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A Brasileira de Prazins - Camilo Castelo Branco

 

 

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Introdução

Entre as diversas moléstias significativas da minha velhice, o amor
aos livros antigos – a mais dispendiosa – leva-me o dinheiro que
me sobra da botica, onde os outros achaques me obrigam a fazer grandes orgias
de pílulas e tisanas. E, quando cuido que me curo com as drogas e me
ilustro com os arcaísmos, arruíno o estômago, e enferrujo
o cérebro numa caturrice académica.

Constou-me aqui há dias que a Srª Joaquina de Vilalva tinha um
gigo de livros velhos entre duas pipas na adega, e que as pipas, em vez de
malhais de pão, assentavam sobre missais, O meu informador denomina
missais todos os livros grandes; aos pequenos chama cartilhas. Mandei perguntar
à Srª Joaquina se dava licença que eu visse os livros.
Não só mos deixou ver, mas até mos deu todos –
que escolhesse, que levasse.

Examinei-os com alvoroço de bibliómano. Eles, gordurosos, húmidos,
empoeirados, pareciam-me sedutores como ao leitor delicadamente sensual se
lhe afigura a face da mulher querida, oleosa de cold-cream, pulverizada de
bismuto.

Havia sermonários latinos, um Marco Marullo, três retóricas,
muitas teologias morais, um Euclides, comentários de versões
literais de Tito Lívio e Virgílio. Deixei tudo na benemérita
podridão, tirante uma versão castelhana do mantuano por Diego
Lopez e um muito raro Entendimento literal e canstrviçam portugueza
de todas as obras de Horacio, por industria de Francisco da Costa, impresso
em 1639.

Disse-me a dadivosa viúva de Vilalva que os livros estavam na adega
havia mais de trinta anos, desde que seu cunhado, que estudava para padre,
morrera ético; que o seu homem – Deus lhe fale na alma –
mandara calcar o quarto onde o estudante acabara, e atirou para as lojas tudo
o que era do defunto – trastes, roupa e livralhada. Contou-me isto secamente
do extinto cunhado, ao mesmo tempo que roçava com a mão fagueira
o ventre grávido de uma gata maltesa que lhe resbunava no regaço,
passando-lhe pela cara a cauda em atritos de ama flacidez de arminho. E eu
que dedico aos bichos um afecto nostálgico, uma sensibilidade retroactiva,
um atavismo que me retrocede aos meus saudosos tempos de gorilha, olhava para
a gata que me piscava um olho com uma meiguice antiga – a das meninas
da minha mocidade que piscavam. Onde isto vai!

A Srª Joaquina, para me obrigar a um eterno reconhecimento, ofereceu-me
uma das crias da sua gata que andava para cada hora e se chamava Velhaca –
ajuntou com a satisfação de quem completa um esclarecimento
interessante. Agradeci o porvindouro filho da Velhaca, fiz uma carícia
no dorso crespo da mãe, que ma recebeu familiarmente, e sai com os
livros velhos empacotados em duas bulas de 1816 e 1817 que a Srª Joaquina,
com um riso céptico indisciplinado, me disse serem do tempo dos Afonsinhos.
– Porque o seu sogro, acrescentou, era um asno às direitas que
comprava a bula para poder comer carne em dia de jejum; e, sem que eu a provocasse
a vomitar heresias, disse que os padres vendiam a bula e compravam a carne;
e, juntando è heresia um anexim de limpeza muito duvidosa, disse o
que quer que fosse a respeito dos pecados que entram pela boca.

Depois informaram-me que esta viúva, bastante estragada no moral e
ainda mais no físico, andara de amores ilícitos com um escrivão
do juiz de paz, o Barroso, um dos 7500 do Mindelo, que lera o Bom senso do
cura João Meslier, e a saturara de má filosofia, e também
a esbulhara de parte dos seus bens de raiz e do melhor da sua

riqueza – a Fé, o bordão com que as velhas e os velhos
caminham resignados e contentes para os mistérios da eternidade.

*

Logo que cheguei a casa, entrei a folhear as páginas dos dois livros,
preparado para o dissabor de encontrá-los mutilados, defeituosos, com
folhas de menos, comidas pelas ratazanas colaboradoras roazes do galicismo
na ruína da boa linguagem quinhentista. Folheei o Entendimento literal
e constrviçam até páginas 154, e aqui achei um quarto
de papel almaço amarelecido, com umas linhas de letra esbranquiçada,
mas legível e regularmente escrita. O conteúdo do papel, onde
se conheciam vincos de dobras, era o seguinte:

José, teu irmão, quando eu hoje saia da igreja, onde fui pedir
a Nossa Senhora a tua vida ou minha morte, disse-me que eu não tardaria
a pedir a Deus pela tua alma. Eu já não posso chorar mais nem
rezar. Agora o que peço a Deus é que me leve também.
Se não morrer, endoideço. Perdoa-me, José, e pede a Deus
que me leve depressa para ao pé de ti.

Marta.

Não é preciso ser a gente extraordinariamente romântica
para interessar-se, averiguar, querer notícias das duas pessoas que
têm nestas linhas uma história qualquer, mais ou menos vulgar.
Ocorreu-me logo que o estudante, a quem o livro pertencera, tinha morrido
na flor dos anos. Além disso, na margem superior do frontispício
do volume, está escrito o nome do possuidor – José Dias
de Vilalva, e a carta é dirigida a um José. Concluí ser
o cunhado da viúva quem recebera a carta.

Voltei a casa da Srª Joaquina, muito açodado, como um antropologista
que procura uni dente pré-histórico, e perguntei-lhe se o seu
cunhado se chamava José Dias; e se tinha alguma conversada, quando
morreu. – Que sim, que o cunhado era José Dias e que morrera
pela Maria da Fonte.

– Pois ele amou a Maria da Fonte? – perguntei com ardente curiosidade
histórica, para esclarecer a minha pátria com um episódio
romanesco das suas guerras civis. Ela sorriu e respondeu:

– Agora! Quer dizer que o meu cunhado morreu quando por aí andavam
os da Maria da Fonte a tocar os sinos e a queimar a papelada dos escrivães,
sabe vossemecê? Acho que foi então ou por perto. – E ajuntou:
– Ele gostava aí muito de uma moça, isso é verdade.
Era a Marta...

– Marta? – disse eu com a satisfação de ver confirmada
a assinatura do bilhete.

– Vossemecê conhece-a?

_— Não conheço.

– É a brasileira de Prazins, a mulher do Feliciano da Retorta,
que tem quinze quintas entre grandes e pequenas.

– Bem sei; mas nunca vi essa mulher.

– Não que ela nunca sai do quarto; está assim a modos
de atolambada há muito tempo. Credo! há muitos anos que a não
vejo. Dá-lhe a gota, salvo seja, e estrebucha como se tivesse coisa
má no interior. É uma pena. Não sabe o que tem de seu.
O Feliciano é o homem mais rico destes arredores, e vivem como os cabaneiros,
de caldo e pão de milho. Ele quando vai ao Porto receber um alqueire
de soberanos que lhe vem do Brasil todos os anos, vai a pé, e mete
ao bolso umas côdeas de boroa e quatro maçãs para não
ir è estalagem.

Interrompi com interesse de artista:

– Disse-me que ela endoidecera. Foi logo depois da morte do seu cunhado?

– Isso já me não escordo. Quando eu vim casar para aqui
já meu cunhado tinha morrido. O que me lembra é dizer-me o meu
defunto, que Deus tem, que o rapaz ganhou doença do peito por mor dela.
Esses casos há muita gente que lhos conte. Há por aí
muito homem do seu tempo. Pergunte isso ao Senhor Reitor de Caldelas que andou
com ele nos estudos e sabe todas essas trapalhadas. – E num tom de notícia
festival: – Olhe que o gatinho nasceu esta noite; lá lho mando
assim que estiver criado.

Quer que lhe corte as orelhas e o rabito?

– Faça-me o favor de lhe não cortar nada.

Eu tinha lido, dias antes, a judiciosa crítica de uma dama inglesa
à nossa costumeira de desorelhar e derrabar gatos. Ela, lady Jackson,
escreve que lhe fazem compaixão os pobres bichanos que, sem cauda nem
orelhas, estão como que envergonhados de si mesmos. Excelente senhora!

*

Pedi que me apresentassem ao reitor de Caldelas na feira de Santo urso. Achei-lhe
um semblante convidativo, animador a entabular-se com ele uma indagação
de curiosidades sentimentais.

Fazia respeitável a sua batina sem nódoas o padre Osório.
Parece que também as não tem na vida. Passa por ser um velho
triste, que não teve mocidade, nem as ambições que suprem
os doces afectos do coração mutilados pelo cálculo ou
congelados pelo temperamento. Há trinta e dois anos que pastoreia uma
das mais pobres freguesias

do arcebispado. Pregou alguns anos com aplauso dos entendidos e inutilidade
dos pecadores. A retórica é a arte de falar bem; mas os vícios
são a arte de viver bem e alegremente. Assim se pensa, embora não
se diga.

Como pregava gratuitamente, o vigário de Caldelas era chamado por
todos os mordomos e confrarias festeiras. Quando se esgotavam os panegíricos
dos santos mais ou menos hipotéticos, pediam-lhe que pregasse da cura
milagrosa de umas maleitas ou de um leicenço – casos que a pobre
Natureza e o periódico chamado Esculápio só de per si
não poderiam explicar.

O vigário subia ao púlpito e improvisava coisas de grande engenho
em linguagem muito singela. Afirmava que Deus era tão bom, tão
previdente, que dera à condição enfermiça do homem
forças vitais, sobresselentes que resistiam à destruição;
e que a Natureza, grande milagre do seu Criador, só de per si era bastante
para a si mesma se restaurar. Ora, um abade rico, bacharel em Teologia, que
lhe ouvira estas ideias assaz naturalistas, perguntou-lhe, à puridade,
se ele negava os milagres. O reitor respondeu que a respeito das sezões
e dos leicenços acreditava mais na lanceta e no sulfato de quinino.
Depois, acrescentou: – Deus fez o supremo milagre da ciência para
centuplicar as forças à natureza enfraquecida. – O teólogo
enrugou cientificamente a fronte cheia de suspeitas e replicou: – O
Senhor Reitor foi ferido da peste do século. Está iscado de
Voltaire e de Alexandre Herculano. Deixou-se contaminar. Mundifique-se. Estude
mais e melhor. – O reitor de Caldelas afastou-se triste, e nunca mais
frequentou o púlpito.

Estas informações e o aspecto lhano, harmónico do padre,
animaram-me a dizerlhe que solicitara o seu conhecimento para lhe pedir alguns
esclarecimentos a respeito de uma carta encontrada num livro que pertencera
ao seu condiscípulo José Dias de Vilalva. – Recorda-se?
– perguntei.

– Se me recordo do meu pobre José Dias! Pois não recordo?
Parece-me que ainda sinto neste braço o peso enorme da sua face moda,
e já lá vão trinta e cinco anos. É preciso ter
na alma dolorosas reminiscências para se recordar um amigo morto há
tantíssimo tempo, não lhe parece? Como sabe você que existiu
esse obscuro filho de um lavrador?

Mostrei-lhe a carta. O padre olhou para a assinatura, gesticulou afirmativamente,
e, após uma breve pausa de recolhimento com as suas recordações,
disse:

– Fui eu que pus esta carta entre as páginas de um livro do
Dias. O meu pobre condiscípulo, quando este papel lhe foi mandado à
cama, já não o podia ler. Tinha caído no torpor, na indiferença
que, a meu ver, é a compaixão da Providência pelos que
morrem amando e não querendo morrer. Já não via a vida
nem a morte. Li esta carta; e, como ele nada me perguntou, eu nada lhe disse...
Agora me recordo perfeitamente. Era um comento de Horácio que eu lia
nos seus intervalos de modorra, a fim de dar ao meu ânimo uma folga
que me fortalecesse para resistir ao golpe final. Já sei pois o que
você deseja. Quer saber se esta Marta está no caso de merecer
a consagração romântica que Bernardim de Saint-Pierre
usurpou às dores verdadeiras, para coroar de uma eterna auréola
a sua fantástica Virgínia.

– Não vou tão longe – respondi com a modéstia
genial dos escritores que imortalizam. – A brasileira de Prazins não
pode contar com o seu imortalizador em mim, nem me parece bastante fecundo
o assunto. Sei que temos um namoro de uma menina com um estudante, o estudante
morre e a menina casa com um sujeito que tem quinze quintas. Se não
há mais do que isto...

O cura interrompeu:

– Vejo que sabe quem é Marta; mas não a conhece bem.
Virgínia e Francesca e Julieta não são mais dignas de
piedade nem de romance. Parece-me que o amor que enlouquece e permite que
se abram intercadências de luz no espírito para que a saudade
rebrilhe na escuridão da demência é incomparavelmente
mais funesto que o amor fulminante, O que é vulgar é morrer
logo ou esquecer quinze dias depois. Quando eu tinha uma irmã que lia
novelas, à custa de lhas ouvir analisar com um entusiasmo digno de
melhor emprego, achei-me envolvido na literatura de Sue, de Soulié
e de Balzac, a ponto de fazer presente do meu santo Afonso Maria de Ligório
e da minha Teologia moral de Pizelli a um padre bom e atinado que me profetizou
que minha irmã havia de morrer doida, a cismar nas patacoadas das novelas.
Ela não morreu doida; mas pensava em romancear a história de
Marta, porque dizia ela que, tendo lido trezentos volumes de novelas, não
encontrara caso imitante. – E, dando-me o bilhete de Marta: –
Este quarto de papel é o exórdio de uma agonia original.

*

Como a exposição do reitor saiu muito enfeitada de jóias
sentimentais – detestável espécie arqueológica
que ninguém tolera – farei quanto em mim couber por. uma a uma,
ir montando e refugando as flores de modo que as cenas dramáticas se
exponham áridas, bravias como serro de montanha por onde lavrou incêndio,
sem deixar bonina, sequer folhinha de giesta em que a aurora imperle uma lágrima.
A Aurora a chorar! de que tempo isto é! Como a gente, sem querer, mostra
numa ideia a sua certidão de idade e uma relíquia testemunhal
da idade de pedra! Oh! os bigodes tingem-se; mas as frases – madeixas
do espírito – são refractárias ao rejuvenescimento
dos vernizes.

Capítulo I

Marta era filha de um lavrador mediano que tinha em Pernambuco um irmão
rico de quem dizia o diabo. Chamava-lhe ladrão porque, no espaço
de vinte anos, lhe mandara três moedas, com os seguintes encargos: à
mãe

6$000 réis fortes, às almas do Purgatório, de Negrelos,
3$000 réis também fortes, que lhos prometera quando embarcou,
e o resto para ele –

A rapariga conversou diversos mancebos, uns da lavoura, outros da arte, e,
afinal, quando o pai lhe negociava o casamento com um pedreiro, mestre-de-obras,
muito endinheirado e já maduro, apareceu o José Dias, filho
de um lavrador rico de Vilalva, a namoriscá-la. Este rapaz estudava
latim para clérigo; mas, como era fraco, de poucas carnes e amarelo,
o cirurgião disse ao pai que o moço não lhe fazia bem
puxar pelas memórias. Os padres do Minho, naquele tempo, não
puxavam quase nada pelas memórias; ordenavam-se tão alheios
às faculdades da alma que, sem memória nem entendimento, e às
vezes sem vontade, eram sofríveis sacerdotes, davam poucas silabadas
no Missal e liam os salmos do Breviário com uma grande incerteza do
que queria dizer o penitente David. Pois, assim mesmo, sendo tão fácil
a ordenação – uma coisa que se fazia com uma perna às
costas, diziam certos vigários – sem precisão absoluta
de puxar pelas memórias, o Joaquim Dias quis tirar o filho do latim
que lhe ensinava um egresso da Ordem Terceira, o Frei Roque. Este padre-mestre
tinha uma irmã paralítica: sabia ler, e prendas de costura,
marcava, fizera um pavão de missanga, não desconhecia o croché
e ensinava raparigas para se distrair.

No quinteiro do padre-mestre Roque foi que o José de Vilalva se afez
a reparar na Marta de Prazins, uma rapariga muito alva, magrinha, de cabelo
atado, muito limpa, com a sua saia de chita amarela com dois folhos, jaqueta
de fazenda azul com o forro dos punhos escarlates, muito séria com
propósito de mulher e ares muito sonsos – diziam as outras, que
lhe chamavam a songuinha. Os outros estudantes, rapazolas vermelhaços,
refeitos, grandes parvajolas, com grandes nacos de boroa nas algibeiras das
véstias de saragoça de varas, e os vemos Virgílios ensebados
em saquitos de estopa suja, diziam graçolas a Marta – chamavam-lhe
boa pequena, franga e peixão. O José Dias, arredado do grupo
dos trocistas alvares, via-a passar silenciosa, indiferente aos gracejos,
olhos no chão, e um grande resguardo na barra da saia quando subia
a escada. Os rapazes, aqueles embriões de abades, como a escada de
pedra era íngreme e aberta do lado do quinteiro, punham-se a espreitar
as pernas das alunas da paralítica, pela maior parte raparigas entre
doze e dezasseis anos, muito musculosas, com pés grandes e os tecidos
repuxados e cheios pelo exercício dos carretos nas safras da lavoura.

Marta ia nos catorze quando o pai a quis tirar da mestra. Chegara-lhe aos
ouvidos que os estudantes, má canalha, lhe impeticavam com a filha.
Queixou-se a Frei Roque. O egresso, resfolegando honradas cóleras e
pulverizações de esturrinho, mandou enfileirar os gargajolas
na quadra da aula, e chamou a Marta.

– Qual foi destes tratantes o que implicou contigo. cachopa? –
perguntou o padremestre olhando-a por cima dos óculos, orbiculares,
com as hastes oxidadas de um cobre antigo. E, apontando para o primeiro da
fileira que era o José de Vilalva:

– Foi este?

– Esse nunca me disse nada – respondeu com a voz trémula,
toda vermelha, a rapariga.

– Foi este?

Marta não ergueu os olhos nem respondeu.

– Então, moça? qual foi dos nove? Diz lá. Tu que
te queixaste é que algum embarrou por ti.

– Eu não me queixei... – murmurou a interrogada.

Verdadeiramente ela não se queixara. Foi o Zeferino, o filho do alferes
da Lamela, o mestre-pedreiro que andando a construir um canastro na eira do
padre-mestre, observara que os estudantes rentavam à cachopa, e ajeitavam-se
em atitudes abrejeiradas, como de quem espreita, quando ela subia a escada.

O denunciante ao pai de Marta foi ele, o pedreiro abastado, não porque
o espicaçassem nessa denúncia o zelo dos bons costumes, e um
justo ódio às concupiscentes espionagens dos rapazes, mas porque
gostava, deveras, da moça. Ele passava já dos trinta e dois
e era a primeira vez que sentia no coração as alvoradas do amor.
Frei Roque, averiguado o caso, advertiu o pedreiro que não fosse má-lingua,
que não andasse a difamar os seus discípulos, que se preparavam
para o sacerdócio – uma coisa séria. O episódio
acabaria assim menos mal, se dois dos estudantes, que se preparavam para o
sacerdócio, mais fortes no fueiro que nas conjugações,
desistissem de o moer a pauladas, uma noite num pinhal. O mestre-de-obras
iniciou-se pelo martírio obscuro num amor que principiava bastante
mal. Ele nunca soube ao certo quem lhe batera, e atribuiu a sova a émulos
na arte, covardes e misteriosos, por causa da construção de
uma igreja que ele desdenhara, citando as regras do Vignola. Vinha a ser o
desastre uma tunda por motivos de arquitectura – um martírio
de artista. Invejas. Por causa da Arte padecera o seu colega Afonso Domingues,
o arquitecto da Batalha, e João de Castilho, o do convento de Tomar,
e já tinha padecido seu mestre, o Manuel Chasco, a quem inimigos quebraram
a cabeça na feira dos 21, porque ele, desfazendo na obra de um colega,
dissera que o botaréu de um cunhal estava torto.

Passado tempo, Marta saiu pronta da mestra. Lia a cartilha do Salamondi e
o Grito das Almas, decifrava menos mal uma sentenças velhas, que havia
na casa de Prazins, monumentos das ruínas de antigas demandas, e escrevia
regularmente. A primeira carta que escreveu por pauta foi para o tio de Pernambuco,
o tio Feliciano. Pedia-lhe a sua bênção e duas moedas
de ouro para umas arrecadas. Era o pai que lhe ditava a carta, cheia de lástimas
mendigas, mentirosas, historietas velhacas de penhoras, as grandes décimas,
a ferrugem das oliveiras, o bicho da batata, o gorgulho que pegara no milho,
muitas alicantinas.

– Que era a ver se o ladrão mandava alguma coisa – dizia
ele, pondo cuspo na obreia vermelha para fechar a carta.

A segunda carta que ela escreveu, já sem pauta, foi a José
Dias, ao estudante, que já não estudava por causa das memórias
nocivas à sua saúde fraca, um pelém.

Neste tempo já o Zeferino da Lamela se tinha declarado com o Simeão
de Prazins, de um modo quase original.

– Você quanto deve, ó tio Simeão? – perguntou.

– Quanto devo? Você quer pagar-me as dívidas?

– Pode ser. Você deve à Irmandade de Nossa Senhora de
Negrelos um conto e cem mil-réis; você deve de tornas a seu irmão
quatrocentos. Há-de andar lá para um conto e quinhentos, p'ra
riba que não p'ra baixo.

– É isso; você sabe a minha vida melhor que eu a sua –
um conto e quinhentos e pico.

– Quanto é o pico?

– Obra de dez moedas, mais pinto menos pinto. Miudezas na loja ao mercador
e um restito da vaca amarela que comprei ao Tarraxa na feira dos 13.

– Você quer fazer um cambalacho? – tornou o pedreiro recuando
o chapéu para a nuca e pondo-lhe as mãos espalmadas com força
nos ombros.

– Se pintar... Já sei o que você quer... Não me
serve. Você quer comprar-me o lameiro da azenha – não vendo.

– Eu ainda lhe não disse o que queria, tio Simeão. Olhe
bem para mim. Você está a falar c'um home. Pago-lhe as dívidas,
você não fica a dever nada, e eu caso com a sua Marta. Pode dar
os bens ao outro filho que eu não lhe quero uma de X.

– Você fala sério, ó sor Zeferino?

– Se falo sério?! Então você não sabe com
quem é que trata.

– Ora bem – entendamo-nos – é a rapariga que você
quer, a rapariga estreme, sem dote nem escritura?

– Eu não tenho senão uma palavra. Já lhe disse
que sim.

– A rapariga é sua.

Negociara a filha com o Zeferino como tinha negociado com o Tarraxa a vaca
amarela na feira dos 13. Eis um caso esquisito de aldeia que pela torpeza
parece acontecido numa cidade culta. Conversou-se este diálogo debaixo
de um castanheiro frondoso, com um pavilhão de folhagem gorjeado de
pássaros, com uns tons de luz esverdeada, na doce placidez crepuscular
de uma tarde de Agosto, entre dois homens de tamancos, arremangados, com os
peitos cabeludos a negrejar de entre os peitilhos da camisa surrada de suor
e poeira, brutos no gesto e na frase. Análogas passagens, com estilo
pouco melhor, têm sido dramatizadas nas salas, entre homens da melhor
polpa e casca social – uns que mandaram ensinar às filhas os
verbos franceses e são assinantes do Journal des Dames que marca às
meninas a baliza até onde pode chegar o arrojo da língua francesa
e os seus mais avançados destinos. Da outra parte, homens ricos, de
fígado ingurgitado, fatigados, sedentos de senhoras finas que ponham
no luxo das suas salas os tons vivos da carne constelada de diamantes. É
o epílogo de vinte anos de lavra dura, o substrato da compra de negras
a milhares: – comprar uma branca, das que o amor pobre e o talento estéril
não podem negociar. O contrato feito em Prazins – eis a diferença
– por parte do pedreiro era um heroísmo: dava o seu dinheiro
por aquela mulher; daria mais depressa o seu sangue. Era uma paixão
das que não pegam com os dentes anavalhados em corações
civilizados, quase desfeitos. Ora, os pedreiros que vêm de além-mar,
e se vestiram no Pool ou no Keil, não amam nem cumpram assim. Fazem
o dote económico, comezinho à esposa. Compram uma máquina
de propagação, condicionalmente. Se, extinto o comprador, a
máquina, não deteriorada, tiver pretendente, o substituto que
a compre. O defunto prefere que a sua viúva, adelgaçada e espiritualizada
por jejuns, lhe converse com a alma.

Capítulo II

Por esses dias chegou carta de Pernambuco, incluindo ordem, primeira via,
48$000 réis, dez moedas de ouro. Feliciano mandava 12$000 réis
para as arrecadas da sobrinha, e o resto ao irmão. Dizia-lhe que estava
a liquidar para vir, enfim, descansar‚ de vez, que já tinha para
os feijões. Recomendava-lhe que fosse deitando o olho a uma ou duas
quintas que se vendessem até trinta ou quarenta mil cruzados; que se
ainda houvesse conventos è venda, os fosse apalavrando até ele
chegar.

– Quarenta mil cruzados, com um raio de diabos! – exclamou o
Simeão, e foi mostrar a carta ao padre-mestre Roque, ao Trepa de Santo
Tirso e ao ex-capitão-mor de Landim; e, como encontrasse na feira o
dono do mosteiro dos beneditinos, o Pinto Soares, um deputado gordo –
a retórica viva do silêncio mais facundo que a língua,
de uma grande pacificação sonolenta –, perguntou-lhe se
queria vender as quintas dos frades, que tinha comprador. O Pinto Soares,
como um homem que acorda com espírito e um pouco de ateísmo,
respondeu-lhe que não vendia para não transmitir ao comprador
a excomunhão que arranjara comprando bens das ordens religiosas. Mas
o Simeão, em matéria e raios do Vaticano, tinha na sua estupidez
a invenção de Franclim. Continuava a perguntar a toda a gente
se sabiam de conventos à venda, ou quintas ai para quarenta mil cruzados.

O Zeferino das Lamelas, o pedreiro que se julgava noivo por ter o negócio
fechado num conto quinhentos e pico, procurou o lavrador para se cuidar dos
banhos. O velhaco, depois de o ouvir com ares de abstracção
palerma, disse-lhe a mastigar as palavras:

– Home, o caso mudou muito de figura. Então você pelos
modos ainda não sabe que vem aí o meu irmão de Pernambuco
comprar quintas e conventos?

E começou a desenrolar o nastro gorduroso de uma carteira de couro
em que tinha recibos da décima, um aviso da junta da paróquia
para pagar a côngrua, uma conta de azeviche contra maus-olhados, uma
oração manuscrita contra as maleitas, um oficio antigo que o
nomeava regedor, de que fora demitido pelos Cabrais, uma velha ressalva de
recrutamento, uns versos que ele recitara no Natal, num Auto do Nascimento
do Menino, onde ele fazia de rei mago, e finalmente o livrinho de Santa Bárbara,
muito sebáceo, com um lustre azulado de graxa e a carta do Feliciano
tão suja que parecia ter estado em infusão de pingue.

– Você ainda não ouviu falar desta carta!? – perguntou
com sobrançaria impertinente, dando saliva aos dedos para a desdobrar.
– Não se fala noutra coisa. Toda a gente sabe que vem aí
do Brasil o meu Feliciano para comprar quintas.

– Já me constou – disse o pedreiro –, mas você
rói a corda à conta disso, acho eu. – E como o lavrador
hesitasse: – O negócio da rapariga está feito ou não
está feito? Os homens conhecem-se pela palavra e os bois pelos cornos.
Ponha para aí o que tem no interior.

O Simeão mascava, torcia-se, metia com dois dedos a carta estafada
na carteira e resmungava:

– Você, enfim, isto é um modo de falar, como o outro que
diz; você bem entende que... sim...

– O que eu entendo fisicamente falando é que você não
me dá a rapariga.

– Deixe ver, deixe ver o que diz o meu irmão – tartamudeava.

– Sabe você que mais? – volveu iracundo o arquitecto, dando
com o olho do machado num canhoto. – Você é de má
casta. Não tem palavra nem vergonha nessa cara estanhada. Você
é da geração dos Travessas da Serra Negra, e basta...
Não lhe digo mais nada... – Alusão pungente a um tio do
Simeão, o Barnabé, capitão das maltas de salteadores
que infestaram em 1835 aquela serra.

– Veja lá como fala... – interrompeu o lavrador ferido
na sua linhagem. – Você não me deite a perder...

E o outro, num ímpeto de consciência robusta:

– Você é um safado. É o que lhe eu digo. Não
guarda palavra em contrato que faça. Eu já devia conhecê-lo.
Faz para as matanças seis anos que você ajustou comigo uma porca
por quatro moedas e foi depois vendê-la ao António do Eido por
mais um quartinho. Lembra-se, seu alma de cântaro? – E numa irritação
crescente: – Se você não fosse um velho, dava-lhe com este
machado na caveira. – E muito esbandalhado nos gestos, com sarcasmo:
– Guarde a filha que eu hei-de achar mulher muito melhor que ela pelo
preço, ouviu você? que leve o Diabo a burra e mais quem a tange,
como o outro que diz. Livrei-me de boa espiga. De você não pode
sair coisa boa; e mais da mãe que ela teve, que já lá
está a dar contas...

E o lavrador com extremada prudência e na pacatez de um grande espírito
de ordem e paz:

– Você não tem que desfazer na minha filha, ouviu?

– Ouvi, que não sou mouco. Ainda ontem a topei na bouça
do Reguengo de palestra com o estudante de Vilalva. Espere-lhe a volta. A
songuinha, que não olha direito p'ra um home, que anda ali esmadrigada
de cabeça ao lado, lá estava de mão na ilharga a dar
treta ao estudante, aquele pau de encher tripas, que há-de ser mesmo
um padre daquela casta! Olhe se ele lha quer para casar... Pois não
quiseste? – e arregaçava a pálpebra do olho esquerdo,
mostrando o interior inflamado com uns pontos amarelos, purulentos, indicativos
de insuficiente lavagem, um trejeito de garotice. E continuava: – Quem
lhe dera dois pontapés, nele e mais nela! – e muito rubro de
cólera dava pancadaria nas pedras, nas raízes nodosas dos castanheiros,
e metia grande terror no ânimo do Simeão quando faiscava lume
nos calhaus com a percussão do machado.

Esta situação prometia acabar pela fuga prudente do pai de
Marta, se o estudante de Vilalva não assomasse ao fundo do castanhal
com uma matilha de coelheiros que ladravam a um porco muito eriçado,
que os esperava com o focinho de esguelha, bufando e grunhindo. O caçador
chamava os cães, assobiava, fazia uma bulha convencional para que a
Marta o ouvisse.

Ele não tinha visto o pedreiro; os cães é que o viram
e deixaram o porco destemido para atacarem o homem, com uma velha birra que
lhe tinham. O Zeferino, noutra ocasião, segundo o seu costume, desprezaria
a arremetida da matilha; mas, naquela conjuntura de ódio ao caçador,
esperou a canzoada com o machado em riste, empunhava o cabo com as mãos
cabeludas, e fazia, com o corpo inclinado, avanços provocadores. José
Dias chamava os cães obedientes; mas o Zeferino, muito azedo, engelhando
na cara uns trejeitos de bazófia, dizia sarcástico:

– Deixe-os vir, deixe-os vir, que o primeiro que chegar faço-lhe
saltar os miolos à cara de você.

Que se acomodasse, conciliava pacificamente o estudante – que os cães
não tinham outra fala. E o pedreiro insistente, muito arrogante: –
Que venham para cá, e mais o dono, o caçador de borra! –
e dizia palavradas canalhas, muito danado porque vira aparecer a Marta na
varanda, a fazer meia com a cesta do novelo no braço.

– Ó Sr. Zeferino, fale bem, ponha cobro na língua advertiu
o José Dias, com uma serenidade de mau agoiro – quando eu lhe
ladrar então se fará com o machado para mim. Os cães
ladraram-lhe; eu chamei-os, que mais quer você, homem? Siga o seu caminho.

– O meu caminho? o meu caminho é este – disse batendo
com o machado na terra. – Quer você mandar-me embora daqui? Ora
não seja tolo.

A presença da moça enfurecia-o; contra o seu costume, sentia-se
valente. O amor, como um vinho indigesto, dava-lhe a coragem interina dos
bêbedos, e berrava:

– Se é homem, venha para cá! Você manda-me sair
daqui, seu pedaço-de-asno? E o estudante, já amarelo:

– Eu não o mando sair daí, nem lhe consinto que me chame
asno. Olhe que eu largo a espingarda, tiro-lhe das unhas o machado e dou-lhe
com ele.

– Ó alma do Diabo! – exclamou o pedreiro crescendo para
o caçador.

Nisto, um dos cães, atravessado de cão de gado e cadela coelheira,
que aprendera a morder nas ocasiões razoáveis, atirou-se-lhe
ao assento das calças de estopa e puxou até lhe descobrir a
epiderme da nádega esquerda.

O pedreiro floreava debalde o machado; os golpes cortavam o ar, e nem de
leve apanhavam o cão, que dava pulos de esconso, atacando-o pela nádega
direita. A restante matilha fraternizara com o outro e juntavam os focinhos
num complexo de dentuças minacíssimas com os olhos sanguíneos
cravados nos movimentos do machado. José Dias, no entanto, espancava
a cainçada, e Marta não sabia se havia de descer para ajudar
o pai a acomodar a bulha, ou se havia de cair na varanda a rir-se. Ela sentia-se
envergonhada do espectáculo que exibia a calça esfarrapada;
mas não havia pudor que resistisse àquilo. O pedreiro sabia
que o cão lhe chegara um pouco à calça; mas, no calor
da luta, não sentira esfriar-se-lhe a pele descoberta, nem se lembrou
que andava sem ceroulas. Depois, como sentisse uma frescura extraordinária
na cútis, exposta ao contacto da atmosfera, levou a mão conscienciosamente
ao sítio, e achou em si aquele espécime obsoleto do Adão
primitivamente inocente. No entanto, Marta, não podendo já consigo,
entalada de riso, fugira da varanda e atirara-se de bruços sobre a
cama, a rebolar-se, a espernear como se tivesse uma cólica. O estudante
retirou-se assobiando à matilha ainda refilada às nádegas
do homem. O Simeão coçava-se com as dez unhas e dizia velhacamente
comovido:

– Meta-se aí na corte da égua que eu vou-lhe buscar umas
calças, seu Zeferino, ou dá-se-lhe aí quatro pontos p'ra
remediar. Dê cá as calças, e não se aflija...

O pedreiro respondeu-lhe porcamente e de modo tão trivial, que o outro
lhe replicou:

–Vá você!

E meteu-se em casa como quem receava contra-réplica menos suja e mais
dura.

Capítulo III

O Zeferino era afilhado do morgado de Barrimau, um major de cavalaria, convencionado
em Evora Monte, miguelista intransigente, mas cordato. Vivia no seu escalavrado
solar com um irmão egresso beneditino, Frei Gervásio, muito
cevado e inerte, que continuava em casa a sua missão monástica.
Era um contemplativo. Não lia senão no livro da Natureza. Se
não dormia, estrumava o seu vegetalismo com muitos adubos crassos de
toucinho e capoeira, com um grande farfalhar de mastigação,
porque dispunha de dentadura insuficiente. Tinha outro sinal ruidoso de vida
– era um pigarro de catarral crónica, arrancado dos gorgomilos
com tamanho estrupido que parecia ao longe o grito rouco de um estrangulado,
no 5º acto de um drama de costumes. A velha criada da cozinha, muito
flatulenta, nunca pudera afazer-se às explosões daquela garganta
escabrosa de mucos empedrados. Quando o grasnido aspérrimo de pavão
lhe feria os ouvidos, reboando nos côncavos tectos dos salões,
a mulher estremecia e raras vezes deixava de resmungar: – Que medo!
credo! diabos leve a esgana do home. Deus me perdoe!

De dois em dois meses apareciam em Barrimau dois egressos de Cabeceiras de
Basto, companheiros de noviciado de Frei Gervásio. Juntavam-se os três
amigos numa intimidade de palestras saudosas. Com intercadências mudas
de poética tristeza, comemoravam os seus conventuais falecidos, rezavam
juntos pelos seus breviários beneditinos; depois, a passo cadencioso,
claustral, iam para a mesa com o recolhimento prescrito pela Regra do patriarca.
Aí, pegava de puxar por eles a natureza objectiva, e dava-lhes horas
de salutar esquecimento do passado irreparável. Gorgolejavam copiosamente
os vinhos engarrafados, traiçoeiros, da Companhia, em que Frei Gervásio
derretia a prestação; porque, de resto, a mesa do mano morgado
era farta e a sua bolsa generosa para as moderadas necessidades do egresso.

O major Zeferino Bezerra de Castro não tinha grande casa; mas, como
era solteiro e quinquagenário, fazia de conta que os bens lhe haviam
de sobejar à vida, vendendo os alodiais e empenhando, se necessário
fosse, o morgadio, que era insignificante. Concorria com vinte moedas para
as miseráveis 1000 libras que o Sr. D. Miguel recebia anualmente de
donativos de monarcas e dos seus partidários portugueses1. Festejava
dispendiosamente os natalícios do rei, convidando a jantar os realistas
notáveis da comarca; e, contando os anos da proscrição,
ia calculando a patente que lhe competia quando o soberano legítimo
se restaurasse. Correspondia-se com alguns camaradas, esquecidos e atrofiados
nas aldeias, o general Póvoas, o Bernardino, o Magessi, o Montalegre,
o José

1Um historiador moderno dissa que D. Miguel em 1855 recebia setenta contos
anuais de donativos. Provavelmente deu causa a esta liberalidade de cifras
um lapso do Sr. Joaquim Martins de Carvalho, que a págs. 254-255 dos
seus Apontamentos para a História Conemporânea, transcreveu de
uma carta de Lourenço Viegas o seguinte período: «Os rendimentos
de el-rei compõem-se das 600 libras que vêm de Lisboa da comissão
alimentícia, 1 000 francos mensais que com toda a exactidão
lhe mandava o conde de Chambord, 5 000 francos que anualmente lhe manda o
duque de Modena e 6 000 francos do imperador Fernando da Áustria, também
anuais, mas sem época fixa, junto a alguns extraordinários da
província do Minho, fazem subir a renda anual a 400 000 francos, e
esta chega apenas para a despesa e economia doméstica.» Chegando
apenas para a despesa doméstica de D. Miguel, 72 000$000, quanto lhe
seria necessário para despesas de fora? Um dos zeros do Sr. Martins
de Carvalho deve passar para a direita do 4, e reduzir a anuidade do príncipe
a 7 200$000 réis ou 40 000 francos.

Marcelino. Mas as cartas quem lhas redigia era o mano frade, recheando-as
de trechos de política de púlpito – resultado das suas
digestões morosas, contemplativas – que serviram de ornamento
nas colunas do Portugal Velho!, periódico miguelista da época.

Naquele ano, por meado de 1845, espalhara-se no ambiente dos realistas, como
um aroma de jardins floridos, o boato de que vinha o Sr. D. Miguel. O seu
enorme partido sentia-se palpitar no anseio daqueles vagos anelos que estremeciam
as nações pagãs ao avizinhar-se o profetizado aparecimento
do Messias. Afirmam-no os Santos Padres, e os padres do Minho asseveravam
o mesmo a respeito do príncipe proscrito. Frei Gervásio recebia
do alto da província cartas misteriosas de uns padres que paroquiavam
na Póvoa de Lanhoso e Vieira. Era ali o foco latente do apostolado.
Naqueles estábulos de ignorância supersticiosa é que devia
aparecer, pelos modos, o presépio do novo redentor. Citavam-se profecias
apocalípticas de frades que estavam inteiros sob as lajes das claustras.
Convergiam àquele ponto missionários de aspectos seráficos,
olhando para as estrelas como os magos e os pastores da Palestina. O frade
mostrava as cartas ao irmão e dizia-lhe:

– Mas muito grande! – corroborava o major com cabeçadas
afirmativas muito exageradas.

– A Rússia move-se, é o que é – afirmou
Frei Gervásio, correlacionando a iniciativa de Lanhoso com a propaganda
autocrática da Rússia.

Num destes diálogos, em que havia desabafos, exuberâncias de
júbilo, interveio o Zeferino das Lamelas, o pedreiro afilhado do major.
Vinha contar o caso do Simeão de Prazins e a pega que teve com os cães
do Dias de Vilalva. Mostrava a calça remendada – que por pouco
lhe não entravam no couro os cães – dizia, e protestava
vingar-se. O egresso pacificava-o; que deixasse lá a rapariga e mais
o estudante; que se fosse preparando para desembainhar a espada de seu pai
em defesa do trono e do altar. E o major:

– Estamos chegados a elas, Zeferino.

E o pedreiro, esfregando as mãos coriáceas, que rangiam como
duas lixas friccionadas:

– A eles, senhor padrinho! A espada vai-se amolar Vou pedi-la ao velho!

O pai de Zeferino, o Gaspar das Lamelas, tinha sido alferes do 17 de linha;
e, em 1834, como o perseguissem os liberais do concelho por pancadaria e testemunhos
falsos nas devassas de 28, andou foragido alguns meses. Sequestraram-lhe os
bens; e o filho, que já era muito barbado e não tinha modo de
vida, fez-se pedreiro. Depois, aplacadas as fúrias dos vencedores e
restabelecida a justiça, restituíram ao Zeferino as terras devastadas.
O ex-alferes saiu do seu esconderijo, e recolheu-se a casa com a espada muito
cheia de verdete, dizendo que havia de lavá-la no sangue dos malhados.
Em 1838, dia de Natal, embebedou-se despropositadamente e saiu para a rua
a dar vivas ao Sr. D. Miguel. Outros piteireiros, do mesmo credo, afectos
às velhas instituições, responderam aos vivas com um
entusiasmo homicida. O Gaspar foi buscar a espada, cingiu a banda sobre a
niza de saragoça, pôs a barretina com os amarelos muito oxidados,
e, à frente de um grupo de jornaleiros e garotos, caminhou para a cabeça
do concelho a fim de oferecer batalha campal às autoridades. Além
da espada do caudilho, havia na jolda três espingardas reiunas; o restante
eram foices de gancho encavadas em grossas varas. Um porqueiro colossal floreava
unia lâmina brunida da faca de matar os cevados. A guerrilha, já
engrossada por outros bêbedos encontrados nas tabernas do trânsito,
chegou à porta do morgado de Barrimau, e a clamorosos brados elegeram-no
general. Já se ouvia tocar a rebate em diversas torres, à discrição
dos garotos destacados. O morgado mandou-lhes dar vinho, e que debandassem,
que recolhessem a suas casas, porque iam levar grande tareia inutilmente.
O egresso veio a uma janela que abria sobre o átrio, e tentou dissuadi-los
do desvario que mais parecia um excesso de vinho que de patriotismo –
dizia. Não fez nada. Cada vez mais picado, o alferes, faminto de vingança,
bradava que estivera quinze meses escondido, que lhe tinham estragado a sua
casa, e que ia pedir contas aos Trepas e aos Andrades de Santo Tirso, uns
malhados, cujas cabeças havia de deixar espetadas em pinheiros.

Na vila ouvia-se o toque a rebate. Dizia-se que era incêndio. Alguns
vadios atravessaram a ponte muito açodados em direcção
às freguesias de onde soavam as primeiras badaladas. O regedor de Vilalva,
o pai do José Dias, descia esbaforido do monte do Barreiro a dar parte
à autoridade. Assim que se espalhou a nova em Santo Tirso, já
se ouvia alarido de vozes. A garotagem dava vivas, e guinchava uns apupos
prolongados que punham ecos nas margens tortuosas do rio Ave. Os liberais
de Santo Tirso rodearam o administrador, armados, com os seus criados. Os
negociantes, com medo de saque, também saíram de clavinas. As
famílias nas janelas faziam clamores, numa grande desolação.
Naquela vila lembrava ainda a mortandade do tempo do cerco do Porto, e havia
velhos que presenciaram outra semelhante no tempo dos franceses. O regedor
de Vilalva dissera que o comandante da guerrilha era o morgado de Barrimau.
Esta notícia fez aumentar o pavor, porque, se o morgado, sério,
prudente e bravo, aceitara o comando dos populares é porque a coisa
era séria. Os homens de negócio depuseram as armas, enfardelaram
os valores e fugiram, caminho do Porto. Os proprietários, os empregados
públicos, os oficiais de justiça, alguns que haviam militado
e emigrado, desceram à ponte armados em número de oitenta. Outros
seguiram vereda diferente para passar o rio. A guerrilha, cuja vozeada se
aproximava, no trajecto de uma légua, pegou a sua febre a mais de trezentos
homens. Era um domingo de festa solene, consagrado à descida do Filho
de Deus, para aplacar os bárbaros ódios do género humano:
– uma grande alegria que passaria despercebida, se o vinho não
preparasse as almas a compreendê-la e senti-la. Depois, muito comunicativa,
como se vê. Gaspar das Lamelas emborracha-se ao jantar e faz brindes
ao Menino Jesus e ao Sr. D. Miguel I. Pica-lhe na caneca, pungem-no saudades
do rei, e sai para o terreiro a dar-lhe vivas. Outros vinhos em ebulição
respondem-lhe num grito de sinceridade compacta. Trava da espada, que se tingira
no sangue de três batalhas à volta do Porto; entra com ele a
convicção em delírio acrisolada pela alucinação
da embriaguez. E o anojo temerário dos grandes guerreiros o que é

senão uma embriaguez de glória, quando não é
uma embriaguez de genebra? Nas guerras civis portuguesas houve ai um bravo
soldado de fortuna que, no vigor dos anos, ganhara as charlateiras de general
e uma coroa de conde. Os seus camaradas, mais retardados na carreira por causa
da abstinência, diziam que ele nunca saíra vitorioso de campanha
onde não entrasse bêbedo. Este general, ao declinar da vida,
casado e abstémio, não deu uma página gloriosa à
sua história, presidiu sem iniciativa militar nem política à
Junta Suprema do Podo, e fechou o ciclo das suas façanhas a parlamentar
em Vieira com o padre Casimiro, o General Defensor das cinco chagas.

Também no cérebro vinolento do alferes das Lamelas rutilavam
os relâmpagos da glória quando, a brandir o gládio ferruginoso,
descia, na vanguarda da guerrilha, o outeiro sobrejacente à Ponte de
Santo Tirso. À entrada da ponte de pau havia taverna, com as prateleiras
alinhadas de garrafas da Companhia, com rótulos.

A multidão parou, avistando gente armada que descia a calçada
de além, ao nível da quinta do Mosteiro de S. Bento. O taverneiro,
muito caloteado dessa vez, diz ao comandante, ao Gaspar, que não caísse
em se meter à ponte.

– Vocês vão cair aí nessa ponte como tordos, e
os que não caírem têm de largar os socos a fugir –
avisava, porque sabia que os de lá eram tesos, e vinham todos armados.

O cabecilha tinha o seu vinho quase digerido; a bravura começava a
ceder às reflexões sensatas do taverneiro; mas o seu estado-maior,
uns facínoras da quadrilha que três anos antes infestara as encruzilhadas
da Terra Negra e Travagem, não transigiam, e forçavam-no a beber
copos de aguardente. – Que o primeiro que mostrasse os calcanhares ia
malhar da ponte abaixo! – protestavam os velhos salteadores do Minho,
batendo com as coronhas no balcão.

Entretanto, o administrador do concelho com dois empregados inermes atravessava
a ponte. A guerrilha, estupefacta da audácia, esperava-o numa atitude
pacífica, estúpida, um retraimento de covardia, olhando-se uns
para os outros e todos para o alferes. Ele, empurrado pelos valentes, colocou-se
à frente, na boca da ponte, com a espada nua. O administrador chegou
muito de passo e perguntou se estava ali o Sr. Morgado de Barrimau, que desejava
falar-lhe.

Que não estava. – Eu sou o chefe – disse o Gaspar.

– Logo me pareceu que um homem sério, como o morgado, não
estaria à frente deste bom povo enganado – ponderou a autoridade.
– E vossemecê quem é? – perguntou ao chefe.

Que era o alferes das Lamelas, bem conhecido em toda a parte; que perguntasse
aos malhados de Santo Tirso, a esse ladrões que o perseguiram e lhe
roubaram os seus bens.

O administrador, um bacharel, de cabeleira à Saint-Simon, era discursivo
e não perdia lanço de eloquência em casos de um romanesco
medonho. A torrente do rio rugia quebrada pelo triângulo dos pegões.
Uma rica e fúnebre paisagem, cortada de um lado pelos cata-ventos que
rangiam nas cristas das torres do mosteiro, e do outro pela mata verde-negra,
eriçada de pinheiros gementes. Um pitoresco cheio de sugestões,
de uma palpitação ciclópica. Depois o enorme auditório,
trezentas cabeças, flutuando com as bocas muito escancaradas numa bestialidade
feramente espasmódica de lobos espantados por um archote aceso. O meio
era demosténico, inspirativo. Borbotou-lhe a golfos um palavreado discreto,
aconselhando a turba a retirar-se aos seus apriscos, à honrada labutação
dos seus mesteres, e a não perturbarem com demagogias a pacificação
dos ânimos e a sacratíssima inviolabilidade das instituições.
Quando o funcionário fechou a parlenda, um dos mais bêbedos.
quer por chalaça, quer por insuficiente compreensão dos princípios
políticos da autoridade, atirou o chapéu ao ar e exclamou: .

A autoridade ia replicar; mas a gritaria abafou-o. Ele voltou as costas à
canalha, e foi-se com bons exemplos de oradores antigos. Os liberais, logo
que o viram retroceder, entraram na ponte de madeira com um sonoro estrondo
de marcha cadenciada.

Capitaneava-os um escrivão de direito, dos 7500, cavaleiro da Torre
e Espada, o Lobato, que pedira baixa de tenente no fim da campanha.

Outro bravo, o ex-sargento Lopes, que era guarda-chefe dos tabacos, tinha
pedido vinte homens, e atravessara com eles o Ave, na revolta do rio, sem
ser visto, na bateira do José Pinto Soares. Ele não podia levar
a bem que aqueles pategos se retirassem sem uma sova pela retaguarda e outra
pela frente. Contava com a debandada pela ladeira das matas, e prometia, lá
do alto, escorraçá-los de modo que eles se espetassem entre
dois fogos. Os seus vinte homens eram soldados com baixa, guardas do tabaco,
e sócios aposentados das quadrilhas de 1834 – um misto de políticos,
de ladrões e mártires das enxovias.

Os quatro facínoras da horda do alferes, quando viram a marcha firme
e solene dos de Santo Tirso – é agora, rapazes! – exclamaram,
desfechando as espingardas. Os populares que as tinham, descarregaram as suas,
e avançaram, ponte dentro, numa arremetida impetuosamente esbandalhada,
de rodilhão. Uma das balas prostrara um arneiro da primeira fila dos
liberais; havia mais alguns feridos que se amparavam gementes as guardas da
ponte. O bravo do Mindelo viu cair morto o seu homem, e, contendo a fúria
das fileiras numa disciplina rigorosa, deu a voz da descarga à primeira,
e mandou abrir passagem à imediata, que sustentava o fogo enquanto
a outra carregava as armas.

Os pelouros cortavam fundo pelas carnes da populaça. Viam-se homens
que fugiam a coxearem, atiravam-se às ribanceiras, escabujando em arrancos
de morte. Os que não tinham espingardas e ainda os que as tinham sem
cartuchame pegavam dos tamancos e galgavam socalcos, buscando o refúgio
dos pinhais e carvalheiras.

O alferes sentiu um choque duro de coisa que lhe contundia as costas e lhe
apertava o pescoço. Era o Retrinca de Santiago de Antas, o mais feroz
da sua malta, que se amparava nele, quando caía varado por um

pelouro. Este espectáculo trivial não aterrava o soldado de
Ponte Ferreira, das Antas e da Asseiceira; mas dava-lhe as antigas pernas
que o serviram nessas gloriosas batalhas. Tinha cinquenta anos, e fugia ganhando
a dianteira aos garotos do seu bando destroçado. Porém, quando
ele escalava a ladeira barrenta que se precipita ao sopé do monte,
desciam em saltos de bezerros mordidos por vespereiros os seus homens, num
turbilhão, acossados pelo tiroteio da companhia do ex-sargento Lopes
– uns barbaçudos que pareciam gigantes no topo da colina, e davam
uns berros clangorosos imitantes a mugidos de bois. O dia de juízo!

O Gaspar arrepiou carreira e desfilou por uma várzea alagada que ia
esbeiçar com o rio. Como a banda do alferes vermelhava ao longe, e
a espada a prumo no punho lhe dava uma caracterização jeitosa
e provocante para alvejar as espingardas, as balas sibilavam-lhe por perto,
chofrando nos pântanos. Alguns homens perseguiam-no chapinando no lameiral,
porque o chefe dos tabacos, o Lopes, dizia-lhes: Os mais veleiros levavam-no
esfalfado, cambaleando, atortemelado, quando o viram desaparecer de súbito
entre uma espessa moita de plátanos. Daí a instantes, abeirando-se
à ourela do rio, viram a barretina e a niza de saragoça sobre
uns cômoros ervecidos; e, a distância de dez varas, aquele bêbedo
imortal atravessava o rio a nado, numa tarde de Dezembro, com a espada nos
dentes, e a banda a tiracolo.

– Ó alma do Diabo! – dizia o Patarro de Monte Córdova,
cevando a arma com zagalotes para lhe atirar. – Vou matar aquele pato
bravo!

E o mais novo dos quatro, um imberbe que tinha pai:

– Não lhe atire, ó tio Patarro! É um velho, coitado!
Não lhe vê os cabelos brancos? Aquele homem não se deve
matar. Ele vai morrer afogado antes de chegar à outra banda. Verá.
Que raio de amizade ele tem à espada! Aquilo é que é!

A meio do rio, onde a veia de água resvalava mais impetuosa, deixou-se
derivar sem esforço de natação. Mal bracejava. Depois,
o Ave espraiava-se em murmúrios de lago dormente, muito barrento, e
deixava-se apegar. O alferes, com a água pela cinta, desatascou-se
dos lamaçais de além; e, horas depois, repassando o Ave na Ponte
da Lagoncinha, e, vencidas duas léguas de chafurdeiros e barrocas,
entrava na sua casa das Lamelas, bebia um grande trago de genebra, e, floreando
a espada, bradava:

Depois, sobreveio-lhe um reumatismo articular, e ficou tolhido.

Sete anos passados, quando todas as aldeias do Minho conclamavam D. Miguel,
ele ainda vivia, mas entrevado num carrinho, e chorava, em impotentes arquejos
do corpo paralítico, porque não podia amolar a lâmina
da espada nos ossos dos malhados.

Tinha-a diante dos olhos pendurada numa escápula com o boldrié
e a banda. As vezes, depois de beber, punha-se a olhar para ela com os olhos
envidraçados de lágrimas, e pedia que a metessem na sua sepultura,
que o enterrassem com ela. E enterraram. Espera-se que o esqueleto deste legitimista,
com as falanges esburgadas e recurvas no punho azevrado da espada, ressuscite,
ao ulular da trombeta, na ressurreição geral das Legitimidades.
Ponto é que a Rússia se mova – como dizia o frade de Barrimau.

Capítulo IV

Do Alto Minho continuavam as noticias alegremente agitadoras. O Cristóvão
Bezerra, ex-capitão-mor de Santa Marta de Bouro, escreveu ao seu parente
de Barrimau. Dizia-lhe que constava que o Sr. D. Miguel estava no seu reino,
e – o que mais era – muito perto dali. Que não se podia
explicar mais pelo claro sem ter a certeza de que seu primo entendia a cifra
de comunicação entre os membros da Ordem de S. Miguel da Ala,
instituída pelo Sr. D. Afonso Henriques e renovada ultimamente pelo
monarca legitimo – explicava. O major Bezerra era comendador da ordem
e conhecia a cifra: – que escrevesse francamente. E, desconfiando do
correio, mandou a Santa Marta de Bouro o afilhado, o filho do alferes Gaspar,
com uma carta muito importante. O pedreiro, a impar de soberba por tal mensagem,
posto que não participasse do segredo do padrinho, que era discreto,
disse ao pai:

– Ou eu me engano, ou o Sr. D. Miguel está por aí, não
tarda...

O alferes sentiu uma descarga eléctrica na coluna vertebral e convulsionou-se
extraordinariamente. Fazia lembrar fenómenos que se contam de movimento
galvânico nos paralíticos, colhidos de improviso pelo terror
ou pela exultação; mas o Gaspar, como só tinha o esófago
desimpedido, bebeu, com a escorrência absorvente de um olhomarinho,
muita aguardente, e desatou a berrar o Rei-chegou.

O filho, com a discrição própria de um agente secreto
da restauração realista, zangou-se com o berreiro cívico
do pai e perguntou-lhe se estava bêbedo. O velho entusiasta, ferido
no seu coração de vassalo e de progenitor. teve um honrado intervalo
lúcido, quando lhe replicou:

– Se eu não estivesse aqui tolhido, respondia-te, malandro!

Deitou o albardão à égua e partiu para terras de Bouro
o Zeferino. Quando passava defronte da casa do Simeão, em Prazins,
olhou de esguelha, por debaixo da aba do chapéu, para o lavrador que
estava apondo os bois ao carro, e regougou um arrastado pigarro de goelas
encatarroadas; e, dando de espora à andadeira, deixou cair o pau ferrado
ao longo da perna. , azia de si consigo, ladeando a besta em corcovos chibantes.
O Simeão, quando o perdeu de vista, murmurou: – Valha-te o Diabo,
banabóia!

O ex-capitão-mor de Santa Marta respondeu às perguntas do primo
de Barrimau; e, como o portador se recomendou na qualidade de afilhado do
fidalgo e filho de um alferes que comandara o ataque de 1838 sobre Santo urso,
o Cristóvão Bezerra tratou-o muito bem e pediu-lhe notícias
desse ataque a Santo Tirso que ele não conhecia.

O pedreiro contou a façanha do pai, a nadar, com a espada nos dentes;
e o fidalgo, quando soube que ele estava entrevado, disse pungidamente: Mal
empregado! – que um general romano fizera o mesmo e que o levasse às
Caldas de Vizela à bomba quente.

Como estava conversando com o filho de tamanho realista, fez-lhe confidências:
– que D. Miguel estava perto dali; mas não recebia ninguém
porque os malhados já o espreitavam em Portugal. Que a aclamação
havia de começar em terras de Bouro, e estender-se até Lisboa;
e que estivesse certo que el-rei nosso senhor lhe daria a patente do pai ou
talvez mais. O pedreiro esfregava os joelhos com as mãos e bamboava-se
hilariante na cadeira como um idiota. Tirou da algibeira da véstia
uma saquita de missanga, onde tinha três peças e sete pintos.
Pôs o dinheiro com estrondo diante do Bezerra – que o mandasse
a el-rei para as suas despesas; que eu, acrescentou, há quatro anos
que lhe dou uma moeda de ouro por ano; ele há-de saber pelo rol quem
é o Zeferino das Lamelas, porque o padre Luís de Sousa Couto,
do Porto, disse-me que el-rei conhece de nome todos os que lhe mandam dinheiro.
O fidalgo recusou: – que não estava autorizado a receber donativos,
nem os julgava por enquanto necessários, porque em poder do Dr. Cândido,
de Anelhe, estavam cinquenta contos, dados pela Senhora Infanta D. Isabel
Maria, para pôr a procissão na rua.

A carta de que Zeferino foi o ditoso portador era mais explícita.
Contava que D. Miguel estava escondido na residência do abade de São
Gens de Calvos, no concelho da Póvoa de Lanhoso, o reverendo Marcos
António de Faria Rebelo2. Que pouquíssimas pessoas o tinham
visto, porque Sua Majestade só se mostraria aos seus amigos fiéis
quando entrassem pela Galiza os generais estrangeiros que se esperavam, uns
do antigo exército carlista, outros de Inglaterra.

Esta notícia dos generais estranhos beliscou a vaidade nacional do
major Zeferino Bezerra. Parecia-lhe impossível que o príncipe
proscrito não confiasse na perícia e lealdade do Santa Marta,
do Vitorino, do Póvoas e Bernardino. Era uma ingratidão, dizia
ele ao mano frade, que acrescentou: – e uma bestialidade. El-rei deve
saber o que lhe valeram o Bourmont e o Pussieux e o MacDonnell, no fim da
campanha. Sabes tu? – rematou o morgado – aqui anda marosca. O
que tratam é de se abotoarem com os cinquenta contos da Infanta D.
Isabel Maria, e o primo Cristóvão é um asno chapado.

– Escreve-se ao Póvoas e ao Bernardino – aconselhou o
egresso – que digam alguma coisa.

Os militares realistas responderam que sem dúvida estava a levedar
alguma tentativa de restauração; que o Ribeiro Saraiva trabalhava
deveras; que o Sr. D. Miguel era esperado em Londres; mas que não estava
no reino, nem cá viria senão para se sentar de vez no seu trono
usurpado.

– Deixa-te de asneiras, Zeferino – dizia o fidalgo ao afilhado
com as cartas na mão –, el-rei há-de vir; mas não
veio. Meu primo foi codilhado pelo abade de Calvos, e eu vou-lhe escrever
que não seja palerma, nem caia com uma de X para o levantamento que
é uma comedela.

O pedreiro, não obstante, apostava dobrado contra singelo que D. Miguel
estava em Calvos, e puxava pela saquita de missanga com gestos de troquilha
de burros em feira:

– Aposto! Aqui está dinheiro! O fidalgo de Quadros, o Sr. Tenente-Coronel
Cerveira Lobo também diz que el-rei já por cá anda.

– O Cerveira Lobo! olha que borrachão! – disse o frade.

– Quem cá está é o rei dos bêbedos no corpo
dele – acrescentou o morgado.

– Mas diz que o Sr. D. Miguel I gostava muito dele – objectou
o pedreiro. – Ouvilho eu.

– Não duvido... – explicou o frade – que o Sr. D.
Miguel gostava de grandes patifes...

O primo Cristóvão redarguiu, magoado na sua esperteza, que
era tão certo estar elrei em Calvos como era certo ter-me beijado a
régia mão em casa do abade, na noite sempre memorável
de 16 de Abril de 1845. Que só o tinha visto de relance em Braga em
32, mas que o conhecera pelo retrato; que até manquejava um pouco,
tal e qual,

2Como seria de mau gosto inventar este episódio, imponho-me o dever
de afirmar que estas notícias me

foram transmitidas por um ilustrado cavalheiro da Póvoa de Lanhoso,
o Sr. José Joaquim Ferreira de

Meio e Andrade, da casa nobilíssima das Argas, falecido, com mais
de oitenta anos de idade, em 1881.

Conquanto a imprensa contemporânea, que eu saiba, não falasse
no pseudo D. Miguel, as revelações do

ancião de Lenhoso merecem-me e são dignas de toda a confiança.

Além disso, consultei o reverendo Casimiro José Vieira, tão
celebrado quando dirigia com mão armada a

revolução do Minho, que se chamou Maria da Fonte. Hoje, com
66 anos de idade, vive na sua casa da

Alegria, no concelho de Pelgueiras, ao sopé do monte de Santa Quitéria,
preparando as suas Memórias,

que devem esclarecer as obscuridades originais da insurreição
de duas províncias. Este padre que, aos

trinta anos, foi conclamado general pelo povo, e parlamentou face a face
com o conde das Antas,

respondeu assim à minha consulta: Eu apenas posso dizer a você
que foi verdade ter estado o tal

impostor oculto em casa do abade, porque ele mesmo me disse; mas nada lhe
perguntei a tal respeito,

por me lembrar que ele teria vergonha de se deixar enganar, depois de lhe
ter beijado a mão muitas

vezes, no tempo de estudante e seminarista, quando o Sr. D. Miguel esteve
em Braga, a ponto de se ter

tornado saliente para o mesmo Sr. D. Miguel, como o mesmo abade me contou
também, mas por isso

mesmo nada mais posso acrescentar... (Carta de 11 de Novembro de 1882).

como se sabe, depois que Sua Majestade quebrou a perna em 28. Que el-rei
nomeara o abade de Calvos seu capelão-mor, que dera a mitra de Coimbra
ao abade de Priscos, e fizera chantre o padre Manuel das Agras, e a ele lhe
fizera a mercê de duas comendas e o título de barão de
Bouro, afora outras graças a diversos clérigos e leigos.

– Que te parece isto? – perguntou o morgado ao frade.

– Parece-me a notória estupidez do primo Bezerra e mais dos
padres; mas, se o homem que lá está é o D. Miguel, então
o estúpido é ele, e que me perdoe Sua Majestade fidelíssima...

Escreveu-se novamente ao Póvoas, ao Tavares de Fagilde e ao Pontes,
um colaborador da Nação. Responderam -lhe que não havia
tal D. Miguel em Calvos; mas que deixasse correr o marfim, porque era necessário
uma agitação preparatória, um simulacro, uma apalpadela...

– Quer dizer – reflexionou o frade – que o tal impostor
é um Baptista, o precursor do verdadeiro Messias. Pois deixemos correr
o marfim, e mais o simulacro... que palpem – e, pondo as duas mãos
engalfinhadas sobre o umbigo proeminente, fazia girar um dedo polegar à
volta do outro. Que o que fosse soaria, e não caísse o mano
Zeferino na estultícia de se comprometer sem que os generais portugueses
saíssem à rua.

Na correnteza destas coisas, o Zeferino das Lamelas não trabalhava
de pedreiro; abandonou as obras de alvenaria aos oficiais, e andava numa dobadoira
de casa do padrinho para casa do tenente-coronel realista, o Vasco Cerveira
Leite, morgado de Quadros, um homem nascido ilustremente, que, desde Évora
Monte, não cortara as barbas nem saíra das ruínas da
casa-solar em Vermoim.

Como a sua paixão era inconsolável com o destino, deu-se à
distracção do álcool; e, porque tinha a consciência
da sua miséria de bêbedo, fechava-se no seu quarto, onde às
vezes caía amodorrado sobre o vómito. Imbecilizara-se. Cerveira
tinha sofrido um ataque cerebral, quando o brigadeiro José Urbano de
Carvalho infamemente se passara com alguns esquadrões de cavalaria
para o centro da divisão do duque da Terceira, na Chamusca. Ele vira
o seu coronel António Cardoso de Albuquerque dar vivas à carta
constitucional e a D. Maria II. Achou-se arrastado, ilaqueado e prisioneiro,
quando procurava abrir com a espada uma sepultura honrosa. Ali se extinguira
coberto de opróbrio, naquela hora, o bravo e leal regimento de Chaves,
que nunca dera um desertor para as fileiras do inimigo. O tenente-coronel,
desde esse dia, foi um desgraçado incompreendido que se embriagava
para esquecer o reviramento súbito da sua carreira. Depois, a corrente
travada das misérias. Tinha filhos que se emborrachavam como ele, e
filhas que se namoravam dos engenheiros das estradas, e andavam pelas romarias
de roupinhas escarlates, com botinas de ponteira de verniz e chapéus
desabados de seda preta com borlas e plumas. Sua mãe tinha sido açafata
da apostólica D. Carlota Joaquina, fizera-se mulher do Ramalhão,
e gabava-se de ter sido amada do conde de Vila Flor. Quando entrou no vasto
e velho casarão de Quadros, teve histerismos formidáveis e acordava
os ecos das montanhas com gritos que punham terrores sobrenaturais na vizinhança.
O Cerveira Leite poderia viver abundantemente na corte, porque os seus rendimentos
e foros eram muito importantes: é o que D. Honorata lhe pedia com lágrimas;
mas ele, colérico: – que não podia encarar os malhados,
e não sairia mais de casa sem as suas divisas de tenente-coronel de
dragões. E, apontando-lhe para os cinco filhos:

– Sê boa mãe, trata dessas crianças que andam aí
porcas que fazem nojo! – Tinha estas equidades em jejum.

E ela:

– Mais nojo me fazem as borracheiras de você!

E o fidalgo então disciplinava-a militarmente. Quando lhe não
dava alguns pontapés, desfechava-lhe um tiroteio de palavradas de tarimba,
e perguntava-lhe se tinha saudades dos bordéis do Ramalhão,
aqueles pagodes reais. Desta procacidade esquálida, derivou a um mutismo
estúpido. Não lhe respondia. Fechava-se no seu quarto, contíguo
à garrafeira.

D. Honorata Guião teria vinte e oito anos, quando saiu de Lisboa para
o Minho em 34. Era formosa das finas graças aristocráticas.
Urna elegância nervosa, inquieta, mordiscada de desejos como uma flor
branca muito picada das abelhas. Aceitara o major Cerveira, porque era rico
e estadeava na corte as suas librés. Tinha trinta anos, e dizia-se
que aos quarenta seria general, porque D. Miguel gostava muito dele. Rosnavase
que o Cerveira tinha sido um dos assassinos do marquês de Loulé.

Este rapaz de corte e da intimidade do rei e das infantas, disputado pelas
damas da rainha, era aquele ébrio encanecido que, debruçado
na janela do seu quarto, fortemente fincado no peitoril de ferro da sacada,
revessava ao caminho público golfos aziumados de vinhaça, e
dizia garotices de lacaio às raparigas que passavam medrosas e o saudavam:
– Guarde Deus V. Sª senhor fidalgo! – Tenha V. Sª muito
boas tardes, senhor morgado! – E ele, almofaçando as barbas conspurcadas
de vómito: – Li brejeira, deixa lá ver o patriotismo;
que tal é a anca? Não respondes, catraia? Olha como aquela rebola
os quadris, o grande coldre! – As cachopas não respondiam; safavam-se
com um grande medo, porque eram suas caseiras; mas comentavam: – Que
levasse o Diabo o piteireiro do fidalgo! – que a fidalga fizera bem
em se pisgar com o doutor dos Pombais. – Quer não – contrariava
uma lavradeira idosa – foi má mulher que deixou assim os filhos,
cinco crianças! uma desgraça! Nem as cadelas faziam isso. Os
mais velhos já se emborracham, e as meninas estão quase mulheres
e ainda não foram ao confesso nem sabem a doutrina. Que uma delas,
a Teresinha, já se enfeitava para o estudante das Quintãs que
andava por lá feito caçador, e que o morgadinho, o Sr. Heitor,
namorava a filha do José Alho, e até se dizia que lhe falara
em casamento. Vede vós que desgraça, ó moças!
Um menino tão rico e tão fidalgo, vi-o aqui há tempos
na taverna de Vilaverde que se não lambia, a pagar vinho ao Alho e
mais à cróia da filha, e a comerem todos iscas de bacalhau com
as mãos! Ao que eu vi chegar um senhor dos fidalgos de Quadros! Quando
eu era rapariguita, aqueles senhores nunca saíam sem os seus mochilas
fardados e tinham liteiras com as armas reais pintadas. Faziam mesmo um respeito!
O Sr. Rodrigo, pai

deste morgado velho, era disto dos governos lá de Lisboa, e quando
vinha ver as suas quintas, ó senhores, caía ai o poder do mundo
de Braga e Guimarães a visitá-lo! E as fidalgas? isso então
a gente, quando as via, corria logo a beijar-lhes a mão, e elas no
dia de Páscoa mandavam às cachopas lenços para a cabeça
e regueifas de pão podre. Aquela casa estava sempre cheia de frades
de ordens ricas...

– Isso, isso.., eu logo vi que essas fidalgas haviam de estar cheias
de frades de ordens ricas – dizia o José Dias de Vilalva. –
Muito cheias de frades aquelas fidalgas, hem?

– Aí vens tu com as tuas alicantinas – retrucava, prognóstica
e solene, a tia Rosa de Carude. – É o que tu estudas, meu valdevinos.
Agora é melhor que então, pois não foste? As fidalgas
de hoje em dia presentemente fogem com os doutores e deixam os filhos... Isto
agora é que é bom às direitas, pois não é?
No tempo antigo, valha-me Deus, as fidalgas eram umas desavergonhadas que
conheciam frades e criavam os seus filhos.

– Os filhos dos frades? – perguntava o Dias.

– Cala-te aí, boca danada! Olha que padre havia de sair de ti!
Ainda bem que a Marta de Prazins te fez mudar de rumo.

A fuga da Honorata Guião com o Silveira dos Pombais não amotinara
a opinião pública escandalizada. A excepção da
austera Rosa de Carude. toda a gente deu razão à fidalga. O
Cerveira tinha amigas da ralé, que metia em casa – uma diversão
à embriaguez, quando não exercia as duas distracções
numa promiscuidade desaforada. D. Honorata visitava-se unicamente com a D.
Andresa da Silveira, da casa dos Pombais, irmã de um bacharel delegado
em Amarante. Chorava muito com ela e pedia-lhe que perguntasse ao mano doutor
se poderia separar-se por justiça, antes de se atirar a uma cisterna.
D. Andresa pediu ao irmão que viesse ouvir as tristes alegações
da sua desgraçada amiga.

Estava Honorata nos trinta e três anos, quando Silveira a encontrou
nos Pombais. O delegado era um romântico. Emigrara em 28, sendo estudante,
quando alguns membros da sociedade dos Divodignos padeceram o suplício
da forca pelo homicídio dos lentes. Completara a formatura em 38 e
fora despachado. Muito lido em Schiller e Arlincourt. Fazia solaus em que
havia abencerragens e infantas cristãs apaixonadas que tocavam arrabis,
banhadas de lua nos revelins dos castelos roqueiros. Também fazia prosa
na Gazeta Literária do Porto – cenas dramáticas em que
se jurava pela gorja e havia homens de prol que arrastavam mantos negros,
cravavam lâminas de Toledo às portas de D. Fuas, e, cruzando
os braços, rugiam cavernosamente: E depois, os arrepios de uma casquinada
seca, de um estridente grasnido de gaivotas que se espicaçam por sobre
o mar banzeiro.

A Honorata, esposa deplorativa, dama da rainha, esbeltamente magra, de uma
elegância de raça afinada nos salões da Bemposta, palidez
ebúrnea, esmaecida, airs évaporés, um sorriso nobre de
ironia rebelde à desgraça, com a dupla poesia do martírio
e da beleza, ultrapassou a encarnação viva dos ideais do bacharel.
Ela tinha pejo de lhe contar os seus infortúnios, a vida crapulosa
do marido, a libertinagem de portas adentro com as jornaleiras, e o abandono
da educação dos filhos. Andresa é que contava tudo ao
mano Adolfo na presença da mártir. Que o Cerveira se embriagava
todas as tardes e tinha amásias da última gentalha que punham
e dispunham em casa. Que os meninos eram criados brutamente; que o mais velho,
o Heitor, nem ler sabia; porque o pai também fazia mal o seu nome.
Que tiveram um padre de dentro para os ensinar, mas que o padre, em vez de
lhes dar lição, trabalhava de carpinteiro em remendar os sobrados,
e quando era a hora do estudo largava a enxó e vinha em mangas de camisa,
sem gravata e de socos para a sala. Que os meninos não lhe tinham respeito
nenhum, por isso o Heitor, quando ele o ameaçou com a palmatória,
respondeu que lhe dava uma navalhada. O pai achou-lhe graça, e o padre
foi-se embora. Depois, entrou um velho que dava escola em Guimarães,
e os quisera ensinar com muita paciência; mas o Heitor e mais o Egas
tais arrelias lhe faziam que o pobre homem fugiu. Que D. Honorata sofria aquele
flagelo desde a queda da realeza, como se fosse a culpada da vitória
de D. Pedro. Era da família dos Guiões, muito íntimos
do Sr. D. Miguel e do conde de Basto; mas todos os seus parentes foram perseguidos,
roubados, de modo que ela, ainda que quisesse fugir ao marido, não
tinha em Lisboa família que a pudesse sustentar; – que, se não
fosse isso, já teria acabado o seu suplício, e que muitas vezes
pensara em se matar, mas...

– Os filhinhos... – atalhou Adolfo sentimentalmente.

– Não, senhor – acudiu a dama de Carlota Joaquina –,
não são os filhos. O coração de mãe só
se enche do amor aos filhos quando se evapora o amor aos pais. Eu nunca amei
este homem. Impuseram-me o casamento, aproveitaram-se do despeito que eu sentia
pelas ingratidões de um conde que eu amava, e casaram-me à pressa.
O carácter deste homem não piorou com a desgraça da política;
ele é o que sempre foi, com a diferença de que na corte embriagava-se
com os fidalgos, no Alfeite e em Queluz, e por lá dormia. As mulheres
que corrompia ou o corrompiam não eram minhas criadas nem minhas conhecidas;
e, se o eram, eu apenas tinha a convicção de que ele era um
devasso. Tenho cinco filhos deste homem; mas basta que eu lhe diga, Sr. Dr.
Adolfo, que são dele, são os produtos amaldiçoados de
uma obrigação estúpida – a aviltadora obrigação
de ser mãe quando se é esposa.

Tinha dito. O bacharel nunca ouvira coisa assim, nem se lembrava de ter achado
nos romances uma razão tão filosófica e concludente da
justiça com que a mãe pode aborrecer os filhos.

– Sentia vontade de me ajoelhar diante dela! – dizia Adolfo à
irmã. – Que formosura e que talento, Andresa! O mana, eu viajei
cinco anos, vi as mulheres mais encantadoras da Europa, estive no Pardo, no
Bois de Boulogne, no Hyde-Park, e nunca vi mulher que tanto me penetrasse
os íntimos seios de alma! Nunca, por estranha fatalidade, nunca! Como
é que eu sinto aos vinte e oito anos as palpitações de
um coração que nasce? Que faísca de amor é esta
que me lavra um incêndio devastador das alegrias de alma que ainda ontem
me doiravam a existência?

Era o estilo hidrópico de Arlincourt; mas é de crer que exprimisse
garrafalmente a singela e natural comoção que lhe fez a gentileza,
a poesia elegíaca, a majestade inflexa daquela mulher a quem a desgraça
dera uma crítica moderna e revolucionária na religião
das mães.

D. Andresa, escandalizada, cortava-lhe os voadoiros perguntando-lhe se a
separação judicial poderia dar meios de subsistência a
Honorata. O bacharel, muito abstracto, parecia esquecido do código.
O estado da sua alma não lhe consentia folhear a infame prosa com mão
jurisperita.

Que havia de estudar a questão; mas que lhe parecia que ela, requerendo
o divórcio, apenas tinha alimentos por não ter trazido nada
ao casal. – Estas frases eram mastigadas com um tédio, um engulho,
como se, depois de declamar uma Contemplação de Lamartine, tivesse
de recitar dois parágrafos da lei da enfiteuse.

D. Andresa era senhora ajuizada, muito séria, educada no convento
de Vairão; tinha missa em casa, e escrevia cartas a diversas freiras,
pondo sempre no alto do papel: Jesus, Maria, José. Andava nos trinta
e cinco anos, muito linfática e um grande horror aos vícios
da carne. O mano Adolfo conhecia-lhe a índole. Não podia esperar
dela aplauso, nem sequer condescendência, e muito menos auxílio
à sua afeição a mulher casada. Andresa concordava com
o irmão na formosura de Honorata; mas observava com um risinho malicioso
que o não chamara para saber se a sua amiga era bonita ou feia; mas
sim para aconselhá-la e dirigi-la na separação do marido
por justiça.

O Dr. Adolfo absteve-se de entusiasmos, e pôs-se a estudar a questão,
em conferências com o Bento Cardoso, de Guimarães, e o Torres
e Almeida, o Rasqueja de Braga, dois chavões. Mas o que ele queria
era corar as delongas nos pombais, ganhar tempo, a salvo das suspeitas da
mana e do seu capelão, um realista finório que sabia da poda,
e trazia a pedra no sapato, dizia, cacarejando uma risada velhaca –
e conhecia até onde podia chegar a fragilidade de um homem sem sólidos
princípios de religião, estragado por essas nações.

D. Andresa andava assustada, porque o mano nem ia para Amarante nem dava
começo ao processo. A Honorata aparecia-lhe radiosa, com um grande
esmero no trajar, vestidos fora da moda, mas elegantes, ricos, de mangas perdidas,
com uns decotes que punham nos olhos do capelão luzernas esquisitas,
escrúpulos. Adolfo era discreto na presença da mana. Contava
as suas viagens, durante a emigração, citava nomes de literatos
desconhecidos à fidalga, seus amigos íntimos em Paris; ai! Paris!
– exclamava. – Se eu então me passaria pela mente que havia
de vir de Paris para Amarante!

– Ele porta-se muito sério – dizia D. Andresa ao padre
Rocha. – Ela é que me parece mais levantada, muito azevieira,
não acha?

– Acho, acho... – confirmava o capelão. – Daqui
rebenta coisa, minha senhora; rebenta, V. Exª verá...

E, com efeito, estava a rebentar, na frase explosiva do padre Rocha. O delegado
tinha correspondência diária com Honorata, mediante uma caseira
de sua mana, irmã de uma criada do Cerveira Lobo. Cartas incendiárias
escritas durante a noite trocavam-se de manhã, quando o Adolfo saía
a respirar os bálsamos das ribanceiras orvalhadas. Às vezes,
subia a encosta até à crista do monte do castelo de Vermoim.
Daqui, avistava-se por sobre as selvas verdes de carvalheiras e pinhais a
vasta casaria pardacenta de Quadros, com dois torreões denticulados.
No andaime de um dos torreões via-se um vulto branco, com o braço
amparado numa das ameias, e a cabeça encostada à mão
como nas baladas de Baour Lormian. Era Honorata, com o binóculo assestado
na fraga onde estava Adolfo, alaranjado pela primeira resplandecência
do Sol nascente.

Ao cabo de duas semanas, saíram dos domínios da balada. Uma
noite, partiram de Guimarães, caminho do Porto, dois cavalos do Gaitas,
e pararam na Ponte de Brito. Um dos cavalos era arreado com selim de senhora.
Por volta da meia-noite, Adolfo e Honorata, num passo miúdo, com uma
ansiedade, misto de exultação e de susto, chegaram à
Ponte de Brito. Ele ajudou-a a sentar-se na sela; cavalgou, disse aos dois
arneiros o seu destino, e partiram a trote largo.

Capítulo V

Seis anos depois, em 1845, quando o Zeferino das Lamelas andava em roda-viva
de Barrimau para Quadros, o Cerveira não tinha alterado sensivelmente
os seus hábitos. Estava muito gordo, saúde de ferro –
um desmentido triunfante aos foliculários que desacreditam as virtudes
higiénicas, nutrientes do álcool. Os vomitórios quotidianos
explicavam a depurada e sadia carnadura do tenente-coronel. Orçava
pelos cinquenta anos, com um arrogante aspecto marcial, de intonsas barbas
grisalhas – olhos rutilantes afogueados pela calcinação
cerebral. As filhas não mostravam vestígios alguns de educação
senhoril. Aquela Teresinha, que a Rosa de Carude denunciara, fugira para casar
com o minorista das Quintãs. As outras duas, muito boçais e
alavradeiradas. tinham amantes – uns engenheiros e empreiteiros do conde
de Clarange Lucotte, que andava fazendo as estradas entre Braga, Porto e Guimarães.
Ninguém decente as queria para casar porque, além do descrédito,
o pai não dava dote; e, desde que a mãe fugira, convenceu-se
de que não eram suas filhas. Heitor e Egas, dois galhardos moços,
de jaqueta de alamares de prata, faixa vermelha, e sapatos de prateleira com
ilhoses amarelos, tinham éguas travadas que entravam pelas feiras num
arranque de rópia e pimponice, que ia tudo raso. De resto, valentes
e bêbedos, possantes garanhões de femeaço reles, e muito
esquivos a tratarem com senhoras – canhestros e bestiais. Roubavam o
milho e o vinho; vendiam, nas matas distantes, ao desbarato, cortes de madeira
e roças de mato; além disso tinham umas pequenas mesadas que
o pai lhes dava. Ainda assim, a casa de Quadros não estava empenhada,
prosperava, e era das primeiras do concelho. O luxo do fidalgo era a garrafeira.
Mais nada. As filhas de Honorata, quando, entre si, falavam da mãe,

chamavam-lhe ; os rapazes, com um desapego desleixado que poderia fingir
dignidade, nem se lembravam que tinham mãe. Quanto ao pai, esse, antes
de jantar, era taciturno, casmurro, como quem se esforça por sacudir
um pesadelo; e, de tarde, sumia-se para recomeçar as suas visões
luminosas interceptadas pelas trevas momentâneas da razão. Não
se sabe o que ele pensava da mulher.

Admitia pouca gente em sua casa e pouquíssima à sua presença.
Além dos caseiros que lhe pagavam as grossas rendas de Vila do Conde,
de Esmoriz e São Cosme do Vale, apenas recebia o pedreiro das lamelas,
que lhe fizera os canastros e reconstruíra algumas paredes desabadas.
Conhecia-lhe o pai, o alferes, desde a b atalha de Ponte Ferreira. Mandava-lhe
botijas de genebra e maços de cigarros; – que bebesse, que se
embebedasse, que os tempos não iam para outra coisa. E o alferes com
vaidade de fino:

– A quem ele o vem dizer!

Ultimamente, falavam muito da chegada do Sr. D. Miguel – , dizia o
Cerveira, pondo as mãos no peito e os olhos no tecto.

– Venha ele, e ver-me-ás, Zeferino, à frente dos meus
dragões de Chaves! – Relampagueavam-lhe então as pupilas
e fazia largos gestos marciais, com o braço trémulo como se
brandisse a espada, rompendo um quadrado; montado na fantasia, arqueava as
pernas, descaía o tronco sobre um imaginário cavalo empinado
e bufava com trejeitos ferozes. Era de um ridículo lacrimável.
O Zeferino dizia ao pai que às vezes lhe tinha medo quando ele fazia
aquelas partes.

– O vinho do Porto é o Diabo! – dizia o alferes com uma
grande experiência dessas façanhas incruentas –é
o Diabo!

O Zeferino, na volta de Santa Marta de Bouro, contou-lhe o que soubera em
casa do capitão-mor. O tenente-coronel quis imediatamente partir para
Lanhoso; mas não tinha roupa decente para se apresentar a el-rei. As
fardas estavam traçadas, podres, com um bafio de rodilhas no fundo
de uma arca; dos galões restava um tecido esbranquiçado com
laivos verdoengos; o casco das dragonas esfarinhou-se-lhe nas mãos
roído pelos ratos. Não tinha casaca. Desde a convenção
de Évora Monte, mandava fazer a Guimarães uns ferragoulos de
mescla à laia de capote de soldado para o Inverno; de Verão,
para equilibrar o calor artificial interno com o da atmosfera, andava em ceroulas
e fazia leque da fralda. Por decência, fechava-se nos seus aposentos.
Mandou chamar um alfaiate a Braga, o Cambraia da Rua do Souto, para se vestir
à militar e à paisana.

Entretanto o Zeferino, um pouco desanimado, contou-lhe que o seu padrinho
de Barrimau e mais o frade não acreditavam que el-rei estivesse em
Calvos; que era uma comedela do Dr. Cândido de Anelhe e dos padres para
apanharem cinquenta contos à D. Isabel Maria; que os generais do Sr.
D. Miguel não sabiam de nada.

O Cerveira Lobo esfriou.

– Também me parece – dizia – que se o meu velho
amigo D. Miguel aí estivesse, já me tinha mandado chamar.

Mas, depois que o Bezerra de Bouro asseverou que beijara a mão de
el-rei, o pedreiro e o tenente-coronel já não podiam duvidar.
Combinou o fidalgo com Zeferino que partisse ele para Lanhoso, e dissesse
ao capitão-mor que o levasse a Calvos, e o abade que participasse a
el-rei que estava ali um próprio com uma carta de Vasco da Cerveira
Lobo, tenente-coronel de dragões.

– Assim que el-rei ouvir o meu nome, entras logo, imediatamente, num
pronto. Depois, põe-te de joelhos. e entrega-lhe a carta, percebeste?
Tu vais e trazes-me resposta. Por estes oito dias, o mais tardar, tenho cá
o fardamento. No caso de Sua Majestade me mande ir, vou; se não, trato
de chamar às armas cinco ou seis mil homens com que posso contar.

Zeferino, para evitar questões atrasadoras, não disse nada
ao padrinho nem ao pai, receando as expansões usuais da carraspana.

O Cerveira dizia ao padre Rocha, capelão de D. Andresa:

– Ideias não me faltam; mas esqueci aquilo que se chama... sim,
aquilo com que se escreve, quero dizer...

– Ortografia?

– E como diz, :padre Rocha, ortografia.

Era o exórdio para lhe dar parte que o seu amigo e rei D. Miguel estava
no concelho da Póvoa de Lanhoso; que lhe queria escrever; mas que não
se metia nisso; e acrescentava: – ele, o rei, aqui há treze anos
sabia tanta ortografia como eu; mas agora dizem as gazetas que ele estudou
coisas e loisas e tal. Pedia, portanto, ao padre Rocha que lhe escrevesse
a carta para ele a copiar de seu vagar. E, pondo-lhe a mão no ombro:
– E ouviu, padre? Vá pensando no que quer; uma boa abadia, Santiago
de Antas, hem? serve-lhe? ou antes quereria ser cónego? Enfim, pense
lá... Nós cá estamos às ordens.

O padre era a fina flor do clero realista. Sensato, inteligente e honesto.
Primeiro, quando o Cerveira lhe revelou a meia voz a chegada do seu amigo
e rei D. Miguel, imaginou-o no seu estado normal de bebedeira. Depois, reparando
mais nas atitudes firmes e desempeno da língua, julgou-o sandeu, amolecimento
cerebral pela alcoolização; por fim convenceu-se de que o pobre
homem era enganado e escarnecido por alguns desfrutadores. O padre tinha muita
compaixão do fidalgo, que a mulher e as filhas enlameavam torpemente.
Ele avisara D. Andresa que, no dia em que o Sr. Dr. Adolfo entrasse nos Pombais
pela porta principal, ele sairia pela porta travessa; e a fidalga levam tão
a mal o proceder do irmão que pensava em fazer testamento para que
os filhos dele e de Honorata

lhe não herdassem as quintas. Sabia-se nesse tempo que o Dr. Adolfo
da Silveira era juiz de Direito nos Açores e tinha consigo uma formosa
amante com três meninos.

A única ideia com que o Cerveira contribuiu para a redacção
da carta foi que escrevesse: – Vossa Majestade precisa de dinheiro,
diga o que quer, que eu até onde chegarem as minhas posses está
tudo às ordens de el-rei meu senhor.

O padre Rocha não se esquivou a colaborar na endrómina, dizia
ele a D. Andresa – porque .

A carta ia pomposa, a ponto de Cerveira pedir comentários, explicações.
Que estava uma obra profunda – dizia o fidalgo, instruído enfim
nas obscurezas do estilo.

E, tirando seis pintos do bolso do colete:

– Aí tem para o seu rapé, merece-os.

O capelão não aceitou; pediu que os aplicasse por sua intenção
às necessidades do Sr. D. Miguel.

– É um realista às direitas, padre, um grande realista!
– E, guardando os seis pintos, abraçou-o efusivamente e ofereceu-lhe
um cálice de 1817.

– Eu desejaria muito ver a resposta de Sua Majestade – dizia
o padre Rocha.

– Isso é logo que ela chegar, padre! pois então? Cá
entre nós não há segredos; e, se o amigo quiser, no caso
que el-rei me mande ir, vai comigo, e pode logo vir despachado. Pois então?

– Está dito! – e o padre com um regozijo muito cómico,
e o cálice aromático debaixo do nariz: – Quem sabe se
eu ainda serei arcebispo, ó Sr. Tenente-Coronel!

– Ora! como dois e dois são quatro! Há-de ser arcebispo,
não tenha dúvida. Isto vai tudo mudar! – E carregava-lhe
forte no 1817. – Arre! estou aqui metido há doze anos nestes
montes, que me tem levado os diabos! Tenho 49 anos: mas este punho ainda pode
com a espada! Há-de haver pancadaria de criar bicho! Olé! Eu
dizia às vezes ao meu amigo D. Miguel quando o Sedvém, e o Mata
e o Miguel Alcaide davam cacetada nos malhados que aquilo não era bonito.
Pois agora, padre Rocha, hei-de dizer-lhe:

O Cerveira começava a gaguejar, a cambalear, e entornava o cálice.
O padre

despediu-se.

Capítulo VI

Na residência do abade Marcos Rebelo, em São Gens de Calvos,
havia uma sala com alcova e janelas sobre uma horta arborizada. As pereiras,
macieiras e abrunheiros principiavam a florir. Era no começo de Abril.
Ali, naquelas frígidas alturas, sopram as ventanias mordentes de Barroso,
do Gerês, e gelam a seiva nos troncos filtrados da neve e das cristalizações
glaciais. Fazia frio. Na saleta caiada, muito excrementícia de moscaria,
com tecto de castanho esfumaçado e o pavimento lurado do caruncho,
havia a um lado duas caixas de cereais, no outro algumas cadeiras velhas de
nogueira de diversos feitios, esfarpeladas no assento; nas paredes duas litografias
– o retrato de D. João VI, com o olho velhaco e o beiço
belfo, e o marquês de Pombal, sentado com o decreto da expulsão
dos jesuítas, apontando parlapatonamente para a barra onde alvejam
panos de navios que levam os expulsos. Na velha cal esburacada e emporcalhada
de escarros secos de antigas catarrais, destacavam molduras de carvalho com
dois painéis a óleo cheios de gretas, S. Jerónimo no
deserto, com uma cara aflita, de tique doloroso, e Santo António de
Pádua, num sadio en bon point, um bom sorriso ingénuo, com o
Menino Jesus sentado, muito nutrido, numa bola que os hagiólogos diziam
ser o globo terráqueo. No centro da quadra estava uma banca de pinho
pintada a ocre, com uma coberta de cama, de chita vermelha, com araras, franjada
de requifes de lã variegada. Ao lado da banca, uma cadeira de sola,
com espaldar em relevo e pregaria amarela com verdete; do outro lado havia
um fogareiro de ferro com brasas e uma cesta de verga cheia de carvão.
Entre as duas pequenas janelas de rótulas interiores e cachorros de
pedra, trabalhava estrondosamente um relógio de parede, com os frisos
do mostrador sem vidro, cheios de moscas mortas, penduradas por uma perna,
de ventres brancos muito inchados e as asas abertas.

Dez horas. Abriu-se então a porta da alcova, que rangeu ligeiramente
na couceira desengonçada, e saiu um sujeito de mediana estatura, ombros
largos, barba toda com raras cãs, olhos brilhantes, pálido-trigueiro,
um nariz adunco. Representava entre trinta e seis e quarenta anos. Sentou-se
à braseira e preparou um cigarro, vagarosamente, que acendeu na aresta
chamejante de uma brasa. Com o cigarro ao canto dos lábios e um olho
fechado pelo contacto agro do fumo, foi abrir uma das vidraças, e pôs
fora a mão a sondar a temperatura. Coxeava um pouco. Recolheu a mão
com desagrado e fechou a janela. Vinha subindo a escada de comunicação
com a cozinha uma mulher idosa, em mangas de camisa, meias azuis de lã
e ourelos achinelados. Pediu licença para entrar, fez uma mesura de
joelhos sem curvar o tronco, e perguntou:

– Vossa Majestade passou bem?

– Optimamente, Senhorinha, passei muito bem.

– Estimo muito, Real Senhor. O Senhor Abade foi chamado às oito
horas para confessar uma freguesa que está a morrer de uma queda, e
deixou dito que pusesse o almoço a Vossa Majestade, se ele não
chegasse às nove e meia.

– Quando quiser, Senhorinha, quando quiser, visto que o abade deu essas
ordens e quem manda aqui é ele.

Da cozinha vaporava um perfume de salpicão frito com ovos. Sua Majestade
farejava com as narinas anelantes num forte apetite. A criada voltou com toalha,
guardanapo, louça da índia, talheres de prata, e uma

travessa coberta. Sua Majestade, muito familiar, tirou de sobre a mesa uns
cadernos escritos, cosidos com seda escarlate, e um grande tinteiro de chumbo
com penas de pato.

– Ora Vossa Majestade a incomodar-se! Valha-me Deus! eu tiro isso,
Real Senhor! Não que uma coisa assim! Um rei a..

E o Real Senhor:

– Ande lá, Senhorinha, que eu ajudo. Um rei é um homem
como qualquer homem.

– Credo! faz muita diferença... mesmo muita...

Ela descobriu a travessa a rir-se:

– Vossa Majestade diz que gosta..

– Sardinhas de escabeche? Se gosto!... Vamos a elas, que estão
a dizer – comeime.

E atirou-se às sardinhas com uma sofreguidão pelintra.

Depois, serviu-lhe rodelas de salpicão com ovos. Sua Majestade gostava
muito destas comezanas nacionais. Já tinha comido tripas, e dizia que
no exílio se lembrara muitas vezes desta saborosa iguaria com feijão
branco e chispe, que tinha comido em Braga. O abade de Calvos sensibilizava-se
até às lágrimas quando via el-rei a esbrugar uma unha
de porco e a limpar as régias barbas oleosas das gorduras suínas.
O terceiro prato era vitela assada. A Senhorinha trazia-lha no espeto, porque
Sua Majestade gostava de ir trinchando finas talhadas, enquanto a cozinheira,
de cócoras ao pé do fogareiro, conservava o espeto sobre o brasido,
a rechinar, a lourejar. Bebeu harmonicamente o real hóspede um vinho
branco antigo, da lavra de um fidalgo de Braga, proprietário do Douro,
que estava no segredo do ditoso abade de Calvos – capelão-mor
de el-rei e dom prior eleito de Guimarães.

A criada assistia muito jovial àquela deglutição formidável,
e dizia particularmente ao abade: – Este senhor, pelo que come, parece
que tem passado muitas fominhas! Ninguém há-de crer o que Sua
Majestade atafulha naquele bandulho! – e dizia que lhe dava vontade
de chorar, lembrando-se das lazeiras que ele tinha apanhado; porque o abade
contava que lera no Deus o quer, do visconde de Arlincourt, que o Sr. D. Miguel,
em Roma, não tinha às vezes 10 réis de seu para almoçar
uma xícara de leite. E, perguntando a el-rei se era verdade aquilo
– que sim, que chegara a essa extremidade; mas que preferia a fome a
ceder os seus direitos e a felicidade dos seus vassalos pelos sessenta contos
anuais que lhe ofereceram da Casa do Infantado, e que ele rejeitara.

Por fim, vinha o café. As fatias eram torradas ali, no fogareiro.
Sua Majestade barrava-as de manteiga nacional – preferia a manteiga
do seu Pais, como a vitela, e o lombo do porco no salpicão português,
e o pé do porco nas tripas também portuguesas – tudo do
seu País. Que rei, que patriota! – meditava o abade de Priscos,
bispo eleito de Coimbra, esmoncando-se e aparando as lágrimas ternas
no alcobaça.

No fim do copioso almoço, el-rei fumava charutos espanhóis,
de contrabando; desabotoava o colete, dava arrotos, repoltreava-se na cadeira
de sola um pouco desconfortável, e vaporava grande colunas de fumo
que se espiralavam até ao tecto.

A Senhorinha veio à beira de el-rei, e disse baixinho:

– Saberá Vossa Majestade que está ali o Sr. Trocatles.

– O...?

– Ai! já me esquecia... o Senhor Visconde..

– Que suba.

O sujei-to que entrou era o Torcato Nunes, uni sargento do exército
realista, de São Gens. O rei ergueu-se e fecharam-se na alcova.

A cozinheira dizia em baixo à outra criada de fora:

– Ó coisa! Mal diria eu que ainda havia de chamar visconde ao
safardana do Trocatles!

E a outra, benzendo-se:

– Não que ele, o mundo sempre dá voltas! Veja você!
aquele moinante que me pediu uma vez dois patacos para cigarros, e por sinal
que nunca mos pagou!

– Pois vês aí! Foi ele o primeiro que conheceu o Sr. D.
Miguel, é o que foi, e Sua Majestade gosta muito dele. Foi feliz o
diabo do homem! Aquilo vai a governo, tu verás; e já ouvi dizer
que o sobrinho dele, o padre Zé da Eira, o de Rio Caldo, que é
zanagra, está cónego. Limparam-se da carepa, é o que
é. A mulher dele já botou no domingo passado a sua saia e jaqué
de pano azul.

– E que rico pano!

– Pois vês aí...

Entrava nesta conjuntura o abade, esfadigado, suarento – que levasse
o Diabo a freguesia, que pouco tempo havia de aturar maçadas daquelas,
para confessar uma bêbeda de uma velha que tinha bebido de mais na feira
da Póvoa e caíra de um valado abaixo. E ele? – perguntava
– almoçou bem?

– Ora! não há que perguntar, senhor! Aquilo, salvo seja,
é como a cal de uma azenha. É quanto lhe deitarem para a tripa.
Coisa assim! Subiu agora para lá o Munes. Ai! já me esquecia,
é Senhor Abade! Olhe que na vila já perguntaram se cá
na casa estavam hóspedes, porque vinham para cá muitas comidas.
Que não vão eles pegar a desconfiar.. Esta pergunta à
moça traz água no bico.

– E tu que respondeste, moça?

– Que vinham por cá jantar uns senhores padres, que agora era
tempo de confesso...

– Andaste bem.

Quando o padre Marcos Rebelo subia à sala, pedindo licença
a meio da escada, já o rei e o visconde vinham saindo da alcova –
um, aprumado na atitude da majestade, o outro, na do respeito, muito composto.

– Pede licença na sua casa, Dom Prior? – disse el-rei.

O Dom Prior de Guimarães genuflectiu a perna direita; o soberano apressou-se
a erguê-lo.

– Nada de etiquetas, já lho disse dúzias de vezes.

– Não posso nem devo proceder de outra maneira, senhor!

– Pode e deve que o mando eu.

E o abade, inclinando-se com os braços em cruz sobre a batina:

– Saberá Vossa Majestade que o Sr. Capitão-Mor de Santa
Marta, a quem Vossa Real Majestade fez barão de Bouro...

– Bem sei... aquele amável cavalheiro...

– Perfeito cavalheiro – atestou o Nunes.

– Escreveu-me a carta que tenho a honra de depositar nas mãos
de Vossa Majestade.

El-rei leu alto:

Amigo Dom Prior de Guimarães. – Um realista do concelho de Famalicão
chegou há pouco a esta casa, a fim de que eu escrevesse ao meu nobre
e velho amigo para obter de S. M. licença para lho apresentar como
portador de uma carta do Sr. Vasco Cerveira Lobo, morgado de Quadros, e tenente-coronel
que foi do regimento de dragões de Chaves. Diz ele que o Sr. D. Miguel
fora amigo pessoal do dito tenentecoronel, e por isso entende, e eu também,
que será muito do real agrado do nosso rei e senhor receber a carta
deste legitimista que nos pode ser muito útil, já pelo seu nome,
como também pela sua riqueza. Ouvidas as ordens de S. M. F., queira
transmitir-mas...

– Estou-me recordando – dizia o príncipe pausando as suas
reminiscências – Cerveira Lobo.., tenente-coronel de dragões...
O Cerveira, o meu amigo Cerveira...

– Que foi prisioneiro na Chamusca, quando o Urbano se passou para os
liberais, com a cavalaria e mais o coronel de dragões, o Albuquerque
– lembrou o Nunes, o visconde Munes –, Vossa Majestade lembra-se?

– Perfeitamente. Dom Prior, queira escrever ao barão a dizer-lhe
que espero ansiosamente a carta do meu amigo Cerveira.

Enquanto o abade ia ao seu quarto escrever, o hóspede disse ao ouvido
do outro:

– Isto cone mal..

– Porquê?

– Se o homem cá vem, o meu grande amigo.

– Recebe-lo como o teu grande amigo...

– Se me fala em particularidades...

– Ele não sabe falar em particularidades. É uma besta,
muito rico, e disse-me o morgado do Tanque, de Braga, seu primo, que está
sempre bêbedo. Nem ele cá vem, tu verás... Eu até
acho que as coisas correm perfeitamente. – Ouviam-se os passos do abade.
– Tem dinheiro, ele tem muito dinheiro, ouviste?

Entrou o abade.

– Só duas palavras. – E leu: – Sua Majestade recebe
com muito prazer a carta do Sr. Tenente-Coronel Cerveira Lobo.

– Muito bem – aprovou el-rei. – Hoje à noite, com
todos os resguardos que urgem as cautelas.

– Um homem, o Caneta de Braga, o chapeleiro, com uma carta –
anunciou Senhorinha – só a entrega em mão própria
ao Senhor Abade.

Que entrasse.

O rei e o visconde meteram-se à alcova, simulando receios.

Era uma carta do abade de Priscos, bispo eleito de Coimbra. Tinha a honra
de enviar a el-rei cem peças, donativo que as senhoras Botelhas, de
Braga, ofereciam de joelhos a S. M. F., e diziam que todos os seus haveres
estavam às ordens de el-rei seu senhor.

E entregou dois grossos cartuchos, cintados por fitas cruzadas de seda escarlate.
E o Caneta muito pontual:

– Queria um recibinho, se lhe não custa, reverendo Senhor Abade.

– Venha daí que eu passo-lhe o recibo.

Os dois saíram da alcova. Os rolos estavam sobre a mesa. Eles tinham
ouvido falar em recibo. O visconde Nunes, esgazeando os olhos, foi apalpar
o embrulho, e muito baixinho:

– Arame! Pesa que tem diabo! É ouro! Começa a pingadeira!
Vês?

O outro arregalou os olhos e deitou a língua de fora quanto lhe foi
possível. Nem parecia um rei!

Capítulo VII

Às sete da noite, a soirée do monarca de Calvos compunha-se
do visconde Nunes, seu secretário privado e brigadeiro de infantaria,
do abade capelão-mor de el-rei, de dois reitores, cónegos despachados,
e o ex-sargento-mor de Rio Caldo, nomeado capitão-mor de Lanhoso. Estavam
todos em pé resistindo à licença de se sentarem. A cadeira
de sola estava com o príncipe encostada ao relógio; e, na mesa
central, papéis, o tinteiro de chumbo, o Novo

Príncipe, de Gama e Castro, a Besta Esfolada e o Punhal dos Corcundas,
do bispo Frei Fortunato. Em cima das caixas do milho estava uru meio alqueire
com feijões brancos, destinados às tripas, e dois foles vazios
que a Senhorinha tencionava encher de grão para a fornada quando el-rei
se recolhesse. Sobre um dos foles resbunava um gato enroscado.

Esperava-se o apresentante da carta de Vasco da Cerveira.

Às oito horas anunciaram-se os adventícios. O barão
de Bouro entrou primeiro, a passo mesurado, com o peito alto, e o pescoço
hirto numa gravata enchumaçada, preta, de cordãozinho de arame,
sem laço, atacando os lóbulos das orelhas, um pouco reentrante
na altura dos gorgomilos. Usava óculos de ouro quadrados e uma pêra
grisalha; de resto, rapado. Envergava casaca nova de lemiste, muito refestelada,
de abas compridas com ancas proeminentes, segundo a moda; do cós das
calças, cor de gema de ovo, pendiam berloques com armas, uma medalha
com o retrato de D. Miguel aos vinte e dois anos, e uma peça de ouro
com a mesma real efígie. No peito da camisa, entre as lapelas do colete
de veludo cor de laranja, trazia pregado um punhal esmaltado, em miniatura,
enigma convencional dos cavaleiros de S. Miguel da Ala, obra patriótica
do ourives Novais, pai do poeta Faustino.

Após ele, entrou o Zeferino das Lamelas, muito enfiado, num espasmo,
sentindose aluir pelos joelhos. Ia de niza de pano azul com botões
amarelos, calça branca espipada com joelheiras pelos atritos do albardão.
As pernas das calças chegavam apenas a meio cano das botas, que pelo
tamanho dos pés dir-se-iam roubadas a um gigante.

O Bezerra dobrou o joelho, inclinando o tronco à mão esquiva
de Sua Majestade. Por detrás dele, o Zeferino ajoelhara batendo com
ambas as rótulas no tabuado. O barão ia falar, quando o rei,
reparando no outro, disse:

– Levante-se, homem. Isto aqui não é capela.

O pedreiro teimava, achava-se bem naquela postura que o dispensava de procurar
outra.

– Sua Majestade manda-o levantar– disse o visconde Munes.

Ergueu-se, e num ímpeto silencioso ia entregar a carta ao da cadeira,
quando o capelão-mor lhe observou que as cartas se entregavam ao secretário.

O barão expôs que não pudera resistir aos pedidos que
aquele honrado legitimista lhe fizera para o acompanhar, porque não
se atrevia a entrar sozinho à presença de elrei, seu amo. Que
era filho de um bravo alferes, o Gaspar das Lamelas, que, em 1838, à
frente de 300 homens, atacara a vila de Santo urso, dando vivas a el-rei.
Contou a façanha de atravessar o Ave a nado em Janeiro, com a espada
nos dentes, e que por causa disso entrevecera e nunca mais se levantou.

– Oh! – interjeccionou compungidamente o monarca. – Eu
ignorava esse notável ataque... estava em Roma, sem notícias...
Digno homem o meu honrado e bravo... como se chama seu pai?

– Saberá Vossa Majestade que se chama Gaspar Ferreira.

E o rei:

– Visconde, escreva na lista.

O Nunes sentou-se à mesa, pedindo vénia a Sua Majestade, que
ditou:

– Gaspar Ferreiro, reformado em coronel de infantaria, com vencimento
desde 1838. Escreva à margem: Batalha de Santo Tirso. – E voltando-se
para Zeferino, que ladeava para a parede:

– Diga a seu bravo pai que lhe dei a reforma em coronel, e vencerá
soldo dos sete anos passados.

O Zeferino abriu a boca para dizer o que quer que fosse.

– A carta do meu velho amigo Teixeira? – perguntou o rei ao visconde
Nunes.

– Cerveira, perdoe Vossa Majestade, Cerveira Lobo.

– Ah! sim... Cerveira Lobo.

Abriu, leu para si, passou a carta ao secretário, e comentando exultante:

– Um grande amigo! dos raros! um dos nossos melhores esteios! Com homens
assim dedicados, o triunfo é certo. Posso dizer com o grande vate Camões:

E dir-me-eis qual é mais excelente

Se ser do mundo rei, se de tal gente.

Um dos reitores que estavam na penumbra, lá em baixo ao pé
das caixas, olhou com espanto para o outro, que lhe disse à puridade,
discretamente:

– Diz que ele tem estudado o diabo.. até o latim!

El-rei prosseguiu:

– Vou responder por meu próprio punho ao meu nobre amigo. É
digno desta e de maiores considerações. Visconde, escreva na
lista: Vasco da Cerveira Lobo, general de cavalaria, e conde de Quadros.

Depois, tirou de uma velha pasta de papelão uma folha de almaço,
sentou-se a escrever – e que conversassem.

O abade, capelão-mor, aproveitou o ensejo para servir vinho do Douro
e pastéis de Guimarães, cavacas do convento dos Remédios
e forminhas.

Havia mastigação de mandíbulas pesadas; as forminhas
eram frescas, muito torriscadas, davam rangidos numa trincadeira voluptuosa.
Conversava-se em dois grupos. O sargento-mor de Rio Caldo contava passagens
de caça no Gerês, com enfáticos arremedos, movimentados,
de altanaria. Que o porco-bravo viera direito a ele, e

cortava mato, troncos de giestas como a sua coxa – e mostrava –;
tinha apanhado de raspão a cadela, a Ligeira, raça de todos
os diabos que o atacava pela orelha, e ficou aleijada para nunca mais; e ele
então caíra sobre a esquerda, e trepara à fraga da Portela,
e esperara o porco na clareira; e mal ele apontou, pumba! meteu-lhe três
zagalotes no quadril.

– A gente a falar incomoda talvez el-rei – observou o barão
de Bouro.

– Podem conversar à vontade, que não me incomodam.

– Aquilo é que é cabeça! – disse baixinho,
tocado, um dos cónegos a outro cónego.

Generalizou-se a cavaqueira. Faziam-se brindes lacónicos, circunspectos,
com um grande respeito, indicando-se el-rei por um simples gesto de olhos.
– A virar! a virar! – Carminavam-se os cónegos. O Dom Prior
de Guimarães sugeriu uma lembrança graciosa ao barão.
Que havia dois padres Marcos, ambos priores de Guimarães. Mas o legitimo,
o de São Gens de Calvos, dizia do outro:

– Forte bêbedo!

O visconde Nunes ria-se sarcasticamente; e enquanto os padres. num crescendo
palavroso, explodiam sarcasmos ao outro padre Marcos, o secretário
privado curvou-se sobre o ombro de el-rei e segredou-lhe:

– Carrega-lhe!

– Ora....

– Quanto?

– 2.

–3. Anda-me. 3.

–Será muito!...

– Bolas. 3, por minha conta. Coisa limpa.

E, em voz alta e voltado para o grupo:

– El-rei pergunta se o Sr. Conde de Quadros tem família, se
tem senhora e filhos.

O Bezerra perguntou ao Zeferino.

Que soubesse Sua Majestade, disse o pedreiro, mais animado, que o fidalgo
de Quadros tinha dois rapazes e três raparigas, uma já casada;
mas que a fidalga, a mulher dele, aqui há anos atrás, tinha
fugido com o doutor dos Pombais, e nunca mais voltara.

– Desgraças! – disse o capelão-mor – desgraças!
A corrupção dos tempos... Se se não acudir quanto antes
a isto, não sei que volta se lhe há-de dar.

Fez-se um silêncio condolente. Todos sentiam o caso infausto.

O rei continuava a escrever, devagar, polindo a frase, boleando os períodos;
achava dificuldades em se medir com as locuções redondas e muito
adjectivadas da retórica do padre Rocha. Animava-o, porém, a
ideia de que D. Miguel não tinha fama de sábio, e que a sua
carta seria mais verosímil com alguns aleijões gramaticais.

Releu a carta, e acrescentou às vírgulas. Pediu obreia ao Munes.
Acudiu o padre com uma quadrada, de certa grandeza, vermelha, cuidadosamente
recortada.

O envelope ainda não tinha subido até Lanhoso. Sua Majestade
dobrou em quatro a folha do almaço e sobrescritou – Ao conde
de Quadros, general do exército real.

Nesta ocasião, o Cristóvão Bezerra chamou de parte o
Nunes, falou-lhe em segredo, e terminou em voz alta: for do agrado de Sua
Majestade.

– Eu vou falar a el-rei – disse Nunes com satisfatória
condescendência.

Acercou-se do outro, com os braços pendentes, os pés juntos,
um pouco inclinado, e falou-lhe baixo.

– Sim – respondeu o monarca.

– Está servido, Senhor Barão – comunicou o secretário,
e foi registar no livro das mercês, proferindo em voz alta: Sua Majestade
há por bem nomear sargento-mor das Lamelas Zeferino Ferreira, em atenção
aos serviços de seu pai, o coronel Gaspar Ferreira.

– Vá agradecer a el-rei, Sr. Sargento-Mor – disse o barão
de Bouro ao pedreiro. Zeferino foi ajoelhar, querendo beijar as botas ao homem.

– Levante-se, amigo – disse o príncipe. – Aqui tem
a resposta da carta do meu amigo Cerveira Lobo. É necessário
que ninguém veja este sobrescrito. Tome sentido, que ninguém
saiba a quem esta carta é dirigida. Vá com Deus, e estimarei
vê-lo aqui, Sr. Sargento-Mor, com outra carta do meu honrado amigo,
enquanto não posso abraçá-lo pessoalmente. Adeus

A corte saiu em recuanços, dando-se mútuos encontrões
para não voltarem as costas à majestade.

A criada apareceu então esfandegada para pôr a mesa, que estava
a ceia pronta, e que o frango com arroz não esperava – que era
preciso comê-lo logo que estava feito. Ficou para cear o Nunes. Ceava
sempre com el-rei e com o abade.

O Zeferino, que tinha ali a égua e conhecia o caminho, não
quis ir pernoitar a Santa Marta de Bouro. Havia luar e saía um rancho
de romeiros para o Bom Jesus do Monte. Partiu em direcção a
Braga, e ao outro dia de tarde apeava no sonoro pátio da casa de Quadros,
por onde entrara com a égua em grande estropeada, com a cara escandecida
numa congestão de júbilo.

O Cerveira estava a dormir a sesta.

– Apanhou-a hoje daquela casta! Como um cacho! – informou um
caseiro.– Mandou aparelhar a poldra castanha do Sr. Egas, com os coldres
das pistolas, escanchou-se na sela, com a espada desembainhada e desatou a

galope por debaixo das ramadas a dar gritos: Eu estava a ver quando o levava
a breca de encontro a um esteio de pedra, que malhava abaixo da burra como
um dez!... Depois o Sr. Egas e mais o Sr. Heitor lá o apearam como
puderam, e foram-no pôr a dormir. Arre diabo! lá que um homem
uma vez por outra apanhe um pilão, vá; mas embebedar-se todos
os dias, é muito feio! E depois ninguém se entende com ele.
Medra com o suor dos pobres. Um fona. Que vá para o diabo que o carregue.
Tanto se me dá como se me deu. Se me mandar embora, boas noites. Não
é capaz de perdoar um alqueire de milho a um caseiro! Tem vinte mil
cruzados de renda, não gasta nem cinco, andam os filhos a vender o
mato e os pinheiros, uma vergonha, porque ele, a dois homens gastadores, que
têm amigas, uma a cada canto, dá cada mês vinte pintos
para os dois! O homem deve ter muita soma de peças enterradas! Qualquer
dia cai-lhe aí em casa o José Pequeno da Lixa que lhe põe
a faca ao peito até ele pôr ali o dinheiro à vista. Diz
que quer comprar mais terras, e aqui há dias ofereceu seis contos pela
quinta do Lopes de Requião. Veja você. Tem seis contos ao canto
da gaveta, e ainda não deu cinco réis, que são cinco
réis, à filha, à D. Teresinha, que casou com o estudante
das Quintãs. Anda por lá de socas, sem meias, a fazer o serviço
da cozinha. E estão aí as outras duas, que parecem umas fadistas,
nas romarias, e, quando Deus quer, topa a gente de noite por esses quinchosos
esses marotos dos engenheiros e empreiteiros a saltarem paredes para se irem
meter com elas na casa do palheiro. Uma vergonha, mestre Zeferino, a vergonha
das vergonhas! Eu sou um pobre; mas raios me parta, que se eu tivesse assim
umas filhas... Olhe... (batia com o pé em cheio na relva) esmagava-as
como quem esborracha uma toupeira. Deus nos livre de bêbedos! Deus nos
livre de bêbedos! Você bem sabe o que isso é, mestre Zeferino,
que pelos modos lá por casa não tem pouco que aturar a seu pai,
que também as agarra muito profeitas! Olhe você como ele se tolheu
quando foi, dia de Natal, dar fogo aos de Santo Tirso! Aquilo só com
meio almude no bucho!

– Não é tanto assim atalhou o sargento-mor de Lamelas.–
Não lhe digo que meu pai não tivesse algum graeiro na asa; mas
o que ele fez não era você capaz de o fazer, tio Manuel.

– Ah! isso não, bem o pode dizer, mestre Zeferino. Nunca me
emborrachei, aqui onde me vê com cinquenta anos já feitos; mas,
se algum dia me emborrachar, que ninguém está livre disso, prego-me
a dormir e não vou atirar-me ao Ave em Dezembro; àgora vou,
se Deus quiser. Vai-se pôr o alma do Diabo a dar vivas ao D. Miguel!
Qual Migue! nem qual carapuça! Se D. Miguel cá vier há-de
fazer tanto caso de seu pai como eu daquela bosta que ali está. O que
ele devia era tratar de conservar os terrões, e fazer como você,
que se pôs a trabalhar e se fez pedreiro quando viu que os malhados
lhe tomaram conta das terras. E daí? Você hoje tem o seu par
de mel cruzados, ganhados com o suor do seu rosto, e até já
me disseram que você dava quinze centos ao de Prazins para lhe casar
com a rapariga. É assim ou não é?

– Isso acabou – respondeu com desdém, irritado. Agora
não a queria nem que ele a dotasse com três contos; entenda você
o que lhe eu digo, tio Manuel, nem com seis contos! Você não
sabe quem eu sou, mas brevemente o saberá. Pouco há-de viver
quem o não vir.

– Não sei quem você é? Ora essa... Já lhe
disse que você é homem capazório, honrado...

– Quero cá dizer outra coisa... Você não entende...
– E ouvindo abrir uma janela: – Lá está o fidalgo...
Deixe-me lá ir.

E. afastando-se do caseiro, ia dizendo consigo:

– Que tal está o labroste! Um homem vem de falar com el-rei,
e topa com uma cavalgadura destas! Canalha ordinária!

Capítulo VIII

Quando Zeferino entregou a carta com um gesto soberbo da sua intervenção
entre o fidalgo e o rei, o Cerveira olhou para o sobrescrito com estranheza,
e disse que a carta não era para ele; e lia:

– Ao conde de Quadros, general do exército real. Isto que diabo
é?

– É isso mesmo, fidalgo; isso que aí está vi-o
eu com estes olhos escrever el-rei o Sr. D. Miguel, ontem à noite,
das nove para as dez. O Senhor Conde é vossa excelência mesmo,
e eu sou sargento-mor das Lamelas; lá ficou o meu nome no livro e mais
o de meu pai, que foi despachado coronel por el-rei.

–O teu pai?! Coronel!...

– É como diz.

– Ora essa!... coronel! caramba! – disse, despeitado; parecia-lhe
iníqua a promoção; mas ocorreram-lhe os velhos caprichos
análogos de el-rei; as injustiças de algumas patentes superiores
desde 1828 até à convenção. E abriu a carta com
moderado entusiasmo. Parecia que a sua razão imergida, restaurada depois
de duas horas bem roncadas, de papo acima, queria duvidar da autenticidade
de um D. Miguel que fazia sargento-mor um pedreiro, e coronel um reles alferes
que passara das milícias de Barcelos para infantaria. Achava natural
e plausível em si as charlateiras de general e a coroa de conde; mas
as mercês feitas aos dois plebeus... Caramba! – Uma intermitência
de juízo. Enfim, abrira a carta e lera para si com uma custosa interpretação,
ora aproximando, ora distanciando o papel dos olhos.

A pouco e pouco, desavincou-se-lhe a fronte carregada, iluminaram-se-lhe
os olhos, coava-se-lhe no sangue o suave calor do convencimento. Lia coisas
que lhe evidenciavam um Sr. D. Miguel autêntico, o autor da carta. Conhecia-lhe
a letra. Lembrava-se muito bem; era assim; e então a assinatura –
Miguel, Rei – era tal qual. Chegou a um certo período que devia
impressioná-lo mais pela mudança súbita que lhe transluziu
no semblante. Depois dobrou vagarosamente a carta.

O Zeferino esperava a confidência do conteúdo; mas o fidalgo,
apesar da nobilitação do sargento-mor, continuava a considerá-lo
o pedreiro que lhe fizera os canastros e reconstruíra as paredes da
cozinha. Não estava assaz bêbedo para confidências.

– Conta lá o que te aconteceu, Zeferino. – E sentando-se,
meteu o saca-rolhas à botija de Holanda.

O Zeferino contou tudo com muita particularidade. Descreveu a figura do rei,
as barbas que metiam respeito; pausava com eles os dizeres, dando ao braço
direito, com a mão aberta, um movimento compassado. Repetiu, piorados
na forma, os elogios que o Sr. D. Miguel fizera ao seu amigo Cerveira; que,
quando estava a escrever. perguntou se o conde de Quadros tinha Limos.

O fidalgo sentia muita sede. Misturava de meias a genebra com água
açucarada. E ao passo que lhe sorriam as alvoradas do seu mundo fantástico,
e as trevas da razão se desteciam, crescia- lhe o interesse na narrativa
do pedreiro. Reperguntava pormenores já respondidos. Não havia
já no seu espírito passageira sombra de dúvida. Era o
seu amigo D. Miguel quem estava em São Gens de Calvos; e, se ele fizera
coronel o plebeu das Lamelas e sargento-mor o pedreiro, foi decerto com a
intenção de o obsequiar a ele, para lhe mostrar com que prazer
recebera a sua carta.

– Sua Majestade disse-me que estimava lá ver-me com outra carta
do Senhor Conde, enquanto não ia lá abraçá-lo
– esclareceu Zeferino.

– Tens de lá ir amanhã. Aparece cedo.

– Pronto, senhor.

– Mas, se vais para casa, passa pelos Pombais e dá parte ao
padre Rocha que preciso falar-lhe hoje à noite ou amanhã cedo.

O padre Rocha preferiu vir de manhã, antes dos transportes cívicos
do tenentecoronel. Repugnava-lhe o ébrio e professava uma sincera compaixão
pelo homem.

Pouco depois do Sol nado, o capelão de D. Andresa estava em Quadros
com um grande interesse. Queda salvar o vizinho de uma ratoeira armada ao
seu dinheiro, ou convencer-se de que realmente o príncipe proscrito
estava no concelho da Póvoa de Lanhoso.

Chegara um pouco tarde. O Cerveira Lobo já tinha matado o bicho copiosamente,
um bicho muito antigo, invulnerável, que não se afogava em pouca
genebra.

– Não há dúvida, padre Rocha! Cá está
o homem! – exclamou o fidalgo.

– Mau! – disse consigo o padre, quando lhe apanhou em cheio as
inalações alcoólicas do bafo. – Então é
certo, Sr. Tenente-Coronel?

– Se me quer chamar o que eu sou, amigo padre Rocha, chame-me general
e conde. Veja.

– Oh! sim? Muitos parabéns, Senhor Conde, muitos parabéns!
Quanto folgo! – e lia o sobrescrito.

– Pode abrir e leia alto!

– Muito boa forma de letra, sim senhor... É do próprio
punho do Sr. D. Miguel?

– Leia e verá. É dele mesmo. Conheço a assinatura
muito bem. Tal qual, sem tirar nem pôr. Vai um copito? – perguntava
com a botija inclinada sobre o cálice.

– Muito obrigado a V. Ex.a Tenho de dizer a missa à Srª
D. Andresa às dez horas.

– Leia lá então. Olhe que o nosso homem estudou. Explica-se
muito sofrivelmente. Veja o padre que espiga se eu lhe mando uma carta escrita
para aí à-toa, Fiem? Bem diz a Nação que ele andava
a estudar lá por fora.

– Se dá licença, leio – interrompeu o padre com
impaciência curiosa.

– Vá lá! – e puxou a cadeira e a botija para junto
do capelão.

Velho, honrado e leal amigo, Vasco da Cerveira Lobo, conde de Quadros e general
dos meus exércitos. Eu El-Rei vos envio muito saudar. Não podeis
imaginar o grande prazer que senti quando ouvi o vosso nome e o li escrito
no final da vossa mais que todas preciosíssima carta.

– Fiem? – interrompeu o Cerveira.

– Muito bem – e prosseguiu lendo:

Muitas vezes me lembrou no desterro de onze anos o vosso nome, porque não
podia esquecer o de um amigo que tão de perto conheci e tanto me acompanhou
nas alegrias da minha mocidade.

– Eu não lhe disse, padre, que o rei e mais eu tínhamos
feito pândegas rasgadas quando éramos rapazes?

– Sim, senhor, V. Exª tinha-mo dito.

– Ora aí tem, eu nunca minto. Ah! que bambochatas! – e
recordava-se com os olhos num espasmo entre a saudade e as iniciativas da
borracheira.

– Continuo, se V. Exª permite.

– Ande lá; Quem te viu e quem te vê, Cerveira Lobo! –
disse com tristeza, muito abatido.

Padre Rocha encarava-o com piedade, sentia ânsias de abraçá-lo,
e dizer-lhe:

– Ande lá. Leia, que o melhor está para baixo.

Logo que cheguei a Portugal chamado por amigos de primeira ordem e fui para
aqui enviado, perguntei se ainda éreis vivo. Alegraram-me com a resposta;
mas delicadamente me obrigaram a não escrever a alguém, enquanto
o triunfo infalível da minha justiça dependesse de certas negociações,
pendentes entre as nações da Europa e o meu ministro em Inglaterra,
o Ribeiro Saraiva, que muito bem deveis conhecer de nome. Tenho eu sido violentamente
acusado pelos meus próprios amigos de ter sacrificado os meus direitos
aos meus caprichos, submeti-me às deliberações da Junta
de Lisboa e por isso vos não escrevi para vos abraçar e chamar
para meu lado.

O Cerveira começou a soluçar com a cara coberta de lágrimas,
que destacavam no rubor da epiderme.

– Então que é isso? São lágrimas de alegria?
– perguntou o padre. – Se são, deixeas correr.

– Qual alegria! Estou velho.., já não posso fazer nada
a favor de el-rei. Este pulso.. – e retesava o braço. O padre
assustava-se. – Ora leia para baixo, que está aí uma passagem
muito bonita.

Nunca me esqueceu nem jamais esquecerá que éreis o tenente-coronel
dos meus queridos dragões de Chaves; que fostes vós o comandante
da carga solene que sofreram as tropas liberais numa das primeiras surtidas
do Porto; e que fostes traiçoeiramente arrastado pelo infame general
Urbano quando com outro infame, o coronel Albuquerque, fizeram acabar desonrosamente
na Chamusca os últimos esquadrões do regimento de Chaves. Mas
vós, honrado Cerveira, ficastes ileso da ignominia geral, porque rejeitastes
o perdão e dissestes que éreis um prisioneiro de guerra, e aceitáveis
as consequências da vossa posição.

– Foi assim! – exclamou o Cerveira erguendo-se de salto. –
O Saldanha era meu capitão quando eu era cadete; conhecia-me. Mandou-me
chamar à sua presença; que me fizesse liberal, e me entregavam
a minha espada; e eu (batia duramente no peito com as mãos ambas),
eu, padre, eu, aqui onde me vê, disse-lhe que levasse o Diabo a espada
para as profundas dos Infernos; que a minha espada tinha-me dado o Sr. D.
Miguel I, e que ele me daria outra, quando fosse precisa. Ficaram estarrecidos;
e o patife do Saldanha, que tinha sido um realista de todos os diabos, quando
era o gajo da Isabel Maria, chamou-me estúpido. E eu, vai não
vai, estive a mandá-lo...

Disse o resto. O padre riu-se, e pediu-lhe licença para continuar
a leitura, porque se chegava a hora de ir dizer a missa.

– Ande lá.

Desgraçadamente o vosso heroísmo e amor à minha causa
legítima não foi muito imitado. Eu perdi a coroa, mas a perda
maior foi a de amigos como vós, bem poucos, mas que valem um remo.

– Torne a ler esse bocado que é coisa muito profunda, ó
padre Rocha.

Fez-lhe a vontade. O Rocha também admirava, e de si consigo dizia
que o rei tinha bom palavreado sentimental, ou que o impostor não era
qualquer pedaço-de-asno. Continuou:

Vou responder com repugnância e tristeza às últimas linhas
da vossa carta em que me ofereceis liberalmente recursos. Eu vivo há
doze anos dos benefícios dos meus vassalos: seria loucura fingir que
não preciso que mos prestem hoje. A demora que tem havido no meu aparecimento
aos meus amigos e partidários não ma explicam, mas suponho que
é falta de dinheiro. Sei que minha irmã, a Srª Infanta
D. Isabel Maria, deu cinquenta contos para começar o movimento, e esse
dinheiro está em poder de um Dr. Cândido Rodrigues Álvares
de Figueiredo e Lima, lente de Coimbra. Mas o que são cinquenta contos
para sustentar uma insurreição em que há-de haver necessidade
de sustentar, de vestir e de armar cem mil homens! Vós, meu, honrado
amigo, que sois militar, compreendeis que nada se pode fazer sem que os poderosos,
os opulentos, cooperem com a minha boa mana a Srª D. Isabel Maria.

Dizem-me que tenho amigos muito ricos que hão-de aparecer a tempo;
mas eu necessito de preparar a ocasião em que eles prometem aparecer.
À primeira voz tenho a certeza de levantar 12000 homens num pequeno
círculo de léguas; mas não me atrevo a fazê-lo,
a tentá-lo, sem me ver bastante provido de recursos, para não
recear o pior dos inimigos que é a necessidade. Portanto, muito amado
conde, meu valoroso general, aceito o vosso empréstimo; e tomarei da
vossa fortuna três contos de réis, que vos recompensarei com
o menos, que é o dinheiro, e com o mais, que é a minha eterna
gratidão.

Deus Nosso Senhor vos tenha em sua santa guarda. De São Gens de Calvos,
aos 12 de Maio de 1845.

Miguel, Rei.

Esta carta não confirmou nem removeu as suspeitas do padre Rocha.
Quando o Cerveira lhe perguntou: – que tal? o que dizia ele? –
dobrava a carta vagarosamente, encolhia os ombros e respondia:

– Enfim... não sei...

– Não sabe o quê? Lá que eu lhe levo o dinheiro,
isso levo. Pudera não! Tudo o que eu tiver até à camisa
do como. Ou se é amigo ou não se é amigo, hem? Que diz
a isto, padre?

– Se quem escreveu esta carta é o Sr. D. Miguel, faz V. Exª
o que deve, porque faz o que pode; mas seria bom ter a certeza...

– De que é o rei que me escreve?

– Sim.. a prudência... Há muito maroto por esse mundo.

– O padre está então a ler! Cuida que eu lhe dava o meu
dinheiro sem o ver? Heide vê-lo com estes, e ouvi-lo falar primeiro.
Mas deixe-se de asneiras, padre Rocha! É tão certo Deus estar
no Céu como ele estar em Calvos.

– Bem! – atalhou o Rocha apressado, erguendo-se – quando
vai V. Exª a Calvos?

– Hoje é terça-feira; a roupa chega de Braga na sexta,
e parto no sábado. Ora agora, vou lá mandar o Zeferino a dizer-lhe
que vou beijar-lhe a mão e levar-me os três contos. Se faz favor,
escreva-me aí duas linhas, só duas linhas, a dizer isto.

O padre escreveu, e saiu muito preocupado. Celebrou a missa a D. Andresa,
e pediu-lhe licença para se ausentar por três dias. Relatou à
fidalga as suas desconfianças, o dever que se impunha de salvar o pobre
idiota de alguma cilada à sua imbecilidade, e talvez de um roubo à
mão armada.

– Mas quem sabe se é na verdade o D. Miguel que lhe pede o dinheiro?
– reflectia D. Andresa, discreta e sensibilizada.

– É o que eu vou saber.

Capítulo IX

Naquele tempo (1845), no Porto, Rua de S. Sebastião, nº 1, morava
o padre Luís de Sousa Couto3, paleógrado da Misericórdia.
Representava sessenta e tantos anos, uma nutrição doentia, pesado,
com os pés túrgidos da gota, cheios de nodosidades. Era jovial.
Tinha um sorriso lhano, conversava morosamente pausado com admirável
correcção; deixava-se interromper sem impaciências e não
interrompia nunca os desatinos, maçadas, e até as tolices de
quem quer que fosse. E ouvia muitas. Este padre obscurecido na sua paleografia
que lhe dava oito tostões por dia, naquela asquerosa alfurja chamada
Rua de S. Sebastião, com o aljube à esquerda e as imundícies
da Pena Ventosa à direita, era o impulsor, a alma, o cérebro
do gigante miguelista nas províncias do Norte. A Junta de Lisboa consultava-o.
Ribeiro Saraiva enviava-lhe de Londres os elementos para os seus cálculos,
pedia-lhe conselhos; e D. Miguel escrevia-lhe frequentemente. Dizia-se que
o príncipe proscrito o elegera bispo ou patriarca de Lisboa –
não me recordo qual era a mitra.

A sua presença venerável impunha sem artifício; uma
grande bondade obsequiadora; não proferia palavra ofensiva dos seus
adversários políticos; não aceitava donativos dos seus
correligionários; vivia com severa parcimónia dos seus 800 réis
havidos da Santa Casa, e morreria de penúria antes de pedir ao governo
liberal a paga dos seus lavores ilustrados, correctíssimos de intérprete
de velhos e quase indecifráveis códices.

Ao entardecer do dia 15 de Maio de 1845, o padre Luís de Sousa escrevia
a sua correspondência para Londres. Anunciou-se o padre Bernardo Rocha,
perguntando a hora menos ocupada para poder dar duas palavras ao reverendo
dono da casa. Foi logo recebido. Que todas as horas eram livres para receber
os amigos.

Padre Rocha principiou alegando que os seus sentimentos políticos
eram bem conhecidos; que cumpria sempre as ordens que recebia do centro realista,
e que facilmente daria o sossego da sua vida em sacrifício das suas
convicções. Que se julgava com direito a fazer uma pergunta
e a exigir que lhe respondessem a verdade.

– Se a pergunta for feita a mim, não poderei responder de outra
maneira. Que quer saber, padre Rocha?

– Se o Sr. D. Miguel está em Portugal.

– Não, senhor. Há 15 dias estava em Itália. –
E abrindo uma gaveta, extraiu de uma pasta muito ordinária de carneira
surr1æada com atilhos um papel que mostrou. – Aqui está
uma carta assinada pelo Sr. D. Miguel de Bragança, datada no 1º
de Maio. Quanto a isto, está satisfeito. Que mais quer saber?

– Mais nada. Agora corre-me o dever de justificar a pergunta.

– Bem sei – preveniu o padre Luís. – Essa mesma
pergunta me fez há dias o Bezerra de Barrimau, seu vizinho, e mais
de um cavalheiro de Braga, o Barata, o Manuel de Magalhães, etc. Diz-se
por lá que o Sr. D. Miguel está no Alto Minho, no concelho da
Póvoa de Lanhoso. Propalam-no certos padres, não sei com que
alcance. A estupidez tem intuitos impenetráveis. Não percebo
para que fim espalham tão absurdo boato, se não é para
alarmar o governo ou lograr incautos.

– É isso mesmo: lograr incautos – interrompeu o Rocha,
e contou o que se estava passando com o tenente-coronel de Quadros, a carta
do suposto D. Miguel e o empréstimo dos três contos, que o fidalgo
tencionava levar no próximo sábado ao impostor.

– Seria bom evitar a perda ao tenente-coronel e o opróbrio ao
partido legitimista – alvitrou o paleógrafo.

– Eu não o podia fazer sem a certeza de não praticar
alguma imprudência. Por isso vim consultar o reverendo Luís de
Sousa. e daqui irei para Braga entender-me com o governador civil.

3O autor teve relações muito saudosas com este venerando sacerdote,
que em 1851 residia num antigo

casarão da Rua de Santo António, que depois se transformou
em casa de banhos. Por esse tempo, se

congregavam ali os homens eminentes, por inteligência e haveres, do
partido realista. Neste ano, padre

Luís de Sousa passava os seus dias rodeado de pergaminhos, imobilizado
numa poltrona, gemendo as

dores da gota. Morreu muito pobre e muito desamparado.

– Faz bem. Não lho aconselharia, se pudéssemos dar remédio
mais suave à doença desse miserável impostor, de quem
eu sei mais algumas traficâncias. Constou-me há poucas horas,
que umas beatas de Braga, abastadas, e de apelido Botelhas, tinham enviado
uma importante quantia, por intermédio de um certo abade, a um D. Miguel
que está escondido em Portugal. Eu podia dar aviso desta ladroeira;
mas tenho compaixão do abade: não sei se ele é ladrão
ou tolo. A segunda hipótese é que o salva de ser processado.
Portanto, amigo padre Rocha, faz um bom serviço à humanidade
e ao partido, solicitando o castigo desse homem que conspurca o nome de el-rei
e a honra do partido. Agora, visto que veio, vou dizer-lhe o que há.
Saraiva trata de contrair um empréstimo e de negociar generais, que
infelizmente precisamos. O Póvoas está decrépito e quase
morto para a nossa fé desde Souto Redondo. As patentes superiores,
pela maior parte, estão em pessoas que regulam pela inteligência
do seu amigo tenente-coronel de Quadros. Há por aí outros que
aprenderam a táctica da covardia desde o cerco do Porto. Mal podemos
contar com eles, quando os vemos intervir nas facções dos liberais
a fim de abrirem brecha na mesa do orçamento com as espadas postas
em almoeda. No ano próximo futuro, o partido legitimista deve dar sinais
de vida; se esses sinais hão-de ser como os do cadáver galvanizado
que se convulsiona e recai na sua podridão, isso não sei. O
Sr. D. Miguel tem de vir a Londres; e quando lhe constar, padre Rocha, que
el-rei está em Inglaterra, prepare-se com a sua energia para nos dar
o muito que esperamos da sua influência e do seu afecto à legitimidade.
E adeus, que sai depois de amanhã de Lisboa o paquete: estou escrevendo
ao nosso Ribeiro Saraiva.

O secretário-geral, governador civil interino de Braga na ausência
do conselheiro João Elias – uma vitima burlesca de troça
dos setembristas – era o Marques Murta, uma gigantesca actividade frenética
num corpo mediano, fino, acepilhado aristocraticamente, com a bossa da perspicácia
política muito saliente. De resto, serviçal, agradável,
com uns requintes de delicadeza de bom tom.

O padre Rocha procurou-o no seu gabinete e contou-lhe os casos sucedidos
e a necessidade de não deferir a prisão do impostor até
além do dia seguinte, porque no sábado safa de Quadros o Cerveira
Lobo com os três contos.

– Talvez fosse mais curial e exemplar prendê-lo depois, e entrar
com os três contos no cofre do distrito, visto que o Cerveira os quer
aplicar às necessidades da monarquia – opinou o secretário
sorridente.

O padre não percebeu a ironia, e entendeu que de qualquer dos modos
já não podia obviar que o seu amigo fosse roubado, ou em nome
de D. Miguel I ou de D. Maria II.

– Vá descansado – emendou a autoridade com o seu sorriso
inteligente, habitual. – Se o homem estiver em Calvos, amanhã
a esta hora há-de estar na cadeia de Braga.

Pela meia-noite deste dia, saiu do quartel do Pópulo uma escolta de
infantaria 8, que chegou a São Gens ao apontar da manhã. Era
guiada por um prático sabedor das avenidas da residência abacial,
um sócio convertido e aproveitado da quadrilha de ladrões que
devastara o concelho da Póvoa em 34, e saboreava agora na policia secreta
uma qualquer prebenda honestamente ganha. Ele dispôs a soldadesca à
volta da casa, debaixo das janelas, rente ao muro do passal, e mostrou ao
sargento a porta de carro. Rompia a aurora quando a passarada do arvoredo
se esvoaçou piando, alvorotada pelo estrondo das coronhadas à
porta principal, e uns berros formidáveis:

– Abra! abra! senão vai dentro a porta!

O abade saltou da cama, espreitou por uma fresta das portadas, e viu um cordão
de soldados, a olharem para as janelas, e com as baionetas nas espingardas.
Correu descalço para a sala contígua à alcova do hóspede,
e encontrou-o no meio da quadra, em fralda, a enfiar as calças, quase
às escuras, com a respiração ansiada.

– Que é? – regougou o homem numa estrangulação
de susto, muito ofegante.

– Tropa, senhor, tropa! Fuja depressa, que eu vou esconder Vossa Majestade
na adega antes que arrombem a porta.

As coronhadas e as intimações ameaçadoras repetiam-se.
Uma algazarra de Inferno. Vozes roucas pediam machados e ferros do monte.
A Senhorinha, muito esganiçada, expectorava agudos ais na cozinha;
não acertava a enfiar o saiote pelo direito. Os cães de Castro
Laboreiro, muito ferozes, arremetiam às portas com a dentuça
refilada. Porcos grunhiam dando bufidos espavoridos. A moça dos recados
chamava a sua Mãe Santíssima e a alma da tia Jacinta do Reimundles,
que estava inteira na igreja. Dois criados da lavoura, estranhos ao segredo
do real hóspede, como estavam recrutados, cuidaram que a tropa os vinha
prender; enterraram-se nos fenos do palheiro, prometendo esmolas de quartinho
ao Bom Jesus do Monte e ao mártile São Trocatles, se os livrassem
daquela. Entretanto, o outro, de chinelos de tapete, guiado pela mão
do abade até à cozinha, passou daqui para a adega, que a criada
abriu com muita subtileza. Havia lá dentro um recanto encoberto por
duas pipas vazias, postas ao alto; pela convexidade das aduelas e entre as
pipas e a parede, abria-se um vácuo onde cabia à vontade um
homem. O abade muito aflito:

– Suba depressa Vossa Majestade que eu ajudo por cima das pipas e deixe-se
escorregar para o lado de lá. Cosa-se bem com a parede; se vierem revistar,
não se bula, não se bula, senhor!

O homem ficou em cega escuridade. Quando resvalava com as costas pela parede,
as teias de aranha despegavam-se dos vigamentos de que pendiam, enrodilhavam-se-lhe
viscosas ao nariz e aos beiços. Ele sacudia-as, cuspinhava com nojo,
queria acocorar-se, mas não cabia. Ouvia rojos de ratazanas por debaixo
das pipas, e lá fora o rodar das portas que se escancaravam com estridor.

Em cima, o sargento e três soldados entraram e examinaram vagarosamente
os quartos e recantos.

– Senhor Abade, ponha para aqui o rei – disse o sargento, um
farsola, o Pílula do 8 – queremos o rei e algumas botijas de
genebra. A garrafeira da casa real deve ser coisa muito rica! Venha primeiro
o Sr. D. Miguel, que lhe queremos fazer uma saúde.

– O senhor está a mangar! – disse o abade afinando pelo
tom da chalaça. – Genebra, se a querem, dou-lha; mas a respeito
de rei, só lhe posso dar o de copas, que tenho ali um.

– Pois sim, traga o rei de copas, e não será mau que
ponha em guarda também o ás do mesmo naipe.

– Dá-se-lhe já duas biqueiras neste padreca, ó
meu sargento! – propôs o 24.

– Deixa ver se a coisa se arranja sem biqueiras. Ande lá, Senhor
Abade, vamos à genebra, à adega. Mexa-se.

– A genebra está cá em cima – observou o abade
um pouco enfiado.

– Mande-a ir para baixo, que é mais fresco. Mexa-se, mexa-se
que temos pressa.

Abra a porta da adega.

– Sim, senhor, abro tudo o que vossemecê quiser –resoluto,
com um ar irónico de condescendência, sem receio. – Os
senhores têm coisas! Onde diabo procuram o Sr. D. Miguel! – E
descia, pedindo a chave à Senhorinha.

A criada demorava-se a procurá-la, a fingir; e o sargento:

– Se se demora, ó santinha, vai dentro a porta! Ó 24,
vai buscar um machado que eu ali vi na cozinha. Salta um machado!

– Não é preciso, camarada – acudiu o abade. –
Aqui está a chave. Eu abro. Entrem, procurem à vontade.

O sargento parou à porta a familiarizar-se com a escassa luz da adega:

– Ó padre! isto aqui é que é a sala do trono?
ou é o subterrâneo da inquisição? Mande lá
acender uma candeia, se não tem um archote.

– Ó mulher, traz dai uma placa acesa– disse o abade Marcos,
contrafazendo o seu terror.

E o homem, lá dentro atrás das pipas, tiritava como Heliogábalo
na latrina, seu derradeiro refúgio.

A Senhorinha entrou adiante com a placa, um luzeiro mortiço de sebo
com morrão que parecia condensar mais as trevas da lôbrega caverna.

– Arranja aí um fachoqueiro de palha, ó 14! Que raio
de placa você cá traz, mulher!

– É enquanto não pega bem a torcida – explicou
a criada, caminhando atrás do padre para o lado oposto ao esconderijo.
Com deito, a claridade difundia-se, mas tão devagar que ninguém
diria a velocidade que os naturalistas marcam a um raio de luz. Os soldados
batiam com os nós dos dedos nos tampos das pipas, que toavam o som
abafado de cheias.

E o 14:

– Ó meu sargento, o tanso do abade casca-lhe rijo no verdasco!
Estão cheiinhas! – E apontando para as duas pipas vazias do canto,
o sargento perguntava se o vinho daquelas já lhe tinha caído
na sacristia – e dava piparotes na barriga do padre.

O abade tinha uns sorrisos pálidos, comprometedores como uma denúncia.
O 24 escutava e dizia que a modos que ouvira mexer coisa atrás das
pipas.

– Há-de ser ratos – conjecturou o abade, trémulo,
engasgado.

– Palpa com a baioneta por trás das pipas, ó 24! –
disse o sargento.

Assim que o aço da baioneta raspou na parede, a Senhorinha começou
a dar gritos, sentou-se a espernear, e perdeu os sentidos.

– Que diabo tem a velha?! – perguntou o Pílula. Dão-lhe
estupores, bem?

– É flato, costuma-lhe a dar – elucidou o abade. O 24
voltara-se a ver a velha escabujar, e retirara a baioneta de trás idas
pipas. O abade teve um momento de esperança, cuidando que o exame estava
feito:

– Tem visto, Senhor Sargento? Aqui não há nada. Os senhores
vieram enganados a minha casa. – E caminhou para a porta com a luz.

– Espere aí, seu padre! Anda-me com a baioneta, 24. Escarafuncha-me
esses ratos.

O outro soldado entrou no mesmo exame; e, apenas as baionetas resvalaram
por corpo que lhes abafava os tinidos metálicos das pontuadas, ouviu-se
um grande estrupido de coisa que trepava pelas pipas. E nisto apareceu uma
cabeça com enormes barbas sobre um dos tampos.

– Oh! – bradou o Pílula – muito bem aparecido nesta
função, Sr. D. Miguel I!

Suba para cima desse trono e dê lá de cima um bocado de cavaco
às tropas! Mas o melhor é descer cá para baixo, Real
Senhor!

O 24, muito espantado, a olhar para a cabeça do homem:

– Parece o padre eterno, ó meu sargento!

– Com quem ele se parece é com o Remexido do Algarve –
afirmava o 14.

– Desça daí que ninguém lhe faz mal, homem. Está
preso à ordem do governador civil – concluiu o sargento com seriedade
imponente.

– Este senhor?... não... – disse o abade com as mãos
postas4.

4São as textuais palavras e a atitude do padre, significativas da
crença entranhada na realeza do preso, e

da sua paixão naquele lance. Parece que intentava mover à piedade
a escolta, increpando-a pela

profanação de pôr mãos no rei legítimo.
(Informação de Ferreira de Andrade.)

– Não seja asno! – volveu o sargento. Este homem não
é D. Miguel. É um falante que o está aqui a comer a você
e mais aos patolas tia sua laia. Vá-lhe buscar a roupa, senão
ele entra na escolta em mangas de camisa.

– Dê licença que este senhor se vá vestir ao seu
quarto – suplicou o abade.

– Sim, que se arranje com guardas à vista. – E acompanhou-os
à saleta.

Quando envergava o casaco de pano piloto, o abade disse-lhe, com um gesto,
que o dinheiro das Botelhas de Braga ia nas algibeiras do paletó.

O sargento perguntou que papelada era aquela que estava sobre a mesa. Leu
a primeira folha e desatou a rir e a dizer ao barbaças:

– Olha que grande pândego você é! Você como
se chama, ó seu coisa? – E leu alto:

Rol das mercês que Sua Majestade o Senhor D. Miguel I fez em Portugal
e que se descrevem neste livro de apontamentos provisoriamente.

E na primeira página:

Marcos António de Faria Rebelo, abade de São Gens de Calvos,
capelão-mor de el-rei e Dom Prior de Guimarães.

E perguntava ao abade:

– Este ratão deste Dom Prior é você, hem? Parabéns!

Em seguida:

Torcato Munes Elias, visconde de São Gens, secretário privado
de el-rei.

– Torcato Nunes! – recordava o Pílula. – Eu parece-me
que conheço este diabo de o ver em Braga no Café da Açucena,
na Cruz de Pedra. Nunes! um pelintra. Onde está o visconde, que lhe
queda dar um cigarro? Enfim cá levo a papelada para Braga – e
enrolava os papéis. – A gente precisa conhecer os titulares novos
para os respeitar e acatar, amigo Dom Prior de Guimarães.

Quando a escolta se formou fora do portão e o preso entrou ao centro,
com a fronte majestosa abatida e os braços cruzados, levantou-se na
residência um choro como à saída de um defunto muito querido.
Eram a cozinheira e a outra criada, num arrancar de soluços, enquanto
o abade afogava os gemidos com o rosto apanhado nas mãos. O povo da
aldeia, com um grande terror da tropa, espreitava de longe por entre as árvores
e de trás das paredes. O Torcato Nunes Elias, acordado pela mulher,
que recebera a nova da prisão, saltara da cama, e correra à
residência, perguntando ao abade se el-rei tinha levado as peças
das Botelhas de Braga.

Que sim, que levara; pudera não levar!

– Pois então, abade, empreste-me aí meia moeda, que eu
vou disfarçado a Braga ver o que se passa. Estou sem vintém.

– Veja lá se o prendem, visconde – acautelou o abade.

– O meu dever é seguir a sorte de el-rei! Onde ele morrer, morro
eu!

Capítulo X

O Cerveira Lobo saira, com o Zeferino, para Braga na sexta-feira de manhã.
Estariam aqui até à madrugada de sábado, e partiriam
então para a Póvoa de Lanhoso com os três contos de reis,
repartidos em libras pelas algibeiras dos dois. Além de um criado de
velha libré, avivada de azul, de botas de prateleira e chapéu
de sola, levavam bacamartes nos arções dos selotes, todos três.
Foram descansar e jantar à hospedaria dos Dois Amigos. O Cerveira vestia
casaca no trinque muito lustrosa, e gravata de cambraia com laço; o
peitilho postiço atado ao pescoço saía muito rijo de
goma reles de entre as lapelas derrubadas do colete de veludo preto. A calça
de pregas, ampla, à cavalaria, afunilava-se no artelho, quebrando no
peito do pé. As botas de polimento novas rangiam e as esporas amarelas
no tacão, com grandes rosetas, tilintavam num estardalhaço de
caserna. Comprara chapéu de pasta com molas que faziam saltar a copa,
e enchiam como uma bexiga, que parecia pantominice das comédias, dizia
o Zeferino.

Às quatro horas o fidalgo de Quadros e mais o pedreiro sentaram-se
à mesa redonda. Já constava em Braga que estava ali o Cerveira
Lobo, que desde 1835 não saíra da casa-solar de Vermoim. Alguns
primos visitaram-no; as famílias legitimistas, e principalmente senhoras
velhas, mandavam-lhe bilhetes.

Dizia o Zeferino que o incomodavam tantas etiquetas, que estava morto por
se safar, não estava para lérias: que as tais senhoras Sotomaiores,
as Peixotas e as Meneses deviam ser mais velhas que a Sé, uns estafermos.
Ele segredava ao ouvido do Zeferino coisas, ratices suas em Braga, quando
era rapaz. – Que fizera um destroço nas primas, tudo pelo pó
do gato. Que pagara bem o seu tributo à asneira; e casquinava com vaidade
paparreta, carregando-lhe a mão no verde. Quando entravam pelo assado,
chegou um tenente do 8 a contar a um amigo, que estava à mesa, que
chegara naquele momento preso ao Governo Civil, vindo da Póvoa de Lanhoso,
um maroto que

dizia ser D. Miguel, e ouvira dizer a um realista que o vira em Roma, havia
três anos, que se parecia bastante com ele.

O Cerveira erguera-se num grande espanto indiscreto a olhar para o oficial,
que o fixava com uma curiosidade irónica. Convergiram todos os olhares
para o homem das barbas respeitáveis. Quedou-se momentos naquele espasmo,
num trémulo, e perguntou:

– E é com efeito o Sr. D. Miguel esse homem que chegou preso?

– Ele diz que é – respondeu o tenente. – Veremos
o que se averigua no governo civil.

– Na falta do verdadeiro D. Sebastião, apareceram três
falsos – disse enfaticamente. um professor de latim, com um sorriso
pedante.

O Cerveira olhou-o de esconso, e saiu da mesa, seguido do Zeferino, muito
enfiados, ambos.

– Está tudo perdido! – disse dolentemente o fidalgo.

– El-rei preso!... E não se levanta este Minho a livrá-lo!...
Vamos vê-lo, quero ver se lhe posso falar. Dentro de três dias
entro em Braga com dez mil homens e arraso a cadeia.

Fez saltar a copa do chapéu de molas e saiu para a rua, a bufar.

O Campo de Santa Ana parecia um arraial. Aglomeravam-se ali as duas Bragas
– a fiel, a caipira, pletórica de fidalgos, de grandes proprietários,
cónegos, de chapeleiros e da clerezia miúda; – a liberal,
muito anémica, encostada ao 8 de infantaria, toda de bacharéis
e empregados públicos, o Manso, o Meio Cavacão, o Mota, o Rocha
Veiga, o Alves Vicente, negociantes de tendas mesquinhas, professores muito
retóricos, o Capela, que ensinava francês, o Pereira Caldas,
soneteiro e polígrafo, o velho Abreu bibliotecário, lacrimoso,
o Pinheiro, muito grande, filósofo sensualista, mas bom vizinho, todos
à volta do Monte Alverne, um cónego muito assanhado, que foi,
meses depois, comandante da brigada dos serezinos.

Cerveira Lobo impunha e dominava com as suas barbas, o trajar asseado com
muito lustro, e o bater metálico, patarata, das esporas. Abriram-lhe
passagem, rodeavam-no cavalheiros da primeira plana, os Vasconcelos do Tanque,
os Magalhães, o Freire Barata, o Cunha das Travessas, a gema daquele
enorme ovo realista, chocado no seio da religião da Carlota Joaquina,
do conde de Basto e do Teles Jordão. O Cerveira perguntava aos seus:
– É? – uns encolhiam os ombros, outros negavam gesticulando.
E ele, com intimativa:

– Pois saibam que é!

O Manuel de Magalhães dizia ao ouvido do Henrique Freire:

– Deixa-o falar, que está idiota.

O Bernardo de Barros, um fidalgo de Basto que fora capitão de cavalaria,
com um bizarro sorriso de corte e ademanes de uma selecção rara:

– Meu tenente-coronel, el-rei, quando vier, não há-de
estar ao alcance da canalha. Descanse vossência.

Os janotas acercavam-se, desfrutadores, do Cerveira. Eram o Russel, o António
Gaspar, os de Infias, o Bento Miguel de Maximinos, o Paiva Brandão,
o D. Manuel de Prelada, o D. João da Tapada, o António Luís
de Vilhena, um loiro, muito enamorado, com uma rosa-chá na lapela da
casaca azul com botões amarelos.

Daí a pouco fez-se um torvelinho de povo à porta do Governo
Civil. A soldadesca afastava a multidão com frases persuasivas de coronha
de arma. Formou-se a escolta, e o preso saiu, de rosto levantado e afoito,
rara a multidão. Cerveira Lobo fitava-o com uma ansiedade aflitiva.
–Que se parecia... e ia jurar que era ele! – quando um realista
convencionado e que estava no grupo, o major de Vila Verde, disse com um desdém
de achincalhação:

– Olha quem ele é! Oh que traste! que grande mariola! Forte
malandro!

– Quem é? quem é? –perguntavam todos.

– É o Veríssimo, foi furriel da minha companhia, andou
com o Remexido, e safou-se de Messines com o pré dos guerrilhas.

O Cerveira inclinou-se ao pedreiro e disse-lhe à orelha:

– Ouviste, ó Zeferino?

– Estou banzado! –murmurou o outro.

– Olha que espiga! três contos! hem?

– Raios parta o Diabo! – disse o pedreiro, numa síntese
condensada da sua incomensurável angústia.

Minutos depois, o padre Rocha encarava de frente o Cerveira, chamava-o de
parte e dizia-lhe:

– Está desenganado, meu amigo? Eu, para corresponder à
confiança de V. Exª, impus-me o dever de o salvar de um roubo
de três contos, e da vergonha de ser logrado por um impostor. O maior
serviço que podemos fazer ao Sr. D. Miguel é entregar à
justiça um infame que se serve do seu sagrado nome para roubar os amigos
do augusto príncipe. Sr. Cerveira, vá para sua casa; e, quando
eu lhe disser que é tempo, então desembainhará a sua
espada:

O Cerveira, abraçando-o:

– Honrado amigo, honrado amigo! Ainda os há..

O Veríssimo entrou na cadeia de Braga, e na madrugada do dia seguinte
foi transferido para a Relação do Porto.

O nome e apelidos que ele deu no Governo Civil eram verdadeiros: Veríssimo
Borges Camelo da Mesquita5.

Tinha nascido em 1806 em Alvações do Corgo, no Douro. Ao pai
chamavam-lhe o Norberto das facadas, quando já era velho, e meirinho-geral
da comarca, em Vila Real Uns diziam que a alcunha facadas lhe vinha de ter
esfaqueado a mulher, por ciúmes; outros, de ter levado três facadas,
na Campeã, quando pusera cerco a uns salteadores que pernoitavam na
estalagem daquela aldeia, nas vertentes do Marão. O certo é
que a quadrilha tinha sovado os aguazis, e o comandante da diligência,
o meirinho-geral, recolhera à vila numa padiola.

Norberto Borges Camelo tinha pedra de armas na casa de Alvações,
uma edificação do século XVII. Dava-se como descendente
do bispo do Algarve D. João Camelo. Contava a origem do brasão
da sua casa, concedido ao seu sexto avô Lopo Rodrigues. Habituado a
contar aos juízes de fora e corregedores da comarca o facto provado
por incontestáveis pergaminhos, era convidado muito a miúdo
desfrutadoramente à exposição heráldica do seu
escudo, que ele fazia numa toada monótona de quem reza6.

5Segundo as informações textuais do já referido José
Joaquim Ferretra de Meio e Andrade, o diálogo da

autoridade e do preso correu assim:

Que era das imediações de Vila Real, em Trás-os-Montes,
e um dos amnistiados em Évora Monte, na

qualidade de sargento do exército realista;

Que numa surtida que fizeram os do Porto fora ferido num quarto por uma bala,
ficando um pouco coxo:

mas que não deixara ainda assim o serviço;

Que achando-se no último Carnaval no lugar de São Gens, ali
tomara parte nos folguedos do povo com o

abade da freguesia, o qual o convidara no fim para sua casa;

Que o tratara muito bem, e que, passados alguns dias, lhe dissera, depois
da ceia, de uma maneira muito

recolhida e sonsa: que desconfiava ter em sua casa Sua Majestade el-rei o
Sr. D. Miguel I (porque ele era

em tudo um fac-símile).

Que nem lhe negara, nem confessara, nas que, passados dias, à mesma
hora, lhe repetira aquela suspeita;

porém que ainda dessa vez lhe respondem com uma evasiva.

Autoridade

E depois?

Preso

Depois? que lá se aviessem, porque o seu fim era conservar aquela
cómoda situação, maxime quando as

suas finanças estavam no maior apuro.»

Autoridade

Que utilidade tirava em manter o abade nessa ilusão?

Preso (cínico)

Que a tirava toda, porque só assim podia continuar no gozo da comodidade
que se lhe oferecia;

Que daí por diante lhe ficara dando o tratamento de Majestade, como
coisa decidida, e lhe revelara o

desejo de que o elevasse à dignidade de seu capelão-mor, ao
que anuíra;

Que, passados alguns dias, lhe propusera a admissão à sua presença
nocturna e clandestina de alguns

eclesiásticos e também Seculares, consumados realistas, no
que concordara;

Que desse dia por diante principiaram a concorrer ali, por alta noite, um
até dois por vez, pedindo-lhe

todos, depois de lhe beijarem a mão, comendas, benefícios,
lugares civis, postos militares e até prelazias – o que ele tudo
lhes concedeu de bom grado.

66 Nota erudita. A história, aliás exacta, que o fidalgo de
Alvações contava, acha-se nos Nobiliários, e está

gravada no escudo desta família. Lopo Rodrigues Camelo foi moço
da estribeira de el-rei D. Sebastião, e

muito Querido de seu real amo. Viajara muito e era primoroso em pontos de
cortesia. Uma vez

acompanhara o rei a Coimbra; e, na passagem de São Marcos para Tentúgal,
encontraram a ponte do

Mondego caída. O rei quis passar a vau, e o estribeiro observou-lhe
que o passo ali era perigoso. D.

Sebastião redarguiu: – Vossa Alteza me engana – volveu
o cortesão –ditoso engano é esse.» – E, metendo-se
à vala espapada de limos e lodo, submergiu-se a ponto de ficar só

com a cabeça e um braço de fora. El-rei acudiu-lhe, tomando-o
pela mão, e tirando-o com valente pulso

para a margem. Lopo Rodrigues, a fim de que os seus descendentes lessem este
caso no mármore do seu

brasão de armas, pediu a el-rei que lhe mandasse reformar o escudo
em lembrança de tal sucesso.

E assim lhe foi debuxado o escudo: Em campo verde uma ribeira de prata ondeada.
Desta ribeira emerge um braço vestido de azul, do qual pega outro vestido
de brocado com Letras de negro que dizem REI.

Este braço real sai da banda direita do escudo, na esquerda está
uma estrela de ouro de oito raios, e no canto direito de baixo uma flor-de-lis
de ouro. Timbre o braço vestido de azul com a estrela nas dedos. A
carta foi registada no , no ano de 1574.

Marcial fez rir os Romanos à custa de um genealógico esquadrinhador
de tal casta, que, não tendo já

humanas gerações que espanejar do lixo dos séculos,
entrou a deslindar os remotos avoengos de uni

cavalo chamado Herpino. Passarei também às coudelarias quando
o brasão subir da tenda ao sport, e

derivar dos especieiros esparramados às bestas elegantes.

O Veríssimo era Mesquita pela mãe, que não conhecera.
Também florira da cepa ilustre dos Mesquitas de Vilar de Maçada;
mas o Norberto, achando-a em flagrante adultério com um primo Pizarro,
anavalhou-a mortalmente, escondeu-se, fugiu com o Junot no regimento do conde
da Ega, e quando voltou estava esquecido o caso.

Em 1827, o Veríssimo estudava em Coimbra humanidades para seguir a
jurisprudência. Era bom estudante, aplicado e sério. Em 28 teve
uma vertigem política. Fez-se caceteiro do partido dominante, quis
atacar na Ponte a punhal os estudantes presos no Cartaxo como salteadores
assassinos. Perdeu o hábito de estudar e a compostura de que fora exemplo.
Em 29, abandonou a Universidade e assentou praça em infantaria. Quando
o Porto se fechou, era sargento aspirante e bravo. Numa das primeiras surtidas
dos liberais, foi ferido numa perna; e, apesar de coxo levemente, não
quis a baixa nem a reforma. Era um bonito homem, rosto oval, olhos de rara
beleza, nariz ligeiramente aquilino. Diziam-lhe que era o vivo retrato de
D. Miguel, aperfeiçoado pelo desaire de coxear.

Depois da convenção, Veríssimo Borges recolheu a Alvações
do Corgo, onde encontrou o pai num grande abatimento de tristeza e de recursos.
A sua lavoura de vinho era pequena. Privado do ofício e malquisto como
ladrão, o representante de Lopo Rodrigues socorria-se à beneficência
de uma irmã, a D. Águeda, viúva de um major de milícias
que morrera no ataque ao forte das Antas. O convencionado. naquela estreiteza
de meios, quis voltar à fileira; mas o pai negou-lhe a licença,
arguindo-lhe a baixeza de sentimentos, em querer servir o usurpador, e citava-lhe
as cortes de Lamego. O Veríssimo, argumentando contra estas cortes,
alegava que antes queria encontrar na casa de seu pai, em vez das velhas instituições
de Lamego, os modernos presuntos da mesma cidade.

O Norberto gabava-se de que na sua geração, Camelo liberal
não havia um só, e que a sua maldição pesaria
como chumbo derretido sobre a cabeça do filho que perjurasse a bandeira
do trono e do altar.

A tia Águeda, a viúva do major, tinha pouco. Desde 1828 até
1833 gastara seis mil cruzados em festejar os natalícios e as vitórias
do Sr. D. Miguel com banquetes e iluminações que duravam três
noites, num delírio de bombas reais e foguetes de lágrimas,
com adega franca. Mandava cantar Te-Deum na igreja de Alvações
assim que no pais vinhateiro soava a notícia de alguma vitória
do exército fiel. Ora, os realistas, a contar por cada Te-Deum de Alvações.
entravam no Porto às quinzenas para saírem por uma bªarreira
e voltarem logo pela outra. D. Águeda começava a desconfiar
que o Deus de Afonso Henriques voltara a casaca.

Restava-lhe pouco; mas não queria que o Veríssimo se fizesse
malhado. Sacrificou-se à honra da família, levou-o para casa,
deu-lhe mesa farta, e consentiu que o vadio se mantivesse regaladamente, de
papo acima, tocando flauta, a trasfegar em si o resto da garrafeira. Aconselharam-na
que ordenasse o sobrinho, visto que ele já tinha exames de latim e
lógica. O Veríssimo disse que sim, que queria ser padre. Tinha-se
esclarecido nos encargos do ofício, observando a vida sossegada e farta
dos párocos.

Um seu parente, o abade de Lobrigos, tinha liteira, parelha de machos, matilha
de cães e hóspedes na sua residência episcopal. Outros,
com menos rendas, eram ainda invejáveis; um viver espapaçado
em doce moleza, inofensiva, com grande estupidez irresponsável, um
regalado epicurismo. Veríssimo achou que, se não pudesse ser
bom padre, havia de pertencer à maioria; e, se desse escândalo,
um de mais ou de menos não perturbaria a ordem das coisas. Os seus
amigos e parentes abundavam no dilema.

D. Águeda fazia concessões à fragilidade do clero; –
que seu sexto avô também fora bispo e pai de sua quinta avó,
por Camelos. O parente abade de Lobrigos, em confirmação das
preclaras linhagens de coitos sacrílegos, afirmava que a sereníssima
casa de Bragança descendia de padres pelo pai de D. Nuno Alvares Pereira,
que era prior do Crato, e pelo avô, o padre Gonçalo, que fora
arcebispo de Braga; e que os condes de Vimioso e Atalaia, e todos os Noronhas,
oriundos de certo arcebispo muito devasso de Lisboa, e muitas outras famílias
da corte descendiam de prelados. Estas genealogias orientavam o Veríssimo
no futuro do sacerdócio. Queria ser abade, ressalvando tacitamente
certas condições a respeito dos rebanhos e particularmente das
ovelhas.

Em Outubro de 1835 foi para Braga. Tinha trinta anos: sentia o cérebro
moroso na digestão da teologia, andava enfastiado e triste. Acaso encontrou
um camarada, sargento do mesmo regimento, o Torcato Munes mias, que andava
a estudar para procurador de causas. Eram inseparáveis, identificaram-se
numa intimidade de tasca e de alcoice. O Veríssimo nunca mais abriu
compêndio nem o outro um processo. D. Águeda mandava regularmente
a mesada, e perguntava-lhe quando cantaria a missa.

Em 1836 apareceu no Algarve a poderosa guerrilha de José Joaquim de
Sousa Reis, o Remexido, em São Bartolomeu de Messines. Os dois ex-sargentos
alvoroçaramse com a notícia e resolveram apresentar-se ao formidável
candilho. Veríssimo pediu à tia uma quantia mais avultada para
pagar as últimas despesas do sacerdócio. A velha mandou-lhe
o preço de uma vinha vendida e a sua bênção. Os
aventureiros partiram para o Algarve. O general recebeu-os nos braços,
e deu-lhes divisas de capitães. Veríssimo Borges escreveu ao
pai, a dar-lhe parte do seu heróico destino: que advogasse a sua nobre
causa na presença da tia Águeda, e lhe dissesse que ele não
podia largar a espada vencida enquanto visse no campo brilhar o ferro de um
realista. Que o general Sousa Reis estava destinado a repor o Sr. D. Miguel
I no trono, ou ser o último a morrer em sua defesa; que ele e um seu
amigo e camarada tinham saído de Braga juramentados a morder o pó
onde caísse o seu general. Que eram já comandantes

de companhias, e tinham duas carreiras abertas – uma que levava à
glória, outra à sepultura – que também era uma
glória morrer pela pátria.

José Joaquim, o Remexido, era um bem figurado homem de trinta e oito
anos. Nascera em Estômbar, estudara para clérigo no seminário
de Faro, e distinguira-se em perspicácia e subtileza na percepção
das teologias. O amor inutilizou-lhe o talento aplicado a um pacífico
e humaníssimo destino. Viu uma esbelta moça de São Bartolomeu
de Messines quando aí foi pregar um sermão, sendo minorista.
As serenas visões do levita deslumbrou-lhas a formosa algarvia. Não
hesitou entre o amor da humanidade e o culto egoísta da família.
Casou, e de homem estudioso e contemplativo, volveu-se lavrador, lidou rudemente
nas searas, e redobrou de esforços à proporção
que os filhos lhe multiplicavam o amor e os cuidados.

Insensivelmente compenetrou-se da paixão política. Nesta província,
onde em 1808 estalou o primeiro grito contra o domínio francês,
a liberdade proclamada em 1820 abriu um abismo entre duas facções
que por espaço de dezoito anos se despedaçaram. José
Joaquim de Sousa Reis alistou-se entre a clerezia de quem recebera as boas
e as más ideias, e manifestou-se em 1823 um ardente sectário
das más, perseguindo os afeiçoados à revolução
do Porto. Em 1826 emigrou para Espanha, e voltando em 1828 extremou-se entre
os aclamadores do rei absoluto. Daí em diante, receoso das retaliações,
não teve mais uma hora de remansoso contentamento nem abriu mão
da espada tão afoita quanto cruel.

Logo que o duque da Terceira aportou com a divisão expedicionária
às praias da Lagoa, em 24 de Junho de 1833, Sousa Reis com alguns cúmplices
foragiu-se nos recôncavos do Penedo Grande, cujas veredas montanhosas
conhecia. Deixou mulher e filhos, na primeira flor dos anos, inculpados idas
paixões de seu pai, fiados na generosidade dos vencedores e na própria
inocência. A vingança fez represálias na família
do fugitivo. A mulher e os filhos foram espancados pela tropa, depois do roubo
e do incêndio da sua casa de Messines. O leão, como se ouvisse
bramir os cachorrinhos nas garras do tigre, irrompeu da caverna, precipitou-se
dos penhascais à frente da sua alcateia, e atacou Estômbar com
irresistível ímpeto. Estava ai a sua família sob a pressão
das baionetas que a vigiavam como armadilha à queda do guerrilheiro;
mas a tropa não pôde resistir à fúria de pai. Ele
atirava-se às descargas, abrindo com a espada a vereda do seu ninho.
Os inimigos que o viram nesse dia conservaram longo tempo a lembrança
da sua catadura transfigurada pela desesperação. E todavia era
um homem gentilíssimo. Depois, senhoreou-se de povoações
importantes do Algarve e estendeu até às fronteiras do Alentejo
os seus domínios. Moveram-se contra ele muitos regimentos de primeira
linha e de batalhões da guarda nacional. Ele tinha adoecido de fadigas
incomportáveis, e descansava com algumas centenas de homens num desfiladeiro
da serra, chamado a Portela da Corte das Velhas. Ai o atacou uma coluna de
caçadores 5. O Remexido, afinal, faltou-lhe a coragem de se fazer matar.
Viu talvez a mulher e os filhos, entre a sua agonia e as baionetas. Deu-se
à prisão, e cinco dias depois era arcabuzado em Faro.

O regimento em que eram capitães o Veríssimo e o Nunes dispersou,
e eles, claro é, fugiram à maneira dos muito discretos e bravos
generais de que rezam os fastos militares

O pré dos guerrilhas devia ser quantia diminuta, uma bagatela ridícula,
que não merecia a pomposa qualificação de ladroeira.
Como não tiveram tempo de fazer o pagamento, retiraram-se com o cofre
nas algibeiras. É o que foi, e a história não pode dizer
outra coisa. Queria talvez o major de Vila Verde, o denunciante de Braga,
que eles andassem à carta das praças dispersas pelas montanhas,
a repartir os quatro vinténs diários e o vintém do munício!

Veríssimo foi para Alvações e Nunes para São
Gens.

O Norberto morreu por esse tempo de uma congestão cerebral; alguém
diz que o esganaram na cama dois malhados de Lobrigos contra os quais ele
tinha jurado em 28. D. Águeda recebeu o sobrinho carinhosamente. A
herança do pai estava empenhada; foi à praça; sobejaram
uns novecentos mil-réis e a casa com as armas, pagas as dívidas.
O Nunes dizia-lhe da Póvoa que andava por lá miserável,
um piranga, na gandaia; que o pai dava-lhe um caldo de feijões e o
tratava como um cão vadio. Que, depois da partida do Algarve, não
tinha com quem praticar em Braga para solicitador, nem tinha que vestir. O
Veríssimo chamou-o para Alvações com generosidade. Vestiu-o,
e dava-lhe meios para ele poder estudar em Vila Real, com advogados miguelistas,
que o estimavam muito.

A velha passava os dias a chorar entre o retrato do defunto major e o do
Sr. D. Miguel das iluminações, que se parecia muito com o sobrinho.

No Inverno de 1840, D. Águeda morreu de uma indigestão de castanhas,
complicada com enterite crónica e saudades da realeza. Deixou ao sobrinho
a casa, as vinhas muito delapidadas; e o retrato do Sr. D. Miguel às
freiras de Santa Clara de Vila Real e mais dez moedas de ouro com a condição
de lhe acenderem quatro velas de cera no dia dos anos de Sua Majestade.

Veríssimo viveu então largamente. Fez-se chefe de partido nas
redondezas de Alvações do Corgo, onde era conhecido pelo capitão
Veríssimo. Deitou cavalo e mochila; jogou rijo dois anos na Feira de
Santo António, em Vila Real, e perdeu tudo. O Nunes, que já
solicitava causas na Póvoa, repartia com ele dos seus proventos muito
escassos, porque o juiz e os escrivães faziam-lhe guerra implacável,
e as partes fugiam dele.

O Veríssimo saiu de Alvações, onde não possuía
palmo de terra; e, como tinha boa forma de letra, ofereceu-se para amanuense
a um tabelião de Alijó. Ganhava três tostões por
dia e jantar. Como era boa figura, a mulher do tabelião, uma trigueira
de má casta, entrou a compará-lo com o marido, que tinha os
dentes muito lurados e os olhos tortos. Mas o tabelião viu as coisas
pelo direito, e pôs o amanuense na rua, e a mulher em lençóis
de vinho, dizia-se. Veríssimo conhecia o capitão-mor de Murça,
o Campos, uni hebreu realista, muito abastado.

Ofereceu-se-me para escudeiro e foi aceite com bom ordenado. O capitão-mor
era viúvo; mas tinha uma governanta fresca, de uma fome de pecado irritada
pela indiferença judaica do amo em matéria de religião.
O Veríssimo tinha a fatalidade femeeira do seu Sósia, do Sr.
D. Miguel. O capitão-mor, com o seu fino olho de raça, lobrigou
as sentimentalidades da rapariga. Pagou generosamente ao escudeiro, e impô-lo.
Voltou ao Douro, e procurou o amparo de um realista poderoso, o António
de Melo, de Gouvinhas, o pai do Sr. Lopo Vaz, um grande ministro liberal cheio
de embriões de coisas, O fidalgo de Gouvinhas nomeou-o feitor das suas
quintas. Estava regalado; feitorizava pouco; o fidalgo admitia-o às
suas palestras íntimas de política; mas um sobrinho do Melo,
um valente navalhista que chamavam em Coimbra o Malagueta, ganhou-lhe ódio,
por ciúmes de uma tecedeira chibante, uma raparigaça de tremer,
de quadris roliços, a Libânia de Covas. Travaram-se de razões.
O Malagueta correu sobre ele com um punhal. Veríssimo acobardou-se
na sua posição dependente e despediu-se.

A Libânia tinha cordões e umas moedas ganhas com o pudor diluído
no suor do seu bonito rosto, a corso das algibeiras copiosas dos vinhateiros.
Seguiu-o para o Porto em 1844. O neto do bispo D. João Camelo abriu
uma escola de primeiras letras em Miragaia. Ao cabo do primeiro mês,
dava pontapés impacientes nos garotos, andava ralado, não podia
com aquela bestialidade da instrução primária. A Libânia
queixou-se um dia de dor de dentes. Foi uma inspiração. O Veríssimo
resolveu fazer-se dentista, e foi estudar com o Pinac, à Rua de Santo
António, um bom homem. Andava neste tirocínio, quando encontrou
no Tívoli, defronte da Biblioteca, o Nunes. A Libânia gostava
muito de resvalar pela montanha russa, dava umas risadas argentinas, batia
as palmas e queria montar os cavalos de pau que giravam no jogo da argolinha.

Quando se encontraram, o Torcato vinha pedir-lhe dinheiro. O pai tinha morrido,
deixando a casa ao outro irmão. Estava casado, e tinha dois filhos.
Queria ir tentar a fortuna ao Brasil, trabalhar em mangas de camisa, se fosse
necessário. O Veríssimo respondeu-lhe que o único favor
que lhe podia fazer era tirar-lhe um dente de graça. Confidenciou-lhe
as suas misérias mais íntimas; que aquela boa rapariga tinha
gasto com ele quinze moedas e vendera o seu ouro; mas, tão generosa,
tão honrada que nunca lhe vira no rosto uma sombra de tristeza. Que
estava resolvido a ir estabelecer-se corno dentista na província, logo
que pudesse comprar o estojo, que custava 12$000 réis, e não
os tinha.

– Se os não tens – disse o Torcato – minha mulher
tem um cordão que pesa três moedas; para mim não lho pedia;
mas para ti vou buscá-lo amanhã. – E acrescentou, de excelente
humor: – Deus permita que na terra onde te estabeleceres sejam tantas
as dores de dentes que não tenhas mãos nem queixos a medir.

Saíram alegres do Tívoli. Sentiam-se bem aquelas duas organizações
esquisitas. Havia ali duas almas que se amavam deveras, dois náufragos
a quererem chegar um ao outro a mesma tábua de salvação.
É nestes esgotos sociais que ainda, uma vez por outra, se encontram
Pílades e Orestes.

O Veríssimo morava atrás da Sé, na Rua da Lada, uma
casa de um andar, muito empenada, com o peitoril de ferro de uma única
janela desencravado de uma banda, e uma porta viscosa e negra corno a boca
de um antro. Cearam todos. Havia cabeça de pescada cozida com cebolas,
sardinhas fritas e pimentões. O Nunes foi buscar duas garrafas da companhia
de tostão à Rua Chã, e enfiou no braço uma rosca
de Valongo, que comprou na bodega da Caçoila, uma esmamaçada
com cordões de ouro, que frigia peixe à porta e dava arrotos.

Cearam numa estúrdia de rapazes, como em Braga, nove anos antes, na
tasca do Catrâmbias, na Rua do Alcaide. A Libânia de Covas muito
larachenta – que levasse o Diabo paixões, e mais quem com elas
medrava; que, em se acabando o dinheiro, faziase cruzes na boca; mas que deixar
o seu Veríssimo, não o deixava nem à quinta facada.

– Nós devíamos ir todos para o Brasil – lembrou
o Torcato, que tinha meditado num recolhimento extraordinário.

– E chelpa? – perguntou a Libânia.

– Se tu quiseres, Veríssimo, dentro de um mês temos um
conto de réis.

– Boa!... –disse o outro.–Bem se vê que as duas garrafas
deram o que podiam dar – uma fantasia de um conto de réis. Por
dois tostões é barato.

– Estás disposto a ouvir-me sem interrupção de
chalaça? Eu não estou bêbedo, palavra de honra!

Libânia pôs a face entre ais mãos e os cotovelos na toalha
suja de vinho e migalhas, com os olhos muito fitos e rutilantes na cara do
Nunes. O Veríssimo atirou com as pernas para cima da banca, acendeu
um charuto de dez-réis e disse que falasse à vontade.

– Tu sabes que te pareces muito com D. Miguel?

– Começas bem. Temos asneira.

– Mau! Não me fales à mão.

– Já sei onde queres chegar. Vais dizer-me que me faça
aclamar rei, e, para evitar efusão de sangue, venda a minha sobrinha
D. Maria II os meus direitos à coroa por um conto de réis. Dou-os
mais em conta.

– Adeus minha vida! – retrucou o Nunes impaciente. – Amanhã
conversaremos.

– Deixa falar o homem! – interveio a Libânia. – Ora
diga lá, é sê Nunes.

O Torcato expôs a sua teoria do conto de réis, desfez atritos,
removeu dificuldades, convenceu afinal. Tinham de partir para o Alto Minho,
os dois. Libânia iria para Ramalde trabalhar nos teares da Grainha,
que lhe dava comida, cama e doze vinténs por dia. Venderiam a um adeleiro
da Rua Chã os trastes para o Veríssimo se enroupar de pano piloto,
quinzena e calças com alguma decência, roupa branca, reforma
das botas cambadas, chapéu de feltro e um paletó de agasalho.

Na quinta -feira gorda, a Libânia, com exemplar coragem, foi para Ramalde.
A Grainha negociava em teias, ia vendê-las ao Douro, tinha visto em
Gouvinhas o limpo trabalho da rapariga, e quando a encontrou no Porto:

– Olhe, moça, quando quiser ganhar a vida honradamente, lá
estamos em Ramalde. Uma de doze, comer como eu e lençóis lavados
na cama.

O Nunes e o Veríssimo foram juntos até perto de Braga. Aí,
o de Calvos seguiu para casa, e o outro no sábado gordo partiu para
a Póvoa de Lanhoso.

Capítulo XI

O Torcato, antes de entrar em casa, foi à residência. Ia misterioso,
circunvagava uns olhares cautelosos: – se ninguém o ouviria?
– perguntava ao abade Mairos.

E o abade, entrepondo as cangalhas nas páginas do breviário:
– Pode falar, que estou sozinho. Que é?

– D. Miguel I está em Portugal – disse, curvando-se-lhe
ao ouvido, com uma voz gutural.

– Você que me diz?! Como sabe isso? Pataratas!

– Chego agora do Porto; estive com o escrivão fidalgo, o Ferreira
Rangel, e com o abade Gonçalo Cristóvão. El-rei está
nesta província. Desconfia-se que é em Braga, e o José
Alvo Balsemão disse-me que talvez eu o visse brevemente no nosso concelho,
porque o levantamento há-de começar por aqui.

– Que me diz você, amigo Torcato? – sacudia os braços,
fazia estalar os dedos como castanholas, tinha gestos mudos de exultação
extática – que ia escrever ao abade de Priscos, que indagasse,
que aparecesse... – É preciso trabalhar, preparar os ânimos...

– Chitão! – acudiu o Nunes com o dedo a prumo sobre o
nariz. – Nada de espalhafato! Não ferva em pouca água,
abade. Se der à língua, esbarronda-se o negocio. O rei só
há-de aparecer aos seus amigos quando os generais entrarem pela Galiza.
Não fala a ninguém; não se dá a conhecer. Diz
que só falara em Lisboa com o conde de Pombeiro e com o Bobadela, e
no Porto com o José António, o morgado do Bom Jardim, e mais
com o padre Luís do Torrão... O abade conhece.

– Pois não conheço? como as minhas mãos; é
o vice-rei nas províncias do norte... o nosso bom padre Luís
de Sousa, que pelos modos está nomeado patriarca de Lisboa... Que pechincha,
hem?

– É esse mesmo... Bem! até logo; vou ver a mulher e os
filhos a casa, que ainda lá não fui. Um abraço, amigo
abade! Parabéns! A choldra vai cair! Vida nova! Daqui a um mês
está todo esse Minho em armas, e ei rei à frente dos seus vassalos.
Outro abraço, e viva el-rei!

Lágrimas jubilosas, como contas de vidro sujas, tremeluziam nas pálpebras
inflamadas do abade.

– Jante comigo, Nunes, jante comigo! Vai-se abrir uma de 1815, à
saúde de el-rei!

– Parece que me estoira a pele! Não estou em mim! — Que
ia ver a mulher e que voltava já.

Na noite de sábado para domingo de Carnaval, o Veríssimo pernoitou
na Póvoa de Lanhoso, na estalagem do Relhas.

Disse ao estalajadeiro que era de longe e andava a viajar pela província.
Perguntou se por ali não se festejava o Entrudo. O bodegueiro informou
que na Póvoa havia guerra de laranjadas e às vezes pancadaria
de Senhor Deus misericórdia; mas que na freguesia de Calvos havia comédias
nos três dias de Entrudo, por sinal que o seu filho, um barbado que
ali estava, com uma cara angulosa muito alvar, fazia de namorado no Médico
Fingido, um entremez, coisa rica, que era de um homem malhar de costas naquele
chão a rir – que se ele quisesse ver as comédias, podia
ir com o seu rapaz, que lhe arranjava lá una cadeira de casa do abade.

O cenário para a representação do Médico Fingido
arranjou-se na eira do Gonçalves, muito espaçosa e ajeitada,
porque as figuras entravam e saiam, conforme a rubrica, do palheiro que tinha
três portas. O palco, barrado de ferro, ainda húmido, estava
ao abrigo de cobertas de chita alinhavadas umas nas outras, retesadas nas
pontas por postes de pinho que rematavam em forquilhas para receberem uns
varais lançados transversalmente. Havia dois mastros de castanheiro
descascados, afestoados de buxos, alecrim e camélias, coroados por
bandeiras vermelhas esburacadas. Parte dos mastros tinha uma lista em ziguezague
pintada a zarcão, que se ia espiralando pelo pau acima, com cercadura
de cruzinhas: – era obra de Cheta, um trolha inspirado que já
tinha pintado um painel das Alminhas, onde havia almas do sexo fraco com grandes
tetas lambidas por labaredas, e um rei coroado com a boca aberta ao acto de
berrar queimado, e tamanha boca que só cedia à de um bispo mitrado,
muito empertigado, com o seu báculo. O trolha ensaiara o entremez,
e não entrava, porque lhe tinha morrido o pai, havia quinze dias, contava
ele a um senhor de fora, desconhecido, que tinha vindo com o galã,
o filho do estalajadeiro da Póvoa.

O Veríssimo foi admitido aos camarins, onde estavam sentados, em caixas
de milho e na salgadeira, os figurantes à espera da sua vez, já
vestidos. Viam-se os personagens do entremez. Matilde, amante de Alménio,
uma ingénua, a protagonista da peça, a doente namorada, que
levou o pai a trazer-lhe a casa o amante, o médico fingido. Este papel
fora confiado a um latagão oficial de carpinteiro, com os pulsos cabeludos
e os nós dos dedos com umas protuberâncias calosas que pareciam
castanhas piladas antigas. Nas maçãs do rosto mascarrara duas
zonas de carmim, que pareciam a distância umas chagas de mendigo de
romaria aperfeiçoadas. Trajava um vestido de cetim branco da fidalga
velha de Rio Caldo, feito em 1824 para um baile que houve em Braga aos anos
de D. João VI. O peito chato do carpinteiro ficava à altura
dos quadris da fidalga, e as clavículas espipavam as ombreiras do corpete,
prendendo os movimentos ao desgraçado Matilde. Posto que a cena fosse
a Casa de Astolfo, pai da doente fingida, a

velhaca estava de chapéu de palhinha com enorme telha enconchada e
plumas brancas muito amarelecidas do mofo. O vestido era-lhe curto, mas lucravam
com isso as pernas, que se deixavam ver até acima do jarrete, cingidas
de fitas cruzadas que subiam de uns sapatos de duraque sem tacões,
feitos de propósito e em concordância com os ângulos reentrantes
e salientes dos pés. Era o grotesco do horror. A criada de Matilde,
a Laberca, também vestia de cetim azul-ferrete, um pouco menos antigo,
empréstimo das senhoras de S. Crau, que o assoalhavam de vez em quando
para os entremezes. Não tinha chapéu nem sapatos de duraque:
obedecia mais à caracterização natural. Na cabeça
usava touca de folhos com laços de fita escarlate e nos pés
os butes do amo com ponteira de verniz; ele era o criado do juiz de direito
substituto; gozava créditos de representar papéis de lacaia
fazendo rebentar a gente.

O Veríssimo fez os seus cumprimentos às duas damas, e manteve
uma seriedade verdadeiramente real. O Alménio era o filho do estalajadeiro
da Póvoa de Lanhoso, o Relhas. Calças brancas, quinzena de veludilho,
bengala de castão de prata, chapéu branco de castor e óculos.
Disse ao Veríssimo que punha os óculos para fingir de médico.
Estava a um canto o galego, o Gonçalo, aguadeiro da casa. Como não
havia em Calvos o costume rigoroso dos aguadeiros, o trolha ensaiador vestiu-o
de almocreve, com as botas refegadas, faixa branca e em mangas de camisa,
com uma monteira comprada em Tui. A cara era ao próprio, de uma verdade
típica. O Pantufo, um saloio rico que queria casar com Matilde, e foi
bigodeado pelo fingido médico, vestia a melhor andaina de fato do presidente
da câmara, um apaixonado pelos entremezes, que a gravidade idas suas
funções impedia de representar; mas emprestava a roupa e a inteligência
dramatológica. Havia mais duas figuras, o Falsete, e o Astolfo, que
se estavam vestindo lá dentro, por detrás de um ripado, que
os deixava ver em camisa enfiando as pernas sujas nas pantalonas, enquanto
o trolha lhes rebocava de vermelhão as caras.

O Nunes atravessara a eira, e endireitara para o palheiro, quando lhe disse
o Gonçalves que estava lá dentro um fidalgo de longe. Encostou-se
ao batente da porta, trocou um lance de olhos com o Veríssimo, e saiu
apressadamente, arranjando pelo caminho uma fisionomia cheia de alvoroço,
de surpresa.

Entrou pela residência, muito esbofado:

– O abade, já esteve na eira do Gonçalves?

– Não; estou a acabar de jantar, e lá vou ver essa borracheira
de comédia. Você vem aganado!

– Vinha perguntar-lhe se conhece um sujeito de fora que lá está
na eira.

– Aqui veio um rapazola da Póvoa pedir-me uma cadeira há
coisa de meia hora para um fidalgo que tinha vindo com ele. Perguntei-lhe
quem era o fidalgo. Diz que não sabe. Esta canalha em vendo um bigorrilhas
de casaco chama-lhe fidalgo.

– Venha já daí comigo. Por quem é, não
se demore... O abade, lembra-se de ver el-rei em Braga há treze anos?

– Ora se lembro!... Beijei-lhe a mão três vezes.

– E, se o vir agora, conhece-o?

– Parece-me que sim – o padre limpava à pressa os beiços
amarelos dos ovos do arroz-doce. – Mas isso que quer dizer? Você
está doido, ou temos carraspana, amigo Nunes?

– Homem! venha comigo, e depois chame-me doido ou borrachão,
lá como quiser; mas não se demore que eu estou em brasas vivas.

– Aí vou, aí vou, não se atrigue. Vai uma pinga
do choco?

– Venha de lá isso. – Bebeu de um trago, e pediu outro:
– Agora, à saúde de el-Rei! à saúde daquele
que talvez esteja bem perto de nós! a cem passos!

– Toque! – exclamou o abade.

Pelo caminho, disse-lhe o Nunes que era preciso o maior disfarce, não
olhar muito de frente para ele, e só deviam falar-lhe se a ocasião
viesse muito a jeito.

– Você está a sonhar, homem!

Quando entraram à eira, já tinia começado a festa. Veríssimo
estava em pé, com a mão direita apoiada nas costas da cadeira.
De um e de outro lado remexia-se a turba, muitas raparigas a rirem dos actores
vestidos de mulheres, e uns rapazes com chalaças de uma graça
aparvalhada, muito local, a que os do palco respondiam à letra com
manguitos, e os que faziam de mulheres batiam palmadas no traseiro, voltando-o
para o público. Cães ladravam às figuras; os rapazes
davam-lhes pauladas e eles ganiam. As velhas mandavam calar o gentio para
poderem perceber as faias: – Canalha brava, calaide-vos aí! –
Uma balbúrdia que parecia um teatro de cidade de primeira ordem. O
tio Gonçalves, o dono da eira, dizia que estavam todos bêbedos,
e voltava-se para o desconhecido, como a pedir desculpa.

– É Entrudo – dizia – é Entrudo, senhor!

Quando apareceu o padre na cancela da eira, houve silêncio com algumas
fungadelas de riso das cachopas, e recomeçou a comédia em obséquio
ao abade e à Arte ultrajada pela hilaridade bruta da plateia. Notaram
alguns velhos sisudos que o forasteiro das grandes barbas se mantivera muito
sério durante a troça da canalha. Assim o dizia o Gonçalves
ao abade, perguntando-lhe se conhecia aquele senhor.

– Não conheço – e acotovelava o Nunes, segredando-lhe
com o disfarce:

– Você adivinhou. É ele.

– Que me diz, abade?

– É ele.

O Veríssimo dera três passos para acender um cigarro no de um
músico que estava sentado num bombo.

– E ele! – repetiu o abade. – Você não o viu
coxear?

– Fale baixo, fale baixo, e não olhe muito para ele, que eu
já o vi deitar-nos os olhos – acautelou o Nunes.

– Também eu...

Estalou neste momento uma gargalhada geral. Veríssimo também
se riu, e deu palmas.

– Olha! olha! a dar palmas! – notou o abade com transporte. Aquilo
sensibilizou-o até às lágrimas! O Sr. D. Miguel I a dar
palmas às figuras do Médico Fingido, na eira do Gonçalves,
em São Gens de Calvos! Tocante!

A risada geral, as palmas e os apupos não eram figorosamente uma ovação
ao autor do entremez nem aos curiosos. Eis o caso. Na cena I o Astolfo pede
carinhosamente à filha que coma alguma coisa. Matilde diz que não
pode, que não está em si; que lhe acuda, que lhe acuda, porque
um suor frio lhe faz perder os sentidos.

O gargajola esperava ser amparado pelo outro, em harmonia com a rubrica que
diz: Finge desmaio, e Astolfo a sustém nos braços. Mas ou porque
se antecipasse a desmaiar, ou porque Astolfo se demorasse a ampará-la,
Matilde escorregou de costas sobre o barro ainda fresco do palco; e, no acto
de se erguer debaixo dos apupos da multidão, arregaçaram-se-lhe
as saias e saiotes até à cintura. Ora a Matilde não usava
calcinhas. Um escândalo.

Veríssimo Borges não pôde sustentar a gravidade competente
à sua pessoa. A natureza rebentou por de fora numas casquinadas convulsas
que poderiam custar-lhe uma mocada, se a deflagração do riso
não fosse geral.

Matilde fugiu do palco, enfiou pelo palheiro e não voltou à
cena. O ensaiador, o trolha, saiu ao terreiro a explicar ao público
a suspensão do entremez nestas palavras:

– Aquele alma do Diabo despiu a farpela, e diz que raios o parta, se
cá tornar. Vocês pode ir à sua vida que não há
hoje treato.

Começou a debandar o auditório em grande algazarra. Veríssimo
parecia esperar que o galã, o Relhas Júnior, se despisse para
se retirar. O Gonçalves perguntava-lhe:

– E que tal esteve a chalaça, senhor? Má mês pr'ó
home, que se mais tivesse mais punha ó léu! – e voltando-se
para o abade, que, a pedido do Nunes, guardava respeitosa distância:
– Ó Senhor Abade! coisa assim não consta! Eu, se me sucedesse
uma daquelas, metia a cabeça num fole.

– São acasos – disse Veríssimo com indulgência.
– Não se lembrou que estava vestido de senhora.

O abade ganhou ânimo, abeirou-se do Gonçalves, cumprimentando
o outro cerimoniosamente, e disse:

– O entremez não presta para nada. Se o homem não caísse,
ninguém se ria.

– Provavelmente... – assentiu o Veríssimo, correspondendo
à cortesia do Torcato Nunes, que parecia aproximar-se mais acanhado.
– Estes casos de escorregar – acrescentou o desconhecido –
acontecem nos primeiros teatros do mundo e até nas salas onde se dança;
e de ordinário as senhoras que desastradamente caem, são verdadeiras
senhoras é muito pior e mais melindroso.

O abade e o Nunes com muitos gestos afirmativos – que sim, que era
muito pior, e mais melindroso, muito mais.

Derivou a conversação para as belezas naturais do Minho. O
desconhecido sentia ter vindo no Inverno, quando apenas se adivinhavam as
pompas da Primavera.

Principiava a chuviscar. O abade ofereceu a sua casa ao forasteiro, enquanto
não estiava a chuva. Veríssimo aceitou por momentos, visto que
não se prevenira com guarda-chuva – um traste que detestava.
Os aguaceiros repetiram-se com pequenas intercadências, varejados pelo
sul; por fim, as cristas da serrania empardeceram, as nuvens rolavam pelos
declives como escarcéus a despenharem-se, fechou-se o horizonte sem
uma nesga, e a chuva não parava. O abade não permitiu que o
hóspede saísse com tal tempo e já perto da noite.

Durante a ceia, apareceram algumas raparigas mascaradas com lençóis,
abraçando a Senhorinha que servia à mesa, e dizendo em falsete
pilhérias ao Nunes, a quem chamavam Trocatles e précurador de
causas perdidas. Veríssimo mostrava-se contente e dizia:

– Bom povo! excelente povo! Este Minho é o bom coração
de Portugal, e os seus habitantes, segundo me consta, possuem os melhores
corações do reino. Eram dignos de ser mais felizes do que são,
carregados por tributos, esmagados pelo peso dos empregados públicos,
que são o flagelo de Portugal..

O padre escutava-o com religiosa atenção; o Nunes beliscava
a coxa do abade, que tomam a presidência da mesa e pusera o hóspede
à sua direita.

No fim da ceia, o padre Marcos, com o copo na mão, e de pé,
disse que fazia uma saúde ao seu hóspede, porque lhe parecia
que tinha a honra de beber à saúde de um realista, de um partidário
de Sua Majestade o Sr. D. Miguel I, que Deus guardasse! O hóspede agradeceu,
declarando que mesmo numa roda de liberais não negada os seus sentimentos
políticos: que era realista, e como tal brindava à saúde
de todos os amigos do príncipe proscrito.

O Nunes dava canelões inteligentes e às vezes dolorosos no
abade, que o encarava de esconso como quem diz: – percebo; não
faça de mim asno; sei que estou falando com el-rei.

A criada deu parte que estava pronta a cama.

– Quando Vossoria quiser – disse ela ao hóspede.

Veríssimo sorriu-se agradavelmente:

– Que incómodo estou dando a esta excelente família...
Irei descansar, Senhor Abade, e Sr. Torcato... parece-me que lhe ouvi chamar
Torcato.

– Nunes Elas, um criado de vossa... – e susteve-se.

Dizia-lhe depois o abade no quinteiro:

– Você ia-se estendendo, Nunes! Esteve por um triz a dizer, um
criado de Vossa Majestade, não esteve?

– Por um triz, abade, que me estendia! Tal é a certeza de que
está el-rei nesta casa! – E com transporte, olhando para as janelas:
– Onde está pernoitando o Sr. D. Miguel I! o rei amado dos Portugueses,
na pobre residência de São Gens de Calvos! Isto parece um sonho!

A segunda-feira de Entrudo foi uni chover desabalado. Não houve entremez
nem se via viva alma no cruzeiro. O abade não consentiu que o hóspede
se retirasse; e, aconselhado por Nunes, mandou à Póvoa buscar
a bagagem. Era um baú de lata amolgado na tampa, com um cadeado roído
de ferrugem. O legitimista ainda não tinha dado nome algum, nem os
outros ousavam abrir ensejo a que ele tivesse de o inventar. Seria indelicadeza
obrigado a mentir. Além de que, o padre Marcos, tratando-o sempre por
senhor – o senhor isto, o senhor aquilo –, entendia que se aproximava
do tratamento que se deve aos reis, e ao mesmo tempo ia insinuando ao real
hóspede que já o conhecia.

– Bom é que ele se vá persuadindo que não somos
pategos – dizia o abade ao Nunes. – Sim, bom é que se persuada...
você percebe. – E piscava com esperteza.

– Ora, se percebo! O abade tem andado com uma cábula muito fina.
Eu é que me custa a ter mão em mim. A minha vontade era deitar-me
de joelhos aos pés dele, e dizer-lhe:

– Deixe estar – acomodava o padre – deixe estar, Nunes.
As coisas não vão assim... Quando for tempo, eu lhe direi...
Nada de espantar a caça.

O Veríssimo pediu ao abade algum livro para se entreter, e não
o obrigar a aturálo. O padre levou-o ao seu quarto, onde havia uma
estante de pinho com três lotes de livros. Mostrou-lhe o Punhal dos
Corcundas, a Defesa de Portugal, do padre Alvito Buela, a Besta Esfolada,
os Burros, e o Novo Príncipe. O Veríssimo levou-os para o seu
quarto, excepto os Burros; disse que não gostava de poesia. Falou com
louvor do padre José Agostinho e de Frei Fortunato de S. Boaventura
– colunas do altar e do trono, que tinham deixado dois vácuos
impreenchíveis na falange realista. Perguntou-lhe o abade se os tinha
conhecido pessoalmente. – Que sim, com as suas mãos... E sorria,
como o príncipe proscrito, se lhe fizessem semelhante pergunta.

– Que prazer teria o padre José Agostinho, se hoje vivesse e
pudesse ver el-rei!... – meditou o abade com a sua grande perspicácia
observadora.

– Decerto. – concordava o Veríssimo indolentemente. –
Mas quem tem agora esperanças de ver D. Miguel em Portugal?

– Eu, senhor, eu! – respondeu o padre, batendo na arca do peito
com as mãos ambas. – Eu!

O Veríssimo folheava o Punhal dos Corcundas, e parecia não
perceber a veemência do padre.

– Bons desejos, bons desejos do caro abade..

– E de quase toda a nação portuguesa, senhor! D. Miguel
I nunca deixou de reinar nos corações do seu povo. Eu tenho
na minha alma o retrato dele desde que o vi há treze anos em Braga
e lhe beijei as suas reais mãos! – Escandecia-se o entusiasmo,
punha as mãos, chamejavam-lhe nos olhos reflexos do fogo interno; e
o Veríssimo continuava a folhear o Punhal dos Corcundas.

– Então viu-o, abade?

– Sim, meu senhor, vi-o com estes olhos, toquei-lhe com estas mãos.

– Ainda se recorda das suas feições?

– Perfeitamente.

– Ah! se o visse hoje, decerto o não conhecia... Está
muito acabado.

– Conhecia, conhecia..

O abade sentiu um raio de dramatização que o vibrou todo. Eriçaram-se-lhe
os cabelos, e coou-lhe pela espinha uma faísca eléctrica. Fez
um passo atrás, e quando o Veríssimo repetiu: , o padre pôs
um joelho em terra, estendeu o braço direito, e com o dedo indicador
em riste, exclamou:

– Ei-lo! ei-lo!

– O abade! o senhor está alucinado! Por quem é, levante-se!
Eu não sou quem pensa!

– Estou como devo estar diante do meu rei! – teimou o abade,
com os dois joelhos no sobrado.

– Levante-se que vem gente! – dizia o outro, ouvindo passos na
escada.

Era o Nunes.

– Entre, amigo! – disse o abade, respondendo ao vizinho que pedia
licença.

Torcato encontrou o abade de joelhos e o Veríssimo esforçando-se
por levantá-lo.

– Ajoelhe a meu lado, Nunes! que eu estou aos pés de el-rei!
– exclamou o padre.

E o outro, ajoelhando:

– Eu já o sabia, Real Senhor!

Foi assim que se inaugurou a corte de D. Miguel I em São Gens de Calvos,
segunda-feira de Entrudo de 1845, às 3 horas da tarde.

Capítulo XII

Depois, bem sabem, senhores, como aquele padre Rocha despenhou abruptamente
o desfecho da farsa, cuidando que vingava a moral e punia com degredo o celerado
que infamava o sacratíssimo nome de el-rei D.

Miguel. No trânsito para a Relação, a meia légua,
na estrada do Porto, o Veríssimo, com delicadas maneiras e o seu aspecto
venerável, obteve que o sargento da escolta lhe permitisse alugar a
mula de um almocreve que seguia a mesma direcção. Cavalgou na
albarda da mula arreatada com chocalho, sem estribos; empunhou a corda do
cabresto, e ladeado de doze praças do 8, entrou ao cair da tarde em
Famalicão.

O Torres de Castelões, o administrador, legitimista no fundo, bom
lavrador, mandou-lhe cama para a cadeia e permitiu-lhe que ceasse com uni
amigo que o seguira de longe. Era o Nunes, o Pílades das horas certas
e incertas. Orestes estava desanimado; queixava-se das fantasias do outro,
considerava-se perdido.

– Pobre Libânia! – deplorava – quando ela souber
que eu estou na Relação!

Como tinha alguma prática do foro criminal, o Nunes consolava-o: que
não havia matéria para pronúncia; e, quando fosse pronunciado,
a Relação o despronunciaria.

– Eu é que vou ser o teu procurador, se me não prenderem
– acrescentava, muito confiado na lei e na sua actividade. – Quanto
à fantasia do conto de réis, já não falta tudo,
porque tens as cem peças das Botelhas. Se te deixam ser rei mais um
dia ou dois, tinhas nesta santa hora 3750$000 réis.

– Tu gracejas e eu vou esperar na cadeia uma sentença de degredo
– atalhou o Veríssimo, naquela estranha situação,
nunca experimentada, de ouvir os passes da sentinela rentes com a grade do
seu quarto.

Às oito da noite, fechara-se a porta da cadeia, e Nunes saíra
triste, com um pungitivo arrependimento de meter o amigo naquela rascada.

Ao escurecer do dia seguinte, o preso foi conduzido do Governo Civil do Porto
para a Relação com um mandado do carcereiro na baioneta do sargento.
Quando saía do Governo Civil, já Libânia e o Munes, que
se antecipara a procurá-la em Ramalde, o esperavam. A Libânia
era uma forte mulher para os trabalhos da vida. Fitou-o com um semblante aceso
de coragem, um sorriso afoito, e disse-lhe muito animosa:

– Alma até Almeida e de Almeida p'ra diente alma sempre!

Veríssimo ocupou o quarto de malta nº 2, com uma rasgada janela
sobre o Douro, um quarto cheio de luz e de sol, de onde tinha saído
o Gravito para a forca – elucidou o carcereiro, e mostrou-lhe no grosso
alisar da porta as iniciais de alguns padecentes com a data de 1829.

A Libânia e mais o Torcato pernoitaram na Estalagem do Cantinho, na
Rua do Loureiro, e passavam o mais do tempo na Relação. Ao fim
de seis dias já o Munes requeria a soltura do preso, por falta de nota
da culpa; mas a pronúncia chegou ao oitavo dia, da comarca da Póvoa.
O preso agravou para a Relação. Era juiz-relator do agravo o
conselheiro Fortunato Leite, natural do Douro, que, quinze anos antes, no
reinado de D. Miguel, tinha sido amigo de Norberto Borges, e lhe devera a
fineza rara de o avisar na véspera do dia em que lhe havia de cercar
a casa por ordem do facinoroso corregedor de Vila Real, o Albano, que os liberais
mataram, no meio de uma escolta, em 1836. Quando o relator folheava o processo,
os apelidos do preso, a naturalidade, os pormenores, sugeriram-lhe memórias
da sua perseguição em 1831, e o salvar-se tão extraordinariamente
pela amizade do meirinho-geral. Informou-se e evidenciou que o Norberto Horges,
de Alvações do Corgo, era pai do preso. Estava pois salvo o
filho do seu benfeitor, sem grande violência à justiça,
porque a pronúncia fora precipitada, irregular, as testemunhas citadas
– os padres suspeitos de frequentarem a residência de Calvos –
nada depuseram que provasse projectos revolucionários do agravante.

E lavrou o acórdão muito recheado de grifo: – Que agravado
era o agravante pelo juiz da comarca de Lanhoso, porquanto na pronúncia
de primeira instância haviam sido desprezadas as formalidades mais curiais,
pois que nenhuma testemunha depusera que o agravante se inculcasse D. Miguel
para perturbar a ordem constituída, chamando o povo à revolta;
e das respostas do agravante no interrogatório a que procedeu a autoridade
administrativa, constava que o preso quase que fora obrigado por um clérigo
estúpido e esturrado miguelista a deixar-se chamar D. Miguel I; mas
não constava nem se provava que o agravante se aproveitasse de tal
fraude e impostura para extorquir valores aos seus estúpidos cortesãos;
o que decerto praticada um gamenho decidido a fingir-se D. Miguel para os
espoliar. Que a pronúncia fora iníqua, atabafada apaixonadamente,
e sem base, visto que nada se colhia dos depoimentos das testemunhas, e apenas
se fez obra por hipóteses e indícios, fundada num rol de indivíduos
alarves, a quem o suposto monarca fazia mercês de comendas, de títulos,
de patentes e até de mitras, sem que daí resultasse alvoroto
nem leve perturbação na ordem pública, nem mesmamente
dano para os mencionados burros que pediam as mercês, e que deviam ser
pronunciados em primeira instância, se a corte de São Gens de
Calvos não fosse uma farsa de Entrudo.

E, dilatando-se filosoficamente e chistoso, o juiz-relator adicionava, aconselhando,
que seda bom e proveitoso que nas tenras selváticas do Minho se espalhassem
muitos Miguéis daquela casta e feitio até que os novos Sebastianistas
se convencessem de que somente assim poderiam arranjar um Miguel que lhes
desse comendas, títulos, postos militares e prelazias.

Os desembargadores, com o seu rapé engatilhado aos narizes, riram
muito do final do acórdão, e, sorvidas as pitadas sibilantes,
assinaram por unanimidade.

Reformada a sentença e pagas as custas pelo juiz da primeira Instância,
Veríssimo foi posto em liberdade; e, quando chegou ao escritório
do carcereiro Melo para se despedir, encontrou a Libânia de Covas desmaiada
de júbilo, nos braços da mulher do chaveiro. Como era feliz,
deixou-se ser mulher – chorou; e quando lhe cumpria dar ânimo
ao preso, no pátio do Governo Civil, riu-se com a valentia dos homens
extraordinários.

O conselheiro Leite recomendou ao Munes procurador que lhe mandasse a casa
o Veríssimo. O filho de Norberto apresentou-se timorato, receoso, com
maneiras submissas, mas dignas de um Borges Camelo infeliz.

O desembargador explicou-lhe que o chamara para lhe fazer conhecer a dívida
que lhe pagou, posto que as situações fossem muito diversas.
Improperou-lhe serenamente o seu delito; estigmatizou a acção
de permitir que o julgassem D. Miguel; falou acerbamente contra este tirano
parricida, incestuoso, canalha, e terminou por lhe aconselhar o trilho da
honra, o trabalho, e a expiação das suas irregularidades, mostrando-se
digno da compaixão que lhe inspirara, despronunciando-o. Veríssimo
beijou-lhe a mão, e recusou dez pintos que o conselheiro lhe dava –
que, se um dia necessitasse, lhos pediria. E o Fortunato Leite, a rir:

– Então as bestas dos abades sempre caíram? Fez você
muito bem. Devia esfolar essas cavalgaduras!

O Veríssimo recuava muito agradecido.

O conselheiro Fortunato exerceu uma enérgica influência vitalizadora
na nova encerebração de Veríssimo Borges e bastante na
do Torcato Munes Elias.

Por mediação do bondoso desembargador, obteve o Nunes alvará
de solicitador de causas nos auditórios do Porto. Ganhou boas relações.
Era esperto, zeloso e pagava-se regularmente. Chamou para a cidade a mulher
e os dois filhos Alugaram casa na Rua de Trás as duas famílias.
Davam-se muito bem, e gastavam economicamente os 750$000 réis das Botelhas,
de meias com os salários de procurador. O Veríssimo frequentava
à noite o café das Hortas, jogava o quino e, de vez em quando,
ia ao café da Rua de Santo António ouvir os demagogos dos manos
Passos, que o festejavam e catequizavam. Dava-se com os Navarros, com o Almeida
Penha, com os Peixotos vidraceiros Ele, sobpondo ao reconhecimento os escrúpulos
de espião, contava ao conselheiro Leite, cabralista intransigente,
os planos dos setembristas, os clubes, as lojas de carbonários, as
tramóias arranjadas em Braga pelo barão do Casal, muito setembrista,
padre Alves Vicente, de combinação com o Passos José,
com o Faria Guimarães, com o médico Resende, com o Damásio,
com o Alves Marfins. O governador civil, visconde de Beire, estava em dia
com as conspirações da Viela da Neta – aquele baluarte
da Liberdade que demorava paredes meias com os escombros do Deboche, não
grifado, muito à francesa; –tudo acabado hoje em dia, e soterrado
debaixo de uma loja de modas, de um café e de uma taverna – o
vitalismo soez e chato da decadência.

Veríssimo arrecadava uma gratificação, umas seis libras
mensais, mesquinha paga dos serviços que fazia à ordem, à
tranquilidade cívica da Rua das Flores e das Congostas.

Na contra-revolução de 9 de Outubro de 46, quando foi preso
o duque, José Passos encontrou o Veríssimo na Praça Nova,
chamou-lhe patriota, pôs-lhe a mão no ombro, sacudiu-o pelas
lapelas, e disse-lhe que movesse, que agitasse as massas, porque o duque estava
a desembarcar. Os sinos tangiam a rebate, a plebe ondeava para Vilar, num
restrugir de tempestade, quando o Veríssimo e o Nunes procuraram o
conselheiro Fortunato, que tiritava de medo com as suas enxúndias espapadas
entre as filhas, numa consternação. Disseram-lhe que se iam
armar para se constituírem sentinelas da segurança do seu benfeitor.
O conselheiro abraçou-os muito comovido, numa excitação
apopléctica.

Depois formaram-se os batalhões nacionais. Veríssimo e Torcato
foram promovidos a tenentes do batalhão da Vista Alegre. Quando foi
da refrega de Valpaços tinham compreendido inteligentemente que a retirada
de Sá da Bandeira, da veiga de Chaves, era a fraqueza precursora de
uma derrota. Conheciam o pérfido espírito do 15 e do 3 de infantaria
– previram a traição. Tinham pensado maduramente os dois
tenentes, sem entusiasmo, com a prudência dos quarenta anos apalpados
pelos reveses de vinte batalhas. Resolveram desertar quando os batalhões
de linha se passassem para as forças reais. Travou-se o encontro de
Valpaços. Com os dois regimentos que mim turbilhão e a gritos
de Viva a Rainha se abraçaram às vanguardas do Casal, também
eles, por debaixo do fogo do seu batalhão, se passaram, dando vivas
à Carta Constitucional. Eram a obra da prudência e do conselheiro
Fortunato Leite.

Quando o barão de Casal foi espostejar os miguelistas a Braga, os
dois tenentes apresentados pediram vénia ao general para servirem na
coluna do visconde de Vinhais; – que tinham repugnância de pelejar
cara a cara com os seus parentes bandeados nas guerrilhas do padre Casimiro
José Vieira e do padre José da Laje. A vergonha impunhalhes
o dever de doirar a mentira. Não lhes pareceu decente irem acutilar
nas mas de Braga o Cristóvão Bezerra, de Bouro, e o abade de
Calvos e o padre Manuel das Agras. Não poderiam ver sem mágoa
a soldadesca a dar saque aos dinheiros das senhoras Botelhas.

Ainda assim não puderam esquivar-se a perseguir os realistas da comitiva
de MacDonald, desde Vila Real até Sabroso; mas não desembainharam
as espadas, porque o visconde de Vinhais os admitiu ao seu quartel-general,
e os cadáveres que encontraram pela serra do Mezio até Sabroso,
onde pereceu acutilado o caudilho escocês, eram façanhas das
guardas avançadas. Os dois tenentes não deram nem tiraram gota
de sangue nesta luta fratricida. Um triunfo a seco.

Concluída a guerra civil pelo convénio de Gramido, depositaram
as armas e pediram empregos. O conselheiro Leite, o Casal, o Vinhais, o Alpendurada,
o Carneiro Geraldes, o Joaquim Torcato, o centro cabralista recomendou-os
à consideração magnânima de Sua Majestade. O Nunes,
como sabia do foro, foi despachado escrivão de direito para a Estremadura,
Veríssimo Borges obteve uma fiscalização rendosa dos
tabacos e sabão em Trás-os-Montes; depois foi transferido, com
vantagem, para a alfândega de Viana do Minho; e por último para
uma direcção aduaneira do Ultramar. Ainda vivia há poucos
anos, porque um jornal da localidade, debaixo de um símbolo fúnebre
– um anjo curvado e deplorativo sobre a sua urna, enlutada pelas madeixas
de um chorão – publicava:

Veríssimo Borges Camelo da Mesquita dá parte aos seus numerosos
e respeitáveis amigos que foi Deus servida chamar à sua divina
presença, hoje pelas 5 horas da manhã, sua chorada esposa D.
Libânia de Covas

Borges da Mesquita, a cujo cadáver, etc. Pelo seu profundo estado
de consternação pede desculpa de cumprimentos.

O jornal, depois de uns adjectivos lúgubres e velhos como a morte,
acrescentava:

A Ex.ma Srª D. Libânia, que todos choramos com seu Ex.mo viúvo,
era uma senhora de esmeradíssima educação, pertencia
à ilustre família dos Covas; – modelo no trato insinuante
com que cativava o respeito e a amizade de todas as pessoas desta Ilha, que
tiveram a fortuna de a conhecer. Receba S. Ex.mo Sr. Conselheiro-Director
os nossos mais sentidos pêsames pela desgraça que acaba de o
ferir implacavelmente.

Veríssimo e Nunes podem ainda viver, porque eram robustos de corpo
e de alma.

Capítulo XIII

O Zeferino deixou o Cerveira Lobo em Quadros, com os três contos de
réis, foi para as Lamelas, e entrou de noite, para que o não
vissem. Ele tinha-se gabado aos vizinhos de que estava despachado sargento-mor
e seu pai coronel reformado. Ao José Dias de Vilalva e mais ao pai,
que era regedor, mandara-lhes dizer que eles brevemente haviam de topar com
o seu homem. Da Marta de Prazins dizia trapos e farrapos. A sua paixão
não tinha outro respiradouro. Além disso, não podia esquecer-se
da nádega exposta pelo cão às descompostas gargalhadas
da rapariga. Era uma vergonha crónica. E, para remate de desastres,
voltava para as Lamelas, a ouvir as rabugices do pai que lhe chamava cavalgadura
– que se deixasse de política e fosse fazer paredes, que é
o que ele sabia.

Constava-lhe demais a mais que o José Dias, o estudante, estava sempre
em Prazins, e tinha ido com Marta e mais o Simeão ao fogo preso da
romaria de Santiago da Cruz. Viram-nos todos três a tomar café
de madrugada numa barraca, a cochicharem os dois muito aconchegados, enquanto
o velho tosquenejava a dormitar.

O pai de José Dias, o Joaquim de Vilalva, era uni lavrador de primeira
ordem. Lavrava quarenta canos de milho e centeio, uma pipa de azeite, dez
de vinho, muita castanha, tinha três juntas de bois chibantes e poldros
de criação. O José, meeiro no casal, a não se
ordenar, era um dos primeiros casamentos do concelho.

O rapaz amava castamente a Marta com a pudicícia do primeiro amor.
Ela tinha uma formosura meiga, delicada e suplicante. Parecia pedir que a
não imolassem a uma paixão sensual; mas, se o seu amado o exigisse,
a vitima coroar-se-ia de flores, e iria risonha e mansamente para o sacrifício.
Tinha êxtases a contemplar-lhe os cabelos loiros e a pálida face
doentia; deixava-se beijar com a impassibilidade de uma santa de jaspe –
um quadro paradisíaco sem frutas nem cobras.

O José não necessitava pedi-la ao pai na incerteza de uma recusa.
Disse-lhe que ela havia de ser a sua esposa: a criança contou ao pai
as palavras do amado e o Simeão:

– Ora venha de lá esse abraço, amigo e sê Zé!
– e apertou o futuro genro com a ternura de pai que arranja a sua filha
como se quer.

Mas os pais do estudante já tinham dito ao rapaz que mudasse de rumo,
que a moça de Prazins não era forma de seu pé. A mãe,
principalmente, protestava que, enquanto ela fosse viva, a tal filha da Genoveva
de Prazins não havia de ser sua nora, nem que a levasse o Diabo, e
Deus lhe perdoasse, se pecava. Justificava se dizendo que a Marta era de ruim
casta; que a mãe, a Genoveva, dera desgostos ao homem, pintava a manta
nas romarias, andara muito falada com um frade de Santo Tirso, e um dia pegara
a dar gritos na igreja; toda a gente disse que ela tinha o Demónio
no corpo, e afinal morrera doida, atirando-se ao rio Ave.

E constava-lhe que o avô dela também não era escorreito,
e quando já tinha sessenta anos mandara fazer uma sobrepeliz, abrira
coroa, e onde houvesse um defunto lá ia com um ripanço à
igreja e punha-se a cantar como os padres. A tia Maria de Vilalva tinha inconsciente
mente este horror moderno, científico da hereditariedade mas o que
mais a impulsionava na sua resistência aos rogos do filho era ter sido
má mulher e mãe de Marta De má árvore, ruim fruto
– era toda a sua filosofia, que se encontra diluída modernamente
nas explorações fisiopsicológicas de Janet, de Maudsley
e no determinismo.

O Joaquim de Vilalva, muito instado pelo filho e pelo padre Osório,
o de Caldelas, prometia fazer o que a sua companheira fizesse; mas dizia-lhe
a ela em particular:

– Tu aguenta-te, Maria; nunca digas que sim, ouviste?

E ela:

– Deixa-me cá, homem! Vêm barrados. Credo!

A tia Maria era muito rezadeira, erguia-se de noite para não pender
a sua missinha no Verão ao romper do dia, e garganteava com uma melopeia
fanhosa a via-sacra na Quaresma, à volta da igreja; presenteava os
santos dos altares com os mimos da sua lavoura, que se leiloavam ao domingo
no adro, dava cama e mesa untuosa aos missionários, confessava-se todos
os meses, e sentia pelas suas vizinhas menos beatas o inefável prazer
de afirmar que haviam de cair vestidas e calçadas no Inferno. O filho
penetrou-se de uma ideia trivial a respeito de sua mãe: – Que
os sentimentos religiosos a Levariam a dar o consentimento, se Marta cometesse
um desses pecados que se remedeiam com o matrimónio. O padre Osório
dizia-lhe que a intenção era honesta, mas o expediente mau.
Não lhe citou teólogos nem preceitos de origem divina. Argumentoulhe
com a hipótese da pertinaz resistência da mãe. Que não
esperava nada da sua religião um hábito de trejeitos de mãos
e de beiços, o automatismo idólatra dos selvagens

da América, que davam guinchos mecânicos, prostrando-se por
terra, quando ouviram a primeira missa; que a religião das aldeias,
sobre a dos indianos da catequese dos jesuítas, as vantagens que tinha
era a hipocrisia em uns, e o fanatismo em outros, quando não se jantavam
ambas as coisas nos mesmos fiéis, O padre Osório paroquiava
e conhecia o seu rebanho, joeirando-o pelos crivos do confessionário.
Não conhecia menos a tia Maria de Vilalva. Afirmava que a fragilidade
de Marta seria para a velha mais um motivo de ódio e desprezo; porque,
na sua cartilha e nos ditames dos seus directores espirituais, não
se lia nem ouvia que a mãe devia encobrir a desonra de unia rapariga
casando-a com o seu filho, sedutor dela.

As reflexões do vigário de Caldelas eram óptimas, mas
extemporâneas.

Um oficial de pedreiro de Prazins, que trabalhava com o mestre Zeferino,
contoulhe que uma noite se enganara com o luar, e, cuidando que era dia nado,
se levantara para ir para a obra; mas que ao passar por diante da casa do
Simeão ouvira duas horas no relógio, e vira luz pelas frestas
de uma janela. Que se pusera à coca debaixo de um carvalho, a desconfiar
que a luz àquela hora não era coisa boa, e estivera, vai não
vai, à pernas para que te quero, lembrando-se se seria bruxedo ou alma
penada, porque se dizia que a Genoveva do Simeão, a que se deitara
ao rio, não podia entrar no Purgatório, e morrera com o Diabo
no corpo, salvo seja. Estava nisto quando a luz se sumiu, e se coou pelas
frestas de outra janela, e logo depois noutra mais baixa, onde um homem podia
chegar com o cabo de um machado. Nisto apagou-se a luz e abriu-se a janela
de portadas sem vidros. Dava-lhe a chapada do luar; era como se fosse dia.
O pedreiro, muito no escuro da ramaria do carvalho, viu apontar uma cabeça
e depois meio corpo de homem, que se pôs às cavaleiras do peitoril
da janela, quedou-se a olhar e a escutar a um Lado e outro; depois desmontou-se
muito devagarinho, sem tugir nem mugir, pendurou-se no peitoril e deixou-se
cair, ficando em pé. A janela fechou-se, e o José Dias, que
o operário conheceu como se o visse ao meio-dia, meteu-se ao caminho
de Vilalva, por sinal que levava sapatos de borracha que brilhavam ao luar
como um espelho.

O oratoriano Manuel Bernardes, como é notório, escreveu um
livro edificante, muito piedoso, chamado Armas da Castidade. O místico
filho de S. Filipe Néri, com duas palavras sãs, de um realismo
seráfico, cabalmente explicou a situação de outro José
Dias a respeito de outra Marta, conhecia-lhe o leito, dizia ele. É
o mais que se pode dizer sem escandalizar ninguém. Conhecia-lhe o leito.

Mas o Zeferino é que sentiu em cheio no peito amante a facada do escândalo.
O oficial viu-o sentar-se sobre uma padieira que estava esquadriando, e, com
o rosto entre as mãos, desfazer-se em pranto. Ele tinha amado aquela
rapariga desde que a vira aos treze anos. Trabalhara e roubara como galego
para a poder comprar ao pai por um conto e quinhentos e pico. Meteu-se na
política; fez-se sargento-mor a ver se se levantava a uma altura em
que a Marta o achasse digno dela e superior ao estudante. Desabadas as esperanças
com a prisão do patife de Calvos, cismava ainda em voltar de novo ao
campo quando viesse o D. Miguel autêntico, porque o tenente-coronel
de Quadros lhe dizia que el-rei chegava a Portugal na Primavera do ano seguinte
– afirmava-lho o padre Rocha, para o consolar juntamente com as bebedeiras
quotidianas. Tudo acabado, perdido, como se Lhe morresse a Eva do seu paraíso!
E por isso o pedreiro chorava como os grandes poetas traídos, como
Camões, como Tasso, como Alfredo de Musset. As lágrimas na cara
tostada daquele operário tinham o travo das que a poesia cristalizou
no panteão dos mártires do amor.

Depois, levantou-se, limpou as faces à manga da camisa, pegou da esquadria
e continuou a trabalhar, assobiando a música triste de uma cantiga
desse tempo:

Ó mar, se queres,

Tem dó de mim.

Estes assobios eram o silvo da serpente da vingança; mas o seu rancor
não punha a pontaria em Marta. Se deixava de cinzelar a pedra, e fitava
os olhos extáticos num imenso vácuo, via passar lucilante a
imagem da pequena, pura, angelical como a vira aos treze anos. Um grande romântico
– uma explosão de ideias que florejavam daquele pedreiro como
um canteiro de boninas nos musgos de um penhascal. Havia destas transigências
com os anjos despenhados. Dir-se-ia que ele tinha lido as Confissões
de um filho do século, aquela torrente de lágrimas ignóbeis
que lava os pés de uma dissoluta ilustrada.

Ele, desde essa hora funesta, pensou em matar o José Dias; mas, nas
ricas protuberâncias ósseas do seu grande crânio, a bossa
do homicídio era muito rudimentar. Tinha tido várias ocasiões
de poder-se gabar dessa perfeição. Haviam-lhe batido dois estudantes
num pinhal, por causa das denúncias ao padre-mestre Roque; e, quando
o cão do Dias lhe rasgou a calça num sítio melindroso,
o Zeferisno desconfiou que, se fosse capaz de matar um homem, deveria ter
atirado com o machado à cabeça do caçador. Ele queria
espezinhar o cadáver de José Dias, espostejá-lo, trincá-lo,
mascá-lo, esmoê-lo, devorá-lo, mas à maneira dos
devoristas incólumes que compram um porco já morto na Ribeira
Velha, e o esquartejam com um grande regozijo antropófago, com as mãos
ensopadas nas banhas da vítima.

O pedreiro denunciante ia contando em segredo a toda a gente a descoberta
que fizera naquela noite em que se enganara com o luar. A Marta estava desacreditada
na freguesia; as mulheres que sachavam os milharais faziam comentários
perpétuos ao texto do pedreiro, recordavam as façanhas da Genoveva,
contadas pelas velhas, e as mais antigas diziam que a Brígida Galinheira,
avó da Marta, já tinha dado o exemplo à filha. –
Uma geração de marafonas do alto, dizia a tia Rosa de Carude,
cuspindo no chão, e pondo a soca em cima. Riam-se do Zeferino, que
andava

como a cobra que perdeu a peçonha, muito escamado; que lhe tinham
saído dois casamentos com boas lavradeiras, e ele diz que havia de
ir morrer solteiro às Pedras Negras, depois da matar um homem; e houve
quem afirmasse que o vira com um bacamarte, debaixo dos carvalhos, por essa
noite fora, defronte da casa do Simeão. Uma calúnia.

Avisaram a mãe do José Dias da espera do pedreiro, e ela fez
dormir o filho numa trapeira que não tinha janela por onde saltas-se,
e fechava-o de noite por fora, rogando pragas à seresma de Prazins:
– Que um raio a partisse e o Diabo a levasse para as profundas do abismo!
Depois ia rezar a coroa com os criados, e rogava a Deus pelos que andavam
sobre as águas do mar e pelas almas de todos os seus parentes e vizinhos,
com uma intonação chorada que fazia devoção.

O José Dias vivia amargurado. Tinha sido criado num grande respeito
aos pais, e sentia-se inábil para lhes reagir. A doença de peito
que principiava a desvigorizar-lhe o como, implicava-lhe com a atonia da alma.
Sentia o egoísmo indolente dos enfermos minados pela consumpção
lenta. Invejava a robustez do irmão, um trabalhador forte que dormia
dez horas, e ao romper da aurora ia lavar a cara ao tanque e pensar o gado
com uma grande alegria, de assobios remedando as requintas das chulas. Passava
muitas horas com o seu confidente, o padre Osório. Pedia-lhe conselhos
– que arranjasse modo de ele poder casar com a Marta.

– Que eu – dizia com desalento – não vou Longe;
mas queria remediar o mal que fiz.

A Marta escrevia-lhe para Caldelas, porque a tia Maria de Vilalva, uma vez
que lá viu um garoto com carta para o filho, deu sobre ele com um engaço,
que por pouco o não apanha pela cabeça com os dentes do instrumento.
As cartas eram desconfianças, receio do abandono, lágrimas.
O pai não a mortificava. Pelo contrário, dizia-lhe a miúdo:

– Se o Zé de Vilalva não casar contigo, talvez seja a
tua fortuna, porque pode ser que teu tio adregue de gostar de ti, e mais mês
menos mês ele rebenta por essa porta dentro rico como um porco. O brasileiro
da Rita Chasca, que chegou agora, diz que ele tem quatrocentos contos fortes,
para riba, que não para baixo.

A Marta escondia-se a chorar; e, às vezes, lembrava-se do fim da mãe
– o suicídio; e punha-se a olhar para o Ave e a escutar o rugido
cavo de uma levada que parecia trazer-lhe os gemidos agonizantes de muitos
afogados.

O Dias falava-lhe na sua doença, no desfalecimento de forças,
que já o não deixavam caçar, da tristeza que o consumia,
do desamor com que a família o via padecer, do ódio que começava
a ter à mãe, e idas saudades dilacerantes que sentia pela sua
querida Marta. – Que o seu amigo padre Osório trabalhava para
obter o consentimento do pai; mas que, se o não obtivesse, estava resolvido
a fugir com ela, mesmo sem recursos, ou com os poucos que o seu amigo lhe
podia emprestar.

De tempo a tempo ia vê-la de dia; mas a mãe trazia-o muito espreitado,
e ralava-o: – que a tal cróia havia de dar cabo dele. O cirurgião
tinha-lhe dito delicadamente que o José abusava do 6º. Ela, como
sabia os manda. mentos de cor e salteados, entendeu logo, e dizia a toda a
gente que o seu Zé andava assim uni pilharengo por causa do 6º.
Era o resultado de saber a doutrina cristã esta decência no explicar-se
por números. As vizinhas entendiam-na e diziam-lhe que o José
andava forgado, que lhe metesse uma enxada nas unhas e o pusesse a roçar
mato oito dias, que ele perdia o cio.

Decorreram alguns meses. Com a Primavera a saúde de José Dias
pareceu restaurar-se. Ele atribuiu as suas melhoras ao contentamento. O pai,
que era regedor, a pedido do governador civil, que o mandou chamar a Braga,
por intervenção do padre Osório, dava o consentimento;
mas a mãe recalcitrava. Esperava-se, porém, a vinda dos missionários
a Requião, para a reduzirem ao dever de católica. O vigário
de Caldelas já tinha prevenido um egresso do Varatojo, Frei João
de Borba da Montanha, das terras de Celorico de Basto, de uma força
prodigiosa em empresas mais difíceis.

Marta recobrava alegres esperanças, e o Zeferino das Lamelas digeria
a sua dor, assobiando a música da melancólica balada:

Ó mar, se queres,

Tem dó de mim.

Para seu desafogo, ia a miúdo a Quadros saber quando chegaria o Sr.
D. Miguel. O Cerveira estava relacionado com os setembristas. Formara-se a
junção dos dois partidos hostis aos Cabrais, aproximados pelas
eleições sanguinárias de 1845. O tenente-coronel reunia
espingardas em Quadros e dava dinheiro para o fabrico de cartuchame no concelho
da Póvoa de Lanhoso e nos arrabaldes de Guimarães. O padre Rocha
comunicava-lhe as notícias enviadas de Londres pelo Saraiva, e conseguiu
que ele fosse ao Porto receber o grau de comendador da Ordem de S. Miguel
da Ala, a casa do João de Albuquerque, da Ínsua, que representava
nas províncias do Norte o Grão- Mestrado. O Zeferino sentia
momentos de júbilo de tigre que se agacha a medir o salto à
presa. Tinha um riso que era um ringir de dentes. Parecia-lhe que estava a
mastigar os fígados do José Dias.

Capítulo XIV

Em Março daquele ano, 1846, os setembristas de Braga fomentaram os
motins populares do concelho de Lanhoso. Na Inglaterra, na câmara dos
comuns, lorde Bentinck explicou tragicamente, em frases pomposas, a origem
dessa revolução, que um desdém indígena chamou
. Ele disse que os Cabrais mandaram construir cemitérios; mas não
os muraram; de modo que entravam neles cães, gatos e porcos-bravos
em tamanha quantidade

que chegaram a desenterrar os cadáveres7. As nações
e os naturalistas deviam formar uma ideia assaz agigantada do tamanho dos
gatos portugueses que desenterravam cadáveres, e das boas avenças
dos nossos cães com os referidos gatos na obra da exumação
dos mortos, e não menos se espantariam da familiaridade dos javalis
que vinham do Gerês colaborar com os cães e gatos naquela mineração
das carnes podres das terras de Lanhoso. A origem pois da insurreição
nacional de 1846 está definida nos fastos da Europa revolucionária.
Foi ama reacção, uma batalha social à canzoada e gataria
confederadas com o focinho profanador de porco-montês. E daí
procedeu escreverem os jornalistas da Alemanha, um país sério,
que a revolução do Minho era o . Os cadáveres servidos
nos banquetes ilegais e nocturnos dos javalis, com a convivência de
gatarrões a rosnarem com o lombo eriçado, e molossos de colmilhos
ensanguentados foi caso que impressionou grandemente as raças tudescas,
por ser um acto proibido pela Carta Constitucional. Quer fossem os setembristas
de Braga, quer a alcateia das feras coligadas, o certo é que a insurreição
do Alto Minho tabu esta província e a transmontana, devastando as papeletas
impressas e os vinhos das tascas sertanejas. A guerra motivada pelos gatos
ë seus cúmplices fez sofrer ao capital do país ama diminuição
de 77 milhões e meio de cruzados, segundo o cálculo do ministro
da Fazenda Franzini, muito retrógrado, mas um génio no algarismo.

O Zeferino das Lamelas, às primeiras comoções do vulcão
popular, nos arredores de Guimarães, preparou-se; e assim que ouviu
repicar a rebate em Ronfe, cheio de ciúmes como o sineiro de Notre
Dame, agarrou-se à corda do sino, reuniu no adro os jornaleiros e vadios
de três freguesias, e pegou a dar morras aos Cabrais com aplauso universal.
Depois, explicou o que era o cadastro, confundindo este expediente estatístico
com canastro: – que os Cabrais e os seus empregados andavam a tomar
as terras a rol para empenharem Portugal à Inglaterra; que esses réis
estavam nos cartórios das administrações e em casa dos
regedores; que era preciso queimar as papeletas e matar os cabralistas.

Em seguida, invadiram a administração de Santo Tirso, quebraram
as vidraças dos cartistas fugitivos e queimaram os impressos e quantos
papéis acharam, no Campo da Feira. Depois, abalaram para Famalicão.
Zeferino nomeara-se chefre da gentalha embriagada nas adegas arrombadas dos
cabralistas, e alvitrou que se prendessem os regedores que topassem. Dizia
que o Joaquim de Vilalva, nas eleições do ano anterior, muito
socadas, cascara no povo e mais os cabos, na assembleia de Landim, cacetada
brava. A bebedeira dos ouvintes dera à pérfida aleivosia do
pedreiro vingativo o valor de facto histórico. O plano de Zeferino
era abrir oportunidade a que José Dias fosse assassinado ou, pelo menos,
preso e degredado como cabralista.

Vilalva ficava-lhes a jeito, no caminho de Famalicão. O amante de
Marta ouvira grande alarido e vira ao longe a multidão que galgava
um outeiro turbulentamente. Viase desfraldado no ar, em oscilações
largas, o pano escarlate de uma bandeira: era um pedaço do velho estandarte
que servia nas procissões de Santa Maria de Abade. José pediu
ao pai que fugisse. O regedor disse que não – que nunca tinha
feito mal a ninguém, nem sequer prendera um refractário: que
o mais que podiam fazer era tirar-lhe o governo.

José Dias tinha medo às cobardes ameaças do Zeferino;
diziam-lhe que o pedreiro jurara matá-lo, e já constava que
era ele o chefe da guerrilha, em que se alistaram todos os ladrões
e assassinos conhecidos na comarca. A mãe empurrava-o pela porta fora
– que fugisse para Caldelas; que não fosse o Diabo armar-lhe
alguma trempe por causa da Marta, da tal bebedinha que não dera cavaco
ao pedreiro. Ele deitou o selote à égua e fugiu a galope; mas
o regedor, com a sua consciência ilibada, esperou os revoltosos com
o Zeferino à frente, brandindo a espada do pai, que não se desembainhara
desde o ataque a Santo urso.

– Está você preso por cabralista! – intimou o pedreiro,
deitando-lhe a mão à lapela da véstia; e voltado para
a turba: – Rapazes, cercaide a casa; tudo que estiver, preso!.

– Os meus filhos saíram; mas entrem, busquem à vontade
– disse o regedor; e, olhando para o pedreiro, ironicamente: –
Ah seu Zeferino, seu Zeferino, você não veio aqui para me prender
a mim... É outra história que você lá sabe. Isto
de mulheres são os nossos pecados, mestre Zeferino...

– Não me cante! – bradou o das Lamelas com furiosos arremessos.
– Está preso, e mexa-se já para a cadeia.

– Você não pode prender-me, mestre Zeferino – contrariou
a autoridade dentro da lei. – Vá buscar primeiro unia ordem do
meu administrador ou do governador civil.

– Já não há governador civil! – explicou
o caudilho. – Agora são outros governos, seu asno! Quem reina
é o Sr. D. Miguel I. E você não me esteja aí a
fanfar, que eu já não o enxergo. Ande lá para a cadeia,
com dez milhões de diabos!

O regedor entrou em Vila Nova de Famalicão na onda de alguns milhares
de homens e rapazes que davam vivas a D. Miguel, às leis novas, à
santa religião e morras aos cabralistas. Quando queimavam os papéis,
um brasileiro setembrista, o Sá Miranda, disse ao comandante que não
convinha por enquanto aclamar D. Miguel; que dessem morras ao governo e vivas
à religião. Nesta barafunda, o regedor preso entre meia dúzia
de jornaleiros que discutiam as leis velhas e as novas na taverna do Folipo,
compreendera um aceno do taverneiro e fugira pelos quintais. Meteu-se ao caminho
de Braga, onde estava o general conde das Antas. O José Dias, receando
que o perseguissem em Caldelas, refugiara-se também em Braga e alistou-se
no batalhão dos serezinos comandado pelo cónego Monte Alverne.

7Carta dirigida ao cavalheiro José Hume. Versão de António
Pereira dos Reis, 1847, pág. 99.

Neste meio-tempo, chegou da América o Feliciano Rodrigues Prazins,
tio de Marta. Demorou-se poucos dias. Ganhara medo que o roubassem as guerrilhas.
Foi para o Porto pôr em segurança as suas letras e voltou quando
a queda dos Cabrais garantia o sossego dos capitalistas. Na volta a Prazins,
olhou mais atentamente para a sobrinha, deu-me alguns cordões, e disse
ao irmão que não se lhe dava de casar com ela. O Simeão
afirmou logo com um descaramento perdoável: – que não
se fosse sem resposta o mano, que a moça dava o cavaco por de.

Feliciano tinha quarenta e sete anos. Não se parecia com a maioria
dos nossos patrícios que regressam do Brasil com unia opulência
de formas almofadadas de carnes socadas. Era magro esqueleticamente, um organismo
de poeta sugado pelos vampiros do spleen. Dizia, porém, que tinha febras
de aço e nunca tomara remédios de botica. Muito míope,
usava de monóculo redondo num aro de búfalo verde. Como era
económico até à miséria, dizia-se em Pernambuco
que o Feliciano usava um vidro só para não comprar dois; e que,
se pudesse, venderia um olho como coisa inútil. Com a economia e o
trabalho bem propiciado em trinta anos arredondara trezentos contos. Chegara
aos quarenta e sete, ao outono da vida, sem ter amado. Nunca se conspurcara
nos latíbulos da Vénus vagabunda. A sua virgindade era adnnrada
e notória; depunham a favor dela os seus caixeiros, os feitores, e
– o que mais é – as suas escravas. Os seus patrícios
devassos chamavam-lhe o Feliciano Pudicício. Ele não se envergonhava
de confessar a sua castidade ao pároco de Caldelas. Tinha vivido como
um dessexuado; – que trabalhava muito nos seus armazéns, que
dormia poucas horas, e não dava folga ao corpo nem pega aos vícios.
Originalíssimo. Que lhe saíram casamentos ricos; mas que ele
para ser rico não tinha precisão de mulher; que vira algumas
meninas pobres a namorá-lo; mas que desconfiara que lhe namorassem
o seu dinheiro. Não tinha queda para o sexo, que ele dizia seixo. Numa
palavra, estava virgem. Ele podia dizer como Hamlet. Não me deleitam
os homens nem tão-pouco as mulheres.

A sobrinha reformara aquela natureza aleijada. Talvez o desdém com
que Marta o tratava na crise da sua paixão, fosse grande parte no amor
do brasileiro. Além disto, a moça, muito parecida com ele na
delgadeza das formas, tinha encantos que dispensavam a esquivança para
se fazer amar de um homem de quarenta e sete anos – intacto demais a
mais. O presente que lhe fez de uma meada de cordões de ouro significava
uma desordem, pelo menos interina, na sua condição sovina. Marta
aceitou a dádiva sem entusiasmo nem alegria. Lembrava-se que o pai
a prevenira da possibilidade de ser mulher de seu tio, se adregasse gostar
dela. Quando o tio lhe deu os cordões, teve-lhe uma náusea,
um quase-ódio, suspeitando-lhe os projectos; e quando ele fugiu para
o Porto, com medo às guerrilhas, sentiu ela uma satisfação
incomparável. Entretanto, apesar das más informações
do brasileiro da Rita Chasca, o Feliciano sentia filtrar-selhe nas células
impolutas do coração o veneno doce de uma paixão cheia
de condescendências, pouco superciliosa em pontos de honra, como quem
pensa que no tálamo conjugal não se faz mister a virgindade
em duplicado. Mas não era assim que ele pensava. Ninguém lhe
desdourara a honra da sobrinha, nem o derriço com o José Dias
fazia implicância à sua honestidade. Ele não tinha os
rudimentos de malícia necessária para desconfiar que uma menina
de dezasseis anos, criada nos seios da natureza imaculada de uma aldeia do
Minho, pudesse abrir de noite uma janela, debruçar-se no peitoril e
ajudar a subir um homem. O oficial do pedreiro é que sabia casos, anomalias,
desde aquela noite em que o luar o enganou.

Marta ouvira aterrada a noticia que o pai lhe deu da vontade do tio. Irritou-se.
Tinha sido criada com muito mimo, sem mãe, voluntariosa, e com uns
ares senhoris que desautorizavam o respeito que o pai, rústico lavrador,
não sabia incutir. Em vez de chorar corno as filhas desgraçadas
e humildes, respondeu desabridamente que não casava com o tio; que
o desenganasse, se quisesse; e, se não quisesse, ela o desenganaria.
A terrível nota golpeara-lhe o coração cheio de saudades
de José Dias, que lhe escrevera de Braga, por intervenção
do padre Osório, dando-lhe coragem e esperança no casamento
logo que cessasse a guerra. Foi esse alento que a revoltou contra o pai quando
ele instava com ela a casar com o tio, que era talvez, dizia, o homem mais
rico de Portugal, abaixo do rei. Marta replicava com trejeitos de tédio
desdenhoso; e, exaltada pela boçal insistência do pai, protestava,
se a apoquentassem, atirar-se ao rio como sua mãe.

O Simeão perdeu a vontade de comer; andava atordoado numa tristeza
estúpida a dar uns ais pela casa que pareciam mugidos de bezerro perdido
na serra. A pequena já não queria ir à mesa, metia-se
na cama e fingia-se doente para não encontrar o tio Feliciano.

José Dias e o pai permaneciam em Braga, porque em diferentes pontos
da província continuavam as agitações miguelistas; o
novo ministério não tinha força, e o Zeferino das Lamelas
nunca depusera as armas. Os serezinos faziam excursões e batiam os
realistas ou prendiam os agitadores. José Dias, numa dessas surtidas
a Vila Verde, a pé e com pouca saúde, ganhara uma bronquite
que o teve de cama largo tempo. Quando se levantou, numa aparente convalescença,
a tísica tuberculosa recrudescia pessimamente caracterizada. O padre
Osório fora visitá-lo, ouvira o médico e sabia que o
seu amigo estava perdido. Falou ao pai, em particular, no estado do filho.
Lembroulhe a sua promessa de consentir no casamento com a pobre Marta, que
se perdera confiada nos compromissos do José. O lavrador mostrou não
perceber a conveniência de Marta em casar, se o seu filho tinha de morrer
cedo. – Que a viúva, dizia, nada ganhava com isso, porque os
herdeiros de José eram seus pais. Não compreendeu a questão
por outra face. Mas, apertado pela palavra que dera, repetiu que ele pela
sua parte concedia a licença, se a mãe a desse; e justificava-se
deste respeito à mulher, alegando que a casa de Vilalva era toda da
sua companheira, e o que ele levara para o casal não valia dois caracóis.

– Enfim – concluía – se o rapaz arrijar, casa querendo
a mãe; mas, enquanto ele assim estiver, faça favor de lhe não
falar na rapariga... Bem lhe basta o seu mal... E um homem que está
doente deveras não deve pensar em mulheres, é na salvação
da sua alma. Eu penso assim, amigo padre Osório.

– O vigário aprende o padre-nosso – dizia o de Caldelas.

Entretanto, o doente, muito animado, não sentia aqueles desalentos
e presságios de morte que meses antes o afligiam. Habituara-se ao sofrimento;
já não tinha memória das perfeitas delícias da
saúde. Quando expectorava sem violência, e a dispneia cedia aos
xaropes e ao pez de Borgonha, julgava-se numa quase-completa restauração.
Escrevia ao Osório e a Marta com muita alegria e devotos agradecimentos
a Deus e a Maria Santíssima, com quem se apegara fervorosamente desde
que padecia, e também com o óleo de fígado de bacalhau.

A repugnância de Marta, face a face do tio Feliciano, seria um afrontoso
desengano para o milionário, se não interviesse o implacável
e engenhoso ciúme de Zeferino. Este chefe de guerrilha em armistício
soube que o brasileiro queria casar com a sobrinha e que o José Dias
estava em Braga muito acabado, a dar à casca. O pedreiro chamou os
bravos da sua jolda e fez-lhes saber que o brasileiro de Prazins pedira para
Famalicão um regimento da divisão do Antas para deitar cerco
às casas dos realistas, e sujeitara-se a sustentar o regimento à
sua custa. Resolveram atacar o Feliciano, prendêlo como cabralista,
e fazê-lo pôr à má cara o dinheiro que havia de
dar à tropa. Um dos da malta, vizinho do brasileiro, o Metro, tinha-o
convidado para padrinho de um filho. Procurou-o às escondidas e avisou-o
que se escondesse. Feliciano fugiu para o Porto a toda a pressa. Queria que
a sobrinha também fosse. Escrevia-lhe que, se quisesse ir, compraria
casa no Porto. Marta respondia que estava muito doente, que não podia
sair da cama. O pai chegava a descompô-la: – Que não tinha
moléstia nenhuma, que era por causa do Zé Dias; mas que perdesse
dai a ideia porque estivera com o Dr. Pedrosa, de Santo Tirso, que o vira
em Braga, e lhe dissera que o Dias estava ethego e mais mês menos mês
esticava a canela.

Marta respondia com serenidade de alma forte, e escorada numa resolução
suicida:

– Se não casar com ele neste mundo, casarei no outro.

– Que te leve o Diabo! – resmungava o Simeão, riçando
freneticamente as suíças. Depois voltava manso e velhaco à
beira do leito: – Olha, menina, teu tio está velho e esmagriçado.
Aquilo não pode ir longe. Tu ficas para aí podre de rica, e
podes casar depois com um fidalgo, se quiseres...

– Valha-me Nossa Senhora! – murmurava Marta, pondo os olhos na
litografia da Mãe de Jesus traspassada das sete espadas. – Quem
me dera morrer...

A tísica do José Dias com as frialdades húmidas de Novembro
entrou no segundo período. Recrudesceram as dores de peito e a dispneia,
com acessos febris nocturnos. Expectoração esverdeada com estrias
amarelas, e extrema magreza com repugnância a todo o alimento. Pela
auscultação ouvia-se-lhe o som gargarejado do fervor cavernoso.
Os médicos disseram ao pai que o tirasse de Braga, das incomodidades
da estalagem, e o levasse para casa, onde lhe seria mais suave a morte na
sua cama, com a assistência da família. Foi para Vilalva transportado
numa liteira, e dizia ao pai que se sentia melhor, que respirava mais desafogado;
e que, se há mais tempo tivessem saído de Braga, já ele
estaria rijo.

A mãe, quando o viu entrar tão acabado, tão desfigurado,
fez um berreiro descomunal, e não teve mão em si que não
rogasse pragas à Marta, que lhe matara o seu querido filhinho. As vizinhas
concordavam: – que diabos levasse a mulher que o tolhera!

O doente afligia-se, chorava como criança, e pedia ao pai que o deixasse
ir para Caldelas, para casa do seu amigo; que não podia ver a mãe;
que lha tirasse de diante dos olhos; e que, se ele tivesse de morrer, que
lha não deixassem ir à beira da sua cama. E fazia trejeitos
furiosos, com os olhos a estalar das órbitas escavadas, incendido pela
febre.

Chegou o padre Osório, e o doente aplacou-se sob as consolações
calmantes do seu santo amigo. Deitou-se, com promessa de ir no dia seguinte
para Caldelas; mas nunca mais se levantou, nem fez inúteis esforços.

Osório não o desamparou. Ia à sua igreja dizer a missa
dominical e voltava para Vilalva com as respostas de Marta aos bilhetes que
José lhe escrevia – poucas linhas em que ainda por vezes lampejavam
alegres esperanças.

Toda a influência de Osório não conseguiu que o enfermo
recebesse a mãe no seu quarto. Não lhe podia perdoar o ódio
que ela tinha a Marta; e bradava que a fazia responsável perante Deus
da desonra da desgraçada menina. A velha escutava estes tremendos emprazamentos
para a eternidade, e dizia de si consigo, a beata: – bem me fio eu nisso.

Por fim, já não podia escrever, nem levantar a cabeça
no travesseiro; mas perguntava ao Osório se tinha notícias de
Marta; que pedisse ao irmão que fosse lá, e lhe dissesse que
ele estava mais doente e não podia escrever.

Um desses recados motivou o bilhete que se copiou na Introdução
deste livro, e que o moribundo já não pôde ler. Desde
que a mãe lhe meteu à força dentro do quarto o vigário
com a extrema-unção, um homem de opa com a campainha, outro
com a água benta na caldeirinha, mais dois com tochas, e outros com
a sua devota curiosidade, o moribundo caiu na modorra comatosa, e apenas,
com longos espaços, tinha mis acessos sibilantes de ligeira tosse seca.
Abria então os olhos, que fitava no rosto de Osório, e às
vezes circunvagava-os espavoridos como em busca da visão espectral
da mãe, que o vigário de Caldelas cuidadosamente e com doloroso
constrangimento defendia de entrar à alcova.

Em Prazins ouvia-se dobrar a defunto em Vilalva. Marta perguntou ao pai quem
tinha morrido.

Ele respondeu serenamente:

– Dizem que foi o Dias que está com Deus. Reza-lhe por alma,
que é o que ele precisa agora.

Marta deu um grande grito, e com as mãos na cabeça, a correr,
deitou a fugir pelos campos. Ela sabia onde era o remanso fundo do rio Ave
em que a mãe se suicidara. O pai correu atrás dela, a gritar,
que lhe acudissem. Fora da aldeia, andava uma roça de mato, com muitos
jornaleiros, que correram todos atrás de Marta, e a levavam quase apanhada
quando ela caiu, a estrebuchar, em convulsões. Conduziram-na para casa
com os sentidos perdidos, e puseram mulheres a vigiá-la na cama. Esta
nova chegou a Caldelas. D. Teresa, a irmã do padre Osório, foi
com o irmão a Prazins, e convenceram o Simeão a deixar ir a
filha para a companhia deles algum tempo.

Marta chorava muito, abraçando-se no amigo de José Dias; e
ele, quando o lavrador com impertinência dizia à filha: , observava-lhe
com azedumes:

– Deixe-a chorar, deixe-a chorar! – E voltando-se para a uma:
– A estupidez é cruel!

Capítulo XV

O Simeão de Prazins tinha sido antigamente regedor um ano; depois,
caído o ministério e o governador civil que o nomeara, voltou
ao poder o Joaquim de Vilalva, cartista puritano, com a restauração
da Carta. Duas restaurações boas. O Simeão lembrava-se
com saudades da sua importância no ano em que governara a freguesia
– o respeito dos rapazes recrutados, as considerações
dos taverneiros, que davam jogo em casa, das raparigas solteiras que andavam
grávidas, a autoridade do seu funcionalismo na junta de paróquia,
etc. Ora, como o Joaquim de Vilalva, desgostoso e doente com a morte do filho,
pedira a demissão, o administrador nomeou a regedoria no de Prazins.
O brasileiro achou que era bom ter de casa a autoridade para maior segurança
dos seus cabedais e pessoa. Foi uma desgraça.

Depois do convénio de Gramido, Zeferino recolhera às Lamelas
com alguns dos seus primitivos legionários. Ele tinha passado transes
amargos. Juntara-se ao aventureiro Reinaldo MacDonnell, em Guimarães,
quando o escocês descia do Marco de Canaveses para Braga; esteve nas
barricadas da Cruz da Pedra quando o barão do Casal espatifou a resistência
daqueles desgraçados iludidos pelo caudilho estrangeiro; foi dos primeiros
a fugir por Carvalho de Este, a compreender a inutilidade da defesa, e por
montes e vales deu consigo em Porto de Ave, e daqui foi para Guimarães,
onde se aquartelaram o MacDonell com o seu estado-maior. Logo que chegou foi
procurar o tenente-coronel Cerveira Lobo, que fazia parte do cortejo do general.
Mandaram-no ao palacete do visconde da Azenha, onde o escocês se tinha
aquartelado com o seu estadomaior. O Cerveira Lobo estava a beberricar conhaque
velho copiosaimente sobre uma ceia farta, comida sem sobressaltos. À
mesa, onde faiscavam os cristais dos licores, avultavam, cintilando os metais
das suas fardas, o quartel-mestre-general Vitorino Tavares, de Fagilde, José
Maria de Abreu, ajudante-de-ordens, o morgado de Pé de Moura, o Cerveira
Lobo e o Sebastião de Castro, do Covo, comandante do batalhão
de voluntários realistas de Oliveira de Azeméis, que arredondava
42 praças, e seu irmão António Carlos de Castro, ajudante-de-ordens
do general – dois homens gentilmente valorosos; – o coronel Abreu
Freire, morgado de Avanca, e o Bandeira de Estarreja que é hoje padre.

A noite era de 27 de Dezembro de 1846, muito fria. Bebia-se forte. A garrafeira
da casa do Arco era um calorífico. O MacDonell, muito rubro, naquela
bebedeira crónica que lhe assistiu na vida e na morte, esmoía
a ceia passeando num vasto salão, de braço dado com uma formosa
senhora da casa, D. Emília Correia Leite de Almada. Dirse- ia que o
bravo septuagenário tinha vencido uma batalha decisiva, e procurava
matizar com flores de Cupido os seus louros de Mavorte. E o Cerveira Lobo
bebia e relatava proezas dos seus saudosos dragões de Chaves com gestos
bélicos e as pernas desviadas como se apertasse nas coxas a sela de
um cavalo empinado no fragor da peleja. Nisto entrou um camarada, às
11 da noite, a chamar apressadamente o quartel-mestre-general, que o procurava
com muita urgência um capitão de atiradores do batalhão
do Pópulo.

O Vitorino de Fagilde encontrou na sala de espera o capitão Pinho
Leal8, um robusto e jovialíssimo rapaz, de trinta anos, com uma fé
política, antípoda da sua forte inteligência – uma
espécie de poeta medieval com um grande amor romântico às
catedrais e às instituições obsoletas e extintas. Ele
tinha muitos destes camaradas visionários e respeitáveis na
sua falange da Madre-Silva...

– Que há? – perguntou o quartel-mestre-general.

– Há que estamos cercados pelos Cabrais. Os nossos piquetes
de Santa Luzia e do Castelo já foram atacados, e ouve-se fogo de fuzil
em outros pontos. Veja lá o que quer que eu faça.

O Vitorino ficou passado de terror, e levou o capitão à sala
em que o MacDonell passeava pelo braço de D. Emília Azenha,
e o visconde, o hospedeiro fidalgo palestrava com numerosos hóspedes,
cónegos, abades, capitães-mores, antigos magistrados. Pinho
Leal repetiu ao escocês o que dissera ao seu quartel-mestre. Mas a dama
assustada desprendeu-se do braço do general, e foi preparar os baús
para a fuga; e os do estado-maior compeliram o general a fugir também.
Era uma hora da noite quando o exército realista abandonou Guimarães
e entrou na estrada de Amarante.

8Era o meu actual e prezado amigo Augusto Soares de Azevedo Barbosa de Pinho
Leal, autor do

Portugal Antigo e Moderno.

Pinho Leal inventara o ataque dos eabralistas para salvar-se a si e aos outros
da carniçaria inevitável; porque, ao romper a manhã do
dia seguinte, entraram em Guimarães seiscentos soldados do Casal ainda
embriagados da sangueira de Braga. Reproduzem-se textualmente no seu estilo
militarmente pitoresco os veracíssimos esclarecimentos de Pinho Leal:
...A besta do escocês continuava na sua pânria sem se importar
da guerra para nada, e o mesmo faziam os da sua . Eu, vendo que de um momento
para outro, podíamos ser surpreendidos e trucidadas pelos Cabrais,
aproveitando a circunsttância de estar e tendo na casa da câmara
um de cem homens, comandados pelo alferes José Maria (o morgado do
Triste) dei-lhe a ele somente parte do que ia pôr em execução.
Escolhi da gente do um sargento e quatro soldados da mesma companhia, de todo
o segredo e confiança. Saí com eles por um beco e fui com eles
pela frente dar uma descarga no nosso piquete de Santa Luzia, e outra no piquete
do Castelo. Ao mesmo tempo, não sei quem é que estava num monte
ao norte de Guimarães que deu uns poucos de tiros que muito ajudaram
o meu plano. O em vista da nossa prévia combinação, mandou
tocar a reunir e formou o suporte debaixo dos Arcos da Câmara. Eu e
os meus cinco homens viemos sorrateiramente metermo-nos na vila. Fui a tempo
em que já na Praça da Oliveira estava muita gente armada9.

E dali, Pinho Leal foi à casa do Arco, a fim de salvar aqueles homens
que se ensopavam em bebidas de guerra numa pacificação de idiotas,
e retardar alguns dias a benemérita morte do general escocês
assalariado por Guizot com credenciais de Costa Cabral.

O Cerveira Lobo, quando soube que a força marchava à uma hora
daquela noite frigidíssima, encarregou o Zeferino de lhe comprar uma
botija de genebra da fina, Fockink legitima. Tinha um frasco empalhado que
punha a tiracolo nas marchas nocturnas. Encheu-o com a ajuda do pedreiro.
O tenente-coronel, num grande desequilíbrio, não acertava a
despejar a botija no frasco. O Zeferino dizia depois que o vira tão
borracho que logo desconfiou que malhava abaixo do cavalo. O Cerveira afirmava
que se sentia com os seus trinta anos; que andara a trote largo do seu cavalo
treze léguas e não estava cansado. O Zeferino perguntou-lhe
se o Casal os apanharia ainda de noite; se estaria tudo acabado com outra
mastigada como a de Braga. Cerveira respondeu iracundo que o general era um
asno, e que ele estava resolvido e mais o Vitorino a matálo como traidor
ao Sr. D. Miguel I.

Moveu-se o exército em direitura à Lixa. O Cerveira ia no grupo
do quartelgeneral. MacDonell, de vez em quando, regougava monossílabos
em espanhol ao quartel-mestre. O Cerveira retardava-se às vezes um
pouco e emborcava o candil, grogolejando e despegando pigarros teimosos. O
Vitorino notava-lhe que ele bebia de mais – que o calor da genebra não
se espalhava pelo corpo, mas sim concentrava-se na cabeça – que
era um perigo. O Cerveira dizia que estava afeito; mas queixava-se de dores
nas fontes e zunidos nas orelhas; que não se podia lamber com sono,
e que dava cinco mil cruzados por estar na sua cama. E abaixando a voz tartamuda:

– Este ladrão deste inglês meto-lhe a espada até
aos copos! Palavra de honra que o mato amanhã!

O Vitorino deu tento de que o tenente-coronel gaguejava; mas atribuiu à
embriaguez o embaraço na fala. Entrou a queixar-se o Cerveira de que
estava tonto da cabeça, que se queria apear, porque não podia
agarraras rédeas; e chamava com ansiedade o Zeferino que vinha muito
à retaguarda. O quartel-mestre-general chamou uni ajudante-de-ordens,
e pediu-lhe que o ajudasse a apear o tenente-coronel. Cerveira Lobo dobrava
o tronco ao longo do pescoço do cavalo que estranhava o peso e o sacudia,
sentindo-se livre da pressão do freio.

O apopléctico ia resvalar, quando os dois oficiais o ampararam nos
braços, numa síncope. Um deles acende uni palito fosfórico
no lume do charuto, e disse que o tenentecoronel tinha o rosto inchado e muito
vermelho. Chamavam-no, sacudiam-no; não dava sinal de vida; nem um
ronquido estertoroso. Inclinaram-no sobre um combro de mato molhado; não
lhe acharam pulso; a boca entortara-se, e os olhos muito abertos com umas
estrias sanguíneas. Estava morto, fulminado pela apoplexia alcoólica.

A respeito deste desastroso remate do ébrio ilustre, escreve Pinho
Leal: Nesta retirada pelas duas ou três horas da noite, morreu em marcha
com unia apoplexia fulminante o F...10 Coitado! quando me lembra isto ainda
tenho cá meus remorsos de consciência. Quem sabe se seria eu
a causa da morte daquele pobre diabo? Consolame porém a certeza de
que, mesmo que eu fosse a causa indirecta da morte do fidalgote, poupei muitas
vidas de gente moça (e a minha que era o principal para mim); e o morto
já poucos anos podia durar, pois estava no calçado velho11.

Zeferino e alguns homens da comitiva do Cerveira passaram o restante da noite
à beira do cadáver do fidalgo de Quadros. À claridade
fusca da manhã invernosa viramlhe o semblante que metia pavor. Quiseram
cerrar-lhe as pálpebras que resistiam à distensão, coriáceas,
num retesamento orgástico. A maxila inferior parecia deslocada e torta,
repuxando a comissura direita dos lábios num esgar de escárnio
ou de angústia dilacerante. A cor do rosto era agora de unia amarelidão
de barro, molhado pelo orvalho que se filtrara através do lenço
com que lho cobriram. Tinha os dedos aduncos, inflexíveis, e uma das
mãos afincada como garra nas correias da pasta.

9Carta de 10 de Junho de 1877.

10Quando Pinho Leal publicar as suas Memórias, então se saberá
o verdadeiro nome do morto.

11Carta citada.

O Zeferino disse que o seu tenente-coronel devia trazer um cinturão
com dinheiro em ouro; mas ninguém ousou desabotoar a farda do morto
defendido pelo sagrado terror da morte. Apenas uma das sentinelas intanguidas
de frio, votou que se bebesse o resto da genebra. Assim que foi dia claro,
o Zeferino desceu à igreja próxima, a Margaride, avisar o pároco
que tinha morrido na estrada um fidalgo do exército do Sr. D. Miguel.
O padre, estremunhado e liberal, respondeu que não era coveiro; que
se dirigisse ao regedor. A autoridade, sem as delongas dos processos legais,
depositou o cinturão com as peças na mão do administrador,
e mandou abrir uma cova no adro da igreja, onde o baldearam com um responso
económico. Passavam jornaleiros para as roças. Punham as enxadas
no chão e encostavam às mãos calosas as caras contemplativas.
O regedor contava que lhe acharam mais de um conto de réis em ouro.

– Toma! – disse um dos jornaleiros – um conto de réis!
– E inclinando-se à orelha de outro jornaleiro: – Ó
Tónio, se temos ido mais cedo para o monte... e topámos o morto...

– Que pechincha!...

Restos de virtudes antigas. Estavam a fazer um idílio em prosa.

O Zeferino acompanhou a guerrilha até que mataram o general em Trás-os-
Montes os soldados do Vinhais; depois passou com alguns chefes realistas para
a Junta do Porto; e, acabada a luta, foi para casa e entregou a espada ao
pai, que o recebeu com estas carícias:

– Eu sempre te disse que eras uma cavalgadura! Que te não fiasses
no bêbedo de Quadros; que não saísses a campo sem lá
ver o morgado de Barrimau. Agora, pedaçode- asno, torna a começar
com as paredes, e tem cuidado que te não deitem a unha. Lembra-te que
prendeste o regedor de Vilalva, e quiseste agarrar o brasileiro de Prazins
que tem agora demais a mais o irmão regedor. Olha se te lembras...
A mãe do José Dias anda por aí a berrar que a Marta e
mais tu lhe matas-te o filho. Lume no olho, homem, lume no olho!

– Se alguém embarrar por mim, dou-lhe cabo da casta! –
protestava o pedreiro, cortando com o braço e punho fechado punhadas
aéreas. – Se me matarem... até lho agradeço! –
E com desalento: – Sou o maior infeliz e desgraçado que cobre
a rosa do Sol! Veja você: há três anos que não tenho
uma migalha de estifação, c'um raio de diabos! Isto acaba mal,
digo-lho eu! Você verá, sor pai, que ou me matam ou eu acabo
numa forca pr'ámor daquela rapariga que foi o Diabo que me apareceu,
e não me passa daqui! – e apertava o gorgomilo nodoso entre dois
dedos como quem apanha uma pulga.

Os administradores de concelho receberam ordem de recolherem as espingardas
reiunas que se encontrassem nas aldeias, em poder do povo. Para as cabeças
dos distritos ramificaram-se destacamentos a fim de coadjuvarem a autoridade.
Simeão de Prazins, como regedor, foi chamado a Famalicão e incumbido
de dirigir a diligência militar que devia dar um assalto a Lamelas,
a casa do Zeferino, onde se haviam denunciado as espingardas com que alguns
miguelistas se tinham recolhido, contra as condições estipuladas
no protocolo de Gramido. O regedor compreendeu o perigo da empresa; pediu
que o demitissem; mas a autoridade impôs-lhe com azedume o cumprimento
dos seus deveres, e negou-lhe a demissão.

Quando o Zeferino, sucumbido à carga dos reveses, indiferente à
vida e à morte, se chamava infeliz e desgraçado, o destino implacável
preparava-lhe novo desastre. Ele, ao romper da manhã, depois de uma
insónia febril, sonhava que era sargento-mor das Lamelas e assistia
à formatura do regimento de milícias de Barcelos debaixo do
solar de D. Maria Pinheiro. Na janela gótica do velho edifício
da época de D. Afonso IV estava D. Miguel I assistindo ao desfilar
do seu exército vencedor, em que havia muitas músicas marciais,
de fulgurantes trompas, tocando o Rei-chegou; e o abade de Calvos, dentro
de um carroção e vestido de pontifical, borrifava o povo com
hissopadas de água benta, cantando o Bendito. As tropas estendiam-se
até Barcelinhos, e pelo Cávado abaixo velejavam muitos barquinhos
embandeirados de galhardetes com as bandas musicais de Santiago de Antas de
Ruivães tocando a Cana-verde e Água leva o regadinho. Num desses
bergantins com pavilhão de colchas vermelhas vinha sentada a irmã
do padre Roque, mestre de latim, com os seus óculos, a fazer meia;
e ao lado dela, vestida de cetim branco e borzeguins vermelhos dourados, com
os cabelos soltos, vestida como os anjos da procissão da Senhora da
Burrinha em Braga, a Marta de Prazins. Ele estava na ponte, absorto na visão
da noiva que chegava pelo Cávado para se casar quando um vizinho lhe
bateu com o cabo da sachola na janela três pancadas. Saltou da cama
atordoado.

Que fugisse pelo quintal que já estavam soldados a entrar nas Lamelas
com o regedor.

Zeferino ganhou de pronto os desvios de um pinhal, e por detrás de
um socalco enxergou o Simeão ao lado do sargento da escolta parar em
frente da sua casa e apontar para as janelas. Ouviu bater estrondosas coronhadas
no portal, e viu alguns soldados invadirem depois o quintal, e entrarem pela
porta da cozinha que ficara aberta. Depois avistou a escolta a retirar-se
com dois homens carregados de armas.

O velho alferes, entrevado, estava muito aflito quando o filho entrou. O
sargento quisera levar--lhe a sua espada; e compadecera-se dele quando o vira
a chorar e a dizerlhe que era um alferes do antigo exército, e que
o deixasse morrer ao lado da sua espada, já que ele não podia
defendê-la porque estava tolhido.

O Zeferino perguntou pacificamente:

– E o Simeão que dizia?

– Não dizia nada. Eu é que lhe disse... Arrieiros somos,
na estrada andamos, vizinho Simeão.

O pedreiro quedou-se longo tempo sentado com as mãos fincadas na cabeça:
olhava para o canto em que tivera duas dúzias de espingardas compradas
pelo Cerveira Leite, e dizia com resignação contrafeita:

– Elas assim com'ássim já não serviam de nada...
A guerra acabou... Que leve o Diabo tudo... – E, passados alguns segundos
de recolhida angústia: – Veja você, sor pai! O Simeão
dá-me a filha, depois diz que ma não dá; isto não
se fazia a um homem que põe navalha na cara... Eu levava a minha vida
muito direita, estava muito bem, você bem sabe; deitei-me a trabalhar
quanto podia; e vai depois, por causa da minha paixão, fiquei areado
do juízo, deixei a arte, andei por esse mundo a gastar à minha
custa, ao frio e ao calor, em términos de me levar o Diabo com uma
bala; e vai agora o Simeão entra-me pela porta dentro, leva-me as armas,
e, se me pilha, metia-me uma baioneta no corpo...

– Homem – atalhou o pai com juízo – não fosses
tu lá a Prazins embirrar com o brasileiro...

– Eu tenho a minha paixão – objectou o filho com transporte
– tinha cá dentro do peito esta navalha de ponta espetada; e
ele... que mal lhe fiz eu p'ra me querer mal?... Sabe você que mais?...
Assim com'ássim, estou perdido...

Saiu arrebatadamente e foi para o Monte Córdova conversar com o Patarro,
um velho celerado que se batera em Braga com a cavalaria do Casal e pudera
salvar-se com o sacrifício de três dedos e do nariz acutilados.

Na semana seguinte, quarta-feira, era o mercado de Famalicão. O regedor
tinha comprado duas juntas de bois para o caseiro da Retorta, uma quinta solarenga,
torreada, com o brasão dos Brandões, que o brasileiro comprara
a um fidalgo de Afife. O negócio deitara a tarde. Simeão saíra
ao desfazer da feira com o caseiro da Retorta e mais dois lavradores de outra
freguesia que montavam éguas andadeiras de muitos brios. O Simeão
cavalgava a sua velha ruça, de uma pachorra mansa, invulnerável
à espora. Recebia as chibatadas encolhendo os quadris e andando para
trás. Ela não podia manifestar de um modo mais sensível
a sua repugnância pelas pressas. O dono gabavase de só ter caído
juntamente com ela poucas vezes. Saíram da feira conversando a respeito
de Marta. Constava aos outros que ela se quisera matar à conta do José
Dias. O Simeão achava que sim, que ela quisera atirar-se ao rio; mas
que estava quase boa em Caldelas; que o vigário e mais a irmã
lhe tinham dado um jeito ao miolo; e logo que ela estivesse fina, casava com
o tio.

– E ele qué-la? – perguntou o Bento de Penso.

– Pois então!... Tomara-a ele já.

– Enfim – tornou o Bento – você há-de perdoar
que eu lhe diga o que tenho cá no sentido. O povo diz que o Dias entrava
lá de noite. Eu não vi, mas é o que diz o povo. Ora um
home sempre se atriga de casar com mulher de maus cretos. O seu brasileiro
pelos modos é de bô comer...

– Tem bô estômago, é o que é – confirmou
o Belchior da Rechousa.

O Simeão não estranhava estas franquezas muito triviais nas
aldeias ainda imaculadas do resguardo das conveniências; mas defendia
a honra da filha, atribuindo ao Zeferino as calúnias que espalhava
para se vingar.

– Enfim – disse o Belchior – você tinha-lha dado
por quinze centos. É o que diz o povo, e palavra d'home não
torna atrás.

– Isso cá da minha parte foi chalaça... – defendia-se
o Simeão, quando três homens, mascarados com lenços, fincando
as argolas dos paus no caminho, saltaram de uma ribanceira, à frente
das três éguas que caminhavam a passo. Um dos três jogou
uma paulada à cabeça do Simeão e derrubou-o.

Os dois lavradores das éguas travadas deram de calcanhares e pareciam
dois duendes de comédia mágica vistos à luz crespuscular.
O caseiro abandonou as sogas dos bois, galgou paredes e searas em desapoderada
fuga até Famalicão, e à entrada da vila gritou –
aqui d'el-rei ladrões! Contou o sucesso ao povo alvorotado, acudiu
a autoridade, encheu-se a estrada de gente em cata de Simeão e da malta
dos ladrões. Acharam-no prostrado, de costas, arquejando, com a cara
empastada de sangue que borbotava empoçando-se dos dois lados da cabeça.
A égua rilhava entre os dentes e o freio umas vergônteas tenras
de tojo, e de vez em quando tossia a sua pulmoeira com os ilhais enfolipados.
O Futrica, um ferrador da Terra Negra, examinou a cabeça do ferido,
e disse que tinha o miolo à vista; não podia durar muito, que
lhe dessem a santa unção. Pediu-se uma padiola ao lavrador mais
próximo e levaram-no para Prazins prometendo duas de doze a dois jornaleiros.
O caseiro montou a égua para ir a Santo Tirso chamar o Baptista, o
cirurgião da casa; mas a burra, estranhando as esporas dos tamancos,
levantou-se com o cavaleiro, deixou-se cair sobre os jarretes traseiros, voltou-se
de lado como quem se ajeita para dormir: foi necessário levantá-la.
O povo dava risadas estridentes quando o caseiro puxava debaixo do ventre
da égua a perna entalada, muito cabeluda; e ali perto estava a padiola
com um velho gemente, agonizante, a pedir a confissão.

Assim que a padiola entrou em Prazins, foi aviso à Marta que o pai
estava a morrer com pancadas que lhe deram os ladrões de estrada. D.
Teresa e o prior acompanharam-na. Quando chegaram, saía o pároco
de o confessar e tocava o sino ao viático. Havia uma agitação
de angustiosa curiosidade no povo que confluía à igreja chamado
pelo sinal. Dizia-se que eram ladrões que saíram ao lavrador
em Santiago de Antas; havia opiniões mais individualistas: segredava-se
o nome do pedreiro; um pastor de cabras dizia que vira passar de madrugada
para as Lamelas o Patarro de Monte Córdova e mais outro mal-encarado;
mas todos à uma diziam que não tinham visto nada, nem queriam
saber de desgraças, com medo à malta do Zeferino.

O Simeão estava ainda com a face arregoada de sangue, vestido sobre
a cama, resfolegando com muita ansiedade, gemendo com dores, e a cabeça
um pouco elevada sobre um magro travesseiro muito comprido dobrado em três
pelo vigário. Esperava-se o cirurgião. A filha teve um desmaio
quando viu a cara ensanguentada do pai, à luz mortiça de uma
vela de sebo numa placa de lata. D. Teresa, com a Marta nos braços,
disse ao irmão:

– Que miséria de casa! Pede luzes e água para se lavar
aquele sangue.

E, assim que Marta voltou a si, levou-a para o seu quarto – que a viria
chamar quando o pai a pudesse ver. Queria retirá-la do espectáculo
dos paroxismos.

Quando chegou a extrema-unção com o préstito clamoroso
do Bendito e o tilintar espacejado da campainha, Marta carpia-se em altos
gritos, e pedia que a deixassem despedir-se de seu pai.

Ela tinha ouvido dizer a uma das vizinhas que lhe invadiram a alcova: –
quem lhe bateu, ó mulheres, não foi outro senão o Zeferino
das Lamelas. Juro que não foi outro. – Esta afirmativa cravou-lhe
no coração o remorso de ser ela a causa da morte do pai. Queda
ir pedir-lhe perdão; rogava à sua amiga que pelas chagas de
Cristo a deixasse ir ajoelhar-se à beira de seu desgraçado pai.
D. Teresa conteve-a, receando novo ataque de loucura; que esperasse que se
fizesse o curativo; que o cirurgião não queria no quarto senão
o barbeiro que lhe estava a rapar a cabeça.

Pouco depois chegava o tio Feliciano da quinta da Retorta, onde residia assistindo
às obras. Vinha aterrado. Disse ao Osório que já estava
arrependido de comprar a quinta; que Portugal era uma ladroeira e um bando
de facínoras; que se ia embora muito breve. E, entrando no quarto onde
a sobrinha chorava, disse-lhe consternadamente que, se morresse o pai, fizesse
de conta que tinha em seu tio um segundo pai.

O cirurgião saiu desconfiado do ferimento. Uma das pauladas despegara
um pedaço de tegumento, deixando descoberto o crânio, que o ferrador
da Terra Negra chamara o miolo. A hemorragia era grande, e havia receio de
comoção cerebral. O facultativo, depois de o sangrar, mandou-lhe
pôr panos molhados na cabeça, de quarto em quarto de hora. Marta
e Teresa não abandonaram um momento o catre do enfermo; o padre Osório
passou a noite na saleta atendendo o brasileiro que lhe falava muito na sobrinha,
na paixão que ela tivera pelo José Dias, e não lho levava
a mal, pelo contrário.

Aí pela madrugada o ferido sentiu-se muito angustiado, tinha estremecimentos,
dizia disparates; queria arrancar os pachos da cabeça, bracejava, e
puxava para o peito a face da filha lavada em lágrimas. O padre acudiu
e mais o Feliciano; receavam que ele estivesse agonizando. Depois aquela agitação
esmoreceu num dormitar sobressaltado, com a cabeça no regaço
de Marta, que brandamente lhe compunha o pacho da ferida. Quando espertou
da modorra conheceu a filha, e repeliu-a. Falou no pedreiro que o matara,
e recaiu no estado comatoso. O padre Osório atribuía aquela
sonolência a derramamento de sangue no crânio, um sintoma de morte
provável. O cirurgião veio de madrugada, mandou-lhe deitar sanguessugas
atrás das orelhas, e disse ao vigário de Caldelas que estava
mal-encarado o negócio; que aquele diabo de sono lhe parecia de mau
agouro. Que ia ver uns doentes e voltava logo.

Marta fazia muitas promessas à Senhora da Saúde; dez voltas
de joelhos ao redor da sua capela, um resplendor de prata, jejuar a pão
e água seis meses a fio, não comer carne durante um ano, ir
descalça à romaria da milagrosa Senhora. Com estas promessas
sentia-se menos oprimida do seu remorso; o pai estava ali a morrer por causa
dela, e a Maria de Vílalva já dizia também que fora ela
a causa da morte do seu filho. Uma desgraçada, que vinha assim a causar
a morte do noivo e do pai.

O ferido teve uma intermitência de repousada vigília. Olhou
para a filha, e disselhe que morria, que a deixava sem pai nem mãe.
O Feliciano acudiu:

– Isso não lhe dê cuidado, mano Simeão. Nada lhe
há-de faltar. É minha sobrinha; não tenho mais ninguém
neste mundo.

– Eu morria contente – balbuciou o Simeão lacrimoso –
se ela fosse sua mulher...

Fez-se um silêncio esquisito. Marta abaixou os olhos; a D. Teresa olhou
para o irmão a ver o que ele dizia; o padre Osório olhava para
o brasileiro a ver como se expressavam as suas ideias; o Feliciano esperava
que os outros dissessem alguma coisa. E então o pai de Marta, aconchegando-a
de si, com muita ternura:

– Casas com o teu tio, minha filha? É o último pedido
que te faço...

Marta fez um gesto afirmativo, e caiu de joelhos, curvada sobre o leito,
a soluçar; depois, deu um grito e escorregou para o chão, em
convulsões, com o rosto muito escarlate e a boca a espumar. D. Teresa
e o irmão conduziram-na ao seu quarto. Deitaram-na já sossegada,
mas numa rigidez insensível, com a boca ligeiramente toda.

O cirurgião chegava nesta conjuntura e disse que a rapariga herdara
a moléstia da mãe, que eram ataques epilépticos; e ao
tio Eeliciano disse-lhe particularmente que o pior da herança não
era a epilepsia; era a demência que levou a mãe ao suicídio.
Que a rapariga era fraca, e tinha sido criada com umas mimalhices de menina
da cidade, que estragam o corpo e a alma; que era preciso ter muito cuidado
com ela, não a afligir, distraí- la, casada, enfim, que seria
bom casá-la, e dar-lhe vinagre a cheirar, quando viesse outro ataque,
e ter cuidado que ela não apanhasse a língua entre os dentes;
que lhe metessem um pano entre os dois queixos, quando lhe desse outro ataque.

– Ele disse que o melhor era casar-se – lembrou o Feliciano ao
padre Osório.

Capítulo XVI

Relatava o vigário de Caldelas:

– O cérebro do Simeão, se era refractário aos
golpes da dignidade, não era mais sensível às comoções
das pauladas. Duas vezes feliz quanto à cabeça: nem honra nem
predisposições inflamatórias. Cicatrizou a ferida; começou
a comer galinhas com a fome de um canibal e com o prazer carnívoro
de uma raposa. Dera tacitamente Marta o consentimento de casar com o tio;
esperava em soturno abatimento que a casassem; e, se minha irmã lhe

tocava nesse assunto, dizia: . Quanto ao casamento – prosseguiu o padre
Osório – eu cismava se a primeira noite nupcial seria a véspera
de escandalosas desavenças, arrependimentos, choradeiras, divórcio,
vergonhas, coisas; mas ocorria-me que Feliciano me confessara repetidamente
que saíra da sua aldeia aos doze anos e tornara casto e puro como saíra.
E eu então, atendendo a que a castidade, além de ser em si e
virtualmente uma coisa boa, tem umas ignorâncias anatómicas,
e umas inconscientes condescendências com as impurezas alheias, descansava,
tranquilizava o meu espírito escrupuloso. Uma falsa compreensão
da honra alheia às vezes me aconselhava que mandasse o brasileiro conversar
sobre o assunto com o operário que o luar enganara em certa noite;
mas a honra, como a consciência, não são quantidades constantes
no geral das pessoas; são condições da alma tão
variáveis como a matéria exposta às mudanças climatéricas.
Ora as condições mentais e morais de Feliciano Prazins eram
as melhores e as mais garantidas para a sua felicidade. Com que direito ia
eu estragar aquele excelente organismo?

Até aqui o padre Osório com a sua grande prática etnológica
dos usos e costumes dos maridos sertanejos do Minho.

O mano lavrador não era mais apontado em melindres de pundonor. Assim
como curara em silêncio o coração, golpeado pelas deslealdades
da defunta Genoveva, do mesmo modo se acomodara com os estragos sofridos nos
tegumentos da cabeça. Dizialhe o administrador que querelasse contra
o Zeferino, porque havia testemunhas indicativas que faziam prova. Não
quis. – Depois é que me dão cabo do canastro; –
dizia com um dom profético, e circunspecção admirável
num homem sem instrução primária.

No entanto, Zeferino debatia-se num azedume de desesperado, muito má-língua,
insano de paixão, a degenerar para facínora em teorias de escavacar
meio mundo. Começou a superar-lhe nas entranhas o vício do pai
com sedes ardentes de vinho do Porto e genebra. Sentia alívios, consolações
inefáveis, quando se embebedava; rejuvenescia; a vida encarava-se-lhe
melhor. Arranchava com vadios nas noitadas das tavernas onde se jogava esquineta
e monte. Trocava na mesa da tavolagem peças de duas caras que comprara
no tempo em que amealhara dez mil cruzados com dez anos de trabalho. Os parceiros
roubavam-no. Vinham de noite de Famalicão a Landim, perto das Lamelas,
jogadores professos, armar a forquinha ao pedreiro com cartas marcadas e pego.
Depois das perdas, quando se via atascado na esterqueira do jogo e da borracheira,
embriagava-se de novo, e nessas alucinações ia a Prazins, de
clavina ao ombro, com o Tagarro de Monte Córdova, e falava alto, com
petulância, paira que Marta o ouvisse. O brasileiro e o Simeão
tinham-lhe medo e não abriam as janelas depois do Sol posto.

Espalhou-se então a notícia de que o brasileiro ia efectivamente
casar com a sobrinha.

O Zeferino escreveu ao Feliciano uma carta anónima, que era um traslado
aumentado do depoimento do pedreiro que vira o José Dias saltar da
janela. E por fim ameaçava-o: – que, se casasse com a Marta,
não a havia de gozar muito tempo. O Feliciano mostrou a carta ao irmão.
Concordaram que era o pedreiro com a sua paixão, danado de raiva. O
brasileiro entrou a cismar que o celerado era capaz de levar a vingança
ao cabo – bater-lhe, matá-lo. Os tiros desfechados à sua
honra de marido de Marta resvalavam-lhe na couraça da consciência:
, dizia ele; mas a ideia de um tiro ao seu físico, inquietava-o deveras.
, dizia o brasileiro ao mano, num grande mistério.

Lembrou-lhe o seu compadre, o Francisco Melro da Pena, um taverneiro de olhos
estrábicos, de alcunha o Alma Negra, um que o tinha avisado, quando
a malta da patuleia tencionava agarrá-lo. O Melro rompera relações
com o Zeferino, por causa da partilha de uns dinheiros apanhados na mala do
correio de Guimarães, e dizia hiperbolicamente ao seu compadre que
o Zeferino, quando andara na patuleia, era ladrão como rato.

O Melro era má bisca. Estivera três anos na Relação
como cúmplice num homicídio que se fizera na sua tasca. Vivia
apertadamente com mulher e quatro filhos, e não cessava de pedir empréstimos
ao compadre desde que o avisara. Quando o Simeão foi espancado, o Melro
logo lhe disse era segredo que quem lhe batera fora o Zeferino, com as costas
guardadas par dois pimpões do Monte Córdova. E acrescentou:
– Ele bem sabe a quem as faz. Havia de ser comigo ou com pessoa que
me doesse...

O Feliciano deu um passeio para os lados da Pena, onde morava o compadre.
Disse-lhe que ia ver a quinta da Comenda que se vendia; que lha fosse mostrar.
Conversaram; e, no regresso, pararam em frente de uma casa com três
janelas e um quintal espaçoso.

– É aqui – disse o Melro.

O brasileiro pôs o monóculo e leu um bilhete pregado na porta
com quatro tachas: Domingo, às 10 da manhã, depois da missa,
vai à praça a quem mais der sobre a avaliação
judicial de 500$000 réis esta casa, dízima a Deus, para partilhas.
O Feliciano leu, retirou-se apressado para que o não vissem, murmurando
quaisquer palavras a que o compadre Melro respondeu:

– Vossoria então está a ler! Tão certo tivesse
eu o Céu como tenho a casa...

Feliciano seguiu para Prazins e o Melro disse aos fregueses da taverna que
o seu compadre ia comprar a quinta da Comenda, e que estivera a ler o escrito
da casa do Cambado que se vendia, e dissera que talvez a comprasse para a
dar a um afilhado...

– Ao teu pequeno?! – perguntavam.

– Pois a quem há-de ser! Aquilo é que é um homem
às direitas!

– Ele não sabe o que tem de seu. Tanto lhe monta dar-te a casa
como a mim pagar-te um quarteirão de aguardente – encareceu uni
pedreiro. – Anda agora a trabalhar no palácio da Retorta. Que
riqueza! Parece um mosteiro. Pelos modos vai para lá viver logo que
case com a Marta. Lá o mestre Zeferino rebenta que o leva os diabos!
Isso diz que dá cada arranco...

– O Zeferino, a falar a verdade, tem razão – disse o Melro.
– O Simeão tinha-lha prometido. Gente sem palavra que a leve
o Diabo! Eu, se fosse comigo... Mas, enfim, é irmão do meu compadre...
não devo dizer nada. Que se governem.

O Melro, às 8 da noite, quando os fregueses desalojaram, fechou a
taverna; e, espreitando se os pequenos dormiam, disse à mulher:

– A casa do Cambado é nossa, mas é preciso vindimar o
Zeferino...

– Credo! – exclamou a mulher com as mãos na cabeça.
– Nossa Senhora nos acuda!

– Leva rumar! – e punha o dedo no nariz.

– Ó Joaquim, ó marido da minha alma, lembra-te dos três
anos que penaste na cadeia! Olha para aqueles quatro filhos!..

– Já te disse que me não cantes – e relançava-lhe
o seu formidável olhar vesgo incendido como os lampejos da candeia
em que afogueava o cachimbo de pau. Depois, foi tirar de entre a cama de bancos
e a parede uma velha clavina. Sentou-se à lareira e disse à
mulher que tivesse mão na candeia. Enroscou o saca-trapo na ponta da
vareta de ferro e descarregou a arma, tirando primeiro a bucha de musgo, e
depois, voltando o cano, vazou o chumbo na palma da mão.

– Ó Joaquim, vê lá o que vais fazer! – insistia
a mulher, limpando os olhos com a estopa da camisa. E ele, assobiando o hino
da Maria da Fonte, despejava a pólvora da escorva, desaparafusava a
culatra e tirava as duas braçadeiras. A mulher soluçava, e ele
cantando numa surdina rouca:

Leva avante, portugueses,

Leva avante, e não temer...

– Pelas chagas de Nosso Senhor, lembra-te dos nossos pequenos.

E o Melro numa distracção lírica:

Pela santa liberdade,

Triunfar ou padecer...

Depois, bufava para dentro do cano e punha o dedo indicador no ouvido da
culatra para sentir a pressão do sopro, que fazia um frémito
áspero impedido pelas escórias nitrosas. Pediu à mulher
umas febras de algodão em rama, enroscou-as numa agulha de albarda
e escarafunchou o ouvido do cano.

– Está suja – disse ele – dá cá um
todo-nada de aguardente.

– Joaquim, vamo-nos deitar, pelas almas. Não te desgraces!

– Traz aguardente e cala-te, já to disse, mulher, com dez diabos!
– E pôs-se a assobiar a Luisinha. Enroscou algodão embebido
em aguardente no saca-trapo e esfregou repetidas vezes o interior do cano
até saírem brancas e secas as últimas farripas da zaracoteia.
Soprou novamente e o ar saia sem estorvo pelo ouvido com um sibilo igual.
Parecia satisfeito, e cantarolava, mezza voce:

Agora, agora, agora,

Luisinha, agora.

Armou a clavina, aparafusou as braçadeiras, a culatra e a fecharia,
introduzindo a agulha. Aperrou e desfechou o cão repetidas vezes, acompanhando
o movimento com o dedo polegar, paira certificar-se de que o desarmador, a
caixeta e o fradete trabalhavam harmonicamente. Levantou o fuzil de aço,
que fez um som rijo na mola, e friccionou-o com pólvora fina; e, com
o bordo de um navalhão de cabo de chifre, lascou a aresta da pederneira
que faiscava.

– Valha-me a Virgem! valha-me a Virgem! – soluçava a mulher.
E ele, zangado com as lástimas da mulher, com expansão raivosa,
num sfogato:

E viva a nossa rainha,

Luisinha

Que é uma linda capitoa...

– Vai à loja atrás da seira dos figos e traz o maço
dos cartuchos e uma cabacinha de pólvora de escorvar que está
ao canto.

A mulher dava-lhe as coisas, a tremer, e fazia invocações ao
Bom Jesus de Braga, e às almas santas benditas. Ele encarou-a de esconso,
e regougou:

– Mau!... mau!..

Carregou a. clavina com a pólvora de um cartucho; bateu com a coronha
no sobrado, e deu algumas palmadas na recâmara para fazer descer a pólvora
ao ouvido. Fez duas buchas do papel do cartucho, bateu-as com a vareta ligeiramente,
uma sobre a pólvora e a outra sobre a bala.

Agora, a gora, agora,

Luisinha, agora.

Depois, pegou da clavina pela guarda-mata, e pôs-se a fazer pontarias
vagamente, passeando um olho, com o outro fechado, desde a mira ao ponto.

A mulher fora sentar-se no sobrado, à beira da enxerga de três
filhos a chorar; o mais novo esperneava, dava vagidos na cama a procurá-la.
Ó Alma Negra fora dentro beber uns tragos de aguardente, voltou enroupado
num capote de militar, despojo das batalhas da Maria da Fonte.

– Ora agora – disse ele – ouviste? porta da cozinha e a
cancela da horta aberta, porque eu venho pelo lado do pinhal.

– Vai com Nossa Senhora – disse a mulher; e pôs-se de joelhos
a una estampa do Bom Jesus a rezar muitos padre-nossos, a fio.

Era uma noite de Fevereiro, de névoa cerrada, um céu de carvão
pulverizado em brumas molhadas, sem clareira onde lucilasse uma estrela. Não
se agitava um galho de árvore nua movido pelo ar nem ondulava uma erva.
Era a serenidade negra e imota das catacumbas. As vezes rugia nas folhas ensopadas
de nebrina no chão esponjoso das carvalheiras a fuga rápida
das hardas, dos toirões e das raposas que se avizinhavam do povoado
a fariscarem as capoeiras. O Joaquim Melro estremecia e punha o dedo no gatilho.
O restolhar de um gato-bravo, o pio da coruja no campanário distante
punham arrepios de medo na espinha daquele homem que ia matar outro –
chamá-lo à janela e vará-lo à traição
com uma bala. – Era o traçado.

– Que raio de escuro! – dizia, esbarrando nos espinheiros perfurantes.

Em noites assim, o Universo seria o imenso vácuo precedente ao Fiat
genesíaco, se os viandantes não esbarrassem com as árvores
e não escorregassem nos silvedos das ribanceiras. O noctívago
sente na sua individualidade, nos seus calos e no seu nariz, a doce impressão
panteísta das árvores e dos calhaus. Que este globo está
muito bem feito. Os transgressores do descanso que Deus estatuiu nas horas
tenebrosas, os celerados das aldeias que larapeiam o presunto do vizinho,
que fisgam a moça incauta ou empunham o trabuco homicida, se não
temem encontrar as patrulhas cívicas das grandes municipalidades, encontram
os troncos hostilmente nodosos das árvores que são as patrulhas
de Deus. Alguns, porém, protegidos pelo Mefisto a quem venderam a alma
pelo preço da consciência eleitoral, ou mais barata, chegam incólumes
ao delito, passando ilesos como o lobo e o javali por entre os troncos das
carvalheiras esmoitadas, hirtas, com os galhos a esbracejarem retorcidos numa
agonia patibular.

O Melro, como o porco-montês e o lobo-cerval, embrenhara-se por pinhais
e carvalheiras; às vezes, parava a orientar-se pelo cucuritar dos galos
tresnoitados e latir dos cães. Ao fundo das bouças ladeirentas,
rugia o rio Pele nos açudes das azenhas e nas guardas dos pontilhões.
Lamelas era da parte de além. Mas o rio, de monte a monte, rugia intransitável
nas pequenas pontes. Foi à de Landim, uma aldeia engravatada, onde
ainda se avistavam clarões de luz nas vidraças das famílias
distintas que jogavam a bisca em ricos saraus do faubourg Saint-Honoré,
com uns deboches sardanapalescos de sueca a feijões.

Havia também um rumorejo de vozes que altercavam na taverna do Chasco.
Tinia dinheiro lá dentro. Jogava-se o monte.

O Melro cuidou ouvir proferir o nome do Zeferino. Abeirou-se, pé ante
pé, do postigo da taverna, e convenceu-se de que estava ali o pedreiro.
Era ele quem reclamava um quartinho que pusera de porta, e o banqueiro recolhera
com as paradas que estavam dentro, quando tirou a contrária de cara.

Que não admitia ladroeiras!

E o banqueiro desfeiteado observava-lhe que nada de chalaças a respeito
de ladroeiras; que todos os que estavam daquela porta para dentro eram cavalheiros.
O Zeferino replicava que não queria saber de cavalheiros; que queria
o seu quartinho ou que se acabava ali o mundo. Que quem queria roubar que
fosse para a Terra Negra.

A alusão era muito certeira e inconveniente. Estavam na roda dos cavalheiros
alguns veteranos da antiga quadrilha do Faísca, na Terra Negra, muito
desfalcada pelo degredo e pela força. Travou-se a luta a soco e pau;
havia lampejos de navalhas que davam estalos nas molas; o Tagarro de Monte
Córdova tinha feito afocinhar o banqueiro sobre os dois galhos do baralho
com um murro hercúleo, fenomenal. O taverneiro abriu a porta para escoar
o turbilhão. Eles saíram de roldão; e, quando entestaram
com a treva exterior, quedaram-se cegos como num antro de caverna. Um, porém,
dos que estavam, não saiu; encostara-se ao mostrador com as mãos
no baixo ventre, gritando que o mataram; e, vergando sobre os joelhos, num
escabujar angustioso, caiu de bruços, quando o taverneiro e o Tagarro
o seguravam pelos sovacos. Era o Zeferino.

Quando, à meia-noite, o Alma Negra entrava em casa pela porta do quintal,
encontrou a mulher ainda de joelhos diante da estampa do Bom Jesus do Monte.
Ao lado dela estavam duas filhas a rezar também, a tiritar, embrulhadas
numa manta esburacada, aquecendo as mãos com o bafo.

O Melro mandou deitar as filhas, e foi à loja contar à mulher,
lívida e trémula, como o Zeferino morreu sem ele pôr para
isso prego nem estopa. Ela pôs as mãos com transporte e disse
que fora milagre do Bom Jesus; que estivera três horas de joelhos diante
da sua divina imagem. O marido objectava contra o milagre – que o compadre
não lhe dava a casa, visto que não fora ele quem vindimara o
Zeferino; e a mulher – que levasse o demo a casa; que eles tinham vivido
até então na choupana alugada e que o Bom Jesus os havia de
ajudar.

Ao outro dia, o Joaquim Melro convenceu-se do milagre, quando o compadre,
depois de lhe ouvir contar a morte do pedreiro, lhe disse:

– Enfim, você ganha a casa, compadre, porque mátava Zéférino,
se os outros não matam ele, hem?

Capítulo XVII

Celebrou-se o casamento na capela da quinta da Retorta. Foi o vigário
de Caldelas o ministro do sacramento. D. Teresa madrinha, e o padrinho veio
do Porto, o barão do Rabaçal, um gordo, casado com as brancas
carnes veludosas da filha do Eusébio Macário. O padrinho, muito
faceiro, dizia ao Feliciano:

– Mi pérdoe, amigo Prázins, você si casa com minina
mágrita, muito seca di encontros. A mi mi dá na tineta para
gostar das redondinhas, hem? É a minha filosofia. A mulher si quer
roliça, de manêras que a gente ache nos braços ela.

O devasso fazia corar o casto noivo. A Marta, à sobremesa, não
lhe percebia umas graçolas obrigatórias em bodas canalhas, que
faziam náuseas à aristocrática D. Teresa, muito pontilhosa
em não admitir equívocos. O vigário achava no barão
a salobra brutalidade que faz nos inteligentes a cócega do riso que
o Cervantes, o Rabelais, o Swift e o português Sr. Luís de Araújo
nem sempre conseguem quando querem.

A Marta, numa tristeza inalterável, desde que saiu da igreja. Ao fim
da tarde, fechou-se com D. Teresa no seu quarto, abriu o baú, e tirou
do fundo o pacotinho das cartas do José Dias, e disse-lhe:

– A senhora há-de guardá-las; e, quando eu morrer, queime-as,
sim?

– E se eu morrer adiante de ti? – perguntou D. Teresa risonha.

– Diga então ao Sr. Padre Osório que as queime: porque
olhe – e abraçou-se nela a chorar, a soluçar – eu...
eu morro, ou endoideço. Cheguei a esta desgraça; estou casada
rara fazer a vontade a meu pai, cuidando que ele morria; não sei como
hei-de sair disto senão acabando de vez ou perdendo o juízo
como a minha mãe... bem sabe como ela acabou.

D. Teresa Osório banalmente a consolava com o vulgarismo das coisas
que se dizem ao comum das meninas casadas com maridos repugnantes e ricos.
– Que se havia de afazer, que tudo esquecia com o tempo. Ela, um pouco
aristocrata por bastardia, não acreditava em melindres de sentimentalidade
na filha do lavrador parrana e da Genoveva da vida airada. O apaixonar-se
pelo Dias, um bonito rapaz de aldeia, parecialhe trivial; tentar suicidar-se
quando ele morreu, para uma senhora lida em novelas românticas, era
um caso ordinário e pouco significativo; porém, condescender
com a vontade do pai, casando com o tio, pareceu-lhe um acto de condição
plebeia, a natureza reles da filha do Simeão que afinal dominava estupidamente
as indecisas manifestações de uma índole artificialmente
delicada.

O padre compreendia mais humanamente Marta, dizendo à irmã:

– Ela quando consentiu em casar com o tio já estava doente da
moléstia nervosa que a há-de levar ao suicídio.

D. Teresa, com o seu critério um pouco adulterado pelas excêntricas
heroínas de Sue e Dumas, não podia entroncar aquela rapariga
de uma aldeia minhota na genealogia dessas parisienses naufragadas em romanescas
tempestades. E demais, se Marta, como o irmão dizia, estava sob a influência
da loucura, a sua desgraça parecia-lhe uma doença e não
uma tragédia, segundo as exigências de uma senhora que tinha
lido o mais selecto da biblioteca romântica francesa desde 1835 a 1845
– tudo o que há de mais falso e tolo na literatura da Europa.
D. Teresa queria mais drama na desgraça de Marta; porque, se alguma
poesia elegíaca lhe concedera pela tentativa de matar-se, toda se resolvia
em chilra prosa pelo facto de a imaginar no tálamo conjugal com o arganaz
do tio.

Eram horas de deitar. O padre tinha ido para Caldelas a fim de dizer a missa
de madrugada, e deixara a irmã a pedido de Marta; o barão do
Rabaçal escancarava a boca nuns bocejos ruidosos e levantava uma perna
espreguiçando-se; o noivo olhava para o mostrador do relógio
colado aos olhos; e Marta, muito aconchegada de D. Teresa, queixava-se de
cãibras; que lhe zuniam coisas nos ouvidos, que via faíscas
no ar, e tinha muito calor na cabeça. D. Teresa dizia-lhe que se fosse
deitar, que precisava de recolher-se. Marta pedia-lhe que a deixasse ir dormir
ao pé dela, pedia-lho pela alma de sua mãe, pela vida de seu
irmão.

A hóspeda compreendia, compadecia-se, receava o ataque epiléptico,
precedido sempre das faíscas e cãibras de que se queixava a
noiva; mas não sabia como dirigir-se ao marido de Marta a pedir-lhe
que se fosse deitar sozinho. Nos seus numerosos romances não achara
um episódio desta espécie. Interveio na crítica conjuntura
o Simeão, dizendo à filha:

– São horas de ir à deita. O teu marido está a
cair com sono.

Marta fixou o pai com os seus olhos esmeraldinos rutilantes de cólera,
num arremesso de cabeça erguida, e com os lábios a crisparem.
Era a nevrose epiléptica. Seguiram-se as convulsões, o espumar
da boca, um paroxismo longo de vinte minutos. D. Teresa pediu que a ajudassem
a levá-la para a sua cama, e disse com fidalga impertinência
ao Simeão que a deixassem com ela, e não lhe falassem no marido.
Simeão coçava-se com grande desgosto. O brasileiro contava ao
barão que a sua sobrinha era atreita àqueles ataques; mas que
o cirurgião lhe dissera que lhe haviam de passar em casando. O do Rabaçal
notou que o remédio então bom era, e seria bom começá-lo
quanto antes. Disse mais chalaças a propósito e foi-se deitar.
Feliciano ainda foi saber como estava a esposa, mas já não havia
luz no quarto de D. Teresa. Recolheuse à cama, e continuou mais uma
noite no seu leito solitário, virginalmente.

D. Teresa sentia-se mal, num embaraço quase ridículo, naquele
meio. Marta não a largava, parecia uma criança espavorida, agarrada
ao vestido da mãe, assim que ouvia os passos do tio. Ele, muito carinhoso,
com o monóculo no olho direito, a oferecer-lhe castanhas de ovos, toucinho
do céu, a pegar-lhe da mão e a fazer-lhe festas no rosto muito
corado de pudor. D. Teresa discretamente deixou-os sozinhos. A Marta ficou
a olhar para a porta por onde a amiga se evadira, e fazia uns gestos de quem
meditava raspar-se; mas o marido tinha-a segura pelas mãos mimosas,
beijando-lhas ambas com uma sensualidade delicada, um pouco babada, mas muito
comedida, estendendo os beijos quentes e húmidos até aos pulsos
lácteos e redondinhos. Marta, numa impassibilidade, não se recusava
às carícias, e pareceu mesmo inclinar um pouco o rosto quando
o esposo com um bom sorriso do amor dos quinze anos lhe pediu um beijinho,
que foi mais demorado do que era de esperar da sua candura e da inexperiência
de tais delícias. Estavam ambos rosados; mas o rubor de Marta era carminado
de mais e nos seus olhos havia uma rutilação vaga pela extensão
da grande sala. Ela via a sombra de José Dias: era o José Dias
em pessoa, dizia ela depois a D. Teresa, quando recuperou os sentidos, e não
sabia como a transportaram para a cama da sua amiga. Apenas se lembrava de
que o tio, depois que a beijara no rosto, a levara pelo braço e entrara
com ela no seu quarto, apertando-a muito ao peito, levantando-a nos braços
com muita força, não a deixando fugir e sufocando-lhe os suspiros
com os beijos. Não se lembrava de mais nada. E D. Teresa, quanto cabia
na sua alçada, contava-lhe o resto imperfeitamente; isto é,
que o marido a fora chamar ao laranjal, um pouco aflito, dizendo que a sua
esposa estava na cama sem sentidos; e pedia vinagre para lhe chegar ao nariz.

Padre Osório veio jantar e buscar a irmã. Observou no aspecto
do brasileiro uma irradiação de felicidade, o júbilo
de uni homem que se sentia impavidamente completo, na integridade da sua missão
filogínica. Foi então que o padre assentou as suas teonas um
pouco flutuantes acerca das vantagens da castidade em benefício das
impurezas alheias.

O Feliciano, quando o cirurgião chegou à tarde, contou-lhe
com pouco recato de pudicícia conjugal as circunstâncias, particularidades
ocasionadas no , dizia ele. O facultativo, um velho patusco, disse que não
se admirava, porque a Srª D. Marta era muito nervosa, imperfeita ainda
na sua organização, e que as impressões desconhecidas
e um pouco violentas nas constituições fracas produziam extraordinárias
perturbações; mas que não se assustasse, que não
era nada; que as segundas naturezas se faziam com o hábito.

– Banhos de mar – aconselhava – bife na grelha e vinho
do Porto, quanto mais choco melhor. O que se quer cá fora é
um rapaz; não há como um filho para fortalecer a compleição
de uma mulher débil; um filho, quando sai do ventre da mãe,
traz consigo para fora os maus nervos, e acabam os chiliques. Ande-me com
um rapagão para a frente!

Na ausência de D. Teresa, a melancolia de Marta cerrava-se de dia para
dia. O governo da casa era-lhe de todo indiferente, como se fosse hóspeda.
O marido não a compelia a interessar-se nesses arranjos de que, dizia
o Simeão, ela nunca quisera saber em Prazins. O barão do Rabaçal
mandara-lhe do Porto cozinheira e governanta. Marta saía raras vezes
de uma saleta onde tinha um oratório que trouxera de casa. Confessavase
mensalmente a Frei Roque, o irmão da sua mestra, e professor do de
Vilalva, e demorava-se no confessionário com perguntas desvairadas
a respeito da alma de José Dias, porque dizia ela ao padre-mestre que
o via muitas vezes em corpo e alma, e até o ouvia falar e lhe sentia
as mãos no seu corpo. O frade, sem revelar o sigilo da confissão,
dizia à irmã que a Marta dava em doida como a mãe.

O Feliciano ficou espavorido quando a mulher, num dos paroxismos epilépticos,
se pôs a rir para ele com os olhos espasmódicos e a chamar-lhe
José, seu Josezinho. Passada a nevrose, quando ela imergia num torpor
físico e mental, o marido contou-lhe o caso de lhe chamar Josezinho.
Ela parecia esforçar-se muito para recordar-se, e dizia que não
se lembrava de nada. Vinha o cirurgião a miúdo: – que
era histerismo, e consolava o marido com a esperança no tal rapagão,
esperanças bem fundadas, segundo as confidências do pai; mas,
consultado pelo padre Osório, o Pedrosa, um grande clínico,
dizia que a brasileira não tinha simplesmente a gota coral; que havia
ali epilepsia complicada com delírio, alienação mental
intermitente, um estado de inconsciência ou consciência anormal,
e que verdadeiramente se não podiam determinar bem quais eram os seus
actos de lucidez intercorrente.

– Ela está grávida – observou o vigário
de Caldelas. – Parece que este facto denota uma tal ou qual normalidade
de consciência, uma concepção racional dos deveres de
esposa...

– Não denota nada – refutou o médico. – Faça
de conta que é uma sonâmbula. E, como a sua demência é
funcional e não orgânica, não há desorganizações
físicas que a estorvem de ser mãe. O meu colega que lhe assistiu
à última vertigem disse-me que, alguns minutos antes do ataque,
ela, numa grande irritabilidade, lhe dissera que fugia para Vilalva, que queria
ver o José Dias... O marido felizmente fora nessa ocasião prover-se
de vinagre à despensa. Eu considero-a perdida, a menos que se lhe não
dê uma pronta e completa diversão ao espírito, e nem assim
se consegue senão temporariamente deserdar os desgraçados que
tiveram mãe e avó como esta Marta. Eu assisti ao primeiro e
ao último período de Genoveva. Repetiram-se as vertigens, veio
a decadência gradual da razão, delírios, ideias confusas,
concepção difícil, nevroses vesânicas e, por fim,
suicidou-se já num estado de demência epiléptica, que
os especialistas consideram a mais incurável. Este me parece o itinerário
da Mana, e casála com o tio deixou de ser um acto imoral para ser um
estúpido arranjo de fortuna por lado do pai e de luxúria por
parte do marido. Esta pequena tinha de vir a isto, e há-de ir a demência,
mesmo sem drama nem paixão. Tem o cérebro defeituoso assim como
podia ter a espinha vertebral raquítica. Como se faz a perda da vista?
Pela paralisia dos nervos ópticos; pois a

perda da vista normal da alma é também a paralisia de uma porção
de massa encefálica. Bem sei que isto embaraça um pouco os senhores
teólogosmetafísicos, mas lá se avenham: a verdade é
esta.

XVIII

Chegaram por este tempo, vindos das terras de Basto a Requião, os
tão almejados missionários, interrompidos no seu estéril
apostolado pela revolução de Maria da Fonte. Marta ouviu a notícia
com alvoroço, e disse que queria seguir os sermões – que
precisava de salvar a sua alma. O Feliciano viera um pouco estragado de Pernambuco
a respeito de religião; mas respeitava as crenças alheias, e
não contrariava as devoções da sobrinha. O padre Roque
era de parecer que se não deixasse Marta entrar muito pela mística;
aconselhava o marido que fosse viajar com a mulher, que a tirasse daquela
terra, porque as suas enfermidades não podiam curá-las os sermões
nem as hóstias. O egresso conhecia a farmácia do varatojano
de Borba da Montanha, e sabia que a primeira receita de Frei João era
exorcismá-la como demoníaca.

– Dão cabo dela, vocês verão, dão cabo dela
– dizia o padre-mestre.

Eram quatro os missionários que assentaram o vestíbulo do paraíso
em Requião.

O padre José da Fraga, ainda novo, bem composto e limpo nas suas vestes
sacerdotais, grave e semblante inteligente. Tinha-se ordenado em Brancanes
com o propósito de ir propagar o cristianismo na China; depois, interesses
e rogos de família determinaram-no a ficar na pátria, sem abrir
mão da vocação apostólica. Lera e percebera Raulica,
Lacordaire, e imitava o segundo com bastante engenho. O padre Osório
dizia-lhe que guardasse as suas pérolas para outro auditório
menos suíno. E, de feito, as mulheres, quando de madrugada o viam no
púlpito, aconchegavam-se umas das outras para comodamente tosquenejarem
o seu sono da manhã; e os homens diziam que não o chamava Deus
por aquele caminho – que não calhava p'r'á prédega.

O padre Cosme de Tagilde, robusto, de meia-idade, autor da Escala do Céu
pelas Escarpas do Gólgota e da Via Seráfica para o Reino dos
Querubins, era pregador de sentimento. Tinha sido furriel no exército
realista, e ordenara-se para herdar uns bens de uma parenta beata que tinha
horror à tropa. Lera as novelas do Prévost e Madama de Genlis,
quando era furriel. Ficou-lhe dessas leituras uma linguagem amelaçada,
com interjeições trágicas, e um jeito especial de tocar
as mães com imagens ternas tiradas das coisas infantis. Por exemplo:
E o teu filhinho, mulher, o filhinho que Deus te levou para a companhia dos
anhos, quando lá do Céu te vê pecar, estende para ti os
seus bracinhos, e diz: Mãe, ó mãe! não peques;
mãe, não peques! pelas lágrimas que por mim choraste,
não caias na tentação, porque, se te perdes, se te afundas
no abismo eterno, não tornarás a ver o teu filhinho que te chama
do Céu, mãe, ó mãe! E infantilizava o timbre da
voz, inclinava a um lado a cabeça num langor menineiro, estendia os
braços do púlpito abaixo com as mãos abertas, alongava
os beiços no jeito da boquinha de criança, e muito mavioso,
num trémulo de voz e braços: Mãe! ó mãe!
E todas as que tinham perdido filhinhos desatavam num berreiro.

O padre Silvestre da Azenha, homem antigo, de uma porcaria de sotaina digna
dos hagiológios, boa pessoa, incapaz de mentir voluntariamente, era
forte na topografia do Inferno e nas genealogias, usos e costumes dos diversos
diabos. Afirmava que a legião deles se dividia cm esquadras, capitaneadas
por Lúcifer, príncipe da Luxúria, por Asmodeu, Satanás,
Belzebu e outros, cada um com a pasta ministerial dos seus competentes vícios.
Dava notícia de um caudilho de esquadra, chamado Beemote, cujo empenho
era bestializar os fiéis – verdadeira superfluidade. –
Leviatã capitaneava o esquadrão da Soberba; e o ministro e secretário
de Estado encarregado da pasta da Avareza chamava-se Mamona. A ciência
moderna matou este diabo, extraiu-lhe o óleo, e pô-lo ao serviço
dos intestinos dos pecadores – óleo de Mamona. Explicava o padre
às mulheres o que era a corja dos demónios íncubos. Contava
casos de algumas que ficaram grávidas desses devassos, e dizia em latim
que tais demónios fecundos podiam, mesmo contra a vontade da mulher,
rem habere cum illa. E as mulheres, sem pôr mais na carta, farejavam
o latim e murmuravam indignadas: – T'arrenego! Catixa! cruzes, canhoto!
– e benziam-se, cuspinhando nos calcanhares umas das outras.

Frei João de Borba da Montanha, conquanto não frequentasse
o púlpito, era o vulto mais proeminente da missão. Saíra
já velho do Varatojo, peito fraco, um pigarro crónico de catarro
pituitoso, com poucos dentes, por onde as palavras lhe saíam assobiadas
que nem melro nos sinceirais de Julho. Por isso o confessionário era
a sua faina de prospérrimas colheitas para o Céu, e os exorcismos
a sua famosa glória cheia de triunfos sobre todas as esquadras dos
demónios conhecidos do seu companheiro padre Azenha. Eram ambos, de
mãos dadas, o terror do Inferno; um a explorar diabos no planeta, o
outro a enxotá-los. À omnipotência deste varatojano é
que o vigário de Caldelas confiara a redução da mãe
de José Dias.

Este egresso tinha feito à sua custa a terceira edição
do Pecador Convertido ao Caminho da Verdade, obra do seu conventual varatojano
Frei Manuel de Deus. Vendia o livro por 720, meia encadernação.
Chamava-lhe ele o seu balde de tirar almas do profundo poço do enxofre
infernal. Todas as beatas se consideravam mais ou menos empoçadas,
e por 720 metiam-se no balde de Frei João. Barato.

Foi este o missionário escolhido por Simeão, de harmonia com
o genro. Marta lembrava-se que o seu José Dias lhe falara nele com
muita esperança em que desfizesse os obstáculos do casamento.
Quis confessar-se ao varatojano. e revelou para esse acto uma expectativa
seráfica, grande deliberação ansiosa, um sobressalto
jubiloso em que parecia influir a cooperação sobrenatural do
querido morto. O padre Osório entrevia prelúdios de loucura
nas alegres disposições com que Marta, num recolhimento contemplativo,
desde o apontar da aurora, esperava à

porta da igreja que chegassem os missionários com o cortejo das mulheres
encapuchadas, muito ramelosas, estralejando os seus tamancos ferrados na grade
do adro que vedava a passagem aos porcos.

Enquanto na igreja, depois da missão, se depunha a hóstia nas
línguas saburrentas e gretadas das beatas – que engoliam aquela
farinha triga como quem devora sevamente um Deus – cá fora armavam-se
no adro dois tabuleiros, assentes em tripeças de engonços, com
seus pavilhões de guarda-sóis de paninho azul. Algumas mulheres
de aspectos repelentes, sujas da poeira das jornadas, com os canelos calosos
e encodeados, expunham nos tabuleiros as suas mercadorias, e ao mesmo tempo
injuriavam-se reciprocamente por velhas rixas invejosas à conta de
subornarem freguesas com caramunhas e palavreados. No silêncio do templo,
ouvia-se cá de fora: – Arre, bêbeda! – Cala-te aí,
calhamaço!

A exposição bibliográfica, feita nos tabuleiros, além
das obras em brochura e encadernadas dos missionários, constava da
Regra de S. Bento, da Missão Aumentada, da Missão Abreviada,
das Piedosas Meditações, das Horas do Cristão, do Mês
de Maria, do Mês de Jesus e do Livro de Santa Bárbara. Havia
também Novenas, Via-sacras com estampas de um horror sacrílego,
uns Cristos que pareciam manipanços do Bié. Seguia-se a camada
dos Escapulários; uns eram de N. S. do Carmo, de N. S. das Dores, da
Conceição; outros do Preciosíssimo sangue de Jesus, do
Coração do mesmo, da Santíssima Trindade e de S. Francisco.
Tinham grande saída os Cordões do mesmo santo, e as Correias
de S. Agostinho, com um botão de osso, a apertar na cintura –
arnês impenetrável ao Diabo, por causa do botão, que,
posto na correia, tem virtudes para osso muito admiráveis, quase como
as da carne, mas no sentido inverso – ela atraindo o cão tinhoso,
e ele repulsando-o. De Santo Agostinho e do Anjo da Guarda também havia
Rezas enfiadas em metal, ou em cordão, simplesmente, mais baratinhas.
Na espécie medalheiro, grande profusão: as medalhas mais procuradas
eram as do Coração de Maria do Coração de Jesus,
do Anjo da Guarda e de Santa Teresa, a 10 réis.

As coroas, penduradas em barbantes ou estendidas em meadas, eram diversas
no tamanho e na nomenclatura: as seráficas com sete mistérios,
e cada mistério com dez ave-marias; as da Srª da Conceição
com doze Aves e três mistérios: – uma certa conta que os
missionários lá graduavam com a gafaria espiritual das confessadas.
Havia algumas que se aguentavam com os Rosários de quinze mistérios,
e a Coroa dos nove coros dos Anjos, e a do Preciosíssimo sangue e coração
de Jesus. Mas o grande consumo era de contas de azeviche, refractárias
aos maus-olhados; de modo e maneira que, se o azeviche é legítimo,
senhores, logo que um inimigo nos encara a conta racha de meio a meio.

Marta, a beata, a senhora brasileira de Prazins, como lhe chamavam as regateiras
das drogas da salvação, fornecera-se de tudo em duplicado; mas
sobre todos os devocionários o da sua leitura dilecta era o Pecador
Convertido ao Caminho da Verdade, edição do seu confessor varatojano,
Frei João de Borba da Montanha.

São impenetráveis os segredos revelados no tribunal da penitência
por Marta ao seu director espiritual. O padre Osório, não obstante,
suspeitava que a penitente revelasse, com escrupulosa consciência, solicitada
por miúdas averiguações do missionário, saudades,
reminiscências sensualistas, carnalidades que se lhe formalizavam no
espírito dementado, enfim, visões e sonhos com o José
Dias. Inferia o padre a sua conjectura, sabendo que Frei João lhe mandara
ler no Pecador Convertido, três vezes por dia, o capítulo 33,
intitulado Resistência às tentações contra a castidade.
Fortalecia esta hipótese ter dito Marta a D. Teresa que a alma de José
Dias lhe aparecia em sonhos; e às vezes, mesmo acordada, lhe parecia
senti-lo na cama à sua beira; e então mordia o travesseiro para
que o tio a não ouvisse chorar. Pode ser que estas revelações,
comunicadas ao confessor, um simplório incapaz de destrinçar
entre doença e pecado, fossem acompanhadas de particularidades sensitivas
que Marta por vergonha não contava à sua amiga. É certo
que a confessada do varatojano lia, declamando, diante do seu oratório,
três vezes, por dia, a Resistência às tentações
contra a castidade.

A oração dizia assim:

Senhor amorosíssimo, não vos escondais, não me deixeis
sozinha, que me cerca o leão para me devorar; os seus rugidos me atormentam
para que não goste das suavidades do vosso amor. Cercarei todo o Mundo,
subirei aos Céus, não descansarei enquanto não achar
o meu amor. Conjuro-vos, filhas de Jerusalém, criaturas da terra que,
se encontrares o meu amado, lhe digais que morro de amor. E, se quereis os
sinais para conhecê-lo, ouvi. O meu amado é cândido e rubicundo,
escolhido entre milhares; cândido por divino, e rubicundo por humano,
cândido porque inocente, e rubicundo por chagado. Ai! doce amor, onde
vos escondestes? Tende compaixão de quem vos busca. Estes sinais que
de vós tenho só servem de avivar-me a saudade, são setas
que me ferem; morro, desfaleço, se vos não acho.

Os cabelos da sua cabeça são como p ouro mais puro e mais precioso,
são como palmitos e pretos como o corvo. Se não entendeis, filhas
de Jerusalém, nem eu vo-lo saberei explicar; o que vos digo é
que os seus cabelos são fortes laços que bastam para prender
a todo o Mundo, bastam para abrasar tudo de amor. Ai! amado do meu coração,
se as admirações do que sois abrasam a alma, que vos vê
por enigmas, que será quando vos vir claramente! Os seus olhos são
como pombas sobre correntes de águas, mansos, puros, suaves, benignos,
amorosos. Que majestosos, que humildes, que graves, que serenos, que doces,
que suaves! Oh dulcíssimo amor, já que tanto fechais os olhos
para não serem vistos, ao menos não os fecheis para me não
verem! As suas faces são como canteiros de flores aromáticas,
sempre belas, sempre cheirosas; passam os dias, os meses e os anos, e os séculos,
e as faces do meu amor sempre são flores, nem o sol as murcha, nem
o frio as corta, nem a água as corrompe, nem o vento as desfolha; são
rosas, são açucenas, são brancas e encarnadas. Oh! quem
me dera uma gota da água que as rega, um grão do calor que as
vivifica; quem me dera que o Jardineiro que as compõe me quisera semear
umas

flores no meu jardim e tomar à sua conta compô-las e regá-las,
que o meu amado gosta muito de flores. Dizei-me, aves do ar, flores do campo,
peixes do mar, viventes da Terra, dizei-me se sabeis onde assiste este jardineiro.
Mas que digo, se este mesmo é o amado a quem busco e não mereço
achar! Ó saudade ardente, ó sede matadora, ó seta penetrante,
ó amor escondido! Que fareis, Senhor, que fareis, se o vosso empenho
é ser amado, porque a minha ventura está em vos ter amor, como
escondeis o mesmo que me havia de enamorar? Os seus lábios são
lírios, que destilam mirra excelente, lírios de pureza de onde
saem palavras que inflamam no amor da mortificação. Oh! se fora
tão ditosa minha alma que recebera alguma parte da mirra que destilam
teus lírios! Oh! se foram tão felizes meus olhos que viram a
engraçada cor de tais lábios! Onde estais escondido, amado do
meu coração? Não saem por esses lábios as palavras
com que andais chamando pelas ruas, fortalezas e muros da cidade: algum é
pequenino venha para mim? Logo, como vos escondeis desta pequenina pobre e
necessitada que com tanto empenho vos busca? Suas mãos são como
de ouro feitas ao torno e cheias de jacintos, todas perfeitas, todas preciosas;
mas reparai, filhas de Jerusalém, e por aqui vos será mais fácil
conhecê-lo, que, no meio do ouro e jacintos, tem em cada mão
um precioso rubi que a passa de uma para a outra. O seu peito e entranhas
são de marfim ornadas de safiras, dando a conhecer a cor celeste da
safira, a branca do marfim e sua dureza, que os seus afectos são puras,
cândidos, castos, virginais, fortes, celestiais e divinos, sinceros,
compostos, sólidos e constantes. Ó peito de amor, entranhas
de piedade, como assim vos fechais para quem vos ama? Aqui deve de haver mistério!
Gostais talvez de me ver aflita para provar se sou amante! Quereis que me
custe muito o que muito vale, porque, se o lograr a pouco custo, farei talvez
pouco caso do que não tem preço. Mas ai, amado meu, que, se
me não dizeis onde passais a sesta ao meio-dia, temo que, andando vagabunda,
venha a cair nas mãos dos vossos contrários! A sua aparência
é como a do Líbano, a sua composição como a do
cedro; em Judeia o monte mais formoso é o Líbano, no Líbano
a árvore mais excelente é o cedro: assim é o meu amado
entre os filhos dos homens. A sua garganta é suavíssima, porque
saem por ela as vozes, as respirações do peito, que é
arquivo de amores e suavidades; enfim, todo é formoso, todo perfeito,
todo amável. Tal é o meu amado, este é o meu amigo, filhas
de Jerusalém, criaturas da Terra; se o achardes, dizei-lhe que morro
de amor...

Marta dizia a oração em voz alta, em modulações
cantadas, num arroubamento de preghiera. Aqueles dizeres, alinhavados pelo
varatojano, são extractos e imitações das escandecências
eróticas do poema dramático da Sulamita no – os trechos
mais liricamente sensuais da antiguidade hebraica. Eles deram o tom de todas
as exaltações nevróticas, desde os êxtases histéricos
de Teresa de Jesus até às alucinações da beata
Maria Alacoque e da portuguesa madre Maria do Céu, a cantora dos passarinhos
de Vilar de Frades. Desta peçonha doce, elanguescente, vibrátil
e enervante, cheia de meiguices epidérmicas de um corpo nu em frouxéis
de arminhos, é que se fizeram uns Manuais modernos em França
por onde as adolescentes principiam a conversar com Jesus e a compreendê-lo
em linhas correctas, sob plásticas macias, a esperá-lo, a desejá-lo,
como lho figuram com todas as pulsações, redondezas e flexibilidades
da carne.

Marta, entre o Deus incompreensível e o Cristo-homem, via um ser tangível,
o seu único termo de comparação – o José
Dias, esposo da sua alma e dominador dos seus nervos reacendidos e abraseados
pela saudade. Nas apóstrofes a Jesus, palpitavam-lhe nítidas
as curvas do amante que a ouvia de entre as nuvens, numa clareira azul, com
a sua lividez marmórea e os anéis dos cabelos louros esparsos
como nas cabeças dos querubins. Tinha aquele namoro no Céu quando
abria a página do livro com que o confessor lhe dissera que havia de
exorcizar as tentações voluptuosas da sua alma e do seu corpo.

Capítulo XIX

Frei João não se entendia já com a sua confessada. Deviam
ser grandemente disparatadas as revelações de Marta para que
o varatojano desconfiasse que ela estava obsessa e que as suas visões
deviam ser malfeitorias de demónio íncubo. Feliciano discordava
da opinião do inexorável exorcista, quando ele o interrogava
sobre miudezas de alcova. O marido contava singelamente que sua mulher passava
a maior parte do dia a rezar pelo livro no oratório; que tinha dias
de comer bem e outros dias de não comer nada; que não dava palavra
às criadas, nem se metia no governo da casa; que com ele também
falava pouco, e não desatremava. Que dormia bem e sempre na mesma cama
com ele. Verdade era que às vezes ele acordava e a via sentada com
os olhos postos no tecto.

– Pois é isso... – atalhava o varatojano.

– É isso quê, Sr. Frei João? – perguntava
o marido.

O confessor não podia explicar-se. O seu praxista Brognolo, ampliado
pelo padremestre arrábido Frei José de Jesus Maria, admoestava-o
a ocultar de terceiras pessoas os sinais evidentes da obsessão de uma
alma, sem estar devidamente aparelhado para o combate e na presença
do inimigo. O aparelho, neste caso, era a estola, a agua benta, o latim –
uma língua familiar ao Diabo. Além dos preceitos da arte, havia
a inviolabilidade do segredo da confissão; e uma caridade decente aconselhava
que Feliciano ignorasse as tentativas adúlteras do demónio incito,
figurado na pessoa espectral do José Dias. Com o vigário de
Caldelas foi menos reservado o exorcista. Asseverou-lhe que a brasileira de
Prazins estava possessa, muito gravemente energúmena. O padre Osório
abriu um sorriso importuno, destes que vêm de dentro em golfos involuntários
como a náusea de um embarcadiço enjoado. O egresso reparou no
trejeito herético da boca do padre, e perguntou-lhe se tinha alguma
dúvida a pôr.

– Uma pequena dúvida, Sr. Frei João – respondeu
intemeratamente o vigário. – Não posso aceitar que o Diabo,
sendo filho de Deus, seja o ente perverso que faz sofrer a pobre Marta...

– O Diabo, filho de Deus! – interrompeu o varatojano, levando
as mãos enclavinhadas à testa. – Padre Osório,
o senhor disse uma blasfémia enorme... Santo nome de Jesus! O Diabo
filho de Deus! Anátema!

–Anátema à lógica, ao raciocínio, portanto!
– contraveio sereno e risonho o outro.

– A lógica? a lógica de Calvino, de Voltaire.

– Não, senhor, a lógica do professor que ma ensinou no
seminário bracarense. Criador não é pai?

– É sim, e dai?

– Deus é pai de todas as suas criaturas; ora o Diabo é
criatura de Deus; logo: Deus é pai do Diabo.

– Distinguo! – contrariou o varatojano.

E o vigário, sem atender à interrupção escolástica:

– Se Deus é bom, as suas criaturas não podem ser más;
ora, o Demónio é mau: logo, o Demónio não pode
ser criatura de Deus; mas, se o Diabo não é criatura de Deus,
pergunto eu o mesmo que um negro da África perguntava ao missionário:
Quem é o pai do Diabo?

– Distinguo! – insistiu o varatojano apoiado nas velhas fórmulas
da dialéctica esmagadora. – Deus criou os anjos; destes houve
alguns que se rebelaram contra o seu criador, e foram precipitados do Céu:
são os espíritos infernais. Alguns desses anjos não desceram
às trevas inferiores, e permanecem para flagelo do género humano
no ar caliginoso. Aer caliginosus est quasi carcer doemonibus usque in diem
judicii, diz S. Agostinho. Deus permite que os demónios vexem as criaturas,
pelo bem que pode resultar às criaturas desse vexame. É o que
se colhe do Evangelho de S. João: Omnia per ipsum facta sunt. Portanto,
Deus permite o mal? logo: este mal é bom, porque Deus é o Sumo
Bem. Verdade é que os males não são bens...

– Ia eu dizer... – atalhou o padre Osório; ao que o missionário
acudiu prestes e vitoriosamente:

– Mas Deus tira os bens desses mesmos males, como diz S. Tomás:
Bonum invenire potest sitie maio, sed malum non potest invenire sine bono
Logo: Deus permite o mal como causa do bem; id est, permite o Demónio
como exercitação saudável do género humano. Melius
judicavit Deus de malis bona facere, quam mala nulla esse permittere, diz
S. Agostinho; e S. Tomás ainda é mais claro e persuasivo: Divina
sapientia permittit aliqua mala tieri per moios Angelos propter bona quite
ex eis elicit. São doze as causas por que Deus permite que os demónios
atormentem as criaturas humanas. Primeira: para que o homem obstinado na culpa
seja neste mundo e no outro atormentado; segunda...

– Estou convencido, Sr. Frei João – atalhou o vigário
– Vossa Reverência já esclareceu a minha dúvida.
É o caso que Deus permite demónios flagelantes para depurar
com eles os pecadores – uns e outros criaturas da sua divina justiça.

– É isso mesmo.

– O espírito do mau homem – do pecador que é em
si um demónio interno, depura-se pela acção de outro
demónio externo, ambos criaturas do seu divino amor... Percebi. Estou
convencido... Deus é como um pai que azorraga o seu filho querido a
ver se ele recebe as mortificações como carícias. Rico
pai! – E acrescentou com amargura: – Ah! meu Frei João,
receio muito que as superstições venham a desabar o catolicismo
que deve a sua existência à vitória que alcançou
sobre as mentiras da idolatria com as armas da verdade. Ego sum veritas.

Frei João ia fulminar segunda vez a argumentação do
padre Osório, quando os outros missionários chegavam, para assistirem
ao jantar de despedida em casa da brasileira.

Fechara-se a missão; os padres iam dali para Barcelos; mas Frei João,
empenhado em desendemoninhar a pobre Marta, hospedou-se na quinta da Revolta,
em cuja capela celebrava missa e confessava as suas filhas espirituais insaciáveis
do pão dos anjos, que digeriam numa vadiagem dorminhoca, amesendadas
nos adros das igrejas e nos soalheiros, catando as próprias pulgas
e as vidas alheias.

Frei João andava apercebido com todos os utensílios infestos
ao Diabo. Resolvido a dar-lhe batalha, armou a energúmena das mais
provadas armas nos seus triunfos sobre o Inferno. Lançou-lhe ao pescoço
um santo lenho, um breve da Marca, a verónica de S.. Bento, o Símbolo
de Santo Atanásio, cruzinhas de Jerusalém, verónica com
a cabeça de Santo Anastácio, relíquias de vários
santos, umas esquírolas de ossos grudadas em farrapinhos, orações
manuscritas da lavra do varatojano, metidas em saquinhos surrados da transpiração
de outras obsessas.

Marta devia jejuar, como preparatório. Parece que o Demónio
se compraz de habitar estômagos confortados na quentura do bolo alimentício.
O exorcista jejuava também conforme o preceito dos praxistas, e aconselhava
ao Feliciano que jejuasse, em harmonia com o texto de Jesus que dissera pela
boca de S. Mateus que : Hoc genus demioniorum in nullo potest exire nisi oratione
a jejuino. O Feliciano dizia que sim, que jejuava; mas, às escondidas
do frade, comia bifes de presunto com ovos; começava a revelar ideias
egoístas, um cuidado da sua alimentação e do seu repouso,
certo desprezo cínico pela parte que o Diabo tomara na sua família.

Frei João de Borba da Montanha expendeu ao vigário de Caldelas
os fortes sintomas que Marta apresentava de estar possessa. Eram muitos, e
bastava-lhe citar os seguintes:

Ouvir a voz de José Dias que a chamava, no sonho e na vigília.
E mostrava o texto: quando patiens audit quasdam voces se vocantes. Porque
aborrecia a carne e o pão, e tinha grande fastio. O Osório lembrava-lhe
que seriam enojos peculiares da gravidez; mas o varatojano confundia-o com
o latim. Quando quis non potuit gustare panem aut cantem. Ela digeria com
muita dificuldade os alimentos. Era obra do Diabo, porque o livro dizia –
bem vê – mostrava Frei João ao padre Osório: Quando
quis sanus cibum digerere non potest in stomacho. Chorava e não

dizia por que chorava. Diabrura com toda a certeza: – Quando lacrymas
plorat et nescit quid ploret. Havia um artigo que acentuava as mais fortes
presunções da obsessão íncuba de Marta. Parece
que ela no confessionário se acusava de repugnâncias, de concessões
violentadas, de resistências às carícias do esposo: e
talvez revelasse que a imagem de José Dias intervinha nessas lutas
da alcova. É o que se depreende do Sinal décimo terceiro que
Frei João mostrava com o dedo no seu Brognolo, e vai em latim, como
lá está, para que poucas pessoas possam alegar inteligência:
– Quando vir uxori et uxor viro apropinquare non potest, quia videt
aliud corpus intermedium, aut sibi videtur esse.

– Aqui é onde bate o ponto! – dizia Frei João martelando
com o dedo indicador na página indecente.

– Mas não será essa visão o intróito de
uma alienação mental? – perguntava o de Caldelas. –
Não vê, padre João, que esta rapariga está abatida
por uma grande amargura que prende com actos da sua vida passada? Não
a vê tão caída, tão melancólica...

– Os melancólicos são os mais vexados pelo Demónio
– replicou o egresso. – Veja Galeno e Avicena, que aqui vêm
citados. – E folheou o Brognolo, até encontrar o texto triunfal.

– Aqui tem; leia, verão que a demência pode ser obra do
Demónio.

O padre Osório leu com uma grande ignorância curiosa: Os demónios
acometem mais os melancólicos. Primeiro, por que o humor melancólico
com dificuldade se tira e é de sua natureza inobediente e rebelde.
Segundo, porque o humor melancólico é mais apto para gerar diversas
enfermidades incuráveis, porque, se é muito enxuto, ofende as
membranas do cérebro e faz ao homem doido; se ofende os ventrículos
causa apoplexia, e gera raivas, frenesis e ódios; e estes efeitos de
melancolia muitas vezes os costuma causar o Demónio, etc.

– O padre Osório está-se a rir?! – invectivou Frei
João abespinhado – Sabe o senhor que mais? Eu já tinha
ouvido dizer ao abade de Santiago de Antas que o Sr. Padre Vigário
de Caldelas não era muito seguro em matéria de fé; que
tinha um bocado de fedor herético nas suas prédicas, e que dava
mais importância à quina do que aos santos milagrosos na cura
das maleitas.

– Se isso fede a heresia, então, Sr. Frei João, estou
de todo pobre – obtemperou Osório, e continuou deixando impar
de espantada indignação o missionário. – A respeito
da enfermidade de Marta, sou a dizer-lhe que em vez de exorcismos quereria
eu que lhe ministrassem banhos de chuva, calmantes, distracções;
e, baldados estes recursos, que a internassem num hospital de alienadas, porque
esta mulher é filha de uma doida, é neta de outros doidos, e
pouco há-de viver quem a não vir de todo mentecapta. Além
de herege sou profeta, meu caro Sr. Frei João. A sua energúmena
tem infelizmente o demónio que raras vezes a ciência vence –
o demónio da demência hereditária que a não se
curar com a agua em chuveiro, também se não cura com a água
benta. Seria bom que Vossa Reverência, antes de pôr à prova
os exorcismos, ouvisse a opinião dos médicos.

– Eu sei o que dizem os médicos – e sorria com menosprezo
da pobre medicina. – Eu, aqui onde me vê, com os exorcismos, com
este remédio que não inventei, mas que a Igreja de Nosso Senhor
Jesus Cristo me deixou, e que ele mesmo, o divino Mestre usou, como o Sr.
Padre Osório deve ter lido nos seus Evangelhos... ou nega a autoridade
dos Evangelhos? Nega que Jesus Cristo expulsava demónios?

– Não senhor, eu sei a história da legião que
se meteu nos porcos...

– E outras; os livros sagrados estão cheios desses factos a
que o padre Osório chama histórias; não são histórias,
são factos.

– Ah! Sr. Frei João! Jesus Cristo, a sua vida e os seus milagres
não são história? não pertencem à história?
Mau é isso então!

A polémica prolongou-se um tanto azeda; Osório escandalizava
os pios ouvidos do egresso que, pondo as mãos no peito e os olhos no
Céu, exclamava com S. Paulo que era necessário que houvesse
escândalos. Interrompera-os o brasileiro, dizendo que a sua sobrinha
estava com um ataque e que lhe dera no jardim. Frei João entrou na
alcova para onde a tinham levado em braços, e o padre Osório
ficou ouvindo a revelação da governanta, que lhe dizia:

– A desgraçadinha está de todo varrida! Eu estava no
tanque a passar uns lenços por água quando ela entrou no pomar
sem fazer caso de mim, como se ali não estivesse viva alma. E vai depois,
pôs-se a cortar rosas e a dizer que eram para o seu amado José
Alves, para o seu esposo José Alves. V. Sª não me dirá
quem diacho, Deus me perdoe, é este José Alves?

– E depois?

– Depois, sentou-se debaixo da ramada, esteve a chorar com o ramo das
rosas muito chegado à cara e daí a pouco caiu para o lado a
dar aos braços e a espernear. Eu então chamei a cozinheira e
levamo-la para o quarto com os sentidos perdidos! O José Alves, quanto
a mim, acho que foi derriço que ela teve em solteira. Já ouvi
dizer que a casaram com o arenque do tio contra vontade... S o que tem estes
casamentos...

O padre Osório não elucidou a governanta. Assim que o Feliciano
lhe disse que se iam ler os exorcismos, retirou-se, pretextando deveres paroquiais,
e observou-lhe:

– Não deixe mortificar muito sua sobrinha com os exorcismos,
Sr. Prazins. O demónio que ela tem é a doença. Faça
o que lhe disse o padre-mestre Roque, que é um velho ilustrado e virtuoso.
Vá dar um giro com ela. Leve-a à capital; demore-se por lá;
e, quando a vir distraída, contente e com bom apetite, volte para sua
casa.

O brasileiro disse que bem sabia que os exorcismos eram chérinolas;
mas que o frade se lhe metera em casa, e dizia que não se ia embora
sem curar ela. Acrescentou que não podia agora sair do Minho porque
estava à espera que os filhos do Cerveira de Quadros perdessem na batota
do Porto a sua parte de alguns contos de réis, que

acharam por morte do pai; – que lhe convinha muito comprar a quinta
da Ermida que partia com a dele, e havia outro brasileiro que a trazia de
olho. Que a respeito da sobrinha tencionava levá-la a banhos do mar,
e havia de comprar o Manual do Raspail, a ver o que ele dizia da moléstia,
porque em Pernambuco toda a casta de doença se curava pelo Raspail,
e que levasse o Diabo o frade e mais a caiporice dos exorcismos.

Que sim, que comprasse o Manual do Raspail – concordou o padre Osório,
e saiu muito cansado – dizia ele à irmã – de lidar
com as duas cavalgaduras.

Capítulo XX

Marta estava no quarto, onde tinha o seu oratório de pau-preto com
frisos dourados, e dentro uma antiga escultura em marfim de um Cristo dignamente
representado na sua agonia humana. De cada lado da cruz ardia uma vela de
cera benzida. Frei João entrara de sobrepeliz e estola: seguiam-no
o Feliciano com uma vela de arrátel acesa, e o Simeão com a
caldeirinha da água benta. Marta, com um pavor na vista, tremia, de
pé, encostada à cómoda. O exorcista sentou-se, e chamou
a energúmena com um gesto imperativo de cabeça. Ela aproximou-se
hesitante e ajoelhou. Frei João compôs o semblante e deu à
voz uma toada lúgubre em conformidade com a rubrica de Brognolo –
com grave aspecto e voz horrível, diz o demonómano. Começou
por exercitar o Preceito provativo, a ver se havia efectivamente demónio.
E então bradou, fazendo estremecer Marta: In nomine Jesu Christi. Ego
Joannes est minister Christi... Vinha a dizer, em vulgar, ao Demónio
ou aos espíritos imundos, vel vobis spiritis inmundis, que, se estavam
no corpo daquela criatura, dessem logo um sinal evidente, ou vexando-a, ou
movendo-lhe os humores, segundo o seu costume, pelo modo que por Deus lhe
fosse permitido: eo modo quod a Deo juerit permissum. Marta estava retransida
de um sagrado horror, posto que não percebesse do latim do padre senão
demónio e espíritos imundos. Nunca lhe tinham dito que ela estava
endemoninhada, e à sua mentalidade faltava-lhe neste lance a força
convincente e a energia da palavra para combater o engano do seu confessor.
Não tinha vigor de carácter nem rudimentos de inteligência
para reagir. Educada em melhores condições, sucumbiria com a
mesma vontade inerte sob a violência do confessor. Há condescendentes
humildades mais vergonhosas sem o diagnóstico da demência que
as desculpe. Ela estava de joelhos; mas, não podendo suster-se, sentou-se
num arfar de suspiros, ansiada, até que as lágrimas lhe explodiram
numa torrente.

Frei João fez um trejeito de satisfação, um agouro de
vitória, e pôs-lhe o Preceito lenitivo: et omnia afflictio a
vobis causata. E atacou logo os demónios com o Preceito instrutivo:
: et statim coram me illam prosternatis. Marta, com efeito, estava prostrada,
com a face no pavimento, estirando os braços no paroxismo epiléptico,
e o colo e o tronco hirtos numa inflexibilidade tetânica.

– Não há que duvidar – disse o exorcista ao marido
e ao pai da obsessa. – Levemna daqui e depois continuaremos.

Marta, passado o letargo, disse ao tio que mal se lembrava do que passara
no oratório com o Sr. Frei João; mas que lhe tinha medo, que
não queria mais confessar-se com ele.

– Cada vez mais provado que está obsessa. Já não
é ela quem fala; é o Demónio que me teme! – exclamou
o exorcista com uma santa bazófia, refutando as vacilações
um pouco cépticas do brasileiro; ao passo que o Simeão asseverava
que a filha tinha o Demónio; porque a sua defunta mulher também
o tinha, e se deitara ao rio porque nunca quisera que lhe fizessem as rezas.

Ao outro dia, vencidas as repugnâncias de Marta, continuou o exorcista,
carranqueando cada vez mais e pondo vibrações horrorosas na
laringe. Deu-lhe a ela o seu Brognolo para que lesse em voz alta os Preceitos
que a criatura vexada pode pôr ao Demónio. Marta, de joelhos,
diante do oratório, leu: Demónio maldito, eu corno racional
criatura de Deus, redimida com o seu precioso sangue, depois que para me salvar
se humanou, cheia de fé, te mando em virtude do santíssimo nome
de Jesus, que logo me obedeças e me atormentes levemente, ou fazendo
tremer o meu corpo ou lançando-o em terra, deixando-me em meu juízo.

O corpo de Marta visivelmente tremia; ela deu o livro ao exorcista com um
arremesso impaciente, e murmurou soluçante:

– Deixem-me, deixem-me pelas chagas de Cristo!

Frei João sorriu-se, e resmoneou à orelha do Feliciano:

– O maldito serve-se do nome de Cristo para me afastar! Eu vou escangalhar-te,
Satanás!

E lançou mão do gládio das Objurgações.
As objurgações são perguntas feitas ao Diabo, à
má cara, e latinamente. Diz, maldito Demónio, serpente insidiosa,
conheces que existe Deus? Conheces que foste criado anjo alumiado de muitas
prendas, e que pela tua soberba te perdeste? Sabes que, repulsa do Paraíso,
perdeste para sempre a graça de Deus? Pergunta-lhe afinal, depois de
muitas injúrias, se reconhece nele um ministro de Deus, e como ousará
a não manifestar-se? Quomodo igitur poteris contra estimulum calcitrare?

O Demónio não respondeu ainda; mas o frade ia apertá-lo,
mandando que se ajoelhassem todos. Ele então, numa postura seráfica,
braços cruzados no peito e olhos no Cristo, declamou:

– Veni, sancte spiritus: reple tuorum corda fidelium, et tui amores
in eis ignem accende. – Pedia ao Espírito Santo que descesse
a encher os corações dos seus fiéis, e abrasá-los
no fogo do seu amor. Depois: – Dominus vobiscum.

– É de co espirituo – respondeu o Simeão, que sabia
ajudar à missa.

Seguiram-se vários Oremus e deprecações, e a Ladainha
de Nossa Senhora; mais outros Oremus, e a detestação da energúmena,
uma estirada que principiava: E tu, Demónio maldito, com que autoridade
intentas possuir jamais meu corpo ou molestarme por modo algum? Marta rejeitou
o livro, e disse que não podia ler nem estar de joelhos; que tinha
vágados e que se queria ir deitar. Mas o exorcista, severo e formidável
no seu ministério – que não, que não se ia deitar,
que não lhe fugia, que se pusesse de joelhos a seus pés! Ele
então, segundo a rubrica do livro director, sentou-se, cobriu-se, voz
grave e horrível, virado contra o Demónio, como juiz para tal
réu já convencido, aspergiu a possessa de água benta,
ululando: Asperge me, Domine... e recomendou aos circunstantes que apagassem
duas velas, e não dessem palavra. Profundo silêncio. Ouvia-se
apenas o zumbido das moscas que se esvoaçavam do tecto atraídas
pelo calor da luz única, e pousavam na fronte chagada do Cristo. O
recinto era espaçoso e quase em trevas. A vela, encoberta pelas curvas
laterais do oratório, não alumiava senão o curto espaço
da projecção em que Marta, retraída num terror, tinha
os dedos das mãos postas, chegadas aos lábios, como se quisesse
abafar os suspiros.

Passados minutos, o exorcista começou a conjurar e ligar o Demónio
em nome do Padre e do Filho e do Espírito Santo, tratando-o de imundo,
afrontando-o bravamente com epítetos que deviam ofender o mais desbragado
patife. Marta fez um movimento de aflitivo desabrimento; parecia querer fugir;
mas o padre prendeu-a com a estola, em harmonia com o Brognolo: Se não
estiver quieta, pode-a prender com uma estola. Feitas novas e mais terríveis
conjurações, o exorcista levantou-se com pavorosa solenidade,
e exclamou: Exurge, Christe! adjuva nos! Levanta-te, Cristo, e auxilia-nos!

O egresso continuava as evocações ao Cristo, quando Marta caiu
sem acordo.

– Vitória! – exclamou o exorcista – vitória!

E, mostrando ao brasileiro una página do livro: ouça lá,
Sr. Feliciano: O sinal mais certo de que o Demónio obedeceu e se retirou
de todo é o que a sagrada Escritura nos expõe no capitulo IX
de S. Marcos: – Deixar a criatura por terra algum tempo como morta.
Isto se viu no endemoninhado surdo e mudo que Cristo nosso bem curou, e do
qual diz o texto: Et jactus est sicut mortuus. Depois, com júbilo,
limpando o suor:

– Podem levá-la, deitem-na, ponham-lhe as relíquias todas
debaixo do travesseiro.

Os dois não podiam facilmente levantá-la; na rigidez, como
empedernida do corno, parecia colada ao pavimento. O brasileiro pedia ao exorcista
que a amparasse por um dos braços; mas o frade, artista austero, respondeu
que lhe era defeso pôr as mãos nas possessas. E, de feito, Carlos
Baucio, na Arte do Exorcista, legisla: que os exorcistas não ponham
as mãos fisicamente sobre a criatura principalmente sendo mulher (propter
periculum), pois que as mulheres nem com o sinal-da-cruz se devem tocar –
Mulieres nec signo crucis sunt tangendae.

Marta passara a noite muito agitada, febril, com delírio; dava risadinhas
muito argentinas, falava no José Alves; sacudia a roupa com frenesi,
e, quando emergia do torpor, sentava-se no leito a olhar para o tio, com uma
fixidez repelente. Feliciano não se deitara, e de madrugada disse ao
irmão que fosse chamar o médico, que a Marta estava com um febrão;
e que levasse o Diabo o frade para as profundezas do Inferno e mais os exorcismos.

Já quando era dia, o brasileiro foi descansar um pouco na cama de
D. Teresa, porque receava que se lhe pegasse a febre da mulher. Às
nove horas, a governanta foi acordá-lo, muito alvoraçada, para
lhe dizer que a Srª D. Marta tinha saído sozinha ao nascer do
Sol e que uma mulher a encontrara já perto da casa do vigário
de Caldelas, a correr, que parecia uma doidinha. Frei João recebeu
também a nova da fuga, quando acabava de dizer missa em acção
de graças pelo triunfo obtido sobre o Demónio. O médico
chegava ao mesmo tempo, e informado das cenas dos exorcismos, disse ao varatojano
injúrias que o frade não tinha dito ao Diabo; chamou ao brasileiro
e ao irmão corja de estúpidos, e partiu para Caldelas com o
Feliciano. O frade, insultado pelo médico, e pelos modos bruscos e
desabridos do brasileiro, citou urnas palavras de Jesus que manda sacudir
o pó das sandálias no limiar da casa dos ímpios, e foi-se
embora. Seguiram-no algumas beatas num alto choro por longo espaço;
e, quando ele desapareceu no cotovelo da estrada, houve delas que arrancavam
cabelos, cheios de lêndeas; outras davam-se bofetadas, e as mais histéricas
guinchavam uivos estridentes.

O Melro, o taverneiro, o compadre do Feliciano, quando elas lhe passaram
à porta a chorar, atrás do missionário, saiu fora, e
disse-lhes com um racionalismo brutal:

– Ah grandes coiras!

Conclusão

Marta regressou com D. Teresa, alguns dias depois. O brasileiro conveio no
tratamento hidropático da esposa; e a compadecida irmã do vigário
ofereceu-se como enfermeira da pobre senhora que se abraçava nela com
medo imbecil, a pedir-lhe que a não deixasse, que a defendesse do missionário.

D. Teresa assistiu ao nascimento da primeira filha de Marta. Imaginava a
irmã do vigário que no espírito da mãe se havia
de operar uma benigna mudança; que o amor à filha seria diversão
à saudade de José Alves; mas a medicina não esperava
alteração sensível, porque era matéria corrente
nos tratados alienistas que um cérebro lesado não se restaura
sob a impressão do amor maternal, que só actua nas organizações
normais. Porém, D. Teresa não podia crer que Marta estivesse
confirmadamente louca, posto que nas suas conversações em que,
raras vezes, se interessava, disparatasse, afirmando que via a alma de José
Alves, como quem conta um caso trivial.

Quando lhe mostraram a filha recém-nascida, contemplou-a alguns segundos;
mas nem balbuciou uma palavra carinhosa, nem fez gesto algum de contentamento.
A amiga dizia-lhe coisas muito meigas da filhinha, a ver se lhe espertava
o coração. Punha-lha nos braços, dava-lha a beijar. Marta
cedia com tristeza e constrangimento. beijando a filha como se fora uma criança
alheia. A ama ia dizer às criadas que a brasileira era uma cafra, que
não podia ver o anjinho do Céu.

Os paroxismos eram menos frequentes; mas, três dias antes do ataque,
a torvação de Marta manifestava-se com extravagâncias,
delírios. Fechava-se no quarto com muitos vasos de flores, que enfileirava
no sobrado, como se ajardinasse um passeio. Uma vez disse a D. Teresa, à
madrinha de sua filha, que arranjara aquele caminho de rosas, porque o seu
José Alves lhe dissera em Prazins que havia de fazer-lhe um jardim
em Vilalva quando casassem, e ela fizera aquele jardim para passearem juntos
quando ele viesse à noite. D. Teresa encarou-a com uma grande piedade,
porque se convenceu então que estava perdida.

O Feliciano, quando ela se fechava no quarto, já sabia que estava
a preparar-se o ataque; ia dormir noutra cama; necessitava do seu repouso,
dizia ele; tinha de erguer-se cedo para ver o que faziam os jornaleiros, e
não podia perder as noites. Como o arrependimento de se casar já
o mortificava, evadia-se às irremediáveis apoquentações,
olhando egoistamente para o seu bem-estar, e lembrando-se às vezes
que, tendo uma mulher assim doente, não lhe seria muito desagradável
ficar viúvo. Não obstante, como, passado o ataque epiléptico,
a esposa recaia numa serena indolência, numa impassibilidade mansa e
tranquila, o tio ia dormir com ela, tendo sempre em vista as condições
do seu bem-estar, as necessidades imperiosas da sua fisiologia. Assim se explica
a fecundidade de Marta, que deu em sete anos cinco filhos a seu marido. O
médico já tinha explicado satisfatoriamente ao padre Osório
que a demência de Marta era funcional, e as qualidades reprodutoras
não tinham que ver com as anormalidades cerebrais. A Providência
não teve a bondade de fazer estéreis as dementes.

Entretanto, aos três dias precedentes às crises epilépticas,
parece que o marido lhe era repulsivo. Dava-se então a revivência
de José Alves, o seu amado saia do sepulcro, e transportava-a nas suas
asas de anjo ao paraíso de Prazins. D. Teresa, colando o ouvido à
fechadura da porta, ouvia-a conversar como em diálogo, ficar silenciosa,
depois de uma interrogação, por largo espaço de tempo;
vinha de mansinho à porta espreitar que a não escutassem. Dizia
palavras confusas, abafadas, cariciosamente proferidas, como se tivesse os
lábios postos em contacto de um rosto amado. O nome de José
realçava com uma nitidez jubilosa, com uni timbre de meiguice infantil;
e às vezes, um grito em esforçado desespero como se ele se lhe
desatasse dos braços para lhe fugir. Um espiritista da escola de Kardec
tiraria desta loucura um argumento a favor das Manifestações
visíveis, em que o fluido, o perispírito se apresenta semimaterial,
com as formas vagas do corpo, quase tangível ao medium.

O Feliciano ignorava estas cenas extra-naturais. Ele; ao sexto ano de casado,
encouraçara-se num impenetrável egoísmo de avarento,
cortando fundamente por todas as despesas que em vista da sua grande fortuna
se reputavam sovinarias. A medicina já o considerava lunático,
mais ou menos infeccionado da alienação da mulher: E a loucura
que é se não a exageração do carácter?
Porque o viam às vezes atravessar os seus pinhais, com o monóculo,
gesticulando, e falando sozinho, chamavam-lhe doido. Errada hipótese
do vulgo ignorante. Ele fazia operações aritméticas em
voz alta como os velhos poetas inspirados faziam madrigais numa declamação
rítmica ao ar livre e ao luar. O certo é que ninguém
o apanhava em intervalo escuro para o defraudar num vintém. Comprou,
umas após outras, todas as quintas que foram do Vasco Cerveira Lobo,
de Quadros; umas à viúva, e outras aos filhos. A D. Honorata
Guião, casada em segundas núpcias com o desembargador do Ultramar
Adolfo da. Silveira, veio à Metrópole assim que viuvou para
se habilitar herdeira de metade do casal não vinculado do tenente-coronel.
Os filhos Egas e Heitor, sabendo que sua mãe estava nos Pombais, com
o marido e filhos, tentaram escorraçá-la com ameaças
e insultos, atirando-lhe tiros à janela. O magistrado fugiu com a sua
família e acompanhou com força armada os actos judiciais. Afinal,
Honorata, vendeu a sua parte, ao desbarato, ao brasileiro Prazins; e o morgado,
vendido o seu património desvinculado, e mais o irmão, vergonhosamente
casados, esfarrapam hoje o resto da torpe existência na tavolagem das
tavernas. As filhas salvaram-se do naufrágio agarradas às pranchas
dos seus dotes. Arranjaram facilmente maridos que desempenharam os seus casais
e as sovavam de pontapés injustos e extemporâneos, quando se
lembravam dos engenheiros do conde de Clarange Lucote.

A brasileira de Prazins tem hoje cinquenta e três anos. Os seus vizinhos
que contam trinta anos, nunca a viram, porque ela, desde que, em 1848, morreu
D. Teresa, nunca mais saiu do seu quarto. Já ninguém a vai escutar;
mas repete as mesmas palavras do seu amor de há quarenta anos, pede
que lhe levem flores, tem as mesmas alucinações, e – o
que mais é – ainda tem lágrimas, quando, nos intervalos
dos delírios, entra na angustiosa convicção de que José
Dias é morto. O padre Osório ainda a procura nesses períodos
de razão bruxuleante e fala-lhe da irmã por sentir a inefável
amargura doce de se ver acompanhado nas lágrimas. Mas o padre diz que
nunca pudera ver nitidamente a linha divisória entre a razão
e a insânia de Marta. Depois do delírio, sobrevém a monomania
hipocondríaca. A alma continua a dormir sem sonhar, sem as alucinações.
Nessa segunda crise de torpor, ele e só ele é admitido ao seu
quarto, depois de esperar que desça da cama ou se embrulhe num xaile
para encobrir a sordidez do corpete dos vestidos. Este xaile é uma
cintila resistente de instinto feminil que raras vezes se apaga no comum das
dementes, excepto no maior número das histéricas com erotismo.

Marta tem duas filhas casadas e já mães. Às temporadas,
vestem serenamente os seus trajes domingueiros e vão para casa dos
pais, onde continuam na sáfara dos campos a sua lida de solteiras.
O pai educara-as na lavoura de pé descalço, e sachola nas unhas.
Trabalham nas lavras com uma grande alegria e garganteiam cantigas muito frescas.
E os maridos, cheios de bom senso, já as não procuram. Quando
regressam, recebem-nas sem as

interrogarem; porque, se as afligem, dão-lhes vágados e choram.
Nos outros filhos intanguidos, escrofulosos, tristes e sem infância,
predomina a diátese da imbecilidade e a falta de senso moral, que é
uma espécie patológica menos estudada dos alienistas. Entre
estes filhos há um que estudou para clérigo. Passava por ser
o mais escorreito. O pai achava-lhe talento. Estudou seis anos latim, em Braga,
debaixo das mais rigorosas violências à sua incapacidade; e quando
Feliciano, pródigo de dinheiro para este filho, e desenganado pelo
professor, o mandou buscar com três reprovações, ele trazia
numa caixa de lata cinco mil e tantas hóstias com que se prevenira
para as suas consagrações de sacerdote. E o pai foi tão
feliz que pôde vender as hóstias com o pequeno prejuízo
de dez por cento.

– Aí tem o brasileiro de Prazins, se nunca o viu – dizia-me
há três meses o padre Osório. mostrando-me no mercado
de Famalicão um velho escanifrado, muito escanhoado, direito, com o
monóculo fixo, vestido de cotim, com um guarda-pó sujo, esfarpelado
na abotoadura, e uma chibata de marmeleiro com que sacudia a poeira das calças
arregaçadas. – Tem 84 anos – continuou o vigário
de Caldelas – veio a pé de sua casa, que dista daqui légua
e meia, janta um vintém de arroz, bebe outro vintém de vinho,
tem quinhentos contos, e volta para sua casa a pé, através ou
pouco menos das suas catorze quintas. Com a frugalidade, com o exercício
e com o seu egoísmo sórdido viverá ainda muito tempo,
porque o velho Alexandre Dumas disse que os egoístas e os papagaios
viviam cento e cinquenta anos.

P. S.

Com os subsídios ministrados pelo cura de Caldelas compus esta narrativa,
espraiando-me por acessórios do duvidoso bom senso, cuja responsabilidade
declino dos ombros daquele discreto sacerdote. Tudo que neste livro tem bafio
de velhas chalaças, ironias e sátiras é meu; e, se alguém
por isso me arguir de pouco respeitador do vício e da tolice, retiro
tudo.

Se o meu condescendente informador me permite, ouso dizer-lhe – para
nos esquivarmos ambos às insídias da crítica portuguesa
– que a demência de Marta não é extremamente original
nem o meu romance uma singularidade incontroversa. O que, sem disputa, é
original, é duvidar eu de que o sou.

Num Conto de Charles Nodier, autor remoto que se perde no crepúsculo
da literatura arqueológica, há uma LÍDIA que endoideceu
quando o marido, um barqueiro de limpo nascimento e generosa índole,
pereceu num incêndio salvando três crianças e sua mãe.

Lídia enlouquece e cuida que seu esposo está no Céu
de dia e a visita de noite. Ela, desde o repontar da aurora, sai ao jardim,
e colhe flores para o brindar quando ele desce do azul com asas de penas de
ouro. Ao cabo de seis anos deste sonhar delicioso, a ditosa doída,
quando andava a recolher as flores dilectas para o bouquet das núpcias
com o anjo de cada noite, sentou-se em dulcíssima sonolência
e expirou.

As analogias de Lídia e Marta frisam pela visão dominante na
demência de ambas – uma espécie de ressurreição
do amado. No que elas diversificam essencialmente é que uma sonhou
seis anos e a outra vai no trigésimo sétimo da sua demência;
Lídia sonhou absorvida na sua ideal aliança com um celícola,
um bem-aventurado com asas de ouro; Marta quando imerge alucinada no seu letargo,
é a paixão leal ao amado sempre vivo na terra e no seu coração.
Lídia passa as noites em amplexos do marido celestial; Marta, sem consciência
da sua vida orgânica, tem cinco filhos, corno se arrancasse de si a
porção ignóbil de seu ser e a rejeitasse ao sevo sensual
do marido, ressalvando a alma dessa inconsciente materialidade. Quer-me, portanto,
parecer que não há nódoa de plagiato no meu livrinho
– uma coisa original como o pecado.

O leitor pergunta:

– Qual é o intuito científico, disciplinar, moderno,
deste romance? Que prova o conclui? Que há aí proveitoso como
elemento que reorganize o indivíduo ou a espécie?

Respondo: Nada, pela palavra, nada. O meu romance não pretende reorganizar
coisa nenhuma. E o autor desta obra estéril assevera, em nome do patriarca
Voltaire, que deixaremos este mundo tolo e mau, tal qual era quando cá
entrámos.

São Miguel de Seide, Dezembro de 1882.

FIM

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