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Quem Casa quer Casa

Martins Pena

Personagens

NICOLAU, marido de FABIANA, mãe de OLAIA e SABINO.
ANSELMO, pai de EDUARDO, irmão de PAULINA.
Dois meninos e um homem.

A cena passa-se no Rio de Janeiro, no ano de 1845.

PROVÉRBIO EM UM ATO.

ATO ÚNICO

Sala com uma porta no fundo, duas à direita e duas à esquerda; uma mesa com o que é necessário para escrever-se, cadeiras, etc.

CENA I

Paulina e Fabiana. Paulina junto à porta da esquerda e Fabiana no meio da sala; mostram-se enfurecidas.

PAULINA, batendo o pé – Hei de mandar!...

FABIANA, no mesmo – Não há de mandar!...

PAULINA, no mesmo – Hei de e hei de mandar!...

FABIANA – Não há de e não há de mandar!...

PAULINA – Eu lho mostrarei. (Sai.) FABIANA – Ai que estalo! Isto assim não vai longe... Duas senhoras a mandarem em uma casa... é o inferno! Duas senhoras? A senhora aqui sou eu; esta casa é de meu marido, e ela deve obedecer-me, porque é minha nora. Quer também dar ordens; isso veremos...

PAULINA, aparecendo à porta – Hei de mandar e hei de mandar, tenho dito! (Sai.) FABIANA, arrepelando-se de raiva – Hum! Ora, eis aí está para que se casou meu filho, e trouxe a mulher para minha casa. É isto constantemente. Não sabe o senhor meu filho que quem casa quer casa... Já não posso, não posso, não posso! (Batendo com o pé:) Um dia arrebento, e então veremos! (Tocam dentro rabeca.) Ai, que lá está o outro com a maldita rabeca... É o que se vê: casa-se meu filho e traz a mulher para minha casa... É uma desavergonhada, que se não pode aturar. Casa-se minha filha, e vem seu marido da mesma sorte morar comigo... É um preguiçoso, um indolente, que para nada serve. Depois que ouviu no teatro tocar rabeca, deu-lhe a mania para aí, e leva todo o santo dia – vum,vum,vim,vim! Já tenho a alma esfalfada. (Gritando para a direita:) Ó homem, não deixarás essa maldita sanfona? Nada! (Chamando:) Olaia! (Gritando:) Olaia!

CENA II

Olaia e Fabiana

OLAIA, entrando pela direita – Minha mãe? FABIANA – Não dirás a teu marido que deixe de atormentar-me os ouvidos com essa infernal rabecada? OLAIA – Deixar ele a rabeca? A mamãe bem sabe que é impossível! FABIANA – Impossível? Muito bem!...

OLAIA – Apenas levantou-se hoje da cama, enfiou as calças e pegou na rabeca – nem penteou os cabelos. Pôsa uma folha de música diante de si, a que ele chama seu Trêmolo de Bériot, e agora verás – zás, zás! (Fazendo o movimento com os braços.) Com os olhos esbugalhados sobre a música, os cabelos arripiados, o suor a correr em bagas pela testa e o braço num vaivém que causa vertigens! FABIANA – Que casa de Orates é esta minha, que casa de Gonçalo! OLAIA – Ainda não almoçou, e creio que também não jantará. Não ouve como toca? FABIANA – Olaia, minha filha, tua mãe não resiste muito tempo a este modo de viver...

OLAIA – Se estivesse em minhas mãos remediá-lo...

FABIANA – Que podes tu? Teu irmão casou-se, e como não teve posses para botar uma casa, trouxe a mulher para a minha. (Apontando:) Ali está para meu tormento. O irmão dessa desavergonhada vinha visitá-la frequentemente; tu o viste, namoricaste-o, e por fim de contas casaste-te com ele... E caiu tudo em minhas costas! Irra, que arreio com a carga! Faço como os camelos...

OLAIA – Minha mãe! FABIANA – Ela, (apontando) uma atrevida que quer mandar tanto ou mais do que eu; ele, (apontando) um mandrião romano, que só cuida em tocar rabeca, e nada de ganhar a vida; tu, uma pateta, incapaz de dares um conselho à jóia de teu marido.

OLAIA – Ele gritaria comigo...

FABIANA – Pois gritarias tu mais do que ele, que é o meio das mulheres se fazerem ouvir. Qual histórias! É que tu és uma maricas. Teu irmão, casado com aquele demônio, não tem forças para resistir à sua língua e gênio; meu marido, que como dono da casa podia dar cobro nestas coisas, não cuida senão da carolice: sermões, terços, procissões, festas e o mais disse, e sua casa que ande ao Deus dará... E eu que pague as favas! Nada, nada, isto assim não vai bem; há de ter um termo... Ah!

CENA III

Eduardo e as ditas. Eduardo, na direita baixa, entra em mangas de camisa, cabelos grandes muito embaraçados, chinelas, tazendo a rabeca.

EDUARDO, da porta – Olaia, vem voltar à música.

FABIANA – Psiu, psiu, venha cá! EDUARDO – Estou muito ocupado. Vem voltar à música.

FABIANA, chegando-se para ele e tomando-o pela mão – Fale primeiro comigo. Tenho muito que lhe dizer.

EDUARDO – Pois depressa, que não me quero esquecer da passagem que tanto me custou a estudar. Que música, que trêmolo! Grande Bériot! FABIANA – Deixemo-nos agora de Berliós e tremidos e ouça-me.

EDUARDO – Espere, espere; quero que aplauda e goze um momento do que é bom e sublime; assentm-se (Obriga-as a sentarem-se e toca rabeca, tirando sons extravagantes, imitando o Trêmolo.) FABIANA, levantando-se enquanto ele toca – E então? Peiór, peior! Não deixará esta infernal rabeca? Deixe, homem! Ai, ai! OLAIA, ao mesmo tempo – Eduardo, Eduardo, deixa-te agora disso. Não vês que a mamãe se aflige. Larga o arco. (Pega na mão do arco e forceja para o tirar.) FABIANA – Larga a rabeca! Larga a rabeca! (Pegando na rabeca e forcejando.) EDUARDO, resistindo e tocando entusiasmado – Deixem-me, deixem-me acabar, mulheres, que a inspiração me arrebata... Ah!...ah (Dá com o braço do arco nos peitos de Olaia e com o da rabeca nos queixos de Fabiana, isto tocando com furor.) OLAIA – Ai, meu estômago! FABIANA, ao mesmo tempo – Ai, meus queixos! EDUARDO, tocando sempre co entusiasmo – Sublime! Sublime! Bravo! Bravo! FABIANA, batendo com o pé, raivosa – Irra! EDUARDO, deixando de tocar – Acabou-se. Agora pode falar.

FABIANA – Pois agora ouvirás, que estou cheia até aqui... Decididamente já não o possso nem quero aturar.

OLAIA – Minha mãe! EDUARDO – Não? FABIANA – Não e não senhor. Há um ano que o senhor casou-se com minha filha e ainda está às minhas costas. A carga já pesa! Em vez de gastar as horas tocando rabeca, procure um emprego, alugue uma casa e, fora daqui com sua mulher! Já não posso com as intrigas e desavenças em que vivo, depois que moramos juntos. É um inferno! Procure casa, procure casa... Procure casa! EDUARDO – Agora, deixe-me também falar... Recorda-se do que lhe dizia eu quando se tratou do meu casamento com sua filha? OLAIA – Eduardo!...

EDUARDO – Não se recorda? FABIANA – Não me recordo de nada... Procure casa. Procure casa! EDUARDO – Sempre é bom que se recorde... Dizia eu que não podia casar-me por faltarem-me os meios de por casa e sustentar família. E o que respondeu-me a senhora a esta objeção? FABIANA – Não sei.

EDUARDO – Pois eu lhe digo: respondeu-me que isso não fosse a dívida, que em quanto à casa podíamos ficar morando aqui juntos, e que aonde comiam duas pessoas, bem podiam comer quatro. Enfim, aplainou todas as dificuldades... Mas então queria a senhora pilhar-me para marido de sua filha... Tudo se facilitou; tratava-me nas palmas das mãos. Agora que me pilhou feito marido, grita: Procure casa! Procure casa! Mas eu agora é que não estou para aturá-la; não saio daqui. (Assenta-se com resolução numa cadeira e toca rabeca com raiva.) FABIANA, indo para ele – Desavergonhado! Malcriado! OLAIA, no meio deles – Minha mãe! FABIANA – Deixa-me arrancar os olhos a este traste! OLAIA – Tenha prudência! Eduardo, vai-te embora.

EDUARDO, levanta-se enfurecido, bate o pé e grita – Irra! (Fabiana e Olaia recuam espavoridas. Indo para Fabiana:) Bruxa! Vampiro! Sanguechuga da minha paciência! Ora, quem diabo havia dizer-me que esta velha se tornaria assim! FABIANA – Velha, maroto, velha? EDUARDO – Antes de pilhar-me para marido da filha, eram tudo mimos e carinhos. (Arremedando:) Sr. Eduardinho, o senhor é muito bom moço... Há de ser um excelente marido... Feliz daquela que o gozar... ditosa mãe que o tiver por genro... Agora escoiceia-me, e descompõe... Ah, mães, mães espertalhonas! Que lamúrias para empurrarem as filhas! Estas mães são mesmo umas ratoeiras... Ah, se eu te conhecesse!...

FABIANA – Se eu também te conhecesse, havia de dar-te um...

EDUARDO – Quer dançar a polca? FABIANA, desesperada – Olhe que me perco...

OLAIA – Minha mãe...

EDUARDO, vai saindo, cantando e dançando a polca – Tra la la la, ri la ra ta...(Etc.,etc.) FABIANA, querendo ir a ele e retida por Olaia – Espera, maluco de uma figa...

OLAIA – Minha mãe, tranquilize-se, não faça caso.

FABIANA – Que te hei de fazer o trêmolo e a polca com os olhos fora da cara! EDUARDO, chegando à porta – Olaia, vem voltar à música...

FABIANA, retendo-a – Não quero que vá lá...

EDUARDO, gritando – Vem voltar à música...

FABIANA – Não vai! EDUARDO, gritando e acompanhando com a rabeca – Vem voltar à música! FABIANA, empurrando-a – Vai-te com o diabo! EDUARDO – Vem comigo. (Vai-se com Olaia.)

CENA IV

Fabiana, só.

FABIANA – Oh, é preciso tomar uma resolução... Escreva-se. (Senta-se, escreve ditando:) “Ilmo Sr. Anselmo Gomes. Seu filho e sua filha são duas pessoas muito malcriadas. Se o senhor hoje mesmo não procura casa para que eles se mudem da minha, leva tuda a breca. Sua criada, Fabiana da Costa.” (Falando:) Quero ver o que ele responde-me a isto. (Fecha a carta e chama:) João? Também este espertalhão do Sr. Anselmo, o que quis foi empurrar a filha e o filho de casa; e os mais que carreguem... Estou cansada; já não posso. Agora aguente ele. (Chamando:) João? PAJEM, entrando – Minha senhora...

FABIANA – Vai levar esta carta ao Sr. Anselmo. Sabes? É o pai do Sr. Eduardo.

PAJEM – Sei, minha senhora.

FABIANA – Pois vai depressa. (Pajem vai-se.) Estou resolvida a desbaratar...

CENA V

Entra Nicolau de hábito de irmão terceiro, seguido de um homem com uma troxa embaixo do braço.

NICOLAU, para o homem – Entre, entre... (Seguindo para a porta da direita.) FABIANA, retendo-o – Espere, tenho que lhe falar.

NICOLAU – Guarda isso para logo; agora tenho muita pressa. O senhor é o armador que vem vestir os nossos dois pequenos para a procissão de hoje.

FABIANA – Isso tem tempo.

NICOLAU – Qual tempo! Eu já volto.

FABIANA, raivosa – Há de ouvir-me! NICOLAU – O caso não vai de zangar... Ouvir-te-ei, já que gritas. Sr. Bernardo, tenha a bondade de esperar um momento. Vamos lá, o que queres? E em duas palavras, se for possível.

FABIANA – Em duas palavras? Aí vai: já não posso aturar meu genro e minha nora! NICOLAU – Ora mulher, isso é cantiga velha.

FABIANA – Cantiga velha? Pois olhe: se não procura casa para eles nestes dois dias, ponho-os pela porta fora.

NICOLAU – Pois eu tenho lá tempo de procurar casa? FABIANA – Oh, também o senhor não tem tempo para coisa alguma... Todos os seus negócios vão por água abaixo. Há quinze dias perdemos uma demanda por seu desleixo; sua casa é uma casa de Orates, filhos para uma banda, mulher para outra, tudo a brigar, tudo em confusão... e tudo em um inferno! E o que faz o senhor no meio de toda essa desordem? Só cuida na carolice...

NICOLAU – Faço muito bem, porque sirvo a Deus.

FABIANA – Meu caro, a caroleice, como tu a praticas, é um excesso de devoção, assim como a hipocrisia o é da religião. E todo o excesso é um vício...

NICOLAU – Mulher, não blasfemes! FABIANA – Julgas tu que nos atos exteriores é que está a religião? E que um homem, só por andar de hábito há de ser remido de seus pecados? NICOLAU – Cala-te...

FABIANA – E que Deus agradece ao homem que não cura dos interesses de sua família e da educação de seus filhos, só para andar de tocha na mão? NICOLAU – Nem mais uma palavra! Nem mais uma palavra! FABIANA – É nossa obrigação, é nosso mais sagrado dever servir a Deus e contribuirmos para a pompa de seus mistérios, mas também é nosso dever, é nossa obrigação sermos bons pais de família, bons maridos, doutrinar os filhos no verdadeiro temor de Deus... É isto que tu fazes? Que cuidado tens da paz de tua família? Nenhum. Que educação dás a teus filhos? Leva-os à procissão feito anjinhos e contentas-te com isso. Sabem eles o que é uma procissão e que papel vão representar? Vão como crianças; o que querem é o cartucho de amêndoas...

NICOLAU – Oh, estás com o diabo na língua! Arreda! FABIANA – O sentimento religioso está na alma, e esse transpira nas menores ações da vida. Eu, com este meu vestido, posso ser mais religiosa do que tu com este hábito.

NICOLAU, querendo tapar-lhe a boca – Cala-te, blasfema!... (Seguindo-a.) FABIANA – O hábito não faz o monge. (Fugindo dele.) Ele é, muitas vezes, capa de espertalhões que querem iludir ao público; de hipócritas que se servem da religião como de um meio; de mandriões que querem fugir a uma ocupação e de velhacos que comem das irmandades...

NICOLAU – Cala-te, que aí vem um raio sobre nós! Ousas dizer que somos velhacos? FABIANA – Não falo de ti nem de todos; falo de alguns.

NICOLAU – Não quero mais ouvir-te, não quero! Venha, senhor. (Vai-se com o homem.) FABIANA, seguindo-o – Agora tomei-te eu à minha conta; há de ouvir-me até que te emendes!

CENA VI

Entra Sabino, e a dita que está em cena. (Sabino é extremamente gago, o que o obriga a fazer contorsões quando fala.)

SABINO, entrando – O que é isto, minha mãe? FABIANA – Vem tu também cá, que temos que falar.

SABINO – O que aconteceu? FABIANA – O que aconteceu? Não é novo para ti... Desaforos dela...

SABINO – De Paulina? FABIANA – Sim. Agora o que acontecerá é que eu te quero dizer. Tua bela mulher é uma desavergonhada! SABINO – Sim senhora, é; mas minha mãe, às vezes, é que bole com ela.

FABIANA – Ora, eis aí está! Ainda a defende contra mim! SABINO – Não defendo; digo o que é.

FABIANA, arremedando – O que é... Gago de uma figa! SABINO, furioso – Ga... ga... ga... ga... (Fica sufocado, sem poder falar.) FABIANA – Ai, que arrebenta! Canta, canta, rapaz; fala cantando, que só assim te sairão as palavras.

SABINO, cantando no tom de moquirão – Se eu sou gago... se eu sou gago... foi foi Deus que assim me fez... eu não tenho culpa disso... para assim me descompor.

FABIANA – Quem te descompõe? Estou falando de tua mulher, que traz esta casa em uma desordem...

SABINO, no mesmo – Todos, todos, nesta casa... têm culpa, têm culpa nisso... Minha mãe quer só mandar... e Paulina tem mau gênio... Se Paulina, se Paulina... fosse fosse mais poupada... tantas brigas não haviam... viveriam mais tranquilas...

FABIANA – Mas ela é uma desavergonhada, que vem muito de propósito contrariar-me no governo da casa.

SABINO, no mesmo – Que ela, que ela é desaver... desavergonhada... eu bem sei, sei muito bem... e cá sinto, e cá sinto... mas em aten... em aten... em atenão a mim... minha mãe... minha mãe devia ceder...

FABIANA – Ceder, eu? Quando ela não tem a menor atenção comigo? Hoje nem bons dias me deu.

SABINO, gago somente – Vou fazer com que ela venha... com que ela venha pedir perdão... e dizer-lhe que isto assim... que isto assim não me convém... e se ela, se ela persistir... vai tudo raso... com com pancadaria...

FABIANA – Ainda bem que tomaste uma resolução.

CENA VII

Nicolau e os ditos.

NICOLAU – Ó senhora? FABIANA – O que me quer? NICOLAU – Oh, já chegaste, Sabino? As flores de cera para os tocheiros? SABINO, gago – Ficaram prontas e já foram para a igreja.

NICOLAU – Muito bem; agora vai vestir o hábito, que são horas de sairmos. Vai, anda.

SABINO – Sim senhor. (A Fabiana:) Vou ordenar que lhe venha pedir perdão e fazer as pazes. (Vai-se.)

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