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As Religiões no Rio

 

 

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João do Rio

Cecy est un livre de bonne foy.

MONTAIGNE

A
MANUEL JORGE DE OLIVEIRA ROCHA
meu amigo.

A religião? Um misterioso sentimento, misto de terror e de esperança,
a simbolização lúgubre ou alegre de um poder que não
temos e almejamos ter, o desconhecido avassalador, o equívoco, o medo,
a perversidade.

O Rio, como todas as cidades nestes tempos de irreverência,
tem em cada rua um templo e em cada homem uma crença diversa.

Ao ler os grandes diários, imagina a gente que está
num pais essencialmente católico, onde alguns matemáticos são
positivistas. Entretanto, a cidade pulula de religiões. Basta parar
em qualquer esquina, interrogar. A diversidade dos cultos espantar-vos-á.
São swendeborgeanos, pagãos literários, fisiólatras,
defensores de dogmas exóticos, autores de reformas da Vida, reveladores
do Futuro, amantes do Diabo, bebedores de sangue, descendentes da rainha de
Sabá, judeus, cismáticos, espíritas, babalaôs de
Lagos, mulheres que respeitam o oceano, todos os cultos, todas as crenças,
todas as forças do Susto. Quem através da calma do semblante
lhes adivinhará as tragédias da alma? Quem no seu andar tranqüilo
de homens sem paixões irá descobrir os reveladores de ritos
novos, os mágicos, os nevrópatas, os delirantes, os possuídos
de Satanás, os mistagogos da Morte, do Mar e do Arco-Íris? Quem
poderá perceber, ao conversar com estas criaturas, a luta fratricida
por causa da interpretação da Bíblia, a luta que faz
mil religiões à espera de Jesus, cuja reaparição
está marcada para qualquer destes dias, e à espera do Anti-Cristo,
que talvez ande por aí? Quem imaginará cavalheiros distintos
em intimidade com as almas desencarnadas, quem desvendará a conversa
com os anjos nas chombergas fétidas?

Eles vão por aí, papas, profetas, crentes e
reveladores, orgulhosos cada um do seu culto, o único que é
a Verdade. Falai-lhes boamente, sem a tenção de agredi-los,
e eles se confessarão – por que só uma coisa é impossível
ao homem: enganar o seu semelhante, na fé.

Foi o que fiz na reportagem a que a Gazeta de Notícias
emprestou uma tão larga hospitalidade e um tão grande ruído;
foi este o meu esforço: levantar um pouco o mistério das crenças
nesta cidade

Não é um trabalho completo. Longe disso. Cada
uma dessas religiões daria farta messe para um volume de revelações.
Eu apenas entrevi a bondade, o mal e o bizarro dos cultos, mas tão
convencido e com tal desejo de ser exato que bem pode servir de epígrafe
a este livro a frase de Montaigne:

Cecy est un livre de bonne foy.

João do Rio

No Mundo dos Feitiços

Os Feiticeiros

Antônio é como aqueles adolescentes africanos de que fala o
escritor inglês. Os adolescentes sabiam dos deuses católicos
e dos seus próprios deuses, mas só veneravam o uísque
e o schilling. Antônio conhece muito bem N. S.ª das Dores, está
familiarizado com os orixálas da África, mas só respeita
o papel-moeda e o vinho do Porto. Graças a esses dois poderosos agentes,
gozei da intimidade de Antônio, negro inteligente e vivaz; graças
a Antônio, conheci as casas das ruas de São Diogo, Barão
de S. Felix, Hospício, Núncio e da América, onde se realizam
os candomblés e vivem os pais-de-santo. E rendi graças a Deus,
porque não há decerto, em toda a cidade, meio tão interessante.

Vai V.S. admirar muita coisa! – dizia Antônio a sorrir; e dizia a verdade.

Da grande quantidade de escravos africanos vindos para o Rio no tempo do
Brasil colônia e do Brasil monarquia, restam uns mil negros. São
todos das pequenas nações do interior da África, pertencem
ao igesá, oié, ebá, aboum, haussá, itaqua, ou
se consideram filhos dos ibouam, ixáu dos gêge e dos cambindas.
Alguns ricos mandam a descendência brasileira à África
para estudar a religião, outros deixam como dote aos filhos cruzados
daqui os mistérios e as feitiçarias. Todos, porém, falam
entre si um idioma comum: – o eubá.

Antônio, que estudou em Lagos, dizia:

– O eubá para os africanos é como o inglês para os povos
civilizados. Quem fala o eubá pode atravessar a África e viver
entre os pretos do Rio. Só os cambindas ignoram o eubá, mas
esses ignoram até a própria língua, que é muito
difícil. Quando os cambindas falam, misturam todas as línguas…
Agora os orixás e os alufás só falam o eubá.

– Orixás, alufás? – fiz eu, admirado.

– São duas religiões inteiramente diversas. Vai ver.

Com efeito. Os negros africanos dividem-se em duas grandes crenças:
os orixás e os alufás.

Os orixás, em maior número, são os mais complicados
e os mais animistas. Litólatras e fitólatras, têm um enorme
arsenal de santos, confundem os santos católicos com os seus santos,
e vivem a vida dupla, encontrando em cada pedra, em cada casco de tartaruga,
em cada erva, uma alma e um espírito. Essa espécie de politeísmo
bárbaro tem divindades que se manifestam e divindades invisíveis.
Os negros guardam a idéia de um Deus absoluto como o Deus católico:
Orixa-alúm. A lista dos santos é infindável. Há
o orixalá, que é o mais velho, Axum, a mãe dágua
doce, Ie-man- já, a sereia, Exu, o diabo, que anda sempre detrás
da porta, Sapanam, o Santíssimo Sacramento dos católicos, o
Irocô, cuja aparição se faz na árvore sagrada da
gameleira, o Gunocô, tremendo e grande, o Ogum, S. Jorge ou o Deus da
guerra, a Dadá, a Orainha, que são invisíveis, e muitos
outros, como o santo do trovão e o santo das ervas. A juntar a essa
coleção complicada, têm os negros ainda os espíritos
maus e os heledás ou anjos da guarda.

É natural que para corresponder à hierarquia celeste seja necessária
uma hierarquia eclesiástica. As criaturas vivem em poder do invisível
e só quem tem estudos e preparo pode saber o que os santos querem.
Há por isso grande quantidade de autoridades religiosas. Às
vezes encontramos nas ruas negros retintos que mastigam sem cessar. São
babalaôs, matemáticos geniais, sabedores dos segredos santos
e do futuro da gente; são babás que atiram o endilogum; são
babaloxás, pais-de-santos veneráveis. Nos lanhos da cara puseram
o pó da salvação e na boca têm sempre o obi, noz
de cola, boa para o estômago e asseguradora das pragas.

Antônio, que conversava dos progressos da magia na África, disse-me
um dia que era como Renan e Shakespeare: vivia na dúvida. Isso não
o impedia de acreditar nas pragas e no trabalhão que os santos africanos
dão.

– V. s. não imagina! Santo tem a festa anual, aparece de repente à
pessoa em que se quer meter e esta é obrigada logo a fazer festa; santo
comparece ao juramento das Iauô e passa fora, do Carnaval à Semana
Santa; e logo quer mais festa… Só descansa mesmo de fevereiro a abril.

– Estão veraneando.

– No carnaval os negros fazem ebó.

– Que vem a ser ebó?

– Ebó é despacho. Os santos vão todos para o campo e
ficam lá descansando.

– Talvez estejam em Petrópolis.

– Não. Santo deixa a cidade pelo mato, está mesmo entre as
ervas.

– Mas quais são os cargos religiosos?

– Há os babalaôs, os açoba, os aboré, grau máximo,
as mães-pequenas, os ogan, as agibonam…

A lista é como a dos santos, muito comprida, e cada um desses personagens
representa papel distinto nos sacrifícios, nos candomblés e
nas feitiçarias. Antônio mostra-me os mais notáveis, os
pais-de-santo: Oluou, Eruosaim, Alamijo, Adé-Oié, os babalaôs
Emídio, Oloô-teté, que significa treme-treme, e um bando
de feiticeiros: Torquato requipá ou fogo pára-chuva, Obitaiô,
Vagô, Apotijá, Veridiana, Crioula Capitão, Rosenda, Nosuanan,
a célebre Chica de Vavá, que um político economista protege…

– A Chica tem proteção política?

– Ora se tem! Mas que pensa o senhor? Há homens importantes que devem
quantias avultadas aos alufás e babalaôs que são grau
32 da Maçonaria.

Dessa gente, poucos lêem. Outrora ainda havia sábios que destrinçavam
o livro sagrado e sabiam porque Exu é mau – tudo direitinho e claro
como água. Hoje a aprendizagem é feita de ouvido. O africano
egoísta pai-de-santo, ensina ao aboré, as iauô quando
lhes entrega a navalha, de modo que não só a arte perde muitas
das suas fases curiosas como as histórias são adulteradas e
esquecidas.

– Também agora não é preciso saber o Saó Hauin.
Negro só olhando e sabendo o nome da pessoa pode fazer mal, diz Antônio.

Os orixás são em geral polígamos. Nessas casas das ruas
centrais de uma grande cidade, há homens que vivem rodeados de mulheres,
e cada noite, como nos sertões da África, o leito do babaloxás
é ocupado por uma das esposas. Não há ciúmes,
a mais velha anuncia quem a deve substituir, e todas trabalham para a tranqüilidade
do pai. Oloô-Teté, um velho que tem noventa anos no mínimo,
ainda conserva a companheira nas delícias do himeneu, e os mais sacudidos
transformam as filhas-de-santo em huris de serralhos.

Os alulás têm um rito diverso. São maometanos com um
fundo de misticismo. Quase todos dão para estudar a religião,
e os próprios malandros que lhes usurpam o título sabem mais
que os orixás.

Logo depois do suma ou batismo e da circuncisão ou kola, os alufás
habilitam-se à leitura do Alcorão. A sua obrigação
é o kissium, a prece. Rezam ao tomar banho, lavando a ponta dos dedos,
os pés e o nariz, rezam de manhã, rezam ao pôr-do-sol.
Eu os vi, retintos, com a cara reluzente entre as barbas brancas, fazendo
o aluma gariba, quando o crescente lunar aparecia no céu. Para essas
preces, vestem o abadá, uma túnica branca de mangas perdidas,
enterram na cabeça um filá vermelho, donde pende uma faixa branca,
e, à noite, o kissium continua, sentados eles em pele de carneiro ou
de tigre.

– Só os alufás ricos sentam-se em peles de tigre, diz-nos Antônio.

Essas criaturas contam à noite o rosário ou tessubá,
têm o preceito de não comer carne de porco, escrevem as orações
numas taboas, as atô, com tinta feita de arroz queimado, e jejuam como
os judeus quarenta dias a fio, só tomando refeições de
madrugada e ao pôr-do-sol.

Gente de cerimonial, depois do assumy, não há festa mais importante
como a do ramadan, em que trocam o saká ou presentes mútuos.
Tanto a sua administração religiosa como a judiciária
estão por inteiro independentes da terra em que vivem.

Há em várias tribos vigários gerais ou ladamos, obedecendo
ao lemano, o bispo, e a parte judiciária está a cargo dos alikaly,
Juizes, sagabamo, imediatos de juizes, e assivajiú, mestre de cerimônias.

Para ser alufá é preciso grande estudo, e esses pretos que
se fingem sérios, que se casam com gravidade, não deixam também
de fazer amuré com três e quatro mulheres.

– Quando o jovem alufá termina o seu exame, os outros dançam
o opasuma e conduzem o iniciado a cavalo pelas ruas, para significar o triunfo.

– Mas essas passeatas são impossíveis aqui, brado eu.

– Não são. As cerimônias realizam-se sempre nas estações
dos subúrbios, em lugares afastados, e os alufás, vestem as
suas roupas brancas e o seu gorro vermelho.

Naturalmente Antônio fez-me conhecer os alufás:

Alikali; o lemano atual, um preto de pernas tortas, morador à rua
Barão de S. Félix, que incute respeito e terror; o Chico Mina,
cuja filha estuda violino, Alufapão, Ojó, Abacajebú,
Ginjá, Manê, brasileiro de nascimento, e outros muitos.

Os alufás não gostam da gente de santo a que chamam auauadó-chum;
a gente de santo despreza os bichos que não comem porco, tratando-os
de malés. Mas acham-se todos relacionados pela língua, com costumes
exteriores mais ou menos idênticos e vivendo da feitiçaria. Os
orixás fazem sacrifícios, afogam os santos em sangue, dão-lhes
comidas, enfeites e azeite-de-dendê.

Os alufás, superiores, apesar da proibição da crença,
usam dos aligenum, espíritos diabólicos chamados para o bem
e o mal, num livro de sortes marcado com tinta vermelha e alguns, os maiores,
como Alikali, fazem até idams ou as grandes mágicas, em que
a uma palavra cabalística a chuva deixa de cair e obis aparecem em
pratos vazios.

Antes de estudar os feitiços, as práticas por que passam as
iauô nas camarinhas e a maneira dos cultos, quis ter uma impressão
vaga das casas e dos homens.

Antônio levou-me primeiro à residência de um feiticeiro
alufá. Pelas mesas, livros com escrituras complicadas, ervas, coelhos,
esteiras, um calamo de bambu finíssimo.

Da porta o guia gritou:

– Salamaleco.

Ninguém respondeu.

– Salamaleco!

– Maneco Lassalama!

No canto da sala, sentado numa pele de carneiro, um preto desfiava o rosário,
com os olhos fixos no alto.

– Não é possível falar agora. Ele está rezando
e não quer conversar. Saímos, e logo na rua encontramos o Xico
Mina. Este veste, como qualquer de nós, ternos claros e usa suíças
cortadas rentes. Já o conhecia de o ver nos cafés concorridos,
conversando com alguns deputados. Quando nos viu, passou rápido.

– Está com medo de perguntas. Chico gosta de fingir.

Entretanto, no trajeto que fizemos do Largo da Carioca à praça
da Aclamação, encontramos, a fora um esverdeado discípulo
de Alikali, Omancheo, como eles dizem, duas mães-de-santo, um velho
babalaô e dois babaloxás.

Nós íamos à casa do velho matemático Oloô-Teté.

As casas dos minas conservam a sua aparência de outrora, mas estão
cheias de negros baianos e de mulatos. São quase sempre rótulas
lobregas, onde vivem com o personagem principal cinco, seis e mais pessoas.
Nas salas, móveis quebrados e sujos, esteirinhas, bancos; por cima
das mesas, terrinas, pucarinhos de água, chapéus de palha, ervas,
pastas de oleado onde se guarda o opelé; nas paredes, atabaques, vestuários
esquisitos, vidros; e no quintal, quase sempre jabotis, galinhas pretas, galos
e cabritos.

Há na atmosfera um cheiro carregado de azeite-de-dendê, pimenta-da-costa
e catinga. Os pretos falam da falta de trabalho, fumando grossos cigarros
de palha. Não fosse a credulidade, a vida ser-lhes-ia difícil,
porque em cada um dos seus gestos revela-se uma lombeira secular.

Alguns velhos passam a vida sentados, a dormitar.

– Está pensando! – dizem os outros.

De repente, os pobres velhos ingênuos acordam, com um sonho mais forte
nessa confusa existência de pedras animadas e ervas com espírito.

– Xangô diz que eu tenho de fazer sacrifício!

Xangô, o deus do trovão, ordenou no sono, e o opelê, feito
de cascas de tartaruga e batizado com sangue, cai na mesa enodoada para dizer
com que sacrifício se contenta Xangô.

Outros, os mais malandros, passam a existência deitados no sofá.
As filhas-de-santo, prostitutas algumas, concorrem para lhes descansar a existência,
a gente que as vai procurar dá-lhes o supérfluo. A preocupação
destes é saber mais coisas, os feitiços desconhecidos, e quando
entra o que sabe todos os mistérios, ajoelham assustados e beijam-lhe
a mão, soluçando:

– Diz como se faz a cantiga e eu te dou todo o meu dinheiro!

À tarde, chegam as mulheres, e os que por acaso trabalham em alguma
pedreira. Os feiticeiros conversam de casos, criticam-se uns aos outros, falam
com intimidade das figuras mais salientes, do país, do imperador, de
que quase todos têm o retrato, de Cotegipe, do barão de Mamanguape,
dos presidentes da República.

As mulheres ouvem mastigando obi e cantando melopéas sinistramente
doces. Essas melopéas são quase sempre as preces, as evocações,
e repetem sem modalidade, por tempo indeterminado, a mesma frase.

Só pelos candomblés ou sessões de grande feitiçaria,
em que os babalaôs estão atentos e os pais-de-santo trabalham
dia e noite nas camarinhas ou fazendo evocações diante dos fogareiros
com o tessubá na mão, é que a vida dessa gente deixa
a sua calma amolecida de acassá com azeite-de-dendê.

Quando entramos na casa de Oloô-Teté, o matemático macróbio
e sensual, uma velha mina, que cantava sonambulicamente, parou de repente.

– Pode continuar.

Ela disse qualquer coisa de incompreensível.

– Está perguntando se o senhor lhe dá dois tostões,
ensina-nos Antônio.

– Não há dúvida.

A preta escancara a boca, e, batendo as mãos, põe-se a cantar:

Baba ounlô, ó xocotám, o ilélê.

– Que vem a ser isso?

– É o final das festas, quando o santo vai embora. Quer dizer: papai
já foi, já fez, já acabou; vai embora!

Eu olhava a réstia estreita do quintal onde dormiam jabotis.

– O jaboti é um animal sagrado?

– Não, diz-nos o sábio Antônio. Cada santo gosta do seu
animal. Xangô, por exemplo, come jaboti, galo e carneiro. Abaluaié,
pai de varíola, só gosta de cabrito. Os pais-de-santo são
obrigados pela sua qualidade a fazer criação de bichos para
vender e tê-los sempre à disposição quando precisam
de sacrifício. O jaboti é apenas um bicho que dá felicidade.
O sacrifício é simples. Lava-se bem, às vezes até
com champanha, a pedra que tem o santo e põe-se dentro da terrina.
O sangue do animal escorre; algumas das partes são levadas para onde
o santo diz e o resto a roda come.

– Mas há sacrifícios maiores para fazer mal às pessoas?

– Há! para esses até se matam bois.

– Feitiço pega sempre, sentencia o ilustre Oloô-Tetê,
com a sua prática venerável. Não há corpo-fechado.
Só o que tem é que uns custam mais. Feitiço para pegar
em preto é um instante, para mulato já custa, e então
para cair em cima de branco a gente sua até não poder mais.
Mas pega sempre. Por isso preto usa sempre o assiqui, a cobertura, o breve,
e não deixa de mastigar obi, noz de cola preservativa.

Para mim, homem amável, presentes alguns companheiros seus, Oloô-Tetê
tirou o opelé que há muitos anos foi batizado e prognosticou
o meu futuro.

Este futuro vai ser interessante. Segundo as cascas de tartaruga que se voltavam
sempre aos pares, serei felicíssimo, ascendendo com a rapidez dos automóveis
a escada de Jacó das posições felizes. É verdade
que um inimigozinho malandro pretende perder-me. Eu, porém, o esmagarei,
viajando sempre com cargos elevados e sendo admirado.

Abracei respeitoso o matemático que resolvera o quadrado da hipotenusa
do desconhecido.

– Põe dinheiro aqui – fez ele.

Dei-lhe as notas. Com as mãos trêmulas, o sábio a apalpou
longamente.

– Pega agora nesta pedra e nesta concha. Pede o que tiveres vontade à
concha, dizendo sim, e à pedra dizendo não.

Assim fiz. O opelé caiu de novo no encerado. A concha estava na mão
direita de Antônio, a pedra na esquerda, e Oloô tremia falando
ao santo, com os negros dedos trêmulos no ar.

– Abra a mão direita! ordenou.

Era a concha.

– Se acontecer, ossumcê dá presente a Oloô?

– Mas decerto.

Ele correu a consultar o opelé. Depois sorriu.

– Dá, sim, santo diz que dá. – E receitou-me os preservativos
com que eu serei invulnerável.

Também eu sorria. Pobre velho malandro e ingênuo! Eu perguntara
apenas, modestamente, à concha do futuro se seria imperador da China…
Enquanto isso, a negra da cantiga entoava outra mais alegre, com grande gestos
e risos.

O loô-ré, xa-la-ré
Camurá-ridé
O loô-ré, xa-la-ré
Camurá-ridé

– E esta, o que quer dizer?

– É uma cantiga de Orixalá. Significa: O homem do dinheiro
está aí. Vamos erguê-lo…

Apertei-lhe a mão jubiloso e reconhecido. Na alusão da ode
selvagem a lisonja vivia o encanto da sua vida eterna…

As Iauô

A recordação de um fato triste – a morte de uma rapariga que
fora à Bahia fazer-santo – deu-me ânimo e curiosidade para estudar
um dos mais bárbaros e inexplicáveis costumes dos fetiches do
Rio.

Fazer-santo é a renda direta dos babaloxás, mas ser filha-de-santo
é sacrificar a liberdade, escravizar-se, sofrer, delirar.

Os transeuntes honestos, que passeiam na rua com indiferença, não
imaginam sequer as cenas de Salpetrière africana passadas por trás
das rótulas sujas.

As iauô abundam nesta Babel da crença, cruzam-se com a gente
diariamente, sorriem aos soldados ébrios nos prostíbulos baratos,
mercadejam doces nas praças, às portas dos estabelecimentos
comerciais, fornecem ao Hospício a sua quota de loucura, propagam a
histeria entre as senhoras honestas e as cocottes, exploram e são exploradas,
vivem da crendice e alimentam o caftismo inconsciente. As iauô, são
as demoníacas e as grandes farsistas da raça preta, as obsedadas
e as delirantes. A história de cada uma delas, quando não é
uma sinistra pantomima de álcool e mancebia, é um tecido de
fatos cruéis, anormais, inéditos, feitos de invisível,
de sangue e de morte. Nas iauô está a base do culto africano.
Todas elas usam sinais exteriores do santo, as vestimentas simbólicas,
os rosários e os colares de contas com as cores preferidas da divindade
a que pertencem; todas elas estão ligadas ao rito selvagem por mistérios
que as obrigam a gastar a vida em festejos, a sentir o santo e a respeitar
o pai-de-santo.

Fazer-santo é colocar-se sobre o patrocínio de um fetiche qualquer,
é ser batizado por ele, e por espontânea vontade dele. As negras,
insensíveis a quase todas as delicadezas que produzem ataques na haute-gomme,
são, entretanto, de uma impressionabilidade mórbida por tudo
quanto é abusão. Da convivência com os maiores nesse horizonte
de chumbo, de atmosfera de feitiçarias e pavores, nasce-lhes a necessidade
iniludível de fazer também o santo; e não é possível
demovê-las, umas porque a miragem da felicidade as cega, outras porque
já estão votadas à loucura e ao alcoolismo. Entre as
tribos do interior da África, há o sacrifício do agamum,
em que se esmagam vivas as crianças de seis meses. Ao Moloch das vesânias
a raça preta sacrifica aqui uma quantidade assustadora de homens e
de mulheres.

Antônio, que me mostrara a maior parte das casas-de-santo, disse-me
um dia:

– Vou levá-lo hoje a ver o 16.º dia de uma iauô.

Para que uma mulher saiba a vinda do santo, basta encontrar na rua um fetiche
qualquer, pedra, pedaço de ferro ou concha do mar. De tal maneira estão
sugestionadas, que vão logo aos babalaôs indagar do futuro. Os
babalaôs, a troco de dinheiro, jogam o edilogum, os búzios, e
servem-se também por aproximação dos signos do zodíaco.

– O mês do Capricórnio – diz Antônio – compreende todos
os animais parecidos, a cabra, o carneiro, o cabrito, e segundo o cálculo
do dia e o animal preferido pelo santo, os matemáticos descobrem quem
é.

Quando já sabe o santo, babalaô atira a sorte no obelê
para perguntar se é de dever fazê-lo. A natureza mesmo do culto,
a necessidade de conservar as cerimônias e a avidez de ganho da própria
indolência fazem o sábio obter uma resposta afirmativa.

Algumas criaturas paupérrimas batem então nas faces e pedem:

– Eu quero ter o santo assentado!

É mais fácil. Os pais-de-santo dão-lhe ervas, uma pedra
bem lavada, em que está o santo, um rosário de contas que se
usa no pescoço depois de purificado o corpo por um banho. Nessas ocasiões
o vadio invisível contenta-se com o ebó, despacho, algumas comedorias
com azeite-de-dendê, ervas e sangue, deixadas na encruzilhada dos caminhos.

Quase sempre, porém, as vitimas sujeitam-se, e não é
raro, mesmo quando são pobres os pais, a aceitarem o trabalho com a
condição de as vender em leilão ou serem servidos por
elas durante longo tempo. Como as despesas são grandes, as futuras
iauô levam meses fazendo economias, poupando, sacrificando-se. E de
obrigação levar comidas, presentes, dinheiro ao pai-de-santo
para a sua estada no ylê ache-ó-ylê-orixá, estada
que regula de 12 a 30 dias.

– Isto acontece só para as iauô dos orixás, – diz Antônio.

– Há outras?

– Há as dos negros cambindas. Também essa gente é ordinária,
copia os processos dos outros e está de tal forma ignorante que até
as cantigas das suas festas têm pedaços em português.

– Mas entre os cambindas tudo é diferente?

– Mais ou menos. Olhe por exemplo os santos.

Orixalá é Ganga-Zumba, Obaluaci, Cangira-Mungongo, Exu, Cubango,
Orixá-oco, Pombagira, Oxum, a mãe d’água, Sinhá
Renga, Sapanam, Cargamela. E não é só aos santos dos
orixás que os cambindas mudam o nome, é também aos santos
das igrejas. Assim S. Benedito é chamado Lingongo, S. Antônio,
Verequete, N. Senhora das Dores, Sinhá Samba.

Para os cambindas serve para santo qualquer pedra, os paralelepípedos,
as lascas das pedreiras e esses pretos sem-vergonha adoram a flor do girassol
que simboliza a lua…

Eu estava atônito. Positivamente Antônio achava muito inferiores
os cambindas.

– As iauô?

– As filhas-de-santo macumbas ou cambindas chegam a ter uma porção
de santos de cada vez, manifestando-se na sua cabeça. Sabe V.S. o que
cantam eles quando a yauô está com a crise?

Maria Mucangué
Lava roupa de sinhá,
Lava camisa de chita,
Não é dela, é de yayá.

– Quer ouvir outra?

Bumba, bumba, ó calunga,
Tanto quebra cadeira como quebra sofá
Bumba, bumba, ó calunga.

Houve uma pausa e Antônio concluiu:

– Por negro cambinda é que se compreende que africano foi escravo
de branco.

Cambinda é burro e sem-vergonha!

Disse e voltou à narrativa da iniciação das iauô.

Antes de entrar para camarinha, a mulher, predisposta pela fixidez da atenção
a todas as sugestões, presta juramento de guardar o segredo do que
viu, toma um banho purificador e à meia-noite começa a cerimônia.
A iauô senta-se numa cadeira vestida de branco com o ojá apertando
a cintura. Todos em derredor entoam a primeira cantiga a Exu.

Echu tiriri, lô-nam bará ô bebê.
Tiriri lo-nam Echu tiriri.

O babaloxá pergunta ao santo para, onde deve ir o cabelo que vai cortar
à futura filha, e, depois de ardente meditação, indica
com aparato a ordem divina. Essas descobertas são fatalmente as mesmas
no centro de uma cidade populosa como a nossa. Se o santo é a mãe
d’agua doce, Oxum, o cabelo vai para a Tijuca, a Fábrica das Chitas;
se é Ié-man-ja fica na praia do Russel, em Santa Luzia; se é
outro santo qualquer, basta um trecho de praça em que as ruas se cruzem.

As rezas começam então; o pai-de-santo molha a cabeça
da iauô com uma composição de ervas e com afiadíssima
navalha faz-lhe uma coroa, enquanto a roda canta triste.

Orixalá otô ô yauô!

Essa parte do cabelo é guardada eternamente e a iauô não
deve saber nunca onde a guardam, porque lhe acontece desgraça. Em seguida,
o lúgubre barbeiro raspa-lhe circularmente o crânio, e quando
a carapinha cai no alguidar, a operada já perdeu a razão.

Babaloxá, lava-lhe ainda a cabeça com o sangue dos animais
esfaqueados pelos ogans, e as iauô antigas levam-na a mudar a roupa,
enquanto se preparam com ervas os cabelos do alguidar.

Daí a momentos a iniciada aparece com outros fatos, pega no alguidar
e sai acompanhada das outras, que a amparam e cantam baixo o ofertório
ao santo. Em chegando ao lugar indicado, a hipnotizada deixa a vaso, volta
e é recebida pelo pai, que entorna em frente à porta um copo
d’água.

A nova iauô vai então descansar, enquanto os outros rezam na
camarinha em frente ao estado-maior.

– O estado-maior? – indago eu, assustado com o exército misterioso.
O estado-maior é a coleção de terrinas e sopeiras colocadas
numa espécie de prateleiras de bazar. Nas sopeiras estão todos
os santos pequenos e grandes. Há desde as terrinas de granito às
de porcelanas com frisos de ouro, rodeando armações de ferro,
onde se guarda o Ogum, o São Jorge da África.

No dia seguinte à cerimônia, a iauô lava-se e vai à
presença do pai para ver se tem espíritos contrários.

Se os espíritos existem, o pai poderoso afasta a influência
nefasta por meio de ebós e ogunguns. A iauô é obrigada
a não falar a ninguém: quando deseja alguma coisa, bate palmas
e só a ajuda nesses dias a mãe-pequena ou Iaque-que-rê.
As danças para preparo de santo realizam-se nos 1.º, 3.º,
7.º, 12.º, e no 16.º dia o santo revela-se.

– Mas que adianta isso às iauô?

– Nada. O pai-de-santo domina-as. O erô ou segredo que lhe dá,
pode retirá-lo quando lhe apraz; o poder de as transformar e fazer-lhes
mal está em virar o santo sempre que tem vontade.

– E quando essas criaturas morrem?

– Faz-se a obrigação raspando um pouco de cabelo para saber
se o santo também vai, e o babaloxá procura um colega para lhe
tirar a mão do finado.

As cerimônias das iauô renovam-se de resto de seis em seis meses,
de ano em ano, até à morte. São elas que em grande parte
sustentam o culto.

Quando a iauô não tem dinheiro, ou o pai vende-a em leilão
ou a guarda como serva. Desta convivência é que algumas chegam
a ser mães-de-santo, para o que basta dar-lhe o babaloxá uma
navalha.

– E há muita mãe-de-santo?

– Umas cinqüenta, contando com as falsas. Só agora lembro-me
de várias: a Josefa, a Calu Boneca, a Henriqueta da Praia, a Maria
Marota, que vende à porta do Glacier, a Maria do Bonfim, a Martinha
da rua do Regente, a Zebinda, a Chica de Vavá, a Aminam pé-de-boi,
a Maria Luiza, que é também sedutora de senhoras honestas, a
Flora Coco Podre, a Dudu do Sacramento, a Bitaiô, que está agora
guiando seis ou oito filhas, a Assiata.

Esta é de força. Não tem navalha, finge de mãe-de-santo
e trabalha com três ogans falsos – João Ratão, um moleque
chamado Macário e certo cabra pernóstico, o Germano. A Assiata
mora na rua da Alfândega, 304. Ainda outro dia houve lá um escândalo
dos diabos, porque a Assiata meteu na festa de Iemanjá algumas iauô
feitas por ela. Os pais-de-santo protestaram, a negra danou, e teve que pagar
a multa marcada pelo santo. Essa é uma das feiticeiras de embromação.

Nesse mesmo dia Antônio veio buscar-me à tarde.

– A casa a que vai V.S. é de um grande feiticeiro; verá se
não há fatos verdadeiros.

Quando chegamos, a sala estava enfeitada. Em derredor sentavam-se muitos
negros e negras mastigando olobó, ou cola amargosa, com as roupas lavadas
e as faces reluzentes. A um canto, os músicos, fisionomias estranhas,
faziam soar, com sacolejos compassados, o xequerêe, os atabaques e ubatás,
com movimentos de braços desvairadamente regulares. Não se respirava
bem.

A cachaça, circulando sem cessar, ensangüentava os olhos amarelos
dos assistentes.

– As vezes tudo é mentira, à custa de cachaça e fingimento
– diz Antônio. Quando o santo não vem, o pai fica desmoralizado.
Mas aqui é de verdade…

Olhei o célebre pai-de-santo, cujas filhas são sem conta. Estava
sentado à porta da camarinha, mas levantou-se logo, e a negra iniciada
entrou, de camisola branca, com um leque de metal chocalhante. Fula, com uma
extraordinária fadiga nos membros lassos, os seus olhos brilhavam satânicos
sob o capacete de pinturas bizarras com que lhe tinham brochado o crânio.
Diante do pai estirou-se a fio comprido, bateu com as faces no assoalho, ajoelhou
e beijou-lhe a mão. Babaloxá fez um gesto de bênção,
e ela foi, rojou-se de novo diante de outras pessoas. O som do agogó
arrastou no ar os primeiros batuques e os arranhados do xequeré. A
negra ergueu-se e, estendendo as mãos para um e para outro lado, começou
a traçar passos, sorrindo idiotamente. Só então notei
que tinha na cabeça uma esquisita espécie de cone.

– É o ado-chú, que faz vir o santo – explica Antônio.
– É feito com sangue e ervas. Se o ado-chú cai, santo não
vem.

A negra, parecia aos poucos animar-se, sacudindo o leque de metal chocalhante.

Em derredor, a música acompanhava as cantigas, que repetiam indefinidamente
a mesma frase.

As dança dessas cerimônias é mais ou menos precipitada,
mas sem os pulos satânicos dos Cafres e a vertigem diabólica
dos negros da Luisiania. É simples, contínua e insistente, horrendamente
insistente. Os passos constantes são o alujá, em roda da casa,
dando com as mãos para a direita e para a esquerda, e o jêquedê,
em que ao compasso dos atabaques, com os pés juntos, os corpos se quebram
aos poucos em remexidos sinistros. Não sei se o enervante som da música
destilando aos poucos desespero, se a cachaça, se o exercício,
o fato é que, em pouco, a iauô parecia reanimar-se, perder a
fadiga numa raiva de louca. De cada xequexé-xequexé que a mão
de um negro sacudia no ar, vinha um espicaçamento de urtiga, das bocas
cusparinhentas dos assistentes escorria a alucinação. Aos poucos,
outros negros, não podendo mais, saltaram também na dança,
e foi então entre as vozes, as palmas e os instrumentos que repetiam
no mesmo compasso o mesmo som, uma teoria de cara bêbedas cabriolando
precedidas de uma cabeça colorida que esgareiava lugubremente. A loucura
propagou-se. No meio do pandemônio vejo surgir o babaloxá com
um desses vasos furados em que se assam castanhas, cheio de brasas.

– Que vai ele fazer?

– Cala, cala… é o pai, é o pai grande – balbucia Antônio.

As cantigas redobram com um furor que não se apressa. São como
uma ânsia de desesperado essas cantigas, como a agonia de um mesmo gesto
arrancando dos olhos a mesma lâmina de faca, são atrozes! O babaloxá
coloca o cangirão ardente na cabeça da iauô, que não
cessa de dançar delirante, insensível, e, alteando o braço
com um gesto dominador e um sorriso que lhe prende o beiço aos ouvidos,
entorna nas brasas fumegantes um alguidar cheio de azeite-de-dendê.

Ouve-se o chiar do azeite nas chamas, a negra, bem no meio da sala, sacoleja-se
num jequedé lancinante, e pela sua cara suada, do cangirão ardente,
e que não lhe queima a pele, escorrem fios amarelos de azeite…

Ie-man-já atô cuaô.

continuava a turba.

– Não queimou, não queimou, ele é grande – fez Antônio.

Eu abrira os olhos para ver, para sentir bem o mistério da inaudita
selvageria. Havia uma hora, a negra dançava sem parar; pela face o
dendê quente escorria benéfico aos santos. De repente, porém
ela estacou, caiu de joelhos, deu um grande grito.

– Emim oiá bonmim’. – Bradou.

– É o nome dela, o santo disse pela sua boca o nome que vai ter.

A sala rebentou num delírio infernal. O babaloxá gritava, com
os olhos arregalados, palavras guturais.

– Que diz ele?

– Que é grande, que vejam como é grande!

Criaturas rojavam-se aos pés do pai, beijando-lhes os dedos, negras
uivavam, com as mãos empoladas de bater palmas; dois ou três
pretos aos sons dos xequerês sacudiam-se em danças com o santo,
e a iauô revirava os olhos, idiota, como se acordasse de uma grande
e estranha moléstia.

– Que vai ela fazer agora, Deus de misericórdia! – murmurei saindo.

– Vai trabalhar, pagar no fim de três meses a sua obrigação,
ochu meta, dar dinheiro a pai-de-santo, ganhar dinheiro…

– Sempre o dinheiro! – fiz eu olhando a velha casaria.

Antônio parou e disse:

– Não se engana V.S.

E limpando o suor do rosto, o negro concluiu com esta reflexão profunda:

– Neste mundo, nem os espíritos fazem qualquer coisa sem dinheiro
e sem sacrifício!

Fomos pela rua estreita com a visão sinistra da pobre mártir
aos pulos, dessa cabeça pintada, entre os chocalhos e os atabaques,
que dançava e gritava horrendamente…

O Feitiço

Nós dependemos do Feitiço.

Não é um paradoxo, é a verdade de uma observação
longa e dolorosa. Há no Rio magos estranhos que conhecem a alquimia
e os filtros encantados, como nas mágicas de teatro, há espíritos
que incomodam as almas para fazer os maridos incorrigíveis voltarem
ao tálamo conjugal, há bruxas que abalam o invisível
só pelo prazer de ligar dois corpos apaixonados, mas nenhum desses
homens, nenhuma dessas horrendas mulheres tem para este povo o indiscutível
valor do Feitiço, do misterioso preparado dos negros.

É provável que muita gente não acredite nem nas bruxas,
nem nos magos, mas não há ninguém cuja vida tivesse decorrido
no Rio sem uma entrada nas casas sujas onde se enrosca a indolência
malandra dos negros e das negras. É todo um problema de hereditariedade
e psicologia essa atração mórbida. Os nossos ascendentes
acreditaram no arsenal complicado da magia da idade média, na pompa
de uma ciência que levava à forca e às fogueiras sábios
estranhos, derramando a loucura pelos campos; os nossos avós, portugueses
de boa fibra, tremeram diante dos encantamentos e amuletos com que se presenteavam
os reis entre diamantes e esmeraldas. Nós continuamos fetiches no fundo,
como dizia o filósofo, mas rojando de medo diante do Feitiço
africano, do Feitiço importado com os escravos, e indo buscar trêmulos
a sorte nos antros, onde gorilas manhosos e uma súcia de pretas cínicas
ou histéricas desencavam o futuro entre cágados estrangulados
e penas de papagaio!

Vivi três meses no meio dos feiticeiros, cuja vida se finge desconhecer,
mas que se conhece na alucinação de uma dor ou da ambição,
e julgo que seria mais interessante como patologia social estudar, de preferência,
aos mercadores da paspalhice, os que lá vão em busca de consolo.

Vivemos na dependência do Feitiço, dessa caterva de negros e
negras, de babaloxás e iauô, somos nós que lhe asseguramos
a existência, com o carinho de um negociante por uma amante atriz. O
Feitiço é o nosso vício, o nosso gozo, a degeneração.
Exige, damos-lhes; explora, deixamo-nos explorar, e, seja ele maitre-chanteur,
assassino, larápio, fica sempre impune e forte pela vida que lhe empresta
o nosso dinheiro.

Os feiticeiros formigam no Rio, espalhados por toda a cidade, do cais à
Estrada de Santa Cruz.

Os pretos, alufás ou orixás, degeneram o maometismo e o catolicismo
no pavor dos aligenum, espíritos maus, e do exu, o diabo, e a lista
dos que praticam para o público não acaba mais. Conheci só
num dia a Isabel, a Leonor, a Maria do Castro, o Tintino, da rua Frei Caneca;
o Miguel Pequeno, um negro que parece os anões de D. Juan de Byron;
o Antônio, mulato conhecedor do idioma africano; Obitaiô, da rua
Bom Jardim; o Juca Aboré, o Alamijo, o Abede, um certo Maurício,
ogan de outro feiticeiro – o Brilhante, pai-macumba dos santos cabindas; o
Rodolfo, o Virgílio, a Dudu do Sacramento, que mora também na
rua do Bom Jardim; o Higino e o Breves, dois famosos tipos de Niterói,
cuja crônica é sinistra; o Oto Ali, Ogan-Didi, jogador da rua
da Conceição; Armando Ginja, Abubaca Caolho, Egidio Aboré,
Horácio, Oiabumin, filha e mãe-de-santo atual da casa de Abedé;
Ieusimin, Torquato Arequipá, Cipriano, Rosendo, a Justa de Obaluaei,
Apotijá, mina famoso pelas suas malandragens, que mora na rua do Hospício,
322 e finge de feiticeiro falando mal do Brasil; a Assiata, outra exploradora,
a Maria Luiza, sedutora reconhecida, e até um empregado dos Telégrafos,
o famoso pai Deolindo…

Toda essa gente vive bem, à farta, joga no bicho como Oloô-Teté,
deixa dinheiro quando morre, às vezes fortunas superiores a cem contos,
e achincalha o nome de pessoas eminentes da nossa sociedade, entre conselhos
às meretrizes e goles de parati. As pessoas eminentes não deixam,
entretanto, de ir ouvi-los às baiucas infectas, porque os feiticeiros
que podem dar riqueza, palácios e eternidade, que mudam a distância,
com uma simples mistura de sangue e de ervas, a existência humana, moram
em casinholas sórdidas, de onde emana um nauseabundo cheiro.

Para obter o segredo do feitiço, fui a essas casas, estive nas salas
sujas, vendo pelas paredes os elefantes, as flechas, os arcos pintados, tropeçando
em montes de ervas e lagartos secos, pegando nas terrinas sagradas e nos obélês,
cheios de suor.

– V. S., se deseja saber quais são os principais feitiços,
é preciso acostumar-se antes com os santos, dizia-me o africano.

Acostumei-me. São inumeráveis. As velhas que lhes discutem
o preço em conversa, até confundem as histórias. Em pouco
tempo estava relacionado com Exu, o diabo, a que se sacrifica no começo
das funçanatas, Obaluaiê, o santo da varíola, Ogum, o
deus da guerra, Oxóocí, Eíulé, Oloro-quê,
Obalufan, Orixá-agô, Exu-maré, Orixá-ogrinha Aíra,
Orominha, Ogodô, Oganju, Baru, Orixalá, Bainha, Dadá,
Percuã, Coricotó, Doú, Alabá, Ari e as divindades
beiçudas, esposas dos santos – Aquará, Oxum-gimoun, Aíá-có,
a mãe da noite, Inhansam, Obi-am, esposa de Orixá-lá;
Orainha, Ogango, Jená, mulher de Elôquê; Io-máo-já,
a dona de Orixáocô; Oxum de Xangô e até Obá,
que, príncipe neste mundo, é no éter hetairia do formidável
santo Ogodô.

Os fetiches contaram-me a história de Orixá-alum, o maior dos
santos que aparece raras vezes só para mostrar que não é
de brincadeiras, e eu assisti às cerimônias do culto, em que
quase sempre predomina a farsa pueril e sinistra. Diante dos meus olhos de
civilizado, passaram negros vestidos de Xangô, com calça de cor,
saiote encarnado enfeitado de búzios e lantejoulas, avental, babadouro
e gorro; e esses negros dançavam com Oxum, várias negras fantasiadas,
de ventarolas de metal na mão esquerda e espadinha de pau na direita.
Concorri para o sacrifício de Obaluaiê, o santo da varíola,
um negro de bigode preto com a roupa de Polichinelo e uma touca branca orlada
de urtigas. O santo agitava uma vassourinha, o seu xaxará, e nós
todos em derredor do babaloxá víamos morrer sem auxílio
de faca, apenas por estrangulamento, uma bicharada que faria inveja ao Jardim
Zoológico.

Os africanos porém continuavam a guardar o mistério da preparação.

– Vamos lá, dizia eu, camarário, como é que faz para
matar uni cidadão qualquer?

Eles riam, voltavam o rosto com uns gestos quase femininos.

– Sei lá!

Outros porém tagarelavam:

– V. S. não acredita? É que ainda não viu nada. Aqui
está quem fez um deputado! O…

Os nomes conhecidos surgiam, tumultuavam, empregos na polícia, na
Câmara, relações no Senado, interferências em desaguisados
de famílias notáveis.

– Mas como se faz isso?

– Então o senhor pensa que a gente diz assim o seu meio de vida?

E imediatamente aquele com quem eu falava, descompunha o vizinho mais próximo
– porque, membros de uma maçonaria de defesa geral, de que é
chefe o Ojó da rua dos Andradas, os pretos odeiam-se intimamente, formam
partidos de feiticeiros africanos contra feiticeiros brasileiros, e empregam
todos os meios imagináveis para afundar os mais conhecidos.

Acabei julgando os babaloxás sábios na ciência da feitiçaria
como o Papa João XXII e não via negra mina na rua sem recordar
logo o bizarro saber das feiticeiras de d’Annunzio e do Sr. Sardou. A lisonja,
porém, e o dinheiro, a moeda real de todas as maquinações
dessa ópera pregada aos incautos, fizeram-me sabedor dos mais complicados
feitiços.

Há feitiços de todos os matizes, feitiços lúgubres,
poéticos, risonhos, sinistros. O feiticeiro joga com o Amor, a Vida,
o Dinheiro e a Morte, como os malabaristas dos circos com objetos de pesos
diversos. Todos entretanto são de uma ignorância absoluta e afetam
intimidades superiores, colocando-se logo na alta política, no clero
e na magistratura. Eu fui saber, aterrado, de uma conspiração
política com os feiticeiros, nada mais nada menos que a morte de um
passado presidente da República. A principio achei impossível,
mas os meus informantes citavam com simplicidade nomes que estiveram publicamente
implicados em conspirações, homens a quem tiro o meu chapéu
e aperto a mão. Era impossível a dúvida.

– O presidente está bem com os santos, disse-me o feiticeiro, mas
bastava vê-lo à janela do palácio para que dois meses
depois ele morresse.

– Como?!

– E difícil dizer. Os trabalhos dessa espécie fazem-se na roça,
com orações e grandes matanças. Precisa a gente passar
noites e noites a fio diante do fogareiro, com o tessubá na mão,
a rezar. Depois matam-se os animais, às vezes um boi que representa
a pessoa e é logo enterrado. Garanto-lhe que dias depois o espírito
vem dizer ao feiticeiro a doença da pessoa.

– Mas por que não matou?

– Porque os caiporas não me quiseram dar sessenta contos.

– Mas se você tivesse recebido esse dinheiro e um amigo do governo
desse mais?

– O feitiço virava. A balança pesa tudo e pesa também
dinheiro. Se Deus tivesse permitido a essa hora, os somíticos estariam
mortos.

Esse é o feitiço maior, o envoutement solene e caro. Há
outros, porém, mais em conta.

Para matar um cavalheiro qualquer, basta torrar-lhe o nome, dá-lo
com algum milho aos pombos e soltá-los numa encruzilhada. Os pombos
levam a morte… É poético. Para ulcerar as pernas do inimigo
um punhado de terra do cemitério é suficiente. Esse misterioso
serviço chama-se etu, e os babaloxás resolvem todo o seu método
depois de conversar com os iffá, uma coleção de 12 pedras.
Quando os iffá estão teimosos, sacrifica-se um cabrito metendo
as pedras na boca do bicho com alfavaca de cobra.

Os homens são em geral volúveis. Há o meio de os reter
per eternum sujeitos à mesma paixão, o effifá, uma forquilha
de pau preparada com besouros, algodão, linhas e ervas, sendo que durante
a operação não se deve deixar de dizer o ojó,
oração. Se eu amanhã desejar a desunião de um
casal, enrolo o nome da pessoa com pimenta-da-costa, malagueta e linha preta,
deito isso ao fogo com sangue, e o casal dissolve-se; se resolver transformar
Catão, o honesto, no mais desbriado gatuno, arranjo todo esse negócio
apenas com um bom tira, um rato e algumas ervas! E maravilhoso.

Há também feitiços porcos, o mantucá, por exemplo,
preparado com excremento de vários animais e coisas que a decência
nós salva de dizer; e feitiços cômicos como o terrível
xuxuguruxu… Esse faz-se com um espinho de Santo Antônio besuntado
de ovo e enterra-se à porta do inimigo, batendo três vezes e
dizendo:

– Xuxuguruxu io le bará….

Para ô homem ser absolutamente fatal, D. Juan, Rotschild, Nicolau II
e Morny, recolhi com carinho uma receita infalível; É mastigar
orobó quando pragueja, trazer alguns tiras ou breves escritos em árabe
na cinta, usar do ori para o feitiço não pegar, ter aléni
do xorá, defesa própria, o essiqui, cobertura e o irocó,
defumação das roupas, num fogareiro cm que se queima azeite-de-dendê,
cabeças de bichos e ervas, visitar os babaloxás e jogar de vez
em quando o até ou a praga. Se apesar de tudo isso a amante desse homem
fugir, há um supremo recurso: espera-se a hora do meio-dia e crava-se
um punhal detrás da porta.

Mas o que não sabem os que sustentam os feiticeiros, é que
a base, o fundo de toda a sua ciência é o Livro de S. Cipriano.
Os maiores alufás, os mais complicados pais-de-santo, têm escondida
entre os tiras e a bicharada uma edição nada fantástica
do S. Cipriano. Enquanto criaturas chorosas esperam os quebrantos e as misturadas
fatais os negros soletram o S. Cipriano, à luz dos candeeiros…

O feitiço compõe-se apenas de ervas arrancadas ao campo depois
de lá deixar dinheiro para o saci, de sangue, de orações,
de galos, cabritos, cágados, azeite-de-dendê e do livro idiota.
É o desmoronamento de um sonho!

Os feiticeiros, porém, pedem retratos, exigem dos clientes coisas
de uma depravação sem nome para agir depois fazendo o egum,
ou evocação dos espíritos, o maior mistério e
a maior pândega dos pretos; e quase todos roubam com descaro, dando
em troco de dinheiro sardinhas com pó-de-mico, cebolas com quatro pregos
espetados, cabeças de pombo em salmoura para fortalecer o amor, uma
infinita série de extravagâncias. Os trabalhos são tratados
como nos consultórios médicos: a simples consulta de seis a
dez mil réis, a morte de homem segundo a sua importância social
e o recebimento da importância por partes. Quando é doença,
paga-se no ato – porque os babaloxás são médicos, e curam
com cachaça, urubus, penas de papagaio, sangue e ervas.

A policia visita essas casas como consultante. Soube nesses antros que um
antigo delegado estava amarrado a uma paixão, graças aos prodígios
de um galo preto. A polícia não sabe pois que alguns desses
covis ficam defronte de casas suspeitas, que há um tecido de patifarias
inconscientes ligando-as. Mas não é possível a uma segurança
transitória acabar com um grande vício como o Feitiço.
Se um inspetor vasculhar amanhã os jabotis e as figas de uma das baiúcas,
à tarde, na delegacia os pedidos choverão…

Eu vi senhoras de alta posição saltando, às escondidas,
de carros de praça, como nos folhetins de romances, para correr, tapando
a cara com véus espessos, a essas casas; eu vi sessões em que
mãos enluvadas tiravam das carteiras ricas notas e notas aos gritos
dos negros malcriados que bradavam.

– Bota dinheiro aqui!

Tive em mãos, com susto e pesar, fios longos de cabelos de senhoras
que eu respeitava e continuarei a respeitar nas festas e nos bailes, como
as deusas do Conforto e da Honestidade. Um babaloxá da costa da Guiné
guardou-me dois dias às suas ordens para acompanhá-lo aos lugares
onde havia serviço, e eu o vi entrar misteriosamente em casas de Botafogo
e da Tijuca, onde, durante o inverno, há recepções e
conversationes às 5 da tarde como em Paris e nos palácios da
Itália. Alguns pretos, bebendo comigo, informavam-me que tudo era embromação
para viver, e, noutro dia, tílburis paravam à porta, cavalheiros
saltavam, pelo corredor estreito desfilava um resumo da nossa sociedade, desde
os homens de posição às prostitutas derrancadas, com
escala pelas criadas particulares. De uma vez mostraram-me o retrato de uma
menina que eu julgo honesta.

– Mas para que isso?

– Ela quer casar com este.

Era a fotografia de um advogado.

– E vocês?

– Como não quer dar mais dinheiro, o servicinho está parado.
A pequena já deu trezentos e cinqüenta.

Tremi romanticamente por aquela ingenuidade que se perdia nos poços
do crime à procura do Amor…

Mas esse caso é comum. Encontrei papelinhos escritos em cursivo inglês,
puro Coração-de-Jesus, cartões-bilhetes, pedaços
de seda para misteres que a moralidade não pode desvendar. Eles diziam
os nomes com reticências, sorrindo, e eu acabei humilhado, envergonhado,
como se me tivessem insultado.

– A curiosidade tem limites, disse a Antônio que desaparecera havia
dias para levar aos subúrbios umas negras. Se eu dissesse metade do
que vi, com as provas que tenho!… Continuar é descer o mesmo abismo
vendo a mesma cidade misteriosamente rojar-se diante do Feitiço…
Basta!

– V. S. não passou dos primeiros quadros da revista. É preciso
ver as loucuras que o Feitiço faz, as beberagens que matam, os homicídios
nas camarinhas que nunca a polícia soube; é preciso chegar à
apoteose. Venha…

E Antônio arrastou-me pela rua, do General Gomes Carneiro

A Casa das Almas

Os negros “cambindas” do Rio guardam com terror a história
de um branco que lhes apareceu certa vez em pleno sertão africano.
Quando o rei deu por ele, que por ali vinha calmo, com as suas barbas de sol,
precipitou-se mais a tribo em atitude feroz. O branco tirou da cinta um pequeno
feitiço de metal e prostrou morto, golfando sangue, o babaláo.

– Exu! Exu! ganiu a tribo, recuando de chofre.

– Quem és tu, santo que eu não conheço? perguntou trêmulo
o poderoso rei.

– Sou o que pode tudo, bradou o branco. Vê.

Estendeu a mão de novo e matou outros negros.

– Só te deixarei em paz se me mostrares todos os teus feitiços.

Sua Majestade, apavorada, levou-o à tenda real e durante o dia e durante
a noite, sem parar, lhe deu tudo quanto sabia.

– Perdôo-te, disse o branco. Adeus! Levo para o mistério a rainha.

Aconchegou o feitiço, que parecia egum, o deus da guerra, no seio
da preferida, deixou-a cair, e partiu devagar pela estrada a fora…

Não precisei dos meios violentos do Caramuru da África, para
saber do mais terrível mistério da religião dos minas:
– o egum ou evocação das almas. Naquela mesma noite em que encontrara
Antônio, o negro serviçal levou-me a uma casa nas imediações
da praia de Santa Luzia.

– Em tudo é preciso mistério, dizia ele. V. S. vai à
casa do babaloxá, finge acreditar e depois é convidado para
uma cerimônia na casa das almas. Poderá então ver o segredo
da pantomima. Quem descobre o segredo do egum, morre. Eu me arrisco a morrer.

A sua voz era trêmula.

– Tens medo?

– Não, mas se morrer amanhã, todos os feiticeiros dirão
que foi o feitiço. Do egum depende toda a traficância. O negro
parou. Não imagina! Abubáca Caolho, que mora na rua do Resende,
é um dos tais. Quando há uma morte, vai logo dizer que foi quem
a fez. Se fôssemos acreditar nas suas mentiras, Abubáca tinha
mais mortes no costado que cabelos na cabeça. V. S. já o viu.
É um negro que usa gravata do lado e pontas – as roupas velhas dos
outros… Apotijá é outro.

– Mas há desse gênero de morte, Antônio? indaguei eu acendendo
o cigarro com um gesto shakespereano.

– Ora se há! Vou provar quando quiser. De morte misteriosa lembro
a Maria Rosa Duarte, sogra do mama Pão Baltazar, alufá muito
amigo de um político conhecido; o Salvador Tapa, a Esperança
Laninia, Larê-quê, Fantuchê, o Jorge da rua do Estácio,
Ougu-olusaim… Todos morreram por ter descoberto o egum. Na Bahia, então,
esses assassinatos são comuns. Hei de lembrar sempre o velho feiticeiro
Aguidi, coitado! Era dos que sabem. Um dia, farto de viver, descobriu a traficância
e logo depois morria no incêndio do Tabão, com os braços
cruzados, impassível e a sorrir. Aguidi na minha língua significa:
– o que quer morrer… Ele quis.

Pela praia de Santa Luzia o luar escorria silenciosamente, e de leve o vento,
sacudindo as folhas das árvores em melancólico sussurro, entristecia
Antônio.

– Ah! meu senhor. Não é só por causa do egum que negro
mata. Quando as iauô não andam direito, quando não fingem
bem, quase nunca escapam de morrer. Há vários processos de morte,
a morte lenta, com beberagens e feitiços diretos, a morte na camarinha
por sufocação… Muitos negros apertam uma veia que a gente
tem no pescoço e dentro de um minuto qualquer pessoa está morta.
Outros dependuram as criaturas e elas ficam bracejando no ar com os olhos
arregalados.

A Morte e a Loucura nem sempre se limitam ao estreito meio dos negros. As
beberagens e o pavor atuam suficientemente nas pessoas que os freqüentam.
A Assiata, uma negra baixa, fula e presunçosa, moradora à rua
da Alfândega, dizem os da sua roda que pôs doida na Tijuca uma
senhora distinta, dando-lhe misturadas para certa moléstia do útero.
Apotijá, o malandro da rua do Hospício, que aproveita os momentos
de ócio para descompor o Brasil, tem também uma vastíssima
coleção de casos sinistros.

A Morte e todas as vesânias não são apenas os sustentáculos
dos seus ritos e das suas transações religiosas, são
também o meio de vida extra-cultual, o processo de apanhar heranças.
Alikali, lemamo atual dos alufás, e Amando Ginja, cujo nome real é
Fortunato Machado, quando morre negro rico vão logo à polícia
participar que não deixou herdeiros. Alikali é testamenteiro
de quase todos e bicho capaz de fazer amuré com as negras velhas, só
para lhes ficar com as casas. A certidão de óbito é dada
sem muitas observações.

– Mas, você conhece mais feiticeiros, Antônio?

– Pois não! O João Mussê, alufá feiticeiro tremendo,
que mora na rua Senhor dos Passos, 222 e é respeitado por todos; Obalei-ié,
Obio Jamin, Ochu-Toqui, Ochu-Bumin, Emin-Ochun, Oumigi, Obitaiô-homem,
Obitaiô-mulher, Ochu Taiodé, a Ochu-boheió, da rua do
Catete, Siê, Xangô-Logreti, Ajagum-baru, Eçu-hemin, Angelina,
o ogan Conrado… Mais de cem feiticeiros, mais cem.

– Quase todos com os nomes dos santos…

– Os negros usam sempre o nome do santo que têm no corpo…

Mas de repente Antônio parou entre as árvores.

– Temos ebó de iê-man-já. A negralhada vem ….. Se quer
ver, esconda-se detrás de algum tronco.

Com efeito, sentiam-se vozes surdas ao longe, cantando.

O despacho, ou ebó, da mãe-d’Água salgada, é
um alguidar com pentes, alfinetes, agulhas, pedaços de seda, dedais,
perfumes, linhas, tudo o que é feminino.

Detrás da árvore, pouco depois eu vi aparecer no plenilúnio
a teoria dos pretos. À frente vinha uma com o alguidar na cabeça,
e cantavam baixo.

Baô de ré se equi je-man-já
Pelé bé Apotá auo yo tô toro fym la cho
Ere…

Era o ofertório. Ao chegar à praia, na parte em que há
uns rochedos, a negra desceu, depositou o alguidar. Uma onda mais forte veio,
bateu, virou o vaso de barro, quebrou-o, levou as linhas e todos balbuciaram,
rojando:

– Iê-man- já!

A santa aparecera na fosforescência lunar, agradecendo…

Depois os sacerdotes ergueram-se, reuniram e nós ficamos de novo sós,
enquanto o oceano rugia e, ao longe, tristemente a canzoada ladrava.

– Ainda apanhamos o candomblé, disse Antônio. É preciso
que o babaloxá convide V. S. para o egum…

Noutro dia, pouco mais ou menos à meia-noite, estávamos no
ilê-saim ou casa das almas.

O egum é uma cerimônia quase pública, a que os feiticeiros
convidam certos brancos para presenciar a pantomima do seu extraordinário
poder. Esses curiosos fetiches, que para fazer o guincho de santo Ossaim amarram
nas pernas bonecas de borracha, com assobio; cujos santos são uni produto
de bebedeiras e de hipnose, têm na evocação dos espíritos
a máxima encenação da sua força sobre o invisível.
Quando morre alguém, quando todos estão diante do corpo, um
dos pretos esconde-se e dá um grito. No meio da confusão geral,
então, mudando a voz, esse negro grita:

– Emim, toculoni mopé, cá-um-pé, emim! Eu que morri
hoje, quero que chamem por mim.

Os donos do defunto arranjam o dinheiro para a evocação, pessoas
estranhas ajudam também com a sua quota para aproveitar e saber do
futuro. O babaloxá não faz o egum enquanto não tem pelo
menos trezentos mil réis. Arranjada a quantia, começa a cerimônia.

Quando entramos na sala das almas, à luz fumarenta dos candeeiros
a cena era estranha. Havia brancas, meretrizes de grandes rodelas de carmim
nas faces, mulatas em camisa, mostrando os braços com desenhos e iniciais
em azul dos proprietários do seu amor, e negros, muitos negros. Estes
últimos, sentados em roda do assoalho, estavam quase nus, e algumas
negras mesmo inteiramente nuas com os seios pendentes e a carapinha cheia
de banha.

– Por que estão eles assim?

– Para mais facilmente receber o espírito.

Junto à porta do fundo, três negros de vara em punho quedavam-se
estáticos. Eram os annichans, que faziam guarda ao saluin ou quarto-dos-espíritos.
Ouvi dentro do saluin um barulho de pratos, de copos tocados, de garrafas
desarrolhadas; um momento pareceu-me ouvir até o estouro forte do champanha
barato.

– Há gente lá dentro?

– As almas. Está-se banqueteando. O banquete foi pago pelos presentes.
Mas, psiu! Daqui a pouco começarão as cantigas, que ninguém
compreende. Os africanos inventam nomes para a cena parecer mais fantástica.

Com efeito, minutos depois, aos primeiros sons dos atabaques, as negras bradaram:

– Aluá! o espírito! e romperam uma cantiga assustadora e trôpega.

Anu-ha, a o ry au od á
San-ná-elê-o ou baba
Locá-aló

A porta continuava fechada, mas eu vi surgir de repente um negro vestido
de dominó com os pés amarrados em panos. Os três annichans
ergueram as varas, o dominó macabro começou a bater a sua no
chão, os xeguedês sacudiram-se, e outra cantiga estalou medrosa:

Lou-â gége ou-rou ó uá
Xó la-ry la-ry lary
Que què oura ô uchô
La-ry la mamau rú nam babá

Quando o santo aos pulos aproximava-se de alguma mulher, ela recuava bradando
com desespero:

– Afapão!

– Vão aparecer as almas, avisou Antônio, a cantiga diz: Procuramos
a alma de Fulano e de Sicrano e não a encontramos dormindo. Cansamos
sem saber o mistério que a envolvia. A alma está aqui e entrou
pela porta do quintal.

– Mas quem é este dominó?

– É Baba-Egum. As almas têm vários cargos. O que traz
uma gamela chama-se Ala-té-orum, o 2.º Opocó-echi, o 3.º
Eguninhansan, e no meio de sete espíritos aparece o invocado.

Entretanto o dominó Baba-Egum batia furiosamente no chão com
a sua vara de marmelo, e no alarido aumentado apareceu aos pulos outro dominó,
o Alabá, que por sua vez também se pôs a bater. Era o
ritual da entrega das almas. Por fim apareceu Ousaim, enfiado numa fantasia
de bebê, de xadrez variado, com duas máscaras: uma nas costas,
outra tapando o rosto.

– Quem é esse?

– O Bonifácio da Piedade, um malandro de cavaignac, que faz sempre
de Eruosaim.

Eruosaim também dançava. Entre as cantigas, os annichans ergueram
de novo as varas, a porta abriu-se, dois negros ficaram um de cada lado, o
atafim, ou confidente, e o anuxam, secreta. De dentro saíram mais três
dominós cheios de figas e espelhinhos, com os pés embrulhados
nos trapos. As negras aterrorizadas uivavam, com o amarelo dos olhos virados
e os espíritos, naquela algazarra, pareciam cambalear. Havia gente
porém que os reconhecia.

– Eles fingem os gestos dos mortos, segredou-me Antônio. Palmas ressoavam
estridentes saudando a chegada do invisível, as varas de marmelo lanhavam
o ar e as almas, e naquele círculo silvante, ao som dos xeguedés
e dos atabaques batiam surdamente no chão aos pulos da dança
demoníaca.

Um dos espíritos, porém, sentiu-se numa espécie de trono
de mágica. Como por encanto a dança cessou e naquela pávida
atmosfera, em que o medo gemia, as mulheres de borco, os homens contorsionados,
o negro fantasiado guinchou do alto.

– Guilhermina ocê percisa gostá de Antônio… José
tem que fazê ebô para espírito mau.

Chica, um home há de vi aí, ocê vai com ele…

– Veja V. S. a chantage, murmurou Antônio. Os negros recebem dinheiro
antes dos homens e obrigam as criaturas pelo terror a tudo quanto quiserem.
Por isso quem descobre o egum, morre.

A Chica, uma mulatinha, coitada! tremia convulsivamente, mas já outras,
nuas, em camisa, sacudindo os membros lassos, ganiam de longe, batendo as
varas num terror exaustivo.

– E eu? e eu?

– E eu? e eu?

– Ocê tá dereita, sua vida vai pr’a frente.

– E eu? e eu? gargolejaram outras bocas em estertores.

– Ocê está pra traz, percisa ebô.

Aproximei-me de um dos espíritos; cheirava a espírito de vinho;
estava literalmente bêbedo.

Quando a cerimônia atingia ao desvario e já os espíritos
tinham pastosidade na voz, caiu na sala, como um bedengó, Inhansam,
um negro fingindo de santo materializado e, em meio do pavor geral, ao som
das cantigas, esticou a mão sinistra, foi pedindo a cada criatura 16
obis, 16 orobôs, 16 galos, 16 galinhas, 16 pimentas-de-costa, 16 mil
réis, um cabrito, um carneiro. Ao chegar às meretrizes brancas,
Inhansam ferozmente exigia peças de chita, fazendas e objetos caros.
A turba gritava toda: Inhansam! Inhansam! gente nova entrava na sala, e de
repente, como todos se voltassem a um grito da porta, os espíritos
desapareceram… Tinham fugido tranqüilamente pelo corredor.

– Está acabado, fez Antônio. Os espíritos vão
se despir, e voltam daí a pouco para ver se o pessoal acreditou mesmo…

A cena mudara entretanto. Dissipado o sudário apavorado, todas aquelas
carnes hiperestizadas erguiam-se ainda vibrantes para a bacanal.

O álcool e a queda na realidade estabeleciam o desejo. Negros arrastavam-se
para quintal, para os cantos, longos sorrisos lúbricos abriam em bocejos
as bocas espumantes, risinhos rebentavam e negros fortes, estendidos no chão,
rolavam as cabeças numa sede de gozo.

Há entre as negras uma propensão sinistra para o tribadismo.
Em pouco, naquela casinhola suja e mal-cheirosa, eu via como uma caricatura
horrenda as cenas de deboche dos romances históricos em moda. Mais
dois negros entraram.

– Então egum esteve bom?

– E eu que não cheguei em tempo…

– Veja, mostrou Antônio, lá está o Bonifácio Eruosaim,
vendo se causou efeito fantasiado de bebê. Venha até o quarto
do banquete.

Fomos. Antônio empurrou uma porta e logo nos achamos numa sala com
garrafas pelo chão, pratos servidos, copos entornados, rolhas, os destroços
de uma fome voraz. Num canto a Chica dizia baixinho para um lindo rapaz de
calças bombachas:

– É você que o espírito disse?…

Quando reaparecemos o babaloxá murmurava:

– A festa está acabada, companheiros… É não deixar
de trazer o que Inhansam pediu.

Saímos então. Vinha pelo céu raiando a manhã.
Palidamente, na calote cor de pérola, as estrelas tremiam e desmaiavam.
Antônio cambaleava. Chamei um carro que passava, meti-o dentro. Em torno
tudo dizia o mistério e a incompreensão humana, o éter
puro, os vagalhões do mar, as árvores calmas. Tinha a cabeça
oca, e, apesar dos assassinatos, dos roubos, da loucura, das evocações
sinistras, vinha da casa das almas julgando babalaôs, babaloxás,
mães-de-santo e feiticeiros os arquitetos de uma religião completa.
Que fazem esses negros mais do que fizeram todas as religiões conhecidas?

O culto precisa de mentiras e de dinheiro. Todos os cultos mentem e absorvem
dinheiro. Os que nos desvendaram os segredos e a maquinação
morreram. Os africanos também matam.

E eu, perdoando o crime desse sacerdócio mina, que se impõe
e vive regaladamente, tive vontade de ir entregar Antônio negro e a
dormir à casa de Ojô, para que nunca mais desvendasse a ninguém
o sinistro segredo da casa das almas.

Os Feitiços de Sanin

Pois seja! disse Antônio, tomando coragem. V. S. pode ir, mas não
cuspa, não fume e não coma nessa casa. Eu não vou.

– Acompanhas-me até a porta?

– Até à esquina. Ficarei de alcatéia. Sanin e Ojô
são capazes de me acabar com a vida.

A vida de Antônio é uma vida, sob todos os títulos, preciosa,
e naquele momento ainda o era mais, porque a sustentava eu. Refleti e concordei.

– Está direito, ficas à esquina.

Chovia a cântaros. Antônio, sem guarda-chuvas, metido num capote
que lhe ia até aos pés, acendia constantemente um charuto, que
apagava.

– Mas, que é esse Sanin, afinal?

– Um feiticeiro danado!

– Mas babaloxá, babalaô, traficante?.

– Babalaô, não senhor. Para ser babalaô é preciso
muita coisa. Só de noviciado, leva-se muito tempo, anos a fio, e a
cerimônia é dificílima. Quando um iniciado quer ser babalaô,
tem que levar ao babalaô que o sagra, dois cabritos pretos, duas galinhas
d’Angola, duas galinhas da terra, dois patos, dois pombos, dois bagres, duas
preás, um quilo de limo, um ori, um pedaço de ossum, um pedaço
de giz, dois gansos, dois galos, uma esteira, dois caramujos e uma porção
de penas de papagaio encarnadas.

– É difícil.

– E não é tudo. Tem que levar também um quilo de sabão-da-costa,
que se chama ochê-i-luaiê, e não entra para o ibodoiffá
ou quarto dos santos sem estar de roupa nova e levar na algibeira pelo menos
200$OOO. O futuro babalaô fica sete dias no ibodô, onde não
entra ninguém para não ver o segredo.

– O segredo?

– O segredo é um ovo de papagaio. V. S. já viu um ovo de papagaio?
Nunca! É difícil. E quem vê um ovo desses, arrisca-se
a ficar cego. O ovo em africano chama-se éiu, o papagaio odidé.
É o ovo que guardam dentro de uma cuia ou ybadu. O iniciado fica inteiramente
nu, senta-se na esteira, e o velho babalaô indaga se é de seu
gosto fazer o iffa. Se a resposta for afirmativa, lavam-se quarenta e dois
caroços de dendê com diversas ervas, e nessa água o babalaô
novo toma banho.

Depois raspa-se-lhe a carapinha, guardando-a para o grande despacho, pinta-se-lhe
o crânio com giz e faz-se a matança.

– Todos os animais?

– Todos caem ao golpe das navalhas afiadas, o sangue enche os alguidares,
escorre pela casa, mas ninguém sabe, porque lá dentro, de vivos,
só há os dois babalaôs e o acólito. O primeiro
sacrifício é para exu. Mistura-se o sangue do galo com tabatinga,
forma-se um boneco recheado com os pés, o fígado, o coração
e a cabeça dos bichos; metem-se em forma de olhos, nariz e boca, quatro
búzios e está feito o exu. Em seguida esfaqueiam-se os outros
bichos, sacrificando aos iffá. O novo babalaô recebe na cabeça
um pouco desse sangue, o acólito ou ogibanam amarra-lhe na testa uma
pena de papagaio com linha preta e, assim pronto, o novo matemático
fica seis dias aprendendo a prática de alguns feitiços temíveis
e rezando aos odu jilá.

Os iffá são dezesseis: – eidi-obé, ojécu-meigi,
jori-meigi, uri-meigi, ôrosê-meigi, nani-meigi, obará-meigi,
ocairá-meigi, egundá-meigi, osé-meigi, oturá-meigi,
oreté-meigi, icá-meigi, eturáfan-meigi, achemeigi e ogio-ofum.
No fim dos sete dias juntam-se os ossos, as cabeças, os pés
dos animais com os restos de comida, a pena de papagaio do jovem professo,
as ervas dos serviços anteriores, coloca-se tudo num alguidar para
jogar onde o opelé disser, no mar, num lago, em qualquer rio. O iniciado
é quem leva o alguidar, sem perder a razão, e canta no trajeto
três cantigas…

Estávamos no largo do Capim. A chuva era tanta que nos obrigara a
recolher a um botequim qualquer, e Antônio, já sentado, bebendo
vinho do Porto e acendendo pela trigésima vez a horrenda ponta do seu
charuto, preparava-se para entoar as maviosas cantigas. Chegou mesmo a perpetrar
uma, a segunda, a mais curta.

O-ché-yturá a narê praquê
Abá gun-nem-gum gebo
Oury ôcú ou-myn-nan
Essé ouxy-cá gô-xê-nan ló nan.

Esta apavorada oração significa: sabão-da-Costa serve
para resguardar-se a gente do rei que come urubu e limo-da-costa. Nós,
se comermos limo ou urubu pelo pé, hoje mesmo morreremos. Ele não
defende filho como filho.

– Mas, o Sanin?

– V. S. não quer aprender mesmo? Deixe o Sanin. Está chovendo
tanto!

– O Sanin é ou não um sábio?

– É malandro.

– Ainda melhor.

Quando saí, de dentro do botequim, Antônio esticou a mão.

– Orum-my-lá ború ybó, ye, ybó, ybó, xixé!

Negro amável!! Com aquele seu gesto sacerdotal dizia-me:

– Satisfaça ao Deus que faz tudo e tudo entorta, amém!

Abri o guarda-chuva e respondi já de longe.

– Ybó-xixé!

Sanin mora agora na casa do famoso Ojô, o diretor social da feitiçaria.
A casa de Ojô fica na rua dos Andradas, quase no começo, com
um aspecto pobre e um cheiro desagradável. Quando batemos, a chuva
rufava em torno um barulho ensurdecedor. Não nos responderam. Batemos
de novo. Alguém decerto nos espiava. Afinal abriu-se a rótula
e uma mulher apareceu.

– Baba Sanin?

– Não está.

– Venho mandado por um conhecido. Sem receio.

– A casa é de Emanuel…

– Ojô, sei bem. Foi o Miguel Pequeno que me mandou. Abre.

De novo a rótula fechou. A mulher ia consultar, mas não demorou
muito que voltasse abrindo de esguelha e dizendo misteriosamente.

– Entre.

A sala tinha areia no assoalho, os móveis consertados indicavam que
Ojô vive bem. Numa cadeira um fato branco engomado, e mais longe o chapéu
de palha atestava a presença do feiticeiro.

– Então Sanin?

– Vem já.

Pouco tempo depois apareceu Sanin, de blusa azul e gorro vermelho, o tipo
clássico do mina desaparecido, andando meio de lado, com o olhar desconfiado.
O pobre-diabo vive assustado com a polícia, com os jornais, com os
agentes. Para o seu cérebro restrito de africano, desde que chegou,
o Rio passa por transformações fantásticas. É
um malandro, orgulhoso do feitiço e com um medo danado da cadeia. Fora
decerto quase à força que aparecera, e só muito lentamente
o pavor o deixou falar.

– Baba Sanin, o Miguel Pequeno mandou-me aqui para um negócio muito
grave. Baba tem uns feitiços novos.

– Não tem…

– Eu sei que tem. Abri a carteira, uma carteira de efeito, como usam os homens
da praça, enorme, com fechos de prata. Não tenha medo. Se o
Baba não me faz o trabalho, estou perdido. É a minha última
esperança.

– Que trabalho?

Revolvi as notas da carteira, devagar, para mostrá-las, tirei um papelzinho
e misteriosamente murmurei:

– Aqui tem o nome dela…

Na cara do feiticeiro deslizou um sorriso diabólico:

– Aha! Aha… Está bom.

– Sanin, eu tenho fé nos santos, mas os outros feiticeiros não
dão volta ao negócio.

– Você vai acabar. Olhe, pode contar…

Tudo neste mundo é esperança de dinheiro, de felicidade, de
paz, e tanto vive de esperança o feiticeiro que a dá como as
pobres criaturas que com ele a vão procurar.

Sanin começou a falar dos feitiços dos outros, lembrou-se dos
seus aos bocados, e em pouco, com a esperança de ganhar mais, fazia-me
revelações.

Cada feiticeiro tem feitiços próprios. Abubaca Caolho, o alcoólico
da rua do Resende, tem o ibá, cuia com pimenta-da-costa e ervas para
fazer mal. Quando se fala do ibá, diz-se simplesmente: o feitiço
do Abubaca. Gia, cabeça de pato com lesmas e o cabelo da pessoa, é
uma descoberta de Ojô e serve para enlouquecer. Quem quer enlouquecer
o próximo, arranja ou falsifica a obra de Ojô.

– Mas Baba Sanin, como é que sabe tudo isso?…

– Então, não aprendi? Eu sei tudo.

E como sabe tudo, dá-me receitas. Fico sabendo, sem pasmo, sentado
numa cadeira, que giba de camelo com corpo de macaco e um cabrito preto em
ervas matam a gente e que esta descoberta é do celebrado João
Alabá, negro rico e sabichão da rua Barão de S. Félix,
76. Não é tudo. Sanin faz-me vagarosamente dar a volta ao armazém
do feitiço. Eu tomo notas curiosas dessa medicina moral e física.

Para matar, ainda há outros processos. O malandrão Bonifácio
da Piedade acaba um cidadão pacato apenas com cuspo, sobejos e treze
orações; João Alabá conseguirá matar a
cidade com um porco, um carneiro, um bode, um galo preto, um jaboti e a roupa
das criaturas, auxiliado apenas por dois negros nus com o tessubá,
rosário, na mão, à hora da meia-noite; pipocas, braço
de menino, pimenta-malagueta e pé-de-anjo arrancados ao cemitério
matam em três dias; dois jabotis e dois caramujos, dois abis, dois orobós
e terra de defunto sob sete orações que demorem sete minutos
chamando sete vezes a pessoa, é a receita do Emídio para expedir
desta vida os inimigos..

Há feitiços para tudo. Sobejo de cavalo com ervas e duas orações,
segundo Alufá Ginja, produz ataques histéricos; um par de meias
com o rastro da pessoa, ervas e duas orações, tudo dentro de
uma garrafa, fá-la perder a tramontana; cabelo de defunto, unhas, pimenta-da-costa
e ervas obrigam o indivíduo a suicidar-se; cabeças de cobras
e de cágado, terra do cemitério e caramujos atrasam a vida tal
qual como os pombos com ervas daninhas, e não há como pombas
para fazer um homem andar para trás…

– Mas para dar sorte, caro tio?

– Há mão de anjo roubada ao cemitério em dia de sexta-feira.

– E para tornar um homem ladrão, por exemplo?

– Um rato, cabeça de gato, ervas, o nome da pessoa e orações.

– E para fazer um casal brigar?

– Cabeça de macaco, aranha e uma faca nova.

– E para amarrá-los por toda a vida?

O negro pensou, olhando-me fixamente:

– Um obi, um orobô, unhas dos pés e das mãos, pestanas
e lesmas…

– Tudo isso?

– Preparado por mim.

Então Sanin fala-me dos seus feitiços. Sanin é poeta
e é fantasista.

Sob a dependência de Ojô, quase seu escravo, esse negro forte,
de quarenta anos, trouxe do centro da África a capacidade poética
daquela gente de miolos torrados, as últimas novidades da fantasia
feiticeira. Para conquistar, Sanin tem um breve, que se põe ao pescoço.
O breve contém dois tiras, uma cabeça de pavão e um colibri
tudo colorido e brilhante; para amar eternamente, cabeças de rola em
saquinhos de veludo; para apagar a saudade, pedras roxas do mar.

Quando lhe pagam para que torne um homem judeu errante, o preto prepara cabeças
de coelho, a presteza assustada; pombos pretos, a dor; ervas do campo, e enterra
em frente à porta do novo Ashaverus; quando pretende prender para sempre
uma mulher, faz um breve de essências que o apaixonado sacode ao avistá-la.
Sanin é também mau – mas de maneira interessante.

Os seus trabalhos de morte são os mais difíceis. Sanin ao meio-dia
levanta no terreiro uma vara e reza. Pouco tempo depois sai da vara um maribondo
e o maribondo parte, vai procurar a vítima, e não pára
enquanto não lhe inocula a morte.

O maribondo é vulgar à vista do boto vivo metido dentro de
uma caveira humana; em presença do feitiço do morcego, a asa
que roça e mata, a raposa e o lenço, e eu o fui encontrar pondo
em execução o maior feitiço: baiacu de espinho com ovo
de jacaré – que é o babalaô da água, baiacu que
faz secar e inchar à vontade das rezas e domina as almas para todo
o sempre.

Mas por que você, um homem tão poderoso, não me queria
receber?

– Por que andam a falar de nós, porque a polícia vem aí.
Fizemos outro dia até um despacho no campo de Santana com os dentes,
os olhos de um carneiro, jabotis, ervas e duas orações para
quem fala de nós deixar de falar.

– Mas por que um carneiro?

– Porque o carneiro morre calado. Foi o Antônio Mina quem fez o despacho
e todos nós rezamos de bruços e todos nós demos para
o despacho, que custou cento e oitenta e três mil reis.

Então eu apanhei o meu chapéu, apertei a mão do fantasista
Sanin.

– Pois fez mal, Baba, fez muito mal em dar o seu dinheiro, porque quem fala
de vocês sou eu.

E como o negro aterrado abrisse a boca enorme, eu abri a carteira e o convenci
de que todas as suas fantasias, arrancadas ao sertão da África,
não valem o prazer de as vender bem.

Dinheiro, mortes, e infâmia as bases desse templo formidável
do feitiço!

A Igreja Positivista

O amor por principio
E a ordem por base.
O progresso por fim.

Era domingo, à porta do templo da Humanidade, na rua Benjamim Constant.

Com o céu luminosamente azul e o sol tépido, havia muita concorrência
nessa rua, de ordinário deserta: – senhoras, cavalheiros de sobrecasaca,
militares, crianças. Uns subiam logo as escadas do templo, cuja fachada
recorda um templo grego; outros mais íntimos, seguiam para o fundo,
pelo lado direito. Teixeira Mendes fazia a sua prédica dominical.

Tínhamos ido a conversar com um velho positivista. A princípio
ele anunciara um profundo desprezo pela frivolidade jornalística e
a imprensa. Mas depois, como eu risse sem rancor, permitiu-se levar-me até
a Igreja e foi tão bondoso que ali estávamos, tagarelando de
coisas superiores, enquanto ao templo continuava a afluir a onda de fardas,
de senhoras e de cavalheiros solenes.

– Não é possível negar a influência positivista
na nossa política, sobre os brasileiros cultos, ia eu dizendo, mas
o público..

– Os jornais…

– … o grande público não compreende e irrita-se. O meu amigo
pode falar de Spencer, de Kant, de outros filósofos. Passa por erudito
e é respeitado. Basta, porém, falar de Comte para que o tomem
por um esquisitão e perguntem injuriosamente se essa é a religião
de Clotilde de Vaux.

– É natural. É a gentinha que não conhece o culto, adulterado
por espíritos anárquicos. Mas você vê que os honestos
já começam a compreender a doce religião que submeteu
a inteligência ao sentimento.

– Tem-lhes custado.

– O positivismo tem quarenta anos de propaganda no Brasil. Em 1864, o Dr.
Barreto de Aragão publicava urna aritmética dando a hierarquia
científica de Comte e o Dr. Brandão escrevia a Escravidão
no Brasil. Foram esses os primeiros livros positivistas, hoje quase desconhecidos.
Depois é que o positivismo começou a ser falado entre matemáticos
e que os professores da Central e da Escola Militar deram em citar a Astronomia
e o primeiro volume da Filosofia.

– Era o tempo em que se considerava a Política um livro ímpio…

– Ainda não se fizera sentir a necessidade de dispensar os serviços
provisórios de Deus. O caráter religioso do positivismo não
era conhecido. Isso não impediu que Benjamim Constant, fazendo concurso
na Escola Militar, declarasse ser positivista ortodoxo e republicano, e que
o próprio Benjamim, com os Drs. Oliveira Guimarães e Abreu Lima,
constituísse o núcleo dos ortodoxos em 1872.

– A influência foi nula… – interrompi eu, olhando uma senhora loura
que entrava com o catecismo encadernado em veludo verde.

– Nada se perde. Oliveira Guimarães deixou um discípulo, Oscar
de Araújo; Benjamim levou às escolas a palavra religiosa do
mestre, regenerou o ensino da matemática e foi o primeiro brasileiro
que teve no seu quarto o retrato de Clotilde de Vaux. Os trabalhos adotados
na Escola Militar são quase todos de discípulos seus. No meio
inteligente desses últimos surgiram Raimundo e Miguel Lemos; era um
momento de agitação. Pereira Barreto publicava o 1.º volume
da obra As três filosofias, e tanto Miguel como Teixeira Mendes eram
litréistas, considerando a parte religiosa de Comte como obra de louco.

Foi com eles que Oliveira Guimarães fez aliança para fundar
a biblioteca positivista e abrir cursos científicos.

– Era a filosofia da Academia…

– Sem jardins. O começo do positivismo no Brasil é absolutamente
acadêmico. Em 1876 a Escola de Medicina manifestou-se com a tese Da
Nutrição, de Ribeiro de Mendonça, e a primeira sociedade
positivista foi feita de professores ortodoxos e de estudantes litréistas.

– Seria curioso saber como estes mudaram.

– As pequenas causas têm às vezes grandes efeitos. Uma censura
ao diretor da escola motivou serem suspensos, por dois anos, Teixeira Mendes
e Miguel Lemos, que foram para a Europa; e enquanto só, Benjamim propagava
aqui, os dois em Paris litréizavam. Mendes veio o mesmo, achando o
Comte da Política maluco. Miguel ficou, e lá, sponte sua, abandonou
Littré e relacionou-se com Laffite.

– E converteu-se?

– A 4 de julho de 1879.

Solenemente, o meu amigo positivista apanhava sol. Levei-o com carinho para
o jardim, onde devia florir o bosque sagrado com as sepulturas dos homens
dignos. Não havia bosques, nem sepulturas. Apenas algumas árvores.
O positivista acendeu o cigarro, depois de o fazer com um forte fumo Rio Novo.
Eu perguntei pasmado:

– Toma café?

Ele riu.

– Como toda a gente! Essa história de não tomar café
e não fumar é apenas uma léria. Então você
pensa que Augusto Comte imaginasse, de mau, fazer o mundo deixar o café
e o fumo, só para arruinar o Brasil? O fato é outro. O grande
filósofo não fumava nem bebia excitantes, porque lhe faziam
mal; Miguel Lemos, doente como é, não se atira a esses excessos;
Teixeira Mendes, um homem que reflete dezesseis horas a fio, não se
pode dar aos devaneios da fumaça… Não há proibições
formais para o horrendo vício; há apenas medo…

Puxei com vigor uma baforada.

– A propaganda desapareceu com a estada de Miguel Lemos em Paris?

– Não. A sociedade passou a chamar-se Sociedade Positivista do Rio
de Janeiro, sendo aclamado presidente o Dr. Ribeiro de Mendonça, que
se filiou a Laffite:

– Começou a era do lafitismo…

– E com excesso. Concorríamos até pecuniariamente para o subsídio
sacerdotal da igreja em Paris. Lemos influiu de tal modo sobre Teixeira Mendes,
que pouco tempo depois este também se convertia. Foi, ligada a Laffite,
que a nossa igreja iniciou as comemorações de caráter
religioso com a festa de Camões em 1886; que se comemorou o 22.º
passamento de Comte e a festa da Humanidade; e é dessa época
que data a primeira procissão cívica no Rio de Janeiro, com
andores e o busto de Camões esculpido por Almeida Reis.

– Quando Miguel voltou, aspirante ao Apostolado, as reuniões tornaram-se
regulares aos domingos, na rua do Carmo, n.0 14, e Ferreira de Araújo
abriu uma seção na Gazeta com o título Centro Positivista,
cujo primeiro artigo dava a teoria científica do calendário.
Em 1881, já presidente Miguel Lemos, o Centro passou para a rua Nova
do Ouvidor, as exposições da religião tornaram-se regulares,
e Raimundo fez no Liceu um curso do catecismo, interrompido pelas suas célebres
conferências de antigo litréista contra o sofisma de Littré.

– Era a prosperidade.

– Nesse ano, em que se comemorou a Tomada da Bastilha, Lemos foi a São
Paulo, fez nove conferências, fundou uma filial com Ferreira Souto,
Carvalho de Mendonça, Oliveira Marcondes, Godofredo Martins e Silva
Jardim, e as intervenções do Centro na nossa vida política
acentuaram-se contra a imoralidade da colonização chinesa, traçando
o programa do candidato positivista, protestando contra as loterias, exigindo
o registro civil, a abolição, opondo-se às universidades…

– Já nesse tempo?

– Os artigos foram publicados na Gazeta de Notícias e fizeram que
o imperador se opusesse à idéia, aconselhando ao ministro que
reformasse o ensino por outro qualquer meio que não fosse as universidades.

O meu velho amigo andou alguns passos pelo futuro bosque sagrado. Acompanhei-o.

Ouvia-se lá dentro o som múltiplo de uma orquestra. Raros retardatários
entravam.

– Neste ano também, continuou com calma, uma circular instituiu o
subsídio sacerdotal, o que deu lugar à retirada de Benjamim
Constant, e foram conferidos os primeiros sacramentos aos filhos de Miguel
Lemos, Teixeira Mendes e do Dr. Coelho Barreto.

– Hoje esses sacramentos são comuns?

– Como os do matrimônio, em grande número.

– A ruptura com Laffite deu-se logo depois?

– Em 1883. Lemos ficou o único responsável do positivismo no
Brasil, continuando a ingerir-se na vida pública da sua pátria.

– Mas este templo como foi feito?

– O Apostolado deixou a sede da rua Nova do Ouvidor para a rua do Lavradio.
A mudança determinou o lançamento de um empréstimo em
1891 para a construção do templo, no que muito concorreram Pereira
Reis, Otero, Rufino de Almeida, Décio Vilares. A inauguração
foi em 1894, e a igreja custou 250 contos.

– É mais uma prova da importância do Centro no regime republicano.

– A nossa intervenção no início da República
foi de primeira ordem. Basta citar a Bandeira Nacional, a separação
da Igreja do Estado, a liberdade dos professores, a reforma do código
no caso da tutela de filhos menores.

– O Centro também tem uma casa em Paris?

O semblante do positivista anuviou-se.

– Sim, a casa em que morreu Clotilde. Foi comprada por 70 mil francos. É
triste. Em Paris não estavam preparados para compreender Teixeira Mendes.
Era tarde para a campanha… Mas venha ver a nossa tipografia.

Caminhamos com intimidade pela avenida estreita. De vez em quando ouvia-se
o som de uma voz acre. Era a prédica.

A tipografia fica embaixo, correspondendo a toda a extensão da nave
em cima. É completa. Pergunto respeitoso o número de publicações
dessa oficina.

– As obras de maior valor são o Ano sem Par, a Biografia de Benjamim
Constant, a Visita aos Lugares Santos do Positivismo, a Química Positiva,
as Últimas Concepções de A. Comte (onde se acha a teoria
dos números sagrados), todas obras de Raimundo Mendes. A publicação
de folhetos é talvez superior a 600.

– Mas os subescritores são muitos?

– São suficientes. A Igreja do Brasil tem recebido também auxílios
de Londres.

O pavimento embaixo não é só ocupado pela tipografia.
Há também o gabinete luxuoso de Miguel Lemos e a sala Daniel
Encontre, onde Teixeira Mendes expõe aos jovens discípulos da
humanidade, e a quem quiser ouvi-lo, as sete ciências. Ouvem-no lentes
de academias e professores notáveis.

– É grande o número de positivistas?

– No Brasil os ortodoxos devem ser uns 700. Os simpáticos não
se podem mais contar. As gerações que saem da nossa Escola Militar
são quase que compostas de simpáticos.

– E a influência moral aumenta?

O positivista confessou com tristeza.

– Vai-se tornando fraca. Não se admire. Será por fraqueza dos
apóstolos? Será porque o público se afasta da realidade,
corrompido moralmente? O fato é patente. Ainda há pouco o privilégio
funerário foi uma campanha perdida… Mas entremos.

Com o chapéu na mão, nós entramos. Havia luxo e conforto.
De um lado a secretária, onde se vendem as obras editadas pela igreja,
de outro, a sala onde está a escada para o coro, com orquestra e uma
rica biblioteca de carvalho lavrada. Degraus atapetados dão acesso
à nave.

O templo da humanidade é lindo. Ao alto, junto ao teto correm janelas
que arejam o ambiente. Todo pintado de verde-mar, está-se dentro como
num suave banho de esperança. Sentam-se os homens na nave, que tem
catorze capelas; – colunas de pau negro sustentando em portais abertos bustos
esculturados por Décio Vilares. Os bustos representam os meses do calendário:
Moisés ou Teocracia inicial, Homero, Aristóteles, Arquimedes
ou a poesia, filosofia e a ciência antiga; César ou a civilização
militar; São Paulo, ou o catolicismo; Carlos Magno ou a civilização
feudal: Dante, Gutenberg, Shakespeare, Descartes, Frederico Bichat, ou a epopéia,
a indústria, o drama, a filosofia, a política, a ciência
moderna, e Heloisa, a santa entre as santas, que fica na última capela,
voltando o seu semblante magoado para a porta.

Na capela-mor, rica de tapetes e de madeiras esculpidas, há uma cátedra,
onde se senta Teixeira Mendes com as vestes sacerdotais negras debruadas de
verde. Por trás fica um busto de bronze de A. Comte, e, dominando toda
a sala, o quadro de carvalho lavrado com letras de ouro, de onde surge a figura
delicada de Clotilde, a humanidade simbolizada por Décio numa das suas
miríficas atmosferas sonhadoras.

A voz de Raimundo corre com a continuidade de uma queda de águas;
na nave cheia cintilam galões e lunetas graves; na capela-mor, senhoras
ouvem com atenção essa palavra, que não deixa de ser
demolidora.

– Que é positivismo? sussurro eu, sentando-me.

– É uma religião que respeita as religiões passadas
e substitui a revelação pela demonstração. Nasceu
da ruptura do catolicismo e da evolução científica do
século XVII para cá. De Maistre dizia que o catolicismo ia passar
por muitas transformações para ligar a ciência a religião.
Comte descobriu a lei dos três estados, a chave da sociologia, e quando
era o grande

filósofo, Clotilde apareceu e ensinou que a inteligência é
apenas o ministro do coração.

Agir por afeição,
Pensar para agir.

Comte proclamou que o homem e a mulher se completam sob o tríplice
aspecto: sentimento, inteligência e atividade. A religião divide-se
em Culto, Dogma e Regime, o que vem a ser bem amar, bem conhecer e bem servir
a humanidade, o Grande Ser, o conjunto das gerações passadas
e futuras pela geração presente. A existência do Grande
Ser está ligada à terra, o Grande-Fetiche, e ao espaço,
o Grande Meio…

– Mas quantas senhoras!

– As mulheres devem amar o positivismo. Comte dignificou-as. A mulher é
a força moderadora, o sentimento puro do amor que faz a sociabilidade,
é a sacerdotiza espontânea da Humanidade que modifica pela afeição
o orgulho vão e o reino da força: a mulher é a humildade,
o fogo do culto no lar, é Beatriz, é Clotilde, é Heloisa,
mãe, esposa e filha, a Veneração, a Doçura e o
Bem. As mulheres deviam ser todas positivistas.

Enquanto o meu amigo assim falava, Raimundo Mendes, do alto da cátedra,
relampejava. Na catadupa das palavras faltavam rr, havia repetições
do pensamento, de frases, mas na explicação cultual, de repente,
inconoclastamente, o azorrague partia contra os fatos, contra a anarquia atual:
e um esto de amor, de amor indizível, de amor pela Vida, subia, como
um incensório, à alma das mulheres.

Fiquei enlevado a ouvi-lo. Esse mesmo homem, puro como um cristal, que tem
o saber nas mãos, eu já o vira uma vez, de manhã, carregando
com dignidade um embrulho de carvão…

As mulheres sorriam; em toda a translúcida claridade parecia vibrar
a alma do grande filósofo terno e bom, e do alto, Clotilde, a Humanidade,
abria como um lírio a graça suave do seu lábio.

Os Maronitas

O povo maronita, dizia o papa Benedito, é como uma flor entre os espinhos.
Se o pontífice notável tinha esta doce frase para pintar os
homens do monte Líbano, os que lhe sucederam guardaram tão perfumada
imagem, e hoje, quando se fala dos maronitas, logo se recorda a flor e os
espinhos antigos. Tudo, porém, neste mundo tem o vinco fatal do destino.
A frase dos papas tornou-se profética e através da vida imensa,
os de Marun continuam a perfumar a crença impoluta entre os espinhos
das hostilidades.

Os maronitas, gente extremamente religiosa, habitam a Síria e descendem
dos Aramilas, filhos de Aram, de Sem, de Noé.

Ascendência tão digna de respeito só os preparou para
um longo e pungente sofrer. Desde os tempos dos Apóstolos, dizem os
Atos no versículo 22 do capítulo XV, eram cristãos, conservando
a fé ortodoxa havida do príncipe dos Apóstolos no ano
38 da era de Jesus Cristo. Quando no quarto século começaram
a aparecer no Oriente as heresias e as doutrinas falsas, protegidas pelos
soberanos coroados de pedrarias, impostas pelas armas, e a fé e a soberania
ao mesmo tempo vacilavam, S. Marun, chefe dos eremitas da Síria, saiu
de sua toca de cilícios e orações e veio salvá-los.

– Quem é esse homem de grandes barbas, meio roto? indagavam os homens,
vendo a figura ressurgida do santo sem pecado.

S. Marun não respondia; seguia pelas estradas cheias de sol, na atmosfera
de milagre do azul sem mancha, e pregava a doutrina pura, exortava o povo
a conservar a sua verdadeira fé.

– Acredita sempre em Deus, tal qual te ensinaram os Apóstolos, e conservarás
a tua liberdade!

A gente, que dos seus lábios ouvia as palavras ungidas pela meditação
contínua, seguia num novo esplendor de crença, em cada coração
a esperança brotava, e em pouco tempo o povo da província do
monte Líbano era chamado maronita. Os heresiarcas quiseram caluniá-lo,
mas Marun era puro como o cristal. S. João Crisóstomo, o boca-d’oiro,
na carta que lhe escrevia, rogava que por ele orasse, e a ironia como a calúnia
fenderam-se de encontro ao seu broquel de bondade.

Quando a sua alma irradiou, deixando o invólucro terreno, o povo maronita
tinha inabalável a crença para suportar todas as sangrentas
perseguições, e tem sido desde então o mesmo ordeiro
e persistente auxiliar da obra divina.

Durante as cruzadas combateu ao lado dos cristãos contra os ímpios.
Ao aproximarem-se os exércitos, desciam da montanha, alimentavam e
vestiam os cruzados nus e com fome. Sempre que os turcos entravam sedentos
de sangue pelo seu território, sofriam como mártires o sacrifício
sem protestar. O ódio do Maometano seguia-os, entretanto, na vida simples
e indolente dos mosteiros. Em 1860 os druzos, povo pagão e feroz, recordando
velhos ódios religiosos, atiraram-se subitamente sobre os pobres maronitas,
traídos e abandonados.

A carnificina foi horrenda. A França então, sempre benevolente
para os cristãos do Oriente, mandou uma esquadra às águas
do Levante, forçando o Turco a modificar o governo do Líbano
e a dar-lhe uma certa autonomia. Desde essa época o governo é
cristão nomeado pelas sete grandes potências européias,
a câmara dos representantes faz-se por eleição livre e
o chefe da policia deve ser cristão. O chefe da polícia em todos
os povos do Oriente representa um papel formidável.

Extremamente religiosos, os maronitas dependem civil, militar e religiosamente,
em qualquer parte em que se achem, dos sacerdotes, e a hierarquia da sua igreja
compõe-se de um prelado, com o título de Patriarca de Antióquia
e de todo o Oriente, de doze bispos diretores de doze dioceses e de um número
infindável de sacerdotes inteligentes e bons.

A intervenção européia, entretanto, espalhou pelo mundo
a flor pontifícia. A imigração esvazia aos poucos o Líbano.
Não se pode viver com farturas em terras tão antigas, as autoridades
conservam a influência aterradora do Sultão. Os que primeiro
saíram, com os ortodoxos e outros crentes de Jesus, escreveram chamando
os que ficavam, a perspicácia maometana facilitou a emigração
para enfraquecer os libertos da sua prepotência e os maronitas vêm
para os Estados Unidos, para a Argenúna, para o Brasil, num lento êxodo…

Nós temos uma considerável pétala da celebrada flor.
Uma das nossas maiores colônias hoje é incontestavelmente a colônia
síria. Há oitenta mil sírios no Brasil, dos quais cinqüenta
mil maronitas. Só o Rio de Janeiro possui para mais de cinco mil.

Quando os primeiros apareceram aqui, há cerca de vinte anos, o povo
julgava-os antropófagos, hostilizava-os e na província muitos
fugiram corridos à pedra. Até hoje quase ninguém os separa
desse qualificativo geral e deprimente de turcos. Eles, todos os que aparecem,
são turcos!

Os sírios, arrastados na sua imensa necessidade de amizade e amparo,
davam com a muralha de uma língua estranha, num país que os
não suportava. Agremiaram-se, fizeram vida à parte e, como a
colônia aumentava, foram por aí, mascates a crédito, fiando
a toda a gente, montaram botequins, armarinhos, fizeram-se negociantes. Quem
os amparou? Ninguém! Só, por um acaso, Ferreira de Araújo,
o Mestre admirável, escreveu defendendo-os. Os sacerdotes maronitas
respeitam-lhe a memória, e na data da sua morte rezam-lhe missas por
alma, guardando delicadamente uma gratidão duradoura.

No mais, a hostilidade, os espinhos da frase papal.

Há nessa gente operários hábeis, médicos, doutores,
homens instruídos que discutem com clareza questões de política
internacional, jornalistas e até oradores. A vida é dura, porém;
jornalistas e doutores vendem alfinetes e linhas em casas pouco claras da
rua da Alfândega, do Senhor dos Passos, do Núncio e dos subúrbios.
A totalidade ainda ignora o português!

Conversei com alguns maronitas, sempre de uma amabilidade penetrante. Um
deles, dando-me a satisfação da sua prosa torrencial, falou
como um estrategista da guerra russo-japonesa. Esse homem não falava,
redigia um artigo de jornal com a retórica empolada que fez a delícia
dos nossos pais e ainda hoje é a força do jornalismo dogmático.
Eu ouvia-o de lábios entreabertos.

– Se a justiça de Deus não desapareceu, se a vida humana decorre
dos desejos da divindade, é possível crer que os japoneses possam
vencer?

– Oh! não!

Eu respondera, como no teatro, mas estava interessado por esses organismos
simples, criados na chama de uma crença inabalável, desses românticos
do Oriente.

Todos são feitos de exagero, de entusiasmo, de amor e de ilusão.
Os dois jornais sírios têm os títulos simbólicos
e extremos: – A Justiça, A Razão. Os homens naturalmente perdem
o limite do natural. Numa outra casa em que sou recebido, um gordo cavalheiro
preocupa-se com o problema da colonização.

– A colonização síria, diz, é a melhor para o
Brasil. Os brasileiros ainda não a compreenderam. O sírio não
é só o comerciante, é também agricultor, operário.
Desprezam-nos? Este país não vê que conosco, povo tranqüilo
e dócil, não poderia haver complicações diplomáticas?
Os espanhóis, os portugueses, os italianos enriquecem, partem, pedem
indenizações. Nós, pobres de nós! não pedimos
nada, queremos ser apenas do Brasil.

Não respondo. Talvez bem cedo os sírios sejam assimilados à
família heterogênea da nossa pátria. Estas criaturas têm
qualidades muito parecidas com as dos brasileiros.

Vários negociantes que comigo discutem, porque os sírios discutem
sempre, são como jornais retóricos e brandos; diziam naturalmente:

– No Amazonas perdi há pouco 400 contos. A colônia síria
teve na baixa do café um prejuízo de 70 mil contos. As últimas
remessas de fazendas elevam-se a 200 contos.

A princípio eu os acreditei um bando de Vanderbilts, falando com desprendimento
do ouro e das riquezas. Mas não. Um sacerdote amigo nos desfaz o sonho.
Há fortunas restritas. A totalidade porém tem relações
com o alto comércio, compra a crédito para vender a crédito
aos mercadores ambulantes do interior e às vezes a situação
complica-se, quando lhes falta o pagamento dos últimos, tudo por causa
do exagero, a mania de aparentar riqueza. Cada cérebro oriental tem
um Potosi nas circunvoluções.

– Os sírios chegam, ganham dois mil réis por dia e já
estão contentes. Nunca serão verdadeiramente ricos, porque aparentam
ter oito quando apenas têm dois.

Este feitio os há de fazer compreendidos dos brasileiros.

Mas os maronitas, sob a proteção do velho santo austero, são
essencialmente bons, de uma bondade à flor da pele, que se desfaz em
gentilezas ao primeiro contacto com um bombom. Os homens falam sempre, as
mulheres olham com os seus líquidos olhos insondáveis e por
todas essas casas, há, inseparável da vida, o mistério
da religião, no amor que as mulheres, algumas inefavelmente belas,
proporcionam, nos negócios, nas idéias e nas refeições.
Quando um maronita enferma, a primeira coisa que faz é chamar um padre
para se confessar; quando um negócio vai mal, aconselha-se com o sacerdote,
só casa pelo seu rito, o único verdadeiro, e trabalhando para
viver, funda irmandades, colégios e pensa em edificar capelas.

De 1900 data a fundação da Irmandade Maronita, posterior a
outras duas que se desfizeram. Foram sócios fundadores: Dieb Aical,
Arsanius Mandur Galep Toyam, Seba Preod Curi, Miguel Carmo, Acle Miguel, João
Facad, Antonio Nicobá, Antonio Kairur, Bichara Bueri, Gabriel Ranie,
Salbab, José Chalhub e Bichara Duer. Brevemente abrirá as suas
portas o colégio dos Jovens Sírios.

Apesar da permissão para dizer missa em todas as igrejas católicas
e de celebrarem aos domingos na Saúde e em Cascadura, já compraram
o terreno na rua do Senhor dos Passos para edificar a capela maronita, e a
propaganda se faz mesmo entre os sírios ortodoxos e maometanos, porque
uma ordem do Papa lhes indica que pela bondade façam voltar à
crença única as ovelhas tresmalhadas.

Atualmente há três padres maronitas em São Paulo e quatro
no Rio, os Revs. Pedro Abigaedi, Pedro Zaghi, Luiz Trah e Luiz Chediak. Andam
todos de barba cerrada, usam óculos e são suavemente eruditos.
Trah, por exemplo, esteve oito anos na Bélgica e discursa como um regato
tranqüilo; Chediak é professor, e cada palavra sua vem repassada
de doçura. É sabido que a reconciliação dos maronitas
com a igreja romana data de 1182. A reconciliação foi incompleta
a princípio, mas hoje é quase integral. Os padres, podendo casar,
abandonam essa idéia; há o maior respeito pelo Sumo Pontífice,
e a política do Vaticano consegue aos poucos outras reformas.

Como os padres me levassem a ver o terreno donde a igreja maronita surgirá,
interroguei-os a respeito do rito da sua seita.

– É quase idêntico ao romano, dizem-me. A liturgia é
redigida em siríaco. É uma necessidade. Há sírios
que sabem de cor o sacrifício da missa. Talvez o mesmo não aconteça
numa igreja romana, que conserva o latim.

– A começar pelos sacristãos.

– Há além disso as missas privadas, a regra é a de Santo
Antônio e seguimos o martirológio de S. Marun.

– Dizem que os maronitas foram a princípio monotelistas…

– Dizem tanta coisa no mundo!

Eles tinham parado diante de uns velhos muros.

– Será aqui a igreja?

– Querendo Deus!

E não sei porque, vendo-os tão simples diante das paredes carcomidas,
esses sacerdotes de um povo religiosamente bom, eu recordei a frase profética
dos papas. O povo maronita é como uma flor entre espinhos, mas uma
flor cujo viço é eterno. Os espinhos continuam persistentes
mas a velha flor espalha-se pelo mundo, recendendo a mais doce ternura e a
mais profunda crença…

Os Fisiólatras

Quando resolvi interrogar o hierofante Magnus Sondhal, sabia da fisiolatria
o que os prosélitos deixavam entrever em artigos de jornal cheios de
nomes arrevezados e nos comunicados, nos copiosos comunicados trazidos aos
diários por homens apressados e radiantes. Pelos artigos ficara imaginando
a fisiolatria um conjunto de positivismo, ocultismo e socialismo; pelos comunicados
vira que os fisiólatras, quase todos doutores, criavam cooperativas
e academias. Entretanto o Sr. Magnus Sondhal certa vez à porta de um
café definira para meu espanto a sua religião.

– A fisiolatria não é um culto no sentido vulgar da palavra,
mas uma verdadeira cultura mental. É, antes, a sistematização
racional do processo espontâneo da educação dos seres
vivos, donde resultaram todas as aptidões, mesmo físicas e fisiológicas,
respectivamente adquiridas.

Pus as mãos na cabeça assombrado. Magnus tossiu, revirou os
olhos azuis.

– A fisiolatria baseia-se, como toda a reforma sociocrático-libertária,
na sistematização da lógica universal ou natural que
o hierofonte + SUN intitula ortologia.

– Ortologia? fiz sem compreender.

– Do grego orthos, logos – reta razão.

A religião também é chamada ortolatria, ou verdadeira
cultura, como ortodoxia significa verdadeira doutrina. Os fisiólatras
pretendem fazer uma remodelação de todas as coisas humanas,
não limitando a sua ação à modificação
dos conceitos.

– Mas o remodelamento geral é possível?

Sondhal sorriu com calma:

– Nós somos onibondosos, oniscientes e onipotentes.

– Os atributos de Deus.

– Nós nos intitulamos os verdadeiros deuses. A reforma abrange as
opiniões, os costumes, o Homem e a própria Terra.

Arregalei os olhos, pus o pé bem firme no chão, passei o lenço
trêmulo na fronte e olhei os verdadeiros deuses. Para o que falava,
envolto na sobrecasaca, com uma barbinha rala e o nariz ao vento, escavoquei
a religião do ideal divino e não lhe achei comparação.
O outro torcia um bigode sensual por cima do lábio rosado.

– Com que então deuses? Dera-me de repente a vontade de ser também
onisciente e onipotente. Mas que é preciso para eu ser também?

– A propaganda toma um cunho secreto. Os aspirantes à Ortologia têm
de passar pela iniciação esotérica, que custa, além
das provas morais, quinhentos mil réis em moeda corrente.

Era relativamente barato, e eu pensava em fazer uma redução
shilockeana, quando Magnus começou a desdobrar a beleza útil
da vida fisiólatra.

A iniciação dá entrada na Universidade Ortológica
resumida no hierofante, a qual se intitula Maçonaria + Católica.
A Maçonaria Católica divide-se em lojas, cujo conjunto, em três
graus, constitui o respectivo templo. Os aspirantes representam as lojas,
o templo só pode ser representado pelo hierofante ou por um areopagita.

– Onde esse templo?

– Os fisiólatras, os que praticam a magia ortológica, não
precisam de local determinado. São os novos homens, fazem excursões
pelos prados, montes e lagos em Fraterias Estéticas, Filosóficas
ou Ortológicas, conforme o grau do ludâmbulos.

– Ludâmbulos?

– Uma palavra da língua universal!

– O volapuck? O esperanto?

– Não, uma língua inventada por mim, o Al-tá.

– Mas que vem a ser o Al-tá?

– Aplicando a Ortologia (ou Lógica Universal) aos fatos da Linguagem,
verifica-se que os elementos fonéticos, sons e entonações
(ou consoantes e vogais) são por toda a parte idênticos. Deduz-se
que são oriundos das mesmas impressões e resultantes das mesmas
aptidões expressionais. Colocando em sínese, descobre-se que
os sons, que exprimem relações, formam uma escala semitonal,
como a da música, e composta de treze notas, ou graves primárias
como todas as escalas, aliás: – U (grave fundamental) A (dominante
e geratriz) e I (sensível superior) estabelecem todas as relações
sinésicas:

U A I (e U)

Gênese Megaforema Metaforema

Origem Crescimento Transformaçio

Passado Presente Futuro

Corpo Espaço Movimento

Sentir Pensar Agir

Opressio Libertaçio Aspiraçao

Escuro Amarelo Rubro e Branco

etc. etc. etc.

Quanto às Entonações, essas formam três teclas,
donde três escalas, também, analógicas mas distintas:

H (Geratriz)

TECLA GUTURAL TECLA DENTAL TECLA LABIAL

Metafonias Metafonias Metafonias

K (Chave) T (Chave) P (Chave)

G (guê) D B

Ch R F

J r (brando) V

– L –

– Lh –

– S –

– Z –

– N –

– Nh M

Aplicando a Sínese ortológica às Teclas orais, como
se fez relativamente aos Sons, temos:

TECLA GUTURAL TECLA DENTAL TECLA LABIAL

Gênese Megaforema Metaforema

Objetivo Subjetivo Ativo

Eidonomia Eimologia Ergonomia

e

Erostergia

Detalhando, enfim, o valor fracional dos fonemas em geral, obtém-se,
por dedução lógica, a expressão natural; – de
qualquer espécie de impressão: – sensacional, emocional ou acional…
e a Língua Universal está, enfim, racionalmente instituída.

Exemplo perfunctório:

K é a raiz de Corpo, concreto, etc.

A significa o atual e ação,

donde:

Ativo: K A – O Corpo que se apresenta e se move.

e

Passivo: A K – O Corpo que é impelido ou sofre a ação.

M é o símbolo do sentir e agir, donde:

Passivo A M=Eu=amo=sou…

e

Ativo: M A=Mu=mover=mãe, mulher… criar.

Eu não compreendera muito bem, não compreendera mesmo nada.
Magnus Sondhal porém foi íntimo e educador.

– Vou dar-lhe alguns nomes esotéricos dos iniciados da Maçonaria
Católica. Sobem a milhares, além de alguns que foram condenados
ao olvido, ao au-tá…

Fez uma pausa, depois como quem se confessa:

– Eu devo dizer esotericamente, o espírito que preside à Propaganda
da Razão. A minha emancipação de Ortólogo, vai
a um extremo inacessível para a totalidade dos homens coevos. Por isso,
tudo que eu faço toma o aspecto joco-sério, desde o deboche
até o sagrado, desde a Orgia até o Culto da Natureza!… De
fato estou exterminando pelo ridículo todas as velhas e caducas crenças
e instituições e todos os preconceitos, mesmo científicos
e filosóficos! Em mim a Consciência superior, a dignidade e a
nobreza destruíram por completo toda espécie de Veneração,
Respeito ou Tolerância!… Mas, voltemos aos nomes esotéricos.

Todo Iniciado na Maçonaria Católica toma um Nome, por sua própria
escolha, em substituição ao nome, sem sentido, que lhe deram
seus pais Gorilhas. Esse novo Nome é a síntese de seu verdadeiro
Ideal ou Aspiração superior para o Progresso. Em torno desse
novo Símbolo o Iniciado constrói a sua nova Existência
Subjetiva, isto é, o seu KARMA. Quem souber identificar-se com o seu
Nome de Regenerado, está, ipso facto, isento de toda e qualquer perturbação
subjetiva, causada habitualmente pelos ataques malévolos da Canalha
humana. Mas a adoção voluntária do novo Nome é,
além disso, um ato belamente revolucionário, e um protesto solene
contra todas as velharias e convenções hipócritas e perversivas.
Quem escolheu o seu próprio NOME, também rompeu, ipso facto,
com todas as imposições e Imposturas que tendam a tiranizar
a sua Vontade e tolher a sua Liberdade de Indivíduo!… Mil outros
motivos há que advogam esse Rito da Adoção.

– Os nomes esotéricos! supliquei, vendo que se eternizava num misterioso
falar.

Ele sentou-se com um papel e um lápis.

– Antes de tudo, é preciso conhecer o esquema da figura da Lei Universal,
ou Ciclo da Matéria, donde se deduz a Ortologia, ou a Sabedoria Universal.

Diante daquele lápis hostil, tremi.

– Os nomes sem figuras, Magnus.

Ele coçou a ponta do nariz.

– Ei-los:

SUN, nome do HIEROFONTE (+) atual; Significa: – sol no NADIR, ou Sol posto
e, por extensão, Luz Invisível, isto é, Sol subjetivo.

Etimologia: – S … símbolo de Fonte e de Brilho em sua máxima
intensidade e, portanto, símbolo de SOL; – N… . símbolo de
infinito e indefinido, de espaço e de espírito, portanto: num
ponto indefinido do Espaço. A quer dizer: presente, ou visível,
donde SAN – Sol acima da horizonte visual. I significa o que está para
vir e o que sobe, donde SIN – o Sol que vai nascer ou nascituro. U quer dizer
o que está embaixo, donde – SUN o Sol no Nadir.

BLUM-SAN-UR – A Flor que o Sol gerou. Nome de um Areopagita, cujo símbolo
é a cruz.

AM-VA – Viver para o Amor. Nome de outro Areopagita em São Paulo.

UN-AN – O espírito de Origem, engerador. Nome de outro Areopagita,
em Minas.

GVAM-IL – Viver, Amar e ser Livre. Nome de um iniciado do 2.º grau.

AL-GAI – Aquele que quer que todos folguem. Nome de um cientista bom e inteligente.
Iniciado do 2.º grau.

VAR-UN – A vida que palpita imperceptivelmente no seio da Matéria.
Nome de um distinto iniciado do 1.º grau.

SIR-US – O Filho da Aurora Boreal. Nome de um companheiro dedicadíssimo
que propulsionou a Propaganda da Razão no Estado do Paraná.

GAM-AR – Aquele que vai alegrar-se e folgar agindo com entusiasmo pela Regeneração
Humana.

Um instante calamo-nos. O hierofante Sun limpava o suor. Mas dentro em pouco
continuou a falar.

– Temos, disse, idealizados quatro templos para serem erigidos no centro
de cada uma das quatro partes em que dividimos a terra. Os templos chamam-se
os templos da Razão.

Também em épocas que todos chamam das grandes transformações,
os homens deram templos à Razão encarnada.

– Há muita gente iniciada? indaguei, afundando em amargas comparações
históricas.

– Muita. Só agora, porém, é que a iniciação
deixou de ser grátis. Não imagina como progredimos.

Há quatro ou cinco anos que em Minas Gerais se fazem festas sociolátricas.
As peripatéias ou excursões cultuais são comuns em todos
os Estados, máxime no Paraná.

– E aqui?

– Vamos entre as árvores discutindo e conversando.

Platão! Aristóteles! Jesus! Dellile! Procurei acalmar o meu
estado nervoso. Assistira à missa-negra, vivera entre os negros orixalás,
que sobre o opelê dizem a vida da gente, ouvira os espíritas,
o ocultistas, os gnósticos católicos. Essa reforma desorganizava-me.

– Mas isso tudo foi inventado pelo senhor?

– Foi.

– E desde quando pensa na reforma?

– Desde a idade de cinco anos, em que aprendia a ler sozinho. Só porém
em 1884 é que cheguei aos resultados práticos em Cataguazes.

– É brasileiro?

– Descendente de islandeses, os verdadeiros descobridores da América.

Recolhi meditando a questão. Aquele homem que aprendera a ler com
tenções de reformar a sociedade, a ortologia, as peripatéias,
a reforma da terra – tudo isso assustava. Refleti entretanto. Magnus era um
vasto saber, calmo e prático, formado em Cabala, tendo viajado o mundo
inteiro.

Se apenas nessa qualidade dissesse ter inventado o motocontínuo nas
asas das borboletas, eu, deplorando-o, levá-lo-ia ao hospício.
Mas Sondhal inventara uma religião, a religião que é
o bálsamo das almas, uma religião brasileira, e, como Jesus
à beira do lago Tiberíade, ensinava aos iniciados à beira
da lagoa Rodrigo de Freitas e da lagoa dos Patos. Era mais um profeta, venerei-o;
e assim fazendo quis saber quem comigo o venerava. A fisiolatria é
uma religião de doutores; numa lista de 200 ortólogos, sessenta
por cento são bacharéis.

As listas são feitas com pompa, e em cada uma eu li: – Drs. Toledo
de Loiola, Tavares Bastos, Jango Fischer, Flávio de Moura, Luís
Caetano de Oliveira, Antônio Ribeiro da Silva Braga, Adolfo Gomes de
Albuquerque, Floripes Rosas Júnior, José Vicente Valentim, Ulisses
Faro, Barbosa Rodrigues Júnior… Uma série interminável
de bacharéis!

Tantos doutores devem assegurar a doutrina doutíssima. Fui então
procurar o hierofante no seu templo, que tem percorrido várias casas
na Cidade Nova. Magnus Sondhal recebeu-me com o seu inalterável sorriso
e o seu inalterável pince-nez.

– Há tantos doutores na sua religião, hierofante, que eu a
considero.

– Pois, ergonte, uma das idéias da minha religião é
acabar com os doutores!

Sentamo-nos divinamente e eu o interroguei:

– A sua religião tem qualquer coisa de positivismo?

– Fui apóstolo da Humanidade seis anos. Só depois é
que comecei a propaganda da União Universal, a princípio com
um filósofo dinamarquês, depois com os Drs. Adolfo de Albuquerque,
Silva Braga e outros Areopagistas. A fisiolatria transforma as palavras e
expressões das outras línguas, transformando as instituições
humanas existentes e inexistentes em fatos positivos. Os fenômenos sobrenaturais
tornam-se até sensíveis.

– A reforma é então geral?

– Até no vestuário. Acredita o senhor que no futuro continuaremos
a usar sobrecasasa? Pois, não!

As roupas dos ergontes serão determinadas pelas estações
do ano com um cunho simbólico e as cores tiradas da figura universal.
No verão, por exemplo, 1.ª estação, macrofísica
e que representa o dia da vida, usar-se-ão as três cores fundamentais;
no outono, 2.ª estação, a tarde da vida, cores sombrias;
no inverno, 3.ª estação, microfísica, a noite da
vida, roupas negras, e na primavera, a 4.ª estação, roupas
brancas para corresponder ao albor da existência…

– Muito poético. As nossas casacas passarão a ser empregadas
apenas nos bailes de máscaras, como fantasias de gosto. Também,
que seria do vestido de Maria Stuart se não fosse o carnaval? Consolemo-nos
com a homenagem dos futuros ergontes!

Enquanto essas loucuras eram ditas, Magnus Sondhal sorria.

– Uma religião tão nova deve ter o seu custo especial.

– Tem, com efeito: o kratu, ou culto público, e a magia, ou culto
íntimo.

O kratu tem um quadro sinótico.

Ei-lo:

KARMA

(ou: – a Criação e Transformação Eterna, geradas
e contempladas pelo Amor).

__________________________ _______________________

KOSMOS ONTOS | ETOS

| e

| ESTETOS

____________________________

EIDONOMIA E EIMOLOGIA | ERGONOMIA

| e

| EROSTERGIA

1.º Grau 2.º Grau 3.º Grau

__________________________ _______________________

FISIOLATRIA

__________________________ ___________________________

IDOLATRIA BIOLATRIA PSICOLATRIA

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1.º Dia SOL Fecundação Sentir Amor

2.º Dia LUA Gestação Conceber Sabedoria

3.º Dia TERRA Procriação Construir Poesia

4.º Dia MAR Nutrição Mecânica Sensualismo

5.º Dia AR Respiração Química Vitalismo

6.º Dia CÉU Lhômição Al-Químia Animismo

7.º Dia NOITE Subjetivação Hiper-Químia Idealismo

——————————————————————————–
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Donde REFLEXÃO… CONSCIÊNCIA… MAGIA

A palavra MAGIA é empregada no sentido de sua etimologia Altaíca,
isto é, derivada de MAC – Força ou Ação e I –
sobre ou para o Futuro. Representa o estado superior da Vida, em que o Espírito
ou a Razão dirige a Força Inconsciente.

A magia começa a revelar-se nas próprias iniciações
maçônicas pela adoção de um nome esotérico
que liberta das más influências. Só eu a posso empregar,
porque sou o único a conhecer a hiperquímica ortológica,
ou as leis naturais das influências psíquicas.

A hiperquímica, de hyper e da língua universal kim, que significa
a parte invisível e indestrutível da matéria, tem duas
ciências preliminares: a alquimia, ou tratado da reação
das matérias em estado das correntes puras, e a químia. O princípio
alquímico é que a matéria é una, vive, evolui
e se transforma. O princípio unitário Lhôma entra como
causa em todas as reações e por ele se explicam o fenômeno
microfísico das funções cerebrais, a função
das imagens interiores e a influência da moral sobre o físico.

Mas tudo isso está nos nossos livros: – A Reforma Sociocrática
e a maior evolução do mundo, o Catecismo Ortológico a
Arte de Enriquecer ou extinção do pauperismo pela instituição
da plutometria em substituição à plutocracia, a Explicação
de Deus ao Papa, a Pré-história segundo a Ortologia e outros
volumes. O essencial acha-se porém num livro manuscrito, que não
se imprime: – o Catecismo Esotérico.

Depois paternalmente o hierofante disse:

– Venha hoje ver uma sessão de magia. Nós comemoramos a morte
de um iniciado. O templo é uma sala, mas é de dever deduzi-lo
da figura da Lei Universal ou Al-Miz: ao norte a loja azul, ou do 1.º
grau; a este a loja amarela, ou do 2.º grau; ao sul a loja rubra, ou
do 3.º grau; a oeste o dumma, ou sala negra, no canto o templo ou empíreo.
O dumma e o empíreo significam o branco e o negro, dois elementos antitéticos
do Binário Universal… Venha às 11½.

Eu fui. Era uma noite úmida, de chuva, no dia 5 de agosto. O iniciado
que morrera, meu amigo, um gênio musical, passara pela vida agarrado
a todas as fantasias. Eu fui e delirei tranqüilamente. Tínhamos
combinado estar na pensão de Sondhal. Quando lá cheguei, encontrei
treze homens de chapelão desabado e manto negro. Pareciam conspiradores.
Abri o manto de um deles e vi que estava forrado de seda roxa; abri o de outro,
também, e todos tinham varinhas na mão, onde brilhavam ametistas,
a pedra da magia! Reparei então que o hierofante era um deles.

– De que é feita essa bagueta? inquiri.

– De uma liga metálica que é um segredo alquímico! respondeu
uma voz. E com o hierofante à frente, todos deslizaram pelo corredor
escuro. Eu os seguia como a sombra dos seus mantos. De repente, pararam a
um sinal seco e eu retive um grito. Na extremidade superior do cetro do hierofante,
começava a bruxulear uma luz fosforescente.

– Meu Deus!

– Cala-te, é a luz física, e o au-lis!

Todos os magos ergueram verticalmente as baguetas estendendo o braço
direito para o ar, e na extremidade de cada uma, como uma misteriosa gambiarra
de vagalumes, o au-lis acendia a sua fulguração indizível.
Nas copas dos chapéus dos magos vibrava o telegormo, que transmite
as palavras pensadas.

A luz porém cessou, as varas abateram-se e os treze saíram
para a rua como simples transeuntes.

No curto trajeto do hotel à sala do templo, eu tive a impressão
de um ser à parte num mundo à parte, e quando cavamente a porta
se fechou num cavo rebôo e subimos aos tropeços as escadas, pareceu-me
cair outra vez, na amada vida. A luz reaparecera.

Na sala, cheia dessa luz, o hierofante subiu os três degraus do altar,
voltou-se para os magos, deu na ara três pancadas e falou. Era a prece
da Evocação. Agarrei-me a um portal, tremendo. Com toda a solenidade
o homem foi ao outro canto e fez a segunda prece, a Invocação.
Depois, voltado para o oriente disse a Efusão. Terminado que foi, sentou-se.
Reparei então que havia um estrado e em cada canto sentavam-se quatro
magos.

– Aquele estrado? fiz num sopro.

– É o palco dos Fantasmas, ou lig-ôma!

De novo três pancadas bateram. O hierofante, em pé, fez um gesto
sagrado, colocando a mão esquerda sobre o coração, fonte
do Viver e do Sentir, e a direita, ou da ação, na fronte, centro
psíquico. Depois um gesto para o ar e para a fronte indicou o porvir
e o ideal.

Todos os magos bradaram:

– Au-ár! An-ár!

E a voz do hierofante abriu na treva:

– “Pobre e triste humanidade de mortos!… Pressentiste o poder da alma
humana, e inventaste a invocação, o culto e a prece!… Mas,
a quem te dirigias tu? – As ficções impotentes!

“Não conhecias a matéria no seu estado unitário
de Lhôma, embora teus grandes filósofos chegassem quase a determinar
sua existência.

“Que era o culto do Lhôma na Pérsia antiga e o do Sôma,
na Índia, senão o grande vislumbre da grande magia fisiolátrica!…

“Mas agora o Universo nos está revelado, em todas as suas maravilhosas
manifestações: – aquímicas, químicas e hiperquímicas!…

“Pelo Cérebro, abalamos o Lhôma, que penetra toda a Matéria
orgânica ou inorgânica!…

“E o Cérebro é um universo microfísico, onde os
átomos valem os astros do espaço sideral!…

“E lá dentro do crânio há luz, por que é
do Lhôma tenebroso que, por toda parte, ela se gera?…

“Que mais pode surpreender ao Ortólogo?!… Onde pode haver um
canto no Universo que sua Vontade não penetre?!… Onde um Ser ou Fato
que sua Microtagia não desvende?!…

“Homens mortos!… Vítimas da Feitiçaria teolátrica
e da negra magia das forças brutas e inconscientes da Matéria!…
Sede eternamente malditos!… Mostrai-vos ali! no palco dos fantasmas, em
toda nudez do vosso hediondo Sofrimento!…”

Eu bati os dentes com um frio que traspassava os ossos. A luz acendia de
vez em quando, e naquele estrado, onde os espíritos mais deviam estar,
eu via o vazio, o vazio horrível, o vazio doloroso.

– “Surgi. Vós também, ó Heróis do Bem –
continuara o mago – que vivereis eternamente, impulsionando os Progressos
que só a Razão inspira!

“Ei-los!…

Eis os quadros da vida humana!… torpe, miserável!…

“Quem é aquele sublime LIC-UR, cercado de Amores e de Harmonias,
e cuja presença de Luz dissipa e dissolve os tenebrosos e estúpidos
NUROS corruptores?!…

“É o SAN-A’R…

“Ei-lo, sorridente e vitorioso!… vitorioso da própria Morte!

“Ei-lo sublime que nos aponta o Futuro, onde fulgura também a
nossa suprema Vitória!

“Assim como ele anulou a corrupção dos Mortos, nos quadros
telefênicos do Espaço sideral, nós também anularemos
a corrupção dos Vivos decadentes, que são de mais na
superfície do Planeta’

De mais! os que são de mais! eu ali dentro estava de mais! Então
abri a porta, saí, olhando para trás, aterrado do san-ár;
dos nuros, desci agarrado aos balaústres da escada e quando sentei
na soleira da porta, fatigado, com o cérebro vazio, senti que suava
e que me ardiam as faces.

No outro dia encontrei o fisiólatra Magnus acompanhado de vários
iniciados.

– Vou fundar uma Universidade no Liceu de Artes e Ofícios. Não
deixe de ir assistir às conferências preparatórias.

– Mas ontem, ontem que fizeram vocês?

Houve uma pausa.

– Meditamos até de manhã à beira da Sabedoria para que
a Sabedoria viesse.

E Magnus Sondhal, com um volume de Nietzsche debaixo do braço, seguiu
com os iniciados pela rua a fora, como se fosse um ser natural…

A Igreja Fluminense

A Igreja Fluminense data de 1858. Foi a primeira congregação
evangélica estabelecida no Brasil, graças ao espírito
de um homem rico e feliz.

O Sr. Robert Reid Kalley trabalhava na ilha da Madeira, quando, em 1855,
lembrou-se de vir ao Rio de Janeiro. Era escocês, médico, ministro
evangélico e possuía bens da fortuna. Ao deixar o clima delicioso
da ilha por esta cidade, naquele tempo foco de algumas moléstias terríveis,
não o enviava nenhum board estrangeiro, vinha espontaneamente apenas
por amor do evangelho de Jesus Cristo.

O Brasil sempre foi um centro de reunião de colônias diversas
praticando as suas crenças com a mais inteira liberdade.

Entre a prática da religião, porém, e a pregação
à grande massa vai uma diferença radical. Robert Kalley vinha
para uma monarquia católica, em que a Igreja era um desdobramento do
Estado; aportara a uma terra em que cada data festiva fazia repicar no ar
os sinos das catedrais e desdobrava por sobre a cidade os pálios e
as sedas roxas dos paramentos sacros; vinha pregar ao povo, amante de procissões,
que rojava na poeira das ruas quando passavam as imagens seguidas de soldados.
E Kalley veio e pregou contra os pálios, contra as imagens e contra
o povo a rojar, escudado na doce crença de Jesus…

Íamos os dois, eu e o Rev. Marques, pelo asfalto do campo da Aclamação.
Muito cedo ainda, os pássaros cantavam indiferentes ao bulício
da grande praça, e eu, cada vez mais encantado, ia a ouvir tão
suave conversa.

Era o diletantismo da evangelização.

– Era o conforto moral que a religião dá. Se até hoje
os nossos evangelizadores são apedrejados, se nos fecham as igrejas,
imagine a impressão do protestante naquele tempo. Kalley, o ousado
capaz de afirmar meia dúzia de idéias desconhecidas, teve uma
série infindável de inimigos.

– O protestante! Que recordação de épocas históricas.
Carlos IX, os huguenotes, o êxodo para a América, o horror das
imagens…

– Os populares naquele tempo não admitiam o funcionamento regular,
com entrada franca, das igrejas evangélicas. KalIey, três anos
depois da sua chegada, fundava sem bulha, com alguns adeptos, o primeiro templo
evangélico, que chamou Fluminense.

– Há temperamentos de missionários. Kalley era um desses. Olhe
que podia viver muito bem na Escócia, à beira dos lagos, entre
os verdes lindos dos vales. Preferiu a nossa cidade de há meio século,
bárbara, feia, cheia de calor; esteve vinte anos no Rio, e só
voltou à pátria quando teve a certeza de deixar uma igreja completamente
organizada.

– E deixou?

– Ao partir, em 1876, a igreja tinha uns cem membros, havia um pastor substituto,
João Manuel Gonçalves dos Santos, eram presbíteros Francisco
da Gama, Francisco da Silva Jardim e Bernardo Guilherme da Silva e diáconos
João Severo de Carvalho, Antônio Soares de Oliveira, Manuel Antônio
Pires de Melo, José Antônio Dias França, Manuel Joaquim
Rodrigues, Manuel José da Silva Viana e Antônio Vieira de Andrade.
O esforço fora recompensado. Frutificara a semente, e já outras
igrejas iam nascendo.

– A Igreja Fluminense tem muitas filiais?

– Tem. Há outras Igrejas organizadas por ela, e a essas seria mais
apropriado chamar igrejas congregacionais. São essas a de Niterói,
cujo pastor é o Rev. Leônidas da Silva, e que possui um belo
edifício na rua da Praia, tendo cerca de cem membros; a de Pernambuco,
a de Passa-Três, a de São José de Bonjardim e a que eu
pastoreio no Encantado, organizada a 10 de maio, com 56 membros.

Antônio Marques terminara a sua frase com tal carinho que o interrompi:

– Vejo que ama o seu rebanho!

– Não há melhor!… gente simples, boa, capaz de ouvir a palavra
do Senhor…

Fez uma pausa, sorriu.

– Devo-lhe dizer que essas igrejas têm também as suas missões.
Só a de Passa-Três tem no Cipó, no Arrozal de São
João Batista e em toda a zona mais próxima do Estado do Rio.

– A Igreja Fluminense é só de nacionais?

– É a única no Brasil que não tem proteção
estrangeira, que vive dos seus próprios recursos apenas; – é
o completo atestado do nosso esforço moral. Já educou três
jovens para o mistério, sustenta três missionários, acabou
de construir um templo e, apesar disso, ainda o ano passado teve no seu “budget”
um saldo de oito contos. Sendo nacional, recebe entretanto na sua comunhão
pessoas de ambos os sexos crentes em Cristo.

– E tem uma escola?

– Tem duas: a dominical, de leitura bíblica, e uma outra diária
para as crianças, dirigida pelo Sr. Joaquim Alves e D. Carlota Pires.
A característica da igreja é a evangelização da
cidade, uma evangelização que vai de porta em porta, levando
auxílios, carinhos, paz moral. Há a Sociedade de Evangelização,
a União Bíblica Auxiliadora de Moços, a União
das Senhoras, a União das Moças, das Crianças… Os templos
congregacionais também têm idênticas sociedades.

No Encantado, além de duas outras, nós, que estamos em caminho
de ter um templo, vamos organizar agora o Esforço Cristão Juvenil.

– Mas uma evangelização assim constante?

– Os rapazes distribuem folhetos, fazem a expedição pelo Correio,
vão de porta em porta com subscrições para mandar companheiros
estudar na Europa. Eu lhe posso citar os nomes de João Menezes, Isaac
Gonçalves, Luiz Fernandes Braga, Antônio Maria de Oliveira…
São tantos! E todos brasileiros.

Havia na voz do pastor um justo orgulho. Eu emudeci um instante, acompanhando-o.
Nesta cidade de comércio, em que o dinheiro parece o único deus,
homens moços e fortes pregam a bondade de porta em porta, como os pobrezinhos
pedem pão! Ou eu delirava, ou aquele cavalheiro calmo, de redingote
de alpaca, dava-me o favo da ilusão, como outrora Platão entre
árvores mais belas e discípulos mais argutos.

– A igreja tem hoje um patrimônio grande? – fiz com o desejo de voltar
à realidade.

– Sempre aumentado, mas regulado ainda pelos estatutos de 1886, aprovados
pelo governo imperial, quando ministro o Barão Homem de Melo. O patrimônio
criado com donativos e legados consiste em prédios e títulos
da dívida pública. A administração é eleita
anualmente dentre os membros da igreja, compõe-se de um presidente,
dois secretários, um tesoureiro e um procurador, que têm a seu
cargo representar a igreja em todos os seus negócios. Deus tem abençoado
a nossa obra.

– As igrejas evangélicas abundam entre nós, pastor. Falam-me
agora numa seita, os miguelistas, que dizem ter Jesus Cristo voltado ao mundo,
encarnado no Dr. Miguel Vieira Ferreira…

– As verdadeiras igrejas evangélicas do Rio são a Fluminense,
a Metodista, a Presbiteriana, a Batista e a Episcopal para os ingleses e os
alemães. Nós propriamente, filhos da Fluminense, somos congregacionistas.

A religião é uma só, havendo apenas diferença
no ritual e na forma do governo eclesiástico.

O nosso governo é congregacionista, composto de pastor, presbítero
e diáconos. Atualmente na Igreja Fluminense o pastor é Gonçalves
dos Santos, os presbíteros José Novais, José Fernandes
Braga e Gonçalves Lopes, os diáconos Antônio de Assunção,
Guilherme Tâner, José Valença e José Martins.

– Há uma tal subdivisão de ritos entre os evangelistas.

– Nós nos regulamos por 28 artigos de fé. Cremos na existência
de um Deus, na trindade de pessoas, na divindade de Jesus Cristo, na sua encarnação,
nascendo de Maria e sendo verdadeiro Deus e homem.

Estávamos à esquina da rua Floriano Peixoto. Verdadeiro homem!
Ia perguntar, aprofundar a intenção da frase. O pastor, porém,
continuava.

– A Bíblia foi escrita por inspiração divina.

– Não há dúvida.

– Só acreditamos em doutrinas que por ela possam ser provadas. E por
isso cremos na imortalidade da alma, na vida futura, na punição
eterna dos que não pensam em Jesus, na ressurreição dos
mortos, no julgamento do tribunal de Deus.

Antônio Marques parara defronte da igreja, um casarão que tem
em letras grandes este apelo convidativo. – Vinde e vede!

– Custou muito?

– Uns setenta contos.

– E o pastor ainda é o substituto de Kelley?

– Ainda. Conhece-o?

– É um ancião de maneiras secas.

– Oh! tem-se esforçado tanto. Há vinte e sete anos que trabalha
sem cessar. Foi a Londres estudar o ministério, voltou e nunca mais
nos deixou. É o mais antigo ministro evangélico do Brasil, e
hoje os seus sessenta e dois anos curvam-se a um trabalho insano. Entre; hoje
é o dia da comunhão.

Entrei. Uma sombra tranqüila aquietava-se na sala. Os ruídos
de fora, da alegria movimentada da rua, chegavam apagados. No coro, nem viva
alma; pelos bancos, alguns perfis emergindo da sombra, muitos atentos e calmos;
ao fundo, em derredor de uma mesa onde havia garrafas e pratos de prata, vários
senhores. E naquela paz vozes cantavam:

Disposta a mesa, ó Salvador,
Vem presidir aqui,
Ministra o vinho, parte o pão
Tipos, Jesus, de ti!

Depois, no silêncio que se fizera, o pastor disse:

– Bendito Deus! e a prece evoluía-se direta, pedindo para que se retificasse
o fato em memória da morte de Cristo. Era a consagração.

Gonçalves dos Santos tomou do pão e o partiu, os presbíteros
foram pela sala com os pratos lavrados de prata, onde branquejavam os pedaços
do bolo sem fermento.

– Tomai isso e comei!

Sentei-me humilde no último banco. Como nos evangelhos, eu via os
homens darem de comer o pão de Deus, e darem a beber o sangue de Jesus.
Era tocante, naquele mistério, na paz da vasta sala, quase deserta.
E, com gula, a cada um que eu seguia no gozo da suprema felicidade, parecia-me
ver o seu olhar, – o olhar, a janela da alma! – voltar-se para o céu
na certeza tranqüila de um repouso celeste.

Quando a cerimônia terminou, como um ruflo de asas brancas, de novo
as vozes sussurraram.

Eu trouxe a salvação
Dos altos céus louvor,
É livre o meu perdão,
É grande o meu amor.

– Que faz tão triste aí? – disse-me o pastor Antônio.
– Aos moços quer Deus alegres! E eu que lhe fora buscar uma Bíblia
e o Cristão, o nosso jornalzinho! Venha falar ao pastor.

Ergui-me. Manuel Gonçalves dos Santos, com a sua barba alvadia e o
seu duro olhar, fitava-me.

Voltei do sonho para reflorir uma lisonja. Eu já o sabia um probo,
praticando o ministério sem remuneração de espécie
alguma. Santos conservava-se de gelo. Falei da coesão das igrejas,
da propaganda, do evidente progresso do evangelismo no Brasil, com a sua simples
essência de fé, gabei o hospital que estão a concluir.

O pastor então discorreu. A única religião compatível
com a nossa República é exatamente o evangelismo cristão.
Submete-se às leis, prega o casamento civil, obedece ao código
e é, pela sua pureza, um esteio moral. A propaganda torna cada vez
mais clara essas idéias, no espírito público aos poucos
se cristaliza a nítida compreensão do dever religioso. Os evangelistas
serão muito brevemente uma força nacional, com chefes intelectuais,
dispondo de uma grande massa. E, de repente, com convicção,
o velho reverendo concluiu:

– Havemos de ter muito breve na representação nacional um deputado
evangelista.

Apertei a mão do mais antigo ministro evangélico do Brasil.
Diante dos esforços que me contara Antônio Marques, a minha alma
se extasiara; durante a comunhão, vendo o grave grupo beber o sangue
de Jesus, eu sentira o bálsamo do sonho. Mas enquanto meus olhos olhavam
com inveja o outro lado da vida, a margem diamantina da Crença, o pastor
sonhava com o domínio temporal e a Câmara dos Deputados…

Eterna contradição humana, que não se explicará
nunca, nem mesmo com o auxílio daquele que no Apocalipse sonda o coração
e os rins e anda entre sete candeeiros de ouro!

Eterna contradição, que cativa a alma de uns e faz as religiões
triunfarem através dos séculos!

A Igreja Presbiteriana

A sede da Igreja Presbiteriana fica na rua Silva Jardim, n.0 15.

É um dos mais lindos templos evangélicos do Rio. A sala pode
conter oitocentas pessoas. Tudo reluz, as paredes banhadas de sol, as portas
envernizadas, as fechaduras niqueladas, o púlpito severo. Pelas aléias
do jardim, brunidas, anda-se sob o desfolhar das rosas e da montanha a pique
que lhe fica aos fundos, desce um intenso perfume de mata. A primeira vez
que eu lá estive, a sala estava apinhada, não havia um lugar;
e, por trás de sobrecasacas, severas, de fatos sombrios, na luz crua
dos focos, eu via apenas o gesto de um homem de larga fronte, descrevendo
a delícia da moral impecável. Perguntei a um cavalheiro que
o ouvia embevecido, quase nas escadas.

– Quem é?

O cavalheiro passou o lenço pela testa alagada.

– Admira não o conhecer: é o Dr. Álvaro Reis.

Álvaro Reis é o pastor atual da Igreja Presbiteriana do Rio,
essa igreja produto de uma propaganda tenaz e de um longo esforço de
quase meio século. Não há de certo na história
dos nossos cultos exemplo tão frisante de quanto vale o querer como
essa vasta igreja. Fundada em 1861 pelos Revs. Green Simonton, Alexandre Blackford
e Francisco Shneider, três missionários mandados pelo board da
igreja Presbiteriana dos Estados Unidos para a evangelização
do Brasil, quarenta e tantos anos depois tornou-se realidade; e a semente
guardada no celeiro do Senhor, sob o seu divino olhar, brotou e floriu em
árvore estrondosa. Quanto custou isso! Simonton ensinava grátis
o inglês para, aprendendo o português, inocular nos discípulos
os sãos princípios da Bíblia; cada sermão era
um acontecimento, marcava-se com carinho o dia em que professava um novo simpático.
Os puritanos pregavam em salas estreitas e sem conforto. Algumas vezes, um
padre católico surgia intolerante, protestava; os pastores interrompiam-se
e as duas igrejas combatiam, a ver quem pela palavra melhor parecia estar
com Deus.

Como a seita Positivista, a propaganda começou numa sala da rua Nova
do Ouvidor, com dezesseis ouvintes. Passou depois à rua do Cano, desceu
à rua do Regente, à praça da Aclamação,
à rua de Santa Ana, comprou com sacrifícios e recursos americanos
o barracão da fábrica de velas de cera da travessa da Barreira,
e ali orou, pediu a Deus e continuou a propagar. Os meios eram os usuais de
toda a fé que quer predominar. Os evangélicos faziam versos,
faziam o bem e eram tenazes. Foi uma evolução segura e lenta.

A Igreja teve mártires. O sábio padre romano Manuel da Conceição
abjurou e ordenou-se presbítero.

Era uma alma antiga. Ordenou-se e logo começou a evangelizar a pé
pelas estradas. Não levava uma moeda na bolsa, e de porta em porta,
com a Bíblia na mão, revelava aos homens a verdade. Atravessou
Minas assim, tropeçando pelos caminhos ardentes, quase sem comer, e,
onde parava, o seu lábio abria falando do prazer de ser puro. Em Campanha
correram-no à pedra. Conceição, com a Bíblia de
encontro ao peito, tropeçando, fugia sob a saraivada, e a turba só
o deixou fora da cidade, quando o viu em sangue cambalear e cair. Ao chegar
a Sorocaba, o mártir estava andrajoso, quase a morrer, e, morto, os
seus ossos foram exumados, por ordem do bispo D. Lacerda, para serem atirados
fora do cemitério, ao vento.

Os pastores trabalhavam tanto que Simonton morrera, aos trinta e quatro anos,
de cansaço. Eram os primeiros tempos! A adesão religiosa vem
da tenacidade. A tenacidade dessas criaturas de aço que atraiu os fiéis,
desde os analfabetos aos homens ilustres; a igreja recebeu no seu seio médicos,
engenheiros, literatos, arquitetos, professoras públicas, homens rudes,
lentes de escolas superiores e cada um que daqui saía, levava para
as igrejas dos Estados com a carta demissória um elemento de propaganda.
Por último, os pastores foram brasileiros, a derradeira etapa estava
ganha, a igreja, ponto inicial da evangelização brasileira,
foi construída luxuosamente, e o Rev. Trajano, com verdade e poesia,
o afirmou: – depois de peregrinar por seis tetos estrangeiros, só no
sétimo a nossa igreja descansou.

Foi nesse descanso que eu dias depois voltei a conversar com o Dr. Álvaro
Reis. A casa do pastor fica ao lado esquerdo do templo, oculta nos roseirais.
O protestantismo trouxe para os nossos costumes latino-americanos não
sei se a pureza da alma, de que o mundo sempre desconfia, mas o asseio inglês,
o regime inglês, a satisfação de bem cumprir os deveres
religiosos e de viver com conforto.

Logo que vieram abrir a porta, eu tive essa impressão.

– O Pastor?

O pastor não estava, mas isso não impedia que um homem de Deus
entrasse a refrescar das agruras do sol. O Dr. Álvaro Reis é
paulista: na sua residência encontrei alguns amigos seus, paulistas,
que me receberam entre as cortinas e os tapetes, com uma franqueza encantadora.
Quando me sentei na doce paz de uma poltrona, como um velho camarada irmão
em Cristo, estava convencido de que ia beber café e conversar largamente.
Não há como os evangelistas e os evangelistas brasileiros, para
gentilezas. À bondade ordenada pela escritura reúnem essa especial
e íntima carícia do brasileiro, que, quando quer ser bom, é
sempre mais que bom.

– A Igreja Presbiteriana – disse-me o substituto do Dr. Álvaro Reis
– realiza, como sabe, o trabalho de propaganda nesta cidade, há 42
anos. Atualmente, além do templo, tem congregações prósperas
na rua da Passagem, em Botafogo, na rua do Riachuelo e na Ponta do Caju, onde
existem salas de culto muito freqüentadas. Foi com elementos nossos que
se organizou a igreja de Niterói.

– E nos Estados?

– A Igreja Presbiteriana do Rio ramificou-se por todos os Estados do Brasil.
Há presbiterianos no Rio Grande do Sul, no Pará, em Minas, em
Goiás, no Piauí e até nos confins de Mato Grosso. A propaganda
ficou ao cuidado da Igreja Evangélica Episcopal. O número de
congregações e de templos que se organizaram depois do nosso,
sobe a 300.

– E há vários colégios?

– Vários? Há muitos. A Igreja Presbiteriana conseguiu estabelecer
no Brasil os seguintes colégios: o Mackenz e a Escola Americana, em
São Paulo; o Colégio de Lavas, em Minas; o de Curitiba, no Paraná;
o da Bahia, da Feira de Santa Ana e o da Cachoeira, na Bahia; o das Laranjeiras,
em Sergipe; o do Natal, no Rio Grande do Norte; e ainda várias escolas
gratuitas.

– É natural que uma tão copiosa propaganda tenha uma forma
de governo? – fiz vagamente.

– Tem. A igreja é governada por unia sessão de igreja, presidida
pelo pastor e composta de seis oficiais, que têm o título de
presbíteros. A sessão da igreja apresenta anualmente atas e
relatórios ao presbitério do Rio, concílio superior composto
de todos os ministros presbiterianos que trabalham no Rio, no sul de Minas
e no Espírito Santo.

No Presbitério, cada sessão se faz representar pelo pastor
e um presbítero. Além do Presbitério do Rio há
o de São Paulo, o de Minas, o do oeste de São Paulo, o de Pernambuco
e o do Sul do Brasil. Esses seis presbitérios, reunidos de três
em três anos em uma só assembléia, formam o supremo concílio
da igreja, com o nome de Sínodo Presbiteriano Brasileiro. E aí
que se discutem os interesses gerais da causa.

– A defesa tem jornais?

– Alguns. Venha ver.

Entramos na biblioteca de Álvaro Reis, uma sala confortável,
forrada de altas estantes de canela. Por toda a parte, em ordem, livros, papéis,
brochuras, cartas, fotografias.

– Veja. Aqui no Rio temos o Presbiteriano e o Puritano. Há em São
Paulo a Revista das Missões Nacionais, em Araquati o Evangelista, o
Despertador em Rio Claro, a Vida em Florianópolis e o Século
no Natal.

– E com tantos jornais os senhores não vivem em guerra constante?

– Contra quem?

– Contra as outras igrejas, os batistas, os metodistas… Um jornal só
basta para fazer a discórdia; dez jornais fazem o conflito universal!

– Não – fez o meu interlocutor a sorrir -, não. Reina completa
harmonia. A Igreja Fluminense já existia quando começamos a
nossa campanha. As relações conservam-se cordiais. O pastor
Santos ministra aqui a palavra de Deus sempre que é convidado. Enquanto
o templo esteve em construção, a Igreja Fluminense permitiu-nos
o uso da sua vasta sala para o nosso serviço religioso. Com os metodistas
e batistas a mesma cordialidade existe. Os pastores de lá falam no
nosso púlpito, como nós falamos nos seus.

Depois, com tristeza:

– Talvez entre os de casa não existisse essa harmonia há bem
pouco tempo… É simples. Na última reunião do Sínodo
Presbiteriano houve, uma cisão que se refletiu francamente na igreja
do Rio. Um membro do concílio imaginou que a maçonaria fazia
pressão nas deliberações do Sínodo, propondo logo
que a igreja banisse do seu seio a heresia maçônica. Não
era verdade a pressão. O concílio discutiu largamente e aprovou
a seguinte resolução.

– “O Sínodo julga inconveniente legislar sobre o assunto!”
A tolerante aprovação deu em resultado separarem-se sete ministros,
que formaram uma igreja independente e antimaçônica. À
nova igreja ligaram-se ex-membros da nossa.

Ele falava simplesmente. Em torno, faces tranqüilas aprovavam e naquela
atmosfera agradável eu não pude deixar de dizer:

– Como o grande público os ignora, como a população,
a verdadeira, a massa, os confunde numa complicada reunião de cultos!

Todos sorriam perdoando.

– Sabemos disso. É natural! Oh! os protestantes! Passam pela porta,
pensam coisas incríveis… Mas alguns entram e encontram a tranqüilidade.
Qual é, afinal, secamente, em poucas palavras, o modo por que a Igreja
Presbiteriana difere da Igreja Romana? Não considera o Papa como chefe,
nem tolera a sua infalibilidade, não crê na intercessão
dos santos, que estão na glória e nenhum poder tem neste mundo,
não aceita o celibato clerical, considerando uma inovação
funesta…

– Oh! Funestíssima!

– … de Gregório VII, no século XI; não admite o culto
das imagens, uma infração ao 2.º mandamento do Decálogo;
crê que Jesus Cristo ressuscitou e está vivo e reina como único
chefe da sua igreja; crê no único fundamento, na única
regra da Religião Cristã, a Palavra de Deus, a Bíblia,
e prega que Deus, onipotente, onisciente e onipresente, é único
apto a ouvir as orações dos homens. Só aceita dois sacramentos,
o Batismo e a Comunhão, os únicos instituídos por Jesus
Cristo; só reconhece o casamento civil, sobre o qual impetra a bênção
de Deus; não admite o purgatório…

– O absurdo purgatório!

– Diante das santas escrituras.

– Ah!

– Proíbe as missas em sufrágio das almas, porque Jesus nunca
rezou missas, e crê que o homem é salvo de graça pela
fé viva, como crê na ressurreição, na regeneração,
na vida eterna e no juízo final. Todo o seu culto se resume na leitura
das escrituras, em sermões explicativos, em orações a
Deus, e no primeiro domingo de cada mês na celebração
da Eucaristia…

– Há sociedades na igreja?

– Há o Esforço Cristão e uma de acordo com todas as
igrejas, o Hospital Evangélico.

Nessa mesma noite eu ouvi, no templo cheio, Álvaro Reis. A sua larga
fronte parecia inspirada e ele, desfazendo sutilmente as frases diamantinas
da Bíblia, num polvilho de bem, falava da Caridade, da Caridade que
sustenta todos os que crêem em Jesus, – da Caridade suavemente doce
que protege e esquece.

A Igreja Metodista

– Amados irmãos, estamos reunidos aqui à vista de Deus, e na
presença destas testemunhas, para unir este homem e esta mulher em
santo matrimônio, que é um estado honroso, instituído
por Deus no tempo da inocência do homem, significando-nos a união
mística que existe entre Cristo e a sua Igreja. Esse estado santo,
Cristo adornou-o com a beleza da sua presença, fazendo o primeiro milagre
em Cananéia da Galiléia; São Paulo o recomenda como um
estado honroso entre os homens; e por isso não deve ser empreendido
ou contraído sem reflexão, mas, sim, reverente, discreta, refletidamente,
e no temor de Deus.

No ar pairava um suave perfume, senhoras de rara elegância tinham fisionomias
imóveis, cavalheiros graves pareciam ouvir com atenção
a palavra do pastor e tudo cintilava ao brilho dos focos luminosos. Era um
casamento na Igreja Metodista, na praça José de Alencar. Ao
fundo, via-se, à mão direita do pastor, o noivo, à esquerda
a noiva, e por trás dos vitrais, lá fora, naquele recanto onde
corre de vagar um rio, a turba dos curiosos que não entram nunca.

– Estas duas pessoas apresentam-se – continuava o ministro evangélico
– para serem unidas nesse estado santo. Se alguém sabe coisa que possa
ser provada como causa justa, pela qual estas pessoas não devam legalmente
ser unidas, queira dizer agora, ou do contrário – nunca mais fale sobre
isso.

Houve um sussurro como se entrasse pela porta ogival uma lufada de ar. O
pastor voltou-se para as pessoas que casavam.

– Exijo e ordeno de vós ambos (como respondereis no terrível
dia de juízo, quando os segredos de todos os corações
forem desvendados) que se algum de vós souber de impedimento pelo qual
não podeis legalmente ser unidos pelos laços do matrimônio,
queira dizer agora, pois, ficai bem certos disso, que aqueles que se unem
de um modo diferente daquele que é autorizado pela palavra de Deus
não são unidos por Deus, nem o seu matrimônio é
legal.

Nem o noivo nem a noiva responderam. Ela parecia tranqüila, ele sorria,
um sorriso mais ou menos irônico entre as cerdas do bigode. O ministro
então disse ao noivo:

– Queres casar com esta mulher para viverdes juntos, segundo a ordenação
de Deus, no estado santo do matrimônio? Amá-la-ás, confortá-la-ás,
honrá-la-ás e guardá-la-ás na doença e
na saúde; e deixando tudo o mais guardar-te-ás para ela somente,
enquanto ambos viverem?

– Sim! – fez o noivo.

– Queres casar com este homem para viver, segundo a ordenação
de Deus, no estado santo do matrimônio? Obedece-lo-ás, servi-lo-ás,
honrá-lo-ás e guardá-lo-ás na doença e
na saúde, e deixando todos os outros guardar-te-ás somente para
ele, enquanto ambos viverdes?

– Quero – disse a linda senhora.

Houve a cerimônia do anel, enquanto os assistentes abanavam-se. O ministro
tomou-o, deu-o ao noivo, que o enfiou no quarto dedo da mão esquerda
da noiva, repetindo as palavras do pastor:

– Com este anel eu me caso contigo e doto-te de todos os meus bens terrestres:
em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, Amém!

– Oremos! Pai nosso que estás no céu… Era um Padre-nosso…
Depois, juntando as mãos do noivo, o ministro disse:

– O que Deus ajuntou não o separe o homem. Visto como têm consentido
unir-se, e têm assim testemunhado diante de Deus e das pessoas aqui
presentes, e portanto têm prometido fidelidade um ao outro e assim declarado,
juntando as mãos, eu os declaro casados no nome do Pai, do Filho, e
do Espírito Santo.

Deus o pai, Deus o filho, Deus o Espírito abençoe, preserve
e guarde-os; o Senhor misericordiosamente com o seu favor olhe para vós;
e assim vos encha de todas as bênçãos e graças
espirituais, para que no mundo por vir tenhais vida eterna. Amém!

Estava terminada a cerimônia. Houve um movimento, como nos templos
católicos, para felicitar o feliz par, capaz de jurar em tão
pouco tempo tantos juramentos de eternidade. As senhoras afiavam um sorrizinho
e os homens iam em fila tocantemente indiferentes.

E da féerie do templo, por cima dágua, do mais lindo templo
evangelista, onde as luzes ardiam por trás dos vitrais numa confusa
irradiação de cores, começaram a sair os convidados.
Carros estacionavam na escuridão da praça com os faróis
acesos carbunculando… Eu assistira a um casamento sensacional.

No dia seguinte fui à residência do pastor Camargo.

No ano de 1739 falaram com John Wesley, em Londres, oito pessoas que estavam
convencidas do pecado e ansiosas pela redenção. Essas criaturas
tementes da ira futura desejavam que com elas John gastasse algum tempo em
oração. Wesley marcou um dia na semana e daí surgiu a
sociedade unida. Aos que desejam entrar para a sociedade só se exige
uma condição: o desejo de fugirem da ira vindoura e de serem
salvos de seus pecados.

Muita gente há no Brasil receosa da dita ira. A Igreja Metodista,
que é um desdobramento da episcopal, começou os seus trabalhos,
há vinte e sete anos, no Catete, na casa onde está hoje instalada
a pensão Almeida. Tinha apenas sete membros e os missionários
mandados pelo board americano, os Revs. Ransom, Cowber, Tarbou Kennedy, sabiam
que desses sete já quatro eram metodistas nos Estados Unidos. Hoje
a Igreja conta cinco mil membros, todos os anos o número aumenta, as
igrejas surgem, fundam-se colégios, e as missões levam aos recessos
do pais, perseguidas, corridas à pedra, a palavra de Cristo. Só
o templo da praça José de Alencar custou 107 contos; há
missões e igrejas em Petrópolis, na Paraíba, em São
Paulo, em Itapecerica, São Roque, Piracicaba, Capivari, Taubaté,
Cunha, Amparo; todo o Estado de Minas e o Rio Grande estão cheios de
metodistas, e os missionários chegaram até Cruz Alta e Forqueta,
no desejo tenaz de prolongar a fé.

Os metodistas têm um grande dispêndio anual. No Rio contribuem
para as despesas do pastor em cargo, presbítero-presidente, bispos,
missões domésticas, missões estrangeiras, educação
de pensionários, Sociedade Bíblica Americana, pobres, atas,
construções, casa publicadora, ligas Epworth, escolas dominicais,
sociedade auxiliadora de senhoras, de modo que, sendo a média de cada
contribuinte de vinte e nove mil réis, a despesa geral eleva-se anualmente
a quantia superior a vinte contos. Há cinqüenta e seis sociedades
e dezesseis casas de culto, cujo valor é de trezentos e dezenove contos,
oito residências e nove colégios, e o valor desses é de
quatrocentos e sessenta contos.

Quando cheguei à residência de Jovenilo Camargo, ordenado presbítero
há dois anos, estava edificado da situação financeira
da igreja, dessa excelente situação. Camargo é paulista,
simples e amável. Recebeu-me no seu gabinete de trabalho, donde se
descortina todo um trecho belo da praia de Botafogo.

– Há quanto tempo está aqui?

– Há dois anos; os pregadores metodistas não levam mais de
quatro anos em cada igreja.

– Quais são os pregadores atualmente no Rio?

– Rev. Parker, da Igreja Evangélica; Guilherme da Costa, que prega
em Vila Isabel e no Jardim Botânico, e eu.

Os metodistas têm uma grande quantidade de ministros e de oficiais
de igreja, bispos, presbíteros, pregadores em cargo e em circuito,
diáconos itinerantes, presbíteros itinerantes, pregadores supranumerários,
locais, exortadores, ecônomos, depositários.

– Para cada distrito; na cidade propriamente há apenas os pregadores
locais e os ecônomos que tratam das questões financeiras, uma
junta de sete membros, que atualmente é composta dos Srs. Joaquim Dias,
João Medeiros, Manuel Esteves de Almeida, José Pinto de Castro,
Antônio Joaquim e Elesbão Sampaio.

– Há vários jornais metodistas?

– A Revista da Escola Dominical, em São Paulo; O Expositor Cristão,
órgão da conferência anual brasileira, dirigido pelos
Srs. Kennedy e Guilherme da Costa; O Juvenil, O Testemunho. Como as outras
igrejas evangélicas, a Metodista tem sociedades internas que a propagam;
a Sociedade Missionária das Senhoras no Estrangeiro, a Sociedade de
Missões Domésticas das Senhoras…

– A liga Epworth…

– A liga Epworth é um meio de graça como o culto, a oração,
as escolas dominicais, as festas do amor. Temos 34 ligas Epworth. As ligas
organizam-se em nossas congregações para a promoção
da piedade e lealdade à nossa igreja entre a mocidade, para a sua instrução
na Bíblia, na literatura cristã, no trabalho missionário
da igreja.

A junta compõe-se de um bispo, seis pregadores itinerantes e seis
leigos, sendo todos eleitos de quatro em quatro anos pela conferência
geral, sob a nomeação da comissão permanente das ligas
Epworth. As ligas locais estão sob a direção do pastor
e da conferência trimensal.

– Mas o meio da propaganda?

– É quase todo literário; a liga é propriamente a difusão
da literatura evangélica.

– O mais admirável entre os metodistas é o maquinismo, o funcionamento
da sua igreja.

– Que é governada por conferências, pode-se dizer. Há
conferências da igreja, mensais, trimensais, distritais, anuais e gerais
de quatro em quatro anos.

Nessa ocasião, Jovelino Camargo ofereceu-me café, e sorvendo
o néctar precioso, eu indaguei:

– Muitos casamentos na capela do Catete?

– Alguns. Para esses atos os pastores procuram sempre os templos mais belos.

– Há muita gente que acredita o vosso casamento uma válvula
que a nossa lei não permite.

– Mas é absolutamente falso, é uma calúnia formidável.
Os evangelistas respeitam antes de tudo a lei do país em que estão.
A totalidade dos nossos pastores não casam sem ver antes a certidão
do ato civil. Ah! meu caro, a calúnia tem corrido, os pedidos são
freqüentes aos ministros evangélicos para a realização
do casamento de pessoas divorciadas, mas nós nos furtamos sempre; e
ainda este mês C. Tacker, Álvaro dos Reis, Antônio Marques
e Franklin do Nascimento fizeram público pelos jornais que não
podiam lançar a bênção religiosa sobre nenhum casal
que não tenha antes contraído matrimônio.

Os meus companheiros Kennedy e Guilherme da Costa comentaram esse manifesto
que o momento exigia. Nós temos uma lei que nos inibe esse crime. Quer
ver?

Ergueu-se, foi à estante, abriu um pequeno livro de capa preta.

– Esta é nossa disciplina, leia.

Ambos curvamos a cabeça, procurando os caracteres à luz fugace
do anoitecer e ambos na mesma página lemos: – “Os ministros de
nossa igreja serão proibidos de celebrarem os ritos do matrimônio
entre pessoas divorciadas, salvo o caso de pessoas inocentes, que têm
sido divorciadas pela única causa de que fala a Escritura…”

Houve um longo silêncio. As sombras da noite entravam pelas janelas.

– A causa única de que fala a Bíblia…

– É preciso afinal compreender que nem todas as igrejas denominadas
cristãs e protestantes, pertencem à Aliança Evangélica
Brasileira e que nós não podemos em nome de Cristo pregar, por
assim dizer, a dissolução moral.

Ergui-me.

– Apesar das injustiças dos homens, a Igreja Metodista caminha.

– E os casamentos honestos são em grande número.

Jovelino Camargo desceu comigo a praia de Botafogo. Vinha, como sempre, calmo,
inteligente e simples.

– Aonde vai?

– A uma festa de amor.

Estaquei. Mas, Senhor Deus, os metodistas davam-me uma excessiva quota de
amor. No dia anterior um casamento, minutos antes o casamento de novo, e agora
ali, na sombra da noite, o pastor que me dizia, como um velho noceur, o lugar
perigoso para onde ia!

– A uma festa de amor? – interroguei, feroz.

– Sim, é uma festa nossa, trimensal, fez a sorrir o puro moço.
Vou fazer oração e participar do pão e da água
em sinal de amor fraternal.

E simplesmente Jovelino Camargo desapareceu na sombra, enquanto eu, olhando
o céu, onde as estrelas palpitavam, rendia graças a Deus por
haver ainda neste tormentoso mundo quem, por seu amor, ame, respeite e seja
honesto.

Os Batistas

E disse o eunuco: Eis aqui está a água. Que embaraço
há para que eu não seja batizado? E disse Felipe: Se crês
de todo o teu coração, bem podes… E desceram os dois, Felipe
e o eunuco, à água, e o batizou…

Estava na rua de Santana, no templo batista, severo e rígido nas suas
linhas góticas. Era de noite. À porta um certo movimento, caras
curiosas, gente a sair, gente a entrar, e um velho blandicioso distribuindo
folhetos.

– Os batistas? Exatamente.

Pego de um folheto, enquanto lá dentro parte um coro louvando a glória
de Deus. Trata do purgatório perante as Escrituras Sagradas e está
na 2.ª edição. Leio na primeira página: “Entre
as diferentes religiões existentes distinguem-se a religião
de Jesus, que nos oferece o céu, e a religião do Papa, que aponta
o purgatório. O Papa prega o purgatório porque ama o nosso dinheiro…”
Com um pouco mais teríamos a Velhice do Padre Eterno!

A Igreja Batista é, entretanto, um dos ramos em que se divide o que
o vulgo geralmente chama protestantismo, é uma das muitas divergentes
interpretações dos Evangelhos.

Há seis séculos chamava-se anabatista.

Seita antiqüíssima, com grandes soluções de continuidade,
desaparecendo muita vez na história sob o martírio das perseguições,
sem deixar documentos, mas nunca de todo se perdeu.

Hoje, como as outras seitas que asseguram ser as únicas e verdadeiras
intérpretes da Bíblia, o seu foco principal são os Estados
Unidos, mas o mundo está cheio de anabatistas e um magnífico
serviço de propaganda na China, no Japão, na África,
na Itália, no México e no Brasil aumenta diariamente o número
de adeptos.

O movimento das missões é tão intenso que até
tem um jornal informativo: The Yorking Mission Journal.

Isso não impede que a controvérsia os selecione e que a crítica
os divida. Nos Estados Unidos a igreja está dividida em batistas cristãos,
novos batistas, batistas rigorosos, batistas separados, batistas liberais,
batistas livres, anabatistas batistas, crianças batistas gerais, batistas
particulares, batistas escoceses, batistas nova comunhão geral, batistas
negros, batistas do braço de ferro, batistas do sétimo dia e
batistas pacíficos.

Aos batistas daqui, pacíficos, cristãos e misturados, bem se
pode chamar: – do braço de ferro, desde que braço signifique
a decisão e a força com que arredam as nuvens da Luz. A história
da igreja do Rio começa em 1884 com a chegada do Sr. e da Sra. Bagby.

O Sr. Bagby foi o patriarca. Quatro dias depois de chegar, organizou a igreja
na própria casa, com quatro ovelhas, isto é, com quatro cidadãos.
Um ano depois mudava-se para a rua do Senado já com outros recursos,
passava a pregar na rua Frei Caneca, na rua Barão de Capanema, quase
sem abandonar o rebanho, durante anos a fio, e, passado o décimo primeiro,
instalava-se num templo próprio, edifício que custou cinqüenta
e um contos.

Era nesse templo que eu estava, defronte da igreja da Senhora Sant’Ana, lendo
trechos do tal Purgatório, em que uma igreja solapa a outra por amor
do mesmo Cristo misericordioso. O velho blandicioso, porém, apertando
um maço de Purgatórios debaixo do braço, empurrava-me
com um ar de cambista depois do 2.º ato.

– Entre, entre, o senhor vai perder!

Foi então que eu entrei. Todos os bicos de gás silvavam, enchendo
de luz amarela as paredes nuas. No fundo, em letras largas, que pareciam alongar-se
na cal da parede, esta inscrição solene negrejava: – “Deus
amou o mundo de tal maneira que deu a seu filho unigênito para que todo
aquele que nele crer não pereça, mas tenha vida eterna.”
Na cátedra ninguém. Do lado esquerdo, o órgão
e diante dele uma senhora com a fisionomia paciente, e um cavalheiro irrepreensível,
sem uma ruga no fato, sem um cabelo fora da pasta severa. Pelos bancos uma
sociedade complexa, uma parcela de multidão, isto é, o resumo
de todas as classes. Há senhoras que parecem da vizinhança,
em cabelo e de matinée, crianças trêfegas, burgueses convictos,
sérios e limpos, nas primeiras filas, operários, malandrins
de tamancos de bico revirado, com o cabelo empastado em cheiros suspeitos,
soldados de polícia, um bombeiro de cavanhaque, velhas pretas a dormir,
negros atentos, uma dama de chapéu com uma capa crispante de lentejoulas,
cabeças sem expressão, e para o fim, na porta, gente que subitamente
entra, olha e sai sem compreender. O templo está cheio.

O pastor parece concentrado, olhando o rebanho de ovelhas, a maior parte
ignorante do aprisco. Nessa noite não se perde em erudições
teológicas; nesta noite chama com o órgão do Senhor os
carneiros sem fé. E é uma coisa que se nota logo. A propaganda,
a atração da Igreja é a música. Ganham-se mais
fiéis entoando um hino que fazendo um sábio discurso cheio de
virtudes. O Sr. Soren, o pastor calmo, irrepreensível, parece compreender
os que o freqüentam, sem esquecer sua missão evangélica.
E positivamente o professor. Sem o perfume dos hinários e sem aquelas
letras negras da parede, a gente está como se estivesse numa aula de
canto do Instituto de Música, ouvindo o ensaio de um coro para qualquer
chêche mundana…

Vamos mais uma vez, diz ele com um leve acento inglês. Este hino é
muito bonito! Cantado por duzentas vozes faz um efeito! Sabem a letra? Vamos…
A dama, com um ar de bondade indiferente, corre o teclado, acordando no órgão
graves e profundos sons que se perdem no ar vagarosamente. Depois, receosa,
acompanhando cada acorde, a sua voz, seguida da do pastor, começa:

Oh! Se-e-nhor!…

Muitos lêem os versos, acompanhando a voz do pastor, outros, nervosos,
precipitam o andamento. Mas naquele ensaio, logo me prende a atenção
um preto de casaco de brim sem colarinho. O órgão domina-o como
um som de violino domina os crocodilos. Nos seus dentes brancos, nos olhos
brancos, de um branco albuminoso, correm risos de prazer. Sentado na ponta
do banco, os longos braços escorrendo entre os joelhos, a cabeça
marcando o compasso, ele segue, com as mandíbulas abertas, os sons
e as vozes que os acompanham. Depois, como o Sr. Soren diz:

– Vamos repetir. Já se adiantaram. Um, dois, três!

Oh! Se-e-e-nhor!…

o negro também, abrindo a fauce num repuxamento da face inteira, cantou:

Oh! Se-e-e-nhor!

E todo o seu ser irradiou no contentamento de ter decorado o verso bonito.

Eu curvei-me para o velho, que passava com outro maço de Purgatórios
debaixo do braço:

– Vem sempre aqui, aquele?

– Vem sim, é fiel. Eu é que não sou…

E, confidencialmente, desapareceu.

Entretanto o hino acabara bem. Quase que houve palmas. Estavam contentes.

O Sr. Soren consultou o relógio e aproveitou a boa vontade dos irmãos.

– Vamos, mais um hino. É lindo! Estudemos só a primeira parte.
De Deus até Salvador.

A organista tocou primeiro a música para que os batistas aprendessem
o tom, e todos começaram o novo hino, as crianças, as senhoras,
os homens graves, enquanto o negro abria as mandíbulas e uma velha
fechava os olhos enlevados e sonolentos. Quando as vozes pararam num último
acorde, o Sr. Soren disse algumas palavras sobre a glória do Senhor
e estendeu as mãos.

Amém! Estava acabado o estudo. Alguns crentes demoraram-se ainda,
o negro saiu dando grandes pernadas, outros estremunhavam. Mandei então
o meu cartão ao Sr. Soren, que se apoiava ao órgão rodeado
de damas veneráveis.

Esse homem é amabilíssimo. Nascido no Rio, de uma família
francesa que fugia às perseguições religiosas da França,
estudou nos Estados Unidos e é bacharel. No seu gabinete, ao fundo,
limpo e brunido, onde se move com pausa, tudo respira asseio e austeridade.
Soren mostra a biblioteca, encadernações americanas de percaline
e couro, bate nos livros recordando as dificuldades do estudo, a aridez, o
que certos autores custavam.

– Para tudo isso há a compensação da verdade que conforta
– diz.

A verdade deve confortar como um beef. Guardo, porém, essa comparação.

Os batistas, firmados na Bíblia, assim como praticam o batismo por
imersão, não comem carne com sangue… Limito-me a dizer.

– A sua crença?

– Mas nós cremos que a Bíblia foi escrita por homens, divinamente
inspirados, que têm Deus como autor e a salvação como
fim; cremos que a salvação dos pecados é totalmente de
graça pelos ofícios medianeiros do filho de Deus; cremos que
a grande bênção do Evangelho que Cristo assegurou é
a justificação; e cremos na perseverança, no Evangelho,
no propósito de graça, na satisfação que começa
na regeneração e é sustentada no coração
dos crentes.

O Sr. Soren pára um instante.

– Cremos também – continuou -, que o governo civil é de autoridade
divina, para o interesse e boa ordem da sociedade e que devemos orar pelos
magistrados.

– E crêem no fim do mundo?

– … Que se aproxima.

Enquanto, porém, o fim não aparece, a propaganda batista é
feita com calor no Brasil: em São Paulo, na Bahia, em Pernambuco, no
Pará, no Amazonas. No Rio existem os Srs. Entznimger e esposa, Deter
e esposa e o Sr. Soren, criaturas de pureza exemplar. Na cidade há
quatro congregações. Os pastores, dos quais foi sempre o principal
o Sr. Bagby, que se retirou em 1900, têm pregado na rua D. Feliciana,
no Estácio de Sá, em Madureira, no morro do Livramento, em São
Cristóvão, na ladeira do Barroso, em Paula Matos, em Santa Teresa,
na Piedade, no Engenho de Dentro, na rua Barão de São Félix.

O Evangelho caminha.

E são grandes os progressos?

– Ricamente abençoado o trabalho. Pelos dados que tenho, realizaram-se
em 1903 cerca de mil batismos, foram organizadas dez igrejas novas, edificaram-se
três templos novos e a contribuição das igrejas foi de
50:000$000. Há dois anos que estamos no Brasil. Os batistas aumentaram
de 500 a 5.000, de 5 igrejas a 60. A nossa casa publicadora já editou,
além do Jornal Batista e do Infantil, mais de um milhão de páginas
em folhetos.

– Qual a publicação que tem agradado mais?

– O Cantor Cristão!

A música, o som que convence, a crença em harmonia!

Os gregos admiráveis já tinham no seu divino saber descoberto
a propriedade sutil, e na Lacedemônia os rapazes recebiam o amor da
pátria ao som das flautas, em odes puras! Já nos íamos
despedir. O pastor deu-nos o seu jornal, com um artigo de D. Arquimina Barreto,
uma erudita senhora.

– Somos todos iguais perante Deus. No templo pode falar o mais ignorante
como o mais sábio… Deus deseja a virtude antes de tudo. D. Arquimina
alia as virtudes a um grande saber.

– E, a propósito, aquela senhora organista é sua esposa?

– Não, eu ainda me vou casar nos Estados Unidos.

E eu saí encantado com a clara inteligência desse pastor, que
espera calmo e virtuoso o fim do mundo, enquanto, à porta, o velho
blandicioso distribui Purgatórios contra os padres e as moças.

A A.C.M.

– Olhe as terras onde se propaga o Evangelho.

Desde um ao outro pólo,
Da China ao Panamá,
Do africano solo
Ao alto Canadá

a A.C.M. conquista, suaviza, prestigia e guia…

Nós acabávamos de jantar e o meu ilustre amigo, com um copo
d’água pura na mão, dizia-me coisas excelentes.

– O nosso movimento, continuou, conta entre os seus amigos Eduardo da Inglaterra,
o príncipe Bernadotte da Suécia, o presidente dos Estados Unidos
e Guilherme II. Na França, ministros de Estado aceitam cargos de administração
da A.C.M.; na Inglaterra os seus edifícios erguem-se em todas as cidades
como os grandes lares da juventude honesta, e por toda a parte ela reforma
os costumes e purifica as almas dos moços, tornando-os simétricos
e bons. Você não terá uma idéia integral do movimento
das cinco igrejas evangélicas do Rio sem ir apreciar de perto o capitel
magnífico dessa coluna de branco mármore. A A.C.M. é
o remate admirável da nossa obra de propaganda.

Finquei os cotovelos na mesa com curiosidade.

– Mas a origem da A. C. M. no mundo?

– Shuman, secretário-geral em Buenos Aires, disse-nos na convenção
de 1903 essa origem. Em 1836 apareceu na cidade de Bridgewater, na Inglaterra,
um rapazola de 15 anos, chamado George Wiliams. Mandava-o o pai do campo para
aprender um ofício. George viu que os seus sessenta companheiros eram
de moral duvidosa e sem crença e que de um meio tão grande só
dois ou três oravam ao Redentor. Orou também no seu mísero
quarto, por trás da oficina, durante uma hora. A princípio fazia
só esses exercícios, depois convidou os companheiros, e cinco
anos depois estava em Londres. Londres! a cidade mais populosa do mundo!

Conhece você os perigos das cidades, o desvario, a luxúria,
a perdição, o jogo, a ambição desmedida dos grandes
centros? Onde se congregam mais os homens, aí entra com mais certeza
Satanás, aí grassa mais terrível a epidemia da perdição.
Wiliams na fábrica em que se empregou, não encontrou um só
cristão. Ao cabo de um mês, porém, apareceu um novo empregado,
Christofer Smith, e os dois ligados pela amizade, resolveram a conversão
dos companheiros, convidando-os para estudar a Bíblia e orar. Em pouco
tempo as reuniões cresceram, e a 10 de junho de 1844 representantes
dessas reuniões efetuaram a organização da primeira Associação
Cristã de Moços. Foi seu fundador uma criança de 20 anos,
mandada pelo Salvador a um meio cheio de vícios e de tentações
para lhe dar o bálsamo da honestidade.

A pequena associação estendeu-se a todos os países do
mundo. Hoje há mais de 1.500 na Inglaterra, de 1851 até agora
1.600 fundaram-se só nos Estados Unidos. À primeira convenção
internacional compareceram 39 delegados de 38 associações em
sete países; em 1902 em Cristiania assistiram 2.508 delegados de 31
países. Há 60 anos a A.C.M. iniciou os seus trabalhos; hoje
só na América do Norte há mais de 25.000 moços
estudando a Bíblia nas classes das associações e num
só ano 3.560 professaram a sua fé convertidos na Associação
e 9.600 outros se dedicaram ao serviço do Senhor.

– As A.C.M. não admitem apenas crentes professos?

– Não, a Associação de Londres resolveu, em 1848, receber
como sócios auxiliares os moços de boa moral. Atualmente metade
dos nossos sócios, cerca de 250.000, pertence a essa classe. Mas, meu
caro, é esta uma base luminosa da propaganda, chamar a si os olhos
do mundo, mostrar a pureza num século de impurezas, tolerar e purificar.
Entre os estudantes das escolas, na profissão borboletante do jornalismo,
nas raças mais estranhas, entre chins e caboclos selvagens, na classe
universalmente conhecida pela sua intemperança, nos empregados das
estradas de ferro da América, a propaganda alça por esse meio
a branca flâmula da Associação.

O meu ilustre amigo calou-se. No restaurante o burburinho crescia, senhoras
com toilettes caras, homens contentes, curvavam-se no prazer de comer. Havia
risos, criados passavam com os pratos de cristofle brilhando à luz
dos focos, em baldes de metal as garrafas gelavam e das jarras de cristal
as flores de pano pendiam desoladas ao peso do pó e do tempo. Todos
ali conversavam de interesse, de ambição, de amor, de si mesmos…
Senti-me superior, mandei vir um copo d’água, bebi-o com pureza. Naquela
grande feira nós conversávamos da alma e do bem universal!

– E a A.C.M. do Rio?

– A nossa Associação tem também a sua evolução.
Os primeiros moços cristãos reuniram-se para ouvir Simonton
e Kalley na travessa das Partilhas. Foi aí que germinou a idéia
de uma sociedade evangélica de moços. Em junho de 1866 cerca
de vinte crentes organizaram a Sociedade Evangélica Amor à Verdade,
que se manteve durante quatro anos.

Em 1871 apareceu uma outra sociedade com fins idênticos, funcionando
na travessa das Partilhas e na travessa da Barreira. Esta chamava-se o Grêmio
Evangélico, tinha uma oficina de impressão da qual eram tipógrafos
e impressores os próprios sócios, dirigidos por Antônio
Trajano, Azaro de Oliveira, Carvalho Braga e Ricardo Holden.

Myron Clark, que fez o histórico desse movimento, conta ainda mais,
antes da atual Associação, a Boa Nova, dirigida por A. Seabra,
M. Diel e Antônio Meireles, em 1875; o Grêmio Evangélico
Fluminense organizado por Antônio de Oliveira, Severo de Carvalho, Noé
Rocha e Benjamin da Silva, na rua de S. Pedro, 97, com o fim de manter um
jornal de propaganda, uma classe de música, biblioteca, sessões
literárias; a Associação Cristã dos Moços,
fundada na mesma rua de S. Pedro com uma diretoria composta pelos Srs. João
dos Santos, Antônio Andrade, José Luiz Fernandes Braga e Salomão
Guisburgo, que publicaram o Bíblia, primeiro jornal evangélico
a ocupar-se da mocidade no Brasil; e a Sociedade Evangélica de São
Paulo.

A A.C.M. do Rio foi fundada a 31 de maio de 1893. Vinte e dois moços,
representantes das igrejas Metodistas, Presbiteriana, Fluminense e Batista,
reuniram-se na rua Sete de Setembro, 79 e Myron Clark e Tucker expuseram o
fim da reunião. Dias depois aprovaram os estatutos e elegiam a diretoria:
Nicolau do Conto, Antônio Meireles, Luís de Paula e Silva Myron
Clark e Irvine. Não é possível ter feito tanto em tão
pouco tempo! Em 8 de agosto a Associação já estava instalada
na rua da Assembléia e começava a pôr em atividade os
diversos departamentos do trabalho social.

Nem a revolta, nem os bombardeios, nem a agitação apavorada
da cidade conseguiram esfriar o santo entusiasmo. Quando os tiros eram muitos,
a Associação fechava as suas salas, para no outro dia abri-las;
as aulas funcionavam; e no dia 12 de outubro, quando toda a gente só
falava em tiroteios, os moços cristãos iam a Copacabana, iniciando
um dos seus ramos de trabalho, a excursão social.

– Como se realizou a compra do prédio?

O evangelista limpou o lábio seco.

– Em 1895, o secretário-geral sugeria a conveniência do projeto.
A diretoria aprovou-o; na reunião da vigília os Revs. Leônidas
da Silva e Domingos Silveira falaram, pedindo donativos e compromissos mensais
para criar-se um fundo especial, e nesta ocasião começaram os
trabalhos da comissão dos compromissos. A Associação
tem tido poderosos auxílios estrangeiros, tem em Fernandes Braga, uma
alma pura e nobre, um grande esteio, mas no fim da reunião da comissão
verificou-se que a soma total dos compromissos era de 65$000 mensais.

– Deus do Céu!

– O patrimônio da Associação eleva-se hoje a mais de
cem contos. Fernandes Braga comprou o terreno, James Lawson ofereceu-se para
emprestar o dinheiro das obras, abriu-se uma subscrição, Braga
deu dez contos e Lawson dois; a comissão, composta de Fernandes Braga
Júnior, Lisânias Cerqueira Leite, Luís Fernandes Braga,
Domingos de Oliveira e Oscar José de Marcenes, multiplicou-se. Dois
anos depois inaugurava-se o edifício, a casa dos moços, a obra
de Deus, como diz o Rvdm. Trajano. A nossa satisfação, porém,
meu caro, não vem apenas da realização desse tentamen.

A A.C.M. do Rio acendeu nos evangelistas do Brasil o desejo de associações
idênticas. Eu, só, posso citar a Associação Cristã
de Moços de Belo Horizonte, a Sociedade de Moços Cristãos
de Castro (do Paraná), a A.C.M. de Sorocaba, a Associação
Educadora da Bahia, a de Taubaté, a Legião da Cruz, a Milícia
Cristã, a Associação de Santo André no Rio Grande,
a Associação Cristã dos Estudantes no Brasil, filiada
à Federação dos Estudantes no Universo, de São
Paulo, a do Natal e a de Nova Friburgo.

Dentro em pouco estaremos como os Estados Unidos.

– Prouvera a Deus!

Tínhamo-nos erguido.

– Onde vai?

– Por aí, passear, ver.

– Pois venha comigo à Associação, agora. São
7 horas, estão funcionando as aulas. Venha e terá uma impressão
do que é o centro do evangelismo no Brasil.

E saímos pelas ruas pouco iluminadas, em que a chuva miúda
punha um véu de névoas.

A Associação não é nem uma igreja nem uma sociedade
mundana, embora possua característicos profanos e seculares; é
a casa dos moços, o segundo lar que supre as necessidades intelectuais
com biblioteca, cursos, aulas, conferências; mantém a sociabilidade
da juventude em salões de diversões, desenvolve-lhe o físico
com ginásticas, jogos atléticos, passeios, piqueniques e, conjuntamente,
lhe faz sentir a necessidade da religião. Há nessa instituição
de fonte inglesa o desejo de um equilíbrio, a vontade de criar o moço
simétrico, o desenvolvimento harmonioso, num ser vivo, da inteligência,
do físico, da natureza social e da alma.

O homem nas grandes cidades perde-se. A Associação ampara-o,
serve-lhe de escola, de clube, de lar, de templo, dá-lhe banho, conversas
morais, pingue-pongue, danças, aulas noturnas, ensina-lhe a Bíblia,
põe-lhe à disposição os jornais do mundo, fá-lo
assistir a conferências sobre assuntos diversos. O moço deixa
o lar paterno e, enquanto por sua vez não forma outro lar, fica nesse
ambiente de honestidade, não só se tornando o tipo admirável
do equilíbrio, como preservando das avarias e dos sofrimentos a prole
futura.

A Associação é o conforto, a paz e broquel da honestidade
por estes turvos tempos. Tudo quanto ensina é útil, tudo quanto
diz é honesto, tudo quanto faz é para o bem.

Ao subir as altas escadarias, recordei a frase do meu amigo. A Associação
é o capitel, é a razão de ser da futura propaganda, é
o centro do evangelismo, a maneira eficaz por que todas as igrejas evangelistas
demonstram na sua perfeita integridade a vida do cristão.

Quando chegamos lá em cima, funcionavam as aulas: na sala de diversões
jogava-se o crokinole e o carroms; a um canto conversava-se. Todos estavam
bem dispostos e riam com prazer. O meu ilustre amigo apresentou-me ao presidente,
Braga Júnior, um moço inteligente, extremamente modesto; ao
secretário, de uma distinção perfeita; e os dois mostraram-me,
simples e sem exageros, os vastos salões, o de ginástica, o
das conferências, o de estudos bíblicos, aulas, a secretaria,
a biblioteca.

A gentileza peculiar aos evangelistas cativava naquele vasto prédio,
cheio de vida e de mocidade. Cada frase do secretário era uma noção
exata, cada reflexão do presidente tinha um grande ar de bondade e
de modéstia. As mobílias eram novas e por toda a parte os conselhos
cristãos abundavam.

– Não admire aqui, disse o meu amigo, senão a vida do civilizado
e do honesto. Você conversou com os pastores, esteve com os missionários,
assistiu ao culto nas nossas igrejas, viu o esforço das missões.
Veja agora apenas a vida. Estes que aqui estão, meu amigo, livres estão
dos três horrendos animais da visão dantesca. Não os aterram
a pantera da literatura pornográfica, o leão do jogo da bola
e a loba da lascívia. E, por isto, salvos por Cristo, serão
maiores amanhã e mais fortes.

Senhor! parecia uma conversão! Apertei-lhe a mão, deixei-o
jogando pingue-pongue, desci os dois andares. Na rua ventava uma chuva fria
e penetrante. A loba, a lascívia, a pantera, a pornografia, o leão,
o jogo, a eterna vida! Quantos neste mundo se salvaram dos animais simbólicos
na grande banalidade da existência, quantos?

Como apertasse a chuva, embrulhei-me mais no paletó, atravessei as
ruas escuras recordando a aparição que fizera recuar o Dante
até lá dove’l sol tace.

Mas sem gritar e sem ver o vulto da salvação, porque talvez
a tivesse deixado no salão de divertimentos, na doce paz daquelas almas
fortes e tranqüilas

Irmãos e Adventistas

Na própria A.C.M. eu soube que o evangelismo ainda tinha duas igrejas
no Rio, os irmãos e os sabatistas. Dos irmãos, apesar dessa
classificação tão parternal, o meu informante só
conhecia um probo negociante da rua do Hospício.

Esse negociante era um homem baixo, simples e modesto, vendendo relógios
e amando a Deus. Recebeu-me por trás do mostrador, e quando soube que
tinha sob os olhos um curioso, pasmou.

– Interessa-lhe muito saber o que são os cristãos?

– Os irmãos…

– Perdão, os cristãos.

– Era para mim um grande favor.

Ele coçou a cabeça, alegou uma grande ignorância, com
humildade. Depois, como eu continuava diante dele, resolvido a não
sair, resignou-se.

– Os irmãos que se reúnem à rua Senador Pompeu, n.0
121 denominam-se cristãos.

Não precisa perguntar porque. Leia os atos dos Apóstolos capítulo
11, versículo 26. Existem no Rio, há vinte e cinco anos. Não
tem templo próprio, reúnem-se em casa de um irmão como
deve ser. Leia a Epístola de São Paulo aos Romanos, capítulo
16, versículo 5. Os seus estatutos, a sua regra de fé são
as Escrituras e a sua divisa é não ir além delas. Leia
a 1 a Epístola aos Coríntios, capítulo 4, versículo
6.

– E o pastor, quem é?

– Reconhecemos como único pastor a Jesus Cristo. Leia São João,
capítulo 10, versículos 11 a 16. O governo da igreja está
ao cuidado dos anciãos ou mais velhos, que fazem esse serviço
sem outra remuneração que não sejam o respeito e a honra
da igreja. Leia os Atos… Como não nos achamos autorizados pelas Escrituras,
não celebramos casamentos, reconhecemos o instituído pelas potestades
legalmente constituídas, a quem buscamos obedecer, desde que não
contrariem as determinações de Deus. Leia a Epístola
aos Romanos versículos 1 a 6. Naturalmente cuidamos dos pobres e dos
enfermos, fazendo coletas e seguindo o ensino das Escrituras. Veja a Epístola
aos Coríntios.

– Como se pratica o culto?

– No primeiro dia da semana congregamo-nos para celebrar a festa da Páscoa
cristã, ou a Ceia do Senhor, às 11 da manhã com pão
e vinho. Nessa ocasião adoramos a Deus, entoando hinos e lendo as Escrituras,
interpretando-as e edificando a alma com muitos outros dons do Espírito
Santo. Basta ler a neste respeito São Paulo e os Atos e o Evangelho
segundo São Mateus. Reunimo-nos também aos domingos das 5½
às 6½ da tarde para estudar as Escrituras. Das 6½ às
7½ prega-se o Evangelho.

Era simples, puro, primitivo. Aquele relojoeiro, que a cada palavra parecia
amparar a sua autoridade na palavra da Bíblia, enternecia.

– E que se diz nessa hora de domingo aos pobres pecadores e irmãos?

– Vede os Atos, São Paulo, São João… Só há
um Salvador, só há um meio para o perdão dos pecados
e só existe um mediador entre Deus e os homens – é nascer de
novo, é nascer do Espírito Santo. Esperemos a sua chegada.

– Então, Cristo está para chegar.

Gravemente o honesto irmão olhou-me.

– Talvez demore. Talvez venha aí… A corrupção é
tanta que só ele a pode extinguir.

Saí meio aflito. É possível que ainda se encontre um
cristão de conto católico em plena cidade do vício, é
possível essa candura?

Estava de tal forma nervoso que, sabendo obter de um crente em Niterói
informações sobre os adventistas, escrevi logo uma carta espetaculosa,
pedindo-lhe uma nota de efeito.

No dia seguinte lia esta resposta lacônica e seca: – “I;mo. Sr.
– Se quiser compreender a verdade de Deus, venha V. S. até ao nosso
templo, em Cascadura.”

Era uma recusa? Era uma lição? Guardei a carta humilhado, porque
grande crime é para mim magoar a crença de qualquer, e estava,
domingo, tristemente lendo, quando à porta surgiu um homem de negra
barba cerrada, vestido numa roupa de xadrez. Olhou-me fixamente, limpamente,
e a sua voz, de uma inédita doçura, disse:

– Eu sou o crente a quem há tempos escreveu!

Levantei-me nervoso. A tarde de inverno, caindo, punha pela sala uma aragem
álgida, e a minha pobre alma estava num desses momentos de sensibilidade
em que se crê no maravilhoso e nos espaços. Fui excessivo de
gentileza. Pedia perdão, de não ter obedecido ao convite, mas
era tão longe, tão vago, em Cascadura…

O crente fervoroso sentou-se, pousou a sua mala no chão, encostou
o velho guarda-chuva à parede.

– Não é bem em Cascadura, fica entre Cupertino e essa estação,
deixei de mandar-lhe as notas porque não me achava com competência
para as dar. São João disse. Temei a Deus e dai-lhe Glória.
Eu sou muito humilde, só lhe posso dar a minha crença.

– Mas uma simples informação?

– Era preciso consultar os meus irmãos.

Eu ficara na sombra, a luz batia-lhe em cheio no rosto. Reparei então
nos traços dessa fisionomia. O lábio era quase infantil, os
dentes brancos, pequenos, cerrados, e toda aquela espessa barba negra parecia
selar potentemente a inefável bondade do seu perfil. De resto o crente
era tímido, cada palavra sua vinha como um apostolado que se desculpa
e a sua voz persuasiva ciciava baixinho a crença do Infinito, com um
conhecimento dos livros sagrados extraordinário.

– Mas a origem dos adventistas? – indaguei eu.

O crente puxou a cadeira.

Uma discussão que se levantou na América em 1840 e na qual
Guilherme Miller ocupou lugar saliente. Os adventistas esperavam o fim do
mundo em 1844, porque a profecia de Daniel, no capitulo 8 versículo
14, diz que o santuário será justificado ou purificado ao fim
do decurso do período profético de 2.300 dias.

– Deus! em tão pouco tempo?

– Dias proféticos equivalentes a um ano. Os adventistas julgavam que
o 2.300 era o ano de 1.844 e que a justificação ou purificação
do santuário importaria em ser queimada a terra com a vinda de Cristo.

Esperavam pois a vinda de Jesus.

Olhei o crente. Os seus olhos eram beatos como os olhos dos puros.

– Ora o tempo passou e Cristo não veio…

– Sim – fez ele -, e claro ficou o erro. Ou houve falta na contagem dos 2.300
dias ou a purificação do santuário não era purificação
da terra na segunda vinda de Cristo. Mas a questão agitara o estudo.
A coisa foi examinada e duas opiniões se formaram. Uns julgavam que
o período profético ainda não decorrera, outros, com
lento trabalho, chegaram à convicção de que o erro existia
na palavra santuário.

– Então o santuário?

– Não tem aplicação à terra, mas verdadeiramente
ao céu, onde Jesus Cristo entrou no fim desse período de tempo,
para purificá-lo com o seu próprio sangue, conforme está
descrito.

A classe que aceitou essa interpretação é a que se chama
adventistas do 7.º dia. Não marcamos tempo nem cremos que qualquer
período profético assinalado na Bíblia se estenda até
nós.

– Então aceitam como base da fé?

– A Bíblia Sagrada, a palavra de Deus, sem tradições,
e a autoridade de qualquer igreja. Cristo é o Messias prometido, só
por ele se obtém a salvação. As pessoas salvas observam
os dez mandamentos inclusive o 4.º, celebram a Santa Ceia do Senhor,
em conexão com o ato de humildade praticado por Jesus Cristo, crêem
na ressurreição, que os mortos dormem até esse momento,
conforme as palavras do Salvador em São João..

– A ressurreição?

– Sim, a dos justos far-se-á na segunda vinda de Cristo, a dos ímpios
mil anos depois, com um grande fogo que os queimará e purificará
a terra!

– Então não é cedo?…

– Infelizmente, parece. Nós fazemos o bem, temos uma missão
médica, que envia facultativos a toda a parte do mundo, fundamos sanatórios,
e, crendo que a educação intelectual não basta, conseguimos
escolas industriais.

À semelhança do cristianismo nos tempos apostólicos
o adventismo tomou um rápido incremento, elevando-se o número
de crentes a 80.000, segundo as profecias sagradas.

– E a obra no Brasil?

– A obra no Brasil começou em 1893, contando hoje um número
de membros leigos de 800 a 900 espalhados na maioria pelos Estados de Paraná,
Santa Catarina, Rio Grande do Sul, contando o seu corpo eclesiástico:
três pregadores ordenados, três licenciados, dois missionários
médicos, dois professores diretores de escolas missionárias
e onze professores de escolas paroquiais, sete colportores evangelistas, uma
revista O Arauto da Verdade e um redator.

Na sua organização outros membros ocupam cargos segundo os
dons manifestados e conforme a necessidade do trabalho na obra de Deus.

Tem quinze igrejas organizadas.

O atual presidente do trabalho é um médico missionário
Dr. H. F. Graf, residente em Taquari – Rio Grande do Sul – e o secretário-tesoureiro,
o irmão A . B. Stauffer, residente no Distrito Federal, em Cascadura.

Há ainda uma comissão administrativa composta de sete pessoas,
duas escolas missionárias, uma em Taquari no Rio Grande do Sul, outra
em Brusque, Santa Catarina, e onze escolas paroquiais.

Ele levantara-se. Terminada a informação, partia como um personagem
de lenda. Pegou da mala, do guarda-chuva.

– Bernardino Loureiro, quando quiser…

Apertei-lhe a mão com reconhecimento. Se há no mundo momentos
fugazes de sinceridade, a presença desse varão mos tinha dado
com a extrema paz que vinha da sua palavra.

– Diga-me uma coisa, uma última. E Cristo? Quando vem Cristo?

– Os sinais que deviam preceder a sua vinda, conforme Ele mesmo predisse
em Mateus, cumpriram-se. É de crer que a sua vinda esteja próxima.

– Quando?

– Ainda nesta geração, talvez amanhã, quem sabe?

Tornou a apertar-me a mão, sumiu-se. Passara como o anunciador, apagara-se
como um raio de sol.

A noite caíra de todo. As trevas subiam lentamente pelas paredes,
e a brisa úmida, entrando pelas janelas, sacudia as folhas de papel
esparsas, num tremor assustado.

O Satanismo

Os Satanistas

– Satanás! Satanás!

– Che vuoi?

– Não o sabes tu? Quero o amor, a riqueza, a ciência, o poder.

– Como as crianças, as bruxas e os doidos – sem fazer nada para os
conquistar.

O filosófico Tinhoso tem nesta grande cidade um ululante punhado de
sacerdotes, e, como sempre que o seu nome aparece, arrasta consigo o galope
da luxúria, a ânsia da volúpia e do crime, eu, que já
o vira Exu, pavor dos negros feiticeiros, fui encontrá-lo poluindo
os retábulos com o seu deboche, enquanto a teoria báquica dos
depravados e das demoníacas estorcia-se no paroxismo da orgia… Satanás
é como a flecha de Zenon, parece que partiu, mas está parado
– e firme nos corações. Surgem os cultos, desaparecem as crenças,
esmaga-se a sua recordação, mas, impalpável, o Espírito
do Mal espalha pelo mundo a mordacidade de seu riso cínico e ressurge
quando menos se espera no infinito poder da tentação.

Conheci alguns dos satanistas atuais na casa de Saião, o exótico
herbanário da rua Larga de São Joaquim, o tal que tem à
porta as armas da República. Saião é um doente. Atordoa-o
a loucura sensual. Faceirando entre os molhos de ervas, cuja propriedade quase
sempre desconhece, o ambíguo homem discorre, com gestos megalômanos,
das mortes e das curas que tem feito, dos seus amores e do assédio
das mulheres em torno da sua graça. A conversa de Saião é
um coleio de lesmas com urtigas. Quando fala cuspinhando, os olhitos atacados
de satiríasis, tem a gente vontade de espancá-lo. A casa de
Saião é, porém, um centro de observação.
Lá vão ter as cartomantes, os magos, os negros dos ebôs,
as mulheres que partejam, todas as gamas do crime religioso, do sacerdócio
lúgubre.

Como, uma certa vez, uma negra estivesse a contar-me as propriedades misteriosas
da cabeça do pavão, eu recordei que o pavão no Curdistão
é venerado, é o pássaro maravilhoso, cuja cauda em leque
reproduz o esquema secreto do deus único dos iniciados pagãos.

– O senhor conhece a magia? – fez a meu lado um homem esquálido, com
as abas da sobrecasaca a adejar.

Imediatamente Saião apresentou-nos.

– O Dr. Justino de Moura.

O homem abancou, olhando com desprezo para o erbanário, limpou a testa
inundada de suor e murmurou liricamente.

– Oh! a Ásia! a Ásia…

Eu não conhecia a magia, a não ser algumas formas de satanismo.
O Dr. Justino puxou mais o seu banco e conversamos. Dias depois estava relacionado
com quatro ou cinco frustes, mais ou menos instruídos, que confessavam
com descaro vícios horrendos. Justino, o mais esquisito e o mais sincero,
guarda avaramente o dinheiro para comprar carneiros e chupar-lhes o sangue;
outro rapaz magríssimo, que foi empregado dos Correios, satisfaz apetites
mais inconfessáveis ainda, quase sempre cheirando a álcool;
um outro moreno, de grandes bigodes, é uma figura das praças,
que se pode encontrar às horas mortas… Se de Satanás eles
falavam muito, quando lhes pedia para assistir à missa-negra, os homens
tomavam atitudes de romance e exigiam o pacto e a cumplicidade.

A religião do Diabo sempre existiu entre nós, mais ou menos.
Nas crônicas documentativas dos satanistas atuais encontrei de envoutement
e de malefícios, anteriores aos feitiços dos negros e a Pedro
I. A Europa do século XVII praticava a missa-negra e a missa-branca.
É natural que algum feiticeiro fugido plantasse aqui a semente da adoração
do mal. Os documentos – documentos esparsos sem concatenação
que o Dr. Justino me mostrava de vez em quando – contam as evocações
do Papa Aviano em 1745. Os avianistas deviam ser nesse tempo apenas clientes,
como é hoje a maioria dos freqüentadores dos espíritas,
dos magos e das cartomantes. No século passado o número dos
fanáticos cresceu, o avianismo transformou-se, adaptando correntes
estrangeiras. A princípio surgiram os paladistas, os luciferistas que
admiravam Lúcifer, igual de Adonai, inicial do Bem e deus da Luz.

Esses faziam uma franco-maçonaria, com um culto particular, que explicava
a vida de Jesus dolorosamente. Guardam ainda os satanistas contemporâneos
alguns nomes da confraria que insultava a Virgem com palavras estercorárias:
– Eduardo de Campos, Hamilcar Figueiredo, Téopompo de Sonsa, Teixeira
Werneck e outros, usando pseudônimos e compondo um rosário de
nomes com significações ocultistas e simbólicas. Os paladistas
não morreram de todo, antes se transfusaram em formas poéticas.
No Paraná, onde há um movimento ocultista acentuado – como há
todas as formas da crença, sendo o povo de poetas impressionáveis
-, existem atualmente escritores luciferistas que estão dans le train
dos processos da crença na Europa. A franco-maçonaria, morto
o seu antigo chefe, um padre italiano Vitório Sengambo, fugido da Itália
por crimes contra a moral, desapareceu. No Brasil não andam assim os
apóstatas e, apesar do desejo de fortuna e de satisfações
mundanas, é difícil se encontrar um caso de apostasia no clero
brasileiro. Os luciferistas ficaram apenas curiosos relacionados com o supremo
diretório de Charleston, donde partirá o novo domínio
do mundo e a sua descristialição.

Os satanistas ao contrário imperam, sendo como são mais modestos.

Sabem que Satã é o proscrito, o infame, o mal, o conspurcador,
fazem apenas o catolicismo inverso, e são supersticiosos, depravados
mentais, ou ignorantes apavorados das forças ocultas. O número
de crentes convictos é curto; o número de crentes inconscientes
é infinito.

Seria curioso, neste acordar do espiritualismo em que os filósofos
materialistas são abandonados pelos místicos, ver como vive
Satã, como goza saúde o Tentador.

Nunca esse espírito interessante deixou de ser adorado. No início
dos séculos, na idade-média, nos tempos modernos contemporaneamente,
os cultos e os incultos veneram-no como a encarnação dos deuses
pagãos, como o poder contrário à cata de almas, como
o Renegado. As almas das mulheres tremem ao ouvir-lhe o nome, as criações
literárias fazem-no de idéias frias e brilhantes como floretes
de aço, no tempo do roman

tismo o Sr. Diabo foi saliente. Hoje Satanás dirige as literaturas
perversas, as pornografias, as filosofias avariadas, os misticismos perigosos,
assusta a Igreja Católica, e cada homem, cada mulher, por momentos
ao menos, tem o desejo de o chamar para ter amor, riqueza, ciência e
poder. Bem dizem os padres: Satanás é o Tentador; bem o pintou
Tintoreto na Tentação, bonito e loiro como um anjo…

A nossa terra sofre cruelmente da crendice dos negros, agarra-se aos feiticeiros
e faz a prosperidade das seitas desde que estabeleçam o milagre. Satanás
faz milagres a troco de almas. Quem entre nós ainda não teve
a esperança ingênua de falar ao Diabo, à meia-noite, mesmo
acreditando em Deus e crendo na trapaça de Fausto? Quantos, por conselhos
de magos falsos, em noites de trovoada, não se agitaram em lugares
desertos à espera de ver surgir o Grande Rebelde? Há no ambiente
uma predisposição para o satanismo, e como, segundo o Apocalipse,
é talvez neste século que Satanás vai aparecer, o número
dos satanistas autênticos, conhecedores da Cabala, dos fios imantados,
prostituidores da missa, aumentou. Há hoje para mais de cinqüenta.

Quarta-leira santa encontrei o Dr. Justino no Saião. O pobre estava
mais pálido, mais magro e mais sujo, levando sempre o lenço
à boca, como se sentisse gosto de sangue.

Continua nas suas cenas de vampirismo? – sussurrei eu. Nos olhos do Dr. Justino
uma luz de ódio brilhou.

– Infelizmente o senhor não sabe o que diz! Deu dois passos agitados,
voltou-se, repetiu: infelizmente não sabe o que diz! O vampirismo!
alguém sabe o que isto é? Não se faça de cético.
Enquanto ri, a morte o envolve. Agora mesmo está sentado num molho
de solanéas.

Eu o deixara dizer, subitamente penalizado. Nunca o vira tão nervoso
e com um cheiro tão pronunciado de álcool.

– Não ria muito. O vampirismo como a sua filosofia cooperam para a
vitória definitiva de Satanás… Conhece o Diabo?

A pergunta feita num restaurant bem iluminado seria engraçada. Naquele
ambiente de herbanário, e na noite em que Jesus sofria, fez-me mal.

– Não. Também como o conhecer, sem o pacto?

– O pacto é conhecimento de causa.

Passeou febrilmente, olhando-me como a relutar com um desejo sinistro. Por
fim agarrou-me o pulso.

– E se lhe mostrasse o Diabo, guardaria segredo?

– Guardaria! – murmurei.

– Então venha.

E bruscamente saímos para o luar fantástico da rua. Esta cena
abriu-me de repente um mundo de horrores. O Dr. Justino, médico instruído,
era simplesmente um louco. No bonde, aconchegando-se a mim, a estranha criatura
disse o que estivera a fazer antes do nosso encontro. Fora beber o seu sanguezinho,
ao escurecer, num açougue conhecido. Como todos os degenerados, abundou
nos detalhes. Mandava sempre o carneiro antes; depois, quando as estrelas
luziam, entrava no pátio, fazia uma incisão no pescoço
do bicho e chupava, sorvia gulosamente todo o sangue, olhando os olhos vítreos
do animal agonizante.

Não teria eu lido nunca o livro sobre o vampirismo, a possessão
dos corpos? Pois o vampirismo era uma conseqüência fatal dessa
legião de antigos deuses pagãos, os sátiros e os faunos,
que Satanás atirava ao mundo com a forma de súcubos e incubos.
O Dr. Justino era perseguido pelos incubos, não podia resistir, entregava-se…

Já não tinha espinha, já não podia respirar,
já não podia mais e sentia-se varado pelos símbolos fecundos
dos incubos como as feiticeiras em êxtase, nos grandes dias de sabbat.

Sacudi a cabeça como quem faz um supremo esforço para não
soçobrar também.

O cidadão com quem falava era um doido atacado do solitário
vício astral! Ele, entretanto, febril, continuava a descrever o poder
de Satã sobre os cadáveres, a legião que acompanhou o
Supremo e o inebriamento sabático.

– Mas, doutor, compreendamos. O sabbat em plena cidade? As feiticeiras de
Shakespeare no Engenho Novo?

– Satã continua cultuado, por mais que o mundo se transforme. O sabbat
já se fez até nos telhados. Os gatos e os morcegos, animais
de Satã, vivem entre as telhas.

Lembrei-me de um caso de loucura, um estudante que recebia o diabo pelos
telhados, e morrera furioso. Não me pareceu de todo falso. O sabbat,
porém, o sabbat clássico, a festa horrenda da noite, o delírio
nos bosques em que as árvores parecem demônios, a ronda detestável
das mulheres nuas, subindo aos montes, descendo as montanhas, a fúria
necrófila que desenterrava cadáveres e bebia álcool com
sangue extinguiu-se. A antiga orgia, a comunicação imunda com
o Diabo não passa de contos de demonógrafos, de fantasias de
curiosos. Satã vive hoje em casa como qualquer burguês. Esse
cavalheiro poderoso, o Tinhoso, não vai mais para trás das ermidas
oficiar, as fúrias desnudas não espremem mais o suco da vida,
rolando nas pedras, sob a ventania do cio. Todo o mal que a Deus fazem é
em casa, nos deboches e na prostituição da missa.

E que vida a deles! Agora que o bonde passava pelo canal do Mangue e a lua
batia na coma das palmeiras, o pobre homem, tremendo, contava-me as suas noites
de agonia. Sim, o Dr. Justino temia os lêmures e as larvas, dormia com
uma navalha debaixo do travesseiro, a navalha do Cambucá, um assassino
que morrera de um tiro. As larvas são fragmentos de idéias,
embriões de cóleras e ódios, restos de raivas danadas
que sobem do sangue dos criminosos e do sangue regular das esposas e virgens
aos astros para envolver as criaturas, são os desesperos que se transformam
em touros e elefantes, são os animais da luxúria. E esses animais
esmagavam-no, preparando-o para o grande escândalo dos incubos.

– Mas certamente, fiz para acalmá-lo, Satã, desde que se faz
com o inferno um pacto e uma aliança com a morte, dá o supremo
poder de magia, o quebranto, a bruxaria, o malefício, o envolver das
vontades…

Ele sorriu tristemente, tiritando de febre.

– A magia está muito decaída, eivada de costumes africanos
e misturadas de pagés. Conhece o malefício do ódio, a
boneca de cera virgem? Esmagava-se a cera, modelava-se um boneco parecido
com o odiado, com um dente, unhas e cabelos seus. Depois vestiam-lhe as roupas
da pessoa e no batismo dava-se-lhe o seu próprio nome. Por sobre a
boneca o mago estendia uma corda com um nó, símbolo da sua resolução
e exclamava: – Arator, Lepidator, Tentador, Soniator, Ductor, Comestos, Devorator,
Seductor, companheiros da destruição e do ódio, semeadores
da discórdia que agitam livremente os maléficos, peço-vos
e conjuro-vos que admitais e consagreis esta imagem…

– E a cera morna…

– Animado do seu ódio, o mago dominava as partículas fluídicas
do odiado, e praguejando acabava atirando a boneca ao fogo, depois de trespassá-la
com uma faca. Nessa ocasião o odiado morria.

– E o choque de volta?

– Quando o enfeitiçado percebia, em lugar de consentir nas perturbações
profundas do seu ser, aproveitava os fluídos contra o assassino e havia
conflagração.

O mágico, porém, podia envenenar o dente da pessoa, distender-se
no éter e ir tocá-la.

Havia ainda o envoutement retangular…

Hoje, os feiticeiros são negros, os fluídos de uma raça
inferior destinados a um domínio rápido. Os malefícios
satânicos estão inundados de azeite-de-dendê e de ervas
de caboclos.

Então, encostado a mim, com mau hábito, enquanto o bonde corria,
o Dr. Justino deu-me várias receitas. Como se estuda nesse receituário
macabro o temor de várias raças, desde os ciganos boêmios
até os brancos assustadiços! O sangue é o seu grande
fator: cada feitiço é um misto de imundície e de infâmia.
Para possuir, para amar, para vencer, os satanistas usam, além das
receitas da clavícula, de morcegos, porcos-da-índia, pós,
ervas, sangue mensal das mulheres, ratos brancos, produto de espasmos, camundongos,
rabos de gatos, moedas de ouro, fluidos, carnes, bolos de farinha com óleos,
e para abrir uma chaga empregam, por exemplo, o ácido sulfúrico…

– Com o poder do Horrendo, fez subitamente o médico numa nova crise,
é lá possível temer esse idiota que morreu na cruz? Sabe
que os talmudistas negam a ressurreição?

Levantou-se titubeante, saltamos. O bonde desapareceu. Embaixo, no leito
do caminho de ferro, os rails de aço branquejavam, e, no ar, morcegos
faziam curvas sinistras. O Dr. Justino ardia em febre. De repente ergueu os
pulsos.

– Impostor! Torpe! Salafrário! – ganiu aos céus estrelados.

– Onde vamos?

– À missa-negra…

– Onde?

– Ali.

– Estendeu a mão, veio-lhe um vômito, emborcou no meu braço
que o amparava, golfando num estertor pedaços de sangue coagulado.

Ao longe ouviu-se o silvo da locomotiva.

Então, como possuído do Diabo nos braços eu bati à
porta dos satanistas, ouvindo a sua desgraçada vida e a dor infindável
da morte.

A Missa-Negra

Atravessamos uma aléia de sapucaias. O terreno enlameado pegava na
sola dos sapatos. Justino ia à frente, com um preto que assobiava,
dois cães sujos e magros. Por entre os canteiros incultos crescia a
erva daninha, e os troncos das árvores, molhados de luar, pareciam
curvar-se.

– Entramos no inferno?

– Vamos ao sabbat moderno.

Tínhamos chegado ao velho prédio, que emergia da sombra. O
negro empurrou a porta e todos três, misteriosamente, penetramos numa
saleta quase escura, onde não havia ninguém. Justino lavou as
mãos, respirou forte e, abrindo uma outra porta, sussurrou:

– Entre.

Dei numa vasta sala cheia de gente. Candeeiros de querosene com refletores
de folha pregados às paredes pareciam uma fileira de olhos, de focos
de locomotiva golpeando as trevas numa pertinaz interrogação.
A atmosfera, impregnada de cheiros maus de pó de arroz e de suor, sufocava.
Encostei-me ao portal indeciso. Remexia e gania entre aquelas quatro paredes
o mundo estercorário do Rio. Velhos viciados à procura de emoções
novas, fufias histéricas e ninfomaníacas, mulatas perdidas,
a ralé da prostituição, tipos ambíguos de calças
largas e meneios de quadris, caras lívidas de rôdeurs das praças,
homens desbriados, toda essa massa heteróclita cacarejava impaciente
para que começasse a orgia. Os velhos tinham olhares cúpidos,
melosos, os tipos dúbios tratavam-se entre si de comadres, com as faces
pintadas, e a um canto o empregado dos Correios, esticando o pescoço
depenado de condor, fixava na penumbra a presa futura. Não era uma
religião; era um começo de saturnal.

Senti que me tocavam no braço. Voltei-me. Era um poeta muito vermelho,
que cultivara outrora, numa revista de arte, o satanismo literário.
Desequilibrado, matóide, o Carolino estava ali em parada íntima
de perversão poética.

– Também tu? – fez apertando-me a mão entre as suas viscosas
de suor. – Curioso, hein? Mas palhaçada, filho, palhaçada. É
a segunda a que eu assisto. Uma missa-negra de jornal de Paris com ilustrações
ao vivo… Imagina que nem há padres. O oficiante é o degenerado
que anda à noite pelas praças.

– E as hóstias?

– As hóstias, essas ao menos são autênticas, roubadas
às igrejas. Dizem até… – esticou-se, colocou a boca ao meu
ouvido como quem vai fazer uma espantosa revelação: – dizem
até que há um sacristão na cidade a mercadejá-las.
É para quem quer… hóstias a dez tostões. É boa!

Mas que diferença, meu caro, da missa antiga, da verdadeira!

– Não se mata ninguém?

– É lá possível! E a polícia? Já não
estamos no tempo de Gilles de Rais nem de Montespan… Bom tempo esse!

Pousou os dedos no peito, revirou os olhos saudosos. Era como se tivesse
tido relações pessoais com o Gilles e a Montespan.

A turba entretanto continuava a piar. Todas as janelas fechadas faziam da
sala um forno. Carolino encostou-se também e deu-me informações
curiosas. Estava vendo eu uma rapariga loura, com uma fístula no queixo
e óculos azuis? Era uma troteuse da praça Tiradentes. Certo
homem pálido, que corcovava abanando-se, era artista peladanista, outro
gordo e flácido fazia milagres e intitulava-se membro da Sociedade
de Estudos Psíquicos. Havia de tudo… Uma senhora, vestida de negro,
passou por nós grave, como cansada.

– E esta?

– É a princesa… Uma mulher original, estranha, que já adorou
o fogo…

– Mas você está fazendo romance. Isso é literatura.

– Tudo é literatura! A literatura é o mirífico agente
do vício. Porque estou eu aqui? A literatura, Huysmans, o cônego
Doere do Là-Bas, os livros enervadores. Os que arranjaram estas cenas,
o rapaz dos Correios, o Justino, o Bode…

– O Bode?

É o nome satânico do sacerdote… tem o cérebro como
um sanduíche de literatura.

– Mas o resto, estas quarenta pessoas que eu vejo, tenho a certeza de ver
e que encontrarei talvez amanhã nas ruas?

– Em ruas más… São depravados, pervertidos, doentes, endemoinhados!
Satã, meu amigo, Satã, que os padres arrancam dos corpos das
mulheres no Rio de Janeiro, a varadas.

– É sempre o melhor meio.

– O único eficaz – mas que nos tira a ilusão e a fantasia…
Confesse. É um gozo a descida ao abismo da perdição como
Deus do Mal, este banho de gosma em que, de irreais as cenas, não as
acreditam os nossos olhos, ao vê-las, nem os nossos ouvidos ouvindo-as.
Começa a cerimônia… Entremos. Só falta aqui o falecido
coronel…

Abrira-se uma porta, a da casa de jantar, e a crápula entrava aos
encontrões dando-se beliscões, com o olhar guloso e devasso.
Entramos também.

Como era razoável a desilusão de Carolino! A missa-negra a
que eu assisti, era uma paródia carnavalesca e sádica, uma mistura
de várias missas com invenções pessoais do sacerdote.
Havia frases do ofício da Observância, trechos sacrílegos
do abade Guibourg, a missa de Vintras, esse doido formidável, aparatos
copiados aos Ansanés da Síria e um desmedido deboche, o deboche
do teatro São Pedro em noite de carnaval, se à polícia
não contivesse o desejo e as portas se fechassem. Carolino tinha razão.

O erotismo ambicioso de outrora devia ser mais interessante. Guibourg aspergindo
de água benta o corpo nu da Montespan deitada nos evangelhos dos reis,
os pombos queimados, a paixão de Nossa Senhora lida com os pés
dentro de água, o cibório cheio de sangue inocente no centro
das sensações, tinham um fim. A missa de Ezequiel, o ofício
supremo em que, além de Satã, aparecem Belzebu, Astarob, Asmodeu,
Belial, Moloch e Baal-Phagor, era religiosamente terrível. A que os
meus olhos viam, não passava de fantasia de debochadas e histéricas
necessitando do rifle policial e do chicote.

A casa de jantar estava transformada numa capela. Ao fundo levantava-se o
altar-mor, ladeado de um pavão empalhado com a cauda aberta – o pavão
simbólico do Vício Triunfal. Nos quatro cantos do teto, morcegos,
deitados em corações de papelão vermelho, pareciam assustados.
Panos pretos com cruzes de prata voltadas cobriam as janelas e as portas.

Do altar-mor, que tinha três degraus cobertos por um pelego encarnado,
descia, abrindo em forma de leque, um duplo renque de castiçais altos,
sustentando tochas acesas de cera vermelha. Era essa toda a luz da sala. O
bando tomou posições. Alguns riam; outros, porém, tinham
as faces pálidas, olheirentas, dos apavorados. Nós, eu e o poeta,
ficamos no fim. Um silêncio caiu. Do alto, pregado a cruz tosca, uma
escultura infame pretendia representar Cristo, o doce Jesus! Era um boneco
torpe, de bigodes retorcidos, totalmente excitado, que olhava os fiéis
com um olhar trocista e o beicinho revirado.

– É horrendo.

– Se estamos na casa do horrendo! Guarde a sua emoção. Tudo
isso é religião. O mesmo fazem com Iscariote no sábado
de Aleluia os meninos católicos.

Guardei. Vinham aparecendo aos saltinhos, num andar de marrecos presos, quatro
sacristãos com as sotainas em cima da pele. Esses efebos diabólicos,
de faces carminadas e sorrizinhos equívocos, passeavam pela sala como
ménagêres preocupadas com um jantar de cerimônia, dando
a última de mão à mesa. Depois surgiu um negrinho de
batina amarela, com os pés nus, e as unhas pintadas de ouro. Trazia
os braseiros para o incenso e quando passava pelos homens erguia devagar o
balandrau cor de enxofre. A princesa, adoradora do fogo, olhou-o com gula
e ia talvez falar, quando apareceu o sacerdote acompanhado de um outro sacristão
exótico. À luz dos círios que estalidavam, nessa luz
vacilante e agônica, o mulato era teatral. Alto, grosso, com o bigode
trincado, as olheiras papudas, os beiços sensuais pendentes, fez a
aparição de capa encarnada e báculo de prata, com os
símbolos de Shiva potente.

– Esse homem é doido?

– Um sádico inteligente. Tem como prazer único o crime de um
príncipe que há um ano agitou a moral arquiduvidosa de Londres…
Ainda não conversou com ele? Muito interessante. Há tempos inventou
a divina junção dos sexos num tipo único, o andrógino
satânico. É admirável…

– A literatura! – fiz.

– O Mal! retrucou o poeta cínico, e apontou o Dr. Justino.

O pobre médico encostado a uma das cruzes batia palmas clamando.

– Satanás! Satanás! Nosso Senhor! Acode!

O sacerdote virou-se. A cauda estrelada de um pavão cobria-lhe o peito
da túnica.

Curvou-se, juntou as mãos, e a paródia da missa católica
começou, em latim, mudando apenas Deus pelo Diabo. Era tal qual, curvaturas,
gestos, toques de campainha, resposta de sacristãos, tudo. De repente,
porém, o homem desceu os três degraus, Os sacristãos surgiram
com turíbulos enormes, e ele, despregando a casula surgiu inteiramente
nu, com o cavanhaque revidado, a mão na anca, cruel como o próprio
Rebelde. As mulheres, os pequenos equívocos, o ocultista arrancaram
as roupas, rasgaram-se enquanto o seu dorso reluzente e suado curvava-se diante
dos incensos. Depois de novo, com uma voz do metal bradou:

– Senhor! Satã! Glória da terra! Tu que aclaras os pobres homens,
Fonte de ouro, misterioso Guarda das criptas e dos antros; Tu que moras na
terra onde o ouro vive; Causa dos pecados; Amparo da carne; Delírio
único; Fim da vida; – deixa que te adoremos! Não te exterminaram
as sotainas baratas, não te perdeu o Outro, não se acabará
nunca o teu poderoso império, ó Lógica da Existência!
Satanás, estás em toda a parte, és o Desejo, a Razão
de Ser, o Espasmo! Ouve-nos, aparece, impera! Não vês na cruz
o larápio que roubou a tua lábia e o teu saber?

– Deus! – murmurei.

– Guarde a sua emoção, meu amigo. É do rito. Eles dizem
que Jesus foi a principio, de Lúcifer.

– É preciso encarnar o mágico – continuava o homem – neste
pedaço de pão; é preciso magoá-lo, fazê-lo
sofrer, mostrar-lhe que és único, impassível e admirável.
Que seria da humanidade se não fosse o teu Auxílio, ó
Portador dos gozos, ó Desmascarador das hipocrisias? Todo o mundo soluça
o teu Nome, a Pérsia, a Caldeia, o Egito, a Grécia, a Roma dos
roubadores da tua Pompa. Olha pelo mundo a vitória, os filósofos,
os sábios, os médicos, as mulheres. Os filósofos desviam
o amor do Outro, os sábios alugam a crença, os médicos
arrancam dos ventres a maternidade, fazem as assexuadas delirantes, esmagam
as crianças, as mulheres escorrem a lascívia e o ouro! Nós
todos prostrados adoramos-te, diante do impostor, do mentiroso, desse que
aconselha a renunciar à Carne! Que venha o dinheiro, que venha a Carne!
que se esmague os seios das mulheres e se lhes crave o punhal da luxúria
em frente ao impostor… Jesus há de descer à hóstia;
tu queres!

Deixou cair o braço. Na face dos erotômanos a loucura punha
ritos de angústia.

O sacerdote espumava, e a fumaça dos incensários de tão
espessa parecia envolver-lhe a indecorosa nudez numa clamide de cinza, estrelada
de círios.

– Ó Rei poderoso das satisfações, os que te acreditam,
abandonam as cobardias da vergonha, as pregas do pavor e a estupidez da resignação.
Envia-nos Astaroh, dá-nos o amor, faze-nos gozar o prazer, faze-nos.

Um palavrão silvou, sagrado como a Bíblia. Houve um complexo
de urros e guinchos.

– Amém! – cacarejavam os pequenos.

– Tu que és o Vício Amplo, ajuda-nos a violar o Nazareno para
a glória imensa.

Outro palavrão estalou. Metade do grupo não compreendia o galimatias
blasfemo, mas as frases indignas eram como varadas acendendo a lubricidade,
e a gentalha então, como o gesto lúbrico dos macacos, cuspinhava
impropérios.

O sacerdote não descansou. Atirada a palavra, trepou os degraus, colocou
uma mitra imoral no crânio, e, estendendo entre os dedos uma hóstia
branca de neve, encostou-se ao altar vacilante.

– Que vai ele fazer?

– Vai ao sinistro banal…

Que Deus seria esse? Ia perguntar ao poeta, mas não tive tempo. Um
dos sacristãos trepara ao altar, com o cálice na mão.
Como coroado pelos pés do Cristo, o pequeno com tremores pelo corpo,
tiques bruscos, garrões de nervos, o olhar embaciado sujeitava-se à
estripação do batismo da hóstia, e enquanto o braço
do sacerdote num movimento cruel sacudia-o, a sua voz ia dizendo:

– Que Satã o faça encarnar.

De repente o braço estacou. O pequeno tombara babando. Houve então
a apoteose. Com a hóstia poluída, o homem nu desceu gritando;
os braseiros caíram por terra, os homens ambíguos com gargalhadas
infames rolavam; mulheres estrábicas trepavam pelo altar de quatro
pés, querendo comer as migalhas da hóstia úmida. A rapariga
de óculos azuis com os cabelos presos a um círio estendia o
corpo convulsionado; o ocultista gordo gania, em torno do malandro nu, o sacerdos;
uma teoria de sátiros e fúrias hidrófobas mastigava enojada
os pedaços de hóstia que o rapaz de pescoço de condor
cuspinhara. A fumaça dos círios sufocava, alguns castiçais
tinham caído.

– Hein? – fez o poeta, por pose. Mas tinha os olhos injetados e tremia.

Então, agarrei-o, passamos à sala em que os corpos redemoinhavam
promiscuamente no mais formidável dos deboches entre os círios
tombados. Dois sinetas puxaram-no. Claudino amparou-o no pedestal do pavão,
o Vício Triunfal rolou. Demos na sala dos refletores, desesperados.
A sala parecia na sua solidão uma gare de crime deserta. Entramos na
outra em que Justino rolava num canapé sob a pressão de incubos
suficientes e reais. O negro abriu meia porta:

– Não querem a água maldita?

– Não.

– V. S. vai assustado. Não diga nada, meu senhor. Deus lá em
cima é que lhes dá esse castigo.

Deixei-o falar, deitei a correr como um doido, na noite enluarada. Ouro,
prostituição, infâmia, canalhice, sacrilégio, vergonha!
Mas que é tudo isso diante da castidade imaculada dos elementos? Dos
altos céus imensos que as estrelas cravejam de glória, a lua
derramava por sobre a calma da noite um manto inconsútil de cristal
e ouro, e a terra inteira, cheia de paz e doçura, abria em perfume
sob o sudário de luz, infinitamente casta…

E foi como se, arrancado ao inferno de um pesadelo lôbrego de nojo
e perversão, eu voltasse à realidade misericordiosa de bondade
da vida.

Os Exorcismos

– “Houve um grande combate nos céus. Miguel e os anjos combatiam
contra o dragão que lutava com os seus. Estes, porém, não
tiveram a vitória e desde então foi impossível reachar
o lugar nos céus. O dragão, a antiga serpente chamada diabo
ou sedutor do universo, foi precipitado com os maus anjos sobre a terra. E
esse dragão tinha sete cabeças, dez cornos, sete diademas e
a sua cauda arrastou a terça parte das estrelas

Assim fala São João de Patimos. O dragão e as estrelas
fazem o mundo diabólico, inspiram o mal, arrastam a teoria furiosa
das histéricas e mais do que em qualquer outra terra fazem aqui as
endemoninhadas. Pela classe baixa, nas ruas escusas, as possessas abundam.
De repente criaturas perfeitamente boas caem com ataques, escabujam, arquejam,
cusparam uma baba espessa, com os cabelos tesos e os olhos ardentes. Vêm
os médicos chamam a isso histeria, vêm os espíritas, dão
outra explicação, mas as criaturas só tornam à
vida natural quando um sacerdote as exorcisma. Já vi na Gamboa uma
mulher que ficava dois palmos acima do solo, com os braços em cruz,
gargolejando injúrias ao Criador; tenho a história de uma outra
que babava verde e passava horas e horas enrodilhada, com soluços secos,
e atirava punhadas aos crucifixos numa ânsia incrível. São
sem conta os casos de possessas.

– E toda essa gente é exorcismada?

– Às vezes.

O amigo com quem eu falava era um médico católico.

– O exorcismo pode ser feito por qualquer?

– Hoje não. Atualmente é preciso ser um homem destituído
das vaidades do mundo, é preciso ser velho e puro, dotado de uma força
imperecível. O bispo faz tocar ao padre exorcista o livro das fórmulas,
dizendo: “Accipe et commenda memorae, et habem potestatem imponendi manus
super energumenos…” Aqui no Rio há exorcistas falsos, malandros
exploradores, há os jesuítas, alguns lazaristas e o superior
da ordem dos Capuchos que têm licença do bispo. Conhece frei
Piazza? É uma excelente criatura, feita de bondade e de paz. Nunca
recebe mal. Para cada injúria tem um carinho e guarda como máxima
a grande verdade de que um frade vale por um exército. Que figuras!
Ele pelo menos vale por um exército com a sua carícia e a sua
força. É um desses entes que não param, um militante.
Anda, sai, indaga, conversa, protege, ajuda, converte, exorcisma. Já
o vi uma vez vaiado por alunas de uma escola e rapazes grosseiros, à
toa, sem razão de ser, apenas porque era frade. Frei Piazza, muito
calmo, agradecia com beijos a vaia e cada beijo seu no ar petrificava a boca
de um dos impudentes insultadores. É o nosso primeiro exorcista, o
grande combatente dos Diabos… Vá interrogá-lo de preferência
a outro qualquer.

Mas há diabos?

– Um recrudescimento apenas. O catolicismo explica o inexplicável.
Quem faz a cosmolatria? Satanás! a necrolatria, o mal de Deus enfim?
Satanás, sempre Satanás! Qual o meio de acabar com o Diabo?
o exorcismo.

O Rio de Janeiro é uma tenda de feiticeiros brancos e negros, de religiões
de animais, de pedras animadas, o rojar de um povo inteiro diante do amanhã,

Spectre toujours mas qué qui nous suit cote a cote
Et qu’on nomme Demam…

Às cenas da missa-negra, dos satanistas, dos magos, é preciso
juntar a missa vermelha, e os exorcismos.

– Mas nós estamos no século XX!

– Meu caro, o mundo não varia olhando o invisível. Há
sempre de um lado os espíritos bons, os anjos que se demonstram pela
teurgia, e os espíritos maus, as larvas, os demônios, isto é,
de um lado as teofanias, de outro as fúrias. Ultimamente, porém,
casos incríveis, lendas antiqüíssimas deram para reaparecer.
Os agentes do Diabo, as sereias, os faunos, os gigantes, os tritões
surgem de novo. O João catraeiro, ali do cais dos Mineiros, já
viu passeando na água uma dama de vermelho com homens de barbas verdes
que riam e assobiavam… Porque havemos de banir fatos? Eu, e dou-lhe como
testemunha o Dr. Rafael Pinheiro e outras pessoas conhecidas, já tive
uma doente que frei Piazza pôs boa. A mulher delirava, tinha ataques
formidáveis, eu tratava-a segundo Charcot. Uma vez ela disse: eu tenho
o diabo no corpo. Pois vá ao Castelo! Foi e ficou boa. Era um médico
que me dizia o assombro. Nesse mesmo dia subi ao Castelo.

Pelas pedras do morro iam homens carregando baldes de água; mulherios
estendiam roupas na relva; embaixo, a cidade num vapor branco parecia uma
miragem sob o chuveiro de luz. Em torno do convento saltavam cabras. Pendurei-me
de um condão à porta carcomida, como um viajante medieval. Muito
tempo depois apareceu um frade italiano de barba negra.

– O Superior?

Abriu a porta, fez-me entrar para uma sala paupérrima, onde havia
um altar com imagens grosseiras e paramentos de missa. Pelas paredes, ordens
do arcebispo, tabelas dos dias de jejum. Através das outras portas
abertas viam-se salas abobadadas, onde as alpercatas sacerdotais punham um
brando rumor de intimidade.

Dois minutos depois, frei Piazza aparecia. Muito jovial e muito simples.
Eu queria uma informação; ele dava-a. Sempre que Deus lhe fazia
a graça de poder ser útil, ficava contente. A impressão
desse homem, com os flocos de neve de sua barba escorrendo de uma face cheia
de vitalidade, é a de um ser definitivamente certo de seu fim, a quem
as injúrias, as intrigas, os elogios ou os males não atingem.
Viu-me um curioso mundano, impôs-me a sua crença com delicadeza.

– O senhor é jornalista! ah! os jornalistas!… Se eles dissessem
apenas o que vêm, seriam os melhores homens do universo… Mas quase
nunca dizem. O príncipe de Crayemberg tinha um temor muito justo. Olhe
o que ainda há pouco fizeram com a princesa russa.

Estávamos sentados num duro banco, diante de Deus e dos santos, como
em poltronas confortáveis. Ele tinha entre as barbas um sorriso de
sutil ironia.

– Superior – confessei eu -, tenho nestes últimos tempos visto de
perto os males do Diabo.

Disseram-me que frei Piazza exorcisma.

– Sim, filho, há alguns anos. Todas as sextas-feiras das 4 da manhã
às 4 da tarde, trabalho sem descanso. Só no ano de 1903 exorcismei
mais de 300 demoníacas. Esses exorcismos são feitos de preferência
na igreja, mas quando me chamam, vou também à casa dos pacientes.
Satã mais do que nunca ameaça Deus. Esse macaco do Divino, como
diz o padre Goud, arrasta as criaturas para as profundas do inferno, que a
ciência considera um centro de fogo no meio da terra, autor dos vulcões
e do abalo das montanhas… Ah! meu filho, é uma vida bem dura!

– O exorcismo é público?

– Nem sempre. O diabo pela boca dos possessos conta a vida de todos, injuria
os presentes. Não é conveniente. Ficam alguns amigos que sejam
sérios e piedosos.

– E como se praticam os exorcismos?

– Segundo o Rituale.

– Contam tanta coisa…

– É bem simples. Leio-lhe a cerimônia.

Foi-se com o seu passo apressado, voltou trazendo os óculos e um livro
de marroquim vermelho com letras de ouro.

– Está escrito que o homem não viverá só de pão,
mas das palavras de Deus, disse São Paulo.

Sentamo-nos. Frei Piazza abriu o Rituale, escrito em vermelho e negro…

O ofício de exorcismo começa com as litanias normais e o salmo
LII. Depois, o sacerdote dirige-se ao Energúmeno.

– Quem quer que sejas, ordeno-te, espírito imundo, como aos teus companheiros,
que obedeçam a este servidor de Deus, em nome dos mistérios
da Encarnação, da Paixão, da Ressurreição
e da Ascensão de Nosso Senhor Jesus Cristo, em nome do Espírito
Santo, que digas o teu nome e indiques por um sinal qualquer o dia e a hora
em que entraste neste corpo, ordeno-te que me obedeças, a mim, ministro
indigno de Deus, e proíbo-te que ofendas esta criatura assim como aos
presentes.

Depois o exorcista procede à leitura dos Evangelhos, segundo São
João, São Marcos, São Lucas, evoca o Cristo, faz o sinais-da-cruz
no possesso, envolve-lhe o pescoço num pedaço de estola e com
a mão direita na cabeça do rebelde, diz:

– Eu te exorcismo, imundo espírito, fantasma legião, em nome
de N. S. J. C., ordeno-te que abandones esta criatura feita por Deus com terra.
Deus, o mesmo que do alto dos Céus te precipitou nas profundezas, é
quem te ordena. Aquele que manda nos mares, nos ventos e na terra. Ouve e
treme de pavor, Satã, inimigo da fé, inimigo do gênero
humano, mensageiro da morte, ladrão da vida, opressor da justiça,
raiz de todos os males, sedutor dos homens, traidor de todas as nações,
origem da avareza, inventor da inveja, causa das discórdias e das dores.
Por que ficas? por que resiste? Temes o que te imolou por Isaac vendido por
José, morto por um anho e que acabou por triunfar do Inferno?

E fazendo sinais-da-cruz na cabeça, no ventre, no peito e no coração
do paciente, o sacerdote, com os paramentos roxos, continua:

– Abjuro-te, serpente antiga, em nome dos julgamentos dos vivos e em nome
dos mortos, em nome do teu Criador e do Criador dos mundos, Daquele que tem
o poder de te enviar ao Inferno, – de sair imediatamente com o teu furor desse
servidor de N. S., refugiado no seio da Igreja. Esconjuro-te de novo, não
em nome da minha fraqueza, mas em nome do Espírito Santo. Sai desse
servidor de Deus, criado à sua imagem; obedece, não a mim, mas
ao ministro de Cristo. A força Daquele que te submeteu à sua
cruz, ordena-te. Teme o braço do que conduz as almas à luz,
após ter vencido os gemidos do inferno. Que o corpo dessa criatura
te cause medo, que a imagem de Deus te apavore. Não resistas. Apressa-te,
porque Cristo deseja habitá-lo. Deus, a majestade do Senhor, o Espírito
Santo, o sacramento da cruz, a fé dos santos apóstolos Pedro
e Paulo e dos outros santos, o sangue dos mártires, a intervenção
dos santos e das santas, os mistérios da fé cristã, ordenam-te
que obedeças. Sai, violador da lei, sai, sedutor cheio de manhas e
de enganos, inimigo da virtude, perseguidor dos inocentes. Por que resistes?
Por que temerariamente recusas?

A imprecação continua formidável até o hiato
suave de uma nova oração. Depois o padre lê o último
e mais tremendo exorcismo.

– Abjuro-te, omnis immundissime, deerissime, fantasma, enviado de Satã,
em nome de J. C., o Nazareno, que foi, conduzido ao Deserto depois do Batismo
de São João e que te venceu na tua habitação.
Cessa de obsedar esta criatura, que Deus, para sua honra, tirou do limo da
terra. Treme, não da sua fragilidade humana, mas da imagem do Todo
Poderoso. Cede a Deus que te precipitou no abismo a ti e a tua infâmia,
na pessoa de Faraó, por intermédio do seu servidor Moisés;
cede a Deus que te condenou no traidor Iscariote.

A imprecação torna-se de uma solenidade colossal. O sacerdote
ergue o livro sobre o desventurado possuído:

– Os vermes esperam-te a ti e aos teus. Um fogo devorador está preparado
por toda a eternidade, porque tu és a causa do homicídio maldito,
o organizador do incesto, o organizador dos sacrilégios, o instigador
das piores ações, o que ensina a heresia, o inventor de tudo
quanto é obsceno. Sai, ímpio, sai, celerado, sai com as tuas
mentiras, porque Deus quis fazer seu templo deste corpo. Obedece ao Deus diante
do qual se ajoelham os homens: cede o lugar a N. S. J. C. que derramou o seu
sangue sagrado pela humanidade; cede ao Espírito Santo, que pelos seus
bem-aventurados apóstolos venceu-te no mago Simon, que condenou as
tuas infâmias em Ananias e Safira, que te curvou em Herodes, que te
cegou no mago Elima. Sai agora, sai, sedutor. O deserto é a tua morada,
a serpente a tua habitação. Eis que aparece Deus, o Senhor;
o fogo arderá os inimigos se não fugirem. Se pudeste enganar
um homem, não poderás embair Deus. Escorraçar-te-á
O que tem tudo em seu poder, far-te-á sair. O que preparou a geena
eterna. Aquele de cuja boca sai o gládio agudo, que virá julgar
os vivos, os mortos e o século pelo fogo.

E, enquanto as endemoninhadas, flexuosas, praguejando, batendo com o crânio,
expectoram Satanás, os pater, os salmos envolvem-na. Quando ela cai
prostrada, salva, o triunfador grita:

– Eis-te refeita santa. Deixa de pecar para que te não aconteçam
outros desastres. Vai para casa e anuncia aos teus as grandes coisas que Deus
fez por ti e toda a sua misericórdia..

Eu tinha acabado de ler o latim iluminado. Frei Piazza, muito doce, murmurava:

– Há outras formas de exorcismo que invocam os Santos, a Virgem…

– Mas, Superior, há mesmo muitos casos aqui?

– Não imagina! Principalmente nas classes baixas, sem limpeza. O diabo
ama a imundície. É quase incrível. Esses fenômenos,
que a espiritolatria tem por novos, são nossos conhecidos, há
muito tempo explicados. Há criaturas que se dobram em dois, que se
tornam sábias de repente, gritam em línguas desconhecidas, têm
uma força enorme. Ainda há dias tive dois casos. Não
acredita?

– Se eu conheço o caso da Gamboa em que um sacerdote não se
pode aproximar da possessa, de tal modo ela coleava!

– A mim aconteceu fato idêntico. Era uma virgem. Cuspia no Crucificado,
com os braços em cruz, dobrava em dois, dizia a vida dos outros e de
repente começou a arregalar os olhos… Ficaram como duas brasas os
olhos, as pálpebras a dilatarem-se, dilatarem-se. Eu estava-as vendo
arrebentar, mas tão horrível era o quadro que não tive
coragem… Cada palavra do Ritual arregalava-lhe mais o olhar pavoroso. É
um capitulo infindável a peregrinação pelos bairros pobres.
Casos estranhos! Não conhece a Cabocla, uma mulher que comanda 250
espíritos? Esta criatura, onde está, os móveis caem,
há rumores, quebram-se os vasos. Também não pára.
Ela diz que já nasceu com os espíritos e não os quer
tirar. Ainda outro dia encontrei-a em Catumbi…

Eu já conhecia esse ser satânico e inédito, a Cabocla,
já a vira escabujando enquanto os móveis caíam e as portas
fechadas abriam-se com estridor. Era verdade.

– Mas há amuletos preservativos do Diabo? – perguntei tremendo.

– Basta a cruz de São Bento. As iniciais da medalha dizem ao alto:
Ipse Venena Bibus; do lado esquerdo; sunt mal, quae libas; do lado direito:
vade retro, Satanás; em baixo: non suads mihi vana. Ao centro a frase:
non draco sit mihi dux – da esquerda para a direita, em forma vertical, de
cima para baixo: crux sancta mihi lux, e nos quatro cantos: crux, sanctis,
patris, benedicti…

Estava dando uma hora. Através do convento os relógios repetiam
interminavelmente a hora solitária. Erguemo-nos, e ainda algum tempo
ouvi embevecido a pureza da crença.

Na sexta-feira, porém, de madrugada, fui outra vez ao Castelo certificar-me.
Vinha nascendo o dia. No éter puro os sinos desfiavam as notas claras
e era como se os sons fossem acordando pela montanha os ecos da vida. Cabras
surgiam das sombras, mastigando a relva úmida, e no alto uma estrela
ardia a morrer. Vi então subindo a encosta, desde essa hora, a teoria
das beatas, homens amparando mulheres de faces maceradas, mantilhas pretas
escondendo rostos dolorosos, corpos dobrados em dois tremendo, o bando das
possessas modernas galgando o cimo do monte para arrancar a alma a Satanás,
o delírio diabólico, a fé, a angústia, o mal…
E na Cor suave da aurora, aquele convento simples, donde saía a harmonia
dos sinos, surgiu-me como o bálsamo do Bem, o gládio do Senhor
solitário e único em meio da Descrença Universal – último
auxilio de Deus às almas do Diabo…

Quando descia, outros crentes, outras demoníacas iam subindo na luz
do sol para a Lourdes espiritual que os sinos proclamavam. E, recordando a
visão tenebrosa desse turbilhão angustioso que escabuja nas
casas espíritas e nas igrejas sob o domínio de Satanás,
ergui os olhos ao céu, e louvei a glória de Deus no seu imperecível
fulgor…

As Sacerdotisas do Futuro

O futuro é o deus vago e polimorfo que preside aos nossos destinos
entre as estrelas, o incompreensível e assustador deus dos boêmios
nas caravanas da Ásia, a Força oculta, o perigo invisível.
Hugo e Alencar acreditavam nessa divindade, e não há entre os
deuses quem maior número tenha de sacerdotes e de sacerdotisas.

Só os cultores do Futuro, podem modificar a fatalidade, afastar a
morte, sacudir o saco de ouro da fortuna, soltar o riso da alegria na tristeza
dos séculos. As sacerdotisas do Deus tremendo infestam a nossa cidade,
tomam conta de todos os bairros, predizem a sorte aos ricos, compõem
um mundo exótico e complexo de cartomantes, nigromantes, sonâmbulas
videntes, quiromantes, grafólogas, feiticeiras e bruxas.

Essa gente cura, salva, desfaz as desgraças, ergue o véu da
fortuna, faz esperar, faz crer, vive em prédios lindos, em taperas,
em casinholas – é o conjunto das pitonisas modernas, as distribuidoras
de oráculos. Em meio tão variado há de haver ignorantes
– a maioria – cartomantes que vêem nas cartas caminhos estreitos e caminhos
largos e não sabem nem distribuir o baralho, sonâmbulas falsificadas,
portuguesas e mulatas que se apropriam dos moldes dos africanos, e mulheres
inteligentes que conversam e discutem.

Freqüentei os templos do futuro. Só em uma semana visitei oitenta,
encontrando-os sempre cheios de fiéis. O caleidoscópio alucinante
das adivinhas faz a vida livremente. Em algumas casas encontrei três
e quatro, girando sob uma única firma.

Só na rua do Hospício, por exemplo, há cinco ou seis.
Nos outros pontos conversei com Mme. Jorge na rua da Ajuda, a Liberata na
rua da Alfândega, a Joana Maria da Conceição na rua Figueira
de Melo, a Amélia de Aragão, a Luiza Barbada na rua Barão
de S. Felix, a Amélia do Pedregulho, a Amélia Portuguesa, a
Cândida, a Mme… da rua dos Arcos, 4, a Ximenes da rua da Prainha,
19, Maria de Jesus na rua Dr. Maciel, 7, Castorina Pires em S. Diogo, a Amélia
da rua do Lavradio, dona Martins na rua Mariz e Barros, a Alexandrina na rua
da América, Mme. Hermínie na rua Senador Pompeu, Maria Baiana
na rua do Costa, a Genoveva da rua do Visconde de Itaúna, Dona da rua
da Imperatriz, 15, a Corcundinha célebre adivinha de atores e de repórteres,
na deixa um rol infindável. Todas falam do seu desinteresse exigindo
dinheiro e algumas vendo o futuro nas mãos, nem ao menos sabem as linhas
essenciais segundo o engraçadíssimo Desbarolles. A observação
nessas casinholas é incolor. Fica-se entre os feitiços dos minas
e a magia medieva, numa atmosfera de burla.

Mas é lá possível não acertar às vezes?
A vida humana tem uma linha geral. Tanto amam as heroínas de Bourget
como as lavadeiras, gozam e gostam de ser gozados os freqüentadores da
haute-gomme com os dançarinos dos becos esconsos. As vidas têm
uma parecença em bloco, uma uniformidade de sentimentos. Por mais ignorantes
que sejam, as sacerdotisas têm o hábito da observação,
indagam da vida antes, em conversa. Muitas chegam a perguntar:

– Vem por dor ou por amor?

E como sabem perfeitamente quando se dirigem a um cavalheiro, a uma dama,
às coccottes ou aos rufiões, as suas respostas acertam. É
um exercício de atenção, antes de tudo, com cenários
e pedidos sugestivos. Uma delas recebe velas de sebo, terminada a consulta;
outras, peças de chita. A turba dá-lhes dinheiro, e sussurra
os seus segredos nos ouvidos dessa gente que são como abismos de discreto
silêncio.

Na peregrinação pelos templos do Deus Futuro guardo como originais
uma casa de cartomancia na rua do Ouvidor entre as modistas do tom e a elegância
máxima, a Ceguinha vidente da rua da Misericórdia, a Rosa que
olha nágua e é astróloga, Mme. de F. sonâmbula
numa rua paralela à praia de Botafogo, a Corcundinha da rua General
Câmara e a esquisita Mme. Matilde do Catete.

A Ceguinha tem a face macerada e é a exploração de quatro
ou cinco. Vive numa cadeira, com os olhos cheios de pus. O grande Deus fez-lhe
a treva em torno, para melhor ler a sorte dos outros nos meandros do céu.
Dizem que os agentes da polícia vão lá para saber o paradeiro
dos gatunos e que os gatunos também vão a ver se escapam. Imóvel
como um santo indiano à porta da imortalidade, a Ceguinha, com a mesma
dutilidade, desvenda-lhes o Futuro. Às vezes aparecem senhoras. A Ceguinha
curva-se, e pinta o Destino com a mesma calma dolorosa.

A Rosa, com as fontes saltadas, o que em magia se chama cornos de Moisés,
é um assombro de observação. Esse exemplar único
de astrologia conhece mesmo algumas práticas antigas. Quando a fomos
procurar, olhou-nos bem.

– Por que veio, se nunca acreditará?

– Estou numa situação difícil.

– Ouça a voz de Deus.

– Mas a minha alma sofre.

– O homem tem muitas almas…

– Mas se posso saber o futuro nágua?

– A água é onde se miram os astros que têm a vida da
gente.

– Como se consulta?

– Vendo… Alguns astros de outrora não têm mais importância
hoje: outros receberam-lhe a força. Os meus horóscopos são
certos; o Destino ordena-me. Mas eu só falo com os homens que a dor
faz tristes e crentes.

A Corcundinha, discípula de uma Josefina, tem uma fama tão
grande que chega a deitar cartas por dia, às vezes para mais de cinqüenta
pessoas. Cada consulta custa cinco mil réis e ela só anuncia
coisas lúgubres.

Mme. de F… esteve na Inglaterra; em estado natural discute o psiquismo,
e quando sonambulizada aparece numa túnica preta. Dizem que predisse
os acontecimentos da nossa polícia e prevê um futuro desagradável
da pendência brasileira com o Peru. E lúgubre. A roda que a freqüenta,
dá-se como ultrachique.

Mme. Matilde, a cartomante do high-life, já teve criados de casaca
e possui uma linda galeria de quadros. De todos os templos, o dessa senhora
é o mais excêntrico. Mme. Matilde, para os íntimos a princesa
Matilde, é uma criatura que fala com volubilidade.

Há alguns anos foi a Paris, onde estudou com Papus e Mme. de Thèbes.
Conhece a cartomancia, a telepatia, o sonambulismo, a metafísica das
estrelas, a quiromancia, coisas complicadas de que faz uma interessante confusão.
Além de tudo isso, a princesa é crítica de pintura e
interessa-se pelo movimento universal. Quando me anunciei, a agradável
dama mandou iluminar o seu salão de visitas, e entre as colchas japonesas,
os quadros de valor, os bibelôs do Oriente e as peles de tigres, fez
a sua aparição.

Vinha de vestido vermelho, um vestido de mangas perdidas, donde os seus braços
surgiam cor de ouro, e vinha com ela a essência capitosa de vinte frascos
de perfume. Mme. Matilde embalsamava. Deixou-se cair num divã, passeou
com as mãos pelo ar e disse:

– Estou cansadíssima. Se não me mandasse dizer quem era, não
o teria recebido. Simpatizo com o seu ser.

Curvei-me comovido.

– Não podia falar das sacerdotisas do Futuro, sem ouvi-la.

– Já tem percorrido os templos do grande Deus?

– Alguns. Visitei oitenta, e há para mais de duzentos.

– Há templos de ouro, de prata, de cobre e de latão.

– Guardei para o fim o melhor.

– Meu caro, os verdadeiros templos do Futuro são de data recente entre
nós. A sorte começou a ser descoberta aqui por negros da África
imbecis e por ciganos exploradores. Depois apareceram as variações
espíritas, os adivinhos que montavam casinholas receosas, reunindo
ao estudo das cartas a necessidade dos despachos africanos. Uma crendice!
As verdadeiras sacerdotisas datam de pouco tempo, são de importação
e anunciam. Essas não se ocultam mais e dão consultas claramente.

– Como em Paris?

– Como em Paris. Não lhe falo de Papus, de quatro ou cinco sonâmbulas
de fama universal, mas apenas da minha ilustre professora Mme. de Thèbes.
Mme. de Thèbes em Paris é uma necessidade mundana como o clube,
as premières, o grandprix.

Vai-se a Mmc. de Thèbes como se joga uma partida de boston. É
uma necessidade elegante. Mme. de Thèbes tem hoje uma fortuna.

– E erra sempre.

– Nunca.

– É sacerdotisa por vocação?

– Sempre estudei as ciências ocultas por diletantismo. Das ciências
ocultas saíram as ciências exatas, disse um grande mestre. Desde
criança amei a antiguidade, tive o desejo de remontar ao Zoroastro,
ao Zend-Avesta e aos Magos, com o prazer de descansar à beira do Nilo,
de conhecer Plotino e os livros herméticos.

Depois, sempre fui dotada de uma grande força nervosa. Uma vez, levando
amigas à casa de uma sonâmbula, resolvi estudar os truques das
mercadorias e daí a minha conversão.

Nesse momento, como a profetisa ria, estendendo as mãos, vi-lhe na
sinistra vários anéis complicados, e prendi-lhe os dedos, curioso
das jóias e da mão.

– Está vendo os meus anéis? Este é africano, partido.
Tem os signos do zodíaco – o tempo. Este outro guarda no fundo um berilo,
por onde se enxerga a alma. Naturalmente é descrente?

– Sou filho de uma civilização muito parecida com a daquele
imperador que precavidamente levantava templo aos deuses desconhecidos. Há
em tudo alguma coisa a temer – o inexplicável. A história é
uma afirmação de oráculos, de sonambulismo, de predições.

Eu guardara com religião a mão da pitonisa; Mme. Matilde, porém,
ergue-se agitando os seus perfumes.

– E não teme? e não lhe parece sugestivo este interior? Não
receia que daquele canto escuro surjam fantasmas, que, agarrando a sua mão,
leia nessas linhas a desgraça irremediável?

– Se for assim – disse docemente -, que se há de fazer? É a
vontade do Futuro…

– Pois, meu caro, pode ter a certeza de que não somos só as
sacerdotisas do terrível Destino, somos as Consoladoras, a Teoria do
Bem, as Sofredoras da Ilusão. Não sorria.

Sem nós, que seria das cidades? Os senhores andam à cata do
documento humano. Nós temos à mão, todos os dias, as
tragédias, os dramas e as comédias de que se faz o mundo. À
nossa casa vêm as mulheres ciumentas, os que desejam a morte e os que
desejam amor. Os adultérios, os crimes, os remorsos, a luxúria,
as vergonhas fervilham. Nós consolamos.

Diariamente, nas casas de que tomou o número para indicá-las
à polícia, encontram-se os conquistadores, os homens bem vestidos
de que a polícia ignora os meios de vida; os senadores, os deputados,
as pessoas notáveis, as atrizes, as cocottes, as senhoras casadas,
os imbecis propondo coisas indecorosas e as almas dolorizadas.

Nós a todos damos o favo da ilusão… Quando morre meu pai?
Meu marido abandona-me? Será minha a mulher de Sicrano? Fulana é
fiel? Realiza-se o negócio? E nós aquietamos os instintos com
o lenitivo do bem. Ainda há pouco tempo, entrou por esta sala uma menina
em prantos. Era domingo. Não deito cartas aos domingos.

Neguei-me. Soluçou, pediu, ajoelhou. Logo que a vi, percebendo a sua
agitação, espalhei as cartas ao acaso. A menina vai cometer
um desatino! Ela olhou-me espantada. Sim, ia dali suicidar-se, porque a abandonara
o amante, grávida e sem trabalho. Fiz as cartas dizerem que o amante
voltava e a pequena não morreu.

– Cartas salvadoras!

– Dias antes aparecera um marido a interrogar-me a respeito do seu ménage,
derruído por incompatibilidade de gênios. Ela escrevia-lhe cartas
pedindo para voltar. Que devo fazer? Voltar! Mas teve amantes! É boa.
Abandonada sem saber trabalhar e sem recursos queria o senhor que a pobre
morresse? Depois foi-lhe o Sr. fiel? Não! Era lá possível
a ela deixar de ter um amante?…

– Ou mesmo dois?

– Ou três, não vai ao caso. Ele refletiu e vivem os dois bem.
Quantos desmandos evitamos, quantas desgraças, quantos escândalos!
Recorda-se da história do oráculo de Delfos? É a história
da prudência, de ser ambíguo para não se enganar. A nossa
é muito mais difícil.

– Mente com franqueza.

– Diz verdades e consola. Muitas das minhas clientes vêm aqui apenas
como um consolo. Contam as mágoas e vão-se.

– Que trabalho deve ter!

– Faço experiências até altas horas com o meu criado
Júlio, e vou às estalagens, aos cortiços, ler grátis
nas mãos dos pobres. Não imagina como sou recebida!

Deito cartas, leio nas mãos. É o estudo em que procedo sem
perguntar para ter a certeza. E é certo! Adivinho coisas de há
quatro e cinco anos passados, chego a descrever as roupas das pessoas distantes
e prevejo. A previsão é de resto uma faculdade que desenvolvi.

– É feliz?

– Tudo quanto quero, faço.

– Tem talvez a alma de algum mágico antigo…

Mme. Matilde recostou o seu corpo elegante.

– Não: tive três vidas apenas. Da primeira fui físico,
da segunda advogado e na terceira odalisca…

Oh! mistério! A sacerdotisa possuía o saber dos físicos,
falava como um advogado e naquele momento tinha a inebriante doçura
das odaliscas.

Peguei-lhe a mão e disse baixinho:

– Já um ocultista me afirmou que fui Nero e depois Ponce de Leon…

Ela riu um riso penado.

– Ponce atraído pelo mistério das mãos.

– Pela beleza.

– Todos nós temos a atração das mãos. A mão
é um resumo do Céu. Cada astro tem a sua parte. Júpiter
é o índex, Saturno o médio, o Sol o anular, Mercúrio
Hermés o mínimo. A Lua tem a região do Sul, Marte todo
o meio, onde se dão os combates da vida e Vênus o grande monte.

– É este o mais trabalhoso?

– Quase sempre.

Ergui-me, e vi numa outra sala, forrada de esteiras da Índia, um oratório
onde ardiam lamparinas. Os santos, sob o halo de luz, que a ciência
explica pelo raio n, como o esforço da atenção – tinham
um olharzinho redondo e inexpressivo. Que diriam os coitados, santo Deus do
Futuro?

– Neste meio de adivinhas, quiromantes e sonâmbulas é melhor
ser impassível – dizia Mme. Matilde. – Às vezes protegem amores,
são casas ambíguas.

– Mas as suas experiências?

– Pratico o sonambulismo como as cartas, a telepatia e a quiromancia, indo
diretamente à alma que nós temos no fundo. Tudo é domínio.
As últimas experiências do meu domínio tive-as com o conhecido
pintor Hélios Seelunger. Curei o uma vez com água magnetizada.
Desde então dizia-lhe às 2 horas de tal dia o senhor sofrerá
um choque. Era tal qual.

Noutro dia sofria o choque. Fui eu de resto que lhe desvendei o futuro e
a sorte nas mãos.

– E a transmissão de pensamento?

Já em Botafogo transmiti idéias a criaturas no Engenho Novo.
Conhecem essas experiências poetas como Luís Edmundo, o padre
Severiano de Resende, pintores como Amoedo. A minha amiga D. Adelina Lopes
Vieira também as conhece.

Lembrei-me então de que Mme. Matilde era também literata.

– Mas as cartas?

– Quer vê-las?

Tocou o tímpano, apareceu um pequeno loiro com um sarcófago
de prata em relevo. Mme. Matilde – a princesa para os íntimos – abriu-o
com cuidado, e de dentro numa sombria apoteose de ouros e cores, as cartas
do tarot, a papesse, o doido, o ás de ouro, o enforcado, o bateleur
escamoteador surgiram tenebrosamente.

Mãos estendiam moedas de ouro, o ouro cintilava, em altos montes figuras
sinistras apareciam. E estava ali a consolação universal, a
consolação dos pobres e dos potentados! Nas mãos delicadas
da feiticeira último grito rolava numa série de iluminuras a
miragem enganadora do Futuro. Ela estendia as cartas nas luzes e eu recordava
a origem antiga dessa doce ilusão, a vinda dos Boêmios.

– Quem sois vós?

– Sou o duque do Egito e venho com os condes e barões.

– Quem vos traz?

– A que precede o nosso cortejo e lê nos livros coloridos de Hermés
o destino do mundo, a rainha das Cabalas, a sublime senhora do fogo e do metal!
E em frente à multidão abriam o tarot como quem rasga o céu,
o consolo infinito dos boêmios.

Eu estava ali como os camponeses da época de Carlos VI diante da senhora
do metal – apenas, tanto a rainha como eu, um tanto mais descrentes.

Então curvei-me, depus o beijo que há muito sentia nos lábios,
o beijo da devoção, na sua mão perfumada.

– Como em Paris! – fez ela, deixando que os meus lábios roçassem
a extremidade dos seus dedos.

– Como na hora de sempre – murmurei -, o Medo, diante do Futuro.

A Nova Jerusalém

A sede da Nova Jerusalém, anunciada pelo Apocalipse, fica na rua Maria
José, n.0 10. É uma casa de dois pavimentos, muito alta, pintada
de vermelho-escuro, que assenta à beira da rua Colina como uma fortaleza.

De longe parece formidável aos reflexos do sol, que queima todas as
vidraças, e reverbera nas escadas de pedra; de perto é solene.
Abre-se um portão, sobe-se uma das escadas, abre-se outro portão,
dá-se num pátio que termina para a frente em estreitas arcarias
ogivais e perde-se ao fundo num jardim obumbroso. Desse pátio vê-se
o declive das ruas que descem, e vagos trechos da cidade.

Antes de bater, olhamos ainda a casa alta. Detrás daqueles muros viceja
a religião de Swedenborg, a nova igreja, a verdadeira compreensão
da Bíblia; detrás daqueles muros, iluminados da luz da tarde,
guarda-se a chave com que tudo se pode explicar neste mundo. “Eu sou
o Deus – disse Jesus a Swedenborg -, o Senhor, o Criador e o Redentor, e te
elegi para explicares aos homens o sentido interior e espiritual das Escrituras
Santas. Ditar-te-ei o que escreveres!”

Subimos mais uma escada de pedra nua, no patamar da qual nos recebe o Sr.
Frederico Braga. Esse cavalheiro amável é uma espécie
de “diletante” dos cultos. Dizem que já foi até faquir,
fazendo crescer bananeiras de um momento para outro. Neste momento, porém,
limita-se a fazer-nos entrar para uma sala simples e, enquanto nós
vagamente o interrogamos, passeia da porta para a janela.

– O pastor está aí – diz de repente. – Ninguém melhor
do que ele pode informar.

O pastor é o Sr. Levindo Castro de la Fayette, que aparece logo. Homem
de fisionomia inteligente, falando bem, com o ar de quem está sempre
na peroração de um discurso interrompido por apartes, o pastor
agrada. Há decerto nos seus gestos um pouco de morgue, o íntimo
orgulho de ser profeta de uma religião de intelectuais, de espalhar
pela terra a palavra do maior homem do mundo, que tudo descobrira na ciência
terrestre e vira Deus na terra celeste.

O Sr. la Fayette consulta o óculo brilhante, fala da conquista da
Nova Igreja através do mundo, fala torrencialmente. É a história
do swedenborgismo desde a morte de grande visionário, desde a defesa
de Tomás Wright e Roberto Hindmarsh, que demonstraram o perfeito estado
mental do mestre, até à reunião dos adeptos de Swedenborg
em Londres em 1788, donde começou a expansão do culto novo que
agora aumenta diariamente na Áustria, na França, na Inglaterra,
na Austrália, nos Estados Unidos, com igrejas novas e novos adeptos.
Pode-se calcular em cento e vinte mil o número de crentes.

O Sr. Frederico Braga mostra-nos as revistas alemãs e inglesas, o
New Church Messenger a New Church Review, onde vêm reproduzidas em fotogravura
as fachadas dos novos templos através do mundo.

– A verdade caminha! – diz o pastor -, e leva-nos à sala onde se realizam
as reuniões dos swedenborgeanos. É no 1.º pavimento, na
frente, uma sala nua. Ao centro uma grande mesa, rodeada de cadeiras com uma
cadeira mais alta para o pastor. Ao lado a biblioteca, onde se empilha a obra
interminável de Swedenborg desde os Arcania Ca’lestia até o
Tratado do Cavalo Branco do Apocalipse.

A Nova Jerusalém do Brasil data de 1898. Foi seu fundador o próprio
Sr. de la Fayette, e isto devido a revelações que recebera em
Paris alguns anos antes. É o caso que o pastor, nesse tempo simples
professor de português num instituto parisiense, foi nomeado chanceler
do consulado-geral do Brasil na França. Essa função fê-lo
desejoso de conhecer a verdade espiritual, e, para que a verdade brilhasse,
de la Fayette observou logo um rigoroso regime de temperança em todas
as coisas… Swedenborg, cavaleiro da ordem eqüestre da Suécia,
que de tudo escrevera e falara, só em 1745 teve a revelação
de que estava talhado para explicar os símbolos da Bíblia. Mas
Swedenborg comia muito. A primeira vez que os espíritos invisíveis
lhe falaram foi durante um jantar. O filósofo engolia vorazmente no
quarto reservado de um hotel, onde à vontade devorava e pensava, quando
sentiu a vista se lhe empanar e répteis horríveis arrastarem-se
pelo soalho. Os olhos pouco tempo depois recobraram a visão perfeita
e Swedenborg viu, distintamente, no ângulo da sala, um homem com o seio
em luz que lhe dizia, paternalmente:

– Não comas tanto, meu filho!

De la Fayette não precisou desse celeste conselho. Praticou-o antes
da revelação; – e foi por isso que meses depois, começou,
durante o sono, a receber ensinamentos do mundo espiritual a respeito da palavra
de Deus. Desde esse tempo o Sr. Levindo foi guiado pelo céu, e chegou
até à Biblioteca Nacional.

– Que livro hei de pedir? – interrogou aos seus botões o homem feliz.

– Pede Swedenborg! – bradaram os espíritos bons de dentro do Sr. Levindo.

O iluminado pediu os Arcania Caelestia, em latim, porque além de cinco
línguas vivas, lê correntemente a língua em que Catulo
escreveu tão belos versos e tão sugestivas patifarias. Leu os
Arcania, foi à igreja da rua Thouin, conversou com Mme. Humann que
o recebeu inefavelmente doce, e meses depois, era batizado na nova igreja.

Em agosto de 1893, o Sr. de la Fayette, que é mineiro, veio para o
Rio, mas quando aqui chegou a revolta estalara, havia estado de sitio, e não
teve remédio senão abalar para as montanhas do seu Estado. A
cidade de Lamim, em Minas, foi onde primeiro se falou no Brasil da Nova Jerusalém.

De volta ao Rio, o pastor fez um adepto, o Sr. Carlos Frederico Braga, também
mineiro. A adesão foi rápida. O Sr. Carlos concordou logo com
o Sr. de la Fayette, como concordava naquele instante em que eu os ouvia.
Daí por diante Levindo foi o texto do credo e Carlos Frederico o comentário
entusiasmado. Esses dois homens atiraram-se pela cidade a explicar a Nova
Jerusalém, a fazer compreender pelos homens inteligentes as sagradas
interpretações do prolixo Swedenborg, escritas sob as vistas
de Cristo Deus, que é só. Quatro anos depois reuniram na rua
Minervina cinqüenta swedenborgianos, fundando duas sociedades: – a Associação
de Propaganda da Nova Jerusalém, pela imprensa, conferência e
leitura das obras do mestre, e uma sociedade de beneficência para auxiliar
os irmãos brasileiros.

Um jornal, a Nova Jerusalém, foi logo publicado e existe há
oito anos; o círculo da propaganda aumentou, amigos em viagem levaram
a notícia ao Pará, ao Rio Grande do Sul, à Minas e, afora
esses adeptos, cerca de duzentos swedenborgianos reúnem-se aos domingos
para ouvir de la Fayette narrar o símbolo de Adão, explicar
o sentido único de cada palavra em todos os livros da Bíblia
e louvar Swedenborg.

– Swedenborg! eu não preciso dizer-lhe quem foi esse extraordinário
espírito que tudo descobriu da terra e do céu. Na sua época,
chamou a atenção de grandes cérebros como Goethe, Kant,
Wesley, de Wieland, Klopstock…

Nós batemos as pálpebras, gesto que Swedenborg considera sinal
de entendimento e sabedoria. Goethe pusera o filósofo no Fausto com
o pseudônimo de Pater Seraphicus, Kant falando dele recorda o cumprimento
do seu cocheiro a Tycho Brahe: “o Sr. pode ser muito entendido nas coisas
do céu, mas neste mundo não passa de um doido”. Os outros
não tinham sido mais amáveis. Mas para que discutir? O ministro
da Nova Jerusalém continuava contando a atenção e curiosidade
dos povos modernos pelo extraordinário profeta do Norte. Depois parou.

– O que é, em síntese, a Nova Jerusalém? – perguntei.

Swedenborg, ao morrer em casa de um barbeiro, achava desnecessário
receber os sacramentos por ser de há muito cidadão do outro
mundo. A respeito dessa região o cidadão escreveu enormes volumes
ex auditis et visis, isto é, sobre o que vira e ouvira.

Os Arcania, o tratado do Céu e do inferno, o tratado das Representações
e Correspondências, a Sabedoria Angélica sobre o divino Amor
e a divina Sabedoria, a Doutrina Novae Hierrosalymae, as terras do nosso mundo
solar e no céu astral, até o Amor Conjugal, com umas máximas
arriscadas sobre o amor escortatório, explicaram bem as suas extraordinárias
viagens.

Swedenborg esteve no inferno e conversou com tanta gente que Mater para simplificar
fez uma lista cronológica desde os deuses gregos até os contemporâneos;
teve relações íntimas com os espíritos de Júpiter,
de Mercúrio, de Marte e até da Lua, apesar de não simpatizar
muito com esses que eram pequenos e faziam barulho. Não foi só.
O extraordinário homem viu o paraíso, ouviu os anjos, esteve
com Deus em pessoa. Era natural que compreendesse o sentido das correspondências
entre os espíritos dos planetas e o máximo homem, que revelasse
ao mundo o sentido íntimo espiritual ou celeste das revelações
que até então ficara ignorado.

“A doutrina da Igreja atual é viciosa, deve desaparecer”
e Swedenborg, com os olhos espirituais abertos, não inovou, elucidou
os textos sagrados.

A nova igreja tem um catecismo que explica e resume a Nova Jerusalém
e a sua doutrina celeste. Assim o homem foi criado por Deus para amar a Deus
e fazer o bem ao próximo. Quem faz mal, vai para o inferno, quem faz
bem, vive com luxo e conforto no reino do céu que, segundo Swedenborg,
tem edifícios magníficos, parques encantadores e vestidos bonitos.
O homem aprende a fazer o bem nos dez mandamentos. É simples e fácil.

O Senhor, deve o homem julgá-lo o único Deus, em que está
encarnada a Santíssima Trindade do Pai, do Filho e do Espírito
Santo. A trindade perfaz numa só pessoa a alma, o corpo e o ato da
obra. Na Trindade Divina, o Pai é a alma, o Filho o corpo, o Espírito
Santo a operação condensados numa só pessoa: – Jesus.
É esta a divergência capital do Catolicismo. A Nova Jerusalém
é o cristianismo primitivo. Os seus membros não têm ambições
e ajudam-se uns aos outros, praticando a caridade, o único amor capaz
de nos desprender de nós mesmos para nos aproximar de Deus. A regeneração
vem da oração. O homem ora só a Jesus, porque o mais
é idolatria. Todas as ciências e religiões nada são
sem o conhecimento de Deus. Possuidores desse conhecimento, os swedenborgeanos
têm a chave da interpretação exata de tudo e explicam
com harmonia espiritual todas as ciências e todas as religiões.

– Não se podia voltar ao Cristianismo, ao tempo em que começou
a ser falsificado – diz-nos o Sr. de la Fayette. – Seria desconhecer as leis
da ordem divina, que teria desse modo perdido quinze séculos, quando
esse período serviu para a execução das suas obras sempre
misericordiosas. O Senhor anunciou que, na consumação dos séculos,
isto é, no fim da igreja atual, viria, “nas nuvens do céu,
com poder e glória” fundar outra igreja que não terá
fim. Esta igreja é a Nova Jerusalém, que o Senhor instaurou,
retirando o véu que ocultava o Verbo…

Escurecia. As trevas entravam pela sala onde o Verbo é revelado. Em
derredor, quanto abrangia o olhar, via-se a cidade reclinada por vales e montes,
preguiçosamente. No céu puríssimo as estrelas palpitavam
devagar; pela terra estrelavam os combustores um infinito recamo de luzes.

– Vou aos Estados Unidos – disse o ministro – comprar livros, editar obras
minhas para franquear a biblioteca ao povo. A regeneração far-se-á!

E nós descemos o monte, onde, naquela casa de pedra, duzentos homens,
compenetrados do secreto sentido das correspondências, louvam todos
os domingos Swedenborg que gozou o Céu, e Jesus que é a caridade
e o supremo Amor.

O Culto do Mar

O Culto do Mar é praticado pelos pescadores das nossas praias. É
um culto variado, cosmólatra e fantasista, cm que entram a lua e alguns
elementos divinizados.

– Não conhece os nossos pescadores? Gente tranqüila. Raramente
se agridem e sempre por questão de pesca.

Os pescadores formam um corpo distinto, diverso dos catraeiros, dos marítimos,
dessa população ambígua e viciada que anda no cais à
beira das ondas perturbadoras. Não há canto da nossa baia que
não tenha uma colônia de pescadores. Vivem todos muito calmos,
sem saber do resto do mundo. Enfim, uma classe à parte, com festas
próprias, que não se afasta do oceano e é unida pelo
culto do mar. Os pescadores são os últimos idólatras
das vagas. Conversar com eles é ter impressões absolutamente
inéditas de moral, de filosofia e de religião.

– Mas essas colônias são brasileiras? – indaguei do meu informante.

– Não. Há colônias só de portugueses, como a de
Santa Luzia e de Santo Cristo, de portugueses e brasileiros, como em Sepetiba,
de italianos apenas, de brasileiros só. Uma série de núcleos
ligados pela crença. São outros homens. Nascem de mães
pescadoras, partejadas quase sempre por curiosas, vivem nas praias, nunca
as abandonam. Aos quatro anos nadam, aos dez remam e acompanham os parentes
às pescarias, e assim passam a existência, familiarizados apenas
com as redes, os apetrechos de pesca e o calão, o pitoresco calão
marítimo.

O oceano imprime-lhe um cunho especial, são propriedades do mar. Nunca
reparaste nos pescadores? Têm os pés diferentes de todos, uns
pés contráteis que se crispam nas pranchas como os dos macacos;
andam a bambolear, balouçando como um barco, e a sua pele lustrosa
tem o macio grosso dos veludos. A alma dessa gente conserva-se ondeante, maravilhosa
e simples.

– Mas os pescadores são cristãos?

– Está claro. Mas cristãos puros é difícil encontrar
hoje afora os evangelistas e os sírios.

– Lembro-me da festa de Nossa Senhora, na Lapa.

– É outra coisa.

– Vi em Santa Luzia a devoção de São Pedro.

– Era promessa de um rapaz que, por falta de meios não a continua.
Deixemos N. Senhora e São Pedro. Falo de um culto que emana no intimo
respeito das ondas. Todos os pesca-dores das praias e das ilhas próximas
festejam, sacrificam ao mar e têm um objeto especial de devoção.
Não há nenhum que não tema a Mãe-d’Água,
a Sereia, os Tritões e não respeite a Lua. Conheço três
manifestações desse culto. A Mãe-d’Água entre
os pescadores de Santo Cristo e de Santa Luzia, a da Lua, e do Mar e a do
Arco-Íris.

– O Arco-Íris?

– Em Sepetiba. É dos mais completos e dos mais belos, tendo como sacerdote
uma mulher.

O Arco-Íris, a adoração de um deus que se curva nas
nuvens policromo e vago, que ergue das ondas um facho de luzes brandas e desaparece,
o terror daquilo que se desfaz, sem que se saiba como! Era uma fantasia! Mas
os cosmólatras inventam tanta coisa para perfumar a sua ignorância,
que bem podia ser.

– Não há dúvidas – disse o meu amigo. – O arco-íris,
é uma antiqüíssima divindade, um anúncio dos céus.
Lembra-te disso e acompanha-me.

Acompanhei-o, durante um inverno, muito úmido e muito estrelado. Os
pescadores têm um temor incalculável da polícia. Desde
que um curioso aparece, guardam segredo das suas crenças e negam toda
e qualquer co-participação em religião que não
seja a católica. Como são primitivos e rudimentares, porém,
a bondade que têm é fundamental, transforma-os e não há
nenhum que não acabe confiante e falador, exagerando para espantar
os mistérios cosmológicos. Esses mistérios são
de uma beleza delicada e antiga, de uma beleza de rapsodos que relembra as
fantasias escandinavas e helenas, um montão de lendas e de ritos enervantes.
Há nas práticas e nas idéias trechos de Hesíodo,
de Cristo e dos pretos-minas e a gente afunda-se, quando os quer guardar,
num banho de cristal batido pelo sol.

Quase sempre os diretores das festas, os sacerdotes não são
pescadores. Em Santo Cristo é o padeiro Carvalho, homem de posses –
diz o meu amigo. Os sacrifícios são feitos geralmente à
noite.

Vamos os dois interrogar os pescadores. Essa gente teme a Mãe-d’Água,
tendo a longínqua recordação de que ela aparece vestida
de branco seguida de homens barbados de verde. A aparição feminina
grita de repente, apaga as luzes na barca, faz as cerrações,
afasta os peixes, e às vezes canta.

– Como a Darclée?

– Como as sereias meu caro. Os pescadores têm que cair no fundo da
barca tapando os ouvidos. Ulisses amarrava-se…

Para aplacar a deusa do mar, ser impalpável e lindo, os pescadores
fazem o sacrifício de um carneiro. Matam o bicho à beira do
oceano; o sangue cai numa cova aberta na areia. Depois partem canoas levando
pedaços do animal com presentes que deixam cair no fundo da baía
com uma oração votiva.

Um rapazola, lindo como o Apolo do Belveder, responde às nossas perguntas:

– Eu fui batizado, patrão.

– Mas sabe a história da Mãe-d’Água?

– Sei, sim. Aqui, para Mãe-d’Água ser boa fazem-se despachos.
Na ilha do Governador compram tudo do mais fino, põem a mesa à
beira da praia, com talheres de prata, copos bonitos, a toalha alva e galinhas
sem cabeça, para a santa comer.

– Que diferença há entre Nossa Senhora e a Mãe-d’Água?
– indago interessado.

– Nossa Senhora está no céu. Mãe-d’Água é
diferente; é a devoção, é como um santo do Mar…
E sopra-me na cara uma baforada de fumo mau.

O meu amigo, cheio de literatura, declama logo:

– Não compreendes! A água é em toda a parte uma religião.
O Nilo foi feito das lágrimas de Isis, o Ganges é o fator da
crença da imortalidade, os gregos povoaram o mar de habitantes sagrados.

Lembra-te dos arías ao descer do planalto: – “ó mar, grande
laboratório!…” Laboratório da vida da crença.

E leva-me a uma outra praia, a compreender como tudo depende do mar e da
lua. Ele conhecia um velho pescador, José Belchior. O velho recebe-o
com intimidade e conta-me o que pensa deste mundo. É curiosíssimo.

Para José o mar representa o homem, o princípio ativo. Por
isso o mar é superior em tudo à terra, que como a mulher só
serve para o descanso. O oceano circunda a terra num longo abraço.
O mar só sofre uma influência, a da lua, que mostra a sua face
de trinta em trinta dias e o faz inquieto e a arfar. Nela mora Nossa Senhora
com o seu filho Jesus, e esse doce alampadário de ouro desencadeia
os ventos, faz as tempestades, esconde os peixes, baixa as marés e
guia as naves. Se Nossa Senhora quisesse, parava a lua quando ela vem cheia,
e tudo seria então magnífico. Como as coisas não são
assim, fazem-se promessas, pede-se aos santos para interceder e, nas noites
de luar, fazem uma passeata em embarcações com velas de cera
acesas na mão e rezando baixinho.

Todas essas pequenas modalidades reúnem-se em Sepetiba no culto geral
do Arco-Íris. Há festas de três em três meses, despachos
simples e uma grande solenidade, que já foi feita a 2 de fevereiro
e atualmente se realiza em junho, no dia de S. Pedro.

Estive lá nesse dia. A sacerdotisa é uma portuguesa reforçada,
que se chama Maria Matos da Silva. Só são permitidos na festa
pescadores, e os pescadores vão de toda a parte ao culto singular.
A casa de Maria da Silva fica mesmo no ponto dos bondes, e nos dias de festa
está toda adornada de folhagens e galhardetes. Todos, lavados e de
roupas claras, a dona da devoção manda buscar os negros feiticeiros
para preparar os ebós e fazer a matança dos animais.

Ela própria deita as cartas para saber quem deve ir levar os sacrifícios
e os desejos sutis do Arco-íris.

No interior da casa, onde ardem velas, é proibida a entrada com exceção
das que tomam parte nos sacrifícios. Em frente os pescadores bebem,
cantam e dançam o cateretê. Se por acaso no céu se curvam
as cores do espectro, prosternam-se todos radiosos clamando pelo milagre.
O milagre porém, como todo o milagre, é raro.

Maria da Silva tem sempre a seu lado o coronel Rodrigues, velho guarda nacional,
que com os pés metidos em grossos tamancos, sentencia máximas
morais para a assembléia. Os pescadores que apanham na rede um boto,
levam-no à mulher do culto para preparo do azeite das festas sagradas.

Vou pela praia, alanhada por um vento álgido. No céu aparecem
nuvens, na areia descansam três barcas enfeitadas. Um rapazola guarda-as.
E ele quem nos dá informações a respeito da gente que
dança. Reina entre estas criaturas uma perfeita amoralidade. Como não
há barulhos graves, não se vai à polícia. Conselhos
dão os velhos. A mulher serve para procriar, obedece cegamente ao homem,
cose, trabalha, é inferior. O macho domina. O respeito aos anciãos
existe, porque estes sabem das manhas dos peixes, anunciam as tempestades,
ensinam. Quanto ao amor, deve ser muito diverso do nosso…

– E as festas, quem as faz?

– Para as festas concorrem todos.

Das três barcas que eu via, a primeira era para o Arco-íris,
a segunda para a Mãe-d’Água e a terceira acompanharia as duas
formando a trilogia, duas na frente e uma atrás.

O meu amigo, lembrando mitologias diversas, quis saber a razão desse
triângulo. O rapaz respondeu apenas:

– É costume.

É costume também pagar em todas as religiões. Tanto
os feiticeiros como os condutores das barcas recebem dinheiro. Os remadores
pertencentes ao Arco-Íris têm seis mil réis, os da Mãe-d’Água
três e os acompanhadores nove. À noite, já no céu
negro o crescente lunar, depois dos búzios e dos baralhos terem indicado
os dias em que não se poderá pescar, começa o sacrifício.

Forçado a ficar de longe, embrulhado num paletó em que tiritava,
vi sair da casa da Maria uma teoria de camisolas brancas com as lanternas
de azeite de boto na mão, acompanhando dois homens, um vestido de seda,
outro de cetim.

O primeiro era o voga da canoa do Arco-íris, o segundo ia dirigir
a da Mãe-d’Água. As canoas foram arrastadas para o mar. Na do
Arco-Íris iam os mais finos presentes com os despachos, na da Mãe-d’Água
objetos caros e femininos. Quando as canoas partiram em direção
ao Norte, levando aqueles estranhos remadores vestidos de morim branco, os
que ficaram na praia levantaram os braços, e a Maria da Silva, na turba,
sorria como quem se desobriga de uma promessa sagrada.

– E ao voltarem, que há? – indaguei ao rapaz.

– Voltam de costas, de frente para o mar, entram assim em casa; os remadores,
menos os do Arco-íris, batem com a cabeça no chão, e
a festa continua.

– Mas que é o Arco-íris, afinal?

– O Arco-íris indica se a gente está bem com Deus. É
um aviso, o sinal da união, o único meio por que o mar se deixa
ver… e a crença.

Olhei mais o oceano soluçante sob o vento álgido.

As barcas todas acesas de luzes frouxas perdiam-se na fosforência lunar;
os remadores cantavam, e eu ouvia como a copla de uma barcarola nostálgica.
Em frente da casa de Maria, o cateretê delirava e sombras de adolescentes
desciam a praia ágeis e finas.

A Maria, sentada, sorrindo, era indecifrável.

E para que decifrá-la? O seu culto era o culto de todas as épocas
e de todos os homens. O mar continua a ser o grande mistério. Para
os espíritos simples que temem o diabo e guardam na alma crenças
acumuladas, só a Lua com a imagem de Nossa Senhora pode explicar a
angústia do mar e só as sete cores do arco do céu podem
simbolizar o vago mistério da união do oceano e do homem.

O Espiritismo entre os Sinceros

O marechal Ewerton Quadros esperava um bonde para a cidade, quando um bonde
passou inteiramente vazio.

– Por que não toma este? – perguntaram-lhe.

O marechal mergulhou mais a face adunca nas barbas matusalêmicas:

– Não é possível. Está cheio de espíritos
maus! – e, como aparecesse outro inteiramente cheio, agarrou-se ao balaústre
e veio de pé até à cidade.

Desde que se deixa a traficância do baixo espiritismo, que se conversa
nas rodas intelectuais cultivadas, esse estado alucinante torna-se normal.

Ao subirmos as escadas da Federação, o meu amigo ia dizendo.

There are more things in heaven and earth, Horatio,
There are more dreams in your philosophy.

Esses melancólicos versos temerosos, do mundo invisível, resumem
o nosso estado mental.

Muita coisa há no mundo de que não cuida a nossa vá
filosofia, muita coisa há neste mundo invisível…

Já não se conta o número de espíritos ortodoxos,
conta-se a atração dos nossos cérebros mais lúcidos
pela ciência da revelação. A Marinha, o Exército,
a advocacia, a medicina, o professorado, o grande mundo, a imprensa, o comércio
têm milhares de espíritas. Há homens que não fazem
mistério da sua crença. Os generais Girard e Piragibe, o major
Ivo do Prado, o almirante Manhães Barreto, Quintino Bocaiúva,
Eduardo Salamonde, os Drs. Geminiano Brasil, Celso dos Reis, Monte Godinho,
Alberto Coelho, Maia Barreto, Oliveira Menezes, Alfredo Alexander proclamam
a pureza da sua fé. A Federação tem 800 sócios
e ainda o ano passado expediu 48 mil receitas.

Os que não praticam a moral, aceitam a parte fenomenal. E ao chegar
a essa esfera que se começa a temer a frase do católico: “O
espiritismo é um abismo encantador; foge ou de lá nunca mais
sairás”. Se na sociedade baixa, centenas de traficantes enganam
a credulidade com uma inconsciente mistura de feitiçaria e catolicismo,
entre a gente educada há um número talvez maior de salas onde
estudam o fenômeno psíquico e a adivinhação do
futuro, com correspondência para Londres e um ar superiormente convencido.

Decerto, em parte, a frivolidade que faz senhoras elegantes citarem poetas
franceses e conversarem de ocultismo nos gutters invernais, faz de algumas
dessas sessões um divertimento idêntico à lanterna mágica
e ao laun-tennis; decerto há entre os mais convictos Bouvard, Pécuchet
e mesmo o conselheiro Acácio; mas, frívolos e tolos foram sempre
os meios inconscientes de expansão de uma crença, e o espiritismo
científico deles se serve para triunfar.

Nas rodas mais elegantes, entre sportsmen inteligentes, lavra o desespero
das comunicações espíritas, como em Paris o automobilismo.

Ainda há alguns meses senhores do tom, ao voltarem do Lírico,
encasacados e de gardênia ao peito, comunicavam-se no Hotel dos Estrangeiros
com as almas do outro mundo, por intermédio de uma cantora, medium
ultra-assombroso.

À tarde na Colombo, esses senhores combinavam a partie de plaisir,
e à noite nos corredores do Lírico, enquanto o Caruso rouxinoleava
corpulentamente para encanto das almas sentimentais, eles prelibavam as revelações
sonambúlicas da medium musical.

Esses fatos são raros, porém, e as experiências assombrosas
multiplicam-se; os mediuns curam criaturas a morrer. Leôncio de Albuquerque,
que tratava caridosamente a Saúde em peso, anuncia, sem tocar no doente,
o primeiro caso de peste bubônica, e cada vez mais aumenta o número
de crentes.

O meu amigo dizia-me:

– Nunca se viu uma crença que com tal rapidez assombrasse crentes.
Se o Figaro dava para Paris cem mil espíritas, o Rio deve ter quase
igual soma de fiéis. O Brasil, pela junção de uma raça
de sonhadores como os portugueses com a fantasia dos negros e o pavor indiano
do invisível, está fatalmente à beira dos abismos de
onde se entreve o além. A Federação publicou uma estatística
de jornais espíritas no inundo inteiro. Pois bem: existe no mundo 96
jornais e revistas, sendo que 56 em toda a Europa e 19 só no Brasil.

– Como se reconhecem as nossas aptidões literárias!

– Não ria. Tudo na terra tem a sua dupla significação.

– E quais são essas revistas e jornais?

– Mensageiro, em Manaus (Amazonas); Luz e Fé e Sofia, em Belém
(Pará); A Cruz, em Amarante (Piauí); Doutrina de Jesus, em Maranguape
(Ceará); A Semana (ciências e letras), no Recife (Pernambuco),
A Verdade, em Palmares (Pernambuco); O Espírita Alagoano, A Ciência,
em Maceió, (Alagoas); Revista Espírita, em S. Salvador (Bahia);
Reformador, no Rio de Janeiro; Fraternização, Verdade e Luz,
A Nova Revelação, O Alvião e A Doutrina, em Curitiba
(Paraná); Revista Espírita, em Porto Alegre (Rio Grande do Sul);
A Reencarnação, no Rio Grande; O Allan Kardec, em Cataguazes
(Minas Gerais).

– Como começou esta propaganda no Brasil?

– Homem, o Sr. Catão da Cunha diz que os primeiros espíritas
brasileiros apareceram no Ceará ao mesmo tempo que em França.
A propaganda propriamente só começou na Bahia, no ano de 1865,
com o Grupo Familiar do Espiritismo.

Era o espiritismo em família, ab ovo, porque aos quatro anos depois
surgiu o primeiro jornal, dirigido pelo Dr. Luís Olímpio Teles
de Menezes, membro do Instituto Histórico da Bahia. Esse jornal intitulava-se
O Eco de Além Túmulo. A propaganda tem sido rápida.

Ainda em 1900 no seu relatório ao Congresso Espírita e Espiritualista
de Paris, a Federação acusava adesões de setenta e nove
associações e o aparecimento de trinta e dois jornais e revistas
de propaganda, entre os quais o Reformador, que conta vinte e quatro anos
de existência.

Basta esse relatório para afirmar a força latente da crença.

– Vamos à Federação, o centro onde se praticam todas
as virtudes do espiritismo. Verá com os seus próprios olhos.

A Federação fica na rua do Rosário, 97. É um
grande prédio, cheio de luz e de claridade. Cumprem-se aí os
preceitos da ortodoxia espírita; não há remuneração
de trabalho e nada se recebe pelas consultas. A diretoria gasta parte do dia
a servir os irmãos, tratando da contabilidade, da biblioteca, do jornal,
dos doentes. A instalação é magnífica. No primeiro
pavimento ficam a biblioteca, a sala de entrega do receituário, a secretaria,
o salão de espera dos consultantes e os consultórios. Seis mediuns
psicográficos prestam-se duas horas por dia a receitar, e as salas
conservam-se sempre cheias de uma multidão de doentes, mulheres, homens,
crianças, figuras dolorosas com um laivo de esperança no olhar.

A casa está sonora do rumor contínuo, mas tudo é simples,
caridoso e sem espalhafato. Quando entramos não se lhe altera a vida
nervosa. A Federação parece um banco de caridade, instalado
à beira do outro mundo. Os homens agitam-se, andam, conversam, os doentes
esperam que os espíritas venham receitar pelo braço dos mediuns,
sob a ação psicográfica, falam e conversam enquanto o
braço escreve.

Atravessamos a sala dos clientes, entramos no consultório do Sr. Richard.
Há, uma hora que esse honrado cavalheiro, espírita convencido,
escreve e já receitou para quarenta e sete pessoas.

– Há curas? – perguntamos nós, olhando as fileiras de doentes.

– Muitas. Nós, porém, não tomamos nota.

– Mas o senhor não se lembra de ter curado ninguém?

– A mim me dizem que pus boa uma pessoa da família do general Argolo.
Mas não sei nem devo dizer. É o preceito de Deus.

Deixamo-lo receitando, já perfeitamente normalizados com aquele ambiente
estranho, e interrogamos. Há milhares de curas. A Sra. Georgina, esposa
do Sr. César Pacheco, depois de louca e cega, ficou boa em dez dias;
o Sr. Júlio César Gonçalves, morador à rua de
Santana, n. 26, que tinha o corpo num só dartro, curou-se em dois meses
com passes magnéticos; D. Jesuína de Andrade, viúva,
quase tísica, em trinta dias salva, e outros muitos.

Que valor têm essas declarações? Os doentes enfileirados
parece crerem e o Sr. Richard é a fé em pessoa. É quanto
basta talvez.

No segundo pavimento, encontramos desenhos de homens ignorantes inspirados
pelos grandes pintores. Rafael guia a mão de operários em movimentados
quadros de batalhas, e outros pintores mortos, sob incógnito, fazem
desenhos extraordinários por intermédio de maquinistas da Armada…

Essas coisas nos eram explicadas simplesmente, como se tratássemos
de coisas naturais.

– Quando há sessão? – perguntou o nosso amigo.

– Hoje, às 7 horas. Podem ver, é a sessão de estudo.

Nós ainda olhamos fotografias de espíritos, o retrato de D.
Romualdo, um sacerdote que de além-túmulo vem sempre visitar
a Federação, e esperamos a sessão de estudo, atraídos,
querendo ver, querendo ter a doce paz daqueles entes.

A sessão começou às 7½, na sala do 2.º andar,
toda mobiliada de canela cirée com frisos de ouro. Nas cadeiras, cavalheiros
de sobrecasaca, senhoras, demoiselles. Os bicos Auer acesos banhavam de luz
clara toda a sala, e pelas janelas abertas ouviam-se na rua o estalar de chicotes
e gritos de cocheiros.

Sem as visitas do irmão Samuel, ninguém diria uma sessão
espírita. Depois de lida e aprovada a ata da sessão anterior,
como na Câmara dos Deputados, Leopoldo Cirne, o presidente, que ao começo
nos dissera um adeusinho, perfeitamente mundano, transfigura-se e a sua voz
toma suavidades inéditas.

– Concentremo-nos, irmãos!

Imediatamente todos fechamos os olhos, como querendo concentrar o pensamento
numa única idéia. As senhoras tapam o rosto com o leque e têm
os olhos cerrados. De repente, como movida por todas aquelas vontades, a mão
do psicógrafo cai, apanha o papel, o lápis, e escreve rapidamente
linhas adelgadas. No silêncio ouve-se o lápis roçando
o papel de leve; e é nesse silêncio que o lápis pára,
o medium esfrega os olhos e começa a leitura da comunicação.

– “Paz! Irmãos. Deus seja convosco. As palavras do filósofo
grego: conhece-te a ti mesmo…

É Samuel o espírito que fala, achando que para compreender
a vida e o bem é necessário antes de tudo conhecermo-nos a nós
mesmos. Leopoldo Cirne não se move.

Quando Samuel termina, ouve-se então a sua voz delicada, trêmula
de humildade.

É ele quem faz o comentário.

– Meus irmãos, essas palavras que Sócrates mandou inserir no
templo de Delfos…

E esse homem, que nós vemos tão correto e tão mundano,
gostando de Eça de Queirós e lendo Verlaine, surge-nos o pastor,
o rabi, o iniciador. O seu semblante espiritualiza-se em atitudes extáticas,
a sua voz é a blandícia mesma que nos acaricia a alma pregando
a bondade e a demolição das vaidades. As senhoras ouvem-no ansiosas;
ao nosso lado dizem-no inspirado, atuado pelos espíritos. De tal forma
é sutil o seu raciocínio, de tal forma desfaz velhas crenças
no incensário de um Deus espiritual que, decerto, se o atuam espíritos,
fala pela sua boca Ponce de Léon.

Ele cala, enxuga a face. Depois, no estudo do Evangelho, no trecho de Jesus
com os escribas e fariseus sobre o alimento da alma, de novo a sua voz corre
como um fio d’água entre sombras macias, sorvida por toda aquela gente
atenta e sôfrega. Leopoldo Cirne acaba num sopro, tão baixo que
mais parece uma vaga harmonia.

Em seguida fala o Sr. Richard, que condena alguns dos nossos males, entre
os quais o patriotismo – porque não se pode amar uns mais do que outros,
quando todos, são iguais perante Deus.

– Terminamos o nosso estudo. Não há mais quem queira falar?

Leopoldo Cirne ergueu a loira cabeça de Salvador, fixando os olhos
na minha pobre pessoa. Era a atração do abismo, uma explicação
indireta, feita como quem, muito cansado da travessia por mundos ignorados,
viesse a conversar à beira da estrada com o viandante descrente.

“O Espiritismo, fez ele, ou revelação dos espíritos,
sistematizada em doutrina por Allan Kardec, que recolheu os seus ensinos acerca
do universo e da vida e das leis que os regem, e com os quais formou as obras
ditas fundamentais O Livro dos Espíritos – O Livro dos médiuns
– O Céu e o Inferno – A Gênese – O Evangelho segundo o Espiritismo,
reúne o tríplice aspecto de ciência, filosofia e moral
ou religião.

Como ciência de observação, estuda, não somente
os fenômenos espíritas, desde os mais simples, como os ruídos
e perturbações (casas mal-assombradas) e os efeitos físicos
(deslocação de objetos sem contato) etc., até os mais
transcendentes, como as materializações de espíritos
(observações de Crookes, Aksakoff, Zoellner, Dr. Gibier etc.),
como também todos os fenômenos da natureza, investigando a gênese
de todos os seres, numa vasta síntese, e neles buscando a origem do
princípio espiritual, dos estados mais rudimentares aos mais complexos
pois que um germe, um esboço dessa natureza parece constituir a essência
de toda forma. Em tais condições, relaciona-se com todos os
ramos das ciências humanas: a física, a química, a biologia,
a história natural etc., sem esquecer a própria astronomia,
por isso que igualmente sonda o universo sideral, “as diversas moradas
da casa do Pai” de que falou Jesus, e que são os mundos habitados,
disseminados no infinito.

Ao lado de tais observações, procura fixar as leis do universo
e da vida, das quais a da evolução é a chave, estando
tudo submetido ao progresso, na ordem física, moral e intelectual.

Como filosofia, sobre esses dados da observação desdobra as
mais lógicas induções, partindo do infinitamente pequeno
e dos raciocínios mais elementares para o infinitamente grande e até
às mais transcendentes conseqüências, isto é, até
à demonstração da existência de Deus.

Sobre aquele princípio da evolução universal, prova
com a pluralidade dos mundos a pluralidade das existências da alma,
a imanência da lei eterna de justiça, em virtude da qual o espírito,
depois de cada existência, colhe as lições da experiência
(de resto, permanente na vida quotidiana) e sofre as conseqüências
de seus atos bons ou maus, sendo assim feliz ou desgraçado, trazendo
para a outra existência, em uma nova encarnação, as suas
aquisições do passado, que se denunciam nas tendências
e aptidões inatas, guardando assim latente a reminiscência substancial
desse passado, com esquecimento apenas do circunstancial, isto é, dos
fatos concretos e dos incidentes, além de tudo porque no cérebro
atual só se acham gravadas as impressões dessa nova vida. Tudo
o mais está guardado nas profundezas da subconsciência, podendo
reaparecer nos estados de sonambulismo e, em geral, em todos os casos de desdobramento
– experiência do magnetismo e de psicologia transcendental.

Assim prossegue, de vida em vida, a evolução insefinitae do
espírito, sendo-lhe acessíveis todas as perfeições,
que conquistará pelo próprio esforço.

Com a evolução dos indivíduos e, por conseguinte, das
humanidades, coincide a evolução dos mundos fisicamente, devendo
a nossa terra, como todas as do espaço, ao aperfeiçoamento já
assinalado das épocas pré-históricas aos nossos dias
acrescentar novos e constantes aperfeiçoamentos, em harmonia com essas
maravilhosas leis da criação, que constituem o lado mais belo
do estudo filosófico do Espiritismo.

Como moral ou religião e no sentido de favorecer a realização
do seu ideal filosófico, o Espiritismo se propõe o restabelecimento
do Evangelho de Jesus, que a igreja deturpou e fez cair no olvido.

O seu lema é: “Fora da caridade não há salvação…”

E por conseguinte tolerante e, fiel às máximas cristãs
fundamentais: “Não faças aos outros o que não queres
que te façam”.

– “Ama o teu próximo como a ti mesmo”, não hostiliza
nenhuma crença, respeitando todas as convicções sinceras.

E, sob qualquer dos seus aspectos, partidário do livre exame, nada
recomendando que seja aceito e admitido sem a sanção do raciocínio,
porque sabe, com o Mestre Allan Kardec, que “a única fé
inabalável é aquela que pode encarar a razão face a face,
em todas as épocas da humanidade”.

O Espiritismo, em suma, sobre explicar todas as aparentes anomalias da vida,
vem oferecer o conforto e a esperança aos que sofrem, aos que erram
e se transviam no mal, cedendo às suas múltiplas ciladas; vem
esclarecer acerca das suas responsabilidades, dando à vida um objetivo
alto, nobre e digno, sobranceiro às torpes materialidades e às
transitórias vicissitudes; aos que procuram lealmente a verdade proporciona
um ideal que ultrapassa as mais exigentes aspirações da inteligência
e da razão.

A todos oferece a calma interior, a paz, a resignação, a paciência
e a fé inabalável no futuro. É, pois, o problema da regeneração
e da felicidade humana que vem resolver.

Houve um longo silêncio. Um homem magro levanta-se e conta que veio
da casa de um irmão agonizante. O irmão deseja uma oração
e pede aos amigos não o deixem de ver.

– Concentremo-nos! – diz de novo a voz expirante do presidente.

As frontes curvam-se, o medium toma o lápis. É Samuel que volta.

– Paz! – diz ele – a vaidade é um monte que nos separa do bem. Entretanto,
irmãos…

Com a presença do espírito de Samuel, levantam-se todos e Richard
faz a oração pelo irmão agonizante para que o guarde
em bons céus.

Depois um arrastar de cadeiras, apertos de mão, riso, conversa. Está
acabada a sessão. Leopoldo Cirne volta da sua transfiguração,
recobrando a voz habitual e a cortesia de sempre.

Faço, receoso, um cumprimento aos seus dotes sagrados.

– Ah! – sim? faz ele, pasmado, como se nunca se tivesse ouvido.

Então peguei no chapéu sorrateiramente. Esse constante estado
flutuante entre a realidade e o invisível, essas fugidas ao espaço
para conversar com os espíritos, a caridade evangélica do homem
à beira do real eram alucinantes. Desci as escadas devagar, aquelas
escadas por onde subia sempre a romaria dos enfermos; na rua enxuguei a fronte,
olhando o edifício, menos misterioso que qualquer clube político.
E como passasse um bonde inteiramente vazio, refleti que esse bonde podia
ser como o do marechal Quadros e voltei, a pé, devagar, para não
dar encontrões nas pessoas que talvez comigo tivessem passado todo
aquele dia do outro mundo.

Os Exploradores

False Sphinx! False Sphinx! by reedy Styx
Old Charon, learning on his oar
Waits for my coin. Go thou before…

Ao chegar à praça Onze, tomamos por uma das ruas transversais,
escura e lôbrega. Ventava.

– É aqui – murmurou cansado o nosso amigo, parando à porta
de um sobrado de aparência duvidosa.

Havia oito dias já andávamos nós em peregrinação
pelo baixo espiritismo. Ele, inteligente e esclarecido, dissera:

– Há pelo menos cem mil espíritas no Rio. É preciso,
porém, não confundir o espiritismo verdadeiro com a exploração,
com a falsidade, com a crendice ignorante. O espiritismo data de 1873 entre
nós, da criação da Sociedade de Confúcio. Talvez
de antes; data de umas curiosas sessões da casa do Dr. Melo Morais
Pai, a bondade personificada, um homem que andava de calções
e sapatos com fivelas de prata. Mas, desde esse tempo, a religião sofre
da incompreensão de quase todos, substitui a feitiçaria e a
magia.

Foi então que começamos ambos a percorrer os centros, os focos
dessa tristeza.

O Rio está minado de casas espíritas, de pequenas salas misteriosas
onde se exploram a morte e o desconhecido. Esta pacata cidade, que há
50 anos festejava apenas a corte celeste e tinha como supremo mistério
a mandinga, o preto escravo, é hoje como Bizâncio, a cidade das
cem religiões, lembra a Roma de Heliogábalo, onde todas as seitas
e todas as crenças existiam. O espiritismo difundiu-se na populaça,
enraizou-se, substituindo o bruxedo e a feitiçaria. Além dos
raros grupos onde se procede com relativa honestidade, os desbriados e os
velhacos são os seus agentes. Os médiuns exploram a credulidade,
as sessões mascaram coisas torpes e de cada um desses viveiros de fetichismo
a loucura brota e a histeria surge. Os ingênuos e os sinceros, que se
julgam com qualidades de mediunidade, acabam presas de patifes com armazéns
de cura para a exploração dos crédulos; e a velhacaria
e a sem-vergonhice encobrem as chagas vivas com a capa santa do espiritualismo.
Quando se começa a estudar esse mundo de desequilibrados, é
como se vagarosamente se descesse um abismo torturante sem fundo.

A polícia sabe mais ou menos as casas dessa gente suspeita, mas não
as observa, não as ataca, porque a maioria das autoridades têm
medo e fé. Ainda há tempos, um delegado moço freqüentava
a casa de um espírita da praia Formosa para se curar da sífilis.
Se os delegados são assim apavorados do futuro, reduzindo a mentalidade
à crença numa panacéia misteriosa, o pessoal subalterno
delira.

– Veja você – disse-nos o amigo espírita -, toda a nossa religião
resume-se nas palavras de Cristo à Samaritana: “Deus é
espírito e em espírito quer ser adorado”. Essa gente não
compreende nada disso, maravilha-se apenas com a parte fenomenal, com a canalhice
e a magia. É horrível. Os proprietários dos estabelecimentos
de cura anímica a preço reduzido exploram; o povaréu
vai todo, aliando as crendices do novo às bagagens antigas. São
católicos ou perdidos a servirem-se dos espíritos como de um
baralho de cartomante.

Com efeito, todas as casas em que entramos, estavam sempre cheias. Na maioria
freqüentam-nas pessoas de baixa classe, mas se pudéssemos citar
as senhoras, as damas do high-lífe que se arriscam até lá,
a lista abrangeria talvez metade das criaturas radiosas que freqüentam
as récitas do Lírico. Alguns desses lugares equívocos
não são só engodos da credulidade, servem de máscaras
a outras conveniências. A sessão fica na sala da frente, mas
o resto da casa, com camas largas, é alugado por hora a alguns pares
de irmãos. O médium, nesses momentos, deixa o estado sonambúlico
para servir o freguês, e um centro espírita revestido de mistério,
com o aparato das portas fechadas, dos passes e das velas acesas, transforma
a crença, cuja oblata é a virtude máxima, numa nódoa
de descaro sem nome.

Nós visitamos uns cinqüenta desses milhares de centros. A cidade
está coalhada deles. Há em algumas ruas dois e três. Estivemos
no Andaraí Grande, na rua Formosa, na estação do Rocha,
na rua da Imperatriz, no morro do Pinto, na praia Formosa, no Engenho de Dentro,
na rua Frei Caneca, na rua Francisco Eugênio, assistindo às sessões
e ouvindo a vizinhança, que é sempre o termômetro da moralidade
de qualquer casa.

Um pouco de ceticismo ou de simples crença basta para compreender
a pulhice dessas pantomimas lúgubres.

Assim, há uma tropa de mulheres, a Galdina da rua da Alfândega,
a negra Rosalina da rua da América, a Aquilina da rua do Cunha, a Amélia
do Aragão, a Zizinha Viúva da rua Senhor de Matozinhos, a Augusta
da rua Presidente Barroso, a Tomásia da rua Torres Homem, n.0 14, que
estabelecem o comércio com consultas de 500 réis para cima e
praticam coisas horrendas, abortos, violações a preço
fixo e têm trabalhos em que são acompanhadas de secretárias;
há espíritas ambulantes, como o negro Samuel, que já
foi cozinheiro, mora na rua Senador Pompeu, n.0 157, e vai de casa em casa
fazer passes; há mulatos pernósticos, o Zizinho da rua de S.
Januário, o Claudino da rua de Santana, o Joãozinho da rua Sorocaba,
com consultas noturnas; há portugueses como um tal Sr. Carneiro, da
Praia Formosa, e o Simões, da rua Visconde de Itaúna, que exigem
20$000 por consulta e mandam os doentes comprar uma vela de cera e tomar um
banho de cevada. Há de tudo, até sinetas, rapazes de passinho
rebolado, que quando não prestam mais para o comércio público
estabelecem-se nas ruas do meretrício com adivinhações
espíritas!

E nesse complexo notam-se os centros familiares, uma porção
de centros, alguns dos quais dão bailes mensais e, quando não
são casas de fabricação de loucuras levando à
histeria senhoras indefesas, servem para a mais desfaçada imoralidade
e a mais ousada exploração.

No morro do Pinto a feitiçaria impera. Numa sala baixa, iluminada
a querosene, assentam-se os fiéis, mulheres desgrenhadas, mulatinhas
bamboleantes, negras de lenço na cabeça com o olhar alcoólico,
homens de calças abombachadas, valentes com medo das almas do outro
mundo, que ao sair dali ou ali mesmo não trepidariam em enfiar a faca
nas entranhas do próximo. As luzes deixam sombras nos cantos sujos.
No momento em que entramos, o médium, em chinelas, é presa de
um tremor convulso. Diante do estrado, uma portuguesa, com o olhar de gazela
assustada na face velutínea, espera. A pobre casou, o marido deu para
beber e, desgraça da vida! bate-lhe de manhã, à noite,
deixa-a derreada.

É a mãe dessa mulher que está dentro do médium.
Todos tremem, de olhos arregalados.

De repente, o médium estarrece e por trás dos seus dentes,
ouve-se uma voz de palhaço:

– Como estás, minha filha, vais bem?

– A mãe! A mãe! – murmura a portuguesita infeliz, aterrada,
em meio o palpitante silêncio.

– Que deve fazer sua filha? – pergunta o evocador.

– Ter confiança em Deus. Eu devia estar no inferno. A misordia perdoou
a mãe dela. Toda a desgraça vem de um bruxedo que puseram na
soleira da porta.

– Quem foi? – faz a portuguesa, numa voz de medo.

– Uma mulata escura que gosta do seu homem. Ele vai ficar bom. Dê-lhe
o remédio que eu receitar e crave um punhal no travesseiro três
noites a fio.

Um homem magro, parecido com o general Quintino, faz uns passes; o médium
volta a si num sorriso imbecil.

– Está satisfeita? – pergunta o espertalhão dos passes.

– A mãe! a pobre da mãe tão boa! A portuguesa rebenta
num choro convulso; uma negra epilética, velha, esquálida, começa
a gritar numa crise tremenda, enquanto o homem magro brada:

– Está com o espírito mau! Está mesmo!

Essas cenas sinistras são compensadas por outras mais alegres. Num
dos nossos bairros, o médium dá sessões de manhã,
evoca os espíritos para saber qual é o bicho que ganha e, como
é vidente, vê os espíritos com formas de animais.

– É o burro, é o burro! – grita em estado sonambúlico,
e a rodinha toda joga no burro.

No Andaraí Grande o curandeiro é divertido e bailarino. Em
vésperas de S. João dá um bródio de estalo com
ceia copiosa e vinhaça de primeira. Este tem a especialidade das mulheres
baratas. A rua de S. Jorge, a da Conceição, a do Senhor dos
Passos, a do Visconde de Itaúna lá extravasam a alma sentimental
das meretrizes, dos soldados e dos rufiões. O nosso homem cura tudo:
dartros, feridas más, constipações, amores mal retribuídos,
ódios. É fantástico! As mulheres têm-lhe uma fé
doida. O espiritismo para elas é o milagre, a intervenção
dos espíritos junto de um poder superior. Antes de ir à consulta,
ajoelham no oratório e vão com todos os seus bentinhos, as figas
de Guiné, o espanta mau-olhado das negras minas. Mas o cavalheiro do
Andaraí é sagrado. Toda essa fé emana, dizem, de uma
sua predição feliz. Uma mulher que voltava da Misericórdia
recebeu por seu intermédio comunicação de que seria honesta;
e três meses depois um homem sério levou-a. A suburra do Rio
venera-o, freqüenta-lhe as festas e sustenta-o.

– São infames. O lema do espírita é: sem caridade não
há salvação. Seja a caridade deles. Quando não
são isso, fazem das sessões, como o Torterolli, sessões
de orgia pública… Não posso mais!

Afinal, naquela noite tínhamos resolvido acabar a travessia pelos
bas-fonds da crença, com a alma entristecida pela visão de salas
idênticas, onde o espiritismo substituía a bisca, os espíritos
servem de feiticeiros e dão remédios para pescar amantes; das
salas que, como na rua de S. Diogo, mascaram as casas de quartos por hora.
A casa da rua transversal à praça Onze seria a última
a visitar.

– Entre – disse o meu amigo.

Enfiamos por um corredor escuro, subimos. No patamar um bico de gás
silvava, batido pelo vento da rua.

– Papai, dois homens – bradou uma voz de criança.

Logo apareceu, em mangas de camisa, um mulato de bigodes compridos, que se
desmanchou em riso e amabilidades para o meu companheiro.

– A que devo as honras? – disse sibilando os ss.

– As honras – como diz – deve-as ali ao irmão. É um simpático
que quer crer e anda, na dúvida, à procura da verdade. Que diz
você da verdade?

– Verdade? Ora esta! Verdade é o espírito!

– Bravo!

Fomos entrando para a sala de jantar, com móveis de vinhático
e garrafas por todos os aparadores.

– Nem de prepósito – fez o cabra. – O médium está ali
proseando com a gente.

O médium é um tipo de hébèté, de quase
cretino. Lourinho, de um louro de estopa, com a face cor de oca e as gengivas
sem dentes, é carteiro de 2.ª classe dos Correios. Tem a farda
suja e a gravata de lado. Durante todo o tempo em que o mulato nos conta as
suas curas, ele sopra monossílabos e remexe a cabeça, dolorosamente,
como se lhe estivessem enterrando alfinetes na nuca.

Um mal-estar nos invade, como o anúncio de uma grande desgraça.

– Há tipos que usam ervas para fingir que é espírito
– diz o curandeiro. – Eu não; cá comigo é a verdade.
Um desses oraras põe noz-vômica na água para os doentes
lançarem e diz que é o espírito limpando lá dentro.
Pecado! Apre! Eu agora tenho um doentinho. Veio-lhe uma febre de queimar.
A mãe não tem quase dinheiro, mas não o gasta na farmácia.
Eu o curo logo…

De repente parou. Pela escada subia um tropel, e uma mulher magra, lívida,
aos soluços, entrou na sala.

– Então que há?

– O pequeno está mal, muito mal, revirando os olhos. Salve-mo! Salve-mo!

– É o tal que eu lhes dizia. Não se assuste, D. Aninha. Eu
já lhe disse que o pequeno ficava bom; os espíritos querem.
E para nós: venham ver.

Levou-nos ao terraço, ao fundo, mergulhou um litro vazio numa tina
de água, encheu-o, colocou-o em cima da mesa.

– Durma, Zezé, durma!

E esfregou as mãos na cara do carteiro, subitamente em pranto. O homem
revirava os olhos, sacudia a cabeça.

– É o espírito; veio, quer que seu filho fique bom… E de
repente o diabólico começou a estender as mãos do carteiro
choroso ao gargalo do litro.

– Não está vendo o espírito entrar? Olhe… No litro
cheio bolhas de oxigênio subiam vagarosamente e a pobre mulher, agarrando
a mesa, com os olhos já enxutos, seguia ansiada o milagre que lhe ia
salvar o filho.

De repente, porém, uma voz estalou embaixo, na ventania:

– Mamãe! Mamãe! Depressa! Joãozinho está morrendo,
Joãozinho morre!

Essas palavras produziram um tal choque que nós saímos desvairados,
de roldão, com o mulato e a mulher, sentindo um travor de morte nos
lábios, angustiados, lembrando-nos dessa criança que a inconsciência
deixara morrer. E na ventania cortada de chuva, entre as variadas recordações
dessa vida de oito dias horrendos pelos antros escuros onde viceja o espiritismo
falso, a visão dessa criança perseguia-nos cruciantemente, como
o remorso de um grande e infinito mal.

As Sinagogas

Ontem, 14 de Hadar de 1664, eu assisti às cerimônias do carnaval
nas sinagogas da Sion fluminense. O esperto Mardocheu, que tudo conseguira
com a perfumada beleza de Ester, ao comunicar de Suza a sua luminosa vitória,
ordenara para todo o sempre diversões e alegria nesse dia. Os filhos
de Israel obedecem e, como a pátria de Israel é o mundo, nenhuma
cidade ainda sofreu por não festejar data tão preciosa. No Rio,
também ontem, cerca de quatro mil famílias divertiram, riram
e beberam. Divertiram com discrição, é certo, beberam
sem violência, riram com calma, exatamente porque a gente do país
de Judá tem a tristeza nalma e a tenacidade na vida.

As festas do peisan foram copiadas dos persas pelos romanos. Os povos modernos
copiaram dos romanos, aumentando os dias de prazer e destruindo a intenção
cultual da cerimônia. Quem assistiu à orgia continua dos batuques
carnavalescos, talvez não possa compreender como cerca de dez mil judeus
comemoram o 14 de Hadar, com tanta modéstia e tanta correção.

Esses dez mil judeus divertiram-se, trocaram presentes, cantaram, ouviram
mais uma vez a história da linda Ester, lida pela hhasàn nos
sagrados livros, e cada um recolheu um momento o espírito para pensar
em Mardocheu, no rei Assuéro e na maneira por que 60 milhões
de antepassados foram salvos da morte e do patíbulo.

Entretanto, pela vasta cidade, ninguém desconfiou que tanta gente
tivesse a alegria nalma.

É que os olhos de Israel são receosos, sempre curvados ao sopro
das perseguições, sempre sábios. Festejaram sem que ninguém
desse por tal…

O Rio tem uma vasta colônia semita ligada à nossa vida econômica,
presa ao alto comércio, com diferentes classes sem relações
entre elas e diferentes ritos.

Há os judeus ricos, a colônia densa dos judeus armênios
e a parte exótica; a gente ambígua, os centros onde o lenocínio,
mulheres da vida airada e caftens, cresce e aumenta; há israelitas
franceses, quase todos da Alsácia Lorena; marroquinos, russos, ingleses,
turcos, árabes, que se dividem em seitas diversas, e há os Asknenazi
comuns na Rússia, na Alemanha, na Áustria, os falachas da África,
os rabbanitas, os Karaitas, que só admitem o Antigo Testamento, os
argônicos e muitos outros.

Os semitas ricos não têm no Rio ligação com os
humildes nem os protegem como em Paris e Londres os grandes banqueiros da
força de Hirsch e dos Rottchilds. São todos negociantes, jogam
na Bolsa, veraneiam em Petrópolis, vestem-se bem.

Muitos são joalheiros, com a arte de fazer brilhar mais as jóias
e de serem amáveis. Franceses, ingleses, alemães, o culto desses
cavalheiros apresentáveis e mundanos reveste-se de uma discrição
absoluta. Uns praticam o culto íntimo, outros não precisam do
hhasan e fazem juntos apenas as duas grandes cerimônias: a Ion-Kipur
ou dia das lamentações e do perdão, e o ano novo ou Rasch-Haschana.

Algumas sinagogas já têm sido estabelecidas nas salas de prédios
centrais para receber esses senhores. Atualmente não há nenhuma,
estando na Europa quem mais se preocupava com isso.

As riquezas das nações estão nas mãos dos judeus,
brada o anti-semita Drumont, ao vociferar os seus artigos. A nossa também
está, não porém nas dos judeus daqui, que são
apenas homens ricos bem instalados nos bancos e na vida.

O outro meio, extraordinariamente numeroso, é onde vicejam o vício
e a inconsciência, os rufiões e as simples mulheres que fazem
profissão do meretrício. Essa gente vem em grandes levas da
Áustria, da Rússia, de Marselha, de Buenos Aires, e habita na
maior parte na praça Tiradentes, nas ruas Luís de Camões,
Tobias Barreto, Sete de Setembro, Espírito Santo, Senhor dos Passos
e nas ruelas transversais à rua da Constituição. Comem
quase todas numas pensões especiais dessas ruas equivocas, pensões
sujas em que se reúnem homens e mulheres discutindo, bradando, gritando.
O alarido é às vezes infernal, porque, quase sempre numa briga
de casal, ela explorada por ele, todos intervêm, dão razão,
estabelecem contendas. Nestas casas guardam não raro uma sala para
costura e outra destinada à sinagoga.

Há mais mulheres do que homens. Os homens são inteligentes,
espertos, sabem e explicam com clareza, as mulheres são profundamente
ignorantes da própria crença. Quase nenhuma sabe a data exata
das festas, a sua duração, a sua razão de ser. É
interessante interrogá-las, gastar algumas horas visitando as alfurjas
apartadas desta babel americana.

– Então vai à sinagoga?

– Oh! aqui não há nada direito; em Buenos Aires sim.

– Mas você vai sempre a estas reuniões?

– Vou. Então podia deixar de ir?

– Por que vai?

– Porque tenho que ir. Quando saio de casa, deixo uma vela acesa.

– Por quê?

– É costume.

– A festa do ano novo quantos dias dura?

Uma nos diz três dias, outra oito, outras respondem vagamente. Entretanto,
russas, inglesas, francesas fazem questão de se dizer judias e obedecem
á fé. No dia do Kipur, ou dia do perdão, do arrependimento
e das lamentações, fecham-se os prostíbulos, todas elas
vão às sinagogas improvisadas soluçar os pecados do ano
inteiro, os pecados sem conta. Às 4 da tarde fazem uma refeição
sem pão, sem carne e desde que no céu palpita a primeira estrela,
até ao outro dia, quando de novo Lúcifer brilha, não
se alimentam mais, limpas de todos os desejos e de todas as necessidades humanas.

Estes judeus reúnem-se em qualquer parte, o mais letrado lê
a história no tópico necessário, e choram e riem ou cantam,
conforme é necessário, crentes ignorantes. As sinagogas ambulantes
estão cada ano numa rua. As últimas reuniões deram-se
na rua do Espírito Santo, na rua da Constituição, e na
rua do Hospício. É chefe do culto, dirigindo os convites e organizando
as festas, uma meretriz, a Norma, que ultimamente introduziu no Rio o entôlage,
o roubo aos fregueses.

A outra sociedade, a mais densa, é a dos armênios e dos marroquinos.
Essa fez-se de grandes levas de imigração para o amanho de terra,
em que o Brasil gastou muito dinheiro. Os agentes em Gibraltar aceitavam não
só famílias como homens solteiros. As colônias não
deram resultados; no Iguaçu os colonos fugiam aos poucos, e em outros
lugares foi impossível estabelecê-los, porque o povo até
os julgava com chifres de luz como Moisés.

Os judeus árabes apareceram por aqui na miséria, mas aos poucos,
pela própria energia, tomaram o comércio ambulante, viraram
camelots, montaram armarinhos e acabaram prosperando. Há ruas inteiras
ocupadas por eles, naturalmente ligados aos turcos maometanos, aos gregos
cismáticos e a outras religiões e ritos degenerados, que pululam
nos quarteirões centrais.

Nas levas de imigrantes vieram homens inteligentes e cultos. O hhasan David
Hornstein é um exemplo. Esse homem cursou doze anos a Universidade
Talmúdica, é poliglota, professor, correspondente de vários
jornais escritos em hebreu e rabino diplomado da religião judaica.
David estava na Palestina, na colônia Rishon l’Sion, uma espécie
de companhia que o falecido barão B. Rothschild instalara em terrenos
comprados ao sultão, com grande ódio dos beduínos. Nessa
colônia havia médicos, advogados, russos niilistas. O resultado
foi a sublevação, que o amável barão, depois da
morte do administrador, acabou, dispersando-os amotinados. Vinte e dois desses
homens, entre os quais David e o erudito Kulekóf, que acabou rico em
São Paulo, partiram para Beirute, depois para Paris. Hirsch deu-lhe
500 francos, fazendo um discurso camarário.

Os judeus revolucionários foram para Gibraltar e aí embarcaram
para o Brasil. Todos acabaram com fortuna, menos o rabino, que ficou ensinando
línguas, porque o sacerdote judeu não vive do seu culto.

E esta parte densa da colônia judaica que tem duas sinagogas estáveis,
uma na rua Luís de Camões, 59 e outra na rua da Alfândega,
369.

A sinagoga da rua Luis de Camões é do rito argônico.
Entra-se num corredor sujo, onde crianças brincam. Aos fundos fica
a residência da família. Na sala da frente está o templo,
que quase sempre tem camas e redes por todos os lados.

As tábuas de Moisés negrejam na parede; a um canto está
o altar, e na extremidade oposta fica a arca onde se guarda a sagrada história,
resumo de toda a ciência universal, escrita em pele de carneiro e enrolada
em formidáveis rolos de carvalho. Só nos dias solenes se transforma
o templo. David Hornstein faz as cerimônias no meio da sala, no altar,
envolto na sua túnica branca riscada nas extremidades de vivos negros,
com um gorro de veludo enterrado na cabeça. Muito míope, o hhasan
é acompanhado por três pequenos que entoam o coro.

No altar David retira a capa de veludo roxo dos rolos, abre-os da esquerda
para a direita. Ao lado guiam-lhe a leitura com uma mão de prata. Aí,
imóvel, sem se mexer, faz a oração secreta para que Deus
o atenda e o perdoe de ser enviado e ousar rogar pelo seu povo.

Jeová naturalmente atende e perdoa. O hhasan infatigável já
tem desenhado cento e cinqüenta sepulturas, já praticou a circuncisão
em cerca de setecentos pequenos, já batizou, mergulhando em três
banhos consecutivos, muitas meninas, já casou muitos judeus e prospera
falando dos nossos políticos e citando os deputados com familiaridade.

A sinagoga da rua da Alfândega é muito mais interessante. Ocupa
todo o sobrado do prédio 363, que é vulgar e acanhado, como
em geral os do fim daquela rua. Sobe-se uma escada íngreme, dá-se
num corredor que tem na parede as tábuas de Moisés.

Aí vive outro Moisés, o hhasan, com uma face espanhola e um
ar bondoso. Na sala de jantar estão as paredes ornadas de símbolos,
representando as doze tribos de Judá, e aí passam Moisés,
ela de lenço na cabeça, ele com um chapéu de palha velho.

A sala da frente é destinada às cerimônias. Quase não
se pode a gente mover, tão cheia está de bancos. No meio colocam
o altar de vinhático envernizado, em que o hhasan fica de pé
lendo ou cantando.

Nas paredes apenas as tábuas, ao fundo a arca com cortinas de seda,
onde se guarda o sagrado livro. Do teto pendem presos de correntes brancas
vasos de vidros, cheios de água onde 1amparinas colossais queimam crepitando.
Sobre o altar desce o lustre de cristal, chispando luzes nos seus múltiplos
pingentes. Além de Moisés, há outro sacerdote, Salomão,
tão devoto, que é o hhassidim…

Foi nesta sinagoga, indicada por um negro falacha, cuja origem vem dos tempos
de Salomão e da rainha de Sabá, que eu assisti ao peisan.

– Oh! eles são bons e se protegem uns aos outros – dizia o negro assombroso.
– A vida do judeu pobre é a do pouco comer, do pouco gozar, do muito
sofrer. Agora, fizeram a Irmandade de Proteção Israelita.

Eu olhava a turba colorida, a série de perfis exóticos, de
caras espanholas e árabes, de olhos luminosos brilhando à luz
dos lampadários. Havia gente morena, gente clara; mulheres vestidas
à moda hebraica de túnica e alpercata, mostrando os pés,
homens de chapéus enterrados na cabeça, caras femininas de lenço
amarrado na testa e crianças lindas. O hhasan, paramentado, lia solenemente
e toda aquela esquisita iluminação de baldes de vidro, fazendo
halos de luz e mergulhando na água translúcida as mechas das
lamparinas, aquele lustre, onde as luzes ardiam, eram como uma visão
de sonho estranho.

Enquanto o hhasan lia, com os pés juntos, sem mover sequer os olhos,
com uma voz ácida tremendo no ar, todos tinham nas faces sorrisos de
satisfação.

As cidades serão destruídas a ferro e fogo se não festejarem
este dia no mês de Hadar. Nós festejamos. E diante das lâmpadas,
para aquele punhado de judeus, a história desenrolava a maravilha de
Assuero, que reinou desde a Índia até à Etiópia
sobre cento e vinte cidades. Era Suza, a capital maravilhosa, Ester suave
e cândida, substituindo a rainha Vashi, Mardocheu sentado à porta
do templo sem adorar Aman, a quem Assuero tudo dava, Aman forçado a
levar Mardocheu em triunfo, tudo por causa de uma mulher trêmula e tímida,
que desmaiava, salvando 60 milhões de judeus e mandava matar quinhentos
inimigos, pedindo concessões idênticas para as províncias.

Era a data dessa matança; festejava-se o dia em que Aman foi para
o patíbulo que preparara para Mardocheu, e o momento em que se espatifara
Arisai Frasandata, Delfon, Ebata, Forata, Adalia, Aridata, Fermesta, Aridai
e Jerata.

Mas daquele livro sagrado, entre aquelas iluminações, a fé
destilava a suprema delícia. Era como se cada palavra recordasse os
banquetes dados aos príncipes nos átrios do palácio ornado
de pavilhões da cor do céu da cor do jacinto e da cor da açucena;
era como se cada período abrisse a visão das colunas de mármore,
dos leitos de prata e ouro e dos pavimentos embutidos, onde esmeraldas rolavam…

Nós estávamos apenas numa sala estreita que fingia de sinagoga,
no fim da rua da Alfândega.

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