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Guerra de Canudos

 

 

História

"Canudos não se rendeu. Exemplo único em toda a História, resistiu até o esgotamento completo. Expugnado palmo a palmo, na precisão integral do termo, caiu no dia 5, ao entardecer, quando caíram seus últimos defensores, que todos morreram. Eram quatro apenas: um velho, dois homens feitos, e uma criança, na frente dos quais rugiam raivosamente 5.000 soldados"    Euclides da Cunha

Ele vestia um camisolão azul, sem cintura. Tinha uma barba longa e um cabelo comprido. Usava um chapéu de abas largas para se proteger do Sol, e sandálias para caminhar no sertão. Andava sempre com um cajado, e cumprimentava as pessoas dizendo " Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo".

Seus seguidores respondiam-lhe: "Para sempre seja Louvado". Era chamado de "Santo Antônio" por uns, e de "Bom Jesus" por outros. Mas, ficou mais conhecido como "Antônio Conselheiro".

Seu nome de Batismo era Antônio Vicente Mendes Maciel, e entrou para história como um dos personagens mais pertubadores, e figura central num dos episódios mais trágicos da História do Brasil: A Guerra de Canudos.

Em 5 de outubro de 1897 após 4 expedições militares, um ano de sangrentas batalhas, e uma resistência feroz dos defensores, caiu o arraial de Canudos, e seu saldo foi trágico: estima-se que morreram 15.000 pessoas. Quase nada sobrou daquele arraial, uma espécie de santuário, ou como Euclides da Cunha descreveu em seu célebre livro "Os Sertões", um local "misterioso", onde habitavam jagunços e beatos, que se opunham à ordem representada pelo governo da República e o Exército Nacional. O arraial nada mais era que, uma multidão de casas de taipa, desordenadas, em volta do que era uma praça. Em primeiro momento, o exército calculou em 25.000 o número de seus habitantes, o que o tornaria a segunda maior cidade da Bahia na época, perdendo apenas para Salvador.

Atualmente, este número é contestado. Na praça, havia duas Igrejas: uma menor, conhecida como "igreja velha", e a maior, a "igreja nova",uma grandiosa obra dos conselheiristas, mas nunca acabada.A Igreja Nova, foi o centro da guerra, na qual, em suas torres inacabadas, escondiam-se os sertanejos para alvejar seus inimigos, e por sua vez, tornava-se o alvo principal do canhoneiro dos soldados.

Guerra de Canudos
As prisioneiras - foto de Flávio de Barros

Conforme o relato de um dos comandantes militares, quando, no finzinho da guerra, caiu a última torre da Igreja, houve grandes manifestações de júbilo entre os soldados, e por sua vez, "uma entusiástica e violenta vaia da jagunçada". Outro fato histórico que dá o ar de "misterioso" ao arraial, era que, depois de um dia inteiro de combates, tiros, mortes, correria e cansaço de lado a lado, caia a noite, depunham-se as armas, e o silêncio tomava conta da região. De repente, um rumor começava a insinuar-se na escuridão.

Percebia-se que era um coro de vozes humanas, com predominância de vozes femininas, que Euclides da Cunha explica: "O inimigo, embaixo, no arraial invisível - rezava".

As Expedições

Guerra de Canudos

A Guerra começou de um equívoco. Em Juazeiro, às margens do Rio São Francisco, correu um boato que, os conselheiristas invadiriam a cidade, em represália ao atraso de uma encomenda de madeira que solicitaram para construir a Nova Igreja do arraial. A população apavorou-se com o boato, e o juiz local comunicou o governador do Estado, Luis Viana, que prontamente, resolveu enviar a Canudos, uma expedição punitiva em novembro de 1896. A expedição, composta de 107 homens, e comandada pelo tenente Pires Ferreira, estava destinada ao primeiro dos sucessivos vexames que seriam impostos aos militares.

Quando os soldados estavam próximos do arraial de Canudos, estacionados no povoado de Uauá, perceberam a aproximação de um estranho cortejo. Parecia uma procissão de penitência, pois haviam pessoas rezando, e na frente um estandarte do Divino.

Mas era uma armadilha: era um batalhão do Conselheiro, munido de paus, pedras, facões, foices e trabucos - tudo o que eles conseguiram encontrar pela frente. Depois de quatro horas de combate, e de ter mais baixas que os militares, os conselheiristas puseram os inimigos a correr. Este era o término do que passou para História como a Primeira Expedição.

A Segunda Expedição, já com 560 homens, e comandada pelo major Febrônio de Brito usou Monte Santo como base de apoio para a ofensiva, assim como as outras duas expedições seguintes.

A Segunda expedição quando chegou a cidade, foi recebida com ares de festa: mas tudo isso foi muito rápido. Bastaram dois dias para os conselheiristas botarem mais uma expedição para correr. A humilhação era demasiada. E por isso, foi chamado o herói de Guerra o comandante Moreira César, que com uma tropa de 1300 soldados estava prestes a invadir Canudos. Ao se aproximar de Canudos, ordenou que se disparassem dois tiros de um de seus quatro canhões Krupp. "Lá vão dois cartões de visita ao Conselheiro", disse. Ao longo da marcha, sua única preocupação, era que os conselheiristas fugissem do arraial, privando-o da glória de derrotá-los.

À medida que se aproximava, seu otimismo aumentava: "Vamos tomar o arraial sem disparar mais um tiro, a baioneta".

Mas Moreira César tinha um outro adversário: ele sofria de epilepsia (teve dois ataques durante a campanha de Canudos) e era muito instável e impulsivo.

Comandou o ataque pessoalmente, e num ato de desespero, partiu em direção ao arraial dizendo "Vou dar brio áquela gente". Não foi muito além. Atingido por uma bala no ventre, acabou morrendo horas depois.

Seu sucessor no comando, o coronel Pedro Nunes Tamarindo, também não teve muito tempo de vida: numa tocaia no córrego do Angico, morreu e seu corpo foi recolhido pelos conselheiristas que, o empalaram e o ergueram num galho, demonstrando assim, que quem desafiava Canudos, teria o mesmo fim.

A morte do cultuado coronel elevou a potência máxima o clima nacional da histeria. Jornais do Rio de Janeiro e São Paulo só falavam de "vingança" e "morte aos monarquistas", como os conselheiristas passaram a ser chamados.

Criavam-se todos os tipos de fantasia: correram rumores de um certo cabo Roque, ficou até seu último cartucho defendendo o corpo de Moreira César, e que morreu heroicamente, servindo a pátria, e lutando contra os jagunços. Uma rua em São Paulo e no Rio receberam o nome do cabo Roque, como forma de homenagem póstuma. Eis que, repentinamente, aparece o cabo Roque, são e salvo, entre os últimos fujões retardatários, e destrói o Roque da fantasia.

Em julho de 1897 o jornal carioca O País, dirigido pelo então eminente Quintino Bocaiúva, publicou um artigo em que se lia: "O Monstro de Canudos": "O Monstro, ao longe, nas profundezas do sertão misterioso, escancara as guelras insaciáveis, pedindo mais gente, mais pasto de corações republicanos, um farnel mais opulento de heróis, e a fera ir-se-á abastecendo e devorando até que, num assombro de raiva, ao sentir a falta de ucharia, desse abastecimento de corpos, desgrenhe a juba, e com um arranque de sua pata monstruosa, queira esmagar a pátria, em crepe pela morte de seus filhos mais amados, pelo massacre de seu exército glorioso!"

Uma grande mobilização social seguiu-se a derrocada da Terceira Expedição. A Quarta Expedição deveria ser muito maior, e mais equipada, sendo comandada pelo general Artur Oscar de Andrade Guimarães, e tendo mais de 5000 soldados em suas linhas. Reuniram-se batalhões do Rio Grande do Sul ao Amazonas, e as forças desta vez foram divididas em duas colunas.

A primeira vinha de Monte Santo, liderada pelo general Arthur Oscar, e tinha uma arma assombrosa: um canhão Withworth de 32 milímetros, que seria apelidado de "matadeira" pelos sertanejos. A segunda coluna estava saindo de Aracaju, comandada pelo general Cláudio Savaget. Depois de um mês de combate, dos 5000 soldados, 900 já estavam fora de combates - mortos ou feridos. Foi quando o Ministro da Guerra, marechal Carlos Machado Bittencourt, resolveu comandar o próximo ataque, suplementando a coluna com mais 3000 soldados. Mas não foi no aumento das tropas, nem nos movimentos estratégicos, que se deu a virada na guerra. Ele decidiu comprar burros mansos, e organizar comboios para levar comida aos combatentes. Regularizado o abastecimento, o Exército começou a ganhar a guerra.

E veio o cerco, o bombardeio impiedoso, o massacre, o incêndio do arraial. Tornaram-se célebres as degolas praticadas em Canudos - as "gravatas vermelhas" aplicadas nos pescoços dos conselheiristas. Os soldados exigiam que os conselheiristas, antes de morrer gritassem "Viva a República!", mas muitos gritavam "Viva o Conselheiro!". As degolações antes eram feitas apenas á noite, mas logo, devido ao número de prisioneiros começou a ser feita durante o dia, e o número de vítimas duplicou, triplicou..."

Em 22 de setembro, morre o Conselheiro. Sua morte ficou cercada de dúvidas. Uns achavam que a causa foi uma desinteria. Outros acreditavam que foi complicações de um ferimento leve, segundo uma outra versão, talvez da desolação e da tristeza que cresciam a seu redor naqueles derradeiros momentos.

Em 6 de outubro de 1897, um dia depois da tomada de Canudos, descobriu-se o local onde tinha sido enterrado Antônio Conselheiro. Foi desenterrado, e fotografaram o cadáver. Então com uma faca afiada, deceparam-no, e mandaram sua cabeça para Salvador, para que fosse analisada pelo professor Nina Rodrigues, que acreditava que, loucos, criminosos, e perturbados de toda a espécie, apresentavam, traços de seus desvios medonhos já a partir da formação do crânio.

O professor Nina Rodrigues não encontrou no crânio do Conselheiro nenhum traço de insânia. O crânio do Conselheiro ficou "guardado" na Faculdade de Medicina da Bahia até que, em 1905 um incêndio destruiu o prédio e a relíquia. O caso do Conselheiro, é apenas um entre muitos na nossa História, que sempre adotou a prática de se cortar cabeças.

Podemos citar como exemplos: Zumbi dos Palmares, Tiradentes, o líder da Revolução Federalista do Rio Grande do Sul, Gumercindo Saraiva, o cangaceiro Lampião e sua mulher Maria Bonita, e os crentes da Comunidade do Caldeirão, um fenômeno ocorrido em 1930 no Ceará, e quase parecido com o de Canudos. Mas essas, são outras histórias, que contaremos em outra oportunidade...

Observações: Deve-se ressaltar que este material aqui apresentado não possui nenhum intuito de divulgar ideologias, apenas servindo de trabalho acadêmico, e como tal, deve-se citar suas devidas fontes. O material utilizado para pesquisa foi o Jornal da Tarde, O Estado de São Paulo, e a Revista Veja, edição de 3 de setembro de 1997. As imagens aqui registradas são do fotógrafo Flávio de Barros e foram coletadas através de outros sites sobre o tema (devidamente relatados na seção links).

Personagens

Antônio Conselheiro

Guerra de Canudos
Antônio Conselheiro

Antônio Vicente Mendes Maciel, naceu em Quixeramobim no Ceará em 1830, e foi professor primário, comerciante e advogado prático(rábula) antes de se tornar beato. Não era pobre nem ignorante. Alguns atribuem a guinada que deu em sua vida por uma desilusão amorosa. Em 1874 e então com 44 anos, se tem notícia do primeiro registro de Antônio Conselheiro. O jornal O Rabudo da cidade de Estância, Sergipe, conta sobre um certo Antônio dos Mares que, em andança pelo sertão, vinha atraindo um número espantoso de seguidores. Conselheiro começou sua peregrinação pelos sertões da Bahia. A República foi proclamada, e Conselheiro continuou a percorrer cidades, vilas e arraiais, e por onde passava, reformava cemitérios, igrejas, e construia capelas, além de colecionar simpatizantes e inimigos.

No início de 1890, o Conselheiro já era um grande incômodo para as lideranças político e religiosas da região. Em 1893 foram mobilizadas forças policiais que tentaram prender o Conselheiro, mas foram derrotadas em Masseté. Fugindo de seus perseguidores, resolve fundar um arraial para congregar seus seguidores, e o lugar escolhido foi Canudos.

Se sozinho, Conselheiro já era um problema, ao edificar a cidade, a coisa piorou: muitas pessoas saiam das fazendas para ir morar na "Nova Terra" e seguir os ensinamentos do Conselheiro. Com o esvaziamento da força de trabalho empregada nos latifúndios dos coronéis do sertão, o ódio por Canudos aumentou consideravelmente, pois ao mesmo tempo que drenava a mão-de-obra das fazendas, retirava da influência dos chefetes os votos de cabresto que lhe garantiam o controle dos instrumentos do Estado.

O motivo de Conselheiro ser considerado monarquista, foi que, com a Proclamação da República, Antônio Conselheiro por ser muito tradicionalista, recusou-se a aceitar o novo regime. Dizia que a República era o Anti-Cristo, pois ousava separar a Igreja e o Estado. Outra característica foi instituir o Casamento Civil, que tirava da Igreja o poder exclusivo do matrimônio. O episódio de Masseté, e que teve um saldo de 3 mortos de cada lado, começou na cidade de Natuba, com os moradores locais inconformados com a cobrança de impostos. Nesta cidade, o Conselheiro incentivou a população a destruir os editais de cobrança, e mostrou seu primeiro gesto de desobediência civil. Em consequência, uma tropa policial saiu em seu encalço, e resultou no episódio de Masseté.

Com a guerra deflagrada, o Conselheiro começou a ficar muito entristecido com a destruição de sua cidade e seu povo, e veio a morrer dias antes de ver seu sonho de uma nova sociedade ser totalmente aniquilado pelo exército.

Cel. Moreira César

Guerra de Canudos
Cel. Moreira César

Uma onda de temor varreu o sertão.

Lá vinha ele: o Anti-Cristo, o Corta-Cabeças, o Treme-Terra.Muito tempo depois ele ainda serviria de inspiração para os cantadores.

Como nesta quadra recolhida por José Calazans:

Moreira César foi ao céu
Com Tamarindo ao seu lado
São Pedro falou assim:
Ô, que cara malvado!

O Coronel Antônio Moreira César era o o oficial mais celebrado do exército, a quem se atribuía bravura sem igual. Era considerado o herdeiro do Marechal Floriano Peixoto, falecido há dois anos, ídolo dos militares, e patrono-mor dos defensores do regime republicano.

Euclides da Cunha o descreve:

"O aspecto reduzia-lhe a fama. De figura diminuta - um tórax desfibrado sobre pernas arcadas em parênteses - era organicamente inapto para a carreira que abraçara(...)Apertado na farda, que raro o deixava, o dólmã feito para ombros de adolescente frágil, agravava-lhe a postura. A fisionomia inexpressiva e mórbida completava-lhe o porte desgracioso e exíguo."

E, no entanto, quanto respeito e quanto medo, impunha á sua volta.

Consideravam-no um herói por sua atuação na repressão aos dois movimentos que haviam desafiado o regime florianista: a Revolta da Armada no Rio de Janeiro, e a Revolução Federalista no Sul. Em Santa Catarina, distinguiu-se pela ferocidade.

Quando não fuzilava seus inimigos, decapitava-os. Veio a morrer em Canudos, por um tiro que não se sabe se foi dos inimigos, ou de um soldado. Segundo uma versão, o soldado atirou, ao ver o coronel avançar em seu cavalo em direção ao arraial. fez isso porque estava cansado dos maus tratos a que o coronel submetia a tropa. Segundo outra, a vingança teria sido por conta de ações praticadas por Moreira César na Campanha de Santa Catarina. A família de dois irmãos mortos pelo coronel nesta ocasião teria contratado um soldado para vingá-la. Esses irmãos, seriam ninguém menos que o pai e o tio do poeta modernista Ronald de Carvalho.

Euclides da Cunha

Guerra de Canudos
Euclides da Cunha

Depois de Antônio Conselheiro, e de Moreira César, o nome mais ilustre no episódio de Canudos, foi do escritor Euclides da Cunha. Nascido na província do Rio de Janeiro em 1866, Euclides da Cunha sempre fora um Republicano convicto.

Em 1892 começa a escrever para o jornal O Estado de São Paulo, e em 1897 é convidado pelo jornal para cobrir o episódio da Revolta Monarquista de Canudos. Lá, como correspondente do jornal, começa a se interessar pela história e o modo de vida do povo da região. Alguns anos mais tarde, (1902) lança o livro "Os Sertões", que narra o momento do conflito, e as dificuldades do povo nordestino, cercados de violência e fome.

Em 15 de agosto de 1909, morre aos 43 anos, vítima de uma troca de tiros com o cadete do exército Dilermano de Assis, que se tornara amante de sua esposa Anna da Cunha.

Coronel Tamarindo

O coronel Pedro Nunes Tamarindo, foi o oficial que devia suceder Moreira César no Comando da Terceira Expedição.

Um homem "simples, bom e jovial", segundo Euclides, que já chegara aos 60 anos, e não aspirava senão uma reforma tranquila - proferiu então sua frase famosa, que ficou como um marco das debandadas militares: "É tempo de murici, cada um cuide de si". Tamarindo foi abatido horas depois de assumir o comando, numa tocaia no Córrego do Angico. Seu corpo foi empalado e erguido num galho, para assustar os imprudentes que porventura ainda viessem a ousar uma nova expedição contra o arraial sagrado.

Outros personagens

O elenco desta epopéia do sertão, pode ser prolongado ao infinito: cabo Roque, herói efêmero de um ato de bravura que não houve, o marechal Bittencourt, o Ministro da Guerra, que arrasou com os sertanistas.

Do lado dos conselheiristas, a turma dos jagunços valentes, alguns formados na escola do cangaço antes de se juntar ao Conselheiro, e se tornar os cabeças de seu Exército improvisado: João Abade, o "comandante da rua" , como era conhecido (rua no sentido de arraial, de cidade, de área urbana, e comandante por ser o chefe militar supremo); Pedrão, que veio a morrer em 1958 e que trinta anos depois de Canudos, foi contratado por Juraci Magalhães para combater Lampião.

A estes, acrescentem-se os acólitos religiosos do Conselheiro: Antônio Beatinho, José Beatinho que com sua bela voz fazia as rezas mais bonitas e os cantos de louvor, Paulo José da Rosa. Havia o sineiro Timotinho, que não se importando com o tiroteio, e o mar de cadáveres, continuava a bater o sino, e morreu vítima de uma bala de canhão que atingiu a torre da igreja velha. E não podemos esquecer de Pajeú, o terrivel guerrilheiro das estocadas ardilosas "forma retardatária de troglodita sanhudo" segundo Euclides. Vale contar um episódio em que Pajeú queimou duas fazendas do então coronel Zé Américo. Numa delas, só ficou um quarto onde havia imagens de santos, acomodadas em nichos. Pajeú, não queimou o quarto, em respeito as imagens, pois era um devoto dos santos. Mais duas figuras que devem ser destacadas neste conflito, foram o fotógrafo Flávio de Barros, que tirou todas as fotos da Campanha da Quarta Expedição, e o próprio jornalista Euclides da Cunha, enviado especial do jornal O Estado de São Paulo, e que possibilitou o início do material para o livro que escreveria alguns anos depois, e que se tornaria um marco sobre a história do sertão.

Curiosidades

Guerra de Canudos
Osvaldo Storni - 1953

O nome do Arraial de Canudos, surgiu devido ao costume da comunidade da região usar cachimbo. O cachimbo era confeccionado a partir de uma planta nativa muito abundante na região, chamada Canudo.

Em 1887, o arcebispo de Salvador, dom Luís Antônio dos Santos, cobrou providências do governo do Estado, para que prendesse o Conselheiro. O Governo do Estado por sua vez pediu socorro ao Governo Imperial. A idéia era internar o desafeto no Hospício D. Pedro II, no Rio de Janeiro. A autoridade imperial consultada, respondeu que não havia vaga disponível, e com isso, o Conselheiro continuou livre para divulgar sua fé.

O escritor peruano Marcos Vargas Llosa, esteve em 1979 em Canudos, realizando pesquisas para seu livro que fala sobre este episódio: "A Guerra do Fim do Mundo"

Canudos não existe mais. A vila do Conselheiro, além de destruída, foi submersa em 1969 pelo açude de Cocorobó. A nova Canudos, fica a 10 quilômetros da Original.

Existem 3 Canudos ao longo da História. A primeira foi a de Conselheiro, arrasada pelos militares. Após alguns anos, a região foi povoada novamente, e assim surgia a segunda Canudos. (Alguns eram antigos conselheiristas, ou descendentes que voltavam).Na década de 50, foi projetado um açude que acabou submergindo a região histórica. Em 1969 com a inundação da cidade, a população foi transferida para um povoado chamado Cocorobó, que foi rebatizado de Canudos, e esta é a terceira e atual.

A região da Antiga Canudos, é cercada por morros.

Nestes morros, os rebeldes arriscavam escaramuças contra o Exército, e dois deles ficaram nacionalmente conhecidos: o Morro do Mário, e o Morro da Favela. O Morro da Favela ficou tão famoso, que veio a nomear um morro similar no Rio de Janeiro - segundo uma versão, por causa das construções idênticas a Canudos, como descrevera Euclides da Cunha, a "urbs monstruosa", outra versão, era referente ao grande número de soldados veteranos da campanha que ali moravam.

Um estudante de medicina de Salvador que esteve na guerra com o corpo médico, Alvim Martins Horcades, descreveu num livro antes de Os Sertões (Descriçao de uma viagem a Canudos), e com uma crueza a que Euclides não chegaria, a degola dos prisioneiro. "Belo exemplo de civismo e progredimento social!", escreve Horcades, com indignação."Levar-se homens de braços atados para trás, como criminosos de lesa-majestade, indefesos, e perto mesmo de seus companheiros, para maior escárnio, levantar-se pelo nariz a cabeça, como se fora de uma ave, e corta-lhes com o assassino ferro o pescoço, deixando cair a cabeça sobre o solo - é o cúmulo do banditismo praticado a sangue frio, como se fora uma ação nobilitante!" Escreve ainda: "Acontecia certas ocasiões estarem muitos daqueles miseráveis dormindo e serem acordados para se lhes dar a morte. Depois de feita a chamada, organizava-se aquele batalhão de mártires, de braços atados, arrochados um ao outro, tendo cada qual dois guardas e seguiam...seguiam para ainda uma vez provar cabalmente a sua coragem intimorata. Caminhavam um pequeno pedaço de terra, e lá ia sendo assassinado um após o outro. Eram encarregados desse serviço dois cabos e um soldado, a mando do sanguinário alferes Maranhão, os quais, peritos na arte, já traziam seus sabres convenientemente amolados, de maneira que, ao tocarem a carótida, o sangue começava a extravasar-se, sendo então toda decepada aquela região, de modo a produzir um jorro de sangue, tendo pouco mais ou menos 25 centímetros de espessura, em circunferência". (texto extraído da Revista Veja edição 1511 de 3 de setembro de 1997, página 86).

Fonte: guerradecanudos.vilabol.uol.com.br

Guerra de Canudos

No sertão da Bahia, no final do século XIX, travou-se a Guerra de Canudos, uma das mais sanguinárias revoltas populares da história brasileira.

Movimento de cunho religioso, adquiriu coloração política, passou a ser considerado subversivo pelo governo e se alastrou em áreas socialmente carentes e miseráveis.

Canudos era um arraial do interior da Bahia, área isolada e de difícil acesso.

Na região se instalou a partir de 1893 o beato Antônio Vicente Mendes Maciel, o Antônio Conselheiro.

Antes, o beato percorrera o sertão pregando transformações, profetizando o fim do mundo e despertando a ira das autoridades e do clero católico, que o consideravam e a seus seguidores uma ameaça ao establishment.

Conselheiro comandou uma queima de editais de cobrança de impostos e, em seguida, refugiou-se com seus adeptos em Canudos.

A partir daí, seu exército, uma grande massa de pobres e maltrapilhos, só cresceu, chegando a uma população de 30 mil pessoas.

Ao mesmo tempo, Conselheiro desenvolveu uma das primeiras experiências socialistas no mundo: em Canudos, cada família entregava metade de suas posses para o conjunto da comunidade, mantinha roças e criações familiares, vivia desse trabalho e sustentava os desvalidos que iam chegando.

Conselheiro seguia princípios da igreja católica e impunha regras religiosas rígidas a seus seguidores, obrigados a rezar terços todas as noites.

A perseguição à comunidade aumentou após relatório de frades capuchinhos que apontavam Conselheiro e seus beatos como adeptos de seita político-religiosa lastreada em superstições e fanatismo.

Aos poucos, o movimento adquiriu caráter de oposição à República instalada anos antes no país.

O governo do estado começou a despachar tropas para destruir o arraial e estas eram irremediavelmente dizimadas pelo bando de beatos.

Mas, a morte de um coronel do Exército mudou o curso dos combates. Em 1897, na quarta incursão de tropas governamentais à região, os militares incendiaram Canudos, mataram toda a população e degolaram os prisioneiros.

A Guerra de Canudos deu origem a um dos clássicos da literatura brasileira, o livro Os Sertões, de Euclides da Cunha, e inspirou o recém filmado longa-metragem Canudos, de Sergio Rezende, entre outros filmes.

Fonte: www.mre.gov.br

Guerra de Canudos

Guerra de Canudos
Guerra de Canudos

A Guerra de Canudos, revolução de Canudos ou insurreição de Canudos foi um movimento político-religioso brasileiro que durou de 1896 a 1897, ocorrida na cidade de Canudos no interior do Estado da Bahia.

Na Guerra de Canudos os revoltosos contestavam o regime republicano recém adotado e a sua liderança, exercida por Antônio Conselheiro, baseava-se na motivação religiosa. Todo o conflito foi retratada no livro "Os Sertões" de Euclides da Cunha, que a presenciou como repórter do jornal O Estado de S. Paulo.

Uma referência importante para entender a Guerra de Canudos é o romance "A Guerra do Fim do Mundo" de Mario Vargas Llosa. Nesta obra, Llosa descreve os fatos como que num romance, o que faz o leitor sentir toda a dimensão da tragédia que foi esta guerra, que, no Brasil, perde em dimensões somente para a Guerra do Contestado.

A Guerra de Canudos propriamente dita durou um ano e, segundo a história, mobilizou ao todo mais de dez mil soldados oriundos de 17 Estados brasileiros, distribuídos em quatro expedições militares. Calcula-se que morreram ao todo mais de 25 mil pessoas, culminando com a destruição total da cidade palco da guerra.

A situação no Nordeste brasileiro, na época, era muito precária. Fome, seca, miséria, violência afetavam os nordestinos. Toda essa situação, junto com o fanatismo religioso, gerou um grave problema social. Em novembro de 1896, no sertão da Bahia, explodiu um conflito civil. Isto durou por quase um ano, até 05 de outubro de 1897, e, devido à força, o governo da Bahia pediu o apoio da República para conter este movimento formado por fanáticos, jagunços e sertanejos sem emprego.

Conselheiro, homem que passou a ser conhecido logo depois da Proclamação da República, era quem liderava o movimento. Ele acreditava que era um enviado de Deus para acabar com as diferenças sociais e a cobrança de impostos.

Com estas idéias em mente, ele conseguiu reunir um grande número de seguidores que acreditavam que ele realmente poderia libertá-los da situação de extrema pobreza. Com o passar do tempo, as idéias iniciais de Conselheiro foram sendo usadas como modo de justificar roubos e outras atitudes que em nada se pareciam com nenhum tipo de ensinamento religioso.

Devido à enorme proporção deste movimento, o governo da Bahia não conseguiu sozinho segurar a grande revolta que acontecia em seu Estado. Por esta razão, pediu a interferência da República, que, por sua vez, também encontrou muitas dificuldades para conter os fanáticos. Somente no quarto combate, onde as forças da República já estavam bem equipadas e organizadas, os incansáveis guerreiros foram vencidos pelo cerco que os impediam de sair do local em que se encontravam pra buscar qualquer alimento, e muitos morreram de fome. O massacre foi tão grande que não escaparam nem idosos, mulheres e crianças.

Essa série de acontecimentos gerou uma série de livros, filmes e materiais relacionados, como o livro “Os Sertões”, de Euclides da Cunha, que presenciou toda a guerra; o filme “Canudos” e muitos outros.

Fonte: www.conhecimentosgerais.com.br

Guerra de Canudos

A Guerra de Canudos durou um ano e mobilizou mais de 10 mil soldados oriundos de 17 estados brasileiros e distribuídos em 4 expedições militares. Estima-se que morreram mais de 25 mil pessoas, culminando com a destruição total da cidade. Na fotografia abaixo, D. Rita Ramos com armas utilizadas na guerra.

Guerra de Canudos

"Escapa, escapa soldado
Quem tiver perna que corra
Quem quizer ficar que fique
Quem quizer morrer que morra
Há de nascer duas vezes
Quem sair desta gangorra" (João Melchiades Ferreira da Silva)

Novembro - 1896

Começa a guerra de Canudos. O pretexto para o seu início foi irrelevante. Antônio Conselheiro precisava de madeira para a Igreja Nova em construção e a encomendou em Juazeiro (BA). O pagamento foi antecipado, mas, no prazo estabelecido, a madeira não foi entregue. Espalhou-se o boato de que a cidade seria invadida pelos conselheiristas. O juiz local, Arlindo Leone, tinha antigas divergências com Conselheiro e resolveu estimular o pânico na cidade. Grande parte dos moradores resolveu atravessar o Rio São Francisco, refugiando-se em Petrolina (PE). Criado o clima propício, o juiz solicitou tropas policiais e foi atendido pelo Governador Luís Viana.

06 de Novembro - 1896

Parte de Salvador (BA), pela Estrada de Ferro da Bahia ao São Francisco com destino a Juazeiro, a 1a Expedição Militar contra Canudos. Era composta de 113 soldados do 9º Batalhão de Infantaria, três oficiais, um médico e dois guias (Pedro Francisco de Morais e seu filho, João Batista de Morais), comandados pelo Tenente Pires Ferreira. Levava 400 cartuchos para cada praça. Ao chegar no dia seguinte a Juazeiro, a expedição encontrou uma cidade apavorada, mas os conselheiristas estavam bem longe e não planejavam nenhum ataque. Então, o juiz e o tenente decidem ir em direção a Canudos.

No dia 19, a tropa chega a Uauá (BA). O historiador Manoel Neto afirma: "Até alcançar Uauá a trôpega tropa marchou penosos 150 quilômetros. Passaram pela Lagoa do Boi, Caraibinhas, Mari, Mucambo, Rancharia, o Tenente Pires Ferreira e seus enfermiços e diarréicos subordinados.

Enfrentando dificuldades no comando, porquanto estremecido com o Alferes Coelho e o próprio dr. Antonino, o chefe da expedição cometia outros erros perigosos: exauria a tropa numa marcha não planejada e em terreno sobejamente conhecido pelo inimigo, isolava-se de apoio estratégico valioso, encaminhava-se para combater um contendor desconhecido, obscuro. Tinhosos, como depois se comprovou, os combatentes de Bello Monte espreitavam..." (Neto, Manoel. De Juazeiro a Ladeira da Barra: A Inusitada Trajetória da Expedição Pires Ferreira in Revista Canudos v.1, n.1 1997 UNEB – CEEC )

21 de Novembro - 1896

No amanhecer deste dia a Expedição encontrava-se ainda em Uauá (BA), quando chegam centenas de conselheiristas entoando cânticos, tendo a frente a bandeira do Divino e uma grande cruz de madeira.

"Não pareciam guerreiros
Símbolos da paz portavam,
A bandeira do Divino
E ao som de Kyries marchavam,
Levando uma grande cruz,
De longe se anunciavam." (Zé Guilherme)

Guerra de Canudos
Pintura: Trípoli Gaudenzi

Vinham como quem vinha para reza, ou para a guerra. Foram recebidos a bala pelos sentinelas semi-adormecidos e surpresos. Era a guerra.

Manoel Neto assim descreve: "Estabelecia-se, sangrento, o 1º fogo previsto pelo Conselheiro, e a pacata Uauá transformava-se em violento território de combate. O próprio Tenente Pires Ferreira descreve o ataque destacando a "incrível ferocidade" dos assaltantes e a forma pouco convencional como organizavam suas manobras, isto é, usando apitos. A celeridade e a rapidez com que a luta se deu propiciou vantagem inicial aos conselheiristas. Adentraram ao arraial onde ocuparam algumas casas. A lógica, entretanto, prevaleceu. Armados e municiados com equipamentos mais modernos e letais, os soldados do 9º Batalhão de Infantaria impuseram pesadas baixas as forças belomontenses. A crueza do combate foi inegável, sendo que o uso de armas como "facões de folha-larga, chuços de vaqueiro, ferrões ou guiadas de três metros de comprimentos, foices, varapaus e forquilhas, sob o comando de Quinquim Coiam" utilizados em lutas de corpo a corpo produziam cenas dantescas. Foram entre 4 e 5 horas de pânico, sangue, horror e gestos de bravura e pânico. Contabilizadas as baixas de ambas facções, os números determinava a vitória militar das tropas governamentais. No relatório oficial, Pires Ferreira informa que pereceram na batalha, dentre as hostes conselheiristas "cento e cinqüenta, fora os feridos". (Neto, Manoel. idem )

Passadas várias horas de combate, os canudenses, comandados por João Abade, resolveram se retirar, deixando para trás um quadro desolador.

Apesar da aparente vitória, a expedição estava derrotada, pois não tinha mais forças nem coragem para atacar Canudos. Naquela mesma tarde, saqueou e incendiou Uauá e retornou para Juazeiro, com o saldo de 10 mortos (um oficial, sete soldados e os dois guias) e 17 feridos.

"Em Juazeiro ao chegarem
Houve grande confusão
O medo cresceu na mente
De toda a população
O êxodo reatado
Aumentou em proporção" (Zé Guilherme)

Guerra de Canudos
Atual praça de Uauá, local do combate
Foto: Antonio Olavo

Pedrão, que durante o combate estava em outra missão ao chegar em Canudos e saber que seus companheiros mortos estavam insepultos, criticou João Abade e autorizado por Conselheiro, voltou a Uauá e enterrou 74 corpos.

Em Canudos, correu o boato de que os soldados tinham sido avisados por Antônio da Mota, negociante, compadre e amigo de Conselheiro. Mas estes créditos de nada lhe valeram, pois foi morto junto com todos os homens adustos da sua família numa chacina brutal e desumana.

A derrota surpreendeu o governo e repercutiu negativamente na opinião púbica, mas no sertão aumentou ainda mais o prestígio de Antônio Conselheiro e cresceu muito a quantidade de pessoas que iam para Canudos.

29 de Dezembro - 1896

Reúne-se em Monte Santo (BA) o efetivo da II Expedição Militar contra Canudos, composta de forças federais e da polícia militar baiana, sob o comando do Major Febrônio de Brito. Depois de inúmeros contratempos provocados por divergências entre o Governador Luís Viana e o Comandante do 3° DM, General Sólon Ribeiro, que é afastado do posto por ordem do governo federal, a Expedição finalmente estava pronta para a investida. Muito mais poderosa que a anterior, era composta de 609 soldados do 9º BI (Salvador), 33º BI (Alagoas) e do 26º BI (Sergipe), 10 oficiais, 1 médico, 1 farmacêutico, 1 enfermeiro, 2 canhões Krupp e 3 metralhadoras Nordefelt. Um clima de euforia e festa patrocinado pelas autoridades locais contagia toda a tropa e a confiança numa rápida e esmagadora vitória era tanta, que resolveram deixar na cidade 2/3 da munição, por considerá-la desnecessária.

12 de Janeiro - 1897

Neste dia, em que parte de Monte Santo em direção a Canudos a Expedição Febrônio de Brito, Antônio Conselheiro conclui em Bello Monte suas prédicas em um volumoso livro intitulado Tempestades que se Levantam no Coração de Maria por Ocasião do Mistério da Anunciação, obra manuscrita que contém pensamentos e discursos sobre religião, monarquia, república e escravidão. Auxiliava-o escrevendo, Leão de Natuba, uma espécie de secretário que também tinha boa caligrafia. Este livro ficou inédito durante 77 anos e teve sua publicação organizada por Ataliba Nogueira (Nogueira, Ataliba. Antônio Conselheiro e Canudos. Revisão Histórica. São Paulo, Editora Nacional, 1974).

18 de Janeiro - 1897

Logo cedo, a Expedição Febrônio de Brito atravessava a Serra do Cambaio quando foi surpreendida por forte emboscada. Houve um grande corre-corre em meio à fuzilaria. O pleno conhecimento do terreno proporcionava aos sertanejos, uma melhor posição de tiro, causando muitas baixas entre os soldados. A luta durou mais de 5 horas, quando finalmente a força militar prevaleceu e avançou, deixando muitas perdas entre os conselheiristas. Ao fim da tarde, a expedição acampou à beira da Lagoa do Cipó. Na manhã seguinte houve um novo ataque, desta vez mais compacto e direto. Sem o abrigo das serras e rochedos, conselheiristas e militares muitas vezes lutavam corpo-a-corpo, no terrível confronto dos punhais.

No final do combate, inúmeros corpos restavam estendidos no chão, a maioria de conselheiristas.

A lagoa tinha mudado de cor e de nome, desde então passou a se chamar Lagoa do Sangue.

A expedição não teve mais condições de prosseguir no seu objetivo que era atacar Canudos. Estava arrasada e foi obrigada a um recuo lento e penoso, trazendo consigo um saldo de 10 soldados mortos e 70 feridos. Na volta, os soldados, maltrapilhos, com fome e arrastando consigo os feridos e os canhões, percorreram parte do caminho fustigados pelas emboscadas ardilosas organizadas por Pajeú.

Guerra de Canudos
Foto: Evandro Teixeira

31 de Janeiro - 1897

Machado de Assis, que tinha uma coluna no jornal Gazeta de Notícias, neste dia escreve: "Protesto contra a perseguição que se esta fazendo a Antônio Conselheiro". Era uma das poucas vozes contrárias à opinião pública brasileira que exigia novas medidas repressivas contra Canudos após a derrota de duas expedições militares.

07 de Fevereiro - 1897

Parte de Salvador com destino a Queimadas, a III Expedição Militar contra Canudos, a mais famosa de todas. Depois de dois grandes fracassos militares das expedições anteriores, ela tinha a responsabilidade de "lavar a honra" do Exército, seguindo equipada com seis canhões Krupp e mais de 1.300 soldados conduzindo 15 milhões de cartuchos. No comando estava o temível Cel. Moreira César, apelidado de "corta-cabeças" devido a sua atuação na repressão ao movimento federalista no sul do país (1893-95).

Era grande a confiança na vitória e logo ao chegar em Queimadas, o Cel. Moreira César telegrafou ao Gov. Luís Viana dizendo: "só temo que o fanático Antônio Conselheiro não nos espere".

Dias depois em nova mensagem reafirmava: "só receio a fuga dos fanáticos". Nada atemorizava Moreira César, nem mesmo os 2 ataques de epilepsia que sofreu logo nos primeiros dias no Sertão.

De Queimadas segue para Monte Santo e em 22 de fevereiro, parte para Canudos. Ao passar pelo Cumbe (atual Euclides da Cunha) manda prender e humilhar o Padre Vicente Sabino por este manter relações amistosas com Conselheiro.

03 de março - 1897

A III Expedição Militar avista Canudos.

O Cel. Moreira César euforicamente grita para os seus homens: "Vamos tomar Canudos sem disparar mais um tiro ... à baioneta". Ao contrário do anunciado, o ataque começa com a artilharia entrando em cena, num fogo cerrado de canhões, seguida de forte investida dos soldados que conseguem ocupar algumas áreas periféricas do Arraial. A reação veio como uma tempestade de tiros partindo dos defensores alojados em casas, becos e nas torres das igrejas. A cavalaria entrou em cena, mas no terreno acidentado, foi ineficaz e tornou-se alvo fácil. Com o passar das horas, mesmo com o apoio da cavalaria, o entusiasmo inicial das tropas arrefece e o confronto se reverte francamente favorável aos conselheiristas.

No final da tarde, as baixas militares eram grandes e o inesperado acontece: o Cel. Moreira César é atingido por dois tiros e fica fora de combate. Não havia mais chances para a força expedicionária. Às 19h é anunciado o toque de retirada.

04 de Março - 1897

Durante a madrugada, morre o Cel. Moreira César e assume o comando o Cel. Tamarindo. Logo pela manhã bem cedo, a expedição inicia o caminho de volta.

Tudo era como se fosse um pesadelo que ainda não havia terminado, pois Pajeú, um dos principais chefes guerrilheiros de Canudos, liderava seus companheiros em emboscadas que causavam pânico em toda a tropa, transformando a retirada numa debandada geral.

O Cel. Tamarindo é atingido mortalmente e o Major Cunha Matos, que assumiu o comando, afirmou em seu relatório oficial: "logo notei certa cobardia por parte das praças em geral (...) a guarda avançada e outras muitas praças abandonavam seus postos, e corriam pela estrada fugindo". Era o trágico fim de uma expedição vingadora que teve um saldo de 116 mortos, inclusive 13 oficiais, e 120 feridos.

05 de Abril - 1897

É publicada a Ordem do Dia, criando a IV Expedição Militar contra Canudos. Após a surpreendente derrota da III Expedição, a opinião publica estava histérica e exigia medidas drásticas do governo para uma rápida solução do conflito. Organizou-se então, a maior de todas as expedições, formada por tropas de 17 Estados (BA-SE-PE-PB-AL-RN-PI-MA-PA-ES-MG-SP-RJ-RS-AM-CE-PR), equipadas com os mais modernos armamentos da época. O efetivo militar era composto de seis Brigadas, divididas em duas colunas que investiriam sobre Canudos por direções opostas, sendo o comandante central o General Artur Oscar.

A 1ª Coluna, sob o comando do Gal. Silva Barbosa sai de Queimadas e passa por Monte Santo, composta de 3.415 homens, 180 mulheres, 12 canhões Krupp e 1 canhão Withworth 32. Na retaguarda, protegendo 750 mil quilos de mantimentos e munições, seguia o 5° Corpo de Polícia da Bahia, destacamento formado por 388 jagunços contratados no interior do Estado. A 2ª Coluna sob o comando do Gal. Cláudio Savaget, parte de Sergipe em tropas isoladas, se agrupando em Jeremoabo (BA), de onde segue para Canudos, composta de 2.340 homens, 512 mulheres e 74 crianças, inclusive duas nascidas durante a marcha.

09 de Abril - 1897

Aporta em Salvador a 1ª Divisão Naval de apoio as operações militares de Canudos. Composta de 5 navios de guerra, os cruzadores 15 de Novembro, Trajano, Andrada, Timbira e Paraíba e o patacho Caravelas. Era a Marinha, também participando da guerra de Canudos.

28 de Junho - 1897

Depois de várias semanas de marcha, travando combates, a 2ª Coluna da IV Expedição encontra-se em posição privilegiada de ataque a Canudos, já tendo iniciado o bombardeio, quando o Gal. Cláudio Savaget recebe ordens do General Comandante Artur Oscar para socorrer a 1ª Coluna que estava em situação desesperadora, com munição esgotada e envolvida pelas emboscadas organizadas por Pajeú, que magistralmente liderava seus "guerreiros invisíveis" encurralando toda a Coluna no Alto da Favela. Savaget altera seus planos e imediatamente segue ao encontro da 1ª Coluna, salvando-a de uma derrota fragorosa.

Guerra de Canudos
Foto: Flávio de Barros

29 de Junho - 1897

Explode o canhão Withworth, o célebre 32, trazido pela IV Expedição puxado por 13 juntas de bois e apelidado de "matadeira", devido ao imenso estrago que provocava no meio conselheirista. Este acidente provoca a morte de dois oficiais e o ferimento de quatro praças.

01 de Julho - 1897

Um grupo de 11 guerrilheiros conselheiristas, liderados por Joaquim Macambira Filho, investe contra a artilharia do Exército na tentativa frustrada de destruir os canhões que bombardeavam Canudos. Esses ataques, heróicos e suicidas, cada dia tornavam-se mais freqüentes.

14 de Julho - 1897

Com uma salva de 21 tiros de artilharia, o comando da IV Expedição Militar comemora em pleno sertão nordestino, e em meio a um autêntico massacre contra os conselheiristas, o aniversário da Revolução Francesa: Igualdade, Liberdade e Fraternidade.

18 de Julho - 1897

Os militares promovem contra a resistência canudense o grande assalto de 18 de Julho. Todas as forças foram acionadas e 3.400 homens iniciam a ofensiva.

Durante várias horas o combate foi sem tréguas e a muito custo os soldados conseguem transpor o rio e dominar um pequeno trecho de casas da periferia, porém, devido ao fogo cerrado, tornava-se impossível avançar mais.

Ao final do dia, as perdas eram assustadoras e o Exército acusava 947 baixas e uma cruel constatação: o grande assalto fracassara.

23 de Julho - 1897

O General Artur Oscar, comandante em chefe da IV Expedição, faz um relato dramático da situação das forças militares e pede ao governo federal um reforço de 5.000 soldados. O desânimo predominava em toda a tropa e as baixas chegavam a casa de 2.000 homens. O transporte de víveres e de munição era muito perigoso, pois os conselheiristas promoviam emboscadas pelas estradas, dificultando assim o abastecimento e a comunicação da Expedição com a base das operações em Monte Santo (BA). Os oficiais que tinham participado da Guerra do Paraguai (1865 - 1870), afirmam: "jamais vimos combates como os de Canudos".

Guerra de Canudos
Foto: Flávio de Barros

24 de Julho - 1897

O Governador Luís Viana declara ao jornalista Fávila Nunes correspondente especial de guerra da Gazeta de Noticias (RJ): "Se for pegado Antônio Conselheiro, tudo estará terminado; se porém ele fugir, será preciso persegui-lo onde quer que esteja, para não formar mais grupos".

05 de Agosto - 1897

De Salvador (BA), partem para Canudos 24 estudantes de medicina com o objetivo de servir nos hospitais de sangue do Exército.

07 de Agosto - 1897

Euclides da Cunha desembarca do vapor Espírito Santo em Salvador (BA), como correspondente de guerra do jornal O Estado de São Paulo, periódico no qual já havia escrito dois artigos intitulados "A Nossa Vendéia", publicados em 14 de Março e 17 de Julho de 1897. Euclides demonstrava vivo interesse no tema, e nas semanas seguintes recolhe material de pesquisa e entrevista soldados feridos e prisioneiros conselheiristas recém chegados da zona de combate. No final do mês, vai para o palco da guerra, passando por Queimadas e Monte Santo, chegando em Canudos a 10 de setembro e ficando ate 3 de outubro, dois dias antes do final da guerra.

08 de Agosto - 1897

Parte de Monte Santo a famosa Brigada Girard. Formada originalmente por 1.090 homens, com 850 mil cartuchos Mauser, ao longo do caminho foi se reduzindo drasticamente, pois a proximidade do cenário da guerra provocava uma crescente onda de deserções de praças e pedidos de baixas de oficiais que envolveu até mesmo o seu comandante, o General Girard. A famosa e intrépida Brigada se apresenta dia 15 no Alto da Favela, com um Major comandando 800 homens amedrontados e o apelido nada lisonjeiro de "mimosa".

"Escapa, escapa, soldado
Quem quiser ficar que fique
Quem quiser morrer que morra
Ha de nascer duas vezes
Quem sair desta gangorra" (João Melchiades, poeta paraibano, ex-soldado na guerra de Canudos,citado por Paulo Monteiro Varjão, 96 anos, morador de Canudos).

Guerra de Canudos
Foto: Flávio de Barros

30 de Agosto - 1897

Chega a Queimadas, o Marechal Carlos Machado Bittencourt, Ministro da Guerra. O governo estava alarmado com a possibilidade de mais uma fragorosa derrota, pois dia-a-dia a situação se agravava no acampamento. No plano militar, não havia novas conquistas e a sobrevivência tornava-se insuportável. Um oficial escreveu em seu diário: "a fome tortura, o calor queima, a sede abrasa, a poeira sufoca e os olhos esbugalhados fitam o vácuo".

O Marechal Bittencourt trouxe consigo um reforço de 3.000 soldados, estabelecendo seu Q.G. em Monte Santo e efetivamente toma providencias enérgicas, conseguindo regularizar o abastecimento das tropas em combate.

05 de Setembro - 1897

Atingido durante um tiroteio, morre em Canudos, Norberto das Baixas, antigo dono de fazenda em Bom Conselho (atual Cícero Dantas - BA) que foi morar em Bello Monte, transformando-se numa das mais respeitadas lideranças conselheiristas.

06 de Setembro - 1897

As torres da Igreja Nova, importantes pontos de defesa da resistência canudense, são derrubadas pela artilharia do Exército. Junto com a torre, veio abaixo o sino e Timotinho, que mesmo durante o conturbado período de guerra, todos os dias, as 6h da tarde, subia à torre da Igreja e tocava a hora da ave-maria. Em um cenário desolado, era um belo e grandioso espetáculo, que ressoava em toda a redondeza.

07 de Setembro - 1897

Vencendo uma forte resistência dos conselheiristas, o Exército ocupa a Fazenda Velha, tido como o melhor ponto estratégico para o bombardeio a Canudos.

09 de Setembro - 1897

No acampamento militar, as condições de higiene e saúde são péssimas.

Escreve Fávila Nunes, correspondente de A Gazeta de Noticias (RJ): "A varíola aqui esta grassando de modo assustador. Temos já cinco hospitais de isolamento, repleto de variolosos. Só ontem deram-se 24 casos novos".

22 de Setembro - 1897

Morre Antônio Conselheiro. Para uns, a causa foi um ferimento provocado por estilhaços de uma granada; para outros, foi "caminheira" (disenteria), e ainda há os que acreditam que ele não morreu em Canudos.

Estas são as últimas palavras escritas por Antônio Conselheiro em Bello Monte:

"E chegado o momento para me despedir de vos; que pena, que sentimento tão vivo ocasiona esta despedida em minha alma, à vista do modo benévolo, generoso e caridoso com que me tendes tratado, penhorando-me assim bastantemente. São estes os testemunhos que me fazem compreender quanto domina em vossos corações tão belo sentimento! Adeus povo, adeus aves, adeus arvores, adeus campos, aceitai a minha despedida, que bem demonstra as gratas recordações que levo de vós, que jamais se apagarão da lembrança deste peregrino". (Nogueira, 1974:181)

23 de Setembro - 1897

A estrada de Várzea da Ema, último canal de reabastecimento e contato externo de Canudos é tomada pelo Exército. Finalmente, o cerco das forças militares estava completo. A partir de agora ninguém mais poderia sair ou entrar no Arraial.

01 de Outubro - 1897

A guerra de Canudos já durava quase um ano. Oito dos principais jornais do pais enviaram correspondentes ao palco da luta e as notícias não conseguiam explicar tanta dificuldade e demora de um Exército bem equipado em destruir um reduto sertanejo. As perdas militares eram extraordinárias e a impaciência e o cansaço tomava conta de todos. Os Generais Artur Oscar, Silva Barbosa e Carlos Eugênio, decidem não esperar mais, e mobilizam 5.871 homens num choque a toda carga sobre o núcleo central de casas, o último reduto da resistência canudense. Revelando mais uma surpreendente tática de guerrilha, os conselheiristas utilizam fossas subterrâneas que interligam as casas, permitindo ampla mobilidade de ação e com isso provocando muitas baixas na tropa.

Depois de várias horas de fogo cerrado, os soldados conquistam os escombros da Igreja Nova, a mais importante trincheira de defesa do Arraial. Este feito foi comemorado de forma entusiasmada, com o hasteamento da bandeira e execução do hino nacional. Mas, inesperadamente uma tempestade de balas desce sobre a praça. Vinham das ruínas, da fumaça, de tudo o que já fora destruído. Era como se viesse do nada, mas vinham, e causavam muitos estragos. Em resposta, o Exército lança 90 bombas de dinamite e muitas latas de querosene. Depois de três meses de intenso bombardeio, agora o fogo tomava conta do Arraial.

02 de Outubro - 1897

Em meio a guerra, surge por entre as ruínas um homem com uma bandeira branca. Era Antônio Beatinho, que queria falar com o general comandante e disse que lá dentro ninguém agüentava mais, a fome e a sede estavam acabando com todos. Pede pra que pudessem sair em paz. Artur Oscar lhe disse que voltasse lá e trouxesse os homens para se entregarem que ele lhes garantia a vida.

Beatinho volta ao Arraial e pouco depois reaparece com um grupo de 300 pessoas: eram mulheres, crianças, e inválidos de guerra, maltrapilhos e doentes.

Afirma que todos os homens restantes haviam rechaçado sua proposta de rendição e iriam lutar ate o fim.

Guerra de Canudos
Foto: Flávio de Barros

03 de Outubro - 1897

Antônio Beatinho é degolado junto com seus companheiros que se entregaram confiando na palavra do General Artur Oscar em lhes garantir a vida. A degola dos prisioneiros era a consumação final do massacre. Mas esta prática não era nova na campanha. Desde Agosto que os jornalistas relatavam casos praticados de forma discreta na calada da noite. Agora, nos últimos dias da guerra, a "gravata vermelha" como também era chamada a degola, foi larga e amplamente utilizada sem cerimônias, em plena luz do dia.

O acadêmico de medicina Alvim Horcades escreveu: "eu vi e assisti a sacrificar-se todos aqueles miseráveis (...) e com sinceridade o digo: em Canudos foram degolados quase todos os prisioneiros (...) levar-se homens de braços atados para trás como criminosos de lesa-majestade, indefesos e perto mesmo de seus companheiros, para maior escárnio, levantar-se pelo nariz a cabeça, como se fora o de uma ave, e cortar com o assassino ferro o pescoço, deixando a cabeça cair sobre o solo - é o cumulo do banditismo praticado a sangue-frio (...) Assassinar-se uma mulher pelo simples fato de ser o seu companheiro conivente com o que se dava - é o auge da miséria! Arrancar-se a vida a uma criancinha (...) é o maior dos barbarismos e dos crimes que o homem pode praticar". (Horcades, 1899.)

05 de Outubro - 1897

Termina a resistência sertaneja, Canudos estava destruída. Num cenário de fim de mundo, por entre becos e ruelas, uma legião de corpos carbonizados se misturam com as ruínas e as cinzas das 5.200 casas. A elite política, acadêmica e militar do pais estava em êxtase.

Os deputados federais da Bahia congratulam-se com o governo pela "completa destruição de Canudos, baluarte de bandidos e fanáticos" e o próprio Presidente da República, Prudente de Moraes, declara: "em Canudos não ficará pedra sobre pedra". Enfim os generais cumpriram o prometido, pois queriam que ali se plantasse a solidão e a morte.

Estima-se que mais de 25 mil conselheiristas morreram no conflito que mobilizou um contingente superior a 12 mil soldados do Exército (mais da metade de todo o efetivo nacional), na maior guerra de guerrilhas que o Brasil já viveu.

Numa preciosidade do pensamento dominante, O Barão de Studart escreve: "Para esse fim houve recurso aos meio mais desumanos, que não convêm registrar a bem dos nossos foros de nação civilizada e cristã".

06 de Outubro - 1897

O General Comandante Artur Oscar publica a Ordem do Dia nº 145:

"Viva a Republica dos Estados Unidos do Brasil! Está terminada a Campanha de Canudos. Desde ontem que os batalhões das forças expedicionárias passeiam suas bandeiras sobre as ruínas da cidadela, com a consciência de bem haverem cumprido o seu dever!".

O corpo de Antônio Conselheiro é localizado no santuário da Igreja Nova.

"Aos seis dias do mês de outubro de 1897, os abaixo assinados examinaram, por ordem superior, os escombros da casa denominada Santuário, residência de Antônio Vicente Mendes Maciel, o Conselheiro, onde se presumia existirem seus despojos mortais, dando como resultado o exame, que se limitou à situação e hábito externo, o seguinte: Na encosta da parede interna, numa das três seções em que se divide a referida parede, encontrou-se uma sepultura guardando um cadáver com os seguintes caracteres: braços cruzados no peito, deitado sobre uma esteira de carnaúba e envolto num lençol branco. Vestia longa túnica de pano azul costurado na fímbria; a cintura abotoada daí até a gola, tendo por baixo dessa túnica uma camisa e ceroula de algodão nacional. Calçava alpercatas de sola. O cadáver media um metro e sessenta de comprido, era de cor morena e idade presumível de sessenta ou cinquenta e cinco anos. Estava em começo de putrefação e apresentava cabelos negros, longos e bastos, fronte estreita, rosto largo e magro de maçãs salientes, guarnecido de barbas longas, nariz destruído na porção musculosa, a maxila inferior, como a superior, desprovida de dentes; mãos descarnadas e pés pequenos. Concluído o exame, que não pôde ser levado adiante por deficiêcnai de meios, reconhecemos pelos sinais descritos e pelo testemunho de muitos prisioneiros e várias pessoas presentes, entre as quais o membro presente da comissão acadêmica, João Pondé, ser o corpo de Antônio Vicente Mendes Maciel, conhecido por Antônio Conselheiro, que aí residia como chefe de um núcleo de fanáticos e aventureiros da povoação de Canudos; no sertão da Bahia." Dr. José Curió (Major-Médico), Dr. Mourão, Dr. Gouveira Freire (Capitães-Médicos), Dr. Jacob Gayoso (Tenente-Médico), João Ponde' (6° anista de Medicina) (Apud Gustavo Barroso, O Cruzeiro, 28.04.1956).

Depois de exumado, o corpo de Antônio Conselheiro foi fotografado por Flávio de Barros, fotógrafo baiano que acompanhou a IV Expedição, e sua cabeça foi cortada e levada para Salvador (BA) para exame do Dr. Nina Rodrigues.

Guerra de Canudos
Foto: Flávio de Barros

03 de Novembro - 1897

É lançado em Salvador um manifesto de 41 estudantes baianos protestando contra o "cruel massacre ... exercido sobre prisioneiros indefesos e manietados em Canudos e até em Queimadas". Pouco depois, também Rui Barbosa declara um elogio aos estudantes que " protestam contra a vitória que degola os vencidos".

05 de Novembro - 1897

É assassinado no Rio de Janeiro (RJ), o Marechal Carlos Machado Bittencourt, Ministro da Guerra, que em setembro se deslocara para o sertão baiano, assumindo pessoalmente o comando das operações militares da Guerra. O atentado, que era destinado ao Presidente da República, Prudente de Moraes, ocorreu no momento em que a cidade em festa recebia os primeiros soldados combatentes de Canudos.

02 de Dezembro - 1902

É lançado no Rio de Janeiro o livro "Os Sertões", um clássico sobre a epopéia de Canudos, escrito por Euclides da Cunha, que em 1897 havia sido contratado pelo jornal O Estado de São Paulo para in loco produzir uma série de artigos sobre a guerra de Canudos e "além disso, tomara notas e fará estudos para escrever um trabalho de fôlego sobre Canudos e Antônio Conselheiro. Este trabalho será por nos publicado", conforme rezava o contrato entre ele e o "Estado". Alguns anos depois, pela Editora Laemmert, o livro foi lançado no mercado editorial brasileiro, transformando-se numa das principais obras da literatura mundial, já tendo sido traduzido para mais de 10 idiomas, com um número superior a 50 edições brasileiras e sendo objeto de mais de 10 mil trabalhos escritos.

03 de Março - 1905

Um incêndio na antiga Faculdade de Medicina do Terreiro de Jesus, em Salvador (BA), destrói a cabeça de Antônio Conselheiro que se encontrava em exposição pública desde o final da guerra de Canudos, em outubro de 1897.

12 de Março - 1969

Inicio da chuva que em poucos dias transbordou o Rio Vaza-Barris e encheu o Açude de Cocorobó, cobrindo a velha Canudos.

Fonte: www.portfolium.com.br

Guerra de Canudos

A Grande Manifestação Anti-República no Brasil do Final do Século XIX

Segundo Luís Koshiba e Denise M.F.Pereira, no livro “História do Brasil”, página 226:

“No final do século XIX e no início do atual, a expansão do capitalismo provoca importantes transformações em todo o mundo. No Brasil, esse fenômeno é responsável pela abolição da escravatura e a proclamação da República. Por toda parte ocorrem reajustes sociais que forçam a adaptação, transformando as antigas formas de convívio social.

Nesse contexto, em várias regiões do mundo eclodiram movimentos de resistência às mudanças por parte de sociedades onde o sistema de dominação não tinha assumido ainda um caráter claramente capitalista. São as sociedades rústicas onde as relações sociais continuam dependendo dos laços de fidelidade pessoal. No Brasil, estas rebeliões primitivas são representadas, principalmente, pela Guerra de Canudos e Contestação.

Essas rebeliões primitivas surgem em função das alterações provocadas pelo capitalismo que desestabiliza as antigas formas de organização e dominação sociais. O capitalismo faz cair o véu que oculta a opressão e a miséria dessas sociedades rurais arcaicas. As rebeliões que assim nascem são um protesto trágico contra a opressão e a miséria, mas um protesto sem projetos claros ou definidos. Quase sempre, as aspirações dos rebeldes primitivos se mesclam à profunda religiosidade, sem orientação política. Daí a razão de seu isolamento e, consequentemente, do seu fracasso ante as forças repressivas dos poderes constituídos”.

A Guerra de Canudos foi um conflito singular na história dos primeiros anos do Brasil República, que aconteceu no período do governo do primeiro presidente civil da história de nosso país: presidente Prudente de Moraes (1894-1898).

Após quatro expedições militares, no dia 5 de outubro de 1897, após um ano de incessáveis lutas e uma feroz resistência por parte de seus defensores, o arraial chamado Belmonte, fundado por Antônio Conselheiro no Nordeste da Bahia, foi finalmente tomado pelo exército.

Calcula-se que morreram, ao todo, 15.000 pessoas na Guerra de Canudos. Quase nada sobrou daquela cidade-santuário que tinha sonhou ser a Jerusalém dos confins do mundo acabou num mar de sangue, reduzida a escombros, cadáveres e cinzas.

Nas palavras de Euclides da Cunha:

“Canudos não se rendeu. Exemplo único em toda a História, resistiu até o esgotamento completo. Expugnando palmo a palmo, na precisão integral do termo, caiu no dia 5, ao entardecer, quando caíram seus últimos defensores, que todos morreram. Eram quatro apenas: um velho, dois homens feitos e uma criança, na frente dos quais rugiam ruivosamente 5.000 soldados.” A Religião no Interior do Brasil – Beatos e Conselheiros: segundo Luís Koshiba e Denise M.F.Pereira, no seu livro “História do Brasil”, página 226-227:

“A origem dos beatos encontra-se nas atividades ligadas ao Padre José Maria Ibiapina, que seguindo a orientação do catolicismo de seu tempo, procura melhor comunicação entre clero e fiéis. Ao Padre Ibiapina deve-se a criação de inúmeras ‘casas de caridade’ mescla de orfanato e escola que se multiplicaram a partir da segunda metade do século XIX.

Essas ‘casas de caridade’ eram administradas por ordens leigas, não oficiais, isto é, não reconhecidas pela Igreja, mas toleradas por ela. É em função dessas ‘casas’ que irão se multiplicar estas ordens de beatos, que eram expressão concreta da intensificação da religiosidade no sertão nordestino.

Dentro desse quadro que começa então a aumentar o prestígio de Antônio Conselheiro que, por isso mesmo, passa a ser perseguido sistematicamente pela Igreja. Já com inúmeros seguidores, logo após a proclamação da República, Antônio Conselheiro se estabelece no sertão baiano, na localidade denominada Arraial de Canudos, à margem do rio Vaza-Barris. Formam ali uma comunidade de beatos, que em virtudes das crescentes pressões religiosas e civis, decidem romper com o mundo circundante, organizando-se assim uma comunidade consciente de suas particularidades. (...)”

Desde os tempos da colonização portuguesa, a Igreja teve uma grande influência na formação cultural do povo brasileiro, ao lado da religião. Em algumas regiões nordestinas, principalmente na Bahia e em Pernambuco, onde ocorreram uma maior concentração de escravos africanos, operou-se o sincretismo religioso em que se misturaram as figuras dos santo cristãos com as divindades das tribos africanas, de onde surgiram as linhas espiritualistas da umbanda e do candomblé.

Em outras regiões, principalmente no interior do Nordeste, mais pobre que o litoral, surgiram, a partir do final do século XVIII e início do XIX, algumas manifestações místicas, que relembram algumas fases religiosas do Oriente Médio, na Antigüidade, com a figura dos profetas, acompanhados de uma pequena multidão de crentes, a peram-bular pelas estradas. A imitação dos profetas acontecia no Nordeste brasileiro, na figura dos beatos e dos conselheiros, que percorriam o sertão pregando o Evangelho de Cristo, levando a tiracolo um surrado exemplar do Novo Testamento. São tentativas de se imitar São João Batista ou, até mesmo, uma tentativa de imitar o próprio Cristo. Essas figuras existem, ainda hoje, no interior do Brasil.

Em relação às funções, o beato é diferente do conselheiro: o beato tira rezas, pede esmolas e ajuda os pobres.

O conselheiro vai além: dá conselhos prega a palavra. Na hierarquia informal do sertão, o conselheiro situa-se acima do beato.

Um dos principais motivos da ocorrência de tais guias espirituais, no interior do Nordeste, podia ser explicado pela ausência de padres locais.

Segundo o professor e escritor Cândido da Costa e Silva, da cadeira de História das Religiões da Universidade Federal da Bahia: “(...) não existiam para contestar a Igreja oficial, mas para suplementá-la.” A falta de padres que dariam assistência permanente às famílias levava à necessidade de algum movimento por parte das pessoas a fim de suprir essa falta. Por isto, os tiradores de reza e as incelências representavam fórmulas que supriam a falta de uma liturgia oficializada, bem como a falta de pessoal. A ascensão à condição de beato ou conselheiro dava-se de maneira natural, pelo gradativo destaque que essas figuras iam conquistando junto à população, em virtude de sua liderança, capacidade de expressão, compaixão e outras qualidades.

Antônio Conselheiro: Antônio Vicente Mendes Maciel, nas-cido no ano de 1830, em Quixeramobim, no Ceará. Antes de se tornar beato foi professor primário, comerciante, e advogado (rábula). Não era de família pobre, porém remediada. Não era totalmente ignorante, mas tinha alguma cultural. Alguns atribuem a radical mudança em suas concepções e modo de vida a uma desilusão amorosa – sua mulher, chamada Brasilina, o abandonou. Porém, antes de renunciar definitivamente aos amores e prazeres da vida, ele ainda se uniria a uma Segunda mulher, uma fazedora de imagens conhecida como Joana Imaginária.

Em 1874, aos 44 anos, tem-se as primeiras notícias de suas atividades: um registro do jornal “O Rabudo”, da cidade de Estância, localizada no Sergipe, notificava que um certo Antônio dos Mares, em suas andanças pelo sertão, vinha atraindo uma espantosa quantidade de pessoas. Ele andava pelo sertão de Sergipe, ajudava os necessitados, pedia esmolas, rezava e pregava para o povo, acompanhado por um crescente número de seguidores. Sempre que parava numa cidade, oferecia-se para recuperar ou construir igrejas ou muros de cemitérios. Tinha o hábito de fazer (construir) igrejas e arrumar cemitérios.

Nas suas longas caminhadas (verdadeiras peregrinações) pelo sertão, Antônio Conselheiro vestia um camisolão azul, sem cintura. Tinha cabelos longos como Jesus e longas barbas. Para enfrentar o pó das estradas, calçava sempre uma sandália, protegendo a sua cabeça com um grande chapéu de abas largas. Carregava sempre um cajado nas mãos, como o fazem os santos e os profetas - escolhidos que sabem o caminho do céu e da salvação.

Conhecido, numa certa época, como Antônio dos Mares (ou irmão Antônio), Conselheiro saudava as pessoas dizendo: “Louvado seja nosso Senhor Jesus Cristo”.

As pessoas, por sua vez, respondiam-lhe: “Para sempre seja louvado”. Seus fiéis mais devotos conferiram-lhe o título de “Bom Jesus”, ou “Santo Antônio”, porém, quando conquistou definitivamente sua fama, passou a ser conhecido por Antônio Conselheiro.

A Perseguição dos Coronéis e da Igreja: segundo Luís Koshiba e Denise M.F.Pereira, em seu livro “História do Brasil”, página 227:

“A comunidade de Canudos assim torna-se um núcleo próspero dedicando-se inclusive à trocas com as cidades vizinhas. Naturalmente, os grandes proprietários rurais se inquietaram com o crescimento de Canudos e, dessa forma, as articulações para a sua dispensão se iniciam, com o apoio da Igreja. Contra Canudos, as denúncias oficiais se multiplicam, acusando seu líder – Antônio Conselheiro – de conspirar contra a República em virtude de sua posição monarquista. Argumento, aliás, amplamente utilizado como pretexto às repressões que serão desencadeadas.”

Antônio Conselheiro nunca se aventurou a ministrar sacramentos, ou seja, jamais ousou ir além do que sua condição permitia. Por não aconselhar senão práticas de longa tradição sertaneja – como o jejum, longas caminhadas e carregar pedras para pagar pecados penitência) -, e também pelo fato dele não pregar além da teologia conservadora da região, Antônio Conselheiro não podia, de forma alguma, ser acusado de desvios de doutrina.

Não obstante, a Igreja se mostrava cada vez mais hostil frente sua presença, tanto que no ano de 1887 o arcebispo de Salvador, Dom Luís Antônio dos Santos, pediu providências ao governo do Estado, que, por sua vez, transferiu a responsabilidade para governo do Império. O objetivo era internar Conselheiro no Hospício D.Pedro II, no Rio de Janeiro.

A resposta da autoridade Imperial era de que, no dado momento, não havia vaga no referido hospício. Ainda objetivando reprimir Conselheiro, a autoridade eclesiástica tratou de se unir aos coronéis do sertão, que também se sentiam duplamente incomodados com a enorme influência, tanto no sentido político quanto no econômico, que Antônio Conselheiro exercia sobre as pessoas.

Tanto o Conselheiro, atuando nos sertões do Sergipe, quanto o Padre Cícero, no Ceará, ambos contemporâneos, conseguiam “drenar” a mão-de-obra das fazendas, ao mesmo tempo que atrapalhavam o voto de cabresto, instrumento de manipulação que garantia a eleição e reeleição dos coronéis na época.

Quando a influência do movimento de Antônio Conselheiro atingia seu auge, o Brasil passa do Regime Monárquico para o Republicano. O Conselheiro, tradicionalista como era, recusa-se a aceitar o novo regime, alegando ser a República um instrumento do anti-Cristo, uma ordem estabelecida por Satanás. Tivera a audácia de separar a Igreja do Estado, além de instituir o casamento civil, usurpando da Igreja o poder oficial e exclusivo de celebrar matrimônios. A mentalidade moral da época considerava a mulher casada no civil uma
“prostituta testemunhada”.

O novo regime também delegava aos municípios o poder de instituir e coletar impostos. O Conselheiro encontrou, certa vez, o povo da cidade de Natuba inconformado com os impostos anunciados em editais no centro do povoamento e incentivou a destruí-los. Esse foi o seu primeiro ato de desobediência civil.

Por esse motivo, uma tropa policial tentou detê-lo, nas proximidades de Masseté, o que resultou na retirada das tropas, e três mortos de cada lado. A situação para Antônio Conselheiro, que começava a ficar crescentemente desfavorável, pedia uma decisão urgente.

Depois de vinte anos de incansáveis peregrinações, pregações, jejuns e andanças, Conselheiro decidiu procurar, com seus seguidores, um lugar onde pudessem rezar em paz, aconselhar em paz, a viver em paz, longe dos “agentes do insano governo dos incréus, ou dos bispos que faziam o jogo do Diabo”. Nascia, portanto, Canudos, o futuro povoado de Belomonte.

O Arraial de Canudos: Como vimos antes, foi somente depois de vinte anos de andanças pelo interior do Nordeste que Antônio Conselheiro resolveu interromper sua vida errante e se estabelecer em local permanente, com a pequena multidão que o acompanhava pelas estradas, de cidade em cidade. Encontrou o local propício aos seus desígnios no interior da Bahia, em um lugar amplo e descampado, chamado Umburanas ao pé do morro da Favela e do arraial de monte Santo, tendo ao fundo a Serra de Piguaraçá. Aí fundou-se Canudos.

O arraial cresceu rapidamente, a cada dia incorporando-se a ele novos agregados e famílias vindas de muito longe, e de todas as partes. “Uma multidão de casas de taipa, ordenadas, ou melhor, desordenadas em volta de uma praça: eis o que era o arraial”. “Na praça central havia duas igrejas, uma em frente da outra – as chamadas ‘igreja velha’, a menor, e ‘igreja nova’, esta ambiciosa obra empreendida pelos conselheiristas, nunca terminada”.

Talvez exageradamente, o exército estimou em 25.000 a sua população total, o que a tornava a Segunda cidade da Bahia na época, somente inferior a Salvador. A Guerra de Canudos travou-se, verdadeiramente, em torno da praça das igrejas, mais precisamente, da igreja nova, em cujas torres e andaime entrincheiravam-se os sertanejos a fim de alvejar os inimigos, e que, por outro lado, consistia no alvo predileto da fuzilaria e dos canhões do exército. Quando caiu a igreja nova, acabou Canudos.

Em seu magnífico livro “Os Sertões”, Euclides da Cunha, testemunha ocular da Guerra de Canudos, descreve o arraial com desdém e visível antipatia. Horrorizou-se com a arquitetura e o urbanismo do arraial, que chamou de “urbs monstruosa” e “civita sinistra do erro”.

Apesar de toda a sua erudição, Euclides ignorava, até então, o interior do Brasil e nem sabia que aquelas eram – como ainda são hoje – as habitações comuns do sertanejo pobre.

A Guerra de Canudos e as Quatro Expedições Militares

Resumidamente, para se ter idéia de como Canudos resistiu aos ataques do poder instituído, observemos o seguinte: a primeira expedição, com 104 homens, foi comandada por um tenente; a segunda, com seus 1300, por um major; a terceira, com 3000 homens, pelo lendário coronel Moreira César – todas, até então, fracassaram totalmente; e, enfim, a quarta e última expedição, inicialmente, com 5000 homens, dividida em duas colunas, por dois famosos generais, e com a supervisão de um marechal, o então ministro da guerra marechal Bittencourt.

A Quarta expedição sofreu muitas perdas, apesar de bem equipada. Tantas foram as perdas do exército, que eles, no final do conflito, precisaram do reforço de 3000 homens adicionais para que o destino da guerra fosse decidido.

Na segunda parte da história da Guerra dos Canudos veremos, com detalhes, o relato das quatro incursões realizadas pelo governo republicano brasileiro contra a revoltosa cidade de Canudos.

Após as campanhas no Sul, o Exército estava exaurido e não nutria nenhuma simpatia por qualquer ação militar sobre Canudos. 0 emprego da tropa federal foi decidido, conforme a Constituição, por iniciativa exclusiva do Poder Polrtico, e conduzido pelo Dr. Manoel Vitorino Pereira, Vice-Presidente da República do governo Prudente de Moraes. Longe de ser orientado para pacificar a região conturbada, o Exército recebeu ordens claras para "destruir Canudos", pela presumivel ameaça que representava à República, no entender do Governo Federal".
Regina Abreu

A Primeira Expedição: aconteceu no governo de Prudente de Moraes, em Novembro de 1896.

Em Jazeiro, às margens do Rio São Franciso, à noroeste de Canudos, corriam rumores de que, por causa do atraso de um carregamento de madeira enconmendada para a construção de uma nova igreja no arraial, os conselheiristas preparavam uma invasão da cidade. Começa, então, a guerra, a princípio como um eqúívoco.

Assustada com o boato, a população pressionou o juiz local a notificar o fato ao governador do Estado, Luís Vianna, que resolveu enviar a Canudos uma expedição punitiva, composta por 104 homens, sob o comando do tenente Pires Ferreira. Este acontecimento representava o primeiro dos sucessivos vexames que seria imposto aos militares.

Essa era a primeira expedição enviada pelo exército brasileiro: quando os soldados encontravam-se em Uauá, já nas proximidades de Canudos, sentiram a aproximação de estranho cortejo, composto de uma fila de pessoas que rezavam entoando cânticos religiosos, carregando, à frente, um estandarte do Divino, juntamente com uma grande cruz. Armados com facões, paus, trabucos, pedras, foices, etc., enfim, tudo o que as circunstâncias permitiam no momento, o grupo de pessoas compunha um batalhão do conselheiro, prontos para lutar e morrer por sua fanática causa. Os conselheiristas, após quatro horas de intensa batalha, embora com muito mais perdas, puseram o inimigo a correr. Assim, tinha o término o episódio que ficou conhecido na História como a Primeira Expedição.

A Segunda Expedição: foi comandada pelo major Febrônio de Brito, e foi cinco vezes mais poderosa do que a primeira, com seus 550 homens.

Estrategicamente, utilizou o Monte Satno como base de operações e ponto de partida da ofensiva militar.

A segunda expedição permaneceu por quinze dias na cidade, antes de marchar contra Canudos.

Então, tudo aconteceu muito rápido: ao se aproximar de Canudos, bastaram apenas dois longos dias para que a expedição, igualmente mal articulada, fosse posta a correr, depois de ter sido surpreendida pelo inimigo numa emboscada nos morros próximos do arraial dos rebeldes.

A Terceira Expedição: naquelas circunstâncias, a questão do "irredentismo dos fanãticos sertanejos" já adquirira projeção nacional, pois a humilhação imposta ao exército e à República (recém insitiuída) já era demasiada. Tão frequente era o histerismo gerado pelos acontecimentos, que o pensamento dominante acusava Canudos como sendo o foco de uma insurreição contra o novo regime republicano, que consistia numa tentativa de internacional de reimplantar o sistema monárquico no brasil - o que era considerado pela camada política dominante um retrocesso em termos administração pública do Estado. O novo regime já enfrentara o desafio da Revolta Armada e da Revolução Federalista, porém, agora, enfrentava as mesmas ameaças acrescidas de um forte fundamentalismo religioso. Tal revolta oriunda dos sertões, sem dúvida, poderia rapidamente se proliferar país a fora, nos arraiais monarquistas e, quem sabe, com o apoio do exterior? Isto tudo serviria para desestabilizar fortemente o novo sistema implantado.

Apenas um homem seria capaz de acabar com essa angustiante situação: o bravo veterano, coronel Moreira César, com seus 47 anos de idade, paulista de Pindanmonhangaba, que chefiaria um contingente de 1300 homens, formando, assim, a Terceira Expedição contra Canudos.

" Lá vão dois cartões de visita ao conselheiro", disse, ao se aproximar de Canudos, quando ordenou o disparo de dois tiros de um dos seus dois canhões Krupp. Durante sua marcha, o maior medo do coronael Moreira César era que os conselheiristas abandonassem a cidade, o que o privaria, naturalmente, da inevitável glória de derrotá-los em combate. O precipitado otimismo do coronel e de seus subordinados aumentava, a medida em que se aproximavam da cidade: "Vamos tomar a cidade sem disparar mais um tiro, toma-lá-emos à baioneta!".

Num tempo onde não se tinha como conter tal doença, Moreira César contava com um adversário tão difícil de vencer quanto o Conselheiro: a Epilepsia, e, além disso, era dono de um temperamento instável e impulsivo. Ácabou por sofrer de dois ataques epilétipcos sérios durante sua campanha em Canudos.

Então, o excesso de confiançã de Moreira Cèsar foi inversamente proporcional à sua previdência: ordenou que seus homens atacassem após longo dia de marcha penosa, sem descanso. O Obrigou-os a avançar até dentro do arraial, onde, além de impossibilitar o apoio da artilharia (que atingiria seus prórprios homens se utilizada), travou-se luta corpo a corpo contra os homens do conselheiro, que levavam extrema vantagem por conhecerem os labirintos e as ruelas onde a batalha se travou. Moreira César ordenou um ataque de cavalaria em planície aberta, o que complicou ainda mais sua situação, posto que a mesma se tornara um alvo fácil para os homens do Conselheiro, que se encontravam entricheirados num reduto cheio de barreiras.

Num gesto de agonia, Moreira César, talvez por perceber que a derrota estava próxima, abandonou seu posto de comando, endireitou seu cavalo na direção de Canudos e avançou, proferindo: "Vou dar brio àquela gente !". Tendo sido atingido no ventre por uma bala, vergou-se, largando as rédeas de seu cavalo, não mais conseguindo ir muito adiante. Morrera naquela mesma noite, cercado por seus subordinados.

O Quarto e Último Fogo: devido ao fracasso da terceira expedição, que resultou na morte de uma lenda viva do exéricto brasileiro, o Coronel Moreira César, uma grande mobilização nacional foi deflagrada. A quarta expedição haveria de ser muito maior e mais equipada, e não deveria ter a mínima piedade dos revoltosos do sertão, incapazes de compreender as "maravilhas" que o regime republicano prometia gerar. O então general Arthur Oscar de Andrade Guimarães foi o escolhido para o comando. Ao ter aceito sua missão o general declarou: " Todas as grandes idéias têm os seus mártires. Nós estamos voltados para o sacrifício de que não fugimos para legar à geração futura uma República honrada, firme e respeitada".

Euclides da Cunha, que em suas reportagens tentava cobrir a senha patriótica em voga, acabou adotando uma postura crítica em relação à mesma, escrevendo em seu livro, "Os Sertões": " A paixão patriótica roçava, derrancada pela insânia".

Foram mobilizados para a nova investida, inicialmente, mais de 5000 homens, reunidos de batalhões desde o Rio Grande do Sul, até o Amazonas.

Dessa vez, as forças foram divididas em duas colunas: a primeira, como as duas anteriores se concentraria em Monte Santo; enquanto a segunda, comandada pelo general Cláudio Savaget, partiria de Aracajú para Canudos, essa era a grande novidade.

Foi necessária a presença do próprio ministro da guerra na época, o marechal Carlos Machado Bittencourt, para levantar o moral das tropas, pois, num dado momento, a avassaladora força reunida para esmagar o arraial de Canudos, com mais de 5000 homens, se viu atrapalhada e impotente como as espedições anteriores.

A primeira coluna fora surpreendida numa emboscada no Morro da Favela, tendo sido salva por muito pouco, ao conseguir uma junção com a segunda coluna. Segundo Euclides da Cunha, depois de um mês de combate a tropa mais parecia "uma aglomeração de fugitivos". Dos 5000 soldados, 900 estavam mortos ou feridos, ou seja, fora de combate. A fome começava a imperar: por conta própria, os soldados organizavam grupos para caçar bodes (ou o que houvesse para comer), mesmo correndo o risco de cair nas numerosas armadilhas dos sertanejos - como, de fato, foi o destino de muitos.

"Agora era a vez de um marechal, e Bittencourt desembarcou em Monte Santo ao mesmo tempo que para lá afluíam reforços que montaram a 3000 homens suplementares".

A estratégia do marechal Bittencourt não consistia em grandes manobras táticas, ou no aumento de tropas, mas sim na constante regularização do abastecimento das tropas conciliada com a utilização racional do contingente de soldados veteranos já em combate. Foi dessa forma que o exército começou a ganhar a guerra, revertendo a sua situação crítica.

E o final da guerra estava bem próximo: veio o cerco à Canudos, juntamente com um impiedoso bombardeio, seguido pelo inevitável massacre e incêndio do arraial. As degolas praticadas - as conhecidas "gravatas vermelhadas" tornaram-se uma prática célebre, aplicadas no pescoço dos conselheiristas.

Calcula-se que morreram, ao todo, 15000 pessoas na guerra de Canudos - sem contar os feridos e mutilados. Quase nada sobrou daquela cidade-santuário que sonhou em ser a Jerusalém dos confins do mundo, tendo a mesma acabado num mar de sangue, reduzida a escombros, cadáveres e cinzas.

Mais uma vez, nas palavras do grande Euclides da Cunha: "Canudos não se rendeu. Exemplo único em toda a História, resistiu até o esgotamente completo.

Expugnando palmo a palmo, na precisão integral do termo, caiu no dia 5, ao entardecer, quando caíram seus últimos defensores, que todos morreram.

Eram quatro apenas: um velho, dois homens feitos e uma criança, na frente dos queis rugiam ruivosamente 5000 soldados".

Finalmente, no dia 6 de outubro de 1897, um dia após a tomada definitiva de Canudos, descobriu-se o local onde o Conselheiro tinha sido enterrado. Após desenterrarem Antônio Conselheiro, fotografaram seu cadáver e, com uma faca afiada, deceparam-no (prática muito comum em guerras naquela época), tendo sido sua cabeça levada para Salvador.

APRECIAÇÕES FINAIS

Canudos não existe mais. Não obstante, a vila do Conselheiro, além de ter sido destruída pela guerra, também foi alagada, em 1968, pelas águas do Açude de CocorobóExiste uma cidadezinha que leva o nome da histórica Canudos, atualmente, a 10 km da cidade original. Lá existe, hoje, o "Centro de Conviência" da Igreja Católica, que consiste num local destinado à reuniões e festinhas, administrado pela irmã Cirila, que guarda muitos objetos da história de Canudos. Lá se encontra a cruz de Antônio Conselheiro, aquele cruzeiro que se encontrava em frente da igreja velha, que foi alagada. A madeira encontra-se cheia de fendas, necessitando de cuidados para não apodrecer. A cruz encontra-se deitada no chão, sendo a mais importante relíquia encontrada no arraial.

Professor Elias Celso Galvêas

Fonte: maxpages.com

Guerra de Canudos

Análise do filme: Guerra de Canudos

Por volta de 1860, o cearense Antônio Vicente Mendes Maciel iniciou longa peregrinação pelo sertão. Durante três décadas pregou a palavra de Deus, construiu igrejas e reformou cemitérios. Apesar de enfrentar a oposição da Igreja Católica e das elites, consolidou enorme prestígio entre a população sertaneja. Quando a República foi proclamada, em 1889, Antônio Conselheiro insurgiu-se contra ela.

A situação do Nordeste brasileiro, no final do século XIX, era muito precária. Fome, seca, miséria, violência e abandono político afetavam os nordestinos, principalmente a população mais carente. Toda essa situação, em conjunto com o fanatismo religioso, desencadeou um grave problema social. O povo foi sendo arrebatado por Antônio Conselheiro, baseados na fé que ele profetizava, em busca de uma vida mais digna, mais justa.

No sertão da Bahia travou-se a Guerra de Canudos, uma das mais sanguinárias revoltas populares da história brasileira. Em novembro de 1896 foi iniciado este conflito que durou por quase um ano, até Outubro de 1897. O movimento que, inicialmente era de cunho religioso, tomou dimensões políticas e devido à enorme proporção que adquiriu, o governo da Bahia não conseguiu por si só segurar a grande revolta que acontecia em seu Estado, por esta razão, pediu a interferência da República. Esta, por sua vez, também encontrou muitas dificuldades para conter os fanáticos. Somente no quarto combate, onde as forças da República já estavam mais bem equipadas e organizadas, os incansáveis guerreiros foram vencidos pelo cerco que os impediam de sair do local no qual se encontravam para buscar qualquer tipo de alimento e muitos morreram de fome. O massacre foi tamanho que não escaparam idosos, mulheres e crianças.

Guerra de Canudos
Antônio Conselheiro: beato e líder da revolta

O beato Conselheiro era quem liderava este movimento. Ele acreditava que havia sido enviado por Deus para acabar com as diferenças sociais e também com os pecados republicanos, entre estes, estavam o casamento civil e a cobrança de impostos. Com estas idéias em mente, ele conseguiu reunir um grande número de adeptos que acreditavam que seu líder realmente poderia libertá-los da situação de extrema pobreza na qual se encontravam.

Canudos era um arraial do interior da Bahia, região onde se instalou a partir de 1893 o beato Antônio Conselheiro, juntamente com seus seguidores. Antes, o beato percorrera o sertão pregando transformações e despertando a ira das autoridades e da Igreja Católica, que o consideravam uma ameaça, pois começa a tornar um simples movimento em algo grande demais para a República, que acabara de ser proclamada. Conselheiro comandou uma queima de editais de cobrança de impostos e, em seguida, refugiou-se com seus adeptos em Canudos. A partir daí, seu exército, uma grande massa de pobres e maltrapilhos, só cresceu, chegando a uma população de 30 mil pessoas. Os seguidores de Antônio Conselheiro apenas defendiam seus lares, mas a nova ordem não podia aceitar que humildes moradores do sertão da Bahia desafiassem a República.

Ao mesmo tempo, Conselheiro desenvolveu uma experiência socialista em Canudos, cada família entregava metade de suas posses para o conjunto da comunidade, mantinha roças e criações familiares, vivia desse trabalho e sustentava os desvalidos que iam chegando. Conselheiro seguia princípios da igreja católica e impunha regras religiosas rígidas a seus seguidores, como a “hora da reza” realizada diariamente.

Somente o fato da Guerra de Canudos ter durado quase um ano, com a comunidade de Antônio Conselheiro resistindo até o fim, nos diz que existe algo mais do que fanatismo religioso. Eles estavam coerentes e íntegros com o que sentiam, acreditavam e achavam. O povo lutou porque gostava do Conselheiro, e só queria liberdade para viver e trabalhar em sua terra. Portanto, a coesão social era a força motriz, apesar de outras forças, como a fé religiosa.

Trabalho sobre o filme “GUERRA DE CANUDOS”
Elaborado por: Tatiana Mattos

Fonte: www.portuguesdobrasil.net

Guerra de Canudos

Bello Montes

Bello Monte, termo como os conselheiristas denominavam Canudos, ainda é um tema aberto a estudos e pesquisas, em busca de melhor conhecer os aspectos sociais-econômicos e políticos de sua breve existência (1893-1897).

Guerra de Canudos
Desenho: Luís Salgueiro

"Ai apareceu pelo sertão
Um monte que passou a cativar
Tão belo que ajuntou o povo irmão
Patrão e opressor não tinha lá" (Enoque Oliveira)

13 de Junho - 1893

No coração da Bahia, em meio a vegetação de caatinga, existia um velho e decadente povoado a beira do Rio Vaza-Barris rodeado de imponentes morros denominados Cambaio, Caipã, Canabrava, Cocorobó, Poço de Cima, Saui e Angico. É este o lugar escolhido por Antônio Conselheiro para construir sua última morada. O nome do lugar era Canudos, devido a uma planta chamada Canudos-de-Pito, com a qual os antigos moradores, fumavam longos cachimbos, Conselheiro o rebatizou de Bello Monte, e já conhecia o local de andanças anteriores, tendo inclusive realizado obras na antiga capela de Santo Antônio, com a ajuda do beato Paulo da Rosa. Chegou com algumas centenas de fiéis seguidores e se estabeleceu, iniciando assim, a construção de uma comunidade sertaneja com o uso coletivo da terra, sem polícia e sem impostos e onde não tinha patrão nem empregado.

Uma das primeiras providências dos conselheiristas ao se estabelecer em Bello Monte, foi cavar trincheiras e praticar exercícios de tiro. Era uma medida de segurança importante, pois há poucos dias tinha havido em Masseté, um confronto armado com os soldados enviados de Salvador pelo governo estadual.

As características sociais e econômicas de Canudos, atraiam milhares de pessoas de todo o sertão nordestino. Falava-se em toda a região que em Bello Monte "corria rios de leite e as barrancas eram de cuscuz".E a cidade crescia a um ritmo acelerado. Continuamente chegava novos grupos de pessoas de todas as direções. A igreja de Santo Antônio, também chamada de Igreja Velha, logo se tornou pequena para a multidão, que a noite se reunia pra cantar as ladainhas e ouvir as pregações de Conselheiro.

Foi iniciada a construção da Igreja Nova ou Igreja do Bom Jesus. As doações para as obras vinham de vários pontos do Estado, arrecadadas em missões executadas por homens de inteira confiança do Conselheiro, como José Beatinho, Pedrão, José Venâncio e Manoel Ciriaco. A praça das igrejas era o centro espiritual e político da comunidade, onde moravam seus principais líderes em casas de telha. Era circundada por inúmeros becos estreitos e entrelaçados, compostos de casas de taipa, que eram construídas de forma desordenada e em grandes mutirões.

O comércio em Canudos já existia antes da chegada de Conselheiro. Antônio da Mota e Joaquim Macambira antigos moradores e comerciantes também tinham pedaços de terra. Antônio da Mota era morador antigo e descendente de Joaquim da Mota, que descobriu em 1784 o famoso meteorito de Bendengó. Joaquim Macambira, era o mais bem relacionado nas redondezas e quem fazia os contatos comerciais externos de Bello Monte, e teve uma participação ativa na Guerra. Norberto das Baixas veio após a fundação do Arraial, tinha uma fazenda em Bom Conselho e exerceu papel de relevo antes e durante a guerra. Antônio Vilanova era o mais influente de todos. Cuidava da economia canudense e também era uma espécie de "juiz de paz" .Durante a guerra fazia parte do núcleo dirigente das operações militares e sob a sua guarda ficavam as armas e munições.

Em tempos de paz , a segurança da cidade e a defesa pessoal de Conselheiro era atribuição da Guarda Católica (ou Companhia de Jesus), formada por 600 homens uniformizados escolhidos entre os melhores para a luta e sob a chefia de João Abade, "o comandante da rua" "ou o "chefe do Povo"

Os negros ex-escravos constituíram parcela expressiva do Arraial onde finalmente encontraram "a alforria da terra". José Calazans afirmou que "tantos homens de cor nos leva a supor que Canudos foi o último quilombo". Era grande também a presença dos índios Kaimbé e Kiriri, povos de influências marcantes na cultura e nos hábitos sertanejos. Conselheiro fundou uma escola que teve 1 professor e 1 professora. Na cidade, era proibido tabernas e aguardentes e não havia prostituição. Tinha uma cadeia e segundo o Deputado César Zama, os delitos leves, Conselheiro punia a seu modo, aqueles mais graves ele entregava para as autoridades da comarca. O padre Vicente Sabino do Cumbe freqüentemente visitava o Arraial e promovia batizados e casamentos, muitos deles já consumados na prática. A velha e respeitada D. Benta era quem fazia os partos.

Honório Vilanova, sobrevivente de Canudos e irmão de Antônio Vilanova, um dos principais lideres conselheiristas, declarou ao escritor Nertan Macedo: "Grande era a Canudos do meu tempo. Quem tinha roça, tratava da roça na beira do rio. Quem tinha gado, tratava do gado. Quem tinha mulher e filhos, tratava da mulher e dos filhos. Quem gostava de rezar, ia rezar. De tudo se tratava, porque a nenhum pertencia e era de todos, pequenos e grandes, na regra ensinada pelo Peregrino" (Macedo, Nertan. Memorial de Vilanova. Rio de Janeiro, O Cruzeiro, 1964).

Manuel Ciriaco, antigo morador de Canudos, declarou em 1947:

"No tempo do Conselheiro, não gosto nem de falar pra não passar por mentiroso, havia de tudo, por estes arredores. Dava de tudo e até cana-de-açúcar de se descascar com a unha, nascia bonitona por estes lados. Legumes em abundância e chuvas a vontade" (Tavares, 1993: 48)

Guerra de Canudos
Manuel Ciriaco, antigo morador de Canudos, declarou em 1947
Foto: Pierre Verger

21 de Maio - 1895

Termina a missão dos frades capuchinhos a Canudos. Enviada pelo Arcebispo de Salvador, D. Jerônimo Tomé, para promover a dissolução do povoado, a fracassada missão durou 8 dias e era composta pelo Frei italiano João Evangelista do Monte Marciano, Frei Caetano Leo e o Padre Vicente Sabino.

Posteriormente foi publicado um relatório com os pormenores da viagem (Antônio Conselheiro e seu Séquito no Arraial dos Canudos / vide Livros).

24 de Maio - 1895

Antônio Conselheiro conclui o livro intitulado Apontamentos dos Preceitos da Divina Lei de Nosso Senhor Jesus Cristo, para a Salvação dos Homens, obra de conteúdo essencialmente religioso, escrito em Bello Monte, ainda inédito, tendo sido doado pelo Prof. José Calazans ao acervo do Núcleo do Sertão (CEB - UFBA).

Canudos virou uma lenda em todo o Nordeste. Parecia que todo o sertão queria ir para o Bello Monte. Em quatro anos tornou-se a 2a maior cidade da Bahia com mais de 25 mil habitantes. Salvador tinha 200 mil na época. Inúmeros povoados ficaram praticamente desabitados. Os trabalhadores abandonavam as grandes propriedades, com isso desorganizando a produção e afetando seriamente toda a economia da região. A elite agrária nordestina estava apavorada e não tardaria a articular uma reação.

Guerra de Canudos
Desenho: Adir Botelho

O Padre Cícero Romão Batista, nascido no Crato (CE) em 24 de Março de 1844, tinha muito interesse por Canudos, a ponto de ter enviado em 1896, antes do inicio da guerra, um observador chamado Herculano.

Conselheiro então lhe disse: "haverá quatro fogos, os três primeiros serão meus, o quarto eu entrego nas mãos do Bom Jesus.

Fonte: www.portfolium.com.br

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