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Viagens na Minha Terra – Almeida Garrett

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Capítulo 1

Capítulo 2

Capítulo 3

Capítulo 4

Capítulo 5

Capítulo 6

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Capítulo 7

Capítulo 8

Capítulo 9

Capítulo 10

Capítulo 11

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Capítulo 12

Capítulo 13

Capítulo 14

Capítulo 15

Capítulo 16

Prólogo da 2ª edição (1846)

Os editores desta obra, vendo a popularidade extraordinária que ela
tinha alcançado quando publicada em fragmentos na Revista, entenderam
fazer um serviço às letras e à glória do seu país,
imprimindo-a agora reunida em um livro, para melhor se poder avaliar a variedade,
a riqueza e a originalidade de seu estilo inimitável, da filosofia
profunda que encerra e sobretudo o grande e transcendente pensamento moral
a que sempre tende, já quando folga e ri com as mais graves coisas
da vida, já quando seriamente discute por suas leviandades e pequenezas.

As Viagens na Minha Terra são um daqueles livros raros que só
podem ser escritos por alguém, como o autor de Camões e de Catão,
de D. Branca e do Portugal na Balança da Europa, do Auto de Gil Vicente
e do Tratado de Educação, do Alfageme e de Frei Luiz de Souza,
do Arco de Santana, da História Literária de Portugal, de Adosinda
e das Leituras históricas e de tantas produções de tão
variado gênero, possui todos os estilos e, dominando uma língua
de imenso poder, a costumou a servir-lhe e obedecer-lhe; por quem com a mesma
facilidade sobe a orar na tribuna, entra no gabinete nas graves discussões
e demonstrações da ciência — voa às mais
altas regiões da lírica, da epopéia e da tragédia,
lida com as fortes paixões do drama, e baixa às não menos
difíceis trivialidades da comédia; por quem ao mesmo tempo,
e como que mudando de natureza, pode dar-se todo às mais áridas
e materiais ponderações da administração e da
política, e redigir com admirável precisão, com uma exação
ideológica que talvez ninguém mais tenha entre nós, uma
lei administrativa ou de instrução pública, uma constituição
política ou um tratado de comércio.

Orador e poeta, historiador e filósofo, crítico e artista,
jurisconsulto e administrador, erudito e homem de Estado, religioso cultor
da sua língua e falando corretamente as estranhas — educado na
pureza clássica da antigüidade, e versado depois em todos as outras
literaturas — da meia idade, da renascença e contemporânea
— o autor das Viagens na Minha Terra é igualmente familiar com
Homero e com Dante, com Platão e com Rousseau, com Tucídides
e com Thiers, com Guizot e com Xenofonte, com Horácio e com Lamartine,
com Maquiavel e com Chateaubriand, com Shakespeare e Eurípedes, com
Camões e Calderón, com Goethe e Vírgilio, Schiller e
Sá de Miranda, Sterne e Cervantes, Fénelon e Vieira, Rabelais
e Gil Vicente, Addisson e Bayle, Kant e Voltaire, Herder e Smith, Bentham
e Cormenin, com os Enciclopedistas e com os Santos Padres, com a Bíblia
e com as tradições sânscritas, com tudo que a arte enfim
e a ciência moderna têm produzido. Vê-se isto dos seus escritos,
e especialmente se vê deste que agora publicamos apesar de composto
bem claramente ao correr da pena.

Mas ainda assim, e com isto somente, ele não faria o que faz se não
juntasse a tudo isto o profundo conhecimento dos homens e das coisas, do coração
humano e da razão humana; se não fosse, além de tudo
o mais, um verdadeiro homem do mundo, que tem vivido nas cortes com os príncipes,
no campo com os homens de guerra, nos gabinetes com os diplomáticos
e homens de Estado, no parlamento, nos tribunais, nas academias, com todas
as notabilidades de muitos países — e nos salões enfim
com as mulheres e com os frívolos do mundo, com as elegâncias
e com as fatuidades do século.

De tantas obras de tão variado gênero com que, em sua vida
ainda tão curta, este fecundo escritor tem enriquecido a nossa língua,
é esta talvez, tornamos a dizer, a que ele mais descuidadamente escreveu;
mas é também a que, em nossa opinião, mais mostra os
seus imensos poderes intelectuais, a sua erudição vastíssima,
a sua flexibilidade de estilo espantosa, uma filosofia transcendente, e por
fim de tudo, o natural indulgente e bom de um coração reto,
puro, amigo da justiça, adorador da verdade, e inimigo declarado de
todo o sofisma.

Tem sido acusado de céptico: é a acusação mais
absurda e que só denuncia, em quem a faz, ou grande ignorância
ou grande má fé. Quando o nosso autor lança mão
da cortante e destruidora arma do sarcasmo, que ele maneja com tanta força
e destridade, e que talvez por isso mesmo, cônscio do seu poder, ele
raras vezes toma nas mãos, veja-se que é sempre contra a hipocrisia,
contra os sofismas, e contra os hipócritas e sofistas de todas as cores,
que ele o faz. Crenças, opiniões, sentimentos, respeita-os sempre.
As mesmas suas ironias que tanto ferem, não as dirige nunca sobre indivíduos;
vê-se que despreza a fácil vingança, que, com tão
poderosas armas, podia tomar de inimigos que não o poupam, de invejosos
que o caluniam, e a quem, por cada dictério insulso e efêmero
com que o têm pretendido injuriar, ele podia condenar ao eterno opróbio
de um pelourinho imortal como as suas obras. Ainda bem que o não faz!
mais imortais são as suas obras, e quanto a nós, mais punidos
ficam os seus êmulos com esse desprezo do homem superior que se não
apercebe de sua malignidade insulsa e insignificante.

Voltando à acusação de cepticismo, ainda dizemos que
não pode ser céptico o espírito que concebeu e em si
achou cores com que pintar tão vivos caracteres de crenças tão
fortes como a de Catão, de Camões, de Frei Luís de Souza,
e aqui nesta nossa obra, os de Frei Dinis, de Joaninha, da Irmã Francisca.

Não analisamos agora as Viagens na Minha terra: a obra não
está ainda completa e não podia completar-se portanto o juízo:
dizemos somente o que todos dizem e o que todos podem julgar já.

A nosso rogo, e por fazer mais digna da sua reputação esta
Segunda publicação da obra, o autor prestou-se a dirigi-la ele
mesmo, corrigiu-a, aditou-a, alterou-a em muitas partes, e a ilustrou com
as notas mais indispensáveis para a geral inteligência do texto:
de modo que sairá muito melhorada agora do que primeiro se imprimiu.

Capítulo I

De como o autor deste erudito livro se resolveu a viajar na sua terra, depois
de ter viajado no seu quarto; e como resolveu imortalizar-se escrevendo estas
suas viagens. Parte para Santarém. Chega ao terreiro do Paço,
embarca no vapor de Vila Nova; e o que aí lhe sucede. A Dedução
Cronológica e a Baixa de Lisboa. Lorde Byron e um bom charuto. Travam-se
de razões os ilhavos e os Bordas-d’Água: os da calça
larga levam a melhor.

Que viaje à roda do seu quarto quem está à beira dos
Alpes, (1) de inverno, em Turim, que é quase tão frio como S.
Petersburgo — entende-se. Mas com este clima, com esse ar que Deus nos
deu, onde a laranjeira cresce na horta, e o mato é de murta, o próprio
Xavier de Maistre, que aqui escrevesse, ao menos ia até o quintal.

Eu muitas vezes, nestas sufocadas noites de estio, viajo até a minha
janela para ver uma nesguita de Tejo que está no fim da rua, e me enganar
com uns verdes de árvores que ali vegetam sua laboriosa infância
nos entulhos do Cais do Sodré. E nunca escrevi estas minhas viagens
nem as suas impressões pois tinham muito que ver! Foi sempre ambiciosa
a minha pena: pobre e soberba, quer assunto mais largo. Pois hei de dar-lho.
Vou nada menos que a Santarém: e protesto que de quanto vir e ouvir,
de quanto eu pensar e sentir se há de fazer crônica.

Era uma idéia vaga; mais desejo que tenção, que eu
tinha há muito de ir conhecer as ricas várzeas desse Ribatejo,
e saudar em seu alto cume a mais histórica e monumental das nossas
vilas. Abalam-me as instâncias de um amigo, decidem-me as tonteiras
de um jornal, que por mexeriquice quis encabeçar em desígnio
político determinado a minha visita. (2).

Pois por isso mesmo vou: pronunciei-me.

São 17 deste mês de julho, ano da graça de 1843, uma
Segunda feira, dia sem nota e de boa estréia. Seis horas da manhã
a dar em S. Paulo, e eu a caminhar para o Terreiro do Paço. Chego muito
a horas, envergonhei os mais madrugadores dos meus companheiros de viagem,
que todos se prezam de mais matutinos homens que eu. Já vou quase no
fim da praça quando oiço o rodar grave mas pressuroso de uma
carroça d’ancien régime: é o nosso chefe e comandante,
o capitão da empresa, o Sr. C. da T. que chega em estado.

Também são chegados os outros companheiros; o sino dá
o último rebate. Partimos.

Numa regata(3) de vapores o nosso barco não ganhava decerto o prêmio.
E se, no andar do progresso, se chegarem a instituir alguns ístmicos
ou olímpicos para esse gênero de carreiras — e se para
elas houver algum Píndaro ansioso de correr, em estrofes e antiestrofes,
atrás do vencedor que vai coroar de seus hinos imortais — não
cabe nem um triste minguado epodo a este cansado corredor de Vila Nova. É
um barco sério e sisudo que se não mete nessas andanças.

Assim vamos de todo o nosso vagar contemplando este majestoso e pitoresco
anfiteatro de Lisboa oriental, que é, vista de fora, a mais bela e
grandiosa parte da cidade, a mais característica, e onde, aqui e ali,
algumas raras feições se percebem, ou mais exatamente se adivinham,
da nossa velha e boa Lisboa das crônicas. Da Fundição
para baixo tudo é prosaico e burguês, chato, vulgar e sensabor
com um período da Dedução Cronológica, aqui e
ali assoprado numa tentativa ao grandioso do mau gosto, como alguma oitava
menos rasteira do Oriente.

Assim o povo, que tem sempre o melhor gosto e mais puro que essa escuma
descorada que anda ao de cima das populações, e que se chama
a si mesma por excelência a Sociedade, os seus passeios favoritos são
a Madre de Deus e o Beato e Xabregas e Marvila e as hortas de Chelas. A um
lado a imensa majestade do Tejo em sua maior extensão e poder, que
ali mais parece um pequeno mar mediterrâneo; do outro a frescura das
hortas e a sombra das árvores, palácios, mosteiros, sítios
consagrados a recordações grandes ou queridas. Que outra saída
tem Lisboa que se compare em beleza com esta? Tirado Belém, nenhuma.
E ainda assim, Belém é mais árido.

Já saudamos Alhandra, a toireira; Vila Franca, a que foi de Xira,
e depois da restauração, e depois outra vez de Xira, quando
a tal restauração caiu, como a todas as restaurações
sempre sucede e há de suceder, em ódio e execração
tal que nem uma pobre vila a quis para sobrenome.

A questão não era de restaurar nem de não restaurar,
mas de se livrar a gente de um governo de patuscos, que é o mais odioso
e engulhoso dos governos possíveis.

É a reflexão com que um dos nossos companheiros de viagem
acudiu ao princípio de ponderação que ia involuntariamente
fazendo a respeito de Vila Franca.

Mas eu não tenho ódio nenhum a Vila Franca, nem a esse famoso
círio que lá foi fazer a monarquia. Era uma coisa que estava
na ordem das coisas, e que por força havia de suceder. Este necessário
e inevitável reviramento por que vai passando o mundo, há de
levar muito tempo, há de ser contrastado por muita reação
antes de completar-se…

No entretanto, vamos acender os nossos charutos, e deixe-mos os precintos
aristocráticos da ré; à proa, que é país
de cigarro livre.

Não me lembra que Lorde Byron celebrasse nunca o prazer de fumar
a bordo. É notável o esquecimento no poeta mais embarcadiço,
mais marujo que ainda houve, e que até cantou o enjôo, a mais
prosaica e nauseante das misérias da vida! Pois num dia destes, sentir
na face e nos cabelos a brisa refrigerante que passou por cima da água
enquanto se aspiram molemente as narcóticas exalações
de um bom cigarro de Havana, é uma das poucas coisas sinceramente boas
que há no mundo.

Fumemos!

Aqui está um campino fumando gravemente o seu cigarro de papel, que
me vai emprestar lume.

— Dou-lho eu, senhor… — acode cortesmente outra figura mui
diversa, cujas feições, trajo e modos singularmente contrastam
com os do moçarabe ribatejano.

Acenderam-se os charutos, e atentamos mais devagar na companhia que estávamos.

Era um efeito notável e interessante o grupo a que nos tínhamos
chegado, e destacava pitorescamente do resto dos passageiros, mistura híbrida
de trajos e feições descaracterizadas e vulgares — que
abunda nos arredores de uma grande cidade marítima e comercial. Não
assim este grupo mais separado com que fomos topar. Constava ele de uns doze
homens, cinco eram desses famosos atletas da Alhandra, que vão todos
os domingos colher o pulverem olympicum na praça de Santana, e que,
à voz soberana e irresistível de: unha, à unha, à
cernelha!… correm a arcar com mais generosos , não mais possantes,
animais que eles, ao som das imensas palmas, e a troco dos raros pintos por
que se manifesta o sempre clamoroso e sempre vazio entusiasmo das multidões.
Voltavam à sua terra os meus cinco lutadores ainda em trajo de praça,
ainda esmurrados e cheios de glória da contenda da véspera.
Mas ao pé destes cinco e de altercação com eles —
já direi por quê — estavam seis ou sete homens que em tudo
pareciam seus antípodas.

Em vez do calção amarelo e da jaqueta de ramagens que caracterizavam
o homem do forcado, estes vestiam o amplo saiote grego dos varinos, e o tabardo
arrequifado siciliano de pano de varas. O campino, assim como o saloio, tem
o cunho da raça africana; estes são da família pelasga:
feições regulares e móveis, a forma ágil.

Ora os homens do Norte estavam disputando com os homens do Sul: a questão
fora interrompida com a nossa chegada à proa do barco. Mas um dos ílhavos
— bela e poética figura de homem — voltando-se para nós,
disse naquele seu tom acentuado.

— Ora aqui está quem há de decidir: vejam os senhores.
Eles, por agarrar um toiro, cuidam que são mais que ninguém,
que não há quem lhes chegue. E os senhores, a serem cá
de Lisboa, hão de dizer que sim. Mas nós…

— Nenhum de nós é de Lisboa: só este senhor que
aqui vem agora.

Era o C. da T. que chegava.

— Este conheço eu; este é dos nossos (bradou um homem
de forcado, assim que o viu). Isto é um fidalgo como se quer. Nunca
o vi numa ferra, isso é verdade; mas aqui de Valada a Almerim ninguém
corre mais do que ele por sol e chuva, e há de saber o que é
um boi de lei, e o que é lidar com gado.

— Pois oiçamos lá a questão.

— Não é questão — tornou o ílhavo
— mas se este senhor fidalgo anda por Almeirim, para Almeirim vamos
nós, que era uma charneca outro dia, e hoje é um jardim, benza-o
Deus! mas não foram os campinos que o fizeram, foi a nossa gente que
o sachou e plantou, e o fez o que é, e fez terra das areias da charneca.

— Lá isso é verdade.

— Não, não é! Que está forte habilidade
fazer dar trigo aos nateiros do Tejo, que é como quem semeia em manteiga.
É uma lavoura que a faz Deus por sua mão, regar e adubar e tudo:
e o que Deus não faz, não fazem eles, que nem sabem ter mão
nesses mouchões com o plantio das árvores: só lá
por cima é que algumas têm metido, e é bem pouco para
o rio que é, e as ricas terras que lhes levam as enchentes. Mas nos
, pé no barco, pé na terra, tão depressa estamos a sachar
o milho na charneca, como vimos por aí abaixo com a vara no peito,
e o saveiro a pegar na areia por não haver água… mas sempre
labutando pela vida…

— A força é que se fala — tornou o campino para
estabelecer a questão em terreno que lhe convinha. — A força
é que se fala: um homem do campo que se deita ali à cernelha
de um toiro que uma companhia inteira de varinos lhe não pegava, com
perdão dos senhores, pelo rabo!…

E reforçou o argumento com uma gargalhada triunfante. que achou eco
nos interessados circunstantes que já se tinham apinhado a ouvir os
debates.

Os ílhavos ficaram um tanto abatidos; sem perderem a consciência
de sua superioridade, mas acanhados pela algazarra.

Parecia a esquerda de um parlamento quando vê sumir-se no burburinho
acintoso das turbas ministeriais, as melhores frases e as mais fortes razões
dos seus oradores.

Mas o orador ílhavo não era homem de se dar assim por derrotado.
Olhou para os seus, como quem os consultava e animava, com um gesto expressivo,
e voltando-se a nós, com a direita estendida aos seus antagonistas:

— Então agora como é e força, quero eu saber,
e estes senhores que digam, qual é que tem mais força, se é
um toiro ou se é o mar.

— Essa agora!…

— Queríamos saber.

— É o mar.

— Pois nós que brigamos com o mar, oito a dez dias a fio numa
tormenta, de Aveiro a Lisboa, e estes que brigam uma tarde com um toiro, qual
é o que tem mais força?

Os campinos ficaram cabisbaixos; o público imparcial aplaudiu por
esta vez a oposição, e o Vouga triunfou do Tejo.

Capítulo II

Declaram-se típicas, simbólicas e míticas estas viagens.
Faz o A. modestamente o seu próprio elogio. Da marcha da civilização:
e mostra-se como ela é dirigida pelo cavaleiro da Mancha, D. Quixote,
e por seu escudeiro Sancho Pança. — Chegada à Vila Nova
da Rainha. Suplício de Tântalo. — A virtude galardão
de si mesma e sofisma de Jeremias Bentham. — Azambuja.

Essas minhas interessantes viagens hão de ser uma obra prima, erudita.
brilhante, de pensamentos novos, uma coisa digna do século. Preciso
de do dizer ao leitor, para que ele esteja prevenido; não cuide que
são quaisquer dessas rabiscaduras da moda que, com o título
de Impressões de Viagem, ou outro que tal, fatigam as imprensas da
Europa sem nenhum proveito da ciência e do adiantamento da espécie.

Primeiro que tudo, a minha obra é um símbolo… é um
mito, palavra grega, e de moda germânica, que se mete hoje em tudo e
com que se explica tudo… quanto se não sabe explicar.

É um mito porque — porque… Já agora rasgo o véu,
e declaro abertamente ao benévolo leitor a profunda idéia que
está oculta debaixo desta ligeira aparência de uma viagenzinha
que parece feita a brincar, e no fim de contas é uma coisa séria,
grave, pensada como um livro novo da feira de Leipzig, não das tais
brochurinhas dos boulevards de Paris.

Houve aqui há anos um profundo e cavo filósofo de além
Reno, que escreveu uma obra sobre a marcha da civilização, do
intelecto — o que diríamos, para nos entenderem todos melhor,
o Progresso. Descobriu ele que há dois princípios no mundo:
o espiritualista, que marcha sem atender à parte material e terrena
desta vida, com os olhos fitos em suas grandes e abstratas teorias, hirto,
seco, duro, inflexível, e que pode bem personalizar-se, simbolizar-se
pelo famoso mito do cavaleiro da mancha, D. Quixote; — o materialista,
que, sem fazer caso nem cabedal dessas teorias, em que não crê,
e cujas impossíveis aplicações declara todas utopias,
pode bem representar-se pela rotunda e anafada presença do nosso amigo
velho, Sancho Pança.

Mas, como na história do malicioso Cervantes, estes dois princípios
tão avessos, tão desencontrados, andam contudo juntos sempre,
ora um mais atrás, ora outro mais adiante, empecendo-se muitas vezes,
coadjuvando-se poucas, mas progredindo sempre.

E aqui está o que é possível ao progresso humano.

E eis aqui a crônica do passado, a história do presente, o
programa do futuro.

Hoje o mundo é uma vasta Barataria, em que domina el-rei Sancho.

Depois há de vir D. Quixote.

O senso comum virá para o milênio, reinado dos filhos de Deus!
Está prometido nas divinas promessas — como el-rei de Prússia
prometeu uma constituição; e não faltou ainda, porque,
porque o contrato não tem dia; prometeu, mas não disse quando.

Ora nesta minha viagem Tejo arriba está simbolizada a marcha do nosso
progresso social: espero que o leitor entendesse agora. Tomarei cuidado de
lho lembrar de vez em quando, porque receio muito que se esqueça.

Somos chegados ao triste desembarcadouro de Vila Nova da Rainha, que é
o mais feio pedaço de terra aluvial em que ainda pousei os meus pés.
O sol arde como ainda não ardeu este ano.

Um imenso arraial de caleças, de machinhos, de burros e arrieiros,
nos espera naquele descampado africano. É forçoso optar entre
os dois martírios da caleça, ou do macho. Do mal o menos…
seja este.

E acolá, oh, suplício de Tântalo! vejo duas possantes
e nédias mulas castelhanas jungidas a um veículo que, nestas
paragens aos pé daqueloutros, me parece mais esplêndido do que
um landau de Hyde Park, mais elegante do que um caleche de Longchamps, mais
cômodo e elástico do que o mais aéreo brislta da Princesa
Helena. E contudo — oh mágico poder das soituações!
— ele não é senão uma substancial e bem apessoada
traquitana de cortinas.

Togados manes dos antigos desembargadores, venerandas cabeleiras de anéis
e castanhola, que direis, ó respeitadas sombras, se desse limbo onde
estais esperando pela ressurreição do Pegas… e do Livro Quinto
— vedes este degenerado e espúrio sucessor vosso, em calças
largas, fraque verde, chapéu branco, gravata de cor, chicotinho de
cautchu na mão, pronto a cavalgar em mulinha de Palito Métrico
como um garraio estudantinho do segundo ano, e deitando os olhos invejosos
para esse natural próprio e adscritício modo de condução
desembargatória? Oh que direi vós! Com que justo desprezo não
olharei para tanta degradação e derrogação!

Eu comungava silenciosamente comigo nestas graves meditações,
e revolvia incertamente no ânimo a ponderosa dúvida: se o administrar
justiça direita aos povos valia a pena de andar um desembargador a
pé!… Lutava no meu ser o Sancho Pança da carne com o D. Quixote
do espírito — quando a Providência, que nos maiores apertos
e tentações não nos abandona nunca, me trouxe a generosa
oferta de um amigo e companheiro do vapor, o Sr. L.S.: era a sua invejada
carroça, e nela me deu lugar até a Azambuja.

A virtude é o galardão de si mesma, disse um filósofo
antigo; e eu não creio no famoso dito de Bentham, que sabedoria antiga
seja um sofisma. O mais moderno é o mais velho, não há
dúvida; mas o antigo que dura ainda, é porque tem achado na
experiência a confirmação que o moderno não tem.
Jeremias Bentham também fazia o seu sofisma como qualquer outro.

Vamos percorrendo lentamente aquele mal composto marachão, que poucos
palmos se eleva do nível baixo e salgadiço do solo; de inverno
não se passará sem perigo; ainda agora se não anda sem
incômodo e receio. Estamos em Vila Nova e às portas do nojento
caravançal, único asilo do viajante nesta, hoje, a mais freqüentada
das estradas do reino.

Parece-me estar mais deserto e sujo, mais abandonado e em ruínas,
este asqueroso lugarejo, desde que ali ao pé tem a estação
dos vapores, que são a comodidade, a vida, a alma do Ribatejo. Imagino
que uma aldeia de alarves nas faldas do Atlas deve ser mais limpa e cômoda.

Oh! Sancho, Sancho, nem sequer tu reinarás entre nós! Caiu
o carunchoso trono de teu predecessor, antagonista, e às vezes amo;
açoitaram-te essas nádegas para desencantar a formosa del Toboso,
proclamaram-te depois rei em Barataria, e nesta tua província lusitana
nem o paternal governo de teu estúpido materialismo pode estabelecer-se
para cômodo e salvação do corpo, já que a alma…
oh! a alma…

Falemos noutra coisa.

Fujamos depressa deste monturo. É monótona, árida e
sem frescura de árvores e estradas: apenas alguma rara oliveira mal
medrada, a longos e desiguais espaços, mostra o seu tronco raquítico
e braços contorcidos, ornados de ramúsculos doentes, em que
o natural verde-alvo das folhas é mais alvacento e desbotado que o
costume. O solo, porém, com raras exceções, é
ótimo e, a troco de pouco trabalho e insignificante despesa, daria
uma estrada tão boa como as melhores da Europa.

Dizia um secretário de Estado, meu amigo, que, para se repartir com
igualdade o melhoramento de ruas por toda a Lisboa, deviam ser obrigados os
ministros a mudar de rua e bairro todos os três meses. Quando se fizer
a lei de responsabilidade ministerial, para as calendas gregas, eu hei de
propor que cada ministro seja obrigado a viajar por este seu reino de Portugal
ao menos uma vez cada ano, como a desobriga.

Aí está a Azambuja, pequena mas não triste povoação,
com visíveis sinais de vida, asseadas e com ar de conforto as suas
casas. É a primeira povoação que dá indício
de estarmos nas férteis margens do Nilo português.

Corremos a apear-nos no elegante estabelecimento que ao mesmo tempo cumula
as três distintas funções, de hotel, de restaurant e de
café da terra.

Santo Deus! que bruxa está à porta! Que antro lá dentro!
Cai-me a pena da mão.

Capítulo III

Acha-se desapontado o leitor com a prosaica sinceridade do A. destas viagens.
O que devia ser uma estalagem nas nossas eras de literatura romântica.
— Suspende-se o exame desta grave questão para tratar em prosa
e verso, um mui difícil ponto de economia política e de moral
social. — Quantas almas é preciso dar ao diabo e quantos corpos
se têm de entregar no cemitério para fazer um rico neste mundo.
— Como se veio a descobrir que a ciência deste século era
uma grandessíssima tola. — Rei de fato e rei de direito. —
Beleza e mentira não cabem num saco. — Põe-se o A. a caminho
para o pinhal da Azambuja.

Vou desapontar decerto o leitor benévolo: vou perder, pela minha
fatal sinceridade, quanto em seu conceito tinha adquirido nos dois primeiros
capítulos desta interessante viagem.

Pois que esperava ele de mim agora, de mim que ousei declarar-me escritor
nestas eras de romantismo, século das fortes sensações,
das descrições e traços largos e incisivos que se entalham
n’alma e entram com sangue no coração?

No fim do capítulo precedente paramos à porta de uma estalagem:
que estalagem deve ser esta, hoje, no ano de 1843, às barbas de Vitor
Hugo, com o Doutro Fausto a trotar na cabeça da gente, com os Mistérios
de Paris nas mãos de todo o mundo?

Há paladar que suporte hoje a clássica posada do Cervantes
com seu mesonero gordo e grave, as pulhas dos seus arrieiros, e o mantear
de algum pobre lorpa de algum Sancho! Sancho, o invisível rei do século,
aquele por quem hoje os reis reinam e os fazedores de lei decretam e oferecem
o justo! Sancho manteado por vis muleteiros! Não é da época.

Eu coroarei de trevo a minha espada,(4)

de cenoiras, luzerna e beterrava.

Para cantar Harmódios e Aristógitons,

Que do tirano jugo vos livraram

Da ciência velha, inútil, carunchosa.

Que elevava da terra, erguia, alçava

O que no homem há do Ser divino,

E para os grandes feitos e virtudes

Lhe despegava o espírito da carne…

Não: plantai batatas, ó geração de vapor e de
pó de pedra, macadamizai estradas, fazeis caminhos de ferro, construí
passarolas de Ícaro, para andar a qual mais depressa, estas horas contadas
de uma vida toda material, maçuda e grossa como tendes feito esta que
Deus nos deu tão diferente do que a que hoje vivemos. Andai, ganha-pães,
andai; reduzi tudo a cifras, todas as considerações deste mundo
a equações de interesse corporal, comprai, vendei, agiotai.
No fim de tudo isto, o que lucrou a espécie humana? Que há mais
umas poucas dúzias de homens ricos. E eu pergunto aos economistas políticos,
aos moralistas, se já calcularam o número de indivíduos
que é forçoso condenar a miséria, ao trabalho desproporcionado,
à desmoralização, à infâmia, à ignorância
crapulosa, à desgraça invencível, à penúria
absoluta, para produzir um rico? — Que lho digam no Parlamento inglês,
onde, depois de tantas comissões de inquérito, já devia
andar orçado o número de almas(5) que é preciso vender
ao diabo, número de corpos que se tem de entregar antes do tempo ao
cemitério para fazer um tecelão rico e fidalgo como Sir Roberto
Peel, um mineiro, um banqueiro, um granjeeiro, seja o que for: cada homem
rico, abastado, custa centos de infelizes, de miseráveis.

Logo a nação mais feliz, não é a mais rica.
Logo o princípio utilitário não é a mamona da
injustiça e da reprovação. Logo…

There are more things in heaven and earth, Horatio.

Than are dreamt of in your phylosophy(6)

A ciência deste século é uma grandessíssima tola.

E, como tal. presunçosa e cheia de orgulho dos néscios.

Vamos à descrição da estalagem. Não pode ser
clássica, assobiam-me todos estes rapazes de pêra, bigode e charuto,
que fazem literatura cava e funda deste a porta do Marrare até o café
de Moscou…

Mas aqui é que me aparece uma incoerência inexplicável.
A sociedade é materialista; e a literatura, que é a expressão
da sociedade, é toda excessivamente e absurdamente e despropositadamente
espiritualista! Sancho rei de fato, Quixote rei de direito.

Pois é assim; e explica-se. — É a literatura que é
uma hipócrita; tem religião nos versos, caridade nos romances,
fé nos artigos de jornais — como os que dão esmolas para
pôr no Diário, que amparam órfãs na Gazeta, e sustentam
viúvas nos cartazes dos teatros.

E falam no Evangelho! Deve ser por escárnio. Se o lêem, hão
de ver lá que nem a esquerda deve saber o que faz a direita…

Vamos à descrição da estalagem; e acabemos com tanta
digressão.

Não pode ser clássica, está visto, a tal descrição.
— Seja romântica . — Também não pode ser.
Por que não? É pôr-lhe lá um Chourineur a amolar
um facão de palmo e meio para espatifar rês e homem, quanto encontrar,
— uma Fleur de Marie(7) para dizer e fazer pieguices com uma roseirinha
pequenina, bonitinha, que morreu, coitadinha! — e um príncipe
alemão encoberto, forte no soco britânico, imenso em libras esterlinas,
profundo em gírias de cegos e ladrões… e aí fica a
Azambuja com uma estalagem que não tem que invejar à mais pintada
e da moda neste século elegante, delicado, verdadeiro, natural!

E como eu devia fazer a descrição: bem o sei. Mas há
um impedimento fatal, invencível — igual ao daquela formosa salva
que se não deu… é que nada disso lá havia.

E eu não quero caluniar a boa gente da Azambuja. Que me não
leiam os tais, porque eu hei de viver e morrer na fé de Boileau

Rien n’est beau que le vrai

Já se diz há muitos anos que honra e proveito não cabem
num saco: eu digo que beleza e mentira também lá não
cabem: e é a mais portuguesa tradução que creio que se
possa fazer daquele imortal e evangélico hermistíquio. A maior
parte das belezas da literatura atual fazem-me lembrar aquelas formosuras
que tentavam os santos eremitas na Tebalda. O pobre de Santo Antão
ou de S. Pacômio (Pacômio é melhor aqui) ficavam embasbacados
no princípio; mas dava-lhe o coração uma pancada, olhavam-lhe
para os pés… Cruzes, maldito! Os pés não podia ele
encobrir. E ao primeiro abrenuntio do santo, dissipava-se a beleza em muito
fumo de enxofre, e ficava o diabo negro, feio e cabrum com quem é,
e sempre foi o pai da mentira.

Nada, nada, verdade e mais verdade. Na estalagem da Azambuja o que havia
era uma pobre velha a quem eu chamei e bruxa, porque enfim que havia de eu
chamar à velha suja e maltrapilha que estava à porta daquela
asquerosa casa?

Havia lá esta velha, com a sua moça mais moça, não
menos nojenta de ver que ela, e um velho meio paralítico, meio demente,
que ali estava para um canto com todo o jeito e traça de quem vem folgar
agora na taberna porque já bebeu o que havia de beber nela.

Matava-nos a sede: mas a água ali é beber quartãs.
O vinho era atroz. Limonada? Não há limões nem açúcar.
Mandou-se um próprio à tenda no fim da vila. Vieram três
limões que me pareceram de uns que pendiam, quando eu vinha a férias,
à porta do famoso botequim de Leiria.

O açúcar podia servir na última cena de M. de Pourceaugnac
muito melhor que numa limonada. Mas misturou-se tudo com a água das
sezões, bebemos, pusemo-nos em marcha, e até agora não
nos fez mal, com o ser a mais abominável, antipática e suja
beberagem que se pode imaginar.

Caminhamos na mesma ordem até chegar ao famoso pinhal da Azambuja.

Capítulo IV

De como o A. foi passando e divagando, e em que pensava e divagava ele, no
caminho da vila de Azambuja até o famoso pinhal do mesmo nome. —
Do poeta grego e filósofo Dêmades, e do poeta e filósofo
inglês Addison, da casaca de peneiros e do pálio ateniense, e
de outros importantes assuntos em que o A. quis mostrar a sua profunda erudição.
— Discute-se a matéria gravíssima se é necessário
que um ministro de Estado seja ignorante e leigarraz. — Admiráveis
reflexões de ziguezague em que se trata de re política e de
re amatoria. — Descobre-se por fim que o A. estivera a sonhar em todo
este capítulo, pede-se ao leitor que volte a folha e passe ao seguinte.

Eu darei sempre o primeiro lugar à modéstia entre todas as
belas qualidades. Ainda sobre a inocência? Ainda sim. À inocência
basta uma falta para a perder; da modéstia só culpas graves,
só crimes verdadeiros podem privar. Um acidente, um acaso podem destruir
aquela, a esta só uma ação própria, determinada
e voluntária.

Bem me lembra ainda os dois versos do poeta Dêmades que são
forte argumento de autoridade contra a minha teoria; cuidei que tinha mais
infeliz memória. Hei de pô-los aqui para que não falte
a esta grande obra das minhas Viagens o mérito da erudição,
e lhe não chamem livrinho da moda: estou resolvido a fazer minha reputação
com este livro.

De beleza e virtude é a cidadela

A inocência primeiro — e depois ela.

Mas a autoridade responde-se com autoridade, e a texto com texto. E eu trago
aqui na algibeira o meu Addison — um dos poucos livros que não
largo nunca — e atiro com o filósofo inglês ao filósofo
grego e fico triunfante: porque Addison não põe nada acima da
modéstia; e Addison, apesar da sua casaca de peneiros, é muito
maior filósofo do que foi Dêmades com a sua túnica e o
seu pálido ateniense.

O erudito e amável leitor escapará desta vez a mais citações:
compre um Spectador, que é livro sem que se não pode estar,
e veja passim.

Eu gosto, bem se vê, de ir ao encontro das objeções
que me podem fazer, lembro-as eu mesmo para que depois não me digam:
Ah! Ah! vinha a ver se pegava! Não senhor, não é o meu
gênero esse.

Francamente pois… eis aí o que poderão dizer: Addison foi
secretário de Estado, e então… Então o quê? Não
concebem um secretário de Estado filósofo, um ministro poeta,
escritor elegante, cheio de graça e de talento? Não, bem vejo
que não: têm a idéia fixa de que um ministro de Estado
há de ser por força algum sensaborão, malcriado e petulante.
Mas isto é nos países adiantados em que já é indiferente
para a coisa pública, em que povo nem príncipe lhes não
importa já, em que mão se entregam, a que cabeças se
confiam. Em Inglaterra não é assim, nem era assim no tempo de
Addison. Fossem lá à rainha Ana(8) que deixasse entrar no seu
gabinete quatro calças de coiro sem criação nem instrução,
e não mais senão só porque este sabia jogar nos fundos,
aquele tinha boas tretas para o canvassing de umas eleições,
o outro era figura importante no Freemason’s hall!

Já se vê que em nada disso há a mínima alusão
ao feliz sistema que nos rege: estou falando de modéstia e nós
vivemos em Portugal.

A modéstia, contudo, quando é excessiva e se aproxima do acanhamento,
ao que no mundo se chama falta de uso, pode ser num homem quase defeito inteiro.
Na mulher é sempre virtude, realce da beleza às formosas, disfarce
de feldade às que não o são.

Por mim, não conheço objeto mais lindo em toda a natureza,
mais feiticeiro, mais capaz de arrebatar o espírito e inflamar o coração
do que é uma jovem donzela quando a modéstia lhe faz subir o
rubor às faces e o pejo lhe carrega brandamente nas pálpebras…
Pouco lume que tenho nos olhos, pouco regular que seja o semblante, menos
airosa que seja figura, parecer-vos-á nesse momento um anjo. E anjo
é a virgem modesta, que traz no rosto debuxado sempre um céu
de virtudes… De alguma beleza sei eu cujo olhos cor da noite ou de safira
(Dialec. Poet. Vet.) cujas faces de leite e rosas, dentes de pérolas,
colo de marfim, tranças de ébano (a alusão é sortida,
há onde escolher) davam larga matéria a boas grosas de sonetos
— no antigo regime dos sonetos, e hoje inspirariam miríades de
canções descabeladas e vaporosas, choradas na harpa ou gemidas
no alaúde. Contanto que não seja lira, que é clássico,
todo o instrumento, inclusivamente a bandurra, é igual diante da lei
romântica.

Ora pois, mas a tal beleza, por certo ar alamoda, certo não sei quê
de atrevido nos olhos, de deslavado na cara e de descomposto nos ademanes,
perde toda a graça e quase a própria formosura de que a dotara
a natureza.

Vede-me aqueles lábios de carmim. Há maio florido que tão
lindo botão de rosa apresente ao alvorecer da madrugada?… Mas olhai
agora como o riso da malícia lho desfolha tão feiamente numa
desconcertada risada…

Desvaneceu-se o prestígio.

Não havia moço nem velho, homem do mundo ou sábio de
gabinete que não desse metade dos seus prazeres, dos seus livros, da
sua vida por um só beijo daquela boca. Agora talvez nem repetidos advances
lhe façam obter um namorante de profissão e ofício…
E há de pagá-lo adiantado, e por que preço!

Mas o que terá tudo isto com a jornada de Azambuja ao Cartaxo? A mais
íntima e verdadeira relação que é possível.
É que a pensar ou a sonhar nestas coisas fui eu todo o caminho, até
me achar no meio do pinhal da Azambuja.

Aí paramos, e acordei eu.

Sou sujeito a estas distrações, a este sonhar acordado. Que
lhe hei de eu fazer? Andando, escrevendo: sonho e ando, sonho e falo, sonho
e escrevo. Francamente me confesso de sonâmbulo, de soníloquo,
de… Não, fica melhor com seu ar de grego (hoje tenho a bossa helênica
num estado de tumescência pasmosa!); digamos sonílogo, sonígrafo…

A minha opinião sincera e conscienciosa é que o leitor deve
saltar estas folhas, e passar o capítulo seguinte, que é outra
casta de capítulo.

Capítulo V

Chega o A. ao pinhal da Azambuja e não o acha. Trabalha-se por explicar
este fenômeno pasmoso. Belo rasgo de estilo romântico. —
Receita para fazer literatura original com pouco trabalho. — Transição
clássica: Orfeu e o bosque de Mênalo. — Desce o A. destas
grandes e sublimes considerações para as realidades materiais
da vida: é desamparado pela hospitaleira traquitana e tem de cavalgar
na triste mula de arrieiro. Admirável choito do animal. Memória
do Marquês de F. que adorava o choito.

Este é que é o pinhal da Azambuja?

Não pode ser.

Esta, aquela antiga selva, temida quase religiosamente como um bosque druídico!
E eu que, em pequeno, nunca ouvia contar história de Pedro de Mala-Artes
que logo, em imaginação, lhe não pusesse a cena aqui
perto!… Eu que esperava topar a cada passo com a cova do Capitão
Roldão e da dama Leonarda!… Oh! que ainda me faltava perder mais
esta ilusão…

Por quantas maldições e infernos adornam o estilo dum verdadeiro
escritor romântico, digam-me, digam-me: onde estão os arvoredos
fechados, os sítios medonhos desta espessura? Pois isto é possível,
pois o pinhal da Azambuja é isto?… Eu que os trazia prontos e recortados
para os colocar aqui todos os amáveis Salteadores de Schiller, e os
elegantes facínoras de Auberge-des-Adrets, eu hei de perder os meus
chefes d’obra! Que é perdê-los isto — não
ter onde os pôr!

Sim, leitor benévolo, e por esta ocasião vou te explicar como
nós hoje em dia fazemos a nossa literatura. Já não me
importa guardar segredo; depois desta desgraça não me importa
já nada. Saberás pois, ó leitor, como nós outros
fazemos o que te fazemos ler.

Trata-se de um romance, de um drama — cuidas que vamos estudar a história,
a natureza, os monumentos, as pinturas, os sepulcros, os edifícios,
as memórias da época? Não seja pateta, senhor leitor,
nem cuide que nós o somos. Desenhar caracteres e situações
do vivo na natureza, colori-los das cores verdadeiras da história…
isso é trabalho difícil, longo, delicado, exige um estudo, um
talento, e sobretudo um tato!…

Não senhor: a coisa faz-se muito mais facilmente. Eu lhe explico.

Todo o drama e todo o romance precisa de:

Uma ou duas damas.

Um pai.

Dois ou três filhos, de dezenove a trinta anos.

Um criado velho.

Um monstro, encarregado de fazer as maldades.

Vários tratantes, e algumas pessoas capazes para intermédios.

Ora bem; vai-se aos figurinos franceses de Dumas, de Eug. Sue, de Vítor
Hugo, e recorta a gente, de cada um deles, as figuras que precisa, gruda-as
sobre uma folha de papel da cor da moda, verde, pardo, azul — como fazem
as raparigas inglesas aos seus álbuns e scraapbooks, forma com elas
os grupos e situações que lhe parece; não importa que
sejam mais ou menos disparatados. Depois vai-se às crônicas,
tiram-se um pouco de nomes e de palavrões velhos; com os nomes crismam-se
os figurões, com os palavrões iluminaram…(estilo de pintor
pintamonos). E aqui está como nós fazemos a nossa literatura
original.

E aqui está o preciosos trabalho que eu agora perdi!

Isto não pode ser! Uns poucos pinheiros raros e enfezados através
dos quais se estão quase vendo as vinhas e olivedos circunstantes!…
è o desapontamento mais chapado e solene que nunca tive na minha vida
— uma verdadeira logração em boa e antiga frase portuguesa.

E contudo aqui é que devia ser, aqui é que é, geográfica
e topograficamente falando, o bem conhecido e confrontado sítio do
pinhal da Azambuja.

Passaria por aqui algum Orfeu que, pelos mágicos poderes de sua lira,
levasse atrás de si as árvores deste antigo e clássico
Mênalo dos salteadores lusitanos.

Eu não sou muito difícil em admitir prodígios quando
não sei explicar os fenômenos por outro modo. O pinhal da Azambuja
mudou-se. Qual, de entre tantos Orfeus que a gente por aí vê
e ouve, foi o que obrou a maravilha, isso é mais difícil de
dizer. Eles são tantos, e cantam todos tão bem! Quem sabe? Juntar-se-iam,
fariam uma companhia por ações, e negociariam um empréstimo
harmônico com que facilmente se obraria então o milagre. É
como hoje se faz tudo; é como se passou o tesouro para o banco, o banco
para as companhias de confiança… por que se não faria o mesmo
com o pinhal da Azambuja?

Mas onde está ele então? Faz favor de me dizer…

Sim senhor, digo: está consolidado. E se não sabe o que isto
quer dizer, leia os orçamentos, veja a lista dos tributos, passe pelos
olhos os votos de confiança; e se depois disto, não souber aonde
e como se consolidou o pinhal da Azambuja, abandone a geografia que visivelmente
não é a sua especialidade, e deite-se a finanças, que
tem bossa; fazemo-lo eleger aí por Arcozelo ou pela cidade eterna —
é o mesmo — vai para a comiss&atildatilde;o de fazenda — depois
lorde do tesouro, ministro: é escala, não ofendia nem a rabugenta
Constituição de 38, quanto mais a Carta.

O pior é que no meios destes campos onde Tróia fora, no meio
destas areias onde se açoitavam dantes os pálidos medos do pinhal
da Azambuja, a minha querida e benfazeja traquitana abandonou-me; fiquei como
o bom Xavier de Maistre quando, a meia jornada de seu quarto, lhe perdeu a
cadeira o equilíbrio, e ele caiu — ou ia caindo, já me
não lembro bem — estatelado no chão.

Ao chão estive eu para me atirar, como criança amuada, quando
vi voltar para a Azambuja o nosso cômodo veículo, e diante de
mim a enfezada mulinha asneira que — ai triste! — tinha de ser
o meu transporte dali até Santarém.

Enfim o que há de ser, há de ser, e tem muita força.
Consolado com este tão verdadeiro quanto elegante provérbio,
levantei o ânimo à altura da situação e resolvi
fazer prova de homem forte e suportador de trabalhos. Bifurquei-me resignadamente
sobre o cílicio do esfarrapado albardão, tomei na esquerda as
impermeáveis rédeas e coiro cru, e lancei o animalejo ao seu
mais largo trote, que era um confortável e ameníssimo choito,
digno de fazer as delícias do meu respeitável e excêntrico
amigo, o Marquês de F.

Tinham a bossa, a paixão, a mania, a fúria de choitar aquele
notável fidalgo — o último fidalgo homem de letras que
deu esta terra. Mas adorava o choito o nobre Marquês. Conheci-o em Paris
nos últimos tempos da sua vida, já octogenário ou perto
disso: deixava a sua carruagem inglesa toda molas e confortos para ir passear
num certo cabriolé de praça que ele tinha marcado pelo seco
e duro movimento vertical com que sacudia a gente. Obrigou-me um dia a experimentá-lo:
era admirável. Comunicava-se da velha horsa normanda aos varais, e
doas varias à concha do carro, tão inteiro e tão sem
diminuição o choito do execrável Babieca! Nunca vi coisa
assim. O Marquês achava-lha propriedades tonipurgativas, eu classifiquei-o
de violentíssimo drástico.

Foi um dos homens mais extraordinários e o português mais notável
que tenho conhecido, aquele fidalgo.

Era feio como o pecado, elegante como um bugio, e as mulheres adoravam-no.
Filho segundo, vivia dos seus ordenados nas missões por que sempre
andou, tratava-se grandiosamente, e legou valores consideráveis por
sua morte. Imprimia uma obra sua, mandava tirar um único exemplar,
guardava-o e desanchava as formas. Não acabo se começo a contar
histórias do Marquês de F.

Fiquemos para o Cartaxo, que são horas.

Capítulo VI

Prova-se como o velho Camões não teve outro remédio
senão misturar o maravilhoso da mitologia com o do Cristianismo. —
Dá-se razão, e tira-se depois ao Padre José Agostinho.
— No meio destas dissertações acadêmico-literárias
vem o A. a descobrir que para tudo é preciso Ter f[é neste mundo.
Diz-se neste mundo, porque, quanto ao outro já era sabido. —
Os Lusiadas, o Fausto e a Divina Comédia — Desgraça do
Camões em ter nascido antes do Romantismo. — Mostra-se como a
Estige e o Cocito sempre são melhores sítios que o Inferno e
o Purgatório. — Vai o A. em procura do Marquês de Pombal,
e dá com ele nas ilhas Beatas do poeta Alceu. — Partida de uíste
entre os ilustres finados. — Compaixão do Marquês pelos
pobres homens de Ricardo Smith e J.B. Say. — Resposta dele e da sua
luneta às perguntas peralvilhas do A. — Chegada a este mundo
e ao Cartaxo.

O mais notável, e não sei se diga, se continuarei ao menos
dizer, o mais indesculpável defeito que até aqui esgravataram
os críticos e zoilos na Ilíada dos povos modernos, os imortais
Lusíadas, é sem dúvida a heterogênea e heterodoxa
mistura de teologia com a mitologia, do maravilhoso alegórico do paganismo,
com os graves símbolos do Cristianismo. A falar a verdade, e por mais
figas que a gente queira fazer ao Padre José Agostinho — ainda
assim! ver o Padre Baco revestido in pontificalibus diante de um retábulo,
não me lembra de que santo, dizendo o seu dominus vobuscum provavelmente
a algum acólito bacante ou coribante, que lhe responde o et cum spiritu
tuo!… não se pode; é um que realmente… E então aquele
famoso conceito com que ele acaba, digno da Fênix Renascida:

O falso Deus adora o verdadeiro!

Desde que entendo, que leio, que admiro Os Lusíadas, enterneço-me,
choro, ensoberbeço-me com a maior obra de engenho que apareceu no mundo,
desde a Divina Comédia até ao Fausto.

O italiano tinha em fé em Deus, o alemão no cepticismo, o
português na sua pátria. É preciso crer em alguma coisa
para ser grande — não só poeta — grande seja no
que for. Uma Brízida velha que eu tive quando era pequeno, era famosa
cronista de histórias da carochinha, porque sinceramente cria em bruxas.
Napoleão cria na sua estrela, Lafayette creu na república-rei
de Luís Fillipe; e para que ousemos também celebrare doméstica
facta, todos os nossos grandes homens ainda hoje crêem, um na Junta
do Crédito, outro nas classes inativas, outro no mestre Adonirão,
outro finalmente na beleza e na realidade do sistema constitucional que felizmente
nos rege.

Mas essas crenças são para os que se fizeram grandes com elas.
A um pobre homem o que lhe fica para crer? Eu, apesar dos críticos
ainda creio no nosso Camões; sempre cri.

E contudo, desde a idade da inocência em que tanto me divertiam aquelas
batalhas, aquelas aventuras, aquelas histórias de amores, aquelas cenas
todas, tão naturais, tão bem pintadas — até esta
fatal idade da experiência, idade prosaica em que as mais belas criações
do espírito parecem macaquices diante das realidades do mundo, e os
nobres movimentos do coração quimeras de entusiastas, até
esta idade de saudades do passado e esperanças no futuro, mas sem gozos
no presente, em que o amor da pátria (também isto será
fantasmagoria?) e o sentimento íntimo do belo me dão na leitura
dos Lusíadas outro deleite diverso mas não inferior ao que noutro
tempo me deram — eu senti sempre aquele grande defeito do nosso grande
poema; e nunca pude, por mais que buscasse, achar-lhe, justificação
não digo — nem sequer desculpa.

Mas até morrer aprender, diz o adágio: e assim é. E
também é aforismo de moral, aplicável outrossim a coisas
literárias: que para a gente achar a desculpa aos defeitos alheios,
é considerar — é pôr-se uma pessoa nas mesmas circunstâncias,
ver-se envolvido nas mesmas dificuldades.

Aqui estou eu agora dando toda a desculpa ao pobre Camões, com vontade
de o justificar, e pronto (assim são as caridades deste mundo) a sair
a campo de lança em riste e a quebrá-la com todo antagonista
que por aquele fraco o atacar. E por que será isto? Porque chegou a
minha hora; e, si parva licet componere magnis ( a bossa proeminente hoje
é a latina), aqui me acho com este meu capítulo nas mesmas dificuldades
em que o nosso bardo se viu com o seu poema.

Já preveni as observações com o texto acima: bem sei
quem era Camões e quem sou eu; mas trata-se da entalação,
que é a mesma apesar da diferença dos entalados. o Autor dos
Lusíadas viu-se entalado entre as crenças dos seu país
e as brilhantes tradições da poesia clássica que tinha
por mestra e modelo.

Não havia então românticos nem romantismo, o século
estava muito atrasado. As odes de Vítor Hugo não tinham ainda
desbancado as de Horácio; achavam-se mais líricos e mais poéticos
os esconjuros de Canídia do que os pesadelos de um enforcado no oratório;
chorava-se com as Tristes de Ovídio, porque se não lagrimejava
com as Meditações de Lamartine. Andrômaca despedindo-se
de Heitor às portas de Tróia, Príamo suplicante aos pés
do matador de seu filho, Helena lutando entre o remorso do seu crime e o amor
de Páris, não tinham sido ainda eclipsados pelas declamações
da mãe Eva às grades do paraíso terreal. O combate de
Aquiles e Heitor, das hostes argivas com as troianas, não tinha sido
metido num chinelo pelas batalhas campais dos anjos bons e anjos maus à
metralhada por essas nuvens. Dido chorando por Enéias não tinha
sido reduzida a donzela choramingas de Alfama carpindo pelo seu Manel que
vai para a Índia.

Realmente o século estava muito atrasado: Milton não se tinha
ainda sentado no lugar de Homero, Shakespeare no de Eurípedes, e Lorde
Byron acima de todos; enfim não estava ainda anglizado o mundo, portanto
a marcha do intelecto no mesmo terreno, é tudo uma ,séria.

Ora pois o nosso Camões, criador da epopéia, e — depois
de Dante — da poesia moderna, viu-se atrapalhado; misturou a sua crença
religiosa com o seu credo poético e fez, tranchons le mot, uma sensaboria.

E aqui direi eu com o vate Elmano:

Camões, grande Camões, quão semelhante

Acho teu fado ao meu quando os cotejo

Vou fazer outra sensaboria, eu, neste belo capítulo da minha obra
prima. Que remédio! Preciso falar com um ilustre finado, preciso de
evocar a sombra de um grande gênio que hoje habita com os mortos. E
aonde irei eu? Ao inferno? Espero que a divina justiça se apiedasse
dele na hora dos últimos arrependimentos. Ao purgatório, ao
empíreo? Apesar do exemplo da Divina Comédia, não me
atrevo a fazer comédias com tais lugares de cena, — e não
sei, não gosto de brincar com essas coisas.

Não lhe vejo remédio senão recorrer ao bem parado dos
Elísios, da Estige, do Cocito e seu termo: são terrenos neutros
em que se pode parlamentar com os mortos sem comprometimento sério
e…

Eis-me aí no erro de Camões — e nas unhas dos críticos:
e as zagunchadas a ferver em cima de mim, que fiz, que aconteci…

Mas, senhores, ponderem, venham cá: o que há de um homem fazer?
O Dante não sei que gíria teve que batizou Públio Vírgilio
Marão para lhe servir de cicerone nas regiões do inferno, do
paraíso e do purgatório cristão, e teve tão boa
fortuna que nem o queimou a Inquisição, nem o descompôs
a Crusca, nem sequer o mutilaram os censores, nem o perseguiram delegados
por abuso de liberdade de imprensa, nem o mandaram para os dignos pares…
Não se tinham ainda descoberto as mangações liberais
que se usam hoje: e as cartas que o povo tinha era a liberdade ganha e sustentada
à ponta de espada, com muito coração e poucas palavras,
muito patriotismo, poucas lei… e menos relatórios. Não havia
em Florença nem gazeta para louvar as tolices dos ministros, nem ministros
para pagar as tolices da gazeta.

O Dante foi proscrito e exilado, mas não se ficou a escrever, deu
catanada que se regalou nos inimigos da liberdade da sua pátria.

Quem dera cá um batalhão de poetas como aquele!

Que fosse porém um triste vate de hoje escrever no século
das luzes o que escrevia Dante no século das trevas! Os próprios
filósofos gritavam: Que escândalo! Ateus professos clamavam contra
a irreverência; gentes que não têm religião, nem
a de Mafona, bradavam pela religião: entravam a pôr carapuças
nas cabeças uns dos outros, caiam depois todos sobre o poeta, e, se
o não pudessem enforcar, pelo menos declaravam-no republicano, que
dizem eles que é uma injúria muito grande.

Nada! viva o nosso Camões e o seu maravilhoso mistifório;
é a mais cômoda invenção deste mundo; vou-me com
ela, e ralhe a crítica quanto quiser.

Quero procurar no reino as sombras não menor pessoa que o Marques
de Pombal; tenho e lhe fazer uma pergunta séria antes chegar ao Cartaxo.
E nós já vamos por entre as ricas vinhas que o circundam como
uma zona de verdura e alegria. Depressa o ramo de oiro que me abra ao pensamento
as portas fatais, — depressa a untuosa sopetarra com que hei de atirar
às três gargantas do canzarrão. Vamos…

Mas em que distrito daquelas regiões acharei eu o primeiro-ministro
de el-rei D. José? Por onde está Ixião e Tântalo,
por onde demora Sísifo e outros manganões que tais? Não,
esse é um bairro muito triste, e arrisca-se a Ter por administrador
algum escandecido que me atice as orelhas.

Nos Elísios com o pai Anquises e outros barbaças clássicos
do mesmo jaez? Eu sei? também isso não. Há de ser naquelas
ilhas bem aventuradas de que fala o poeta Alceu e onde ele pôs a passear,
por eternas verduras, as almas tiranicidas de Harmódio e Aristogíton…

Oh! esta agora!… Sebastião José de Carvalho e Melo, Conde
de Oeiras, Marquês de Pombal, de companhia com seus inimigos políticos!…
Aí é que se enganam; não há amigos nem inimigos
políticos em se largando o mando e as pretensões a ele. Ora,
passado os umbrais da eternidade, é de fé que se não
pensa mais nisso; C.J. X 1, que morreu a assinar uma portaria, já tinha
largado a pena quando chegou ali pelos Prazeres;(9) quanto mais !…

O homem há de estar nas ilhas beatas. Vamos lá…

E ei-lo ali; lá está o bom do marquês a jogar o uíste
com o Barão de Bidefeld, com o Imperador Leopoldo e com o poeta Dinis.
A partida deve ser interessante, talvez aposte essa gente toda — esses
manes todos que estão à roda; Que cara fez o marquês a
uma finadinho que lhe foi meter o nariz nas cartas! Quem havia de ser! O intrometido
de M. de Talleyrand. Estava-lhe caindo. Mas não viu nada: o nobre Marquês
sempre soube esconder o seu jogo.

A mim é que ele já me viu.

— Que diz? Ah! … sim senhor, sou português; e venho fazer
uma pergunta a V.Ex.ª, esclarecer-me sobre um ponto importante.

Deitou-me a tremenda luneta.

— Para que mandou V.Ex.ª arrancar as vinhas do Ribatejo?

Apertou a luneta no sobrolho e sorriu-se.

— Elas aí estão centuplicadas, que até já
invadiram o pinhal da Azambuja. Fez V.Ex.ª um despotismo inútil,
e agora…

— Agora quem bebe por lá todo esse vinho?

Não sabia o que havia de responder. Ele sacudiu a cabeleira de anéis,
virou-me as costas, deu o braço a Colbert, passou por pé de
Ricardo Smith e de J. Batista Say, que estavam a disputar, encolheu os ombros
em ar de compaixão, e foi-se por uma alameda muito viçosa que
ia por aqueles deliciosos jardins dentro, e sumiu-se da nossa vista.

Eu surdi cá neste mundo, e achei-me em cima da azêmola, ao
pé do grande café do Cartaxo.

Capítulo VII

Reflexões importantes sobre o Bois de Boulogne, as carruagens de molas,
Tortoni, e o café do Cartaxo. — Dos cafés em geral, e
de como são característicos da civilização de
um país. — O Alfageme. — Hecatombe imolada pelo A. —
História do Cartaxo. — Demonstra-se como a Grã-Bretanha
deveu sempre a sua força e toda a sua gl[ória a Portugal. —
Shakespeare e Laffite, Milton e Châteaux-Margaux, Nelson e o Príncipe
de Joinville. — Prova-se evidentemente que M. Guizot é a ruína
de Albion e do Cartaxo.

Voltar à meia noite do Bois de Boulogne — o bosque por excelência
, — descer, entre as nuvens de poeira, o longo estádio dos Campos
Elísios , entrever, na rápida carreira, o obelisco de Lúxor,
as árvores das Tulherias, a coluna da praça Vandome, a magnificência
heteróclita da Madalena, e enfim sentir parar, de uma sofreada magistral,
os dois possantes ingleses que nos trouxeram quase de um fôlego até
ao bulevar de Gand; aí entreabrir molemente os olhos, levantando meio
corpo dos regalados coxins de seda, e dizer: Ah! estamos em Tortoni… que
delícia um sorvete com este calor! — é seguramente, é
dos prazeres maiores desse mundo, sente-se a gente viver; é meia hora
de existência que vale dez anos de ser rei em qualquer outra parte do
mundo.

Pois acredite-me o leitor amigo, que sei alguma coisa dos sabores e dissabores
deste mundo, fie-se na minha palavra, que é de homem experimentado:
o prazer de chegar por aquele modo a Tortoni, o apear da elegante caleche
balançada nas mais suaves molas que fabricasse arte inglesa do puro
aço de Suécia, não alcança, não se compara
ao prazer e consolação da alma e corpo que eu senti ao apear-me
da minha choiteira mula à porta do grande café do Cartaxo.

Fazem idéia do que é o café do Cartaxo? Não
fazem. Se não viajam, não saem, se não vêem mundo
esta gente de Lisboa! E passam a sua vida entre o Chiado, a rua do Oiro e
o teatro de S. Carlos, como hão de alargar a esfera de seus conhecimentos,
desenvolver o espírito, chegar à altura do século?

Coroai-vos de alface, e ide jogar o bilhar, ou fazer sonetos à dama
nova, ide que não prestais para nada, meus queridos lisboetas; ou discuti
os deslavados horrores de algum melodrama velho que fugiu assobiado da Porte
Saint-Martin e veio esconder-se na rua dos Condes. Também podeis ir
aos Toiros — estão embolados, não há perigo…

Viajar?… qual viajar! até a Cova da Piedade, quando muito, em dia
que lá haja cavalinhos. Pois ficareis alfacinhas para sempre, cuidando
que todas as praças deste mundo são como a do Terreiro do Paço,
todas as ruas como a rua Augusta, todos os cafés como o do Marrare.

Pois não são, não: e o do Cartaxo menos que nenhum.

O café é uma das feições mais características
de uma terra. O viajante experimentado e fino chega a qualquer parte, entra
no café, observa-o, examina-o, estuda-o, e tem conhecido o país
em que está, o seu governo, as suas leis, os seus costumes, a sua religião.

Levem-me de olhos tapados onde quiserem, não me desvendem senão
no café; e protesto-lhes que em menos de dez minutos lhes digo a terra
em que estou se for país sublunar.

Nós entramos no café do Cartaxo, o grande café do Cartaxo,
e nunca se encruzou turco em divã de seda do mais esplêndido
café de Constantinopla, com tanto gozo de alma e satisfação
de corpo, como nós nos sentamos nas duras e ásperas tábuas
das esguias banquetas mal sarapintadas que ornam o magnífico estabelecimento
bordalengo.

Em poucas linhas se descreve a sua simplicidade clássica: será
um paralelogramo pouco maior que a minha alcova; à esquerda duas mesas
de pinho, à direita o mostrador envidraçado onde campeiam as
garrafas obrigadas de licor de amêndoa, de canela, de cravo. Pendem
do teto laboriosamente arrendados por não vulgar tesoira, os pingentes
de papel, convidando a lascivo repouso a inquieta raça das moscas.
Reina uma frescura admirável naquele recinto.

Sentamo-nos, respiramos largo, e entramos em conversa com o dono da casa,
homem de trinta a quarenta anos, de fisionomia esperta e simpática,
e sem nada de repugnante vilão ruim que é tão usual de
encontrar por semelhantes lugares da nossa terra.

— Então que novidades há por cá pelo Cartaxo,
patrão?

— Novidades! Por aqui não temos senão o que vem de Lisboa.
Aí está a Revolução de ontem…

— Jornais, meu caro amigo! Vimos fartos disso. Diga-nos alguma coisa
da terra. Que faz por cá o …

— O mestre J.P., o Alfageme?

— Como assim o Alfageme?

— Chama-lhe o Alfageme ao mestre J.P.; pois então! Uns senhores
de Lisboa que aí estiveram em casa do Sr. D. puseram-lhe esse nome,
que a gente bem sabe o que é; e ficou-lhe, que agora já ninguém
lhe chama senão o Alfageme. Mas, quanto a mim, ou ele não é
Alfageme, ou não o há de ser por muito tempo. Não é
aquele não. Eu bem me entendo.

A conversação tornava-se interessante, especialmente para mim:
quisemos aprofundar o caso.

— Muito me conta, Sr. Patrão! Com que isto de ser Alfageme,
parece-lhe que é coisa de…

— Parece-me o que é, e o que há de parecer a todo mundo.
E algumas coisas sabemos cá no Cartaxo, do que vai por ele. O verdadeiro
Alfageme diz que era um espadeiro ou armeiro, cutileiro ou coisa que o valha,
na Ribeira de Santarém; e o que foi um homem capaz, que punia pelo
povo, e que não queria saber de partidos, (10) e que dizia ele: “Rei
que nos enforque, e papa que nos excomungue, nunca há de faltar. Assim,
deixar os outros brigar, trabalhemos nós e ganhemos nossa vida”.
Mas que estrangeiros que não queria, que esta terra que era nossa e
com a nossa gente se devia governar. E mais coisas assim: e que por fim o
deram por traidor e lhe tiraram quanto tinha. Mas que lhe valeu o Condestável
e o não deixou arrasar, por era homem de bem e fidalgo às direitas.
Pois não é assim que foi?

— É assim, meu amigo. Mas então daí?

— Então daí o que se tira é que quando havia fidalgos
como o Santo Condestável também havia Alfagemes como o de Santarém.
E mais nada.

— Perfeitamente. Mas por chamaram ao mestre P. o Alfageme de Cartaxo?

— Eu lhes digo aos senhores: o homem nem era assim, nem era assado.
Falava bem, tinha sua lábia com o povo. Daí fez-se juiz, pôs
por aí suas coisas a direito. — Deus sabe as que ele entortou
também!… ganhou nome no povo, e agora faz dele o que quer. Se lhe
der sempre para bem, bom será. Os senhores não tomam nada?

O bom do homem visivelmente não queria falar mais: e não devíamos
importuná-lo. Fizemos o sacrifício do bom número de limões
que esprememos em profundas taças — vulgo, copos de canada —
e com água de açúcar, oferecemos as devidas libações
ao gênio do lugar.

Infelizmente o sacrifício não foi de todo incruento. Muitas
hecatombes de mirmidões caíram no holocausto, e lhe deram um
cheiro e sabor que não sei se agradou à divindade, mas que enjoou
terrivelmente aos sacerdotes.

Saímos a visitar o nosso bom amigo, o velho D., a honra e alegria
do Ribatejo. Já ele sabia da nossa chegada, e vinha no caminho para
nos abraçar.

Fomos dar, juntos, uma volta pela terra.

É das povoações mais bonitas de Portugal, o Cartaxo,
asseada, alegre; parece o bairro suburbano de uma cidade.

Não há aqui monumentos, não há aqui história
antiga; a terra é nova, e a sua prosperidade e crescimento datam de
trinta ou quarenta anos, desde que seu vinho começou a ter fama. Já
descaída do que foi pela estagnação daquele comércio,
ainda é contudo a melhor coisa da Borda d’Água.

Não tem história antiga, disse; mas tem-na moderna e importantíssima.

Que memórias aqui não ficaram da guerra peninsular! Que espantosas
borracheiras aqui não tomaram os mais famosos generais, os mais distintos
militares da nossa antiga e fiel aliada, que ainda então, ao menos,
nos bebia o vinho!

Hoje nem isso!… hoje bebe a jacobina zurrapa de Bordéus e as acerbas
limonadas de Borgonha. Quem tal diria da conservativa Albion! Como pode uma
leal goela britânica, rascada pelos ácidos anárquicos
daquelas vinagretas francesas, entoar devidamente o God Save the King em um
toast nacional! Como, sem Porto ou Madeira, sem Lisboa, sem Cartaxo, ousa
um súdito britânico erguer a voz, naquela harmoniosa desafinação
insular que lhe é própria e que faz parte do seu respeitável
caráter nacional — faz; não se riam: o inglês não
canta senão quando bebe… aliás quando está BEBIDO.
Nisi potus ad arma ruisse. Inverta: Nisi potus in cantum prorumpisse… E
pois, como há de ele assim bebido erguer a voz naquele sublime e tremendo
hino popular Rule Britannia!.

Bebei, bebei bem zurrapa francesa, meus amigos ingleses; bebei, bebei a peso
de oiro, essas limonadas dos burgraves e margraves de Alemanha; chamai-lhe,
para vos iludir, chamai-lhe hoc, chamai-lhe hic, chamai-lhe o hic haec hoc
todo, se vos dá gosto… que em poucos anos veremos o estado de acetato
a que há de ficar reduzido o vosso caráter nacional.

Ó gente cega a quem Deus quer perder! Pois não vedes que não
sois nada sem nós, que sem o nosso álcool, donde vos vinha espírito,
ciência, valor, ides cair infalivelmente na antiga e preguiçosa
rudeza saxônia!

Dessas traidoras praias de França donde vos vai hoje o veneno corrosivo
da vossa índole e da vossa força, não tardará
que também vos chegue outro Guilherme bastardo que vos conquiste e
vos castigue, que vos faça arrepender, mais tarde, do criminoso erro
que hoje cometeis, ó insulares sem fé, em abandonar a nossa
aliança. A nossa aliança, sim, a nossa poderosa aliança,
sem a qual não sois nada.

O que é um inglês sem Porto ou Madeira… sem Carcavelos ou
Cartaxo?

Que se inspirasse Shakespeare com Laffitte, Milton com Château-Margaux
— o chanceler Bacon que se diluísse no melhor Borgonha… e veríamos
os acídulos versinhos, os destemperados raciocininhos que faziam. Com
todas as suas dietas, Newton nunca se lembrou de beber Johannisberg: Byron
anates beberia gim, antes água do Tâmisa, ou do Pamiso, do que
essas escorreduras das áreas de Bordéus.

Tirai-lhe o Porto aos vossos almirantes, e ninguém mais teme que torneis
a ter outro Nelson. Entra nos planos do Príncipe de Joinville fazer-vos
beber da sua zurrapa; são tantos pontos de partido que lhe dais no
seu jogo.

É M. Guizot quem perde a Inglaterra com sua aliança; e também
perde o Cartaxo. Por isso eu já não quero nada com os doutrinários.

Há doze anos tornou o Cartaxo a figuras conspicuamente na história
de Portugal. Aqui, nas longas e terríveis lutas da última guerra
de sucessão, esteve muito tempo o quartel general do Marquês
de Saldanha.

Alguns ditirambos se fizeram; alguns ecos das antigas canções
báquicas do tempo da guerra peninsular ainda acordaram ao som dos hinos
constitucionais.

Mas o sistema liberal, tirada a época das eleições,
não é grande coisa para a indústria vinhateira, dizem.
Eu não o creio, porém, e tenho minhas boas razões, que
ficam para outra vez.

Capítulo VIII

Saída do Cartaxo.— A charneca. Perigo iminente em que o A. se
acha de dar em poeta e fazer versos.— Última revista do imperador
D. Pedro ao exército liberal. – Batalha de Almoster.— Waterloo.
— Declara o A. solenemente que não é filósofo e
chega à ponte da Asseca.

Eram dadas cinco da tarde, a calma declinava, montamos a cavalo, e cortamos
por entre os viçosos pâmpanos que são a glória
e a beleza do Cartaxo; as mulinhas tinham refrescado e tomado ânimo;
breve, nos achamos em plena charneca.

Bela e vasta planície! Desafogada dos raios do Sol, como ela se desenha
aí no horizonte tão suavemente! que delicioso aroma selvagem
que exalam estas plantas, acres e tenazes de vida, que a cobrem, e que resistem
verdes e viçosas a um sol português de julho!

A doçura que mete na alma a vista refrigerante de uma jovem seara
do Ribatejo nos primeiros dias de abril, ondulando lascivamente com a brisa
temperada da Primavera, — a amenidade bucólica de um campo minhoto
de milho, à hora da rega, por meados de agosto, a ver-se-lhe pular
os caules com a água que lhe anda por pé, e à roda as
carvalheiras classicamente desposadas com a vide coberta de racimos pretos
— são ambos esses quadros de uma poesia tão graciosa e
cheia de mimo, que nunca a dei por bem traduzida nos melhores versos de Teócrito
ou de Virgílio, nas melhores prosas de Gessner ou de Rodrigues Lobo.

A majestade sombria e solene de um bosque antigo e copado, o silêncio
e escuridão de suas moitas mais fechadas, o abrigo solitário
de suas clareiras, tudo é grandioso, sublime, inspirador de elevados
pensamentos. Medita-se ali por força; isola-se a alma dos sentidos
pelo suave adormecimento em que eles caem… e Deus, a eternidade —
as primitivas e inatas idéias do homem – ficam únicas
no seu pensamento…

É assim. Mas um rochedo em que me eu sente ao pôr do sol na
gandra erma e selvagem, vestida apenas de pastio bravo, baixo e tosquiado
rente pela boca do gado — diz-me coisas da terra e do céu que
nenhum outro espetáculo me diz na natureza. Há um vago, um indeciso,
um vaporoso naquele quadro que não tem nenhum outro.

Não é o sublime da montanha, nem o augusto do bosque, nem o
ameno do vale. Não há aí nada que se determine bem, que
se possa definir positivamente. Há a solidão que é uma
idéia negativa…

Eu amo a charneca.

E não sou romanesco. Romântico, Deus me livre de o ser —
ao menos, o que na algaravia de hoje se entende por essa palavra.

Ora a charneca dentre Cartaxo e Santarém, àquela hora que a
passamos, começava a ter esse tom, e a achar-lhe eu esse encanto indefinível.

Sentia-me disposto a fazer versos… a quê? Não sei.

Felizmente que não estava só; e escapei de mais essa caturrice.
Mas foi como se os fizesse, os versos, como se os estivesse fazendo, porque
me deixei cair num verdadeiro estado poético de distração,
de mudez — cessou-me a vida toda de relação, e não
sentia existir senão por dentro.

De repente acordou-me do letargo uma voz que bradou: — "Foi aqui!…
aqui é que foi, não há dúvida."

— Foi aqui o quê?

— A última revista do imperador.

— A última revista! Como assim a última revista! Quando?
Pois?…

Então caí completamente em mim, e recordei-me, com amargura
e desconsolação, dos tremendos sacrifícios a que foi
condenada esta geração, Deus sabe para quê — Deus
sabe se para expiar as faltas de nossos passados, se para comprar a felicidade
de nossos vindouros…

O certo é que ali com efeito passara o imperador D. Pedro a sua última
revista ao exército liberal. Foi depois da batalha de Almoster, uma
das mais lidadas e das mais ensangüentadas daquela triste guerra.

Toda a guerra civil é triste.

E é difícil dizer para quem mais triste, se para o vencedor
ou para o vencido.

Ponham de parte questões individuais, e examinem de boa fé:
verão que, na totalidade de cada facção em que a Nação
se dividiu, os ganhos, se os houve para quem venceu, não balançam
os padecimentos, os sacrifícios do passado, e menos que tudo, a responsabilidade
pelo futuro…

Eu não sou filósofo. Aos olhos do filósofo, a guerra
civil e a guerra estrangeira, tudo são guerras que ele condena —
e não mais uma do que a outra… a não ser Hobbes o dito filósofo,
o que é coisa muito diferente.

Mas não sou filósofo, eu: estive no campo de Waterloo, sentei-me
ao pé do Leão de bronze sobre aquele monte de terra amassado
com o sangue de tantos mil, vi – e eram passados vinte anos –
vi luzir ainda pela campina os ossos brancos das vítimas que ali se
imolaram a não sei quê… Os povos disseram que à liberdade,
os reis que à realeza… Nenhuma delas ganhou muito, nem para muito
tempo com a tal vitória…

Mas deixemos isso. Estive ali, e senti bater-me o coração com
essas recordações, com essas memórias dos grandes feitos
e gentilezas que ali se obraram.

Porque será que aqui não sinto senão tristeza?

Porque lutas fratricidas não podem inspirar outro sentimento e porque…

Eu moía comigo só estas amargas reflexões, e toda a
beleza da charneca desapareceu diante de mim.

Nesta desagradável disposição de ânimo chegamos
à ponte da Asseca.

Capítulo IX

Prolegômenos dramático-literários, que muito naturalmente
levam, apesar de algum rodeio, ao retrospecto e reconsideração
do capítulo antecedente. — Livros que não deviam ter títulos,
e títulos que não deviam ter livro. — Dos poetas deste
século. Bonaparte, Rotschild e Sílvio Pélico. —
Chega-se ao fim destas reflexões e à ponte da Asseca. —
Tradução portuguesa de um grande poeta. — Origem de um
ditado. — Junot na ponte da Asseca. — De como o A. deste livro
foi jacobino desde pequeno. — Enguiço que lhe deram. —
A Duquesa de Abrantes. — Chega-se enfim ao Vale de Santarém.

Vivia aqui há coisa de cinqüenta para sessenta anos, nesta boa
terra de Portugal, um figurão esquisitíssimo que tinha inquestionavelmente
o instinto de descobrir assuntos dramáticos nacionais — ainda,
às vezes, a arte de desenhar bem o seu quadro, de lhe agrupar, não
sem mérito, as figuras: mas ao pô-las em ação,
ao colori-las ao fazê-las falar… boas noites! era sensaboria irremediável.

Deixou uma coleção imensa de peças de teatro que ninguém
conhece, ou quase ninguém, e que nenhuma sofreria, talvez, representação;
mas rara é a que não poderia ser arranjada e apropriada à
cena.

Que mina tão rica e fértil para qualquer mediano talento dramático.
Que belezas e portuguesas coisas se não podem extrair dos treze volumes
— são treze volumes e grandes! — do teatro de Ênio
Manuel de Figueiredo! Algumas dessas peças, com bem pouco trabalho,
com um diálogo mais vivo, um estilo mais animado, fariam comédias
excelentes.

Estão-me a lembrar estas.

O Casamento da Cadeia — ou talvez se chame outra coisa, mas o assunto
é este: comédia cujos caracteres são habilmente esboçados,
funda-se naquela nossa antiga lei que fazia casar na prisão os que
assim se supunha poderem reparar certos danos de reputação feminina.

O Fidalgo de sua casa, sátira mui graciosa de um tão comum
vínculo nosso.

As duas educações, belo quadro de costumes: são dois
rapazes, ambos estrangeiramente educados, um francês, outro inglês,
nenhum português. É eminentemente cômico, frisante, ou,
segundo agora se diz à moda, “palpitante de atualidade”.

O Cioso, comédia já remoçada da antiga comédia
de Ferreira e que em si tem os germes da mais rica e original composição.

O Avaro dissipador, cujo s[ó título mostra o engenho e invenção
de quem tal assunto concebeu: assunto ainda não tratado por nenhum
de tantos escritores dramáticos de nação alguma, e que
é todavia um vulgar ridículo, todos os dias encontrado no mundo.

São muitas mais, não fica nestas as composições
do fertilíssimo escritor que, passadas pelo crivo de melhor gosto,
e animadas sobretudo no estilo, fariam um razoável repertório
para acudir à mingua dos nossos teatros.

Um dos mais sensabores porém, a que vulgarmente se haverá
talvez pela mais sensabor, mas que a mim mais me diverte pela ingenuidade
familiar e simpática de seu tom magoado e melancolicamente chocho,
é a que tem por título Poeta em anos de prosa.

E foi por esta, foi por amor desta que eu me deixei cair na digressão
dramático-literária do princípio deste capítulo;
pegou-se-me à pena porque se me tinha pregado na cabeça; e ou
o capítulo não saía, ou ela havia de sair primeiro.

Poeta em anos de prosa! Ó Figueiredo, Figueiredo, que grande homem
não foste tu, pois imaginaste esse título que só ele
em si é um volume! Há livros, e conheço muitos, que não
deviam ter título, nem o título é nada neles.

Faz favor de me dizer o de que servem o que significa o Judeu errante posto
no frontispício desse interminável e mercatório romance
que aí anda pelo mundo, mais errante, mais sem fim, mais imorredoiro
que o seu protótipo?

E há títulos também que não deviam ter livro,
porque nenhum livro é possível escrever que os desempenhe como
eles merecem.

Poeta em anos de prosa é um desses.

Eu não leio nenhuma das raras coisas que hoje se escrevem verdadeiramente
belas , isto é, simples, verdadeiras, e por conseqüência
sublimes, que não exclame com sincero pesadume cá de dentro:
Poeta em anos de prosa!

Pois este é o século para poetas? Ou temos nós poetas
para este século?…

Temos sim, eu conheço três: Bonaparte, Sílvio Pélico
e o Barão de Rotschild.

O primeiro fez a sua Ilíada com a espada, o segundo coma paciência,
o último com o dinheiro.

São os três agentes, as três entidades, as três
divindades da época.

OU cortar com Bonaparte, ou comprar com Rotschild, ou sofrer e ter paciência
com Sílvio Pélico.

Tudo o que fizer doutra poesia — e doutra prosa também —
é tolo…

Vieram-me estas mui judiciosas reflexões a propósito do capítulo
antecedente desta minha obra-prima; e lancei-as aqui para instrução
e edificação do leitor benévolo. Acabei com elas quando
chegamos à ponte da Asseca.

Esquecia-me de dizer que daqueles três grandes poetas só um
está traduzido em português — o Rotschild não é
literal a tradução, agalegou-se e ficou muito suja de erros
de imprensa, mas como não há outra…

Ora donde veio esse nome de Asseca? Algures daqui perto deve de haver sítio,
lugar ou coisa que o valha, com o nome de Meca; e daí talvez o admirável
rifão português que ainda não foi bem examinado como devia
ser, e que decerto encerra algum grande ditame de moral primitiva: andou por
Seca (Asseca?) e Meca e Olivais de Santarém, Os tais Olivais ficam
logo adiante. É uma etimologia como qualquer outra.

A ponte da Asseca corta uma várzea imensa que há de ser um
vasto paul de inverno: ainda agora está a dessangrar-se em água
por toda a parte.

É notável na história moderna este sítio. Aqui
num recontro com os nossos foi Junot gravemente ferido na cara. Il ne sera
plus beau garçon, disse o parlamentário francês que veio
depois da ação, tratar, creio eu, de troca de prisioneiros ou
de coisa semelhante. Mas enganou-se o parlamentário; Junot ainda ficou
muito guapo e gentil-homem depois disso.

Tenho pena de nunca ter visto o Junot nem o Maneta, as duas primeiras notabilidades
que ouvi aclamar com tais e cujos nomes conheci… Engano-me; conheci primeiro
o nome de Bonaparte. E lembra-me muito bem que nunca me persuadi que ele fosse
o monstro disforme e horroroso que nos pintavam frades e velhas naquele tempo.
Imaginei sempre que, para excitar tantos ódios e malquerenças,
era necessário que fosse um bem grande homem.

Desde pequeno que fui jacobino, já se vê: e de pequeno me custou
caro. Levei bons puxões de orelhas de meu pai por comprar na feira
de S. Lázaro, no Porto, em vez de gaitinhas ou de registos de santos
ou das outras bugigangas que os mais rapazes compravam… não imaginam
o quê… um retrato de Bonaparte.

Foi enguiço, diria uma senhora do meu conhecimento que acreditou
neles, foi enguiço que ainda não se desfez e que toda a vida
me tem perseguido.

Quem me diria quando, por esse primeiro pecado político da minha
infância, por esse primeiro tratamento duro e — perdoe-me a respeitada
memória de meu santo pais! — injustíssimo, que me trouxe
o mero instinto das idéias liberais, que me diria que eu havia de ser
perseguido por elas toda a vida! que apenas saído da puberdade havia
de ir a essa mesma França, à pátria dessas idéias
com que a minha natureza simpatizava sem saber por quê, buscar asilo
e guarida?

Não vi já quase nenhum daqueles que tanto desejara conhecer;
as ruínas do grande Império estavam dispersas; os seus generais
mortos, desterrados, ou trajavam interesseiros e cobardes as librés
do vencedor…

De todas as grandes figuras dessa época, a que melhor conheci e tratei
foi uma senhora, tipo de graça, de amabilidade e de talento. Pouco
foi o nosso trato, mas quanto bastou para me encantar, para me formar no espírito
um modelo de valor e merecimento feminino que veio a me fazer muito mal.

Custa depois a encher aquela altura a que se marcou…

Eis aqui como eu fiz esse conhecimento.

Inda o estou vendo, coitado! o pobre do C. do S., nobre, espirituoso, cavalheiro,
fazendo-se perdoar todos os seus prejuízos de casta, que tinha como
ninguém, por aquela polidez superior e afabilidade elegante que distingue
o verdadeiro fidalgo (estilo antigo); inda o estou vendo, já sexagenário,
já mais que ci-devant jeune homme, o pesoaço entalado na inflexível
gravata, os pés pegando-se-lhe, como os de Ovídio, ao limiar
da porta — não que lhos prendessem saudades, senão que
lhos paralisava a caquexia incipiente — mas o espírito jovem
a reagir e a teimar.

— Vamos! — disse ele — hoje estou bom, sinto-me outro,
quero apresentá-lo a Madame de Abrantes . Está tão velha!
Isto de mulheres não são como nós, passam muito depressa.

E o desgraçado tremiam-lhe as pernas e sufocava-o a tosse.

Tomamos uma citadine, e fomos com efeito à nova e elegante rua chamada,
não impropriamente, a rua de Londres, onde achamos rodeada de todo
o esplendor do seu ocaso aquela formosa estrela do Império.

Não quero dizer que era uma beleza, longe disso. Nem bela, nem moça,
nem airosa de fazer impressão era a Duquesa de Abrantes. Mas em meia
hora de conversação, de trato, descobriam-se-lhe tantas graças,
tanto natural, tanta amabilidade, um complexo tão verdadeiro e perfeito
da mulher francesa, a mulher mais sedutora do mundo, que involuntariamente
se dizia a gente no seu coração: — Como se está
bem aqui!

Falamos de Portugal, de Lisboa, do Império, da restauração,
da revolução de julho (isto era em 1831), de M. de Lafayette,
de Luís Filipe, de Chateaubriand — o seu grande amigo dela —
do Sacré Coeur e das suas elegantes devotas (11) — falamos artes,
poesia, política… e eu não tinha ânimo para acabar de
conversar.

Benévolo e paciente leitor, o que eu tenho decerto ainda é
consciência, um resto e consciência: acabemos com estas digressões
e perenais divagações minhas. Bem vejo que te deixei parado
à minha espera no meio da ponte da Asseca. Perdoa-me por quem és,
demos de espora às mulinhas, e vamos que são horas.

Cá estamos num dos mais lindos e deliciosos sítios da terra:
o vale de Santarém, pátria dos rouxinóis e das madressilvas,
cinta de faias belas e de loureiros viçosos. Disto é que não
tem Paris, nem França, nem terra alguma do ocidente senão a
nossa terra, e vale bem por tantas, tantas coisas que nos faltam.

Capítulo X

Vale de Santarém. — Namora-se o A. de uma janela que vê
por entre umas árvores. — Conjeturas várias a respeito
da dita janela. — Semelhança do poeta com a mulher namorada,
e inquestionável inferioridade do homem que não é poeta.
— Os rouxinóis. Reminiscência de Bernadim Ribeiro e das
suas Saudades. — De como o A. tinha quase completo os eu romance, menos
um vestido branco e uns olhos pretos. — Saem verdes os olhos com grande
admiração e pasmo seu. — Verificam-se as conjeturas sobre
a misteriosa janela. — Da menina dos rouxinóis. — Censura
das damas muito para temer, a crítica dos elegantes muito para rir.
— Começa o primeiro episódio dessa odisséia.

O vale de Santarém é um destes lugares privilegiados pela
natureza, sítios amenos e deleitosos em que as plantas, o ar, a situação,
tudo está numa harmonia suavíssima e perfeita: não há
ali nada grandioso nem sublime, mas há uma como simetria de cores,
de tons, de disposição em tudo quanto se vê e se sente,
que não parece senão que a paz, a saúde, o sossego do
espírito e o repouso do coração devem viver ali, reinar
ali um reinado de amor e benevolência. As paixões más,
os pensamentos mesquinhos, os pesares e as vilezas da vida não podem
senão fugir para longe. Imagina-se por aqui o Éden que o primeiro
homem habitou com a sua inocência e com a virgindade do seu coração.

À esquerda do vale, e abrigado do norte pela montanha que ali se
corta quase a pique, está um maciço de verdura do mais belo
viço e variedade. A faia, o freixo, o álamo, entrelaçam
os ramos amigos; a madressilva, a musqueta penduram de um a outro suas grinaldas
e festões; a congossa, os fetos, a malva-rosa do valado vestem e alcatifam
o chão.

Para mais realçar a beleza do quadro, vê-se por entre um claro
das árvores a janela meio aberta de uma habitação antiga
mas não dilapidada — com certo ar de conforto grosseiro, e carregada
na cor pelo tempo e pelos vendavais do sul a que está exposta. A janela
é larga e baixa; parece-me mais ornada e também mais antiga
que o resto do edifício que todavia mal se vê…

Interessou-me aquela janela.

Quem terá o bom gosto e a fortuna de morar ali?

Parei e pus-me a namorar a janela.

Encantava-me, tinha-me ali como num feitiço.

Pareceu-me entrever uma cortina branca… e um vulto por detrás.
Imaginação decerto! Se o vulto fosse feminino!… era completo
o romance.

Como há de ser belo ver o pôr o sol daquela janela!…

E ouvir cantar os rouxinóis!…

E ver raiar uma alvorada de maio!…

Se haverá ali quem a aproveite, a deliciosa janela? … quem aprecie
e saiba gozar todo o prazer tranqüilo, todos os santos gozos de alma
que parece que lhe andam esvoaçando em torno?

Se for homem é poeta; se é mulher está namorada.

São os dois entes mais parecidos da natureza, o poeta e a mulher
namorada; vêem, sentem pensam, falam como a outra gente não vê,
não sente não pensa nem fala.

Na maior paixão, no mais acrisolado afeto do homem que não
é poeta, entre sempre o seu tanto de vil prosa humana: é liga
sem que não se lavra o mais fino do seu oiro. A mulher não;
a mulher apaixonada deveras sublima-se. idealiza-se logo, toda ela é
poesia, e não há dor física, interesse material, nem
deleites sensuais que a façam descer ao positivo da existência
prosaica.

Estava eu nestas meditações, começou um rouxinol a
mais linda e desgarrada cantiga que há muito tempo me lembra de ouvir.

Era ao pé da dita janela!

E respondeu-lhe logo outro do lado oposto; e travou-se entre ambos um desafio
tão regular em estrofes alternadas tão bem medidas, tão
acentuadas e perfeitas, que eu fiquei todo dentro do meu romance, esqueci-me
de tudo o mais.

Lembrou-me o rouxinol de Bernardim Ribeiro, o que se deixou cair na água
de cansado.

O arvoredo, a janela, os rouxinóis… àquela hora, o fim de
tarde… o que faltava para completar o romance?

Um vulto feminino que viesse sentar-se àquele balcão —
vestido de branco — oh! branco por força… a frente descaída
sobre a mão esquerda, o braço direito pendente, os olhos alçados
ao céu… De que cor os olhos? Não sei, que importa! É
amiudar muito demais a pintura, que deve ser a grandes e largos traços
para ser romântica, vaporosa, desenhar-se no vago da idealidade poética.

— Os olhos, os olhos… — disse eu, pensando já alto,
e todo no meu êxtase — os olhos… pretos.

— Pois eram verdes!

— Verdes os olhos… dela, do vulto na janela?

— Verdes como duas esmeraldas orientais, transparentes, brilhantes,
sem preço.

— Quê! Pois realmente?… É gracejo isso, ou realmente
há ali uma mulher, bonita, bonita, e?…

Ali não há ninguém — ninguém que se nomeie
hoje, mas houve… oh! houve um anjo, um anjo, que deve estar no céu.

— Bem dizia eu que aquela janela…

— É a janela dos rouxinóis…

— Que lá estão a cantar.

— Estão, esses lá estão ainda como há
dez anos — os mesmos ou outros, mas a menina dos rouxinóis foi-se
e não voltou.

— A menina dos rouxinóis! Que história é essa?
Pois deveras tem uma história aquela janela?

— É um romance todo inteiro, todo feito como dizem os franceses,
e conta-se em duas palavras.

— Vamos a ele. A menina dos rouxinóis, menina com os olhos
verdes! Deve ser interessantíssimo. Vamos à história
já.

— Pois vamos. Apeemo-nos e descansemos um bocado.

Já se vê que este diálogo passava entre mim e outro
dos nossos companheiros de viagem.

Apeamo-nos com efeito, sentamo-nos, e eis aqui a história da menina
dos rouxinóis, como ela se contou.

É o primeiro episódio da minha odisséia: estou com
medo de entrar nele, porque dizem as damas e os elegantes da nossa terra que
o português não é bom para isto, que em francês
que há outro não sei quê…

Eu creio que as damas que estão mal informadas, e sei que os elegantes
que são uns tolos; mas sempre tenho meu receio, porque enfim, enfim,
deles me rio eu: mas poesia ou romance, música ou drama de que as mulheres
não gostem, é porque não presta.

Ainda assim, belas e amáveis leitoras, entendamo-nos; o que eu vou
contar não é um romance, não tem aventuras enredadas,
peripécias, situações e incidentes raros; é uma
história simples e singela, sinceramente contada e sem pretensão.

Acabemos aqui o capítulo em forma de prólogo; e a matéria
do meu conto para o seguinte.

Capítulo XI

Trata-se do único privilégio dos poetas que também os
filósofos quiseram tirar, mas não lhes foi concedido; aos romancistas
sim. — Exemplo de Aristóteles e de Anacreonte. — O A.,
tendo declarado no capítulo nono desta obra que não era filósofo,
agora confessa, quase solenemente, que é poeta, e pretende manter-se,
como tal, em seu direito.— De como S. M. El-Rei de Dinamarca tinha menos
juízo do que Yorick, seu bobo. — Doutrina deste. Funda nela o
A. o seu admirável sistema de fisiologia e patologia transcendente
do coração. Por uma dedução apertada e cerrada
da mais constrangente lógica vem a dar-se no motivo por que foi concedido
aos poetas o direito indefinido de andarem sempre namorados.— Aplicam-se
todas estas grandes teorias à posição atual do A. no
momento de entrar no prometido episódio no capítulo antecedente.—
Modéstia e reserva delicada o obrigam a duvidar da sua qualificação
para o desempenho: pede votos às amáveis leitoras. Decide-se
que a votação não seja nominal, e porquê. —
Dido e a mana Anica. — Entra-se enfim na prometida história.
— De como a velha estava à porta a dobar, e embaraçando-se-lhe
a meada, chamou por Joaninha, sua neta.

Este é o único privilégio dos poetas: que até
morrer podem estar namorados. Também não lhes conheço
outro. A mais gente tem as suas épocas na vida, fora das quais lhes
não é permitido apaixonarem-se. Pretenderam acolher-se ao mesmo
benefício os filósofos, mas não lhes foi consentido pela
rainha Opinião, que é soberana absoluta e juiz supremo de que
se não apela nem agrava ninguém.

Anacreonte cantou, de cabelos brancos, os seus amores, e não se estranhou.
Aristóteles mal teria a barba ruça quando foi daquele seu último
namoro por que ainda hoje lhe apouqüentam a fama.

Ora eu filósofo seguramente não sou, já o disse; de
poeta tenho o meu pouco, padeci, a falar a verdade, meus ataques assaz agudos
dessa moléstia, e bem pudera desculpar-me com eles de certas fragilidades
de coração… Mas não senhor, não quero desculpar-me
como quem tem culpa, senão defender-me como quem tem razão e
justiça por si.

Estou, com o meu amigo Yorick, o ajuizadíssimo bobo de el-rei de Dinamarca,
o que alguns anos depois ressuscitou em Sterne com tão elegante pena,
estou sim. "Toda a minha vida" diz ele "tenho andado apaixonado
já por esta já por aquela princesa, e assim hei de ir, espero,
até morrer, firmemente persuadido que se algum dia fizer uma ação
baixa, mesquinha, nunca há de ser senão no intervalo de uma
paixão à outra: nesses interregnos sinto fechar-se-me o coração,
esfria-me o sentimento, não acho dez réis que dar a um pobre…
por isso fujo às carreiras de semelhante estado; e mal me sinto aceso
de novo, sou todo generosidade e benevolência outra vez".

Yorick tem razão, tinha muito mais razão e juízo que
seu augusto amo el-rei de Dinamarca. Por pouco mais que se generalize o princípio,
fica indisputável, inexcepcionável para sempre e para tudo.
O coração humano é como o estômago humano, não
pode estar vazio, precisa de alimento sempre: são e generoso só
as afeições lho podem dar; o ódio, a inveja e toda a
outra paixão má é estímulo que só irrita
mas não sustenta. Se a razão e a moral nos mandam abster destas
paixões, se as quimeras filosóficas, ou outras, nos vedarem
aquelas, que alimento dareis ao coração, que há de ele
fazer? Gastar-se sobre si mesmo, consumir-se… Altera-se a vida, apressa-se
a dissolução moral da existência, a saúde da alma
é impossível.

O que pode viver assim, vive para fazer mal ou para não fazer nada.

Ora o que não ama, que não ama apaixonadamente, seu filho se
o tem, sua mãe se a conserva, ou a mulher que prefere a todas, esse
homem é o tal, e Deus me livre dele.

Sobretudo que não escreva: há de ser um maçador terrível.
Talvez seja este o motivo da indefinida permissão que é dada
aos poetas de andarem namorados sempre. O romancista goza do mesmo foro e
tem as mesmas obrigações. É como o privilégio
de desembargador que tiravam dantes os fidalgos, quando ser desembargador
valia alguma coisa… e tanta coisa!

Como hei de eu então, eu que nesta grave Odisséia das minhas
viagens tenho de inserir o mais interessante e misterioso episódio
de amor que ainda foi contado ou cantado, como hei de eu fazê-lo, eu
que já não tenho que amar neste mundo senão uma saudade
e uma esperança — um filho no berço e uma mulher na cova?…

Será isto bastante? Dizei-o vós, ó benévolas
leitoras, pode com isto só alimentar-se a vida do coração?

— Pode sim.

— Não pode, não.

— Estão divididos os sufrágios: peço votação.

— Nominal?

— Não, não.

— Porquê?

— Porque há muita coisa que a gente pensa e crê e diz
assim a conversar, mas que não ousa confessar publicamente, professar
aberta e nomeadamente no mundo…

Ah! sim… ele é isso? Bem as entendo, minhas senhoras: reservemos
sempre uma saída para os casos difíceis, para as circunstâncias
extraordinárias. Não é assim?

Pois o mesmo farei eu.

E posto que hoje, faz hoje um mês, em tal dia como hoje, dia para sempre
assinalado na minha vida, me aparecesse uma visão, uma visão
celeste que me surpreendeu a alma por um modo novo e estranho, e do qual não
podia dizer decerto como a rainha Dido à mana Anica:

Reconheço o queimar da chama antiga
Agnosco veteris vestigia flammae;

posto que a visão passou e desapareceu… mas deixou gravada na alma
a certeza de que… Posto que seja assim tudo isto, a confidência não
passará daqui, minhas senhoras: tanto basta para se saber que estou
suficientemente habilitado para cronista da minha história, e a minha
história é esta.

Era no ano de 1832, uma tarde de verão como hoje calmosa, seca, mas
o céu puro e desabafado. Á porta dessa casa entre o arvoredo,
estava sentada uma velhinha bem passante dos setenta, mas que o não
mostrava. Vestia uma espécie de túnica roxa, que apertava na
cintura com um largo cinto de couro preto, e que fazia ressair a alvura da
cara e das mãos longas, descarnadas, mas não ossudas como usam
de ser mãos de velhas; toucava-se com um lenço da mais escrupulosa
brancura, e posto de um jeito particular a modo de toalha de freira; um mandil
da mesma brancura, que tinha no peito e que afetava, não menos, a forma
de um escapulário de monja, completava o estranho vestuário
da velha. Estava sentada numa cadeira baixa do mais clássico feitio:
textualmente parecia a que serviu de modelo a Rafael para o seu belo quadro
da Madonna della Sedia.

Como nota histórica e ilustração artística, seja-me
permitido juntar aqui em parêntesis que, não há muito,
vi em casa de um sapateiro remendão, em Lisboa, no Bairro Alto, uma
cadeira tal e qual; torneados piramidais, simples, sem nobreza, mas elegantes.

Tornemos à velhinha.

Estava ela ali sentada na dita cadeira, e diante de si tinha uma dobadoira,
que se movia regularmente com o tirar do fio que lhe vinha ter às mãos
e enrolar-se no já crescido novelo.

Era o único sinal de vida que havia em todo esse quadro. Sem isso,
velha, cadeira, dobadoira, tudo pareceria uma graciosa escultura de Antônio
Ferreira (12) ou um daqueles quadros tão verdadeiros do morgado de
Setúbal.

O movimento bem visível da dobadoira era regular, e respondia ao movimento
quase imperceptível das mãos da velha. Era regular o movimento,
mas durava um minuto e parava, depois ia seguindo outros dois, três
minutos, tornava a parar: e nesta regularidade de intermitências se
ia alternando como o pulso de um que treme sezões.

Mas a velha não tremia, antes se tinha muito direita e aprumada: o
parar do seu lavor era porque o trabalho interior do espírito dobrava,
de vez em quando, de intensidade, e lhe suspendia todo o movimento externo.
Mas a suspensão era curta e mesurada; reagia a vontade, e a dobadoira
tornava a andar.

Os olhos da velha é que tinham uma expressão singular: voltada
para o poente, não os tirou dessa direção nem os inclinava
de modo algum para a dobadoira que lhe ficava um pouco mais à esquerda.
Não pestanejavam, e o azul de suas pupilas, que devia ter sido brilhante
como o das safiras, parecia desbotado e sem lume.

O movimento da dobadoira estacou agora de repente, a velha poisou tranqüilamente
as mãos e o novelo no regaço, e chamou para dentro da casa:

— Joaninha?

Uma voz doce, pura, mas vibrante, destas vozes que se ouvem rara vez, que
retinem dentro da alma e que não esquecem nunca mais, respondeu de
dentro:

— Senhora? Eu vou, minha avó, eu vou.

— Querida filha!… Como ela me ouviu logo! Deixa, deixa: vem quando
puderes. É a meada que se me embaraçou.

A velha era cega, cega de gota serena, e paciente, resignada como a providência
misericordiosa de Deus permite quase sempre que sejam os que neste mundo destinou
à dura provança de tão desconsolado martírio.

Capítulo XII

De como Joaninha desembaraçou a meada da avó e do mais que
aconteceu. — Que casta de rapariga era Joaninha. — Dá o
A. insigne prova de ingenuidade e boa fé confessando uma grave senão
do seu ideal. Insiste porém que é um adorável defeito.
— Em que se parece uma mulher desanelada com um Sansão tosquiado.
— Pasmosas mostruosidades da natureza que desmentem o credo velhos dos
peralvilhos. — Os olhos verdes de Joaninha. — Religião
dos olhos pretos estrenuamente professada pelo A. Perigo em que ele se acha
à vista de uns olhos verdes. — De como estando a avó e
a neta, a conversar muito de mano a mano, chega Frei Dinis e interrompe a
conversação. — Quem era Frei Dinis .

— Aqui estou, minha avó: é a sua meada?… Eu lha endireito.
— disse Joaninha saindo de dentro, e com os braços abertos para
a velha. Apertou-a neles com inefável ternura, beijou-a muitas vezes,
e tomando-lhe o novelo das mãos num instante desembaraçou o
fio e lho tronou a entregar.

A velha sorria com aquele sorriso satisfeito que exprime os tranqüilos
gozos de alma, e que parecia dizer:

— Como eu sou feliz ainda, apesar de velha e de cega! Bendito sejais
meu Deus.

Esta última frase, esta benção de um coração
agradecido que espira suavemente para o céu como sobe do altar o fumo
do incenso consagrado, esta última frase transbordou-lhe e saiu articulada
dos lábios.

— Bendito seja Deus, minha filha, minha Joaninha, minha querida neta.
E Ele te abençoe também, filha!

— Sabe que mais, minha avó? basta de trabalhar hoje; são
horas de merendar.

— Pois merendemos.

Joaninha foi dentro da casa, trouxe uma banquinha redonda, cobriu-a com
uma toalha alvíssima, pôs em cima fruta, pão queijo, vinho,
chegou-se para o pé da velha, tirou-lhe o novelo da mão e arredou
a dobadoira. A velha comeu alguns bagos de um cacho doirado que a neta lhe
escolheu e pôs nas mãos, bebeu um trago de vinho, e ficou calada
e quieta, mas já sem a mesma expressão de felicidade e contentamento
sossegado que ainda agora lhe luzia no rosto.

As animadas feições de Joaninha refletiam simpaticamente a
mesma alteração.

Joaninha não era bela, talvez nem galante sequer no sentido popular
e expressivo que a palavra tem em português, mas era o tipo de gentileza,
o ideal da espiritualidade. Naquele rosto, naquele corpo de dezesseis anos,
havia por dom natural e por uma admirável simetria de proporções
toda a elegância nobre, todo o desembaraço modesto, toda a flexibilidade
graciosa que a arte, o uso e a conversação da corte e da mais
escolhida companhia vêm a dar a algumas raras e privilegiadas criaturas
no mundo.

Mas nesta foi a natureza que fez tudo, ou quase tudo, e a educação
nada ou quase nada.

Poucas mulheres são muito mais baixas, e ela parecia alta: tão
delicada, tão élancés era a forma airosa de seu corpo.

E não era o garbo seco e aprumado da perpendicular miss inglesa que
parece fundida de uma só peça; não, mas flexível
e ondulante como a hástea jovem da árvore que é direta
mas dobradiça, forte da vida de toda a seiva com que nasceu, e tenra
que a estala qualquer vento forte.

Era branca, mas não desse branco importuno das loiras, nem do branco
terso, duro, marmóreo das ruivas — sim daquela modesta alvura
de cera que se ilumina de um pálido reflexo de rosa de Bengala.

E doutras rosas, destas rosas-rosas que denunciam toda a franqueza de um
sangue que passa livre pelo coração e corre à sua vontade
por artérias em que os nervos não dominam, dessas não
as havia naquele rosto; rosto sereno como é sereno o mar em dia de
calma, porque dorme o vento… Ali dormiam as paixões.

Que se levante a mais ligeira brisa, basta o seu macio bafejo para encrespar
a superfície espelhada do mar.

Sussurre o mais ingênuo e suave movimento de alma no primeiro acordar
das paixões, e verão como se sobressaltam os músculos
agora tão quietos daquela face tranqüila.

O nariz ligeiramente aquilino; a boca pequena e delgada, não cortejava
nem desdenhava o sorriso, mas a sua expressão natural e habitual era
uma gravidade singela que não tinha a menor aspereza nem doutorice.

Há umas certas boquinhas gravezinhas e espremidinhas pela doutorice
que são a mais aborrecidinha coisa e a mais pequinha que Deus permite
fazer às suas criaturas fêmeas.

Em perfeita harmonia de cor, de forma e de tom com a fina gentileza destas
feições, os cabelos de um castanho tão escuro que tocava
em preto, caíam de um lado e outro da face, em três longos, desiguais
e mal enrolados canudos, cuja ondada espiral se ia relaxando e diminuindo
para a extremidade, até lhe tocarem no colo quase lisos.

Em estilo de arte — no estilo da primeira e da mais bela das belas
artes, a toilette — este é um defeito, bem sei.

Que votos, que novenas se não fazem a S. Barômetro nas vésperas
de um baile para lhe pedir uma atmosfera seca e benigna que deixe conservar,
até à quarta contradança ao menos, a preciosa obra de
carapito e ferro quente, de macáçar e mandolina que tanto trabalho
e tanto tempo, tantos sustos e cuidados custou!

Bem sei pois que é defeito, é, será… mas que adorável
defeito! Que deliciosas imagens que excita de abandono — passe o galicismo
— de confiança, de absoluta e generosa renúncia a todo
o capricho, de perfeita e completa abdicação de toda a vontade
própria!

Em geral, as mulheres parecem ter no cabelo a mesma fé que tinha
Sansão: o que nele ia em lhos cortando, cuidam elas que se lhes vai
lhos desanelando? Talvez; e eu não estou longe de o crer: canudo inflexível,
mulher inflexível.

Os peralvilhos negam a existência do tal carnudo in rerum natura,
dizem que é como a ave fênix que nasceu de nossos avós
não saberem grego.(13) Eu não digo tal, porque tenho visto descuidar-se
a natureza em pasmosas monstruosidades.

Enfim, suspendamos, sem o terminar, o exame desta profunda e interessante
questão. Fica adiada para um capítulo ad hoc, e voltemos à
minha Joaninha.

Caíam dum lado e de outro da sua face gentil aqueles graciosos anéis;
e o resto do cabelo, que era muito, ia entrançar-se e enrolar-se com
a singela elegância abaixo da coroa de uma cabeça pequena, estreita
e do mais perfeito modelo.

As sobrancelhas, quase pretas também, desenhavam-se numa longa curva
de extrema pureza; as pestanas longas e asseadas faziam sombra na altura da
face.

Os olhos porém — singular capricho da natureza, que no meo
de toda esta harmonia quis lançar uma nota de admirável discordância.
Como poderoso e ousado maestro que, no meio das frases mais clássicas
e deduzidas da sua composição, atira de repente com um som no
meio do ritmo musical… os diletantes arrepiam-se, os professores benzem-se;
mas aqueles cujos ouvidos lhes levam ao coração a música
e não à cabeça, esses estremecem de admiração
e entusiasmo… Os olhos e Joaninha eram verdes… não daquele verde
descorado e traidor da raça felina, não daquele verde mau e
destingido que não é senão azul imperfeito, não,
eram verdes-verdes, puros e brilhantes como esmeraldas do mais subido quilate.

São os mais e mais fascinantes olhos que há.

Eu, que professo a religião dos olhos pretos, que nela nasci e nela
espero morrer… que alguma rara vez que me deixei inclinar para a herética
pravidade do olho azul, sofri o que é muito bem feito que sofra todo
o renegado… eu firme e inabalável, hoje mais que nunca, nos meus
princípios, sinceramente persuadido que fora deles não há
salvação, eu confesso todavia que uma vez, uma única
vez que vi dois dos tais olhos verdes, fiquei alucinado, senti abalar-se pelos
fundamentos o meu catolicismo, fugi escandalizado de mim mesmo, e fui retemperar
minha fé vacilante, na contemplação das eternas verdades,
que só e unicamente se encontram aonde está toda a fé
e toda a crença… nuns olhos sinceros e lealmente pretos.

Joaninha porém tinha os olhos verdes; e o efeito desta rara feição
naquela fisionomia à primeira vista tão discordante —
era em verdade pasmosa. Primeiro fascinava, alucinava, depois fazia uma sensação
inexplicável e indecisa que doía e dava prazer ao mesmo tempo;
por fim, pouco a pouco, estabelecia-se a corrente magnética tão
poderosa, tão carregada, tão incapaz de solução
de continuidade, que toda a lembrança de outra coisa desaparecia, e
toda a inteligência e toda a vontade eram absorvidas.

Resta só acrescentar — e fica o retrato completo, — um
simples vestido azul escuro, cinto e avental preto, e uns sapatinhos com as
fitas trançadas em coturno. O pé breve e estreito, o que se
adivinhava de perna admirável.

Tal era a ideal e espiritualíssima figura que em pé, encostada
à banca onde acabava de comer a boa da velha, contemplava, naquele
rosto macerado e apagado, a indizível expressão de tristeza
que ele pouco a pouco ia tomando e que toda se refletia, como disse, no semblante
da contempladora.

A velha suspirou profundamente, e fazendo como um esforço para se
distrair de pensamentos que a afligiam, buscou incertamente com as mãos
o novelo da sua meada:

— O meu novelo, filha: não posso estar sem fazer nada, faz-me
mal.

— Conversemos , avó.

— Pois conversemos, mas dá-me o meu novelo. Não sei
o que é, mas quando não trabalho eu, trabalha não sei
o que em mim que me cansa ainda mais. Bem dizem que a ociosidade é
o pior lavor.

Joaninha deu-lhe o novelo e pôs-lhe a dobadoira a jeito.

A velha sentiu o que quer que fosse na mão, levou-a à boca
e pareceu beijá-la, depois disse:

— Bem vi, Joaninha!

— O quê, minha avó? Que viu?

— Vi, filha, vi… sem ser com os olhos que Deus me cerrou para sempre
— louvado seja Ele por tudo! — vi, sentindo esta lágrima
tua que me caiu na mão, e que já cá está no peito
porque a bebi, Joana. Ó filha, já! É muito cedo para
começar, deixa isso para mim que estou costumada: mas tu, tu com dezesseis
anos e nenhum desgosto!

— Nenhum, avó! E estamos sozinhas nós duas neste mundo,
minha avó nesse estado, eu nesta idade, e…

— E Deus no céu para tomar conta em nós… Mas que é?
Olha Joana: eu sinto passos na estrada, vê o que é.

— Não vejo ninguém.

— Mas oiço eu… Espera… é Frei Dinis, conheço-lhe
os passos.

Mal a velha acabou de pronunciar este nome, surdiu, de trás de umas
oliveiras que ficam na volta da estrada, da banda de Santarém, a figura
seca, alta e um tanto curvada de um religioso franciscano que, abordoado em
seu pau tosco, arrastando as suas sandálias amarelas e tremendo-lhe
na cabeça o seu chapéu alvadio, vinha em direção
para elas.

Era Frei Dinis com efeito, o austero guardião de S. Francisco de
Santarém.

Capítulo XIII

Dos frades em geral. — O frade moralmente considerado, socialmente
e artisticamente. — Prova-se que é muito mais poético
o frade que o barão. — Outra vez D. Quixote e Sancho Pança.
— Do que seja o barão, sua classificação e descrição
lineana. — História do Castelo do Chucherumelo. — Erro
palmar de Eugênio Sue; mostra-se que os jesuítas não são
a cólera-morbo, e que é preciso refazer o Judeu Errante. —
De como o frade não entendeu o nosso século nem o nosso século
ao frade. — De como o barão ficou em lugar do frade, e do muito
que nisso perdemos. — Única voz que se ouve no atual deserto
da sociedade; os barões a gritar contos de réis. — Como
se contam e como se pagam os tais contos. — Predileção
artística do A. pelo frade: confessa-se e explica-se esta predileção.

Frades… Frades… Eu não gosto e frades. Como nós os vimos
ainda os deste século, como nós os entendemos hoje, não
gosto deles, não os quero para nada, moral e socialmente falando.

No ponto de vista artístico porém o frade faz muita falta.

Nas cidades, aquela figuras graves e sérias com os seus hábitos
talares, quase todos pitorescos e alguns elegantes, atravessando as multidões
de macacos e bonecas de casaquinha esguia e chapelinho de alcatruz que distinguem
a peralvilha raça européia — cortavam a monotonia do ridículo
e davam fisionomia à população.

Nos campos o efeito era ainda muito maior; eles caracterizavam a paisagem,
poetizavam a situação mais prosaica de monte ou de vale; e tão
necessárias, tão obrigadas figuras eram em muito desses quadros,
que sem elas o painel não é já o mesmo.

Além disso o convento no povoado e o mosteiro no ermo animavam, amenizavam,
davam alma e grandeza a tudo; eles protegiam as árvores, santificavam
as fontes, enchiam a terra de poesia e de solenidade.

O que não sabem nem podem fazer os agiotas barões que os substituíram.

É muito mais poético o frade que o barão.

O frade era, até certo ponto, o Dom Quixote da sociedade velha.

O barão é, em quase todos os pontos, o Sancho Pança
da sociedade nova.

Menos na graça…

Porque o barão é o mais desgracioso e estúpido animal
da criação.

Sem excetuar a família asinina que se ilustra com individualidades
tão distintas como o Ruço do nosso amigo Sancho, o asno da Pucela
de Orleans e outros.

O barão (onagrus-baronis de Linn, l’âne baron de Buf.)
é uma variedade monstruosa engendrada na burra de Balaão, pela
parte essencialmente judaica e usurária de sua natureza, em coito danado
com o urso Martinho do Jardim das Plantas, pela parte franquinótica
sordidamente revolucionária de seu caráter.

O barão é pois usualmente revolucionário, e revolucionamente
usurário.

Por isso é zebrado de riscas monárquico-democráticas
por todo o pêlo.

Este é o barão verdadeiro e puro-sangue; o que não
tem estes caracteres é espécie diferente, de que aqui não
se trata.

Ora, sem sair dos barões e tornando aos frades eu digo: que nem eles
compreenderam o nosso século, nem nós o compreendemos a eles…

Por isso brigamos muito tempo, afinal vencemos nós, e mandamos os
barões a expulsá-los da terra. No que fizemos uma sandice como
nunca se fez outra. O barão mordeu no frade, devorou-o … e escouceou-nos
a nós depois.

Como havemos agora de matar o barão?

Porque este mundo e a sua história é a história do
“castelo de Churumelo”. Aqui está o cão que mordeu
no gato, que matou o rato, que roeu a corda, etc. etc.: vai sempre assim seguindo…

Mas o frade não nos compreendeu a nós, por isso morreu, e
nós não compreendemos o frade, por isso fizemos os barões
de que havemos de morrer.

São a moléstia deste século; são eles, não
os jesuítas, a cólera morbo da sociedade atual, os barões.
O nosso amigo Eugênio Sue errou de meio a meio no Judeu Errante que
precisa refeito.

Ora o frade foi quem errou primeiro em nos não compreender a nós,
ao nosso século, às nossas inspirações e aspirações:
com o que falsificou sua posição, isolou-se da vida social,
fez da sua morte uma necessidade, uma coisa infalível e sem remédio.
Assustou-se com a liberdade que era sua amiga, mas que o havia de reformar,
e uniu-se ao despotismo que o não amava senão relaxado e vicioso,
porque de outro modo não lhe servia nem o servia.

Nós também erramos em não entender o desculpável
erro do frade, em lhe não dar outra direção social, e
evitar assim os barões, que é muito mais daninho bicho e mais
roedor.

Porque, desenganem-se, o mundo sempre assim foi e há de ser. Por
mais belas teorias que se façam, por mais constituições
que se comece, o status in statu forma-se logo: ou com frades ou com barões
ou com pedreiros-livres, se vai pouco a pouco organizando uma influência
distinta, quando não contrária, às influências
manifestas e aparentes do grande corpo social. Esta é a oposição
natural do Progresso, o qual tem a sua oposição como todas as
coisas sublunares; esta corrige saudavelmente, às vezes, e modera sua
velocidade, outras a empece com demasia e abuso, mas enfim é uma necessidade.

Ora eu, que sou ministerial do Progresso, antes queria a oposição
dos frades que a dos barões. O caso estava em saber conter e aproveitar.

O Progresso e a liberdade perdeu, não ganhou.

Quando me lembra tudo isto, quando vejo os conventos em ruínas, os
egressos a pedir esmola e os barões de berlinda, tenho saudades dos
fardes — não dos frades que foram, mas dos que podiam ser.

E sei que me não enganam poesias; que eu reajo fortemente com uma
lógica inflexível contra as ilusões poéticas em
se tratando de coisas graves.

E sei que me não namoro de paradoxos, nem sou destes espíritos
de contradição desinquieta que suspiram sempre pelo que foi,
e nunca estão contentes com o que é.

Não, senhor: o frade, que é patriota e liberal na Irlanda,
na Polônia, no Brasil, podia e devia sê-lo entre nós; e
nós ficávamos muito melhor do que estamos com meia dúzia
de clérigos de requiem para nos dizer missas; e com duas grosas de
barões, não para a tal oposição salutar, mas para
exercer toda a influência moral e intelectual da sociedade — porque
não há de outra cá.

E senão digam-me: onde estão as universidades, e o que faz
essa que há, senão dar o seu grauzito de bacharel em leis e
em medicina? O que escreve ela, o que discute, que princípios tem,
que doutrinas professa, quem sabe ou ouve dela senão algum eco tímido
e acanhado do que noutra parte se faz ou diz?

Onde estão as academias?

Que palavra poderosa retine nos púlpitos?

Onde esta a força da tribuna?

Que poeta canta tão alto que o oiçam as pedras brutas e os
robres duros desta selva materialista a que os utilitários nos reduziram?

Se excetuarmos o débil clamor da imprensa liberal já meio
esganada da polícia, não se ouve no vasto silêncio deste
ermo senão a voz dos barões gritando contos de réis.

Dez contos de réis por um eleitor!

Mais duzentos contos pelo tabaco!

Três mil contos para a conversão de um anfiguri!

Cinco mil contos para as estradas dos aeronautas!

Seis mil contos para isto, dez mil contos para aquilo!

Não tardam a contar por centenas de milhares.

Contar a eles não lhes custa nada.

A quem custa é a quem paga para todos esses balões de papel
— a terra e a indústria

Este capítulo deve ser considerado como introdução
ao capítulo seguinte, em que entra em cena Frei Dinis, o guardião
de S. Francisco de Santarém.

Já me disseram que eu tinha o gênio frade, que não podia
fazer conto, drama. romance sem lhe meter o meu fradinho.

O Camões tem um frade: Frei José Índio;

A Dona Branca três, Frei Soeiro, Frei Lopo e S. Frei Gil — faz
quatro.

A Adosinda tem um ermitão, espécie de frade — cinco;

Gil Vicente tem outro — isto é, verdadeiramente não
tem senão meio frade, que é André de Resende, de mais
a mais, pessoa muda — cinco e meio;

O Alfageme três quartos de frade, Froilão Dias, chibato da
Ordem de Malta — seis frades e um quarto;

Em Frei Luís de Souza, tudo são frades; vale bem nesta computação,
os seus três, quatro, meia dúzia de frades — são
já doze e quarto;

Alguns, não eu, querem meter nesta conta o Arco de Santana, em que
há bem dois fardes e um leigo;

E aqui tenho eu às costas nada menos que quinze frades e quarto.

Com este Frei Dinis é um convento inteiro.

Pois senhores, não sei que lhes faça; a culpa não é
minha. Desde mil cento e tantos que começou Portugal, até mil
oitocentos trinta e tantos que uns dizem que ele se restaurou, outros que
o levou a breca, não sei o que se passasse ou pudesse passar nesta
terra, coisa alguma pública ou particular, em que o frade não
entrasse.

Para evitar isto, não há senão usar da receita que
vem formulada no capítulo 5 desta obra.

Faça-o quem gostar; eu não, que não quero nem sei.

Capítulo XIV

Emendado enfim de suas distrações e divagações,
prossegue o A. diretamente com a história prometida. — De como
Frei Dinis deu a manga a beijar à avó e à neta, e do
mais que entre eles se passou. — Ralha o frade com a velha, e começa
a descobrir-se onde a história vai ter.

Este capítulo não tem divagações, nem reflexões,
nem considerações de nenhuma espécie, vai direto e sem
se distrair, pela sua história adiante.

Frei Dinis chegava ao pé das duas mulheres, e disse:

— Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!

Joana adiantou-se alguns passos a beijar-lhe a manga. Ele acrescentou:

— A benção de Deus te cubra, filha, e a de nosso padre
S. Francisco!

— Benedicite, padre guardião! — disse a velha inclinando-se,
meia levantada da cadeira.

Em nome do Senhor! amém — respondeu o frade aproximando-se,
e chegando o braço ao alcance de lho ela beijar; — Ora aqui estou,
minha irmã; que me quer? E como vai isto por cá? Vamo-nos confortando,
tendo paciência, e sofrendo com os olhos no Senhor.

— Já os não tenho senão para ele, padre.

— Ah, ah! irmão Francisca, sempre esse pensamento, sempre essa
queixa! Tenho-a repreendido tanta vez e não se emenda.

— Eu não me queixei, meu padre. Deus sabe que não me
queixo… ao menos não por mim.

— Pois por quem?

— Ó padre!

— Irmã Francisca, tenho medo de a entender. Eu não conheço
as afeições da carne nem lido com os fracos pensamentos do mundo.
Sou frade, minha irmã, sou um que já não é do
número dos vivos, que vesti esta mortalha para não ser deles,
que a vesti num tempo em que a mofa e o desprezo são o único
patrimônio do frade, em que o escárnio, a derrisão, o
insulto — o pior e o mais cruel de todos os martírios —
são a nossa púnica esperança. Eu quis ser frade, fiz-me
frade no meio e tudo isto; já velho e experimentado no mundo, farto
de o conhecer, e certo do que me espera — a mim e à profissão
que abracei. Que quer de um homem que assim se resolveu a cortar por quanto
prende a humanidade a esta miserável vida da terra, para não
viver senão das esperanças da outra? Eu vesti este hábito
para isto. O seu irmão, o seu para que o vestiu? É um divertimento,
é um capricho, é uma comédia com Deus? Rasgue-o depressa,
vista-se das galas do mundo, não aperte com a paciência divina,
trajando por fora o saco da penitência e trazendo o coração
por entro desapertado de todo o cilício e mortificação.

A velha com as mãos postas, a face alevantada e os apagados olhos
para o céu, oferecia a Deus todo o amargor daquela austeridade que
não cuidava merecer nem lhe parecia entender. Joaninha, que insensivelmente
se fora aproximando da avó e a tinha como amparada por trás
com um dos seus braços, firmava a outra mão nas costas da cadeira
e cravava fita no frade a vista penetrante e cheia de luz. A expressão
do seu rosto era indefinível: irisava-lho, distinta mas promiscuamente,
um misto inextricável de entusiasmo e desanimação, de
fé e de incredulidade, de simpatia e aversão.

Dissera que naqueles olhos verdes e naquele rosto mal corado estava o tipo
e o símbolo das vacilações do século.

— Padre! — tornou a velha com sincera humildade na voz e no
gesto: — se o mereci, castigai-me. Deus, que me vê e me ouve,
bem sabe que o digo em toda a verdade do meu coração, e há
de perdoar-me porque sou fraca e mulher.

— Pois aos fracos não é que Ele disse: Toma a tu cruz
e segue-me? Quem a obrigou a fazer os votos que fez?

— É verdade, padre, é verdade: bem sei o que prometi,
que me voltei a Deus de alma e corpo, que me não pertenço, que
nem das minhas afeições posso dispor, mas…

— Mas o quê? Irmã Francisca, a Deus não se engana.
Os seus votos não foram feitos num mosteiro, nem proferidos num altar
no meio das solenidades da igreja, mas já lho tenho dito, no foro da
consciência, na presença de Deus, ligam-na tanto ou mais do se
o fossem . Abjure-os se quiser; nenhuma lei, nenhuma força humana a
constrange. Diga-mo por uma vez, desengane-me, e eu não torno aqui.

— Oh, por compaixão, padre! pelas chagas de Cristo! Mas um
pergunta só, uma só, e eu prometo não pensar, não
falar mais em… Onde está ele?

— Joana, retire-se.

Joaninha apertou a avó com ambos os braços; e sem dizer uma
palavra, sem fazer um só gesto, lentamente e silenciosamente se retirou
para dentro de casa.

—E esta, padre? — disse a velha, sem esperar a resposta à
primeira pergunta que com tanta ânsia fizera — e esta, também
dela me hei de separar, também hei de renunciar a ela?

— Esta é uma inocente, e enquanto o for…

— Enquanto o for! A minha Joana é um anjo.

— Blasfêmia, blasfêmia! E o Senhor a não castigue
por ela. Joana é boa e temente a Deus: esperemos que ele a conserve
da sua mão. O outro…

— Que é feito dele, padre? Oh, diga-mo, e eu prometo…

— Não prometa senão o que pode cumprir. Seu neto está
com esses desgraçados que vieram das ilhas, é dos que desembarcaram
no Porto.

— Ó filho da minha alma! que não torno a abraçar-te…

— Não decerto; vencedores ou vencidos, toda a comunhão,
toda a possibilidade de união acabou entre nós e estes homens.
Nós temos obrigação de os destruir, eles o seu único
desejo é exterminar-nos.

— Meu Deus! meu Deus! pois a isto somos chegados? Pois já não
há misericórdia no céu nem na terra!

— A misericórdia de Deus cansou-se; a da terra não sei
onde está nem onde esteve nunca. Os fracos dão sacrilegamente
este nome à sua relaxação.

— Pois é relaxação desejar a paz, querer a união,
suplicar a indulgência? Não nos manda Deus perdoar todas as nossa
dívidas, amar os nossos inimigos?

— Os nossos sim, os d’Ele não.

— Tende compaixão de mim, Senhor!

— Se as suas aflições são as da carne e do sangue,
se são pensamentos da terra, como desgraçadamente vejo que são,
mulher fraca e de pouco ânimo, console-se, que para mim é claro
e seguro que estes homens hão de vencer.

— Quais homens?

— Esses inimigos do altar e da verdade, esses homens desvairados pelas
especiosas doutrinas do século. Esperam muito, prometem muito, estão
em todo o vigor das suas ilusões. E nós, nós carregamos
com o desengano de muitos séculos, com os pecados de trinta gerações
que passaram, e com a inaudita corrupção do presente… nós
havemos de sucumbir. Os templos hão de ser destruídos, os seus
ministros proscritos, o nome de Deus blasfemado à vontade nesta terra
maldita.

— Pois tão perdidos, tão abandonados da mão de
Deus são eles todos… todos?

— Todos. E que cuida, irmã? que são melhores os nossos,
esses que se dizem nossos? que há mais fé na sua crença,
mais verdade na sua religião? Ó santo Deus!

— Faz-me tremer, padre!

— E para tremer é. A impiedade e a cobiça entraram em
todos os corações. Duvidar é o único princípio,
enriquecer o único objeto de toda essa gente. Liberais e realistas,
nenhum tem fé: os liberais ainda têm esperança; não
lhe há de durar muito. Deixem-nos vencer e verão.

— E hão de vencer eles?

— Decerto.

— Ninguém mais diz isso.

— Digo-o eu.

— Tantos mil soldados que o governo tem por si!

— E tantos milhões de pecados contra. Não pode ser,
não pode ser: a misericórdia divina está exausta, e o
dia desejado dos ímpios vai chegar. A sua missão é fácil
e pronta; não sabem, não podem senão destruir. Edificar
não é para eles, não têm com quê, não
crêem em nada. O símbolo cristão não é s[ó
uma verdade religiosa, é um princípio eterno e universal. Fé,
esperança e caridade. Sem crer, sem esperar…

—E sem amar!

— Mulher, mulher! o amor é a última virtude…

— Mas por ela, por ela se chega às outras.

— Não, mulher fraca, não. E de uma vez para sempre, irmã
Francisca, desenganemo-nos. Entre mim, entre o Deus que eu sirvo, não
há uma transação com os seus inimigos. Indulgência
nesse ponto não sei o que é. Vejo a sorte que me espera neste
mundo, e não tremo diante dela. Quem teme, siga outro caminho; eu nunca.

— Padre, eu não temo nem receio por mim. Sou fraca e mulher,
e em toda a tribulação e desgraça hei de glorificar o
meu Deus e dar testemunho da minha fé. Mas… mas o meu neto é
o meu sangue, a minha vida, é o filho querido da minha única
e tão amada filha, ele não conheceu outra mãe, senão
a mim, quero-lhe por ele e por ela. Abandoná-lo não posso, tirar
dele o pensamento não sei. A vontade de Deus…

— A vontade de Deus é que o justo se aparte do ímpio,
é que os cordeiros da benção vão para um lado,
e o cabritos da maldição para outro. Esse rapaz… oh! minha
irmã, eu não sou de pedra, não, não sou, e também
o coração me parte de o dizer… mas esse rapaz é maldito,
e entre nós e ele está o abismo de todo o inferno.

— Misericórdia, meu Deus!

Pálido, enfiado, mais descorado e mais amarelo do que era sempre aquele
rosto, Frei Dinis pronunciou, tremendo mas com força, as suas últimas
e terríveis palavras. Os olhos habitualmente sumidos e cavos, recuaram-lhe
ainda mais para dentro das órbitas descarnadas; o bordão tremia-lhe
na esquerda; e a direita, suspensa no ar, parecia intimar ao culpado a terrível
imprecação que lhe saía dos lábios.

— Maldito! maldito sejas tu! — prosseguiu o frade — filho
ingrato, coração derrancado e perverso!

— Meu Deus, não o escuteis! — bradou a velha caindo de
joelhos no chão e prostrando-se na terra dura. — Meu Deus, não
confirmais aquelas palavras tremendas. Não o ouçais, Senhor,
e valha o sangue precioso de vosso filho, as dores benditas de sua mãe,
ó meu Deus! para arredar da cabeça do meu pobre filho as cruéis
palavras deste homem sem piedade, sem amor…

A velha queria dizer mais; as angústias que se tinham estado juntando
naquela alma, que por fim não podia mais e transbordava, queriam sair
todas, queriam derramar-se ali em lágrimas e soluços nas presenças
do seu Deus que ela via sempre no trono das misericórdias, que não
podia acabar consigo que visse o inflexível, o terrível Deus
das vinganças que lhe anunciava o frade. Mas a carne não pode
com o espírito, as forças do corpo cederam: tomou-a um mortal
delíquio, emudeceu, e … suspendeu-se-lhe a vida.

Frei Dinis contemplou-a alguns momentos nesse estado e pareceu comover-se;
mas aqueles nervos eram de fios de ferro temperado que não vibrava
a nenhuma suave percussão: deu dous passos para a porta da casa, bateu
com o bordão e disse com voz firme e segura:

— Joana, acuda a sua avó que não está boa.

Daí tornou por onde viera, e, sem voltar uma vez a cabeça,
caminhou apressado; breve se escondeu para lá das oliveiras da estrada.

Capítulo XV

Retrato de um frade franciscano que não foi para o depósito
da Terra Santa, nem consta que esteja na Academia das Belas Artes. —
Vê-se que a lógica de Frei Dinis se não parecia nada coma
de Condilac. — Suas opiniões sobre o liberalismo e os liberais.
— Que o poder vem de Deus, mas como e para quê. — Que os
liberais não entendem o que é liberdade e igualdade; e o para
que eram os frades, se fossem.— Prova-se, pelo texto, que o homem não
vive só de pão, e pergunta-se o de que vivia então Frei
Dinis.

Quem era Frei Dinis?

Disse-o ele: — um homem que se fizera frade, já velho e cansado
do mundo, que vestira o hábito num tempo em que a mofa, o escárnio
e o desprezo seguiam aquela profissão; que o sabia, que o conhecia
e por isso mesmo o afrontara.

Destes raros e fortes caracteres aparece sempre na agonia das grandes instituições
para que nenhuma pereça sem protesto, para que de nenhum pensamento
durável e consagrado pelo0 tempo se possa dizer que lhe faltou quem
o honrasse na hora derradeira por uma devoção nobre, gloriosa
e digna do alto espírito do homem: — que o homem é uma
grande e sublime criatura por mais que digam filósofos.

Tal era frei Dinis, homem de princípios austeros, de crenças
rígidas, e de uma lógica inflexível e teimosa: lógica
porém que rejeitava toda a análise, e que, forte nas grandes
verdades intelectuais e morais em que fixara o seu espírito, descia
delas com o tremendo peso de uma síntese aspérrima e opressora
que esmagava todo o argumento, destruía todo o raciocínio que
se lhe punha diante.

Condilac chamou à síntese método de trevas: Frei Dinis
ria-se de Condilac… e eu parece-me que tenho vontade de fazer o mesmo.

O despotismo, detestava-o como nenhum liberal é capaz de o aborrecer;
mas as teorias filosóficas dos liberais, escarnecia-as como absurdas,
rejeitava-as como perversoras de toda a idéia sã, de todo o
sentimento justo, de toda a bondade praticável. Para o homem em qualquer
estado, para a sociedade em qualquer forma não havia mais leis que
as do Decálogo, nem se precisavam mais constituições
que o Evangelho: dizia ele. Reforça-las é supérfluo,
melhorá-las impossível, desviar delas monstruoso. Desde o mais
alto da perfeição evangélica, que é o estado monástico,
há regras para todos ali; e não falta senão observá-las.

Não sei se esta doutrina não tem o que quer que seja de um
sabor independente e livre, se não cheira o seu tanto à confiança
herética dos reformistas evangélicos. O que sei é que
Frei Dinis a professava de boa fé, que era católico sincero
, e frade no coração.

Segundo os seus princípios, poder de homem sobre homem era usurpação
sempre e de qualquer modo que fosse constituído. Todo poder estava
em Deus — que o delegava ao pai sobre o filho, daí ao chefe da
família sobre a família, daí a um desses sobre todo o
Estado, mas para reger segundo o Evangelho e em toda a austeridade republicana
dos primitivos princípios cristãos.

Assim fora ungido Saul, e nele todos os reis da terra — sem o que
não eram reis.

Tudo o mais, anarquia, usurpação, tirania, pecado, —
absurdo insustentável e impossível.

E sobre isto também não disputava, que não concebia
como: era dogma.

Nas aplicações, sim, questionava ou, antes, argüía
com sua lógica de ferro. As antigas leis, os antigos usos, os antigos
homens, não os poupava mais do que aos novos. A tirania dos reis, a
cobiça e a soberba dos grandes, a corrupção e a ignorância
dos sacerdotes, nunca houve tribuno popular que as açoitasse mais sem
dó nem caridade.

O princípio porém da monarquia antiga, defendia-o, já
se vê, por verdadeira, embora fossem mentirosos e hipócritas
os que o invocavam.

Quanto às doutrinas constitucionais, não as entendia, e protestava
que os seus mais zelosos apóstolos as não entediam tampouco:
não tinham senso comum, eram abstrações de escola.

Agora, do frade é que me eu queria rir… mas não sei como.

O chamado liberalismo, esse entendia ele: “Reduz-se, dizia, a duas
coisas, duvidar e destruir por princípio, adquirir e enriquecer por
fim; é uma seita toda material em que a carne domina e o espírito
serve; tem muita força para o mal; bem verdadeiro, real e perdurável,
não o pode fazer. Curar com uma revolução liberal um
país estragado, como são todos os da Europa, é sangrar
um tísico: a falta de sangue diminui as ânsias do pulmão
por algum tempo, mas as forças vão-se e a morte é a mais
certa.”

Dos grandes princípios da Igualdade e da Liberdade dizia: “Em
eles os praticando deveras, os liberais, faço-me eu liberal também.
Mas não há perigo: se os não entendem! Para entender
a liberdade é preciso crer em Deus, para acreditar na igualdade é
preciso ter o Evangelho no coração.”

As instituições monásticas eram, no seu entender e
no seu sistema, condição essencial de existência para
a sociedade civil — para uma sociedade normal. Não paliava os
abusos dos conventos, não cobria os defeitos dos monges, acusava mais
severamente que ninguém a sua relaxação; mas sustentava
que, removido aquele tipo da perfeição evangélica, toda
a vida cristã ficava sem norma, toda a harmonia se destruía,
e a sociedade ia, mais depressa e mais sem remédio, precipitar-se no
golfão do materialismo estúpido e brutal em que todos os vínculos
sociais apodreciam e caíam e em que mais e mais se isolava e estreitava
o individualismo egoísta — última fase da civilização
exagerada que vai tocar no outro extremo da vida selvagem.

Tais eram os princípios deste homem extraordinário, que juntava
a uma erudição imensa o profundo conhecimento dos homens e do
mundo em que tinha vivido até a idade de cinqüenta anos.

Como e por que deixara ele o mundo? Como e por que um espírito tão
ativo e superior se ocupava apenas do obscuro encargo de guardião do
seu convento — cargo que aceitara por obediência — e quase
que limitava as suas relações fora do claustro àquela
casa do vale onde não havia senão aquela velha e aquela criança?

Apesar de sua rigidez ascética, prendia esse espírito por
alguma coisa a este mundo? Aquele coração macerado do cilício
dos pensamentos austeros e terríveis do eterno futuro, consumindo na
abstinência de todo o gozo, de todo o desejo no presente, teria acaso
viva ainda bastante alguma fibra que vibrasse com recordações,
com saudades, com remorsos do passado?

No seu convento ele não tinha senão uma cela nua com um crucifixo
por todo adorno, um breviário por único livro. Naquela só
família que conversava, havia, já o disse, a velha cega e decrépita,
Joaninha com quem apenas falava, e um ausente, um rapaz que quem há
dous anos quase que se não sabia. Em intrigas políticas, em
negócios eclesiásticos, em coisa mais nenhuma deste mundo não
tinha parte. De que vivia pois aquele homem — homem que certo não
era daqueles que viviam só e pão?

E este era um dos poucos textos latinos que ele repetia, este o tema predileto
dos raros sermões que pregava: Non in solo pane vivit homo. Nem só
de pão vive o homem.

Vivia então de alguma outra coisa este homem; e a meditação
e a oração não lhe bastavam, porque ele saía do
seu convento e não ia pregar nem rezar… todas às sextas feiras
era certo na casa do vale à mesma hora, do mesmo modo…

Ali estava pois alguma parte da vida do frade que de todo se não
desprendera da terra, e que, por mais que ele diga, lhe faltava castrar ainda
por amor do céu.

É que meio século de viver no mundo deixa muita raiz, que
não morre assim. E talvez é uma só a raiz, mas funda,
e rija de fevra e de selva, que as folhas morrem, os ramos secam, o tronco
apodrece, e ela teima a viver.

Saibamos alguma coisa desta vida.

Capítulo XVI

Saibamos da vida do frade.— Era franciscano por quê?— Dos
antigos e dos novos mártires. — Alguns particulares do frei Dinis
antes e depois de ser frade. — Emigração. — Explicação
incompleta. — De como a velha tinha perdido a vista e Joaninha o riso.
— Sexta feira de aziago.

Saibamos alguma coisa da vida do frade, na sua vida no século, porque
a do claustro era nua e nula, monótona e singela como a temos visto.

Chamava-se ele no século Dinis de Ataíde, e seguira a carreira
das armas primeiro, depois a das letras. Com distinção, e quase
com paixão, tomara parte na campanha da Península e a fizera
quase toda; mas desgostoso do serviço ou despreocupado da glória
militar, entrou na magistratura para que estava habilitado, e em 1825, do
lugar de corregedor do Ribatejo, em que já fora reconduzido, devia
passar à casa do Porto.

Foi a Lisboa receber o seu despacho, beijou a mão à el-rei,
e dai tomou um dia o caminho de Santarém, chegou àquela vila,
deixou criados e cavalos na estalagem, e foi tocar à campa da portaria
de S. Francisco.

Os criados esperaram em vão muitos dias e ele não voltou.

Desapareceu do mundo Dinis de Ataíde, e dali a dois anos apareceu
Frei Dinis da Cruz, o frade mais austero e o pregador mais eloqüente
daquele tempo. Raro pregava, e só de doutrina; mas era uma torrente
de veemência, uma unção, uma força…

Dos institutos monásticos já então bem decaídos
todos de esplendor e reputação, a Ordem de S. Francisco era
talvez a que mais descera no conceito público. Quanto mais austera
é a regra, tanto mais se nota qualquer relaxação nos
que a professam: a dos franciscanos tinha-se feito proverbial e popular. Eles
eram tantos por toda a parte, e tão conversantes com todas as classes,
familiarizara-se por tal modo o povo com aquelas mortalhas negras —
aspecto já não severo, e apenas deixou de o ser… ridículo
— e elas apareciam em tais lugares, a tais horas, por tal modo…que
todo o respeito, toda a estima, toda a consideração, se lhe
perdera. Escritores, já os não tinham, pregadores poucos e sem
reputação, era em todo o sentido a religião mais humilhada
na geral decadência das Ordens.

Frei Dinis procurou-a por isso mesmo. Queria ser frade, o frade desprezado
e apupado do século dezenove.

Em certos ânimos é preciso muito mais valor e entusiasmo para
afrontar este martírio, do que fora nos antigos tempos para ir ao encontro
das nobres perseguições do sangue e do fogo.

Lutava-se com honra então, cala-se com glória, vencia-se muitas
vezes morrendo…

Agora é sofrer só.

O mundo aplaudia aqueles grandes sacrifícios, e assistia com interesse,
com admiração, com espanto àqueles combates gigantescos.
E o tirano tremia diante de sua vitima… quando não lhe caía
aos pés, vencido, convertido e penitente…

Hoje o povo passa e ri, os reis cuidam de outra coisa, e a mesma Igreja não
sabe que tem mártires.

— Pois tem-nos — dizia Frei Dinis — e precisa mais deles
para a regenerar, do que já precisou para fundar-se.

Eis aqui porque Frei Dinis de Ataíde não quis ser bento, nem
jerônimo, nem cartuxo, e se foi meter padre franciscano.

De todos os seus bem, que eram consideráveis, tirou apenas módica
soma de dinheiro que era necessária para pagar o dote e piso de sua
entrada no convento. Do resto fez doação inteira a D. Francisca
Joana — a velha hoje cega e decrépita, que no princípio
desta história encontramos dobrando à sua porta na casa do vale.

A velha não tinha mais família que um neto e uma neta.

A neta era Joaninha, filha única de seu único filho varão,
e já órfã de pai e de mãe.

O neto, órfão também, nascera póstumo, e custara
a vida a sua mãe, filha querida e predileta da velha.

Antes a esplêndida doação de Frei Dinis a família,
que era de boa e honrada descendência, podia dizer-se pobre; depois,
viviam remediadamente. Mas a velha não quis nunca sair do modesto estado
em que até ali vivera. Tinham fartura de pão, azeite e vinho
de suas lavras, corria-lhe com elas um criado velho de confiança, trajavam
e tratavam-se como gente meã mas independente.

Em tempos mais antigos e em vida dos dois filhos de D. Francisca, Frei Dinis,
então Dinis de Ataíde e corregedor da comarca, freqüentara
bastante aquela casa. Desde a morte do filho e do genro, que ambos pereceram
desastradamente num dia cruzando o Tejo num saveiro em ocasião de grande
cheia, ele nunca mais lá tornara.

Até que se meteu frade, e que passaram anos e que o fizeram guardião
do seu convento.

Já a nora e a filha da velha tinham morrido também.

E foi notável que na mesma hora em que Frei Dinis professava em S.
Francisco de Santarém, vestia D. Francisca aquela túnica roxa
que nunca mais largou.

Mas um dia, chegou Frei Dinis à porta da casa do vale e disse:

— Deus seja nesta casa!

A velha estremeceu, mas tornou logo a si, fez sair as crianças que
brincavam ao pé dela, fechou-se com o frade, e falaram baixo um dia
inteiro. Rezaram e choraram, que tudo se ouviu, mas o que disseram e conversaram
nunca se soube.

O frade foi-se ao anoitecer, a velha ficou rezando e chorando, e rezou e
chorou toda a noite.

Isto fora numa sexta-feira; daí por diante em todas as sextas-feiras
de cada semana, Frei Dinis vinha passar algumas horas com a velha.

Não era seu confessor, mas dirigia-se como se o fosse, em tudo e por
tudo, menos no que respeitava a Joaninha.

Havia no frade uma afetação visível, um sistema premeditado
e inalterável de se abster completamente de tudo o que pudesse intervir,
por mais remotamente que fosse, com aquela interessante criança.

Joaninha não lhe tinha medo, mas o respeito que lhe ele inspirava
era misturado de uma aversão instintiva que, por contradição
inaudita e inexplicável, a deixava simpatizar com tudo quanto ele dizia
e professava: doutrinas, opiniões, sentimentos, tudo lhe agradava no
frade, menos a pessoa.

Não assim Carlos, o primo, o companheiro, o único amigo do
nossa Joaninha, o outro neto da velha por sua filha. Andava ele já
no último ano de Coimbra e ia formar-se em leis, quando Frei Dinis
da Cruz começou de novo a freqüentar a casa que Dinis de Ataíde
tinha abandonado.

Sobre esse a inspeção do frade era minuciosa, vigilante, inquieta.
Os livros que ele lia, os amigos com quem vivia, as idéias que abraçava,
as inclinações para que pendia — de tudo se ocupava Frei
Dinis, tudo lhe dava cuidado. A ele diretamente pouco lhe dizia, mas com a
avó tinha longas conferências a esse respeito.

Ultimamente parecia satisfazer-se com o jeito que o mancebo indicava tomar.

— É temente a Deus, não tem o ânimo cobiçoso
e servil, não é hipócrita, a mania do liberalismo não
o mordeu ainda… há de ser um homem de préstimo — dizia
o frade a D. Francisca com verdadeira satisfação e interesse.

Passara porém do seu meio o memorável ano de 1830, e Carlos,
que se formara no princípio daquele verão, tinha ficado por
Coimbra e Lisboa, e só por fins de agosto voltara para a sua família.
E veio triste, melancólico, pensativo, inteiramente outro do que sempre
fora, porque era de gênio alegre e naturalmente amigo de folgar o mancebo.

O dia em que ele chegou era uma sexta feira, dia de Frei Dinis vir ao vale.

Passaram as primeiras saudações e abraços, ficaram sós
os dois.

— Não gosto de te ver — disse o frade.

— Pois quê? que tenho eu?

— Tens que vens outro do que foste, Carlos.

— Outro venho, é verdade; mas não se enfadem de me ver,
que o enfado há de durar pouco.

— Que queres tu dizer?

— Que estou resolvido a emigrar.

— A emigrar, tu!… Por que? para quê? Que loucura é essa?

— Nunca estive tanto em meu juízo.

— Carlos, Carlos! nem mais uma palavra a semelhante respeito. Em que
más companhias andaste tu, que maus livros leste, tu que eras um rapaz?…
Carlos, proíbo-te de pensar nestes desvarios.

— Proíbe-me … a mim… de pensar!… Ora, senhor…

— Proíbo-te de pensar, sim. Lê no seu Horácio se
estás cansado das pandectas . Vai para a eira com o teu Vírgilio…
ou passeia, caça, monta a cavalo, faze o que quiseres, mas não
penses. Cá estou eu para pensar por ti.

—Por quê? eu hei de ser sempre criança? A minha vida há
de ser esta? Horácio! Tenho bom ânimo para ler Horácio
agora… e é bela ocupação para um homem de vinte e um
anos, escandar jambos e troqueus!

— Pois lê na tua Bíblia, que é poesia medida na
alma e que renasce o espírito e o coração..

— Eu não quero ser frade, sabe?

— Nem te quero para frade.

— Graças a Deus. Cuidei que… Mas enfim no século em
que estamos…

— O século em que estamos é o da presunção
e o da imoralidade, e eu quero-te livrar de uma e de outra, Carlos. Tua avó
sabe das minhas intenções a teu respeito. aprova-as.

— Minha avó… aprova muita coisa que eu reprovo.

— Como assim, Carlos? Que queres tu dizer?

— Isto esmo, Senhor, e que amanhã vou para Lisboa, embarcar
para Inglaterra.

— Carlos!

— É uma resolução meditada e inalterável.
Não quero nada com esta terra nem com esta…

— Com esta o quê, Carlos?

— Pois quer ouvi-lo, digo-lho: com esta casa.

O frade sufocava, e balbuciou entre colérico e irritado:

— Dir-me-ás por quê

— Porque me aborrece e me humilha este mando de um estranho aqui…
porque sempre desconfiei, porque sei enfim…

— Sabes o quê?

— Sei padre Frei Dinis, ,as não me pergunte o que eu sei.

Amarelo, roxo, pálido, negro, o frade tremia; sumiram-se-lhe mais
os olhos e faiscavam lá de dentro como duas brasas, fez um esforço
sobre si para falar e disse com uma voz cavernosa como de sepulcro:

— Pois pergunto, sim; e permita Deus!…

— Padre, não jure nem pragueje — interrompeu Carlos com
firmeza e serenidade — as suas intenções serão
boas talvez, creio que são boas, filhas de um remorso salutar…

— Que dizes tu, Carlos… que disseste?… Ó meu Deus!

As cenas tinham mudado: Frei Dinis parecia o pupilo, a sua voz tinha o tom
da súplica, já não tremia de ira, mas de ansiedade; Carlos,
pelo contrário, falava no tom austero e grave de um homem que está
forte na sua razão e que é generoso com a sua ofensa. As palavras
do mancebo eram agras, via-se que ele o sentia e que procurava adoça-las
na inflexão, que lhes dava.

— O que eu digo, Padre Frei Dinis, o que eu sou obrigado a dizer-lhe
é isto. Minha avó consentiu, por fraqueza de mulher, no que
eu não posso nem devo consentir. O que há nesta casa não
é… não é meu; o pão que aqui se come… é
comprado por um preço… Padre! já vê que não podemos
mais falar neste assunto. Eu parto amanhã para Lisboa. Minha avó!
— acrescentou Carlos, mudando de voz e chamando para dentro —
minha avó!

A velha acudiu, ele disse-lhe sua tenção, motivou-a em opiniões
políticas, declamou contra D. Miguel, mostrou-se entusiasta da causa
liberal, e protestou que, naquele ano, de tal modo se tinha pronunciado em
Coimbra e ainda em Lisboa que só uma pronta fuga o podia salvar.

A velha chorou, pediu, rogou… inutilmente, em vão.

Frei Dinis assistiu a tudo isto sem dizer palavra.

E aquela tarde voltou cedo para o convento.

No outro dia de manhã muito cedo, abraçado com a avó
e com a priminha que se desfaziam em lágrimas, Carlos dizia o último
adeus àquela querida casa, àquele amado vale em que fora criado…
nessa noite estava em Lisboa, daí a poucos dias em Inglaterra, e daí
a alguns meses na ilha Terceira.

Na sexta feira depois da partida de Carlos, Frei Dinis veio ao vale teve
larga conferência com a avó.

Os três dias seguintes a velha levou fechada no seu quarto a chorar…
no fim do terceiro dia estava cega.

Joaninha era uma criança a esse tempo, parecia não entender
nada do que se passava. Mas quem a observasse com atenção veria
que ela dobrou de carinho e de amo com a avó, e que se não tornou
a rir para o frade.

Ele, o frade, envelheceu de dez anos naquele dia. Os olhos sumidos, que
era a feição dominante daquele rosto ascético, sumiram-se
mais e mais, a estatura alta e ereta curvou-se-lhe; o tremor nervoso, que
o tomava por acessos, tornou-se-lhe habitual, os tendões enrijaram-lhe,
os músculos da cara descarnaram-se, e a pele, já sulcada de
fundos cuidados, arrugou-se e franziu-se toda em rugas cruzadas e confusas
como que se lha tornassem uma grelha.

Nunca mais houve um dia de alegria no vale. A sexta-feira porém era
o dia fatal e aziago. Frei Dinis já não vinha senão no
fim da tarde e demorava-se pouco; mas tanto bastava. Suspirava-se por aquela
hora e tremia-se dela. As notícias que consolavam, e os terrores que
matavam o frade é que os trazia. O resto da semana levava-se a chorar
e a esperar.

E assim se tinham passados dois anos até a sexta feira em que primeiro
vimos juntos à porta da casa aquelas três criaturas, assim se
passou até daí a oito dias que a nossa história volta
a encontrá-los.

Capítulo XVII

DE como, chegando outra sexta-feira e estando a avó e a neta à
espera do frade, este lhe apareceu contra o seu costume, da banda de Lisboa.
— Por que razão muitas vezes a mais animada conversação
é a que mais facilmente para e quebra de repente. — Nova demonstração
de dois grandes axiomas dos nossos velhos, a saber: Que o hábito não
faz o monge; e que ralhando as comadres se descobrem as verdades. —
No ralhar da velha com o frade, levanta-se uma ponta do véu que cobre
os mistérios da nossa história.

Passaram-se aqueles oito dias no vale, não já como se tinham
passado tantas outras semanas em vagas de tristeza, em desconsolação
e desconforto, mas em positiva ansiedade e aguda aflição pela
certeza que trouxera o frade de se achar Carlos no Porto fazendo parte do
pequeno exército de D. Pedro.

Incertos rumores, daqueles que percorrem um país em tempos semelhantes
e que aumentam e exageram, confundem todo o sucesso, tinham chegado até
as pacíficas solidões do vale com as notícias de combates
sanguinários, de comoções violentas, de desacatos sacrílegos,
de vinganças e represálias atrozes tomadas pelos agressores,
retribuídas pelos que se defendiam.

Chegou a sexta-feira; e as horas desse dia, sempre desejado e sempre temido,
foram contadas minuto a minuto — o qual mais longo, o qual mais pesado
e lento de volver, quanto mais se aproximava o derradeiro.

O sol declinava já… e Frei Dinis sem aparecer!

No seu poiso ordinário ao pé da porta da casa, Joaninha com
os olhos estendidos, a velha com os ouvidos alerta, devoravam o espaço
na direção do nascente, esperando a cada momento, temendo a
cada instante ver aparecer o conhecido vulto, ouvir o som familiar dos passos
do frade.

E tão atentas, tão absortas estavam ainda neste cuidado, que
não deram fé dum religioso que pelo lado oposto, isto é,
da banda de Lisboa para ali se encaminhava a passos arrastados mas pressurosos.

Chegou rente a elas sem o sentirem; e uma voz conhecida, porém mais
cava e funda do que nunca a ouviram, pronunciou a fórmula de saudação
costumada:

— Deus seja nesta casa!

— Amém! — responderam ambas maquinalmente, com um estremeção
involuntário, e voltando de repente a cara para o lado donde vinha
a voz.

— Jesus! — disse depois a velha tornando a si, — Padre
Frei Dinis, de onde vem tão tarde?

— Chego de Lisboa.

— De Lisboa? Deus lho pague!… Foi saber?…

— Fui, fui saber novas desta horrível guerra, desta tremenda
visitação do Senhor à condenada terra de Portugal…

—E então, diga…

— Boas novas, boas novas trago!

— Sente-se, padre, sente-se. Joaninha chegue uma cadeira: descanse

— Não é tempo de descansar este, mas de vigiar e de
orar.

— Pois que sucedeu, Padre? Não me tenha nessa horrível
suspensão. Diga: onde está ele? Alguma desgraça grande
lhe aconteceu, ó meu Deus!…

— E que me importa a mim o que aconteceu ou podia acontecer a mais
um de tantos perdidos? Encherá a sua medida, irá após
dos outros… caminha nas trevas com eles, e como eles só há
de parar no abismo.

A estas derradeiras palavras do frade asperamente pronunciadas e em tom
de indiferença e desprezo, seguiu-se aquele silêncio comprimido,
aquela pausa de toda a conversação grave e íntima em
que os pensamentos são tantos que se atropelam e não acham saída
na voz.

Frei Dinis mentia….na dureza daquelas expressões mentia ao seu
coração — não mentia ao seu espírito. Como
o cáustico se aplica à epiderme para deslocar a inflamação
interior, ele roçava o peito com as asperidões de sua doutrina
e de seus princípios rígidos para amortecer dentro a viva dor
d’alma que o consumia.

O frade estava por fora, o homem por dentro.

O observador vulgar não via senão o burel e a corda que amortalhavam
o cadáver. O que atentasse bem naqueles olhos, o que reparasse bem
nas inflexões daquela voz, diria: “Frade, tu mentes; mentes sem
saberes que mentes: és sincero na tua fé, na tua austeridade,
na tua abnegação: mas o teu sacrifício é como
o de Abraão na montanha, e Deus sabe que tu não tens força
para o cumprir.”

Não o percebeu assim a pobre velha, a quem os rigores de Frei Dinis
faziam tremer, e que para toda a afeição, para todo o sentimento
humano julgava morto o coração do cenobita.

Ela que no silêncio das suas noites sempre veladas, na perpétua
escuridão de seus dias sempre triste lutava há tanto tempo,
lutava debalde para desprender das afeições do mundo aquele
seu pobre coração, que queria imolar ao Senhor, ela via com
santa inveja e admiração as sobre-humanas forças que
imaginava no frade; e desanimada de o poder seguir nessas alturas da perfeição
evangélica, recaía, mais desalentada e mais miserável
que nunca, em toda sua fraqueza de mulher e de mãe.

Oh! não sabe o que é tormento, o que é inferno neste
mundo, o que não sofreu destas angústias!

Mas permite Deus que as padeça quem não tem grandes culpas,
grandes e irreparáveis erros que expiar neste mundo?

Eu creio firmemente que não.

Cansada e exausta já de tão porfiada luta, a velha perdeu de
todo a razão com as derradeiras palavras do frade, e num paroxismo
de choro exclamou:

— Dinis!… Frei Dinis, por aquele penhor sagrado que eu tenho em
meu poder, por aquela preciosa cruz sobre a qual se derramaram as últimas
lágrimas da minha desgraçada filha, Dinis!…

— Silêncio! — bradou o frade, arrancando um brado de dentro
do peito que fez gemer os ecos todos do vale: — Silêncio, mulher!
Não conjure o demônio que eu trago encarcerado neste seio, que
à força de penitência mal pude domar ainda… que só
a morte poderá talvez expelir. Mulher, mulher! este cadáver
que já morreu, que já apodreceu em tudo o mais, que já
o comem sem ele sentir, os bichos todos da destruição… este
cadáver tem um único ponto vivo no coração…
e o dedo do teu egoísmo aí foi tocar, ó mulher!… Pecado
que estás sempre contra mim! Justiça eterna de Deus, quando
serás satisfeita?

Rompera na maior violência a voz do frade, mas descaiu num tom baixo
e medonho ao fazer esta última imprecação misteriosa.
As derradeiras sílabas quase lhe morreram nos beiços convulsos,
e ao balbuciá-las deixou-se cair, exausto e como quem mais não
podia, na cadeira que Joaninha lhe chegara.

A velha, aterrada e confusa, tremia do que fizera, como diante do espírito
imundo que seus malefícios evocaram, treme a maga assustada do seu
próprio poder.

Passaram alguns segundos que nenhumas palavras podem descrever.

O frade levantou o rosto, olhou para ela, olhou para Joaninha… e como
quem emerge, por grande esforço, de um peso enorme de águas
que o submergiam, sacudiu a cabeça, sorveu um longo trago de ar, e
disse na sua voz ordinária, só mais débil.

— Carlos, Senhora… minha irmã, Carlos está vivo; e
eis aqui, vinda pelo cônsul de França, uma carta dele.

Tirou uma carta da manga e entregou a Joaninha.

Capítulo XVIII

Descobre-se que há grandes e espantosos segredos entre o frade e a
velha. — Piedosa fraude de Joaninha. — Luta ente o hábito
e o monge.

O frade entregou a carta a Joaninha, que, lançando os olhos ao sobrescrito,
ficou inquieta e indecisa como quem receia e deseja e teme de saber alguma
coisa. Ele com voz trêmula e sobressaltada acrescentou:

— Adeus, que são horas!… Leiam, e sexta feira que vem…
me dirão…

Pois quê — disse timidamente a velha — não quer
ouvir o que ele nos escreve?

— Sexta feira que vem — continuou Frei Dinis, sem ouvir ou sem
entender a pergunta; — sexta feira que vem eu tomarei conta da resposta,
e lha farei chegar pela mesma via… Só uma coisa! Nem palavra a meu
respeito: eu para Carlos… morri.

— Dinis! — exclamou a velha fora de si —Dinis!…

O frade tornou de repente ao seu tom austero, e respondendo gravemente:
— O quê, minha irmã?

— Era — disse ela tímida e submissa outra vez —
era se, era que… Pois não há de ouvir ler a carta dele?

Frei Dinis não respondeu, mas ficou sentado: descaiu-lhe a cabeça
sobre o peito, e abraçando-se com o bordão, não deu mais
sinal de si.

A velha escutou em silêncio alguns segundos, e com aquele ouvido agudíssimo
— penetrante vista dos cegos — percebeu sem dúvida o que
se passava, e com mais conforto e serenidade na voz disse:

— Abra, Joana, lê, minha filha.

Joaninha abriu a carta, e percorreu com avidez as poucas linhas que ela encerrava.

— Não lês? — acudiu a avó com impaciência
: — Lê, lê alto, Joaninha.

— É para mim só a carta — disse ela friamente,

— Para ti só, como? — tornou a outra.

— É para mim só esta carta… não diz nada que…

— Não diz nada! — replicou a avó. — Pois!…
Lê, lê alto: seja como for, lê, e oiçamos.

Joaninha parecia hesitar ainda lançou os olhos ao frade, achou-o na
mesma atitude impassível; voltou-se para a avó, viu-a ansiada
e ansiosa… leu.

A carta era com efeito para ela só, e carta bem singela não
continha senão as ingênuas expressões de um amor fraterno
nunca esquecido, longas saudades do passado, poucas esperanças no futuro,
quase nenhuma de se tornarem a ver tão cedo. Tudo isto porém
era com a prima; para a desconsolada avó, para ninguém mais…
nem uma palavra.

Joaninha ia lendo, lendo… e a voz a descair-lhe: no fim ajuntou uns abraços,
umas saudosas lembranças, e não sei que frase incompleta e mal
articulada em que se pedia a benção da avó.

A velha abanou a cabeça tristemente e disse:

— Ora pois… bendito, seja Deus!

Joaninha corou até o branco dos olhos… Inda bem que a não
podia ver a avó! Mas viu-a Frei Dinis, e com a mão trêmula
e os olhos arrasados de água lhe fez um mudo e expressivo sinal de
aprovação e agradecimento. Joaninha corou outra vez, e logo
se fez pálida como a morte; era a primeira vez que mentia … e Frei
Dinis, o austero Frei Dinis, aprová-la!

O frade levantou-se, e sem dizer palavra, tomou o caminho de Santarém.

Ouvia-se ao longe o arquejar de uns soluços sufocados… Seriam dele?

A avó e a neta abraçaram-se chorando.

Nenhuma delas disse palavra sobre a carta: a velha tinha percebido a piedosa
fraude de Joaninha.

Oh! que existências que eram aquelas quatro! Esse frade, essa velha,
essas duas crianças! E a maior parte da gente que é gente, vive
assim… E querem, querem-na assim mesmo, a vida, têm-lhe apego! Oh,
que enigma é o homem!

Tornou a passar outra semana, e o frade tornou a vir no prazo costumado,
e levou a resposta da carta — resposta que Joaninha só escreveu
e só viu — e dirigiu-a em Lisboa pela via segura que indicara.

Soube0-se que fora entregue; mas semanas e semanas decorreram , os meses
passaram de ano… e outra carta não veio.

No entretanto a guerra civil progredia; e depois das suas tremendas peripécias,
o grande drama da Restauração chegava rapidamente ao fim. Eram
meados do ano de 33, a operação de Algarve sucedera milagrosamente
aos constitucionais, a esquadra de D. Miguel fora tomada, Lisboa estava em
poder deles. Os tardios e inúteis esforços dos realistas para
retomar a capital tinham ocupado o resto do verão. Já outubro
se descoroava de seus últimos frutos, e as folhas começavam
a empalidecer e a cair, quando uma sexta-feira, ao pôr do sol, Frei
Dinis aparecia no vale mais curvado e mais trêmulo que nunca. Vinha
do exército realista que então cercava Lisboa.

Joaninha não era ali, a velha estava só.

— Que nos traz, padre? — clamou ela mal o sentiu: — Soube
dele? Tem escapado a estas desgraças, a esses combates mortais?

— Não sei nada, minha irmã; há três dias
que de Lisboa se não pode obter a menor informação. As
linhas estão fechadas e guarnecidas como nunca: tudo indica havermos
de ter cedo algum combate decisivo.

— Deus seja com…

— Com quem, minha irmã?

— Com quem tiver justiça.

— Nenhum a tem. De um lado e de outro está a ambição
e a cobiça, de um lado e de outro a imoralidade, a perdição
e o desprezo da palavra de Deus. Por isso, vença quem vencer, nenhum
há de triunfar.

— Ai, o meu pobre filho, o meu Carlos!

— Isso, irmã Francisca, isso! Peça a Deus que dê
a vitória a seu neto e à impiedade por que ele combate. peça
a Deus que vençam os inimigos declarados do seu nome, os destruidores
dos seus altares, os profanadores de seus templos… Oh! que dia belo e grande
não há de ser esse, quando Carlos… o seu Carlos vier expulsar
às baionetas do pobre convento de S. Francisco, o velho guardião
— que lhe não há de fugir, minha irmã!… dele
menos que nenhum outro… que ajoelhado diante do altar inclinará a
cabeça como os antigos mártires para cair na presença
do seu Deus às mãos do seu…

— Dinis!… Padre!… Padre Frei Dinis, que horrorosas palavras saem
da sua boca!… Meu neto, o meu Carlos não é capaz… ó
meu Deus!…

— Seu neto detesta-me… e tem… tem razão.

— Não sabe a verdade ele… Carlos esta enganado, cuida…
não sabe senão meia verdade: e eu, eu hei de — custe o
que me custar — eu hei de…

— Há de o quê?

— Hei de desenganá-lo, hei de lhe dizer a verdade toda. Hei
de prostrar-me na sua presença, hei de humilhar-me diante do filho
da minha filha, hei de arrastar na poeira de seus pés estas cãs
e estas rugas… morrerei de vergonha e de remorsos diante de meu filho, mas
ele há de saber a verdade.

Saiam com tal ímpeto e com tão desacostumada energia estas
misteriosas e tremendas palavras da boca da velha, que Frei Dinis não
ousou contê-la; ouviu até ao fim, deixou quebrar o ímpeto
da torrente, e erguendo então a sua voz austera mas pausada, disse
naquele tom friamente decisivo que tanto se impõe aos ânimos
apaixonados.

— Se tal fizesse, mulher, a minha maldição, a maldição
eterna de Deus cairia sobre sua cabeça para sempre!… Ó mulher,
pois não basta que ele me aborreça — não lhe basta
que seu neto lhe perdesse o amor… quer… quer também que nos despreze?

A velha gemeu profundamente e, por um jeito de antiga reminiscência,
levou as mãos aos olhos como se os tapasse para não ver. Então
disse com desconsoladas lágrimas na voz:

— A vontade de Deus seja feita!

Capítulo XIX

Guerra de postos avançados. Joaninha no bivaque. — De como os
rouxinóis do vale se disciplinaram a ponto de tocar a alvorada e a
retreta. — Quem era a “menina dos rouxinóis” e por
que lhe puseram este nome. — A sentinela perdida e achada.

A velha disse aquelas últimas palavras com uma expressão de
dor tão resignada mas tão desconsolada, que o frade olhou para
ela comovido, e sentiu as lágrimas escurecem-lhe avista.

Nesse momento Joaninha, que passeava a alguma distância da casa na
direção de Lisboa, acudiu sobressaltada brandando:

— Avó, avó!… tanta gente que aí vem! soldados
e povo… homens e mulheres… tanta gente!

Era a retirada de 11 de outubro.

— Deus tenha compaixão de nós! — disse a velha.
— O que será, padre?

— O que há de ser! — respondeu Frei Dinis. — O
meu pressentimento que se verifica; o combate foi decisivo, os constitucionais
vencem.

Com efeito foram aparecendo as tropas que se retiravam, as gentes que fugiam,
e todo aquele confuso e doloroso espetáculo de uma retirada em guerra
civil…

Alguns feridos, que não podiam mais, ficavam na casa do vale entregues
à piedosa guarda e cuidado de Joaninha; dos outros tomou conta Frei
Dinis e os acompanhou a Santarém.

As tropas constitucionais vinham em seguimento dos realistas, e dali a pouco
dias tinham seu quartel-general no Cartaxo; D. Miguel fortificava-se em Santarém,
e a casa da velha era o último posto militar ocupado pelo seu exército.

Não tardou muito que a força toda, todo o interesse da guerra
se não concentrasse naquele, já tão pacífico e
ameno, agora tão desolado e turbulento vale.

Eram os derradeiros dias do outono, a natureza parecia tomar dó pelo
homem — dar triste e lúgubre de cena ao sangrento drama de destruição
e de miséria que ali se ia concluir. As últimas folhas das árvores
caíam, o céu nublado e negro vertia sobre a terra apaulada torrentes
grossas de água, a cheia alagava os baixios, as terras altas cobriam-se
de ervas daninhas maninhas, os trabalhos da lavoura cessavam, o gado e os
pastores fugiam, e os soldados de um de outro campo cortavam as oliveiras
seculares…

Tudo estava feio e torpe, tudo era ruína, desolação
e morte em torno da casa do vale, agora transformada em quartel e reduto militar.

E que era feito, no meio desta desordem, que era feito da nossa pobre velha,
da nossa interessante Joaninha?

Apenas se estabeleceu a posição dos dous exércitos,
Frei Dinis queria levá-las para Santarém; mas não foi
possível. Instâncias, rogos, ordem positiva, tudo foi em vão.
Pela primeira vez na sua vida, aquela mulher tímida, fraca e irresoluta,
soube ter vontade firme e própria.

— Aqui nasci — dizia ela — aqui vivi, aqui hei de morrer.
Que importa como?… Aqui as curtas alegrias, aqui as longas dores da minha
vida têm passado: onde hei de eu ir que possa viver ou comer senão
aqui? Esta casa sei-a de cor, estas árvores conhecem-me, estes sítios
são os últimos que vi, os únicos de que me lembra: como
hei de eu, velha e cega, ir fazer conhecimentos com outros para viver neles?…

— E Joaninha nesta idade… no meio dessa soldadesca! — sugeria
o frade.

Joaninha — tornava ela — Joaninha é uma criança,
e tem mais juízo, mais energia d’alma, mais saúde e mais
força do que — mulheres não falemos — do que a maior
parte dos homens. Ficaremos aqui, Padre, ficaremos aqui melhor do que em Santarém
podemos estar. Deus nos defenderá…

Frei Dinis cedeu: a mesma vaga e indeterminada esperança que animava
a velha, e que a prendia tão fortemente ali, não era estranha
ao coração do frade. Ela não ousava nem aludir de longe
a essa esperança, mas sentia-se que lá a tinha aninhada e escondida
a um canto d’alma… Aquele neto, aquele filho da filha querida havia
de vir ter à Casa em que nascera… por ali havia de passar, e mais
dia menos dia… A velha, repito, nem aludia a tal esperança, mas sentia-se
que a tinha: percebeu-lha Frei Dinis, e ou a partilhasse também ou
não se atrevesse a contrariar razões que lhe não davam,
cedeu e calou-se.

O seu principal temor era a licenciosa soltura dos costumes militares; mas
estava Joaninha menos exposta por se acolher a uma praça de guerra
como Santarém era agora?

Brevemente se viu que a avó tinha acertado. A franca e ingênua
dignidade de Joaninha, o ar grave, a melancolia serena e bondosa da velha
impuseram tal respeito aos soldados que — graças também
à cooperação eficaz do comandante do posto, um bom e
honrado cavalheiro transmontano — elas viviam tão seguras e quietas
na pequena porção de casa que para si reservaram, quanto em
tais circunstâncias era possível viver. Frei Dinis vinha regularmente
ao vale todas as sextas-feiras, e nenhum outro hábito de suas vidas
se interrompeu.

E pouco a pouco, os combates, as escaramuças, o som e a vista do
fogo, o aspecto do sangue, os ais os feridos, o semblante desfigurado dos
mortos — a guerra enfim em todas as suas formas, com todo o seu palpitante
interesse, com todos os terrores, com todas as esperanças que a acompanham,
se lhes tornou uma cosa familiar, ordinária…

A tudo se habitua o homem, a todo o estado se afaz; e não há
vida, por mais estranha, que o tempo e a repetição dos atos
lhe não faça natural.

Todavia de Carlos nem mais uma linha… Pobre velha!

Assim passaram meses, assim correu o inverno quase todo, e já as
amendoeiras se toucavam de suas alvíssimas flores de esperança,
já uma depois da outra iam renascendo as plantas, iam abrolhando as
árvores; logo vieram as aves trinando seus amores pelos ramos… Insensivelmente
era chegado o mês de abril, estávamos em plena e bela primavera.

A guerra parecia cansada, o furor dos combatentes quebrado; rumores de intentadas
transações giravam por toda a parte.

No nosso vale as sentinelas dos dois campos opostos, costumadas já
a verem-se todos os dias, começavam a ver-se sem ódio; principiaram
por se dizer dos pesados gracejos da guerra, acabaram por conversar quase
amigavelmente. Muita vez foi curioso ouvi-los, os soldados, discorrer sobre
as altas questões de Estado que dividiam o reino e o traziam revolto
há tantos anos. Se as tratavam melhor os do conselho em seus gabinetes!

Joaninha que, pouco a pouco, se habituara àquele viver de perigos
e incertezas, de dia par dia lhe ia crescendo o ânimo, aguerrindo-se.
Tudo se afazia àquele estado: até os rouxinóis tinham
voltado ao loureiros de ao pé da casa, e como que disciplinados obedeciam
aos toques de alvorada e de retreta, acompanhando-os de seu cantar animado
e vibrante.

A essas horas Joaninha era certa em sua janela — naquela antiga e
elegante janela renascença de que primeiro nos namoramos, leitor amigo,
ainda antes de a conhecer a ela. Ali a viam as vedetas de ambos os exércitos,
ali se acostumaram a vê-la com o nascer e o pôr do sol: ali, muda
e quedas horas esquecidas, escutava ela o vago cantar dos seus rouxinóis,
talvez absorta em mais vagos pensamentos ainda…

E dali lhe puseram o nome de “menina dos rouxinóis”,
pelo qual era conhecida em ambos os campos; significante e poético
apelido com que a saudavam os soldados de ambas as bandeiras.

E uns e outros respeitavam e adoravam a menina dos rouxinóis. Entre
uns e outros por tácita convenção parecia estipulado
que aquela suave e angélica figura pudesse andar livremente no meio
das armas inimigas, como a pomba doméstica e valida que nenhum caçador
se lembrou e mirar.

Os costumes da guerra são menos soltos do que se cuida; no ânimo
do soldado há mais sentimentos delicados, nas suas formas há
menos rudeza do que se pensa. A farda é sim vaidosa e presumida, crê
muito nos seus poderes de sedução, mas não é brutal
senão no primeiro ímpeto.

Joaninha pensava os feridos, velava os enfermos, tinha palavras de consolação
para todos, e em tudo quanto dizia e fazia era tão senhora, tinha tão
grave gentileza, um donaire tão nobre, que a amavam todos muito, mas
respeitavam-na ainda mais.

Fiada já neste respeito e estima geral, Joaninha fora estendendo,
de dia a dia, as suas excursões pelo vale. Ultimamente costumava ir,
pelo fim da tarde, até um pequeno grupo de álamos e oliveiras
que ficavam mais para o sul e perto do lugar donde, à noite, se colocavam
as derradeiras vedetas dos constitucionais.

Um dia, já quase posto o sol, a tarde quente e serena, — ou
fosse que adormeceu ou que suas meditações a distraíram
— o certo é que os rouxinóis gorjeavam há muito
tempo nos loureiros da janela, e Joaninha não voltava.

Estabeleceram-se as vedetas de lado e outro, deram-se todas as disposições
costumadas para a noite.

O oficial dos constitucionais, que andava colocando as sentinelas, tinha
vindo essa mesma tarde de Lisboa com um reforço de tropas. Pôs-se
em marcha com a sua gente, foi-a dispondo nos lugares convenientes, e chegava
enfim ao pé daquele grupo de árvores.

— Silêncio! — disse ele. — Alto! Ali está
um vulto.

— Não é ninguém — respondeu um soldado que
era dos antigos no posto; — ninguém que importe; é a menina
dos rouxinóis. Estou vendo que adormeceu ao seu poiso costumado.

— A menina dos rouxinóis! Que cantiga é essa que cantas
tu de lá?

O soldado deu a explicação popular do seu dito, mostrou a casa
do vale, e continuava enaltecendo os méritos e virtudes de Joaninha…

O oficial não o deixou acabar:

— Para a retaguarda, e silêncio!

Foi rapidamente postar a alguma distância dali, as duas sentinelas
que lhe faltavam; e ele entrou só no pequeno grupo de árvores.

Era Joaninha que estava ali, Joaninha que efetivamente dormia a sono solto.

Capiutlo XX

Joaninha adormecida. — O demi-jour da coquette. — Poesia de Flos
Sanctorum —De como os rouxinóis acompanhavam sempre a menina
do seu nome; e do bem que um deles cantava no bosque. — Retrato esquiçado
à pressa para satisfazer às amáveis leitoras. —
Pondera-se o triste e péssimo gosto dos nossos governantes em tirarem
as honras militares ao mais elegante e mais nacional uniforme do exército
português. — Em que se parece o autor da presente obra com um
pintor da Idade Média. — De como os abraços, por mais
apertados que sejam, e os beijos, por mais intermináveis que pareçam,
sempre têm de acabar por fim.

Sobre uma espécie de banco rústico de verdura, tapeçado
de gramas e de macela brava, Joaninha, meio recostada, meio deitada, dormia
profundamente.

A luz baça do crepúsculo, coada ainda pelos ramos das árvores,
iluminava tibiamente as expressivas feições da donzela; e as
formas graciosas do seu corpo se desenhavam mole e voluptuosamente no fundo
vaporoso e vago das exalações da terra, com uma incerteza e
indecisão de contornos que redobrava o encanto do quadro, e permite
à imaginação exaltada percorrer toda a escala de harmonia
das graças femininas.

Era um ideal de demi-jour da coquette parisiense: sem arte nem estudo, lho
preparara a natureza em seu boudoir de folhagem perfumado da brisa recendente
dos prados.

Com nessas poéticas e populares legendas de um dos mais poéticos
livros que se tem escrito, o Flos Sanctorum, em que a ave querida e fadada
acompanha sempre a amável santa de sua afeição —
Joaninha não estava ali sem o seu mavioso companheiro. Do mais espesso
da ramagem, que fazia sobrecéu àquele leito de verdura, saía
uma torrente de melodias, que vagas e ondulantes como a selva com o vento;
fortes, bravas, e admiráveis de irregularidade e invenção
como as bárbaras endechas de um poeta selvagem das montanhas… Era
um rouxinol, um dos queridos rouxinóis do vale que ali ficara de vela
e companhia à sua protetora, à menina do seu nome.

Com o aproximar dos soldados, e o cochichar do curto diálogo que
no fim do último capítulo se referiu, cessara por alguns momentos
o delicioso canto da avezinha; mas quando o oficial, postadas as sentinelas
a distância, voltou pé ante pé e entrou cautelosamente
para debaixo das árvores, já o rouxinol tinha tornado ao seu
canto, e não o suspendeu outra vez agora, antes redobrou de trilos
e gorjeios, e do amais alto de sua voz agudíssima veio descaindo depois
em uns suspiros tão magoados, tão sentidos, que não dissera
senão que a preludiava a mais terna e maviosa cena de amor que este
vale tivesse visto.

O oficial… — Mas certo que as amáveis leitoras querem saber
com quem tratam, e exigem, pelo menos, uma esquiça rápida e
a largos traços do novo ator que lhe vou apresentar em cena.

Têm razão as amáveis leitoras, é um dever de
romancista a que se não pode faltar.

O oficial era moço, talvez não tinha trinta anos, posto que
o trato das armas, o rigor das estações, e o selo visível
dos cuidados que trazia estampado no rosto, acentuassem já mais fortemente,
em feições de homem feito, as que ainda devia arredondar a juventude.

A sua estatura era mediana, o corpo delgado, mas o peito largo e forte como
precisa um coração de homem para pulsar livre; seu porte gentil
e decidido de homem de guerra desenhava-se perfeitamente sob o espesso e largo
sobretudo militar — espécie de great-coat inglês, que a
imitação das modas britânicas tinha tornado familiar dos
nossos bivaques. Trazia-o desabotoado e descaído para trás,
porque a noite não era fria; e via-se por baixo elegantemente cingida
ao seu corpo a fardeta parda dos caçadores, realçada de seus
característicos alamares pretos e avivada de encarnado…

Uniforme tão militar, tão nacional, tão caro a nossas
recordações — que essas gentes, prostituidoras de quanto
havia nobre, popular e respeitado nesta terra, proscreveram do exército…
por muito português demais talvez! deram-lhe baixa para os beleguins
da alfândega, reformaram-no em uniforme da bicha!

Não pude resistir a esta reflexão: as amáveis leitoras
me perdoem por interromper com ela o meu retrato.

Mas quando pinto, quando vou riscando e colorindo as minhas figuras, sou
como aqueles pintores da Idade Média que entrelaçavam nos seus
painéis dísticos de sentenças, fitas lavradas de moralidade
e conceitos… talvez porque não saibam dar aos gestos e atitudes expressão
bastante para dizer por eles o que assim escreviam, e servia a pena de suplemento
e ilustração ao pincel… Talvez e talvez pelo mesmo motivo
caio eu no mesmo defeito.

Será; mas em mim é irremediável, não sei pintar
de outro modo.

Voltemos ao nosso retrato.

Os olhos pardos e não muito grandes, mas de uma luz e viveza imensa,
denunciavam o talento, a mobilidade do espírito — talvez a irreflexão…
mas também a nobre singeleza de um caráter franco, leal e generoso,
fácil na ira, fácil no perdão, incapaz de se ofender
de leve, mas impossível de esquecer uma injúria verdadeira.

A boca, pequena e desdenhosa, não indicava contudo soberba, e muito
menos vaidade, mas sorria na consciência de uma superioridade inquestionável
e não disputada.

O rosto, mais pálido que trigueiro, parecia comprido pela barba preta
e longa que trazia ao uso do tempo. Também o cabelo era preto; a testa
alta e desafogada.

Quando calado e sério, aquela fisionomia podia-se dizer dura; a mais
pequena animação, o mais leve sorriso a fazia alegre e prazenteira,
porque a mobilidade e a gravidade eram os dois pólos desses caráter
pouco vulgar e dificilmente bem entendido.

Daquele busto clássico e verdadeiramente moldado pelos tipos da arte
antiga, podia o estatutário fazer um filósofo, um poeta, um
homem de Estado, ou um homem do mundo, segundo as leves inflexões de
expressão que lhe desse.

Neste momento agora, e ao entrar na pequena espessura daquelas árvores,
animava-o uma viva e inquieta expressão de interesse — quebrado
contudo, sustido e, por assim dizer, sofreado, de um temor oculto, de um pensamento
reservado e doloroso que lhe ia e vinha ressumbrando na face, como a antiga
e desbotada cor de um estofo que se tingiu e novo — que é outro
agora, mas que não deixou e ser inteiramente o que era…

Alegra-se assim um triste dia de novembro com o raio do sol transiente e
inesperado que lhe rompeu a cerração num canto do céu.

Tal era, e tal estava diante de Joaninha adormecida, o que não direi
mancebo porque o não parecia — o homem singular a quem o nome,
a história e as circunstâncias da donzela pareciam ter feito
tamanha impressão.

— Joaninha! — murmurou ele apenas a viu à luz ainda bastante
do crepúsculo, — Joaninha! — disse outra vez, contendo
a violência da exclamação: — É ela sem dúvida.
Mas que diferente!… Quem tal diria! Que graça! que gentileza! Será
possível que a criança que há dois anos?…

Dizendo isto, por um movimento quase involuntário lhe tomou a mão
adormecida e a levou aos lábios.

Joaninha estremeceu e acordou.

— Carlos, Carlos! — balbuciou ela, com os olhos ainda meio fechados.
— Carlos, meu primo… meu irmão! Era falso, dize: era falso?
Foi um sonho, não foi, meu Carlos?…

E progressivamente abria os olhos mais e mais até se lhe espantarem
e os cravar nele arregalados de pasmo e de alegria.

— Foi, foi — continuou ela; — foi sonho, foi um sonho mau
que tive. Tu não morreste… Fala à tua irmã, à
tua Joana: dize-lhe que estás vivo, que não és a sombra
dele… Não és, não, que eu sinto a tua mão quente
na minha que queima, sinto-a estremecer como a minha… Carlos! meu Carlos!
dize, fala-me: tu estás vivo e são? E és… és…
o meu Carlos? Tu próprio, não é já o sonho, és
tu?…

— Pois tu sonhavas? tu Joana, tu sonhavas comigo?

— Sonhava como sonho sempre que durmo… e o mais do tempo que estou
acordada… sonhava com aquilo em que só penso… em ti.

— Joana… prima… minha irmã!

E caiu nos braços dela; e abraçaram-se num longo, longo abraço
— com um longo, interminável beijo… longo, longo e interminável
como um primeiro beijo de amantes…

O abraço desfez-se, e o beijo terminou enfim, porque os reflexos do
céu na terra são limitados e imperfeitos como as incompletas
existências que a habitam.

Senão… invejariam os anjos a vida na terra.

Joaninha, tornada a si daquele paroxismo, abria e fechava os olhos para se
afirmar se estava bem acordada, tocava as mãos, o rosto, e o peito,
os braços do primo, palpava-se depois a si mesma como quem duvidava
de sua própria existência, e dizia em palavras cortadas e sem
nexo:

— É Carlos… Carlos foi falso. É meu primo… Minha
avó também sonhou o mesmo sonho, mas foi falso. Frei Dinis não
é que o disse, nem ninguém: eu e a avó é que o
sonhamos. Mas ele aqui está, vivo… vivo! é nosso, nosso todo
outra vez… Mas como vieste tu aqui, Carlos? Como estava eu aqui contigo?…
E sós, sozinhos aqui a esta hora! Não deve ser isto.. Valha-me
Deus! E que dirão? E Jesus! Lá isso não me importa; deixá-los
dizer; mas não deve ser. Vamos, Carlos, vamos ter com ela, vamos para
a avó!.. Que nisto não há mal nenhum… Meu primo!…
um primo com que eu fui criada!.. Mas quem não souber, pode dizer…
Vamos, Carlos. — Oh! minha avó morre de alegria , coitada!…
É verdade: vou adiante preveni-la, prepará-la… hei de lhe
ir assim dizendo pouco a pouco… Segue-me tu, Carlos, e vamos. Mas, ó
meu Deus! não é preciso; para quê? Ela é cega,
coitadinha, não sabes?

— Cega, que dizes? Minha avó está cega?

— Pois não sabias? Ai! É verdade, não sabias.
Tantas coisas que tu não sabes, meu Carlos! Mas eu te contarei tudo,
tudo. Olha: cegou quando… Mas não falemos agora nestas tristezas
que já lá se vão. Em ela te sentindo ao pé de
si, é o mesmo que tornar-lhe a vista. Tem-mo ela dito muitas vezes,
eu bem sei que é assim. Mas ouve: um dia havemos de falar —nós
dois sós — à vontade: tenho tanto que te dizer… nem
tu sabes… Agora vamos, Carlos.

E falando assim, tomou-o pela mão e saiu para o vale aberto, froixamente
aclarado já de miríades de estrelas cintilantes no céu
azul.

Capítulo XXI

Quem vem lá? — Como entre dois litigantes nem sempre goza o
terceiro. — Carlos e Joaninha numa espécie de situação
ordeira, a mais perigosa e falsa das situações.

As estrelas luziam no céu azul e diáfano, a brisa temperada
da primavera suspirava brandamente; na larga solidão e no vasto silêncio
do vale distintamente se ouvia o doce murmúrio da voz de Joaninha,
claramente si via o vulto da sua figura e da do companheiro que ela levava
pela mão e que maquinalmente a seguia como sem vontade própria,
obedecendo ao poder de um magnetismo superior e irresistível.

Passavam, sem ver e sem refletir onde estavam, por entre as vedetas de ambos
os campos… e ao mesmo tempo de umas e outras lhe bradou a voz breve e estridente
das sentinelas: — Quem vem lá?

Estremeceram involuntariamente ambos com o som repentino da guerra e de
alarma que os chamava à esquecida realidade do sítio, da hora,
das circunstâncias em que se achavam… Daquele sonho encantado que
os transportara ao Éden querido de sua infância , acordaram sobressaltados…
viram-se na terra erma e bruta, viram a espada flamejante da guerra civil
que os perseguia, que os desunia, que os expulsava pára sempre do paraíso
de delícias em que tinham nascido…

Oh! que imagem eram esses dois, no meio daquele vale nu e aberto, à
luz das estrelas cintilantes, entre duas linhas de vultos negros, aqui e ali
dispersos e luzindo acaso do transiente reflexo que fazia brilhar uma baioneta,
um fuzil!… que imagem não eram dos verdadeiros e mais santos sentimentos
da natureza expostos e sacrificados sempre no meio das lutas bárbaras
e estúpidas, no conflito de falsos princípios em que se estorce
continuamente o que os homens chamaram sociedade!

Joaninha abraçou-se com o primo; ele parou de repente e com a mão
ao punho da espada.

— Quem vem lá? — tornaram a bradar as sentinelas.

— Ouves, Joana? — disse Carlos em voz baixa e sentida: —
Ouves estes brados? É o grito da guerra que nos manda separar; é
o clamor cioso e vigilante dos partidos que não tolera a nossa intimidade,
que separa o irmão da irmã, o pai do filho!…

Quem vem lá? — bradaram ainda mais forte as sentinelas e ouviu-se
aquele estridor baço e breve que de tão froixo é e tão
forte impressão faz nos mais bravos ânimos… era o som dos gatilhos
que se aramavam nas espingardas.

O momento era supremo, o perigo iminente e já inevitável…
ali podiam ficar ambos, traspassados opostas dos dois campos contendores.

Como esses que, fiados em sua inocência e abnegação,
cuidam poder passar por entre as discórdias civis sem tomar parte nelas,
e que são, por isso mesmo, objeto de todas as desconfianças,
alvo de todos os tiros — assim estavam ali os dois primos na mais arriscada
e falsa posição que têm as revoluções.

Joaninha conheceu o perigo que os ameaçava; e com aquela rapidez
de resolução que a mulher tem mais pronta e segura nas grandes
ocasiões, disse para Carlos:

— Fala aos teus, faze-te conhecer e põe-te a salvo. Amanhã
nos tornaremos a ver: eu te avisarei! Adeus!

— E tu, tu?… E as sentinelas dos realistas?…

— Não tenhas cuidado em mim. Desta banda todos me conhecem.

Deu alguns passos para o lado de sua casa e levantou a voz:

— Joaninha! Sou eu, camaradas, sou eu!

Imediatamente se ouviu o som retinido das coronhas no chão, e o riso
contente dos soldados que reconheciam a benquista e bem-vinda voz de Joaninha…
da “menina dos rouxinóis”.

— Vês, Carlos?… Adeus! até amanhã — disse
ela baixo.

— Até amanhã, se…

— Se!… Pois tu?…

— Ouve: não digas a tua avó que me viste, que estou
aqui: é forçoso, é indispensável, exijo-o de ti…

— E amanhã me dirás?…

— Sim.

— Prometo: não direi nada… Mas, oh! Carlos…

— Adeus!

Carlos deu dois passos para a banda das suas vedetas. Joana correu para
o lado oposto. Mas ele parou e não tirou os olhos daquela forma gentil
que deslizava como uma sombra pelo horizonte do vale, até que desapareceu
e todo.

E ele imóvel ainda!

Faiscaram de repente como relâmpago um, dois, três… e a detonações
que os seguiram, e o assovio das balas que vinham de após elas… Eram
as sentinelas constitucionais que faziam fogo sobre o seu comandante que não
conheciam, cujo silêncio e imobilidade o fazia suspeito.

Uma das balas ainda o feriu levemente no braço esquerdo.

— Bem, camaradas! — bradou Carlos caminhando rapidamente para
eles, e erguendo a voz forte e cheia que tão conhecida era nas fileiras:
— Bem! Fizeram a sua obrigação. Um de vocês que
me aperte aqui o braço com este lenço.

— Carlos! — gritou ao longe uma voz fina, aguda, vibrante de
terror pelo espaço; — Carlos! fala-me, responde: não te
sucedeu nada?

— Nada, nada! Sossega.

E tornou a cair tudo no silêncio. Carlos retirou-se ao seu quartel
numa choupana próxima. Os soldados olharam-se ente si e sorriram.

Um mais doutro disse para os outros:

— O nosso capitão não se descuida: ainda hoje chegou,
e já nós lá vamos, hein?

— O nosso capitão é daqui, não sabes?

— Hum! tenho percebido. E ainda lhe dura? O homem é capaz!…

— Silêncio! Eu te direi logo a história toda: é
uma prima.

— Ah! prima. Então não há nada que dizer.

— É a que eles chamam aqui…

— A menina dos rouxinóis? Essa é maluca.

— Gosta delas assim, que ele também o é.

— Pois a freira de S. Gonçalo, na Terceira?

— Maluca.

— E a Lady inglesa, que?…

— Maluquíssima essa! Não me há de admirar se
a vir cair do ar um dia por aí como bomba. E não há de
dar mau estalo!

— Pudera! E encontrando-se com a prima então!…

— Mas ela é prima ou é irmã?

— É uma tal parentela enrevezada a dessa gente da casa do vale!…
dizem coisas por aí, que se eu as entendo!… E há um frade
no caso, já se sabe…

— Oh!, ele há frade no caso?

— Há, e que frade! Um apostólico às direitas!
Tão feio, tão magro! aparece por aí às vezes.
Eu já o lobriguei um dia: e que famoso tiro que era! Quase que me arrependo
de não ter…

— Isso! hoje íamos matando o nosso capitão por instantes.
Ora agora se lhe matas o tio, ou pai, ou o que quer que é …

— Um frade!

— Um frade não é gente?

— Não senhor.

— Está bom: basta de conversar por hoje. O que me parece é
que nós temos cedo muita pancada rija.

— Venha ela, que isto já me aborrece.

Acenderam os cigarros e fumaram.

Com o mesmo sossego de espírito… santo Deus! acendem os homens
a guerra civil, que altera e confunde por este modo todas as idéias,
todos os sentimentos da natureza.

Capítulo XXII

Bilhete de manhã da prima ao primo. Enganam a pobre da velha. —
Noite maldormida. — Da conversa que teve Carlos com seus botões.
— A Joaninha que ele deixara, e a Joaninha que achou. — Obrigações
de amor, triste palavra. — A mulher que ele amava, e se ele amava ainda.
— Quesitos do A. aos seus benévolos leitores. Declara que com
hipócritas não fala. — Quem há de levantar a primeira
pedra? — Dous modos diferentes de acudir uma coisa ao pensamento.

No dia seguinte, mal rompia a manhã, um paisano que dizia trazer
comunicações importantes para o comandante do posto avançado,
foi conduzido à presença de Carlos e lhe entregou uma carta:
era de Joaninha.

Fiel à sua promessa, ela não tinha dito nada do encontro da
véspera: dizia a carta. E que a avó estava doente e aflita;
que para a animar consolar, lhe dera notícias do primo, como vindas
por pessoa que o vira e estivera com ele. Que ficava mais contente e sossegada:
mas que aquele estado de ansiedade não podia prolongar-se. Que a saúde
da pobre velha declinava de dia a dia; que se lhe ia a vida, que era matá-la
não lhe dizer a verdade… Joaninha concluía com mil afetos
e saudades e aprazava por fim o mesmo sítio da véspera para
se tornarem a ver, e para concertarem o que haviam de fazer. Todas as precauções
estavam tomadas, e o consentimento dado pelo comandante do posto contrário,
para haver toda a segurança naquela entrevista.

Carlos tinha velado toda a noite; uma excitação extraordinária
lhe amotinara o sangue, lhe desafinara os nervos. Bem tinha desejado vir para
aquele posto, bem contava, bem esperava ele, estando ali, saber de mais perto
de sua família, vê-los talvez, mais dia menos dia, encontrar-se
com algum deles… e de todos eles, a inocente e graciosa criança com
quem vivera como irmão desde os seus primeiros anos, era quem ele mais
esperava, mais desejava ver decerto.

Mas uma criança era a que ele tinha deixado, uma criança a
brincar, a colher as boninas, a correr atrás das borboletas do vale…
uma criança que, sim, o amava ternamente, cuja suave imagem o não
tinha deixado nunca em sua longa peregrinação, cuja saudade
o acompanhara sempre, de quem se não esquecera um momento, nem nos
mais alegres, nem nos mais ocupados, nem nos mais difíceis, nem nos
mais perigosos da sua vida…

Mas era uma criança!… era a imagem de uma criança.

É certo, sim; e nas batalhas, em presença da morte… no longo
cerco do Porto entre os flagelos da cólera e da fome, nas horas de
mais viva esperança, no descoroçoamento dos mais tristes dias,
a doce imagem de Joaninha, daquela Joaninha com quem ele andava ao colo, que
levantava em seus ombros para ela chegar aos ninhos dos pássaros no
verão, aos medronhos maduros no outono, que ele suspendia nos braços
para passar no inverno os alagadiços do vale, — essa querida
imagem não o abandonara nunca.

— Nunca!… nem quando as penas de amor, nem quando as suas glórias
— mais esquecidiças ainda — pareciam absorver-lhe todos
os sentidos e todo o sentimento do seu coração.

A saudade, a memória de Joaninha, suavemente impressa no mais puro
e no mais santo da sua alma, resplandecia no meio de todas as sombras que
lha obscurecessem, sobreluzia no meio de qualquer fogo que lhe alumiasse.

Uma luz quieta, límpida, serena como a tocha na mão do anjo
que ajoelha em inocência e piedade diante do trono do Eterno!

Mas, no mesmo dia em que chegou ao vale, quase na mesma hora, cheio daquela
luz mais viva e animada agora pela proximidade do foco donde saía…
nessa mesma hora, ir encontrar ali, naquela solidão, entre aquelas
árvores, à tíbia e sedutora claridade do crepúsculo…
a quem, santo deus! Não já a mesma Joaninha de há três
anos, não a mesma imagem que ele trazia, como a levara, no coração;
mas uma gentil e airosa donzela, uma mulher feita e perfeita, e que nada perdera,
contudo, da graça, do encanto, do suave e delicioso perfume da inocência
infantil em que a deixara!

Não esperava, não estava preparado para a impressão
que recebeu, foi uma surpresa, um choque, um reviramento confuso de todas
as suas idéias e sentimentos.

Qual fosse porém a precisa e verdadeira impressão que recebeu,
nem ele a si próprio a pudera explicar: era de um gênero novo,
único, na a hist&ooacute;ria de suas sensações: não
a conhecia, estranhava-a e quase que tinha medo de a analisar.

Seria anúncio de amor?

Mas ele tinha amado, muito e deveras… e cuidava amar ainda, e devia amar;
por quanto há sagrado e santo nos deveres do coração,
era obrigado a amar ainda.

Ó obrigações de amor, obrigações de amor!
se vós não sopis senão obrigações!…

Não o pensava Carlos, não cria ele assim: leal e sincero tinha
entregue o seu coração à mulher que o amava, que tantas
provas lhe dera de amor e devoção, que descansava em sua fé,
que não existia senão para ele: mulher moça, bela, cheia
de prendas e encantos, mulher de um espírito, de uma educação
superior, que atravessara, desprezando-as, turbas de adoradores nobres, ricos,
poderosos, para descer até ele, para se entregar ao foragido, pobre,
estrangeiro, desprezado.

Quem era essa mulher?

Aonde, como obtivera ele a posse dessa jóia, desse talismã
com o qual se tinha por tão seguro para não ver na graciosa
prima senão?…

Senão o que?

A inocente criança que ali deixara?

Mas não é verdade isso: outra era a impressão que Joaninha
lhe fizera, fosse ela qual fosse.

O que era então?

E sobretudo, quem era essoutra mulher que ele amava?

E amava-a ele ainda?

Amava.

E Joaninha?

Joaninha era… nem sei o que lhe era Joaninha… o que lhe estava sendo
naquele momento.

O que lhe era fora, assaz to tenho explicado, leitor amigo e benévolo:
o que ela será… Podes tu, leitor cândido e sincero —
aos hipócritas não falo eu — podes tu dizer-me o que há
de ser amanhã no teu coração a mulher que hoje somente
achas bela, ou gentil, ou interessante?

Podes responder-me da parte que tomará amanhã na tua existência
a imagem da donzela que hoje contemplas apenas com os olhos de artista e lhe
estás notando, como em quadro gracioso, os finos contornos, a pureza
das linhas, a expressão verdadeira e animada?

E quando vier, se vier, esse fatal dia de amanhã, responder-me-ás
também da tua parte que ficará tendo em tua alma essa outra
imagem que lá estava dantes e que, ao reflexo desta agora, daqui observo
que vai empalidecendo, descorando… já lhe não vejo senão
os lineamentos vagos… já é uma sombra do que foi… Ai! o
que será ela amanhã?

Leitor amigo e benévolo, caro leitor meu indulgente, não acuses,
não julgues à pressa o meu pobre Carlos; e lembra-te daquela
pedra que o Filho de deus mandou levantar à primeira mão que
se achasse inocente… A adúltera foi-se em paz, e ninguém a
apedrejou.

Pois é verdade; Carlos tinha amado, amado muito, e amava ainda a
mulher a quem prometera, a quem estava resolvido a guardar fé. E essa
mulher era bela, nobre, rica, admirada, ocupava uma alta posição
no mundo… e tudo lhe sacrificara e ele exilado, desconhecido.

E Carlos estava seguro que nenhuma mulher o havia de amar como ela, que
os longos e ondados anéis de loiro cendrado, que os lânguidos
olhos de gazela que o ar majestoso e altivo, que a fez duma alvura celeste,
que o espírito, o talento, a delicadeza de Georgina… Chamava-se Georgina;
e é tudo quanto por agora pode dizer-vos, ó curiosas leitoras,
o discreto historiador deste mui verídico sucesso; não lhe pergunteis
mais, por quem sois. Carlos estava seguro, dizia eu, que todas essas perfeições
que o seu amor sem limites, que a sua confiança sem reserva, não
podiam ter rival, nem haviam de ter.

Mas aquele beijo, aquele abraço de Joaninha… oh! que lhe tinha
ele feito? Como o sentira ela? Como lhe guardara seu talismã o coração
e a alma?…

Não, Carlos estava certo de si, certo do seu antigo amor, lembrado
de quanto lhe devia: e nisso refletiu toda aquela noite que se fora em claro.

A imagem de Joaninha lá aparecia, de vez em quando, como um raio
de luz transiente e mágica, no meio dessas outras visões do
passado que a reflexão lhe acordava. Ai! essa era a reflexão
que as acordava… aquela vinha espontânea; era repelida, e tornava,
e tornava…

Há sua notável diferença nestes dois modos de acudir
ao pensamento.

A manhã veio enfim; Carlos respirou o ar puro e vivo da madrugada,
sentiu-se outro.

Quando chegou a carta de Joaninha, leu-a e refletiu nela sem sobressalto.
Certo e seguro e si, resolveu ir ao prazo dado para a tarde.

Capítulo XXIII

Continua a acudir muita coisa vaga e encontrada ao pensamento de Carlos —.
— Dança de fadas e duendes. — Frei Dinis o fado-mau da
família. — Veremos, é a grande resolução
nas grandes dificuldades. — Carlos poeta romântico. —Olhos
verdes. — Desafio a todos os poetas moyen-àge do nosso tempo.

Não há nada como tomar uma resolução.

Mas há de tomar-se e executar-se; aliás, se o caso é
difícil e complicado, pouco a pouco as dúvidas surgidas começam
a enlear-se outra vez, a enredar-se… a surgir outras novas, a apresentarem-se
as faces ainda não vistas da questão… enfim, se o intervalo
é largo, quando a resolução tomada chega a executar-se,
a maior parte das vezes já não é por força de
razão e de convicção que se faz, mas por capricho, ponto
de honra, teima.

Carlos tinha resolvido ir ao prazo dado, no fim do dia. Mas o dia era longo,
custou-lhe a passar. Todas as ponderações da noite lhe ocorreram
ao pensamento, todas as imagens que lhe tinham flutuado no espírito
se avivaram, se animaram, e lhe começaram a dançar na alma aquela
dança de fadas e duendes que faz a delícia e o tormento destes
sonhadores acordados que andam pelo mundo e a quem a douta faculdade chama
nervosos; em estilo de romance sensíveis, na frase popular malucos.

Carlos era tudo isso; para que o hei de eu negar?

Entre aquelas imagens que assim lhe bailavam no pensamento, vinha uma agora…
talvez a que ele via mais distinta entre todas, a da avó que tanto
amara, em cujo maternal coração ele bem sabia que tinha a primeira,
a maior parte… da avó que tão carinhosa mãe lhe tinha
sido! Pobre velhinha, hoje decrépita e cega… Cega, coitada! Como
e porque cegaria ela?

Havia aí mistério, que Joaninha indicara, mas que não
explicou.

Atrás da paciência e humilhada figura daquela mulher de dores
e desgraças, se erguia um vulto austero e duro, um homem armado da
cabeça aos pés de ascética insensibilidade, um homem
que parecia o fado-mau daquela velha, de toda a sua família… o cúmplice
e o verdugo de um grande crime… um ser de mistério e de terror.

Era Frei Dinis aquele homem; homem que ele desejava, que ele cuidava detestar,
mas por quem, no fundo da alma, lhe clamava urna voz mística e íntima,
uma voz que lhe dizia: “Assim será tudo, mas tu não podes
aborrecer esse homem”.

Sim, mas sobre Frei Dinis pesava uma acusação tremenda, que
o fizera, a ele Carlos, abandonar a casa de seus pais! Acusação
horrível que também compreendia a pobre velha, aquela avó
que o adorava, e que ele, ainda criminosa como a supunha, não podia
deixar de amar…

E destes medonhos segredos sabia Joaninha alguma coisa?

Esperava em Deus que não.

Desconfiaria alguma coisa?… O quê?

E iria ele poluir o pensamento, desflorar os ouvidos, corromper os lábios
da inocente criança com o esclarecimento de tais horrores?

Havia de lhe falar na infâmia dos seus? Havia de lhe explicar o motivo
por que fugira da casa paterna?

Havia de?…

Não.— Se Joaninha tivesse suspeitas, havia de destrui-las, antes;
se ela soubesse alguma coisa, negar-lha.

Mentiria, juraria falso se fosse preciso.

E não havia de ir ver a avó, não havia de entrar na
casa dos seus a consolar a infeliz que só vivia duma esperança,
a de ver o filho de sua filha?

Não, nunca… O limiar daquela porta, que ele julgava contaminado,
infame, manchado de sangue e cuspido de opróbrios e desonras, tinha-o
passado sacudindo o pó de seus sapatos, prometendo a Deus e a sua honra
de o não tornar a cruzar mais.

Mas que diria então ele a Joaninha? Como havia de explicar-lhe um
proceder tão estranho, e aparentemente tão cruel, tão
ingrato?

Por enquanto as impossibilidades materiais da guerra serviriam de desculpa,
depois o tempo daria conselho.

Veremos! — é a grande resolução que se toma nas
grandes dificul­dades da vida, sempre que é possível espaçá-las.

Carlos disse: Veremos!

Tomou todas as disposições para poder estar seguro e sossegado
no sítio onde ia encontrar a prima: e o resto do dia, ansioso mas con­tente,
ocupou-se de seus deveres militares, fatigou o corpo para descan­sar o
espírito, e em parte e por bastantes horas o conseguiu.

Mas um dia de abril é imenso; interminável. E as últimas
horas pareciam as mais compridas. Nunca houve horas tamanhas! Carlos já
não tinha que inventar para fazer: pôs-se a pensar.

Que remédio!

Pensou nisto, pensou naquilo… uma idéia lhe vinha, outra se lhe
ia. A imaginação, tanto tempo comprimida, tomava o freio nos
dentes e corria à rédea solta pelo espaço…

Anéis dourados, tranças de ébano, faces de leite e rosas
como de querubins, outras pálidas, transparentes, diáfanas como
de princesas encantadas, olhos pretos, azuis, verdes… os de Joaninha enfim…
todas estas feições, confusas e indistintas mas de estremada
beleza todas, lhe passavam diante da vista, e todas o enfeitiçavam.
O desgraçado…Por que não hei de eu dizer a verdade? —
o desgraçado era poeta..

Inda assim! não me esconjurem já o rapaz… Poeta, entendamo­-nos;
não é que fizesse versos: nessa não caiu ele nunca, mas
tinha aquele fino sentimento de arte, aquele sexto sentido do belo, do ideal
que só têm certas organizações privilegiadas de
que se fazem os poetas e os artistas,

Eis aqui um fragmento de suas aspirações poéticas. Vejam
as amáveis leitoras que não têm metro, nem rima —
nem razão… Mas enfim versos não são.

"Olhos verdes!…

"Joaninha tem os olhos verdes.

"Não se reflete neles a pura luz do céu, como nos olhos
azuis.

"Nem o fogo — e o fumo das paixões, como nos pretos.

"Mas o viço do prado, a frescura e animação do
bosque a flutuação e a transparência do mar…

"Tudo está naqueles olhos verdes.

"Joaninha, por que tens tu os olhos verdes?

"Nos olhos azuis de Georgina arde, em sereno e modesto brilho, a luz
tranqüila de um amor provado. seguro, que deu quanto havia de dar, quanto
tinha que dar.

"Os olhos azuis de Georgina não dizem senão uma só
frase de amor, sempre a mesma e sempre bela: Amo-te, sou tua!

"Nos olhos negros e inquietos de Soledade nunca li mais que estas palavras:
Amo-me, que és meu!

"Os olhos de Joaninha são um livro imenso, escrito em caracteres
móveis, cujas combinações infinitas excedem a minha compreensão.

"Que querem dizer os teus olhos, Joaninha?

"Que língua falam eles?

"Oh! para que tens tu os olhos verdes, Joaninha?

"A açucena e o jasmim são brancos, a rosa vermelha, o
alecrim azul…

"Roxa é a violeta, e o junquilho cor de ouro.

"Mas todas as cores da natureza vêm de uma só, o verde.

"No verde está a origem e o primeiro tipo de toda a beleza.

"As outras cores são parte dela; no verde esta o todo, a unidade
da formosura criada.

"Os olhos do primeiro homem deviam ser verdes.

"O céu é azul…

"A noite é negra…

"A terra e o mar são verdes…

"A noite é negra mas bela, e os teus olhos, Soledade, eram negros
e belos como a noite.

"Nas trevas da noite luzem as estrelas que são tão lindas…
mas no fim de uma longa noite quem não suspira pelo dia?

"E que se vão… oh que se vão enfim as estrelas!…

"Vem o dia.. — o céu é azul e formoso: mas a vista
fatiga-se de olhar para ele.

"Oh! o céu é azul como os teus olhos, Georgina…

"Mas a terra é verde: e a vista repousa-se nela, e não
se cansa na variedade infinita de seus matizes tão suaves.

"O mar é verde e flutuante… Mas oh! esse é triste como
a terra é alegre.

"A vida compõe-se de alegrias e tristezas…

"O verde é triste e alegre como as felicidades da vida!

"Joaninha, Joaninha, por que tens tu os olhos verdes?

Já se vê que o nosso doutor de bivaque, o soldado que lhe cha­mou
maluco ao pensador de tais extravagâncias, tinha razão e sabia
o que dizia.

Infelizmente não se formulavam em palavras estes pensamentos poéticos
tão sublimes. Por um processo milagroso de fotografia mental, apenas
se pôde obter o fragmento que deixo transcrito.

Que honra e glória para a escola romântica se pudéssemos
ter a coleção completa!

Fazia-lhe um prefácio incisivo, palpitante, britante…

Punha-se-lhe um título vaporoso, fosforescente… por exemplo: —
Ecos surdos do coração — ou Reflexos d’alma — ou
— Hinos invisíveis — ou — Pesadelos poéticos
— ou qualquer outro deste gênero, que se não soubesse bem
o que era, nem tivesse senso comum.

E que viesse cá algum menestrel de fraque e chapéu redondo,
al­gum trovador renascença de colete à Joinvilie, lutar
com o meu Carlos em pontos de romantismo vago, descabelado, vaporoso e nebuloso!

Se algum deles era capaz de escrever com menos lógica, — (com
menos gramática, sim) e com mais triunfante desprezo das absurdas e
escravizantes regras dessa pateta dessa escola clássica que não
produziu nunca senão Homero e Virgílio, Sófocles e Horácio,
Camões e o Tasso, Corneille e Racine, Pope e Moliére. e mais
algumas dúzias de outros nomes tão obscuros como estes?

Capítulo XXIV

Novo Gênesis.— O Adão social muito diferente do Adão
natural. — Carlos sempre um por seus bons instintos, sempre outro por
suas más reflexões. — De como Joaninha recebeu o primo
com os braços abertos, e do mais que entre eles se passou. —
Dor meia dor, meio prazer.

Formou Deus o homem, e o pôs num paraíso de delícias;
tornou a formá-lo a sociedade, e o pôs num inferno de tolices.

O homem — não o homem que Deus fez, mas o homem que a sociedade
tem contrafeito, apertando e forçando em seus moldes de ferro aquela
pasta de limo que no paraíso terreal se afeiçoara à imagem
da divindade — o homem assim aleijado como nós o conhecemos,
é o animal mais absurdo, o mais disparatado e incongruente que habita
na terra.

Rei nascido de todo o criado, perdeu a realeza: príncipe deserdado
e proscrito. hoje vaga foragido no meio de seus antigos estados, altivo ainda
e soberbo com as recordações do passado, baixo, vil e miserável
pela desgraça do presente.

Destas duas tão apostas atuações constantes, que já
per si sós o tornariam ridículo, formou a sociedade, em sua
vã sabedoria, um sis­tema quimérico, desarrazoado e impossível,
complicado de regras a qual mais desvairada, encontrado de repugnâncias
a qual mais aposta. E va­zado este perfeito modelo de sua arte pretensiosa,
meteu dentro dele o homem, desfigurou-o, contorceu-o, fê-lo o tal ente
absurdo e disparata­do, doente, fraco, raquítico; colocou-o no
meio do Éden fantástico de sua criação —
verdadeiro inferno de tolices — e disse-lhe, invertendo com blasfemo
arremedo as palavras de Deus Criador:

"De nenhuma árvore da horta comendo comerás:

"Porém da árvore da ciência do bem e do mal dela
só comerás se quiseres viver."

Indigestão de ciência que não comutou seu mau estômago,
presun­ção e vaidade que dela se originaram — tal
foi o resultado daquele preceito a que o homem não desobedeceu como
ao outro: tal é o seu estado habitual.

E quando as memórias da primeira existência lhe fazem nascer
o desejo de sair desta outra, lhe influem alguma aspiração de
voltar à natureza e a Deus, a sociedade, armada de suas barras de ferro,
vem sobre ele, e o prende, e o esmaga, e o contorce de novo, e o aperta no
ecúleo doloroso de suas formas,

Ou há de morrer ou ficar monstruoso e aleijão.

Poucos filhos do Adão social tinham tantas reminiscências da
outra pátria mais antiga, e tendiamtanto a aproximar-se do primitivo
tipo que saíra das mãos do Eterno, forcejavam tanto por sacudir
de si o pesado aperto das constrições sociais, e regenerar-se
na santa liberdade da na­tureza, como era o nosso Carlos.

Mas o melhor e o mais generoso. dos homens segundo a sociedade, é
ainda mais fraco, falso e acanhado.

Demais, cada tentativa nobre, cada aspiração elevada de sua
alma lhe tinha custado duros castigos, severas e injustas condenações
desse grande juiz hipócrita, mentiroso e venal… o mundo.

Carlos estava quase como os mais homens… ainda era bom e ver­dadeiro
no primeiro impulso de sua natureza excepcional; mas a refle­xão
descia-o á vulgaridade da fraqueza. da hipocrisia, da mentira co­mum.

Dos melhores era, mas era homem,

Os seus pensamentos, as suas considerações em toda aquela noite,
em todoo dia que a seguira, na hora mesma em que ia encontrar-se com o objeto
que mais lhe prendia agora o espirito, senão é que tam­bém
o coração, todas participavam daquela flutuação
inquieta e doentia de seu ser de homem social, em quem o tíbio reflexo
do homem natu­ral apenas relampejava por acaso.

Dúvida, incerteza, vaidade, mentira, deslocavam e anulavam a bela
organização daquela alma.

Assim chegou ao pé de Joaninha que o esperava de braços aber­tos,
que o apertou neles, que o beijou sem nenhum falso recato de maliciosa modéstia,
e com o riso da alegria no coração e na boca lhe disse…

— Ora pois, meu Carlos, sentemo-nos aqui bem juntos ao pé um
do outro e conversemos, que temos muito que falar. Dá cá a tua
mão. Aqui na minha… Está fria a tua mão hoje! E ontem
tão quente estava!… Oh! agora vai aquecendo… tanto, tanto… é
demais! Terás tu febre?

— Não tenho.

— Não tens, não: a cara é de saúde. E comotu
estás forte, gran­de, um homem como eu sempre imaginei que um homem
devia ser, como sempre te via nos meus sonhos!… Que é estranho isto,
Carlos: quando sonhava contigo, não te via como tu daqui foste, magro,
triste e doente: via-te como vens agora, forte, são, alegre… Mas
tu não estás alegre hoje, como ontem; não estás…
Que tens tu?

— Nada, querida Joaninha, não tenho nada. Pensava…

— Em que pensas tu? diz-me.

— Pensava na diferença dos nossos sonhos: que eu também
so­nhava contigo.

— Sonhavas, Carlos! E como sonhavas tu? Como me vias nosteus sonhos?

— Tudo pelo contrário do que tu. Via-te aquela Joaninha pequena,
desinquieta, travessa, correndo por essas terras, saltando essas valas, trepando
a essas árvores… aquela Joaninha com quem eu andava ao colo, que
trazia às cavaleiras, que me fazia ser tão doido e tão
criança como ela, apesar de eu ter quinze anos mais. Via-te alegre,
cantando…

— Sonhos de homem! Creiam neles! Eu que nunca mais ri nem brinquei
desde o dia que tu partiste… E ó que dia, Carlos!… E os que vieram
depois! Não houve nunca mais um só dia de alegria nesta casa.
Oh! deixa-me te dizer: Frei Dinis… Sabes que não gosto dele?

— Não gostas?

— Nada: tenho-lhe aversão. E Deus me perdoe! parece-me que é
injusta a minha antipatia.

— Porquê?

— Porque ele é teu amigo deveras. Um pai, Carlos, um pai não
tem maior ternura e desvelos por seu filho do que ele tem por ti.

— Deus lhe perdoe!

— Deus lhe perdoe a quem… e que lhe há de perdoar? O amor
que te tem?

— Não, mas…

— Bem sei o que queres dizer: e tens razão!

— Tenho razão!

— Tens: o que ele bem precisa que Deus lhe perdoe é um grande
pecado.

— Que dizes tu, Joana! E como sabes?

— Sei, sei tudo.

— Tu!

— Eu. Sei que foi ele quem fez cegar minha avó… a nossa boa,
a nossa santa avó, Carlos!… quem a cegou a força de lágrimas
que lhe fez chorar àqueles pobres olhos que, de puro cansados, se apagaram
para sempre… Minha rica avó! — E por quê, meu Deus, por
quê!

— Por quê?

— Por amor de ti, por escrúpulos que lhe meteu na cabeça
de tu seres mau cristão, inimigo de Deus, que te não podias
salvar… tu, meu Carlos! Vê que cegueira a do triste frade.

— Bem triste!

— Mas olha que o diz de boa fé e pelo muito amor que te tem…
que é um amor que eu não entendo: e o mesmo é com minha
avó, que treme diante dele. E mais ele estima-a, estou certa que dava
a vida por ela… e por nós todos… por mim não tanto, mas
por ti e por ela dava decerto. Mas o seu amor é dos que ralam, que
apoquentam… quase que estou em dizer que matam.

— Matam, matam!

— Nossa avó é ele que a mata decerto. Sempre a meter-lhe
me­dos, sempre escrúpulos! O seu Deus dele é um Deus de
terrores, de vinganças, de castigos, e sem nenhuma misericórdia.
Oh! que homem! Para ele tudo é pecado, maldade… Não o posso
ver.

Carlos respirava como desoprimido de um grande peso, ouvindo as explicações
da prima que bem claro lhe mostravam a sua perfeita igno­rância
dos fatais segredos da família.

— E contigo — disse ele já noutra voz mais desafogada
contigo, Joaninha, com se avém ele, como te trata?

— Comigo não se mete, e rara vez me fala. Mas oh, se ele sou­besse
que eu estava aqui contigo, santo Deus! o que ouviria a pobre da minha avó!
Inda bem que hoje não é sexta-feira, senão não
vinha eu cá,

— Por quê? Ainda vem todas as sextas-feiras?

— Sempre o mesmo. Amanhã cá o temos por pecado, que é
sexta-feira.

— Não te vejo então amanhã aqui?

— Não decerto, aqui. Mas vamos, que a isso é que eu venho
cá hoje, para te falar nisso… e para te ver, para falar contigo,
para estar com o meu Carlos… e ao mesmo tempo também para ajustarmos
como isto há de ser. Quando hás de ir tu ver a avó?…
a nossa mãe; que ela é nossa mãe, Carlos, não
conhecemos nunca outra, nem eu nem tu. Quando lhe hei de eu dizer que estás
aqui? A pobre velhinha está tão doente! Há quinze dias
que se não levanta da cama.

— Coitada da minha pobre mãe!… Oh! se não fosse!…
Deixa es­tar, Joaninha; um dia será. Por agora não pode
ser: bem vês. Como hei de eu atravessar as sentinelas dos realistas,
ir a um posto inimigo? A minha vida… isso pouco importa, mas a minha honra
ficava em perigo: por todos os modos a perdia, e talvez…

— Não senhor, Sr. Carlos, essa desculpa não basta. Vai
num ano que aqui temos a guerra à porta de casa, e já sabemos
como isso é, como as coisas se fazem. O comandante do nosso posto é
um homem de bem, um cavalheiro perfeito. Em lhe eu dizendo quem tu és
e a que cá vens… ele sabe o estado de minha avó, e tem-lhe
muita amizade, dá-nos decerto licença para tu vires em toda
a segurança. Pensas que ele não sabe que estou contigo aqui?
Pois disse-lho eu; só lhe não expliquei quem tu eras; disse-lhe
que eras um parente nosso que nos trazia noticias de outros, e que precisava
falar-te, Não pôs dificuldade alguma: é uma pessoa excelente,
bom, bom deveras.

— É moço o teu comandante?

— Moço, ele? coitado! Tem bons cinqüenta anos, e creio
que ou­tros tantos filhos. Mas por que perguntas tu isso? E arqueaste
as sobran­celhas com aquele teu ar de antes quando te zangavas! Por que
foi isso, Carlos?

— Nada, criança, foi uma pergunta a toa.

— Pois será; mas não me franzas nunca mais a testa assim,
que te pareces todo… é que nunca te vi tal parecença…

— Com quem?

— Com Frei Dinis.

— Eu com ele!

— Tal e qual quando fazes essa cara. Olha: ai estás tu na mesma.
Vamos! ria-se e esteja contente se se quer parecer comigo, que todos dizem
que nos parecemos tanto.

— Querida inocente!

E beijou-lhe a mão que tinha apertada na sua, beijou-lha uma e muitas
vezes com um sentimento de ternura misturada de não sei que vaga compaixão,
vindo de lá de dentro da alma com não sei que dor, meia dor
meia prazer, que entre ambos se comunicou e a ambos ume­deceu os olhos.

Capítulo XXV

O excesso de felicidade que aterra e confunde também.— Pasmosa
contradição da nossa natureza.—- De como os olhos verdes
de Joaninha se enturvaram e perderam todo o brilho. — Que o coração
da mulher que ama, sempre adivinha certo.

Carlos tinha a mão de Joaninha apertada na sua: e os olhos úmi­dos
de lágrimas cravados nos olhos dela, de cujo verde transparente e diáfano
saíam raios de inefável ternura.

Dizer tudo o que ele sentia é impossível tão encontrados
lhe anda­vam os pensamentos, em tão confuso tumulto se lhe alvorotavam
todos os sentidos.

Por muito tempo não proferiram palavra, nem um nem outro; mas falaram
assim longos discursos.

Enfim, Joaninha voltou á sua primeira insistência e disse para
o

primo:

— Olha, Carlos, amanha é sexta-feira. Játe disse, vem
Frei Dinis:

quando haja a menor dificuldade do comandante, a ele não lhe recusa
nada…

— Por quanto há no céu, Joaninha, pela tua vida, pela
de nossa avó, nem uma palavra ao frade da minha estada aqui! A ele,
oh! a ele jurei eu não tornar a ver. E se minha avó…

— Basta: não lhe direi nada. Mas à nossa avó quando
lho hei de dizer, e quando hás de tu ir vê-la?

— Por ora não: preciso licença de Lisboa, ou do quartel-general
quando menos, para fazer uma coisa que todas as leis da guerra proí­bem,
que nas atuais circunstâncias e em semelhante guerra ainda é
mais defesa. E sem isso — tu bem sabes que as minhas resoluções
não se mudam — sem isso não o faço. Em todo o caso,
que Frei Dinis nem sonhe!…

— E quanto tempo, quantos dias se hão de passar?

— Eu sei? oito, quinze dias talvez, talvez mais.

— E a minha pobre avó, coitadinha! a morrer de saudades…

— Consola-a tu, Joaninha: diz-lhe que tiveste novas minhas, que estou
bom, que me não falta nada, que tenho esperanças de vos ver
muito cedo.

— E eu… eu posso, eu hei de ver-te todos os dias: não, Carlos?

— Amanhã é sexta-feira…

— Amanhã é o dia negro… nem eu queria: amanhã
não pode ser, bem sei. Mas, tirado amanhã, meu Carlos, oh! todos
os dias!

— Sim, querido anjo, sim.

— Prometes?

— Juro-to.

— Suceda o que suceder?

— Suceda o que… Só há uma cousa que… Mas essa não…
não é possível.

— O que é, Carlos? Que pode haver, que pode suceder que te impeça
de…?

Carlos estremeceu… hesitou, corou, fez-se pálido… quis dizer-lhe
a verdade e não ousou…

Por quê… E que verdade era essa? Não a direi eu, já
que ele a não disse: fiel e discreto historiador, imitarei a discrição
do meu herói.

Pois era discrição a dele?

Não… em verdade, era outra coisa.

Era um pensamento reservado?

Não.

Era tenção má, engano premeditado, era?…

Não, também não,

O que era pois?

Era a dúvida, era a fraqueza, era a vaidade, a mentira congenial e
obrigada, a necessária falsidade do homem social.

Carlos mentiu e disse:

– Só se mo proibirem expressamente… os meus chefes.

Mas não era isso o que ele receava; não era esse aquele motivo
único e superior que ele temia pudesse vir um dia de repente cortar
as doces relações de conveniência a que tão prestes
se habituara, que já lhe pareciam parte necessária, indispensável
na sua vida. Não era, não; e Carlos tinha mentido…

Joaninha olhou para ele fixa… Carlos corou de novo. Ela fez-se pálida…
daí corou também.

— Carlos, tu não és capaz de mentir…?

— Joaninha!

— Tu és o meu Carlos… tu queres-me como me querias dantes…?

— Sou… oh! sou, E amo-te…

— Como dantes? Mais.

— Pois olha, Carlos: eu nunca amei, nunca hei de amar a nenhum homem
senão a ti.

— Joana!

— Carlos!

Iam a cair nos braços um do outro… A singela confissão da
inocên­cia ia ser aceita por quem e como, santo Deus! Aquela palavra
de oiro, aquela doce palavra que tanto custa a pronunciar à mulher
menos artei­ra; que adivinhada, sabida, ouvida há muito pelo coração,
dita mil vezes com os olhos, nenhum homem descansa nem se tem por feliz, por
certo de sua felicidade, enquanto a não ouve proferir pelos lábios
– essa palavra celeste que explica o passado, que responde do futuro, que
é a última e irrevogável sentença de um longo
pleito de ansiedades, de in­certezas e de sustos – essa final e fatal
palavra amo-te, Joaninha a pronunciara tão naturalmente, tão
sincera, tão sem dificuldades nem he­sitações, como
se aquele fosse — e era decerto — como se aquele tivesse sido
sempre o pensamento único, a idéia constante e habitual de sua
vida.

O excesso da felicidade aterra e confunde também. Um momento antes,
Carlos dera a sua vida por ouvir aquela palavra… um momento depois —
ó pasmosa contradição de nossa dúplice natureza!
um mo­mento depois dera a vida pela não ter ouvido. No primeiro
instante ia lançar-se nos braços da inocente que lhos abria
num santo êxtase do mais apaixonado amor; no segundo, tremeu e teve
horror da sua felici­dade.

— Joana — exclamou ele — Joana querida, sabes tu se eu
mere­ço… sabes tu se deves?…

— Sei. Desde que me entendo, não pensei noutra coisa; desde
que daqui foste, comecei a entender o que pensava… disse-o à minha
avó, e ela…

— E ela?..

— Ela abençoou-me, chamou-me a sua querida filha, abraçou-me.
beijou-me, e disse-me que aquela era a primeira hora de felicidade e de alegria
que há muitos anos tinha tido.

Carlos não respondeu nada e olhou para Joaninha com uma indi­zível
expressão de afeto e de tristeza. Os raios de alegria que resplande­ciam
naquele semblante — agora belo de toda a beleza com que um verdadeiro
amor ilumina as mais desgraciosas feições — os raios dessa
alegria começaram a amortecer, a apagar-se. A lúcida transparência
da­queles olhos verdes turvou-se: nem a clara luz da água-marinha,
nem o brilho fundo da esmeralda resplandecia já neles; tinham o lustro
baço e morto, o polido mate e silicioso de uma dessas pedras sem água
nem brilho que a arte antiga engastava nos colares de suas estátuas.

— Adeus, Joana! — disse Carlos perturbado e confuso.

— Adeus, Carlos! — respondeu ela maquinalmente.

— Até depois de amanhã, Joana.

— Pois sim.

— Depois de amanhã te direi…

— Não digas.

— Por quê?

— Porque é escusado: já sei tudo.

— Sabes!

— Sei.

— O quê?

— O que tu não tens ânimo para me dizer, Carlos: mas que
o meu coração adivinhou. Tu não me amas, Carlos.

— Não te amo! eu!… Santo Deus, eu não a amo….

— Não. Tu amas outra mulher.

— Eu! Joana, oh! se tu soubesses…

— Sei tudo.

— Não sabes.

— Sei; amas outra mulher, outra mulher que te ama, que tu não
podes, que tu não deves abandonar, e que eu…

— Tu?

— Eu sei que é bela, prendada, cheia de graças e de encantos,
porque… porque tu, meu Carlos, porque o teu amor não era para se
dar por menos.

— Joana, Joaninha!

— Não digas nada, não me digas nada hoje… hoje sobretudo,
não me digas nada. Amanhã…

— Amanhã é sexta-feira.

— Inda bem! terei mais tempo para refletir, para considerar antes de
tornar a ver-te. Adeus, Carlos!

— Uma palavra só, Joana. Cuidas que sou capaz de te enganar?

— Não; estou certa que não.

— Até amanhã… até depois de amanhã.

— Adeus!

Abraçaram-se, e desta vez froixamente; beijaram-se de um ósculo
tímido e recatado… os beiços de ambos estavam frios, as mãos
trêmu­las; e o coração comprimido batia, batia-lhes
tão forte que se ouvia.

Retirou-se cada um por seu lado. A noite estava pura e serena como na véspera,
as estrelas luziam no céu azul com o mesmo brilho; o silêncio,
a majestade, a beleza toda da natureza era a mesma… só eles eram
outros… outros, tão outros e diferentes do que foram!

Tinham-se dado cuidadosamente as providências; ambos chegaram, sem
nenhum acidente, ao seu destino.

Capítulo XXVI

Modo de ler os autores antigos, e os modernos também. — Horácio
da Sacravia. — Duarte Nunes iconoclasta da nosso história. —
A polícia e os barcos de vapor. — Os vândalos do feliz
sistema que nos rege.— Shakespeare lido em Inglaterra a um bom fogo,
com um copo de old-sack sobre a banca. – Sir John Falstaff se foi maior homem
que Sancho Pança?— Grande e imponente desco­berta arqueológica
sobre S. Tiago, S. Jorge e Sir John Falstaff. – Prova-se a vinda deste
último a Portugal. — O entusiasta britânico no túmulo
de Heloisa e Abelardo no Pêre-Lachaise.— Bentham e Camões.
— Chega o Autor à sua janela, e pasmosa miragem poética
produzida por umas oitavas dos Lusíadas. — De como enfim prosseguem
estas viagens para Santarém, e que feito será de Joaninha.

Seeu for algum dia a Roma, hei de entrar na cidade eterna com o meu Tito
Lívio e o meu Tácito nas algibeiras do meu paletó de
viagem. Ali, sentado naquelas rumas imortais, sei que hei de entender melhor
a sua história, que o texto dos grandes escritores se me há
de ilustrar com os monumentos de arte que os viram escrever, e que uns recordam,
outros presenciaram os feitos memoráveis, o progresso e a decadência
daquela civilização pasmosa.

E Juvenal e Horácio? o meu Horácio, o meu velho e fiel amigo
Horácio!… Deve Ser um prazer régio ir lendo pela Sacravia
fora aquela deliciosa sátira, creio que a nona do liv. I,

Ibam forte sacra via, sicut meus est mos

Nescio quid meditans nugarum…

Deve ser maior prazer ainda, muito maior do que beijar o péao Papa.
Parece-me a mim; mas como eu nunca fui a Roma…

E não é preciso. Pegue qualquer na bela Crônica del rei
D. Fer­nando, a que Duarte Nunes menos estragou…

O Duarte Nunes foi um reformador iconoclasta das nossas crônicas antigas,
truncou tocas as imagens, raspou toda a poesia daquelas vene­randas e
deliciosas Sagas portuguesas… Em ponto histórico pouco mais eram
do que Sagas, verdade seja, mas, como tais, lindas. E o Duarte Nunes, que
era um pobre gramaticão sem gosto nem graça, foi-se às
filigranas e arrendados de finíssimo lavor gótico daqueles monumentos,
quebrou-lhos; ficaram só os traços históricos que eram
muito pouca e muito incerta coisa: e cuidou que tinha arranjado uma história,
tendo apenas destruído um poema. Ficamos sem Niebelungen14, podendo-o
ter, e não obtivemos história porque se não podia obter
assim.

Pois digo: pegue qualquer na bela Crônica del rei D. Fernando, obedeça
á lei concorrendo com o seu cruzado-novo para o aumento e glória
da benemérita companhia que tem o exclusivo desses caranguejos de vapor
que andam e desandam no rio, entre num dos referidos ca­ranguejos, em
que, além da porcaria e mau cheiro, não há perigo ne­nhum
senão o de rebentar toda aquela câmara ótica que anda
por ara­mes, e que em qualquer pais civilizado, onde a polícia
fizesse alguma coisa mais do que imaginar conspirações, há
muito estaria condenada a ir ali caranguejar para as Lamas15 á sua
vontade. Mas, enfim, cá não há doutros nem haverá
tão cedo, graças ao muito que agora, dizem, que se cuida dos
interesses materiais do pais: e portanto tome o seu lugar, passe o mesmo que
eu passei; chegue-me a Santarém, descanse e ponha-se-me a ler a Crônica:
verá se não é outra coisa, verá se diante daquelas
preciosas relíquias, ainda mutiladas, deformadas como elas es­tão
por tantos e tão sucessivos bárbaros, estragadas enfim pelos
piores e mais vândalos de todos os vândalos, as autoridades administrativas
e municipais do feliz sistema quê nos rege, ainda assim mesmo não
vê erguer-se diante de seus olhos os homens, as cenas dos tempos que
foram; se não ouve falar as pedras, bradar as inscrições,
levantar-se as estátuas dos túmulos; e reviver-lhe a pintura
toda, reverdecer-lhe toda a poesia daquelas idades maravilhosas!

Tenho-o experimentado muitas vezes: é infalível. Nunca tinha
entendido Shakespeare enquanto o não li em Warwick ao pé do
Avon, debaixo de um carvalho secular, à luz daquele sol baço
e branco do nublado céu de Albion… ou à noite com os pés
no fender16 ,a chaleira a ferver no fogão, e sobre a banca o cristal
antigo de um bom copo lapidado a luzir-me alambreado com os doces e perfumados
resplendores do old-sack17; enquanto o fogão e os ponderosos castiçais
de co­bre brunido projetam no antigo teto almofadado, nos pardos compartimentos
de carvalho que forram o aposento, aquelas fortes sombras vaci­lantes
de que as velhas fazem visões e almas do outro mundo, de que os poetas
– poetas como Shakespeare – fazem sombras de Banco, bruxas de Macbeth, e até
a rotunda pança e o arrastante espadagão do meu particular amigo
Sir John Falstaft o inventor das legitimas conse­qüências,
o fundador da grande escola dos restauradores caturras, dos poltrões
pugnazes que salvam a pátria de parola e que ninguém os atura
em tendo as costas quentes.

Oh Falstaff, Falstaff! eu não sei se tu és maior homem que
Sancho Pança. Creio que não. Mas maior pança tens, mais
capacidade na pança tens. Quando nossos avós renegaram de S.
Tiago por castelhano18 perro, e invocaram a S. Jorge, tu vieste, ó
Falstaff, em sua comi­tiva de Inglaterra, e aqui tomaste assento, aqui
ficaste, e foste o pa­triarca dessa imensa progênie de Falstaffs
que por aí anda.

Este importante ponto da nossa história, da demissão de S.
Tiago e da vinda de S. Jorge de Inglaterra com Sir John Falstaff por seu homem
de ferro — esta grande descoberta arqueológica que tanta coisa
mo­derna explica, como a fiz eu? Indo aos sítios mesmos, estudando
ali os antigos exemplares: que é a minha doutrina,

Em tudo, para tudo é assim, Chegou um dia um inglês a Paris:
inglês legitimo e cru, virgem de toda a corrupção continental;
calça de ganga, sapato grosso, cabelo de cenoira, chapéu filado
na cova-do-­ladrão. Era entusiasta de Heloísa e Abelardo,
foi-se ao Pére-Lachaise, chegou ao túmulo dos dois amantes,
tirou um livrinho da algibeira, pôs-se a ler aquelas cartas do Paracleto
que têm endoidecido muito menos excêntricas cabeças que
a do meu inglês puro-sangue. Não é nada; excitou-se a
tal ponto que entrou a correr como um perdido, bradando por um cônego
da Sé que lhe acudisse, que se queria identi­ficar com o seu modelo,
purificar a sua paixão, ser enfim um completo — ou um incompleto
Abelardo.

Eu não sou suscetível de tamanho entusiasmo, sobretudo desde
que dei a minha demissão de poeta e cai na prosa. Mas aqui têm
o que me sucedeu o outro dia. Tinha estado às voltas com o meu Bentham,
que é um grande homem por fim de contas o tal quacre, e são
grandes livros os que ele escreveu: cansou-me a cabeça, peguei no Camões
e fui para a janela. As minhas janelas agora são as primeiras janelas
de Lisboa, dão em cheio por todo esse Tejo. Era uma destas brilhantes
manhãs de inverno, como as não há senão em Lisboa.
Abri os Lusíadas à ventura, deparei com o canto IV e pus-me
a ler aquelas belíssimas estâncias

E já no porto da ínclita Ulisséia…

Pouco a pouco amotinou-se-me o sangue, senti baterem-me as ar­térias
da fronte… as letras fugiam-me do livro, levantei os olhos, dei com eles
na pobre nau Vasco da Gama que aí esta em monumento-caricatura da nossa
glória naval… E eu não vi nada disso, vi o Tejo, vi a bandeira
portuguesa flutuando com a brisa da manhã, a torre de Belém
ao longe… e sonhei, sonhei que era português, que Portugal era outra
vez Portugal.

Tal força deu o prestigio da cena as imagens que aqueles versos evocavam!

Senão quando, a nau que salva a uns escaleres que chegam… Era o
ministro da marinha que ia a bordo.

Fechei o livro, acendi o meu charuto, e fui tratar das minhas camélias.

Andei três dias com ódio à letra redonda.

Mas de tudo isto o que se tira, a que vem tudo isto para as minhas viagens
ou para o episódio dovale de Santarém em que há tantos
capítulos nos temos demorado?

Vem e vem muito: vem para mostrar que a história, lida ou con­tada
nos próprios sítios em que se passou, tem outra graça
e outra força; vem para te eu dar o motivo porque nestas minhas viagens,
leitor amigo, me fiquei parado naquele vale a ouvir do meu compa­nheiro
de jornada e a escrever, para teu aproveitamento, a interessante história
da menina dos rouxinóis, da menina dos olhos verdes, da nossa boa Joaninha.

Sim, aqui tenho estado estendido no chão, asmulinhas pastando na relva,
os arneiros fumando tranqüilamente sentados, e as últimas ho­ras
de uma longa e calmosa tarde de julho a cair e a refrescar com a aragem precursora
da noite.

Mas basta de vale, que é tarde. Olá! venham as mulinhas e mon­temos.
Picar para Santarém, que no ínclito alcáçar del
rei D. Afonso Henriques nos espera um bom jantar de amigo — e não
é só a vaca e riso de Fr. Bartolomeu dos Mártires’9,
mas um verdadeiro jantar de amigo, muito menos austero e muito mais risonho.

—Por quê? já se acabou a história de Carlos e de
Joaninha? — diz talvez a amável leitora.

— Não, minha senhora — responde o autor mui lisonjeado
da pergunta. — Não, minha senhora, a história não
acabou, quase se pode dizer que ainda ela agora começa; mas houve mutação
de cena. Vamos a Santarém, quelá se passa o segundo ato.

Capítulo XXVII

Chegada a Santarém. — Olivais de Santarém. — Fora-de-Vila.
— Simetria que não é para os olhos. — Modo de medir
os versos da Bíblia. — Arquitetura pe­dante do século
XVII. — Entrada no Alcáçova.

Eram as últimas horas do dia quando chegamos ao principio da calçada
que leva ao alto de Santarém. A pouca freqüência do povo,
as hortas e pomares mal cultivados, as casas de campo arruinadas, tudo indicava
as vizinhanças de uma grande povoação descaída
e desampa­rada. O mais belo, contudo, de seus ornatos e glórias
suburbanas ainda o possui a nobre vila, não lhodestruíram de
todo; são os seus olivais. Os olivais de Santarém, cuja riqueza
e formosura proverbial é uma das nossas crenças populares mais
gerais e mais queridas!… os olivais de Santarém lá estão
ainda. Reconheceu-os o meu coração e alegrou-se de os ver; saudei
neles o símbolo patriarcal da nossa antiga existência. Naqueles
troncos velhos e coroados de verdura, figurou-se-me ver, como nas selvas encantadas
do Tasso, as venerandas imagens de nossos passados; e no murmúrio das
folhas, que o vento agitava a espaços o triste suspirar de seus lamentos
pela vergonhosa degeneração dos netos…

Estragado como os outros, profanado como todos, o olival de Santarém
é ainda um monumento.

Os povos do meio-dia, infelizmente, não professam com o mesmo respeito
e austeridade aquela religião dos bosques, tão sagrada para
as nações do norte. Os olivais de Santarém são
exceção: há muito pouco entre nós o culto das
arvores.

Subimos, a bom trotar das mulinhas, a empinada ladeira — eu alvoraçado
e impaciente por me achar face a face com aquela profusão de monumentos
e de ruínas que a imaginação me tinha figurado e que
ora temia, ora desejava comparar com a realidade.

Chegamos enfim ao alto; a majestosa entrada da grande vila está diante
de mim. Não me enganou a imaginação… grandiosa e magnífica
cena!

Fora-de-Vila é um vasto largo, irregular e caprichoso como um po­ema
romântico; ao primeiro aspecto, àquela hora tardia e de pouca
luz, é de um efeito admirável e sublime. Palácios, conventos,
igrejas ocupam gravemente e tristemente os seus antigos lugares, enfileirados
sem or­dem aos lados daquela imensa praça, em que a vista dos olhos
não acha simetria alguma; mas sente-se na alma. E como o ritmo e medição
dos grandes versos bíblicos que se não cadenciam por pés
nem por silabas, mas caem certos no espírito e na audição
interior com uma regularidade admirável.

E tudo deserto, tudo silencioso, mudo, morto! Cuida-se entrar na grande metrópole
de um povo extinto, de uma nação que foi poderosa e celebrada,
mas que desapareceu da face da terra e só deixou o mo­numento de
suas construções gigantescas.

À esquerda o imenso convento do Sitio ou de Jesus, logo o das Donas,
depois o de S. Domingos, célebre pelo jazigo do nosso Fausto português
– seja dito sem irreverência à memória de S. Frei Gil
que, é verdade, veio a ser grande santo, mas que primeiro foi grande
bruxo. Defronte o antiqüíssimo mosteiro das claras, e ao pé
as baixas arcadas góticas de S. Francisco… de cujo último
guardião, o austero Frei Dinis, tanta coisa te contei, amigo leitor,
e tantas mais tenho ainda para te contar! À direita o grandioso edifício
filipino, perfeito exemplar da ma­ciça e pedante arquitetura reacionária
do século dezessete, o Colégio, tipo largo e belo no seu gênero,
e quanto o seu gênero pode ser, das construções jesuíticas…

Não há alma não há gênio, não há
espirito naquelas massas pesadas, sem elegância nem simplicidade; mas
há uma certa grandeza que impõe, uma solidez travada, uma simetria
de cálculo, umas proporções frias,. mas bem assentadas
e esquadriadas com método que revelam o pensamento do século
e do instituto que tanto o caracterizou.

Não são as fortes crenças da Meia Idade que se elevam
no arco agudo da ogiva; não é a relaxação florida
do século quinze e dezesseis que já vacila entre o bizantino
e o clássico, entre o místico ideal do cristianismo que arrefece
e os símbolos materiais do paganismo que acorda; não, aqui a
Renascença triunfou, e depois de triunfar, degene­rou. É
a Inquisição, são os jesuítas, são os Filipes,
é a reação católica edificando templos para que
se creia e se ore, não porque se crê e se ora.

Até aqui o mosteiro e a catedral, a ermida e o convento eram a expressão
da idéia popular, agora são a fórmula do pensamento governativo.

Ali estão — olhai para eles — defronte uns dos outros,
os monu­mentos das duas religiões, o qual mais expressivo e loquaz,
dizendo mais claro que os livros, que os escritos, que as tradições,
o pensamento das idades que os ergueram, e que ali os deixaram gravados sem
saber o que faziam.

Mais em baixo e no fundo desse declive, aquela massa negra é o resto
ainda soberbo do já imenso palácio dos condes de Unhão.

Rodeamos o largo e fomos entrar em Marvila pelo lado do norte. Estamos dentro
dos muros da antiga Santarém. Tãomagnífica é a
en­trada, tão mesquinho é agora tudo cá dentro, a
maior parte destas casas velhas sem serem antigas, destas ruas mourescas sem
nada de árabe. sem o menor vestígio de sua origem mais que a
estreiteza e pouco asseio.

As igrejas quase todas, porém, as muralhas e os bastões, algumas
das portas, e poucas habitações particulares, conservam bastante
da fi­sionomia antiga e fazem esquecer a vulgaridade do resto.

Seguimos a triste e pobre rua Direita, centro do débil comércio
que ainda aqui há: poucas e mal providas lojas, quase nenhum movimento.
Cá está a curiosa torre das Cabaças, a velha igreja de
S. João de Alpo­rão. Amanhã iremos ver tudo isso
de nosso vagar. Agora vamos à Alcá­çova!

Entramos a ponta da antiga cidadela. — Que espantosa e desgra­ciosa
confusão de entulhos, de pedras, de montes de terra e caliça!
Não há ruas, não há caminhos, é um labirinto
de ruínas feias e torpes. O nosso destino, a casa do nosso amigo é
ao pé mesmo da famosa e histórica igreja de Santa Maria de Alcáçova.
Há de custar a achar em tanta confusão.

Capítulo XXVIII

Depois de muito procurar acha enfim o Autor a igreja de Santa Maria de Alcáço­va.—
Estilo da arquitetura nacional perdida. — O terremoto de 1755, o Marquês
de Pombal e o chafariz do Passeia Público de Lisboa. — O chefe
do partido progressista português no alcáçar de D. Afonso
Henriques. — Deliciosa vista dos arredores de Santarém observada
de uma janela da Alcáçova, de manhã. — É
tomado o autor de idéias vagas, poéticas, fantásticas
como um sonho. — Intro­dução do Fausto – Dificuldade
de traduzir os versos germânicos nos nossos dialetos romanos.

Depois de muito procurar entre pardieiros e entulhos, achamo-la enfim a igreja
de Santa Maria de Alcáçova. Achamos, não é exato:
ao menos eu, por mim, nunca a achava, nem queria acreditar que fosse ela quando
ma mostraram. A real colegiada de Afonso Henriques, a quase-catedral da primeira
vila do reino, um dos principais, dos mais antigos, dos mais históricos
templos de Portugal, isto?… esse igrejório insignificante de capuchos!
mesquinha e ridícula massa de alvenaria, sem nenhuma arquitetura, sem
nenhum gosto! risco, execução e traba­lho de um mestre pedreiro
de aldeia e do seu aprendiz! É impossível.

Mas era, era essa. A antiga capela-real, a veneranda igreja da Alcá­çova
foi passando por sucessivos reparos e transformações, até
que chegou a esta miséria.

Perverteu-se por tal arte o gosto entre nós, desde o meio do século
passado especialmente, os estragos do terremoto grande quebraram por tal modo
o fio de todas as tradições da arquitetura nacional, que na
Europa, no mundo todo talvez se não ache um pais onde, a par de tão
belos monumentos antigos como os nossos, se. encontrem tão vilãs,
tão ridículas e absurdas construções públicas
como essas quase todas que há um século se fazem em Portugal.

Nos reparos e reconstruções dos templos antigos é que
este pés­simo estilo, esta ausência de todo estilo, de toda
a arte mais ofende e escandaliza.

Olhem aquela empena clássica posta de remate ao frontispício
todo renascença da Conceição Velha em Lisboa. Vejam a
emplastagem de gesso com que estão mascarados os elegantes feixes de
colunas góticas da nossa Sé,

Não se pode cair mais baixo em arquitetura do que nós caímos
quando, depois que o Marquês de Pombal nos traduziu, em vulgar e arrastada
prosa, os rococós de Luís XV, que no original, pelo menos, eram
floridos, recortados, caprichosos e galantes como um madrigal, esse estilo
bastardo, híbrido, degenerando progressivamente e tomando presunções
de clássico, chegou nos nossos dias até ao chafariz do Pas­seio
Público!

Mas deixar tudo isso, e deixar a igreja da Alcáçova também;
entre­mos nos palácios de D. Afonso Henriques.

Aqui, pegado com o pardieiro rebocado da capela hão de ser. Por onde
se entra?

Por esta portinha estreita e baixa, rasgada, bem se vê que há
pou­cos anos, no que parece muro de um quintal ou de um pátio.

É com efeito aqui; apeemo-nos.

Recebeu-nos com os braços abertos o nosso bom e sincero amigo, atual
possuidor e habitante do régio alcáçar, o Sr. M. P.

Notável combinação do acaso! Que o ilustre e venerando
chefe do partido progressista em Portugal, que o homem de mais sinceras con­vicções
democráticas, e que mais sinceramente as combina com o res­peito
e adesão às formas monárquicas, esse homem, vindo do
Minho, do berço da dinastia e da nação, viesse fixar
aqui a sua residência no alcáçar do nosso primeiro rei,
conquistado pela sua espada num dos feitos mais insignes daquela era de prodígios!

Entramos na pequena horta em forma de claustro que une a antiga casa dos
reis com a sua capela. Assim foi sem dúvida noutro tempo: a parede
oriental da igreja é o muro do quintal de um lado, mas as co­municações
foram vedadas provavelmente quando a coroa alienou o palácio e o separou
assim perpetuamente do templo.

Plantada de laranjeiras antigas, os muros forrados de limoeiros e parreiras,
aquela pequena cerca, apesar de muitos canteiros e alegretes de alvenaria
com que está moirescamente entulhada, é amena e gra­ciosa
à vista.

Apresentou-nos o nosso amigo a sua mulher, senhora de porte gentil e grave;
beijamos seus lindos filhos, e fomos fazer as abluções indispensáveis
depois de tal jornada para nos podermos sentar á mesa.

O palácio de Afonso Henriques está como a sua capela: nem o
mais leve, nem o mais apagado vestígio da antiga origem. Sabe-se que
é ali pela bem confrontada e inquestionável topografia dos lugares,
por mais nada…

E que me importam a mim agora as antigüidades, as ruínas e as
demolições. quando eu sinto demolir-me cá por dentro
por uma fome exasperada e destruidora, uma fome vandálica, insaciável!

Vamos a jantar.

Comemos, conversamos, tomamos chá, tornamos a conversar e tornamos
a comer. Vieram visitas, falou-se política, falou-se literatura, falou-se
de Santarém sobretudo, das suas ruínas, da sua grandeza anti­ga.
da sua desgraça presente. Enfim, fomo-nos deitar,

Nunca dormi tão regalado sono em minha vida, Acordei no outro dia
ao repicar incessante e apressurado dos sinos da Alcáçova. Saltei
da cama, fui à janela, e dei com o mais belo. o mais grandioso, e ao
mesmo tempo, mais ameno quadro em que ainda pus os meus olhos.

No fundo de um largo vale aprazível e sereno está o sossegado
leito do Tejo, cuja areia ruiva e resplandecente apenas se cobre de água
junto às margens, donde se debruçam verdes e frescos ainda os
salguei­ros que as ornam e defendem. De além do rio, com os pés
no pingue nateiro daquelas terras aluviais, os ricos olivedos de Alpiarça
e Almeirim; depois a vila de D. Manuel e a sua charneca e as suas vinhas.
Daquém a imensa planície dita do Rossio, semeada de casas, de
aldeias, de hor­tas, de grupos de árvores silvestres, de pomares.
Mais para a raiz do monte, em cujo cimo estou, o pitoresco bairro da Ribeira
com as suas casas e as suas igrejas, tão graciosas vistas daqui, a
sua cruz de Santa Iria e as memórias romanescas do seu Alfageme.

Com os olhos vagando por este quadro imenso e formosíssimo, a imaginação
tomava-me asas e fugia pelo vago infinito das regiões ideais Recordações
de todos os tempos, pensamentos de todo o gênero afluíam ao espírito,
e me tinham como num sonho em que as imagens mais discordantes e disparatadas
se sucedem umas ás outras.

Mas eram todas melancólicas, todas de saudade, nenhuma de esperança!…

Lembraram-me aqueles versos de Goethe, aqueles sublimes e inimitáveis
versos da introdução do Fausto:

Ressurgis outra vez, vagas figuras,

Vacilantes imagens que à turbada

Vista acudíeis dantes, E hei de agora

Reter-vos firme? Sinto eu ainda

O coração propenso a ilusões dessas?

E apertais tanto!… Pois embora! seja;

Dominai, já que em névoa e vapor leve

Em torno a mim surgis. Sinto o meu seio

Juvenilmente tépido agitar-se

Co’a maga exalação que vos circunda.

Trazeis-me a imagem de ditosos dias,

E dai se ergue muita sombra amado;

Corno um velha cantar meio esquecido,

Vêm os primeiros símplices amores

E a amizade com eles. Reverdece

A mágoa, lamentando o errado curso

Dos labirintos da perdida vida;

E me está nomeando os que traídos

Em horas belas por falaz ventura

Antes de mim na estrada se sumiram.

Nãome atrevo a pôr aqui oresto da minha infeliz tradução:
fiel é ela, mas não tem outro mérito. Quem pode traduzir
tais versos, quem de uma língua tão vasta e livre há
de passá-los para os nossos apertados e severos dialetos romanos 20

Capítulo XXIX

Doçuras do vida. — Imaginação e sentimento. —
Poetas que morreram moços e poetas que morreram velhos. — Como
são escritas estas viagens. — Livro de pedra. Criança
que brinca com ele. — Ruínas e reparações. —
Idéia fixa do A. em coisas de arte e literárias. — Santa
fria ou Irene, e Santarém. — Romance de Santa Iria. — Quantas
santas há em Pontu9al deste nome?

Este sonhar acordado, este cismar poético diante dos sublimes espetáculos
da natureza, é dos prazeres grandes que Deus concedeu às almas
de certa têmpera. Doce é gozar assim… mas em que doçuras
da vida não predomina sempre o ácido poderoso que estimula!
Tirai-lho, fica a insipidez: deixai-lho, ulcera por fim os órgãos:
o gozo é mais vivo, porque a ação do estimulo é
mais sentida… mas a ulceração cresce, o coração
está em carne viva… agora o prazer é martírio.

Infeliz do que chegou a esse estado!

Bem-aventurado o que pode graduar, como Goethe, a dose de anfião que
quer tomar, que poupa as sensações e a vida, e economiza as
potências de sua alma! Nesses porém é a imaginação
que domina, não o sentimento. Byron, Schiller, Camões, o Tasso
morreram moços; matou-os o coração. Homero e Goethe,
Sófocles e Voltaire acabaram de velhos: sustinha-os a imaginação,
que não despende vida porque não gasta sensibilidade.

Imaginar é sonhar, dorme e repousa a vida no entretanto: sentir é
viver ativamente, cansa-a e consome-a,

Isto é o que eu pensava — porque não pensava em nada,
diva­gava enquanto aqueles versos do Fausto me estavam na memória,
e aquela saudosa vista do Tejo e das suas margens diante dos olhos.

Isto pensava, isto escrevo; isto tinha n’alma: isto vai no papel: que doutro
modo não sei escrever.

Muito me pesa, leitor amigo, se outra coisa esperavas das minhas Viagens,
se te falto, sem o querer, a promessas que julgaste ver nesse título,
mas que eu não fiz decerto. Querias talvez que te contasse, marco a
marco, as léguas da estrada? palmo a palmo, as alturas e larguras dos
edifícios? algarismo por algarismo, as datas da sua fundação?
que te resumisse a história de cada pedra. de cada ruína?…

Vai-te ao Padre Vasconcelos; e quanto há de Santarém, peta
e verdade, ai o acharás em amplo fólio e gorda letra. eu não
sei compor desses livros, e quando soubesse, tenho mais que fazer.

Só tenho pena de uma coisa, é de ser tão desastrado
com o lápis na mão, porque em dois traços dele te dizia
muito mais e melhor do que em tanta palavra que por fim tão pouco diz
e tão mal pinta.

Santarém é um livro de pedra em que a mais interessante e mais
poética parte das nossas crônicas esta escrita. Rico de iluminuras,
de recortados, de florões, de imagens, de arabescos e arrendados primoro­sos,
o livro era o mais belo e o mais precioso de Portugal. Encadernado em esmalte
de verde e prata pelo Tejo e por suas ribeiras, fechado a broches de bronze
por suas fortes muralhas góticas, o magnifico livro devia durar sempre
enquanto a mão do Criador se não estendesse para apagar as memórias
da criatura,

Mas esta Nínive não foi destruída, esta Pompéia
não foi submergida por nenhuma catástrofe grandiosa. O povo,
de cuja história ela é o livro, ainda existe; mas esse povo
caiu em infância, deram-lhe o livro para brincar, rasgou-o mutilou-o,
arrancou-lhe folha a folha, e fez papagaios e bonecas, fez carapuços
com elas.

Não se descreve por outro modo o que esta gente chamada gover­no,
chamada administração, esta fazendo e deixando fazer há
mais de século em Santarém.

As ruínas do tempo são tristes mas belas, as que as revoluções
trazem ficam marcadas com o cunho solene da história. Mas as brutas
degradações e as mais brutas reparações da ignorância,
os mesquinhos concertos da arte parasita, esses profanam, tiram todo o prestígio.

Tal é a geral impressão que me faz esta terra. Almocemos, que
já oiço chamar para isso, e iremos ver depois se me enganei.

Ao almoço a conversação veio naturalmente a cair no
seu objeto mais óbvio, Santarém. D. Afonso Henriques e os seus
bravos, S. Frei Gil e o Santo Milagre, o Alfageme e o Condestável,
el-rei D. Fernando e a Rainha D. Leonor, Camões desterrado aqui, Frei
Luís de Sousa aqui nascido, Pedro Álvares Cabral, os Docems,
quase todas as grandes figuras da nossa história passaram em revista.
Por fim veio Santa Iria também, a madrinha e padroeira desta terra,
cujo nome aqui fez esque­cer o de romanos e celtas.

Quem tem uma idéia fixa, em tudo a mete. A minha idéia fixa
em coisas de arte e literárias da nossa península são
xácaras e romances populares. Há um de Santa Iria.

Por que é a Santa Iria da trova popular tão diferente da Santa
Iria das legendas monásticas?

A trova é esta, segundo agora a retifiquei e apurei pela colação
de muitas e várias versões provinciais com a ribatejana ou bordalenga,
que em geral é a que mais se deve seguir.

Estando eu á janela coa minha almofada,

Minha agulha d’ouro, meu dedal de prato;

Passa um cavaleiro, pedia pousada:

Meu pai. lho negou: quanto me custava!

— Já vem vindo a noite, é tão só a estrada…

Senhor pai, não digam tal de nossa casa

Que um cavaleira que pede pousada

Se fecha esta porta à noite cerrada.

Roguei e pedi — muito lhe pesava

Mas eu tanto fiz, que por fim deixava

Fui-lhe abrir a porta, mui contente entrava;

Ao lar o levei, logo se assentava.

As mãos lhe dei água, ele se lavava:

Pus-lhe uma toalha, nela se limpava.

Poucas as palavras, que mal me falava,

Mas eu bem senti que ele me mirava.

Fui o erguer os olhos, mal os levantava,

Os seus lindos olhos na terra os pregava.

Fui-lhe pôr a ceia, muito bem ceava;

A cama lhe fiz, nela se deitava.

Dei-lhe as boas-noites, não me replicava:

Tão má cortesia nunca a vi usada!

Lá por meia-noite, que me eu sufocava,

Sinto que me levam coa boca tapada…

Levam-me a cavalo, levam-me abraçada,

Correndo, correndo sempre à desfilada.

Sem abrir os olhos, vi quem me roubava;

Calei-me e chorei — ele não falava.

Dali muito longe que me perguntava:

Eu na minha tenra como me chamava.

— Chamavam-me Iria, Iria a fidalga;

Por aqui agora Iria, a cansada.

Andando, andando, toda a noite andava;

Lá por madrugada que me atentava…

Horas esquecidas comigo lutava;

Nem força nem rogos, tudo lhe mancava.

Tirou do alfange… ali me matava,

Abriu uma cova onde me enterrava.

No fim de sete anos passo o cavaleiro,

Uma linda ermida viu naquele outeiro,

—"Que ermida é aquela, de tanto romeiro?"

—“ É de Santo Iria, que sofreu marteiro."

— ‘Minha Santo Iria, meu amor primeiro,

Se me perdoares, serei teu romeiro.”

—"Perdoar não te hei de, ladrão carniceiro,

Que me degolaste que nem um cordeiro."

Ou houve duas santas deste nome, ambas de aventurosa vida e que ambas deixassem
longa e profunda memória de sua beleza e martí­rio —
o de que não tenho a menor idéia, — ou nos escritos dos
frades há muita fabula de sua única invenção deles
que o povo não quis acreditar: aliás é inexplicável
a singeleza desta tradição oral.

Tão simples, tão natural é a narração
poética do romance popular, quanto é complicada e cheia de maravilhas
a que se autoriza nas recor­dações eclesiásticas.

O caso é grave, fique para novo capitulo.

Capítulo XXX

História de Santa Iria segundo os cronistas e segundo o romance popular.

A milagrosa Santa Iria — Santa Irene — que deu o seu nome a Santarém,
donzela nobre, natural da antiga Nabância, e freira no con­vento
duplex beneditino que pastoreava o santo abade Célio, floresceu pelos
meados do sétimo século, Namorou-se dela extremosamente o jovem
Britaldo, filho do conde ou cônsul Castinaldo que governava aquelas
terras, e não podendo conseguir nada de sua virtude, caiu en­fermo
de moléstia que nenhum físico acertava a conhecer, quanto mais
a curar.

É sabido que a mais santa lhe não pesa de que estejam a morrer
por ela; e, mais ou menos, sempre simpatiza com as vitimas que faz.

Santa Iria resolveu consolar o pobre Britaldo: e já que mais não
podia por sua muita virtude, quis ver se lhe tirava aquela louca paixão
e o convertia. Saiu, uma bonita manhã, do seu convento — que
não guardavam ainda as freiras tão absoluta e estreita clausura
— e foi-se á casa do namorado Britaldo.

Consolou como mulher e ralhou como santa, por fim, impondo-lhe na cabeça
as lindas e benditas mãos, num instante o sarou de todo achaque do
corpo; e se lhe não curou o da alma também, pelo menos lho adormentou,
que parecia acabado.

Mas como o demo, em chegando a entrar num corpo humano, parece que não
sai dele senão para se ir meter noutro, tão depressa o inimigo
deixou ao pobre Britaldo, como logo se foi encaixar em não menor personagem
do que o monge Remígio, que era o mestre e dire­tor da bela Iria.

Arde o frade em concupiscência, e não obtendo nada com rogos
e lamentos, jurou vingar-se. Disfarçou, porém, fingiu-se emendado,
e deu-lhe, quando ela menos cuidava, uma bebida de sua diabólica pre­paração,
que apenas a santa a havia tomado, lhe apareceram logo e continuaram a crescer
todos os sinais da mais aparente maternidade.

Corre a fama do suposto estado da donzela, chovem as injúrias e os
insultos dos que mais a tinham respeitado até então. E Britaldo,
que se julga escarnecido pela hipocrisia daquela mulher artificiosa, em vez
de a esquecer com desprezo — sente reviver-lhe, se não tão
pura, muito mais ardente, toda a antiga paixão.

Tão misterioso é o coração do homem! —
tão vil! dirão os ascéti­cos — tão inexplicável!
direi eu com os mais tolerantes.

Novas tentativas, promessas, ameaças do furioso amante… A santa
resiste a tudo, forte na sua virtude.

Costumava a devota donzela ir todas as noites a uma oculta lapa que jazia
no fim da cerca e junto ao rio Nabão, para ali estar mais só
com Deus, e desabafar com Ele à sua vontade. Soube-o Britaldo, espreitou
a ocasião e ali a fez apunhalar por um seu criado, cujo nome a legenda
nos conservou para maior testemunho de verdade.. chamava-se Banam.

Banam! é um verdadeiro nome de melodrama.

Morta a inocente, Banam despiu-lhe o habito e lançou o corpo ao rio,
que depressa o levou às arrebatadas correntes do Zézere em que
deságua; e logo este ao Tejo – que defronte da antiga Escalabiscastro
lhe deu sepultura em suas louras areias, para maior glória da santa
e perpétua honra da nobilíssima vila que hoje tem o seu nome.

Mas enquanto ia navegando o corpo da santa, teve Célio, o abade do
convento, uma revelação que lhe descobriu a verdade e os milagres
do caso; e comunicando-a logo aos monges e ao povo de Nabância, saiu
com todos de cruz alçada, e foi por esses campos da Golegã fora,
até chegar à Ribeira de Santarém. Ai, benzendo as águas
do rio, estas se retiraram corteses e deixaram ver o sepulcro que era de fino
alabas­tro, obrado à maravilha pelas mãos dos anjos.

Chegaram ao pé do túmulo, abriram-no, viram e tocaram o corpo
da santa, mas não o puderam tirar, por mais diligências que fizeram.
Conheceu-se que era milagre; e contentando-se de levar relíquias dos
cabelos e da túnica, voltaram todos para a sua terra.

As águas tornaram a juntar-se e a correr como dantes, e nunca mais
se abriram senão dai a seis séculos e meio, quando a boa rainha
Santa Isabel, mulher del-rei D. Dinis, tão fervorosas orações
fez ao pé do rio pedindo à santa que lhe aparecesse, que o rio
tornou a abrir-se como o mar Vermelho á voz de Moisés, dizem
os devotos cronistas, e patenteou o bendito sepulcro.

Entrou a rainha a pé enxuto pelo rio dentro, seguida de seu real esposo
e de toda a sua corte; mas por mais que rezasse ela, e que trabalhassem os
outros com todas as forças humanas, não puderam abrir o túmulo;
quebraram todas as ferramentas, era impossível. Desenganado el-rei
de que um poder sobre-humano não permitia que ele se abrisse, mandou
a toda a pressa levantar um padrão muito alto sobre o mesmo túmulo,
e tão alto que o rio na maior enchente o não pudesse cobrir.

O rio esperou com toda a paciência que os pedreiros acabassem e quando
viu que podia continuar a correr, deu aviso, retiraram-se todos, tornaram-se
a juntar as águas e o padrão ficou sobressaindo por cima delas.

Passaram mais três séculos e meio; e no ano de 1644 a Câmara
de Santarém mandou refazer de cantaria lavrada o dito marco ou pedestal,
que não era senão de alvenaria, e pôr-lhe em cima a imagem
da santa.

Ainda lá está, assaz mal cuidado contudo; lá o vi com
estes olhos pecadores no corrente mês de julho de 1843. Mas, sem milagre
nem orações, o rio tinha-se retirado havia muito, para um cantinho
do seu leito, e o padrão estava perfeitamente em seco, e em seco está
todo o ano até começarem as cheias.

Tal é, em fidelíssimo resumo, a história da Santa Iria
dos livros.

A das cantigas é, como já disse, muito outra e muito mais simples;
conta-se em duas palavras. A santa está em casa de seus pais: um cava­leiro
desconhecido, a quem dão pousada uma noite, levanta-se por ho­ras
mortas, rouba a descuidada e inocente donzela, foge a todo o correr de seu
cavalo, e chegando a um descampado dali muito longe, pre­tende fazer-lhe
violência… A santa resiste, ele mata-a. Dali a anos passa por ai o
indigno cavaleiro, vê uma linda ermida levantada no próprio sítio
onde cometeu o crime, pergunta de que santa é, dizem-lhe que é
de Santa Iria. Ele cai de joelhos a pedir perdão à santa, que
lhe lança em rosto o seu pecado e o amaldiçoa.

E acabou a história.

Seria o povo que se esqueceu nas suas tradições, ou os frades
que aumentaram nas suas escrituras? Pois a legenda monástica é
realmente bela e cheia de poesia e romance, coisas que o povo não costuma
desprezar.

É difícil de explicar-se este fenômeno, interessantíssimo
para qualquer observador não vulgar, que nestas crenças do comum,
nestas anti­gualhas, desprezadas pela soberba filosofia dos néscios,
quer estudar os homens e as nações e as idades onde eles mais
sinceramente se mos­tram e se deixam conhecer.

A extrema simplicidade do romance ou xácara de Santa Iria, o ser ele,
dentre todos os que andam na memória do nosso povo, o mais geralmente
sabido e mais uniformemente repetido em todos os distritos do reino, e com
poucas variantes nas palavras, nenhuma no contexto, me faz crer que esta seja
das mais antigas composições não só da nossa língua,
mas de toda a península. A frase tem pouco sabor antigo: este é
um daqueles poemas quase aborígines que a tradição tem
vindo entre­gando, e ao mesmo tempo traduzindo, de pais a filhos insensivelmente;
e também não é por certo dos que desceram do palácio
às choupanas e fugiram da cidade para as aldeias, como em muitos outros
se conhece; este visivelmente nasceu nos arraiais, nos oragos dos campos,
e por lá tem vivido até agora.

A forma métrica da composição é a que a frase
didática das Espa­nhas chamou romance em endechas. Eu, adotando
para ele, mais que para a forma ordinária do metro octossílabo,
a teoria do engenhoso filólogo alemão, Deepping, tão
benemérito da nossa literatura peninsu­lar, creio que estes são
verdadeiros versos de doze silabas, e que as copias não constam senão
de dous versos cada uma, segundo a óbvia significação
da palavra. O povo cantando não separa os hemistíquios destes
versos como fazem os que os escrevem: e ao contrário nos ro­mances
da medida mais comum, o canto popular reparte distintamente cada membro de
oito silabas sobre si.

Não sei se me engano, mas desconfio que as quatro copias últimas,
em que muda completamente a rima, sejam aditamento posterior feito à
cantiga original. Todavia estes oito versos aparecem, com ligeiras varian­tes,
em toda a parte

XXXI

Quomodo sedet sola civitas. — Santarém, Portugal em verso e
Portugal em prosa.— Esquisito lavar de umas panos e janelas de arquitetura
moçárabe. — Busto de D. Afonso Henriques. — As salgadeiras
de África.—- Porta do Sol. — Mura­lhas de Santarém.
— Voltemos à história de Frei Dinis e da menina dos olhos
verdes.

Eram mais de dez horas da manhã quando saímos a começar
a longa via sacra de relíquias, templos e monumentos que são
hoje toda Santarém.

A vida palpitante e atual acabou aqui inteiramente: hoje é um livro
que só recorda o que foi, Entre a história maravilhosa do passado,
que todas estas pedras memoram, e as profecias tremendas do futuro, que parecem
gravadas nelas em caracteres misteriosos, não há mais nada:
o presente não é, ou é como se não fosse; tão
pequeno, tão mesquinho, tão insignificante, tão desproporcionado
parece a tudo isto.

Da vontade de entoar com o poeta inspirado de Jerusalém: Quo modo
sedet sola civitas! Portugal é, foi sempre, uma nação
de milagre. de poesia. Desfizeram o prestigio; veremos como ele vive em prosa.
Morrer, não morre a terra, nem a família. nem as raças:
mas as nações deixam de existir. — Pois embora, já
que assim o querem. A mim não me fica escrúpulo.

Passamos a igreja da Alcáçova. que achamos já fechada;
e to­mando sempre sobre a esquerda, fomos pelo que hoje parece uma azi­nhaga
de entre quintas, mas que visivelmente foi noutras eras a rua mais fashionável
desta vila cortesã. Aqui estão quase ao pé da igreja
umas portas e janelas do mais fino lavor e gosto moçárabe que
me lembra de ter visto.

E a propósito, por que se não há de adotar na nossa
península esta designação de moçarabe para caracterizar
e classificar o gênero arquite­tônico especial nosso, em que
o severo pensamento cristão da arquite­tura da Meia Idade se sente
relaxar pelo contato e exemplo dos hábitos sensuais moirescos, e de
sua luxuosa e redundante elegância?

De que palácio encantado foram estas portas tão primorosamente
lavradas? Que belezas se debruçaram dessas arrendadas janelas para
ver passar o cavaleiro escolhido do seu coração? São
tão lindas, tão elegantes ainda estas pedras desconjuntadas,
e mal sustidas de um muro insosso e grosseiro que as faceia, que naturalmente
despertam a mais adormecida imaginação a quanto sonho de fadas
e trovadores a poesia fez nascer dos mistérios da Idade Média.

Pouco mais adiante está, em um mau nicho escalavrado e feio, um pretendido
busto de D. Afonso Henriques, a que atribuem grande anti­güidade.
Não me fez esse efeito a mim.

Chegamos à porta do Sol: sentamo-nos ali a gozar da majestosa vista.
É majestosa mas triste. A ribanceira que dali corta abaixo, até
ao rio, é árida e quase calva: cobrem-na apenas, como a mal
povoada nuca de um velho, alguns tufos de verdura cinzenta e grisalha de um
arbusto rasteiro, meio frutex meio herbáceo, que aqui chamam "Salga­deira"
e que a tradição diz ter vindo de África para segurar
a terra nestes taludes e precipícios. O aspecto e hábito da
planta é realmente africano e oriental, não tem nada de europeu.
Mas esta derradeira e ocidental parte da nossa Espanha é, geologicamente
falando, já tão Áfri­ca, tão pouco Europa.
que não seria necessária a transplantação talvez;
e porventura ficou esta memória entre o povo do uso que os moiros faziam
da planta para esse fim,

Esta porta do Sol dizem que é onde se faziam as execuções
em tempos antigos. Foi bem escolhido o sitio; não o há mais
triste e melan­cólico. Ao pé está um torreão
quadrado da muralha que aí forma canto para seguir depois na direção
de sul a norte. Deste lado as fortificações e lanços
de muro estão todas pouco estragadas; e do mirante a que subimos, pode-se
formar perfeita idéia do que era uma antiga cidade murada.

Seria aqui, dizia eu comigo, que o nosso Frei Dinis de quem já tenho
saudades — o velho guardião de S. Francisco — veio chorar
o seu último treno sobre as ruínas da antiga monarquia? Seria
aqui neste lugar de desolação e melancolia que correram as suas
derradeiras lágrimas! Ele, que já não chorava, acharia
aqui quem desse aos seus olhos as fontes de água que o coração
lhe pedia para se desafogar dos pesa­res que o ralavam na aridez e secura
de sua desconsolada velhice?

Passavam-me estas idéias pelo pensamento quando o historiador que
tantos capítulos nos reteve no vale, contando-nos os sucessos de Joaninha
e da sua família, nos disse:

Sentemo-nos aqui na sombra que faz esta muralha e acabemos a história
da menina dos rouxinóis. De tarde vamos à Ribeira saudar a memória
do Alfageme. Amanhã de manhã está detalhado que iremos
ver a Graça, o Santo milagre, S. Domingos e S. Francisco. Concluamos
hoje esta história.

— Seja, respondemos nós.

Entraremos portanto em novo capitulo, leitor amigo; e agora não tenhas
medo das minhas digressões fatais, nem das interrupções
a que sou sujeito. Irá direita e corrente a história da nossa
Joaninha até que a terminemos… em bem ou em mal? Dantes um romance,
um drama em que não morria ninguém, era havido por sensabor;
hoje há um certo horror ao trágico, ao funesto que perfeitamente
quadra ao século das comodidades materiais em que vivemos.

Pois, amigo e benévolo leitor, eu nem em princípios nem em
fins tenho escola a que esteja sujeito, e hei de contar o caso como ele foi.

Escuta.

Capítulo XXXII

Tornamos à história de Joaninha. — Preparativos de guerra.
— A morte. — Carl­os ferido e prisioneiro. — O hospital.
— O enfermeiro. — Georgina.

— Escuta! — disse eu ao leitor benévolo no fim do último
capítulo. Mas não basta ­que escute, é preciso que
tenha a bondade de se recordar do que ouviu no capitulo XXV e da situação
em que ai deixa­mos os dous primos, Carlos e Joaninha.

Neste despropositado e inclassificável livro das minhas Viagens, não
é que se quebre, mas enreda-se o fio das histórias e das observações
por tal modo, que, bem o vejo e o sinto, só com muita paciência
se pode deslindar e seguir em tão embaraçada meada.

Vamos pois com paciência, caro leitor; farei por ser breve e ir di­reito
quanto eu puder.

Lembra-te como numa noite pura, serena e estrelada, aqueles dous se despediram
um do outro no meio do vale, como se despediram trist­es, duvidosos,.
infelizes, e já outros, tão outros do que dantes foram.

Nessa mesma noite, a ordenada confusão de um grande movi­mento
de guerra reinava nos postos dos constitucionais. A longa apatia de tantos
meses sucedia uma inesperada atividade. Preparavam-se os sanguinolentos combates
de Pernes e de Almoster, que não foram deci­sivos logo, mas que
tanto apressaram o termo da contenda.

Carlos achou ordem de se apresentar no quartel general; partiu imediatamente.
O pensamento absorvido por idéias tão diferentes, tão
confuso, tão alheado de si mesmo, seguiu maquinalmente o corpo. Foi,
chegou, recebeu as instruções que lhe deram, e voltou mais satisfeito,
mais tranqüilo.

Tratava-se de morrer. Não sabe o que é verdadeira angústia
d’alma o que ainda não abençoou a morte que viu diante de si,
o que a não invocou ainda como único remédio de seu mal,
ou, o que é mais de­sesperado, como única saída de
suas fatais perplexidades.

Estes momentos são raros na vida, é certo; mas quando ocorrem,
não há exageração nenhuma em dizer que antes,
muito antes a morte do que eles.

Oh! ese a morte que se contempla é de honra e glória, se o
entu­siasmo, tirando fortemente a corda dos nervos, os faz vibrar naqueles
tons secretos e misteriosos que arrebatam, e elevam o coração
do ho­mem a sublime abnegação de si e de tudo o que é
pequeno, baixo e vil na sua natureza — oh então a morte parece
um triunfo. uma bem­-aventurança por certo!

Carlos esqueceu-se de tudo, menos da sua espada, que afiou com escrupuloso
cuidado, e das suas boas e seguras pistolas inglesas que limpou minuciosamente,
carregou e escorvou com um verdadeiro amor de artista que se compraz no ultimo
acabamento de um trabalho predileto.

O pouco da noite que lhe restava passou-se nisto; a marcha começou
antes do dia. E os primeiros raios do sol foram saudados pelo fuzilar das
espingardas e pelo trovejar dos canhões.

Combateu-se larga e encarniçadamente — como entre irmãos
que se odeiam de todo o ódio que já foi amor, — o mais
cruel ódio que tem a natureza!

O dia declinava já, quando num hospital em Santarém entravam
muitas macas de feridos, e entre eles, um todo crivado de balas e coberto
de sangue que, assim pelos restos do uniforme como por certo ar bem conhecido
— e característico então — se via claramente ser
do exército constitucional.

Eram muitas e perigosas as feridas desse homem; estenderam-no numa espécie
de tarimba sobre que havia alguma palha, e quando lhe chegou a sua vez foi
examinado e pensado como os outros. Não dava sinal de padecer, tinha
os olhos fechados, o pulso forte mas não agitado de febre; não
proferia uma silaba, não soltava um ai, e prestava-se a tudo o que
lhe diziam e faziam, menos a soltar da mão esquerda, que apertava contra
o peito o que quer que fosse que ali tinha seguro e que lhe pendia ao pescoço
de uma estreita fita preta.

Assim o deixaram largo tempo: ele adormeceu, Não seria largo, mas
foi profundo o seu dormir. Quando acordou já se não viu no vasto
caravançarai daquele confuso hospital, mas num pequeno quarto areja­do,
limpo, quase confortável que em tudo parecia cela de convento, menos
na boa cama em que jazia o doente, e na extremada elegância do enfermeiro
que o velava.

O quarto era com efeito uma cela do convento de S. Francisco em Santarém,
o doente o nosso Carlos; e o enfermeiro que o velava, uma bela mulher de estatura
não acima de ordinária, mas nem uma linha menos, envolvida nas
amplíssimas pregas de um longo roupão de seda daquela acertada
cor que, em dialeto da rua Vivienne, se diz scabieuse; a cabeça toucada
de finíssima Bruxelas, com uns laços de preto e cor de granada
que realçavam a transparência das rendas, a infinita graça
dos longos e ondeados anéis louros do cabelo, e a pureza simétrica
de um rosto oval, clássico, perfeito, sem grande mobilidade de expressão,
mas belo, quanto pode ser belo um rosto em que pouco da alma se reflete, e
em que a serena languidez de uns olhos azuis entibia e mo dera a energia do
sentimento, que não é menos profundo talvez, mas certamente
se expande menos.

De joelhos junto ao leito de Carlos, com a mão direita dele nas suas,
os olhos secos mas fixos nas descaídas pálpebras do soldado,
aquela mulher estava ali como a estátua da dor e da ansiedade. A uma
porta interior e que abria para uma espécie de alcova obscura, em pé,
os braços cruzados e metidos nas mangas. o capuz na cabeça,
estava um frade velho, alto mas curvado do peso dos anos ou dos sofrimentos.

O frade contemplava o enfermo e a enfermeira, mas visivelmente não
queria ser visto nessa ocupação, porque ao menor estremecimento
do doente recuava apressado e como assustado para o interior da sua alcova.

Uma só vela de cera alumiava este quadro, acidentando-o de fortes
sombras, e dando-lhe um tom de solenidade verdadeiramente mágico e
sublime.

Carlos segurava ainda na esquerda com o mesmo aferro o relicário ou
talismã, ou o que quer que era que não queria desprender de
seu coração. A bela enfermeira beijava de vez em quando aquela
mão tenaz que estremecia a cada beijo, por mais suave e mimoso que
fosse o leve contato desses lábios delicados.

A outra mão estava nas mãos dela, mas era insensível
a tudo, essa. O silêncio era o do sepulcro: só se ouvia o respirar
incerto e des­compassado do enfermo.

De repente Carlos entreabriu as pálpebras e exclamou em inglês:
Oh Georgina, Georgina, 1 love you stiIl. — (Georgina, Georgina, eu ainda
te amo.)

Duas lágrimas — duas pérolas, destas que se criam com
tanta dor no coração e que às vezes saem com tanto prazer
dos olhos — rompe­ram do celeste azul dos olhos da dama e suavemente
correram por aquelas faces de urna alvura pálida e mortal

Carlos acordou de todo, abriu os olhos e cravou-os fixamente no rosto angélico
dessa mulher.

Esteve assim minutos: ela não dizia nada nem de voz nem de ges­tos:
falavam-lhe só as lágrimas que corriam quietas, quietas, como
corre uma fonte perene e nativa de água que mana sem esforço
nem ímpeto, por um declive natural e fácil.

— Onde estou eu, Georgina?

— Nos meus braços.

— Que me sucedeu?

— Que não podes ser feliz senão neles: bem sabes, Sei..:
devia saber,

— Devias: só agora hás de sabe-lo, O passado…

— O passado! qual?

— O passado deixou de existir.

— E o futuro?

— Eu não creio no futuro.

— Porquê?

— Porque tu me disseste que não cresse. Eu!… Eu sou um…

— Um homem. Oh!

— Basta e descansa. Amanha falaremos.

— Estou ferido, muito; e dói-me agora… não me doía.

— Estás, mas sem perigo: e estou eu aqui’. Dorme.

— Não posso. Que casa é esta?

— S. Francisco de Santarém.

— Deus de misericórdia!

— És prisioneiro: sara e eu te livrarei.

— Tu? E tu aqui, como?

— Vim buscar-te, e achei-te assim.

— Georgina!

— Que tens tu ai tão seguro na mão esquerda?

— Vê: a medalha com o teu cabelo.

— Então amas-me tu ainda?

— Se te amo! Como no primeiro…

— Não mintas, Carlos… E dorme.

— O meu Deus, meu Deus! Georgina aqui, eu neste estado e… E a minha
gente?

— A tua gente está salva.

— Aonde?

— Aqui mesmo, em Santarém.

— Quero… não quero. Oh sim, quero mas é morrer. Tende
mise­ricórdia de mim, meu Deus!

— Sossega, Carlos.

Mas Carlos não sossegava; emudeceu porque a torrente de seus pensamentos,
o encontrado deles, e o inesperado daquela situação lhe embargavam
a voz, e o quebrantamento das forças lhe tolhia os movimentos do corpo:
mas o espírito inquieto e alvoroçado revolvia-se dentro com
um frenesi louco. Era de pasmar o que ele sofria.

À força de bebidas calmantes o acesso diminuiu, a noite passou
mais tranqüila; e pela manhã o doente não dava cuidado
ao facultativo que o veio ver.

Proibiram-lhe falar; e Georgina tinha a coragem de lhe resistir, de lhe não
responder todas as vezes que ele tentava quebrar o preceito de que dependia
a sua vida… e a dela, porque a infeliz amava-o… oh! amava-o como se não
ama senão uma vez neste mundo.

Passaram dias, semanas. Carlos estava melhor, estava salvo: Geor­gina
pode dizer-lhe um dia:

— Carlos, meu Carlos, tu estas livre de perigo, vou restituir-te aos
teus.

— Os meus!

— Os teus. Tua avó, tua prima…

— Joaninha! oh! Joaninha…

— Tua avó, que também tem estado a morrer, mas que enfim
está escapa, ignora que tu estejas aqui. Ocultamo-lo igualmente a tua
prima.

— Ah!

— Sim, assentamos de lho não dizer a uma nem a outra até
que tivéssemos certeza da tua melhora. Hoje porém vais vê-las.
E eu…

— Tu!

— Eu não tenho aqui mais nada que fazer,

— Georgina!

— Carlos!

— Tu já me não amas?

— Não.

Seguiu-se um silêncio torvo e abafado como o da calma que pre­cede
as grandes tempestades. O rosto de Georgina estava impassível. Carlos
estorcia-se debaixo de uma compressão horrível e incapaz de
se descrever.

Capítulo XXXIII

Carlos e Georgina. Explicação. — Já te não
amo! Palavra terrível. — Que o amor verdadeiro não é
cego. — Frade no caso outra vez- Ece iterum Cnspinus; cá está
o nosso Frei Dinis conosco­

— Tu já me não amas, Georgina, tu? — exclamou Carlos
depois de uma longa e penosa luta consigo mesmo: — Já me não
amas tu, Georgina? Já não sou nada para ti neste mundo? Aquele
amor cego, louco, infinito, que derramavas em torrentes sobre a minha alma,
em que trasbordava o teu coração; aquele amor que eu cheguei
a persuadir-me que era o maior, o mais sincero, talvez o único verdadeiro
amor de mulher que ainda houve no mundo, esse amor acabou, Geor­gina?
Secou-se no teu peito a fonte celeste donde manava? Nem as recordações
de nossa passada felicidade, nem as memórias dos cruéis lances
que nos custou, dos sacrifícios tremendos que por mim fizeste, nada,
nada pode acordar na tua alma um eco, um eco sumido que fosse, da antiga harmonia
de nossas vidas — da nossa vida, Georgina, porque nós chegamos
a confundir num só os dois seres da nossa exis­tência. —
Oh! por que vivi eu até este dia? E tu, tu que refinada cruel­dade
te inspirou o salvar uma vida que tinhas condenado, que tinhas sacrificado
quando a separaste da tua?

— Carlos respondeu Georgina com a fria mas compassiva pie­dade
que mais o desesperava: — Carlos, não abuses da pouca saúde
que ainda tens. O esforço d’alma que estás fazendo pode-te ser
prejudicial. Sossega. Tu iludes-te, e sem querer, procuras iludir-me também
a mim. Entra em ti, Carlos, e discorramos pausadamente sobre a nossa situação,
que não é agradável por certo nem para um nem para outro,
mas que pode suportar-se se tivermos juízo para a encarar toda e sem
medo, e para nos convencermos com lealdade e franqueza do que ela realmente
é. Ouve-me, Carlos: tu amaste-me muito…

— Ó como! o quanto! Nenhum homem…

— Poucos homens, é certo, amaram ainda como tu… quem sabe!
talvez nenhum. Não quero perder esta última ilusão…
já não tenho ou­tra… Talvez nenhum amou como tu me amaste
ou… cuidaste amar-me. Eu… oh! eu quis-te… pelo eterno Deus que me ouve!
eu quis-te com uma cegueira de alma, numa singeleza de coração,
com um abandono tão completo, uma abnegação tão
inteira de mim mesma, que real­mente creio, este é o amor que só
a Deus se deve, que só ao Criador a criatura pode consagrar licitamente.
Bem castigada estou: mereci-o.

— Georgina, Georgina!

— Deixa-me, quero desabafar eu também agora. Ouve-me, tens obrigação
de me ouvir. Se te dei provas deste amor, tu o sabes: se desde que te amei,
uma palavra, um gesto, um pensamento único, um só e o mais leve
relampejar da imaginação desmentiu em mim desta absoluta e exclusiva
dedicação de todo o meu ser… dize-o tu.

— Não, minha alma, não, minha vida, não: tu és
um anjo. tu és…

— Sou uma mulher que te amava como creio que ordinariamente se não
ama.

— Não, certo, não.

— Fomos felizes, é verdade; e creio que poucos amantes ainda
foram tão felizes como nós nos breves dias que isto durou. –
Tu partiste para a tua ilha; era forçoso partir, conheci-o e resignei-me.
Consolavam-me as tuas cartas de fogo, escritas, oh! se o eram! escritas com
o mais puro sangue do teu coração. Nunca duvidei do que elas
me diziam: não se mente assim, tu não mentias então.
E falso que o amor seja cego; o amor vulgar pode sê-lo, amor como o
meu, o amor verda­deiro tem olhos de lince: eu bem via que era amada.
Nunca me escre­veste a protestar fidelidade, e eu sabia, eu via que tu
me eras fiel. Assim passaram meses, anos. Na ilha e no Porto foste o mesmo.
Eu padecia muito, mas confortava-me, vivia de esperanças… triste
viver mas doce! Enfim vieste para Lisboa, para aqui… e as tuas cartas que
não eram menos ternas nem menos apaixonadas…

— Se eu nunca deixei, nem um momento…

Com um gesto expressivo, e de suave mas resoluta denegação,
Georgina pôs a mão na boca do pobre Carlos, como para o impedir
de dizer uma blasfêmia. Ele segurou-a com as suas ambas e lha beijou
mil vezes com um arrebatamento, uma fúria, num paroxismo de lágrimas
e de soluços, que partiriam o coração ao mais indiferente.
Comoveu-se, vacilou a inalterável rigidez do belo rosto da dama, abaixaram-se
as longas pálpebras de seus olhos; mas se chegou até eles alguma
lágrima mais rebelde, pronta refluiu para o coração,
porque ao levantá-los outra vez e ao fixá-los tranqüilamente
nos do seu amante, aqueles olhos pu­ros, celestes e austeros como os de
um anjo ofendido, estavam secos.

Ela continuou:

— As tuas cartas, que não eram menos ternas nem menos apaixo­nadas,
começaram todavia a ser menos naturais, mais encarecidas… eram menos
verdadeiras por força. Senti-o, vi-o, e cuidei morrer. Uma família
da minha amizade vinha então para Portugal, acompanhei-a. Apenas cheguei,
procurei e obtive os meios seguros de transitar pelos dois campos contendores:
pressagiava-me o coração que mehavia de ser preciso. E foi;
cheguei ao vale no dia em que tu o deixavas para aquela fatal ação
que te ia custando a vida. Vim-te encontrar prisioneiro e meio morto no hospital
dos feridos. Ao pé de ti estava um frade.

— Um frade! Meu Deus! seria ele?

— Era ele.

— Pois tu sabes?…

— Sei! eu disse-lhe quem era e o que tu me eras…

— Tu a ele… disseste?…

— Disse. Não sei se fiz mal ou bem, sei que me não importava
o que fazia. Vi depois que me não enganara na confiança que
pusera nele. Trouxemos-te para este convento, tratamos de ti, conseguimos
salvar-te a vida… E enquanto esse cuidado me livrava de outros fui… fuifeliz.
A tua gente… a tuafamília do vale também veio para Santarém…
tua avó e tua prima, Carlos…

— Joaninha! Joaninha está aqui?

— Está; sossega: e já to disse, logo a veras.

— Eu! Eu para quê? Eu não quero…

— Quero eu: hás de vê-la. Já sabes que sei tudo.

— Tudo o quê, Georgina?

— Queres que to repita? Repetirei. Que tu amas tua prima que ela te
adora. E por Deus, Carlos, eu já lhe quero como se fora minha irmã.
Entendes bem que te não amo? Compreendes agora que tudo acabou entre
nós, e que não vejo, não posso ver em ti já senão
o esposo, o marido da inocente criança que tomei debaixo da minha proteção,
e a quem juro que hás de pertencer tu?

— Juras falso.

— Como assim! Pois queres mais vitimas? Nãoestás satisfeito
com

a minha ruma? Eu ao menos não sou do teu sangue. E essa velha

decrépita que é tua avó, que duas vezes foi em verdade
tua mãe por­que te criou — essa inocente que te ama na singeleza
do seu coração…e esse pobre frade velho…

— Oh! aqui anda ele, bem o vejo, aqui anda o gênio mau da minha
família. Maldito sejas tu, frade!

O desgraçado não acabara bem de pronunciar estas palavras,
quando a porta da alcova se abriu de par em par, e a rígida, ascética
figura de Frei Dinis estava diante dele.

Capítulo XXXIV

Carlos, Georgina e Frei Dinis. — A peripécia do drama.

Carlos estava meio sentado, meio deitado numa longa cadeira de recosto; Georgina
em pé, com os braços cruzados e na atitude de refle­xiva
tranqüilidade. Um sol brilhante e ardente, um sol de mato, feria os estreitos
vidros da pequena janela que si dava luz àquele quarto: a excessiva
claridade era velada por uma longa e ampla cortina.

Carlos lançou de repente a mão a essa cortina e a afastou para
avivar a luz do aposento. Um raio agudíssimo de sol foi bater direito
no macerado rosto do frade, e refletiu de seus olhos encovados um como relâmpago
de ira celeste que fez estremecer os dous amantes.

Não foi porém senão relâmpago: sumiu-se, apagou-se
logo. Aque­les olhos ficaram mortais, mudos, fixos, envidraçados
como os do ho­mem que acabou de expirar e a quem não cerraram ainda
as pálpebras.

E assim mesmo, aqueles olhos tinham o poder magnético de fixar os
outros, de os não deixar nem pestanejar.

Curvo, encostado a um bordão grosseiro, o seu chapéu alvadio
debaixo do braço, o frade deu alguns passos trêmulos para onde
esta­vam os dous, arrastando a custo as soltas alpercatas que davam um
som baço e batido, e faziam — não sei por que nem como
— estreme­cer a quem as sentia.

Parou a pouca distância, e tirando a voz fraca e tênue, mas vi­brante
e solene, do intimo do peito, disse para Carlos:

— Tu maldisseste-me, filho, e eu venho perdoar-te. Tu detesta-me, Carlos,
de todos os poderes da tua alma, com toda a energia de teu coração;
e eu venho-te dizer que te amo, que tomara dar a minha vida por ti, que do
fundo das entranhas se ergue este imenso amor que não tem outro igual,
a pedir-te misericórdia, a clamar-te em nome de Deus e da natureza,
a pedir-te, por quanto há santo no céu e de res­peito na
terra, que levantes essa maldição, filho, de cima da cabeça
de um moribundo.

Eram ditas em tal som estas vozes, vinham pronunciadas lá de den­tro
da alma com tal veemência, que não lhas articulavam os lábios,
rompiam-nos elas e saiam.

O soldado parecia desacordado, confuso e sem inteligência do que ouvia.
Georgina impassível até ali, rígida e inabalável
com o seu aman­te, sentia comover-se agora daquela angustia do velho.
E que partia pedras a dor que vinha naquelas falas sepulcrais, que transudava
da­quele rosto cadavérico.

Ao mesmo tempo, um som confuso, um tumulto vago e abafado de mil sons que
pareciam enredar-se, encontrando-se, tornando, indo e vindo, e dispersando-se
para se tornar a unir, e tornando a dispersar-se enfim, reboava ao longe pela
vila, estendia-se nas praças, concentrava-­se nas ruas, e mandava
àquela solitária e remota cela do convento uns ecos surdos,
como os do mar ao longe quando se retira da praia no murmúrio melancólico
que precede um temporal de equinócio.

— Ouves esse burburinho confuso, Carlos? E a tua causa que triunfa,
é a destes loucos que sucumbe, é a de Deus que a si mesmo se
desamparou. A hora esta chegada, escreveram-se as letras de Baltasar; ­a
confusão e a morte reinam sós e senhoras da face da terra. Eu
quero ir morrer onde haja Deus… Perdoai-me, Senhor, a blasfêmia!…
onde o seu nome não seja profanado e maldito… Ao canto de uma pedra,
de­baixo de uma árvore há de ser, nalgum lugar escuso dessas
charnecas, onde me não rasguem ao menos esta mortalha, e ma não
insultem nos últimos instantes, porque eu sou frade, frade, frade…
o maldito frade! Mas frade quero morrer, e hei de morrer. Oh! assim tivera
eu vivido!

— Mas que foi, que sucedeu?

— O resto do exército realista evacua neste momento Santarém;
vão em fuga para o Alentejo. Os constitucionais venceram na Asseiceira,
e tudo esta dito para nós. Para mim, Carlos, falta uma palavra só:
que­rerás tu dizê-la?

— Eu?

— Sim, tu Carlos. Revoga as palavras terríveis que proferiste,
e em nome de Deus, filho, perdoa a teu…

A Carlos revolvia-se-lhe no peito urna grande luta. O horror, a compaixão,
o ódio, a piedade iam e vinham-lhe alternadamente do coração
às faces, e tornavam do rosto para o peito. Uma exclamação
involuntária lhe rebentou dos lábios em meio deste combate.

— Padre, padre! e quem assassinou meu pai, quem cegou minha avó,
e quem cobriu de infâmia a minha… a toda a minha família?

— Tens razão, Carlos, fui eu; eu fiz tudo isso: mata-me. Mas
oh! mata-me, mata-me por tuas mãos, e não me maldigas. Mata-me,
mata-me. É decreto da divina justiça que seja assim. Oh! assim
meu Deus! às mãos dele, Senhor! Seja, e a vossa vontade se faça…

O frade caiu de bruços no chão, e com as mãos postas
e estendi­das para o mancebo, clamava:

— Mata-me, mata-me! Aqui há pouca vida já: basta que
me po­nhas o pé sobre o pescoço; esmaga assim o réptil
venenoso que mordeu na tua família e que fez a tua desgraça
e a de quantos o amaram, Sim, Carlos, sê tu o executor das iras divinas.
Mata-me. Tantos anos de penitência e de remorsos nada fizeram: mata-me,
livra-me de mim e da ira de Deus que me persegue.

Capítulo XXXV

Reunião de toda a família.—- Explicação
dos mistérios. — o coração da mulher. — Parricídio.
— Carlos beija enfim a mão a Frei Dinis e abraça a pobre
da avó.

Georgina disse para Carlos

— Dá a mão a esse homem, levanta-o e diz-lhe as palavras
de perdão que te pede.

Carlos fez um gesto expressivo de horror e de repugnância. Georgina
ajoelhou ao pé do frade, tomou as mãos dele nas suas, e lhas
afagou com piedade: depois levantou-lhe o rosto, encostou-o a si e gra­dualmente
o foi acalmando. O velho parecia uma criança mimada e sentida que se
vai acalentando nos braços da mãe; agora só murmurava
de vez em quando alguns soluços, a mais e a mais raros.

Estavam de joelhos ambos, o frade e a dama: ele mal se tinha, ela

amparava em seus braços e contra seu peito o amortecido corpo do velho.
E Georgina disse com aquele som de voz irresistível que as filhas de
Eva herdaram de sua primeira mãe, e que a ela ou lho tinham antes

ensinado os anjos, ou o aprendeu depois da serpente, — um som de

voz que é a última e a mais decisiva das seduções
femininas — disse:

— Este homem vai morrer, Carlos; e tu hás de o deixar morrer

assim, meu Carlos?

Todo o ódio, todas as ofensas se calaram, desapareceram diante daquelas
palavras do anjo suplicante— Meu Carlos — dito assim, não
o

ouvira ele há muito tempo, não lhe pôde resistir: estendeu
os braços para o frade, caiu de joelhos ao pé dele, e um só
abraço uniu a todos três.

Como no eterno grupo de Laocoonte, o velho e os dous mancebos

sentiam estreitar-se das cobras da mesma dor e afogavam juntos da

mesma angústia.

Assim estiveram longamente: e não se ouvia entre eles senão
al­gum gemido solto, e aquele sussurrar sumido das lágrimas que
mais se ouve com o coração do que com os ouvidos.

O frade disse enfim com uma voz apenas perceptível de tímida
e

de fraca:

— Carlos. meu Carlos, perdoa também… oh! perdoa à memória
de tua desgraçada mãe.

O mancebo saltou convulsamente como o cadáver na pilha galvâ­nica.
Em pé, hirto, horrível, tremendo, exclamou com um brado de tro­vão:

— Demônio! demônio encarnado em figura de homem, que vieste
recordar-me? Dizias bem inda agora, monstro: só às minhas mãos
deves morrer. E hás de!

Lançou-se a um enorme velador de pau-santo que lhe jazia ao pé,
maça terrível de Hércules, e bastante a fender crânios
de ferro, quanto mais a descarnada caveira do frade! De ambas as mãos
a levava no ar; e o velho estendeu para ele a cabeça como na ânsia
de morrer… Geor­gina fechou involuntariamente os olhos. e um grande
e medonho crime e ia consumar-se…

Dous gritos agudíssimos, dous gritos de desespero e de terror, da­queles
que só saem da boca do homem quando suspenso entre a morte e a vida
—soaram repentinamente no aposento: uma velha decrépita e meia
morta, arrastada por uma criança de pouco mais de dezesseis anos, estava
diante de Carlos, e ambas cobriam com seus débeis corpos a frágil
e extenuada figura da sua vítima.

— Filho, meu filho! — arrancou a velha com estertor do peito:
— é teu pai, meu filho. Este homem é teu pai, Carlos.

O ponderoso velador caiu inerte das mãos do mancebo, e rolou pesado
e baço pelo pavimento. Carlos caiu por terra sem sentidos. De um pulo
Georgina estava ao pé dele, e o fez encostar na longa cadeira de braços.
Estava lavado em sangue: era uma ferida do pescoço que o excesso da
comoção lhe fizera rebentar. Os dous velhos vieram ajoelhar-se
ao pé dele. As duas mulheres moças lidavam pelo restaurar e
lhe estancar o sangue. A cambraia dos lenços, as rendas do colo e das
cabeças, tudo se fez em ataduras e compressas: o sangue parou enfim.

Admirável beleza do coração feminino, generosa qualidade
que to­dos seus infinitos defeitos faz esquecer e perdoar! Essas duas
mulheres amavam esse homem. Esse homem não merecia tal amor: não,
por Deus! o monstro amava-as a ambas: está tudo dito. E elas que o
sa­biam, elas que o sentiam, e que o julgam digno de mil mortes, elas
rivalizavam de cuidados e de ânsia para o salvarem.

De tanto não somos capazes nós.

E por isso admiramos tanto.

E perdoamos tanto.

E esquecemos tanto.

Mas amar tanto. não sabemos: verdade, verdade…

Amamos melhor; sim, isso sim: tanto não.

O mancebo permanecia em delíquio. Frei Dinis e a velha rezavam. Georgina
e Joaninha — já vereis que era Joaninha — olharam uma para
a outra, coraram e ficaram suspensas. A inglesa estendeu a mão à
amável criança, estremeceu involuntariamente, mas disse-lhe
com firme­za:

— O dito dito, Joaninha! Eu já o não amo; prometo.

— Eu amo-o cada vez mais, Georgina: ele é tão infeliz!

— Juras-me tu de o não deixar, de velar por ele sempre, de o
defender de si mesmo que é o pior inimigo que tem?

— Se juro!

— Então adeus, Joaninha! Eu estou de mais aqui. Já tenho
ouvido o que não devia ouvir. Os segredos de tua família não
me pertencem. O coração desse homem não é meu.
nem o quero. É um nobre e grande coração, Joaninha: mas…
Não te deixes dominar por ele, se o queres segurar. Adeus! —
Santarém está desamparada pelos realistas; eu vou para Lisboa.
Consola tua boa avó, e esse pobre velho. Ele não é tão
criminoso, estou certa.

— Oh não! Carlos cuida-o assassino de seu pai; e é falso.
Minha avó já me disse tudo.

— Falso! — murmurou Carlos sem abrir os olhos: — é
falso? Pois não foi ele quem matou meu pai?

— Não, filho — clamou a velha: — não, meu
filho; teu pai é este infeliz.

— E minha mãe?

— Tua mãe… e eu somos duas desgraçadas. Que mais queres
sa­ber? Tua mãe amou esse homem…

— Ah! — disse Carlos: — ah! — e abriu os olhos pasmados
para a avó e para o frade que cravaram os seus no chão, e ficaram
como dous réus na presença do seu inflexível juiz.

— Mas esse homem que é… que por força querem que seja
meu… meu pai… Santo Deus! ele matou o outro.

— Defendi-me, foi defendendo esta vida miserável… Oh nunca
eu o fizera! E para quê? Para que quis eu viver? Para isto!

— E meu tio, o pai de Joaninha? Também esse era preciso que
morresse9

— Ambos se juntaram para me assassinar, e me acometeram atraiçoadamente
na charneca. Não os conheci; foi de noite, escura e cerra­da. Defendi-me
sem saber de quem, e tive a desgraça de salvar a minha vida à
custa da deles. Filho, filho, não queiras nunca sentir o que eu senti,
quando pegando, um a um, nesses cadáveres para os lançar ao
rio, conheci as minhas vitimas… Era inverno, a cheia ia de vale a mon­te:
quando abateu e se acharam os corpos já meios desfeitos, ninguém
conheceu a morte de que morreram; passaram por se terem afogado. Ninguém
mais soube a verdade senão eu — e tua infeliz mãe a quem
o disse para meu castigo, a quem vi morrer de pesar e de remorsos, que expirou
nos meus braços chorando por ele, e maldizendo-me a mim. Não
seria bastante castigo, meu filho? Não foi, não. Este burel
que há tantos anos me roça no corpo, estes cilícios que
mo desfazem. os jejuns, as vigílias, as orações nada
obtiveram ainda de Deus. A sua ira não me deixa, a sua cólera
vai até à sepultura sobre mim… Se me perseguirá além
dela!…

Fez-se aqui um silêncio horroroso: ninguém respirava: o frade
pros­seguiu:

— Não me dei por bastante castigado com a agonia de tua mãe,
a mais horrorosa e desesperada agonia que ainda presenciei, ó meu Deus!
Tive o cruel ânimo de explicar a tua avó as negras circunstâncias
da­quela morte, e de lhe patentear toda a fealdade e hediondez do meu
crime. Rasguei-lhe o coração, e vi-lhe sair sangue e água
pelos olhos, até que lhe cegaram. Que mais queres? Cuidei que podia
morrer sem passar por esta derradeira expiação. Deus não
o quis. Aqui estou peni­tente a teus pés, filho. Aqui está
o assassino de tua mãe, de seu marido, de teu tio… o algoz e a desonra
de tua família toda. Faze de mim como for da tua vontade, Sou teu pai…

— Meu pai!… Misericórdia, meu Deus!

— Misericórdia, filho e perdão para teu pai!

Carlos levantou-se deliberadamente, veio ao velho tomou-o a peso nos braços,
foi senta-lo na cadeira que acabava de deixar, e pondo-se de joelhos, beijou-lhe
a mão em silêncio. Depois foi abraçar-se com a avó,
que o apalpava sofregarnente com as mãos trêmulas, e murmurava
baixo:

— Agora, sim, já posso morrer porque o abracei, porque o senti
junto a mim, o meu filho, o filho da minha filha querida…

Carlos é que não proferiu mais palavra; tinha-se-lhe rompido
corda

no coraçãoque ou lhe quebrara o sentimento ou lho não
deixava ex­pressar. Saiu da cela fazendo sinal que vinha logo: mas esperaram-no
em vão… não tornou.

Daí a três dias, veio uma carta dele, de junto de Évora,
onde estava com o exército constitucional.

Capítulo XXXVI

Que não se acabou a história de Joaninha. — Processo
ao coração de Carlos. — Imoralidade. — Defeito de
organização não é imoralidade. — Horror,
horror, maldição!— Um barão que não pertence
á família lineana dos barões propria­mente ditos.—
Porta de Atamarma. — Senatus-consulto santareno. — Nossa Senhora
da Vitória aforada. — Trenos sobre Santarém.

— Pois já se acabou a história de Joaninha?

— Não, de todo ainda não.

— Falta multo?

— Também não é muito.

— Seja o que for, acabemos; que está a gente impaciente por
sa­ber como se concluiu tudo isso, o que fez o frade, o que foi feito
da inglesa, Joaninha e a avó que caminho levaram, e o pobre Carlos
se…

— Pois interessam-se por Carlos, um homem imoral, sem princí­pios,
sem coração, que fazia a corte — fazer a corte ainda não
é nada —que amava duas mulheres ao mesmo tempo? Horror, horror!
como dizem os dramáticos românticos: horror e maldição!

— Horror seja, horror será… e horror é, sem divida.
E maldição que deitaram ao pobre homem. Mas imoralidade! Imoralidade
é enga­nar, é mentir, é atraiçoar; e ele não
o fez. Desgraça grande ter um coração assim; mas não
me digam que é prova de o não ter. Eu digo que ele tinha coração
de mais: o que é um defeito e grande, é um estado patológico
anormal. Fisicamente produz a morte; e moralmente pode matar também
o sentimento. Bem o creio: mas é moléstia co­mum, e com
que vai vivendo muita gente, até que um dia…

— Um dia, o órgão, que progressivamente se foi dilatando,
não pode funcionar mais, cessa a circulação e a vida.
Deve ser horrível mor­te!

— Falam fisicamente?

— Fisicamente. Mas no moral anda pelo mesmo. E se esse é o defeito
de Carlos…

— Sentir muito?

— Não; ter sentido muito: que o coração, como
órgão moral, não se dilata a esse ponto senão
pelo demasiado excesso e violência de sensações que o
gastaram e relaxaram. Se esse é o defeito, a moléstia de Carlos,
digo que já sei o fim da sua história sem a ouvir.

— Então qual foi?

— Que um belo dia caiu no indiferentismo absoluto, que se fez o que
chamam céptico, que lhe morreu o coração para todo o
afeto gene­roso, e que deu em homem político ou em agiota.

— Pode ser.

Mas qual das duas foi, deputado ou barão? Queremos saber…

— Saberão.

— Queremos já.

— E se fossem ambas?

— Ó horror, horror, maldição, inferno! Ferros
em brasa, demônios pretos, vermelhos, azuis, de todas as cores! Aqui
sim que toda a artilharia grosa do romantismo deve cair em massa sobre esse
monstro, esse…

— Esse quê? Poisem se acabando o coração a gente…

— Eu não creio nisso. Acaba-se lá o coração
a ninguém!…

Houve gargalhada geral à custa do pobre incrédulo, e levantamo-nos
para ir ver o Santo milagre, que era a hora aprazada, e estava o prior à
nossa espera.

Amanhã o fim da história da menina dos olhos verdes.

No caminho encontramos o nosso antigo amigo, o Barão de P. —
barão de outro gênero, e que não pertence à família
lineana que nesta obra procuramos classificar para ilustração
do século — cavalheiro generoso, e tipo bem raro já hoje
da antiga nobreza das nossas províncias com todos os seus brios e com
toda a sua cortesia de outro tempo, que em tanto relevo destaca da grosseria
vilã dessas notabilidades improvisadas…

Vinha em nossa procura para nos guiar. Seguimo-lo.

Fomos de passagem observando algumas das mais interessantes coisas daquela
interessantíssima terra em que se não pode dar um passo sem
que a reflexão ou a imaginação encontre objeto para se
entreter. Inclinando um pouco à direita, demos na celebrada porta de
Atamarma.

Por aqui entrou D. Afonso Henriques; por aqui foi aquela destemida surpresa
que lhe entregou Santarém, e acabou para sempre com o domínio
árabe nesta terra.

Os ilustrados munícipes santarenos têm tido por vezes o nobre
e generoso pensamento de demolir esta porta! o arco de triunfo de Afonso Henriques,
o mais nobre monumento de Portugal!

A idéia é digna da época.

Felizmente parece que tem faltado o dinheiro para a demolição;
e o senatus-consulto dos dignos padres conscritos não pôde ainda
executar-se.

Não que eu creia este arco o genuíno arco moiresco por onde
en­travam os bravos de D. Afonso: mas creio que essa porta da antiga vila
se foi reparando, consertando e conservando em suas sucessivas altera­ções,
até chegar ao que hoje está: e ainda assim como está,
é um mo­numento de respeito que só bárbaros pensariam
desacatar e destruir.

Por cima dela está uma capelinha de N. S. da Vitória: quer
a tradi­ção que fosse erguida e consagrada à Virgem
pelo heróico fundador da monarquia e da independência portuguesa.
Este é um dos muitos pon­tos em que a religião das tradições
deve ser respeitada e crida sem grandes exames, porque nada ganha a critica
em pôr dúvidas, e o espí­rito nacional perde muito
em as aceitar.

Deixa-la estar a Virgem da Vitória sobre o arco de Afonso Henri­ques.
Prostremo-nos e adoremos, como bons portugueses, o símbolo dai fé
cristã e da fé patriótica levantado pelas mãos
ensangüentadas do triunfador.

Mas seria ele ou não que levantou essa capelinha? Os documentos faltam,
os escritores contemporâneos guardam silêncio; a história
deve ser rigorosa e verdadeira…

Deve: e os grandes fatos importantes que fazem época são as
bali­zas da história de uma nação; também
eu os rejeitarei sem dó quando lhes faltarem essas autênticas
indispensáveis. Agora as circunstâncias, para assim dizer, episódicas
de um grande feito sabido e provado, quem as conservará se não
forem os poetas, as tradições. e o grande poeta de todos, o
grande guardador de tradições, o povo?

Eu creio na Senhora da Vitória de Santarém, e em muitos outros
santos e santas, que a religião do povo tem por esses nichos e por
essas capelas e por esses cruzeiros de Portugal, a recordar memórias
de que se não lavrou outro auto, não se escreveu outra escritura,
de que não há outro documento, e que os frades croniqueiros
não julgaram dever escrever no livro de terça ou de noa, em
nenhum livro preto nem en­carnado, porque o tinham por melhor escrito
e mais bem guardado nos livros de pedra em que estava.

Coitados! não contaram com os aperfeiçoadores, reparadores
e demolidores das futuras civilizações, que, para pôr
as coisas em ordem, tiram primeiro tudo do seu lugar.

A câmara de Santarém, não podendo demolir o arco, tomou
um meio-termo que aposto que ninguém é capaz de adivinhar. Aforou
a capela por cima dele, com altar, com santos e tudo: e assim esteve aforada
alguns anos, não sei para quê nem por quê; o caso é
que esteve,

O ano passado porém (1842) começou a manifestar-se esta reação
religiosa que os especuladores quiseram logo converter em ganância pessoal,
descontando-a no mercado das agiotagens facciosas, mas per­dem o seu tempo,
inda bem! Veio, digo, esta reação nas idéias das gentes:
e a capela da Senhora da Vitória sobre o arco, não sei também
como nem porquê, foi desaforada, e restituída ao culto popular.

Subimos a ver a capela por dentro: é um rifacimento ridículo
e miserável, sem nenhuma da solenidade do antigo, nem elegância
mo­derna alguma.

Desapontou-me tristemente. Vamos ao Santo milagre depressa, que me quero
reconciliar com Santarém; e já começa a ser difícil.

Mas é injustiça minha. Que culpa tem ela, coitada?

Ai Santarém, Santarém! abandonaram-te, mataram-te, e agora
cospem-te no cadáver.

Santarém, Santarém! levanta a tua cabeça coroada de
torres e de mosteiros, de palácios e de templos!

Mira-te no Tejo, princesa das nossas vilas: e verás como eras bela
e grande, rica e poderosa entre todas as terras portuguesas.

Ergue-te, esqueleto colossal da nossa grandeza, e mira-te no Tejo: verás
como ainda são grandes e fortes esses ossos desconjuntados que te restam.

Ergue-te, esqueleto de morte; levanta a tua foice, sacode os vermes que te
poluem, esmaga os répteis que te corroem, as osgas torpes que te babam,
as lagartixas peçonhentas que se passeiam atrevidas por teu sepulcro
desonrado.

Ergue-te, Santarém, e diz ao ingrato Portugal que te deixe em paz
ao menos nas tuas ruínas, mirrar tranqüilamente os teus ossos
gloriosos; que te deixe em seus cofres de mármore, sagrados pelos anos
e pela veneração antiga, as cinzas dos teus capitães,
dos teus letrados e gran­des homens.

Dize-lhes que te não vendam as pedras de teus templos, que não
façam palheiros e estrebarias de tuas igrejas; que não mandem
os sol­dados jogar a péla com as caveiras dos teus reis, e a bilharda
com as canelas dos teus santos.

Tiraram-te os teus magistrados, os teus mestres, os teus seminá­rios…
tudo, menos o entulho, e a caliça, as imundícies e os monturos
que deixaram acumular em tuas ruas, que espalharam por tuas praças.

Santarém, nobre Santarém, a Liberdade não é inimiga
da religião docéu nem da religião da terra. Sem ambas
não vive, degenera, corrompe-se, e em seus próprios desvarios
se suicida.

A religião do Cristo é a mãe da Liberdade, a religião
do patriotismo a sua companheira. O que não respeita os templos, os
monumentos de uma e outra, é mau amigo da Liberdade, desonra-a, deixa-a
em de­samparo, entrega-a a irrisão e ao ódio do povo

Vamos ao Santo milagre.

Capítulo XXXVII

A Graça e sua bela fachada gótica. — Sepultura de Pedro
Árvores Cabral. —Outro barão que não é dos
assinalados.— Igreja do Santo milagre. — Belos medalhões
moçirabes.— De como, chegando o prior e o juiz, houve o A. vista
do Santo milagre, e com que solenidades. — Monumento da muito alta e
poderosa princesa a infanta D. Maria da Assuncão. — Casa onde
sucedeu o milagre, convertida em capela de estilo filipino. — O homem
das botas, e o que tem ele que haver com o Santo milagre de Santarém.
— Admirável e graciosa esperteza na regência do Rossio.
– Aaroun-el-Raschid e teori dos governos folgazões, os melhores governos
possíveis. — Volta o paládio escalabitano de Lisboa para
Sant­arém.

­Inclinamos o nosso caminho para a esquerda, e fomos passar diante do
arrendado e elegante frontispício gótico da Graça. A
ausência de não sei que regedor, ou insignificante personagem
de igual impor­tância que tem as chaves da igreja e convento, nos
fez perder toda a esperança de visitar a sepultura de Pedro Álvares
Cabral, que ali jaz, assim como outras belas e interessantes antigüidades
de não menor preço.

­Fomos seguindo até casa do barão de A., outro ilegítimo,
porque não pertence aos barões assinalados.

Que sem passar além da Taprobana

No velho Portugal edificaram

Novo reino que tanto sublimaram.

Encontramo-lo pronto a acompanhar-nos e a presidir, como juiz da irmandade
que é, à grande cerimônia da exposição e
ostensão do Santo milagre.

Juntos descemos à igreja, que é perto.

A igreja pequena é do pior gosto moderno por dentro e por fora…
Notável não tem nada senão uns quatro medalhões
de pedra lavrada com bustos de homens e mulheres em relevo, que visivelmente
perten­ceram a edificação antiga, e que atualmente estão
incrustados na tosca alvenaria do cruzeiro.

Os bustos são de puro e finíssimo lavor gótico, altos
de relevo e desenhados com uma franqueza que se não encontra em esculturas
muito posteriores.

São talvez relíquias da primitiva igreja do Santo milagre que
nas sucessivas reedificações se têm ido conservando. Abençoado
seja o escrupuloso que as salvou deste último melhoramento que houve
no des­graçadoe desgracioso templo; o que não foi há
muitos anos por certo.

Chamo gótico ao lavor daquelas cabeças, porque é a frase
vulgar e imprópria usada de toda a gente; segundo já observei
noutra parte, com mais exação se devera dizer moçárabe.

Chegou o prior, o Sr. juiz deu as suas ordens, vieram uns poucos de irmãos
com tochas, distribuíram-nos a cada um de nós a sua, e processionalmente
nos dirigimos à porta lateral do altar-mor, da qual se sobe por uma
escada assaz larga e cômoda, à espécie de camarim que
está paralelo com o mais alto do trono em que perpetuamente se con­serva
o grande paládio santareno.

Subimos, acompanhados do prior em sobrepelíz e estola; chegados, ao
alto, ajoelhamos em roda dele que subiu a uns degrauzinhos, abriu, com a chave
dourada que trazia pendente ao pescoço, uma como porta de sacrário,
depois ajoelhou, incensou, tornou a ajoelhar, disse alguns versetos a que
respondeu o sacristão, e finalmente tirou de seu repositório
uma espécie de âmbula de ouro de fábrica antiga, mas não
mais antiga que o décimo sexto, ou décimo quinto século,
quando muito.

Depois de nos inclinarmos e receber a benção que o padre nos
deitou com a relíquia, foi-nos permitido erguer-nos, e chegar perto
para ver e observar.

Entre uns cristais já bem velhos e embaciados se descobre com efeito
o pequeno vulto amarelado-escuro que piedosamente se crê ser o resto
da partícula consagrada que a judia roubara para seus feitiços.

Escuso contar a história do Santo milagre de Santarém que toda
a gente sabe. O bom do prior, ex-fradetrino gordo e bem conservado, não
nos perdoou o menor ponto dela, que tivemos de ouvir com a maior compunção.

Encerrada outra vez a âmbula com as mesmas solenidades, entra­mos
em conversação com o prior.

Naquele mesmo camarim junto a devota relíquia se conservaram, por
espaço de cinco ou seis anos, se bem me recordo do que o bom do pároco
nos contou, os restos mortais da senhora infanta D. Maria da Assunção,
que falecera em Santarém nos últimos meses da ocupação
daquela vila pelas forças realistas. O cadáver, mal embalsamado
e com más drogas, foi metido num caixão de folha-de-flandres.
Em pouco tempo a corrupção estragou e rompeu a folha, e uma
infecção terrível apestava a igreja. Sofreu-se isto anos,
representou-se ao governo por vezes, mas nenhuma resolução se
pôde obter. Até que afinal, decla­rando o prior que, se não
mandavam tomar conta daqueles tristes restos da pobre princesa, ele se via
obrigado a metê-los na terra, foi-lhe res­pondido que fizesse como
entendesse; e ele entendeu que os devia se­pultar no cruzeiro da igreja,
como fez, do lado da epístola, isto e, a direita

E ai jaz em sepultura rasa, sem mais distinção nem epitáfio,
a muito alta e poderosa princesa D. Maria, filha do muito alto e poderoso
prín­cipe D. João o VI, Rei de Portugal, Imperador do Brasil,
e da conquista e navegação etc.

Assim é o mundo, as suas grandezas e as suas glórias!

A visita ao Santo milagre não é completa sem se ir ver a casa
onde ele se operou. Conservou-se ela por alguns séculos em grande venera­ção
e em mil seiscentos e tantos se converteu por fim em capela. Hoje está
abandonada, chove em toda ela, e apenas tem uma má porta que a defende
das incursões dos animais. Pena e desleixo grande, porque é
elegante e graciosa a capelinha, lavrada de bons mármores, no melhor
gosto do décimo sexto século, de renascença já
multo adiantada no clássico: é um verdadeiro tipo do estilo
filipino, que tanto predomina nessa época em toda a península.

A história do Santo milagre de Santarém muitas vezes tem andado
ligada com a história do reino; e já neste século, no
tempo da guerra da independência, veio prender com um dos fatos mais
importantes, e também com a mais curiosa e cômica aventura de
que em Lisboa há memória.

Aludo nada menos que ao homem das botas. E perdoem-me as senhoras beatas
a irreverência aparente, que bem sabem não ser eu de motejar
com as coisas sérias e santas. Mas o fato é que a história
do Santo milagre está ligada com a célebre historia do homem
das botas.

Saiba pois o leitor contemporâneo, e saiba a posteridade, para cuja
instrução principalmente escrevo este douto livro, que pela
invasão de Massena, o grande paládio escalabitano foi mandado
recolher a Lisboa, e aí se conservou alguns anos até muito depois
da completa retirada dos franceses.

Passado todo o perigo de que o exército invasor roubasse — ou
profanasse — que era o mais provável — a santa relíquia,
começou a reclamá-la o senado e o povo santareno, e a mostrar
muito pouca von­tade de lha restituir o senado e povo ulissiponense. Era
uma questão de entre Alba e Roma, que dava sério cuidado aos
refletidos. Numas da regência do Rossio.

Em poucas perplexidades tão graves se viu aquele pobre governo que
tantas teve, e de quase todas se saiu tão mal.

Não assim desta que a evitou com o mais inesperado e admirável
estratagema, digno de ornar os maravilhosos fastos do grande Aaroun­-el-Raschid,
ou de qualquer outro príncipe de bom humor, desses pou­cos felizes
que em felizes tempos reinaram a brincar, e zombaram com o seu povo, mas fazendo-o
rir,

Pois, senhores, apertada se via a regência destes reinos com a restituição
do Santo milagre que era de justiça fazer-se a Santarém, mas
que Lisboa recusava, e ameaçava impedir. Temia-se alboroto no povo.

Não sei de quem foi o alvitre, mas foi de maganão de bom gosto;
e bom gosto teve também o governo em o aceitar e aproveitar. Para o
dia em que o Santo milagre devia sair de Lisboa Tejo acima, e que se esperava
fosse com grande solenidade e pompa eclesiástica, — fez-se anunciar
por cartazes que um fulano de tal passaria o rio, de Lisboa a Almada, em umas
botas de cortiça nas quais se teria direito e enxuto navegando a pé
sem mais embarcação, vela nem remo.

A logração era gorda e grande; melhor e mais depressa foi engolida.
No dia aprazado despovoou-se a capital, e uns em barcos outros por navios,
outros por essas praias abaixo, tudo se encheu de gente de todas as classes,
e todos passaram o melhor do dia à espera do homem das botas.

No entanto, muito sorrateiramente embarcava o Santo milagre no seu barco
de água arriba, navegava com vento e maré para as ditosas ribeiras
de Santarém.

Ninguém o viu sair, nem soube novas dele em Lisboa senão quando
constou da sua chegada a Santarém, e das grandes festas que lhe fizeram
aqueles saudosos e devotos povos ribatejanos.

Os Aarouns-el-Raschids do Rossio riram de socapa: e nunca tão inocentemente
riu governo algum de ter enganado o povo.

Nós celebramos a história como ela merecia, e fomos jantar
à Alcá­çova, para irmos de tarde ver a Ribeira e
procurar os vestígios do seu incuto Alfageme.

Capítulo XXXVIII

Jantar nos reais paços de Afonso Henriques — Sautes e salmis
— Desde o A.

Ribeira de Santarém em busca da tenda do Alfageme — A espada
do Condestável — Desapontamento. — O salão elegante
Dissipam-se as idéias arqueológicas. Os fósseis. —
Tudo melhor quando visto de longe.— O baile público. —
Soirée de piano obrigado. — Teatro. Desafinações
da prima-dona. Sífilis incurável das traduções.
Destempero dos originais. — A xácara de rigor, o subterrâneo
e o cemitério. — Sublime galimatias do ridículo. —
A bela e necessária palavra “galimatias". — Se as
saudades matam. — Perigo de aplicar o escalpelo ou a lente ao mais perfeito
das coisas humanas. — De como a lógica é a mais perni­ciosa
de todos as incoerências.

Esperava-nos com efeito em casa do nosso bom hóspede, nos ré­gios
paços de Afonso Henriques, um esplêndido jantar a que assistiram
quase todos os cavalheiros da terra. — Não quero dizer as notabildades,
por ser palavra peralvilha a que tenho invencível zanga. — As
igua­rias de legítima escola portuguesa, não menos saborosas
e delicadas por aparecerem estremes de sautés e salmis estrangeirados.
Brilharam sobretudo os produtos das duas grandes vindimas rivais, do Ribatejo
e Ribadouro. Foi largo e alegre o jantar.

Acabamos tarde, montamos logo a cavalo, e pela ponta de Ata­marma descemos
à Ribeira; era quase sol posto quando lá chegamos.

É o subúrbio democrático da nobre vila, hoje o rico
e o forte dela. Faz lembrar aquelas aldeias que se criaram á sombra
dos castelos feudais e que, libertas, depois, da opressora proteção,
cresceram e engros­saram em substância e força: o castelo,
esse está vazio e em ruínas.

Por aqui se faz quase todo o comércio da Estremadura e Beira com o
Alentejo. Os habitantes laboriosos e ativos conservam os antigos brios e independência
do caráter primitivos é a única pane viva de Santarém.

Cruzamos a povoa&ccedccedil;ão em todos os sentidos, procurando rastrear
algum vestígio. confrontar algum sítio onde pudéssemos
colocar, pela mais atrevida suposição que fosse, a tenda do
nosso Alfageme com as suas espadas bem "corrigidas", as suas armaduras
luzentes e bem pos­tas — e o jovem Nuno Álvares passeando
ali por pé, ao longo do rio — como diz a Crônica —
namorado daquela perfeição de trabalho e dando a “correger”
a bela espada velha de seu pai ao rústico profeta que tantos vaticínios
de grandeza lhe fez, que o saudou condestável, conde de Ourém
e salvador da sua pátria.

Nada pudemos descobrir com que a imaginação se iludisse sequer,
que nos desse, com mais ou menos anacronismo, uma leve base tão-somente
para reconstruirmos a gótica morada do célebre cuteleiro-profeta
que a história herdou das crônicas romanescas, e hoje o ro­mance
outra vez reclama da história.

Em Santarém há poucas casas particulares que se possam dizer
verdadeiramente antigas; na Ribeira, nenhuma. As emplastagens e replastagens
sucessivas têm anacronizado tudo. É uma feliz expressão
do Sr. Conde de Raczynski21 bem aplicada por ele ao estado de quase todos
os nossos monumentos, esta de anacronismo.

Mas ali, na vila alta ou Marvila, no Santarém propriamente dito, há
os templos, os conventos, a cerca das muralhas que todavia conservam a fisionomia
histórica da terra: aqui nem isso há.

Voltei completamente desapontado da Ribeira, isto é, da sua pedra
e cal: gosto imenso da sua gente.

Outra surpresa de mui diferente gênero nos esperava à noite
em Marvila, no elegante salão da B. de A., com quem fomos tomar chá.

Em meio das ruínas e desconforto daqueles desertos e mortos par­dieiros
circunstantes, ir encontrar uma casa em plena florescência de civilização
e de vida; ver a amabilidade e a elegância fazendo graciosamente as
honras dela — por mais que se devesse esperar — sempre espanta
a primeira vista: parecia golpe de varinha de condão.

Em tão agradável e jovem companhia todas as idéias arqueológicas
se desvaneceram, apesar de dous ou três fósseis que ali apareciam
para se não perder de todo a cor local talvez.

Largamente se conversou, de Lisboa principalmente, dos nossos mútuos
amigos, das festas do último inverno, das probabilidades que se deviam
esperar do futuro.

Ralhamos muito da sociedade portuguesa; exaltamos Paris e Lon­dres e
não sei se Pequim e Nanquim também, e concluímos que
antes Timboctu do que a secante capital do nosso pobre reino. E contudo estávamos
com saudades dela: e concessão daqui, concessão dali, vie­mos
a que não era tão má terra como isso.

Admirável condição da natureza humana, que tudo nos
parece me­lhor e menos feio quando visto de longe!

O baile público mais sensabor, detestável de barulho e confusão
em que, para repousar os olhos num rosto conhecido e agradável foi
preciso furar por entre centenas de cotovelos bárbaros que se não
sabe donde vieram, levar desalmadas pisadelas do dançante noviço,
do deputado recém-chegado, e das botas novas do novo diretor da Galocha
— e, mais horrível que tudo! ver as absurdas toilettes, os penteados
fabulosos, as caras incríveis e as antediluvianas figuras de tanta
mulher feia e desastrada..— pois esse mesmo baile, quando já
não é senão reminiscência que acorda no meio do
enfado ronceiro de uma terra de província, parece outro. As luzes,
as flores, a música, toda aquela animação lembra com
prazer, o mais esquece, e involuntariamente se descai um pobre homem a suspirar
por ele.

A soirée mais maçante, de piano obrigado com dueto das manas
polca das primas e cassino das tias velhas — recordada em iguais circunstâncias,
também já não acode à memória senão
como uma reunião escolhida e íntima, de fácil e doce
trato… oh! o verdadeiro prazer da sociedade.

Pois o teatro… Que se lembre alguém na província dos martírios
que sofreu o ouvido com os berros da prima-dona, as desafinações
do tenor, ou com o enfadonho ressonar daquela adormecida orquestra de S. Carlos!

A enjoativa tradução de uma comédia da rua dos Condes
roída de incurável sífilis, figura-se aveludada de todas
as graças do estilo de Scri­be.

E o destempero original de um drama plusquam romântico, laure­ado
das inacessíveis palmas do Conservatório para eterno abrimento
das nossas bocas! Lá de longe aplaude-o a gente com furor, e esquece-se
que fumou todo o primeiro ato cá fora, que dormiu no se­gundo,
e conversou nos outros, até à infalível cena da xácara,
do sub­terrâneo, do cemitério, ou quejanda; em que a dama,
soltos os cabelos e em penteador branco, endoudece de rigor, — o galã,
passando a mão pela testa, tira do profundo tórax três
ahs! do estilo, e promete matar seu próprio pai que lhe apareça,
— o centro perde o centro da gravida­de, o barbas arrepela as barbas22…
e maldição, maldição, inferno!.. “Ah mulher
indigna, tu não sabes que neste peito há um coração,
que deste coração saem umas artérias, destas artérias
umas veias — e que nestas veias corre sangue… sangue, sangue! Eu quero
sangue, porque eu tenho sede, e é de sangue… Ah! pois tu cuidavas?
Ajoelha, mulher, que te quero matar… esquartejar, chacinar!” —
E a mulher ajoelha, e não há remédio senão aplaudir…

E aplaude-se sempre.

E não é de mim que falo, que eu gosto disto; os outros é
que se enfastiam e cansam de tanta barafusta, sempre a mesma…

Mas enfim o que digo é que na província não há
tal fastio, que esquece a canseira, e que nem o sublime galimatias do ridículo
dali se percebe.

Peço aos ilustres puritanos que, á força de sublimado
quinhentista, têm conseguido levar a língua à decrepitude
para curar de suas enfer­midades francesas, peço-lhes que me perdoem
o galimatias, porque ele é muito mais português que outra coisa.
A célebre oração Pro gallo Mathiae deu origem a esta
bela e expressiva palavra, que sim foi procriada em francês, mas hoje
precisamos cá muito mais bela que em parte nenhuma.

Volto já da digressão filológica: tornemos à
ótica e à catótrica.

Grande coisa é a distância.

E dizem que saudades que matam! Saudades dão vida; são a sal­vação
de muita coisa que, em seu pleno gozo e posse pacifica, pereceria de inanição
ou morreria da opressora moléstia da sociedade.

Por isso eu não gosto de meter o escalpelo no mais perfeito da construção
humana, nem de aplicar a lente ao mais fino e delicado da seu funcionar..

Vamos usando destas palavras que herdamos, sem meter louvados

na herança; não suceda descobrirmos que estamos mais pobres
do que se cuidava… vamos repetindo estas frases que nos formularam nossos
antepassados sem as analisar com muito rigor; não suceda vermos claro
demais que temos passado a vida a mentir…

Detesto a filosofia, detesto a razão; e sinceramente creio que num
mundo tão desconchavado como este, numa sociedade tão falsa,
numa vida tão absurda como a que nos fazem as leis, os costumes, as
instituições, as conveniências dela, afetar nas palavras
a exatidão, a lógica, a retidão que não há
nas coisas, é a maior e mais perniciosa de todas incoerências.

Não falemos mais nisto, que faz mal, e acabemos aqui este capitu­lo.

Capítulo XXXIX

Processo de cepticismo em que está o Autor. — Moralistas de
requiem. — O maior sonho desta vida, a lógica. — Diferença
do poeta ao filósofo. — O coração de Horácio.
— O Colégio de Santarém. — Jesuítas e templários.
— O aliado natural dos reis. — "Ficar na gazeta’, frase muito
mais exata hoje do que “ficar no tinteiro". — S. Frei Gil
e o Doutor Fausto. — De como o A. foi ao túmulo do santo bruxo
e o achou vazio. — Quem o roubaria?

O final do capitulo antecedente é, bem o sei, um terrível docu­mento
para este processo de cepticismo em que se mandaram meter certos moralistas
de requiem de quem tenho a audácia de me rir, deles e da sua querela
e do seu processo, protestando não me agravar nem apelar, nem por nenhum
modo recorrer da mirifica sentença que suas excelentíssimas
hipocrisias se dignarem proferir contra mim.

Feita esta declaração solene, procedamos.

E quanto a ti, leitor benévolo, a quem só desejo dar satisfação,
a ti se ainda te cansas com essas quimeras, dou-te de conselho que voltes
a página obnóxia, porque essas reflexões do último
capitulo são tão des­locadas no meu livro como tudo o mais
neste mundo. Dorme pois, e não despertes do belo ideal da tua lógica.

É uma descoberta minha de que estou vaidoso e presumido, esta de ser
a lógica e a exação nas coisas da vida muito mais sonho
e muito mais ideal do que o mais fantástico sonho e o mais requintado
ideal da poesia.

É que os filósofos são muito mais loucos do que os poetas;
e de mais a mais, tontos; o que estoutros não são.

Voltemos, voltemos a página com efeito, que é melhor.

Amanheceu hoje um belo dia, puro e sublime. Dorme nas cavernas do padre Éolo
aquele vento seco e duro, flagelo dos estios portugueses. Suspira no ar uma
viração branda e suave que regenera e dá vida. Mal empregado
dia para o passar a ver ruínas! No seio da sempre jovem natureza, sob
a remoçada espessura das árvores, sobre a alcatifa sempre renovada
das gramas verdes e variegadas boninas, queria eu que me corresse este dia
em ócio bem-aventurado de corpo e de alma, sentindo pulsar lento e
compassado o coração livre e solto de todo empenho, o verdadeiro
coração de Horácio.

Solutus omni foenore!

Tomara-me eu no vale outra vez, com a irmã Francisca a dobar à
porta, a nossa Joaninha a deslindar-lhe a meada, e embora venha o terrível
espectro de Fr. Dinis projetar sua funesta e trágica sombra no idílio
deste quadro suave, que não pode destruir-lhe toda a amenidade bucólica,
por mais que faça.

Lá voltaremos ao nosso vale, amigo leitor, e lá concluiremos,
como é de razão, a história da menina dos rouxinóis.
Por agora almocemos, que é tarde, e terminemos os nossos estudos arqueológicos
em Marvila de Santarém.

Cá estamos no Colégio, edifício grandioso, vasto, magnífico,
pró­pria habitação da companhia-rei que o mandou
construir para educar os infantes seus filhos.

Creio que esta e a de Coimbra eram as duas principais casas que para isto
tinham os jesuítas em Portugal.

Foram os templários dos séculos modernos, os jesuítas.
A potência formidável e quase régia que aqueles levantaram
com a espada, tinham estes fundado com a doutrina. Riqueza, poder, influência,
uns e outros as tiveram com aplauso e aquiescência geral; uns e outros
as perderam do mesmo modo.

Extintas e perseguidas, ambas as ordens renasceram no mistério, e
se converteram em associações secretas para conspirarem; ambas
toma­ram diversos nomes e variadas máscaras para o fazerem mais
seguramente.

Ambas em vão!

O predomínio, crescente há séculos, do elemento democrático,
anula todas essas conspirações. Sós e sem ele, os reis
tinham sucumbi­do… É a aliada natural dos reis a democracia.

O edifício do Colégio é todo filipino, já o disse:
a igreja dos mais belos espécimes desse estilo, que em geral seco,
duro e sem poesia, não deixa contudo de ser grandioso.

Aqui esteve depois muitos anos o seminário patriarcal, cujas aulas
freqüentava a mocidade do distrito, Hoje lêem-se ali outras palestras
da cátedra administrativa. É a sede do governo civil chamado:
corromper a moral do povo, sofismar o sistema representativo é o tema
das lições.

Todo outro ensino se tirou de Santarém. Fala-se num liceu e não
sei em que mais "que ficou na gazeta": frase portuguesa moderna
que deve suprir a antiga e antiquada de — "ficou no tinteiro"
— por muitas razões, até porque hoje não fica nada
no tinteiro senão o senso comum, tudo o mais de lá sai, tudo.
E muitas graças a Deus quando não passa às balas do impressor
para dar a volta do mundo! Santarém é das terras de Portugal
a melhor situada e qualificada para um grande estabeleci­mento de instrução
e de educação pública. Por que não há de
estar aqui o Colégio Militar ou a Casa Pia, ou outra grande escola,
seja qual for? Por que há de ser esta centralização de
ensino em Lisboa? Em que se funda um privilégio dado à capital
em prejuízo e à custa das províncias?

Saímos do Colégio, fomos direitos a S.. Domingos, um dos mais
antigos estabelecimentos monásticos do reino e que eu tanto desejava
visitar. Não sei descrever o que senti quando a enferrujada chave deu
a volta na porta da igreja e o velho templo se patenteou aos nossos olhos.
Acabara de servir, não imaginam de quê… de palheiro!

A derradeira camada de palha que apodrecera aderia ainda ao la­jedo úmido,
e exalava um forte vapor mefítico que nos sufocava. Mal pudemos ver
os túmulos dos Docens e tantos outros interessantes mo­numentos
que abundam na parte superior do templo. A inferior, ou corpo da igreja como
dizem, é de um miserável e moderno anacronis­mo­

Respirando a custo aquele ar infecto, todo o tempo que lhe pu­desse resistir,
quis aproveitá-lo em examinar a principal e mais interes­sante
relíquia da profanada igreja a capela e jazigo do grande bruxo e grande
santo, S. Frei Gil.

Algures lhe chamei já o nosso Doutor Fausto: e é com efeito.
Não lhe falta senão o seu Goethe.

Vixere fortes ante Agomemnona multi.

Houve fortes homens antes de Agamemnão, e fortes bruxos antes e depois
do Doutor Fausto. Mas sem Homero ou Goethe é que se não chega
à reputação e fama que alcançaram aqueles senhores.
Nós preci­samos de quem nos cante as admiráveis lutas —
ora cômicas, ora tre­mendas — do nosso Frei Gil de Santarém
com o diabo. O que eu fiz na Dona Branca é pouco e mal esboçado
à pressa. O grande mago lusi­tano não aparece ali senão
episodicamente; e é necessário que apareça como protagonista
de uma grande ação, pintado em corpo inteiro, na primeira luz,
em toda a luz do quadro.

Então o seu ardente e ansiado desejo de saber, os seus vastos es­tudos,
os recônditos mistérios da natureza que descobriu até
penetrar no mundo invisível — a sede de oiro, de prazer e de
poder que o perse­guia e o fez cair nas garras do espírito maligno
— o fastio e saciedade que o desencantaram depois, o seu arrependimento
enfim, e a regene­ração de sua alma pela penitência,
pelai oração e pelo desprezo da vã ciência humana,
— então essas variadas fases de uma existência tão
extraordinária, tão poética, devem mostrar-se como ainda
não foram vistas, porque ainda não olhou para elas ninguém
com os olhos de grande moralista e de grande poeta que são precisos
para as observar e entender.

Lembra-me que sempre entrevi isto desde pequeno, quando me faziam ler a História
de S. Domingos, tão rabugenta e sensabor as ve­zes, apesar do encantado
estilo do nosso melhor prosador; e que eu deixava os outros capítulos
para ler e reler somente as aventuras do santo feiticeiro que tanto me interessavam,

Com todas estas reminiscências que me reviviam na alma, com os admiráveis
versos do Fausto a acudir-me à memória, e com uma infini­dade
de associações que essas idéias me traziam, caminhei
direito à capela do santo, cheio de alvoroço, e como tocado,
para assim dizer, da sua mágica vara de condão.

A capela – ó desapontamento! – a capela de S. Frei Gil é um
mesquinho rifacimento moderno, do lado esquerdo da igreja, sem ne­nhum
vestígio de antigüidade, nenhum ornato característico,
pesada, grosseira, velha sem ser antiga – um verdadeiro non-descriptum de
mau gosto e sensaboria. Quem tal dissera?

O túmulo do santo está elevado do altar numa espécie
de mau trono. Subi acima da degradada e profanada credência para o examinar
de perto.

É de pedra o jazigo; mas ultimamente vê-se que tinham pintado
a pedra; não tem lavor algum. — E estava vazio, a loisa levantada
e quebrada!…

Quem me roubou o meu santo?

Quem foi o anátema que se atreveu a tal sacrilégio?…

Capítulo XL

As claras. — Aventura noturna. — Se as freiras metem medo aos
liberais? — O salmo. — Três frades. — Prática
do franciscano. — O corpo de S. Frei Gil. — Que se há de
fazer das freiras? — Mal do governo que deixar comer mais aos barões.

Era de noite, reinava a confusão, a desordem, o susto e a ansie­dade
nos muros de Santarém; três homens chegavam, por horas mor­tas,
ao antigo mosteiro das claras, davam à portaria um sinal surdo e misterioso;
respondiam-lhe de dentro com outro igual; e dai a pouco, sem rumor e com as
mais escrupulosas precauções se abria quietamente a porta da
clausura.

Os três homens entraram, a porta fechou-se sobre eles do mesmo modo
precatado.

Quem será?

Os homens levavam uma espécie de cofre que parecia conter preciosidades
de grande valor: tal era o desvelo com que o resguardavam.

Há um mistério que se figura criminoso nesta aventura. Mas
os tempos são para tudo.

Era no ano de 1834.

Entremos nesse convento das pobres claras, tão aflitas e desconso­ladas
agora que as ameaçam de dissolução como aos frades.

Ná0 será assim; aquelas instituições não
metem medo aos verda­deiros liberais e os outros lá têm o
espólio dos frades para devorar; estão entretidos: as freiras
salvam-se por ora.

Tais eram as esperanças dos três homens que entravam a estas
desoras nos vedados precintos do mosteiro. Sigamo-los, porém. que é
tempo.

Chegavam eles a uma pequena capela do claustro das freiras, fo­ram depor
sobre o altar o cofre que traziam, e ajoelharam devotamente diante dele. Logose
ouviu ao longe o salmear baixo e sumido de vozes femininas; e dai a pouco,
toda a comunidade das claras, de tochas na mão, em duas alas, e a abadessa
com o seu báculo atrás, entravam processionalmente no claustro
e se dirigiam à mesma capela.

O salmo que cantavam era este:

"Meu Deus, vieram os bárbaros às tuas herdades, poluíram
o teu santo templo, puseram Jerusalém como um granel de frutos.

"Puseram os cadáveres de teus filhos de cevo às aves do
céu; as carnes dos teus santos às alimárias da terra,

“’O sangue deles derramaram-no como água nos vales de Jerusa­lém!
já não havia quem sepultasse.

"Estamos feitos o opróbrio dos nossos vizinhos; o escárnio
e a zombaria dos que vivem por nossos arredores.

"Até aonde, á Senhor, te hás de irar, enfim; e
se há de acender o teu zelo com o fogo?

"Verte a tua ira sobre as gentes que te não conheceram, contra
os reinos que não invocaram oteu nome:

"Que devoraram a Jacó; e desolaram suas terras.

"Não te lembres de nossas iniqüidades passadas, e depressa
nos alcancem as tuas misericórdias; já que tão pobres
demais estamos.

"Ajuda-nos Deus, salvador nosso; e pela glória do teu nome livra-­nos,
Senhor, amerceia-te de nossos pecados por causa do teu nome."

Cantavam assim as pobres das freiras, cantavam em latim que elas mal entendiam;
mas dizia-lhes o instinto do coração, dizia-lhes a tão
excitável imaginação feminina, que era chegada a hora
de se cumprir a seus olhos, e sobre elas mesmas também, a tremenda
profecia do salmo que entoavam.

Havia pois lágrimas naquelas vozes que assim cantavam; saiam da alma
aqueles sons e na alma vibravam também com profunda e solene melancolia.

Chegadas junto à capela, aonde estava o cofre, as freiras pararam
conservando as mesmas duas alas da procissão e continuando no acen­tuado
murmúrio do seu salmo.

Os três vultos de homem permaneceram de joelhos curvados diante do
altar.

Findou o salmo e seguiu-se breve intervalo de silêncio. Depois, os
três homens levantaram-se,. e caindo-lhes para os lados as longas capas
em que vinham envoltos, viu-se que o do meio era um frade velho, magro, curvado
e seco, trajando ainda, apesar da lei, o burel preto dos franciscanos e cingido
com sua corda. Os outros dous eram dominicos e vestiam de preto e branco segundo
as cores de seu também proscrito instituto,

O velho franciscano subiu com passo trêmulo os degraus do altar, beijou
o cofre que estava sobre ele, e voltando-se para a comunidade que o contemplava
em religioso silêncio, disse com uma voz cava que parecia vir do sepulcro,
mas acentuada e forte:

– Irmãs, vimos entregar-vos este depósito precioso. Deus não
quer que os cadáveres dos seus santos fiquem expostos às aves
docéu e às alimárias da terra. Este é o santo
como de um dos maiores santos que produziu esta terra de Portugal quando era
abençoada. Hoje é maldita e não devia conservar as suas
relíquias. Os filhos de S. Domin­gos foram expulsos de sua casa,
assim como nós fomos, nós os filhos de Francisco, encontramo-nos
sem teto nem abrigo uns e outros, e jun­tamos as nossas misérias
para as chorarmos como irmãos que somos, como filhos de pais que tanto
se amaram e ajudaram. Peregrinaremos juntos por essas solidões da terra,
e juntos iremos bater por essas portas que cerrou a impiedade e a indiferença,
a pedir o pão de cada dia porque temos fome. Que importa! Não
professamos nós, não nos hon­ramos nós de ser mendigos?
De que vivemos nós sempre senão de esmola? Não choreis,
irmãs, não choreis sobre nós. Deus que o permitiu bem
sabe o que fez. Louvado seja ele sempre. Nós tínhamos pecados
para mais! Anda foi misericordioso conosco o Senhor da justiça e do
castigo. A nós tiram-nos tudo, tudo’. Até estas mortalhas que
tínhamos escolhido em vida e que nem a morte ousava roubar-nos. A furto
e como quem se esconde para um ato criminoso, nós as vestimos esta
noite para cometer o que eles chamarão um furto, e que era uma obri­gação
sagrada nossa. Fomos à antiga casa de nossos irmãos e rouba­mos
o como do bem-aventurado S. Frei Gil. Aqui vo-lo entregamos; guardai-o. Enquanto
estes muros estiverem em pé, que o abriguem dos desacatos dessa gente
sem Deus nem lei. A vós não ousarão expulsar-vos daqui:
talvez vos matem à fome… Não pode ser: Deus não há
de permiti-lo. Mas qualquer que seja a sua vontade, resignai-vos a ela, mi­nhas
irmãs. Só ele sabe como nos ama e como nos castiga. Louvemo-lo
por tudo.

Aqui foi um chorar e um suplicar fervente como só se ouve na hora
de angústia.

As aflitas monjas estavam prostradas nas lajes úmidas do claustro,
sobre as sepulturas de suas irmãs, sobre seus próprios jazigos
que ha­viam de ser. O frade com os braços estendidos pronunciou
as solenes palavras de bênção, descrevendo com a direita
o augusto símbolo da redenção:

— Bendiga-vos, Deus onipotente, Pai Filho e Espírito Santo!

— Amém! — respondeu o coro; e os três proscritos
se retiraram, deixando a salvo o seu tesouro.

Assim desapareceu do túmulo o corpo de S. Frei Gil de Santarém.
Ninguém sabia dele; soube eu e guardei o segredo religiosamente.

Os tempos são outros hoje: os liberais já conhecem que devem
ser tolerantes, e que precisam de ser religiosos. Não há perigo
em dizer-lhes onde ele está.

Quando houver em Portugal um governo que saiba ser governo, há de
regular e consolidar a existência das freiras, há de aproveitá-la
para as piedosas instituições do ensino da mocidade, da cura
dos en­fermos, e do amparo dos inválidos.

Os barões andam-lhe com o cheiro nos poucos bens que lhes res­tam
às pobres freiras. Mal do governo que deixar comer mais aos ba­rões!

Capítulo XLI

O roubador do corpo do Santo descoberto pela arguta perspicácia do
leitor be­névolo. — Grande lacuna da nossa história.
— Por que se não preenche. — Página preta no história
de Tristão Shandv. — Novelas e romances, livros insigni­ficantes.
— O adro de S. Francisco e as suas acácias.— Que será
feito de Joani­nha. — O peito da mulher do norte. — Vamos
embora: já me enfada Santarém e as suas ruínas. —
A corneta do soldado e a trombeta do juízo final. — Eheu, Portugal,
eheu!

Por certo, leitor amigo, no franciscano velho que vai de noite rou­bar
os ossos do santo ao seu túmulo, e os vem esconder na clausura das
freiras, por certo, digo, reconheceu já a tua natural perspicácia
ao nosso Frei Dinis, o frade por excelência — frade por teima
e acinte.

Pois esse era, não há duvida.

Assim se passou aquela cena e assim ma contaram. Do que me­diara entre
ela e o acontecido com o frade, Carlos, Joaninha, a avó e a inglesa,
disso é que nada pude saber.

É uma grande lacuna na nossa história; mas antes fique assim
do que enchê-la de imaginação.

Oh! eu detesto a imaginação.

Onde a crônica se cala e a tradição não fala,
antes quero uma página inteira de pontinhos, ou toda branca, ou toda
preta, como na venerável história do nosso particular e respeitável
amigo Tristão Shan­dv, do que uma só linha da invenção
do croniqueiro.

Isso é bom para novelas e romances, livros insignificantes que to­dos
lêem todavia, ainda os mesmos que o negam.

Eu também me parece que os leio, mas vou sempre dizendo que não…

Enfim, tornemos ao frade, e tornemos ás minhas viagens.

Cheio dele e da sua memória, palpitando com a recordação
das tremendas cenas que, havia tão poucos anos, se tinham passado em
seu antigo mosteiro, eu me aproximei enfim do real convento de S. Francisco
de Santarém.

Dei pouca atenção ao belo adro e à solene vista que
dele se des­cobre e menos ainda às doentias acácias que
ai vegetam indefesas e raquíticas, como plantadas de má mão
e em má hora — porque moças são elas, é
visível: puseram-nas aí depois de extinto o convento, São
triste, mas verdadeiro símbolo da apagada e factícia vida que
se quis dar ao que era morto.

Vamos dentro, e vejamos pelas baixas e aguçadas arcadas do claus­tro,
pelas altas naves do templo se descobrimos algum vestígio do úl­timo
guardião desta casa, e dessa fadada família cujo destino, em
hora aziaga, tão estreitamente se ligou com o dele.

Já me interessa isto mais, confesso, ai! muito mais, do que todos
esses túmulos e inscrições que por ai estão, e
que tanto caracterizam este um dos mais antigos e mais históricos edifícios
do reino.

Mas em vão interrogo pedra a pedra, laje a laje: o eco morto da solidão
responde tristemente às minhas perguntas, responde que nada sabe, que
esqueceu tudo, que aqui reina a desolação e o abandono, e que
se apagaram todas as lembranças do outro estado…

Que foi feito de ti, Joaninha, e dos teus amores? Que será feito desse
homem que ousou amar-te amando a outra? E essa outra onde está? Resignou-se
ela deveras? Sepultou com efeito, sob o gelo apa­rente que veste de tríplice
mas falsa armadura o peito da mulher do norte, todo aquele fogo intenso e
íntimo que solapadamente lhe devora o coração?

Não tenho esperanças de saber nada disso aqui.

Só pude descobrir que, no dia imediato à cena noturna das claras,
Frei Dinis saiu de Santarém, não se sabe em que direção
— que nesse mesmo dia Georgina saíra também pela estrada
de Lisboa, levando em sua carruagem a avó e a neta, ambas meias mortas
e ambas meias loucas — que não houvera mais novas de Carlos —
e que a sua última carta, aquela que escrevera de junto de Évora,
Joaninha a levava aper­tada nas mãos convulsas quando partira.

Pois também eu me quero partir, me quero ir embora. Já me en­fada
Santarém, já me cansam estas perpétuas ruínas,
estes pardieiros intermináveis, o aspecto desgracioso destes entulhos,
a tristeza destas ruas desertas. Vou-me embora.

E contudo S. Francisco é uma bela ruína, que merecia ser exami­nada
devagar, com outra paciência que eu já não tenho.

Se tudo me impacienta aqui!

Da bela igreja gótica fizeram uma arrecadação militar;
andou a mão destruidora do soldado quebrando e abolando esses monumentos
pre­ciosos, riscando com a baioneta pelo verniz mais polido e mais respei­tado
desses jazigos antiqüissíssimos; os lavores mais delicados esmoucou-os,
degradou-os. Levantaram as lajes dos sepulcros; e ao som da corneta militar
acordaram os mortos de séculos, cuidando ouvir a trombeta final…

Decididamente vou-me embora, não posso estar aqui, não quero
ver isto. Não é horror que me faz, é náusea, e
asco, e zanga.

Malditas sejam as mãos que te profanaram, Santarém… que te
desonraram, Portugal… que te envileceram e degradaram, nação
que tudo perdeste, até os padrões da tua história!…

Eheu, cheu. Portugal!

Capítulo XLII

Protesto do Autor. — Desafinação dos nervos. —
O que é preciso para que os ruínas sejam solenes e sublimes.
— Que Deus está no Coliseu como em S. Pedro. — Quer-se
o Autor ir embora de Santarém. — Como, sem ver o túmulo

deI-rei D. Fernando?— Em que estado se acha este. — Exemplar
de estilo bizan­tino. — Coroa real sobre a caveira.— O rei
de espadas e o símbolo do império. — Quem nunca viu o
rei cuida que é de oiro. — Brutalidades da soldadesca num túmulo
real. — O que se acha nos sepulturas dos reis. – A frenologia. —
Vindita pública, tarda mas ultrajante. — Camões e Duarte
Pacheco. — A sombra falsa da religião. — Regime dos barões
e da matéria. — A prosa e a poesia do povo. — Síntese
e análise. — O senso íntimo. — Se o Autor é
demagogo ou jesuíta? — Jesus Cristo e os barões.

Não chamem exagerado ao que vai escrito no fim do último capítulo;
senti o que escrevi, senti muito mais do que escrevi. O que poderá
haver é desacerto nas palavras, porque em verdade não sei explicar
a impressão que me jaz uma ruína neste estado. Desafinam-me
os nervos, vibram-me numa discordância e dissonância insuportável.
Queria ver antes estes altares expostos às chuvas e aos ventos do céu,
— que o sol os queimasse de dia, — que à noite, à
luz branca da lua, ou ao tíbio reflexo das estrelas, piasse o mocho
e sussurrasse a coruja sobre arcos meio caídos.

Não me parecia profanado o templo assim, nem descaído de majestade
o monumento. Podia ajoelhar-me no meio das pedras soltas entre as ervas úmidas,
e levantar o meu pensamento a Deus, o meu coração à glória,
à grandeza, o meu espírito às sublimes aspirações
da idealidade. O material, o grosseiro, o pesado da vida não me vinham
afligir aí.

Deus, a idéia grande do mundo — Deus, a Razão Eterna
— Deus, o amor — Deus, a glória — Deus, a força,
a poesia e a nobreza de alma — Deus está nas ruínas escalavradas
do Coliseu, como nos zimbó­rios de bronze e mármore de S.
Pedro.

Mas aqui!… nos pardieiros de um convento velho, consertado pelas Obras
Públicas para servir de quartel de soldados — aqui não
habita espirito nenhum.

Quero-me ir embora daqui!

E como? sem ver o túmulo del-rei Fernando? Não pode ser, é
ver­dade.

Onde está ele?

No coro alto.

Subamos ao coro alto.

Oh! que não sei de nojo como o conte!

O belo jazigo do rei formoso e frívolo, tão dado às
delicias do pra­zer como foi seu pai às austeridades da justiça,
em que estado ele está!

Ó nação de bárbaros! Ó maldito povo de
iconoclastas que é este!

O túmulo do segundo marido de D. Leonor Teles é um sarcófago
de pedra branca, fina e friável, elegante e simplesmente cortada, com
mais sobriedade de ornatos do que têm acabada escultura, casta e con­tinente,
como o não foi a vida do rei que ai encerraram depois de morto.

Percebem-se ainda vestígios das vivas cores em que foram induzidos
os relevos da pedra branca: — estilo bizantino de que não sei
outro exemplar em Portugal. Este é — ou antes, era — precioso.

Era: porque a brutalidade da soldadesca o deturpou a um ponto incrível,
Imaginou a estúpida cobiça destes álanos modernos que
devia de estar ali dentro algum grande haver de riquezas encantadas, —
talvez cuidaram achar sobre a caveira do rei a coroa real marchetada de péro­las
e rubis com que fosse enterrado, — talvez pensaram encontrar, aper­tado
ainda entre as secas falanges dos dedos mirrados, aquele globo de oiro maciço
que lhes figura o rei de espadas do sujo baralho de sua tarimba, e que elas
tem pela indispensável e infalível insígnia supremo império:
– talvez supuseram que, mesmo depois de morto, um rei devia de ser de oiro…
Enfim quem sabe o que eles cuidaram e pensaram? O que se sabe, porque se vê,
é que quiseram abrir e arrom­bar o túmulo. Tentaram, primeiro,
levantar a campa; não puderam: tão solidamente está soldada
a pedra de cima ao corpo ou caixão do jazigo, que o todo parece maciço
e inconsútil. Mas neste empenho quebraram e estalaram os lavores finos
dos cantos, os cairéis delicados das orlas; e a campa não cedeu:
parece chumbada pelo anjo dos últimos julgamen­tos com o selo tremendo
que só se há de quebrar no dia derradeiro do mundo.

A cobiça estólida dos soldados não se aterrou com a
religião do sepulcro nem lhe causou atrição, ao menos,
esta resistência quase so­brenatural das pedras do moimento. Vê-se
que trabalhou ali, de ala­vanca e de aríete, algum possante e ponderoso
pé-de-cabra; mas que trabalhou em vão muito tempo.

Desenganaram-se enfim com a tampa; e resolveram atacar, mais brutalmente
mas com mais vantagem, as paredes do sarcófago, que jus­tamente
suspeitaram de menos espessas. Assim era; e conseguiram na parede da frente
abrir um rombo grosseiro por onde entra fácil um braço todo
e pode explorar o interior do túmulo à vontade.

Assim o fiz eu, que meti o meu braço por essa abertura barrada, e
achei terra, pó, alguns ossos de vértebras, e duas caveiras,
uma de ho­mem, outra de criança.

Não me lembra que haja memória alguma de infante que aí
fosse sepultado também, segundo faziam os antigos muitas vezes que
pu­nham os cadáveres das crianças nos jazigos dos pais,
dos parentes, até de meros amigos de suas famílias.

Tive, confesso, uma espécie de prazer maligno em imaginar a estú­pida
compridez de cara com que deviam de ficar os brutais profanado­res, quando
achassem no túmulo do rei o que só têm os túmulos
— de reis ou de mendigos — ossos. terra, cinza, nada!

Por mim, estive tentado a furtar a caveira dei-rei D. Fernando. Se acreditasse
na frenologia, parece-me que não tinha resistido. Não creio
na ciência, felizmente — neste caso — para a minha consciência.
Tam­bém não sei o que faria se a caveira fosse de outro
homem. Mas o fraco rei que fez fraca a fraca gente não são relíquias
as suas que se guardem,

Oh! e quem sabe? Esta profanação, este abandono, este desacato
do túmulo de um rei, ali na sua terra predileta — D. Fernando
era santareno de afeição — não será ele
o juízo severo da posteridade, a vindita pública dos séculos,
que tardia mas ultrajante, cai enfim sobre a memória reprovada do mau
príncipe, e lhe desonra as cinzas como já lhe desonrara o nome?

Quero acreditar que tal não podia suceder aos túmulos de D.
Dinis, de D. Pedro I, dos dois Joanes I e II, de…

Sim: e aonde está o de Camões? O de Duarte Pacheco aonde esteve?
que ainda é mais vergonhosa pergunta esta última.

Em Portugal não há’ religião de nenhuma espécie.
Até a sua falsa sombra, que é a hipocrisia, desapareceu. Ficou
o materialismo estúpido, alvar, ignorante, devasso e desfaçado,
a fazer gala de sua hedionda nu­dez cínica no meio das ruínas
profanadas de tudo o que elevava o espírito…

Uma nação grande ainda poderá ir vivendo e esperar por
melhor tempo, apesar desta paralisia que lhe pasma a vida da alma na mais
nobre parte de seu corpo. Mas uma nação pequena, é impossível;
há de morrer.

Mais dez anos de barões e de regime da matéria, e infalivelmente
nos foge deste corpo agonizante de Portugal o derradeiro suspiro do espírito.

Creio isto firmemente.

Mas ainda espero melhor todavia, porque o povo, o povo povo, está
são; os corruptos somos nós, os que cuidamos saber e ignoramos
tudo.

Nós, que somos a prosa vil da nação, nós não
entendemos a po­esia do povo; nós, que só compreendemos
o tangível dos sentidos, nós somos estranhos às aspirações
sublimes do senso íntimo, que despreza as nossas teorias presunçosas,
porque todas vêm de uma acanhada aná­lise que procede curta
e mesquinha dos dados materiais, insignificantes e imperfeitos; — enquanto
ele, aquele senso intimo do povo, vem da Razão divina, e procede da
síntese transcendente, superior, e inspirada pelas grandes e eternas
verdades que se não demonstram porque se sentem.

E eu que descrevo isto serei eu demagogo? Não sou.

Serei fanático, jesuíta, hipócrita? Não sou.

Que sou eu, então?

Quem não entender o que eu sou, não vale a pena que lho diga…

Perdoa-me, leitor amigo, uma reflexão última no fim deste capitulo
já tão secante, e prometo não refletir nunca mais.

Jesus Cristo, que foi o modelo da paciência, da tolerância, o
ver­dadeiro e único fundador da liberdade e da igualdade entre
os homens, Jesus Cristo sofreu com resignação e humildade quantas
injustiças, quantos insultos lhe fizeram a ele e à sua missão
divina; perdoou ao matador, á adúltera, ao blasfemo, ao ímpio.
Mas quando viu os barões a agiotar dentro do templo, não se
pode conter, pegou num azorrague e zurziu-os sem dor.

Capítulo XLIII

Partida de Santarém. — Pinacoteca. — Impaciência
e saudades. — Sexta-feira. —Martírio obscuro. — A
figura do pecado. — Estamos no vale outra vez. — Evoca­ção
de encanto. — A irmã Francisca e Frei Dinis. — A teia de
Penélope. — E Joaninha? — Joaninha está no Céu.
— A mulher morta a dobar esperando que a enterrem. — A esperança,
virtude do Cristianismo. — Uma carta.

Estou deveras fatigado de Santarém; vou-me embora.

Despedimo-nos saudosos daquela boa e leal família que nos hos­pedara
com tanto carinho, com toda a velha cordialidade portuguesa; partimos.

Apenas comecei a respirar o ar fresco da manhã nos olivais, senti
desafogar-se-me a alma daquela constrição cansada que se experimenta
na longa visita a um museu de antigüidades, a uma galeria de pinturas.

Perdoem-me que não diga pinacoteca; bem sei que é moda, eque
a palavra é adotável segundo as mais estritas regras de Horácio,
pois cai da fonte grega diretamente e sem mistura: mas soa-me tão mal
em português que não posso com ela.

Santarém fatigou-me o espírito, como todas as coisas que fazem
pensar muito. Deixo-a porém com saudade, e não me hei de esquecer
nunca dos dias que aqui passei. De quê e como sou eu feito, que não
posso estar muito tempo num lugar, e não posso sair dele sem pena?

Já me está custando ter deixado Santarém. Por que não
havíamos de partiramanha, e ter ficado ainda hoje ali?

E hoje que é sexta-feira?… Mau dia para começar viagem!

Sexta-feira! Era o dia aziago do nosso vale, da pobre velha cega que ai vivia
sua triste vida de dores, de remorsos e desconforto, espe­rando porém
em Deus, conformada com seu martírio: martírio obscuro, mas
tão ensangüentado daquele sangue que mana gota a gota e dolo­rosamente
do coração rasgado, devorado em silêncio pelo abutre invisí­vel
de uma dor que se não revela, que não tem prantos nem ais.

Era na sexta-feira que o terrívelfrade, o demônio vivo daquela
mulher de angústias, lhe aparecia tremendo e espantoso diante de seus
olhos cegos, elevado pela imaginação ás proporções
descomunais e gi­gantescas de um vingador sobrenatural.

Era a figura tangível, e visível à vista de sua alma,
do enorme pe­cado que contra ela estava sempre.

Creio que escuso dizer que não tenho eu esta superstição
dos dias aziagos que tinha a desgraçada velha, que a sua Joaninha partilhava.
Mas confesso que, recordando as fatalidades daquela família e daquele
dia, não gostei de voltar nele ao vale de Santarém,

Estávamos porém no vale; e ia eu via de longe aquelas arvores
e aquela janela, que tanto me impressionaram, quando estas reflexões
me acudiam ao espírito e mo contristavam,

Afrouxei insensivelmente o passo, deixei tomar larga dianteira aos meus companheiros
de viagem: e quando chegava perto da casa, tinha-os perdido de vista.

Involuntariamente parei defronte da janela: mordia-me um interes­se,
urna curiosidade irresistível… Nem viva alma por aqueles arredores;
apeei-me e fui direito para a casa

Apenas passei as árvores, um espetáculo inesperado, uma evoca­ção
como de encanto me veio ferir os olhos.

No mesmo sitio, do mesmo modo, com os mesmos trajos e na mesma atitude em
que a descrevi nos primeiros capítulos desta história, estava
a nossa velha irmã Francisca…

Ela era e não podia ser outra; sentada na sua antiga cadeira, do­bando,
como Penélope tecia, a sua interminável meada. Não havia
ou­tra diferença agora senão que a dobadoira não
parava, e que o fio seguia, seguia, enrolando-se, enrolando-se continuo e
compassado no novelo; e que os braços da velha lidavam lentamente,
mas sem cessar, no seu movimento de autômato que fazia mal ver.

Defronte dela, sentado numa pedra, a cabeça baixa. e os olhos fixos
num grosso livro velho, que sustinha nos joelhos, estava um ho­mem seco
e magro, descarnado como um esqueleto, lívido como um cadáver,
imóvel como uma estátua, Trajava um non-descríptum negro,
que podia ser sotaina de clérigo ou túnica de frade, mas descingida,
solta e pendente em grossas e largas pregas do extenuado pescoço do
homem.

Também não podia ser senão Frei Dinis,

Cheguei junto deles; não me sentiu nenhum dos dois; nem me viu ele,
o que só via dos dois.

Sem mais reflexão, e continuando alto na série de pensamentos
que me vinha correndo pelo espírito, exclamei:

— E Joaninha?

— Joaninha esta no Céu! – respondeu sem sobressalto, sem er­guer
os olhos do seu livro, a sombra do frade, que outra coisa não parecia.

— Joaninha, pobre Joaninha! Pois como foi, como acabou a infe­liz?

— Joaninha não é infeliz: foi ser um anjo na presença
de Deus.

— E… e Carlos? balbuciei eu hesitando, porque temia a suscetibilidade
do frade.

— Carlos! — respondeu ele erguendo enfim os olhos e cravando-os
em mim…

E oh! que nunca vi olhos como aqueles, nem os hei de ver!

— Carlos!… E quem é que mo pergunta? Quem é que tanto
sabe de mim e dos meus?… Dos meus? Eu não tenho meus; sou só.

— Só! Não está aqui, que eu vejo!…

— Vê essa mulher morta que ai ficou, que eu matei, e que está
a espera que dê a hora de eu a enterrar, mais nada. Eu estou só
e quero estar só. Morreu tudo. Que mais quer saber?

— Venho de Santarém…

Santarém também morreu; e morreu Portugal. Aqui não
vive senão o meu pecado, que Deus não perdoou ainda, nem espero…

— A nossa religião fez uma virtude da esperança,

— Fez.

— E nisso se distingue das outras todas.

— Pois ainda há quem o saiba nesta terra?

— Há mais do que não houve nunca – pelo menos há
mais quem o saiba melhor.

— Pode ser: os juízos de Deus são incompreensíveis.

— E infinita a sua misericórdia.

— Mas a sua cólera implacável, a sua justiça tremenda.

— A misericórdia é maior.

— Quem lhe ensinou tudo isso?

— O Evangelho, o coração e minha mãe que mos explicou
am­bos.

— Sente-se aqui… ao pé de mim.

Sentei-me. O frade pegou-me na mão com as suas ambas, e pôs-me
os olhos com uma expressão que nenhuma língua pode dizer, nem
nenhum pincel pintar.

Esteve assim algum tempo, como quem me observava. Vi-lhe apontar claramente
uma lágrima, vi-lha retroceder, e ficarem-lhe enxu­tos os olhos.
Senti-lhe estrangular um suspiro que lhe vinha à garganta; percebi
distintamente o estremeção que lhe correu o corpo; mas obser­vei
que todo se serenou depois.

Disse-me então com voz magoada, mas plácida e sem aspereza
já nenhuma:

— Sabe a história do vale?

— Sei tudo até a partida de Carlos para Évora.

— Aqui tem a carta que ele escreveu.

Tirou do breviário um papel dobrado, amarelo do tempo e man­chado,
bem se via. de muitas lágrimas, algumas recentes ainda.

— Leia.

Li.

Esta era a carta de Carlos

Capítulo XLIV

Carta de Carlos a Joaninha.

Évora – Monte…

de maio de 1834

É a ti que escrevo, Joana, minha irmã, minha prima, a ti só.

Com nenhum outro dos meus não posso nem ouso falar.

Nem eu já sei quem são os meus: confunde-se, perde-se-me esta
cabeça nos desvarios do coração. Errei com ele, perdeu-me
ele… Oh. bem sei que estou perdido.

Perdido para todos, e para ti também. Não me digas que não;
tens generosidade para o dizer, mas não o digas. Tens generosidade
para o pensar, mas não podes evitar de o sentir.

Eu estou perdido.

E sem remédio, Joana, porque a minha natureza é incorrigível.
Te­nho energia demais, tenho poderes demais, no coração.
Estes excessos dele me mataram… e me matam!

Tu não compreendes isto, Joaninha, não me entendes decerto;
e é difícil.

És mulher, e as. mulheres não entendem os homens. Sempre o
entrevi, hoje sei-o perfeitamente. A mulher não pode nem deve com­preender
o homem. Triste da que chega a sabê-lo!…

E daí… quando se tem de morrer, antes saber a morte de que se morre,
do que expirar na ignorância do mal que nos matou.

Tu és jovem e inexperiente, a tua alma está cheia de ilusões
doces; vou dissipar-tas enquanto se não condensam, que te ofusquem
a razão e te deixem para sempre escrava cega do maior inimigo que temos,
o coração.

Quero contar-te a minha história: veras nela o que vale um ho­mem.

Sabe que os não há melhores que eu: e tão bons, poucos.
Olha o que será o resto!

Tu não ignoras já hoje o por que fugi da casa materna: sabia
a manchada de um grande pecado, e imaginei-a poluída de um enorme crime.

Esse homem que é meu pai, não o podia ver, hoje que sei o que
ele me é… Deus me perdoe, que ainda o posso ver menos!

Minha avó, julguei-a cúmplice no crime; ela só o era
no pecado. Perdoe-lhe Deus; e bem pode e bem deve, já que a fez tão
fraca. Mi­nha pobre mãe sucumbiu por sua culpa, por sua irremissível
compla­cência…

Deus pode e deve, repito… mas eu, como lhe hei de perdoar eu este rubor
que sinto nas faces ao nomear minha mãe?

Tem padecido e sofrido muito… coitada!. A sua penitência é
um martírio, a sua velhice uma longa paixão, e esse homem que
a perdeu um verdugo sem piedade. Mas tudo isso é com Deus, não
e comigo.

Eu sou filho; minha mãe morreu sem perdoar — não posso
per­doar eu.

E quem me há de perdoar a mim? Ninguém, nem quero.

Não serás tu, minha irmã; não, que não
deves. Porque eu amei-te com um coração que já não
era meu; aceitei o teu amor sem o mere­cer, sem o poder possuir, traí
quando te amava, menti quando to disse, menti-te a ti, menti-me a mim, e não
guardei verdade a ninguém.

Mas espera, ouve; deixa-me ver se posso atar o fio desta minha incrível
história – incrível para ti, bem simples para quem conheça
o coração do homem.

Sai de Portugal, e posso dizer que não tinha amado ainda. Inclina­ções
de criança, galanteios de sociedade, ligações que nasceram
da vai­dade, ou que só os sentidos alimentam, não merecem
o nome de amor.

Eu não tinha amado.

Há três espécies de mulheres neste mundo: a mulher que
se admira, a mulher que se deseja, e a mulher que se ama.

A beleza, o espírito, a graça, os dotes da alma e do corpo
geram a admiração.

Certas formas, certo ar voluptuoso criam o desejo.

O que produz o amor não se sabe; é tudo isto ás vezes,
é mais do que isto, não é nada disto.

Não sei o que é; mas sei que se pode admirar uma mulher sem
a desejar, que se pode desejar sem a amar.

O amor não está definido, nem o pode ser nunca, O amor verda­deiro;
que as outras coisas não são isso.

Eu vivi poucos meses em Inglaterra; mas foram os primeiros que posso dizer
que vivi. Levou-me o acaso, o destino — a minha estrela, porque eu ainda
creio nas estrelas, e em pouco mais deste mundo creio já — levou-me
ao interior de uma família elegante, rica de tudo o que pode dar distinção
neste mundo.

Estranhei aqueles hábitos de alta civilização, que me
agradavam contudo; moldei-me facilmente por eles, afiz-me a vegetar docemente
na branda atmosfera artificial daquela estufa sem perder a minha natu­reza
de planta estrangeira. Agradei: e não o merecia. No fundo da alma e
de caráter eu não era aquilo por que me tomavam. Menti: o homem
não faz outra cousa. Eu detesto a mentira, voluntariamente nunca o
fiz, e todavia tenho levado a vida a mentir.

Menti pois, e agradei porque mentia. Santo Deus! para que sairia a verdade
da tua boca, e para que a mandaste ao mundo, Senhor?

Havia três meninas naquela família. Dizer que eram as três
graças é uma vulgaridade cansada, e tão banal que não
dá idéia de cousa algu­ma. Três anjos seriam; três
anjos posso dizer com mais propriedade. E quando em nossos longos passeios
solitários, por aqueles campos sem­pre verdes, por aquelas colinas
coroadas de arvoredo, tapeçadas de relva macia, os seus vestidos brancos,
singelos, simples, trajados sem arte, flutuavam com a brisa da tarde… e
os longos anéis de seus cabelos — os de uma eram loiros, os de
outra castanhos, não há nome para a indefinida cor dos da terceira
— quando esses longos anéis descaiam de sua ondada espiral com
o orvalho úmido do crepúsculo, e que a essa luz vaga e misteriosa
eu as contemplava todas três com adoração e recolhimento
devoto de alma — sinceramente exclamava: São três an­jos
celestes que é forçoso adorar!…

E assim é que os adorava os três anjos, todos três. e
não podia adorar um sem os outros.

Que me queriam elas, é certo; que insensivelmente se habituaram à
minha companhia e já não podiam viver sem ela… ai! era preciso
ser um monstro para o não confessar com lágrimas de gratidão
e de remor­so,

Os mais difíceis e delicados ápices da perfeição
de sua tão capri­chosa e tão expressiva língua, as
belezas mais sentidas de seus autores queridos, o espírito e tom difícil
de sua sociedade tão desdenhosa e fastienta, mas tão completa
e tão calculada para sublimar a vida e a desmaterializar — isso
tudo, e um indefinível sentimento do gentil, que só com natural
tato se adquire, é verdade, mas que se não alcança com
ele só — isso tudo aprendi ali das suaves lições
que insensivelmente recebia a cada instante.

Se valho alguma cousa, tudo valho por elas; se tenho merecido alguma consideração
no mundo, toda lha devo.

Vês que confesso a dívida, verás como a paguei.

O tom perfeito da sociedade inglesa inventou uma palavra que não há
nem pode haver noutras línguas enquanto a civilização
não as apu­rar. To flirt é um verbo inocente que se conjuga
ali entre os dois sexos, e não significa namorar — palavra grossa
e absurda que eu detesto – não significa "fazer a corte”;
é mais do que estar amável, é menos do que galantear,
não obriga a nada, não tem conseqüências, começa-se,
acaba-se, interrompe-se, adia-se, continua-se ou descontinua-se à von­tade
e sem comprometimento.

Eu flartava nós flartávamos, eles flaortavam .

E não há mais doce nem mais suave entretenimento de espírito
do que o flartar com uma elegante e graciosa menina inglesa; com duas é
prazer angélico, e com trêsé divino.

Para quem nasceu naquilo, não é perigoso; para mim degenerou,
breve, aquela plácida sensação em mais profundo sentimento.

Veio a admiração primeiro.

E como as eu admirava todas três. as minhas gentis fascinadoras!

E elas conheciam-no, riam, folgavam e estavam encantadas de me encantar.

Fizeram nascer os desejos!

Julguei-me perdido, e quis fugir.

Não me deixaram e zombaram de mim, da ardência do meu san­gue
espanhol, da veemência das minhas sensações…

Em breve eu amava perdidamente uma delas — queria muito às outras
duas; mas amar, amar deveras, de alma cuidava eu, do coração
ia jurá-lo, era a segunda — Laura, mais gentil, mais nobre, mais
ele­gante e radiosa figura de mulher que creio que Deus moldasse numa
hora de verdadeiro amor de artista que se dignou tomar por esse pouco de greda
que tinha nas mãos ao forma-la.

Capítulo XLV

Carta de Carlos a Joaninha: continua

Laura não era alta nem baixa, era forte sem ser gorda, e delicada
sem magreza. Os olhos de um cor de avelã diáfano, puro, aveludado,
grandes, vivos, cheios de tal majestade quando se iravam, de tal doçura
quando se abrandavam, que é difícil dizer quando eram mais belos.
O cabelo quase da mesma cor tinha, demais, um reflexo dourado, vacilan­te,
que ao sol resplandecia. ou antes, relampejava, — mas a espaços,
não era sempre, nem em todas as posições da cabeça:
— cabeça pe­quena, modelada no mais clássico da estatuária
antiga, poisada sobre um colo de imensa nobreza, que harmonizava com a perfeição
das li­nhas dos ombros.

A cintura breve e estreita, mas sem exageração, via-se que
o era assim por natureza sem a menor contrafeição de arte. O
pé não tinha as exigüidades fabulosas da nossa península,
era proporcionado como o da Vênus de Médicis.

Tenho visto muita mulher mais bela, algumas mais adoráveis, ne­nhuma
tão fascinante.

Fascinante é a palavra para ela.

O rosto oval e perfeitamente simétrico, pálido; só os
beiços eram vermelhos como a rosa de cor mais viva,

A expressão de toda esta figura é que se não descreve.
A boca breve e fina sorria pouco; mas quando sorria, oh!…

Vê-la num baile, vestida e calçada de branco, cingida com um
cinto de vidrilhos pretos – toilette inalterável para ela desde certa
época —sem mais ornato, sem mais flores, apenas um farto fio
de pérolas derramando-se-lhe pelo colo — era ver alguma cousa
de superior, de mais sublime que uma simples mulher.

Tal era Laura, Laura que eu amei quanto podia e sabia amar. Era pouco, sei-o
agora; então parecia-me infinito.

Disse-lho a ela, disse-lho um dia que passeávamos sós, e depois
de andarmos horas e horas esquecidas, sem trocar uma frase. Pensávamos,
eu nela, ela não sei em quê.

Seria em mim?

Seria, mas não mo confessou.

E ouviu-me sem dizer palavra, sem olhar para mim uma só vez, sem fugir
com a mão que eu lhe apertava, que lhe beijava, e que sentia fria e
úmida nas minhas que escaldavam.

Era tarde, dirigimo-nos para casa. A porta disse-me: — Não entre;
e vi-a banhada em lágrimas. Quis segui-la, fez-me um gesto imperioso
que me confundiu. Pela primeira vez, depois de tanto tempo, fui só,
triste e melancólico para a minha pobre habitação, onde
passei a noite.

Quando era madrugada quis me deitar. Não dormi.

No dia seguinte recebi uma carta de Júlia: assim se chamava a mais
velha, a mais sensível e a mais carinhosa das três irmãs.

O bilhete parecia indiferente; não continha senão palavras
usuais, pedia-me que fosse almoçar com ela… não falava nas
irmãs.

Senti que era chegada a minha hora, pareceu-me que ia ser ex­pulso daquele
Éden de inocência em que tinha vivido. A letra de Júlia,
uma letra linda, perfeita, natural, figurava-se-me um agregado de sinais cabalísticos
terríveis que encerravam o mistério da minha condenação.

Vesti-me, fui, achei-me só com Júlia no parlour elegante de
seu exclusivo uso.

Era um pequeno gabinete de estudo, ornado somente de umas étagéres
com livros e músicas, uma harpa e um cavalete.

Sobre o cavalete estava o meu retrato esboçado, na estante da harpa
uma romança francesa a que eu tinha feito letras portuguesas…

A urna assobiava sobre a mesa, Júlia fazia o chá e não
parecia atender a mais nada.

É preciso que eu te descreva a pequena Júlia – Julieta como
nós lhe chamávamos – nós, as duas irmãs e eu que
rivalizávamos a qual lhe havia de querer mais…

Oh! que saudade e que remorso para toda a minha vida nestas recordações
de fraternal intimidade!

Júlia era pequena, delicadíssima, propriamente infantina no
rosto, na figura, na expressão e no hábito de toda a sua encantadora
e dimi­nutiva pessoa.

Nenhuma inglesa, desde o tempo da rainha Bess, teve pé e ancle mais
delicado. Nenhuma, desde o rei Alfredo, se ocupou tão elegantemente
dos elegantes cuidados de um interior britânico – gentil quadro de gênero
como não há outro.

Lady Júlia R. era a mais pequena e a mais bonita súdita britânica
que eu creio que tenha existido.

Vista á lua, no meio do seu parque, volteando por entre os raros exóticos
que no curto verão inglês se expõem ao ar livre, facilmente
se tomava pela bela soberana das fadas realizando aquela preciosa visão
de Shakespeare, o Midsummer night’s dream.

Seus olhos de azul celeste, sempre úmidos e sempre doces, os ca­belos
de um claro e assedado castanho, todos soltos em anéis à roda
da cabeça e caindo pelos ombros, espalhando-se pelo rosto, que era
uma lida continua para os tirar dos olhos, um corpo airoso, uma boca de beijar,
os dentes miúdos, alvíssimos e apertados, a mão pequena,
estrei­ta, e de cera — tudo isto fazia de Júlia um tipo ideal
de bondade, de candura, de inocência angélica.

E era um anjo… oh se era!

Contemplei-a muito tempo em silêncio: ela sorria-me tristemente de
vez em quando, mas não falava. Enfim almoçamos, levaram o trem.

Ela disse a sua aia:

— Febe, eu estou só com Carlos; e quero estar só. Em
casa para ninguém.

— Sim, minha senhora. Resposta obrigada do criado inglês a tudo.

E ficamos sós completamente.

Capítulo XLVI

Carta de Carlos a Joaninha: continua.

Júlia levantou finalmente para mim os seus olhos úmidos, assom­brados
das mais longas e assedadas pestanas que ainda vi em olhos de mulher, e disse-me:

— Carlos, eu estou triste. Devia consolar-me: diga-me alguma cousa
que me console. Fale-me.

— Que hei de eu dizer?,..

— É um cavalheiro, Carlos: diga-me que o é, e desassombre-me
deste terror em que estou.

— Pois duvida, Júlia?…

— Não duvido. Queremos-lhe todos muito aqui… muito demais…
receio: como havemos de duvidar?

— Oh Júlia, perdoe-me! — exclamei eu lançando-me
a seus pés, tomando-lhe as mãos ambas nas minhas, e beijando-lhas
mil vezes num paroxismo de verdadeira contrição. — Perdoe-me,
Júlia: bem sei que fiz mal, e prometo…

— Não prometa nada, senão que há de ser cavalheiro.
Isso sei eu e sinto que o pode cumprir.

— Juro por… por ela.

— Ela!… Ela ama-o, Carlos. É melhor dizer a verdade de uma
vez, e encarar todas as conseqüências de uma posição
difícil, do que iludir-se a gente sem as evitar. Laura ama-o, mas não
deve nem pode amá-lo. Se fosse livre, não sei o que diria —
não sei o que faria eu… Mas não se trata de mim — prosseguiu
com volubilidade febril — não se trata de mim, Carlos, trata-se
dela. Laura não o pode amar, está comprometida. Há de
partir em três meses para a Índia.

— Para a Índia!

— Sim: é verdade: vê-lo-á. O seu noivo é
capitão ao serviço da Companhia, e parte em casando,

Eu sentia-me morrer o coração dentro do peito: foi a primeira
dor verdadeira de alma que sofri… Aquele era o primeiro amor sincero da
minha vida, e aquela foi também a primeira excruciante pena de amor
por que passei.

Eu que de tais penas zombara sempre, que as desterrava da reali­dade
para os romances, eu!… Ai! que poeta ou que novelista soube nunca pintar
um padecer como eu experimentei naquela hora?

Não sei o que fiz nem o que disse; não me recordo senão
que senti as lágrimas de Júlia caírem-me sobre a face
e misturarem-se com as minhas que corriam em abundância. Levantei os
olhos, para ela, e a expressão que vi nos seus… oh! como a hei de
esquecer nunca?

Quanto há de piedade e compaixão no tesouro infinito de um
co­ração feminino se derramava daqueles olhos celestes para
me consolar. La não ficava senão uma tristeza profunda, desanimada
e mortal…

Não sei que vasto pensamento, que idéia louca… ou antes,
que

pressentimento indeterminável e confuso me atravessou pelo espirito
— ou seria pelo coração? — naquele momento…

Se Júlia?…

Mas não pode ser.

— Júlia, Júlia. — bradei eu, — quero vê-la:
hei de vê-la uma vez ao menos. Não me negue este ultimo favor.
Sei que devo, que preciso, que é forçoso fugir dela. Mas antes
hei de dizer-lhe…

— O quê?…

— Que a amo como nunca amei, como nunca mais hei de amar…

— Ai Carlos!

— Que para sempre, sempre…

Júlia levantou-se sem dizer palavra, e lançando sobre mim um
olhar de inefável compaixão, saiu rapidamente do quarto.

Achei-me só, não sei o que pensei nem se pensei. Sentia-me
atur­dido da cabeça, exausto do coração — numa
depressão de espirito que tocava na estupidez. Se me apontassem urna
pistola aos peitos, não levantava o braço para a arredar…
Já não sentia pena nem desejo. Parecia-me que começava
a morrer; e não achava que morrer custasse muito.

Neste estado fiquei não sei que tempo; muito não foi. Percebi
que se abria a porta, não tive força para levantar os olhos.
Até que senti uma doce e querida mão na minha… era Júlia..
e era Laura também… santo Deus! que estavam ao pé de mim ambas.

Júlia tinha a minha mão na sua; e Laura, encostada ao ombro
da irmã, deixava cair sobre mim aqueles olhos em que a severidade habi­tual
se tinha relaxado numa indulgência tão doce, numa compaixão
tão celeste que, juro por Deus, naquela hora acreditei firmemente que
tinha diante de mim dous anjos seus, baixados nas asas da piedade divina para
me trazer todo o perdão. toda a misericórdia do céu à
minha alma.

Como te direi eu, Joana, querida Joaninha, como te direi a ti que me amas,
a ti que eu amo — porque te amo, e Deus me castigue, que deve! porque
te amo, cegamente, te amo com este infame e abominá­vel coração
que Ele me deu — como te hei de eu dizer a ti, e para quê, as
palavras que ali dissemos, os protestos que ali fiz, os juramentos que ali
se deram, as promessas que ali foram trocadas?

Júlia foi para a janela — indulgente chaperão que nos
não via e fingia não nos ouvir. O dia passou-se assim, um longo
dia de junho que tão curto e rápido nos pareceu. Era noite quando
fomos jantar.

À mesa, Laura apareceu em trajos de viagem: partia naquela noite para
o Pais de Gales onde tinha uma amiga, com quem ia estar até ao dia
terrível, e preparar-se para ele, me disse, longe de mim, no seio da
amizade.

Imagine-se aquele jantar. Nem comer fingíamos. Ao sair da mesa achamos
à porta da casa a caleche posta, o cocheiro na almofada, e o criado
à portinhola. Montamos. as três irmãs e eu.

Eram duas milhas dali à estalagem onde tocava a mala-posta e onde
Laura devia encontrá-la. Fizemo-las sem proferir palavra nenhum dos
quatro.

A lua ia grande e bela com sua luz triste e fria por um céu sem nuvens.
Era uma daquelas noites raras, mas admiráveis do breve estio britânico.

A areia que rangia com o atrito das rodas da carruagem nas lisas ruas do
parque, os ramos descaídos das árvores por que roçávamos
levemente ao passar, os veados mansos que se levantavam para nos ver —
os faisões que erguiam seu rasteirovôo de moita para moita ao
sentir o estalido do chicote, com que o cocheiro mais moderava do que excitava
os seus cava]os, tudo para mim eram impressões de nunca sentida e inexplicável
tristeza, Ficava-me a alma após tudo aquilo, sentia fugir-me a felicidade
para sempre, e que era eu que a afugentava, e que me ia encontrar só,
desamparado e proscrito no deserto da vida.

Não me sentia força para blasfemar, para maldizer de Deus,
senão tinha-o feito.

Tinha: e outras ânsias mais angustiadas e mortais me têm aflito
na vida; em nenhuma me senti tão capaz de renegar de Deus e descrer
dele como nesta.

Seria efeito da sua inexaurível piedade que talvez quis acudir à
minha alma antes que se perdesse, seria por certo — pois nesse mesmo
instante distintamente me apareceu diante dos olhos da alma a única
imagem que podia chamá-lo do abismo; era a tua, Joana! Era a minha
Joaninha pequena, inocente, aquele anjinho de criança, tão viva,
tão alegre, tão graciosa que eu tinha deixado a brincar no nosso
vale; o nosso vale rústico, tão grosseiro e tão inculto!
ó como as saudades dele me foram alcançar no meio daquelas alinhadas
e perfeitas belezas da cultura britânica. Os raios verdes de teus olhos,
faiscantes como esme­raldas, atravessaram o espaço e foram luzir
no meio daqueloutros lumes que me cegavam. A esteva brava, o tojo áspero
da nossa charneca mandavam-me ao longe as exalações de seu perfume
agreste, e mata­vam o suave cheiro do feno macio dessas relvas sempre
verdes que me rodeavam. As folhas crespas, secas, alvacentas das nossas oliveiras
como que me luziam por entre a espessura cerrada da luxuriante vege­tação
do norte, prometendo-me paz ao coração, anunciando-me o fim
de uma peleja em que mo dilaceravam as paixões.

E tu, Joana, tu, pobre inocente, desvalida criancinha, tu aparecia-me no
meio de tudo isso, estendendo para mim os teus braci­nhos amantes como
no dia que me despedira de ti nesse fatal, nesse querido, nesse doce e amargo
vale das minhas lágrimas e dos meus risos, onde só me tinham
de correr os poucos minutos de felicidade verdadeira da minha vida, onde as
verdadeiras dores da minha alma tinham de ma cortar e destruir para sempre…

Oh! de quê e como é feito o homem, para que e por que vive ele?
Que vim eu, que vimos nós todos fazer a este mundo?

Eu sentado ali nas almofadas de seda daquela esplêndida carrua­gem,
rodeado de três mulheres divinas que me queriam todas, que eu confundia
numa adoração misteriosa e mística, — cego, louco
de amo­res por uma delas, no momento de lhe dizer adeus para sempre…
eu tinha o pensamento fixo numa criança que ainda andava ao colo! —Revendo-me
nos olhos pardos de Laura que eu adorava, eram os teus olhos verdes que eu
tinha na alma! Os sentidos todos embriagados da­quele perfume de luxo
e civilização que me cercava, — era o nosso vale rústico
e selvagem o que eu tinha no coração..,

Oh! eu sou monstro, um aleijão moral deveras, ou não sei o
que sou.

Se todos os homens serão assim?

Talvez, e que o não digam.

Joana, minha Joana, minha Joaninha querida, anjo adorado da minha alma, tem
compaixão de mim, não me maldigas. Não quero que me perdoes,
nem tu nem ninguém, que o não mereço: mas que tenhas
dó e lástima de mim.

Ai! que isso mereço eu, oh sim.

Deixa-me para aqui. Falta-me o ânimo para me estar vendo a este terrível
espelho moral em que jurei mirar-me para meu castigo, donde estou copiando
o horroroso retrato de minha alma que te desenho neste papel.

Sabia que era monstro, não tinha examinado por partes toda a hediondez
das feições que me reconheço agora.

Tenho espanto e horror de mim mesmo.

Capítulo XLVII

Carta de Carlos a Joaninha: continua.

Chegamos ao lnn (estalagem), triste casa solitária no meio dos campos
á borda da estrada. A mala chegava ao mesmo tempo quase.

Eu dei a mão a Laura para sair da caleche e entrar no coche; e apenas
tivemos tempo para um convulsivo shake-hands e para nos dizer adeus! adeus!
com a afetada secura que exige a lei das conveniências britânicas.

A mala partiu ao grande trote… E dir-te-ei a verdade ou queres que minta?
Não, hei de dizer-te a verdade. Pois senti como um alívio deses­perado,
uma consolação cruel em a ver partir. Senti o que imagino que
deve sentir um enfermo depois da operação dolorosa em que lhe
ampu­taram parte do corpo com que já não podia viver e que
era forçoso perder ou perder a vida.

Também deve ser assim a morte: um descanso apático e nulo de­pois
de inexplicável padecer.

Era como morto que eu estava; não sofria pois.

E já não pensava em ti, já te não via na minha
alma: eu não existia, estava ali.

Voltamos ao parque; apeei silenciosamente as minhas duas gentis companheiras,
e eu fui só, a pé, com passo firme e resoluto para a minha habitação.
Nenhuma delas me procurou reter, nem me disse na­da, nem tentou consolar-me.
Para quê?

L. William R. chegava, na manhã seguinte, de uma de suas habi­tuais
excursões a Londres. Veio ver-me assim que chegou, e trazer-me cartas
de Portugal que eu esperava há muito. — Disse-me que partia no
outro dia para Swansea, a terra de Gales para onde Laura fora; e que me encarregava
de fazer companhia às duas filhas que ficavam sós.

A mim!..,

Estive três dias sem as ver: em todos três não fiz mais
do que escrever Laura.

No quarto dia fui ao parque. Júlia deu um grito de alegria quando
me viu: raro exemplo de exceção às formuladas regras
que tiranizam a vida inglesa, que prescrevem até a cara com que se
há de morrer, e tem graduado o tom em que se deve exalar o último
suspiro.

Mas a natureza chega a triunfar às vezes até da própria
etiqueta britânica.

Júlia cuidava que eu não queria voltar àquela casa,
tinha-se resig­nado a não tornar a ver-me; não pôde
reprimir a alegria que lhe causou a minha inesperada aparição.

Passamos todo o dia juntos e sós; quase todo se nos foi passeando
no parque, ou sentados á sombra de seus espessos arvoredos, ou mirando-nos
nas cristalinas águas de uma vasta represa povoada de aves aquáticas
e rodeada daqueles imensos mantos de veludo verde de que perpetuamente se
enfeita a terra inglesa e que só desaparecem quando vem o inverno estender-lhe
por cima seus lençóis de neve.

Quis ver o que eu escrevia à irmã; dei-lhe a carta, leu-a,
meditou-a, restituiu-ma sem dizer palavra.

Que horaspassamos neste silêncio, nesta eloqüente mudez que não
vem senão do muito demais que a alma sente, do muito demais que diria
se falasse!

À despedida, essa noite, deu-me uma bolsa de rede que Laura tinha
estado fazendo para mim e que lhe deixara para me entregar. Senti que tinha
dentro o que quer que fosse a bolsa, não quis exami­nar. Achei,
quando voltei a casa, que era o falado cinto de vidrilhos pretos que eu tanto
tinha admirado em cento baile onde fôramos juntos, e que Laura não
deixara de por nunca mais em se vestindo de branco e que fizesse alguma toilette.

Ainda o conservo aquele cinto precioso, Joana; ainda o tenho, no meu tesoiro
mais guardado, aquela jóia, aquela relíquia. E amo-te, e amo-te
a ti só como realmente nunca amei nem poderei tornar a amar. Mas aquele
cinto é uma sorte, um talismã, um amuleto em que está
o meu destino.

Amei… isto é, amei.., pois sim, amei, já que não ha
outra palavra nestas estúpidas línguas que falam os homens:
pois amei outras mulhe­res, e nos dias de maior entusiasmo por elas, não
dexei nunca de beijar devotamente aquele cinto, de o apertar sobre o meu coração,
de me encomendar a ele — como o salteador napolitano se encomenda ao
escapulário da Madona que traz ao peito, com as mãos ensangüentadas
de matar, ou carregado do roubo que acaba de fazer,

Ai, Joana, não te digo eu que estou perdido, sem remédio, e
que para mim não há, não pode haver salvação
nunca?

Vivi assim dois meses. Laura não me escrevia: recebia as minhas cartas
e respondia a Júlia: por este modo nos correspondíamos. Júlia
era parte de nós, era uma porção do nosso amor, vivíamos
nela a nossa vida. E já as contundia a ambas por tal modo no meu coração
que me surpreendia não saber a qual queria mais. Júlia parecia
feliz deste estado: eu era-o. Insensivelmente me habituei a ele, já
não tinha saudades do passado. E quando se aproximou o casamento de
Laura, que ela tinha de voltar de Gales, e que eu, fiel ao que prometera,
devia pretex­tar negócio urgentíssimo em Londres que me
obrigasse a ausentar-me até à sua partida para a Índia,
eu tive uma pena, uma dificuldade em cumprir o que prometera que me envergonhava.

Parti porém, e ali me demorei um mês. Júlia escrevia-me
todos os dias e eu a ela. Na véspera do dia fatal em que Laura ia ser
de outro homem, Júlia escreveu-me estas palavras sós: —
O nosso romance aca­bou; começa uma história séria.
Laura manda-lhe o seu último adeus.

E nunca mais se escreveu nem se pronunciou o nome de Laura entre nós
dois.

O galeão que me levava para o Oriente as ruínas de toda a minha
esperança há muito que navegava; entrava outubro e o inverno
inglês com suas mais ásperas, e neste ano tão precoces,
severidades. Eu sentia-me morrer de tristeza e de isolamento no meio da populosa
e turbulenta Londres. Júlia percebeu-o, e mandou-me voltar a – shire.
Voltei.

Capítulo XLVIII

Carta de Carlos a Joaninha: continua

O que eu senti quando, apesar de tão desfigurados pelos três
altos de neve que os cobriam, comecei a reconhecer aqueles sítios da
vizinhança do parque. e a confrontar as árvores, os pastos,
os casais daque­les arredores!

Era outra a expressão de fisionomia da paisagem, mas as queridas
feições eram as mesmas, e uma a uma lhas ia estremando.

Enfim o meu stage parou a entrada do parque, e eu tomei a pé pela
longa avenida. Eram nove horas da manhã, e a manhã brumosa,
fria, mas o tempo macio, não estava cru, segundo a expressiva frase
do pais.

Por entre a névoa que me encobria a antiga mansão e envolvia
as árvores circunstantes num sudário cinzento e melancólico,
fui cami­nhando, quase pelo tato, até meia alameda talvez.

Parei a refletir na minha posição e no que eu ia ser naquela
casa que de novo me abria suas portas hospitaleiras, quando, através
da neblina brancacenta e onde ela era mais rara, descobri um vulto que vinha
a mim de entre as árvores do parque.

O vulto era de mulher e parecia uma sombra, uma aparição fantás­tica
em meio daquela cena misteriosa, só, triste,

Na distância figurava-se-me alto em demasia: Júlia não
era nem podia ser; Júlia a mais diminuta e delicada de quantas fadas
bonitas e graciosas têm trazido varinha do condão. Laura… ai!
Laura tão longe estava dali… Quem seria pois? Só se fosse!…
Quem?

Aquela elegância, aquele cabelo solto e anelado, aquele ar gentil não
podia ser senão dela…

Dela, de quem?

Ainda te não falei, quase, da última das três belas irmãs
que me encantavam, não lá descrevi, não tá nomeei
pelo seu nome. Repugnava-me fazê-lo. Mas é preciso: custa-me,
não há remédio.

Era Georgina…

Georgina, que tu conheces, Georgina que… era Georgina a que vinha a mim
naquela — fatal ou feliz? — manhã; Georgina que de todas
três era a que menos falava, que eu verdadeiramente menos co­nhecia.

Este meu coração, à força de ferido e de mal
curado que tem sido, pressente e adivinha as mudanças de tempo com
uma dor crônica que me dá. Pressenti não sei quê
ao ver aproximar-se Georgina…

— Como foi bom em vir! Estou realmente feliz de o ver. E Júlia,
a pobre Júlia, que alegria que vai ter, há de curá-la
de todo.

— Pois quê! Júlia esta doente?

— Não o sabia!… Ai! não, bem sei que não: ela
não lho quis dizer. Júlia está doente; mas não
é de cuidado, Eu sempre quis adverti-lo antes que a visse, por isso
calculei as horas do coche e vim para aqui esperá-lo.

Estas palavras eram simples, não tinham nada que me devesse impressionar
extraordinariamente, e todavia eu sentia-me agitado como nunca me sentira.
Olhava para Georgina como se a visse a primeira vez, e pasmava de a ver tão
bela, tão interessante.

E uma situação de alma esta que não sei que a descrevessem
ainda poetas nem romancistas: desprezam-na talvez, ou não a conhecem.
Está sabido que as súbitas impressões causadas por um
primeiro encontro sejam as mais interessantes, as mais poéticas.

Eu não nego o efeito teatral dessas primeiras e repentinas sensa­ções;
mas sustento que interessa mais essoutra inesperada e estranha impressão
que nos faz um objeto já conhecido, que viramos com indife­rença
até ali, e que de repente se nos mostra tão outro do que sempre
o tínhamos considerado…

Mas esta mulher é bela realmente! E eu que nunca o vi! Mas aque­les
olhos são divinos! Onde tinha eu os meus até agora? Mas este
ar, mas esta graça onde os tinha ela escondidos? etc. etc.

Vão-se gradualmente, vão-sepouco a pouco descobrindo perfeições,
encantos; o sentimento que resulta é mil vezes mais profundo, mais
fundado, sobretudo, que o das tais primeiras impressões tão
cantadas e decantadas,

Que mais te direi depois disto? Entramos em casa, vi Júlia, falamos
de Laura muito e muito. Mas eu já o não fiz com entusiasmo,
com a admiração exclusiva com que dantes o fazia,..

Júlia recobrou, breve, a saúde, e com ela o equilíbrio
doespírito. Renovou-se toda a alegria, todo o encanto das nossas conversações
in­timas, dos nossos longos passeios. Laura lembrava com saudade; mas
suavizava-se, embrandecia gradualmente aquela saudade.

Georgina, que até ali parecia empenhar-se em se deixar eclipsar pela
irmã, agora, ausente ela, brilhava de toda a sua luz, em graça,
em espirito, por um natural singelo e franco, por uma esquisita doçura
de maneiras, de voz, de expressão, de tudo.

Júlia revia-se nela, e eu acabei pela adorar. Vergonha eterna sobre
mim! mas é a verdade: quis-lhe mais do que a Laura, ou pareceu-me querer-lhe
mais,.. que tanto vale.

Eu sei!… Não, não lhe queria tanto. Mas amei-a.

Amei, sim, e fui amado!

Três meses durou a minha felicidade. É o mais longo período
de ventura que posso contar na vida. Falsa ventura, mas era.

A imperiosa lei da honra exigiu que nos separássemos, que partisse
para os Açores. Fui. Ninguém sacrificou mais, ninguém
deu tanto como eu para aquela expedição. A história falará
de muitos serviços, de muit­as dedicações. Quem saberá
nunca desta?

A história é uma tola.

Eu não posso abrir um livro de histórias que me não
ria. Sobretudo as ponderações e adivinhações dos
historiadores acho-as de um cômico irresistível. O que sabem
eles das causas, dos motivos, do valor e impor­tância de quase todos
os fatos que recontam! .

Ainda não sei como parti, como cheguei, como vivi os primeiros tempos
da minha estada naquele escolho no meio do mar chamado a Ilha Terceira, onde
se tinham refugiado as pobres relíquias do partido constitucional.

Habituei-me por fim. A que se não afaz o homem?

Levaram-me uma tarde à grade de um convento de freiras que ai havia.
O meu ar triste, distraído, indiferente, excitou a piedade das boas
monjas. Uma delas, jovem, ardente, apaixonada, quis tomar a empresa de me
consolar. Não o conseguiu. coitada! O meu coração estava
em — shire, em Inglaterra, estava na Índia, estava no vale de
Santarém.

Pelo mundo em pedaços repartido,

estava em toda a parte, menos ali, que nada dele estava nem podia estar.

Era Soledade que se chamava a freirinha, e como o seu nome ficou. Disseram
o que quiseram os faladores que nunca faltam, mas mentiram como mentem quase
sempre, enganaram-se como se enga­nam sempre.

Eu não amei a Soledade.

E contudo lembro-me dela com pena, com simpatia… Se eu sou feito assim,
meu Deus, e assim hei de morrer!

Viemos para Portugal: e o resto agora da minha história sabes tu.

Cheguei por fim ao nosso vale, todo o passado me esqueceu assim que te vi.
Amei-te… não, não é verdade assim. Conheci, mal que
te vi entre aquelas árvores, à luz das estrelas, conheci que
era a ti só que eu tinha amado sempre, que para ti nascera, que teu
só devia ser, se eu ainda tivera coração para te dar,
se a minha alma fosse capaz. fosse digna de juntar-se com essa alma de anjo
que em ti habita.

Não é, Joana; bem o vês, bem o sentes, como eu o sinto
e o vejo.

Eu sim, tinha nascido para gozar as doçuras da paz e da felicidade
doméstica; fui criado, estou certo, para a glória tranqüila,
para as deli­cias modestas de um bom pai de família.

Mas não o quis a minha estrela. Embriagou-se de poesia a minha imaginação
e perdeu-se: não me recobro mais. A mulher que me amar há de
ser infeliz por força; a que me entregar o seu destino, há de
vê-lo perdido,

Não quero, não posso, não devo amar a ninguém
mais.

A desolação e o opróbrio entraram no seio da nossa família.
Eu renuncio para sempre ao lar doméstico, a tudo quanto quis, a tudo
quanto posso querer. Deus que me castigue, se ousa fazer uma injusti­ça,
porque eu não me fiz o que sou, não me talhei a minha sorte,
e a fatalidade que me persegue não é obra minha.

Adeus Joana, adeus prima querida, adeus irmã da minha alma! Tu acompanha
nossa avó, tu consola esse infeliz que é o autor da sua e das
nossas desgraças. Tu, sim, que podes, e esquece-me.

Eu, que nem morrer já posso, que vejo terminar desgraçadamente
esta guerra no único momento em que a podia abençoar, em que
ela podia felicitar-me com uma bala que me mandasse aqui, bem direita ao coração,
eu que farei?

Creio que me vou fazer homem político, falar muito na pátria
com que me não importa, ralhar dos ministros que não sei quem
são, palrar dos meus serviços que nunca fiz por vontade; e quem
sabe?… talvez darei por fim em agiota, que é a única vida
de emoções para quem já não pode ter outras

Adeus, minha Joana, minha adorada Joana, pela última vez, adeus.

Capítulo XLIX

De como Carlos se fez barão. — Fim da história de Joaninha.
— Georgina abadessa. Juízo de Frei Dinis sobre a questão
das frades e dos barões. — Que não pode tornar a ser o
que foi, mas muito menos pode ser o que é. O que há de ser,
Deus o sabe e proverá. — Vai o A. dormir ao Cartaxo. – Sonho
que tem aí. — Volta a Lisboa. — Caminhos de ferro e de
papel. — Conclusão da viagem e deste livro.

Acabei de ler a carta de Carlos, entreguei-a a Frei Dinis em silên­cio.
Ele tornou-me:

— Leu?

— Li.

— Que mais quer saber? Sinto que lhe posso dizer tudo: não o
conheço, mas…

— Mas deve conhecer-me por um homem que se interessa vivamente…

— Em quê! Nas eleições, na agiotagem, nos bens
nacionais?

— Não, senhor. Fui camarada de Carlos, não o vejo há
muitos anos e…

— Nem o conhecia se o visse agora: engordou, enriqueceu, e é
barão…

— Barão!

— É barão, e vai ser deputado qualquer dia.

— Que transformação! como se fez isso santo Deus! E Joaninha?
e Georgina?

— Joaninha enlouqueceu e morreu. Georgina é abadessa de um convento
em Inglaterra.

— Abadessa?

— Sim. Converteu-se a comunhão católica; era rica, fundou
um convento em -shire, e lá está servindo a Deus.

— E esta pobre senhora, a avó de Joaninha?

— Aí está como a vê, morta de alma para tudo. Não
vê, não ou­ve, não fala, e não conhece ninguém.
Joaninha veio morrer aqui nesta fatal casa do vale, eu estava ausente, expirou
nos braços dela e de Georgina. Desde esse instante a avô caiu
naquele estado. Esta morta, e não espero aqui senão a dissolução
do corpo para o enterrar, se eu não for primeiro; e Deus queira que
não! Quem há de tomar conta dela, ter caridade com a pobre demente?
Mas depois… oh! depois,,. espero no Senhor que se compadeça enfim
de tanto sofrer e me leve para si.

— Mas Carlos?!

— Carlos é barão: no lho disse já?

— Mas por ser barão?…

— Não sabe o que é ser barão?

— Oh se sei! Tão poucos temos nós?

— Pois barão é o sucedâneo dos…

— Dos frades… Ruim substituição!

— Vi um dos tais papéis liberais em que isso vinha: e é
a única coisa que leio dessas há muitos anos, Mas fizeram-mo
ler.

— E que lhe pareceu?

— Bem escrito e com verdade. Tivemos culpa nós, é certo;
mas os liberais não tiveram menos.

— Erramos ambos.

— Erramos e sem remédio. A sociedade já não é
o que foi, não pode tornar a ser o que era: — mas mito menos
ainda pode ser o que é. O que há de ser, não sei. Deus
proverá.

Dito isto, o frade benzeu-se, pegou no seu breviário e pôs-se
a rezar. A velha dobava sempre, sempre. Eu levantei-me, contemplei-os ambos
alguns segundos. Nenhum me deu mais atenção nem pareceu cônscio
da minha estada ali.

Sentia-me como na presença da morte e aterrei-me.

Fiz um esforço sobre mim mesmo, fui deliberadamente ao meu ca­valo,
montei, piquei desesperadamente de esporas, e não parei senão
no Cartaxo.

Encontrei ali os meus companheiros; era tarde, fomos ficar fora da vila á
hospedeira casa do Sr. L. S.

Rimos e folgamos até alta noite: o resto dormimos a sono solto.

Mas eu sonhei com o frade, com a velha — e com uma enorme constelação
de barões que luziam num céu de papel, donde choviam, como farrapos
de neve, numa noite polar, notas azuis, verdes, brancas, amarelas, de todas
as cores e matizes possíveis. Eram milhões e milhões
de milhões…

Nunca vi tanto milhão, nem ouvi falar de tanta riqueza senão
nas Mil e uma noites.

Acordei no outro dia e não vi nada… só uns pobres que pediam
esmola à porta.

Meti a mão na algibeira, e não achei senão notas…
papéis!

Parti para Lisboa cheio de agoiros, de enguiços e de tristes pressentimentos.

O vapor vinha quase vazio, mas nem por isso andou mais depres­sa.

Eram boas cinco horas da tarde quando desembarcamos no Ter­reiro do Paço.

Assim terminou a minha viagem a Santarém; e assim termina este livro.

Tenho visto alguma coisa do mundo, e apontado alguma coisa do que vi. De
todas quantas viagens porém fiz, as que mais me interessaram sempre
foram as viagens na minha terra.

Se assim pensares, leitor benévolo, quem sabe? pode ser que eu tome
outra vez o bordão de romeiro, e vá peregrinando por esse Portu­gal
fora, em busca de histórias para te contar.

Nos caminhos de ferro dos barões é que eu juro não andar.

Escusada é a jura, porém.

Se as estradas fossem de papel, fá-la-iam, não digo que não.

Mas de metal!

Que tenha o governo juízo, que as faça de pedra, que pode,
e viajaremos com muito prazer e com muita utilidade e proveito na nossa boa
terra.

* * *

Nas Viagens aparecem alguns nomes de personalidades da época, mas
apenas por iniciais ou em simples menção não identificada.
São elas:

O amigo a cujas instâncias se deveu a viagem a Santarém: Passos
Manuel.

C. da T. – Conde da Taipa, Gastão da Câmara Coutinho Pereira
de Sande,

L. S. – Luís Teixeira de Sampaio, 1º visconde do Cartaxo.

Marquês do F. – 1.º marquês do Faial, Domingos Antônio
de Sousa Coutinho.

C. J. X. – Cândido José Xavier, conhecido pelo "Pernas
de égua". estadista liberal desafeto a Garrett,

O mestre J. P. (ou mestre P.) – Joaquim Pedro, ferreiro do Carta­xo.

Sr. D. (ou o velho D.) – Dâmaso Xavier Santos. lavrador do Car­taxo.

C. do S. – Conde do Sobral, Hermano José Braancamp de AI­meida
Castelo Branco.

O Sr. M. P. Manuel Passos (Passos Manuel).

Barão do P. – Barão do Pombalinho, Antônio de Araújo
Vasques da Cunha Portocarrero.

Barão de A. – Barão de Almeirim, Manuel Nunes Freire da Rocha.
Baronesa de A. – Baronesa de Almeirim, Luisa Joana Braancamp.

Notas do autor

1 ) É visível alusão ao popular e inimitável
opúsculo e Xavier de Maistre, Voyage autor de ma chambre, que decerto
foi principiado a escrever em Turim, e que muitos supõem que fosse
concluído em São Petersburgo.

2) É puramente histórico isto; e também é verdade
que em grande parte daqui se originou a perseguição brutal que
sofreu o A. dali a poucos meses.

3) Regata chamavam, e não sei se chamam ainda, em Veneza, às
carreiras de barcos apostados ao desafio A palavra e a coisa introduziu-se
em Inglaterra, onde é moda e popularíssima.

4) Estes versos são uma espécie de paródia dos famosos
fragmentos de Alceu, de que só existe memória nos escólios
que nos conservou Eustáquio. Nas Flores sem frutos, pág.56,
vem a tradução daquele belo fragmento.

5) Os protocolos das comissões de inquérito de há oito
para dez a esta parte, sobre o estado das classes trabalhadoras e indigentes
em Inglaterra, é a prova real dos grandes cálculos da economia
política, ciência que eu espero em Deus que se há de desacreditar
muito cedo.

6) A tradução chegada destes memoráveis versos de Shakespeare
é:

Há mais coisas no céu, há mais na terra

Do que sonha tua vã filosofia

7) Personagens, bem conhecidos geralmente, do romance tão popular
de Eug. Sue, Os Mistérios de Paris.

8) Addison, o poeta, foi ministro da rainha Ana de Inglaterra, e membro do
célebre gabinete chamado de All-isits

9) Um dos dois cemitérios de Lisboa — seja dito para a inteligência
do leitor provinciano — chama-se dos Prazeres, por uma ermida de N.
S.ª que ali existia com esta invocação desde antes do terreno
ter o presente destino. É notável a coincidência dos nomes.

10) É fácil ver que o interlocutor deste diálogo conhecia
esse curioso personagem da história do Condestável, não
pelas crônicas, mas pelo drama que tem o seu nome.

11) O convento que tem este nome em Paris, é casa de educação
de meninas nobres e recolhimento de senhoras também.

12) Antônio Ferreira, que viveu no fim do século passado, princípio
deste, modelava em barro com a mesma graça e naturalidade flamenga,
com que pintava o Morgado de Setúbal; as suas pequenas figurinhas são
tão estimadas pelos entendedores como os melhores biscuits de Sévres
e de Saxônia antiga.

13) A fábula daquela ave imortal teve origem nas idades obscuras da
Europa quando o grego era ignorado. O que os antigos diziam da fênix,
palmeira em grego, tomaram nossos bárbaros avós por dito de
uma passarola com que os outros nunca sonharam.

14) Coleção de antigas rapsódias germânicas contendo
o maravilhoso e poético de suas origens históricas e que é
para os povos teutônicos o que era a Ilíada para os helenos.
Só se não sabe o nome do Homero alemão que as redigiu
e uniformizou como hoje se acham.

15) Fundo baixo do Tejo, ao longo da praia de Santos, que tem este nome,
é onde vão apodrecer as carcaças dos navios velhos e
já inúteis.

16) Fender se chama em inglês a pequena e baixa teia de metal que de­fende
o fogão nas salas, para que não caiam brasas nos sobrados. Descansam
nele os pés naturalmente quando a gente se está confortavelmente
aquecendo em liberdade

17) Tem-se disputado muito sobre qual seja a bebida espirituosa celebrada
por Shakespeare tantas vezes com este nome. A opinião mais aceita é
que fosse boa e velha aguardente de França.

18) O grito de guerra comum a todas as nações cristãs
espanholas era Santiago! Quando na acessão da casa de Avie nos aliamos
intimamente com a

Inglaterra contra Castela, começamos a invocar S. Jorge.

19) Singela e original expressão do santo arcebispo numa carta de
convite a

seu amigo. Fez-se como devia ser, proverbial esta frase.

20) Transcrevemos aqui o original alemão para se avaliar o que fica
dito no texto.

Ihr naht euch wíeder, schwankende Gestalden,

Die frúh sich einst dem trüben Blick qezeigt.

Versuch ich tochi euch desmol fest zo halten?

Fúbi’ ich mcm Herz nocb jenem Wahn geneígt?

Ihr drdngt euch ai! nun gur, so rnàgt ihr wolten,

Wie ihr ans Dunst unci Nebe? um mích steigt,

Mem Bussenjúhjt sichtju9endfích erschúttcrt

Vom Zauberhauch, der eureu Zug umwítwrt.

fhr bnngt mit euch de Bílder /roher Tape,

Und manche hebe Schatten sreigen auf;

Gfeich erner halbverk!ungen Soge

Komrnt erste Lieb’ und Freunci/chafi mít herauf;

Der Schmerz wind fleu, es wjederholt de klage

Des Jebens Jabvnntísch Írren Louf

Und nennt de Guten, und de schóne Stunden

Vom GJúck getãuscht, vor mir himuesseschwunden.

21) Na sua obra intitulada Les Arts en Portugal, Paris, 1846

22) Centro e barbas são qualificações e nomes de empregos
teatrais.

FIM

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