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Home / Obras Literárias / Guerra e Paz

Guerra e Paz

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Leon Tolstoi

Capítulo I

– Pois bem, meu príncipe. Génova e Luca mais não são
do que apanágios, domínios, da família Bonaarte. Não,
previno-o de que, se me diz que não teremos guerra, se se permitir
ainda atenuar todas as infâmias, todas as atrocidades desse – Anticristo
(palavra de honra, para mim, é o que ele é), desconheço-o,
deixo de considerá-lo meu amigo, meu fiel servidor, como costumo dizer.
Vamos, vejamos, como está, como está? Bem veio que lhe meto
medo. Sente-se e conte-me novidades.

Foi com estas palavras que em Julho de 1805 a conhecida dama de honor, íntima
da imperatriz Maria Fiodorovna. Ana Pavlovna Scherer, acolheu o príncipe
Vassili, pessoa importante e de alta estirpe, o primeiro dos convidados a
chegar à sua recepção daquela noite. Havia algum tempo
já que Ana Pavlovna tossicava, estava com gripe, como ela dizia – gripe
era então um novo vocábulo, que poucas pessoas ainda empregavam.
Nessa mesma manhã tinha ela mandado entregar, por um lacaio de libré
encarnada, a toda a gente, indistintamente, um bilhetinho redigido nestes
termos:

Se não tem nada melhor a fazer. Senhor Conde – ou então: meu
príncipe -, e se a perspectiva de passar a noite em casa de uma pobre
doente não o assusta muito, sentir-me-ei encantada de o ver em minha
casa entre as 7 e as 10 horas.

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Annette Scherer.

– Meu Deus, que violência! – retorquiu o príncipe no seu uniforme
de gala, o peito coberto de condecorações, na face achatada
um ar florescente, sem ligar a mínima importância a semelhante
acolhimento.

Exprimia-se nesse francês precioso, que falavam e em que até
pensavam os nossos avós, e a que adicionavam esse sotaque protector,
essas entoações suaves tão naturais a quem envelheceu
na sociedade e com prestígio na corte. Aproximou-se de Ana Pavlovna,
beijou-lhe a mão, exibindo a calva perfumada e reluzente, e sentou-se,
tranquilamente, num divã.

– Antes de mais nada, diga-me, como tem passado, querida amiga? Tranquilize
este seu amigo – prosseguiu ele no mesmo tom e numa voz em que, sob a cortesia
e a afabilidade, transpareciam a indiferença e até mesmo urna
certa mofa.

– Como é que uma pessoa há-de passar bem de saúde..,
quando, moralmente, não pode deixar de sofrer? Quem é que no
nosso tempo há-de estar sereno, desde que seja pessoa de coração?
– redarguiu Ana Pavlovna.- Vai ficar toda a noite, não é verdade?
– E a festa na Embaixada de Inglaterra? É hoje quarta-feira. Não
posso deixar de aparecer – disse o príncipe.- Minha filha ficou de
passar por aqui para me levar.

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– Julguei que a festa tinha sido adiada. Confesso-lhe que todas estas festas
e todos estes jogos de artifício começam a tornar-se insípidos.

– Se tivessem sabido que era esse o seu desejo, teriam adiado a festa –
tornou o príncipe, o qual, como um relógio certo, tinha por
hábito dizer, em determinadas circunstâncias, frases que ele
próprio não esperava que fossem acreditadas.

– Não me atormente. Afinal, que decidiram em relação
ao telegrama de Novosiltzov? O senhor costuma saber tudo.

– Que lhe hei-de eu dizer? – volveu o príncipe num tom frio e enfastiado.-
Que decidiram? Decidiram que Bonaparte chegou a ponto de não poder
recuar e eu acho que está aqui, está a acontecer-nos o mesmo.

O príncipe Vassili falava sempre com indolência, como um actor
que recita um papel há muito decorado. Ana Pavlovna, pelo contrário,
apesar dos seus quarenta anos, toda ela era vivacidade e expansão.

Ser entusiasta era a sua função social, e até mesmo
quando não era essa a sua disposição natural procurava
sê-lo, para que as pessoas suas conhecidas se não sentissem desapontadas.
O sorriso constrangido que lhe andava sempre no rosto, conquanto não
dissesse muito bem com os seus traços já fatigados, denunciava,
como acontece nas crianças mimadas, a existência de um pecadilho,
pecadilho de que ela não queria, nem podia, nem mesmo julgava útil
corrigir-se.

No decurso da conversa sobre política. Ana Pavlovna exaltou-se.

– Ah! Não me fale da Áustria! Talvez eu seja uma parva, mas
estou convencida de que a Áustria não quis nem quer a guerra.
Está a atraiçoar-nos. É à Rússia sozinha
que compete salvar a Europa. O nosso benfeitor conhece a alta missão
a que está destinado e cumpri-la-á. É a única
coisa em que tenho confiança. O nosso sublime imperador tem um grande
papel a desempenhar no mundo, e é tão virtuoso e tão
nobre que Deus não o abandonará e há-de cumprir a sua
missão: esmagar a hidra da Revolução, ainda mais terrível
desde que encarnou nesse assassino e nesse salteador. É a nós,
e só a nós, a quem compete resgatar o sangue do justo… E pergunto-lhe
eu agora: com quem poderemos nós contar? A Inglaterra, com o seu espírito
comercial, não compreende nem pode compreender toda a grandeza da alma
do imperador Alexandre. Recusou-se a evacuar Malta. O que ela quer é
ver, procurar na nossa conduta ideias reservadas. Que é que eles disseram
a Novosiltzov?… Nada. Não compreenderam, não podem compreender
o desinteresse do nosso imperador, que nada quer para ele e tudo faz para
bem da humanidade. E que prometeram eles? Nada. E até aquilo que prometeram
acabará por não vir a realizar-se. A Prússia já
declarou que Bonaparte era invencível e que a Europa inteira nada podia
contra ele… E eu por mim, não acredito numa só palavra do
que dizem Hardenberg ou Haugwitz. Essa famosa neutralidade prussiana não
passa de uma armadilha. Só em Deus confio e no alto destino do nosso
augusto imperador. Ele salvará a Europa!…

De súbito calou-se, sorrindo ela mesma, antes de mais ninguém,
da veemência das suas próprias palavras.

– Estou persuadido – disse o príncipe com um sorriso- de que se a
tivessem mandado a si, minha querida amiga, em lugar, do nosso muito querido
Wintzengerode, a esta hora tínhamos tomado de assalto a adesão
do rei da Prússia. Quer dar-me uma xícara de chá? – Com
certeza. A propósito – acrescentou ela num tom sereno -, tenho hoje
duas pessoas muito interessantes: o visconde de Mortemart; está aparentado
com os Montmorency pelos Rohans, um dos mais ilustres nomes da França.
É um dos nossos bons emigrados, autêntico! E também o
abade Morio. Conhece este espírito profundo? Foi recebido pelo imperador.
Conhece-o? – Terei um grande prazer! Diga-me uma coisa – acrescentou, negligentemente,
e como se só naquele momento se tivesse lembrado disso, quando, realmente,
esse era o objectivo principal da sua visita. – É verdade que a imperatriz-mãe
se interessa pela nomeação do barão de Funke para o lugar
de primeiro-secretário em Viena? Esse barão, ao que parece,
é uma triste personagem.

O príncipe Vassili pretendia ver nomeado para esse posto um filho
seu, e o barão era a pessoa indicada para tal cargo pelas pessoas que
procuravam ganhar a influência da imperatriz Maria Fiodorovna.

– O Senhor Barão de Funke foi recomendado à imperatriz pela
irmã – foi tudo quanto ela disse em resposta, secamente, e com um ar
triste.

Quando Ana Pavlovna pronunciou o nome da imperatriz pintou-se-lhe no rosto,
subitamente, a dedicação e o respeito mais profundos e sinceros,
ao mesmo tempo que lhe desceu sobre a máscara aquele ar de tristeza
que nunca a abandonava sempre que, no decurso de uma conversa, se falava na
sua augusta protectora. E acrescentou que Sua Majestade se tinha dignado testemunhar
ao barão de Funke muita estima, enquanto o olhar novamente se lhe velava
de tristeza.

O príncipe, como que indiferente, mantinha-se calado.

Ana Pavlovna, com a sua finura especial de dama da corte e o seu tacto feminino,
ao mesmo tempo- que dirigia um remoque ao príncipe por ter ousado exprimir-se
tão livremente a respeito da conduta de uma pessoa recomendada à
imperatriz, procurava de certo modo consolá-lo.

– Mas, a propósito da sua família – disse-lhe ela -, não
sei se sabe que a sua filha, desde que frequenta a sociedade, faz as delícias
de toda a gente. Dizem que é linda como os deuses.

O príncipe curvou-se em sinal de estima e gratidão. – Costumo
dizer muitas vezes de mim para comigo – continuou Ana Pavlovna, depois de
um momento de silêncio, aproximando-se do príncipe com um sorriso
gracioso, como se quisesse significar que estavam terminadas as conversas
sobre assuntos políticos e mundanos e que as confidências íntimas
iam principiar -, muitas vezes digo a mim mesma que a felicidade neste mundo
é coisa muito desigualmente repartida. Porque seria que o destino lhe
deu a si, meu amigo, dois filhos tão belos, à parte o Anatole,
o seu benjamim, que não me agrada por aí além – tinha
lançado esta observação num tom que não admitia
réplica, franzindo as sobrancelhas… -, tão encantadores? Sim,
quando o senhor, na verdade, é a pessoa que menos importância
liga aos filhos; não os merece.

E teve um sorriso vitorioso.

– Que quer? Lavater diria que eu não tenho a bossa da paternidade
– respondeu o príncipe.

– Deixemo-nos de brincadeiras. Quero falar-lhe a sério. Sabe? Estou
descontente com o seu, filho mais novo. Aqui entre nós – e um ar de
tristeza lhe perpassou pelo rosto -, falaram dele perante Sua Majestade, e
lamentam-no, a si…

O príncipe não respondeu, mas ela, lançando-lhe um
olhar significativo, aguardava, sem dizer palavra, que ele dissesse qualquer
coisa. O príncipe Vassili franziu as sobrancelhas.

– Que quer que eu faça? – acabou por dizer.- Bem sabe que fiz tudo
o que um pai pode fazer pela educação dos seus filhos, e o que
é certo é que ambos não passam de dois imbecis. O Hipólito,
pelo menos, é um imbecil sossegado, enquanto o Anatole é um
imbecil turbulento. É a única diferença entre os dois
– acrescentou com um sorriso mais constrangido e acentuado que de costume,
enquanto as rugas que se lhe formavam em tomo da boca denunciavam mais claramente
do que nunca a amargura e a irritação que inopinadamente o invadiam.

– Para que é que as pessoas como o senhor hão-de ter filhos?
Se não fosse pai, nada teria a censurar-lhe – disse Ana Pavlovna, erguendo
os olhos cismadores.

– Sou o seu fiel escravo, e só a si o posso confiar. Os meus filhos
são os impecilhos da minha existência. São a minha cruz,
compreendo-o perfeitamente. Que quer?…

Calou-se, mostrando com um gesto que se submetia ao cruel destino. Ana Pavlovna
assumiu uma atitude cismadora.

– Nunca se lembrou, meu caro príncipe, de casar o seu filho pródigo,
o Anatole? Dizem que as solteironas têm a mania do casalhento. Não
creio que eu já esteja em idade de ter fraquezas semelhantes, mas o
que é certo é que conheço uma criaturinha que é
muito infeliz com o pai, uma nossa parente, uma princesa Bolkonskaia.

O príncipe Vassili não respondeu, embora, com o seu golpe
de vista e a sua finura de homem de sociedade, desse a entender, num simples
movimento de cabeça, que não esqueceria o facto.

– Pois a verdade é que o Anatole me custa por ano à volta
de quarenta mil rublos – disse ele, sem que, evidentemente, lhe fosse possível
refrear o curso dos pensamentos. Esteve alguns instantes calado. – Que será
feito dele, dentro de uns cinco anos, se as coisas continuarem da mesma maneira?
Aqui tem a vantagem de se ser pai. É rica, essa sua princesa? – O pai
é riquíssimo e avaro. Vive no campo. Deve ter ouvido falar nele.
É um tal príncipe Bolkonski, que se reformou ainda em vida do
falecido imperador e a quem chamavam o «rei da Prússia».
É um homem bastante inteligente, mas com as suas manias. Não
é nada cómodo. A pobre pequena é infeliz como tudo. Tem
um irmão que casou há pouco com Lisa Meinen, um ajudante-de-campo
de Kutuzov. Deve aparecer hoje por aí.

– Ouça, querida Annette – disse o príncipe, pegando, subitamente,
na mão da sua interlocutora e puxando-a a si. – Arranje-me isso e eu
serei o seu muito fiel escravo para sempre: o seu «escrafo», como
o meu estaroste costuma escrever nos seus relatórios: com um f. Se
é de excelente família e rica, não é preciso mais
nada.

E com os seus gestos fáceis, familiares e graciosos que tanto o distinguiam,
o príncipe inclinou-se, apertou a mão da dama de honor, beijou-a,
e de novo se enterrou na sua macia poltrona, desviando a vista.

– Espere – disse Ana Pavlovna, pensativa. – Ainda hoje mesmo falarei à
Lisa, a mulher do jovem Bolkonski. E talvez as coisas se arranjem. Na sua
família começarei a aprender para solteirona.

Capítulo II

O salão de Ana Pavlovna foi-se enchendo a pouco e pouco. Toda a aristocracia
de Petersburgo tinha aparecido, gente de idades e caracteres muito diversos,
mas toda do mesmo mundo. Chegou também a filha de Vassili, a bela Helena,
que vinha buscar o pai para a festa da Embaixada de Inglaterra. Exibia o seu
monograma imperial e trazia um vestido de noite. E também apareceu
a jovem e pequenina princesa Bolkonskaia, conhecida por a mulher mais sedutora
de Petersburgo, que casara no último Inverno e ainda não aparecera
na sociedade por causa do seu estado de gravidez, mas que costumava frequentar
as reuniões íntimas. Por fim também surgiu o príncipe
Hipólito, o filho do príncipe Vassili, na companhia de Mortemart,
a quem apresentou, e em seguida o abade Morio e muitos outros.

– Ainda a não viram, não a conhecem? Não conhecem minha
tia? – dizia Ana Pavlovna para os seus convidados, e com a maior gravidade
ia-os conduzindo um por um, à medida que chegavam, – até junto
de uma minúscula senhora de idade, enfeitada de grandes fitas, que
estava na sala contígua. Depois, pronunciando o nome de cada um deles,
passeava, lentamente, os olhos entre os seus convidados e minha tia, e daí
a pouco desaparecia.

Todos eram obrigados a cumprir aquele ritual, saudando esta tia desconhecida
e inútil, que a ninguém interessava. Ana Pavlovna, muito séria
e solene, assistia à cerimónia dos cumprimentos, dando a sua
aprovação, sem abrir a boca. Minha tia falava a toda a gente,
invariavelmente, nos mesmos termos, do estado da saúde de cada um,
do estado da sua própria saúde e do estado da saúde de
Sua Majestade, o qual, graças a Deus, passava agora melhor. E todos,
sem mostrar, por decoro, que se davam pressa, se iam despedindo da idosa senhora
com a sensação de alívio que se tem depois de se cumprir
uma enfadonha obrigação e, claro está, para a não
tornarem a ver em toda a roda da noite.

A jovem princesa Bolkonskaia tinha trazido consigo o seu bordado num pequenino
saco de veludo lavrado a ouro. O seu bonito làbiozinho superior, ligeiramente
sombreado por uma breve penugem, era um pouco curto, mas nem por isso parecia
menos gracioso entreaberto nem era menos delicioso no momo que fazia ao apoiar-se
no lábio inferior. Como em geral acontece com todas as pessoas realmente
sedutoras, estas suas pequeninas imperfeições, o lábio
curto de mais e a boca entreaberta, tinham nela um atractivo especial, uma
beleza própria. Era uma alegria para todos a presença desta
futura mãe tão bonita, cheia de saúde e de vida, suportando
perfeitamente os incómodos do seu estado. Os velhos e os jovens entediados
e cheios de enfado imaginavam-se como ela só por terem passado alguns
momentos na sua intimidade. Todos os que conversavam alguns instantes com
a princesinha podiam ver como o seu luminoso sorriso cintilava após
cada uma das suas palavras e como os seus dentes sempre à mostra eram
de uma brancura esplendorosa, quanto bastava para que todos se sentissem naquele
momento de uma particular afabilidade. E era assim a ilusão que ela
criava em toda a gente.

A princesinha, no seu andar ondulante, caminhando em passinhos rápidos,
deu a volta à sala, o saco de trabalho na mão, e depois de imprimir
um jeito gracioso à toilette veio sentar-se num divã, junto
do samovar de prata, como se tudo que ela fizesse fosse uma espécie
de divertimento não só para ela própria, mas também
para aqueles que a cercavam.

– Trouxe comigo o meu trabalho! – exclamou ela, abrindo o saquinho bordado
a ouro e como se se dirigisse, a toda a gente ao mesmo tempo.

– Cuidado. Annette, não me faça uma partida – prosseguiu ela,
desta vez para a dona da casa. – Mandou-me dizer que era apenas uma pequena
reunião; olhe como eu venho vestida.

Dizendo o que estendeu os braços para melhor deixar ver o seu elegante
vestido cinzento, guarnecido de rendas, com uma larga fita a servir de cinto,
um pouco abaixo do seio.

– Esteja descansada. Lisa, será sempre a mais bela – replicou Ana
Pavlovna.

– Sabe, o meu marido vai abandonar-me – prosseguiu ela no mesmo tom, dirigindo-se
a um general.- Vai procurar a morte. Diga-me: para que serve esta maldita
guerra? – disse ao príncipe Vassili, e, sem esperar qualquer resposta,
voltou-se para a filha deste, a bela Helena.

– Que pessoa deliciosa, aquela princesinha! – murmurou o príncipe
Vassili, em voz baixa, para Ana Pav1ovna.

Pouco depois da princesinha, entrou na sala um jovem corpulento e maciço,
de cabelo rapado, lunetas, calças claras, à moda da época,
um alto jabot e fraque pardacento. Este moço era filho natural de uma
célebre personagem do tempo de Catarina, o conde Besukov, naquela altura
moribundo em Moscovo. Ainda não tinha qualquer ocupação,
acabava de chegar do estrangeiro, onde fora educado, e era a primeira vez
que aparecia na sociedade. Ana Pav1ovna acolheu-o com a saudação
que costumava usar para com as pessoas de mais baixa classe. No entanto, apesar
deste seu acolhimento de inferior qualidade, ao vé-1o entrar deixou
transparecer no rosto medo e inquietação, como quando nos vemos
perante qualquer coisa de desmedido e fora do seu lugar. Pedro era, realmente,
um pouco maior que as outras pessoas, mas o receio que se pintara no rosto
de Ana Pavlovna podia ser antes motivado por esse olhar ao mesmo tempo tímido
e penetrante, observador e franco, que o distinguia de todos os demais convidados.

– É muito amável da sua parte. Senhor Pedro, ter vindo visitar
uma pobre doente – disse-lhe Ana Pavlovna, trocando um olhar de pânico
com a tia, a quem o ia conduzindo.

Pedro resmungou uma frase incompreensível enquanto com os olhos continuava
à procura de qualquer coisa. Teve um sorriso jovial ao cumprimentar
a princesinha, como se ela fosse um conhecimento íntimo, e aproximou-se
da tia. O medo de Ana Pavlovna não era destituído de fundamento,
pois a verdade é que Pedro afastou-se dessa senhora sem esperar que
a tia concluísse as suas considerações acerca da saúde
de Sua Majestade. Ana Pavlovna, horrorizada, deteve-o.

– Não conhece o abade Morio? É uma pessoa muito interessante…
– disse-lhe ela.

– Sim, ouvi falar do seu plano de paz perpétua, que é aliciante.
Mas será possível?…

– Acha que sim?… – observou Ana Pavlovna, para dizer alguma coisa, pronta
a voltar ao cumprimento dos seus deveres de dona de casa.

Pedro, porém, cometeu uma segunda indelicadeza: primeiro afastara-se
da sua interlocutora antes de ela ter acabado de falar; agora retinha esta,
dirigindo-lhe a palavra, quando ela precisava de o deixar. De cabeça
baixa e afastando as suas grandes pernas, pôs-se a demonstrar a Ana
Pavlovna a razão por que considerava quimérico o plano do abade
Morio.

– Falaremos disso mais tarde – disse Ana Pavlovna, sorrindo.

E, libertando-se daquele jovem sem hábitos de sociedade, regressou
às suas ocupações de dona de casa, continuando a ouvir
e a observar, pronta sempre a intervir onde a conversa esmorecesse. Tal qual
como um contramestre de uma fábrica de fiação que, depois
de instalar cada um dos seus operários diante do seu tear, se põe
a andar de um lado para o outro, observando se os fusos param ou se estão
a produzir qualquer ruído anormal, rangente ou áspero de mais,
e incansavelmente os retém ou lhes imprime o andamento necessário,
assim Ana Pav1ovna ia e vinha pelo salão, se aproximava dos grupos
que se calavam ou falavam de mais, e com uma palavra pronunciada a tempo obrigava
a máquina a comportar-se nos justos limites das conveniências
mundanas. Mas todos estes múltiplos cuidados não a impediam
de deixar perceber aos outros o receio especial que lhe causava o comportamento
de Pedro. Ia-o seguindo atentamente com os olhos quando ele se aproximava
para escutar o que se dizia ao pé de Mortemart e depois dirigia-se
para o outro grupo onde pontificava o abade. Para Pedro, que tinha sido educado
no estrangeiro, esta soirée em casa de Ana Pavlovna era a primeira
reunião mundana a que assistia na Rússia. Não ignorava
que nestas salas estava reunida a fina flor da gente instruída de Petersburgo
e por isso abria muito os olhos, como uma criança diante de uma loja
de brinquedos. Só receava perder qualquer sábia observação
que lhe fosse dado ouvir.

Ao ver reunidas ali todas aquelas personagens de aspecto distinto e cheias
de certezas, estava sempre à espera de qualquer coisa particularmente
espiritual. Por fim, aproximou-se de Morio. A conversa tinha-lhe parecido
interessante. Deteve-se, aguardando o momento de expor o seu ponto de vista,
como costuma fazer a gente nova.

Capítulo III

A soirée de Ana Pavlovna atingia o auge. Os fusos esparsos pela sala
roncavam sem atritos e constantemente. Se se abstraísse de minha tia,
junto da qual não estava senão uma senhora idosa, de rosto esquálido
e como que consumido pelas lágrimas, algo deslocada no meio daquela
brilhante sociedade, todos os demais convidados se haviam repartido em três
grupos. Um deles, formado especialmente de homens, tinha por centro o abade;
no outro, uma roda de gente nova, pontificava a princesa Bolkonskaia, toda
rosada e de formas um tudo-nada amplas de mais, atendendo à sua juventude;
o terceiro era dirigido por Mortemart e Ana Pavlovna.

O visconde era um jovem amável, de traços finos e maneiras
suaves, que a si mesmo, visivelmente, se considerava uma figura sensacional,
embora, por mera boa educação, se oferecesse, modestamente,
à curiosidade da sociedade em que se encontrava. Ana Pav1ovna, visivelmente
também, dele tirava partido para regalo dos seus convidados. A semelhança
do chefe de mesa, que gosta de apresentar, como coisa superlativamente delicada,
uma posta de carne em que ninguém ousaria tocar numa cozinha sórdida,
assim, na sua reunião. Ana Pavlovna ia servindo aos seus convidados,
primeiro o visconde, e em seguida o abade, como se se tratasse de iguarias
superlativamente requintadas. No grupo de Mortemart tinha vindo à baila,
imediatamente, o assassínio do duque de Enghien. O visconde era de
opinião de que o duque fora vítima da sua magnanimidade e que
havia razões particulares para o ressentimento de Bonaparte.

– Ah!, vejamos. Conte-nos isso, visconde – exclamou Ana Pavlovna, apercebendo-se
com júbilo de que esta simples frase: Conte-nos isso, visconde, tinha
um sabor a Luís XV.

O visconde inclinou-se em sinal de obediência e sorriu com toda a
cortesia. Ana Pavlovna fez que o grupo o rodeasse e convidou toda a gente
a ouvir a sua história.

– O visconde conheceu monsenhor pessoalmente – segredou ela ao ouvido de
um dos convidados. – O visconde é um narrador perfeito – garantia a
outro.- Vê-se logo nele o homem de sociedade – dizia a um terceiro.
E o jovem foi apresentado à sociedade sob o seu ângulo mais distinto
e favorável, como um rosbife, num prato bem quente, todo guarnecido
de salsa.

O visconde preparou-se para dar princípio à sua narrativa
e sorriu com finura.

– Venha cá, querida Helena – disse Ana Pavlovna à bela princesa,
que estava a distância, no centro do outro grupo.

A princesa Helena sorriu: levantou-se, conservando nos lábios esse
sorriso imutável de mulher impecavelmente bela com que entrara no salão.
No ligeiro roçagar do seu vestido de baile todo branco, guarnecido
de hera e musgo, no esplendor das suas brancas espáduas, no brilho
da sua cabeleira e no cintilar dos seus brilhantes, avançou por entre
uma ala de cavalheiros, e, empertigada, sem fitar ninguém em especial,
embora sorrindo a todos, como se assim fosse dando a cada um o direito de
admirar a beleza da sua cintura, dos seus ombros cheios, do seu decote muito
pronunciado, conforme a moda da época, levando após si, na sua
esteira, todo o esplendor da reunião, aproximou-se de Ana Pavlovna.
Helena era tão bela que não traía a mais pequena sombra
de coquetterie; pelo contrário, parecia ter vergonha da sua incontestável,
da sua por de mais poderosa e por de mais triunfante beleza. Dir-se-ia ser
seu desejo, sem o conseguir, amortecer-lhe o próprio esplendor.

– Que bela mulher! – eis a frase que vinha aos lábios de toda a gente
quando ela passava. Como ao peso de uma estranha impressão, o visconde
curvou-se um pouco e baixou os olhos no Momento em que ela se instalava diante
dele e o iluminava, a ele também, com o seu imutável sorriso.

– Minha senhora, diante de um tal auditório, receio não ser
capaz – disse ele, inclinando-se e sorrindo.

A princesa apoiou num guéridon um dos seus braços nus, bem
modelados, sem pensar que seria útil responder. Esperava, sorridente.
Enquanto durou a história manteve-se com o busto erecto, contemplando,
uma vez por outra, o seu lindo braço, cuja foi-ma perfeita se esmagava
contra a mesa, ou o próprio colo, mais encantador ainda, sobre o qual
ajeitava a gargantilha de diamantes; várias vezes procurou acertar
as pregas do vestido, e, quando a narrativa produzia algum efeito, trocava
um olhar com Ana Pavlovna, copiando, imediatamente, a expressão da
dama de honor, para depois imobilizar, de novo, a máscara no seu resplandecente
sorriso. Como Helena, a princesinha tinha também abandonado a sua mesa
de chá.

– Espere, vou buscar o meu bordado – disse ela. – Então, em que está
a pensar? – acrescentou, dirigindo-se ao príncipe Hipólito.
– Traga-me o meu saquinho.

A princesa, que sorria, e dirigia a palavra a todos, produziu um certo burburinho
ao sentar-se, alegremente, enquanto ajeitava as pregas do vestido.

– Agora, sim! – exclamou, e, pedindo que se principiasse, pôs-se ela
própria a trabalhar.

O príncipe Hipólito, que veio trazer-lhe o saquinho, acompanhou-a
na sua mudança de lugar, e, aproximando dela um fauteil, sentou-se
a seu lado.

O encantador Hipólito impressionava pela sua extraordinária
parecença com a irmã, tanto mais que, apesar dessa semelhança,
era muitíssimo feio. Os seus traços pareciam-se, de facto, com
os da irmã, mas nesta tudo resplandecia iluminado pelo seu eterno sorriso,
jovem, satisfeito, pleno de vida, e 1)ela rara perfeição da
sua beleza clássica; no irmão, pelo contrário, o rosto
era como que entenebrecido pela falta de inteligência e por uma constante
expressão a um tempo suficiente e azeda. Quanto à figura, era
de corpo magro e enfesado. Tinha os olhos, o nariz, a boca continuamente contraídos
numa careta indefinida e desagradável; os braços e as pernas
tomavam-lhe sempre posições pouco naturais.

– Não se trata de uma história de fantasmas? – murmurou ele,
ao sentar-se ao lado da princesa, enquanto assestava o lorgnon, como se não
pudesse dispensar esse acessório para abordar uma conversa.

– Não, meu caro! – exclamou o narrador, surpreendido, encolhendo
os ombros.

– É que detesto as histórias de fantasmas – tornou ele, num
tom de que se depreendia que ele falava e só depois de falar compreendia
o que queria dizer.

Tamanha era a segurança que punha nas suas palavras que ninguém
poderia dizer se essas palavras eram muito sensatas ou muito estúpidas.
Vestia um fraque verde-carregado, uns calções cor-de-rosa-pálidos,
meias de seda e escarpins.

O visconde contava com muito agrado a história, então muito
divulgada, segundo a qual o duque de Enghien tinha ido secretamente a Paris
encontrar-se com Mademoiselle Georges e aí se lhe deparara Bonaparte,
que, por essa altura, também era íntimo da famosa actriz. Na
presença do duque. Napoleão tinha tido, de súbito, um
pequeno desmaio, coisa que lhe acontecia frequentes vezes, e ficara à
mercê do duque, circunstância de que este não quisera tirar
partido. Bonaparte, mais tarde, vingara-se desta magnanimidade do duque mandando
matar o adversário.

A história era muito bonita e cheia de interesse, sobretudo naquele
ponto em que os dois rivais se reconheciam de repente, e as senhoras pareceram
muito emocionadas com isso.

– Encantador – exclamou Ana Pavlovna, lançando um olhar interrogativo
à princesinha.

– Encantador – murmurou a princesinha, espetando a agulha no bordado, como
para mostrar que o interesse e o encanto da história a impediam de
trabalhar.

O visconde mostrou apreciar esta homenagem muda, e, sorrindo, grato, prosseguiu
na sua narrativa; mas nesse momento Ana Pavlovna, que ainda não tinha
deixado de observar o jovem que tanto a assustava, ao ver que ele punha calor
demasiado na sua conversa com o abade, falando muito alto, deu-se pressa em
comparecer no local ameaçado. Efectivamente. Pedro tinha-se embrenhado
com o abade numa conversa sobre o equilíbrio político, e este,
visivelmente interessado pelo ingénuo entusiasmo do jovem, pusera-se
a desenvolver perante ele as suas teorias favoritas. Ambos ouviam e respondiam
com grande vivacidade e muito espontaneamente, e isso não agradava
a Ana Pavlovna.

– A solução é o equilíbrio europeu e o direito
dos povos – dizia o abade. – É de toda a conveniência para um
Estado poderoso como a Rússia, reputado bárbaro, colocar-se
generosamente à frente de uma liga que tenha por objectivo o equilíbrio
da Europa, e é assim que a Rússia salvará o mundo! –
E como é que se obterá esse equilíbrio? – principiou
Pedro.

Mas neste momento Ana Pavlovna aproximou-se, e, fitando este com severidade,
perguntou ao italiano como é que ele achava o clima do país.

O rosto do abade mudou repentinamente, tomando aquela expressão mortificada
e doce que era a sua expressão habitual quando falava com senhoras.

– Tão encantado ando com a gentileza de espírito e a distinção
da gente da sociedade, sobretudo do elemento feminino, em cujo meio tive a
felicidade de ser recebido, que ainda não tive tempo de pensar no clima
– respondeu ele.

Sem abandonar o abade nem Pedro. Ana Pavlovna, para melhor os observar,
arrastou-os consigo para o grupo em que estava.

Capítulo IV

Nessa altura um novo convidado penetrou no salão. Era o jovem príncipe
André Bolkonski, o marido da princesinha, um belo moço, de pequena
estatura e traços acentuados e secos. Tudo nele, desde o olhar lasso
e enfadado ao andar tranquilo e circunspecto, oferecia o mais violento contraste
com a sua mulherzinha, a inquietação em pessoa. Conhecia tão
bem por dentro e por fora a gente da sociedade, que tanto o enfadava, que
bastava vê-la e ouvir-lhe o ruído das vozes para a sentir insuportável.
E entre todas as pessoas que mais o exasperavam contava-se, precisamente,
a sua linda mulherzinha. Com um ricto que lhe alterou os traços regulares,
afastou-se dela assim que a viu. Depois, beijando a mão de Ana Pavlovna
e piscando os olhos, perpassou a vista pela assistência.

– Alistou-se para ir para a guerra, meu príncipe? – disse Ana Pavlovna.

– O general Kutuzov – volveu Bolkonski, acentuando a última sílaba
zov, como os Franceses – teve a condescendência de me chamar para ajudante-de-campo…

– E Lisa, sua mulher? – Irá para o campo.

– E não tem escrúpulos de nos privar da presença da
sua encantadora mulher? – André – exclamou esta última, dirigindo-se
ao marido com a mesma coquetterie com que se dirigia aos estranhos -, que
história é essa de Mademoiselle Georges e Bonaparte que o visconde
acaba de nos contar? O príncipe André franziu as sobrancelhas
e desviou a cara. Pedro, que desde o momento em que André entrara no
salão não mais tinha deixado de o seguir com o seu olhar alegre
e amistoso, aproximou-se dele e pegou-lhe no braço. O príncipe
André, sem se voltar, teve uma visagem de descontentamento para com
aquele que lhe pegava no braço, mas, ao deparar-se-lhe o rosto sorridente
de Pedro, um sorriso inesperado, amável e bom se lhe pintou também
na figura.

– Que vejo?! Também tu na alta-roda?! – exclamou.

– Tinha a certeza de que o havia de encontrar aqui – retorquiu Pedro.- Queria
pedir-lhe que me desse de cear – acrescentou em voz baixa, para não
perturbar o visconde, que continuava a sua história – É possível?
– Não, é impossível – respondeu André, rindo e
fazendo compreender a Pedro, pela maneira como lhe apertou a mão, que
isso era coisa que nem se perguntava.

Quis dizer mais, mas nessa altura o príncipe Vassili e a filha levantaram-se,
e os jovens abriram alas para os deixar passar.

– Desculpe, meu caro visconde – disse em francês o príncipe
Vassili, segurando-o amistosamente pela manga, para que ele se não
levantasse. – Esta estopada da festa em casa do embaixador priva-me do prazer
de o ouvir e obriga-me a interrompê-lo. Lamento muito ter de abandonar
a sua maravilhosa recepção – disse ele, dirigindo-se a Ana Pavlovna.

Sua filha, a princesa Helena, soerguendo ligeiramente a cauda do vestido,
passou entre uma ala de cadeiras e o sorriso ainda lhe iluminou mais o belo
rosto. Pedro contemplou esta beldade, ao vê-la passar diante de si,
com olhos onde havia admiração e quase receio.

– É muito bela – disse o príncipe André.

– É – repetiu Pedro.

Ao passar, o príncipe Vassili pegou no braço de Pedro, e voltando-se
para Ana Pavlovna: – Domestique-me este urso – disse. – Há um mês
que o tenho em minha casa e é a primeira vez que o vejo na sociedade.
Não há nada melhor para os rapazes que o convívio das
mulheres inteligentes.

Ana Pavlovna teve um sorriso e prometeu tomar conta de Pedro, o qual, como
ela muito bem sabia, era aparentado com o príncipe Vassili pelo lado
paterno. A senhora idosa que estava a fazer companhia a minha tia levantou-se,
apressadamente, e correu para falar com o príncipe Vassili, que já
estava no vestíbulo. Perdera por completo o falso ar de interesse mundano
que aparentara até então. O seu bondoso rosto macerado pelas
lágrimas só reflectia receio e inquietação.

– Que me diz, príncipe, do meu Bóris?! – exclamou ela, correndo
atrás dele. Pronunciava o nome Bóris acentuando particularmente
o o. – Já não posso estar mais tempo em Petersburgo. Diga-me,
que hei-de eu comunicar ao meu desventurado filho? Conquanto o príncipe
Vassili estivesse a ouvi-la com desprazer e quase que impolidamente, dando
a perceber, mesmo, uma certa impaciência, a senhora que o perseguia
sorria-lhe com uma amabilidade enternecedora e, para o não deixar afastar-se
dela, pegava-lhe, inclusivamente, num braço.

– Não lhe custava nada dizer uma palavrinha ao imperador, estou convencida
de que ele seria logo transferido para a Guarda – prosseguiu ela.

– Esteja certa de que farei tudo o que puder, princesa – respondeu o príncipe
Vassili -, mas não me é fácil dirigir-me assim ao imperador.
Achava melhor que pedisse antes a Rumiantsov por intermédio do príncipe
Galitâne. Era bem melhor.

A senhora idosa era a princesa Drubetzkaia, um dos mais ilustres nomes da
aristocracia russa, mas, pobre, há muito que não frequentava
a sociedade e tinha perdido as suas antigas relações. Viera
àquela reunião para tentar obter a transferência do seu
filho único para a Guarda. Não se apresentara na recepção
de Ana Pavlovna senão para falar ao príncipe Vassili e não
fora por outra razão que escutara a história do visconde. Mas
as palavras do príncipe Vassili tinham-na desolado; no belo rosto pintou-se-lhe,
por instantes, uma espécie de irritação, mas não
por muito tempo. Logo se pôs a sorrir, e apertando muito o braço
do príncipe: – Ouça, príncipe – disse -, nunca
lhe pedi coisa alguma, nunca mais lhe tornarei a pedir seja o que for, nunca
lhe falei na amizade de meu pai por si. Mas agora peço-lhe em nome
de Deus que faça isso por meu filho e ficar-lhe-ei reconhecida até
ao fim da vida – acrescentou, precipitadamente.- Não se zangue e prometa-me
interessar-se. Já pedi a Galitzine, e ele não me quis atender.
Seja bom menino como antigamente – e procurava sorrir, embora as lágrimas
lhe boiassem nos olhos.

– Pai, vamos chegar tarde! – exclamou a princesa Helena, que esperava à
porta, inclinando a bela cabeça sobre o ombro de estátua antiga.

A influência de que se desfruta na sociedade é um capital que
convém salvaguardar para que se não dissipe. O príncipe
Vassili sabia-o muitíssimo bem, e, por isso, persuadido de que, se
se pusesse a interceder por toda a gente, nada mais poderia pedir para si
próprio, raramente lançava mão do crédito de que
dispunha. No caso da princesa Drubetzkaia, no entanto, sobretudo depois do
seu último apelo, viera-lhe ao espírito uma espécie de
remorso. Tinha ela evocado qualquer coisa de muito verdadeiro. Os primeiros
passos na carreira devia-os ele, efectivamente, ao pai da princesa. Além
disso, pela forma como ela agia, verificava estar em presença de uma
dessas mulheres, ou, antes, de uma dessas mães, que, quando se lhes
mete qualquer coisa na cabeça, só desistem desde que conseguem
o que desejam, ou então, no caso de uma negativa, são muito
capazes de teimar, dia após dia e a toda a hora, chegando inclusivamente
a recorrer a cenas públicas. Foi esta última consideração
que o demoveu.

– Querida Ana Mikailovna – disse ele, no seu tom familiar habitual e ao
mesmo tempo desprendido -, é-me quase impossível fazer o que
me pede; mas, para lhe demonstrar quanto a estimo e como respeito a memória
do seu falecido pai, prometo-lhe que farei tudo quanto estiver na minha mão.
Dou-lhe a minha palavra de que o seu filho será transferido para a
Guarda. Está contente? – Meu querido amigo, meu benfeitor! Não
esperava outra coisa de si; eu bem sabia que era bom.

O príncipe fez menção de partir.

– Espere, mais duas palavras. Uma vez na Guarda… -hesitou.- Como está
em boas relações com Mikail Ilarionovitch Kutuzov, peço-lhe
que lhe fale de Bóris para ajudante-de-campo; ficarei assim mais tranquila
e nada mais lhe pedirei…

O príncipe Vassili teve um sorriso.

– Nada lhe prometo. Mal imagina os pedidos que chovem sobre Kutuzov desde
que foi nomeado general-chefe. Ele próprio me disse que todas as senhoras
de Moscovo tinham armado um complot para lhe oferecer os filhos como ajudantes-de-campo.

– Ah!, prometa-me. Não o deixarei partir, meu querido amigo, meu
benfeitor…

– Pai – voltou a bela Helena, no mesmo tom -, vamos chegar tarde.

– Bem, até à vista, adeus. Está a ver? – Então
fala amanhã ao imperador? – Sem falta, mas no que diz respeito a Krituzov
não prometo nada.

– Ah!, prometa, prometa. Basile – exclamou Ana Mikailovna, perseguindo-o
com um sorriso de mulher coquette, outrora natural nela, certamente, mas que
então estava longe de se harmonizar com a sua máscara decrépita.

Evidentemente que tinha esquecido a idade e, pela força do hábito,
pusera em campo todos os seus expedientes femininos. No entanto, mal o príncipe
Vassili saiu, logo ela retomou o aspecto frio e constrangido que aparentava
anteriormente. Voltou ao grupo em que o visconde continuava a contar as suas
histórias e fingiu que escutava, aguardando a oportunidade de se eclipsar,
pois o assunto que a levara ali estava resolvido.

Capítulo V

– Mas que me diz dessa última comédia da sagração
de Milão? – observou Ana Pavlovna.- E a nova comédia dos povos
de Génova e Luca, que iam apresentar as suas homenagens ao senhor Bonaparte
sentado no trono e recebendo as homenagens das nações! Adoráveis!
Não, mas é de endoidecer! Dir-se-ia que o mundo inteiro perdeu
a cabeça! O príncipe André pôs-se a sorrir olhando
nos olhos Ana Pavlovna.

– É Deus quem ma dá, ai de quem lhe tocar – disse ele. Foram
estas as palavras que Bonaparte proferiu na coroação. Dizem
que estava muito belo quando pronunciou estas palavras – acrescentou, e repetiu
a frase em italiano – Dio me l’ha data e guai a chi la tocca.

– Espero, enfim – prosseguiu Ana Pavlovna – que esta seja a gota que fará
transbordar o vaso. Os soberanos já não podem mais com este
homem, que a todos ameaça.

– Os soberanos? Não falo da Rússia – observou o visconde com
o seu ar cortês e desencantado, – Os soberanos, minha senhora! Que fizeram
eles por Luís XVI, pela rainha, por Madame Elisabeth? Nada – continuou
com animação. – E pode crer, estão a receber o castigo
pela traição à causa dos Bourbons. Os soberanos? Mandam
embaixadores cumprimentar o usurpador.

E, suspirando, retirou-se com uma expressão desdenhosa. O príncipe
Hipólito, depois de ter estado a fitar longamente o visconde com o
seu lorgnon, ao ouvir estas palavras, desviou-se subitamente, voltando-se
para a princesinha, e, pedindo-lhe urna das suas agulhas, pôs-se a indicar-lhe,
desenhando-as em cima da mesa, as armas dos Condés! E explicava-lhas
com uma tal seriedade que dir-se-ia que ela lhe pedira um tal serviço.

– Bastão de goles, denteado de goles de blau, é a casa de
Condé – murmurou ele.

A princesa ouvia-o, sorrindo.

– Se Bonaparte ficar ainda um ano no trono da França – prosseguiu
o visconde com ar de quem não ouve o que os outros dizem e está
apenas a seguir o fio das suas ideias a respeito de um assunto que conhece
melhor do que ninguém -, não sei onde iremos parar. Com tantas
intrigas, tantas violências, tantos exílios, tantos suplícios,
não tarda que a sociedade francesa, a alta sociedade, claro está,
se veja completamente aniquilada e para sempre, e então…

Teve um movimento de ombros ao afastar os braços. Pedro quis dar
a sua opinião, pois a conversa interessava-o, mas Ana Pavlovna que
o vigiava de perto, interrompeu-o.

– O imperador Alexandre – disse ela com aquele tom sério com que
se referia sempre à família imperial- declarou que deixaria
os próprios franceses escolherem a sua forma de governo. E estou convencida
de que não há dúvida de que toda a nação,
uma vez liberta do jugo do usurpador, se lançará nos braços
do seu soberano legítimo – acrescentou ela, para se mostrar amável
para com um emigrado e um realista.

– Duvido – observou o príncipe André.- O Senhor Visconde tem
toda a razão ao pensar que as coisas já foram longe de mais.
Creio que será muito difícil voltar ao passado.

– Pelo que eu tenho ouvido dizer – interveio Pedro, corando -, quase toda
a nobreza está já do lado de Bonaparte.

– Isso é o que dizem os bonapartistas – observou o visconde sem olhar
para Pedro. – É muito difícil, actualmente, conhecer a opinião
pública em França.

– Bonaparte disse-o – objectou o príncipe André, sorrindo.
Via-se muito bem que o visconde lhe não agradava e que, sem olhar para
ele, era ele que visava como seu adversário.

– «Mostrei-lhes o caminho da glória» – acrescentou ele,
depois de uma ligeira pose, citando as próprias palavras de Napoleão:
«eles não o quiseram; abri-lhes as minhas antecâmaras,
entraram por ali dentro aos montes».., não sei até que
ponto teve o direito de o dizer.

– Nenhum – replicou o visconde.- Depois do assassinato do duque, até
os seus mais fiéis partidários deixaram de ver nele um herói.
Se essa peste chegou a ser um herói para certa gente – acrescentou,
dirigindo-se a Ana Pavlovna -, depois do assassinato do duque há mais
um mártir no Céu, um herói de menos na Terra.

Mal tiveram tempo. Ana Pavlovna e os outros, de aprovar estas palavras com
um sorriso, e já Pedro se tinha lançado, uma vez mais, no meio
da conversa. Ana Pavlovna, conquanto pressentisse que ele ia dizer coisas
fora de propósito, não foi capaz de o deter.

– A execução do duque de Enghien – disse o Senhor Pedro- foi
uma necessidade pública; e para mim o facto de Napoleão não
ter receio de assumir a responsabilidade de um tal acto só atesta precisamente
a sua grandeza de alma.

– Oh! Meu Deus! – murmurou Ana Pavlovna, aterrorizada.

– Como. Senhor Pedro, acha que o assassinato é grandeza de alma?
– disse a princesinha, sorrindo e debruçando-se sobre o seu bordado,
– Ah! Oh! – exclamaram várias pessoas.

– Capital! – disse em inglês o príncipe Hipólito, dando
palmadas na coxa.

O visconde contentou-se em encolher os ombros. Pedro olhou triunfantemente
os seus interlocutores através das suas lunetas.

– Eu falo assim – prosseguiu ele, pondo de lado todos os rodeios de linguagem-
porque os Bourbons fugiram da Revolução abandonando o povo à
anarquia; só Napoleão soube compreender a Revolução
e dominá-la. E aí está porque, em nome do bem-estar de
todos, ele não podia deter-se perante a vida de um homem.

– Não quereria sentar-se aqui a esta mesa? – interrogou Ana Pavlovna.
Mas Pedro, sem lhe responder, continuou: – Sim – disse ele, cada vez mais
animado – Napoleão é grande porque soube elevar-se acima da
Revolução, porque sufocou os abusos a que ela tinha levado,
aproveitando o que nela havia de bom, isto é, a igualdade dos cidadãos
e a liberdade do pensamento e da imprensa. E não foi por outro motivo
que subiu ao Poder.

– Realmente – interrompeu o visconde -, se, tornando conta do Poder, ele
o não tem aproveitado para cometer um crime, e confiasse o trono ao
seu rei legítimo, era justo chamar-lhe um grande homem.

– Napoleão nunca podia ter agido dessa maneira. O povo confiara-lhe
o Poder exactamente para que ele o livrasse dos Bourbons, e por isso mesmo
é que o povo viu nele o estofo de um grande homem. A Revolução
foi uma grande coisa – continuou o Senhor Pedro, demonstrando, com esta audaciosa
e provocante afirmação, não só a sua muita juventude,
mas também o seu desejo de dizer tudo de uma vez.

– A Revolução e o regicídio, grandes coisas?… Depois
disso… Mas não seria melhor sentar-se aqui a esta mesa? – repetia
Ana Pavlovna.

– O Contrato Social – disse o visconde com um sorriso condescendente.

– Eu não falo do regicídio, falo de ideias.

– Sim, sim, as ideias de pilhagem, de assassínio, de regicídio
– interrompeu ainda uma voz irónica.

– Claro Que se praticaram excessos, mas não era isso que tinha importância;
o que importava eram os direitos do homem, a abolição dos privilégios,
a igualdade dos cidadãos. E estas ideias manteve-as Napoleão
integralmente, – A liberdade e a igualdade – exclamou, desdenhosamente, o
visconde, que parecia querer, finalmente, mostrar a sério àquele
mancebo a tolice dos seus argumentos -, tudo isso são frases sonoras
de há muito sem sentido. Quem é que não gosta da liberdade
e da igualdade? Já o Salvador pregava a liberdade e a igualdade. Foram
os homens mais felizes depois da Revolução? Pelo contrário,
nós é que queríamos a liberdade, e Napoleão foi
quem acabou com ela.

O Príncipe André, sorrindo, ora fitava Pedro, ora o visconde,
ora a dona da casa. No primeiro momento, quando Pedro pronunciou as primeiras
palavras. Ana Pavlovna ficou como fulminada, não obstante todos os
seus hábitos de sociedade. Mas, ao verificar que, apesar dos sacrílegos
argumentos de Pedro, o visconde não perdia as estribeiras, quando se
convenceu de que não era possível sufocar tais palavras, ganhou
ânimo e, unindo as suas forças às do visconde, caiu sobre
o orador.

– Mas, meu caro Senhor Pedro – exclamou -, como é que o senhor
explica que esse grande homem mandasse executar o duque, um simples cidadão
afinal, sem julgamento prévio e sem que ele fosse culpado? – E eu –
acrescentou o visconde- atrever-me-ei a perguntar como é que o senhor
explica o 18 de Brumário. Não acha que foi um logro? É
um logro que não parece próprio da maneira de proceder de um
grande homem.

– E os deportados de África chacinados à ordem dele? É
horrível! – exclamou a princesinha, fazendo um gesto de pânico.

– É um plebeu, diga o senhor o que disser – corroborou o príncipe
Hipólito.

O Senhor Pedro não sabia a quem prestar atenção; fitava-os
a todos, sorrindo. O seu sorriso não era como o das demais pessoas,
à mistura com qualquer coisa de sério. Ele, pelo contrário,
quando se lembrava de sorrir, perdia, de repente, toda a seriedade, e a máscara,
sempre um pouco enfadonha, transfigurava-se-lhe: ficava com o seu quê
de infantil, de pobre diabo, um pouco estúpido até, com o ar
de quem quer pedir perdão.

O visconde, que o via pela primeira vez, compreendeu imediatamente que aquele
jacobino não era tão terrível nos actos como nas palavras.
Todos se calaram.

– Como querem que Pedro responda a toda a gente ao mesmo tempo? – interrogou
o príncipe André. – Além disso, nos actos de um homem
de Estado é preciso saber distinguir os que ele pratica como simples
particular dos que ele pratica como chefe do exército ou como imperador.
Parece-me da mais elementar justiça.

– Claro, claro – interveio Pedro, satisfeito com a ajuda que recebia.

– É impossível não o reconhecer – continuou o príncipe
André. – Napoleão, o homem, é grande na ponte de Arcole,
no hospital de Jafa, quando aperta a mão aos pestíferos, mas..,
mas há outros actos seus difíceis de justificar.

O príncipe André, que manifestamente pretendera atenuar o
embaraço que tinham provocado as palavras de Pedro, ergueu-se para
se retirar, e fez sinal à mulher.

De súbito, o príncipe Hipólito, levantando-se, pediu
a todos, com um gesto, que se conservassem sentados e principiou a dizer:
– Contaram-me hoje uma anedota moscovita encantadora; têm de a ouvir.
Queira perdoar-me, visconde, tenho de a contar em russo. De outra maneira,
perde o sal.

E o príncipe Hipólito pôs-se a falar russo como o falam
os franceses chegados à Rússia há menos de um ano. Todos
prestaram atenção, tão viva e instantemente o príncipe
reclamara que lhe fizessem esse favor.

– Em Moscovo há uma senhora. E é muito avara. E precisava
de arranjar dois lacaios para a sua carruagem. E de grande estatura. Era assim
que ela gostava. E tinha uma criada de quarto também de grande estatura.
E então disse…

Neste ponto, o príncipe Hipólito teve um momento de reflexão,
mostrando certa dificuldade em combinar as frases.

– E então disse.., sim, disse: «Menina (para a criada de quarto)
enfia a libré e vem daí comigo fazer visitas.» Nesta altura
o príncipe Hipólito deu uma gargalhada, rindo antes de mais
ninguém, o que criou um pouco de embaraço ao narrador. Entretanto,
várias pessoas, entre as quais a senhora idosa e Ana Pavlovna, sorriram.

– Lá foram. De repente levantou-se um grande vendaval. A rapariga
ficou sem o chapéu e a cabeleira desprendeu-se-lhe… Aqui não
pôde aguentar-se mais e um grande acesso de riso o tomou, ao mesmo tempo
que dizia: – E toda a gente soube…

E assim terminou a anedota, ainda que ninguém pudesse compreender
porque a tinha ele contado e a que propósito lhe parecera indispensável
narrá-la em russo. Ana Pavlovna e os demais convivas apreciaram a cortesia
mundana do príncipe Hipólito, que assim tinha posto ponto final
ao penoso e pouco cortês despropósito do Senhor Pedro. A conversa
dispersou-se em seguida por miúdos e insignificantes dizeres a propósito
de bailes em perspectiva ou já passados, em alusões a espectáculos
ou então em referências a circunstâncias ou a locais onde
as pessoas poderiam vir a encontrar-se.

Capítulo VI

Depois de felicitarem Ana Pavlovna pela sua encantadora reunião, os
convidados principiaram a retirar-se.

Pedro era um desajeitado. Gordo, estatura acima de mediana, largo de ombros,
com enormes mãos vermelhuscas, se não sabia estar numa sala,
como se costuma dizer, muito menos sabia sair dela, quer dizer, muito menos
sabia pronunciar, antes de partir, as palavras atenciosas da praxe. Além
disso, era distraído. Quando se levantou, em vez de pegar no chapéu
que lhe pertencia, pegou num tricórnio empenachado de general e assim
esteve, com ele na mão, sacudindo o penacho, até que o proprietário
veio pedir-lhe que lho restituísse. É certo que estas suas distracções
e o seu desconhecimento de usos e costumes da sociedade eram largamente compensados
por um ar ingénuo, simples e modesto. Ana Pavlovna virou-se para onde
ele estava, e cheia de indulgência cristã perdoou-lhe a intempestiva
saída, dizendo-lhe, enquanto meneava a cabeça: – Espero tornar
a vê-lo, mas também desejo que mude de ideias, meu caro Senhor
Pedro.

Pedro nada teve para responder a estas palavras, contentando-se em inclinar-se
e em mostrar mais uma vez o seu sorriso, um sorriso em que se lia: «As
minhas ideias são as minhas ideias, mas, no entanto, reparem como eu
sou bom rapaz,» Ora era isso exactamente o que Ana Pavlovna e todos
os demais estavam a dizer com os seus botões.

O príncipe André saiu para o vestíbulo, e ao mesmo
tempo que voltava as costas ao lacaio que lhe vestia o sobretudo ouvia, distraidamente,
a frívola tagarelice da mulher com o príncipe Hipólito,
que também se preparava para abalar. O príncipe Hipólito,
ao lado da linda princesinha grávida, fixava-a obstinadamente com o
lorgnon.

– Vá-se embora. Annette, está a apanhar frio – disse ela,
despedindo-se de Ana Pavlovna. – Está decidido – acrescentou em voz
baixa.

Ana Pavlovna já tivera tempo de dizer duas palavras a Lisa sobre
o projecto de casamento entre Anatole e a cunhada da princesinha.

– Conto consigo, querida amiga – respondeu Ana Pavlovna igualmente em voz
baixa -, escreva-lhe e diga-me depois como encarará o pai o caso. Até
à vista – e saiu do vestíbulo.

O príncipe Hipólito aproximou-se da princesinha e, debruçando-se
muito para ela, murmurou-lhe qualquer coisa ao ouvido. Dois lacaios, o da
princesa e o do príncipe, aguardando que os amos acabassem de falar,
ali estavam, um com um xale, o outro com um sobretudo, e ouviam-nos falar
francês, língua que desconheciam, mas dando-se ares de quem compreende
e o não quer dar a perceber.

A princesa, como de costume, sorria enquanto falava e escutava sorrindo,
– Estou radiante por não ter ido à Embaixada – dizia o príncipe
Hipólito. – Que estopada… Encantadora noite, não é
verdade? Um encanto.

– Dizem que o baile vai ser uma beleza – retorquiu a princesa, desenhando-se-lhe
um trejeito no lábio sombreado pela ligeira penugem. – Vão lá
aparecer todas as nossas beldades mundanas.

– Nem todas, visto que a princesa lá não estará; nem
todas – disse o príncipe Hipólito com jovialidade, e, pegando
no xale, que tirou das mãos do lacaio, a quem deu mesmo um encontrão,
lançou-o sobre os ombros da princesa.

Por falta de jeito ou de propósito, quem o poderia dizer?, quedou-se
muito tempo sem baixar as mãos, embora o xale já estivesse no
seu lugar. Dir-se-ia enlaçar a jovem princesa.

Evitando-o graciosamente, e sem deixar de sorrir, a princesa voltou-se e
olhou para o marido. O príncipe André, de olhos fechados, parecia
fatigado e sonolento.

– Está pronta? – perguntou ele à mulher, envolvendo-a num
olhar.

O príncipe Hipólito enfiou apressadamente o sobretudo, que
lhe descia até aos tacões, à última moda, e, tropeçando
nas pregas do casacão, deu-se pressa em seguir a princesa, escadaria
abaixo, que subia para a carruagem, auxiliada pelo lacaio.

– Princesa, até à vista! – gritou ele, tropeçando nas
palavras como tinha tropeçado nas dobras do sobretudo.

A princesa, soerguendo o vestido, entrou na obscuridade da carruagem; o
marido afivelava o sabre; o príncipe Hipólito, com o pretexto
de ser útil, incomodava toda a gente.

– Com licença – disse em russo o príncipe André, num
tom seco e pouco amável, dirigindo-se a Hipólito, que lhe vedava
a passagem.

– Pedro, espero-te em casa – articulou a mesma voz com um ar afável
e carinhoso.

O postilhão pôs a equipagem em andamento, que arrancou com
fragor. O príncipe Hipólito ficara na escadaria, rindo ainda,
aos sacões, enquanto esperava pelo visconde, a quem prometera reconduzir
a casa.

– Pois bem, meu caro, a sua princesinha é um encanto, um encanto
– dizia o visconde, ao sentar-se ao lado de Hipólito.- Mas o que se
chama um encanto. – E atirando um beijo com a ponta dos dedos: – E francesa
até à medula.

Hipólito riu estrepitosamente.

– Sabe que é terrível com o seu arzinho inocente – prosseguiu
o visconde. – Lamento o pobre marido, esse oficialzito, que se dá ares
de príncipe reinante.

Hipólito continuava a rir a bom rir, e, mesmo rindo, foi dizendo:
– E dizia o senhor que as damas russas não chegavam aos calcanhares
das francesas. É preciso é saber tratar com elas.

Pedro, que chegara primeiro, como íntimo da casa que era, entrou
no gabinete do príncipe André, e mal se sentou no divã
tirou da estante o primeiro livro que lhe veio à mão – calhou
ser os Comentários, de César -, pondo-se a ler, ao acaso, apoiado
sobre os cotovelos.

– Fizeste-la bonita em casa de Mademoiselle Scherer! É certo e sabido
que a pobre senhora vai cair doente – disse o príncipe André,
ao entrar no gabinete, enquanto esfregava as mãos brancas.

Pedro voltou-se com todo o peso do seu corpo, e de tal maneira que o divã
rangeu debaixo dele. O seu rosto animado fixou-se no do seu companheiro e
com um sorriso aberto fez-lhe um gesto amistoso.

– Realmente, o abade é uma pessoa muito interessante, mas não
compreende as coisas como elas são… Na minha opinião, a paz
perpétua é possível, mas, como direi?…, não
por meio do equilíbrio político…

André, visivelmente, não apreciava estas discussões
abstractas.

– Ah, não, meu caro, não podemos dizer em toda a parte o que
pensamos. Ora conta-me lá, já te resolveste, finalmente, a fazer
qualquer coisa? Que queres tu ser, cavaleiro da Guarda ou diplomata? – perguntou
o príncipe André, depois de alguns instantes de silêncio.

Pedro voltou a sentar-se no divã, encolhendo as pernas debaixo de
si.

– Veja lá, não sei, realmente. Nem uma nem outra dessas situações
se me dá com o feitio.

– No entanto, precisas de tomar uma resolução. Teu pai está
à espera que te decidas.

Pedro fora enviado para o estrangeiro, aos dez anos, na companhia de um
padre, seu preceptor. E por lã ficara até aos vinte. Quando
voltou para Moscovo, o pai despediu o padre e disse ao jovem: «Agora
vai até Petersburgo, observa e escolhe. Estou de acordo desde já
com o que tu decidires. Aqui tens uma carta para o príncipe Vassili
e dinheiro. Vai-me dando notícias, e conta comigo.» Havia já
três meses que Pedro procurava decidir-se por uma carreira e não
chegava a conclusão alguma. Era a tal escolha que o príncipe
André aludia. Pedro passou a mão pela testa.

– Estou convencido de que o homem é mação – murmurou,
pensando no abade que encontrara na recepção.

– Basta de frioleiras – voltou André, interrompendo-o.- Falemos de
coisas sérias. Estás decidido pela Guarda montada?… – Não,
mas vou dizer-lhe urna coisa que me veio a cabeça.

Estamos actualmente em guerra com Napoleão. Se se tratasse, de uma
guerra de libertação, então, sim, compreendia, seria
mesmo o primeiro a alistar-me. Mas ajudar a 1nglaterra e a Áustria
contra o maior homem que há no mundo.., não está certo.

O príncipe André contentou-se, em encolher os ombros perante
as infantis considerações de Pedro. O seu ar queria dizer que
nada tinha a replicar a uma tal patetice; e, com efeito, seria difícil
responder de outra maneira a uma tal ingenuidade.

– Se as pessoas fossem para a guerra só por convicção,
não haveria guerra – disse ele.

– E era isso que convinha – respondeu Pedro.

O Príncipe André sorriu.

– É muito possível, mas aí está uma coisa que
nunca acontecerá.

– E então por que diabo é que o André vai para a guerra?
perguntou Pedro, – Porquê? Não sei. É assim. Além
disso, eu vou… – Calou-se.- Eu vou porque esta vida que levo aqui, esta
vida não me- convém.

Capítulo VII

Na sala contígua ouviu-se o ruge-ruge de um vestido. André
teve um sobressalto, como se recuperasse os sentidos, e a sua máscara
tomou a expressão com que se exibira nos salões de Ana Pavlovna.
Pedro tirou os pés de cima do divã. A princesa entrou. Tinha
outro vestido, um vestido íntimo, mas nem por isso menos fresco e elegante.
O príncipe André levantou-se e ofereceu-lhe, cortesmente, uma
cadeira, – Uma coisa eu nunca deixo de perguntar a mim mesma – disse ela,
como sempre, em francês, sentando-se com prontidão – porque é
que a Annette se não teria casado? Que tolos vocês foram, senhores,
não casando com ela! Desculpem, mas vocês não percebem
nado de saias. Muito gosta de discutir. Senhor Pedro…

– Precisamente, não faço outra coisa senão discutir
com o seu marido. Não compreendo porque é que ele quer ir para
a guerra – disse Pedro, dirigindo-se à princesa sem o mais pequeno
acanhamento, coisa, aliás, perfeitamente natural, tratando-se de um
rapaz e de uma senhora jovem.

A princesa estremeceu. Evidentemente que as palavras de Pedro a tinham atingido
no ponto sensível.

– É o que eu lhe estou sempre a dizer! – redarguiu ela. Não
compreendo, decididamente não compreendo como é que os homens
não podem passar sem a guerra! E que nós, mulheres, não
possamos fazer nada, não tenhamos voz nesse capítulo! Ora, ouça,
faça de conta que é um juiz. Passo a vida a dizer-lhe a mesma
coisa. O André é ajudante-de-campo do tio, tem aqui uma brilhante
situação. Toda a gente o conhece, toda a gente o aprecia. No
outro dia, em casa dos Apraxine, ouvi uma senhora perguntar: «Este é
que é o famoso príncipe André? Palavra!» – Ele
pôs-se a rir. – É assim que o recebem em toda a parte. Tinha
toda a facilidade em vir a ser ajudante-de-campo do imperador. Sabe que o
imperador lhe dirigiu graciosamente a palavra? A Annette e eu estamos convencidas
de que era tão fácil! Que acha? Pedro olhou para o príncipe
André, e, vendo que a conversa não agradava ao amigo, nada respondeu.

– Quando parte? – interrogou ele.

– Ah! Não me fale dessa partida, não me fale. Não quero
ouvir falar nisso! – exclamou a princesa nesse mesmo tom de coquetterie satisfeita
de si que ela mostrara quando, no salão de Ana Pavlovna, conversava
com Hipólito, mas que naquele ambiente de intimidade familiar em que
Pedro era recebido não caía nada bem. – Actualmente, quando
me lembro de que temos de interromper todas as nossas queridas relações…
E, além disso, não sei, sabes. André? – Teve para o marido
um ligeiro piscar de olhos. – Tenho medo, tenho medo! – acrescentou muito
baixo, estremecendo.

O marido olhou para ela com o ar surpreendido que teria se estivesse mais
alguém presente que não fosse Pedro e ele próprio. André.
Depois, com uma fria polidez, disse: – Que receias. Lisa? Não compreendo…

– Ora aqui está o egoísmo dos homens! Não há
um que se salve: são todos, todos egoístas, para satisfazerem
os seus caprichos! Só Deus sabe porque é que ele me vai deixar
enclausurada no campo.

– Com meu pai e minha irmã, não te esqueças – articulou,
tranquilamente, o príncipe André.

– Nem por isso estarei menos só, sem as minhas amigas… E ainda
ele quer que eu não tenha medo.

Tinha adoptado um tom de amuo e fazia um trejeito que lhe dava um ar já
não alegre, mas quase animal, um ar de um pequenino esquilo. Calou-se,
pensando não ser conveniente falar diante de Pedro do seu estado, no
fundo a causa de tudo.

– Continuo a não compreender de que é que tens medo – disse,
lentamente, o príncipe André, sem deixar de a fitar.

A princesa corou e fez um gesto impetuoso.

– Não. André, eu acho é que mudou tanto, tanto…

– O teu médico aconselhou-te a que te deitasses cedo – disse o príncipe
André. – Era melhor que te retirasses.

A princesa nada disse, mas, de súbito, o seu lábio, sombreado
por uma penugem ligeira, pôs-se a tremer; André levantou-se,
encolhendo os ombros, e começou a andar de um lado para o outro.

Pedro, com um ar espantado e ingénuo, olhava por detrás das
lunetas ora um ora outro, e agitava-se, como se ele também quisesse
levantar-se, mas continuava indeciso.

– Quero lá saber que esteja aqui o Senhor Pedro – disse, abruptamente,
a princesinha, e pelo seu delicado rosto perpassou, de súbito, um ricto
como de quem vai chorar.- Há muito tempo que eu te queria dizer. André.
Porque é que mudaste tanto para comigo? Que te fiz eu? Vais para a
guerra e não tens pena de mim. Porquê? – Lisa! – foi tudo quanto
disse André.

Mas nesta palavra havia ao mesmo tempo uma súplica e uma ameaça,
e sobretudo qualquer coisa em que se lia que ela havia de arrepender-se de
ter proferido aquelas palavras. Precipitadamente, ela continuou: – Tratas-me
como uma doente ou como uma criança. Eu bem vejo. Achas que eras assim
há seis meses? – Lisa, peço-te que te cales – disse André
numa voz cortante.

Pedro, cada vez mais perturbado com aquela troca de palavras, levantou-se
e aproximou-se da princesa. Dir-se-ia não poder suportar a vista das
lágrimas e ele próprio estava quase a chorar.

– Sossegue, princesa. É o que lhe parece; porque eu próprio
tive a mesma impressão.., porque… é que… Ah!, desculpe-me,
sinto que estou aqui a mais… Ah!, sossegue… Adeus…

O príncipe André segurou-o por um braço.

– Um momento. Pedro. A princesa é tão boa que não quererá
privar-me do prazer de passar a noite contigo.

– Vê, vê, não pensas senão nele! – exclamou a
princesa, sem poder reter as lágrimas, onde havia revolta.

– Lisa – disse o príncipe secamente, erguendo o tom da voz a uma
altura tal que significava ter perdido por completo a paciência.

Subitamente, o arzinho de esquilo furioso que se pintara no rosto da princesa
converteu-se num medo impressionante, digno de piedade. Lançou, furtivamente,
com os seus belos olhos um rápido olhar ao marido e teve essa expressão
tímida e submissa de um cão batido que foge com a cauda entre
as pernas.

– Meu Deus, meu Deus! – murmurou, pegando na cauda do vestido, e, aproximando-se
do marido, beijou-o na testa.

– Boa noite. Lisa – disse o príncipe André erguendo-se e beijando-lhe
a mão com cortesia, como se fosse uma estranha.

Capítulo VIII

Os dois amigos ficaram silenciosos. Nem um nem outro ousavam falar. Pedro
tinha os olhos pousados no príncipe André, que passava a fina
mão pela testa.

– Vamos cear – disse ele, suspirando. Levantou-se e dirigiu-se para a porta.

Entraram na sala de jantar, elegantíssima, recém-arranjada
e ricamente posta. Tudo, desde os guardanapos às pratas, à baixela
e aos cristais, tinha esse aspecto novo característico das casas dos
recém-casados. No meio do repasto o príncipe André apertou
a cabeça entre as mãos, e, como alguém muito preocupado
que finalmente resolve abrir-se, principiou a dizer, com um nervosismo que
Pedro lhe não conhecia.

– Não, te cases nunca, nunca, meu amigo; é o conselho que
te dou. Não te cases antes de estares convencido de que fizeste tudo
de que eras capaz, antes de teres deixado de amar a mulher que escolheste,
antes de a teres visto bem; sem isso, enganar-te-ás cruelmente e sem
remissão. Casa-te quando fores velho e já não prestares
para coisa alguma… Se o não fizeres, perder-se-á tudo quanto
houver em ti de bom e de grande. Tudo irá por água abaixo. Sim,
sim, sim! Não me olhes com essa cara de espanto. Se estás convencido
de que serás capaz de fazer alguma coisa no futuro, verificarás
que tudo acabou para ti, que tudo te está vedado, salvo o salão
onde virás a encontrar-te ao nível de qualquer lacaio ou de
qualquer imbecil… E aqui tens! Teve um gesto enérgico.

Pedro tirou as lunetas, ficando com outra cara, ainda mais bondosa, e fitou
o amigo com espanto.

– A minha mulher – continuou o príncipe André- é uma
excelente senhora. É uma dessas raras pessoas que não fazem
perigar a nossa honra. Mas. Deus meu, o que daria eu para me não ter
casado! És tu a primeira e a única pessoa a quem o digo, porque
sou teu amigo.

Enquanto falava, o príncipe André cada vez se parecia menos
com esse Bolkonski enterrado numa cadeira em casa de Ana Pavlovna deixando
passar por entre dentes, de olhos piscos, frases francesas. Todos os músculos
da sua seca máscara estavam agitados por movimentos nervosos; os seus
olhos, em que o fogo da vida, até então, parecia extinto, brilhavam
agora com um fulgor luminoso e claro. Dir-se-ia que quanto menos vida nele
havia habitualmente mais enérgico parecia nestes instantes de uma excitação
quase anormal.

– Tu não compreendes porque eu falo assim. No entanto estás
diante da história de toda uma existência. Tu dizes Bonaparte
e a sua carreira – continuou ele, embora Pedro nada tivesse dito acerca de
Bonaparte. – Dizes: Bonaparte. Mas Bonaparte, quando trabalhava, quando caminhava,
passo a passo, para o seu fim era livre, não tinha mais nada em vista
senão esse objectivo, e atingiu-o. Porém, se tu te ligares a
uma mulher, como um forçado com uma braga aos pés, perderás
toda a liberdade. E tudo quanto em ti possa haver de esperança e de
energia tornar-se-á um peso morto, que te oprimirá de desgosto.
Os salões, a má-língua, os bailes, a vaidade, as futilidades,
eis daí por diante o círculo vicioso de que é impossível
uma pessoa evadir-se. Vou partir para a guerra, para a maior das guerras,
e não sei nada, e não presto para nada. Sou muito amável
e muito cáustico e as pessoas ouvem-me quando eu falo em casa de Ana
Pavlovna. E aí tens essa estúpida sociedade mundana sem a qual
não podem passar nem a minha mulher nem essas mulheres… Se tu ao
menos pudesses fazer uma ideia do que são todas as mulheres distintas
e todas as mulheres em geral. Meu pai tem razão. O egoísmo,
a vaidade, a tolice, a nulidade em tudo, aí tens a mulher quando se
mostra tal qual é. Quando a gente a vê na sociedade, julga que
vale alguma coisa, e não vale nada, nada, nada! É o que te digo:
não te cases, meu caro, não te cases – concluiu.

– Que vontade de rir que isto me dá – disse Pedro. – Pois é
o André, o André, precisamente, que se considera a si próprio
um incapaz, que considera falhada a sua vida? O André que tem o futuro
diante de si, todo um futuro? O André…

«De que não será capaz?», pensou, mas o tom da
sua voz denunciava claramente a alta estima em que ele tinha o amigo e o que
esperava dele para mais tarde.

«Como pode ele falar assim!», dizia Pedro de si para consigo.

E efectivamente Pedro via no príncipe André como que um modelo
de todas as perfeições, precisamente porque ele era dotado no
mais alto grau das qualidades que ele próprio não tinha, essas
qualidades que mais do que quaisquer outras exigem força de vontade.
Sempre lhe causara admiração a serenidade que o príncipe
André sabia manter nas relações com as pessoas mais diversas
e a sua memória extraordinária, as suas vastas leituras – tinha
lido tudo, sabia tudo, compreendia tudo – e sobretudo a sua capacidade de
trabalho e de assimilação. E, se é verdade que frequentes
vezes o impressionava, a ele. Pedro, a pouca tendência que o príncipe
André manifestava pela reflexão e pela filosofia, coisas para
que Pedro sentia mais inclinação, estava longe de pensar que
isso constituísse um defeito; pensava até que representava uma
força.

Nas melhores relações, nas mais amistosas e mais simples relações,
a adulação ou os louvores são coisas indispensáveis,
tal qual como o azeite é indispensável nas rodas dos carros.

– Sou um homem liquidado – murmurou o príncipe André. Para
que havemos nós de perder tempo a falar de mim? Falemos antes de ti
– acrescentou depois de um curto silêncio e sor- rindo, como se regressasse,
finalmente, a um assunto mais consolador.

Nessa altura um sorriso apareceu nos lábios de Pedro.

– E para que havemos nós de falar de mim? – disse abandonando-se
a uma despreocupada alegria.- Que sou eu, no fim de contas? Sou um bastardo!
– E, subitamente, corou até às orelhas. Via-se bem que fizera
um grande esforço para pronunciar estas palavras.- Sem nome, sem fortuna…
E, de resto, para falar francamente… – Quereria ter dito tanto melhor, mas
não concluiu a frase. – Enquanto espero, sou livre, estou satisfeito
com a minha sorte. Mas o certo é que não sei o que hei-de fazer.
Seriamente, queria pedir-lhe que me aconselhasse.

O príncipe André olhou-o com bondade, mas, apesar disso, no
seu olhar amável e amistoso sentia-se-lhe a superioridade.

– Gosto de ti, sobretudo porque és tu, entre toda a gente das nossas
relações, o único ser vivo. Dizes que estás satisfeito.
Escolhe o que quiseres, é indiferente. Em toda a parte serás
feliz. Só te peço uma coisa: deixa de conviver com esses Kuraguine,
deixa a vida que levas. Isso não te convém: toda essa devassidão,
esse convívio com hússares, tudo que…

– Que quer, meu caro? – disse Pedro encolhendo os ombros. – As mulheres,
meu caro, as mulheres! – Não compreendo – retorquiu André. –
As verdadeiras senhoras, sim, essas são outra coisa, mas as mulheres
de Kuraguine, as mulheres e o vinho, confesso-te que não compreendo!
Pedro vivia em casa do príncipe Vassili Kuraguine e acompanhava nas
suas orgias o filho deste. Anatole, esse mesmo Anatole que queriam casar,
para o corrigir, com a irmã do príncipe André.

– Quer saber? – disse Pedro, como se acabasse de ter uma feliz ideia. –
Seriamente, há muito tempo que penso nisto. Com a vida que levo, nem
posso decidir-me por coisa alguma, nem reflectir seja sobre o que for. Só
dores de cabeça e o nosso dinheiro perdido. O Anatole convidou-me para
esta noite, mas não vou.

– Dás-me a tua palavra de honra? – Palavra de honra!

Capítulo IX

Eram quase duas horas da madrugada quando Pedro saiu de casa do amigo. Era
uma noite de Junho, uma noite típica de Petersburgo, sem obscuridade.
Meteu-se numa carruagem de aluguer, decidido a voltar para casa. Mas à
medida que se aproximava, ia sentindo que lhe não era possível
dormir numa noite daquelas, que mais parecia um crepúsculo ou uma aurora.
A vista perdia-se ao longe pelas ruas desertas. No caminho. Pedro lembrou-se
de que em casa de Anatole Kuraguine deviam estar reunidos os convivas habituais,
os jogadores, que depois do jogo se entregavam, normalmente, ao prazer da
bebida, um dos seus divertimentos favoritos.

«Se eu fosse a casa de Kuraguine?», disse ele para consigo mesmo.

De súbito, porém, lembrou-se de que tinha dado a palavra de
honra a André. Mas, de repente também, coisa natural nas pessoas
que é de uso considerar-se sem carácter, sentiu um tão
intenso desejo de voltar uma vez ainda a gozar aquela louca vida, que ele
tão bem conhecia, que se decidiu. E então veio-lhe à
mente que o compromisso tomado não valia nada, visto que antes de o
ter assumido para com o príncipe André tinha prometido ao Anatole
que iria a casa dele; e depois, em conclusão, dizia de si para consigo:
«Todas estas palavras de honra são coisas convencionais, sem
qualquer fundamento sério, sobretudo quando uma pessoa pensa que amanhã
pode estar morta ou em circunstâncias tais que as palavras de honra
e desonra não tenham o mais pequeno significado.» Pedro costumava
fazer muitas vezes raciocínios deste gosto, que tornavam nulos todos
os seus projectos e todas as suas resoluções. E dirigiu-se para
casa de Kuraguine.

Quando chegou à escadaria da vasta mole formada pelas casernas da
Guarda montada, onde Anatole vivia, subiu os degraus iluminados e deparou-se-lhe
a porta aberta. Não havia ninguém no vestíbulo; por um
lado e pelo outro só se viam garrafas vazias, sobretudos, galochas;
cheirava a vinho. Ouviam-se ruídos de vozes e gritos distantes.

O jogo e a ceia tinham acabado, mas os convivas ainda se não haviam
dispersado. Pedro despiu o sobretudo e entrou na primeira dependência,
em que se viam ainda os restos do festim e onde um lacaio, julgando-se só,
bebia, às escondidas, os restos de vinho dos copos. Da sala contígua
saía um alarido: risos, gritos de pessoas conhecidas e grunhidos de
ursos. Oito rapazes comprimiam-se, muito excitados, junto da janela aberta.
Três outros entretinham-se com um ursinho novo, que um deles puxava
por uma corrente para atemorizar os companheiros.

– Eu aposto por Stevens cem rublos! – gritou uma voz.

– Que ideia essa de apostar por ele! – exclamou um terceiro.- Kuraguine,
sê tu o árbitro.

– Está bem, então deixem o Michka (Nome familiar do urso na
Rússia. (N, dos T.); vamos lá fazer a aposta.

– De um só trago, ou então perde! – gritou uma quarta voz.

– Iakov, traz uma garrafa. Iakov! – clamou o dono da casa, um rapagão
magnífico, que estava no meio de todos os outros, envergando apenas
uma ligeira blusa toda aberta no peito – Um momento, meus amigos! Eh! Até
que enfim. Petrucha, meu caro! – exclamou dirigindo-se a Pedro.

Uma outra voz, a de um homem de pequena estatura, de olhos azuis-claros,
que contrastava pelos seus modos cordatos no meio de todas aquelas vozes avinhadas,
gritou da janela: – Vamos, serve de árbitro na aposta! – Era Dolokov,
um oficial do regimento Seminovski, famoso jogador e não menos famoso
espadachim, que compartilhava dos aposentos de Anatole.

Pedro sorria, lançando um olhar alegre a toda a companhia.

– Não há maneira de ninguém se entender. De que se
trata? – Esperem, ele não está bêbado. Venha de lá
uma garrafa – disse Anatole, e, pegando num copo de cima da mesa, deu dois
passos para Pedro.

– Antes de mais nada, bebe, Pedro pôs-se a beber copo sobre copo,
olhando de soslaio para toda aquela gente embriagada que se tinha juntado
ao pé da janela e escutava o que se dizia. Anatole deitava-lhe vinho
no copo e contava que Dolokov apostara com o inglês Stevens, oficial
de marinha ali presente, que ele. Dolokov, seria capaz de beber uma garrafa
de rum sentado na janela do segundo andar com as pernas dependuradas para
a parte de fora.

– Então, despeja-me lá essa garrafa! – exclamou Anatole, apresentando
a Pedro o último copo.- Enquanto o não beberes, não te
largo.

– Não, já basta – tornou Pedro recusando, ao mesmo tempo que
se aproximava da janela.

Dolokov segurava o inglês por uma mão e explicava claramente,
com precisão, as condições da aposta, dirigindo-se de
preferência a Anatole e a Pedro.

Dolokov era de estatura meã, frisado, com olhos azuis-claros. Tinha
aproximadamente vinte e cinco anos. Não usava bigode, como os outros
oficiais de infantaria daquela época, e tinha a boca, o traço
mais característico da sua figura, completamente descoberta. Era uma
boca com um desenho extraordinariamente fino. O lábio superior descia
sobre o forte lábio inferior formando dois ângulos agudos, em
cujos cantos se via sempre esboçado uma espécie de duplo sorriso,
um sorriso de cada lado. No seu conjunto, sobretudo com os seus olhos decididos,
impudentes e inteligentes, dava uma impressão que obrigava as pessoas
a fitá-lo. Dolokov não era rico nem tinha qualquer parente.
E, conquanto Anatole gastasse dezenas de milhares de rublos. Dolokov compartilhava
das suas instalações e sabia arranjar as coisas de tal maneira
que o próprio Anatole e todos os seus conhecidos o estimavam mais que
ao próprio dono da casa. Sabia todos os jogos e ganhava quase sempre.
Por mais que bebesse, tinha sempre a cabeça no seu lugar. Kuraguine
e Dolokov eram naquela época, tanto um como o outro, verdadeiras celebridades
no mundo das cabeças loucas e dos boémios de Petersburgo.

Trouxeram a garrafa de rum. Dois lacaios, azafamados e visivelmente estupefactos,
desnorteados no meio dos gritos e das ordens que lhes davam, procuravam demolir
o caixilho que impedia que uma pessoa se sentasse sobre o parapeito exterior
da janela.

Anatole aproximou-se com ares vitoriosos. Tinha necessidade de quebrar fosse
o que fosse. Afastou os lacaios e pôs-se a puxar pelo caixilho, o qual
não cedeu. Quebrou um vidro.

– Experimenta tu, valentão – exclamou dirigindo-se a Pedro. Pedro
agarrou-se à couceira, puxou e arrancou com fragor o enquadramento
de castanho.

– Tudo fora, senão depois são capazes de dizer que eu me agarrei
a alguma coisa – intimou Dolokov.

– O inglês perdeu a cabeça… Eh! Não é verdade?
– inquiriu Anatole.

– Com certeza – disse Pedro olhando para Dolokov, que, com a garrafa na
mão, se aproximava da janela, através da qual se via o céu
claro e a aurora, que se confundia com o crepúsculo.

Dolokov, sempre com a garrafa na mão, saltou para cima da janela.

– Ouçam! – gritou de pé sobre o parapeito, voltado para a
assistência. Todos se calaram.

– Aposto – falava em francês para que o inglês o compreendesse,
embora este não fosse um portento nessa língua -, aposto cinquenta
imperiais; quer apostar cem? – acrescentou, para o inglês.

– Não, cinquenta – retorquiu este.

– Bom, aposto cinquenta imperiais em como sou capaz de beber a garrafa de
rum até à última gota, de um só trago, sentado
na janela, neste sítio – debruçou-se e apontou para o parapeito
inclinado no sentido da rua- e sem me segurar a coisa alguma… Está,
apostado? – Perfeitamente – volveu o inglês.

Anatole voltou-se para este, e, segurando-o por um botão da farda,
olhou-o de cima, pois o outro era de pequena estatura, e pôs-se a repetir-lhe
em inglês as condições da aposta.

– Atenção! – gritou Dolokov, batendo com a garrafa na janela,
para que o ouvissem- Um momento. Kuraguine. Ouçam. Se houver alguém
capaz de fazer o mesmo, dou-lhe cem imperiais. Estão a compreender?
O inglês disse «sim» com a cabeça, sem com isso querer
dizer que tinha intenção de aceitar a nova aposta. Anatole não
o largava, e, embora ele tivesse dado a entender que compreendera, traduzia-lhe
para inglês as palavras de Dolokov. Um rapazola escanzinado, um hússar
da Guarda, que toda a noite estivera a perder ao jogo, trepou à janela,
debruçou-se e olhou lá para baixo.

– Ui! Ui! Ui! exclamou, apontando as pedras da calçada.

– Fora daí! – gritou Dolokov, obrigando a descer da janela o oficial,
que, embaraçado nas esporas, tropeçou.

Depois de ter colocado a garrafa no parapeito da janela, para assim a ter
à mão. Dolokov, com prudência e serenidade içou-se
para o rebordo do janelão. Depois de ter passado as pernas por cima,
do alizar e de haver avançado, com o auxílio das mãos,
até ao extremo do parapeito, escolheu o lugar, sentou-se, deixou pender
as pernas, deslocou-se para a direita e para a esquerda e pegou na garrafa.
Anatole trouxe duas velas e pousou-as sobre o parapeito, embora já
fizesse dia claro. O dorso de Dolokov, de camisa branca, a cabeça anelada,
recebia luz dos dois lados. Toda a gente se tinha juntado em volta da janela.
O inglês estava na primeira fila. Pedro sorria sem dizer nada. Um dos
presentes, mais velho do que os outros, furioso e apavorado, arremeteu, de
súbito, para a janela e quis agarrar Dolokov pela camisa.

– Meus senhores, isto é uma loucura; o rapaz vai matar-se! – exclamou
esta criatura, mais razoável que as restantes. Anatole deteve-o.

– Não lhe toques; se o assustas, ele mata-se. Hem!… E nesse caso?…
Hem! Dolokov voltou-se, compôs-se e colocou-se em posição
com o auxílio das mãos.

– Se mais alguém mete o bedelho na minha vida – disse, deixando cair
as palavras dos lábios finos e cerrados -, obrigo-o a descer imediatamente
por aqui. Está combinado?…

Ao dizer «Está combinado?», voltou-se ainda, soltou as
mãos, pegou na garrafa e levou-a à boca, atirando a cabeça
para trás e erguendo no ar a mão livre para estabelecer o equilíbrio.
Um lacaio que se tinha posto a apanhar os pedaços de vidro da janela
deteve-se, sempre debruçado para o chão, sem perder de vista
a janela e as costas de Dolokov. Anatole conservava-se direito, de olhos arregalados.
O inglês, mordendo os lábios, desviava os olhos. Aquele que tentara
intervir tinha-se afastado para um canto e estiraçara-se num divã
com a cara para a parede. Pedro tapou a cara e um ligeiro sorriso parecia
errar-lhe na máscara, onde se estampavam agora susto e terror. Todos
se calavam. Pedro tirou a mão dos olhos. Dolokov mantinha-se na mesma
posição, mas com a cabeça de tal modo caída para
trás que os cabelos anelados, pela retaguarda, afloravam-lhe o colarinho,
e a mão com que segurava a garrafa cada vez se erguia mais, animada
por um certo tremor, e como se fizesse esforço. A garrafa, que se esvaziava
a olhos vistos, elevava-se ao mesmo tempo no ar, obrigando a cabeça
a descair para trás. «Que tempo que isto leva!», murmurou
Pedro consigo mesmo. Afigurava-se-lhe haver decorrido mais de meia hora. Subitamente
Dolokov teve um movimento de espinha para a retaguarda e a mão foi-lhe
sacudida por um tremor nervoso, quanto bastou para fazer avançar o
corpo sentado no parapeito resvaladiço. Todo ele se deslocou, e as
mãos e a cabeça, com o esforço, estremeceram-lhe ainda
mais. Uma das mãos ergueu-se para se agarrar ao alizar da janela, mas
logo descaiu. Pedro voltou a fechar os olhos e prometeu não tornar
a abri-los. Subitamente percebeu que tinha havido um movimento na assistência.
Abriu os olhos: Dolokov estava de pé sobre o parapeito, o rosto pálido
e alegre.

– Vazia! Atirou com a garrafa ao inglês, que a agarrou no ar. Deu
um pulo da janela. Todo ele cheirava a rum.

– Muito bem! Que valentão! Bela aposta, cos diabos! – dizia-se por
todos os lados.

O inglês tinha puxado da bolsa e contava o dinheiro. Dolokov franzia
as sobrancelhas sem dizer palavra. Pedro precipitou-se para a janela.

– Meus senhores. Quem é que quer apostar comigo? Estou pronto a fazer
o mesmo! – gritou ele, de chofre.- De resto, dispenso as apostas. Venha de
lá uma garrafa. Exactamente!… Uma garrafa.

– Isso mesmo! Isso mesmo! – exclamou Dolokov, rindo.

– Que mosca é que te mordeu? Estás maluco? Quem é que
vai consentir nisso? Até a subir uma escada tens vertigens – dizia-se
por aqui e por ali.

– Vão ver como eu a bebo. Deixem-me ver uma garrafa! gritava Pedro,
batendo no tampo duma mesa, com uma teimosia de bêbado. E trepou para
cima da janela.

Agarraram-no por um braço; mas ele era tão forte que sacudia
de si os que tentavam aproximar-se dele.

– É inútil, não desiste – disse Anatole.- Esperem aí,
que eu ensino-o. Ouve lá, eu aposto contigo, mas fica para amanhã.
Agora vamos todos para casa da…

– Está bem – exclamou Pedro. – Vamos embora!… Mas o Michka também
vai connosco. – Apoderou- se do urso, e agarrando nele com ambas as mãos
para o obrigar a levantar-se, pôs-se a rodopiar com o bicho pelo meio
da sala.

Capítulo X

O príncipe Vassili cumpriu a promessa que tinha feito à princesa
Drubetskaia na reunião em casa de Ana Pavlovna relativamente a seu
único filho. Bóris. Falaram nele ao imperador, e a título
excepcional foi promovido a alferes do regimento Seminovski. Mas não
foi nomeado ajudante-de-campo, nem adido ao quartel-general de Kutuzov, apesar
dos pedidos e das intrigas de Ana Mikailovna. Pouco tempo depois da reunião
em casa da dama de honor. Ana Mikailovna voltou para Moscovo e foi instalar-se
em casa dos Rostov, seus ricos parentes, onde sempre se hospedava. Era ali
que tinha sido educado desde criança e onde ainda vivia o seu Bóris
adorado, só agora admitido no exército e que acabava de ser
promovido a alferes da Guarda. O regimento tinha saído de Petersburgo
a 10 de Agosto, e o rapaz, que ficara em Moscovo por causa do equipamento,
devia ir ao encontro dele em Radzivilov.

Em casa dos Rostov celebrava-se o aniversário das duas Natalias,
a mãe e a filha mais nova. Desde manhã que era um chegar e partir
de carruagens sem fim com visitas para o palácio da condessa Rostov,
na Povarskaia, palácio que toda a gente conhecia em Moscovo.

A condessa, acompanhada pela filha mais velha, uma linda mulher, estava
no salão, rodeada das suas visitas, que não cessavam de chegar.

Era a condessa Rostov urna senhora de rosto magro, tipo oriental, dos seus
quarenta e cinco anos, visivelmente esgotada por doze partos sucessivos. A
lentidão do seu passo e a morosidade da sua fala, consequências
do quebranto das suas forças, davam-lhe um ar de dignidade que inspirava
respeito. A princesa Ana Mikailovna Drubetskaia também se encontrava
presente, íntima da casa que era, ajudando-a a receber as visitas e
a manter a conversação. A gente nova estava nas dependências
das traseiras, desinteressada das visitas. O conde lá se encarregava,
de as acolher e de as conduzir, convidando toda a gente para jantar.

– Estou-lhe muito reconhecido, muito, meu caro ou minha cara – dizia a toda
a, gente, sem excepção, minha cara ou meu caro, sem pôr
nisso qualquer distinção, quer as pessoas fossem de uma classe
inferior ou superior -, estou-lhe muito reconhecido em meu nome e em nome
das festejadas. Não deixe de vir jantar connosco: ficaria melindrado,
meu caro. Peço-lhe, cordialmente, em nome da família, minha
cara.

Estas mesmas palavras, com uma expressão sempre igual no rosto cheio
e sorridente, bem escanhoado, e um aperto de mão enérgico, sempre
o mesmo, e breves e frequentes flexões, repetia-as ele a todos, sem
excepção e sem alterar uma vírgula. Depois de acompanhar
aquele que partia, ei-lo que voltava para junto daquele ou daquela que ficava
no salão. Puxava de uma cadeira, e com os modos de um homem à
vontade em sociedade, estendia as pernas desprendidamente, e, de mãos
assentes nos joelhos, meneava a cabeça com um ar entendido, fazendo
conjecturas sobre o estado do tempo, dando conselhos higiénicos, ora
em russo, ora em francês, num francês bastante mau, mas pronunciado
com segurança, e depois, como uma pessoa que se sente fatigada mas
quer cumprir a sua obrigação até ao fim, acompanhava
as pessoas, assentando as farripas brancas sobre a calva e tornando a repetir
o eterno convite. Uma que outra vez, no regresso do vestíbulo, atravessava
o jardim de Inverno e a sala de espera, dirigindo-se a uma grande dependência
pavimentada de mármore, onde se preparava uma mesa de oitenta talheres:
lançava urna olhadela aos criados, afadigados a acarretar pratas e
porcelanas, a arranjar a mesa e a estender as toalhas adamascadas, e mandava
chamar Dimitri Vassilievich, um jovem fidalgo, uma espécie de seu factótum,
a quem dizia: – Atenção. Mitenka, é preciso que tudo
esteja em ordem. óptimo! óptimo! – Depois acrescentava, inspeccionando,
satisfeito, a imensa mesa elástica. – O mais importante é uma
mesa bem posta. Bom, bom… – E voltava, contente, ao salão.

– Maria Lvovna Karaguine e sua filha! – anunciou em voz de baixo o imenso
escudeiro às ordens da condessa penetrando no salão. A condessa,
pensativa, tomou uma pitada de rapé da sua caixa dourada com o retrato
do marido, – Ah! Que maçada estas visitas! – exclamou ela. – É
a última que eu recebo. Que pessoa tão amaneirada! Manda entrar
– ordenou para o lacaio numa voz áspera que queria dizer: «Bom,
acabemos com isto!» Uma senhora, alta, de grande corpulência,
ar altivo, acompanhada de sua filha, uma menina de nédias bochechas,
toda sorridente, entrou na sala no meio de um ruge-ruge de vestidos.

– Querida condessa, há tanto tempo.., tem estado de cama, pobre criança..,
no baile dos Rasumovski.., e a condessa Apraksine.., fiquei tão contente!…
– exclamavam vozes femininas muito animadas, interrompendo-se umas às
outras mutuamente e confundindo-se com o sussurrar dos tecidos e o arrastar
das cadeiras. Entabulou-se uma conversa tão pouco importante que permitia,
assim que havia uma pausa, que as pessoas se levantassem e dissessem, rio
meio do burburinho da partida: «Estou encantada; a saúde da mãe..,
e a condessa Apraksine», e, em seguida, no meio de um novo ruge-ruge,
passassem para o vestíbulo, pusessem os seus agasalhos e partissem.
A conversa travou-se sobre a grande novidade do dia, a doença do velho
e riquíssimo conde Bezukov, um dos mais belos homens do tempo de Catarina,
e o comportamento do filho ilegítimo do mesmo. Pedro, que se tinha
portado pessimamente ria recepção em casa de Ana Pavlovna.

– Muito lamento o pobre conde – disse a visita que acabava de chegar -;
esta tão mal e, ainda por cima, com o desgosto daquele filho, acaba
por morrer! – Que aconteceu? – inquiriu a condessa, fingindo ignorar o assunto
a que aludia a interlocutora, embora já tivesse ouvido contar a história
pelo menos umas quinze vezes, – São aquilo as educações
modernas! Aquele tempo no estrangeiro fez com que o rapaz se tornasse insubmisso,
e agora, em Petersburgo, segundo dizem, tais horrores fez que tiveram de recorrer
à policia.

– Que me diz! – murmurou a condessa.

– São as más companhias – interveio a princesa Ana Mikailovna.
– O filho do príncipe. Vassili, ele e um tal Dolokov fizeram trinta
por urna linha. Dois deles sofreram-lhe as consequências: Dolokov foi
obrigado a descer de posto e o filho do conde Bezukov, esse, mandaram-no para
Moscovo. Quanto a Anatole Kuraguine, valeu-lhe o pai, que conseguiu abafar
o escândalo. Mas também foi afastado de Petersburgo.

– Que fizeram eles, afinal? – perguntou a condessa.

– São uns autênticos bandidos. Principalmente esse Dolokov
– disse a visita. – É o filho de Maria Ivanovna Dolokov, uma senhora
da maior respeitabilidade. Pois não sabem? Imaginem que arranjaram
um urso e levaram-no com eles de carruagem para casa de urnas actrizes. A
polícia foi atrás deles, e eles não estiveram com meias
medidas: apanham um guarda, amarram-no, costas com costas, com o urso, e atiram
com os dois para o Moika (Canal do rio Neva que divide o centro da cidade
do bairro de Kazari. (N, dos T.). O urso pôs-se a nadar com o polícia
às costas.

– Só queria ver a cara do polícia, minha amiga! – exclamou
o conde, rindo a bom rir.

– Parece impossível! Que horror! Como é que o conde pode achar
graça a uma coisa destas? Mas as próprias senhoras não
podiam suster o riso.

– Foi difícil salvá-lo, àquele desgraçado –
continuou a visita. – E dizer que, é o filho do conde Cirilo Vladimirovitch
Bezukov quem e dedica a divertimentos tão intelectuais! E há
quem o ache bem educado e espiritual. Ora aqui têm o resultado dessas
educações no estrangeiro! Tenho a certeza de que ninguém
aqui o vai receber, apesar de toda a sua fortuna. Quiseram-mo apresentar.
Mas eu disse redondamente que não: tenho filhas.

– Porque diz que, esse homem é assim tão rico? – perguntou
a condessa, debruçando-se para ela, de maneira a que as raparigas a
não ouvissem, e estas logo fingiram nada entender. – Dizem que só
tem filhos naturais. Com certeza.., o Pedro também é filho natural.

A visita teve um gesto evasivo.

– Dizem que tem um caterva de ilegítimos.

A princesa Ana Mikailovna interveio, desejosa, é claro, de mostrar
que tinha relações e que conhecia em pormenor todas as intrigas
mundanas.

– A verdade é esta – disse ela, com um ar entendido e quase em voz
baixa. – A reputação do conde Cirilo Vladimirovitch toda a gente
a conhece… Nem sequer sabe o nome dos filhos que tem, mas este Pedro era
o seu preferido.

– Que belo homem esse velho – murmurou a condessa – ainda o ano passado!
Nunca vi um homem mais belo! – Agora está muito mudado – observou Ana
Mikailovna.- O que eu queria dizer é que o príncipe Vassili,
parente dele pelo lado materno, é que devia ser o seu herdeiro directo,
mas ele gosta muito do Pedro; mandou-o educar e até escreveu a recomendá-lo
ao imperador… Por isso ninguém sabe para quem irá a sua imensa
fortuna, se para o Pedro se para o príncipe Vassili. Quarenta mil almas
e milhões, milhões! Sei isto de fonte limpa, pois foi o próprio
príncipe Vassili quem mo contou. De resto. Cirilo Vladimirovitch também
é meu primo afastado pelo lado materno. E é padrinho do Bóris
– insinuou ela, como se não ligasse a mais pequena importância
ao facto.

– O príncipe Vassili está desde ontem em Moscovo. Dizem que
anda em inspecção – murmurou a visita.

– Sim, mas, aqui entre nós – disse a condessa -, isso é um
pretexto. O que ele veio fazer foi visitar o conde Cirilo Vladimirovitch logo
que o soube muito mal.

– Seja como for, minha amiga, é uma rica história – disse,
de chofre, o conde, e, ao verificar que a interlocutora o não ouvia,
voltou-se para as raparigas- Estou a ver a cara do polícia! E, mimando
os gestos desesperados do pobre diabo, pôs-se de novo a rir, com grandes
gargalhadas sonoras e profundas, que lhe faziam estremecer todo o rechonchudo
corpo, um corpo de quem come bem e bebe melhor.

– Então, está combinado, janta connosco – disse ele.

Capítulo XI

Houve um momento de silêncio. A condessa olhava para a sua visita com
um sorriso amável, sem esconder, aliás, que lhe não seria
desagradável vê-la erguer-se para se ir embora. A filha já
se preparava para se despedir, depois de lançar um olhar interrogativo
à mãe, quando, de súbito, se ouviram na sala contígua
passos precipitados de homens e senhoras, ao mesmo tempo que urna cadeira
era arrastada e caía, impelida por alguém que passava. Então
entrou na sala uma menina dos seus treze anos, que trazia fosse o que fosse
na saia de musselina, e que parava no meio do salão. Era evidente que
fora por engano e sem premeditação que viera até ali.
Simultaneamente, à porta, apareceram um estudante, de gola cor de framboesa,
um oficial da Guarda, uma rapariguinha dos seus quinze anos e um rapazinho,
gordo e rubicundo, com um casaquito curto, O conde precipitou-se para a pequenita
e impediu-lhe a entrada abrindo os braços.

– Ah!, aí vem ela! – gritou ele, rindo – A heroína da festa.
Minha querida fadazinha! – Minha querida, há horas para tudo – disse
a condessa, fingindo-se severa- Estragas a pequena Elie – acrescentou dirigindo-se
ao marido, – Bom dia, minha querida, felicito-a – disse a senhora Karaguine.
– Que criança encantadora! – prosseguiu ela para a mãe.

Era uma rapariguinha de olhos negros, a boca muito grande, não bonita,
mas cheia de vida, com os ombros infantis descobertos, palpitando no corpete,
graças à rapidez com que caminhara, os caracóis negros
repuxados para trás, os braços pequeninos nus, as perninhas
a sair de uma calças de rendas, e nos pés sapatos abertos. Estava
naquela idade graciosa em que uma rapariga já não é criança
e em que a criança ainda não é rapariga. Depois de ter
conseguido escapar-se dos braços do pai, correu para a mãe e,
sem prestar a mais pequena atenção às suas severas reprimendas,
escondeu a cara buliçosa nas rendas da mantilha materna e pôs-se
a rir. Enquanto ria ia falando, com palavras sincopadas, para a boneca que
levava metida na saia.

– Vês?… Mimi… Vês? E Natacha mais não pôde
dizer – tudo a fazia rir. – Deixou-se pender contra a mãe e rompeu
a rir com tanta vontade e tão alto que ninguém, inclusivamente
a visita de maneiras afectadas, pôde resistir ao riso. Todos riram também.

– Vai-te embora, vai-te embora com esse horror! – exclamou a mãe,
repelindo-a com uma cólera fingida.- É a minha filha mais nova
– disse ela à visita.

Natacha deixou ver a cara por momentos, no meio do fichu de rendas da mãe,
olhou aquela de alto a baixo, rindo até às lágrimas,
e voltou a esconder-se.

A visita, obrigada a admirar esta cena de família, pensou ser necessário
dizer qualquer coisa.

– Dize-me cá, minha linda – perguntou a Natacha -, que parentesco
tens tu com esta Mimi? É tua filha, naturalmente. Este tom de condescendência
para se pôr ao seu nível de criança não agradou
a Natacha, que nada disse e fitou a senhora com um ar sério.

Entretanto, todo o grupo jovial: Bóris, o oficial, filho da princesa
Ana Mikailovna, o estudante Nicolau, filho mais velho do conde. Sónia,
sua sobrinhita de quinze anos, e o pequeno Petrucha, seu filho mais novo,
procurava manter, adentro dos limites das conveniências, a animação
e a alegria que fulguravam nos seus rostos. Via-se perfeitamente que lá
para trás, nos aposentos das traseiras, donde eles tinham surgido tão
repentinamente, se falava de coisas bem mais agradáveis que intrigas
mundanas, ou o estado do tempo, ou a condessa Apraksine. Entreolhavam-se todos,
rompendo a rir.

Os dois rapazolas, o estudante e o oficial, amigos de infância, eram
da mesma idade, ambos bonitos moços, mas sem se parecerem um com o
outro. Bóris era um rapagão louro, de traços finos e
regulares, de uma beleza serena; Nicolau, um rapazinho frisado, com uma expressão
aberta. No seu lábio superior apontava já um ligeiro buço
e o todo da sua máscara exprimia impetuosidade e entusiasmo. Nicolau
ficou todo corado assim que entrou no salão. Via-se que procurava dizer
qualquer coisa, mas não conseguia. Bóris, pelo contrário,
mostrou-se logo à vontade e começou a contar, tranquilamente
e com um ar satisfeito, que tinha conhecido a Mimi muito nova, com o nariz
ainda intacto, que nos últimos cinco anos, se bem se lembrava, a pobre
tinha envelhecido terrivelmente, e que tinha agora a cabeça rachada
de alto a baixo. Ao mesmo tempo que falava ia olhando para Natacha. Esta voltara
a cara e olhava para o irmãozito, que ria perdidamente, com os olhos
cheios de lágrimas; de súbito, sem poder mais, despediu correndo.
Bóris ficou muito sério.

– Naturalmente também se quer ir embora. Mamã? Precisa do
carro? – disse ele para, a mãe, sorrindo.

– Pois sim, manda atrelar – respondeu a mãe sorrindo igualmente.

Bóris, sem nada dizer, dirigiu-se para a porta e seguiu atrás
de Natacha. O rapazinho gordo correu após eles, pouco contente por
ter sido perturbado nos seus entretenimentos.

Capítulo XII

A excepção da filha primogénita da condessa, a qual,
quatro anos mais velha que a segunda, já podia dar-se ares de pessoa
crescida, e das filhas da senhora que viera de visita, juventude era coisa
que não havia no salão, se excluíssemos, além
delas. Nicolau e a sobrinha Sónia. Esta era uma morenita magra, uma
miniaturazinha, com uns olhos doces, sombreados por longas pestanas, e uma
farta trança negra que lhe dava duas voltas à cabeça,
a tez olivácea acentuava-se-lhe mais ainda nos braços e no colo
nus, magros, mas graciosos. A ligeireza dos seus passos, a languidez e a flexibilidade
dos seus braços, os seus modos um pouco ardilosos e reservados davam-lhe
ares de um lindo felino ainda não domesticado, mas prometendo vir a
ser um bichano encantador. Evidentemente que ela sabia ser conveniente tomar
parte, com o seu sorriso, na conversa geral, mas, sem dar por isso, por debaixo
das longas pestanas, os olhos fugiam-lhe para o seu primo, que ia partir para
a, tropa. No seu olhar havia uma adoração tão apaixonada
que ninguém se iludiria com aquele sorriso. Toda a gente via que se
o bichano ali estava tão sossegado era apenas para, mal saísse
do salão, logo pôr-se a correr e a saltar com o primo, tal como
Bóris e Natacha.

– Sim, minha cara – dizia o velho conde para a visita, apontando Nicolau.
– Como o seu amigo Bóris saiu, oficial, ele, por amizade para com o
primo, não lhe quer ficar atrás. E lá vai deixar a Universidade
e a mim, seu velho pai; vai alistar-se, minha cara. E já lhe tínhamos
arranjado um lugar no serviço dos arquivos. Ao que leva a amizade!
– E dizem que a guerra já foi declarada – observou a visita.

– Há muito tempo que isso se diz – volveu o conde- Sim, diz-se e
volta a dizer-se, e tudo fica na mesma. Minha cara, o que é que a amizade
não faz? – repetia ele. – Vai para os hússares. A visita, como
não sabia que dizer, meneava a cabeça.

– Mas não, não se trata de amizade – interrompeu Nicolau,
entusiasmando- se, como quem repele uma calúnia que lhe fosse odiosa.-
Não se trata de amizade, mas apenas de que tenho a vocação
de soldado.

Envolveu num olhar a prima e a filha da visita; ambas lhe dirigiram um sorriso
de aprovação.

– Temos hoje a jantar o coronel Schubert, do regimento de hússares
de Pavologradski. Está aqui de licença, e é ele quem
o leva consigo. Que havemos nós de fazer? – disse o conde, encolhendo
os ombros e falando, em tom prazenteiro, de um assunto que visivelmente lhe
causava um grande desgosto.

– Já lhe disse, pai – replicou o filho -, que se me não quer
deixar ir eu não partirei. Mas tenho a certeza de que não sirvo
para mais nada senão para soldado; não nasci, para ser nem diplomata
nem funcionário; não sei esconder os meus sentimentos – acrescentou
sem deixar de fitar as raparigas com a bonita desenvoltura própria
da sua idade.

A gatinha, que o comia com os olhos, parecia pronta a brincar e a mostrar
a sua natureza felina.

– Bem, bem! – disse o velho conde- Está sempre pronto a exaltar-se.
Bonaparte deu volta à cabeça de toda esta gente. Lá porque
ele passou de simples tenente a imperador… Seja o que Deus quiser – rematou,
sem reparar no sorriso escarninho da visita.

As pessoas crescidas puseram-se a falar de Bonaparte. Júlia, o filha
da princesa Karaguine, voltou-se para o jovem Rostov: – Que pena que não
tenha estado na quinta-feira passada em casa dos Arkarov. Não calcula
a falta que me fez! – disse-lhe ela, sorrindo com afabilidade.

O rapaz, lisonjeado, veio sentar-se junto dela. E sorrindo com a coquetterie
própria da sua idade, entabulou uma conversa íntima, sem reparar
que as suas amabilidades eram como um gládio de ciúme a trespassar
o coração de Sónia, a qual, disfarçando a sua
confusão, fingia estar alegre. No meio da sua conversa com Júlia,
deteve os olhos em Sónia. Esta lançou-lhe um olhar cheio de
amargura, retendo a custo as lágrimas, embora ainda lhe flutuasse um
sorriso nos lábios, e levantando-se saiu. Toda a animação
de Nicolau se desvaneceu. Aproveitou a primeira oportunidade para interromper
o seu diálogo, e, inquieto, lá foi à procura de Sónia.

– Oh, como toda esta juventude traz o coração na boca! – exclamou
Ana Mikailovna apontando para Nicolau, que sala da sala.- Primos, maus vizinhos!
– acrescentou.

– É verdade! – disse a condessa, assim que desapareceu o raio de
sol que a mocidade trouxera consigo ao salão. E, respondendo a uma
pergunta que ninguém lhe tinha feito, mas que a preocupava:- Que contrariedades,
que contrariedades as nossas para agora podermos gozar de uma certa alegria!
E o certo é que ainda hoje sentimos muito mais terror que prazer. Estamos
sempre com medo, sempre com medo! E é precisamente nesta idade que
as raparigas e os rapazes correm maior perigo.

– Tudo depende da educação que se recebe – disse a visita.
– Sim, tem razão – continuou a condessa. – Até agora tenho sido
sempre a amiga íntima dos meus filhos e eles têm sempre confiado
em mim. – E, ao falar assim, caía no erro de muitos pais, persuadidos
de que os filhos não têm segredos para eles. – Sei que serei
sempre a primeira confidente dos meus filhos, e que Nikolenka, com a seu feitio
ardente, se um dia fizer uma asneira – os rapazes estão sempre sujeitos
a isso -, nunca se comportará como esses senhores de Petersburgo.

– Sim, são muito bons pequenos – afirmou o conde, qu6 resolvia sempre
os problemas embaraçosos dizendo que tudo estava bem. – Imagine! Quis
assentar praça nos hússares! Que lhe havemos de fazer, minha
cara! – Que linda rapariga é a sua filha mais nova! – disse a visita.
– Que azougada! – É, é – replicou o conde. – Parece-se comigo!
E que linda voz! Não é por ser minha filha! A verdade diga-se.
Vai ser urna verdadeira cantora, uma Salomoni. Anda a tomar lições
com um italiano.

– Não será cedo de mais? Não é bom para a voz,
segundo ouço dizer, aprender canto nesta idade.

– Cedo de mais? – volveu o conde. – Então as nossas mães não
se casaram dos doze para os treze anos? – E já está enamorada
do Bóris! Veja isto! – disse a condessa, sorrindo, disfarçadamente,
e lançando um olhar à mãe do rapaz. Depois, como que
respondendo a um pensamento que não deixava de a preocupar, continuou:
– Imagine que eu a educava com severidade, que a proibia… Só Deus
sabe o que ela seria capaz de fazer às escondidas. (A condessa queria
dizer que se beijariam.) Mas, assim, conheço-lhe todos os pensamentos.
É ela própria quem me vem contar todas as noites. É possível
que eu a estrague: mas estou convencida de que é esta a melhor maneira.
Já a mais velha a eduquei com mais severidade.

– Pois é, a mim educaram-me de maneira muito diferente – disse, sorrindo,
a filha mais velha, a linda condessa Vera.

O sorriso não tornava Vera mais bonita, como em geral acontece, pelo
contrário, dava-lhe uma expressão pouco natural e desagradável
até. Vera, a filha mais velha dos Rostov, era bonita, não era
tola, tinha sido muito bem instruída, tinha uma educação
excelente e urna bela voz; o que ela acabava de dizer era muito justo e a
propósito, mas, coisa estranha, toda a gente, a principiar pela visita
e pela própria condessa, a fitou como que surpreendida que ela tivesse
falado daquela maneira, e todos sentiram um certo embaraço.

– Em geral somos sempre mais rigorosos com os filhos mais velhos; pensamos
sempre fazer deles pessoas excepcionais – disse a Visita.

– Para que havemos de esconder os nossos erros, minha cara! A minha querida
condessa quis ser exemplar com a educação de Vera – observou
o conde. – Mas que se perdeu com isso? O resultado não foi nada mau-
acrescentou, piscando o olho amistosamente a Vera.

As visitas ergueram-se, finalmente, para se despedirem, prometendo vir jantar.

– Isto é que são maneiras! Parecia que nunca mais se iam embora!
– exclamou a condessa, ao ver, finalmente, as visitas pelas costas.

Capítulo XIII

Quando Natacha saiu do salão a correr não foi muito longe;
ficou no jardim de Inverno. E ali permaneceu ouvindo o que se dizia no salão
e aguardando que Bóris chegasse. Principiava a impacientar-se, e já
batia com os pés no chão, quase a chorar por o não ver
aparecer, quando se principiaram a ouvir os passos do rapaz, uns passos nem
muito lentos nem muito precipitados, compassadamente. Natacha correu a esconder-se
atrás dos vasos das plantas.

Bóris ficou parado no meio da dependência, olhou em tomo de
si, sacudiu a manga do uniforme e aproximou-se de um espelho para mirar a
sua linda figura. Muito quieta. Natacha espreitava lá do seu esconderijo,
curiosa de ver o que ele faria. Bóris esteve alguns momentos diante
do espelho, sorriu e dirigiu-se para a porta. Natacha quis chamá-lo,
mas de si para consigo disse: «Ele que me procure.» Mal Bóris
saíra, entrou Sónia, por outra porta, muito corada, e soltando
palavras coléricas por entre um fio de lágrimas. Natacha conseguiu
reprimir o seu primeiro movimento, que a impelia a correr para ela, e ficou
no seu esconderijo como se estivesse debaixo do chapéu que torna as
pessoas invisíveis, observando o que se passava. Tirava disso um prazer
muito especial. Sónia balbuciava fosse o que fosse de indistinto, sem
desviar os olhos da porta do salão. A porta abriu-se e apareceu Nicolau.

– Sónia, que tens tu? Será possível?! – exclamou ele,
correndo para ela.

– Não é nada, não é nada, deixa-me.

As lágrimas correram-lhe em fio.

– Sim, bem sei o que foi.

– Se sabes, é o que importa. Vai ter com ela.

– Sónia! Ouve-me. Só uma palavra. Como é possível
que estejamos os dois a atormentar-nos por causa de uma patetice? volveu Nicolau,
pegando-lhe nas mãos.

Sónia deixou-as ficar e enxugou as lágrimas. Natacha, sem
um movimento, e retendo a respiração, olhava-os do seu canto
com os olhos brilhantes. «Que se irá passar?», pensava
ela.

– Quero lá saber das outras. Sónia. Só tu és
tudo para mim disse Nicolau. – Hei-de provar-to.

– Por amor de Deus, não me digas essas coisas, – Não volto
mais, perdoa-me. Sónia! Puxou-a para si e beijou-a.

«Sim, senhor, assim mesmo!», exclamou para si mesma, e, quando
Sónia e Nicolau partiram, seguiu-os – e chamou Bóris.

– Bóris, venha cá – disse-lhe ela, com um arzinho de significativa
astúcia, – Preciso de lhe dizer uma coisa. Venha daí, venha
daí – prosseguiu ela, conduzindo-o para o jardim de Inverno, para o
sítio onde estivera escondida atrás dos vasos das plantas.

Bóris seguiu-a sorridente.

– De que se trata? – perguntou ele.

Natacha perturbou-se, olhou em tomo de si, e vendo a boneca que ficara em
cima de um dos vasos pegou nela.

– Dê um beijo à minha boneca – ordenou.

Bóris fitou-lhe o rosto animado com um enternecedor interesse, mas
nada disse.

– Não quer? Então venha daí – Desapareceu no meio da
verdura, atirando fora a boneca. – Chegue-se mais, chegue-se mais – murmurou.

Passou o braço pelo canhão da manga do oficial e no seu rosto
purpurizado havia um ar ao mesmo tempo sério e medroso.

– E a mim, quer-me beijar a mim? – balbuciou numa voz quase imperceptível,
olhando-o de viés, com um sorriso nos lábios e as lágrimas
quase a saltarem-lhe dos olhos, tão grande era a emoção.

Bóris corou.

– Que estranha que a menina é! – exclamou ele, debruçando-se
para ela, mas sem se decidir, e como que à espera. Subitamente. Natacha
saltou para cima de uma cadeira, ficando mais alta do que ele, envolveu-lhe
o pescoço nos seus pequeninos braços nus e, inclinando a cabeça
para trás, beijou-o em plenos lábios.

Em seguida esgueirou-se por entre os vasos do lado oposto e deteve-se, de
cabeça baixa.

– Natacha – disse Bóris. – Bem sabe que gosto de si, mas Gosta de
mim? – perguntou ela, interrompendo -o.

Sim, gosto de si, mas, por amor de Deus, não voltemos a fazer o que
fizemos agora… Daqui a quatro anos… Então virei pedir a sua mão.

Natacha ficou a pensar.

– Treze, catorze, quinze, dezasseis… – disse, contando pelos seus pequeninos
dedos.- Está bem. Fica assim combinado? E no seu rosto cheio de animação
resplandeceu uma tranquila alegria.

– Combinado! – repetiu Bóris.

– Para sempre? – voltou a pequena.- Até à morte? E, dando-lhe
o braço, dirigiu-se com ele, toda ela felicidade, para a sala contígua.

Capítulo XIV

A condessa estava tão cansada de atender as visitas que disse que
não receberia mais ninguém, e o guarda-portão recebeu
ordem de convidar para jantar todas as pessoas que viessem apresentar felicitações.
Estava morta por se ver a sós com a sua amiga de infância, a
princesa Ana Mikailovna, que mal tinha visto desde que ela voltara de Petersburgo.
Ana Mikailovna, com o seu bonito rosto como que intumescido de chorar, veio
colocar-se muito junto da cadeira da condessa.

– Vou ser absolutamente sincera contigo – disse-lhe ela. Acabaram-se-nos
as velhas amigas de outrora. E por isso que eu aprecio tanto a tua amizade.

Ana Mikailovna, ao ver aproximar-se Vera, calou-se. A condessa apertou a
mão da amiga.

– Vera – disse ela para a filha primogénita, que evidentemente não
era a preferida -, vocês não percebem nada? Então ainda
não compreendeste que estás aqui a mais? Vai ter com as tuas
irmãs, ou então…

A formosa Vera teve um sorriso um pouco desdenhoso, sem dar a perceber,
de maneira alguma, que se sentia ofendida.

– Se me tivesse dito mais cedo, mãe, já me teria ido embora
– disse ela, afastando-se.

Mas, ao passar pela sala do divã, viu que as duas janelas estavam
simetricamente ocupadas pelos dois pares. Parou a olhar e teve um sorriso
de desdém. Sónia estava sentada muito juntinha de Nicolau, que
copiava uns versos para ela, os primeiros que tinha escrito na sua vida. Bóris
e Natacha estavam na outra janela, e calaram-se quando a viram entrar. Sónia
e Natacha olharam-na com um ar feliz, e ao mesmo tempo como se tivessem sido
surpreendidas em flagrante.

Estas garotas, que então viviam a sua primeira história de
amor, eram ao mesmo tempo divertidas e comovedoras para quem as contemplasse.
Mas a verdade é que não foi grande a satisfação
de Vera quando deu com elas.

– Quantas vezes já lhes pedi que se não apoderassem do que
é meu? As meninas também têm um quarto, Tirou o tinteiro
das mãos de Nicolau.

– Espere, espere – exclamou ele, molhando a caneta. – Não há
dúvida de que não sabem fazer nada com jeito – prosseguiu ela.-
Foi uma vergonha aquela vossa entrada no salão.

Apesar da justeza da observação, ou até, precisamente,
por isso mesmo, ninguém abriu a boca, e os quatro limitaram-se a olhar
uns para os outros. Vera continuou, com o tinteiro na mão: – Sempre
gostava de saber que segredinhos é que a Natacha e o Bóris têm
para dizer um ao outro.., nessa idade, e vocês também. Que patetice!
– E tu que tens com isso. Vera? – disse Natacha, com a voz mais pachorrenta
deste mundo, para dizer alguma coisa.

Era evidente estar, como nunca, nesse dia disposta a ser boa e afectuosa
para toda a gente.

– Tudo isto é uma patetice – continuou Vera- Sinto vergonha por vocês.
Que segredos são esses? – Toda a gente tem segredos. Nós também
não nos metemos ria tua vida e na do Berg – disse Natacha, que principiava
a exaltar-se.

– Acho muito bem que se não metam na minha vida nem na dele, tanto
mais que nada têm a dizer de nós. Deixa estar que hei-de contar
à mãe como tu te portas com o Bóris.

– Natália Ilinitchna porta-se muito bem comigo – disse Bóris.
– Nada tenho a censurar-lhe.

– Deixe-a lá. Bóris, está a ser diplomata…

A palavra «diplomata» estava então em moda entre as crianças,
com o significado particularíssimo que elas lhe davam.

– Que maçada! – exclamou Natacha, com a voz trémula de irritação.
– Porque é que ela se está sempre a meter comigo?… Tu não
percebes nada – acrescentou, dirigindo-se a Vera- não admira: nunca
gostaste de ninguém. Não tens coração, não
passas de uma Madame de Genlis (era uma alcunha, com todo o ar de muito ofensiva,
inventada por Nicolau)… Aquilo de que mais gostas é de más-criações
para com os outros. Deixa-nos em paz e vai lá fazer-te coquette com
o Berg.

– Mas eu nunca andei a correr atrás de um rapaz diante de gente de
fora…

– Era isso que tu querias, não é verdade?, dizer-nos coisas
desagradáveis – disse Nicolau. – Conseguiste que todos ficássemos
zangados. Vamos embora para a nursery.

E todos eles, como um bando de pássaros assustados, bateram as asas
e despediram.

– A mim é que vocês disseram coisas desagradáveis; eu,
por mim, não disse coisas desagradáveis a ninguém – replicou
Vera. – Madame de Genlis! Madame de Genklis! (Autor muito Iwo e traduzido
na Rússia de então. (N, dos T.) – gritaram já detrás
da porta as suas vozes alegres.

A linda Vera, que acabara por irritar toda à gente, pôs-se
a sorrir, e, completamente indiferente ao que lhe tinham dito, aproximou-se
de um espelho e compôs a écharpe e o penteado. Ao ver a sua imagem
no espelho, voltou. à serenidade e à frieza habituais.

No salão falava-se ainda.

– Ah, minha querida – dizia a condessa -, também na minha vida riem
tudo é cor-de-rosa. Não vês que pelo caminho que levamos,
a nossa fortuna não dura muito? E é tudo por causa do clube
e da bondade dele. Julgas que descansamos quando vamos para o campo? Lá
temos os espectáculos, as caçadas, e só Deus sabe que
mais. Mas para que hei-de eu estar a falar de mim? E tu, como é que
conseguiste tudo quanto querias? O que eu admiro, as vezes. Annette. é
como tu podes, na tua idade, ir sozinha, por essas estradas, a Moscovo, a
Petersburgo, procurar os ministros, a gente importante, e como tu sabes falar
a todos! O que eu te, admiro! Conta, conta, como é que conseguiste?
Não percebo nada.

– Ali, minha filha – replicou a princesa Ana Mikailovna. Deus queira que
nunca venhas a saber o que é ficar viúva, desamparada, com um
filho nos braços a quem se quer doidamente. A idade pouco importa para
a gente aprender – prosseguiu com altivez- Aprendi à minha custa. Quando
tenho de me dirigir a qualquer graúdo, mando-lhe uma, palavrinha: «A
princesa fulana deseja avistar-se com Sicrano ou Beltrano,» E meto-me
num carro de praça e apresento-me uma, duas, três, quatro vezes,
as precisas para conseguir o que pretendo. Pouco me importa o que eles possam
pensar de mim.

– Conta-me lá, a quem te dirigiste para pedir pelo Bóris?
perguntou a condessa. – Aí o tens já oficial da Guarda, enquanto
o meu Nicolau ainda não passou de junker. Não tenho ninguém
a quem o recomendar. A quem te dirigiste? – Ao príncipe Vassili. Foi
muito amável. Pôs-se logo à minha disposição.
Falou ao imperador – disse a princesa Ana com um ar vitorioso, esquecendo
por completo as humilhações a que tivera de sujeitar-se para
alcançar os seus fins.

– Que, tal está o príncipe Vassili? Envelheceu? – inquiriu
a condessa. – Nunca mais o vi desde o tempo das nossas teatradas em casa dos
Rumiantsov. Naturalmente já não se lembra de mim. Fazia-me a
corte – acrescentou, sorrindo.

– Está a mesma pessoa – replicou Ana Mikailovna – amável,
atencioso. As grandezas não lhe fizeram perder a cabeça. «Lamento
poder tão pouco, querida princesa», disse-me ele, «mas
dê-me as suas ordens.» É o que te digo, é uma excelente
pessoa e um bom parente. Tu bem sabes. Natália, o que o meu filho representa
para mim. Nem eu sei o que seria capaz de fazer pela sua felicidade. Mas estou
em circunstâncias tão penosas – continuou ela, num tom acabrunhado,
e baixando a voz -, tão penosas, que me vejo actualmente numa situação
terrível. Aquele infeliz processo em que eu me meti leva-me tudo quanto
tenho, e não há maneira de andar para diante. Imagina que estou,
como se diz, sem vintém, e não sei como hei-de arranjar dinheiro
para pagar o equipamento do Bóris. – Puxou do lenço e pôs-se
a chorar. – Preciso de quinhentos rublos, e tudo quanto tenho de meu, neste
momento, é uma nota de vinte rublos. Aqui tens a minha situação…
A minha única esperança, agora, é o conde Cirilo Vladimirovitch
Bezukov. Se ele não vier em auxílio do afilhado – como sabes,
é padrinho do Bóris – e não fizer alguma coisa por ele,
tudo quanto eu consegui até agora não serve para nada: não
poderei pagar o equipamento do rapaz.

A condessa, de lágrimas nos olhes, ficou calada e pensativa.

– Muitas vezes digo de mim para comigo, e talvez não seja bonito:
ali está o conde Cirilo Vladimirovitch Bezukov, um homem que vive sozinho
– e, tem urna fortuna imensa… Para que é que aquele homem vive? A
vida para ele é um fardo, enquanto que o Bóris, coitado, agora
é que principia a viver.

– Naturalmente não deixa de se lembrar dele no testamento – disse
a condessa.

– Quem sabe lá, querida amiga! Estes ricaços, estes nababos,
são tão egoístas! Em todo o caso estou disposto a ir
visitá-lo com o Bóris e dizer-lhe francamente o que se passa.
Pensem de mim o que quiserem, tanto se me dá. Nada tem importância
para urna mãe quando está em risco o destino de filho. – Levantou-se
para sair. – São duas horas, o vosso jantar é às quatro.
Tenho tempo.

E como mulher activa, da capital, que era, para quem () tempo é dinheiro.
Ana Mikailovna mandou chamar o filho e saiu com ele.

– Adeus, minha querida – disse para a condessa, que a acompanhou até
à porta, – Deseja-me sorte – segredou-lhe, a ocultas do filho.

– Vai visitar o conde Cirilo Vladimirovitch, minha cara?- inquiriu o conde,
da sala de jantar, e aparecendo na antecâmara- Se ele estiver melhor,
convide o Pedro em, meu nome. Ele já cá esteve em casa, já
dançou com as pequenas. Convide-o em meu nome, sem falta, minha cara.
Vamos a ver como se porta hoje o Taraska. Está farto de me dizer que
o conde Orlov nunca deu um jantar como o que ele me está a preparar.

Capítulo XV

– Meu querido Bóris – disse a princesa Ana Mikailovna para o filho
quando a carruagem da condessa Rostov, que os tinha conduzido, chegou à
rua atapetada de palha e penetrou no grande pátio do conde Cirilo Vladimirovitch
Bezukov.- Meu querido Bóris – repetiu, enquanto retirava a mão
da velha romeira de peles e a pousava no braço do filho, num gesto
ao mesmo tempo tímido e enternecido- sê amável, mostra-te
atencioso. O conde Cirilo Vladimirovitch sempre é teu padrinho e é
dele que depende o nosso futuro. Lembra-te disso, meu querido, sê amável,
como tu sabes, quando queres…

– Se eu tivesse a certeza de que de tudo isto sairia alguma coisa além
da humilhação que nos espera… – replicou o filho com frieza.-
Mas, visto que lhe prometi, cumprirei a minha palavra; é por si que
o faço.

O criado, embora tivesse visto a quem pertencia a carruagem parada diante
da escada, quis ver quem entrava, mas mãe e filho, sem se fazerem anunciar,
penetraram, directamente, no vestíbulo guarnecido de espelhos, entre
duas fileiras de estátuas perfiladas nos seus nichos. O criado, observando
com um olhar significativo a velha romeira de peles, perguntou quem procuravam
– as princesas ou o conde? -, e, ao verificar ser o conde, disse que, como
Sua Excelência estava pior. Sua Excelência não recebia
ninguém.

– Vamos-nos embora – disse o filho em francês.

– Meu amigo! – implorou a mãe, tocando-lhe de novo no braço,
como se quisesse tranquilizá-lo e dar-lhe coragem.

Bóris não disse nada, e sem despir o casacão olhou
para a mãe com um ar inquiridor.

– Ouve – disse Ana Mikailovna para o criado, num tom insinuante -, eu bem
sei que o conde Cirilo Vladimirovitch está muito mal.., e é
precisamente por isso que eu aqui estou… Somos parentes… Não quero
incomodar ninguém, meu amigo… Apenas desejava falar com o príncipe
Vassili Serguievitch; sei que ele está aqui. Vai anunciar-nos, fazes
favor.

O criado, com toda a solenidade, voltou costas e puxou o cordão da
campainha que tocava no andar superior.

– A princesa Drubetskaia para o príncipe Vassili Serguievitch – gritou
ele a um escudeiro, de calção, escarpins e sobrecasaca, que
acorrera e se debruçava da balaustrada da escadaria.

A princesa ajeitou as pregas do vestido de seda tingida, mirou-se no grande
espelho de Veneza que pendia (Ia parede e pôs-se a subir a escada, altivamente,
ao longo da passadeira, com os seus sapatos cambados.

– Meu caro, prometeu-me – voltou ela para o filho, pegando-lhe no braço
para encorajá-lo. O filho, de olhos baixos, seguia-a sem dizer palavra.

Penetraram num salão que conduzia aos aposentos reservados para o
príncipe Vassili.

No momento em, que mãe e filho, tendo chegado ao centro da sala,
se dispunham a perguntar a um velho criado que viera ao seu encontro qual
o caminho a seguir, o batente de bronze de uma das portas girou e o príncipe
Vassili, de samarra de veludo, só com uma condecoração,
como era próprio da intimidade, apareceu, acompanhando um sujeito moreno,
de muito bom aspecto. Era o famoso Dr. Lorrain, de Petersburgo.

– É então positivo? – Meu príncipe, errare humanum
est, mas… – volveu o médico, gaguejando e pronunciando o latim à
francesa.

– Está bem, está bem…

Ao ver Ana Mikailovna e o filho, o príncipe Vassili despediu-se do
médico e avançou em direcção a eles, calado, mas
com uma expressão interrogadora. O filho deu-se conta de que, repentinamente,
os olhos da mãe exprimiam uma profunda aflição, e um
ligeiro sorriso lhe aflorou aos lábios.

– É verdade, em que penosas circunstâncias nos havíamos
de tornar a ver, príncipe… E como vai o nosso querido doente? inquiriu
ela, sem parecer notar o olhar frio e ultrajante que ele lhe lançara.

O príncipe Vassili olhou para ela e depois para Bóris, como
quem interroga, sem saber o que há-de fazer. Bóris inclinou-se
polidamente. O príncipe Vassili, sem corresponder ao seu cumprimento,
voltou-se para Ana Mikailovna e respondeu-lhe com um aceno de cabeça
e um momo de lábios nada optimista para o doente.

– Será possível?! – exclamou Ana Mikailovna. – Oh, é
terrível! – Não pode uma pessoa pensar numa coisa dessas…
É o meu filho – acrescentou, apontando Bóris. – Quis vir agradecer-lhe
pessoalmente.

Bóris inclinou-se outra vez com toda a correcção. –
Acredite, príncipe, um coração de mãe nunca mais
esquecerá o que fez por nós.

– Sinto-me feliz por lhe poder ter sido prestável, minha cara Ana
Mikailovna – volveu-lhe o príncipe Vassili, compondo o jabot e pondo
no seu gesto e na sua voz, em Moscovo, e na presença da sua protegida,
não menos importância que em Petersburgo, na soirée de
Ana Scherer, – Faça por ser um bom oficial e por se mostrar digno –
– acrescentou, dirigindo-se a Bóris. – – Tenho muito prazer – Está
de licença? – interrogou, num tom totalmente indiferente.

– Aguardo ordens. Excelência, para me apresentar no meu novo regimento
– replicou Bóris, sem mostrar quer ressentimento perante os modos abruptos
do príncipe, quer desejos de prosseguir na conversa, irias respondendo
com uma tão respeitosa compostura que o príncipe olhou para
ele atentamente.

– Está em casa de sua mãe? – Vivo em casa da condessa Rostov
– tornou Bóris, sem se esquecer de acrescentar: – Excelência.

– Ilia Rostov, que casou com Natália Chinchina – elucidou Ana Mikailovna.

– Bem sei, bem sei – disse o príncipe Vassili, com a sua voz inexpressiva.
– Nunca pude compreender como a Natália se decidiu a casar com esse
burgesso! Uma pessoa estúpida e ridícula. E ainda por cima jogador,
pelo que dizem.

– Mas uma excelente pessoa, meu príncipe – acrescentou Ana Mikailovna,
com um certo sorriso, como se ela fosse também de opinião que
o conde Rostov era digno de um tal juízo, mas entendesse que as pessoas
deviam mostrar indulgência para com um pobre velho. – Que dizem os médicos?
– perguntou, depois de um breve silêncio, e afivelando, de novo, uma
expressão de grande pesar no rosto cavado pelas lágrimas.

– Há pouca esperança – volveu o príncipe.

– E eu que tanto queria uma vez ainda agradecer a meu tio todas as atenções
que ele tem tido para comigo e para com meu filho. É o seu afilhado
– acrescentou, como se esta informação devesse causar uma grande
alegria ao príncipe Vassili.

Este franziu as sobrancelhas, sem dizer nada. Ana Mikailovna percebeu que
ele receava ver nela uma rival na disputa da herança do conde Bezukov,
e procurou logo tranquilizá-lo.

– É apenas por muita estima e dedicação por meu tio
– disse deixando cair, negligentemente, e com convicção,
esta última palavra,- Conheço-lhe muito bem o carácter
nobre e franco; mas ele não tem junto de si senão as princesas…
Tão novas… Inclinou-se-lhe ao ouvido e acrescentou em voz baixa:
– Ele já se preparou para a jornada, príncipe? Estas últimas
horas são tão preciosas! Não há momento mais grave,
é indispensável prepará-lo, visto estar tão mal.
Nós, mulheres, príncipe – sorriu carinhosamente -, nós
sabemos melhor do que ninguém falar destas coisas. É indispensável
que eu o veja. Por mais penoso que isso seja para mim.., mas estou habituada
ao sofrimento.

O príncipe compreendia, e mais do que nunca, que, como na soirée
de Ana Scherer, não lhe ia ser fácil desembaraçar-se
de Ana Mikailovna.

. Não acha que esta entrevista lhe seria muito penosa, querida Ana
Mikailovna? – volveu ele.- É melhor esperarmos para amanhã.
Os médicos previram uma crise.

– Mas não se deve esperar em tais momentos, príncipe. Lembre-se
que se trata da salvação da sua alma… Ah!, são terríveis,
os deveres de um cristão…

Uma porta dos aposentos interiores abriu-se e uma das sobrinhas do conde
entrou, uma rapariga de aspecto triste e frio, com o tronco completamente
desproporcionado em relação às pernas.

O príncipe Vassili voltou-se para ela.

– Então, como está ele? – Sempre na mesma. Não admira,
com este barulho.., disse a princesa, olhando para Ana Mikailovna, como se
ela fosse uma desconhecida.

– Ah!, querida, não a conhecia! – exclamou Ana Mikailovna, com um
sorriso feliz e avançando, ligeira, para a sobrinha do conde. – Acabo
de chegar e estou às suas ordens para a ajudar e tratar de meu tio.
Calculo o que deve ter sofrido – acrescentou com um ar compadecido.

A princesa não disse nada, nem sequer sorriu, e voltou, logo a, desaparecer.
Ana Mikailovna descalçou as luvas e instalou-se numa cadeira, em posição
conquistada, fazendo sinal ao príncipe Vassili para sentar-se o lado
dela.

– Bóris! – disse para o filho, sorrindo-lhe.- Eu vou ver o conde,
meu tio: tu, entretanto, meu amigo, procura o Pedro, e não te esqueças
de lhe transmitir o convite dos Rostov. Querem-no lá para jantar. Naturalmente
não vai, penso eu – acrescentou, para o príncipe, – Porque não?
– observou este, que não parecia lá muito bem disposto.- Ficar-lhe-ei
muito grato se me desembaraçar deste jovem, – Está aqui instalado.
O conde ainda não pediu uma única vez para o ver.

Encolheu os ombros. Um escudeiro acompanhou Bóris, fazendo-o descer
a escada e conduzindo-o depois por outra aos aposentos de Pedro Kirilovitch,

Capítulo XVI

Pedro, que não conseguira decidir-se por uma carreira em Petersburgo,
havia sido, de facto, recambiado para Moscovo por causa do seu mau comportamento.
A história que se contava em casa dos Rostov era exacta. Pedro tinha
tornado parte na cena da amarração do polícia ao lombo
do urso. Regressara havia apenas breves dias e, como era seu costume, instalara-se
em casa do pai. Embora calculasse que a história já seria conhecida
em Moscovo e que as senhoras da roda do pai, sempre mal dispostas para com
ele, já teriam aproveitado a ocasião para indispor o conde consigo,
nem por isso deixara de se apresentar nos aposentos do pai assim que chegara.
Ao entrar no salão, quartel-general das princesas, cumprimentou as
senhoras que estavam a bordar enquanto uma delas lia um livro em voz alta.
Eram três. A mais velha era uma rapariga severa e de aspecto cuidado,
de tronco muito alto, a mesma que aparecera a Ana Mikailovna; essa era a leitora;
as duas mais novas, frescas e bonitas, tão parecidas que apenas se
distinguiam pelo sinalzinho que uma delas tinha sobre o lábio e que
a tornava ainda mais bonita, bordavam ao bastidor. Pedro foi recebido como
um morto que ressuscita ou como um pestífero. A mais velha interrompeu
a leitura e, sem dizer nada, fitou-o de olhos espavoridos; a segunda, a que
não tinha sinal, reproduziu exactamente a expressão da irmã;
a mais nova, de feitio jovial e trocista, mergulhou a cabeça no trabalho
para esconder o riso que lhe iria provocar a divertida cena com que já
contava. Levantou o bastidor e inclinou-se para o bordado, como se estivesse
absorta no seu trabalho, mal podendo suster o riso.

– Bom dia, prima – disse Pedro. – Já não me conhece? – Conheço-o
de mais, conheço-o de mais, sim, de mais. – Como está o conde?
Posso vê-lo? – continuou, embaraçado, como sempre, mas sem se
perturbar.

– O conde está mal física e moralmente, e, pelo que sei, o
Pedro tem feito o possível para lhe agravar os seus padecimentos morais.

– Posso vê-lo? – repetiu Pedro.

– Hum… Se o quer matar, sim; se o quer matar, então, faça
favor. Olga, vai ver se o caldo do tio está pronto; estamos quase na
hora – acrescentou ela, mostrando com isso a Pedro que não faziam outra
coisa senão aliviar os sofrimentos do pai, enquanto ele só servia,
evidentemente, para o desassossegar.

Olga saiu. Pedro olhou as duas irmãs e disse, pedindo licença
para se retirar: – Então vou-me embora. Quando eu puder vê-lo,
espero que me mandem chamar.

Saiu e o riso meio abafado da mais nova ressoou-lhe nas costas.

No dia seguinte, o príncipe Vassili chegava e instalava-se em casa
do conde. Mandou chamar Pedro e disse-lhe: – Meu caro, se se vai comportar
aqui como em Petersburgo, acabará mal, é tudo quanto tenho a
dizer-lhe. O conde está muitíssimo doente: deve evitar vê-lo
por completo.

A partir desse momento nunca mais ninguém pensou em Pedro, que passava
os dias nos seus aposentos, no andar de cima.

Quando Bóris entrou no quarto. Pedro passeava de um lado para o outro,
detendo-se, de vez em quando, num dos ângulos da sala, gesticulando
ameaçadoramente diante da parede, como se desafiasse qualquer inimigo
invisível, e lançando olhares severos por cima das lunetas.
Depois, retomava a sua caminhada, pronunciava palavras incompreensíveis,
encolhia os ombros, agitava os braços.

– A Inglaterra está liquidada – articulava ele, franzindo as sobrancelhas,
e apontando fosse o que fosse com o dedo.- O Senhor Pitt, como traidor da
nação e do direito dos povos, está condenado a…

Não pôde concluir a sentença que condenava Pitt. Julgava-se
Napoleão e na companhia do seu herói atravessava já o
perigoso Pas de Calais, a caminho da conquista de Londres, quando viu entrar
um jovem e garboso oficial. Calou-se. Tinha deixado de ver Bóris ia
este nos seus catorze anos, e não se lembrava realmente dele. Apesar
disso, travou-lhe do braço, com os seus modos atenciosos e espontâneos,
sorrindo-lhe amistosamente, – Lembra-se de mim? – perguntou Bóris,
serenamente, e com um sorriso gracioso. – Vim com minha mãe visitar
o conde, mas, segundo parece, ele não está bem de saúde.

– Sim, digamos, está doente. Estão sempre a incomodá-lo
replicou Pedro, procurando lembrar-se donde conhecia aquele mancebo.

Bóris via perfeitamente que Pedro o não reconhecia, mas não
se achava na obrigação de lhe dizer quem era. E fitou-o sem
o menor embaraço.

– O conde Rostov pede-lhe que vá hoje jantar a casa dele – disse,
após uma pausa assaz longa e algo embaraçosa para Pedro.

– Ah, o conde Rostov! – exclamou Pedro muito contente.- Então é
o Ilia, o filho do conde. E eu que o não tinha reconhecido no primeiro
momento. Lembra-se quando íamos passear ao Monte dos Pardais (Passeio
célebre em Moscovo. (N, dos T.) com Madame Jacquot… Já lá
vai há muito.

– Está enganado – disse Bóris, sem pressa, e com um sorriso
protector e um pouco trocista. – Sou Bóris, o filho da princesa Ana
Mikailovna Drubetskaia. Ilia é o Rostov pai. O filho chama-se Nicolau.
E não conheço qualquer Madame Jacquot.

Pedro abanou a cabeça e gesticulou, como se quisesse enxotar moscas
ou abelhas importunas.

– Ah!, que estou eu a dizer? Confundo tudo. Há tantos parentes em
Moscovo! Já sei, o Bóris.., perfeitamente. Até que enfim
que estamos de acordo. Ora, diga-me, que pensa da expedição
de Bolonha? Não acha que os Ingleses ficarão em maus lençóis
se Napoleão conseguir atravessar o canal? Na minha opinião,
a expedição é coisa viável. Desde que Villeneuve
não faça alguma asneira.

Bóris não sabia absolutamente nada acerca da expedição
de Bolonha; não lia os jornais, e era a primeira vez que ouvia falar
em Villeneuve.

– Nós, aqui, em Moscovo, preocupamo-nos mais com jantares e mexericos
do que com política – disse ele no seu tom sereno e escarninho. – Nada
sei a esse respeito, nem tenho opinião sobre o assunto. Moscovo é
uma cidade que presta sobretudo atenção aos escândalos.
Neste momento não se fala noutra coisa senão de si e do conde.

Pedro sorria, e o seu sorriso bom parecia traduzir o receio de que o interlocutor
se descaísse com qualquer palavra de que pudesse vir a arrepender-se.
Mas Bóris falava distintamente, com nitidez e secura, fitando-o nos
olhos.

– Moscovo não tem mais que fazer senão coscuvilhar – continuou.
– Toda a gente está morta por saber a quem é que o conde vai
deixar a sua imensa fortuna, embora muito bem possa acontecer que ele cá
fique para nos enterrar a todos, e faço votos para que assim seja,
– Sim, tudo isto faz tristeza – murmurou Pedro.- Muita tristeza.

Ainda não deixara de temer que o oficial, estouvadamente, abordasse
qualquer conversa embaraçosa para ele.

– Como deve calcular – continuou Bóris, corando ligeiramente, mas
sem alterar o seu tom e o seu semblante reservados -, como deve calcular,
o que toda a gente espera de um ricaço é vir a receber dele
qualquer coisa.

«Ora aí está», disse Pedro com os seus botões.

– E era precisamente isso que eu lhe queria dizer, para evitar equívocos:
que está muito enganado se nos considera, a minha mãe e a mim,
na categoria dessa gente. Nós somos bastante pobres, mas posso garantir-lhe,
pelo menos no que me diz respeito, que é precisamente porque seu pai
é rico que eu me não considero seu parente, e que tanto eu como
minha mãe nunca lhe pediremos seja o que for, nem nada aceitaremos
dele.

Levou seu tempo antes que Pedro compreendesse, mas assim que o conseguiu
deu um pulo do divã, pegou em Bóris por debaixo do braço,
com a sua vivacidade de gestos e a sua habitual maneira desajeitada, e, corando
ainda mais que o seu interlocutor, pôs-se a dizer-lhe, num misto de
pudor e embaraço: – Que está a dizer? Será possível
que… Quem é que seria capaz de pensar… Eu sei perfeitamente…

Mas Bóris mais uma vez lhe cortou a palavra.

– Estou satisfeito por ter-lhe dito tudo isto. Naturalmente não lhe
foi muito agradável de ouvir, desculpe-me – acrescentou, para tranquilizar
Pedro, quando quem devia esperar ser tranquilizado era ele próprio.-
Mas espero que o não tenha ofendido. Tenho por princípio usar
de franqueza… Que resposta quer que eu dê? Sempre vai ao jantar dos
Rostov? Bóris, depois de assim se ter desembaraçado de um penoso
dever e de ter transferido para outrem a falsa situação em que
se encontrava, tomou-se muito amável, como era seu costume.

– Ouça cá – disse Pedro, tranquilizado- Você é
uma pessoa extraordinária. O que acaba de me dizer é bonito,
muito bonito. Claro que me não conhece. Há tantos anos que nos
não vemos.., desde crianças… Talvez suponha que eu… Sim,
compreendo-o perfeitamente. Não teria feito uma coisa dessas, não
teria tido coragem, mas acho muito bem. Gostei muito de o conhecer. É
curioso – acrescentou, após uma breve pausa e sorrindo- o que foi capaz
de pensar de mim! – Pôs-se a rir.- Mas que importância tem isso?
Havemos de ter ocasião de nos conhecermos melhor, não é
verdade? – Apertou-lhe a mão.- Fique sabendo que eu ainda não
pus os pés no quarto do conde. Não me mandou sequer chamar…
Tenho pena dele… Mas que hei-de eu fazer? – Acha que Napoleão será
capaz de levar a cabo a travessia? – perguntou Bóris, com um sorriso.

Pedro disse de si para consigo que Bóris queria mudar de conversa,
e, fazendo-lhe a vontade, pôs-se a descrever-lhe, pormenorizadamente,
as vantagens e as dificuldades da tentativa de Bolonha.

Um criado veio procurar Bóris, mandado pela princesa, a qual ia partir.
Pedro prometeu aparecer no jantar, e, para mais estreitar os seus laços
com Bóris, apertou-lhe energicamente a mão. Fitando-o amistosamente
através dos cristais das suas lunetas… Depois de Bóris sair
continuou por muito tempo a passear no quarto, já não a rachar,
de alto a baixo, inimigos invisíveis, mas sorrindo à lembrança
daquele rapaz amável, ao mesmo tempo inteligente e resoluto.

Como é vulgar com a gente muito moça, e especialmente se vive
isolada. Pedro sentia por aquele rapaz um enternecimento sem razão
de ser, prometendo de si para consigo fazer dele um verdadeiro amigo.

O príncipe Vassili acompanhava a princesa. Esta levava o lenço
nos olhos e tinha o rosto coberto de lágrimas.

– É horrível, é horrível! – exclamava ela.-
Mas hei-de cumprir o meu dever custe o que custar. Hei-de vir tomar conta
dele. Não o podem deixar neste estado. Cada minuto que passa é
tempo perdido. Não sei porque estão à espera as princesas.
Que Deus me inspire a maneira de o preparar…

– Adeus, meu príncipe, que Deus o ajude!…

– Adeus, minha amiga – replicou o príncipe Vassili, ao deixá-la.

– Oh, que situação terrível – disse a mãe para
o filho, ao subirem para a carruagem.- Quase já não conhece
ninguém. – Não chego a compreender, mãe, quais são
as relações dele com o Pedro – observou o filho.

– O testamento nos há-de dizer, meu amigo. E o nosso destino depende
disso…

– Mas, o que é que a leva a pensar que ele nos deixa alguma coisa?
– Ah, meu filho! Ele é tão rico e nós somos tão
pobres! – Isso não é uma razão, mãe…

– Ai, meu Deus, meu Deus, o estado em que ele está! – suspirava ela.

Capítulo XVII

Depois que Ana Mikailovna e o filho saíram para se dirigir a casa
do conde Cirilo Vladimirovitch Bezukov, a condessa Rostov ficou por muito
tempo sozinha, de lenço nos olhos. Por fim, tocou a campainha.

– Que andas tu a fazer? – disse ela, irritada, para a criada, que tinha
tardado alguns minutos a aparecer. – Não queres fazer as tuas obrigações?
Nesse caso, posso arranjar-te outra casa.

A condessa tão perturbada ficara com as aflições e
a humilhante pobreza da amiga que estava de mau humor, e quando se irritava
falava sempre assim à pobre rapariga.

– Peço desculpa, minha senhora.

– Vai dizer ao senhor conde que venha cá.

O conde, no seu passo claudicante, veio ao encontro da mulher, com o ar
habitual de quem é surpreendido a fazer qualquer coisa mal feita.

– Oh, condessinha! Aquilo é que é um sauté de galinholas
au Madère que nós lá temos, minha querida! Já
o provei. Fiz muito bem em dar mil rublos ao Taraska. Vale-os bem! Sentou-se
ao lado da condessa, apoiando os cotovelos nos joelhos, os cabelos brancos
em desordem.

– Que deseja, condessa? – Olhe lá, querido… Que nódoa é
essa? – disse ela, apontando-lhe o colete.- Naturalmente, foi o sauté
– acrescentou, sorrindo.- É que preciso de dinheiro.

Tinha assumido uma expressão tristonha.

– Ah, condessinha!…

O conde deu-se pressa em ir buscar a carteira.

– Preciso de muito dinheiro, conde; de quinhentos rublos.

E, puxando do seu lencinho de cambraia, pôs-se a esfregar o colete
do marido.

– É já, é já. Eh lá! Quem é que
está aí? – gritou, no tom de um homem que sabe que basta chamar
para logo acorrerem ao seu apelo. – Manda cá o Mitenka.

Mitenka, o jovem de boa família a educar em casa do conde, e, que
estava à testa de todos os seus negócios, entrou na sala calmamente.

– Ouve cá – disse o conde para o jovem, que se aproximou em atitude
respeitosa. – Traz-me… – Ficou um momento a pensar. – Sim, setecentos rublos.
Mas, toma cuidado, não me tragas dessas notas rasgadas e sujas, como
da outra vez. Quero notas novas, são para a condessa.

– Sim. Mitenka, que sejam limpas – apoiou a condessa, com um profundo suspiro.

– Quando precisa desse dinheiro. Excelência? – perguntou Mitenka.-
É bom que Sua Excelência saiba que… Mas não se aflija
– acrescentou, notando que a respiração do conde se tornava
opressa, sinal de que principiava a encolerizar-se.- Tinha-me esquecido, precisamente…
Quer já essa importância? – Quero, quero, trá-la. É
para a dares à condessa.

– Isto é que é um tesouro, este Mitenka – prosseguiu ele,
sorrindo, assim que o rapaz saiu.- Não me venham dizer que é
impossível. Isso é que eu não posso tolerar. Tudo é
possível.

– Ah, o dinheiro, conde, o dinheiro, as aflições que o dinheiro
causa neste mundo! – exclamou a condessa. – E eu preciso muito deste dinheiro.

– Pois, sim, condessinha, toda a gente sabe que é uma perdulária
– disse o conde; e, depois de beijar a mão da mulher, retirou-se para
o seu gabinete.

Quando Ana Mikailovna voltou de casa de Bezukov, já a condessa tinha
em seu poder o dinheiro, todo em notas novas, em cima de uma mesa, debaixo
do lenço de assoar, e Ana Mikailovna viu perfeitamente que a amiga
estava preocupada.

– Então, minha amiga? – inquiriu a condessa.

– Ah!, que situação horrível a dele! Está irreconhecível.
E tão mal, tão mal! Estive junto dele apenas uns momentos, e
não lhe pude dizer uma única palavra…

– Annette, por amor de Deus, não digas que não! – exclamou,
de súbito, a condessa corando muito, o que era estranho naquele rosto
magro e grave, nada novo já, e tirou o dinheiro que tinha debaixo do
lenço.

Ana Mikailovna compreendeu imediatamente de que se tratava e debruçou-se
para beijar a amiga no momento propício.

– Aqui tens, da minha parte, para o uniforme do Bóris.

Ana Mikailovna abraçou-se então a ela a chorar. A condessa
também chorou. Ambas choravam, porque ambas estavam de acordo e também
porque eram pessoas de bom coração e excelentes amigas de infância
e se viam obrigadas a preocupar-se com essa coisa desprezível que é
o dinheiro e ainda também porque já não eram novas…
Mas as suas lágrimas não eram amargas…

Capítulo XVIII

A condessa Rostov estava sentada no salão, no meio de suas filhas,
já entre um grande número de convidados. O conde tinha levado
consigo os homens para mostrar-lhes, no gabinete, a sua colecção
de cachimbos turcos. De vez em quando vinha cá fora perguntar se ela
ainda não tinha chegado. Estava-se à espera de Maria Dmitrievna
Akrosimova, conhecida na sociedade por o terrível dragão, uma
senhora a quem não distinguiam nem a fortuna nem os títulos,
mas a inteireza e a franca simplicidade de maneiras. Maria Dmitrievna era
conhecida da família imperial, e toda Moscovo e toda Petersburgo a
conheciam igualmente, e as duas cidades, posto a admirassem, nas costas dela
zombavam do seu ar rude, contando anedotas a seu respeito. Toda a gente, sem
excepção, a estimava e a temia um pouco.

No gabinete, cheio de fumo, a conversa tinha por assunto guerra, que um
manifesto acabava de anunciar, e o serviço de recrutamento. Ainda ninguém
tinha lido esse manifesto, mas toda a gente sabia da sua existência.
O conde estava sentado numa otomana, entre dois fumadores, que conversavam.
Quanto a ele, não fumava nem falava. Voltando a cabeça ora para
um lado ou para o outro, olhava para os interlocutores com viva satisfação
e ouvia o que diziam aquelas duas criaturas que ele pusera em contacto.

Um deles era civil, de rosto magro, escanhoado, bilioso e cheio de rugas.
Pendia já para a velhice, conquanto vestisse como um rapaz à
moda. Sentava-se à turca na otomana, como se estivesse em sua própria
casa, e, com a boquilha de âmbar ao canto da boca, lançava rolos
de fumo, de tempos a tempos, piscando os olhos. Era um velho celibatário.
Chinchine de nome, primo da condessa, um má-língua, como se
dizia nos salões moscovitas. Conversando, parecia conceder uma alta
distinção ao seu interlocutor. Este era um oficial da Guarda,
rosado e fresco, bem apertado, bem penteado e irrepreensível na sua
farda. De cachimbo na bonita boca, soltava ligeiros rolos de fumo, por entre
os lábios rosados, que subiam no ar em pequenos círculos. Era
o tenente Berg, do regimento Seminovski, actual camarada de Bóris,
aquele a quem Natacha chamara, para irritar a irmã, o noivo da Vera.
O conde tinha-se sentado entre os dois e ouvia-os atentamente. A ocupação
de que ele mais gostava, à parte o boston, que adorava, era precisamente
o papel de auditor, sobretudo quando conseguira defrontar dois tagarelas.

– He, como é isso, meu mui venerável Afonso Karlitch – dizia
Chinchine, trocista, misturando as expressões o mais tipicamente russas
com as frases francesas mais rebuscadas. – Conta tirar rendimentos do Estado,
quer tirar lucros do seu esquadrão? – Não. Piotre Nikolaitch,
apenas queria mostrar-lhe que a cavalaria oferece muito menos vantagens que
a infantaria. Considere a minha posição. Piotre Nikolaitch…

Berg falava sempre com precisão, num tom calmo e cortês. Tudo
quanto dizia lhe tocava a ele próprio de perto. È era capaz
de estar calado horas sem se enfadar com isso nem causar aos outros o mínimo
enfado. Mas desde que a conversa o tocasse pessoalmente, logo ele intervinha
com exuberância e visível prazer.

– Considere a minha posição. Piotre Nikolaitch. Se eu estivesse
na cavalaria não teria mais de duzentos rublos de três em três
meses, mesmo no posto de tenente, e actualmente tenho duzentos e trinta…
– Um alegre e afectuoso sorriso acompanhava as suas palavras, e olhava para
Chinchine e para o conde como se fosse a própria evidência os
seus próprios êxitos, dele. Berg, serem como que a preocupação
suprema de toda a humanidade.

– Além disso. Piotre Nikolaitch, passando para a Guarda – continuou
ele -, estou mais em evidência e as vagas são em muito maior
número na infantaria. E, depois, pode calcular como eu me arranjo com
os duzentos e trinta rublos. Pois fique sabendo que faço economias
e ainda mando dinheiro a meu pai – disse, entre duas fumaças.

– Aí é que está a habilidade- O Alemão malha
o milho em cima do cabo de um machado, como diz o provérbio. (Provérbio
russo intraduzível que se refere à, avareza. (N, dos T) – disse
Chinchine, piscando o olho ao conde e mudando a posição do cachimbo.

O conde soltou urna gargalhada. Alguns dos convidados, verificando que Chinchine
era a alma da conversa, aproximaram-se para ouvir. Berg, que não dava
nem pela zombaria nem pela frieza que acolhiam as suas considerações,
continuava a historiar que, graças à sua passagem pela Guarda,
já ganhara um número sobre os seus camaradas de promoção;
que, em tempo de guerra, um comandante de esquadrão pode morrer e que
ele, na sua qualidade de mais antigo, muito facilmente poderia vir a substitui-lo;
que no seu regimento toda a gente o adorava, e que o pai estava muito contente
com ele. Berg deliciava-se claramente com todas estas revelações
e parecia não passar-lhe sequer pela cabeça que os demais pudessem
ter também os seus interesses. A verdade, porém, é que
tudo quanto ele dizia tinha um ar tão decente e tão gracioso,
era tamanha a candura do seu egoísmo juvenil que os seus interlocutores
se sentiam desarmados.

– Bom, bom, meu filho, garanto-lhe que tanto na infantaria como na cavalaria,
seja onde for, o seu futuro está garantido, isso prometo-lhe eu – disse
Chinchine, batendo-lhe nas costas e erguendo-se da otomana, Berg sorriu com
um ar feliz. O conde, e com ele os seus hóspedes, penetraram no salão.

Estava-se naquele momento que antecede os jantares de cerimónia em
que os convidados, à espera da hora dos zakusski, não se embrenham
em grandes conversas, sentindo-se obrigados a agitar-se e a não estarem
calados, para assim darem a impressão de não terem pressa de
ir para a mesa. Os donos da casa lançavam, de vez em quando, o seu
olhar para a porta, e entreolhavam-se depois. Por sua vez, os convidados procuravam
discernir nesses olhares quem se aguardava e o que ainda se aguardava: seria
alguma importante pessoa de família retardatária ou alguma iguaria
que ainda não estivesse pronta? Pedro chegara um pouco antes de começar
o jantar e, desajeitado, foi sentar-se, no meio do salão, na primeira
cadeira que se lhe deparou, embaraçando o caminho a toda a gente. A
condessa quis obrigá-lo a falar, mas ele lançou um olhar ingénuo
em tomo de si por detrás das lentes, como se procurasse alguém,
e não respondeu às suas investidas senão por monossílabos.
Era incomodativo e só ele não compreendia que o estava a ser.
A maior parte dos convidados, que tinha sabido da sua história com
o urso, observava, curiosamente, aquele rapagão, corpulento e pacífico,
perguntando cada um a si mesmo como é que um simplório daqueles,
gordo e modesto, podia ter sido o autor da proeza em que um polícia
se vira envolvido.

– Só agora chegou? – inquiriu a condessa.

– Sim, minha senhora – respondeu ele, distraidamente.

– Não viu ainda meu marido? – Não, minha senhora. – Pôs-
se a rir sem saber porquê.

– Ouvi dizer que esteve há pouco tempo em Paris? É interessante,
não é? – Muito interessante.

A condessa trocou um olhar com Ana Mikailovna, que percebeu aquela pedir-lhe
que tomasse conta do rapaz. Sentando-se junto dele, pôs-se a falar-lhe
do pai. Mas ele, como acontecera com a condessa, apenas lhe respondia por
monossílabos. Os convidados estavam muito ocupados. Ouviam-se fragmentos
de frases: «Os Razumovski…», «Foi encantador…»,
«É muita bondade da sua parte…», «A condessa Apraksine».
A condessa levantou-se e entrou no grande salão.

– Maria Dmitrievna? – ouviu-se perguntar.

– É, é ela mesma – respondeu uma grossa voz de mulher, e nesse
mesmo momento Maria Dmitrievna entrava na sala.

Todas as raparigas, e até as senhoras, à excepção
das mais idosas, se levantaram. Maria Dmitrievna deteve-se no limiar da porta.
Grande e maciça, a cabeça erguida, onde os caracóis brancos
mostravam bem rondar ela a casa dos cinquenta, envolveu num olhar toda a assembleia,
e, como se quisesse arregaçá-las, arranjou, sem pressa, as largas
mangas do seu vestido. Maria Dmitrievna exprimia-se sempre em russo.

– As minhas felicitações à festejada e aos seus filhos
– disse na sua voz alta e grave, que dominava todos os demais ruídos.
E tu, velho pecador – acrescentou, dirigindo-se ao conde, que lhe beijava
a mão. – Hem! Aborreces-te em Moscovo? Não se pode arranjar
aqui uma boa caçada? Nada a fazer, meu velho, enquanto estes pintainhos
não crescerem… – E apontava para as filhas do conde. – Quer queiras
quer não, tens de lhes arranjar casamento.

– Então, meti cossaco! (Chamava sempre a Natacha meu cossaco.) –
Acariciou com a mão Natacha, que se aproximou, para lha beijar com
um ar desembaraçado e alegre.- Bem sei que és uma peste, mas
eu gosto de ti.

Retirou de uma enorme saca uns brincos de âmbar, em forma de pêra,
e, dando-os a Natacha, radiante com o seu aniversário e rubra de satisfação,
voltou-lhe instantaneamente as costas para dirigir-se a Pedro.

– Eh, eh!, meu caro amigo!, vem cá – disse ela numa voz que procurava
tornar suave e delicada.- Vem cá, meu caro…

E arregaçou ainda mais as mangas do vestido num ar terrível.
Pedro aproximou-se, olhando-a com candura através das lentes das suas
lunetas.

– Aproxima-te, aproxima-te, meu caro! Mesmo a teu pai só eu era capaz
de lhe dizer- a verdade, quando ele estava disposto a ouvi-la, e Deus queira
que tu, tu também a entendas, Calou-se. Todos se calaram igualmente;
aguardavam o que ia acontecer, sentindo que aquilo não passava de preâmbulo.

– Um lindo menino, não há dúvida! Um lindo menino!…
O pai no seu leito de agonia, e ele a fazer loucuras, a obrigar um polícia
a andar a cavalo num urso. É uma vergonha, meu filho, uma vergonha!
Farias bem melhor se fosses para a guerra.

Voltou-lhe as costas e deu a mão ao conde, que mal podia suster o
riso.

– Bom, suponho que são horas de irmos para a mesa – concluiu Maria
Dmitrievna.

O conde e Maria Dmitrievna abriram a marcha atrás deles seguia a
condessa, acompanhada do coronel de hússares, pessoa de acarinhar,
porque era na sua companhia que Nicolau regressava ao seu regimento. Ana Mikailovna
ia pelo braço de Chinchine. Berg ofereceu o dele a Vera. Júlia
Karaguine, toda sorridente, acompanhava Nicolau. Os outros pares vinham depois,
estendendo-se pelo salão além, e atrás de todos, um pouco
à parte, as crianças, os preceptores e as governantas. Os lacaios
deram-se pressa, houve um rumor de cadeiras e uma orquestra principiou a tocar
no momento em que os convivas se sentavam.

As notas da orquestra particular do conde misturavam-se ao tilintar das
facas e dos garfos, ao ruído das conversas, às idas e vindas
discretas dos criados. À cabeceira da mesa sentava-se a condessa, dando
a direita a Maria Dmitrievna, e a esquerda a Ana Mikailovna e às demais
senhoras. Na outra cabeceira estava o conde, que tinha à sua esquerda
o coronel de hússares e à direita Chinchine e outros convidados
masculinos. De um dos lados da grande mesa ficava a mocidade já crescida:
Verá, ao lado de Berg. Pedro, com Bóris; do outro lado, as crianças,
os preceptores, as governantas. O conde via a mulher, com a sua touca alta,
de fitas azuis, através dos cristais das garrafas e das taças
cheias de fruta, e ia enchendo os copos dos vizinhos, sem esquecer o seu próprio.
A condessa, igualmente oculta por detrás dos ananases, sem descuidar
dos seus deveres de dona de casa, trocava a sua piscadela de olhos com o marido,
cujas calvície e, face rubicunda lhe pareciam particularmente vermelhas
em contraste com o cabelo branco. No lado das senhoras havia uma vozearia
bem ritmada; nos dos homens, as vozes iam-se tornando cada vez mais ruidosas,
principalmente a do coronel de hússares, que, cada vez mais corado,
tanto comia e tão bem que o conde o exibia como exemplo aos demais
convidados. Berg, com um enternecido sorriso, falava a Vera do amor, esse
sentimento não deste mundo, mas do céu. Bóris ia dizendo
ao seu novo amigo Pedro o nome dos convivas, enquanto trocava olhares com
Natacha, sentada diante dele. Pedro falava pouco, examinando todas estas caras
novas, e comia abundantemente. Desde as duas qualidades de sopa, de que ele
preferiu a de tartaruga, e dos kulebiaks (Espécie de tartaruga cozida.
(N, dos T), até às galinholas, de todos os pratos e de todos
os vinhos que o chefe de mesa, com a garrafa envolta num guardanapo, parecia
extrair misteriosamente do ombro do seu vizinho de mesa, murmurando: «Madeira
seco», «Húngaro» ou «Vinho do Reno»,
de tudo se serviu. Pedro pegava no primeiro dos copos que lhe vinham à
mão, de entre os quatro ornados com o monograma do conde, em fila diante
de cada talher, e despejava-o, gulosamente, aumentando, de momento a momento,
de afectuosidade para com os seus vizinhos de mesa. Diante dele. Natacha olhava
para Bóris como as garotas de treze anos costumam olhar para os rapazes
que acabam de as beijar e de quem elas se julgam apaixonadas. Por vezes até
o próprio Pedro recebia dela um olhar desse género, e esse olhar
de rapariga risonha e animada dava-lhe a ele vontade de rir sem que soubesse
porquê.

Nicolau estava longe de Sónia, junto de Júlia Karaguine, e
com ela se entretinha a conversar com o mesmo sorriso constrangido. Sónia
sorria para todos, mas a verdade era estar visivelmente consumida de ciúme:
ora empalidecia, ora corava, fazendo o possível para conseguir perceber
o que Nicolau e Júlia estavam dizendo. A preceptora lançava
em tomo de si olhares inquietos, pronta a cair a fundo sobre o primeiro que
se lembrasse de se meter com as crianças. O preceptor alemão
procurava gravar na memória toda a espécie de pratos, de sobremesas
e de vinhos que iam sendo servidos para depois poder falar em tudo isso pormenorizadamente
na carta que enviaria para a Alemanha. Sentia-se mortificado quando o chefe
de mesa, com a, garrafa envolta no guardanapo, passava por ele sem o servir.
Franzia as sobrancelhas, fingindo não querer vinho, mas a verdade é
que se sentia ofendido por ninguém compreender que o vinho lhe era
necessário, não para o desalterar ou para lhe satisfazer a gula,
mas apenas pelo desejo bem mais sério de se instruir.

Capítulo XIX

No sector dos homens a conversa ia-se animando cada vez mais. O coronel contava
que o manifesto da declaração de guerra já era conhecido
em Petersburgo e que um exemplar, que ele próprio vira, fora expedido
pelo correio ao comandante-chefe.

– E por que diabo é que nós havemos de declarar guerra a Bonaparte?
– disse Chinchine.- Ele já abateu as fumaças à Áustria.
Receio que tenha chegado agora a nossa vez.

O coronel era um alemão sólido, de grande estatura, aspecto
sanguíneo, sem dúvida bom militar e bom patriota. As palavras
de Chinchine magoaram-no.

– Porquê, meu caro senhor? – tornou ele, com o seu sotaque estrangeiro
– Porquê? Aí está o que o imperador sabe muitíssimo
bem. No seu manifesto, lá diz que não pode continuar indiferente
aos perigos que ameaçam a Rússia e que a segurança do
império, a sua dignidade e a santidade das alianças…

Acentuou particularmente esta última palavra, como se nela estivesse
a chave do problema.

E com a sua impecável memória de personalidade oficial repetiu
as palavras do princípio do manifesto: «E o desejo do imperador,
o seu único e invariável objectivo – que é o restabelecimento
da paz na Europa assente em bases sólidas -, decidiram-no a dar ordens
a uma parte do exército para atravessar a fronteira e a realizar esta
nova aliança para dar cumprimento aos seus objectivos.» – E aqui
tem porquê, meu caro senhor! – concluiu ele, levando o copo à
boca cheio de compunção, enquanto com os olhos pedia a aprovação
do conde.

– Conhece o provérbio: «Erema. Erema, melhor era que ficasses
em casa a fiar a lã»? (Provérbio russo, que quer dizer
que o melhor é não nos metermos na vida alheia, (N, dos T.)
– disse Chinchine, franzindo as sobrancelhas e sorrindo. – Isso calha mesmo
bem. Suvorov já foi apanhado e batido em toda a linha. E onde estão
os nossos Suvorovs hoje em dia? Dê-me licença que lhe pergunte.-
Chinchine estava sempre a transitar do russo para o francês.

– Temos de nos bater até à última gota de sangue –
disse o coronel, deixando cair a mão em cima da mesa – e morrer pelo
nosso imperador. E assim deve ser. Mas nada de raciocínios, raciocinar
o menos possível. – Engrossou a voz, especialmente ao pronunciar a
palavra menos, e voltando-se de novo para o conde.- É assim que nós,
velhos hússares, encaramos as coisas em última instância.
E o senhor, que pensa o senhor disto, jovem hússar? – prosseguiu, dirigindo-se
a Nicolau, que, ao perceber que se falava da guerra, esquecera a interlocutora,
todo ouvidos.

– Penso exactamente da mesma maneira – replicou Nicolau, que se entusiasmou
e se pôs a mexer no prato e a deslocar os copos de forma tão
brusca e incoerente que dir-se-ia correr naquele momento um grande perigo…
Estou convencido de que os Russos só têm duas soluções:
vencer ou morrer – continuou com o sentimento, em que todos os outros comungavam,
de que aquilo mesmo, que já fora dito, ele o estava a exprimir por
palavras demasiado enfáticas e pomposas, e isso lhe causava uma espécie
de embaraço.

– É muito bonito o que acaba de dizer – observou Júlia, que
estava sentada a seu lado.

Sónia pôs-se a tremer e corou até às orelhas.
Até mesmo a nuca e os ombros se lhe ruborizaram ao ouvir Nicolau falar
assim. Pedro prestara atenção às considerações
do coronel, e aprovava-as com a cabeça.

– Ora aí está uma coisa acertada – observou.

– É verdade, um autêntico hússar, meu rapaz – exclamou
ainda o coronel, batendo de novo na mesa.

– Que barulho é esse que vocês para aí estão
a fazer? – perguntou, do outro lado da mesa, a voz grave de Maria Dmitrievna.
– Que estás tu a bater na mesa? – disse ela ao hússar. Contra
quem é que estás tão exaltado? Até parece que
tens diante de ti os Franceses.

– O que eu estou a dizer é o que é – retrucou o coronel, sorrindo.

– É verdade, um autêntico hússar, meu rapaz! – exclamou
ainda – Tenho um filho que vai para a guerra. Maria Dmitrievna; sim, vai para
a guerra.

– E eu, que tenho quatro filhos no exército, não estou a chorar
por isso. Deus é grande. Podemos morrer tranquilamente na nossa cama
e nada nos acontecer no campo de batalha – disse Maria Dmitrievna, elevando
a sua grossa voz, que chegava, sem esforço, de extremo a extremo da
mesa.

– E é verdade.

E a conversa lá continuou, a das senhoras a um lado, a dos homens
a outro.

– Aposto que não és capaz de perguntar – disse a Natacha o
irmãozito. – Aposto! – Vais ver – respondeu Natacha.

O rosto animou-se-lhe, repentinamente de uma audácia rebelde e resoluta.
Levantou-se, fez um sinal com os olhos a Pedro, que estava diante dela, convidando-o
a escutar, e dirigiu-se à mãe: – Mãe! – lançou
ela, à toa, na sua clara voz infantil.

– Que aconteceu? – perguntou a condessa assustada. Mas, ao ver no rosto
da filha que se tratava de uma brincadeira, ameaçou-a severamente com
a mão, enquanto lhe mostrava uma expressão descontente.

As conversas interromperam-se.

– Mãe! Que doce vamos ter? – interrogou a vozita de Natacha, irreflectidamente
e num tom ainda mais decidido.

A condessa quis franzir as sobrancelhas, mas debalde. Maria Dmitrievna ameaçou-a
com o seu dedo grosso.

– Eh, cossaco! – gritou-lhe.

A maior parte dos convidados observava os pais de Natacha para ver como
eles iam encarar aquela aventura.

– Espera – disse a condessa.

– Mãe! Que doce vamos ter? – voltou Natacha, atrevidamente e no tom
de uma criança caprichosa, certa de antemão de que a sua audácia
não teria consequências.

Sónia e o gordo Pedro riam perdidamente.

– Como vês, perguntei – dizia ela, baixo, ao irmãozito e a
Pedro, a quem voltou a lançar uma olhadela.

– Há gelado, mas tu não comes – disse Maria Dmitrievna.

Natacha viu que nada tinha a recear e, de resto, a própria Maria
Dmitrievna não lhe metia medo algum.

– Maria Dmitrievna! Gelado de quê? Não gosto de gelados, de
nata.

– É de cenoura.

– Não é verdade. De quê? Maria Dmitrievna, de quê?
– quase gritou. – Quero saber que gelado é! Maria Dmitrievna e a condessa
romperam a rir e, à imitação deles, todos os demais.
Riam-se não da resposta de Maria Dmitrievna, mas da audaciosa obstinação
e da presença de espírito daquela garota que sabia defrontá-la
e ousava fazê-lo.

Natacha apenas se submeteu quando lhe disseram que, o gelado era de ananás.
Antes do gelado foi servido o champanhe. A música ressoou de novo,
o conde trocou um beijo com a sua condessinha e os convidados ergueram-se
para felicitá-la. Os copos tocaram-se, ao longo da mesa, com o do conde,
com o das crianças e entre si. Os criados de novo principiaram a agitar-se,
ouviu-se o rumor das cadeiras e na mesma ordem de entrada, apenas com as faces
mais vermelhas, os convidados voltaram a dar entrada no salão e no
gabinete do conde.

Capítulo XX

Prepararam-se as mesas de jogo, organizaram-se os parceiros para o boston
e toda a gente se espalhou pelos dois salões, a sala do divã
e a biblioteca.

O conde, com as suas cartas em leque, a custo se mantinha, resistindo à
tentação de dormir, como de costume, depois do jantar, e sorria
a toda a gente. A mocidade, arrastada pela condessa, reunia-se em volta do
cravo e da harpa. Júlia foi a primeira, instada por todos, a tocar
umas variações na harpa, e ela e as demais raparigas pediram
a Natacha e a Nicolau, de quem todos gabavam o talento musical, que cantassem
qualquer coisa. Natacha, a quem tratavam como uma pessoa crescida, sentia-se,
claro está, muito orgulhosa com isso, mas, ao mesmo tempo, tomava-a
uma grande timidez.

– Que havemos nós de cantar? – perguntou.

– A Fonte – replicou Nicolau.

– Então, depressa, andem. Bóris, vem cá. Onde está
a Sónia? Natacha olhou à sua roda, e, ao ver que a amiga não
estava presente, correu a buscá-la.

Tendo-a procurado no seu próprio quarto e não a encontrando
aí. Natacha foi ver se ela estaria no quarto das crianças e
também ali a não encontrou. Pensou então que devia estar
no corredor, sentada na arca. A arca do corredor era o local onde se derramavam
as dores de toda a jovem geração feminina da casa Rostov. E,
efectivamente. Sónia lá estava, com o seu vestidinho cor-de-rosa
vaporoso, que amarrotava entre os dedos, estendida na arca, o rosto escondido
no sujo edredão listado da ama, e a cara nas mãos, chorando,
sacudida por grandes soluços que lhe faziam estremecer os ombrozinhos
decotados. Natacha, que durante todo o dia tinha andado com uma expressão
festiva, mudou, repentinamente, de parecer: os olhos tornaram-se-lhe fixos,
um frémito lhe percorreu o colo, os cantos da boca descaíram-lhe.

– Sónia! Que tens tu?… Ah! Ah!, que te aconteceu?…

E Natacha, fazendo um momo com a sua grande boca, que logo a tomou feia,
pôs-se a soluçar, sem razão, apenas por ver que Sónia
chorava. Sónia queria levantar a cabeça, queria responder-lhe,
mas não pôde e ainda escondeu mais profundamente o rosto. Envolvendo
a amiga nos seus braços, sentada sobre o edredão azul. Natacha
chorava, continuava a chorar. Por fim, tendo Sónia serenado um pouco,
ergueu-se, pôs-se a enxugar as lágrimas e abriu-se em confidências.

– O Nicolau vai partir dentro de oito dias.., foi chamado por um papel..,
ele é que me disse… E mesmo assim eu não choraria… – Mostrou
um bilhete que tinha apertado na mão e em que estavam escritos versos
de Nicolau. – Não choraria; mas tu não podes imaginar, ninguém
pode imaginar.., o bom coração que ele tem.

E de novo se pôs a chorar pensando no bom coração de
Nicolau.

– Tu, tu és feliz – Não tenho ciúmes… Gosto muito
de ti, e Bóris também – continuou ela, ganhando coragem pouco
a pouco. – Que gentil que ele é.., e para vocês não há
obstáculos. Mas o Nicolau é meu primo… É preciso que
o próprio metropolita.., e mesmo assim não pode ser. E depois,
se disserem alguma coisa à mãe… – Sónia considerava
a condessa sua mãe e como tal a tratava-.., ela vai dizer que eu prejudico
a carreira do Nicolau, que não tenho coração, que sou
uma ingrata, e, no entanto, tão certo como Deus estar nos Céus…
– Persignou-se. Eu gosto tanto dele, dele e de todos vocês também…
Só a Vera… E porquê? Que lhe fiz eu? Estou-vos tão reconhecida
que daria de bom grado tudo, e a verdade é que não tenho nada
para dar.

Sónia não pôde dizer mais, e de novo escondeu a cabeça
nas mãos e no edredão. Natacha pôs-se a consolá-la,
mas via-se, pela sua atitude, que ela compreendia a gravidade do sofrimento
da sua amiga.

– Sónia! – exclamou ela, de repente, como se adivinhasse a verdadeira
razão do sofrimento da prima – É verdade? A Vera falou contigo
depois do jantar? É verdade? – Estes versos foi o Nicolau quem os escreveu;
eu copiei outros. Ela encontrou-os em cima da, minha mesa e disse que havia
de os mostrar à mãe, e disse também que eu era uma ingrata,
que a mãe nunca o deixaria casar comigo e que ele havia de casar com
a Júlia. Não viste como ele esteve ao lado dela todo e dia…
Natacha? Porque é que há-de ser assim? E de novo chorou mais
amargamente do que nunca. Natacha obrigou-a a levantar-se, abraçou-se
a ela, e sorrindo por entre as lágrimas procurou consolá-la,
– Não acredites. Sónia, minha, querida, não acredites
no que ela diz. Lembras-te do que nós dizíamos, o Nicolau e
nós as duas, na sala do divã? Lembras-te, depois do jantar?
Como sabes, combinámos como tudo se havia de passar. Já me não
lembro dos pormenores, mas deves lembrar-te como tudo se arranjava, como tudo
era fácil. O irmão do tio Chinchine, por exemplo, casou com
a prima em primeiro grau, e nós somos apenas segundos primos. E o Bóris
dizia que era muito fácil. Tu bem sabes que eu lhe contei tudo. E ele
é tão inteligente e tão gentil! Deixa-te disso. Sónia,
não chores mais, minha queridinha, minha Sóniazinha. – E pôs-se
a abraçá-la muito risonha – A Vera é má, não
queiras saber dela. Tudo se há-de arranjar, e ela não vai dizer
nada à mãe. O Nicolau te há-de dizer que não pensa
na Júlia.

E beijou-a na testa. Sónia parecia outra, a gatinha que ela era reanimou-se,
os olhos faiscararn-lhe, dir-se-ia pronta a dar ao rabo, a saltar sobre as
suas patinhas elásticas, a correr atrás do novelo de lã,
coisas próprias da sua natureza.

– Achas que sim? Realmente! Juras? – disse ela, recompondo com vivacidade
o vestido e os cabelos.

– Podes estar certa! – respondeu Natacha, ao mesmo tempo que lhe ajeitava
na, trança uma mecha de cabelos rebeldes. Ambas desataram a rir.

– E agora vamos cantar A Fonte.

– Vamos.

– Viste aquele rapaz gordo, o Pedro, que estava sentado diante de mim? Que
patusco que ele é! – disse Natacha, de súbito, detendo-se. –
O que eu me diverti! E Natacha despediu, numa carreira, corredor além.

A Sónia, depois de sacudir as penas do edredão que lhe tinham
ficado agarradas ao vestido e de esconder no colo magricela os versos do jovem
Nicolau, reanimou-se-lhe a expressão, e lá foi correndo também
ligeira e jovial, atrás de Natacha, na direcção da sala
do divã. A pedido dos seus convidados, a gente nova cantou o quarteto
de A Fonte, que foi recebido com muito entusiasmo. Depois Nicolau entoou uma
romança que aprendera havia pouco:

Por uma linda noite, à luz do luar, Que ventura poder dizer-te a ti
somente Que ainda há alguém cá neste mundo Que não
pensa nem sonha senão contigo! Que os seus dedos tão bonitos,
Errantes por sobre as cordas da harpa de oiro, Em apaixonadas ondas de harmonia
Te chame, te chame ainda! Ainda um dia, mais dois dias, e o Paraíso
abrir-se-à…

Mas, ai de nós, a tua amiga, já lá não a encontrarás…

Ainda as últimas palavras da canção não tinham
findado, já a juventude se preparava para o baile e a orquestra lançava
as primeiras notas no meio do ruído de pés e de tossezinhas.
Pedro estava no salão, onde Chinchine se lançara numa discussão
política com aquele rapaz chegado havia pouco do estrangeiro, discussão
essa que enfadava imenso o próprio Pedro, e em que tomavam parte muitos
outros convidados. Quando a música principiou. Natacha entrou na sala
e, dirigindo-se imediatamente a Pedro, disse-lhe, rindo e corando ao mesmo
tempo: – A mãe disse-me que o convidasse para dançar.

– Tenho medo de fazer confusão com os passos – murmurou Pedro -,
mas se quiser ter a bondade de ser minha professora…

E, inclinando-se profundamente, deu a larga mão à esbelta
rapariguinha.

Enquanto os pares se organizavam e os músicos afinavam os seus instrumentos.
Pedro conservou-se sentado ao lado da sua pequena dama. Natacha sentia-se
inteiramente feliz: ia dançar com uma pessoa importante, que voltava
de o estrangeiro. E ela lá estava, exibindo-se diante de toda a gente,
pronta a conversar, como se fosse uma pessoa crescida, e exactamente como
ele. Tinha um leque que lhe havia emprestado urna amiga. E tornando a pose
mais conforme ao código mundano – e só Deus sabe onde e quando
ela tinha aprendido tudo aquilo -, abanava-se e sorria, com um ar rebelde,
enquanto conversava com o companheiro.

– Que rapariga! Olhe para ela – disse a velha condessa, atravessando o grande
salão e apontando para Natacha.

Natacha corou e pôs-se a rir.

– Porquê, mãe? Porque é que se está a rir? Que
tem isso de extraordinário? No meio da terceira escocesa, ouviu-se
um rumor de cadeiras no salão onde o conde e Maria Dmitrievna estavam
a jogar, e a maior parte dos convidados importantes e das pessoas de idade,
para estenderem as pernas, meteram na algibeira carteiras e bolsinhas de dinheiro
e vieram postar-se à porta do grande salão. A frente estavam
Maria Dmitrievna e o conde, ambos muito bem dispostos. O conde, mimando uma
cortesia joco-séria, à imitação do que é
de uso nos bailes, ofereceu a mão, recurvando o braço, à,
sua dama. Depois, soergueu o busto e o rosto iluminou-se-lhe com um sorriso
agarotado e amável, e, assim que findaram as últimas marcas
da escocesa, bateu as palmas e gritou para a orquestra, dirigindo-se ao primeiro
violino: – Semione! Sabes tocar o Danilo Cooper? Era a dança favorita
do conde, que ele dançara na juventude. Danilo Cooper era especialmente
uma marca da inglesa.

– Olhem para o pai! – gritou Natacha no meio da sala.

Tinha-se esquecido por completo de que estava num baile como uma pessoa
crescida. Dobrou-se em duas, a cabecinha coberta de caracóis junto
aos joelhos, e rompeu a rir tão cristalinamente que toda a casa ficou
cheia do seu riso alegre.

E com efeito toda a gente olhava, divertida, aquele velho jovial que ao
lado da sua venerável dama, a quem ele dava pelo ombro, arqueava os
braços para marear o compasso, descaía os ombros, encurvava
as pernas, sapateava ligeiramente, e, com um sorriso cada vez mais franco
no seu rosto cheio, mais não fazia que preparar os espectadores para
o que ia passar-se. Assim que ressoaram os compassos alegres e excitantes
do Danilo Cooper, muito parecidos com os do ultra-jovial trepak russo, todas
as portas da sala se encheram de criados risonhos – os homens a um lado, as
mulheres a outro- que acorriam para ver dançar o amo.

– Ah! O nosso paizinho! Que águia que ele é! – exclamou a
ama, em voz alta, a uma das portas.

O conde dançava muito bem e sabia o que estava a fazer, mas a sua
dama, essa, não percebia nada e recusava-se a dançar correctamente.
A sua corpulenta figura ali estava toda direita, os grandes braços
bamboleando, já sem bolsinha, que confiara à condessa. Apenas
o seu belo e severo rosto tomava parte na dança. Todo o movimento que
animava a redonda silhueta do conde se lhe concentrava a ela na fisionomia,
cada vez mais risonha, e no narizinho arrebitado. Se o conde, cada vez mais
excitado, era a surpresa de todos, graças à ligeireza e à
agilidade nas piruetas e nos rodopios a que se atreviam as suas pernas já
pouco firmes. Maria Dmitrievna, por menos que a isso se desse, mercê
dos movimentos dos ombros ou dos braços no curso das suas reviravoltas
ou no sapateado, não produzia menos efeito sobre os assistentes, que
muito apreciavam naquela mulher o contraste entre a sua desenvoltura e a sua
habitual severidade. A dança cada vez estava mais animada. Os pares
frente a frente não conseguiam chamar para eles as atenções
ou nem sequer com isso se importavam. Toda a gente seguia com o olhar o conde
e Maria Dmitrievna. Natacha puxava pela manga a toda a gente, embora ninguém
tirasse os olhos dos dois dançarinos, pedindo que olhassem para o pai.
Nos intervalos, o conde, enquanto tomava fôlego, acenava aos músicos
e pedia-lhes que acelerassem o ritmo. Quando mais rápido era o compasso,
mais depressa girava o conde em tomo do par, ora nos bicos dos pés
ora nos calcanhares, e por fim, no momento em que ia reconduzi-lo, esboçou
um último passo: levantou a perna cheia à retaguarda, inclinou,
com um ar radiante, a cabeça perlada de suor, descrevendo, por fim,
com a mão direita um largo círculo no meio de uma tempestade
de aplausos e de gargalhadas, especialmente de Natacha. Os dois dançarinos
detiveram-se, anelantes, enxugando o suor com seus lenços de cambraia.

– Ora aqui tens como se dançava no nosso tempo, minha querida! –
exclamou o conde.

– Bravo! Danilo Cooper! – replicou Maria Dmitrievna, respirando estrepitosamente
e arregaçando as mangas do vestido.

Capítulo XXI

Quando em casa dos Rostov se dançava a sexta inglesa ao som de uma
orquestra, que já desafinava, tal a fadiga dos músicos, e os
criados e cozinheiros, igualmente extenuados, se azafamavam nos preparativos
da ceia, era o conde Bezukov acometido do seu sexto ataque. Os médicos
tinham declarado não haver esperanças de salvação.
Confessaram o doente, já em coma, ministraram-lhe a comunhão,
fizeram os preparativos para a extrema-unção e a casa assumiu
o aspecto habitual em tais circunstâncias, com idas e vindas em todos
os sentidos. Cá fora, ao portão, juntavam-se, escondendo-se
à chegada das carruagens, os agentes das casas funerárias, na
esperança de bom negócio. O governador militar da praça
de Moscovo, que a cada momento enviava os seus ajudantes-de-campo a saber
novas do estado de saúde do doente, veio pessoalmente, nessa noite,
despedir-se daquela famosa personagem do tempo de Catarina: o conde Bezukov.

A sumptuosa sala de visitas estava cheia. Toda a gente se levantou respeitosamente
quando o governador militar, que se demorara quase meia hora à cabeceira
do doente, saiu do quarto e atravessou a dependência, muito apressado,
retribuindo, negligentemente, os cumprimentos, sempre seguido pelos olhos
dos médicos, dos sacerdotes e da parentela do conde. O príncipe
Vassili, que naqueles últimos dias tinha empalidecido e afilara, acompanhava
o governador militar, segredando-lhe, por vezes, qualquer coisa.

Quando voltou de o acompanhar, foi sentar-se sozinho no salão, de
pernas cruzadas, cotovelos sobre os joelhos e cabeça nas mãos.
Alguns instantes depois levantou-se, e a passo rápido, contrariamente
aos seus hábitos, olhando em tomo de si como que assustado, seguiu
ao longo do grande corredor que conduzia às dependências da retaguarda,
direito aos aposentos da mais velha das princesas.

As pessoas que se encontravam numa sala quase às escuras falavam
entre si, de longe em longe, em voz muito baixa, calavam-se a cada momento,
e dirigiam olhares interrogativos e de quem espera qualquer coisa para a porta
que conduzia ao quarto do moribundo, a qual rangia ligeiramente sempre que
alguém entrava ou saía.

– Todo o homem tem os seus dias contados, e ninguém pode fugir daí
– dizia um eclesiástico velhinho à senhora que parecia não
ter a tal respeito qualquer ideia precisa.

– Não será já tarde de mais para a extrema-unção?
– observou, acrescentando a estas palavras um título eclesiástico,
a senhora que parecia não ter a tal respeito qualquer ideia precisa.

– É um grande sacramento, minha senhora – replicou o sacerdote, passando
a mão pela cabeça calva, onde só havia já algumas,
poucas, farripas de cabelos grisalhos cuidadosamente penteadas.

– Quem é? É o próprio governador militar? – perguntava-se
a outro canto da sala. – Que novo que ele é!…

– Quem há-de dizer que tem perto de setenta anos! Mas parece que
o conde já não conhece as pessoas. Dizem que lhe vão
dar a extrema-unção.

– Uma pessoa conheci eu a quem ministraram sete vezes a extrema-unção,
A segunda das jovens princesas, que acabava de sair do quarto do doente, os
olhos cheios de lágrimas, foi sentar-se ao lado do Dr. Lorrain, que
se colocara numa posição que lhe ficava bem, debaixo do retrato
de Catarina, encostado a uma mesa.

– Muito bonito – dizia ele, referindo-se ao tempo -, muito bonito, princesa,
e depois, em Moscovo, é como se estivéssemos no campo.

– Não é verdade? – respondeu a princesa, suspirando. Acha
então que se lhe pode dar de beber? Pareceu reflectir.

– Tomou o remédio? – Tomou.

O médico consultou o seu livro de notas.

– Tome um copo de água fervida e deite-lhe dentro uma pitada – e
com os dedos finos fingiu o gesto – de cremortartari.

– Não se conhece nenhum caso – dizia um médico alemão
a um ajudante-de-campo – em que se fique vivo depois do terceiro ataque.

– Mas que boa saúde ele tinha! – disse o oficial. – E quem será
o herdeiro de todas estas riquezas? – acrescentou, em voz muito baixa.

– Não hão-de faltar pretendentes – retorquiu o alemão
sorrindo.

Todos os olhares voltaram a fixar-se na porta. A porta rangeu, e a jovem
princesa, que tinha preparado o remédio prescrito por Lorrain, foi
levá-lo ao doente. O médico alemão aproximou-se do médico
francês.

– Acha que ele se vai aguentar até amanhã de manhã?
– perguntou em francês, com um pronunciado sotaque.

Lorrain, de lábios apertados, fez com o dedo polegar um gesto negativo
diante do nariz.

– Esta noite, o mais tardar – murmurou ele, em voz baixa, sorrindo com prudência,
orgulhoso de tão claramente ter diagnosticado o estado do doente. E
afastou-se.

Enquanto isto se passava, o príncipe Vassili abria a porta do quarto
da princesa.

Era quase noite lá dentro; apenas as duas lamparinas em frente dos
ícones o iluminavam. Cheirava bem a incenso e a flores. O mobiliário
do quarto era todo em miniatura: pequeninos armários, pequeninas estantes
e pequeninas mesas. Um biombo ocultava as cobertas brancas de uma cama alta
de penas. Um cãozinho pôs-se a ladrar.

– Ah, é o senhor, meu primo? A princesa levantou-se, alisando os
cabelos, que usava sempre, e até naquele momento, excessivamente repuxados,
como se formassem uma peça única com o casco da cabeça
e andassem envernizados.

– Que foi? Que aconteceu? – perguntou ela. – Assustou-me. – Não aconteceu
nada. Sempre a mesma coisa. Vim apenas procurar-te para falarmos de negócios.
Katicha – disse o príncipe, sentando-se, com um ar lasso, na cadeira
que ela acabava de deixar devoluta.- Que quente que aqui está! Anda
cá, senta-te. Temos de conversar.

– Julguei que tinha acontecido alguma coisa – disse a princesa, e, com o
seu ar fechado e severo, sentou-se diante do príncipe, disposta a ouvi-lo.
– Quis ver se dormia um bocado, meu primo, mas não foi possível.

– Então, minha querida? – disse o príncipe, pegando-lhe na
mão e puxando-a para si, como era seu costume.

Era evidente que estas breves palavras significavam coisas que eles dois
compreendiam perfeitamente sem as dizer.

A princesa, do alto do seu busto seco e estreito, alto de mais para as suas
curtas pernas, olhava fixamente o príncipe sem qualquer aparente emoção,
os olhos cinzentos à flor da pele. Sacudiu a cabeça e lançou
um olhar, acompanhado de um suspiro, às imagens sagradas. O seu gesto
tanto podia exprimir mágoa e espírito de sacrifício como
fadiga e a necessidade de descanso.

O príncipe Vassili interpretou-o como um sinal de cansaço.

– E supões tu – disse ele – que eu também não estou
cansado? Estou esfalfado como um cavalo de posta. Apesar disso, é absolutamente
necessário que eu tenha uma conversa contigo. Katicha, uma conversa
muito importante.

O príncipe Vassili calou-se, e as suas duas faces, sucessivamente,
foram tomadas de um movimento nervoso que lhe dava um aspecto desagradável,
aspecto esse que ele nunca tinha quando conversava em sociedade. Também
os olhos não eram os seus olhos habituais: havia neles ora uma expressão
escarninha e cínica, ora uma expressão aterrorizada.

A princesa segurava com os braços secos e magros o cãozito
que tinha nos joelhos, enquanto fixava o príncipe atentamente. Via-se
que ela estava disposta a não ser a primeira a falar, ainda que tivesse
de ficar calada até ao dia seguinte.

– Como vê, cara princesa e minha prima. Katerina Semionovna – prosseguiu
ele, não sem uma evidente luta interior, pensando no que ia dizer.
– Em momentos como este é preciso pensar em tudo. É preciso
pensar no futuro, em si. Quero-vos a todas como se vocês fossem minhas
filhas, bem sabes.

A princesa continuava a fitá-lo, impassível e impenetrável.

– Numa palavra, eu também tenho de pensar ria minha família
– continuou, repelindo, de mau humor, a mesinha e sem olhar para ela.- Como
sabes. Katicha, vocês as três, as irmãs Mamontov, e minha
mulher são as únicas herdeiras directas do conde. Bem sei, bem
sei que te é penoso pensar nestas coisas e falar nelas. A mim também
me custa. Mas, minha amiga, estou quase com sessenta anos e tenho de estar
preparado para tudo. Sabes que mandei chamar o Pedro, e que o próprio
conde, apontando para o retrato dele, quis que lho trouxessem? O príncipe
Vassili interrogava-a com os olhos, mas não conseguia perceber se ela
estava a pensar no que ele acabava de dizer-lhe ou se apenas olhava para ele.

– Há só uma coisa que eu estou sempre a pedir a Deus, meu
primo – replicou ela – é que Deus o proteja e que faça com que
a sua bela alma deixe em paz este…

– Pois claro – prosseguiu o príncipe com impaciência, afagando
a calvície e puxando a si, colericamente, a mesinha que começara
por repelir. – Mas o que é certo.., o que é certo, o facto é
que, como tu sabes, o conde, no Inverno passado, redigiu um testamento pelo
qual, em prejuízo dos seus herdeiros directos e de todos nós,
lega toda a sua fortuna ao Pedro.

– Sim, ele já fez vários testamentos – disse serenamente a
princesa – Mas o Pedro não pode herdar: é um filho ilegítimo.

– Minha querida – disse bruscamente o príncipe Vassili, puxando para
si a mesinha e falando com animação e volubilidade.- E se houvesse
uma petição ao imperador para a legitimação do
Pedro? É evidente que em face dos serviços prestados, o apelo
do conde seria atendido…

A princesa teve um sorriso em que se deixava perceber que sabia muito mais
sobre o assunto que o seu interlocutor.

– Digo-te mais – continuou Vassili, pegando-lhe na mão – O apelo
está feito, embora não tenha sido enviado, e o imperador teve
conhecimento do facto. Só resta saber se esse apelo foi ou não
anulado. Se o não foi, assim que tudo tenha acabado – e soltou um suspiro,
para deixar perceber o que queria dizer com aquelas palavras- logo que os
papéis do conde sejam conhecidos, tanto o testamento como a carta serão
transmitidos ao imperador, e o seu apelo será sem dúvida alguma
satisfeito. Pedro, na sua qualidade de filho legítimo, será
o único herdeiro.

– E a nossa parte? – disse a princesa, num tom irónico, como se tudo
pudesse acontecer menos isso.

– Mas, minha pobre Katicha, é claro como a luz do dia. Nessa altura
será ele o único herdeiro legítimo de toda a fortuna
e vocês nada receberão. É preciso que tu procures saber,
minha querida, se o testamento e o apelo existem ou se foram destruídos.
E se por qualquer motivo foram esquecidos, é preciso que saibas onde
estão e descobri-los, pois…

– Ah! Isso agora é novidade! – interrompeu a princesa com um sorriso
sardónico e sem que a sua expressão se alterasse.- Eu sou mulher;
na sua opinião, todas as mulheres são estúpidas; mas
o que eu muito bem sei é que um filho ilegítimo não pode
herdar… Um bastardo – acrescentou, pensando com esta palavra demonstrar
definitivamente ao príncipe que ele não tinha razão.

– Não há maneira de compreenderes. Katicha! Mas tu és
inteligente. Como é que tu não compreendes que se o conde pediu
ao imperador que o autorizasse a reconhecer o filho como legítimo.
Pedro, nesse caso, deixa de ser o Pedro e passa a ser o conde Bezukov, e pelo
testamento é ele quem tem direito a tudo? Se o testamento e a carta
não foram destruídos, nada mais te restará além,
da consolação de teres sido virtuosa e tudo o que daí
se entende. É certo e sabido, – Sei perfeitamente que ele fez um testamento,
mas também sei que esse testamento não tem valor. Pelo que vejo,
julga-me pateta, meu primo – disse a princesa com esse ar que tomam as mulheres
quando supõem ter dito qualquer coisa de espirituoso ou de ofensivo.

– Minha querida princesa Katerina Semionovna – exclamou com impaciência
o príncipe Vassili -, eu não vim procurar-te para um duelo de
palavras, mas na intenção com que se visita uma parente, uma
boa, excelente, uma verdadeira parente, a fim de lhe falar dos seus interesses.
Repito-te pela décima vez que se a carta ao imperador e o testamento
a favor de Pedro se encontram entre os papéis do conde, nem tu nem
as tuas irmãs, minha querida filha, herdarão seja o que for.
Se me não acreditas, acredita ao menos nas pessoas competentes. Acabo
de falar com Dmitri Onufreitch – o advogado da família – e ele disse-me
a mesma coisa.

Houve, claramente, um mudança rápida na maneira de pensar
da princesa. Se a expressão dos olhos se lhe não alterou, os
seus finos lábios empalideceram e quando começou a falar a voz
Passou-lhe por transições que nem ela própria esperava.

– Pois muito bem – disse. – Nunca pretendi nada, e nada, pretendo, Enxotou
o cão do regaço e ajeitou as pregas do vestido.

– É assim que as pessoas reconhecem, é assim que testemunham
a sua gratidão àqueles que tudo sacrificaram por elas! – exclamou.
– Muito bem! Excelente! Não preciso de nada, príncipe! – Sim,
mas tu não és a única. E as tuas irmãs? – volveu
ele.

A princesa não o ouvia.

– Sim há muito tempo que eu sei isso, mas tinha-me esquecido que
nesta casa, não podia esperar outra coisa senão baixeza, duplicidade,
inveja, intriga, ingratidão, a mais negra ingratidão.

– Sabes ou não sabes onde está o testamento? – perguntou o
príncipe Vassili com o tremor das faces ainda mais acentuado.

– Sim, tenho sido uma parva, tenho tido confiança nas pessoas, gostei
delas e sacrifiquei-me por elas. Mas só triunfam os cobardes e os maus.
Bem sei donde vêm estas intrigas.

A princesa fez um movimento para se erguer, mas o príncipe reteve-a.
Ela dava a impressão de uma pessoa que perdeu subitamente todas as
ilusões sobre os outros seres. Lançou um olhar mau ao interlocutor.

– Ainda, estamos a tempo, minha amiga. Lembra-te. Katicha, de que tudo isto
foi feito de improviso, num momento de cólera, ou então doente,
e que depois tudo esqueceu. O nosso dever, minha querida, é reparar
esta falta, suavizar-lhe os últimos momentos, não permitindo
que ele leve a cabo esta injustiça, de o não deixar morrer com
a ideia de que tomou alguém infeliz…

– Alguém que tudo sacrificou por ele – voltou a princesa, impaciente
por se levantar: mas o príncipe deteve-a. E isso é que ele nunca
soube apreciar. Não, meu primo – acrescentou, suspirando – isto leva-me,
a pensar que neste triste mundo ninguém pode esperar recompensa, que
neste triste mundo não há honra nem equidade. Neste mundo só
a maldade e a mentira triunfam.

– Bom, vejamos, sossega. Eu conheço o teu excelente coração.

– Não, eu tenho mau coração.

– Eu conheço o teu coração – repetiu ele -, aprecio
a tua amizade e gostaria que tu tivesses a mesma opinião a meu respeito.
Sossega, e sejamos razoáveis enquanto é tempo: talvez vinte
e quatro horas, uma hora talvez. Conta-me tudo quanto sabes do testamento
e principalmente diz-me se sabes onde ele está: tu deves saber. Pegaremos
nele imediatamente e leva-lo-emos ao conde. Ele com certeza se esqueceu dele,
e quererá destruí-lo. Tu sabes que o meu único desejo
é cumprir religiosamente a sua vontade; não é para outra
coisa que estou aqui. Eu não estou aqui senão para vos auxiliar,
a vós e a ele.

– Agora já sei tudo. Já sei donde partem as intrigas. Veio-o
claramente – disse a princesa.

– Não é disso que se trata, minha querida.

– A alma de tudo isto é a sua protegida, a sua querida princesa Drubetskaia.
Ana Mikailovna, que eu nem para criada de quarto quereria, essa horrível,
essa ignóbil mulher.

– Não percamos tempo.

– Oh, não me diga nada! No Inverno passado introduziu-se aqui em
casa e contou tantas coisas horríveis ao conde, tantas vilanias a nosso
respeito, e principalmente sobre a Sofia – não as posso repetir -,
que ele ficou doente e durante quinze dias não nos quis ver. Foi nessa
altura, tenho a certeza, que o tio redigiu esse sujo, esse infame papel. Mas
eu supunha que não tinha importância.

– Ora aí está. Porque é que me não falaste logo
nisso? – Está na pasta de couro que tem debaixo da almofada. Agora
compreendo – disse ela, sem responder à pergunta do príncipe.
– E se eu tenho qualquer pecado na consciência, um grande pecado, é
o ódio que essa miserável me inspira – gritou, e tomou-se quase
irreconhecível, – Que apareça outra vez por aí! Ajustarei
contas com ela. É uma questão de tempo.

Capítulo XXII

Enquanto decorriam todas estas conversas na sala de visitas e nos aposentos
da princesa, uma carruagem com Pedro, enviada para o trazer, e Ana Mikailovna,
que entendera por bem acompanhá-lo, penetrava rio pátio da residência
do conde Bezukov. No momento em que o carro deslizava maciamente por cima
da palha estendida debaixo das janelas. Ana Mikailovna, que procurava consolar
o companheiro, verificou que ele adormecer,-, encolhido no seu canto e acordou-o.
Pedro, tendo voltado a si, apeou-se atrás de Ana Mikailovna, e só
então se lembrou da entrevista que ia ter com o pai moribundo. Tinha
notado que a, carruagem parara não junto da escadaria nobre, mas em
frente da escada das traseiras. No momento em que punha os pés no chão,
dois homens com aspecto de comerciantes acolheram-se apressadamente à
sombra da parede.

Enquanto se deteve. Pedro pôde ver na sombra, de cada lado da entrada,
outros homens do mesmo género. Mas nem Ana Mikailovna, o trintanário,
ou o cocheiro, que não podiam ter deixado de dar por eles, lhes prestaram
a mais pequena atenção, «Naturalmente, tem de ser assim»,
decidiu de si para consigo, e lá foi na peugada da sua condutora. Ana
Mikailovna, em passinhos rápidos, subia a estreita escada de pedra,
fracamente iluminada, chamando Pedro, que ficava para trás: embora
este não compreendesse porque lhe era absolutamente indispensável
apresentar-se junto do conde, e muito menos ainda porque tinha de subir pela
escada de serviço, a segurança e a pressa de Ana Mikailovna
persuadiram-no da urgência do que ia fazer.

A certa altura ia sendo derrubado por um grupo de homens, carregados com
uns baldes, cujas grossas botas ressoavam no chão. Mas eles encostaram-se
à parede para dar passagem aos visitantes sem mostrar qualquer surpresa.

– É este o caminho para os aposentos das princesas? – perguntou Ana
Mikailovna a um deles.

– É – replicou um dos lacaios, numa grossa voz atrevida, como se
naquela altura tudo fosse permitido – a porta à esquerda, minha senhora.

«Talvez que o conde não me tenha mandado chamar», pensou
Pedro na altura do patamar. «Era bem melhor eu ir para o meu quarto.»
Ana Mikailovna deteve-se, para que Pedro a pudesse alcançar.

– Ah!, meu amigo! – exclamou ela, pegando-lhe num braço, como tinha
feito ao filho nessa mesma manhã, – Pode crer que sofro tanto como
o Pedro, mas precisa de ser homem.

– Realmente, era melhor eu não ir – disse Pedro, olhando para ela
através das lentes das lunetas, com um ar afectuoso.

– Ah!, meu amigo, esqueça-se das injustiças que lhe fizeram,
lembre-se que seu pai.., está talvez na agonia. – Soltou um suspiro.-
Gostei logo de si como se fosse meu filho. Confie em mim. Pedro. Não
me esquecerei dos seus interesses.

Pedro não compreendia nada; o mais claro para ele era pensar que
as coisas deviam ser assim, e seguiu docilmente Ana Mikailovna, que já
abria a porta.

A porta dava para o vestíbulo dos aposentos das traseiras. O velho
criado das princesas estava sentado a um canto a fazer meia. Pedro nunca entrara
naquela parte da casa, ignorava mesmo a existência de tais dependências.
Ana Mikailovna perguntou pela saúde das princesas a uma rapariga que
trazia uma garrafa em cima de uma bandeja, e que se tinha juntado a elos,
chamando-lhe «minha cara» e «minha boa rapariga»,
e em seguida conduziu Pedro ao longo de um corredor lajeado. A primeira porta
à esquerda que abria para esse corredor levava aos aposentos das princesas.

De tão apressada que ia – em circunstâncias daquelas tudo se
fazia apressadamente- a criada de quarto que levava a bandeja com a garrafa
não fechou a porta, e tanto Pedro como Ana Mikailovna, ao passarem,
olharam involuntariamente para o quarto onde a princesa mais velha e o príncipe
Vassili conversavam muito animadamente. Ao vê-los, este teve um movimento
de impaciência e recuou; a princesa deu um pulo e fechou a porta com
um gesto violento.

Esta atitude condizia tão pouco com a habitual serenidade da princesa,
e o pânico que se pintou no rosto do príncipe Vassili era tão
imprevisto na sua grave compostura, que Pedro parou, lançando, através
das lentes das suas lunetas, um olhar inquiridor à sua condutora. Ana
Mikailovna, sem trair qualquer surpresa, contentou-se em sorrir vagamente,
suspirando, como se tudo aquilo para ela fosse coisa natural.

– Mostre-se homem, meu amigo, eu zelarei pelos seus interesses – disse ela,
ao mesmo tempo que apressava o passo ao longo do corredor.

Pedro não percebia do que se tratava e muito menos compreendia o
que queria dizer: zelar pelos seus interesses, mas de si para consigo pensava
que assim mesmo devia ser. O corredor conduziu-os a uma dependência
mal iluminada que dava para a sala de visitas do conde. Era um dos compartimentos
frios e luxuosos que Pedro conhecia muitíssimo bem, mas onde nunca
entrava senão pela escada nobre. No centro desta sala via-se uma banheira
vazia e havia água entornada no tapete. Aí cruzaram com um criado
e um sacristão com um turíbulo, que caminhavam em bicos de pés,
os quais nem neles sequer repararam. Depois penetraram na sala de visitas,
que Pedro conhecia muito bem, com as suas duas janelas à italiana e
a sua porta para o jardim de Inverno, onde havia um grande busto de Catarina
e, um retrato em corpo inteiro da mesma soberana. Eram as mesmas pessoas,
por assim dizer nas mesmas atitudes, que ainda ali estavam conversando em
voz baixa. Todos se calaram e fitaram Ana Mikailovna, que entrava, com o seu
rosto pálido e como sulcado de lágrimas, e aquele grande e corpulento
rapaz, que, de cabeça baixa, a seguia com toda a docilidade.

Podia ler-se nos traços de Ana Mikailovna que ela tinha a certeza
de que se aproximava o momento decisivo. Com a segurança de uma petersburguesa
a tudo habituada, entrou na sala, bem agarrada a Pedro, com um ar ainda mais
ousado que o dessa manhã. Tinha a certeza de que se trouxesse consigo
a pessoa a quem o moribundo queria ver, logo, seria recebida. Lançou
um rápido olhar às pessoas ali presentes, e, ao ver o confessor
do conde, aproximou-se dele em passinhos miúdos, sem propriamente se
inclinar, mas tornando-se como que mais pequena, e dois eclesiásticos
presentes lançaram-lhe a bênção.

– Graças a Deus que chegámos a tempo – disse ela aos sacerdotes
– todos nós, que somos da família, estávamos com tanto
medo! Este rapaz é filho do conde – acrescentou em voz baixa. – Que
instantes medonhos! Ao dizer estas palavras, aproximou-se do médico.

– Caro doutor – principiou – este rapaz é o filho do conde.. Ainda
há esperanças? O médico, sem dizer palavra, ergueu os
olhos e encolheu os ombros, num ar de dúvida. Ana Mikailovna copiou
exactamente a sua mímica, teve um suspiro quase que fechando os olhos
e voltou-se para o lado onde estava Pedro. Parecia testemunhar-lhe, urna atenção
particularmente respeitosa e uma ternura contristada.

– Tende confiança na divina misericórdia! – exclamou ela indicando-lhe
um divã onde pudesse esperar, enquanto ela se dirigia, sem fazer barulho,
para a porta cm que estavam fitos todos os olhares. Depois de a abrir silenciosamente,
desapareceu.

Pedro, disposto a obedecer em tudo ao seu guia, encaminhou-se para o divã
indicado. Assim que Ana Mikailovna desapareceu, afigurou-se-lhe que todos
os olhares se dirigiam para ele com algo mais que curiosidade e simpatia.
Viu que toda aquela gente cochichava entre si, apontando-o com os olhos, numa
espécie de medo servil. Tiveram para com ele atenções
que anteriormente nunca haviam tido. A senhora, para ele desconhecida, que
conversava com o sacerdote levantou-se e ofereceu-lhe o seu lugar. O ajudante-de-campo
baixou-se para lhe apanhar a luva que tinha caído. Quando ele passou,
os médicos calaram-se respeitosamente e abriram alas para o deixar
passar. Pedro tinha pensado, primeiro, em sentar-se em qualquer parte, para
não incomodar a senhora, pensara em apanhar a luva e evitar os médicos,
que aliás lhe não impediam a passagem; mas, de súbito,
compreendeu que naquela noite se tornara uma personagem com a obrigação
de cumprir uma espécie de rito terrível, aguardado por toda
a gente, e por conseguinte devia aceitar as solicitudes de todos. Recebeu
em silêncio a luva que lhe estendia o oficial, sentou-se no lugar da
senhora desconhecida, apoiando as grandes mãos nos joelhos, simetricamente
colocadas numa posição ingénua de estátua egípcia,
e de si para consigo decidiu que tudo aquilo se devia justamente passar assim
e que naquela noite, para não perder a cabeça e não fazer
disparates, não deveria agir como era sua vontade, mas confiando-se
em absoluto a vontade daqueles que o guiavam.

Ainda se não tinham passado dois minutos, já o príncipe
Vassili, com o seu cafetã decorado com três estrelas, o ar majestoso,
a cabeça erguida, entrava na sala. Dir-se-ia ter emagrecido desde essa
manhã; os seus olhos pareceram crescer quando viu Pedro e percorreu
a sala com o olhar. Aproximou-se dele, apertou-lhe a mão, coisa que
até aí nunca fizera, e sacudiu-lha energicamente, como se quisesse
experimentar-lhe a resistência.

– Coragem, coragem, meu amigo. Ele disse que o queria ver. Está certo.

E quis afastar-se.

Mas Pedro julgou necessário perguntar-lhe: – Como está…?
Hesitou, sem saber como seria conveniente referir-se ao conde, o moribundo;
teve vergonha de dizer: «meu pai».

– Ainda há meia hora teve um ataque. Coragem, meu amigo.

Pedro estava num tal estado de semiconsciência que a palavra ataque
lhe deu a ideia imediata de que alguém o tinha atacado. Olhou perplexo
para o príncipe Vassili, e só depois lhe ocorreu que aquela
palavra podia significar uma doença. O príncipe Vassili, ao
passar, disse umas palavras a Lorrain e encaminhou-se para a porta em bicos
de pés. Não se pode dizer que fosse muito destro em caminhar
dessa maneira; todo o seu corpo oscilava desajeitadamente. Atrás dele
passou a mais velha das princesas, depois os padres e os sacristães;
seguiram-se alguns criados do conde. Atrás da porta ouviu-se um burburinho
e Ana Mikailovna, sempre muito pálida, mas decidida no cumprimento
do seu dever, apareceu, correndo, e tocando tio braço de Pedro murmurou:
– A bondade divina e inesgotável. Vai começar a cerimónia
da extrema-unção. Venha.

Pedro penetrou no quarto, enterrando os pés no tapete fofo, e verificou
que o ajudante-de-campo, a senhora desconhecida e alguns criados também
o seguiam, como se já não fosse preciso pedir licença
para se entrar naquele aposento.

Capítulo XXIII

Pedro conhecia muito bem aquela grande dependência cortada por uni,
arco e algumas colunas e forrada de tapetes persas. A, parte que ficava por
detrás das colunas, de um lado tinha uma grande cama de mogno com cortinados
de seda, e do outro um oratório com as suas imagens, o qual, todo iluminado,
era como uma igreja preparada, para os ofícios da noite. Debaixo do
enquadramento dos ícones iluminados estava uma grande cadeira de doente,
com o espaldar coberto de almofadas brancas como neve, ainda não amarrotadas,
e que acabavam de ser mudadas. Nessa cadeira perfilava-se a majestosa figura,
do pai, o conde Bezukov, muito sua conhecida, coberto até à
cintura por uma manta verde-clara e os cabelos brancos, em que havia qualquer
coisa de leonino, a coroar-lhe a testa ampla e as características linhas
daquele rosto amarelento sulcado de pequenas rugas. Estava estendido mesmo
por debaixo das imagens, com as grossas mãos espessas emergindo da
coberta, e sobre ela pousadas. Na mão direita, espalmada, entre o polegar
e o indicador, erguia-se urna vela que um velho criado amparava debruçado
sobre a cabeceira. Em tomo, os padres, de pé, revestidos com os seus
magníficos paramentos, muito brilhantes, os longos cabelos soltos,
e de velas acesas, oficiavam com uma, lentidão solene. Um pouco mais
atrás viam-se as duas princesas mais novas, de lenço nos olhos,
e, diante delas. Katicha, a mais velha, com uma expressão má
e resoluta, os olhos fixos nos ícones, o que queria dizer que não
poderia responder por si caso viesse a olhar para outro lado. Junto à
porta. Ana Mikailovna, com o seu ar de resignada tristeza e imploração,
bem como a senhora desconhecida.

O príncipe Vassili, do outro lado desta mesma porta, mais perto da
cadeira, por detrás de um cadeirão de talha guarnecido de veludo,
cujo espaldar voltara para si, apoiando nele a sua mão esquerda, em
que segurava uma vela, enquanto com a direita se benzia e erguia os olhos
ao céu, de cada vez que tocava na testa. Na sua máscara havia
uma devoção tranquila e submissão à vontade divina,
«Se Tu não compreendes estes sentimentos, tanto pior para Ti»,
parecia dizer a sua expressão.

Atrás dele encontravam-se o ajudante-de-campo, os médicos
e o pessoal masculino: como na igreja, havia separação de sexos.
Toda a gente estava calada, persignando-se. Apenas se ouviam as orações
litúrgicas, um canto baixo, profundo e contínuo, e nos momentos
de silêncio movimento de pés e suspiros. Ana Mikailovna, com
aquele ar significativo com que mostrava saber o que estava fazendo, atravessou
o quarto para entregar uma vela a Pedro. Este acendeu-a, e, entretido com
as observações que fazia sobre os assistentes, pôs-se
a persignar-se com a mesma mão com que segurava o círio.

A jovem, princesa Sofia, a da pele rosada, ar trocista e um sinalzinho,
olhava para ele. Depois sorriu, escondeu o rosto no lenço, e assim
esteve muito tempo; daí a pouco, voltando a olhar para ele, pôs-se
a rir. Evidentemente que ela se não sentia capaz de o olhar sem rir,
mas como, ao mesmo tempo, não podia deixar de o olhar, para não
ter essa tentação foi postar-se, sem ruído, atrás
de uma coluna. A meio da cerimónia, as vozes dos sacerdotes calaram-se,
repentinamente, e os padres puseram-se a dizer qualquer coisa ao ouvido uns
dos outros; o velho criado que segurava a vela do conde ergueu-se e voltou-se
para o lado das senhoras. Ana Mikailovna avançou e, debruçando-se
para o doente, tomou entre as suas mãos brancas e finas a mão
livre pousada sobre a coberta verde, e, virada de lado, pôs-se a tomar-lhe
o pulso com um ar recolhido. Deram de beber ao doente; foi uma agitação
em volta dele; depois cada um retomou o seu lugar e a cerimónia prosseguiu.
Durante esta pausa. Pedro notou que o príncipe Vassili tinha saído
de trás do cadeirão e com o ar de quem sabe muito bem o que
anda a fazer, e lhe é completamente indiferente a presença dos
outros, em vez de se aproximar do moribundo, passara ao lado dele, encaminhando-se
para onde estava a mais velha das princesas, juntamente com quem se dirigira
para o fundo do quarto, em que estava o leito alto com cortinados de seda.

Tanto um como outro, depois, tinham desaparecido por uma porta no extremo
do aposento, e só no fim da cerimónia haviam reaparecido, um
por cada vez, retomando os seus lugares. Pedro não prestou mais atenção
a este pormenor que a qualquer outro, persuadido como estava de que tudo quanto
se passasse naquela noite diante dos seus olhos assim tinha de ser e nunca
de outra maneira.

Os cantos litúrgicos cessaram e ouviu-se então a voz de um
dos sacerdotes felicitando o doente por haver recebido o sacramento. O moribundo
continuava estendido sem dar sinais de vida e sem fazer o mais pequeno movimento.
Toda a gente se aproximou dele. Ressoaram passos, e ouviu-se o ciciar das
vozes, entre as quais se distinguia a de Ana Mikailovna.

Pedro ouviu-a dizer: – É indispensável levá-lo outra
vez para a cama. Aqui é impossível.

O moribundo estava de tal modo rodeado pelos médicos, pelas princesas,
pelos criados, que Pedro já lhe não via a cabeça vermelho-amarelada
com a coroa de cabelos brancos que não perdera de vista durante toda
a cerimónia, apesar da presença de toda aquela gente. Pelo movimento
prudente das pessoas que o cercavam percebeu que o estavam a soerguer para
o transportar.

– Firma-te no meu braço, vais deixá-lo cair – dizia a voz
abafada de um dos criados.- Mais baixo… Outro aqui… – murmuravam as vozes.

O resfolgar das respirações opressas e o andar arrastado pareciam
mostrar que o peso que transportavam era superior às forças
dos que o conduziam.

Toda aquela gente, de que fazia parte Ana Mikailovna, passou diante do jovem,
que durante alguns segundos, através das nucas e das costas, pôde
ver os grossos e fortes peitorais nus e os ombros vigorosos do moribundo soerguidos
pelas pessoas que lhe pegavam pelas axilas, e a cabeça branca, crespa,
leonina. A cabeça, com a sua fronte extraordinariamente espaçosa
e a face musculada, a bela boca sensual, o olhar frio, ainda majestoso, não
estavam desfigurados pela morte. Era a mesma pessoa que ele tinha conhecido
três meses antes, quando o conde o mandara para Petersburgo. Mas esta
cabeça balouçava, inerte, a cada passada dos que transportavam
o moribundo e o seu olhar frio, insensível, não sabia onde fixar-se.

Durante alguns minutos houve agitação em volta da cama, depois
as pessoas que tinham transportado o conde afastaram-se. Ana Mikailovna tocou
no braço de Pedro e disse-lhe: – Venha daí. – Pedro, sempre
junto dela, aproximou-se da cama em que tinham estendido o doente, numa postura
solene, de acordo com o sacramento que acabava de receber. Uma pilha de almofadas
soerguia-lhe o busto. As mãos estavam dispostas simetricarnente sobre
a coberta de seda verde, com as palmas para baixo. Quando Pedro se aproximou,
o conde olhou-o fixamente, mas com um olhar de que ninguém seria capaz
de discernir o significado e a intenção. Ou esse olhar não
queria dizer absolutamente nada além de significar que enquanto os
nossos olhos estão abertos para algures têm de olhar, ou então
muito queriam dizer. Pedro ficou imóvel sem saber o que fazer, interrogando
com o olhar a sua cicerone. Esta teve um rápido movimento de olhos,
indicando-lhe a mão do moribundo, e com a boca mimou um beijo.

Pedro, inclinando a cabeça com precaução, para não
se embaraçar na coberta, seguiu o conselho dela e aplicou os lábios
sobre a mão carnuda e de grandes ossos. Nem a mão nem nenhum
dos músculos do rosto do conde deram sinal de vida. Pedro continuou
a olhar Ana Mikailovna interrogativamente, para lhe perguntar o que tinha
a fazer. Esta indicou-lhe com a vista a cadeira ao lado da cama. Pedro aí
se instalou, com toda a docilidade, continuando a perguntar-lhe, por acenos,
se estava a proceder bem. Ana Mikailovna disse-lhe «sim» com um
aceno de cabeça. Pedro retomou a sua pose ingénua da estátua
egípcia, visivelmente incomodado por ver a sua desastrada pessoa ocupar
tão largo espaço, e recorrendo a todos os estratagemas de espírito
para parecer o mais pequeno possível. Olhou para o conde. Este tinha
os olhos pousados no lugar onde se encontrava a figura de Pedro antes de se
sentar. Ana Mikailovna, pela sua atitude, traduzia a importância tocante
que atribuía a estes derradeiros momentos de despedida entre pai e
filho. Isto prolongou-se por dois ou três minutos, que a Pedro se lhe
afiguraram horas. Subitamente, um estremecimento perpassou pelas rugas da
máscara do conde. O estremecimento acentuou-se, a boca, de contomos
regulares, deformou-se. Só então Pedro compreendeu quão
perto da morte estava seu pai. A boca toda contorcida soltou um estertor rouco
e indistinto. Ana Mikailovna fixara o moribundo atentamente, na esperança
de adivinhar o que ele queria, e mostrava-lhe ora Pedro, ora a poção,
ora lhe mencionava em voz baixa o nome do príncipe Vassili, ora lhe
indicava a coberta.

O olhar e a fisionomia do moribundo traduziam impaciência. Fazia esforços
para fixar o criado constantemente à cabeceira da cama, – Quer que
o virem para o outro lado – murmurou este, que se levantou para voltar para
o lado da parede o pesado corpo doente.

Pedro ergueu-se para ajudar o criado.

Enquanto o mudavam de posição, um dos braços do conde
ficou inerte para trás, fazendo ele baldados esforços para o
trazer ao seu lugar. O conde ou viu o olhar aflito que Pedro teve para o braço
sem vida, ou outro qualquer pensamento perpassou nesse instante pela cabeça
do moribundo: olhou para o seu próprio braço, que, já
lhe não obedecia, depois para a expressão aflitiva de Pedro,
em seguida de novo para o braço e pelo seu rosto passou um débil
e doloroso sorriso, que, destoava na sua máscara, parecendo, por isso
mesmo, escarnecer da sua própria impotência. Ao deparar-se-lhe
este sorriso. Pedro sentiu uma súbita crispação no peito,
um formigueiro nas narinas e as lágrimas vieram turvar-lhe a vista.
Tinham colocado o moribundo voltado para a parede. Ouviu-se que suspirava.

– Adormeceu – disse Ana Mikailovna, ao ver uma das princesas que vinha substituí-la.-
Vamo-nos.

Pedro saiu.

Capítulo XXIV

Na sala de visitas não estava já mais ninguém senão
o príncipe Vassili e a mais velha das princesas, conversando animadamente
debaixo do retrato de Catarina. Assim que viram chegar Pedro e a sua companheira,
calaram-se. A princesa dissimulou qualquer coisa, pelo menos foi isso que
Pedro pareceu distinguir, e murmurou: – Não posso ver esta mulher.

– Katicha mandou servir o chá na salinha – disse o príncipe
a Ana Mikailovna. – Vá, minha pobre Ana Mikailovna, tome qualquer coisa,
caso contrário não aguentará.

Nada disse a Pedro, limitando-se a apertar-lhe o braço com emoção.
Pedro e Ana Mikailovna dirigiram-se para a salinha.

– Não há nada melhor para levantar as forças que uma
xícara deste excelente chá russo depois de uma noite em claro!
– exclamou Lorrain com uma vivacidade refreada, enquanto bebia, em pequenos
goles, por uma chávena da China, sem asa, de pé, na salinha
redonda, diante de uma mesa onde estavam alguns pratos frios e um serviço
de chá. Em volta da mesa tinham-se juntado, para recuperar forças,
todos quantos haviam passado a noite em casa do conde Bezukov. Pedro lembrava-se
muitíssimo bem daquela salinha circular com os seus espelhos e os seus
guéridons. Aquando dos bailes que havia lá em casa, ele, que
não sabia dançar, gostava de vir sentar-se naquela pequenina
saleta, donde ficava a ver as senhoras de vestido de noite e os ombros nus
cobertos de pérolas e diamantes, as quais, ao atravessar aquela dependência,
se miravam vivamente nos espelhos iluminados em que as imagens se multiplicavam
indefinidamente. Naquele momento a saleta estava apenas iluminada por duas
velas, e na obscuridade, em cima de um guéridon, havia, pousados desordenadamente,
pratos e chávenas de chá, enquanto pessoas da mais variada natureza,
em trajes comuns, falando entre si em voz baixa, se sentavam, exprimindo,
em todos os seus movimentos e em todas as suas palavras, a ideia de que não
esqueciam um só momento o que estava a passar-se naquela noite e o
que devia passar-se ainda no quarto de dormir. Pedro nada comeu, embora muito
lhe apetecesse fazê-lo. Ia interrogar com os olhos a sua condutora,
mas viu que ela tornava a entrar, na ponta dos pés, na sala de visitas,
em que ficara o príncipe Vassili e a mais velha das princesas.

Pedro pensou mais uma vez que assim tinha de ser, e, depois de hesitar alguns
instantes, seguiu atrás dela. Ana Mikailovna estava de pé junto
da princesa e ambas falavam ao mesmo tempo, em voz baixa, com animação.

– Perdão, minha senhora, eu julgo saber o que se deve fazer e o que
se não deve fazer – dizia a princesa, certamente na mesma agitação
em que se encontrava no momento em que tinha fechado violentamente a porta
do quarto, – Mas, minha querida princesa – volveu Ana Mikailovna, num tom
modesto e insinuante, vedando à princesa o caminho para o quarto de
dormir -, não seria penoso para o seu pobre tio, num momento destes,
em que tanto necessita de repouso? Falar-lhe numa hora destas das coisas deste
miserável mundo, quando a sua alma está já preparada…

O príncipe Vassili estava sentado numa cadeira, as pernas cruzadas
uma em cima da outra, numa das suas posições habituais. No seu
rosto havia movimentos convulsivos, e as faces moles pareciam, na parte inferior,
mais largas do que de costume; e fingia estar pouco atento à conversa
das duas senhoras.

– Então, minha boa Ana Mikailovna, deixe proceder Katicha. Bem sabe
quanto o conde a estima.

– Não sei o que há aqui dentro – disse a princesa, dirigindo-se
ao príncipe Vassili, e apontando para a pasta de couro que tinha na
mão. – O que eu sei é que o verdadeiro testamento está
no escritório dele e que só se encontra aqui papelada esquecida…

Quis passar, contornando Ana Mikailovna, mas esta fez um movimento rápido
e de novo se lhe atravessou no caminho.

– Bem sei, minha boa, minha querida princesa – disse, apoderando-se da pasta,
e segurando-a com tanta forca que se via não estar disposta a largá-la
de mão tão depressa- Minha querida princesa, peço-lhe,
suplico-lhe, poupe o doente. Imploro-lhe…

A princesa não deu resposta. Apenas se ouvia o ruído da luta
que se travava para a conquista da pasta. Era evidente que se ela falasse
não seria para dizer coisas amáveis a Ana Mikailovna. Mas esta
resistia energicamente, embora a sua voz conservasse um tom suave e carinhoso.

– Pedro, venha cá, meu amigo. Suponho que não será
a mais rio conselho de família. Não é isto verdade, príncipe?
– Porque é que não diz alguma coisa, primo? – gritou, subitamente,
a princesa, e tão alto que em toda a sala se lhe ouviu a voz. – Fica
calado quando uma pessoa estranha se atreve a intervir nos nossos assuntos
e fazer uma cena no limiar do quarto de um moribundo? Intriguista! – exclamou
ela com ódio, puxando pela pasta, com todas as suas forças.

Para não ser obrigada a abandonar a presa, e sob a violência
do puxão. Ana Mikailovna viu-se forçada a dar alguns passos
avante, e pegou-lhe no braço.

– Oh! – exclamou Vassili com espanto e num tom de censura – É ridículo
– prosseguiu ele, erguendo-se- Vejamos, largue, faça favor.

A jovem princesa abriu as mãos.

– Largue – repetiu-lhe. – Eu encarrego-me de tudo. Vou já falar com
ele. Sim, eu… Deixe isso comigo.

– Mas, meu príncipe – disse Ana Mikailovna -, depois de um sacramento
tão solene, deixe-o descansar um momento. Pedro, vá, dê
a sua opinião – prosseguiu ela, dirigindo-se ao jovem, o qual, tendo-se
aproximado, observava, espantado, a figura da princesa conturbada pela cólera
e os movimentos nervosos do rosto do príncipe.

– Lembre-se de que será responsável por tudo o que vier a
acontecer – disse o príncipe Vassili com severidade. – O senhor não
sabe o que faz.

– Mulher infame! – gritou a princesa, lançando-se sobre ela, repentinamente,
e arrancando-lhe a pasta das mãos.

O príncipe Vassili, baixando a cabeça, deixou cair os braços
para mostrar que nada podia fazer.

Neste momento, a porta, aquela porta horrível em que os olhos de
Pedro se haviam fixado durante tanto tempo e que antes se tinha aberto tão
suavemente, escancarou-se, de súbito, com fragor e veio bater de encontro
à parede, enquanto a segunda das princesas se lançava na sala
torcendo as mãos.

– Que estão aqui a fazer? – disse ela, num desespero – Ele vai-se
embora e todos me deixam só.

A princesa mais idosa deixou cair a pasta. Ana Mikailovna baixou-se, lépida,
e, pegando no corpo de delito, desapareceu no quarto de dormir. A princesa
e o príncipe Vassili, recuperando a serenidade, foram-lhe no encalço.
Daí a pouco, a mais velha das princesas voltou a aparecer na sala de
visitas, o rosto pálido e seco, mordendo o lábio inferior. Ao
ver Pedro, veio-lhe um ataque de cólera, que deixou expandir livremente,
– Agora pode estar satisfeito! -exclamou,- Ai tem o que esperava.

E rompendo a soluçar, escondeu o rosto no lenço, desaparecendo
da sala. O príncipe Vassili foi quem veio depois. Aproximou-se cambaleando
do divã em que Pedro estava sentado e deixou-se cair com a cara entre
as mãos. Pedro viu que ele estava pálido e que o queixo lhe
tremia convulsivamente, como se tivesse febre.

– Ah, meu amigo! – exclamou, pegando no braço de Pedro, e a sua voz
exprimia uma sinceridade e uma doçura que este nunca lhe tinha notado
– Os pecados que nós cometemos, tanto equívoco, e tudo isso
para quê? Estou quase com sessenta anos, meu amigo… E eu… A morte
é o fim de tudo. Ah, que coisa terrível é a morte!…
– E principiou a soluçar.

Ana Mikailovna foi a última a sair do quarto. Aproximou-se de ^Pedro
em passos lentos e sem fazer ruído.

– Pedro! – exclamou ela.

Pedro interrogou-a com os olhos. A princesa beijou o rapaz na testa, cobrindo-o
de lágrimas. Esteve calada alguns momentos. – – Acabou…

Pedro olhou para ela através das suas lunetas.

– Vamos, eu acompanho-o. Procure chorar. Não há nada como
as lágrimas para aliviar.

Levou-o para uma sala escura e Pedro sentiu-se contente por ninguém
poder ver-lhe a expressão. Ana Mikailovna afastou-se, e quando voltou
a entrar na sala encontrou-o, de cabeça encostada ao braço,
dormindo profundamente.

No dia seguinte disse-lhe: – Sim, meu caro, é uma grande perda para
todos nós. Não falo de si. Mas Deus o ajudará, é
novo e ei-lo à frente de uma imensa fortuna, assim o espero. O testamento
ainda não foi aberto. Conheço-o muito bem para saber que isso
não lhe dará volta à cabeça, mas impõe-lhe
deveres, e é preciso ser homem.

Pedro ficou calado.

– Talvez mais tarde lhe conte, meu caro, que se eu ali não estivesse,
só Deus sabe o que poderia ter acontecido. Ainda antes de ontem meu
tio me prometia não se esquecer de Bóris. Mas não teve
tempo. Espero, meu caro, que saiba cumprir os desejos de seu pai.

Pedro não percebia nada, contentando-se em olhar para Ana Mikailovna
sem dizer palavra e corando com um ar embaraçado. Esta, depois da sua
conversa com Pedro, voltou para casa dos Rostov e deitou-se. No dia seguinte
pela manhã contou aos Rostov e aos seus demais conhecimentos os pormenores
da morte do conde Bezukov. Segundo dizia, o conde tinha morrido como ela própria
desejaria morrer, e que o seu passamento fora não só emocionante,
mas até mesmo edificante; a última entrevista entre pai e filho,
então, tinha sido de tal modo comovente que ela não podia lembrar-se
dessa cena sem ch5rar, e lhe era impossível dizer qual dos dois se
portara melhor naqueles terríveis momentos: se o pai, que nos últimos
instantes se tinha referido a todos os acontecimentos importantes, recordando-se
de toda a gente e dizendo coisas tão comovedoras ao filho; se Pedro,
que metia dó, de tal modo estava comovido, não obstante ter
feito tudo para esconder a sua dor, para que o moribundo se não impressionasse.
«É penoso, mas faz bem; eleva a alma ver homens como o velho
conde e o seu digno filho.» Ana Mikailovna aludiu também à
atitude da princesa e do príncipe Vassili num tom de censura, mas pedindo
muito segredo e falando ao ouvido das pessoas.

Capítulo XXV

Em Lissia Gori, domínio do príncipe Nicolau Andreivitch Bolkonski,
aguardava-se, de dia para dia, a chegada do jovem príncipe André
e de sua mulher. Mas esta expectativa não alterava a ordem admirável
que pautava a existência, no solar do velho príncipe. O general-chefe
príncipe Nicolau Andreivitch, aquele a quem a gente da sociedade tinha
apelidado do «rei da Prússia», desde que, no reinado de
Paulo I, se recolhera às suas terras, nunca mais deixara a sua Lissia
Gorí, onde vivia com sua filha Maria e a dama de companhia desta. Mademoiselle
Bourienne. E quando viera o novo reinado, embora lhe tivesse sido permitido
regressar à capital, ali continuara a viver, sem nunca mais de lá
sair, dizendo que se alguém precisasse dele era natural que se dispusesse
a percorrer as cento e cinquenta verstas que separavam Moscovo do seu domínio,
pois, quanto a ele, a verdade é que não precisava de nada nem
de ninguém. Era sua opinião não haver senão duas
fontes do vício humano: a ociosidade e a superstição,
e senão duas virtudes: a actividade e a inteligência. Ele próprio
se encarregava pessoalmente da educação da filha, e para desenvolver
nela estas virtudes cardinais, a partir dos vinte anos dava-lhe lições
de álgebra e de geometria, não permitindo que ela estivesse
desocupada o mais breve instante da sua vida. Quanto a ele, passava todo o
seu tempo, quer a escrever as suas memórias, quer a resolver problemas
de alta matemática, quer a tornear caixas de rapé num tomo mecânico,
quer a trabalhar de jardineiro e a vigiar as construções que
andava sempre a fazer no seu domínio. Partindo do princípio
de que a ordem é a primeira condição de toda a actividade,
na sua vida a ordem era levada ao extremo. As pessoas sentavam-se à
mesa segundo ritmos inalteráveis e sempre iguais, e não somente
sempre à mesma hora, mas, até mesmo, no mesmo minuto. Para com
as pessoas que o cercavam, quer fosse a filha, quer os criados, era rígida
e invariavelmente exigente.

Esta a razão por que, não sendo propriamente violento, inspirava
um terror e um respeito em que lhe não levavam a palma os homens mais
brutais. Embora ele se encontrasse na inactividade e nenhuma influência
tivesse já nos negócios públicos, não havia governador
de província onde dispusesse de propriedades que se não sentisse
na obrigação de se apresentar em sua casa, sujeitando-se, à
semelhança do arquitecto, do jardineiro ou da própria princesa
Maria a aguardar o momento em que o príncipe comparecia na sua vasta
sala de visitas. E o certo é que todos naquela sala sentiam o mesmo
receio e o mesmo respeito quando se abriam as altas portas maciças
do gabinete e surgia a pequena figura do príncipe, com a sua cabeleira
empoada, as suas mãozinhas secas e as suas sobrancelhas brancas, proeminentes,
as quais, por vezes, quando ele as franzia, lhe velavam o fulgor do olhar
brilhante, inteligente e sempre jovem.

No dia da chegada do casal, pela manhã, segundo o costume, a princesa
Maria. à hora habitual, entrou na sala de visitas para apresentar os
seus cumprimentos matinais, benzendo-se, medrosa, enquanto orava, em voz baixa.
Todos os dias entrava naquela sala e nem uma só vez deixava de rezar,
pedindo a Deus que fizesse correr bem a entrevista que ia ter com o pai.

O velho criado de cabeleira branca que estava na sala levantou-se sen) fazer
ruído e disse em voz baixa: – Faça o favor de entrar.

Atrás da porta ouvia-se o monótono rolar do tomo. A princesa
empurrou timidamente o batente e a porta abriu-se sem esforço, deixando-a
parada no limiar. O príncipe, que trabalhava ao tomo, depois de ter
voltado a cabeça para trás prosseguiu na sua tarefa.

O enorme gabinete transbordava de objectos que, evidentemente, estavam a
todo o momento a ser precisos. A grande mesa coberta de livros e plantas,
as altas estantes da biblioteca, com as chaves nas respectivas fechaduras,
a secretária alta para se escrever de pé, sobre a qual estava
aberto um caderno, o tomo, com as ferramentas espalhadas e as aparas de madeira
pelo chão, tudo denunciava uma actividade constante, variada e metódica.
Os movimentos das curtas pernas do príncipe, que calçava botas
tártaxas pregueadas de prata, e a pressão enérgica das
suas mãos magras e nervosas proclamavam a força tenaz e bem
mantida de uma velhice vigorosa.

Depois de ter feito girar ainda algumas vezes a roda do tomo, levantou o
pé do pedal, limpou a goiva, guardando-a depois numa bolsa de couro
pendente daquele e aproximando-se da mesa, chamou a princesa. Nunca abençoava
os filhos, e estendendo à filha a cara eriçada de pêlos
e ainda por barbear disse-lhe severamente, embora com um olhar meigo e cuidadoso:
– Como vai isso?… Bom, então senta-te! Pegou num caderno de exercícios
de geometria, escrito com a sua própria caligrafia, e puxou a cadeira
com o pé.

– Para amanhã! – exclamou, procurando rapidamente a página
e marcando corri a unha robusta os períodos que era preciso estudar.

A princesa debruçou-se para o caderno.

– Espera.., uma carta para ti – disse de repente o velho, tirando de um
saco suspenso da mesa um sobrescrito com letra feminina e pousando-o em cima
do tampo da mesa.

Assim que a princesa viu a carta, toda ela se ruborizou. Pegou-lhe, pressurosa,
fazendo urna grande vénia.

– É da tua «Heloísa»? (Alusão a Júlia
da Nova Heloísa. (N, dos T.) – perguntou o príncipe, mostrando,
num frio sorriso, os dentes amarelados, mas ainda sólidos. – É,
é da Júlia – replicou a princesa, com um olhar tímido
e um sorriso receoso.

– Ainda vou deixar passar mais duas cartas, mas a terceira hei-de lê-la
– disse o pai severamente.- Tenho cá os meus receios de que vocês
escrevam muita tolice. A terceira leio-a.

– Pode ler esta, meu pai – respondeu a rapariga, corando ainda mais e apresentando-lhe
a carta.

– A terceira, eu disse a terceira – interrompeu o príncipe, repelindo
a carta; e apoiando o cotovelo à mesa, puxou para si o caderno de geometria.

– Como vê, menina – principiou o velho, debruçando-se muito
para a filha por cima do caderno e apoiando-se corri uma das mãos nas
costas da cadeira onde se sentava a princesa, que se sentiu envolta numa onda
de cheiro a tabaco e desse aroma especial das pessoas idosas, muito do seu
conhecimento. – Como vê, menina, estes triângulo são iguais:
olhe, o ângulo A-B-C…

A jovem princesa fitava, assustada, os olhos brilhantes do pai muito perto
da sua cara. As maçãs do rosto cobriram-se-lhe de manchas vermelhas.
Via-se perfeitamente que não compreendia e que estava cheia de medo:
isso era o bastante para não poder apreender as longas explicações
do pai, por mais claras que fossem. Ou por culpa do professor ou da aluna,
o certo é que todos os dias acontecia o mesmo. Os olhos da jovem turvavam-se,
não via, não ouvia mais nada, para ela nada mais existia além
daquele rosto seco e severo muito perto do seu, daquele hálito e daquele
aroma, e o seu único desejo seria fugir o mais depressa possível
do gabinete para, sozinha, resolver com tranquilidade o problema que o pai
lhe propunha. O velho exaltava-se, afastava e aproximava com estrépido
a cadeira em que estava sentado, procurando não se deixar encolerizar,
mas não raramente acabava a ferro e fogo, no meio de injúrias
e até, por vezes, atirando fora o caderno.

A princesa enganou-se na resposta que deu.

– Que estúpida que tu me saíste! – gritou-lhe o pai, empurrando
o caderno e voltando-se bruscamente. De chofre, ergueu-se, deu alguns passos
de um lado para o outro, pousou a mão na cabeça da filha e tomou
a sentar-se. Aproximando a cadeira, continuou a explicar.

– Assim não fazemos nada, princesa, assim no fazemos nada – disse
quando a filha fechava o caderno, depois da lição, disposta
a partir- Mas a verdade é que as matemáticas são uma
coisa importante, menina. E o que eu não quero é que tu fiques
como todas as nossas estúpidas senhoras. Com tempo e paciência
hás-de acabar por gostar da matemática. – Bateu-lhe na cara-
Hei-de tirar-te da cabeça toda a estupidez que lá tens dentro.

Ela quis abalar mas ele deteve-a com um gesto, e tirou de cima da secretária
um livro novo com as folhas ainda por abrir.

– Aqui tens um livro que te manda a tua «Heloísa», um
tal A Chave do Mistério. É um livro religioso. Eu não
gosto de interferir nas crenças religiosas de ninguém… Passei
a vista pelo livro. Toma lá. E agora vai-te, vai-te embora.

Bateu-lhe no ombro e foi ele próprio quem fechou a porta depois de
ela sair.

A princesa Maria voltou para o seu quarto, com aquele seu ar triste e receoso
que raramente a abandonava e que ainda mais feios tornava os seus traços
doentios e pouco regulares; sentou-se à sua mesa de trabalho, coberta
de retratos, miniaturas, cadernos e livros. O sentimento da ordem que a ela
lhe faltava tinha-o o pai em excesso. Pousou o caderno de geometria e abriu
a carta com impaciência. Era da sua mais íntima amiga de infância:
precisamente essa tal Júlia Karaguine, que estivera na festa em casa
dos Rostov.

Júlia escrevia, em francês:

Querida e excelente amiga: Que coisa terrível e pavorosa é
a ausência! Por mais que eu me diga a mim própria que a metade
da minha existência e da minha felicidade está contigo, que,
apesar da distância que nos separa, os nossos corações
estão unidos por laços indissolúveis, o meu coração
revolta-se contra o destino e é-me impossível, não obstante
os prazeres e as distracções que me cercam, vencer uma certa
tristeza oculta que sinto no fundo do coração, desde que nos
separámos. Porque não estamos nós juntas como no Verão
passado no teu gabinete, sentadas no teu canapé, o canapé das
confidências? Porque é que eu não posso, como há
três meses, colher novas forças morais no teu olhar, tão
meigo, tão calmo e tão penetrante, olhar de que eu tanto gostava
e que julgo ainda ver diante de mim enquanto te vou escrevendo!

Ao chegar a este ponto da carta, a princesa Maria soltou um suspiro e lançou
um olhar para o espelho que estava à sua direita. O cristal devolveu-lhe
uma desajeitada e enfezada figura. Os seus olhos, sempre tristes, fixavam
o espelho com uma expressão particularmente desencantada. «Tudo
para me lisonjear», pensou, e afastou os olhos do espelho, prosseguindo
na leitura da carta. Realmente. Júlia não lisonjeava a amiga:
esta tinha, com efeito, uns olhos grandes, tão profundos e tão
luminosos que dir-se-ia irradiarem, de vez em quando, quentes raios de luz,
olhos tão belos que a cada momento, apesar da fealdade dos traços
do seu rosto, lhe emprestavam mais atractivos que se ela fosse, de facto,
bonita. A princesa nunca seria, porém, capaz de descobrir esta bela
expressão do seu olhar, essa expressão que lhe vinha aos olhos
quando ela menos sonhava. Acontecia consigo o que tantas vezes se dá
com outras pessoas: sempre que olhava para o espelho, vinha-lhe à cara
um ar afectado e pouco natural que a tornava feia.

Continuou a ler:

Em Moscovo não se fala noutra coisa senão em guerra. Um dos
meus dois irmãos já seguiu para o estrangeiro, o outro está
na Guarda, que vai partir para a fronteira. O nosso querido imperador saiu
de Petersburgo e segundo consta está disposto a expor a sua preciosa
existência aos perigos da guerra. Deus queira que o monstro corso que
acabou com a tranquilidade na Europa venha a ser esmagado pelo anjo que o
Todo- Poderoso, na Sua infinita misericórdia, nos deu por soberano.
Sem falar nos meus irmãos, esta guerra privou-me de um dos conhecidos
mais queridos do meu coração. Refiro-me ao jovem Nicolau Rostov,
que no seu entusiasmo não pôde resignar-se a manter-se inactivo
e abandonou a Universidade para se alistar no exército. Pois bem, querida
Maria, devo confessar-te que, apesar de muito novo, a sua partida para a guerra
foi para mim motivo de grande desgosto. Este rapaz, de quem te falei no Verão
passado, tem tanta nobreza e tanta juventude que é difícil encontrar-se
alguém como ele, no tempo em que vivemos, entre os nossos velhos de
vinte anos. É sobretudo tão franco e tão bom de coração!
E tão puro e tão poético que as minhas relações
com ele, embora fossem passageiras, as considero das mais doces alegrias do
meu coração, que tanto já tem sofrido. Hei-de contar-te
um dia as nossas despedidas e o que dissemos no momento em que nos separámos.
Por agora tudo isto ainda está muito fresco. Que feliz és, querida
amiga, visto não conheceres alegrias tão grandes e dores tão
pungentes! És feliz, porque estas são geralmente mais fortes
do que aquelas. Bem sei que o conde Nicolau é muito novo para poder
vir a ser para mim mais que um amigo, mas esta afectuosa amizade, estas nossas
reacções, tão poéticas e tão puras, o meu
coração estava a pedi-las. Não falemos, porém,
mais nisso. A grande nova do momento, assunto de toda Moscovo, é a
morte do conde Bezitkov e a história da sua herança. Imagina
que as três princesas não vieram, a receber quase nada, o príncipe
Vassili nada recebeu, e quem tudo herdou foi Monsieur Pierre, que, ainda,
por cima, foi reconhecido filho legítimo, herdando, portanto, também
o título de conde Rezukov, e é hoje possuidor da maior fortuna
de toda a Rússia. Dizem que o príncipe Vassili desempenhou um,
feio papel em, toda, esta história da herança do conde e que
regressou a Petersburgo de orelha murcha.

Devo confessar-te que muito pouco percebo destas histórias de legados
e de testamentos; o que te sei dizer é que desde que o rapa;, por todos
nós conhecido por Monsieur Pierre se tomou conde de Bezukov e passou
a dispor de uma das maiores fortunas da Rússia muito me divirto a observar
a mudança no tom, e nas maneiras das mães com várias
filhas para casar e até no tom e nas maneiras das próprias meninas
em relação a este indivíduo, o qual, aqui para nós,
sempre me pareceu um zé-ninguém. Como, de há dois anos
a esta parte, toda esta gente se entretém a arranjar-me noivos que
na maior parte dos casos eu nem sequer conheço, a crónica nupcial
de Moscovo neste momento faz de mim condessa Bezukov. Mas deves compreender
que nada faço Para vir a gozar dessa honra. A propósito de casamentos.-
queres saber? Há dias, a tia de toda a gente. Ana Mikailotna, contou-me,
pedindo-me o maior segredo, que se preparava aqui um casamento para ti. Trata-se,
nem mais nem menos, do filho do príncipe Vassili, o Anatole, rapaz
que o pai gostaria de arrumar, casando-o com uma menina rica e distinta. Foi
em ti que recaiu a escolha dos pais. Não sei como encararás
tu a história, mas sinto-me na obrigação de te avisar.
Dizem que é bonito rapaz e muito má pessoa; é tudo quanto
pude apurar a seu respeitou.

Mas basta de tagarelices. Estou no fim da minha segunda folha de papel,
e minha – mãe mandou-me chamar para irmos jantar a casa dos Apraksine.
Lê o livro místico que junto te envio, e que neste momento esta
aqui a fazer furor. Embora neste livro haja coisas difíceis de compreender
para o fraco entendimento humano, é um livro admirável, cuja
leitura serena eleva a alma. Adeus. Os meus respeitos ao senhor teu pai e
cumprimentos a Mademoiselle Bourienite. Um abraço amigo, Júlia.

P. S. – Manda-me notícias de teu irmão e da sua encantadora
mulher.

A princesa reflectiu, sorriu pensativamente, e, iluminada pelos seus brilhantes
olhos, toda a sua expressão se lhe transformou naquele instante. Levantou-se
de chofre, aproximou-se da mesa no seu passo moroso. Pegou numa folha de papel
e a mão deslizou-lhe, rápida. Eis a resposta à carta
de Júlia:

Querida e excelente amiga: A tua carta de 13 deu-me muita alegria. Ainda
gostas então de mim, minha poética Júlia? Quer dizer
que a ausência de que tanto mal dizes não teve sobre ti a sua
habitual influência. Queixas-te da ausência! Que diria eu, se
tivesse coragem para me lamentar, eu, que me vejo privada de todos aqueles
que me são queridos! Se não fosse a religião, nosso consolo,
que triste seria a nossa vida. Porque julgas ver em mim olhar severo quando
me falas do teu afecto pelo rapaz? Neste capítulo só para mim
sou dura. Compreendo muito bem esses sentimentos nas outras pessoas e, se
me não é permitido aprová-los, por nunca ter passado
por eles, a verdade é que os não condeno. Parece-me apenas que
o amor cristão, o amor do próximo, o amor pelos nossos inimigos
é mais meritório, mais suave e mais belo que os sentimentos
inspirados pelos lindos olhos de um jovem a uma rapariga poética e
amorável como tu.

A notícia da morte do conde Bezukov já aqui tinha chegado
antes da tua carta, e meu pai sentiu-a muito. Segundo ele, era o último
representante do grande século, e agora só falto chegar a sua
vez, embora esteja disposto – diz – a fazer quanto puder para que esse momento
chegue o mais tarde possível. Que Deus nos proteja contra tamanha desgraça!
Não sou da tua opinião a respeito do Pedro, pessoa que eu conheci
em criança. Pareceu-me sempre ter um bom coração, e esta
é a qualidade que eu mais prezo nas pessoas. Quanto à herança
e ao papel que nela desempenhou o príncipe Vassili acho isso muito
triste para os dois. Ah, querida amiga, as palavras do nosso Divino Salvador
– é mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do
que um rico entrar no reino dos Céus – estas palavras são tremendamente
verdadeiras; lastimo o primo Vassili e ainda lamento mais o Pedro. Tão
novo e ia esmagado ao peso de tamanha fortuna, que grandes não irão
ser para ele as tentações deste Se me perguntassem o que eu
desejo mais nesta vida, diria que quereria ser mais pobre que o mais pobre
dos indigentes. Muito e muito obrigada, querida amiga, pelo livro que me mandaste
e que tanto êxito tem tido aí. No entanto, visto dizeres-me que
no meio de muitas coisas boas outras há que o fraco entendimento humano
não pode atingir, parece-me inútil perdermos tempo com uma leitura
ininteligível, que por isso mesmo se tornará infrutífera.
Nunca pude compreender a paixão que têm certas pessoas em perturbar
o espírito consagrando-se a leitura de livros místicos que apenas
servem para levantar dúvidas nas suas almas, exaltando a imaginação
e dando-lhes um temperamento exagerado, em tudo contrario à simplicidade
cristã. É bom lermos os Apóstolos e o Evangelho. Não
procuremos compreender o que neles há de misterioso, pois, como ousaríamos
nós, miseráveis pecadores que somos, iniciar-nos nos terríveis
segredos da Providência enquanto estivermos ligados a este despojo carnal
que levanta entre nós e o Eterno um impenetrável véu?
Limitemo-nos, pois, a estudar os princípios sublimes que o nosso Divino
Salvador nos confiou para nosso governo na Terra; procuremos conformar-nos
com eles e segui-los; persuadamo-nos de que quanto mais asas dermos ao nosso
fraco espírito humano mais isso agrada a Deus, que rejeita toda a sabedoria
que d’Ele não vem; e que quanto menos procurarmos aprofundar
aquilo que Ele houve por bem esconder do nosso entendimento, tanto mais depressa
Ele no-lo revelará graças ao Seu divino espírito.

Meu pai não me falou em qualquer pretendente; disse-me apenas que
tinha recebido uma carta e que aguardava a visita do príncipe Vassili.
Quanto ao projecto de casamento em que falas, dir-te-ei, querida e excelente
amiga, que o casamento, na minha opinião, é uma instituição
divina a que nós nos devemos suspeitar. Por mais penso que isso seja
para mim, se Deus Todo-Poderoso algum dia vier a impor-me os deveres de esposa
e de mãe, fica certa de que procurarei cumpri-los tão fielmente
quanto puder, sem me preocupar com o exame dos meus sentimentos em relação
àquele que Ele me destinar para marido.

Recebi uma carta de meu irmão anunciando-me a sua chegada a Lissia
Gori na companhia da mulher. Será breve a minha alegria, pois que ele
seque daqui a tomar parte nesta guerra infeliz, para que nós somos
arrastados só Deus sabe como e porquê. Não é só
aí, turbilhão dos negócios e centro do mundo, que se
não fala senão em guerra, mas até aqui, no meio dos trabalhos
agrícolas e da paz da natureza, que é assim que o homem das
cidades era geral vê o campo, se fazem sentir os boatos de guerra. Meu
pai só fala em, marchas e contramarchas, coisas de que nada compreendo:
e aqueles de ontem, no decurso do meu passeio habitual pelas ruas da aldeia,
assisti a uma cena dilacerante… Passava um comboio de- recrutas, alistados
nestas terras, que seguiam para os quartéis… Era de ver o estado
das mães, das mulheres e dos filhos daqueles que partiam, e de ouvir
os soluços de uns e outros! Dir-se-à que a humanidade esqueceu
as leis do seu Divino Salvador, que não fez outra coisa senão
pregar o amor e o perdão das ofensas, para não pensar senão
na arte de nos matarmos uns aos outros.

Adeus, querida e boa amiga, que o nosso Divino Salvador e a Sua Santa Mãe
vos tenham na Sua santa e poderosa guarda.

Maria.

– Ali, estava a expedir o seu correio, princesa; eu já expedi o meu.
Escrevi à minha pobre mãe – disse, sorrindo. Mademoiselle Bourienne,
com a sua voz cheia e agradável, em que qualquer coisa arranhava. Na
atmosfera triste e sombria em que a princesa vivia a presença de Mademoiselle
Bourienne era uma nota de alegre frivolidade e de auto-satisfação.

– Princesa, preciso de a prevenir – acrescentou ela, baixando a voz.- O
príncipe teve uma altercação.- E o seu defeito de pronúncia
acentuou-se especialmente ao pronunciar a palavra «altercação».
Dir-se-ia que se estava a ouvir a si mesma.- Uma altercação
com Michel Ivanoff. Está muito mal disposto, muito zangado. Seja prudente,
sim? – Ah!, querida amiga – replicou a princesa -, já lhe pedi que
nunca me falasse no estado de espírito de meu pai. Não me atrevo
a julgá-lo e não gosto que os outros o façam.

A princesa olhou para o relógio, e, ao ver que já passavam
cinco minutos da hora fixada para o seu cravo, precipitou-se no salão,
diligentíssima. Entre o meio-dia e as duas horas, de acordo com o horário
estabelecido, o príncipe dormia a sesta e ela devia estudar cravo.

Capítulo XXVI

O velho criado cabeceava, sentado na sala de espera, ouvindo o ressonar do
príncipe no seu imenso gabinete de trabalho. Do outro extremo da casa,
através das portas fechadas, chegavam até ali, pela vigésima
vez, os compassos difíceis da sonata de Dusseck.

Nesse momento parava diante da escadaria principal uma carruagem e um pequeno
carro. Da carruagem apeou-se o príncipe André, que ajudou a
sua mulherzinha a descer, deixando-a subir a escada diante de si. O velho
Tikon, com a sua cabeleira postiça, espreitou pela porta da sala de
espera e disse, em voz baixa, que o príncipe estava a descansar, dando-se
pressa em fechar a porta. Tíkon sabia muitíssimo bem que nada,
absolutamente nada, nem mesmo a chegada do filho ou qualquer outro acontecimento
imprevisto, deveria perturbar a rotina do seu amo. O príncipe André,
claro está, sabia isso tão bem como o próprio Tikon.
Consultou o relógio, para verificar se os hábitos do pai não
tinham sido alterados desde que o não via, e, persuadido de que tudo
estava na mesma, disse para a mulher: – Dentro de vinte minutos estará
de pé. Vamos ver a princesa Maria.

A princesinha engordara um pouco, mas os seus olhos e o seu lábio
sorridente, que um ligeiro buço sombreava, continuavam a ter o ar alegre
e gentil sempre que falava.

– Mas é um palácio – disse para o marido, olhando em roda,
no mesmo tom em que se felicita o organizador de um baile.- Vamos, depressa,
depressa! Falando, ia sorrindo para toda a gente, para Tikon, para o marido,
para o criado que a conduzia.

– É a Maria que está a estudar? Não façamos
barulho, quero surpreendê-la.

O príncipe André seguiu-a com o seu ar cortês e triste.

– Estás mais velho. Tikon – disse ele, de passagem, ao velho, que
lhe beijava a mão.

Antes de terem chegado à dependência onde se ouvia o cravo,
viram sair de uma porta lateral uma bonita francesinha loura. Mademoiselle
Bourienne parecia louca de contentamento.

– Ah!, que alegria para a princesa! – disse ela. – Enfim, preciso de a prevenir.

– Não, não, por favor… é Mademoiselle Bourienne,
já a conheço pela amizade que a minha cunhada lhe tem – disse
a mulher de André, beijando-a – Ela não nos espera! Aproximaram-se
da porta da saleta, donde continuavam a sair sempre os mesmos compassos indefinidamente
repetidos. André parou, franzindo as sobrancelhas, como se sentisse
uma penosa impressão.

A princesa sua mulher entrou, o motivo da sonata foi interrompido no meio;
ouviu-se um grito, os passos pesados de Maria e beijos ressoaram. Quando André
entrou, por sua vez, viu as duas cunhadas, que pouco se tinham conhecido na
altura do casamento, abraçadas uma à outra, beijando-se mutuamente,
sem escolher onde. Mademoiselle Bourienne ali estava, com a mão no
coração, sorrindo cheia de beatitude, e tão pronta a
rir como a chorar. André encolheu os ombros e franziu as sobrancelhas,
como costumam fazer os amadores de música quando um instrumento desafina.
Por fim, as duas mulheres separaram-se, e, em seguida, para recuperarem o
tempo perdido, recomeçaram a estreitar-se nos braços uma da
outra, a beijarem-se mutuamente, rompendo em soluços, com grande surpresa
do príncipe, e abraçando-se de novo. Mademoiselle Bourienne
pôs-se também a soluçar. O príncipe André
deu sinal de uma certa impaciência; mas elas achavam tão natural
chorar assim que lhes não era possível imaginarem o seu mútuo
encontro de outra maneira.

– Ah!, minha querida!… Ah!. Maria!… – disseram, de repente, transitando
das lágrimas para o riso. – Sonhei esta noite… – Não nos esperava…
Ah! Maria, emagreceu… E a minha amiga recuperou…

– Conheci logo a senhora princesa – interveio Mademoiselle Bourienne.

– E eu que não desconfiava de nada!… – exclamou a princesa Maria.
– Ah!. André, não o via.

André apertou a irmã contra si e disse-lhe que ela ainda não
deixara de ser a mesma choramingas. Maria olhou para o irmão, e no
meio das suas lágrimas deteve nele o quente e suave olhar cheio de
enternecimento dos seus grandes olhos luminosos, lindíssimos naquele
momento.

A princesa Lisa falava sem descanso. O seu làbiozinho superior não
fazia outra coisa senão agitar-se continuamente, de cima para baixo,
sobre o lábio inferior, e um perpétuo sorriso lhe iluminava
os dentes e os olhos. Historiava um incidente que lhe tinha acontecido na
muda de Spass, o qual poderia ter sido perigoso para ela no estado em que
estava, e imediatamente se pôs a dizer que deixara todos os seus vestidos
em Petersburgo e que não iria ter nada que vestir, que André
tinha mudado muito, que Kitti Odintsova casara com um velho, e que ela arranjara
para Maria um noivo a sério, mas que disso haviam de conversar mais
tarde. A princesa Marm, calada, não deixara de fitar o irmão,
e os seus lindos olhos estavam plenos de afectuosidade e tristeza. Via-se
bera que os seus pensamentos tomavam um caminho muito diverso dos da sua cunhada.
Enquanto esta falava da última festa a que assistira em Petersburgo,
a princesa Maria voltou-se para o irmão.

– Está então resolvido a ir para a guerra. André? –
interrogou ela, no meio de um suspiro. Lisa estremeceu também.

– Sim, e amanhã mesmo – replicou ele.

– Abandonou-me aqui, e só Deus sabe porquê, quando ele podia
ser promovido…

A princesa Maria não a deixou acabar e, seguindo o curso dos seus
pensamentos, disse para a cunhada, indicando afectuosamente com os olhos o
volume do seu ventre.

– É realmente verdade? – perguntou.

Lisa mudou de expressão. Teve um suspiro.

– Sim, é verdade – volveu ela.- Ah, é assustador…

Os lábios contraíram-se-lhe. Aproximou a cara do rosto da
cunhada e subitamente principiou a chorar.

– Precisa de descansar – disse o príncipe André franzindo
as sobrancelhas. – Não é verdade. Lisa? Leva-a contigo, que
eu vou ver o pai. Como vai ele? Sempre na mesma? – Sim, está sempre
na mesma; não sei como tu o vais achar – respondeu Maria com jovialidade.

– Sempre as mesmas horas e os passeios pelas avenidas? E o tomo? – perguntou
André, com um sorriso imperceptível que queria dizer que, apesar
de todo o seu amor e o seu respeito filiais, conhecia as fraquezas do pai.

– Sim, sempre as mesmas horas, e o tomo e, ainda por cima, as matemáticas
e as minhas lições de geometria – replicou jovialmente a princesa
Maria, como se estas lições de geometria fossem uma das maiores
alegrias da sua vida.

Passados que foram os vinte minutos necessários para o descanso do
velho. Tikon veio buscar o príncipe para o conduzir junto do pai. O
velho dispensara-se de cumprir o seu programa em honra do filho: mandara-o
entrar para os seus aposentos enquanto se vestia para o jantar. Conservava
os velhos costumes: o cafetã e o pó. E quando André apareceu,
já não com o aspecto e as maneiras entediadas que costumava
aparentar nos salões, mas com o ar animado que mostrava em suas conversas
com o Pedro, o velho estava no seu gabinete de toilette, enterrado numa poltrona
de marroquim, de penteador, confiando a cabeça aos cuidados de Tikon.

– Eh, o guerreiro! Então queres-te bater com o Bonaparte? – exclamou,
abanando a cabeça empoada tanto quanto lho consentia Tikon, que estava
a entrançar-lhe o rabicho.

– Trata de te portares à altura, ou então não tarda
muito que também nós estejamos a fazer parte do número
dos seus súbditos. Como vai isso? – acrescentou, oferecendo-lhe a face,
O velho estava de óptima disposição, depois do sono que
costumava fazer antes de jantar. Tinha por hábito dizer que a sesta
depois de jantar era prata e antes de jantar ouro. Por debaixo das suas espessas
sobrancelhas ia lançando ao filho olhadelas matreiras. O príncipe
André aproximou-se e beijou o pai no sítio designado. Não
respondeu ao tema favorito da conversa paterna, aos seus gracejos sobre os
militares do tempo e especialmente sobre Bonaparte.

– Sim, viemos vê-lo, meu pai; minha mulher, que está no seu
estado interessante, e eu – disse, observando, com o seu vivo olhar, nem por
isso menos respeitoso, todos os movimentos da fisionomia paterna.- Como tem
passado de saúde? – Só estão doentes, meu rapaz, os imbecis
e os estroinas, e tu conheces-me. Estou sempre ocupado, da manhã à
noite, e sou pessoa sóbria; por conseguinte, tenho saúde.

– Louvado seja Deus! – exclamou o filho, sorrindo. – Deus não é
para aqui chamado. Então conta-me cá – prosseguiu, voltando
à sua cisma familiar – como é que os Alemães vos ensinaram
a combater o Bonaparte segundo a vossa nova ciência, a chamada estratégia?
O príncipe André sorriu.

– Deixe-me tomar fôlego, meu pai – dizendo o que, não deixava
de mostrar, pela sua expressão, que as manias do pai o não impediam
de o adorar e de o venerar. – Nem sei ainda onde é que nos vai instalar.

– Tolice, tolice – exclamou o ancião, sacudindo o rabicho, para ver
se estava a seu gosto, e dando o braço ao filho. – Os aposentos da
tua mulher estão preparados. A Maria se encarregará de a conduzir
até lá, e ela lhos mostrará, e hão-de ter .muito
que dizer. Isso é lá com elas. Estou muito contente que ela
tenha vindo. Senta-te, senta-te e conta-me. O exército de Mikelson,
sim, bem sei, e o de Tolstoi também… Operações simultâneas..,
e o exército do Sul, o que vai fazer? A Prússia, a neutralidade,
sim, bem sei. E a Áustria? Enquanto falava, tinha-se levantado da poltrona
e andava de um lado para o outro, seguido por Tikon, que lhe ia apresentando
as diversas peças de vestuário.

– E a Suécia? Como é que vamos atravessar a Pomerânia?
O príncipe André, perante a insistência do pai, primeiro
contrariado, depois numa animação crescente, e deixando de falar
russo, para falar francês, como era seu costume, principiou a expor
o plano da futura campanha. Aludiu à forma como um exército
de oitenta mil homens deveria ameaçar a Prússia, para obrigá-la
a abandonar a neutralidade e arrastá-la para a guerra, a maneira como
uma parte deste exército viria juntar-se ao sueco, em Stralsund, como
duzentos e vinte mil austríacos, reunidos a cem mil russos, deviam
agir em Itália e sobre o Reno, como cinquenta mil russos e o mesmo
número de ingleses viriam a desembarcar em Nápoles e como no
seu total um exército de quinhentos mil homens deveria atacar os Franceses
em diversas frentes. O príncipe não mostrava o mais pequeno
interesse por esta exposição e nem parecia mesmo ouvi-la, continuando
a vestir-se enquanto andava de um lado para o outro. Por três vezes
interrompeu o filho de maneira assaz inesperada. A primeira foi para gritar:
– O branco!, o branco! Com isto queria dizer que Tikon não estava a
dar-lhe o colete que ele queria. A segunda, deteve-se, para perguntar: – E
é para breve o parto? – Depois abanou a cabeça reprovadoramente.-
É mau! Continua, continua.

A terceira vez foi quando o príncipe André chegava ao cabo
da sua exposição. Pôs-se então a cantarolar, numa
voz de velho em falsete: Malbroug vai para a guerra. Sabe Deus quando voltará.

O filho contentou-se em sorrir.

– Não posso dizer que estou de acordo com este plano – disse ele
– Limito-me a expor-lho tal como ele é. Napoleão também
já tem o seu, que é tão bom como este.

– Bom, não me disseste nada de novo. – E, pensativamente, o velho
príncipe repetiu, resmungando entre dentes: – Sabe Deus quando voltará.
E agora para a mesa.

Capítulo XXVII

A hora precisa, o príncipe, empoado e barbeado, deu entrada na sala
de jantar, onde o aguardavam a nora, a princesa Maria. Mademoiselle Bourienne
e o arquitecto, que, por estranha fantasia, se sentava com o príncipe
à mesa, embora esse homem, insignificante pessoa, que era, no ponto
de vista social, não contasse com tanta deferência. O príncipe,
que era muito respeitador da etiqueta e das diferenças de classe e
só muito raramente sentava à sua mesa os mais importantes funcionários
da província, quando menos se esperava, quisera mostrar, na pessoa
do arquitecto. Mikail Ivanovitch, o qual tinha por hábito assoar-se,
disfarçadamente, a um grande tabaqueiro, que os homens para ele eram
todos iguais. Várias vezes explicara à filha que Mikail Ivanovitch
em nada era inferior a qualquer deles. À mesa era muito vulgar o príncipe
dirigir a palavra ao pouco falador Mikail Ivanovitch.

Na sala de jantar, imensa como todas as dependências da casa, as pessoas
de família e os criados aguardavam a chegada do príncipe, de
pé, atrás de cada cadeira; o chefe, de guardanapo no braço,
vigiava a mesa, piscando o olho aos lacaios, enquanto ia e vinha, no seu passo
tranquilo, entre o grande relógio e a porta por onde o príncipe
devia entrar.

André contemplava um grande quadro de moldura dourada, novo para
ele, com a árvore genealógica dos príncipes Bolkonski,
simétrico com outro quadro, do mesmo tamanho, que representava muito
mal – obra, claro está, de qualquer pintor criado no solar- um príncipe
soberano, com a coroa, provavelmente um descendente de Rurik e antepassado
da família dos Bolkonski.

O príncipe André observava esta árvore genealógica,
abanando a cabeça. A certa altura principiou a rir, como quando se
olha para uma caricatura.

– Ora aqui está ele! – exclamou para a princesa Maria, que se aproximara.

Maria encarou com o irmão sem esconder estar surpreendida. Não
percebia porque ele estava a rir. Tudo quanto o pai fazia era para ela motivo
de veneração, e não admitia críticas.

– Cada um lá tem o seu calcanhar-de-aquiles – prosseguiu André
– Um homem tão inteligente e prestar-se a uma coisa tão ridícula!
A princesa não podia admitir a audácia destas observações,
e preparava-se para responder quando se ouviram os passos, que todos esperavam,
vindos do gabinete de trabalho do príncipe. O velho militar entrou
na sala de jantar com o seu passo rápido e vivo, como se quisesse opor-se,
com aqueles seus modos animados, à ordem severa que reinava na casa.
Na mesma altura o grande relógio deu duas horas, e outro, retinindo
fracamente, respondeu-lhe, lá de dentro, do salão. O príncipe
deteve-se. Por sobre as suas espessas sobrancelhas proeminentes as suas pupilas
severas, vivas e brilhantes, observaram todas as pessoas presentes, fixando-se
na mulher do príncipe André. Esta sentiu nesse momento a impressão
que costumam sentir os cortesãos no acto da chegada do soberano, um
sentimento misto de temor e de respeito, que o príncipe inspirava a
todos quantos dele se aproximavam. Depois passou a mão pelos cabelos
da jovem princesa e deu-lhe umas pancadinhas na nuca um pouco atabalhoadamente.

– Estou muito contente, estou muito contente de a ver – disse, olhando-a
fixamente uma vez mais, e, de chofre, voltou-se para sentar-se à mesa.
– Tomem os seus lugares, tomem os seus lugares! Mikail Ivanovitch, sente-se.

O velho príncipe indicou à nora um lugar a seu lado. Um criado
ajudou-a a sentar.

– Sim, senhor, sim, senhor! – exclamou, ao ver as amplas formas da princesa.
– Chama-se a isto não perder tempo! Hem, que marota! E rompeu num riso
seco, frio e desagradável, o riso que tinha sempre, um riso só
da boca, não dos olhos.

– É preciso andar, andar o mais possível, o mais possível
acrescentou.

A princesinha não ouvia ou não queria ouvir o que ele dizia.
Estava calada e parecia preocupada. Só quando o príncipe lhe
perguntou pelo pai, principiou a falar e a sorrir. 1nterrogou-a acerca das
pessoas que ambos conheciam. Então ela sentiu-se à vontade e
pôs-se a tagarelar, transmitindo-lhe os cumprimentos de alguns conhecidos,
contando-lhe casos de má-língua da cidade.

– A condessa Apraksine, coitada, perdeu o marido e está farta de
chorar – dizia ela, cada vez mais animada.

A medida que se entusiasmava, o príncipe ia-a olhando cada vez mais
severamente, e, de súbito, como se a tivesse estudado o suficiente
e acabasse por fazer dela um ideia exacta, desviou para outro lado a sua atenção,
dizendo a Mikail Ivanovitch: – Pois é verdade. Mikail Ivanovitch, as
coisas não vão correr bem para o nosso Bonaparte. Como me contou
o príncipe André – falava sempre de André na terceira
pessoa -, estão a juntar-se forças contra ele. E nós
que sempre o considerámos uma, nulidade.

Mikail Ivanovitch, que desconhecia por completo o momento em que ambos tinham
falado de Bonaparte, mas que percebia que se estavam a servir dele para abordar
a conversa do costume, lançou um olhar surpreso ao moço príncipe,
sem saber o que ia passar-se.

– Sim, é um grande estratego – disse o príncipe ao filho,
apontando-lhe o arquitecto.

E a conversa de novo incidiu sobre a guerra, sobre Bonaparte, os generais
e os estadistas do tempo. O facto é que o velho príncipe estava
realmente convencido não só de que todos os grandes homens do
momento eram criançolas, ignorando, inclusivamente, o bê-á-bá
da guerra e da política, mas também, que Bonaparte não
passava de um insignificante francês, que triunfara apenas por não
haver para se lhe opor um. Potemkine ou um Suvorov. Estava mesmo convencido
de que não haveria na Europa dificuldades políticas nem realmente
haveria guerra. Estava-se apenas a representar uma comédia de fantoches,
em que os homens da época fingiam desempenhar um papel muito sério.

O príncipe André acolhia com grandes gargalhadas estas trocas,
e, é claro, divertia-se a excitar o pai e a ouvi-lo.

– Tudo o que é de outros tempos lhe parece excelente – disse ele
-, mas não é verdade que o próprio Suvorov caiu na armadilha
que lhe preparou Moreau e não foi capaz de se ver livre dela? – Quem
te disse isso? Quem te disse isso? – interrogou o príncipe. – Suvorov!
– E afastou de diante de si o prato, que Tikon pressurosamente levantou. –
Suvorov!… Pensa um pouco, príncipe André. Eram dois homens:
Frederico e Suvorov… Moreau!… Mas este Moreau teria ficado prisioneiro
se Suvorov tivesse as mãos livres, e as suas mãos estavam ligadas
pelo Hofskriegswurstsehnappsrath. Nem o Diabo teria sido capaz de se ver livre
dele. Ora, ainda os hás-de ver, esses Hofskriegsivurstschnappsrath!
Se Suvorov não pôde levar a melhor, como é que Mikail
Kutuzov o conseguirá? Sim, meu amigo – prosseguiu -, com os generais
que temos nada podemos contra Bonaparte. O que nós precisávamos
era de franceses – ladrão para roubar outro ladrão. Lá
mandaram o alemão Pahiem a Nova Iorque, à América, para
apanhar o francês Moreau para o exército russo. Lindo serviço!…
Eram, porventura, alemães os Potemkines, os Suvorovs ou os Orlovs?
Não, meu rapaz, ou vocês, lá para os vossos lados, perderam
a cabeça, ou então sou eu quem está a ficar maluco. Deus
vos acuda, mas cá estamos para ver. E dizem eles que Bonaparte é
um grande general! Hum! Hum!…

– Não tenho a pretensão de pensar que todas as medidas tomadas
sejam de primeira ordem – replicou o príncipe André -, mas não
posso compreender que o pai tenha uma tal, opinião acerca, de Bonaparte.
Pode rir-se à, vontade. O que não lia duvida é que Bonaparte
é um grande general! – Mikail Ivanovitch! – exclamou o velho príncipe,
dirigindo-se ao arquitecto, o qual, todo absorvido a comer o assado, teria
preferido que o esquecessem – Eu disse-lhe que Bonaparte era um grande estratego?
Aqui está um da, mesma opinião.

– Mas com certeza. Excelência – replicou o arquitecto. E o príncipe
riu de novo com o seu frio riso.

– Bonaparte nasceu num sino. Tem soldados. E principiou por se atirar aos
Alemães. Desde que o mundo é mundo que toda a gente venceu os
Alemães. E eles nunca venceram ninguém, a não ser quando
se batem uns contra os outros. Foi combatendo contra eles que Napoleão
se tomou glorioso.

E o príncipe pôs-se a expor todos os erros que, segundo ele,
tinham sido cometidos por Bonaparte em todas as suas campanhas, e até,
inclusivamente, nos negócios públicos O filho não o contrariava,
mas era claro que, apesar de toda, aquela argumentação, ele,
tal como o velho pai, nunca mudaria de opinião. André ouvia,
procurando dominar-se, para não fazer qualquer objecção,
surpreendido, no entanto, que aquele velho, há tantos anos para ali
isolado no meio das suas terras, fosse capaz de julgar e de conhecer, em todos
os seus pormenores e com tanta finura, a situação militar e
política da Europa dos últimos anos.

– Julgas que um velho como eu nada percebe dos problemas actuais? – concluiu
ele, – Que queres tu então que eu faça? De noite não
durmo. Vamos lá a saber onde é que esse teu grande general já
demonstrou que o era de facto? – Isso levaria tempo – replicou o filho.

– Que tenhas muita saúde mais o teu Bonaparte. Mademoiselle Sourienne,
aqui tem mais um admirador do grosseiro do seu imperador! – exclamou ele num
francês excelente.

– Sabe que eu não sou bonapartista, meu príncipe.

– Sabe Deus quando voltará… – cantarolou o príncipe, na
sua voz de falsete, e, foi a rir, num riso igualmente em falsete, que se levantou
da mesa.

A princesinha estivera calada durante toda a discussão e até
ao fim do jantar, olhando, alarmada, primeiro a princesa Maria e depois o
sogro. Quando se levantaram da mesa, travou do braço da cunhada e levou-a
consigo para a sala contígua.

– Como o seu pai é um homem inteligente! – observou ela. – É
por isso, talvez, que me mete medo.

– Oh, é tão bom! – – replicou a cunhada.

Capítulo XXVIII

O príncipe André devia partir no dia seguinte à tarde.
O velho príncipe, sem alterar os seus hábitos, retirou-se depois
do jantar. A princesinha estava nos aposentos da cunhada. André vestiu
uma farda de viagem, sem dragonas, e pôs-se a fazer as malas, com o
auxilio do criado de quarto, no aposento que lhe fora reservado. Após
haver examinado ele próprio a carruagem em que ia partir e a instalação
das bagagens, deu ordem para atrelarem. No quarto apenas conservava os objectos
que levaria consigo: um pequeno cofre, um estojo de toilette de viagem, de
prata, duas pistolas turcas e um sabre, presente do pai, que este lhe trouxera
de Otchakov. Todos estes objectos estavam em perfeito estado: tudo como novo
e limpo, cada coisa no seu estojo de pano cautelosamente afivelado.

No momento em que um homem parte para uma viagem, ou se prepara para mudar
de vida são muitos os pensamentos que o assaltam, desde que seja pessoa
capaz de reflexão. Todo o passado lhe ocorre e faz projectos sobre
o futuro. André parecia preocupado e comovido. Com as mãos atrás
das costas, ia e vinha, em passo rápido, de um extremo ao outro do
quarto, o olhar fixo e abanando a cabeça. Quer sentisse medo de partir
para a guerra, quer sofresse por ter de deixar a mulher, e talvez as duas
coisas o preocupassem, era natural que não quisesse que o vissem naquele
estado, pois, ao ouvir passos no vestíbulo, mudou rapidamente de atitude,
deteve-se diante da mesa, como para afivelar a cobertura da mala, e de novo
no seu rosto transpareceu a expressão séria e impenetrável
de sempre. Eram os pesados passos da princesa Maria.

– Disseram-me que tinhas mandado atrelar – articulou ela, arquejante (via-se
que viera a correr). – E eu que tanto queria conversar contigo a sós.
Só Deus sabe quanto tempo vamos estar separados! Não estás
zangado por eu ter vindo? É, que mudaste tanto. Andriucha – acrescentou,
como para justificar a sua pergunta.

A princesa Maria sorriu ao tratá-lo por Andríucha. Via-se
que achava estranho aquele belo homem de aspecto severo ser o mesmo Andriucha,
esse garoto magricela e travesso seu companheiro de infância.

– E a Lisa onde está? – perguntou ele, que apenas lhe respondera
com um sorriso.

– Estava tão cansada que adormeceu no meu quarto num divã.
Ah! André! Que tesouro que é a sua mulher! – exclamou sentando-se
num canapé, diante do irmão. – É uma verdadeira criança,
tão gentil, tão alegre! Gosto tanto dela.

O príncipe André irada disse, mas a irmã viu a expressão
irónica e um pouco desdenhosa que lhe invadiu o rosto.

– Temos de ser indulgentes para com as suas pequenas loucuras. Quem as não
têm? André, não te esqueças de que foi criada e
educada na sociedade. E a verdade é que a sua situação
está longe de ser cor-de-rosa. Ternos de nos colocar na posição
dos outros. Tudo compreender é tudo perdoar. Pensa na sorte que a espera,
coitadinha. Depois da vida que tem feito, ficar para aqui, no campo, separada
do marido, e sozinha, sobretudo no estado em que está. É penoso!
André sorria, olhando para a irmã, como costumamos sorrir ao
ouvir alguém em que julgamos ler como num livro aberto.

– Mas tu também vives no campo e não achas que a vida aqui
seja assim uma coisa tão terrível! – observou ele.

– Comigo é outra coisa. Para que havemos de falar de mim? Não
quero outra vida, e não posso desejar vida diferente, porque não
conheço senão esta. Mas pensa. André, o que representa
para uma senhora de sociedade enterrar-se numa aldeia, nos melhores anos da
sua vida, e só, pois o pai está sempre ocupado, e eu.., tu bem
sabes como eu sou pobre de recursos aos olhos de uma mulher habituada à
melhor sociedade. Só Mademoiselle Bourienne…

– Não posso com a vossa Bourienne – replicou André.

– Não digas isso! É uma rapariga gentil e boa, e ainda por
cima tão infeliz! Já não tem ninguém no mundo,
absolutamente ninguém. Para dizer a verdade, não só já
me não é precisa, como até me incomoda. Tu bem sabes
que fui sempre um pouco selvagem, e agora ainda mais. Aprecio estar só…
O meu pai gosta muito dela. Tanto ela como o Mikail Ivanovitch são
as duas pessoas para quem ele tem sido sempre amável e bom. É
para eles um verdadeiro benfeitor. Como diz Sterne, «nós gostamos
das pessoas menos pelo bem que elas nos fizeram que pelo bem que lhe fizemos
a elas». O meu pai tomou conta desta, rapariga, órfã sem
casa. Tem muito bom coração. E o meu pai adora a maneira como
ela lê. É ela quem lhe faz a leitura em voz alta, todas as tardes.
Lê muito bem.

– Confessa. Maria, tu deves passar o teu mau bocado, penso eu, por causa
do feitio do pai – disse, de súbito. André.

Maria principiou por mostrar-se surpreendida e depois sentiu-se assustada
com a pergunta.

– Eu? Eu? Passar um mau bocado – tartamudeou.

– Ele foi sempre irascível, mas agora ainda se tomou mais difícil,
creio eu – e exprimia-se tão à vontade sobre o carácter
do pai que só podia ter um fim: irritá-la ou experimentá-la.

– Tu és muito bom. André, mas tens um certo orgulho – observou
a princesa, seguindo antes o curso dos seus pensamentos que propriamente o
fio da conversa – e isso é um grande pecado. Achas que se pode permitir
a um filho julgar o seu pai? E, mesmo que se admita uma coisa dessas, achas
que um homem como o meu pai possa inspirar outros sentimentos que não
sejam de veneração? Sinto-me tão satisfeita e feliz ao
pé dele! Só queria uma coisa: que todos vocês fossem tão
felizes como eu.

O príncipe André abanou a cabeça come, quem não
está muito convencido.

– A única coisa que me é penosa, vou dizer-te a verdade. André,
é a opinião de meu pai em assuntos religiosos. Não compreendo
que um homem tão inteligente, não veja o que é claro
como a luz do dia e se desoriente até ao ponto a que chegou. Só
isto me faz infeliz. Mas nos últimos tempos verifiquei que está
um pouco melhor. Ultimamente as suas troças são menos acerbas
e até consentiu em receber um, frade e esteve muito tempo a conversar
com ele.

– Pois bem, minha querida, receio que tu e o teu frade estejam a perder
o vosso latim – observou André em tom trocista, mas amável.

– Ah!, meu amigo. Não faço outra coisa senão pedir
a Deus, e espero que Ele me ouça. André – acrescentou ela, timidamente,
depois de uma breve pausa -, tenho de te fazer um grande pedido.

– De que é que se trata, minha amiga? – Promete-me, antes de mais
nada, que me não recusarás o que te vou pedir. Não é
nada que te custe a fazer e nem é coisa indigna de ti. Promete-me.
Andriucha – suplicou ela, metendo a mão na bolsinha de trabalho e apalpando
fosse o que fosse sem tirar a mão, como se tivesse entre os dedos precisamente
o objecto em questão, objecto que ela não podia mostrar senão
depois de ter obtido a promessa que pedira.

Olhava para o irmão timidamente e com olhos suplicantes.

– Ainda mesmo que isso me custasse muito?… – replicou o príncipe
André, que parecia desconfiar do que se tratava.

– Podes pensar o que quiseres. Sim, eu bem sei, tu és como o meu
pai. Podes pensar o que quiseres, mas faz isso por mim. Peço-te. O
pai do meu pai, o nosso avô, trouxe-a consigo em todas as campanhas…
– E continuava sem tirar da bolsinha o objecto que tinha entre os dedos.-
Então, prometes? – Claro! De que se trata? – André, que esta
imagem te proteja. Promete-me que não a deixarás mais. Prometes?
– Se ela não pesar muito e me não derrancar o pescoço…
Já que isso te dá prazer… – disse ele, e, verificando, ao
mesmo tempo, que a sua atitude causava uma penosa impressão na irmã,
mudou de tom. – Com muito prazer, podes crer, com muito prazer, minha amiga
– acrescentou.

– Mesmo contra tua vontade. Ele salvar-te-á, conceder-te-á
a Sua graça e chamar-te-á para Si, pois é verdade e consolação
– murmurou, numa voz trémula, erguendo nas duas mãos, diante
do irmão, num gesto solene, uma antiga imagem oval do Salvador, com
o rosto negro, numa moldura de prata suspensa de uma cadeia de filigrana do
mesmo metal.

A princesa Maria benzeu-se, beijou a imagem e entregou-a ao irmão.

– Aceita-a. André, aceita-a por mim…

Os seus grandes olhos esplendiam de bondade e de doçura. Iluminavam-lhe
o rosto magro e doentio, embelezando-o. O irmão quis pegar na imagem,
mas ela deteve-o. André compreendeu, benzeu-se também e beijou-a.
Havia nele uma expressão ao mesmo tempo enternecida – estava comovido
– e trocista.

– Obrigada, meu amigo.

Beijou-o na testa e voltou a sentar-se no divã. Ficaram calados.

– Sim. André, já te disse, sé bom e generoso como sempre
foste. Não julgues Lisa com tanta severidade. Ela é gentil e
boa e está neste momento numa bem triste situação.

– Creio nada te ter dito. Macha, que possa ser interpretado como uma censura
a minha mulher ou mostrar-te que esteja descontente com ela. Porque é
que me estás sempre a dizer a mesma coisa? A princesa Maria corou,
calando-se, como se se sentisse culpada.

– Por mim, não te disse nada, mas outras pessoas, sem dúvida,
já te falaram no caso. E isso é-me penoso.

Manchas vermelhas cobriram a testa e as faces de Maria. Quis dizer qualquer
coisa, mas não pôde articular palavra. O irmão adivinhara.
A princesinha, depois do jantar, chorara e dissera que receava um parto difícil,
que estava cheia de medo e lamentara-se da sua sorte, do sogro, do marido.
Depois de chorar, adormecera. O príncipe André teve pena da
irmã.

– Podes ter a certeza. Macha, não a censurei, nunca a censurei por
qualquer coisa e nunca censurei a minha mulher em coisa alguma. E eu próprio
nada tenho a censurar-me no meu comportamento para com ela. E sempre assim
será, seja qual for a situação em que venha a encontrar-me.
Mas queres saber a verdade.., queres saber se eu sou feliz, se ela é
feliz? Pois bem, não, não sou, não somos. Porquê?
Não sei…

Ao dizer estas palavras, levantou-se, aproximou-se da irmã e, inclinando-se
para ela, beijou-a na testa. Os seus belos olhos incendiaram-se, e neles brilhou
um invulgar lampejo de lucidez e bondade. Não era na irmã que
o seu olhar se fixava, mas nas trevas, para além da porta aberta por
detrás dela.

– Vamos ter com ela. É preciso dizer-lhe adeus. Ou, antes, vai tu
sozinha, acorda-a, eu já lá vou ter. Petruchka! – gritou ele,
chamando o criado de quarto. – Anda cá, leva estás coisas. Põe
isto ao pé do assento, aquilo à direita.

A princesa Maria levantou-se e encaminhou-se para a porta. Aí deteve-se.

– André, se fosses crente, ter-te-ias dirigido a Deus a pedir-lhe
que te desse o amor que tu não sentes, e a tua oração
seria ouvida.

– Sim, é possível – volveu André. – Vai. Macha, vou
já ter convosco.

Quando se dirigia aos aposentos da irmã, na galeria, que estabelecia
a comunicação entre os dois corpos da casa, o príncipe
encontrou Mademoiselle Bourienne, que lhe sorriu graciosamente. Era a terceira
vez naquele dia que ele encontrava no seu caminho, e nos lugares mais solitários,
o seu sorriso simples e entusiasta.

– Ah! Julgava-o nos seus aposentos! – exclamou ela, corando um pouco e baixando
os olhos.

O príncipe lançou-lhe um olhar severo; tomara repentinamente
uma expressão irritada. Não lhe respondeu, e, sem a fixar nos
olhos, dirigiu-lhe um olhar tão desdenhoso que a francesa ficou toda
corada, retirando-se sem dizer mais nada. Quando o príncipe entrou
nos aposentos da irmã, sua mulher já estava acordada e através
da porta aberta ouvia-se a sua vozita alegre, que desfiava com volubilidade
o rosário das palavras. Dir-se-ia que procurava recuperar o tempo perdido
depois de uma longa abstenção.

– Não, mas imagine a velha condessa Zuboff, com postiços no
cabelo e a boca cheia de dentes postiços, como se quisesse desafiar
os anos… Ah!, ah!, ah!. Maria! Era a quinta vez que André ouvia a
mulher diante de estranhos pronunciar esta mesma frase sobre a condessa Zuboff,
acompanhada do mesmo riso. Entrou sem fazer ruído. A mulher, redondinha
e rosada, o trabalhinho na mão, estava sentada numa poltrona e falava
ininterruptamente, contando coisas de Petersburgo e repetindo, inclusivamente,
verdadeiras frases feitas. André aproximou-se dela, acariciou-lhe os
cabelos e perguntou-lhe se se sentia refeita da viagem. Ela respondeu-lhe
e continuou a tagarelar.

Uma carruagem tirada por seis cavalos estava diante da escada. Lá
fora era noite, uma noite sombria de Outono. O cocheiro nem sequer podia ver
os varais do carro. Na escada agitavam-se pessoas com lanternas na mão.
A imensa casa tinha todas as suas grandes janelas iluminadas. No vestíbulo
juntavam-se, acotovelando-se, os criados servos, que todos queriam dizer adeus
ao jovem príncipe. Na grande sala estava reunida toda a gente da casa:
Mikail Ivanovitch. Mademoiselle Bourienne, a princesa Maria e a jovem esposa
de André. Este último tinha sido chamado ao gabinete do pai,
que queria despedir-se dele a sós. Todos os estavam aguardando.

Quando André – penetrou no gabinete do pai, o velho príncipe,
de óculos e roupão branco, traio com que não recebia
ninguém, a não ser o filho, estava sentado a sua mesa e escrevia.
Voltou-se.

– Vais-te embora? – interrogou ele, continuando a escrever. – Vim dizer-lhe
adeus.

– Dá cá um beijo, aqui. – Indicava-lhe o local. – Obrigado,
obrigado.

– Porque é que me está a agradecer? – Porque tu não
és homem para fazer amanhã o que podes fazer hoje… Não
te agarras às saias das mulheres. A tropa antes de tudo. Obrigado!
Obrigado! – Continuava a escrever e a pena ia-lhe salpicando o papel. – Se
tens seja o que for para me dizeres, fala. Posso fazer as duas coisas ao mesmo
tempo.

– Queria falar-lhe de minha mulher… Estou bastante apoquentado por ter
de a deixar entregue a si, – Que estás tu para aí a dizer? Vamos,
de que precisas? – Quando chegar a hora do parto, peço-lhe que mande
vir de Moscovo um médico-parteiro… Para que ele esteja presente nesse
momento.

O velho príncipe pousou a pena, e, como se não compreendesse,
fitou no filho um olhar severo.

– Bem sei que nada se pode fazer quando a natureza não obra por si
mesma – disse André, visivelmente perturbado. – Reconheço que
num milhão de casos deste género só um, talvez, não
corre bem, mas ela tem lá essa mania, e eu também. Temos de
acreditar que a embruxaram. Teve sonhos e tem medo.

– Hum! Hum!… – tartamudeou o velho, continuando a escrever. – Está
bem, farei o que me pedes.

Firmou, com uma larga assinatura, a carta que escrevera e depois voltou-se
bruscamente para o filho. Pôs-se a rir.

– Espetaste-te, hem?! – Que diz, meu pai? – A tua mulher – respondeu ele,
conciso e sem subterfúgios.

– Não compreendo – replicou o filho.

– E nada a fazer, meu velho. São todas a mesma coisa: não
nos podemos descasar. Não tenhas receio; não direi nada a ninguém;
mas tu sabes com o que podes contar.

Agarrou o filho com a mão ossuda e delgada, abanou-o, olhando-o,
fixamente, com as suas pupilas vivas, como se o quisesse atravessar de lado
a lado. Depois, de novo soltou uma gargalhada fria.

O filho teve um suspiro, e com isso confessava que o pai tinha adivinhado,
o velho continuou a dobrar e a lacrar a carta, manejando o lacre, o sinete
e o papel com a sua agilidade habitual.

– Nada a fazer! É uma bela mulher! Farei tudo o que for preciso,
está descansado – disse ele, continuando a sua tarefa.

André calou-se. Estava ao mesmo tempo contente e descontente de que
o pai o tivesse compreendido. O velho ergueu-se e entregou a carta ao filho.

– Ouve – disse-lhe ele. – Não te preocupes com a tua mulher. O que
se puder fazer, far-se-á. E agora ouve. Aqui tens uma carta para Mikail
Ilarionovitch. Peço-lhe aqui que te mande para onde for necessário
e não te conserve muito tempo no estado-maior: é um lugar detestável.
Diz-lhe que me lembro sempre dele e da nossa velha amizade. Depois manda-me
dizer como é que ele te recebeu. Agora anda cá.

Falava com tanta volubilidade que não acabava, sequer, a maior parte
das palavras, mas o filho estava muito habituado a, ouvi-lo. Conduziu-o até
junto de uma papeleira, abriu-a, puxou uma gaveta e tirou de lá um
caderno verde coberto pelos caracteres da sua caligrafia alongada, cerrada
e ágil.

– Naturalmente, eu morrerei antes de ti. Quero que saibas que estão
aqui os meus apontamentos. É necessário transmiti-los ao imperador
depois da minha morte. Aqui está um papel de crédito e uma carta:
é um prémio para aquele que escrever a história das campanhas
de Suvorov. Manda isto para a Academia. Aqui está o meu diário.
Lê-o depois de eu me ir embora, tens que aprender.

André não disse ao pai que ainda teria certamente muitos anos
para viver. Compreendia que o momento não era para dizer coisas dessas.

– Tudo farei, meu pai – disse ele.

– E agora adeus! – Deu-lhe a mão a beijar, e apertou-o nos braços.-
Lembra-te de uma coisa, príncipe André: se fores morto, eu,
velho, como sou, sentirei uma grande dor… – Calou-se bruscamente e continuou
em seguida numa voz firme e sonora: – Mas se eu vier a saber que tu não
te portas como filho, que és, de Nicolau Bolkonski, isso para mim será..,
uma vergonha! – rematou.

– Aí está uma coisa que meu pai podia ter evitado dizer-me
– observou o filho sorrindo.

O velho ficou calado.

– Há ainda outra coisa que lhe queria pedir – prosseguiu André.
– Se eu for morto e se me nascer um filho, não o afaste de sua casa,
e, como ontem lhe disse, deixe-o crescer a seu lado. Peço-lhe, pai.

– Não será necessário entregá-lo a tua mulher?
– disse o velho, soltando uma gargalhada.

Estavam calados em frente um do outro. O pai olhava o filho bem nos olhos
e o queixo tremia-lhe, num movimento nervoso.

– A despedida acabou.., vai! – disse repentinamente – Vai – repetiu,
numa voz forte e colérica, abrindo a porta.

– Que foi? O que aconteceu? – perguntaram as duas princesas, ao verem André
e a furtiva silhueta do velho, de roupão branco, sem cabeleira, de
óculos, com fulgurações de voz irritada. André
limitou-se a suspirar, sem responder.

– Bom – disse ele, dirigindo-se à mulher.

Pôs nesta simples palavra um acento trocista, que parecia dizer: «Chegou
agora o momento de tu fazeres as tuas choraminguices.» – Já.
André?! – exclamou a princesinha empalidecendo e olhando-o com terror.

André tomou-a nos braços. A princesa soltou um grito e caiu-lhe
desmaiada no ombro.

O príncipe André, com todo o cuidado, afastou-a, examinou
o estado da mulher e fê-la assentar, docemente, numa poltrona.

– Adeus. Maria – disse para a irmã em voz baixa; beijou-a, pegando-lhe
nas mãos, e afastou-se em passos rápidos.

A jovem princesa continuava estendida na poltrona; Mademoiselle Bourienne
aspergia-lhe a cara. A princesa Maria, enquanto amparava a cunhada, com os
seus lindos olhos rasos de lágrimas não deixava de olhar a porta
por onde o príncipe André desapareceu, traçando sobre
ele o sinal da cruz. Do gabinete vinham, como se fossem tiros de pistola,
as explosões furiosas, e muito repetidas, do velho, que se assoava
estrepitosamente. Mal André saiu, abriu-se a porta do gabinete e apareceu
uma figura severa de roupão branco.

– Foi-se embora? Bom, está bem! – disse o velho, lançando
um olhar irritado à princesinha, ainda estendida, desmaiada. Depois
abanou a cabeça, furioso, e bateu com a porta.

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