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Arqueologia

 

 

O QUE É (E O QUE NÃO É) ARQUEOLOGIA

Arqueologia

Como ocorre com as ciências "recentes", a definição de Arqueologia é controvertida até mesmo entre seus praticantes.

Se espremermos as milhares de definições que pululam em textos introdutórios e na literatura teórica, ficaremos com alguns pontos básicos:

1) A Arqueologia se refere, principalmente, ao estudo da espécie humana. Esse interesse diferencia, portanto, a Arqueologia da Paleontologia, que estuda os vestígios (ossos, carapaças, pegadas, etc) de outras espécies.

2) A Arqueologia tenta entender a trajetória das diferentes sociedades humanas ao longo do tempo, independente de uma faixa cronológica estabelecida. Isto tem duas implicações. Primeiramente, que uma coisa não tem que ser "antiga" para ser objeto de interesse da Arqueologia. Em segundo lugar, que nesse ponto a Arqueologia se assemelha mais à História, pela profundidade temporal ou diacronia, do que à Antropologia, que tem um caráter mais "raso" ou sincrônico.

3) Em adição às duas características acima, a Arqueologia tem como objeto de estudo os artefatos (pontas de flecha, ornamentos, estatuetas, vasos etc) e vestígios (ossos humanos, ossos de animais caçados, pinturas rupestres, fogueiras etc) deixados pelas populações humanas do passado, a maioria já extintas. Isto diferencia a Arqueologia tanto da História (que lida com documentos escritos e tradições orais) como da Antropologia (que lida com populações vivas).

4) Para chegar dos artefatos e vestígios (objetos de estudo) ao entendimento dos processos atuantes em sociedades extintas (objetivo da disciplina), os arqueólogos se utilizam do conceito de cultura, cuja definição é em si tão ou mais problemática do que a definição de Arqueologia, mas que para nossos propósitos pode ser entendido como "comportamento aprendido e idéias em comum".

A partir desses pontos fundamentais, fica claro que:

A Arqueologia NÃO estuda dinossauros. Eles são objeto da Paleontologia

A Arqueologia NÃO estuda "sociedades" ou "culturas" do passado. Só se os arqueólogos fossem médiuns ou tivessem uma máquina do tempo.

A Arqueologia NÃO se refere apenas à "pré-história", ou a um período anterior ao advento da escrita. Estudos de arqueologia se estendem ao período colonial, e até mesmo a sociedades contemporâneas.

A Arqueologia é uma empreitada extremamente interdisciplinar .Todo o trabalho do arqueólogo envolve um trânsito entre as Humanidades (História, Antropologia, Economia, Geografia Humana), as Ciências da Terra (Geologia, Geografia Física), as Ciências Biológicas (Biologia, Medicina) e as Ciências Exatas (Estatística, Física, Química). Para dar conta de tudo isto, é comum que as equipes sejam compostas de vários profissionais, tanto em campo como em laboratório.

No Brasil, há uma quantidade muito grande de sítios arqueológicos. Se pensarmos em uma ocupação humana desde o período Paleoíndio (aproximadamente 12.000 a 7.500 anos atrás), passando pelos caçadores-coletores de Arcaico (7.500 a 2.000 anos atrás) e chegando aos grupos agricultores (2.000 a 500 anos atrás), podemos ter uma idéia de quantos vestígios foram deixados e quantos locais de moradia foram ocupados ao longo dos milênios.

Existe, portanto, uma riqueza muito grande de informações sobre esses povos, que estão registradas nos sítios arqueológicos. Nunca é demais lembrar que esses sítios arqueológicos são parte importante de nossa identidade, na medida em que estudos recentes de genética demonstraram que o povo brasileiro; de um modo geral, independente da aparência fisica externa e da região do país, tem forte herança indígena.

Astolfo Gomes de Mello Araújo

Fonte: www.ib.usp.br

Arqueologia

Quem é e o que faz o arqueólogo?

Em busca de uma arca desaparecida que concederia poderes fantásticos, o arqueólogo Indiana Jones cruza desertos e enfrenta agentes nazistas que atravessam seu caminho. Com direção de Steven Spielberg, o filme Caçadores da arca perdida, que traz o ator Harrison Ford no papel de "Indy", foi sucesso de público em 1981 e vencedor de 5 Oscars no ano seguinte.

O estereótipo da imagem do arqueólogo-super-herói criado pelo cinema norte-amerciano, e difundido por boa parte do planeta, pode ser rapidamente rebatido pela realidade vivida por um profissional da área. "As expedições arqueológicas são, na verdade, somente uma parte do trabalho do arqueólogo e, normalmente, acontecem apenas em algumas épocas do ano, quando as condições climáticas são mais propícias". A afirmação é da arqueóloga Tania Andrade Lima, do Departamento de Antropologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

O mercado de trabalho para o profissional de arqueologia é bastante amplo. De acordo com Eduardo Góes Neves, do Museu de Arqueologia (MAE) da USP, o arqueólogo pode dar aulas, trabalhar em pesquisas acadêmicas, em museus, em órgãos estatais ou em empresas - trabalho conhecido como arqueologia de contrato.

Atualmente, cerca de 95% dos arqueólogos do Brasil trabalham com arqueologia de contrato. Grande parte dos sítios arqueológicos são descobertos ao acaso, em meio a uma construção ou uma obra. Nesse caso, uma equipe de arqueólogos é contratada (daí o nome "arqueologia de contrato") para promover um salvamento do sítio, caso ele esteja em destruição iminente. Se não houver risco de destruição, o sítio deverá ser cadastrado no Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) para posterior pesquisa. Então, entra o trabalho da arqueologia acadêmica. Na realidade, o profissional que trabalha por contrato passa mais tempo em expedições do que o arqueólogo acadêmico, justamente porque migra de um sítio ao outro.

Andre Poirier Prous, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), diz que o fato da grande maioria dos arqueólogos brasileiros trabalhar por contrato representa um ponto negativo para a arqueologia nacional. "As pesquisas são direcionadas e a academia fica prejudicada com isso", afirma.

O lado positivo da arqueologia de contrato é apontado por Neves. "O arqueólogo tem que ser ágil, rápido, tem que seguir o ritmo da obra, da conclusão do gasoduto, da rodovia. Isso pode trazer experiências positivas também para a arqueologia acadêmica", afirma. "Por outro lado, a arqueologia acadêmica permite que o pesquisador estabeleça o ritmo de sua pesquisa e, se necessário, retorne ao sítio várias vezes para que seja realizado o seu trabalho".

Do campo ao laboratório

Em seu depoimento, Prous evidencia as dificuldades encontradas no trabalho de campo, seja por contrato ou realizando pesquisas acadêmicas. "O trabalho nos sítios não é fácil, você precisa ficar confinado, convive com um grupo limitado de pessoas muitas vezes por um longo tempo, se submete a variações climáticas. É preciso ser apaixonado pela profissão para ser arqueólogo."

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Arqueólogo Andre Prous em expedição

Neves reclama da saudade enquanto está em expedição: "Eu adoro trabalho de campo, se eu pudesse passaria a vida no campo, mas é difícil por causa do distanciamento da família".

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Neves em sua sala de trabalho

De acordo com Pedro Paulo Funari, do Departamento de História da Unicamp, o trabalho do arqueólogo pode ser dividido em quatro etapas: campo, processamento em laboratório, estudo e publicação.

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Sítio Piracanjuba, em Piraju (SP): planimetria de decapagem em núcleo de solo antropogênico (piso de habitação)

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Sítio Engenho do Salto, Piraju (SP): evidenciação das fundações de muro de arrimo de engenho de cana do século 19. As estruturas foram inundadas pelo enchimento do reservatório da Usina Piraju

Antes de ir a campo, o arqueólogo deve ter em mente o trabalho que irá realizar. Após realizada uma prospecção inicial, de superfície ou aérea, inicia-se o trabalho de escavação. "Usamos ferramentas normais de pedreiro e fazemos a escavação com as próprias mãos", afirma Neves. Durante as escavações, os materiais encontrados são registrados e descritos em fichas de campo. Numa fase posterior, o material é selecionado e apenas parte dele é levado para laboratórios específicos para que sejam estudados, analisados e, muitas vezes, comparados com o material encontrado em outros sítios.

Atualmente, as datações de todo material arqueológico encontrado no Brasil são feitas em laboratórios no exterior por meio de "testes cegos" (teste realizados em dois laboratórios diferentes para que os resultados possam ser comparados e, assim, mais precisos). Por isso, uma datação realizada por carbono catorze ainda é muito cara no Brasil.

"A datação não é Deus que te responde a idade de uma pedra, mas pode dizer, por exemplo, que um pedacinho de carvão foi queimado há mais ou menos 2500 anos", explica Neves. Datado o material, cabe ao arqueólogo trabalhar o contexto do fóssil. "O arqueólogo tem que mostrar, por exemplo no caso de um esqueleto encontrado, que o peixe do qual esse osso fazia parte morreu há tantos anos atrás, foi trazido para o sítio arqueológico porque foi pescado e consumido por uma comunidade. Os materiais que são datados estão no contexto de uma intervenção humana", conclui.

Por último, cabe também ao arqueólogo publicar o material trabalhado em catálogos de artefatos e fazer o relato da expedição que, muitas vezes, é publicado em algum periódico específico da área.

Como se tornar um arqueólogo no Brasil?

A dificuldade em se tornar arqueólogo começa no longo caminho que deve ser percorrido até a obtenção do título. No Brasil, não existe atualmente nenhuma graduação em arqueologia. "Poucos países do mundo têm essa graduação", afirma Prous, "não há necessidade de uma graduação específica em arqueologia", complementa.

O curso, no entanto, já foi ministrado no Brasil. Em 1976, a Faculdade Marechal Rondon, no Rio de Janeiro, criou a primeira graduação em arqueologia do país.

Dois anos depois, a faculdade foi absorvida pela atual Universidade Estácio de Sá.

De acordo com a arqueóloga Tania Andrade Lima, que é graduada em arqueologia e chegou a lecionar na Universidade, o curso funcionou por cerca de 25 anos e recentemente deixou de ser oferecido. "Não creio que se possa dizer que o curso não tenha dado certo porque formou centenas de profissionais que se encontram em atividades hoje no país, alguns deles ocupando destacadas posições na academia, em órgãos federais, ou a serviço de empresas", afirma Lima. Para a pesquisadora, a arqueologia é uma disciplina eminentemente científica, o que é pouco atrativo para uma instituição particular. "Idealmente este é um curso que deveria funcionar em uma universidade pública", diz Lima.

A arqueologia começou a se mostrar no Brasil pouco após a Segunda Guerra Mundial, mas foi somente nas décadas de 60 e 70 que a área foi se firmando, principalmente após a formação do Programa Nacional de Pesquisas Arqueológicas (Pronapa). Nessa época, e nas décadas seguintes, os interessados na área se encaminhavam ao exterior para fazer seus estudos, já que existiam poucos profissionais no país que pudessem orientar suas pesquisas.

Atualmente, para quem deseja ser arqueólogo no Brasil, o caminho mais fácil é fazer uma graduação em alguma área das ciências humanas, ou da biologia, e depois fazer um mestrado em arqueologia. "Mas até quem fez direito pode se tornar um arqueólogo e acabar trabalhando com questões jurídicas dos sítios arqueológicos, por exemplo", complementa a arqueóloga. Eduardo Góes, que tem formação em história, ressalta que é importante que o estudante faça um estágio ou uma iniciação científica na área ainda durante a graduação.

É exatamente isso que fazem Marília Bueno de Araujo, que cursa história, e Alexandre Hering de Menezes, estudante de ciências sociais, ambos na USP. Os dois trabalham no Laboratório de Lavagem do Museu de Arqueologia (MAE) da USP.

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Estudantes no laboratório de lavagem do MAE

Para Tania Lima, esses estudantes estão no caminho certo. "É preciso adquirir conhecimentos básicos durante a graduação, sem os quais o aluno não terá condições de fazer uma pós-graduação na área", afirma.

O Brasil conta hoje com três pós-graduações em arqueologia, em São Paulo, no Rio Grande do Sul e em Pernambuco (ver BOX). A Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) estuda a possibilidade de também implantar sua pós-graduação na área.

Mercado em expansão

"Faltam arqueólogos no mercado, estamos sobrecarregados." A frase de Tania Lima é confirmada por Pedro Paulo Funari que, em 2000, calculou em trezentos o número de arqueólogos em todo o país. "A arqueologia no Brasil é recentíssima, o número de arqueólogos profissionais reduzidíssimo e os centros de formação pouco numerosos" afirma.

Ele destaca um aumento do interesse pelo passado, por parte dos próprios brasileiros, evidenciado em exposições e mostras que trazem informações sobre arqueologia nacional. "Há uma crescente conscientização do valor social do passado", complementa.

Para Neves, essa expansão do mercado de trabalho tem relação direta com a mudança na constituição de 1988 e com a criação do Conama.

A profissão ainda não é regulamentada no Brasil, o que faz com que exista uma discussão a respeito de quem pode se responsabilizar por uma pesquisa arqueológica ou assinar um laudo arqueológico (resultado de uma peritagem em um sítio). Cabe ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) autorizar uma pesquisa arqueológica e, nesse caso, são levadas em consideração a experiência e a formação do profissional para que seja concedida uma autorização.

Ao falar do trabalho do arqueólogo, sobretudo o acadêmico, Funari é conclusivo:

"Tornar-se arqueólogo não compromete uma remuneração fabulosa, mas oferece oportunidades excepcionais para refletir sobre a sociedade, para agir com a comunidade em prol tanto da preservação do passado como para a transformação do presente".

Fonte: www.comciencia.br

Arqueologia

Introdução

Ian Morris propõe, em seu artigo “Classical Greece, Ancient Histories and Modern Archaeologies” que uma abrangente análise do papel, propósitos e métodos da Arqueologia Clássica se faz necessária. Para Morris essa necessidade existe por uma série de fatores interligados que tiveram por principal consequencia o distanciamento entre a Arqueologia Clássica e os demais campos da Arqueologia. Morris afirma que essa separação não se trata, apenas, de uma separação entre o novo e o tradicional, estando muito mais relacionada com o envolvimento da Arqueologia Clássica com a busca do entendimento da personalidade européia.

De um lado os arqueóArqueologialogos clássicos se mantém isolados das outras “arqueologias” - estando muito mais ligados às demais áreas dos estudos clássicos e à História da Arte - atados a um sentimento de superioridade relacionado tanto a seus métodos e preocupações quanto ao objeto final de estudos da Arqueologia Clássica, a civilização grega clássica e o mundo helênico como um todo.

No outro lado os demais arqueólogos criticam os métodos e enfoques dos arqueólogos clássicos, considerando-os ultrapassados e pouco produtivos. Se faz urgente, para Morris, um maior contato, com uma maior troca de idéias, entre os dois grupos, inclusive para que se possa aproveitar de forma efetiva o vasto trabalho já realizado na Arqueologia Clássica ao mesmo tempo que novos enfoques e métodos entrem na pauta de discussão dos arqueólogos clássicos.

Para o autor esse processo de aproximação já foi iniciado, uma vez que atualmente métodos e preocupações “próprios” da Arqueologia Pré-Histórica e não clássica em geral, como o uso da prospecção de superfície como um fim em si mesma, (sem ser meramente auxiliar de uma posterior escavação), mas existe a necessidade de uma profunda análise das necessidades e objetivos da Arqueologia Clássica para que uma mudança de enfoque e métodos seja realmente possível. Com este propósito em mente, Morris realiza, neste artigo, um estudo da história intelectual da Arqueologia Clássica, buscando entender suas motivações e mudanças com o passar do tempo.

A Arqueologia da Arqueologia grega

A idéia central de Morris é que a Arqueologia Clássica surgiu como uma sub-disciplina dos estudos clássicos, formando-se como parte da tradição intelectual do Helenismo, que teve suas raízes nos conflitos políticos e culturais do século dezoito, e que atualmente, com o gradual desaparecimento das condições sociais que sustentaram o Helenismo, a Arqueologia Clássica encontra-se sem uma sustentação intelectual clara, o que provoca a necessidade de reconfigurar a disciplina, o que deve ser feito com duas grandes preocupações em mente:

1) definir para que serve a Arqueologia Clássica e

2) trazer o ser humano para o centro das preocupações da disciplina.

Como já foi dito, com base em suas análises iniciais, Morris conclui que um estudo da história intelectual da disciplina é essencial. Para tanto, o autor se utiliza de um enfoque externalista não cognitivo, ou seja, ele se concentra na interação da disciplina com as forças externas à mesma (forças sociais, econômicas, etc.) e enfatiza aspectos políticos, ideológicos e psicológicos da Arqueologia Clássica.

O conceito de epistemas, desenvolvido por Foucault e de extrema utilidade para o autor, está relacionado com padrões de pensamento, ou visões de mundo, compartilhados pelos integrantes de uma mesma cultura. Dessa forma, uma tradição intelectual, como o Helenismo, e a evolução intelectual de uma disciplina, como a Arqueologia Clássica, podem ser estudadas através da dissecação dos epistemas em que tais tradições ou disciplinas surgiram e nos quais evoluíram.

Para Morris a Arqueologia Clássica passa por uma crise de enfoques, métodos e propósitos como consequencia de uma mudança epistêmica do modernismo para o pós modernismo. Morris apoiará sua análise da Arqueologia Clássica, baseada no estudo dos epistemas, através do estudo comparativo de outros campos de estudo, como o orientalismo e os clássicos.

O Argumento

O Helenismo nasceu na passagem do epistema clássico para o moderno. Muitas forças políticas foram fundamentais para definir esta tradição, entre elas as disputas entre os estados germânicos e a França e a agressão imperialista européia contra o império Turco. Nesse contexto é útil uma reavaliação das classificações feitas por Trigger das grandes formas de Arqueologia.

Além da arqueologia nacionalista, cujo objetivo era a valorização de momentos de glória (reais ou não) passada de uma determinada nação, da arqueologia colonialista, que visava justificar o Domínio de uma região sobre outra através da desvalorização das conquistas da região dominada, e da arqueologia imperialista, que enaltecia a superioridade de um pequeno grupo de nações diminuindo as diferenças internas deste grupo, Morris propõe uma quarta categoria, a arqueologia “continentalista”, criada na esteira do Helenismo através da valorização da Grécia clássica - berço teórico do ocidente - e da insistência na singularidade de suas características. Desse ponto de vista, ao menos, é uma grande estupidez afirmar que a Arqueologia Clássica tradicional foi ineficiente, uma vez que realizou as tarefas a que se propunha.

Atualmente não há suporte ideológico suficiente, ou seja, houve uma mudança de epistema, para fundamentar uma disciplina a partir de tais objetivos, o que provoca a atual crise na Arqueologia Clássica. O mais grave é que esta disciplina esteve alheia as evoluções das outras arqueologias, inclusive daquela que se ocupa da Grécia pré-histórica, por estar muito mais ligada, (e numa posição de subserviência), aos estudos clássicos.

Categorias de análise

Além do conceito de epistemas de Foucault, Morris se utiliza de outros conceitos para realizar suas análises.

A idéia de paradigma científico, de Thomas Kuhn, apesar de não poder ser diretamente aplicada nas Ciências Humanas, é de especial interesse: Kuhn afirma que o conhecimento científico cresce de forma descontínua, com grandes e rápidos saltos científicos ocorrendo em momentos de mudança de paradigmas.

Um conjunto de crenças, pressupostos e regras tácitas que direcionam os focos de pesquisa de uma determinada época constituiria o paradigma desta época; como todo paradigma, (pelo menos até o momento), possui suas falhas e contradições, aos poucos as pesquisas se concentrariam no estudo de tais contradições, o que invariavelmente ruiria o paradigma regente, levando à formação de um novo paradigma e a uma explosão inicial de produção de conhecimento. Morris utiliza esse conceito mais para descrever posições intelectuais dentro das Ciências Humanas do que como instrumento de explicação. O autor analisa que o paradigma do Helenismo substituiu aquele do Iluminismo, para então ser desafiado a partir da década de 60.

Hegemonia

O processo de imposição de padrões de comportamento ou pensamento não ocorre apenas através do controle de uma elite dominante sobre as classes subordinadas, mas também nos meios acadêmicos. Apesar do uso de propagandas quase explícitas e do controle intencional da verdade serem formas utilizadas para a imposição do poder, o meio mais eficaz de doutrinação ideológica e de formação de padrões de pensamento é a repetição constante dos valores e padrões de um epistema como se fossem características “da natureza”, intrínsecas ao ser humano.

Essa repetição constante pode ser consciente, como no caso da propaganda clara, como inconsciente (ou tácita), o que acontece nos meios acadêmicos. O estudante que pretende ingressar em certa área será obrigado a construir sua educação formal em instituições acadêmicas oficiais, compostas e dirigidas por profissionais da área. Acontece que tais profissionais invariavelmente irão impor os valores do epistema a que estão integrados nos candidatos a profissionais, perpetuando, dessa forma, os valores, pressupostos e limites cognitivos deste epistema.

As pressões a que os novos profissionais estarão sujeitos para obter sucesso acadêmico, bem como os controles dos institutos financiadores e da mídia, se encarregarão de filtrar aqueles profissionais que não absorverem a carga ideológica do epistema vigente, aumentando a inércia e duração do epistema.

Divisões

A grande divisão entre a Arqueologia Clássica e as outras já foi vista como consequencia da Grande Tradição dos estudos clássicos, da qual a Arqueologia Clássica seria herdeira. Entre outras coisas, a preocupação pelo rigor no tratamento de detalhes é vista, (por Renfrew, entre outros), como característica intrínseca e divisória da Arqueologia Clássica. Morris argumenta que todas as arqueologias são marcadas pela preocupação com detalhes, mas que a Arqueologia Clássica seria marcada pela preocupaçãoapenas com os detalhes. A grande tradição é associada, pelo autor, ao Helenismo, que teria se aprofundado, no século dezenove, na preocupação com os detalhes como uma estratégia de defesa e diferenciação das outras arqueologias em emergência.

Outra característica singular e de diferenciação da disciplina é sua subordinação completa às fontes escritas, a Arqueologia Clássica servindo apenas como instrumento de “construção de paisagem” para a História. Este aspecto se torna ainda mais interessante quando se constata que a Arqueologia dos períodos pré-históricos da Grécia não esta integrada a Arqueologia Clássica.

Helenismo

Até o século dezoito o Império Romano, e não a Grécia Clássica, era considerado o berço do ocidente. A filiação se dava principalmente através do latim e da herança cristã, mas era reforçada e mantida pelo iluminismo, que encontrava eco de seus ideais de poder, razão e sofisticação na Roma antiga. A mudança de foco na busca pela ancestralidade européia, de Roma para a Grécia, aconteceu apenas em meados do século dezoito, sendo motivada por questões políticas e religiosas que culminaram numa mudança de epistema – do clássico para o moderno – e de paradigma – do iluminismo para o Romantismo.

O início desta transformação esteve relacionado às disputas políticas entre França e Alemanha, ou melhor, estados germânicos. A França se via, na época, como a nova Roma, o novo poder militar e cultural unificador da Europa – nada mais natural, portanto, que os alemães outros modelos e filiações culturais, no caso rejeitando Roma e apontando na Grécia o berço da cultura ocidental. A preocupação do protestantismo de se utilizar apenas da Bíblia em grego, também levou a um maior sentido de identificação com a Grécia que com Roma. Após as revoluções da França e dos Estados Unidos o republicanismo passou a ser visto com forte desconfiança, e a Grécia Clássica passou a ser valorizada como fonte dos valores de liberdade e da democracia.

Os valores do Romantismo moldaram a percepção dos gregos clássicos que perdura, parcialmente, até os dias atuais. A liberdade, a vitalidade e criatividade não foram apenas encontradas nos gregos, mas impostas aos mesmos. Foi criada uma imagem da Grécia Clássica, iniciada pelo antiquário papal Johan Joachim Winckelmann, que pouco condiz com a realidade, mas que construiu um povo único e dinâmico, perfeito ancestral da ocidentalidade.

Central para a criação desta imagem foi o paradigma de Zeitgeist – espírito da época, cada um identificado a um povo e uma região (estão presentes fortes valores de determinismo ambiental). Foi o estudo de um Zeitgeist pouco condizente com a realidade, e não um verdadeiro estudo da civilização clássica, que forjou o Helenismo e a Arqueologia Clássica.

Em outros centros ocidentais, como a Inglaterra e os Estados Unidos, o Helenismo só foi completamente absorvido no século passado. Na Inglaterra ele cresceu junto e relacionado a outros valores Românticos, como a valorização do esporte, tendo possuído, também, um caráter de diferenciador social para a aristocracia.

A relação entre o Helenismo e o orientalismo é reveladora dos valores europeus. Em primeiro lugar, supunha-se que os orientalistas estivessem automaticamente em posição subordinada aos helenistas. Também se percebia o orientalismo como uma forma de salvar o antigo conhecimento oriental dos próprios orientais, uma vez que o Oriente nada mais era que uma amorfa e estática região, cuja antiga sabedoria se encontrava estagnada  - apenas a vitalidade e capacidade de inovação dos antigos gregos (e dos europeus posteriores) podia dar sentido e função para aqueles conhecimentos estáticos. Se encontrava garantido, dessa forma, o direito de domínio do Ocidente sobre o Oriente, uma vez que os ocidentais conheciam melhor o oriente que os orientais, e possuíam uma melhor capacidade de uso para tudo que o oriente tivesse produzido.

A Invenção da Arqueologia e a Arqueologia na Grécia

Em seu momento inicial, a Arqueologia constituiu uma grande ameaça ao Helenismo. O estudo da vida diária dos gregos antigos, e de suas mudanças ao longo do tempo, colocariam em cheque muito do Zeitgeist atribuído aos gregos. Mas o processo de hegemonia impediu que a Arqueologia Clássica se constituísse dessa forma. Através das já conhecidas pressões acadêmicas e do desejo dos arqueólogos de fazer parte daquela elite dos estudiosos clássicos, a Arqueologia Clássica foi formada como uma parte dos estudos clássicos, recebendo toda sua herança de valores. A integração aos estudos da arte grega também minaram os potenciais de rompimento de epistema que a Arqueologia pudesse ter ao explorar, (como Kuhn  afirmava), as contradições do paradigma constituído.

Uma triste consequencia (ao menos parcial) foi o desvairado saque de antiguidades promovido pelo ocidente em solo grego. Essa prática deixou de ser frequente apenas com a quebra de práticas provocada por pessoas de fora da área, não sujeitas ao doutrinamento acadêmico, como Schliemann. A fortuna pessoal de Schliemann permitiu que este escavasse Tróia sem apoio externo, por puro interesse pessoal.

As escavações de Schliemann mostraram que estas poderiam ir além do puro saque de obras de arte. Outros, como Curtius, levantaram interesses, métodos e questões puramente arqueológicos, o que levou, inclusive, ao surgimento de um distinto jargão próprio à disciplina. Mas a Arqueologia Clássica ficou presa entre o interesse dos arqueólogos de se manterem ligados aos estudos clássicos, que, entre outras coisas, garantiam prestígio social e acadêmico, e o interesse de se utilizar das novas técnicas e formas de comunicação próprias à Arqueologia. Pelo início do século, entretanto, a Arqueologia Clássica já estava completamente integrada ao Helenismo e afastada das outras arqueologias.

A hegemonia se manteve, a Arqueologia Clássica assumindo sua típica característica de focos completo na descrição detalhada de artefatos e no domínio erudito dos conhecimentos acerca dos próprios artefatos. O objeto de análise da disciplina se constituiu como o artefato em si; a criação de categorias de artefatos e a busca pela criação de cronologias baseadas nas mesmas se concretizava como o único objetivo da Arqueologia Clássica.

O fundamento em relatórios de escavação, obviamente impossíveis de serem escritos de forma narrativa, eliminou a possibilidade da arqueologia escrever uma história que competisse com o conhecimento produzido pelas outras disciplinas clássicas. Os poucos arqueólogos clássicos que criticavam o establishment acadêmico, muitos dos quais com um enfoque mais antropológico, tinham por destino certo o ostracismo e o esquecimento.

A constituição na virada do século de disciplinas mais claras e especializadas, com pretensões mais “científicas” minou o costumeiro uso do passado, inclusive do passado grego, com fins políticos – não existiam mais lições a serem aprendidas com a democracia ateniense, por exemplo. Infelizmente, isso cortou a única via de inovação acadêmica na Arqueologia Clássica. Nem mesmo os poucos arqueólogos clássicos com maior enfoque antropológico continuaram a existir.

Um fato interessante do estudo da Arqueologia Clássica, é analisar como os próprios gregos do presente percebem a Arqueologia Clássica e o passado do qual são herdeiros não muito aceitos.

Desde sua gênese, a Arqueologia Clássica foi controlada por estrangeiros, o que criou um fenômeno bastante curioso: cada escavação, cada demonstração de interesse estrangeiro pela História da Grécia, cada nova descoberta, gerava diversos sentimentos divergentes nos gregos. Apesar de, obviamente, o prestígio fosse gerado pelo interesse no passado grego, havia também uma clara visão de que aquele passado dizia respeito mais ao passado de todo o ocidente que ao passado do povo grego – que muitas vezes foi visto como completamente desconectado dos gregos clássicos.

A presença estrangeira também era vista como sinal de dependência, o que complicava ainda mais os sentimentos gregos em relação ao passado clássico. Os estudiosos gregos concentraram-se, então, em áreas pouco exploradas pelos estrangeiros, como o estudo com enfoque antropológico da Idade do Bronze.

Além do Helenismo

Após a Segunda Guerra Mundial a Grécia caiu completamente na esfera de influência ocidental, movimentos de caráter comunista ou nacionalista completamente eliminados. Durante os anos da Segunda guerra e de conflitos civis posteriores, a Grécia esteve fechada aos estudos arqueológicos. Neste período nasceu a sensação de que entrava-se em uma fase na qual já era possível, inclusive necessário, se estudar os materiais recolhidos em escavações ao longo de tantos anos e que ainda não haviam sido propriamente analisados.

Sir John Beazley foi um precursor na análise de artefatos já escavados – seu trabalho, apontado como libertador do limitante enfoque na classificação de artefatos na realidade apenas reforçou tal enfoque, ao criar uma aparência de disciplina humanística no mesmo tipo de trabalho realizado a gerações; apesar dessa pequena mudança de enfoque, a Arqueologia Clássica ainda se encontrava como participante da tradição do Helenismo – o enfoque continuou a ser o artefato, não o ser humano por trás do mesmo, e as preocupações com a Grécia enquanto berço da personalidade européia ainda dominavam.

Após anos de enfoque influenciado por Beazley, pergunta-se para onde seguir agora. Um enfoque voltado para a narrativa, a construção de história, parece não encontrar eco entre os arqueólogos clássicos, apesar de ser norma na Arqueologia da Idade do Bronze grega. Outra proposta frequente é voltar o enfoque para classes de artefatos menos estudadas ou conhecidas, mas ainda com a preocupação voltada apenas para o artefato. Ironicamente, modernas dificuldades financeiras (e uma atitude mais hostil por parte das autoridades gregas), como o encarecimento das escavações, começaram a desestabilizar os métodos e enfoques usuais.

Grandes escavações se tornaram quase proibitivas atualmente, o que deixou dois caminhos para os arqueólogos clássicos conseguirem manter o fluxo de artefatos necessário na abordagem clássica:

1)realizar escavações pequena porém bastante intensivas;

2)prospecção de superfície.

Entretanto, os dois métodos revelam artefatos que requerem novas habilidades nos arqueólogos, obrigando a um maior contato dos arqueólogos clássicos com os métodos, jargões, e técnicas das demais arqueologias. Para Morris, o novo precursor na Arqueologia Clássica atual foi Anthony Snodgrass. Snodgrass se debruçou sobre a pouco conhecida Idade do Ferro grega, ou “Idade das Trevas”. Tratando de uma época da qual não existem fontes escritas diretas, com artefatos e contextos novos e praticamente desconhecidos, Snodgrass foi obrigado a utilizar um enfoque completamente diverso daquele utilizado pela Arqueologia Clássica.

Utilizando-se de conhecimentos técnicos muito mais próximos das outras arqueologias, abandonando os métodos e jargões da história da arte e dos estudos clássicos – sem, no entanto, abandonar o rigor própria a Arqueologia Clássica. Como define Morris em seu artigo, as questões propostas por Snodgrass estavam muito mais próximas das de um historiador que das de um arqueólogo clássico, e seus métodos muito mais próximos dos de um préhistoriador que de um classicista.

Mudança Epistêmica

Para Morris os caminhos seguidos pela Arqueologia Clássica atualmente – classificar e datar objetos com ainda maior precisão ou, como Snodgrass, analisar os significados sociais dos achados e seus contextos de deposição – não resultam, simplesmente, das necessidades impostas pelos novos tipos de escavação impulsionados pelas dificuldades econômicas e políticas para se escavar na Grécia atualmente. A fragmentação também atinge a arqueologia antropológica não clássica. Uma mudança de epistema, do moderno para o pós moderno, está em andamento. Esse novo epistema se reflete nas ciências humanas, pelo menos, pela falta de unidade ou de uma linha teórica e ideológica clara. A falta de consenso entre os pós modernos é total; talvez o único traço realmente característico desse novo momento. A preocupação com questões mais individuais e o rechaço a explicações “completas” parecem ser constantes também.

O Futuro da Arqueologia Clássica

Para Morris não há uma resposta simples sobre os rumos que a Arqueologia Clássica irá tomar, ou mesmo sobre que rumos eladeveria tomar. O autor percebe dois rumos “conservadores” possíveis. O primeiro, a tentativa de fingir que nada está acontecendo. Continuar realizando o tipo de trabalho, com o mesmo enfoque que a Arqueologia Clássica utiliza a décadas. Essa alternativa provavelmente levaria a um esvaziamento gradual da disciplina e a uma perda de importância acadêmica. Outra possibilidade conservadora seria tentar revalorizar o Helenismo, os valores por trás da Arqueologia Clássica tradicional.

A valorização dos valores Helenistas como valores tradicionais em contraposição ao “caos” esquerdista pós moderno, por exemplo, poderia dar um novo ímpeto, (um ímpeto desagradável, entretanto), para Arqueologia Clássica. Mais produtivo, entretanto, seria perceber e enfrentar o problema, buscando um novo sentido, um novo propósito para a Arqueologia Clássica que se encaixe neste novo epistema. Para Morris, a melhor possibilidade de realizar este feito se encontra na aproximação da Arqueologia Clássica a História antiga.

Outras barreiras também deveriam ser cruzadas, como a que separa a arqueologia antropológica da clássica e as barreiras entre a Arqueologia Clássica e a arqueologia dos períodos pré-históricos gregos. Vale lembrar que a enorme quantidade de dados produzida pela Arqueologia Clássica tradicional não é inútil, apenas infértil se retida num enfoque limitador para os tempos atuais.

Paulo de Castro Marcondes Machado

Bibliografia

MORRIS, Ian (ed) New Directions in Archaeology. “Classical Greece, Ancient Histories and Modern Archaeologies” Cambridge, Cambridge University Press, 1994. Pgs. 3-47.

Fonte: Universidade de São Paulo

Arqueologia

Todo mundo tem alguma noção sobre o que é Arqueologia. Afinal, quantos filmes de aventura, livros de suspense e mistério, ou mesmo vídeogames não têm um arqueólogo como personagem principal? Via de regra, vamos encontrá-lo mergulhado em alguma selva impenetrável, numa busca desenfreada por objetos raros e únicos, produzidos por estranhas civilizações desaparecidas.

De fato, na vida real o arqueólogo enfrenta situações inusitadas e tem um cotidiano cheio de surpresas.

Porém, a visão difundida pela indústria do lazer a respeito desse campo de pesquisa é limitada e ultrapassada, já que em ciência tudo se transforma: as teorias, os métodos e as próprias tecnologias que auxiliam nas descobertas e em suas interpretações.

A Arqueologia pode ser definida como a ciência que estuda o passado humano a partir dos vestígios e restos materiais deixados pelos povos que habitaram a Terra.

Para realizar seu trabalho, o arqueólogo lança mão de diversos procedimentos. Em campo, procura identificar e escavar sítios arqueológicos, onde documenta estruturas e coleta objetos que pertenceram ao cotidiano de uma determinada sociedade. Em seguida, inicia a fase de estudos e trabalhos sistemáticos em laboratório, onde procura relacionar os objetos coletados ao grupo que os produziu e ao seu modo de vida. Logo, a pesquisa arqueológica exige muito esforço e dedicação em campo, mas não afasta um trabalho intelectual intenso em laboratório.

As responsabilidades do arqueólogo vêm aumentando a cada dia, já que ele é incumbido de resgatar e conservar a herança cultural humana, lidando com um patrimônio tão frágil e finito quanto os próprios recursos naturais existentes em nosso planeta.

Ao arqueólogo não cabe apenas investigar as pirâmides do Egito ou os monumentos clássicos gregos e romanos. Ao contrário, a Arqueologia está se diversificando cada vez mais e, no Brasil, é possível encontrar pesquisadores em atividade na Mata Atlântica, nas dunas do Nordeste ou em meio à floresta Amazônica.

Também ao contrário do que se pensa, a Arqueologia não estuda apenas o passado remoto da Humanidade. Nas Américas, convencionou-se chamar de Arqueologia Histórica a pesquisa feita em locais ocupados pelos europeus e africanos que entraram em contato com os indígenas durante o processo de colonização. Assim, estudos vêm sendo desenvolvidos no subsolo de grandes cidades, na sedes de antigas fazendas, em quilombos, campos de batalha, navios naufragados e fortes, permitindo que se conheçam inúmeros aspectos do cotidiano que, via de regra, não constam dos documentos oficiais.

A Arqueologia atua também junto a sociedades atuais (como grupos indígenas, negros ou caiçaras), buscando compreender, através da observação do presente, a maneira como os vestígios materiais podem informar sobre o comportamento e os padrões culturais de sociedades extintas. Esse tipo de pesquisa é denominado Etnoarqueologia, constituindo um campo de investigação extremamente rico e promissor em locais como o Brasil, a Austrália ou vários países da África, que ainda abrigam um grande número de sociedades tradicionais.

Uma vez que a Arqueologia lida com o complexo jogo de dados que constitui a História humana, as equipes de pesquisa contam com especialistas de diferentes áreas: zoólogos, geógrafos, geólogos e antropólogos físicos, entre outros. Pela mesma razão, o arqueólogo lança mão de procedimentos e análises desenvolvidos em outras áreas de conhecimento, como a matemática, a física e a química.

Estes são alguns dos elementos que tornam a Arqueologia atraente e, portanto, tão adequada, oferecendo ótimos ingredientes para filmes e livros de ficção.

Não é à toa que Indiana Jones tornou-se um herói tão popular do cinema, atraindo um enorme número de espectadores mundo afora e faturando um bilhão de dólares.

Neste momento em que o Brasil comemora e reflete sobre os 500 Anos de Descobrimento, os arqueólogos têm na bagagem muitas informações inéditas, remetendo a uma complexa e longa história que recua no tempo por vários milhares de anos.

Embarque com o Arqueologia Brasileira  nessa aventura rumo ao passado, navegando pela Linha do tempo. Se deseja saber mais sobre o cotidiano da pesquisa arqueológica ou sobre as diferentes áreas de atuação da disciplina, clique nos itens ao lado.

Arqueologia
Rio Negro. Amazônia. Aquarela em papel

Arqueologia
Estatueta feminina em argila, Santarém

Arqueologia
Recipiente proveniente da Amazônia (Santarém)

Arqueologia
Escavações em aldeia do final do século XV. Jacareí, SP

Arqueologia
Após o campo, tem início as análises em laboratório

Arqueologia
Ponta de flecha em sílex: testemunho da habilidade dos antigos brasileiros

Arqueologia
A Arqueologia rompe a barreira do tempo, dedicando-se ao estudo do Brasil pós Descobrimento

Arqueologia
A Etnoarqueologia estuda o indígena atual para compreender sociedades extintas

Linha do Tempo

As faixas cronológicas em que a arqueologia brasileira foi dividida têm como ponto de partida os dias atuais (o Presente) e vai recuando no tempo, para datas Antes do Presente (AP). A primeira faixa temporal vai, assim, de hoje a 500 anos atrás, ou seja, do Presente a 500 anos AP. E assim por diante.

Arqueologia

A) Do presente a 500 anos AP - A Era da Globalização

Com a expansão marítima européia a partir do século XV, a América é incorporada definitivamente ao mundo capitalista. A partir daí, europeus, indígenas e africanos se vem às voltas com a de um país chamado Brasil.

A arqueologia avança no tempo e se dedica também ao estudo desses grupos e locais.

De início, você irá conhecer um pouco do cotidiano numa das maiores propriedades de toda a história colonial da América, o Castelo de Garcia D´Ávila, no litoral norte da Bahia.

O Arqueologia Brasileira também apresenta em primeira mão os achados realizados em Canudos. Conheça alguns aspectos de um campo de batalha e a cidadela de Canudos destruída por uma cruel guerra civil, em fins do século XIX.

B) De 500 a 1.000 AP - O Brasil antes de Cabral

Cinco séculos antes da chegada de Cabral ao Brasil, grande parte de nosso país se encontrava ocupado por povos que falavam línguas semelhantes e apresentavam muitas características culturais comuns. São genericamente denominados de Tupi-Guarani.

Su+.a expansão, que provavelmente partiu da Amazônia, deu-se por todo o litoral brasileiro até chegar ao sul do país. Povos guerreiros e grandes canoeiros, utilizavam as vias fluviais e marítimas para incorporar novos territórios, seguindo um modelo de adaptação tropical recente. Quando o colonizador português aqui chegou, encontrou vários de seus grupos espalhados pela costa, como é o caso dos Tupinambá da costa baiana.

Em algumas partes mais altas e abertas do planalto, entretanto, outros grupos continuavam a se desenvolver, definindo formas bastante típicas de ocupação. Bom exemplo são as Casas Subterrâneas do sul do Brasil, construídas em valas abertas no solo, como proteção ao vento gelado do inverno. Algumas vezes, as casas se comunicavam através de túneis, formando verdadeiras redes subterrâneas de comunicação. Dá para imaginar esses "formigueiros" humanos?

C) De 1. 000 a 2.000 AP - As Sociedades Complexas

A Amazônia constitui um importante pólo de introdução da agricultura e da cerâmica no Brasil. Em determinadas porções dessa imensa região se desenvolveram culturas complexas e sofisticadas, como é o caso da Cultura Marajoara, que ocupou a ilha de mesmo nome.

Em seu período de apogeu, Marajó pode ter congregado mais de 100 mil habitantes. Entre eles havia grandes artistas, que fabricavam objetos cerâmicos ricamente decorados, incluindo vasilhas, estatuetas, urnas funerárias e adornos. Este diversificado arsenal de objetos sugere aos arqueólogos que as culturas ali presentes alcançaram uma grande complexidade social e política.

Da Amazônia, seguimos rumo ao Pantanal matogrossense, que abrigava nesta época outra ocupação bastante especializada. Organizada a partir de pequenos bandos, era formada por pescadores, caçadores e coletores altamente adaptados ao ecossistema pantaneiro, ocupando o topo de elevações protegidas das cheias do rio (os aterros). Ceramistas e provavelmente cultivadores, enterravam os seus mortos também nestes aterros, muitas vezes acompanhados por um rico material funerário.

D) De 2.000 a 4.000 AP - A Era da Especialização

Os grupos de caçadores e coletores que há pelo menos 15.000 anos ocupam o Brasil começam, neste período, a apresentar um maior crescimento demográfico e a se tornar sedentários.

As pesquisas arqueológicas nos mostram evidências de uma organização social bastante forte entre esses grupos, tornando-os capazes de gerar verdadeiros monumentos construtivos.

Um bom exemplo disto nos é dado pelos sítios sambaqui, encontrados em diferentes porções do litoral brasileiro. Ocupados por grupos principalmente de pescadores, estes sítios podem atingir mais de 50 metros de altura, contendo centenas de enterramentos humanos.

Mas, como os sambaquis eram construídos? Para qual finalidade?

O Arqueologia Brasileira mostra algumas das estratégias adotadas por estes "paleo-engenheiros".

E) De 4.000 a 12.000 AP - Caçadores em Ação

Entre 12.000 e 4.000 anos o Brasil começa a ser extensivamente ocupado por grupos que tinham na caça e na coleta sua principal fonte de alimentação. Começa o chamado Período Arcaico.

Grupos espalham-se pelo país através de um sistema de vida que variava entre o nômade e o seminômade, deixando seus vestígios em entradas de cavernas, abrigos rochosos, beiras de rio, topos de morros e muitos outros lugares.

Alguns desses caçadores chegaram a conviver com animais atualmente extintos (paleofauna), como a preguiça gigante e o tigre-dente-de-sabre.

F) De 12.000 a 50.000 AP - O Início do Povoamento

Quando teve início a História Humana Brasileira? Quais foram os primeiros grupos a ocuparem o país, e quando eles chegaram? Como eram? De onde vieram?

Por outro lado, como era o Brasil milênios atrás?

Estudos indicam que o clima, a vegetação, a fauna e o relevo possuíam características diferentes das atuais, sendo que os primeiros grupos, denominados Paleo-índios, vivenciaram e se adaptaram a essas modificações ambientais.

Todas essas discussões são inauguradas, aqui, através de uma viagem à região de São Raimundo Nonato, no Piauí. Lá foram encontrados vestígios humanos com mais de 40.000 anos de idade, motivando uma grande discussão científica sobre o início do povoamento no Brasil e nas Américas.

Fonte: www.itaucultural.org.br

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