boa esperança e dai ânimo a Sua Graça com um olhar ledo e vivo.

ISABEL — Se ele morresse, que seria de mim?

GREY — Nenhum outro mal afora perder um tal senhor.

ISABEL — Perder um tal senhor inclui todos os males.

GREY — Os céus abençoaram-vos com um formoso filho e nele conforto encontrareis, quando o rei já não viver.

ISABEL — Oh!, ele é jovem, e como infante está entregue à guarda de Ricardo de Gloucester, homem que não me quer bem, nem a qualquer de vós.

RIVERS — Já está concluído ser ele o Protector?

ISABEL — Está decidido, concluído ainda não, mas assim terá de ser, se o Rei sucumbir.

(Entram Buckingham e Stanley, Conde de Derby)

GREY — Ali vêm os senhores de Buckingham e de Derby.

BUCKINGHAM — À Vossa Real Graça, o meu bom dia.

STANLEY — Deus faça feliz Vossa Majestade, como sempre tendes sido.

ISABEL — A Condessa de Richmond, meu bom senhor de Derby, à vossa boa prece a custo dirá amem. Contudo, Derby, apesar de ser ela vossa esposa, e de não me querer bem, ficai seguro, senhor, de que vos não odeio por sua fera arrogância.

STANLEY — Eu vos imploro, não tomeis por verdadeiras as calúnias invejosas dos seus falsos acusadores, ou se for ela acusada com verdade perdoai sua fraqueza, que eu cuido tem origem em doentio humor, e não em profunda maldade.

RIVERS — Vistes hoje El-Rei, meu senhor de Derby?

STANLEY — Agora mesmo o Duque de Buckingham e eu estivemos em presença de Sua Majestade.

ISABEL — Há esperança de melhoras, senhores?

BUCKINGHAM — Senhora, esperança há; Sua Graça fala alegremente.

ISABEL — Deus lhe dê saúde. Haveis praticado com ele?

BUCKINGHAM — Senhora, sim. Ele deseja pôr em paz o Duque de Gloucester e vossos irmãos, e eles e o senhor Camareiro-Mor, e mandou fossem chamados a sua real presença.

ISABEL — Oxalá tudo tenha bom fim, mas isso nunca será. Temo que nossa felicidade tenha chegado a seu cume.

(Entram Ricardo e Hastings)

RICARDO (Duque de Gloucester) — Eles procedem mal comigo, e eu tal não sofrerei. Quem se lamenta a El-Rei de eu ser, por Deus, fero e de não lhes querer bem? Por São Paulo, amam pouco Sua Graça aqueles que lhe enchem os ouvidos destes insanos rumores. Porque não sei dar lisonja nem ter aspecto afável, sorrir perante os homens, afagar, enganar e fingir, curvar-me como os franceses e arremedar cortesias, tenho de ser considerado um rancoroso inimigo? Não poderá ser que um homem simples viva e não pense mal, sem que a sua simples verdade não seja injuriada por uns quaisquer Joanes insinuantes e astutos?

GREY — A qual de nós aqui presentes se dirige Vossa Graça?

RICARDO (Duque de Gloucester) — A ti, que não tens honestidade nem tens graça. Quando foi que procedi mal para contigo? Quando foi que te fiz mal? Ou a ti? Ou a ti? Ou a alguém da vossa facção? Que a peste se abata sobre todos vós! A Sua Real Graça — e oxalá Deus o preserve mais do que o podeis vós desejar — não pode respirar em sossego um só momento sem que vós o perturbeis com vossas queixas depravadas.

ISABEL — Irmão Gloucester, não haveis entendido a questão: El-Rei, por sua própria e régia vontade, e não levado por pedido algum, havendo talvez em mente o vosso ódio profundo que se manifesta em vossos atos visíveis contra meus filhos, irmãos, e contra mim própria, manda chamar-vos, para saber a razão da vossa malquerença, e desse modo removê-la.

RICARDO (Duque de Gloucester) — Não sei dizer. O mundo tornou-se tão perverso que as carriças fazem presas onde as águias não ousam pousar. Desde que qualquer Joane se muda em fidalgo, há muita gente fidalga que se transforma em Joane.

ISABEL — Então, então, sabemos o que quereis dizer, irmão Gloucester. Tendes inveja à minha ascensão e à dos meus amigos. Deus permita que nunca tenhamos necessidade de vós.

RICARDO (Duque de Gloucester) — Entretanto, Deus permita que tenhamos nós necessidade de vós. Está preso o nosso irmão por culpa vossa, eu próprio desgraçado, e a nobreza é desprezada, enquanto dia a dia se concede nobre condição aos que ainda há menos de dois dias mal valiam um centil.

ISABEL — Por Deus que me elevou da felicidade tranqüila que eu gozava a essas alturas inseguras, nunca incitei Sua Majestade contra o Duque de Clarence, mas tenho sido, sim, advogado sério a interferir por ele. Senhor meu, lançais sobre mim infame injúria envolvendo-me com falsidade nestas suspeitas vis.

RICARDO (Duque de Gloucester) — Podeis negar que não haveis sido a causa da recente prisão do senhor de Hastings?

RIVERS — Senhor, ela pode, porque...

RICARDO (Duque de Gloucester) — Ela pode, senhor de Rivers. Pois quem o não sabe? Ela pode fazer mais, senhor, do que negar esse feito. Ela pode ajudar-vos à obtenção de muitos belos cargos e depois negar que foi a protetora mão em tudo isso, e atribuir honrarias a vosso subido mérito. O que é que ela não pode? Ela pode, sim, ela pode casar...

RIVERS — O quê, pode casar?

RICARDO (Duque de Gloucester) — Pode casar com quem? Casar com um rei solteiro e mancebo formoso. Cuido que vossa avó fez pior casamento.

ISABEL — Meu senhor de Gloucester, sofri tempo de mais as vossas ásperas censuras e zombarias amargas. Pelos céus, irei contar a Sua Majestade os insultos ignaros que amiúde suportei.

(Entra a velha Rainha Margarida)

ISABEL — Quisera eu ser moça do campo antes que grande rainha, assim maltratada, escarnecida e ultrajada. Pequeno contentamento tenho eu em ser Rainha de Inglaterra.

MARGARIDA — (À parte) E que esse pequeno contentamento se torne mais pequeno ainda, eu vos imploro, meu Deus. Pertencem-me a tua honra, o teu estado e o teu lugar.

RICARDO (Duque de Gloucester) — Quê, ameaçais contar a El-Rei? Contai, contai sem temperança. Lembrai-vos bem do que vos disse. Serei capaz de o afirmar em presença de El-Rei. Ouso aventurar-me a ser mandado para a Torre. É tempo de falar, já esqueceram os meus serviços.

MARGARIDA — (À parte) Fuge, demônio! Por demais me lembro eu deles: mataste na Torre meu marido Henrique, e Eduardo, meu filho, em Tewkesbury.

RICARDO (Duque de Gloucester) — Antes de serdes Rainha, sim, ou o vosso esposo Rei, já eu era a besta de carga em seus importantes tratos, quem mondava seus orgulhosos adversários, quem premiava com liberalidade os seus amigos. Para coroar o sangue dele, cansei meu próprio sangue.

MARGARIDA (À parte) — Assim foi, e sangue bem melhor do que o dele e do que o teu.

RICARDO (Duque de Gloucester) — Durante esse longo tempo, vós e o vosso esposo Grey éreis partidários da Casa de Lancastre. E Rivers, vós o haveis sido também. Não foi morto o vosso esposo na batalha de Margarida, em Santo Albano? Deixai-me que vos lembre, se não haveis memória disso, o que éreis antes disto, e o que sois e também o que eu era e o que ora sou.

MARGARIDA (À parte) — Um sórdido assassino, e ainda o és.

RICARDO (Duque de Gloucester) — O pobre Clarence abandonou seu pai Warwick, sim, e perjurou — que Jesus lhe perdoe!

MARGARIDA (À parte) — Que Deus o vingue!

RICARDO (Duque de Gloucester) — Para lutar ao lado de Eduardo pela coroa, e como recompensa, pobre senhor, está encarcerado. Prouvera a Deus que meu coração fosse de pedra, como é o de Eduardo, ou que o de Eduardo fosse brando e misericordioso como é o meu. Sou demasiado tolo e pueril para este mundo.

MARGARIDA (À parte) — Esconde-te no inferno por vergonha e deixa este mundo. Ó tu, demônio, o teu reino é ali.

RIVERS — Meu senhor de Gloucester, nesses dias conturbados, que aqui recordais para dar prova de que fomos inimigos, seguíamos nós nosso senhor, o nosso Rei soberano. Também vós nós seguiríamos, se fosseis vós nosso rei.

RICARDO (Duque de Gloucester) — Se fosse? Antes quisera ser mendigo! Longe viva do meu coração tal pensamento.

ISABEL — Como é pouca a alegria, senhor meu, que imaginais podíeis ter, se fôsseis Rei neste país, assim podeis imaginar ser pouca alegria que eu tenho em ser Rainha aqui.

MARGARIDA (À parte) — Sim, pouca alegria tem a Rainha, porque eu sou ela e também sem alegria. Não posso calar-me por mais tempo! (Avança) Ouvi-me, vós, piratas em contenda, que entre vós lutais ao dividir o que me haveis pilhado: qual de vós não treme ao olhar para mim? Ou porque sou a Rainha, e como súbitos vos curvais, ou porque, por vós deposta, como rebeldes tremeis? Ah, nobre vilão! Não te apartes daqui.

RICARDO (Duque de Gloucester) — Bruxa velha e imunda, que fazes diante de mim?

MARGARIDA — Tão-só a narração de todos os teus estragos: isso farei, antes de te deixar partir.

RICARDO (Duque de Gloucester) — Não foste para o exílio, para não sofreres a morte?

MARGARIDA — Fui, mas maior sofrimento encontro no exílio do que a morte me pode causar aqui em minha casa. Deves-me um marido e um filho; e tu um reino; vós todos lealdade. Esta mágoa que tenho é vossa por direito, e todos os prazeres que me usurpais são meus.

RICARDO (Duque de Gloucester) — A maldição que o meu nobre pai lançou sobre ti quando coroaste a sua fronte guerreira de papel, e com teu escárnio fizeste brotar rios dos seus olhos, e depois, para os secares, deste ao Duque um trapo embebido no sangue inocente do formoso Rutland, as suas maldições de então, do âmago da alma arrancadas contra ti, sobre ti caíram todas, e Deus, não fomos nós, castigou o teu feito sangrento.

ISABEL — Assim Deus é justo quando faz justiça ao inocente.

HASTINGS — Oh! Foi o mais ingente crime matar aquele infante, e a mais impiedosa obra que a memória guarda.

RIVERS — Os próprios tiranos verteram lágrimas ao ouvirem o relato.

DORSET — Não houve homem algum que não fizesse profecia de vingança.

BUCKINGHAM — Northumberland, então presente, chorou em vendo.

MARGARIDA — Quê? Estáveis vós todos rosnando antes da minha chegada prontos a filarem-se uns aos outros pelo pescoço e virais agora todos vós o ódio contra mim? A medonha maldição de York teve nos céus tal poder que a morte de Henrique, a morte de meu querido Eduardo, a perda do seu reino, o meu doloroso exílio, não são mais que o preço da morte dessa criança impertinente? Podem as maldições atravessar as nuvens e chegar até ao céu? Pois então, deixai passar negras nuvens, minhas lestas maldições. Que morra o vosso Rei não na guerra, mas por excessos, tal como o nosso às mãos do assassino, para que esse se tornasse Rei. Que morra na sua juventude, de igual modo vítima de violência precoce, Eduardo, teu filho, que agora é Príncipe de Gales. Por Eduardo, meu filho, que era Príncipe de Gales. Que tu própria Rainha, por mim que fui Rainha, sobrevivas à tua glória, tal como eu, infeliz. Que vivas muitos anos para chorar a morte dos teus filhos, e para ver uma outra ornada dos teus direitos, como que os teus dias felizes pereçam muito antes da tua morte. E que, após largas horas de sofrimento, morras sem já ser mãe, sem já ser esposa, nem Rainha de Inglaterra. Rivers e Dorset, vós estáveis presentes, e tu também, senhor de Hastings, quando com sangrentos punhais foi ferido o meu filho. Ó Deus, eu vos suplico que nenhum de vós chegue ao termo natural da sua idade, mas que sucumbais a imprevisto acidente.

RICARDO (Duque de Gloucester) — Acabaste o teu feitiço, tu, odiosa velha bruxa?

MARGARIDA — Sem te incluir a ti? Fica aí, cão, porque terás de me ouvir. Se os céus tiverem concebido praga mais penosa do que aquela que consigo desejar-te, oh, que eles aguardem até estarem maduros teus pecados. E que então lancem sua ira sobre ti, perturbador da paz deste triste mundo. Que o verme da consciência te roa a alma; que suspeites teus amigos de traição enquanto vivo fores; e que tomes por teus íntimos amigos os maiores traidores; que o sono jamais cerre esses teus olhos mortíferos a não ser para que tormentosos sonhos te amedrontem com seu inferno de hediondos demônios. Tu, denominado aborto de refocilante porco, tu, que à nascença foste assinalado escravo da natureza, e filho dos infernos, tu, vergonha do ventre da tua mãe, tu, odiado produto dos quadris de teu pai, tu, farrapo de honra, tu, desprezível...

RICARDO (Duque de Gloucester) — Margarida!

MARGARIDA — Ricardo!

RICARDO (Duque de Gloucester) — Quê?

MARGARIDA — Não te chamei.

RICARDO (Duque de Gloucester) — Peço-te perdão, cuidei que me tinhas tu chamado todos aqueles nomes amargos.

MARGARIDA — Assim foi, mas resposta não esperava. Oh, deixa-me acabar esta minha maldição!

RICARDO (Duque de Gloucester) — Eu a fiz, e termina em “Margarida”.

ISABEL — Proferistes assim contra vós mesma a maldição.

MARGARIDA — Pobre rainha de fantasia, vã decoração da minha sorte, porque lanças tu açúcar sobre essa aranha inchada suja teia mortal te envolve toda? Louca, louca! Afias a faca para te matar. Virá o dia em que tu desejarás que eu te ajude à maldição deste sapo marreco e venenoso. Mulher fementida, acaba a tua maldição infrene, evitando assim que, para teu mal, nos esgotes a paciência.

MARGARIDA — Infâmia sobre vós todos, haveis esgotado a minha.

RIVERS — Bem vos serviria quem vos ensinasse os vossos deveres.

MARGARIDA — Para me bem servirdes, teríeis de cumprir vós vossos deveres. Ensinai-me a ser vossa Rainha e vós súbditos meus. Oh, servi-me bem, e aprendei bem esses deveres.

DORSET — Não despendais razões com ela, ensandeceu.

MARGARIDA — Paz, senhor Marquês. Sois desavergonhado. Vosso título recente ainda não é moeda usada. Oh, se a vossa tenra nobreza pudesse fazer juízo do que é perdê-la e assim ser miserável! Aqueles que estão no alto cume são por muitos ventos sacudidos, e, se caírem, em pedaços se repartem.

RICARDO (Duque de Gloucester) — Bom conselho, por minha fé! Fazei por segui-lo, Marquês, fazei.

DORSET — Tanto toca a vós, senhor, como me toca a mim. Oh, e muito mais. Mas eu nasci em alto estado, o nosso ninho é no cimo de um cedro, e brinca com o vento e escarnece do sol.

MARGARIDA — E transforma o sol em sombra, coitada de mim, coitada! É testemunho o meu filho, agora na sombra da morte, cujos raios brilhantes, resplandecentes, a tua turva cólera envolveu em eterna escuridão. O teu ninho foi feito no nosso ninho. Oh, Deus, que tal vedes, não tolereis coisa assim. como foi ganho com sangue, assim também seja perdido.

BUCKINGHAM — Calai-vos, calai-vos, por vergonha se não for por caridade.

MARGARIDA — Não me peças caridade nem vergonha. Sem caridade haveis privado comigo e sem vergonha foram por vós cruelmente mortas as minhas esperanças. A minha caridade é o ultraje, a vida minha vergonha, e nessa vergonha viva sempre o furor das minhas mágoas.

BUCKINGHAM — Acabai, acabai!

MARGARIDA — Ó nobre Buckingham, beijarei a tua mão em sinal de aliança e amizade para contigo. Que os céus te sejam propícios e à tua nobre Casa, as tuas vestes não estão manchadas do meu sangue, nem tu cabes dentro da minha maldição.

BUCKINGHAM — Nem ninguém aqui, porque nunca as maldições passam dos lábios dos homens que as proferem.

MARGARIDA — Não cuide assim, porque elas sobem aos céus, e aí despertam a dormente e gentil paz de Deus. Ó Buckingham, acautelai-te com aquele cão! Nota que quando ele nos afaga, morde; e quando morde o seu dente venenoso fere mortalmente. Não tenhas trato com ele, tem cuidado com ele, pecado, morte e inferno deixaram nele seus sinais, e todos os seus servos lhe obedecem.

RICARDO (Duque de Gloucester) — Que diz ela, meu senhor de Buckingham?

BUCKINGHAM — Nada que eu acate, meu bom senhor.

MARGARIDA — Quê, desprezas-me por este meu conselho amigo, e adulas o demônio contra quem eu te previno? Oh, mas recorda este outro dia quando ele quebrar de dor o teu próprio coração, e diz que a pobre Margarida era profeta. Vivei, cada um de vós ao ódio dele sujeito, e ele ao vosso, e todos vós ao de Deus. (Sai)

BUCKINGHAM — Arrepiam-se-me as carnes de a ouvir proferir tais maldições.

RIVERS — E a mim também. Não entendo a razão de ela estar em liberdade.

RICARDO (Duque de Gloucester) — Não a condeno. Pela santa mãe de Deus, ela sofreu duras ofensas, e eu me arrependo da parte que me cabe.

ISABEL — Nunca a ofendi, ciente que o fazia.

RICARDO (Duque de Gloucester) — Tendes, no entanto, todo o proveito de suas ofensas. Por paixão fui levado a bem fazer a alguém que é demasiado frio para pensar nisso agora. Por minha fé, quanto a Clarence, ele está bem recompensado: por seus males fechado em pocilga para a engorda. Deus perdoe àqueles que foram causa de tal dano.

RIVERS — Conclusão cristã e virtuosa: orar por quem tais danos nos causou.

RICARDO (Duque de Gloucester) — É o que eu sempre faço de si para si bem avisado como sou. Se maldição eu agora tivera proferido, teria a maldição caído sobre mim.

(Entra Catesby)

CATESBY — Senhora, Sua Majestade chama por vós, E por Vossa Graça, e por vós, gentis senhores.

ISABEL — Catesby, eu vou. Senhores, vindes comigo?

RIVERS — Acompanhamos Vossa Graça.

(Saem todos exceto Ricardo)

RICARDO (Duque de Gloucester) — Eu faço o mal, e sou o primeiro a queixar-me. Os secretos agravos que amiúde vou tecendo faço que outros tomem deles penoso cargo. Clarence, a quem eu, decerto, lancei na escuridão, eu o lastimo frente a muitos galináceos, nomeadamente Derby, Hastings, Buckingham, e digo-lhes que é a Rainha e seus aliados que atiçam o Rei contra o Duque meu irmão. Crêem eles agora em tal, e me movem a vingar-me em Rivers, em Dorset e em Grey. Entretanto eu suspiro, e com uma palavra da Escritura, lhes digo que manda Deus retribuir o mal com o bem. E assim cubro a minha infâmia manifesta com estranhos farrapos das Sagradas Escrituras, e semelho a um santo, quando faço de diabo o mais que posso. (Entram dois assassinos) Mas devagar, aí vêm os meus executores. Ora então, meus animosos companheiros, vigorosos e audazes, ides agora rematar a questão?

PRIMEIRO ASSASSINO — Vamos, senhor, e viemos buscar a licença. Que nos permita entrar no local onde ele está.

RICARDO (Duque de Gloucester) — Bem pensado. Tenho-a aqui. Quando tiverdes concluído, ide a Crosby Place. Mais, senhores, sede lestos na execução. E sem remissão, não deis ouvidos a suas preces, porque Clarence tem boas falas e talvez possa mover a piedade vossos corações, se lhe prestardes atenção.

SEGUNDO ASSASSINO — Quê, senhor! Não nos quedaremos a falar. Quem muito fala pouco faz. Ficai certo de que vamos usar as nossas mãos, e não a nossa língua.

RICARDO (Duque de Gloucester) — Dos vossos olhos caem pedras, quando dos olhos dos tolos brotam lágrimas. Gosto de vós, moços. Ao trabalho, já. Ide, ide, depressa.

AMBOS — Vamos, meu nobre senhor.

(Saem)

Cena IV

(Entra Clarence e guarda)


GUARDA — Porque tem hoje Vossa Graça um aspecto tão grave?

CLARENCE — Oh, passei uma noite tormentosa, cheia de hórridos sonhos, de feras visões, tanto que eu, cristão e crente, não passaria nova noite assim, fora embora para comprar um mundo de dias felizes, tão prenhe de funesto horror foi esse tempo.

GUARDA — Que sonho foi esse, senhor? Dizei, vos peço.

CLARENCE — Cuidei ter fugido da Torre, e estava numa barca para ir até Borgonha; e em minha companhia, Gloucester, meu irmão, que me tentou para que deixasse o camarote e fosse ao tombadilho. Dali olhamos a Inglaterra e falamos dos mil difíceis tempos das guerras de York e de Lancastre, por que havíamos passado. Enquanto andávamos por sobre o chão escorregadio do tombadilho, cuidei que Gloucester tropeçava, e ao cair me lançou — a mim que, cuidava eu, o amparava — borda fora, para o fundo das altíssimas ondas do oceano. Oh, Deus! Cuidei saber a dor do afogamento, o terrífico ruído das ondas nos ouvidos, as visões da crua morte nos meus olhos! Cuidei que via mil funestos naufrágios, dez mil homens que os peixes devoravam, barras de ouro, âncoras ingentes, cômoros de pérolas, pedras preciosas, jóias de valor inestimável, tudo espalhado no fundo do mar. Algumas havia dentro de crânios de cadáveres, e nos buracos que outrora os olhos habitavam tinham-se alojado, como se escarnecessem dos olhos, pedras cintilantes, que faziam cortesia ao fundo enlameado das profundezas, e se riam dos ossos que por ali jaziam.

GUARDA — Haveis tido tempo à hora da morte de olhar esses segredos das profundezas?

CLARENCE — Cuido que tive. E muitas vezes me esforcei por exalar o último suspiro, porém a invejosa torrente retinha a minha alma, e não a deixava sair para encontrar os ares incertos, vastos e livres, Mas a escondia no meu arquejante peito, que quase rebentava ao vomitá-la no mar.

GUARDA — E não haveis despertado no meio dessa terrífica agonia?

CLARENCE — Não, não. Foi-se o meu sonho prolongando para além da vida. Oh, a procela começou então para a minha alma. Cuidei que passava o rio da melancolia com esse fero barqueiro de que falam os poetas, e que entrava no reino da noite sem fim. O primeiro a saudar a minha alma de forasteiro foi meu ilustre sogro, o famoso Warwick, que em voz alta chamou: “Que flagelo pelo perjúrio pode oferecer este escuro reino ao falso Clarence?” Posto o que desapareceu. Surgiu então errante uma sombra que um anjo semellhava, de luminosos cabelos tingidos de sangue, e alto gritou: “Clarence é chegado, o perjuro, o falso Clarence das duas faces que me apunhalou na batalha de Tewkesbury! Agarrai-o, fúrias! Conduzi-o ao suplício!” Entretanto, cuidei, uma legião de sórdidos demônios me cercaram, e lançaram para o fundo de meus ouvidos gritos de tal modo hediondos que o próprio ruído me despertou em sobressalto, e por um tempo não ousava crer que não estava no inferno, tal a temerosa aflição causada pelo sonho.

GUARDA — Não é motivado espanto, senhor, o terror que sentistes; de vos ouvir, tão só, eu sinto terror.

CLARENCE — Oh, guarda, guarda, eu cometi esses feitos que agora testemunham contra a minha alma por amor de Eduardo, e vê como ele me paga. Oh, Deus, se minhas preces profundas não te podem abrandar, mas queres vingar-te dos meus crimes, abate a Tua ira apenas sobre mim. Oh, poupa minha mulher inocente e meus desgraçados filhos. Guarda, peço-te, senta-te por um momento ao pé de mim. Está grave a minha alma, e com vontade dormiria. Ficarei, senhor. Que Deus conceda a Vossa Graça um repousado descanso.

(Entra Brakenbury, o Tenente)

BRAKENBURY — A dor quebra as estações e as horas de repouso, faz da noite manhã, e da tarde noite. Os príncipes mais não têm que os títulos por glória, honras exteriores para um interior tormento, e em lugar de imaginados prazeres irreais, eles muitas vezes sentem um mundo de desassossegados cuidados. De sorte que entre seus títulos e um humilde nome não há qualquer diferença senão a fama exterior.

(Entram os dois assassinos)

PRIMEIRO ASSASSINO — Eh, quem está aqui?

BRAKENBURY — Que queres, companheiro? E como chegaste até aqui?

SEGUNDO ASSASSINO — Queria falar a Clarence, e cheguei aqui pelas minhas pernas.

BRAKENBURY — Quê, tão breve?

PRIMEIRO ASSASSINO — É melhor, senhor, do que ser importuno. Deixa-o ver a ordem que trazemos e não fales mais.

(Brakenbury lê)

BRAKENBURY — Isto me manda entregar o nobre Duque de Clarence em vossas mãos. Não discutirei o que trás isto se esconde. Ficarei eu inocente do intento. Ali está o Duque adormecido, e ali as chaves. Irei junto de El-Rei, e lhe direi que a vós entreguei o meu encargo.

PRIMEIRO ASSASSINO — Senhor, ide. Assim manda a prudência. Ide em paz.

(Saem Brakenbury e guardas)

SEGUNDO ASSASSINO — Então, mato-o enquanto dorme?

PRIMEIRO ASSASSINO — Não. Assim ele dirá, quando acordar, que agimos com covardia.

SEGUNDO ASSASSINO — Ora, ele nunca acordará senão no Dia do Juízo.

PRIMEIRO ASSASSINO — Ora, e então vai dizer que o matamos quando dormia.

SEGUNDO ASSASSINO — Essa palavra “juízo”, de pesada, fez nascer em mim a modos que um remorso.

PRIMEIRO ASSASSINO — Quê, tens medo?

SEGUNDO ASSASSINO — Não de o matar — porque tenho ordem — mas de ser condenado por o ter morto, e disso não há ordem que defenda.

PRIMEIRO ASSASSINO — Cuidei que estavas determinado.

SEGUNDO ASSASSINO — E estou, a deixá-lo viver.

PRIMEIRO ASSASSINO — Irei junto do Duque de Gloucester e isso lhe contarei.

SEGUNDO ASSASSINO — Não, peço-te que fiques um instante. Espero que se mude este meu humor apaixonado. Costuma durar só o tempo de contar até aos vinte.

PRIMEIRO ASSASSINO — Como te sentes agora?

SEGUNDO ASSASSINO — Há ainda em mim uns restos de consciência.

PRIMEIRO ASSASSINO — Lembra-te do prêmio, quando o feito estiver cumprido.

SEGUNDO ASSASSINO — Com mil demônios, que morra! Já me esquecera o prêmio.

PRIMEIRO ASSASSINO — Onde está agora a tua consciência?

SEGUNDO ASSASSINO — Oh, na bolsa do Duque de Gloucester.

PRIMEIRO ASSASSINO — Quando ele abrir a bolsa para nos dar o prêmio, a tua consciência foge de lá?

SEGUNDO ASSASSINO — Isso não importa, deixa-a ir. Há poucos que a tenham, ou mesmo ninguém.

PRIMEIRO ASSASSINO — E se ela voltar outra vez para ti?

SEGUNDO ASSASSINO — Não quero pacto com ela, é causa de covardia. Não pode um homem roubar sem que ela o acuse; não pode um homem blasfemar sem que ela o censure; não pode um homem deitar-se com a mulher do vizinho, sem que ela o traia. É um espírito envergonhado, que cora, que faz motim no peito de um homem. Enche um homem de impedimentos. Uma vez fez-me entregar uma bolsa cheia de ouro que encontrei por acaso. Arruina todo aquele que ficar com ela. Foi expulsa das cidades e das vilas como coisa perigosa, e todo o homem que pretende viver bem faz por confiar em si e viver sem ela.

PRIMEIRO ASSASSINO — Com mil demônios, ela está agora mesmo aqui ao meu lado, a convencer-me a não matar o Duque.

SEGUNDO ASSASSINO — Agarra o diabo em teu espírito e nele não creias. Era capaz de se meter por ti dentro só para te fazer suspirar.

PRIMEIRO ASSASSINO — Tenho forte estatura, não consegue vencer-me.

SEGUNDO ASSASSINO — Falaste como um valente que respeita a fama que tem. Anda, lancemo-nos ao trabalho!

PRIMEIRO ASSASSINO — Bate-lhe na cabeçorra com os copos da tua espada, e depois atiramo-lo para dentro do barril de malvasia que está no quarto ao lado.

SEGUNDO ASSASSINO — Oh, que excelente ardil! E faz-se dele umas sopas.

PRIMEIRO ASSASSINO — Chiu, que acorda.

SEGUNDO ASSASSINO — Bate-lhe!

PRIMEIRO ASSASSINO — Não, vamos argumentar com ele.

CLARENCE — Onde estás, guarda? Dá-me um copo de vinho.

SEGUNDO ASSASSINO — Tereis em breve, senhor, todo o vinho que quiserdes.

CLARENCE — Por Deus, quem és tu?

SEGUNDO ASSASSINO — Um homem, tal como vós.

CLARENCE — Mas não régio como eu.

PRIMEIRO ASSASSINO — Nem vós leal, como ele e eu.

CLARENCE — A tua voz é de trovão, mas o teu semblante humilde.

PRIMEIRO ASSASSINO — A minha voz agora é a do Rei, e o semblante é o meu.

CLARENCE — Quão sombria e funesta é a tua fala. Vossos olhos me ameaçam. Porque vos pusestes pálido? Quem vos mandou aqui? Para que viestes vós?

AMBOS — Para... para... para...

CLARENCE — Para me matar?

AMBOS — Sim, sim.

CLARENCE — Quase não tendes coração para mo dizer, E por isso não tereis coração para o fazer. Amigos, em que vos ofendi?

PRIMEIRO ASSASSINO — Não nos ofendestes a nós, ofendestes ao Rei.

CLARENCE — Ainda um dia estarei em paz com ele.

SEGUNDO ASSASSINO — Nunca, senhor. Por isso aparelhai-vos para a morte.

CLARENCE — Haveis sido arrancados ao mundo dos homens para matar o inocente? Que ofensa é a minha? Onde está a prova que me acusa? Que demanda forneceu o veredicto ao severo juiz? Ou quem pronunciou amarga sentença da morte do pobre Clarence? Antes de ser condenado pela força da lei, é mui fora de lei ameaçar-me com a morte. Eu vos ordeno, posto que esperais a redenção, pelo sagrado sangue de Cristo, derramado por nossos grandes pecados, que partais e que não ponhais vossas mãos sobre mim. É condenável o feito que empreendeis.

PRIMEIRO ASSASSINO — O que faremos será por obediência.

SEGUNDO ASSASSINO — E foi o nosso Rei quem ordenou.

CLARENCE — Cegos vassalos! O Sumo Rei dos reis ordenou na grande tábua dos seus mandamentos: não matarás. Escarnecereis então da sua ordem, e cumprireis a ordem de um mortal? Havei cuidado! Porque Ele tem a vingança em Sua mão. Para a lançar sobre as cabeças dos que quebram Sua lei.

SEGUNDO ASSASSINO — E a mesma vingança ele a lança sobre ti. Por perjúrio e também por assassínio. No altar haveis jurado lutar pela Casa de Lancastre.

PRIMEIRO ASSASSINO — E, qual traidor do nome do Senhor, quebraste o voto, e com tua traiçoeira lâmina rasgaste as entranhas ao filho do teu Rei.

SEGUNDO ASSASSINO — A quem havias jurado estimar e defender.

PRIMEIRO ASSASSINO — Como podes chamar contra nós a terrível lei de Deus quando tu a violaste e tão fundamente?

CLARENCE — Coitado de mim, por quem cometi eu obra tão funesta? Por Eduardo, por meu irmão, por ele. Não vos manda ele matar-me por essa razão, porque em tal pecado está ele tão metido como eu. Se Deus quiser vingar um tal cometimento, ficai sabendo, Ele o fará sem qualquer encobrimento. Não usurpeis a querela ao Seu braço poderoso. Ele não precisa de meios ínvios ou sem lei para punir aqueles que O ofenderam.

PRIMEIRO ASSASSINO — Quem te tornou ministro sangrento quando o valoroso, galante e promissor Plantageneta, esse tenro príncipe, sucumbiu às tuas mãos?

CLARENCE — O amor a meu irmão, o demônio e a minha cólera.

PRIMEIRO ASSASSINO — O amor a teu irmão, o nosso dever e os teus crimes nos levam agora a matar-te.

CLARENCE — Oh, se amais meu irmão, não me odieis. Sou seu irmão, e tenho-o em grande estima. Se vos pagam por tal cometimento, ide-vos, e eu vos enviarei a meu irmão Gloucester, que pela minha vida maior prêmio vos dará do que Eduardo pela nova de minha morte.

SEGUNDO ASSASSINO — Estais enganado, vosso irmão Gloucester odeia-vos.

CLARENCE — Oh, não, ele ama-me, e tem por mim profunda estima. Ide da minha parte junto dele.

PRIMEIRO ASSASSINO — Pois, assim faremos.

CLARENCE — Dizei-lhe que quando o nosso ilustre pai York deu a bênção a seus três filhos com seu braço vitorioso, e do fundo da sua alma ordenou que nos amássemos uns aos outros, ele não tinha em mente esta amizade rompida. Dizei a Gloucester que atente nisto, e ele chorará.

PRIMEIRO ASSASSINO — Sim, pedras, assim nos ensinou a chorar.

CLARENCE — Oh, não o calunieis, porque ele é bom.

PRIMEIRO ASSASSINO — Decerto, como a neve para a seara. Vamos, estais a iludir-vos. É ele quem nos manda para aqui vos destruirmos.

CLARENCE — Não pode ser assim, porque ele chorou a minha sorte. E me abraçou, e jurou soluçando que havia de porfiar por alcançar a minha liberdade.

PRIMEIRO ASSASSINO — Pois é o que ele faz, com libertar-vos do vale de lágrimas desta terra para as alegrias do céu.

SEGUNDO ASSASSINO — Fazei a paz com Deus, porque ides morrer, senhor.

CLARENCE — Haveis em vossas almas esse sagrado sentimento que me dá conselho de fazer a paz com Deus e estais tão cegos com respeito a vossas almas que quereis fazer guerra a Deus com a minha morte? Ó senhores, considerai. Os que vos moveram a esta obra, por tal obra vos odiarão.

SEGUNDO ASSASSINO — Que faremos?

CLARENCE — Tende piedade, e salvai as vossas almas.

PRIMEIRO ASSASSINO — Ter piedade! Não, isso é covardia e feminil fraqueza.

CLARENCE — Não ter piedade é feroz, selvagem e próprio do demônio. Qual de vós, se fosse filho de um príncipe, estando como eu privado de liberdade, se dois assassinos como vós se aproximassem não imploraria a vida? Ah, vós havíeis de a pedir, se vivêsseis a minha má fortuna. (Para o segundo assassino) Amigo, entrevejo piedade no teu gesto. Oh, se os teus olhos não forem fingidores, passa para meu lado, e intercede por mim. Um príncipe pedinte, que pedinte o não lastima?

SEGUNDO ASSASSINO — Olhai para trás, senhor!

PRIMEIRO ASSASSINO — Toma! Toma! (Apunhala-o) Se tudo isto não bastar, vou afogar-vos no barril de malvasia. (Sai com o corpo)

SEGUNDO ASSASSINO — Feito sangrento, e cometido em desespero. Com vontade lavaria as mãos, como Pilatos, deste assassínio tão atroz. (Entra o primeiro assassino) E então? Que razões tiveste tu para me não ajudares? Com mil demônios, o Duque terá conhecimento da tua covardia.

SEGUNDO ASSASSINO — Oxalá ele soubesse que eu tinha salvo o irmão. Fica tu com o prêmio e conta-lhe o que eu te digo porque estou arrependido de estar assassinado o Duque. (Sai)

PRIMEIRO ASSASSINO — Eu não. Vai, covarde que tu és. Bem, vou esconder o corpo em alguma cova, até que o Duque ordene a sua sepultura, e quando tiver o meu prêmio, ir-me-ei, porque isto se saberá, e eu não posso ficar aqui. (Sai)

ATO II
Cena I

(Toque de trombetas. Entram o Rei Eduardo, a Rainha Isabel, Dorset, Rivers, Hastings, Buckingham e Grey)

REI EDUARDO IV — Assim é, fiz o trabalho de um dia bom. Vós, pares, conservai unida esta aliança. Espero em cada dia uma embaixada do meu Redentor, para daqui me redimir, e numa paz maior partirá minha alma para os céus, eis que concertei a paz na terra entre os meus amigos. Rivers e Hastings, apertai a mão, não dissimuleis o vosso ódio, jurai o vosso amor.

RIVERS — Pelos céus, está minha alma limpa de ódios rancorosos, e com minha mão selo o amor de meu coração leal.

HASTINGS — Prospere eu tanto quanto é verdade essa mesma jura que ora faço.

REI EDUARDO IV — Acautelai-vos, não useis de fingimento perante vosso Rei, para que Aquele que é o Sumo Rei dos Reis não desconcerte vossa escondida falsidade e não determine ser cada um de vós o fim do outro.

HASTINGS — Prospere eu tanto quanto é perfeito o amor que eu ora juro.

RIVERS — E eu, que estimo Hastings do fundo do coração.

REI EDUARDO IV — Senhora, vós não sois estranha a isto. Nem vós, filho Dorset, Buckingham, nem vós. Haveis sido facciosos, um contra o outro. Esposa minha, estimai o senhor de Hastings, deixai-o beijar vossa mão. E o que fizerdes, fazei-o sem fingimento.

ISABEL — Aqui a tendes, Hastings. Não mais terei memória do nosso antigo ódio, assim eu e os meus prosperem.

REI EDUARDO IV — Dorset, abraçai-o. Hastings, estimai o senhor Marquês.

DORSET — Esta troca de estima, aqui o asseguro, por minha parte não será manchada.

HASTINGS — Assim também o juro.

(Abraçam-se)

REI EDUARDO IV — Agora, ilustre Buckingham, sela tu esta aliança, abraçando os aluados de minha esposa, e faz-me feliz com esta vossa união.

BUCKINGHAM — Se alguma vez Buckingham lançar seu ódio sobre Vossa Graça, se não vos estimar, a vós e aos vossos, com respeitoso amor, que Deus me castigue com o ódio daqueles de quem eu mais amor espero. No momento em que eu mais precisar de um amigo, e mais certeza tiver de que ele é amigo, que ele seja para mim escuro, vazio, enganador e cheio de fel. É o que eu imploro a Deus quando meu amor tiver arrefecido para vós e para os vossos.

(Abraçam-se)

REI EDUARDO IV — Um doce refrigério, ilustre Buckingham, é este voto teu para meu doente coração. Falta agora aqui nosso irmão Gloucester para com felicidade firmar a nossa paz.

(Entram Ratcliffe e Ricardo)

BUCKINGHAM — E em boa hora ali vêm o senhor Ricardo de Ratcliffe e o Duque.

RICARDO (Duque de Gloucester) — Um bom dia ao meu soberano Rei e à Rainha; e aos ilustres pares, um tempo feliz.

REI EDUARDO IV — Feliz, sim, como passamos o dia. Gloucester, fizemos ações caridosas, fizemos da inimizade paz, do ódio leal amor, entre estes pares arrogantes e sem razão incensados.

RICARDO (Duque de Gloucester) — Abençoado trabalho, meu senhor mui soberano. Se, de entre esta ilustre companhia, alguém aqui, por perverso entendimento ou falsa suposição, me tem por inimigo, se eu, involuntariamente ou movido pela ira, tiver alguma vez cometido, o que com dificuldade se aceita, contra alguém aqui presente, desejo conciliar-me com sua amável paz, viver em inimizade é morte para mim. Eu tal odeio, e desejo a estima dos homens bons. Imploro primeiro a vós, senhora, uma vera paz. Que retribuirei com serviço respeitoso. E a vós, meu nobre primo Buckingham, se alguma vez ressentimento entre nós houve. E a vós, senhor de Rivers, e senhor de Grey, e a vós todos os que sem razão me malqueiram, duques, condes, senhores, fidalgos, a todos vós, a todos, não conheço inglês algum contra o qual minha alma se levante mais do que faria um menino acabado de nascer. Dou graças a Deus por minha humildade.

ISABEL — Este é um dia santo e para sempre assim guardado. Provera a Deus que houvesse remédio para todas as contendas. Meu soberano senhor, imploro a Vossa Alteza que estenda a Vossa Graça a nosso irmão Clarence.

RICARDO (Duque de Gloucester) — Quê, senhora! Ofereci eu o meu amor para tal, para assim ser escarnecido nesta presença régia? Quem não sabe que está morto o gentil Duque? (Todos se sobressaltaram) Vós o injuriais, zombando do seu cadáver!

RIVERS — Quem não sabe que ele está morto? Mas quem sabe que ele está morto?

ISABEL — Céus que tudo vedes, que mundo é este?

BUCKINGHAM — Estarei tão pálido, senhor de Dorset, como estão todos os outros?

DORSET — Estais, senhor, e não há ninguém aqui presente a quem a cor do rosto se não tenha mudado.

REI EDUARDO IV — Clarence está morto? A ordem era já outra.

RICARDO (Duque de Gloucester) — Mas ele, pobre homem, à vossa ordem primeira morreu, e essa um Mercúrio com asas transportou. Algum coxo vagaroso levou a ordem contrária e chegou tão tarde que nem o enterro viu. Deus permita que alguns, menos nobres e menos leais, mais próximos nos pensamentos sanguinosos, mas menos no sangue, e que no entanto são livres de suspeição, mereçam a mesma sorte que o desditoso Clarence.

(Entra Stanley, Conde de Derby)

STANLEY — Recompensa, meu soberano, pelo serviço prestado!

REI EDUARDO IV — Deixa-me, eu te peço; minha alma é prenhe de amargura.

STANLEY — Não me levantarei enquanto Vossa Alteza não me ouvir.

REI EDUARDO IV — Então diz de contínuo o que desejas.

STANLEY — A graça, meu soberano, da vida de um meu criado que assassinou hoje um fidalgo desordeiro que a este tempo servia o Duque de Norfolk.

REI EDUARDO IV — Tenho língua que condena à morte o meu irmão e essa mesma língua dará perdão a um escravo? Meu irmão não matou homem algum, seu crime foi o pensamento, e contudo o castigo foi a morte amarga. Quem me rogou em seu favor? Quem, em minha ira, se ajoelhou a meus pés e me pediu que ponderasse? Quem falou de fraternal amor? Quem falou de amor? Quem me contou que aquela alma triste abandonou o poderoso Warwick e combateu por mim? Quem me contou que, na batalha, em Tewkesbury, quando Oxford me derrubou, ele me salvou e disse: “Querido irmão, vive e sê rei”! Quem me contou, quando estávamos nós ambos deitados no campo, quase mortos pelo frio, que ele me cobriu com suas próprias vestiduras, e se entregou magro e nu, à noite mui fria? Tudo isto de minha lembrança a bruta ira em pecado arrancou, e de entre vós não houve um só que tivesse bondade bastante para mo pôr em mente. Mas quando vossos carreteiros ou vossos servos ébrios cometem um assassínio, e maculam a preciosa imagem de nosso querido Redentor, logo vos pondes de joelhos pedindo “perdão, perdão!” E eu, injusto em demasia, sou forçado a concedê-lo. Mas em favor de meu irmão não falou homem algum. Nem eu, desgraçado, para mim próprio falei em seu favor, coitado. Os mais orgulhosos de entre vós deviam-lhe favores durante a vida, mas nenhum de vós intercedeu uma só vez pela vida dele. Ó Deus, temo que por tal se abata sobre mim Tua justiça, e sobre vós, e sobre os meus e sobre os vossos. Vinde, Hastings, ajudai-me a chegar a minha câmara. Oh, pobre Clarence!

(Saem algumas pessoas com o Rei e a Rainha)

RICARDO (Duque de Gloucester) — São estes os frutos da leviandade: não haveis notado como os culpados parentes da Rainha empalideceram com ouvir dizer a morte de Clarence? Oh, foram eles que com insistência a exigiram de El-Rei. Deus vingá-lo-á. Vinde, senhores, vinde confortar Eduardo com a nossa companhia.

BUCKINGHAM — Servimos Vossa Graça.

(Saem)

Cena II

(Entra a velha Duquesa de York com os dois filhos de Clarence.)

MENINO — Dizei-me, avó querida, o nosso pai morreu?

DUQUESA DE YORK — Não, menino.

MENINA — Porque chorais tantas vezes e porque bateis no peito? E porque gritais: “Oh, Clarence, meu desafortunado filho”?

MENINO — Porque olhais para nós e meneais a cabeça, e nos chamais órfãos, infelizes, condenados, se ainda vive o nosso nobre pai?

DUQUESA DE YORK — Meus primos queridos, não me haveis entendido: eu lamento a doença de El-Rei com medo de o perder, não a morte de vosso pai. Seria dor perdida chorar por quem perdido está.

MENINO — Confessais, então, avó, que ele morreu. El-Rei, meu tio, é culpado. Deus vingá-lo-á, Deus: a quem eu hei de importunar com preces honestas, todas a isso destinadas.

MENINA — E eu também.

DUQUESA DE YORK — Sossegai, meninos, sossegai. El-Rei ama-vos muito. Frágeis e néscios inocentes, não podeis imaginar quem foi causa da morte de vosso pai.

MENINO — Podemos, avó, porque meu bom tio Gloucester me disse que El-Rei, movido a tal pela Rainha, imaginou acusações para o prender, e quando meu tio me contou isto chorava e me lamentava, e com afeição me beijou a face. Mandou-me que confiasse nele como se fora meu pai e ele me amaria com ternura como se eu fora seu filho.

DUQUESA DE YORK — Oh, que a hipocrisia se disfarce em forma tão gentil e esconda o profundo vício com viseira virtuosa! Ele é meu filho, sim, e aí está minha afronta, mas não foi de meus peitos que ele bebeu hipocrisia.

MENINO — Cuidais, avó, que meu tio dissimulou?

DUQUESA DE YORK — Menino, assim o cuido.

MENINO — Eu não posso assim cuidar. Ouvi, que rumor é este?

(Entra a Rainha Isabel com o cabelo desgrenhado, Rivers e Dorset atrás dela.)

ISABEL — Ah! Quem me impedirá de lamentar e chorar, de maldizer minha sorte e de a mim própria me atormentar? Contra minha alma eu me juntarei ao negro desespero e farei de mim própria inimiga.

DUQUESA DE YORK — A que vem esta cena de tão rude impaciência?

ISABEL — Vem causar um ato de trágica violência. Eduardo, o meu senhor, teu filho, nosso Rei, morreu. Porque crescem os ramos, quando a raiz se foi? Porque não secam as folhas que necessitam da seiva? Se viverdes, lamentai. Se morrerdes, sede breves, para que as nossas almas de asas velozes possam apanhar a alma de El-Rei ou segui-lo como vassalos obedientes até seu novo reino de imutável noite.

DUQUESA DE YORK — Ah, tanto interesse tenho eu em tua dor, quanto tinha influição sobre teu nobre esposo. Chorei a morte de um esposo virtuoso, e vivi a contemplar suas imagens. Porém estora dois espelhos de sua figura de príncipe estão quebrados em pedaços pela maligna morte, e eu, por refrigério, não hei mais que um falso espelho, que me enoja quando vejo nele minha vergonha. Tu és viúva, porém és mãe, e teus filhos por amparo ainda tens. Mas a morte arrancou meu esposo dos meus braços e retirou das minhas débeis mãos duas muletas, Clarence e Eduardo. Oh, que razões não terei, se tuas queixas são só metade das minhas, para vencer tua dor e abafar teus brados.

MENINO — Ah, tia, não haveis chorado a morte de nosso pai. Como vos podemos nós confortar com nossos prantos?

MENINA — Nossa tristeza de meninos sem pai ninguém chorou. Que ninguém chore também a vossa dor de viúva.

ISABEL — Não me ajudeis em meus lamentos, sou bem capaz de manifestar meus nojos. Todas as fontes conduzem suas águas a meus olhos para que eu, governada pela úmida lua, possa verter lágrimas tamanhas que o mundo inundem. Oh, por meu esposo, por meu querido senhor Eduardo!

MENINOS — Oh, por nosso pai, por nosso querido senhor de Clarence!

DUQUESA DE YORK — Coitada de mim, por pelos dois, por meu Eduardo e por meu Clarence!

ISABEL — Não tinha outro amparo afora Eduardo, e ele é morto.

MENINOS — Não tínhamos outro amparo afora Clarence, e ele é morto!

DUQUESA DE YORK — Não tinha outros amparos afora eles, e eles são mortos.

ISABEL — Viúva nunca houve que sofresse perda tão dolorida.

MENINOS — Órfãos nunca houve que sofressem perda tão dolorida.

DUQUESA DE YORK — Mãe nunca houve que sofresse perda tão dolorida coitada de mim, sou mãe destes pesares. As dores que têm são pedaços, a dor que tenho é inteira. Ela chora um Eduardo, e eu também. Eu choro um Clarence, mas ela não. Estes meninos choram Clarence, e eu também. Eu choro um Eduardo, mas eles não. Coitada de mim; em triplicada dor, sobre mim vás três. Todas as vossas lágrimas verteis. Sou ama de vossa dor e com lamentações a embalarei.

DORSET — Conformai-vos, querida mãe. A Deus não apraz que sua obra aceiteis com ingratidão. Nas coisas mundanas, sói dizer-se que é ingrato pagar com sombria malquerença uma dívida que mão generosa amavelmente consertou. Assim muito mais contrária estais ao céu que exige a régia dívida do empréstimo que vos fez.

RIVERS — Qual mãe extremosa, senhora, pensai no jovem Príncipe, vosso filho. Mandai-o buscar. Que ele seja coroado. Nele reside o vosso amparo. Enterrai a desatinada dor no túmulo de Eduardo morto e plantai as alegrias vossas no trono de Eduardo vivo.

(Entram Ricardo, Buckingham, Stanley, Conde de Derby, Hastings e Ratcliffe.)

RICARDO (Duque de Gloucester) — Irmã, conformai-vos. Todos nós temos razões de chorar o empalidecer de nossa estrela brilhante, mas ninguém chorando cura suas mágoas. Senhora, minha mãe, imploro-vos perdão, Vossa Graça não vi. Posto de joelhos humildemente a vossa bênção suplico. (Ajoelha)

DUQUESA DE YORK — Que Deus te abençoe, e ponha brandura em teu peito, amor, caridade, obediência e lealdade.

RICARDO (Duque de Gloucester) — Amem. (Levanta-se.) (À parte). E me traga a morte em boa avançada idade. É esta a conclusão da bênção de uma mãe. Maravilhado estou que Sua Graça a tenha deixado fora.

BUCKINGHAM — Ó vós, soturnos príncipes e pares de coração despedaçado que suportais este tão pesado fardo mútuo de lamentações, alegrai-vos ora no amor entre vós todos. Se bem que tenhamos deste rei perdido nosso fruto, novo fruto colheremos de seu filho. O rancor que correu da chaga de vossos ódios, há tão pouco cortada, cosida e reunida, com temperança deve ser cuidado, tratado e resguardado. Julgo ser razão que o jovem príncipe com pequena companhia contino venha de Ludlow até Londres para ser coroado novo Rei.

RIVERS — Por quê com pequena companhia, meu senhor de Buckingham?

BUCKINGHAM — Por minha fé, senhor meu, para que não se abra na força do ajuntamento a chaga da maldade há tão pouco curada, o que teria tanto mais perigo quanto está tenro o estado e ainda sem governo. Quando os cavalos tomam as rédeas que os conduzem e podem dirigir-se como bem lhes apraz, cuido eu que devemos evitar tanto o temor do mal, como o mal que se vê.

RICARDO (Duque de Gloucester) — Espero que o Rei nos tenha consertado a todos e o juramento é firme e leal dentro em mim. E dentro em mim também, e da mesma feição cuido, dentro em todos nós. Porém, como a paz é ainda muito tenra, não devia ser posta diante qualquer visível aparência de rompimento, que podia por acaso surgir com companhia assim. Por isso digo com o nobre Buckingham que avisado é mandar pelo Príncipe tão pouca gente.

HASTINGS — O mesmo digo eu.

RICARDO (Duque de Gloucester) — Então que assim seja, e vamos determinar quem contino se partirá para Ludlow. Senhora, e vós, minha irmã, quereis dar vosso parecer nesta questão?

ISABEL e DUQUESA — De todo o coração.

(Saem todos exceto Buckingham e Ricardo)

BUCKINGHAM — Senhor meu, por Deus não fiquemos ambos em casa, seja quem for que viaje a buscar o príncipe, porque na jornada eu acharei ocasião, em seguimento do que há pouco conversamos, de apartar do príncipe os orgulhosos parentes da Rainha.

RICARDO (Duque de Gloucester) — Meu outro eu, meu consílio, meu oráculo, meu profeta, meu querido primo, eu, como criança, por ti me deixarei guiar. Então para Ludlow, não ficaremos para trás.

(Saem)

Cena III

(Entra um cidadão por uma porta e outro por outra porta.)

PRIMEIRO CIDADÃO — Bom dia, vizinho; aonde is com tanta pressa?

SEGUNDO CIDADÃO — Crede que nem eu próprio sei. Haveis ouvido as novas?

PRIMEIRO CIDADÃO — Ouvi, que o Rei morreu.

SEGUNDO CIDADÃO — Más novas, Jesus Maria José; uma nova má nunca vem só receio, receio que isto traga desgraças para o mundo.

(Entra outro cidadão)

TERCEIRO CIDADÃO — Vizinhos, Deus vos salve.

PRIMEIRO CIDADÃO — Tende um bom dia, senhor.

TERCEIRO CIDADÃO — É vera a nova da morte de El-Rei Eduardo?

SEGUNDO CIDADÃO — É senhor, sim, infelizmente é vera, Deus nos acuda.

TERCEIRO CIDADÃO — Então, meus senhores, aparelhai-vos para ver desgraças grandes.

PRIMEIRO CIDADÃO — Não, não, pela boa graça de Deus, o filho dele será Rei.

TERCEIRO CIDADÃO — Ai da terra governada por infante.

SEGUNDO CIDADÃO — Nele esperança de governação há, em sua idade menor, por um conselho em seu nome, e por si próprio em sua idade maior e em seus maduros anos. Decerto bom regimento haverá então e até lá também.

PRIMEIRO CIDADÃO — Assim estava o reino quando Henrique VI foi coroado em Paris na idade de apenas nove meses.

TERCEIRO CIDADÃO — Assim estava? Não, não, amigos meus, Deus é disso testemunha. Que nesse tempo esta terra era bem rica em sábios, sisudos conselheiros. Então o Rei tinha tios virtuosos que protegiam Sua Graça.

PRIMEIRO CIDADÃO — Ora, este também tem, tanto pelo pai como pela mãe.

TERCEIRO CIDADÃO — Antes fossem todos pelo pai, ou pelo pai nenhum houvesse, porque a disputa sobre quem estará mais perto, de mui perto nos tocará a todos, se Deus não nos poupar. Oh, mui perigoso é o Duque de Gloucester, e altivos e orgulhosos os filhos e irmãos da Rainha. E, se fossem governados e não governassem, esta terra achacosa bem podia retomar suas forças como outrora.

PRIMEIRO CIDADÃO — Ora, ora, receamos o pior, tudo terminará bem.

TERCEIRO CIDADÃO — Quando vêem nuvens, os homens prudentes vestem suas capas; quando caem muitas folhas, está o Inverno chegando; quando o Sol se põe, quem há que não espere a noite? Tempestades fora de sazão fazem que os homens receiem a pobreza. Tudo pode terminar bem, mas se Deus assim quiser. É mais do que merecimento nosso, ou que esperança minha.

SEGUNDO CIDADÃO — De verdade, os corações dos homens prenhes de medo estão. Quase não é possível dispensar razões com homem que não semelhe cuidoso e temeroso.

TERCEIRO CIDADÃO — Sempre assim é antes dos dias de mudança. Por divino instinto as mentes dos homens pressentem o perigo que aí vem, como se vê subir as águas antes de grande procela.

SEGUNDO CIDADÃO — Por minha fé, fomos chamados aos juizes.

TERCEIRO CIDADÃO — E eu também. Irei em vossa companhia.

(Saem)

Cena IV

(Entram o Arcebispo de York, o jovem Duque de York, a Rainha Isabel e a Duquesa de York.)

ARCEBISPO — Ouvi contar que ontem à noite repousaram em Stony Stratford e que em Northampton se quedarão esta noite. Amanhã, ou depois, aqui estarão.

DUQUESA DE YORK — Desejo mui ardentemente ver o Príncipe espero que muito tenha crescido desde que o hei visto pela derradeira vez.

ISABEL — Ouvi contar que assim não é. Dizem que meu filho já quase o passou em altura.

DUQUE DE YORK — Sim, minha mãe, desejaria que eu assim não fosse.

DUQUESA DE YORK — Porque, meu bom primo? É bom crescer.

DUQUE DE YORK — Avó, uma noite, como estávamos sentados a cear, meu tio Rivers disse que eu tinha crescido mais que meu irmão. “Sim”, disse meu tio Gloucester, “as plantas pequenas são graciosas, as ervas ruins crescem depressa” e por isso cuido que não gostaria de crescer com tanta pressa, porque as formosas flores são lentas e as ervas ruins apressuradas.

DUQUESA DE YORK — Pelos céus, tal ditado não se conserta com aquele que tal razão contra si despendeu. Era coisa mui mesquinha quando era criança, tão demorado no crescer, tão retardado, que se tal lei fora verdade ele seria a graça mesma.

ARCEBISPO — E sem dúvida o é, minha senhora graciosa.

DUQUESA DE YORK — Espero que assim seja, mas deixai que as mães possam duvidar.

DUQUE DE YORK — Por minha fé, se me lembrara, podia ter zombado da Graça de meu tio, escarnecendo de seu crescer mais do que ele do meu.

DUQUESA DE YORK — De que sorte, meu jovem York? Peço que mo contes.

DUQUE DE YORK — Ora, dizem que meu tio cresceu tão depressa que podia morder uma côdea com duas horas de idade. Eu bem dois anos vivi sem que um dente tivesse. Avó, isto seria um brinco mordace!

DUQUESA DE YORK — Diz-me, formoso York, quem te contou cenas tais?

DUQUE DE YORK — Avó, a ama dele mo contou.

ISABEL — A ama dele? Mas se ela morreu antes que tu nada fosses.

DUQUE DE YORK — Se não foi ela, já não sei quem foi.

ISABEL — Sagaz mancebo, és por demais astuto.

DUQUESA DE YORK — Senhora, não vos agasteis com o infante.

ISABEL — Ouve mais do que deve.

(Entra um mensageiro)

ARCEBISPO — Aí vem um mensageiro. Que novas?

MENSAGEIRO — Novas tais, senhor, que é doloroso contá-las.

ISABEL — Como está o Príncipe?

MENSAGEIRO — Senhora, bem e de boa saúde.

DUQUESA DE YORK — Que novas trazes?

MENSAGEIRO — O senhor de Rivers e o senhor de Grey foram mandados para Pomfret, e com eles o senhor Tomás de Vaughan, todos eles cativos.

DUQUESA DE YORK — Quem os prendeu?

MENSAGEIRO — Os poderosos duques de Gloucester e de Buckingham.

ARCEBISPO — Por que ofensa?

MENSAGEIRO — Tudo o que sabia já vos relatei: por que razão ou por quê os fidalgos foram presos, ignoro, meu gracioso senhor.

ISABEL — Coitada de mim! Vejo a ruína de minha casa: o tigre pilhou a tímida corça, a insultuosa tirania começa a engrossar por sobre o inocente e indefeso trono. Bem-vindos sejam o estrago, o sangue e a carnificina: vejo, como num mapa, o fim de tudo.

DUQUESA DE YORK — Inseguros e malditos dias de contendas, quantos de vós já meus olhos não viram! Perdeu meu marido a vida para alcançar a coroa, e amiúde foram meus filhos lançados ora acima, ora abaixo para que eu me alegrasse ou chorasse com seus ganhos ou perdas. E alcançado o poder, passadas que foram as domésticas tormentas, eles próprios, vencedores, repugnantes se arremessam em guerras, irmão contra irmão, sangue contra sangue, cada um contra si próprio. O ódio, desarrazoado e cheio de frenesi, põe fim a teu furor danado, ou deixa-me morrer, para que eu não volte a ver a morte.

ISABEL — Vem, vem, meu menino. Vamos para o santuário. Senhora, adeus.

DUQUESA DE YORK — Esperai, eu vos acompanho.

ISABEL — Não haveis para tal razão.

ARCEBISPO — Senhora minha, ide, e para lá levai vossas riquezas e vossos bens. Por mim, entrego a Vossa Graça o selo que guardo, e assim Deus me proteja tão bem quanto eu vos estimo a vós e aos vossos. Ide, conduzir-vos-ei ao santuário.

(Saem)

ATO III
Cena I

(Soam trombetas. Entram o jovem Príncipe Eduardo, os Duques de Gloucester e de Buckingham, o senhor Cardeal Bourchier, Catesby e outros)

BUCKINGHAM — Bem-vindo, doce Príncipe, a Londres, vosso aposento.

RICARDO (Duque de Gloucester) — Bem-vindo, querido primo, soberano dos meus pensamentos. O caminho, de cansaço tornou-vos melancólico.

PRÍNCIPE EDUARDO — Não, tio, mas as contrariedades na viagem tornaram-na aborrecida, trabalhosa e grave. Quero eu aqui mais tios para me acolherem.

RICARDO (Duque de Gloucester) — Doce Príncipe, a virtude isenta de vossos anos não se internou ainda nos enganos do mundo. De um homem mais não podeis distinguir do que a sua forma aparente, a qual — Deus o sabe — poucas vezes, ou mesmo nunca, é conforme ao coração. Os tios que desejais eram perigosos. Vossa Graça ouviu as suas brandas falas mas não viu o veneno em seus peitos. Deus vos guarde longe deles, e de tão falsos amigos!

PRÍNCIPE EDUARDO — Deus me defenda de falsos amigos, mas eles não eram tal.

(Entra o Alcaide com séquito.)

RICARDO (Duque de Gloucester) — Meu senhor, o Alcaide de Londres, vem cumprimentar-vos.

ALCAIDE — Dê Deus a Vossa Graça saúde e felicidade!

PRÍNCIPE EDUARDO — Eu vos agradeço, meu bom senhor, e a todos vós. Cuidei que minha mãe e meu irmão York há largo tempo teriam ido ao nosso encontro. Vergonha! Que lesma é esse Hastings que não vem para nos dizer se são vindos ou não são.

(Entra o senhor de Hastings.)

BUCKINGHAM — E em boa altura aí vem o lasso senhor.

PRÍNCIPE EDUARDO — Bem-vindo, senhor. Então, virá a ver-nos nossa mãe?

HASTINGS — Por qualquer razão que só Deus sabe, eu não sei, a rainha vossa mãe e vosso irmão York seguiram para um santuário. Gostaria o jovem Príncipe de ter comigo vindo ao encontro de Vossa Graça, mas foi por sua mãe impedido de o fazer.

BUCKINGHAM — Vergonha! Que feição enganadora e arrogante. E a dela! Senhor Cardeal, poderá Vossa Graça persuadir a Rainha a neste momento mandar aqui o Duque de York junto de seu nobre irmão? Se ela negar, senhor de Hastings, ide vós com ele, e arrancai-o de força a seus ciumentos braços.

BOURCHIER — Meu senhor de Buckingham, se minha fraca retórica puder arrancar o Duque de York a sua mãe, esperai-o em breve aqui. Mas se for ela surda a suaves pedidos, que Deus nos céus impeça que violemos o santo privilégio do sagrado santuário! Nem por amor desta terra toda seria eu culpado de pecado tão nefando.

BUCKINGHAM — Sois, senhor meu, demasiado insano e rigoroso, tendes demasiado acatamento por cerimônias e usanças. Ponde isso em balança com a rudeza destes tempos. Não violais o santuário ao filar o príncipe. O benefício do asilo está sempre assegurado aos que por seus atos tal lugar mereceram, e aos que têm a argúcia de tal lugar pedir. O Príncipe nem o pediu nem o mereceu: e por essa causa, em meu juízo, não o pode ter. E assim, retirando-o de um lugar que não é esse, não rompeis nem leis nem privilégios. Ouvi amiúde falar de homens com asilo em santuários, mas de crianças nunca até agora ouvi.

BOURCHIER — Por uma vez vencestes, senhor meu, meu pensamento. Vinde, senhor de Hastings, vindes comigo?

HASTINGS — Vou, senhor meu.

PRÍNCIPE EDUARDO — Bons senhores, ide tão lestos quanto puderdes. (Saem o Cardeal e Hastings) Dizei-me, tio Gloucester, se o nosso irmão chegar, onde moraremos nós até sermos coroados?

RICARDO (Duque de Gloucester) — Onde melhor pareça a Vossa Real pessoa. Se conselho vos posso dar, um dia ou dois se quedará na Torre Vossa Alteza. Depois, onde quiserdes e onde for julgado mais conforme a vossa melhor saúde e vossa recreação.

PRÍNCIPE EDUARDO — Não gosto da Torre, não gosto, não. Foi Júlio César quem a edificou, senhor?

BUCKINGHAM — Foi ele, meu gracioso senhor, quem começou a edificá-la e depois, nas sucessivas eras, de novo a edificaram.

PRÍNCIPE EDUARDO — Está posto em crônica, ou é contado sucessivamente, de era em era, que ele a edificou?

BUCKINGHAM — Em crônica, meu gracioso senhor.

PRÍNCIPE EDUARDO — Mas dizei-me, senhor, se escrito não fosse cuido que a verdade viveria de era para era, porque seria contada a toda a posteridade até ao derradeiro dia.

RICARDO (Duque de Gloucester) (À parte) — Tão sábio e tão jovem, como sói dizer-se, nunca haverá longa vida.

PRÍNCIPE EDUARDO — Que dizeis, tio?

RICARDO (Duque de Gloucester) — Digo que mesmo sem uso fazer dos caracteres, todo o pregão tem longa vida. (À parte) E assim, tal como o diabo o faz nos autos, dou por moralidade a uma sentença dois sentidos.

PRÍNCIPE EDUARDO — Esse Júlio César era homem famoso. Seu espírito usou para dar vida a seu valor, aquilo com que seu valor a seu espírito deu riqueza. A morte não vence este vencedor. Porque ele em sua fama agora vive, que não em sua vida. Uma coisa vos direi, meu primo Buckingham.

BUCKINGHAM — Quê, meu gracioso senhor?

PRÍNCIPE EDUARDO — Se eu viver até ser homem, conquistarei de novo nosso direito antigo à França, ou morrerei soldado tal como rei vivi.

RICARDO (Duque de Gloucester) — Verão curto, Primavera precoce.

(Entram o jovem Duque de York, Hastings e o Cardeal.)

BUCKINGHAM — Em boa hora chega o Duque de York.

PRÍNCIPE EDUARDO — Ricardo de York, como se encontra o nosso querido irmão?

DUQUE DE YORK — Bem, meu temível senhor — assim agora vos devo chamar.

PRÍNCIPE EDUARDO — Sim, irmão, por nossa grande mágoa, como por vossa. Bem pouco tempo há que morreu quem devia merecer tal tratamento, o qual por essa morte perdeu muita majestade.

RICARDO (Duque de Gloucester) — Como se encontra o nosso primo, nobre senhor de York?

DUQUE DE YORK — Graças vos dou, gentil tio. Oh, senhor meu, Haveis dito que crescem depressa as ervas ruins; o Príncipe meu irmão cresceu muito mais que eu!

RICARDO (Duque de Gloucester) — Cresceu, senhor.

DUQUE DE YORK — E é por isso ruim?

RICARDO (Duque de Gloucester) — Ó meu formoso primo, tal não posso eu dizer!

DUQUE DE YORK — Então vos deve ele mais gratidão que eu.

RICARDO (Duque de Gloucester) — Ele pode governar-me como meu soberano, mas vós tendes sobre mim poder como parente.

DUQUE DE YORK — Peço-vos, tio, dai-me esse punhal.

RICARDO (Duque de Gloucester) — O meu punhal, meu pequeno primo? De todo o coração.

PRÍNCIPE EDUARDO — A pedir, irmão?

DUQUE DE YORK — A meu amável tio, que eu sei dará, por não ser mais que brinquedo, coisa que não é mágoa dar.

RICARDO (Duque de Gloucester) — Dádiva maior farei eu a meu primo.

DUQUE DE YORK — Dádiva maior? Ah, é também a espada.

RICARDO (Duque de Gloucester) — Sim, gentil primo, se ela mais leve fora.

DUQUE DE YORK — Oh, então vejo que vos separais só de coisas leves. Em coisas de mor peso negais a quem vos pede.

RICARDO (Duque de Gloucester) — É pesada de mais para Vossa Graça a usar.

DUQUE DE YORK — Cuido que é leve, ainda que mais pesada fora.

RICARDO (Duque de Gloucester) — Quê, queríeis ter minha arma, meu pequeno senhor?

DUQUE DE YORK — Queria, para vos dar agradecimento igual ao nome por que me tratais.

RICARDO (Duque de Gloucester) — Qual?

DUQUE DE YORK — Pequeno.

PRÍNCIPE EDUARDO — O meu senhor de York continua a ter língua perversa. Mas, sabe Vossa Graça, tio, suportá-lo.

DUQUE DE YORK — Quereis dizer suportar meu peso às costas, e não suportar-me a mim. Tio, meu irmão zomba de vós e de mim também. Por ser eu pequeno como o macaco, cuida seria meu peso que vós devíeis suportar em vossos ombros!

BUCKINGHAM — Com que engenho defende ele suas razões. Para mitigar o escárnio que lança sobre o tio escarnece de si próprio com ligeireza e graça. Maravilha é, tão jovem e tão sagaz.

RICARDO (Duque de Gloucester) — Senhor, quereis vir? Eu e o meu bom primo Buckingham vamos ao encontro de vossa mãe, para assim lhe pedir que vos procure na Torre e vos saúde.

DUQUE DE YORK — Quê, ides para a Torre, senhor?

PRÍNCIPE EDUARDO — O senhor meu protetor assim o quer.

DUQUE DE YORK — Não dormirei em paz na Torre.

RICARDO (Duque de Gloucester) — Por que razão, que receais?

DUQUE DE YORK — Que há de ser? A sombra irada de meu tio Clarence. Contou-me minha avó que foi lá assassinado.

PRÍNCIPE EDUARDO — Não me receio eu de tios que mortos são.

RICARDO (Duque de Gloucester) — Nem de nenhum que vivo seja, espero!

PRÍNCIPE EDUARDO — E se vivos são, espero não precise de ter medo. Mas vinde, senhor. Com o coração grave, cuidando neles, eu me dirijo à Torre.

(Toque de trombeta. Saem o Príncipe, York, Hastings, Dorset, Ricardo, Buckingham e Catesby)

BUCKINGHAM — Não cuidais, senhor meu, que este pequeno Príncipe foi movido por sua sutil mãe a tão vergonhosamente zombar e escarnecer de vós?

RICARDO (Duque de Gloucester) — Decerto, decerto. Oh, é mancebo perigoso: destemido, vivaz, engenhoso, atrevido, inteligente. Semelha a mãe, desde a cabeça às pontas dos pés.

BUCKINGHAM — Bom, deixai-os repousar. Vem aqui, Catesby. Hás jurado cumprir nossos intentos assim como guardar o que te confiamos. Conheces nossas razões, que te contamos na jornada. Que pensas tu? Não é empresa fácil trazer D. Guilherme, o senhor de Hastings, para o intento que temos de colocar este nobre Duque no régio assento desta afamada ilha?

CATESBY — Tem ele em tanta estima o Príncipe, por amor de seu pai, que nenhuma coisa o moverá a pôr-se contra ele.

BUCKINGHAM — E que pensas tu de Stanley? Ele não?

CATESBY — Fará tudo o que Hastings fizer.

BUCKINGHAM — Bom, então nada mais afora isto: vai, gentil Catesby, e como se de um rumor se tratara, colhe do senhor de Hastings o seu juízo acerca do nosso intento. E convoca-o para que amanhã na Torre esteja presente na coroação. Se cuidares que poderá ele pôr-se a nosso lado, encoraja-o, e conta-lhe todas as nossas razões. Se ele endurecido estiver, frio, gelado, contra nós, mostra-te assim também, e dá a conversação por finda, e diz-nos qual a sua disposição. Porque amanhã haverá dois conselhos separados, e neles tu próprio terás subido emprego.

RICARDO (Duque de Gloucester) — Dá minhas saudações ao senhor D. Guilherme; diz-lhe, Catesby, que do antigo bando de seus adversários perigosos correrá amanhã sangue no Castelo de Pomfret. E diz ao senhor que, no regozijo destas boas novas, dê à senhora Shore um beijo mais.

BUCKINGHAM — Bom Catesby, vai cumprir bem esta empresa.

CATESBY — Senhores meus, com todo o zelo que posso.

RICARDO (Duque de Gloucester) — Teremos novas de ti, Catesby, antes de nos deitarmos?

CATESBY — Tereis, senhor.

RICARDO (Duque de Gloucester) — Em Crosby Place, aí nos encontrarás.

(Sai Catesby)

BUCKINGHAM — E que faremos, senhor, se virmos que o senhor de Hastings à nossa conjura não dá assentimento?

RICARDO (Duque de Gloucester) — A cabeça fora, homem, alguma coisa faremos. E olha, quando eu for rei pede-me o condado de Hereford e todos os seus bens movíveis que eram pertença de El-Rei, meu irmão.

BUCKINGHAM — Lembrarei essa promessa à mão de Vossa Graça.

RICARDO (Duque de Gloucester) — E olha que a cumprirei de todo o coração. Anda, vamos cear, para que depois possamos bem digerir nossas conjuras.

(Saem)

Cena II

(Entra um mensageiro, que para à porta do senhor de Hastings. Bate à porta.)

MENSAGEIRO — Senhor, senhor!

HASTINGS (De dentro) — Quem está aí?

MENSAGEIRO — Alguém com recado do senhor de Stanley.

(Entra Hastings.)

HASTINGS — Que hora é?

MENSAGEIRO — Acabam de soar as quatro.

HASTINGS — Não poderá o senhor de Stanley passar estas aborrecidas noites em paz?

MENSAGEIRO — Parece que não, pelo que vos tenho a dizer. Antes do mais, ele saúda Vossa Nobre Senhoria.

HASTINGS — E que mais?

MENSAGEIRO — Mais declara a Vossa Senhoria que esta noite sonhou que o javali lhe havia destroçado o elmo. Diz ainda que haverá dois conselhos e o que num for decidido pode no outro voltar-se contra vós e contra ele. Manda por isso saber se Vossa Senhoria, neste mesmo instante, quererá pôr-se a cavalo e a toda a brida rumar com ele ao norte para escusar o perigo que sua alma adivinha.

HASTINGS — Vai, moço, vai. Volta junto de teu senhor. Diz-lhe que não tema os conselhos separados. Sua Senhoria e eu próprio estaremos presentes num deles, e no outro o meu bom amigo Catesby. Ali nenhuma coisa que nos toque poderá acontecer sem que eu de contino dela tome conhecimento. Diz-lhe que seus temores são sem causa, sem razão. E quanto ao sonho, maravilho-me que ele seja tão inocente que creia nos fingimentos de turvados sonhos. Fugir do javali antes que o javali nos siga, seria mover o javali a nos seguir, e a seguir-nos quando caçar não intentava. Vai, diz a teu amo que se levante e venha ao meu encontro, e iremos os dois à Torre, onde ele verá o javali fazer-nos gentil tratamento.

MENSAGEIRO — Irei, senhor, e dir-lhe-ei o que me estais dizendo.

(Sai. Entra Catesby)

CATESBY — Muitos bons dia a meu nobre senhor.

HASTINGS — Um bom dia, Catesby. Estais levantado muito cedo. Que novas, que novas haveis neste nosso instável reino?

CATESBY — Senhor, é, em verdade, um munido de mudança, e creio que nunca quedo será senão quando Ricardo cingir na fronte a palma do reino.

HASTINGS — Como, cingir a palma? Queres dizer a coroa?

CATESBY — Quero, meu bom senhor.

HASTINGS — Mandarei cortar dos ombros esta coroa minha antes que veja a coroa tão mal assentada. Mas imaginas tu que ele tem tal intento?

CATESBY — Tem, por vida minha, e espera ter-vos do seu lado para a conquista dela. E por essa causa vos envia esta boa nova, que hoje mesmo os inimigos vossos, os parentes da Rainha, morrerão em Pomfret.

HASTINGS — Em verdade, tal nova não lamento, que eles meus adversários foram sempre. Mas levantar eu minha voz por Ricardo para impedimento dos herdeiros do meu senhor, diretos descendentes, Deus sabe que o não farei, nem que por tal eu morra.

CATESBY — Deus guarde Vossa Senhoria nesse amável sentimento.

HASTINGS — Mas rirei bem doze meses passados, por vivo estar e ver o trágico fim daqueles que me lançaram o ódio do meu senhor. Bem, Catesby, quinze dias não viverei sem que eu do mundo expulse quem jamais em tal pensou.

CATESBY — É coisa horrenda morrer, meu gracioso senhor, quando os homens não estão aparelhados e não esperam tal.

HASTINGS — Oh, horrendo, horrendo! E assim é com Rivers, Vaughan, Grey; e assim será com alguns outros homens que se pensam em tanta seguridade quanto tu e eu, que como sabes somos estimados pelo nobre Ricardo e por Buckingham.

CATESBY — Ambos os príncipes vos têm em mui subida estima... (À parte) que na Ponte estimam ver vossa cabeça exposta.

HASTINGS — Eu sei, e bem o mereci. (Entra Stanley, Conde de Derby.) Vinde, vinde. Onde tendes a vossa lança, homem? Temeis o javali, e andais assim tão desarmado?

STANLEY — Senhor, bom dia. Bom dia, Catesby. Podeis gracejar, mas, pela Santíssima Cruz, não me aprazem estes conselhos vários, não me aprazem, não.

HASTINGS — Meu senhor, tanto prezo minha vida como vós a vossa, e nunca foi ela, aqui declaro, tão preciosa como para mim agora é. Cuidais que se não considerasse nossa situação segura estaria triunfante como ora estou?

STANLEY — Os fidalgos que estão em Pomfret, quando de Londres saíram ledos iam, e cuidavam estar seguros, e não tinham na verdade razão para não confiar, mas vede como o dia logo ensombreceu. Turva-me esta súbita estocada de rancor, oxalá prove ser covarde sem razão. Então, vamos à Torre? O dia é chegado. Então, então, ouvi, sabeis que mais, senhor? São hoje decapitados os fidalgos de quem haveis falado.

STANLEY — Por serem verdadeiros, das cabeças que têm são eles mais dignos do que dos chapéus que usam muitos dos que os acusaram. Mas vinde, senhor, partamos.

(Entra Hastings, Passavante.)

HASTINGS — Ide adiante. Quedo-me a falar com este bom companheiro. (Saem Stanley e Catesby) Bom encontro, Hastings; como vai contigo o mundo?

PASSAVANTE — Ainda melhor por Vossa Senhoria se dignar perguntar.

HASTINGS — Digo-te, homem, tudo melhor comigo se conserta agora do que na derradeira vez que te encontrei neste lugar mesmo. Ia então cativo para a Torre, por estímulo dos aliados da Rainha. Mas eu te digo agora e guarda-o para ti: são hoje executados esses inimigos, e eu em posição tão subida como nunca tive!

PASSAVANTE — Deus mantenha as coisas a vosso grado, senhor.

HASTINGS — Grã mercê te dou. Toma, bebe por mim. Atira-lhe a bolsa (Sai)

PASSAVANTE — Agradeço a Vossa Mercê.

(Entra um padre.)

PADRE — Bom encontro, meu senhor. Alegro-me em ver Vossa Mercê.

HASTINGS — Agradeço-te bom senhor D. João, de todo o meu coração. Ainda vos sou devedor de vosso último serviço. Voltai no próximo sábado e eu prêmio vos darei. Diz-lhe qualquer coisa ao ouvido

(Entra Buckingham.)

PADRE — Esperarei por Vossa Senhoria. (Sai o padre)

BUCKINGHAM — Quê, praticando com um padre, senhor Camareiro? Vossos amigos em Pomfret, esses bem necessitam de padre; Vossa Honra não terá necessidade de se confessar!

HASTINGS — Por minha fé, quando encontrei este santo homem lembrei-me dos homens de quem me falais. Então, ides à Torre?

BUCKINGHAM — Vou, meu senhor, mas por lá não me posso eu alongar. De lá tornarei eu antes de Vossa Senhoria.

HASTINGS — E possível, sim, pois lá me quedarei para o jantar.

BUCKINGHAM (À parte) — E para a ceia também, embora ainda o não saibais. Vinde — vamos?

HASTINGS — Eu vos acompanho, senhor.

(Saem)

Cena III

(Entra o senhor D. Ricardo de Ratcliffe, com alabardeiros, que conduzem os nobres Rivers, Grey e Vaughan para serem executados em Pomfret.)

RATCLIFFE — Vinde, trazei os cativos.

RIVERS — Senhor D. Ricardo de Ratcliffe permite que te diga: vais ver hoje um súdito morrer pela verdade, pelo dever e pela lealdade.

GREY — Deus guarde o Príncipe do nefasto bando que vós sois! Sois uma companhia de malditas sanguessugas.

VAUGHAN — Está vivo quem um dia em alta grita lamentará tudo isto.

RATCLIFFE — Depressa, é chegado o limite de vossas vidas.

RIVERS — Ó Pomfret, Pomfret! Ó tu, masmorra sanguinosa, fatal e pressaga para nobres pares! Dentro do espaço criminoso dos teus muros foi Ricardo II assassinado. E para maior vergonha do teu lugar terrífico, damos-te a beber do nosso inocente sangue.

GREY — Caiu fera sobre nossas cabeças a maldição de Margarida quando a lançou sobre Hastings, sobre vós e sobre mim, por termos visto Ricardo quando apunhalou seu filho.

RIVERS — Então amaldiçoou Ricardo, então amaldiçoou Buckingham, então amaldiçoou Hastings. Ó, lembrai-Vos, Deus, de ouvir a sua prece por eles, como agora por nós e pela minha irmã e por seus régios filhos. Contentai-vos, Senhor, tão-só do nosso sangue leal, que, como sabeis, vai ser sem justiça derramado.

RATCLIFFE — Depressa, é chegada a hora da morte.

RIVERS — Vinde, Grey, vinde Vaughan, abracemo-nos. Adeus, até que no céu nos encontremos.

(Saem)

Cena IV

(Entram Buckingham, Stanley, Conde de Derby, Hastings, o Bispo de Ely, Norfolk, Ratcliffe, Lovell e outros a uma mesa.)

HASTINGS — Pois bem, nobres pares, aqui nos encontramos para sobre a coroação determinarmos. Em nome de Deus, falai: qual será do rei o dia?

BUCKINGHAM — Está tudo aparelhado para a cerimônia real?

STANLEY — Está, e falta só determinar o dia.

ELY — Amanhã, então, cuido ser dia feliz.

BUCKINGHAM — Quem conhece o pensamento do Protector? Quem está mais próximo do nobre Duque?

ELY — Vossa Graça, cuidamos, será quem mais depressa conhecerá seu parecer.

BUCKINGHAM — Os restos sabemos um do outro. Quanto a nossos corações, não sabe ele mais do meu do que eu dos vossos, ou eu do dele, senhor, ou vós do meu. Senhor Hastings, vós e ele, sois amigos próximos. Agradecido estou a Sua Graça, eu sei que ele bem me quer, mas quanto aos seus intentos sobre a coroação nenhuma coisa hei perguntado, nem ele me confiou o que neste caso te causaria prazer. Mas vós, meus nobres senhores, podeis assinalar o dia. E eu em nome do Duque levantarei minha voz, o que, cuido, de boa feição ele aceitará.

(Entra Ricardo.)

ELY — Em azado momento ali vem o próprio Duque.

RICARDO (Duque de Gloucester) — Meus nobres senhores, e primos todos, bom dia. Dormi em excesso, mas cuido que minha ausência não terá feito retardar algum caso grave que em minha presença podia ter sido concluído.

BUCKINGHAM — Se não houvésseis entrado a tempo, senhor, D. Guilherme, senhor de Hastings, teria tomado vossa parte, quero dizer, teria sido a vossa voz sobre a coroação do rei.

RICARDO (Duque de Gloucester) — Afora o meu senhor de Hastings ninguém tal ousar podia. Sua Senhoria conhece-me bem, e tem por mim grande afeição. Senhor de Ely, quando pela derradeira vez em Holborn estive vi belas amoras no vosso quintal. Peço-vos, mandai buscar algumas.

ELY — Céus, e assim farei senhor meu, de todo o coração. (Sai)

RICARDO (Duque de Gloucester) — Primo de Buckingham, uma palavra só. Catesby inquiriu Hastings sobre o nosso caso e encontra firmeza tal no obstinado fidalgo que prefere a cabeça perder, mais que consentir que o filho de seu senhor (como com acatamento diz) perca de Inglaterra o real trono.

BUCKINGHAM — Apartai-vos por um pouco. Irei ao vosso encontro.

(Saem Ricardo e Buckingham)

STANLEY — Ainda não determinamos este dia triunfal. Amanhã, em meu parecer, é cedo em demasia porque eu próprio não estou tão bem aparelhado como estaria se fosse mais retardado o dia.

(Entra o Bispo de Ely.)

ELY — Onde está meu senhor, o Duque de Gloucester? Mandei buscar estas amoras que ele queria.

HASTINGS — Hoje tem Sua Graça ledo e doce semblante. Terá em mente algum pensamento que lhe apraz para dar os bons-dias com ânimo tal. Cuido não haver homem algum na cristandade que menos do que ele seu amor ou seu ódio saiba esconder, que pelo rosto se lhe conhece num pronto o coração.

STANLEY — Que haveis de seu coração entendido no seu rosto da alegria que hoje há manifestado?

HASTINGS — Céus, que não sente ofensa de homem algum aqui presente, porque, se sentisse, seu semblante o mostraria.

STANLEY — Rogo a Deus que não, vos digo.

(Entram Ricardo e Buckingham.)

RICARDO (Duque de Gloucester) — Peço-vos me digais o que merecem os que urdem minha morte em teias demoníacas de negra magia, e fizeram triunfar contra o meu corpo os seus feitiços malditos.

HASTINGS — A grande estima que por Vossa Graça tenho, meu senhor, faz-me ser quem primeiro nesta nobre assembléia condene os culpados, sejam eles quem forem. Digo, senhor meu, merecem a morte.

RICARDO (Duque de Gloucester) — Então sejam vossos olhos testemunhas do seu maligno ato. Olhai como estou enfeitiçado! Vede, meu braço semelha uma vara seca e queimada! E foi a mulher de Eduardo, essa bruxa monstruosa, de parelha com essa mundanal manceba, a prostituta Shore, que assim me assinalaram com seus feitiços.

HASTINGS — Se elas tal feito cometeram, meu senhor...

RICARDO (Duque de Gloucester) — Se? Tu, protetor dessa maldita meretriz, falas-me em “ses”! Traidor és tu. Fora com a sua cabeça! Por São Paulo, juro que não jantarei hoje sem que tanto veja. Lovell e Ratcliffe, tratai do caso. Vós outros que afeição me têm, levantai-vos e segui-me.

(Saem todos exceto Lovell e Ratcliffe e o senhor de Hastings)

HASTINGS — Desgraçada, desgraçada Inglaterra! Mas não desgraçado de mim, porque eu, inocente em demasia, podia tê-lo evitado. Stanley sonhou que o javali lhe havia destruído o elmo, e eu escarneci de tal e desdenhei fugir. Três vezes hoje o meu cavalo aparelhado tropeçou e se turvou ao ver a Torre, como se lhe pesasse trazer-me ao matadouro. Agora sim. Falta-me o padre que comigo falou. Repentido estou de ter dito ao passavante, à maneira de triunfo, que os meus inimigos morreriam hoje em Pomfret em carnificina sangrenta. E que eu próprio seguro me sentia de estar em graça e favor. Ó Margarida, Margarida, eis que tua pesada maldição atingiu a mísera cabeça do pobre Hastings.

RATCLIFFE — Vinde, vinde, prestes. O Duque quererá jantar. Fazei breve confissão. Ele deseja ver vossa cabeça. Ó dos homens mortais a graça breve que nós mais procuramos do que de Deus a graça. Quem constrói a esperança nos ares de vosso bom semblante vive como marinheiro ébrio no topo de um mastro, a cada instante pronto a despenhar-se nas profundezas fatais do mar profundo.

LOVELL — Vinde, vinde, prestes. De nada valem lamentações. Ó sanguinoso Ricardo! Mísera Inglaterra, profetizo para ti o mais temeroso tempo que alguma vez época alguma contemplou. Vinde, conduzi-me ao cadafalso. Levai-lhe minha cabeça. Os que de mim escarnecem em breve mortos serão.

(Saem)

Cena V

(Entram Ricardo e Buckingham com armaduras ferrugentas, maravilhosamente feios.)

RICARDO (Duque de Gloucester) — Vá, primo, podes tremer e de cor mudar, assassinar teu sopro a meio de uma palavra, e então de novo começar, e voltar a parar, como se estivesses turvado e sandeu de terror?

BUCKINGHAM — Ora, eu sei mudar-me em grande trágico. Falar e olhar para trás e espreitar por todos os lados, tremor e assustar-me com o bulir de uma palha, manifestando suspeição profunda. Olhares terríficos tenho-os a meu mando tal como sorrisos fingidos, e ambos como meus servidores prontos estão em qualquer tempo a ajudar minha manhas. Mas quê, Catesby foi-se?

(Entram o Alcaide e Catesby)

RICARDO (Duque de Gloucester) — Foi, e olha, consigo vem o Alcaide.

BUCKINGHAM — Senhor Alcaide...

RICARDO (Duque de Gloucester) — Olha a Ponte, além!

BUCKINGHAM — Ouvi, um tambor!

RICARDO (Duque de Gloucester) — Catesby, vigia as muralhas!

(Sai Catesby)

BUCKINGHAM — Senhor Alcaide, a razão por que mandamos...

(Entram Lovell e Ratcliffe, com a cabeça de Hastings.)

RICARDO (Duque de Gloucester) — Olha para trás! Defende-te, são inimigos!

BUCKINGHAM — Que Deus e nossa inocência nos defendam e nos guardem

RICARDO (Duque de Gloucester) — Calma-te, amigos são: Ratcliffe e Lovell.

LOVELL — Eis a cabeça daquele ignóbil traidor, o perigoso e insuspeitado Hastings.

RICARDO (Duque de Gloucester) — Tanta estima sentia por esse homem, que devo chorar. Cuidei que ele era a criatura mais simples e inocente, o cristão melhor que jamais na terra respirou, fiz dele meu livro onde minha alma gravava a história de todos seus sigilosos pensamentos, de tal forma ele escondia seu vício sob virtuoso aspecto, que, afora esta aparente e clara culpa, falo de suas práticas com a mulher de Shore. Ele vivia longe de toda a suspeição.

BUCKINGHAM — Ora, ora, foi o traidor mais fingido e disfarçado. Podíeis imaginar, ou quase crer, que, se não fora por grande dita, não viveríamos hoje para vos contar que este sutil traidor tinha forjado hoje durante o conselho matar-me a mim e a meu bom senhor de Gloucester?

ALCAIDE — Isso fez ele?

RICARDO (Duque de Gloucester) — Quê, cuidais que somos turcos ou infiéis? Ou que iríamos, contra o que dita a lei, decidir assim prontamente sobre a morte do ruim vilão, não fora o perigo extremo da questão, a paz de Inglaterra, e a seguridade de nossas pessoas, obrigar-nos a essa execução?

ALCAIDE — Que os céus vos abençoem! Ele mereceu a morte. E vós, senhores, haveis ambos procedido bem, para assim afastardes traidores de tais intentos

BUCKINGHAM — Nunca de suas mãos esperei boas ações depois que ele esteve em companhia da Senhora Shore. Porém não tínhamos determinado que ele morresse antes de Vossa Senhoria chegar para presenciar seu fim... O que a pressa amável destes amigos nossos não permitiu, posto que contra nossa intenção... Porque, meu senhor, gostaríamos nós que tivésseis ouvido o traidor falar, e timidamente confessar a guisa e a finalidade de sua traição, para que pudésseis contar aos cidadãos, que por acaso possam ter desconfiança de nós por causa sua e chorar sua morte.

ALCAIDE — Mas, meu bom senhor, as palavras de Vossa Graça servirão da mesma guisa que se eu o vira e ouvira falar; e, não tenhais dúvida, mui nobres príncipes, que darei conhecimento a nossos leais cidadãos de todos vossos justos cometimentos nesta causa.

RICARDO (Duque de Gloucester) — E para tal quisemos que viesse aqui Vossa Senhoria evitando assim maus juízos do maldizente mundo.

BUCKINGHAM — Mas, já que haveis chegado tarde demais para nosso intento, testemunhai então aquilo que ouvis termos intentado. E assim, meu bom Alcaide, nos despedimos.

(Sai o Alcaide)

RICARDO (Duque de Gloucester) — Ide após ele, ide, primo Buckingham: o Alcaide dirige-se, apressurado ao Guildhall. Ali, na ocasião mais conforme, provai que são bastardos os filhos de Eduardo; dizei-lhes que Eduardo matou um cidadão só por este dizer que faria de seu filho o herdeiro da Coroa — tendo apenas em mente sua taberna, que por tal insígnia ter da coroa era chamada. E mais, falai da sua luxúria, e de seu bestial apetite na busca dos prazeres, que se estendia a servos, filhas, mulheres, por todo o lado que seu incendido olhar e coração selvagem sem regra cobiçassem fazer presa. Bem, e se for mister, em vossa prática rondai minha pessoa: dizei-lhes que quando minha mãe prenhe ficou desse insaciável Eduardo, pelejava o nobre York, meu nobre pai, em França, e ainda que, pelo contar do tempo, ele concluiu não ser o progenitor, o que bem se manifestou no próprio semblante, que em nada semelhava ao Duque, meu pai... Porém, falai nisto com mesura, como se o caso remoto fosse, porque, meu senhor, sabeis que é viva minha mãe.

BUCKINGHAM — Não duvideis, meu senhor. Orador serei como se fora meu o prêmio de ouro que alcançar intento. E assim, senhor meu, adeus.

RICARDO (Duque de Gloucester) — Se tanto conseguirdes, levai-os ao Castelo de Baynard, onde me encontrareis em boa companhia Entre reverendos padres e doutos bispos.

BUCKINGHAM — Parto-me, e entre as três e as quatro horas esperais pelas novas que o Guildhall dará. (Sai)

RICARDO (Duque de Gloucester) — Vai, Lovell, a toda a pressa junto do doutor Shaa. (Para Ratcliffe) E tu junto de Frei Penker; diz a ambos que antes que passe uma hora me procurem no Castelo de Baynard. (Saem Ratcliffe e Lovell) Irei agora ordenar secretamente que façam desaparecer esses crianças de Clarence, e dar conhecimento que em tempo algum a ninguém é permitido chegar junto a esses príncipes. (Sai)

Cena VI

(Entra um escrivão com um papel na mão.)

ESCRIVÃO — Eis a condenação do bom senhor de Hastings escrita em grandes letras na melhor escritura para que hoje possa ser lida em Saint Paul. E notai a harmonia da sua ordenação: onze horas demorei eu a escrevê-la, entregue que me foi ontem à noite por Catesby; o original demorou o mesmo tempo a compor, e contudo faz agora cinco horas vivia Hastings inocente, sem julgamento, livre, em liberdade. Que bom mundo, este! Quem tão bruto é que não veja ardil tão manifesto? Porém, quem tão ousado é que diga que o está vendo? O mundo é mau, todas as coisas acabam no mal quando tais nefastos efeitos se têm de guardar no pensamento. (Sai)

Cena VII

(Entram Ricardo e Buckingham por portas diferentes.)

RICARDO (Duque de Gloucester) — Então? Então? Que dizem os cidadãos?

BUCKINGHAM — Bem, pela Santíssima Mãe de Nosso Senhor, os cidadãos mudos estão e não dizem palavra alguma.

RICARDO (Duque de Gloucester) — Haveis dito que os filhos de Eduardo eram bastardos?

BUCKINGHAM — Disse, e seu contrato com a senhora de Lucy, e seu outro contrato em França, por embaixador, a voracidade insaciável de seu desejo, e suas violências sobre as mulheres da cidade, sua tirania por coisas sem valia, ele próprio ser bastardo, pois concebido foi estando vosso pai em França, e ainda seu semblante não semelhar ao Duque. Entretanto, mencionei vossas feições, que de vosso pai são fiel retrato, não só na aparência como na nobreza do espírito, apresentei todas vossas vitórias na Escócia, Vossa disciplina na guerra, vossa ciência na paz, Vossa generosidade, virtude e não manchada humildade. De fato, nada omiti que pudesse favorecer Vosso intento, de tudo falei e a tudo aludi em meu discurso. E quando minha eloqüência chegou ao termo mandei os que amavam o bem de seu país bradar: “Viva Ricardo, Rei de Inglaterra!”

RICARDO (Duque de Gloucester) — E eles bradaram?

BUCKINGHAM — Não, assim Deus me ajude, não disseram palavra alguma, mas como estátuas mudas ou pedras que respiram olharam-se uns aos outros e pálidos de morte se tornaram. Pelo que eu, nisto vendo, lhes fiz grande reprimenda. E perguntei ao Alcaide o sentido de tão obstinado silêncio. Sua resposta foi que o povo não era costumado a que, afora o arauto, alguém para ele falasse. Pedi-lhe então que repetisse o meu discurso: “isto diz o Duque; o Duque isto afirmou”... E nada disse de sua vontade. Quando chegou ao termo, alguns dos meus sequazes, no extremo da sala, arremessaram seus chapéus e algumas dez vozes bradaram “Viva El-Rei Ricardo!” Tirei então proveito destes poucos: “graças amigos e gentis cidadãos”, disse eu, “este geral aplauso e estes alegres brados vossa ciência manifestam e vossa afeição por Ricardo.” E neste ponto parei e fui-me dali.

RICARDO (Duque de Gloucester) — Que, cepos mudos eram eles? Não hão querido falar! O Alcaide e sua confraria não querem vir aqui?

BUCKINGHAM — O Alcaide é aqui por perto. Fingi temor. Não deixeis que vos fale senão depois de forte instância. E não vos esqueça ter na mão um livro de orações, e permanecer entre dois padres, meu bom senhor, que sobre tal farei eu santo sermão. E não vos deixeis facilmente vencer por nossos rogos, fazei de donzela: muito embora digais não, concedei.

RICARDO (Duque de Gloucester) — Eu me vou, e se em nome deles intercederdes tão bem como eu por minha parte te saberei dizer não, sem dúvida levaremos este caso a seu bom termo.

BUCKINGHAM — Ide, ide para a galeria, o Alcaide bate à porta. (Sai Ricardo) (Entram o Alcaide e cidadãos) Sede bem-vindo, meu senhor. Aqui me encontro à espera. Cuido que o Duque não quer receber ninguém. (Entra Catesby em cima.) Então, Catesby, que diz vosso senhor a meu pedido?

CATESBY — Ele pede a Vossa Graça, meu nobre senhor, que amanhã o procure, ou no dia seguinte. Ele está aí dentro em companhia de dois reverendos padres, divinamente entregue à meditação, e súplica mundana nunca o levaria a afastar-se daquele santo exercício.

BUCKINGHAM — Volta, bom Catesby, junto do gracioso Duque: diz-lhe que eu próprio, o Alcaide e os homens-bons, acerca de assuntos graves, de casos de maior urgência, tão importantes como o bem de todos nós, aqui viemos para ter conversação com Sua Graça.

CATESBY — Isso mesmo lhe direi de imediato. (Sai)

BUCKINGHAM — Ah! Ah!, senhor meu, este príncipe não é um Eduardo, não se reclina em morno leito de amor, mas, posto de joelhos, medita, não se apraz com uma parelha de cortesãs, mas medita em companhia de dois venerandos padres, não dorme, para engordar seu corpo ocioso, mas reza, para enriquecer sua alma atenta. Feliz seria a Inglaterra se tão virtuoso Príncipe aceitasse sobre si a sua soberania. Mas temo que a tanto não o saibamos mover.

ALCAIDE — Céus, Deus não permita que Sua Graça nos diga “não”!

BUCKINGHAM — Temo que sim. (Entra Catesby.) Ali vem de novo Catesby. Então, Catesby, que diz Sua Graça?

CATESBY — Pergunta com que fim haveis chamado tais hordas de cidadãos que a ele se dirigem, do caso tudo ignorando Sua Graça. Teme, senhor, que vossos intentos não lhe sejam de feição.

BUCKINGHAM — Lamento que meu nobre primo possa suspeitar de que não lhe sejam de feição os meus intentos. Pelos céus, dele nos acercamos em perfeito amor. E assim, ide de novo e contai a Sua Graça. (Sai Catesby) Quando homens crentes, devotos e santos estão em suas preces, delas é difícil arrancá-los, tão doce é a fervorosa contemplação.

(Entra Ricardo, no alto, entre dois bispos com Catesby.)

ALCAIDE — Vede onde se tem Sua Graça, entre dois clérigos!

BUCKINGHAM — Duas escoras de virtude para um Príncipe cristão, que o impedem da queda na vaidade, e vede, um livro de orações entre as mãos... Veros ornamentos com que se conhece um homem santo. Afamado Pantageneta, mui gracioso Príncipe, presta ao que te pedimos ouvidos favoráveis e perdoa-nos esta suspensão de tua devoção e de teu mui cristão fervor.

RICARDO (Duque de Gloucester) — Meu senhor, escusado é tal pedido de desculpa. Perdão imploro a Vossa Graça, se, no ardor com que servia ao meu Deus, retardei a visita de meus amigos. Mas, deixemos isso, que apraz a Vossa Graça?

BUCKINGHAM — O mesmo que, espero, apraz a Deus lá no alto, e a todos os homens bons desta ilha sem governo.

RICARDO (Duque de Gloucester) — Suspeito ter cometido uma ofensa, que parece desagradar aos olhos da cidade. E que aqui vindes repreender meu erro.

BUCKINGHAM — Assim é, meu senhor: e provera a Vossa Graça emendar com os nossos pedidos vosso erro.

RICARDO (Duque de Gloucester) — Sem tal fazer, como poderia viver em terra cristã?

BUCKINGHAM — Sabei então, erro vosso é recusar o lugar supremo, o majestoso trono, o ofício coroado de vossos maiores, o estado que deveis a vossa fortuna e a vosso nascimento, à glória hereditária de vossa Casa Real, em favor da corrupção de um ramo maculado, enquanto na doçura de vossos sonolentos pensamentos, donde vos acordamos para o bem de nossa terra, a nobre ilha reclama seus veros membros com a face esfacelada por cicatrizes de infâmia, com o tronco real enxertado de ignóbeis plantas, e quase perdendo o pé no abismo devorador do negro esquecimento e do profundo nada. Para tanto prevenir, do coração rogamos a vossa graciosa pessoa que tomeis vós o cárrego e o régio regimento desta terra vossa, não como Protetor, intendente ou substituto, ou baixo servidor para proveito de outrem, mas por direito de linhagem de sangue para sangue, vosso direito de nascimento, vosso império, vossos bens. É para tanto que, consertado com os cidadãos, vossos mui devotos e leais amigos, e por sua veemente instigação, venho nesta justa causa demover Vossa Graça.

RICARDO (Duque de Gloucester) — Não sei dizer o que melhor responde a meu estado ou a vossa condição. Se em silêncio apartar-me, ou se amargamente contra vós falar, se resposta não vos der, porventura poderíeis cuidar que minha ambição, a língua me prendendo, sem resposta dar, acedera a carregar o dourado jugo da soberania que vós amavelmente sobre mim aqui quereis impor. Se vos reprovar por esta vossa petição, assim condimentada pelo amor que por mim tendes, então, por outro lado, reprovava meus amigos. Portanto, para falar, e evitar o primeiro caso, e, ao falar, no segundo não cair, eu deste modo vos dou minha resposta final: merece vosso amor a minha gratidão, mas meu desmerecimento recusa, por imerecida, vossa subida instância. Primeiro, se todos os embargos estivessem removidos, e fora plano o meu caminho para o trono, por devida herança e por linhagem, ainda assim, é tal a pobreza de meu espírito, tantos e tamanhos são os meus defeitos, que antes quisera esconder-me de minha grandeza, eu frágil barca para cometer alteroso mar, que desejar em minha grandeza ser escondido e no vapor da minha glória sufocado. Mas, Deus seja louvado, de mim não careceis e eu de muito careço para ajuda vos dar, se dela carecerdes. A árvore régia nos deixou um régio fruto, o qual, sazonado pelas horas do tempo veloz, bem se ajustará ao majestoso assento, e, decerto, nos tornará felizes com o seu reinado. Sobre ele deponho o que vós sobre mim depor quisestes: o direito e a fortuna de sua estrela feliz, e Deus não permita que eu lhos furte.

BUCKINGHAM — Meu senhor, isto prova consciência em Vossa Graça. Mas os motivos são ligeiros e banais, bem consideradas as circunstâncias todas. Dizeis que Eduardo é filho de vosso irmão. Também nós o dizemos. Mas não da mulher de Eduardo, porque primeiro foi comprometido com a senhora de Lucy. Vossa mãe é viva testemunha desse voto e por procuração casou depois com Bona, irmã do rei de França. Repudiadas ambas, uma pobre mulher, que petições fazia, mãe cuidadosa de muitos filhos, viúva triste e de beleza gasta, no entardecer já de seus melhores dias, conquistou e comprou seu libertino olhar, seduziu as alturas de seu estado até à decadência vil e infame bigamia. Dela, nesse leito ilegal, teve ele este Eduardo, a quem por cortesia damos o nome de Príncipe. Mais amargamente podia eu protestar, não fora impor discreto limite a minha língua por respeito a pessoas ainda em vida. Meu bom senhor, tomai pois sobre vossa real pessoa este benefício da dignidade que vos ofertamos. Se não for para nos tornar felizes, e conosco o país todo, será para arrancar vossa nobre linhagem da corrupção de tempos aviltantes para um curso reto e verdadeiro.

ALCAIDE — Aceitai, meu bom senhor. Vossos cidadãos assim vos rogam.

BUCKINGHAM — Não recuseis, poderoso senhor, o amor que assim vos ofertamos.

CATESBY — Oh, fazei-os felizes, acedei a seu legítimo pedido.

RICARDO (Duque de Gloucester) — Ai de mim, porque me pondes tamanho peso em cima? Não sou feito para o trono e a majestade. Peço-vos, não mo tomeis a mal. Não posso, nem irei, a vós ceder.

BUCKINGHAM — Se recusardes, pois por amor e devoção Sois contrário a depor o infante, filho de vosso irmão. Como bem conhecemos a brandura de vosso coração, e a disposição gentil, amável e feminil que bem notamos com respeito a vossos parentes e que é de fato igual à que usais para todos os estados, sabei contudo que, quer aceiteis ou não a nossa petição, o filho de vosso irmão nunca será nosso Rei, antes um outro assentaremos no trono para desgraça e queda de vossa Casa e com esta decisão nós vos deixamos. Vinde, cidadãos. Por Deus, não peço mais!

RICARDO III (Duque de Gloucester) — Oh, não praguejeis, meu senhor de Buckingham!

(Saem Buckingham, Alcaide e cidadãos)

CATESBY — Chamai-os de novo, doce Príncipe. Aceitai seu pedido. Se o recusardes, todo o país lamentará.

RICARDO (Duque de Gloucester) — Quereis forçar-me a um mundo de tormentos? Chamai-os de novo. Não sou feito de pedra, e me moverei a vossas amáveis diligências, posto que contra minha consciência e minha alma seja. (Entram Buckingham e o resto) Primo de Buckingham, e vós homens sábios e graves. Pois quereis afivelar-me a fortuna sobre o dorso para que lhe suporte o fardo queira eu ou não, devo ser paciente e suportar o peso. Mas se por acaso negro escândalo ou imunda censura chegar no seguimento de vossa imposição, vossa coação por si só me libertará de qualquer sinal e mancha impura, porque Deus sabe, e vós talvez vereis em parte, quão longe estou de tal coisa desejar.

ALCAIDE — Deus abençoe Vossa Graça. Assim o vemos e assim o diremos.

RICARDO (Duque de Gloucester) — Em o dizendo, direis só a verdade.

BUCKINGHAM — Eu vos saúdo então com este real apelido: viva Ricardo, digno Rei de Inglaterra!

TODOS — Amem.

BUCKINGHAM — Apraz-vos, senhor, amanhã ser coroado?

RICARDO (Duque de Gloucester) — Quando a vós aprouver, já que assim o quereis.

BUCKINGHAM — Esperaremos amanhã por Vossa Graça. E mui alegremente vos dizemos adeus.

RICARDO (Duque de Gloucester) — Vamos, tomemos a nosso santo trabalho. Adeus, meu primo, adeus, gentis amigos.

(Saem)

ATO IV
Cena I

(Entram a Rainha Isabel, a Duquesa de York, o Marquês de Dorset, por uma porta; Ana, Duquesa de Gloucester, por outra com a filha de Clarence.)

DUQUESA DE YORK — Quem vem ao nosso encontro? Minha sobrinha Plantageneta trazida por mão de sua amável tia de Gloucester. Por minha fé, vai em direção da Torre, em missão de puro amor, saudar o tenro Príncipe. Filha, bom encontro é este.

ANA — Conceda Deus a Vossas Graças tempo contente e ledo neste dia.

ISABEL — Tanto como a ti, boa irmã. Onde ides?

ANA — Não mais longe do que a Torre, e, cuido eu, com o mesmo intento que a vós vos leva, lá saudar os gentis príncipes.

ISABEL — Boa irmã, eu vos agradeço. Em companhia entraremos. (Entra Brackenbury.) E em boa hora aqui vem o Tenente. Senhor Tenente, se mo permitis, peço me digais: como vai o Príncipe e o meu jovem filho York?

BRACKENBURY — Muito bem, senhora querida. Pacientai, não posso permitir vossa visita, o Rei com rigor ordenou o contrário.

ISABEL — O Rei? Quem é?

BRACKENBURY — Falo do senhor Protetor.

ISABEL — Que o Senhor o defenda desse título real! Ele impôs fronteiras entre mim e o amor que eles a mim têm. Sou sua mãe. Quem poderá deles apartar-me?

DUQUESA DE YORK — Sou a mãe de seu pai. Quero vê-los.

ANA — Por lei sou sua tia, sua mãe por amor leva-me a vê-los. Eu suportarei a tua culpa, e te libertarei do encargo, o risco será meu.

BRACKENBURY — Senhora, não, tal não posso permitir. Fiz juramento, e por tal me perdoeis.

(Entra Stanley, Conde de Derby)

STANLEY — Passe uma hora só, senhoras, e se vos encontrar saudarei Vossa Graça de York como mãe e veneranda testemunha de duas formosas rainhas. (Para Ana) Vinde, senhora, deveis ir sem detença a Westminster, onde sereis coroada real Rainha de Ricardo.

ISABEL — Ah, cortai-me o corpete para que meu dolorido coração ganhe espaço para bater, ou senão eu desfaleço a estas novas mortais.

ANA — Cruel mensagem! Oh, enojadas novas!

DORSET — Alento, minha mãe. Como passa Vossa Graça?

ISABEL — Ó Dorset, comigo não faleis, fuge. A morte e destruição ladram-te às canelas. O nome da tua mãe é funesto para os filhos. Se queres vencer a morte, vai, cruza os mares e vai viver com Richmond, longe do alcance do inferno. Vai, esconde-te, esconde-te longe deste matadouro ou tornarás maior o número dos mortos e me farás morrer como escrava da maldição de Margarida: nem mãe, nem esposa, nem rainha reconhecida de Inglaterra.

STANLEY — É vosso conselho, senhora, prenhe de sábia inquietude. (Para Dorset) Tirai prestes a vantagem destas horas. Levareis cartas minhas, a meu filho em vosso favor, para que vá ao vosso encontro no caminho. Não vos tardeis com demoras fora de razão.

DUQUESA DE YORK — Ó vento de miséria que o mal desparze! Ó maldito ventre meu, leito de morte! Deste ao mundo uma serpente cujo olhar, a que ninguém pode fugir, é assassino.

STANLEY — Vinde, senhora, vinde. Fui mandado a toda a pressa.

ANA — E eu irei com toda a minha malquerença. Oh provera a Deus que o círculo de ouro que deve cingir minha fronte fora incendido em brasa para me queimar até o cérebro. Ungida eu seja com mortal veneno, e morra antes que alguém possa dizer: viva a Rainha.

ISABEL — Vai, vai, pobre de ti, coitada! Inveja não tenho à tua glória. Para nutrires meu humor, não te desejes mal.

ANA — Não? Porquê? Quando aquele que ora é meu esposo veio ao meu encontro, acompanhava eu o corpo de Henrique, quando ele de suas mãos mal lavara ainda o sangue derramado por meu outro anjo e marido meu, e desse santo querido que eu em pranto acompanhava, Oh, quando, vos digo, olhei o rosto de Ricardo, foi este meu desejo: “Maldito sejas”, disse eu, “por me tornares, tão nova, em viúva tão velha, e quando te casares que a dor te assombre o leito. E que tua mulher — se alguma por loucura o for — seja mais mísera por tua vida do que tu me fizeste pela morte de meu querido senhor”. Coitada de mim, antes que possa aqui repetir a mesma maldição, em tempo tão pouco, meu coração de mulher deixou-se rudemente cativar por suas palavras de mel, e mudei-me em objeto da maldição de minha própria alma, o que, desde então, todo o repouso retirou aos olhos meus, pois em seu leito uma hora sequer jamais gozei do sono o dourado orvalho, sempre acordava com seus temerosos sonhos. E mais, ele tem-me ódio por meu pai Yarwick, e breve, não duvido, se livrará de mim.

ISABEL — Pobre coração, adieu. Lamento teus queixumes.

ANA — Não mais que em minha alma lamento eu os vossos.

DORSET — Adeus, ó tu que dolorosamente a glória agasalhas.

ANA — Adieu, pobre alma que dela te despedes.

DUQUESA DE YORK — (Para Dorset) Vai para junto de Richmond, e que te guie a boa sorte. (Para Ana) Vai para junto de Ricardo e que te guardem anjos bons. (Para Isabel) Vai para o santuário, e que te ocupem pensamentos bons. Eu vou para a minha sepultura, onde a paz e a quietude comigo morarão. Oitenta anos de amargura já eu vi, e cada hora de alegria despedaçada por uma semana de dor.

ISABEL — Ficai, olhai ainda comigo a Torre. Vós, pedras antigas, tende piedade desses tenros infantes que a inveja encarcerou dentro de vossos muros, rude berço para tão lindos meninos, ama rude e esfarrapada, velha e severa companhia para tenros príncipes, dai bom tratamento a meus filhos. E assim a louca dor diz adeus a vossas pedras.

Saem

Cena II

(As trombetas anunciam um conselho. Entra Ricardo em grande pompa, coroado; Buckingham, Catesby Ratcliffe, Lovell com outros nobres e um pajem)

RICARDO III (Rei) — Afastai-vos todos. Primo de Buckingham!

BUCKINGHAM — Meu gracioso soberano!

RICARDO III (Rei) — Dá-me a tua mão. (Sobe ao trono. Soam trombetas) Aqui tão alto, por conselho teu e teu auxílio, se assenta o Rei Ricardo. Mas vestiremos estas glórias por um dia ou serão duradouras e nelas prazer teremos?

BUCKINGHAM — Agora vivas estão, e oxalá para sempre durem!

RICARDO III (Rei) — Ah, Buckingham, eu faço agora de pedra de toque para provar se és de verdade ouro de lei. Está vivo o jovem Eduardo, imagina agora o que eu dizer queria.

BUCKINGHAM — Continuai, meu estimado senhor.

RICARDO III (Rei) — Ora, Buckingham, digo que queria ser Rei.

BUCKINGHAM — Ora, mas vós sois, meu senhor três vezes afamado.

RICARDO III (Rei) — Hã, Rei sou? Pois sim, mas está vivo Eduardo.

BUCKINGHAM — Em verdade, nobre Príncipe.

RICARDO III (Rei) — Oh seguimento amargo! Que ainda viva Eduardo em verdade, nobre Príncipe! Primo, não costumavas ter pouco entendimento. Queres que seja claro? Quero os bastardos mortos. E quero isto feito já, depressa. Que dizes agora? Fala prestes, sê breve.

BUCKINGHAM — Vossa Graça pode fazer o que lhe aprouver.

RICARDO III (Rei) — Tss, tss, és gelo, todo. Tua amizade arrefece. Diz, tenho teu consentimento para a sua morte?

BUCKINGHAM — Dai-me um tempo para respirar, uma pausa, querido senhor, antes de sobre isto meu juízo manifestar. Em breve aqui vos darei minha resposta. (Sai)

CATESBY — O Rei está irado. Vede, o lábio mordendo está.

RICARDO III (Rei) (À parte) — Eu conversarei com parvos de duro entendimento e moços sem consciência. Por mim não são os que me olham com olhos prudentes. O ilustre Buckingham torna-se cauteloso. Moço!

PAJEM — Senhor?

RICARDO III (Rei) — Conheces alguém que o ouro corruptor possa tentar a sigiloso feito de morte?

PAJEM — Conheço um fidalgo sem contentamento cujas humildes posses não se concertam com seu espírito altivo. O ouro valeria para ele vinte oradores, e por certo o tentará seja ao que for.

RICARDO III (Rei) — Qual é o seu nome?

PAJEM — O seu nome, senhor meu, é Tyrrel.

RICARDO III (Rei) — Conheço um pouco o homem. Vai chamá-lo aqui. (Sai o pajem) (À parte) O ponderado, engenhoso Buckingham não mais será vizinho para meus conselhos. Tanto comigo andou sem se cansar e para agora para respirar! Bom, assim seja! (Entra Stanley, Conde de Derby) Então, senhor de Stanley, que novas há?

STANLEY — Sabei, meu amável senhor, que o Marquês de Dorset, segundo ouvi, fugiu ao encontro de Richmond para as partes em que ele mora.

RICARDO III (Rei) — Vem cá, Catesby. Lança o rumor de que Ana, minha mulher, está com gravidade enferma. Ordenarei que ela seja mantida cativa. Descobre por aí um qualquer pobre e mísero fidalgo que eu possa já casar com a filha de Clarence... O mancebo parvo é e dele não me receio. Olha, tu estás sonhando? Outra vez te digo, espalha por aí que Ana, a minha Rainha, enferma é e quase morta. Vai, que me é forçoso cortar todas as esperanças cujo crescimento me possa mal fazer. (Sai Catesby) E mister que case com a filha de meu irmão, ou então tem meu reinado fundações de vidro. Assassinar-lhe seus irmãos, e desposá-la depois... Modo incerto de ganhar! Mas estou de tal guisa imerso em sangue que pecado causará novo pecado. A chorosa piedade não tem morada nestes olhos. (Entra Tyrrel.) O teu nome é Tyrrel?

TYRREL — Jaime Tyrrel, e o vosso mais obediente servidor.

RICARDO III (Rei) — Deveras?

TYRREL — Provai-me, meu gracioso senhor.

RICARDO III (Rei) — Ousarias matar um amigo meu?

TYRREL — Se tal vos aprouver. Mas antes queria matar dois inimigos.

RICARDO III (Rei) — Aí os tens então, dois grandes inimigos, do meu repouso adversários e turvadores do meu doce sono. É deles que eu quereria que te ocupasses tu Tyrrel, falo dos bastardos na Torre.

TYRREL — Dai-me maneira de chegar a eles, e cedo vos livrarei do temor que tendes deles.

RICARDO III (Rei) — Cantas música suave. Ouve, vem cá, Tyrrel, toma este testemunho. Levanta-te e escuta bem. (Segreda-lhe ao ouvido) Mais não é que isto. Diz que feito está e eu te estimarei e por tal meu favorito serás. (Sai)

TYRREL — Vou sem tardança concluir o caso.

(Entra Buckingham.)

BUCKINGHAM — Senhor meu, em meu pensamento ponderei a última questão sobre a qual me haveis sondado.

RICARDO III (Rei) — Ora, deixai isso em paz. Dorset fugiu até junto de Richmond.

BUCKINGHAM — Ouvi a nova, meu senhor.

RICARDO III (Rei) — Stanley, ele é o filho de vossa mulher. Bem, cuidai nisso.

BUCKINGHAM — Senhor meu, reclamo o prêmio, que por promessa me é devido. E pelo qual haveis penhorado vossa honra e vossa fé: o condado de Hereford e todos os pertences que haveis prometido eu iria possuir.

RICARDO III (Rei) — Stanley, vigiai vossa mulher. Se ela enviar cartas a Richmond, vós respondereis por isso.

BUCKINGHAM — Que diz Vossa Alteza a meu justo pedido?

RICARDO III (Rei) — Eu bem me lembro que Henrique VI profetizou que Richmond seria rei, quando Richmond era uma criança impertinente. Um rei!... talvez... talvez...

BUCKINGHAM — Senhor meu!

RICARDO III (Rei) — Como foi que não pode o profeta àquele tempo dizer-me, a mim que estava lá, que eu o mataria?

BUCKINGHAM — Senhor meu, vossa promessa do condado...

RICARDO III (Rei) — Richmond! Quando pela derradeira vez estive em Exeter, o Alcaide por cortesia me mostrou o castelo, e chamou-lhe Rougemont, e a esse nome tremi porque um bardo da Irlanda me disse uma vez que eu não viveria largo tempo depois de haver visto Richmond.

BUCKINGHAM — Senhor meu...

RICARDO III (Rei) — Sim... Que hora é?

BUCKINGHAM — Ouso lembrar a Vossa Graça a promessa que me fez.

RICARDO III (Rei) — Bem, mas que hora é?

BUCKINGHAM — Bateram as dez.

RICARDO III (Rei) — Bom, deixa bater.

BUCKINGHAM — Por que deixar bater?

RICARDO III (Rei) — Porque, como mecanismo de relógio, bate compasso entre teu pedido e minha meditação. Não estou hoje em humor de dar.

BUCKINGHAM — Será que vos apraz dar resposta a meu pedido?

RICARDO III (Rei) — Aborreces-me, não estou eu nesse humor. (Sai seguido por todos, exceto Buckingham)

BUCKINGHAM — Isso é assim? Paga ele meu subido serviço com tamanho desdém? Foi para tal que o fiz Rei? Oh, deixai-me pensar em Hastings e partirei para Brecknock enquanto ainda está sobre os ombros a minha cabeça ameaçada. (Sai)

Cena III

(Entra Tyrrel.)

TYRREL — Cumprido está o tirânico e sangrento ato, o feito mais ingente de lamentável massacre de que alguma vez esta terra foi culpada. Dighton e Forrest, que eu subornei para cometer esta obra de ímpia carnificina, sendo embora carnívoros vilãos, sanguinosos mastins, movidos de ternura e suave compaixão, como crianças choraram contando a triste história de suas mortes. “Oh”, disse Dighton, “assim repousavam os gentis meninos.” “Assim, assim”, disse Forrest, “um no outro enlaçados em seus inocentes braços de alabastro. Seus lábios eram quatro rosas vermelhas no mesmo ramo, e no verão da sua beldade se beijavam um ao outro. Um livro de orações sobre a almofada estava, que por instantes”, disse Forrest, “quase mudou meu querer. Mas oh, o Demo.” Aqui o ruim vilão parou, quando Dighton ainda disse: “Sufocamos a obra mais doce e mais perfeita que a natureza desde a primeira criação alguma vez formou!” Foram-se os dois com consciência e com remorso de tal guisa que nem falar podiam, e por isso eu os deixei para trazer a nova ao sanguinoso Rei. (Entra o Rei Ricardo.) E ei-lo que ali vem. Saúde, meu soberano senhor.

RICARDO III (Rei) — Amável Tyrrel, acharei felicidade em tuas novas?

TYRREL — Se ter cumprido aquilo cujo cargo me haveis dado vos traz felicidade, sede então feliz, porque feito está.

RICARDO III (Rei) — Mas viste-los mortos?

TYRREL — Vi, meu senhor.

RICARDO III (Rei) — E enterrados, gentil Tyrrel?

TYRREL — O capelão da Torre os enterrou, mas onde, para dizer a verdade, eu o não sei.

RICARDO III (Rei) — Vai junto de mim, Tyrrel, logo depois da ceia. E então me contarás a sua morte com minúcia. Em tanto, pensa como te poderei bem fazer e sejas tu o herdeiro de teu próprio desejo. Adeus, até então.

TYRREL — Humildemente me despeço. (Sai)

RICARDO III (Rei) — O filho de Clarence em forte prisão o pus, a filha a mesquinho casamento a destinei, os filhos de Eduardo dormem no seio de Abraão, e Ana, minha mulher, disse ao mundo boa noite. Agora, pois sei que o bretão Richmond pretende a jovem Isabel, filha de meu irmão, e por esse laço olha com orgulho para a coroa, junto dela vou para com sucesso e alegria a cortejar.

(Entra Ratcliffe.)

RATCLIFFE — Meu senhor!

RICARDO III (Rei) — Boas ou más novas, que assim vens tão pressuroso?

RATCLIFFE — Más novas, meu senhor. Morton tomou fuga para junto de Richmond, e Buckingham, sustentado pelos audazes galeses, está em guerra, e seu poder aumenta.

RICARDO III (Rei) — Ely com Richmond me trazem mais inquietude do que Buckingham e suas tropas pressurosamente recrutadas. Vem, aprendi que a medrosa discussão é plúmbea serva da escura tardança. A tardança comanda a miséria impotente e vagarosa como o caracol. Seja então a fogosa prontidão a minha asa, Mercúrio de Júpiter, arauto de um rei. Vai, chama forças. Meu escudo é meu conselho. Devemos ser breves, quando traidores desafiam à batalha.

(Saem)

Cena IV

(Entra a velha Rainha Margarida.)

MARGARIDA — Eis que a prosperidade começa a ser madura e a escorrer para dentro da boca podre da morte. Aqui destes confins com astúcia espiei para ver a decadência de meus inimigos. Testemunha sou de um prólogo terrível, e vou para França, esperando que o seguimento provará ser tão amargo, negro e trágico. (Entram a Duquesa de York e a Rainha Isabel.) Afasta-te, desgraçada Margarida, quem vem lá?

ISABEL — Ah, meus pobres príncipes! Ah, meu tenros meninos, minhas flores por desabrochar, botões que mal abriram! Se vossas almas gentis ainda voam pelos ares, e não estão presas em perpétua condenação, pairai em meu redor com vossas aéreas asas e escutai os lamentos de vossa mãe.

MARGARIDA — (À parte) Pairai em seu redor. Dizei-lhe que a justiça por justiça ensombreceu vossa manhã infante em noite idosa.

DUQUESA DE YORK — Tantas foram as desgraças que me quebraram a voz, que minha língua desgastada de dor está muda e queda. Eduardo Plantageneta, por que razão és morto?

MARGARIDA (À parte) — Plantageneta mata Plantageneta. Eduardo, por Eduardo, paga dívida de morte.

ISABEL — Pudeste, ó Deus, apartar-te de tais gentis cordeiros e arremessá-los para as entranhas do lobo? Estavas dormindo quando tal feito se fez?

MARGARIDA (À parte) — E quando morreu o santo Rei Henrique, e o meu doce filho?

DUQUESA DE YORK — Vida morta, vista cega, pobre fantasma vivo de um mortal, cena de dor, vergonha do mundo, propriedade do túmulo pela vida usurpada, breve sumário e registro de dias tediosos. (Sentando-se) Sossega teu desassossego no legítimo chão de Inglaterra, ilegitimamente embriagado com sangue inocente.

ISABEL — Ah, se me pudesses ofertar um túmulo tão prestes como me podes conceder um melancólico assento, aí eu esconderia então meus ossos, não os sossegaria aqui. (Sentando-se) Ah, quem afora nós tem causa de lamentos?

MARGARIDA — Se a dor antiga for mais veneranda dai à minha o benefício da avançada idade, e deixai que meus males sombrios fiquem em lugar cimeiro. Se a dor aceita companhia, contais vossos males de novo ao ver os meus. Eu tinha um Eduardo, até que um Ricardo o matou. Eu tinha um marido, até que um Ricardo o matou. Tu tinhas um Eduardo, até que um Ricardo o matou. Tu tinhas um Ricardo, até que um Ricardo o matou.

DUQUESA DE YORK — Eu também tinha um Ricardo, e tu mataste-o. Eu também tinha um Rutland, tu ajudaste a matá-lo.

MARGARIDA — Tu também tinhas um Clarence, e Ricardo o matou. Do canil do teu ventre saiu rastejando um mastim do inferno que nos persegue até à morte. Esse cão, ele teve dentes antes de ter olhos, para assustar cordeiros e lamber seu gentil sangue. Esse grande e supremo tirano mais que todos da terra reina em mortificados olhos de plangentes almas. Esse imundo destruidor da obra de Deus, teu ventre o soltou para nos perseguir até nossas sepulturas. Ó Deus reto, justo e vero em suas sentenças! Como te agradeço que este rafeiro sangrento devore o que saído foi do corpo de sua mãe e que de outros na dor a faça companheira.

DUQUESA DE YORK — Ó, mulher de Henrique, não triunfes tu com minhas mágoas. Deus é testemunha que eu hei chorado pelas tuas.

MARGARIDA — Pacientai, tenho fome de vingança, e agora me sacio ao contemplá-la. Teu Eduardo, esse está morto, ele matou o meu Eduardo, teu outro Eduardo, morto, em paga de meu Eduardo. O jovem York, esse não é mais que demasia, porque os dois juntos não atingem a subida perfeição de minha perda. Teu Clarence, esse está morto, ele que apunhalou meu Eduardo, e as testemunhas deste impiedoso ato, o adúltero Hastings, Rivers, Vaughan, Grey, antes do tempo abafados em seus túmulos sombrios. Ricardo ainda vive, dos infernos negro agente. A ele só o guardam como feitor para comprar almas e as mandar para lá. Mas cerca, cerca está seu deplorável, não deplorado fim. Abre-se a terra, arde o inferno, rugem os demônios, oram os santos, para que daqui súbito o arranquem. Rompe, querido Deus, assim te peço, seu pacto com a vida, para que eu possa viver e dizer: “O cão é morto.”

ISABEL — Oh, tu hás profetizado que tempo viria em que eu desejasse que ajuda me desses na maldição dessa aranha inchada, desse sapo marreco.

MARGARIDA — Dei-te nome, então, de ornamento vão de minha vida, dei-te nome, então, de pobre sombra, rainha de fantasia, tão-só imagem do que eu fui, lisonjeiro sinal de horrífico espetáculo, tão alto posta, para tão baixo ser lançada, mãe burlesca de dois tenros meninos, sonho do que foste, garrido estandarte para alvo de cada perigoso tiro, sinal de dignidade, sopro, bolha, rainha de comédia, só para encher a cena. Onde está agora teu marido? Onde estarão teus irmãos? Onde estão os teus dois filhos? Em que encontras tu deleite? Quem suplica e se põe de joelhos e diz “Viva a Rainha!”? Onde estarão os pares que se curvavam para te lisonjear? Onde estarão as multidões que te seguiam? Lembra tudo isto, e vê o que ora és: em vez de esposa feliz, mui mísera viúva, em vez de mãe ditosa, mãe que desse nome se lamenta; em vez daquela a quem todos suplicavam, uma que humildemente suplica; em vez de Rainha, vera cativa de cuidados coroada; em vez daquela que de mim escarneceu, uma que por mim agora é escarnecida; em vez daquela voz que todos temiam, uma que vive agora em temor; em vez daquela que todos comandava, uma de ninguém obedecida. Assim rodou o curso da justiça e uma presa do tempo apenas de ti fez, nada mais tendo do que pensamento do que foste para mais te torturar, sendo o que és. Meu lugar usurpaste, e não usurpas tu a justa proporção de minha mágoa? Agora teus ombros orgulhosos carregam a metade do meu pesado jugo, da qual eu aqui mesmo liberto minha lassa cabeça e sobre ti deixo todo o peso de meu fardo. Adeus, mulher de York, Rainha de má fortuna. Estas mágoas inglesas far-me-ão sorrir em França.

ISABEL — Ó tu, que tão sábia és em maldições, atende um pouco e ensina-me a maldizer meus inimigos.

MARGARIDA — Não consintas teu dormir de noite e faz jejum de dia, compara a felicidade morta com a mágoa viva, pensa que mais doces eram teus meninos do que de verdade eram, e aquele que os matou mais imundo do que é. Tua perda engrandecer é agravar o causador. Pensando nisto aprenderás a maldizer.

ISABEL — São rombas minhas palavras. Oh, aguça-as com as tuas.

MARGARIDA — Tuas mágoas as farão aguçadas como as minhas. (Sai)

DUQUESA DE YORK — Porque será a calamidade tão prenhe de palavras?

ISABEL — Advogadas de vento para as mágoas de seus clientes, diáfanas herdeiras de intestadas alegrias, pobres oradores de sopro para misérias! Deixai-lhes liberdade. Posto que o que elas ofereçam não sirva a mais nada, elas aliviam o coração.

DUQUESA DE YORK — Se assim é, não prendas tua língua. Comigo vem e sufoquemos no sopro de amargas palavras meu filho maldito, que teus dois gentis meninos sufocou. Soa a trombeta. Não poupes teus brados. (Entram o Rei Ricardo e seu séquito incluindo Catesby marchando ao som de tambores e trombetas.)

RICARDO III (Rei) — Quem me impede em minha expedição?

DUQUESA DE YORK — Oh, aquela que te poderia ter impedido, estrangulando-te em seu amaldiçoado ventre, todos os assassínios, miserável, que tu hás cometido.

ISABEL — Com uma coroa de ouro escondes essa fronte, que devia estar marcada, se justiça houvera, pelo assassínio do Príncipe a quem essa coroa pertencia e pela mísera morte de meus pobres filhos e irmãos? Diz-me tu, ruim vilão, onde estão meus filhos?

DUQUESA DE YORK — Tu, sapo, tu, sapo, onde está teu irmão Clarence, e o pequeno Ned Plantageneta, seu filho?

ISABEL — Onde está o gentil Vaughan, Grey?

DUQUESA DE YORK — Onde está o amável Hastings?

RICARDO III (Rei) — Soai trombetas. Tocai alarme, tambores! Não deixeis que os céus escutem estas comadres acusar o ungido do Senhor. Tocai, vos digo! (Som de trombetas. Alarmes) Pacientai, falai-me com brandura, se não, com clamorosos e belicosos rumores abafarei eu vossos brados.

DUQUESA DE YORK — És tu, meu filho?

RICARDO III (Rei) — Sim, pela graça de Deus, de meu pai e de vós mesma.

DUQUESA DE YORK — Então com paciência dá ouvidos a minha impaciência.

RICARDO III (Rei) — Senhora, herdei de vós esta feição de não poder sofrer o som da censura.

DUQUESA DE YORK — Oh, deixa-me falar.

RICARDO III (Rei) — Falai, mas não vos ouvirei.

DUQUESA DE YORK — Serei suave e gentil em meu falar.

RICARDO III (Rei) — E breve, boa mãe, que tenho pressa.

DUQUESA DE YORK — Estás assim tão apressado? Por ti esperei, Deus sabe, em tormenta e agonia.

RICARDO III (Rei) — E não cheguei por fim para vos dar conforto?

DUQUESA DE YORK — Não, pela Cruz Santíssima, tu mui bem sabes, vieste à terra para da terra fazeres o meu inferno. Grave fardo foi teu parto para mim; tua primeira idade, turbulenta e caprichosa; teus dias de escola, assustadores, desesperados, selvagens e furiosos; tua idade de mancebo audaz, atrevida e de aventura; tua idade madura orgulhosa, astuta, falsa e sangrenta: mais branda, todavia mais perigosa ainda, doce em seu odiar. Que hora de conforto podes tu dizer que alguma vez me tenha agraciado com tua companhia?

RICARDO III (Rei) — Por minha fé, nem uma, a não ser a hora em que Humphrey Vossa Graça convidou a almoçar longe de minha companhia. Se tão falto de graça sou a vossos olhos, permiti que me vá e que não vos ofenda, senhora. Soai, tambores!

DUQUESA DE YORK — Eu te peço, ouve-me falar.

RICARDO III (Rei) — É vosso falar demasiado amargo.

DUQUESA DE YORK — Ouve uma palavra minha, que nunca mais contigo falarei.

RICARDO III (Rei) — Seja!

DUQUESA DE YORK — Ou serás morto pela justa ordem de Deus antes que desta guerra sejas o vencedor, ou morrerei eu de dor e de pesada idade e teu rosto não mais verei. Por isso, contigo leva minha mais grave maldição, para que ela no dia da batalha te canse mais que a armadura inteira que tu vestes. Minhas preces combatem no campo do adversário, e que lá as alminhas dos filhos de Eduardo murmurem aos espíritos de teus inimigos e lhes prometam bom sucesso e a vitória. És sanguinoso, sanguinoso será teu fim. A vergonha serve a tua vida e espera a tua morte. (Sai)

ISABEL — Mor causa hei, porém mora em mim menos alento para maldizer. A ela digo. Amem.

RICARDO III (Rei) — Ficai, senhora. Tenho uma palavra para vos dizer.

ISABEL — Não tenho mais filhos de sangue real que tu possas matar. Porque minhas filhas, Ricardo, essas serão freiras que oram e não rainhas que choram. Não apontes a arma para atingir suas vidas.

RICARDO III (Rei) — Tendes uma filha de nome Isabel, virtuosa e bela, régia e graciosa.

ISABEL — E por isso deverá morrer? Oh, deixa-a viver, e eu corromperei sua virtude, mancharei sua formosura, e me caluniarei como infiel ao leito de Eduardo. Sobre ela lançarei o véu da infâmia. Para que ela possa viver livre do assassínio sangrento confessarei que ela não era filha de Eduardo.

RICARDO III (Rei) — Não mancheis seu nascimento, é uma princesa real.

ISABEL — Para salvar sua vida eu direi que tal não é.

RICARDO III (Rei) — Sua vida tem segurança somente em seu nascimento.

ISABEL — E nessa segurança somente morreram seus irmãos.

RICARDO III (Rei) — Ai, em nascendo as boas estrelas lhes foram contrárias.

ISABEL — Não, maus amigos à sua vida se opuseram.

RICARDO III (Rei) — Inevitável é a condenação do destino.

ISABEL — Decerto, quando a graça evitada em destino se transforma. Meus meninos estavam destinados a mais justa morte se a graça te tivera abençoado com mais justa vida.

RICARDO III (Rei) — Falais como se eu tivera assassinado meus primos.

ISABEL — Primos em verdade! E pelo tio despojados de conforto, reino, parentes, liberdade, vida. De quem quer que fosse a mão que seus tenros corações apunhalou, tua cabeça foi que inviamente o mando lhe deu. Sem dúvida a assassina faca estava romba e embotada até que aguçada foi no teu coração de pedra para penetrar nas entranhas de meus cordeirinhos. Porém, se a usança constante da dor não demorar a dor selvagem, não nomeara minha língua a teus ouvidos meus meninos antes que minhas unhas ancoradas fossem em teus olhos, e que eu, nessa enseada de morte de tamanho desespero, qual pobre barca sem velas e sem remos, me despedaçasse contra teu rochoso peito.

RICARDO III (Rei) — Senhora, assim eu prospere em minha empresa e nos perigosos acasos das guerras sangrentas, como vos prometo maior bem a vós e aos vossos do que o mal que vós e os vossos por mim haveis sofrido.

ISABEL — Que bem, coberto pela face do céu, em sendo descoberto, me poderá ser bem?

RICARDO III (Rei) — A ascensão de vossos filhos, gentil senhora.

ISABEL — Ao cadafalso, para aí perderem suas cabeças.

RICARDO III (Rei) — À dignidade e aos cumes da fortuna, alto emblema imperial da glória desta terra!

ISABEL — Lisonjeia minha dor com tal relato. Diz-me: que estado, que dignidade, que honra a um filho meu podes tu conferir?

RICARDO III (Rei) — Tudo o que eu tenho, sim, e eu próprio, e tudo, quero eu doar a um filho teu, para que no Lethes de tua alma irada possas afogar a triste lembrança daquelas ofensas que supões eu te hei causado.

ISABEL — Sê breve, para que o processo de tua bondade não dure mais que o tempo de tua bondade.

RICARDO III (Rei) — Sabe então que do fundo de minha alma eu amo tua filha.

ISABEL — A mãe de minha filha em sua alma pensa.

RICARDO III (Rei) — Que pensais?

ISABEL — Que amas minha filha do fundo de tua alma. Também do fundo de tua alma amaste seus irmãos, e do fundo do coração por isso te agradeço.

RICARDO III (Rei) — Não vos apresseis a mal entender meu pensamento. Quero dizer que com minha alma amo vossa filha e é meu intento fazer dela Rainha de Inglaterra.

ISABEL — Ora bem, quem pensas então que será seu Rei?

RICARDO III (Rei) — Precisamente quem dela fará Rainha. Quem mais seria?

ISABEL — Quê, tu?

RICARDO III (Rei) — Esse mesmo. Disso que pensais?

ISABEL — Como podes cortejá-la?

RICARDO III (Rei) — Isso poderia convosco aprender, já que a seu humor vós sois a mais costumada.

ISABEL — E isso comigo queres tu aprender?

RICARDO III (Rei) — Senhora, com todo o meu coração!

ISABEL — Manda-lhe, pelo homem que assassinou seus irmãos, dois corações sangrando. Neles cinzelai “Eduardo” e “York”. Talvez que então ela chore. Em seguida oferece-lhe — como outrora Margarida fez a teu pai, embebido no sangue de Rutland — um lenço, o qual, diz-lhe, enxugou a purpúrea seiva do corpo de seu doce irmão, e diz-lhe que com ele seque seus chorosos olhos. Se este incentivo não a levar a amar, manda-lhe uma carta com teus nobres feitos. Diz-lhe que fizeste desaparecer seu tio Clarence, seu tio Rivers, sim, e que por amor dela breve te desfizeste de sua boa tia Ana.

RICARDO III (Rei) — Zombais de mim, senhora, não é esta a guisa de ganhar a vossa filha!

ISABEL — Outra guisa não há. A menos que pudesses tomar qualquer outra forma e não fosses Ricardo, e não houvesses tudo isto cometido.

RICARDO III (Rei) — E se lhe disser que tudo isto cometi por amor dela?

ISABEL — Não, que então ela outra escolha não teria afora o odiar-te, por teres comprado amor com tão sangrento espólio.

RICARDO III (Rei) — Olhai, o que feito está não pode mais ser emendado. Os homens agem por vezes sem razão e o porvir lhes concede tempo para arrependimento. Se a vossos filhos eu tomei o reino, em reparação a vossa filha eu o darei. Se matei o fruto de vosso ventre, para dar vida a descendentes vossos, irei gerar fruto meu de sangue vosso em vossa filha. O nome de avó pouco menos tem de amor que o apaixonado título de mãe. São como filhos, num degrau mais em baixo; feitos do vosso metal, do vosso próprio sangue; da mesma dor, afora uma noite de gemidos que suporta aquela por quem vós igual pena haveis sofrido. Vossos filhos foram nojo para vossa juventude, mas o meu será conforto para vossos anos avançados. A perda que haveis é só um filho que era Rei e por essa perda será Rainha vossa filha. Não posso dar-vos a reparação que eu desejara, por isso aceitai a bondade de que sou capaz. Dorset, vosso filho, que com alma temerosa dá passos descontentes em estrangeiro solo, esta bela aliança breve o chamará ao lar para subidas promoções e grande dignidade. O Rei que chama esposa a vossa formosa filha, como parente chamará a teu Dorset irmão. Sereis de novo mãe de um Rei. E todas as ruínas de desgostosos tempos reparadas serão com dobradas riquezas de contentamento. Quê! Ainda veremos muitos e bons dias. As líquidas gotas das lágrimas que haveis derramado de novo voltarão mudadas em porias do Oriente, pagando delas o empréstimo com bons juros de dez vezes o dobrado ganho de felicidade. Vai então, minha mãe, vai adiante tua filha. Com vossa experiência animai seus tímidos anos, aparelhai seus ouvidos para ouvirem proposições de amor, ponde em seu tenro peito a chama desejosa da dourada soberania, dai conhecimento à Princesa das horas silenciosas e doces das alegrias do himeneu. E quando este meu braço houver punido o mísero rebelde, o pouco entendido Buckingham, regressarei cingido em triunfais coroas e guiarei tua filha ao leito de um vencedor. A ela contarei a vitória que ganhei e ela só será a vencedora, César do próprio César.

ISABEL — Que será melhor dizer? Que o irmão de seu pai quereria ser o seu senhor? Ou devo dizer seu tio? Ou aquele que assassinou os seus irmãos e seus tios? Qual título usarei para em teu nome cortejar, que Deus, a lei, minha honra e seu amor possam tornar amável a seus tenros anos?

RICARDO III (Rei) — Fala da paz da bela Inglaterra por meio desta aliança.

ISABEL — Que ela comprará com infindável guerra.

RICARDO III (Rei) — Diz-lhe que o Rei, que pode mandar, suplica.

ISABEL — Aquilo que, nas mãos dela, o Rei dos Reis proíbe.

RICARDO III (Rei) — Diz-lhe que será Rainha sublime e poderosa.

ISABEL — Para deixar o título como agora sua mãe.

RICARDO III (Rei) — Diz que toda a eternidade a amarei.

ISABEL — Mas essa eternidade quanto tempo dura?

RICARDO III (Rei) — Com doçura viverá, até que sua formosa vida tenha fim.

ISABEL — Mas quanto tempo durará sua doce vida em formosura?

RICARDO III (Rei) — Tanto tempo quanto o céu e a natureza o permitirem.

ISABEL — Tanto tempo como o inferno e Ricardo o desejarem.

RICARDO III (Rei) — Diz que eu, seu soberano, sou seu humilde súbdito.

ISABEL — Mas ela, vossa súbdita, odeia tal soberania.

RICARDO III (Rei) — Sê eloqüente diante dela em meu favor.

ISABEL — Mais favorece um conto honesto se for feito com simpleza.

RICARDO III (Rei) — Então diz-lhe com simpleza o conto de meu amor.

ISABEL — Simples e não honesto é estilo demasiado discordante.

RICARDO III (Rei) — Vossas razões são demasiado leves e demasiado vivas.

ISABEL — Oh, não, minhas razões são demasiado pesadas e mortas; demasiado pesados e mortos, pobres infantes, em seus túmulos.

RICARDO III (Rei) — Essa corda não deveis tanger, senhora, passado é.

ISABEL — Tangerei, até que se quebrem as cordas do coração.

RICARDO III (Rei) — Pois pelo meu São Jorge, pela minha Jarreteira e por minha coroa...

ISABEL — Profanado um, desonrada a outra e a terceira usurpada...

RICARDO III (Rei) — Juro...

ISABEL — Por nada, que isto não é juramento. O teu São Jorge, profanado, perdeu sua sagrada honra. A tua Jarreteira, manchada, penhorou sua fidalga virtude. A tua coroa, usurpada, desgraçou sua glória real. Se por alguma coisa quiseres jurar para que alguém te creia, jura então por coisa que não tenhas ofendido.

RICARDO III (Rei) — Bom, pelo mundo...

ISABEL — Prenhe está de imundas ofensas.

RICARDO III (Rei) — A morte de meu pai...

ISABEL — Tua vida a desonrou.

RICARDO III (Rei) — Então por mim próprio...

ISABEL — Tu próprio a ti próprio usaste mal.

RICARDO III (Rei) — Ora então, por Deus...

ISABEL — A ofensa a Deus é de todas a maior: se temeras quebrar uma jura que a Ele tiveras feito, a união que o Rei, meu marido, concertou, não a terias tu quebrado, nem meus irmãos morrido. Se houveras temido quebrar uma jura que por Ele tiveras feito, o metal imperial que ora cinge tua fronte teria ornado a suave testa de meu filho, e aqui estariam os dois príncipes que agora — dois tenros companheiros de leito destinados à poeira — a tua fé quebrada em presa de vermes transformou. Porque coisa podes agora jurar?

RICARDO III (Rei) — O tempo por vir!

ISABEL — Esse tu o ofendeste no tempo que é passado, que eu própria muitas lágrimas tenho para lavar. O tempo por vir, pelo tempo passado que tu ofendeste. Vivem os filhos cujos pais assassinaste: juventude abandonada, que o lamentará na velhice. Vivem os pais cujos filhos tu com crueza mataste: velhas, estéreis plantas, que o lamentarão com a velhice. Não jures pelo tempo por vir, que esse ofendeste tu, antes de usado, por tempos mal usados do passado.

RICARDO III (Rei) — Tal como é meu intento prosperar e repentir-me, assim vença eu em meus tratos perigosos de armas hostis! Eu próprio a mim próprio me destrua! Deus e fortuna, negai-me horas felizes! Dia, não me concedas tua luz, nem tu, noite, teu repouso! Sede contrários, todos vós, planetas de boa sorte, a meus procedimentos, se, com o amor de um leal coração, imaculada devoção e subidos pensamentos, eu não amar tua real, formosa filha. Nela tem assento minha felicidade e a tua. Sem ela, haverá para mim e para ti, para ela própria, para a terra e para muita alma cristã, morte, desolação, ruína e decadência. Isto só assim se pode evitar. Portanto, querida mãe — assim vos devo chamar —, sede o advogado do meu amor por ela, falai do que eu serei, não do que eu hei sido; não naquilo que mereço mas do que hei de merecer. Instai na necessidade e no estado dos tempos, e não vos mostreis contrária a grandes intentos.

ISABEL — Deverei ser tentada assim pelo demônio?

RICARDO III (Rei) — Sim, se o demônio vos tentar a fazer bem.

ISABEL — Deverei a mim própria esquecer para ser eu própria?

RICARDO III (Rei) — Sim, se a lembrança de vós própria a vós própria ofender.

ISABEL — Porém, tu mataste meus filhos.

RICARDO III (Rei) — Mas no ventre de vossa filha eu os enterro, e aí, nesse oloroso ninho, renascerão de si próprios, para conforto vosso.

ISABEL — Deverei eu ir aparelhar minha filha para o teu desejo?

RICARDO III (Rei) — E sede, por esse feito, mãe feliz.

ISABEL — Eu vou. Escrevei-me muito em breve e sabereis de mim seu pensamento.

RICARDO III (Rei) — Levai-lhe o beijo de meu vero amor. Beija-a. E então adeus. (Sai Isabel) Resignada louca, mulher mutável e vazia! (Entra Ratcliffe.) Então, que novas?

RATCLIFFE — Mui poderoso soberano, na costa ocidental navega poderosa armada. Às nossas praias se dirige um ajuntamento de muitos amigos duvidosos, vazios de coração, desarmados, e pouco decididos a atacá-los. Pensam que Richmond é o almirante. E ali flutuam, tão-só esperando o auxílio de Buckingham para os acolher no desembarque.

RICARDO III (Rei) — Que um amigo lesto corra junto do Duque de Norfolk. Ratcliffe, tu, ou Catesby. Onde está ele?

CATESBY — Aqui, meu bom senhor.

RICARDO III (Rei) — Catesby, voa junto do Duque.

CATESBY — Isso farei, meu senhor, com toda a pressa que convém.

RICARDO III (Rei) — Ratcliffe, vem cá. Corre a Salisbury. Quando voltares... (Para Catesby) Imbecil, miserável vilão! Porque estás ainda aqui e não te partiste junto do Duque?

CATESBY — Primeiro, poderoso senhor, dizei-me de vossa vontade, o que da parte de Vossa Graça deverei contar ao Duque.

RICARDO III (Rei) — Ó, é verdade, bom Catesby! Diz-lhe que levante de imediato as maiores forças e tropas que puder, e que vá de contínuo ao meu encontro em Salisbury.

CATESBY — Eu vou. (Sai)

RATCLIFFE — Dizei-me, se vos apraz, que devo fazer em Salisbury?

RICARDO III (Rei) — Porquê, que farias tu lá antes que eu fosse?

RATCLIFFE — Vossa Alteza me disse que eu devia correr antes.

RICARDO III (Rei) — Mudei meu intento. (Entra Stanley, Conde de Derby.) Stanley, que novas trazeis?

STANLEY — Nenhuma, meu suserano, que vos possa agradar ouvir. Nenhuma também tão má que a não deva bem contar.

RICARDO III (Rei) — Eia, uma adivinha! Nem boa nem má... É mister correr tantas milhas em redor se há caminho mais direto para me dizeres teu conto? Uma vez mais, que novas?

STANLEY — Richmond está no mar.

RICARDO III (Rei) — Que aí se afunde e que o mar o cubra! Renegado covarde! Que faz ele lá?

STANLEY — Não sei, poderoso soberano, apenas adivinho.

RICARDO III (Rei) — Sim e que adivinhas tu?

STANLEY — Movido por Dorset, Buckingham e Morton, vem a Inglaterra reclamar a coroa.

RICARDO III (Rei) — Está o trono vago? Não está empunhada a espada? Está morto o Rei? O império sem governante? Que outro herdeiro de York é vivo afora nós? E quem é Rei de Inglaterra senão o herdeiro do grande York? Dizei-me, então, que faz ele por sobre os mares?

STANLEY — Mais do que isto, meu suserano, não posso adivinhar.

RICARDO III (Rei) — Mais do que ele vir para ser vosso suserano não podeis adivinhar que coisa faz vir o Galês. Tu te revoltarás e fugirás junto dele, receio eu.

STANLEY — Não, meu bom senhor, não desconfieis de mim.

RICARDO III (Rei) — Onde está então tua força para o atacares? Onde são teus vassalos e os teus sequazes? Não são eles agora na costa ocidental desembarcando a salvo os revoltosos dos navios?

STANLEY — Não, meu bom senhor, meus amigos são a norte.

RICARDO III (Rei) — Frios amigos eles me são. Que fazem eles a norte, quando deviam servir seu soberano a ocidente?

STANLEY — Ordens tais não receberam, poderoso Rei, queira Vossa Majestade despedir-me. Ajuntarei meus amigos e encontrarei Vossa Graça onde e quando a Vossa Majestade aprouver.

RICARDO III (Rei) — Sim, sim, tu gostarias de ir, para te ajuntares a Richmond. Mas não confiarei em ti.

STANLEY — Mui poderoso soberano, razão não haveis de pôr em dúvida minha amizade. Falso nunca fui, nem nunca serei.

RICARDO III (Rei) — Ide então, e ajuntai homens... mas deixai para trás vosso filho George Stanley. Cuidai que seja firme vosso coração, ou bem fraca será a seguridade de sua cabeça.

STANLEY — Tratai com ele conforme as provas de lealdade que eu vos der. (Sai)

(Entra um mensageiro.)

MENSAGEIRO — Meu gracioso soberano, agora no condado de Devon — assim mo contaram amigos verdadeiros — o senhor Eduardo de Courtney e o altivo prelado, o Bispo de Exeter, seu irmão mais velho, com muitos mais confederados, se puseram em armas.

(Entra outro mensageiro.)

SEGUNDO MENSAGEIRO — Em Kent, meu suserano, os Guildfords se puseram em armas, e a cada hora mais companheiros se juntam aos revoltosos, e o seu poder recresce.

(Entra outro mensageiro.)

TERCEIRO MENSAGEIRO — Meu senhor, o exército do grande Buckingham...

RICARDO III (Rei) — Fora daqui, corujas! Nada mais que canções de morte? (Bate-lhe) Anda, torna, até que tragas novas melhores.

TERCEIRO MENSAGEIRO — As novas que tenho para Vossa Majestade é que, por repentinas cheias e muita chuva, o exército de Buckingham é disperso e desfeito, e ele próprio erra sozinho ninguém sabe por onde.

RICARDO III (Rei) — Suplico-te perdão. Aí está a minha bolsa, para curar a tua ferida. Algum prudente amigo houve que tenha proclamado alguma recompensa àquele que trouxer o traidor?

TERCEIRO MENSAGEIRO — Tal proclamação foi feita, meu senhor.

(Entra outro mensageiro.)

QUARTO MENSAGEIRO — O senhor Tomás de Lovell e o senhor Marquês de Dorset, diz-se, meu suserano, no condado de York se puseram em armas, mas este bom conforto trago eu a Vossa Alteza: a armada bretã foi dispersada pela procela. Richmond, no condado de Dorset, enviou uma embarcação à costa, para saber dos que estavam nas praias, se eram aliados seus, se sim se não. Ao que lhe responderam que vinham da parte de Buckingham para o sustentar. Ele, neles não confiando, deu velas e navegou de novo rumo à Bretanha.

RICARDO III (Rei) — Marchemos, marchemos, pois que nos pusemos em armas, se não para lutar contra inimigos de fora, pelo menos para derrotar estes revoltosos cá de dentro.

(Entra Catesby.)

CATESBY — Meu suserano, o Duque de Buckingham está cativo. Esta nova é a melhor. Que o Conde de Richmond desembarcou com poderosa força em Milford e mais fria nova, contudo deverá ser dita.

RICARDO III (Rei) — Vamos para Salisbury! Enquanto aqui despendemos razões pode ser ganha ou perdida uma batalha real. Que alguém ordene que tragam Buckingham a Salisbury; os outros marchem comigo.

(Toque de trombetas. Saem)

Cena V

(Entram Stanley, Conde de Derby, e o senhor D. Cristóvão de Urswich.)

STANLEY — Senhor D. Cristóvão diz de minha parte a Richmond que no antro do javali mais mortífero está retido meu filho George Stanley. Se me revolto, salta a cabeça do jovem George. Tal receio me impede de ajuda prestar neste momento. Agora vai-te. Encomenda-me ao teu senhor. Diz entanto que a Rainha do coração concedeu que ele desposasse sua filha Isabel. Mas diz-me, onde está ora o príncipe Richmond?

D. CRISTOVÃO — Em Pembroke, ou em Harfodwest, no País de Gales.

STANLEY — Que homens de nomeada a ele se juntaram?

D. CRISTOVÃO — O senhor D. Walter Herbert, um soldado famoso; o senhor D. Gilberto Talbot, o senhor D. Guilherme Stanley, Oxford, o terrível Pembroke, o senhor D. Jaime Blunt, e D. Rice a Thomas, com muitos homens valentes, e muitos outros de grande nome e valor, e para Londres dirigem suas hostes se no caminho não lhes puserem embargo.

STANLEY — Bom, vai junto de teu senhor. Beija-lhe a mão. Minha carta lhe dirá do meu intento. Adeus.

(Saem)

ATO V
Cena I

(Entram o Xerife com alabardeiros e Buckingham a caminho do cadafalso.)

BUCKINGHAM — Não permitirá El-Rei Ricardo que eu fale com ele?

XERIFE — Não, meu bom senhor, por isso pacientai.

BUCKINGHAM — Hastings e filhos de Eduardo, Grey e Rivers, Santo Rei Henrique, e teu formoso filho Eduardo, Vaughan, e todos aqueles que pereceram por fingida, corrompida e ignóbil injustiça, se vossas almas soturnas e sem contentamento contemplam através das nuvens a presente hora, juntamente por vingança zombai de meu estrago. Hoje é Dia de Finados, não é assim, companheiro?

XERIFE — É.

BUCKINGHAM — Pois então é o Dia de Finados o Dia do Juízo de meu corpo. Foi este o dia que, em tempos de El-Rei Eduardo, desejei se abatera sobre mim se provas houvera de minha falsidade a seus filhos e aliados da Rainha. Foi este o dia em que tive desejo de cair por falsa fé daquele em quem mais confiança tinha. Este, este Dia de Finados, é para minha temerosa alma o derradeiro prazo para a punição de minhas culpas. Ele que tudo vê e com quem usei de fingimento desviou minha fingida prece por sobre minha cabeça, e tomou por vero o que eu por brinco manifestava. Desta guisa ele força as espadas de ruins varões a voltarem suas pontas contra os peitos de seus donos. Desta guisa grave cai sobre meus ombros a maldição de Margarida. “Quando ele”, disse ela, “quebrar de dor o teu próprio coração, lembra-te de que Margarida era profeta!” Vinde, levai-me, guardas, para junto do cepo da vergonha, o agravo tem apenas o agravo e a culpa a dívida da culpa. (Sai com os guardas)

Cena II

(Entram Richmond, Oxford, Blunt, Herbert e outros, com tambores e bandeiras)

RICHMOND — Companheiros de armas e meus amigos mui queridos, feridos sob o jugo da tirania, até aqui, aqui dentro das entranhas da terra, avançamos sem embargo, e eis que de nosso pai Stanley recebemos laudas de bom agasalho e encorajamento. O javali usurpador, sanguinoso e miserável, que estrangulou vossas colheitas de verão e vossas vinhas frutíferas, sorve vosso sangue quente como se lavadura fora, e usa como gamela vossas entranhas abertas. Esse porco imundo ora é no centro mesmo desta ilha, cerca da cidade de Leicester, segundo soubemos. Tanworth não dista mais desse lugar que um dia de marcha. Em nome de Deus, alegremente avante, amigos valorosos, para que façamos ceifa de perpétua paz por este juízo sanguinoso de acendida guerra.

OXFORD — A consciência de cada homem vale mil homens no combate contra o culpado homicida.

HERBERT — Não duvido de que meus amigos se juntem a nós.

BLUNT — Ele não tem amigos afora aqueles que por temor amigos são, que dele fugirão quando a ele mais necessários forem.

RICHMOND — Tudo é em nosso favor. Então, em nome de Deus, marchemos. A vera esperança é veloz e voa com asas de andorinha, muda em deuses reis, e em reis criaturas mais humildes.

(Saem)

Cena III

(Entra o Rei Ricardo armado, com Norfolk, Ratcliffe, e o Conde de Surrey, com outros.)

RICARDO III (Rei) — Assentai aqui nossa tenda, aqui mesmo no campo de Bosworth. (Levantam a tenda de Ricardo, num lado do palco) Meu senhor de Surrey, porque mostrais tão triste semblante?

SURREY — Meu coração é ledo dez vezes mais que meu semblante.

RICARDO III (Rei) — Meu senhor de Norfolk.

NORFOLK — Aqui, mui gracioso suserano.

RICARDO III (Rei) — Norfolk, muitas estocadas haverá... há, não haverá?

NORFOLK — Haverá para dar e receber, meu estimado senhor.

RICARDO III (Rei) — Levantai minha tenda! Esta noite aqui me deitarei. Mas onde, amanhã? Bem, é tudo o mesmo. Quem descobriu o número dos traidores?

NORFOLK — Seis ou sete mil, não mais.

RICARDO III (Rei) — Ora, as nossas hostes triplicam essa conta! E mais, o nome do Rei é uma fortaleza de que carece a facção adversa. Levantai a tenda! Vinde, nobres fidalgos, estudemos os benefícios do terreno. Chamai alguns homens de boa experiência. Que não faleça o rigor, que não haja tardança, que amanhã, senhores, é dia operoso!

(A tenda está agora pronta. Saem por uma porta)

(Entram pela outra porta Richmond, o senhor D. Guilherme de Brandon, Oxford e Herbert Blunt e outros, que armam a tenda de Richmond no outro lado do palco.)

RICHMOND — O lasso sol em ouro se deitou, e pelo luminoso rasto de seu carro de fogo faz promessa para amanhã de um dia bom. Senhor D. Guilherme de Brandon, empunhareis meu estandarte. Meu senhor de Oxford, vós, senhor D. Guilherme de Brandon, e vós, senhor D. Walter Herbert, comigo permanecei. O Conde de Pembroke conserva seu regimento. Bom capitão Blunt, levai-lhe da minha parte a boa noite. E pela segunda hora da manhã pedi ao Conde que me procure na tenda. Uma coisa mais, porém, bom capitão, por mim fazei: onde assentou arraial o senhor de Stanley, sabeis?

BLUNT — A menos que eu tenha confundido suas cores, o que hei por certeza não ter feito, seu regimento se assenta pelo menos a meia milha a sul do poderoso exército do Rei.

RICHMOND — Se for possível sem perigo, amável Blunt, achai bons meios de com ele falar. E dai-lhe da minha parte este papel mui necessário.

BLUNT — Por vida minha, senhor meu, tal farei eu. E assim Deus vos conceda bom repouso nesta noite.

RICHMOND — Boa noite, bom capitão Blunt. (Sai Blunt) Dai-me tinta e papel em minha tenda. Traçarei a forma e disposição de nossa batalha. Darei a cada chefe o limite de seus variados cargos, e com justa medida repartirei nosso pequeno exército. Vinde, senhores, despenderemos razões sobre os sucessos de amanhã. Entremos em minha tenda, o orvalho é frio e cru.

(Richmond, Brandon, Oxford e Herbert vão para dentro da tenda. Os outros saem)

(Entram o Rei Ricardo, Ratcliffe, Norfolk, Catesby e guardas)

RICARDO III (Rei) — Que hora é?

CATESBY — É hora da ceia, meu senhor, nove horas.

RICARDO III (Rei) — Não cearei eu esta noite. Dai-me tinta e papel. Então, é meu elmo mais suave do que era, e toda minha armadura é posta em minha tenda?

CATESBY — Assim é, meu suserano, e todas as coisas prestes são.

RICARDO III (Rei) — Bom Norfolk, vai lesto tomar teu cargo. Faz guarda cuidadosa, escolhe ordenanças seguras.

NORFOLK — Vou, meu senhor.

RICARDO III (Rei) — Levanta-te amanhã com a cotovia, gentil Norfolk.

NORFOLK — Disso podeis estar certo, meu senhor. (Sai)

RICARDO III (Rei) — Catesby!

CATESBY — Meu senhor?

RICARDO III (Rei) — Manda um passavante junto do regimento de Stanley. Ordena-lhe que traga suas hostes antes que nasça o sol, ou seu filho George cairá no abismo cego da eterna noite. (Sai Catesby) Enchei-me uma taça de vinho. Dai-me uma candeia. Aparelhai o branco Surrey para a batalha, amanhã. Vede se são firmes minhas lanças, mas não pesadas demais.

RATCLIFFE — Meu senhor?

RICARDO III (Rei) — Hás visto o melancólico senhor de Northumberland?

RATCLIFFE — D. Tomás, o Conde de Surrey e ele próprio, à hora em que se deitam as galinhas, de companhia em companhia andaram pelo exército, e davam ânimo aos soldados.

RICARDO III (Rei) — Bem, contente sou. Dai-me uma taça de vinho. Não tenho eu aquela alacridade do espírito nem o regozijo que eu em minha mente usava ter. Põe isso aí. Está pronto o papel e a tinta?

RATCLIFFE — Está, meu senhor.

RICARDO III (Rei) — Põe minha guarda em vigília. Deixa-me só. Ratcliffe, pelo meio da noite vem à minha tenda e ajuda-me a vestir a armadura. Deixa-me, te digo eu.

(Sai Ratcliffe. Ricardo desaparece dentro da tenda, soldados em guarda vigiam-na. Entra Stanley, Conde de Derby, na tenda de Richmond)

STANLEY — Que a Fortuna e a Vitória pousem sobre teu elmo!

RICHMOND — Que todo o agasalho que a noite escura pode conceder seja para tua pessoa, nobre padrasto. Diz-me, como se encontra nossa querida mãe?

STANLEY — Em seu nome, eu te abençoo da parte de tua mãe, Que reza sem cessar pelo bem de Richmond. E quanto a isto terminei. As horas silenciosas seguem seu furtivo curso e a escuridão em lâminas se quebra por dentro do Oriente. Sendo breve, pois a tanto nos obriga a ocasião, prepara tua batalha de manhã mui cedo e depõe tua fortuna no arbítrio das sangrentas estocadas e da guerra de mortífero olhar. Eu, como puder — o que faria não posso eu fazer — da melhor sorte enganarei o tempo e socorro te darei neste recontro de armas duvidoso. Mas não será possível que eu tome com clareza tua parte por não teu irmão, o jovem George, ser diante de seu pai executado. Adeus. A prontidão e a hora temerosa impedem os usados votos do bem querer e o vasto comércio de práticas amenas em que amigos há longo tempo separados se deviam tardar. Deus nos dê ocasião para estes ritos do bem querer. Uma vez mais adieu; sê valente e que a fortuna te acompanhe.

RICHMOND — Bons senhores, conduzi-o a seu regimento. Tentarei, com turvados pensamentos, dormir um pouco para que amanhã o plúmbeo sono me não derrube quando montar devia com as asas da vitória. Uma vez mais, boa noite, amáveis senhores e fidalgos. (Saem Stanley com Brandon, Oxford e Herbert) (Ajoelha-se) Ó Tu, de quem me tomo por capitão, contempla minhas hostes com benigno olhar. Depõe em suas mãos os contundentes ferros de tua ira porque eles possam esmagar, com grave queda, os elmos usurpadores de nossos adversários. Nos torna em Teus ministros do castigo, porque na vitória Te possamos louvar. A Ti encomenda minha alma vigilante antes que deixe cair as fenestras de meus olhos. Adormecido e acordado, ó sempre me defende! (Levanta-se, desaparece na tenda, deita-se e dorme)

(Entra o fantasma do jovem Príncipe Eduardo, filho de Henrique VI.)

FANTASMA DO PRÍNCIPE EDUARDO (ao Rei Ricardo) — Sentirás o meu peso amanhã em tua alma. Lembra-te como me apunhalaste na Primavera da minha juventude em Tewkesbury. Por isso desespera e morre. (Para Richmond) Alegra-te, Richmond, que as maltratadas almas de príncipes assassinados lutam em teu favor. O filho do Rei Henrique, Richmond, te conforta.

(Sai. Entra o fantasma de Henrique VI)

FANTASMA DE HENRIQUE VI (ao Rei Ricardo) — Quando eu era mortal, meu corpo ungido por ti crivado foi de chagas mortais. Pensa na Torre e em mim. Desespera e morre. Henrique VI ordena que desesperes e morras! (Para Richmond) Virtuoso e santo, sê tu o vencedor. Henrique, que profetizou que Rei serias, em teu sono te conforta. Vive e floresce.

(Sai. Entra o fantasma de Clarence.)

FANTASMA DE CLARENCE (ao Rei Ricardo) — Que sintas amanhã meu peso em tua alma, eu, que fui morto em banho de imundo vinho, eu, pobre Clarence, por ti traído até à morte. Amanhã, na batalha, pensa em mim, e que caia sem gume tua espada. Desespera e morre. (Para Richmond) Tu, fruto da Casa de Lancastre, os maltratados herdeiros de York oram por ti. Guardem os anjos bons tua batalha. Vive e floresce.

(Sai. Entram os fantasmas de Rivers, Grey e Vaughan)

FANTASMA DE RIVERS (ao Rei Ricardo) — Que sintas amanhã meu peso em tua alma, sou Rivers que morreu em Pomfret. Desespera e morre.

FANTASMA DE GREY (ao Rei Ricardo) — Pensa em Grey e que tua alma desespere.

FANTASMA DE VAUGHAM (ao Rei Ricardo) — Pensa em Vaughan, e com culpado temor deixa cair tua lança. Desespera e morre.

TODOS (para Richmond) — Acorda e pensa que nossas ofensas no peito de Ricardo o vencerão. Acorda e ganha o dia.

(Saem)

(Entra o fantasma de Hastings.)

FANTASMA DE HASTINGS (ao Rei Ricardo) — Sanguinolento e culpado, em culpa acorda e em batalha sanguinolenta finda teus dias. Pensa na senhora de Hastings. Desespera e morre. (Para Richmond) Alma pura, calma, acorda, acorda. Arma-te, peleja e vence por amor da formosa Inglaterra.

(Sai. Entram os fantasmas dos dois jovens príncipes.)

FANTASMAS (ao Rei Ricardo) — Pensa em teus primos sufocados na Torre. Chumbo sejamos dentro em teu peito, Ricardo, e com nosso peso te arremessemos para a ruína, infâmia e morte. As almas de teus sobrinhos ordenam que desesperes e morras. (Para Richmond) Dorme, Richmond, dorme em paz, e com alegria acorda. Guardem-te os anjos bons dos ataques do javali. Vive e gera feliz linhagem de reis. Os infelizes filhos de Eduardo ordenam que floresças.

(Saem. Entra o fantasma da senhora Dona Ana, sua esposa)

FANTASMA DE ANA (ao Rei Ricardo) — Ricardo, tua mulher, essa mísera Ana, tua mulher, que não dormiu contigo uma só hora feliz, enche agora teu sono de turvações. Amanhã na batalha pensa em mim, e caia, sem gume, tua espada. Desespera e morre. (Para Richmond) Tu, alma tranqüila, dorme teu sono tranqüilo. Sonha bom sucesso e uma vitória feliz. A mulher de teu adversário ora por ti.

(Sai. Entra o fantasma de Buckingham)

FANTASMA DE BUCKINGHAM (ao Rei Ricardo) — Fui aquele que primeiro te ajudou a chegar à coroa, o último que sentiu a tua tirania. Oh, na batalha pensa em Buckingham, e morre no terror das tuas culpas. Sonha, sonha sanguinolentos feitos e morte. Em perdendo forças desespera, em desesperando, exala teu derradeiro sopro. (Para Richmond) Morri na esperança e antes que te pudesse ajudar, mas que teu coração se alegre, e não esmoreças. Deus e os anjos bons pelejam ao lado de Richmond. E Ricardo cai do cume de todo seu orgulho. (Sai)

(Ricardo acorda sobressaltado)

RICARDO III (Rei) — Dai-me outro cavalo! Ligai minhas feridas! Tende piedade, Jesus! Chiu, tão-só sonhava. Ó covarde consciência, como me atormentas! As luzes ardem azuis, é a meia noite dos mortos. Gotas frias de terror são no meu corpo tremente. De que me receio? De mim próprio? Não é mais ninguém aqui. Ricardo ama Ricardo, ou seja, eu e eu. E aqui um assassino? Não! Sim, sou eu! Então fuge. Quê, de mim próprio? Boa razão há, não me vá eu vingar! Quê, eu próprio contra mim próprio? Coitado de mim, eu amo-me a mim próprio. Porquê? Pelos bens que eu próprio a mim próprio ofereci? Oh, não, pobre coitado, antes a mim próprio tenho ódio por feitos odiosos que eu próprio cometi. Sou ruim vilão... mas minto, eu o não sou! Sandeu, diz bem de ti próprio! Sandeu, não uses de lisonja! Minha consciência tem milhares de línguas diferentes e cada língua me diz um conto diferente, e cada conto me condena como ruim vilão: perjúrio, perjúrio, no mais subido grau; assassínio, assassínio horrendo, no mais horrífico grau. Todos os pecados diferentes, todos cometidos em cada grau, se ajuntam diante o juiz todos bradando: “Culpado, culpado!” Em desespero cairei. Não há criatura que me ame, e se eu morrer, ninguém me lamentará... E porque o fariam, se eu próprio em mim próprio por mim próprio não encontro dó? Cuido que as almas de todos os que assassinei vieram a minha tenda, e cada qual me ameaçou que amanhã a vingança tombaria sobre a cabeça de Ricardo.

(Entra Ratcliffe.)

RATCLIFFE — Meu senhor?

RICARDO III (Rei) — Pelo demo! Quem está aí?

RATCLIFFE — Ratcliffe, senhor, sou eu. O galo da alva na aldeia por duas vezes saudou a alvorada. Vossos amigos erguidos são e cingem suas armaduras.

RICARDO III (Rei) — Ó Ratcliffe, sonhei um sonho horrendo! Que cuidas: provarão nossos amigos todos ser leais?

RATCLIFFE — Não duvido, meu senhor.

RICARDO III (Rei) — Ó Ratcliffe, hei grã temor, hei grã temor!

RATCLIFFE — Não, meu bom senhor, não vos arreceeis de sombras.

RICARDO III (Rei) — Por São Paulo Apóstolo, esta noite sombras hão lançado mais terror na alma de Ricardo do que a substância de dez mil soldados mui bem armados e conduzidos pelo inexperto Richmond. Ainda é longe o dia. Anda, vem comigo. Entre nossas tendas em sigilo escutarei, para que veja se alguém intenta apartar-se de mim.

(Saem Ricardo e Ratcliffe)

(Entram os fidalgos na tenda de Richmond, que está sentado.)

FIDALGOS — Bom dia, Richmond.

RICHMOND — Peço clemência, senhores e fidalgos em vigília, por aqui encontrardes lento madraço.

PRIMEIRO FIDALGO — Como haveis dormido, senhor?

RICHMOND — O mais doce sono e os sonhos mais esperançosos que alguma vez entraram em dormida mente, eu os tive, meus senhores, desde que vós haveis partido. Cuido que as almas daqueles corpos que Ricardo assassinou vieram a minha tenda e bradaram por vitória. Eu vos dou por certo que minha alma se deleita na lembrança de sonho tão formoso. É mui avançada a manhã, senhores?

PRIMEIRO FIDALGO — Soam as quatro.

RICHMOND — É tempo então que nos armemos e que demos nossas ordens. (Sai da tenda) (A sua oração aos soldados) Mais do que hei já dito, amados homens de minha terra, a prontidão e a necessidade do momento não permitem demorar-nos. Porém, lembrai-vos disto: Deus, e nossa justa causa, lutam a nosso lado; as preces de sagrados santos e de almas ofendidas, semelhantes a mui altos baluartes, são diante nossos rostos. Afora Ricardo, aqueles contra quem lutamos antes queriam ver-nos vencedores do que aquele que eles seguem. Pois quem é aquele que seguem? Em verdade, senhores, um sanguinoso tirano e um homicida; um que se ergueu com sangue, e em sangue se firmou; um que não olhou a meios para alcançar o que tem, e assassinou aqueles que foram meios para o ajudar. Uma pedra imunda e vil, tornada preciosa polo encaste do trono de Inglaterra, onde está com falsidade assente; um que sempre há sido inimigo de Deus. E assim, se pelejardes contra o inimigo de Deus, Deus, por justiça, vos tomará por Seus soldados; se suardes para derrubar um tirano, dormireis em paz, sendo o tirano morto; se lutardes contra os inimigos de vossa terra, a riqueza de vossa terra vos pagará a renda de vossas dores; se lutardes pela seguridade de vossas mulheres, vossas mulheres recolherão em casa os vencedores; se libertardes vossos filhos da espada, os filhos de vossos filhos vos agasalharão na velhice. E assim, em nome de Deus e de todos estes direitos, erguei vossos estandartes, com coragem brandi vossas espadas! Para mim, a expiação de minha ousada empresa talvez seja jazer este corpo frio na face fria da terra. Mas se vencer, o ganho de minha empresa repartido será por cada um de vós. Soai, tambores e trombetas, com coragem e alegria. Deus e São Jorge! Richmond e vitória!

(Saem Richmond e os seguidores)

(Entram R. Ricardo, Ratcliffe e soldados.)

RICARDO III (Rei) — Que disse Northumberland, no que respeita a Richmond?

RATCLIFFE — Que nunca foi em armas ensinado.

RICARDO III (Rei) — Disse a verdade. E que disse Surrey?

RATCLIFFE — Sorriu, e disse: “Melhor para nós.”

RICARDO III (Rei) — Razão tinha, e assim decerto é. O relógio dá horas. Dizei a hora. Dai-me um almanaque. Quem viu hoje o Sol?

RATCLIFFE — Eu não, meu senhor.

RICARDO III (Rei) — Então ele desdenha brilhar, porque, conforme o livro, há uma hora já que ele devia ter aparecido a oriente. Dia negro será este para alguém. Ratcliffe!

RATCLIFFE — Meu senhor?

RICARDO III (Rei) — Hoje o Sol não será visto! O céu se turva e chora sobre nosso exército. Gostaria eu que estas lágrimas como orvalho subissem do chão. Hoje não brilhar? Ora, que é isso para mim mais que para Richmond? Porque o mesmo céu que sobre mim se turva a ele olha com tristeza.

(Entra Norfolk.)

NORFOLK — Armai-vos, armai-vos, meu senhor, o inimigo arrogante avança para o campo

RICARDO III (Rei) — Vamos, prestes, prestes! Ajaezai meu cavalo. (Ricardo arma-se) Chamai o senhor de Stanley. Mandai-o trazer suas hostes. Conduzirei de contino meus soldados à planície, e será ordenada assim minha batalha: a minha vanguarda toda se estenderá em comprimento e será formada de cavalos e peões; nossos arqueiros permanecerão no centro. D. João, Duque de Norfolk, D. Tomás, Conde de Surrey, comandarão esses peões e cavalos. Avançando eles, seguiremos nós no corpo da batalha, cuja puissance em cada lado será escudada por nossos melhores cavalos. Assim, e São Jorge ajudando! Que pensas, Norfolk?

NORFOLK — Boas ordens, soberano guerreiro. (Mostra-lhe um papel). Encontrei isto na minha tenda esta manhã.

RICARDO III (Rei) (Lendo) — “Palafreneiro de Norfolk, não sejas tão destemido, porque Ricardelho, teu amo, foi comprado e vendido.” Cousa que o inimigo engendrou. Ide, senhores, cada homem a seu posto. Que nossos sonhos sandeus não amedrontem nossas almas. Consciência é tão-só uma palavra que os covardes usam, primeiro engendrada para causar temor aos fortes. Que nossos fortes braços sejam nossa consciência, as espadas nossa lei. Marchemos! Juntemos-nos com valentia. Lancemo-nos na confusão... Se não para o céu, então de mãos dadas para o inferno. (A sua oração ao exército) Que direi eu, mais do que já sugeri? Lembrai-vos quem são vossos adversários: uma horda de vagabundos, plebeus e fugitivos um bando de bretões e vis lacaios camponeses, que sua terra golfa em congestão e lança em desesperadas aventuras e segura destruição. A vós, que dormis em seguridade, eles trazem desassossego; a vós, que possuis terras e abençoados sois com esposas formosas, eles tornariam as primeiras e as outras desonrariam. E quem os comanda senão um homem vil que há muito vive na Bretanha a custos de nosso irmão? Um fraldiqueiro! Um homem que jamais em sua vida sentiu o frio da neve atravessar seus sapatos. Vamos escorraçar estes vagabundos de novo para o outro lado do mar, repelir daqui estes arrogantes miseráveis de França, estes pedintes famintos, lassos de suas vidas... Que, se não fora o sonho deste belo cometimento, por falta de meios, pobres ratos, se teriam enforcado. Se houvermos de ser vencidos, que sejam homens a vencer-nos! E não estes bastardos bretões, que nossos pais bateram em suas próprias terras, saquearam e espezinharam, e na história foram feitos herdeiros da sua ignomínia. Gozarão de nossas terras? Dormirão com nossas mulheres? Violarão nossas filhas? (Soam tambores ao longe) Atentai, ouço seu tambor. Lutai, senhores de Inglaterra! Lutai, valorosos peões! Puxai, arqueiros, puxei vossas setas às cabeças! Esporeai forte vossos bravos cavalos e cavalgai em sangue! Assombrai o céu com vossas lanças quebradas! (Entra um mensageiro) Que diz o senhor de Stanley? Trará suas hostes?

MENSAGEIRO — Meu senhor, ele nega-se a vir.

RICARDO III (Rei) — Fora com a cabeça de seu filho George!

NORFOLK — Meu senhor, o inimigo passou o pântano! Depois da batalha mandai matar George Stanley.

RICARDO III (Rei) — Mil corações batem vivos em meu peito. Avançai, estandartes nossos! Lançai-vos sobre o inimigo! Que nosso velho brado de coragem, “por São Jorge”, nos inspire com o alento de dragões de fogo! A eles! A vitória se assenta em nossos elmos.

(Saem)

Cena IV

(Alarmes. Escaramuças. Entram Norfolk e soldados; depois por outra porta Catesby.)

CATESBY — Socorro! Meu senhor de Norfolk, socorro, socorro! O Rei faz mais prodígios que um homem, ousando opor-se a todos os perigos. Seu cavalo é morto, e a pé combate, procurando Richmond na garganta da morte. Socorro, meu senhor, ou está perdido o dia!

(Saem Norfolk e os soldados)

(Alarmes. Entra o Rei Ricardo)

RICARDO III (Rei) — Um cavalo! Um cavalo! Meu reino por um cavalo!

CATESBY — Fugi, meu senhor, eu vos levarei um cavalo.

RICARDO III (Rei) — Escravo! Joguei aos dados minha vida, e suportarei o acaso do jogo. Cuido haver seis Richmonds no campo de batalha, cinco matei eu hoje em seu lugar. Um cavalo! Um cavalo! Meu reino por um cavalo!

(Saem)

Cena V

(Alarmes. Entram Rei Ricardo e Richmond; lutam. Ricardo é morto, soa então à retirada. Sai Richmond. Levam o corpo de Ricardo. Trombetas. Entram Richmond, Stanley, Conde de Derby com a coroa, e outros nobres e soldados.)

RICHMOND — Deus e vossas armas sejam louvados, amigos vitoriosos. É nosso o dia. É morto o sanguinoso cão.

STANLEY — Valente Richmond, teu dever cumpriste bem! (Apresentando a coroa) Vede, aqui, esta realeza há longo tempo usurpada, da fronte morta deste sanguinoso miserável a arranquei para com ela ornar tua testa. Usa-a, goza-a e enobrece-a.

RICHMOND — Grande Deus dos céus, a todos eu digo amem! Mas dizei-me, ainda é vivo o jovem Stanley?

STANLEY — É, meu senhor, e em seguridade na cidade de Leicester, Para onde, se vos apraz, nos podemos agora partir.

RICHMOND — Que homens ilustres morreram em ambos os lados?

STANLEY — D. João, Duque de Norfolk, D. Walter, senhor de Fertrers, o senhor D. Roberto de Brakenbury e o senhor D. Guilherme de Brandon.

RICHMOND — Sepultai seus corpos como convém a seus nascimentos. Proclamai um perdão aos soldados que fugiram e que submissos a nós tornarem, e então, como solenemente houvemos jurado, uniremos a rosa branca e a vermelha. Sorride, céus, a esta ditosa aliança já que tão longo tempo haveis ensombrecido a sua inimizade. Que traidor me escuta e não diz amem? A Inglaterra muito há que é sandia e se tem a si própria maltratado: o irmão cegamente sangue de irmão derramou; o pai desrazoadamente seu próprio filho matou; o filho, mau grado seu, de seu pai foi carniceiro. Tudo isto dividiu York e Lancastre, dividiu, em medonha divisão. Oh, que estora Richmond e Isabel, veros sucessores de cada casa real, pela justa ordem de Deus se unam e que seus herdeiros, ó Deus, se assim te apraz, enriqueçam o tempo por vir com a paz de macio rosto, com ridente abundância e belos, prósperos dias. Torna rombas as espadas dos traidores, gracioso Senhor, que quiserem fazer reviver estes dias sangrentos e fazer chorar a pobre Inglaterra em torrentes de sangue. Não permitais que vivam para gozar a prosperidade desta terra os que com traição quiserem ferir a paz desta formosa terra. Agora as guerras internas estão cerradas; a paz vive de novo. Que ela aqui possa viver por longo tempo, ó Deus, diz Amem!

(Saem)

Fonte: www.ebooksbrasil.org

 

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