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Xilogravura

A técnica surgiu na China há milênios, mas há exatos cem anos chegou ao Nordeste brasileiro, onde ganhou espaço e personalidade própria unindo-se à literatura de cordel para retratar um campo em que a fotografia não podia penetrar: o imaginário sertanejo

Xilogravura
Na gravura de J. Borges (Pernambuco), figuras solitárias se destacam no branco

Ariano Suassuna disse sentir na gravura popular o que mais lhe agradava: o real transfigurado pelo poético, o real como mero ponto de partida, o achatamento geral da gravura pela ausência de profundidade, pela falta de tons entre o claro-escuro e pela falta de perspectiva, assim como a predominância do traço limpo, puro e forte contornando as figuras. Ele próprio é de opinião que a gravura e a literatura populares nordestinas representam um dos mais autenticamente brasileiros trabalhos de criação. O crítico de artes Antônio Bento classificou a xilogravura dos artistas de cordel como a maior contribuição que o Nordeste dava ao Brasil no campo das Artes Plásticas.

Primeiros Traços

Em setembro de 1907, o Nordeste via surgir a gravura nos livretos de literatura popular em versos, ou simplesmente literatura de cordel. Ela ilustrava A História de Antônio Silvino, folheto editado por Francisco das Chagas Rodrigues, na Imprensa Industrial do Recife. Não aparecia na capa, como depois se popularizou, mas em página interna, e não tinha juntado à gravura nenhum dado e nem qualquer tipo de apresentação, a não ser o título “Antônio Silvino”.

Ao sair de Pernambuco para a Paraíba, as gravuras de Chagas Batista perderam os traços originais. Em 1911, o artista editou Novas Lutas de Antônio Silvino, junto com a poesia Traição, Vingança e Perdão, na gráfica Gonçalves Penna, estabelecida na Rua Maciel Pinheiro, na Parahyba do Norte, antigo nome do Estado da Paraíba. Em Novas empresas de Antonio Silvino, a estampa tinha traços bem mais esmaecidos, e nos folhetos seguintes os traços perderam imagem até se transformar em simples esboços

Gravura Sertaneja

Em 1925, a imagem deixou os traços esmaecidos para dar lugar a uma nova xilogravura. E não mais tratava de Antonio Silvino, mas de outro tipo de cangaceiro em A História Completa de Lampeão. Chagas Baptista também não apresentava a xilogravura em páginas interna, mas na capa principal, de muito longe lembrando a figura original do seu cordel de 1907. Ela cedia lugar a uma gravura rústica, com forte contraste entre o branco e o preto, e que iria se transformar nas xilogravuras dos cordéis atuais.

Este mesmo estilo de gravura serviria de exemplo para os fotógrafos do Cinema Novo Brasileiro que tentavam uma fotografia sem tons intermediários, como aconteceu nos filmes Aruanda, Deus e o Diabo na Terra do Sol, Vidas Secas, etc. Esta homenagem explícita está presente no cartaz feito em xilogravura de Calazans Neto para divulgar o filme Barravento, de Gláuber Rocha.

Santeiros do Padre Cícero

Em meados da década de 1920, apareciam em Juazeiro do Norte, Ceará, as matrizes talhadas em madeira, confeccionadas pelos artistas que produziam santos para os romeiros de Padre Cícero. Eles eram convocados por José Bernardo da Silva, que estabeleceu gráfica própria no Juazeiro do Norte em 1926. Fatores diferentes, mas ligados entre si, explicam o surgimento em Juazeiro do Norte, Ceará, das condições ideais para as primeiras manifestações regulares da xilogravura popular nordestina. Eilas:

O entalhador italiano de nome Agostini foi contratado para esculpir as pesadas portas da Matriz de Juazeiro do Norte. Ele trouxe a arte do entalhe, garantindo nova função estética para a madeira. Jovens aprendizes viram a novidade e logo se interessaram em procurá-lo. Artistas locais foram levados a confeccionar escultura destinada aos romeiros do Padre Cícero. Os primeiros santeiros trabalharam com Agostini, inclusive Mestre Noza e Manoel Santeiro. Depois surgiram nomes como Damásio Paulo, João Pereira da Silva, Manoel Lopes da Silva e José Imaginário.

Na xilogravura, atividade bissexta, Noza ganhou prestígio e fez, além das capas de Cordel, as pranchas xilográficas em tamanho maior que as capas de cordel sobre A Vida de Lanpião e Os Doze Apóstolos (sic), adquiridos pelo Museu de Arte da Universidade Federal do Ceará. O trabalho mais famoso de Noza é de 1965, o álbum de gravuras publicado em Paris, por Robert Morei, intitulado 14 Bois Originaux Gravés par Mestre Noza, com apresentação do artista plástico Sérvulo Esmeraldo.

Depois de Noza, José Bernardo contratou o poeta Damásio Paulo para gerenciar sua gráfica e ilustrar folhetos. O trabalho conjunto durou pouco tempo, devido a desentendimentos trabalhistas. Ao encerrar as contas, Damásio lamentou os 32 mil réis recebidos como indenização e desapareceu de Juazeiro do Norte.

Xilogravura
Tipografia São Francisco, que chegou a editar 600 mil folhetos/mês (crédito Zé Alves

Outro precursor, Walderedo Gonçalves, coloca-se como o mais clássico dos gravadores populares. Segundo depoimento dele próprio, a descoberta da vocação aconteceu nos tempos da peste bubônica, anos 1930, uma década depois da iniciação de Noza. Dizia que as gravuras do Mestre Noza eram rústicas. Walderedo também não gostava do Padre Cícero.

Xilogravura
A mãe da lua, de Abraão Batista (Juazeiro do Norte), prima pela riqueza de detalhes

Xilogravura
A Asa Branca no sertão, de J. Borge)

Com a saída da xilogravura talhada no tamanho da ilustração dos cordéis, a publicação da Via Sacra em Paris abriu perspectivas para a xilogravura decorativa. Elas atendiam à demanda de mercado em busca de solução estética diferente. Em 1970 surgiam os primeiros álbuns com gravuras em novo tamanho, editados pelas instituições ligadas à cultura nos estados de Pernambuco, Alagoas, Ceará, Sergipe e Bahia.

Interiorização

Antes, em 1949, a Tipografia São Francisco, pertencente a José Bernardo da Silva, em Juazeiro do Norte, adquiriu o parque gráfico de João Martins de Athayde, do Recife. Era a transferência da maior folhetaria nordestina para o Sertão. Lá não havia zincografia (clichês produzidos em placa metálica), o que forçou o novo proprietário a adotar o clichê gravado em madeira. Seguia o exemplo da gráfica de José Bernardo, surgida em 1926, que antes utilizava xilogravura em seus folhetos. A nova folhetaria, no auge da produção no Cariri Cearense, editava 600 mil folhetos por mês.

No início da década seguinte, a maior folhetaria do Nordeste começou a perder mercado e sua produção reduziu-se a um quinto. Enquanto a produção das folhetarias descia, a produção das gráficas de fundo de quintal (máquinas feitas quase artesanalmente) aumentava. A matriz de madeira espalhou-se pelo Nordeste. Era o processo mais caro na produção de folhetos.

Surgiram poetas e xilogravadores independentes, que passaram a produzir folhetos com menor número de páginas e mais ligados a fatos (reais e imaginários). Bastava um homem para imprimir o livreto de poesia e a produção poderia sair no mesmo dia. Nas antigas folhetarias os poetas esperavam semanas, talvez meses, para ter o folheto publicado. A gráfica de fundo de quintal foi uma revolução gráfica no sertão nordestino. Economiza custo e tempo. Em 1970, o poeta José Soares produziu o folheto sobre a copa do mundo e o lançou assim que o jogo contra a Itália terminou. Com a democratização do processo produtivo de cordéis, a partir da década de 1950, vieram as xilogravuras de José Soares da Silva (um dos nomes do Dila), seguidas pelos traços de José Costa Leite, José Francisco Borges, Francisco Amaro, Jerônimo, Borges, João Antônio de Barros, Joel Borges, Severino Borges, J. Miguel, Abraão Bezerra Batista, José Lourenço, Stênio Diniz, Augusto Laurindo Alves, José Estácio Monteiro, José Martins dos Santos, Minelvino Francisco da Silva, Eneias Tavares dos Santos, etc.

A influência do Mestre Noza em Paris provocou também o surgimento da xilogravura decorativa e da abordagem de temas sacros entre os novos artistas nordestinos. Elas foram produzidas por Costa Leite, Abraão Batista, Zé Lourenço, Joel, Stênio Diniz, Dila, etc. Há xilogravuras talhadas em tamanho de caixa de fósforos produzidas por Antonio Relojoeiro para o pesquisador Gilmar de Carvalho.

Duas Escolas

Hoje, podemos dividir a xilogravura decorativa em duas escolas. Os artistas da Escola de Juazeiro do Norte, em geral, produzem imagens com detalhes, com figuras bem mais complexas. Elas são difíceis de imprimir em cores e se aproximam do estilo barroco. O contexto é a civilização do sertão, presa, segundo Câmara Cascudo, a dois séculos de isolamento do Nordeste rural. Na Escola de Caruaru, a imagem é solitária e mais fácil de imprimir em cores. Ela representa a civilização industrial e lembra a simplicidade da publicidade comercial.

Apesar dessa nítida divisão de traços, as duas escolas têm a mesma unidade temática: a mistura do universo real (onipresença da escassez) com o sobrenatural (poder além do homem). Se houvesse como isolar o tema da forma, não se poderia distinguir a gravura de uma escola da de outra.

Jeová Franklin

Fonte: www.100anosxilogravuranocordel.com.br

Xilogravura

O reino mágico da xilo(gravura)

Resumo

No Nordeste, a cultura popular é exuberante. É aclamada e cultuada, não apenas dentro, mas, sobretudo, fora do país. Podemos citar como exemplo os folhetos da Literatura de Cordel, que são escritos, ilustrados e recitados pelos seus próprios habitantes, reconhecida internacionalmente. O Movimento Armorial é uma página dessa história de riqueza artística. Tal Movimento tem Ariano Suassuna como idealizador, o qual procurou valorizar a cultura popular da região, fazendo das 0suas manifestações a fonte alimentadora do seu trabalho erudito. A xilogravura faz parte dessa história e consiste em utilizar a madeira para, aí, serem talhados os mundos mágico, romântico e trágico. Os xilo(gravuristas) J. Borges e Gilvan Samico são artistas conhecidos e renomados.

Dado ao seu caráter cultural, social, literário, poético, político, educativo e artístico, a xilogravura – elemento do Movimento Armorial – insere-se na perspectiva de desenvolvimento da valorização, do respeito, da preservação, do cultivo e interesse da sociedade pela cultura popular, sendo objeto de estudo, conhecimento e aprendizado. Neste sentido, o objetivo deste trabalho é discutir a importância da arte da xilogravura para compreensão do romanceiro popular (Literatura de Cordel), que tem suas raízes no medieval ibérico que penetrou no Brasil.

Para elaborar este trabalho, foram realizadas entrevistas com os artistas José Francisco Borges e José Gilvan Samico, para que pudéssemos perceber as características e simbologias de suas obras. Além disso, foi necessária a realização de pesquisa bibliográfica em livros, revistas, e em sites sobre cultura popular, xilogravura e sobre o Movimento Armorial, do qual J. Borges e Samico são representantes. Na primeira parte, discutiremos aspectos do Nordeste, do Movimento Armorial, da gravura e de sua evolução. Adiante, tomaremos como foco de nossa análise duas obras, nas quais descreveremos a simbologia apresentada.

O Nordeste brasileiro, ainda que em pleno século XXI, não oferece condições favoráveis de vida para os seus habitantes. É uma região esquecida pelos que ditam e regem as leis públicas deste país. É um lugar castigado pela falta de recursos, pela falta de atenção, e pelo poder constituído. Mesmo apresentando tantas dificuldades, é nesta região que grande parte de escritores, cineastas, universitários, pesquisadores, intelectuais, busca inspiração para escrever livros, poemas, para fazer filmes, novelas, teatros e, também, para elaborar teses, desenvolver estudos, enfim, uma série de atividades culturais.

É uma terra curiosa, que desperta o interesse de muitos. É também uma terra rica de sentimentos, de valores e de realizações humanas. No Nordeste, a cultura popular é exuberante. É aclamada e cultuada, não apenas dentro, mas, sobretudo, fora do país. Podemos citar os folhetos da Literatura de Cordel, que são escritos, ilustrados e recitados por artistas da própria região.

O Movimento Armorial é uma página dessa história de riqueza artística. Seu precursor, o poeta, escritor, professor e mestre Ariano Suassuna procurou valorizar a cultura popular da região, fazendo das suas manifestações a fonte alimentadora do seu trabalho erudito.

É um Movimento que integra vários aspectos da cultura nordestina, como literatura, música, escultura, gravura, tapeçaria, cerâmica, pintura e espetáculos de rua. Para o ensaísta e professor universitário de Direito Internacional Público, Marcos Vinicios Rodrigues Vilaça,

O movimento armorial tem uma ligação com o espírito mágico do Romanceiro Popular do Nordeste – a literatura de cordel – com a música de viola, rabeca, pífano, que acompanha seus “cantadores”, e com xilogravuras, ilustração de suas capas, assim também com o espírito e a forma das artes e espetáculos populares. (VILAÇA, 2000, p. 16).

De acordo com a norma culta da língua brasileira, o nome ARMORIAL é um substantivo, mas o professor Ariano Suassuna emprega-o como adjetivo. Ele justifica que o escolheu por que o nome tem ligação com os esmaltes da Heráldica (brilho puro, festivo, nítido, metálico e colorido) como um brasão, além de ser uma palavra bela. E completa: ‘’conjunto de insígnias, brasões, estandartes e bandeiras de um povo, no Brasil a Heráldica é uma arte muito mais popular do que qualquer outra coisa’’. (SUASSUNA, 1974, p. 4).

Mesmo antes da existência desse Movimento, muitos artistas já cultivavam e exploravam a cultura popular nordestina sem mesmo ter conhecimento teórico sobre o que estavam criando, pois para esses artistas o importante da arte é criar.

O levantamento de um aparato teórico pode ser levado a efeito em depoimentos dos próprios artistas. Concretamente, xilo(gravuristas) como José Francisco Borges Gilvan e José Samico declaram que eram armoriais antes da existência do movimento. Eram armoriais avant la lettre, como diriam os franceses. Estes os dois mais conhecidos e renomados artistas gravadores populares no Brasil, segundo palavras ditas pelo então idealizador do movimento, Ariano Suassuna.

O dicionário Larousse, Ática, define xilogravura assim: “gravura obtida pelo processo da xilografia”. Xilografia quer dizer “arte de gravar em madeira. Técnica de impressão em que o desenho é entalhado com goiva, formão, faca ou buril em uma chapa de madeira”. (LAROUSSE, 2001, p. 1042).

A gravura armorial constitui-se, primeiramente, em utilizar a forma mais primitiva e simples, que é a madeira, mas não a madeira das árvores nativas e sim compensadas, e as ferramentas são construídas de forma artesanal pelos próprios artesãos. Na madeira, são talhados, ou desenhados com certa rusticidade, os mundos mágico, romântico e trágico. Retratam-se cenas misteriosas como as narradas na literatura de cordel.

Nos anos 40, a xilogravura chega ao apogeu no Nordeste rural, surgindo nomes ao lado dos artistas tradicionais: Expedito Sebastião da Silva, Augusto Laurindo Alves (Cotinguiba), José Estácio Monteiro, José Martins dos Santos, Minelvino Francisco da Silva, Eneias Tavares dos Santos, além de José Soares da Silva (Dila), José Costa Leite, José Francisco Borges (J. Borges). Nessa época, também a xilogravura passou por uma fase de rejeição do público nordestino; pensava-se até na sua extinção. Mas, com a ajuda de estrangeiros, essa prática artística reagiu, firmou-se e se impôs como meio de expressão. (QUEIROZ, 1983).

Após esse período conturbado, graças à coragem e perseverança dos artistas nordestinos, a xilogravura começou a ganhar espaço e se destacar no mundo moderno.

Beatriz Bittencourt relata muito bem esse processo de crescimento, explicando que:

A partir da década de 60 foi que a xilogravura começou a se destacar e ganhar status. Intelectuais começaram a produzir álbuns de gravuras, o que fez com que a xilogravura ganhasse proporções internacionais. (BITTENCOURT, 2004).

Hoje em dia, a xilogravura é presença marcante no meio publicitário, na imprensa, nas ilustrações em revistas e livros, como forma de enriquecer a cultura popular, sendo certamente um bom começo para substituir o desenho gráfico.

No Estado de Pernambuco, principalmente na zona do Sertão, há presenças acentuadas de artistas tradicionalmente populares, que destacam em suas obras elementos representativos do cotidiano sertanejo. A xilogravura é esculpida por interioranos, camponeses e citadinos, que expressam a vida do homem com a natureza, as lendas, os mitos, a religiosidade, enfim, tudo que retrata as histórias, os conhecimentos e as experiências de vida.

J. Borges: do cordel a xilogravura

Outro nordestino e sertanejo, José Francisco Borges, ou J. Borges, como prefere ser chamado, é conhecido dentro e fora do país como um dos melhores xilógrafos e poetas populares. Começou a se interessar pela arte popular através dos folhetos da literatura de cordel que ouvia, lia e, posteriormente, passou a escrever e vender. Em suas histórias, são retratados o dia-a-dia do pobre, do cangaço, do amor, dos castigos do céu, dos mistérios, dos milagres, crimes e corrupção, dos folguedos populares, da religiosidade, do engano, enfim, de todo o universo cultural que descreve a vida do povo nordestino.

Para J. Borges, o cordel foi a base para o início da sua profissão. A originalidade, irreverência e personagens imaginários são notáveis nas suas obras. Hoje sua principal atividade é a xilogravura, hábil tarefa de esculpir figuras de diabo, Lampião, prostitutas, vaqueiros, festas de São João e assim em diante.

A obra A chegada da prostituta no céu (1976), na qual iremos trabalhar, descreve o confronto da sociedade civil com o convencionalismo, em que o certo e o errado, o bem e o mal, o bom e o ruim são uma regra É uma obra que retrata o perdão, a religiosidade, o mito e lendas sertanejas. Nela, há personagens emblemáticas da cultura nordestina como São Pedro – santo da chuva e chaveiro do céu e o satanás – inimigo, diabo e o que arma ciladas. Há ainda a figura da mulher (prostituta – ser marginalizado, odiado, que usa o adultério para sobreviver). A mulher e o diabo são personagens que chamam muita atenção, seja por serem engraçados, feios ou bonitos, disse Borges.

Samico: universo fantástico

O pernambucano Gilvan Samico é considerado um dos melhores gravadores da cultura popular nordestina. Sua obra possui traços de dois grandes mestres do ramo de xilogravura – Lívio Abramo e Oswaldo Goeldi, com quem adquiriu lições e técnicas importantes para o aperfeiçoamento de sua arte. Outro elemento que se percebe acentuadamente em seu trabalho é o reencontro com suas raízes culturais, fincadas precisamente no Romanceiro Popular Nordestino.

Uma marca característica de Samico se dá pelo universo imaginário criado por ele – um mundo mágico, mitológico e fantástico. Universo de figuras de animais domésticos como cachorro, cavalos, pavões, galos; selvagens, como leões, lagartos, cobras; e outros, como peixes, borboletas e pássaros. Além desses, os inventados, como dragões, leões com asas, cavalo sem orelha e bichos de duas cabeças. (FARIAS, 2005). Há ainda, nesse cenário, imagens de mulheres e homens que, adequadamente, se unem e transmitem a idéia ilusionista e lendária.

Na obra A Fonte (1990), é possível perceber alguns ou quase todos os aspectos acima citados, como também a construção de um universo misterioso, erótico e belo. É uma obra considerada forte, criativa e arrebatadora que chama a atenção primeiramente pelo fato de a imagem feminina seguir uma transitividade que nos leva a ter várias informações, subsídios e interpretações. A mulher como fonte de prazer, sabedoria, amor, coragem, vida, procriação, beleza e dignidade. Como o centro das atenções. Como mito.

A mulher que se encontra no topo provoca nossa imaginação, nos faz achar que, em virtude da sua posição, seja uma sereia, por se mostrar sedutora, por possuir pés/caudas, com formato de peixe e cabelos longos e por estar despida, sendo, portanto a representação hierárquica maior, ou seja, rainha do mar (Iemanjá), fonte do desejo, da esperança, do encanto e da fé. De seus pés/caudas onde se encontra a fonte, jorra água que irriga as duas plantas, brotando delas mulheres-flores, simbolizando a reprodução e a fertilidade. Já a mulher (parte inferior) também faz analogia à explicação já citada, apenas o que diferencia é que a água jorra da boca de um lagarto-monitor – espécie de varanídeo, lagarto grande, ágil, predador, de cabeça pontuada, pescoço longo e delgado, corpo robusto, membros dotados de garras poderosas e cauda comprida e espessa; esses bichos são bons trepadores e nadadores. (FERREIRA, 1999, p.1179). Além disso, existem duas lagartas em fase de metamorfose que estão indo de encontro à figura feminina como a deleitar-se.

Nas duas obras, podemos perceber a constante figura feminina. Possivelmente seja por seu fascínio, mistério e sensualidade. Como diz J. Borges, “a mulher chama muita atenção, mulher linda, bonita, chama atenção, mulher feia demais chama atenção” (BORGES, 2005). São também obras mitológicas, onde se misturam lendas e a criatividade de cada artista. Obras que guardam segredos por trás de figuras que representam histórias reais ou fictícias.

O crítico de arte e curador independente, Frederico Morais visualiza uma estrutura simétrica na obra de Samico, descrição esta que também cabe à obra de J. Borges:

“[...] esta simetria é também semântica, isto é, ela corresponde aos binômios ou dualismos que integram o fabulário sertanejomedieval do Nordeste: Deus e o diabo, o bem e o mal, o céu e o inferno, realidade e fantasia”. (MORAIS, 1997, p. 10).

A obra A Fonte nos chamou atenção pelo destaque dado à figura feminina, pelo toque erótico e pelas várias relações com a natureza. Já a obra A chegada da prostituta no céu foi escolhida por ela representar para J. Borges sua xilogravura predileta, por ter grande aceitação do público, além do destaque também atribuído à mulher.

Referências

BITTENCOURT, Beatriz. O que é xilogravura. Disponível em: <http://www.artepostal.com.br/xilo.php>. Acesso em: 20 setembro 2005.

BORGES. José Francisco. José Francisco Borges: Depoimento [setembro 2005].

Entrevistadores: Claudilaine Lima e Sandra Guedes. 2005. Entrevista concedida para o artigo O Reino Mágico da Xilo(gravura).

FARIAS, Agnaldo. O oráculo de Olinda. Gilvan Samico. Recife: Coleção artistas do mamam, 2005.

FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Novo aurélio século XXI: o dicionário da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999.

LAROUSSE, Ática. Dicionário da língua portuguesa. São Paulo: Ática, 2001.

MORAIS, Frederico. Encantamento. Samico: 40 anos de gravura. Rio de Janeiro: centro cultural banco do Brasil; Recife: museu de arte moderna Aloísio Magalhães, 1998.

Catálogo.

QUEIROZ, Jeová Franklin. A xilogravura nordestina. Revista Educação e Cultura do Estado da Paraíba. João Pessoa: ano III, nº 11, out/nov/dez/1983.

_______, A via sacra da gravura sertaneja. Revista Interior. Brasília: ano VII, nº 36, jan/fev/ 1981.

SAMICO, Gilvan. Gilvan Samico. Depoimento [outubro 2005]. Entrevistadores: Claudilaine Lima e Sandra Guedes. 2005. Entrevista concedida para o artigo O Reino Mágico da Xilo(gravura).

SUASSUNA, Ariano. O movimento armorial. Recife: Editora Universitária, 1974.

VILAÇA, Marcos Vinicios Rodrigues. Caderno de literatura brasileira. São Paulo: Instituto Moreira Salles, novembro/2000.

Claudilaine Lima
Sandra Guedes

Fonte: www.unicap.br

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