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A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai e Volta

 

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Epígrafes

"Guardai, Padre, esta Espada, porque um dia me hei de valer dela com os Mouros, metendo o Reino pela Ãfrica adentro!" Dom Sebastião I - ou Dom Sebastião, o Desejado, Rei de Portugal, do Brasil e do Sertão, 1578.

"Quem não sabe que o digno Príncipe, o Senhor Dom Pedro III, tem poder legitimamente constituido por Deus para governar o Brasil? Das ondas do mar Dom Sebastião sahirá com todo o seu exercito. Tira a todos no fio da Espada deste papel da Republica e o sangue hade ir até a junta grossa." Dom Antônio Conselheiro, projeta e regente do Império do Belo-Monte de Canudos, Sertão da Bahia, 1897.

"Soldados de todo o exército do Império! Lembrai-vos das fogueiras do Sertão Bonito! Aqui me tendes: quem defende o Brasil não morre! Com esta Bandeira em frente do campo da honra destruiremos os nossos inimigos e, no maior dos combates, gritaremos: Viva a Independência do Brasil!" Dom Pedro I, Imperador do Brasil e Rei de Portugal, 1822.

"Passa o município de Princesa a constituir, com seus limites atuais, um Território Livre, que terá a denominação de Território de Princesa. Cidadãos de Princesa aguerrida! Celebremos, com força e paixão, a beleza invulgar desta Lida e a bravura sem-par do Sertão!"

Dom José Pereira - ou Dom José I, O, Invencível, Rei Guerrilheiro de Princesa, Sertão da Paraíba, 1930.

"Estejão certos que a República se acaba breve. É princípio de espinhos. Entrando a Monarquia, serão formados novos Batalhões, pois por serem os Batalhões feitos de canalhas é que tem chegado a tal ponto.

Prinspo é o verdadeiro dono do Brasil. Quem for republicano mude-se para os Estados-Unidos!"

De uma carta encontrada no bornal de balas de E. P. Almeida, guerrilheiro do Império de Canudos, Sertão da Bahia, 1897.

"Dom Sebastião está muito desgostoso e triste com seu Povo, porque o perseguem, não regando o Campo Encontrado e não lavando as duas torres da Catedral de seu Reino com o sangue necessário para quebrar de uma vez este cruel Encantamento!"

Dom João Ferreira-Quaderna - ou Dom João II, 0 Execrável, Rei da Pedra Bonita, Sertão do Pajeú, Pernambuco-Paraíba, 1838.

Romance da Pedra do Reino eo Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta Romance-enigmático de crime e sangue, no qual aparece o misterioso Rapaz do Cavalo Branco. A emboscada do Lajedo sertanejo. Notícia da Pedra do Reino, com seu Castelo enigmático, cheio de sentidos ocultos! Primeiras indicações sobre os três irmãos sertanejos, Arésio, Silvestre e Sinésio! Como seu Pai foi morto por cruéis e desconhecidos assassinos, que degolaram o velho Rei e raptaram o mais moço dos jovens Príncipes, sepultando-o numa Masmorra onde ele penou durante dois anos! Caçadas e expedições heróicas nas serras do Sertão! Aparições assombratícias e proféticas! Intrigas, presepadas, combates e aventuras nas Catingas! Enigma, ódio, calúnia, amor, batalhas, sensualidade e morte!

Ave Musa incandescente do deserto do Sertão! Forje, no Sol do meu Sangue, o Trono do meu clarão: cante as Pedras encantadas o a Catedral Soterrada, Castelo deste meu Chão!

Nobres Damas e Senhores ouçam meu Canto espantoso: a doida Desaventura de Sinésio, 0 Alumioso, o Cetro e sua centelha na Bandeira aurivermelha do meu Sonho perigoso!

FOLHETO I

Pequeno Cantar Acadêmico a Modo de Introdução Daqui de cima, no pavimento superior, pela janela gradeada da Cadeia onde estou preso, vejo os arredores da nossa indomável Vila sertaneja. 0 Sol treme na vista, reluzindo nas pedras mais próximas. Da terra agreste, espinhenta e pedregosa, batida pelo Sol esbraseado, parece desprender-se um sopro ardente, que tanto pode ser o arquejo de gerações e gerações de Cangaceiros, de rudes Beatos e Profetas, assassinados durante anos e anos entre essas pedras selvagens, como pode ser a respiração dessa Fera estranha, a Terra - esta Onça-Parda em cujo dorso habita a Raça piolhosa dos homens. Pode ser, também, a respiração fogosa dessa outra Fera, a Divindade, Onça-Malhada que é dona da Parda, e que, há milênios, acicata a nossa Raça, puxando-a para o alto, para o Reino e para o Sol.

Daqui de cima, porém, o que vejo agora é a tripla face, de Paraíso, Purgatório e Inferno, do Sertão. Para os lados do poente, longe, azulada pela distância, a Serra do Pico, com a enorme e altíssima pedra que lhe dá nome. Perto, no leito seco do Rio Taperoá, cuja areia é cheia de cristais despedaçados que faíscam ao Sol, grandes Cajueiros, com seus frutos vermelhos e cor de ouro. Para o outro lado, o do nascente, o da estrada de Campina Grande e Estaca-Zero, vejo pedaços esparsos e agrestes de tabuleiro, cobertos de Marmeleiros secos e Xiquexiques. Finalmente, para os lados do norte, vejo pedras, lajedos e serrotes, cercando a nossa Vila e cercados eles mesmos por Favelas espinhentas e t Urtigas, parecendo enormes Lagartos cinzentos, malhados de negro e ferrugem, Lagartos venenosos, adormecidos, estirados ao Sol o abrigando Cobras, Gaviões e outros bichos ligados à crueldade da Onça do Mundo.

Aí, talvez por causa da situação em que me encontro, preso na Cadeia, o Sertão, sob o Sol fagulhante do meio-dia, me aparece, ele todo, como uma enorme Cadeia, dentro da qual, entre muralhas de serras pedregosas que lhe servissem de muro inexpugnável a apertar suas fronteiras, estivéssemos todos nós, aprisionados e acusados, aguardando as decisões da justiça, sendo que, a qualquer momento, a Onça-Malhada do Divino pode se precipitar sobre nós, para nos sangrar, ungir e consagrar pela destruição.

É meio-dia, agora, em nossa Vila de Taperoá. Estamos a 9 de Outubro de 1938. É tempo de seca, e aqui, dentro da Cadeia onde estou preso, o calor começou a ficar insuportável desde as dez horas da manhã. Pedi então ao Cabo Luís Riscão que me deixasse sair lá de baixo, da cela comum, e vir cá para cima, varrer o chão de madeira do pavimento superior, onde funcionava, até o fim do ano passado, a Câmara Municipal. 0 Cabo Luís Riscão é filho daquele outro, de nome igual, que morreu, aqui mesmo na Cadeia, em 1912, na chamada "Guerra de Doze", num tiroteio da Polícia contra as tropas de Sertanejos que, a mando de meu tio e Padrinho, Dom Pedro Sebastião Garcia-Barretto, atacaram, tomaram e saquearam nossa Vila. Tem, portanto, o Cabo todos os motivos de má vontade contra mim. Mas como sou "de família de certa ordem" e lhe dou pequenas gorjetas, abranda essa má vontade de vez em quando. Hoje, por exemplo, quando fiz o pedido, ele me concedeu o cobiçado privilégio de preso-varredor. Abriu a porta de grades enferrujadas, trouxe-me para cá, deixou-me aqui sozinho, trancado, varrendo, e foi-se a cochilar na rede da sua casa, que fica no quintal da Cadeia. Aproveitei, então, o fato de ter terminado logo a tarefa e deitei-me no chão de tábuas, perto da parede, pensando, procurando um modo hábil de iniciar este meu Memorial, de modo a comover o mais possível com a narração dos meus infortúnios os corações generosos e compassivos que agora me ouvem. Pensei: - Este, como as Memórias de um Sargento de Milícias, é um "romance" escrito por "um Brasileiro". Posso começá-lo, portanto, dizendo que era, e é, "no tempo do Rei". Na verdade, o tempo que decorre entre 1935 o este nosso ano de 1938 é o chamado "Século do Reino", sendo eu, apesar de preso, o Rei de quem aí se f ala.

Depois, porém, cheguei à conclusão de que, além de anunciar o tempo, eu devo ser claro também sobre o local onde sucederam todos os acontecimentos que me trouxeram à Cadeia. Não tendo muitas idéias próprias, lembrei-me então de me valer de outro dos meus Mestres e Precursores, o genial escritor-brasileiro Nuno Marques Pereira. Como todos sabem, o "romance" dele, publicado em 1728, intitula-se Compêndio Narrativo do Peregrino da América Latina. Ora, este meu livro é, de certa forma, um Compêndio Narrativo do Peregrino do Sertão. Por isso, adaptando ao nosso caso as palavras iniciais de Nuno Marques Pereira, falo do modo que segue sobre o lugar onde se passou a nossa estranha Desaventura: "Uns doze graus abaixo da Linha Equinocial, aqui onde se encontra a Terra do Nordeste metida no Mar, mas entrando-se umas cinqüenta léguas para o Sertão dos Cariris Velhos da Paraíba do Norte, num planalto pedregoso e espinhento onde passeiam Bodes, Jumentos e Gaviões sem outro roteiro que os serrotes de pedra cobertos de coroas-de-frade e mandacarus; aqui, nesta bela Concha, sem água mas cheia de fósseis e velhos esqueletos petrificados, vê-se uma rica Pérola, engastada em fino Ouro, que é a muito nobre e sempre leal Vila da Ribeira do Taperoá, banhada pelo rio do mesmo nome". - Ora, eu, Dom Pedro Dinis FerreiraQuaderna, sou o mesmo Dom Pedro IV, cognominado "0 Decifrador", Rei do Quinto Império e do Quinto Naipe, Profeta da Igreja Católico-Sertaneja e pretendente ao trono do Império do Brasil. Por outro lado, consta da minha certidão de nascimento ter nascido eu na Vila de Taperoá. É por isso, então, que pude começar dizendo que neste ano de 1938 estamos ainda "no tempo do Rei", e anunciar que a nobre Vila sertaneja onde nasci é o palco da terrível "desaventura" que tenho a contar.

Para ser mais exato, preciso explicar ainda que meu "romance" é, mais, um Memorial que dirijo à Nação Brasileira, à guisa de defesa e apelo, no terrível processo em que me vejo envolvido. Para que ninguém julgue que sou um impostor vulgar, devo finalmente esclarecer que, infeliz e desgraçado como estou agora, preso aqui nesta velha Cadeia da nossa Vila, sou, nada mais, nada menos, do que descendente, em linha masculina e direta, de Dom João Ferreira-Quaderna, mais conhecido como El-Rei Dom João II, 0 Execrável, homem sertanejo que, há um século, foi Rei da Pedra Bonita, no Sertão do Pajeú, na fronteira da Paraíba com Pernambuco. Isto significa que sou descendente, não daqueles reis e imperadores estrangeiros e falsificados da Casa de Bragança, mencionados com descabida insistência na História Geral do Brasil, de Varnhagen; mas sim dos legítimos e verdadeiros Reis brasileiros, os Reis castanhos e cabras da Pedra do Reino do Sertão, que cingiram, de uma vez para sempre, a sagrada Coroa do Brasil, de 1835 a 1838, transmitindo-a assim a seus descendentes, por herança de sangue e decreto divino.

Agora, preso aqui na Cadeia, rememoro tudo quanto passei, e toda a minha vida parece-me um sonho, cheio de acontecimentos ao mesmo tempo grotescos e gloriosos. Sou um grande apreciador do jogo do Baralho. Talvez por isso, o mundo me pareça uma mesa e a vida um jogo, onde se cruzam fidalgos Reis de Ouro com castanhas Damas de Espada, onde passam Ases, Peninchas e Coringas, governados pelas regras desconhecidas de alguma velha Canastra esquecida. É por isso também que, do fundo do cárcere onde estou trancafiado neste nosso ano de 1938 - faminto, esfarrapado, sujo, prematuramente envelhecido pelos sofrimentos aos quarenta e um anos de idade - dirijo-me a todos os Brasileiros, sem exceção; mas especialmente, através do Supremo Tribunal, aos magistrados e soldados - toda essa raça ilustre que tem o poder de julgar e prender os outros. Dirijo-me, outrossim, aos escritores brasileiros, principalmente aos que sejam Poetas-Escrivães e Acadêmicos fidalgos, como eu e Pero Vaz de Caminha, o que faço aqui, expressamente, por intermédio da Academia Brasileira, esse Supremo Tribunal das Letras.

Sim! Neste estranho processo, a um tempo político e literário, ao qual estou sendo submetido por decisão da justiça, este é um pedido de clemência, uma espécie de confissão geral, uma apelação - um apelo ao coração magnânimo de Vossas Excelências. E, sobretudo, uma vez que as mulheres têm sempre o coração mais brando, esta é uma solicitação dirigida aos brandos peitos das mulheres e filhas de Vossas Excelências, às brandas excelências de todas as mulheres que me ouvem.

Escutem, pois, nobres Senhores e belas Damas de peitos brandos, minha terrível história de amor e de culpa; de sangue o de justiça; de sensualidade e violência; de enigma, de morte o disparate; de lutas nas estradas e combates nas Catingas; história que foi a suma de tudo o que passei e que terminou com meus costados aqui, nesta Cadeia Velha da Vila Real da Ribeira do Taperoá, Sertão dos Cariris Velhos da Capitania e Província da Paraíba do Norte.

FOLHETO II

0 Caso da Estranha Cavalgada Há três anos passados, na Véspera de Pentecostes, dia 1.0 de Junho de 1935, pela estrada que nos liga à Vila de Estaca-Zero, vinha se aproximando de Taperoá uma cavalgada que iria mudar o destino de muitas das pessoas mais poderosas do lugar, incluindose entre estas o modesto Cronista-Fidalgo, Rapsodo-Acadêmico e poeta-Escrivão que lhes fala neste momento.

Era, talvez, ' a mais estranha Cavalgada que já foi vista no Sertão por homem nascido de mulher. Aliás, não sei nem se o nome de "cavalgada" se ajusta bem àquilo, que parecia antes uma espécie de tropel confuso de cavalos, jaulas, carretas, tendas, Cavaleiros e animais selvagens. Era, realmente, uma verdadeira "desfilada moura", como muito bem a classificou dépois, na noite daquele mesmo dia, o Doutor Samuel Wandernes, homem intelectual, Poeta e promotor da nossa Comarca. Na verdade, como ele vive afirmando freqüentemente, "os árabes, negros, judeus, tapuias, asiáticos, berberes e outros Povos mouros do mundo, são sempre meio aciganados, meio ladrões, trocadores de cavalos, irresponsáveis e valdevinos"; e o estranho grupo de Cavaleiros que, naquele dia, iniciava a mais terrível agitação em nossa Vila, revelava no conjunto, ao primeiro exame, alguma coisa de errante, como uma tribo selvagem, nômade, empoeirada e "sem confiança".

Era composta de cerca de quarenta Cavaleiros. Os arreios dos cavalos que a compunham vinham cobertos de medalhas e moedas, que refulgiam ao Sol sertanejo, devolvendo aos fulgores dos cristais das cercas-de-pedra as faíscas de seus metais. As esporas, como estrelas de fogo, retiniam suas rosetas, batendo nos estribos e centelhando nos sapatões de couro castanho, sob as véstias e os canos poeirentos das calças-perneiras, também castanhas, mas providas de fortes placas de reforço, costuradas a modo de joelheiras nas calças, e de ombreiras nos gibões. Os chapelões de couro, de largas abas dobradas e levantadas, coroavam-se, também, de estrelas o moedas que reluziam - três nas abas, inumeráveis nas testeiras o barbicachos. Mais do que tudo, porém, pairava no ar, sobre aquela esquisita tropa de bichos, carretas e Cavaleiros, uma atmosfera de feira-de-cavalos; de sortilégios e encantamentos; de companhia de Circo; de comboio-de-mal-assombrados; de cavalaria de rapina; de comércio de raízes, augúrios e zodíacos; e tudo isso junto lembrava, logo, uma tribo de Ciganos sertanejos em viagem.

Uma coisa que talvez cause estranheza aos menos avisados é que o genial Poeta-Brasileiro e Patrono-Académico, Antônio Gonçalves Dias, tendo vivido um século antes desta cena, já previsse que ela ia acontecer. É que, como diz o Doutor Samuel Wandernes, "os Poetas são verdadeiros visionários", isto é, gente que prediz o futuro e vê visagens e assombrações, como Antônio Conselheiro via as dele, no Império pedregoso e sitiado de Canudos.

Assim, ninguém se espante de que Gonçalves Dias, tantos anos antes, visse, como alumiado e visionário que era, a chegada desse tropel de cavalos a Taperoá, descrevendo assim a estranha Cavalgada que, já perto do meio-dia daquela Véspera de Pentecostes, errava pelos campos do Sertão do Cariri: "Eram Ciganos errantes, atilados e torcidos, trocadores de Cavalos com semblantes de atrevidos: causa medo vê-los tantos, tão astutos e crescidos.

Vinham Ladrões de cavalo, vinham muitos Raizeiros, vinham, do Sol abrasados, nossos bárbaros Guerreiros, bons dizedores de Sortes, muitos e bons Cavaleiros!

E vinha o Donzel errante no cerco dos roubadores! De sua Dama-de-Copas no Escudo trazia as cores: tinha amor pela Sonhosa, eram claros seus amores!

Enfim, dizer quanto vimos não cabe neste Papel: vinham muitas Alimárias - são roubadas a granele vinha o Alumioso, montado em branco Corcel!"

Entretanto, se eram, mesmo, Ciganos em viagem, seria uma tribo que, ao lado das roupas principescas, das medalhas nos arreios e da ladroagem meio acangaceirada, possuía algumas singularidades.

Primeiro, os Ciganos sertanejos comuns não andam encourados. Usam, quase sempre, camisa e calça cáquis, chapelões de pano pardo e botas de cano alto. Ora, aqueles estavam como fica dito, de calça-perneira, guarda-peito e gibão, tudo de couro. Os gibões, porém, feitos de duro e castanho couro de bode, além das placas de reforço nas ombreiras e joelheiras, tinham debruns e emblemas cravejados de brochas de metal. Essas brochas, ora se agrupavam em áreas maciças, ora seguiam, em fileiras, as linhas das costuras e debruns mais importantes, de modo que suas armaduras de couro faziam aqueles Cavaleiros sertanejos semelhantes ao Guerreiro mouro que o genial Poeta pernambucano Severino Montenegro descreveu num soneto célebre: vestido de armadura negra e escarlate, de placas de aço, incrustada de esmaltes e brasões, parecendo, o todo, a carapaça dura, calcária, espinhosa e violeta-escarlate de um crustáceo gigantesco encravado num penhasco. Aqui, porém, as armaduras eram apenas de couro castanhonegro, cravejado pelos metais das brochas; e, em vez dos "penhascos" estrangeirados do soneto de Montenegro, o fundo do quadro era formado pelos enormes Lajedos sertanejos, que, de vez em quando, apareciam ao lado da estrada, enfeitados por macambiras roxas e amarelas e pelo vermelho sangrento dos topes das coroasde-frade.

A segunda singularidade era que a Cavalgada tinha, à frente, três homens, à guisa dos "matinadores" que iniciam nossos desfiles de Cavalhada.

0 primeiro, o mais da frente, estava a cavalo, e conduzia na mão uma bandeira que, depois, devidamente instruído por mim e pelo Doutor Pedro Gouveia, o Cantador Lino Pedra-Verde descreveria assim, no "folheto" que escreveu sobre o acontecimento: "Dividida por dois Campos - um Direito e outro Esquerdo - tinha três Onças vermelhas em campo de Ouro - o Direito - e Contra-arminhos de Prata semeando o Campo negro".

Meu irmão bastardo, Taparica Pajeú-Quaderna, é cortador-demadeira e "riscador" de todas as gravuras com que ilustro as capas dos "folhetos" impressos por mim, aqui, na Gazeta de Taperoá. Pedi a ele que fizesse uma cópia dessa bandeira e anexo a gravura resultante aos autos desta Apelação, pois ela é peça importante no processo que veio bater comigo aqui, na Cadeia de Taperoá.

Atrás, porém, desse primeiro matinador, vinha um segundo homem, a pé, conduzindo uma pesada haste de madeira, com outra menor cruzada em cima, sendo que esta, braço transversal da cruz, vinha cheia de Gaviões e Carcarás, amarrados pelos pés a argolinhas cravadas na madeira.

Em seguida, a cavalo, vinha um terceiro homem, o mais esquisito de todos, creio. Era uma espécie de Frade-Cangaceiro.

BANDEIRA DAS ONÇAS, QUE VINHA NA CAVALGADA DO RAPAZ DO CAVALO BRANCO

Ou, para ficar mais de acordo com o estilo de meu Mestre, o Doutor Samuel Wandernes, uma espécie de Monge-Cavaleiro, únicas expressões capazes, talvez, de dar idéia desse personagem, Frei Simão de nome, e que, posteriormente, veio a se tornar, em nossa Vila, centro de grandes controvérsias. Aliás, a meu ver, ou por ignorância ou por má-fé: porque, aqui no Sertão, a coisa menos surpreendente é um Padre cangaceiro, do tipo do Padre Aristides Ferreira, degolado em Piancó, pela "Coluna Prestes", em 1926; ou parecido com aqueles Bispos e monges que, segundo o genial Acadêmico pernambucano, Doutor Manuel de Oliveira Lima, envergavam, na Idade Média, armaduras de ferro sob as sobrepelizes e pluviais, colocando-se, assim, "à frente de bandos armados".

Entretanto, o nosso Monge-Cangaceiro daquele dia não vinha nem com sobrepeliz nem com armadura de ferro. Envergava um burel branco, com um enorme Coração-de-Jesus sangrento e flamejante, bordado a seda vermelha, no peito. Por baixo do burel, arregaçado porque o Frade viajava escanchado na sela, viam-se calças-perneiras de couro, esporas e sapatões iguais aos dos outros Cavaleiros, o que indicava que, por baixo do hábito, Frei Simão usava, também, guarda-peito e gibão, se bem que não trouxesse chapéu de couro. Em compensação a essa falha, trazia, porém, por cima do burel, um grosso cinturão sertanejo de sola, cartucheira e talabartes atulhados de balas; assim como trazia às costas um mosquetão atravessado, preso a seu tronco por uma correia de couro que lhe cruzava o peito a tiracolo. 0 Frade conduzia ainda, presa na haste de uma lança de marmeleiro fincada no arção da sela, uma bandeira, mais alta do que larga, vermelha e com peças de ouro enfeitando o campo encarnado - ou "de goles", para os que são, como eu, entendidos na nobre Arte da Heráldica. Nos cantos, formando uma "aspa" ou "santor", havia quatro peças que pareciam-ter sido bordadas em pano amarelo, imitando "ferros" de ferrar boi, mas que, de fato, "simbolizavam chamas", como o Doutor Pedro Gouveia nos explicaria depois. Entre essas quatro peças, mais ou menos no meio do campo vermelho, havia um Sol com dezesseis raios e com seu centro, vazio, formando um anel que circundava um pombo volante. Embaixo do Sol, uma Coroa real, encimada por Esfera e Cruz, sendo todas estas peças "de ouro em campo de goles". E como, do mesmo modo, essa bandeira é ponto importante no meu processo, aqui vai, também, a gravura que Taparica cortou em casca de cajá e que é cópia dela.

Atrás dos dois porta-bandeiras, o leigo e o Frade, numa jaula colocada sobre uma carreta puxada por dois burros bem tosados e escovados, ripados à moda cigano-sertaneja, vinha uma Onça Pintada, um soberbo animal de malhas negras e pêlo cor de ouro, manchado, aqui e ali, de um vermelho que se fundia no fulvo, em tons cambiantes que o Sol incendiava.

Depois, em jaulas semelhantes, vinham: uma Onça-Parda, dessas chamadas no Sertão de Suçuaranas ou Onças-de-Bode; um casal de Pavões, abrindo o macho, ao Sol, sua cauda incrustada de jóias e pedrarias; uma Onça-Negra, ou seja, uma Maçaroca, que é uma Onça mestiça de negra e pintada, dessas que têm o dorso meio pardo em cima do espinhaço e sob cujo pêlo negro e aveludado vêem-se malhas, meio-negras, meio-vermelhas, mas sempre luminosas: são chamadas, também, de Onças lombo-pardo, assim como a Negra é chamada Onça-Tigre ou Onça lombo-preto. E como no Sertão não existem Tigres, animal estrangeiro, onça falsificada, fora certamente já antevendo, como alumiado e visionário, esta cena da minha história, que o excelso Bardo brasileiro Joaquim de Souza-Andrade escreveu aqueles famosos versos que dizem: "No Sertão, no Sertão, vede a tremente ondulação das Malhas luminosas num relâmpago - o Tigre atrás da Corça".

Para que Vossas Excelências não estranhem que eu seja tão entendido em Onça e bandeira, explico, primeiro, que sou membro do nosso querido e tradicional "Instituto Genealógico e Histórico do Sertão do Cariri", fundado pelo Doutor Pedro Gouveia, e no qual, para se entrar, a gente tem que fazer um curso completo de bandeiras, brasões e outras coisas armoriais. Quanto às Onças, posso dizer, em sã consciência, que fui criado junto com uma, na fazenda "Onça Malhada", pertencente a meu tio e Padrinho, Dom Pedro Sebastião Garcia-Barretto. Na "Onça Malhada", não sei se como alusão ao nome da fazenda, havia uma Onça-Pintada, mansa, criada solta no pátio e no tabuleiro da frente da casa. Em segundo lugar, porém, aqui no Sertão quem não cuidar nas Onças pode muito bem acabar sendo comido por elas. É daí, aliás, que se originam todas essas histórias e ditados sertanejos sobre Onças, todos muito instrutivos. Por exemplo, aquele ditado que diz "Quem banca o Carneiro, e não o homem, a Onça chega por trás e come". Ou então aquele outro: "Depois da Onça estar morta, qualquer um tem coragem de meter o dedo no Cu dela". Temos, ainda, uma história do meu amigo Eusébio Monteiro, conhecido aqui na rua como Dom Eusébio Monturo. Ele me dizia certa vez: - Eu vejo esse pessoal por aí dizer a toda hora: - Eu tive um susto, dei um salto, um grito... Povo mole dos seiscentos diabos! Olhe, Quaderna, no dia em que eu der um salto e um demanda novelosa da Guerra do Reino, causa principal da minha prisão.

0 Doutor Pedro Gouveia trazia paletó preto com debruns de seda negra na gola, uma rosa vermelha à botoeira, colete cinza com relógio e correntão de ouro, calças justas, riscadas de negro e cinza, botinas negro-pardas abotoadas de lado por uma fieira de botões, e polainas brancas. Com uma das mãos, segurava as rédeas do cavalo. Com a outra, sobraçava um meio-termo de pasta-de-documentos e maleta de viagem. Como logo descobriríamos depois, ali, naquela pasta, é que vinham todos os papéis e documentos que terminariam causando tanta complicação, tantas mortes e tantos infortúnios. Amarrada ao pescoço por uma fita branca e amarela - "as cores do Papa", como ele mesmo nos explicou - o Doutor carregava uma espécie de condecoração, "uma Cruz semelhante à da Ordem de Cristo, mas com esmaltes diferentes", pois era de ouro e goles - ou de amarelo e vermelho, para os não traquejados na Heráldica. No dedo anular da mão esquerda, o Doutor usava um anel brasonado. No indicador da direita, uma pedra-de-grau de Licenciado em Direito, um enorme rubi, cercado por pequenos diamantes encravados em chuveiro.

Explico a Vossas Excelências que, sendo já, como sou, um Acadêmico, tive, na infância, muito contato com os Cantadores sertanejos, tendo mesmo, sob as ordens de meu velho primo João Melchíades Ferreira da Silva, praticado um pouco da Arte da Cantoria. Depois, porém, por influência do Doutor Samuel e do Professor Clemente, passei a desprezar os Cantadores. Até que, lá um dia, li um artigo de escritor consagrado e Acadêmico, o paraibano Carlos Dias Fernandes, artigo no qual, depois de chamar os Cantadores de "Trovadores de chapéu de couro", ele os elogiava, dizendo que "o espírito épico da nossa Raça" andava certamente esparso por aí, nos cantos rudes daqueles "Aedos sertanejos". Depois daí, senti-me autorizado a externar meu velho e secreto gosto, minha velha e secreta admiração. Perdi o acanhamento acadêmico a que tinha me visto obrigado, de modo que, agora, para descrever melhor o Doutor Pedro Gouveia, posso e devo lançar mão dos versos do genial Cantador Jerônimo do Junqueiro, nos seguintes termos: Quanto ao segundo Cavaleiro, para evocá-lo aqui talvez seja ainda mais necessário que eu me socorra das Musas de outros Poetas brasileiros e da minha própria - aquele Gavião macho-efêmea e sertanejo ao qual devo minha visagem poética e profética de Alumiado. Cercava-o, efetivamente, uma atmosfera sobrenatural, uma espécie de "aura" que só mesmo o fogo da Poesia pode descrever e que, mesmo depois de sua chegada, ainda podia ser entrevista em torno da sua cabeça, pelo menos "por aqueles que tinham olhos para ver".

Tinha cerca de vinte e cinco anos. Não era simplesmente um rapaz: era um mancebo. Mais do que isso: era um Donzel. E tem gente, aí pela rua, que, ainda hoje, garante que naquele tempo ele chegava, mesmo, a ser um donzelo. Fosse como fosse, a primeira pergunta que nos ocorria diante dele era aquela que eu tantas vezes li na Antologia Nacional de Carlos de Laet: - "Dom Donzel, onde está El-Rei"? Via-se que ele era o centro, motivo e honra da Cavalgada, porque tinham lhe destacado a maior, mais bela e melhor das montarias, um enorme e nobre animal branco, de narinas rosadas, de cauda e crinas cor de ouro, cavalo que, como soubemos depois, tinha o nome legendário de "Tremedal". Ele o montava, como observou mais tarde o Doutor Samuel, "com um ar ao mesmo tempo modesto e altivo de jovem Príncipe, recém-coroado e que, por isso mesmo, ainda está convencido de sua realeza". Alto, esbelto, de pele ligeiramente amorenada e de cabelos castanhos, montava com elegância, e de seus grandes olhos, também castanhos e um pouco melancólicos, espalhava-se sobre todo o seu rosto uma certa graça sonhadora que suavizava até certo ponto suas feições e sua natureza - às vezes arrebatada, enérgica, quase dura e meio enigmática, como depois viemos a notar, principalmente depois dos terríveis acontecimentos da morte de Arésio.

Como, ao que parece, tinha se convencionado que ninguém com a luz do Sol na mão, de botinas-borzeguim, passa-pé, como um Barão, sobre o Colete cinzento ajeitava o correntão. No dedo da mão direita, seu Anel de condição.

No dedo da mão esquerda, um outro Anel, com Brasão. Era um dele, outro emprestado: mau costume do Sertão!"

"Era magro e espigado, metido um tanto a pimpão. Trazia Cruz ao pescoço, trancelim, Colar, cordão. Todo vestido de preto - sela, bride, estribo, arção - com seu Chapéu, também negro, se vestisse de maneira mais comum naquela tribo, o rapaz do cavalo branco usava um gibão mais artisticamente trabalhado do que os dos outros Cavaleiros. Assemelhava-se aos "gibões de honra e boniteza" que se usam nos desfiles de Cavalhadas e puxadasde-boi. Era feito de três qualidades diferentes de couro - de Bode, de Vaqueta e de Veado - combinando de maneira variada o amarelo, o castanho, o vermelho e o negro. Tinha as mesmas joelheiras e ombreiras dos outros. As dele, porém, eram negras e costuradas ao couro castanho da véstia e das "guardas" por tiras de couro vermelho, de modo que, mais do que qualquer outro, seu gibão parecia a armadura de um Cavaleiro sertanejo, com os couros trançados em ouro, púrpura, goles e sable - para narrar com esmaltes heráldicos esta heráldica cena da mais armorial Cavalaria sertaneja. E o próprio Donzel, assim, com aquela roupa de couro dominantemente amarela e vermelha, parecia (todo ele ouro, sangue e coração) um Valete de Copas montado num cavalo branco e escoltado por uma tropa sertaneja de peninchas e valetes de paus ou de espadas.

0 mais notável, porém, é que, atado ao pescoço por uma fechadura de prata, caía por trás das costas do Donzel, de modo a cobrir a garupa do cavalo "Tremedal", um manto vermelho, no qual estava bordado um grande Escudo com as mesmas armas da bandeira - as três Onças vermelhas em campo de ouro e os treze contra-arminhos de prata em campo negro. Aqui, porém, havia uma novidade: o escudo era encimado por uma figura a modo de "timbre", uma bela Dama de cabelos soltos, vestida com um manto negro semeado de contra-arminhos de prata e mantendo as mãos cobertas. Era a Dama jovem e sonhosa, de olhos verdes, de cabelos lisos, finos, compridos e castanho-claros que seria, para o rapaz do cavalo branco, "o grande amor de sua vida".

Notem Vossas Excelências que Gonçalves Dias já fazia referência a ela, pois escreveu, assim como eu já disse: "De sua Dama de Copas no Escudo trazia as cores: tinha amor pela Sonhosa, eram claros seus amores". Ora, naquele dia em que iniciava sua Desaventura, o rapaz do cavalo branco ainda não reconhecera aquela moça meio ausente, absorta e sonhosa, de cabelos castanhos o olhos verde-azuis, aquela que veio a ser o grande amor de sua vida. Como se explica, pois, que já trouxesse a imagem dela gravada em seu escudo? Respondo, fácil: tudo isso "são coisas cifradas e enigmáticas", como costuma dizer o Doutor Samuel, coisas que somente um Poeta-Escrivão, Acadêmico, ex-seminarista o Astrólogo sertanejo como eu pode decifrar. Vamos adiante que, aos poucos, Vossas Excelências terminarão por entender tudo em seu verdadeiro significado.

De fato, nobres Senhores e belas Damas de peitos macios, o escudo que acabei de descrever era o Brasão familiar do Donzel, como o Doutor Pedro Gouveia explicaria logo mais. Mas não deixa, também, de ser "uma coincidência epopéica, astrosa e fatídica", que o timbre desse Escudo fosse exatamente "uma Dama de cabelos soltos e com as mãos cobertas": porque a moça Heliana, aquela que veio a ser o grande amor e o segredo da sua vida, vivia sempre com as mãos cobertas, não se conhecendo notícia de homem nenhum a quem ela, conscientemente, consentisse desvendá-las - com exceção dele, é claro.

E para concluir a descrição da parelha de homens de pró que viria subverter nossa Vila naquele sábado de 1935, valho-me do genial Amador Santelmo, que deles falou assim, na sua bem conhecida Vida, Aventuras e Morte de Lampião e Maria Bonita: "Dizem que uma Sombra escura com duas Pontas na testa, por onde o Donzel caminha, ao lado, se manifesta. Desde a Cadeia onde o Moço na Morte foi sepultado, esta Sombra cornipeta caminha sempre a seu lado. Como irmã-de-caridade seguindo o jovem Defunto, o Carcará de chavelhos vai sempre ao Mancebo junto.

o Doutor, luz verde-escura da Cidade dos Pés Juntos, Lampa acesa dos jazigos, fogo-fátuo dos Defuntos.

o Donzel, estrela errante, facho dos Lumes eternos, ouro do Sol, Desafio às negras chamas do Inferno.

o Doutor, vela de sebo, sinal dos Magos errôneos, Lume lúgubre da Morte, lampadário do Demônio.

o Donzel, lustre e Candeia que o Sol do sangue espadana, carne cravada de Estrelas, Coroa da Raça Humana!"

FOLHETO III - BANDEIRA DO DIVINO ESPIRITO SANTO DO SERTÃO, QUE 0 FRADE CONDUZIA

 

A Aventura da Emboscada Sertaneja Vossas Excelências não imaginam o trabalho que tive para arrumar todos os elementos desta cena, colhidos em certidões que mandei tirar dos depoimentos dados por mim no inquérito, numa "prosa heráldica", como dizia o grande Carlos Dias Fernandes. Só o consegui porque, além de pertencer ao "Oncismo" do Professor Clemente, pertenço também ao movimento literário do Doutor Samuel Wandernes, o "Tapirismo Ibérico-Armorial do Nordeste". Graças a este último é que omiti, nas descrições que fiz até aqui, qualquer referência ao tamanho diminuto e à magreza dos cavalos sertanejos que serviam de montada aos Cavaleiros, assim como às pobrezas e sujeiras mais aberrantes e evidentes da tropa. No movimento literário de Samuel é assim: Onça, é "jaguar", anta é "Tapir", e qualquer cavalinho esquelético e crioulo do Brasil é logo explicado como "um descendente magro, ardente, nervoso e ágil das nobres raças andaluzas e árabes, cruzadas na Península Ibérica e para cá trazidas pelos Conquistadores fidalgos da Espanha e de Portugal, quando realizaram a Cruzada épica da Conquista". Tendo sido eu discípulo desses dois homens durante a vida inteira, nota-se à primeira vista que meu estilo é uma fusão feliz do "oncismo" de Clemente com o "tapirismo" de Samuel. É por isso que, contando a chegada do Donzel, parti, oncisticamente, "da realidade raposa e afoscada do Sertão", com seus animais feios e plebeus, como o Urubu, o Sapo e a Lagartixa, e com os retirantes famintos, sujos, maltrapilhos e desdentados. Mas, por um artifício tapirista de estilo, pelo menos nessa primeira cena de estrada, só lembrei o que, da realidade pobre e oncista do Sertão, pudesse se combinar com os esmaltes e brasões tapiristas da Heráldica. Cuidei de só falar nas bandeiras, que se usam realmente no Sertão para as procissões e para as Cavalhadas; nos gibões de honra, que são as armaduras de couro dos Sertanejos; na Cobra-Coral; na Onça; nos Gaviões; nos Pavões; e em homens que, estando de gibão e montados a cavalo, não são homens sertanejos comuns, mas sim Cavaleiros à altura de uma história bandeirosa e cavalariana como a minha.

Entretanto, é deste relato que depende a minha sorte e ninguém é tão fanático a ponto de fazer Literatura em troca de cadeia. Devo ser exato: e infelizmente, no mesmo instante em que consigo arrumar tudo, tenho que desarrumar tudo de novo. Porque, naquele 33 dia, quando a Cavalgada vinha perto do legendário Riacho de Cosme Pinto, ela mesma foi desarrumada por um incidente sujo o oncístico, que causou alguns rasgões raposos na bandeira da frente, sujou homens e cavalos de suor e poeira e chegou mesmo a derramar sangue, se bem que esta última parte ainda possa ser considerada tapirista e heráldica, pois houve tiros e reluzir de facas nos riscos de Sol - o que não deixa de ser armorial.

Naquele ponto da estrada, do lado direito de quem vem para Taperoá, existe um Lajedo não dos maiores, manchado aqui e ali de líquenes avermelhados, e separado da estrada por um pedaço de tabuleiro raso, coberto de ralos pés de Marmeleiro, Pinhão, Velame, Malva e Cardo-Santo. Pouco antes de atingir esse Lajedo, a carreta da Onça-Pintada enganchou-se na subida de uma ladeira. Atendendo a uma ordem rápida do Cigano Praxedes - que, como soubemos depois, não era o verdadeiro Chefe, mas sim seu preposto o uma espécie de Sargento-Mor da tropa - alguns dos almocreves que tangiam os burros começaram a empurrar a carreta, atrasando a marcha do grupo compacto de Cavaleiros. 0 Doutor Pedro Gouveia, impaciente pela demora, esporeou seu cavalo e foi se colocar, com o rapaz, perto de Frei Simão, lá na frente. E como o resto da Cavalgada parasse com o contratempo, a parte da frente dela se adiantou, de modo que foram eles os primeiros a cair numa emboscada, cujos componentes estavam escondidos no Lajedo, por trás de umas pedras que em seu topo se equilibravam.

0 tiroteio começou de maneira um tanto inusitada. Na grimpa do lajedo, erguendo-se de trás da pedra, apareceu de repente um Negro moço, desempenado, vestido de cáqui, encruzado de cartucheiras e de chapéu de couro à cabeça. Erguendo um rifle bem alto no ar com a mão direita, o Negro cantou uma estrofe desafiadora, rindo com os dentes alvos e perfeitos que luziam no Sol: "Filha de branco, linda e clara como a Lua! eu vou pegar você nua, mas não é para casar! É pra lascar, que eu me chamo é Ludugero! Eu nasci Negro e só quero moça branca pra estragar!" dgero Cobra-Preta, como também era conhecido - deu um rincho e jumento e, levando o rifle à cara, atirou.

Pode se dizer que a salvação do rapaz do cavalo branco deveu-se, naquele instante, à bandeira que o matinador da frente conduzia. Julgando, por causa dela, que "aquele era o rapaz importante da encomenda que tinham recebido", foi contra o matinador da bandeira que se disparou o primeiro tiro e convergiram os outros disparos, numa saraivada de balas que ressoaram por trás das pedras, em estalos secos como os de um tabocal incendiado, por entre gritos, insultos, relinchos e gargalhadas:

"E era um barulho danado, todo esse Povo atirando! As balas, por perto deles, passavam no Ar, silvando! 0 tiroteio imitava um Tabocal se queimando!"

O homem que vinha com os Gaviões, vendo começar o tiroteio, largou no chão a cruz que vinha com as aves, correu para o outro lado da estrada e deitou-se em sua beira, encolhendo-se o mais que podia para passar despercebido. Mas, com o corpo todo traspassado de balas, o matinador da bandeira caiu do cavalo, já nos estremeços da morte. Como ficara com o pé enganchado no estribo, foi arrastado pelo cavalo espavorido na direção aqui de Taperoá, com a bandeira rasgando-se um pouco e sujando-se muito, enquanto ele mesmo deixava pelo chão endurecido da estrada pedaços de seu couro e golfadas de sangue, logo bebidas pelo Sol e pelo pó. Soubemos, depois, que ele se chamava José Colatino. Era do Sertão do Sabugi. Deixara sua casa, encravada no sopé áspero e seco da pedregosa Serra de Santa Luzia, para se alistar nas tropas do Cigano Praxedes e morrer ali, daquele jeito! O Doutor Pedro Gouveia, homem expedito, calculou num repente o que se seguiria se o rapaz do cavalo branco ficasse ali mais alguns segundos. Viu então que o cavalo de Colatino, depois de correr duzentos a trezentos metros arrastando o corpo, parara na beira esquerda da estrada e ali se mantinha impassível, por cansaço ou por pachorra. Isso indicava que provavelmente não havia ali outros Cangaceiros emboscados. 0 Doutor gritou, então, para o rapaz: - Abaixe-se! Em seguida, jogando no chão a pasta de documentos, abraçouse ao pescoço de seu cavalo, pegou na rédea de "Tremedal", esporeou sua própria montaria, e assim galoparam os dois para o lugar onde parara o cavalo de Colatino. Por sua vez, o gigantesco Acabada a estrofe e aproveitando o momento de estupefação causado por seu aparecimento, o Negro Ludugero - ou Ludu- ~ Vs

Frei Simão, entendendo logo o alcance da manobra do Doutor, viu que, quanto a si, o melhor que tinha a fazer era ficar entretendo com tiros os Cangaceiros do lajedo. Saltou, portanto, do cavalo e, como antigo que era nas refregas sertanejas, abrigou-se por trás do animal, fazendo trincheira do corpo do bicho, ao mesmo tempo que o segurava para ele não correr, com a mão esquerda no freio e a direita no loro do estribo. Notando, então, que o cavalo, apesar de estremecer a cada estalo de tiro, não estava amedrontado a ponto de desembestar, emendou, com rédea curta, o loro com a bride, tirou o mosquetão das costas e começou a responder ao fogo cerrado dos rifles, que pipocavam de trás das pedras do Lajedo.

Tempos depois, Lino Pedra-Verde escreveria aquele tal "romance" a que já me referi, e eu me lembro bem de que, quando chegava a essa parte, havia uma sextilha meio plagiada do Romance do Valente Vilela, assim: "Frei Simão pegou do Rifle, ficou o Mundo tinindo! Era o dedo amolegando e o fumaceiro cobrindo, balas batendo nas Pedras, voltando pra trás, zunindo!" É verdade que o Frade trazia era um mosquetão. Mas como este não cabia na métrica, Lino Pedra-Verde transformou-o num rifle, no "folheto". E é aí que eu, apesar de partir "da realidade rasa e cruel do mundo", como Clemente, dou também razão a Samuel, quando diz que, na Arte, a gente tem que ajeitar um pouco a realidade que, de outra forma, não caberia bem nas métricas da Poesia.

Enquanto Frei Simão trocava tiros com os Cangaceiros, o Doutor e o rapaz chegavam, sem dano, ao lugar que procuravam. A sorte foi que o Capitão Ludugero recebera informações erradas sobre a tropa, o que o atraso das carretas e dos Cavaleiros confirmara, Sendo assim, seguro de sua superioridade, o Negro não tivera o cuidado de empiquetar os dois lados da estrada.

0 Doutor pensou, primeiro, em ultrapassar o cavalo de Colatino, continuando a carreira em direção a Taperoá. Depois, porém, lembrou-se de que seria perigoso perder ligação, de vez, com a tropa do Cigano, que não estava longe. Ordenou ao rapaz que desmontasse, apeou-se e, forçando os cavalos a se deitarem, espi36 charam-se os dois no chão, por trás dos bichos, . para cuidarem também um pouco em Frei Simão que estava em situação difícil.

Aí os acontecimentos se precipitaram. Porque sete ou oito Cangaceiros, vendo, de cima do Lajedo, que os dois tinham parado, fora do alcance dos tiros mas sozinhos e praticamente inermes, começaram a sair de trás das trincheiras de pedra: deixando dois ou três companheiros para a troca de tiros com o Frade, desceram o flanco direito do Serrote e correram na direção dos dois para acabar com eles. 0 Doutor puxou a pistola e já ia ordenar ao rapaz que montasse e buscasse salvação na fuga, enquanto ele resistia. Mas nesse momento o Cigano Praxedes apontou na estrada, galopando desenfreadamente com seus Cavaleiros. Conforme soubemos depois, o verdadeiro Chefe e Mestre-de-Campo da tropa viajava incógnito, no meio dos simples almocreves da cavalgada. Do lugar em que estava, junto às carretas, ouvira o pipocar dos tiros e, na emergência, dera ordem ao Cigano para varrer o local a patas de cavalo.

Foi outro golpe de sorte. Se os Cangaceiros não tivessem saído de cima do serrote, a situação dos Ciganos seria ruim, incapacitados como estavam de escalar os lajedos. Teriam que desmontar, e, a pé, os grossos gibões e calças de couro tolheriam seus movimentos, numa luta corpo a corpo. Mas os Cangaceiros tinham se desentocado de trás das pedras, e agora corriam a pé, no raso, pela beira da estrada.

Na carreira em que vinha a tropa, uma fila de Cavaleiros, a da direita, obedecendo a uma ordem gritada ao vento pelo Cigano, galopou pela Catinga, demandando a parte traseira do lajedo e a retaguarda dos Cangaceiros que ali ainda estavam, a fim de, com isso, aliviar a posição do Frade. Os outros, passando entre Frei Simão e as pedras e desembainhando os enormes facões rabo-de-galo, partiram com o Cigano à frente, para os Cangaceiros que corriam contra o rapaz e o Doutor.

De cima do lajedo, Ludugero Cobra-Preta viu tudo e entendeu a gravidade da situação. Corajoso e galhofeiro como era, foi zombando de si mesmo e dos seus que colocou as mãos em concha na boca e gritou: - Eira, que a gente agora vai se acabar tudo na faca! Corre, cabroeira dos seiscentos diabos! Cai no marmeleiro, negrada! Entope no oco do mundo, senão vai tudo sangrado! Aí, às gargalhadas, ele mesmo desceu do lajedo, na carreira, acompanhado pelos Cangaceiros que estavam ainda ali, caindo no mato. Os Cangaceiros que corriam para o Doutor e o rapaz, ouvindo o alarido do Capitão Ludugero entenderam o que vinha por trás. Desviaram o rumo da carreira em que iam, caíram na Catinga e conseguiram atingir uma cerca-de-pedra, que galgaram rapidamente, 37 afundando-se no mato ralo e espinhoso do cercado que havia por trás dela. Certos de que já tinham cumprido o objetivo principal da emboscada e matado o rapaz que lhes fora designado, queriam agora era escapar o mais depressa possível, fugindo à luta desigual com toda aquela tropa. Por outro lado, isso vinha ao encontro do que o Frade e o Doutor desejavam. Vendo que os Cangaceiros fugiam, os dois se reuniram, confabularam rapidamente e deram uma ordem a Praxedes. Foi a vez de soar o grito do Cigano, ordenando que a tropa de Cavaleiros saísse daquele mato perigoso; que novamente poderia favorecer os Cangaceiros, para emboscadas. A tropa, obedecendo a Praxedes, reuniu-se de novo na estrada, e todos, insensivelmente atraídos pela figura do rapaz do cavalo branco, fixaram os olhos nele, como a indagar até que ponto ele fora atingido pelos acontecimentos. Ele estava já de pé, segurando as rédeas de "Tremedal" e contemplando, absorto, o corpo do rapaz que morrera em seu lugar. O Doutor, depois de apanhar a importante pasta de documentos, caminhou para lá, puxando seu cavalo pela rédea: - Venha, vamos embora! - falou ele para o rapaz. - O que passou, passou! - Ele está morto? - perguntou o rapaz, sempre com expressão meio ausente.

- Está, sim! Mas vamos! - insistiu o Doutor Pedro Gouveia.

Enquanto assim falavam, Frei Simão, aproveitando a atenção com que todos olhavam para o rapaz, ia catando e guardando disfarçadamente, no bolso da batina, cápsulas deflagradas e mesmo três ou quatro amassadas balas de chumbo. O rapaz, sempre olhando o corpo de Colatino, comentou: - É a primeira vez que eu vejo a morte! - É assim mesmo, é a vida! - disse o Doutor, apanhando a bandeira, espanando com o lenço a poeira que a sujara e passando-a a outro, para que assumisse o posto de matinador, de Colatino. E continuou: - Hoje, ou amanhã, de tiro ou de doença, de qualquer jeito um dia ele tinha de morrer! Depois, talvez não seja esta a primeira vez que você vê a morte! Talvez você esteja somente esquecido, por causa de tudo o que passou, de outras mortes que viu, antes. Mas vamos sair logo daqui, que os Cangaceiros podem voltar com mais gente! Nesse momento, um homem alto, magro e forte, de olhos castanhos, com a calma, a energia e a mansidão aparente dos Sertanejos mais corajosos, destacou-se no meio dos almocreves, que a essa altura também já tinham chegado, e aproximou-se do Doutor. Era o Chefe e Capitão-Mor da tropa, um homem cujo nome, quando depois se espalhou pela Vila, eletrizou todo mundo: porque ele era, nem mais nem menos, que o célebre Lufs Pereira de 38 Sousa, mais conhecido como Luís do Triângulo, por causa de sua pequena fazenda pajeuzeira, "O Triângulo". E so estranhará que esse nome de Luís do Triângulo tenha causado tanta emoção entre nós quem ignorar dois fatos: primeiro, que, pertencendo ele à grande família dos Pereiras, do Pajeú - famosa pela coragem e pelas façanhas guerreiras - Luís do Triângulo era parente de -Dom José Pereira Lima, aquele mesmo Fidalgo sertanejo que, em 1930, se rebelara contra o Governo, tornando-se Rei-Guerrilheiro de Princesa, proclamando a independência do município com hino, selo, bandeira, Constituição e tudo, subvertendo o Sertão da Paraíba à frente do seu exército de dois mil homens de armas, numa guerrilha heróica que o governo do Presidente João Pessoa em vão tentou vencer com sua Polícia. Nesse Reino, ou Território Livre, de Princesa, o Rei era Dom José Pereira Lima, o Invencível, e Lufs do Triângulo, então com trinta e dois anos, era o Condestável e Chefe do Estado-Maior. O outro fato importante, ligado a Lufs do Triângulo, era que ele possuía uma terra, situada exatamente na fronteira da Paraíba com Pernambuco, para os lados do Sertão do Piancó. Nessa terra, fica a famosa Serra do Reino, na qual se erguem aquelas duas enormes pedras, estreitas, compridas e paralelas, que os nossos Sertanejos consideram sagradas, por serem as torres do Castelo, Fortaleza ou Catedral Encantada onde meu bisavô, Dom João Ferreira-Quaderna, foi Rei, ensinando, de uma vez para sempre, que o Castelo está ali, soterrado por um cruel encantamento, do qual somente o sangue nos poderia livrar, acabando de uma vez com a miséria do Sertão e fazendo todos nós felizes, ricos, belos, poderosos, eternamente jovens e imortais.

Luis do Triângulo chegou-se para o Doutor, falando: - Viu o que eu lhe disse, Seu Doutor? Era o grupo de Ludugero Cobra-Preta! - Sim! - concordou o Doutor. - Mas deve ter sido tudo a mandado do pessoal de Taperoá: de Arésio Garcia-Barretto e de Antônio Moraes! - Mas o senhor viu como eu tinha razão? Com essa história de se viajar de gibão, que o senhor inventou, a gente podia ter se desgraçado! - É verdade, e eu sabia que você tinha razão, Lufs! - retrucou, sério, o Doutor. - Mas eu não podia abrir mão das bandeiras e dos gibões: tudo isso me é indispensável para impressionar o Povo, quando entrarmos em Taperoá! E não se queixe, porque a bandeira também foi idéia minha e, se não fosse ela, a essas horas o morto seria outro! Lamento por causa do rapaz que morreu, mas um de nós teria que morrer e, no mais, tudo vai bem! Antes de chegar no Cosme Pinto, a gente faz uma parada, 39 enterra Colatino e almoça: dá tempo de chegar em Taperoá aí pelas duas horas da tarde, exatamente quando estará começando a Cavalhada que o Prefeito organizou. Vamos embora!

Montaram. O rapaz do cavalo branco também montou. Naquele tempo, as forças da violência e as divindades subterrâneas ainda estavam adormecidas em seu sangue, pois não tinham sido despertadas pelo veneno do nosso convívio. De modo que, sonhoso o absorto, ele ignorava naquele instante quantas cenas e quantas mortes como aquela sua chegada iria causar entre nós, durante os três anos que medearam entre aquela Véspera de Pentecostes de 1935 e a Semana da Paixão, deste nosso ano de 1938. Foi também esta cena inicial da "Demanda Novelosa do Reino do Sertão" que terminou batendo com meus costados na Cadeia onde estou preso, à mercê do julgamento de Vossas Excelências.

Naquele dia porém, e mesmo com o aviso dado pela Providência com a morte de Colatino, ainda não estava rompida a descuidosa mas culposa ignorância em que estávamos todos nós que iríamos participar da terrível Desaventura do rapaz do cavalo branco. O Sol alumiava e esquentava tudo, como antes. Como se tivesse sido por ele gerado, um Ferreiro, no mato, começou a desferir seu canto metálico, semelhante ao batido dum martelo numa bigorna, canto logo seguido pelos piados, também violentos o metálicos, de um bando de cancões. O corpo de Colatino, colocado de través em címa do cavalo, foi conduzido, assim, aguardando o enterro que o Doutor ordenara para logo mais, nas imediações do histórico riacho em que, no século XVII, o Ajudante Cosme Pinto iniciara a penetração do Cariri, sob as ordens do Capitão-Mor Teodósio de Oliveira Ledo. Novamente a tropa de Cavaleiros, com a bandeira à frente, tomou o caminho de Taperoá. Agora, porém, como precaução, o rapaz, o Doutor e o Frade iam no meio dos dois cordões de Cavaleiros e todos viajavam de rifle na mão, prontos para qualquer novo ataque. Aquele, porém, seria o último incidente sério, até a chegada a Taperoá. O perigo principal passara, de modo que, como tinha previsto desde 1922 a genial J. A. Nogueira - em seu livro Sonho de Gigante, que tanta influência exerceu entre nós, Acadêmicos sertanejos - naquele instante, passando o lajedo e a emboscada, "o Peregrino do Sonho transpunha, de repente, a fronteira de dois Reinos. O Rio subterrâneo deixava de refletir as tenebrosas asperezas da região da morte: elevou-se como uma Coluna de diamantes e, arrebentando à flor da terra, espraiou-se debaixo de um Céu de meio-dia, na região pedregosa do Sol e das altitudes, que o Reabilitados da vida elegera para iluminar com sua presença de Fogo".

FOLHETO IV

O Caso do Fazendeiro Degolado Pode-se dizer, nobres Senhores e belas Damas, que houve duas causas próximas para minha prisão. A primeira, foi a chegada, a Taperoá, do rapaz do cavalo branco. A segunda, estreitamente ligada a ela, foi o assassinato, por degolação, de meu tio e Padrinho, o fazendeiro Dom Pedro Sebastião Garcia-Barretto. Meu Padrinho foi encontrado morto, no dia 24 de Agosto de 1930, no elevado aposento de uma torre que existia na sua fazenda, a "Onça Malhada". Essa torre servia, ao mesmo tempo, de mirante à casa-forte, o de campanário à capela da fazenda, que era pegada à casa. Seu aposento superior era um quarto quadrado, sem móveis nem janelas. O chão, as grossas paredes e o teto abobadado desse aposento eram de pedra-e-cal. Por outro lado, meu Padrinho, naquele dia, entrara so no aposento e trancara-se lá em cima, dentro dele, usando, para isso, não so a chave, como a barra de ferro que a porta tinha por dentro, como tranca. Outra coisa misteriosa: no mesmo dia, Sinésio, o filho mais moço de meu Padrinho, desapareceu sem ninguém saber como. Dizia-se que fora raptado, a mando das pessoas que tinham degolado seu Pai, pessoas que odiavam o rapaz porque ele era amado pelo Povo sertanejo, que depositava nele as últimas esperanças de um enigmático Reino, semelhante àquele que meu bisavô criara. Sinésio fora raptado e, segundo se noticiou, morrera também de modo cruel e enigmático, dois anos depois, na Paraíba, o que não impedia o Povo de continuar esperando a volta e o Reino miraculoso dele.

Pergunto: e agora? Como e que meu Padrinho foi degolado num quarto de pesadas paredes sem janelas, cuja porta fora trancada por dentro, por ele mesmo? Como foi que os assassinos alí penetraram, sem ter por onde? Como foi que saíram, deixando o quarto trancado por dentro? Quem foram esses assassinos? Como foi que raptaram Sinésio, aquele rapaz alumioso, que concentrava em si as esperanças dos Sertanejos por um Reino de glória, de justiça, de beleza e de grandeza para todos? Bem, não posso avançar nada, porque aí é que está o nó! Este é o "centro de enigma e sangue" da minha história. Lembro que o genial poeta Nicolau Fagundes Varela adverte todos nós, Brasileiros, de que "os irônicos estrangeiros" vivem sempre vigilantes, sempre à espreita do menor deslize nosso para, então, "ridicularizar o pátrio pensamento":

ESCUDO DO MANTO DO RAPAZ DO CAVALO BRANCO

"Fatal destino o dos brasílios Mestres! Fatal destino o dos brasílios Vates! Política nefanda, horrenda e negra, pestilento Bulcão abafa e matá quanto, aos olhos de irônico estrangeiro, podia honrar o pátrio pensamento! "

Ora, um dos argumentos que os "irônicos estrangeiros" mais invocam para isso é dizer que nós, Brasileiros, somos incapazes de forjar uma verdadeira trança, uma intrincada teia, um insolúvel enredo de "romance de crime e sangue". Dizem eles que não é necessário nem um adulto dotado de argúcia especial: qualquer adolescente estrangeiro é capaz de decifrar os enigmas brasileiros, I os quais, tecidos por um Povo superficial, à luz de um Sol por demais luminoso, são pouco sombrios, pouco maldosos e subterrâneos, transparentes ao primeiro exame, facílimos de desenredar. ~ Ah, e se fossem somente os estrangeiros, ainda ia: mas até o excelso Gênio brasileiro Tobias Barretto, aí é demais! Diz I Tobias Barre tto que no Brasil é impossível aparecer um "romance ,, de gênio", porque "a nossa vida pública e particular não é bastante fértil de peripécias e lances romanescos". Lamenta que seja raro, entre nós, "um amor sincero, delirante, terrível e sanguinário", ou que, quando apareça, seja num velho como o Desembargador Pontes Visgueiro, o célebre assassino alagoano do Segundo Império. E comenta, ácido: "Um ou outro crime, mesmo, que porventura erga a cabeça acima do nível da vulgaridade, são coisas que não desmancham a impressão geral da monotonia continua. Até na estatística criminal o nosso País revela-se mesquinho. O delito mais comum é justamente o mais frívolo e estúpido: o furto de cavalos".

A gente lê uma coisa dessas e fica até desanimado, julgando ser impossível a um Brasileiro ultrapassar Homero e outros conceituados gênios estrangeiros! A sorte é que, na mesma hora, o Doutor Samuel nos lembra que a conquista da América Latina "foi uma Epopéia". Vemos que somos muito maiores do que a Grécia - aquela porqueirinha de terra! - e aí descansamos o pobre coração, amargurado pelas injustiças, mas também incendiado de esperanças! Sim, nobres Senhores e belas Damas: porque eu, Dom Pedro Quaderna (Quaderna, o Astrólogo, Quaderna, o Decifrador, como tantas vezes fui chamado); eu, Poeta-Guerreiro e soberano de um Reino cujos súditos são, quase todos, cavalarianos, trocadores e ladrões de cavalo, desafio qualquer irônico, estrangeiro ou Brasileiro, primeiro a narrar uma história de amor mais sangrenta, terrível, cruel e delirante do que a minha; e, depois, a decifrar, antes que eu o faça, o centro enigmático de

crime e sangue da minha história, isto é, a degola do meu Padrinho e a "desaparição profética" de seu filho Sinésio, o Alumioso, esperança e bandeira do Reino Sertanejo.

É por causa desses dois fatos que eu dizia, há pouco, que as causas próximas da minha prisão tinham sido a morte de meu Padrinho e a chegada do rapaz do cavalo branco a Taperoá. As causas remotas, porém, foram a Cantiga de La Condessa, que incendiou meu sangue na puberdade, e os sangrentos sucessos ocorridos exatamente há um século, de 1835 a 1838, quando minha família ocupou o trono do Brasil, no Sertão da Pedra do Reino, entre o Pajeú de Pernambuco e o Piancó da Paraíba. Estes últimos, além de serem os mais remotos, são também os acontecimentos mais importantes. Foram, talvez, a causa e o começo de "todas as vicissitudes da minha atribulada existência", como dizem os contos publicados num dos meus livros-de-cabeceira, o Almanaque Charadistico e Literário Luso-Brasileiro. É por isso que, logo de entrada, devo narra-los, a fim de que Vossas Excelências possam, aos poucos, ir fazendo do meu caso a opinião mais completa possível.

Para narrar essa história, valer-me-ei o mais que possa das palavras de geniais escritores brasileiros, como o Comendador Francisco Benfcio das Chagas, o Doutor Pereira da Costa e o Doutor Antônio Attico de Souza Leite, todos eles Acadêmicos ou consagrados e, portanto, indiscutíveis: assim, ninguém poderá dizer que estou mentindo por mania de grandeza e querendo sentar de novo um Ferreira-Quaderna, eu, no trono do Brasil, pretendido também - mas sem fundamento! - pelos impostores da Casa de Bragança. Faço isso também porque assim, nas palavras dos outros, fica mais provado que a história da minha família é uma verdadeira Epopéia, escrita segundo a receita do Retórico e gramático de Dom Pedro II, o Doutor Amorico Carvalho: uma história épica, com Cavaleiros armados e montados a cavalo, com degolações e combates sangrentos, cercos ilustres, quedas de tronos, coroas e outras monarquias - o que sempre me entusiasmou, por motivos políticos e literários que logo esclarecerei.

Aliás, minto: sempre, não! A princípio, a história de minha famflia era para nós, Ferreira-Quadernas, uma espécie de estigma vergonhoso e de mancha indelével do nosso sangue. E não era para menos, quando somente meu bisavô, El-Rei Dom João Ferreira-Quaderna, o Execrável, no espaço de três dias mandou degolar cinqüenta e três pessoas, incluindo-se entre elas trinta crianças inocentes, o que aconteceu no fatídico e astroso mês de Maio de 1838. Meu Pai, Dom Pedro Justino, e minha tia Dona Filipa, Irmã dele, tinham pavor de todas aquelas mortes cometidas por nossos antepassados, e temiam que o sangue dos inocentes caísse um dia sobre nossas cabeças, como os Judeus invocaram o sangue do Cristo sobre as deles.

Apesar de todos os cuidados, porém, um dia, meu velho parente e padrinho-de-crisma, o Cantador João Melchfades Ferreira, num momento de entusiasmo pelas grandezas da famflia, contou tudo isso a mim, que era seu discípulo "na Arte da Poesia". Fiquei terrivelmente abalado, sentindo como se aquele sangue me infeccionasse o meu de uma vez para sempre. Eu teria, então, uns doze anos; e, em tudo, o que mais me impressionava era a morte de um menino, mais ou menos de minha idade, degolado por seu próprio Pai, por ordem de meu bisavô. Na hora do sacrifício, o inocente, chorando, reprochava docemente o degolados, dizendo, num queixume: - "Meu Pai, você não dizia que me queria tanto bem?" Fiquei, assim, apavorado e fulminado, por descender do sangue ferreiral e quadernesco, carregado com tantos crimes! So depois, aos poucos, unindo aqui e ali uma ou outra idéia que Samuel, Clemente e outros me forneciam, é que fui entendendo melhor as coisas e descobrindo que podia, mesmo, transformar em motivo de honras, monarquias e cavalarias gloriosas, aquilo que meu Pai escondia como mancha e estigma do sangue real dos Quadernas. O Padre Daniel foi uma dessas pessoas: lá um dia provou ele, num sermão que causou espanto, que todos os homens, e não somente os Judeus, eram os assassinos do Cristo. Ao ouvi-lo, passei a refletir assim: - "Se isso e verdade, então todas as outras pessoas, e não somente os Quadernas, são responsáveis por aquelas mortes da Pedra do Reino"! E, com isso, comecei a me libertar do peso exclusivo de toda aquela carga de sangue. Outra pessoa foi o próprio João Melchíades Ferreira. Tempos depois, ele cantou para eu ouvir um folheto q.ie escrevera, a Vida, Paixão e Morte - Sorte, Símbolo e Sinais - de Nosso Senhor Jesus Cristo. Nesse folheto, João Melchíades, que ouvira o sermão do Padre Daniel, dizia Ia, a certa altura: "O Sangue que saiu dele, selou o nosso Destino.

Nós todos matamos Cristo: somos todos assassinos! Nós todos matamos Deus: por isso somos divinos!"

Não pude deixar de refletir de novo, dizendo-me que, se o fato de matar Deus, tinha tornado os homens divinos, o de me

/ originar de uma família de Reis, assassinos de Reis, era a maior prova da minha realeza.

Além desses testemunhos, porém, o Doutor Samuel Wandernes me disse um dia que eu, além do sangue cigano-árabe c godoflamengo, tenho, ainda, umas gotas de sangue judaico, herdadas de minha Mãe, Maria Sulpícia Garcia-Barretto. Depois daí, entendi: de qualquer modo eu estaria incluído entre os criminosos mais ilustres do mundo - aqueles que, por terem tido a coragem de matar Deus, tinham propiciado a todos os homens a possibilidade de ascender e se igualar ao Divino. Quanto ao Professor Clemente, provou-me ele, um dia, com exemplos tirados da História da Civilização, de Oliveira Lima, que todas as famílias reais do mundo são compostas de criminosos, ladroes de cavalo e assassinos, de modo que a minha não era, absolutamente, uma exceção. Depois daí, mesmo quando minha imaginação pegava fogo e eu evocava, sem querer, a degola de todas aquelas crianças, minha razão vinha em socorro da consciência, e eu opunha, ao que via, aquela outra degola dos inocentes, acontecida no Sertão da Judéia, no tempo em que Cristo era menino. Dizia-me que, apesar de ter sido o mandante daquela matança, Herodes passara à História com o nome glorioso de E1-Rei Herodes I, o Grande. E então já não me sentia mais desonrado, e sim orgulhoso, por ser bisneto de El-Rei Dom João II, o Execrável.

Mas para não me alongar muito, passo a contar logo a gloriosa e sangrenta ascensão dos Quadernas ao trono da Pedra do Reino do Sertão do Brasil.

assim, permanece de acesso difícil e penoso. É coberta de espinheiros entrançados de unhas-de-gato, malícia, favela, alastrados, urtigas, mororós e marmeleiros. Catolezeiros e cactos espinhosos rotnpletam a vegetação, e conta-se que o sangue que embebeu a terra e as pedras, durante o reinado dos Quadernas, foi tanto que, na Sexta-Feira da Paixão de cada ano, os catolezeiros começam a gemer, as pedras a refulgir no castanho e nas incrustações de prata ou malacacheta, e as coroas-de-frade começam a minar sangue, vermelho e vivo como se tivesse sido há pouco derramado.

Não é isso, porém, o elemento mais importante, ali, como fundamento de glória e sangue da minha realeza: são as duas enormes pedras castanhas a que já me referi, meio cilíndricas, meio retangulares, altas, compridas, estreitas, paralelas e mais ou menos iguais, que, saindo da terra para o céu esbraseado, numa altura de mais de vinte metros, formam as torres do meu Castelo, da Catedral èncantada que os Reis meus antepassados revelaram como pedras-angulares do nosso Império do Brasil. O genial Acadêmico sertanejo Antônio Attico de Souza Leite, nascido ali por perto, fala delas assim, na Crônica-Epopéica intitulada Memória sobre a Pedra Bonita, ou Reino Encantado, na Comarca de Vila-Bela, Província de Pernambuco, escrita em 1874 e apresentada em memorável sessão do "Instituto Arqueológico de Pernambuco": "A Pedra Bonita, ou Pedra do Reino, como lhe chamam hoje, são duas pirâmides imensas de pedra maciça, de cor férrea e de forma meio quadrangular, que, surgindo do seio da terra defronte uma da outra, elevam-se sempre à mesma distância, guardando grande semelhança com as torres de uma vasta Matriz, a uma altura de cento e cinqüenta palmos (ou seja, trinta e três metros). A que fica para o lado do Nascente, em conseqüência de uma espécie de chuvisco prateado de que está coberta, de meia altura para cima, e que parece infiltração de malacacheta, adquiriu o nome de Pedra Bonita, em completo prejuízo da companheira. Ao Poente, e logo na extremidade da segunda pirâmide, ou Torre, há uma pequena sala meio subterrânea, a que chamavam Santuário, não só por ser o lugar onde primeiro entravam os noivos, depois de casados pelo falso Sacerdote da seita, o intitulado Frei Simão, como porque era ali que o Vaticinados, o execrável Rei João Ferreira-Quaderna, afirmava, em suas práticas, que ressuscitariam gloriosamente, com El-Rei Dom Sebastião, todas as vítimas que lhe fossem oferecidas. Ao Sul desta sala, porém próximas dela, elevam-se várias pedras grandes, sobrepostas umas às outras, as quais formam uma espécie de caramanchão abobadado. Este lugar tinha o nome de Trono ou Púlpito, por ser dele que El-Rei Dom João Ferreira-Quaderna, inculcado Profeta, pregava a seus sectários. Cerca de duzentas braças ao Norte das duas Torres,

FOLHETO V

Primeira Notícia dos Quadernas e da Pedra do Reino A Pedra do Reino situa-se numa serra áspera e pedregosa do Sertão do Pajeú, fronteira da Paraíba com Pernambuco, serra que, depois dos terríveis acontecimentos de 18 de Maio de 1838, passou a ser conhecida como "Serra do Reino". Dela descem águas que, através dos rios Pajeú, Piancó e Piranhas, são ligadas a três dos "sete Rios sagrados" e três dos sete Reinos do meu Império. Hoje, a Serra está menos áspera e impenetrável do que no tempo do meu bisavô Dom João Ferreira-Quaderna. Ainda existe um Penedo colossal, cuja concavidade natural, na inferior, formava um grande esconderijo que, aumentado por profunda escavação que ali fizeram os Sebastianistas, adquiriu porções para comportar o número de duzentas pessoas. Este 1 é conhecido pelo nome de Casa-Santa, por ser ali que o peru e execrável Rei João Ferreira-Quaderna recolhia e embriagav seus associados, ministrando-lhes beberagens, todas as vezes pretendia vítimas voluntárias para o Reino".

Este, nobres Senhores e belas Damas, foi um dos trecho Crônica-Epopéica que mais influência exerceram na minha fo cão político-literária. Foi ele que me convenceu, de uma vez todas, que havia alguma coisa de sagrado, escondida e aprisio nas grades de granito de tudo quanto é pedra sertaneja po afora. Foi ele que tornou para sempre sagradas em meu sa as palavras torre, pedra, prata, chuvisco prateado, Profeta, tr sebastianismo, penedo, pedras de cor férrea, brilho de malacac Catedral, Reino e Vaticinados.

Ocorre, ainda, que eu tinha lido, no jornal do Govern Paraíba, A União, um artigo, publicado em 1924, pelo extra nário Ademar Vidal, escritor paraibano tão importante que che até, a ser Delegado de Polícia. Nesse artigo, contava ele viagem que tinha feito pelo Sertão, e dizia que as pedras e laj do nosso sagrado Cariri encontram-se, às vezes, em aglomer que parecem Fortalezas ou Castelos arruinados. A partir daí, vez que eu me lembrava dos dois rochedos gêmeos da Pedra Reino, era como se eles fossem, além da Catedral Soterranha Os Reis, meus antepassados, tinham revelado, a Fortaleza Castelo onde se fundamenta a realeza do nosso sangue.

Em 1838, o Padre Francisco José Corres de Albuque fez um desenho representando as duas Pedras Encantadas do n Reino, desenho que Pereira da Costa e Souza Leite publica Levei meu irmão Taparica à nossa Biblioteca e pedi-lhe copiasse a estampa do Padre, cortando-a, depois, na madeira, ser impressa num "folheto" que eu pensava publicar, tendo c assunto o nosso Reino. Taparica, a princípio, fez cara feia. que, no desenho do Padre, tudo era miúdo demais, e que, daq jeito, dava muito trabalho para cortar. Retruquei que ele modificar o desenho a seu modo. Então concordou, e fez a gra que vai anexada, também, aos Autos desta Apelação, para pro cionar a Vossas Excelências todos os elementos necessários estudo da questão.

Como se vê por essa simples amostra, os acontecimentos da edra do Reino foram suficientemente astrosos e fatídicos para arcar para sempre meu sangue de realeza. De fato, porém, nossa gia história começa antes, noutra Pedra sagrada, a "Serra do odeador", onde, em 1819, aparecem três Infantes sertanejos. O cimeiro, Dom Silvestre José dos Santos, que morreu sem desndência, foi o primeiro varão de minha família a subir ao trono, m o nome de Dom Silvestre I, o Rei do Rodeador. O segundo ra seu irmão, Dom Gonçalo José Vieira dos Santos. O terceiro t meu trisavô, Dom José Maria Ferreira-Quaderna, primo-legímo e cunhado dos outros dois, por ter se casado com a irmã eles, a Infanta Dona Maria Vieira dos Santos, em cujo ventre na gerado meu bisavô, Dom João Ferreira-Quaderna, o Exeável.

O reinado de Dom Silvestre I, no Rodeador, foi curto, mas tinha todas as características tradicionais da nossa Dinastia. u trono era uma Pedra sertaneja, Catedral, Fortaleza e Castelo. ali, ele pregava também a ressurreição daquele Rei antigo, sanem,, casto e sem mancha, que foi Dom Sebastião, o Desejado.

gava também a Revolução, com a degola dos poderosos e a tauração de novo Reino, com o Povo no poder. O consagrado adémico pernambucano, Doutor Pereira da Costa, fez sua Crôca, que não transcrevo por economia retórica. Limito-me a inrmar que, temerosos os proprietários das redondezas pela proagação de Reino tão revolucionário, fizeram apelo ao Governador ufs do Rego, que mandou para lá uma tropa, comandada pelo arechal Luís Antônio Salazar Moscoso. Incendiaram o Arraial, orrendo nas chamas mulheres e crianças, enquanto os homens ue escaparam ao incêndio e à fuzilaria foram passados a fio de pada.

A Crônica-Epopéica de Pereira da Costa aumentou danadaente o número de minhas palavras sagradas, com séquito, ressurição, El-Rei, tesouro, templo, revelação, quimeras, prodígios, enntamentos, encantação, desencantação, jóia, agraciado, confrade, enitente, abóbada, liturgia, desafio, armas, beberagem, gado, /0 go, raiai, carnificina, assalto povoação, chamas, espadas e fuzilarias. oda vez que eu evocava esse primeiro reinado, o Primeiro Império a minha família, via todo aquele sangue derramado no Rodeador nes flan de tent mai de lida Cler tóri~ do r sino Dep evoc razã* aque no t sido com já ni de F e sar do S FO] Prir e da E Sertãc que, c passos águas a três Impér no tel existe um Penedo colossal, cuja concavidade natural, na parte inferior, formava um grande esconderijo que, aumentado por uma profunda escavação que ali fizeram os Sebastianistas, adquiriu proporçôes para comportar o número de duzentas pessoas. Este lugar é conhecido pelo nome de Casa-Santa, por ser ali que o perverso e execrável Rei João Ferreira-Quaderna recolhia e embriagava os seus associados, ministrando-lhes beberagens, todas as vezes que pretendia vítimas voluntárias para o Reino".

Este, nobres Senhores e belas Damas, foi um dos trechos de Crônica-Epopéica que mais influência exerceram na minha formação político-literária. Foi ele que me convenceu, de uma vez por todas, que havia alguma coisa de sagrado, escondida e aprisionada nas grades de granito de tudo quanto é pedra sertaneja por at afora. Foi ele que tornou para sempre sagradas em meu sangue as palavras torre, pedra, prata, chuvisco prateado, Profeta, trono, sebastianismo, penedo, pedras de cor férrea, brilho de malacacheta, Catedral, Reino e Vaticinados.

Ocorre, ainda, que eu tinha lido, no jornal do Governo da Paraíba, A União, um artigo, publicado em 1924, pelo extraordinário Ademar Vidal, escritor paraibano tão importante que chegou, até, a ser Delegado de Policia. Nesse artigo, contava ele uma viagem que tinha feito pelo Sertão, e dizia que as pedras e lajedos do nosso sagrado Cariri encontram-se, às vezes, em aglomerados que parecem Fortalezas ou Castelos arruinados. A partir daí, toda vez que eu me lembrava dos dois rochedos gêmeos da Pedra do Reino, era como se eles fossem, além da Catedral Soterranha que os Reis, meus antepassados, tinham revelado, a Fortaleza e o Castelo onde se fundamenta a realeza do nosso sangue.

Em 1838, o Padre Francisco José Corres de Albuquerque fez um desenho representando as duas Pedras Encantadas do nosso Reino, desenho que Pereira da Costa e Souza Leite publicaram. Levei meu irmão Taparica à nossa Biblioteca e pedi-lhe qu copiasse a estampa do Padre, cortando-a, depois, na madeira, para ser impressa num "folheto" que eu pensava publicar, tendo como assunto o nosso Reino. Taparica, a princípio, fez cara feia. Dizia que, no desenho do Padre, tudo era miúdo demais, e que, daquele jeito, dava muito trabalho para cortar. Retruquei que ele podia modificar o desenho a seu modo. Então concordou, e fez a gravura que vai anexada, também, aos Autos desta Apelação, para propor cionar a Vossas Excelências todos os elementos necessários a estudo da questão.

Como se vê por essa simples amostra, os acontecimentos da pedra do Reino foram suficientemente astrosos e fatídicos para marcar para sempre meu sangue de realeza. De fato, porém, nossa régia história começa antes, noutra Pedra sagrada, a "Serra do Rodeador", onde, em 1819, aparecem três Infantes sertanejos. O primeiro, Dom Silvestre José dos Santos, que morreu sem descendência, foi o primeiro varão de minha família a subir ao trono, com o nome de Dom Silvestre I, o Rei do Rodeador. O segundo era seu irmão, Dom Gonçalo José Vieira dos Santos. O terceiro foi meu trisavô, Dom José Maria Ferreira-Quaderna, primo-legítimo e cunhado dos outros dois, por ter se casado com a irmã deles, a Infanta Dona Maria Vieira dos Santos, em cujo ventre seria gerado meu bisavô, Dom João Ferreira-Quaderna, o Execrável.

O reinado de Dom Silvestre I, no Rodeador, foi curto, mas já tinha todas as características tradicionais da nossa Dinastia. Seu trono era uma Pedra sertaneja, Catedral, Fortaleza e Castelo. Dali, ele pregava também a ressurreição daquele Rei antigo, sangrento, casto e sem mancha, que foi Dom Sebastião, o Desejado. Pregava também a Revolução, com a degola dos poderosos e a instauração de novo Reino, com o Povo no poder. O consagrado Acadêmico pernambucano, Doutor Pereira da Costa, fez sua Crônica, que não transcrevo por economia retórica. Limito-me a informar que, temerosos os proprietários das redondezas pela propagação de Reino tão revolucionário, fizeram apelo ao Governador Luís do Rego, que mandou para lá uma tropa, comandada pelo Marechal Luís Antônio Salazar Moscoso. Incendiaram o Arraial, morrendo nas chamas mulheres e crianças, enquanto os homens que escaparam ao incêndio e à fuzilaria foram passados a fio de espada.

A Crônica-Epopéica de Pereira da Costa aumentou danadamente o número de minhas palavras sagradas, com séquito, ressurreição, El-Rei, tesouro, templo, revelação, quimeras, prodigios, encantamentos, enc-antação, desencantação, jóia, agraciado, confrade, penitente, abóbada, liturgia, desafio, armas, beberagem, gado, fogo, arraial, carpi ficina, assalto, povoação, chamas, espadas e fuzilarias. Toda vez que eu evocava esse primeiro reinado, o Primeiro Império da minha família, via todo aquele sangue derramado no Rodeador

FOLHETO VI

O Primeiro Império existe um Penedo colossal, cuja concavidade natural, na parte inferior, formava um grande esconderijo que, aumentado por uma profunda escavação que ali fizeram os Sebastianistas, adquiriu proporções para comportar o número de duzentas pessoas. Este lugar é conhecido pelo nome de Casa-Santa, por ser ali que o perverso e execrável Rei João Ferreira-Quaderna recolhia e embriagava os seus associados, ministrando-lhes beberagens, todas as vezes que pretendia vítimas voluntárias para o Reino".

Este, nobres Senhores e belas Damas, foi um dos trechos de Crônica-Epopéica que mais influência exerceram na minha formação político-literária. Foi ele que me convenceu, de uma vez por todas, que havia alguma coisa de sagrado, escondida e aprisionada nas grades de granito de tudo quanto é pedra sertaneja por at afora. Foi ele que tornou para sempre sagradas em meu sangue as palavras torre, pedra, prata, chuvisco prateado, Profeta, trono, sebastianismo, penedo, pedras de cor férrea, brilho de malacacheta, Catedral, Reino e Vaticinados.

Ocorre, ainda, que eu tinha lido, no jornal do Governo da Paraíba, A União, um artigo, publicado em 1924, pelo extraordinário Ademar Vidal, escritor paraibano tão importante que chegou, até, a ser Delegado de Polícia. Nesse artigo, contava ele uma viagem que tinha feito pelo Sertão, e dizia que as pedras e lajedos do nosso sagrado Cariri encontram-se, às vezes, em aglomerados que parecem Fortalezas ou Castelos arruinados. A partir daí, toda vez que eu me lembrava dos dois rochedos gêmeos da Pedra do Reino, era como se eles fossem, além da Catedral Soterranha que os Reis, meus antepassados, tinham revelado, a Fortaleza e o Castelo onde se fundamenta a realeza do nosso sangue.

Em 1838, o Padre Francisco José Corres de Albuquerque fez um desenho representando as duas Pedras Encantadas do nosso Reino, desenho que Pereira da Costa e Souza Leite publicaram. Levei meu irmão Taparica à nossa Biblioteca e pedi-lhe que copiasse a estampa do Padre, cortando-a, depois, na madeira, para ser impressa num "folheto" que eu pensava publicar, tendo como assunto o nosso Reino. Taparica, a princípio, fez cara feia. Dizia que, no desenho do Padre, tudo era miúdo demais, e que, daquele jeito, dava muito trabalho para cortar. Retruquei que ele podia modificar o desenho a seu modo. Então concordou, e fez a gravur que vai anexada, também, aos Autos desta Apelação, para propor cionar a Vossas Excelências todos os elementos necessários a estudo da questão.

Como se vê por essa simples amostra, os acontecimentos da pedra do Reino foram suficientemente astrosos e fatídicos para marcar para sempre meu sangue de realeza. De fato, porém, nossa régia história começa antes, noutra Pedra sagrada, a "Serra do Rodeador", onde, em 1819, aparecem três Infantes sertanejos. O primeiro, Dom Silvestre José dos Santos, que morreu sem descendência, foi o primeiro varão de minha família a subir ao trono, com o nome de Dom Silvestre I, o Rei do Rodeador. O segundo era seu irmão, Dom Gonçalo José Vieira dos Santos. O terceiro foi meu trisavô, Dom José Maria Ferreira-Quaderna, primo-legítimo e cunhado dos outros dois, por ter se casado com a irmã deles, a Infanta Dona Maria Vieira dos Santos, em cujo ventre seria gerado meu bisavô, Dom João Ferreira-Quaderna, o Execrável.

O reinado de Dom Silvestre I, no Rodeador, foi curto, mas já tinha todas as características tradicionais da nossa Dinastia. Seu trono era uma Pedra sertaneja, Catedral, Fortaleza e Castelo. Dali, ele pregava também a ressurreição daquele Rei antigo, sangrento, casto e sem mancha, que foi Dom Sebastião, o Desejado. Pregava também a Revolução, com a degola dos poderosos e a instauração de novo Reino, com o Povo no poder. O consagrado Acadêmico pernambucano, Doutor Pereira da Costa, fez sua Crônica, que não transcrevo por economia retórica. Limito-me a informar que, temerosos os proprietários das redondezas pela propagação de Reino tão revolucionário, fizeram apelo ao Governador Luís do Rego, que mandou para lá uma tropa, comandada pelo Marechal Luis Antônio Salazar Moscoso. Incendiaram o Arraial, morrendo nas chamas mulheres e crianças, enquanto os homens que escaparam ao incêndio e à fuzilaria foram passados a fio de espada.

A Crônica-Epopéica de Pereira da Costa aumentou danadamente o número de minhas palavras sagradas, com séquito, ressurreição, El-Rei, tesouro, templo, revelação, quimeras, prodígios, encantamentos, encantação, desencantação, jóia, agraciado, confrade, penitente, abóbada, liturgia, desafio, armas, beberagem, gado, fogo, arraial, carnificina, assalto, povoação, chamas, espadas e fuzilarias. Toda vez que eu evocava esse primeiro reinado, o Primeiro Império da minha família, via todo aquele sangue derramado no Rodeador

FOLHETO VI

Q Primeiro Impériopingando sobre uma Coroa de Prata. Via as espadas luzindo por entre chamas gloriosas, ao pipocar da fuzilaria. Via meus parentes, tingindo os dentes e escumando de raiva sagrada, lutando na defesa do Arraial incendiado, por entre fogaréus, quimeras, prodfgios e revelações.

Era assim que, aos poucos, o Trono da minha família ia mpeçonhando e glorificando meu sangue, até que eu chegasse a ser "o prodígio e encantamento" que sou hoje; e foi por isso que, quando o rapaz do cavalo branco reapareceu miraculosamente entre nós, meu sangue estava preparado e eu ousei me meter, apesar de toda a minha covardia, em sua terrível Desaventura.

Outra coisa importante é que, como diz Pereira da Costa, a tradição da minha família é sempre a fundação de um Reino junto a uma Pedra, dentro da qual, prisioneiro e encantado, está E1-Rei Dom Sebastião, o Desejado. No Reino, domina um Catolicismo meio-maçônico e sertanejo, baseado no qual nossa família começa a assaltar os gados, as terras, as fazendas, as pastagens e os dinheiros dos proprietários ricos, para distribuí-los com os súditos pobres e fiéis do Reino, juntamente com Cartas-Patentes e Cartas-de-Brasão. Tudo isso ia sendo pacientemente estudado e entendido por mim que, à medida que me punha adulto, ia guardando tudo isso em meu coração, para quando se completasse, de 1935 a 1938, o Século da Pedra do Reino, abrindo-se caminho para que um Ferreira-Quaderna se sentasse novamente no Trono do Sertão do Brasil.

FOLHETO VII

GRAVURA DE TAPARICA, BASEADA NO DESENHO DO PADRE E REPRESENTANDO AS PEDRAS DO REINO. VE-SE, A DIREITA, COM CETRO E MANTO, MEU BISAVO DOM JOAO FERREIRA-QUADERNA, O EXECRÁVEL, E, A ESQUERDA, MINHA BISAVO, A PRINCESA ISABEL, SENDO DEGOLADA. EMBAIXO DA PEDRA, O RECÉM-NASCIDO QUE ELA PARIU NOS ESTREME ÇOS DA MORTE E QUE, DEPOIS, FOI MEU AVO, DOM PEDRO ALEXANDRE.

O Segundo Império O Primeiro Reinado de minha família terminou, portanto, com a queda gloriosa e fatídica da Pedra do Rodeador, por entre

chamas, com o Rei Dom Silvestre I degolado a fio de espada.

Seu irmão, sua irmã e o marido desta, porém, escaparam à chacina. Vendo o perigo que corriam se ficassem por ali, emigra ram para o Sertão do Pajeú, fixando-se em terras daquela que seria, depois, a Serra do Reino. Era um decreto da Providência

Divina, que desejava fixar os Ferreira-Quadernas exatamente na fronteira das duas Províncias niais sagradas do Império do Brasil, a Paraíba e Pernambuco, às quais somente o Rio Grande do Norte pode ser ajuntado em absoluto pé. de igualdade. Delineavam-se assim, aos poucos, as fronteiras do nosso Império da Pedra do Reino, cortado pelos sete Rios sagrados e integrado por seus sete Reinos tributários.

Chegaram, pois, aqueles Príncipes, errantes, retirantes e malandantes, pelas estradas e descaminhos do Sertão, até a Serra Talhada, onde, ocultando a linhagem principesca de seu sangue, acolheram-se à proteção daquela simples família de Barões sertanejos, os poderosos e façanhudos Pereiras - família que, em nosso tempo, daria aquele magnífico Luís do Triângulo, Condestável do Reino de Princesa e chefe da tropa do rapaz do cavalo branco.

Pouco iria durar, porém, a tranqüilidade plebéia que meus antepassados afetavam na Vila Bela da Serra Talhada, porque vocação de Rei é mesmo que o Diabo para atentar o sangue da minha família! Lá um dia, o Infante Dom João Antônio Vieira dos Santos, filho de Dom Gonçalo José, sabendo a gloriosa história vivida por seu tio, EI-Rei Dom Silvestre I, inflamou-se também da sagrada ambição do Trono e do dom escumante da Profecia, e, proclamando-se Rei, iniciou o Segundo Império, com nova pregação do Reino-Encantado e subindo ao trono com o nome de Dom João I, o Precursor. Conta, lá, o genial Antônio Áttico de Souza Leite: "Tempestuoso e medonho, corria o ano de 1835. A comarca de Flores, retalhada por partidos, era teatro de constantes desordens e conflitos. Daí para os começos de 1836, um mameluco de nome Joãò Antônio dos Santos, morador no termo de Vila Bela da Serra Talhada, munido de duas pedrinhas mais ou menos formosas que ele mostrava misteriosamente, dizia aos incautos habitantes daquele lugar serem elas dois brilhantes finíssimos, tirados por ele próprio de uma Mina encantada que lhe fora revelada. Inspirado num velho folheto, do qual nunca se apartava, e que encerrava um desses contos ou lendas, que andavam muito em voga, acerca do misterioso desaparecimento de El-Rei Dom Sebastião, na Batalha de Alcácer-Quibir, em Africa, e de sua esperada e quase infalível ressurreição, tratou de propalar pela população daquele e dos vizinhos distritos, que estava sendo conduzido todos os dias, por EI-Rei Dom Sebastião, a um sítio pouco distante do lugar de sua residência, no qual mostrava-lhe EI-Rei, além de uma Lagoa encantada, de cujas margens extraíra ele aqueles e outros brilhantes, duas belíssimas Torres, de um Templo já meio visível, que seria, por certo, a Catedral do Reino, na época pouco distante da sua Restauração. Assim discorrendo, e nunca se esquecendo de mostrar, entre outros, um tópico do folheto em que o Visionário escritor, improvisado em Profeta, ensinava que quando João se casasse com Maria, aquele Reino se desencantaria, conseguiu ele, graças à ignorância da população e à bem conhecida tendência que o espírito humano tem para abraçar o maravilhoso e o fantástico, não só realizar o seu casamento com uma interessante rapariga de nome Maria - que sempre, até ali, lhe fora negada - como obter, por empréstimo, de muitos Fazendeiros do lugar, bois, cavalos e dinheiro, em porção não pequena, com a onerosa condição de restituir tudo em muitos dobros, logo que se operasse o pretenso desencantamento do misterioso Reino. Desde o começo de sua prédica, auxiliavam-tio seu próprio Pai, Gonçalo José Vieira dos Santos, seu irmão Pedro Antônio, seus tios e parentes José Joaquim Vieira, Manuel Vieira, José Vieira, Carlos Vieira, José-Maria Ferreira-Quaderna e João Pilé Vieira Gomes, os quais, constituindo, por assim dizer, o seu Apostolado, iam dar testemunho das suas riquezas e fazer repercutir os seus engenhosos embustes no meio das populações ignorantes do Piancó, do Cariri, Riacho do Navio e margens do Rio São Francisco. Seus esforços e os dos seus mais ardentes sectários iam engrossando gradualmente a seita com multiplicadas conquistas feitas nas últimas camadas da sociedade. Essas e outras considerações moveram o Padre Antônio Gonçalves de Lima a reclamar a presença do missionário Padre Francisco José Correa de Albuquerque naquele distrito. 0 incansável apóstolo, apesar de sua idade setuagenária e falta de saúde, não se fez esperar. Instruído de tudo quanto havia, seguiu para a fazenda `Cachoeira', pertencente ao Capitão Simplício Pereira, onde, felizmente, compareceu o impostor, ainda durante as Missões, perante o admirável Levita. Depois de entregar-lhe as duas pedras - que estavam longe de ser brilhantes - e de publicamente confessar os seus embustes, prometeu-lhe retirar-se do lugar, o que pôs logo em execução, procurando os lados do Rio do Peixe, Sertão da Paraíba, e passando dali aos do Sertão dos Inhamuns, no Ceará".

Como se vê, a tradição do nosso Reino continuava. E teria ido logo muito longe, se não fosse a intervenção indébita desse Padre, que convenceu meu tio-bisavô, Dom João I, a abdicar, o que mostra como o Catolicismo puramente romano, ortodoxo e oficial, é funesto para a sagrada Coroa do Sertão. Foi por ter ido nessa conversa que meu tio Dom João I perdeu esse nome, tão régio

FOLHETO VIII

0 Terceiro Império e glorioso, recebendo outro, apenas ducal - o de Dom João Antônio, Prior do Crato (por ter ido morar nas imediações do Crato, Sertão do Ceará). Mas essas coisas de Monarquia são tão imprevisíveis, que aquilo que parecia um acontecimento funesto para a nossa Casa era apenas um desígnio secreto da Providência Divina, que desejava instaurar, no Sertão, o Terceiro Império, aquele que viria a ser, verdadeiramente, o núcleo-encantado de fogo e sangue da realeza dos Quadernas.

Acontece que meu bisavô, o Infante Dom João Ferreira-Quaderna, tinha seduzido e raptado, de uma vez só, suas duas primas, a Infanta Josefa e a Princesa Isabel, irmãs do Rei Dom João I, que abdicara. Meu bisavô era meio tarado, bastando dizer que, depois, quando já tinha sido coroado Rei, instituiu, na Pedra do Reino, um ritual Católico-Sertanejo, segundo o qual ele, Rei, era quem primeiro possuía as noivas, no dia do casamento, o que fazia, segundo explicava, "para inoculá-las com o Espírito Santo". Parece que ele só conseguia ser macho praticando, ao mesmo tempo, um sacrilégio e uma crueldade - mas, então, depois de assim despertada pelo sangue e pela maldade, não havia quem contivesse mais sua potência. Pois bem: como o Catolicismo-Sertanejo da Pedra do Reino permitia a poligamia, Dom João FerreiraQuaderna, o Execrável, chegou a ter o número sagrado de sete mulheres, entre as quais as importantes, mesmo, eram as duas Princesas irmãs, Josefa e Isabel, por serem de sangue real.

Ora, depois de seduzir as duas Infantas, meu bisavô viajara com elas para o Sertão da Paraíba, ainda no reinado de Dom João I. Aí, nas bandas de Catolé do Rocha, foi encontrá-lo, depois de sua abdicação, seu cunhado e primo, o agora Prior do Crato, Dom João Antônio, irmão das moças, o qual lhe contou todas as grandezas e cavalarias, quimeras e encantamentos, que realizara no Pajeú. Disse-lhe que, apesar de ter abdicado, deixara lá, bem plantados, os alicerces e fundamentos da Pedra do Reino do Sertão, com a Lagoa encantada dos diamantes, as minas de prata e as duas torres do Castelo, Catedral e Fortaleza da nossa Raça. Consta mesmo que ele teria dito ao cunhado: - "João! A Pedra do Reino será o fundamento do Império do Brasil! Se assim for, põe a Coroa sobre a tua cabeça, antes que outro aventureiro lance mão dela!" E então, ali mesmo, com os direitos proféticos de Prior, que tinha, sagrou, como novo Rei, seu cunhado e bisavô meu; o qual, com o nome de Dom João II, tomou suas mulheres, regressou ao Pajeú, assumiu o Trono e iniciou o Terceiro Império.

Sobre tudo isso, existe um papel do Governo, coisa oficial e portanto indiscutível. É uma carta-relatório, dirigida a Francisco do Rego Barros, Conde da Boa Vista, Governador, no tempo do Império, da Província de Pernambuco. Foi escrita pelo Prefeito de Flores, o Fidalgo sertanejo Francisco Barbosa Nogueira Paes, e registrada na Secretaria do Governo de Pernambuco, o que prova que até o falso e estrangeirado Império dos Braganças reconheceu oficialmente, através de seu Condezinho de merda, a realidade do Império da Pedra do Reino do Brasil. Nesse documento fica provado que meu bisavô, coroado Rei, foi quem teve, realmente, a idéia sagrada e gloriosa de banhar as torres do nosso Castelo de Pedra com o sangue dos inocentes. É por isso que o Terceiro Império da Pedra do Reino do Brasil. Nesse documento fica estigma indelével da realeza. Apesar de oficial, porém, e de ter instilado em mim a peçonha do "campo encantado e sagrado, banhado de sangue", a carta-relatório omite uma porção de fatos importantes ligados à política dos Quadernas. Não explica, por exemplo, que o exército d'El-Rei Dom Sebastião viria era para destruir os poderosos. Nem relata que, além das pessoas, meu bisavô mandava também degolar cachorros que, no dia da Ressurreição, deveriam voltar, transformados em dragões, para devorar todos os proprietários, repartindo-se então as terras dos finados com os pobres. Por isso, Pereira da Costa, depois de confirmar que o Rei tinha sete mulheres, diz que, "além do fanatismo religioso", transparecia também, "entre esses Visionários, um como que pensamento socialista".

O Terceiro Império durou de 1836 a 1838. Infelizmente, porém, como sempre acontece nesses casos de Monarquia trágicoepopeica, a traição emboscava o Sagrado Império da Pedra do Reino, o que aconteceu como passo a narrar.

Ocorre que, atraindo o Reino sempre novos adeptos, alguns primos nossos, da família Vieira, convidaram para que nele entrasse um nosso parente, o Conde Dom José Vieira Gomes, homem falso, traiçoeiro, lacaio, fatídico e astroso, que terminaria renegado. Era Vaqueiro do Comandante Manuel Pereira, fidalgo, rico e poderoso, pai do Barão do Pajeú. A família Pereira, a mais poderosa entre os Barões sertanejos daquela zona, era uma das mais atingidas pela pregação revolucionária da Pedra do Reino. Por isso, a traição do Conde foi, para eles, uma bênção do céu. 0 traidor, levado para a Serra do Reino, viu tudo e se aproveitou de tudo, durante vários dias. Inclusive, bebeu o Vinho encantado e sagrado, cuja receita integral só os Príncipes de sangue da nossa Casa conhecem. Assim, divinamente embriagado, viu os tesouros de prata e diamante do Reino e possuiu não sei quantas mulheres que meu bisavô generosamente lhe cedeu. Pois bem: apesar de todos esses privilégios, aquele judas, aquele cairn, foi delatar as atividades e o caminho de acesso do nosso Reino aos herodes e caifases da família Pereira.

Foi em Maio de 1838 que se deu o "instante de fulminação" do Império da Pedra do Reino. Naquele mês, meu bisavô teve a gloriosa coragem de iniciar o grande banho-de-sangue, que deveria depois se estender numa verdadeira guerra sertaneja, a "Guerra do Reino", com a degola geral dos proprietários, indispensável, segundo Samuel e Clemente, a toda Revolução que se preza. Como a justiça, para ser boa, começa de casa, era porém entre os próprios súditos do Reino que deveria se iniciar a matança: os que se apresentassem voluntariamente para a degola, ressuscitariam daí a três dias como "Grandes do Império", belos, poderosos, eternamente jovens e imortais.

0 velho Infante, Dom José Maria Ferreira-Quaderna, meu trisavô e pai do Rei, foi o primeiro a dar o exemplo, sendo degolado, e banhando-se as pedras com o sangue dele. Seguiram-se outras mortes, a princípio voluntárias, depois não, porque isso de ser degolado, mesmo com ressurreição garantida, é incômodo como o diabo. Aí o Rei, impacientando-se, escolheu alguns carrascos, principalmente entre nossos primos Vieiras, e mandou que pegassem, à força, as vítimas que, tendo sido escolhidas, se recusassem à degola.

De um jeito ou de outro, a matança foi grande, "e o sangue foi até a junta grossa", como dizia o Regente Dom Antônio Conselheiro, em Canudos. Ora, em tais momentos, aparecem sempre os gritos, os pedidos de compaixão, as preces e as lágrimas dos escolhidos para a Morte. Pois foi sob o pretexto de compaixão, que o refalsado Conde, Dom José Vieira Gomes, aproveitando os gritos desesperados das vítimas e a confusão causada pelas degolações, fugiu por uma vereda perdida, entre cactos e unhas-de-gato, indo chamar as tropas dos Barões do Pajeú, os Pereiras, que aniquilaram o Sagrado Império da Pedra do Reino. Conta o nosso Cronista-Mor, Antônio Áttico de Souza Leite: - "Eram mais ou menos dez horas da manhã, do dia 17 de Maio de 1838. Sentado com seus irmãos Cipriano e Alexandre Pereira na frente de sua fazenda `Belém', situada cinco léguas ao poente da Serra Talhada, o Comandante Manuel Pereira praticava com eles a respeito do abandono em que estavam os gados de sua fazenda `Caiçara', depois da inesperada ausência de seu Vaqueiro, José Vieira Gomes. De repente, aproxima-se e ajoelha-se diante deles um indivíduo imundo, andrajoso, desfigurado e assustado. Era José Vieira Gomes, o vaqueiro que há mais de vinte dias desaparecera, e agora prorrompia em suplicantes vozes: - Valha-me, meu Amo, e perdoe-me pelo amor de Deus! Fazem mais de vinte dias que meu tio José Joaquim Vieira veio iludir-me na fazenda de Vossa Senhoria! Conduziu-me para a Serra Formosa, para ver muitas coisas bonitas e ajudá-lo na defesa dos tesouros e do Reino descoberto por João Antônio dos Santos, os quais contou-me que já tinham sido desencantados por outro Rei, muito sábio, João Ferreira-Quaderna, mandado por ele da Paraíba. Não sou ambicioso, mas fui ver se isso era verdade. Chegando lá, em verdade encontrei muita gente ao pé da Pedra Bonita, e o Rei, com uma grande Coroa na cabeça, trepado numa ponta de pedra, pregando, cantando e saltando, muito alegre. Quando ele findou a sua prática, o Povo deu muitos vivas a El-Rei Dom Sebastião, e meu primo Manuel Vieira, a quem chamam agora Frei Simão e que estava lá, com o Pai, a família e os irmãos, foi fazer dois casamentos, de umas moças do Piancó, entregando-as, em seguida, ao Rei, para dispensá-las (consistia esta dispensa em passar a noiva ao poder do Rei, que a restituía no outro dia, completamente dispensada). Isto feito, o Rei - a quem, em particular, também chamavam João Ferreira, e, às vezes, simplesmente Joca - deu o braço às duas noivas e seguimos todos, tocando, cantando e batendo palmas, para a Casa Santa, espécie de subterrâneo aberto por baixo de um Penedo prodigioso. Ali, todos beberam um líquido, dado pelo Rei, ao qual chamavam Vinho Encantado, certa composição de jurema e manacá: tem a propriedade do álcool e do ópio, ao mesmo tempo. E fomos fumar em cachimbos, para vermos as riquezas. Iam-se assim passando os tempos, até que nó dia 14 deste mês de Maio - oh que dia infeliz e horroroso! - o Rei, depois que deu muito vinho a todos, declarou que `El Rei Dom Sebastião estava muito desgostoso e triste com seu Povo'. - `E por quê?' - perguntaram os homens, muito aflitos, e as mulheres todas muito chorosas. - `Porque são incrédulos! Porque são fracos! Porque são falsos! E finalmente porque o perseguem, não regando o Campo Encantado e não lavando as duas torres da Catedral de seu Reino com o sangue necessário para quebrar de uma vez este cruel Encantamento!' - proferiu o Rei. Ah, meu Amo e meus Senhores! 0 que depois disso se seguiu é horrível! 0 velho José Maria Juca Ferreira-Quaderna, pai do Rei, foi o primeiro que correu, abraçando-se com as pedras e entregando o pescoço a Carlos Vieira, que o cortou cérceo, pois já lá estava para isso, com um facão afiado! As mulheres e os homens iam agarrando os filhos e vinham entrega-los a Carlos Vieira, a José Vieira e a outros, que lhes cortavam as gargantas ou quebravam-lhes as cabeças nas mesmas pedras, que assim untavam de sangue! Nessa ocasião, aproveitei-me da confusão e horror que havia e fugi sem ser visto; mas com tanto espanto e infelicidade, que andei mais de dois dias perdido!" Assim foi que o traidor fugiu da Pedra do Reino, andando extraviado e errante por ali, nos dias 15 e 16 de Maio de 1838. Só no dia 17 foi que encontrou a casa dos Pereiras, a quem, com a subserviência de todo traidor de alma de lacaio, ajoelha-se numa zumbaia indigna de um Príncipe de sangue, tratava por "Meus Amos e meus Senhores! " Ali, na fazenda "Belém", tendo delatado o Reino e se oferecido para levar os Pereiras até lá, como guia, encontrou acolhida e ajuda, começando todos juntos a preparar a repressão.

Enquanto isso, ignorando ainda a traição do renegado, continuavam os nossos a promover, na Pedra do Reino, o grande evento da Restauração. Meu bisavô teria, talvez, suspendido antes as matanças: ocorre, porém, que, excitado por elas, seu desejo sexual exacerbou-se. Mandou trazer sua mulher, a Princesa Isabel, querendo possuí-Ia na frente de todos, enquanto o sangue dos degolados corria. Ela, porém, estava grávida de nove meses, pronta, já, para parir, e recusou-se. Então Dom João II, o Execrável, pegou a irmã dela, a Rainha Josefa, e, enquanto se preparava para possuí-Ia, mandou que lhe dessem dezessete facadas, o que foi feito durante a posse, alcançando ele, segundo dizia, um gozo como nunca tinha experimentado. Souza Leite, mais discreto, recusa-se a contar tudo com todos os pormenores. Mesmo assim, suas palavras são suficientemente fortes, para dar idéia daquela cena régia e sangrenta: Diz ele: "Os sacrifícios continuaram nos seguintes dias, 15 e 16 de Maio de 1838, com o mesmo, senão maior desvairamento, porquanto o monstruoso e execrável João Ferreira-Quaderna conseguira mergulhar aquela turba numa espécie de delírio ou embriaguez continuada. No auge supremo desta embriaguez, um pardo de nome João Pilé Vieira Gomes, para obter o melhor quinhão do Reino, subiu ao cume de um rochedo próximo e precipitou-se com dois netos nos braços. Em seguida, José Vieira pega um filho de dez anos, coloca-o na Pedra dos Sacrifícios e decepa-lhe o braço do primeiro golpe. A vítima, ajoelhando-se, bradava-lhe, de mãos postas: `Meu Pai, você não dizia que me queria tanto bem?' Uma viúva, de nome Francisca, alimentando a louca pretensão de ser Rainha, imola, por si mesma, seus dois filhos mais novos. Isabel, irmã de Pedro Antônio e do primeiro Rei, João Antônio, grávida do monstro, é designada para o sacrifício pelo Execrável João Ferreira-Quaderna, que respondia às suas súplicas e alegações de gravidez gritando para Carlos Vieira e José Vieira: `Imolai-a assim mesmo, para ela não sofrer duas dores, a do parto e a do encantamento!' Tão adiantado era o estado de gravidez desta infeliz que, momentos depois de ter recebido o golpe na garganta, a criança rolava pela rampa da Pedra e estendiase no chão. Finalmente Josefa, irmã de Isabel, de Pedro Antônio e do primeiro Rei, João Antônio, conhecida como Rainha Josefa, por ter se casado também com o monstro João Ferreira-Quaderna, recebe setenta e tantas facadas. Desta forma, no fim do terceiro dia de matança, tinha o Execrável João Ferreira-Quaderna conseguido lavar as bases das duas Torres de granito e inundar os terrenos adjacentes com o sangue de trinta crianças, doze homens - entre os quais seu próprio Pai - e onze mulheres, cujos corpos, bem como os esqueletos de quatorze cães, iam sendo colocados ao pé das Pedras".

Tenho perfeita consciência da má vontade de Souza Leite para com minha família. Mas isso é até bom, porque, assim, tudo o que ele diz a nosso favor é absolutamente insuspeito. Ora, o ilustre Acadêmico, com toda a sua aversão, não ocultou um fato fundamental para as monarquias e outras glórias quadernescas: meu bisavô foi visto, mesmo, na Pedra do Reino, trazendo à cabeça a sagrada Coroa de couro e prata que é a verdadeira Coroa do Brasil e que é a mesma que ainda hoje eu possuo! Infelizmente, porém, um dia tão bem começado como aquele 17 de Maio de 1838, seria o último de matança e do nosso Terceiro Império: porque na manhã desse dia, meu outro tio-bisavô, o Infante Dom Pedro Antônio, levantaria um motim contra Dom João II, o Execrável, sendo vitorioso e levando novamente ao trono o ramo Vieira-dos-Santos, no Quarto Império, que só iria durar até o dia seguinte. Conta Souza Leite: "Na manhã, porém, do dia 17 de Maio de 1838, quando 0 Monstro se dispunha a preparar o Povo para novas matanças, Pedro Antônio, indignado pela morte de suas irmãs, a Rainha Josefa e a Princesa Isabel, e julgando-se talvez com melhor direito ao poder, por ser irmão do primeiro Rei, João Antônio, antecipou-se em subir ao Trono. Dali anunciou, em voz alta, que Dom Sebastião, cercado de sua Corte, lhe aparecera na noite antecedente e reclamava a presença do Rei João Ferreira-Quaderna, única vítima que faltava para operar-se o seu completo desencantamento. - `Viva El-Rei Dom Sebastião! Viva nosso irmão Pedro Antônio!' - tal foi o brado uníssono de todos os circunstantes. Poucas horas depois, Pedro Antônio era proclamado Rei, com o nome de Dom Pedro I, e o cadáver de seu antecessor, o de Execrável Memória, era amarrado de pés e mãos em dois grossos troncos de árvore. As pessoas que estiveram no Reino são acordes em afirmar que se viram forçadas a quebrar a cabeça de João Ferreira-Quaderna, a extrair-lhe as entranhas e a atar seu cadáver, de pés e mãos, naquelas árvores, por causa dos berros, das roncarias e dos sinistros movimentos que ele, depois de morto, executava com a boca, o ventre e os braços. Por isso, e como já se não respirava ar puro no lugar, ordenou o novo Rei a transferência do acampamento para o pé de uns Umbuzeiros situados perto das Pedras e onde devia operar-se o aparecimento de El-Rei Dom Sebastião".

FOLHETO IX

0 Quarto Império Iniciava-se, portanto, o Quarto Império que, como já disse, durou somente um dia, mas teve a vantagem de revelar ao Brasil quem foi seu verdadeiro e real Dom Pedro I, o nosso, e não aquele Português debochado da Casa de Bragança, tão valorizado pelo nosso Promotor, o Doutor Samuel Wandernes. Chegamos, então, ao trecho mais epopéico, bandeiroso e cavalariano da história da Pedra do Reino. Digo isso porque é agora que aparecem os Cavaleiros sertanejos, comandados pelo Capitão-Mor Manuel Pereira, Senhor do Pajeú, todos galopando em cavalos, armados de espadas reluzentes e arcabuzes tauxiados de prata, na sua expedição punitiva contra os Reis castanhos e Profetas da Pedra do Reino. Fazendo pacientes pesquisas, descobri que, naquele dia, a Guarda de Honra do Comandante Manuel Pereira era composta de trinta e seis Cavaleiros, entre os quais se destacavam seus nove irmãos, Antônio Simplício, João, Francisco, Vitorino, Joaquim, Sebastião, Cipriano e Alexandre. Isso mostra que ele era três vezes mais importante do que Carlos Magno, porque tinha três vezes Doze Pares de França. Era um inimigo implacável da minha casa: mas ressalto essa grandeza dele por patriotismo sertanejo e para provar também, logo de entrada, a superioridade do Sertão sobre aquele Reinozinho besta, estrangeirado e mixuruca que- é a França.

0 Comandante Manuel Pereira passou a noite de 17 de Maio reunindo sua tropa de Cavaleiros, de modo que já se achava em marcha para a "Serra do Reino", quando "a aurora do dia 18 de Maio começava a derramar sua roseada luz sobre as águas prateadas do Riacho Belém", como diz Souza Leite em seu puro estilo epopéico. E ele continua, contando como a tropa, guiada pelo traidor, descobriu o melhor caminho de acesso, galgando a Serra, passando pelos espinheiros e cactos espinhosos e por fim cruzando um altíssimo capinzal: "No momento, porém, em que os Pereiras, com os Soldados que os seguiam, se aproximavam das capoeiras e se dirigiam para aqueles Umbuzeiros, acharam-se face a face com E1-Rei Dom Pedro Antônio, o qual estava com uma grande Coroa na cabeça, acompanhado de um séquito numeroso de mulheres, meninos e de homens armados de facões e cacetes. - `Não os tememos! Acudam-nos as tropas do nosso Reino! Viva El-Rei Dom Sebastião!' - assim exclamou Pedro Antônio, agitando no ar a sua Coroa e arremessando-se furioso, com todos os seus, sobre aquele punhado de Cavaleiros. Foi horrível o que resultou do encontro das duas Forças: sobre o Campo de combate ficaram inúmeros cadáveres, sendo um o do Rei Pedro Antônio, com muitos dos seus sectários, e os de Cipriano e Alexandre Pereira. 0 Comandante Manuel Pereira seguiu pessoalmente com as mulheres e filhos dos criminosos ali apreendidos. Apenas chegou em sua fazenda `Belém', enviou os presos ao Prefeito de Flores, Francisco Barbosa Nogueira Paes. Este soltou as mulheres, distribuiu as crianças e passou os delinqüentes à disposição do juiz Criminal. Uma dessas crianças é, hoje, 1874, o digno Tabelião da Vila de Flores, Joaquim José do Nascimento Wanderley, educado pelo Padre Manuel José do Nascimento Bruno Wanderley, de quem tomou o apelido. E, entre os delinqüentes, contava-se Gonçalo José dos Santos, pai do primeiro Rei João Antônio, o qual, condenado pelo júri de Flores, acabou seus dias arrastando ferros no Presídio de Fernando de Noronha".

FOLHETO X

0 Quinto Império Foi esse o trágico fim do Quarto Império. E, apesar de sua hostilidade, o genial Souza Leite reconhece que a queda sangrenta da nossa Coroa foi "uma catástrofe, uma horripilante Tragédia que a História registrará": o que prova que nossa Casa Real não fica devendo nada às outras, em questões de prosápia e importância epopéica. Nossa Monarquia acaba, como todo Trono digno desse nome, com os campos e a Coroa banhados pelo sangue dos Reis.

Assim, resta-me somente mostrar como foi que a dupla linhagem real dos Vieiras-dos-Santos e dos Quadernas terminou se fundindo numa só e unindo na minha pessoa todo os direitos à sagrada Coroa do Sertão. Como já contei, meu bisavô casou-se, ao mesmo tempo, com duas irmãs, as duas Infantas suas primas, isto é, a Rainha Josefa e a Princesa Isabel. Não teve filhos da primeira, mas a segunda engravidou dele. Vossas Excelências viram, na Crônica, que, no momento de ser degolada, a Princesa Isabel pariu um menino, que rolou de pedra abaixo, no chão. Pois foi através desse menino que continuou a estirpe real dos Quadernas.

O corpo da minha bisavó Isabel só foi encontrado na manhã do dia seguinte, por um Vaqueiro que, indo ali por curiosidade, para ver o campo de Batalha, ouviu um débil vagido por trás das pedras. Assombrado, aproximou-se do lugar de onde vinha o choro, e viu um quadro estarrecedor. No chão, estava o corpo jovem, desnudo e moreno de uma mulher degolada. Enroladas em suas coxas, havia duas Cobras-Corais, enormes, de um tamanho como nunca se viu nessa espécie. Lambendo e farejando o corpo, estavam duas Onças-Pintadas, que correram assim que o intruso apareceu. De cada lado do corpo, havia uma cabeça de mulher, ambas cortadas pelo pescoço. As cabeças eram parecidíssimas, com a mesma beleza e os mesmos cabelos negros e compridos. E como não consta pelo menos em Crônica de historiador fidedigno, que minha bisavó tivesse duas cabeças, provavelmente uma delas era a de sua irmã, a Rainha Josefa, cujo corpo nunca foi encontrado.

O estranho, porém, é que o menino sobrevivera e estava ali, perto do corpo de sua jovem Mãe. Como teria o recém-nascido escapado, assim? Não se sabe, e eu, como membro ilustre do nosso "Instituto Genealógico e Histórico do Cariri", não avanço hipóteses, só digo o que posso provar. Mas vá ver que são mesmo corretas as versões, correntes aqui no Cariri, de que uma daquelas Onças era fêmea e teria amamentado o inocente naquele primeiro dia de vida, no que, aliás, teria somente seguido outros exemplos ilustres da História.

De qualquer modo, o importante é que o Vaqueiro se apiedou do menino e levou-o., Sabendo, depois, que o Comandante Pereira tinha distribuído os filhos dos outros finados, conduziu o inocente a Flores, entregando-o àquele mesmo Padre Manuel José do Nascimento Wanderley, que protegeu o outro, depois Tabelião.

Esse Padre Wanderley era homem bondoso, virtuoso e prudente. Sabendo que o novo protegido era filho do Rei João Ferreira-Quaderna, teve medo de que essa fama se espalhasse, atraindo sobre a cabeça do Principezinho as marcas de sangue da família. Ocorre que meu bisavô era mais conhecido somente pelo sobrenome de Ferreira, sendo assim que ele é tratado por todos os que escrevem sobre a Pedra do Reino: eu é que, por motivos de clareza, acrescentei sempre o de Quaderna, que aparece aqui. O Padre então, aproveitando isso, quando foi batizar o inocente, omitiu o Ferreira e manteve somente o Quaderna, que quase ninguém conhecia. Foi por isso que meu avô, o Principezinho escapo à matança, foi batizado com o nome de Pedro Alexandre Quaderna, e não de Pedro Alexandre Vieira-dos-Santos FerreiraQuaderna, como teria acontecido em condições normais.

Quando o menino se tornou adulto, o virtuoso Padre Wanderley deu a ele, em casamento, uma filha natural sua, Bruna Wanderley, moça loura, conhecida no Sertão por sua beleza. E foi do casamento de Bruna com meu avô, Dom Pedro Alexandre (subido ao trono com o nome de Dom Pedro II), que nasceu Dom Pedro Justino Quaderna (ou Dom Pedro III), aquele que veio a ser meu Pai, por seu casamento com Dona Maria Sulpícia GarciaBarretto, filha bastarda do Barão do Cariri e irmã de meu tio e Padrinho, Dom Pedro Sebastião Garcia-Barretto, degolado daquela maneira cruel e enigmática a que já me referi, no dia 24 de Agosto de 1930, dia em que o Diabo andou solto.

FOLHETO XI - A Aventura de Rosa e De La Condessa

Estão resumidos aí, portanto, alguns dos motivos que terminaram me fazendo considerar honrosa minha descendência quadernesca. Outro, também fundamental, foi a Cantiga de La Condessa, que me preparou, por sua vez, para receber duas terríveis influências em minha vida, a de minha Tia, Dona Filipa Quaderna, e a de meu Padrinho-de-Crisma, o Cantador João Melchíades Ferreira.

Aliás, Vossas Excelências só poderiam entender a influência que teve sobre mim essa minha Tia Filipa, se conhecessem ambos, tia e sobrinho. Digo, hoje, depois de muito refletir sobre isso, que, em menino, eu amava demais minha Mãe, a suave e bondosa Maria Sulpícia. Mas, admirar, mesmo, eu admirava era minha TiaÇFilipa, que, no dia em que estava azeitada, tomava umas quatro ou cinco lapadas, montava num cavalo brabo, atravessava a feira quebrando as louças de barro espalhadas no chão, e dava tapa até na cara dos valentes. Eu, que nascera e me criara admirando as caçadas, as cavalgadas, os tiroteios, as brigas de faca e outras cavalarias e heroísmos sertanejos, tinha a desgraça de ser mau cavaleiro, mau caçador e mau brigador. Talvez por isso, admirava minha Tia Filipa, em cuja pessoa alta, magra e esgrouviada, parecia ter se reunido a maior parte da coragem da família Quaderna.

Ora, foi Tia Filipa quem me criou, depois da morte de minha Mãe, Maria Sulpícia. Sendo o mais moço dos filhos legítimos de meu Pai, eu era o predileto de minha Tia, e muitas das coragens que me vi obrigado a praticar na vida, eu as fiz com medo dela. Não podia eu permitir que Tia Filipa descobrisse um covarde em seu sobrinho predileto, um homem sem talento e sem sustança, um sujeito que não podia montar muito tempo a cavalo sem assar a bunda e sem inchar os dois joelhos de uma vez. Não podia consentir, também, que minha Tia terminasse amargamente sabedora de que ela própria, uma mulher, tinha mais coragem do que os homens da família, o que a teria matado de desgosto. Por isso, quando surgia uma questão qualquer em que, segundo os códigos particulares dela, estava empenhada "a honra dos Quadernas", lá ia eu, apavorado, a contragosto, procurando me fazer o mais parecido possível com a imagem que ela guardava de mim.

Pois bem: depois da morte de minha Mãe, Tia Filipa tornou-se caseira da "Casa-Forte da Onça Malhada", a fazenda do meu Padrinho, Dom Pedro Sebastião. Impressionavam-me a calma, a modéstia e a energia mansa que ela conseguia conciliar com a coragem viril e os assomos cavaleiros dos dias em que estava azeitada. Nesses dias de calma cotidiana, vestindo a saia comprida e o casaco com mangas que sempre usou, punha óculos de aro de ouro e, sentando-se à almofada, fazia rendas e rendas, cantando velhas cantigas e folhetos, que sabia de cor, às dúzias. Meu Padrinho tinha, por ela, a maior admiração. De modo que assim, fazendo renda e cantando suas cantigas, ela dirigia tudo, despoticamente: desde a criadagem até a educação, o catecismo e as diversões das filhas dos moradores e Vaqueiros. A estas, ensinava ela algumas de suas velhas cantigas-de-roda, reunindo-as à noite, no pátio lajeado da fazenda, para os cantos e as danças.

Eu, à medida que me punha taludo e me iniciava com as cabras de minha Tia - de um modo que contarei melhor, depois - começava a deixar de lado as caçadas de balieira e badoque, e a me chegar mais, de noite, para a roda das mocinhas e meninas, antes desprezadas como indignas do interesse de um homem. De repente, dei para rondá-las toda noite, a fim de me aproveitar do contato de uma ou outra menina mais despachada, com os peitos já se arredondando e disposta a me acompanhar disfarçadamente para fora do pátio, para lugares mais escuros e cobertos de mato, mais propícios, portanto, à brincadeira e às alegrias. Quando éramos surpreendidos, eu levava uns cascudos e Tia Filipa sublinhava-os comentando: - Menino safado! Menino maligno! Vai ficar igualzinho ao Pai! É que Tia Filipa não perdoava a meu Pai a vida desregrada que valeu a ele o apelido de "0 Pai-d 'Égua do Cariri", saído num jornal de Campina que fazia oposição a meu Padrinho, e que nos valeu a ruína, com a nossa terra dividida pelos bastardos.

Um dia, de noite, Tia Filipa ensinou às meninas uma cantiga de roda que, entre outras coisas, precisava de um menino-homem para tomar parte no diálogo cantado. Eu já estava um pouco grande, mas disputei ferozmente o lugar, sem me incomodar com as galhofas dirigidas contra mim pelos filhos de moradores meus companheiros, Lino Pedra-Verde, Severino Putrião, Marcolino Arapuá e outros vadios. É que eu andava de olho, há muitos dias, na filha de um Vaqueiro, Rosa, menina morena, de cabelos lisos, já moça e interessada demais no que ainda não sabia.

Tia Filipa consentiu que eu entrasse na roda. Explicou que eu ia fazer o papel de Cavaleiro. Elisa, uma menina, filha de Comadre Teresa, o de La Condessa. Elisa ficava de lá, com todas as meninas de mãos dadas, formando uma fila e de cara para mim. As meninas eram as filhas de La Condessa, a quem eu me dirigia, puxando o canto e dialogando com ela:

- "La Condessa, La Condessa! - Que queres com La Condessa? - Quero uma dessas Moças para com ela casar! - Eu não tiro as minhas filhas do Mosteiro em que elas 'tão, nem por Ouro, nem por Prata, nem por sangue de Aragão! - Tão contente que eu vinha! Tão triste que vou voltando! - Volta, volta, Cavaleiro! Vem e escolhe a que quiseres! - Esta fede e esta cheira! Esta, come o pão da feira! Esta é a que eu queria pra ser minha Companheira!"

Para que se entenda bem o estado de exaltação em que fiquei, brincando isso, devo acrescentar que fazia uma noite fria e enluarada, dessas noites sertanejas em que o céu come estrelas e nas quais o mato que cercava a "Onça Malhada" ficava o mais bonito e cheiroso do mundo. Tudo isto, juntamente com o desejo que eu sentia por Rosa, que foi minha escolhida, é claro, criou em mim uma exaltação que me jogou para o alto e para além de mim mesmo. 0 sonho e o sangue se misturavam num fogo só, incen65 diado pelo desejo, pela beleza da mocinha, pelos cantos, pela noite, pela lua e pelas estrelas. As palavras do canto marcavam-me mais ainda porque seu sentido era obscuro e estranho. Impressionado com o ouro, a prata, o mosteiro, o sangue, imediatamente tudo aquilo se tornava sagrado para mim, sacralizado pela luz da lua, que me parecia, ela também, uma bola de ouro, molhada pelo sangue de aragão que pingava da noite no mato, à poeira de prata de sua luz.

Então, vieram chamar Tia Filipa para resolver, lá dentro, um problema da casa. Saí do pátio e, cruzando o portão, cheguei até a orla do mato, que fiquei olhando, sonhando nem sei bem com quê. Logo, ouvia uns passos cautelosos e suaves atrás de mim: e antes mesmo de me voltar, eu já sabia que era Rosa.

Só depois, mais tarde, é que eu iria conhecer mulher, na noite memorável em que Arésio e eu fomos ao "Circo Estringuine", depois do espetáculo. Mas a primeira experiência de amor que senti com Rosa, naquela noite, foi muito mais importante. Ela deixou que eu a beijasse, o que fiz desajeitadamente, ignorantemente, afetuosamente, num beijo que apenas aflorou a pele macia e cheirosa dos lábios dela. Em compensação, beijei-lhe os cabelos, que tinham sido lavados mas estavam, já, enxutos e cheirosos, e, sentindo o cheiro capitoso que se desprendia de seu corpo, ergui instintivamente a mão e passei-a suavemente por seu busto, tocando nos dois seios.

Nesse momento, ouvi a voz de Tia Filipa que gritava por mim, no pátio. -Disse a Rosa qúe desse a volta pelo muro, a fim de dar a impressão de que voltava de dentro da casa, e voltei sozinho pelo portão de entrada. Apesar de todas essas precauções, porém, Tia Filipa estava desconfiadíssima. Cheguei para perto dela, acariciei-a, lisonjeei sua vaidade elogiando uma gola de rendas que ela mesma tinha feito e estava usando. Ao mesmo tempo, a sensação de felicidade que eu experimentara prolongava-se de tal modo que parecia tornar o mundo melhor, em torno de mim. Eu estava ansioso para ir para a cama, a fim de sonhar melhor meu desejo e minha exaltação. Sentia, porém, ainda, necessidade de esclarecer algumas coisas que me tinham intrigado e fascinado na Cantiga de La Condessa. Perguntei a Tia Filipa o que era uma Condessa e o que significava um Cavaleiro.

- Isso são coisas antigas, Dinis! - disse ela. - É melhor você perguntar a seu Pai, que é homem mais ilustre do que eu! Acho que uma Condessa é uma Princesa, filha de um fazendeiro rico, de um Rei como Dom Pedro I ou Dom Sebastião! - E um Cavaleiro? - insisti, depois de anotar, em meu sangue, aquela noção de Princesa, misturada para sempre, agora, ao cheiro e aos seios de Rosa.

- Um Cavaleiro - explicou Tia Filipa - é um homem que tem um cavalo e monta nele, para brigar de faca com os outros e casar com a filha do Rei! Foi então por isso, nobres Senhores e belas Damas, que a Cantiga de La Condessa contribuiu danadamente para que eu me entusiasmasse quando, depois, soube a história da Pedra do Reino, com os Pereiras, Barões do Pajeú, montados a cavalo e comandando a tropa de Cavaleiros que iria acabar, a faca, com o Trono real dos Quadernas. Preparou-me, também, para entender o que, de fato, significava o rapaz do cavalo branco. É que, desde aquela noite com Rosa e a cantiga, toda vez que eu, via um Vaqueiro montado a cavalo, com seu gibão, seu chapéu de couro e os arreios do cavalo enfeitados de estrelas de metal, eu fingia que aquele metal era prata e dizia para mim mesmo: - "Lá vai um Cavaleiro montado em seu cavalo! Vai furtar Rosa, a filha mais bonita de La Condessa e do Rei Dom Pedro I, para levá-la para o mato, beijar seus cabelos cheirosos e acariciar os peitos dela, enquanto a bola de ouro da lua se molha no sangue de aragão que pinga da noite, em sua luz de moeda de prata!" 0 Reino da Poesia Aí, à medida que eu ia crescendo, essas idéias iam cada vez mais se enraizando no meu sangue. Eu ouvia, decorava e cantava inúmeros folhetos e romances que me eram ensinados por Tia Filipa, por meu Padrinho-de-Crisma João Melchíades Ferreira e pela velha Maria Galdina, uma velha meio despilotada do juízo, que nos freqüentava.

João Melchíades era um Cantador conhecido em todo o Sertão. Para assinar seus folhetos, adotava o orgulhoso cognome de "0 Cantador da Borborema", em homenagem à serra sagrada da Paraíba. Tinha sido soldado na "Guerra dos Canudos", em 1897, lutando sob as ordens do então Tenente-Coronel Dantas Barretto. Depois, fizera parte das tropas que tinham ido ocupar o Acre, conquistado pelas tropas irregulares de nordestinos de Plácido de Castro. Fora, depois, reformado no posto de Cabo, voltando então para a Paraíba, terra sua, e acolhendo-se à proteção do homem poderoso do Cariri, meu Padrinho, Dom Pedro Sebastião. Este deu morada ao velho Cantador perto da casa da fazenda, onde João Melchíades não tinha obrigações, vivendo do soldo de Cabo e da renda dos seus folhetos e cantadas.

FOLHETO XII

Logo ele se tornaria célebre, com um romance que escreveu sobre a "Guerra de Canudos" e também pelos inúmeros folhetos que escreveu contra os Protestantes, os nova-seitas, que já começavam a aparecer, no Sertão, "com seus evangelhos, cizânias e pregações proselitistas", como dizia, indignado, o nosso Padre Renato.

Já a velha Maria Galdina era conhecida por três apelidos: Sá Maria Galdina, Galdina Gato e Sá Maria do Badalo, pelo fato de ser da família Gato e de morar no "Badalo", uma região do nosso município onde só dá doido. Ela tinha horror a ouvir isso. Aparecia às vezes na "Onça Malhada", para vender ovos, coentro e galinhas. Tia Filipa comprava tudo, sem precisar. E como só a chamava respeitosamente de Dona Maria Galdina, não ligando para sua sandice, a velha era louca por ela. Braba com todo mundo, com Tia Filipa era um cordeiro. Nunca vinha à "Onça Malhada" sem lhe trazer pequenos presentes, molhos de maxixe, ovos, e, mesmo, no tempo de inverno, uma ou duas braçadas de rosas do seu terreiro.

Ora, a amizade entre minha tia e a Velha do Badalo estreitouse ainda mais quando elas descobriram que ambas gostavam dumas velhas cantigas que somente elas ainda sabiam. Depois daí, quando Sá Maria Galdina ia lá em casa, sentava-se no chão, perto da almofada onde Tia Filipa fazia renda, e começavam a cantar, uma ajudando a outra, uns romances esquisitos, ao mesmo tempo diferentes e parecidos com os do velho João Melchíades. Mas sabiam também romances e cantigas de Cangaceiros, tendo grande estima pelo Abecê de Jesuíno Brilhante. Ambas admiravam muito esse Cangaceiro, a quem consideravam "o mais corajoso e cavaleiro do Sertão, um Cangaceiro muito diferente desses Cangaceiros safados de hoje em dia, que não respeitam mais as famílias", como dizia a Velha do Badalo, com plena concordância de Tia Filipa.

Eu, o que mais admirava em Jesuíno Brilhante e nos outros Cangaceiros, era a coragem que todos eles tinham de enfrentar morte cruel e sangrenta. Impressionado pelas mortes dos Reis meus antepassados, no Pajeú, sentia-me, ao mesmo tempo, fascinado o apavorado com elas. Desejava imitá-los na grandeza real que tinham mantido na vida e na morte, mas sabia que não tinha coragem suficiente para isso. Eu ouvia aquele tropel de Cavaleiros o barões sertanejos, montados a cavalo, armados de bacamartes o espadas, seguindo para a Pedra do Reino. Ouvia o entrechoque dos ferros, na Batalha. Via as gargantas cortadas, com o sangue dos Reis e das Princesas esguichando e embebendo o ardente chão sertanejo. De modo que, quando lá um dia, Dona Maria cujoe Galdina e Tia Filipa cantaram um certo romance que conheciam assunto era, também, Jesuíno Brilhante, aquilo tudo de iepente pegou fogo em minha cabeça. Lembro-me bem de que havia uma estrofe que dizia:

"Jesuíno já morreu! Morreu o Rei do Sertão! Morreu no campo da honra, não entregou-se à prisão, por causa de uma desfeita que fizeram a seu irmão!"

Preparado pelos acontecimentos da Pedra do Reino, impressionado com as palavras Rei e campo (tanto fazia "campo da honra" como "campo encantado embebido de sangue"), eu começava a misturar Jesuíno Brilhante com meu bisavô, Dom João Ferreira-Quaderna. Aprendi, então, a solfa da "Cantiga de Jesuíno", e quando chegava nos versos que acabo de citar, substituía as palavras assim: "Dom João Quaderna morreu, morreu o Rei do Sertão! Morreu no Campo Encantado, sofrendo a degolação! Pedro Antônio assassinou-o, subiu ao Trono do irmão!" Tudo isso, porém, era a princípio apenas uma raiz do sangue, uma peçonha confusa que fincava dentro de mim suas raízes profundas e inarrancáveis. Só depois é que tudo iria se aclarando o se espalhando diante dos meus olhos, graças, principalmente, às lições de meu Padrinho, João Melchíades Ferreira. É que ele, seguindo o exemplo de seu antigo Mestre, o grande Francisco Romano, da Vila do Teixeira, instalara na "Onça Malhada" uma Escola de cantoria, onde procurava nos ensinar "a Arte, a memória o o estro da Poesia". Procurava, entre nós, os que ouviam com mais interesse seus romances e folhetos, verificava se "tinham vocação para a Arte", e então tornava-os discípulos seus. Terminou escolhendo quatro entre os melhores: eu, Marcolino, Arapuá, Severino Putrião e Lino Pedra-Verde.

Começou ensinando-os que havia dois tipos de romance: o "versado e rimado", ou em poesia; e o "desversado e desrimado", ou em prosa. Era, mesmo, um exercício que nos obrigava a fazer: pegar um romance desrimado qualquer e "versá-lo", contando em verso o que era contado em prosa. Lia para nós a História de Carlos Magno e os Doze Pares de França, um "romance desversado" que nos encantava pelo heroismo de suas cavalarias, aquelas histórias de Coroas e batalhas, que eu, por causa da Pedra do Reino, via logo, com Princesas amorosas e desventuradas que, ou eram degoladas ou desonradas, mas disputadas sempre por Cavaleiros, em duelos mortais, travados a punhal, junto a enormes pedras e num Campo encantado, embebido de sangue inocente. Inúmeros Cantadores e Poetas sertanejos tinham, já, versado esse romance do Imperador Carlos Magno. Nós preferíamos as versões rimadas, não só porque eram mais fáceis de decorar, como porque a gente podia cantar os versos, acompanhando a solfa com o baião da viola, coisa que João Melchíades também não se descuidou de nos ensinar. Uma dessas versões dizia:

"Depois que o Rei Carlos Magno venceu a grande Campanha, fez a Igreja de Sant'Iago, padroeiro da Espanha, e a de Nossa Senhora, em Aquisgrã, na Alemanha.

Tomou dezesseis Cidades, da Guerra saiu feliz! Deu muitas graças a Deus por conquistar um País: Foi visitar a Alemanha, daí tornou a Paris.

Acompanhado dos Pares Reinaldo de Montalvão, de Gui, Duque de Borgonha, de Oliveiros e Roldão, Guarim, Duque de Lorena, o do Conde Galalão; de Lamberto de Bruxelas, Frisa, Rei de Gardená, Tietri, Duque de Dardanha, Gerardo e Urgel Danoá, de Bosim, Duque de Gênova, homens-bons no guerrear;

o o Duque de Regnér, mais Engelo de Almirante, O que me impressionava, nisso, eram os nomes dos lugares o o fato de, na lista, os Doze Pares de França serem vinte. Um dia, perguntei a Tia Filipa onde eram todos aqueles lugares maravilhosos, chamados Lorena, Alemanha, Baviera, Gênova e Bruxelas. Ela respondeu: - Não sei direito não, Dinis, mas deve ser longe como o diabo, ali por perto da Turquia, já quase na beira do mundo! Em Serra Talhada, existe uma família Lorena: portanto esses lugares devem ser pra lá do Sertão do Pajeú, de Serra Talhada pra cima, mais de sessenta léguas! Ou então, é pr'os lados do Piauí, entre a Turquia e a Alemanha! A guerra do Doutor Santa Cruz contra o Governo da Paraíba, parece que foi pr'aquelas bandas, em 1912: mas o que eu me admiro é que uns chamam ela de "A Guerra de Doze", e outros de "A Guerra de Catorze", o a gente fica sem saber quantos Reis se meteram nela, se foram doze ou catorze! Meteram-se nela um tal de Togo do Japão, o Caisalamão, Antônio Silvino, os Pereiras, Dom Sebastião, Carlos Magno, os Viriatos, esse pessoal guerreiro todo! Digo isso porque, naquele tempo, eu perguntei a seu Pai: - "Justino, sabe me dizer se a Paraíba está metida nessa guerra que está havendo por aí?" Ele respondeu: - "Filipa, a Paraíba é do Brasil, e o Brasil está! " Aí, eu perguntei: - "A favor ou contra a Alemanha?" Aí ele disse: - "Contra o Caisalamão!" Eu perguntei de novo: - "Contra o quê?" Seu Pai disse: - "Contra a Alemanha! 0 Caisalamão é o Rei da Alemanha!" Aí eu perguntei: - "E se a Alemanha ganhar a guerra, você acha que vão tomar as terras do nosso Compadre Pedro Sebastião?" Justino respondeu: - "Essa gente de Governo é tão ruim, que são capazes de tomar!" Eu, com raiva, falei: - "Tá, é da vez que eu largo esse Brasil velho o vou me embora pr'o Ceará! "

e Nemé da Baviera, Hoel e Riol de Nantes, Reinaldo e Anselmo Fiel, mais Oton, Príncipe de Anglante.

Aí passou Carlos Magno vinte anos em campanha. Aquartelou os exércitos d'Itália, França e Alemanha. Mas lhe chega uma Embaixada: novas guerras na Espanha!" O velho João Melchíades ensinou-nos, ainda, que, entre os romances versados, havia sete tipos principais: os romances de amor; os de safadeza e putaria; os cangaceiros e cavalarianos; os de exemplo; os de espertezas, estradeirices e quengadas; os jornaleiros; e os de profecia e assombração.

Um dia, ouvi Tia Filipa e a Velha do Badalo cantarem, juntas, uma daquelas cantigas que eu achava estranhas, mas parecidas com a Cantiga de La Condessa. As duas estavam sentadas no chão, fazendo renda, e enquanto Tia Filipa manejava os bilros, cantava em diálogo com Dona Maria Galdina: "Ai Valença! Guai Valença! De fogo sejas queimada! Antes fosses pelos Mouros que pelos Cristãos tomada! Ai Valença! Guai Valença! Como estás bem assentada! Antes que sejam três dias, de Mouros serás cercada! " "Vesti-vos, vós, minha Filha, vesti-vos de Ouro e de Prata! Detende-me aquele Mouro, em palavra por palavra! Que as palavras sejam poucas, mas sejam bem rematadas, e essas poucas que lhe derdes sejam de amores tocadas! " Aí, foi a vez de eu consultar meu padrinho João Melchíades sobre essas cantigas. Ele me explicou que aquilo eram "uns romances velhos, meio desmantelados e já um pouco fora de moda". Disse que a briga entre os Cristãos e os Mouros de que a cantiga falava, eram aquelas que eu via, todo ano, entre Natal e Reis, nas representações da Nau Catarineta, com os Reis Mouros do Cordão Encarnado, e os Reis Cristãos do Cordão Azul. Ele sabia algumas daquelas cantigas velhas, que tinha decorado como obrigação de ofício, nos começos de sua carreira de Cantador. Então, cantou-me uma dessas, uma espécie de mistura de romance de amor com romance de putaria. Chamava-se Romance da Filha do Imperador do Brasil, e era assim: Sá Galdina: "0 Imperador Dom Pedro tem uma Filha bastarda, a quem quer tanto do bem que ela ficou malcriada! Queriam casar com ela Barões de capa e de espada. Ela, porém, orgulhosa, a todos que recusava: - Este, é menino! Esse é velho! Aquele, lá, não tem barba! o de cá, não tem bom pulso pra manejar uma Espada! Tia Filipa: Dom Pedro falou, se rindo: - Inda serás castigada! Não vás tu, de algum Vaqueiro, terminar apaixonada! Na fazenda de seu Pai, já no fim da madrugada, um dia, numa janela, a Infanta se debruçava. Viu passar três moradores que trabalhavam de enxada.

o mais garboso dos três era o que mais trabalhava. Tanto plantava Algodão, como do Gado cuidava. Vestia Gibão de couro, fortes sapatos calçava. N'aba do chapéu de couro, fina prata se estrelava. Pois logo, desse Vaqueiro, a Infanta se apaixonava.

o o Vaqueiro, só cavando: ele sabe o que cavava! 72 A Princesa chama a Velha em que mais se confiava: - Estás vendo aquele Vaqueiro, trabalhando, ali, de enxada? Condes, Duques, Cavaleiros, por nenhum eu o trocava! Vai chamá-lo aqui, depressa, e ninguém saiba de nada! A Velha vai ao Vaqueiro que na terra trabalhava: - Vem comigo, meu Vaqueiro! Por que essa vista baixa? Levanta os olhos, que vês a Estrela da Madrugada! Entraram pelo portão, que a Porta estava fechada. Na camarinha da Moça o Vaqueiro já chegava:

- Senhora, o que é que me manda? Eu vim por vossa chamada! - Quero saber se te atreves a queimar minha Coivara! - Atrever, me atrevo a tudo, que um homem não se acovarda! Dizei-me, porém, Senhora, onde está vossa Coivara! - É abaixo dos dois Montes, na Fonte das minhas águas, abaixo do Tabuleiro o na Furna da Pintada, na linha da Perseguida, no corte da Desejada!

Passam o dia folgando, o mais da noite passavam, o o Vaqueiro socavando: ele sabe o que cavava!

À meia-noite, a Princesa pediu tréguas, por cansada: - Basta! Basta, meu Vaqueiro! Queimaste mesmo a Coivara! Não sei se por varas morro ou com ela incendiada! E, assim, a filha do Rei do orgulho foi castigada!"

Ora, eu sabia que meu tio-bisavô, Dom Pedro I, Imperador da Pedra do Reino, não tinha filho nem filha, de modo que fiquei abismado com as mentiras desse romance. Até que, muito depois, soube que quem tinha uma filha bastarda era o outro Dom Pedro I, o falso, o impostor da Casa de Bragança. Certamente fora essa

filha a Duquesa de Goiás, que, tendo puxado às taras da Mãe, a Marquesa de Santos, terminara como personagem desse romance que meu Padrinho me cantou naquele dia.

FOLHETO XIII

0 Caso da Cavalhada Aos sábados, Tia Filipa me levava para a feira, e ficávamos na rua até o dia seguinte, para assistirmos à Missa do domingo. Ufia vez, terminada a feira, houve uma Cavalhada, coisa que também iria ser de importância capital na minha vida.

Havia vinte e quatro Cavaleiros. Doze deles representavam os Doze Pares de França do Cordão Azul, e os outros doze, os Doze Pares de França do Cordão Encarnado. Havia, portanto, un, Roldão do azul e outro do encarnado, de modo que, apesar de serem vinte e quatro os Cavaleiros, aqui os Doze Pares de França eram realmente doze, a saber: Roldão, Oliveiros, Guarim de Lorena, Gerardo de Mondifér, Guí de Borgonha, Ricarte de Normandia, Tietri de Dardanha, Urgel de Danoá, Bosim de Gênova, Hoel de Nantes, o Duque de Nemé e Lamberto de Bruxelas.

Ninguém pode imaginar o entusiasmo régio que me empolgou quando os Cavaleiros desfilaram pela rua, a cavalo, com os matinadores levando à frente as Bandeiras dos dois cordões, uma azul, outra encarnada. Explicaram-me que os Azuis iam disputar troféus com os Vermelhos, e que eu devia escolher para mim um dos dois partidos. Disseram-me que o Cordão Azul era a cor de Nossa Senhora, e o Encarnado, a do Cristo. Mas Tia Filipa, que, por ser devota de Nossa Senhora da Conceição, era do Azul, me disse, logo, que eu não fosse nessa conversa não, porque o Cordão Encarnado era do Diabo. Espantei-me de que uma cor só, o Vermelho, pudesse ser, ao mesmo tempo, do Cristo e do Diabo. Só depois de adulto, aprofundando meus conhecimentos religiosos e astrológicos e estudando o Catolicismo da Pedra do Reino, foi que descobri como essa noção é profunda, zodiacal e estrelar! Mas isso foi depois e fica para depois: naquele meu primeiro dia de Cavalhada, obedecendo à orientação de Tia Filipa, filiei-me ao Cordão Azul, no que fiz, aliás, muito bem, porque ele ganhou e eh quase morro de entusiasmo.

Aconteceu, porém, que os derrotados cavaleiros do Encarnado não se conformaram e pediram desforra para o sábado seguinte.

Fomos à feira de novo, eu e Tia Filipa; e quando eu, muito lampeiro, esperava a repetição da vitória do Azul, coisa que eu julgava de rotina pela proteção de Nossa Senhora contra o Diabo, ganhou o Encarnado! Encafifei! Assim, não era vantagem!. No primeiro dia, eu ficara entusiasmado com as bandeiras vermelhas, triunfais, agitadas pelo vento, tremulando desafiadoramente contra o céu azul; só não me filiara ao Cordão Encarnado, primeiro para não perder a alma, e depois porque estava certo de que o Azul, com a proteção da Virgem Santíssima, ganhava toda vez. Pensei, então, em virar a casaca para o Encarnado, indagando porém, antes, a Tia Filipa, qual era o Cordão que ganhava mais. Perplexa, ela respondeu que isso era coisa que ninguém podia saber. Então, como era que eu podia fazer minha escolha? Se ao menos houvesse uma coerência, uma garantia! Acresce que eu achava ambas as bandeiras bonitas: o Azul era tranqüilo e fraterno, mas o Vermelho era festivo e corajoso, o eu gostava era de todos dois! Só havia, portanto, uma solução e foi a que adotei: resolvi pertencer aos dois partidos de uma vez, só decidindo qual a minha facção do dia depois da corrida. Quando o Azul ganhava, eu voltava para a "Onça Malhada" dizendo: - Hoje, eu era do Azul! Tia Filipa ouvia isso enfarruscada mas calada. Quando, porém, o Encarnado vencia e eu me declarava por ele, ela rosnava: - Esse menino não tem caráter! Não sei a quem ele puxou, tão desassistido de vergonha!

Tudo isso me ajudava, aos poucos, a entender cada vez melhor a história da Pedra do Reino e a me orgulhar da realeza e cavalaria dos meus antepassados. Tornava também o mundo, aquele meu mundo sertanejo, áspero, pardo e pedregoso, um Reino Encantado, semelhante àquele que meus bisavós tinham instaurado e que ilustres Poetas-Acadêmicos tinham incendiado de uma vez para sempre em meu sangue. Minha vida, cinzenta, feia e mesquinha, de menino sertanejo reduzido à pobreza e à dependência pela ruína da fazenda do Pai, enchia-se dos galopes, das cores e bandeiras das Cavalhadas, dos heroísmos e cavalarias dos folhetos. Assim, quando agora me acontecia evocar os acontecimentos da Pedra do Reino, o que eu via eram os Pereiras, como uma espécie de Cavaleiros Cristãos do Cordão Azul, assediando e assaltando o Reino criado e defendido pelos Reis Mouros do Cordão Encarnado da família Quaderna. Sonhava em me tornar, também, um dia, Rei e Cavaleiro, como meu bisavô. Não para degolar os outros, mas para conquistar Rosa e sete Princesas, queimando sete coivaras o abrindo, ainda, a broca dos cercados dos outros, pelo direito real de "dispensar" todas as donzelas do Reino em sua primeira noite de casadas.

Ao mesmo tempo, entregava-me furiosamente à leitura dos folhetos e romances, de que ia tomando conhecimento por intermédio de meu Padrinho e professor João Melchíades. Quando o romance era muito grande, era publicado em folhetos separados, como a História de Alonso e Marina, dividido em dois: Alonso e Marina, ou A Força do Amor e A Morte de Alonso e a Vingança de Marina. Este, era uma mistura de romance de amor com romance cavalariano de heroísmos, e eu achava maravilhosos esses títulos duplos, "isto ou aquilo". Outras vezes, o folheto trazia na primeira página, por baixo do título, uma espécie de explicação, destinada a causar "água na boca" aos que iam comprá-lo. Assim, por exemplo:

0 PRÍNCIPE JOÃO SEM MEDO E A PRINCESA DA ILHA DOS DIAMANTES ROMANCE DE PÁGINAS MISTERIOSAS, ONDE SE VÊ UM JOVEM PRÍNCIPE VIAJANTE E ERRANTE PELAS MAIS TEMEROSAS ESTRADAS, EM BUSCA DE INTRINCADOS LABIRINTOS QUE LHE CAUSASSEM MEDO, AMOR, SACRIFÍCIO E TRIUNFO! Havia romances de exemplo, como o Exemplo dos Quatro Conselhos. Havia os romances cangaceiros e cavalarianos como, por exemplo, 0 Encontro de Antônio Silvino com o Valente Nicácio. Este começava com uma reflexão que, segundo João Melchíades, era "filosófica, filantrópica e litúrgica até o osso". Era assim: "Neste Planeta terrestre, o Homem não se domina: tem que viver sob o jugo da Providência Divina. Foi feito do Pó da terra, no Pó da terra termina!

Assim, eu mostro a estrada do Passado e do Presente, Estrada onde morrem Reis ,molhados de Sangue quente! Hoje, tornados em Pó, resta a Memória, somente! "

FOLHETO DE JOÃO MELCHIADES, 0 CANTADOR DA BORBOREMA. A GRAVURA DE TAPARICA FOI FEITA A PARTIR DA CARLOS MAGNO SEGUNDO APARECE NA "HISTÓRIA DA CIVILIZAÇÃO" DO DOUTOR MANOEL DE OLIVEIRA LIMA.

Eram, ainda, os três Reis degolados da Pedra do Reino que vinham à minha imaginação, quando eu ouvia meu Padrinho cantar esses versos, "de tão profunda significação filantrópica e litúrgica". E quando, em 1930, meu tio Dom Pedro Sebastião GarciaBarretto foi degolado, foram ainda esses versos que me queimaram a memória, pegando fogo em meu sangue.

Outras vezes, a reflexão inicial do folheto vinha como uma invocação dirigida às Musas, a Apolo, a Mercúrio ou a outras figuras que, depois, quando me dediquei à Astrologia, tiveram tanta importância em minha vida. Era o caso de um romance de amores desventurados, 0 Assassino da Honra, ou A Louca do Jardim, que começava com a seguinte estrofe:

"Venha, 6 Musa, mensageira do Reino de Eloim: me traga a pena de Apolo e escreva aqui, por mim, O Assassino da Honra ou A Louca do Jardim."

Assim, Vossas Excelências já entendem por que segui esse mesmo estilo, no meu Memorial: pretendia e pretendo, com isso, predispor favoravelmente a mim não só os ânimos de Vossas Excelências como "o Povo em geral" e até as divindades divinodiabólicas que protegem os Poetas nascidos e criados no Sertão da Paraíba.

FOLHETO XIV 0 Caso do Castelo Sertanejo Um dia, tendo sido eu já iniciado nas realezas e cavalarias da História Geral do Brasil, caiu nas minhas ouças um folheto, decorado por Lino Pedra-Verde, e que começava assim:

"No Sertão da Espinhara, junto à Vila de Pombal, habitava o poderoso Barão Afonso Durval, que inda vinha a ser parente da Família Imperial".

Eu já não me sentia mais envergonhado, e sim orgulhoso, de pertencer à Casa Real da Pedra do Reino, de modo que já andava era com medo de rivais. A Espinhara e a Vila de Pombal eram aqui na Paraíba, a dois passos do nosso Cariri: daqui a pouco, se essa Literatura continuasse, os Sertanejos pensariam que tanto faziam os Imperadores da Casa dos Quadernas quanto os Impostores da Casa de Bragança, que tanto valia um Barão Afonso Durval qualquer quanto Dom Andrelino Pereira, Barão do Pajeú! Resolvi cortar o mal pela raiz: pedi a João Melchíades que, como parente dos Ferreira-Quadernas, escrevesse um romance sobre a Pedra do Reino. Ele me atendeu, e o folheto ficou uma beleza, cuidando eu logo de imprimi-lo e vendê-lo nas feiras. Começava assim: "No Reino do Pajeú morava o Rei João Ferreira. Ele era Conde e Barão: Foi o terror da ribeira! Tinha a Coroa de Prata lá no Trono da Pedreira! Havia, lá, dois Rochedos bem juntos e paralelos.

A Pedra era cor de ferro o incrustada de amarelo. Foi delas que, por grandeza, o Rei fez a Fortaleza, levantando o seu Castelo!"

Agora sim, estava honroso e como eu queria! Apenas adverti a João Melchíades que a Coroa dos nossos antepassados era de metal barato, e não de prata, e que as incrustações da Pedra do Reino eram "uma espécie de chuvisco prateado", e não de ouro amarelo, como ele escrevera no folheto. Ele me respondeu que "a rima e a Poesia obrigavam a gente a fazer essas mudanças de glória filosófica e beleza litúrgica". Conformei-me, concordei e perguntei, então, que Castelo era aquele que tinha aparecido no folheto e que não figurava nos livros de Pereira da Costa e Souza Leite. Ele retrucou que todo Rei tem um Castelo, uma Fortaleza, uma edificação de pedra e cal na qual se isola como defesa contra os inimigos e como marco de sua realeza. Todos os Cantadores, quando cantavam as façanhas dos Cangaceiros, costumavam construir, em versos, um Castelo para seu herói. 0 de Antônio Silvino, por exemplo, era descrito assim: "Meu Castelo está fincado em Pedra de grande altura.

o feita de pedra e cal sua Muralha segura! o Governo tem lutado, mas ele não foi tomado, pois a Pedra é muito dura! " Todas essas grandezas e monarquias iam, assim, tocando fogo em meu sangue, com o desejo de me sentar no Trono de meus antepassados e de me assenhorear de novo do Castelo de pedra que eles tinham levantado no Pajeú. Quando, porém, meu sonho atingia o auge de fogo, lá vinha a lembrança estarrecedora: todos os Reis da minha família tinham terminado de garganta cortada, de morte violenta tinha acabado Jesuíno Brilhante, o Rei do Sertão! Então, envergonhado, eu baixava*a cabeça, corria de enfrentar morte cruel para realizar minha realeza, e confessavá para mim que preferia ser um covarde vivo a ser uín Rei degolado.

Estavam as coisas nesse pé, quando, um dia, ouvi Tia Filipa e a Velha do Badalo cantarem, juntas, o Desafio de Francisco Romano com Inácio da Catingueira. Tia Filipa cantava as estrofes atribuídas ao primeiro Cantador e Sá Maria Galdina as do segundo. De repente, feriu minha atenção um trecho em que Romano, sabedor do fato de que Inácio "tinha um Castelo", ameaçava-o assim: Romano: Inácio: "Inácio, tu me conheces e sabes bem quem eu sou! eu posso te garantir que à Catingueira inda vou: vou derrubar teu Castelo que nunca se derrubou!" "A parede do Castelo tem cem metros de largura! Tem ainda um Alicerce com bem trinta de fundura, e, do nível para cima, mais de uma légua de altura! " Romano: As glosas eram assim: "Pra tudo o que lá tiveres tenho trabalho de sobra: eu dou veneno ao Cachorro, meto o cacete na Cobra! Derrubo-te a Fortaleza, escangalho a tua Obra!" Intrigado, fui procurar meu Padrinho, João Melchíades, e ele me fez, então, aquela que seria, talvez, a maior revelação para a minha carreira. É que os Cantadores, assim como faziam Fortalezas para os Cangaceiros, construíam também, com palavras e a golpes de versos, Castelos para eles próprios, uns lugares pedregosos, belos, inacessíveis, amuralhados, onde os donos se isolavam orgulhosamente, coroando-se Reis, e que os outros Cantadores, nos desafios, tinham obrigação de assediar, tentando destruí-los palmo a palmo, à força de audácia e de fogo poético. Os Castelos dos poetas e Cantadores chamavam-se, também, indiferentemente, Fortalezas, Marcos e Obras.

Foi um grande momento em minha vida. Era a solução para o beco sem saída em que me via! Era me tornando Cantador que eu poderia reerguer, na pedra do Verso, o Castelo do meu Reino, reinstalando os Quadernas no Trono do Brasil, sem arriscar a garganta e sem me meter em cavalarias, para as quais não tinha nem tempo nem disposição, montando mal como monto e atirando pior ainda! Assim firmou-se para mim a importância definitiva da Poesia, única coisa que, ao mesmo tempo, poderia me tornar Rei sem risco e exalçar minha existência de Decifrador. Anexei às raízes do sangue aquela fundamental aquisição do Castelo literário, e continuei a refletir e sonhar, errante pelo mundo dos folhetos. Um dos tipos que eu mais apreciava eram os de safadeza, subdivididos em dois grupos, os de putaria e os de quengadas e estradeirices. Dos primeiros, o que mais me entusiasmava eram umas "décimas" do Cantador Leandro Gomes de Barros, glosadas sobre o "mote" "Qual será o beco estreito que três não podem cruzar? Só entra um, ficam dois, ajudando a trabalhar!" "Frei Bedegueba dizia a Frei Manzapo, em disputa: - Existe uma certa Gruta onde hei de ter moradia. Hei de conhecê-la um dia, embora quebre o Preceito. Vou penetrá-la direito, para a verdade saber, pois preciso conhecer qual será o beco estreito.

Dizem que tem pouca altura e fica no pé dum Monte. A entrada é uma Fonte: vou medir sua largura! Para saber-lhe a fundura vou lá dentro mergulhar. Para me certificar, não podendo entrar os três, só entra o Cabo-Pedrês, que três não podem cruzar.

Um Padre já me contou que foi dar uma caçada e, nessa Mata fechada, viu um Bicho e não matou! De dentro, uma Voz gritou: - Padre, dizei-me quem sois! Podereis entrar depois, respondendo ao que pergunto: mas, dos três que vejo juntos, só entra um, ficam dois! Um Monge, de lisa fronte, também já contou a mim: - Já brinquei nesse Capim, já ressonei nesse Monte! Quase sempre a essa Fonte venho eu e mais um Par: os dois não podendo entrar, por serem moles e bambos, eu entro só, ficam ambos ajudando a trabalhar!"

Ora, Leandro Gomes de Barros era o autor de Alonso e Marina, ou A Força do Amor, e eu me admirava de que ele, sendo, assim, esfarinhado, em questões de safadeza e porcaria, contasse de maneira tão casta o casamento de Alonso com a feroz e apaixonada Marina. João Melchíades me explicou, porém, que, se Leandro descrevesse desavergonhadamente a noite de núpcias de Marina, era capaz de ser preso. Objetei que tinha lido um folheto, intitulado Histórias de um Velho que Brigou 72 Horas com um Cabaço sem Chegar no Fundo e sem Lascar as Beiras, safadfssimo e, no entanto, publicado. João Melchíades disse que eu reparasse direito: o folheto sobre o Velho não era assinado, para não dar com o autor na Cadeia.

Passei a prestar atenção e vi que, de fato, os romances de putaria nunca eram assinados. Eu os lia furiosamente e logo passava a compará-los com outros, desrimados, dos quais começava a tomar conhecimento, por intermédio de Lino Pedra-Verde. A medida que crescíamos, Lino ia se tornando Cantador. Cantador, mesmo: não nas horas vagas, como eu, mas Cantador alugado, de carreira, como João Melchíades. Com isso, começou a viajar, inclusive para Campina Grande, de onde começou a trazer, para revendê-los na feira, uns romances desversados, imoralíssimos. A perturbação que senti, lendo o primeiro, foi terrível. Sentia-me fascinado e, ao mesmo tempo, aterrorizado, pensando comigo mesmo: - "Esse pessoal não tem medo não? Terminam indo todos para a Cadeia e para o Inferno, e me levando também, com eles!" Havia um chamado o Homem da Rua do Fogo. Outro, A Prostituta do Céu. Mas o melhor de todos era A Afilhada de Monsenhor Agnelo, ou o Castelo do Amor, que lamentei não conhecer já, quando daquela noite com Rosa, porque então tudo teria ido até o fim, executando eu, com ela, tudo aquilo que o romance agora me ensinava.

O curioso, porém, é que esses romances eram, todos, escritos o assinados por um certo Visconde de Montalvão, na certa parente do Marquês de Montalvão, personagem da "História do Brasil", parece que até Vice-Rei nosso. Seria o Visconde filho do Marquês? Interroguei Lino, que achou graça: - Que Visconde que nada, Dinis! Esses romances são escritos em Campina, mesmo, por um tal de José de Santa Rita Pinheiro Nogueira, amigo meu! Ele pega uns livros que compra no Recife, escreve de novo, ajeita, corta, aumenta, assina com o nome de Visconde de Montalvão para não ser preso, imprime e vende! Tem um lucro danado, porque todo mundo gosta de ler safadeza! - Mas se ele for pegado, vai preso, Lino! Primeiro, pela safadeza, depois pelo plágio! - Ah não, isso não! Esse negócio de plágio pode valer para os outros, para nós, Cantadores, não! Você não vê João Melchíades mandando a gente plagiar, em verso, A Donzela Teodora, Roberto do Diabo, a História de Carlos Magno e outras? - É mesmo! - disse, vendo que Lino tinha razão.

Depois daí, nunca mais tive escrúpulos de me apropriar do que os outros tinham escrito, suprindo, assim, "a falta de imaginação e de autoridade" que Samuel e Clemente vivem passando na minha cara de "charadista e intelectual de segunda ordem".

Reassegurado, mergulhava com avidez na leitura dos romances de José de Santa Rita Pinheiro Nogueira, Visconde de Montalvão. Meu preferido era, mesmo, A Afilhada de Monsenhor Agnelo, porque, além das putarias, tinha, ainda, aquele elemento heróico do Castelo do Amor. Isto me indicava que a Fortaleza de um Rei, poeta e Cantador como eu, além dos heroísmos e cavalarias das estradas e catingas, devia ter, também, camarinhas e alcovas para o amor e as safadezas. Era o que acontecera com o Castelo da Pedra do Reino, onde meu bisavô Dom João II instituíra heroísmos sangrentos no Campo Encantado e safadezas amorosas na Sala Soterranha, onde ele dispensava as donzelas.

Acresce que o danado do Visconde escrevia talvez melhor ainda do que Antônio Áttico de Souza Leite. Convenci-me, de vez, que o plágio seria indispensável à minha vocação de Poeta, porque, sozinho, eu jamais teria inteligência para escrever como aqueles dois Mestres. 0 livro dele começava assim "Se o amável Leitor não conheceu Teresa, a afilhada órfã do lúbrico Monsenhor Agnelo, procure-a no meu Castelo! Ela mora aí, no repertório literário que tenho, depositado, a cargo da Mulher que amo! Neste régio Castelo, erguido a golpes de escopro de meu Cálamo de ouro, o egrégio Leitor encontrará uma Aia prisca, não decrépita mas trôpega, que o receberá com pouca lisura mas com muita habilidade". 0 Visconde contava, então, como a mãe de Teresa, morrendo, deixara a menina aos cuidados do Monsenhor Agnelo, "padre sensual e sem escrúpulos", que, à medida que a afilhada se punha moça, começava a seduzi-la, aproveitando a circunstância de ela ser "inocente e brejeira, ingênua e voluptuosa". Depois do almoço, Monsenhor Agnelo costumava sentar-se numa espreguiçadeira ou deitar-se na cama, para fazer a sesta. Era o momento escolhido para as safadezas, que me abstenho de transcrever, com medo do Inferno. Conto apenas que, num certo dia, depois de várias escaramuças com Teresa, Monsenhor Agnelo, descobrindo que o fruto estava maduro, pensava: - "Agora é necessário aplicar-lhe um pouco de óleo sensual que lhe sirva de antídoto, fazendo-a expelir as matérias envenenadas de seus filamentos nervosos, ao mesmo tempo que se lhe crava nas entranhas o dardo subentendido". Aí, havia ainda umas três ou quatro escaramuças, e o Visconde concluía, dizendo que "logo o problema se resolvia, e o atrevido soldado de capacete vermelho, encontrando a relva umedecida, rasgava docemente as barreiras e penetrava inteiramente a gruta negra e vermelha, plantada no centro do Castelo do Amor!" Como se vê, nossos pobres folhetos sertanejos não podiam, mesmo, nem de longe, competir com os romances do Visconde. A safadeza dos nossos era, mais, uma sem-vergonhice risadeira, que só fazia era a gente achar graça. Eram bons, mesmo, era nas estradeirices e quengadas, nas astúcias e molecagens dos quengos. Esses quengos-estradeiros, isto é, pessoas de bom quengo para enganar os outros, eram popularíssimos, entre nós. Os mais conhecidos eram Pedro Malasarte, João Malasarte - neto dele e morador no Rio Grande do Norte - Pedro Quengo, João Grilo e Cancão de Fogo, este um sertanejo, paraibano como eu, cuja vida era narrada num romance de dois folhetos. A história de João Malasarte acontecia nas três Províncias que formam "o coração do Brasil", a Paraíba, o Rio Grande do Norte e Pernambuco, acontecendo os casos no Cariri, no Piancó, no Pajeú e no Seridó. As aventuras do Pajeú, passavam-se exatamente em Serra Talhada, no mesmo local, portanto, onde tinha, realmente, começado o Reinado glorioso e sangrento da minha Casa. Mas a parte mais engraçada era a do Seridó, no Rio Grande do Norte, quando João Malasarte encontrava, na estrada, um Português leso e o enrolava da seguinte maneira: "Chegou no Seridó, liso: não tendo de que viver, arranjou umas pimentas e foi p'ra Feira vender. Porém, no caminho, fez um Português se morder.

João achou o Português com um Jumento acuado, carregado de panelas, lá no caminho, parado, com o Português dando nele, porém o burro emperrado.

João lhe disse: - Camarada, eu tenho um remédio aqui! Deu-lhe as pimentas, dizendo: - Como este, eu nunca vi! Esfregue no fundo dele que ele sai logo daí! o besta passou as bichas no lugar que João mandou: o jumento deu um coice que a cangalha revirou! As panelas se quebraram o o burro desembestou! João disse pr'o Português: - Seu jumento já correu! Com o remédio no f loto, ele desapareceu! o você só pega ele se passar também no seu! o pobre do Português, para pegar o jumento, passou a pimenta ardosa no lugar de sair vento.

João gritou: - Ou cabra besta! Desgraçaste o fedorento! Quando o Português sentiu o ardor no f io f ó, puxou a Faca da cinta o João gritou: - Fique só! Dessa carreira que deu, foi parar em Mossoró!" Aí, andando ao léu pela estrada, João vai bater numa Fazenda, onde pede ao dono que lhe arranje emprego pela comida, pela roupa e um pequeno salário. 0 Fazendeiro emprega-o, João trabalha uma porção de tempo, com grande eficiência, até ganhar a confiança do patrão. Aí arma outro laço que o folheto contava assim: "E João ficou manobrando aquela propriedade. Passou dois anos quieto, sem usar perversidade, conquistando, do Patrão, confiança e intimidade.

Porém Satanás, um dia, manifestou-se em João e ele armou uma Cilada para a filha do Patrão. Ela, por ser inocente, caiu no laço do Cão!

João lhe disse: - Madalena, seu Pai, por ser meu amigo, mandou dizer que você dormisse um sono comigo! Ela foi, porque pensou: - Pai mandou, não há perigo!

Ainda estavam deitados quando o Pai dela chegou. A Moça gritou, do quarto: - Com João aqui eu estou, cumprindo com meu dever, como Papai ordenou!

O velho conheceu logo que havia uma traição: deu um pontapé na porta que a porta rolou no chão! João desabou, de cueca, o a Moça, de camisão!

O Velho pegou João o deu-lhe um soco, direto! João ficou tonto e caiu, mas disse: - Seu Anacleto, não me mate, que se atola! Tenho que criar seu neto! A Velha disse: - Meu Velho, é mesmo! Não mate João, senão nossa filha fica perdida e sem cotação! João falou: - E eu só me caso porque comi do Pirão!" Eu ria com essas astúcias, praticadas nos caminhos empoeirados do Sertão, e me lembrava também, orgulhoso, de que, na Pedra do Reino, a parte das degolações e da batalha era um

romance cangaceiro e cavalariano. Mas a primeira, começo de tudo, fora uma "quengada" de meu tio-bisavô, o primeiro Rei, João Antônio, que armara um laço tão genial quanto os de João Malasarte, tendo, como material, somente duas pedrinhas e um folheto com a profecia sobre El-Rei Dom Sebastião, e erguendo, sobre alicerces tão pobres, todas aquelas grandezas e monarquias.

Assim, aos poucos, ia se formando no meu sangue o projeto de eu mesmo erguer, de novo, poeticamente, meu Castelo pedregoso o amuralhado. Tirando daqui e dali, juntando o que acontecera com o que ia sonhando, :terminaria com um Castelo afortalezado, de pedra, com as duas torres centradas no coração do meu Império. Este, espinhoso e meio adesertado, era integrado astrologicamente por sete Reinos: o dos Cariris Velhos, o da Espinhara, o do Seridó, o do Pajeú, o de Canudos, o dos Cariris Novos e o do Sertão do Ipanema. Era o Quinto Império, profetizado por tantos Profetas brasileiros e sertanejos e cortado por sete Rios sagrados: o São Francisco-Moxotó, o Vaza-Barris, o Ipanema, o Pajeú, o TaperoáParaíba, o Piancó-Piranhas e o Jaguaribe. Ali eu reergueria, sem perigo de vida, as Torres de lajedo do meu Castelo, para que ele me servisse de trono, de pedra-de-ara, de ninho de gaviões, onde eu pudesse respirar os ares das grandes alturas. Seria um Reino literário, poderoso e sertanejo, um Marco, uma Obra cheia de estradas empoeiradas, catingas e tabuleiros espinhosos, serras e serrotes pedreguentos, cruzada por Vaqueiros e Cangaceiros, que disputavam belas mulheres, montados a cavalo e vestidos de armaduras de couro. Um Reino varrido a cada instante pelo sopro sangrento do infortúnio, dos amores desventurados, poéticos e sensuais, e, ao mesmo tempo, pelo riso violento e desembandeirado, pelo pipocar dos rifles estralando guerras, vinditas e emboscadas, ao tropel dos cascos de cavalo, tudo isso batido pelas duas ventanias guerreiras do Sertão: o cariri, vento frio e áspero das noites de serra, e o espinhara, o vento queimoso e abrasador das tardes incendiadas. Nas serras, nas catingas e nas estradas, apareceriam as partes cangaceiras e bandeirosas da história, guardando-se as partes de galhofa e estradeirice para os pátios, cozinhas e veredas, o as partes de amor e safadeza para os quartos e camarinhas do Castelo, que era o Marco central do Reino inteiro.

FOLHETO XV

0 Sonho do Casteló Verdadeiro Era um sonho grandioso, um sonho à altura da estirpe dos Quadernas. No fundo, porém, lá bem longe e bem dentro do meu sangue, reprimido pela covardia, vigiava ainda o desejo de reconquistar o Castelo real, o da Pedra do Reino. Não o de erguer um Castelo poético, como o dos Cantadores; mas o de ir ao Pajeú e retomar, a patas de cavalo, ponta de punhal e tiros de rifle, o Castelo de pedra que era meu e que os Pereiras tinham conquistado. Só assim eu poderia ser, também, Rei do Sertão, como Jesuíno Brilhante e meu bisavô. Só assim eu seria, de fato, o Cavaleiro que, encarnando o Brasil, seria estimado e honrado pelos amigos, temido pelos inimigos e amado pelas mulheres, belas Princesas parecidas com Rosa, a da "Onça Malhada", e com Marina, a do folheto. Gozaria de todas a meu prazer, tendo as primícias das donzelas e podendo até degolá-las, caso isso me desse na veneta, como tinha dado na do meu bisavô, "o Execrável".

Ora, em 1930, meu tio e Padrinho, Dom Pedro Sebastião Garcia-Barretto, tomara parte na "Guerra de Princesa", ao lado de Dom José Pereira Lima, contra o Governo e a Polícia do Presidente João Pessoa. Quando Dom José Pereira, nessa guerra, proclamou a independência da Vila da Princesa Isabel, outorgando-lhe Constituição, hino e bandeira, fiz dele, secretamente, Rei da Espinhara, fazendo da Vila de Princesa a capital desse Reino. 0 nome de Vila Real da Princesa Isabel só podia ser resultado de um desígnio da Providência: algum lambe-cu e cheira-peito dos Braganças tinha querido colocar esse nome em nossa muito nobre e leal Vila para bajular a falsa Princesa Isabel, a da Casa de Bragança, a filha do Impostor Dom Pedro II. Agora, porém, ficava claro que a Princesa Isabel que dava nome à Capital do meu Reino da Espinhara era a verdadeira, a da Casa dos Quadernas, minha bisavó. Só não comuniquei tudo isso a Dom José Pereira Lima porque ele, julgando-me um simples agregado e parente pobre de meu Padrinho, estranharia um pouco minhas grandezas. Foi, portanto, em segredo que o sagrei como Rei da Espinhara. E como, apesar de todos os esforços, o Governo não conseguiu derrotá-lo, dei-lhe o tratamento de Dom José I, o Invencível, assim como já tinha ungido meu Padrinho Dom Pedro Sebastião como Rei do Cariri, o que, depois de sua morte, lhe valeu passar à Crônica sertaneja com o nome de Dom Pedro Sebastião, o Degolado.

Como se recorda, o Condestável do Reino de Princesa, em 1930, era Luís Pereira de Sousa, ou Luís do Triângulo, o mesmo que comandava, incógnito, as tropas do rapaz do cavalo branco. Eu, recadeiro e homem de confiança de meu Padrinho, fui várias vezes a Princesa, em 1930, acompanhado por meu irmão bastardo, Malaquias Nicolau Pavão-Quaderna, em missões e embaixadas secretas de Dom Pedro Sebastião para Dom José Pereira. Ninguém pode, assim, imaginar o sobressalto que experimentei, na primeira dessas viagens, quando conheci Luís do Triângulo, em Princesa, e soube que ele, sendo descendente do Comandante Manuel Pereira e do Barão do Pajeú, era o dono atual das terras onde ficavam as torres de pedra do nosso Castelo, sagrado, soterrado e encantado. Só podia ter sido outro desígnio da Providência que, exatamente a Serra do Reino, tivesse ido cair na mão daquele homem, de família inimiga, mas, atualmente, amigo e aliado nosso.

Resolvi imediatamente ir à Serra, para conhecer meu Castelo. 0 tempo não era propício, porque, em 1930, eu estava em missão de guerras e cavalarias, e as estradas, cortadas de Soldados e eriçadas de piquetes, eram perigosíssimas para nós, soldados extraviados daquela aventura guerrilheira. Apesar disso, porém, deliberadamente procurei cativar, e terminei amigo de Luís do Triângulo, que prometeu convidar-me depois, se ambos escapássemos com vida. Eu me calara a respeito da Pedra do Reino: apesar de meu amigo, Luís do Triângulo era um Pereira de pura raça, e bem podia resolver liquidar esta vergôntea da Raça real dos Quadernas.

0 fato é que passou a "Guerra de Princesa". Meu padrinho morreu, degolado por causa dela; mas eu escapei e Luís do Triângulo também. Passaram os anos de 1931, 32 e 33. Entrou 1934, e aproximava-se 1935, ano importantíssimo, porque marcava o início daquilo que inúmeras profecias sertanejas chamavam "0 Século do Reino Encantado", uma vez que o Reinado realmente importante da minha família durara de 1835 a 1838. Então, quando chegávamos ao fim de 1934, escrevi a Luís do Triângulo cobrando a promessa dele e declarando-me disposto a viajar para Serra Talhada em janeiro, caso ele pudesse cumprir o que prometera.

Uns vinte dias depois, recebi a resposta do Condestável de Princesa. Dizia ele que teria grande honra em receber seu amigo e aliado de 1930. Estava perfeitamente lembrado da promessa: que eu viajasse em janeiro, ou quando quisesse, porque ele e os outros Pereiras estavam de braços abertos para me receber. Aconselhavame a seguir a mesma rota das minhas viagens de 1930: Taperoá, Desterro, Teixeira, Imaculada, Água-Branca, Tavares, Princesa. Daí, cruzando a fronteira, entrasse eu em Pernambuco e seguisse, por Flores, até Serra Talhada. Indagava se eu ainda estava lembrado do Chefe atual da família Pereira, Manuel Pereira Lins, mais conhecido como Né da Carnaúba. Comunicava-me que entrara em entendimento com ele, que me receberia., como hóspede, em Serra Talhada. Daí, eu seria finalmente encaminhado para a Vila de Bernardo Vieira, antiga Sítios Novos, onde ele, Luís do Triângulo, estaria me esperando.

Eu me recordava perfeitamente do velho Fidalgo, Dom Manuel Pereira, Senhor da Carnaúba. Como membro do Estado-Maior do Rei Dom José Pereira, tinha sido um dos Doze Pares e um dos Grandes do Reino de Princesa. Era um homem guerreiro e perigoso em tempo de brigas, mas hospitaleiro e manso em tempo de paz. Aliado e parente do Rei da Espinhara, levara um troço dos seus inumeráveis cabras-de-guerra para integrar o invicto Exército de Princesa. Com essas coisas ardendo na cabeça, passei a noite de ano-novo de 1934 na mais tensa expectativa. Iam começar os anos do Século do Reino e eu ia ver, pela primeira vez, a Pedra do Reino. Sem me sentir, ia transformando a carta de Luís do Triângulo numa Crônica-Epopeica, escrita no estilo monárquico que eu aprendera lendo as histórias de Souza Leite. Dizia para mim mesmo: "Partindo da Vila Real da Ribeira do Taperoá, farei dois pousos principais. 0 primeiro, ainda dentro do meu Reino do Cariri, na Vila Real da Serra do Teixeira. 0 segundo, na Vila Real da Princesa Isabel, Capital do meu Reino da Espinhara. Daí, cruzando a fronteira, entrarei no meu Reino do Pajeú, e entrarei triunfalmente a cavalo, como todo Cavaleiro que se preza, na Capital dele, minha muito nobre e leal Vila Bela da Serra Talhada!" Passei então um telegrama a Luís do Triângulo, avisando-o de que partia, e comecei os preparativos da viagem. Resolvera levar comigo meu irmão predileto, Malaquias, e um amigo, o fidalgo Euclydes Villar, intelectual e Poeta famoso da nossa Vila, homem que além de Mestre em charadas e logogrifos, era fotógrafo respeitado, instalado com oficina, primeiro em Taperoá, terra sua, depois na antiga Vila Nova da Rainha de Campina Grande.

A presença de Malaquias era-me indispensável porque ele, ao contrário do que acontece comigo, é corajoso, bom Cavaleiro, bom atirador e bom caçador. Os Quadernas são altos, mas Malaquias é o mais alto, robusto e bem-proporcionado de todos. Creio que, em todo o Cariri, só havia dois homens capazes de derrotar Malaquias numa luta corpo a corpo. 0 primeiro, era Marino Quelê Pimenta, pela descomunal força, física. 0 outro, era meu primo Arésio Garcia-Barretto, filho mais velho de meu Padrinho: não porque fosse muito mais forte, mas porque, na luta, Malaquias combateria pela alegria do combate, enquanto que Arésio, moreno e cerrado, depois de receber os primeiros golpes, não poderia impedir que irrompesse de dentro dele aquela violência obscura e cega que morava nos recessos de seu sangue e que foi a causa de tantos infortúnios para nós e para ele mesmo. Meu irmão Malaquias, porém, era um desses homens que, sem esforço nenhum, atraem risonhamente as mulheres, coisa que sempre me causou a maior inveja. Muitas vezes eu passara pela decepção de levar meses e meses fazendo prodígios de habilidade para atrair a atenção de uma mulher, isto para ver Malaquias, de volta de uma das suas viagens de cambiteiro, conseguir, sem levantar um dedo e no mesmo instante, aquilo que eu tentara em vão, a força de mérito e por tanto tempo. Restava-me somente o consolo de ser o Chefe e irmão predileto do próprio Malaquias e dos outros bastardos, que não se davam bem com meus irmãos legítimos, Manuel, Francisco, Antônio e Alfredo.

Assim, a ida de Malaquias destinava-sé a fazer brilhar a família Quaderna diante dos aguerridos e façanhosos Pereiras. Em Serra Talhada, das charadas, das conversas de guerra's e caçadas, da Astrologia e de tudo o mais que se liga à Literatura, poderia eu me encarregar, como Poeta, ex-seminarista e Acadêmico que sou. Mas se fosse para lá sozinho, seria derrotado infalivelmente pelos Pereiras, na parte dos heroísmos e cavalarias.

Quanto a Euclydes Villar, eu jurara secretamente que, chegando ao Pajeú, acharia um meio de fazer com que os próprios Pereiras me levassem à Pedra do Reino. Seria uma vitória que eles conduzissem para lá aquele que, tomado como simples Escrivão, ex-seminarista e Bibliotecário, era, de fato, o Rei do Quinto Império, Dom Pedro Dinis Quaderna, o Astrólogo, ou Dom Pedro IV, o Decifrador, como sou mais conhecido. Euclydes Villar era quem se encarregaria de documentar isso, fotografando os lances principais da viagem. Eu teria o cuidado de me fazer retratar junto das pedras, com as torres absolutamente iguais, reluzindo gloriosamente ao sol o chuvisco prateado que as recobria e que formavam, no meu sonho, o Castelo de pedra e prata do meu sangue.

BANDEIRA DA ONÇA

O Corregedor assumiu um ar esperto, astuto, desconfiado, e disse: - Ela não pode ter visto o fazendeiro fechar as duas portas, porque, depois de fechada a de baixo, não se pode mais ver a de cima! - Tem razão, Senhor Corregedor, e eu ia, já, esclarecer esse fato! Realmente, naquele dia, quando sentimos falta de meu Padrinho e começamos a procurá-lo, topamos com a porta de baixo trancada por dentro. Mas mandamos chamar um machadeiro que arrombou a porta, e foi quando subimos a escada que vimos a segunda porta, também trancada por dentro. Foi só depois de arrombar essa segunda porta que encontramos o corpo.

- Quem foi que primeiro sentiu falta de Dom Pedro Sebastião? - perguntou o Corregedor, revelando, pelo tratamento de Dom, que ele usara, já, sem se aperceber, como essas histórias de Fidalguia e monarquismo da Esquerda são contagiosas. Mas fingi não notar nada e respondi: - Quem primeiro sentiu falta de Dom Pedro Sebastião foi Arésio. Mas, antes mesmo que ele desse o alarme, minha tia, Dona Filipa Quaderna, também começou a sentir falta e nos disse! - Além do senhor e de Arésio, quem mais entrou no aposento da torre? - Está lá, também, no processo, Doutor: quem encontrou o corpo fomos eu, Arésio, Tia Filipa, o Doutor Samuel e o Professor Clemente.

- Vá anotando, Dona Margarida, tudo isso é muito importante! O senhor diz que, com as portas trancadas, o mirante era praticamente inacessível. Mas os assassinos poderiam tê-lo matado pelas seteiras, atirando de longe, através delas! - Meu Padrinho foi morto a faca, Senhor Corregedor! - Imaginemos, então, que, por fora, encostando escadas às paredes da torre da capela, tenham subido dois, três ou quatro assassinos. Nesse caso, pelas seteiras, pegando o velho fazendeiro descuidado e por todos os lados da torre de uma vez, podem tê-lo matado com chuços ou com facas de ponta amarradas fortemente a varas compridas! - Não pode ser não, Senhor Corregedor! Não havia escada nenhuma, fora! - Pode ter subido alguém pela corda do sino! - Na "Onça Malhada" fazia muitos anos que não havia missa. A corda do sino tinha caído, de velha e esfiapada, e nunca mais tinha sido substituída! - Bem, então podem ter levado as escadas, retirando-as depois! 308 - Também não pode ter sido não, Excelência! Havia vários homens trabalhando nas imediações da casa, eles teriam visto colocar as escadas! Além disso, por trás, a "Casa da Onça Malhada" é toda murada, porque fica quase a pique sobre um despenhadeiro, formado ali pelo enorme lajedo sobre o qual ela é edificada. Assim, a única parede"na qual os assassinos poderiam ter encostado uma escada era a que dá frente para o pátio pedrado e lajeado da fazenda, de modo que teria sido impossível trazer a escada e encostá-la sem que os homens vissem. Não se esqueça, também, de que mesmo esse pátio é murado, pois a torre, a capela e as duas moradias da "Casa-Forte" são afortalezadas e a torre foi construída exatamente de modo a permitir que os Garcia-Barrettos atirassem nos Arqueiros tapuias do modo mais seguro possível! Finalmente o senhor se lembre de que, em 1930, com a "Guerra de Princesa", a "Onça Malhada" estava fervilhando de gente armada, com centenas e centenas de cabras-do-rifle e cabras-do-eito armados e preparados para o que desse e viesse! - Então, foi suicídio! - A natureza dos ferimentos afastava essa possibilidade, Senhor Corregedor: naquele lugar inacessível, meu tio, cunhado e Padrinho, Dom Pedro Sebastião, foi encontrado, ainda quente e sangrando, poucos momentos depois de ter sido assassinado. Tinha levado várias cacetadas na cabeça, estava degolado, com a garganta cortada, e terrivelmente esfaqueado em todo o corpo, sendo que o ferimento que golfava mais sangue era naturalmente o da garganta. No entanto, ele estava só, e não havia, na torre, nenhum rastro, nenhum sinal dos assassinos! - Nenhum sinal? Nem um botão de camisa? Nem um fio de cabelo? O fato foi verificado? Não havia nenhum indício? - O fato foi verificado no processo, Excelência: não havia indício nenhum! Eu não já lhe disse que isto aqui é um enigma sério, um enigma de gênio, um enigma brasileiro, sertanejo e epopéico? Ora indício! Com indício, é canja, qualquer decifrador estrangeiro decifra! No caso, não havia nada: nem vela dobrada, nem disco mortífero, nem botões de camisa, nem abotoaduras de ouro, nem fios de cabelo, nem alfinete novo, nem nada dessas outras coisas que costumam fornecer pistas aos decifradores dos ridículos enigmas estrangeiros! Para o meu enigma, portanto, só um Decifrador brasileiro e de gênio! Agora, havia era um pormenor estranho, que reforça nossa convicção de que a morte de meu Padrinho só pode ter sido praticada dentro da própria torre, gastando-se no crime um tempo tal que pessoas trepadas em escadas o usando chuços através das seteiras não podem tê-lo executado de jeito nenhum: é que, na espádua esquerda de Dom Pedro Sebastião, tinham ferrado, a fogo, um ferro desconhecido e que não é nenhum dos ferros familiares de ferrar boi do Sertão da Paraíba! Eu sei, porque no nosso "Instituto Genealógico e Histórico do Sertão do Cariri" temos um arquivo e registro desses ferros, arquivo que eu organizei por sugestão do Doutor Pedro Gouveia! - Você ainda se lembra como era o ferro? - Me lembro como se fosse hoje, Excelência! Era uma espécie de lua, ou melhor, para ser mais fiel à nobre Arte da Heráldica, um crescente, com as pontas viradas para cima e encimado por uma cruz.

- A marca do ferro na espádua de seu Padrinho era recente? - A queimadura era recentíssima! Quando a gente entrou na torre, sentia-se ainda a catinga meio fumaçada e polvorenta de carne de bicho ferrada! ferro? elevado Nenhum, Excelência! Eu não já expliquei que no aposento da torre da capela não havia nada, a não ser o sino? - Eu digo é no mato, pelas imediações. Procuraram? - Procuramos, sim senhor! Não havia sinal de fogo nenhum, por perto da "Casa-Forte da Onça Malhada"! - Então, foi que trouxeram de longe o ferro quente! Como é que puderam conservá-lo em brasa tanto tempo, durante o caminho? - E quem sabe, Excelência? O Corregedor olhou-me durante alguns momentos, de modo fixo e com ar descontente. Depois, negaceou: - A que motivo o senhor atribui a morte de seu tio e padrinho? - Não atribuo a motivo nenhum, Senhor Corregedor, porque não tenho a menor idéia sobre isso! - Ele era muito rico, não? - Demais! Era o homem mais rico, mais fidalgo e mais poderoso do Sertão! Aliás, no caso, isso seria obrigatório: de outro modo, eu não poderia tê-lo escolhido como personagem central e Rei decaído da minha Epopéia, pois não se poderia chamar a "perfídia terrível" em que ele foi trucidado de "queda do trono, da Coroa e da monarquia do Sertão do Cariri"! - Bem, então, se ele era rico assim, o motivo do crime pode ter sido roubo.

- Mas não foi não, aí é que está! Como depois nós verificamos, não tinha havido roubo nenhum! A única falta que se notou em toda a "Casa da Onça Malhada" foi a de três objetos, aliás sem grande importância e que podem, até, ter desaparecido antes daquele dia sem que ninguém tivesse se apercebido. Eram um anel que meu Padrinho usava às vezes, uma bengala encastoada de ouro e um tinteiro de bronze.

- É verdade que Arésio, o filho mais velho, viajou repentinamente, abandonando a casa logo no dia seguinte ao do enterro de Dom Pedro Sebastião? - É verdade, o que, aliás, foi uma sorte para ele, porque do contrário poderia ter morrido no incêndio que uma mão desconhecida ateou à casa-forte na noite daquele mesmo dia 24 de Agosto de 1930.

- E o filho mais moço, Sinésio? - Aí é que está o nó, Excelência, ou melhor, aí é que está a parte mais astrológica e zodiacal do nó! Naquele dia, quando nós descemos daquela torre astrosa e fatídica, nova e terrível surpresa nos aguardava, embaixo: Sinésio, o filho mais moço, mancebo que andava então pelos vinte anos, tinha desaparecido. Parecia que "a terra se abrira e ele fora sepultado em suas entranhas"! - Senhor Quaderna, tenho observado que o senhor, de vez em quando, dá para falar difícil, o que perturba um pouco a clareza do depoimento! - É uma questão de estilo, Senhor Corregedor, uma questão epopéica! Quando eu tirar as certidões, quero encontrar o estilo da minha Obra pelo menos já encaminhado! Além disso, Samuel; segundo Clemente, adota "o estilo rapão-ranhoso de cristais e joiarias hermético-esmeráldicas da Direita". Já Clemente, segundo Samuel, adota "o estilo raso-circundante, raposo e afoscado da Esquerda". Eu fundi os dois, criando "o estilo genial, ou régio, o estilo raposo-esmeráldico e real-hermético dos Monarquistas da Esquerda". Agora, porém, quando eu afirmei que a terra se abriu e meu primo e sobrinho Sinésio foi sepultado em suas entranhas, não estava falando assim somente por uma questão de -estilo não. Usei a expressão, primeiro porque é a usada em todos os "contos" do Almanaque Charadístico, de onde a copiei. Depois, porque, no caso, ela se aplica perfeitamente à estranha Desaventura de Sinésio, o Alumioso, e à Demanda Novelosa do Reino do Sertão! - Explique-se melhor, porque o caso, aqui, não é de estilo não, é de inquérito! Como foi que o rapaz desapareceu? - Bem, Senhor Corregedor, como era de esperar, as versões que apareceram foram as mais contraditórias! As circunstâncias enigmáticas da morte de Dom Pedro Sebastião e o sumiço misterioso e inexplicável de Sinésio, impressionaram fatidicamente "a imaginação dos bárbaros e fanáticos sertanejos do Cariri", como costuma dizer Samuel. Dom Pedro Sebastião, aliado aos Dantas, da Serra do Teixeira, e ao Coronel José Pereira Lima, Senhor da Vila da Princesa Isabel - centro principal da "Guerra de Princesa" - era uma das principais colunas sertanejas da rebelião E não havia nenhum sinal do fogo onde esquentaram ocontra o Presidente João Pessoa! Começaram, então, imediatamente, a correr boatos que atribuíam a morte do velho Rei e a desaparição de seu filho, Dom Sinésio, o Alumioso, a motivos políticos.

- Eu sei, e esse é um dos motivos pelos quais resolvi estudar, pessoalmente, esse caso! Tive a honra de ser correligionário e servidor do inolvidável Presidente João Pessoa, de modo que o senhor e seus companheiros podem ficar certos de que vou apurar, bem apurada, toda essa história! Ao dizer isso, o Corregedor cerrou de repente os maxilares, como um porco-do-mato, e tomou, sem querer, uma expressão de ferocidade que me demonstrou logo que, ou eu ia com cautela, ou estava desgraçado para o resto da vida. Então falei, temeroso e solícito: - Estou pronto a ajudar o senhor do jeito que possa! Mas como eu ia dizendo: quanto a Sinésio, os boatos surgidos eram ainda mais fantásticos e desencontrados. Segundo a versão mais divulgada, enquanto, na torre, os assassinos degolavam o velho Rei do Cariri, Sinésio, que estava embaixo, adormecido em sua cama, fora raptado por um grupo de Ciganos sertanejos. Segundo os boatos, os Ciganos - que estavam, também, a serviço dos seguidores mais fanáticos do Presidente João Pessoa - tinham ministrado ao Prinspo Alumioso adormecido o chá de uma tal de "erva-moura", que deixa o sujeito como que sonhando acordado! - Senhor Quaderna, consta-me que o senhor, além de várias outras habilidades, é um grande entendido em raízes sertanejas. É verdade isso? - indagou lentamente o Corregedor, com uma expressão que me deixou frio.

- É, sim senhor! Mas, até hoje, só empreguei essa minha habilidade para o bem, juro por tudo quanto é sagrado! O que eu sei de raízes é o que aprendi no Lunário Perpétuo e nas coleções do Almanaque do Cariri que meu Pai publicava.

- Quer dizer que as habilidades de charadista, Astrólogo e raizeiro do senhor são heranças de família? - São sim senhor, eu já puxei a meu Pai! Foi dele, aliás, que eu puxei também minhas qualidades poéticas, se bem que, modéstia à parte e não faltando com o respeito filial, como Poeta eu seja mais completo do que ele foi. Como o senhor deve saber, existem seis qualidades de Poeta e a maioria deles ou pertence a uma qualidade ou a outra. Os melhores, pertencem a duas categorias ao mesmo tempo. Mas somente os maiores de todos, os grandes, os "raros do Povo", pertencem, ao mesmo tempo, às seis categorias! Meu Pai, que Deus guarde, era Poeta de sangue e de ciência. Mas eu, modéstia à parte, sou dos poucos, dos raros, dos grandes, porque sou, ao mesmo tempo, poeta de cavalgação e rei312 naço, Poeta de sangue, Poeta de ciência, Poeta de pacto, de estradas e encruzilhadas, Poeta de memória e Poeta de planeta! Mesmo porém tendo sido mais completo do que ele, grande foi a influência que recebi das qualidades de Poeta, historiador, Astrólogo e genealogista Sertanejo de meu Pai! - Quer dizer, então, que, como leitor do Lunário e do Almanaque, o senhor já conhecia a tal "erva-moura" que deram a Sinésio! - Excelência, eu não sei, com certeza, se deram a ele ou não deram o chá de erva-moura! As versões sobre o desaparecimento de Sinésio eram, como eu disse, as mais desencontradas possíveis! Num ponto, porém, todos os partidários dele concordavam: diziam que, depois de raptado, Sinésio fora levado para a Cidade da Paraíba, capital do nosso Estado, e encarcerado debaixo da terra, num subterrâneo cavado durante a "Guerra Holandesa" e que liga a Igreja de São Francisco à Fortaleza de Santa Catarina, situada em Cabedelo, a umas três ou quatro léguas de distância da Igreja! - Esse subterrâneo não existe, Senhor Quaderna! Isso é patranha! Aqui no Nordeste, em todo lugar por onde os Holandeses passaram, no século XVII, o Povo inventa que existe um subterrâneo cavado por eles! São imaginações descabidas da ralé ignorante da Paraíba! - Pode ser, Excelência, não sou eu que sustento essa história não: estou contando o que me disseram e vendendo a história ao senhor pela preço que me venderam! Aliás, esta opinião do senhor era, também, a dos adversários de Sinésio. Mas, segundo os partidários de Dom Pedro Sebastião e Sinésio, o Presidente João Pessoa, primeiro, e, depois de seu assassinato, os seus seguidores mais fanáticos - como o Interventor Antenor Navarro, por exemplo - sabiam que o Prinspo Alumioso era uma vítima e refém precioso perante os Sertanejos rebelados da gloriosa "Guerra de Princesa". Por isso, queriam conservá-lo prisioneiro, como elemento de intimidação e trunfo para a derrota dos partidários dele! Mas as pessoas que, aqui na Vila e no resto do Sertão, eram contrárias a Sinésio, isto é, os partidários do usineiro e dono de minas Antônio Noronha de Britto Moraes, esses diziam que Sinésio estava morto e bem morto, sepultado não no subterrâneo, mas sim debaixo dos clássicos e comuns sete palmos de terra que cobrem todo mundo! Como Vossa Excelência pode ver agora, em qualquer dos casos a expressão do Almanaque Charadístico se aplica perfeitamente, porque, seja no chão ou no subterrâneo, o fato é que a terra se abriu e Sinésio foi soterrado - ficou ali, soterranho, sepultado em suas entranhas! - Senhor Quaderna, tenho que fazer, agora, uma observação contrária à de ainda há pouco! Eu disse que às vezes o senhor dava para falar difícil: agora,. devo observar que, para um Epopeieta, o senhor de vez em quando dá para falar errado! Agora mesmo, o senhor disse "soterranho", em vez de "subterrâneo", e disse, também, duas vezes, "Prinspo" em vez de "Príncipe"! - Não é erro não, Excelência, é o Português pardo, leopardo, garranchento e pedregoso da Catinga, como diz o genial Gustavo Barroso! Quando falo de Dom Sinésio, o Alumioso, eu prefiro dizer "Prinspo" porque é assim que escrevia o genial E. P. Almeida, guerrilheiro do "Império do Belo Monte de Canudos", na carta que foi encontrada em seu bornal de balas, em 1897! - Está bem, mas vá adiante! - disse o Doutor Joaquim Cabeça-de-Porco com ar enfastiado, enquanto, na carreira e de acordo com suas determinações, Margarida ora se detinha ora copiava tudo, ao teleco-teco da velha máquina de escrever.

Eu continuei: - Essa dúvida sobre a "vida, paixão e morte" do Alumioso, acarretava sérios problemas no tocante à herança e ao testamento do Pai dele. Naturalmente a pessoa mais afetada por isso era seu irmão Arésio, impedido de entrar na posse integral e efetiva da "Casa-Forte da Torre da Onça Malhada". Não poderia fazê-lo enquanto Sinésio não fosse declarado morto ou ausente - expressão esquisita para os leigos mas que faz parte das coisas da Justiça e que, portanto, Vossa Excelência, como Corregedor, conhece melhor do que eu - simples Poeta-Escrivão como Pero Vaz de Caminha! E aí, entre os anos de 1930 e 1935, as notícias sobre Sinésio, o Ausente, apareciam e desapareciam, cada vez mais fantásticas, incertas e enigmáticas, e sempre ligadas às Revoluções ou tentativas de insurreição acontecidas no Brasil durante esse período. Relacionadas, principalmente, com as rebeliões e vinditas sertanejas! Como Vossa Excelência deve se lembrar, essas datas revolucionárias são: em 1930, a "Revolução Liberal"; em 1931, os primeiros tiroteios e greles comunistas que tiveram o Recife como centro; em 1932, a "Revolução Constitucionalista" de São Paulo e, aqui no Sertão, a mal estudada mas importante "Guerra do Verde e do Vermelho"; e, finalmente, em 1935, a "Revolução Comunista" cujos centros principais foram o Rio, o Recife e o Rio Grande do Norte, mas cujo episódio mais importante para a minha história, foi a "coluna sertaneja" que, partindo de Natal foi derrotada pelos Sertanejos, na Serra do Doutor, no Sertão do Seridó e que teve papel preponderante no desfecho da história de Arésio e Sinésio Garcia-Barretto.

Ora, Senhor Corregedor, desde quando o velho Rei, Dom Pedro Sebastião, era vivo - e mais ainda depois de sua morte - os moradores da nossa Vila tinham se separado, formando dois partidos em torno dos filhos dele! Uns tomavam o partido de Arésio, filho do primeiro casamento de meu Padrinho com Dona Maria da Purificação Pereira Monteiro. Os outros, tomavam o de Sinésio, filho de minha irmã, Joana Garcia-Barretto Ferreira Quaderna. Na verdade, havia ainda um outro filho, Silvestre, nascido entre Arésio e Sinésio e no intervalo dos dois casamentos de meu tio e Padrinho. Mas o partido deste segundo filho ninguém pensava em tomar! Primeiro, porque ele próprio era partidário de Sinésio. Depois, pprque ele era bastardo e pobre. E, finalmente, porque, depois da morte de Dom Pedro Sebastião, todo mundo, de repente, passou a considerá-lo como meio idiota! - E verdade que, entre os filhos, Dom Pedro Sebastião tinha preferência especial por Sinésio? - E, sim senhor! Arésío nunca se dera muito bem com o Pai, porque ambos tinham gênio violento e estranho e, ao mesmo tempo, eram muito diferentes na maneira de exercer essa violência! Creio, aliás, que essa hostilidade existente entre Dom Pedro Sebastião e seu filho mais velho, Arésio, foi o motivo que levou o juiz da nossa Comarca a tomar, logo depois da morte do velho Rei e Capitão-Mor do Sertão do Cariri, uma decisão que a muitos pareceu estranha: a de nomear como ínventariante dos bens do Rei Degolado, não seu filho mais velho Arésio, como seria natural, e sim o maior inimigo e adversário político de meu Padrinho, Antônio Noronha de Britto Moraes. Acresce que, com a desaparição de Sinésio, o problema da sucessão do nosso Rei do Cariri se complicara. Diziam que, de acordo com a Lei brasileira, teria que decorrer o prazo de dois anos para que, legalmente, o rapaz desaparecido fosse declarado ausente. Está certo isso, Doutor? - Está, uma vez que ele não deixou, na Vila, procurador legalmente habilitado! - Era exatamente isso o que diziam os partidários de Arésio, entre os quais figurava naquele tempo, em primeiro plano e por ter sido contratado profissionalmente, o Advogado que Vossa Excelência já conhece, o Bacharel Clemente Hará de Ravasco Anvérsio, criminalista, mestre-escola e Filósofo de altos méritos. Já os partidários de Sinésio, soprados pelo Promotor e curador de ausentes,

FOLHETO LII

Os Três Irmãos Sertanejos o Poeta Samuel Wan d'Ernes, lembravam que a Lei fazia, ainda, outra exigência para que, no prazo de dois anos, o ausente fosse dado como legalmente desaparecido: a de que não houvesse notícias dele durante esse tempo. Está certo isso, também, Senhor Corregedor? - Está, é isso mesmo! - "Ora, notícias dele é o que não falta!", diziam os mais exaltados Sertanejos do partido do filho mais moço. "Sinésio está preso, escondido pelo Governo e pela Polícia-Secreta deles, no subterrâneo que os Holandeses construíram da Igreja de São Francisco até o Forte de Cabedelo!" -E pode-se, lá, chamar esse boato ridículo de notícia?', retrucavam, indignados, os partidários de Arésio. `Quem é que garante a existência desse subterrâneo? Quem foi que, algum dia, já entrou nele? Ninguém! Esse subterrâneo não passa de uma invenção do Povo ignorante dessa terra infeliz que é a Paraíba!- Os partidários de Arésio tinham razão nesse ponto, como já expliquei! - falou o Corregedor.

- Sim, Excelência, mas, apesar da lógica dessa objeção, os partidários de Sinésio continuavam a acreditar no subterrâneo e a sonhar com o dia em que o jovem Prinspo Alumioso conseguiria vencer seus inimigos cruéis e desconhecidos, voltando à sua terra, para como se esperava dele desde menino - causar a perda dos poderosos e fazer a felicidade de todos os pobres, desgraçados, infelizes e deserdados da sorte no Sertão do Cariri! - Como Vossa Excelência pode ver por aí, os partidários de Arésio eram os mais razoáveis e esclarecidos! - disse eu, para lisonjear o Corregedor que manifestara aprovação ao ponto de vista deles. - Não admira, aliás, que assim acontecesse, porque eram as pessoas mais ricas e bem-situadas da Vila. É verdade que, a princípio, houvera uma cisão entre essas pessoas, ficando com Arésio os membro da Aristocracia rural, e a Burguesia urbana cerrando fileiras ao lado de Antônio Moraes e do Comendador Basílio Monteiro, que, politicamente, seguia o usineiro pernambucano. Depois, por uma circunstância que logo explicarei, essas duas facções se juntaram, de modo que o elemento mais poderoso do Sertão ficou a favor de Arésio. Já os partidários de Sinésio, eram os Almocreves, os cambiteiros, os Ciganos, as lavadeiras, os Vaqueiros, os cabras-do-eito, as Mulheres-Damas, os fazedores de chapéus de palha, os Cavalarianos, os cabras-do-rifle, as Fateiras, os Cantadores, os Cangaceiros ...

- Enfim, eram recrutados entre o Povo, a ralé sertaneja, não é isso? - interrompeu o Corregedor, meio impaciente.

- Vossa Excelência chame como quiser! Eu, fiel aos ensinamentos de Samuel, Clemente, Carlos Dias Fernandes, João Martins de Athayde, Gustavo Barroso e outros Mestres, considero toda essa gente, especialmente os homens que montam a cavalo e as moças que, vencendo a Desgraça e a -Fome, puderam permanecer bonitas, como Fidalgos e Princesas do Povo Brasileiro! O senhor note que, enquanto no resto do Brasil, prostituta é rapariga, aqui, no Sertão, é Mulher-Dama, o que enobrece demais essa gente, fazendo com que elas pareçam Damas de paus, copas, ouro e espada! Outra coisa, Excelência: dizia-se, ainda, na rua, que, no caso da berança do velho Rei, meu Padrinho, seria necessário que decorresse o prazo mais longo, de quatro anos, para que Arésio tivesse o direito de requerer, na justiça, a abertura da "sucessão provisória". É verdade, isso? - É verdade! - Então, foi talvez por causa dessas discussões e do caráter duvidoso de todo o caso que o Juiz da Comarca, Doutor Manuel Viana Paes, resolveu nomear um curador para os riquíssimos bens deixados por Dom Pedro Sebastião! - Não senhor, foi um ato de rotina processual! O Juiz tinha que fazer a nomeação! - Entendo, Excelência! E ele não teria causado nenhuma estranheza, talvez, se sua escolha não tivesse recaído naquele mesmo inventariante nomeado anteriormente, aquele sombrio, moreno, poderoso e enigmático Antonio Moraes, rico usineiro pernambucano que, tendo resolvido botar uma indústria na Paraíba, precisara dos minérios do Cariri e começara, lá um dia, a comprar terras aqui. Depois, fora tomando gosto pelo lugar, "onde ainda se mantinham o estilo de vida e os modos da sociedade patriarcal". E fora, aos poucos, estendendo suas garras de gavião sobre tudo, entre nós; de modo tal que, ao açambarcar o algodão, o gado e os minérios de toda a nossa zona, espalhara entre nós um terror quase supersticioso, diante de seu poder, da sua fortuna, de sua capacidade de aniquilar os rivais, de espalhar o infortúnio, de esmagar os que se interpunham entre ele e o domínio total do Cariri - este Sertão onde, até 1930, se exercera o poder, também muito grande mas muito diferente, do nosso velho Rei, Dom Pedro Sebastião GarciaBarretto! Levado pelo embalo de Epopeieta, eu tinha dado um "cochilo de Homero" como depoente, e fora mais longe do que desejara, revelando ao Corregedor certas coisas que me convinha calar. Para corrigir meu grave erro, acrescentei imediatamente, para evitar que ele mandasse Margarida copiar: - Foi aí que, exatamente no ano de 1932, uma notícia incendiou o Sertão, como uma pedra-lispe ou pedra-de-corisco que passasse sobre os carrascais empoeirados e pedregosos, queimando a terra sertaneja desde o Cariri até a Espinhara: Sinésio tinha sido finalmente encontrado, morto, na Paraíba! - Em que lugar? No subterrâneo? - Não senhor, mas ali perto, a uns duzentos metros de distância do cruzeiro da Igreja de São Francisco, aquele mesmo Cruzeiro que Carlos Dias Fernandes já vira, um dia, "fincado no meio do Adro e cercado por uma larga peanha de Pelicanos esculpidos em Pedra". Vossa Excelência conhece, por acaso, a "Casa da Pólvora", que fica na descida da Ladeira de São Francisco, na Paraíba, assim pelo lado esquerdo de quem está de frente para a Igreja? - Já ouvi falar, mas não conheço não! Não tenho nenhum interesse por velharias, de modo que nunca me interessei em descer a Ladeira por aquele lado! - Pois quando voltar à Capital, Doutor, não deixe de conhecer! Eu fui lá muitas vezes, quando estudava no Seminário, instalado no velho Convento franciscano pegado à Igreja! A "Casa da Pólvora" é uma velha edificação do século XVIII, construída quando o Reino de Portugal ainda pertencia ao Império do Brasil. Foi feita pelo Governador e Capitão-Mor da Paraíba, João da Maya da Gama, a mando d'El-Rei Dom João V, e concluída em 1710, conforme informação do genial escritor paraibano Irineu Pinto na sua Crônica epopéica Datas e Notas para a História da Paraíba. Ora, Senhor Corregedor, por uma coincidência que não deixou de impressionar violentamente as ardentes imaginações sertanejas, a Casa da Pólvora, do mesmo jeito da torre da "Onça Malhada" onde morrera o Pai, é um pesado edifício de aposento único, com uma só entrada, de tecto abobadado, e iluminado somente por seteiras. É construído "no estilo militar, pesado e austero do século XVIII brasileiro" - como nos explicou logo Samuel, discípulo predileto, para esses assuntos de gosto e Arte, do genial Carlos Dias Fernandes. Al, portanto, nessa "Casa da Pólvora", em condições muito semelhantes às do velho Rei degolado, seu Pai, encadeado à parede por uma grossa e enferrujada corrente que lhe prendia o pé pelo tornozelo, como se fosse um perigo para o mundo ou "um calceta da Existência" - para usar a expressão do genial escritor brasileiro de 1917, Henrique Stepple - foi encontrado, por uns meninos, o cadáver, já desfigurado e apodrecido, daquele verdadeiro Infante Sertanejo, o nosso Dom Sinésio Garcia-Barretto, o Alumioso, ao que parece morto de fome, maustratos, solidão e desespero. Depois de identificado por Arésio, que estava, então, na Capital, foi o corpo convenientemente sepultado,"com todas as honras que acompanham sob a terra os corpos dos Fidalgos, mesmo sertanejos, filhos-segundos, mancebos e infanções", como era o caso do nosso infortunado e alumioso Prinspo.

- Todo mundo esperava, Senhor Corregedor, que, com a notícia da morte de Sinésio, cessassem as controvérsias e discussões o Arésio entrasse em juízo, naquele mesmo ano de 1932, com uma ação que reivindicasse seus direitos. Mas isso não aconteceu. Parecia até que Arésio, contrariando seu gênio violento, se resignara com o infortúnio que se abatera de vez sobre toda a "Casa Real da Onça Malhada". Alguns opinavam que Arésio, não querendo abrir duas frentes de luta - uma com o riquíssimo curador de seus bens, Antônio Moraes, outra com a sombra ausente, mas ainda poderosa, do irmão norto - aguardava, talvez, que chegássemos ao ano de 1934, quando se completaria o prazo dos quatro anos da morte do Pai e do desaparecimento de-Sinésio. Poderia, assim, mais resguardado pela Lei, reivindicar seus direitos, sem entrar em choque frontal com Dom Antônio Moraes.. De fato, como sucede sempre nas quedas das grandes Monarquias sertanejas, a desgraça penetrara de vez na "Casa da Onça Malhada". Dom Pedro Sebastião, tragicamente viúvo pela segunda vez, morrera degolado. Sinésio, primeiro fora raptado, preso e sepultado debaixo da terra, morrendo finalmente dessa maneira terrível e dolorosa que acabo de descrever. Silvestre, o segundo filho, o bastardo, entrou por uma enorme decadência, em comparação com a vida que levara conosco na "Onça Malhada" durante a vida de seu Pai. Passou a errar no abandono, por Vila, ribeiras, estradas e povoados do Sertão do Cariri. Dizia-se que se tornara idiota, mergulhado numa espécie de "estoporamento do juízo", pela sucessão de tragédias que se abatera sobre o Pai e sobre o irmão mais moço, com quem ele fora sempre muito pegado. Contava-se que Silvestre tinha chegado ao extremo de se tornar guia de cego. O cego a quem ele se arrimara como "espoleta" - Pedro Adeodato, Pedro Cego de alcunha - era daqui da Vila. Era um meio-termo de cego, Cantador, beato e Cangaceiro aposentado. Vivia errante e pedinte, de lugar em lugar, vestido com um velho casacão militar, pardo o remendado, que ninguém sabia onde e quando ele obtivera - se bem que alguns de nós desconfiássemos que fossem dados a ele por meu Padrinho de crisma, João Melchíades Ferreira, o Cantador da Borborema. Cantava, esmolava, rezava em altos brados o dizia desaforos a Deus e ao mundo, por tudo quanto era de feira no Sertão. Corriam histórias dos maus-tratos que ele infligia a Silvestre, o qual, apesar disso, era-lhe fiel e dedicado, na idiotice que lhe acabara, de vez, com qualquer resto de dignidade.

- E Arésio? - Senhor Corregedor, entre 1930 e 1934, Arésio entregou-se a uma vida completamente desordenada. Aparecia e desaparecia aqui e ali, sem explicar a ninguém os motivos dessas idas e vindas a Patos, a Campina Grande, à Cidade da Paraíba, à Vila do Martins, ao Pajeú, ao Seridó, a Natal, ao Recife. Dom Antônio Moraes, atendendo a telegramas ou recados seus, enviava-lhe, sem discussão e para onde ele ordenava, as mesadas que o juiz determinara. De modo que Arésio, sendo solteiro, podia perfeitamente Chanter a vida dissipada que escandalizava, aqui, as pessoas de bem da Vila. De vez em quando chegavam até nós os ecos de suas orgias, de seus atos violentos e desabusados, inesperados, inexplicáveis, meio insanos, mesmo. Mas como ele ficava por lá, e aqui só chegavam os ecos, muita coisa de sua vida durante esse tempo ficou obscura, até para aqueles que, como eu, Clemente e Samuel, tínhamos vivido, desde a meninice dele, em estreita ligação com os seus e com a sua Casa. Arésio teria ficado, talvez, um pouco esquecido aqui, se não fosse. sua participação na "Guerra do Verde e do Vermelho", em 1932, e, nos fins de 1934, sua estranha reaparição entre nós.

- Estranha? Estranha por quê? - Estranha porque nesse fim de ano Arésio voltou e, para surpresa e escândalo do Povo, hospedou-se na casa do figadal inimigo de seu Pai, Antônio Moraes. Desprezou a velha casa que os Garcia-Barrettos tinham na Vila e lá ficou morando com os Moraes, no aguardo, talvez, das providências legais para a herança. O pessoal mais pobre, que não gostava dele e era partidário de Sinésio, não deixou de verberar violentamente contra "o procedimento daquele filho desnaturado, daquele condenado, que traía, daquela maneira, o sangue de seu Pai". Já nos meios da Burguesia urbana da Vila, foram muito louvadas "a prudência e compreensão de Arésio que, com aquele gesto, encerrava um desgraçado malentendido que nunca deveria ter separado as duas maiores fortunas do Sertão, os Garcia-Barrettos e os Moraes". Falava-se, mesmo, na rua, que até o problema sério, o problema da herança da "Onça Malhada", seria solucionado entre os Moraes e os GarciaBarrettos, pois, ao que tudo indicava, Arésio ia se casar com Genoveva Moraes, única filha moça do velho inimigo de Dom Pedro Sebastião Garcia-Barretto. Fosse como fosse, e resolvido de vez o problema sério, o da herança, com esse casamento e com a morte-escura do Prinspo Alumioso, foi nesse estado de coisas que entramos no ano de 1935. Chegava, afinal, o momento em que Arésio ia entrar no domínio e posse integrais de sua enorme fortuna - do algodão, das inumeráveis cabeças de Gado cavalar, vacum, ovelhum e cabrum, do dinheiro acumulado durante todos aqueles anos através da exportação de couros e de pedras preciosas, das terras e pastagens imensas da "Onça Malhada", e sobretudo da grande fortuna em ouro, prata e pedras preciosas que Dom Pedro Sebastião deixara.

- É verdade que todo o dinheiro em prata deixado por seu Padrinho ficou sob sua guarda? - É, sim senhor. Mesmo com meu Padrinho vivo, eu era uma espécie de Guarda do Selo e do Tesouro da Onça Malhada, de modo que, quando ele morreu, eu estava com todos os baús atulhados de prata.

- O que foi que o senhor fez desse dinheiro? - Entreguei aq juiz daqui, que mandou colocá-lo sob a guarda de Dom Antônio Moraes.

- E é verdade que Dom Pedro Sebastião ainda tinha escondido uma grande fortuna em ouro, prata e pedras preciosas numa certa furna do Sertão? - É, sim senhor! - É verdade que ele deixou um roteiro, um mapa desse tesouro, com o senhor? - Senhor Corregedor, eu não sei se aquilo pode ser, de fato, chamado de mapa, mas, na verdade, ele deixou comigo um papel que ninguém entendia e que diziam ser o mapa do tesouro.

- Diziam? E o senhor, o que é que diz? O senhor acha que era o mapa? - Acho que não, Excelência.

- Então por que é que se recusava a mostrar esse mapa a qualquer pessoa? Por que não entregou esse papel ao juiz, também? - Primeiro porque nunca considerei que aquilo fosse, mesmo, o mapa. Depois por uma questão de respeito à memória de meu Padrinho. Um dia, meu Padrinho me procurou e me deu aquele papel, dizendo-me que, quando começasse a sentir que a morte estava se aproximando, ele me comunicaria sua decifração, que era muito importante para mim e para Sinésio. Mas, depois de 1926, não sei se o senhor sabe que meu Padrinho ficou meio de miolo mole ...

- Ouvi falar, como ouvi falar que foi o senhor a pessoa que mais contribuiu para isso, com as histórias de coroar seu Padrinho como Imperador do Divino e outras coisas desse tipo.

- Isso é uma injustiça, Senhor Corregedor, é calúnia desse pessoal! Eu já coroava meu Padrinho era a pedido dele, porque desde 1920 e desde a passagem da "Coluna Prestes" que meu Padrinho estava ficando assim, de juízo virado. Pois bem: um dia, vendo que estava chegando o tempo, procurei meu Padrinho para falar com ele sobre o papel. Já naquele tempo começavam a correr boatos sobre o tesouro e uma versão de que o papel seria o roteiro desse tesouro. Procurei meu Padrinho e fiz a ele uma pergunta direta sobre o assunto. Ele, com umas palavras meio esquisitas, confirmou a existência do tesouro mas me disse que tinha escondido tudo tão bem que agora era incapaz de encontrar a fabulosa fortuna que tinha enterrado na furna. Lembrei então a ele o papel que me dera. Ficou muito contente, exaltado, com os olhos fuzilantes. Mas, quando pegou o papel, vi que, ou o papel não tinha sentido nenhum ou então meu Padrinho se esquecera da decifração dele, porque ele foi absolutamente incapaz de encontrar o sentido das palavras enigmáticas que tinha escrito.

- Foi por isso que você não se julgou obrigado a entregar o papel ao juiz? - Foi! - E onde está o papel? - Isso eu conto ao senhor, já, já! Por enquanto, fique anotado aí, nos papéis de Margarida, que corriam notícias de que meu Padrinho tinha deixado um tesouro de prata, ouro e pedras preciosas, uma fortuna incalculável, enterrada e perdida numa furna desse Sertão velho e pedregoso de meu Deus, e que todo o sangue derramado na "Casa da Onça Malhada" se originou disso. E foi quando, exatamente naquele memorável sábado, Véspera de Pentecostes de 1935, sucedeu aquele grande acontecimento sensacional que novamente complicou a história "de sangue e ouro" da herança dos Garcia-Barrettos.

FOLHETO LIII

Meus Doze Pares de França - Naquele dia, Senhor Corregedor, a Vila estava cheia de gente que era um despropósito. Nos dias comuns de feira já desemboca, aqui na rua, uma boa multidão de "beiradeiros", saídos Deus sabe donde. Mas aquele era um Sábado todo especial, de modo que a Vila parecia um formigueiro assanhado. Acontece que os Sertanejos tinham ganho, recentemente, uma pendência surgida entre eles e o Prefeito, que transferira as feiras de Taperoá, realizadas desde os tempos do Império, aos Sábados, passando-as para as Quintas-Feiras. O barulho fora grande, mas terminara com a remoção do Prefeito e com a nomeação daqueles dois ínclitos varões a que já me referi, o Prefeito Abdias Campos e o Presidente do Conselho, Alípio da Costa Villar. Estes, mal se viram no Poder, fizeram retornar aos Sábados as nossas feiras, e este era o motivo principal das festividades daquele dia. O Bispo de Cajazeiras tinha sido convidado, porque as novas autoridades queriam brindar o Povo com uma festa "litúrgica" e outra "guerreira", isto é, a Missa do Domingo de Pentecostes, celebrada pelo Bispo, em roupagens suntuosas, e as Cavalhadas, marcadas para a tarde do Sábado, quando o rebuliço da feira começasse a amainar. O Bispo telegrafara que só chegaria no Sábado à noite, de modo que não contaríamos com sua presença na Cavalhada, da qual participariam os melhores Cavaleiros do nosso Cariri. De qualquer modo, naquele Sábado, tinha se juntado aos feireiros habituais e comuns uma sertanejada formigante, saída de tudo quanto era biboca e pé-de-serra, todos atraídos pelas Cavalhadas e dispostos a pernoitar na Vila, a fim de assistir à Missa do amanhecer do dia seguinte, Domingo de Pentecostes.

- Na sua opinião, o Prefeito e o Presidente do Conselho já tinham alguma notícia do fato que veio a acontecer depois, naquela tarde? - Tinham não senhor, e a surpresa deles foi enorme, vendo reaparecerem os destroços daquela história de amores alumiosos, de crimes inexpiáveis, de sc nho e sangue, a história que formará, depois do meu depoimento, o centro-enigmático do meu Romance e Castelo! - A que horas iam se realizar as Cavalhadas? - De duas para as duas e meia da tarde, Excelência. - O senhor esteve presente a elas? - Não senhor! - O senhor não é o Chefe e organizador de todas as festas desse tipo, aqui na Vila? - Sou, Excelência, mas naquele dia, depois de deixar tudo pronto e determinado, eu tinha saído da Vila, por acaso! - Por acaso? As informações que tenho são outras! Para onde o senhor saiu? - De manhã, fui dar um passeio com Clemente e Samuel, para olharmos uns quadros ibéricos de uma Capela descoberta no mato, e uns desenhos tapuias gravados nas pedras do Olho-d'Água da Gruta do Pedro.

- Seus dois amigos e mestres, Samuel e Clemente, almoçaram na rua? - Almoçaram, sim senhor! - E você? - Eu, não! Samuel e Clemente assistiram às Cavalhadas mas o Quaderna, aqui, estava ausente, fora do lugar dos acontecimentos! - E não havia nenhum Quaderna representando o Chefe nas corridas da Cavalhada? Pelo ar envenenado da cara de cobra, vi logo que Sua Excelência estava mais bem informado do que eu julgara a princípio, de modo que julguei de bom alvitre falar a verdade, para mostrar "a tranqüilidade dos inocentes". Disse: - Não senhor, meus doze irmãos bastardos estavam lá, na Praça, representando a família e o Chefe! Mas isso tinha que ser, era indispensável, porque, modéstia à parte, eles são tidos e havidos como os melhores Cavaleiros do Sertão do Cariri! Margarida cochichou de novo com o Corregedor, que me encarou com seus olhos peçonhentos de Cascavel: - Dona Margarida afirma que o senhor tinha quatro irmãos legítimos. Mas diz que os bastardos são mais de vinte, e não doze como o senhor está dizendo! Ah, Senhor Corregedor, se é assim, não posso contar mais nada não! Se é para eu contar a história só com os sonhos do estilo rapão-ranhoso da Direita, ou somente com a exatidão mesquinha do estilo raso da Esquerna, não vai, de jeito nenhum! Eu só sei contar as coisas no meu estilo, o estilo genial ou régio dos Monarquistas da Esquerda! Mas já que interromperam e me cortaram o fio, vá lá essa última explicação! É verdade: meu Pai, qualquer moça-donzela que facilitava as coisas para o lado dele era passada nos peitos, motivo pelo qual foi a primeira pessoa da família, neste século, a sair no jornal! O Correio de Campina publicou um retrato dele, com uma narração sucinta de sua vida amorosa, e deixando documentado para a posteridade que ele era conhecido como "O Pai-d 'Égua do Cariri"! Esse foi, aliás, o motivo que nos levou à ruína econômica, com a fragmentação da nossa terra "As Maravilhas". É verdade, então, que meus irmãos bastardos são mais de vinte, e se não falei nisso foi porque, para a Epopéia, os que interessam, mesmo, são esses doze, que são meus Doze Pares de França! - Como é? - disse o Corregedor, mais uma vez espantado.

- É isso mesmo, Excelência! Como meu Pai nos deixasse arruinados, vi que tinha de tomar certas providências para salvaguardar a fidalguia da família Quaderna! Não sendo rico, descobri, por exemplo, que meus irmãos mais moços, os bastardos, eram o único jeito que eu tinha de manter, de graça e ainda com lucro, uma escolta de Cavaleiros, semelhante àquela com a qual Dom Pedro I aparece em O Grito do I piranga, quadro do genial pintor paraibano Pedro Américo de Figueiredo e Mello, Grande do Império do Brasil! Nós, os Quadernas, somos também GarciaBarrettos, de modo que...

Margarida falou baixo, de novo, e o Corregedor dirigiu-se a mim, com ar meio embaraçado: - Senhor Quaderna, perdoe que eu entre em pormenores íntimos sobre sua vida, mas preciso esclarecer tudo e Dona Margarida está me informando, aqui, que o senhor, de fato, é parente dos Garcia-Barrettos, mas - como direi? - é um GarciaBarretto...

- Pode dizer, Excelência! Eu absolutamente não me incomodo mais de ser filho-da-puta! Ou melhor, de ser neto-da-puta, porque minha Mãe, coitada, é que era filha-da-puta, filha bastarda do Barão do Cariri e portanto irmã por vias travessas de Dom Pedro Sebastião Garcia-Barretto.. Antes, eu ficava danado da vida quando alguém falava nessa filho-da-putice nossa. Mas lá um dia, numa discussão, Samuel declarou que isso de bastardia não tem a menor importância nessas coisas de fidalguia e linhagens reais, tanto assim que os Braganças, descendentes de Dom João I e Nuno Alvares Pereira, são várias vezes bastardos e netos de padre! Depois daí, fiquei descansado e perdi a vergonha! - Quer dizer que o senhor também é de linhagem real sertaneja? Fiquei apavorado, com medo de que ele já tivesse ouvido falar na minha ascendência real paterna, vinda diretamente dos Reis da Casa da Pedra Bonita. Sim, porque de fato, como sabem, eu pertenço é a duas linhagens reais de uma vez. Mas a dos Garcia-Barrettos, a de minha Mãe, apesar de bastarda é de ouro e Azul e confessável, enquanto a de meu Pai, a dos Quadernas, é negra e Vermelha, e é o estigma de crime e culpa da minha vida, se bem que seja, também, todo o fundamento da glória e do orgulho do meu sangue. Será que eu já estava descoberto? Se estivesse, estaria perdido. Assim, arrisquei na primeira hipótese: - É verdade, Senhor Corregedor! Apesar de bastardo, por via materna eu sou um Garcia-Barretto, e portanto posso dizer, sem jactância, que pertenço à Casa Real do Sertão do Cariri! É nessa qualidade que esses meus doze irmãos bastardos me servem de Guarda-de-Honra, quando, por acaso, preciso fazer alguma cavalgada heróica, semelhante às de Dom Antônio de Mariz ou às do Capitão-Mor Gonçalo Pires Campelo, aqueles dois Carlos Magnos de Dom José de Alencar! E se o senhor duvida, peça, aí, o testemunho de Margarida, que no caso é insuspeita porque é minha inimiga e é uma "virtuosa dama do cálice sagrado de Taperoá"! Margarida, diga aqui ao Doutor: não é verdade que meus irmãos são Pares de França das minhas cavalhadas? Vendo que o Corregedor, talvez a despeito de si, esperava a resposta, Margarida viu que era o jeito e confirmou: - É verdade, Doutor Juiz!

- Que negócio é esse, Senhor Quaderna? - estranhou o Corregedor.

- Excelência, é coisa sabida! Os figurantes das Cavalhadas sertanejas são vinte e quatro Cavaleiros armados de lanças e representando os Doze Pares de França do Cordão Azul e os Doze do Cordão Encarnado! Os Azuis são os Cavaleiros cruzados e cristãos, o os Encarnados são os Cavaleiros mouros e muçulmanos. E o mais bonito, para mim, é que, representando os Vermelhos o partido dos Mouros, ainda assim tenham nomes iguais aos dos azuis, havendo, por exemplo, um Roldão e um Oliveiros azuis e cristãos, o outros Roldão e Oliveiros mouros e encarnados! E assim por diante, até completar os vinte e quatro Cavaleiros, com um nome de Par de França para cada par de dois! Foi por isso que eu destaquei doze prediletos, entre os meus irmãos bastardos, fazendo com que eles assumissem, nas Cavalhadas, o papel de Guarda-deHonra minha! - Uma curiosidade minha, Bibliotecário Quaderna: você colocou seus irmãos no Cordão Azul ou no Encarnado? - Senhor Corregedor, acho que, com o que já lhe esclareci sobre minha posição política, a resposta é clara! Se eu fosse Samuel, teria colocado todos doze no Cordão Azul, e se fosse Clemente, no Encarnado. Mas eu, fiel à minha orientação monarquista-daesquerda, coloquei seis no Cordão Azul e seis no Encarnado. Tive, porém, o cuidado de que não houvesse repetição de papel na família Quaderna: com isso, garantia um título de Par-de-FrançaSertanejo para cada um deles, e, ao mesmo tempo, organizava, com os doze juntos, o Destacamento azul-vermelho da minha Guarda-Real! Eu falava demais, novamente, cego pelo orgulho que depois me perdeu. Mas, no momento, não me apercebi, e continuei no embalo da honra: - Meus doze irmãos formam, aliás, Senhor Corregedor, um lote de Guerreiros que orgulharia qualquer Rei! Num certo dia, importantíssimo para mim, eu chegara à conclusão de que, legítimos ou bastardos, todos os Quadernas eram Fidalgos, e decidi jamais consentir que nenhum de nós exercesse "qualquer profissão vil de Burguês", como diz Samuel. Lembrei-me de que todos nós, filhos de meu Pai, éramos um pouco Vaqueiros caçadores, Cantadores, etc. Podíamos, portanto, nos manter, todos, meio ociosos, meio criminosos, meio vagabundos e donos das nossas ventas, como todos os Fidalgos e Cavaleiros que se ~rezam! Era o único jeito de nos mantermos à altura da nossa linhagem, numa sociedade em que sobram poucas profissões-nobres, na estreita margem de atividades que a propriedade rural deixa. Foi por causa dessa decisão minha, Excelência, que nenhum Quaderna trabalha para filho-da-puta nenhum! Proibidos pelo consuetudinário-fidalgo da família, nenhum Quaderna tem patrão nenhum que exija de nós as obrigações e os trabalhos que têm os industriais, os comerciantes o outros desgraçados e danados Burgueses com vocação de burro de carga! Todos nós só temos profissões livres, ociosas e marginais de Fidalgos! - Como assim? - objetou o Corregedor. - O senhor e alguns de seus irmãos não trabalham na Gazeta de Taperoá, o jornal do Comendador Basílio Monteiro? - Ah, mas em condições muito especiais! Um dia, procurei o Comendador e sugeri a ele que introduzisse, no jornal, uma página literária, charadística e zodiacal. Eu queria dirigi-la, para ter prestígio e força perante os intelectuais da Vila. O Comendador já estava querendo tirar o corpo de fora, quando eu disse que tinha uma exigência: era que ele não pagaria nem um tostão nem a mim nem a meus irmãos! Eu dirigiria a página como se fosse um jornal à parte. O trabalho extra seria todo feito por meus irmãos, como tipógrafos, riscadores e cortadores de madeira. Com isso, o jornal dele ganharia mais leitores e mais dinheiro, porque nós manteríamos, na página, uma seção de horóscopos e um consultório sentimental. A única coisa que eu queria em troca disso, era a permissão de, trabalhando à noite, fora do expediente normal, eu e meus irmãos imprimirmos folhetos e romances que Lino Pedra-Verde venderia na feira, rachando todos nós o lucro. Vendo a possibilidade de melhorar o jornal sem gastar nada, o Comendador concordou imediatamente. Foi assim que começamos a trabalhar na Gazeta. Eu não estou, de fato, trabalhando para o Comendador, e sim para mim mesmo, porque a página é um suplemento separado e independente do jornal e eu sou o Diretor soberano dela. Por seu lado, meus irmãos trabalham é para mim, o não para o Comendador. É por isso que aumentei o meu prestígio de intelectual e Acadêmico sem arranhar, sequer, meus privilégios de Fidalgo! - Bem, mas me disseram, ainda, que a Prefeitura paga ao senhor as Cavalhadas, organizadas e corridas pelos Quadernas! - E Vossa Excelência quer coisa mais fidalga do que isso? Primeiro, mesmo que trabalhássemos para o Estado, seria coisa perfeitamente compatível com a nobreza-de-toga! Mas não é propriamente trabalhar para a Prefeitura, o que fazemos! Nós não somos propriamente funcionários não, é esporadicamente que somos chamados. De fato, nós fazemos as Cavalhadas é somente para nos divertir ociosamente, fidalgamente, e para imprimir na imaginação do Povo taperoaense as nossas imagens gloriosas de Cavaleiros do Sertão. Agora, se a Prefeitura, por conta dela, ainda por cima resolve pagar nossa fidalga diversão, ótimo! Más, todo Fidalgo é estipendiado! Fidalguia sem tenças, bolsas, comendas e estipêndios, não tem graça nenhuma! Era por' isso então que ali, naquele sábado, dia 1.0 de Junho de 1935, estavam os meus doze irmãos prediletos ganhando o dinheiro da Prefeitura. Não porém para trabalhar, com obrigações plebéias de Burgueses, e sim para se divertirem numa Cavalhada ociosa, gloriosa e guerreira de Fidalgossertanejos, com bandeira e tudo! E para que o Corregedor fosse logo travando conhecimento com os meus gloriosos Doze Pares de França do Sertão, desfiei, perante ele, a seguinte lista:

BANDEIRA DO ANJO QUE VINHA NA CAVALGADA DO RAPAZ DO CAVALO BRANCO.

- No Cordão Encarnado, meu irmão Virgolino Pinagé Quaderna, que, na vida civil, é Cantador, fazia o papel de Roldão. Sílvio Junco-Brabo Quaderna, que é Vaqueiro e rabequista, fazia o papel de Oliveiros. Bento Guará-Vieira Quaderna, que é Tangeria e boiadeiro, era Gui de Borgonha. Euclides Seriema Quaderna, Almocreve, era Ricarte da Normandia. Matias Maciel Carnaúba Quaderna, Santeiro e Imaginário, era Urgel de Danoá. E Gregorio Camaçari Quaderna, fotógrafo e Poeta, era Guarim de Lorena. No Cordão Azul, Joaquim Braz Quaderna, tipógrafo do meu suplemento, era Bosim de Gênova. Augusto Maracajá Quaderna, Cavalariano, era Tietri de Dardanha. Antônio Papacunha Quaderna, tocador de pífano e Pintor das bandeiras e santos das procissões, era o Duque de Nemé. Rubião Timbira-Tejo Quaderna, fazedor de fogos e Fogueteiro, era Hoel de Nantes. Taparica Pajeú-Quaderna, cortador de madeira, Riscador e tipógrafo-ajudante, era Gerardo de Mondifer. E finalmente, último mas não derradeiro na minha admiração, vinha o predileto entre os meus prediletos, Malaquias Nicolau Pavão Quaderna, aguardenteiro, conquistador, folheteiro e Cambiteiro, no papel guerreiro e heróico de Lamberto de Bruxelas! Não se esqueça, Senhor Corregedor, de que todos nós éramos atiradores, Caçadores, montadores e trocadores de cavalos, de modo que mesmo os mais sedentários de nós, os meus tipógrafos, por exemplo, tomavam parte, com os outros, nas caçadas, nas cavalarias, nas "entradas" ociosas e fidalgas que eu organizava o que eram expedições guerreiras à altura do nosso sangue e da nossa estirpe! Se Vossa Excelência visse, naquele sábado, todo o meu pessoal preparado para a Cavalhada, ficaria entusiasmado, mesmo não sendo Sertanejo! Os Doze Pares de França do Azul vestiam calções azuis e saio de belbutina amarela caindo sobre botas de couro que vinham até o joelho. Usavam esporas longas e longos punhais de cabo de prata, capacete de flandre, e, amarrada ao pescoço, caindo para trás, uma capa azul com cruz de ouro. Os sendais que enfeitavam suas lanças eram azuis, assim como eram as mantas-de-anca, gualdrapas e peitorais que enfeitavam as selas e os cavalos. Já nos Doze Pares do Cordão Encarnado, os calções eram vermelhos e vermelhas eram as estrelas que salpicavam os saios overdes. As capas encarnadas ostentavam, em vez de cruz, duas filas verticais de três crescentes cor de ouro, sendo também vermelhos os sendais das lanças, os peitorais, gualdrapas e mantasde-sela dos cavalos. O matinador do Azul conduzia, presa à haste de uma comprida lança, uma Bandeira azul com esfera de Ouro no centro. O do Encarnado, uma Bandeira vermelha tendo ao centro um Crescente branco.

- Um o quê? - exclamou o Corregedor, dando uma espécie de bote para o meu lado.

Eu, pegado de surpresa e sem saber o motivo daquele salto, repeti mais alto: - Um crescente branco! - Você não disse que, na capa dos Cavaleiros do Azul, havia uma cruz? - Disse, sim senhor! - Que forma o senhor disse que tinha a marca, queimada a ferro em brasa na espádua de Dom Pedro Sebastião? - A forma de um crescente, encimado por uma cruz! - disse eu, esmagado.

- Pois eu lhe pergunto, Senhor Quaderna: se fosse o senhor que estivesse investigando o crime, não acharia estranha essa coincidência não? - Senhor Corregedor, toda Cavalhada sertaneja tem esses emblemas! - Acredito! Mas, por um motivo de pura rotina processual, convém anotar esse fato confessado pelo depoente, Dona Margarida. Anotou? - Anotei, Doutor! - ótimo! Agora, pode continuar, Senhor Pedro Dinis Quaderna! O nó de lacraias começava a me enredar cada vez mais, nobres Senhores e belas Damas de peito macio. De modo que foi sentindo aumentar a sensação de aperto no estômago e fazendo um enorme esforço para que o Corregedor não notasse a minha perturbação que continuei a narração dos acontecimentos daquele terrível dia: - Para assistir à entrada dos Cavaleiros na rua, Senhor Corregedor, tinham vindo à Praça quase todos os moradores da nossa Vila. A Aristocracia rural e a Nobreza de toga tinham se distribuído num palanque, previamente armado para isso. A Burguesia urbana sentava-se em cadeiras de braço e cadeiras de balanço, espalhadas pelas calçadas da Praça. Quanto ao Povo, como diziam Clemente e Dom Eusébio Monturo, "estava, como sempre,-a pé e na poeira do chão". No palanque, estava, portanto, o que havia de melhor entre nós, quanto a Damas e varões de alta linhagem: sendo que, logo ao lado do Prefeito e do Presidente do Conselho, destacavam-se, flamejantes, as figuras dos meus dois Mestres, Clemente e Samuel, esses dois homens subversivos e perigosos mas sem dúvida geniais, a quem devo a maior parte da minha formação. Clemente trajava agora, ali no palanque, sua indefectível roupa de brim branco, imaculada, engomada cuidadosamente por sua mulher, Dona Iolanda Gázia. Trazia colete do mesmo pano e gravata cor de pérola, com um enorme rubi fincado nela, a modo de broche. Colocada sobre tudo isso, pusera a toga negro-vermelha que costuma usar nos grandes dias de júri, quando faz reluzir suas qualidades de jurista e Filósofo, diante dos Sertanejos embasbacados. Samuel usava sua inseparável roupa de casimira preta, colete castanho, gravata verde com esmeralda, e uma toga que tinha sido desenhada por meu irmão Antônio Papacunha Quaderna, o pintor de bandeiras, sob a orientação e supervisão do próprio poeta Wan d'Ernes. Essa toga sempre causava ao nosso Promotor alguns problemas com os juízes novos da nossa Comarca.

- Alguns problemas? Por quê? - Porque era meio diferente das togas comuns. Era amarela, com orlas e emblemas verdes debruando tudo, o que Samuel encomendara a meu irmão por motivos de fidelidade integralista à cor verde! - Veja a senhora, Dona Margarida, o radicalismo dessa gente! - disse o Corregedor, abismado. - Até nas togas esses homens introduzem o radicalismo político! Isso aqui está tudo minado pela agitação! Para atenuar tudo, observei: - Aliás, Senhor Corregedor, acho que era por causa disso mesmo que os Juízes estranhavam! Mas Samuel esclarecia sempre a eles que não via nada de estranho no fato de sua toga "ostentar as cores nacionais", argumento que sempre fazia com que os Magistrados recuassem, temerosos de desrespeitar a Nação! Depois, eles terminavam por se acostumar e até, às vezes, por aplaudir o nosso Promotor, ao conhecê-lo melhor. E quanto a essas questões de uniformes politicamente radicais, creio que aqui a nossa jovem Margarida vai ter que dar ao senhor algumas explicações, porque, naquele dia, estava lá também, no palanque, a mãe dela, Dona Carmem Gutierrez Torres Martins. Esta, Senhor Corregedor, é uma figura que Vossa Excelência precisa conhecer e cultivar! - falei, passando um rabo de olho para Margarida, que me atravessava, com olhos fuzilantes. - Dona Carmem é uma mulher intelectual, viúva de um velhinho muito mais velho do que ela e que ainda era vivo naquele tempo. É uma senhora magra, distinta, simpaticíssima e que, não sei por qual motivo, é detestada pela filha! Naquele tempo, ainda se poderia, talvez, encontrar um motivo para essa aversão, porque, segundo as más-línguas da Vila, Dona Carmem mantinha, há vários anos, uma "amizade intelectual" com o nosso Anjo decaído e promotorial, o Doutor Samuel Wan d'Ernes, seu companheiro de canto no coro da nossa Igreja! Mas hoje isso não se explica mais, porque, segundo ficou provado depois, essa amizade intelectual, se existia, não podia ser senão "um romance platônico", mal interpretado na rua pela maldade humana. Dona Carmern era Presidenta Perpétua das "Virtuosas Damas do Cálice Sagrado", organização radical que existe aqui e da qual Vossa Excelência precisa ir tomando conhecimento, porque é ligada à "Ordem dos Cavaleiros da Esfera Armilar", grupo extremista da Direita, fundado pelo Doutor Samuel Wan d'Ernes e Gustavo Moraes, o filho do usineiro Antônio Moraes. Como Vossa Excelência já deve ter sabido, consta que os Integralistas tentaram um golpe armado contra o Governo, na noite de 10 de Março passado. O chefe principal desse golpe foi o Contra-Almirante Frederico Villar, cuja família é, aqui em Taperoá, uma das mais poderosas! O Corregedor interrompeu: - Deixe de lado a parte das "Virtuosas Damas do Cálice Sagrado"! Deixe, também, de lado suas análises pessoais da Política nacional, porque a interpretação dessas coisas fica por minha própria conta! Não preciso de esclarecimentos -seus sobre assuntos gerais; quero saber é sobre o caso concreto e os acontecimentos ligados a seu Padrinho e ao rapaz do cavalo branco! Continue, portanto, a narração sobre aquele dia.

- Sim senhor! Dona Carmem, como eu vinha dizendo, na qualidade de Presidenta da "Vida-Casta", usava, naquele sábado, sobre o vestido verde, de mangas compridas, uma espécie de túnica ou estola branca, com cruz azul às costas, assim como ostentava à cabeça um chapéu, igualzinho àquele com que Joaquim Nabuco aparece na Crestomatia - um chapéu com borla pendurada e formado, em cima, por uma tampa quadrada de papelão. No dela, o forro exterior era de seda azul, enfeitado com duas largas fitas de gorgorão cor de couro, passadas por cima da tampa, em forma de cruz. Ao lado de Dona Carmem, estava o Comendador Basílio Monteiro, que não pertencia à Aristocracia rural mas que estava no palanque, com sua opa roxa e seu barandão, na qualidade de Presidente da Irmandade das Almas. Estava o Coronel Severo Martins Torres, o velhinho marido de Dona Carmem e Pai, aqui, da nossa Margarida: estava com sua farda amarelo-esverdeada de Comandante da Guarda Nacional, com dragonas de ouro, espada o tudo. Olhava para tudo com desinteresse e impaciência, aguardando o momento em que, "acabadas aquelas besteiras de cavalos, lanças e argolinhas, começasse a parte realmente importante da festa", quando então ele, Severo, pelo seu bom comportamento no palanque, seria premiado por Dona Carmem, que lhe permitiria comer bolos à vontade, na festa que estava pronta para receber o Bispo.

- Já lhe disse que deixasse essas coisas de lado! - disse o Corregedor que notara o constrangimento de Margarida, e falou com ar duro.

Mudei de assunto: - O irmão do Comendador Basílio Monteiro, Eusébio, conhecido na rua pelo apelido de Dom Eusébio Monturo, o que devia à sua língua de prata e a seu bocão desabusado, não estava no palanque, porque, além de inimigo do irmão, era radical em Política "e não consentiria, de modo nenhum, em aparecer, de público, juntamente com a plutocracia sertaneja". Anticlerical e ateu, considerava-se "O Paladino do Povo", e acharia uma traição de sua parte colocar-se no palanque, ao lado da Aristocracia, em vez de no chão, "perto dos nossos irmãos sofredores, os pés-rapados da poeira". Estava agora, pois, ali, no chão, perto do palanque, com sua alta estatura, seus ombros meio curvados, seus olhos vesgos, seus longos cabelos e bigodes caídos, embranquecidos "nas lutas populares e nas revoluções libertárias", segundo ele mesmo declarava. De braços cruzados sobre o peito, mantinha um ar soberbo e desdenhoso, com o qual desejava demonstrar à Aristocracia taperoaense que ele, o Paladino do Povo, era superior a todas aquelas palhaçadas; que ele poderia ter subido ao palanque, mas não quisera; que estava na Praça por pura condescendência e assim por diante. De vez em quando, Dom Eusébio Monturo voltava para o palanque uns olhos fuzilantes, detendo-os principalmente sobre o Professor Clemente que, sustentando idéias próximas das dele, "traía o Povo e a Revolução para se exibir, como um lacaio, ao lado dos senhores-feudais do Sertão". O fato, porém, é que o pessoal do palanque absolutamente não estava ligando para os desdéns nem para os furores de Dom Eusébio Monturo. Estavam, ali, "todas as pessoas de pró da Vila". Com exceção, é claro, da família do riquíssimo e poderoso Dom Antônio Moraes: excessivamente orgulhosos, não davam acesso a ninguém da rua à casa deles e não compareciam, também, a nenhuma das nossas festividades. Bastaria isso para mostrar como o Senhor Antônio Moraes era diferente do nosso velho Rei Degolado, meu padrinho Dom Pedro Sebastião Garcia-Barretto, que comparecia a todas, prestigiando mesmo, liturgicamente, a realização de algumas delas, o que deu origem a essa calúnia que me fizeram perante o senhor, de que eu teria contribuído para a demência final dele. Arésio, por seu lado, "muito feliz da vida, de cama e mesa na casa do arquiinimigo de seu Pai", também não tinha aparecido para as festas. Aliás, também em vida de seu Pai, Arésio detestava "as palhaçadas a que ele se submetia", de modo que era sempre Sinésio quem comparecia ao lado do nosso Rei do Cariri e Imperador do Divino, sendo este um dos motivos da popularidade do filho mais moço e da impopularidade de Arésio, perante o Povo de nossa Vila. Agora, ao contrário do que acontecia com Dom Eusébio Monturo, as ausências e os desdéns dos Moraes e de Arésio eram sentidos por todos os moradores da rua. Sentíamos que eles se consideravam como pertencentes a uma esfera infinitamente superior e que esse era o motivo de permanecerem lá, na sua casa-grande do "Alto dos Borrotes", dominando toda a Vila, solitários, cheios de si, fruindo, isolados e altivos, suas grandezas, seu bom gosto e também sua vida familiar enigmática e meio inconfessável de Fidalgos superiores ao nosso meio, emigrados das usinas de Pernambuco para as minas, o algodão e o couro do Sertão da Paraíba.

- Do lado direito do palanque, eu ordenara que se dispusessem os "Caboclos de Lança" da minha "Tribo Coroada dos Panatis", e do lado esquerdo, minha "Nação Cabinda do Reisado Sudanés". Sabedor, por experiência, de como são necessárias todas as cautelas nessas coisas de monarquias - pois há sempre um pretendente qualquer à espreita, sequioso de poder e louco para tomar nossos tronos - eu disseminara por entre os membros de ambas as Nações os meus irmãos bastardos que não estavam na Cavalhada. Tivera, é claro, o cuidado de colocar os mais acaboclados na "Tribo Panati" e os mais escuros no "Reisado Sudanés". Escolhera, além disso, dois dos mais bem apessoados, fazendo, de um, "Rei Caboclo e Cacique", e do outro, "Rei Negro". Assim, minha família estaria a postos em torno do meu Trono, e todos os Quadernas teriam a seu dispor os lugares dignos de sua qualidade e hierarquia, como Príncipes de sangue do Reino do Sertão e do Império do Brasil! - O senhor falou aí em seu trono, foi? - perguntou o Corregedor, com expressão falsamente descuidosa. - Quer dizer que o senhor também é Rei, como Dom Pedro Sebastião era? Ave Maria! No meu orgulho, eu tinha ido de novo muito longe! Estava arriscando a cabeça, porque se aquele implacável Corregedor descobrisse meu sangue real paterno eu estaria perdido! Então, tergiversei: - Senhor Corregedor, estas questões de monarquia são muito complicadas, de modo que levam um pouco de tempo para entender! Do ponto de vista político e guerreiro, Dom Pedro Sebastião e seus três filhos é que constituem a "Casa Real do Cariri". Eu e meus irmãos somos apenas Príncipes e Guerreiros dessas coisas de Cavalhadas, tribos, Naus Catarinetas e outras fidalguias literárias e espetaculosas! - De qualquer modo, porém, sendo o senhor, pelo lado materno, um Garcia-Barretto, mesmo bastardo, é Príncipe, motivo pelo qual creio que tem direito, também, ao tratamento de Dom! - Bem, de certo modo, é verdade! - confessei, lisonjeado. - E se eu não tinha dito isso, ainda, ao senhor, foi por pura modéstia! - Desculpe então a nossa falha, até agora, e queira continuar, Dom Pedro Dinis Quaderna! - Obrigado! - disse eu, fingindo não ter notado a inflexão especial que ele tinha usado.

E continuei: - Os Panatis, que na minha vida real e principesca eram a tropa de Arqueiros do meu Exército particular, usavam mantos de pano enfeitado com vidrilhos e longas Coroas ou cocares de penas, que, pregadas a uma manta amarela e verde, pendiam-lhes até os ombros. Seus corpos tinham sido pintados com listras largas e horizontais, negras e vermelhas. Vestindo apenas a tanga ritual, traziam a cintura e os tornozelos enfeitados com penas de Gavião. Com seus companheiros, os Negros da esquerda, estavam ali, prontos a encher os intervalos da Cavalhada com suas danças de "Auto dos Guerreiros". Alguns traziam maracás, feitos de cabaços. Outros, tacapes. Outros, lanças compridas. A maioria, porém, estava armada com longos arcos de madeira, cujas flechas eram também enfeitadas com penas e que eles meneavam em gestos felinos de Onça-Parda, o que me fazia recordar sempre a introdução mitológica negro-tapuia da famosa Filosofia do Penetral, de Clemente. Segundo essa introdução, sendo o Sol macho-e-fêmea do Divino e gerador de tudo, os homens primitivos descendiam do cruzamento de um deus com um bicho ou pássaro, sendo que, como Clemente afirma sempre, "o animal mítico e gerador por excelência da Raça humana foi a Onça". Naquele dia, ladeado por dois Príncipes Pardos, meu irmão Tabajara Peba Quaderna estava à frente da Tribo, como Rei Caboclo. Seu traje era semelhante ao dos Arqueiros de suas fileiras, mas tinha algo a mais; a modo de insígnia real, trazia ele à cabeça um capacete de flandre, enfeitado de penas e com um certo jeito de elmo, o que, apesar de ter causado grande indignação a Samuel, lhe dava uma dignidade toda especial. Do lado dos Negros, quem estava à frente da Nação era Feliciano Nonato, o mais escuro de todos os Quadernas. Ladeado também por dois Príncipes, trazia capacete enfeitado de plumas, saio azul e calção vermelho. No peito, ostentava crescentes de prata e outras incrustações de vidrilho cor de ouro, o que, espero, Vossa Excelência não levará a mal, pois acontece em todo grupo mouro de Festas do Divino. Colete mourisco, colares de búzios, calções debruados e meias ajustilhadas cor de creme completavam sua régia roupagem. Nos pés, trazia sapatos de couro de Gato-Maracajá. Seus guerreiros vestiam de modo semelhante se bem que sempre mais modesto, para marcar bem as hierarquias. Assim, Senhor Corregedor, tudo estava preparado para começar. Os Cavaleiros Azuis e os Encarnados entraram na Praça, dispostos em duas filas paralelas, e dirigiram-se ao palanque. Eu tinha proibido que meus irmãos fizessem qualquer salamaleque ao Prefeito que, além de republicano, era simples membro da Burguesia urbana - apesar de casado com uma ilustre Dama pertencente à Aristocracia rural. E mesmo que ele fosse Fidalgo, o caso é que nunca se soube que os Príncipes de sangue fizessem saudações aos simples Gentis-homens de suas antecâmaras! Por isso foi que, chegando diante do palanque, em vez de saudarem o Prefeito e o Presidente do Conselho, o Rei Mouro do Encarnado o o Rei Cruzado do Azul trocaram uma saudação entre si e depois fizeram, um ao outro, as ameaças tradicionais. O Rei Mouro regougou, com voz forte: "Se tens a Força capaz, lutemos de peito a peito: vou brigar de qualquer jeito, sou Onça negra e voraz! Aqui, ninguém entra mais! Vamos, os dois, lutar sós! Não atendo à sua Voz, fogo de minh'Arma sai: vamos ver quem é que cai, quem ganha a Luta feroz!" "Esta é a nossa Batalha, sangrenta, macha e tirana! Minha espada, a Durindana, não amostra uma só falha! Na forja desta Fornalha eu ganharei a Vitória! Mas ficarão na Memória meus malfeitos e perigos, e os Cantadores antigos cantarão a minha Glória!"

- Após essas saudações e ameaças rituais, Senhor Corregedor, os dois Reis espicaçaram os cavalos e puseram-se, de novo, à frente das duas filas de Cavaleiros, que, então, se dirigiram para os lugares antes determinados. Uma girândola de foguetões estralejou no ar, e a banda de música, conhecida popularmente como "Sinhá-Zefinha", clarinou um dobrado marcial, o Dobrado Euclydes da Cunha, composto, especialmente para a festa, por nosso genial Mestre-deMúsica e Mestre-de-Capela, Jovelino Maciel, o mesmo que ensaiava as músicas do coro da Igreja, para o Doutor Samuel e Dona Carmem Gutierrez Torres Martins. Os cavalos, excitados pelos gritos o assobios do poviléu, pela música e pelos tiros de foguetões, pisavam nervosamente o chão, ansiosos para correr. O Rei-de-Armas o Passavante, que era também um irmão meu, ia baixar a Bandeira azul-vermelha que autorizaria o início do primeiro páreo, de modo que tudo prenunciva uma Cavalhada brilhante, alegre, ordeira e animada, muito superior àquela que inicia As Minas de Prata, obra genial de meu precursor, Dom José de Alencar. Infelizmente, porém, Senhor Corregedor, eu tenho que pedir a toda essa gente que se imobilize aí, nessa atitude, meu irmão com o braço no ar, o pessoal de olhos aboticados e de boca aberta, a bandeira contra o céu, etc., porque tenho, agora, que passar à Estrada que nos liga à Vila da Estaca Zero e contar algo de importância fundamental que estava acontecendo por ali.

O Rei Cristão retrucou:

FOLHETO LV

De Novo a Cavalgada - E que, sem que as pessoas da Praça nem sequer desconfiassem, por essa Estrada de Estaca Zero vinha se aproximando de nós, naquele instante, uma outra Cavalgada que iria mudar inteiramente o rumo dos acontecimentos e o destino de muitas das pessoas mais importantes do lugar, incluindo-se entre estas, apesar de minha humildade, o modesto Cronista-Fidalgo, Poeta-Escrivão o Rei d'Armas da Casa Real do Sertão do Cariri que está lhe falando aqui, agora. Não vou descrever essa Cavalgada com pormenores, pois o senhor já conhece, mais ou menos, meu estilo régio. Basta que lhe diga que era composta quase toda de Ciganos, vestidos de gibões medalhados e cravejados. Vinham, nela, onças, veados, gaviões e cobras, trazidos em carretas ou caixões. Ela vinha precedida por duas bandeiras, uma com onças e contra-arminhos, outra com coroas e chamas de ouro em campo vermelho. Havia quatro homens que pareciam os mais importantes, os chefes e pessoas de pró dela: um frade-cangaceiro, Frei Simão de nome, o Doutor Pedro Gouveia da Câmara Pereira Monteiro, Luís Pereira de Souza (mais conhecido como Luís do Triângulo) e o rapaz do cavalo branco. Essa cavalgada caíra, há poucos momentos, numa emboscada que lhe fora armada pelo grupo do Capitão Ludugero Cobra-Preta, tendo perdido, na luta, um dos seus porta-bandeiras, o Alferes José Colatino Leite. Agora vinha ali, já bem perto de Taperoá. As bandeiras já mencionadas tinham acrescentado mais quatro, uma representando um Touro com asas, outra uma Onça, outra um Anjo de quatro cabeças e outra um Gavião.

- E é verdade tudo isso? Todas essas roupas fidalgas, essas bandeiras, essas onças, esses acontecimentos estranhos, tudo isso é verdade ou é "estilo régio"? - Bem, se o senhor quiser, pode imaginar somente uns cavalos pequenos, magros e feios, uma porção de gente suja, magra, faminta e empoeirada, arrastando por aquela estranha Estrada uma porção de velhos animais de Circo, famélicos e desdentados, numa tropa pobre e amontoada. Para mim, porém, somente o facho sagrado da Poesia régia é capaz de dar a medida daquele evento extraordinário, de caráter epopéico! De fato, Senhor Corregedor, somente vendo esse pedaço de estrada por onde eles vinham agora é que a gente pode imaginar bem a cena! Da banda direita dos Cavaleiros ciganos, essa estrada, ali, é ladeada por um despenha338 deiro que eles vinham beirando já há uns cinco minutos em sua caminhada. Amparavam-se, porém, do abismo através de uma cerca de pedra que, segundo vi no Dicionário Prático Ilustrado que é meu outro livro-de-cabeceira, os Portugueses chamavam castro, umas trincheiras de pedra que eles herdaram dos Latinos, e nós, Sertanejos, herdamos dos Portugueses e Espanhóis. Nas pedras da cerca, o sol enceguecedor faiscava, centelhando em seu granito, incrustado de quartzo e malacacheta. Do lado esquerdo dos Ciganos, o morro pedregoso, que fora cortado a dinamite em 1924 para abrir lugar à estrada, subia quase a pino, descobrindo, por entre pedaços o camada de terra dura e seca, trechos espaçados do enorme lajedo, bruto e violáceo, que o constituía quase inteiramente, por baixo. Os pedaços de lajeiro que afloravam então, apresentavam-se cobertos de coroas-de-frade e macambiras, rubras, amarelas ou roxas, às vezes com maravilhosas flores escarlates luzindo entre as folhas espinhosas, mas sempre selvagens, incendiadas pelo sol, como se fossem enormes tochas, ou lampadários, entre os quais errassem, solitárias e ferozes, Onças-Vermelhas ou fulvo-pardas - os Leopardos sertanejos. Tudo isto, para cumprir o que profetizara o minha Epopéia um excelso Vate brasileiro, quando cantou assim: "As Pedras desabrocham solitárias, de Arquitetura esplêndida e fantástica: são-lhe, Bromélias, rubros Lampadários. E, por vida inda dar-vos, Leopardos, vivo-escarlates e indolentemente, os Guarases, à luz do Sol, traçaram a Coroa do Sangue Espadanante".

- Entremeando tudo isso, Senhor Corregedor, a Catinga, o carrascal áspero e pardo, queimado pelo Sol. Este, às duas e tanto o tarde, era tão violento que a vista se encandeava em suas cintilações. Nesse momentos, os Cavaleiros, meio cegos pelo Sol, que os impedia de ver o resto das Catingas e Tabuleiros, tinham a impressão de que estavam caminhando por uma estrada, perdida nos ares ardentes e iluminosos, uma estrada que não tocava o chão, como as outras, mas sim pairava suspensa, pendurada da panela emborcada e fervente-azul do céu pelos raios de cobre do Sol. O vento incendiário da Catinga, o "Sertão" abrasador, roncava por espaços no Tabuleiro, levantando, em ridimunho, colunas de folhas secas e gravetos, a mais de trinta metros de altura, o que aumentava a impressão da tribo de GuerreirosVagabundos de que estavam caminhando, numa viagem de iluminação ou numa demanda novelosa, por uma estrada que conduzia "à terra-estranha da morte". O senhor já ouviu falar, por acaso, do Cantador Pedro Ventania? - Não, nunca me deram essa honra não! - Pois ele foi engolido por uma Cobra, Senhor Corregedor, e foi pensando nele que eu falei, há pouco, na terra-estranha da Morte! Ventania estava na Catinga, caçando raposas, quando, de trás de um lajedo, uma enorme Cobra-de-Veado deu-lhe um bote e começou a engoli-lo, primeiro os pés, depois as pernas, o bucho, o pescoço e a cabeça de olhos aboticados! Os companheiros de caça dele, paralisados pelo terror e meio tonteados pelo bafo da jibóia, me contaram depois, que, quando Ventania já ia desembandeirando de cabeça abaixo para dentro da Cobra (ou melhor, de goela e de bucho abaixo), gritou, com uma voz meio engolida e já ressoando nas entranhas do chamado Bicho-Cobra, sua última frase neste mundo, e que foi: "Adeus, minha gente, que eu já vou em terra estranha!" Pois este nosso Sertão velho, Senhor Corregedor, talvez seja mesmo a terra-estranha da Morte, dominada pelos dentes das Onças, pelo veneno das Cobras, das Lacraias e de outros bichos - a terra na qual, ao contrário do que seria de esperar, aquele Donzel errante que era o rapaz do cavalo branco cada vez se adentrava mais naquele instante, sonhosamente em busca da sua vida, destroçada e perdida, sem que ele soubesse por quê. Por ali chegava ele, agora. E fora talvez já pensando na aparição desse sonhoso e angélico Donzel em minha Epopéia, que o genial Bardo brasileiro, Alvares de Azevedo, escrevera aqueles versos proféticos que dizem:

"Criatura de Deus, se peregrina invisível na Terra, restaurando a justiça aos que sofrem, certamente que é um Anjo de Deus!"

O Corregedor cortou, com ar incrédulo e irônico: - Quer dizer que, na sua opinião, aquele rapaz do cavalo branco era uma espécie de Anjo de candura, inocente e inofensivo! - Não, Senhor Corregedor! Um Anjo é uma coisa muito diferente do que as pessoas pensam! O senhor, não tendo sido discípulo de Samuel e Clemente, não pode conhecer a tríplice natureza da Onça do Divino, dividida em quatro partes: a OnçaPintada, a Onça-Negra, a Onça-Parda e o Gavião-de-Ouro. Ou, em outras palavras, a esmeralda, a Granada Negra, o Rubi e o Topázio. Os Anjos, sendo ligados, ao Pai, à Onça Malhada, ao sopro do Sertão - o vento incendiário do Deserto - e à Sarça Ardente da Pedra Lispe, são seres de fogo, armados de espada e terrivelmente perigosos!

- Então, o senhor acha que o rapaz do cavalo branco era perigoso! - Bem, Senhor Corregedor, quanto a isso estamos de pleno acordo! Não tenho a menor dúvida de que o rapaz do cavalo branco era perigoso, e basta ver tudo o que aconteceu depois da chegada dele para entender isso! Anote essa declaração, Dona Margarida, ela é fundamental para o inquérito.

- Eu acho, aliás, que foi por isso que o grande Bardo paraibano, Augusto dos Anjos, vendo em seus sonhos de Iluminado sertanejo, aquela Estrada legendária e fatídica por onde o rapaz do cavalo branco apareceu, viu-a como "uma imensa e rutilante Cobra, de epiderme finíssima de areia", povoada de Anjos e Demônios, e atribuiu ao Donzel aquela imprecação cifrada e enigmática que diz assim:

"Quem foi que viu a minha Dor chorando? Saio. Minha Alma sai, agoniada! Andam Monstros sombrios pela Estrada, e, pela Estrada, entre esses Monstros ando!"

FOLHETO LVI

A Visagem da Bicha Bruzacã - Uma pergunta, Dom Pedro Dinis Quaderna: o senhor acredita no Diabo? - Como é que posso não acreditar, Senhor Corregedor? Ainda agora, quando eu vinha para cá, ele apareceu ao irmão do Comendador Basílio Monteiro, ali, no monturo da areia do rio, perto do Chafariz! Eugênio Monteiro estava me lembrando quantas vezes, aqui no Sertão, a gente encontra, nessas chapadas nuas e pedregosas, seres alados e perigosos, cruéis e sujos, bicando os olhos dos borregos e cabritos! Quem são eles? Gaviões? Urubus? Dragões? Acho que tudo isso ao mesmo tempo, porque todos eles são encarnações do Bicho Bruzacã, a Ipupriapa macha-e-fêmea, a Bicha que resume tudo o que existe de perigoso e demoníaco no mundo! O senhor já viu a Bicha Bruzacã alguma vez? - Não! - Nem nunca ouviu falar dela? - Também não! - Pois eu me admiro muito, porque é a Bicha mais horrorosa e conhecida por todo esse mundo velho por aí afora! É coisa sabida, Senhor Corregedor: ela é o Mal, o Enigma, a Desordem! Passa no Mar os seis meses do tempo de chuva. Durante esse tempo, tem duas ocupações: causa as tempestades e fica esperando, perto da Costinha, aqui na Paraíba, a chegada das Baleias, que ela sangra e devora como se fossem traíras ou Curimatãs. Aí, quando vem chegando Setembro, ela sai do Mar, soprando fogo pelas ventas, e vem para uma Furna de pedra perdida no Sertão. O fogo soprado pela respiração dela é que faz a seca! E ela aparece com muitas formas! Aliás, se o senhor não acredita em mim, veja a História do Brasil, de Frei Vicente do Salvador, que era homem fidalgo e frade, de modo que sua palavra merece respeito! Naquele tempo, a Bicha Bruzacã era conhecida pelos índios como a Ipupriapa, ou Hipupiara. Ela apareceu na praia, a um tal Baltazar Ferreira, donzel fidalgo, pois era filho de Capitão-Mor. Nesse dia, apareceu com cara de Cachorro, peitos de mulher, corpo e garras de Onça Malhada, motivo pelo qual eu acho que era um dos dias em que ela já vinha para o Sertão: dizem que nessas horas sempre ela tem alguma coisa de Onça! Baltazar Ferreira conseguiu feri-la a faca! Se conseguiu, além disso, molhar a boca com sangue dela, ele se tornou imortal! De qualquer maneira, eu ainda conheci um descendente dele que é Tabelião numa vilazinha do Litoral, lá para os lados do Rio Grande do Norte! É um velho meio doido; e como ele tem o mesmo nome do ascendente, Baltazar Ferreira, tem gente que jura que ainda é o mesmo! Ele vivia impressionado com a história da Ipupriapa Bruzacã, e foi por isso que terminou se metendo, comigo e com o rapaz do cavalo branco, na Odisséia marítima que nós empreendemos com o Mestre Romão, na grande barcaça A Estrela-da-Manhã, viajando do Rio Grande do Norte até o Rio São Francisco, entre Alagoas e Sergipe! - Ah, e a aventura do rapaz do cavalo branco teve também uma parte marítima? - Teve sim senhor! Constou primeiro de uma "ilíada sertaneja e terrestre", e depois de uma "odisséia marítima e do litoral", motivo pelo qual meu Castelo sertanejo fará de mim um Epopeieta que, numa Obra só, será mais completo do que Homero teria sido, caso existisse! - átimo! Mas continue o que você vinha dizendo sobre esse Bicho diabólico, isso me interessa muito! Desculpe, Dona Margarida, mas isso é tão interessante como expressão da psicologia dessa gente, que não posso me furtar a esclarecer mesmo isso! - E tem razão, Excelência! - disse eu. - Talvez não convença, assim, à primeira vista, mas o fato é que tudo isso foi importantíssimo para toda a nossa Desaventura! Olhe aqui: pedi a meu irmão Taparica, que é desenhista e gravador, que copiasse a figura que Samuel tinha me mostrado no livro de Frei Vicente do Salvador! Peço ao senhor que anexe a figura da Hipupiara ao meu depoimento! O senhor sabia que meu objetivo secreto e enigmático, quando acompanhei o rapaz do cavalo branco, era encontrar a Bicha Bruzacã, feri-la, beber-lhe o sangue e me tornar astrologicamente imortal? - As informações que eu tenho são muito diferentes, sobre o senhor e principalmente sobre ele, o rapaz do cavalo branco! - disse o Corregedor com uma expressão que me deixou trêmulo.

Então, para convence-lo de vez da qualidade principal de "viagem filosófica e profética" da Demanda novelosa que tínhamos empreendido em 1935 e que terminara há poucos dias, de modo tão terrível, voltei a insistir sobre o assunto: Vossa Excelência tem o direito de pensar assim, mas isso só acontece porque o senhor nunca ouviu falar nas aparições desse Demônio marinho e sertanejo! Sem se falar em mim, conheci três pessoas que viram Bruzacã, e nunca mais desinfeccionaram o sangue da picada peçonhenta que ela dá! - E o senhor mesmo viu o Demônio? - Vi, mas minha visagem vai ser contada ao senhor depois, por uma questão de ordem epopéica! Os outros três foram o velho Baltazar Ferreira, o Tabelião de quem já lhe falei, Mestre Romão, o velho Capitão da barcaça A Estrela-da-Manhã, e o vaqueiro Manuel Inácio, cabra do Seridó, que avistou a Bicha no Mar, perto da Praia de Touros, no Rio Grande do Norte. O senhor conhece a Praia de Touros? - Não! - disse o Corregedor, meio enfastiado.

De certo modo, o que eu queria era mesmo enfastiá-lo, para diminuir o perigo do assunto, de modo que continuei: - É uma praia histórica: segundo me contou Samuel, foi ali que a Esquadra brasileira, comandada pelo Almirante Conde da Torre, deixou, no século XVII, depois de uma batalha naval que durou vários dias, o pequeno exército, comandado por André Vidal de Negreiros, Luís Barbalho Felpa de Barbuda, Antônio Felipe Camarão, Henrique Dias e outros - Exército que realizou uma das mais belas "retiradas ilustres" da nossa História! É por isso que ali, no litoral do Rio Grande do Norte, dizem que, de vez em quando, à noite, por cima dos arrecifes, passeiam as almas dos danados Holandeses e também o Conde da Torre, fantasma recoberto de topázios, procurando levantar velas batidas, rotas e molhadas e reunir velhas Caravelas desarvoradas. Não sei se o senhor já reparou, mas o Litoral nordestino tem umas praias rasas, brancas, de areia fina e reluzente que range em nossos pés des calços, e outras pedregosas, altas, empinadas, feitas de rochas cor de ferrugem. O Cabo de Santo Agostinho e a Fortaleza de São Joaquim, praias onde o gringo Edmundo Swendson tinha terras, eram ambas deste último tipo, com um monte pedregoso, a pique sobre o Mar e tendo, perto, embaixo, uma enseada de praia rasa, tranqüila e serena, perto da barra de um rio. Ora, Senhor Corregedor, segundo afiança o genial Poeta brasileiro Vicente de Carvalho, o mar, "o belo Mar selvagem", é um "Tigre a que o vento do largo eriça o pêlo", um estranho animal felino. É, também, um Velho de barba azul, "condenado ao cárcere das Rochas que o cingem". Por outro lado, deve existir, no Mar, alguma coisa profundamente ligada àquilo que Clemente chamá "o Destino do rebanho humano", porque Vicente de Carvalho afirma, ainda, que, quando se põe diante do Mar, ergue imprecações, clamores e blasfêmias contra a Mão desconhecida que traçou nosso Destino: "Crime absurdo o crime de nascer", diz ele. - "Foi o meu Crime, o eu o expio vivendo". Pois como eu vinha contando: o vaqueiro Manuel Inácio vinha viajando com um gado que iria vender em Macau. Além do gado, levava, também, alguns burros carregados de couros, que deixaria lá em troca de Sal para o Sertão. Tomou, por acaso, o caminho da Fortaleza de São Joaquim, e seguiu uma estrada velha que beirava o Mar. Era o dia 24 de Agosto de 1919. Naquela data, perto do meio-dia, Manuel Inácio, sufocado de sol o calor, chegou a um bosque de cajueiros, onde corria um riacho. Fez uma parada, tirou a carga dos burros, botou os animais para beber no riacho, almoçou, e aproveitou os momentos em que o gado pastava para descansar um pouco. Espichado sob um cajueiro, notou, por mal de seus pecados, que ali, à sua frente, a terra se elevava suavemente formando um morro pedregoso que caía a pique no Mar, a uma altura enorme. Com o deslumbramento de todo sertanejo pela visão do Mar, resolveu subir o monte para ampliá-la. Ao chegar lá, ficou um momento, na certa como Vicente de Carvalho, pensando sobre o Destino do rebanho humano, sobre o número incontável de pessoas que tinham nascido, vivido, envelhecido e morrido sempre diante daquele mesmo velho Tigre de barbas azuis. De repente, segundo me contou depois o Tabelião Baltazar Ferreira (que foi quem me narrou essa história), o Vaqueiro começou a ouvir uns mugidos estranhos e poderosos. Pensou, a princípio, que fosse o seu gado, agitado lá longe por algum acontecimento fora do comum, mas logo mudou de opinião porque, como ele contava, "rês nenhuma do mundo daria urros como aqueles". Aí, olhando para os lados do Mar, ele viu, sobre a dura o brilhante superficie verde e azul, iluminada cruamente pelo violento sol do meio-dia, uma Nuvem negra, cercada por uma orla brilhante da Coroa solar. Segundo contava o Vaqueiro a Baltazar Ferreira, foi somente aí que ele começou a perceber que a Terra é que tinha se crispado, há pouco, dando aqueles mugidos que o tinham aterrorizado. Não sei, também, se o senhor sabe, mas os Vaqueiros sertanejos descobriram, há muito tempo já, que a Terra é uma Vaca, "uma vaca enorme, arcangélica e esquisita, que vive mijando rios para o mar", como ' explicava muito bem o nosso Profeta Nazário. Dizem eles que, num certo lugar da Terra, existe uma enorme Gruta, cuja entrada é comprida e estreita em relação à largura, uma Fenda cuja entrada é feita de rã coberta de musgo verde e veludoso. O Mar, Tigre verde-azul, foi parido pela Vaca arcangélica da Terra através dessa Gruta verde, o é por isso que às vezes a Terra dá esses poderosos mugidos, chamando o filho estranho e felino, de cabelos verdes, nos momentos de perigo. Naquele dia, à medida que a nuvem estranha baixava, e se dirigia para a costa, as águas, embaixo dela, inchavam o se intumesciam. Começaram também a ferver, batendo com mais fúria ainda contra os Rochedos castanhos do morro. De repente, aquela inchação gigantesca das águas se fendeu, e Bruzacã fez ltpaiecer no ar, surgindo das águas revolvidas e ferventes, sua maldita cabeça coroada! Ah, só quem já viu Bruzacã é que pode imaginar como são poderosas e aterrorizantes as formas que ela tema! São sete Chifres turvos e amolados, o Focinho peludo, a Corcova cerúlea! No cabelouro espesso, uma Cabeleira de serpentes e conchas entrançadas! O olhar de Cobra e o corpo feito à semelhança de um corpo enorme de Touro branco! Era a Besta marinha, *rtejada pelos lombos diabólicos e sagrados do Mar! Seu olhar chamejava, ora amarelo, ora azul como um aço de Martelo! Ao fogo dó sopro das suas Ventas, ferviam as águas em borbulhas de Enxofre envenenado. O peito era coberto pelo musgo nojento que suja e mancha as paredes do Inferno alumiado! As espáduas eram cobertas de malhas feridentas cor de ferrugem e em cada uma das suas ancas verdes luzia uma estrela amarela, brilhando entre sargaços e a salsugem, entre ostras pegadas ao tronco, anoso e velho como um velho Rochedo extraviado! O Vaqueiro ouvia seu próprio sangue latindo, pedindo, suplicando que ele corresse e se afastasse dco Bicho amaldiçoado. Ao mesmo tempo, porém, que ele sentia o horror, sentia também o fascínio do Bicho e da Desordem desmedida, obrigando-o a procurar ver, ver sempre mais, pois é destino sem fim, nosso, querer, como diz Clemente, "decifrar todo o Bicho deste Mundo". Aí, Senhor Corregedor, aquela nuvem negra, ou cor de sangue escuro, coroada pela rebrilhante orla solar, pareceu se curvar para perto das orelhas e da barba azul do Mar. Como se fossem dois Diabos invencíveis, a Nuvem e o Mar trocaram seus segredos indizíveis. As asas da Bicha Bruzacã se agitaram, causando um repelão nas águas e um estremeço na terra.

Línguas de fogo e estalos de corisco vadiaram por todo canto. As árvores mais próximas da praia, crestaram-se imediatamente, abrasadas pelo vento incendiado, parido pelas asas da Bicha e por suas ventas, fole de cem brasas! Fundiam-se pedras. E dizem, mesmo, que os meninos que tiveram a pouca sorte de nascer naquele momento, nasceram todos cegos, com os olhos queimados pela ventania de fogo demoníaco. Aí, agitando como remos as patas dianteiras e usando como velas suas asas de morcego, cobertas de pedrarias, Bruzacã nadou para a praia, emergindo ali, por inteiro, sua figura gigantesca. Pousando os cascos na areia, rompeu pelo bosque de cajueiros e correu para o Sertão num galope estralejado de animal feroz, sumindo-se no horizonte, que fumegava. Disse o Vaqueiro que, à medida que a Bicha se sumia na terra, ia sofrendo uma transformação: sua dupla natureza demoníaca ia perdendo o que tinha mais de monstro-marinho e assumindo outras partes mais felinosertanejas, como garras e corpo de Onça, ou Cachorra-Cantadeira. O Vaqueiro, cujos olhos tinham sido miraculosamente preservados, desceu então o monte e olhou para o lugar onde ela se sumira. A passagem do Monstro tinha aberto, a fogo, na Mata um rombo enorme, um túnel fumegante que dava para passar dois trens! Era como se tivesse passado um Cometa: o chão estava raso e coberto de cinzas. Mesmo mais para longe, numa distância enorme, as árvores estavam com as folhas crestadas e secas, como se tivessem sofrido dois anos de estio. As reses e animais de sua tropa estavam todos no chão, mortos, queimados, erguendo para o céu as patas reviradas! Abalado por tudo o que visageara, pesaroso pela perda do rebanho, mas ainda dando graças a Deus por ter escapado com vida, Manuel Inácio dali mesmo voltou. Agora, para os lados do Mar, tudo se acalmara. As águas, azuis aqui, verdes ali, violetas acolá, brilhavam de novo, serenas, limpas e afiançáveis. Sob o Sol de ouro e cobre, pareciam um Espelho azul e prata, um Espelho que só mostrava sua natureza de Tigre perto dos rochedos castanhos, que ele mordia e tentava despedaçar com suas garras. Na própria Terra, os mugidos tinham cessado: ouvia-se, agora, apenas um arfar incansável, que era, talvez, o sopro altivo, triste e corajoso dos humanos, debatendo-se, no Mundo, como insinuava Vicente de Carvalho, com nosso Destino cego e indecifrável. Vossa Excelência, Senhor Corregedor, me pergunta, então, como é o Diabo, se eu acredito nele, e como é que ele aparece... Não posso dizer com exatidão! Nessas horas de visagem, o sol costuma deslumbrar, encandear e cegar, fazendo o Mundo tremer em nossa vista! Ouve-se, roncando, a ventania abrasada do mundo, e a gente fica sem saber se é mesmo o vento, soprando em lufadas ardentes que nos crestam a pele e nos racham os lábios, ou se é a fornalha do Inferno que, fendendo o chão, se escancarou ali perto, dando saída à secura e à violência do fogo, assim como à tribo malfazeja dos Diabos que invadem o mundo, contribuindo para seu concerto e desconcerto com seus urros, pios e guinchos de Danados! - Quer dizer que, para o senhor, o Mar e o Sertão são as diabólicas? - É verdade, Senhor Corregedor, mas não são eles somente n§o, é o Mundo todo! E lhe digo mais: por mais temerosa que seja a Bicha Bruzacã em forma de monstro-marinho ou de Onça diçoada, alada e cantadeira das fumas sertanejas, aí pelo menos a ainda tem uma forma epopéica! Garanto ao senhor: eu tenho quito mais medo e muito mais horror ao Diabo das cidades, que cara de funcionário aposentado, que anda às vezes de bicicleta, vestido de preto, com chapéu-coco, com um ar esquerdo e maldoso, em pleno sol, sem suar nada, absolutamente nada, o que, como todo mundo sabe, é coisa do Danado! Mas, felizmente, se o Mundo essa face diabólica, possui também a divina. Mostrei ao r, como diz clemente s , "a face esburacada e demoníaca do os, no seu apecto marinho e no seu aspecto sertanejo". Mas, lado dela, existe a outra, a angélica e paradisíaca. Aliás, não eu, simples charadista e Acadêmico sertanejo quem diz isso , é gente consagrada e importante, como o Cantador e poeta ydes da Cunha. Euclydes da Cunha é, também, meu Precursor, o José de Alencar: é recusado, ao mesmo tempo, pela Direita pela Esquerda, e ainda foi membro da Academia Brasileira de ras. Com essa autoridade que o torna indiscutível ele nos nstra no seu tratado Os Sertões que o nosso Sertão tem uma de Inferno e Paraíso. Acontece, porém, que Euclydes da , por mais genial que fosse, era apenas um precursor meu: era Astrólogo e Decifrador, nem era o Gênio da Raça Brasi, de modo que não sabia que, na verdade, a face do Sertão tripla, e não dupla! É o Inferno, o Purgatório e o Paraíso; parte macha, uma macha-e-fêmea e outra somente fêmea aturnal, a Solar e a Lunar. É por isso que, depois de olhar a pada infernal, com a Furna de Bruzacã, com a ventania do erro, com os Gaviões bicando os olhos dos borregos e cabritos, assa Excelência, se quiser entender, bem mesmo, tudo isso, e limpar os olhos e ver, no tempo das águas, num ano de boas chuvas, já em junho, quando as trovoadas passaram e os tios se limparam do turvo das enchentes, uma água rasa e clara 4eslizando, como prata, sobre a areia incrustada de cristais relutes. E ainda: o fulgor das malacachetas; os seixos amarelos, 'k*ncos e vermelhos das encostas e ladeiras; os poços dos rios, já meio secos, cuja água se retém, entretanto, por entre grandes pedras, e' que nos oferecem, quando estamos caçando e com sede, o desCnso, a sombra, a carícia do vento tornado suave pela proximidade

ENCARNAÇÃO DA BICHA BRUZACÃ. PELA BALEIA QUE TAPARICA COLOCOU EMBAIXO, VE-SE A ENORME SUPERIORIDADE ATE DOS MONSTROS LATINO-AMERICANOS SOBRE OS BESTISSIMOS MONSTRINHOS ESTRANGEIROS QUE APARECEM EM OUTRAS EPOPÉIAS - SE BEM QUE O CACHALOTE AÍ REPRESENTADO SEJA BRASILEIRO, POIS FOI COPIADO POR TAPARICA DO RETRATO DE UM DESSES BICHOS, QUE SÃO FREQUENTÍSSIMOS, AQUI NA PARAÍBA, NA PRAIA DA COSTINHA.

da água; e a floração das jitiranas de campânulas roxas ou azuis; das marias-brancas puras e imaculadas, parecidas com o jasmim-cambraia; dos pingos vermelhos dos feijões-de-pombo, que aparecem comumente no descampado, mas que eu posso imaginar sob a fronde umbrosa dos angicos e baraúnas, ou mesmo sob os pés de pau-d'arco-amarelo, misturando heráldicamente seu vermelho de goles ao amarelo de ouro que chove de cima sobre nós, cobrindo nosso rosto e nossos cabelos. Entendeu agora, Excelência? Segundo eu li num artigo do Almanaque Charadístico, os antigos possuíam uma "Fonte do Cavalo", na qual os Poetas bebiam sua água e sua inspiração. Homero, se tivesse existido, teria bebido nela. Pois esta tripla face do Sertão, que lhe descrevi, com sua Chapada diabólica, seu Purgatório de chamas e com sua Fronde paradisíaca de riachos, roçados, açudes e pomares, é a minha particular, única e régia "Fonte do Cavalo Castanho": é neste Sol que queimo meu sangue, é nesta Agua que embebo meu Sol, esta é a Fonte do cavalo sertanejo que galopa no meu riso e no meu sangue, o sangue da terra de onde sai tudo o que sonho, como Visionário, Astrólogo e Profeta sertanejo que sou! - Meu caro Dom Pedro Dinis Quaderna, observei que o senhor desfiou alguns trechos do que me disse assim meio enfiado, como quem já sabe tudo decorado! - É verdade, Excelência! O fato é que, apesar do cotoco, eu tenho conseguido não escrever definitivamente mas pelo menos arrumar algumas anotações para a Epopéia e essas que o senhor notou foram algumas delas! - Mas o senhor falou em prosa! - Pretendo versificar tudo um dia, seguindo o exemplo das melhores autoridades brasileiras sobre o assunto.

- Está bem, mas, como já lhe disse, o que me interessa mais é o inquérito e os acontecimentos ligados ao rapaz do cavalo branco. Na sua opinião, aquilo tudo que sucedeu a ele no dia I de junho de 1935 foi um acontecimento saturnal, solar ou lunar? Infernal, do purgatório ou paradisíaco? - As três coisas, Senhor Corregedor! É por isso que, na minha Epopéia, quando, lá um dia, o senhor for lê-Ia, olhando com cuidado encontrará um Inferno, um Purgatório e um Paraíso - o Pai, o Diabo, o Filho, a Mulher, e o Espírito Santo - Saturno, o Sol e a Lua. É por isso que eu lhe contava como, naquele dia, além dos bichos visíveis que vinham nas carretas, a Estrada estava povoada de bichos invisíveis - Arcanjos alvos e reluzentes, como um bando de Garças ou Cisnes de fogo, e Demônios escuros e peludos como morcegos gigantescos, com corpo de Onça, encarnações invisíveis de Bruzacã que enchiam o Tabuleiro seco e Pedregoso com os ladridos diabólicos e os estalos e ridimunhos de suas asas sangrentas. Talvez fossem, mesmo, as Espadas de fogo dos Anjos e os ladridos dos Demônios - e não o Sol - que, retinindo nas pedras como uns martelos, estivessem desferindo aquelas lascas de fogo cintilante, capazes de encandear e cegar a vista. É possível, também, segundo vive dizendo Clemente em seus arrebatamentos de Filósofo sertanejo, que o próprio Mundo, diante do qual se encontrava o Donzel naquele instante, "fosse um animal monstruoso, uma Onça-Parda enigmática, que nós tivéssemos de capturar e domar, sob pena de morte". Não sei, Senhor Corregedor! O que eu sei é que, como diz o ditado, "quem tem medo de Onça não se mete a andar no mato". Agora, aqui, como Acusado, evoco aquele Donzel de linhagem sertaneja, cuja aparição desencadeou toda aquela história. E, sem eu querer, meu sangue repete aqueles versos do genial vate Antônio de Castro Alves, quando cantou em sua Viola de prata, cravejada de negro, um "joão sem direção", uma espécie de judeu-errante brasileiro e sertanejo, que não era senão o meu Donzel do cavalo branco, dizendo o poeta em seu cantar-baiano: - Nesse momento, Senhor Corregedor, chegavam os Cavaleiros a um alto, no topo de uma ladeira da Estrada, lugar de onde se descortinam os primeiros telhados e a torre da Igreja Nova da nossa Vila.

- Um momento, Dom Pedro Dinis Quaderna! - interrompeu o juiz. - É nas proximidades desse - alto que existe um lajedo no qual o senhor costuma subir, ninguém sabe direito pra quê? Ah, nobres Senhores e belas Damas de peito brando! Estremeci de terror, ante a pergunta e o tom em que fora formulada! Mas como vi que ele já estava pelo menos informado de alguma coisa a esse respeito, adotei novamente a atitude de "ser sincero para mostrar inteira boa-fé". Disse: - É exatamente aí, Senhor Corregedor! E como não queria me deter no assuntó, voltei imediatamente à narração: - Naquele lugar, o Doutor do cavalo preto, o Doutor Pedro Gouveia da Câmara Pereira Monteiro, deu uma ordem rápida, e a cavalgada apressou o passo. Os cavalos, animais de Cigano, .~ados com rigor, não entraram propriamente no trote, no chouto, calvez para não quebrar a dignidade do cortejo. Apenas apressaram a pisada do "meio", numa quase "esquipação", e foi assim, nesse cesso régio, que embocaram de Vila adentro. Como todo mundo ativesse reunido na Praça para as Cavalhadas, só mesmo os maiores madraços e os mais danados moleques de rua foi que avistaram, de início, a "desfilada moura", como, depois, a batizou $amuei. Mas foi, mesmo, para a Praça que ela se dirigiu, já então acompanhada por todos os bêbados, doidos, mendigos e moleques que estavam por ali, nas beiras das calçadas da periferia. De ,peado que, para usar uma expressão do meu Mestre e precursor, .Dom José de Alencar, quando as pessoas gradas avistaram a I valgada de ciganos, foi já seguida da "república de todos os gtiopins da Vila". Posso então, agora, tirar todo o pessoal da Praça daquela situação incômoda e tensa em que o deixei. Acho que nem mesmo José de Alencar seria capaz de descrever a Wofundeza da impressão causada por aquele "comboio de malammbrados", quando, diante das autoridades, dos Fidalgos, dos burgueses e do Povo, desembocaram os Cavaleiros e as carretas ca animais enjaulados, com as bandeiras desfraldadas e o FradeCAngaceiro à frente. Parando todo mundo no centro da Praça, o Donzel do cavalo branco, sempre com uma expressão ainda sanhosa e meio alheada de tudo, tirou do cinturão uma corneta de caça, U as buzina feita de chifre e cravejada de prata, e desferiu nela Um toque surdo, grave e plangente. Como se aquilo fosse um sinal combinado, os homens que vinham com os Gaviões do cortejo tiraram as máscaras de couro e os protetores das garras dos pássaros e soltaram-nos, desapertando as 1_.-ha. que os Prendiam. Os Gaviões partiram para o alto, como flechas, dando 'pios agudos e selvagens, que pareciam tinidos de metal, e foram se distanciando em círculos cada vez mais altos, até que se perderam Aos ares. Ao mesmo tempo, alguns Cavaleiros ciganos desmontavam com grande rapidez é abriam as jaulas, libertando no meio da "Não sei quem sou. A mim, dentro do Peito, um Sol-terrível bebe o Sangue e a vida! Príncipe-Errante que, no fim da Estrada, tem uma Esfinge, numa Cruz erguida! Sou o Pau-d'Arco que, florado em Ouro, a Morte e o Cetro na Coroa encerra: Vivo - que vaga sobre o Chão da morte, Morto - entre os vivos, a vagar na Terra!"

FOLHETO LVII

Invasão e Tomada da Vila

Praça os Veados, os Pavões, as Garças, as Cobras e, sobretudo, as Onças - toda a fauna selvagem que vinha nas carretas. Foi um verdadeiro deus-nos-acuda, Senhor Corregedor! O Comendador Basílio Monteiro dizia-me depois, na redação da Gazeta de Taperoá, que "quase tivera um delíquio", comentando ainda, com uma frase habitual dele, que "uma cena daquelas só num país desgraçado, como o Brasil, porque num país organizado, na Alemanha ou nos Estados Unidos, seria rigorosamente proibida pelo Governo". A intelectual Dona Carmem Gutierrez Torres Martins, mãe aqui da nossa Margarida, afirmava, por sua vez, que descera do palanque sem saber como e, quando dera acordo de si, estava no beco da Igreja Nova, onde lhe acontecera estranho caso com um cachorro esquisito que ainda hoje ninguém sabe se também tinha vindo nas carretas ou não. O Sargento-Delegado e os outros Soldados do nosso invicto e denodado Batalhão de Segurança do Estado da Paraíba escafederam-se para São João do Cariri, deixando a cidade "nas mãos daqueles salteadores que tinham invadido a rua, ninguém sabe com que intuitos sinistros", conforme dizia o telegrama enviado, logo à noite, pelo Prefeito para o Governador. O Doutor Samuel e o Professor Clemente, sem se deterem a examinar as implicações poético-monárquicas ou comuno-filosóficas do acontecimento, sumiram-se sem que ninguém visse como. Aliás, esclareço que `não por covardia, porque os mais corajosos foram os que correram logo: os mais frouxos ficaram pregados no chão, imobilizados pelo terror, só encontrando forças para correr depois, quando o pavor aumentou tanto que venceu a paralisação que tinha causado antes. O que eu achei mais estranho porém, Senhor Corregedor, foi que os Ciganos também correram. Esporeando os cavalos, puseram-se a salvo, acampando depois, quando já passara a confusão e todos os animais tinham fugido para a Catinga, naquele mesmo Tabuleiro que fica fora da rua e perto do nosso aprazível "Cemitério da Consolação". Quanto aos simples assistentes e ao pessoal da Cavalhada, inclusive meus irmãos, esse debandou todo, assim como debandaram também os dois ilustres varões que nos governavam. De modo que, quando o pandemônio cessou, sem que tivesse havido nenhum acidente sério, só se mantinham na Praça o Doutor, o Frade, o rapaz do cavalo branco e Dom Eusébio Monturo.

FOLHETO LVIII

A Aventura da Onça Mijadeira

- Esse foi um ato, aliás, Senhor Corregedor, que me levou a admirar cada vez mais a coragem nunca desmentida daquele meu grande amigo, "O Paladino do Povo", o único verdadeiro Paladino que conheci, sempre pronto a arriscar sua preciosa vida por seus ideais e pela justiça! As pessoas que não têm conhecimento das coisas, viviam falando dele, dizendo que Eusébio tinha sido aposentado do seu lugar de funcionário público "depois de uma história de desfalque, na qual ele só não tinha sido preso em atenção a seu honrado e ilustre irmão, o Comendador Basílio Monteiro, e também porque este Brasil é um país sem jeito". Diziam que Dom Eusébio era um mentiroso terrível, "um infame maldizente, falcatrueiro e sem escrúpulos, capaz de jogar lama sobre as mais ilibadas reputações da rua". Mas eu, que tenho, cá, minhas opiniões, respondia sempre que Dom Eusébio tinha alguns defeitos, como todos nós, mas nenhum dos defeitos dele era pequeno, vulgar e mesquinho: eram todos grandes, generosos e avultados. Suas mentiras eram enormes, heróicas, urdidas com típica coragem. Até o desfalque que ele dera, não tinha sido, absolutamente, um desses desfalques mesquinhos, sujos e miúdos de funcionário público, não: fora logo um desfalque para valer, um alcance de empenar, um desfalque à altura da grande alma do nosso Paladino do Povo. Seguindo Samuel, eu explicava que "uma coisa é uma alma pura e outra é uma alma grande": Eusébio não seria, talvez, uma alma pura, mas era, sem dúvida, uma alma cheia de grandeza. E que era homem corajoso, isso não há mais quem discuta, mesmo entre as pessoas que não gostavam dele, na rua. O que acontecia é que ele era um pouco azarado em seus acessos de coragem. Em seus momentos de mau humor, Eusébio se virava por cima de mim, por causa de sua má sorte. Chamava-me "o Covarde Sortudo", e apelidava-se a si próprio de "o Valente Azarado", acrescentando que, enquanto eu "tinha sorte na covardia", ele era "azarado na coragem". Se ele tinha razão no que se referia a mim, não sei, mas, em relação a ele, era verdade. Naquele dia, por exemplo, como eu vinha dizendo, foi Dom Eusébio Monturo a única pessoa que teve coragem de ficar na Praça. Ao se ver sozinho, "cercado só de feras e de fujões acovardados", como ele me contava depois, gritou, com voz desafiadora, como era de seu costume nas ocasiões de perigo: - "Covardes! Correndo e des moralizando o Povo Sertanejo! Mas o Paladino do Povo não corre não! Onélia, traz o meu rifle!" - Anote aí, Dona Margarida, que, segundo se depreende dessas palavras, Dom Eusébio e seus amigos tinham, todos, armas em casa, isso apesar de todas as batidas que o inolvidável Presidente João Pessoa mandou realizar para apreender as armas dos Sertanejos em 1930! Para aliviar o fato, ponderei: - Senhor Corregedor, é verdade que Dom Eusébio Monturo tinha um rifle, mas isso absolutamente não ameaçava a segurança do Governo da Paraíba, porque nunca lhe sucedia estar ele com a arma, nos momentos de necessidade. Gritava então pela mulher, para que ela o trouxesse. Mas isso também não tinha resultado, porque Dona Onélia era surda como uma porta e nunca atendeu a essas ordens em momento nenhum. Isso chegou a tal ponto, que a frase "Onélia, traz o meu rifle" ficou proverbial, na rua, para os momentos de brabeza sem conseqüências. Pois bem: naquele dia, brabo que só uma Capota choca, Dom Eusébio Monturo ficou no meio da Praça, feito um pião doido ou uma cobra assanhada, virando-se para um lado e para o outro, e gritando: "Como é? Todos correm, é? Pois apareça uma Onça de coragem, para topar comigo! " Infelizmente, Senhor Corregedor, as Onças, perturbadas, também, pelo barulho, tratavam era de correr para os Tabuleiros e Catingas, procurando lugares onde houvesse furnas, pedras e mato para elas se esconderem, de maneira que não aparecia nenhuma, para topar com Eusébio. Ele insistiu: "E possível que não apareça uma Onça para eu me vingar desta tentativa de desmoralização? Não posso ficar desmoralizado de jeito nenhum! Era o que faltava, esse comboio de Onças, correndo pra cima e pra baixo no meio da rua, sem licença da Prefeitura! Apareça uma Onça, que eu mostro a ela quantos nós existem do focinho ao fiofó! " Nesse momento, Senhor Corregedor, uma velhinha, Dona Nanu, que morava na Praça, gritou para Eusébio, de dentro da casa dela: "Compadre Eusébio, me acuda, que aqui tem uma Onça! Se o que você quer é Onça pra topar, venha, que aqui tem uma, debaixo da minha cama!" Como uma fúria, o Paladino do Povo correu para lá e entrou na casa. Sem atender aos pedidos de que não se arriscasse, feitos por pessoas que tinham se acolhido à casa de Dona Nanu exatamente para fugir das Onças e agora se viam, espavoridas, encurraladas com uma, Dom Eusébio Monturo entrou na casa da comadre, parou no limiar do quarto de dormir dela e disse, com ar solene e majestoso: "Onde está esse animal felino, cruel e predatório?" Dona Nanu explicou, de longe: "Está ali, debaixo da minha cama, por trás do penico-cuba! Mas o senhor está desarmado, Compadre Eusébio? Assim, não vá não! Não vá não, que é morte certa!" Aí foi que Eusébio ficou brabo! Gritou: "Não vou, minha Comadre? Que não vou é esse? Quem é que não vai? A senhora me desculpe, mas eu vou, vou demais! Não posso ficar desmoralizado de jeito nenhum! Já imaginou? Se eu não for, essas Onças vão ficar, dagora em diante, no maior dos atrevimentos! Que é que essas pestes estão pensando, hein? Que podem entrar na minha Vila, na Vila do Paladino do Povo, assim à vontade, entrando e saindo quando querem e até tendo o atrevimento de se meterem debaixo das camas de comadres minhas? Ah, não, estão muito enganadas! Taperoá não é cu-de-mãe-joana não!" E então, Senhor Corregedor, magnífico de coragem e paladinice, Dom Eusébio Monturo entrou no quarto, abaixou-se junto da cama, pegou a Onça pelo rabo e começou a puxá-la para fora. As pessoas que estavam na casa de Dona Nanu, vendo aproximar-se a conclusão heróica daquela aventura extraordinária e notando, por outro lado, que os outros bichos já tinham desertado da Praça, acompanharam Dom Eusébio, que já transpusera a porta da rua. A Praça, também, pouco a pouco, se reenchia com os primeiros curiosos que iam voltando; de modo que foi diante desse pessoal sarapantado que Dom Eusébio Monturo apareceu triunfante, arrastando a Onça pelo rabo, como mais um troféu de sua nunca desmentida coragem. Infelizmente, porém, Senhor Corregedor, aí é que vem o azar de meu querido amigo. Pelo que se esclareceu depois, parece que todas as Onças que tinham vindo com os Ciganos eram ferozes. Todas, menos aquela, que era uma velha Onça de circo, decadente, fêmea e desdentada, mantida pelos Ciganos como chamariz de feira. Tinha sido, para o Doutor Pedro Gouveia, o ponto de partida para aquela idéia genial da entrada na Vila. Na hora do barulho, por engano, fora solta com os bichos selvagens. De modo que, quando Dom Eusébio Monturo começou a puxá-la para a Praça, diante do Povo embasbascado, a Onça começou a ganir de terror, com uns miados queixosos que pareciam o choro de um menino novo. E, o que foi a parte pior, mijou-se e cagou-se toda! Pois bem, Senhor Corregedor: a humanidade é tão ruim que, no mesmo instante, exatamente aquelas pessoas que estavam mais apavoradas e que, caso a Onça fosse mesmo feroz como pensavam, teriam sido salvas pelo gesto heróico de Dom Eusébio, foram as primeiras a cair na gargalhada. Mal o meu amigo, com um gesto sobranceiro e desdenhoso, largava o rabo da Onça, saltando também de lado para não ser atingido pelos esguichos de mijo e por algum perdido bolotinho de merda, um engraçado gritou: "A Onça mijou-se e cagou-se! Dom Eusébio Monturo é tão brabo que faz Onça se mijar!" Outro, levando a idéia adiante e aproveitando o fato do Paladino se encontrar de costas, gritou: "Eusébio Mijurético! " Dom Eusébio,furibundo, voltou-se e gritou: "Apareça um sacana, aí, que seja homem, para dizer, de frente, o que disseram comigo de costas!" Imediatamente, Senhor Corregedor, todo mundo se amoitou. Ficaram calados, mudos e acovardados. Dom Eusébio provocou-os de novo: "Estão vendo? Estão vendo que são é uns covardes, mesmo? Pois a covardes eu dou é o meu desprezo!" E, ao dizer isso, saiu. Imediatamente o coro dos desocupados começou a acompanhá-lo em surriada: "Eusébio Mijurético! Purgante de Onça! Cagão de Maracajá! " Ainda o acompanharam por alguns instantes. Mas logo, vendo que não obtinham mais a atenção dele, mesmo os mais encarniçados deixavam Dom Eusébio Monturo em paz e voltavam à Praça, curiosos de saberem quem eram aqueles três estranhos Cavaleiros que tinham chegado e o que pretendiam, afinal, em nossa Vila.

FOLHETO LIX

O Grande Pretendente

- Ao voltarem, porém, aperceberam-se de que os três já tinham se sumido da Praça. Porque, Senhor Corregedor, a maior sensação daquela tarde memorável ainda estava para acontecer. Nem foi, propriamente, a entrada sensacional dos Cavaleiros, nem a libertação dos bichos, nem a aventura, azarada mas paladínica, de Dom Eusébio Monturo. Foi que o Frade, o rapaz do cavalo branco e o Doutor, tendo se dirigido, assim que a Praça se esvaziou, para o cartório de Seu Belo Gusmão, inteiraram-se, lá, de que essa modelar repartição já fechara suas portas desde o meio-dia. Encaminharam-se, então, à casa do Juiz da nossa Comarca, o Licenciado Doutor Manuel Viana Paes. E, esbarrando os cavalos à sua porta, interpelaram o Magistrado pela voz do Doutor: "Temos a honra de falar ao Doutor Manuel Viana Paes, Excelentíssimo Senhor juiz de Direito da Comarca de Taperoá?" De cima de um armário onde tinha se encarapitado com medo, o juiz respondeu com voz insegura: "Sou o Doutor Manuel Viana, mas se Vossa Senhoria ainda tem alguma Onça aí, peço-lhe que me evite a companhia dela! É contra meus princípios ser devorado por felinos!" Esclareço a Vossa Excelência, Senhor Corregedor, que, apesar de formado e esclarecido, o Doutor Manuel Viana Paes é um sertanejo, da Ribeira do Sertão do Rio do Peixe, de modo que não deixava de acreditar nuns certos rumores que correm, por aqui, a respeito de quem é comido por uma Onça - ou devorado por um jaguar, para ser mais tapirista e epopéico. Segundo certos adeptos do Catolicismo sertanejo, quem tem a desgraça de ser comido por uma Onça, não ressuscita no último dia não, quem ressuscita é a Onça! Por isso, meio cismado, o Doutor Viana, sempre de cima do armário, indagou ainda, cauteloso: "Quem é o senhor? Algum cigano? O Rei dos Ciganos?" O Doutor retrucou: "Qual cigano nem Rei nenhum, Senhor juiz! Sou o Doutor Pedro Gouveia da Câmara Pereira Monteiro. Bacharel em Direito e Advogado! Vim aqui para defender os direitos espoliados do meu constituinte aqui presente, porque este mancebo é, ninguém mais, ninguém menos, do que Sinésio Garcia-Barretto, filho do fazendeiro Pedro Sebastião Garcia-Barretto, assassinado nesta Comarca em 1930! Este é o rapaz que foi raptado no mesmo dia da morte de seu Pai, sumindo-se daqui até o dia de. hoje, quando reaparece para reivindicar seus direitos a seu nome e à sua herança!" - Senhor Corregedor, quando o Doutor Pedro Gouveia pronunciou essa frase tremenda, foi como se um corisco de pedralispe tivesse caído aos pés do Juiz e dentro da Vila, por onde a notícia logo se espalhou como um incêndio, causando sensação maior do que a libertação das Onças. "Então", dizia o Povo, terrivelmente abalado, "esse rapaz do cavalo branco é aquele mesmo Sinésio Garcia-Barretto, raptado em 1930, morto em 1932 e ressuscitado agora, milagrosamente, nesta Véspera de Pentecostes de 1935!" Lembro a Vossa Excelência que estávamos, então, naqueles dias de grande agitação política que antecederam a Revolução Comunista de 1935. 0 Povo acreditara, sempre, que Sinésio retornaria a qualquer momento para chefiar uma vaga Revolução Sertaneja que ninguém sabia realmente o que era. Assim não admira que estes tenham sido os acontecimentos que terminaram me obrigando a comparecer como acusado neste inquérito aberto agora por Vossa Excelência. De qualquer modo, estou de consciência tranqüila e, de certo modo, não tenho de que me queixar, porque, um dia, os acontecimentos daquele dia memorável, abrirão caminho à minha modesta pessoa para que eu me torne o Gênio da Raça Brasileira! - O senhor pretende ser o Gênio da Raça Brasileira? - indagou, irônico, o Corregedor.

- De fato, mesmo, já o sou, mas pretendo sê-lo também de direito, oficialmente declarado pela Academia Brasileira de Letras! Se eu for condenado neste Processo, mandarei tirar duas cópias de meus depoimentos, mandando uma para o Supremo Tribunal, como Apelação, e outra para a Academia, a fim de que os Imortais me dêem, oficialmente, o título, nem que seja por levar em conta que eu criei um gênero literário novo, o "Romance heróico-brasileiro, ibero-aventureiro, criminológico-dialético e tapuio-enigmático de galhofa e safadeza, de amor legendário e de cavalaria épico-sertaneja"! - Dom Pedro Dinis Quaderna, nem eu, nem a nossa Dona Margarida, aqui presente, queremos desanimá-lo, não é, Dona Margarida? Mas o senhor acha, mesmo, que tem condições para que á Academia Brasileira lhe outorgue, oficialmente, esse título? - Ah, tenho, Senhor Corregedor! Primeiro, porque sou o mais autêntico representante da nossa Raça! Samuel é somente godo-ibérico, como diz ele. Clemente é apenas negro-tapuia. Ora, eles dois, num dia em que estavam examinando minha genealogia, chegaram à conclusão de que eu tinha tudo quanto era de sangue, inclusive umas gotas de sangue negro e de sangue cigano! Vossa Excelência me provou, ainda agora, que eu tenho sangue judaico, como Paraibano de cotoco que sou! Assim, sou o único escritor e Escrivão-Brasileiro a ter integralmente correndo em suas veias o sangue árabe, godo, negro, judeu, malgaxe, suevo, berbere, fenício, latino, ibérico, cartaginês, troiano e cário-tapuia da Raça do Brasil! Finalmente, tendo estudado cuidadosamente, com auxílio do Almanaque Charadístico e das Postilas de Retórica, a receita das Obras de gênio, cheguei à conclusão de que a única história realmente indecifrável e completa, a única que possui todos os ingredientes de Obra da Raça, é a terrível desaventura que aconteceu a Sinésio, o Alumioso. Depois de pronto e devidamente versado, o meu será portanto, no mundo, o único Romance-Acastelado, cangaceiroestradício e cavalariano-bandeiroso escrito por um Poeta ao mesmo tempo de pacto, de memória, de estro, de sangue, de ciência e de planeta. Ora, Sinésio, morto e desaparecido da maneira que lhe disse, mas também ressuscitado naquele dia, nas Catingas e estradas sertanejas, foi uma espécie de "João-sem-Direção", personagem guerreiro, principesco e errante do Cantador nordestino Natanael de Lima. Por isso, ninguém pode realmente contar a história de Sinésio, ninguém sabe qual foi, mesmo, sua verdadeira direção e seu verdadeiro destino, de modo que ninguém, exceto eu, pode contá-la e ninguém, portanto, exceto eu, pode vir a ser o verdadeiro Gênio da Raça do Brasil! - Muito bem, acredito! O senhor disse, aí, que somente o senhor é quem pode contar a história: registro e aceito essa declaração! Foi exatamente esse, aliás, o motivo que me levou a intimálo! O senhor portanto, Dom Pedro Dinis Quaderna, vai me contar essa história tintim por tintim! Vamos voltar, então, ao inquérito e aos acontecimentos daquele dia 1.0 de Junho de 1935!

- Vossa Excelência manda! Lá vai tempo! - falei, para disfarçar meu terror, que aumentava cada vez mais. E continuei:

FOLHETO LX

A Furna Misteriosa - Como eu vinha dizendo, estávamos às vésperas da Revolução Comunista. de 1935. Ora, Sinésio concentrava em torno dele, durante todos aqueles anos, as esperanças de justiça da ralé sertaneja, como o senhor chamou há pouco. O Povo nunca perdera a fé na sua volta, quando ele, ressurreto, realizaria a Restauração, ou instauração de não sei que Reino, um Reino sertanejo no qual os proprietários seriam devorados por dragões e todos os Pobres, aleijados, cegos, infelizes e doentes ficariam de repente poderosos, perfeitos, venturosos, belos e imortais. Por isso, naquele Sábado, com a chegada epopéica do rapaz do cavalo branco, as duas idéias logo se juntavam num boato só. Sinésio viera para instaurar o Reino, e a guarda de Ciganos que o acompanhava não era senão a guarda-avançada de uma nova Coluna que o Fidalgo e Guerreiro-Brasileiro, o Capitão Prestes, enviara ao Sertão para rebelá-lo e subvertê-lo, como já tinha feito em 1926, com a célebre "Coluna Prestes"! - Anote, Dona Margarida, esse pormenor é importantíssimo! - disse o Corregedor.

Margarida obedeceu e ele indagou: - É verdade que o Comandante das tropas revoltadas de Princesa em 1930, Luís do Triângulo, vinha acompanhando o rapaz do cavalo branco? - É, sim senhor! - Quer dizer que a Coluna do rapaz do cavalo branco, no fundo, era uma fusão de remanescentes rebeldes da "Coluna Prestes" e do Exército daquele caricato "Território Livre de Princesa" que, em 1930, ousou levantar-se contra o Governo do Presidente João Pessoa, chegando aos extremos ridículos de proclamar a independência, forjando hino, bandeira, Constituição, etc.? - Senhor Corregedor, é difícil dizer isso com segurançá, porque, aqui no Sertão, depois que esse pessoal sertanejo entra num movimento desses, todo mundo, depois, troca de nome, para escapar aos inquéritos e denúncias. Se havia gente da "Coluna Prestes" ou que lutou, contra a "Coluna Prestes" nas tropas do rapaz do cavalo branco, eu não sei. Agora, Luís do Triângulo, esse tinha lutado no "Reino de Princesa" e vinha na Coluna do rapaz do cavalo branco: disso eu tenho certeza, porque Luís do Triângulo era meu amigo e eu estive com ele naquele mesmo dia! De um modo ou de outro, essas foram as razões pelas quais as pessoas mais ricas de Taperoá imediatamente se trancaram em suas casas, apavoradas, enquanto, pelo contrário, as ruas começavam a fervilhar de novo com aquela multidão de pobres e pedintes que, pouco antes, esperava tranqüilamente a Cavalhada. Foi então que sucedeu um acontecimento ao mesmo tempo inesperado e importantíssimo, um acontecimento que Vossa Excelência só poderá entender bem depois que eu lhe der algumas explicações. Eu já disse ao senhor que Dom Pedro Sebastião, Rei do Cariri, era o parente mais parente que eu tinha, sendo meu Tio, meu cunhado e meu Padrinho. Meu Pai, que era uma espécie de agregado, Conselheiro e Astrólogo particular seu, tornou-o para meu Padrinho de batismo, dando-me, por causa disso, o nome de Pedro - o outro nome, o Dinis, me veio de Dom Dinis, o Lavrador, Rei de Portugal, de quem nós, como todos os nordestinos que se prezam, modéstia à parte descendemos. Ora, com todos estes parentescos, e tendo sido, ainda, Dom Pedro Sebastião, meu protetor e pai de criação, não admira que, durante sua vida, eu tenha feito todos os esforços para aumentar o prestígio e o poder que ele tinha, no Cariri. Disseram ao senhor que fiz isso com má intenção, mas é mentira! Modéstia à parte, foi por bondade e devoção quase filial que eu tive a idéia de aproveitar a religiosidade sertaneja e meio fanática de meu Padrinho para, fazendo-o desfilar nas Procissões, descalço, vestido de sacos de estopa e com a cabeça cheia de cinza, de opa roxa e com cajado de Peregrino à mão, impressionar o Povo com o espetáculo daquele homem poderoso que, voluntariamente, se humilhava assim, diante de todos! Fui eu, também, que convenci meu Padrinho a figurar como Imperador do Divino Espírito Santo, entre Natal e Reis, quando nós, com nosso "Auto de Guerreiros", dançávamos diante dele. Com essas coisas, o Povo Sertanejo, que já considerava meu Padrinho como seu Chefe espiritual, passaria, como passou, a ver nele um Rei, que impressionava os Pobres com as roupagens, mantos e Coroas que eu inventava para ele nessas coroações e cerimônias das Folias do Divino Espírito Santo! Lá um dia, porém, Senhor Corregedor, eu comecei a me aperceber de que a imagem de Profeta e Rei que eu estava, aos poucos, forjando para meu Padrinho - com grande desgosto para a Aristocracia, os Burgueses e os intelectuais da nossa Vila - era sempre prejudicada numa parte importante. Para Rei, Dom Pedro Sebastião se prestava demais, mas faltava-lhe alguma coisa para Profeta. De fato, meu Padrinho tinha todas as qualidades imperiais de Rei Sertanejo, pois era rico, poderoso; barbado, enigmático, imprevisível e Cavaleiro. Para Profeta, era, ainda, maravilhosamente meio doido, meio fanático e piedoso: faltava-lhe, porém, para que fosse um perfeito e acabado Profeta sertanejo, a condição de "pobre e perseguido pela justiça, pelo Governo e pela Polícia". Esta última parte ainda veio a ser corrigida, se bem que tarde, quando, em 1929, ele começou a ser hostilizado pelo governo do Presidente João Pessoa. Mas pobre, isso ele nunca foi. Percebi imediatamente que, ao primeiro Profeta que aparecesse, meio doido e barbudo como ele, mas ainda por cima pobre e perseguido pelos poderosos, a posição de Chefe espiritual conseguida por mim para meu Padrinho com tanto esforço, poderia ser arrebatada, o que não me interessava de jeito nenhum, porque, sendo seu sobrinho, minha sorte e minha linhagem monárquica se identificavam de certo modo com a Monarquia e com a sorte dele! Novamente levado pelo orgulho eu ia longe demais! Cego, porém, pelas sertanejíssimas divindades gaviônicas, não me apercebi de nada, e continuei, enredando-me cada vez mais nas teias da cegueira, do orgulho e do processo: - Lembrei-me então, Senhor Corregedor, de que, num pé-deserra situado dentro das terras da "Onça Malhada", morava, há uma porção de anos, uma figura estranha, o Velho Nazário Moura, um sujeito que enviuvara, ficando na companhia de sua única filha, uma moça chamada Esmeralda Moura, mas conhecida pelo apelido de Dina-Me-Dói. Depois que sua mulher morrera, o Velho Nazário ficara paralítico e dera para raizeiro, principalmente nas noites de lua, quando disparatava e dava para visagear e dizer coisas descabeladas. O Velho Nazário apareceu-me, logo, como a oportunidade que nós tínhamos de cortar o mal pela raiz, no que se referia à qualidade de Profeta de meu tio Dom Pedro Sebastião. Ele era pobre, raizeiro e meio doido. Por outro lado, não tendo astúcia, nem ambição, nem grandeza, não poderia, nunca, ameaçar a posição de meu Padrinho. Convenci então Dom Pedro Sebastião Garcia-Barretto a mandar buscar o Velho Nazário Moura para a "Casa-Forte da Onça Malhada". Daí em diante, cada ano, quando eu editava o nosso apreciado e famoso Almanaque do Cariri - tradição que vinha de meu Pai - publicava as Profecias e Eficazes Orações do Profeta Nazário, para quem edificamos uma casinha, pegada a uma Capela que logo começou a virar local de peregrinações e consultas para os Sertanejos. Nas Festas mais importantes, eu não deixava de convencer meu Padrinho a comparecer a essa Capela. E como o Profeta Nazário, na qualidade de morador grato, dava a Dom Pedro Sebastião as mostras de um respeito quase religioso, o prestígio de meu Padrinho se firmou definitivamente entre o Povo. Chegamos ao ponto de aquela desvantagem inicial se tornar um atributo profético a mais: o Povo começou a considerar Dom Pedro Sebastião como uma espécie de divindade superior, terrível e distante, a quem até os Profetas prestavam tributo e vassalagem! Pois bem, Senhor Corregedor: naquele dia, exatamente no instante em que o Doutor Pedro Gouveia comunicava ao juiz que aquele rapaz do cavalo branco era o mesmo Sinésio Garcia-Barretto, morto em 1932 e ressuscitado agora daquela maneira abandeirada e cavalariana - naquele mesmo instante o Profeta Nazário surdiu de um beco, meio deitado e meio sentado, em seu carrinho de madeira, barbado, paralítico, sujo, esmolambado, fedorento, grisalho, revirando os olhos e com todos os demais atributos de um verdadeiro Profeta sertanejo. Vinha empurrado por sua filha Dina, e dando grandes brados para o Povo. O Doutor Pedro Garcia Gouveia que desmontara do cavalo, entregara ao juiz Manuel Viana uma procuração, na qual Sinésio o constituíra Advogado, e uma petição que deveria ser anexada aos autos do inventário da herança deixada por Dom Pedro Sebastião. Sinésio e o Frade tinham permanecido montados; e foi quando o Doutor Pedro voltava para junto deles que o Profeta Nazário, empurrado em seu carrinho, desembocou do beco defronte da casa do juiz, gritando assim: "Meu Povo, eu vi! Eu vi a Furna da Onça-Pintada, com a Onça de Pedra na entrada, e outra Onça, viva, dentro dela! Eu vi, eu juro que vi! Na entrada da furna estavam as Coisas todas, pintadas na Pedra: a Onça, o Veado, o Gavião de um lado, e, do outro, a Traíra, o Bode, a Carneira e as Lamparinas de barro, tudo pintado no Preto e no Vermelho! E a Onça estava lá, dentro da Furna, com os olhos de brasa cercada de coriscos amarelos e zelações azuis, e um bocado de pedras-líspes encarnadas despencando do céu! Era uma Onça Malhada Cantadeira! Tinha um olho de Pedra-Verde e outro de Pedra-Encarnada, e, além da cabeça de Canguçu, ela tinha asas e duas cabeças de Gavião! Tinha pau e caceta de Onça-Macho e uma carreira de peitos de Bicha-Fêmea no bucho, porque ela era a Onça sagrada do Macho-e-Fêmea! Cheguei a ver, de perto, os bicos dos peitos dela, que eram peitos de tarraxa, cada um formado por uma pedra preciosa amarela! Eu vi, eu tive a Visão! Na testa ela tinha uma Coroa, um Diamante enorme, cercado por um cordão de Pedras-Verdes e por outro de Pedras-Vermelhas! As asas dela eram de navalha enferrujada e o Sol brilhava nelas! O rabo era uma Cobra-Coral, e tanto as pedras dos olhos como as pedras dos peitos tinham poder e azougue. Por isso, se a gente conseguir pegar essa Onça, a gente vai ser tudo feliz, rico, bonito, poderoso e imortal, bebendo o sangue do Sa362 grado e o Sol de aço das navalhas das Asas dela! Ela me dizia: `Venha, Nazário! Chame o Povo e metam o pé na Estrada, que, se vocês acharem a minha Furna, vão encontrar o Ouro, a Prata e os Diamantes! Ganham a Coroa da Pedra Cristalina, e eu, ainda por cima, faço a felicidade de vocês-!"

FOLHETO LXI

O Caso do Cego Teológico Quando terminei de repetir as palavras do Profeta Nazário, o Corregedor disse, com evidente má vontade: - Pelo que o senhor me contou da aparição do tal Bicho demoníaco na praia do Rio Grande do Norte, vê-se perfeitamente quem foi que meteu essas idéias e essas palavras na cabeça desse pobre demente que o senhor não se envergonha de confessar que explorava, aproveitando-se de sua simplicidade, de sua loucura e do fato de que ele dependia de seu Padrinho! Vê-se, também, quem, foi que andou metendo na cabeça do Povo essa história da libertação das onças, no momento em que o rapaz do cavalo branco tocava a buzina! - Pois se o senhor duvida de mim, pergunte aí a Margarida! Margarida, não é verdade que soltaram umas onças aqui, no meio .do Povo, naquele dia? E não é verdade que Nazário gritou para o pessoal que tinha tido uma visagem de Onça? - E, Senhor Juiz! - disse Margarida, mais 'uma vez a contragosto. - Agora, se ele falou foi desse jeito, não sei não! Eu, por mim, já ouvi dizer muitas vezes que foi esse homem, aí, que meteu essas coisas na cabeça de Nazário! - Está vendo? - falou o Corregedor, 'vitorioso. - O mais que pode ter acontecido é que Nazário tenha ficado impressionado com a libertação das Onças que ele acabara de presenciar, sendo essa a causa dos disparos que disse no momento! Então o senhor, talvez por estilo régio, interpretou tudo a seu modo! - Foi essa, também, a opinião de Clemente, Senhor Corregedor, apesar de que o nosso Filósofo não deixou de encontrar, logo, um sentido filosófico, etnológico e subversivo para a visagem de Nazário! Mas o Povo sertanejo, incapaz dessas sutilezas, começou, logo, foi a ligar a visão da Onça Cantadeira à missão que, segundo já se espalhava entre a ralé, Sinésio viria desempenhar na "Guerra do Reino do Sertão", missão que, segundo o Povo, tinha, evidentemente, ligações ocultas e desconhecidas com as Onças que ele trouxera nas carretas e mandara libertar. Por isso, a agitação, que já estava grande, começou a fermentar. E viria a crescer ainda mais com um novo incidente, provocado logo depois da fala do Profeta Nazário pelo Cego Pedro Adeodato Sobral, aquele mesmo Pedro Cego a quem Silvestre servira de guia, durante todos aqueles anos da desaparição de . Sinésio. Naquele dia, sem que ninguém tivesse se apercebido dele antes, Pedro Cego tinha se introduzido no meio da multidão, de viola a tiracolo e conduzido por um rapaz coberto de andrajos que, de modo semelhante a seu patrão, o Cego, conduzia uma rabeca. Os dois vinham acompanhados por um cachorro sertanejo, magro, arraposado, escorropichado, amarelo e de grandes orelhas meio-negras, um cachorro que, como soubemos depois, tinha o nome de "Cangati". Vossa Excelência, com certeza, sabe que os cegos sertanejos se agrupam em duas grandes categorias, os insolentes e os teológicos. Os teológicos são humildes, submissos, resignados, religiosos e pedem esmola de joelhos, nas calçadas e portas de igreja, ficando horas o horas ao sol, nessa posição martirizaste e profundamente humilde, com um ar de sofrimento milenar, capaz de comover até o coração dos comerciantes. Cantam sextilhas como esta: "O homem que pensa bem, sabendo se dirigir, vende a Terra é compra o Céu, faz escada pra subir em cima do chão da Terra, dando esmola a quem pedir".

os insolentes, aproximam-se de nós, dão-nos, com a mão esticada, uma espécie de facada em cima do fígado, e gritam asperamente: "Me dê uma esmola!" Quando não são atendidos, dizem os maiores desaforos, arregalam os olhos com o polegar e o indicador, exibindo as chagas purulentas e vermelhas que destroçaram seus olhos, e rogam-nos uma terrível praga, desejando que nós terminemos cegos como eles. Cantam assim: "Que o Diabo lá dos Infernos seja o Deus que te conheça. Que o Urubu te persiga o que teu Sangue esmoreça! Que te encontre logo a Morte o cague na tua Sorte cu da Mula-sem-Cabeça! " - Pois bem, Senhor Corregedor: havendo essas duas qualidades de Cego, pode-se dizer que aquele, Pedro Adeodato, pertencia, ao mesmo tempo, às duas categorias, pois era um cego insolente, sujeito a acessos teológicos. Cegara já adulto, aos vinte e cinco anos, mas tinha sido, antes, úm pouco Caçador, um pouco Cangaceiro, um pouco Cantador, um pouco bêbado e arruaceiro. Naquele sábado, aparecera, também, em Taperoá, aonde não vinha há muito tempo. Não fora notado até aquele momento porque entrara na rua, vindo da Vila do Desterro, pela estrada da Vila do Teixeira, isto é, exatamente pelo lado contrário ao da estrada de Campina e de Estaca Zero, e, tendo chegado quando as Cavalhadas iam começar, o Povo tivera a atenção desviada pela chegada de Sinésio e das Onças. Agora, porém, ouvindo as palavras do Profeta Nazário, Pedro Cego foi o primeiro a falar, aproveitando o momento de estupefação geral, causado pela comunicação da visagem da Onça-Cantadeira: "'Eu sei, Nazário, eu sei!', gritou ele, reconhecendo o Profeta pela voz. 'Eu sei onde é a Furna da Onça-Cantadeira! Quando eu ainda tinha vista e era Caçador, fui muito tempo, caçador de Onça! Vocês sabem que faca, quando entra em carne de Onça, fica enganchada no sangue e nas fibras da carne da bicha, não sabem? É por isso que, em Onça, só se dá uma facada, porque a carne da bicha tem tanto azougue e se agarra na faca de um jeito, que não tem força humana que tire ela de volta! Pois bem! Um dia, numa caçada de Onça, me lembro que me perdi numa serra cheia de pedras, lá para os lados da Espinhara. Aí, por volta do meio-dia, me enrolei com uma Onça e a luta foi uma das maiores em que já me vi metido. Me lembro de ter dado dezessete facadas na barriga da bicha!"' - Oxente! - interrompeu o Corregedor. - E ele não tinha dito que facada em Onça só se dá uma, porque a carne engancha a faca? - É verdade, Senhor Corregedor, mas, aqui no Sertão, é coisa sabida que toda história de Onça tem sempre um gaguejado, um pedaço mal contado pelo meio! Tanto assim, que ninguém ligou e Pedro Cego pôde continuar. Ele seguiu contando: "'Depois das dezessete facadas e de duas horas de luta, a Onça começou a afracar, perdendo sangue, e terminou morrendo. Mas o certo é que, quando a briga acabou, eu estava completamente arriado, sem saber onde me encontrava. Andei, perdido, vagando por todo esse Sertão velho, três dias! Pra que lado eu andei? Pr'o lado do Mar? Pr'os lados do Piancó? Pr'as bandas do Pajeú? Pr'as do Seridó? Não sei! O que eu sei é que, ao cabo desses três dias, meu Compadre Nazário, eu me achei dentro de uma Serra cheia de furnas e lajedos. Pelos sinais que descrevi "Já dela, depois, todo mundo achou que era a tal da Serra da Pintada! Perdido e com sede, vendo a hora de morrer por acolá, terminei desembocando, no pino do Sol, defronte uma Furna esquisita, com uma espécie de pátio na frente, com o chão de pedra e todo cercado de lajedos. Essas pedras, em roda da Furna, eram todas pintadas com figuras de gente e de bicho. Me disseram, depois, que aqueles bichos tinham sido pintados pelos Caboclos, o que eu não sei dizer se era verdade ou não! Agora, que tinha os bichos pintados, isso tinha, eu vi com esses olhos que estão cegos e que a terra há de comer! Era tudo quanto era de bicho, o tudo na maior safadeza! Era Onça comendo Veado, era Onça fudendo com Onça, era Onça fêmea sendo fudida por Gavião macho, era Onça macho fudendo Cabocla fêmea, era Onça fêmea sendo trepada por Veado macho, era o diabo!' "`E não tinha uma Onça de pedra na entrada da Furna não, Compadre Pedro Cego?', indagou o Profeta Nazário.

"`Não me lembro direito não, Compadre Nazário, mas era capaz de ter! Eu estava tão perturbado, que sou capaz de ter visto e não me lembrar direito! Mas, agora que você está lembrando, eu estou com idéia de ter visto uma história parecida! Parece que tinha, Compadre Nazário! Tinha, era isso mesmo! Tinha lá, uma Onça de pedra, com um chifre amolado e envenenado na cabeça e um par de asas nas costas! Tinha, ora se tinha! E aí, quando eu fui me chegando pra perto da boca da Furna, comecei a sentir aquela catinga de Onça que todo caçador conhece o que não engana ninguém! E que diabo de catinga danada era aquela, que eu fui sentindo, e sentindo, e fui ficando meio doido, meio afogueado, vendo maretas, e aí comecei a ver umas faíscas de fogo faiscando pra todo lado, e na mesma hora eu comecei a ouvir a zoada do Mar e uma musga velha e cega, que parecia tocada por viola, pife e rabeca e cantada por mulher com boca fechada! E aí eu olhei pra dentro do escuro da furna, e vi foi dois olhos de fogo olhando pra mim, e a musga ia tocando, e ia me chamando, e eu sabia que, se entrasse lá, aquela Onça ia deixar eu fuder ela, e a trepada minha ia ser tão danada de cachorro da molesta que eu ia morrer e ressuscitar três vezes, não mais como eu era, mas sim igual à Onça, ajuntado com ela numa fudida só pelo resto da vida, na trepada mais comprida e gozosa do mundo, uma trepada que não se acabava mais nunca e que durava enquanto o Sol e o sol da Onça durasse! E aí, que diabo de encantação foi aquela, que começaram os estalos das asas e as faíscas de fogo, e de repente, no meio da minha encantação, eu comecei a ter medo, e a pensar que a Onça ia era beber meu sangue e comer minha carne, deixando somente os ossos brancos, debaixo do Sol! Eu queria enterrar os pés e desabar dali, correndo pra trás, mas a musga me tonteava, me chamava pra dentro e eu sentia que ia morrer! Minha sorte foi me lembrar de meu Padrinho Padre Cícero e da Oração da Pedra Cristalina de Jerusalém, que eu tinha trazido do Juazeiro e trazia sempre amarrada no pescoço, escrita num papel e enrolando uma pedra que eu-tinha trazido do chão sagrado da terra do nosso santo Padre, meu Padrinho! Segurei a pedra na mão direita, e o papel na esquerda, e fui dizendo a Oração, que, eu sabia decorada! Aí a musga foi baixando, e meus pés foram ficando menos pesados, até que ficaram maneiros, maneiros! E eu me afastei uns passos da boca da Furna, e as coisas foram melhorando, até que eu pude dar as costas para a Onça, e correr de serra abaixo! Corri como um desadorado, como se tivesse vinte e quatro cachorros da molesta correndo atrás de mim! Daí em diante, não sei mais o que foi que aconteceu não! Me lembro somente de ter topado numa pedra e caído no chão. Pensei que ia me acabar, foi me dando uma agonia, tive uma oura, fiquei ali, sem dar acordo de mim, não sei quanto tempo, e o certo é que, quando acordei, foi com uns Tangerinos que estavam junto de mim, me dando água misturada com soro de coalhada e garapa de rapadura. Eles tinham me encontrado perto de uma beira de estrada, a umas vinte léguas do lugar em que eu tinha me perdido, não sei quantos dias depois! Não houve jeito d'eu encontrar, depois de acordado, o caminho que tinha seguido, da Furna até ali, onde acordei. Aí, veio a minha cegueira, e foi quando tive de deixar de banda tudo quanto foi de Onça, caçada e tudo o mais! Mas, se essa Furna e essa Onça são importantes e sagradas como você, Compadre Nazário, acaba de dizer depois de ter visto elas numa visagem, pode ser que eu, saindo de novo para aquelas serras brabas da Espinhara, acerte a me perder pelo mesmo caminho: e aí, com você me ajudando na procura, com a visagem, quem sabe se a gente não vai bater de novo com os costados na Furna da Onça-Cantadeira?'"

FOLHETO LXII

O Atentado Misterioso - Essas duas falas, Senhor Corregedor, contribuíram demais para aumentar, no Povo, a impressão causada por aquela sucessão de acontecimentos extraordinários. Foi isso, talvez, o que impediu os Sertanejos de ter, logo no primeiro momento, reconhecido no Guia do cego, no homem da rabeca coberto de andrajos, no companheiro e dono do cachorro "Cangati", ninguém mais, ninguém menos, do que o irmão bastardo do Sinésio, Silvestre. Este, por sua vez, só tendo chegado depois à casa do Juiz, não tinha ouvido a declaração do Doutor Pedro Gouveia sobre a identidade do rapaz do cavalo branco. O Frade, porém, ouvindo tudo o que Nazário o Pedro Cego tinham dito, ficou, de repente, com um ar grave o inspirado. E, do alto do seu cavalo, dirigiu-se, um pouco a Nazário, um pouco a Pedro Cego e um pouco para o Povo todo, dizendo: "`Meus filhos, quantas coisas sagradas e importantes foram pronunciadas aqui, agora! Tudo isso é coisa divina e misteriosa, de modo que vocês devem, antes de tudo, ouvir a palavra da Igreja, representada por mim! O nosso Príncipe do Cavalo Branco vai descansar um pouco na casa que foi de seu Pai. E eu, como homem de Deus que sou, vou para a Igreja, a fim de me preparar espiritualmente na Vigília para o dia sagrado de Pentecostes, que será amanhã. Depois de assim preparado pela oração, voltarei para este lugar, daqui a pouco, porque tenho a revelar ao nosso bom e querido Povo coisas da maior importância sobre o nosso Destino, tanto o destino da terra quanto o do céu!' "Enquanto o Frade dizia essas palavras, o Doutor Pedro Gouveia tinha montado novamente, juntando-se a ele e a Sinésio; o os três, esporeando os cavalos, começaram a caminhar em direção à velha casa que pertencia aos Garcia-Barrettos, aquela mesma casa que Arésio desprezara, ao regressar, e que permanecera fechada desde 1930, após a morte de El-Rei Dom Pedro Sebastião. Como logo se soube por informação do Doutor Pedro, Sinésio, 'ao contrário do irmão ruim, e mantendo-se fiel ao sangue de seu Pai', fazia questão absoluta de ficar morando na velha casa, atitude que logo predispôs ainda mais o Povo em seu favor. Ora, além da velha Casa-Forte da fazenda - moradia primitiva e mais antiga do primeiro Garcia-Barretto sertanejo - a família tinha, realmente, aquela outra, na rua. Os Garcia-Barrettos tinham doado uma parte das suas imensas terras para constituir o patrimônio da primitiva paróquia de Taperoá. Antes disso, porém, tinham separado outro pedaço de terras para a Igreja, erguendo ali, logo, uma Capela dedicada a São Sebastião, que, como sabemos, era o Santo de devoção particular da família, e construindo, também, uma casa pegada à Capela. Nesta casa se hospedaria o santo Padre Ibiapina, nas suas passagens de missionário pelas terras do Cariri. Tudo isso se dera durante o reinado de Dona Maria I, a Louca, avó do Impostor Dom Pedro I, sendo Governador e Capitão-Mor da Paraíba Dom Fernando Delgado Freire de Castilho. Em torno dessa casa e da Capela de São Sebastião é que tinha se edificado a nossa Vila. Os Garcia-Barrettos continuavam a morar na velha casa de Dom José Sebastião, a antiga 'Casa-Forte da Torre da Onça Malhada'. O casarão da rua era, apenas, moradia eventual da família, quando seus chefes vinham a rua para comparecer às feiras, às Missas, ou para cumprir suas obrigações monárquicas, isto é, para desfilar sob pálios, nas Procissões, para subir aos palanques nas posses dos Prefeitos, seus prepostos, para o dia Sete de Setembro, para as Cavalhadas, para as coroações dos Imperadores do Divino e outras realezas grandiosas do mesmo tipo. Pois era para esse casarão da rua que Sinésio, o Frade e o Doutor iam se encaminhando naquele momento quando, na Rua Grande, sob o portal do chamado `Casarão das Pinhas', avistaram um mendigo que, sentado na calçada, parecia alheio a tudo o que acontecera, e ali estava, com o rosto quase inteiramente coberto por um grande chapéu de palha de abas largas e caídas, o com o corpo inteiramente envolvido por uma espécie de cobertor ou manta colorida, que o cobria até os pés, como se ele estivesse com frio ou adoentado. Sinésio, que fora, ao que parece, o único dos três a dar importância ao mendigo, esbarrou seu belo cavalo branco - que, segundo soubemos depois, tinha o nome terrível de `Tremedal' - e, junto da calçada, falou com ele." - Seja o mais preciso que lhe for possível agora, Dom Pedro Dinis Quaderna! - falou o Corregedor. - Deixe de lado, um. pouco, o estilo régio, porque esse pormenor é importantíssimo para a elucidação do assassinato de Dom Pedro Sebastião, da morte o ressurreição de Sinésio, e de toda essa história da - como é que o senhor chama? - da desaventura novelosa e guerreira da tal "Guerra do Reino". Que foi que o rapaz do cavalo branco disse ao mendigo? O assunto era perigoso, de modo que procurei tergiversar e falei vagamente: - Excelência, isso tudo aconteceu há três anos, e até hoje ninguém chegou verdadeiramente a um acordo sobre quais teriam sido exatamente as palavras trocadas entre os dois. Uns dizem que Sinésio apenas ofereceu uma esmola, que teria sido recusada pelo mendigo. Outros dizem que ele falou no Testamento e no Tesouro, ambos deixados por Dom Pedro Sebastião, indagando alguma coisa sobre o Roteiro perdido desse Tesouro. E, finalmente, a maioria diz que Sinésio teria feito alusões misteriosas ao Reino e à sua Missão, o que não deixa de ser estranho, diante da aparente insignificância daquele mendigo.

- E qual é sua opinião pessoal sobre essas três versões? - Excelência, eu não tenho opinião nenhuma, e, na dúvida, passo a história adiante pelo preço que me venderam! Dizem que as palavras que Sinésio proferiu foram as seguintes: "Meu Velho, posso fazer alguma coisa para ajudar você? Vim por causa do Crime, da Herança e do Reino! Você sabe alguma coisa sobre o Caminho e o Roteiro? Onde é que eu posso falar com Antônio Villar? " - Como? - disse o Corregedor, quase pulando, de novo, da cadeira. - Antônio Villar? Ele perguntou por Antônio Villar? Anote, Dona Margarida, esse pormenor é importantíssimo! O senhor sabia, Dom Pedro Dinis Quaderna, que Luís Carlos Prestes, o Chefe dos comunistas brasileiros, mais ou menos por esse tempo estava entrando no Brasil secretamente, vestido de Padre, e adotando exatamente esse falso nome de Antônio Villar? - Naquele momento, eu ainda não sabia disso não, Senhor Corregedor, mas soube logo mais, à noite, por intermédio do Comendador Basílio Monteiro! Mas, no caso de Sinésio, permanece uma dúvida. A maior parte das pessoas, aqui, acredita que não foi a Luís Carlos Prestes que ele se referiu, não, porque existe também, aqui na Vila, um Fazendeiro com esse nome, pertencente à mesma família do Contra-Almirante Frederico Villar.

- Está bem, tudo isso será apurado! E que foi que o mendigo respondeu a Sinésio? - Dizem que ele respondeu assim: "Não senhor, não sei onde é que o senhor pode encontrar esse homem não, nem tenho o Dinheiro nem nada! Perdoe!" É estranho, não? - disse o Corregedor. - Primeiro, se fosse do fazendeiro que Sinésio tinha falado, o mendigo saberia dar a informação, porque esse Antônio Villar, o daqui, é conhecido de todo mundo. Depois, comumente, são os mendigos que nos pedem dinheiro e nós é que respondemos: "Não tenho agora não, perdoe!" - Pois se não aconteceu assim, foi assim que me contaram essa parte, Senhor Corregedor! Dizem ainda que, então, Sinésio olhou demoradamente o mendigo, sem dizer mais nada, porém. Após um momento, esporeou o "Tremedal", muito levemente, com grande delicadeza, como sempre fazia para não feri-lo, segundo soubemos depois. Ele, o Frade e o Doutor tomaram, de novo, o caminho do casarão dos Garcia-Barrettos, que ficava ali perto, pegado à Capela (hoje Igreja de São Sebastião). No momento, porém, em que os três iam chegando na esquina da Rua Grande com a Praça onde teria se realizado a Cavalhada, o mendigo com quem ele acabara de falar ergueu-se sobre um joelho, puxou, de dentro da manta que o cobria, um rifle, já engatilhado, e atirou no rapaz do cavalo branco. Poucos segundos antes, no entanto, o cavalo "Tremedal" tinha topado ligeiramente numa pedra, baixando e reerguendo logo a cabeça, por causa da topada. Sinésio curvara-se para afagar o pescoço do animal, significando-lhe, assim, que aquela topada involuntária dada por ele em nada prejudicara seu dono: foi esse gesto de afeição ao belo animal que salvou a vida de Sinésio, sobre cuja cabeça a bala passou zunindo, indo se cravar adiante, na fachada da Capela.

- Me diga uma coisa, Dom Pedro Dinis Quaderna: na sua opinião, o pessoal que mandou emboscar o rapaz na estrada foi o mesmo que mandou o mendigo atirar nele na rua? - O Povo por aqui acha que foi a mesma gente, Senhor Corregedor! - E quem foram os mandantes? - Dizem que foi o rico e poderoso Dom Antônio Moraes, acrescentando alguns que ele ordenou tudo por inspiração do filho dele, Gustavo Moraes, e com o consentimento de Arésio GarciaBarretto, irmão de Sinésio! Mas nada disso ficou bem esclarecido, Senhor Corregedor, de modo que volto aos acontecimentos provados o sucedidos diante de todo mundo. O falso mendigo, vendo que falhara no primeiro tiro, pôs-se rapidamente de pé. Viu-se, então, que ele não tinha nada de velho: era um rapaz moço, forte e mal-encarado. Manejando o rifle, que era um Cruzeta casca-de-banda, levou de novo a arma à cara e correu na direção de Sinésio, que parara o cavalo e se voltara para o lugar onde tinha soado o estampido. Mas enquanto o rifle era manejado, o Doutor Pedro e o Frade já tinham tomado as primeiras providências para defender o pupilo. O Doutor Pedro puxou uma pistola e esporeou o cavalo para cima do Cabra. O Frade, não conseguindo desafivelar logo o mosquetão que trazia às costas, compreendeu, porém, a intenção que movia o outro e impeliu também seu cavalo, a fim de, atropelando o homem do rifle, atrapalhar o segundo tiro. E foi o que aconteceu: perturbado com aquele tropel dos cavalos que vinham em sua direção ameaçando pisá-lo, o homem, que parecia visar somente Sinésio em sua tentativa, errou também o segundo tiro. Então, com velocidade surpreendente, o Cabra aumentou a carreira em que vinha,, livrou-se agilmente dos cavalos e, cruzando com o Doutor e o Frade, correu na direção de Sinésio. No aperto em que se encontrava, não pudera colocar terceira bala na agulha, o tudo indicava que sua intenção era lançar-se sobre Sinésio, agora para esfaqueá-lo. O Doutor Pedro, porém, esbarrando o cavalo, voltou-se e disparou a pistola sobre o Cabra. Este apercebeu-se, então, de que não havia mais jeito: a tentativa falhara de vez, porque ele fora ferido, se bem que levemente, e agora os dois vinham de novo sobre ele. Jogando fora o rifle para poder fugir mais velozmente, correu ele então pelo Beco da Igreja, na direção da Rua da Usina. Enquanto isso, o Frade conseguira finalmente desafivelar o mosquetão, e estava mirando o cabra que corria, quando o Doutor Pedro gritou: "Frei Simão, não atire não! Vamos pegar o Cabra vivo, para ele revelar por quem foi mandado!" O Corregedor interrompeu de novo, com aquela mesma expressão aguda e cortante: - Um momento, Senhor Dom Pedro Quaderna! O senhor tem certeza de que foi pelo nome de 'Frei Simão que o Doutor Pedro Gouveia tratou o tal Frade? Ah, nobres Senhores e belas Damas! Vossas Excelências, que conhecem a história da Pedra do Reino, bem sabem o que este nome de Frei Simão significava para todos nós, pois Frei Simão era o nome sagrado e profético do nosso parente Manuel Vieira, o Moço, aquele mesmo que, em 1838, tinha presidido, como sacerdote, às degolações ordenadas por meu bisavô, Dom João II, o Execrável! Esfriei de novo, sem saber até que ponto o Corregedor conhecia o que esse nome de Frei Simão significava para nós. Mas, do jeito que ele falara, parecia que ele quisera, apenas, documentar o fato para que Margarida o anotasse. Assim, resolvi não entrar em maiores esclarecimentos; limitei-me a responder: - É verdade, Senhor Corregedor: foi pelo nome de Frei Simão que o Doutor Pedro chamou o Frade. A narração dos acontecimentos que se seguiram então é, também, mais ou menos contraditória. Num ponto, porém, todos estão de acordo: foi nesse momento que, lá de longe, do Tabuleiro que fica entre o leito seco do Rio Taperoá e a Estrada de Estaca Zero, começaram a aparecer uns sinais luminosos, acendendo e apagando em direção à Rua da Usina. Pareciam sinais feitos com um espelhinho que alguém manejasse no meio do Tabuleiro, escondido entre as pedras e os xiquexiques, acendendo e apagando o sol do espelho com a mão.

- Muito bem, Dom Pedro Dinis, veja agora o que vai me dizer, porque esse ponto é muito importante! Se da Rua da Usina se vê essa parte do Tabuleiro, é lógico que, de lá, se vê a Rua da Usina, não é verdade? - É, sim senhor! - Pois me diga outra coisa: o tal lajedo, que o senhor freqüenta, não fica entre o Tabuleiro e a Estrada, dominando a Vila a cavaleiro? - Fica, sim senhor! - Muito bem! Dona Margarida, anote essa confissão do depoente, ela é importante para a elucidação de tudo! Novamente a boca do meu estômago se contraiu, apertando mais o nó. Foi com dificuldade que continuei: - Quando os sinais de sol começaram a se acender e se apagar no meio do Tabuleiro, o Cabra, que já tinha atingido a Rua da Usina e parecia ter a intenção de correr para os lados do Chafariz, margeando a areia do Rio, mudou subitamente de intenção, e, descendo o Cais, começou a descer para o leito do Rio Taperoá, como se quisesse ir para o Tabuleiro, ao encontro da pessoa que manejava o espelho. O Doutor Pedro e Frei Simão iam chegando já à Rua da Usina, quando, de repente, o Cabra pareceu tropeçar na carreira em que ia e caiu de bruços na areia do Rio. Frei Simão e o Doutor Pedro apearam-se junto do Cais e começaram a descer cautelosamente, com as armas apontadas para o Cabra, como se temessem uma cilada de sua parte. Mas, quando chegaram perto, viram que o homem estava em convulsões, com uma perna que se estirava e se encolhia, enquanto o sangue saía, às golfadas, pelo buraco que uma bala lhe abrira mesmo em cima do fígado. Foi aí que se verificou que a bala do tiro do Doutor Pedro tinha pegado somente o ombro dele, por trás.

- E o tiro que matou o Cabra, tinha vindo de longe? - É o que tudo indica, Senhor Corregedor, porque ninguém ouviu o tiro na rua. Devem ter atirado nele provavelmente com um fuzil munido de luneta, porque o tiro foi acertado com grande precisão. Quanto à pessoa que tinha atirado, deve ter fugido logo, com grande rapidez, porque as pessoas que correram para as proximidades do lugar de onde tinham vindo os sinais luminosos não encontraram ninguém.

- De onde o senhor acha que partiu o tiro? - Dizem, aqui na rua, que foi do meio do Tabuleiro, do mesmo lugar de onde vinham os sinais do espelho. O senhor, o que é que acha? - Eu não acho nada, estou somente investigando o caso. Continue! - O que eu tenho a narrar dagora em diante é pouca coisa, Senhor Corregedor! Esses, que já contei, foram os acontecimentos principais que marcaram, entre nós, o reaparecimento de Dom Sinésio, o Alumioso. O Povo, que tinha acorrido todo para a Rua da Usina, esperava, silencioso, a volta do Doutor Pedro e de Frei Simão, como que aguardando uma explicação ou uma palavra de ordem que desse sentido a todos aqueles acontecimentos. O Doutor Pedro Gouveia, que parecia homem dotado para essas situações, não se negou a isso. E, do alto do seu cavalo, falou, com certa imponência: "`Povo de Taperoá! Aquele rapaz, desaparecido daqui em 1930, maltratado por seus cruéis inimigos, que mataram seu Pai o o raptaram no mesmo dia; aquele rapaz, tão querido por todos os Pobres do nosso Sertão, voltou hoje aqui para reivindicar seus direitos sagrados! Há interesses poderosos, aliados contra ele e contra seus direitos! Como vocês viram, mal ele vai chegando à terra que para ele se tornou sagrada por causa do sangue de seu Pai, tentam matá-lo, para impedir o Moço do cavalo branco de fazer a felicidade da Pobreza! Sozinho contra todos, raptado, perseguido, encarcerado, maltratado, órfão, agora ameaçado de morte, com quem poderia ele contar, senão com o Povo, esse Povo bom, sofredor e pobre, do Sertão? Foi sempre ao lado desse Povo que ele esteve, foi sempre a seu lado que ele apareceu, o é isso que os seus inimigos não perdoam! Por isso, eu e Frei Simão, protetores e amigos do rapaz do cavalo branco, pedimos a ajuda do Povo Sertanejo para Sinésio Garcia-Barretto!'" FOLHETO LXIII O Encontro de Dois Irmãos - Sem que ninguém se apercebesse, Senhor Corregedor, Sinésio - que se apeara do cavalo junto à Igreja - tinha se aproximado e ficara por trás do Povo, segurando "Tremedal" pela rédea, ao mesmo tempo que o abraçava pelo pescoço. O Doutor Pedro que o vira chegar enquanto falava, resolveu então causar efeito sobre o Povo: e, ao pronunciar suas últimas palavras, apontou, com gesto magnífico, sua mão espalmada em direção ao pupilo o protegido. Todo mundo se voltou para o rapaz, e foi enorme a sensação causada pela peroração do Doutor. Foi nesse momento que, do meio do Povo, surdiu Silvestre, o irmão bastardo de Sinésio, acompanhado por Pedro Cego e "Cangati". Ele ouvira, finalmente, a revelação do fato espantoso e, vendo o Doutor apontar seu irmão mais moço, precipitou-se para ele, puxando o Cego, que o acompanhava como podia, ambos às quedas e tropeções.

"`Sinésio?', indagou ele, esgazeado. `O senhor disse Sinésio? Pelo amor de Jesus Cristo e de Nossa Senhora! Você é Sinésio? É Sinésio, mesmo? Eu sou Silvestre! Sou Silvestre, seu irmão!' "Ao ouvir essas palavras, Senhor Corregedor, dizem que Sinésio, profundamente emocionado, deu um passo -para o irmão, o que foi suficiente para que os dois ficassem face a face. Silvestre parou e sua imobilidade era tanto maior quanto tinham sido grandes os tropeções e carreiras até ali. Dizem que, colocando as duas mãos nos ombros de Silvestre, Sinésio disse algumas palavras em voz baixa e com os lábios trêmulos... " O Corregedor interrompeu: - Já ouvi outra versão, segundo a qual esse rapaz do cavalo branco não disse nada, nesse momento! Dizem que ele teria ficado imóvel, emocionado, com as mãos nos ombros do outro e olhando seus olhos, isso durante uma boa porção de tempo, até que o tal do Frei Simão interrompeu a cena! - É, tem umas pessoas por aí que contam assim! - expliquei. - Mas pessoas outras, pessoas fidedignas, me contaram que, pelo contrário, Sinésio falou, dizendo: "Então, Silvestre, ainda me conhece? Sou Sinésio! Sou eu, meu irmão! " E os dois se abraçaram, chorando. É verdade que, logo no dia seguinte, surgiram várias versões do acontecido, dizendo logo os partidários de Arésio que as palavras não tinham sido exatamente essas! - Há quem diga, mesmo, que, em vez de Silvestre, o rapaz do cavalo branco teria chamado seu pretenso irmão de Silvério! - É, mas muita gente, também, diz que ele acertou e chamou o irmão foi de Silvestre, mesmo! E mesmo que não tivesse acertado, Senhor Corregedor, os sofrimentos que ele passou podem tê-lo perturbado um pouco, causando o erro! O senhor pensa que ver o Pai assassinado, ser raptado no mesmo dia, ser preso sem culpa nenhuma, ser soterrado, morrer de fome, solidão e desespero, e, ainda por cima, ressuscitar numa estrada sertaneja, é alguma brincadeira? De qualquer modo, sei que Silvestre, abraçado ao pescoço do irmão, dizia: "Meu Deus, será verdade mesmo? Será que Sinésio está vivo? Sim, é ele, meu coração me diz que é! " Só no outro dia é que começaram a aparecer outras versões! Naquele momento inicial, porém, ninguém cuidava de saber exatamente o que se dissera ou não: o Povo já estava, também, todo em prantos, conduzido por Frei Simão e pelo Doutor Pedro, os quais, assim que tinham visto os dois irmãos se abraçarem, tinham puxado os lenços e, cobrindo o rosto, haviam começado a chorar convulsivamente, numa emoção que imediatamente contagiou todo mundo! - É verdade que Frei Simão, ao ouvir o nome de Silvestre, teria dito umas coisas estranhas, que ninguém entendeu direito, mas que tiveram uma repercussão enorme perante o Povo? Esfriei de novo, aterrorizado, porque aquilo era, novamente, ligado ao grande crime, ao grande segredo da minha vida - minha linhagem real paterna. Pegado de surpresa, fiquei, durante um momento, olhando o Corregedor, sem nada responder. Ele insistiu: - O que foi que Frei Simão disse? - Sei não, Excelência! - falei, tentando escapar. - Também não entendi direito aquelas doidices não! O que posso fazer é vender tudo ao senhor pelo preço que comprei! Dizem que, depois de ter chorado em quantidade suficiente para emocionar e abalar o Povo, Frei Simão conseguiu se dominar! Aí, chegando seu cavalo para junto dos dois irmãos, apeou-se e caminhou para eles. Dizem que Sinésio, tomando o irmão pelo braço, apresentou-o ao Frade, dizendo: "Frei Simão, este aqui é meu irmão, o segundo, aquele que era pegado comigo e que eu lhe disse que ficaria do nosso lado, de qualquer jeito! É Silvestre! " Dando mostras de um espanto visível para todos, Frei Simão arregalou os olhos e gritou: "O quê? Como foi que você disse? Você disse, aí, Silvestre, foi, Sinésio? Rapaz, você se chama Silvestre? Pergunto porque, se você se chama, mesmo, Silvestre, o Doutor Pedro precisa saber disso imediatamente! " E então, excitado, talando alto para que o Povo também ouvisse, o gigantesco Frei Simão gritou para o companheiro que se aproximava: "Doutor Pedro, chegue aqui pelo amor de Deus! Veja se o nosso Sinésio não é, de fato, uma criatura de Deus! Veja se tudo isso não é coisa divina, coisa do Divino Espírito Santo! Olhe, veja quem está aqui, ressuscitado: Silvestre, o Guia, aquele mesmo Rei e Profeta da Serra do Rodeador! É o nosso Silvestre Quiou, o Enviado!" O Doutor Pedro Gouveia, ouvindo que aquele rapaz, moço daquele jeito, era o mesmo Profeta aparecido na."Guerra da Serra do Rodeador", abriu a boca, arregalou os olhos e persignou-se, murmurando: "Ave Maria! Minha Nossa Senhora! É coisa do Divino Espírito Santo, isso não tem pra onde!" Depois disso, sem dizer mais nada, ficou olhando o Povo assombrado, enquanto brincava, de modo aparentemente casual e descuidoso, com a Cruz meio episcopal que lhe pendia do pescoço, amarrada a uma larga fita amarela e branca. Quanto a Silvestre, sem ligar importância ao que o Frade e o Doutor estavam dizendo, limitava-se a repetir mais ou menos o que tinha dito: "Mas meu Deus, será verdade mesmo? É verdade, tudo me diz que é verdade! Sinésio ressuscitou, e ressuscitou, com ele, o sangue de meu Pai! Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo! Sinésio ressuscitou, ressuscitou o Prinspo da Bandeira do Divino do Sertão! Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!" "Para sempre seja louvado!", começavam, já, a repetir, em coro, os Sertanejos, sempre meio dispostos a uma boa ladainha. Então, Senhor Corregedor, sucedeu um outro fato mais ou menos inesperado. De repente, Silvestre, certamente impressionado com tudo o que acontecera, ajoelhou-se na poeira do chão e beijou a mão do ressuscitado, o que terminou por desgarrar, de vez, tudo quanto era fanatismo sertanejo represado. Tudo poderia, aliás, ter continuado assim, nesse tom régio, o que me permitiria, logo de início, manter o timbre heróico, trágico e epopéico da minha história. Infelizmente, porém, devo ser verídico, e, naquele momento, Pedro Cego interveio, atrapalhando o final da cena com um daqueles "ataques de insolência" que, nele, costumavam sempre alternar-se com os teológicos. Mal Silvestre se erguia, o terrível Cego lhe caía em cima, dando-lhe, com a ponta do cajado, uma estocada nas costelas: "Que é que você está fazendo aí, seu safado, se esfregando na poeira, como um jumento, e obrigando essas pessoas ilustres a perder tempo? Venha logo, aqui, cantar um negócio comigo, peste! Quer ganhar a vida sem trabalhar, é? Pra que é que eu pago a você, hein, seu corno? Chegue, vamos cantar, aqui, uma toada, que é pra esse Doutor, aí, me dar uma esmola!" Pegando então na viola, Senhor Corregedor, ele deu em suas cordas uma vigorosa batida de ponteado, logo seguida de um pinicado bem marcado e forte. Ouvindo isso, e como se nada tivesse acontecido, Silvestre retirou a rabeca das costas. De seu rosto, tinham-se apagado completamente todos os sinais de emoção epopeica, motivo pelo qual esse final de cena talvez seja cortado da minha Obra. Foi já rindo que ele desferiu, também, nas tripas de gato de sua rabeca sertaneja, um toque violento, áspero e fanhoso. Então, sem que ninguém tivesse previsto - mas também sem espanto nenhum de ninguém - os dois iniciaram, depois de breve confabulação, a desafio-de-memória e em homenagem a Sinésio, o seguinte romance de loa, em estilo narrativo: "Quem quiser ter seu sossego, deixe a minha Companhia, pois minha Mãe me pariu numa áspera Catinga! Armas, rifles e Cavalos, serra abaixo, serra acima, e os Ciganos me furtaram em terras de Mouraria! Quatrocentos me matavam, quatrocentos defendiam, até que me sepultaram numa Cadeia que havia! Um Gavião me educou, um Cervo me salvaria, sete anos bebi leite da feroz Onça parida, outros sete comi Pão, sete, o Vinho da bebida! Três vezes sete, vinte e um, e eis que o Morto volta à vida! Por sete anos fui preso e ainda lá estaria, não fosse o sangue do Rei que me ressuscitaria! "

FOLHETO LXIV

A Cachorra Cantadeira e o Anel Misterioso Quando eu acabei de recitar esse enigmático "romance", o Corregedor falou: - Dom Pedro Dinis Quaderna, eu, se fosse o senhor, cortava essa versalhada da sua futura Epopéia, porque ela parece- uma charada, uma espécie de logogrifo em verso! - Pois é exatamente por isso que ela deve entrar, Senhor Corregedor! Essa palavra que o senhor usou, "grifo", é exatamente a prova de que esses versos são indispensáveis à minha Epopéia! - Por quê? - perguntou ele, espantado.

- Por causa de Homero, Excelência! Não quero, nem devo, esconder a Vossa Excelência que, depois de conseguir da Academia Brasileira de Letras o título de "Gênio da Raça Brasileira", pretendo disputar, no vasto Império da Literatura Universal, o cargo, também ainda vago, de "Gênio Máximo da Humanidade"! Ora, assim como fiquei com uma certa "cisma" com o Conselheiro Ruy Barbosa em relação ao primeiro título, tive também, a princípio, uns certos sobressaltos com Homero, para o segundo: foi quando li nas Postilas de Retórica e Gramática, publicadas em 1879 pelo Doutor Amorico Carvalho, que, de todos os Poetas, "o primeiro, no tempo e na glória, é Homero". Esse Doutor foi "retórico" do Imperador Dom Pedro II. Mesmo sendo Pedro II um impostor e usurpador, essas coisas de monarquia são muito sérias, de modo que o cargo de "Retórico Imperial" é venerável e a palavra do Doutor Amorim de Carvalho não é brincadeira! Por isso, quando li isso, fiquei meio cego de terror, com medo de que aquele peste de grego tivesse se antecipado e me tomado o cargo. Mas Clemente e Samuel me tranqüilizaram um dia, provandome, primeiro que Homero não existiu - opinião de Clemente - e, depois, que tinha mau gosto e era incompleto - opinião de Samuel. É evidente que, para uma pessoa ser nomeada "Gênio Máximo da Humanidade" precisa, primeiro, existir! Depois, segundo o Doutor Amorim Carvalho, uma Obra, para ser clássica, precisa ser completa, sem o que nem é modelar nem de primeira classe! Homero, além de não ter existido, era incompleto: como pode, portanto, ser o "Gênio Máximo da Humanidade"? Apesar disso, porém, Senhor Corregedor, resolvi tomar certas precauções contra ele, e a presença, em minha Epopéia, do "enigma grifo-esfingético em versos" que lhe recitei é uma delas! - A senhora está entendendo, Dona Margarida? Eu estou tendo alguma dificuldade! - disse o Corregedor.

- Pois explico tudo em dois minutos! - disse eu, com boa vontade. - O suplemento anual do Almanaque chama-se "Édipo". O primeiro número dele, explicando a razão do título, contou o mais famoso enigma do povo de Homero, os Gregos - aquela charada que a Esfinge propôs a Édipo, Rei de Tebas. A tal da Esfinge era um cruzamento de grifo com leoa. Ou, melhor, em termos sertanejos, um cruzamento de Onça, Cavalo e Gavião! Devia ser meio mordida de cachorro da molesta, porque só mordida é que uma bicha podia ser faminta daquele jeito, Senhor Corregedor! Ela devia ter alguma cobra esfomeada na raiz do sangue, ou então tinha comido canário doido em pequena, troço que, como o senhor sabe, é a coisa que dá mais fome canina no mundo! A Esfinge perguntava a quem passava perto dela: "Qual é o bicho que, quando é pequeno, tem quatro pés, depois tem dois, e morre com três?" Quem não respondia, ela comia, com osso e tudo! Quando chegou a vez de Édipo, ele respondeu, tornando-se, desde então, patrono dos charadistas e decifradores: "Esse bicho é o homem, que, quando é pequeno, engatinha de quatro pés, depois passa a andar com dois, e finalmente, já velho, apóia-se numa bengala que passa a ser seu terceiro pé". A Esfinge, vendo decifrado seu logogrifo, teve uma raiva tão da gota-serena que estourou o alferes-queiroz lá dela, teve um infausto-do-leocádio e morreu! Ora, Senhor Corregedor, pra mim, esse grande enigma dos gregos e de Homero é uma merda completa! Primeiro, nem todo velho anda de bengala! Aqui mesmo, em Taperoá, conheço o Coronel Chico Bezerra que nunca precisou de bengala e anda teso, duro, espigado, como se tivesse engolido uma! Depois, nem todo homem adulto anda com dois pés: existe o "perneta" que anda com uma perna só, e existe o chamado "cotó" que não anda com perna nenhuma! Finalmente, nem todo menino engatinha de quatro pés: já vi muito menino por aí que começa a vida engatinhando de bunda, arrastando o zebescuefe no chão! É por isso que, modéstia à parte, minha charada epopéica, o logogrifo em versos que vai iniciar minha Epopéia, é muito superior ao enigma-mor dos Gregos, povo de Homero!- E qual é a decifração do seu enigma? - indagou o Corregedor.

- Excelência, a meu ver o logogrifo que Pedro Cego e Silvestre cantaram e a própria história de Sinésio, o Alumioso! Acho que isso é claro para qualquer bom decifrador! - Claro? - protestou o juiz. - Sua charada é ainda mais mal-armada do que a da Esfinge! Quer ver uma coisa? Nos versos, fala-se em quatrocentos Ciganos, e os que trouxeram o rapaz do cavalo branco eram quarenta! - Por isso não, Excelência! Esses aumentos fazem parte do próprio estilo epopéico! Homero, mesmo, aumenta extraordinariamente o número de Cangaceiros gregos comandados pelos Reis lá dele, e, em Canudos, Euclydes da Cunha faz o mesmo, tanto para o lado do Exército quanto para o lado dos Sertanejos! - Está bem, vá lá! Mas, no seu Enigma, tem coisa ainda pior! Me diga uma coisa: como é aquela parte que f ala nos anos em que Sinésio esteve sumido? - "Três vezes sete, vinte e um,/e eis que o Morto volta à vida! " - Em que ano nasceu Sinésio? - Em 1910, veio com o cometa! - Então, em 1935, ele estava com vinte e cinco anos, e não com vinte e um! Eu, que, sentindo minha angústia aumentar, estava já doido para ir-me embora, aproveitei para ver se terminava meu depoimento e disse: - Mas Senhor Corregedor, que vocação extraordinária de decifrador é a sua! O senhor tem toda razão, e vou é desistir desse enigma besta, na minha Epopéia! De qualquer modo, agradeço a colaboração que o senhor me deu, e aqui me despeço, porque já lhe contei o que aconteceu de mais importante, na chegada de Sinésio a Taperoá! - Já mesmo, Dom Pedro Dinis Quaderna? - disse o juiz com ar venenoso. - Tem certeza? O senhor já contou tudo, tudo mesmo? Não escondeu nenhum dado fundamental? - Não senhor! Do que eu me lembro, assim, já contei tudo! O Corregedor respirou fundo e atirou: - Pois aqui na Vila houve gente de coração mais aberto do que o seu, gente que me disse, entre outras coisas, que o senhor, naquela hora em que aconteceu tudo, estava justamente no tal Lajedo de onde se avista a Rua da Usina e o rio, e de cujas proximidades partiu o tiro que matou o "cabra"!

Aterrado, fiquei olhando para o Corregedor, sem encontrar coisa alguma para dizer. Aquela simples frase dele mostrava-me que a teia amaldiçoada da qual eu pensava já ir saindo, estava apenas começando a me enredar. Fiquei atordoado. Quando, afinal, consegui falar, perguntei com voz insegura: - O senhor recebeu alguma denúncia contra mim? - Quem tem o direito de fazer perguntas aqui sou eu, e não o senhor! Mas, fazendo uma exceção, vou responder a essa, sua. Acontece que recebi uma carta anônima que o denuncia como itñplicado em todo este caso. A carta abre uma questão muito grave, porque nela se afirma que todo o caso do fazendeiro Pedro Sebastião e de seu filho Sinésio tem estreitas ligações com a Revolução que os comunistas tentaram em 1935 e que, até agora, não desanimaram de levar adiante! A carta está aqui! - acrescentou ele, folheando seus papéis e exibindo o documento, que se absteve de me dar.

Perguntei: - Senhor Corregedor, a letra da carta é de homem ou de mulher? - É impossível saber isso! - Por quê? É letra de máquina? - perguntei, olhando de través para Margarida.

- Não, mas a pessoa que escreveu a carta imitou nela as letras maiúsculas de imprensa.

- E o que é que a carta diz, Excelência? - Ah, diz muita coisa, Dom Pedro Dinis Quaderna! Diz várias coisas que eu irei lhe perguntando e que o senhor irá me explicando, à medida que o inquérito se desenrole! Por enquanto, porém, saiba o senhor que, aqui, lhe fazem quatro acusações graves! Primeiro, dizem que a viagem que o senhor organizou, com um Circo, em 1935, depois da chegada de Sinésio aqui, tinha como fim oculto encontrar o tesouro deixado por Dom Pedro Sebastião. Segundo o denunciante, esse tesouro tinha sido amontoado por seu Padrinho como resultado dos negócios dele com "o gringo Edmundo Swendson" no ramo das pedras preciosas, de maneira que era uma fortuna incalculável, em diamantes, topázios e águasmarinhas. Diz-se também, na carta, que, além das pedras preciosas, seu Padrinho, ajudado por suas artes de Astrólogo e quiromante, tinha encontrado dois caixões enormes, abarrotados de moedas de ouro e prata, dinheiro português e espanhol, enterrado no tempo dos flamengos. Diz-se que Dom Pedro Sebastião tinha enterrado essa fortuna numa furna sertaneja que ninguém sabe onde se encontra, com exceção do senhor, pois consta textualmente da carta que "somente o dito Pedro Dinis Quaderna é capaz de dizer alguma coisa sobre o roteiro do tesouro". Ora, esse tesouro é ponto importante para a decifração do caso, porque, segundo diz a carta, quando o senhor se juntou a Sinésio, naquela viagem, o principal objetivo dos dois era encontrar o tesouro que financiaria a Revolução, em sua parte sertaneja. A segunda acusação grave que se faz aqui é que o senhor, na mesma noite em que Sinésio chegava à Vila, propiciou, na sua estalagem e casa-de-recurso, um encontro entre seu primo, Arésio Garcia-Barretto, e um tal Adalberto Coura, sujeito que morava no sótão da estalagem e que não saía nunca, porque estava escondido da Polícia. Dizem que ao mesmo tempo, o senhor enviava a Sinésio um pacote de papéis que, segundo uns, continha o roteiro do tesouro, e, segundo outros, uma porção de documentos subversivos que lhe tinham sido entregues por Adalberto Coura "da parte de um tal Antônio Villar, nome usado por Luís Carlos Prestes, chefe dos comunistas brasileiros". Finalmente, a outra acusação, a mais grave de todas, diz que o senhor foi o principal culpado do assassinato de seu Padrinho, o fazendeiro Dom Pedro Sebastião! Me diga uma coisa: essa história do tesouro e do Circo é verdade? - É, sim senhor! Havia o tesouro, e eu organizei, mesmo, um Circo para que nós todos pudéssemos viajar pelo Sertão, com Sinésio, o Alumioso, meu sobrinho, o rapaz do cavalo branco! Desde menino que eu era entusiasmado com circo, por causa do "Circo Arabela" e do "Circo Estringuine" que andavam por aqui, com moças equilibristas de coxas maravilhosas, com Onças, com fitas de Cinema e peças de Teatro. Foi num Circo que eu vi uma fita, A Carne, com aquela mulher extraordinária, Isa Lins. Foi aí que travei conhecimento com Grácia Morena, mulher de cara sexual, que aparecia com ousados decotes abertos, entre os peitos. Vi O Guarani, que depois, como A Carne, leria sob forma de romance. Vi Sangue de Irmãos, de Jota Soares, "filme de aventuras, de costumes sertanejos". Vi Reveses, de Chagas Ribeiro, que me deixou entusiasmadíssimo, porque nele apareciam cavalos e Vaqueiros, como nos romances sertanejos cavalarianos e bandeirosos. No "Circo Arabela", porém, o que mais me entusiasmava não eram propriamente os Cavaleiros, fazendo piruetas em cima de cavalos. Era a própria Arabela, mulher belíssima, de coxas nuas, com as calças aparecendo, em cima do arame ou equilibrando-se em cima dum cavalo. Vi-a fazendo um número em que ela se espichava em cima de uma Onça e depois a Onça se espichava em cima dela. Foi no Circo que vi um teatro maravilhoso, uma peça chamada O Terror da Serra Morena, com assunto tirado de um "folheto". E vi os Palhaços, com o Palhaço Sabido e o Palhaço Besta, de fofa e de gola branca. Mas, sobretudo, foi no Circo que eu e Arésio, pela primeira vez, conhecemos mulher, numa noite, depois do espetáculo. Arésio, com seu prestígio de rapazinho rico e vigoroso, conseguiu duas moças do arame, a mais bela para ele, a menos bela para mim, de modo que nós fomos iniciados nos camarins, com as luzes apagadas, separados apenas por cortinas, pelas paredes de pano que serviam aos cubículos. Depois, quando me tornei adulto, tornei-me Chefe de cavalhadas, de autos de guerreiros, de bumba-meu-boi, de nau-catarineta, etc. Mas tudo isso vive parado, só aqui na Vila. Por isso, eu sonhava em me tornar dono de Circo. O Circo era o jeito que eu tinha de transformar toda essa Literatura, todo esse Teatro de rua em Literatura de estrada, isto é, uma Literatura cavaleira e epopéica, que nos tornasse, a todos nós, heróis errantes pelas estradas e catingas do Sertão, como o Valente Vilela! Por isso, com a chegada dos Ciganos .que vieram com Sinésio e que sabiam, todos, fazer piruetas em cima dos cavalos, vi que aquela era minha oportunidade, e foi assim que organizei meu Circo, combinando tudo com o Doutor Pedro Gouveia! - Quer dizer que o Doutor Pedro também entrou nessa história do Circo? - Entrou, sim senhor! O interesse dele era encontrar o testamento e o tesouro deixados por meu Padrinho. Ora, o senhor sabe que essas coisas custam dinheiro, e Sinésio não tinha dinheiro nenhum. O Circo terminou, assim, resolvendo, também, o problema dele, porque nós fazíamos as viagens que eram necessárias à busca do tesouro e a renda dos espetáculos, além de pagar as despesas, ainda me dava algum lucro; principalmente porque eu levei com a gente doze mulheres da minha casa-de-recurso, e organizei com elas um Pastoril do qual eu era o "Velho" e que foi a nossa principal fonte de renda! - Muito bem, vê-se bem que, assim como sua estalagem é uma "casa-de-recurso", o dono não fica atrás, é homem também de recursos e expedientes de toda natureza! E a história da entrevista de Arésio com Adalberto Coura? É verdadeira, também? - É, sim senhor! - E o pacote de papéis? É verdade que o senhor mandou a Sinésio, na noite de 1.0 de Junho de 1935, um pacote de documentos subversivos? - Não senhor! Eu mandei, mesmo, o pacote, mas não eram documentos subversivos não, era uma cópia manuscrita do Caminho Místico, de Santo Antônio! - Santo Antônio de Pádua, o Português? Não senhor, Santo Antônio Conselheiro de Canudos, o Sertanejo! Eu sou devoto dele e de Padre Cícero, na minha qualidade de Profeta do Catolicismo sertanejo! - Catolicismo sertanejo? - É a minha religião, Excelência! Não estando muito satisfeito com o Catolicismo romano, fundei essa outra religião para mim e para meus amigos! O pessoal aí da rua, que sempre ouve cantar o galo, mas não sabe onde, ouviu falar nesse Antônio, o Conselheiro, e pensou que eu estava me-referindo ao outro Antônio, o Villar, pseudônimo de guerra de Luís Carlos Prestes, criando-se, então, essa história de documentos subversivos! - Está bem, vou apurar tudo isso! E a outra acusação? Então o senhor foi um dos assassinos do seu Padrinho e pai-decriação, de seu benfeitor Pedro Sebastião Garcia-Barretto? - Eu? Não senhor! Deus me livre! - Então o senhor nega qualquer participação na morte dele? - Nego, sim senhor! Eu ia, lá, matar meu Padrinho, Doutor? Meu Padrinho foi, para mim, um segundo Pai! - Veja bem o que responde, porque o senhor pode se complicar! O senhor não deixou de me esclarecer nenhum indício importante sobre aquele crime de 1930? - Não senhor! - Faça o favor de levantar a mão esquerda! Um pouco atemorizado pelo tom de violência cortante que o Corregedor assumira de repente, ergui a mão à altura do rosto dele, com a palma virada em sua direção, como se quisesse, assim, deter a brutalidade da investida.

- Vire a mão! - disse ele, bruto e brusco. - Assim, está bem! Agora me diga: que anel é esse que o senhor usa no dedo anular? Onde o conseguiu? Senti que meu sangue, já perturbado pela tonteira, pelo medo e pela crueldade do interrogatório, "refluía todo para o coração", como dizem os contos do Almanaque Charadístico. Passei a mão no rosto, para ver se me recobrava um pouco. Mas, nesse momento, como olhasse casualmente para fora, pela janela, tive a impressão de que, do outro lado da rua, defronte da Cadeia, na esquina da casa de um homem nobre da rua, o Capitão Clodoveu Torres Villar, havia um par de olhos amaldiçoados, que me espreitavam há algum tempo e que, no mesmo instante, desapareceram. Eram olhos maldosos e escarninhos. Num relampo, o ar se encheu de dragões peçonhentos, de asas de morcego, que, esvoaçando em torno de mim, começaram a me entrar para o sangue, através dos meus ouvidos, que começaram, também, a ser despedaçados por batidas de martelo na bigorna do Divino. Conheci que o "mal sagrado" vinha se aproximando, e que, daí a pouco, numa fração de segundo, eu estaria espancando o chão com a cabeça, em contorções desesperadas, escumando pela boca como um danado. Os olhos malditos reapareceram, agora sem dono e fulgurantes, despedindo setas de fogo que encheram o ar de Gaviões, muito parecidos com aqueles do dia em que perdi os olhos. Senti-me sufocado, julguei que ia morrer, abri a boca, quis falar, mas aí o Sol tornou-se enceguecedor e eu, perdendo a consciência, caí no chão, deslumbrado, fulminado, com o Sol na cabeça e a tempestade no coração.

Quando acordei do "ataque", da "grande aura" que só acomete os gênios, Margarida estava sustentando minha cabeça em seu colo alvo e aristocrático, e um Soldado de Polícia esperava, impassível, que eu "tornasse", para me dar um copo d'água que ele segurava na mão, mantendo o resto do corpo em posição de sentido. Somente o Corregedor, implacável, continuava com a mesma expressão, dura e inquisitorial.

- Não foi nada não, já estou me sentindo melhor! - disse eu, fracamente, mas já experimentando uma indizível sensação de bem-estar, não só porque é assim que me sinto depois dos meus ataques, como porque estava começando a me dar muito bem no calorzinho e na maciez do colo de Margarida.

Ela, porém, não sei se notando que eu estava começando a me aproveitar, soergueu um pouco minha cabeça e fez menção de se levantar. Para evitar isso, falei mais depressa: - Foi o calor da sala e a impressão de mal-estar que comecei a sentir, depois que passei pela cela dos presos, lá embaixo! Obrigado, Margarida, Deus lhe pague sua bondade e sua gentileza! Margarida fez, logo, uma cara ruim, de novo, e o Corregedor falou: - O senhor, se quiser, pode se sentar nesta cadeira! - Não senhor, obrigado! - disse eu, ficando de pé. - Se eu me sentar, isso pode incomodar o cotoco e prejudicar a Epopéia! Peço, aliás, que todos dois me desculpem o espetáculo constrangedor que devo ter dado, com esse ataque esquisito! - Não, não houve ataque esquisito nenhum! O senhor somente sentiu-se mal e teve um ligeiro desmaio, é mais ou menos de se esperar! - disse o juiz.

- Não, Senhor Corregedor! - insisti. - Não tenha constrangimento de me envergonhar não! Sei, muito bem, que não foi um simples desmaio! Não fiquem constrangidos por terem visto isso; deve ter sido horrível de assistir, mas acreditem que é pior para quem vê do que para quem tem! Eu deveria, de fato, ter vergonha desses ataques, mas li, a respeito deles, umas palavras de Baptista Pereira - aquele distinto escritor brasileiro que, por ser genro do Conselheiro Ruy Barbosa, contraiu a genialidade do sogro. Segundo essas palavras, a epilepsia é a "grande aura", o "mal sagrado" que só acomete os verdadeiros gênios. Assim, nem percam tempo tentando disfarçar de mim o que viram porque, para ser sincero, eu me sinto até orgulhoso de ser epilético! É mais uma prova de que sou predestinado, pela Providência Divina e pelos Astros, a ser o "Gênio da Raça Brasileira"! - E o senhor é epilético? - perguntou, frio, o Corregedor.

- Garantir, mesmo, que sou, não posso não, Senhor Corregedor, porque nunca fui a um médico para verificar isso, com medo de que ele, por acaso, me curasse e me tirasse, assim, essa característica da genialidade. Mas tenho quase certeza de que sou, pelo motivo que passo a lhe expor. Depois que li aquelas palavras do genial genro de Ruy Barbosa, fiz uma promessa a Santo Antônio Conselheiro para ficar epilético e me tornar gênio. Pois bem: daí a três dias - prazo que eu tinha dado ao Santo sertanejo - fui para cima do meu lajedo, virei-me para o lado do Pajeú e de Canudos, ajoelhei-me e fiquei assim, uma porção de tempo. De repente, minha cabeça deu "um estalo do Padre Vieira" e tive o meu primeiro ataque. Daí em diante, fiquei assim! De vez em quando, caio no chão, escumando pela boca e mordido de cachorro da molesta! Mas, como já disse, não tenham vergonha por mim, não, porque isso é até motivo de orgulho, uma vez que é o mesmo "mal sagrado" de um Príncipe de sangue brasileiro, o Impostor Dom Pedro I, e de um Poeta genial, Dom Joaquim Maria Machado de Assis! - Pois Dom Pedro Dinis Quaderna, com todo o seu "gênio" e a sua "fidalguia", lamento comunicar-lhe que o senhor está em maus lençóis! - disse o Corregedor, respirando fundo e atirando a flecha envenenada que guardara para o fim. - A carta que recebi é extensa e faz cerca de sessenta acusações contra o senhor. Entre estas, duas muito importantes! A primeira, diz que o senhor descende daqueles fanáticos execráveis que, na Pedra do Reino, de 1835 a 1838, subverteram o Sertão com uma "seita" sanguinária, degolando mulheres, crianças e cachorros. Diz a carta que o senhor mesmo se encarregou de lembrar isso à ralé sertaneja daqui, conseguindo, assim, por mais estranho que pareça, assumir uma certa ascendência sobre ela. Dizem que o senhor fez isso, a princípio, apenas para explorar o Povo, inclusive em dinheiro; mas que, depois, com a chegada de Sinésio, foi por causa disso que pôde aliciar tanta gente para a expedição do tal rapaz do cavalo branco. Segundo a carta, o fato de pertencer àquela família sanguinária e subversiva é o motivo da sua ascendência sobre os Cangaceiros, Cantadores, Vaqueiros e mais toda essa ralé sertaneja de fateiras, prostitutas, tangerinos e contrabandistas de cachaça. Finalmente a carta revel um outro fato, gravíssimo: é que esse anel que o senhor usa, é mesmo anel que foi retirado do dedo do fazendeiro Dom Pedro S astião Garcia-Barretto, momentos depois de ter sido ele degolado or seus assassinos.Pronto, nobres Senhores e belas Damas de peitos macios! Estava descoberto o meu grande crime, aquela culpa que eu vinha procurando ocultar tão cuidadosamente, desde que se iniciara o depoimento. Tive a sensação de que há muito tempo eu pressentia uma acusação dessas, na minha vida. Era esse o motivo real das minhas apreensões. Não só das que experimentara há pouco, quando vinha para a Cadeia, mas da apreensão geral, muito mais antiga, surgida com o Sol do meu sangue, quando, sem motivo palpável nenhum, eu já me sentia culpado sem ninguém me acusar diretamente, sem que suspeita nenhuma de Juiz nenhum tivesse sido soprada a meu sangue, o qual, porém, já se sentia enfermo, infeccionado por uma culpa que me perseguia e me envenenava.

O Corregedor, vendo que eu não dizia nada, insistiu: - Então? O que é que me diz? As duas afirmações são verdadeiras? - São, sim senhor! Minha descendência da Casa Real da Pedra do Reino é verdadeira, e é verdade também que eu, no dia 24 de Agosto de 1930, tirei o anel do dedo do meu Padrinho e fiquei com ele! - Alguém viu o senhor tirar o anel? - Não senhor! O senhor não disse que havia outras pessoas com o senhor, quando acharam o corpo? - Disse! - Quer dizer que o senhor tirou o anel escondido? - De certa maneira, foi! - Por que o senhor fez isso? - Senhor Corregedor, foi uma dessas coisas que a gente faz sem nem ao menos saber por quê. Pensei em pedir licença a Arésio, como filho de meu Padrinho, para ficar com aquela lembrança. Mas a confusão estava enorme. Tirei o anel e coloquei-o no bolso, pensando em comunicar o fato mais tarde. Mas aí comecei a ficar envergonhado, porque ia parecer que eu o tirara de má-fé, ia parecer um furto. Aí, deixei que as coisas ficassem como estavam.

- O senhor veja que ocultou fatos importantíssimos para a elucidação do caso todo! Por que não disse que estava no lajedo perto do qual dispararam o tiro? Por que não me contou nada sobre as ligações que estabeleceu, no espírito dos Sertanejos ignorantes, entre a seita da Pedra do Reino a expedição sediciosa de seu primo e sobrinho, Sinésio, o Alumio ? E, sobretudo, por que escondeu de mim a história do anel de s Padrinho? - Confesso meu erro, Senhor Co regedor! Em tudo, tive medo de me complicar com a justiça e c lei a boca! Pois o senhor está complicado é gora e, francamente, sua situação é grave! Como é que eu posso, dagora em diante, confiar no senhor? - Vou ver se dou um jeito, contando tudo o que sei, desde o começo, tintim por tintim! Por onde Vossa Excelência quer começar a ouvir? - Pela história da Pedra do Reino, já que, segundo a denúncia, foi isso que fez os Sertanejos ignorantes irem atrás de suas conversas para a expedição de Sinésio! - Muito bem então, Excelência! Vou dizer! Escute!

FOLHETO LXV

De Novo a Pedra do Reino Comecei então, nobres Senhores e belas Damas, a épica e famosa "Crônica dos Reis da Pedra Bonita", nos seguintes termos: - Não tenho dificuldade em contar essa história a Vossa Excelência, porque colecionei cuidadosamente uma porção de textos de geniais escritores paraibanos e pernambucanos sobre ela. Alguns desses textos, devidamente "versados", serão incluídos na minha Epopéia. Por isso, trago sempre comigo a cópia manuscrita que fiz deles, desde que Gustavo Moraes doou à nossa Biblioteca uma coleção da Revista do Instituto Arqueológico de Pernambuco e outra da Revista do Instituto Histórico e Geográfico da Paraíba. Não sei se Vossa Excelência sabe, mas Samuel e Clemente já provaram que a História é da Direita e a Sociologia é da Esquerda. Temos, aliás, uma prova disso, porque o patrono da História brasileira, Varnhagen, é "de sangue godo, lambe-cu do Impostor Dom Pedro II, católico e Visconde", enquanto que o da nossa Sociologia, Sylvio Romero, era "católico-sertanejo, rebelde e socialista". Ora, Gustavo Moraes era integralista e participante, no Recife, do Movimento da revista Fronteira, ligada a Manuel Lubambo e ao Padre Antônio Fernandes. Foi por isso que, entre nós, reforçou o interesse pela História e pela Genealogia, com algumas idéias que tinha bebido no Recife e que terminou difundindo entre nós, nas memoráveis sessões do nosso "Instituto Genealógico e Histórico do Sertão do Cariri". Confesso que, até o dia em que li essas revistas e outras obras doadas por ele à Biblioteca, eu escondia minha descendência régia como se fosse um crime e uma mancha. Mas depois, um dia, caiu nas minhas mãos um livro do genial escritor pernambucano, o Doutor Francisco Augusto da Costa. Foi um des lumbramento para mim, Senhor Corregedor! Como, certamente, já explicaram a Vossa Excelência na infame carta anônima, a linhagem real dos Quadernas tinha dois ramos principais, o dos Vieirados-Santos e o dos Ferreira-Quadernas. Mas o Rei principal, mesmo, foi meu bisavô, Dom João II, o Execrável! - Dom João II, o Execrável? Que diabo de confusão é essa? - Não se espante não, Excelência! O nome dele, mesmo, era João Ferreira-Quaderna, assim como o nome de Dom Pedro I, o Cavaleiro, era Pedro de Alcântara de Bragança. Mas todos os escritores que escrevem sobre a Pedra do Reino só chamam meu bisavô de "o execrável João Ferreira"! Ora, eu aprendi, pela leitura da História da Civilização de Oliveira Lima e da História Geral do Brasil, de Varnhagen, que nossos Reis e Imperadores têm sempre um Dom antes do nome e um cognome depois. Reis do Brasil e de Portugal, por exemplo, foram Dom Manuel I, o Venturoso, e Dom Sebastião, o Desejado! No estrangeiro, é a mesma coisa, tirando-sè o Dom. Na França, houve um que, a se tirar pelo nome, era viciado em passarinhar: chamava-se Henrique, o Passarinheiro! Dizem que ele não podia ver um passarinho: caga-sibito que passasse na frente dele estava lascado, ele matava! Na Alemanha, houve outro Rei que me fez levar, um dia, uma vaia terrível de Clemente e Samuel! Quem foi? - Frederico, o Grande! Eu, ouvindo um dia uma discussão dos dois, achei o nome dele safadíssimo! - Não entendo! Por quê? - Eu não estava vendo o nome escrito não, estava somente ouvindo, de modo que pensei que ele se chamava Frederi CuGrande! Assim, vendo que ilustres escritores pernambucanos chamavam meu bisavô de "o execrável João Ferreira-Quaderna", vi logo que aquilo era uma coisa régia e grandiosa e que o nome monárquico dele devia ser Dom João II, o Execrável! - Mas isso é um nome pejorativo! - disse o Corregedor que, naquele dia, apesar de todas as minhas lições, ainda estava meio cru nessas questões de Monarquia.

Eu, compadecido dele, expliquei pacientemente: - Nessas questões de linhagem real, Senhor Corregedor, essas coisas pejorativas não têm a menor importância! Filipe, o Belo, da França, falsificava dinheiro, motivo pelo qual passou à História com o nome comprido mas bonito de Filipe, o Belo, o Moedeiro Falso! Ora, eu pensei assim: "Se esse Rei da França falsificava dinheiro, que é que tem que meus antepassados, Reis do Povo Brasileiro, degolassem mulheres, meninos e cachorros? Crime por crime, os da minha família foram muito menos chinfrins, porque degolar pessoas é muito mais monárquico do que passar dinheiro falso!" Está vendo, Excelência? Esse negócio de Rei é assim mesmo! Dom João li, o Príncipe Perfeito, que foi Rei de Portugal, cometeu um desses crimes régios, parecidos com os do meu bisavô: deu uma facada no cunhado, o Duque de Viseu, que, ali mesmo, na hora, esticou a canela!

- Quer dizer que o senhor, além de pertencer, pelo lado materno, "à linhagem real sertaneja dos Garcia-Barrettos", ainda pertence, pelo lado paterno, à "linhagem real da Pedra do Reino"? Os Quadernas são também, na verdade, como diz a carta, de linhagem real? - São, sim senhor! E não sou eu, um Quaderna, quem diz isso não, é um verdadeiro "Príncipe da Literatura Brasileira", o genial Pereira da Costa! Foi por causa do que ele escreveu que eu me convenci, de uma vez por todas, primeiro de que era Rei, depois que tinha de ser Monarquista da Esquerda! Está aqui o texto dele, ando sempre com o papel em minha pasta. Escute! Li então para o Corregedor e Margarida, aquelas palavras sacramentais de unção e consagração que tinham exercido -papel tão importante em minha vida, aquelas palavras de Pereira da Costa que começam assim: "Foi na Pedra Bonita que se firmou a reunião desses novos Sebastianistas, e nos subterrâneos dos seus rochedos foi o Templo de seus falsos Sacerdotes e o Sólio-Real dessa imaginária e caricata Monarquia". Quando eu acabei de ler, o Corregedor sorriu: . - Falsos sacerdotes! Monarquia caricata e imaginária! E o senhor recebe isso não só resignado, como até orgulhoso, segundo parece? - É isso mesmo, Excelência! Pereira da Costa era um escritor oficial e consagrado, membro do "Instituto Arqueológico de Pernambuco", de modo que a palavra dele é palavra de Príncipe, não voltaria atrás nem que ele depois, arrependido, quisesse se desdizer! Se ele consagrou meus antepassados como Reis do Brasil, mesmo que considere caricata a nossa Monarquia nós estamos consagrados e acabou-se, nem Deus agora dá jeito! Quanto ao fato dele considerar caricata e imaginária uma Monarquia sertaneja tão gloriosa e cavalariana quanto a da Pedra do Reino, isso é problema dele! Não tenho culpa de Pereira da Costa, com todo o seu gênio, ser burro desse jeito! Depois, acontece que todas as monarquias são imaginárias e caricatas! - E o senhor, mesmo pensando assim, é monarquista? - Sou, sim senhor! Sou da Esquerda régia, ou, se Vossa Excelência prefere, um Monarquista da Esquerda! - Por que essa contradição? - Porque acho Monarquia bonito, com aquelas Coroas, tronos, cetros, Brasões, desfiles a cavalo, bandeiras, punhais, Cavaleiros e Princesas, como no folheto de Carlos Magno e os Doze Pares de França! É por isso que meu parente Dom Silvestre José dos Santos foi Rei do Brasil, na Serra do Rodeador, em Pernambuco, com o nome de Dom Silvestre I, o Enviado. Na Pedra do Reino, estiveram juntos, reinando, os dois ramos da família, os Vieira-dos-Santos e os Ferreira-Quadernas. Os Vieira-dos-Santos eram os quatro filhos do velho Príncipe Dom Gonçalo José dos Santos: João Antônio, Pedro Antônio, Isabel e Josefa; ou melhor, Dom João I, o Precursor, Dom Pedro I, o Astucioso, a Princesa Isabel e a Rainha Josefa. Do ramo dos Quadernas, estavam lá o velho Príncipe Dom José Maria Ferreira-Quaderna, meu trisavô o pai do meu bisavô, Dom João Ferreira-Quaderna, subido ao Trono sertanejo do Brasil com o nome de Dom João II, o Execrável. Mas os dois ramos terminaram se unificando, porque meu bisavô casou-se com as duas irmãs, primas dele, a Rainha Josefa o a Princesa Isabel! - Casou-se com as duas irmãs de uma vez? - Senhor Corregedor, Vossa Excelência já deve ter notado que o Catolicismo Sertanejo tem suas leis e seus mandamentos próprios! A poligamia, o pensamento socialista-sertanejo e monárquico, a devora dos proprietários por Cachorros degolados e ressuscitados como Dragões eram alguns dos itens do nosso credo da Pedra do Reino! - Veja, Dona Margarida, que fim de mundo! - disse o Corregedor. - Eu sabia que aquela gente tinha sido cruel e fanática; mas nunca pensei que fossem, também, tão perigosos e subversivos! E veja como isso vai se ligando aos poucos, para a explicação de tudo o que aconteceu, aqui! Sinésio, sendo filho de sua irmã, Senhor Pedro Dinis Quaderna, era, também, descendente desse pessoal, não era? - Era, sim senhor! Eu e Sinésio somos descendentes de Dom João II, o Execrável e da prima e segunda-mulher dele, a Princesa Isabel, degolada por ordem do marido, no dia 16 de Maio de 1838, juntamente com a outra Rainha, minha tia-bisavó Dona Josefa! - Que horror! Que monstruosidade, a do seu bisavô! - disse o juiz.

- Excelência, nessa questão de degolar as esposas, meu bisavô não era nada, comparado com o rei Henrique VIII, da Inglaterra! Além disso, depois eu descobri que todos os Reis cujas vidas são narradas na História da Civilização tinham historiadores que escreviam sobre as vidas deles umas espécies de Epopéias chamadas "Crônicas" e onde vinha a relação de tudo quanto era crime e safadeza que eles tinham praticado. Foi assim que fiquei de novo orgulhosíssimo, vendo que os Reis sertanejos, antepassados meus e de Sinésio, tinham tido Cronistas nas pessoas de seis geniais escritores brasileiros - Varnhagen, Pereira da Costa, Sebastião de Vasconcelos Galvão, Antônio Áttico de Souza Leite, Euclydes da Cunha e o Comendador Francisco Benício das Chagas! - E todos esses se ocuparam, mesmo, da Monarquia sertaneja da Pedra do Reino? - Se ocuparam, sim senhor! Mas, para mim, o melhor foi o genial Antônio Áttico de Souza Leite, porque fez uma Epopéia, com cavalos e Cavaleiros, combates sanguinolentos, Reis assassinados, Rainhas e Princesas degoladas e tudo! Espero, um dia, "versar" tudo o que ele escreveu, metendo o resultado na minha Obra, no meu Castelo sertanejo! Mas como, antes disso, eu já pretendia fazer um certo proselitismo entre os Sertanejos, mandei imprimir na tipografia da Gazeta uma cópia "revista e melhorada" da Epopéia em prosa do genial Souza Leite. Na capa, vinha o título: Memória sobre A Pedra do Reino, ou Reino Encantado, na Comarca da Vila Bela da Serra Talhada, Província de Pernambuco. Debaixo do título, eu coloquei a gravura que meu irmão Taparica Pajeú tinha riscado e cortado em madeira. Publiquei, também, um folheto em versos sobre o mesmo assunto, escrito por meu velho primo João Melchíades, ilustrando sua capa com a mesma gravura de Taparica. A gravura foi feita de acordo com o desenho que o Padre Francisco José Correa de Albuquerque fez do lugar sagrado da Pedra do Reino. Vossa Excelência conhece esse desenho? - Não! - Pois procure a revista do "Instituto Arqueológico" e veja, porque é uma beleza! É um anfiteatro grande, com o esqueleto do meu bisavô amarrado em dois troncos de árvore, com um bocado, mais, de caveiras de gente e de cachorro, pedras, pés de pau, subterrâneos encantados, o diabo! Mas, como no folheto não cabia tudo o que existia no desenho, eu mandei Taparica tirar as coisas mais desonrosas na primeira cópia: o esqueleto de meu bisavô foi uma! Depois, na segunda gravura, ele copiou somente as duas grandes pedras cilíndricas e paralelas que, segundo os Reis meus antepassados, eram as duas torres da Catedral soterrada e encantada dos Sertanejos. No meio delas, Taparica colocou um retrato do nosso bisavô, com Coroa na cabeça, para impressionar! Olhe, Senhor Corregedor, eu tenho aqui, na minha pasta, exemplares dos dois folhetos, de modo que posso dar ao senhor uma cópia de cada um, para serem anexadas ao processo!

Li então para o Corregedor toda aquela história que Vossas Excelências já conhecem, nobres Senhores e belas Damas. Quando acabei, entreguei a ele os exemplares dos folhetos, que foram passados a Margarida e anexados ao inquérito. Então o Corregedor falou: - Dom Pedro Dinis Quaderna, agora tudo começa a se esclarecer! Só não entendo é como, a partir daí, o senhor pode provar que é, mesmo, descendente, em linha masculina e direta, desse pessoal da Pedra do Reino! - É fácil, Senhor Corregedor! Antônio Attico de Souza Leite não foi muito claro porque ele só escreveu sobre a Pedra do Reino, mesmo, deixando de lado o que aconteceu depois. Acontece porém que minha bisavó, a Princesa Isabel, no momento de ser degolada, pariu, como o senhor deve se lembrar, um menino que rolou pela pedra abaixo. Esse menino foi meu avô, Dom Pedro Alexandre, criado pelo Padre Manuel José do Nascimento Bruno Wanderley. Quando ele cresceu, o Padre Wanderley casou-o com uma filha natural sua, Bruna Wanderley, minha avó. É por isso que os Quadernas ora nascem morenos como eu, puxando ao sangue mouro-mameluco dos Vieira-dos-Santos e dos Quadernas, ora nascem louros, como era o caso de minha irmã Joana Quaderna, puxando ao sangue godo-flamengo de minha avó Bruna, filha do Padre Wanderley.

- Quer dizer que a linhagem real da Pedra do Reino continuou através de uma filha de padre ...

- É, sim senhor, o que não quer dizer nada, porque a dos Braganças também descende de um filho de Bispo! Dom Pedro Alexandre, meu avô, casou com a filha do Padre Wanderley; ela emprenhou e pariu meu Pai, Dom Jedro Justino, a quem eu, Dom Pedro Dinis, sucedi, com o nome de Dom Pedro IV! Ave Maria, nobres Senhores e belas Damas! Quando eu vi, já tinha dito isso e não havia mais jeito de voltar atrás! O Corregedor partiu como uma fera: - Quer dizer que o senhor é que é o verdadeiro Rei do Brasil? Afinal de contas, quem era o Rei, mesmo, daqui? O senhor ou seu Padrinho, Dom Pedro Sebastião? Vi que minha situação estava ficando cada vez mais perigosa, mas como não havia mais jeito, continuei a confessar: - De fato, Senhor Corregedor, o Rei, por direito e por sangue, sou eu! Ou melhor, eu é que sou o Imperador, dominando sobre todo o vasto Quinto Império do Escorpião! Meu Padrinho era somente Rei do Cariri, um dos sete Reinos integrantes do Império todo! Outro desses Reis vassalos e tributários meus, foi Dom José Pereira Lima, o invencível guerrilheiro de Princesa! - Ah, quer dizer que o senhor reconhece, formalmente, que a insurreição de Princesa seria, para o senhor, um novo episódio da Pedra do Reino! E provavelmente, quando Sinésio apareceu por aqui, montado em seu cavalo branco, era tudo isso que o senhor tinha em mente, procurando unir os Sertanejos para nova sedição contra as autoridades...

- Senhor Corregedor, o que eu queria mesmo, confesso, era ser Imperador do Sertão e do Brasil,-para me tornar Gênio da Raça Brasileira. Agora, que para isso eu queria unir o movimento da Pedra do Reino com a Revolução de Princesa e a Demanda Novelosa que empreendemos com. Sinésio, isso eu queria! - Muito bem! Anote essa confissão do acusado, Dona Margarida! Agora, uma pergunta que lhe faço por curiosidade, Dom Pedro Dinis Quaderna! Me diga uma coisa: seus irmãos legítimos não eram, todos, mais velhos do que o senhor? - Eram, sim senhor! - Então como é que se explica que o senhor tenha sido o herdeiro do Trono? - Eu redigi um papel pelo qual eles abdicavam desse direito, e todos quatro o assinaram.

- Sem opor dificuldade? - Sem opor dificuldade! A princípio, julgando que se tratava de renúncia a alguma herança de terras, ficaram hesitando. Mas depois que viram o que era, assinaram tudo, até achando graça! Manuel, o mais velho, chegou a dizer para os outros: "Esse Dinis tem cada coisa! Eu estou lá ligando pra essas coisas do tempo do ronca, do tempo de Dom João Pamparra e de Dom Pedro Cipó-Pau!" Agora, o que acontece é que eu nunca ousei assumir, de fato, o Trono! - menti. - Eu descobrira que as pessoas que realmente encarnam os Países, os chamados "Gênios das Raças", são sempre Poetas, e não Reis! Assim, para que diabo ia me meter nessas empreitadas arriscando-me a morrer degolado, como meu Padrinho? Por isso, limitei-me a desempenhar, junto a Dom Pedro Sebastião, as funções de Astrólogo, Conselheiro, Rei de Armas, Guarda do Selo e dos Tesouros do Cariri. Quando Sinésio apareceu depois, em 1935, foi a mesma coisa: ele era o Príncipe do Cavalo Branco e eu desempenhava, junto a ele, as mesmas funções que tinha exercido junto a seu Pai! - O senhor confessa, então, que tomou o partido de Sinésio contra Arésio? - Confesso, sim senhor! Aliás, era uma questão de sangue e parentesco! Sinésio, além de ser meu primo pelo lado dos GarciaBarrettos, era meu sobrinho, por parte da minha irmã Joana! Arésio era somente primo, porque era Garcia-Barretto, mas não era Quaderna! Mas, apesar de tomar o partido de Sinésio, eu via perfeitamente que ele ia arriscar a garganta, que seu destino provável era acabar como o Pai, degolado. Resolvi, então, deixar ver como corriam as coisas: ficaria ao lado de Sinésio, como Astrólogo e Rei de Armas. Se as coisas corressem bem com ele e com a expedição, minha situação seria ótima. Se corressem mal, eu não -teria me comprometido diretamente na Revolução da "Guerra do Reino". Poderia, então, tendo visto tudo, escrever a minha Crônica epopéica, A Desaventura de Sinésio, o Alumioso, começando-a com a história de meu Padrinho, continuando com a de Sinésio e tornando-me, com ela, "Gênio da Raça Brasileira", oficialmente reconhecido como tal pela Academia Brasileira de Letras! - Quer dizer então que o Chefe guerreiro da tal viagem revolucionária e sediciosa que vocês fizeram foi, mesmo, o rapaz do cavalo branco?

- Foi, sim senhor!

- Anote, Dona Margarida! Vamos então voltar ao dia da chegada de Sinésio, Dom Pedro Dinis Quaderna! Preciso de informações exatas sobre todos os personagens que tinham mais interesse na vida ou na morte do rapaz do cavalo branco. O senhor vai, portanto, fazer um esforço para recordar onde estavam e que faziam essas pessoas, no momento em que o Doutor Pedro Gouveia declarou ao juiz da Comarca que o rapaz do cavalo branco era Sinésio. A seu ver, quem eram as pessoas mais afetadas pela reaparição do rapaz? - Acho que eram, em primeiro lugar, Arésio, irmão dele, por causa da herança; o usineiro Antônio Moraes, com seu filho Gustavo e sua filha Genoveva; e finalmente as duas filhas do antigo sócio de meu Padrinho, o gringo Edmundo Swendson, isto é, a moça Clara, que era a mais velha, e a caçula, Dona Heliana, a que tinha os olhos verdes! Vou então, conforme seu pedido, ver se consigo me lembrar e contar onde estavam e o que faziam todos esses, no momento em que Sinésio, ressuscitado, reapareceu aqui!

FOLHETO LXVI

A Filha Noiva do Pai, ou Amor, Culpa e Perdão - Enquanto, na rua, se apresentavam as Cavalhadas, sucedia na Casa de Dom Antônio Moraes um episódio importantíssimo para a nossa história. Devo esclarecer que, além da casa da fazenda "Angicos", Dom Antônio Moraes tinha aquela, que fica naquele alto e que Vossa Excelência pode avistar, daqui desta janela. É urna casa de fazenda que pertenceu ao Coronel Deusdedit Villar, homem da mesma família do Contra Almirante, Senhor Corregedor. Como o senhor poderá ver se vier até aqui, hoje ela está abandonada e meio derruída. Caíram os telhados que cobriam a calçada de Pedra que rodeia a casa, e que, formava, assim, o copiar. Caiu o velho cruzeiro de madeira, plantado sobre uma base de pedra-e-cal e que era tão caro ao "esteta Gustavo Moraes", como dizia Samuel. Caiu o muro de pedra que os Moraes tinham mandado construir e que separava oo pátio da casa dos marmeleiros do alto do Tabuleiro. Foi derrubada a torre que Gustavo Moraes mandara erguer, um pouco à imitação da velha "Casa-Forte da Onça Malhada"; de fato, esta era bastante mais antiga, mais severa e forte, e Gustavo Moraes não perdoava isso à família GarciaBarretto, inimiga e rival da sua: por isso, numa revolta contra o tempo e contra os fatos, procurara suprir artificialmente e quanto possível as diferenças, tentando ficar em pé de igualdade com a família do meu Padrinho. Mas o certo é que, abandonada, arruinada e solitária, a casa ainda está ali, e Vossa Excelência, se quiser, pode ir lá, em diligência para o nosso inquérito. Naquele ano, estava restaurada e perfeita, abrigando o esplendor e a fortuna com que os Moraes nos deslumbravam, as idéias novas, o luxo e as novidades que traziam do Recife. Naquele dia da chegada de Sinésio, estavam lá Antônio Moraes, seu filho mais moço, Miguel, e sua filha Genoveva, aquela que exerceu um papel tão terrível na vida de Arésio Garcia-Barretto. Não estavam, no momento, nem o filho mais velho, Gustavo, nem Arésio que, como já disse, estava morando lá, como hóspede. Arésio, com seu gênio sombrio, estranho e violento, desaparecia às vezes durante dois ou três dias, sem dar explicações a ninguém sobre isso. Aquele era um desses dias. Desde a véspera, Sexta-Feira à noite, que ele se ausentara da casa dos Moraes, de modo que no momento em que Sinésio foi dado a conhecer, ninguém ali sabia onde se encontrava seu irmão mais velho. Aliás, Senhor Corregedor, acho que muita coisa da minha história ficará logo esclarecida, se eu disser a Vossa Excelência que se trata de uma história de casas arruinadas. Em ruínas, está, como lhe disse, a velha e grande casa do "Alto dos Borrotes", comprada por Dom Antônio Moraes aos herdeiros do Fidalgo Dom Deusdedit Villar, Coronel de Milícias e Capitão-Mor do Sertão do Taperoá. Em ruínas está a velha casa, edificada por Dom Edmundo Swendson, pai de Clara e Heliana, perto da Fortaleza do Nazaré do Cabo, a cavaleiro sobre a barra do Rio Suape, no litoral de Pernambuco. Em ruínas está a casa-forte da "Onça Malhada", incendiada na noite do dia 24 de Agosto de 1930. E finalmente está em ruínas a antiga "Fortaleza de São Joaquim da Pedra", situada no litoral do Rio Grande do Norte e pertencente, também, ao pai de Clara e Heliana, as duas moças que, por um equívoco ao mesmo tempo funesto e alumioso, terminaram efetuando o "cruzamento de amor e sangue" que encruzilhou e crucificou o destino de Sinésio. Mas, como eu vinha dizendo: o primeiro acontecimento importante daquela tarde, sucedeu na casa do usineiro e dono de minas Antônio Moraes.. Foi-me comunicado, logo na noite daquele Sábado memorável, por um pedreiro, Teodoro Barba-de-Bode, que era meu discípulo e membro mais ou menos influente da "Ordem dos Cavaleiros da Pedra do Reino".

- Ah, quer dizer que o senhor confessa que fundou essa Ordem? - Confesso, sim senhor! Como Vossa Excelência deve se lembrar pela narração de Antônio Áttico de Souza Leite, isso de fundar uma seita para cobrar jóias em dinheiro é uma tradição da minha família - e também, aliás, de toda Monarquia que se preza. Pois bem: Teodoro Barba-de-Bode tinha sido contratado, uns vinte dias antes, para executar uns trabalhos de pedreiro na velha casa dos Moraes. Gustavo, filho mais velho, dirigira as reformas da velha casa, introduzindo nela várias modificações ditadas pelas novas idéias que ele trouxera do Recife. Como nos explicara o Doutor Samuel, Gustavo bebera essas idéias junto a um estranho grupo de intelectuais recifenses da Direita, grupo congregado em torno de um Padre jesuíta mais estranho ainda, o Padre Antônio Fernandes. Esse Padre era um hindu-português de Goa, homem enigmático e político, que adquirira renome no Recife, principalmente depois da acirrada polêmica que mantivera com um Filósofo francês. Conseguira reunir, em volta de si, Poetas, jornalistas e políticos, jovens e ardorosos. Alguns deles estavam entrando, como eminências-pardas, no Poder do Estado, em Pernambuco. Outros tinham fundado uma revista de Arte e Literatura, Fronteira; e fora ao contato do grupo esteticista e belamente reacionário de Fronteira - como dizia Samuel - que Gustavo Moraes adquirira as idéias com as quais, primeiro nos chocara, e depois nos deslumbrara a todos nós, intelectuais sertanejos de Taperoá. Esse grupo de intelectuais recifenses da Direita "pusera em moda o estilo Barroco brasileiro; o despojamento monacal dos Mosteiros e das Casas-de-Missões jesuíticas; os espelhos, os cristais, as pratarias; a Aristocracia dos Engenhos; o Catolicismo meio inquisitorial dos Ibéricos; o gosto pela arquitetura dos velhos sobrados de azulejos; das velhas Igrejas - com suas esculturas em madeira, seus retábulos e painéis pintados a óleo sobre tábuas de cedro - assim como pela arquitetura das velhas Fortalezas brasileiras dos séculos XVI, XVII e XVIII", o que, tudo, soubemos ainda pelo Doutor Samuel Wan d'Ernes. Assim, de acordo com essas "boas e velhas idéias tradicionais", Gustavo Moraes rasgara de aberturas as paredes da casa da família Villar - comprada por dinheiro muito acima de seu valor - enchendo-a de nichos e santuários, nos quais colocara santos de barro cozido ou de madeira, comprados por tudo quanto era de sacristia e igreja velha da Paraíba e de Pernambuco.

Ao chegar do Recife para Taperoá, Gustavo mandara procurar, na rua e nas casas de fazenda da nossa Vila, mesas velhas, cadeiras, consolos e tudo quanto era de velharia, mais, dessa qualidade. Distribuíra tudo isso pela casa, cobrindo as mesas-decentro e forrando os oratórios com as coisas mais extravagantes - paramentos sacerdotais franjados de ouro que ele comprara em São João do Cariri, toalhas de renda, estribos de selas antigas, lavatórios de louça azul e branca e móveis que ninguém usava mais por terem se tornado "fora de moda". A casa ficara com tal aspecto que, um dia, a Velha do Badalo, uma velha doida que existe por aqui e que vende coentro de porta em porta, chegando na sala de visitas dos Moraes, julgou que estava numa capela, ajoelhou-se diante de uma mesa-de-centro enfeitada de paramentos roxos, benzeu-se e rezou bom pedaço de um terço, antes que os empregados a detivessem. Pois o contrato dos Moraes com o pedreiro Teodoro Barba-de-Bode referia-se a essa reforma. Naquele dia 1.0 de Junho de 1935, ele fora chamado para abrir umas seteiras nas duas paredes dos oitões da casa; depois da primeira parte das reformas, Gustavo Moraes se apercebera de que a casa dos GarciaBarrettos tinha mais aquele elemento de "arcaica rusticidade e beleza", e, inconformado, mandara abrir seteiras na dos Moraes. Chamado ao "Alto dos Borrotes" para fazer o trabalho de alvenaria e cantaria, Teodoro Barba-de-Bode, sabendo da inimizade que reinara outrora entre Antônio Moraes e meu Padrinho, Dom Pedro Sebastião, foi me consultar, indagando se devia, ou não, aceitar a incumbência, temeroso que estava "de sofrer algum malefício, por trabalhar naquela casa, ocupada por gente que pertencia ao partido do Diabo".

- Vê-se que o senhor instruiu bem os membros de seu Partido subversivo! - disse vivamente o Corregedor.

Eu suspirei: - Vossa Excelência já sabe de tudo e assim é melhor que eu confesse tudo de uma vez! De fato, Excelência, sempre achei que guerra é guerra, e, no caso, na luta entre os Moraes e os Garcia-Barrettos, tratava-se da sobrevivência do meu sangue e da minha Coroa! Esse foi o motivo de eu ter explicado a todos os meus amigos que devíamos cerrar fileiras em torno de Dom Pedro Sebastião Garcia-Barretto, Porque Dom Antônio Moraes era do lado do Diabo! Apesar disso, porém, naquele dia eu tranqüilizei Teodoro. Disse que ele podia, sem remorso, aceitar a encomenda de Gustavo Moraes, pois era até bom, para nós, que algum dinheiro pertencente ao lado do Mal e do Diabo, passasse para uma pessoa que, como ele, estava do lado do Bem e de Deus_ Expliquei-lhe que, com a morte do nosso velho Rei, Dom Pedro Sebastião, a nossa luta não se acabara, mas tinha assumido uma tática nova. Que, dentro dessa tática, ele devia aceitar aquela oportunidade rara: nenhum de nós tinha acesso à casa dos Moraes. Assim, ele aproveitasse, e entrasse lá, fazendo bem o serviço, mas com os olhos e os ouvidos bem abertos, pois como ninguém dá importância a um pedreiro, talvez lhe aparecesse a sorte de tomar conhecimento de alguma coisa vital, de alguma informação preciosa para o nosso Partido! - Está ouvindo, Dona Margarida? - disse o Corregedor, escandalizado. - Está vendo como esse pessoal é perigoso e sem escrúpulos? Anote, tudo isso é muito importante! Margarida anotou e eu continuei: - Naquele sábado, pois, Teodoro trabalhou a manhã toda, num altíssimo andaime, colocado num quarto situado do lado esquerdo do corredor que ligava a sala de visitas à sala de jantar do casarão. Estava realizando, já, o trabalho de caiação daquele lado, pois já abrira, na parede, as seteiras encomendadas por Gustavo Moraes. Teodoro tencionava, como quase todo mundo na Vila, ir para a rua à tarde, para assistir às Cavalhadas. Tinha tido, aliás, o cuidado de deixar isso bem claro, na véspera: no sábado, largaria o trabalho ao meio-dia, só voltando ao "Alto dos Borrotes" na segunda-feira pela manhã. Aconteceu, porém, que, no dia da chegada de Sinésio, aí pelas onze horas da manhã, Teodoro fez uma pausa em cima do andaime, para descansar, deitou-se um pouco e terminou adormecendo, com a cabeça repousando em cima de uma rodilha de estopa. Com o torpor causado pelo cansaço e pela fome que precede a hora do almoço, dormiu um bocado e ficou lá em cima, esquecido, com o pessoal da casa julgando que ele tinha largado o serviço, conforme o ajuste, e se retirado para a Vila. Todos os serviçais do casarão, atraídos pelas Cavalhadas, tinham descido para a Vila, depois de servido o almoço. A mulher de Antônio Moraes, Dona Eulália, não se dava bem com o marido e nunca estava onde ele estivesse, de modo que tinha ficado na casa que a família tinha no Recife, no bairro da Benfica. Quanto a Gustavo, aí pelas duas horas da tarde seu motorista lhe trouxera o carro com o qual ele nos deslumbrara naquele ano, comprado no Recife por uma fotografia publicada no Diário de Pernambuco e classificada por Samuel como "uma Limusine presidencial ou régia". Apanhara o carro o seguira também para a rua. Não porém para ver a Cavalhada o sim para viajar com a moça Clara Swendson Cavalcanti que ia, com ele, para a "Fortaleza de São Joaquim da Pedra", sua casa, situada numa alta e escarpada praia do litoral do Rio Grande do Norte. Arésio, como já expliquei, tinha desaparecido desde o dia anterior. Desse modo, no vasto casarão silencioso e agora quase deserto, tinham ficado somente o poderoso e sombrio Antônio Moraes, sua filha Genoveva, seu filho. mais moço Miguel - um rapaz doente, considerado meio idiota e ao qual ninguém dava importância - e, finalmente, Teodoro Barba-de-Bode, adormecido nas tábuas horizontais de seu alto andaime. Dormindo, ele não viu o belo almoço da família Moraes, refeição que, segundo Samuel, "constituía, já por si, uma obra de Arte, com uma toalha de linho branco e rendes colocada sobre a vasta mesa, com jarros de prata cheios de vinho e água gelada, e com antigas porcelanas azuis e brancas de Macau". Não viu, também, saírem os domésticos que iam para a Cavalhada, nem ouviu a "limusine régia" de Gustavo arrancar e se dirigir para a rua, guiada pelo motorista vestido de uniforme cáqui, com boné militar e luvas castanhas de couro. E, o que foi mais grave, não viu quando Genoveva entrou po ara seu quarto depois do almoço, deitando-se na cama antiga que lhe servia de leito de solteira. Genoveva usava, naquele momento, um vestido de linho "cor de pérola" que, como tudo o que aquela família usava ou fazia, representava algo de estranho e chocante para todos nós. Ela e seu irmão Gustavo, que lhe era muito afeiçoado, tinham sido os primeiros a exibir em nossa Vila aquele tal gosto meio monacal e, ao mesmo tempo, refinado, pelo que era antigo e esquisito. Uma das surpresas, porém, que o pessoal da Vila tinha quando tentava imitá-los, era descobrir que aquelas aparências de pobreza e despojamento saíam mais caras do que suas riquezas ostensivas e comuns. Outra surpresa era notar que, para o pessoal do círculo de Gustavo Moraes, uma coisa era usar alpercatas de couro por "gosto monacal e refinado", e outra muito diferente era usá-las à força, por pobreza. De qualquer modo, porém, os Moraes, por sua simples ação de presença, estavam começando a influenciar as pessoas mais ricas da Vila; sendo que, entre essas, começou logo a se destacar, dada sua -categoria intelectual e seu abono econômico, a Mãe aqui da nossa Margarida, a Poetisa e jornalista Dona Carmem Gutierrez Torres Martins, que, tendo notícia, por Samuel, das excentricidades e refinamentos de gosto dos Moraes, fazia tudo para imitá-los ao pé da letra, e ardia em ânsias de ser convidada por eles, nem que fosse uma vez, para as recepções do casarão.

Margarida lançou-me outro olhar feroz, mas não tugiu nem mugiu - ou melhor, não berrou nem rinchou, para ser mais sertanejo. Aliás, eu sabia que podia tripudiar à vontade, naquele assunto. A coisa de que ela tinha mais vergonha neste mundo eram as ridicularias intelectuais da Mãe e a caduquice do Pai, de modo que, para que eu não me detivesse na história, deixaria passar qualquer coisa que eu dissesse. Por isso, não comentou e eu continuei: - O vestido que Genoveva Moraes usava naquela tarde era do tipo ditado pelo gosto "monacal e despojado" que, como já disse, só as pessoas ricas podiam usar. De fazenda caríssima, era formado, quase que só, por uma túnica larga, apertada nos quadris por uma espécie de "cordão de São Francisco". Ela, que era alta e morena, de cabelos e olhos pretos, tinha quadris e busto magníficos. Eu não tenho grande atração pelas mulheres morenas, não, Doutor! Samuel, toda vez que começa a se exaltar muito em seus acessos de fidalguia e branquidade, gosta de chamar atenção para minha cor moreno-carregada, e diz que eu tenho "sangue casteado de Cavalo castanho", o que, na linguagem dele, é alusão às pitadas de sangue negro, vermelho, cigano, judaico e mouro que carrego. Não é de admirar, assim, que meu sangue castanho seja tarado pelas moças louras e brancas, principalmente da Aristocracia. Por outro lado, esses "segredos do sangue", como chama Samuel, me fazem pressentir que as moças louras têm uma certa atração por minha cara feita a machado, assim como por meu sangue de cavalo! - disse eu, lançando o olhar mais expressivo que pude conseguir para Margarida, que, fechando a cara, olhou para o outro lado.

Continuei, depois de suspirar: - Pois bem! Apesar dessa tara do meu sangue castanho pelas mulheres agalegadas, digo a Vossa Senhoria, com franqueza, que nunca pude ficar sossegado diante de Genoveva Moraes! Ela era dessas mulheres que, quando entram numa sala, deixam os homens perturbados e as outras mulheres de mau humor. Principalmente porque aqueles peitos magníficos, de que eu falei há pouco, ela tinha o atrevimento de usá-los soltos, por baixo do tal vestido monacal de linho. Diziam mesmo as más-línguas da rua que, "nos dias em que ela estava azeitada, mesmo, usava só o vestido, por cima do couro limpo". Acho que nunca ninguém tinha comprovado isso. Mas bastava o primeiro fato e a simples possibilidade do segundo para escandalizar e indignar metade da Vila e fascinar a imaginação da outra metade. Nos pés, Genoveva usava apenas uma sandália, presa ao tornozelo por uma correia também de couro. Ora, quando, naquele Sábado, Teodoro acordou - aí pelas duas e meia da tarde, mais ou menos - Genoveva estava deitada em sua cama, adormecida, fazendo a sesta. Acontece que a casa da família Villar era uma casa sertaneja típica.

Gustavo Moraes, quando fizera as reformas, o contrário do que esperavam na Vila mas de acordo com as idéias do pessoal da revista Fronteira, deixara de estucá-la para que ela ficasse "com as pesadas vigas de braúna à mostra, de acordo com o estilo ntonasterial e afortalezado do Barroco do áspero século XVIII brasileiro". Assim, os grossos "brabos", as amplas "tesouras" e as pesadas "linhas" de madeira pousavam diretamente sobre as grossas paredes, sustentando o enorme telhado à vista de todo mundo. Os quartos e salas eram separados apenas por meiasparedes, de modo que o nosso Teodoro, do alto do seu andaime, assim que acordou, viu logo a moça Genoveva, deitada no mais completo abandono e desalinho, nos encantos de sua intimidade. E verdade que, na casa, reinava a semi-obscuridade comum ao interior dos casarões sertanejos quando estão de janelas fechadas. Mas a luz das seteiras recentemente abertas era suficiente para aclarar as coisas. Gustavo explicara, aliás, a Samuel, que as seteiras que mandaria abrir tinham dois objetivos. O primeiro, ligava-se to gosto do seu grupo e destinava-se a dar à velha casa "o ar, meio de Igreja, meio de Fortaleza, da arquitetura colonial brasileira". O segundo, era "diminuir a sinistra obscuridade que dominava a casa em certas horas do dia", quando a ventania escaldante dó Sertão obrigava aqueles delicados da Zona da Mata a fechar as janelas "para conservar, dentro da casa protegida pelas grossas paredes, uma temperatura mais fresca e agradável". No terceiro motivo, Gustavo Moraes não falara: era aquele sobre o qual já falei, isto é, o desejo que todos os Moraes tinham de não ficar trás em coisa nenhuma, no que se referia à casa da "Onça Malhada". Assim, naquela tarde, Teodoro, vendo a moça adormecida naquele desalinho de intimidade e aconchego, ficou apavorado, temendo que os Moraes, caso o descobrissem, julgassem que ele ficara ali de propósito, escondido para espreitá-la. Teodoro tinha notícia do gênio violento, orgulhoso, sombrio e maldoso do enigmático Antônio Moraes, e sabia que, se fosse descoberto, não sairia vivo da aventura. Vinham-lhe à lembrança as histórias que corriam na rua sobre um homem que, lá um dia, tinha aparecido morto junto a uma velha casa em ruínas que existia ali por perto, junto da Lagoa salgada situada nas terras dos Moraes. O homem fora morto por um tiro de rifle, e tinha sido encontrado sem o couro da sola dos pés, castrado e todo mutilado a faca, o que indicava que, antes de morrer, tinha sido submetido a terríveis torturas. O caso tinha ficado obscuro, mas dizia-se, na rua, que a morte do homem fora ordenada por Gustavo Moraes, em circunstâncias "que não tinham ficado esclarecidas de propósito, porque havia ali, misturadas, as coisas mais inconfessáveis". Com essa história na cabeça, Teodoro achou melhor se manter, no momento, em absoluto silêncio; quando Genoveva acordasse e saísse do quarto, ele resolveria o que fazer, de acordo com o rumo que tomassem as coisas. Ou recomeçaria a trabalhar, fingindo que tinha saído para o almoço e voltado depois para continuar o serviço, ou procuraria descer sem ser notado, tomando o caminho da rua, o que talvez fosse melhor, uma vez que a casa estava quase vazia. Continuou, portanto, deitado no andaime, parado e calado, sem imaginar que, dali de cima, iria ver lá embaixo, daí a pouco, uma cena que iria aumentar mil vezes mais o perigo -que sua vida porventura estivesse correndo.

Notei que, a despeito de si mesmos, Margarida e o Corregedor estavam acendendo os olhos e as ventas, motivo pelo qual tomei coragem e continuei: - Tinha se passado uma meia hora desde que Teodoro acordara. Contava-me ele no mesmo dia, à noite, que, por maior que fosse seu medo e por mais que tomasse a virtuosa resolução de "não olhar", de vez em quando Genoveva, adormecida, mudava de posição, exibindo tais encantos que todas as suas prudentes decisões eram aniquiladas e ele "olhava". Olhava sofregamente, como quem sabia que essas ocasiões são raras para um pedreiro e é preciso aproveitá-las, sob pena de arrependimento e remorso para o resto da vida. E foi aí, Senhor Corregedor, que, passando um bom pedaço de tempo, Teodoro ouviu o som de passos que vinham pelo corredor. Com as maiores cautelas, virou a cabeça, evitando que o andaime rangesse e revelasse sua presença ali. Viu, então, Antônio Moraes que se aproximava e parou diante do quarto da filha. Ele pareceu hesitar um pouco, mas depois, erguendo a mão, empurrou a porta que, estando apenas cerrada, cedeu e se abriu, dando-lhe passagem. Ele entrou, depondo a um canto, sobre uma arca, o chapéu-de-chile e a bengala. Aproximou-se, então, da cama e olhou a filha durante largo espaço de tempo. Depois, sentou-se à beira do leito e esboçou um gesto que, a princípio, pareceu a Teodoro de simples carinho paternal. O senhor conhece o Romance de Dona Silvana? - Não! - Minha Tia Filipa costumava cantá-lo quando eu era menino. Me lembro dele mais ou menos, e sei que começava assim:

"Andava Dona Silvava pelo corredor acima, viola de ouro levava, vai cantando uma Modinha. Chegou-se pra ela o Pai a quem o Diabo impelia; a cada passo que dava de amores a acometia: - Silvava, tu não te atreves uma noite a seres minha? - Fora uma, fora duas, fora, meu Pai, cada dia, malas Penas do inferno quem por mim las penaria? - Pená-las-ei eu, Silvava, que las peno todo dia.

Já perto da meia-noite, eis seu Pai que a acometia: - Mas se eu soubesse, Silvara, que estavas já corrompida, oh, Ias penas do Inferno por ti não Ias penaria! - Mas esta não é Silvana, é a Mãe que a paria. Também pariu Dom Alardes, senhor da Cavalaria! Também pariu a Dom Pedro, Prinspo da Infantaria", etc.

Quando parei aí, o Corregedor indagou, entre severo e curioso: - O senhor está insinuando que o pedreiro viu, naquele dia, entre Antônio Moraes e a filha uma cena desse tipo? - Senhor Corregedor, foi o que ele me disse! Teodoro julgou, a princípio, que Antônio Moraes estava simplesmente acordando a filha. Assim, a surpresa e o medo que ele teve foram terríveis, quando viu o homem, por cima do vestido, apalpar e acariciar os seios de Genoveva, seios que, segundo ele sabia pelos boatos, deveriam estar desnudos, embaixo. Mas, mesmo assim, parece que, depois de algum tempo, essa carícia por cima do vestido começou a ser insuficiente ao usineiro. Aí, pelo largo decote em forma de barco,

ele acariciou o ombro descoberto e logo insinuou a mão para dentro, acariciando já diretamente a pele macia e o bico dos seios. Como Genoveva não acordasse, dizia-me Teodoro, "o pecado e a doidice daquele homem do Diabo foi crescendo": ele se deitou ao lado da moça e, sem deixar de acariciar o seio com a mão esquerda, deslizou a direita embaixo, por sob o vestido que, com isso, se ergueu. Então, o homem montou, deitando-se sobre Genoveva...

- Que história é essa, Senhor Quaderna! - interrompeu o Corregedor, asperamente, mas já um pouco azougado.

- Foi o que me contaram! - defendi-me.

- E a moça não acordou? - Era o que eu ia dizendo, quando o senhor me interrompeu!

Teodoro disse que, quando Antônio Moraes se montou mesmo, como um pai-d'égua que não distingue a filha das outras potrancas do rebanho, ele teve a impressão de que Genoveva já tinha acordado, pois viu no rosto dela uma expressão estranha, de quem sorria a contragosto. Mas, ao mesmo tempo, ela conservava os olhos meio fechados e a cabeça pendida para trás, de modo que ele não pôde me esclarecer, em sã consciência, se ela estava dormindo ou não, se estava ou não conivente com o que ia se passando. Aliás, explica-se essa dúvida de Teodoro, porque, naquele momento mesmo, apavorado com o que já vira, ele se encolheu no andaime e, com os olhos fechados, os dentes cerrados e o coração batendo, ficou, durante o resto da cena, sem olhar mais nada. Mas o resto da cena durou pouco e, se ele não via nada, não fechara os ouvidos, de modo que logo ouviu um gemido surdo, um gemido abafado, de Genoveva.

O Corregedor, com um ar falso e paternal, voltou-se para Margarida: - Dona Margarida, a senhora me perdoe! - disse ele. - Eu não sabia que o inquérito ia tomar esse rumo, e esse foi o motivo de eu ter aceito o seu gentil oferecimento! Se a senhora acha melhor, interromperei o depoimento, e pedirei ao Cartório que me mande um escrevente qualquer! Não, não tem importância! - disse Margarida, com o ar angélico e martirizado de quem, pelas "Virtuosas Damas do Cálice Sagrado", fazia qualquer sacrifício.

Eu desconfiava, porém, de que suas narinas estavam ofegantes não propriamente de indignação, assim como de que não era a ânsia de sacrifício dos mártires que a fazia manter-se como secretária do inquérito. Mas o Corregedor hesitava ainda e ponderou: - É que, pelo que vejo, terei que investigar certos pormenores sobre o caso e não sei como possa fazer isso, com a senhora aqui! - Vossa Excelência pode continuar, essas coisas não me atingem! - disse Margarida, ficando ainda mais vermelha e agitada do que estava.

- Eu, então, aceito e agradeço, porque, no caso, preciso de segredo absoluto e um escrevente não seria a mesma coisa que a senhora! Muito bem, Senhor Quaderna, vamos então continuar! O senhor, porém, veja como conta as coisas! - Doutor, acho que estou contando tudo do jeito mais discreto possível! Depois que o senhor chamou minha atenção por causa da história de Marcolino com minha burra, tenho procurado ser o mais delicado que sei: até procurado falar difícil eu tenho! Agora, o que não sei é como contar uma história danada como esta de jeito delicado e discreto! O senhor faça o seguinte: vá perguntando as coisas do seu jeito, porque aí fica menos difícil de responder! - Está bem! O senhor disse que a moça proferiu um gemido abafado: na sua opinião, o que foi que houve? O usineiro chegou a - como direi? - a consumar o delito? - Teodoro disse que não sabia me dizer, me garantir mesmo, se sim ou não! - Pode ser, então, que só nessa hora a moça tenha acordado: gritou, com a surpresa, e o Pai então teria abafado o grito, colocando-lhe a mão na boca! - É o que Teodoro acha, também, mais provável, principalmente porque, segundo ele me garantiu, Antônio Moraes permaneceu vestido o tempo todo! - Vestido? - Sim, Excelência, Teodoro afirmou, sempre, que Antônio Moraes não tirou a roupa, nem quando entrou, nem depois! E verdade que isso não garante grande coisa, e Teodoro disse que não podia avançar hipótese nenhuma com segurança, pois somente quando cessaram, embaixo, os ruídos abafados e os murmúrios que se seguiram ao gemido de Genoveva, foi que ele teve coragem de olhar de novo para lá. Já então, Antônio Moraes saía pelo corredor e Genoveva estava de pé, no meio do quarto, com um jeito meio indeciso. Antônio Moraes saiu pela frente da casa, e Teodoro viu Miguel, seu filho mais moço, de pé, na porta do seu quarto, que ficava do outro lado do corredor, defronte da camarinha de Genoveva. Pela posição em que Miguel estava, era impossível afirmar, também, se ele vira ou não alguma coisa do que se passara. Genoveva saiu do quarto para o corredor. Ao se deparar com o irmão, os dois se olharam um pouco, em silêncio. Depois, Miguel voltou a entrar no quarto, fechando a porta atrás de si, e Genoveva, cabisbaixa, saiu para os lados da sala de visitas, a da frente. Teodoro, aproveitando a oportunidade, desceu como um gato a escada do andaime, cruzou o corredor na ponta dos pés para o lado da cozinha e, saindo por trás da casa, entrou no mato do cercado, fez uma grande volta pelo Açude do Estado - evitando, assim, de passar pelo pátio da frente - e conseguiu chegar à Vila sem que ninguém o visse. A noite, passados já os acontecimentos terríveis que se desencadearam com a chegada de Sinésio, foi me procurar na "Távola Redonda" para me contar a história e pedir instruções. Eu o aconselhei a calar a boca, porque, de fato, se a história se espalhasse, os Moraes eram gente para acabar com a vida dele em poucas horas. Garanti-lhe silêncio da minha parte e despedi-o, porque tinha muita coisa a pensar e decidir, naquela noite terrível, decisiva para todos nós. Assim, Senhor Corregedor, esta é a primeira vez que conto esta cena diante de terceiros. Fiz isso em atenção ao senhor e atendendo a sua ordem de contar tudo, tintim por tintim! - Muito bem! - disse o Corregedor, novamente impenetrável. - E as outras pessoas que o senhor considerou afetadas pela chegada do rapaz?

FOLHETO LXVII

0 Emissário do Azul e as Juras de Castidade - É o que passo a contar a Vossa Excelência! - continuei. - Peço, aliás, toda a sua atenção, porque o que vou contar agora envolve, ao mesmo tempo, três pessoas que foram de importância decisiva para o destino de Sinésio, isto é, Gustavo, Clara e Heliana. Acontece que, enquanto em sua casa se passavam esses estranhos acontecimentos, Gustavo Moraes, no automóvel, em viagem para o Rio Grande do Norte, mantinha com Clara, irmã mais velha de Heliana, uma entrevista importantíssima. Ele realizara, há dois dias, uma viagem secreta para a "Fortaleza de São Joaquim da Pedra", onde conversara com o pai de Clara, combinando com ele aquela viagem de regresso da moça que tinha passado uns dias em nossa Vila. Agora, apanhara-a no "casarão das pinhas" onde ela estivera hospedada e que pertencia a uns parentes seus, o pessoal da família do Major Liberalino Cavalcanti de Albuquerque. Com Clara, fazendo-lhe companhia para a viagem, viera uma velha parenta sua que, daí a dois dias, deveria regressar com Gustavo no automóvel, deixando a moça em casa, com o Pai. De modo que, no "automóvel presidencial" de Gustavo iam agora, ali, pela estrada, para o Rio Grande do Norte, o motorista e a velha parenta na frente, e, no banco traseiro, ele e Clara. Gustavo, Senhor Corregedor, era um rapaz esbelto, de estatura pouco acima da mediana. Diferentemente do resto dos Moraes, que eram todos morenos, mas de um moreno que era carregado e sombrio em Antônio Moraes e corado e viçoso em Genoveva, Gustavo Moraes era moreno-claro e pálido, com lábios estranhamente e desagradavelmente vermelhos. Tinha o rosto fino e cabelos pretos bastíssimos, lisos. Sua barba era tão cerrada e escura que ele a raspava duas vezes por dia. Por isso, seu rosto fino, pálido nas faces, era de um azul-esverdeado nas mandíbulas, no queixo e no pescoço, sombreados pela barba preta, cuidadosamente escanhoada. Vendo o aspecto dele, não era necessário nem um Mestre, como eu, nas pduas Astrologias, a Onomântica e a Transcendental, para fazer Seu "diagnóstico astroso": qualquer simples "curioso" em Astrologia via logo que se tratava de um capricórnio-saturnal. Como Vossa Excelência deve saber, o "Capricórnio" - ou, sob sua forma férrea, a "Cabra" - é um signo governado, em Trono noturno, elo influxo maléfico-esverdeado de Saturno, com a presença e atuação do verde-lodo, da safira, do chumbo e do óxido de enxofre. Acho que, de todos os personagens que comparecem a esta história, era Gustavo Moraes o que eu conhecia menos bem. 0 motivo disto era, primeiro, o orgulho dos Moraes que, na Vila, só convidavam praticamente o Doutor Samuel Wan d'Ernes, "por ser, como eles, um Fidalgo dos engenhos pernambucanos, exilado e perdido nesta bárbara e bastarda terra do Sertão". O segundo motivo, era o ódio mortal que existia entre eles e a família de meu Padrinho, Dom Pedro Sebastião. Os Moraes eram uma família muito rica, de usineiros pernambucanos. Estabelecera-se em Taperoá principalmente em busca do algodão e dos minérios sertanejos, que estavam começando a ser explorados naquele tempo. Só se entendia a presença, em nosso fim de mundo, do sombrio e orgulhoso Antônio Moraes pelo fato de ele ter se tornado sócio e testa-de-ouro de uma empresa estrangeira. De fato, já naquele ano, como Clemente e Samuel nos explicaram, a "Sanbra" e a "Anderson Clayton", firmas anglo-americanas e judaicas, tinham começado a disputa dos nossos mercados de algodão e "outros grupos enigmáticos, a serviço d'Eles, estavam se apossando dos minérios de cobre e tungstênio da Paraíba". Segundo Clemente, "essa era a origem escusa de toda aquela escusa fortuna de Antônio Moraes", a quem, por causa dessas interpretações, eu hesitava e hesito ainda em outorgar o tratamento de Dom. Logo que viera se estabelecer entre nós,. Antônio Moraes comprara uma grande propriedade, os "Angicos". Segundo dizia a Samuel, chegara à conclusão de que a indústria açucareira de Pernambuco estava ultrapassada e encaminhava-se para a falência. Por isso, resolvera mudar de atividade e os minérios do Cariri eram fundamentais para isso. Clemente porém dizia que aqueles montes e montes de pó-de-pedra que reluziam nas beiras dos caminhos dos "Angicos" continham coisas muito enigmáticas e perigosas. Eram "minérios raros, indispensáveis às industrias bélicas d'Eles". De fato, logo depois, Antônio Moraes começou não só a extrair, mas também a comprar barato umas pedrinhas pretas que ele chamava de "colombitas" e que mandava para o Recife, onde elas eram embarcadas em navios, embaladas em grandes caixas de madeira destinadas "a Eles". De uma forma ou de outra, estabelecido nos "Angicos", ligado às companhias estrangeiras pelo algodão e pelos minérios, Antônio Moraes começou a querer rivalizar com Dom Pedro Sebastião sobre o domínio do nosso Reino do Cariri. Como, além disso, tivesse surgido entre os dois uma questão de terras por causa de um pedaço estéril de Tabuleiro que separava as duas propriedades e pelo qual ninguém entendia que dois homens tão ricos e poderosos se batessem tão violentamente, um ódio mortal surgira entre os dois Fidalgos, que viveram se odiando até a morte do velho Rei, em 1930. Os negócios principais da "Onça Malhada" eram os couros, o algodão e as pedras preciosas. Os de Antônio Moraes eram os minérios, de modo que eles poderiam, talvez, ter convivido sem briga. Mas como, ao lado disso, Antônio Moraes tivesse se aliado à "Sanbra" e, a princípio por influência do gringo campinense Christiano Lauritzen, tivesse introduzido novps métodos industriais de beneficiamento de algodão em Taperoá, a separação, a luta e o ódio entre os dois aumentaram a ponto de a situação ficar insuportável. Não é preciso dizer que essa separação e esse ódio tomaram também, imediatamente, o caráter de luta política. Foi assim que, na "Guerra de Doze" que ensangüentou o Sertão paraibano em 1912, o nosso velho Rei do Cariri tomou o partido do Coronel Rego Barros, dos Dantas e do Bacharel Santa Cruz, representantes do velho Partido Liberal do tempo do Império; Antônio Moraes imediatamente tomou o outro lado, o do Senador Epitácio Lindolpho da Silva Pessoa, herdeiro do Partido Conservador e do primeiro partido republicano do Senador Venâncio Neiva. Também foi por causa disso que, em 1930, na "Guerra de Princesa", Dom Pedro Sebastião tomou o partido dos Sertanejos comandados pelo Coronel José Pereira, e Antônio Moraes o da Polícia e do governo do Presidente João Pessoa. Assim, por causa desses ódios entre as duas famílias, eu não conhecia Gustavo tão intimamente quanto conhecia Arésio, Silvestre e Sinésio. Quanto à moça Clara, eu a conhecia sempre melhor, desde o tempo em que servira de emissário de meu Padrinho, Dom Pedro Sebastião, junto ao Pai dela, o "gringo" Dom Edmundo Swendson, sócio do velho Rei Degolado no negócio dos couros e das pedras preciosas. Aliás, para que Vossa Excelência não estranhe o nome das duas Damas jovens e alouradas que desempenharam papel tão terrível no destino de Sinésio, devo lembrar que são umas quatro ou cinco as estirpes fidalgas nórdico-sertanejas e flamengo-nordestinas que existem entre nós: os Wan der Leys, os Wan d'Ernes, os Von Sohstens, os Lauritzens e outros, alguns deles chegados no século XVII, outros depois, mas todos importantes. Os Swendsons e os Lauritzens são dos mais recentes. O primeiro Swendson veio para cá com aquele outro Fidalgo sertanejo-dinamarquês, Dom Christiano Lauritzen, Senhor da Vila Nova da Rainha de Campina Grande. Como sabem todos os bons historiadores e genealogistas do Nordeste, Dom Christiano Lauritzen veio para o Brasil no século XIX. Deixou o Recife e o Litoral, e veio se estabelecer em Campina Grande, onde se casou com a filha de um Fidalgo sertanejo, Dom Alexandrino Cavalcanti de Albuquerque, Senhor da fazenda "Cabeça-do-Boi". Dom Alexandrino, como se vê por seu nome, pertencia ao ramo sertanejo e paraibano dessa famosa estirpe fidalga dos Cavalcantis de Albuquerque, da qual descende. todo nordestino que se preza, motivo pelo qual todos nós nos consideramos descendentes de El-Rei Dom Dinis, o Lavrador, distinto soberano e Cantador português, quase tão bom, em seu tempo, como Francisco Romano e Inácio da Catingueira no nosso. O casamento do dinamarquês Christiano Lauritzen com Dona Elvira Cavalcanti de Albuquerque integrou definitivamente o "gringo" na Aristocracia brasileira e foi origem de uma nobilíssima progênie que ainda hoje abrilhanta o nosso sertão da Paraíba. Quanto a Dom Edmundo Swendson, veio ele da Dinamarca, com Christiano Lauritzen, e casou-se com outra Cavalcanti, parenta de Dona Elvira, mas do ramo dos Cavancantis do Sertão da Serra Negra, sertão que se estende da Paraíba até o Rio Grande do Norte. Os Cavalcantis de Albuquerque Lauritzen fixaram-se na velha sesmaria da "Cabeça-do-Boi", situada a umas cinco ou seis léguas de Campina Grande, em pleno Sertão do Cariri, numa das regiões mais ásperas e pedregosas da nossa Província. Os Cavalcanti-Swendsons, com Dom Edmundo à frente, dedicaram-se ao tráfico das pedras preciosas, motivo pelo qual resolveram se fixar no litoral do Rio Grande do Norte. Num grande monte pedregoso, situado a pique sobre o Mar, ali bem perto do lugar em que o Vaqueiro vira a Bicha Bruzacã sair dos lombos do verde Tigre para as terras fogosas do Sertão, Edmundo Swendson encontrou uma velha, grande e quadrada Fortaleza do século XVII, com torreões seteirados nos quatro cantos e com velhas paredes de pedra subindo muito alto, numa linha inclinada que, partindo das rochas batidas pelo Mar, davam àquela Fortaleza um aspecto ao mesmo tempo de cadeia, de quartel e de Castelo à beira-mar. Dom Edmundo comprou, por uma ninharia, todo o pedaço de terra onde estava a velha e maciça Fortaleza; e o pessoal que morava por perto achou a coisa mais esquisita do mundo "aquele gringo comprar exatamente o trecho de praia mais alto e pedregoso, sem coqueiros nem cajueiros que dessem lucros". Espantar-se-iam ainda mais quando "o gringo" começou a limpar o entulho que recobria a velha Fortaleza, restaurando-a em suas linhas originais e trazendo sua mulher para morar com ele, ali, "naquele fim de mundo e naquele lugar soturno". De fato, porém, Dom Edmundo Swendson precisava de um lugar que, servindo-lhe de casa, servisse também de ancoradouro à frota de barcaças que ele adquiriu e aumentou aos poucos, na medida das necessidades do seu comércio de couro e pedras preciosas. Só depois e aos poucos também, por intermédio de meu Padrinho que financiara, como . sócio, os primeiros negócios de Dom Edmundo, é que fomos sabendo todos esses pormenores. Quando eu o conheci, seus negócios já cobriam o Nordeste inteiro, o iam do ouro do Piancó ao berilo e às águas-marinhas do Sertão do Picuí. Isto sem se falar de outros negócios que ele realizava lá para os lados do Sertão do Rio São Francisco e que incluíam o mármore, os couros de boi, de bode e de carneiro. As barcaças da frota do "gringo" eram, aliás, construídas nesse Sertão do São Francisco. Eram maiores do que as barcaças comuns; movidas a vela, tinham na frente aquelas "carrancas" que costumam colocar nos barcos do Rio São Francisco. No nosso litoral, as barcaças, além de menores, não têm carrancas, de modo que os barcos do "gringo" foram encarados como novo fator de estranheza para o pessoal da Praia. Como dizia Samuel, esses barcos "com as figuras rostrais esculpidas na proa pareciam verdadeiros e antigos Navios de madeira", o que, aliás, tivemos oportunidade de verificar na viagem que fizemos neles e que marcaria um dos episódios mais importantes da "odisséia marítima" de Sinésio, o Alumioso. Essas barcaças de Dom Edmundo subiam e desciam o Rio São Francisco. As maiores iam somente do Mar até Penedo, onde pegavam a carga deixada pelas menores, que desciam até ali desde o Sertão das Piranhas. De Penedo então voltavam as maiores, subindo pelo Mar para o Norte e fazendo escala em Maceió, em Barra do Camarajibe, em Tamandaré e São José da Coroa Grande, até chegarem à Barra do Rio Suape, em Pernambuco, lugar onde Dom Edmundo Swendson tinha outra casa, perto da Fortaleza de Nazaré do Cabo. Daí, com outras escalas em Itamaracá e na Baía da Traição, da Paraíba, chegavam até a antiga "Fortaleza de São Joaquim da Pedra", o Castelo rochoso, situado à beira-mar, no litoral do Rio Grande do Norte, a tal Fortaleza da qual eu vinha falando. Fora assim, Senhor Corregedor, o Fidalgo nórdico-sertanejo Dom Christiano Lauritzen quem pusera seu compatriota Edmundo em contacto com Dom Pedro Sebastião, Rei do Cariri; e eu acredito que, se Christiano Lauritzen não tivesse morrido quando morreu, as relações existentes entre os Garcia-Barrettos e os Cavalcanti-Swendsons não teriam se rompido depois da morte de meu Padrinho, com repercussões tão terríveis sobre o destino das duas filhas moças de Dom Edmundo - Clara e Heliana - e dos dois filhos varões legítimos de meu Padrinho - Arésio e Sinésio. Mas, quando se trata dessas questões de sina, de destino, parece que uma espécie de cegueira se abate, mesmo, sobre todos os implicados, Senhor Corregedor! Eu mesmo, desde o começo, tinha elementos que me possibilitariam prever tudo o que ia acontecer. Sabia que Dom Pedro Sebastião era amigo e sócio do Fidalgo dinamarquês-sertanejo.

Mas, cego, nunca pensei que fossem dar no terrível resultado em que deram os "cruzamentos de sangue e de destino" que ocorreram entre Sinésio, nosso Príncipe da Legenda Ensangüentada do Sertão, e as duas filhas de Dom Edmundo Swendson, Dona Clara, a loura, e Dona Heliana, a dos olhos verdes, que foi o grande amor de sua vida. Clara era a filha mais velha de Dom Edmundo e de Dona Catarina Cavalcanti de Albuquerque, naquele tempo já falecida. Puxara mais à raça do Pai. Era mais alta do que baixa, tinha grandes olhos redondos e azuis, os cabelos de um louro bronzeado,

o nariz reto, o queixo e as ancas firmes. Quem conhece, como eu, o folheto da Descrição das Mulheres por seus Sinais notaria que ela tinha quatro defeitos físicos que, como acontece sempre nas moças bonitas, eram, nela, quatro encantos a mais: suas panturrilhas eram um pouco espessas e musculosas, contrastando de

modo um pouco forte demais com os tornozelos e os joelhos finos, suas pernas eram um quase-nada arqueadas, sendo que na direita havia, entre o joelho e o tornozelo, na parte de fora, um sinal arredondado, claro; a testa ampla contrastava, um pouco mais do que o permitido, com o queixo, que era forte nas mandíbulas mas fino na ponta; e finalmente, quem olhasse durante tempo suficiente seu dorso, notaria que a espádua direita era um pouco mais alta do que a esquerda. Clara herdara esse último defeito de sua Mãe. Mas, em Dona Catarina, a diferença entre as duas espáduas era mais pronunciada, principalmente porque seus ombros eram magros e um pouco altos, ombros de asmática. Os ombros de Clara, porém, eram cheios, servindo de remate a braços esplendorosos. Era isso que transformava num encanto a mais aquela espádua um pouco abaulada que, em sua Mãe, era realmente um defeito físico. Clara, porém, não tinha consciência dessas diferenças; e a humilhação que sentira desde menina por aquilo que julgava ser uma espécie de mancha ou vergonha familiar hereditária, dava a seus olhos azuis uma tristeza, uma certa altivez melancólica que os salvavam da frieza ou da insignificância que se casam, na maioria das vezes, a essa cor. Por outro lado, tenho hoje a convicção, Senhor Corregedor, de que a espádua alta e o sinal da perna não eram senão a marca que a Divindade apusera nela para dar um aviso aos demais; eram a marca do Terrível, a marca que fazia de Clara uma "assinalada"; ainda que, como os acontecimentos posteriores iriam demonstrar, muito mais assinalada e terrível do que ela fosse sua irmã, a doce, bela e sonhosa Heliana, a moça dos olhos verdes

o das mãos cobertas que foi como urna pedra-de-raio a fulminar o destino de Sinésio.

- Eram, pois, mais ou menos as duas e meia da tarde daquele Sábado, Senhor Corregedor! - continuei. - Gustavo Moraes tinha apanhado Clara no casarão das pinhas e agora viajavam pela estrada que, cortando o Cariri, entra, perto da Vila do Junco, para a do Seridó do Rio Grande do Norte. Iam por aquela região áspera que, naquele junho, já começava a ficar crestada, pois o estio de 1935 começou antes do tempo. A conversa entre os dois parecia meio difícil, quase penosa, mesmo, entremeada, segundo me contaram depois, de pausas, de pensamentos ocultos e de subentendidos.

- Como foi que o senhor tomou conhecimento disso? - Senhor Corregedor, lembro mais uma vez que sou um Epopeieta, de modo que tenho certas liberdades que me são outorgadas pelo Gavião macho-e-fêmea e sertanejo que me serve de Musa. Entre essas liberdades, está a de adivinhar e profetizar as conversas que não ouvi! - Está certo, mas isso aqui ainda não é a Epopéia: é um depoimento que, depois, vai lhe servir de material bruto para ela e, para mim, de processo. Assim, deixe de lado suas liberdades de Epopeieta e seja claro. Como foi que o senhor soube dessa conversa? - Está bem, vou dizer a Vossa Excelência! Não lhe escondo que, como Astrólogo e dizedor de sortes, mantenho, na "Távola Redonda", um consultório astrológico e sentimental onde comparecem moças, rapazes, cavalheiros e senhoras dos mais poderosos desta Vila! Assim, as histórias que ouço diariamente, lá, são as mais incríveis! Raras são as pessoas, aqui da rua, cuja vida íntima eu não conheça, às vezes nos pormenores mais comprometedores! Olhe, Senhor Corregedor: eu estou com quarenta e um anos de idade, e ainda fico espantado com a facilidade que as pessoas têm de contar certas coisas e de conversar na frente dos outros sobre os assuntos mais íntimos. Isso acontece muito quando o terceiro é uma pessoa colocada abaixo dos que conversam: parece que eles julgam essas pessoas cegas ou surdas, incapazes de entender qualquer coisa! Pois foi o que aconteceu naquele dia com Gustavo e Clara. Eles conversavam, no carro, na presença do motorista e da velha parenta que, dentro dos nossos costumes sertanejos, servia de companhia à moça em sua viagem. Daí os subentendidos e alusões secretas da conversa. Acontece, porém, que aquela senhora idosa, que eles pareciam julgar cega, surda, muda e burra como uma porta, tinha me tomado, há muito tempo, como confidente e consultor astrológico. Ao contrário do que julgavam, tinha uma maldade cortante, uma má-idéia sistemática sobre as pessoas, o que lhe dava um faro de cachorro para descobrir os segredos e as maldades dos outros. Foi ela quem me contou tudo, e com uma argúcia, uma penetração que teriam deixado Gustavo assom416 brado, caso tivesse tido conhecimento de nossa conversa. Aliás, Senhor Corregedor, tendo-se em vista que a chegada de Sinésio se daria cerca de uma hora depois, a conversa de Clara com Gustavo parecia comunicada de alguma coisa de profético ou de pressentimento. Gustavo vestia calças de uma fazenda meio aveludada, de cor vinho-castanha. O paletó era de linho branco, desses que a gente chama aqui de "lonado". A camisa era azul. Os sapatos, pardos, e as meias azuis, da mesma cor da camisa. Estava com gravata verde-clara e trazia bengala de castão de prata, que segurava com as duas mãos, apoiada verticalmente no chão do carro. De vez em quando, nos momentos de maior reflexão, apoiava o queixo sobre o castão da bengala, baixando a cabeça e entrecerrando os olhos, num gesto que lhe era habitual e que estava sendo imitado por tudo quanto era de intelectual da nossa Vila. Conto todos esses pormenores para dar a Vossa Excelência uma idéia da impressão, do espanto que ele vinha causando na rua, com aquelas elegâncias tão diferentes das nossas. Até a data de sua chegada recente do Recife, o homem elegante que nos surpreendia e esmagava a cada instante com sua superioridade e sua originalidade nesse campo, era o Doutor Samuel Wan d'Ernes. Quando, porém, Gustavo de Moraes apareceu entre nós, depois de tantos anos de ausência, desbancou em dois tempos o nosso Promotor que, sem outra alternativa para se sair bem do cotejo, escondeu sua humilhação e seu despeito atrás de furiosas comparações entre sua própria "sobriedade" e a "pretensão" e o "espalhafato de mau gosto" das roupas de Gustavo Moraes. Isso não o impediu, porém, mesmo cobrindo o rival de remoques, primeiro de invejá-lo e depois de imitá-lo furiosamente, quase morrendo de alegria e orgulho depois que passou a ser convidado para a casa dos Moraes. Quanto a Clara, vestia, naquele momento, um vestido preto, meio transparente, com ramagens lilases, que se casava maravilhosamente com seus cabelos louros. As meias cor de creme, finíssimas, ajustavam-se perfeitamente às pernas, cobertas pelo vestido até pouco abaixo do joelho. Corretamente sentada no banco traseiro do carro, tendo juntos os pés calçados de sóbrios sapatos pretos, repousava ambas as mãos sobre os joelhos que elas ajudavam a se manter unidos. Ouvia Gustavo com uma expressão indefinida, entre atenta e sonhadora. E Gustavo falava, falava sem cessar, como era, aliás, seu hábito. Tudo o que ele dizia, tinha sempre bom gosto, elegância e originalidade, "um bom gosto e uma inteligência até excessivos", como notou Samuel a princípio, "uma originalidade meio artificial que terminava causando uma sensação de mal-estar, uma frieza e uma agudeza meio assustadoras, que afastavam toda possibilidade de haver alguma coisa de vivo e de bondoso naquela alma". Mas isso eram sutilezas de Samuel, no tempo em que ainda não fora recebido pelos Moraes. Nós todos, sem nos importarmos com suas análises, nas raras ocasiões em que tínhamos oportunidade de ver e ouvir Gustavo, ficávamos seduzidos e embasbacados pela inteligência e pela novidade de tudo o que ele dizia. Naquela tarde, pois, Gustavo dava conta a Clara da viagem que fizera dois ou três dias antes, por aquela mesma estrada, para a "Fortaleza de São Joaquim da Pedra", onde fora se entender com o Pai dela sobre vários assuntos, sendo um deles a viagem que agora fazia, levando Clara de volta para casa. Gustavo dizia a Clara:

-Cheguei lá na Fortaleza na terça-feira, pelas cinco horas da tarde, Clara. Confesso a você que não esperava encontrar aquela casa maravilhosa que encontrei! É verdade que você já tinha me falado nela. Eu já sabia que seu Pai tinha tido o bom gosto de restaurar uma velha Fortaleza, situada à beira-mar, para se instalar nela. Mas, não sei por quê - talvez por causa da Fortaleza de Santa Catarina que é situada, aqui na Paraíba, numa praia rasa, em Cabedelo - eu não esperava aquela Fortaleza enorme, acastelada em cima de pedras altíssimas, batidas pelo Mar! Olhe, Clara, dos séculos XVI, XVII e XVIII, foi isso o que de melhor nos ficou, em Arquitetura! Mesmo a bela arquitetura dos sobrados e casarões é menos bela do que a arquitetura despojada e monacal das Igrejas, Mosteiros e Casas-de-Missões, e do que a arquitetura nobre, maciça, militar e acastelada das Fortalezas do tipo de "São Joaquim da Pedra"! No dia em que cheguei lá, fazia uma tarde fresca e suave, e o sol, já descaindo, iluminava com uma luz dourada as enormes pedras cor de ferrugem, batidas pelas ondas; assim como iluminava, também, as altas e grossíssimas paredes que circundam a Fortaleza, paredes feitas de pedra-e-cal, escurecidas pelo tempo e cujo reboco caiu, roído pelo vento, pelas águas, pelo sal do Mar, de modo que as pedras enormes aparecem com uma nobreza vetusta que comove e nos dá um solene sentimento de respeito. Seu Pai aliás, Clara, teve o bom gosto de só refazer, no velho Forte, o essencial à restauração, não tirando o caráter da velha edificação acastelada e militar!' "Essa expressão, 'o caráter', Senhor Corregedor, assim como outras originalidades da fala de Gustavo estavam em moda nos círculos intelectuais e católico-reacionários da revista Fronteira!", expliquei. "Quando ele as pronunciava, acentuava o que dizia juntando todos os dedos da mão direita e esfregando-os delicadamente uns nos outros, como se estivesse tirando pó das suas pontas, num gesto que trouxera do Recife e que logo se tornaria, também, moda, entre todos os intelectuais que se reuniam em nossa Biblioteca Municipal Raul Machado. Gustavo continuou, dizendo a Clara: "'Meu carro ficou embaixo, abrigado numa construção nova que seu Pai fez, longe da Fortaleza, ao pé do promontório. Subi a pé, passando pela porta situada no lance térreo da construção o encimada pelo Escudo das Quinas. Segui pelo interior do Forte, por uma espécie de túnel ou galeria de tecto abaulado. .. ' "`Sim, é o corredor, como eu e Heliana chamávamos, quando éramos meninas', comentou Clara.

"`Pois o corredor, como diz você, está caiado de novo. Entretanto, sob a mão de cal, a gente pode ver a irregularidade das enormes pedras que dão à parede um ritmo, uma força, uma nobreza conventual realmente admiráveis!', falou Gustavo, novamente esfregando a ponta dos dedos, levantados para cima como uma flor de pétalas fechadas.

"'O resto, então, eu já sei!', disse Clara, com um sorriso leve e uma expressão sonhadora. 'Você subiu por uma escada de pedra que fica no fundo do corredor e faz uma curva, subindo pela direita. Aí, subindo a escada, chegou ao pátio da Fortaleza, lá em cima. Meu Pai, certamente, estava esperando você na porta da casa...' -Que abre a frente para o pátio e para as amuradas do Forte o que é a antiga casa-forte do Capitão que comandava a Fortaleza! Que maravilha é a casa de vocês, Clara! Sinto vergonha porque as nossas melhores famílias brasileiras ainda não se aperceberam de que essas Fortalezas deveriam ser os verdadeiros Castelos da nobreza nordestina, por serem nobres edificações à altura do Castelo, da torre de Duarte Coelho, em Olinda, ou da Casa da Torre de Tatuapara, na Bahia! Enquanto isso, enquanto damos todas essas nobres edificações ao desprezo e ao abandono, seu Pai, um dinamarquês, foi mais sensível do que a nossa Aristocracia, mais atento ao que existe de verdadeiramente grande e forte, como expressão do fundo épico da nossa Raça! Conversei muito com ele, Clara! E um homem, um homem dos meus, um forte, um daqueles que nós deveríamos mandar trazer para aqui às carradas, da Europa, para equilibrar, com um bom contingente godo e nórdico, o caldeamento racial ibérico-brasileiro. Os Fidalgos portugueses e espanhóis como contingente inicial dos nossos melhores o maiores, está muito bem! Minha aspiração é exatamente confirmar e exalçar em nosso sangue o sangue cavalheiresco e católico dos Conquistadores ibéricos! Infelizmente, com o que houve depois, com a mistura de Negros e índios nos contingentes raciais do Povo Brasileiro, precisamos de uma raça nórdica, marinheira e empreendedora, para o sangue do Brasil com que sonhamos!', disse ele, com uma expressão estranha em um entusiasmo meio doentio. 'Isto sem se falar em que nossa própria Aristocracia só teria a ganhar, cruzando o velho sangue ibérico com o nórdico, unindo-se, num tipo só, as qualidades senhoriais das duas Raças, o que, aliás, sucede com sua família. Aqui na Paraíba, há três famílias onde se deu esse feliz caldeamento racial: os Lauritzens, os Von Sohstens e vocês, os Swendsons. Os Von Sohstens, como bons viquingues que são e num grande rasgo de fidelidade ao ímpeto épico e marítimo de sua Raça, estão se dedicando à pesca da baleia, perto de Cabedelo, na Costinha, no litoral da Paraíba. O velho Christiano Lauritzen praticamente fez a grandeza de Campina Grande. Agora, é seu Pai, com esse belo tráfico de pedras preciosas e sua frota de barcaças! Infelizmente, três famílias dessas ainda é muito pouco! O Brasil, depois da nossa vitória, deverá fazer todos os sacrifícios, mandando buscar mil, dois mil, cinco mil homens como seu Pai, pagando-lhes a peso de ouro o serviço único e exclusivo de embelezar nossos homens e nossas mulheres, de procriar, de clarear e alourar nossa Raça, afinando-lhe o sangue, e fazendo-se assim, da nossa terra, um laboratório de experimentação racial, organizado de acordo com um plano preestabelecido! A Raça resultante teria todas as qualidades da nórdica e todas as da latina!' "`E o que foi que você conversou com meu Pai?', perguntou Clara, mudando de conversa e sorrindo um pouco do entusiasmo de Gustavo.

"`Falamos de tudo aquilo que você sabe: de você, da situação do País e da nossa em particular, de mim, dos negócios...' "`E a respeito de Arésio Garcia-Barretto? Você falou na possibilidade do casamento dele com sua irmã Genoveva?' "`Sim, falamos disso, é claro, dada a amizade que havia entre seu Pai e o de Arésio. Seu Pai acha que, se Arésio quer, e Genoveva também, essa é a solução ideal para a situação que se criou. Quando falou nisso, ele me disse que falava como amigo que foi do velho fazendeiro morto e como atual amigo e sócio do meu Pai!' "'E por falar em Arésio e Genoveva, continua tudo no mesmo pé, entre os dois?', perguntou Clara, curiosa.

"`Continua!', disse Gustavo. `Pelo menos, é a minha opinião, não sei nada por intermédio deles! Você sabe Genoveva como é: não fala nada sobre essas coisas, retraída e orgulhosa como sempre foi. Quanto a Arésio, é o selvagem do qual você já tem notícia, apesar de nunca tê-lo visto, não é isso? Não digo assim por antipatia a ele. Pelo contrário! Para falar a verdade, tenho admiração e orgulho por aquilo que, em Arésio, mostra a força e a violência ancestral dos Senhores e Cavaleiros que foram os troncos da nossa Aristocracia! Por mim, o casamento dele com minha irmã se fará!', concluiu ele com uma expressão que fez Clara erguer para ele e logo abaixar de novo seus olhos azuis.

`E o testamento do Pai de Arésio?', indagou ela, depois de uma pausa, e já novamente com os olhos baixos. `Meu Pai falou alguma coisa sobre isso?' "'Seu Pai, como eu esperava, não sabe nada sobre esse pretenso e misterioso testamento! Diz que, em todo caso, se é que ele existe mesmo, ninguém sabe mais nenhuma notícia a seu respeito. O problema não seria nada se o velho fazendeiro degolado não tivesse se casado com a primeira mulher, Dona Maria da Purificação, Mãe de Arésio, com separação de bens, e, com a Mãe do outro, com comunhão de bens! Houve ainda, ao que dizem, algumas doações, feitas em vida do velho, ao rapaz que desapareceu. Agora, porém, no pé em que estão as coisas, se o juiz julgar tudo como nós esperamos, o rapaz será declarado ausente, e tudo será resolvido da melhor maneira!' "`Ausente é a mesma coisa que morto?', indagou Clara, sem levantar os olhos.

"`Para o caso da herança, acho que sim!', respondeu Gustavo, olhando-a fixamente, com uma expressão inquiridora.

"`Quer dizer que, quanto ao mais, não é a mesma coisa?', insistiu Clara com a mesma expressão meio penosa e ainda de olhos baixos.

"`O que é que você quer dizer com isso?', perguntou Gustavo com voz surda.

"`Eu, não quero dizer nada! No entanto, veja que você mesmo, quando falou dele ainda há pouco, não disse o rapaz que morreu, e sim o rapaz que desapareceu.' "`Tanto faz uma coisa como outra, e era o rapaz que morreu que eu queria dizer, porque não há mais dúvida de que Sinésio morreu mesmo!', disse Gustavo, pronunciando com dificuldade o nome do desaparecido. `De qualquer modo, se ele um dia aparecesse, você ainda se consideraria noiva dele?' -Não sei!', falou Clara, como se o assunto também lhe fosse penoso e sempre sem levantar os olhos.

"`Aliás, segundo você me disse', insinuou Gustavo, numa meia-pergunta, `não houve propriamente um noivado comum e firme, entre vocês dois, porque o pedido feito por ele foi feito a seu Pai e de modo inteiramente inesperado. Aliás, feito por ele, não, feito pelo Pai dele! E foi seu Pai quem concordou, não foi isso mesmo?' "`Foi!', assentiu Clara.

"`E, caso ele aparecesse, você se acharia na obrigação de manter a ele essa palavra, dada por seu Pai, cinco anos atrás?' "`Não sei!', repetiu Clara. `Qual é a opinião de meu Pai? Você falou com ele a respeito disso?' "`Falei muito por alto, porque, por culpa sua, Clara, eu não tinha uma atitude definitiva na qual me basear para falar com ele sem indiscrição de minha parte!', disse Gustavo; e como Clara deixasse passar sem comentário aquelas palavras, por culpa sua, que ele acentuara de propósito, continuou: `Falei com seu Pai somente por alto. Ele me contou que você tinha noivado com esse Sinésio com o consentimento dele e atendendo a um pedido, feito por carta, do Pai do rapaz. Naquele tempo, o Pai de Sinésio e o seu eram sócios e amigos, de modo que o consentimento era quase obrigatório! Seu Pai me deu a entender, porém, que, com a morte do Pai, a desaparição do filho, e as modificações havidas nas relações entre as duas famílias, ele se considerava desobrigado em relação a esse noivado. Mas falou somente quanto à parte pessoal dele, é claro; disse que, quanto a você, só você mesma poderia decidir!', concluiu ele; e, vendo que Clara se mantinha em silêncio, um lampejo de fria cólera passou por seus olhos. Mas ele logo se dominou, graças a sua boa educação. Depois de uma pausa, falou de novo, perguntando: "`Você já se decidiu?', o que disse forçando sua natureza e seus hábitos de perfeito cavalheiro, uma vez que, formulando essa pergunta, não deixava de incorrer numa intromissão direta na vida íntima de Clara. Mas a moça fugiu, de novo, a uma resposta direta: "`Não sei!', disse ela, lentamente. E acrescentou, pesando as palavras: `De qualquer modo, esteja Sinésio vivo ou morto, fique eu noiva dele ou não, casasse ele comigo ou não, isso não significaria nada diante do juramento que eu e você fizemos, não é mesmo?' "Parece, Senhor Corregedor, que havia qualquer coisa de envenenado nas últimas palavras de Clara. Gustavo empalideceu muito além do que já era, ficando com um ar de sonâmbulo. Seus lábios, normalmente vermelhos daquela maneira desagradável a que já me referi, estavam inteiramente descorados, e foi assim que ele falou: "`O nosso juramento! Você o manteria, de qualquer modo?' "`Sim, estou disposta a mantê-lo de qualquer maneira! E você?' "`Também! Sou capaz de repetir as palavras dele, agora, diante de você, como uma renovação de votos! É o sagrado juramento corintio da nossa Ordem da Esmeralda do Graal, o juramento dos nobres, dos raros e dos poucos!' "Então, Senhor Corregedor, depois dessas palavras estranhas, sempre com um ar meio esquisito de possesso do `mal sagrado', Gustavo tirou um pequeno Evangelho ou Missal do bolso interno do paletó e recitou as seguintes palavras, que, instruído pela velha parenta, localizei e copiei: `0 corpo não é para a fornicação, mas para o Senhor, e o Senhor é para o corpo. Fugi da fornicação. Todos os outros pecados que o homem cometer, são cometidos fora do corpo; mas aquele que comete fornicação, peca contra seu próprio corpo. Digo que seria bom para o homem não tocar em mulher alguma! Porque eu quero que todos vós sejais como eu mesmo (que não toco em mulher). Digo também aos solteiros e às viúvas que é bom para eles permanecerem assim (castos) como eu. O homem que está sem mulher, está cuidadoso das coisas que são do Senhor, de como há de agradar a Deus. Mas o homem que está com mulher, está cuidadoso das coisas que são do mundo, de como há de causar prazer a sua mulher. E assim, anda dividido. E a mulher solteira e virgem, cuida nas coisas que são do Senhor, para ser santa no corpo e no espírito. Mas a mulher que é casada, cuida nas coisas que são do mundo e de como dará prazer a seu marido. Assim, aquele que casa sua filha virgem, faz bem. Mas aquele que não a casa, faz melhor!'"

- Quando Gustavo acabou de dizer essas palavras, Senhor Corregedor, Clara estava olhando para ele com uma expressão também estranha e enigmática. Ninguém poderia dizer o que estava se passando exatamente por trás daqueles belos olhos azuis, naquele momento mais frios do que de costume - se zombaria, se uma fria aversão, ou se amor. Talvez fosse uma mistura de tudo isso. Entretanto, ela não fez nenhum comentário sobre o que ouvira. Como se lhe tivessem ocorrido outras lembranças, situadas numa outra ordem de idéias, perguntou: "'E minha irmã Heliana?' "`Que é que tem Heliana?', indagou Gustavo, um pouco surpreso com a mudança de rumo da conversa.

`Você esteve com ela?', insistiu a moça.

"`Não, não estive propriamente com ela! Tentei falar-lhe, uma vez, mas ela fugiu.' "`Onde estava ela, quando você a viu?' "`No pátio da casa, perto da amurada que dá vista para o mar, lá embaixo. Estava olhando para longe, com expressão distraída, na direção de quatro ou cinco barcaças que estavam ali ancoradas, com as velas frouxas mas ainda não enroladas. Que beleza é a frota de barcos de seu Pai, Clara! As barcaças mais comuns daqui são menores e têm as velas feitas de pano branco. As dele, vindas do Rio São Francisco, como ele me explicou, são enormes, com velas coloridas e com figuras rostrais esculpidas em madeira, na proa. Para lhe ser franco, confesso que sinto até uma sensação de prazer, só em falar nisso! É como se nos transportássemos para os tempos heróicos do nosso País, o tempo dos Conquistadores! Pois Heliana estava ali, sentada naquela saliência que serve de banco à amurada, parecendo, ela também, uma figura fora do tempo, olhando cismadoramente para o Mar verde-esmeralda e azul-turquesa, lá embaixo. Estava com ela a mulher que lhe faz companhia.' "`Chama-se Maria Elvira!', explicou Clara. `O trabalho de Maria Elvira é somente esse: fazer companhia a Heliana para atender a seus caprichos e, ao mesmo tempo, tomar conta dela. Mas, por favor, conte como tudo se passou!' "`Eu fiquei um instante parado na porta da casa, depois de tê-la avistado. Ela parece que me pressentiu, porque, de repente, voltou a cabeça, meio assustada, ergueu-se e depressa, quase correndo, de olhos baixos, fingindo que não tinha me visto, atravessou o pátio e desceu pela escada, saindo do Forte. Você me desculpe eu falar assim, mas ela corria com uma expressão meio selvagem, meio arisca... Não sei, também, se deva lhe contar o que aconteceu depois. .. ' "Por quê?', indagou Clara, franzindo o cenho, mas deixando transparecer, a contragosto, uma certa inquietude no rosto.

"`Você me conhece e sabe que estou lhe falando com o coração nas mãos, de maneira que entenderá, também, que só falo disso porque é a você! Acredite, Clara: sinto até uma sensação de culpa por ter seguido sua irmã, apesar de ter feito isso quase inconscientemente, num impulso! Foi um gesto quase instintivo, de minha parte, aquele de procurar quem parecia fugir de mim! Outra coisa que posso alegar em meu favor é que eu não tinha a menor idéia do que ia se passar! Depois, pensando naquilo que tinha feito, outra coisa que me intrigava era o fato de eu ter evitado que Heliana visse que estava sendo seguida por mim. Por que fiz isso? - tenho me perguntado muitas vezes, de quartafeira para cá. Encontrei duas causas para esse comportamento, tão estranho a meus modos. Primeiro, logo no começo, foi o temor de que Heliana, vendo-me, fugisse de novo, antes que eu pudesse falar com ela, e eu queria muito saber como era a única irmã que você tem. Depois, do meio para o fim, foi a obscura consciência, que começava a me inquietar, da indiscrição que eu estava cometendo! Daí em diante, eu já ficaria era profundamente envergonhado, se fosse surpreendido espreitando Heliana, que defendia sua solidão de modo tão evidente e selvagem. Foi aí que me escondi para que, quando ela se afastasse mais, eu pudesse voltar à Fortaleza sem ser visto por ela. Infelizmente, porém, foi esse também o instante em que Heliana tinha chegado ao lugar que talvez buscava, de modo que ela parou, com Maria Elvira, e eu fiquei encurralado por trás das moitas em que tinha me escondido, obrigado, já, agora, a cometer até o fim a indiscrição da qual há pouco queria fugir. As duas pararam junto a uma espécie de monte de pedras, pedras de tamanho médio, escuras, entulhadas uma por cima das outras, numa encosta situada não muito longe do Mar.' `Heliana estava com alguma coisa nas mãos?', interrompeu Clara, erguendo os olhos e quase ansiosa, ao ouvir a referência de Gustavo ao monte de pedras.

"`Não!', respondeu Gustavo. `Mas a mulher, Maria Elvira, tinha, no caminho da Fortaleza até ali, tirado um pequeno galho de mato, do qual tirara as folhas com um canivete, arrepiando-lhe a casca em tiras, com a lâmina, perto da ponta da varinha.' "'Então, já sei o que aconteceu daí em diante!', disse Clara, parecendo mais aliviada. `Isso que você viu Maria Elvira fazer é um hissope, como a gente chamava, quando éramos pequenas. Vou lhe dizer como tudo se passou, quer ver? Quando elas chegaram junto das pedras, começaram a procurar casas de abelhas, enxuís que por ali se encontram, na loca de alguma pedra maior ou nos buracos formados por duas ou três das menores, amontoadas!' "`Foi isso mesmo!', concordou Gustavo, surpreendido ao ver Clara adivinhar tudo.

"`Elas acharam as abelhas?', perguntou Clara.

"`Acharam, sim!' "Então vou dizer o que houve depois. Maria Elvira deve ter acendido fogo para fazer fumaça e espantar as abelhas.' "`É verdade!', confirmou Gustavo. `O cheiro bom das folhas e madeiras mal queimadas chegava até o lugar em que eu estava escondido. Mas será que você sabe até o que aconteceu depois?' "`Daí em diante, é fácil adivinhar!', disse Clara, agora segura. `Depois de darem bastante tempo às abelhas para que saíssem, tonteadas pela fumaça, Heliana enfiou a varinha no enxu, e as cascas arrepiadas saíram, todas, molhadas de mel. Ela costuma fazer isso desde menina, é louca por mel de abelha, que ela dizia ter gosto misturado de flor e de sol!' "`E você sabe o que é que ela faz com o mel, depois de tirá-lo assim?' `0 que ela faz?', pergunta Clara, perplexa.

"`Bem, pelo menos o que ela fez! Não sei nem como lhe contar isso, eu não devia ter falado!' "`Não conte!', falou Clara, agora entregando-se ao desânimo e à inquietude. `Lá em casa, nós já estamos todos habituados com as estranhezas de Heliana! Não é que eu tenha vergonha nenhuma dela; não acho nada censurável no que ela faz, mesmo quando os outros acham que aquilo é mais do que esquisitice! Vá, diga: o que foi que Heliana fez, então?' "`Desabotoou o vestido!', disse Gustavo com uma expressão falsa e desmentindo, com ela, a resistência que afirmara sentir em contar tudo. `Depois de desabotoá-lo, abriu-o no peito e começou a passar o mel no busto! Nos seios! Para ser mais preciso, nos bicos dos seios!', acrescentou ele com um sorriso forçado, desagradável. `Ela ficou assim, passando o mel nas aréolas, devagar, uma porção de tempo, parecendo distraída e sonhadora. Não sei se era por efeito da luz, mas, do lugar em que eu estava, ela me parecia pálida, com os cabelos compridos soltbs nos ombros, finos, estirados e levemente agitados pelo vento que soprava do Mar. De que cor é o cabelo dela, Clara?' "`Castanho-claro e, como você pressentiu de longe, muito fino o leve. Mas ela não é propriamente pálida, é alva como eu, se bem que não seja loura!', explicou Clara, aliviada por poder desviar o assunto.

"`Foi a impressão que eu tive, pelo menos assim como pude vê-Ia, de passagem e de longe!', disse Gustavo. `Mas os olhos dela são da cor dos seus?' "`Não, são verdes! Ou melhor, são azul-esverdeados! Verdeazulados! Afinal, como é que se diz?', disse Clara, tentando sorrir. E acrescentou, com tristeza: 'Eu lhe peço desculpas, por ela!' "'Desculpá-la, eu? Não, de modo nenhum! Eu sou quem devo lhe pedir desculpa! Aliás, só estou lhe contando isso para, de certa forma, me explicar e me desculpar perante sua família! Eu nunca poderia desconfiar de que iria ver alguma coisa desse gênero!' "`Eu sei!', concordou Clara. `Nós já temos passado por outras situações semelhantes, todas constrangedoras. Heliana sempre foi meio estranha e selvagem, desde menina! Eu me acostumei, e posso dizer que, de certa forma, já posso aceitá-la como ela é. Meu Pai, coitado, é que só falta morrer de desgosto! Acredito que, diferentemente do que você pensou, não foi por espírito de Conquistador ou por fidelidade racial que ele foi morar em São Joaquim, não! É por causa de Heliana que ele prefere viver isolado, naquela Fortaleza afastada, longe de todo mundo! É por causa dessas coisas que, de vez em quando, ele manda Heliana, somente com Maria Elvira como companhia, de barcaça, para Nazaré do Cabo, em Pernambuco, para Penedo, em Alagoas, ou mesmo para o Sertão das Piranhas, onde nós temos uma fazenda. No Cabo, em Pernambuco, existe uma Fortaleza parecida com a nossa, lá, de São Joaquim da Pedra. Meu Pai tentou comprá-la também, para fazer dela outra das nossas moradias. Era conveniente porque ela fica em cima, mesmo, das pedras da Barra do Rio Suape, onde nossas barcaças têm porto e fazem escala. Mas ele não conseguiu comprar a terra da Fortaleza, de modo que ela ficou lá, arruinada, sem restauração. Então meu Pai comprou um terreno alto, perto do Forte, e, defronte da velha Fortaleza, construiu uma casa assobradada. As vezes, nós passamos tempos nesta casa do litoral de Pernambuco, principalmente quando meu Pai precisa controlar melhor as viagens e as cargas das barcaças. Eu evito sempre de ir para lá, já me basta o isolamento de São Joaquim! Mas Heliana adora essas viagens, e meu Pai aproveita esse gosto dela para distraí-la e, ao mesmo tempo, para evitar que ela passe muito tempo num lugar só. Porque, quando acontece isto, Heliana termina sempre fazendo alguma coisa no gênero do que você viu!', disse Clara, com alguma tristeza.

"`Seu Pai prefere você a Heliana, não é verdade?' "`Não sei, talvez. Pelo menos, parece que é o que todos pensam!' -Foi o que concluí, pelo que pude observar e também por certas palavras que ele deixou escapar.' "`Talvez não seja propriamente uma preferência! É que eu sou mais razoável e também muito mais parecida com ele!' "`Notei isso, é estranho!', disse Gustavo, olhando Clara diretamente nos olhos. `Você se parece terrivelmente com seu Pai!' -Terrivelmente? Terrivelmente por quê?' "`Não sei! Acho que disse terrivelmente no sentido de demais. De qualquer modo, foi como elogio que falei, porque, para mim, dizer que você parece com seu Pai é elogio!' "`Para mim, também! Já Heliana, todo mundo diz que ela parece mais com minha Mãe quando era moça, se bem que todos dizem, também, que minha Mãe era muito menos bonita! Minha Mãe era uma pessoa assim, isolada no meio dos outros, como Heliana, se bem que não tanto! De qualquer modo, foi bom que você tivesse visto Heliana como viu, porque, assim, não fica mais enganado!' "`Enganado em que sentido?', perguntou Gustavo, empalidecendo novamente e contraindo tanto as mãos que agarravam a bengala que os dedos embranqueceram. 'O que é que você quer dizer com isso?' -Você poderá ' assim, de olhos abertos, pesar, os prós e os contras da sua amizade comigo!' "`Ninguém pesa os prós e os contras de uma amizade, Clara!', disse Gustavo com a voz meio estrangulada. `Agora, se você dissesse amor, aí seria diferente!' "`Amor?', disse Clara, quase com ironia. 'Eu fiz o juramento dos raros, dos nobres e dos poucos, de modo que sou proibida de tocar em todas essas coisas! Além disso, não sei se sou noiva ou não, porque esse Sinésio que eu só vi uma vez, há cinco anos, e com quem meu Pai contratou meu casamento, muita gente acredita que ele ainda está vivo!' "'Você, Clara, quando quer, sabe dizer as maiores crueldades!', disse Gustavo pondo-se ainda mais lívido.

"'Você também! Acho mesmo que foi com você que aprendiisso e muitas outras coisas mais!', retrucou Clara no mesmo tom. `De qualquer maneira, para mim e para você, e até para Sinésio, caso ele volte um dia, será a mesma coisa, tanto faz que eu seja noiva ou não! Casada ou solteira, casada com Sinésio ou com qualquer outro, eu só daria a ele, ou a esse outro, o amor coríntio, que é puro e casto e que, portanto, pode ser dividido, sem magoar ou ferir ninguém!' "Gustavo olhou para Clara sem dizer nada, Senhor Corregedor. Estava ainda muito pálido e a mão que conduzia a bengala continuava contraída como uma garra, sobre o castão de prata. Ele inclinou a cabeça, como num assentimento, mas não disse mais nada. Ficou com o rosto voltado para fora, olhando a desolada e áspera paisagem do Seridó, coberta de pedras, galhos secos e cardos. A paisagem corria ante seus olhos, com a velocidade do automóvel. E, naquele mesmo instante, Sinésio entrava na rua, montado em seu cavalo branco."

FOLHETO LXVIII

O Caso do Cachorro Malcomportado Quando acabei de contar isso, o Corregedor estava me ouvindo com uma cara meio dura. Perguntou: - Dom Pedro Diniz Quaderna, isso tudo o que o senhor contou agora é verdade, mesmo, ou é "estilo régio"? - Bem, Senhor Corregedor, como eu já disse, soube de todas essas histórias por intermédio de terceiros, e, "como dizia a vaca quando começou a correr atrás de Mestre Alfredo, quem conta um conto aumenta um ponto". Assim, não seria nada demais que eu, por minha vez, aumentasse meu ponto, pois é, mesmo, uma característica das Epopéias essa de seu fogo vir sempre coberto de fumaça. Mas, como "não há fumaça sem fogo", o senhor tenha paciência, "compre cinco tostões de cá-te-espero" e, no fim, com a argúcia jurídica e gaviônica que todos lhe reconhecem, poderá decifrar, com os elementos que estou lhe fornecendo, a estranha Desaventura de Sinésio, o Alumioso e Quaderna, o Decifrador, na Demanda Novelosa do Reino do Sertão! Uma explicação, porém, preciso lhe dar. Já lhe contei que meu Pai me transmitiu sua enorme admiração por José de Alencar. Foi exatamente quando eu começava a aprender com meu Padrinho, João Melchíades, a "Arte da Poesia". Eu já estava furiosamente entregue à leitura dos folhetos, quando li O Guarani. Por isso, entendi logo que, na história de José de Alencar, havia um Rei, Dom Antônio de Mariz, acastelado no seu Solar do Paquequer; uma Princesa loura chamada Ceci; outra morena, chamada Isabel; havia um escudeiro e uma guarda de Doze Pares de França -do Cordão Azul, comandada por Álvaro de Sá. Havia um Príncipe mouro-vermelho, Peri, e os Tapuias-aimorés eram uma espécie de Cavaleiros descalços e Arqueiros, pertencentes ao Cordão Encarnado. Depois, instruído por Clemente e Samuel, vi Joaquim Nabuco escrever sobre José de Alencar, dizendo: "Cecília é um tipo mal esboçado, uma criança que devia fechar melhor a janela à noite (para não estar atraindo a sensualidade brutal de Peri e Loredano com seus encantos). Ninguém sabe se ela amou, ou não, Álvaro de Sá, nem por que amou Peri. Esse Anjo está muito perto de ser um monstro, apesar de seus grandes olhos azuis. Cecília tinha dezoito anos quando se resolveu a acompanhar o Tapuia de tez de cobre para viver com ele no Deserto. Todos querem saber o que vai ser da filha de Fidalgos que se abandona assim a um selvagem, apesar de todo o rubor que lhe tinge de uns longes cor-de-rosa as linhas puras do colo acetinado. Sua prima Isabel tem mais pudor, talvez, mas é de uma sensualidade desenfreada. Mesmo quando ela tinha somente na fisionomia a alma do amor, era já de uma sensibilidade tal que o leve roçar da espiguilha no seu colo aveludado (o da outra era acetinado!) causava-lhe sensações voluptuosas. Isabel é uma bacante. O Senhor José de Alencar só pensou, ao criar essas duas, em formar esse eterno contraste de suas heroínas, as morenas e as louras". Joaquim Nabuco dizia, ainda, que, na obra inteira de José de Alencar só se via era essa eterna e cansativa oposição, "o Corpo com seus instintos de Fera, e a Alma, com sua castidade. O Jumento e o Anjo alternam-se a cada instante, as duas naturezas, a animal e a divina". Depois que li tudo isso, Senhor Corregedor, tive uma iluminação! Vi que, na história de Sinésio, havia uma Princesa loura como Ceci, que era Clara, e outra morena como Isabel, que era Genoveva Moraes. E tomei conhecimento doutra Princesa cuja biografia é narrada também por José de Alencar: é Lúcia, ou Lucíola. O maior encanto, o maior enigma dessa mulher é que ela tem duas naturezas separadas, a de Anjo casto e a de Jumenta no cio. Quando se revelava, nela, a natureza de Anjo, diz José de Alencar que "tudo era branco e resplandecente como sua fronte serena: por vestes, trazia somente cassas e rendas, por jóias, somente pérolas; nem uma fita, nem um aro dourado manchava essa nítida e cândida imagem". Mas, quando aparecia a natureza de Jumenta no cio, tudo era diferente. O narrador de sua história, que a possuiu uma vez, fala disso assim: "O penteador de veludo voou pelos ares, as tranças luxuriosas dos cabelos negros rolaram pelos ombros, arrufando-se ao contato da pele veludosa, e eu vi aparecer aos meus olhos pasmos, nadando em ondas de luz, no esplendor de sua completa nudez, a mais formosa bacante que esmagara outrora, com o pé lascivo, as uvas de Corinto. A posse foi delírio, convulsão de prazer tão vivo que, através do imenso deleite, traspassava-me uma sensação dolorosa, como se eu me revolvesse no meio de um sono opiado sobre um leito de espinhos. O prazer a estorcia em cãibras pungentes. Todo o vinho tinha lhe passado pelos lábios. Agitando as longas tranças negras, retraiu os rins num requebro sensual, imitando os mistérios de Lesbos e o rito afrodisíaco das virgens de Pafos. Mas seu amor era como certas plantas vorazes - a urze das paixões, o cacto selvagem dos nossos campos". Está vendo, Senhor Corregedor? Além disso, José de Alencar esclarece que, quando estava assim, como Asna selvagem no cio, as roupas de Lucíola eram inteiramente diferentes da cassa virginal e branca. Usava ela "um vestido escarlate, com largos folhos de renda preta, bastante decotado para deixar ver as suas belas espáduas. Júbilo satânico dava a essa estranha criatura ares fantásticos entre as roupas de negro e escarlate". Ora, apesar de toda a genialidade de José de Alencar, Joaquim Nabuco descobriu nele um grave defeito. Diz Nabuco, a respeito dessa contradição de Lucíola, que José de Alencar não tinha "o direito de dar uma vida independente, florescente de sensualidade, ao corpo, e uma outra, de virgindade e pureza, à alma". Foi aí que eu vi que podia ganhar minha luta com José de Alencar, porque, com a história de Sinésio, eu poderia ser muito mais completo do que ele, por causa de Heliana, Clara era como Cecília, Genoveva como Isabel: uma, loura e angélica, a outra, morena, ardente e no cio. Mas Heliana juntava tudo isso, não em contradição e separadamente, Senhor Corregedor, e sim em unidade, unindo a Verbena, a urze, a urtiga, o Vinho, o mel das abelhas, e o amor felino da Onça jovem e fêmea, isto é, o negro-escarlate da Paixão e a cassa da Pureza, ambas ardentes. De fato, pelo que pude ver e adivinhar de seu amor por Sinésio, assim era Heliana! E eu, tendo conhecido Heliana como meninae-moça e, depois, como moça e mulher, poderia dizer dela tudo o que José de Alencar disse de tantas outras, sempre separando em muitas o que, em Heliana, era espanto e unidade, fogo e canto do sangue. É que, quando eu e Sinésio vimos pela primeira vez aquela que seria a Dama e princesa de sua vida, ela estava com doze anos, a mesma idade da irmã de Lucíola. Era um fruto verde, como a Emília de Diva. Depois, "aveludada pela pubescência", despertava nela a mulher, na "atitude da corça arisca", assim como Gustavo pôde vê-Ia naquele dia, perto do Mar. O cabelo dela, era como se tivesse sido formado somando-se o louro de Ceci e Clara com o escuro de Lucíola e Isabel, para dar num cabelo castanho-claro, fino, macio, dourado. Seu amor era "vinho, fruto e chamas embebidas em mel" e era daí que se originava também a penugem macia e rara que lhe dourava as coxas "alvas mas amorenadas pelo Sol". Assim, tudo o que lhe disse é verdade e pode ficar documentado em seu inquérito. Mas é, também, estilo régio, e vai me servir, na minha Epopéia, para eu ser mais completo, modelar e de primeira classe do que José de Alencar! - Muito bem! Vá, então, adiante, a respeito dos outros acontecimentos importantes daquele dia! Continuei: - Bom, para contar o que aconteceu ainda de mais importante naquela Véspera de Pentecostes de 1935, devo agora seguir os passos de Arésio desde o momento em que ele soube da chegada de seu irmão Sinésio na Vila. Como já disse, Arésio, desde a noite de Sexta-Feira, estava desaparecido, ausente da casa dos Moraes, onde se hospedara. Ninguém sabia onde ele se encontrava, o que, aliás, era comum suceder com ele, de modo que ninguém estranhou isso, a princípio. Arésio às vezes metia-se no mato durante dias e dias, caçando, o que fazia com uma obstinação e uma ferocidade terríveis. Às vezes, viajava repentinamente, a cavalo, ou então de carro ou na carruagem que fora de seu Pai e que ele, estranhamente, conservava em uso, quando já ninguém andava mais assim, aqui na Vila. Nesse último caso, quando a viagem era feita de carruagem, podia-se, porém, saber que ele ia para uma velha casa arruinada, situada num cercado solitário e selvagem da fazenda dos Garcia-Barrettos. Outras vezes, em saídas que davam o que falar, na rua, durante dias e dias, Arésio organizava grandes "festas saturnais e orgiáticas" na minha "Estalagem à Távola Redonda". As "saturnais" tinham sido batizadas assim pelo Doutor Samuel Wan d'Ernes, que sempre participava delas para beber vinho às custas de Arésio, o qual, nessas ocasiões, entregava-se às fantasias mais desvairadas, às liberalidades mais extravagantes, às mais "enlouquecidas e delirantes dissipações", como dizia o genial Bardo brasileiro, Álvares de Azevedo. Era perigoso contrariá-lo nesses momentos. Não era aconselhável nem ao menos ficar nas suas proximidades, porque Arésio, inesperadamente e sem motivo, agredia, às vezes, o primeiro que aparecia, simplesmente porque não tinha gostado de um olhar insistente e curioso ou interpretara mal um gesto inocente e descuidado da pessoa. Mais de uma vez, Senhor Corregedor, eu o vi quebrar os móveis da "Távola Redonda", atirando-os contra as pessoas ou contra as paredes! - E o senhor não protestava não? - Não senhor! Primeiro, porque seria arriscado. Mesmo gostando de mim como gostava, lá à maneira dele, num momento como esses Arésio podia me desconhecer, e eu estaria gravemente ferido ou morto em dois tempos! Depois, ele pagava sempre em dobro, generosamente, todos os prejuízos que me dava. Finalmente, como, mesmo nos dias de "saturnal" comum e sem quebra de móveis, ele gastasse à larga, dando-me bons lucros, eu não me incomodava absolutamente com suas violências.

Margarida cochichou qualquer coisa no ouvido do Corregedor que se voltou para mim, dizendo: - Dona Margarida está falando, aqui, que foi por intermédio de Arésio que o senhor montou essa casa-de-recurso e tavolagem! É verdade? - É, sim senhor! Arésio sempre demonstrou por mini, em todos os dias de sua vida, uma estima inalterável, uma estima que ele, estranhamente e diferentemente de tudo o que se esperava dele, não me retirava, nem mesmo quando eu cometia certos atos e tomava certas posições que, em outro qualquer, ele consideraria crimes imperdoáveis. Ele sempre achou graça em mim, que fui seu companheiro mais velho, na "Onça Malhada".

- É verdade que, depois de aparecer o dissídio entre Arésio e o Pai dele, o senhor tomou o partido de Sinésio contra o do irmão mais velho? - É, sim senhor, e esse foi um dos tais atos de que falei há pouco. Arésio tinha uma profunda aversão, um ódio cerrado, intenso e irreconciliável pelo Pai e pelo irmão mais moço! Naquele Sábado, com o sol já descambando para o poente, enquanto o Povo sertanejo, sarapantado com tudo o que acontecera, começara a se aglomerar diante da velha casa dos Garcia-Barrettos onde Sinésio se fechara depois do incidente do cabra, o Bispo de Cajazeiras, Dom Ezequiel Veras, entrou em nossa Vila, passando, porém, quase despercebida a sua chegada, por causa do tumulto que dominava a rua. Chegou o Bispo e dirigiu-se logo para a Casa Paroquial, entrando pelos fundos da moradia do nosso velho Vigário, Padre Renato, varão encanecido e endurecido, desses de virtude antiga, implacável e sem contemplações. O Padre, que tinha mandado um mensageiro esperar o Bispo, a fim de que este já entrasse na Vila sabendo tudo o que estava acontecendo, trancou-se logo com Dom Ezequiel, a quem narrou, agora com todos os pormenores, o que sucedera até aquele momento. A entrevista do Vigário com Dom Ezequiel, foi secreta, não assistindo a ela nenhum dos Padres da comitiva do Bispo nem os dois Padres jovens que ajudavam o nosso virtuoso Pároco em seu trabalho entre nós, isto é, o Padre Daniel e o Padre Marcelo - É verdade que o Padre Renato tinha dificuldade de se entender bem com esses dois auxiliares dele? - É, sim senhor! - De qual dos dois ele gostava menos? - Acho que era do Padre Daniel, que era o mais cheio de idéias, o mais agitado, pelo menos no começo! - Anote isso, Dona Margarida, é muito importante! Pode continuar, Dom Pedro! - disse o Corregedor, já denotando uma familiaridade que me desagradou por um lado, mas que por outro me mostrou com o "Dom" já se tornara corriqueiro para ele, ligado ao meu nome.

Continuei: - O Bispo e o Padre Renato combinaram, então, que só fossem avisadas da chegada de Dom Ezequiel "as pessoas ricas, mais esclarecidas e mais responsáveis, da Vila". De uma em uma, cuidadosamente, a fim de não se chamar a atenção do Povo, deveriam elas ser convocadas para a Casa Paroquial. Foram logo encarregados dessa missão delicada o Sacristão, José Deda, e Siá Maria Cabocla, uma mulher que, por seu agarrado com os Padres da nossa Vila, era chamada zombeteiramente, ora de "A Padreca", ora de "A Sacristã". Passando da maneira menos notada que fosse possível, o Sacristão e a Padreca deveriam ir às casas escolhidas e determinadas por Padre Renato, recomendando às pessoas convocadas que viessem de uma em uma, pelos lados da Rua de São José e da Praça da Feira, de modo a evitar as proximidades da Rua Álvaro Machado e da Praça das Cavalhadas onde se encontrava Sinésio. Como o senhor pode imaginar, para a Aristocracia e a Burguesia urbana taperoaenses a chegada de Dom Ezequiel foi um desafogo. Todos, agora, sentiam-se meio protegidos, e a sensação geral de alívio foi resumida e expressa pelo Comendador Basílio Monteiro com a frase de que "O barco, com um bom timoneiro à proa, significava meio caminho andado, principalmente agora, quando todos pressentiam que havia, já, quem velasse nas trevas e indicasse, pela antiga lanterna da autoridade, a entrada segura para o porto". Assim, Senhor Corregedor, com as maiores cautelas, escondidas do Povo, foram se reunindo na Casa Paroquial as pessoas mais poderosas da nossa terra. Chegou o Comendador Basílio Monteiro, que tirara suas vestes suntuosas de Presidente da Irmandade das Almas para ser menos notado. Chegou a nossa querida Dona Carmem Gutierrez Torres Martins, ainda com as roupas de Presidenta Perpétua da "Vidacasta", acompanhada por seu marido, o velhinho Severo Torres Martins, e aqui por nossa cara Secretária, Margarida, filha dela, que bem pode contar essa parte da reunião.

O Corregedor voltou-se para Margarida e indagou: - É verdade, isso? A senhora compareceu, mesmo, a essa reunião? - Compareci, Doutor! - disse Margarida, baixando os olhos e pondo-se vermelha, pois já sabia que eu ia contar ao Corregedor tudo o que se passara com o Pai e a Mãe dela na Casa Paroquial.

O Corregedor voltou-se de novo para mim: - Está bem! Mas, mesmo Dona Margarida tendo ido lá, continue contando, você mesmo! Quero saber de tudo é através de suas versões e opiniões! Depois, se eu achar necessário, vou acareá-lo com as outras pessoas implicadas ou citadas no inquérito! Respondi, seguro: - Quem não deve, não teme, Senhor Corregedor! O que eu estou lhe contando é a pura expressão da verdade, e, desta vez, nem Margarida pode me desmentir nem duvidar do que digo, porque foi a Mãe dela quem me contou tudo! Mas, como eu vinha dizendo: chegou o Coronel Francisco Bezerra, homem pertencente a uma das mais antigas e fidalgas linhagens do Sertão do Seridó do Rio Grande do Norte. Chegou o Coronel Francisco Fernandes Pimenta, homem também pertencente a poderosa e grande família, espalhada pelos sertões do Sabugi e do Cariri. Chegou o Coronel Júlio Motta, da antiga linhagem dos Mortas, de Limoeiro. Chegou o Coronel Pedro de Farias Castro. Chegou o Coronel Joaquim Coura, de família pertencente às hostes do velho Partido Liberal, do tempo da Monarquia. Chegou o Coronel José Carneiro de Queiroz, com seu irmão, Manuel, ambos correligionários políticos do Coronel Coura. Chegou o Coronel Liberalino Cavalcanti de Albuquerque, parente de Clara e Heliana pelo lado materno. Chegou o Coronel Jocelino Villar de Carvalho, Chefe das antigas hostes monarquistas do Partido Conservador. Chegou o Coronel Deusdedit Villar de Carvalho, primo do outro, Deusdedit Villar de Araújo, mas seu adversário politico e mais conhecido, na rua, pelo nome de sua fazenda - Deusdedit do SeteEstrelo. E outros e outros, que seria fastidioso citar. Vossa Excelência, porém, não estranhe que, na lista, eu tenha deixado de me referir ao Prefeito Abdias Campos, ao Presidente do Conselho Alípio da Costa Villar, ao Professor Clemente e ao Doutor Samuel: apesar de poderosos, eram, todos quatro, meio suspeitos ao Padre Renato, uns por "anticlericalismo", outros por "indiferença religiosa" e outros, ainda, por "demasiada estranheza nos modos e no comportamento". À medida que chegavam, o Padre Renato, seus auxiliares e os Padres da comitiva do Bispo, iam atendendo a um e a outro como podiam, dentro das acomodações, meio monacais, meio "casa de solteiro", da Casa Paroquial. Esperava-se a chegada do último convidado, que tardava um pouco porque era o que morava mais longe. Enquanto o esperavam, estabelecera-se, na sala, aquele tipo de conversação, meio abafada mas animada, que precede o momento realmente importante das reuniões - casamentos, enterros, etc. Num desvão de janela, conversavam Dona Carmem Gutierrez Torres Martins e o Comendador Basílio Monteiro.

Margarida levantou os dedos da máquina, e falou com voz opressa: - Doutor, o senhor proíba esse homem de continuar falando! O Corregedor, surpreso, voltou-se para ela: - Parar? Por quê? - Isso que ele quer contar, agora, não tem interesse nenhum, para o inquérito! - Ah, não! - protestei. - Tem interesse, e muito! Se eu não contar tudo, depois o Doutor, aí, vai dizer que eu estou malintencionado, escondendo leite, feito vaca sem-vergonha! Não senhora, de jeito nenhum! Ou eu conto tudo, ou tomam nota de tudo, ou eu não assino meu depoimento, não tem que me faça! Doutor, eu tenho ou não direito de contar tudo o que considere importante? - Tem! - disse o Corregedor. - De que se trata, Dona Margarida? É algo inconveniente? Quer que eu chame outra pessoa para anotar o inquérito? Margarida curvou-se, vencida: - Não senhor, deixe! É melhor, mesmo, que seja eu quem ouça e anote tudo! - Pois então continue, Bibliotecário Quaderna! Quanto à senhora, Dona Margarida, não se incomode não: vou apurar tudo o todas as contas dessa gente vão ser ajustadas! Vá, fale, Senhor Quaderna! - disse o Corregedor, voltando ao tom cortante do início e tirando-me o título de "Dom" que já tinha se acostumado tanto a me conceder.

Continuei, com um suspiro: - O marido de Dona Carmem e Pai, aqui, da nossa Margarida, isto é, Severo Torres Martins, o velhinho arrumadinho e bonitinho de quem já falei a Vossa Excelência, estava perto da mulher dele e do Comendador Basílio Monteiro, mas não prestava atenção nenhuma ao que os dois diziam. Limitava-se a babar, lançando, de vez em quando, um olhar impaciente para os bolos o doces que estavam na saleta anexa, preparados desde a manhã, pelas mãos das beatas, para a chegada do Bispo. O velhinho não estava interessado em nada, a não ser nesses doces. Esperava, contido mas meio indócil, desde o meio-dia, que acabassem com aquela maçada de Cavalhadas, festejos, discursos e conversas inúteis, para que então ele se lançasse ao que verdadeiramente importava. Segundo Dona Carmem me contou depois, aqui a nossa Margarida, junto dele, vigiava-o com expressão ansiosa e atenta, temerosa que estava de que ele praticasse alguma coisa "que talvez cobrisse a família inteira de vergonha".

Aliás, aproveito a oportunidade para assegurar a Margarida que não havia razão nenhuma para esses temores dela de que o Pai "fizesse vergonhas à família": aqui na Vila, todos nós gostávamos muito do velhinho Severo Torres Martins, e contávamos, uns aos outros, as graças dele, mais ou menos como Pais afetuosos ou irmãos mais velhos contam as traquinagens do caçula. Afinal de contas, Senhor Corregedor, todos nós conhecíamos a situação surgida entre ele e a mulher! Dona Carmern Gutierrez era filha de um rico "corretor de açúcar" da Paraíba, homem que, depois de uma juventude rica e ociosa, entrara em decadência financeira. O casamento de Dona Carmem com o rico Fazendeiro sertanejo Severo Torres Martins - naquele tempo com quarenta e cinco anos e trinta anos mais velho do que ela - tinha sido a única solução encontrada para a ruína familiar dos Gutierrez. Dona Carmem, agora, em 1935, era mulher de quarenta anos. Usava, ainda, as modas e os atavios do tempo em que fora moça. Sra magra, de pernas finas e arqueadas. Usava uma franja que lhe vinha até os olhos. O resto dos cabelos, pretos e estirados, cortados à nazarena, ladeavam-lhe o rosto formando dois arcos negros que, partindo do alto da cabeça - onde se repartiam por uma risca - vinham até o meio das bochechas. Tinha o rosto e todo o corpo finos e magros, os olhos grandes, pretos e meio aboticados. E, como os braços eram, também, finos e arqueados, ladeando o busto magro, Dom Eusébio Monturo, homem de língua solta e irreverente, dizia que o enorme medalhão que Dona Carmem fazia pender sempre do pescoço de uma longa corrente de prata destinava-se a indicar às pessoas se ela estava de frente ou de costas. Eusébio costumava acrescentar: "Aquela mulher é toda entre parênteses! Tem a cara entre parênteses, por causa do cabelo. Tem o corpo entre parênteses, por causa dos braços de macaco raquítico. E, por causa das pernas finas, cabeludas e meio arqueadas para dentro, tem, até, a perseguida entre parênteses!" O Corregedor deu um salto da cadeira e, meio estuporado, sem 'saber bem o que dizia, gritou para Margarida: - Pra cadeia! Preso! Está preso! Margarida assombrou-se um pouco, pensando que aquilo era com ela. Perguntou, cautelosa: - Pra cadeia? Preso? Quem? - Ele, é claro! - rugiu o Corregedor. - Ele, o "Dom"! Está preso! Vá chamar os soldados, Dona Margarida! Apesar dessas palavras ameaçadoras do Corregedor, eu estava tranqüilo. Sabia que Margarida não suportava a Mãe, motivo pelo qual não ficaria verdadeiramente ofendida pelo que eu dissera.

Por outro lado, quanto ao Pai, ela quereria evitar escândalos maiores. Eu calculara exatamente até onde podia ir, e, de fato, não me enganei. Sem demonstrar aversão maior nem menor do que aquela que tinha comumente por mim, ela interveio: - Deixe isso pra lá, Doutor! Se esse homem for preso, vai haver escândalo, e, mesmo, como eu já disse, essas coisas não me atingem! O que eu quero saber é se isso que ele disse interessa para o inquérito ou não, se eu anoto ou não! - Anote, anote! Serve, pelo menos, para dar uma idéia do caráter desse homem! - Do meu, não! - protestei. - Do de Dom Eusébio Monturo, que foi quem disse esses disparates! Eu, por mim, nunca falei mal de Dona Carmem, que era minha amiga e também nossa companheira, nas reuniões e cavaqueiras literárias da Biblioteca, assim como colaboradora da página literária e charadística que eu mantenho na Gazeta de Taperoá! - É verdade isso, Dona Margarida? - perguntou o Corregedor.

- Isso, o quê? - Isso de sua Mãe ser intelectual e colaboradora do jornal desse sujeito! - É, Doutor juiz! Minha Mãe tinha essas manias literárias, que trouxe da Paraíba, e alguns espíritos perversos daqui exploravam essa fraqueza dela! - O depoente era um desses? - Era o Chefe! - disse Margarida com ar feroz.

- Não se incomode não, que o café dele está se coando! - falou o Corregedor, com ar de quem assumia um compromisso sagrado, e apesar do ditado que deixara escapar. - Pode continuar, Senhor Pedro Dinis Quaderna! - Muito bem, Excelência! Como eu ia dizendo: apesar desses atributos físicos a que já me referi, Dona Carmem usava aquele tipo de saia curta e blusa folgada na cintura e apertada nos quadris, ao modo de 1920. Costumava usar, também, um decote generoso que descobria o começo e o meio do busto magro, sempre protegido, em parte, pelo enorme medalhão do qual falava Dom Eusébio Monturo e que pendia da corrente de prata, pousando no lugar em que, normalmente, estaria começando o rego dos peitos, caso isso, nela, existisse um pouco mais. Era, talvez, por causa dessas roupas "ousadas" que lhe aconteciam tantas aventuras, ou melhor, que ela sempre escapava por um triz de ser vítima de alguma armada. Raro era o dia em que, saindo às ruas da nossa Vila, tão pacatas para as outras mulheres, Dona Carmem não chegasse em casa, ou na Biblioteca, contando um caso terrível que "quase" lhe sucedera. Aparecia sempre algum desconhecido, algum sertanejo bronco ou homem de maus costumes que a seguira e teria, mesmo, atentado contra seu pudor se ela não tivesse "tomado, a tempo, providências tão enérgicas". Outra característica importante da personalidade de Dona Carmem é que ela, aí por 1919 ou 20, fizera, com seu marido, pela Europa, uma viagem que, segundo o Professor Clemente, "não havia jeito de prescrever". A todo momento, essa viagem à Europa era invocada como apoio para as opiniões de Dona Carmem em casos de bom gosto, de teatro, de música, de moda e de literatura`. Pois bem: naquela noite, ela conversava com o Comendador Basílio Monteiro. De vez em quando, curvava-se profundamente, num gesto que lhe era habitual e que, conforme a necessidade, indicava, ora a profunda dor de que ela estava possuída ante uma comunicação dolorosa feita pelo interlocutor; ora um espanto enorme e mudo; ora uma vênia de respeito apesar das discordâncias que ela se reservava sobre as opiniões de quem falava; ora o riso ante uma "saída de espírito", um riso tão forte e convulsivo que ela não tinha forças para suportá-lo na posição vertical. Nesses momentos, os homens que tinham o privilégio de fruir da companhia de Dona Carmem costumavam, por mera curiosidade científica, espichar o pescoço e os olhos, tentando ver alguma coisa do que existia - ou não existia - abaixo do decote, pois, em tais momentos, é claro, o vestido se afastava do busto, deixando ver as profundezas. Infelizmente, porém, no momento exato, Dona Carmem costumava apertar o medalhão contra o peito com a mão espalmada, num gesto que parecia um mea culpa de Padre, em hora de Missa, de modo que, assim, ocultava da vista dos curiosos todas as surpresas que o vestido cobria.

- Deixe esses pormenores de lado e volte à história - disse o Corregedor severamente.

Obedeci: - Quem falava, agora, ali, na sala de visitas da Casa Paroquial, era o Comendador Basílio Monteiro, e o assunto era, como não podia deixar de ser, o importantíssimo sucesso da chegada, à nossa Vila, de Sinésio, ressuscitado e montado em seu cavalo branco.

`Eu nunca esperaria um acontecimento daqueles, minha cara Dona Carmem!', dizia o Comendador. `Confesso à senhora que, apesar de ser o homem ponderado que a senhora sabe, estive a ponto de ter um delíquio! Vou lhe dizer uma coisa: coisas como essas, só acontecem aqui, porque, infelizmente, este nosso Brasil é um País desgraçado! Num País decente, num País civilizado, como a Alemanha ou os Estados Unidos, uma coisa dessas não acontece, porque o Governo proíbe e toma, logo, todas as providências!' "`Sim, foi tudo tão inesperado!, disse Dona Carmem, acentuando a frase com o tom intelectual da revista Fronteira, curvando o peito e quase mostrando os ditos, daquela vez.

"`Qual foi a reação da senhora?', perguntou o Comendador, espichando os olhos no momento exato em que Dona Carmem interpunha o medalhão entre os caroços magros do peito e o rosto do homem, ansioso de curiosidade frustrada.

"`Ah, Comendador, não lhe conto! O senhor ainda não soube de nada?' "`Não!' "`É possível? Como se explica isso? Não lhe contaram a desagradável aventura que se passou comigo não?' "`Não senhora, Dona Carmem! Eu não soube de nada, absolutamente de nada!' "`Pois vai saber agora mesmo, meu caro Comendador! Eu estava, como o senhor sabe, no Palanque, quando aqueles homens . esquisitos soltaram as feras enjauladas no meio da Praça e começou o rebuliço! Senti uma fraqueza nas pernas, mas vi que, se desmaiasse, as Onças me comeriam, pelo que resolvi não desmaiar! Daí por diante, não sei mais, com exatidão, como as coisas se passaram: não sei se me tiraram do Palanque, meio desmaiada, não sei se saí sozinha, não sei se corri, não sei se me empurraram por causa do pânico geral. O que eu sei é que, quando dei acordo de mim, estava no beco que sai da Praça, parada, perturbada, imobilizada pelo terror, como acontece nos pesadelos, e sem saber que providência tomasse para escapar do perigo. De repente, eu me senti agarrada por trás, na altura dos quadris, ou, melhor, pela cintura e por mãos que, habituada como sou a essas tentativas, vi logo que não podiam ser de homem! Aliás, para ser mais precisa, vi logo que aquilo não era, de jeito nenhum, mão de gente! Apavorada, me virei para trás. Sabe o que era que estava me agarrando?' "'Era uma Onça!', disse o Comendador, com os olhos brilhando pela excitação da história.

"`Não, não era não, Comendador, e foi disso que me admirei! Naquele momento, ali, naquele lugar, a dois passos do local onde tinham soltado os bichos, o lógico, o natural, era que fosse uma Onça. Mas não era não, era um cachorro! Um cachorro grande, pardo, esquisito, mas um cachorro! Fiquei apavorada e não sei, mesmo, se acharei palavras para lhe contar o que se passou daí em diante!' "`Não, conte! Fique à vontade, Dona Carmem, a senhora está em casa! O que foi que aconteceu? O cachorro tentou mordê-la?' "`Não, ele não tentou me morder! Foi tudo muito esquisito, uma coisa muito estranha! Quando eu me virei, o cachorro tinha se agarrado em minha cintura com as patas dianteiras. As patas traseiras estavam no chão, e o senhor não imagina a situação embaraçosa em que fiquei quando, de repente, ele começou á fazer, com as ancas, uns movimentos estranhos em direção às minhas pernas e aos meus quadris! Ficou assim um bom pedaço de tempo, sem me soltar mas também sem me morder, e eu não sabia quais eram, na verdade, as intenções dele, ali, com aquela posição e aqueles movimentos estranhos! O pior é que, apavorada, eu não conseguia reagir nem me mover do lugar! Só depois que ele me soltou por sua própria vontade é que consegui reunir forças para fugir!' "`E o cachorro absolutamente não mordeu a senhora, Dona Carmem?', perguntou o Comendador, curioso.

"`Não, não me mordeu! Olhe, Comendador, eu lhe digo uma coisa: já tenho tido que tomar providências enérgicas contra várias tentativas estranhas de homens de vários tipos, porque não sei o que é que eu tenho que sou um verdadeiro visgo para atrair ousadias dessa gente! Mas, de todos esses momentos desagradáveis, confesso que este de hoje foi o mais estranho e embaraçoso de todos! A coisa foi a tal ponto que, quando ele me soltou, meu primeiro pensamento foi: "Atrevido desse jeito, esse cachorro não pode ser daqui, de jeito nenhum!"' "`Aí é que a senhora se engana, Dona Carmem!', contestou o Comendador. `A senhora fala assim, mas é porque ainda está pensando nos cachorros sertanejos do nosso tempo, uns cachorros mais educados e respeitosos do que esses cachorros perdidos, de hoje! Tudo, agora, é um fim de mundo, minha senhora Dona Carmem, e os cachorros de hoje em dia não respeitam mais ninguém, são, todos, influenciados pelo comunismo! A senhora não se admire mais de nada, porque, do jeito que as coisas vão, daqui a pouco até os cachorros sertanejos menos conceituados vão andar por aqui no maior dos atrevimentos! Se ainda fosse um cachorro de respeito, um cachorro civilizado, como os da Alemanha, ainda ia! Mas um cachorro reles desses, um cachorro qualquer, de pé-de-serra, sentir-se no direito de se escanchar nas cadeiras das senhoras, aí não, é demais! E a senhora vai ver, isso é somente o começo! Dagora em diante, tudo vai caminhar de mal a pior! Com esse impostor perigoso que chegou aqui, hoje, com essa ciganagam, com essa negralhada ladrona que lhe serve de acompanhamento, a desordem vai ter tal impulso, vai aumentar tanto, que daqui a pouco, uma senhora de respeito não vai mais poder sair para a rua sem que os cachorros atrevidos faltem com o respeito devido a ela! Isso, com os cachorros: das pessoas então, não quero nem falar! A senhora sabe que o molecório da Vila está todo assanhado? Soube o que se passou, hoje à tarde, com o nosso fotógrafo, Seu Siqueira, logo depois da chegada desse rapaz perigoso que ninguém sabe quem é, mas que está cercado pela negralhada cigana?' "`Não, não soube de nada!', disse Dona Carmem, aboticando ainda mais os olhos aboticados, para demonstrar interesse.

"`Pois eu lhe conto! Não sei se a senhora soube que, logo depois da chegada do impostor, apareceu na rua, puxado em cima de um carrinho, o tal do Nazário Moura, um velho doido que o pessoal ignorante daqui tem como Profeta e que começou, logo, a gritar disparates, aumentando a agitação! Mal ele acabou de gritar suas sandices - e de ouvir outras tantas de Pedro Cego - foi empurrado de volta, para fora da Praça, por sua filha, Dina-meDói, que é quem serve de cireneu ao Profeta! Quando eles chegaram perto da venda de Bino, o tal do Profeta Nazário Moura mandou a filha comprar fumo de rolo para seus cigarros. Aí, um bando de desocupados, assanhados pela chegada desse perigoso rapaz e chefiados por Piolho, um ajudante de padaria, empurrou o carro de ladeira abaixo. Seu Siqueira estava, naquela hora, tirando um retrato da velha viúva, Dona Francisquinha Gabão, que estava vestida de preto, de chapéu preto e de véu preto, com sombrinha preta fincada no chão e sentada, muito tesa e bem-composta, diante da máquina-de-retrato, na sala da frente da casa de Seu Siqueira que, como a senhora sabe, serve de oficina a ele. A senhora conhece tanto Dona Francisquinha como Seu Siqueira. Sabe que todos dois são muito moucos, de modo que não se espantará pelo fato de, naquele instante, eles estarem ainda inteiramente alheios à agitação e à balbúrdia que tomou conta da nossa Vila! Seu Siqueira é homem sério e ponderado, e tem, como todos nós, horror a esse ambiente que está subvertendo até os costumes dos cachorros sertanejos! Pois bem: naquele momento, Seu Siqueira estava, já, com a cabeça enfiada dentro da máquina de fole, equilibrada no tripé. As chapas e o foco estavam, já, quase prontos, e ele estava coberto com aquele pano preto dos fotógrafos. Foi exatamente nesse instante que o carro, impelido furiosamente de ladeira abaixo, ganhando velocidade e conduzindo o Profeta que vinha aos gritos, pedindo socorro, bateu no meiofio da calçada e projetou violentamente o tal do Nazário Moura para dentro da oficina de Seu Siqueira. O Profeta caiu com o corpo em cima da máquina e com os pés na cara do nosso honrado correligionário, que caiu no chão com a violência da pancada. Com as pernas reviradas para o ar, numa situação muito desagradável para se ficar diante de uma senhora de respeito, Seu Siqueira, sufocado pela indignação e pelo pano preto, gritou: "Chuva de aleijado! É o comunismo! Até agora, Dona Francisquinha, ainda suportei essas campanhas do comunismo contra os cidadãos pacatos, mas chuva de aleijado é demais! Vou me mudar". E eu soube, de fontes fidedignas, que a resolução dele é mesmo inabalável: vai se mudar para Patos, onde o comunismo também já está causando desordens, mas pelo menos ainda não chegou a esse extremo de jogar chuva de aleijados na cabeça dos cidadãos ordeiros e produtivos da sociedade! Agora, veja a senhora, Dona Carmem, se tenho razão ou não tenho, quando digo que, com essa negralhada e esses impostores que invadiram a nossa Vila, isso aqui vai ficar, mesmo, um fim de mundo!"'

FOLHETO LXIX

A Estranha Aventura do Cavalo Concertante Nesse momento, Senhor Corregedor, o marido de Dona Carmem e pai, aqui, da nossa Margarida, o velhinho Severo Torres Martins, que tinha deixado passar, aparentemente sem ouvi-las, a história do fotógrafo e a aventura desagradável vivida por sua mulher, conseguiu iludir a vigilância da filha. Marcou carreira para a mesa dos doces e, chegando lá, antes que pudessem impedi-lo, enfiou a mão no bolo maior, que estava pousado no centro da mesa. Tirou, assim, um grande punhado do açúcar que confeitava o bolo, encheu a boca e, ao mesmo tempo, com a maior destreza, meteu outro punhado de bolinhos menores e pastéis-denata no bolso. A nossa Margarida, com medo de escândalo maior, achou melhor, talvez, deixá-lo assim mesmo, de modo que o velhinho ficou na maior das felicidades, junto da mesa, de boca cheia, mastigando e lambendo os beiços, com a cara branca de açúcar. Coincidiu que, naquele momento, o Bispo foi passando por perto de Dona Carmem, que aproveitou a deixa. Outra das fraquezas dela era apresentar sempre o marido elogiando "o aprumo e a lucidez perfeita em que ele se encontrava, nos seus setenta anos fortes e espigados". Assim, ela falou para o Bispo: "`Dom Ezequiel, permita que eu beije a sua mão!', disse Dona Carmem, começando a se ajoelhar.

-Não, não se ajoelhe não, minha filha!', foi dizendo Dom Ezequiel.

"`Ah, não, de modo nenhum! Ajoelhada, faço questão da hierarquia e das genuflexões! Vossa Excelência certamente não se lembra de mim, sendo o homem ocupado que é e vendo tantas caras novas! Sou Carmem Gutierrez Torres Martins, Presidenta Perpétua das Virtuosas Damas do Cálice Sagrado de Taperoá, a Vida-Casta, como nós chamamos! Estive com Vossa Excelência em Patos, numa visita que o senhor fez lá. Fui a Patos naquela ocasião, chefiando a ala feminina da comitiva de Taperoá, que lhe foi prestar as devidas homenagens.' "`Ah sim, lembro-me perfeitamente da visita a Patos!', disse o Bispo, sem desmentir Dona Carmem, mas também sem se comprometer. `Como vai a senhora?' "`Vou muito bem, Excelência, e agradeço a Vossa Excelência o seu interesse, e a gentileza de se lembrar! Lembrou-se de mim nas suas orações, como lhe pedi? Não, não responda, é uma indiscrição minha perguntar isso, só agora me apercebo! Mas Vossa Excelência não conhece meu marido, Severo Torres Martins! Olhe, é este aqui! É um homem admirável, Dom Ezequiel, permita que eu tenha a corujice de falar assim! Severo está com setenta anos, mas faz gosto! Aprumado, duro, forte que é uma beleza! E, o que é mais importante, inteiramente lúcido! Severo, filhinho, fale aqui com Dom Ezequiel!' "`Ezequiel? Conheço! Não é o vaqueiro de Antônio Villar?', disse o velhinho, aproximando-se, lambendo os beiços sujos de açúcar e com os bolsos atulhados de sequilhos.

"`Filhinho, esse aqui é Dom Ezequiel! Dom Ezequiel, este é meu marido, Severo Torres Martins!', disse Dona Carmem, procurando não tomar conhecimento do equívoco do marido.

"`Muito prazer! Seu criado!', disse Severo estendendo educadamente a mão ao Bispo, de modo correto, se bem que um tanto ensinado.

"`Severo, beije a mão de Dom Ezequiel!', disse Dona Carmem, tornando-se mais animada à medida que via o marido se sair bem.

"Eu? beijar mão desse vulto? Por quê? Beijo nada!', falou Severo, com um tom displicente mas firme, inteiramente inesperado ante os modos do começo. E acrescentou: `Meu Pai já morreu: por que é que eu iria, agora, beijar mão de barbado? Só beijo se ele me der um doce!', concluiu ele, querendo logo aproveitar a oportunidade de aumentar sua provisão de sequilhos. e pastéis.

"O Bispo, Senhor Corregedor, que já estava começando a ficar meio intrigado, riu aliviado, julgando que Severo estava gracejando com o ditado popular, "não faço isso nem que você me dê um doce'. Dona Carmem, ou se iludiu também ou quis aproveitar o engano do Bispo para disfarçar e bater em retirada: "`Ah, Severo!', disse ela. `Já está você com suas brincadeiras, filhinho! Severo é assifn, Dom Ezequiel, não repare os modos dele não! Nos primeiros momentos de cerimônia, ele fica calado, mas depois, principalmente se simpatiza com a pessoa a quem está sendo apresentado, não se cala!' "Foi pior, Senhor Corregedor! Severo, pensando de novo nos bolos, deixara de prestar atenção ao sentido, de modo que só ouvia, agora, o zumbido das palavras da mulher. As duas últimas soaram em seus ouvidos como uma palavra só, sicala, uma palavra que, tocando em certas coisas, despertou, nele, uma porção de recordações misturadas, umas do Sertão, mas a maioria ligada à célebre viagem que ele e Dona Carmem tinham feito à Europa: "`Sicala?', indagou ele, pondo-se novamente alerta e vivo. 'Conheci, era um cavalo! Sicala era o cavalo de sela do Coronel Queiroga, de Pombal! E o que eu achei mais esquisito era ele ser, ao mesmo tempo, um cavalo e um teatro! Digo isso porque depois, quando a gente viajou para a Europa, eu e Carminha, a gente passou numa cidade da Itália, e o cavalo do Coronel Queiroga estava lá, com o nome de Sicala de Milão! Eu não me lembro direito como era não, porque, ali na Europa, a confusão é grande! Mas me lembro que era uma coisa assim: ou era o cavalo que tinha se virado num teatro, ou era o teatro que era um cavalo que cantava! Sei não, a misturada era grande! Mas eu me lembro bem que Sicala estava lá: não me lembro se tinha cabeça e rabo, mas tinha frente e fundo, isso tinha! O pessoal entrava pela frente e saía pelo fundo do cavalo, e eu só me admirava era de que um homem sério e sisudo, como o Coronel Queiroga, de Pombal, deixasse aquele pessoal estrangeiro tomar essas liberdades com o cavalo de sela dele! Digo isso porque, comigo, a coisa é outra! Por fundo de cavalo meu, eu não deixo nem entrar nem sair galego de qualidade nenhuma!' -Filhinho, que brincadeiras disparatadas são essas?', disse Dona Carmem, aflita, já arrependida de ter mexido naquela casa de maribondos. `Você, tão respeitoso, tão sério, tão lúcido, vir com essas conversas para o nosso Bispo?' "`Bicho?', perguntou Severo, intrigado. 'E esse vulto preto, aí, é um bicho? Que bicho é esse, Carminha? É um dos bichos que soltaram da jaula, agora de tarde? Se é, que diabo de qualidade de bicho é essa, que usa saia preta? Será uma burra preta que fala, como Sicala cantava? Ou é um macacão-de-cheiro, vestido de saia?' "`Filhinho, pelo amor de Deus!', disse Dona Carmem, mais morta do que viva.

"`Ah, já sei o que ele é!', continuou Severo, sem dar importância à interrupção e provando que estivera mais atento do que se pensara à conversa de sua mulher com o Comendador. `Já sei que qualidade de bicho é esse, aí! É um cachorro, um cachorro de circo, desses que aparecem de saia, nos Circos, pulando fogo! Uma vez, passou um Circo aqui, e lá eu vi um cachorrão grande, vestido de saia, engraçado, que pulava uns arames de fogo! Você se lembra, Carminha? E era um cachorro grande, de saia, quase do tamanho desse tal Ezequiel, aí! Agora, uma coisa eu lhe digo, Carminha: abra o olho com esse cachorro de saia preta, porque esses cachorros de Circo são espertos e safados como o Diabo! Não vá ser esse, aí, o cachorro que fudeu você, no beco, hoje de tarde!"'

Aproveitando os dois segundos de estupefação do Corregedor, nobres Senhores e belas Damas que me ouvem, eu disparei, falando na carreira, para evitar a repreensão e mesmo a Cadeia que, infalivelmente, se seguiria, caso eu desse oportunidade a que o espanto acabasse, começando a indignação: - Como Vossa Excelência vê, Senhor Corregedor, o Pai aqui da nossa Margarida tinha voltado ao estado de inocência da infância e era isso o que o tornava tão estimado de todos nós, nenhuma pessoa daqui levando a mal ou estranhando nele aquilo que, noutros, seria inconveniente. O Bispo Dom Ezequiel, que era uma pessoa boníssima, parece que entendeu tudo, também; e, não querendo deixar Dona Carmem mais aflita do que já estava, aproveitou a entrada dos dois últimos convocados que vinham chegando, e afastou-se discretamente. O pessoal, pressentindo que a reunião, mesmo, ia enfim começar, fez logo um silêncio cheio de tensão. O Bispo colocou-se na cabeceira da grande mesa oval que servia para as reuniões da Irmandade, tendo, à direita, o Padre Renato e o Padre Marcelo, e, à esquerda, o Padre Daniel e o Comendador Basílio Monteiro que, na qualidade de Presidente da Irmandade das Almas, tinha o privilégio de iniciar, junto aos Padres, o grupo dos leigos. Aliás, como Presidente da Irmandade, o Comendador estava se sentindo ali como uma espécie de anfitrião; foi explicando isso que começou suas palavras nos seguintes termos "`Excelentíssimo e Reverendíssimo Senhor Bispo, Reverendos Padres, minhas senhoras, meus senhores! Na qualidade de Presidente da Irmandade das Almas e como filho natural da nossa Vila, sinto-me no dever de iniciar a reunião, como pessoa humilde que recebe, em sua casa, pessoas ilustres e importantes! Acontecimentos da mais alta gravidade sucederam-se e estão acontecendo ainda, em nossa Vila. E, parece que por um decreto emanado das profundezas insondáveis da Providência Divina, acontece tudo isso, por sorte nossa, no mesmo dia em que devia chegar aqui essa figura de Pastor e Prelado que é o Bispo Dom Ezequiel, figura exemplar de antístite paraibano. Não preciso dizer a todos

que a situação do nosso País é gravíssima. O Comunismo, lobo disfarçado de ovelha, prepara seu assalto às instituições, e somente os cegos é que não viram, ainda, o perigo que nos cerca por todos os lados, ameaçando retirar Deus dos altares, a Pátria do convívio das nações e a Família de sua posição inabalável de centro da sociedade. O Chefe escolhido e confesso desta, agitação é aquele mesmo homem nefasto, já conhecido de todos nós desde que, em 1926, passou pelo Sertão da nossa pequenina e gloriosa Paraíba, ensangüentando o solo sagrado da nossa terra com o sangue dos mártires, dos Sacerdotes, das pessoas ordeiras e pacatas. Que o diga o sangue do Padre Aristides Ferreira Leite, degolado em Piancó pela "Coluna Prestes", juntamente com outros heróicos defensores da honra sertaneja. Mas, naquele ano de 1926, o nefando Luís Carlos Prestes agitava o Brasil não ainda em nome do Comunismo, mas sim movido por um ideal de certa forma elogiável, aquele mesmo ideal que veio a se corporificar e legitimar, depois, na gloriosa e vitoriosa Revolução de 1930'.

"Levado pelo som de suas palavras, Senhor Corregedor, o Comendador Basílio Monteiro tinha ido um pouco mais longe do que desejava, uma vez que a maioria dos presentes era pouco entusiasta da `gloriosa Revolução de 1930'. Mas 'o fogo sagrado do ideal e da eloqüência' se apossara, mesmo, do Comendador, de modo que ele continuou no mesmo tom: -Depois, porém, Luís Carlos Prestes abandonou, pelo Comunismo, a trilha que tinha seguido até ali! A bandeira que ele sustentava e conduzia caiu-lhe das mãos e veio recair nos braços do grande Herói paraibano que, hoje, passados cinco anos de sua morte, todos nós ainda choramos, o Presidente João Pessoa, o maior dos Brasileiros, "o incrível João Pessoa" - para usar a expressão do genial escritor Adhemar Vidal - o Mártir que ungiu com seu sangue as liberdades republicanas do Brasil!' -Muito bem!', disseram fracamente duas ou três vozes discretas, um pouco discretamente demais para o que esperava e desejava o orador, o qual, começando a se aperceber de que devia abandonar aquele terreno polêmico, voltou ao assunto principal: -Meus senhores! Todo mundo sabe que Luís Carlos Prestes, exilado do Brasil desde 1927, foi procurado pelos revolucionários, nas vésperas de 1930, para se colocar novamente à frente da insurreição que se preparava. Mas ele repeliu aqueles que o convidavam, porque, segundo suas próprias palavras, se convertera ao Credo vermelho e só acreditava, daí por diante, numa Revolução inspirada pelo Comunismo ateu, regime que ele faria tudo para implantar em nossa Pátria! Prestes não teve escrúpulos, então, de se apropriar de vultosa quantia em dinheiro que os revoltosos de 1930 tinham lhe entregue; e, desde aquela data, não houve um só dia em que ele não conspirasse e tramasse o assalto ao Poder. Todo mundo sabe que ele, vestido de Padre e com um passaporte falso, entrou novamente no Brasil, sob o nome de Antônio Villar. Todo mundo sabe que ele e seus companheiros estão conspirando na sombra, preparando uma Revolução para, talvez ainda neste nosso ano de 1935, tomar o Poder e instaurar uma República soviética em nossa Pátria. O fantasma vermelho do Comunismo ameaça-nos por todos os lados. Os cidadãos pacatos não podem mais trabalhar, porque os Comunistas e revoltados de toda natureza inventam, a toda hora, greves, picuinhas, agressões e atentados de todos os tipos, para perturbar o progresso e o trabalho produtivo e ordeiro. Hoje, mesmo, o honrado fotógrafo de nossa Vila, homem remediado e de boa família, sofreu um desses atentados; o mesmo, quase, pode-se dizer de uma das Damas mais ilustres da nossa sociedade. E por que se atrevem a tanto, os agitadores? - pergunto. Porque estamos invadidos e ameaçados, com os nossos campos talados e nossa Vila assaltada pela agitação. Sim, meus caros conterrâneos! Hoje entrou aqui, na nossa querida Vila de Taperoá, um grupo armado, que introduziu em nossa terra a desordem e o morticínio, ameaçando a vida dos Pais de família e a honra de suas filhas e esposas. Segundo os primeiros boatos, trata-se de uma tribo de Ciganos. Mas serão Ciganos, mesmo? Como se explica, então, o atrevimento com que se comportaram diante das autoridades? Os ciganos são gente matreira e sem confiança; mas são, também, subservientes, procurando sempre tratar bem as autoridades a fim de não serem compelidos a abandonar sua vida de vagabundagem e ladroeira! E, caso a versão seja verdadeira, todo mundo sabe que o Cigano Praxedes é homem perigoso, que já andou envolvido em mais de um caso misterioso, em mais de um crime, em mais de um atentado a bala. Digamos que são Ciganos: como se explica, então, que viesse com eles um Sacerdote, um Frade, um homem de Deus, quando todos nós sabemos que não se pode confiar na religião dos Ciganos? E além disso todo esse pessoal que chefia a tribo é, perdoem-me o vigor da expressão estranho e suspeito. Quem será esse tal Doutor Pedro Gouveia? Quem será esse Frei Simão, ou melhor, quem é o lobo vestido de ovelha que se esconde por trás desse nome, quando todos nós sabemos que não é o hábito que faz o Monge? E chego ao ponto nevrálgico da questão: quem será, na verdade, este rapaz que se apresenta hoje, aqui, com o nome daquele moço infortunado que morreu há três anos, em 1932, coroando, sua morte, a série de infortúnios e tragédias que se abateu sobre a ilustre família GarciaBarretto? Quem terá sido o homem que atirou nesse rapaz, morrendo logo em seguida, a tiro, de maneira tão misteriosa? A meu ver, esse atentado, ou melhor, esse simulacro de atentado, não passou de uma outra farsa, com a qual os Comunistas pretendem jogar areia e uma cortina de fumaça diante dos olhos das pessoas respeitáveis. A situação é grave, meus Senhores! Nosso País está dividido entre dois extremismos. A meu ver e salvo melhor juízo, um deles é mais perigoso, de modo que, apesar do conhecido equilíbrio das minhas posições, chego quase a dar razão aos que se ergueram na defesa de Deus, da Pátria e da Família. Mas, de qualquer modo, o fato é que os dois são, entre si, adversários implacáveis, assim como, para nós, inimigos irreconciliáveis das nossas instituições. O que sucedeu hoje, aqui, é, portanto, muito claro. Quem quiser formar sobre os acontecimentos de hoje uma idéia segura, basta verificar de que lado ficou, logo, a ralé, esse Povo indisciplinado, mal-educado e analfabeto que é a mancha vergonhosa da face do nosso Brasil. Na Inglaterra ou nos Estados Unidos, um fato desses não aconteceria! Pergunto: de que lado ficou esse Povo, ignorante, fanático e miserável? Do lado daqueles que invadiram nossa Vila nas caladas da noite! Logo, estes, e não os outros, é que são os revolucionários, e seus adversários 'devem receber todo nosso apoio! Ouçam meu brado dê alerta! Sim, porque o pior aqui, hoje, é a cegueira daqueles que, entre nós, deveriam ser as colunas, os sustentáculos da sociedade! Ninguém quer ver o perigo! A continuarmos assim, quando cuidarmos, estaremos com o inimigo dentro das nossas muralhas, com os cidadãos mais conspícuos da Pátria sendo fuzilados! Certamente acham que eu exagero! Mas pergunto-e repito: o Padre Aristides não foi fuzilado e sangrado em Piancó, em 1926, por essa mesma gente que agita e subverte, hoje, o nosso País? Assim, ninguém tenha dúvida! O que aconteceu hoje, aqui, é algo de muito grave! A Coluna suspeita que entrou em nossa Vila é um grupo Comunista armado, e o atentado cometido contra aquele que parece ser o Chefe deles só pode ter duas explicações: ou foi cometido por grupos extremistas adversários, ou, o que me parece mais provável, foi somente uma farsa, destinada a mascarar alguma dissensão interna, alguma condenação imposta por algum secreto Tribunal Revolucionário ao homem que morreu. É preciso colocar de sobreaviso os olhos que não querem ver e os ouvidos que não querem ouvir. Pouco antes da nossa reunião, ouvi algumas opiniões, colhidas aqui entre as melhores pessoas da nossa sociedade, a maioria achando que o acontecimento de hoje nada tem a ver com os Comunistas e a Revolução, que é somente uma briga de família. Todos sabem que fui, durante toda a minha vida, um seguidor da família Pessoa e do Partido Epitacista, herdeiro de Venâncio Neiva e do velho Partido Conservador, da Monarquia. Assim, fui sempre adversário da nobre família Garcia-Barretto. Mas adversário leal e sincero! Nada tenho a ver com os dramas que persegui ram essa ilustre família. O que me preocupa, portanto, nos acontecimentos de hoje, é tudo o que está oculto por trás deles. Dizem que a Coluna rebelde que invadiu hoje a nossa Vila nada tem a ver com a Revolução preparada pelos Comunistas. Dizem isso baseados no fato de que ela vem acompanhada por um Frade. Respondo, em contrapartida: assim como Luís Carlos Prestes entrou no Brasil vestido de Padre e com o nome de Antônio Villar, um dos seus homens de confiança pode ter vindo para o Sertão da Paraíba, vestido de Frade e com o nome de Frei Simão do Coração de Jesus. Além disso, mesmo que esse Frade fosse um verdadeiro Sacerdote, ungido e consagrado, de que garantia pode isso nos servir, num tempo em que o próprio Clero está infiltrado de revolucionários, principalmente entre os Padres jovens?' "Aqui, Senhor Corregedor, o Comendador Basílio Monteiro lançou um olhar fuzilante e denunciador contra o Padre Marcelo o o Padre Daniel. Segundo Dona Carmem me disse depois, notava-se. seu desejo de que esse olhar fosse anotado e sublinhado pelo Bispo. Dom Ezequiel, porém, era homem prudente e conciliador: ficou impassível, por não entender, por não ouvir, ou então por achar que a denúncia não era tão grave quanto o Comendador julgava. Este continuou: "`Pergunto, ainda, o seguinte: os Senhores não acham estranho que o rapaz, Chefe dessa Coluna que nos invadiu hoje, tenha indagado ao homem do atentado onde é que poderia encontrar Antônio Villar? Objetam-me que, aqui em Taperoá, na sua pacata fazenda "Panati", existe um fazendeiro com este mesmo nome, o nosso honrado Antônio Dantas Villar que, por sua posição social o por suas tradições de família, está acima de qualquer suspeita de Comunismo. Mas o nosso, o Antônio Villar que todos nós conhecemos, qualquer pessoa poderia tê-lo indicado ao rapaz do cavalo branco! Assim, não se explica que o homem que morreu tenha respondido que não sabia onde o tal Antônio Villar se encontrava! Indagam, ainda, os incrédulos: - Que interesse existe, para os Comunistas, em invadir e ocupar uma Vilazinha perdida e isolada no Sertão da Paraíba? Respondo, em primeiro lugar, que nossa Vila não é tão perdida assim, e nem o será nunca, a não ser que os Comunistas a botem a perder, de vez! Em segundo lugar, pergunto: - Que interesse havia, para Luís Carlos Prestes, em atacar Piancó, em 1926? Piancó é uma Vila mais longínqua, mais isolada e menos importante ainda, do ponto de vista estratégico, do que a nossa gloriosa Vila de Taperoá! Lembrem-se de que o nosso Cariri paraibano está situado a meio caminho, numa posição central e portanto estratégica, em relação aos dois maiores o mais importantes focos Comunistas do nosso Brasil, isto é, Natal, Capital do Rio Grande do Norte, e Recife, Capital do progressista Estado de Pernambuco! Em Natal e no Recife, o Exército está minado pela Revolução! Ao contrário, todos sabem que o Batalhão sediado na Capital da Paraíba, o nosso glorioso e invicto 22.11 Batalhão de Caçadores, é legalista e tradicionalmente fiel às instituições! Eis aí, então, o verdadeiro motivo de os Comunistas procurarem apoio, não na Capital paraibana, e sim no Sertão do nosso Estado. Dir-me-ão que, neste caso, seria mais lógico que eles escolhessem, para invadir, a Cidade de Campina Grande, a Rainha da Serra da Borborema, a mais progressista e importante do Sertão. Mas eu explico também, facilmente, o motivo de não terem, eles, agido assim: é que, havendo em Campina um Quartel e um Batalhão da Polícia Paraibana, a repressão seria imediata e violenta! Assim, era muito melhor fazer o que eles fizeram, atacando e invadindo uma Cidade menor, que provavelmente se entregaria sem luta, como de fato se entregou, podendo, agora, servir de base para o ataque, a Campina Grande primeiro, e à Capital depois! Não foi assim que agiu, em 1912, a Coluna revolucionária dos Chefes sertanejos, o Doutor Dantas e o Bacharel Santa Cruz? Está ainda em nossa memória a lembrança das cenas de saque, de sangue, de violência contra a vida e a propriedade, de assaltos à honra e ao pudor, cenas levadas a cabo aqui, em nossa Vila, pela Coluna dos revoltosos daquele ano, comandados pelo Negro Vicente, por Seu Hino, por Germano, Severino Mãezinha e outros Chefetes de grupo, a mando de dois Chefes sertanejos que não se envergonharam de manchar seus títulos de raça e ilustração, assaltando e tomando seis cidades sertanejas. Lembrem-se de que esses dois Chefes levantaram oitocentos homens de armas, assaltando e tomando Monteiro, São Tomé, Taperoá, Patos, Soledade e Santa Luzia do Sabugi. Assaltaram, ainda, a sétima, a Vila Real de São João do Cariri, preparando, assim, a tomada de Campina Grande, quando o Exército interveio e os revolucionários de 1912 foram desbaratados. Lembrem-se de que essas coisas não são episódios isolados, pois, na "Guerra de Doze", fazia sua estréia nas lutas e insurreições sertanejas, o filho de um dos Chefes, João Duarte Dantas, aquele mesmo que depois, em 1930, mataria o Presidente João Pessoa, cometendo o magnicidio que deflagrou a Revolução de 1930! Sei que aqui, nesta ilustre Assembléia, existem pessoas inatacáveis, que foram correligionárias desses dois Chefes revoltados! Não me refiro aos presentes, que sempre estiveram ao lado da Lei e não aprovaram a Revolução de 1912!' "'O senhor está enganado!', disse o Coronel Joaquim Coura, imediatamente. `O senhor falou, aí, que foi, sempre, correligionário dos Pessoas. Eu, ao contrário, fui sempre adversário deles.

Aqui, na Vila, segui sempre os Garcia-Barrettos, desde muito moço, desde o Barão do Cariri, Pai do nosso Chefe, Pedro Se bastião Garcia-Barretto, degolado em 1930 pelos agentes do Governo da Paraíba! Quanto à Revolução de 1912, tenho muito orgulho de ter tomado parte nela! Assim como tenho orgulho de ter tomando parte na "Guerra de Princesa", sempre ao lado dos Dantas, do Coronel José Pereira e dos Garcia-Barrettos!' -Eu também! Eu também!', ecoaram várias vozes, já num tom meio hostil.

"`Deixemos, então, esse terreno, pois não é a Guerra de Doze nem a de Trinta o que me preocupa agora!', disse o Comendador. `Passo a um exemplo tirado do Estado do Ceará: não foi assim que agiram os romeiros revoltados do Padre Cícero, quando saíram do Juazeiro, invadindo e tomando todas as Vilas e Cidades sertanejas, e chegando, assim, até as portas de Fortaleza, a Capital do Estado, que eles tomaram e saquearam, em 1913? Pois foi de modo semelhante, pela mesma razão, com a mesma astúcia e tática, que agiram os rebeldes que invadiram, hoje, a nossa Vila, sob o disfarce de uma tribo de Ciganos, Ciganos armados? Ciganos que, segundo corre na rua, reagiram a bala contra uma emboscada na estrada? E está provado que o plano deles deu certo! Tanto assim que a Polícia fugiu, deixando os nossos lares e as nossas casas de comércio expostas à sanha dos salteadores! A essa altura, estamos à mercê deles! Não existem mais autoridades constituídas, não existe mais Prefeito, não existe mais Delegado, não existe mais Polícia, não existe mais Juiz de Direito, não existe mais nada! O nosso Prefeito, agora, é Luís do Triângulo! O Delegado é o Cigano Praxedes! O Juiz de Direito é o Doutor Pedro Gouveia! A nossa Lei é a do trabuco dos Cangaceiros! Uma República comunista está instaurada em Taperoá! E eu diria, mesmo, que o nosso Pastor agora é Frei Simão, se não nos restasse, aqui, a figura do nosso Bispo, que, como um raio de luz ferindo as trevas, chegou no momento exato, apontando ao nosso barco o caminho do porto que nos servirá de abrigo seguro. Esse é o motivo da nossa reunião. Esperamos, agora, a palavra de Sua Excelência Reverendíssima, para seguir cegamente a sua orientação, o roteiro que ele tem a nos oferecer e cujas linhas certamente já concebeu nos escaninhos de seu privilegiado espírito e no escrínio do seu coração paternal!'"

FOLHETO LXX

O Carneiro Cabeludo
O Comendador sentou-se, Senhor Corregedor, e, sob expectativa geral, Dom Ezequiel ergueu-se para nos apontar "o caminho do porto". Infelizmente, porém, se ele tinha mesmo, como dissera
o Comendador, "um roteiro seguro", concebido "nos escaninhos do espírito e no escrínio do seu coração paternal", nunca . nós viemos a saber qual era. Porque, quando ele ia começar a traçá-lo, ouviu-se um violento estrondo na porta da frente da Casa Paroquial, que até aquele momento permanecera fechada à chave. Com a violência da pancada dada por fora, a fechadura saltou longe, arrancada juntamente com um pedaço da madeira, que se lascara. Aí, as pessoas que estavam na sala, todas já com os nervos tensos pelo que vinha acontecendo na Vila e agora tomadas de surpresa
o espanto pelo estrondo, avistaram Arésio Garcia-Barretto, ainda meio desequilibrado pelo pontapé que dera com o solado de sua meia-bota na folha de madeira da porta, arrombando-a como acabo de. contar. Com o impulso que dera, o pé dele já pousou no chão na parte de dentro da sala. A folha de madeira da pesada porta bateu na parede e voltava violentamente. Ele segurou-a com a mão, recuperou o equip brio e entrou de vez na sala, tendo estampada no rosto uma expressão que apavorou logo todos aqueles que
o conheciam. "Estava inteiramente desvairado!", dizia-me, depois,
o Comendador, ainda assombrado com a violência, a quase demência do ato insano e brutal que Arésio cometeu. Devo, porém, ao senhor, umas palavras de explicação que esclarecem, embora não justifiquem, tudo o que ele fez. O filho mais velho de meu Padrinho era naquele ano, Senhor Corregedor, um homem de trinta
o cinco anos, mais alto. do que baixo. Mas era tão "ossudo, membrudo e fortalezado", que sua estatura alta ficava equilibrada pela robustez, dando a impressão de que ele era de altura só muito pouco acima da mediana. Qualquer pessoa que punha os olhos em cima dele, via logo que era um homem dotado de extraordinária força física, uma força que se tornava ainda maior e mais perigosa pela ferocidade de seu temperamento intratável, sujeito a impulsos estranhos e indomáveis, a desequilíbrios perigosos e desconhecidos em sua natureza total. Era moreno e carrancudo, de cabelos bastos, negros e encaracolados. Tinha a barba negra e cerrada. Não fina, como a de Gustavo, mas dura, grossa e crespa, sempre raspada, com exceção do bigode, preto e quase retangular, aparado domesmo tamanho da boca e cobrindo todo o lábio superior. Suas sobrancelhas também eram bastas e cerradas, negríssimas, e o sobrecenho, contraído e fechado, contribuía para aumentar ainda mais a impressão de ferocidade do rosto inteiro. Vestia naquele instante uma roupa de casimira cinzenta, e, sob os punhos limpíssimos da camisa branca, viam-se seus pulsos grossos, peludos e nodosos, terminando pela mão quadrada e grande, de dorso também coberto de pêlos, larga e grossa. Dom Eusébio Monturo, que tinha o hábito de fazer comparações disparatadas e que não suportava Arésio, costumava dizer que ele parecia "um cruzamento de Jumenta com carro preto", ou então "de um Carneiro preto, lanzudo e criminoso com uma Diaba fêmea que tivesse trepado com
o Carneiro sob forma de Cabra". Apesar dos exageros e da língua solta de Dom Eusébio Monturo, um Mestre em -Astrologia como eu saberia logo que, ao dizer isso, ele estava mais perto da verdade do que os outros talvez pensassem. De fato, Arésio, nascido a 22 de Março de 1900, tinha recebido, ao nascer, os influxos malfazejos do Planeta Marte, e pertencia, exatamente, ao signo do Carneiro, o que talvez explicasse a expressão de "cruzamento de Carneiro com Diaba fêmea" que Dom Eusébio usava em relação a ele. Como Vossa Excelência deve saber, Marte, Planeta ubicado no quinto Céu, é astro ardente, seco, do fogo, noturno e de ca- ' ráter masculino. Os nascidos sob seu influxo têm estatura média
o alta, cabelos negros ou vermelhos, às vezes lisos, às vezes encaracolados, "mas sempre curtos, duros e com aparência de escova", segundo nos ensina o Lunário Perpétuo.-O corpo dos "marcianos" acusa brutalidade: a cabeça é forte, o tronco é quadrado e peludo, os olhos são penetrantes e de expressão fixa, a voz é forte e metálica. São sempre corajosos, mas rudes e agressivos, com tendência à irascibilidade, ao ódio e à crueldade. Impõem seu comando
o são impelidos, pelo sangue de seu Planeta, a satisfazer as exigências de seus sentidos violentos e implacáveis, isto de modo brutal e em tudo - no jogo, nos prazeres do amor, nas bebidas e, eventualmente, nas orgias a que se entregam. A comida preferida deles é a carne sangrenta e meio crua, principalmente a carne de caça, assim como todos os demais pratos preparados com condimentos fortes. Nos casos benéficos, saem do contingente "marciano" da Humanidade os grandes Guerreiros, os Soldados e, aqui no Sertão, os grandes Cangaceiros. Nos casos em que o influxo de Marte pega uma alma pequena e uma compleição mesquinha surgida de outras circunstâncias, nascem os ferreiros e os açougueiros, que vão satisfazer, no exercício destas profissões, o gosto marciano pelo sangue, pelos metais e pelos instrumentos cortantes. Por outro lado, Senhor Corregedor, no caso de Arésio, o influxo de Marte se agravava, porque o signo em que ele é mais poderoso é
exatamente o do Carneiro, cujo elemento é o Fogo, cuja pedra é
o Rubi - pedra vermelha e cálida - cujos metais são o Ferro,
o ímã, o Azougue e o Aço, e cuja cor é o Vermelho-Sangue.
Assim, quem combina o Signo do Carneiro com alguma conjunção
maligna de Planetas hostis, tem disposições incontroláveis para a violência, o egoísmo, os perigos, a sensualidade e a lascívia, para as rixas violentas e para as orgias, podendo praticar os maiores excessos, e chegar até aos crimes de 'sangue. E que o Signo do Carneiro impressiona o fel, o sangue, os rins e as partes genitais, sendo sua influência sobretudo violenta dentro da primeira Década
o "crítica" quando se dá "em trono e exaltação de Marte", o que sucede, exatamente, a 22 de Março, dia do nascimento astroso e fatídico de meu primo Dom Arésio Garcia-Barretto, o Príncipe Cáprico desta minha fatídica e astrosa Epopéia! Foi somente, pois, por não serem Mestres em Astrologia que as pessoas da sala ficaram espantadas com a brutalidade do gesto, para eles inesperado
o absurdo, de Arésio. Todos os que estavam na reunião eram favoráveis - ou pelo menos manifestavam uma indiferença benevolente - a ele, no seu conflito com o Pai e com o irmão mais moço por causa da herança da "Onça Malhada". Por outro lado,
o Bispo Dom Ezequiel, ancião de caráter tranqüilo e bondoso, entrado suavemente numa velhice compreensiva e cheia de mansidão, era estimado no Sertão inteiro, como um modelo de virtude. Pois foi exatamente para o Bispo que Arésio marchou depois de entrar na sala, com os olhos meio alheados, como se não visse mais ninguém. Os olhares de todos, esses estavam fixados nele e somente nele, como não poderia deixar de ser. Personagem visadíssimo, profundamente afetado pelos acontecimentos da tarde e pela chegada de Sinésio, aparecia ele agora em público daquela maneira violenta depois de se manter desaparecido desde a véspera, e irrompia inesperadamente na reunião para a qual não tinha sido convidado, primeiro porque ninguém sabia onde ele se encontrava, depois porque todos o temiam. Encaminhando-se para Dom Ezequiel, Arésio olhava-o fixamente nos olhos, e, segundo todos disseram depois, mantinha uma posição estranha enquanto andava, com o braço esquerdo erguido quase à altura do ombro e estirado para a frente, e com mão aberta, espalmada, em direção ao Bispo. Quando ele chegou junto de Dom Ezequiel, este estendeu-lhe a mão, como para dar a beijar o anel episcopal, isto apesar de que a mão com que Arésio parecia lhe solicitar isso fosse a esquerda, e não a direita, como manda o protocolo. E foi aí que tudo se precipitou. Quando Dom Ezequiel estendeu benevolamente a mão direita para ele, Arésio segurou-a com a mão esquerda e deu um puxão no Bispo que, perdendo o equilíbrio, foi como que caindo em sua direção. Mas Arésio, em vez de ampará-lo, soltou-lhe a mão, e, com o punho direito cerrado, deu-lhe um violento soco no rosto. Dom Ezequiel rolou no chão, com o rosto banhado em sangue, saído do nariz e de um corte que se abrira embaixo de seu olho. Todos ficaram imóveis, boquiabertos, paralisados pela vio1lacia e pelo inesperado do gesto insensato. Os Padres, primeiros
psair do estupor, correram para o Bispo e começaram a lhe restar o primeiro socorro. Quanto a Arésio, olhou um momento & Cena, como se não tivesse nada a ver com aquilo. Depois deu nieia.volta, e, sem trocar palavra com ninguém, sem dar nenhuma explicação sobre o que fizera, tomou de novo o caminho da porta
o saiu da sala, perdendo-se na meia escuridão que já tinha comea cobrir a Vila naquele momento.

FOLHETO LXXI

0 Caso do Jaguar Sarnento
Quando acabei de contar essa parte da história, o Corregedor ficou um momento pensativo, mas logo, sacudindo a cabeça, voltou ao ataque:
Muito bem, Dom Pedro Dinis Quaderna! - disse ele. - O senhor me contou vários acontecimentos sucedidos naquele dia. Deixou, porém, de se referir ao personagem mais importante de todos!
- Quem é, Senhor Corregedor?
- O senhor, Dom Pedro Dinis! Chegou, portanto, a sua hora, e eu quero saber, antes de mais nada, se é verdade mesmo, como diz a carta de denúncia, que o senhor estava no lajedo perto do qual dispararam o tiro!
- E verdade, sim, Senhor Corregedor! Enquanto, aqui na rua, se desenrolavam esses acontecimentos espantosos, eu, o Profeta
o Astrólogo-Épico que os previra e que os tinha esperado, confiantemente, durante os cinco anos que tinham se passado entre a morte de meu Padrinho e a ressurreição de Sinésio, estava ausente, alheio a tudo! Não é estranho? Estava fora, e impossibilitado, portanto, de participar de coisas que seriam decisivas para a vida de todos nós e, sobretudo, para a Epopéia que eu sonhava escrever há tanto tempo! O senhor perguntará: "Por que você estava fora?" A resposta é simples: é que, naquele dia, eu tinha resolvido almoçar no meu Lajedo sagrado!
- De fato, não deixa de ser estranho! Almoçar num Lajedo, quando o senhor tem tantos lugares abrigados para fazer suas refeições! Qual foi o motivo dessa decisão sua?
- De vez em quando, sinto vontade disso, Senhor Corregedor! É sempre como numa espécie de pressentimento; me vem aquela vontade e eu digo para mim mesmo: "Hoje, preciso almoçar no meu Lajedo!" Naquele dia, aconteceu isso, não sei por quê! Comecei corn aquela vontade, aquela vontade, e de repente senti que não devia ficar na Vila. De manhã, saí com Samuel e Clemente, para visitar uma Capela e a Gruta do Olho-d'Agua do Pedro. Nós nos perdemos na Catinga, na volta. Mas depois, ajudados pelo velho João Melchíades Ferreira, achamos de novo o caminho. Clemente e Samuel vieram para a Vila, e eu, que já saíra com meus alforjes preparados, fui almoçar no Lajedo, mesmo sabendo que, ao fazer isso, iria deixar de tomar meu lugar de Chefe na Cavalhada que eu mesmo tinha preparado com tanto cuidado para as duas horas da tarde.
- O senhor costuma faltar às Cavalhadas que organiza?
- Não senhor! Acho que aquela foi a primeira vez, e acho também que será a última! Digo isso porque chefiar Cavalhadas é uma das maiores glórias da minha vida! É um dos momentos em que me sinto como Carlos Magno chefiando seus Doze Pares de França; ou melhor, para ser mais patriota, como Dom Pedro I chefiando os Dragões da Independência, conforme aparece esse Usurpador da Coroa dos Quadernas no monumental quadro O Grito do I piranga, pintado pelo genial Pintor paraibano Pedro Américo de Figueiredo e Mello, Barão do Avaí, Cavaleiro da Ordem da Rosa e Grande do Império do Brasil!
- Quer dizer: o senhor confessa que nunca tinha faltado a Cavalhada nenhuma! Confessa que foi para o lugar de onde atiraram no cabra! E o único motivo que dá como explicação de tudo isso é uma espécie de "pressentimento" que lhe deu?
Vi que estava me desgraçando cada vez mais, de maneira que o único caminho que me restava era o de abrir mais meu jogo a fim de mostrar boa-fé. Resolvi ir adiante em minhas confissões e avancei:
- Senhor Corregedor, conhecendo, como conheço, os Enigmas e os fins ocultos de tudo o que se passou nessa história; conhecendo os fios secretos que ligavam todos os acontecimentos; conhecendo, ainda, o papel que tinha e tenho a desempenhar na "Guerra do Reino" e na "Demanda Novelosa do Reino do Sertão", só posso atribuir, mesmo, minha ausência da Vila naquele instante a uma disposição oculta da Providência Divina! Isto é tanto mais evidente porque, como-já disse, aquela era a primeira vez que eu me atrevia a faltar á uma Cavalhada! Eu tivera, aliás, o cuidado de prevenir meus irmãos, que faziam o papel de Rei Mouro do
Cordão Encarnado e de Rei Cristão do Cordão Azul, para que, em seus movimentos a cavalo, não fizessem nenhuma mesura que pudesse ser interpretada como preito de vassalagem ao Prefeito e ao Presidente do Conselho! Conheço muito bem a Humanidade,
o sabia que, ao primeiro sinal de fraqueza da família Quaderna, o prefeito, o Presidente do Conselho ou qualquer outro "RicoHomem" da Vila começaria logo a conspirar, iniciando seu trabalho de sapa para usurpar o Trono do Cariri, trono que, desde a morte de meu Padrinho, eu venho acumulando com os outros de Gênio da Raça Brasileira, Rei do Quinto Império do Sertão, Imperador do Divino e do Sete-Estrelo do Escorpião e com a dignidade de Profeta e Sumo-Pontífice da Igreja Católico-Sertaneja. É por isso que, como já disse, o pessoal, na hora de saudação, não se voltou para o Palanque. Tranqüilizado eu, portanto, por essas providências que tinha determinado, achei-me no direito de atender a meu pressentimento, indo almoçar no Lajedo que se encontra no lado direito de quem segue pela Estrada de Estaca Zero, Soledade e Campina Grande e que segue, daí, para o Mar, "o Mar, o Mar livre", como dizia Ruy Barbosa! Ora, Senhor Corregedor, se eu saía da rua em ocasião tão importante, foi, primeiro, por aquele desígnio secreto da Providência, e, depois, porque a Véspera de Pentecostes era e é um dia importantíssimo na Liturgia do meu Catolicismo sertanejo, uma data decisiva nos rituais astrológicos, zodiacais, mouro-cruzados e negro-vermelhos que o
integram!
- Bem, esse tal Catolicismo Sertanejo me interessa muito, porque, a meu ver, sua Igreja está estreitamente ligada, por seus rituais, com a morte do Rei Degolado, seu Padrinho, e com a ressurreição do tal Príncipe Alumioso da Bandeira do Sertão! Como foi que o senhor chegou à formulação dessa nova seita religiosa?
- Senhor Corregedor, a criação da minha Igreja Sertaneja foi muito parecida com a da minha Poesia-Epopéica! Foi uma questão, ao mesmo tempo, de fé, de sangue, de ciência, de estro e de planeta! Tudo surgiu a partir da minha herança do sangue da Pedra do Reino, de uma crise de Fé, de uma visagem que tive
o do cruzamento dos Astros zodiacais com as vicissitudes da minha vida-errante, extraviada e perdida por tudo quanto foi caminho
o descaminho deste nosso Sertão velho da Paraíba do Norte! Não sei se já contei a Vossa Excelência que fui destinado, por meu Pai, a ser o Padre da família Quaderna!
- Já, mas não entrou em maiores detalhes! - disse o Corregedor.
- Cheguei a fazer vários anos do Seminário, Senhor Corregedor! Mas, depois, descobri que não tinha vocação e saí!
- Consta, por aqui, na rua, que o senhor foi expulso do Seminário!
- Sim, e foi exatamente isso que me obrigou a descobrir que não tinha vocação e a sair do Seminário! Mas o que eu queria dizer é que, enquanto fui Seminarista, eu viajava daqui até Campina, a cavalo, para lá, tomar o trem da Paraíba! Me diga uma coisa, Senhor Corregedor: o senhor já leu o folheto chamado
O Estudante Que se Vendeu ao Diabo?
- Não!
- Lino Pedra-Verde versou, um dia, essa história, fazendo
o "romance" que eu imprimi e passei a vender aqui, na feira! É uma beleza, só o senhor vendo! Passa-se tudo na Espanha:
o Estudante vai para a Universidade de Salamanca, e, na estrada,
o Diabo dá a ele um Espelho, em troca da sua alma! Desde que li essa história, eu fiquei sabendo que os espelhos eram objetos ligados ao Diabo, às transações diabólicas e à posse diabólica das coisas boas da vida, isto é, o Poder, o dinheiro, as mulheres, as Coroas, os cavalos encantados, os tesouros, etc. Desde aí, também, nunca mais deixei de carregar um espelho comigo, principalmente quando ando nas estradas do Sertão!
O Corregedor deu outro bote para meu lado:
- O quê? - falou ele, arregalando os olhos. - Quer dizer que o senhor carrega sempre um espelho no bolso?
- Carrego, sim senhor! - disse eu, espantado.
- O senhor não disse que os sinais de sol que atraíram o cabra para a morte foram feitos com um espelho?
- Disse, sim senhor! - falei de novo, boquiaberto, porque era outra coincidência fatal que nunca tinha me ocorrido.
- Bem, então o senhor não há de reparar que isso me impressione! Foi de perto do Lajedo que saíram os sinais de sol feitos com um espelho, e o senhor estava no Lajedo, com um espelho no bolso... Anote, Dona Margarida! Muito bem! Agora, Dom Pedro Dinis, pode continuar a narração da sua visagem!
Sentindo a sensação de aperto no estômago se agravar, continuei:
- Senhor Corregedor, como eu vinha dizendo, posso garantir que o venerável e vetusto Seminário da Paraíba, instalado no velho Convento franciscano do século XVIII e situado perto da Casa da Pólvora onde Sinésio foi achado morto, foi minha Universidade, a Universidade de Salamanca da minha vida! Naquele tempo em que eu o freqüentava, lá um dia eu ia viajando pela estrada quando, cansado, parei junto de um serrote de pedras, para repousar e almoçar. O serrote ficava junto de uma encruzilhada. Era já perto do meio-dia e o sol estava de lascar! Fiquei debaixo de um pé de Imburana que havia ali, sombreando as
pedras, e resolvi esfriar um pouco o corpo, antes de almoçar. Momentos antes, quando estava tirando a sela do meu cavalo, eu tinha ouvido um tinido de metal dentro do bolso da carona. Meti a mão ali, e vi, então, que o pacote em que eu conduzia meus materiais de fazer a barba tinha-se aberto. Tirei para fora esses materiais, sentei-me perto do tronco da Imburana, encostei o espelho nele e, enquanto esfriava o corpo, peguei a navalha e comecei a afiá-la no afiador de couro que é o meu. Aí, Senhor Corregedor, por azar e fatalidade, juntaram-se quatro coisas perigosas e invocativas: encruzilhada de estrada sertaneja, metal de navalha, espelho de aço e cristal e, finalmente, couro com esmeril. Eu, na minha cegueira incauta, continuava passando e repassando a navalha de aço no afiador. Num certo momento, meus olhos pousaram, por acaso, no espelho que permanecia ali, em minha frente, em pé, encostado ao tronco. No mesmo instante, dei um salto e um grito de terror: refletido no espelho, estava o vulto de uma Onça, na estrada! Virando-me, aterrorizado, para o lugar em que, pela posição da imagem refletida, a Fera deveria estar, não vi nada! Onde estaria a Onça? Será que eu teria me enganado? Olhei de novo, rapidamente, para o espelho: lá estava, de novo, a Onça! Voltei-me para trás, pela segunda vez: nada! Ah, Senhor Corregedor, foi um dos momentos mais graves da minha vida! Só depois, já no curso da minha viagem com Sinésio, foi que pude avaliar, em toda extensão, o poder e a força diabólica do Espelho, o que depois contarei, quando narrar a Vossa Excelência a nossa incursão infernal pelo Reino Perigoso do Ladrido. Naquele dia, porém, vi logo que a Onça que eu avistava era uma típica "visagem de Espelho", parecida com aquela que o Diabo tinha proporcionado ao Estudante de Salamanca nas estradas poeirentas da Castela espanhola! Fiz das tripas coração, tomei coragem, resolvi desafiar o Destino e examinar a visagem. Iria me arrepender amargamente desta resolução! Olhei de novo a Onça, agora com cuidado. O que mais me aterrorizava é que ela não tinha o contorno preciso das Onças comuns. Não era, de modo nenhum, uma Onça que vagasse pela estrada ou pelas veredas, entre as pedras, as Catingas e os espinhos do Sertão! O que acontecia era o seguinte: ou a Onça crescera
o se tornara imprecisa no intervalo que decorreu entre a minha primeira olhada e a outra, ou então ela já era imprecisa, mesmo,
o eu não me apercebera no primeiro momento. O fato, porém, é que, agora, eu via que a Onça era, mesmo, era formada pelas pedras, o mato, as estradas, o Sol, de modo que, refletida no Espelho diabólico, eu estava envolvido por ela, colocado no próprio campo de pêlos de seu dorso. Me* diga uma coisa, Senhor Corregedor: quando o senhor era pequeno, alguém lhe contou a história do Bicho Homem e do Bicho Mundo? - Não!
- Tia Filipa me contou, várias vezes! Dizem que, no começo, quando Deus tinha acabado de faze-lo, o Bicho Homem vinha por uma estrada, quando encontrou o Bicho Mundo e atreveu-se a enfrentá-lo. No meio do combate foi que ele se apercebeu de que, de fato, o Bicho era fêmea, o que tornava a luta perigosa e desigual para o Homem. Mas era tarde! Com os poderes de encantação fêmea que tinha, a Bicha envolveu o Homem, encantou-o, diminuiu ele de tamanho até transformá-lo num homem e então, quando ele estava do tamanho de um piolho em relação a ela, soltou-o entre seus pêlos, para ele viver ali agarrado, como um carrapato. É por isso que todos nós, agora, vivemos assim, agarrados, chupando o sangue do mundo e errando por entre seus pêlos. Contei essa história a meu Padrinho de crisma, o Cantador João Melchíades, e ele escreveu sobre isso uns versos que diziam assim:
"Foi no começo da Tinha,
da Peste, ao combate Louco: Deus foi, distraiu-se um pouco, perdeu o Fio da Linha! O Homem, divino, vinha na Estrada do Sol do Mundo. Na luz do Sol moribundo bateu-se com a Bicha Estranha,
o a feiticeira Castanha
o encantou, no Profundo!
Agora, encantado a fundo, erra entre os pêlos da Sonsa
que é Fêmea, que é Parda, é Onça, que ele não vê porque é baixo
o que, julgando que é Macho, ungiu com o nome de Mundo!"
- A propósito de quê, essa versalhada? - indagou o Corregedor.
- Ora, Senhor Corregedor, é claro! É que, ali na estrada, era isso que eu estava vendo pela primeira vez, graças ao aço e ao azougue diabólico do Espelho! Só agora eu via que, de fato, eu não passava de um piolho, de um carrapato chupa-sangue e pardo, errante entre os pêlos da Onça! O pior, porém, é que não se tratava nem de uma Onça digna, uma Onça Malhada como aquela que o Profeta Nazário e Pedro Cego tinha visto! Era uma Onça enorme e mal definida, leprosa, desdentada, sarnenta e escarninha, uma Entidade malfazeja que, ao mesmo tempo que me envolvia e tragava, era tragada, também, aos poucos, por um Buraco perigoso,
oco e vazio, cheio de cinza. Enquanto era devorada pelo Buraco, cia erguia o rosto cego e maldoso contra a face do Tempo, que a crestava cada vez mais, encarquilhando e desfazendo em Pó, em cinza e em sarna, o que ainda lhe restava de sua vida demente
o sem grandeza! Por entre os pêlos e chagas sarnentas dessa Onçaparda, eu não via agora, mas sabia, com certeza, que errava a Raça piolhosa dos homens, raça também sarnenta e sem grandeza, coçando-se idiotamente como um bando de macacos diante da Ventania crestadora, enquanto espera a Morte à qual está, de véspera, condenada!
Eu já tinha terminado a narração da minha visagem. Mas o Corregedor, parece que esperava alguma coisa de sensacional, para
o fim, porque perguntou:
- E então?
- Foi só isso! - confessei.
- Só?
- Bem, se eu quisesse impressionar o senhor, poderia inventar um final mais grandioso, mas não estou aqui para lhe mentir, de modo que devo confessar que não sucedeu. mais nada! Nem sequer desmaiei, como Pedro Cego, quando viu a visagem dele! Acho mesmo que prosaicamente cochilei um pouco, pois tinha me espichado no chão para meditar sobre o que vira, o sono veio e adormeci. Mas, de qualquer forma, foi um acontecimento decisivo para mim, porque, a partir daí, nunca mais a imagem da OnçaParda se desligou, para mim, da imagem do Mundo. A cara da Onça, mesmo, eu nunca mais vi, como naquele dia: mas, de vez em quando, uma paisagem sertaneja, tornada mais peluda, parda
o espinhosa por ser coberta de Facheiros, me lembra o couro sarnento dela! Eu já lhe disse que Samuel e Clemente me consideram absolutamente incapaz de ser o Gênio da Raça Brasileira?
- Mais ou menos!
- Mas acho que não lhe disse o motivo principal da opinião deles!
- Acho que não!
- Dizem eles que sou incapaz de escrever qualquer coisa que se áproveite porque, em contato com os folhetos e romances de safadeza eu contraí três defeitos gravíssimos, o "desvio heróico",
o "desvio obsceno" e a "galhofa demoníaca". Eu fiquei realmente impressionado com isso, Senhor Corregedor, porque, por um motivo ou por outro, de fato, foi nisso que me tornei, num safado galopeiro e galhofeiro. Eu ria de tudo, em tudo o Diabo me mostrava
o me mostra seu Espelho danado de mil faces. Pensam que eu rio por alegria, ou então, só por escárnio e deboche. Mas que alegria posso ter, sem ser Imperador do Brasil e sabendo que meu riso provém de uma tentação? Meu riso também não era de
desespero: é apenas que eu vejo a Danada em todos os seus aspectos! Foi, felizmente, nesse tempo, que me caiu nas mãos um livro do genial escritor paraibano Humberto Nóbrega a respeito de Augusto dos Anjos. Li, nesse livro, que os Poetas que têm "a preocupação de cantar a Dor universal" têm uma espécie de face bifronte: por um lado, são "facetos, êmulos de Gregório de Mattos na arte de chasquear"; por outro, vêem "na alegria uma doença e na tristeza a sua única saúde". Um Poeta desse tipo é, segundo Humberto Nóbrega, ao mesmo tempo "patético, trágico, burlesco e espirituoso"; é um "fescenino e irreverente" e também um "hipocondríaco que padece de melancolia".
- Que é que isso tem a ver com a Onça que o senhor viu? - perguntou o Corregedor.
- É que, mesmo tendo eu tomado precauções, nunca mais permitindo que se juntassem perto de mim aqueles quatro elementos diabólicos, aquela visagem me jogou, de uma vez para sempre, no buraco cheio de cinza, na descoberta de que o mundo era um Bicho sarnento e os homens os piolhos e carrapatos chupasangue que erram por entre seus pêlos pardos, sobre seu couro chagado, escarificado e feridento, marcado de cicatrizes e peladuras, e queimado a fogo lento pelo Sol calcinante e pela ventania abrasadora do Sertão. Aliás, acho que estou exagerando um pouco: não foi propriamente no desespero que caí, foi numa espécie de vazio cego e meio insano. Naquele dia, quando acordei do meu cochilo dormido embaixo da Imburana, fiquei um momento me coçando, olhando em torno e procurando sentir com as idéias aquilo que já pensara com o sangue. Sentia que algo de decisivo me acontecera. Sabia que, por mais que eu tentasse me distrair daí para a frente, eu mesmo estava, como a Onça, sendo calcinado por aquela ventania do Inferno. Tudo aquilo que eu possuía de sangue e de vida, estava, aos poucos, sendo queimado, calcinado, transformado em cinza, em sarna e em pó. Quisesse ou não quisesse, eu tinha nascido do sangue da Onça-Parda, da Onça cega e sarnenta do Mundo. Assim, não admirava que meu destino e meu sangue estivessem ligados ao sangue e ao destino dela, daquela Onça que procurava, penosamente, indignamente, se manter de pé, com as quatro patas em cima da terra dura e seca do mundo, exposta à ventania de fogo e cinza quente que a crestava, atraindo-a para o centro do buraco cego de onde era soprada. Lembro-me de que, enquanto me coçava, com um terror desanimado e sem grandeza, o pensamento que me dominava era o de que eu só tinha, para opor à visagem malfazeja que o espelho me mostrara traçada nas pedras e espinhos do Sertão, aquelas quatro ou cinco idéias abstratas que tinham me fornecido no velho Convento franciscano que servira ao Arcebispo da Paraíba, Dom
Adauto Aurélio de Miranda Henriques, para instalar o Seminário
o Paraíba, minha pobre e - descobrira eu agora! - impotente Universidade de Salamanca! Só uma voz eu ouvira, lá, e que tinha força para, talvez, se contrapor ao buraco cego e vazio da Visagem, soprada pelo vento seco e quente da Morte: era a voz daqueles Cantadores que, como os nossos, do Deserto do Sertão, tinham cantado, no Deserto judaico, chefiados pela voz rouca e cheia de brasas de Isaías e Ezequiel. Mas esses, Profetas parecidos com
o nosso Nazário Moura - e a terminar com os dois últimos e mais danados deles, João e Emanuel - exigiam, em troca da força e do exorcismo que me dessem, que eu fosse sóbrio, casto e humilde. Ora, o senhor já sabe que meu maior desejo, desde que nós, os Quadernas, perdemos a terra e a Coroa, era exatamente conseguir nova oportunidade de Trono, para, com isso, me entregar à gula, ao vinho, às mulheres e aos combates guerreiros, tornandome um homem poderoso, desejado e temido. Eu não queria me tornar um rico vulgar e sem imaginação, como o Comendador Basílio Monteiro, porque, com meu sangue fidalgo, nunca dei para Burguês. Meu sonho sempre foi o de ser um daqueles grandes Senhores, Cangaceiros e Príncipes que apareciam nos folhetos. Era arriscado. Mas, se eu me tornasse Gênio da Raça Brasileira, poderia alcançar tudo isso sem matar ninguém e também sem ter a garganta cortada, destino de todo Guerreiro que se preza. Foi aí: que li Sonho de Gigante, um livro de J. A. Nogueira, que Samuel me emprestou. Falava-se, lá, na possibilidade de um Brasileiro escrever um livro bifronte, tendo, por um lado, o "arremesso patriótico e épico" e, por outro, a "gargalhada vergalhante"; um livro que aliasse "a hilaridade a um fundo mais ou menos visível
o amargas preocupações e escura melancolia", com "uma face de sonhos lunares e amor ao Absoluto, e outra solar, heróica". Vi, então, que, mesmo com aquelas contradições e mais com a obsessão
o cinza que a visagem da Onça tinha instilado em meu sangue, talvez por aí eu conseguisse instaurar, no meu sangue, a unidade,
o na Arte a mais alta nobreza do "estilo régio". Dos folhetos, havia dois que me impressionavam muito: eram a História de Carlos Magno e os Doze Pares de França e O Rei Orgulhoso na Hora da Refeição. Pela leitura deles, eu via que os Heróis parece que só faziam três coisas, na vida: porque, quando não estavam na mesa, comendo e bebendo vinho, estavam, ou na estrada, brigando, montados a cavalo, armados de espadas e com bandeiras desfraldadas ao vento, ou então na cama, montados em alguma Dama, trepando senhoras e donzelas desassistidas. Vida era aquela, a vida dos Cangaceiros medievais como Roberto do Diabo, ou dos Guerreiros sertanejos como Jesuíno Brilhante, homens vestidos de Armaduras de couro, armados de espadas compradas em Damasco ou no Pajeú, bebendo vinho de Jurema e Manacá, vencendo mil batalhas e sempre aptos a possuir mil mulheres. Estas, mesmo quando não gostavam disso no começo, terminavam gostando no fim: primeiro, por causa da fama deles; depois porque, como me dizia uma recém-casada sertaneja em meu "Consultório Sentimental e Astrológico", "esse negócio de fuder no começo é um pouco incomodatício, mas depois até entrete". Estava eu, pois, nesses impasses, quando descobri aquilo que minha família escondia cuidadosamente de todos nós: nossa descendência do Rei Dom João Ferreira-Quaderna, o Execrável, em cruzamento com a Princesa Isabel, prima dele!
- Ah, e sua família escondia isso de vocês?
- Escondia, sim senhor! Aquele meu bisavó de sangue godo, o Padre Wanderley, Pai da minha avó, Bruna Wanderley, cortara do nosso nome o Ferreira e só deixara o Quaderna, que meu bisavô, o Execrável, usava pouco e ficara praticamente desconhecido. Meu Pai, Dom Pedro Justino Quaderna, sabia de tudo, porque o Pai dele, Dom Pedro Alexandre lhe contara. Mas, depois de casado com minha Mãe, uma moça fidalga se bem que bastarda, filha do Barão do Cariri e irmã de Dom Pedro Sebastião GarciaBarretto, resolvera "sepultar aquelas histórias todas no olvido e no passado", como dizia ele, no seu estilo almanáquico, e já prenunciando o Poeta que eu iria ser, por herdar a "ciência" dele - bebida no Lunário Perpétuo e no Livro de São Cipriano. Além disso, meu Pai era lido e relido no Dicionário Corográ f ico do Estado da Paraíba, de Coriolano de Medeiros, e nas Datas e Notas para a História da Paraíba, do genial Irineu Pinto. Daí em diante, meu Pai se tornou, além de redator do Almanaque do Cariri, um pouco médico, com as receitas do Lunário, um pouco Poeta, um pouco orador, e um pouco historiador e Genealogista. O Professor Clemente e o Doutor Samuel, quando morávamos na "Casa-Forte da Torre da Onça Malhada", costumavam ridicularizar meu Pai, a quem chamavam "o Fidalgote Raizeiro". Raizeiro, por causa das receitas do Lunário e dos- chás de ervas, e Fidalgote porque meu
Pai, não sei como, descobrira que nós, Quadernas, éramos descendentes do Rei Dom Dinis, o Lavrador. Esse foi, aliás, o motivo de meu nome: lendo, não sei onde, que um bisneto, por linha bastarda, de El-Rei Dom João II, de Portugal, tinha recebido o nome de Dom Pedro Dinis de Lencastre, resolveu "seguir também essa tradição da família" e me botar o nome de Dom Pedro Dinis Quaderna. O que foi, de fato, para mim, um traçado régio dos Astros: primeiro, por causa do nome Pedro - pedra e Dom Pedro I - e depois porque Dom Dinis era, como eu, ao mesmo tempo Rei e Cantador, o que indicava coisas muito sérias na minha pretensão de ser Rei e Gênio da Raça, isto é, Poeta, Deci
frador, e Cantador nacional do Brasil. Apesar, porém, de todas as precauções de meu Pai, meu Padrinho de crisma, João Melchíades Ferreira, o Cantador da Borborema, me revelou tudo sobre a Pedra do Reino - a história das degolas, o Vinho encantado, as noivas que meu bisavô dispensava na noite de núpcias e antes dos maridos, etc. Vi que meu bisavô fora Rei, mas fora, também, Profeta de um Catolicismo que Pereira da Costa chamava de "particular", sertanejo. Vi também que aquele era o Catolicismo que me convinha, uma religião que, a um só tempo, me permitia ser Rei e Santo Profeta, permitindo-me ter tantas mulheres quantas eu pudesse, comer as carnes que quisesse em qualquer dia da semana e beber tanto vinho quanto me desse na veneta, incluindo-se entre estes o Vinho sagrado da Pedra do Reino, que nos mostrava o Tesouro antes mesmo que ele fosse desencantado e descoberto. Era, em suma, uma religião que me salvava a alma e, ao mesmo tempo, permitia que eu mantivesse meu bom comer, meu bom beber e meu bom fuder, coisas com as quais afastava a tentação da visagem da Onça e da Cinza. Ao mesmo tempo, eu tomava, por caminhos de acaso, conhecimentos dos "escritos" deixados pelo Profeta e santo Peregrino do Sertão, o Regente do Império do Belo Monte de Canudos, Santo Antônio Conselheiro. Na Astrologia, eu já fora iniciado por meu Pai que, como redator do Almanaque do Cariri, era Mestre nos Arcanos do Taro e dono da Chave da Cabala. Assim que tomei conhecimentos dessas coisas, fundi num fogo só esses elementos dispersos, e descobri imediatamente que a nova Religião fundada por mim, o Catolicismo Sertanejo, estava em harmonia absoluta com o programa da minha vida, influenciada, como sempre e em tudo, por Samuel e Clemente. Como Catolicismo, era uma religião bastante monárquica, cruzada e ibérica para satisfazer o primeiro; e como Sertaneja, era suficientemente popular e negro-tapuia para ser considerada com simpatia pelo segundo. Posso, então, concluir, dizendo a Vossa Excelência que foram esses os acontecimentos que me trouxeram à minha atual condição de Profeta da Igreja Católico-Sertaneja e Príncipe de Sangue do Trono do Sertão do Brasil!- Entendo! - disse o Corregedor.
- Então, já pode entender também por que a Véspera de Pentecostes era, naquele ano de 1935, tão importante para mim, a ponto de me tirar da Vila no momento em que ia se realizar uma Cavalhada! Do ponto de vista litúrgico, político e guerreiro, começaria, no dia seguinte, o tempo do Fogo pentecostal. Por outro lado, do ponto de vista astrológico e zodiacal, naquele ano o Tempo de Pentecostes coincidia com a força total do Signo de Gêmeos, que é o meu. Por isso, naquela manhã, antes de sair a cavalo com Clemente e Samuel, fui para a minha "Estalagem à Távola Re465
donda". Os vinte e quatro Cavaleiros que iam tomar parte na Cavalhada esperavam, lá, por mim, para receber ordens - incluindo-se entre eles, é claro, meus irmãos que iam ser Cavaleiros e Reis, à tarde. Entreguei a todos as roupas, os mantos, as selas, as lanças e demais arreios e apetrechos-de-boniteza para a festa. Dei ordem para que fosse servido a eles, na "Távola Redonda", um almoço que eu extorquira - e pago a peso de ouro - da Prefeitura. Dei a meus irmãos as últimas instruções. Ensinei como deviam se portar com as bandeiras e estandartes, diante do Palanque, para não mostrar nem vassalagem nem subserviência diante daquelas autoridades da República. Lamentava não poder presidir ao almoço daqueles Cavaleiros da "Távola Redonda", mas tinha minhas obrigações litúrgicas noutro ponto. Comecei, por minha vez, a fazer meus preparativos para almoçar no Lajedo, onde iria cumprir alguns rituais altamente importantes e eficazes da Igreja Católico-Sertaneja. Para isso eu teria de cumprir certas obrigações litúrgicas, vestindo-me de modo especial: calça e camisa "gandola" cáquis, alpercatas de rabicho e chapéu de couro estrelado de metal à cabeça, com signo-de-salomão e tudo. Tinha, ainda, o manto, é verdade. Mas este, eu o coloquei, dobrado, no bolso direito da carona de "Pedra-Lispe", primeiro porque ia sair acompanhado de meus dois Mestres, e depois porque eu só tenho coragem de vesti-lo na estrada, já longe dos olhares dos indiscretos da Vila. Maria Safira, amante minha, tinha saído. Mas, antes de sair, ordenara a Dina-me-Dói - a filha do Profeta Nazário, que morava conosco na "Távola Redonda" - que me preparasse um farnel com paçoca, rapadura e queijo de coalho. Havia, ainda, um chaguer de couro, cheio d'água bem friinha, e um pichel, também de couro de bode, cheio, até o gargalo de madeira, com meu famoso "Vinho Tinto da Malhada". Tomando tudo isso, e mais umas cajaranas que Lino Pedra-Verde tinha me mandado de Estaca Zero, coloquei comidas e bebidas no bolso esquerdo da carona. Voltei ao interior da "Távola Redonda", fui ao meu quarto e, abrindo meu cofre de segredo, peguei meu "anel de pedra amarela, de topázio", meu "anel de pedra verde, de esmeralda", e meu "anel de pedra vermelha, de rubi", assim como meu lenço de cambraia, perfumado a benjoim e capim-sândalo. Peguei também o manuscrito do Caminho Místico do Peregrino do Sertão, e o Caderno de Anotações Astrológicas e Genealógicas que tinha sido de meu Pai. Fechei o cofre, voltei à rua, desamarrei "Pedra-Lispe" do pé-de-tambor, e, montado, fui me juntar a meus dois Mestres, com quem saí para a Catinga. Como já disse, perdemo-nos no mato, mas terminamos encontrando o caminho da volta, já ao meio-dia, graças a meu Padrinho, João Melchíades, que nos guiou até a Estrada Real. Aí, Clemente e Samuel seguiram com ele para a rua. Assim que os três dobraram na primeira curva da Estrada, olhei em torno, certifiquei-me de que estava realmente só. Então, tirei do bolso da carona o Manto litúrgico. Explico isso, porque tenho outro, o régio, feito de pedaços costurados de couro de Onça e GatoMaracajá. Mas aquele era o Manto profético, feito de pano vermelho, cortado por uma Cruz de ouro e tendo quatro crescentes, também de ouro, colocados nos quatro quadriláteros vermelhos formados pelos braços da Cruz. Tinha escolhido esse Manto, primeiro porque o Vermelho é a cor litúrgica de Pentecostes, e depois porque, num tempo que eu julgava próximo, por causa do "Século do Reino", aquela seria, aproximadamente, a forma e a cor dos nossos Estandartes, das bandeiras de nossas tropas, para a "Guerra do Reino do Sertão do Brasil"!

FOLHETO LXXII

0 Almoço do Profeta Ah, nobres Senhores e belas Damas de peitos brandos! Vejam como é perigoso a gente se deixar possuir pelo fogo sagrado do sonho e da Poesia! Quando eu vi, tinha deixado, já, escapar essa confissão tremenda! O Corregedor, por outro lado, foi implacável. Como um Gavião, frechou sobre a presa que eu lhe oferecia, e, de dedo em riste, falou para Margarida: - Anote! Esse pormenor é importantíssimo para o inquérito! Aterrorizado, fiquei um momento em silêncio, olhando para ele, magnetizado por seus olhos de cobra, enquanto Margarida, impassível, anotava tudo, ao teleco-teco da máquina de escrever. Quando ela acabou, ainda meio atarantado, vi, porém, que o jeito era continuar no mesmo tom, como se aquilo que eu tinha dito fosse coisa sem gravidade e perigo maior. Assim, falei: - Além do manto de Cavaleiro, eu trouxera, também, minhas outras insígnias imperiais e proféticas. O senhor já ouviu falar num Rei de Portugal chamado Dom Henrique? - Dom Henrique, o Navegador? Já! - Não senhor, não é esse não! É outro, um velhinho, tio de Dom Sebastião. Ele era Cardeal, e, quando Dom Sebastião morreu na Batalha de Alcácer-Quibir, o velhinho subiu ao Trono. Ora, além dele ser Cardeal, estava velho e senil que era uma coisa demais! Portugal precisava de um herdeiro para o Trono que, sem isso, iria cair nas mãos de Felipe II, da Espanha, que era, também, tio de Dom Sebastião. Aí, o velhinho se animou. Conseguiu uma licença da Santa Sé para gerar um herdeiro para a Dinastia. Acontece, porém, que se a Santa Sé podia dar a licença não podia fazer o milagre que tornaria a licença eficaz. Pois bem: o velhinho já estava tão senil e caduco que meteram várias idéias na cabeça dele. Uma dessas, foi a de mamar nos peitos de uma Ama jovem para ver se, assim, recuperaria a virilidade, gerando um filho para o Trono. Conto isso somente para ilustração: porque, a mim, o que interessa em Dom Henrique é que eu sou, como ele, uma espécie de Cardeal-Rei, ou melhor, de Imperador e Profeta, sendo este o motivo das minhas insígnias. Naquele dia, como já disse, meu rifle "Seridó" já ia amarrado no arção da sela. A minha legendária espada "Pajeú" já estava pendurada à minha cintura. Assim, empunhei meu Ferrão sagrado e real, isto é, minha legendária lança "Cariri", a aguilhada sertaneja que me serve, ao mesmo tempo, de Cetro real, de Báculo profético e de Lança guerreira. E como já estava com meu chapéu de couro estrelado à cabeça, completei-o com a parte superior de metal, formando, assim, a legendária Coroa de couro e prata do Sertão. Agora, eu, Dom Pedro Dinis Quaderna, o Decifrador, podia me considerar legitimamente e liturgicamente vestido com as roupagens e insígnias indicadoras da minha qualidade de soberano, profeta e grão-mestre da "Ordem do Reino". Como o senhor vê, o meu é um posto que nada deve ao do meu antepassado Dom Dinis, o Lavrador, aquele outro Rei, de Portugal, que, sendo Poeta e Cantador como eu, tinha sido também, no seu tempo, grão-mestre da "Ordem de Cristo". Então, assim como lhe digo, de Coroa de couro e prata à cabeça, de manto vermelho às costas e empunhando a Lança com a mão direita, sustentei as rédeas com a esquerda e, pinicando "PedraLispe" no cachorro-da-espora, esquipei cerca de quilômetro e meio pela estrada, em direção à Vila, depois de dar tempo suficiente para que João Melchíades, Clemente e Samuel se adiantassem a mim. Cheguei, então, ao lugar que procurava. Apeei-me, puxei "Pedra-Lispe" para fora da estrada, amarrei-o pelo cabresto num pé de marmeleiro, e, a pé, comecei a subir o terreno ladeiroso, espinhento e empinado que leva a meu Lajedo. O cheiro do mato, ali, era, agora, um cheiro de folhas de marmeleiro machucadas, cheiro que se misturava a outro, mais longínquo, de madeiras resinosas mal queimadas. Não muito longe, alguém devia estar queimando alguma coivara e era o cheiro dela que se misturava ao das folhas de marmeleiro pisadas e acumuladas na sombra. Desde que eu era menino, Senhor Corregedor, que aquele lugar era sagrado para mim. Uma vez, errando por ali ao acaso e à aventura, eu encontrara um ninho de Juriti, pousado numa forquilha de marmeleiro. Havia, nele, dois ovos pequenos, lindos, brancos, puros,reluzindo sobre a penugem fofa e ainda quente, do calor da fêmea que voara, espantada por meus passos. Naquele Sábado de 1935, como para me advertir dos acontecimentos que iriam suceder, houve também uma aparição-de-pássaro. Não foi uma Juriti: foi uma Codorniz que levantou vôo de repente, quase de cima dos meus pés, assustando-me e encantando-me. Acho que o senhor, homem da Capital, nunca passou por isso, e portanto não pode saber como é! A gente vai andando no mato, e, de repente, um Tejo enterra os pés de bem perto, fazendo um estrupício danado! O coração da gente fica batendo com o susto e a excitação, principalmente quando se traz, por acaso, a espingarda. Mas, o melhor de tudo, é ouvir, logo depois que o bicho correu ou voou e tudo está calmo de novo, o silêncio e os barulhos normais do mato. Pois bem: naquele dia, a Providência e os astros enviaram a Codorniz para me avisar, e eu, homem cego e pecador, não entendi logo a advertência. Pelo contrário: como se aquele fosse um dia normal de Lajedo, comecei a subir o serrote que leva à minha pedra-de-ara, picando-me nos espinhos dos cactos e queimando-me nos acúleos cáusticos das Favelas e das folhas de Urtiga. Quando cheguei ao pé do Lajedo, já tinha levado uma furada de espinho de Mandacaru um pouco acima do joelho, e uma queimadura de Urtiga na mão. Isso, porém, não poderia ser considerado aviso especial da Providência, pois estava dentro do cabedal de acontecimentos normais daquela excursão. Mas o que veio logo depois, isso foi aviso, e aviso claro. A subida do Lajedo é facilitada por alguns blocos que tinham se destacado de cima, lascados pelo calor ou pelos raios, assim como por saliências, furnas e outras lascas menores, o que formava uma espécie de escada irregular e complicada, até o topo da pedra grande. Comecei a subir. Quando já estava perto da parte de cima, numa última volta que a subida dava, senti, de repente, uma dor terrível no pescoço, como se algum Demônio tivesse me picado com uma agulha envenenada: um Maribondo-Caboclo,' cuja casa eu tinha assanhado sem ver, dera-me uma ferroada. Novamente a Providência me dava um aviso, e eu insistia em continuar, inteiramente cego aos recados divinos! Cheguei à parte de cima da grande e alta pedra. Ia respirando fundo, coberto de suor e meio tonto, tanto pela dor como pelo veneno cáustico do terrível Maribondo vermelho, de duas polegadas de tamanho. A medida, porém, que a dor ia aliviando um pouco mais, o suor e o calor começaram a se dissipar, ante a ventania que soprava ali, no alto, ainda fresca e pura por estarmos no mês de junho, o mais agradável aqui do Sertão. Fiquei então sentado uma porção de tempo, recuperando-me ali, em cima da pedra, ao abrigo da folhagem de três árvores grandes que cercam meu Lajedo e cujas frondes ficam situadas acima do seu topo. São uma Braúna, um Angico e um pé de Tambor. A dor ia desaparecendo aos poucos, pelo menos em sua primeira fase. É verdade que, provavelmente, daí a pouco, eu começaria a sentir frio, febre e dor de cabeça, com os gânglios do pescoço e dos sovacos inchados. Mas como, felizmente, esses sintomas ainda não tinham aparecido, fiquei ali um bom pedaço de tempo sem fazer nada, a não ser devanear e sonhar, olhando a maçaranduba do Tempo e vendo, por entre os galhos do pé de Tambor, os telhados das casas da Vila, que podem ser avistados dali. Não todos, mas os da Rua da Usina o os da Rua do Chafariz, os telhados castanhos, batidos de Sol.

- A Rua da Usina é a rua da qual o cabra baixou para o leito seco do Rio Taperoá, sendo morto então, não é isso? - É, sim senhor! Mas isso não tem grande importância! O que interessa é que estava chegando a hora do almoço e eu precisava cumprir meus rituais da Ordem da Pedra do Reino.

- O quê, homem? - disse o Corregedor, com uma expressão cheia de segundas-intenções. - Os rituais da Pedra do Reino? Não me diga que você degolou algum cachorro ou mesmo algum menino! - Não senhor, o que fiz foi coisa muito mais importante do que isso! Ergui-me da ponta de pedra em que estava sentado, tirei o chapéu de couro, que coloquei a um lado. Forrei uma saliência chata do Lajedo, que me servia de Altar, com o Lenço de cambraia. Pendurei no pescoço, por uma corrente longa, o anel amarelo de Topázio. Coloquei no anular esquerdo o anel de Rubi vermelho, e, no direito, o anel verde de Esmeralda. Assim preparado, num dos lados do Altar de pedra, abri o Caminho Místico, do Santo Peregrino do Sertão, isto é, Santo Antônio Conselheiro de Canudos. Do outro, abri o Caderno Astrológico que meu Pai me legara, copiado cuidadosamente pelo próprio punho dele, com tinta negra e vermelha, herança inestimável para minha carreira de Poeta de sangue, de ciência e de planeta, de Decifrador e Mestre dos Arcanos do Taro. Coloquei também sobre o altar o pichel de vinho, o farnel com paçoca e queijo de coalho, o então comecei a cerimônia. Sim, Senhor Corregedor, a cerimônia. Porque na Igreja Católico-Sertaneja, o almoço não é somente uma refeição, não: é um nobre e litúrgico ritual, cuidadosamente planejado para servir ao mesmo tempo ao prazer, ao espírito e ao sangue dos nossos Fiéis! Modéstia à parte, não existe, no mundo, religião mais completa do que a minha! Nela, o almoço, principalmente quando organizado à base de paçoca com carne-de-sol o queijo de coalho, e também a bebida de vinho e a posse das mulheres, tudo isso é colocado a serviço da edificação da alma dos meus adeptos e seguidores! Veja o senhor: o judaísmo e o Cristianismo dos santos, mártires e profetas, levam ao Céu, mas são religiões severas e incômodas como o Diabo! O Maometanismo, pelo contrário, é uma religião deleitosa: permite que a gente mate os inimigos e tenha muitas mulheres, que coma e beba o que quiser. Em compensação, é danada para levar ao Inferno! A Igreja Católico-Sertaneja é a única religião do mundo que é bastante "judaica e cristã" para levar ao Céu e, ao mesmo tempo, bastante "moura" para nos permitir, aqui logo, os maiores e melhores prazeres que podemos gozar nesse mundo velho de meu Deus! Aliás, Vossa Excelência já deve ter notado isso, quando ouviu, há pouco, a história da Pedra do Reino que eu li para o senhor, porque tudo aquilo que aconteceu por lá eram os rituais executados por meus antepassados em sua extraordinária Desaventura trágico-epopéica. A carne-de-sol, o queijo de cabra, o vinho, as sobremesas de rapadura do Ceará ou de goiabada de Arcoverde, as mulheres - tudo isso faz parte dos rituais religiosos com que prestamos nosso culto à Divindade Sertaneja! - Divindade sertaneja? E existe uma, especial? Quem é? Não é Deus, não? - Conforme, Senhor Corregedor! Como o senhor sabe, essas coisas de religião são difíceis e complicadas. Isso, no geral. No que se refere ao Catolicismo Sertanejo, ele é, muito mais do que o Romano, povoado de coisas astrosas e fatídicas que o senhor só irá entendendo melhor aos poucos! Por enquanto, basta que eu lhe diga que a nossa Divindade Sertaneja é o mesmo Deus judaico e católico, se bem que seja mais parecido com aquele Deus do Deserto do que com o Deus que o Padre Renato nos apresenta na Missa. O nosso Deus é mais parecido com aquele que queimava a boca dos Profetas com uma brasa e que aparecia no Sertão da Judéia "vestido de coivara"! - "Vestido de coivara"? - disse o Corregedor, intrigado.

- Eu digo desse jeito por "patriotismo sertanejo e brasileiro"! Mas, se o senhor prefere, pode dizer de um jeito mais estrangeiro. Nesse caso, o senhor se referirá ao Deus que aparecia no Deserto judaico "sob a forma de uma Sarça ardente!" Além disso, o senhor precisa saber de outras diferenças. Por exemplo: a Santíssima Trindade católica, comum, é formada por três pessoas. A nossa Santíssima Trindade tem cinco, e é sempre figurada através do animal heráldico e armorial brasileiro por excelência, a Onça Malhada. É por isso que, naquele dia, como eu vinha contando, eu me voltei, primeiro, para a direção do Pajeú, onde estão as duas Torres de pedra do nosso Reino. E, abrindo o Livro escrito pelo Peregrino do Sertão, comecei a recitar, em tom de salmodia, minha primeira invocação a Adonai, a terrível Divindade sertaneja e oncística que atende, também, pelo nome de AureadugW - Pelo nome de quê? - perguntou o Corregedor, novamente espantado.

- De Aureadugo, Excelência. "Adugo" é o nome tapuio da Onça Malhada. "Aureadugo" é o nome formado pela contração do artigo "áureo", isto é, "de ouro", parte direitista e tapirista de Deus, com a preposição "adugo". O "Aureadugo" é, portanto, a Onça Malhada e de Ouro do Divino. É o mesmo Adonai judaico e esses são os nomes mais terríveis do-Deus sertanejo do Deserto da Judéia. Por isso, naquele dia, voltando-me na direção do Pajeú, falei assim: "Ó Adonai! Ó meu Deus judaico-tapuia e mouro-sertanejo! Considerai que qualquer coisa é bastante para me tirar a vida! Uma gota de salmoura que desça ao coração entupindo uma artéria, uma veia importante que se rompa em meu peito, uma sufocação de tosse, uma forte opressão interna, um fluxo impetuoso do meu sangue, uma Cobra-Coral que me morda, uma febre, uma picada, um corisco de pedra-lispe incendiada, um raio, uma pedrinha de areia nos rins, um inimigo audacioso, uma pedra que se despenque de um serrote - tudo isso e qualquer coisa pode me coalhar o Fel e me cortar o Nó do sangue, roubando-me a vida em dois tempos! Por isso, Senhor, não leveis a mal que, enquanto estou aqui no Mundo, capaz de gozar esta vida que Vós mesmo engendrastes - juntando o barro da terra sertaneja com o Sol e o furor dos vossos lombos - eu vos preste as homenagens deleitosas que devo à Divindade e que as inicie bebendo uma boa lapada do meu Vinho Tinto e Sertanejo da Onça Malhada!" Dizendo estas palavras, Senhor Corregedor, peguei o pichel de couro de bode, tirei-lhe a tampa de madeira e, levando o gargalo à boca, ergui a cara para o céu e tomei a primeira grande lapada de vinho. Um doce calor e um suave formigamento começaram logo a me percorrer o sangue, aliviando mais a dor da ferroada do maribondo e convidando-me logo a me espichar em cima do Lajedo, para cochilar. Mas, nessas coisas de religião, eu sou duro e fiel: havia, ainda, várias partes do ritual a cumprir de modo que reagi e não me deitei. Eu lera estas palavras que acabo de ler de novo para o senhor, no Livro do Peregrino do Sertão. Voltei a página, molhando o dedo na língua, exatamente como via o Padre Renato fazer com o Missal, nas missas dos Domingos. Aí, li de novo, em voz alta: "Ó Adonai, ó Adugo, 6 Jaguar Sertanejo do Terrível! Considerai que sou um pecador, eu, bocado de terra parda e sertaneja amassada no sangue e no Sol! Por isso, em terra brevemente me vou de novo a converter! Lembrai-vos de quantas vezes, contra minha vontade, já me vi metido nas correrias, guerras e emboscadas do Sertão! Posso, de novo sem querer, me ver metido noutra e ser assassinado, com meu corpo deixado ao Sol, na estrada empoei rada, para ser comido pelos Carcarás! E mesmo que eu tenha a sorte de morrer na cama, ainda assim nada muda: serei sepultado na terra dura, quente e seca do Sertão, para ser pasto de animais cegos e salamandras de fogo, de pele luzidia! Sim, porque o General Dantas Barretto já adverte "todos nós de que, no chão sertanejo, os raios do Sol candente batem em cheio, com intensidade destruidora, e o solo abre as entranhas por grandes fendas em que se precipitam répteis famintos, à procura de alimentos que não encontram à superfície de fogo. Assim, este corpo, que agora me dá tantos estremeços de prazer com Maria Safira, há de apodrecer. Minha cara, minha boca, meus cabelos, hão de cair aos pedaços. Meus olhos vão ser comidos pelos Gaviões! Meu corpo se tornará um esqueleto, a princípio fétido e medonho; depois, embranquecidos pelo Sol, meus ossos hão de separar-se uns dos outros! Minha cabeça há de se apartar do tronco, como aconteceu com a de meu bisavô na Pedra do Reino! Assim, já que vou ser comido pelos Gaviões e Carcarás, pelos Urubus e Cachorros-do-Mato errantes no Sertão, 6 Senhor, não leveis a mal que agora, enquanto estou vivo, eu me deleite comendo a carne dos bichos que cacei e matei, principalmente agora essa carnede-paçoca e esses nacos de carne-de-sol assada, tirados do lombo e do patim do Bode que sangrei ontem, em vossa homenagem!" Voltei então as costas para meu Altar, Senhor Corregedor, e, numa trempe de pedras que já havia lá, suja de cinza por outros rituais semelhantes que eu celebrara noutros dias, acendi fogo. Usei, para isso, folhas secas e gravetos, que incendiei tirando, com uma placa de aço, faíscas na pedra do meu corrimboque. Tirando uma panela, que escondera, há muito tempo, já, numa pequena loca da pedra, coloquei e esquentei nela minha cheirosa e gostosa carne-de-sol com paçoca que a endemoninhada Maria Safira tinha preparado. Essa parte de comer carne assada, é, aliás, Senhor Corregedor, um dos rituais que eu cumpro com mais prazer e gosto no meu Catolicismo Sertanejo. Principalmente quando, como naquele dia, a paçoca está enriquecida com ovos cozidos, cebolas e toicinho-de-terreiro, tudo bem torrado, bem adubado e bem salgadinho! Comecei então, como vinha dizendo, a comer ritualmente os nacos de carne-de-sol, misturando-os com a paçoca e evitando os entalos e engasgos da comida seca e salgada, gostosíssima, com deliciosos e grandes goles do meu Vinho Sertanejo da -- Malhada. Quando me fartei de carne assada e paçoca, terminando outra parte do ritual, voltei ao Altar, folheei o Livro do Peregrino do Sertão e o Almanaque Astrológico, Zodiacal e Genealógico do Cariri, salmodiando de novo, nos seguintes termos: "Ó Adonai! O Onça Tapuia, Negra e Malhada do Divino do Sertão! Esta República dominada por Burgueses gordos é, sem dúvida, um grande mal para o Império do Sertão do Brasil! Ela pretende minar e desmoralizar o Povo da Onça Castanha e o nosso Catolicismo Sertanejo, esta obra-prima de Deus, religião mais perfeita e mais antiga do que o Catolicismo Romano! Este tem somente vinte séculos, enquanto a nossa sagrada Religião da Pedra do Reino foi fundada no Deserto sertanejo da Judéia, junto às Pedras do Reino do Sinai e do Tabor! O Presidente da República, seus cupinchas o os gordos ricos, entendem que podem governar, trair e vender o Império do Brasil a seu bel-prazer! No entanto, o Brasil está predestinado para o Monarca Castanho do Povo, aquele que foi legitimamente constituído por Deus para fazer o bem e a grandeza do Povo Brasileiro! Quanta injustiça nós, Católicos Sertanejos, contemplamos amargurados! O poder do Presidente não é legítimo, a República não é legítima! Todo poder legítimo é uma emanação da Onipotência eterna do Deus Sertanejo através do Povo, e portanto está sujeito à regra divina da nossa Santa Igreja da Pedra do Reino, tanto na ordem temporal como na espiritual! Todos os Brasileiros deveriam estar obedecendo a Quaderna, Príncipe, Pai e Profeta, porque, obedecendo a ele, é a Deus que todos obedecem! É evidente, para todas as pessoas de bem, que esta República permanece sob um princípio falso e só traz o mal, para o Povo Brasileiro! Ainda, porém, que ela trouxesse algum bem, ainda assim é má por si mesma, porque contraria a Lei sagrada do Povo e do Sertão! Quem não sabe que o digno Príncipe, o Senhor Dom Pedro Dinis Quaderna, deveria, logo, ser coroado como Dom Pedro IV, o Decifrador, Rei do Sertão, Imperador do Brasil e Sumo Pontífice da Igreja Católico-Sertaneja, sendo, como tal, reconhecido pelas Nações? Negar estas verdades, seria o mesmo que dizer que o Sol não é divino e não descobre sempre um novo dia, aos raios de seu fogo de Ouro! É erro, e erro grave, dizer que a família real dos Quadernas não deve mais governar o Brasil, como fez há um século, na Pedra do Reino do Sertão do Brasil! Uma coisa é o Sertão, outra é o Mundo! Se o Mundo fosse divino e absoluto, ainda se poderia duvidar. Mas o Sertão é que é divino, e o Sertão só jura e pune pelo sangue real dos Quadernas! Por isso, esta República da iniqüidade cairá por terra e, mais cedo ou mais tarde, Deus fará a devida justiça! A República se acaba breve: é princípio de Espinhos! O Príncipe é o verdadeiro dono do Brasil! Das ondas do Mar, Dom Sinésio Sebastião sairá com todo o seu Exército. Tira a todos, no fio da Espada, desse papel da República, e o sangue há de ir até a junta grossa. Quem for Republicano, mude-se para os Estados Unidos! O Tempo está chegando, o Século vem vindo! É preciso que Deus e o Povo não deixem em silêncio a causa verdadeira e a origem de todos os obstáculos que o Presidente da República e jseus cupinchas levantam, para impedir que a Família imperial dos Quadernas chegue de novo ao Trono do Brasil: é o medo, é o horror de que todos ficaram possuídos, ao saber que, na Pedra do Reino, há um século, Dom João II, o Execrável, mandou sacrificar sete mil Cachorros que, se o Reino 'tivesse continuado, teriam ressuscitado como indômitos Dragões, para devorar os poderosos e confirmar o Império, acabando a escravidão do Povo, & traição ao Brasil, e instaurando, de uma vez para sempre, a ustiça e a monarquia do Povo, através da Coroa de couro e prata da Onça Malhada do Sertão!" - De onde o senhor tirou toda essa lengalenga disparatada? perguntou o Corregedor, irritado.

g- A maior parte das minhas palavras, Senhor Corregedor, era tirada das lições e escritos do Peregrino do Sertão. Mas o senhor compreende que eu tinha que acrescentar e adaptar certas coisas, para tudo ficar mais claro para o Povo Brasileiro, não é mesmo? Por exemplo: Santo Antônio Conselheiro diz, de fato, é que 'o digno Príncipe, o Senhor Dom Pedro III, tem poder legitimamente constituído por Deus para governar o Brasil". Mas eu substituí Dom Pedro III por Dom Pedro IV. Por outro lado, sempre que falo na Família Imperial, tenho o cuidado de esclarecer que estou falando dos Quadernas, senão daqui a pouco os Braganças vão logo ficar assanhados, pensando que minha referência ë a eles. Eu estava, Senhor Corregedor, vivendo um tempo de randes esperanças! Minha família tinha reinado sobre o Brasil etatamente de 1835 a 1838, de modo que o Século do Reino vinha chegando, e era tudo isso que se refletia nas minhas preces e invocações, no Lajedo. Terminada, então, aquela que acabo de contar, entrei pela parte da comida de queijo de coalho, que comecei a comer aos pedaços, com pão bem manteigado, ainda sempre acompanhando os bocados com meu Vinho Tinto da MaIhada. Depois de terminar o queijo com pão - parte das mais litúrgicas, porque, como o senhor sabe, o pão e o vinho tinto são coisas muito sérias - voltei ao meu Altar e, segurando em direção ao Céu o meu anel de pedra-amarela de Topázio, falei assim: `Ó meu Planeta! Ó Sol de Mercúrio! O Espada mercúrio-solar que o Zodíaco me destinou! O Lâmina astral de dois Gumes! Cobri-me com vossos raios, em exaltação, sob o influxo do meu duplo Signo Gêmeo e Arqueiro! Garanti minhas qualidades para as Artes e as Ciências Ocultas! Garanti-me meu Vinho, meu Reino, meu Poder, os Bodes para os sacrifícios, a Coroa e o Cetro no Trono da Pedra do Reino! Ó meu astroso e fatídico Planeta! Livrai-me da atual Mulher, mercuriana e endemoninhada que se apossou do meu sangue, e fazei aparecer diante de mim a Outra, a Venusiana de signo louro-cabrum com que sonho há tanto tempo! Dai-me aquela a quem seu Planeta, regando o órgão feminino da geração, coloque, no centro mesmo do seu corpo um ponto sagrado de Reino e Sangue, firme e seguro para mim, tanto na esfera espiritual como na esfera sexual!" Ao recitar essa parte, não deixei de lançar um rabo de olho para Margarida, para ver se ela tinha entendido meu apelo oculto. Mas Margarida, revelando, mais uma vez, sua natureza cruel, indiferente a mim, não me deu a menor importância, nobres Senhores e belas Damas de peitos brandos! Então, dando um suspiro, voltei-me novamente para o Corregedor e continuei a narração: - Terminada essa reza-forte, e acabado o queijo de coalho com pão, fui à carona, que levara comigo para o alto da pedra, a fim de retirar, do seu bolso, uns Umbus e Cajaranas que tinha trazido, assim como o pacote com os tacos de rapadura que seriam minha sobremesa naquele dia. No momento em que, enfiando a mão, tinha pegado tudo e já ia retirá-la, senti de novo uma violentíssima picada na ponta do dedo médio da mão direita: tinha sido picado por um Lacrau, ou melhor, por uma Lacraia, porque era uma bicha enorme, aurivermelha, uma bicha que eu, louco de dor e de raiva, consegui fazer sair do esconderijo e esmagar com a sola das alpercatas, em cima do Lajedo. Lembrei-me logo de que entre os versos de um Epigrama que eu tinha feito, aqui, contra um Poeta escalavrado, havia uma estrofe que dizia: "O Bode fede a Vida mas a Lacraia pica e traz a Morte. Vida é carne sentida: é Sina mal cumprida entre Clarões de má Cegueira e Sorte".

- O que é que o senhor quer dizer com isso? - perguntou o Corregedor.

- Sei não senhor! Eu estava comendo carne de bode e bebendo vinho, e agora, picado por uma lacraia, era como se o Bode fosse um signo da Vida, e a Lacraia envenenada um signo armorial da Morte! Era mais um aviso dos astros e da Providência! O que eu sei é que, se não caí logo morto, ali, estatelado, foi porque já estava ficando vacinado aos poucos com a espinhada do Mandacaru, as queimadelas de Urtiga e com o veneno do Maribondo-Caboclo. Acho também que o Vinho tinto ajudava, espalhando o sangue, sendo esse o motivo de eu não ter morrido! Sentei-me, esperei um bocado para que a dor aliviasse mais, e só então comecei a comer os Umbus e as Cajaranas, cujo suco, por sorte, como todo mundo sabe, é ótimo para veneno de Lacraia fêmea. Estava, agora, chegando ao fim da refeição ritual, de modo que tinha de me apressar nas preces, voltando a me dirigir de novo diretamente à Onça Malhada do Divino. Terminando de comer as frutinhas, fui novamente ao Altar e falei para a Divindade assim: "Quando chegar o Século do Reino, e for anunciada a Vigília de fogo, o Senhor enviará a Coluna de brasas sobre o acampamento e o território dos estrangeiros e dos criminosos e poderosos aliados seus. A Onça de fogo do Sertão destruirá seus Exércitos, despedaçando as rodas dos carros-de-combate, e todos os traidores serão arrojados do Sertão para o fundo do Mar. Dirão assim os Estrangeiros: `Fujamos dos Brasileiros e outros Latinos, porque o Deus de Fogo peleja a favor deles e contra nós!' E o Deus de Fogo dirá a Quaderna: `Estende a tua Mão desde a Pedra do Reino até o Mar, para que as águas de Sal se voltem contra os Estrangeiros e corroam seus Carros diabólicos, suas máquinas de fogo e sua cavalaria de engenhos de chamas!' E assim será! Quando Quaderna estender sua mão, quando o Rei brandir o seu Cetro e o Profeta seu Báculo, o Príncipe do Povo, o Moço do Cavalo Branco será suscitado e o Mar fará soçobrar os traidores, refluindo depois, ao amanhecer, para o lugar que ocupava. Naqueles dias, o Rei escreverá um Canto para o ensinar ao Povo do Brasil, aos filhos do Sertão do Mundo. E depois de suscitado o Príncipe pelo Canto, o Senhor do Fogo ordenará a Sinésio, filho de Dom Pedro Sebastião, dizendo: `Anima-te, sê forte e tem coragem, porque tu farás entrar os Filhos do Sertão no Reino que lhes prometi, e eu estarei com o Povo'. Como de fato: logo que Quaderna acabar as palavras deste Canto e desta Lei no seu Livro, ordenará aos Sertanejos que levem a Arca de Pedra da Aliança do Senhor do Fogo, dizendo: `Tomai este Livro e enterrai-o ao pé das Torres de pedra da Catedral encantada do Reino, para que ele sirva de fundamento e pedra-angular para o Império do Brasil'. E quando os Estrangeiros fugirem, desbaratados, juntamente com os traidores que os apóiam, encontrar-se-á o sagrado Deserto do Sertão com as Aguas salgadas e sagradas do Mar. Assim, naquele dia, o Senhor do Fogo livrará o Sertão, e o Povo verá seus inimigos mortos na Praia do Mar, pelo castigo que a mão poderosa da Divindade executará contra eles, contra sua injustiça, sua dureza e sua iniqüidade. Então Quaderna, subindo à sua Pedra, entoará com o Povo o sagrado Canto que o mesmo Quaderna fez, dizendo: `Cantemos ao Deus de Fogo do Sertão, porque ele manifestou gloriosamente seu poder, precipitando no Mar as máquinas e as empresas, os engenhos infernais dos Estrangeiros e traidores, castigando a força e o opróbrio dos Poderosos que nos oprimiam e exaltando o Sertão, com sua coragem, suas pedras, seus espinhos, seus cavalos e seus Cavaleiros!'" Persignando-me então, Senhor Corregedor, dei as costas ao Altar pela última vez, e comecei a comer tacos e tacos de rapadura, sendo que, agora, não os acompanhava mais com Vinho e sim com gostosos goles d'água, bebidos no gargalo do meu chaguer de couro. Este, deixando rever um pouco de umidade, tinha esfriado a água de dentro que, derretendo a rapadura dentro da boca, chegava mesmo na hora e estava uma delícia, principalmente com a sede que tinham me deixado o Sol, o sal da carne e o Vinho do pichel. E, chegando ao fim dessa parte, foi erguendo a água sacrifical para Deus que lhe dirigi minha última súplica, dizendo: "Meu Deus Sertanejo! Minha Onça Malhada, meu divino jaguar de sangue, fogo e pedras preciosas! Eu não creio em nada! Vinde inflamar meu sangue com aquele dom de fogo chamado a fé, mesmo que vossa Fé venha a me queimar com a ventania deste meu Reino sagrado e sangrado, o Espinhara, o `sertão' incendiário e abrasador! Esta ventania de fogo queima e maltrata, mas cura e cicatriza, e é, portanto, o começo da Salvação. Õ Onça-Vermelha do Pai! Ó Onça Negra do Diabo! Ó Onça-Parda e Castanha do Filho! O Corça Branca! O Gavião de Ouro do Sol do Espírito Santo! É preciso que a Onça do Mundo - sarnenta, chagada e purulenta - se transfigure na Onça de Ouro Malhado, assentada, não mais sobre o Buraco vazio, devorador e cego da cinza, mas sim sobre o Lajedo firme e forte do Divino! Só assim, meu Reino será verdade, só assim meu sangue e meus ossos serão verdade, só assim será verdade a Furna do Mundo e a Furna sagrada para onde todos nós caminhamos e que sagra a Onça da Vida pela Onça da Morte, realizando sua união final com a Onça Sagrada do Senhor de Fogo! É isso o que espero de Vós, Senhor, agora e por todos os séculos dos séculos. Amém!"

FOLHETO LXXIII

Cavalhadas de São João na Judéia Saciado da fome que vinha sentindo desde que tinha me perdido na Catinga, Senhor Corregedor, e religiosamente dessedentado da sede espiritual do Deserto Sertanejo, espichei-me então à sombra do pé de Braúna que ficava à direita do Lajedo. Deitado meio de lado, com a cabeça sobre uma pedra sobre a qual eu colocara o manto enrolado, à guisa de travesseiro, comecei a olhar o Tabuleiro que ali, naquela hora, centelhava para todo lado, sob o Sol violentíssimo do meio-dia sertanejo. Meus olhos, treinados como os dos Gatos-Maracajás, percorriam os lugares importantes em que naquele momento estavam, ou deviam estar ao que eu presumia, os personagens mais importantes da terrível história de sangue, de amor e de cavalarias bandeirosas, ligada ao nome e à pessoa de Dom Pedro Sebastião, o Rei Degolado que fora meu tio, cunhado e Padrinho. Note Vossa Excelência que, naquele momento, mais ou menos à uma hora da tarde, Sinésio, o Alumioso ainda não tinha chegado ali, de modo que não deixa de ser um sinal astroso e fatídico que, sem qualquer causa aparente, eu estivesse me lembrando dele e do Pai. É verdade que eu pensava em escrever um Romance-Epopéico tendo como centro de enigma o de-crime-e-sangue, a morte de meu Padrinho. Mas por que me lembrava disso exatamente agora? Eu evocava o velho Rei barbado e profético em Canudos, em 1897. Na Pedra do Reino do Pajeú, para onde ele viajara uma vez comigo, na célebre viagem ligada ao Tesouro e seu roteiro. Evocava-o na "Guerra de Doze", travada no Sertão da Paraíba, em 1912. Também em 1930, quando ele, vestindo seu famoso Gibão medalhado de guerra, lutara contra o famoso "Batalhão Provisório" do Presidente João Pessoa. Via-o ao lado de seu filho predileto, o mais moço, Sinésio, nas coroações de Imperador do Divino Espírito Santo. E finalmente via-o mais uma vez deitado no chão da "Torre da Casa-Forte da Onça Malhada", ensangüentado e degolado, na mesma posição em que, ainda sem fôlego pela subida da escada e pelo arrombamento da porta, eu o tinha avistado, começando a gritar desatinado, pelo terror, pelo choque e pelo desespero. Agora, deitado ali sobre meu Lajedo, eu estava começando a sentir mais os efeitos do vinho, dos signos e dos rituais astrológicos da Igreja CatólicoSertaneja. A grande vantagem dos Zodíacos, cartas de Baralho, bandeiras, Brasões, mantos com Cruzes e Crescentes, estrelas de Prata, Lanças e outras insígnias régias da minha Igreja e da minha Monarquia, era que, com eles, eu enchia o Buraco cego e vazio do Mundo e o Deserto-Assírio da minha alma. Sentindo meu sangue pulsar com violência, não havia mais como duvidar de mim. Meu sangue me garantia a existência do meu corpo, e o corpo, a da minha Alma. Por sua vez, o Mundo tomava outro aspecto. Além de, agora, divinamente embriagado, eu ter certeza de que eu mesmo existia, olhava para o lugar onde, pouco antes, tinha visto o Pardo Mundo - Onça sarnenta, assentada sobre o abismo da Cinza - e não via mais esse animal tinhoso, e sim uma Onça Malhada, bela, reluzente e gloriosa, gigantesca, de pêlo cor de ouro e malhas pardo-avermelhadas. A Raça piolhosa dos Homens e os Lacraus peçonhentos que eram os animais, apareciam-me, agora, como uma Cavalgada muito bem organizada, realizada por Reis, Valetes, Rainhas, Damas e Bispos, montados a cavalo, uma Cavalgada bela, gloriosa, cheia de espadas e bandeiras. Sua caminhada pela tez de fera do Mundo, não me parecia mais uma agitação covarde e mesquinha, como uma tentativa ignominiosa e inútil de fuga realizada por inapeláveis condenados à Morte, mas sim uma Cavalhada como as que eu fazia aqui na rua e que eram, também, rituais do meu Catolicismo - as minhas Procissões. Essa Cavalhada do Mundo - da qual Deus era o Chefe e Rei-Mouro-e-Cruzado (como eu era das minhas) - não se arrastava mais, acovardada e feia, em direção do Reino de Cinza da Morte, mas sim galopava valentemente em direção ao Sol Divino, ao Sol do Terrível. Por isso, o Mundo não me aparecia mais como um animal doente e leproso, como um lugar sarnento e pardo, nascido do Acaso, mas sim como um Sertão glorioso,fundado na Pedra, ao mesmo tempo harmonioso e ardente. Do mesmo modo, a parte deste Mundo que me fora dada - o Sertão não era mais somente o sertão" que tanta gente via, mas o Reino com o qual eu sonhava, cheio de cavalos e Cavaleiros, de frutas vermelhas de Mandacaru reluzentes como estrelas, bicadas pelas flechas aurinegras dos Concrizes e respondendo às cintilaç$es prateadas de outras estrelas - as estrelas dos peitos das Damas, as estrelas negro-vermelhas dos sexos femininos, as estrelas de metal ostentadas nos estandartes das Cavalhadas ou nos chapéus de couro usados pelos Tangerinos, Vaqueiros e CangaCeiros, os Fidalgos da minha Casa Real com suas coroas de couro de Barão. O próprio Deus não era mais aquele sopro tênue das outras religiões: aparecia-me como a Santíssima Trindade Sertaneja, um Sol ardente e glorioso, formado por cinco animais num só. Era a Onça Malhada do Divino, formada por cinco bichos: a Onça-Vermelha, a Onça Negra, a Onça-Parda, a Corça Branca e o Gavião de Ouro, ou seja, o Pai, o Diabo, o Filho, a Compadecida e o Espírito Santo.

- Dom Pedro Dinis Quaderna, já notei, duas vezes, que, na sua religião, o Diabo faz parte da Santíssima Trindade e o Espírito Santo é sempre representado por um Gavião. Por que é isso? - perguntou o Corregedor.

- Bem, Excelência, tudo isso aparece aí, primeiro, porque é verdade, depois por causa da influência de Samuel, de Clemente e, de certa forma, do Padre Daniel. O Diabo é um revoltado do Partido Negro-Vermelho, e portanto precisa ser reabilitado e integrado na Divindade. Depois, no meu Catolicismo, os bichos que servem de insígnia ao Divino são todos rigorosamente brasileiros e sertanejos. Por exemplo: na minha linguagem, nunca entram leões ou águias, bichos estrangeiros, mas sim Onças e Gaviões. Ora, além dessa fidelidade brasileira e sertaneja, sempre achei essa história de representar o Espírito Santo por uma pombinha, meio afrescalhada. Fique logo claro que o Espírito Santo não tem nada com isso: a culpa é de quem inventou! Essa história da "pombinha" não tem nada de Profecia-Sertaneja, é frescura desses Profetas aveadados do estrangeiro! É por isso que, no meu Catolicismo Sertanejo, o Espírito Santo é um Gavião, bicho macho e sangrador, e não essa pombinha que sempre me pareceu meio suspeita. Segundo nossas crenças, Senhor Corregedor, foi a Onça Malhada do Sol Divino que nos fez, a mim e ao Mundo, segundo sua própria imagem. Assim, não admira que o jaguar divino fizesse em relação ao Mundo o mesmo que eu, como Rei, faço com o Sertão. Por isso é que Deus pegou o Campo azul e incendiado da bandeira do Céu, dispondo nele as peças de ouro e prata de seu Brasão, coruscante de sóis e estrelas, com o Cruzeiro, o Sol e o Escorpião. Até mesmo a Morte, Senhor Corregedor, era, agora, para mim, uma sagração bela e heráldica, armorial. Aparecia-me como uma gigantesca Cobra-Coral, enroscada no Céu à nossa espreita. Era negra de "sable", branca de "prata" e vermelha de "goles", com asas de Gavião, com dentes e garras de Onça - uma Cobra cujo veneno passava a ser, para nós, o óleo sagrado, necessário para ungir-nos, indispensável à sagração sem a qual não podemos unir-nos ao Divino para identificarmo-nos com ele, para nos tornarmos também divinos. Bem, Senhor Corregedor: então, naquele dia, os sonhos do vinho tinto e os sonhos zodiacais e embandeirados do Catolicismo Sertanejo começaram a se juntar com as cintilações que o Sol ia tirando aqui e ali em pontas de pedra, em lascas de quartzo e em cristais de malacachetas, e, de repente, quando menos eu esperava, tive uma "viração".

- Uma "viração"? O que é isso? De que "viração" o senhor está falando? É, por acaso, à brisa sertaneja que o senhor quer se referir? - Não senhor! Aliás, não lhe faltando com o respeito, o senhor está revelando pouco conhecimento dessa questão das ventanias sertanejas! Senhor Corregedor, aqui no Sertão - terra espinhenta, parda, pobre e pedregosa da Esquerda - absolutamente não existe nenhuma "brisa", que é uma ventaniazinha romântica, besta e da Direita, muito freqüente no estrangeiro, e que no máximo, pode aparecer aqui no Brasil, uma vez ou outra, só na Zona da Mata! O vento daqui do Sertão, ou é o cariri noturno, ou o espinhara, o vento abrasador do meio-dia e das tardes da Catinga! Quando eu digo "viração", refiro-me a outra coisa muito diferente. As "virações" são uns acessos apocalípticos que me assaltam de vez em quando, atacado que sou do "mal sagrado" dos Vates, dos Poetas escumejantes e dos Profetas. Sofriam -disso, também, Dom Pedro I, Machado de Assis e dois Profetas sertanejos que viveram no Deserto Judaico! - Quem eram? Antônio Conselheiro e seu bisavô? - Não senhor, o Profeta Ezequiel e o Profeta João de Patmos, mais conhecido como São João, O Evangelista, assim como meu bisavô era conhecido por Dom João, o Execrável. Ezequiel era sujeito a "virações". Digo isso porque o Padre Renato, aqui, um dia, numa Missa, leu um trecho da Crônica-Epopéica que ele escreveu. O Profeta conta, nesse trecho, que, estando um dia olhando um Deserto cheio de ossos - que deviam ser esses esqueletos, caveiras e costelas de boi que a gente encontra aqui, às dúzias, no Sertão - teve, de repente, uma visagem. Os ossos se juntavam aos poucos, iam se reunindo até completarem os esqueletos, e lá vinha uma ventania de fogo, e os esqueletos dançando, e começavam a aparecer umas grandes pedras preciosas se incendiando em cima daquilo tudo, e surgia uma Safira enorme, o um Crisólito, tudo incendiado pela luz do fogo, e Carros de chamas, e Querubins armados de espadas reluzentes, com asas de ouro e prata, e o Anjo, e o Touro com asas, e a Onça e o Gavião... Era um negócio terrível, Excelência, um verso mortuário, cheio de ossamentas e, ao mesmo tempo, glorioso, prateado, cheio de cravações de pedras estreladas. Não sei se já disse a Vossa Excelência que eu, Samuel e Clemente temos, todos três, nossos "jogos políticos e de Partido" ...

- Não, não disse não! Jogos políticos? Isso me interessa muito! O que é que o senhor chama de "jogos políticos"? São as tramas que tecem para conseguir seus objetivos? - Não senhor, são os jogos, os jogos mesmo! Clemente, que só vê, no Mundo, a realidade parda e afoscada dos famintos o miseráveis, escolheu como jogo preferido dele, o "jogo da Dama", que, "sendo pobre e despojado, feito de pedras negras e pedras brancas, é bem a figura e imagem da luta dos Povos negros contra os brancos e ricos do Mundo". Samuel, que só vê a parte sonhadora e brasonada do Mundo, com seus Fidalgos, escudos e bandeiras, escolheu o "jogo do Xadrez", por ser povoado "de Reis, Rainhas e Bispos, que governam os Peões, montados em Cavalos e protegidos por Torres fidalgas e guerreiras de combate". Eu, sem ter mais o que escolher, resolvi, como sempre, unir as duas idéias opostas deles num jogo só, o do Baralho, conciliando os naipes aurinegros do Povo, isto é, Paus e Espadas, com os naipes aurivermelhos da Fidalguia brasileira, Copas e Ouro. Assim, em vez de rebaixar o Povo, o que eu faço é erguer o Povo aurinegro e os Reis aurivermelhos a uma Fidalguia só, com os Reis negros de Paus e Espada conquistando as Damas aurirrubras de Copas e de Ouro. É que, tendo sofrido a influência concomitante de Clemente e Samuel, tanto acho belas as partes esquerdistas e despojadas da realidade sertaneja - fosca, parda, pedregosa, empoeirada, faminta, miserável, cheia de ossamentas de Vacas, Cabras e jumentas mortas - como acho belo o Sonho de prata e joiaria que, às vezes, vem se juntar a ela para transfigurá-la. Muitas vezes já me aconteceu isso, quando, nas tardes de muito sol, estou, por acaso, em cima do meu Lajedo. Estou ali, em cima, olhando o Mundo sertanejo, fosco e empoeirado, porém já se animando de uma Coroa gloriosa que o Cobre e o Ouro do sol-poente vai lhe emprestando. Se, nesse momento, sucede passar por ali um Cigano, montado num cavalo cujos arreios estão enfeitados de moedas e medalhas, e o Sol começa a tirar faíscas nesses metais ou nas malacachetas incrustadas nas pedras, na mesma hora dá-se, em mim, uma "viração"; meu sangue e minha cabeça se incendeiam, e a realidade parda e afoscada se funde ao fogo do Sol e dos diamantes do sonho. O Sertão selvagem, duro o pedregoso vira o "Reino da Pedra do Reino", e enche-se de Condes calamitosos e Princesas encantadas, eles vestidos de Pares de França das Cavalhadas, e elas de Rainhas do Auto dos Guerreiros. O pobre "tabuleiro sertanejo" vira um enorme Tabuleiro de Xadrez ou Mesa de Baralho, dourado pelo Sol glorioso e ardente. Assim, Senhor Corregedor, não é querendo ser orgulhoso não, mas esse fenômeno da "viração" a que eu sou sujeito, é coisa muito venerável, uma vez que sucedia àquele outro Apóstolo o Profeta Sertanejo que foi São João de Patmos, o Evangelista. Acontecia, também, a todos aqueles outros Profetas sertanejos que contaram a história do Cristo. O senhor já leu o Evangelho?

- Li uns pedaços, todo não! - Devia ler, Senhor Corregedor, é uma das melhores crônicas epopéicas que já se escreveram, com a queda do trono, coroas e monarquias do Cristo-Rei, com a catástrofe sangrenta da morte dele, com a degolação de João Batista, etc. Pois bem: no Evangelho, Mateus, Marcos e Lucas contam que, lá um dia, aquele rapaz, a princípio simples e pobre, chamado Manuel Jesus e filho de um Carpinteiro sertanejo, subiu a um serrote, a um Lajedo pedregoso e espinhento como os daqui. João, Tiago e Pedro estavam olhando para ele quando, de repente, tiveram uma "viração". O rosto daquele rapaz comum começou a ficar refulgente como o Sol e suas vestiduras pegaram a resplandecer. A partir daí, nunca mais aquele rapaz foi o mesmo: aquele donzel-errante, aquele joão-sem-direção do Deserto judaico, "virou-se" na figura do Terrível, o Cristo-Rei, um homem de palavras de fogo, um corisco a quem passaram a perseguir como um Cachorra danado e a quem terminaram vestindo com um Manto vermelho e coroando com uma Coroa real de espinhos, um Rei de Copas e Espada, de coração sangrento, sustendo nas mãos um Cetro de madeira que ele molhava com seu próprio sangue, como insígnia de sua realeza. E se estas visagens deixaram de acontecer a Pedro e a Tiago - não sei! - o certo é que nunca mais deixaram de acontecer a João. Tanto assim que, numa de suas visões - ou visagens, que é a mesma coisa - ele estava, um dia, olhando quatro Cavaleiros judaico-sertanejos que passavam, montados em cavalos magros, feios e comuns, quando, de repente, cavalos e Cavaleiros "se viraram" em cavalos e homens de Cavalhadas, sonhosos, heróicos o medalhados! - Como é? - disse o Corregedor, fazendo uma careta. - E lá na Judéia também havia Cavalhadas? - Havia, exatamente como aqui no Reino do Sertão e no Reino da Normandia, Senhor Corregedor. Ah, quanto a isso não tenha a menor dúvida, porque está lá, contado num livro consa484 grado. João conta que viu o Cordeiro abrir quatro selos e de cada selo sair um Cavalo, um branco, um vermelho, um preto e um amarelo, todos montados por Cavaleiros que traziam Arcos na mão e Coroas na cabeça, do mesmo jeito que, aqui nas Cavalhadas sertanejas, trazem lanças e capacetes. Como o senhor vê, com isso fica provado que na Judéia havia Cavalhadas. Com uma diferença somente para as daqui: nas Cavalhadas e Pastorais sertanejos, os cordões são somente dois, o Azul e o Encarnado. Nas Cavalhadas judaicas, organizadas pelo Cristo, como se vê por essas palavras de São João, havia quatro: o Branco, o Negro, o Encarnado o o Amarelo. Sabe quem teve, aqui no Brasil, uma "viração" parecida com aquela da Transfiguração do Cristo, Senhor Corregedor? - Não! - Euclydes da Cunha! Este, como um dos Profetas das terras desérticas de Canudos, viu Santo Antônio Conselheiro morrer do jejum de protesto e dos efeitos de um ferimento de bala. Como visionário e Profeta que era, viu, esticado no chão, o Santo o Profeta de todos nós, Sertanejos. Teve, aí, uma viração, e viu o Conselheiro transfigurado e exaltado, ressurreto "entre ' milhões de Arcanjos descendo - gládios flamívomos, coruscando na altura - numa revoada". É por tudo isso, Senhor Corregedor, que eu digo que Ezequiel e João eram os Conselheiros judaicos! É por isso que eu disse que, no dia em que chegou aqui o nosso Príncipe do Cavalo Branco, estreando sua grande Marcha desaventurosa de calamidades, vinha cercado por legiões de Arcanjos e Demônios perigosos! - Entendi! Pode continuar! - Tudo aquilo era muito importante para mim, Senhor Corregedor. Primeiro, por causa da "aventura da visagem da Onça", que já lhe contei. Depois por causa de outra, a "aventura da visão do Lajedo" que me sucedeu e que passo a lhe contar. Até hoje eu não sei direito como foi aquilo. Eu tinha me perdido na Catinga. Não sei se me sentei em dado momento, tendo adormecido e acordado depois. Acho que foi o que aconteceu, porque de repente dei comigo deitado, todo gafo, todo coberto de gafeiras, apodrecendo como um lázaro, ao pé de um enorme Lajedo, alto e inacessível. Aparecia-me a figura da Morte Caetana com sua CobraCoral e seus Gaviões. Sem falar, só olhando para mim, ela me fazia saber que unicamente escalando aquele rochedo, erguido verticalmente e cheio de Urtigas, é que eu cicatrizaria minhas gafas feridentas, unindo-me ao Divino. Eu começava a subir como num sonho, num pesadelo. Cortando-me e ferindo-me nas lascas, com a sola dos pés caindo ao contato com a pedra fumegante, conseguia chegar ao cimo. E aí, milagre dos milagres! eu desco485 bria, afinal, ou melhor, eu sentia com meu sangue, que tudo era divino: a Vida e a Morte, o sexo e a secura desértica, a podridão e o sangue. O Lajedo parecia com a Pedra do Reino, a do chuvisco prateado, e eu sabia, com o sangue, que, se conseguisse escalá-lo, experimentaria, no alto, de uma vez só, o gozo do Amor, o poder do Reino, a fruição da Beleza e a união com a Divindade, os quatro êxtases que lembram ao homem que, nesta Terra-Desértica, neste Sertão assírio e judaico, ele tem que se sobrepor à Esmeralda verde-lodo da Terrestre, ao Rubi vermelho e sangrento da Paixão, para atingir, assim, o Topázio de ouro da Hierosólima. Era uma coisa tão importante, Senhor Corregedor, que o senhor acredite: naquele dia, quando acordei realmente deitado perto dum Lajedo, tive uma decepção ao ver que não estava gafo e feridento conforme sonhara. Mas, daí em diante, tudo isso se incorporou às visagens e rituais da minha Igreja. Agora, ali, bêbado de vinho e de sonhos, meu Lajedo começou, também, a se povoar, mas não de cavalos, e sim de Mulheres, que logo começaram a me acariciar de maneira mais excitante que o senhor possa imaginar. Enquanto elas faziam isso, outra Mulher, nua, espichava-se deitada, em cima da pedra, ao meu lado, chamando-me para cima dela. Embaixo, no Tabuleiro pedregoso do Xadrez sertanejo, é que estavam, mesmo, as Damas, Cavaleiros e Peões do meu Reino, com Castelos pra todo canto, rios de prata serpeando pra todo lado, e punhais e diamantes cintilando no ar, com tropéis de cavalos e Bandeiras amarelas e vermelhas desfraldadas ao vento. De certo modo, é explicável que eu visse aquilo, também, porque, tendo sido criado por meu Pai, eu herdara dele a condição de Mestre nos arcanos das Três Astrologias. De fato, o que me aparecia agora, ali, era uma visagem de todo o Império do Sete-Estrelo do Escorpião, com seus Sete pontos-cardeais e seus Doze lugares sagrados - seis do Mar e seis do Sertão - governados pelos sete Planetas e pelos doze Signos do Zodíaco. Essa foi, aliás, a minha última visagem, enquanto acordado. Porque, imediatamente depois dela, amodorrado na madorna da saciedade, da embriaguez, do mormaço e da sombra, peguei no sono. A "viração", porém, continuou, agora agravada por todas essas coisas dementes que o sonho costuma nos trazer. Não havia, mais, aquela oposição entre a Mulher nua, que me tentava em cima do Lajedo, e o Reino do Sertão que se agitava e me deslumbrava lá embaixo. Agora, tudo era uma coisa só, pois o Reino me aparecia, ao mesmo tempo, como uma cena de Batalha bandeirosa e como uma bela Mulher nua, estendida e deitada sobre a grande cascata de ouro de seus próprios cabelos, com o corpo perfeito também dourado pelo Sol. Por esse "Reino da Princesa da Pedra Fina" que era ela, por essa 'Terra-Encantada, povoada de grutas e colinas, errava eu, também encantado e enfeitiçado, descobrindo, acariciando, tocando, descerrando, e logo, assolando, invadindo, bebendo, penetrando, mordendo, despeduçando - espichado sobre fontes umbrosas e regatos, em cujo musgo e a cujo remanso, na sombra esverdeada e fresca, reluziam frutes entreabertas e corolas - as corolas encarnadas das RosasVermelhas, as macias e brancas da flor do jasmim-cambraia, todas brilhando entre lianas coleantes que envolviam meu tronco e meu pescoço, acariciando-me as costas e buscando também avidamente o que morder e apertar. E foi chegando o momento em que tudo aquilo começou a se reunir numa sensação de tanto gozo e glória, que os cascos do Cavalo começaram a galopar em meu peito e nas minhas têmporas, pulsando e estremecendo ao ritmo do meu sangue. E eram cargas e tropéis, Guerreiras estranhas em desfiles o combates-mouros, ao som amarelo e vermelho dos Clarins, tudo se confundindo com o galope dos cavalos, com os gemidos da Mulher que estava chegando ao cume do Reino juntamente comigo, o finalmente com o tiro amarelo e ensolasado de um mosquete holandês que, ao mesmo tempo que partia de mim, me atingia no sangue, nos olhos e no centro de mim mesmo, com o estralejar e a fulguração do Cobre incendiado.

FOLHETO LXXIV

A Astrosa Desaventura dos Gaviões Cegadores - Creio, Senhor Corregedor, que umas duas horas tinham se passado. Eram, mais ou menos, de duas para duas e meia da tarde. Naquele instante, já tinha acontecido aquela cena entre Antônio Moraes e Genoveva, e estava se desenrolando a conversa entre Gustavo e Clara, no automóvel. Eu comecei a acordar. Somente então verifiquei que aquele "sonho de joiaria e safadeza" que eu vinha sonhando, tinha, de fato, algumas ligações com a "realidade raposa e afoscada", ali constituída pela Estrada e pelo Tabuleiro, lá embaixo. Realmente, fora essa realidade que provocara pelo menos a parte final do meu sonho, pois a Estrada que passava a cerca de uns cem metros do Lajedo, estava, de fato, naquele instante, povoada por um tropel ruidoso de carretas, miados de animais selvagens, piados metálicos de Gaviões e gritos de almocreves tangendo burros. Sem saber direito do que se tratava, pois estava ainda adormecido quando aquilo começara, era talvez isso o que eu vinha ouvindo em sonho, aqueles cascos de cavalos, o tinir dos estribos batendo nas esporas de metal dos Cavaleiros, o chiar das rodas das carretas, os gritos surdos dos cargueiros que conduziam os animais enjaulados e as bagagens. Só mais tarde, já mais perto do crepúsculo - e enquanto Arésio dava no Bispo aquele soco terrível que o prostrou, ensangüentado - é que eu viria a saber, aqui na Vila, que aquela era a cavalgada que nos trazia de volta a figura alumiosa do nosso Prinspo da Bandeira do Divino do Sertão. Mesmo que o soubesse, porém, eu não poderia ter observado nada naquele instante, porque a outra parte do sonho, a do tiro do mosquete em meus olhos, tinha também sua razão de ser, como descobri imediatamente, por mal dos meus pecados. Sucede que eu tinha me deitado à sombra da Braúna. Mas, enquanto eu dormia, o Sol tinha caminhado um bom pedaço, de modo que tinha me atingido a cara. Mesmo com os olhos ainda fechados, sua luz violenta tinha me encantado completamente. Possivelmente fora essa luminosidade que, no sonho, "se virara" num tifo amarelo de mosquete holandês, semelhante àqueles que tinham sido disparados contra os Brasileiros durante a "Batalha dos Guararapes", no século XVII, como Samuel e Clemente não se cansavam de me dizer desde que eu era menino. Isto, quanto aos olhos somente, graças a Deus. Porque, felizmente, no outro "centro vital" que eu sentira explodir no sonho, quem me atingira não fora galego safado de qualidade nenhuma, mas sim a bela Galega que eu tivera a sorte de encontrar naquele dia, nua e deitada, evocada e invocada pelo Vinho e por meus rituais astrológicos de encantação. Quanto aos olhos, porém, Senhor Corregedor, logo acontecia algo que ia agravar minha situação: no momento em que eu ia acordando, não tomei consciência imediata de que o Sol já chegara a meu rosto, de modo que, sem tomar precaução nenhuma, abri os olhos diretamente para ele. Fui imediatamente deslumbrado por uma luz fulgurante, que me deixou, desta vez, completamente encandeado, durando isso o tempo exatamente necessário para me impedir de ver claramente a cavalgada de Sinésio, o Alumioso, que ia passando pela estrada, em procura da Vila, onde entraria daquele modo aciganado, glorioso e epopéico que já lhe contei. A impressão do círculo do Sol, em meus olhos, enchera minha vista obscurecida de fantasmagorias e cosmoramas luminosos, nos quais eu via o enorme globo fulgurante boiar numa espécie de vasto fogo feito de chumbo derretido, por entre velas, Barcos o bandeiras, Esferas de ouro e frutos incendiados. Minha fronte começou a latejar de dor-de-cabeça, como se realmente tivesse sido atingida de raspão por uma bala incandescente. Para atrapalhar ainda mais minha vista, acontece que a cavalgada de Sinésio estava levantando uma poeiragem enorme, na estrada. O pó pardo-vermelho, dourado pelo Sol, envolvia os Cavaleiros, que passavam, numa nuvem de imagens tão "alumiosas e encobertas" quanto o próprio Príncipe que ali vinha. A dor, agora, dava-me a sensação de um anel de ferro quente ou de um cinturão de fogo que apertasse impiedosamente minha fronte. E como, ao mesmo tempo, eu começasse a ouvir mu som de trompa - provavelmente a mesma buzina de caça que Sinésio tocaria logo depois, na Praça - o fogo sagrado da Epopéia começou a me agitar, soprado pelas cordas da Tiorba do genial Bardo brasileiro, Dom Raymundo Correa. Insensivelmente e involuntariamente, começaram a se agitar e estremecer dentro de mim, queimando-me o sangue e a cabeça, aqueles seus versos proféticos, nos quais, já prevendo a chegada de Dom Sinésio Sebastião, o Alumioso, ao Reino pedregoso do Sertão, acompanhado de Fidalgos cangaceiros e aciganados pela estrada, Raymundo Correa cantara assim, uns quarenta anos antes do fato:

"O Sol requeima a solitária Estrada. Silêncio. Mas, além, já chega o Bando: o trom dos Cascos vem se aproximando do galopar d'A Estranha Cavalgada!

São Ciganos, fiéis da Onça-Parda: castanhos-encantados, vão passando! o as Trompas, a soar, vão agitando o aurirrubro da Tarde Ensolarada.

o a Catinga se queima e se estremece: da Cavalgada o estrépito que aumenta cega-se ao Gume e às pedras desta Serra!

o Silêncio, outra vez, Fogoso, desce: o Sol sagra, do Rei, a Voz Poenta, o O Alumioso ao sol-dos-mortos erra!" - Assim, Senhor Corregedor, encandeado como estou lhe dizendo e evocando os versos de Raymundo Correa, ouvi o tropel que passava e se afastava cada vez mais. Não tinha visto, claramente, nada, e julgava, em minha momentânea cegueira profética, que fosse algum Circo ou tribo comum de Ciganos que se dirigia para a feira, aqui na Vila. Permaneci ali, ainda algum tempo,

em cima do Lajedo, de costas para a rua e com o rosto voltado para a estrada, com as mãos colocadas sobre os olhos para fechálos, protege-los e para ver se assim o encandeamento melhorava mais depressa e eu recuperava a claridade da vista. Mas não havia jeito. Mal eu entreabria os olhos, para experimentar, voltavam as bolas de fogo, os pontos luminosos, as manchas de chumbo derre489 tido que, tornando-se insuportáveis quando eu insistia em manter os olhos abertos, permaneciam, mais atenuadas e vistas ao contrário, quando eu os fechava de novo. Deve ter sido enquanto fiquei ali, tentando melhorar meus olhos, que a cavalgada de Sinésio entrou na Vila, soltando os animais enjaulados e provocando todos aqueles acontecimentos que contei, incluindo-se entre eles a "visagem" do Profeta Nazário e de Pedro Cego.

- Uma pergunta, Dom Pedro Dinis Quaderna! Noto que essas "visagens" do Profeta Nazário e de Pedro Cego têm estreita correlação com seu Catolicismo Sertanejo. Eles eram seus discípulos? - De certo modo, eram, Senhor Corregedor! Ouviam, todo ano, a leitura do Almanaque do Cariri, uqe eu continuava a publicar depois da morte de meu Pai, e conheciam todos os "folhetos" que eu imprimia e vendia na feira, principalmente o da Pedra do Reino, porque da divulgação dele eu fazia questão, por ser isso muito importante para o proselitismo da minha Seita! - Anote isso, Dona Margarida! É um pormenor importantíssimo para a solução do caso! Pode continuar, Dom Pedro Quaderna! - O fato, Senhor Corregedor, é que, como eu vinha dizendo, foi mais ou menos na mesma hora da libertação das Onças que eu recuperei a claridade dos olhos. Mais do que isso, aliás: como um dom sagrado mas passageiro que eu tivesse recebido e que desejasse se despedir, mais forte, no último instante em que morava em mim, minha visão não voltou, simplesmente "normal", como era antes - exceto nos momentos de "viração". De repente, fiquei dotado de uma vidência-visageira fora do comum, uma vidência profética e astrológica como nunca eu tinha tido. Ai de mim, Senhor Corregedor! Mal sabia eu, naquele momento, que essa vidência régio-zodiacal me fora dada por um instante apenas, só para que eu, imediatamente, caísse, de uma vez para sempre, nas intermitências de uma cegueira cruel, profética também, mas dura e terrível de suportar! - Uma cegueira? E o senhor cegou? Está cego? - Estou, sim senhor! Além de epilético, cego! Já viu que coisa mais dolorosa para um pobre Epopeieta? O que me consola nessa tragédia é que isso de ser cego fica muito bem para um "Gênio da Raça" como eu! Homero também era cego, o senhor sabia? - Então, o senhor está cego! - disse o Corregedor, balançando a cabeça. -- E cegou exatamente na hora em que, perto do senhor e do Lajedo onde o senhor estava, dispararam o tiro que impediu, talvez, que se apurasse essa história toda! Sabe que essa cegueira sua chegou mesmo na hora, Dom Pedro Dinis Qua490 tierna? Cego, o senhor vai me dizer que não viu nada! Cego, o senhor torna-se objeto de compaixão! Cego, o senhor não poderá identificar os assassinos, nem mesmo que nós venhamos a descobri-los! Olhe, Senhor Quaderna, não quero ser indelicado não, mas não deixa de ser estranho que o senhor tenha escolhido exatamente essa hora, para cegar! E, depois, que cegueira mais estranha é essa sua! O senhor veio aqui para a Cadeia sem guia, subiu a escada sem tatear, acertou facilmente com os degraus, sentou-se numa cadeira que lhe mostrei com um gesto há pouco, viu que eu estava vestido com uma toga negra e vermelha... Que é que ~tignifica isso? - Senhor Corregedor, de fato, é uma cegueira muito estranha, essa que me assaltou os olhos, naquele dia. A meu ver, ela é parenta próxima da epilepsia-genial que também me atacou, como lhe disse. Deixaram-me, as duas, numa espécie de vidência-penumbrosa, na qual o Mundo me aparece como um Sertão, um Desertão, o De-Sertão de que falavam os geniais escritores Manoel de Oliveira Lima e Afrânio Peixoto, repetindo velhos cronistas brasileiros do tempo dos Conquistadores, segundo me contaram Clemente e Samuel. É aí que o Sertão me aparece como o Reino da Pedra Fina do qual já lhe falei. Há pouco, quando eu vinha chegando aqui para a Cadeia, tive essa idéia-vista de que o próprio Sertão era uma Cadeia enorme, cercada de pedras e sombras, de lajedos fantásticos e solitários, parecidos com Lagartos venenosos, cinzentos e empoeirados que dormissem numa Terra Desolada. Ou então parecidos com as ruínas, os esqueletos gigantescos e queimados de uma Cidade de pedra, incendiada. Ora, acontece que eu, como discípulo de Samuel, sou Católico; mas, como aluno de Clemente, sou, também, um devoto da Mitologia NegroTapuia do Brasil. Foi, aliás, plasmando esses dois elementos que eu construí o esqueleto central do Catolicismo Sertanejo. Ora, segundo Clemente, o nosso Sertão é a terra mais antiga do Mundo, é o berço da Raça Humana. Diz ele que nós, Sertanejos, somos descendentes diretos do Tapuia, do "Homem Castanho Inicial", brotado da terra parada do Sertão num dia em que ela estava umedecida, e, depois, errante por entre os espinhos e as muralhas de pedras sertanejas. Aliás, acho essa idéia- de Clemente mais lógica do que as idéias de outras Mitologias estrangeiras. É muito mais lógico que o Homem-Castanho, emigrado daqui para a Africa, tenha se tornado negro, lá, pelo calor, tornando-se branco, pelo frio, na Europa, e permanecendo castanho no Egito ou na índia. Outra coisa que irrita Clemente é a preferência inteiramente arbitrária que dão, no Mundo, ao que ele chama "a Mitologia biológica inglesa". Ele indaga, indignado: "Por que afirmar que o homem descende do Macaco? É muito mais lógico que tenha sido de outros bichos, principalmente a Onça!" Isso, ele diz nos momentos de raiva. Mas, nos momentos de maior calma, explica que o Homem não descende de bicho nenhum e que a Mitologia Negro-Tapuia está muito mais perto da verdade científica do que essas outras Mitologias saxônias, tão arbitrárias quanto qualquer outra e com o agravante de serem pretensiosas. Olhe, Senhor Corregedor, sempre que vou dizer alguma coisa sobre a Catinga sertaneja, valho-me de três geniais escritores brasileiros, o General Dantas Barretto, o Tenente-Coronel Durval de Aguiar e o Capitão Euclydes da Cunha - este, segundo Samuel, useiro e vezeiro em plagiar os dois anteriores. Dou sempre preferência ao General Dantas Barretto, primeiro por ser o mais graduado de todos, na hierarquia militar, depois por ser escritor tão admirável que só chamava o trem de "a rugidora Serpente mecânica". Aqui, porém, para o que tenho a dizer, devo lançar mão do Tenente-Coronel Durval de Aguiar. O senhor já leu alguma coisa dele? - Não, nem nunca, nem ao menos, ouvi falar desse escritor! - É pena! Ele e o General Dantas Barretto exerceram, em relação a Euclydes da Cunha, o mesmo papel que Samuel e Clemente exerceram em relação a mim! Descrevendo a Pedra do Reino do Sertão, diz o Tenente-Coronel Durval de Aguiar que essa terra é constituída, toda, de "serras de pedra, naturalmente sobrepostas, formando Fortalezas e redutos inexpugnáveis". Euclydes da Cunha, plagiando o Tenente-Coronel, descreve também o Sertão e fala em "alinhamentos de penedias, caprichosamente repartidos", que semelham, "de fato, grandes cidades mortas", cidades ante as quais o Sertanejo passa "sem desfitar a espora dos ilhais do cavalo em disparada, imaginando lá dentro uma população silenciosa e trágica de almas do outro mundo". E é aí que eu vejo que Euclydes da Cunha absolutamente não pode ter sido o "Gênio da Raça Brasileira". Veja que leviandade, a dele! "Imaginando!" Imaginando, uma porra! Tem, mesmo! Essa população de almas do outro mundo, existe, mesmo, aqui, em nossas pedras, de noite, de dia e no pino do meio-dia! Bastariam as Onças, os Gaviões, os Carcarás, os Veados, os Bodes, as Cobras o os Morcegos sertanejos, para provar que o nosso Reino amuralhado de pedras está povoado de Deuses e Demônios, de Anjos o Divindades! Como me explicou Clemente, Senhor Corregedor, foi das trepadas das Divindades solares entre si que nasceram a Terra e a Agua, mijadas por eles. Depois, daí em diante, o mais foi fácil: pingos de gala de Deuses machos ou pingos de boi de Deusas fêmeas que caiam no barro da Terra, fazem nascer ou bichos ou plantas. Se um Deus qualquer, depois daí, trepa com uma Veada, ou se uma Deusa se deixa cobrir por um Pavão ou um Gavião, nasce um homem ou uma mulher, conforme o Foi, portanto, dessas trepadas das Divindades tapuias com Onças, os Gaviões, os Bodes, as Cabras, os Veados e outros tichos, que nasceram os Tapuios castanhos, antepassados diretos s Sertanejos e indiretos de todos os outros homens. É por isso ,fie o Sertão, nos meus momentos de maior cegueira profética, me aparece como esse Reino pedregoso-de que lhe falei, Reino por onde erro eu, agora, como o Valente Vilela, mas também destroçado, processado, vagabundo, perdido, extraviado e cego, incapaz de ver outra coisa a não ser esses Lajedos, essas Catingas espinhosas, esses morros descalvados, essa Raça Sertaneja e esses os, semelhantes aos que, às vezes, aparecem em nossos pesadelos. Minha sorte, porém, é que a cegueira que me assaltou ,,4s olhos é intermitente! Cego como estou, às vezes, quando menos Opero, sem qualquer prenúncio que me avise, um raio fende p, escuro-penumbroso em que vivo mergulhado, e então eu vejo, a' que atribuo, também, ao "mal sagrado" dos Gênios, de que acabo de ser acometido em sua presença. Aí, nesses momentos, eu vejo mesmo, vejo pra valer! O que eu avisto, o que eu enxergo etttão, nesses momentos de "raio de pedra-lispe" e de "corisco e fulminação", é visto em zonas interrompidas, mas deslumbrantes, de claridade enceguecedora, é visto como nenhuma coisa foi vista até agora pelo comum dos mortais! - Pelo comum dos mortais? E o que é o senhor? Algum iluminado, ou alguma Divindade tapuio-sertaneja, por acaso? - disse o Corregedor, irônico.

- Eu não chegaria a dizer tanto, por modéstia e humildade cristã! No máximo, o que me aconteceu foi um decreto insondável da Providência Divina, que não podia permitir que o "Gênio da Raça Brasileira" fosse inferior, em nada, ao "gênio da raça grega"! Minha cegueira seria muito parecida com a cegueira poética e profética de Homero, caso tivesse existido, mesmo, esse mavioso e distinto Poeta, autor das traduções gregas da Ilíada e da Odisséia - o que digo porque, como Samuel já provou, o autor, de fato, dos originais brasileiros dessas duas obras foi o genial Bardo nordestino, Doutor Manoel Odorico Mendes. Acredito, também, que foi mais ou menos no estado de cegueira e iluminação em que me encontro que Ezequiel, o renomado Poeta judaico-sertanejo de que lhe falei há pouco, teve aquela sua "visagem do campo de ossos" e aquela outra, precursora da Mitologia Negro-Tapuia, na qual lhe apareceram umas águias, uns grifos e uns touros, sustentando o trono do Divino, visagem que eu tive logo o cuidado de assertanejar mais, transformando as águias em Gaviões, os grifos em cruzamentos de Onça com Seriema, e o leão do Divino na Onça do Divino! - O senhor, com coisas tão estranhas no pensamento, deve ter uma cabeça bastante aperreada do juízo, Dom Pedro Dinis Quaderna! - disse o Corregedor, falando como se fosse para mim, mas, de fato, para ser apreciado por Margarida.

Eu, me fazendo de inocente, concordei: - É verdade, e tenho mesmo, Excelência! Durante toda a vida, sofri a influência da Esquerda clementina, influência que é clássica e despojada, por ser luz-matinal, popular, do rubi, celeste e do Sol. Sofri, também, por outro lado, a da Direita samuélica, que é romântica, por ser noturna, lunar-satúrnica, fidalga, da esmeralda, inférnica, verde-lodo e da Lua. Somando-se o elemento clementino ao samuélico, temos o quadernesco. É por isso que eu, sendo da tarde, do topázio, do purgatório, de mercúrio e do Sol, sou, ao mesmo tempo, clássico e romântico, isto é, "completo, genial, modelar e régio". Eu, Senhor Corregedor, tendo nascido com dois olhos sertanejos, solares e clássicos, sofri depois, no Seminário, a influência romântica e profética do genial Bardo alagoano e judaico, o Padre Ferreira de Andrade, ficando daí em diante, no mundo, com um olho cego - queimado pela demência romântica do Deserto judaico e sertanejo assim como pela asa de fogo e navalha da Musa do genial Poeta paraibano Augusto dos Anjos. O outro olho permaneceu clássico e popular, como nascera. O que é mais curioso, porém, é que o olho romântico e queimado, que é o direito, depende do olho clássico e vidente, que é o esquerdo! E vice-versa! Porque, se o Gavião romântico e fogosodesértico não tivesse queimado e despedaçado um dos meus olhos, o outro não teria obtido o privilégio de ver, na realidade parda o afoscada, essas Cavalhadas e batalhas, cheias de bandeiras, essas Estrelas e moedas que vejo de vez em quando coroando as frontes dos Cavaleiros sertanejos. Também, se eu não gastasse toda a prata e todo o Sol do meu sangue com o olho clássico e vidente, o outro não seria capaz de enxergar o sofrimento e a miséria, a feiúra desdentada e barriguda das pessoas, os morcegos, os urubus o as corujas das Furnas sertanejas, onde moram as Divindades infernais, satúrnicas e subterrâneas do meu Mundo astrológico e zodiacal! - Entendi! Continue, então, a narrar os acontecimentos do dia 1 de junho de 1935, em cima do seu Lajedo.

- Depois de me manter, um bom pedaço, com os olhos fechados, como contei a Vossa Excelência, achei que já passara tempo suficiente para me recuperar e abri os olhos. Eu tinha me voltado, novamente, para o lado da Vila, de modo que os telhados da rua me apareceram subitamente diante de mim. O que é curioso é que eu via tudo, agora, mais nitidamente do que antes. Três casas se destacavam na minha visagem profética: o antigo ao da família Villar, mais perto de mim do que as outras; a dos Garcia-Barrettos e o casarão das pinhas, perto do qual

va o "cabra" que atirou em Sinésio. Ora, essas eram aquelas onde se encontravam, como já disse, personagens dos mais rtantes, no caso. E acredite Vossa- Excelência que eu "vi"

aquilo num repente, como nunca antes vira coisa alguma,

minha vida! Parecia que o Mundo me revelava, pelo menos sua parte sertaneja, "não suas aparências, mas sew próprio e, suas entranhas pardas, a alma felina e estranha que gerou a", como diz Clemente sempre que me explica a "Introdução lógica Negro-Tapuia" de sua célebre "Filosofia do Penetral".

aquilo foi só um instante, Senhor Corregedor! Primeiro,

parque a enorme bola de chumbo derretido que o Sol imprimira pa minha visão não tinha propriamente se desvanecido. Parecia, ~as, ter se destacado dos meus olhos e adquirido vida própria,

Pois começou a boiar à meia altura, no horizonte, entre o Lajedo e a Vila. Depois, porque foi então que sucedeu, mesmo, a catástrofe irreparável e definitiva: essa mesma bola incandescente de chumbo, rme, mais alta do que um homem, fendeu-se pelo meio, sur¡indo de dentro dela dois Gaviões, um macho e outro fêmea, os quais, como duas flechas, cortaram os ares na direção do meu o, desferindo seus piados, ásperos como um som de metal. Gaviões seriam esses, Senhor Corregedor? Seriam dois daqueque tinham vindo com Sinésio e que estavam sendo, naquele ~te, soltos na Praça? Seriam Gaviões comuns, do Sertão, apappridos ali por acaso? Seriam os dois Gaviões pertencentes à Moça Lana, a jovem e cruel Divindade negro-vermelha da morte setaneja? Seriam enviados da Fatalidade astrosa, resolvidos a ~r minha fronte com aquilo que o genial Poeta brasileiro Fagundes Varela chamava "o sigilo do Gênio"? Não sei! Eu pensava que, assim que eles me avistassem, iriam se desviar do Lajedo e de mim, como normalmente acontece com os Gaviões, de modo que não tomei precaução nenhuma para me proteger; e foi isso o que me desgraçou, Excelência, porque foram eles que me cegaram, despedaçando e ferindo meus olhos para sempre! - Dom Pedro Dinis Quaderna, não vou discutir se o senhor está cego ou não. Mas uma coisa eu garanto, porque estou vendo: teus olhos não estão despedaçados não, estão aí, inteiros e limpos que fazem gosto! - Pode ser, Senhor Corregedor! Para falar com exatidão, não lei, realmente, como foi que os Gaviões agiram! Não sei se eles usaram o bico, as garras, ou ,se, apenas, se limitaram a encostar nos meus olhos, um em cada olho, o eu de cada um, incendiado e flamejante! O que eu sei, porque ainda cheguei a ver isso, é que eles fenderam os ares em minha direção e, aproximando-se

com terrível rapidez, logo chegavam junto à minha cabeça, em torno da qual começaram a esvoejar, como sempre acontece nos meus ataques do "mal sagrado". Apavorado, ouvi os estalos, os golpes secos das suas asas que me arrodeavam a cabeça, cada vez girando com mais velocidade. Tonteei, senti um calor estranho cercando minha cabeça e a testa. Os olhos começaram a esquentar o doer, de modo insuportável. Uma ventania de fogo soprou na minha cara. E alguma coisa eles devem ter feito, porque, de repente, meus olhos estalaram, como milho no fogo, ou como se tivessem sido chocados pela fornalha do Inferno. Foi a derradeira coisa que enxerguei, Senhor Corregedor: ceguei imediatamente, com o sangue e as lágrimas escorrendo, misturadas ao humor vital o salgado dos meus olhos despedaçados!

FOLHETO LXXV

O Ajudante de Profeta Com um grito de dor e desespero, ajoelhei-me na Pedra o fiquei por ali, durante um bom pedaço de tempo, acariciando com as duas mãos, do modo mais suave que me era possível, a região que cercava meus pobres olhos dilacerados. Minha sensação era de desespero total, convencido como estava de que meus olhos estavam irremediavelmente cegos. E a influência dos Poetas brasileiros, principalmente a dos Acadêmicos, é tão poderosa em mim que, na minha desgraça, as palavras que me ocorriam para nomeá-la eram aqueles célebres versos do genial pernambucano Eustáquio Gomes, que dizem: "A Cegueira é o Inquilino dos Olhos, como a Ignorância é o locatário de todas as Paixões malévolas".

- Bonito! - disse o Corregedor.

- Também acho! - concordei. - Mas, mesmo assim, minha preocupação era terrível! Seria que, cego, iria me tornar um ignorante, com a Ignorância, locatária das Paixões malévolas, tornada inquilina da minha cabeça através dos olhos inúteis? Será que isso não iria me impossibilitar, burrificando-me, de ver realizado o grande sonho da minha vida, o de me tornar "Gênio da Raça Brasileira"? Eu sentia na boca um gosto estranho de metal salgado, que devia ser o gosto ferrujoso do sangue e do sal das lágrimas

a escorrer dos olhos para a boca. Esse gosto fazia-me entender, ,,agora, o motivo pelo qual os olhos dos Cegos sempre me tinham parecido, até então, como que feitos de prata cegada ao Sol. É que eu sentia agora, em minha própria Face cega, que meus olhos tinham sido transformados, pela Ave de rapina do Sol sagrado, em dois globos de Prata derretida, globos que logo se endureceriam, tornando-se opacos para sempre. Eu sabia, agora, que aquela bola de chumbo derretido que povoara meus últimos instantes de visão, e que acompanhava atualmente minha cegueira singular, nunca mais me abandonaria, permanecendo comigo, pelo contrário, até o fim da minha vida.

- E o senhor ficou no Lajedo até a noite? - Não senhor! Enfim, ficar ali é que não resolveria meu problema! Melhor, seria tentar regressar aqui à Vila, para procurar o médico. Assim, tateando e arrastando-me, queimando-me de novo nas Urtigas e ferindo-me nas arestas da minha Pedra sagrada, comecei a descer o Lajedo, a fim de empreender meu primeiro caminho de Cego, de volta para casa. Arranhando-me, magoandome de todas as maneiras imagináveis, gemendo, imprecando em brados enfurecidos contra a catástrofe divina e diabólica que desabara sobre mim, consegui, finalmente, descer a Pedra, cruzar o pedaço de Tabuleiro ladeiroso que fica entre ela e a estrada, e chegar, depois, ao lugar onde se encontrava meu fiel cavalo "Pedra-Lispe". Assaltava-me uma terrível sensação de insegurança, agora que conseguira descer do Lajedo, mas estava ali, inerme, no Tabuleiro. Era como se todos os perigos do Mato sertanejo me rondassem. Tinha medo de encontrar uma Onça, uma Cobra grande que me engolisse como engoliu Pedro Ventania, algum Novilho desgarrado, selvagem e enfurecido que despedaçasse minhas tripas com as pontas aceradas de suas aspas, ou alguma CobraCoral que, picando-me o tornozelo, conseguisse injetar o sangue da Moça Caetana na corrente do meu sangue real, através da figura, também real e mortal, dos Cristais de seu veneno. Ouvi, então, "Pedra-Lispe" dar o ligeiro nitrido com que sempre saúda minha aproximação. Seguindo a direção desse som, consegui chegar até ele, abraçando-me então com o nobre animal, em cujo pescoço, chorando, encostei a testa escaldante, ainda furnegosa do fogo gaviônico que me cegara. Aí, Senhor Corregedor, minha Divindade sertaneja deu-me um sinal, indicando que começava a se amercear de mim. Ouvi uma voz que se aproximava, cantando pela Estrada, como quem vinha da Vila de Estaca Zero para a Ribeira do Taperoaá. A voz era fanhosa, rouca e áspera, e pareceu-me logo familiar. O que mais me impressionou, porém, foi que ela vinha acompanhada pelos toques prateados de uma Viola. Foram, novamente, os Cegos sertanejos que vieram à minha imaginação, Senhor Corregedor. Agora, eu sabia, não por fora, mas de dentro mesmo do sangue, por que é que a voz e a Viola das pessoas que são cegas sempre me pareciam mais "de Prata" do que as dos Cantadores comuns. Aí, já próxima a voz deu um grito-de-guerra, dizendo: "Corre, meu Povo! Corre que o Alumioso chegou e a Guerra do Reino vai começar!" E então entoou uma estrofe corrida, que não me deixou mais nenhuma dúvida sobre quem era o Cantador que vinha chegando. Os versos eram os seguintes: "Eu sou Lino Pedra-Verde, sou Besouro de ferrão, eu sou a Tirana-Bóia, perigo deste Sertão. Pra brigar no Ferro frio, não sirvo, não presto não. Mas, solto aqui nesta Terra, com uma Viola-na mão, eu sou Onça comedeira, Tigre e Rei do meu Brasão, sou Punhal, bala de Prata, sangue de Cobra e Leão!" - Muito bem, Dom Pedro Dinis Quaderna! - comentou o Corregedor. - De todas as suas charadas em verso, esta é a mais fácil de decifrar, pelo menos para nós, não é, Dona Margarida? Pelos versos, entendo que o Cantador que vinha chegando era o tal do Lino Pedra-Verde, não é isso? - É isso mesmo, Excelência, e dou ao senhor os meus parabéns pela familiaridade que está começando a ter com meu estilo enigmático e régio! - O senhor sabe que, segundo todo mundo fala, aqui na rua, esse Lino Pedra-Verde, além de intermediário seu em vários negócios escusos, é o elemento de ligação entre o senhor e os fanáticos, tolos e ignorantes que o senhor conseguiu aliciar para a tal Ordem da Pedra do Reino? Sabe disso? - Sei, sim senhor! - E o senhor, sabendo disso, confessa que teve um encontro com Lino Pedra-Verde na mesma hora em que mataram o "cabra", a dois passos do lugar de onde partiu o tiro? - Confesso, sim senhor, porque é a pura verdade e eu sou incapaz de mentir, mesmo que isso me prejudique! - O encontro do senhor com ele foi, mesmo, casual, como você deu a entender? Ou será que houve alguma combinação prévia entre o senhor e Lino? - O encontro foi casual, Senhor Corregedor! - Foi mesmo? Me diga uma coisa: o senhor sabia que Lino Pedra-Verde devia vir à Vila, naquele Sábado? - Sabia, sim senhor, porque ele não perde feira, aqui, e ora dia de feira! - E sabia, também, que a Estrada por onde ele devia vir era aquela? - Sabia, sim senhor! - Muito bem! Anote tudo isso, Dona Margarida, é um dado fundamental para a decifração do caso! Pode continuar, Dom Pedro Dinis Quaderna! - Os passos de Lino se aproximaram, Senhor Corregedor. Eu não via nada, extraviado na cegueira! Aí, Lino parou, o que sei porque-seus passos pararam, e houve um momento de silêncio, durante o qual imagino que ele ficou me olhando estupefato, aterrorizado pelo aspecto, na certa terrivelmente impressionador, do meu rosto manchado pelo sangue e pelos humores que escorriam dos meus olhos dilacerados. Então, após esse momento de silêncio e espanto, Lino Pedra-Verde falou: "'Dom Pedro Dinis Quaderna, meu Rei e meu Senhor! Que é que você está fazendo aí, sozinho, parado no meio da Estrada? Estás querendo dar parte de doido, Dinis?'" - Senhor Quaderna, quando fizer a sua Epopéia, tenha cuidado com os pronomes de tratamento. Agora mesmo, aí na frase de Lino, o senhor usou um tratamento todo solene no começo, depois passou para "você" e finalmente para "tu"! Cuidado, porque isso é um descuido grave, num Epopeieta! - Não senhor, não foi descuido não, o senhor está enganado! Os pronomes de tratamento que venho empregando são escolhidos com todo cuidado! Para que o senhor entenda bem certas particularidades que Lino usava no seu tratamento para comigo, é preciso que eu lhe explique certas coisas. Primeiro, eu tinha procurado ensinar aos Cavaleiros da Ordem da Pedra do Reino algumas fórmulas cerimoniosas tiradas dos romances de José de Alencar e de Zeferino Galvão, este sendo um genial escritor pernambucano e sertanejo, da Vila de Pesqueira, autor de O Mosteiro de Nimes e de Heloísa d'Arlemont. Aquele "Dom Pedro Dinis Quaderna, meu Rei e meu Senhor" que Lino me dera no começo vinha daí. Mas, ao mesmo tempo, meus familiares 'me tratavam por Dinis. Ora, Lino tinha sido meu companheiro na "Onça Malhada" e meu colega na "Escola de Cantoria" de João Melchfades, de modo que, ora usava o tom cerimonioso e régio, ora o familiar. Aliás, essa mistura de tratamentos era e é tradição da nossa Casa. Na Pedra do Reino, os súditos de meu bisavô Dom João II, o Execrável, ora o tratavam de "Rei e Majestade", ora o chamavam "simplesmente de Joca", segundo está escrito na Crônica epopéica de Antônio Áttico de Souza Leite. Assim, quando Lino se dirigiu a mim daquele modo, perguntando se eu estava doido, absolutamente não estranhei a familiaridade dele. Limitei-me a responder:-Você pergunta o que eu estou fazendo aqui, só, parado na estrada? Estou aqui, me arrastando como posso, Lino, tentando voltar para casa. É Lino, mesmo, que está aí, não é?"`É ele mesmo, Dom Pedro Dinis Quaderna!', disse Lino, convicto. `Estou indo aqui, em demanda do Taperoá, porque vai haver lá, a maior confusão. Vai se abrir um boi-de-fogo danado, lá, agora, e eu quero estar na rua para entrar de cu-de-boi adentro! Quero logo lhe avisar que estou com a gota-serena, ouviu?' " - Com a gota-serena? - estranhou o Corregedor.

- É verdade, Senhor Corregedor, e, para falar a verdade, não teria sido necessário que ele dissesse isso, para eu -saber. Pelo acento delirante e arrebatado de sua voz, eu já tinha conhecido, desde a chegada dele, que Lino tinha tomado uma ou duas lapadas do "vinho encantado e sagrado" da Pedra do Reino. Assim, o que me espantava, não era ele "estar com a gota-serena" e com a "molesta dos cachorros", pois é assim que o Vinho sagrado nos deixa sempre. O que me admirava era ele não demonstrar nenhuma estranheza por me ver ali, cego, com o rosto todo ensangüentado. Resolvi então chamar a atenção dele para isso: -Você deve estar espantado, Lino, por me ver assim, com o rosto cheio de sangue!', disse.

-Você, Dinis? Que nada! Sua cara está limpa como o Sol!' "`O quê, Lino?', estranhei, espantado. `Que é que você está me dizendo?' -Eu é que pergunto o que você está me dizendo, Dom Pedro Dinis! Você parece que tomou, também, e mais do que eu, umas lapadas do nosso Vinho? Ou foi a aparição da pantarma do Prinspo que endoidou você? Aí, na sua cara, não tem sangue de qualidade nenhuma, Dinis!' "'E meus olhos, Lino? Não está saindo sangue deles, não?' -Está nada, meu Senhor Dom Dinis! Por que você pergunta isso?' -É que estou cego, Lino! Ceguei dos dois olhos de uma vez!' -Coitado do Rei! Coitado de Quaderna!', disse Lino, cuspindo

de banda e acrescentando, enquanto eu ouvia o som de suas

mandíbulas mastigando a `erva-moura' da Pedra do Reino, que eu

lhe ensinara a mascar: `Como foi que o senhor cegou? Faz tempo?'

-Faz muito não, Lino! Foi agora mesmo, ali, em cima do

meu Lajedo sagrado! Mas o que eu estou admirado é de meu rosto não estar cheio de sangue, porque senti perfeitamente quando o sangue escorreu dos meus olhos.' " `Ah, e o sangue correu dos seus olhos, foi, Dinis? Como foi isso? Você estuporou, foi?' "'Sei não, Lino! Sei que almocei, comi carne-de-sol com paçoca, tomei umas lapadas do Vinho Tinto da Malhada, dormi, e, quando acordei, foi com o Sol na cara e nos olhos! Com isso, comecei a avistar umas coisas esquisitas, lá por cima da casa de meu Padrinho, Dom Pedro Sebastião Garcia-Barretto, que a gente avista daqui, como você sabe. De repente, comecei a ouvir e ver, na Estrada, umas coisas esquisitas também - uns miados de Onça, uns esturros, uns piados de Gavião, batidas de cascos de cavalos e chiados de rodas de carreta. Aí, dois Gaviões me atacaram, esvoaçando e batendo as asas em redor da minha cabeça. Daí em diante, não sei mais o que foi que aconteceu não, Lino. Sei é que, de repente, meus. olhos começaram a esquentar, senti aquela dor desadorada, eles chocaram, estalaram, e eu ceguei!' "'Jesus, minha Nossa Senhora! Então você ouviu essas coisas passando na estrada, foi? Era ele, não era?', indagou Lino, em delírio, sem ligar muito para o que me acontecera e pensando, só, no rapaz do cavalo branco.

"'Ele, quem?', perguntei espantado, porque, com os olhos daquele jeito, a lembrança de Sinésio não me ocorrera, absolutamente, depois do aparecimento dos Gaviões.

"'Era o nosso Prinspo, Dom Sinésio, o Alumioso, que voltou, Dinis!', gritou Lino? Que é que você está dizendo?', perguntei, "`O quê, Lírio? Que é que você está dizendo?', perguntei, incrédulo, e atribuindo sua exaltação a uma doideira causada pelo Vinho da Pedra do Reino.

"`Bem que você nos dizia, meu Rei Dom Pedro Dinis Quaderna!', continuou Lino, exaltando-se cada vez mais. `Bem que você profetizou, para a era entre 35 e 38, o aparecimento do rapaz do cavalo branco, no Almanaque do Cariri! Venha, venha comigo! Vamos pra Taperoá, porque o Prinspo do Cavalo Branco ressuscitou e vai começar a tribuzana, o boi-de-fogo da Guerra do Reino do Sertão!' "'Lino, deixe de conversa!', adverti-o. `A gente está falando numa coisa e você vem com outra! Falei que apareceram umas coisas em cima da casa de meu Padrinho, mas não era sobre Sinésio que eú estava falando não! Escute o que estou lhe dizendo, homem! Estou. cego, e estou é espantado porque você não vê sangue na minhã cara! Como é que você não está vendo isso, se eu senti o gosto da água-dos-olhos misturada com sangue, na minha boca? Senti perfeitamente quando meus olhos se rasgaram, deixando escorrer para baixo a água-da-vista! Tenho certeza, porque ainda estou sentindo, inclusive, o gosto de metal enferrujado que tudo isso deixou na minha boca!' `Bem, Dom Pedro Dinis, disso aí eu não me espanto não, porque, quando eu apareci ali, naquela curva da Estrada, você estava aqui, parado no meio do tempo, feito doido, com sua faca-de-ponta atravessada na boca!' "`A faca? Na boca?', falei eu, meio apalermado.

"`Sim!', insistiu Lino. `Quando eu apareci, você estava mordendo a faca, feito doido! Eu lhe digo mais uma coisa: eu quase corro, com medo, porque, do jeito que você estava, de alpercatas de rabicho, roupa parda e chapéu de couro na cabeça, com a faca assim na boca, feito um cachorro da molesta, parecia uma assombração de Cangaceiro, aparecida e visageada no meio do Mundo! Deve ter sido a faca-de-ponta que lhe deu esse gosto de metal e ferrugem na boca! Você estava com ar de leso, mordendo a bicha o passando a língua nela! Quando eu fui chegando, você, certamente, sem se sentir, tirou a faca da boca e ficou com ela na mão!"' - E era verdade isso que ele dizia? - indagou o Corregedor.

- Era, sim senhor! - Anote isso, Dona Margarida, é importante! O senhor estava com a faca na mão, não foi isso que o senhor disse? - Foi, sim senhor! Só quando Lino disse aquilo foi que eu notei que estava, de fato, com a faca ainda na mão! Eu me lembrei então, vagamente, de que, quando tinha começado a descer o Lajedo, tinha tirado a faca da cintura, colocando- travessada na boca para o caso de precisar dela. Enfiadíssimo, envergonhado diante daquele meu súdito e seguidor que me surpreendera numa leseira daquela, meti de novo a faca na bainha e falei para Lino, ainda duvidoso: "`Quer dizer que meus olhos estão inteiros, Lino?' "`Estão, Dinis velho!', respondeu ele, com segurança.

"`Então como é que se explica que eu esteja cego, cego de guia? Não estou vendo você não! Não estou vendo nem a claridade do Sol! Quando olho para ele, só vejo é aquela bola de prata, boiando no fogo!' " `Então vá ver que o que você fez foi estuporar mesmo, como eu tinha pensado, Dinis! Também, você é doido e extravagante que só a peste! Que extravagância mais desadorada essa sua! Comer carne-de-sol, assim, tomar vinho e se espichar em cima do lajedo, o coisa conhecida, é danado pra estuporar! É morte ou cegueira certa, e cegueira dessas da gota-serena! Vou lhe dizer uma coisa, meu Rei velho de guerra: você ainda teve sorte! Podia ter estuporado por um lugar menos sadio, e aí era morte certa! Assim, estuporando pelos olhos, felizmente não morreu, só fez foi cegar! Quer que eu lhe sirva de guia até a rua?' "`Quero, Lino, me faça, esse favor!' "`Pois então chegue aqui, venha montar no "Pedra-Lispe"! Eu lhe ajudo!' "Não, espere! Deixe, primeiro, eu tirar o manto da Ordem de Distinção da Pedra do Reino!' "`Não, não!', protestou Lino. `Tirar o manto pra quê? Logo agora, numa hora dessas, quando o Prinspo Alumioso ressuscita o volta, é que o Rei quer tirar o manto? Dom Pedro Dinis, não me diga que você perdeu a fé! Não me diga que sua Profecia estava errada! Não me diga que não foi o nosso santo Alumioso que voltou!'" O Corregedor interrompeu: - Ele fez, mesmo, essa referência, clara assim, ao rapaz do cavalo branco? - Fez, sim senhor! Eu, porém, no centro da catástrofe que me ferira, não tinha dado, até ali, às palavras estranhas de Lino, a atenção que elas mereciam. O que me chegara até ao juízo, por entre a poeira e o sol do meu desgosto, eu tinha atribuído ao vinho e à erva-moura do Reino. Agora, porém, já ia, aos poucos, me acostumando à desgraça e começava a voltar, mais, à realidade. Por outro lado, ele falara, agora, de modo tão claro, que comecei a suspeitar de que alguma coisa de terrível importância estava sucedendo ou começando a acontecer. Já montado em "Pedra Lispe", que Lino segurara pelo cabresto e ia puxando, falei para ele: "'Lino, que história é essa que você está dizendo aí? Você falou na ressurreição do Príncipe do Cavalo Branco, foi? Que história é essa?' `Que história é essa? Que história é essa, uma porra! Você, Dom Pedro Dinis, você que é nosso Rei e Profeta, está duvidando? Até nem parece que foi você quem sustentou a Fé da gente, durante esses cinco anos! Olhe, Dinis, vou lhe dizer uma coisa: aconteceu hoje, aqui na Estrada, ainda agora, a coisa mais sagrada que podia nos acontecer! Eu estava em Estaca Zero. Saí para um roçado, e tive uma visagem, no caminho, uma coisa horrorosa, um Cavaleiro do Inferno que depois lhe conto! Voltei para a rua, o encontrei lá o maior cu-de-boi que se possa imaginar! Parecia que o mundo estava se acabando: era menino chorando, era grito de mulher tendo ataque, era o Diabo! Vendo que a gritaria era maior do que um estrupício comum, perguntei o que tinha acontecido. Me disseram que tinha passado uma Cavalhada, toda luzida, com um Frade e uma bandeira na frente, e com um rapaz no meio, montado num cavalo branco! Aí, Dinis, fui eu que fiquei feito doido! E não era para menos, porque isso era o que você e o Profeta Nazário tinham profetizado todo ano, desde 1930, no Almanaque do Cariri, desde que roubaram e mataram o filho mais moço do nosso Rei Degolado, Dom Pedro Sebastião! É o nosso Prinspo Alumioso do Cavalo Branco, que voltou ressuscitado, para fazer a desgraça dos ricos e a felicidade dos pobres aqui do Sertão! Ah, meu velho Dinis, você não imagina o burburinho que aquele Povo todo estava fazendo, na Estaca Zero! Estava tudo com ar de doido, e eu só ouvia era os gritos! Um dizia: "O Prinspo da Pedra do Reino voltou e passou aqui pela estrada, em procura de Taperoá! " Outro gritava: "Vou ver se tenho a sorte dele me aceitar pr'a Guerra do Reino, porque então ressuscito com ele e nunca mais morro!" O pessoal da Cavalhada do Prinspo, Dinis, tinha passado por Estaca Zero sem parar, galopando, de modo que o Povo, meio ourado, não tinha tido a idéia de seguir atrás dela. Eu, por mim, como lhe disse, tinha chegado atrasado. Assim, só quase uma hora depois que passou a Cavalhada, foi que o primeiro devoto meteu o pé na Estrada, mas, agora, já está tudo quanto é de gente vindo de Estaca Zero, a pé, por aí, de Estrada afora! Eu tive a sorte de amorcegar um caminhão, que me deixou no Cosme Pinto! Pelo pessoal do caminhão, soube que o primeiro tiroteio da Guerra do Reino já aconteceu, perto dum Lajedo, entre Cosme Pinto e Estaca Zero. Venho, por isso, na frente do pessoal da minha rua, mas de qualquer modo, me atrasei da Cavalhada do nosso Prinspo. Agora, vou chegando a Taperoá, e, se Deus quiser, a Guerra do Reino vai começar comigo já dentro dela! Agora, eu lhe pergunto uma coisa: você, que estava aqui na Estrada, viu passar por ela o nosso Prinspo? E se esse rapaz que veio por aí, montado num cavalo branco, for, mesmo, o nosso Alumioso, você conhece ele?' "`Eu sei lá, Lino Pedra-Verde! Se fosse antes, eu conhecia! Mas assim como estou, cego, sei lá!' "`É mesmo, isso é o Diabo! Isso era, lá, hora de cegar, Dom Pedro Dinis Quaderna! Sem você, sem uma pessoa filantrópica como você - que é entendido no Lunário e em outras coisas litúrgicas - o nosso Reino não vai de jeito nenhum! Só você é capaz de decifrar esse entrançado! O que foi que você disse que viu aqui na Estrada, antes de eu chegar?' "`Não posso lhe dizer direito ainda não, Lino, porque foi tudo muito confuso! O que eu posso lhe garantir é que, pouco antes de cegar, eu vi passar, ou melhor, eu ouvi passar pela Estrada, uma tropa de Cavaleiros, com as rodas das carretas chiando e com uns miados que pareciam de bichos de Circo enjaulados! Na verdade, não posso dizer que vi nada, porque estava já, naquela hora, com os olhos encandeados e magoados pelo Sol! Mas, se l não cheguei a ver, mesmo, os cavalos e os Cavaleiros, vi as imagens deles, projetadas na poeira, iluminada pelo Sol!' "`Ave Maria!', gritou Lino, entusiasmado. 'E como é que, tendo visto uma coisa dessas, você, meu Rei, ainda tem coragem de dizer que não viu nada? Viu, você viu! Viu, e vamos embora logo, para a rua, porque é ele! Ah, Seu Dom Pedro Dinis Quaderna, está esquecido daquilo que você mesmo escreveu, na Profecia do começo deste ano, no Almanaque? Vamos pra Taperoá, porque essas imagens que você viu é a lanterna-mágica do Sol, é o Cosmorama da Pantasmagoria que Frei Simão, e a Velha do Badalo profetizaram para a volta do nosso Prinspo, Dom Sinésio Sebastião, o Alumioso! "' - A Velha do Badalo? - estranhou o Corregedor. - Também é Profetisa? - É, sim senhor, se bem que seja, mais, do tipo de Profeta de folheto! O "Badalo" é uma terra que tem, aqui em Taperoá, e que só dá doido! A velha Maria Galdina é de lá, e vive cantando umas modas-antigas, umas cantigas-velhas, do tempo do ronca e de Dom Pedro Cipó-Pau! No Almanaque do Cariri do ano de 35 eu tinha publicado uma dessas cantigas, e Lino, agora, pelo que eu via, estava achando que essa cantiga se referia era à chegada de Sinésio! - Entendi! - disse o Corregedor, cortante. - Estou entendendo tudo, Dom Pedro Dinis Quaderna, e o papel que você desempenhou nisso tudo está cada vez mais claro para mim! Pode continuar! Ah, nobres Senhores e belas Damas! Eu sentia, perfeitamente, que estava me enredando cada vez mais no novelo-de-cobras que o Destino tinha fiado para mim. Mas o que é que podia fazer? Continuei: - Lino continuava falando na maior exaltação, Senhor Corregedor, já agora ligando minha cegueira à reaparição de Sinésio. Dizia ele: `Sabe duma coisa, Dinis? É bem possível que não tenha sido estuporamento! Vá ver que foi a Visão da Pantasmagoria do Prinspo que cegou você! Você, Dinis, apesar de Rei e Profeta, é homem safado e pecador! Talvez esteja com algum pecado cabeludo nessa sua consciência preta, e foi por isso que não teve o direito de avistar o nosso Prinspo Alumioso da Bandeira do Divino! Você mesmo escreveu na sua Profecia deste ano que o nosso rapaz santo teria de voltar como Criatura pura e limpa de toda mancha! Ora, é claro, claríssimo, que uma Criatura assim não pode ser avistada por um sacana como você! Mas, por outro lado, pecador ou não pecador, de consciência limpa ou podre, está escrito que o Reino só vai para o Prinspo pela mão daquele que é o Rei e o Profeta da Pedra do Reino! É por isso que, se você não foi capaz de ver o Prinspo, pôde, pelo menos ver o Cosmorama dele! E basta! Tendo visto isso, sua obrigação, Dinis, é reunir o Povo lá em Taperdá, contando para todos como vai começar a Guerra do Reino do Sertão do Brasil! Vamos embora, Dom Pedro Dinis Quaderna! Vamos, que o Sol está se chegando para o poente, e eu quero chegar na Vila com ele ainda de fora, com luz que dê para eu ver a cara alumiada do nosso Prinspo!'"

Livro V - A Demanda do Sangral

A Gruta Sumeriana do Deserto Sertanejo - Quando chegamos aqui à Vila, Senhor Corregedor, encontramos a rua subvertida pelo grande acontecimento! Os Burgueses e os "senhores feudais da Aristocracia rural" - como chama Clemente - certos de que a Revolução Comunista tinha começado, tinham se trancado a sete chaves e, depois, ido para a reunião com o Bispo, como já contei. Mas a rua estava cheia de gente do Povo, de modo que, à medida que eu passava, se não via nada, ia ouvindo os gritos, os choros e as imprecações "da Plebe sertaneja, suja, mal-lavada, malcheirosa e fanática", como diz Samuel. Pedi a Lino Pedra-Verde que me levasse diretamente para minha casa, aquela que é pegada à Biblioteca, e que, depois, voltasse à rua, para se informar, o mais discretamente possível, do que acontecera, para, assim, me fazer uma narração segura de tudo. Arriei na minha espreguiçadeira e Lino saiu para cumprir o meu mandado. Daí a pouco voltava ele, ainda mais excitado. Narrou-me tudo: a chegada de Sinésio, a emboscada do lajedo, o atentado da rua, a morte do "cabra", e a visagem do Profeta Nazário, devidamente completada pela de Pedro Cego. Eu vi, logo, imediatamente, que estava diante de acontecimentos decisivos para o meu Destino. Eram acontecimentos zodiacais e astrológicos, que interessavam não somente à sorte do Brasil, mas à Obra, ao Castelo Sertanejo que estava para ser edificado pelo Gênio da Raça Brasileira - o Assinalado que estava predestinado a cantar aquela sorte e aquele Prinspo. Pedi então a Lino que fosse procurar Clemente e Samuel, avisando-os da desgraça que se abatera sobre mim e solicitando a presença urgente deles, pois eu tinha gravíssimos assuntos a discutir com os dois. Lino Pedra-Verde foi encontrá-los reunidos, na casa de Clemente, que era a mais próxima, pegada à minha. Estavam agarrados numa discussão ardorosa, motivada, como não podia deixar de ser, pela reaparição milagrosa e enigmática de Sinésio, e pelas visagens que Nazário e Pedro Cego tinham comunicado à multidão, assim como, principalmente, pelo verdadeiro sentido político daquilo tudo e das repercussões que estavam tendo perante o Povo. Como a casa de Clemente era bem perto, eles não demoraram a chegar, conduzidos por Lino Pedra-Verde, para a sala da frente, pegada à Biblioteca, onde eu me encontrava. Ambos estavam, ainda, com as roupas de cerimônia com as quais tinham comparecido ao Palanque, e foi assim, de togas sobrepostas, que entraram na sala onde eu, acariciando a testa em torno dos olhos irremediavelmente despedaçados, continuava sentado na espreguiçadeira, imerso no maior desespero, na maior desolação que se possa imaginar. Meus dois Mestres estavam profundamente perturbados. Não com minha cegueira, mas com a ressurreição de Sinésio. De fato, a nossa situação diante da família de meu Padrinho levava a isso. Eu, parente, agregado e protegido, era mais velho do que Arésio somente três anos, e treze mais do que meu sobrinho e primo Sinésio. Eu, Clemente e Samuel tínhamos morado muito tempo na "Onça Malhada", na casa do velho Rei Degolado, Dom Pedro Sebastião. Clemente e Samuel, porém, eram bastante mais velhos, de modo que tinham assistido, já como adultos, o nascimento de Arésio e Sinésio, assim como o do outro filho de meu Padrinho, o bastardo Silvestre. Tinham sido, mesmo, como que os preceptores e pedagogos nossos, meu e, mais especialmente, dos três Príncipes, Arésio, o Proscrito, Silvestre, o Bastardo e Sinésio, o Alumioso. Até aquele dia, ambos tinham como certa a morte de Sinésio. Agora, de repente, daquela maneira miraculosa, aparecia o Mancebo ressuscitado, para reivindicar seus direitos à herança e à vingança do Pai. Sim, porque essa era a opinião unânime do Povo: chegara o justiceiro, o vingador esperado. O fato é que, talvez por causa disso, nem Samuel nem Clemente se dignaram dar importância à minha cegueira. Talvez fosse por causa da inumanidade que caracteriza sempre os grandes homens, que não costumam descer de suas altas preocupações para dar importância a coisas de pouca monta como a simples desgraça individual de um ser humano. Talvez fosse porque nunca me levavam realmente a sério, considerando-me um ex-discípulo que, para vergonha sua, tinha se tornado apenas um charadista e Decifrador, indigno das preocupações e da compaixão deles.

- Será que eles se aperceberam, logo, de que o senhor estava cego? - indagou o Corregedor.

- Se aperceberam, Senhor Corregedor! A princípio, imaginei que Lino não dissera nada e eles ignoravam o fato, apesar de que, como eu vim a saber depois, o Cantador caolho dera com a língua nos dentes inclusive na rua, onde a notícia logo se espalhou no meio do Povo, como uma faísca elétrica. Mas, além disso, Lino tinha contado tudo diretamente aos dois. Mesmo assim, quando pies entraram na sala, ignoraram minha catástrofe. Dirigiram-se a mim, mas foi para continuar a conversa que Lino interrompera e para comentar o estranho caso da ressurreição de Sinésio, com as profecias e tudo. O mais animado, -no momento, era Clemente. Samuel, apesar de todos os esforços que fazia para esconder isso, estava inquieto com a possibilidade de aquilo ser, mesmo, uma Coluna comunista. "Se assim for", dizia ele, "isso significará meu fuzilamento sumário pela Canalha." As dúvidas, porém, permaneciam de parte a parte, a Esquerda também estava inquieta, porque Clemente, por sua vez, não estava ainda muito seguro sobre "a verdadeira orientação ideológica" daquele estranho grupo de Ciganos. Notei, mesmo, que meus dois Mestres estavam se tratando mutuamente com grande cortesia, o que absolutamente não era comum. Depois é que eu entenderia o motivo disso: tinham feito uma espécie de pacto de garantia mútua. Se a Coluna fosse da Esquerda - como pensava o Comendador Basílio Monteiro - Clemente protegeria e esconderia Samuel, que faria o ,Mesmo com o rival, caso o grupo de Luís do Triângulo e do Cigano se revelasse como da Direita. Eu, vendo que eles, absolutamente, não tomavam conhecimento da minha desgraça, arrisquei timidamente, na primeira pausa, uma informação e uma queixa a respeito da catástrofe-trágica que introduzira a Cegueira entre os inquilinos de meus olhos, entre as minhas Paixões malévolas, "entre as vicissitudes da minha atribulada existência". Os dois mal conseguiram fingir um interesse distraído pelo fato. Samuel veio logo com as Literaturas direitistas dele, para me consolar: "`Olhe, Quaderna', disse ele, sério, `isso que, à primeira vista, parece uma desgraça, pode até ser uma coisa benéfica, pelo menos para você, que deseja ser um Poeta épico e fazedor de romances, como nos confessou hoje! Aliás, só lhe dou essas informações porque minhas idéias são outras e o fato de você fazer um romance não me causa prejuízo nenhum. Já lhe disse que, na minha opinião, a Obra da Raça Brasileira será um livro de poemas cifrados, um livro que só um Poeta, aqui, é capaz de fazer!', disse ele, com um tom presunçoso que me irritou ainda mais. E acrescentou: `Mas você tem outro pensamento, acha que deve escrever algo no gênero épico. Pois siga esse caminho. Dou-lhe, de graça, um conselho: por que você não escreve uma espécie de "romance brasileiro e medieval de cavalaria", parecido com os do- genial escritor pernambucano de Pesqueira, Zeferino Galvão, aproveitando para isso a Crônica da família Garcia-Barretto? Você deveria partir não de seu Padrinho, mas da ressurreição maravilhosa desse rapaz do cavalo branco! Mesmo pertencendo a essa Aristocracia bárbara, bastarda e corrompida do Sertão, Sinésio é um Barretto, um descendente, portanto, da ilustre estirpe pernambucana dos Morgados do Cabo. Assim, se você contar a história dele, pode, através disso, reintegrar, nela, o Brasil em seu verdadeiro caminho, no caminho ibérico-flamengo! Note que o genial Zeferino Galvão, apesar de nunca ter saído de Pesqueira, só escrevia seus romances com ação passada na Provença, dando, com isso, uma grande prova de fidelidade às raízes da nossa fidalga Raça! Ele escreveu uma trilogia chamada Heloísa d'Arlemont, composta de três obras geniais, A Corte de Provença, O Mosteiro de Nímes e A Guerra dos Camisardos. Na minha opinião, a Obra da Raça deve ser escrita em versos e por um Poeta. Mas já que você deseja ser Poeta épico, escolha, para escrever sobre o rapaz do cavalo branco, um romance de cavalaria, ibérico-flamengo e brasileiro, como os de Zeferino Galvão, ou mesmo, de certa forma, como os desse romancista para adolescentes, José de Alencar, que você tanto admira, com seus gostos de leitor de almanaques!' "Na mesma hora, Senhor Corregedor, Clemente começou a protestar, querendo levar Zeferino Galvão no ridículo, atrevimento do qual só recuou quando soube que o grande escritor da Vila de Pesqueira tinha sido membro do Instituto Arqueológico de Pernambuco e, portanto, um escritor acadêmico, consagrado e indiscutível. Mas, mesmo recuando nessa parte, continuou discordando de Samuel: "'Olhe, Samuel', disse ele, 'não quero ser indelicado com você, principalmente tendo nosso pacto em vista. Mas discordo de uma porção de coisas, aí no que você disse. Em primeiro lugar, a Obra da Raça Brasileira tem de ser um livro filosófico-revolucionário, escrito em Prosa e por um Filósofo, um homem mergulhado pelo sangue e pela cultura na realidade social do nosso País. Mas, mesmo que a Obra da Raça devesse ser épica, como pensa Quaderna, não poderia, de modo nenhum, ser um ridículo romance de cavalaria ibérico; flamengo! Deveria ser, sim, um romance picaresco, satírico e popular, como já provei hoje pela manhã, um romance sem herói individual - coisa ultrapassada e reacionária - e cujo personagem fosse um homem-povo, um símbolo da fome e da miséria, enfrentando os Poderosos pela astúcia, errante e mal-andante pelas Estradas sertanejas! Esse Zeferino Galvão, genial como fosse, era um traidor do Brasil!' "'De jeito nenhum, Clemente, desculpe o que lhe digo!', tornou Samuel, sempre procurando ser delicado, por causa do pacto. 'Acho perfeitamente legítimo que um escritor brasileiro, desgostoso com os plebeísmos e misturas que corromperam o início fidalgo da nossa Raça, escreva sobre outro tempo e outro lugar, como fazia Zeferino Galvão com a Provença do século XVII. Que culpa tinha esse pernambucano ilustre de que a realidade atual do Brasil não esteja à altura dos nossos sonhos de Poetas fidalgos? Acho que essa escolha de Zeferino Galvão é até uma prova de bom gosto, porque, quando a gente deixa a realidade mesquinha e vulgar, pode exilar das nossas Obras a vida grosseira e manchada, deixando lugar somente para a imaginação, a Legenda e o sonho!'

"`Olhe, Samuel', objetou Clemente, `entenda que minha crítica não é feita por Zeferino Galvão ter saído das fronteiras convencionais do Brasil, não! O que eu critico é que, ao sair dessas fronteiras, ele não tenha seguido o caminho mouro e etiópico, caminho que, este sim, reconduziria o Brasil a suas verdadeiras raízes!'

"'Nada disso!', insistiu Samuel. 'Zeferino Galvão só não acertou inteiramente porque, ao deixar essa terra de Cafres e gaforinhas em que se tornou o Brasil, escolheu a Provença, terra que, sendo ainda meio ibérica, é ainda meio morena! De gente moreno-ibérica, já nos bastam o sangue português e o espanhol, que vieram a princípio mas que, depois, com a negralhada que se meteu, foi se perdendo e abastardando. O que é necessário agora, para recuperarmos o sangue da Raça, é um bom contingente de sangue nórdico, para fundir assim, no nobre cadinho brasileiro, a raça de Fidalgos brasileiros dos nossos sonhos!"' O Corregedor interrompeu, observando: - Noto, Dom Pedro Dinis Quaderna, que havia certa semelhança de idéias e de palavras entre o Doutor Samuel e Gustavo Moraes.

- É verdade, Senhor Corregedor. Para ser justo, devo dizer que Samuel já tinha muitas dessas idéias, esboçadas há muito tempo. Mas depois que Plínio Salgado passou aqui, no Sertão do Cariri, e principalmente depois que Gustavo Moraes veio do Recife para cá, essas idéias receberam grande impulso e uma nova formulação. Havia, aqui na Paraíba, no grupo do jornal A União, três escritores que influenciavam Samuel nessas fidalguias ibéricas, isso antes do Integralismo: eram Carlos Dias Fernandes, Eudes Barros e Ademar Vidal. Pois foi na linha de tudo isso que ele concluiu, naquele dia, dizendo: "Zeferino Galvão, a meu ver, deveria ter escolhido a Flandres, ou talvez, melhor, a Borgonha, que, ficando a meio caminho entre a Ibéria e a Flandres e tendo tido um mestiço de nórdico-português, Carlos, o Temerário, como seu último Duque, serviria melhor para auscultar os ritmos do sangue da nossa Raça, o que digo de dentro do problema e por experiência própria, porque, como legítimo Wan d'Ernes que sou, ! sou um legítimo Fidalgo ibérico-flamengo e brasileiro Assim falou Samuel, Senhor Corregedor, e meu sonho de ser o Gênio da Raça Brasileira me tornava de tal modo possesso da Literatura, que, a despeito de toda a minha desgraça, aquelas conversas estavam, já, começando a incendiar minha cabeça. Meu objetivo secreto era erguer, eu mesmo, o meu Castelo, conciliando aquelas opiniões, irredutivelmente contrárias e incompletas, de Samuel e Clemente. Eu escreveria uma Obra em prosa, como queria Clemente. Mas essa Obra em prosa seria animada pelo fogo subterrâneo da Poesia o pelo galope do Sonho, como queria Samuel. Seria escrita por um Poeta de sangue, de ciência e de planeta, toda entremeada de versos e nela se uniriam, pela primeira vez, a Literatura sertaneja de beira-de-estrada - na linha do Compêndio Narrativo do Peregrino da América Latina - e a Literatura fidalga da Zona da Mata - na linha de A Corte de Provença, de Zeferino Galvão. Por isso, já começando a me esquecer um pouco da cegueira e também sem abrir muito meu jogo para não esclarecer meus rivais, falei: `Olhem, para mim, o problema não será, propriamente, descobrir como escrever a história de Sinésio. Para mim, o que é, mesmo, indispensável, é assistir a todos os acontecimentos, até o fim, para, assim, saber de tudo e ter o que escrever! Como vocês já me provaram muitas vezes, não tenho imaginação para inventar, só sei contar o que vi. Ora, sei tudo o que se passou cóm os Garcia-Barrettos até o dia de hoje. Daqui por diante, nessa questão o nessa guerra que, pelo visto, vai se travar entre Arésio e Sinésio, o problema fundamental é o do Testamento e o do Tesouro que o Pai deles deixou. Pelo que estou entendendo, o Advogado do rapaz do cavalo branco, esse tal Doutor Pedro Gouveia da Câmara Pereira Monteiro, sabe disso melhor do que nós. Assim, será à busca do Testamento e do Tesouro que ele encaminhará Sinésio. Pois bem: nessa história toda, houve um acontecimento que, a meu ver, precisa ser bem interpretado, porque pode ser a chave de muita coisa que já aconteceu e ainda vai acontecer daqui por diante. Sabem o que é? É essa visagem que o Profeta Nazário teve o que Pedro Cego completou. Você ouviu a história deles, Clemente?' "`Ouvi!', disse o Filósofo, com olhos acesos.

"`Qual é sua opinião sobre a visagem? Acha que é coisa de pouca importância?' "`Vamos em termos e por partes!', disse Clemente, cauteloso. `Acho, com você, que a visagem do Profeta Nazário é coisa da mais alta importância. O que ela não é, é visagem! Nada daquilo foi inventado, Quaderna. Nazário e Pedro Cego devem ter visto alguma coisa que pareceu a eles tão estranha, que eles falam disso em tom místico, reacionário e obscurantista. Me digam uma coisa: eu já contei a vocês a aventura que me sucedeu, certa vez, numa Catinga sertaneja e no decorrer da qual fiz uma descoberta arqueológica da mais alta importância para o Brasil?' "'Não!', disse eu, acendendo, por minha vez, olhos rebrilhantes de curiosidade.

"`É verdade! Estou falando disso pela primeira vez, porque, dada a importância da descoberta, eu queria guardá-la para o meu Tratado da Filosofia do Penetra[. Mas, com os acontecimentos de hoje, vou revelar tudo, desde que vocês me garantam segredo absoluto sobre o que vão ouvir. Vocês garantem?' "`Garantimos, Clemente!', dissemos eu e Samuel ao mesmo tempo.

"`Vocês já ouviram, alguma vez, alguma referência à legendária Cidade cário-asteca, fenício-incaica e egípcio-tapuia, soterrada aqui e ali no Sertão brasileiro?' "'Já ouvi algumas referências vagas!', disse Samuel. 'Sempre pensei, porém, que essas histórias de inscrições petrográficas fenecias, aqui, fossem intrujices de desocupados.' q"'Pois você está enganado, Samuel!', falou Clemente com ar grave. 'Estudei detidamente o assunto e posso lhe .garantir, hoje, ue os cário-troianos, os astecas, os incas, os tapuias, os sumerianos, os egípcios, os fenícios e os ciganos, tudo isso é uma coisa só! Aí por 1924 ou 1925, não me lembro direito, passou aqui pelo Sertão da Paraíba, um sábio estrangeiro a quem os Sertanejos chamavam Ludovico Chovenágua. Ele foi recomendado a nós pelo próprio Presidente daquele tempo e eu tive oportunidade de lhe servir de guia, dando-lhe várias informações que ele considerou preciosas e que transcreveu em seu livro, o safado, sem comunicar a fonte em que bebera. Vou dar algumas indicações que vão fazer vocês ficarem de queixo caído. Primeiro: vocês sabem que as inscrições e desenhos petrográficos brasileiros e sertanejos são feitos com "letras do alfabeto fenício e da escrita demócrita do Egito?" Sabiam que existem, aqui no Sertão, inscrições com "caracteres da antiga escrita babilônica, chamada sumeriana?" Temos, também, alguns "escritos com hieróglifos egípcios", outros cretenses, alguns da Cária - povo aliado dos Troianos, na Guerra de Tróia - da Ibéria e da Etrúria. Um antigo funcionário da Comissão Brasileira Demarcadora de Limites, encontrou, no Sertão, ruínas de uma Cidade, que julgou "ser de origem fenícia". E existem outros dados. Os Fenícios, quando andaram por aqui, construíram vários estaleiros, alguns com aterros e subterrâneos, e a maior parte deles no Litoral do Estado do Rio Grande do Norte - em Maracu, no Lago Verde e no Açu, assim como um, perto de Touros. Varnhagen conta como os Cários e os Troianos, depois de derrotados pelos Gregos, na "Guerra de Tróia", emigraram para o Brasil, e cita inúmeras palavras comuns aos Tapuias, Egípcios,Sumerianos e Cário-Troianos. Aliás, depois da "Guerra de Tróia", os povos aliados e confederados contra os Gregos, fundaram várias cidades em homenagem a Tróia. Assim, houve uma Tróia, perto de Veneza, outra no Lácio; houve uma Tróia etrusca, outra na costa atlântica da Ibéria. A nós, porém, interessa mais é o resto: à medida que todos esses Povos contornavam a Africa e se dirigiam para o Brasil, não faziam mais do que sentir o fascínio das origens e o desejo de regresso às raízes Tapuias de que se originavam. Foi assim que se fundaram duas Tróias no litoral brasileiro, uma no Rio Grande do Norte - cujo nome virou, depois, Touros - e outra na Bahia - que virou Torre. Os Cários, por sua vez, fundavam, no Sertão, a cidade de Carnatum, cujo nome, com o decorrer do tempo, se corrompeu em Canudos. Sim, porque foi no Nordeste, segundo afirma Ludovico Chovenágua, entre os Rios Tocantins e São Francisco, que os Cários se estabeleceram. Vejam quantas coincidências estranhas! Os Fenícios tiveram estaleiros no Litoral do Rio Grande do Norte, sendo essa, talvez, a origem dos subterrâneos e aterros que o gringo Edmundo Swendson encontrou na Fortaleza de São Joaquim. Por outro lado, Canudos, o local da "Tróia Sertaneja", foi fundada pelos Cário-Troianos! Não é uma coisa maravilhosa? Pois bem: mais maravilhoso ainda é o que me aconteceu. Durante as minhas investigações arqueológicas e paleográficas, eu me perdi, um dia, na Catinga sertaneja do Seridó, do Rio Grande do Norte. Vocês sabem que essas inscrições o ruínas encontram-se sempre em grandes aglomerados de pedras o lajedos. Pois bem. Extraviado, encontrei, de repente, um amontoado de pedras com um buraco, que parecia a entrada de uma gruta. Havia morcegos e maribondos, que espantei, fazendo um facho de marmeleiro. Com essa tocha me servindo de lanterna, entrei nó buraco, cheguei ao fundo, segui por um corredor lateral que era, evidentemente, construído pela mão do homem, e assim, cheguei ao fim do corredor, onde me encontrei numa vasta sala escavada na pedra. As paredes eram recobertas por murais, com guerreiros sumerianos, sacerdotes astecas, reis incas, sacerdotisas cárias nuas - estas com os peitos desnudos pintados de amarelo, com o ventre, os braços e o rosto pintados de vermelho. O mais estranho é que havia uma semelhança completa, não só nos tipos físicos representados, como nos ornamentos e roupas dos personagens. Da sala, saíam corredores e compartimentos menores. Num deles, encontrei diversas múmias, deitadas no chão, arrumadas umas ao lado das outras. Perto delas, havia enormes discos de pedra, divididos em doze setores uns, em dezesseis, outros, cada setor com um signo particular. Todos tinham semelhança com os chamados "relógios astecas" a que Alexandre Borghine depois fez referência em seu livro, publicado em 1923. O mais importante, porém, é que havia, numa sala cujas paredes de pedra eram decoradas com animais - Onças, corças, Gaviões, seriemas, emas, etc. - um tesouro incalculável, de cintos, colares, coroas e jóias, tudo incrustado de diamantes, topázios e águas-marinhas!' "E você tirou alguma coisa, Clemente?', perguntei de ventas e olhos acesos de excitação, apesar de sentir nas palavras graves do Filósofo um cheiro de intrujice muito meu conhecido.

"Não, estava tudo encaixotado, em caixotes pesadíssimos! Por outro lado, eu estava apavorado, com medo de me perder. Voltei na carreira, sal da Furna, e voltei para o campo raso, a fim de procurar, de novo, o caminho de volta. No outro dia, sem dizer nada a ninguém, voltei com um Vaqueiro experimentado ao local em que pensava ter me perdido, mas não houve jeito de achar mais a entrada. Todos os aglomerados de pedra se pareciam uns com os outros, de modo que terminei desistindo. Enfim, o importante é que, de fato, Nazário e Pedro Cego podem ter achado ou esse lugar ou outro parecido, deixado, também, pelos Cário-Tapuias e Fenícios. A maneira como eles contaram a história, é meio mística e reacionária. Mas, de fato, se nós conseguíssemos reencontrar uma Furna dessas, o achado e a revelação do Tesouro podem ser da mais alta importância, tanto para minha visão-filosófica do Mundo, como para a nossa Cultura e, sobretudo, para os fundamentos da Revolução Brasileira!'" - Quando Clemente concluiu a narração de sua aventura extraordinária, voltei-me para Samuel e indaguei: "E você, Samuel? Nas suas aventuras e desaventuras de Fidalgo, andando pelos Engenhos pernambucanos, fez alguma descoberta sonhosa e legendária dessas? '"Quaderna', disse o Fidalgo, `eu não preciso ter um dia fora do comum para viver essas coisas, porque toda a minha vida foi e é, a cada instante, um Sonho e uma Legenda gloriosa! Eu, derradeiro varão da minha Casa, vivo eternamente numa Gruta Encantada, muito superior, em sonhos e tesouros, à que esses dois Profetas sertanejos, Nazário e Clemente, viram!', disse ele, sorrindo superiormente e já meio esquecido do pacto. E acrescentou: `Vocês sabem que eu tenho horror a esse fúnebre Poeta paraibanoaqui de vocês, Augusto dos Anjos. Mas, no meio de toda a obra dele, há um só poema que me toca. Com ele eu posso repetir: "Meu Coração tem catedrais imensas, templos de priscas e longínquas datas, onde um Nume de amor, em serenatas, canta a Aleluia virginal das Crenças.

Na ogiva fúlgida e nas Colunatas vertem Lustrais radiações intensas cintilações de Lâmpadas suspensas e as Ametistas, e os Florões e as Pratas."

"'Sim, Samuel!', falei. `Mas vocé acha que a visagem de Nazário tem algum fundamento? Isso é o que importa saber, agora! Que é que você acha? O que foi que Nazário viu?' "`O que Nazário teve, Quaderna, foi uma visão graálica, de natureza poético-extática, um pouco bárbara, como tudo o que é do Sertão, mas que, bem interpretada e corrigida por um verdadeiro Poeta, bem pode ser encaminhada a seu verdadeiro sentido: o do Quinto Império, sonhado por todos os nossos visionários, Profetas e iluminados, desde Antônio Vieira até Gustavo Barroso! Agora, que entusiasmo eu posso ter por uma visão comunicada, aí, no meio dessa canalha sertaneja, maltrapilha e malcheirosa, numa cena tipicamente plebéia, oncística e Clementina? A única coisa que me encanta nisso tudo é o aparecimento desse Donzel, quem quer que seja ele, montado num cavalo branco! Ah se isso tivesse acontecido na Zona da Mata! Aí, não haveria dúvida: saberíamos logo que era o jovem Fidalgo, signo e insignia da Raça, ardente, puro e casto, o nosso Encoberto, o nosso Encantado, predestinado a realizar o novo Império da Ibéria, o eldorado e cordiforme Brasão da América Latina!' "'Está bem, Samuel!', disse eu, `concordo e aceito. Menos numa afirmativa sua, aí! Vocé disse que o rapaz do cavalo branco era puro e casto. Pois, se é, será de maneira bem diferente da castidade do Rei Dom Sebastião, porque, segundo Lino me contou, ele vinha, na estrada, com o retrato de uma Moça no escudo!' "`Isso não indica nada contra a castidade dele!', retrucou Samuel. `Em primeiro lugar, aquela pode ser, apenas, a figura mítica da Dama que os Cavaleiros sempre têm. Mas, provavelmente, o que aquele retrato é, mesmo, é uma alusão à Rainha e Luz do Céu, à Lumen Coeli Regina. Quem sabe o que terá acontecido, mesmo, ao rapaz do cavalo branco? Talvez ele tenha visto a Senhora do Céu num éxtase místico e guerreiro, votando-se, daí por diante, à busca do Divino e à solidão do Deserto! Sim, é isso!

Deve ser isso! Essa seria a única causa de um Donzel tão puro e tão heráldico ter vindo buscar esse bárbaro Deserto Sertanejo! Quem sabe se ele não é "o Cavaleiro Pobre", o jovem Cavaleiro ardente, violento e casto, fanático e possuído pela Divindade, cantado pelo genial Poeta militarista, fidalgo e tradicionalista que foi Olavo Bilac? Vocês conhecem o poema de Bilac, pelo menos através da reinterpretação tapirista e ibérico-armorial que fiz dele. A história é uma maravilha: é a de um Cavaleiro que, um dia, teve uma visão dessas. Depois daí, colocou no Escudo a face da Dama Celeste, radiosa e pura. O mundo passou a lhe parecer um vasto e inútil Mausoléu. Enquanto os outros viviam, gozavam e amavam, ele vivia devorado pelo Fogo do Divino, pois somente o Divino, depois que ele o vira, seria capaz de saciá-lo e purificá-lo, mesmo que fizesse isso pelo fogo e pela Destruição. Então, depois de procurar a Morte mil vezes, nos prélios da Fé, o jovem Cavaleiro retirou-se para o Deserto, onde terminou seus dias, envelhecido, louco, com os olhos em brasa, rouco, devorado e destruido pelo Terrível que vira e por seu próprio coração incendiado. Você se lembra, Quaderna? O poema que eu fiz a partir do de Bilac é mais ou menos assim:

"Ninguém sabe quem era o Cavaleiro Pobre, que viveu solitário e morreu sem falar. Era simples e sóbrio, era valente e Nobre e pálido como o Luar.

Antes de se entregar às fadigas da Guerra dizem que um dia viu qualquer coisa do Céu: e achou tudo vazio! e pareceu-lhe a Terra

um vasto e inútil Mausoléu! Desde então, uma atroz, devoradora Chama calcinou-lhe o Desejo e o reduziu a Pó! E nunca mais o Pobre olhou uma só Dama, nem uma só! nem uma só! Conservou, desde então, a Viseira abaixada, e, fiel à Visão, e, ao seu Amor, fiel, trazia uma Inscrição de trés letras, gravada a fogo e sangue no Broquel.

Foi aos prélios da Fé. Na Terra-Santa, quando, no ardor do seu guerreiro e piedoso Mister, cada filho da Cruz se batia, invocando um nome caro de Mulher, Ele, rouco, brandindo a Espada no ar, clamava: - `Lumen Coeli Regina!' - e, ao clamor desta Voz, nas hostes dos Incréus como uma Fúria entrava, irresistível e feroz! Mil vezes, sem morrer, viu a Morte de perto, mas negou-lhe o Destino essa sorte melhor! Foi viver no Deserto! e era imenso o Deserto, mas o seu Sonho era maior! E um dia, a se estorcer, só e despedaçado, louco, velho, feroz, naquela Solidão, morreu, mudo, rilhando os Dentes, devorado pelo Fogo do próprio Coração!"'

"`Quando Samuel acabou de recitar isso, Senhor Corregedor, Clemente não pôde se impedir de protestar: "'Samuel, nem esse poema foi você quem fez, nem o original e de Bilac: é de um poeta estrangeiro, não me lembro qual!' "Clemente', retrucou Samuel, `já lhe disse isso não sei quantas vezes! O poema é meu, porque eu colaborei nele! Por exemplo: ali, onde eu falo em espada, Bilac colocou pique - "brandindo o pique no ar!" Do jeito que eu botei, é muito mais bonito! Quanto à outra observação sua, quero lhe explicar que, quando um Poeta brasileiro ou português traduz uma obra estrangeira, para mim, o original fica sendo o trabalho dele. Sou nacionalista, e, podendo, pilho os estrangeiros o mais que posso! Para mim, Manoel Odorico Mendes é o autor dos originais da Ilíada e da Eneida Brasileira: Homero e Virgílio são, apenas, os tradutores grego e latino dessas obras dele! Castilho é o autor do Fausto e do Dom Quixote, assim como José Pedro Xavier Pinheiro é o verdadeiro autor da Divina Comédia que Dante traduziu para o italiano!' "`Está bem!', disse eu, interrompendo. `Entendi, mais ou menos, a posição de vocês. Cabe-me, agora, a vez de explicar a minha. A meu ver, Sinésio vai ter que organizar uma expedição para procurar o Testamento extraviado e o tesouro escondido! Sim, porque, seja na furna visageada por Nazário, ou na outra, cientificamente descoberta por Clemente, o fato é que o tesouro deixado pelo velho Rei Degolado do Cariri está enterrado por aí, numa furna sertaneja qualquer. Das pessoas que integraram a comitiva de meu Padrinho quando ele partiu para enterrar o testamento, a única ainda viva sou eu. Dom Pedro Sebastião Garcia-Barretto tinha me nomeado testamenteiro, e me prometera que, depois de enterrado o documento nessa furna, ele, quando se sentisse perto da morte, me revelaria o lugar. Ora, para Sinésio, a descoberta desse testamento é fundamental. Assim, o rapaz do cavalo branco o seus dois protetores - o Doutor e o Frade - terão que meter o pé no mundo, para encontrá-lo. Eu sou, portanto, pessoa indispensável à expedição, terei que ir, como guia dela. Por outro lado, essa ida é, para mim, indispensável, porque, se eu não pre520 senciar todos os acontecimentos, não poderei contá-los depois, na Epopéia. Picaresca ou de cavalaria, minha Obra terá que se passar na estrada, no oco empoeirado e aberto do Mundo, no centro da maçaranduba do Tempo, e isso só será possível se eu acompanhar Sinésio, o Doutor e o Frade em sua expedição aventurosa à procura do testamento. Aí é que surge um problema importantíssimo: como é que vamos arranjar os meios para fazer a viagem? Nessas coisas de dinheiro, nunca ninguém fala, mas, sem dinheiro, pouca coisa se faz! Pois bem: desde que cheguei à conclusão de que terei de ir, venho pensando em organizar um Circo, para empreendermos a viagem. Sempre tive vontade de ter um Circo, e a hora é essa! Nós contaríamos com a ajuda de meus irmãos, que têm, todos, algumas habilidades. Alguns deles são tocadores de rabeca o pífano: será a orquestra! Se a tropa que veio com Sinésio é mesmo de Ciganos, alguns devem saber fazer piruetas e proezas em cima de cavalos. Outros, deitarão cartas. Das partes de dramas, comédias e tragédias, eu me encarrego, com o "cavalo marinho", o "mamulengo", a "nau-catarineta", etc. Comprometo-me também a levar um "pastoril", formado com as mulheres-damas do RóiCouro que freqüentam a minha Távola Redonda. Assim, poderemos viajar de graça, divertindo-nos e, ainda por cima, tendo algum lucro, com acomodações para todo mundo e fazendo todas as expedições necessárias ao encontro do testamento. Sim, porque, na minha opinião, a história da furna do Profeta Nazário pode ter sido é uma revelação de botija referente ao tesouro e ao testamento do Rei Degolado! Agora, pergunto a vocês: caso o Doutor Pedro Gouveia me contrate para a expedição, vocês concordariam em viajar conosco, no meu Circo?' "Os olhos dos dois se acenderam, Senhor Corregedor. Mas, amarrados e seguros como eram, começaram logo a tomar precauções. Clemente falou primeiro: "`Bem, Quaderna', disse ele, `é claro que a proposta nos interessa. Mas existem vários pontos que precisam ser aclarados e estabelecidos desde já, principalmente quanto à parte financeira! Em primeiro lugar, me diga: nós seríamos convidados, como hóspedes, com todos os privilégios e honrarias, no Circo?' "`Claro que sim!' concordei, alegre, vendo que eles estavam inclinados a aceitar. `Além da amizade que tenho a vocês preciso demais dos conselhos literários e politicos dos dois!' "`Teríamos comida, bebida e dormida de graça?' "Teriam, sim! Inclusive, dentro das acomodações sempre meio precárias de um Circo, eu conseguiria o melhor possível, com camarins especiais para vocês dois!' "E, no caso de encontrarmos o Tesouro?', perguntou Samuel. `Teríamos parte na divisão dele?' "Bem, isso aí, eu só posso responder depois de conversarmos com o Doutor Pedro Gouveia. Isso, porém, não demora, tenho certeza. Modéstia à parte, desse tipo de coisas eu entendo. Posso até apostar: daqui a pouco, chega alguém, da parte do Doutor, para nos procurar!' "Então, essa parte fica para ser decidida na presença do Doutor!', disse Clemente. `Sobretudo, é preciso ver quem é, mesmo, esse rapaz do cavalo branco e quais são suas verdadeiras intenções, os verdadeiros objetivos de sua aparição, aqui. Eu e Samuel somos funcionários públicos. Mas, se houver vantagem, trataremos de conseguir licenças para seguir na viagem e acompanhar, inclusive como profissionais - eu como Advogado e ele como Promotor - o caso do testamento e da herança desse rapaz. Quanto a mim, como Filósofo, terei, ao mesmo tempo, oportunidade de realizar uma Viagem Filosófica, como aquela que o sábio brasileiro Alexandre Rodrigues Ferreira realizou no século XVIII, antecipando-se a todas as viagens de naturalistas estrangeiros pelo Novo Mundo!' "Pois, para mim', interveio Samuel, `essa expedição será uma viagem aventurosa e de sonho, como aquela que meu antepassado Sigmundt Wan d'Ernes realizou, em companhia do Poeta-Fidalgo e Soldado-Flamengo que foi Elias Herckman, quando viajaram ambos, no século XVII, em demanda, pelo Sertão da Paraíba, na busca desaventurosa exatamente de um Tesouro e de minas de prata, coisa que só pode, mesmo, tocar muito na imaginação de um Poeta e Fidalgo como eu!' "Eu não esclareci nada a eles, naquele momento, Senhor Corregedor, para não revelar minhas verdadeiras intenções. Mas para mim, de fato, a viagem ia ser era as duas coisas ao mesmo tempo! Seria uma Demanda novelosa e zodiacal, uma Viagem católicosertaneja e sagrada em busca da Furna do Terrível e na qual, ainda por cima, talvez tivéssemos a sorte de encontrar o Tesouro da Pedra do Reino, identificado por mim, nas minhas elucubrações botijais e filosofais, com o tesouro de El-Rei Dom Sebastião. E já estava com o coração alvoroçado de esperanças, quando, de repente, me lembrei, ne novo, da catástrofe que despedaçara meus olhos, e dei um gemido trágico: "Ai, ai de mim! Só agora me recordo! Não adianta nem eu sonhar, com o Circo e com a viagem aventurosa e desaventurosa que vocês estão planejando! Como poderei ir, se estou cego?' "`Ora, Quaderna, isso é nada!', disse Samuel, com a maior naturalidade. `Isso é nada, para um homem como você! Seja forte, seja homem, homem! Como eu estava dizendo há pouco, esse fato de estar cego, que, à primeira vista, parece uma desgraça, no seu caso pode até vir a ser um bem para você, uma vez que seu sonho é se tornar um Poeta épico! Não sei se você sabe disto, mas Joaquim Nabuco considerava a cegueira e o infortúnio como ingredientes indispensáveis para o sangue de um autor de Epopéias! Ora, Nabuco era um Barretto: não um_ Barretto como você e os outros Barrettos sertanejos, que são bastardos e corrompidos, mas um Barretto da familia do Morgado do Cabo e, portanto, um legítimo e puro Fidalgo pernambucano, de modo que era da Direita e a palavra dele merece toda fé. Diz Nabuco que Camões só passou de Poeta lírico a Poeta épico depois que cegou. Acha ele, ao que parece, que, para Camões, isso foi um bem, afirmação da qual discordo, porque, como você sabe, considero os Poetas épicos como prosadores disfarçados - vulgares e enfadonhos como todos os prosadores. Mas, com as idéias que você professa, Quaderna, e com o sonho de se tornar Epopeieta, como diz você, sua opinião deve ser igual à de Nabuco: para você, Camões progrediu, quando passou de Poeta 'lírico a épico! Olhe, console-se, porque é coisa ungida e consagrada, dentro de sua ordem de idéias. Está aqui, na genial conferência que Nabuco escreveu sobre Os Lusíadas!', -disse ele, levantando-se e indo buscar, na estante, o livro a que se referira e do qual leu o seguinte trecho, que depois copiei e guardei, como documento: "Alguma indiscrição em matéria de amores, motivou a exclusão de Camões da Corte real, e, depois, o seu alistamento para combater os Mouros, na Africa, onde ele foi ferido, perdendo um olho. Esse ferimento marca uma época, na Literatura Portuguesa. Dissiparam-se, por causa dele, as esperanças de Camões como cortesão, e desfaleceu-lhe o orgulho de amante, vindo a sentir-se à mercê de quem lhe olhasse o semblante desfigurado. Sem a cegueira de Milton, o Paraíso Perdido teria sido bem outra composição. Sem o desfiguramento de Camões, de outro gênero teria sido a sua Obra poética. Foi essa disformidade que fez Camões renunciar, em desespero, ao Amor, à vida na Corte, a Lisboa, a Portugal, e desferir seu vôo rumo a Os Lusíadas. A meia-cegueira converteu-lhe o Amor, que nele foi sempre uma obsessão sensual, no sentido do Divino. Transformou-lhe a Lâmina envenenada que só Ihe servia, antes, para torturar-se a si próprio - no Cinzel que deveria talhar o Poema nacional português."'"

FOLHETO LXXVIII

A Cegueira Epopeica

- Quando Samuel terminou de ler esse espantoso texto-profético - demonstrando inteira insensibilidade ante a parte humana e não-literária do meu sofrimento, eu gemi queixoso: "Mas é possível que vocês ainda não tenham se apercebido da extensão da minha desgraça? Estou cego, cego de guia. Clemente! A gente cego, e Samuel vindo com Literatura!' "Coitado de você, Quaderna!', disse Clemente, tentando parecer menos insensível do que o rival. `Capaz de você perder o emprego na Biblioteca, ou de ser aposentado co~n vencimentos ínfimos! Em qualquer caso, porém, seja você demitido ou aposentado, isso será muito menos prejudicial para você do que para mim e para Samuel! Olhe que pode vir, para a Biblioteca, um Diretor novo, que não tenha, conosco, as mesmas deferências que você tem! Além disso as tertúlias literárias da nossa Aleserpa se realizam na Biblioteca e vão ser muito prejudicadas com isso!'" -- Aleserpa? - disse o Corregedor. - Que é isso? Que é a Aleserpa? Alguma associação comunista, na certa! - Não senhor! Aleserpa é o endereço telegráfico do nosso sodalício sertanejo, a Academia de Letras dos Emparedados do Sertão da Paraíba que nós fundamos e que tem sede aqui em Taperoá, na Biblioteca! - Ah, bem! E quantos são os Acadêmicos? - Três: eu, Clemente e Samuel! - Está bem, pode continuar.

- Ouvindo Clemente falar daquela maneira, eu não queria acreditar que estava ouvindo certo. Seria possível alguém ser tão egoísta? E manifestei nl~nha estranheza: "Como é, Clemente? Você tem coragem de achar que minha cegueira prejudica vocês mais do que a mim?' "`É isso mesmo, e não se admire não', insistiu o Filósofo. `Você, sendo um Charadista, um Decifrador profissional, um homem que se dedica a resolver e armar Enigmas e logogrifos, será até beneficiado pela cegueira! Lembre-se de que o patrono do Suplemento anual do Almanaque Charadistico e Literário LusoBrasileiro é Édipo, que terminou seus dias cego. Sendo assim, você não pode se queixar de que o mesmo tenha acontecido com você, obrigado, agora, a seguir os passos trôpegos de seu Patrono pela estrada da cegueira. Como cego, quem sabe se você não irá, agora, receber, como compensação, a lucidez de Édipo? Édipo, tendo decifrado o "enigma do homem ante a Esfinge", tornou-se, depois de cego, um Decifrador tão eficiente, que teve a honra de ser escolhido como Patrono de todos os Charadistas do mundo. Pelo que me contou, aqui, o nosso Cantador caolho, Lino Pedra-Verde, foram dois Gaviões, um macho e outro fêmea, que cegaram você, não é verdade?' "E!', respondi de má cara.

"Pois você pode ficar certo, Quaderna, de que, dagora em diante, você vai ser o único homem, no Mundo, capaz, ao mesmo tempo, de ver as coisas machamente e ferreamente, o que, sem dúvida, é uma grande vantagem para o Decifrador e Epopeieta que você sempre quis ser! Na minha opinião, Édipo, quando moço e bom dos olhos, avistava coisas demais, motivo pelo qual não via nada! Só depois de cego foi que ele recebeu a lucidez esfingética e pôde se aperceber de que o Mundo e a vida são, como dizia o genial Tobias Barretto, "uma integridade espantosa". Creio que é por isso que os Professores alemães de Filosofia costumam afirmar que Édipo, como cego, tinha um olho a mais!' "E claro que tinha, era o olho do cu!', disse eu, que, a essa altura, já estava encolerizado por ver as filosofias com que aqueles sujeitos encaravam a desgraça no meu couro. E acrescentei: `E eu acho que é por isso que os Professores brasileiros de Filosofia aqui da rua dizem que pimenta no cu dos outros é refresco!' "`Não seja vulgar, Quaderna, não seja mesquinho!', disse Clemente, severo. `Como é que você pode se preocupar com essas questões de cegueira ou não-cegueira sua, uma questão meramente pessoal e de importância secundária, quando acontecimentos talvez de grande importância para o Brasil estão tendo início, como é o caso da chegada dessa Coluna, comandada pelo rapaz do cavalo branco? Nesse momento, a verdadeira questão, aquela que deve merecer o melhor de nossos pensamentos e das nossas ações, é essa! Quem sabe se esse acontecimento não marca o início da Revolução que vai estabelecer a República Popular do Brasil, a primeira da América Latina?" - Anote esse pormenor, é muito importante, Dona Margarida! - disse o Corregedor.

Margarida obedeceu, e o Corregedor voltou-se de novo para mim; - Muito bem! E o que foi que o Professor Clemente disse mais? Ainda falou nessa Revolução? - Parece que ele ainda ia falar, Senhor Corregedor. Mas, aí, foi interrompido por Lino Pedra-Verde, que tinha sido meu colega na escola da "Onça Malhada" e também aluno de João Melchíades, de modo que conhecia vários versos "de caráter fatídico e político", todos muito populares "entre a puerícia e a juventude das escolas brasileiras". Lino continuava mascando a erva-moura, de modo que tinha baixado, nele, o espírito da profecia e da sapiência. Em tais momentos, ele dava para falar difícil, mania que pegara com João Melchíades, e foi assim que se dirigiu a nós: "`Senhores Doutores, desculpem eu me intrometer na conversa de pessoas tão esfilantrópicas, mas tudo isso que estão dizendo me impressionou demais, porque tudo o que disseram é verdade e muito importante, de uma importancia cachorra da molesta! Não pensem que eu, por não ser pessoa formada, por ser um ignorante, seja aí um berdoega ou um filho da puta qualquer! Dom Pedro Dinis Quaderna, aí, me conhece, e pode me fornecer um atestado de conduta, dado pela autoridade! Além disso, fui aluno de Vossas Senhorias. Deixei os estudos e passei afastado muito tempo de Vossas Mercês, mas não por sacanagem e falta de caráter! De modos que, de maneiras tais que entendi tudo o que Vossas Excelências disseram! Apesar de ser apenasmente um simples Cantador de fama nacional, conheço muito bém o distinto Poeta português Luís de Camões, autor dos "Lusíadas de Luís de Camões!" Aliás, Camões usava três palavras que eu também gosto de usar muito nos meus folhetos - porém, carregada e todavia! Por isso entendi o que disseram sobre o olho cego de Camões: é tudo verdade, verdade da boa! E tanto é verdade que Portugal e o Brasil são muito maiores e mais importantes do que a França e a Turquia juntas. Daí, a gente recitar, como recitava no tempo da escola: "Camões, poeta Caolho, grande Vate português, enxergava mais com um olho do que nós todos com três.

Na França, tudo é errado, na França, tudo anda a esmo, na França, pescoço é cu, no Brasil, cu é cu mesmo!" " 'Está vendo, Quaderna?', indagou Clemente, escarninho. `Ouça a voz da sabedoria, aqui representada por esse digno Bardo de chapéu de couro, seu condiscípulo e correligionário. Ouça e console-se de sua cegueira! Édipo, enquanto teve vista, foi apenas um tirante, igual a muitos outros, na Grécia. Mas, depois

de cego, tornou-se um Decifrador, como você, Lino Pedra-Verde e Euclydes Villar. Camões, enquanto tinha dois olhos, era apenasum Poeta lírico, chorão e cortesão. Cegando de um olho, tornou-se Epopeieta, e só foi épico de segunda grandeza, imitador de Virgílio, por ser apenas meio-cego e não cego inteiro. Chega-se à conclusão de que o Gênio de um Epopeieta é tanto maior quanto mais olhos cegos ele tenha, sendo essa, provavelmente, a causa profunda de Homero ser considerado o maior de todos pelo Doutor Amorico Carvalho, Retórico de Dom Pedro II. Coragem, portanto, Quaderna! Quem sabe se agora você, cego dos dois olhos e com este magnífico Rapsodo e vate sertanejo lhe servindo de guia, não virá a ser o Camões da charada sertaneja, ou, melhor ainda, o Homero do Enigma Brasileiro?' "O senhor acredite, Senhor Corregedor: apesar da maldade e das ironias que me apunhalavam nas palavras de Clemente, aquilo foi o começo do meu consolo. Para ser o Gênio da Raça Brasileira, eu era capaz de fazer qualquer acordo e se o preço era a cegueira eu o pagaria com gosto. Se o fato de não ser cego significava alguma desvantagem em relação ao desgraçado do Grego Homero, a inferioridade estava, agora, sanada, graças às divindades de rapina da Morte Caetana. A contagem de pontos até subira muito em meu favor, porque Homero era cego, mas não existira nem tinha sido completo. Eu, além de existir e ser completo, genial e régio, agora não deixara mais um flanco sequer aberto a meu adversário, pois até cego dos dois olhos conseguira me tornar! A ardente alegria que começava a experimentar por minha cegueira não me tirou, porém, o rancor contra Clemente e Samuel. Resolvi fazer aos dois algumas ameaças, coisa de que só lançava mão em casos extremos e que sempre surtia efeito. Por causa das vicissitudes que eu tinha passado sempre em minha `atribulada existência', eu era muito relacionado entre o Povo - cabras-dorifle, Cangaceiros, tangerinos, Vaqueiros, Mulheres-Damas, Cantadores, etc. Aqueles dois, apesar de viverem falando e filosofando sobre o Povo, viviam eternamente fechados entre o mofo das suas respectivas casas, a poeira e as teias de aranha da Biblioteca, enfim, no "mofo dos capões intelectuais", como costumava dizer meu primo Arésio Garcia-Barretto. Não sabiam nem como falar com a gente do Povo e tinham um secreto pavor e um secreto mal-estar diante de tudo o que ao Povo era ligado. Parecia, até, que eram separados por uma linha invisível, linha que eu tinha cruzado à força, muitos anos antes, quando, por várias circunstancias, tinha sido expulso do meio em que tinha vivido desde pequeno. Além disso, meus irmãos bastardos, que viviam do outro lado da linha, eram um elemento de ligação valioso, que eu não deixava de aproveitar. Era por isso que, de vez em quando, Samuell e Clemente me davam indiretas, falando nos `parentes desclassificados e acangaceirados de Quaderna'. Pelo mesmo motivo, davam-se ao luxo de me fazer certas picuinhas, mas mantinham sempre uma boa margem de recuo, porque, nem sabiam nunca como eu iria reagir, nem tinham desejo nenhum de renunciar à possível proteção que eu lhes daria em caso de perigo, com eles eventualmente ameaçados pelo pessoal `do outro lado da linha'. E, finalmente, como eu, a despeito de mim mesmo e dentro das minhas aventuras de `Covarde Sortudo', tinha participado das correrias, emboscadas, guerras e tiroteios desencadeados pela vida de meu Padrinho, Dom Pedro Sebastião - eu, dizia, apesar de covarde, tinha granjeado, na rua e principalmente para meus antigos Mestres, uma certa reputação de "malvado e assassino" que não deixava de me ser útil em certas ocasiões. Naquele dia, foi disso que me vali, dizendo: "'e, vocês dois estão af, fazendo galhofa com a minha cegueira! A esperança de cada um é que essa Coluna e o rapaz do cavalo branco tenham vindo favorecer a Esquerda ou a Direita! O fato, porém, é que a Polícia fugiu, e a nossa Vila está à mercê da Coluna! Vocês não se esqueçam de que Sinésio, a.ém de Garcia-Barretto é um Quaderna! É meu primo e meu sobrinho, de modo que, da Esquerda ou da Direita, contra mim é que a Coluna dele não vai ficar! Não se esqueçam também de que Sinésio, sendo um Quaderna, é descendente, como eu, da família que, além de dominar o Sertão na Serra do Rodeador e na Pedra do Reino, fez, no espaço de três dias, uma carnificina das mais eficazes, o que, afinal, não deve preocupar vocês dois, porque são, ambos, partidários do banho de sangue! Vocês já viram como o Povo está assanhado? Já, e todos dois babem como o Povo sertanejo é imprevisível nessas coisas: pode tomar o lado da Aristocracia rural e pode tomar outro rumo, completamente oposto! Agora, eu pergunto a vocês: e se a "Guerra do Reino" começar, mesmo, com Sinésio ordenando, agora de noite ou amanhã de manhã, o fuzilamento de tudo quanto é gente poderosa, aqui? Vocês pensam que, sem uma palavra minha, o Advogado e o Promotor da nossa Vila vão escapar ao fuzil?" - Um momento, Dom Pedro Dinis Quaderna! - disse o Corregedor, jubiloso. - Pare, porque tudo isso é importantíssimo! Anote, Dona Margarida! Isto! Agora, o senhor pode continuar! Novamente eu tinha me deixado levar pelo entusiasmo cavaleiroso e régio, nobres Senhores da Academia e do Supremo, e nobres Damas de peito brando! Minha situação tornava-se cada vez mais perigosa. Mas como o que já acontecera era irreversível e o mal praticado quase irremediável, joguei-me para a frente e continuei: - Quando eu disse aquilo, Senhor Corregedor, Samuel e Clemente empalideceram. Lino Pedra-Verde, porém, saltou, como se tivesse sido atingido por um raio: "O Rodeador? Você falou af, Dinis, foi na Serra do Rodeador e na Pedra do Reino? Isso sim, é importante! O resto do que vocês disseram é bom, mas importante mesmo foi e é a Guerra do Reino! Sim, é isso! Doutor Samuel e Professor Clemente, o que é que os senhores me dizem disso?' "'Não sei, Lino!', respondeu Samuel pelos dois. `Não me recuso a tratar do assunto porque Varnhagen era um grande historiador brasileiro da Direita e falou sobre esses movimentos sertanejos, pelo menos em sua primeira fase, a da Serra do Rodeador. Mas, depois, surgiram tantas invencionices a esse respeito, que o assunto perdeu a seriedade. Aliás, parece que Varnhagen já previa que isso ia acontecer porque disse: "O acontecimento não deixará, no futuro, de prestar fértil e curioso assunto à imaginação de Poetas e romancistas".

"Foi a minha vez de saltar, Senhor Corregedor, porque aquilo me tocava demais no meu sonho de ser Gênio da Raça escrevendo um romance-epopéico sobre minha família. Além do mais, Varnhagen, sendo Visconde e católico, trazia uma boa contribuição monárquica para minhas idéias e minha genealogia. Por isso perguntei a Samuel: "'Mas Samuel, como é que você sabe de uma coisa honrosa dessas e não me avisa, durante todos esses anos?' "'Quaderna, você já é tão pretensioso sem isso, que avalio como não vai ficar depois que eu lhe mostrar na História Geral do Brasil uma referência expressa a sua família! Mas, de qualquer modo, está lá e eu vou lhe mostrar onde. Diz Varnhagen: "Dediquemos um parágrafo a dar uma sucinta Notícia de certa ocorrência que teve lugar na Serra do Rodeador, no distrito do Sertão de Bonito, Província de Pernambuco em princípios de 1820. Da crença de que no alto desta Serra havia um Lajedo, de baixo do qual saiam Vozes, se aproveitou um certo Silvestre José dos Santos para contar muitos Prodígios, espalhando Revelações feitas por Imagens aparecidas entre Luzes, prometendo constante Vitória e muitas Fortunas aos que se alistassem por elas. Movidos por curiosidade e superstição uns, levados outros por ambição e cobiça, se foram aí ajuntando dentro de pouco tempo umas quatrocentas pessoas. Mandados dissipar, não obedeceram. Pelo contrário: resistiram valorosamente aos primeiros Milicianos armados. Mas, por fim, foram submetidos pela Tropa, caindo prisioneiros muitos, aos quais El-Rei perdoou como a Ilusos, mandando-os restituir a seus lares".

"Assim que Samuel leu isso, Clemente, apesar de toda a perturbação em que se encontrava pelos acontecimentos recentes, sentiu ferver seu sangue esquerdista. Jogou fora o constrangimento causado pelo pacto, e, pulando da cadeira, gritou: "Ve-se logo, e bem, a reacionarice e safadeza desse Visconde direitista, cheira-cu de Dom Pedro II! Em primeiro lugar, Varnhagen omite o significado de reivindicação política e econômica que houve no movimento da Serra do Rodeador! Depois, deixa de se referir, propositadamente, ao massacre que as tropas do Rei Dom João VI, a mando do Governador reacionário Luís do Rego, fizeram contra aqueles pobres Camponeses indefesos e iludidos pelo obscurantismo demente dos parentes de Quaderna! Está vendo como são as coisas, Quaderna? E é Samuel, esse Fidalgo de merda, que vive, aí, arrotando patrioteirismo, quem subscreve as palavras de Varnhagen, desrespeitando a Independência do Brasil!' "Eu?', protestou Samuel, espantado. `Em que foi que eu desrespeitei a Independência do Brasil? O que é que os parentes fanáticos de Quaderna, sejam os da Serra do Rodeador, sejam os da Pedra do Reino, têm a ver com a Independência d9 Brasil?' "Olhe, Samuel', explicou Clemente, `você sabe que eu faço restrições serüssimas a esses movimentos sem qualquer coerência e conteúdo ideológico. Mas, mesmo assim, você em vez de estar aí, espalhando as interpretações reacionárias de Varnhagen, devia ler eram as palavras do Comendador Francisco Benício das Chagas, escritor muito mais sério e genial do que Varnhagen! É verdade que o Comendador, não sendo iniciado na minha Filosofia do Penetra!, não tinha suficiente lucidez política para saber que a "independência do Brasil", a farsa de 7 de setembro de 1822, foi uma impostura. O Brasil só será de fato independente quando derrotar o imperialismo, lá fora, e a reação, aqui dentro! De qualquer modo, porém, o Comendador ouviu cantar o galo, nesse assunto. E até o sem-vergonha do nosso primeiro Imperador, Dom Pedro I, chegou a se referir ao significado politico do episódio, dizendo, no seu "Manifesto aos Brasileiros": "Lembrai-vos das fogueiras do Sertão do Bonito!" Com isso, Dom Pedro I mostrou, não só que estava a par dos movimentos sertanejos, mas que tinha consciência dos desígnios políticos implícitos neles, apesar de todas as incoerências!' "Mas o quê, Professor Clemente!', interrompeu Lino, novamente estupefato. `É verdade, isso que o senhor está dizendo aí? O Imperador Dom Pedro I tinha noticias da Serra do Rodeador, da Pedra do Reino e das tribuzanas todas da família de Dom Pedro Dinis Quaderna? Chegou a falar nisso, por escrito, coisa documentada, garantida e do Governo?' "E verdade, Lino!', confirmou Clemente.

"Tá, af só dizendo como , nosso Mestre João Melchfades: que coisa filantrópica! Que coisa mais litúrgica para a família do nosso Rei, não é, Dinis? O senhor pode me dizer, Professor Clemente, onde é que estão as palavras desse tal Comendador?' "Posso, pois não, Lino!', disse Clemente, satisfeito por estar acertando a conversar com um homem do Povo. `Olhe aqui!', acrescentou ele, tirando o volume da estante e lendo para nós o seguinte trecho do genial escritor pernambucano, Comendador Francisco Benício das Chagas: J"`áOs tristes e lamentáveis acontecimentos dados na Pedra do Rodeador, pelos fins de 1819, mediando entre a Revolução de 1817 - que fora sufocada pelo Poder Absoluto - e a de 1821, que vingou na invicta Vila de Goiana, foram como que o prenúncio da nossa Independência, que se proclamou no memorável dia 7 de Setembro de 1822. Mostram eles, bem claramente, que a reunião dos Povos, na Pedra do Rodeador, nesses tempos calamitosos, tinha fins verdadeiramente políticos. O Chefe do tal movimento, Silvestre osé dos Santos - Dom Silvestre I - alcunhado Mestre Quiou, que quer dizer o Maioral, na língua dos Indios, não era um simples aventureiro, um impostor e salteador, como se propalou então, durante o Governo violento e despótico do General Luís do Rego Barretto. Silvestre não era um impostor, quando ensinava aos Reunidos que uma Santa ia falar, da Pedra, para mostrar-lhes o que convinha adotar para melhorar a sorte de um Povo sofredor. Foi isso explicado, depois da Independência, pelos Patriotas bonitenses que estiveram em maior contato com o mesmo Silvestre. E qual era essa Santa que ia falar, apontando muitas coisas úteis que o Povo sofredor devia adotar? Era, certamente, a Santa Liberdade, era a Independência do Brasil! A reunião de gente na Pedra do Rodeador deu-se da seguinte maneira: pelo meio do ano até o fim de 1819, apareceu naquele lugar um Misterioso, dizendo ser seu nome Silvestre, e cuja Missão era escolher um Sitio..."' "O quê?', gritou Lino, escumando pela boca e esbugalhando os olhos. 'Al está escrito assim mesmo, Doutor? Diz um Misterioso, é? É assim que está aí?' "E, Lino!', disse Clemente, meio surpreso. 'Deve ter sido erro de tipografia! Provavelmente o que o Comendador escreveu foi um homem misterioso!' "Isso é sua opinião, isso diz o senhor!', comentou Lino. `Mas deve ter sido é um Misterioso, mesmo, que o Doutor escreveu! Porque essas pessoas da Santíssima Trindade sertaneja, essas pessas pessoas como Padre Cícero e Silvestre, são sempre umas capacidades danadas de misteriosas! E como é que fala, aí, da Missão que Silvestre Quiou, o Enviado, tinha? Diz aí que ele tinha de escolher um sitio, é? Me diga uma coisa: o que é um sítio? Não é um cerco, como o que houve em 1930, na Guerra de Princesa? E, eu sei que é, porque vi no jornal, e está escrito também assim no Almanaque do Cariri, publicado aqui pelo nosso Rei, Dom Pedro Dinis Quaderna! Hoje eu sei perfeitamente que Princesa, Canudos, a Serra do Rodeador, a Pedra do Reino, tudo aquilo foi um sítio da molesta, um cerco danado, uma Tróia só!' "`Sim, Lino, mas sítio, além de cerco, significa também, lugar, local!', explicou Clemente que, na sua qualidade de homem de Esquerda, achava-se sempre na obrigação de esclarecer o Povo. `Mas vamos continuar a leitura do texto do Comendador: "`"Dias depois, soube-se no Povoado que esse Silvestre escolhera um Rochedo conhecido por Pedra do Rodeãdor, e aí estava reunindo gente para que, em tempo oportuno, ouvisse a uma Santa que ia falar, indicando o bom caminho que o Povo devia seguir. Dentro de vinte dias, o número dos Reunidos aumentou consideravelmente. O Comandante do Destacamento Policial ordenou, por um Ofício dirigido ao Chefe Silvestre, que fizesse dispersar aquela gente sem perda de tempo, pois que, se não o fizesse, por ele, Comandante, seria tomada a providencia necessária, a fim de ser desmanchada aquela ilícita reunião. Nenhum efeito produ~au, no ânimo de Silvestre, a intimativa, e o número de pessoas do Povo crescia de mais a mais, a ponto tal de formar um Arraial. Silvestre, não dispondo de recursos para sustentar as pessoas pobres que o acompanhavam, mandou intimar aos Proprietários que lhe mandassem Gado, farinha, milho, feijão, etc., sob pena de, à força de Armas, serem satisfeitas suas requisições. Com isso, conseguiu ser atendido. Esse fato chegou ao conhecimento do Governador Luís do Rego, pois o mesmo Governador mandou, tendo como Chefe da diligencia, o Tenente-Coronel Madureira, uma Força para dar um assalto à Pedra do Rodeador. Madureira, saindo do Recife à frente de um corpo de linha, chegou a Vitória de Santo Antão, e aí recebeu outro corpo de Milicianos, declarando que seu destino era Pajeú de Flores. A tropa saiu como se fosse para lá, mas, ao aproximar-se de Bonito, Madureira fez uma negaça. Munido de bons guias, internou-se pelos matos em direção à Pedra do Rodeador, onde chegou às tres horas e meia da madrugada, dividindo a tropa em dois corpos, um de linha, sob seu comando, e outro dos Milicianos de Vitória de Santo Antão, comandado por um Capitão. Um destes corpos entrou pelo lado oriental do Rochedo, e o outro pelo lado ocidental, nas quebradas do qual estava o Arraial fortificado do Rei e Profeta Silvestre. O Chefe miliciano chegou ao Arraial primeiro que Madureira. Houve grande tiroteio, ao qual, acudindo o Tenente-Coronel a passo de marchemarche e intervindo no conflito, houve grande carnificina. A grande população não teria sofrido tanto se os Soldados não tivessem incendiado as habitações do Arraial, fazendo vitimas das chamas muitos homens, mulheres e crianças, aprisionando e conduzindo para o Recife as mulheres e os meninos que escaparam e que foram soltos depois, porque se reconheceu não haver neles crime algum. O Chefe Silvestre foi, depois, visto em Goiana, fazendo parte do Exército dos Independentes, que tinham seus Chefes na cidade do Recife e em outros pontos. Silvestre era de cor morena, representando uns quarenta anos de idade. Sabia ler e escrever, era ativo, perspicaz e severo em suas deliberações. Nunca disse a ninguém onde nascera, que profissão tinha nem do que vivia"." - Acho, Senhor Corregedor, que Lino Pedra-Verde ia comentar qualquer coisa a respeito dessas últimas palavras, tão proféticas, do Comendador. Mas, nesse momento exato, fomos interrompidos pela entrada de Piolho, uma figura que morava na "Távola Redonda" - onde era meu assalariado - e que é personagem muito importante da minha história. Moreno, magro, de estatura mais ou menos média, com os cabelos imundos, crescidos e encaracolados, vestia sempre uma velha e esburacada camisa de meia, preta e encarnada, com listras horizontais largas. Tinha um amigo e companheiro inseparável, o gordo Adauto, tão sujo quanto ele, mas cuja camisa, também velha e esburacada, era de listras horizontais azuis e amarelas. Eram as camisas dos dois Clubes de futebol da nossa Vila, o "Taperoá Futebol Clube" e o "Esporte Clube Nordeste", esquadrões famosos no Sertão e heróis de de jornadas heróicas que, a seu tempo, serão contadas. Piolho era noivo oficial, constante e eterno de Dina-me-Dói, filha do Profeta Nazário e Dama de companhia de Maria Sátira ,assim como o noivo era meu Pajem e estribeiro. Ele entrou, dirigindo-se a mim: "'Seu Quaderna, tenho dois recados pr'o senhor. Um, é do tal Doutor Pedro Gouveia, que veio com o rapaz do cavalo branco: ele quer falar com o senhor, com o Doutor Samuel e com o Professor Clemente. Disse que os senhores fossem lá no casarão dos Garcia-Barrettos, que ele quer ter um particular com os tres. Mas eu, se fosse o senhor, atendia primeiro era ao outro recado. Este, é para o senhor, só: Seu Arésio está lá na Tava, conversando com Seu Adalberto Coura, e mandou dizer que o senhor desse um pulo lá que ele tem um negócio urgente para falar com o senhor!' "`Piolho', disse eu, meio severo, `eu já lhe ensinei, não sei quantas vezes, como se dirigir a nós, e voce não toma jeito! Não custa nada você me tratar por Dom Pedro Dinis Quaderna, e Arésio por Dom Arésio Garcia-Barretto! Esse negócio de Seu é feio pra burro! E, além disso, o nome é Távola Redonda, e não Tava, como vote diz!' " 'Está certo, Seu Quaderna, mas nem o senhor é Bispo, pra eu estar chamando o senhor de Dom, e tanto faz dizer Tava como Tava! Mesmo eu falando desse jeito, o senhor não me entende? Então, é melhor o senhor deixar dessas conversas semiconfláuticas e vir logo pr'a Tava, porque aquele Seu Arésio, do jeito que está, é um perigo!"'

FOLHETO LXXIX

O Emissário do Cordão Encarnado

- Samuel e Clemente estavam curiosíssimos, profundamente excitados com a perspectiva de terem acesso ao centro, mesmo, dos acontecimentos. Ao mesmo tempo, porém, estavam com medo de ir, principalmente por terem de atravessar todo aquele Povo reunido. Informaram-se cuidadosamente com Lino Pedra-Verde sobre "as disposições em que estava aquela gente", indagando, chios de precauções, se "não havia alguma possibilidade de serem massacrados, caso aparecessem na rua, sem garantias". Lino tranqüilizou-os, aconselhando-os a se aproximarem da casa dos GarciaBarrettos pela parte de trás. Assim, poderiam passar despercebidos, porque a multidão estava toda aglomerada na parte da frente. Piolho confirmou que o Doutor Pedro Gouveia estava esperando por nós no muro do quintal, com o portão traseiro trancado mas com gente à nossa espera por trás dele. Combinamos então que Clemente e Samuel iriam, na frente, para a casa dos Garcia-Barrettos. Eu iria conversar com Arésio e Adalberto Coura, saindo depois da "Távola Redonda" diretamente para encontrá-los. Saímos então; os dois para pegar a Rua do Chafariz e eu para o fim da Chã da Bala, onde numa casa afastada, sombreada por um grande Pé-de-Tambor, ficava a minha "Estalagem à Távola Redonda". Todo mundo estava na Praça, diante da Casa dos Garcia-Barrettos, de modo que a Chã da Bala estava deserta, e eu pércorri o caminho da "Távola" sem que ninguém me perturbasse. Sempre com Lino Pedra-Verde me servindo de guia, cheguei assim à porta de casa e entrei. No primeiro momento, não vimos ninguém. A "Távola" estava deserta, com a mesa do bilhar abandonada, as cadeiras trepadas em cima das mesas e sem ninguém para atender. Nem Dina nem Maria Safira estavam lá, e o próprio Piolho tinha ido também, com o Gordo Adauto, se reunir ao Povo, depois que me dera o recado. Chegando na saleta onde ficava a escada que levava ao sótão, ouvimos duas vozes de homem, lá em cima. Só então me lembrei de que Arésio devia estar, mesmo, era fazendo companhia a Adalberto Coura na água-furtada em que este morava. Esta expressão era de Samuel, que odiava Adalberto Coura e que nos explicara que as pessoas como ele sempre moravam em águasfurtadas, lugares altamente próprios, acrescenfava Samuel, "para todos esses Lacraus e piolhos-de-cobra sediciosos, inimigos do gênero humano, esconderem seus pensamentos e projetos endemoninhados". Subi a escada, com Lino me puxando à frente, e cheguei, assim, ao quarto de Adalberto Coura, aposento dividido por tabuados, de telhado baixo, empoeirado e desarrumado. Apesar da treva em que estava mergulhado por minha recente e estranha cegueira, notei logo que, além de Adalberto Coura e Arésio, havia, no quarto, uma terceira pessoa, que só depois iríamos saber quem era. Essa pessoa estava na sombra formada pelo telhado baixo e inclinado em declive, do sótão, e Lino Pedra-Verde, como me esclareceria depois, logo viu, pelos cabelos compridos, que era uma mulher. No momento em que entrei, Adalberto Coura, falando exaltadamente como era hábito seu, dirigia-se a Arésio, num tom em que se misturavam as súplicas e as ameaças. Era um rapaz magro, alvo, com cabelos pretos, franzino, ardente, com os olhos que luziam como olhos de febre. Era bem moço ainda. Vestia calça escura, camisa branca, sem colarinho mas abotoada até o pescoço, meias e alpercatas de frade, o que lhe dava um aspecto de noviço na cela ou de jovem frade renegado.

- Muito 'bem! - interrompeu o Corregedor. - Seja, agora, o mais exato possível, porque este Adalberto Coura pode ser a chave de tudo o que aconteceu naquele dia. O que é que ele estava dizendo a seu primo Arésio? Você é capaz de repetir exatamente as palavras que ele estava dizendo quando você entrou? - Sou sim senhor, porque me lembro como se fosse hoje! Ele estava dizendo: "Vá, Arésio, não recue diante de nada! Faça tudo, mas não deixe de se apossar desse dinheiro, porque só com ele na mão é que a coisa poderá caminhar!" - Anote, Dona Margarida, isso é muito importante! - disse o Corregedor.

- Arésio retrucou assim: "E quem disse a você, Adalberto, que eu quero que a coisa caminhe?" Nesse momento, foi que ele se apercebeu da minha chegada, e falou para mim, dizendo: "Ah, Dinis, você chegou! Entre e sente-se. Ouvi dizer que você cegou! ( verdade?" "E, Arésio!', respondi.

"'Esse Dinis enxerga mais longe do que se pensa e é um sabidão!', disse ele, sem que eu entendesse bem o sentido de suas palavras. `Fique aqui, meu caro Dinis, estou precisando muito de você. O nosso Profetazinho politico, aqui, mandou me chamar para me dar um conselho do qual eu não precisava absolutamente, o de me apossar do meu dinheiro, de qualquer maneira! Fique descansado, Adalberto, porque, de minha parte, estou decidido a tudo para não perdé-lo, e quem se intrometer na minha frente para impedir isso, será esmagado como um percevejo!', concluiu ele com uma expressão sombria.

"`Sim, eu confio em sua violência e sei que você é capaz de esmagar qualquer um!', disse Adalberto com estranho fervor e com um rubor de febre subindo ao rosto pálido.

"'Foi por acreditar nisso que você mandou me chamar?', perguntou Arésio.

"`Foi!', confirmou Adalberto. `Não me envergonho de dizer que não tenho as qualidades que você tem e que serão indispensáveis quando chegar a hora de vingar todos os escorraçados, fazendo justiça aos oprimidos!' "E quem foi que meteu na sua cabeça a idéia de que eu quero fazer justiça aos escorraçados?', perguntou Arésio, sem esconder um certo desprezo.

"Ninguém meteu isso na minha cabeça, fui eu mesmo que me convenci!', falou Adalberto. 'Você pensa que me engana, Arésio? Eu sei que você é solidário com os escorraçados porque você mesmo é um escorraçado, e tenho certeza de que como escorraçado que você se sente porque eu mesmo sou um escorraçado e sei reconhecer meus iguais! Não é vergonha ser um escorraçado, vergonha é a dos que nos escorraçaram! Vergonha nossa seria deixar que a humilhação nos corrompesse! O que é necessário é lutar, colocando nossa humilhação, nosso ressentimento, a serviço da Verdade e da Justiça!' "Bonito, a verdade e a justiça!', disse Arésio com expressão de mofa. 'O que é que eu tenho a ver com a verdade e a justiça? Foi por me julgar um apaixonado pela justiça que você me mandou chamar?' "Foi!', repetiu Adalberto com a mesma expressão de fervor.

"O Bispo morreu, Dinis?', indagou Arésio, voltando-se para mim e aparentemente sem muita ligação com o rumo da conversa.

"Não!', respondi. `Pelo menos, não tinha morrido até quando vim para cá. Dizem que ficou muito mal, desacordado, com o rosto inchado e sangrando, porque parece que houve, inclusive, uma hemorragia interna, que ficou enchendo a garganta e o nariz dele de sangue. Mas conseguiram estancar!' "Está ouvindo, Adalberto?', perguntou Arésio. 'Eu quase mato um ancião indefeso! E é a um homem desses que você vem falar em verdade e justiça?' "E, sim!', insistiu Adalberto Coura. 'Eu sei que existem homens que, sendo interiormente mansos e bondosos, têm que se esquecer disso em nome da justiça e da violência revolucionária!' "'E indo, nesse caminho, até a crueldade?', perguntou ainda Mésio.

"'Sim, indo até a crueldade, porque a crueldade é necessária! O gesto que você praticou hoje contra o Bispo teve um sentido e, para mim, foi a prova definitiva de que você tem todas as qualidades indispensáveis a um revolucionário! Acho que os outros ficaram perplexos, mas eu entendi o que você quis dizer e mandei chamá-lo para lhe dizer: cheguei, também, à conclusão de que está na hora do rompimento e da violência! Por enquanto, não existem ainda entre nós as condições para a luta revolucionária organizada. Só depois que o Sul e o Recife se levantem é que poderemos nos levantar de vez. Mas temos que criar imediatamente o ambiente de ódios e ressentimentos que hão de favorecer a insurreição, e foi isso que sua agressão ao Bispo começou!' "Você se refere aos atos de terrorismo? O assassinato, inclusive?' "'Sim, por que não? Na Rússia, não foi assim que tudo começou? Uma certa tolerância, a paz dos charcos, é programa de todos os grupos que detêm o Poder. A Paz, em certos momentos, só serve para favorecer a Ordem constituída, o que, em nosso caso, significa a manutenção da injustiça e do Mal! Por isso, é preciso começar a matar. Aliás, as mortes já começaram entre nós, com o assassinato do Sacristão, o do Padre...' " ... E o do seu irmão também!', concluiu Arésio. 'Foi você quem matou os três, por acaso?' "'Não!', disse Adalberto, ficando ainda mais pálido. 'Mas fui eu que escrevi as cartas anônimas interpretando essas mortes em seu verdadeiro sentido! No nosso caso, os assassinatos estão moralmente justificados, porque já são um revide a tudo o que os poderosos têm feito contra o fracos! Além disso, do ponto de vista tático, os atos violentos despertarão reações ainda mais violentas, e se esse ambiente perdurar por uns três anos, já teremos ressentidos e vingadores em número suficiente para dar consistência iì Revolução. Vamos aproveitar a confusão da rua: você indo comigo, terei coragem de matar o Juiz, o Prefeito e o Padre!' "E o que é que virá depois?', indagou Arésio, curioso, a despeito de si mesmo e como se estivesse simplesmente a fazer uma análise do caráter que tinha diante de si.

"O que virá depois', disse Adalberto quase delirando, 'será o banho de sangue purificador, e a instauração do sol da Justiça para todos!' Ergueu-se da cama onde se mantivera meio deitado até aí e acrescentou: 'No nosso caso particular, o que virá é mais do que isso ainda, porque só depois desse banho de sangue é que começaremos, mesmo, a ser uma Nação! Uma Nação unificada o forte, capaz de enfrentar e derrotar a Besta Loura que vive sugando o nosso sangue!' "'Ah, já estava tardando essa expressão!', disse Arésio com ironia. 'Essa você me desculpe, Adalberto, mas foi diretamente bebida nas idéias e conversas dos Mestres de todos nós, dos dois Capões, Clemente e Samuel, nossos Mestres amados e nunca esquecidos!" - Os dois Capões? Foi assim que ele se referiu ao Promotor o ao Advogado? - estranhou o Corregedor.

- Foi, Excelência! - expliquei. - Era sempre assim que Arésio se referia aos nossos Mestres. Adalberto, como todos nós, tinha sofrido a influência deles, e era disso que Arésio agora escarnecia. Mas o ardoroso e doentio revolucionário não se desconcertou. Disse, com a mesma veemência: "'E que importância tem que minhas expressões venham da influência dos dois Capões, como você chama, se pelo menos nisso eles estão certos? É preciso somente ajustar e radicalizar o que eles vivem papagueando inconscientemente e inofensivamente para os Poderosos, para aqueles que é preciso esmagar! E você mesmo, Arésio, apesar de escarnecer assim dessa influência, já sustentou também tudo isso, ensinado e entusiasmado por eles!' "Sim!', disse Arésio, em tom evocativo. 'Era aí por 1924 ou 1925, quando começaram a chegar aqui uns livros nacionalistas, vindos de São Paulo! Samuel enchia nossas cabeças com eles, e eu e Dinis sonhávamos com a fundação da Falange Nacionalista Latino-Americana, ampliando nossos sonhos para o Continente inteiro, que nós queríamos ver unido num País só, o Ariel Ibérico sonhado pelo uruguaio Rodó e que nós queríamos levar ainda mais adiante dos seus sonhos! Lembra-se, Dinis? Tudo isso são velhas idéias! Eu ainda não me tinha posto inteiramente adulto o não sabia ainda, com a cabeça, o que queria, se bem que, na ação e com o sangue, eu já praticasse tudo o que desejava. Como era o nome daquele livro que Samuel lia para nós naquele tempo, Dinis?' "'Não sei, ele lia tantos! Seria o Sonho de Gigante, Arésio?', sugeri.

"'Sim, Sonho de Gigante, era isso! O "Gigante" era, naturalmente, o Brasil, País fatídico ao qual estava confiado o papel vertiginoso de organizador da União Latino-Americana! Dinis, coitado, sonhava tanto, que chegou a criar, na cabeça, o Partido político que iria realizar esse sonho. Era a Falange Nacionalista da América Latina - FANAL -, nome bem escolhido, porque dava idéia de farol luzindo nas trevas, dizia ele. Como, de fato, nessas coisas, ele se interessa, mesmo, é pelas insígnias, chegou até a imaginar, junto com o irmão pintor, uma camisa para o Partido, camisa azul com uma Onça de ouro, malhada de pingos negros e vermelhos, a Onça ou Leopardo ibérico com as malhas simbolizando o sangue dos Negros e Indios!' "'Isso cheira a Fascismo italiano, Integralismo português e Falange espanhola!', disse Adalberto. 'Além disso, tudo não passa de sonho!' "E é proibido sonhar?', protestei logo. 'Antes de ser uma Nação, o Brasil foi um sonho na cabeça de uma porção de gente. Assim, deixem-me sonhar, desde agora, com uma das maiores Nações do mundo, pegando do México à Patagônia! E quem sabe se daqui a muitos anos a Etiópia, a Angola, a Africa, a India, Portugal e a Espanha não vão querer se juntar a nós, realizando, do Mundo, o sonho da Rainha do Meio-Dia?' "'Sim!', confirmou Arésio. 'Nós, os Latino-Americanos, "católicos e cavalheirescos, amigos da pompa e da Arte, seduzidos por todas as belezas - desde a plástica sensual até as mais elevadas manifestações do ritmo moral", como dizia o livro, seríamos os legítimos herdeiros do espírito mediterrâneo. Por isso, seríamos o Povo indicado para se opor à sacrílega, subalterna e desumana Cruzada industrial dos Americanos, herdeiros da brutalidade fanática e puritana dos Nórdicos, do egoísmo e do apego ao dinheiro dos anglo-saxoes. Mas, como eu lhe dizia, tudo isso passou. Hoje, essa é uma idéia que pode seduzir o capão Samuel Wan d'Ernes, o capão Gustavo Moraes e o patrono de todos eles, o capão Joaquim Nabuco! Para mim, esses sonhos são insuficientes, não matam a sede do meu sangue! Sabe por quê, Adalberto? Porque a solução apresentada por esse pessoal todo é a solução do espírito, o que é o mesmo que dizer a solução dos castrados! O tal J. A. Nogueira chegava a dizer, se não me engano, que o Brasil terminaria ganhando a luta surda, já travada entre ele e os anglo-saxoes do Norte, porque a vitória final cabe sempre, não aos mais fortes, como Aquiles, porém sim aos mais cultos, aos mais espirituais e sagazes como Ulisses!' "Para mim, que sou um Decifrador, isso não está mal!', confessei.

"Pois eu concordo é com Arésio!', disse Adalberto, exaltandose cada vez mais. 'Eu, Arésio, talvez não passe de um fraco, de um espiritual e sagaz, como você diz. É por isso, exatamente, que preciso de você!' "Para que eu sirva de braço ao sopro do Espírito?', perguntou Arésio.

"'Exatamente! Você é corajoso e violento e, se se encaminhar no rumo certo, poderá colocar a violência de seu sangue a serviço da Justiça. E por isso que, se eu confesso que preciso de você, você precisa entender que precisa também de mim!' "'Para quê?', disse Arésio, rebelando-se um pouco.

"Para iluminar seu caminho com o fogo do espírito, porque isso eu tenho! Você, com as idéias do Doutor Samuel e do Professor Clemente, só viu a primeira metade da estrada, é preciso ver a segunda, Arésio! A primeira parte, consiste, realmente, em enxergar o inimigo, a Besta Loura Calibã que precisamos enfrentar e derrotar, aqui! Para isso, todos nós estamos de acordo em realizar a união da América Latina! Entretanto, mesmo entre nós que pensamos assim, existe, e deve se acentuar mais ainda, uma cisão, duas facções opostas, representadas, no século XIX brasileiro, por Joaquim Nabuco, de um lado, e Sylvio Romero, do outro, como o livro de J. A. Nogueira, aliás, explicava, mas tomando o partido errado, o de Nabuco! Para Joaquim Nabuco e seus seguidores, o Brasil é, e deve se esforçar por ser cada vez mais, um prolongamento da Península Ibérica. No fundo, todos esses são traidores da nossa luta, saudosos da Europa, exilados e desenraizados aqui! Nosso caminho deve ser outro. Temos que aprofundar e ampliar a picada aberta por Sylvio Romero e Euclydes da Cunha. Sim, Arésio, na luta que inevitavelmente se vai travar entre os Latinos e os Nórdicos, deveremos ficar, primeiro, fiéis a nossas raízes ibéricas. É o primeiro passo, com o qual estamos todos de acordo. Mas não devemos esquecer, também, que todos os Povos submetidos e explorados do mundo são Negros, qualquer que seja a sua cor. Daí, a solidariedade que deve haver entre nós, Latino-americanos, os Negros e os Asiáticos!' "'Olhe, Adalberto', disse Arésio, pondo-se sério de repente, 'não tenho nada a ver com sua vida, mas de uma coisa preciso adverti-lo. Ou melhor, de duas! A primeira, é que essa última parte de suas idéias vem do capão Clemente. Por isso, como acontece com todas as idéias de capão, está cheia de lugares-comuns o fórmulas. Para Clemente, que nisso tem uma viseira, tudo se passa de acordo com esquemas preestabelecidos. Um desses, é que o Povo brasileiro, descendente de Negros e Indios e pobre, terá sempre um inimigo na casta dos Senhores, esta representada sempre pelos proprietários de terra e pelos Soldados. Quem sabe se o caminho da América Latina não surpreenderá todo mundo? Uma das idiotices do capão Clemente é subestimar o papel das Forças Armadas e da Igreja, na América Latina. A outra advertência que tenho a lhe fazer é esta: cuidado com os Mestres e Senhores que ocupam a cúpula de seu Partido. Talvez eles não aprovem suas idéias, e podem entregar sua cabeça à Polícia com a maior sem-cerimônia! Você morrendo, representará, para eles, uma dupla vantagem: livram-se de um correligionário heterodoxo e perigoso, e criam um mártir para a luta!' "'Eu não tenho nem Mestres, nem Senhores, Arésio!', disse Adalberto. 'Na minha luta, não conto com ninguém! E com quem eu poderia contar? Mais ainda: com qúem nós poderíamos contar, nós, Latino-Americanos, Negros e Asiáticos? Com os Russos? Os Russos já desempenharam seu papel e não nos entenderão. Veja esse problema do qual eu falava há pouco: na Revolução, os Russos se aproveitaram de todas as cargas de ódios e ressentimentos surgidos pelos assassinatos, pelas bombas, pelas punhaladas, pelas execuções e fuzilamentos, e assim podem se dar hoje ao luxo de condenar o terrorismo. A mesma coisa eles farão no plano mais amplo, não reconhecendo, na luta travada pelos Povos negros do mundo, uma luta parecida com a deles em 1917! Quanto à minha cabeça, não me incomodo se a cortarem! Pode ser que, assim, minha família se torne ressentida e queira vingar a minha morte, nem que seja por espírito de vingança sertaneja. Aí, serão mais trinta ou quarenta ressentidos vivos em troca de um só morto, trinta ou quarenta ressentidos que serão trinta ou quarenta revolucionários em potencial!' "Está bem!', disse Arésio. 'Mas eu tenho, ainda, uma objeção a fazer a suas palavras. Você falou como se fosse um igual dos Negros e pobres do mundo. Mas você tem que reconhecer que, queira ou não queira, é branco e de família poderosa!' "'Eu sei, e você é igual a mim. Eu não teria fé nenhuma, nem em mim nem em você, se não tivesse ocorrido conosco o mesmo incidente - a expulsão realizada pela família, a velha história do Pai, do filho, do homem, do anjo e da espada à porta! Isso nos tornou proscritos, expulsos, escorraçados e ressentidos, aproximando-nos dos Negros e pobres do mundo pela humilhação. Olhe, Arésio: no Brasil, a situação é a mesma de toda a América Latina, porque, como dizia o livrinho de Nogueira, os Andes não separam duas culturas diversas e todos nós somos herdeiros da Península Ibérica. De modo que eu só penso em termos de América Latina, porque nosso caminho é o da união. Ora, acontece que, entre nós, os Conquistadores ibéricos dominaram os Povos negros o vermelhos, e foi sobre o extermínio ou sobre a escravatura que se fundaram esses arremedos de Nações que somos nós. Veja como o problema é grave: separadamente, nenhum de nós é ainda um País, e só unidos é que seremos, no Mundo, a Nação que temos o direito de ser. Mas vamos adiante: dentro de cada um dos nossos arremedos de Nação, qualquer que seja a cor de um Brasileiro ou Mexicano pobre, ele é um Negro, submetido e escravizado. Por mais estranho que lhe pareça, nosso destino peculiar de herdeiros dos Ibéricos só poderá se realizar na medida em que caminharmos na direção do Povo, isto é, dos Negros! Sim, porque os descendentes dos Conquistadores ibéricos que não fizerem isso, terminarão traindo. Subornados pela riqueza e pela tentação vulgar do conforto, fazem o jogo da Besta Loura e escravizam o Povo, vendendo a Nação em troca de uma pequena participação nos despojos, participação humilhantemente consentida por seus patrões da Besta Loura! O Brasil só será uma Nação quando reparar essa injustiça, acabando essa dualidade. Só assim, Arésio: acabando, pelo banho de sangue da pureza revolucionária, essa separação entre Brancos-Ricos e Negros-Pobres, e tornando-nos, todos nós, orgulhosamente Negros, Vermelhos e Brasileiros!' "'A Onça amarela, com malhas negras e vermelhas, a Onça Castanha de Quaderna!', disse Arésio sorrindo.

"`Vá lá, se você prefere chamar assim!', disse Adalberto erguendo os ombros.

"Olhe, Adalberto, não nego que tenha simpatia por você!', disse Arésio, pesando bem suas palavras, como se temesse mentir involuntariamente. `Acontece, porém, que, como eu disse, para mim, tudo isso são idéias mortas e passadas! Veja bem que não digo idéias erradas ou mortas para todo mundo. Mas são idéias mortas para mim, porque, há muito tempo, deixei de me interessar pelo que pode ser certo ou que pode ser errado. Acho que essa busca incessante para distinguir o certo e o errado é coisa do espírito e não do sangue. Mas, de qualquer modo, a título de informação para você, vou lhe dizer uma idéia que me h correu, a mim que tenho muito poucas. É que eu, nós, nada temos a ver com a sorte do Povo. A questão não é de justiça, não, é de Poder. Se o Povo puder conquistar o poder, conquiste. Por enquanto, só existem dois tipos de Governo: o dos opressores do Povo e o dos exploradores do Povo. O primeiro, é o dos Tiranos, o segundo é o dos Comerciantes. No primeiro tipo, o Povo é submetido e esmagado em nome da grandeza; no segundo é explorado em nome da Liberdade. Pois bem: ao contrário de vocês, que colocam suas opções em termos abstratos de Justiça, Verdade, Liberdade, etc., eu coloco as minhas num plano puramente pessoal e concreto, o plano do Poder. Não nego que, em outros tempos, eu tenha me deixado seduzir por esses problemas que os dois capões colocavam diante de nós, a respeito do Brasil, do Povo brasileiro, da União Latino-Americana, da Cultura Ibérica e de todas 'essas palavras sonoras que eles são mestres em inventar! Mas mesmo quando eu fazia isso, era por um motivo puramente pessoal: era por ter nascido aqui, por ser também, como diz você, um Ibérico transplantado, um meio-negro, de modo que, de certa forma, esse era o caminho para que eu, inconscientemente, aumentasse meu valor e poder pessoal de homem! Por isso, interessava-me indiretamente a grandeza da América Latina, para que eu mesmo também crescesse, porque sou também um de vocês, com tudo o que isso implica de qualidades e defeitos, e orgulhando-me tanto das qualidades quanto dos defeitos!' "'Sim!', concordou Adalberto. `E eu me lembro de um dia em que você teve, comigo, uma conversa importantíssima, e me disse algumas palavras que, para mim, foram o começo de tudo! Eu era quase um menino, e estava muito orgulhoso de você conversar comigo daquela maneira. Depois, quando você já tinha ido embora, eu não conseguia dormir. Peguei um caderno, e reproduzi o que você tinha me dito. Guardo sempre comigo a cópia dessas palavras, Arésio, e vou repeti-las para você. Eu copiei tudo à noite, depressa, com o pensamento correndo adiante da mão, pois estava com medo de me esquecer de alguma coisa mais importante. Posso ter cometido algum engano quanto às palavras, mas o pensamento, a essência do que você disse, creio que está aí, inteiramente fiel. E mesmo as palavras, acredito que sejam as suas. Eu ouvia você com tal fervor, que acho muito difícil ter me esquecido de alguma coisa. Em todo caso, ouça e seja você mesmo o juiz!', concluiu ele, tirando um papel do bolso e lendo as seguintes palavras, das quais lhe pedi cópia e que anexo, agora, ao inquérito, porque é uma peça importante para esclarecimento do caso: ""'Ah, esses negociantes e usurários do mundo! Querem nos moldar à imagem deles, a nós, Povos morenos dos países quentes, nós, os ardentes, os que ainda temos a capacidade de ser felizes, de fruir a vida, num mundo em que isso vai ficando cada vez mais raro! Eu gostaria que eles nos deixassem fruir da nossa Vida, que eles consideram suja, e enfrentar a nossa Morte, que consideram irracional! Ficassem para lá, com sua riqueza amontoada por séculos de trabalho estúpido e tenaz, com seu poderio acumulado em máquinas e dinheiro, com seus ideais puritanos de higiene e virtude! Mas não! Eles precisam nos vender seus produtos, para acumular mais dinheiro! Então, procuram nos corromper para nos dominar, sob o pretexto de que somos uns adolescentes bárbaros, encantadores mas irresponsáveis, que é preciso conter e domar com rédea curta, senão atrapalham e sujam a ordem do Mundo! A prova que apresentam disso é que nós, principalmente os do Povo, os mais pobres, os que mais deviam pensar no dia de amanhã, somos incapazes de amealhar. Deixamo-nos comer, de bom grado, pela fome e pelas doenças, contanto que possamos cantar e dançar imprevidentemente sob o Sol violento das nossas terras quentes e iluminadas. Então, a pretexto de salvar-nos dessa vida de ignomínia e dessa morte desonrosa, vêm nos corromper e nos roubar. Vendem-nos, ao mesmo tempo, os produtos para a nossa higiene e os ideais de um mundo organizado à base da poupança burguesa, da mealha, do trabalho duro, desumano e organizado. Mas tudo o que eles possuem e querem nos passar são os frutos apodrecidos da impotência para o prazer, para a alegria, para a felicidade animal e selvagem. Esses Povos de comerciantes, os mais tristes do mundo, nascidos e criados entre o frio, o escuro o a severa infelicidade dos ideais puritanos, querem impingir suas receitas de vida a nós, Povos morenos, criados ao Sol! Como é que poderão, nunca, nos entender? Esse Negro que se veste de Rei no Auto dos Guerreiros sabe que gastou quase tudo o que possuía para comprar o Manto e a Coroa, mas acha que a alegria de vesti-lo é compensação muito maior do que o preço pago. Aquele Caboclo, cassaco da cana-de-açúcar, sabe que o rio, contaminado, está cheio de doenças mortais que vão inchá-lo por fora o comer suas entranhas por dentro, entupindo seu coração de depósitos calcários de bichos estranhos ao sangue humano. Ele sabe de tudo isso, porque, todo dia, vé seus companheiros inchando e morrendo assim. Mas acha que, na sua vida miserável o sem perspectivas, primeiro só acha o que comer entrando no rio; e depois sabe que tem poucas alegrias iguais ao puro e selvagem prazer do banho de rio ao meio-dia, estando ele cansado o suado do calor do Sol. Aquele outro, que é Sertanejo, sabe que será morto, se escolher a vida livre das Catingas, as correrias do Cangaço. Mas sabe, também, que, enfrentando essa vida incerta o essa morte certa, terá direito ao que nunca teve: uma vida sem dono, uma vida de Senhor e sem trabalho escravo. Por isso nao se importa de viver perseguido como um cachorro mordido. Sabe que esse é o preço que terá de pagar para poder possuir mulheres com as quais, antes, não poderia nem sonhar, as filhas da gente poderosa, lindas e orgulhosas, que passeavam os olhos por ele sem nem ao menos o avistarem, como se ele não existisse, e que agora o vêem, com espanto, terror e perturbação, vestido com sua Armadura de couro e com as insígnias de prata de sua realeza, aparecendo diante delas não mais como um ser ignorado e desprezado, mas como o temeroso Senhor da sua honra e de seu destino, o Emissário de uma vida cruel, selvagem, errante e guerreira, fascinadora e terrificante. Todos esses são homens de Raça fidalga, degredados e degradados numa vida de ignominia, inferior a eles. Quem teria o direito de acusá-los e incriminá-los, se se revoltam o procuram uma outra vida, mais de acordo com os impulsos e a raça do seu sangue? Quem teria o direito de reprovar a escolha que eles fazem, condenando-os em nome dos ideais desses Povos tristes e duros de Burgueses dominicais, apavorados pelos Pastores, pela opinião, pela filantropia das sociedades protetoras de animais o pela higiene? Como é que esses paroquianos podem entender a selvagem alegria de uma briga de touros ou de galos, com o prazer e o encanto da luta, das apostas, do jogo, da festa, da sagração da vida inocente e cruel? Eles jamais entenderão que a morte cruel de um touro ou de um galo vale a alegria de um punhado de homens; não aceitam isso porque prezam mais suas regras e fórmulas filantrópicas do que a alegria dos homens. Nós não precisaremos nunca de inventar uma imagem falsa da Vida para poder amá-la. Porque, na dureza e sob o Sol, nós aprendemos à força a amá-la, com o que ela tem de ardente e glorioso, mas também com o que possui de degradado, sangrento e sujo. O que é cruel e sujo também faz parte da vida, e terá que ser enfrentado com as armas do sangue, do riso, e da luta, com a valente tenacidade do homem diante do que a Vida tem de mais desordenado - o sofrimento, a humilhação e a Morte"." - Quando Adalberto terminou de ler essas palavras, Senhor Corregedor, Arésio falou com uma estranha e inesperada entonação de melancolia na voz: "Sim', disse ele, `era assim que eu falava naquele tempo!' "Eu não lhe disse?', falou Adalberto. `Lembro-me de tudo! Eu escutei atentamente! No outro dia, viajei para o Recife, e foi a partir dessas palavras suas e da minha viagem que se iniciou aquilo que você, há pouco, antes de Quaderna chegar, chamou ironicamente de minha instrução revolucionária. Agora, eu lhe pergunto: você acreditava, mesmo, em tudo aquilo que me disse?' "`Acreditava sim, Adalberto! E acredite que, se falei com alguma ironia quando me referi à sua instrução revolucionária, a ironia foi mais dirigida contra mim do que contra você!' "Então, por que é que se recusa a iniciar sua instrução revolucionária, assim como a apoiar e ajudar a minha?' "Creio que a explicação disso está nas minhas palavras, que você guardou e repetiu tão bem. Você, seduzido por uma parte, parece que deixou de prestar atenção à outra. Acho que você não anotou isso af, devidamente, porque, sem querer, guardou mais o que correspondia a seus sonhos e seus desejos. Creio que seus amigos, mestres e companheiros do Recife não aceitam, de modo nenhum, minhas idéias. Não falo nem dessas de hoje, mas das daquele tempo, mesmo! Todos eles pensam por esquemas, e como as minhas idéias não cabem nos esquemas preestabelecidos por eles, nem sequer as examinam. Por exemplo: seus amigos são incapazes de ver que o Exército e a Igreja são, na América Latina, os únicos Partidos organizados, disciplinados e verdadeiramente existentes. São incapazes de ver que a hostilidade com que eles tratam esse dois Partidos é uma estupidez, que só favorece os nossos inimigos de fora. Sim, porque enquanto nós nos dilaceramos aqui em divisões estéreis, eles vão entrando, corrompendo, furtando e se apossando à vontade de tudo o que desejam. A união da América Latina tem que se fazer através dos nossos Exércitos, e para isso, temos que forjar um pensamento novo, uma nova Teoria do Poder, original, resultante das nossas qualidades e defeitos, das nossas peculiaridades e singularidades. Mas vocês ficam papagueando as idéias feitas que nos vêm de fora. O liberalismo é uma delas. Vocês não vêem que o liberalismo só interessa, aqui, aos que querem nos roubar? É por isso que, lá fora, de vez em quando, começam a sair ataques contra o que os galegos chamam o caudilhismo latino-americano, o militarismo latino-americano, os golpes latino-americanos, as ditaduras militares latino-americanas. Os galegos sabem, muito bem, que se aparecer um verdadeiro Soldado, que reúna as qualidades do Caudilho e do Rei, nós levantaremos a cabeça. O Brasil primeiro, porque é maior; depois toda a América Latina, que formará um País de duzentos milhões de habitantes. É isso o que eles não querem, e vem daí toda a propaganda que fazem para nos impingir, de cima e por fora, o regime da Inglaterra vitoriana ou dos Estados Unidos puritanos, cruéis e avarentos. Pronto, já falei demais: af está uma idéia de capão, que ofereço a você e a Dinis, para se aproveitarem dela como quiserem. Mas tenho que lhe lembrar, ainda, algumas coisas que eu dizia, mesmo naqueles meus tempos de entusiasmo. Não sei se você se lembra, mas eu dizia, também, que não poderia nunca aceitar a igualdade como ideal, porque, sendo também filho desse sangue LatinoAmericano, do sangue que dá os Cangaceiros, profetas e Caudilhos, eu sei que cada um de nós tem de realizar a seu modo a glória ardente da sua Vida, e enfrentar, também a seu modo, a sujeira e o sangue da Morte, ambas diante do Sol. Sim, porque diante dessas coisas, a Vida e a Morte, cada um tem de se atar sozinho, pois ficamos sempre inteiramente sós diante delas!' "`Sim!', insistiu Adalberto, como se teimasse em só ouvir uma parte das palavras de Arésio. `Sim, eu sei! É preciso corrigir e ajustar o que existe ainda de desviado em seu pensamento, porque você dá alguns erros graves de interpretação. Há pouco, por exemplo, você disse que só existiram até hoje, no mundo, dois tipos de Governo, o dos comerciantes que exploram o Povo, e o dos tiranos que oprimem o Povo. Dou certa razão a você. Quanto ao Governo dos comerciantes, estou inteiramente de acordo. Acho, mesmo, que uma das tarefas do pensamento Latino-Americano é desmascarar as imposturas da Democracia liberal-burguesa, o regime dos comerciantes, como você chama. Aliás, nós temos tudo para isso, porque nossa tradição política não é essa, da Democracia burguesa. Entenda bem o que estou dizendo, para não torcer meu pensamento depois, Quaderna! Eu pessoalmente, talvez pelo fato de termos sido súditos de Filipe II, tenho mais simpatia por aquela Autocracia total que, no século XVI, determinava até o modo de vestir dos vassalos, do que pela impostura da Democracia dos comerciantes ingleses, que nos foi imposta artificialmente, por ideais superpostos, que não correspondem à nossa vida e à nossa formação. No século XVI, Arésio, a opção era entre a Autocracia coroada e meio teocrática de Filipe II e a República de comerciantes, da Holanda ou da Inglaterra. Hoje em dià, os Estados Unidos são uma espécie de Holanda em ponto grande - um Povo de comerciantes farisaicos e puritanos - organizado na mais poderosa das imposturas que já se fizeram em torno do Bezerro de Ouro!' "E qual será, hoje, a Autocracia total e meio-teocrática que se opõe aos Estados Unidos? A Rússia?', indagou Arésio, novamente irônico.

"'Sim, é a Rússia, por que não?', retrucou Adalberto, com o mesmo fervor de antes. `É a Rússia, com tudo o que o Comunismo tem de teocrático e de apocalíptico, de inquisitorial e escatológico, o que digo, não de modo pejorativo, e sim como LatinoAmericano e herdeiro da tradição autocrática de Filipe II! Mas o que eu ia dizer, mesmo, era que você esqueceu, nas suas palavras, de fazer uma distinção importante: existem, de fato, somente dois tipos de governo, o dos que exploram e o dos que oprimem o Povo. Mas, entre os que oprimem, existem, também, dois tipos: os que oprimem em nome da grandeza, como Filipe II, e os que oprimem para realizar a justiça, como Lénin!' "'E qual é a diferença, para o Povo que é oprimido?', indagou Arésio, meio impaciente.

"'A diferença é que os que oprimem em nome da justiça esperam instaurar a felicidade para todos!', disse Adalberto no mesmo tom de fervor doentio.

"'Ah, a felicidade!', disse Arésio, com desprezo. `Esse é um ideal mesquinho, no plano individual, e um sonho de capões quando passa para o coletivo!' "`Um ideal mesquinho?', disse Adalberto, admirado. `Não, é o ideal de todos! Todo mundo procura a felicidade, a tranqüilidade, a alegria e a paz!' Todo mundo?', insistiu Arésio. `Todo mundo, não! Das pessoas que estão aqui, quantas procuram a felicidade? Você, procura o sofrimento e um castigo, que, não sei por quê, deseja, desde que o conheci!' "`Isto são frases!', rebateu Adalberto. `E mesmo que fosse verdade a meu respeito, Quaderna é alegre e procura a felicidade! Talvez até já tenha achado a tranqüilidade, a paz e a alegria, se bem que eu não concorde com os métodos que ele empregou para isso!' "A verdadeira alegria, Adalberto, a alegria ardorosa e pura que nós somente pressentimos, é impossível para o homem, assim como a paz e a felicidade são os ideais mesquinhos dos frívolos, covardes e superficiais. Isso, no plano individual, como eu dizia. Se você pensa em todos os homens, esse ideal mesquinho de felicidade e paz se amplia, em tamanho e estupidez, no ideal da justiça. O mais que o homem verdadeiro procura, em seu conflito com o mundo, é colocar uma precária ordem em sua vida e um certo estilo em sua melancolia, em seu destino, que é, por natureza, despedaçado, triste, falhado, enigmático e trágico. Para isso, o homem tem duas fontes, duas raízes de defesa - o choro e o riso. Mas o choro e o riso verdadeiros, aqueles fincados profundamente o cujo ritmo se alimenta de sangue e de subterrâneo. Dinis Quaderna não é alegre, Adalberto. Quem passou o que ele passou e viu o que ele viu, não pode ser alegre. Os subterrâneos do sangue dele são como os meus, povoados de mortos sangrentos que flutuam no rio da desordem. Apenas, enquanto eu resolvo meu conflito pelo choro e pelo suor do sangue e da violência, ele resolve o seu pelo riso; mas eu não sei qual o mais despedaçado, se o meu sangue ou se o riso dele!' "Pois reajam!', gritou Adalberto. `Reajam e lutem, porque, como eu estava dizendo, existem os que oprimem de início, sonhando com uma justiça mais alta, com uma sociedade nova, com uma vida em que ninguém, principalmente os pobres que estão sós, tenha que enfrentar mais, sozinho, a sujeira e a desordem da vida! É por isso que eu acredito na América Latina! Quando nós não nos envergonharmos mais da nossa tendência para o caudilhismo, a guerrilha e o cangaço, quando nós provarmos que a nossa vocação autocrática pode ser orientada e inclinada para a organização de um verdadeiro Estado, aí sim, teremos todas as qualidades do nosso Povo retificadas e unificadas pela verdade. Ficará claro que só num verdadeiro Estado, organizado à base da verdade e da justiça, é que o homem pode realizar sua inclinação natural para o bem, a mansidão, a fraternidade, a generosidade, o tudo mais que nos afasta da animalidade, do egoísmo e da crueldade. Suas idéias, Arésio, deixarão de ser uma faca de dois gumes, e os mansos e misericordiosos não terão mais que se dilacerar na violência justa e na crueldade necessária, porque, pela primeira vez na História, a justiça e a misericórdia estarão reunidas o unificadas numa coisa só!' "E um belo sonho!', disse Arésio. `Infelizmente, nosso tempo não permite mais esses sonhos! O nosso tempo estala, Adalberto, é um tempo trágico!' "O mais trágico, nele, Arésio, não é que o vício e a maldade tenham aumentado, como dizem os superficiais, que acham, sempre, que, no tempo passado, no tempo deles, tudo ia melhor. O pior, agora, é que a ordem e as virtudes antigas não são mais suficientes. É por isso que, entre outras coisas, a noção de liberdade e de justiça das democracias liberais perderam a força de ação e reivindicação que possuíam no século XVIII. A tal ponto, que, hoje, essas noções não entusiasmam mais ninguém, a não ser os membros das Academias e dos clubes filantrópicos de comerciantes. Hoje, todos nós estamos exigindo, pedidas por nosso sangue e formuladas por nosso pensamento, uma liberdade mais violenta e uma justiça implacável, para que o homem abra seu caminho em direção àquilo que os religiosos chamam o Divino e que nós chamamos o mais elevado e o mais nobre do humano!' "`Meu caro Adalberto', disse Arésio, `você é, e será sempre, um professor! Abra o olho, senão termina ficando como os dois capões! Isso é, aliás, a mesma coisa que eu vivo dizendo aqui ao nosso Dom Pedro Dinis Quaderna! Mas Quaderna, sendo meu primo, tem um pouco do meu sangue e é, pelo menos, um Poeta a cavalo, como diz o Padrinho dele, João Melchíades. Quaderna caça, anda e corre a cavalo pelas estradas, enquanto você fica aqui, trancado entre essas quatro paredes, pensando, sonhando e falando só! Cuidado com o mofo e as teias de aranha!' "Eu sei que estou correndo esse perigo, Arésio!', concordou Adalberto. `Foi por isso, aliás, que mandei chamá-lo aqui: tenho confiança em você, assim como, de certa forma, também ainda espero alguma coisa de Quaderna! Mas como é que poderemos agir indiscriminadamente, agir sem pensar? E como pensar sem nos isolarmos entre quatro paredes? É ainda a injustiça, a desordem do mundo em que nasci, que está me tornando um monstro mental e moral, como transforma em monstros físicos os barrigudos, inchados de vermes e amarelos de fome, que você viu na Zona da Mata e dos quais falávamos há pouco! Pois bem: aceito sua crítica a respeito do meu mofo e recebo de bom grado as suas ironias, contanto que você me ouça também, refletindo e pesando suas decisões. Talvez você até vá sentir desprezo pelo que vou lhe dizer agora, mas vou ainda mais longe nas minhas confissões. Você estava falando há pouco, em tom de zombaria, do livro de J. A. Nogueira. Pois olhe, está aqui: eu também fiz essa coisa ridícula, escrevi um livro, que mandei imprimir por minha conta, em Campina, e que contém o fruto dos meus pensamentos. Ou, se você preferir, que contém as teias de aranha e o mofo dos sonhos que sonhei durante os cinco anos em que estive ausente daqui. Você terá paciência de ouvir o resumo do que escrevi?' "Claro, estou até curioso, dependendo do assunto. E você, Dinis?' "Eu concordei que também queria ouvir, Senhor Corregedor.'

"Então Adalberto Coura tirou de sob o colchão da cama uma pequena brochura suja, com o título de Pensamentos sobre o Estado. O livro tinha algumas indicações que fizeram Arésio sorrir, porque indicavam a extrema juventude em que ainda se achava o autor. Em primeiro lugar, na capa, anunciava-se logo que aquela era a primeira edição, indicando-se, assim, que o autor esperava tal demanda do público que logo se seguiria outra. Depois, na folha de rosto do livro, via-se escrito `Coleção Livros Eternos - 1.0 Volume'. Em terceiro lugar, a brochura era enfaticamente dedicada 'à figura indelével de meu tio, Josué Coura, vagabundo, escorraçado e revoltado nas estradas do Sertão'. Ora, Senhor Corregedor, o tio de Adalberto, Josué, filho de uma das nossas melhores e mais importantes famílias, era um excêntrico, meio doido, atacado da mania religiosa das peregrinações, um homem que vivia esmolambado e solitário, errando de estrada em estrada, ninguém sabe à procura ou à espera de quê. Finalmente, o livro tinha uma introdução, tão breve e minúscula quanto ele, mas não menos enfática, e que dizia textualmente: `Este livro está dividido em três partes. Das duas primeiras - ou seja, das partes sobre a Vida e sobre a Verdade - decorre a última, a parte sobre o Estado, a mais importante de todas, principalmente por anunciar a realização, no mundo, do verdadeiro Estado, num futuro de cuja chegada as atuais experiencias e êxitos do Socialismo são os primeiros arautos. E embora os pensamentos nele contidos não expressem com fidelidade o alto esforço mental que exigiram do autor, o leitor perceberá que eles encerram a mais elevada Filosofia'. Quando Adalberto Coura leu isso para nós, Arésio não pôde deixar de sorrir. A conversa se encarniçou então, em torno dos setenta e dois aforismos que o livrinho continha, e que, elaborados pelo 'alto esforço mental do autor', revelavam, segundo sua própria opinião, 'a mais elevada Filosofia', rival, portanto, da 'Filosofia do Penetrai', de Clemente. Aliás, os aforismos mostravam uma mistura daquelas idéias que Adalberto, muito moço aindá, ouvira de Clemente, de Samuel e do próprio Arésio, ou que bebera depois, em leituras desordenadas, feitas na nossa Biblioteca, em Campina Grande e no Recife. O ponto de partida do novo rumo tomado pela discussão, foi o título dado por Adalberto Coura as três partes do livrinho, principalmente as duas primeiras, que versavam sobre a vida e sobre a verdade. Arésio, agora com mais energia, voltava a afirmar o direito à disputa e à violência. Dizia que todas essas afirmações a respeito da bondade e da justiça eram hipocrisias e disfarces para a fraqueza. O homem era, naturalmente, cruel e ávido, e a vontade de poder era a verdadeira mola de todos os nossos atos. Adalberto, fervorosamente, concordou com ele: "'Mas eu estou de acordo com você, Arésio. A vontade de poder é a lei da vida, que é a luta para satisfazer suas necessidades o impulsos naturais! Agora, o que acontece é que o Estado deve existir, cada vez mais sólido e forte, exatamente para que todos os homens possam satisfazer, com perfeição e em segurança, suas necessidades e sua vontade de poder!' "`Pois abra o olho com seus Mestres e patrões, aviso novamente, porque essa é uma parte de seu pensamento que não será tolerada nos esquemas deles!' "Isso não e comigo! Não tenho culpa de que eles não tenham inteligência ágil para entender que nós, Latino-Americanos, não podemos pensar como os filósofos alemães do século XIX! É preciso reconhecer que nossos adversários têm razão em certas coisas. Toda alegria e toda felicidade provém da consciência de algum poder. No atual estado de coisas, é impossível uma felicidade atingir todos os indivíduos, porque o poder alcançado por um o que produz sua felicidade e sempre o poder perdido por outro. Nossos adversários viram isso, mas tomaram o caminho errado, ficando do lado da desordem. E preciso mostrar que o diagnóstico está correto, mas que o único remédio é a instauração do verdadeiro Estado, ou Estado do Futuro, onde o interesse de um será o de todos.' "E a verdade?', disse Arésio.

"Ah, a pergunta de Pilatos!', disse Adalberto sem sorrir. 'Chama-se verdade, Arésio, uma afirmação com a qual mais de um homem concorda. Quanto maior o número desses homens, maior a importância dessa verdade. O resto, é confusão e sonho dos idealistas! Assim como não existe Verdade em si, também não existe falsidade em si. Uma falsidade é somente e sempre um choque de verdades. Daí eu dizer, no meu livro, que quanto mais verdades sociais e menos verdades individuais existirem, mais haverá progresso, compreensão e felicidade entre os homens.' "'Mas então, as afirmações do seu livrinho, sendo puramente individuais, estão sujeitas a todas as contestações!', ponderou Arésio.

"'Al é que você se engana, Arésio. As afirmações do meu livro - entre as quais a mais importante talvez seja essa da verdade como coisa estabelecida socialmente pela maioria - são incontestáveis, porque o testemunho de todos os homens comprova que, no tempo da selvageria, havia um número de verdades infinitamente inferior ao de agora, com a Civilização e o seu desenvolvimento. E isso era de esperar: porque é a organização econômica total e absoluta que produz a organização das verdades parciais num todo indiscutível. Será da organização e da semelhança de todas as verdades num todo comum que decorrerá a paz entre todos. Essa, aliás, é a razão do sucesso sem precedentes que o Socialismo, todo baseado no fundo econômico, vem tendo na Rússia, por mais que você zombe dela!' "`Não, eu não zombei coisa nenhuma! Estou somente verificando que sua Autocracia, sua Teocracia é bem mais violenta e unificada do que a de Filipe II, que inclusive não teve êxito! Agora, eu lhe pergunto, não por mim, mas por causa, aqui, do nosso Quaderna: e Deus? O que é que sua Teocracia vai fazer sem essa idéia central de todas as Teocracias?' "'Como tudo mais, Arésio, a existencia de Deus é relativa. Na América Latina, eu não posso deixar de examinar esse problema. Deus existe por enquanto, porque os homens Latino-Americanos, que são aqueles com os quais terei que lidar, fazem perguntas a esse respeito. Mas, de fato, são os grandes Estados que instituem as grandes verdades; só um Estado total pode nos tirar do beco sem saída das verdades particulares, cujo choque produz a desordem atual. Sim, porque se verdade é a afirmação feita por um conjunto de homens, o Estado é um conjunto organizado de verdades. Da vida, surge a verdade, e de ambas surge o Estado!' " 'Mas Adalberto, parece até que você sonha com um mundo em que todo mundo agisse e pensasse da mesma maneira!' "Sim, e por que não haveria de sonhar com isso, se as diferenças até hoje só causaram sofrimento e desordem? Aliás, todo mundo sonha com isso, mas não tem coragem de confessar! Eu tenho essa coragem! No verdadeiro Estado, não haverá nenhum enigma, nenhum mistério, e todas as perguntas filosóficas terão respostas, absolutamente idênticas por parte de todos os indivíduos. Ah, Arésio, não acredito que você não sonhe com isso, imaginando quanto será boa a vida num verdadeiro Estado, onde não exista a mais leve sombra de desordem, de oposições e choques. E vou mais longe ainda: digo-lhe que, no futuro, a concepção do Estado deverá substituir a concepção do Universo.' "E como você espera instaurar essa ordem perfeita do verdadeiro Estado? Através da violência e da desordem da Revolução?' "Sim, pelo menos no começo! A construção do verdadeiro Estado terá que ser feita pela Revolução, mas sua continuação e solidificação será tarefa da Educação, de uma Educação total. Esta será tão perfeita, que cada pessoa de uma determinada idade pensará absolutamente do mesmo modo que outra de idade semelhante.' "E os choques de geração?' "`Não ocorrerá nada disso, porque cada faixa de idade será aproveitada em setores de trabalho independente.' "E os sonhos e pensamentos extravagantes de cada indivíduo?' "Também não haverá nada disso. Todos os pensamentos de todos os indivíduos girarão em torno das coisas e interesses do Estado, uma vez que, fora disso, nada será verdadeiro. Queira você ou não queira, Arésio, o mundo marcha para o Socialismo em grau cada vez mais elevado. Vai chegar o dia em que, de uma forma ou de outra, a organização total do Estado triunfará, o próprio Capitalismo marchando também para isso. Haverá então leis para o pensamento, para as ações, para os sentimentos, para as alegrias, para os julgamentos, para as individualidades e até para as surpresas. Você está fazendo cara feia, mas foi porque eu falei em leis. Talvez você veja que eu não estou divagando, se eu substituir a palavra e disser que haverá uma conduta estabelecida e determinada para cada situação. Não é esse o sonho do homem, há tanto tempo? Por que é que existem os ritos religiosos e sociais, se não para organizar um pouco a desordem da vida? Quando morre um parente nosso, todo mundo nos dá pêsames, para ter alguma coisa a dizer. Assim acontece em tudo, e a melhor sociedade 'será aquela que não deixar nada ao acaso e à invenção individual. É inegável, portanto, que o progresso da Humanidade está na transposição das pequenas para as grandes Verdades, das verdades e interesses dos grupos para os do Estado. É por isso que eu digo, sempre, que o nome de Humanidade é dado a alguma coisa que ainda não existe. O primeiro momento de existência real da Humanidade surgirá somente quando aparecer a primeira verdade que não receba contestação de nenhum homem. Daí em diante, a verdade irá se estendendo e tudo terminará sendo integralmente aceito por todos, pois tudo o que existir será unanimemente reconhecido como sendo uma única coisa, já que o pensamento de um será o pensamento de todos, será o pensamento do Estado.'" Terminando de contar essa parte da história ao Corregedor - o que fiz valendo-me do exemplar da brochura de Adalberto Coura que tinha guardado comigo - passei-lhe esta, que ele mandou anexar aos autos do inquérito, e então comentei: - Naquele dia, Senhor Corregedor, já no escuro da noite, Adalberto disse e leu essas coisas tremendas para nós. Quando repetiu a última frase, estava, segundo disse Arésio, com uma expressão sonhosa e exaltada, no rosto pálido e magro de jovem Profeta, recém-saído da adolescência e ainda mal habituado ao desconforto em que tinha sido jogado depois que fora expulso de casa, exatamente por causa daquelas idéias que acabara de nos expor. Quando ele acabou, Arésio fez esse comentário a que acabo de me referir e então falou: "`Muito bem, meu caro Adalberto, ouvi e entendi tudo. Se não simpatizasse com você, diria três ou quatro palavras conven cionais e ficaria por aí. Como simpatizo, digo-lhe que tudo isso são lugares-comuns, é a linguagem comum do rebanho em que você anda metido. Mas isso não vem ao caso. O que me interessa, agora, é satisfazer uma curiosidade, talvez para você inesperada. É que me interessa, demais, saber a opinião que Quaderna tem de tudo isso. Você também acha que tudo isso é lugar-comum, Dinis?' "`Acho não, Arésio!', disse eu com sinceridade. `Não sei se é porque sou menos lido e menos bem-informado do que vocês, mas confesso que, pelo contrário, estou é assombrado com tanta coisa nova. Nunca pensei que essas coisas fossem nem sequer pensadas!' "`Está vendo, Adalberto? Anime-se, porque o proselitismo ainda é possível e você pode conseguir adeptos. Mas ainda quero saber uma coisa, Dinis: já que você se impressionou tanto, me diga, por favor, qual foi o pensamento, que deixou você mais espantado nisso tudo.' ""O pensamento? Mas o pensamento de quê? Você se refere ao que Adalberto disse ou ao que ele leu no livrinho?' ""A tudo.' "`Bem, de tudo, entre o que ele disse e o que nos mostrou no livrinho, o que mais me impressionou foram certas partes parecidas com as profecias do meu santo Peregrino, Santo Antônio Conselheiro de Canudos. Por exemplo: gostei muito de uma frase que está escrita no livrinho e que diz: "É impossível existir um mundo sem vida ou a vida sem mundo". Essa frase foi a que mais me impressionou. Primeiro, porque parece com aquelas do Conselheiro: "Em 1897 haverá muitos chapéus e poucas cabeças", etc. E depois, a frase me causou uma impressão danada porque eu não entendi patavina, dela!' "`Isso, gostei de ver!', disse Arésio, rindo. `Pois a mim, Adalberto, o que me impressionou mais, em tudo, foi o absolutismo de seu pensamento. Você ficou ainda mais simpático, para mim, pelo fato de se parecer mais com os Profetas que anunciaram a Revolução do que com os razoáveis de hoje, que jamais aceitariam seu sonho do verdadeiro Estado, do Estado total!' "`Quer dizer que você aceita o fundamental do meu pensamento?', perguntou Adalberto soerguendo-se de novo e com tal expressão de ansiedade que se fez um silêncio meio embaraçoso no quarto, depois que ele se calou. Arésio, porém, foi duro: "`Não, não aceito!', disse ele, com firmeza. 'Eu disse que admirava seu absolutismo, mas não que concordava com seu verdadeiro Estado.' ""E por que não concorda? Você não acha que só assim é que poderemos sonhar com a Verdade absoluta, a Justiça absoluta?' ""E quem disse a você que eu sonho com a Justiça, Adalberto? Olhe, não quero enganar você, de modo que vou lhe dizer o que resolvi, de uma vez por todas, a esse respeito. Como aconteceu com todos nós, aqui, um dia eu me vi diante dessas idéias de verdade e justiça, idéias que os dois capões não cessavam de discutir e que o Padre Renato também agitava de vez em quando, nos aecmões dele. Sim, porque, no fundo, todos eles são, entre si, mais parecidos uns com os outros do que julgam. Eles podem discordar pobre o modo de realizar a Justiça, mas estão de acordo em que a Justiça e o bem devem ser procurados e realizados. No fundo, Ho todos uns capões e hipócritas, essa é que é a verdade! Eu tenho sangue forte, Adalberto, e por isso tenho horror à hipocrisia. IA um dia, comecei a me rebelar contra todas essas teias de aranha, que se erguiam como obstáculos à satisfação dos impulsos do meu.sangue. Tive a coragem de fazer uma pergunta: Por que seria eu obrigado a procurar ser bom? Por que seria eu forçado a contrariar meu sangue, impedindo-me de ser cruel, de desejar o Poder, de exercitar minha violência, de desejar e possuir todas as mulheres que desejasse e que tivesse à minha disposição? Eu tenho ódio a esses hipócritas que se dizem partidários do bem e da justiça, da verdade e da bondade, e no entanto se envilecem no conforto, envilecendo também os filhos, que se habituam a adotar a humildade por covardia, a bondade por fraqueza, e o amor à pobreza por incapacidade de assaltar o Poder e o dinheiro! Não, Adalberto, nessa ordem de coisas, ou se é um santo ou um impostor. Eu tenho ódio à impostura e, por outro lado, meu sangue não permite que eu seja um santo - o que também confesso que não quero! Foi por isso que resolvi abandonar de vez todas essas idéias de justiça, verdade, bondade e bem, sendp pelo menos sincero com meus impulsos de maldade, desejo e violência.' "`Quer dizer que não posso contar com você?', indagou Adalberto, com a mesma ansiedade.

"Não, você não pode contar comigo para seus sonhos de justiça, revolucionária ou não! O que eu fiz com o Bispo, hoje, não foi, como você parece ter pensado, nenhum atentado terrorista, nenhum ato revolucionário, nenhum ato de reparação das injustiças feitas pelos ricos e poderosos com o Povo! Foi um ato inteiramente arbitrário e pessoal.' '"Inteiramente pessoal? Qual era seu objetivo, então?' "Não sei!', disse Arésio, desviando a vista. `Para falar a verdade, quando entrei na sala não tinha a menor idéia de dar um soco no Bispo. Dei porque, de repente, me veio essa vontade, sem que eu soubesse por quê. Por isso, é melhor que você procure outro parceiro. Já lhe aconselhei a procurar os Padres e os Soldados. Você, obsedado pelos esquemas, continua a ver neles um grupo de inimigos. Pois seja, não tenho nada a ver com seus equívocos! Mas já que você quer continuar com esses enganos, procure pelo menos o Padre Daniel, que é quase da sua idade e, sendo um Padre marginal, divisionista, é um dos seus iguais, um jovem Profeta ardente, desejoso de justiça para todos e ansioso por ser martirizado por seus ideais.' "A religião e nossa adversária, é o ópio do Povo e eu não quero aliança com padre de qualidade nenhuma!', disse Adalberto um tanto infantilmente, a se levar em conta a advertência sobre os esquemas que Arésio acabara de fazer.

"`Isso é um mal-entendido que surgiu entre vocês não sei por quê, pois, no fundo, você e o Padre Daniel querem é a mesma coisa. Você mesmo disse, aqui, que era um Latino-Americano típico. Siga, portanto, as linhas peculiares da luta política da América Latina. A meu ver, vocês que sonham ainda com a independência e a justiça na América Latina deveriam se juntar todos - padres, soldados e jovens intelectuais como você. Você acha que não: paciência! Por mim, não perco nada, porque não é com a grandeza da América Latina nem com a justiça para os pobres que eu me preocupo. Mas, já que você tem outras idéias, não se esqueça de que na Revolução de 1817, Frei Caneca e o Padre João Ribeiro, dois profetas e mártires que queriam a justiça e tiveram a coragem de morrer por ela, se aliaram a outros revolucionários que não eram padres, tentando, todos, instaurar, pela violência, o Estado justo, aquilo que para eles, naquele tempo, era o verdadeiro Estado. Está chegando novamente o tempo em que, na América Latina, vão se unir os negros de todo tipo, como você diz - os escorraçados, os humilhados, os doentes, os ressentidos - para, sob o comando de Padres sectários, marginais, divisionistas, e de ardentes revolucionários doentios como você, tentarem outra Revolução. Tenha a coragem e a astúcia de sair na frente, Adalberto! Convide o Padre Daniel e partam, vocês dois, para os atos de terrorismo. Aliás, eu tinha mais respeito a vocês dois, porque pensava que vocês já tinham entrado nisso e que essas mortes misteriosas que surgiram aqui tinham alguma coisa a ver com vocês. Sim, vocês dois já deviam ter se aliado. Que imporia que, no grupo dos revolucionários, existam alguns que tenham fé em Deus e outros não? Não é aa justiça teocrática e total, a ordem pura e o hem, que todos vocês querem instaurar? Por outro lado, você mesmo não disse que o Divino, dos religiosos, é o mesmo Humano mais elevado dos revolucionários? Quanto a mim, não gosto de imposturas, e digo aqui, claramente, que pretendo esgotar até o fim a sujeira, a glória e o sangue da vida, como qualquer revoltado. Veja bem: revoltado, e não revolucionário. Revoltado em proveito do sangue de sua própria vida, e não revolucionário pnhando com a justiça, o bem e outros ideais abstratos, os ideais elevados da Humanidade, como você diz tão infantilmente em seu livrinho!' " Mas se você tem ódio à impostura', insistiu Adalberto, "deve acompanhar-nos, porque o nosso é o único caminho para acabar com ela!' "`Não, não é, meu querido Adalberto. Seu caminho é uma impostura, como é uma impostura o caminho do Padre Renato e do Padre Daniel. E, por mais estranho que isso lhe pareça, até mesmo você é um impostor!' "`Eu? Por que você diz isso?', disse Adalberto, espantado, como se fosse aquilo uma coisa que ele nunca tivesse esperado. Arésio começou a cerrar a cara: "'Digo isso, porque você é um padreco igual aos outros. Até esse lugar que você arranjou na casa de Quaderna, cheira a padre a dez léguas de distância. E você, com esses pés finos e brancos, al metidos em alpercatas, com essa camisa sem colarinho e esse corpo fino e magro, é mesmo um fradeco hipócrita, como todo frade que se preza! Você quer ver eu provar como você é um impostor, Adalberto? Então vou lhe fazer uma pergunta: você sabe quem é essa moça que está aí e que você chamou para cá unicamente para que ela ouvisse suas conversas e visse você brilhar diante de nós?' " `É claro que sei', disse Adalberto, cada vez mais espantado. `Essa moça se chama Maria Inominata e é minha noiva!' "Ouvi falar desse noivado. Soube, mesmo, que seu noivado com ela, filha de um simples morador, foi uma das causas de sua expulsão de casa, não foi isso? Você sabe que ela morava nas terras que foram de meu Pai?' "Sei, ela me contou!', disse Adalberto.

"Mas provavelmente você não sabe por que ela saiu de lá: essas coisas, nunca ninguém diz aos interessados! Você contou a ele, Maria, por que saiu da "Onça Malhada"?' "Não!', ouvi a voz de Maria Inominata responder num sopro e logo acrescentar, de modo quase inaudível: `Pelo amor de Deus!' "Confesso, Senhor Corregedor, que meu coração se confrangeu, porque eu também sabia de tudo, e o tom de Arésio revelava que ele estava entrando'de novo naquela perigosa disposição de espírito que todos temiam nele. Indiferente ao temor e à súplica da moça, Arésio explicou então: "Ela saiu de lá, Adalberto, por minha causa! Um dia, passei diante da casa dela. Maria estava na porta e me olhou de um modo estranho! Ah, Adalberto, você tem razão quando diz, no livrinho, que o impulso sexual é um dos mais intensos! Há certos olhares que as mulheres nunca deviam lançar a homem nenhum! Maria Inominata é linda, como você também, apesar de tudo, há de ter notado! Ela é muito atraente, com essa cor morena, esses cabelos castanhos e lisos que vão até a cintura, com esse busto não muito desenvolvido de adolescente, mas com as ancas e as coxas fortes, lisas, duras e bem-feitas. Eu ia partir para possuí-la ali mesmo, porque o olhar que ela me lançara significava que eu não seria repelido. Mas, nesse momento, saiu de dentro da casa, com uma foice na mão, o irmão dela, Amaro Inominato, um sujeito que, pela cara, a gente conhece que é perigoso. Eu estava desarmado, de modo que disfarcei e continuei meu caminho. Mas Maria e Amaro, apesar de eu não ter dito nada nem chegado a esboçar nenhum gesto, tinham entendido tudo. O Pai dela, o velho Manuel Inominato, é desses moradores antigos que, não tendo lido seu livrinho, Adalberto, julgam que podem manter uma vida digna, no meio da sujeição e da submissão. Ele era muito amigo de meu Pai e, não querendo ver a filha prostituída pelo filho do dono das terras, foi pedir proteção ao nosso inimigo, Antônio Moraes. Foram todos morar lá, nos Angicos, e nunca mais eu tinha visto Maria até hoje!' "E o que é que você quer me dizer com isso?', indagou Adalberto, mais admirado e ainda não ofendido, porque se julgava na obrigação de se revelar compreensivo, por filosofia e pelas idéias progressistas que professava.

"Quero lhe falar disso para lhe mostrar sua impostura!', disse Arésio, cada vez mais cheio de dureza. `Você, mesmo sabendo, talvez, o que se passara comigo e ela, resolveu noivar com Maria, primeiro para exibir seu senso de igualdade; depois, para reparar a honra de Maria, que você julgava ofendida; e finalmente porque, no fundo, você tinha consciência de que só de uma moça como ela, inferior a você socialmente, é que você teria coragem de se acercar. Os covardes e fracos como você, Adalberto, sentem-se mais seguros assim: ficam certos de ser aceitos por gratidão. No seu caso, quaisquer que fossem suas poucas qualidades viris, de homem, você poderia estar seguro de que iria deslumbrar Maria, pelo fato de um rapaz pertencente à classe superior desejá-la, não para amante, e sim para mulher! Mas, mesmo assim, tudo isso não bastou: você quis que hoje, aqui, ela visse você brilhando, como professor, diante de mim e de Quaderna! É por isso que lhe dou razão quando você escreveu no livrinho que todo desinteresse aparente é, no fundo, um interesse real, e que a pessoa só consente em diminuir seu poderio, ou em troca de um prazer, ou julgando que o está fazendo crescer. Pois bem, Adalberto, vou aceitar seu jogo: vou competir com você diante de Maria e usando ss mesmas armas. Em primeiro lugar, quero também brilhar como ofessor diante dela, de você e de Quaderna. Digo a você que !do existe unidade nenhuma em seu pensamento. Se o ponto de tida dele foram, como você disse, aquelas idéias sobre o Povo, o Brasil, a América Latina, a India e a Africa, não vejo como ligar tudo isso ao verdadeiro Estado, ao Estado total dos seus fonhos. Para lhe ser franco, seu pensamento me deu a impressão de um monstro de duas cabeças, uma bela e outra demoníaca, não precisando dizer que a cabeça demoníaca, feia e monstruosa é a Bo verdadeiro Estado, e a bela é a da Rainha do Meio-Dia, como diziam os capões. A cabeça monstruosa surgiu quando eu menos esperava, não como uma conclusão harmoniosa, mas sim como úm reverso monstruoso da medalha da outra. Para mim, isso não tem a menor importância, porque, coma lhe disse, estou ainda ao estágio primitivo, aquele no qual, como diz seu livrinho, bem o que satisfaz os impulsos do meu sangue, e mal é o que os ioapede. Mas você quer realizar a justiça, é um homem dedicado aos outros e não a si mesmo. Cuidado, então, com as contradições do seu pensamento. Cuidado para que sua exaltação do humano, féita a partir dos Povos negros do mundo, não caia numa espécie de negação total do nosso humanismo Latino-Americano, do nosso amor quase pagão pela vida, do nosso modo de fruir do mundo como se soubéssemos que a nossa vida e o mundo foram feitos para ser dissipados!' "'Você está querendo me ofender, Arésio, mas não julgue que está falando com uma pessoa comum!', disse Adalberto, numa voz surda que desmentia um pouco suas palavras. `Eu já tinha conhecimento de que a família de Maria saíra da "Onça Malhada" por sua causa! Que é que me importa isso, se nao houve nada entre você e ela? Quanto ao que você disse sobre meu pensamento, acusando-me de criar um monstro de duas cabeças, você está completamente errado! Eu tive o cuidado de pensar em tudo, Arésio. Foi por isso que falei, de propósito, na Autocracia teocrática e total de Filipe II, que nos governou. A tradição LatinoAmericana em política é exatamente essa, a de um Governo poderoso governando súditos ferozmente livres. Como pessoas, nós, os Negros do mundo, não damos grande importância ao Governo, porque, sendo todos nós verdadeiras comunidades de Fidalgos cobertos de andrajos, sabemos ser ferozmente livres e felizes de modo selvagem e independente! O verdadeiro Estado, então, cuidará de que não haja injustiça nem fome. Oprimirá e esmagará, até que os burgueses, envilecidos pelo conforto e pela traição, não tenham mais ambiente para continuar sugando sua riqueza e seu poder às custas da miséria e da doença do Povo. Quanto ao mais, o nosso próprio Povo se encarregará de faze-lo. Sua imagem do monstro de duas cabeças também precisa ser retificada, porque, atualmente, o monstro que nos rodeia tem três cabeças, e não duas. A primeira, é a cabeça de ouro dos ricos, a segunda é a do Poder armado, e a terceira é a do Povo, a da miséria extrema. As duas primeiras são aliadas, porque os comerciantes montaram seu aparelho de repressão armada, juntando-se, para isso, aos Soldados. É preciso que o Povo, rebelando-se, corte a cabeça de ouro, porque aí o Monstro deixará de ser monstro. -Das duas cabeças de ignomínia, a dos comerciantes desaparecerá, cortada, e a do Povo perderá sua feiúra e sua humilhação, saindo da miséria. Com isso, o Exército passará a ser uma Milícia ligada ao Povo, identificada com o Povo. O Monstro será transformado num animal harmonioso, com duas cabeças, não mais contraditórias e sim aliadas num perfeito entendimento, a do Povo livre e feliz, e a do Poder armado total, livre das imposturas da democracia dos comerciantes e colocada a serviço da justiça! É por isso que eu acredito ser o Brasil, a América Latina, o País destinado a realizar a mais bela forma de Socialismo já surgida no mundo! Viu agora, Arésio, como o verdadeiro Estado é a conclusão lógica, e não a contradição, das nossas idéias sobre a América Latina e os outros Povos negros. do mundo?' "`Não, mas não vou perder mais tempo discutindo, não, porque parece que, nessa história de lógica, você ganha, mesmo, para mim, meu querido Professor de justiça!', disse Arésio, com uma violência cada vez mais concentrada. `Mas você se esquece de que, em mim, a parte mais importante é a outra, a do sangue! Eu nunca renuncio a um prazer do sangue. Naquele dia, fui impedido, mas, agora, vou levar Maria Inominata comigo, porque Amaro está longe e você, como homem, não representa nem um décimo dele! Quero ver se você ainda quererá Maria depois, por filosofia, ou se é um impostor como eu estou julgando!' "`Arésio, não faça isso não, sou eu quem lhe peço!', intervim eu, aterrorizado e confrangido, sabendo quanto sofrimento aquilo iria causar a tantas pessoas, inclusive a ele mesmo, mas sabendo também, de antemão, que era inútil qualquer pedido.

"`Eu estou desarmado!', disse Adalberto, como se isso tivesse algum efeito sobre o inexistente senso de lealdade de Arésio em tais ocasiões.

"'Tanto melhor para mim, porque, quanto a mim, eu estou armado!', disse ele erguendo-se e marchando para Maria, a quem segurou pelo braço.

"`Largue Maria!', gritou Adalberto, aproximando-se dele e com um furor inusitado na voz.

"Aí, Senhor Corregedor, tudo se precipitou. Arésio, puxando o revólver, deu com ele uma pancada violenta na cabeça de Adalberto, que caiu tonteado. A outra mão dele continuava fechada, como um anel de ferro, em torno do braço de Maria Inominata. Com uma torção, ele a impeliu em direção à escada, enquanto guardava o revólver na bainha. Ao chegar junto de mim, tirou a carteira cheia de dinheiro e me entregou tudo, dizendo: "Olhe aí, dono de pensão: esse dinheiro é pelo aluguel do quarto onde consegui essa moça. Quando o professorzinho acordar, lembre a ele aquelas palavras de Santo Agostinho que o capão Samuel leu para nós, um dia. Você ainda se lembra? Os rapazes pagãos violavam as moças e mulheres cristãs que, habituadas à morna castidade dos maridos e noivos, também cristãos, ficavam terrivelmente perturbadas diante daquela sensualidade poderosa e brutal, tão cheia de novidades e tão sem escrúpulos. Iam, então, depois de violadas e possuídas de todos os modos, procurar o Santo, com remorso por terem gozado daquela maneira nunca antes experimentada e nunca tão intensa. Santo Agostinho absolvia todas elas, dizendo que não tinham culpa de que o corpo estremecesse involuntariamente e barbaramente ao ser solicitado, de modo tão violento e acariciador, no que tinha de mais íntimo. Pois você diga isso ao professorzinho. Hoje, a noiva dele talvez não chegue a sentir muito o que confessar, porque o sofrimento da primeira vez talvez impeça o prazer, se bem que eu esteja disposto a fazer tudo para que isso não aconteça. Mas como pretendo guarda-la comigo ainda por uma semana, telegrafarei depois a ele, para que Santo Adalberto absolva Maria de seus estremeços!' "Então, Senhor Corregedor, Arésio desceu a escada, impelindo Maria Inominata na frente dele e desaparecendo das nossas vistas. Assim que ele saiu, eu e Lino corremos para junto de Adalberto. Lino Pedra-Verde pegou uma quartinha d'água que estava em cima da mesa-de-cabeceira, e, molhando um lenço, começou a passá-lo na testa de Adalberto, que continuava de olhos fechados. Eu também me ajoelhara junto dele, e, tanto eu como Lino, julgávamos que o rapaz continuava desmaiado. De repente, com uma sensação misturada de constrangimento e compaixão, nós dois notamos, ao mesmo tempo, que Adalberto estava chorando. `Vão-se embora, pelo amor de Deus!', disse ele, com ambas as mãos cobrindo o rosto. Nós vimos que, no momento, era o que havia de melhor a fazer. E como tínhamos combinado ir ao encontro de Samuel e Clemente para a entrevista com o Doutor Pedro Gouveia, descemos a escada e saímos também."

FOLHETO LXXX

0 Roteiro do Tesouro - Um esclarecimento só, antes de contar o resto, Dom Pedro Dinis Quaderna! - disse o Corregedor. - O senhor aceitou o dinheiro que Arésio Garcia-Barretto lhe deu naquela noite? - Aceitei, Senhor Corregedor! Em primeiro lugar, eu precisava e ainda preciso viver. Depois, o que é que adiantaria a Adalberto ou a Maria Inominata que eu recusasse o dinheiro? - Está bem: anote esse pormenor, Dona Margarida! Agora, pode continuar! - Ao chegar embaixo, tomamos o caminho da Rua do Chafariz, encaminhando-nos para a parte dos fundos do casarão dos Garcia-Barrettos: ali se daria a minha entrevista com o Doutor Pedro Gouveia, a mais decisiva, talvez, em todo aquele dia. Aproveitando o mais possível o escuro da rua, passamos despercebidos e chegamos ao portão traseiro que procurávamos e diante do qual não havia ninguém, pois todo mundo estava aglomerado diante da parte da frente da casa, na Praça. Bati discretamente e de fato, segundo o que fora combinado, o portão foi aberto imediatamente. Vimo-nos diante de um dos Ciganos que tinham vindo na comitiva de Sinésio, um rapagote que, segundo soubemos depois, chamava-se Manuel Briante. Estava armado de rifle e perguntou quem éramos. Ao ouvir meu nome, deixou que passássemos. Recomendei porém a Lino que me esperasse fora, porque pressentia que, para o Doutor Pedro, quanto menos pessoas houvesse na entrevista, melhor. Eu era velho familiar também daquela casa, de modo que ninguém precisava me guiar. Cruzei o quintal, o terraço traseiro que ladeava a cozinha, entrei na sala de jantar e, passando pelo corredor, cheguei à sala de visitas onde estavam Samuel, Clemente o o Doutor Pedro Gouveia. Não estavam lá nem Frei Simão, nem Sinésio, e eu imaginei que os dois estavam no pavimento superior: o Doutor Pedro Gouveia só nos deixaria ter uma entrevista com Sinésio depois de tudo estabelecido entre nós, disso eu tinha certeza. Agora, eu iria travar conhecimento imediato, pela primeira vez, era com as astúcias e cortesias do Doutor Pedro Gouveia, o homem mais gentil e cheio de habilidades que eu tive oportunidade de conhecer, Senhor Corregedor. Acho que, de todas as pessoas que conheci, a convivência com o Doutor Pedro Gouveia foi, para mim, a mais proveitosa e cheia de ensini'mentos úteis.

- Mais do que a do Professor Clemente e a do Doutor Samuel? - No que se refere a coisas práticas, sim, Senhor Corregedor! A influência de Clemente e Samuel foi mais lítero-política, mas s convivência com o Doutor Pedro iria, por um lado, me confirmar t certas descobertas de astúcias que eu já fizera sozinho, e por outro me abrir inúmeras perspectivas novas - chaves e caminhos que iriam me pondo ao alcance um número cada vez maior de Ardis e defesas novas, coisas de valor inestimável para a vida prática! Assim que eu entrei, ele se levantou, pressuroso mas sem espalhafato. E falou, dando-me a primeira lição: "'Este é um dos grandes momentos da minha vida, o dia em que travo conhecimento com três dos mais distintos intelectuais o acadêmicos residentes na Paraíba, três grandes homens dos quais um é sertanejo de Taperoá e os outros dois, vindos de fora, foram desapropriados para nós, de modo que os três, hoje, honram a nossa pequena e heróica Paraíba. Senhor Pedro Dinis Quaderna: com o Doutor Samuel Wan d'Ernes e com o Professor Clemente Hará de Ravasco Anvérsio já travei conhecimento há alguns instantes. Agora, tenho a honra de conhecê-lo. Estava esperando o momento de sua chegada para iniciar nossa conversa, entrando no assunto principal que me levou a ter a ousadia de pedir que viessem aqui. Mas sente-se, sente-se. Precisamos conversar!' "O Doutor Pedro Gouveia, Quaderna', explicou Samuel, `tem um assunto da mais alta importância para conversar conosco.' "'Para ser mais exato, dois assuntos!', acrescentou o Doutor Pedro. `Mas esses dois assuntos se entrelaçam de tal maneira que terminam sendo um só. A primeira coisa que devo comunicar para começar nossa conversa é que o Excelentíssimo e Reverendíssimo Senhor Arcebispo da Paraíba fez-me a honra de me nomear Vidama do Cariri, Condestável e Rei d'Armas da Venerável Ordem do Templo de São Sebastião.' "Como é?', indaguei, espantado, e já enxergando o perigo que aquele homem' bem-educado, e ainda por cima Doutor, representava para minhas grandezas e monarquias.

"Não me admira o seu espanto!', disse o Doutor Pedro. `Não me admira, porque eu mesmo me espantei a princípio. O senhor sabe o que é um Vidama?' "`Não!' "O Vidama é o representante temporal e senhor dos feudos hereditários de um Bispado. O Vidama, além disso, comanda eventualmente as tropas armadas que o Bispo porventura mantenha. Sendo assim, o Senhor Arcebispo da Parafba deu-me a grande e imerecida honra de me escolher para Vidama do Cariri, isto é, para encarregado dos bens temporais e Comandante das tropas do Arcebispado aqui no Cariri da Paraíba.' "Ah, quer dizer que esses Cangaceiros ciganos que vieram com o senhor são as tropas armadas do Arcebispo da Paraíba?', perguntei, cada vez mais inquieto.

"`Não exatamente, se bem que, de certa forma, se possa entender assim! Mas as verdadeiras tropas do Senhor Arcebispo serão organizadas proximamente aqui na Paraíba, num sentido mais espiritual do que temporal e de uma forma que os senhores logo entenderão. Acontece que o Senhor Arcebispo está empenhado numa campanha para a reforma ou construção de templos em todas as cidades principais do Estado. Para isso, precisa angariar fundos, e instituiu três Ordens honoríficas na Paraíba, sendo que a do Cariri foi colocada sob a invocação de São Sebastião. No nosso caso, dadas as ligações de São Sebastião e d'El-Rei Dom Sebastião com a família Garcia-Barretto, acho que essa coincidéncia teve algo de verdadeiramente miraculoso!', disse ele, mostrando-se cada vez mais bem informado. E continuou: `Existe uma Ordem para o Litoral e o Brejo, uma para o Cariri e outra para o Alto Sertão, os sertões da Espinhara e do Rio do Peixe. É claro que o GrãoMestre de todas elas é o Senhor Arcebispo, mas ele houve por bem me conceder plenos poderes no Cariri, sendo este o motivo de minha humilde pessoa carregar hoje, esta Cruz aqui, pendurada ao meu pescoço pelo colar. Mas, para encurtar a conversa e para que não haja dúvidas sobre meus títulos e minhas atribuições, aqui está o pergaminho da minha nomeação.' "Então, Senhor Corregedor, diante de nós todos, que estávamos ali fascinados, com os olhos reluzindo, o Doutor exibiu-nos um pergaminho, cuja cópia peço que seja anexada aos autos e que era assim: `Dom Adauto Aurélio de Miranda Henriques, Arcebispo da Paraíba, usando das atribuições que lhe confere o Direito Canônico, invocando o Espírito Santo e as bénçãos de Deus para todos os que contribuam, de alguma forma, para a reforma e a construção de Templos dignos das nossas tradições de Fé, resolve: Artigo 1.0 - Fica instituída a Venerável Ordem do Templo de São Sebastião, que se destina a perpetuar nossa gratidão a todos aqueles que prestarem relevante colaboração para a construção de templos na Paraíba.

Artigo 2° - Cada Ordem terá jurisdição sobre determinada parte do Estado, sendo este, em particular, o regimento da Venerável Ordem do Templo de São Sebastião do Cariri.

Artigo 3o0 - A insígnia da Ordem será uma Cruz semelhante à da Ordem de Cristo, que foi como que uma insígnia gloriosa de fé nos tempos do Descobrimento e da Conquista do Brasil. Para diferençá-la, porém, da Cruz da Ordem de Cristo, os esmaltes serão gravados em ouro e goles.

Artigo 4.° - A Ordem conferirá condecorações, que se distribuem nos graus de Grã-Cruz, Comendador e Cavaleiro.

Artigo 5° - A Grã-Cruz será pendente de uma fita amarela o branca - as cores de Sua Santidade o Papa - pendente, em linha direita, do pescoço para o peito, e será usada, nas ocasiões solenes, com uma faixa das mesmas cores, passada a tiracolo, da direita para a esquerda.

Artigo 6° - Para cada uma das Ordens, é nomeado um Vidama e Condestável, sendo as nomeações lavradas por Decreto nosso, em nossa qualidade de Grão-Mestre.

Artigo 7 ° - Mediante proposta encaminhada pelo Conselho das Ordens, havemos por bem nomear Vidama e Condestável da Venerável Ordem do Templo de São Sebastião do Cariri ao Doutor Pedro Gouveia da Câmara Pereira Monteiro, a quem agraciamos desde já com a Grã-Cruz da Ordem.

Artigo 8.° - Ao Vidama e Condestável compete distribuir títulos e condecorações por serviços prestados, sendo os nomes dos agraciados inscritos no Livro de Ouro e Nobiliário da Ordem, livro que, depois de aprovado e encerrado, será recolhido aos arquivos da Arquidiocese ad perpetuam rei memoriam.

Artigo 9 ° - O lançamento no Nobiliário será feito em ordem cronológica, dele constando, além do nome do agraciado, sua nacionalidade, profissão, dados biográficos, títulos e condecorações.

Artigo 10° - O Vidama e Condestável está autorizado, além disso, a mandar fazer pergaminhos contendo as Cartas Patentes e de Agraciamento, o que deve ser feito de modo artístico e seguindo o padrão anexo.

Artigo 11° - Em casos especiais, o Vidama e Condestável está autorizado a agraciar e passar pergaminhos gratuitamente, considerando os méritos e serviços relevantes de pessoas escolhidas.

Artigo 12° - Os casos omissos serão resolvidos pelo Vidama o Condestável e comunicados ao Arcebispo para sanção, rogando-se aqui aos Senhores Párocos e Vigários que seja dada toda assistência o ajuda ao Condestável e membros da Ordem.

Dado e passado neste Paço Arquiepiscopal da Paraíba, a 20 de janeiro de 1935, dia do glorioso mártir São Sebastião.

Dom Adauto Aurélio de Miranda Henriques, Conde Romano o Arcebispo da Paraíba." - Tal era o extraordinário documento, diante do qual, Senhor Corregedor, nossa imaginação imediatamente pegou fogo. Pelo menos a minha pegou, e tenho certeza de que a de Samuel também. O Arcebispo Dom Adauto, além de Príncipe da Igreja, era de uma das famílias mais fidalgas da Paraíba. Samuel lembrou imediatamente que, em 1757, o Rei Dom José I tinha enviado para cá uma Carta Patente na qual se dizia que, atendendo aos serviços e merecimentos de Francisco Xavier de Miranda Henriques, Cavaleiro professo da Ordem de Cristo e Moço Fidalgo da Casa de Sua Majestade, era ele nomeado Capitão-Mor da Capitania da Paraíba. O nosso Arcebispo e toda a grei dos Miranda Henriques descendiam desse antepassado ilustre, o que conferia uma autoridade fidalga toda especial à Ordem agora instituída. Eu, porém, apesar de tão fascinado quanto Samuel, estava muito cismado com aquela história toda, assim como achando horrível aquele título de Vidama. Foi o meu pretexto para abrir as hostilidades. Falei: "'Está tudo muito bom, Doutor, mas uma coisa eu lhe digo: esse negócio de seu título ser de Vidama vai dar em galhofa, aqui em Taperoá!'

"`Nada disso!', interveio Samuel. `Não há motivo nenhum para galhofa, a não ser por parte dos ignorantes de sua marca, Quaderna! O título foi muito bem escolhido e está heraldicamente correto!' * 'Pode estar correto como esteja, mas eu conheço o Povo e sei que a primeira coisa que eles vão fazer é transformar o título. Vão dizer a Vidama do Cariri, ou a Mulher-Dama do Cariri ou coisa pior ainda! Por isso, por segurança, acho melhor, ou o senhor publicar o nome como o Vidamo, ou então usar somente o nome de Condestável!' "'Magnífica idéia!', disse o Doutor Pedro, mostrando, desde logo, como era homem de acordos. `Vou usar só o título de Condestável!' "Havia porém ainda um problema que teria de ser resolvido logo, Senhor Corregedor: era o do choque entre a minha soberania e as atribuições do Doutor Pedro. Eu não era idiota para conseguir uma posição durante anos e anos de lutas e idéias e, de repente, deixar que ela me fosse arrebatada em dois minutos, de modo nenhum! Comumente, eu não falava em público das minhas realezas, nem reivindicava nada que pudesse ferir e chocar os outros, para não angariar inimigos. Entretanto, mesmo na vida dos políticos, feita de astúcias e transigencias, há uns dois ou três momentos cruciais de choque grave em que as decisões têm de ser tomadas e os caminhos escolhidos, momentos nos quais a astúcia tem de ser deixada de lado. Ali, agora, eu via que estava diante de um desses momentos decisivos. Tudo tinha qye ser resolvido de uma vez para sempre, antes que fosse tarde. Assim, preparando-me para uma luta de vida ou de morte, falei: "`Existe, porém, um outro problema, Doutor Pedro, e ele precisa ser resolvido logo, antes de passarmos adiante. E que existem, aqui no Cariri, ligadas à família Garcia-Barretto, umas certas particularidades heráldicas e monárquicas, que não sei se são do seu conhecimento...' "'O senhor se refere, naturalmente, à Ordem de Distinção do Reino do Cariri, da qual seu falecido tio, Dom Pedro Sebastião Garcia-Barretto, era o Grão-Mestre e o senhor o Rei d'Armas... Estou inteiramente a par disso. A par e de acordo, pois ninguém melhor do que eu reconhece a legitimidade dos seus títulos, Senhor Pedro Dinis Quaderna. Aliás, quero lhe declarar que o Senhor Arcebispo está a par também de tudo, e, de cera forma, foi a Ordem de Distinção do Reino do Cariri que inspirou a criação da Ordem do Templo de São Sebastião. Quero então, logo de início, esclarecer-lhe duas coisas: primeiro, é que a nossa Ordem é uma Ordem Arquiepiscopal e só, não se estendendo sua jurisdição absolutamente ao campo político e temporal! Eu sou Condestável, Heraldo e Rei de Armas somente dessa Ordem, e nada mais reivindico nem poderia reivindicar! A segunda é que eu não poderia nem deveria, nunca, objetar coisa alguma à Ordem de Distinção do Reino do Cariri, uma vez que todas as pretensões' do meu protegido e pupilo Dom Sinésio Sebastião Garcia-Barretto se estribam nessas legitimidades: ou o pessoal da Ordem apóia Sinésio ou ele estará só! Quero lhe dizer assim, desde logo, que, não só reconheço a legitimidade da Ordem e a qualidade de Rei de Armas do senhor, como vou reivindicar, eu mesmo, minha inscrição nela, como agraciado, nem que seja no grau mais humilde e modesto, o grau de Cavaleiro!' "Que grande homem era aquele! Com uma penada só, ele afastava todos os meus receios! Não haveria briga nenhuma dele comigo: os horizontes se aclararam e, sem eu me sentir, um largo sorriso de felicidade e beatitude se estampou no meu rosto. Era a primeira vez que um homem nobre, de nobreza tão indiscutível ou mais indiscutível do que a de Samuel - pois era reconhecida e declarada oficialmente por um Príncipe da Igreja - reconhecia publicamente minhas grandezas e monarquias! Clemente e Samuel, preocupadíssimos, olharam-me com o maior despeito deste mundo e houve um instante de grande silêncio e constrangimento. Então Samuel, não suportando mais aquilo, venceu a cerimônia que ainda tinha com o Doutor Pedro e falou: "'Mas Doutor Pedro Gouveia, a seriedade dessa Ordem Arquiepiscopal, assim como a importancia dos seus títulos, que eu reconheço, não permitem que o senhor, assim sem maiores exames - desculpe o que lhe digo - reconheça essas coisas caricatas de Quaderna como heraldicamente e fidalgamente legítimas!' "`O senhor está enganado, Doutor Samuel!', disse gravemente o Doutor Pedro Gouveia. `Estou perfeitamente informado a respeito de tudo o que se passa aqui e sobre as pessoas realmente importantes da muito nobre e leal Vila Real da Ribeira do Taperoá. É por isso que tomei informações sobre cada um e todos, sobre as famílias, sobre as qualidades de raça, etc., porque, se bem que a Ordem seja mais de natureza espiritual, raça é uma coisa importante, importantíssima! Por isso tomei informações, e posso hoje declarar, com segurança, quais serão as pessoas realmente dignas de figurar entre os agraciados por um Príncipe da Igreja como Dom Adauto! Posso também dizer que posso ter encontrado alguém a sua altura, Doutor Samuel, mas ninguém que o excedesse em títulos de linhagem e sangue!' "'O senhor se informou sobre mim também?', indagou Samuel, curioso.

"'Sobre o senhor também, é claro! Creio, mesmo, que vou revelar hoje, aqui, sobre sua ilustre família, particularidades que nem o senhor mesmo conhece!' "'O quê? É possível?', disse Samuel, espantando-se.

"'E possível, o senhor verá!', confirmou o Doutor. `Olhe, Doutor Samuel: em Pernambuco, voces têm a Nobiliarquia Pernambucana, de Borges da Fonseca. Aqui na Paraíba a nossa Nobiliarquia, o nosso Gotha, são as Datas e Notas para a História da Paraíba, de Irineu Pinto, e sobretudo os Apontamentos para a História Territorial da Paraíba, do genial João de Lyra Tavares. Sim, porque os Senhores de datas e sesmarias concedidas pelos Reis, foram, nos séculos XVI, XVII e XVIII, os troncos de nossa Aristocracia territorial e feudal. Pois bem: segundo informação de Irineu Pinto, em 1719 um certo Diogo Vandernes governou a Paraíba, formando uma Junta de homens nobres, com João de Moraes Valcáçar, Feliciano Coelho de Barros, Francisco Souto Maior, Jerônimo Coelho de Alvarenga e Eugênio Cavalcanti de Albuquerque. Ora, como o senhor sabe, nessas Juntas governativas só entrava gente da mais alta fidalguia, escolhida entre os homensbons dos da governança da terra, como dizem os vélhos documentos, o que prova, mais uma vez, a ilustração e a aristocracia do nobre sangue dos Wan d'Ernes, de Pernambuco, que são os mesmos Vandernes da Paraíba.' "'Mas como é que se escreve o sobrenome desse tal Diogo?', indagou Samuel, querendo acreditar, mas ainda cauteloso.

"'O nome dele se escreve pegado, com v no começo e s no fim, mas a famflia é a mesma, sem dúvida nenhuma! Tanto assim que, a 16 de Fevereiro de 1759, aparece um filho de Diogo, Cosme Fernandes Vandernez, requerendo, na Paraíba, terras a El-Rei. Este escreve Wan d'Ernes ainda pegado e como v, mas com z no fim. As diferenças são causadas unicamente pelo desleixo e pela ortografia arbitrária do século XVIII, principalmente no que toca a nomes próprios. De qualquer maneira, fiz minhas pesquisas e posso atestar que a família do nobre e ilustre Sigmundt Wan d'Ernes, companheiro e familiar do Conde João Maurício, Príncipe de Nassau-Siegen, deitou raízes em Pernambuco - onde seus descendentes mantiveram o nome como ele sempre usou - mas passou, depois, ã Paraíba, para onde veio um descendeñte seu, pai daquele Diogo e avô do Cosme que requereu terras em 1759. Daí para cá, não se encontram mais referências a nenhum Wan d'Ernes, o que me leva a crer que a família tenha se extinguido aqui na Paraíba!' "Bem, pode ser!', disse Samuel, lisonjeado. `Talvez esse parente nosso tenha traduzido o nome para evitar complicações políticas, quem sabe? Há, também, a possibilidade de ter sido ele um bastardo. Esses Wan d'Ernes antigos eram uns danados! Talvez algum deles tenha tido um filho bastardo, a quem não autorizou usar o nome legítimo, tendo-o traduzido e aportuguesado assim. Quem sabe? É possível! Mas o que eu quero saber é com que finalidade o senhor perdeu seu precioso tempo fazendo essas pesquisas!' "Fiz essas pesquisas porque na Ordem do Templo de São Sebastião há graus e graus de nobreza. Era preciso fazer distinções, porque, quando fôssemos inscrever os agraciados no Nobiliário, não iríamos igualar um comerciante qualquer, af, com um legítimo Wan d'Ernes!' "Quer dizer que o senhor pensa em me agraciar como Cavaleiro da Ordem?', perguntou Samuel, meio incrédulo a despeito de si.

"`Mas como, Doutor Samuel? O senhor indaga se eu penso em agraciá-lo como Cavaleiro? Não, não, seria muito pouco para um Wan d'Ernes! Se entrarmos em entendimento, o senhor será Comendador da Ordem do Templo de São Sebastião!' "Se entrarmos em entendimento? Que é que o senhor quer dizer com isso? Terei que pagar alguma coisa para entrar na Ordem?', perguntou Samuel, que, apesar de fidalgo, tinha horror a gastar dinheiro fosse com que fosse.

"'O senhor não terá que pagar nada, é claro!', tranqüilizou-o o Doutor Pedro. `Isso de pagar, fica para os comerciantes. O senhor é uma daquelas pessoas de mérito excepcional a que se refere o Decreto Arquiepiscopal, e como tal será considerado. Assim, a única dúvida que ainda tenho a seu respeito nisso tudo, é a respeito do nome das terras a que será ligado seu título de Barão!' "Barão? Eu? Eu serei Barão?', disse Samuel, quase sem voz.

"Mas é claro que será, e, nisso, nem a Arquidiocese, nem a nossa Ordem, fazem favor nenhum ao senhor, cuja nobreza absolutamente não precisa dessas coisas! A única coisa que vamos fazer é outorgar-Ihe um título de nobreza que reconhece, formal

ESCUDO DE ARMAS DO DOUTOR SAMUEL WAN D'ERNES

mente, o senhorio feudal e a linhagem ilustre do nobre sangue dos Wan d'Ernes! Que o senhor tem direito ao título de Barão e ao correspondente Escudo de Armas, que lhe será passado juntamente com a Carta de Brasão, isso é incontestável. O que quero saber é que terras escolheremos para ligar ao baronato! Isto, é o senhor quem vai decidir. Se quer ligá-lo às terras dos Wan d'Ernes na Paraíba, será Barão do Riacho do Jacu, pois essa foi a sesmaria de Cosine Vandernez. Se prefere as de Pernambuco, será Barão do Guarupá. Qual é o nome de sua preferência?' "O de Barão do Guarupá, é claro: é nome pernambucano, é o senhorio de terras mais antigo da família e finalmente não tem essa horrível conotação sertaneja e bárbara de Riacho dos Jacus!' "`E qual será o brasão de Samuel?', perguntei, despeitado, mas fazendo todos os esforços para me mostrar superior e sereno. O Doutor respondeu: "Bem, não é preciso criar nada de novo nem gastar os miolos procurando: o escudo terá que ser composto com o velho brasão dos Wan d'Ernes.' " `E os Wan d'Ernes têm brasão?', perguntei, desconfiado, porque Samuel nunca tinha nos falado disso, o que não deixava de ser estranhável.

"'Claro que os Wan d'Ernes têm brasão!', insistiu o Doutor. `Existe até uma carta do Conde João Maurício de Nassau reconhecendo isso! O brasão é esquartelado por uma cruz de filetes de ouro. O primeiro quartel é de goles, ou vermelho, com uma cruz de lisonjas de azul coticadas de ouro. O segundo, é de verde, com cinco pombas volantes de prata, armadas de vermelho e postas em aspa, e assim os contrários. O timbre, é uma Anta, de sua cor.' "Cinco pombas volantes em campo verde?', interrompeu Clemente rindo, e achando finalmente um motivo para extravasar seu despeito, dez vezes maior do que o meu, porque o dele era complicado por questões políticas. `Está bom, o brasão, está ótimo para esse galinha-verde, esse integralista de segunda ordem, lambe-cu de Plínio Salgado! Primeiro, porque o campo é verde, e verde é a cor dos integralistas. E depois porque, quem diz cinco pombas volantes, diz cinco caralhos voadores, que é a mesma coisa!' "`Prezado Professor Clemente', disse o Doutor Pedro cortesmente mas com firmeza, `eu, se fosse o senhor, moderaria as expressões sobre a nossa Ordem e sua Heráldica! Porque se o senhor não reconhece a validade de ambas, está, ipso facto, desmoralizando a sua linhagem e os títulos de nobreza que Sua Excelência Revendíssima, o Senhor Arcebispo da Paraíba, me autorizou expressamente a lhe outorgar!' "O quê?', gaguejou Clemente. `E o Arcebispo me conhece? "'Conhece, sim, e aprovou seu nome para a Ordem!' "'Digno Antístite!', comentou Clemente. `Não sabia que ele já tinha ouvido falar de mim!' "`Quem é que, na Paraíba, não conhece o senhor, pelo menos de fama? Um Filósofo, um professor, um jurista que honra a cultura brasileira!' "'Mas Clemente é negro e comunista!', disse Samuel, desesperando-se ao ver que o cafre iria ser igualado, talvez, a ele.

"'A nossa Ordem não tem conotações políticas, Doutor Samuel!', disse o Doutor. `Mérito é mérito! Além disso, o Professor Clemente é bisneto do Visconde de Caicó' "'As noticias que correm aqui são muito diferentes!', teimou Samuel. `Consta que Clemente é bastardo. O avô dele, fazendeiro, teve sua filha raptada por um almocreve negro que, depois de seduzi-la e engravidá-la, foi capado pelos irmãos da moça!' " `Isso e verdade, mas absolutamente não invalida minhas palavras, porque esse fazendeiro, avô do Professor Clemente, era exatamente filho do Visconde de Caicó. Outra coisa: nos cartórios de Caicó, Rio Grande do Norte, encontrei documentos que provam que o avô do Professor Clemente terminou consentindo, afinal, no casamento da filha, o que torna a descendência perfeitamente legítima. Isso, porém, não seria nada se os ascendentes do Professor Clemente não estivessem no nosso Gotha Sertanejo, como fidalgos possuidores de terras. Mas estão: a 13 de Março de 1615, Pedro Hará de Ravasco requer e obtém do Rei, na Paraíba e no Rio Grande do Norte, terras da Ribeira do Curajá. Esse Pedro Hará de Ravasco é ascendente direto do Visconde de Caicó, bisavô do Professor Clemente, que, como Comendador da nossa Ordem, terá somente que escolher seu título: ou Barão do Curajá, ou Visconde de Caicó, à sua escolha!' "`Prefiro o de Visconde de Caicó!', falou Clemente para surpresa minha. Eu julgava, Senhor Corregedor, que ele ia recusar asperamente tanto o título quanto a versão de sua descendência do fazendeiro, da qual ele tinha tanta raiva e que lhe atribuía sangue branco ao lado do negro e do tapuia dos quais ele tanto se dizia orgulhoso. Mas não, o desgraçado aceitou! Seu rosto exultava: pela primeira vez ele se via colocado em pé de igualdade nobiliárquica com o Fidalgo dos engenhos pernambucanos. Havia muita diferença em ser neto de um fazendeiro comum e ser bisneto de Visconde. Para ser Visconde, ele faria o acordo, para nunca mais ter que discutir seus olhos agateados e as marcas de sangue negro que havia em todo o seu corpo. Eu, danado da vida, joguei tudo isso na cara de Clemente, exprobrando-lhe, inclusive, a traição que ele fazia ao Sertão dele e a suas idéias de tantos anos. Mas o Doutor Pedro rebateu minhas palavras, vindo em socorro de Clemente. Disse: "Não há nada de estranho em o Professor Clemente ser Visconde! Os Cavalcantis de Arbuquerque têm sangue tapuia, e o Barão de Cotejipe tinha sangue negro!' "Eu esperava que Samuel, diante disso, viesse com suas galhofas habituais sobre a nobreza bastarda, a nobreza cafre, castanha, etc. Mas ele estava tão temeroso de desmoralizar a Ordem que o ia agraciar, tão envolvido pelo Doutor Pedro Gouveia, que não se atrevia mais a criticar nada. Então eu mesmo resolvi lutar. Intervim, indagando: "E Clemente terá brasão, também?' "Sim, é claro!', respondeu o Doutor. `O brasão dele é de ouro, com os dois cachorros negros dos leais, passantes e armados de vermelho, e com uma orla de goles, carregada de sete estrelas de prata. O timbre é uma Onça vermelha, passante, com os cachorros do escudo.' "Cachorro preto, está muito bem escolhido como animal heráldico de Clemente!', não pôde se impedir de observar Samuel. `Mas veja que coincidência, Doutor: no meu brasão, existe uma Anta, e meu movimento literário é exatamente o Tapirismo; no de Clemente, existe uma Onça, e o dele é o Oncismo! Agora, tem uma coisa: nós chamamos Quaderna, comumente, de Quaderna, o Castanho! Não me diga que Quaderna também terá brasão e que no dele existe um Cavalo castanho!' "Existe, sim!', disse o Doutor Pedro, e meu coração deu um pulo no peito. `Existe um Cavalo castanho, sim. Não no escudo, propriamente, mas sim no timbre. O escudo dos Quadernas é esquartelado. No primeiro quartel, há, em campo de ouro, um veado negro vilenado, inscrito numa quaderna de quatro crescentes vermelhos. No segundo, em campo vermelho, cinco floresde-lis de ouro, postas em santor, ou aspa, e assim os contrários. O timbre é um cavalo castanho, com asas, com as patas dianteiras levantadas e as traseiras pousadas, entre chamas de fogo!' "Valha-me Deus, Doutor Pedro!', disse Samuel. `Não é possível! Existem, aqui, duas versões sobre a família de Quaderna. Segundo a primeira, Quaderna descende daqueles fanáticos, assassinos e bárbaros, que se coroaram como Reis do Brasil, na Pedra do Reino. Mas o Pai dele, Pedro Justin Quaderna, um raizeiro e parasita dos Garcia-Barrettos, vivia espalhando outra versão, segundo a qual os Quadernas eram descendentés do Rei Dom Dinis de Portugal. Não me diga que o senhor se deu ao trabalho de pesquisar, também, a genealogia de Quaderna!' "`Pesquisei, sim! Aliás, é meu intento fundar, aqui, um certo Instituto Genealógico e Histórico do Cariri, exatamente para institucionalizar e codificar essas pesquisas, ordinariamente deixadas ao acaso, aqui na Paraíba.'

tucionalizar e codificar essas pesquisas, ordinariamente deixadas ao acaso, aqui na Paraíba.'

" `Você teria razão, meu caro Quaderna, se o veado não fosse vilenado como é! Você sabe o que significa vilenado, em Heráldica?' "Sei não!', confessei.

'"Vilenado quer dizer com o sexo à mostra e de esmalte diferente do resto do corpo do animal. O veado de seu escudo é negro, mas tem o sexo à mostra e pintado de vermelho!' " `Bem, se é assim, a coisa muda de figura!', falei. `Se o veado do meu brasão tem o pau vermelho à mostra, eu posso provar a quem vier com graças que o nosso é um veado sério, um veado macho, e não aveadado, como poderia parecer. Entretanto, por segurança, e já que cautela e caldo de galinha não fazem mal a ninguém, vamos mudar, no meu escudo, o veado negro por uma Onça-Preta, macha e vilenada de vermelho. Ou pode ser, também, a Onça castanha e a quaderna de crescentes pretos. Sei não, depois a gente decide! Agora, outra coisa, Doutor: mesmo que o senhor me dé esse direito, eu não quero ser Comendador, não. Prefiro ser Cavaleiro!' "Deixe de ser burro, Quaderna!', falou Samuel. `O título de Comendador é muito mais importante!' " `Mas o de Cavaleiro é mais bonito!', teimei. `Sempre desejei ser declarado oficialmente, episcopalmente, regiamente, Cavaleiro, e minha oportunidade é essa: não quero ser Comendador não, quero ser é Cavaleiro!' "Pois será Cavaleiro da Ordem do Templo de São Sebastião!', disse o Doutor Pedro Gouveia, com solenidade que me arrepiou. `E seu título? Não tem curiosidade de saber alguma coisa a esse respeito não?' "Fiquei numa entaladela, Senhor Corregedor. Tudo indicava que meu título deveria ser o de Conde da Pedra do Reino. Mas, se eu aceitasse esse título não estaria renunciando, implicitamente, à Coroa real? Cóm as maiores cautelas do mundo indaguei isso, como se se tratasse de uma consulta inteiramente impessoal. A Providência Divina e os astros estavam, porém, decididamente a meu favor, nisso: o Doutor Pedro me deu informações seguras que me garantiam eu poder assumir, sem riscos, o belíssimo título de Décimo Segundo Conde e Sétimo Rei da Pedra do Reino. Até os números, 12 e 7, eram fatídicos, astrosos e gloriosos, e fiquei um momento a sonhar, com as mais exaltadas esperanças. Logo, porém, o Doutor Pedro nos chamava de volta à realidade. Disse: "Bem, senhores, as cartas estão na mesa e o que vamos decidir agora é se o jogo se trava e continua, mesmo, ou tem que ser interrompido definitivamente, de uma vez por todas! Nós não somos crianças e todos já devem ter entendido que, se eu aceno com possibilidades tão honrosas, é que tenho que pedir alguma coisa em troca. Como já expliquei, no caso de vocês três não se trata das exigências que seriam feitas às pessoas comuns. O que quero, dos três, é o apoio decidido e total à causa de Sinésio Garcia-Barretto, causa que hoje se inicia aqui!' qp"Bem, Doutor Pedro, vamos examinar tudo cuidadosamente!', disse Samuel. 'O problema não é tão fácil como o senhor parece ensar. A grande dúvida é: será que o rapaz do cavalo branco ue chegou hoje aqui com o senhor é o mesmo Sinésio Garcia-Baritetto desaparecido em 1930? Se é, como foi que ele ressuscitou? E preciso ve-lo, é preciso provar que ele não morreu, etc.' " `Tudo isso será provado e esclarecido a seu tempo!', disse o Doutor Pedro com firmeza. 'Mas também não vou fazer a exigência absurda de que tomem uma decisão imediata. Hoj