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Home / Obras Literárias / Alma Encantadora das Ruas

Alma Encantadora das Ruas

 

 

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João do Rio

A Rua

Eu amo a rua. Esse sentimento de natureza toda íntima não vos
seria revelado por mim se não julgasse, e razões não
tivesse para julgar, que este amor assim absoluto e assim exagerado é
partilhado por todos vós. Nós somos irmãos, nós
nos sentimos parecidos e iguais; nas cidades, nas aldeias, nos povoados, não
porque soframos, com a dor e os desprazeres, a lei e a polícia, mas
porque nos une, nivela e agremia o amor da rua. É este mesmo o sentimento
imperturbável e indissolúvel, o único que, como a própria
vida, resiste às idades e às épocas. Tudo se transforma,
tudo varia – o amor, o ódio, o egoísmo. Hoje é
mais amargo o riso, mais dolorosa a ironia, Os séculos passam, deslizam,
levando as coisas fúteis e os acontecimentos notáveis. Só
persiste e fica, legado das gerações cada vez maior, o amor
da rua.

A rua! Que é a rua? Um cançonetista de Montmartre fá-la
dizer:

Je suís la rue, femme êternellement verte,
Je n’ai jamais trouvé d’autre carrière ouverte
Sinon d’être la rue, et, de tout temps, depuis
Que ce pénible monde est monde, je la suis…

A verdade e o trocadilho! Os dicionários dizem: “Rua, do latim
ruga, sulco. Espaço entre as casas e as povoações por
onde se anda e passeia”. E Domingos Vieira, citando as Ordenações:
“Estradas e rua pruvicas antiguamente usadas e os rios navegantes se
som cabedaes que correm continuamente e de todo o tempo pero que o uso assy
das estradas e ruas pruvicas”. A obscuridade da gramática e da
lei! Os dicionários só são considerados fontes fáceis
de completo saber pelos que nunca os folhearam. Abri o primeiro, abri o segundo,
abri dez, vinte enciclopédias, manuseei infolios especiais de curiosidade.
A rua era para eles apenas um alinhado de fachadas por onde se anda nas povoações.

Ora, a rua é mais do que isso, a rua é um fator da vida das
cidades, a rua tem alma! Em Benares ou em Amsterdão, em Londres ou
Buenos Aires, sob os céus mais diversos, nos mais variados climas,
a rua é a agasalhadora da miséria. Os desgraçados não
se sentem de todo sem o auxílio dos deuses enquanto diante dos seus
olhos uma rua abre para outra rua. A rua é o aplauso dos medíocres,
dos infelizes, dos miseráveis da arte. Não paga ao Tamagno para
ouvir berros atenorados de leão avaro, nem à velha Patti para
admitir um fio de voz velho, fraco e legendário. Bate, em compensação,
palmas aos saltimbancos que, sem voz, rouquejam com fome para alegrá-la
e para comer. A rua é generosa. O crime, o delírio, a miséria
não os denuncia ela. A rua é a transformadora das línguas.
Os Cândido de Figueiredo do universo estafam-se em juntar regrinhas
para enclausurar expressões; os prosadores bradam contra os Cândido.
A rua continua, matando substantivos, transformando a significação
dos termos, impondo aos dicionários as palavras que inventa, criando
o calão que é o patrimônio clássico dos léxicons
futuros. A rua resume para o animal civilizado todo o conforto humano. Dá-lhe
luz, luxo, bem-estar, comodidade e até impressões selvagens
no adejar das árvores e no trinar dos pássaros.

A rua nasce, como o homem, do soluço, do espasmo. Há suor humano
na argamassa do seu calçamento. Cada casa que se ergue é feita
do esforço exaustivo de muitos seres, e haveis de ter visto pedreiros
e canteiros, ao erguer as pedras para as frontarias, cantarem, cobertos de
suor, uma melopéia tão triste que pelo ar parece um arquejante
soluço. A rua sente nos nervos essa miséria da criação,
e por isso é a mais igualitária, a mais socialista, a mais niveladora
das obras humanas. A rua criou todas as blagues todos os lugares-comuns. Foi
ela que fez a majestade dos rifões, dos brocardos, dos anexins, e foi
também ela que batizou o imortal Calino. Sem o consentimento da rua
não passam os sábios, e os charlatães, que a lisonjeiam
lhe resumem a banalidade, são da primeira ocasião desfeitos
e soprados como bolas de sabão. A rua é a eterna imagem da ingenuidade.
Comete crimes, desvaria à noite, treme com a febre dos delírios,
para ela como para as crianças a aurora é sempre formosa, para
ela não há o despertar triste, quando o sol desponta e ela abre
os olhos esquecida das próprias ações, é, no encanto
da vida renovada, no chilrear do passaredo, no embalo nostálgico dos
pregões – tão modesta, tão lavada, tão risonha,
que parece papaguear com o céu e com os anjos…

A rua faz as celebridades e as revoltas, a rua criou um tipo universal, tipo
que vive em cada aspecto urbano, em cada detalhe, em cada praça, tipo
diabólico que tem dos gnomos e dos silfos das florestas, tipo proteiforme,
feito de risos e de lágrimas, de patifarias e de crimes irresponsáveis,
de abandono e de inédita filosofia, tipo esquisito e ambíguo
com saltos de felino e risos de navalha, o prodígio de uma criança
mais sabida e cética que os velhos de setenta invernos, mas cuja ingenuidade
é perpétua, voz que dá o apelido fatal aos potentados
e nunca teve preocupações, criatura que pede como se fosse natural
pedir, aclama sem interesse, e pode rir, francamente, depois de ter conhecido
todos os males da cidade, poeira d’ouro que se faz lama e torna a ser
poeira – a rua criou o garoto!

Essas qualidades nós as conhecemos vagamente. Para compreender a psicologia
da rua não basta gozar-lhe as delícias como se goza o calor
do sol e o lirismo do luar. É preciso ter espírito vagabundo,
cheio de curiosidades malsãs e os nervos com um perpétuo desejo
incompreensível, é preciso ser aquele que chamamos flâneur
e praticar o mais interessante dos esportes – a arte de flanar. É
fatigante o exercício?

Para os iniciados sempre foi grande regalo. A musa de Horácio, a pé,
não fez outra coisa nos quarteirões de Roma. Sterne e Hoffmann
proclamavam-lhe a profunda virtude, e Balzac fez todos os seus preciosos achados
flanando. Flanar! Aí está um verbo universal sem entrada nos
dicionários, que não pertence a nenhuma língua! Que significa
flanar? Flanar é ser vagabundo e refletir, é ser basbaque e
comentar, ter o vírus da observação ligado ao da vadiagem.
Flanar é ir por aí, de manhã, de dia, à noite,
meter-se nas rodas da populaça, admirar o menino da gaitinha ali à
esquina, seguir com os garotos o lutador do Cassino vestido de turco, gozar
nas praças os ajuntamentos defronte das lanternas mágicas, conversar
com os cantores de modinha das alfurjas da Saúde, depois de ter ouvido
dilettanti de casaca aplaudirem o maior tenor do Lírico numa ópera
velha e má; é ver os bonecos pintados a giz nos muros das casas,
após ter acompanhado um pintor afamado até a sua grande tela
paga pelo Estado; é estar sem fazer nada e achar absolutamente necessário
ir até um sítio lôbrego, para deixar de lá ir,
levado pela primeira impressão, por um dito que faz sorrir, um perfil
que interessa, um par jovem cujo riso de amor causa inveja.

É vagabundagem? Talvez. Flanar é a distinção
de perambular com inteligência. Nada como o inútil para ser artístico.
Daí o desocupado flâneur ter sempre na mente dez mil coisas necessárias,
imprescindíveis, que podem ficar eternamente adiadas. Do alto de uma
janela como Paul Adam, admira o caleidoscópio da vida no epítome
delirante que é a rua; à porta do café, como Poe no Homem
da Multidões, dedica-se ao exercício de adivinhar as profissões,
as preocupações e até os crimes dos transeuntes. É
uma espécie de secreta à maneira de Sherlock Holmes, sem os
inconvenientes dos secretas nacionais. Haveis de encontrá-lo numa bela
noite numa noite muito feia. Não vos saberá dizer donde vem,
que está a fazer, para onde vai. Pensareis decerto estar diante de
um sujeito fatal? Coitado! O flâneur é o bonhomme possuidor de
uma alma igualitária e risonha, falando aos notáveis e aos humildes
com doçura, porque de ambos conhece a face misteriosa e cada vez mais
se convence da inutilidade da cólera e da necessidade do perdão.

O flâneur é ingênuo quase sempre. Pára diante dos
rolos, é o eterno “convidado do sereno” de todos os bailes,
quer saber a história dos boleiros, admira-se simplesmente, e conhecendo
cada rua, cada beco, cada viela, sabendo-lhe um pedaço da história,
como se sabe a história dos amigos (quase sempre mal), acaba com a
vaga idéia de que todo o espetáculo da cidade foi feito especialmente
para seu gozo próprio. O balão que sobe ao meio-dia no Castelo,
sobe para seu prazer; as bandas de música tocam nas praças para
alegrá-lo; se num beco perdido há uma serenata com violões
chorosos, a serenata e os violões estão ali para diverti-lo.
E de tanto ver que os outros quase não podem entrever, o flâneur
reflete. As observações foram guardadas na placa sensível
do cérebro; as frases, os ditos, as cenas vibram-lhe no cortical. Quando
o flâneur deduz, ei-lo a concluir uma lei magnífica por ser para
seu uso exclusivo, ei-lo a psicologar, ei-lo a pintar os pensamentos, a fisionomia,
a alma das ruas. E é então que haveis de pasmar da futilidade
do mundo e da inconcebível futilidade dos pedestres da poesia de observação…

Eu fui um pouco esse tipo complexo, e, talvez por isso, cada rua é
para mim um ser vivo e imóvel.

Balzac dizia que as ruas de Paris nos dão impressões humanas.
São assim as ruas de todas as cidades, com vida e destinos iguais aos
do homem.

Por que nascem elas? Da necessidade de alargamento das grandes colmeias sociais,
de interesses comerciais, dizem. Mas ninguém o sabe. Um belo dia, alinha-se
um tarrascal, corta-se um trecho de chácara, aterra-se lameiro, e aí
está: nasceu mais uma rua. Nasceu para evoluir, para ensaiar primeiros
passos, para balbuciar, crescer, criar uma individualidade. Os homens têm
no cérebro a sensação dessa semelhança, e assim
como dizem de um rapagão:

– Quem há de pensar que vi este menino a engatinhar!

Murmuram:

– Quem há de dizer que esta rua há dez anos só
tinha uma casa!

Um cavalheiro notável, ao entrar comigo certa vez na Rua Senador Dantas,
não se conteve:

– É impossível passar por aqui sem lembrar que a velhice
começa a chegar. Quando vim da província esta rua tinha apenas
duas casas no antigo jardim do Convento, e eu tomava chopps no Guarda Velha
a três vinténs!

Eu sorria, mas o pobre sujeito importante dizia isso como se recordasse os
dois primeiros dentes de um homenzarrão, com uma dentadura capaz atualmente
de morder as algibeiras de uma sociedade inteira. Era a recordação,
a saudade do passado começo. Há nada mais enternecedor que o
princípio de uma rua? É ir vê-lo nos arrabaldes. A princípio
capim, um braço a ligar duas artérias. Percorre-o sem pensar
meia dúzia de criaturas. Um dia cercam à beira um lote de terreno.
Surgem em seguida os alicerces de uma casa. Depois de outra e mais outra.
Um combustor tremeluz indicando que ela já se não deita com
as primeiras sombras. Três ou quatro habitantes proclamam a sua salubridade
ou o seu sossego. Os vendedores ambulantes entram por ali como por terreno
novo a conquistar. Aparece a primeira reclamação nos jornais
contra a lama ou o capim. É o batismo. As notas policiais contam que
os gatunos deram num dos seus quintais. É a estréia na celebridade,
que exige o calçamento ou o prolongamento da linha de bondes. E insensivelmente,
há na memória da produção, bem nítida,
bem pessoal, uma individualidade topográfica a mais, uma individualidade
que tem fisionomia e alma.

Algumas dão para malandras, outras para austeras; umas são
pretensiosas, outras riem aos transeuntes e o destino as conduz como conduz
o homem, misteriosamente, fazendo-as nascer sob uma boa estrela ou sob um
signo mau, dando-lhes glórias e sofrimentos, matando-as ao cabo de
um certo tempo.

Oh! sim, as ruas têm alma! Há ruas honestas, ruas ambíguas,
ruas sinistras, ruas nobres, delicadas, trágicas, depravadas, puras,
infames, ruas sem história, ruas tão velhas que bastam para
contar a evolução de uma cidade inteira, ruas guerreiras, revoltosas,
medrosas, spleenéticas, snobs, ruas aristocráticas, ruas amorosas,
ruas covardes, que ficam sem pinga de sangue…

Vede a Rua do Ouvidor. É a fanfarronada em pessoa, exagerando, mentindo,
tomando parte em tudo, mas desertando, correndo os taipais das montras à
mais leve sombra de perigo. Esse beco inferno de pose, de vaidade, de inveja,
tem a especialidade da bravata. E fatalmente oposicionista, criou o boato,
o “diz-se…” aterrador e o “fecha-fecha” prudente. Começou
por chamar-se Desvio do Mar. Por ela continua a passar para todos os desvios
muita gente boa. No tempo em que os seus melhores prédios se alugavam
modestamente por dez mil réis, era a Rua do Gadelha. Podia ser ainda
hoje a Rua dos Gadelhas, atendendo ao número prodigioso de poetas nefelibatas
que a infestam de cabelos e de versos. Um dia resolveu chamar-se do Ouvidor
sem que o senado da câmara fosse ouvido. Chamou-se como calunia, e elogia,
como insulta e aplaude, porque era preciso denominar o lugar em que todos
falam de lugar do que ouve; e parece que cada nome usado foi como a antecipação
moral de um dos aspectos atuais dessa irresponsável artéria
da futilidade.

A Rua da Misericórdia, ao contrário, com as suas hospedarias
lôbregas, a miséria, a desgraça das casas velhas e a cair,
os corredores bafientos, é perpetuamente lamentável. Foi a primeira
rua do Rio. Dela partimos todos nós, nela passaram os vice-reis malandros,
os gananciosos, os escravos nus, os senhores em redes; nela vicejou a imundície,
nela desabotoou a flor da influência jesuítica. Índios
batidos, negros presos a ferros, domínio ignorante e bestial, o primeiro
balbucio da cidade foi um grito de misericórdia, foi um estertor, um
ai! tremendo atirado aos céus. Dela brotou a cidade no antigo esplendor
do Largo do Paço, dela decorreram, como de um corpo que sangra, os
becos humildes e os coalhos de sangue, que são as praças, ribeirinhas
do mar. Mas, soluço de espancado, primeiro esforço de uma porção
de infelizes, ela continuou pelos séculos afora sempre lamentável,
e tão augustiosa e franca e verdadeira na sua dor que os patriotas
lisonjeiros e os governos, ninguém, ninguém se lembrou nunca
de lhe tirar das esquinas aquela muda prece, aquele grito de mendiga velha:
– Misericórdia!

Há ruas que mudam de lugar, cortam morros, vão acabar em certos
pontos que ninguém dantes imaginara – a Rua dos Ourives; há
ruas que, pouco honestas no passado, acabaram tomando vergonha – a da
Quitanda. Essa tinha mesmo a mania de mudar de nome. Chamou-se do Açougue
Velho, do lnácio Castanheira, do Sucusarrará, do Tomé
da Silva, que sei eu? Até mesmo Canto do Tabaqueiro. Acabou Quitanda
do Marisco, mas, como certos indivíduos que organizam o nome conforme
a posição que ocupam, cortou o marisco e ficou só Quitanda.
Há ruas, guardas tradicionais da fidalguia, que deslizam como matronas
conservadoras – a das Laranjeiras; há ruas lúgubres, por
onde passais com um arrepio, sentindo o perigo da morte – o Largo do
Moura por exemplo. Foi sempre assim. Lá existiu o Necrotério
e antes do Necrotério lá se erguia a Forca. Antes da autópsia,
o enforcamento. O velho largo macabro, com a alma de Tropmann e de Jack, depois
de matar, avaramente guardou anos e anos, para escalpelá-los, para
chamá-los, para gozá-los, todos os corpos dos desgraçados
que se suicidam ou morrem assassinados. Tresanda a crime, assusta. A Prainha
também. Mesmo hoje, aberta, alargada com prédios novos e a trepidação
contínua do comércio, há de vos dar uma impressão
de vago horror. À noite são mais densas as sombras, as luzes
mais vermelhas, as figuras maiores. Por que terá essa rua um aspecto
assim? Oh! Porque foi sempre má, porque foi sempre ali o Aljube, ali
padeceram os negros dos três primeiros trapiches do sal, porque também
ali a forca espalhou a morte!

Há entretanto outras ruas, que nascem íntimas, familiares,
incapazes de dar um passo sem que todas as vizinhas não saibam. As
ruas de Santa Teresa estão nestas condições. Um cavalheiro
salta no Curvelo, vai a pé até o França, e quando volta
já todas as ruas perguntam que deseja ele, se as suas tenções
são puras e outras impertinências íntimas. Em geral, procura-se
o mistério da montanha para esconder um passeio mais ou menos amoroso.
As ruas de Santa Teresa, é descobrir o par e é deitar a rir
proclamando aos quatro ventos o acontecimento. Uma das ruas, mesmo, mais leviana
e tagarela do que as outras, resolveu chamar-se logo Rua do Amor, e a Rua
do Amor lá está na freguesia de S. José. Será
exatamente um lugar escolhido pelo Amor, deus decadente? Talvez não.
Há também na freguesia do Engenho Velho uma rua intitulada Feliz
Lembrança e parece que não a teve, segundo a opinião
respeitável da poesia anônima:

Na Rua Feliz Lembrança
Eu escapei por um triz
De ser mandado à tábua.
Ai! que lembrança infeliz
Tal nome pôr nesta rua!

Há ruas que têm as blandícias de Goriot e de Shylock
para vos emprestar a juro, para esconder quem pede e paga o explorador com
ar humilde. Não vos lembrais da Rua do Sacramento, da rua dos penhores?
Uma aragem fina e suave encantava sempre o ar. Defronte à igreja, casas
velhas guardavam pessoas tradicionais. No Tesouro, por entre as grades de
ferro, uma ou outra cara desocupada. E era ali que se empenhavam as jóias,
que pobres entes angustiados iam levar os derradeiros valores com a alma estrangulada
de soluços; era ali que refluíam todas as paixões e todas
as tristezas, cujo lenitivo dependesse de dinheiro…

Há ruas oradoras, ruas de meeting – o Largo do Capim que assim
foi sempre, o Largo de S. Francisco; ruas de calma alegria burguesa, que parecem
sorrir com honestidade – a Rua de Haddock Lobo; ruas em que não
se arrisca a gente sem volver os olhos para trás a ver se nos vêem
–a Travessa da Barreira; ruas melancólicas, da tristeza dos poetas;
ruas de prazer suspeito próximo do centro urbano e como que dele muito
afastadas; ruas de paixão romântica, que pedem virgens loiras
e luar.

Qual de vós já passou a noite em claro ouvindo o segredo de
cada rua? Qual de vós já sentiu o mistério, o sono, o
vício, as idéias de cada bairro?

A alma da rua só é inteiramente sensível a horas tardias.
Há trechos em que a gente passa como se fosse empurrada, perseguida,
corrida – são as ruas em que os passos reboam, repercutem, parecem
crescer, clamam, ecoam e, em breve, são outros tantos passos ao nosso
encalço. Outras que se envolvem no mistério logo que as sombras
descem – o Largo de Paço. Foi esse largo o primeiro esplendor
da cidade. Por ali passaram, na pompa dos pálios e dos baldaquins d’ouro
e púrpura, as procissões do Enterro, do Triunfo, do Senhor dos
Passos; por ali, ao lado da Praia do Peixe, simples vegetação
de palhoças, o comércio agitava as suas primeiras elegâncias
e as suas ambições mais fortes. O largo, apesar das reformas,
parece guardar a tradição de dormir cedo. À noite, nada
o reanima, nada o levanta. Uma grande revolução morre no seu
bojo como um suspiro; a luz leva a lutar com a treva; os próprios revérberos
parece dormitarem, e as sombras que por ali deslizam são trapos da
existência almejando o fim próximo, ladrões sem pousada,
imigrantes esfaimados… Deixai esse largo, ide às ruelas da Misericórdia,
trechos da cidade que lembram o Amsterdão sombrio de Rembrandt. Há
homens em esteiras, dormindo na rua como se estivessem em casa. Não
nos admiremos. Somos reflexos. O Beco da Música ou o Beco da Fidalga
reproduzem a alma das ruas de Nápoles, de Florença, das ruas
de Portugal, das ruas da África, e até, se acreditarmos na fantasia
de Heródoto, das ruas do antigo Egito. E por quê? Porque são
ruas da proximidade do mar, ruas viajadas, com a visão de outros horizontes.
Abri uma dessas pocilgas que são a parte do seu organismo. Haveis de
ver chineses bêbados de ópio, marinheiros embrutecidos pelo álcool,
feiticeiras ululando canções sinistras, toda a estranha vida
dos portos de mar. E esses becos, essas betesgas têm a perfídia
dos oceanos, a miséria das imigrações, e o vício,
o grande vício do mar e das colônias…

Se as ruas são entes vivos, as ruas pensam, têm idéias,
filosofia e religião. Há ruas inteiramente católicas,
ruas protestantes, ruas livres-pensadoras e até ruas sem religião.
Trafalgar Square, dizia o mestre humorista Jerome, n&atilatilde;o tem uma opinião
teológica definitiva. O mesmo se pode dizer da Praça da Concórdia
de Paris ou da Praça Tiradentes. Há criatura mais sem miolos
que o Largo do Rocio? Devia ser respeitável e austero. Lá, Pedro
I, trepado num belo cavalo e com um belo gesto, mostra aos povos a carta da
independência, fingindo dar um grito que nunca deu. Pois bem: não
há sujeito mais pândego e menos sério do que o velho ex-Largo
do Rocio. Os seus sentimentos religiosos oscilam entre a depravação
e a roleta. Felizmente, outras redimem a sociedade de pedra e cal, pelo seu
culto e o seu fervor. A Rua Benjamin Constant está neste caso, é
entre nós um tremendo exemplo de confusão religiosa. Solene,
grave, guarda três templos, e parece dizer com circunspecção
e o ar compenetrado de certos senhores de todos nós conhecidos:

– Faço as obras do Coração de Jesus, creio em
Deus, nas orações, nos bentinhos e só não sou
positivista porque é tarde para mudar de crença. Mas respeito
muito e admiro Teixeira Mendes…

Nós, os homens nervosos, temos de quando em vez alucinações
parciais da pele, dores fulgurantes, a sensação de um contacto
que não existe, a certeza de que chamam por nós. As ruas têm
os rolos, as casas mal assombradas, e há até ruas possessas,
com o diabo no corpo. Em S. Luís do Maranhão há uma rua
sonâmbula muito menos cacete que a ópera célebre do mesmo
nome. Essa rua é a Rua de Santa Ana, a lady Macbeth da topografia.
Deu-se lá um crime horrível. Às dez horas, a rua cai
em estado sonambúlico e é só gritos, clamores: sangue!
sangue!

Ruas assim ainda mostram o que pensam. Talvez as outras tenham maiores delírios,
mas são como os homens normais – guardam dentro do cérebro
todos os pensamentos extravagantes. Quem se atreveria a resumir o que num
minuto pensa de mal, de inconfessável, o mais honesto cidadão?
Entre as ruas existem também as falsas, as hipócritas, com a
alma de Tartufo e de Iago. Por isso os grandes mágicos do interior
da África Central, que dos sertões adustos levavam às
cidades inglesas do litoral sacos d’ouro em pó e grandes macacos
tremendos, têm uma cantiga estranha que vale por uma sentença
breve de Catão:

O di ti a uê, chê
F’u, a uá ny
Odé, odá, bi ejô
Sa lo dê

Sentença que em eubá, o esperanto das hordas selvagens, quer
dizer apenas isto: rua foi feita para ajuntamentos. Rua é como cobra.
Tem veneno. Foge da rua!

Mas o importante, o grave, é ser a rua a causa fundamental da diversidade
dos tipos urbanos. Não sei se lestes um curioso livro de E. Demolins,
Comment la route crée le type social. É uma revolução
no ensino da Geografia. “A causa primeira e decisiva da diversidade das
raças, diz ele, é a estrada, o caminho que os homens seguirem.
Foi a estrada que criou a raça e o tipo social. Os grandes caminhos
do globo foram, de qualquer forma, os alambiques poderosos que transformaram
os povos. Os caminhos das grandes estepes asiáticas, das tundras siberianas,
das savanas da América ou das florestas africanas insensivelmente e
fatalmente criaram o tipo tártaro-mongol, o lapão-esquimó,
o pele-vermelha, o índio, o negro”.

A rua é a civilização da estrada. Onde morre o grande
caminho começa a rua, e, por isso, ela está para a grande cidade
como a estrada está para o mundo. Em embrião, é o princípio,
a causa dos pequenos agrupamentos de uma raça idêntica. Daí,
em muitos sítios da terra as aldeias terem o único nome de rua.
Quando aumentam e crescem depois, ou pela devoção da maioria
dos habitantes ou por uma impressão de local, acrescentam ao substantivo
rua o complemento que das outras as deve diferençar. Em Portugal esse
fato é comum. Há uma aldeia de 700 habitantes no Minho que se
chama modestamente Rua de S. Jorge, uma outra no Douro que é a Rua
da Lapela, e existem até uma Rua de Cima e uma Rua de Baixo.

Nas grandes cidades a rua passa a criar o seu tipo, a plasmar o moral dos
seus habitantes, a inocular-lhes misteriosamente gostos, costumes, hábitos,
modos, opiniões políticas. Vós todos deveis ter ouvido
ou dito aquela frase:

– Como estas meninas cheiram a Cidade Nova!

Não é só a Cidade Nova, sejam louvados os deuses! Há
meninas que cheiram a Botafogo, a Haddock Lobo, a Vila Isabel, como há
velhas em idênticas condições, como há homens também.
A rua fatalmente cria o seu tipo urbano como a estrada criou o tipo social.
Todos nós conhecemos o tipo do rapaz do Largo do Machado: cabelo à
americana, roupas amplas à inglesa, lencinho minúsculo no punho
largo, bengala de volta, pretensões às línguas estrangeiras,
calças dobradas como Eduardo VII e toda a snobopolis do universo. Esse
mesmo rapaz, dadas idênticas posições, é no Largo
do Estácio inteiramente diverso. As botas são de bico fino,
os fatos em geral justos, o lenço no bolso de dentro do casaco, o cabelo
à meia cabeleira com muito óleo. Se formos ao Largo do Depósito,
esse mesmo rapaz usará lenço de seda preta, forro na gola do
paletot, casaquinho curto e calças obedecendo ao molde corrente na
navegação aérea – calças à balão.

Esses três rapazes da mesma idade, filhos da mesma gente honrada, às
vezes até parentes, não há escolas, não há
contactos passageiros, não há academias que lhes tranformem
o gosto por certa cor de gravatas, a maneira de comer, as expressões,
as idéias – porque cada rua tem um stock especial de expressões,
de idéias e de gostos. A gente de Botafogo vai às “primeiras”
do Lírico, mesmo sem ter dinheiro. A gente de Haddock Lobo tem dinheiro
mas raramente vai ao Lírico. Os moradores da Tijuca aplaudem Sarah
Bernhardt como um prodígio. Os moradores da Saúde amam enternecidamente
o Dias Braga. As meninas das Laranjeiras valsam ao som das valsas de Strauss
e de Berger, que lembram os cassinos da Riviera e o esplendor dos kursaals.
As meninas dos bailes de Catumbi só conhecem as novidades do senhor
Aurélio Cavalcante. As conversas variam, o amor varia, os ideais são
inteiramente outros, e até o namoro, essa encantadora primeira fase
do eclipse do casamento, essa meia ação da simpatia que se funde
em desejo, é abolutamente diverso. Em Botafogo, à sombra das
árvores do parque ou no grande portão, Julieta espera Romeu,
elegante e solitária; em Haddock Lobo, Julieta garruleia em bandos
pela calçada; e nas casas humildes da Cidade Nova, Julieta, que trabalhou
todo o dia pensando nessa hora fugace, pende à janela o seu busto formoso…

Oh! sim, a rua faz o indivíduo, nós bem o sentimos. Um cidadão
que tenha passado metade da existência na Rua do Pau Ferro não
se habitua jamais à Rua Marquês de Abrantes! Os intelectuais
sentem esse tremendo efeito do ambiente, menos violentamente, mas sentem.
Eu conheci um elegante barão da monarquia, diplomata em perpétua
disponibilidade, que a necessidade forçara a aceitar de certo proprietário
o quarto de um cortiço da Rua Bom Jardim. O pobre homem, com as suas
poses à Brummell, sempre de monóculo entalado, era o escândalo
da rua. Por mais que saudasse as damas e cumprimentasse os homens, nunca ninguém
se lembrava de o tratar senão com desconfiança assustada. O
barão sentia-se desesperado e resumira a vida num gozo único:
sempre que podia, tomava o bonde de Botafogo, acendia um charuto, e ia por
ali altivo, airoso, com a velha redingote abotoada, a “caramela”
de cristal cintilante… Estava no seu bairro. Até parece, dizia ele,
que as pedras me conhecem!

As pedras! As pedras são a couraça da rua, a resistência
que elas apresentam ao novo transeunte. Refleti que nunca pisastes pela primeira
vez uma rua de arrabalde sem que o vosso passo fosse hesitante como que, inconscientemente,
se habituando ao terreno; refleti nessas coisas sutis que a vida cria, e haveis
de compreender então a razão por que os humildes limitam todo
o seu mundo à rua onde moram, e por que certos tipos, os tipos populares,
só o são realmente em determinados quarteirões.

As ruas são tão humanas, vivem tanto e formam de tal maneira
os seus habitantes, que há até ruas em conflito com outras.
Os malandros e os garotos de uma olham para os de outra como para inimigos.
Em 1805, há um século, era assim: os capoeiras da Praia não
podiam passar por Santa Luzia. No tempo das eleições mais à
navalha que à pena, o Largo do Machadinho e a Rua Pedro Américo
eram inimigos irreconciliáveis. Atualmente a sugestão é
tal que eles se intitulam povo. Há o povo da Rua do Senado, o povo
da Travessa do mesmo nome, o povo de Catumbi. Haveis de ouvir, à noite,
um grupo de pequenos valentes armados de vara:

– Vamos embora! O povo da Travessa está conosco.

É a Rua do Senado que, aliada à Travessa, vai sovar a Rua Frei
Caneca…

Como outrora os homens, mais ou menos notáveis, tomavam o nome da
cidade onde tinham nascido – Tales de Mileto, Luciano de Samosata, Epicarmo
de Alexandria – os chefes da capadoçagem juntam hoje ao nome
de batismo o nome da sua rua. Há o José do Senado, o Juca da
Harmonia, o Lindinho do Castelo, e ultimamente, nos fatos do crime, tornaram-se
célebres dois homens, Carlito e Cardosinho, só temidos em toda
a cidade, cheia de Cardosinhos e de Carlitos, porque eram o Carlito e o Cardosinho
da Saúde. Direis que é uma observação puramente
local? Não, cem vezes não! Em Paris, a Ville-Lumière,
os bandos de assassinos tomam freqüentemente o nome da rua onde se organizaram;
em Londres há ruas dos bairros trágicos com esse predomínio,
e na própria história de Bizâncio haveis de encontrar
ruas tão guerreiras que os seus habitantes as juntavam ao nome como
um distintivo.

E assim os tipos populares.

Tive o prazer de conhecer dois desses tipos, em que mais vivamente se exteriorizava
a influência psicológica da rua: o Pai da Criança e a
Perereca.

O Pai da Criança estava deslocado, na decadência. Esse ser repugnante
nascera como uma depravação da Rua do Ouvidor. Quando o vi doente,
nas tascas da Rua Frei Caneca, como já não estava na sua rua,
não era mais notável. Os garotos já não riam dele,
ninguém o seguia, e o nojento sujeito conversava nas bodegas, como
qualquer mortal, da gatunice dos governos. Só fui descobrir a sua celebridade
quando o vi em plena Ouvidor, cheio de fitas, vaiado, cuspindo insolências,
inconcebível de descaro e de náusea. A Perereca, ao contrário.
Na Rua do Ouvidor seria apenas uma preta velha. Na Rua Frei Caneca era o regalo,
o delírio, a extravagância. Os malandrins corriam-lhe ao encalço
atirando-lhe pedras, os negociantes chegavam às portas, todas as janelas
iluminavam-se de gargalhadas. E por quê? Porque esses tipos são
o riso das ruas e assim como não há duas pessoas que riam do
mesmo modo não há duas ruas cujo riso seja o mesmo.

Se a rua é para o homem urbano o que a estrada foi para o homem social,
é claro que a preocupação maior, a associada a todas
as outras idéias do ser das cidades, é a rua. Nós pensamos
sempre na rua. Desde os mais tenros anos ela resume para o homem todos os
ideais, os mais confusos, os mais antagônicos, os mais estranhos, desde
a noção de liberdade e de difamação – idéias
gerais – até a aspiração de dinheiro, de alegria
e de amor, idéias particulares. Instintivamente, quando a criança
começa a engatinhar, só tem um desejo: ir para a rua! Ainda
não fala e já a assustam: se você for para a rua encontra
o bicho! Se você sair apanha palmadas! Qual! Não há nada!
É pilhar um portão aberto que o petiz não se lembra mais
de bichos nem de pancadas!

Sair só é a única preocupação das crianças
até uma certa idade. Depois continuar a sair só. E quando já
para nós esse prazer se usou, a rua é a nossa própria
existência. Nela se fazem negócios, nela se fala mal do próximo,
nela mudam as idéias e as convicções, nela surgem as
dores e os desgostos, nela sente o homem a maior emoção.

Quando se encontra o amor Na rua, sem o saber…

– Ponho-o no olho da rua! brada o pai ao filho no auge da fúria.

Aí está a rua como expressão da maior calamidade.

– Você está em casa, venha para a rua se é gente!

Aí temos a rua indicando sítio livre para a valentia a substituir
o campo de torneio medieval.

– É mais deslavado que as pedras da rua!

Frase em que se exprime uma sem-vergonhice inconcebível.

– É mais velho que uma rua!

Conceito talvez errado porque há ruas que morrem moças.

Às vezes até a rua é a arma que fere e serve de elogio
conforme a opinião que dela se tem.

– Ah! minha amiga! Meu filho é muito comportado. Já vai
à rua sozinho…

– Ah! meninas, o filho de d. Alice está perdido! Pois se até
anda sozinho na rua!

E a rua, impassível, é o mistério, o escândalo,
o terror…

Os políticos vivem no meio da rua aqui, na China, em Tombuctu, na
França; os presidentes de república, os reis, os papas, no pavor
de uma surpresa da rua – a bomba, a revolta; os chefes de polícia
são os alucinados permanentes das ruas; todos quantos querem subir,
galgar a inútil e movediça montanha da glória, anseiam
pelo juízo da rua, pela aprovação da via pública,
e há na patologia nervosa uma vasta parte em que se trata apenas das
moléstias produzidas pela rua, desde a neurastenia até à
loucura furiosa. E que a rua chega a ser a obsessão em que se condensam
todas as nossas ambições. O homem, no desejo de ganhar a vida
com mais abundância ou maior celebridade, precisava interessar à
rua. Começou pois fazendo discursos em plena ágora, discursos
que, desde os tempos mais remotos aos meetings contemporâneos da estátua
de José Bonifácio, falam sempre de coisas altivas, generosas
e nobres. Um belo dia, a rua proclamou a excelente verdade: que as palavras
leva-as o vento. Logo, nós assustados, imaginamos o homem-sandwich,
o cartaz ambulante; mandamos pregar-lhe, enquanto dorme, com muita goma e
muita ingenuidade, os cartazes proclamando a melhor conserva, o doce mais
gostoso, o ideal político mais austero, o vinho mais generoso, não
só em letras impressas mas com figuras alegóricas, para poupar-lhe
o trabalho de ler, para acariciar-lhe a ignorância, para alegrá-la.
Como se não bastassem o cartaz, a lanterna mágica, o homem-sandwich,
desveladamente, aos poucos, resolvemos compor-lhe a história e fizemos
o jornal – esse formidável folhetim-romance permanente, composto
de verdades, mentiras, lisonjas, insultos e da fantasia dos Gaboriau que somos
todos nós…

Há uma estética da rua, afirmou Bulls. Sim. Há. Porque
as atrizes de fama, os oradores mais populares, os hércules mais cheios
de força, os produtos mais evidentes dos blocos comerciais, vivem de
procurar agradá-la. Desse orgulho transitório surgiu para a
rua a glória policroma da arte. O temor de serem esquecidos criou para
cada uma a roupagem variada, encheu-as como Melusinas de pedra, como fadas
cruéis que se teme e se satisfaz, de vestidos múltiplos, de
cores variegadas, de fanfreluches de papel, da ardência fulgurante das
montras de cambiantes luzentes; deu-lhes uma perpétua apoteose de sacrifício
à espera do milagre do lucro ou da popularidade. A estética,
a ornamentação das ruas, é o resultado do respeito e
do medo que lhes temos…

No espírito humano a rua chega a ser uma imagem que se liga a todos
os sentimentos e serve para todas as comparações. Basta percorrer
a poesia anônima para constatar a flagrante verdade. É quase
sempre na rua que se fala mal do próximo. Folheemos uma coleção
de fados. Lá está a idéia:

Adeus, ó Rua Direita
Ó Rua da Murmuração.
Onde se faz audiência
Sem juiz nem escrivão.

Aliás muito tímida, como devendo ser cantada por quem tem culpa
no cartório. Mas, se um apaixonado quer descrever o seu peito, só
encontra uma comparação perfeita.

O meu peito é uma rua
Onde o meu bem nunca passa,
É a rua da amargura
Onde passeia a desgraça.

Se sente o apetite de descrever, os espécimens são sem conta.

Na rua do meu amor
Não se pode namorar:
De dia, velhas à porta,
De noite, cães a ladrar.

E é suave lembrar aquele sonhador que, defronte da janela da amada
e desejando realizar o impossível para lhe ser agradável, só
pôde sussurrar esta vontade meiga:

Se esta rua fosse minha
Eu mandava ladrilhar
De pedrinhas de brilhante
Para meu bem passar.

O povo observa também, e diz mais numa quadra do que todos nós
a armar o efeito de períodos brilhantes. Sempre recordarei um tocador
de violão a cantar com lágrimas na voz como diante do inexorável
destino:

Vista Alegre é rua morta
A Formosa é feia e brava
A Rua Direita é torta
A do Sabão não se lava…

Toda a psicologia das construções e do alinhamento em quatro
versos! A rua chega a preocupar os loucos. Nos hospícios, onde esses
cavalheiros andam doidos por se ver cá fora, encontrei planos de ruas
ideais, cantores de rua, e um deles mesmo chegou a entregar-me um longo poema
que começava assim:

A rua…
Cumprida, cumprida, atua…
Olê! complicada, complicada, alua
A rua
Nua!

Essa idéia reflete-se nas religiões, nos livros sagrados, na
arte de todos os tempos, cada vez mais afiada, cada vez mais sensível.
Na literatura atual a rua é a inspiração dos grandes
artistas, desde Victor Hugo, Balzac e Dickens, até às epopéias
de Zola, desde o funambulismo de Banville até o humorismo de Mark Twain.
Não há um escritor moderno que não tenha cantado a rua.
Os sonhadores levam mesmo a exagerá-la, e hoje, devido certamente à
corrente socialista, há toda uma literatura em que a alma das ruas
soluça. Os poetas refinados levam a mórbida inspiração
a cantar os aspectos parciais da rua. Como os românticos cantavam os
pés, os olhos, a boca e outras partes do corpo das apaixonadas, eles
cantam o semblante das casas vazias, os revérberos de gás como
Rodenbach:

Le dimanche, en semaine, et par tous les temps
L’un est debout, un autre, il semble, s’agenouille.
Et chacun se sent seul comme dans une foule.
Les revérbéres des banlieues
Sont des cages oú des oiseaux déplient leurs queues.

Os pregões, as calçadas, e houve até um – Mário
Pederneiras –que nos deu a sutilíssima e admirável psicologia
das árvores urbanas:

Com que magoado encanto
Com que triste saudade
Sobre mim atua
Esta estranha feição das árvores da rua.
E elas são, entretanto,
A única ilusão rural de uma cidade!

As árvores urbanas
São, em geral, conselheiras e frias
Sem as grandes expansões e as grandes alegrias
Das provincianas.

Não têm sequer os plácidos carinhos
Dessas largas manhãs provinciais e enxutas.
Nem a orquestra dos ninhos
Nem a graça vegetal das frutas.

Os artistas modernos já não se limitam a exprimir os aspectos
proteiformes da rua, a analisar traço por traço o perfil físico
e moral de cada rua. Vão mais longe, sonham a rua ideal, como sonharam
um mundo melhor. Williams Morris, por exemplo, imaginou nas Novelas de parte
alguma a rua socialista e rara, com edifícios magníficos, sem
mendigos e sem dinheiro. Rimbaud, nas Illuminations, teve a idéia da
rua babélica, reproduzindo nos edifícios, sob o céu cinzento,
todas as maravilhas clássicas da arquitetura. Bellamy, no Locking Bockward,
já sonhava o agrupamento dos grandes armazéns; e hoje, entre
essas ruas de sonho, que Gustavo Khan considera as ruas utópicas e
que talvez se tornem realidade um dia, é o estranho e infernal sulco
descrito por Wells na História dos tempos futuros, rua em que tudo
dependerá de sindicatos formidáveis, em que tudo será
elétrico, em que os homens, escravos de meia dúzia, serão
como os elos de uma mesma corrente arrastados pelo trabalho através
dos casarões.

Mas, a quem não fará sonhar a rua? A sua influência é
fatal na palheta dos pintores, na alma dos poetas, no cérebro das multidões.
Quem criou o reclamo? A rua! Quem inventou a caricatura! A rua! Onde a expansão
de todos os sentimentos da cidade? Na rua! Por isso para dar a expressão
da dor funda, o grande poeta Bilac fez um dia:

A Avenida assombrada e triste da saudade
Onde vem passear a procissão chorosa
Dos órfãos do carinho e da felicidade.

E certo poeta árabe, reconhecendo com a presciência dos vates
que só a rua nos pode dar a expressão do sofrimento absoluto
como da alegria completa, escreveu a celebrada Praça do riso ao nascer
da aurora; o riso de cristal das crianças, o riso perlado das mulheres,
o riso grave dos homens a formar um conjunto de tanta harmonia que as árvores
também riam no canto dos pássaros, e a própria umbela
azul do céu se estriava d’ouro no imenso riso do sol..

Neste elogio, talvez fútil, considerei a rua um ser vivo, tão
poderoso que consegue modificar o homem insensivelmente e fazê-lo o
seu perpétuo escravo delirante, e mostrei mesmo que a rua é
o motivo emocional da arte urbana mais forte e mais intenso. A rua tem ainda
um valor de sangue e de sofrimento: criou um símbolo universal. Há
ainda uma rua, construída na imaginação e na dor, rua
abjeta e má, detestável e detestada, cuja travessia se faz contra
a nossa vontade, cujo trânsito é um doloroso arrastar pelo enxurro
de uma cidade e de um povo. Todos acotovelam-se e vociferam aí, todos,
vindos da Rua da Alegria ou da Rua da Paz, atravessando as betesgas do Saco
do Alferes ou descendo de automóvel dos bairros civilizados, encontram-se
aí e aí se arrastam, em lamentações, em soluços,
em ódio à vida e ao Mundo. No traçado das cidades ela
não se ostenta com as suas imprecações e os seus rancores.
É uma rua esconsa e negra, perdida na treva, com palácios de
dor e choupanas de pranto, cuja existência se conhece não por
um letreiro à esquina, mas por uma vaga apreensão, um irredutível
sentimento de angústia, cuja travessia não se pode jamais evitar.
Correi os mapas de Atenas, de Roma, de Nínive ou de Babilônia,
o mapa das cidades mortas. Termas, canais, fontes, jardins suspensos, lugares
onde se fez negócio, onde se amou, lugares onde se se cultuaram os
deuses – tudo desapareceu. Olhai o mapa das cidades modernas. De século
em século a transformação é quase radical. As
ruas são perecíveis como os homens. A outra, porém, essa
horrível rua de todos conhecida e odiada, pela qual diariamente passamos,
essa é eterna como o medo, a infâmia, a inveja. Quando Jerusalém
fulgia no seu máximo esplendor, já ela lá existia. Enquanto
em Atenas artistas e guerreiros recebiam ovações, enquanto em
Roma a multidão aplaudia os gladiadores triunfais e os césares
devassos, na rua aflitiva cuspinhava o opróbrio e chorava a inocência.
Cartago tinha uma rua assim, e ainda hoje Paris, New York, Berlim a têm,
cortando a sua alegria, empanando o seu brilho, enegrecendo todos os triunfos
e todas as belezas. Qual de vós não quebrou, inesperadamente,
o ângulo em arestas dessa rua? Se chorastes, se sofrestes a calúnia,
se vos sentistes ferido pela maledicência, podereis ter a certeza de
que entrastes na obscura via! Ah! Não procureis evita-la! Jamais o
conseguireis. Quanto mais se procura dela sair mais dentro dela se sofre.
E não espereis nunca que o mundo melhore enquanto ela existir. Não
é uma rua onde sofrem apenas alguns entes, é a rua interminável,
que atravessa cidades, países, continentes, vai de pólo a pólo;
em que se alanceiam todos os ideais, em que se insultam todas as verdades,
onde sofreu Epaminondas e pela qual Jesus passou. Talvez que extinto o mundo,
apagados todos os astros, feito o universo treva, talvez ela ainda exista,
e os seus soluços sinistramente ecoem na total ruína, rua das
lágrimas, rua do desespero – interminável rua da Amargura.

Pequenas Profissões

O cigano aproximou-se do catraieiro. No céu, muito azul, o sol derramava
toda a sua luz dourada. Do cais via-se para os lados do mar, cortado de lanchas,
de velas brancas, o desenho multiforme das ilhas verdejantes, dos navios,
das fortalezas. Pelos boulevards sucessivos que vão dar ao cais, a
vida tumultuária da cidade vibrava num rumor de apoteose, e era ainda
mais intensa, mais brutal, mais gritada, naquele trecho do Mercado, naquele
pedaço da rampa, viscoso de imundícies e de vícios. O
cigano, de frack e chapéu mole, já falara a dois carroceiros
moços e fortes, já se animara a entrar numa taberna de freguesia
retumbante. Agora, pelos seus gestos duros, pelo brilho do olhar, bem se percebia
que o catraieiro seria a vítima, a vítima definitiva, que ele
talvez procurasse desde manhã, como um milhafre esfomeado.

Eduardo e eu caminhamos para a rampa, na aragem fina da tarde que se embebia
de todos aqueles cheiros de maresia, de gordura, de aves presas, de verduras.
O catraieiro batia negativamente com a cabeça.

– Uma calça, apenas uma, em muito bom estado.

– Mas eu não quero.

– Ninguém lhe vende mais barato, palavra de honra. E a fazenda?
Veja a fazenda.

Desenrolou com cuidado um embrulho de jornal. De dentro surgiu um pedaço
de calça cor de castanha.

– Para o serviço! Dois mil réis, só dois!…Eu
tenho família, mãe, esposa, quatro filhos menores. Ainda não
comi hoje! Olhe, tenho aqui uns anéis…não gosta de anéis?

O catraieiro ficara, sem saber como, com o embrulho das calças, e
o seu gesto fraco de negativa bem anunciava que iria ficar também com
um dos anéis. O cigano desabotoara o frack, cheio de súbito
receio.

– É um anel de ouro que eu achei, ouro legítimo. Vendo
barato: oito mil réis apenas. Tudo dez mil réis, conta redonda!

O catraieiro sorria, o cigano era presa de uma agitação estranha,
agarrando a vítima pelo braço, pela camisa, dando pulos, para
lhe cochichar ao ouvido palavras de maior tentação; ninguém
naquele perpétuo tumulto, ninguém no rumor do estômago
da cidade, olhava sequer para o negócio desesperado de cigano. Eduardo,
que nessa tarde passeava comigo, arrastou-me pelo ex-Largo do Paço,
costeando o cais até a velha estação das barcas.

– Admiraste aquele negociante ambulante?

– Admirei um refinado “vigarista”…

– Oh! meu amigo, a moral é uma questão de ponto de vista.
Aquele cigano faz parte de um exército de infelizes, a que as condições
da vida ou do próprio temperamento, a fatalidade, enfim, arrasta muita
gente. Lembras-te de La romera de Santiago, de Velez de Guevara? Há
lá uns versos que bem exprimem o que são essas criaturas:

Estos son algunos hombres
De obligaciones, que pasan
Necesidad, y procuran
De esta suerte remediarla
Saliendose a los caminos…

É quanto basta como moral. Não sejamos excessivos para os humildes.

O Rio tem também as suas pequenas profissões exóticas,
produto da miséria ligada às fábricas importantes, aos
adelos, ao baixo comércio; o Rio, como todas as grandes cidades, esmiúça
no próprio monturo a vida dos desgraçados. Aquelas calças
do cigano, deram-lhas ou apanhou-as ele no monturo, mas como o cigano não
faz outra coisa na sua vida senão vender calçar velhas e anéis
de plaquet, aí tens tu uma profissão da miséria, ou se
quiseres, da malandrice – que é sempre a pior das misérias.
Muito pobre diabo por aí pelas praças parece sem ofício,
sem ocupação. Entretanto, coitados! o ofício, as ocupações,
não lhes faltam, e honestos, trabalhosos, inglórios, exigindo
o faro dos cães e a argúcia dos reporters.

Todos esses pobres seres vivos tristes vivem do cisco, do que cai nas sarjetas,
dos ratos, dos magros gatos dos telhados, são os heróis da utilidade,
os que apanham o inútil para viver, os inconscientes aplicadores à
vida das cidades daquele axioma de Lavoisier: nada se perde na natureza. A
polícia não os prende, e, na boêmia das ruas, os desgraçados
são ainda explorados pelos adelos, pelos ferros-velhos, pelos proprietários
das fábricas…

– As pequenas profissões!… É curioso!

As profissões ignoradas. Decerto não conheces os trapeiros
sabidos, os apanha-rótulos, os selistas, os caçadores, as ledoras
de buena dicha. Se não fossem o nosso horror, a Diretoria de Higiene
e as blagues das revistas de ano, nem os ratoeiros seriam conhecidos.

– Mas, senhor Deus! é uma infinidade, uma infinidade de profissões
sem academia! Até parece que não estamos no Rio de Janeiro…

– Coitados! Andam todos na dolorosa academia da miséria, e,
vê tu, até nisso há vocações! Os trapeiros,
por exemplo, dividem-se em duas especialidades – a dos trapos limpos
e a de todos os trapos. Ainda há os cursos suplementares dos apanhadores
de papéis, de cavacos e de chumbo. Alguns envergonham-se de contar
a existência esforçada. Outros abundam em pormenores e são
um mundo de velhos desiludidos, de mulheres gastas, de garotos e de crianças,
filhos de família, que saem, por ordem dos pais, com um saco às
costas, para cavar a vida nas horas da limpeza das ruas.

De todas essas pequenas profissões a mais rara e a mais parisiense
é a dos caçadores, que formam o sindicato das goteiras e dos
jardins. São os apanhadores de gatos para matar e levar aos restaurants,
já sem pele, onde passam por coelho. Cada gato vale dez tostões
no máximo. Uma só das costelas que os fregueses rendosos trincam,
à noite, nas salas iluminadas dos hotéis, vale muito mais. As
outras profissões são comuns. Os trapeiros existem desde que
nós possuímos fábricas de papel e fábricas de
móveis. Os primeiros apanham trapos, todos os trapos encontrados na
rua, remexem o lixo, arrancam da poeira e do esterco os pedaços de
pano, que serão em pouco alvo papel; os outros têm o serviço
mais especial de procurar panos limpos, trapos em perfeito estado, para vender
aos lustradores das fábricas de móveis. As grandes casas desse
gênero compram em porção a traparia limpa. A uns não
prejudica a intempérie, aos segundos a chuva causa prejuízos
enormes. Imagina essa pobre gente, quando chove, quando não há
sol, com o céu aberto em cataratas e, em cada rua, uma inundação!

– Falaste, entretanto, dos sabidos?

– Ah! os sabidos dedicam-se a pesquisar nos montes de cisco as botas
e os sapatos velhos, e batem-se por duas botas iguais com fúria, porque
em geral só se encontra uma desirmanada. Esses infelizes têm
preço fixo para o trabalho, uma tarifa geral combinada entre os compradores,
os italianos remendões. Um par de botas, por exemplo, custa 400 réis,
um par de sapatos 200 réis. As classes pobres preferem as botas aos
sapatos. Uma bota só, porém, não se vende por mais de
100 réis.

– Mas é bem pago!

– Bem pago? Os italianos vendem as botas, depois de consertadas, por
seis e sete mil réis! E o mesmo que acontece aos molambeiros ambulantes
como o cigano que acabamos de ver – os belchiores compram as roupas
para vendê-las com quatrocentos por cento de lucro. Há ainda
os selistas e os ratoeiros. Os selistas não são os mais esquadrinhadores,
os agentes sem lucro do desfalque para o cofre público e da falsificação
para o burguês incauto. Passam o dia perto das charutarias pesquisando
as sarjetas e as calçadas à cata de selos de maços de
cigarros e selos com anéis e os rótulos de charutos. Um cento
de selos em perfeito estado vende-se por 200 réis. Os das carteiras
de cigarros têm mais um tostão. Os anéis dos charutos
servem para vender uma marca por outra nas charutarias e são pagos
cem por 200 réis. Imagina uns cem selistas à cata de selos intactos
das carteirinhas e dos charutos; avalia em 5% os selos perfeitos de todos
os maços de cigarros e de todos os charutos comprados neste país
de fumantes; e calcula, após este pequeno trabalho de estatística,
em quanto é defraudada a fazenda nacional diariamente só por
uma das pequenas profissões ignoradas.

– Gente pobre a morrer de fome, coitados…

– Oh! não. O pessoal que se dedica ao ofício não
se compõe apenas do doloroso bando de pés descalços,
da agonia risonha dos pequenos mendigos. Trabalham também na profissão
os malandros de gravata e roupa alheia, cuja vida passa em parte nos botequins
e à porta das charutarias.

– E é rendoso?

– Rendoso, propriamente, não; mas os selistas contam com o natural
sentimento de todos os seres que, em vez de romper, preferem retirar o selo
do charuto e rasgar a parte selada das carteirinhas sem estragar o selo.

– Mas os anéis dos charutos?

– Oh! isso então é de primeiríssima. Os selistas
têm lugar certo para vender os rótulos dos charutos Bismarck
– em Niterói, na Travessa do Senado. Há casas que passam
caixas e caixas de charutos que nunca foram dessa marca. A mais nova, porém,
dessas profissões, que saltam dos ralos, dos buracos, do cisco da grande
cidade, é a dos ratoeiros, o agente de ratos, o entreposto entre as
ratoeiras das estalagens e a Diretoria de Saúde. Ratoeiro não
é um cavador – é um negociante. Passeia pela Gamboa, pelas
estalagens da Cidade Nova, pelos cortiços e bibocas da parte velha
da urbs, vai até ao subúrbio, tocando um cornetinha com a lata
na mão. Quando está muito cansado, senta-se na calçada
e espera tranqüilamente a freguesia, soprando de espaço a espaço
no cornetim.

Não espera muito. Das rótulas há quem os chame; à
porta das estalagens afluem mulheres e crianças.

– Ó ratoeiro, aqui tem dez ratos!

– Quanto quer?

– Meia pataca.

– Até logo!

– Mas, ô diabo, olhe que você recebe mais do que isso por
um só lá na Higiene.

– E o meu trabalho?

– Uma figa! Eu cá não vou na história de micróbio
no pêlo do rato.

– Nem eu. Dou dez tostões por tudo. Serve?

– Heim?

– Serve?

– Rua!

– Mais fica!

E quando o ratoeiro volta, traz o seu dia fartamente ganho…

Tínhamos parado à esquina da Rua Fresca. A vida redobrava aí
de intensidade, não de trabalho, mas de deboche.

Nos botequins, fonógrafos roufenhos esganiçavam canções
picarescas; numa taberna escura com turcos e fuzileiros navais, dois violões
e um cavaquinho repinicavam. Pelas calçadas, paradas às esquinas,
à beira do quiosque, meretrizes de galho de arruda atrás da
orelha e chinelinho na ponta do pé, carregadores espapaçados,
rapazes de camisa de meia e calça branca bombacha com o corpo flexível
dos birbantes, marinheiros, bombeiros, túnicas vermelhas e fuzileiros
– uma confusão, uma mistura de cores, de tipos, de vozes, onde
a luxúria crescia.

De repente o meu amigo estacou. Alguns metros adiante, na Rua Fresca, um
rapaz doceiro arriara a caixa, e sentado num portal, entregava o braço
aos exercícios de um petiz da altura de um metro. Junto ao grupo, o
cigano, com outro embrulho, falava.

– Vês? Aquele pequeno é marcador, faz tatuagens, ganha
a sua vida com três agulhas e um pouco de graxa, metendo coroas, nomes
e corações nos braços dos vendedores ociosos. O cigano
molambeiro aproveita o estado de semi-dor e semi-inércia do rapaz para
lhe impingir qualquer um dos seus trapos…um psicólogo, como todos
os da sua raça, psicólogo como as suas irmãs que lêem
a buena dicha por um tostão e amam por dez com consentimento deles.

Oh! essas pequenas profissões ignoradas, que são partes integrantes
do mecanismo das grandes cidades!

O Rio pode conhecer muito bem a vida do burguês de Londres, as peças
de Paris, a geografia da Manchúria e o patriotismo japonês. A
apostar, porém, que não conhece nem a sua própria planta,
nem a vida de toda essa sociedade, de todos esses meios estranhos e exóticos,
de todas as profissões que constituem o progresso, a dor, a miséria
da vasta Babel que se transforma. E entretanto, meu caro, quanto soluço,
quanta ambição, quanto horror e também quanta compensação
na vida humilde que estamos a ver.

Estos son algunos hombres
De obligaciones, que pasan
Necesidad, y procuran
De esta suerte remediarla
Saliendose a los caminos…

Mas o meu amigo não continuou o fio luminoso de sua filosofia. O catraieiro
apareceu rubro de cólera, e sutilmente cosia-se com as paredes, ao
aproximar-se do cigano.

De repente deu um pulo e caiu-lhe em cima de chofre.

– Apanhei-te, gatuno!

O cigano voltara-se lívido. Ao grito do catraieiro acudiam, numa sarabanda
de chinelas, fúfias, rufiões, soldados, ociosos, vendedores
ambulantes.

– Gatuno! Então vendes como ouro um anel de plaquet? Espera
que te vou quebrar os queixos. Sacudiu-o, atirou-o no ar para apanhá-lo
com uma bofetada. O cigano porém caiu num bolo, distendeu-se e partiu
como um raio por entre a aglomeração da gentalha, que ria. O
catraieiro, mais corpulento, mais pesado, precipitou-se também.

Os vagabundos, com o selvagem instinto da caça, que persiste no homem
– acompanharam-no. E pelos boulevards, onde se acendiam os primeiros
revérberos, à disparada entre os squares sucessivos, a ralé
dos botequins, aos gritos, deitou na perseguição do pobre cigano
molambeiro, da pobre profissão ignorada, que, como todas as profissões,
tem também malandros.

Então Eduardo sentenciou.

– Tu não conhecias as pequenas profissões do Rio. A vida
de um pobre sujeito deu-te todos esses úteis conhecimentos. Mas, se
esse pobre sujeito não fosse um malandro, não conhecerias da
profissão até mesmo os birbantes.

A moral é uma questão de ponto de vista. Para julgar os homens
basta a gente defini-los segundo os seus sucessivos estados. Se te aprouver
definir os profissionais humildes pela tua última impressão,
emprega os mesmos versos de Guevara com uma pequena modificação:

Estos son algunos hombres
De obligaciones, que pasan
Necesidad, y procuran
De esta suerte remediarla
Corriendo por los caminos..

Os Tatuadores

– Quer marcar?

Era um petiz de doze anos talvez. A roupa em frangalhos, os pés nus,
as mãos pouco limpas e um certo ar de dignidade na pergunta. O interlocutor,
um rapazola louro, com uma dourada carne de adolescente, sentado a uma porta,
indagou:

– Por quanto?

– É conforme, continuou o petiz. É inicial ou coroa?

– É um coração!

– Com nome dentro?

O rapaz hesitou. Depois:

– Sim, com nome: Maria Josefina.

– Fica tudo por uns seis mil réis.

Houve um momento em que se discutiu o preço, e o petiz estava inflexível,
quando vindo do quiosque da esquina um outro se acercou.

– Ó moço, faço eu; não escute embromações!

– Pagará o que quiser, moço.

O rapazola sorria. Afinal resignou-se, arregaçou a manga da camisa
de meia, pondo em relevo a musculatura do braço. O petiz tirou do bolso
três agulhas amarradas, um pé de cálix com fuligem e começou
o trabalho. Era na Rua Clapp, perto do cais, no século XX… A tatuagem!
Será então verdade a frase de Gautier: “o mais bruto homem
sente que o ornamento traça uma linha indelével de separação
entre ele e o animal, e quando não pode enfeitar as próprias
roupas recama a pele”?

A palavra tatuagem é relativamente recente. Toda a gente sabe que
foi o navegador Loocks que a introduziu no ocidente, e esse escrevia tattou,
termo da Polinésia de tatou ou to tahou, desenho. Muitos dizem mesmo
que a palavra surgiu no ruído perceptível da agulha da pele:
tac, tac. Mas como é ela antiga! O primeiro homem, decerto, ao perder
o pêlo, descobriu a tatuagem.

Desde os mais remotos tempos vêmo-la a transformar-se: distintivo honorífico
entre uns homens, ferrete de ignomínia entre outros, meio de assustar
o adversário para os bretões, marca de uma classe para selvagens
das ilhas Marquesas, vestimenta moralizadora para os íncolas da Oceânia,
sinal de amor, de desprezo, de ódio, bárbara tortura do Oriente,
baixa usança do Ocidente. Na Nova Zelândia é um enfeite;
a Inglaterra universaliza o adorno dos selvagens que colhem o phormium tenax
para lhe aumentar a renda, e Eduardo com a âncora e o dragão
no braço esquerdo é só por si um problema de psicologia
e de atavismo.

Da tatuagem no Rio faz-se o mais variado estudo da crendice. Por ele se reconstrói
a vida amorosa e social de toda a classe humilde, a classe dos ganhadores,
dos viciados, das fúfias de porta aberta, cuja alegria e cujas dores
se desdobram no estreito espaço das alfurjas e das chombergas, cujas
tragédias de amor morrem nos cochicholos sem ar, numa praga que se
faz de lágrimas. A tatuagem é a inviolabilidade do corpo e a
história das paixões. Esses riscos nas peles dos homens e das
mulheres dizem as suas aspirações, as suas horas de ócio
e a fantasia da sua arte e a crença na eternidade dos sentimentos –
são a exteriorização da alma de quem os traz.

Há três casos de tatuagem no Rio, completamente diversos na
sua significação moral: os negros, os turcos com o fundo religioso
e o bando das meretrizes, dos rufiões e dos humildes, que se marcam
por crime ou por ociosidade. Os negros guardam a forma fetiche; além
dos golpes sarados com o pó preservativo do mau olhado, usam figuras
complicadas. Alguns, como o Romão da Rua do Hospício, têm
tatuagens feitas há cerca de vinte anos, que se conservam nítidas,
apesar da sua cor – com que se confunde a tinta empregada.

Quase todos os negros têm um crucificado. O feiticeiro Ononenê,
morador à Rua do Alcântara, tem do lado esquerdo do peito as
armas de Xangô, e Felismina de Oxum a figura complicada da santa d’água
doce. Esses negros explicam ingenuamente a razão das tatuagens. Na
coroa imperial hesitam, coçam a carapinha e murmuram, num arranco de
toda a raça, num arranco mil vezes secular de servilismo inconsciente:

– Eh! Eh! Pedro II não era o dono?

E não se fotografam com um pavor surdo, como se fosse crime usar essas
marcas simbólicas.

Os turcos são muçulmanos, maronitas, cismáticos, judeus,
e nestas religiões diversas não há gente mais cheia de
abusões, de receios, de medos. Nas casas da Rua da Alfândega,
Núncio e Senhor dos Passos, existem, sob o soalho, feitiçarias
estranhas, e a tatuagem forra a pele dos homens como amuletos. Os maronitas
pintam iniciais, corações; os cismáticos têm verdadeiros
eikones primitivos nos peitos e nos braços; os outros trazem para o
corpo pedaços de paramentos sagrados. É por exemplo muito comum
turco com as mãos franjadas de azul, cinco franjas nas costas da mão,
correspondendo aos cinco dedos. Essas cinco franjas são a simbolização
das franjas da taleth, vestimenta dos Khasan, nas quais está entrançado
a fio de ouro o grande nome de Ihaveh.

A outra camada é a mais numerosa, é toda a classe baixa do
Rio – os vendedores ambulantes, os operários, os soldados, os
criminosos, os rufiões, as meretrizes. Para marcar tanta gente a tatuagem
tornou-se uma indústria com chefes, subchefes e praticantes.

Quase sempre as primeiras lições vieram das horas de inatividade
na cadeia, na penitenciária e nos quartéis; mas eu contei só
na Rua Barão de S. Félix, perto do Arsenal de Marinha, e nas
ruelas da Saúde, cerca de trinta marcadores. Há pequenos de
dez, doze anos, que saem de manhã para o trabalho, encontram os carregadores,
os doceiros sentados nos portais.

– Quer marcar? perguntam; e tiram logo do bolso um vidro de tinta e
três agulhas.

Muitos portugueses, cujos braços musculosos guardam coroas da sua
terra e o seu nome por extenso, deixaram-se marcar porque não tinham
que fazer.

– Que quer V.S.? O pequeno estava a arreliar. Marca, moço, marca!
E tanto pediu que pôs pra aí os risquinhos.

Os pequenos, os outros marcadores ambulantes, têm um chefe, o Madruga,
que só no mês de abril deste ano fez trezentas e dezenove marcações.
Madruga é o exemplo da versatilidade e da significação
miriônima da tatuagem. Tem estado na cadeia várias vezes por
questões e barulhos, vive nas Ruas da Conceição e S.
Jorge, tem amantes, compõe modinhas satíricas e é poeta.
É dele este primor, que julga verso:

Venha quanto antes d. Elisa
Enquanto o Chico Passos não atiça
Fogo na cidade…

Homem tão interessante guarda no corpo a síntese dos emblemas
das marcações – um Cristo no peito, uma cobra na perna,
o signo de Salomão, as cinco chagas, a sereia, e no braço esquerdo
o campo das próprias conquistas. Esse braço é o prolongamento
ideográfico do seu monte de Vênus onde a quiromancia vê
as batalhas do amor. Quando a mulher lhe desagrada e acaba com a chelpa, Madruga
emprega leite de mulher e sal de azedas, fura de novo a pele, fica com o braço
inchado, mas arranca de lá a cor do nome.

Enquanto andou a fornecer-me o seu profundo saber, Madruga teve três
dessas senhoras – a Jandira, a Josefa e a Maria. A primeira a figurar
debaixo de um coração foi a Jandira. Um belo dia a Jandira desaparecia,
dando lugar à Josefa, que triunfava em cima, entre as chamas. Um mês
depois a letra J sumira-se e um M dominava no meio do coração.

Os marcadores têm uma tabela especial, o preço fixo do trabalho.
As cinco chagas custam 1$000, uma rosa 2$000, o signo de Salomão,o
mais comum e o menos compreendido porque nem um só dos que interroguei
o soube explicar, 3$000, as armas da Monarquia e da República 6$ a
8$, e há Cristos para todos os preços.

Os tatuadores têm várias maneiras de tatuar: por picadas, incisão,
por queimadura subepidérmica. As conhecidas entre nós são
incisivas nos negros que trouxeram a tradição da África
e, principalmente, as por picadas que se fazem com três agulhas amarradas
e embebidas em graxa, tinta, anil ou fuligem, pólvora, acompanhando
o desenho prévio. O marcador trabalha como as senhoras bordam.

Lombroso diz que a religião, a imitação, o ócio,
a vontade,o espírito de corpo ou de seita, as paixões nobres,
as paixões eróticas e o atavismo são as causas mantenedoras
dessa usança. Há uma outra – a sugestão do ambiente.
Hoje toda a classe baixa da cidade é tatuada – tatuam-se marinheiros,
e em alguns corpos há o romance imageográfico de inversões
dramáticas; tatuam-se soldados, vagabundos, criminosos, barregãs,
mas também portugueses chegados da aldeia com a pele sem mancha, que
influência do meio obriga a incrustar no braço coroas do seu
país.

Andei com o Madruga três longos meses pelos meios mais primitivos,
entre os atrasados morais, e nesses atrasados a camada que trabalha braçalmente,
os carroceiros, os carregadores, os filhos dos carroceiros deixaram-se tatuar
porque era bonito, e são no fundo incapazes de ir parar na cadeia por
qualquer crime. A outra, a perdida, a maior, o oceano malandragem e da prostituição
é que me proporcionou o ensejo de estudar ao ar livre o que se pode
estudar na abafada atmosfera das prisões. A tatuagem tem nesse meio
a significação do amor, do desprezo, do amuleto, posse, do preservativo,
das idéias patrióticas do indivíduo, da sua qualidade
primordial.

Quase todos os rufiões e os rufistas do Rio têm na mão
direita entre o polegar e o indicador, cinco sinais que significam as chagas.
Não há nenhum que não acredite derrubar o adversário
dando-lhe uma bofetada com a mão assim marcada. O marinheiro Joaquim
tem um Senhor cruficificado no peito e uma cruz negra nas costas. Mandou fazer
esse símbolo por esperteza. Quando sofre castigos, os guardiões
sentem-se apavorados e sem coragem de sová-lo.

– Parece que estão dando em Jesus!

A sereia dá lábia, a cobra atração, o peixe significa
ligeireza na água, a âncora e a estrela o homem do mar, as armas
da República ou da Monarquia a sua compreensão política.
Pelo número de coroas da Monarquia que eu vi, quase todo esse pessoal
é monarquista.

Os lugares preferidos são as costas, as pernas, as coxas, os braços,
as mãos. Nos braços estão em geral os nomes das amantes,
frases inteiras, como por exemplo esta frase de um soldado de um regimento
de cavalaria: viva o marechal de ferro!… desenhos sensuais, corações.
O tronco é guardado para as coisas importantes, de saudade, de luxúria
ou de religião. Hei de lembrar sempre o Madruga tatuando um funileiro,
desejoso de lhe deixar uma estrela no peito.

– No peito não! cuspiu o mulato, no peito eu quero Nossa Senhora!

A sociedade, obedecendo à corrente das modernas idéias criminalistas,
olha com desconfiança a tatuagem. O curioso é que – e
esses estranhos problemas de psicologia talvez não sejam nunca explicados
– o curioso é que os que se deixam tatuar por não terem
mais que fazer, em geral, o elemento puro das aldeias portuguesas, o único
quase incontaminável da baixa classe do Rio, mostram sem o menor receio
os braços, enquanto os criminosos, os assassinos, os que já
deixaram a ficha no gabinete de antropometria, fazem o possível para
ocultá-los e escondem os desenhos do corpo como um crime. Por quê?
Receio de que sejam sinais por onde se faça o seu reconhecimento? Isso
com os da polícia talvez. Mas mesmo com pessoas, cujos intentos conhecem,
o receio persiste, porque decerto eles consideram aquilo a marca de fogo da
sociedade, de cuja tentação foram incapazes de fugir, levados
pela inexorável fatalidade.

Há tatuagens religiosas, de amor, de nomes, de vingança, de
desprezo, de profissão, de beleza, de raça, e tatuagens obscenas.

A vida no seu feroz egoísmo é o que mais nitidamente ideografa
a tatuagem.

As meretrizes e os criminosos nesse meio de becos e de facadas têm
indeléveis idéias de perversidade e de amor. Um corpo desses,
nu, é um estudo social. As mulheres mandam marcar corações
com o nome dos amantes, brigam, desmancham a tatuagem pelo processo do Madruga,
e marcam o mesmo nome no pé, no calcanhar.

– Olha, não venhas com presepadas, meu macacuano. Tenho-te aqui,
desgraça! E mostram ao malandro, batendo com o chinelo, o seu nome
odiado.

É a maior das ofensas: nome no calcanhar, roçando a poeira,
amassado por todo o peso da mulher…

Há ainda a vaidade imitativa. As barregãs das vielas baratas
têm sempre um sinalzinho azul na face. É a pacholice, o grain
de beauté, a gracinha, principalmente para as mulatas e as negras fulas
que o consideram o seu maior atrativo. Quando envelhecem, as pobres mulheres
mandam apagar os sinais – porque querem ir limpas para o outro mundo,
e a Florinda, há pouco falecida, que rolara quarenta anos nos bordéis
de S. Jorge e da Conceição, dizia-me antes de morrer:

– Ai, meu senhor, isto é para os homens! Quando se fica velho
arranca-se, porque a terra não vê e Deus não perdoa.

Grande parte desses homens e dessas mulheres têm o delírio mais
sensual, fazem os nomes queridos em partes melindrosas, marcam os membros
delicados com punhais, lâmpadas e outros símbolos. Neste caso
eu tenho o Antônio Doceiro, um lindo rapazito que foi bombeiro depois
de ter rolado pelo mundo, e a Anita Pau. Ambos têm desenhos curiosos
por todo o corpo, e a pobre Anita mostra no calcanhar por extenso o nome do
pai seus filhos e traz em cada seio a inicial dos dois pequenos como numa
oferenda – a sua única oferenda de mãe aos desgraçados
perdidos…

Num meio de tão fraca ilusão, onde as miçangas substituem
os pendentifs d’arte e a vida ruge entre o desejo e o crime, depois
de muito os pobres entes marcados como uma cavalhada – a cavalhada da
luxúria e do assassínio –, começa a gente a sentir
uma concentrada emoção e a imaginar com inveja o prazer humano,
o prazer carnal, que eles terão ao sentir um nome e uma figura debaixo
da pele, inalteráveis e para todo o sempre.

Aquele pequeno impressionou-me de novo na sua profissão estranha.
Indaguei:

– Quanto fizeste hoje?

– Hoje fiz doze mil réis.

E eu compreendi que afinal tatuador deve ser uma profissão muito mais
interessante que a de amanuense de secretaria…

Orações

– Que está você a vender?

– Orações, sim senhor.

– Novas?

– Uma nova, sim – a oração dos nove.

Era num canto de rua, por uma tarde de chuva. O pobre garoto, muito magro,
com o pescoço muito comprido, sobraçava o maço de orações,
a sorrir.

– Mas, criatura, a oração dos nove foi desmoralizada!

– E agora é que se vende mais. Olhe, eu hoje vendi quatrocentos
folhetos. Só de oração dos nove, trezentos e vinte cinco.

Eu acredito nos prodígios. É uma opinião individual
mas definitiva. Se a oração dos nove, depois de assustar toda
a cidade e de incomodar o arcebispo, ainda continuava com um tão grande
número de crentes, era porque tinha prodigiosas virtudes. Comprei a
oração e estuguei o passo. Que é afinal uma oração?
É um levantamento da alma a Deus com o desejo de o servir e gozar,
e S. João de Damasco já a definia um pedido de coisas convenientes,
com medo de que os fiéis pedissem também inconveniências.
Aquele menino magro, naquela esquina de rua, era um dos insignificantes agentes
desse tremendo micróbio da alma.

Si I’on en croit les savants
Pour qui toute la Nature
N’est qu’un bouillon de culture
Mortel aux pauvres vivants.

Quantas orações andam por aí impressas em folhetinhos
maus,vendidas nas grandes livrarias e nos alfarrabistas, exportadas para a
província em grossos maços, ou simplesmente manuscritas, de
mão em mão, amarradas ao pescoço dos mortais em forma
de breve! Há nessa estranha literatura edições raras,
exemplares únicos que se compram a peso de ouro; orações
árabes dos negros muçulmins, cuja tradução não
se vende nem por cinqüenta mil réis; orações de
pragas africanas, para dizer três vezes com um obi na boca; orações
para todas as coisas possíveis e impossíveis. O homem é
o animal que acredita – principalmente no absurdo. Levei muito tempo
a colecionar essas súplicas bizarras. Há mais de mil: de S.
Bento, de Santa Luzia, de Santa Helena, Monserrate, S. João Batista,
Milagre de Jesus Cristo, Maria Eterna, Santa Bárbara, Menino Deus,
Santa Catarina, Senhora do Socorro, Santa Teresa, S. Antônio, S. Jorge,
Nossa Senhora da Guia, S. Marcos, S. Benedito, Santo Sepulcro, Nossa Senhora
do Rosário, Magnificat, Anjo Custódio, S. Lourenço, S.
Joaquim, S. Estevão, Bom Parto, Anunciação para defumar
a casa, Santa Filomena, Conceição, S. Roque, S. Sebastião,
S. Anastácio, S. Simão, Menino Deus contra o sol e o mar salgado,
Maria Madalena, Dores, S. Pedro e S. Paulo, S. Emídio, S. Tiago pelos
agonizantes, Sonhos de Nossa Senhora, Juízo Divinal, Perdão
Eterno, Senhor dos Passos, S. Cosme e S. Damião, Nossa Senhora da Glória,
que sei eu? Há até orações a santos que o Papa
desconhece e nunca foram canonizados, como a oração de S. Gurmim,
boa para a dor de calos, e a de S. Puiúna, infalível nas nevralgias.
Os homens vivem no mistério das palavras conciliadoras.

Antes de nascer tem logo a oração do Bom Parto, em que se suplica
à Virgem, apelando para o nascimento de Jesus, um bom sucesso. Toda
a mulher que trouxer consigo esta oração no pescoço,
rezando todos os dias 7 ave-marias, e uma salve-rainha, 7 dias antes de parir,
terá sempre junto a seu leito a Virgem Santíssima do Bom Parto.

Acompanham-na a oração para a dentição e a de
Nossa Senhora dos Remédios, logo depois de nascido. Quando já
fala, decora a oração para ao deitar na cama: “Nesta cama
me deito, desta cama me levanto, a Virgem Nossa Senhora me cubra com o seu
manto. Se eu coberto com ele for não terei medo nem pavor, nem coisa
que deste ou outro mundo for” e a oração para levantar
da cama, que se pronuncia mesmo ao ruminar os mais horrendos delitos.

Depois começam os contratos extravagantes, as rezas covardes em que
se lisonjeia os santos para obter deles altos favores e até clamorosas
maldades. Têm a forma de padre-nossos, são às vezes assinadas
por homenzinhos que as precedem de palavras contando o milagre do seu achado.
Não há em todo esse baixo mundo de crença uma oração
inteiramente altruística ou desfeita dos egoísmos terrenos.
Só duas existem defendendo apenas a Igreja – a de S. Pedro e
S. Paulo e a de S. Miguel, que por sinal começa neste violento estilo:

Ó arcanjo S. Miguel, meu poderoso protetor, a quem Deus onipotente
encarregou a defesa geral de todos os homens, apesar de terem o Anjo da Guarda,
e que sois capitão dos nove casos angélicos, cuja prerrogativa
me animo a suplicar-vos que me perdoeis o atrevimento com que vos falo apontando-vos
a relaxação, atrevimento, altivez e desenvoltura, falta de religião
e vícios de que estão possuídos os corações
cristãos…

As outras pedem pelo menos o céu, e estão neste caso modesto
a do Rosário e a de São Benedito. Os autores, porém,
prudentemente, numa nota à parte, comunicam aos crentes os bens de
tais rezas:

Quem usar desta oração e rezar com viva fé, ao menos
uma vez por semana, não será mordido por cão danado;
se for à guerra não morrerá nem será vencido,
não se afogará nem morrerá queimado, sua casa estará
em paz, tudo lhe irá bem, os invejosos, os maus olhos, os mal intencionados,
nem os que usam de maléficos e feitiçarias lhe farão
dano algum.

E ainda por cima, se rezar umas ave-marias, terá indulgências.

As outras são verdadeiros requerimentos ou cartas de empenho.

O sujeito reza como vai ao ministro do Interior pedir um lugar de guarda-civil.
A bajulação é quase idêntica. Diante do altar,
a humanidade trata de viver da mesma maneira por que vive diante dos césares,
dos senhores feudais ou do chefe de polícia.

Ó incomparável Senhora da Conceição Aparecida,
mãe de meu Deus, Rainha dos Anjos, Advogada dos Pecadores. Refúgio
e Consolação dos Aflitos e dos Atribulados ó Virgem Santíssima
cheia de bondade, lançai sobre nós um olhar favorável.

E como um poeta sem emprego diante de um oligarca estadual:

Lembrai-vos, Clementíssima Mãe Aparecida, não constar
de todos que a vós têm recorrido e implorado vossa singular proteção,
fosse por vós algum abandonado. Animado por esta confiança,
a vós recorro e vos tomo de hoje para sempre por minha mãe,
minha protetora, minha consolação, meu guia…

Algumas, talvez duvidando do poder dos santos no ócio perpétuo
do paraíso, vão diretamente a Deus, levando-os como simples
advogados. Há, por exemplo, a oração de São Elesbão
e Santa Efigênia reunidas não sei por quê. Pois bem. A
oração começa assim:

Atendei, ó Deus onipotente, às nossas súplicas, e porque
nos confessar réus de muitos pecados, permiti que sejamos absolvidos
deles pelas intercessões dos gloriosos mártires S. Elesbão
e Santa Efigênia e que o precioso sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo
fiquemos lavado e relavado das nossas culpas; limpo e puro mais do que quando
nascemos.

Esta petição é um modelo de lisonjearia, de adulação,
de humildade postiça, de engrossamento ao velho potentado de todos
os tempos, infinitamente multiplicado nesta democrática época
de potentados! É o supra-sumo do rés-do-chão, é
a flor perfeita da maneira de pedir!

Não são, entretanto, Santa Efigênia e São Elesbão
os únicos atirados ao secundário papel de advogados, S. Jerônimo,
advogado contra os tremores subterrâneos, também o é,
tendo como compensação um hino.

Jerônimo santo, máximo penitente,
Rogai por nós a Deus eficazmente.
Jerônimo santo, sábio e forte,
Assiste-nos agora e na hora da morte.

E S. Simão, que livra do raio, não faz outra coisa senão
pedir a Deus que fulmine apenas os pára-raios, e Santa Bárbara,
coitada, logo que começa a trovejar tem que pedir a Deus menos barulho
para não ouvir este hino fantástico:

Salve, virgem gloriosa
E Bárbara generosa
Do paraíso fresca rosa
Lírio de castidade
Salve ó virgem toda formosa
Lavada na fonte da castidade.

Mas as orações são antes de tudo um meio de remediar
o mal. Que faz a oração de São Luís Gonzaga, praticada
pelas meninas do Rio desde o tempo em que a Rua Teófilo Otoni era musicalmente
a Rua das Violas? Remedeia os males de amor. Quando uma rapariga cai de joelhos
e soluça:

Ó Luis santo, adorado de angélicos costumes, eu, indigníssima
devota vossa, vos recomendo singularmente a castidade da minha alma e do meu
corpo. Rogo por vossa angélica pureza que intercedais por mim ante
o cordeiro imaculado Cristo Jesus e sua mãe Santíssima Virgem
e que me preserveis de todo o passado grave, não permitindo que eu
saia manchada com alguma nódoa de impureza…

Podeis ter a certeza, ó mortais, que a tentação anda
no coração da donzela de tal forma que S. Luís, apesar
de angélico e de santo, chegará fatalmente tarde para a salvar.
E assim uma velha senhora solteira que recitar convictamente a oração
de S. Lourenço:

Onipotente Deus, que ao Vosso bem-aventurado mártir S. Lourenço
destes esforço para triunfar dos incêndios e dos seus tormentos,
concedei que se extinga em nós o fogo…

Ah! Deus de bondade! esta pobre senhora, assim velha e assim solteira, está
muito mal!

S. Luis e S. Lourenço, entretanto, gozam da relativa liberdade de
vir quando querem. Santo Onofre porém, pequeno e barbadinho, vive estrangulado
no cós das saias das senhoras para ouvir todas as manhãs esta
suprema ironia súplice:

Meu glorioso Santo Onofre bispo, confessor de meu senhor Jesus Cristo, em
Roma fostes aos pés do padre santo vos ajoelhar, pedistes pão
para as solteiras, pão para as casadas, pão para as viúvas,
pão para as donzelas. Pedi para mim também que sou sua inquilina.
Meu glorioso Santo Onofre, vos peço que me deis comida para comer,
roupa para vestir, dinheiro para gastar e graça para vos servir. Amém!

E Santo Onofre não protesta, não grita, não foge, como
S. Silvestre, educado na humildade evangélica, tolera este lamentável
pedido:

Valha-me o senhor S. Silvestre, pelas três camisas que veste, no ano
de trinta e sete, matastes e feristes e abrandastes os corações
dos mouros, as bocas das serpentes. Assim eu abrandarei o coração
dos meus inimigos que venham ajoelhar-se aos meus pés, porque Deus
que é Deus pode e acaba com tudo que quer, traga teu coração
debaixo de teu pé esquerdo…

Que diz o venerável Santo a esse coração sem concordância
pronominal metido miseravelmente debaixo de um pé? Talvez nem saiba
a mísera crendice, e ande lá por cima no azul, esquecido da
maldade humana…As almas, apesar de benditas, porém, já por
aqui andaram, já sentiram o amor, o ciúme e o medo, e a oração
que as incensa é também velhaca e cheia de sandices:

Minhas almas santas benditas, aquelas que são do mesmo senhor Jesus
Cristo, por aquelas que morreram enforcadas, por aquelas três almas
que morreram degoladas, por aquelas três almas que morreram a ferro
frio, juntas todas três, todas seis a todas nove, para darem três
pancadas no coração dos inimigos, que eles ficarão humildes
a mim debaixo de paz e consolação, a ponto de terem olhos e
não me ver, pernas e não me alcançarem, braços
e não me agarrarem – para sempre e sem fim.

Os homens, à solta, no recato das alcovas deliram calmamente. Há
gente que antes de sair reza a oração de S. Jorge, para não
ser ofendida pelos seus inimigos, e a de Santa Catarina para alcançar
o perdão dos pecados; há senhoras que aspergem os cantos da
casa com água benta, dizendo a oração da bênção
das casas, que consta de 382 palavras, e a oração de Santo Anastácio
contra os demônios; há seres pensantes que trazem ao pescoço
a oração de S. Roberto contra os feitiços, oração
que, segundo o editor, estava junto a uma “milagrosa carta, achada em
um lugar três léguas distante de S. Marcos, escrita com letras
de ouro e pela mão de Deus Nosso Senhor, Filho da Virgem Maria”!

É pois natural que as almas não se ofendam com um mau pedido
e que S. Marcos – pobre santo! sorria quando ouvia à meia-noite
esta tremenda oração brava, que lembra as cenas de enfeitiçamento
medievo:

Chamo S. Marcos e S. Manços e seu confidente o anjo mau em meu auxílio
para se apoderar do meu espírito e vida, juntamente com a pessoa que
desejo fazer o mal, ou bem e com o dedo polegar da mão esquerda faço
três vezes o Sinal da Cruz e com uma faca de ponta espetada na porta
da rua ou mesa, com um lenço ou guardanapo bem alvo direi as seguintes
palavras: Cristo morreu, Cristo sofreu, Cristo padeceu: assim peço-vos
meu glorioso São Marcos e São Manços que sofra e padeça
os maiores tormentos e torturas deste mundo a pessoa que eu quero para mim
e pegando na faca com toda a fé e coragem que me dá esta Oração
darei quatro golpes na porta, ou mesa e pela quarta vez chamarei São
Marcos e São Manços e o anjo mau, para me dar força e
coragem de dizer: “Credo em Cruz” em círculo onde se acha
a faca! Amém.”

Oh! o poder da palavra pronunciada misteriosamente! Os homens de todos os
países, de todas as terras têm-lhe um terror sagrado. Essas orações
ainda guardam um sentido mais ou menos claro. A maior parte porém é
apenas um estranho jogo de disparates, uma trapalhada alucinante. Há
uma oração contra o sol, que ao lê-la sente a gente a
vertigem do desequilíbrio:

Deus quando pelo mundo andou muito sol e calor apanhou, encontrou com Nossa
Senhora com que o sol se tiraria com um guardanapo de olhos e copo d’água
fria. Sim, como falo verdade torna o sol a seu lugar, vai esta senhora pelo
mar abaixo com o copinho de água fria, o mal que ela tem no corpo e
na cabeça tire de Deus e da Virgem Maria.

É exatamente a maneira rítmica, o disparate deduzido dos literatos
do Hospício e até hoje, se eu percebi que tais palavras são
contra o calor, não me foi possível ainda saber o que quer dizer
esta formidável oração do mar sagrado:

Mar sagrado, eu te venho salvar, a tua água te venho pedir para fortuna
por Deus para minha casa levar; para que me dê ouro para guardar e prata
para gastar, cobre para dar aos pobres.

Como exemplo de estilo desvairado há, entretanto, outras quase tão
lindas como as poesias nefelibatas, pela sua dolorosa e obtusa ingenuidade.
Está neste caso “O Perdão Eterno.”

S. José que caminhava com a Virgem Maria
Tanto caminha de noite como de dia
Abre a porta porteiro
Que aqui está a Virgem Maria
Não quis parir na cama
Nem na cortina.
Pariu na manjedoura
Onde o bento boi comia.
Desceram os anjos dos céus, cantando Ave Maria
Subiu para o céu rezando Santa Maria.
O eterno lhe perguntou, como ficou a parida?
Ficou coberto de ouro o seu bento filho
E o berço em que ele embalava era de ouro e latão
Aqui se acaba esta santa oração.
Quem esta oração rezar 7 sexta-feira, da paixão,
E outras tantas carnais,
Tem cem anos de perdão,
Se for seu pai, sua mãe, mais toda a sua geração.

Há na Ilíada um trecho muito citado e rico de verdades. Homero
fala das orações e diz “As orações são
filhas do grande Zeus, filho de Cronos. Capengas, zarolhas, feiarronas ocupam-se
em seguir a fatalidade. A fatalidade é robusta e ágil. Vai muito
adiante fazendo aos homens um mal que as orações remedeiam.”
É destino do homem rezar, pedir o auxílio do desconhecido para
o bem e para o mal, é sina deste pobre animal, mais carregado de trabalhos
que qualquer outro bicho da terra ou do mar, ter medo e desconfiar das próprias
forças. A fatalidade o vai conduzindo por caminhos que são despenhadeiros
às vezes e campos de risos raramente. O homem chora, ergue os olhos
para o azul do céu, a menor das suas ilusões povoa-o de forças
invisíveis e fala, e pede, e suplica. Que importa que diga tolices
ou frases lapidares, horrores ou pensamentos suaves? É preciso remediar
a fatalidade.

E é por isso que enquanto existir na terra um farrapo de humanidade,
esse farrapo será um moinho de orações.

É por isso, talvez, que os vendedores de orações acabam
mais ou menos supersticiosos dessa superstição teimosa que acredita
apesar de tudo; é por isso que um pobrezinho vendedor dessas fantasias
do pavor ignorante não sai de casa sem recitar à estrela dos
pastores estas precavidas frases:

Desta casa me
aparto em boa
paz boa viagem.
Deus adiante, a
bela cruz atrás eu no meio, altos e
montes para mim sejam. Oremos
bocas de cães e lobos sejam fecha-
das, tenham olhos e não me vejam,
tenham pernas e não me sigam
tenham boca e não me falem,
tenham braços
e não me pe-
guem, tão guar-
dado me vejam
como a Virgem
Maria guardou
o seu amado
filho desde as
portas de Be-
lém até Jeru-
salém. –
Amén…

Os Urubus

– Estou esperando!

– Não quero!

– Deixá-lo passar!

– Naufragou!

Eu vinha vindo com o frescor da manhã por aquele trecho da praia de
Santa Luzia, tão suave e tão formoso, onde se amontoam as coisas
lúgubres da cidade – a Santa Casa, o Necrotério, o serviço
de enterramentos. Entre as árvores fronteiras ao hospital vendedores
ambulantes vociferavam os pregões de canjica, de mingau, de pães
doces; dos bondes pejados de gente saltavam criaturas doentes, paralíticas
algumas, de óculos outras. Pelas escadas de pedra lavada formigava
constantemente a turba doente, mostrando as mazelas, como um insulto e uma
afronta aos que estavam sãos, entre os enfermeiros do hospital, de
calça de zuarte azul e dólmã pardo, nédios e sadios.
Eu vinha precisamente pensando como gozam saúde os enfermeiros, e aquelas
frases maçônicas fizeram-me mal. Parei, consultei o relógio.
Os quatro tipos não se ralavam mais com a minha presença. Dois
olhavam com avidez os bondes que vinham da Rua do Passeio; dois estavam totalmente
voltados para o lado da Faculdade. Ao aparecer um bonde, um magrinho bradou:

– Largo!

Prestei atenção. Do tramway em movimento saltou um cavalheiro
defronte do Necrotério.

– De cima! bradou outro tipo.

– Última! regougou o terceiro.

E cercaram o cavalheiro.

– V. Sa. há de aceitar um cartãozinho da nossa casa.
Não precisa de se incomodar. Tratamos de tudo! Faça negócio
comigo!

A um tempo falavam todos, e o cavalheiro, coberto de luto, com o lenço
empapado de suor e de lágrimas, murmurava, como se estivesse a receber
pêsames:

– Muito obrigado! Muito obrigado!

Aproximei-me de um dos funcionários do serviço mortuário.

– Que espécie de gente é essa?

– Oh! não conhece? São os urubus!

– Urubus?

– Sim, os corvos.. . É o nome pelo qual são conhecidos
aqui agenciadores de coroas e fazendas para luto. Não é muito
numerosa a classe, mas que faro, que atividade!

Totalmente interessado, tive uma dessas exclamações de pasmo
que lisonjeiam sempre os informantes e nada exprimem de definitivo. E sorriu,
tossiu e falou. Foi prodigioso.

– Os agenciadores de coroas levantam-se de madrugada e compram todos
os jornais para ver quais os homens importantes falecidos na véspera.
Defunto pobre não precisa de luxo, e coroa é luxo. Logo que
tomam as notas disparam para a casa do morto e propõem adiantar o que
for necessário para o enterro, com a condição de se lhes
comprarem as coroas. Algumas casas têm mesmo nos cartões os seguintes
dizeres – encarregam-se de tratar de enterros sem cobrar comissão
de espécie alguma. E os títulos dessas casas davam para um tratado
de psicologia recreativa. Há os poéticos os delicados, os floridos,
os babosos, os fúnebres – “Tributo da Saudade, “Coroa
de Violetas”, “Flor de Lis”, “Bogari”, “A Jardineira”,
“Coroa de Rosas”…

– Mas…e estes homens aqui?

– Estes homens são os urubus de Santa Luzia, serviço
especial e maçônico. Três ficam à entrada principal
da Santa Casa. Quando avistam um tipo, brada o primeiro: estou esperando!

Se o tipo não tem cara de enterro: não quero! Deixá-lo
passar. Se o homem vem de tílburi, correm até aqui a acompanhá-lo…
Se o tílburi segue, bradam: naufragou! E voltam ao lugar donde não
saíram os outros. É interessante ouvir-lhes o diálogo.
Tu é que não correste! Conheço o homem; antes fosse,
era meu o negócio…

– Mas é horrível!

– É a vida, meu caro. Aqui estacionam sete agentes; o assalto
ao freguês vai pela vez, como aos sábados, nos barbeiros. Quatro
oferecem grinaldas aos passageiros que saltam dos bondes; três aos que
vêm a pé. Ao ver o bando ao longe há a frase: De cima!
que é o sinal. Do lado de lá! quando ele salta do lado oposto.
Última! quando salta no Necrotério. um dos urubus acerta, grita:
Estou empregado! E feito o negócio o outro avança, dizendo:
Grinalda! para obter como resposta: A tua é minha…

Quando aparece por acaso algum freguês conhecido de um agenciadores
dá-se o “combate”. Os três que ficaram “desempregados”,
desejando “furar” o agenciador amigo, quando não conseguem
convencê-lo arranjam meio de o cacetear até que o negócio
não se realize. Nessa ocasião assistimos a cenas calorosas,
a conflitos sérios, em que se faz sentir a intervenção
da polícia. Mas à noite, graças aos deuses, acabado o
trabalho, vão todos para a venda do Antônio, à Rua da
Misericórdia, beber cerveja.

– São estes então? fiz, voltando-me.

– Estes só, não. Há outros, os que fazem ponto
no Largo da Batalha e rendem estes à hora do almoço e que só
têm o posto depois de ter todas as notas dos tipos que estão
na secretaria e tratar de enterros.

– Como os agentes de polícia?

– Tal qual. E terminam sempre com a nota policial: quarenta anos presumíveis.

Rimos ambos. O sol está brilhante e o céu, inteiramente azul,
dá-nos desejos de viver e de compreender a vida pelos seus mais ridentes
aspectos.

– Os urubus devem ter nome?

– Têm, são urubus urbanos. Vê o senhor aquele? É
o Chico Basílio. Há cerca de 30 anos exerce a profissão.
Está vendo aquele grupo? Encontra lá o Brasilino, o Caranguejo,
o Bilu, o Espanhol da Saúde, o Mangonga. Os outros são o Joaquim,
o Tatuí, o Paulino, o Cá e Lá, o Buriti, o Manduca.

Neste momento um mocinho de lápis e linguado de papel na mão
indagou, entrando:

– Alguma coisa de novo?

– Sim, pode entrar.

O mocinho desapareceu. O complacente informante sorria.

– Outro urubu.

– Outro?

– São os que parecem reporters. Vêm para a secretaria
da Santa Casa munidos de tiras de almaço para copiar dos livros os
nomes e residências das pessoas mortas, isto é, só copiam
os daquelas cujo enterro custar mais de 100$. Saem daqui para o lugar indicado
e ficam às portas à espera que o corpo saia, um, dois, cinco
às vezes. Quando o cadáver sai e a família ainda está
aos soluços, embarafustam com as amostras de luto. Contaram-me que
chegam à concorrência, a ver quem faz o luto em 24 horas mais
em conta. Neste serviço conheço o Ferraz, o Saul, o Guedes,
o Matos, o Araújo, o Campos, o Mesquita.

Eu ouvia o meu informante um pouco melancólico. Que diabo! Por que
urubus, naquele pedaço da cidade que cheira a cadáveres e a
morte?

Não há terra onde prospere como nesta a flora dos sem-ofício
e dos parasitas que não trabalham. Esses sujeitinhos vestem bem, dormem
bem, chegam a ter opiniões, sistema moral, idéias políticas.
Ninguém lhes pergunta a fonte inexplicável do seu dinheiro.
Aqueles pobres rapazes, lutando pela vida, naquele ambiente atroz da morte,
vestindo a libré das pompas fúnebres, impingindo com um sorriso
à tristeza coroas e crepes, só para ganhar honestamente a vida,
eram dignos de respeito. Por que urubus? Maçonaria da má sorte,
pelotão dos tristes, seres sem o conforto de uma simpatia, no limite
do nada, encarregados de fornecer os símbolos de uma dor que cada vez
a humanidade sente menos.

Despedi-me, comecei a andar devagar. Um dos urubus aproximou-se.

– Estiveram contando coisas a nosso respeito?

– Não, absolutamente.

– Que se há de fazer? A comissão é tão
pequena! Quando quiser uma coroa…

– Deus queira que não! fiz assustado.

E apertei a mão do homem urubu com um tremor de superstição
e de susto

Os Mercadores de Livros e a Leitura das Ruas

Exatamente na esquina do teatro S. Pedro, há dez anos, Arcanjo, italiano,
analfabeto, vende jornais e livros. É gordo, desconfiado e pançudo.
Ao parar outro dia ali, tive curiosidade de ver os volumes dessa biblioteca
popular. Havia algumas patriotadas, a Questão da Bandeira, o Holocausto,
a d. Carmen de B. Lopes, a Vida do Mercador e de Antônio de Pádua,
o Evangelho de um Triste e os Desafogos Líricos. Estavam em exposição,
cheios de pó, com as capas entortadas pelo sol.

– Vende-se tudo isso?

– Oh! não. Há quase um ano que os tenho. Os outros sim
– modinhas, orações, livros de sonhos, a História
da Princesa Magalona, o Carlos Magno, os testamentos dos bichos.

Levantei as mãos para o céu como pedindo testemunho do alto.
As obras vendáveis ao povo deste começo de século eram
as mesmas devoradas pelo povo dos meados do século passado!

– Mas não é possível…

– Pode perguntar aos outros vendedores.

Atirei-me a esse inquérito psicológico. Os vendedores de livros
são uma chusma incontável que todas as manhãs se espalha
pela cidade, entra nas casas comerciais, sobe aos morros, percorre os subúrbios,
estaciona nos lugares de movimento. Há alguns anos, esses vendedores
não passavam de meia dúzia de africanos, espapaçados
preguiçosamente como o João Brandão na Praça do
Mercado. Hoje, há de todas as cores, de todos os feitios, desde os
velhos maníacos aos rapazolas indolentes e aos propagandistas da fé.
A venda não é franca senão em alguns pontos onde se exibem
os tabuleiros com as edições falsificadas do Melro de Junqueiro
e da Noite na Taverna. Os outros batem a cidade, oferecendo as obras. E há
então toda uma gama de maneiras para passar a fazenda. Os mais atilados,
os mais argutos, os mais incansáveis são os vendedores de Bíblias
protestantes, com os bolsos das velhas sobrecasacas ajoujados de brochuras
edificantes.

– Ó rapaz, por que não fica com esta Bíblia? Dou-lha
por dez tostões. É o livro de Deus, onde estão as eternas
verdades. E se ficar com ela, vai mais este volume de quebra sobre as feras
que devoram o homem, as feras morais…

Os outros não pairam em regiões tão espirituais. Há
os solenes – o velho Maia, que aprecia as encadernações
vermelhas; foi guarda-livros e virou para a infelicidade quando, um dia, se
lembrou de decorar todo o dicionário latino de Saraiva. Há os
que têm apelido – Espelho de Psyché, pobre homem, negociante,
que a má sorte faz andar agora de cesta ao braço, com uma fita
verde no chapelinho. Há os escandalosos relapsos – o Conegundes,
negralhão de cavanhaque, gritador. Há os que durante o trabalho
percorrem as tabernas, e para impingir aos caixeiros um dos volumes ingerem
em cada uma dois da branca – o Artur. Há os que têm admirações
literárias – o Camões, zanaga, que vos recita o I Canto
dos Lusíadas de cor. Há os alegres, um turbilhão deles,
que apregoam dois dias na semana para descansar os outros cinco. Há
os que têm a arte do pregão e, longe de ir com um embrulhinho
perguntar à casa do comprador se quer ficar com a História de
Carlos Magno, soltam a voz em gorjeios estentóricos, como o Noite Sonorosa:

Meu Deus, que noite sonorosa!
O céu está todo estrelado.
Eu com o cavaquinho na mão
E a morena ao lado.

Isto em pleno dia.

Cada sujeito desses pode passar a vida bem. As livrarias vendem baratíssimo
os livrecos procurados. Em cada um, os vendedores ganham, no mínimo,
seiscentos por cento. Há alguns que, trabalhando com vontade e sabendo
lançar – as orações, as modinhas ou a inefável
História da Donzela Teodora, arranjam uma diária de dez mil
réis, sem grande esforço. Daí, todo dia aumentar o número
de camelots de livros, vir começando a formar-se essa próspera
profissão da miséria que todas as cidades têm, ávida
e lamentável, num arregimentar de pobres propagandistas do Evangelho
e do Espiritismo, de homens que a sorte deixou de proteger, de malandros cínicos,
de rapazes vadios.

Os livros, porém, de grande venda ficam sempre os mesmos.

Nós não gostamos de mudar em coisa nenhuma, nem no teatro,
nem na paisagem, nem na literatura. É provável que o divórcio
tenha caído por esse inveterado e extraordinário amor de não
mudar, que nos obceca. Desde 1840, o fundo das livrarias ambulantes, as obras
de venda dos camelots têm sido a Princesa Magalona, a Donzela Teodora,
a História de Carlos Magno, a Despedida de João Brandão
e a Conversaçâo do Pai Manuel com o Pai José – ao
todo uns vinte folhetos sarrabulhentos de crimes e de sandices. Como esforço
de invenção e permanente êxito, apareceram, exportados
de Portugal, os testamentos dos bichos, o Conselheiro dos Amantes e uma sonolenta
Disputa divertida das grandes bulhas que teve um homem com sua mulher por
não lhe querer deitar uns fundilhos nos calções velhos.

Essa literatura, vorazmente lida na detenção, nos centros de
vadiagem, por homens primitivos, balbuciada à luz dos candeeiros de
querosene nos casebres humildes, piegas, hipócrita e mal feita, é
a sugestionadora de crimes, o impulso à exploração de
degenerações sopitadas, o abismo para a gentalha. Contam na
Penitenciária que o Carlito da Saúde, preso a primeira vez por
desordens, ao chegar ao cubículo, mergulhou na leitura do Carlos Magno.
Sobreveio-lhe uma agitação violenta. Ao terminar a leitura anunciou
que mataria um homem ao deixar a detenção. E no dia da saída,
alguns passos adiante, esfaqueou um tipo inteiramente desconhecido. Só
esse Carlos Magno tem causado mais mortes que um batalhão em guerra.
A leitura de todos os folhetos deixa, entretanto, a mesma impressão
de sangue, de crime, de julgamento, de tribunal. Há, por exemplo, uma
obra cuja tiragem deixa numa retaguarda lamentável as consecutivas
edições do Cyrano de Bergerac. Intitula-se Maria José,
ou a filha que assassinou, degolou e esquartejou sua própria mãe,
Matilde do Rosário da Luz, e começa como nas feiras: –
“Atendei, e vereis um crime espantoso, um crime novo, o maior de todos
os crimes!” Essa Maria ainda era só a matar uma só pessoa.
No Carlos Magno um tal Reinaldos, ensanduichado em frases de louvor a Nosso
Senhor, mete-se num rolo doido com os turcos, e o livro louva-o por ir degolando
a cada passo um homem.

Tudo quanto é inferior – a calúnia, o falso testemunho,
o ódio – serve de entrecho a esses romances mal escritos. Quando
a coisa é em verso, toma proporções de puff carnavalesco.
A Despedida do João Brandão à sua mulher, filhos e colegas,
com um apêndice em que se convence o leitor de que João podia
ser um herói cristão, é lida nos cortiços com
temor e pena. A primeira quadra da despedida é assim:

Andando eu a passear,
Com amiga do coração.
Dois passos à retaguarda:
Estais preso, João Brandão.

Que se há de fazer diante destes quatro versos nefelibatas? A Despedida
tem quarenta e nove quadras, fora a resposta da esposa. Uma mistura paranóica
de remorso, de tolices de religião, saudade e covardia, faz destas
quadras o supra-sumo da estética emotiva da turba – cujos sentimentos
oscilam entre o temor e a ambição. João Brandão
soluça:

Adeus, João Brandão,
Espelho de eu me vestir,
Tu mataste o menino
Que para ti se ficou a rir.

Agora vou degredado,
A paixão é que me mata;
Adeus, Carolina Augusta,
Já não vale a tua prata.

Para alegrar os leitores, esses criminosos anônimos cultivaram o testamento
dos bichos. Já testamento é uma idéia inteiramente lúgubre.
O testamento da pulga, do mosquito ou da saracura, não seria para fazer
rebentar de riso os mortais, nem mesmo agora, neste mortal período
de desinfecções e higiene à outrance. Mas que pensam
os senhores dessas quadrinhas, das quais já se venderam mais de cem
mil folhetos, das quais diariamente e perpetuamente se vendem mais volumes
que da Canaã de Graça Aranha? Os testamentos são uma
lamentável relação de legados, sem uma graça,
sem uma piada, sem um riso.

O galo leva quarenta quadras a deixar coisas; a saracura diz que levava,
prazenteira, a cantar todo o dia dentro do brejo; o macaco fala de hora extrema
sem uma careta. Só no testamento do papagaio há esta observação
pessoal, sempre aplicável às câmaras:

Há no mundo papagaios
Que falam todos os dias
E nunca sofrem desmaios
Comendo grossas maquias.
Estes são de Pernambuco,
Falam muito, são mitrados;
Eu falei, mas fui maluco,
Logo paguei meus pecados.

E falam do veneno da literatura francesa, que perde o cérebro das
meninas nervosas e aumenta o nosso crescido número de poetas! Que se
dirá dessa literatura – pasto mental dos caixeiros de botequim,
dos rapazes do povo, dos vadios, do grosso, enfim, da população?
Que se dirá desses homens que vão inconscientemente ministrando
em grandes doses aos cérebros dos simples a admiração
pelo esfaqueamento e o respeito da tolice?

Como eu clamasse contra essa teimosa mania de não mudar as suas predileções,
um dos vendedores ambulantes, o cantante Meu Deus que noite sonorosa, esticou
a perna e disse-me:

– Talvez fosse para pior.

Parei convencido, o curso das interrogações. Já outro
filósofo seu rival, Montaigne, assegurava que mudar é quase
sempre uma probabilidade para o pior. Os vendedores de testamentos passaram
a vendê-los como palpites do jogo do bicho, transformando a saracura
em avestruz e a mosca em borboleta. Os jogadores não lêem, mas
arruínam as algibeiras. E de qualquer forma o mal continua a florescer
neste baixo mundo, na literatura e fora dela, como o mais gostoso dos bens.
Se nas obras populares aparecer alguma coisa de novo, com certeza teremos
tolices maiores que as anteriores …

A Pintura das Ruas

Há duas coisas no mundo verdadeiramente fatigantes: ouvir um tenor
célebre e conversar com pessoas notáveis. Eu tenho medo de pessoas
notáveis. Se a notabilidade reside num cavalheiro dado à poesia,
ele e Lecomte de Lisle, ele e Baudelaire, ele e Apolonius de Rodes desprezam
a crítica e o Sr. José Veríssimo; se o sucesso acompanha
o indivíduo dado à crítica, este país é
uma cavalariça sem palafreneiros; e se por acaso a fama, que os romanos
sábios confundiam com o falso boato, louva os trabalhos de um pintor,
ele como Mantegna, ele como Leonardo Da Vinci, ele como todos os grandes,
tem uma vida de tormentos, de sacrifícios, de ataque aos seus processos;
e jamais se julga recompensado pelo governo, pelo país, pelos contemporâneos,
de ter nascido numa terra de bugres e numa época de revoltante mercantilismo.
É fatigante e talvez pouco útil. Um homem absoluta, totalmente
notável só é aceitável através do cartão-postal
– porque afinal fala de si, mas fala pouco. Foi, pois, com susto que
ontem, domingo, recebi a proposta de um amigo:

– Vamos ver as grandes decorações dos pintores da cidade?

– Heim? Estás decididamente desvairando. As grandes decorações?
Uma visita aos ateliers?

– Não; a outros locais.

– E havemos de encontrar celebridades?

– Pois está claro. Não há cidade no mundo onde
haja mais gente célebre que a cidade de S. Sebastião. Mas não
penses que te arrasto a ver algum Vítor Meireles, alguns Castagnetto
apócrifos ou os trabalhos aclamados pelos jornais. Não! Não
é isso. Vamos ver, levemente e sem custo, os pintores anônimos,
os pintores da rua, os heróis da tabuleta, os artistas da arte prática.
É curiosíssimo. Há lições de filosofia
nos borrões sem perspectiva e nas “botas” sem desenho. Encontrarás
a confusão da populaça, os germes de todos os gêneros,
todas as escolas e, por fim, muito menos vaidade que na arte privilegiada.

Era domingo, dia em que o trabalho é castigar o corpo com as diversões
menos divertidas. Saí, devagar e a pé, a visitar bodegas reles,
lugares bizarros, botequins inconcebíveis, e vim arrasado de confusão
cerebral e de encanto. Quantos pintores pensa a cidade que possui? A estatística
da Escola é falsíssima. Em cada canto de rua depara a gente
com a obra de um pintor, cuja existência é ignorada por toda
a gente.

O meu amigo começou por pequenas amostras da arte popular, que eu
vira sempre sem prestar atenção: os macacos trepados em pipas
de parati, homens de olho esbugalhado mostrando, sob o verde das parreiras,
a excelência de um quinto de vinho, umas mulheres com molhos de trigo
na mão apainelando interiores de padarias e talvez recordando Ceres,
a fecunda. Depois iniciou a parte segunda:

– Vamos entrar agora nas composições das marinhas. Os
pintores populares afirmam a sua individualidade pintando a Guanabara e a
praia de Icaraí. Por essas pinturas é que se vê quanto
o “ponto de vista” influi. Há o Pão de Açúcar
redondo como uma bola, no Estácio; há o Pão de Açúcar
do feitio de uma valise no Andaraí; e encontras o mesmo Pão,
comprido e fino, em S. Cristóvão. O povo tem uma alta noção
dos nossos destinos navais; a sua opinião é exatamente a mesma
que a do ministro da marinha – rumo ao mar! Por isso, não há
Guanabara pintada pelos cenógrafos da calçada que não
tenha à entrada da barra um vaso de guerra. A parreira como o bêbado
tem uma conclusão fatal: carga ao mar!

– E depois?

– Depois entramos nas grandes telas, as grandes telas que a cidade
ignora.

Estávamos na Rua do Núncio. O meu excelente amigo fez-me entrar
num botequim da esquina da Rua de S. Pedro e os meus olhos logo se pregaram
na parede da casa, alheio ao ruído, ao vozear, ao estrépito
da gente que entrava e saía. Eu estava diante de uma grande pintura
mural comemorativa. O pintor, naturalmente agitado pelo orgulho que se apossou
de todos nós ao vermos a Avenida Central, resolveu pintá-la,
torná-la imorredoura, da Rua do Ouvidor à Prainha. A concepção
era grandiosa, o assunto era vasto–o advento do nosso progresso estatelava-se
ali para todo o sempre, enquanto não se demolir a Rua do Núncio.
Reparei que a Casa Colombo e o Primeiro Barateiro eram de uma nitidez de primeiro
plano e que aos poucos, em tal arejamento, os prédios iam fugindo numa
confusão precipitada.

Talvez esse grande trabalho tivesse defeitos. Os dos “salões”
de toda a parte do mundo também os têm. Mas quantos artigos admiráveis
um crítico poderia escrever a respeito! Havia decerto naquele deboche
de casaria o início da pintura moral, da pintura intuitiva, da pintura
política, da pintura alegórica… Indaguei, rouco:

– Quem fez isto?

– O Paiva, pintor cuja fama é extraordinária entre os
colegas.

Voltei-me e de novo fiquei maravilhado. Aquele café não era
café, era uma catedral dos grandes fatos. Na parede fronteira, entre
ondas tremendas de um mar muito cinzento rendado de branco, alguns destroyers
rasgavam o azul denso do céu com projeções de holofotes
colossais.

– Há coisas piores nos museus.

– Mas isto é digno de uma pinacoteca naval.

O amador, que é o dono do botequim, e o artista cheio de imaginação,
que é o Paiva, não se haviam contentado, porém, com essas
duas visões do progresso: a avenida e o holofote. Na outra parede havia
mais uma verdadeira orgia de paisagem: grutas, cascatas, rios marginados de
flores vermelhas, palmas emaranhadas, um pandemônio de cores.

Quando me viu inteiramente assombrado, esse excelente amigo levou-me ao café
Paraíso, na Avenida Floriano.

– Já viste a arte-reclamo, a arte social. Vamos ver a arte patriótica.

– E depois?

– Depois ainda hás de ver os artistas que se repetem, a arte
romântica e infernal.

A arte patriótica, ou antes regional, dos pintores da calçada
é o desejo, aliás louvável, de reproduzir nas paredes
trechos de aldeia, trechos do estado, trechos da terra em que o proprietário
da casa, ou o pintor, viu a luz. No café Paraíso, o artista,
que se chama Viana, pintou a cidade de Lourenço Marques, vista em conjunto,
mas, como qualquer sentimento de amor naquela elaboração difícil
brotasse de súbito no seu coração, Viana colocou à
entrada de Lourenço Marques um couraçado desfraldando ao vento
africano o pavilhão do Brasil. Dessas pinturas há uma infinidade
– e eu vi não sei quantas pontes metálicas do Douro ao
atravessar algumas ruas.

– Entremos neste botequim, aqui à esquina da Rua da Conceição.
Vais conhecer o Colon, pintor espanhol. Colon tem estilo: este painel é
um exemplo. Que vês? Uma paisagem campestre, arvoredo muito verde, e
lá ao fundo um castelo com a bandeira da nacionalidade do dono da casa.
É sempre assim. Há outros mais curiosos. O Oliveira completa
os trabalhos sempre com cortinas iguais às que se usavam nos antigos
panos de boca dos teatros. O trabalho é o abuso do azul, desde o azul
claro ao azul negro.

– Mas estás a contar os tiques de grandes pintores.

– São parecidos. Eu conheço muitos mais: o velho Marcelino,
que tem a especialidade de pintar os homens no pifão; o Henrique da
Gama, o primeiro dos nossos fingidores, que faz um metro de mármore
em cada cinco minutos; o Francisco de Paula, que adora os papagaios e faz
caricaturas; o Malheiros, que reúne gatos, cachorros, cascatas e caboclos
em cada tela. É o ideal da arte! São eles os autores dos estandartes
dos cordões; são eles que enriquecem! Já entraste num
desses ateliers, no Cunha dos PP, no Garcia Fernandes da Rua do Senhor dos
Passos? Pois é como um desses studios da Flandres antiga, em que os
grandes artistas assinavam os trabalhos dos discípulos, é como
se entrasse na grande manufatura da pintura assinada. Vamos ao Cunha.

– Não, não, por hoje basta.

– Mas pelo menos vem admirar na Rua Frei Caneca 1660 famoso trabalho
do Xavier.

– O famoso trabalho?

Se os outros, que não eram famosos e não eram de Xavier, tanta
admiração me haviam causado, imaginem esse, sendo de Xavier
e sendo famoso. Precipitei-me num bonde, saltei comovido como se me assegurassem
que eu iria ver a Joconda de Da Vinci, e, quando os meus olhos sôfregos
pousaram na criação do pintor, uma exclamação
abriu-me os lábios e os braços. Era simplesmente um incêndio,
o incêndio de uma cidade inteira, a chama ardente, o fogo queimando,
torcendo, destruindo, desmoronando a cidade do vício. Tudo desaparecia
numa violentação rubra de fornalha candente. Seria o fogo sagrado,
a purificar como em Gomorra, ou o fogo da luxúria, o símbolo
devastador das paixões carnais, a reprodução alegórica
de como a licença dos instintos devora e queima a vida?

Xavier fora mais longe. Aquele mar de incêndio, aquele braseiro desesperado
e perene era a fixação do fogo maldito da luxúria, era
o fogo de Satanás, porque Satanás, em pessoa, no primeiro plano,
completamente cor de pitanga, com as pernas tortas e o ar furioso, abatia
a seus pés, vestida de azul celeste, uma pobre senhora.

Esse último painel punha-me inteiramente tonto. Mas não é
uma das grandes preocupações da Arte comover os mortais, comovê-los
até mais não poder? Xavier comovia, eu estava comovido. Nem
sempre é possível obter tanta coisa nas exposições
anuais. O meu amigo levou o excesso a apresentar-me o ilustre artista.

– Aqui está o Xavier.

Voltei-me.

– Os meus sinceros cumprimentos. Há sopro romântico, há
imaginação, há ardência nesta decoração,
fiz com o ar dogmático dos críticos ignorantes de pintura.

Ingenuamente, Xavier olhou para mim e, primeiro homem que não se julga
célebre neste país, balbuciou:

– Eu não sei nada…Isso está para aí…Se soubesse
fazer alguma coisa de valor até ficava triste – só com
a idéia de que um dia talvez a levassem do meu país…

Tabuletas

Foi um poeta que considerou as tabuletas – os brasões da rua.
As tabuletas não eram para a sua visão apurada um encanto, uma
faceirice, que a necessidade e o reclamo incrustaram na via pública;
eram os escudos de uma complicada heráldica urbana, do armorial da
democracia e do agudo arrivismo dos séculos. Desde que um homem realiza
a sua obra – a terminação de uma epopéia ou a abertura
de uma casa comercial – imediatamente o homem batiza-a. No começo
da vida, por instinto, guiado pelos deuses, a sua idéia foi logo a
tabuleta. Quem inventou a tabuleta? Niguém sabe.

É o mesmo que perguntar quem ensinou a criança a gritar quando
tem fome. Já no Oriente elas existiam, já em Atenas, já
em Roma, simples, modestas, mas sempre reclamistas. Depois, como era de prever,
evoluíram: evoluíram de acordo com a evolução
do homem, e hoje, que se fazem concursos de tabuletas e há tabuletas
compostas por artistas célebres, hoje, na época em que o reclamo
domina o asfalto, as tabuletas são como reflexos de almas, são
todo um tratado de psicologia urbana. Que desejamos todos nós? Aparecer,
vender, ganhar.

A doença tomou proporções tremendas, cresceu, alastrou-se,
infeccionou todos os meios, como um poder corrosivo e fatal. Os próprios
doentes também a exploram numa fúria convulsiva de contaminação.
Reparai nos jornais e nas revistas. Andam repletos de fotogravuras e de nomes
–nomes e caras, muitos nomes e muitas caras! A geração
faz por conta própria a sua identificação antropométrica
para o futuro. Mas o curioso é ver como a publicação
desses nomes é pedida, é implorada nas salas das redações.
Todos os pretextos são plausíveis, desde a festa a que se não
foi até à moléstia inconveniente de que foi operada com
feliz êxito a esposa. O interessante é observar como se almeja
um retrato nas folhas, desde as escuras alamedas do jardim do crime até
às garden-parties de caridade, desde os criminosos às almas
angélicas que só pensam no bem. Aparecer! Aparecer!

E na rua, que se vê? O senhor do mundo, o reclamo. Em cada praça
onde demoramos os nossos passos, nas janelas do alto dos telhados, em mudos
jogos de luz, os cinematógrafos e as lanternas mágicas gritam
através do écran de um pano qualquer o reclamo de melhor alfaiate,
do melhor livreiro, do melhor revólver. Basta levantar a cabeça.
As tabuletas contam a nossa vida. E nessa babel de apelos à atenção,
ressaltam, chocam, vivem estranhamente os reclamos, extravagantes, as tabuletas
disparatadas. Quantas haverá no Rio? Mil, duas mil, que nos fazem rir.
Vai um homem num bonde e vê de repente, encimando duas portas em grossas
letras estas palavras: Armazém Teoria.

Teoria de que, senhor Deus? Há um outro tão bizarro quanto
este: Casa Tamoio, Grande Armazém de líquidos comestíveis
e miudezas. Como saber que líquidos serão esses comestíveis,
de que a falta de uma vírgula fez um assombro? Faltou a esse pintor
o esmero da padaria do mesmo nome que fez a sua tabuleta em letras de antigo
missal para mostrar como se esmera, ou talvez o descaro deste outro: o maduro
cura infalivelmente todas as moléstias nervosas…

Mas as tabuletas extravagantes são as do pequeno comércio,
sem a influência de Paris, a importação direta e caixeiros
elegantes de lenço no punho: as vendas, esta criação
nacional, os botequins baratos, os açougues, os bazares, as hospedarias…Na
Rua do Catete há uma venda que se intitula O Leão na Gruta.
Por quê? Que tem a batata com o leão que nem ao menos é
conhecido de Daniel? Defronte dessa venda há, entretanto, um café
que é apenas Café de Ambos Mundos. E se não vos bastar
um café tão completo, aí temos um mais modesto, na Rua
da Saúde o Café B.T.Q. E sabem que vem a ser o B.T.Q., segundo
o proprietário? Botequim pelas iniciais! Essa nevrose das abreviações
não atacou felizmente o dono da casa de pasto da Rua de S. Cristóvão,
que encheu a parede com as seguintes palavras: Restaurant dos Dois lrmãos
Unidos Por…

Unidos por… Pelo quê? Pelo amor, pelo ódio, pela vitória?
Não! Unidos Portugueses. Apenas faltou a parede e ficou só o
por – para atestar que havia boa vontade. A questão, às
vezes, é de haver muita coisa na parede. Assim é que uma casa
da Rua do Senhor dos Passos tem este anúncio: Depósito de aves
de penas. É pouco? Um outro assegura: Depósito de galinhas,
ovos e outras aves de penas – o que é, evidentemente, muito mais.
Tal excesso chega a prejudicar, e andasse a higiene a olhar tabuletas, ofício
de vadiagem incorrigível, mandaria fechar uma casa de frutas da Rua
Sete, que pespegou esta inconveniência: Grande sortimento de frutas
verdes e secas.

A origem desses títulos é sempre curiosa. Uma casa chama-se
Príncipe da Beira porque o seu proprietário é da Beira,
uma venda de Campo Grande tem o título feroz de Grande Cabaceíro
porque perto há uma plantação de cabaças; há
açougue Aliança e Fidelidade porque é um hábito
pôr aliança como título com duas mãos apertadas
e fidelidade com um cachorro de língua de fora, bem no meio da parede.
Muitos tomam o título de peças de teatro: Colchoaria Rio Nu,
Casa Guanabarina, venda Cabana do Pai Tomás. A coisa, porém,
toma proporções assombrosas quando o proprietário é
pernóstico. Assim, na Rua Visconde do Rio Branco há um armazém
Planeta Provisório, e noutra rua Planeta dos Dois Destinos, um título
ocultista sibilino; noCatete, um Açougue Celestial. Essa dependência
do firmamento na terra produz um péssimo efeito e os anjos têm
cada braço de meter medo a uma legião da polícia. Outro,
porém, é o Açougue Despique dos Invejosos, e há
na Rua da Constituição uma casa de bilhetes intitulada Casa
Idealista, naturalmente porque quem compra bilhetes vive no mundo da lua,
e há uma casa de coroas, o Lírio Impermeável e uma outra,
Ao Vulcão das 49 Flores. Não é só. Uns madeireiros
puseram no seu depósito este letreiro filosófico, que naturalmente
incomodará o arcebispado: Madeireiros e Materialistas; e há
uma taberna muito ordinária, centro de malandrões, em Sapopemba,
que se apossou de um título exclusivamente nefelibata: A Tebaida…

E os afrancesados que denominam as casas de Au Bijou de la Mode; Au Dernier
Chic, Queima Chefe, Maison Moderne da Cidade Nova? E os patrióticos
que fazem questão da casa de pasto ser 1o de Dezembro, do açougue
ser 1o de Janeiro? do restaurante ser Luís de Camões ou Fagundes
Varela? E os engrossadores que intitulam as casas de Afonso Pena durante quatro
anos? E os engraçados, os da laracha boa, que fazem as tabuletas propositalmente
erradas, como um negociante da Rua Chile: Colxoaria de primera Colxães
contra purgas e precevejos?

Mas as tabuletas têm uma estranha filosofia; as tabuletas fazem pensar.
Há, por exemplo, na Rua Senador Eusébio, perto da ex-ponte dos
Marinheiros, uma hospedaria com este título: Hotel Livre Câmbio.
Quanta coisa pensa a gente conhecendo o negócio e olhando a tabuleta!

A série é nesse ramo curiosíssima. Há o Locomotora,
que é naturalmente rápido; há Os Dois Destinos, há
a Lua de Prata, há o irônico Fidelidade, tendo pintado uma senhora
a pender dos lábios de um senhor… Quantos!

Na Rua Dr. João Ricardo há um restaurante com este título:
Restauração da Vitória.

– Por que “restauração da vitória”?
indagamos do proprietário, o Sr. Colaço.

– Eu explico, diz ele. Há cerca de 30 anos, os espanhóis
invadiram a ilha Terceira. Como eram poucos os soldados para repelirem o castelhano,
os lavradores soltaram todos os touros bravos na praia da Vitória e
dessa maneira os espanhóis fugiram. Os paraguaios resistiram também
tanto tempo por causa dos touros importados da Argentina.

– Tudo tem uma explicação neste mundo!

– All right!

Alll right, sim! Os títulos das casas, por mais absurdos, como Filhos
do Céu, por exemplo, têm uma explicação que convence.
Há os nefelibatas, os patrióticos 19 de Janeiro, d. Carlos;
o diplomático União Ibérica, os que engrossam uma certa
classe, e até um, na Rua Frei Caneca, pertencente ao riquíssimo
Pinho, cujo título é uma profunda lição filosófica.
O hotel intitula-se Comércio e Arte…

Os pintores desse gênero criaram uma especialidade: são os moralistas
da decadência e usam também tabuletas. Um mesmo, talvez por ter
sofrido muito de cara alegre, pôs na Rua de S. Pedro este anúncio:
Fulano de Tal, Pintor de Fingimentos. E realmente eles aturam tanto dos proprietários!
Um deles, rapazito inteligente, era encarregado de fazer a fachada da Casa
do Pinto. Fez as letras e pintou um pintainho. O proprietário enfureceu:

– Que tolice é esta?

– Um pinto.

– E que tenho eu com isso?

– O senhor não é Pinto?

– O meu nome é Pinto, mas eu sou galo, muito galo.

Pinte-me aí um galo às direitas!

E outro, encarregado de fazer as letras de uma casa de móveis, vendem-se
móveis quando o negociante veio a ele:

– Você está maluco ou a mangar comigo!

– Por quê?

– Que plural é esse? Vendem-se, vendem-se… Quem vende sou
eu e sem sócios, ouviu? Corte o m, ande!

As letras custam dinheiro, custam aos pobres pintores… O rapaz ficou sem
o m que fizera com tanta perícia. Mas também, por que estragar?
Em S. Cristóvão havia uma Pharmacia S. Cristóvão.
Desapareceu. Foi a primeira que fez isso na terra, desde que há farmácias.
Foram para lá outros negociantes. Como aproveitar algumas letras? Lembraram
foco, e, como a Academia não chega os seus cuidados ortográficos
às tabuletas, arrumaram Phoco de S. Cristóvão. Estava
uma tabuleta nova só com três letras novas.

Os pintores de tabuletas resignam-se. Eles, os escritores desse grande livro
colorido da cidade, têm a paciência lendária dos iluministas
medievos, eles fazem parte da grande massa para que o Reclamo foi criado –
são pobres. Talvez por isso, um mais ousado, de acordo com certo açougueiro
antigo da Praça da Aclamação, pintando uma vez o letreiro
Açougue Pai dos Pobres, pôs bem no meio uma cabeça de
boi colossal, arregalando os olhos, que Homero achava belos, como o símbolo
de todas as resignações…

E é decerto este o lado mais triste das tabuletas – brasões
da democracia, escudos bizarros da cidade.

Visões d’Ópio

– Os comedores de ópio?

Era às seis da tarde, defronte do mar. Já o sol morrera e os
espaços eram pálidos e azuis. As linhas da cidade se adoçavam
na claridade de opala da tarde maravilhosa. Ao longe, a bruma envolvia as
fortalezas, escalava os céus, cortava o horizonte numa longa barra
cor de malva e, emergindo dessa agonia de cores, mais negros ou mais vagos,
os montes, o Pão de Açúcar, S. Bento, o Castelo apareciam
num tranqüilo esplendor. Nós estávamos em Santa Luzia,
defronte da Misericórdia, onde tínhamos ido ver um pobre rapaz
eterômano, encontrado à noite com o crânio partido numa
rua qualquer. A aragem rumorejava em cima a trama das grandes mangueiras folhudas,
dos tamarindeiros e dos flamboyants, e a paisagem tinha um ar de sonho. Não
era a praia dos pescadores e dos vagabundos tão nossa conhecida, era
um trecho de Argel, de Nice, um panorama de visão sob as estrelas doiradas.

– Sim, dizia-me o amigo com quem eu estava, o éter é
um vício que nos evola, um vício de aristocracia. Eu conheço
outros mais brutais – o ópio, o desespero do ópio.

– Mas aqui!

– Aqui. Nunca freqüentou os chins das ruas da cidade velha, nunca
conversou com essas caras cor de goma que param detrás do Necrotério
e são perseguidos, a pedrada, pelos ciganos exploradores? Os senhores
não conhecem esta grande cidade que Estácio de Sá defendeu
um dia dos franceses. O Rio é o porto de mar, é cosmópolis
num caleidoscópio, é a praia com a vaza que o oceano lhe traz.

Há de tudo – vícios, horrores, gente de variados matizes,
niilistas rumaicos, professores russos na miséria, anarquistas espanhóis,
ciganos debochados. Todas as raças trazem qualidades que aqui desabrocham
numa seiva delirante. Porto de mar, meu caro! Os chineses são o resto
da famosa imigração, vendem peixe na praia e vivem entre a Rua
da Misericórdia e a Rua d. Manuel. As 5 da tarde deixam o trabalho
e metem-se em casa para as tremendas fumeries. Quer vê-los agora?

Não resisti. O meu amigo, a pé, num passo calmo, ia sentenciando:

– Tenho a indicação de quatro ou cinco casas. Nós
entramos como fornecedores de ópio. Você veio de Londres, tem
um quilo, cerca de 600 gramas de ópio de Bombaim. Eu levo as amostras.

Caminhávamos pela Rua da Misericórdia àquela hora cheia
de um movimento febril, nos corredores das hospedarias, à porta dos
botequins, nas furnas das estalagens, à entrada dos velhos prédios
em ruínas.

O meu amigo dobrou uma esquina. Estávamos no Beco dos Ferreiros, uma
ruela de cinco palmos de largura, com casas de dois andares, velhas e a cair.
A população desse beco mora em magotes em cada quarto e pendura
a roupa lavada em bambus nas janelas, de modo que a gente tem a perene impressão
de chitas festivas a flamular no alto. Há portas de hospedarias sempre
fechadas, linhas de fachadas tombando, e a miséria besunta de sujo
e de gordura as antigas pinturas. Um cheiro nauseabundo paira nessa ruela
desconhecida.

O meu amigo pára no no 19, uma rótula, bate. Há uma
complicação de vozes no interior, e, passados instantes, ouve-se
alguém gritar:

– Que quer?

– João, João está aí?

João e Afonso são dois nomes habituais entre os chins ocidentalizados.

João não mora mais…

– Venha abrir, brada o meu guia com autoridade.

Imediatamente a rótula descerra-se e aparece, como tapando a fenda,
uma figura amarela, cor de gema de ovo batida, com um riso idiota na face,
um riso de pavor que lhe deixa ver a dentuça suja e negra.

– Que quer, senhor?

Tomamos um ar de bonomia e falando como a querer enterrar as palavras naquele
crânio já trabucado.

– Chego de Londres, com um quilo de ópio, bom ópio.

– Ópio?… Nós compramos em farmácia… Rua S.
Pedro…

– Vendo barato.

Os olhos do celeste arregalam-se amarelos, na amarelidão da face.

– Não compreende.

– Decida, homem…

– Dinheiro, não tem dinheiro.

Desconfiará ele de nós, não acreditará nas nossas
palavras? O mesmo sorriso de medo lhe escancara a boca e lá dentro
há cochichos, vozes lívidas…O meu amigo bate-lhe no ombro.

– Deixa ver a casa.

Ele recua trêmulo, agarrando a rótula com as duas mãos,
dispara para dentro um fluxo cuspinhado de palavrinhas rápidas. Outras
palavrinhas em tonalidades esquisitas respondem como pizzicatti de instrumentos
de madeira, e a cara reaparece com o sorriso emplastrado:

– Pode entrar, meu senhor.

Entramos de esguelha, e logo a rótula se fecha num quadro inédito.
O no 19 do Beco dos Ferreiros é a visão oriental das lôbregas
bodegas de Xangai. Há uma vasta sala estreita e comprida, inteiramente
em treva. A atmosfera pesada, oleosa, quase sufoca. Dois renques de mesas,
com as cabeceiras coladas às paredes, estendem-se até o fundo
cobertas de esteirinhas. Em cada uma dessas mesas, do lado esquerdo, tremeluz
a chama de uma candeia de azeite ou de álcool.

A custo, os nossos olhos acostumam-se à escuridão, acompanham
a candelária de luzes até ao fim, até uma alta parede
encardida, e descobrem em cada mesa um cachimbo grande e um corpo amarelo,
nu da cintura para cima, corpo que se levanta assustado, contorcionando os
braços moles. Há chins magros, chins gordos, de cabelo branco,
de caras despeladas, chins trigueiros, com a pele cor de manga, chins cor
de oca, chins com a amarelidão da cera nos círios.

As lâmpadas tremem, esticam-se na ânsia de queimar o narcótico
mortal. Ao fundo um velho idiota, com as pernas cruzadas em torno de um balde,
atira com dois pauzinhos arroz à boca. O ambiente tem um cheiro inenarrável,
os corpos movem-se como larvas de um pesadelo e essas quinze caras estúpidas,
arrancadas ao bálsamo que lhes cicatriza a alma, olham-nos com o susto
covarde de coolies espancados. E todos murmuram medrosamente, com os pés
nus, as mãos sujas:

– Não tem dinheiro… não tem dinheiro… faz mal!

Há um mistério de explorações e de horrores nesse
pavor dos pobres celestes. O meu amigo interroga um que parece ter vinte e
parece ter sessenta anos, a cara cheia de pregas, como papel de arroz machucado.

– Como se chama você?

– Tchang… Afonso.

– Quanto pode fumar de ópio?

– Só fuma em casa… um bocadinho só… faz mal! Quanto
pode fumar? Duzentas gramas, pouquinho… Não tem dinheiro.

Sinto náuseas e ao mesmo tempo uma nevrose de crime. A treva da sala
torna-se lívida, com tons azulados. Há na escuridão uma
nuvem de fumo e as bolinhas pardas, queimadas à chama das candeias,
põem uma tontura na furna, dão-me a imperiosa vontade de apertar
todos aqueles pescoços nus e exangues, pescoços viscosos de
cadáver onde o veneno gota a gota dessora.

E as caras continuam emplastradas pelo mesmo sorriso de susto e de súplica,
multiplicado em quinze beiços amarelos, em quinze dentaduras nojentas,
em quinze olhos de tormento!

– Senhor, pode ir, pode ir? Nós vamos deitar; pode ir? –
suplica Tchang.

Arrasto o guia, fujo ao horror do quadro. A rótula fecha-se sem rumor.
Estamos outra vez num beco infecto de cidade ocidental. Os chins pelas persianas
espiam-nos. O meu amigo consulta o relógio.

– Este é o primeiro quadro, o começo. Os chins preparam-se
para a intoxicação. Nenhum deles tinha uma hora de cachimbo.
Agora, porém, em outros lugares devem ter chegado ao embrutecimento,
à excitação e ao sonho. Tenho duas casas no meu booknotes,
uma na Rua da Misericórdia, onde os celestes se espancam, jogando o
monte com os beiços rubros de mastigar folhas de bétel, e à
Rua d. Manuel no 72, onde as fumeries tomam proporções infernais.

Ouço com assombro, duvidando intimamente desse fervilhar de vício,
de ninguém ainda suspeitado. Mas acompanho-o.

A Rua d. Manuel parece a rua de um bairro afastado. O Necrotério com
um capinzal cercado de arame, por trás do qual os ciganos confabulam,
tem um ar de subúrbio. Parece que se chegou, nas pedras irregulares
do mau calçamento, olhando os pardieiros seculares, ao fim da cidade.
Nas esquinas, onde larápios, de lenço no pescoço e andar
gingante, estragam o tempo com rameiras de galho de arruda na carapinha, vêem-se
pequenas ruas, nascidas dos socalcos do Castelo, estreitas e sem luz. A noite,
na opala do crepúsculo, vai apagando em treva o velho casaredo.

– É aqui.

O 72 é uma casa em ruína, estridentemente caiada, pendendo
para o lado. Tem dois pavimentos. Subimos os degraus gastos do primeiro, uns
degraus quase oblíquos, caminhamos por um corredor em que o soalho
balança e range, vamos até uma espécie de caverna fedorenta,
donde um italiano fazedor de botas mastiga explicações entre
duas crianças que parecem fetos saídos de frascos de álcool.
Voltamos à primeira porta, junto á escada, entramos num quarto
forrado imoralmente com um esfarripado tapete de padrão rubro. Aí,
um homenzinho, em mangas de camisa, indaga com a voz aflautada e sibilosa:

– Os moços desejam?

– É você o encarregado?

– Para servir os moços.

– Desejamos os chins.

– Ah! isso, lá em cima, sala da frente. Os porcos estão
se opiando.

Vamos aos porcos. Subimos uma outra escada que se divide em dois lances,
um para o nascente outro para o poente. A escada dá num corredor que
termina ao fundo numa porta, com pedaços de pano branco, à guisa
de cortina. A atmosfera é esmagadora. Antes de entrar é violenta
a minha repulsa, mas não é possível recuar. Uma voz alegre
indaga:

– Quem está aí?

O guia suspende a cortina e nós entramos numa sala quadrada, em que
cerca de dez chins, reclinados em esteirinhas diante das lâmpadas acesas,
se narcotizam com o veneno das dormideiras.

A cena é de um lúgubre exotismo. Os chins estão inteiramente
nus, as lâmpadas estrelam a escuridão de olhos sangrentos, das
paredes pendem pedaços de ganga rubra com sentenças filosóficas
rabiscadas a nanquim. O chão está atravancado de bancos e roupas,
e os chins mergulham a plenos estos na estufa dos delírios.

A intoxicação já os transforma. Um deles, a cabeça
pendente, a língua roxa, as pálpebras apertadas, ronca estirado,
e o seu pescoço amarelo e longo, quebrado pela ponta da mesa, mostra
a papeira mole, como a espera da lâmina de uma faca. Outro, de cócoras,
mastigando pedaços de massa cor de azinhavre, enraivece um cão
gordo, sem cauda, um cão que mostra os dentes, espumando. E há
mais: um com as pernas cruzadas, lambendo o ópio líquido na
ponta do cachimbo; dois outros deitados, queimando na chama das candeias as
porções do sumo enervante. Estes tentam erguer-se, ao ver-nos,
com um idêntico esforço, o semblante transfigurado.

– Não se levantem, à vontade!

Sussurram palavras de encanto, tombam indiferentes, esticam com o mesmo movimento
a mão cadavérica para a lâmpada e fios de névoa
azul sobem ao teto em espirais tênues.

Três, porém, deste bando estão no período da excitação
alegre, em que todas as franquezas são permitidas. Um deles passeia
agitado como um homem de negócio. É magro, seco, duro.

– Vem vender ópio? Bom, muito bom… Compro. Ópio bom
que não seja de Bengala. Compro.

Logo outro salta, enfiando uma camisola:

– Ah! ah! Traz ópio? Donde?

– Da Sonda…

Os três grupam-se ameaçadoramente em torno de nós, estendendo
os braços tão estranhos e tão molemente mexidos naquele
ambiente que eu recuo como se os tentáculos de um polvo estivessem
movendo na escuridão de uma caverna. Mas do outro lado ouve-se o soluço
intercortado de um dos opiados. A sua voz chora palavras vagas.

– Sapan… sapan… Hanoi… tahi…

O chin magro revira os olhos:

– Ele está sonhando. Affal está sonhando. Ópio
sonho…terra da gente namorada… bonito! bonito!… Deixa ver amostra.

O meu amigo recua, um corpo baqueia – o do chinês adormecido
– e os outros bradam:

– Amostra… você traz amostra!

Sem perder a calma, esse meu esquisito guia mete a mão no bolso da
calça, tira um pedaço de massa envolvido em folhas de dormideira,
desdobra-o. Então o delírio propaga-se. O magro chin ajoelha,
os outros também, raspando a massa com as unhas, mergulhando os dedos
nas bocas escuras, num queixume de miséria.

– Dá a amostra…não tem dinheiro…deixa a amostra!

Miseravelmente o clamor de súplica enche o quarto na névoa
parda estrelejada de hóstias sangrentas. Os chins curvam o dorso, mostram
os pescoços compridos, como se os entregassem ao cutelo, e os braços
sem músculos raspam o chão, pegando-nos os pés, implorando
a dádiva tremenda. Não posso mais. Cãimbras de estômago
fazem-me um enorme desejo de vomitar. Só o cheiro do veneno desnorteia.
Vejo-me nas ruas de Tien-Tsin, à porta das cagnas, perseguido pela
guarda imperial, tremendo de medo; vejo-me nas bodegas de Cingapura, com os
corpos dos celestes arrastados em djinrickchas, entre malaios loucos brandindo
kriss assassinos! Oh! o veneno sutil, lágrima do sono, resumo do paraíso,
grande matador do oriente! Como eu o ia encontrar num pardieiro de Cosmópolis,
estraçalhando uns pobres trapos das províncias da China!

Apertei a cabeça entre as mãos, abri a boca numa ânsia.

– Vamos, ou eu morro!

O meu amigo, então, empurrou os três chins, atirou-se à
janela, abriu-a. Uma lufada de ar entrou, as lâmpadas tremeram, a nuvem
de ópio oscilou, fendeu, esgueirou-se, e eu caí de bruços,
a tremer diante dos chins apavorados e nus.

Fora, as estrelas recamavam de ouro o céu de verão…

Músicos Ambulantes

Músicos ambulantes! Um momento houve em que todos desapareceram, arrastados
por uma súbita voragem. Os cafés viviam sem as harpas clássicas
e nas ruas, de raro em raro, um realejo aparecia. Por quê? Teriam sido
absorvidos pelos cafés-cantantes, dominados pelos prodígios
do gramofone – essa maravilha do século XIX, que não deixa
de ser uma calamidade para o século XX? Não. Fora apenas uma
súbita pausa tão comum na circulação das cidades.

Apesar dos gramofones nos hotéis, nos botequins, nas lojas de calçados,
apesar da intensa multiplicação dos pianos, eles foram voltando,
um a um ou em bandos, como as andorinhas imigrantes, e, de novo, as tascas,
as baiúcas, os cafés, os hotéis baratos, encheram-se
de canções, de vozes de violão e de guitarra e, de novo,
pelas ruas os realejos, os violinos, as gaitas, recomeçaram o seu triunfo.

Há já alguns meses mesmo, uma banda alemã, com instrumentos,
estantes e desafinações, atormenta as grandes praças,
e eu lobriguei outro dia ainda um bicho lendário por mim julgado tão
desaparecido como o megatério – o homem dos sete instrumentos!
E esse homem, cheio de instrumentos, ia por aí fora, satisfeito e corado,
como se tivesse realizado uma agradável receita.

Os músicos vieram todos! Não perde a cidade os seus foros de
musical – o Rio, onde tudo é música, desde a poética
música dos beijos à decisiva música de pancadaria.

Novamente à beira das calçadas a Valsa dos Sinos e O Guarani
se desarticulam em velhos pianos; novamente sujeitos, que parecem cegos, rodam
a manivela dos realejos, estendendo a mão súplice, numa ânsia
de miséria; novamente, depois de alguns trechos da sonante Boêmia,
um piresinho de metal se vos oferecerá, desejoso de níqueis.
E todos vós, que sois bons, e todos vós, que gostais de música,
haveis de deplorar os coitados que alegram os outros para viver na miséria,
com a alma varada de dor, e todos vós sofrereis a crise de harmonia.
Oh! a música!

Elle mouille comme la pluie, Elle brûle comme le feu.

Uma sanfona faria Harpagon generoso e Lady Macbeth boa.

Esta cidade é essencialmente musical; era impossível passar
sem os músicos ambulantes. A música preside à nossa vida,
a música auxilia até a gestação, e, consista apenas
na voz como diz Sócrates, consista, pretende Aristoxeno, na voz e nos
movimentos do corpo, ou reúna à voz os movimentos da alma e
do corpo como pensa Teofrasto, tem os caracteres da divindade e comove as
almas. Pitágoras, para que a sua alma constantemente estivesse penetrada
de divindade, tocava cítara antes de dormir e logo ao acordar de novo
à cítara se apegava. Asclepíades, médico, acalmava
os espíritos frenéticos empregando a sinfonia, e Herófilo
pretendia que as pulsações das veias se fazem de acordo com
o ritmo musical. Os músicos ambulantes são os descendentes dos
tocadores da flauta, caros aos deuses da Hélade.

Não pensemos, porém, romanticamente, que todos os músicos
morrem de fome ao cair das ilusões. Antes pelo contrário. A
biografia de cada um serve de assunto a todo o boêmio desejoso de ser
feliz. Quem conhece o Saldanha, um velho português baixo, gordo e cego,
que viola há mais de vinte anos com um negro também cego da
ilha da Madeira, flautista emérito? Esses dois cegos eram acompanhados
por um guitarrista escovado, que tocava, fazia a cobrança e ainda por
cima era poeta, compunha as cançonetas. Um momento a cidade inteira
cantou a sua célebre quadra:

Zás-trás, zás-trás
Malagueta no cabaz
Com jeito tudo se arranja
Com jeito tudo se faz

o que não o recomenda muito ao senso estético do Rio. Quando
os cegos e esse zás-trás amolavam muito, lá havia sempre
algum para gritar:

– Ó Lírico ambulante!

E o Saldanha, pançudo, grave, imperturbável:

– Obrigado pelo elogio!

Pois todo o pessoal enriqueceu. O negro casou em Portugal , o Zás-trás
conseguiu tudo com jeito, e eu fui encontrar o Saldanha aposentado, considerado
como um velho artista diante de um copo de cerveja.

– Fizemos várias tournées, disse-me ele, percorremos
o Brasil, do Rio Grande ao Pará. Ajuntamos alguma coisa…

E não se trata de um caso esporádico. O resultado é
geral. O José, italiano capenga, que chegou ao Rio em 1875, alugou,
para não trabalhar, um piano de manivela. Em seguida, o seu espírito
inventivo foi até comprar um realejo com bonecos mecânicos, entre
os quais havia um de mão estendida, que engolia as moedas e punha fora
outra qualquer coisa. Esse boneco, a valsa dos Sinos de Corneville, o Caballero
de Gracia e o Bendengó deram-lhe uma fortuna. E José resolveu
jogar, à farta, jogar forte.

Jogou tanto que teve de arranjar um sócio, personagem fantástico,
que dá pela alcunha de Cavalière Midaglia.

O Cavalière gosta também da batota e principalmente do bicho.
Até duas horas, dinheiro para o avestruz; nas primeiras horas da noite,
cervejinha na fábrica Santa-Maria; depois, la mare dos baralhos e dados.
Parece incrível que um realejo, moendo os sinos, dê dinheiro
para tantos vícios. Pois José tem ainda dinheiro para ir à
Itália ver Nápoles e depois voltar. Já lá foi
mais de vinte vezes.

Está claro que a música, tendo por fim adoçar os costumes,
não arrasta todos os seus cultores aos desvarios do monte e da roleta.
Há realejos que sustentam numerosas famílias, como o do Vicente,
italiano falsamente cego, que desconfia dos filhos, joga a bisca a milho nos
botequins das Ruas Formosa e do Areal e já adquiriu alguns prédios;
há realejos escravizadores, como o do Antônio Capenga, da estação
do Mangue, que espanca os dois pequenos cobradores se por acaso deixam passar
um bonde sem lhes dar nada, embora o bonde vá vazio – porque
Antônio tem amantes e, à custa de sons que na sua algibeira retinem
em moedas, resolveu a vida epicuristamente nos três princípios
fundamentais: mulheres, jogo e vinho; há realejos solteiros malandros,
realejos virgens prontos para a fuga.

A música chega mesmo em certos casos a harmonizar dissabores num acorde
feliz. É o caso do Amaral carpinteiro. Este Amaral cortou certa vez
a mão com uma enxó. Meteu a dita mão em ataduras e resolveu
nunca mais trabalhar. Ao contrário do pastor Jacó, sete anos
levantou de papo para o ar compondo versinhos; dedicou-se em seguida a vender
modinhas – era o Araruama. E nesse serviço descobriu-se vocações
musicais.

Hoje é sumidade, é o Caruso das Ruas de S. Jorge e Conceição
e não há botequim de café a três vinténs
a xícara, onde a sua voz não requebre o

Olé lé lé
Candonga Sinhá.

Nas mesmas condições está o Miguel de Brito. Apesar
de português, foi inferior do exército. Quando deu baixa, comprou
um Gramofone para ganhar, como dizia, a vida na roça. Partiu para o
Rio Bonito, alugou um salão e estava exatamente pregando um cartaz
à porta, quando ouviu na casa fronteira tocar um gramofone muito mais
aperfeiçoado que o seu. Era a musa da música decerto que o prevenia,
desejosa de evitar um confronto desagradável. Brito arrancou o cartaz,
vendeu o Gramofone, agradeceu à musa e só com sua garganta veio
triunfar nas bodegas do Rio.

As bodegas, como os botequins do tom, toleram de vez em quando os músicos,
com a condição de não lhes pagar nada. Em geral são
sempre três – os tercetos célebres. Há na Rua do
Senhor dos Passas o do Amadeu com as duas irmãs, que, por sinal, já
fugiram; na Avenida Passos chefiado pelo Barradas, cego – terceto famoso,
por ter percorrido todas as cidades de Espanha, de Portugal, do Chile, do
Uruguai, da Argentina e do Brasil; o da fábrica de cerveja Oriente,
o da cervejaria Minerva, cujo chefe, o Antônio rabequista, gosta de
ser acompanhado de canto. A cervejaria enche-se de trabalhadores atraídos
pela alegria dos sons. Sempre uma canção melancólica
abre um hiato sentimental entre os fandangos e os cakewalks.

Tanto penar, tanto sofrer.
Amor me mata,
Amor me mata.
Eu vou morrer.

Ninguém morre, e um português do Minho que lá passa a
noite, brada:

– Eu cá dinheiro não dou, mas se tocar a cana-verde pago
a cerveja!

E a cana-verde conclui a canção melancólica.

Oh! eu conheci nessas baiúcas rumorejantes, onde a populaça
vive atraída pela música, até um globe-trotter! Era um
veneziano de vinte e três anos, Rafael Angelo, tenor. Nos botequins
em que os proprietários eram portugueses cantava o rebola a bola, nos
estabelecimentos espanhóis, o caballero di gracia me llaman, e, lindo,
conquistador, com olhares mortos para as mulheres, era uma delícia
ouvi-lo, derreando os braços para os lados, como cansado de abraçar,
a cantar:

Fra le donne tu sei la piú bella,
Fra le rose tu sei la piú fina
E nel cielo brilhante stella
Nella terra sei nata regina.

A segunda vez que me viu entre os carregadores descalços, Rafael inaugurou
o seu mais belo gesto e disse-me:

– Noto a V. Exa. que isto é apenas uma extravagância boêmia.
Resolvi percorrer o mundo em quatros anos, sem ter um vintém de capital.
Já estive em Londres, em New York, em Chicago… Estou no Rio de Janeiro
há um mês. Che belleza.

Era o Phileas Fogg da cançoneta e arranjava dez a quinze mil réis
diários, fora as paixões das damas.

Quase todos esses músicos ambulantes e aventureiros ganham rios de
dinheiro, vivendo uma vida quase lamentável. No forro dos casacos velhos
há maços de notas, nos cinturões sebentos, vales ao portador.
O público pára, olha aquela tristeza, imagina no automatismo
dos gestos, na face que pede, no sorriso postiço, a fome dos artistas,
a miséria dos deserdados da sorte, e sonha as agonias, como nas óperas,
em que os tenores morrem ao sol, sob um céu lindo, cantando.

Por trás dessa fachada há tanto interesse como no negociante
mais avaro e tanta vaidade como num artista lírico mais vaidoso –
porque esses músicos ambulantes, humanos como todos nós, nascidos
neste mesmo século de vaidade, regulam os seus ideais entre a pretensão,
o alto juízo do próprio valor e o número de moedas da
coleta. Oh! a música, as árias perdidas no ruído das
ruas…Alguém já assegurou que a alma do homem conhece sua natureza
pelo canto. Cheguemos à suave conclusão de que conhece a natureza
e o resto. De que serviria um realejo senão assegurasse ao seu possuidor,
além do conhecimento da própria alma, a satisfação
do estômago? Há talvez em outras terras, mais gastas e mais frias,
a miséria dos músicos ambulantes, sem fogo, sem pão,
caindo sob a neve, depois de uma dolorosa vida. Aqui não; os músicos
prosperam, o realejo é uma instituição, e do alto azul,
a harmonia bondosa da natureza, musa da vida e da alegria, derrama o consolo
incomparável do calor e da luz.

Velhos Cocheiros

Outro dia, ao saltar de um tílburi no antigo Largo do Paço,
vi na boléia de um vis-à-vis pré-histórico a ventripotência
colossal de um velho cocheiro. As duas mãos gorduchas à altura
do peito como quem vai rezar, enfiado numa roupa esverdinhada, o automedonte
roncava. Seria uma recordação literária ou a memória
de uma fisionomia de infância? Seria o cocheiro da Safo, o irmão
mais velho de Simeon, ou simplesmente um velho cocheiro que eu tivesse visto
na doce idade em que todas as emoções são novas? Era
difícil adivinhar. Para os cérebros cheios de literatura, a
verdade obumbra-se tanto que é sempre preciso perguntar por ela como
o fez Poncius Pilatos diante de Deus.

Fui para perto do vis-à-vis, bati na perna do velho. Estava feio.
O ventre, um ventre fabuloso, parecia uma talha que lhe tivessem entalhado
ao tronco; as pernas, sem movimento, pendiam como traves; os braços,
extremamente desenvolvidos, eram quase maiores que as pernas; e a caraça
vermelha, com tons violáceos, lembrava os carões alegres do
Carnaval. Abriu, entretanto, uma das pálpebras com mau humor e resmungou:

– Pronto!

– Então você não me conhece mais?

– Eu não, senhor.

– Pois eu conheço a você desde menino.

Ele abriu de todo as pálpebras pesadas, um sorriso de alegre bondade
passou-lhe pelo lábio.

– Saiba vossa senhoria que bem pode ser! Toda essa gente importante
de hoje eu conheci meninos de colégio!

Não sei por que estava meio emocionado.

– E já fez ponto na Estrada de Ferro?

– Há vinte anos, eu e o Bamba.

Encostei-me à boléia do antigo vis-à-vis. Havia vinte
anos sim, havia vinte anos que no passar pela estação de carros
os meus olhos de criança se fixaram curiosamente na fisionomia jocunda
de um velho, que já naquele tempo era velho e já naquele tempo
gravemente roncava na boléia de um carro! Havia vinte anos.

É como lhe digo, afirmava ele. Conhece a filha do barão de
Cotegipe? Eu vi aquela santa criatura menina. Conhece o filho do grande ministro
João Alfredo? É meu amigo, dá-me dinheiro sempre que
vem ao Rio. Olhe, há de conhecer o Dr. Fernando Mendes de Almeida e
mais o irmão Dr. Cândido. Pois quando eu servia o pai, eles eram
meninos de colégio. Há meses eu disse ao Dr. Fernando tudo isso
e ele foi dar um passeio no meu carro e deu-me doces, vinho do Porto, dinheiro.
Estava admirado e ria…

– Como se chama você?

– Braga, eu sou o Braga.

Pobre velho cocheiro a quem se dá como às crianças doces
de confeitaria! Eu continuava encostado ao vis-à-vis, imensamente triste
e com a mesma curiosidade de criança.

– Trabalho neste ofício desde 1870. Tinha vinte anos, quando
comecei. Toda a minha mocidade foi acabada aqui.

– E não estás rico?!

– Rico?

Soltou uma gargalhada sonora que lhe balançou o ventre e envermelheceu
mais. Os seus olhos pequenos olhavam-me da boléia com superioridade
compassiva. É difícil encontrar um cocheiro de carro que tenha
feito fortuna. Enriquecem os de carroça, os de caminhões. De
carro, se citam dois ou três em trinta anos. O ofício, longe
de tornar ágeis os corpos, faz lesões cardíacas, atrofia
as pernas, hipertrofia os braços, de modo que quinze anos de boléia,
de visão elevada do mundo, ao sol e à chuva, estragam e usam
um homem como a ferrugem estraga o aço mais fino. O Braga era um velho
trapo encharcado. Tanto ádipo dava-me a impressão de que o pobre
velho devia ter água nos tecidos.

Eu continuava a ouvi-lo. Naquela boléia falava um cultor do quietismo,
um renanista que tivesse compreendido o nirvana. Nem uma ambição,
nem um ódio: apenas um sorriso de quem não se rala com a vida
e vem para a rua almejando não encontrar fregueses, para dormir mais
à vontade.

– Ah! este carro! murmurei. Quanta história podia você
contar. Quantas cenas de amor, quantos beijos, quantas angústias e
quantos crimes!

– Este carro não; outros, ou antes, eu. Fui de cocheira, fui
de casa particular e trabalhei por minha conta. Quando caiu o ministério
João Alfredo fui eu quem o levou ao Paço. Agora essas coisas
de beijos – noutro tempo era nas berlindas.

– Tinha vontade de saber a sua opinião.

Ele arregalou muito os olhos.

– A respeito de beijos? Sei lá!

– Não, a respeito da Monarquia e da República.

Ele sorriu, pensou.

– A Monarquia tinha as suas vantagens. Era mais bonito, era mais solene.
Não vá talvez pensar que eu sou inimigo da República.
Mas recorde por exemplo um dia de audiência pública do imperador.
Que bonito! Até era um garbo levar os fregueses lá. Ó
Braga, onde estiveste? Fui à Boa Vista! Hoje todo o mundo entra no
palácio do Catete. Não tem importância… É verdade
que o Obá entrava no Paço. Mas era príncipe. E então
para conhecer homens importantes! Não precisava saber-lhes o nome.
Os ministros tinham uma farda bonita, o imperador saía de papo de tucano.
Bom tempo aquele! Hoje a gente tem de suar para conhecer um ministro. Parecem-se
todos com os outros homens.

– Talvez não sejam, Braga.

– Quanto às capacidades não digo nada…Mas veja. Por
estar perto da secretaria é que conheço o Müller, um magro,
que reforma a cidade. E de todo o ministério só ele. Se isso
era possível em 1880! Depois, quer saber? A República trouxe
a Bolsa, uma porção de cocheiros estrangeiros, uns gringos e
ingleses de cara raspada, com uns carros que até nem eu lhes sabia
o nome!

Despegou as mãos de sobre o peito.

– E vão morrendo todas as pessoas notáveis, já
não há mais ninguém notável. Só restam
o sr. visconde de Barbacena, o sr. marquês de Paranaguá e mais
dois outros.

Houve uma longa pausa. Como este cocheiro estava do outro lado da vida! Quinze
anos apenas tinham levado o seu mundo e o seu carro para a velha poeira da
história! Ele falava como um eco, e estava ali, olhando o boulevard
reformado, pensando nos bons tempos das missas na catedral e das moradas reais,
hoje ocupadas pela burocracia republicana. . .

– O Braga é o mais velho cocheiro do Rio?

– Não senhor; é o Bamba, que começou em 1864.

Neste momento, outros cocheiros moços, limpos, de grandes calças
abombachadas foram aproximando os carros, com vontade de saber o que retinha
um cavalheiro tanto tempo a prosar com o velho. Logo se fez um barulho de
rodas e de vozes.

– Ó Braga, ó velho, despacha o freguês! tem aqui
um carro bom, vossa senhoria! O Braga, posso servir?

Braga cruzou outra vez as mãos no peito, com um sereno olhar indiferente.
Que dor o havia de trespassar! Murmurei com pena:

– Bom, adeus, meu Braga. E onde pára o Bamba?

– Na Estrada, pára na Estrada. Às ordens do menino, respondeu
ele do alto.

Já agora era impossível deixar de ver o outro, de conhecer
o mais antigo cocheiro do Rio! Tomei um bonde da Central. A tarde morria em
lento e vermelho crepúsculo. No céu brilhava a primeira estrela
trêmula e luminosa, e os combustores acendiam a sua luz azul quando
saltei na Praça da Aclamação. E foi um grande trabalho.
Eu ia de carro em carro.

– Pode informar onde pára o Bamba?

Uns diziam que o Bamba caíra e fora para o hospital, outros, os moços,
riam de que se fosse procurar um cocheiro inútil como o Bamba, outros
asseguravam que o velho não trabalhava mais. Afinal, quase defronte
da porta do Quartel, encontrei um landau empoeirado, desses que parecem arcas
e acomodam à vontade seis pessoas.

Da boléia um mulato velho falava para um gordo ancião, muito
gordo, muito estragado…

– Sabe você dizer quem é e onde está o Bamba?

O mulato riu.

– É este, patrão…

O gorduchão abriu a boca, onde faltavam os dentes.

– Já não trabalho de noite: tenho 70 anos. Não
vejo. Desde 1864 que estou no serviço. Outro dia quase morro; caí
da boléia. Tenho as pernas duras.

– Bamba, meu velho…

– Sou o primeiro cocheiro, o mais velho, não há nenhum
mais velho…

Eu voltei-me para o mulato, interroguei-o quase em segredo:

– Mas que diabo vem ele fazer aqui, assim?

O mulato sorriu com tristeza.

– Sei lá! É o cheiro, vossa senhoria, é o cheiro!
Quando a gente começa nesta vida, não pode viver sem ela…É
o cheiro.

A praça vibrava numa estrepitosa animação, os combustores
reverberavam em iluminações fantásticas, e, só,
no céu calmo, como uma hóstia de tristeza, a velha lua esticava
a triste foice do seu crescente.

Presepes

Deus vos salve casa santa
Onde Deus fez a morada
Onde mora o bento cálix
E a hóstia consagrada.

Que sabemos nós da Epifania? Homens de leve erudição
e de fé sem vigor, andamos a sutilizar velhos textos e antigos costumes,
e tanto sutilizamos que a dúvida acomete o nosso espírito e
a confusão perturba a viagem dos três Reis com os vestígios
das saturnais e das bodas de Caná. Nem os sacerdotes nos altares nem
os eruditos em livros fartos, ninguém hoje conseguirá explicar
claramente a suave aparição e a festa simples que o povo realiza,
fazendo vir de alta montanha, guiados por uma estrela loira, Gaspar, Melchior
e Baltasar com a oferenda de ouro, incenso e mirra para o menino que Herodes
perseguirá.

Há os versículos de Mateus: “Jesus nasceu em Belém
de Judá, nos tempos do rei Herodes. Vimos a sua estrela no Oriente
e viemos adorá-lo”; sabe-se que presepe significa etimologicamente
estrebaria ou jaula. Os gnósticos vêm, com esses dois elementos,
simbólicos, confusos; os sábios indagam de mais e, enquanto
estes esterilmente escrevem páginas estéreis, os povos criam
a legenda suave, e a legenda perdura, cresce, aumenta, esplende numa doce
apoteose de perfumes e de bem.

Os presepes são uma criação popular. Antes dos artistas
de Paris e Viena, que expõem nos salões do Campo de Marte e
no Kunstlerhaus, o povo criou nos presepes o anacronismo religioso, o anacronismo
que, segundo la Sizeranne, é a fé; pôs, como Breughel
nos Peregrinos de Emaús e Beraud na Madalena entre os Fariseus, homens
de hoje nas cenas do Velho Testamento.

Os presepes, como as telas do Renascimento, são as reconstituições
religiosas com a cor local contemporânea. Os psicólogos podem
psicologar num reisado a alma nacional e a intensidade da crença. Cristo
para os homens simples está sempre, é a perene luz salvadora.
Por isso cada presepe é um mundo onde homens e animais de todas as
épocas renovam anualmente a admiração de um suave milagre.

Fui ver numa das últimas noites de chuva alguns desses mundos de religião
e de tradição.

É impossível para os que viram o bumba-meu-boi realizado pelo
venerável Melo Morais e o belicoso Dr. Silvio Romero, quase como uma
reconstituição de costumes, imaginar o número de presepes
que este ano tem o Rio. Há para mais de quarenta.

Começamos pelo presepe da Rua Frei Caneca, o Centro Pastoril, que
tem uma diretoria composta dos Srs. Liberato Serra, presidente honorário;
Manuel Novela, presidente; mais dos Srs. Pedro Hugo, Faria, Alfredo Belfort,
Manuel de Macedo, Francisco de Paula Azevedo e Raul Machado. Os ensaios do
reisado realizaram-se na Rua Formosa e os diretores alugaram a sala e a primeira
alcova da casa da Rua Frei Caneca apenas para que a festa redobrasse de brilho.

A sala está toda enfeitada, com dois pequenos estrados feitos de madeira,
onde devem sentar a polícia e os reporters, um defronte da outro, sempre
juntos e sempre adulados.

Ao fundo ergue-se o presente que toma a alcova. O céu deste ameaça
chuva; grossas nuvens algodoam a sua celestial vastidão. As estrelas,
entretanto, mais o sol e mais a lua, numa doce confraternização,
atravessam nuvens e azul com o brilho fulgurante das malacachetas e das velas
– porque são de malacachetas as estrelas, e têm por trás
uma vela providencial tanto a lua como o sol.

Da montanha a pico, por caminhos aspérrimos, vêm descendo os
três reis lendários com um ar açodado de beduínos
em fuga, e nessa descida, os seus olhos pintados vão vendo chalets
suíços, animais no pasto, militares posteriores ao império
do Tetrarca, mulherinhas gordas de avental e a luz da estrela que os guia
escorrendo do céu em dois grossos fios de prata. Embaixo, no primeiro
plano, há um grande movimento. De um lado, ardendo na sombra do milagre
e de alguns copinhos coloridos, está o estábulo, onde se dá
o mistério do nascimento de Deus; de outro, uma fachada de papel de
seda, em que eu imagino ver Jerusalém, cujas portas caíram ao
som das trombetas.

O Centro Pastoril tem um reisado em 3 atos, interpretado pela sras. lrma
Serra, Georgina do Nascimento, Maria Fernandes, Elvira de Almeida, Elisa,
Adelina, Esmeralda, Constança, Lauriana e outras meninas. Esse reisado
é exatamente um auto como os fazia mestre Gil Vicente. Os personagens
são o Guia, o Pastor Mestre, o Pastor, a Cigana, Diana Pastorinha,
Galeguinho, Galego e Galega. O Natal é apenas o motivo da cena. Trepado
na gaiola destinada à imprensa ausente, diante de gaiola policial deserta,
apreciei com sabor a evolução do auto e, batendo palmas, parecia
à minha alma que remontáramos quatrocentos anos, ao tempo em
que d. Manuel oferecia ao Papa elefantes brancos ajaezados d’ouro e
o povo acreditava com temor em Deus.

No primeiro ato trata-se da chegada dos pastores e há o canto do dia:

Salve estrela radiante
Doce infante de alegria,
Salve infante, salve aos homens,
E a doce Virgem Maria.

Depois a Cigana, no 2o ato, tem o papel preponderante: esmola, pede, abre
a sacola para que as oferendas caiam, entre as graçolas do Galeguinho,
e no fim ficam os pastores todos sabendo que Jesus nasceu.

Mas ouço por estes montes
Brandas vozes a cantar
Já daqui não me vou
Sem estes sons escutar.

Aí, no Centro Pastoril, a diretoria indica outros presepes. Há
muitos: na Rua Frei Caneca mais dois; na Rua de Santana três, os nos
130 e 27; na Rua Bom Jardim mais dois, em S. Diogo três, e ainda em
S. Clemente, em S. Cristovão, no Estácio, em Itapagipe, em Catumbi
– pobres, humildes, cheios de pompa, modestos, numa diversidade curiosa
e estranha. Conto numa noite só mais de quarenta.

O reisado faz-se em geral aos sábados, mas os proprietários,
que têm Deus na sala, conservam as casas abertas e iluminadas.

– Dá-me licença?

– É a casa de Deus, pode entrar.

Em alguns, senhoras e crianças olham, sonolentas, o presepe ao fundo,
em outros a sala está inteiramente vazia ou os vigilantes dormem na
crepitação das velas. Oh! a estética dos presepes! Que
assombroso charivari de datas, que fonte de idéias e de observações!
Em S. Clemente vem ao estábulo um batalhão francês, no
da Rua de Santana, 130, há um lago com repuxo e peixes do tamanho dos
reis magos, no da Rua da Imperatriz alguns caçadores e um padre conversam
com S. José; em Itapagipe encontrei uma montanha suíça
com uma vaqueira perto do rei Gaspar.

– Por que fazem presepes? indago.

Uns respondem que por promessa, outros sorriem e não dizem palavra.
São os mais numerosos. E a galeria continua a desfilar – presepes
que parecem pombais, feitos de arminho e penas de aves; presepes todos de
bolas de prata com bonequinhos de biscuit; presepes armados com folhas de
latão, castiçais com velas acesas e fotografias contemporâneas,
tendo por lagos, pedaços de espelho e o burro da Virgem com um selim
à moderna; presepes em que no meio do capim há casas de dois
andares com venezianas e caras de raparigas à janela – uma infinidade
inacreditável.

O mais interessante, porém, fui encontrar na praia Formosa, centro
de um cordão carnavalesco de negros baianos. Essas criaturas dão-me
a honra da sua amizade. O presepe está armado no quarto da sala de
visitas.É inaudito, todo verde com lantejoulas de prata.

O céu, pintado por um artista espontâneo, tem, entre nuvens,
sol com uma cara raspada de americano truster, a lua, maior que o sol, a imagem
da Virgem Mãe. Dois raios de filó prata bambamente pendem do
azul sob o estábulo divino, iluminado a giorno. Descendo a montanha,
montados em camelos, vêm os três reis magos, vestidos à
turca e o rei apressado é Baltasar, o preto. Pela encosta do monte
as majestades lendárias encontram, sem pasmo, ânimos imperiais
quase atuais: Napoleão na trágica atitude de Santa Helena, a
defunta imperatriz do Brasil, Bismarck com a sua focinheira de molosso desacorrentado,
uma bailarina com a perna no ar, e um boneco de cacete, calças abombachadas
e chapéu ao alto… Iluminando a agradável confusão,
velas de estearina morrem em castiçais de cobre.

O grupo carnavalesco chama-se Rei de Ouros. Logo que eu apareço e
das janelas escancaradas a tropa me vê, entoa a canção
da entrada:

Tu-tu-tu quem bate à porta
Menina vai ver quem é
É o triunfo Rei de Ouros
Com a sua pastora ao pé.

Dentro move-se, numa alegria carnavalesca, o bando de capoeiras perigosos
da Rua da Conceição, de S. Jorge e da Saúde. A sala tem
cadeiras em roda, ornamentadas de cetim vermelho, cortinas de renda com laçarotes
estridentes. As matronas espapaçam-se nas cadeiras, suando, e, em movimentos
nervosos, agitam-se à sua vista mulatinhas de saiote vermelho, brutamontes
de sapatos de entrada baixa e calção de fantasia de velho e
de rei dos diabos. Há um cheiro impertinente de suor e éter
floral.

– Uma calamistrança pra seu doutô! brada o Dudu, um magro,
conhecido por inventar nomes engraçados, o Bruant da populaça

E a gente do reisado logo batendo palmas, pandeiros e berimbaus:

Ora venha ver o que temos di dá
Garrafas de vinho, doce de araçá.

A manifestação satisfaz. Dudu leva-me quase à força
para um lugar de honra e eu vejo uma mulatinha com o cabelo à Cléo
de Merod, enfiada numa confusa roupagem rubra.

– Quem é aquela?

– É Etelvina. Tá servindo de porta-bandeira…

Não era necessária a explicação. O pessoal, quebrando
todo em saracoteios exóticos, cantava com as veias do pescoço
saltadas:

Porta-bandeira deu siná,
Deu siná no Humaitá,
Porta-bandeira deu siná,
Deu síná tulou, tulou!

Aproveito a consideração do Dudu para compreender o presepe:

– Por que diabo põem vocês o retrato da imperatriz ali?

– A imperatriz era mãe dos brasileiros e está no céu.

– Mas Napoleão, homem, Napoleão?

– Então, gente, ele não foi rei do mundo? Tudo está
ali para honrar o menino Deus.

– A bailarina também?

– A bailarina é enfeite.

– Guardo religiosamente esta profunda resposta.

Os do reisado cantam agora uma certa marcha que faz cócegas. Os versinhos
são errados, mas íntimos e, sibilizados por aquela gente ingenuamente
feroz, dão impressões de carícias:

Sussu sossega
Vai dromi teu sono
Está com medo diga,
Quer dinheiro, tome!

Que tem Sussu com a Epifania? Nada. Essas canções, porém,
são toda a psicologia de um povo, e cada uma delas bastaria para lhe
contar o servilismo, a carícia temerosa, o instinto da fatalidade que
o amolece, e a ironia, a despreocupada ironia do malandro nacional.

– Mas por que, continuo eu curioso, põem vocês junto do
rei Baltasar aquele boneco de cacete?

– Aquele é o rei da capoeiragem. Está perto do Rei Baltasar
porque deve estar. Rei preto também viu a estrela. Deus não
esqueceu a gente. Ora não sei se V. Sa conhece que Baltasar é
pai da raça preta. Os negros da Angola quando vieram para a Bahia trouxeram
uma dança chamada cungu, em que se ensinava a brigar. Cungu com o tempo
virou mandinga e S. Bento.

– Mas que tem tudo isso?…

– Isso, gente, são nomes antigos da capoeiragem. Jogar capoeira
é o mesmo que jogar mandinga.

Rei da capoeiragem tem seu lugar junto de Baltasar. Capoeiragem tem sua religião.

Abri os olhos pasmados. O negro riu.

– V. Sa não conhece a arte? Hoje está por baixo. Valente
de verdade só há mesmo uns dez: João da Sé, Tito
da Praia, Chico Bolivar, Marinho da Silva, Manuel Piquira, Ludgero da Praia,
Manuel Tolo, Moisés, Mariano da Piedade, Cândido Baianinho, outros…Esses
“cabras” sabiam jogar mandinga como homens…

– Então os capoeiras estão nos presepes para acabar com
as presepadas…

– Sim senhor. Capoeiragem é uma arte, cada movimento tem um
nome. É mesmo como sorte de jogo. Eu agacho, prendo V. Sa pelas pernas
e viro – V. Sa virou balão e eu entrei debaixo. Se eu cair virei
boi. Se eu lançar uma tesoura eu sou um porco, porque tesoura não
se usa mais. Mas posso arrastar-lhe uma tarrafa mestra.

– Tarrafa?

– É uma rasteira com força. Ou esperar o degas de galho,
assim duro, com os braços para o ar e se for rapaz da luta, passar-lhe
o tronco na queda, ou, se for arara, arrumar-lhe mesmo o bauú, pontapé
na pança. Ah! V. Sa não imagina que porção de
nomes tem o jogo. Só rasteira, quando é deitada, chama-se banda,
quando com força tarrafa, quando no ar para

bater na cara do cabra meia-lua.

– Mas é um jogo bonito! fiz para contentá-lo.

– Vai até o auô, salto mortal, que se inventou na Bahia.

Para aquela lição tão intempestiva, já se havia
formado um grupo de temperamentos bélicos. Um rapazola falou.

– E a encruzilhada?

– É verdade, não disseste nada de encruzilhada?

E a discussão cresceu. Parecia que iam brigar.

Fora, a chuva jorrava torrencial. Um relógio pôs-se a bater
preguiçosamente meia-noite. As mulatinhas cantavam tristes:

Meu rei de Ouros quem te matou?
Foi um pobre caçadô.

Mas Dudu saltou para o meio da sala. Houve um choque de palmas. E diante
do quarto, onde se confundia o mundo em adoração a Deus, o negro
cantou, acompanhado pelo coro:

Já deu meia-noite
O sol está pendente
Um quilo de carne
Para tanta gente!

Oh! suave ironia dos malandros! Na baiúca havia alegria, parati, álcool,
fantasia, talvez o amor nascido de todas aquelas danças e do insuportável
cheiro do éter floral.

Não havia, porém, com que comer. Diante de Jesus, que só
lhes dera o dia de amanhã, a queixa se desfazia num quase riso. Um
quilo de carne para tanta gente!

Talvez nem isso! Saí, deixei o último presepe.

De longe, a casinhola com as suas iluminações tinha um ar de
sonho sob a chuva, um ar de milagre, o milagre da crença, sempre eterna
e vivaz, saudando o natal de Deus através da ingenuidade dos pobres.
Como seria bom dar-lhes de comer, ó Deus poderoso!

Como lhes daria eu um farto jantar se, como eles, não tivesse apenas
a esperança de amanhã obter um quilo de carne só para
mim!

Como se Ouve a Missa do “Galo”

A missa do “galo” não começa precisamente à
meia-noite e não tem a obrigação de acabar antes de uma
da manhã. A missa só, sem galo, o divino sacrifício de
que os casuístas espanhóis do século XIII faziam a anatomia
– talvez tivesse em tempos remotos uma hora precisa, exata, confirmada
pelo dogma. O galo, porém, varia e canta, ou adiantado ou com atraso.
Ora, o chamar a missa do Natal de Cristo missa do galo é ainda um costume
latino. Os romanos contavam as horas com uma certa poesia. Logo depois da
media nocte, chamavam eles ao tempo gallicinium, hora em que o galo começa
a cantar. A missa realizada, assim, após a media nocte, ficou sendo
a missa do galo, e é ainda o velho e desusado gallicínium que
se recorda quando os sacerdotes levantam a hóstia nos altares, e de
capoeira em capoeira, sonoro e glorioso, se propaga o diálogo dos galos:
Cristo nasceu! Onde? Em Belém…

Eu estava exatamente defronte da igreja de Santana, dispondo de um automóvel
possante. Era a mais que alegre hora da meia-noite que alguns temperamentos
românticos ainda julgam sinistra. Aquele trecho da cidade tinha um aspecto
festivo, um estranho aspecto de anormalidade. Das ruas laterais vindo em fila
famílias da Cidade Nova, primeiro as crianças, depois as mocinhas,
às vezes ladeadas de mancebos amáveis, depois as matronas agasalhadas
em fichus; vinham marchando como quem vai para a ceifa, grossos machacares,
de chapelão e casaco grosso; vinham gingando negrinhas de vestido gomado;
“cabras” de calça bombacha, velhas pretas embrulhadas em
xales. Era como uma série de procissões em que as irmandades
se separavam segundo as classes. No adro, repleto, havia uma mistura de populaça
em festa. Grupos de rapazes berravam graças, bondes paravam despejando
gente, vendedores ambulantes apregoavam doces e comestíveis; todos
os rostos abriam-se em fraterna alegria, e naquela sarabanda humana, naquele
vozear estonteante, uma nota predominava – a do namoro. Os rapazes estavam
ali para namorar, para aproveitar a ocasião. Os encontros tinham sido
de antemão combinados. Quando um grupo familiar encontrava um rapaz
o – oh! seu Antenor! Também por aqui! a resposta: oh! d. Belinha,
então também veio! – soavam como quem diz: oh! não
faltaste… Havia de resto pares de braço dado, meninas que murmuravam
frases ao lado dos mocetões, sob o olhar protetor das mamães…A
missa era um alegre pretexto e, se na classe burguesa o namoro tinha uma cor
tão suave, nas outras irmandades o entusiasmo era maior. Entrei no
templo atrás de um grupo de mocinhos entusiasmados, um dos quais teimava
que havia de apertar, enquanto outro, com uma carta de alfinetes, asseverava
estar disposto a pregar alguns pares. O grupo ria, a igreja estava repleta,
quente, ardendo na nave de humanidade pouco crente, ardendo de doçura
superior nas velas dos altares. Mocinhas irrequietas, rindo, abriam passagem;
rapazes lamentavelmente espirituosos estabeleciam o arrocho, empurrando o
corpo como quem vai dançar o cakewalk e pretalhões de pastinhas,
erguendo alto os chapéus de palha, violentavam a massa com os cotovelos
para chegar ao altar-mor. No ar parado um sino bateu. Houve uma interjeição
prolongada da multidão, ia começar a missa. Era a missa do galo
nos bairros…

Saí suando, tomei o automóvel, nervoso. Ao lado da máquina,
na aglomeração, uma voz de mulher fez de repente:

– Ai!

– Que é? que foi? bradou um vozeirão formidável.

– Cocoricó! cantou um gaiato.

E entre as gargalhadas de mofa escandalosa, o automóvel rodou.

Parei na catedral. A enchente era tão colossal que havia gente até
na rua.

O templo ardia em luzes. De fora viam-se os sacerdotes de sobrepeliz dourada,
a candelária luminosa, os santos, e toda a igreja vibrava das graves
harmonias do órgão, realçadas por um coro abaritonado.
A turba tinha outro aspecto. Senhoras de chapéu, cavalheiros sempre
com esse amável ar conquistador que o homem se arroga nas festas públicas,
de mistura com fuzileiros navais, marinheiros alcoolizados, caixeirinhos do
comércio de roupa nova e com os olhos cheios de sono.

Toda essa gente conseguia entrar e sair, fazer como um torvelinho à
porta, onde duas senhoras vestidas de negro, esticando uma sacola, diziam
maquinalmente: – para a cera! para a cera! Ninguém dava, ninguém
se ralava. O sopro de excitação dos sentidos parecia recrudescido
pelo sopro musical do orgão. Figuras que saíam da igreja vinham
algumas congestas; as que entravam tinham uma violência aguçada
no olhar. Na rua, como que farejando, sujeitos iam e vinham entre os grupos
de malandros ébrios, de negros de capa no braço com um ar de
copeiros de casa rica, de mulheres conversadeiras. Encontro um repórter
de jornal.

– Oh! tu também! que pândega, filho! Mas espera…

Indagou com o olhar a rua, sorriu, apertou-me o braço, apressado:

– Até logo.

Dou de frente com um bando de gente de teatro. Uma das atrizes assegura:

– Estou com os braços doendo…

E logo depois, deixando a atriz, encontro o protetor.

– Viste-a por aí? Olha só aquela família com crianças.
Só nesta terra! Eu não! Ceei com meus filhos: às dez
horas tudo na cama, e às onze deixei de ser pai-de-família.

– Muito bem.

Era a missa do galo na cidade…Que tinha eu? Desgosto? Tristeza? Dor de
cabeça? Sei lá! Despedi-me do ex-pai-de-família, tomei
de novo o automóvel que logo deslizou pela Rua da Assembléia
para cair numa vertiginosa carreira pela Avenida Central.

– Que é aquilo?

– É a missa do convento da Ajuda.

Saltei. A rua estava negra de gente. Os focos elétricos da Avenida
mais de sombra enchiam aquele canto – a porta tão triste onde
a turba se acotovelava.

Um sujeito valente pisou três ou quatro pés, barafustou. Acompanhei-o.
Era a missa lá dentro imersa em tristeza infinda. Até os altares
pareciam mais agourentos, até as imagens guardavam na face uma dor
mais amarga. E a missa trespassava a alma, porque, enquanto o sacerdote ia
e vinha no altar, por trás, na sombra, perpetuamente na sombra, morta,
enterrada, perdida para o mundo, a voz das monjas varava o ar como o som de
um cristal quebrado, retorcia-se no sacrifício do louvor do deus que
nascera de um seio humano, espiralava como uma contorção histérica,
soluçava cantando…

Ia mais adiante, mas na minha frente um latagão bocejou:

– Que cacetada!

– É verdade, vamo-nos, respondeu a companheira.

– Ainda temos tempo de ir a Copacabana.

Consultou o relógio e começou a sair, imprimindo tal movimento
à massa de gente, que eu, com outros mais, de recuar tanto, me achei
de novo na porta triste e humilde.

– Ó José, vamos a Copacabana?

– Anda daí.

Copacabana devia ser divertido. Tomei de novo o automóvel e disse
ao chauffeur:

– Para Copacabana.

Naquele delicioso percurso da Avenida Beira-Mar, toda ensopada de luz elétrica,
outros automóveis de toldo arriado, outros carros, outras conduções
corriam na mesma direção. Homens espapaçados nas almofadas
davam vivas, mulheres de grandes chapéus estralejavam risos, era uma
estrepitosa e inédita corrida para Cítera. Quando, no fim da
avenida, os automóveis seguiram pelas antigas ruas, cada encontro de
bonde era uma catástofre. Os tramways, apesar de comboiarem três
carros, iam com gente até aos tejadilhos, e essa gente furiosa, numa
fúria que lembrava bem a vertigem de Dionísios, berrava, apostrofava,
atirava bengaladas num despejo de corpos e de conveniências. Entretanto,
pelas mesmas ruas, a corrida aumentava e era uma disparada louca entre vociferações,
sons de corneta, tren-ten-tens de bondes, estalar de chicote. Quando passamos
o túnel num fracasso de metralha e demos nos campos de Copacabana,
a velocidade foi vertiginosa, e era apenas vagamente que se divisavam, fugindo
à sanha dos fon-fons, ao estrépito das rodas, a linha de fiéis
da redondeza marginando o capinzal e, à esquerda, num diadema de estrelas,
a iluminação da Igrejinha. Recostei-me. O automóvel saltava
como um orango ébrio, no piso mau. De repente fez uma curva e entrou
numa rua cheia de gente, de carros, de outros automóveis. Estávamos
no grande sítio.

– É aqui?

– É.

Cerca de três mil pessoas – pessoas de todas as classes, desde
a mais alta e a mais rica à mais pobre e à mais baixa, enchia
aquele trecho, subia promontório acima. E o aspecto era edificante.
Grupos de rapazes apostavam em altos berros subir à igreja pela rocha;
mulheres em desvario galgavam a correr por outro lado, patinhando a lama viscosa.
Todos os trajes, todas as cores se confundiam num amálgama formidável,
todos os temperamentos, todas as taras, todos os excessos, todas as perversões
se entrelaçavam. Quis notar o elemento predominante. Num trecho havia
mais pretas com soldados. Adiante logo, o domínio era de gente de serviço
braçal, um pouco mais longe a tropa se fazia de rapazelhos do comércio
e, se dávamos um passo, outro grupo de mocinhas com senhores conquistadores
se nos antolhava. Todo esse pessoal gritava.

Logo na subida encontrei um meninote engolindo uns restos de vinho do Porto
pelo gargalo da garrafa. Em meio do caminho um grupo do Clube dos Democráticos,
de guarda-chuva branco e preto, tocava guitarras e assobios.

De todos os lados partiam cantos de galo. Os cocoricós clássicos
vinham finos, grossos, roufenhos, em falsete: – Cocoricó! Cocoricô!

–Já ouviste cantar o galo?

– Pois hoje não é a missa dele?

– Cocoricó! pega ele pra capar!

– Pega!

A igrejinha estava toda iluminada exteriormente à luz elétrica.
Defronte de sua fachada lateral haviam armado um botequim. A turba arfava
aí, presa entre a bodega e o templo. Quando eu passei, porém,
a bodega fora devorada e bebida. Os caixeiros tinham trepado para os balcões
no desejo de apreciar a cena. Fiz um violento esforço para entrar na
igreja. À porta havia uma verdadeira luta e dentro ninguém se
podia mexer. Divisei apenas como indicação humilde do dia –
um presepe no lado esquerdo, um presepe com pano de fundo representando fielmente
um trecho de Cascadura, e estava assim embebido, quando de repente estalou
o rolo, o rolo rápido e habitual. Um sujeito apanhara uma bengalada,
levantara o guarda-chuva, uma menina gritara: – nunca mais venho à
missa! E no roldão da turba medrosa, de novo caí na ladeira,
ouvindo os cocoricós, as chufas, as graças sórdidas:

– Pega pra capar! Cocoricó! Já ouviste o galo?

No céu cor de chumbo, ameaçador de temporais, espocavam girândolas
de foguetes. E todo aquele trecho, mais aquecido, mais feroz, mais cheio de
gente redobrava de deboche, de frenesi pândego, de loucura, quebrando
copos, cantando, assobiando, praguejando, ganindo.

Atirei-me dentro do automóvel, exausto. A máquina disparou
outra vez, lutando agora contra a massa dos carros, dos automóveis,
dos tramways que chegavam.

– Onde é a Lapa do Desterro?

– Quer ir lá? É uma igreja de gente pobre. E na Lapa.

– Pois vamos lá.

O automóvel quebrou pela Rua da Lapa, parou defronte da velha igreja.
Eram duas horas da manhã. Havia à porta a mesma matula de homens
endomingados à espera da conquista, a mesma sarabanda de sirigaitas.
Entrei. O tapete do templo, velho, esfarripado, tinha por cima, em alguns
trechos, folhas de mangueira. No altar-mor, dos lados, entre panos azuis,
ardiam dois bicos auer, e aquela luz azul como transfigurava o rebátulo,
os acessórios, os ouros despolidos. A concorrência era menor,
na nave, mulheres de xale formavam roda conversando. Andei por ali tristemente.
Ao sair, porém, vi de joelhos um homem.

De joelhos? Na missa do galo? Deus! Quem seria aquele pobre coitado? Aproximei-me.
Era um rapaz – teria no máximo vinte anos. Ao lado o seu chapelão
de coco repousava junto à grossa bengala. No seu corpo ajustava-se
demais um grosso fato de inverno aldeão. De mãos postas, a face
ingênua voltada para o altar, esse ser, numa noite báquica, era
tão anormal, tão extraordinário, que eu cheguei bem perto,
olhei bem, fui ao ponto de curvar-me para lhe espiar os olhos. O pobre sobressaltou-se.

– Meu senhor!

– Que está você a fazer aí?

– Que estava? Ah? perdão…Estava a rezar, estava a pedir ao
Menino Deus que dê saúdinha aos pais lá na terra e que
me proteja.

– Donde é você?

– Saberá V. Sa que do Douro, sim senhor.

Falava de joelhos, a sorrir para mim; pobre alma ingênua e pura de
aldeia, pobre alma que se ia putrefazer na grande cidade, único coração
que adorara Deus entre as dez mil pessoas vistas por mim!

Oh! Tive um ímpeto, o desejo de abraçá-lo, a sensação
de quem, após uma longa desilusão, sente viva no abismo fundo
a flor maravilhosa. Mas já em torno se fazia roda de ociosos, já
um sujeito surgira com um riso de troça.

– Pois faz muito bem. Adeus.

– Adeus, meu senhor!

– E continuou – ó coisa incrível! – de joelhos,
voltado para Deus, lembrando a sua aldeia, lembrando os paizinhos, pedindo
o bem – enquanto pela cidade inteira as ceatas e as pândegas desencadeavam
os ímpetos desaçaimados..

Cordões

Oh! abre ala!
Que eu quero passá
Estrela d’Alva
Do Carnavá!

Era em plena Rua do Ouvidor. Não se podia andar. A multidão
apertava-se, sufocada. Havia sujeitos congestos, forçando a passagem
com os cotovelos, mulheres afogueadas, crianças a gritar, tipos que
berravam pilhérias. A pletora da alegria punha desvarios em todas as
faces. Era provável que do Largo de S. Francisco à Rua Direita
dançassem vinte cordões e quarenta grupos, rufassem duzentos
tambores, zabumbassem cem bombos, gritassem cinqüenta mil pessoas. A
rua convulsionava-se como se fosse fender, rebentar de luxúria e de
barulho. A atmosfera pesava como chumbo. No alto, arcos de gás besuntavam
de uma luz de açafrão as fachadas dos prédios. Nos estabelecimentos
comerciais, nas redações dos jornais, as lâmpadas elétricas
despejavam sobre a multidão uma luz ácida e galvânica,
que enlividescia e parecia convulsionar os movimentos da turba, sob o panejamento
multicolor das bandeiras que adejavam sob o esfarelar constante dos confetti,
que, como um irisamento do ar, caíam, voavam, rodopiavam. Essa iluminação
violenta era ainda aquecida pelos braços de luz auer, pelas vermelhidões
de incêndio e as súbitas explosões azuis e verdes dos
fogos de Bengala; era como que arrepiada pela corrida diabólica e incessante
dos archotes e das pequenas lâmpadas portáteis. Serpentinas riscavam
o ar; homens passavam empapados d’água, cheios de confetti; mulheres
de chapéu de papel curvavam as nucas à etila dos lança-perfumes,
frases rugiam cabeludas, entre gargalhadas, risos, berros, uivos, guinchos.
Um cheiro estranho, misto de perfume barato, fartum, poeira, álcool,
aquecia ainda mais o baixo instinto de promiscuidade. A rua personalizava-se,
tornava-se uma e parecia, toda ela policromada de serpentinas e confetti,
arlequinar o pincho da loucura e do deboche. Nós íamos indo,
eu e o meu amigo, nesse pandemônio. Atrás de nós, sem
colarinho, de pijama, bufando, um grupo de rapazes acadêmicos, futuros
diplomatas e futuras glórias nacionais, berrava furioso a cantiga do
dia, essas cantigas que só aparecem no Carnaval:

Há duas coisa
Que me faz chorá
É nó nas tripa
E bataião navá!

De repente, numa esquina, surgira o pavoroso abre-alas, enquanto, acompanhado
de urros, de pandeiros, de xequerês, um outro cordão surgia.

Sou eu! Sou eu!
Sou eu que cheguei aqui
Sou eu Mina de Ouro
Trazendo nosso Bogari.

Era intimativo, definitivo. Havia porém outro. E esse cantava adulçorado:

Meu beija-flor
Pediu para não contar
O meu segredo
A Iaiá.
Só conto particular.
Iaiá me deixe descansar
Rema, rema, meu amor
Eu sou o rei do pescador.

Na turba compacta o alarma correu. O cordão vinha assustador. A frente
um grupo desenfreado de quatro ou cinco caboclos adolescentes com os sapatos
desfeitos e grandes arcos pontudos corria abrindo as bocas em berros roucos.
Depois um negralhão todo de penas, com a face lustrosa como piche,
a gotejar suor, estendia o braço musculoso e nu sustentando o tacape
de ferro. Em seguida gargolejava o grupo vestido de vermelho e amarelo com
lantejoulas d’ouro a chispar no dorso das casacas e grandes cabeleiras
de cachos, que se confundiam com a epiderme num empastamento nauseabundo.
Ladeando o bolo, homens em tamancos ou de pés nus iam por ali, tropeçando,
erguendo archotes, carregando serpentes vivas sem os dentes, lagartos enfeitados,
jabutis aterradores com grandes gritos roufenhos.

Abriguei-me a uma porta. Sob a chuva de confetti, o meu companheiro esforçava-se
por alcançar-me.

– Por que foges?

– Oh! estes cordões! Odeio o cordão.

– Não é possível.

– Sério!

Ele parou, sorriu:

– Mas que pensas tu? O cordão é o carnaval, o cordão
é vida delirante, o cordão é o último elo das
religiões pagãs. Cada um desses pretos ululantes tem por sob
a belbutina e o reflexo discrômico das lantejoulas, tradições
milenares; cada preta bêbada, desconjuntando nas tarlatanas amarfanhadas
os quadris largos, recorda o delírio das procissões em Biblos
pela época da primavera e a fúria rábida das bacantes.
Eu tenho vontade, quando os vejo passar zabumbando, chocalhando, berrando,
arrastando a apoteose incomensurável do rumor, de os respeitar, entoando
em seu louvor a “prosódia” clássica com as frases
de Píndaro – salve grupos floridos, ramos floridos da vida…

Parei a uma porta, estendo as mãos.

– É a loucura, não tem dúvida, é a loucura.
Pois é possível louvar o agente embrutecedor das cefalgias e
do horror?

– Eu adoro o horror. É a única feição verdadeira
da humanidade. E por isso adoro os cordões, a vida paroxismada, todos
os sentimentos tendidos, todas as cóleras a rebentar, todas as ternuras
ávidas de torturas.

Achas tu que haveria carnaval se não houvesse os cordões? Achas
tu que bastariam os préstitos idiotas de meia dúzia de senhores
que se julgam engraçadíssimos ou esse pesadelo dos três
dias gordos intitulado – máscaras de espírito? Mas o Carnaval
teria desaparecido, seria hoje menos que a festa da Glória ou o “bumba-meu-boi”
se não fosse o entusiasmo dos grupos da Gamboa, do Saco, da Saúde,
de S. Diogo, da Cidade Nova, esse entusiasmo ardente, que meses antes dos
três dias vem queimando como pequenas fogueiras crepitantes para acabar
no formidável e total incêndio que envolve e estorce a cidade
inteira. Há em todas as sociedades, em todos os meios, em todos os
prazeres, um núcleo dos mais persistentes, que através do tempo
guarda a chama pura do entusiasmo. Os outros são mariposas, aumentam
as sombras, fazem os efeitos.

Os cordões são os núcleos irredutíveis da folia
carioca, brotam como um fulgor mais vivo e são antes de tudo bem do
povo, bem da terra, bem da alma encantadora e bárbara do Rio.

Quantos cordões julgas que há da Urca ao Caju? Mais de duzentos!
E todos, mais de duas centenas de grupos, são inconscientemente os
sacrários da tradição religiosa da dança, de um
costume histórico e de um hábito infiltrado em todo o Brasil.

– Explica-te! bradei eu, fugindo para outra porta, sob uma avalanche
de confetti e velhas serpentinas varridas de uma sacada.

Atrás de mim, todo sujo, com fitas de papel velho pelos ombros, o
meu companheiro continuou:

– Eu explico. A dança foi sempre uma manifestação
cultual. Não há danças novas; há lentas transformações
de antigas atitudes de culto religioso. O bailado clássico das bailarinas
do Scala e da Ópera tem uma série de passos do culto bramânico,
o minueto é uma degenerescência da reverência sacerdotal,
e o cakewalk e o maxixe, danças delirantes, têm o seu nascedouro
nas correrias de Dionísios e no pavor dos orixalás da África.
A dança saiu dos templos; em todos os templos se dançou, mesmo
nos católicos.

O meu amigo falava intercortado, gesticulando. Começava desconfiar
da sua razão. Ele, entretanto, esticando o dedo, bradava no torvelinho
da rua:

– O Carnaval é uma festa religiosa, é o misto dos dias
sagrados de Afrodita e Dionísios, vem coroado de pâmpanos e cheirando
a luxúria. As mulheres entregam-se; os homens abrem-se; os instrumentos
rugem; estes três dias ardentes, coruscantes são como uma enorme
sangria na congestão dos maus instintos. Os cordões saíram
dos templos! Ignoras a origem dos cordões? Pois eles vêm da festa
de N. Sª do Rosário, ainda nos tempos coloniais. Não sei
por que os pretos gostam da N. Sa do Rosário… Já naquele tempo
gostavam e saíam pelas ruas vestidos de reis, de bichos, pajens, de
guardas, tocando instrumentos africanos, e paravam em frente à casa
do vice-rei a dançar e cantar. De uma feita, pediram ao vice-rei um
dos escravos para fazer de rei. O homem recusou a lisonja que dignificava
o servo, mas permitiu os folguedos. E estes folguedos ainda subsistem com
simulacros de batalha, e quase transformados, nas cidades do interior. Havia
uma certa conexão nas frases do cavalheiro que me acompanhava; mas,
cada vez mais receoso da apologia, eu andava agora quase a correr. Tive, porém,
de parar. Era o “Grêmio Carnavalesco Destemidos do lnferno”,
arrastando seis estandartes cobertos de coroas de louro. Os homens e as mulheres,
vestidos de preto, amarelo e encarnado, pingando suor, zé-pereiravam:

Os roxinóis estão a cantar
Por cima do carramanchão
Os Destemidos do Inferno
Tenho por eles paixão.

E logo vinha a chula:

Como és tão linda!
Como és formosa!
Olha os destemidos
No galho da rosa.

– Como é idiota!

– É admirável. Os poetas simbolistas são ainda
mais obscuros. Ora escuta este, aqui ao lado.

Vinte e sete bombos e tambores rufavam em torno de nós com a fúria
macabra de nos desparafusar os tímpanos. Voltei-me para onde me guiava
o dedo conhecedor do Píndaro daquele desespero e vi que cerca de quarenta
seres humanos cantavam com o lábio grosso, úmido de cuspo, estes
versos:

Três vezes nove
Vinte e sete
Bela morena
Me empresta seu leque
Eu quero conhecer
Quem é o treme terra?
No campo de batalha
Repentinos dá sinal da guerra.

Entretanto, os Destemidos tinham parado também. Vinham em sentido
contrário, fazendo letras complicadas pela rua forrada de papel policromo,
sob a ardência das lâmpadas e dos arcos, o grupo da “Rainha
do Mar” e o grupo dos “Filhos do Relâmpago do Mundo Novo”.
Os da Rainha cantavam em bamboleios de onda:

Moreninha bela
Hei de te amar
Sonhando contigo
Nas ondas do mar.

Os do Relâmpago, chocalhando chocalhos, riscando xequedês, berravam
mais apressados:

No triná das ave
Vem rompendo a aurora
Ela de saudades
Suspirando chora.
Sou o Ferramenta
Vim de Portugá
O meu balão
Chama Nacioná.

Senhor Deus! Era a loucura, o pandemônio do barulho e da sandice. O
fragor porém aumentava, como se concentrando naquele ponto, e, esticando
os pés, eu vi por trás da “Rainha do Mar” uma serenata,
uma autêntica serenata com cavaquinhos, violões, vozes em ritornelo
sustentando fermatas langorosas. Era a “Papoula do Japão”:

Toda a gente pressurosa
Procura flor em botão
É uma flor recém-nascida
A papoula do Japão
Docemente se beijava
Uma… rola
Atraída pelo aroma
Da… papoula…

– Vamos embora. Acabo tendo uma vertigem.

– Admira a confusão, o caos ululante. Todos os sentimentos todos
os fatos do ano reviravolteiam, esperneiam, enlanguescem, revivem nessas quadras
feitas apenas para acertar com a toada da cantiga. Entretanto, homem frio,
é o povo que fala. Vê o que é para ele a maior parte dos
acontecimentos.

– Quantos cordões haverá nesta rua?

– Sei lá – quarenta, oitenta, cem, dançando em
frente à redação dos jornais. Mas, caramba! olha o brilho
dos grupos, louva-lhes a prosperidade. O cordão da Senhora do Rosário
passou ao cordão de Velhos. Depois dos Velhos os Cucumbis. Depois dos
Cucumbis os Vassourinhas. Hoje são duzentos.

– É verdade, com a feição feroz da ironia que
esfaqueia os deuses e os céus – fiz eu recordando a frase apologista.

– Sim, porque a origem dos cordões é o Afoxé africano,
em que se debocha a religião.

– O Afoxé? insisti, pasmado.

– Sim, o Afoxé. É preciso ver nesses bandos mais do que
uma correria alegre – a psicologia de um povo. O cordão tem antes
de tudo o sentimento da hierarquia e da ordem.

– A ordem na desordem?

– É um lema nacional. Cada cordão tem uma diretoria.
Para as danças há dois fiscais, dois mestres-sala, um mestre
de canto, dois porta-machados, um achinagú ou homem da frente, vestido
ricamente. Aos títulos dos cordões pode-se aplicar uma das leis
de filosofia primeira e concluir daí todas as idéias dominantes
na populaça. Há uma infinidade que são caprichosos e
outros teimosos. Perfeitamente pessoal da lira: – Agora é capricho!
Quando eu teimo, teimo mesmo!

Nota depois a preocupação de maravilhar, com ouro, com prata,
com diamantes, que infundem o respeito da riqueza – Caju de Ouro, Chuveiro
de Ouro, Chuva de Prata, Rosa de Diamantes, e às vezes coisas excepcionais
e únicas – Relâmpago do Mundo Novo. Mas o da grossa população
é a flor da gente, tendo da harmonia a constante impressão das
gaitas,
cavaquinhos, dos violões, desconhecendo a palavra, talvez apenas sentindo-a
como certos animais que entendem discursos e sofrem a ação dos
sons. Há quase tantos cordões intitulados Flor e Harmonia, como
há Teimosos e Caprichosos. Um mesmo chama-se Flor da Harmonia, como
há outro intitulador Flor do Café.

– Não te parece? Vai-se aos poucos detalhando a alma nacional
nos estandartes dos cordões. Oliveira Gomes, esse ironista sutil, foi
mais longe, estudou-lhes a zoologia. Mas, se há Flores, Teimosos, Caprichosos
e Harmonias, os que querem espantar com riquezas e festas nunca vistas, há
também os preocupados com as vitórias e os triunfos, os que
antes de sair já são Filhos do Triunfo da Glória, Vitoriosos
das Chamas, Vitória das Belas, Triunfo das Morenas.

– Acho gentil essa preocupação de deixar vencer as mulheres.

– A morena é uma preocupação fundamental da canalha.
E há ainda mais, meu amigo, nenhum desses grupos intitula-se republicano,
Republicanos da Saúde, por exemplo. E sabe por quê? Porque a
massa é monarquista. Em compensação abundam os reis,
as rainhas, os vassalos, reis de ouro, vassalos da aurora, rainhas do mar,
há patriotas tremendos e a ode ao Brasil vibra infinita.

Neste momento tínhamos chegado a uma esquina atulhada de gente. Era
impossível passar. Dançando e como que rebentando as fachadas
com uma “pancadaria” formidável, estavam os do “Prazer
da Pedra Encantada” e cantavam:

Tanta folia, Nenê!
Tanto namoro;
A “Pedra Encantada”, ai! ai!
Coberta de ouro!

E o coro, furioso:

Chegou o povo, Nenê Floreada
É o pessoal, ai! ai!
Da “Pedra Encantada”.

Mas a multidão, sufocada, ficava em derredor da “Pedra”
entaipada por outros quatro cordões que se encontravam numa confluência
perigosa. Apesar do calor, corria um frio de medo; as batalhas de confetti
cessavam; os gritos, os risos, as piadas apagavam-se, e só, convulsionando
a rua, como que sacudindo as casas, como que subindo ao céus, o batuque
confuso, epiléptico, dos atabaques, “xequedés”, pandeiros
e tambores, os pancadões dos bombos, os urros das cantigas berradas
para dominar os rivais, entre trilos de apitos, sinais misteriosos cortando
a zabumbada delirante como a chamar cada um dos tipos à realidade de
um compromisso anterior. Eram a “Rosa Branca”, negros lantejoulantes
da Rua dos Cajueiros, os “Destemidos das Chamas”, os “Amantes
do Sereno” e os “Amantes do Beijaflor”! Os negros da “Rosa”,
abrindo muito as mandíbulas, cantavam:

No Largo de S. Francisco
Quando a corneta tocou
Era o triunfo “Rosa Branca”
Pela Rua do Ouvidô.

Os “Destemidos”, em contraposição, eram patriotas:

Rapaziada, bate,
Bate com maneira
Vamos dar um viva
À bandeira brasileira

Os “Amantes do Sereno”, dengosos, suavizavam:

Aonde vais, Sereno
Aonde vais, com teu amor?
Vou ao Campo de Santana
Ver a batalha de flô.

E no meio daquela balbúrdia infernal, como uma nota ácida de
turba que chora as suas desgraças divertindo-se, que soluça
cantando, que se mata sem compreender, este soluço mascarado, esta
careta d’Arlequim choroso elevava-se do “Beija-Flor”:

A 21 de janeiro
O “Aquidabã” incendiou
Explodiu o paiol de pólvora
Com toda gente naufragou

E o coro:

Os filhinhos choram
Pelos pais queridos.
As viúvas soluçam
Pelos seus maridos.

Era horrível. Fixei bem a face intumescida dos cantores. Nem um deles
sentia ou sequer compreendia a sacrílega menipéia desvairada
do ambiente, Só a alma da turba consegue o prodígio de ligar
o sofrimento e o gozo na mesma lei de fatalidade, só o povo diverte-se
não esquecendo as suas chagas, só a populaça desta terra
de sol encara sem pavor a morte nos sambas macabros do Carnaval.

– Estás atristado pelos versos do “Beija-Flor”? Há
uma porção de grupos que comentam a catástofre. Ainda
há instantes passou a “Mina de Ouro”. Sabes qual é
a marcha dessa sociedade? Esta sandice tétrica:

Corremos, corremos
Povo brasileiro
Para salvar do “Aquidabâ”
Os patriotas marinheiros.

Isto no carnaval quando todos nós sentimos irreparável a desgraça.
Mas o cordão perderia a sua superioridade de vivo reflexo da turba
se não fosse esse misto indecifrável de dor e pesar. Todos os
anos as suas cantigas comemoram as fatalidades culminantes.

Neste momento, porém, os “Amantes de Sereno” resolveram
voltar. Houve um trilo de apito, a turba fendeu-se. Dois rapazinhos vestidos
de belbutina começaram a fazer “letra” com grandes espadas
de pau prateado, dando pulos quebrando o corpo. Depois, o achinagú
ou homem da frente, todo coberto de lantejoulas, deu uma volta sob a luz clara
da luz elétrica e o bolo todo golfou – diabos, palhaços,
mulheres, os pobres que não tinham conseguido fantasias e carregavam
os archotes, os fogos de bengala, as lâmpadas de querosene. A multidão
aproveitou o vazio e precipitou-se. Eu e meu amigo caímos na corrente
impetuosa.

Oh! sim! ele tinha razão! O cordão é o carnaval, é
o último elo das religiões pagãs, é bem o conservador
do sagrado dia do deboche ritual; o cordão é a nossa alma ardente,
luxuriosa, triste, meio escrava e revoltosa, babando lascívia pelas
mulheres e querendo maravilhar, fanfarrona, meiga, bárbara, lamentável.
.

Toda a rua rebentava no estridor dos bombos. Outras canções
se ouviam. E, agarrado ao braço do meu amigo, arrastado pela impetuosa
corrente aberta pela passagem dos “Amantes do Sereno”, eu continuei
rua abaixo, amarrado ao triunfo e à fúria do cordão!…

Três Aspectos da Miséria

As Mariposas do Luxo

– Olha, Maria…

– É verdade! Que bonito!

As duas raparigas curvam-se para a montra, com os olhos ávidos, um
vinco estranho nos lábios.

Por trás do vidro polido, arrumados com arte, entre estatuetas que
apresentam pratos com bugingangas de fantasia e a fantasia policroma de coleções
de leques, os desdobramentos das sedas, das plumas, das guipures, das rendas.

É a hora indecisa em que o dia parece acabar e o movimento febril
da Rua do Ouvidor relaxa-se, de súbito, como um delirante a gozar os
minutos de uma breve acalmia. Ainda não acenderam os combustores, ainda
não ardem a sua luz galvânica os focos elétricos. Os relógios
acabaram de bater, apressadamente, seis horas. Na artéria estreita
cai a luz acinzentada das primeiras sombras – uma luz muito triste,
de saudade e de mágoa. Em algumas casas correm com fragor as cortinas
de ferro. No alto, como o teto custoso do beco interminável, o céu,
de uma pureza admirável, parecendo feito de esmaltes translúcidos
superpostos, rebrilha, como uma jóia em que se tivessem fundido o azul
de Nápoles, o verde perverso de Veneza, os ouros e as pérolas
do Oriente.

Já passaram as professional beauties, cujos nomes os jornais citam;
já voltaram da sua hora de costureiro ou de joalheiro as damas do alto
tom; e os nomes condecorados da finança e os condes do Vaticano e os
rapazes elegantes e os deliciosos vestidos claros airosamente ondulantes já
se sumiram, levados pelos “autos”, pelas parelhas fidalgas, pelos
bondes burgueses. A rua tem de tudo isso uma vaga impressão, como se
estivesse sob o domínio da alucinação, vendo passar um
préstito que já passou. Há um hiato na feira das vaidades:
sem literatos, sem poses, sem flirts. Passam apenas trabalhadores de volta
da faina e operárias que mourejaram todo o dia.

Os operários vêm talvez mal-arranjados, com a lata do almoço
presa ao dedo mínimo. Alguns vêm de tamancos. Como são
feios os operários ao lado dos mocinhos bonitos de ainda há
pouco! Vão conversando uns com os outros, ou calados, metidos com o
próprio eu. As raparigas ao contrário: vêm devagar, muito
devagar, quase sempre duas a duas, parando de montra em montra, olhando, discutindo,
vendo.

– Repara só, Jesuína.

– Ah! minha filha. Que lindo!…

Ninguém as conhece e ninguém nelas repara, a não ser
um ou outro caixeiro em mal de amor ou algum pícaro sacerdote de conquistas.

Elas, coitaditas! passam todos os dias a essa hora indecisa, parecem sempre
pássaros assustados, tontos de luxo, inebriados de olhar. Que lhes
destina no seu mistério a vida cruel? Trabalho, trabalho; a perdição,
que é a mais fácil das hipóteses; a tuberculose ou o
alquebramento numa ninhada de filhos. Aquela rua não as conhecerá
jamais. Aquele luxo será sempre a sua quimera.

São mulheres. Apanham as migalhas da feira. São as anônimas,
as fulanitas do gozo, que não gozam nunca. E então, todo dia,
quando céu se rocalha de ouro e já andam os relógios
pelas seis horas, haveis vê-las passar, algumas loiras, outras morenas,
quase todas mestiças. A idade dá-lhes a elasticidade dos gestos,
o jeito bonito do andar e essa beleza passageira que chamam – do diabo.
Os vestidos são pobres: saias escura sempre as mesmas; blusa de chitinha
rala. Nos dias de chuva um parágua e a indefectível pelerine.
Mas essa miséria é limpa, escovada. As botas brilham, a saia
não tem uma poeira, as mãos foram cuidadas. Há nos lóbulos
de algumas orelhas brincos simples, fechando as blusas lavadinhas, broches
“montana”, donde escorre o fio de uma chatelaine.

Há mesmo anéis – correntinhas de ouro, pedras que custam
barato; coralinas, lápis-lazúli, turquesas falsas. Quantos sacrifícios
essa limpeza não representa? Quantas concessões não atestam,
talvez, os modestos pechisbeques!

Elas acordaram cedo, foram trabalhar. Voltam para o lar semconforto, com
todas as ardências e os desejos indomáveis dos vinte anos.

A rua não lhes apresenta só o amor, o namoro, o desvio…Apresenta-lhes
o luxo. E cada montra é a hipnose e cada rayon de modas é o
foco em torno do qual reviravolteiram e anseiam as pobres mariposas.

– Ali no fundo, aquele chapéu…

– O que tem uma pluma?

– Sim, uma pluma verde… Deve ser caro, não achas?

São duas raparigas, ambas morenas. A mais alta alisa instintivamente
os bandós, sem chapéu, apenas com pentes de ouro falso. A montra
reflete-lhe o perfil entre as plumas, as rendas de dentro; e enquanto a outra
afunda o olhar nos veludos que realçam toda a espetaculização
do luxo, enquanto a outra sofre aquela tortura de Tântalo, ela mira-se,
afina com as duas mãos a cintura, parece pensar coisas graves. Chegam,
porém, mais duas. A pobreza feminina não gosta dos flagrantes
de curiosidade invejosa. O par que chega, por último, pára hesitante.
A rapariga alta agarra o braço da outra:

– Anda daí! Pareces criança.

– Que véus, menina! que véus!…

– Vamos. Já escurece.

Param, passos adiante, em frente às enormes vitrinas de uma grande
casa de modas. As montras estão todas de branco, de rosa, de azul;
desdobram-se em sinfonias de cores suaves e claras, dessas cores que alegram
a alma. E os tecidos são todos leves – irlandas, guipures, pongées,
rendas. Duas bonecas de tamanho natural – as deusas do “Chiffon”
nos altares da frivolidade – vestem com uma elegância sem par;
uma de branco, robe Empire; outra de rosa, com um chapéu cuja pluma
negra deve custar talvez duzentos mil réis.

Quanta coisa! quanta coisa rica! Elas vão para a casa acanhada jantar,
aturar as rabugices dos velhos, despir a blusa de chita – a mesma que
hão de vestir amanhã…E estão tristes. São os
pássaros sombrios no caminho das tentações. Morde-lhes
a alma a grande vontade de possuir, de ter o esplendor que se lhes nega na
polidez espelhante dos vidros.

Por que pobres, se são bonitas, se nasceram também para gozar,
para viver?

Há outros pares gárrulos, alegres, doidivanas, que riem, apontam,
esticam o dedo, comentam alto, divertem-se, talvez mais felizes e sempre mais
acompanhadas. O par alegre entontece diante de uma casa de flores, vendo as
grandes corbeilles, o arranjo sutil das avencas, dos cravos, das angélicas,
a graça ornamental dos copos de leite, o horror atraente das parasitas
raras.

– Sessenta mil réis aquela cesta! Que caro! Não é
para enterro, pois não?

– Aquilo é para as mesas. Olhe aquela florzinha. Só uma,
por vinte mil réis.

– Você acha que comprem?

– Ora, para essa moças…os homens são malucos.

As duas raparigas alegres encontram-se com as duas tristes defronte de uma
casa de objetos de luxo, porcelanas, tapeçarias. Nas montras, com as
mesmas atitudes, as estátuas de bronze, de prata, de terracota, as
cerâmicas de cores mais variadas repousam entre tapetes estranhos, tapetes
nunca vistos, que parecem feitos de plumas de chapéu. Que engraçado!
Como deve ser bom pôr os pés na maciez daquela plumagem! As quatro
trocam idéias.

– De que será?

A mais pequena lembra perguntar ao caixeiro, muito importante, à porta.
As outras tremem.

– Não vá dar uma resposta má…

– Que tem?

Hesita, sorri, indaga:

– O senhor faz favor de dizer… Aqueles tapetes?…

O caixeiro ergue os olhos irônicos.

– Bonitos, não é? São de cauda de avestruz. Foram
precisos quarenta avestruzes para fazer o menor. A senhora deseja comprar?

Ela fica envergonhadíssima; as outras também. Todas riem tapando
os lábios com o lenço, muito coradas e muito nervosas.

Comprar! Não ter dinheiro para aquele tapete extravagante parece-lhes
ao mesmo tempo humilhante e engraçado.

– Não, senhor, foi só para saber. Desculpe…

E partem. Seguem como que enleadas naquele enovelamento de coisas capitosas
– montras de rendas, montras de perfumes, montras toilettes, montras
de flores – a chamá-las, a tentá-las, a entontecê-las
com corrosivo desejo de gozar. Afinal, param nas montras dos ourives.

Toda a atmosfera já tomou um tom de cinza escuro. Só o céu
de verão, no alto, parece um dossel de paraíso, com o azul translúcido
a palpitar uma luz misteriosa. Já começaram a acender os combustores
na rua, já as estrelas de ouro ardem no alto. A rua vai de novo precipitar-se
no delírio.

Elas fixam a atenção. Nenhuma das quatro pensa em sorrir. A
jóia é a suprema tentação. A alma da mulher exterioriza-se
irresistivelmente diante dos adereços. Os olhos cravam-se ansiosos,
numa atenção comovida que guarda e quer conservar as minúcias
mais insignificantes. A prudência das crianças pobres fá-las
reservadas.

– Oh! aquelas pedras negras!

– Três contos!

Depois, como se ao lado um príncipe invisível estivesse a querer
recompensar a mais modesta, comentam as jóias baratas, os objetos de
prata, as bolsinhas, os broches com corações, os anéis
insignificantes.

– Ah! se eu pudesse comprar aquele!

– É só quarenta e cinco! E aquele reloginho, vês?
de ouro…

Mas, lá dentro, o joalheiro abre a comunicação elétrica,
e de súbito, a vitrina, que morria na penumbra, acende violenta, crua,
brutalmente, fazendo faiscar os ouros, cintilar os brilhantes, coriscar os
rubis, explodir a luz veludosa das safiras, o verde das esmeraldas, as opalas,
os esmaltes, o azul das turquesas. Toda a montra é um tesouro no brilho
cegador e alucinante das pedrarias.

Elas olham sérias, o peito a arfar. Olham muito tempo e, ali, naquele
trecho de rua civilizada, as pedras preciosas operam, nas sedas dos escrínios,
os sortilégios cruéis dos antigos ocultistas. As mãozinhas
bonitas apertam o cabo da sombrinha como querendo guardar um pouco de tanto
fulgor; os lábios pendem no esforço da atenção;
um vinco ávido acentua os semblantes. Onde estará o príncipe
encantador? Onde estará o velho d. João?

Um suspiro mais forte – a coragem da que se libertou da hipnose –
fá-las despegar-se do lugar. É noite. A rua delira de novo.
À porta dos cafés e das confeitarias, homens, homens, um estridor,
uma vozeria. Já se divisam perfeitamente as pessoas no Largo de S.
Francisco – onde estão os bondes para a Cidade Nova, para a Rua
da América, para o Saco. Elas tomam um ar honesto. Os tacões
das botinas batem no asfalto. Vão como quem tem pressa, como quem perdeu
muito tempo.

Da Avenida Uruguaiana para diante não olham mais nada, caladas, sem
comentários.

Afinal chegam ao Largo. Um adeus, dois beijos, “até amanhã!”

Até amanhã! Sim, elas voltarão amanhã, elas voltam
todo dia, elas conhecem nas suas particularidades todas as montras da feira
das tentações; elas continuarão a passar, à hora
do desfalecimento da artéria, mendigas do luxo, eternas fulanitas da
vaidade, sempre com a ambição enganadora de poder gozar as jóias,
as plumas, as rendas, as flores.

Elas hão de voltar, pobrezinhas – porque a esta hora, no canto
do bonde, tendo talvez ao lado o conquistador de sempre, arfa-lhes o peito
e têm as mãos frias com a idéia desse luxo corrosivo.
Hão de voltar, caminho da casa, parando aqui, parando acolá,
na embriaguez da tentação – porque a sorte as fez mulheres
e as fez pobres, porque a sorte não lhes dá, nesta vida de engano,
senão a miragem do esplendor para perdê-las mais depressa.

E haveis então de vê-las passar, as mariposas do luxo, no seu
passinho modesto, duas a duas, em pequenos grupos, algumas loiras, outras
morenas…

– Olha, Maria…

– É verdade! Que bonito!

As duas raparigas curvam-se para a montra, com os olhos ávidos, um
vinco estranho nos lábios.

Por trás do vidro polido, arrumados com arte, entre estatuetas que
apresentam pratos com bugingangas de fantasia e a fantasia policroma de coleções
de leques, os desdobramentos das sedas, das plumas, das guipures, das rendas.

É a hora indecisa em que o dia parece acabar e o movimento febril
da Rua do Ouvidor relaxa-se, de súbito, como um delirante a gozar os
minutos de uma breve acalmia. Ainda não acenderam os combustores, ainda
não ardem a sua luz galvânica os focos elétricos. Os relógios
acabaram de bater, apressadamente, seis horas. Na artéria estreita
cai a luz acinzentada das primeiras sombras – uma luz muito triste,
de saudade e de mágoa. Em algumas casas correm com fragor as cortinas
de ferro. No alto, como o teto custoso do beco interminável, o céu,
de uma pureza admirável, parecendo feito de esmaltes translúcidos
superpostos, rebrilha, como uma jóia em que se tivessem fundido o azul
de Nápoles, o verde perverso de Veneza, os ouros e as pérolas
do Oriente.

Já passaram as professional beauties, cujos nomes os jornais citam;
já voltaram da sua hora de costureiro ou de joalheiro as damas do alto
tom; e os nomes condecorados da finança e os condes do Vaticano e os
rapazes elegantes e os deliciosos vestidos claros airosamente ondulantes já
se sumiram, levados pelos “autos”, pelas parelhas fidalgas, pelos
bondes burgueses. A rua tem de tudo isso uma vaga impressão, como se
estivesse sob o domínio da alucinação, vendo passar um
préstito que já passou. Há um hiato na feira das vaidades:
sem literatos, sem poses, sem flirts. Passam apenas trabalhadores de volta
da faina e operárias que mourejaram todo o dia.

Os operários vêm talvez mal-arranjados, com a lata do almoço
presa ao dedo mínimo. Alguns vêm de tamancos. Como são
feios os operários ao lado dos mocinhos bonitos de ainda há
pouco! Vão conversando uns com os outros, ou calados, metidos com o
próprio eu. As raparigas ao contrário: vêm devagar, muito
devagar, quase sempre duas a duas, parando de montra em montra, olhando, discutindo,
vendo.

– Repara só, Jesuína.

– Ah! minha filha. Que lindo!…

Ninguém as conhece e ninguém nelas repara, a não ser
um ou outro caixeiro em mal de amor ou algum pícaro sacerdote de conquistas.

Elas, coitaditas! passam todos os dias a essa hora indecisa, parecem sempre
pássaros assustados, tontos de luxo, inebriados de olhar. Que lhes
destina no seu mistério a vida cruel? Trabalho, trabalho; a perdição,
que é a mais fácil das hipóteses; a tuberculose ou o
alquebramento numa ninhada de filhos. Aquela rua não as conhecerá
jamais. Aquele luxo será sempre a sua quimera.

São mulheres. Apanham as migalhas da feira. São as anônimas,
as fulanitas do gozo, que não gozam nunca. E então, todo dia,
quando céu se rocalha de ouro e já andam os relógios
pelas seis horas, haveis vê-las passar, algumas loiras, outras morenas,
quase todas mestiças. A idade dá-lhes a elasticidade dos gestos,
o jeito bonito do andar e essa beleza passageira que chamam – do diabo.
Os vestidos são pobres: saias escura sempre as mesmas; blusa de chitinha
rala. Nos dias de chuva um parágua e a indefectível pelerine.
Mas essa miséria é limpa, escovada. As botas brilham, a saia
não tem uma poeira, as mãos foram cuidadas. Há nos lóbulos
de algumas orelhas brincos simples, fechando as blusas lavadinhas, broches
“montana”, donde escorre o fio de uma chatelaine.

Há mesmo anéis – correntinhas de ouro, pedras que custam
barato; coralinas, lápis-lazúli, turquesas falsas. Quantos sacrifícios
essa limpeza não representa? Quantas concessões não atestam,
talvez, os modestos pechisbeques!

Elas acordaram cedo, foram trabalhar. Voltam para o lar semconforto, com
todas as ardências e os desejos indomáveis dos vinte anos.

A rua não lhes apresenta só o amor, o namoro, o desvio…Apresenta-lhes
o luxo. E cada montra é a hipnose e cada rayon de modas é o
foco em torno do qual reviravolteiram e anseiam as pobres mariposas.

– Ali no fundo, aquele chapéu…

– O que tem uma pluma?

– Sim, uma pluma verde… Deve ser caro, não achas?

São duas raparigas, ambas morenas. A mais alta alisa instintivamente
os bandós, sem chapéu, apenas com pentes de ouro falso. A montra
reflete-lhe o perfil entre as plumas, as rendas de dentro; e enquanto a outra
afunda o olhar nos veludos que realçam toda a espetaculização
do luxo, enquanto a outra sofre aquela tortura de Tântalo, ela mira-se,
afina com as duas mãos a cintura, parece pensar coisas graves. Chegam,
porém, mais duas. A pobreza feminina não gosta dos flagrantes
de curiosidade invejosa. O par que chega, por último, pára hesitante.
A rapariga alta agarra o braço da outra:

– Anda daí! Pareces criança.

– Que véus, menina! que véus!…

– Vamos. Já escurece.

Param, passos adiante, em frente às enormes vitrinas de uma grande
casa de modas. As montras estão todas de branco, de rosa, de azul;
desdobram-se em sinfonias de cores suaves e claras, dessas cores que alegram
a alma. E os tecidos são todos leves – irlandas, guipures, pongées,
rendas. Duas bonecas de tamanho natural – as deusas do “Chiffon”
nos altares da frivolidade – vestem com uma elegância sem par;
uma de branco, robe Empire; outra de rosa, com um chapéu cuja pluma
negra deve custar talvez duzentos mil réis.

Quanta coisa! quanta coisa rica! Elas vão para a casa acanhada jantar,
aturar as rabugices dos velhos, despir a blusa de chita – a mesma que
hão de vestir amanhã…E estão tristes. São os
pássaros sombrios no caminho das tentações. Morde-lhes
a alma a grande vontade de possuir, de ter o esplendor que se lhes nega na
polidez espelhante dos vidros.

Por que pobres, se são bonitas, se nasceram também para gozar,
para viver?

Há outros pares gárrulos, alegres, doidivanas, que riem, apontam,
esticam o dedo, comentam alto, divertem-se, talvez mais felizes e sempre mais
acompanhadas. O par alegre entontece diante de uma casa de flores, vendo as
grandes corbeilles, o arranjo sutil das avencas, dos cravos, das angélicas,
a graça ornamental dos copos de leite, o horror atraente das parasitas
raras.

– Sessenta mil réis aquela cesta! Que caro! Não é
para enterro, pois não?

– Aquilo é para as mesas. Olhe aquela florzinha. Só uma,
por vinte mil réis.

– Você acha que comprem?

– Ora, para essa moças…os homens são malucos.

As duas raparigas alegres encontram-se com as duas tristes defronte de uma
casa de objetos de luxo, porcelanas, tapeçarias. Nas montras, com as
mesmas atitudes, as estátuas de bronze, de prata, de terracota, as
cerâmicas de cores mais variadas repousam entre tapetes estranhos, tapetes
nunca vistos, que parecem feitos de plumas de chapéu. Que engraçado!
Como deve ser bom pôr os pés na maciez daquela plumagem! As quatro
trocam idéias.

– De que será?

A mais pequena lembra perguntar ao caixeiro, muito importante, à porta.
As outras tremem.

– Não vá dar uma resposta má…

– Que tem?

Hesita, sorri, indaga:

– O senhor faz favor de dizer… Aqueles tapetes?…

O caixeiro ergue os olhos irônicos.

– Bonitos, não é? São de cauda de avestruz. Foram
precisos quarenta avestruzes para fazer o menor. A senhora deseja comprar?

Ela fica envergonhadíssima; as outras também. Todas riem tapando
os lábios com o lenço, muito coradas e muito nervosas.

Comprar! Não ter dinheiro para aquele tapete extravagante parece-lhes
ao mesmo tempo humilhante e engraçado.

– Não, senhor, foi só para saber. Desculpe…

E partem. Seguem como que enleadas naquele enovelamento de coisas capitosas
– montras de rendas, montras de perfumes, montras toilettes, montras
de flores – a chamá-las, a tentá-las, a entontecê-las
com corrosivo desejo de gozar. Afinal, param nas montras dos ourives.

Toda a atmosfera já tomou um tom de cinza escuro. Só o céu
de verão, no alto, parece um dossel de paraíso, com o azul translúcido
a palpitar uma luz misteriosa. Já começaram a acender os combustores
na rua, já as estrelas de ouro ardem no alto. A rua vai de novo precipitar-se
no delírio.

Elas fixam a atenção. Nenhuma das quatro pensa em sorrir. A
jóia é a suprema tentação. A alma da mulher exterioriza-se
irresistivelmente diante dos adereços. Os olhos cravam-se ansiosos,
numa atenção comovida que guarda e quer conservar as minúcias
mais insignificantes. A prudência das crianças pobres fá-las
reservadas.

– Oh! aquelas pedras negras!

– Três contos!

Depois, como se ao lado um príncipe invisível estivesse a querer
recompensar a mais modesta, comentam as jóias baratas, os objetos de
prata, as bolsinhas, os broches com corações, os anéis
insignificantes.

– Ah! se eu pudesse comprar aquele!

– É só quarenta e cinco! E aquele reloginho, vês?
de ouro…

Mas, lá dentro, o joalheiro abre a comunicação elétrica,
e de súbito, a vitrina, que morria na penumbra, acende violenta, crua,
brutalmente, fazendo faiscar os ouros, cintilar os brilhantes, coriscar os
rubis, explodir a luz veludosa das safiras, o verde das esmeraldas, as opalas,
os esmaltes, o azul das turquesas. Toda a montra é um tesouro no brilho
cegador e alucinante das pedrarias.

Elas olham sérias, o peito a arfar. Olham muito tempo e, ali, naquele
trecho de rua civilizada, as pedras preciosas operam, nas sedas dos escrínios,
os sortilégios cruéis dos antigos ocultistas. As mãozinhas
bonitas apertam o cabo da sombrinha como querendo guardar um pouco de tanto
fulgor; os lábios pendem no esforço da atenção;
um vinco ávido acentua os semblantes. Onde estará o príncipe
encantador? Onde estará o velho d. João?

Um suspiro mais forte – a coragem da que se libertou da hipnose –
fá-las despegar-se do lugar. É noite. A rua delira de novo.
À porta dos cafés e das confeitarias, homens, homens, um estridor,
uma vozeria. Já se divisam perfeitamente as pessoas no Largo de S.
Francisco – onde estão os bondes para a Cidade Nova, para a Rua
da América, para o Saco. Elas tomam um ar honesto. Os tacões
das botinas batem no asfalto. Vão como quem tem pressa, como quem perdeu
muito tempo.

Da Avenida Uruguaiana para diante não olham mais nada, caladas, sem
comentários.

Afinal chegam ao Largo. Um adeus, dois beijos, “até amanhã!”

Até amanhã! Sim, elas voltarão amanhã, elas voltam
todo dia, elas conhecem nas suas particularidades todas as montras da feira
das tentações; elas continuarão a passar, à hora
do desfalecimento da artéria, mendigas do luxo, eternas fulanitas da
vaidade, sempre com a ambição enganadora de poder gozar as jóias,
as plumas, as rendas, as flores.

Elas hão de voltar, pobrezinhas – porque a esta hora, no canto
do bonde, tendo talvez ao lado o conquistador de sempre, arfa-lhes o peito
e têm as mãos frias com a idéia desse luxo corrosivo.
Hão de voltar, caminho da casa, parando aqui, parando acolá,
na embriaguez da tentação – porque a sorte as fez mulheres
e as fez pobres, porque a sorte não lhes dá, nesta vida de engano,
senão a miragem do esplendor para perdê-las mais depressa.

E haveis então de vê-las passar, as mariposas do luxo, no seu
passinho modesto, duas a duas, em pequenos grupos, algumas loiras, outras
morenas…

Os Trabalhadores de Estiva

Às 5 da manhã ouvia-se um grito de máquina rasgando
o ar. Já o cais, na claridade pálida da madrugada, regurgitava
num vai-e-vem de carregadores, catraieiros, homens de bote e vagabundos maldormidos
à beira dos quiosques. Abriam-se devagar os botequins ainda com os
bicos de gás acesos; no interior os caixeiros, preguiçosos,
erguiam os braços com bocejos largos. Das ruas que vazavam na calçada
rebentada do cais, afluía gente, sem cessar, gente que surgia do nevoeiro,
com as mãos nos bolsos, tremendo, gente que se metia pelas bodegas
e parava à beira do quiosque numa grande azáfama. Para o cais
da alfândega, ao lado, um grupo de ociosos olhava através das
frinchas de um tapume, rindo a perder; um carregador, encostado aos umbrais
de uma porta, lia, de óculos, o jornal, e todos gritavam, falavam,
riam, agitavam-se na frialdade daquele acordar, enquanto dos botes policrômicos
homens de camisa de meia ofereciam, aos berros, um passeiozinho pela baía.
Na curva do horizonte o sol de maio punha manchas sangrentas e a luz da manhã
abria, como desabrocha um lírio, no céu pálido.

Eu resolvera passar o dia com os trabalhadores da estiva e, naquela confusão,
via-os vir chegando a balançar o corpo, com a comida debaixo do braço,
muito modestos. Em pouco, a beira do cais ficou coalhada. Durante a última
gréve, um delegado de polícia dissera-me:

– São criaturas ferozes! Nem a tiro.

Eu via, porém, essas fisionomias resignadas à luz do sol e
elas me impressionavam de maneira bem diversa. Homens de excessivo desenvolvimento
muscular, eram todos pálidos – de um pálido embaciado
como se lhes tivessem pregado à epiderme um papel amarelo, e assim,
encolhidos, com as mãos nos bolsos, pareciam um baixo-relevo de desilusão,
uma frisa de angústia.

Acerquei-me do primeiro, estendi-lhe a mão:

– Posso ir com vocês, para ver?

Ele estendeu também a mão, mão degenerada pelo trabalho,
com as falanges recurvas e a palma calosa e partida.

– Por que não? Vai ver apenas o trabalho, fez com amarga voz.

E quedou-se, outra vez, fumando.

– É agora a partida?

– É.

Entre os botes, dois saveiros enormes, rebocados por uma lancha, esperavam.
Metade dos trabalhadores, aos pulos, bruscamente, saltou para os fardos. Saltei
também. Acostumados, indiferentes à travessia, eles sentaram-se
calados, a fumar. Um vento frio cortava a baía. Todo um mundo de embarcações
movia-se, coalhava o mar, riscava a superfície das ondas; lanchas oficiais
em disparada, com a bandeira ao vento; botes, chatas, saveiros, rebocadores.
Passamos perto de uma chata parada e inteiramente coberta de oleados. Um homem,
no alto, estirou o braço, saudando.

– Quem é aquele?

– É o José. É chateiro-vigia. Passou todo o dia
ali para guardar a mercadoria dos patrões. Os ladrões são
muitos. Então, fica um responsável por tudo, toda a noite, sem
dormir, e ganha seis mil réis. As vezes, os ladrões atacam os
vigias acordados e o homem, só, tem que se defender a revólver.

Civilizado, tive este comentário frio:

– Deve estar com sono, o José.

– Qual! Esse é dos que dobra dias e dias. Com mulher e oito
filhos precisa trabalhar. Ah! meu senhor, há homens, por este mar afora
cujos filhos de seis meses ainda os não conhecem. Saem de madrugada
de casa. O José está à espera que a alfândega tire
o termo da carga, que não é estrangeira.

Outras chatas perdiam-se paradas na claridade do sol. Nós passávamos
entre as lanchas. Ao longe, bandos de gaivotas riscavam o azul do céu
e o Cais dos Mineiros já se perdia distante da névoa vaga. Mas
nós avistávamos um outro cais com um armazém ao fundo.
À beira desse cais, saveiros enormes esperavam mercadorias; e, em cima,
formando um círculo ininterrupto, homens de braços nus saíam
a correr de dentro da casa, atiravam o saco no saveiro, davam a volta à
disparada, tornavam a sair a galope com outro saco, sem cessar, contínuos
como a correia de uma grande máquina. Eram sessenta, oitenta, cem,
talvez duzentos. Não os podia contar. A cara escorrendo suor. Os pobres
surgiam do armazém como flechas, como flechas voltavam. Um clamor subia
aos céus apregoando o serviço:

– Um, dois, três, vinte e sete; cinco, vinte, dez, trinta!

E a ronda continuava diabólica.

– Aquela gente não cansa?

– Qual! trabalham assim horas a fio. Cada saco daqueles tem sessenta
quilos e para transportá-lo ao saveiro pagam 60 réis. Alguns
pagam menos – dão só 30 réis, mas, assim mesmo,
há quem tire dezesseis mil réis por dia.

O trabalho da estiva é complexo, variado; há a estiva da aguardente,
do bacalhau, dos cereais, do algodão; cada uma tem os seus servidores,
e homens há que só servem a certas e determinadas estivas, sendo
por isso apontados.

– É muito, fiz.

– Passam dias, porém, sem ter trabalho e imagine quantas corridas
são necessárias para ganhar a quantia fabulosa.

A lancha fizera-se ao largo. Caminhávamos para o poço onde
o navio que devia sair naquela noite fundeava, todo de branco. Era o começo
do dia. A bordo ficou um terno de homens, e eu com eles. O terno divide-se
assim: um no guincho, quatro na embarcação, oito no porão
e quatro no convés. Isso quando a carga é seca. Carregava café
o vapor.

Logo que o saveiro atracou, eles treparam pelas escadas, rápidos;
oito homens desapareceram na face aberta do porão, despiram-se, enquanto
os outros rodeavam o guincho e as correntes de ferro começavam a ir
e vir do porão para o saveiro, do saveiro para o porão, carregadas
de sacas de café. Era regular, matemático, a oscilação
de um lento e formidável relógio.

Aqueles seres ligavam-se aos guinchos; eram parte da máquina; agiam
inconscientemente. Quinze minutos depois de iniciado o trabalho, suavam arrancando
as camisas. Só os negros trabalhavam de tamancos. E não falavam,
não tinham palavras inúteis. Quando a ruma estava feita, erguiam
a cabeça e esperavam a nova carga. Que fazer? Aquilo tinha que ser
até às 5 da tarde!

Desci ao porão. Uma atmosfera de caldeira sufocava. Era as correntes
caírem do braço de ferro um dos oito homens precipitava-se,
alargava-as, os outros puxavam os sacos.

– Eh! lá!

De novo havia um rolar de ferros no convés, as correntes subiam enquanto
eles arrastavam os sacos. Do alto a claridade caía fazendo uma bolha
de luz, que se apagava nas trevas dos cantos. E a gente, olhando para cima,
via encostados cavalheiros de pijama e bonezinho, com ar de quem descansa
do banho a apreciar a faina alheia. Às vezes, as correntes ficavam
um pouco alto. Eles agarravam-se às paredes de ferro com os passos
vacilantes entre os sacos e, estendendo o tronco nu e suarento, as suas mãos
preênseis puxavam a carga em esforços titânicos.

– Eh! lá!

Na embarcação, fora, os mesmos movimentos, o mesmo gasto de
forças e de tal forma regular que em pouco eram movimentos correspondentes,
regulados pela trepidação do guincho, os esforços dos
que se esfalfavam no porão e dos que se queimavam ao sol.

Até horas tardes da manhã trabalharam assim, indiferentes aos
botes, às lanchas, à animação especial do navio.
Quando chegou a vez da comida, não se reuniram. Os do porão
ficaram por lá mesmo, com a respiração intercortada,
resfolegando, engolindo o pão, sem vontade.

Decerto pela minha face eles compreenderam que eu os deplorava. Vagamente,
o primeiro falou; outro disse-me qualquer coisa e eu ouvi as idéias
daqueles corpos que o trabalho rebenta. A principal preocupação
desses entes são as firmas dos estivadores. Eles as têm de cor,
citam de seguida, sem errar uma: Carlos Wallace, Melo e François, Bernardino
Correia Albino, Empresa Estivadora, Picasso e C., Romão Conde e C.,
Wilson, Sons, José Viegas Vaz, Lloyd Brasileiro, Capton Jones. Em cada
uma dessas casas o terno varia de número e até de vencimentos,
como por exemplo –o Lloyd, que paga sempre menos que qualquer outra
empresa.

Os homens com quem falava têm uma força de vontade incrível.
Fizeram com o próprio esforço uma classe, impuseram-na. Há
doze anos não havia malandro que, pegado na Gamboa, não se desse
logo como trabalhador de estiva. Nesse tempo não havia a associação,
não havia o sentimento de classe e os pobres estrangeiros pegados na
Marítima trabalhavam por três mil réis dez horas de sol
a sol. Os operários reuniram-se. Depois da revolta, começou
a se fazer sentir o elemento brasileiro e, desde então, foi uma longa
e pertinaz conquista. Um homem preso, que se diga da estiva, é, horas
depois, confrontado com um sócio da União, tem que apresentar
o seu recibo de mês. Hoje, estão todos ligados, exercendo uma
mútua policia para a moralização da classe. A União
dos Operários Estivadores consegue, com uns estatutos que a defendem
habilmente, o seu nobre fim. Os defeitos da raça, as disputas, as rusgas
são consideradas penas; a extinção dos tais pequenos
roubos, que antigamente eram comuns, merece um cuidado extremado da União,
e todos os sócios, tendo como diretores Bento José Machado,
Antônio da Cruz, Santos Valença, Mateus do Nascimento, Jerônimo
Duval, Miguel Rosso e Ricardo Silva, esforçam-se, estudam, sacrificam-se
pelo bem geral.

Que querem eles? Apenas ser considerados homens dignificados pelo esforço
e a diminuição das horas de trabalho, para descansar e para
viver. Um deles, magro, de barba inculta, partindo um pão empapado
de suor que lhe gotejava da fronte, falou-me, num grito de franqueza:

– O problema social não tem razão de ser aqui? Os senhores
não sabem que este país é rico, mas que se morre de fome?
É mais fácil estourar um trabalhador que um larápio?
O capital está nas mãos de grupo restrito e há gente
demais absolutamente sem trabalho. Não acredite que nos baste o discurso
de alguns senhores que querem ser deputados Vemos claro e, desde que se começa
a ver claro, o problema surge complexo e terrível. A greve, o senhor
acha que não fizemos bem na greve? Eram nove horas de trabalho. De
toda a parte do mundo os embarcadiços diziam que trabalho da estiva
era só de sete!

Fizemos mal? Pois ainda não temos o que desejamos.

A máquina, no convés, recomeçara a trabalhar.

– Os patrões não querem saber se ficamos inúteis
pelo excesso de serviço. Olhe, vá à Marítima,
ao Mercado. Encontrará muitos dos nossos arrebentados, esmolando, apanhando
os restos de comida. Quando se aproximam das casas às quais deram toda
a vida correm-nos!

Que foi fazer lá? Trabalhou? Pagaram-no; rua! Toda a fraternidade
universal se cifra neste horror!

Do alto caíram cinco sacas de café mal presas à corrente.
Ele sorriu, amargurado, precipitou-se, e, de novo, ouviu-se o pavor do guincho
sacudindo as correntes donde pendiam dezoito homens estrompados. Até
à tarde, encostado aos sacos, eu vi encher a vastidão do porão
bafioso e escuro. Eles não pararam. Quando deu cinco horas um de barba
negra tocou-me no braço:

– Por que não se vai? Estão tocando a sineta. Nós
ficamos para o serão à noite… Trabalhar até à
meia-noite.

Subi. Os ferros retiniam sempre a música sinistra. Encostados à
amurada, damas roçagando sedas e cavalheiros estrangeiros de smoking,
debochavam, em inglês, as belezas da nossa baía; no bar, literalmente
cheio, ao estourar do champagne, um moço vermelho de álcool
e de calor levantava um copo dizendo:

– Saudemos o nosso caro amigo que Paris receberá…

Em derredor do paquete, lanchas, malas, cargas, imprecações,
gente querendo empurrar as bagagens, carregadores, assobios, um brouhaha formidável.

Um cavalheiro cheio de brilhantes, no portaló, perguntou-me se eu
não vira a Lola. Desci, meti-me num bote, fiz dar a volta para ver
mais uma vez aquela morte lenta entre os pesos. A tarde caíra completamente.
Ritmados pelo arrastar das correntes, os quatro homens, dirigidos do convés
do steamer, carregavam, tiravam sempre de dentro do saveiro mais sacas, sempre
sacas, com as mãos disformes, as unhas roxas, suando, arrebentando
de fadiga.

Um deles, porém, rapaz, quando o meu bote passava por perto do saveiro,
curvou-se, com a fisionomia angustiada, golfando sangue.

– Oh! diabo! fez o outro, voltando-se. O José que não
pode mais!

A Fome Negra

De madrugada, escuro ainda, ouviu-se o sinal de acordar. Raros ergueram-se.
Tinha havido serão até a meia-noite. Então, o feitor,
um homem magro, corcovado, de tamancos e beiços finos, o feitor, que
ganha duzentos mil réis e acha a vida um paraíso, o sr. Correia,
entrou pelo barracão onde a manada de homens dormia com a roupa suja
e ainda empapada do suor da noite passada.

– Eh! lá! rapazes, acorda! Quem não quiser, roda. Eh
lá! Fora!

Houve um rebuliço na furna sem ar. Uns sacudiam os outros amedrontados,
com os olhos só a brilhar na face cor de ferrugem; outros, prostrados,
nada ouviam, com a boca aberta, babando.

– Ó João, olha o café.

– Olha o café e olha o trabalho! Ai, raios me partam! Era capaz
de dormir até amanhã.

Mas, já na luz incerta daquele quadrilátero, eles levantavam-se,
impelidos pela necessidade como as feras de uma ménagerie ao chicote
do domador. Não lavaram o rosto, não descansaram. Ainda estremunhados,
sorviam uma água quente, da cor do pó que lhes impregnava a
pele, partindo o pão com escaras da mesma fuligem metálica,
e poucos eram os que se sentavam, com as pernas em compasso, tristes.

Estávamos na ilha da Conceição, no trecho hoje denominado
– a Fome Negra. Há ali um grande depósito de manganês
e, do outro lado da pedreira que separa a ilha, um depósito de carvão.
Defronte, a algumas braçadas de remo, fica a Ponta da Areia com a Cantareira,
as obras do porto fechando um largo trecho coalhado de barcos. Para além,
no mar tranqüilo, outras ilhas surgem, onde o trabalho escorcha e esmaga
centenas de homens.

Logo depois do café, os pobres seres saem do barracão e vão
para a parte norte da ilha, onde a pedreira refulge. Há grandes pilhas
de blocos de manganês e montes de piquiri em pó, em lascas finas.
No solo, coberto de uma poeira negra com reflexos de bronze, há rails
para conduzir os vagonetes do minério até ao lugar da descarga.
O manganês, que a lnglaterra cada vez mais compra ao Brasil, vem de
Minas até à Marítima em estrada de ferro; daí
é conduzido em batelões e saveiros até às ilhas
Bárbaras e da Conceição, onde fica em depósito.

Quando chega vapor, de novo removem o pedregulho para os saveiros e de lá
para o porão dos navios. Esse trabalho é contínuo, não
tem descanso. Os depósitos cheios, sem trabalho de carga para os navios,
os trabalhadores atiram-se à pedreira, à rocha viva. Trabalha-se
dez horas por dia com pequenos intervalos para as refeições,
e ganha-se cinco mil réis. Há, além disso, o desconto
da comida, do barracão onde dormem, mil e quinhentos; de modo que o
ordenado da totalidade é de oito mil réis, Os homens gananciosos
aproveitam então o serviço da noite, que é pago até
de manhã por três mil e quinhentos e até meia-noite pela
metade disso, tendo naturalmente, o desconto do pão, da carne e do
café servido durante o labor,

É uma espécie de gente essa que serve às descargas do
carvão e do minério e povoa as ilhas industriais de baía,
seres embrutecidos, apanhados a dedo, incapazes de ter idéias. São
quase todos portugueses e espanhóis que chegam da aldeia, ingênuos.
Alguns saltam da proa do navio para o saveiro do trabalho tremendo, outros
aparecem pela Marítima sem saber o que fazer e são arrebanhados
pelos agentes. Só têm um instinto: juntar dinheiro, a ambição
voraz que os arrebenta de encontro às pedras inutilmente. Uma vez apanhados
pelo mecanismo de aços, ferros e carne humana, uma vez utensílio
apropriado ao andamento da máquina, tornam-se autômatos com a
teimosia de objetos movidos a vapor. Não têm nervos, têm
molas; não têm cérebros, têm músculos hipertrofiados.
O superintende do serviço berra, de vez em quando:

– Isto é para quem quer! Tudo aqui é livre! As coisas
estão muito ruins, sujeitemo-nos. Quem não quiser é livre!

Eles vieram de uma vida de geórgicas paupérrimas. Têm
a saudade das vinhas, dos pratos suaves, o pavor de voltar pobres e, o que
é mais, ignoram absolutamente a cidade, o Rio; limitam o Brasil às
ilhas do trabalho, quando muito aos recantos primitivos de Niterói.
Há homens que, anos depois de desembarcar, nunca pisaram no Rio e outros
que, quase uma existência na ilha, voltaram para a terra com algum dinheiro
e a certeza da morte.

Vivem quase nus. No máximo, uma calça em frangalhos e camisa
de meia. Os seus conhecimentos reduzem-se à marreta, à pá,
ao dinheiro; o dinheiro que a pá levanta para o bem-estar dos capitalistas
poderosos; o dinheiro, que os recurva em esforços desesperados, lavados
de suor, para que os patrões tenham carros e bem-estar. Dias inteiros
de bote, estudando a engrenagem dessa vida esfalfante, saltando nos paióis
ardentes navios e nas ilhas inúmeras, esses pobres entes fizeram-me
pensar num pesadelo de Wells, a realidade da História dos Tempos Futuros,
o pobre a trabalhar para os sindicatos, máquina incapaz de poder viver
de outro modo, aproveitada e esgotada. Quando um deles é despedido,
com a lenta preparação das palavras sórdidas dos feitores,
sente um tão grande vácuo, vê-se de tal forma só,
que vai rogar outra vez para que o admitam.

À proporção que eu os interrogava e o sol acendia labaredas
por toda a ilha, a minha sentimentalidade ia fenecendo. Parte dos trabalhadores
atirou-se à pedreira, rebentando as pedras. As marretas caíam
descompassadamente em retintins metálicos nos blocos enormes. Os outros
perdiam-se nas rumas de manganês, agarrando os pedregulhos pesados com
as mãos. As pás raspavam o chão, o piquiri caía
pesadamente nos vagonetes, outros puxavam-nos até a beira d’água,
onde as tinas de bronze os esvaziavam nos saveiros.

Durante horas, esse trabalho continuou com uma regularidade alucinante. Não
se distinguiam bem os seres das pedras do manganês: o raspar das pás
replicava ao bater das marretas, e ninguém conversava, ninguém
falava! A certa hora do dia veio a comida. Atiraram-se aos pratos de folha,
onde, em água quente, boiavam vagas batatas e vagos pedaços
de carne, e um momento só se ouviu o sôfrego sorver e o mastigar
esfomeado.

Acerquei-me de um rapaz.

– O teu nome?

– O meu nome para quê? Não digo a ninguém.

Era a desconfiança incutida pelo gerente, que passeava ao lado, abrindo
a chaga do lábio num sorriso sórdido.

– Que tal achas a sopa?

– Bem boa. Cá uma pessoa come. O corpo está acostumado,
tem três pães por dia e três vezes por semana bacalhau.

Engasgou-se com um osso. Meteu a mão na goela e eu vi que essa negra
mão rebentava em sangue, rachava, porejando um líquido amarelado.

– Estás ferido?

– É do trabalho. As mãos racham. Eu estou só há
três meses. Ainda não acostumei.

– Vais ficar rico?

Os seus olhos brilhavam de ódio, um ódio de escravo e de animal
sovado.

– Até já nem chegam os baús para guardar o ouro.
Depois, numa franqueza: ganha-se uma miséria. O trabalho faz-se, o
mestre diz que não há…Mas, o dinheiro mal chega, homem, vai-se
todo no vinho que se manda buscar.

Era horrendo. Fui para outro e ofereci-lhe uma moeda de prata.

– Isso é para mim?

– E, mas se falares a verdade.

– Ai! que falo, meu senhor…

Tinha um olhar verde, perturbado, um olhar de vício secreto.

– Há quanto tempo aqui?

– Vai para dois anos.

– E a cidade não conheces?

– Nunca lá fui, que a perdição anda pelos ares..

Este também se queixa da falta de dinheiro porque manda buscar sempre
outro almoço. Quanto ao trabalho, estão convencidos que neste
país não há melhor. Vieram para ganhar dinheiro, é
preciso ou morrer ou fazer fortuna. Enquanto falavam, olhavam de soslaio para
o Correia e o Correia torcia o cigarro, à espreita, arrastando os sacos
no pó carbonífero.

– Deixe que vá tratar do meu serviço, segredavam eles
quando o feitor se aproximava. Ai! que não me adianta nada estar a
contar-lhe a minha vida.

O trabalho recomeçou. O Correia, cozido ao sol, bamboleava a perna,
feliz. Como a vida é banal! Esse Correia é um tipo que existe
desde que na sociedade organizada há o intermediário entre o
patrão e o servo, Existirá eternamente, vivendo de migalhas
de autoridade contra a vida e independência dos companheiros de classe.

Às 2 horas da tarde, nessa ilha negra, onde se armazenam o carvão,
o manganês e a pedra, o sol queimava. Vinha do mar, como infestado de
luz, um sopro de brasa; ao longe, nas outras ilhas, o trabalho curvava centenas
de corpos, a pele ardia, os pobres homens encobreados, com olhos injetados,
esfalfavam-se, e mestre Correia, dançarinando o seu passinho:

– Vamos gente! Eh! nada de perder tempo. V. Sa não imagina.
Ninguém os prende e a ilha está cheia. Vida boa!

Foram assim até a tarde, parando minutos para logo continuar. Quando
escureceu de todo, acenderam-se as candeias e a cena deu no macabro.

Do alto, o céu coruscava, incrustado de estrelas, um vento glacial
passava, fogo-fatuando a chama tênue das candeias e, na sombra, sombras
vagas, de olhar incendido, raspavam o ferro, arrancando da alma gemidos de
esforço. Como se estivesse junto do cabo e um batelão largasse
saltei nele com um punhado de homens.

Íamos a um vapor que partia de madrugada. No mar, a treva mais intensa
envolvia o steamer, um transporte inglês com a carga especial do minério.
O comandante fora ao Casino; alguns boys pouco limpos pendiam da murada com
um cozinheiro chinês, de óculos. Uma luz mortiça iluminava
o convés. Tudo parecia dormir. O batelão, porém, atracava,
fincavam-se as candeias; quatro homens ficavam de um lado, quatro de outro,
dirigidos um preto que corria pelas bordas do barco, de tamancos, dando gritos
guturais. Os homens nus, suando apesar do vento, começavam a encher
enormes tinas de bronze que o braço de ferro levantava num barulho
de trovoada, despejava, deixava cair outra vez.

Entre a subida e a descida da tina fatal, eu os ouvia:

– O minério! É o mais pesado de todos os trabalhos. Cada
pedra pesa quilos. Depois de se lidar algum tempo com isso, sentem-se os pés
e as mãos frios; e o sangue, quando a gente se corta, aparece amarelo…
É a morte.

– De que nacionalidade são vocês?

– Portugueses… Na ilha há poucos espanhóis e homens
de cor. Somos nós os fortes.

O fraco, deviam dizer; o fraco dessa lenta agonia de rapazes, de velhos,
de pais de famílias numerosas.

Para os contentar, perguntei:

– Por que não pedem a diminuição das horas de
trabalho?

As pás caíram bruscas. Alguns não compreendiam, outros
tinham um risinho de descrença:

– Para que, se quase todos se sujeitam?

Mas, um homem de barbas ruivas, tisnado e velho, trepou pelo monte de pedras
e estendeu as mãos:

– Há de chegar o dia, o grande dia!

E rebentou como um doido, aos soluços, diante dos companheiros atônitos.

Sono Calmo

Os delegados de polícia são de vez em quando uns homens amáveis.
Esses cavalheiros chegam mesmo, ao cabo de certo tempo, a conhecer um pouco
da sua profissão e um pouco do trágico horror que a miséria
tece na sombra da noite por essa misteriosa cidade. Um delegado, outro dia,
conversando dos aspectos sórdidos do Rio, teve a amabilidade de dizer:

– Quer vir comigo visitar esses círculos infernais?

Não sei se o delegado quis dar-me apenas a nota mundana de visitar
a miséria, ou se realmente, como Virgílio, o seu desejo era
guiar-me através de uns tantos círculos de pavor, que fossem
outros tantos ensinamentos. Lembrei-me que Oscar Wilde também visitara
as hospedarias de má fama e que Jean Lorrain se fazia passar aos olhos
dos ingênuos como tendo acompanhado os grão-duques russos nas
peregrinações perigosas que Goron guiava.

Era tudo quanto há de mais literário e de mais batido. Nas
peças francesas há dez anos já aparece o jornalista que
conduz a gente chique aos lugares macabros; em Paris os repórteres
do Journal andam acompanhados de um apache autêntico. Eu repetiria apenas
um gesto que era quase uma lei. Aceitei.

À hora da noite quando cheguei à delegacia, a autoridade ordenara
uma caça aos pivettes, pobres garotos sem teto, e preparava-se para
a excursão com dois amigos, um bacharel e um adido de legação,
tagarela e ingênuo.

O bacharel estava comovido. O adido assegurava que a miséria só
na Europa – porque a miséria é proporcional à civilização.
Ambos de casaca davam ao reles interior do posto um aspecto estranho. O delegado
sorria, preparando com o interesse de um maítre-hôtel o cardápio
das nossas sensações.

Afinal ergueu a bengala.

– Em marcha!

Descemos todos, acompanhados de um cabo de policia e de dois agentes secretos
– um dos quais zanaga, com o rosto grosso de calabrês. É
perigoso entrar só nos covis horrendos, nos trágicos asilos
da miséria. Íamos caminhando pela Rua da Misericórdia,
hesitantes ainda diante das lanternas com vidros vermelhos. Às esquinas,
grupos de vagabundos e desordeiros desapareciam ao nosso apontar e, afundando
o olhar pelos becos estreitos em que a rua parece vazar a sua imundície,
por aquela rede de becos, víamos outras lanternas em forma de foice,
alumiando portas equívocas. Havia casas de um pavimento só,
de dois, de três; negras, fechadas, hermeticamente fechadas, pegadas
uma à outra, fronteiras, confundindo a luz das lanternas e a sombra
dos balcões. Os nossos passos ressoavam num desencontro nos lajedos
quebrados. A rua, mal iluminada, tinha candeeiros quebrados, sem a capa Auer,
de modo que a brancura de uns focos envermelhecia mais a chama pisca dos outros.
Os prédios antigos pareciam ampararem-se mutuamente, com as fachadas
esborcinadas, arrebentadas algumas. De repente porta abria, tragando, num
som cavo, algum retardatário.

Trechos inteiros da calçada, imersos na escuridão, encobrian
cafajestes de bombacha branca, gingando, e constantemente o monótono
apito do guarda noturno trilava, corria como um arrepio na artéria
do susto para logo outro responder mais longe e mais longe ainda outro ecoar
o seu áspero trilo. No alto, o céu era misericordiosamente estrelado
e uma doce tranqüilidade parecia escorrer do infinito.

– Há muitos desses covis espalhados pela cidade? indagou advogado,
abotoando o mac-farlane.

– Em todas as zonas, meu caro.

– Em cinco noites, visitando-os depressa, informou o agente, V. Sa
não dá cabo deles. É por aqui, pela Gamboa, nas ruas
centrais, nos bairros pobres. Só na Cidade Nova, que quantidade! Isso
não contando as casas particulares, em que moram vinte e mais pessoas,
e não querendo falar das hospedarias só de gatunos, os “zungas”.

– “Zungas”? fez o adido de legação, curioso.

– As hospedarias baratas têm esse nome…Dorme-se até
por cem réis. Saiba V. Sa que a vídinha dava para uma história.

Mas debaixo de uma das foices de luz, o delegado parara. Estacamos também.

O soldado bateu à porta com a mão espalmada. Houve um longo
silêncio. O soldado tornou a bater. De dentro então uma voz sonolenta
indagou:

– Quem é?

– Abra! É a polícia! Abra!

O silêncio continuou. Nervoso, o delegado atirou a bengala à
porta.

– Abra já! É o dr. delegado! Abra já!

A porta abriu-se. Barafustamos na meia-luz de um corredor com areia no soalho.
O homem que viera abrir, corpulento, de camisa de meia, esfregou os olhos,
deu força ao bico de gás, encostou-se à mesa forrada
de jornais, onde se alinhavam castiçais.

– É o proprietário? indagou o delegado.

– Saiba V. Sa que não. Sou o encarregado.

– Muita gente?

– Não há mais lugares.

– Deixe ver o livro.

O livro é uma formalidade cômica. A autoridade virou-lhe as
páginas, rápido, enquanto os secretas descansavam as bengalas.
O mau cheiro era intenso.

– Mostre-nos isso! fez a autoridade, minutos depois.

– Não há acusação contra a casa, há
sr. doutor?

– Não sei, ande.

O encarregado, trêmulo, seguiu à frente, erguendo o castiçal.
Abriu uma porta de ferro, fechou-a de novo, após a nossa passagem.
E começamos a ver o rés-do-chão, salas com camas enfileiradas
como nos quartéis, tarimbas com lençóis encardidos, em
que dormiam de beiço aberto, babando, marinheiros, soldados, trabalhadores
de face barbuda. Uns cobriam-se até o pescoço. Outros espapaçavam-se
completamente nus.

A mando da autoridade superior, os agentes chegavam a vela bem perto das
caras, passavam a luz por baixo das camas, sacudiam os homens do pesado dormir.
Não havia surpresa. Os pobres entes acordavam e respondiam, quase a
roncar outra vez, a razão por que estavam ali, lamentavelmente. O bacharel
estava varado, o adido tinha um ar desprendido. Não tivesse ele visitado
a miséria de Londres e principalmente a de Paris! O delegado, entretanto,
gozava aquele espetáculo.

– Subamos! murmurou.

Trepamos todos por uma escada íngreme. O mau cheiro aumentava. Parecia
que o ar rareava, e, parando um instante, ouvimos a respiração
de todo aquele mundo como o afastado resfolegar de uma grande máquina.
Era a seção dos quartos reservados e a sala das esteiras. Os
quartos estreitos, asfixiantes, com camas largas antigas e lençóis
por onde corriam percevejos. A respiração tornava-se difícil.

Quando as camas rangiam muito e custavam a abrir, o agente mais forte empurrava
a porta, e, à luz da vela, encontrávamos quatro e cinco criaturas,
emborcadas, suando, de língua de fora; homens furiosos, cobrindo com
o lençol a nudez, mulheres tapando o rosto, marinheiros “que haviam
perdido o bote”, um mundo vário e sombrio, gargulejando desculpas,
com a garganta seca. Alguns desses quartos, as dormidas de luxo, tinham entrada
pela sala das esteiras, em que se dorme por oitocentos réis, e essas
quatro paredes impressionavam como um pesadelo.

Completamente nua, a sala podia conter trinta pessoas, à vontade,
e tinha pelo menos oitenta nas velhas esteiras atiradas ao soalho.

Os fregueses dormiam todos – uns de barriga para o ar, outros de costas,
com o lábio no chão negro, outros de lado, recurvados como arcos
de pipa. Estavam alguns vestidos. A maioria inteiramente nua, fizera dos andrajos
travesseiros. Erguendo a vela, o encarregado explicava que ali o pessoal estava
muito bem, e no palor em halo da luz que ele erguia, eu via pés disformes,
mãos de dedos recurvos, troncos suarentos, cabeças numa estranha
lassidão – galeria trágica de cabeças embrutecidas,
congestas, bufando de boca aberta… De vez em quando um braço erguia-se
no espaço, tombava; faces, em que mais de perto o raio de luz batia,
tinham tremores súbitos – e todos roncavam, afogados em sono.

Um dos agentes sacudiu um rapazola.

– Hein? Já quatro horas? fez o rapaz acordando.

– Que faz aqui?

– Espero a hora do bote para a ilha. Sou carvoeiro, sim senhor… Ai!
minha mãe! Vão levar-me preso!

Subitamente, porém, apalpou as algibeiras, olhou-nos ansioso. Tinha
sido roubado! Houve um rebuliço. Como por encanto, homens, havia ainda
minutos, a dormir profundamente, acordavam-se. O sr. delegado, alteando a
voz, deu ordem para não deixar sair ninguém sem ser revistado.
O encarregado, com perdão do sr. delegado e das outras senhorias, descompunha
o pequeno.

– Trouxe dinheiro, maricas? Já não lhe tenho dito que
entregue? É lá possível ter confiança nesta súcia.
E a minha casa agora, e eu? Besta de uma figa, que não sei onde estou…

Os agentes faziam levantar a canalha, arreliada com o incidente e na luz
vaga os perfis patibulares emergiam com gestos cínicos de espreguiçamento.

Tanto o bacharel como o adido mostravam na face um leve susto. O delegado
contemplava-os.

– Que lhes dizia eu? Uma sensação, meus caros, admirável.
Subamos ao último andar!

Havia com efeito mais um andar, mas quase não se podia chegar, estando
a escada cheia de corpos, gente enfiada em trapos, se estirava nos degraus,
gente que se agarrava aos balaústres do corrimão – mulheres
receosas da promiscuidade , de saias enrodilhadas. Os agentes abriam caminho,
acordando a canalha com a ponta dos cacetes. Eu tapava o nariz. A atmosfera
sufocava. Mais um pavimento e arrebentaríamos. Parecia que todas as
respirações subiam, envenenando as escada e o cheiro, o fedor,
um fedor fulminante, impregnava-se nas nossas próprias mãos,
desprendia-se das paredes, do assoalho carcomido, do teto, dos corpos sem
limpeza. Em cima, então, era a vertigem. A sala estava cheia. Já
não havia divisões, tabiques, não se podia andar sem
esmagar um corpo vivo. A metade daquele gado humano trabalhava; rebentava
nas descargas dos vapores, enchendo paióis de carvão, carregando
fardos. Mais uma hora e acordaria para esperar no cais os batelões
que a levassem ao cepo do labor, em que empedra o cérebro e rebenta
os músculos.

Grande parte desses pobres entes fora atirada ali, no esconderijo daquele
covil, pela falta de fortuna. Para se livrar da polícia, dormiam sem
ar, sufocados, na mais repugnante promiscuidade. E eu, o adido, o bacharel,
o delegado amável estávamos a gozar dessa gente o doloroso espetáculo!

– Não se emocione, disse o delegado. Há por aqui gatunos,
assassinos, e coisas ainda mais nojentas.

Desci. Doíam-me as têmporas. Era impossível o cheiro
de todo aquele entulho humano. O adido precipitou-se também e os outros
o seguiram. Embaixo, a vistoria aos fregueses não dera resultado. O
encarregado ainda gritava e o cabo estava nervoso, já tendo dado alguns
murros. O dr. delegado teve uma última idéia – a visão
de uma cena ainda mais cruel.

– Vamos ver os fundos!

Foi aí então que vimos o sofrer inconsciente e o último
grau da miséria. O hospedeiro torpe dizia que por ali dormiam alguns
de favor, mas pelo corredor estreito, em derredor da sentina, no trecho do
quintal, cheio de trapos e de lama, nas lajes, os mendigos, faces escaveiradas
e sujas, acordavam num clamor erguendo as mãos para o ar. E de tal
forma a treva se ligava a esses espectros da vida que o quadro parecia formar
um todo homogêneo e irreal.

– Tudo grátis aos desgraçadinhos, sibilava o homem musculoso.

Curvei-me, perto da latrina. Era uma velha embiocada num capuz preto.

– Quanto pagou v., minha velha?

– O que tinha, filho, o que tinha, dois tostões…

Dei-lhe qualquer coisa, e mais íntima, esticando o pescoço,
ela indagou, trêmula:

– Por que será tudo isso? Vão levar-nos presos?

Mas já o delegado saíra com os seus convidados. À porta
o encarregado esperava. Saí. A escuridão afogava os prédios,
encapuchava os combustores, alongava a rua. Não se sabia onde acabara
o pesadelo, onde começara a realidade.

– Basta, dizia o adido, basta. Já tenho uma dose suficiente.

– Também é tudo a mesma coisa. É ver uma, é
ver todas.

– E quem diria? concluiu o bacharel, até então mudo.

Neste momento ouviu-se o grito de pega! Um garoto corria. O cabo precipitou-se.

Já outros dois soldados vinham em disparada. Era a caçada aos
garotos, a “canoa”. A “canoa” vinha perto. Tinham pegado
uns vinte vagabundos, e pela calçada, presos, seguidos de soldados,
via-se, como uma serpente macabra, desenrolar-se a série de miseráveis
trêmulos de pavor.

– Canalhas! bradou o dr. delegado. E ainda se queixam que os mande
prender para dormir na estação!

– Nós devíamos ter asilos, instruiu o adido.

– É verdade, os asilos, a higiene, a limpeza. Tudo isso é
bonito. Havemos de ter. Por enquanto nosso Senhor, lá em cima, que
olhe por eles!

As suas mãos, maquinalmente esticaram-se, e os nossos olhos acompanhando
aquele gesto elegante de ceticismo mundano, deram no céu, recamado
de ouro. Todas as estrelas palpitavam, por cima da casaria estendia-se uma
poeira de ouro. Naquela chaga incurável, chaga lamentável da
cidade, a luz gotejava do infinito como um bálsam.

As Mulheres Mendigas

A mendicidade é a exploração mais regular, mais tranqüila
desta cidade. Pedir, exclusivamente pedir, sem ambição aparente
e sem vergonha, assim à beira da estrada da vida, parece o mais rendoso
ofício de quantos tenham aparecido; e a própria miséria,
no que ela tem de doloroso e de pungente, sofre com essa exploração.

É preciso estudar a sociedade complicada e diversa dos que pedem esmola,
adivinhar até onde vai a verdade e até onde chega a malandrice,
para compreender como a polícia descura o agasalho da invalidez e a
toleima incauta dos que dão esmolas.

Entre os homens mendigos há irmãos da opa, agentes de depravação
viciados, profissionais de doenças falsas, mascarando um formidável
cenário de dores e de aniquilamento. Só depois de um longo convívio
é que se pode assistir à iniciação da maçonaria
dos miseráveis, os estudos de extorsão pelo rogo, toda a tática
lenta do pedido em nome de Deus que, às vezes, acaba em pancada. Os
homens exploradores não tem brio. As mulheres, só quando são
realmente desgraçadas é que não mentem e não fantasiam.
São, entretanto, as mais incríveis.

Foi Pietro Mazzoli, um mendigo cínico, que pára sempre no Largo
do Capim, quem me apontou o meio diverso da mendicidade das mulheres. Pietro
é baixo, reforçado, corado. Puxa sempre a suiça potente,
com o minúsculo chapeuzinho posto ao lado, sobre a juba enorme e cheia
de lêndeas. É mendigo por desfastio e comodidade. Soldado, fugiu
do serviço militar como criado de bordo. Em Buenos Aires fez-se inculcador
de casas suspeitas, porteiro do mesmo gênero, caften, barítono
de café cantante, preso. No Rio, sendo-lhe habitual a prisão,
já foi cego, torto das pernas, aleijado de carrinho, corcunda, maneta,
atacado do mal de S. Guido. É o Frégoli da miséria. Antes
de se estabelecer mendigo, andou pelo Estado do Rio fazendo dançar
um urso que era um companheiro de malandragens. Essa pilhéria do urso
nada autêntico valeu-lhe uma sova e três anos de prisão.
Homem de tal jaez conhece todos os truques, a falsa miséria e a verdadeira,
a exploração e a dor sentida. É ele quem nos inicia.

Há mendigas burguesas, mendigas mães de família, alugadas,
dirigidas por caftens, cegas que vêem admiravelmente bem, chaguentas
lépidas, cartomantes ambulantes, vagabundas, e uma série de
mulheres perdidas cuja estrela escureceu na mais aflitiva desgraça.

Nos pontos dos bondes, pelas ruas, guiadas sempre por crianças de
faces inexpressivas, vemos tristes criaturas com as mãos estendidas,
mastigando desejos para a nossa salvação, com a ajuda de Deus

Há a Antônia Maria, a Zulmira, a viúva Justina, a d.
Ambrosina, a excelente e anafada tia Josefa; umas magras, amparadas aos bordões,
chorando humildades; outras gordas, movendo a mole do corpo com tremidinhos
de creme. Às portas das igrejas param, indagam quem entra, a ver se
a missa é de gente rica; postam-se nas escadarias, agachadas, salmodiando
funerariamente, olhando com rancor os mendigos – negros roídos
de alcoolismo, velhos a tremer de sífilis. A lista dessas senhoras
é interminável, e há entre elas, negócios à
parte, uma interessante sociabilidade. Cada uma tem o seu bairro a explorar,
a sua igreja, o seu ponto livre de incômodos imprevistos. Quando aparece
alguma neófita, olham-na furiosas e martirizam-na como nas escolas
aos estudantes calouros.

Têm, naturalmente, uma vida regrada a cronômetro suíço,
criaturas tão convencidas do seu ofício. Saem de casa às
6 da manhã, ouvem missa devotamente porque acreditam em Deus e usam
ao peito medalhinhas de santos.

Depois, postam-se à porta até que a última missa tenha
dado a receita suficiente às várias dependências do templo,
vão almoçar e começam a peregrinação pelos
bondes, de porta em porta, até à hora de jantar. Uma, a Isabel
Ferreira, cabocla esguia e má, pede à noite e confessa que isso
dá uma nota mais lúgubre, mais emocionante ao pedido.

Ao passar por essa gente sentem todos o fraco egoísmo da bondade e,
cinco ou seis dias depois de as conversar, percebe-se que esmolar é
apenas uma profissão menos fatigante que coser ou lavar – e sem
responsabilidades, na sombra, na pândega. A maior parte dessas senhoras
não tem moléstia alguma; sustenta a casa arrumadinha, canja
aos domingos, fatiotas novas para os grandes dias. São, ou dizem-se,
quase sempre viúvas.

Algumas, embrulhadas em xales pretos, acompanhadas de dois ou três
petizes, as mais das vezes alugados – como uma certa mulher cor de cera,
chamada Rosa – percorrem os estabelecimentos comerciais, ou lugares
de agitação; sobem às redações dos jornais,
forçando a esmola, agarrando, implorando. A d. Rosa, para dizer o seu
nome e a inaudita felicidade da vida numa rede de mentiras, arrancou-me cinco
mil réis, com precipitação, arte e destreza tais que,
quando dei por mim, já ia longe com os petizes e a nota.

Não há uma só cuja coleta diária seja menor de
dez mil réis, e, cada qual pede a seu modo, invadindo até as
sacristias das igrejas. A Francisca Soares, da igreja de S. Francisco, envolta
em uma mantilha de velho merinó, começa sempre louvando os irmãos
benfeitores pintados pelo sr. Petit.

Que retratos! Estão tal qual, certinhos! Depois, pergunta-nos se não
temos coupons de volta dos bondes, arrisca-se a implorar o tostão em
troca do coupon e, quando vê a moeda, fala mais do sr. Petit e acha
pouco. Outras, dotadas de grande vocação dramática, sussurram,
com a face decomposta, a angústia de um irmão morto em casa,
sem dinheiro para o caixão. O resto, sem inventiva, macaqueia o multiformismo
da invalidez, rezando.

A esmola, apesar da crise econômica que os jornais proclamam, subiu.
Não há quem dê moeda de cobre a um mendigo sem o temor
de desgostá-lo ou de levar uma descompostura cheia de pragas, que nessas
bocas repuxadas causam uma dolorosa impressão de dor e de confrangimento.

Logo de manhã, quando nas torres os sinos tangem, a tropa sobe para
a igreja.

– Bom dia, d. Guilhermina.

– Bom dia, d. Antônia. Como vai dos seus incômodos?

– O reumatismo não me deixa. É desta laje fria.

– Que se há de fazer? É a vontade de Deus. Então,
hoje, missas boas?

– Li no jornal: às nove e meia a do general… Mas, não
contemos. Os ricaços estão cada vez mais sovinas.

Aconchegam-se, tomam posição e, pouco depois, os níqueis
começam a cair e as vozes de dentro dos xales a sussurrar:

– Deus vos acompanhe! Deus lhe pague! Deus lhe dê um bom fim!

Há até certos lugares rendosos que são vendidos como
as cadeiras de engraxate e os fauteuils de teatro.

As mendigas alugadas são em geral raparigas com disposições
lamurientas, velhas cabulosas aproveitadas pelos agentes da falsa mendicidade,
com ordenado fixo e porcentagem sobre a receita. Encontrei duas moças
– uma de Minas, outra da Bahia – Albertina e Josefa, e um bando
de velhas nesse emprego. As raparigas são uma espécie de pupilas
da sra. Genoveva que mora na Gamboa. Josefa, picada de bexiga, só espera
o meio de se ver fora do jugo; Albertina, tísica, tossindo e escarrando,
apresenta um atestado que a dá por mãe de três filhos.

O atestado é, de resto, um dos meios de embaçamento público.

Certo caften, morador nos subúrbios, chamado Alfredo, tem por sua
conta um par de raparigas – a Jovita italiana, e a parda Maria. A Jovita
foi, a princípio, criada; fugiu com um rapaz, abandonou-o e caiu na
exploração da mendicidade com o sr. Alfredo. Maria é
a história de Jovita, um pouco mais escurecida. Ambas têm atestado
em bela letra, dizendo as graças que lhes vão por casa e o cadáver
à espera do caixão.

Como Jovita é bonita, os subscritores são tão numerosos
que pode fazer, sem cuidado, alguns enterramentos por semana. As 7 da noite,
tomam as duas o trem na Central e quando se sentem seguidas, saltam em estações
diferentes, metem-se nos bondes – tudo isso muito alegres e defendendo
o sr. Alfredo com grande dedicação.

O gênero é relativamente agradável, à vista dos
outros – o das vagabundas ladras e das pitonisas ambulantes, grupo de
que são figuras principais as sras. Concha e Natividad, espanholas,
e a sra. Eulália – cigana exótica. A sra. Concha, por
exemplo, é cleptômana, e, dessa tara lhe vem a profissão
– da tara e da inépcia policial. Quando cocotte, Concha teve
amantes ricos e roubava-lhes o relógio, os lenços, os alfinetes,
por diversão.

Foi presa por um inglês sisudo, e partiu para Lisboa onde repetiu a
cena tantas vezes que aos poucos se viu na necessidade de voltar ao Brasil
como criada. Roubou de novo, foi outra vez presa e resolveu ser cartomante
andarilha, ler a buena dicha pelos bairros pobres, pelas estalagens, para
roubar. É gordinha, anda arrimada a um cacete, fingindo ter úlceras
nas pernas. Aproxima-se, pede a esmola como quem pergunta se as coisas vão
mal.

– Deus a favoreça!

– Você tem cara de ser feliz! Vamos ver a suerte del barajo.

E tira do seio um maço de cartas. Quem nestas épocas dispersivas
crenças, deixará de saber da própria sorte? Mandam-na
entrar e ela conta histórias às famílias enquanto empalma
objetos e alguns níqueis agradecidos.

Natividad e Eulália seguem o mesmo processo, mas Eulália, aduncamente
cigana, lê nas mãos deformadas e calosas dos trabalhadores, enquanto
as suas apalpam os bolsos do cliente.

Do fundo desse emaranhamento de vício, de malandragem, gatunice, as
mulheres realmente miseráveis são em muito maior número
que se pensa, criaturas que rolaram por todas as infâmias e já
não sentem, já não pensam, despidas da graça e
do pudor. Para estas basta um pão enlameado e um níquel; basta
um copo de álcool para as ver taramelar, recordando a existência
passada.

Vivem nas praças, no Campo da Aclamação; dormem nos
morros, nos subúrbios, passam à beira dos quiosques, na Saúde,
em S. Diogo, nos grandes centros de multidões baixas, apanhando as
migalhas dos pobres e olhando com avidez o café das companheiras. Eu
encheria tiras de papel sem conta, só com o nome dessas desgraças
a quem ninguém pergunta o nome, senão nas estações,
entre cachações de soldados e a pose pantafaçuda dos
inspetores; e seria um livro horrendo, aquele que contasse com a simples verdade
todas as vidas anônimas desses fantásticos seres de agonia e
de miséria! Andam por aí ulceradas, sujas, desgrenhadas, com
as faces intumescidas e as bocas arrebentadas pelos socos, corridas a varadas
dos quiosques, vaiadas pela garotada. Nas noites de chuva, sob os açoites
da ventania, aconchegam-se pelos portais, metem-se pelos socavões,
tiritando… Às vezes, para cúmulo de desgraça, aparecem
grávidas, sem saber como, à mercê da horda de vagabundos
que as viola, que as tortura, que as bate, sem lhes conceder ao menos a piedade
do nojo; e os filhos morrem, desaparecem, levados na tristura do seu soluçante
existir, estrangulados, talvez, nos inúmeros recantos que a milícia
do nosso duplo policiamento ignora.

Acompanhado do cínico Mazzoli, ouvi-lhes as confissões inauditas.
Pela noite alta, íamos os dois para o Largo da Sé, para as beiradas
da Santa Casa, e, diante de nós, esses semblantes alanhados de sofrimento,
os olhos em pranto, como um bando de espertos, desvendaram-nos os paroxismos
da vida antiga.

Eram amorosas exploradas, ardendo ainda em raiva passional, eram vítimas
do caftismo sentindo no lábio o freio de lenocínio, eram cocottes
do chic, escalavradas de sífilis, na dor do luxo passado, e velhas,
velhas sem pecado, que a miséria, a ingratidão e a misteriosa
fatalidade desfaziam nos mais amargurados transes. Nunca os descabelados românticos
imaginaram tão torvos quadros.

Já quando se lhes pergunta o nome com bondade, a surpresa estala em
choro.

– Chamo-me Zoarda. Sou cubana. Vim para o Rio com um pelotari. Ao chegar
aqui, outro conquistou-me. Fui explorada por ambos. Eram bonitos, eram fortes!
Adoeci; eles tomaram outra. Quando saí do hospital só pensava
em matá-la!

– A quem?

– A ela, a outra. Fui, entretanto, presa e novamente segui para a Gamboa,
onde cheguei a ser enfermeira. Quando de lá saí, roída
pela moléstia, estava este trapo à espera do Zé-Maria.

– O Zé-Maria?

– Sim, da morte!

Zoarda vive a fingir que tem barriga-d’água.

– Josefina Veral, sim, senhor. Vim como criada. Um homem raptou-me;
vivi com ele seis anos. Entreguei-me à prostituição explorada
por dois malandros. Roubavam-me, a moléstia acabou a obra… Não
posso trabalhar.

E de dentro de sua negra boca saem descrições satânicas
da vida que a inutilizara.

– Ema Rosnick, nascida em Budapeste em 1874. Fui enjeitada num corredor.
Os moradores levaram-me à polícia que cuidou de mim. Aos 18
anos casei com Rosnick, um debochado. Uma vez atirou-me aos braços
de um amigo, a quem matou depois por questões de jogo; vim para o Brasil…Oh!
os exploradores. Estou neste estado.

Esta mulher de trinta anos parece ter sessenta.

E outras e outras, floristas ainda moças, velhas que tiveram lar,
mulheres passionais ou vítimas do amor, como nas prosas byronianas
de 1830, como nos dramalhões do Recreio, um mundo de soluços,
que, visto, ao nosso cepticismo parece falso.

Certa noite, no Largo da Sé, encontramos junto ao quiosque, cheia
de latas velhas e coberta de andrajos, uma cara de velha boneca aureolada
de farripas louras. A cara sinistra falava francês.

– Dá-me uma cigarreta, fez com o seu melhor sorriso. Turco?
Il y a longtemps!… Oh! Oh! fuma gianaclis?

Arredou as latas, puxou a traparia e os sacos com o ar de mímica Daynès
Grassot.

– Afaste o mendigo, disse baixo, e para a soleira suja: Asseyez-vous.
Vous êtes journaliste?

Eu vinha encontrar à espera dos restos de pão uma das mundanas
do Alcazar; eu estava falando com Françoise D’Albigny; a Fran,
a levada Fran, que tivera carros e agora discorria, com um arzinho postiço,
da Suzane Castera, de um deputado do norte que ainda hoje figura na Câmara,
de um conhecido jornalista seu amigo!

– Desgraças, mon petit! Tenho 65 anos. Casei, sabes, uma loucura!
Casei com Maconi, que me pôs neste estado!

Representando logo, o pobre trapo da luxúria elegante, bateu-me a
caixa de cigarretas e dinheiro, que com um sorriso atroz dizia ser para bonbons.

Eram dez horas da noite. O dono do quiosque fechava as persianas, apagando
os bicos de gás. E, vendo-a naquele gozo, na pantomima do prazer, berrou,
de longe:

– Eh! lá, lambisgóia velha, se não te apressas
não levas o pão!

Os Que Começam…

Não há decerto exploração mais dolorosa que a
das crianças. Os homens, as mulheres ainda pantomimam a miséria
para lucro próprio. As crianças são lançadas no
ofício torpe pelos pais, por criaturas indignas, e crescem com o vício
adaptando a curvilínea e acovardada alma da mendicidade malandra. Nada
mais pavoroso do que este meio em que há adolescentes de dezoito anos
e pirralhos de três, garotos amarelos de um lustro de idade e moçoilas
púberes sujeitas a todas as passividades. Essa criançada parece
não pensar e nunca ter tido vergonha, amoldadas para o crime de amanhã,
para a prostituição em grande escala. Há no Rio um número
considerável de pobrezinhos sacrificados, petizes que andam a guiar
senhoras falsamente cegas, punguistas sem proteção, paralíticos,
amputados, escrofulosos, gatunos de sacola, apanhadores de pontas de cigarros,
crias de famílias necessitadas, simples vagabundos à espera
de complacências escabrosas, um mundo vário, o olhar de crime,
o broto das árvores que irão obumbrar as galerias da detenção,
todo um exército de desbriados e de bandidos, de prostitutas futuras,
galopando pela cidade à cata do pão para os exploradores. Interrogados,
mentem a princípio, negando; depois exageram as falcatruas e acabam
a chorar, contando que são o sustento de uma súcia de criminosos
que a polícia não persegue.

A metade desse bando conhece as leis do prefeito, os delegados de polícia
e acompanha o movimento da política indígena, oposicionista
e vendo em cada homem importante uma roubalheira. São em geral os mendigos
claramente defeituosos a que falta uma perna, um braço.

A perda que os tornou inválidos é uma espécie de felicidade,
a indolência e o sustento garantidos.

À beira das calçadas o dia inteiro têm tempo de se tornarem
homens e de ler os jornais. Fazem tudo isso com vagar. Quando um ponto se
torna insustentável vão para outros, e há entre eles
relações, morféias que se ligam às úlceras,
olhos em pus que olham com ternura companheiros sem braços, e todos
guardando a data do desastre que os mutilou, que os fez entrar para a nova
vida com a saudade da vida passada.

Fui encontrar na ponte das barcas Ferry alguns de volta de Niterói.
Vinham alegres, batendo com as muletas, a sacolejar os fartos sacos, na tarde
álgida. Só nessa tarde interroguei seis: Francisco, antigo peralta
da Saúde; Antônio, jovem de dezoito anos, que, graças
à falta de uma perna, trabalha desde os doze; Pedro, pardinho crispinhento,
que ri como um suíno e é o curador de uma senhora idosa; João
Justino, sem um braço, e pequenos Felismino e Aurélio. Voltavam
de mendigar.

Francisco é atroz. Míope, com a cara cheia de sulcos, a boca
enorme e sem dentes, fuma cigarros empapados de saliva e tagarela sem descontinuar.

– Qual! Niterói não dá nada. Às vezes tenho
que pedir emprestado para voltar. O xará não permite porém
mendigo sem realejo. Eu sou fino. Vou para outro lugar.

– Quantas vezes estiveste na cadeia?

– Eu? não senhor! nunca! É verdade que uma vez fui preso
por um inspetor viciado… Mas não estava fazendo nada. Também
não me incomodo. Vou, torno a sair. E, sem transição:
não imagina as vezes que tenho sido pegado. O Dr. Paula Pessoa, quando
era delegado, já dizia: para pegar essas inutilidades? E eu só
esperando. Olhe – morrer de fome é que eu não morro.

– Então já estiveste preso?

Quantas vezes! É preferível a cadeia ao tal Asilo. Antônio
é outro gênero, o gênero dulçoroso, cheio de humildades
açucaradas. Repete logo como uma nota policial o esmagamento da perna.
Foi a 11 de novembro de 1897, na esquina da Rua da Uruguaiana. Caiu às
2 e 20 da tarde, quando passava o bonde chapa tanto.

E diz essas coisas vagamente magoado como se chorasse sem sentir. Mas mente,
inventa nomes, faz-me jurar que não lhe farei mal, entrega-se à
minha proteção, de que depende a sua vida, com uma detestável
e beata hipocrisia. Era ajudante de pedreiro. Após o desastre mandaram-no
esmolar no Passeio Público. O pai é trabalhador, ganha quatro
mil e quinhentos, tem oito filhos e a mulher doente.

Ele ajuda com o dinheiro das esmolas. É um dos casos de formação
de caráter, de inversão moral. Adolescente, forte, musculosa,
a permanência na mendicidade deu-lhe à voz melopéias suspirosas
e um recheio de votos pela sorte alheia. Não fala um segundo sem pedir
a Deus que nos ajude, sem agradecer em nome de Deus a nossa bondade.

– Ai! Nossa Senhora, juro por Deus que todo o desejo que tenho é
trabalhar. .

Simples blague. Dêem-lhe um emprego e rejeitará, inutilizado
pela vida de sarjeta, de desbrio, de inconsciente sem-vergonhice a que o forçou
o pai.

Esse bando, porém, é evidentemente defeituoso; ganha dinheiro,
como se estivesse empregado para sustentar a família. Há o outro,
o maior, o infindável, que a polícia parece ignorar, a exploração
capaz de emocionar os delegados nos dramalhões, a indústria
da esmola infantil exercida por um grupo de matronas indignas e de homens
criminosos, as criancinhas implumes, piolhentas e sujas, que saem para a rua
às varadas, obrigadas ao sustento de casas inteiras; há a exploração
lenta, que ensina os pequenos a roubar e as meninas a se prostituirem; o caftismo
disfarçado, que espanca, maltrata e extorque. É um vasto tremedal
a que a retórica sentimental nada adianta, cujo mal a segurança
pública não quer remediar. Basta ter a simples curiosidade para
mergulhar nesse caleidoscópio infinito de cenas torturantes de uma
mesma ação, basta parar a uma esquina e ouvir a narração
dessas tragédias vulgares e de fácil remédio.

A série de meninas é enorme, desde as cínicas de face
terrosa às ingênuas e lindas.

– Como se chama você?

– Elisinha, sim senhor.

É parda: tem nove anos.

Embrulhada nuns farrapos, a tremer com os beicinhos roxos e as mãos
no ar, muito aflita, parece que lhe vão bater. Mora na Rua Frei Caneca.

Não vai para a casa, não pode ir. A madrinha bate-lhe, tem
o corpo cheio de equimoses.

– Quando não arranjo bastante para a madrinha e as filhas, dão-me
sovas!

Destes casos há muitos com diversas modalidades. Jovita, por exemplo,
pede esmola com uma bandeja dizendo que é missa pedida ou promessa
feita. A mulher que a criou e a explora, a terrível megera Maria Trapo
Velho, mora na Rua São Diogo e dá-lhe conselhos de roubo.

– Ela diz que, quando encontrar roupas ou outros objetos, meta no saco.
Quando passo uma semana sem levar nada, põe-me de castigo, com os joelhos
em cima do milho e sem comer.

Rosinha mora na Rua Formosa. Sai acompanhando uma senhora que finge de cega.
A mãe é negra; ela é alva e todos ficam admirados!

Judite, com oito anos, moradora à Rua da Lapa, andava com o pai pelo
subúrbio, tocando realejo. O pai fingia-se de cego, e como um cidadão
descobrisse a patifaria, é ela só quem esmola, atacando as senhoras,
pedindo algum dinheiro para a mãe moribunda. Laura e Amélia,
filhas da senhora Josefina, têm um irmão que aprende o ofício
de carpinteiro, moram na Rua da Providência e passam o dia a arranjar
dinheiro para a mamã mais o padrasto.

– E o padrasto, que faz?

– Dá pancada na gente quando não se anda direito.

Estela, mulatinha, vive com uma dama que se diz sua avó, na Rua Senador
Eusébio. As vezes fica até às dez horas da noite à
porta da Central, esmolando. Nicota, moradora no Pedregulho, tem treze anos
e perigosa viveza de olhar. A puberdade, a languidez dos membros rijos dão-lhe
receitas grandes. É mandada pelo padrasto, um português chamado
Jerônimo, que a industria. Explora a miséria no jardim de Eros,
fazendo tudo quanto a não prejudica definitivamente, à porta
dos quartéis, pelos bairros comerciais, ao escurecer. Confessa que
vai abandonar o Jerônimo pelo sargento Gomes, a quem ama. A lista não
tem fim, é o mesmo fato com variantes secundárias.

Se nessas crianças encontramos o abismo da perdição
a tragá-las, nos pequenos vemos um grande esboço de todos os
crimes.

Em quatro dias interrogamos noventa e seis garotos, estrangeiros, negros,
mulatos, uma sociedade movediça e dolorosa. Há desde os pequenos
que sustentam famílias até os gatunos precoces que se deixam
roubar na vermelhinha à beira do cais, entre murros e cachações.

O primeiro a encontrarmos é o negrinho Félix, morador à
Rua do Costa, órfão, que vive na casa de uma família.
Como as coisas estão más, sai de sacola, a esmolar e a roubar.
Já esteve preso por apanhar várias amostras de uma loja, mas
um moço da polícia, que gosta de uma das meninas da casa, soltou-o.

– Que fazes hoje?

– Hoje tenho que roubar um queijo. Sinhazinha diz que não apareça
sem um queijo.

Armando, petiz de dez anos, diz-se italiano por causa das dúvidas.
Pára no Largo da Sé e, ingenuamente, conta que a família
não faz comida há três anos. É ele que arranja
tudo, fora os cobres. José Vizuvi, também italiano, é
filho do conhecido mendigo Vizuvi. Sai da Rua do Alcântara, onde mora,
às 5 da manhã, à procura dos pães que os padeiros
costumam deixar nas janelas e à porta de certas casas. Quando a janela
é alta serve-se de um pau em forma de ferrão. O pai ensina-o
a roubar. Dudu de Oliveira passa o dia no Mercado e nos bairros centrais.
A mãe, fingindo-se de cega, esmola no Largo do Machado. Ele leva recados
suspeitos e propõe-se a misteres ignóbeis.

João Silva, morador à Rua Senador Pompeu, com treze anos, também
serve para esses serviços pouco asseados. A mãe, sem emprego,
é espancada pelo amante que lhe arranca todo o dinheiro. Franzino,
doloroso, esse pretinho na ânsia da vida sustenta um caften reles. Todos
esses nomes ignorados escondem dramas pungentes, cenas de horror, vidas perdidas.

A observação de tantos casos não me dava o tipo do explorador,
não me mostrava os peralvilhos que vivem à custa das pobres
crianças, receosas de me mostrar as casas onde são torturadas.
Encontrei-o, porém, o tipo ideal, o drama resumo de um estado social,
a tragédia soluçante que cada vez mais se alastra.

Logo no começo da Rua Uruguaiana há uma mulher de cor branca,
fisionomia torva, sempre embiocada em panos pretos. Chamam-na a Cameleão,
alcunha que lhe ficou do peralta do filho. Esse ente repelente tem uma estalagem,
um prédio; é rica e pede esmola, provando ser viúva pobre.
Quando encontra crianças, leva-as para a casa, um doloroso centro de
lenocínio e velhacaria, a extorqui-las. Presentemente tem cinco petizes,
todos menores de doze anos; três meninos, Alfredo, Felipe e Narciso,
e duas meninas, Gertrudes e Madalena. As criancinhas saem pela manhã,
voltam para almoçar, tornam a sair e só voltam à noite,
para o interrogatório e a palmatória.

Um dos pequenos mostrou-me o ogre horrendo. Arrastava-se com uma voz pastosa
e, quando me viu, trêmula curvou-se.

– Pelo amor de Deus! uma esmola para os desgraçadinhos!

Os desgraçadinhos, na tarde chuvosa, pareciam transidos.

O vento fustigava-lhes as carnes seminuas e eles, agarrados uns aos outros,
na fraternidade do sofrimento, sem pai, sem mãe, sem amparo, erguiam
os olhos para o céu numa angustiosa súplica.

Onde às vezes termina a Rua

Crimes de Amor

Ao entrar no seu gabinete, severamente mobiliado de canela escura, o capitão
Meira Lima disse:

– Meu caro amigo, tem você ampla liberdade. Pode ver, interrogar,
examinar. Há agora na detenção quatrocentos e cinqüenta
e quatro detentos, dos quais trezentos e noventa e cinco homens e cinqüenta
e nove mulheres. Antigamente, era maior o número. Nós conseguimos
que se não mantivessem aqui presos à disposição
dos delegados sem processo. Mas, ainda assim, o exército do crime está
bem representado. Há gatunos, desordeiros, incendiários, defloradores,
mulheres perdidas, vítimas da sorte, criminosos por amor – toda
uma flora estranha e curiosa. Estude você os crimes de amor. Lembra-se
de um dramalhão do repertório da Ismênia: Aimée,
ou o assassino por amor? Não é do seu tempo nem do meu, mas
comoveu a geração passada e tem contínuos exemplos nas
penitenciárias.

– E nas literaturas.

– Pois vá ver esses criminosos. O assassino por amor é
o único delinqüente que confessa o crime.

Alguns chegam mesmo a reviver detalhes insignificantes. Ao passo que os gatunos,
os incendiários e os homicidas vulgares, mesmo tendo a cumprir sentenças
longas, negam sempre o crime; essas vítimas da paixão não
se cansam de contar a sua história, cada vez com maior número
de minúcias e mais abundância de memória.

– Pois, vejamos as vítimas do amor!

O capitão mandou chamar o chefe dos guardas, Antônio Barros,
e saímos para o pátio, onde os presos serventes mourejavam.

– Há uns cinco casos notáveis, informava-se o guarda.
Vamos entrar na primeira galeria.

A galeria é um enorme corredor, ladeado de cubículos engradados.
A má disposição de luz, com a claridade da frente e dos
fundos e a claridade das prisões, dá a esse corredor uma perpétua
atmosfera de meia sombra. Através dos muros brancos ouve-se o sussurro
das conversas murmuradas. Barros aponta-me silenciosamente uma das jaulas.
Aproximo-me e do fundo vejo surgir um velho preto, magro, seco, com o olhar
ardente e a cabeça branca. Pergunto receoso:

– Por que está aqui?

– Porque matei.

Nas prisões há duas coisas revoltantes: o cinismo do que nega
e o que confessa como uma afronta. Aquela frase breve tinha, porém,
cunho de uma dolorosa sinceridade.

– Eu sou do crime da Estrada Real, continuou o pobre agarrando-se aos
varões de ferro. Chamo-me Salvador Firmino, tenho sessenta e três
anos.

– E matou?

– Porque ela quis.

E de repente, como se a lembrança da cena o forçasse a se desculpar,
a sua cabeça branca curvou-se, os seus olhos lampejaram:

– Quando eu encontrei Silvéria, era casado e feliz. Abandonei
a mulher, só para viver com ela. Silvéria tinha dois filhos.
Eduquei-os eu, dei-lhes o sustento, o ensino. Uma casa que consegui comprar
logo passei para o seu nome, e de tudo eu me lembrava que a tornasse feliz.
Silvéria tinha quarenta anos e eu gostava dela. Foi quando apareceu
o outro. A mulher ficou com a cabeça virada, já não lhe
bastava o meu carinho. Saía só, para passear com ele, não
se importava com o passado, não me falava. O desaforo chegou ao ponto
do outro vir trazê-la até à porta de casa. As vezes, eu
os via de longe e entrava no mato para os não encontrar. Que dor! Eu
tinha tanto medo de acabar… Uma noite, ela saiu, esteve na festa de Nossa
Senhora e voltou acompanhada até à porta pelo outro. Eu bem
que os vira, mas fingi não saber de nada quando entrei em casa. Silvéria
conversava com a vizinha e dizia: “Mas se eu já lhe disse que
podia vir…” Não pude comer a sopa; fui logo deitar-me. Do quarto
via-se a sala, onde dormia o pequeno filho dela,e não demorou muito
tempo que a vizinha não colocassse na cama outro travesseiro. Eu estava
olhando, à luz da lamparina. Deixei passar alguns minutos e disse:
“Ó Silvéria, vem-te deitar.” Ela não respondeu.
“Silvéria, já disse que viesses dormir!” “Já
vou.” De repente, os cães, no terreiro, começaram a ladrar.
Era um alarido. Saltei da cama, agarrei o revólver. “Quem está
aí?” Ela apareceu então: “Deita-te, não é
nada.” “Qual! Pois se os cães estão ladrando…É
alguém.” “Que vais fazer?” “Ver”. “Não
vás, Firmino não vás, não é nada!”
E agarrava-se ao meu braço. “Como não hei de ir? Se for
gatuno? Talvez esteja a roubar a criação.” “Firmino,
meu velho, não vás!” Dei-lhe um empurrão, abri a
tranca. Na moita, só a lua aclarava as moitas e os cães arfavam
cansados. Voltei. Ela estava sentada, chorando. “Tu desconfias de mim!”
“Eu? que falso!” “Tu pensavas que era o Herculano!” “Eu?
Nem pensava nisso!” “Pensavas, sim! E o melhor é acabar com
isso. Vou-me embora!” Ela estava à espera de um pretexto. Para
que discussões? Deitei-me outra vez, sem poder dormir. Silvéria
continuava na sala, remexendo os móveis. Pela madrugada, já
os galos tinham cantado e o luar estava desmaiado, ouvi que abriam a porta.
Ergui-me, corri. Ela ia pela estrada, com a trouxa da roupa, ia sem se despedir
de mim, que lhe dera tudo, ia embora… Deitei a gritar: “Silvéria!
Silvéria! Não vás.” “Adeus!” “Mas
tu estás maluca, mulher.” “Não me fales, estou farta.”
“Vais para o Herculano?” “Vou, sim, e agora?” “Um
homem que podia ser teu filho!” “Talvez seja mais feliz.” “Silvéria!
Silvéria!” “Basta de conversa fiada…” Eu então
senti um desespero que me sacudia os nervos e não pude mais…

Para ouvir a história, encostara a cabeça na pedra em que os
varões de ferro se encravavam. O pobre velho tremia num soluço
sem fim. Então, eu lhe estendi a mão sem uma palavra, e segui,
como se tivesse acordado de um horrível pesadelo. O guarda Barros acompanhava-me.

– Pobre homem! Tentou suicidar-se e é preciso uma vigilância
extrema para que aqui não tente outra vez contra a própria vida.

Já os sinais misteriosos com os quais se correspondem os detentos
haviam anunciado uma pessoa estranha ao estabelecimento. Em todos os cubículos,
nas galerias, correra o som anunciador, e nas grades amontoavam-se as caras
dos que não serão em breve da sociedade. Barros parou pouco
adiante, apontando-me um homem magro, pálido, com o pescoço
embrulhado num cache-nez. O homem corcovava tossindo, e os seus dois olhos
brilhavam como os de um tísico. Ao lado, um português bem disposto
sorria.

– O seu crime?

– Umas rusgas, tentativa de morte, não fui eu…

– E o seu?

– Matei minha mulher.

Esse também confessava. Então era verdade? O crime de amor
é o único confessável? Acerquei-me cheio de simpatia,
e o sujeito magro não esperou que eu lhe perguntasse mais nada. Antes,
na ânsia de desabafar, atirou o cache-nez às costas e começou:

– Chamo-me Abílio Sarano, sou barbeiro. Sempre fui honesto.
É a primeira vez que entro aqui por causa do crime do Catete. Não
sabe? V. Sa não sabe? Eu namorei uma moça, d. Geraldina, e com
ela casei-me. Dias depois do nosso casamento minha esposa confessou-me que
tinha sido gozada por um negociante, amante de sua própria mãe.
Esse homem voltava a persegui-la. Era de noite, eu voltara do trabalho e amava
minha senhora. Foi como se o mundo todo se desmoronasse. Ela, coitadinha,
caíra de joelhos; eu interrogava, querendo saber tudo. “Anda,
fala, dize como foi.” O negociante, o biltre forçara-a numa cadeira,
e ninguém soubera. Quando acabou, eu estava sem forças e chorava.
“E agora, Geraldina, que será de nós? que vai ser de nós?”
Ela consolava-me. Agora, era esquecer esse sujeito odioso. Acreditei e começamos
a viver a triste vida da dúvida. A mãe infame e a família
continuavam, porém, a seduzi-la. Uma noite, apesar de ser sábado,
eu fui cedo para casa. Geraldina estava nervosa. Conversávamos na sala
quando a criada veio dizer que um homem procurava a patroa. “Um homem?
Espera, vou eu mesmo ver quem é.” No topo da escada estava um
cidadão robusto. “d. Geraldina está?”. Num relâmpago
compreendi que era ele. “d. Geraldina? Ah! canalha, espera que eu te
vou dar a Geraldina!” Saquei do revólver, e minha senhora apareceu
assustada: “Fuja, seu Álvaro, fuja! Fuja!”. Ela mandava-o
fugir. Como um louco, ergui a arma. Ele descia os degraus da escada e Geraldina
tapara-me a passagem. Detonei uma, duas vezes, descemos de roldão.
No patamar, o corpo dele jazia. Matei-o, pensei, acabei a minha vida! E deitei
a correr. .. Só mais tarde, soube a verdade. As balas tinham ferido
minha mulher. Ele fingira-se morto e escapara são e salvo. É
por isso que estou aqui.

O chefe dos guardas chamara-me ao fundo, para a mesa que fica entre as escadas
das galerias superiores.

– Há ainda dois casos interessantes: um menino e uma mulher.
Quer ver? Vou mandar buscar o menino. Sente-se.

Eu sentei-me. Por todas as janelas gradeadas, o sol entrava claro e benfazejo.
Minutos depois, surgia, trazido pelo guarda, um pardinho cor de azeitona,
dessas fisionomias honestas, alheias a devassidões.

– Como se chama?

Ele tomou uma posição respeitosa, falando bem, com desembaraço.

– Chamo-me Alfredo Paulino, sim, senhor. Tenho dezoito anos.

– E já casado?

– Casei aos dezesseis. Os meus parentes não queriam, mas depois
o pai disse: “É melhor mesmo. Ao menos, não ficas perdido”.
Eu já ganhava o suficiente para sustentar dignamente a minha família.
Casei. Foi nessa ocasião que o Dr. Constantino Néri me ofereceu
o emprego de copeiro no palácio de Manaus. Aceitei, e voltávamos
para o Rio quando a bordo encontramos um rapaz de dezoito anos, chamado José.

– Era bonito o José?

– Era simpático, sim, senhor, não posso negar. Ficamos
tão amigos que, ao chegar, ele foi morar conosco. Primeiro, tudo andou
direito, mas depois começaram os cochicos, as frases, as cartas anônimas.
Era preciso tomar uma resolução. Disse ao José que não
o podia ter mais em casa – por certas dificuldades. Ele saiu, mas eu
sabia que a Adélia lhe falava. Passaram-se meses nessa tortura. De
vez em quando eu a interrogava e sempre obtinha respostas negativas. Certo
dia passei pelo José na rua e ele riu. Em casa pus Adélia em
confissão, e ela disse: “É mesmo, fizeste bem em pôr
esse homem na rua. Andava-me tentanto e foi tão ingrato que nem se
despediu da gente direito.” De outra feita, encontrei-os na esquina,
conversando e afinal, em casa. Foi então que eu fiquei desatinado.

Oh! o amor! Eu ouvira o amor sexagenário, o amor doloroso, o amor
lilliput desse ménage de crianças! Todos tinham chegado ao mesmo
fim trágico, ontem criaturas dignas, hoje com as mãos vermelhas
de sangue, amanhã condenados por um juiz indiferente. Fiz um gesto.
O pequeno insistiu.

– Já que estou aqui, quero trabalhar. Nunca passei sem trabalhar.
Peço a V. Sa para ver se entro como servente. Não quero estar
no cubículo com aquela gente.

Neste momento traziam uma negra roliça, de dentes afiados, com um
sorriso alvar a iluminar-lhe a cara. Era a Herculana, a autora de um crime
célebre. Matara o amante enquanto este dormia, acendera todas as velas
que encontrara e começara a cantar. O amante tinha vinte e três
anos.

– E por que foi?

– Ora, nós brigamos. Eu gostava dele. Nós brigamos. Um
dia, ele me disse uma porção de nomes. Eu fiquei calada, mas
quando o vi deitado, com o pescoço à mostra, roncando, parece
que o diabo me tentou. Eu fui então, com a faca…

Aproximei-me, e bem perto, quase murmurando as palavras:

– Diga: era capaz de fazer o mesmo outra vez, de abrir o pescoço
do pobre rapaz, de acender as velas, de cantar? diga: era?

Ela riu como uma fera boceja, e disse num arranco de todo o ser:

– Eu era, sim, senhor…

Que estranha psicologia a dessas flores magníficas do jardim do crime!
Que poderoso transformador o amor! Bem dizia Tennyson ao evocá-lo:
Thou madest Life, in man and brute, thou madest Death… Eu começara
a minha visita à beira do desespero, na púrpura de uma moita
de lírios vermelhos.

Com os corações em sangue, vi uma coleção de
assassinos, desde um velho lamentável até uma criança
honesta, postos fora da sociedade pelo desvario, pela loucura que a paixão
sopra no mundo. A mulher, que os poetas levam a cantar, Vênus inconsciente
e perversa, Lilith, lendária, surgia nessa ruína, perdendo,
estragando, corroendo, matando, e eu sentia, no olhar e no gesto de cada uma
das vítimas do amor, o desejo de guardar o perfil das suas destruidoras.
Oh! esses seres, que Schopenhauer denominava animais de cabelos compridos
e idéias curtas, que formidável obra de destruição
cometem! São a torrente a que ninguém pode resistir, a força
dominadora da maldade, os molochs da alegria. As gerações futuras,
livres dos nossos velhos deuses, devem, para que a harmonia as guie, levantar
nas cidades um altar votivo onde os adolescentes possam sacrificar, todas
as manhãs à ira de Vênus sanguissedenta.

Mas as minhas reflexões pararam. Como tocasse um sino, pela escada
da direita desceu um cavalheiro elegante que tapava o rosto com o lenço.
E logo depois, grácil e airosa, com um rico vestido preto, caminhou
pela galeria, olhando altivamente os presos, uma mulher cuja fronte parecia
a pura fronte da inocência.

O guarda curvou-se:

– O Dr. Saturnino e a esposa…

Eu vira o último crime de amor da detenção.

A Galeria Superior

A galeria superior é dividida por um tapume, com portas de espaço
a espaço para o livre trânsito dos guardas. Os presos não
podem ver os cubículos fronteiros. Os olhos abrangem apenas os muros
brancos e a divisão de madeira que barra a cal das paredes. Quando
a vigilância diminui, falam de cubículo para cubículo,
atiram por cima do tapume jornais, cartas, recordações.

Estão atualmente na galeria duzentos e trinta e oito detentos. A aglomeração
torna-os hostis. Há confabulações de ódio, murmúrios
de raiva, risos que cortam como navalhas. Com o sentido auditivo educadíssimo,
basta que se dirija a palavra baixo a alguém do primeiro cubículo
para que o saibam no último. E então surgem todos, agarram-se
às grades, com o olhar escarninho dos bandidos e a curiosidade má
que lhes decompõe a cara.

Ah! essa galeria! Tem qualquer coisa de sinistro e de canalha, um ar de hospedaria
da infâmia à beira da vida. Nos cubículos há, às
vezes, dezenove homens condenados por crimes diversos, desde os defloradores
de senhoras de dezoito anos até os ladrões assassinos. A promiscuidade
enoja. No espaço estreito, uns lavam o chão, outros jogam, outros
manipulam, com miolo de pão, santos, flores e pedras de dominó,
e há ainda os que escrevem planos de fuga, os professores de roubo,
os iniciadores dos vícios, os íntimos passando pelos ombros
dos amigos o braço caricioso… Quantos crimes se premeditam ali? Quantas
perversidades rebentam na luz suja dos cárceres preventivos? Saciados
da premeditação, há os jornais que lhes citam os nomes,
há o desejo de possuir uma arma, desejo capaz de os fazer aguçar
asas de caneca, o aço que prende a piaçava das vassouras, as
colheres de sopa, e há ainda o jogo. Nesses cubículos joga-se
mais de quarenta espécies de jogos. Eu só contei trinta e sete,
dos quais os mais originais – o camaleão, a mosca, o periquito,
o tigre, a escova, o osso, a sueca, o laço, as três chapas –
são prodígios de malandragem. E nenhum deles se recusa aos parceiros.
Quando algum desconhecido passa, deixam tudo, precipitam-se, alguns nus, outros
em ceroulas, e há como um panorama sinistro e caótico, –
negros degenerados, mulatos com contrações de símios,
caras de velhos solenes, caras torpes de gatunos, cretinos babando um riso
alvar, agitados delirantes, e mãos, mãos estranhas de delinqüentes,
finas e tortas umas, grossas algumas, moles e tenras outras, que se grudam
aos varões de ferro com o embate furioso de um vagalhão.

Vive naquela jaula o crime multiforme. O guarda aponta o Cecílio Orbano
Reis, assassino, na Saúde, de uma mulher que lhe resistira; o João
Dedone, facínora cínico; matadores ocasionais, como Joaquim
Santana Araújo, quase demente; o Mirandinha, mulato, passador de moeda
falsa, se faz passar por advogado; o Barãozinho, gatuno; Bouças
Passos, ladrão assassino, Salvador Machado, o íntimo criado
da Tina Tatti; negros capangas com as bocas sujas, que resistem à prisão
com fúria; desordeiros temíveis como o Eduardinho da Saúde,
retorcendo os bigodes, cheio de langores; sátiros moços e velhos
violadores; o célebre Pitoca, que tem sessenta e seis entradas; rapazes
estelionatários e até desvairados, como João Manuel Soares,
acusado de tentativa de morte na pessoa do Sr. Cantuária, que leva,
numa agitação perpétua, a dizer:

– Eu sei, foi o bicho… foi por causa do bicho, hein? Está
claro!

Dois baixos-relevos alucinadores, dois frisos da história do crime
de uma cidade, ora alegres, ora sinistros, como se fossem nascidos da colaboração
macabra de um Forain e de um Goya, dois grandes painéis a gotejar sangue,
treva, pus, onde perpassam, com um aspecto de bichos lendários, os
estupradores de duas crianças, de sete e de dez anos.

E em meio do charco, fatalmente destinada a desaparecer, a inocência,
atirada ali pela incúria das autoridades, floresce.

Encontro ao lado de respeitáveis assassinos, de gatunos conhecidos,
na tropa lamentável dos recidivos, crianças ingênuas,
rapazes do comércio, vendedores de jornais, uma enorme quantidade de
seres que o desleixo das pretorias torna criminosos. Quase todos estão
inclusos, ou no artigo 393 (crime de vadiagem), ou no 313 (ofensas físicas).
Os primeiros não podem ficar presos mais de trinta dias, os segundos,
sendo menores, mais de sete meses. Os processos, porém, não
dão custas, e as pretorias deixam dormir em paz a formação
da culpa, enquanto na indolência dos cubículos, no contacto do
crime, rapazes, dias antes honestos, fazem o mais completo curso de delitos
e infâmias de que há memória. Chega a revoltar a inconsciência
com que a sociedade esmaga as criaturas desamparadas. Nessa enorme galeria,
onde uma eterna luz lívida espalha um vago horror, vejo caixeiros portugueses
com o lápis atrás da orelha, os olhos cheios de angústia;
italianos vendedores de jornais, encolhidos; garçons de restaurant;
operários, entre as caras cínicas dos pivettes reincidentes
e os porqueiros do vício que são os chefes dos cubículos.
Todos invariavelmente têm uma frase dolorosa:

– É a primeira vez que eu entro aqui!

E apelam para os guardas, sôfregos, interrogam os outros, trazem o
testemunho dos chefes.

Por que estão presos? José, por exemplo, deu com uma correia
na mão de um filho do cabo de um delegado; Pedro e Joaquim, ao saírem
do café onde estão empregados, discutiram um pouco mais alto;
Antônio atirou uma tapona à cara de Jorge. Há na nossa
sociedade moços valentes, cujo sport preferido é provocar desordens:
diariamente, senhores respeitáveis atacam-se a sopapo; jornalistas
velho-gênero ameaçam de vez em quando pelas gazetas, falando
de chicote e de pau a propósito de problemas sociais ou estéticos,
inteiramente opostos a esses aviltantes instrumentos de razão bárbara.
Nem os moços valentes, nem os senhores respeitáveis, nem os
jornalistas vão sequer à delegacia.

Os desprotegidos da sorte, trabalhadores humildes, entram para a detenção
com razões ainda menos fundadas.

E a detenção é a escola de todas as perdições
e de todas as degenerescências.

O ócio dos cubículos é preenchido pelas lições
de roubo, pelas perversões do instinto, pelas histórias exageradas
e mentirosas. Um negro, assassino e gatuno, pertencente a qualquer quadrilha
de ladrões, perde um cubículo inteiro, inventando crimes para
impressionar, imaginando armas de asas de lata, criando jogos, armando rolos.
Oito dias depois de dar entrada numa dessas prisões, as pobres vítimas
da justiça, quase sempre espíritos incultos, sabem a técnica
e o palavreado dos chicanistas de porta de xadrez para iludir o júri,
lêem com avidez as notícias de crimes romantizados pelos repórteres
e o pavor da pena é o mais intenso sugestionador da reincidência.
Não há um ladrão que, interrogado sobre as origens da
vocação, não responda:

– Onde aprendi? foi aqui mesmo, no cubículo.

Recolhida à sombra, nesse venenoso jardim, onde desabrocham todos
os delírios, todas as nevroses, é certo que a criança
sem apoio lá fora, hostilizada brutalmente pela sorte, acabará
voltando. Mais de uma vez, na cerimônia indiferente e glacial da saída
dos presos, eu ouvi o chefe dos guardas dizer:

– Vá, e vamos a ver se não voltas.

Como mais de uma vez ouvi o mesmo guarda, quando chegavam novas levas, dizer
para umas caras já sem vergonha:

– Outra vez, seu patife, hein?

Mas que fazer, Deus misericordioso? Nunca, entre nós, ninguém
se ocupou com o grande problema da penitenciária. Há bem pouco
tempo, a detenção, suja e imunda, com cerca de novecentos presos
à disposição de bacharéis delegados, era horrível.
Passear pelas galerias era passear como o Dante pelos círculos do Inferno,
e antes do Sr. Meira Lima, cuja competência não necessita mais
de elogio, o cargo de administrador estava destinado a cidadãos protegidos,
sem a mínima noção do que vem a ser um estabelecimento
de detenção.

Qual deve ser o papel da polícia numa cidade civilizada? Em todos
os congressos penitenciários, até agora tão úteis
como o nosso último latino-americano, ficou claramente determinado.
A polícia é uma instituição preventiva, agindo
com o seu poder de intimidação, e o Dr. Guillaume e o Dr. Baker
chegaram, em Estocolmo, às conclusões de que uma boa polícia
tem mais força que o código penal e mais influência que
a prisão.

A nossa polícia é o contrário. Para que a detenção
dê resultados, faz-se necessário seja conforme ao fim predominante
da pena, com o firme desejo de reformar e erguer a moral do culpado. Que fazemos
nós? Agarramos uma criança de catorze anos porque deu um cascudo
no vizinho, e calma, indiferente, cinicamente, começamos a levantar
a moral desse petiz dando-lhe como companheiros, durante os dias de uma detenção
pouco séria, o Velhinho, punguista conhecido, o Bexiga Fraga, batedor
de carteira e um punhado de desordeiros da Saúde!

A princípio tomei-lhes os nomes: Manuel Fernandes, Antônio Oliveira,
Francisco Queirós, Martins, Francisco Visconti, Antônio Gomes.

Mas era inútil. Para que, se o crime está na própria
orgarnização da polícia? Está marcado! E eu ia
deixar esse canto do jardim sinistro quando vi uma pobre criancinha, magra,
encostada à parede, o olhar já a se encher de sombra.

– Como te chamas?

– José Bento.

Tinha catorze anos e era acusado de crime de morte. Fora por acaso, o outro
dissera-lhe um palavrão… Quem sabe lá?

Talvez fosse. E, cheio de piedade, perguntei:

– Vamos lá, diga o que o menino quer. Prometo dar.

– Eu? Ah! os outros são maus… são valentes sim, senhor…
metem raiva à gente… Até têm armas escondidas! A gente
tem que se defender… Eu tinha vontade… de uma faca…

E cobriu o rosto com as mãos trêmulas.

O Dia das Visitas

A força de policia é aumentada. Quatro ou cinco guardas contêm
a multidão ao lado do porteiro, que distribui os cartões. A
onda dos visitantes cresce a cada momento, impaciente e tumultuosa. São
11 horas da manhã. O sol queima. Há no ar uma poeira sufocadora.
O saguão está cheio, a calçada está cheia. Do
outro lado da rua, doceiros, homens de refrescos, vendedores de frutas estabeleceram
as caixas e as latas e mercadejam em alta voz.

Nas soleiras das portas, mulheres gordas à espera, criancinhas choramingas
têm o semblante desolado e triste, mas há também sujeitos
alegres, peralvilhos de calça balão mastigando tangerinas e
rindo; há curiosos olhando a cena, como no espetáculo, e soldados,
soldados da brigada, que passeiam gingando, com os tacões altos e o
quepe do lado, por cima da pastinha; dois turcos vendem imagens de santos,
botões, canivetes e fósforos; um italiano, que finge de cego,
instala o realejo, e o filho começa a remoer velhos trechos de ópera,
dolorosamente angustiosos. De vez em quando passa uma carroça ou um
enterro, alastrando a rua de poeira. Mais ao longe, trabalham os condenados
da correção na nova fachada, e cada passo que algum deles dá
é logo acompanhado por dois policiais de carabinas embaladas.

O sol é esmagador, pesa como chumbo. Todos esses semblantes têm
qualquer coisa de revoltado e de tímido, de desafio e medo. Percebe-se
o terror das pessoas importantes e o desejo secreto de apedrejá-las,
essa mistura antagônica que faz o respeito da ralé.

À porta da detenção, o movimento torna-se cada vez mais
difícil e o rumor cresce. Vista de fora, na semi-sombra, a multidão
tem um aspecto estranho e uniforme, parece um quadro violentamente espatulado
pela mesma mão delirante. Os olhos raiados de sangue, alegres ou chorosos,
têm um mesmo desejo – entrar; os corpos, corpos de mulheres, frágeis
corpos de crianças, corpos musculosos de homens, uma só vontade
– forçar a entrada; e todos os gestos, lentos, dificultosos,
presos em encontrões de rancor, exprimem o mesmo anelo, que é
o de entrar.

Há pragas, frases violentas, mãos que se agarram às
roupas de outros, interjeições furiosas; e de dentro, do mistério
do pátio da prisão, vem um clamor formidável e indistinto,
que aquece e fustiga ainda mais o desejo de entrar e de ver. O porteiro, um
senhor velho de cavaignac branco, distribui os cartões irritado e a
suar.

– Não deixem passar sem cartão! Não entra ninguém
sem cartão!

E os cartões, sebentos, passam das mãos dos guardas para mãos
sôfregas dos visitantes, enquanto na porta de ferro, desesperadamente
os que os obtiveram antes procuram entrar todos a um tempo. Um cheiro especial,
misto de fartum de negros e de perfumes baratos, de suores de mulheres e de
roupa suja, enerva, dá-nos visões de pesadelo, crispações
de raiva.

Dentro, o pátio está limpo de serventes. Das janelas da secretaria,
alguns funcionários deitam olhares distraídos. Duas filas de
criaturas parece ligarem a porta de ferro aos dois portões das galerias.
E nessas galerias o espetáculo é medonho. Dias antes, os presos
contam as horas, à espera desse instante. Uns querem matar saudades,
outros contam com os amigos para mandar vender as suas obras – flores
de pão, couraçados de pau; outros escreveram toda a noite cartas
anônimas ao chefe de polícia, denunciando companheiros ou inimigos,
e anseiam por alguém para as pôr no correio; e todos, absolutamente
todos, acicateados pelo egoísmo, esperam os presentes, o fumo, o dinheiro,
as prendas, como uma obrigação dos que os vão ver. Os
dois portões fecham-se antes de se abrirem os cubículos, e no
corredor da grande galeria é um alarido, um desespero de jaula, com
gritos, imprecações gargalhadas, perguntas, risos, o pandemônio
das vozes, enquanto, como uma matilha de lobos, acuada, agarrando-se aos grossos
varões, uns por cima outros, os assassinos, os incendiários,
os estupradores, os desordeiros e os inocentes obrigados à infâmia
numa confusão, arquejam na ânsia da liberdade. De fora, os visitantes
não chegam às vezes a se fazer compreender, esmagados uns nos
outros, irritados, sem poder apertar a mão dos amigos. São em
geral homens de lenço de seda preta e chapéu mole, adolescentes
arrastando as chinelas, mulheres perdidas, velhos trêmulos. No alarido,
ouvem-se frases breves – Ó Juca, trouxeste os cigarros? –
Ai, meu filho, que saudades do nosso tempo de cubículo! – Sabes
quem foi preso ontem? – Vê se me arranjas um habeas com o Benjamim!
– Estou aqui já há um mês e três dias! Fala
por mim a seu Irineu! Algumas dessas palavras são vociferadas de longe.
Os que tiveram a felicidade de chegar primeiro unem as mãos entre os
ferros, falam devagar. Há amantes trêmulas, vendo o ciúme
nos olhos dos detentos, há pobres esposas, há crianças
e há velhos respeitáveis com a face triste, todos os sentimentos
escachoando, borbulhando, barulhando naquele vórtice de desgraça.

Na outra galeria estão as mulheres. Essas só são visitadas
por homens, os mesmos sujeitos de lencinho preto e calça balão,
que às vezes visitam num só dia quatro e cinco amigos na detenção.
As conversas são mais calmas. Algumas estão lá por causa
dos que as visitam, por ciúme e pancadas. Têm quase todas esse
sorriso estereotipado de resignação e amargura, dos infelizes
que ainda não mediram a extensão da própria infâmia.
Do outro lado, os homens parece estarem ali por obrigação. Só
um eu vi, menino ainda, magro, tísico, com um olho afundado em pus,
que segurava, como para se aquecer, a mão de uma pequena mulatinha.
Ela conversava com outro, sem lhe dar atenção. Afinal, teve
um sorriso de piedade.

– E tu, João?

– As voltas com o Zé-Maria. Nem você imagina como eu ando.
Estou só esperando que você saia, para tirar um pensamento da
cabeça…

E as suas mãos agarravam a mão da outra, num gesto de medo
e de paixão.

O clamor continuava, fragorava como um oceano que se debatesse contra os
altos muros brancos. O administrador já mandara ordem para dar fim
à visita. Ainda havia os serventes e os abastados. De vez em quando,
destoando dos casacos-sacos dos malandros, entrava uma sobrecasaca, algum
advogado de porta de xadrez, a farejar a diária de petições
de habeas-corpus, lambiscando delicadezas aos guardas.

– Há alguns desses sujeitos, dizem-me, que até já
estiveram presos. E conheço um que, tendo contratado um habeas-corpus
por trinta mil réis, não queria que o administrador soltasse
o preso enquanto não o tivesse pago dessa importância.

A nossa atenção voltou-se, porém, para uma austera senhora
que descia da secretaria gravemente, com um embrulho debaixo do braço.

– Não conhece? perguntou-me um dos guardas. É missionária
protestante. Vem, naturalmente, pedir ao sr. capitão Meira Lima para
falar aos presos. Antigamente vinha mais vezes. Ah! o senhor nem imagina o
que os detentos faziam com ela. Eram troças, pilhérias, arremedavam-na
na bochecha, diziam-lhe desaforos. Por último, sopravam-lhe nos olhos
pimenta em pó, através das grades do cubículo. Ela continuou,
impassível, a distribuir folhetos da religião, que o pessoal
transforma em baralhos.

Tenho aqui um para o senhor. Venha cá. É preciso que ela não
veja.

Vamos para o saguão. O guarda desdobra por trás da jarra Tiradentes,
de Benedito Machado, um embrulho, e eu vejo valetes, ases e damas admiravelmente
pintados em pedaços dos livros de edificação moral. Há
mesmo um rei de paus que tem nas costas S. Paulo. E no pátio, a inglesa,
na sua obra regeneradora, espera com calma que o administrador consinta em
mais uma distribuição de folhetos, para o fabrico de futuros
baralhos!

O clamor das galerias parecia diminuir, enquanto à porta do pátio
havia o mesmo atropelo de pessoas, agora querendo sair. Os protestos prorrompiam
entre frases de cólera surda e frases de deboche. Uma rapariga com
o filhinho nos braços bradava: – Não volto mais! Não
falei ao José. É impossível chegar perto da grade! –
Contente-se comigo, dona! – A mulherzinha vinha com sede! – Ó
Antônio, vamos tomar uma lambada! – Ih! menino, já quebrei
água hoje como quê! E as vozes alçavam-se, cruzavam-se;
faziam naquela porta, como a ornamentação da raiva e da sem-vergonhice
um baixo-relevo vivo de entrada de penitenciária, enquanto, suando,
bufando, com os cartões na mão, aquela gente – mulatos,
pretos, italianos, portugueses, fúfias e rufiões, tristes mulheres
e trabalhadores de fato endomingado – dava cotoveladas e empurrões,
no desejo cada qual de sair em primeiro lugar.

Um sino pôs-se a tocar. Era o fim da visita. Os sons vibravam, duros,
como uma ordem. Há sinos que choram, sinos que cantam, sinos que são
tristes; há sinos feitos para dobrar a finados, como os há para
cantar missas em ações de graça. Aquele sino era um aguilhão.
O pátio esvaziava. A tropa partia, tropa desoladora, amiga do vício
e do crime.

Foi então que eu vi aparecer, carregada de embrulhos, com a coifa
branca a ondular as duas grandes asas, a figura de bondade da irmã
Paula. O guarda tirara o boné, cheio de um carinhoso respeito. Os malandros
e os desgraçados, ainda à porta, tinham nos olhos uma expressão
de timidez e de alegria.

– Bonjour, meu filho, fez a irmã com um gesto cansado. O Sr.
administrador? O guarda disse qualquer coisa, comovido. Ela arrumou embrulhos,
enxugou as mãos, subiu as escadas da secretaria. A sua coifa alva parecia
uma grande borboleta branca.

– É a única visita que consola os presos, é a
única que eles respeitam, murmurava o guarda. Quando ela fala, tão
simples e tão meiga, até as pedras parece quererem-lhe bem.
Quando Jesus passou por este mundo, devia ter sido assim bom para todos os
desgraçados.

De novo a coifa apareceu, borboleta de esperança adejando as grandes
asas brancas e, como se fizesse a obra mais natural deste mundo, a irmã
Paula disse:

– Vamos ver os desgraçadinhos. Trago-lhes hoje umas coisas.
O Sr. administrador é muito bom, permite.

E assim, tocado pela sua presença, a mim me pareceu que o doloroso
canto do jardim do crime se transformava no horto das rosas de que fala S.
Tomás de Kempis…

Versos de Presos

O criminoso é um homem como outro qualquer. No primeiro momento, sob
o pavor dos grandes muros de pedra, com um guarda que nos mostra os indivíduos
como se mostrasse as feras de um domador, a impressão é esmagadora.
Vê-se o crime, a ação tremenda ou infame; não se
vê o homem sem o movimento anormal, que pôs à margem da
vida. Quando a gente se habitua a vê-los e a falar-lhes todo o dia,
o terror desaparece. Há sempre dois homens em cada detento –
o que cometeu o crime e o atual, o preso. Os atuais são perfeitamente
humanos, Só uma variedade da espécie causa sempre náuseas;
os ladrões, os “punguistas”, os “escrunchantes”,
porque dissimulam, mentem e têm, constante no riso e na palavra, um
travo de cinismo. Os outros não. Conversam, contam fatos e pilhérias,
arranjam o pretexto de ir lavar a roupa para apanhar um pouco de sol no lavadouro,
são homens capazes até de sentimentos amáveis.

Ora, este país é essencialmente poético. Não
há cidadão, mesmo maluco, que não tenha feito versos.
Fazer versos é ter uma qualidade amável. Na detenção,
abundam os bardos, os trovadores, os repentistas e os inspirados. São
quase todos brasileiros ou portugueses, criados na malandragem da Saúde.
A média poética é forte. Desordeiros perigosos, assassinos
vulgares compõem quadras ardentes, e há poetas de todos os gêneros,
desde os plagiários até os incompreensíveis. Não
sei se a timidez ou outra razão mais obscura os faz assinar as composições
poéticas apenas com as iniciais e quando muito com as iniciais precedidas
do nome de batismo.

– Assine você o seu nome por extenso! dizia o guarda.

O poeta detento hesitava, punha as iniciais e, por baixo, entre parêntesis,
escrevia o nome. As iniciais têm que vir fatalmente, são o complemento
necessário ao fim da obra, Por quê? E misterioso, mas verdadeiro.

Os assuntos escolhidos pelas iniciais superiores da detenção
abrangem todas as modalidades do sentir. Como há plagiários
– o Antônio, crime de ferimentos, que se intitula autor da modinha
Nasci para te Amar, – há simbolistas que escrevem coisas destas:

Pobre flor que mal nasceste, fatal
Foi a tua sorte, que o primeiro
Passo que deste com a morte deste.
Deixar-te é coisa triste. Cortar-te?
É coisa forte, pois deixar-te com vida
É deixar-te com a morte.

Há também poetas eróticos, o Chico Bentevi, autor do
poema Os Amores de Carlos:

Chiquinha abriu sorrindo
A porta da sua alcova
E Carlos foi logo indo
Com a sede…

Uma sede excessiva! Há poetas descritivos, trovadores simples, cançonetístas
ocasionais, todos com um sentimento insistente: são patriotas e sofrem
injustiça porque nasceram brasileiros.

O preso Carlos, por exemplo, que se assina Carlos F. P. Nas suas trovas é
insistente a preocupação de que está preso porque é
brasileiro. Escolho na sua considerável obra poética uma modinha
cheia de mágoas:

Meus senhores, venham ouvir
Do meu peito uma canção
Tirada por um condenado
Na casa de detenção.

Às mágoas segue-se o estribilho.

São martírios que se passam
Sofrendo profunda dor
Ser preso e condenado
Por vingança é um horror.

Se os martírios fossem enormes, era natural que o Petrarca novo não
compusesse quadras; mas Carlos F. P. é feroz e continua:

Fui preso sem nenhum crime
Remetido para a detenção
Fui condenado a trinta anos
Oh! que dor de coração.

E surge afinal a preocupação, a idéia fixa:

Sou um triste brasileiro
Vítima de perseguição
Sou preso, sou condenado
Por ser filho da nação.

Há uma porção de modinhas neste gênero. A idéia
constante aparece sempre, ou na primeira ou na última quadra.

Outro poeta, José Domingos Cidade, é descritivo. Como toda
a gente sabe, o poema épico passou literalmente à cançoneta.
Virgílio, Lucano, Voltaire e Luís de Camões, se vivessem
hoje, decerto comporiam os trabalhos de Enéias, a Farsala, a Henriade
e os feitios de Vasco da Gama com refrains ao fim dos versos de mais efeito.

Não há mais ninguém com coragem para ler um poema heróico,
apesar de haver ainda neste mundo de contradições – heróis
guerreiros. Só o povo, a massa ignara, ainda acha prazer em ver, em
rimas, batalhas ou arruaças. José Domingos, no cubículo
que o veda à admiração dos contemporâneos, escreveu
Os Sucessos, cançoneta repinicada, para violão e cavaquinho.

Vejam o poder de descritiva de Domingos:

Dia quinze de novembro.
Antes de nascer o sol
Vi toda a cavalaria
De clavinote a tiracol.

Isso é incontestavelmente mais belo que o antigo e clássico
começo épico: “Eu canto os feitos, ou as armas, ou as guerras
civis”, de todos os vates e de Lucano, que por sinal começa dizendo:
“Eu canto as nossas guerras mais que civis nos campos de Ematia. . .”
Cidade foi mais urbano, mais imediato: cantou a refrega civil da Rua da Passagem
com exagero apenas. Na segunda quadra, a descrição é
soluçante:

As pobres mães choravam
E gritavam por Jesus;
O culpado disso tudo
É o Dr. Osvaldo Cruz!

Quando o homem predestinado que se chama Osvaldo Cruz pensou que José
Domingos o amarrasse ao papel de carrasco em plena detenção?

Para o fim, mesmo em verso, o autor é modesto e patriota:

O autor desta modinha
É um pobre sem dinheiro
Já não declaro-lhe o nome,
Sou patriota brasileiro.

Os companheiros do Prata Preta, pessoal da Saúde, são naturalmente
repentistas, tocadores de violão, cabras de serestas e, antes de tudo,
garotos, mesmo aos quarenta anos. O malandro brasileiro é o animal
mais curioso do universo, pelas qualidades de indolência, de sensualidade,
de riso, de vivacidade de espírito. As quadras pornográficas
são em número extraordinário; as que exprimem paixão
são constantes, posto que o malandro não as faça senão
para ser admirado pelos outros e independente de amar quer senhora das suas
relações. Um gatuno afirmou-me que a modinha A Cor Morena era
de seu amigo. Na Cor Morena há este pensamento de um perfume oriental:

Fui condenado
Pela açucena
Por exaltar
A cor morena…

Onde se vê o bom humour dos presos é principalmente nas quadras
sobre acontecimentos políticos. O guarda Antônio Barros, que
se dava ao trabalho de acompanhar as minhas horas de penitenciária
voluntária, forneceu-me as seguintes remetidas por um dos detentos:

Meus amigos e camaradas
As coisas não andam boas
Tomaram Porto-Artur
Na conhecida Gamboa

Logo o Cardoso de Castro
Ao seu Seabra foi falar
Para deportar desordeiros
Para o alto Juruá

Mas eu que não sou de ferro
Meu corpo colei com lacre
Que não gosto de chalaças
Lá nos borrachas do Acre.

O exibicionismo, o reclamo, a vaidade, estas coisas que enlouquecem Sarah
Bernhardt e talvez a todos nós, enlouquecem também presos. Há
a princípio uma hesitação. Depois, os documentos são
abundantes. Ser poeta é ser alguma coisa mais do que preso, e um negralhão
capoeira, um assassino como o Bueno ou o José do Senado, após
o testemunho da rima, falam mais livremente e com maior franqueza. Em duas
semanas de detenção colecionei versos para publicar um copioso
cancioneiro da cadeia. Há poesias de todos os gêneros, desde
o lundu sensual até à nênia chorosa.

Este lundu do famoso Carlos F. P. chega a ser comovente:

Céus…meus! por piedade
Tirai-me desta aflição!
Vós!… socorrei os meus filhos
Das garras da maldição!

E o estribilho mais amargo ainda:

São horas, são horas
São horas de teu embarque
Sinto não ver a partida
Dos desterrados do Acre.

O Dr. Melo Morais, que conhece os segredos do violão, deve decerto
imaginar o efeito destas palavras, à noite, na escuridão com
os bordões a vibrar até às estrelas do céu…

O Amor, de resto, inunda o verso detento. Há por todos os lados choros,
soluços, lábios de coral, saudades, recordações,
desesperos, rogos:

Não sejas tão inclemente,
Atende aos gemidos meus.

E um encontrei eu que me repetiu, com os olhos fechados, o seu último
repente:

Se eu pudesse desfazer
Tudo aquilo que está feito,
Só assim teu coração
Não veria contrafeito.

Era um rapaz pálido, como os rapazes fatais nos romances de 1850,
mas com uns biceps de lutador.

Quantos poetas perdidos para sempre, quanta rima destinada ao olvido da humanidade!
Cheio de interesse, um papel que me caia nas mãos, com erros de ortografia,
era para mim precioso. Mas afinal, um dia, ao sair da detenção
com os bolsos cheios de quadras penitenciárias, remoendo frases de
psicologia triste, encontrei no bonde um poeta dos novos, que, há vinte
e cinco anos, ataca as escolas velhas.

– São uns animais! bradou ele, logo após um aperto de
mão imperativo. Este país está todo errado. Há
mais poetas que homens. Eu, governo, mandava trancafiar metade, pelo menos,
ali, com castigos corporais uma vez por mês!

Mal sabia ele que a detenção já está cheia.

As Quatro Idéias Capitais dos Presos

Às vezes, numa volta pelo pátio, a conversar com Obed Cardoso,
eu via o elegante Dr. Saturnino de Matos passar, como se fosse dar milho às
pombas. E, se depois de admirar o Dr. Saturníno apontavam-me, enfiado
no zuarte do estabelecimento, com o número de metal à cinta,
um modesto gatuno ou um simples assassino cujo comportamento exemplar os transformava
em serventes, eu deixava o gentil Obed e gozava o calão dessas interessantes
flores de patifaria.

Há na detenção reincidentes exemplares e casos de psicologia
curiosíssimos. O Sargento da Meia-Noite, ladrão temível,
uma espécie de transformista da infâmia, é passar os umbrais
do jardim onde descansa o crime, para se tornar um cordeiro artista, uma espécie
de frade medievo. Recolhido ao cubículo, inaugura logo a sua arte de
miolo de pão. Faz flores, bonecos, santos, animais; pinta-os, remira-os,
manda-os vender. Parece regenerado. Todos sabem, entretanto, que, uma vez
livre, o Sargento não resistira à tentação de
invadir a casa alheia. Os “punguistas”, inofensivos lá dentro,
tão certos estão de continuar a roubar que o Braga Bexiga me
dizia:

– No dia em que sair, tomo logo um bonde e limpo a primeira carteira.

– Mas é difícil.

– Para quem conhece a arte não há dificuldades. Eu trabalho
desde criança e tive como professor o Zezinho.

– Vamos a ver esse trabalho.

– Se V. Sa me dá licença, eu vou tirar duas notas de
duzentos que o sr. Obed pôs agora no bolso da calça.

Na outra extremidade da sala, Obed, sem que ninguém desse por isso,
acabara de contar o seu dinheiro e de metê-lo no bolso da calça.
Bexiga, trêmulo, com os olhinhos piscos, continuava ali a exercitar
as suas criminosas observações. Capoeiras, assassinos, como
Carlito e outros, reincidentes, condenados a trinta anos, exprimem a certeza
de que continuarão lá fora a vida anterior. Carlito, mesmo,
disse-me um dia:

– Deus aperta, mas não enforca!

Máxima muito mais profunda que quantas escritas pelo desfastio erudito
do defunto Marquês de Maricá.

Os cientistas da penitenciária veriam nisso um problema a resolver,
o problema de emendar o criminoso. Um, a quem eu contava o desplante dos recidivos,
assegurou-me:

– É preciso aplicar o método inglês, as sentenças
cumulativas, sistema de penas progressivas cuja duração é
calculada pelo quociente das reincidências. Um preso condenado por ladroeira,
se entrar outra vez pelo mesmo crime, tem a pena duplicada; se entrar terceira,
triplicada, e assim por diante. Isto acabaria com a falha do código,
o broquel de defesa dos gatunos, que nos seus artigos admiráveis tem
a generalidade da pena para toda a sorte de escapatórias. Leia o dr.
Monat, antigo diretor geral prisões na Índia; leia Baker, juiz
de paz em Gloucester; leia Browne. As reincidências, eles o provam,
diminuíram em toda a Inglaterra.

Outros perdiam-se em frases confusas, falando da necessidade urgente de reformar
o nosso sistema de detenção, de pôr em ação
os dois meios definitivos de corrigir: moralizar e intimidar. Eu achei mais
interessante estudar as idéias e os estados da alma dos detentos.

A detenção tem idéias gerais. A primeira, a fundamental,
definitiva, é a idéia monárquica. Com raríssimas
exceções, que talvez não existam, todos os presos são
radicalmente monarquistas. Passadores moeda falsa, incendiários, assassinos,
gatunos, capoeiras, mulheres abjetas, são ferventes apóstolos
da restauração. Não falam, não fazem meetings,
não escrevem artigos como o Dr. Cândido de Oliveira ou o conselheiro
Andrade Figueira – sentem intensamente, sem saber explicar a razão
desse amor.

– É verdade; qual o governo que prefere? Eles riem, meio tímidos.

– Eu prefiro a monarquia.

– Por quê?

Sim! Por que malandros da Saúde, menores vagabundos, raparigas de
vinte anos que não podem se recordar do passado regime, são
monarquistas? Por que gatunos amestrados preferiam sua majestade ao dr. Rodrigues
Alves? É um mistério que só poderá ter explicação
no próprio sangue da raça, sangue cheio de revoltas e ao mesmo
tempo servil; sangue ávido por gritar não pode! mas desejoso
de ter a certeza de um senhor perpétuo.

O fato curioso é que para esta gente, de outro lado da sociedade,
não basta pensar, é preciso trazer a marca das próprias
opiniões no lombo. Raríssimos são os presos que na detenção
não são tatuados; raros são aqueles que entre as tatuagens
– lagartos, corações, sereias, estrelas – não
têm no braço ou no peito a coroa imperial.

A outra idéia é a crença de Deus – uma verdadeira
crise religiosa. Rezar, pedir a Deus a sua salvação, trazer
bentinhos ao pescoço, ter entre os seus papéis imagens sagradas,
não significa, de resto, regeneração.

Homens da espécie do Carlito ou do Cardosinho fazem o sinal da cruz
ao levantar da cama para matar um homem horas depois; Serafim Bueno, um criminoso
repugnante, tem uma fé surda no milagre e em Nosso Senhor; o Carrasco,
gatuno torpe, treme quando se fala no castigo do céu – mas nenhum
deles se regenera. Deus é apenas a salvação das suas
patifarias na terra, e tanto é assim que não há desordeiro
assassino em cuja mão direita não apontem, tatuadas, as cinco
chagas de Cristo. Sabem a interpretação dada a este sinal?

A piedosa interpretação de que com a mão, ajudada por
tão grande símbolo, não se atira à cara de um
sujeito uma tapona sem que o contendor não caia ao chão!

Esses pobres entes são o normal. Há, entretanto, verdadeiras
crises místicas como a desse convulsivo tratante Afonso Coelho. Afonso
escreve diariamente cartas fervorosas de regeneração; reza,
manda epístolas insultuosas a outros detentos, verberando-os porque
a sua fé não é forte. Em todas as cartas há erros
de ortografia lamentáveis e um sopro de milagre. Ao mesmo tempo, porém,
Afonso Coelho esgaravata no pobre cérebro o meio de fugir. Arranja
limas e corta varões de ferro. O administrador, atento, quando o trabalho
está pronto, muda-o de cubículo. Vai ao tribunal e, em caminho,
ainda na detenção, atira-se como um tigre, tentando escalar
um portão. Os guardas têm que o puxar pelas pernas e lutar com
ele, braço a braço. Traça planos de fuga, escreve indicações
a amigos para abrirem portas num muro, combina fugas estranhas. O administrador
guarda uma porção destas cartas, interceptadas por sua ordem.
Ultimamente, visitado por um jornalista a quem dá a honra de falar,
depois de discutir direitos, de meter os pés pelas mãos com
a sua vaidosa mania de querer ser inteligente, acabou dizendo:

– Qual, meu amigo, já estou muito conhecido aqui. Se sair, embarco
para a Europa. Lá o meio é maior.

E, cheio de doçura, enquanto desesperadamente a sua esperteza se arremete
contra as grades preventivas, esse mesmo homem sonha com a Virgem, bate nos
peitos e faz crer aos ingênuos ou aos interessados reformadores que
é um santo no caminho de Damasco.

A terceira idéia quase obsessiva é a imprensa. Há os
que têm medo de desprezá-la, há os que fingem desprezá-la,
há os que a esperam aflitos. O jornal é a história diária
da outra vida, cheia de sol e de liberdade; é o meio pelo qual sabem
da prisão dos inimigos, do que pensa o mundo a seu respeito. Não
há cubículo sem jornais. Um reporter é para essa gente
inferior o poder independente, uma necessidade como a monarquia e o céu.
Anunciar um reporter nas galerias é agitar loucamente os presos. Uns
esticam papéis, provando inocência; outros bradam que as locais
de jornais estavam erradas, outros escondem-se, receando ser conhecidos, e
é um alarido de ronda infernal, uma ânsia de olhos, de clamores,
de miséria… Os desordeiros acusados de ferimentos graves, com muitas
mortes na consciência são, por sua natureza, vingativos e conhecem
bem os reporters. E, entretanto, apesar das notícias cruéis,
nunca nenhum se atreveu a tentar uma agressão. José do Senado
pede:

– É com a imprensa que eu conto. O senhor foi cruel, porque
não sabia…

Carlito teve, nesse dia, uma frase completa:

– Eu sei que foi o senhor o autor daquela descompostura contra mim,
no jornal. Mas também estou vingado. Se não fosse eu, o sr.
não escrevia tanto.

Os outros rojam, como as beatas nos altares dos santos impassíveis.

– Não fale de mim, seu reporter; deixe o meu nome sossegado,
não fale!

E no dia seguinte percorrem, loucos, a folha para ver negrejar no papel poderoso
a sua celebridade.

Há mesmo um preso, Antônio F., que me entregou um artigo de
psicologia da imprensa. Antônio acha que, sendo o papel da imprensa
educar os povos, ensinar os homens a serem até bons esposos, o nosso
jornalismo é tudo quanto há de errado, de imbecil e de vazio.
“Nada!” brada ele; “que aproveitam à nobreza, ou à
plebe, estas banalidades! Nada! Que valem, portanto? Nada!… E nada, nada
e nada milhões de vezes nada repercutia o eco do Prata ao Pará,
se não corrigirem a grande força.”

A quarta idéia, a última, é a idéia fixa, a idéia
constante de todos os detentos – escapar, ficar livre, burlar a prisão,
apanhar novamente a liberdade. Os reincidentes conhecem as coisas do foro
tanto quanto com os advogados de porta de xadrez: sabem chicanas, artigos
do código, contam os dias de prisão, fazem petições
de habeas-corpus, assinam declarações de inocência de
outros, para que outros assinem declarações idênticas,
vivem numa tensão nervosa extraordinária. A religião,
que lhes dá a esperança, o jornal, que lhes lembra a rua, acendem
a labareda desse desejo, e é principalmente a idéia da liberdade
que modifica o humor dos presos, que faz freqüentadas as solitárias,
que os torna ora alegres, de uma extrema bondade, ora agitados e terrivelmente
maus.

Esses quatro ideais da generalidade dos presos fizeram-me pensar num país
dirigido por eles. Um rei perpétuo governaria os vassalos, por vontade
de Deus. Os vassalos teriam a liberdade de cometer todos os desatinos, confiantes
na proteção divina, e a imprensa continuaria impassível
no seu louvável papel de fazer celebridades. Seria muito interessante?
Seria quase a mesma coisa que os governos normais – apenas com diferença
da polícia na cadeia, como medida de precaução. Tanto
as idéias do povo são idênticas, quer seja ele criminoso
quer seja honesto!

Mulheres Detentas

Quando entramos, algumas detentas lavavam a primeira sala, sob o olhar severo
de um guarda.

– Tudo limpo?

– Saiba V. Sa que ainda não.

– Pois apresse, apresse estas mulheres.

O chão de pedra estava cheio de lama. A água suja escorria
da soleira da sala em dois grossos fios e as mulheres, de saia arregaçada,
com pulos estranhos, davam gritinhos estridentes. Um cheiro especial, esquisito,
pairava naquela galeria batida de sol, em que os metais reluziam. Os guardas
tinham a fisionomia fechada.

– Quantas presas?

Há atualmente cinqüenta e oito, divididas por três salas,
uma das quais é enfermaria. À falta de lugares, a promiscuidade
é ignóbil nesses compartimentos transformados em cubículos.
A maioria das detentas, mulatas ou negras, fúfias da última
classe, são reincidentes, alcoólicas e desordeiras. Olho as
duas salas com as portas de par em par abertas e fico aterrado. Há
caras vivas de mulatinhas com olhos libidinosos dos macacos, há olhos
amortecidos de bode em faces balofas de aguardente, há perfis esqueléticos
de antigas belezas de calçada, sorrisos estúpidos navalhando
bocas desdentadas, rostos brancos de medo, beiços trêmulos, e
no meio dessa caricatura do abismo as cabeças oleosas das negras, os
narizes chatos, as carapinhas imundas das negras alcoólicas. Alguns
desses entes, lembra-me tê-los visto noutra prisão, no pátio
dos delírios, no hospício. É possível? Haverá
loucas na detenção como há agitados e imbecis? O Dr.
Afrânio Peixoto, o psiquiatra eminente, dissera-me uma vez, apontando
o pátio do hospício, onde, presas de agitação,
as negras corriam clamando horrores aos céus: – Há algumas
que têm quatro e cinco entradas aqui. Saem, tornam a beber e voltam
fatalmente.

As mulheres tinham corrido todas para os fundos das salas, casquinando risinhos
de medo. Naquela tropa, as alcóolicas andavam trôpegas, erguendo
as saias com um ar palerma. Indiquei ao guarda uma delas.

– Venha cá, gritou ele.

As mulheres agitaram-se. Eu? Sou eu? Seu guarda, posso ir? O guarda tornou
a chamar a massa abjeta e foi quase empurrada pelas outras que ela veio, meio
envergonhada.

– Quantas vezes esteve no hospício?

A negra olhou para nós. Os seus olhos amarelos, raiados de sangue,
abriram-se num esforço e ela balbuciou.

– Duas, sim senhor.

O álcool ou a preparava para a tísica rápida ou, dias
depois, atiraria írremissívelmente para o manicômio.

As outras criaturas, dotadas de curiosidade irresistível, tinham-se
aproximado das portas entre risadinhas e cochichos depravados, e eu pude assim,
com calma e tranqüilidade, apreciar e interrogar todas as flores de enxurrada,
todas essas venenosas parasitas do amor torpe num campo perdido do jardim
do crime. Essas mulheres estão na detenção por coisas
fúteis, coisas que cometem diariamente até à cólera
final dos inspetores tolerantes ou a vingança de algum soldadinho apaixonado.

São moradoras do morro da Favela, das ruelas próximas ao quartel
general, dos becos que deságuam no Largo da Lapa, das Ruas da Conceição,
S. Jorge e Núncio. Quase sempre brigavam por causa de uma “tentação”
que tentava e pretendia satisfazer as duas. Outras atiraram-se à cara
dos apaixonados num desespero de bebedeira.

– Saiba V. Sa que da outra vez que estive aqui foi por causa do inspetor.
Eu tinha o meu bajoujo; o bobo cheio de “fobó” estava-se
endireitando. Mas veio de carrinho. O diabo vingou-se!

E logo outra, apoplética:

– Cá comigo é nove. Não gosto de presepadas. Ele
era um rodelista. Quando a gente gosta de um homem, gosta mesmo, nem que bata
o trinta e um.

Falavam uma língua imprevista e curiosa, cuspinhando; e olhando as
pobres coitadas, não sabia eu bem se falava a mulheres velhas ou a
mulheres novas, de tal forma aquelas faces e aqueles corpos estavam arruinados.
Perguntei a uma pardinha cujos dentes eram brancos e que devia Ter sido bonita:

– Como se chama?

– Quantos anos tem?

– Francisca Maria.

– Tenho vinte.

E estava havia cinco naquela vida de horror. E assim a Carmem da Rua Morais
e Vale, e assim a Carmelina com uma navalhada na face, vibrada pela rival
enquanto dormia, e assim a velha Rosa Maria à espera da liberdade apenas
para continuar o seu fadário e voltar à detenção.
Todas estão tatuadas, tatuadas nos seios, ombros, tatuadas nos braços,
nas pernas, no ventre, tatuadas nas mãos, algumas até tatuadas
na testa. Esses riscos azuis e essas manchas negras dão-lhes um aspecto
bárbaro, um ar selvagem. Nenhuma decerto tem mais família ou
amizades duradouras. A tatuagem para os seus pobres corações
apodrecidos é como a exteriorização da saudade. Muitas
têm, entre espadas, cristos, sereias, peixes, coroas imperiais, o nome
dos que lhes deram o ser, o nome dos irmãos, o dos filhos perdidos
e dos amantes que se foram: muitas, nas horas de solidão, têm
na própria pele a recordação da eterna dor.

Cavalhada da luxúria, correndo nos recantos da cidade ao lado da morte
e do assassinato, destinada aos fins trágicos da miséria, da
sífilis ou do ciúme feroz, os seus próprios corpos são
como o perpétuo símbolo das suas adorações, os
altares onde se confundem todos os sentimentos. A cabocla Carmelina, uma das
mais tatuadas, tem de tudo no corpo e até as falanges formam com iniciais
o nome do irmão. Os braços, ela os dedicou ao amor. Há
nomes e nomes, uns por cima dos outros, alguns apenas em iniciais, outros
por extenso. Examinando esses dois braços de Vênus asquerosa,
que com o mesmo delírio e a mesma alma apertaram na chama da paixão
apaixonados diversos, o guarda perguntou, como quem quer decifrar um enigma:

– E qual destes é querido agora?

Carmelina esticou o braço esquerdo, e todos nós lemos, enquanto
ela sorria, o nome de Narciso, com uma cedilha de mais por baixo do c. A criatura
amava um Narciso, e decerto naquele momento aos seus olhos surgia a imagem
desse seu deus temporário.

Eu porém já me nauseara, e Antônio Barros, chefe dos
guardas, sempre solícito, levou-me à enfermaria, onde havia
apenas três doentes –a Herculana assassina, a negrinha Gabriela
do Pontes e uma pequena, feia, magra, olheirenta, espapaçada na cama
como uma das múmias americanas que o museu guarda na sua seção
de etnografia. Essa criaturinha tem quinze anos e parece ter mil. É
dolorosamente irreal. Está condenada por crime de infanticídio.
Matou o próprio filho ao nascer, mas antes devia ter matado outros,
como matará os futuros com o seu olhar de círio perpetuamente
ardendo na negridão das olheiras. Ao vê-la, lembra-se a gente
das teorias dos criminalistas passados e principalmente das idéias
de Maudsley sobre o crime e a loucura.

– Como te chamas?

– Olívia.

– Você não gosta das crianças?

Um gesto negativo de cabeça.

– Antes já procurara tomar remédios para abortar, não?

É uma pergunta sem razão de ser. A menina curva a cabeça
e desata a chorar. Tudo quanto se lhe perguntar sobre o seu horror à
maternidade, Olívia é incapaz de negar. Não deve estar
nessa enfermaria de detenção, mas num dos pátios do hospício.
E, encolhida, com os cabelos esparsos nos travesseiros, a pele ressequida
como um pergaminho muito tempo esfregado por óleos bárbaros,
essa infanticida de quinze anos arreganha a face num ricto de angústia
como um cadáver de asteca ao ressurgir à face da terra.

Neste momento, porém, houve um rebuliço. Chegavam os presos
da colônia de Dois Rios à disposição do chefe.
Fora ouviam-se os rugidos de um negro abjeto, o Bronze, enleado numa camisola-de-força,
esperneando, espumando. Dois outros adolescentes bem dispostos, de chinelos
novos que sorriam perfeitamente contentes com a sorte, perfilavam-se ao longe
entre os guardas.

Não tivemos tempo de chegar à janela. Pelo corredor vinham
vindo três mulheres. Traziam toda a roupa de zuarte e um lenço
cobrindo o crânio pelado. A primeira era magra, magríssima, tossindo
a cada instante, com as mãos em cruz sobre o peito. De vez em quando
parava e a sua face exprimia a horrenda e inexprimível dor de uma agonia
sem fim. A segunda, apagada, com os braços abertos, parecia não
sentir mais as pernas. A última, com uma face de burguesa honesta na
miséria, tinha um ventre enorme, um ventre hidrópico, um ventre
colossal. Os guardas iam-nas tocando.

– Eia! pra diante! eia!

As duas primeiras passaram sem ver, com o olhar insensível. A última
parou.

– Não posso mais. Vim para fazer operação. Oh!
o meu martírio! De qualquer forma, sr. guarda, eu morro, mas deixe-me
ao menos morrer quando chegar a hora definitiva.

– Mas esta mulher é inteligente!

– Pois se até ensina a ler.

Aproximei-me:

– Ah! meu caro senhor, por piedade, peça ao ministro o meu perdão.
Há três anos que sofro. O ódio de um inspetor, a falta
de amigos e de proteção reduziram-me a este lamentável
estado. Venho da colônia. Não me trataram como uma presa, trataram-me
como uma pessoa digna de piedade. E apesar disso eu estou assim. Perdão
para mim!

– E a senhora chama-se?

– Maria José Correia. Fui professora pública. .

Deus misericordioso! Que fatalidade sinistra arremessara aquele pobre ente
inteligente, descendente de uma família honesta, à tropilha
de uma colônia correcional? Que destino inclemente impele na sombra
o homem, forma os vagalhões da popularidade, afoga uns, atira outros
às estrelas e emaranha no dissabor e na tristeza a marcha do maior
número? A essa mulher bastara perder o apoio da sociedade, para acabar
no horizonte fechado de correcional todos os sonhos de ambição,
todas as idéias felizes que os pais depositaram no seu espírito.
Que lhe servia a visão superior do mundo na cloaca do crime e da luxúria?
Que lhe servia ter ensinado às crianças o amor das coisas dignas,
se o seu fim era acabar no eito da colônia, cavando a terra entre as
desordeiras e as perdidas varridas da cidade?

Tomou-se uma espécie de medo, de fobia neurastênica. Recuei.

O guarda dizia:

– Deixa de lambança, Maria. Todos te conhecem. Saiba V. Sa que
é popular nos quiosques da Estrada de Ferro Central. Vai às
cinco da manhã, e só deixa de beber quando os quiosques fecham.
Antigamente servia-se da barriga para dizer que estava grávida e ser
bem tratada na delegacia. Agora não há mais disso. É
uma alcoólica mais malcriada que qualquer outra.

A mulher calou-se. As outras tinham parado e de repente a tísica,
a que tinha na face a expressão horrenda de uma agonia sem fim, caiu
de joelhos soluçando.

– Se eu tivesse o meu perdão. Nossa Senhora! não morreria
aqui! Se eu tivesse o meu perdão, eu ia morrer sossegada.

Fora o sol enchia todo o pátio de um esplendor de puro líquido

A musa das ruas é a musa que viceja nos becos e rebenta nas praças,
entre o barulho da populaça e a ânsia de todas as nevroses, é
a musa igualitária, a musa-povo, que desfaz os fatos mais graves em
lundus e cançonetas, é a única sem pretensões
porque se renova como a própria Vida. Se o Brasil é a terra
da poesia, a sua grande cidade é o armazém, o ferro-velho, a
aduana, o belchior, o grande empório das formas poéticas. Nesta
Cosmópolis, que é o Rio, a poesia brota nas classes mais heterogêneas.
A câmara regurgita de vates, o hospício tem dúzias de
versejadores, as escolas grosas de nefelibatas, a cadeia fornadas de elegíacos.
Onde for o homem lá estará à sua espera, definitiva e
teimosa, a musa. Se tomardes um bonde modesto, encontrareis o palpite do bicho
em verso nas costas do recibo; se entrais nos tramways de Botafogo, o recibo
convida V. Exa numa quadra a ir a Copacabana. Os cafés são focos
de micróbio rítmico, os blocos de folhinha, as balas de estalo,
as adivinhações dos pássaros sábios, as poliantéias,
esse curioso gênero de engrossamento tipográfico e indireto,
as tabuletas, os reclamos, os jornais proclamam incessantemente a preocupação
poética da cidade, o anônimo mas formidável anseio de
um milhão de almas pelo ritmo, que é a pulsação
arterial da palavra. O verso domina, o verso rege, o verso é o coração
da urbs, o verso está em toda a parte como o resultado absoluto das
circunvoluções da cidade. E a musa urbana, a musa anônima,
é como o riso e o soluço, a chalaça e o suspiro dos sem-nome
e dos humildes.

A musa urbana! Ela é a canção, começa com os
povos na história, e talvez tivesse, como o homem, a sua pré-história.
Contar-lhe a idade é tentar um mergulho intérmino na clássica
noite dos tempos. O primeiro homem, para dar a expressão à idéia,
deu-lhe o ritmo; a primeira tribo, para exprimir os sentimentos mais complexos,
descobriu a cadência. A civilização é a apoteose
do verso popular, porque mais nitidamente acentua a facilidade de exprimir
da massa ignorante. Os gregos faziam modinhas a todo o instante e a todo o
propósito, e davam para cada uma denominação especial.
Antes de saber ler tinham o sentimento do metro poético, e é
o grave Aristóteles que nos faz sentir esta ridente idéia: canção
e lei eram uma mesma palavra entre os helenos.

A modinha é o instinto bárbaro de independência e de
maravilha no homem. Louva aos deuses, incita à guerra, canta a mesa,
chora desejos de carne, e – ó coisa admirável! –
foi ela que trouxe desde Atenas para os superficiais prazeres de civilização
esses sons frívolos que nos cafés-cantantes nos fazem tanto
bem, foi ela que modificou a onomatopéia selvagem, no delicioso tralalá.

Quando a musa anônima inventou o tralalá, jocunda insignificância,
mais vasta, mais profunda que um etc. na conversa de um embaixador, a musa
assegurara para todo o sempre a imortalidade, e vémo-la zurzir os césares
em Roma e bajulá-los também; vêmo-la em plena Idade Média
esconder-se nas pedras das catedrais e florir sob as espadas nuas dos cavaleiros;
vêmo-la irradiar pelo universo início de literaturas, semente
de grandes idéias, e nos tempos modernos fazer-se clava destruidora,
bomba revolucionária, impondo a fórmula – igualdade, liberdade,
fraternidade.

A canção é a sobrevivência alegre de um gênero
comprido e lúgubre chamado poema épico, que já entre
nós não tem cultores; a musa do povo tem esse aspecto infinito
– é o contínuo epítomeda história.

Cada nação moderna pode esquissar séculos da sua vida
mental, política e artística, apenas com uma coleção
de cantigas. A Revolução Francesa que todos teimam em considerar
a base do mundo começou por modas satírícas contra Luís
XIV, Richelieu e Mazarino, acentuou-se contra os favoritos de Luís
XV, tornou-se brasa, látego, fogo, vergasta quando Maria Antonieta
enfeitara carneirinhos nos prados cuidados, explodiu em quadras e estribilhos
que lembram o embate de cargas de baionetas e afinal concluiu numa canção
guerreira, a Marselhesa, que não se ouve sem se sentir a irresistível
emoção do triunfo, da vitória, da apoteose.

As artes são por excelência ciências de luxo. A modinha,
a cançoneta, o verso cantado não é ciência, não
é arte pela sua natureza anônima, defeituosa e manca: é
como a voz da cidade, como a expressão de justiceira de uma entidade
a que emprestamos a nossa vida – colossal agrupamento, a formidável
aglomeração, a urbs, é uma necessidade de alma urbana
e espontânea vibração da calçada. Se quiserdes
saber o que pensou o boulevard durante vinte anos, comprai esses papeluchos
de um sou que os camelots vendem. Há desde a história do Panamá
à questão dos cultos, desde a renúncia de Perier até
a condenação de Sarah Bernhardt.

E se os gregos asseguravam que a poesia é um delírio inspirado
pelas musas às almas simples e virgens, se o Evangelho afirma pretender
o céu às crianças e aos que lhes parecem – por
que teimaremos nós em dizer que a poesia preferiu o nosso cérebro
ensanduichado em literaturas estrangeiras à alma simples do povo ignorante?
Os poetas da calçada são as flores de todo o ano da cidade,
são a sua graça anônima, a sua coquetterie, a sua vaidade
anônima e sua sagração – porque afinal o próprio
Platão, que julgava Homero um envenenador público, considerava
o poeta um ser leve, alado e sagrado.

É exatamente assim a nossa musa urbana. Dispépticos intelectuais,
vêmo-la tristemente à margem da poesia. Que idade tem ela? Tem
séculos e parece nascida ontem, passou por todas as vicissitudes e
chalra como uma criança. Conhecem-lhe a origem? Pois decerto.

A musa renovou aqui o símbolo do filho pródigo. Teve pais notáveis,
princípios sérios, e viveu no palácio dos reis, freqüentou
os gênios e os salões fidalgos. Mas um belo dia, sem dizer água-vai,
foi-se, degenerou, pintou o sete, embebedou-se, vive pelas alfurjas e chombergas,
afina o violão em sítios escusos, e – ó acontecimento!
– está forte, está sacudida, é a única musa
que não tem cefaléias e não sofre de artritismo. Quem
a criou? Gregório de Matos ao norte fez o lundu; S. Paulo ao sul o
viradinho. A fusão dos dois é a alma do Brasil. Logo que a teve
assim com todos seus encantos, Caldas Barbosa, mulato arcadiano, levou-a para
Portugal.

A modinha entrou no paço dos reis, ensandeceu os peraltas e as sécias
da decadência rocalhante do XIX século lusitano. As damas fechavam-se
nos quartos e respiravam as endechas com o prazer de uma ação
capitosa; os homens eram convidados para tais atos como hoje se convida para
os five o’c/ock onde há flirt. O versinho ingênuo e babado
delirava os baldaquins de trono real e a gracilidade das grandes damas. E
como resistir? Como lhe poderiam resistir meridionais da terra do fado? A
Modinha era o soluço, era o gemido, era o riso, era o suspiro ardente
da selva ardente. Nem Lord Beckford, um inglês frio e fatalmente de
gelo, como todos os ingleses, pode resistir, e esquenta e derrete. É
dele a mais fogosa descrição de machucado da nossa canção:

“Quem nunca ouviu”, diz, “este original gênero de música,
ignorará para sempre as mais feiticeiras melodias que têm existido
desde o tempo dos sibaritas. Consistem em lânguidos e interrompidos
compassos, como se faltasse o fôlego por excesso de enlevo e a alma
anelasse se unir a outra alma idêntica de algum objeto querido.”

“Uma ou duas horas correram quase ímperceptivelmente no deleitoso
delírio que aquelas notas de sereia inspiravam, e não foi sem
mágoa que eu vi a companhia dispersa e o encanto desfeito.”

Depois os poetas que sabiam ler continuaram a dar o seu prestígio
às sibaríticas melodias que punham Lord Beckford em delírio
e em deleite, e nós vemos toda a escola romântica tomar inconscientemente
na maioria dos seus versos a feição melódica, o metro
modinheiro; vemos aquele pernóstico elegante, o Magalhães dos
Suspiros Poéticos, escrever em Roma versos que estão pedindo
cavaquinho, gaforinha e unha grande; vemos Castro Alves criar para esse gênero
canções de uma frescura eterna como a Tirana:

Minha Maria é bonita
Tão bonita assim não há
O beija-flor quando passa
Julga ver o manacá
Minha Maria é morena
Como as tardes de verão
Tem as tranças da palmeira
Quando sopra a viração.

E Casimiro de Abreu e Gonçalves Dias e Bittencourt da Silva, Ezequiel,
Melo Morais, a leva dos ex-acadêmicos atuais conselheiros, e esse estranho
Álvares de Azevedo, o único genial do bando romântico,
o único predestinado como os grandes vates, o único que no choro
de praxe desamargurados de estilo tinha o soluço presciente de uma
tumba a abrir-se, o único que conservava no torvelinho das paixões
uma alma de rosa cujo perfume desejava o céu, o único que hoje,
amanhã, ninguém lerá sem sentir o soluço, o travo
da morte, o ai! das agonias e a tristeza que nos causa o desaparecer de um
astro, o murchar de uma flor, o tombar de um pássaro cujo breve cantar
não passou de uma alegria em torno do próprio ninho…

Ainda um instante, ligando à sua dualidade, arma de dois gumes, sátira
e lirismo, a musa foi a senhora capaz de entrar num salão e se conservar
num ambiente respeitável. A sua paixão porém levou-a
a acompanhar Laurindo Rabelo a maus lugares, o Laurindo cigano dos repentes,
cantador emérito, de quem se tem dito tanto mal, tanto bem e tanta
mentira. E de repente quando se falou num salão de modinhas, as damas
coraram e os de família mudaram de conversa, arredando esse assunto
fescenino, imoral, prejudicial à pureza do lar. A modinha dera na gandaia,
a modinha era vagabunda, a modinha descera à ralé, integralmente
anônima, desprezada. Melo Morais empresta a sua companhia de homem sério
a tamanha bambochata, precipita-se nas vielas e bodegas para apanhar a história
dos mais célebres e mais notáveis poetas, que ninguém
conhece, e traz-nos naquele seu estilo, tão seu, tão complexo,
tão bizarro, esses curiosos períodos:

“No Olimpo das serenatas do tempo, percebemos neste momento desfilar
espectralmente, orvalhados dos relentos daquelas noites, vultos de transcendente
nomeada, excelentes rapazes que passaram neste mundo para deixar lampejos
fugazes e duradouras recordações. E foram eles pelo crisma popular
conhecidos por Zuzu Cavaquinho, Lulu do Saco, Manezinho da Cadeia Nova ou
Manezinho da Guitarra, Zé Menino, Vieira Barbeiro, ainda o Caladinho,
o lnácio Ferreira, o Clementino Lisboa, o Rangel, o Saturnino, o Luisinho,
Domingos dos Reis, que lá desceram para os túmulos, que ora
volteio, agitando os ciprestes que os resguardam sob o céu sem eco
das necrópoles.”

A modinha tinha por cultores o Manezinho do Saco e o Zuzu Cavaquinho. Pobre
modinha!

Hoje, vinte ou trinta anos depois, é ainda mais abundante, mais popular
e mais estranha ao nosso paladar de estética elevada. Cada cançoneta
tem uma porção de pais. A musa urbana, a musa das ruas, que
ri dos grandes fatos e canta os seus amores pelas esquinas, nas noites de
luar, a musa é a de todo um milhão de indivíduos. Nessas
quadras mancas vivem o patriotismo, a fé, a pilhéria e o desejo
da populaça, desses versos falhos faz-se a sinfonia da cidade, proteiforme
e sentimental. A modinha e a cançoneta nascem de um balanço
de rede, de uma notícia de jornal, de fato do dia – assunto geral
–, do namoro e da noite – assunto particular. Se em Paris é
a rapsódia da miséria e a vergasta irônica, no Rio é
a história viva do carioca, a evoluir na calçada, romântico,
gozador e peralta. A gargalhada da rua faz-se de uma porção
de risos, o soluço da paixão de muitos soluços –
a musa é policroma, reflete a população confusa e babélica
tal qual ela é. Já se não encontram modinhas com a beleza
de forma do Talvez não creias.

Talvez não creias que por ti sou louco
Tens feito pouco porque tu és má
Talvez duvides, mas, donzela, eu juro
Que amor tão puro como o meu não há.

Ou com a graça meio infantil no Tipe-ti:

Coração, que tens com Lília?
Desde que seus olhos vi
Pulas e bates no peito
Tape, tepi, tipi, ti
Coração, não gostes dela
Que ela não gosta de ti.

Os grandes poetas não fazem mais versos para toda gente – o
nível intelectual da classe média subiu assim como a proporção
geométrica da sua pretensão, e os vates são parnasianos,
são simbolistas, procuram a forma sensível e a essência
oculta.

Em compensação brotam na calçada, como cogumelos, os
bardos ocasionais da sátira e da paixão; e, varejando botequins
e ruelas de Suburra outros Zuzus vamos encontrar em pleno triunfo. Esses vates
têm uma só preocupação séria – cantar.
Cantam como as cigarras e o canto dá-lhes para viver no eterno verão
desta terra abundante. Quando não há dinheiro, inventam para
uma certa música conhecida os versos do Ferramenta ou Sobe ou Arrebenta,
O Roca da Rua da Carioca, a cantiga Ah! se Fosses Minha, mandam imprimir e
vendem tudo por dois tostões. Admiram-se que eles imprimam e, o que
é mais, esgotem edições, milheiros e milheiros de exemplares?
Pois imprimem como qualquer poeta. Apenas eles vendem, e a maioria dos poetas
oferece grátis aos amigos…

Mas os poetas da calçada não imprimem e vendem só. O
espírito prático é, evidentemente, um progresso. Eles,
entretanto, progrediram mais. Há trinta anos o bardo tinha uma gaforinha
oleada e uma unha – desapareceram. Ao começo, logo que a musa
caiu na populaça, resolvida a não voltar jamais aos salões,
os versos à margem da poesia eram ainda uma qualidade especial de certo
grupo limitado. Hoje a musa é de todo o gênero, o bardo deixou
de ser um tipo porque todos cantam, e a sua história, que ninguém
quer saber, é um conjunto de elementos para a análise da vida
urbana.

A musa tem preferidos e tem estetas, tem críticos. Como chovesse muito
um dia, acolheu-se a um desvão de porta. Dentro bebiam. Para beber
também, ela cantou, e criou-se o cabaret nacional, esses estabelecimentos
inéditos chamados chopps. Quando o chopp percebeu que perdia a graça
sem ela, a musa da calçada tinha invertido o seu sistema romântico.
Outrora ela bebia para cantar. Agora canta para beber. A indústria,
o interesse, o lucro, o lucro, essa miragem que tanto faz progredir os povos
como as literaturas, propagou-a, espalhou-a, tornou-a torrencial. A musa delira
hoje numa pândega infrene, de bodega em bodega, de chopp em chopp, de
tablado em tablado. Nesse turbilhão de bardos e de cantares surgiam
alguns mais dados à evidência – o Geraldo, o Eduardo das
Neves, o esteta Catulo da Paixão Cearense! O Geraldo deitou elegância
e botinas de polimento; o Eduardo das Neves tinha bombeiro, antes de ser notável.
Quando foi número de music-hall, perdeu a tramontana e andava de smoking
azul e chapéu de seda. A sua fantasia foi mais longe: chegou a publicar
um livro intitulado Trovador da Malandragem, e esse Trovador tem um prefácio
cheio de cólera contra pessoas que duvidam da autoria das suas obras.

“Por que duvidais, diz ele, isto é, não acreditais quando
aparece qualquer choro, qualquer composição minha que cai no
goto do público e é decorada, por toda a gente e em toda a parte,
desde nobres salões até pelas esquinas nas horas mortas da noite?”

Ninguém ouviu os choros do Sr. Eduardo nos salões fidalgos
mas o Sr. Eduardo tem essa convicção definitiva, além
de muitas outras. Depois de cantar algumas intimidades da sua vida, chegou
mesmo, num lundu intitulado O crioulo, a desvendar o mistério de uma
senhora loucamente apaixonada pela sua voz. No final do negócio a dama
murmura:

Diga-me ao menos
Como se chama

E ele, complacente:

Sou o crioulo
Dudu das Neves

Dudu, entretanto canta apenas as suas obras. Há um outro sujeito,
chamado Baiano, que sabe de cor mais de mil modinhas, e para o qual trabalham
a oito mil réis por número, meia dúzia de poetas que
nunca saíram nos suplementos dominicais dos jornais. E se baiano tem
essa prodigiosa memória, o Sr. Catulo, último trovador velho-gênero,
é o esteta da trova popular. Vê-lo recitar O Poeta e a Fidalga,
com um copo de chopp na mão, é um desses espetáculos
de brasserie inesquecível. Catulo emaranhou-se no dogma da moda, corrigiu
os versos de tudo quanto era quadra, estudou Bellini, Donnizetti, Verdi, adaptou
os nossos versos a trechos de óperas e, finalmente, compôs traduções
livres de Leconte de Lisle para serem recitadas ao piano! Há no prefácio
da Lira dos Salões, o livro em que se encontra Leconte no pelourinho
do recitativo, a estética fundamental da modinha:

“Julgo difícil, diz ele, e escabroso o trabalho de escrever poesias
para adaptar a músicas que já preexistem de há muito,
e com extrema razão quando essas composições musicais
foram escritas por quem nunca presumiu que elas fossem sacrificadas, isto
é, cantadas com letras.”

“Canto valsas, schottischs, mazurcas, polcas, romances, árias
de óperas, e já cheguei ao esquisitismo de cantar até
uma quadrilha inteira.”

E mais adiante, no mesmo tom, depois dessa coisa espantosa e pernóstica:

“Vós me pedis, suponde, que eu faça a poesia para certa
música. Crede que eu, imediatamente, sem mais reflexão, empunhe
a pluma e a vaze no papel? Não. Há algumas dessas músicas
que me fazem levar horas inteiras a interpretar-lhes os sentimentos, os queixumes,
as mágoas de que sofrem os seus autores.”

“Leitor! ascende a tal culminância o orgulho que tenho de saber
poetar para o canto que, sem acanhamento, teria o desaforo de vos dizer que
o dia em que um competente me dissesse: esta ou aquela frase não foi
bem adaptada, não diz o que diz a música, está incolor,
esse dia seria o último da minha vida, porque ou suicidar-me-ia ou
sucumbiria de pesar por ver aquele meu orgulho destronado.”

Catulo, hiperestesia da musa urbana, é, apesar de tanta trapalhada,
capaz de fazer célebres vários poetas, quase desconhecido e
vive à margem da poesia, poeta da musa anônima, poeta da calçada…

Porque a musa não se rala com a interpretação de partituras.

Basta-lhe o fato, o sucesso do dia, três gotas de paixão e um
violão. Vibra acordes patrióticos, a dúvida, o desejo,
e é o necessário para ser compreendida.

A característica principal dos poetas da calçada é o
patriotismo, mas um patriotismo muito diverso do nosso e mesmo do da populaça
–é o amor da pátria escoimado de ódios, o amor
jacobino, o amor esterilizado para os de casa e virulento para os de fora.
O homem do povo é no Brasil discursadoramente patriota. A sua questão
principal é o Brasil melhor do que qualquer outro país. O sucesso
e a popularidade de Santos Dumont são devidos menos aos seus trabalhos
de aviação que ao ter causado a admiraçâo de Paris.
Para o patriota ele não se fez admirado – dominou. A popularíssima
cançoneta do Beranger das Neves é um atestado:

A Europa curvou-se ante o Brasil
E aclamou parabéns em meigo tom
Brilhou lá no céu mais uma estrela
Apareceu Santos Dumont.

Há pelo menos duas tolices em tal moxinifada. O music hall ficava,
entretanto, apinhado de jovens soldados, de marinheiros, de mocinhos patriotas;
e eu hei de lembrar sempre certa vez em que, passando pelo café-cantante,
ouvi o barulho da apoteose e entrei. Estava o Dudu das Neves, suado, com a
cara de piche a evidenciar trinta e dois dentes de uma alvura admirável,
no meio do palco e em todas as outras dependências do teatros a turba
aclamava. O negro já estava sem voz.

Assinalou para sempre o século vinte
O herói que assombrou o mundo inteiro
Mais alto que as nuvens, quase Deus
É Santos Dumont um brasileiro

E após essa rajada de hipérboles ao Dumont que todos nós
conhecemos, sportman, elegante, acionista da Mogiana, bem homem da sua época,
eu vi no estridor das aclamações Fausto Cardoso, poeta, político,
patriota, agitar freneticamente um lenço, pálido de emoção…
Era a vitória da calçada, era a poesia alma de todos nós,
era o sentimento que brota entre os paralelepípedos com a seiva e a
vida da pátria. Esse patriotismo é a nota persistente dos poetas
sem nome, patriotismo que quer dominar o estrangeiro e jamais exibe, como
exibem os jornalistas, a infâmia dos políticos e as fraquezas
dos partidos. A musa urbana enaltece sempre os seus homens e quando odeia
oculta o ódio para não o mostrar aos de fora. Todos os episódios
da revolta foram postos em verso. Floriano tem entre outras aquela quadra:

Quando ele apareceu, altivo e sobranceiro
Valente como as armas, beijando o pavilhão
A pátria suspirou dizendo: ele é o guerreiro
É marechal de ferro, escudo da nação.

É de imaginar por aí que a pátria suspirosa tinha medo
das granadas e odiava Saldanha? Pois não! Saldanha também tem
quadras em que se canta o seu valor épico. Na guerra de Canudos os
garotos diziam a propósito do Conselheiro

Quem será esse selvagem
Esse vulgo santarrão
Que encoberto de coragem
Fere luta no sertão?

para cantar em estilo majestático a morte de Moreira César.
A musa tem dignidade – a quantos jornais ensinaria ela! Basta que o
sangue apareça para que a vejamos soluçar.

5 de novembro
Data fatal
Em que deu-se a morte
Desse marechal…

Basta que alguém suba para que ela aplauda. Por quê? Porque,
além de chorosa, além de digna, ela também recebeu o
vírus que corrompe as camadas superiores, o vírus do engrossamento.
Apenas nela é espontâneo e sem lucro. É o patriotismo
bizarro.

A polícia proíbe as agressões às autoridades.
Furcy seria um mito na Maison Moderne, impossível em qualquer brasserie.

O povo, porém, que, como se sabe, é sempre oposicionista, decorou
a canção dos presidentes:

1º de março
Foi o dia da eleição,
Foi eleito o Campos Sales
Presidente da nação.
Parabéns ao novo chefe,
Seus passos serão leais,
Como foram os do nosso
Bom Prudente de Morais.

Era bom Floriano, era bom Prudente, foi bom Campos Sales, são bons
Rodrigues Alves e já o conselheiro Afonso Pena! Um outro versinho diz:

Mostrou que o Brasil não dorme
Da presidência o bom paulista
E se quer que o mineiro informe
Com ele é tudo fogo, lingüiça!

A musa acaba até com a má fama antiga, e se não faz
versos diz verdades. Qual de vós teria a coragem de conservar quand
même essa atitude de bondade para com todos os políticos? Esse
esquisito sentimento dos poetas da calçada tem uma seqüência
lógica – o jacobinismo pândego, a crítica acerba,
toda de alto, com desprezo das coisas estrangeiras. A guerra hispano-americana
foi motivo de um milheiro de cançonetas. Todas afinam por este diapasão:

La Union Española
Lembrou-se de oferecer
Passagens a seus súditos
Para a pátria defender.
Mas eles, que nem lá vão,
Passam cá vida folgada
Quase todos pelotaris
Nos boliches, nas touradas.

Quando por acaso o capadócio ama uma estrangeira, confessa, mas arreliando
o seu bem:

Tomei amores com uma argentina
Outro melhor jamais vi no mundo
É terno, gringo, profundo
É também das mais sensuais.

E a volubilidade, a despreocupação, a ironia complacente do
malandro nacional exterioriza-se nas canções resultantes de
grandes agitações como as causadas pela lei do selo, a reforma
da higiene, a vacina obrigatória. A musa não se encoleriza,
ri. O selo só fez compreender ao malandro que os fornecedores podiam
ser multados:

Sapateiro já não pode
Bater sola sossegado
Se não selar as botinas.
Catrapuz! está multado.

Uma das canções mais populares sobre a peste bubônica
tem este estribilho:

Os ratos fazem qui, qui, qui,
Qui, qui, qui, qui, qui
As pulgas pulam daqui
Pra ali, dali praqui, daqui prali
Os gatos fazem miau
Miau, miau, miau
Quem inventou a peste bubônica
Merece muito pau.

E a vacina obrigatória, que quase apeia o governo do conselheiro Alves,
deu uma infinita série de quadras livres. Patriota, jacobino, pândego,
o atual bardo da calçada gosta exatamente dessas tolices fesceninas
– é a tara da modinha desde Gregório de Matos –
gosta mesmo de rimar sandices, assim como se vê, abandonado à
margem da poesia, mas todos esses sentimentos se fundem na sua extrema liberdade,
e o bardo abre o coração como uma represa de lirismo.

Oh! o lirismo das modinhas! Como é possível na miséria
da urbs, no pó, na secura, na sujeira das vielas sórdidas, nas
escuras alcovas das hospedarias reles, vibrar tamanha luz de poesia?

O lirismo é uma torrente, uma catadupa a escachoar espumante entre
as idéias dos bardos. Todos os estilos da veia lírica do povo
soluçam e choram nas calçadas. Não é possível
deixar de sentir uma infinita amargura, quando nos becos sórdidos,
à porta de miseráveis casas, os soldados consentem que os trovadores
cantem, loucos de amor, a pureza da mulher transviada.

Virgem casta eu já fui como tu
Já vivi como os anjos no céu
Esta fronte que vês humilhada
Foi coberta de cândido véu.

Essa idéia lírica e adquirida, idéia datando dos conselheiros
românticos e da Dama das Camélias, não desaparece nunca
– é a roca em que a musa fia o sentimento nas ruas. Aí
os modinheiros perdem-se num estuário de amor. Tudo é paixão.
Há o amor trágico:

É meia-noite; o triste bronze chora
A lua oculta numa nuvem escura.
Calou-se a flauta numa longa queixa
O pobre louco morreu de amargura!

o irônico:

Zombaste, mulher com riso de escárnio
De pobre artista todo fogo e ardor
Amava-o, dizias, julgando talvez
Que do mundo fosse algum rico senhor.

o lírico:

Amo-te, ó virgem, como ama o nauta
À luz da estrela que lhe guia o lar…

o desconsolado:

Nem toda a árvore dá fruta
Nem toda a erva dá flor
Nem toda a mulher bonita
Pode dar constante amor.

ou ainda mais desconsolado:

Perdão, Emília, mas chorar não posso

o triste:

Quisera amar-te mas não posso, Elvira.
Porque gelado tenho o peito meu

o zangado:

A mulher é diabo de saias
Que nasceu para os homens tentar.
É perversa, é maldosa e tem lábia
Que nos faz a cabeça girar.

o idílico:

Chiquinha, se eu te pedisse
De modo que ninguém visse
Um beijo, tu mo negavas?
Ai dava! eu dava…

Idílio que bem se podia comparar às mimas de Herondas, se não
fosse a calçada o seu autor… Todos os tangos, os sambas, os lundus
em que se canta a mulata:

É quitute saboroso
É melhor que vatapá
É néctar delicioso
É bom como não há

os acanalhadamente amorosos:

Gosto de ti, porque gosto
Porque meu gosto é gostar
Mas tu de mim não te lembras
Por que me fazes penar?

o descritivo:

Numa conchinha de prata
Navegavam dois amantes
Beijando-se docemente
Ao som de magos descantes.

o trocista:

O amor da mulher é cachaça
Que se bebe por frio e calor
O amor da mulher é chalaça
E’ cantiga de mau trovador.

até o ideal:

Poesia, era esse o nome
Dessa mulher ideal
E amando-a sem ser poeta
Fui louco, pequei, fiz mal.

O amor proteiforme, o eterno amor feito de soluços e risos, que Tennyson
dizia senhor da vida e senhor da morte.

Há nessas modinhas e nessas cançonetas, de par com a paixão,
a tristeza e a troça, um milhão de erros de gramática
e de metrificação. O verso é quase ignorado pelo trovadores
ocasionais. Mas que lhes importa isso, se não se importam com a honra,
o bem-estar, a glória? Os poetas não têm versos, têm
cavaquinhos, violões e a voz para dobrar e quebrar os nossos nervos.
Ao povo basta a cadência, o som sugestionador que chega a atrair os
crocodilos. Uma história sem sentido como esta

Bolim bolacho, bole em cima,
Bolim bolacho por causa do bole embaixo
Quem não come da castanha caruru
Não percebe do caju
Quem não come do caju
Não percebe do fubá

entusiasma fatalmente os auditórios. Eles, os trovadores, tenham ou
não alegria, acham que tudo tem compensação até
na morte:

Vai o pobre para a cova
E o rico para a carneira
Mas ao fim de cinco anos
Ao abrir a salgadeira
Quer do pobre, quer do rico
Há só ossos e caveira.

A despreocupação dessa gente parece viver com uma estranha
verdade no lundu popular:

Eu vivo triste como sapo na lagoa
Cantando triste, escondido pelas matas.
Para ver se endireito a minha vida
Vou deixar das malditas serenatas.
O meu nome na Gazeta de Notícias
Ainda hoje eu vi bem declarado:
Ontem, à noite foi preso um vagabundo…

Vagabundo sim! A musa da cidade, a musa constante e anônima, que tange
todas as cordas da vida e é como a alma da multidão, a musa
triste é vagabunda, é livre, é pobre, é humilde.
E por isso todos lhe sofrem a ingente fascinação, por isso a
voz de um vagabundo, nas noites de luar, enche de lágrimas os olhos
dos mais frios, por isso ninguém há que não a ame –
flor de ideal nascida nas sarjetas, sonho perpétuo da cidade à
margem da poesia, riso e lágrima, poesia da encantadora alma das ruas!…

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