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Os Brilhantes do Brasileiro

Camilo Castelo Branco

XV

Meio milhão!

Ao cabo de onze léguas de jornada, encontraram a quinta dos Choupos, residência de Rita de Barrosas, que os do sítio chamavam a Sr.ª D. Rita brasileira.

Quando apearam, Hermenegildo estava no espaçoso pátio vigiando os pedreiros que derruíam uma antiga torre de arquitetura manuelina para construir nos alicerces dela uma capoeira.

Fialho, habituado a ouvir repetidas descrições da formosa fidalga, reconheceu Ângela. Apertou o cós das ceroulas, abotoou o colete amarelo, deu um jeito ao colarinho desengravatado, e foi ao portão receber a hóspeda, mandando chamar a irmã.

¯ Faça favor de desculpar este desarranjo, minha senhora... – disse ele referindo-se às mouras verdes acalcanhadas, onde os pés jubilavam em pleno desafogo dos joanetes. – Vossa... vossa excelência é a Sr.ª D. Ângela, amiga cá da Rita?

¯ Sim, senhor... Como está ela?

¯ Rita como um pêro. Ela aí vem a quatro pés!... A mulher é sua amiga como nunca vi!...

¯ Também eu dela.

Rita abraçou Ângela pelos joelhos, e levantou-a, exclamando:

¯ Pilhei-a! pilhei-a! não torna a sair daqui a Sr.ª D. Ângela, senão para a companhia dos anjos, que não são tão lindos!

E com estes e outros sinceros encarecimentos entraram nas vastas salas, onde o brasileiro tinha recolhido as espigas do milhão a monte, de mistura com as cebolas, e as nozes e as castanhas.

Passado este lanço da casa, que havia sido convento de ordem rica, no ângulo formado pela vasta quadra, as salas e quartos estavam decorados com luxuoso e atrapalhado mau gosto.

¯ Aqui é a parte da casa que pertence à fidalga e à nossa Vitorina - disse Rita, com aprovação de Hermenegildo, manifestada por um sorriso.

¯ Como tudo isto é bonito! – exclamou sinceramente Ângela. – Uma princesa ficaria contente...

¯ A nossa princesa é vossa excelência – tornou Rita.

¯ Princesas que as leve a breca! – interveio Fialho num lerdo assomo de republicanismo. – O que eu quero em minha casa são pessoas amigas, que não obrigam a “intequetas” nem outras aquelas.

¯ Se me recebem com cerimonias – acudiu a filha do general – poucas horas estaria contente neste paraíso.

¯ Toca a saber o essencial – disse o brasileiro. – A senhora jantou? São cinco horas.

¯ Não jantamos, nem temos vontade.

¯ Hão de comer do que houver. Rita, carne assada, fiambre, salame, e peixe frito p’ra mesa. O café hei de ir fazê-lo eu. Aqui, quem quiser estar em minha casa, há de comer e beber, passear e dormir. Divertimentos não nos há, a não ser alguma chulata cá dos labrostes da terra. A gente aqui passa três meses na chácara, e depois vai em a cidade passar o Inverno, que eu tenciono lá abrir escritório de consignações, e fazer dois ou três navios p’ra me entreter, que graças a Deus não preciso, sou solteiro, e os meus parentes, não falando cá na Rita, são os dentes, diz lá o ditado.

Hermenegildo era loquacíssimo deste feitio, e de certo modo pitoresco na linguagem.

Ângela engraçava com aquela rudeza indicativa de bom feito de bruto. O sorriso dela não era mordente, nem o lance de olhos observador. A novidade do tipo, o plebeísmo do dizer, a redondeza da pessoa, a cara espirando alegria e uma saúde oleosa, tudo isto que aceraria a sátira da mulher dum alfaiate de Lisboa, produzia na fidalga bem condicionada uma inofensiva hilaridade, com a qual o brasileiro se comprazia.

Dobaram-se dias bonançosos para Ângela. Esses seriam porventura, os mais quietos de sua vida, se, a reveses, lhe não enublasse o espírito o incerto destino de Joana e seu irmão.

Rita, sem ser rogada, mandara lançar inculcas no Porto sobre descobrir se ali viviam os dois irmãos. Não colhera indício algum. Apenas soubera que Francisco José da Costa começara a freqüentar em 1839 o primeiro ano da escola médico-cirúrgica, e abandonara os estudos em meio do ano. Quanto a Joana, vestígio nenhum levou os indagadores ao sótão da Rua-escura. Vitorina estava sempre encontrando com judiciosas reflexões o cuidado que dava a sua ama o destino da família do merceeiro, a fim de a ir desatando de recordações prejudiciais a reconciliar-se com o general. Neste louvável desígnio pedia a Rita que, se descobrisse a paragem de Joana, se calasse com o segredo para afastar novos dissabores, e a pior das calamidades, que seria fidalga casar com Francisco.

¯ Credo! – exclamou a irmã de Hermenegildo, dois meses antes cozinheira da abadessa. – Credo! Anjo da guarda! Pois uma fidalga assim, filha dum general, e linda como os amores, havia de casar com um pobretão?! Não me diga isso, Sr.ª Vitorina! Esta senhora, se quiser casar, encontra marido que mede o dinheiro às rasas, e tem quintas e palácios, e tudo quanto cobre a rosa do sol, e que se pode comprar com dinheiro. Vossemecê não me entende?

Vitorina parecia não entender.

¯ Pois vossemecê não me entende?! – tornou Rita aconchegando-se dela. – Então eu lhe conto o que se passa, e vossemecê vai ficar espantada. Faz hoje três semanas que chegou, não faz?

¯ É verdade.

¯ Pois neste pouco tempo meu irmão ganhou uma tal simpatia à menina que não faz outra coisa senão dizer-me que ela é muito bonita, que é muito discreta, que é muito bem feita de corpo, que é isto, que é aquilo, que é aqueloutro. Não faz idéia, Sr.ª Vitorina! E olhe lá que eu caia em lhe dizer os amores que ela teve com o tal Francisco! Nessa não cai a Rita... Ontem era uma hora da noite, e ele ainda estava no meu quarto a batalhar p’ra que eu lhe dissesse se a fidalga inda viria a gostar dele. “Ó mano, eu sei lá o que há de acontecer!” dizia-lhe eu, e ele fez-me uma pena, que vossemecê não faz idéia, quando disse muito triste: “Oxalá que eu nunca visse esta criatura! Nunca me senti apaixonado cá do interior senão agora. Estou desta idade, e é a primeira vez que pegou em mim o amor verdadeiro! Sinto-me outro homem cá por dentro. E, se isto não muda de rumo, eu não hei de ir longe... Tu verás que esta paixão dá comigo na cova”. Sabe vossemecê? Peguei a esbaguar lágrimas como punhos...

Rita alimpou ao avental os olhos aguados, e prosseguiu, sensibilizada:

¯ “Ó meu Hermenegildo, disse-lhe eu, tem juízo! Tu não te deixes apaixonar por uma pessoa tão nobre! Verdade é que ela é pobre; mas tem pai muito rico, sem outra filha. E a demais: ela terá vinte anos, se tiver, e tu já vais nos quarenta e seis, porque eu sou mais velha que tu quatro, e faço os cinqüenta pelas cerejas”. E vai ele levantou-se da cadeira, e saiu pelo quarto fora sem dizer palavra. Eu fiquei muito aflita, e fui-me ter onde a ele, e comecei a dizer-lhe que não perdesse a esperança, porque se tinham visto casos mais milagrosos. Não lhe digo nada, Sr.ª Vitorina; estive até à madrugada, e não pus olho, porque afinal meu irmão, de se afligir, começou a doer-lhe o fígado, e eu fui arranjar-lhe a cataplasma de linhaça. Assim que o vi descansadinho, fui rezar à minha Senhora dos Remédios, e fiz-lhe uma promessa que não digo, se ela, das duas uma, ou varresse da cabeça do meu irmão esta idéia, ou movesse a fidalga a casar com ele.

Vitorina ouviu sem tosquenejar a comovida mulher. A impressão da confidência não lhe era irrisória nem mesmo de grandes estranhezas. A criada, tanto ou quanto participante da luz do século XIX, já estava à altura da idéia democrática e niveladora quanto a nascimentos, ressalvada a profunda desigualdade quanto a “fortunas”. Pelo que, a união do plebeu ricaço com a fidalga pobre não se lhe afigurou absurda, e muito menos milagrosa, como dizia a consternada Rita, na sua exposição. Possuída, portanto, destes sentimentos indiciativos de ilustração inata, Vitorina respondeu deste modo consolativo:

¯ Sr.ª Dona Rita...

¯ Não me chame Dona. Eu sou Rita de Barrosas, já lho disse um cento de vezes, e mais à sua ama. Meu pai era tamanqueiro, torno a dizer-lhe. Se um vestido de seda e um relógio de oito dá dom a quem o não tem, em pouco está o dom, e não no quero.

¯ Pois sim, seja como quiser. O que eu lhe digo é que seu irmão não deve descoroçoar. Minha ama tem-me falado dele com ar de amizade, e gosta muito de ouvi-lo. Quem é amiga pode ser o resto. Deixe estar, Sr.ª Dona Rita...

¯ E ela a dar-lhe... – atalhou a outra. – Rita, Rita...

¯ Esquecia-me... Deixe estar que eu hei de sondar a minha ama...

¯ Porque olhe vossemecê – acudiu alegremente a irmã do brasileiro – eu tenho muito medo que meu irmão se apaixone por alguma destas senhoritas cá de Barrosas que andam a armar-lhe a rediosca com presentinhos de queques e ramos de flores. O doutor das Lamelas já cá trouxe três filhas de visita; umas espinifradas com uns grandes pentes, a darem-me senhoria a mim, e por detrás a escarnecerem de meu irmão. Pois quer vossemecê saber? O doutor teve o descoco de dizer ao meu Hermenegildo que as suas filhas eram todas tôdas muito amigas dele, e que qualquer delas se daria por feliz ficando nesta casa! Salvo seja! Eu as arrenego! Longe vá o agouro! Meu irmão, que é finório ali onde o vê, respondeu que estava já velhote para casar, e que era muito doente do interior. O homem não tornou cá, nem as pelintronas das filhas, que hão de pôr a cara onde a Sr.ª D. Ângela põe os pés para serem fidalgas. E, como lhe eu ia contando, meu irmão é muito doente do fígado, e diz ele que não há de viver muito. Oxalá que se engane; mas a mim bacoreja-me que aquela moléstia de dentro não se cura. Se ele morrer, eu já sei que a mim me deixará alguma coisa para a minha decência; mas a riqueza quase toda vai para o Atanásio do Porto, que foi sócio dele, e são muito amigos. Ora diga-me vossemecê: Não era melhor que esta riqueza ficasse à Sr.ª D. Ângelazinha? Fazia-lhe mal ficar com este palácio, com esta quina, e com o dinheirão que o meu Hermenegildo tem nos bancos, que pelos modos me disse o tal Atanásio que era metade dum milhão! Metade dum milhão, ó Sr.ª Vitorina! Vossemecê já viu riqueza assim?

¯ Com efeito! – disse a interlocutora com sincero assombro. – Metade dum milhão! A fidalga, ainda que ficasse herdeira do pai, não tinha tanto, acho eu!

¯ Nem sombras disso! Meio milhão acho que neste mundo só o tem as pessoas reais. Quer vossemecê saber outra? Já desde que meu mano chegou, duas vezes os governos do Porto lhe escreveram para ele ser barão. Vossemecê bem sabe que barão é isto de ser grande e maioral do reino, e fica-se logo fidalgo. Pois saberá que o meu irmão não quis até agora, porque lhe pediam cinco contos pela fidalgaria, e ele ofereceu metade. Estamos a ver se se arranjará o negócio; mas, ponto é querer a fidalga que ele seja barão, que isso manda ele logo aos governos do Porto pagar os cinco contos. Conte-lhe vossemecê tudo isto lá como coisa sua. E olhe que, se o casamento se chega a fazer, vossemecê também há de apanhar uma boa pechincha. Eu cá de mm dou-lhe um cordão de vinte moedas, e meu irmão é capaz de lhe comprar uma casa p’rá sua velhice.

¯ Velha estou eu, Sr.ª Ritinha – atalhou Vitorina – e, se Deus quiser, hei de morrer na casa onde viver a minha ama.

¯ Pois isto é um modo de falar; que vossemecê há de ficar sempre conosco enquanto for viva.

Pouco depois, Ângela escutava a exposição de Rita fielmente reproduzida pela criada, tirante as ridiculezas que a sagaz Vitorina omitiu como desconvenientes à gravidade do assunto.

Não obstante a compostura da velha, Ângela sorria-se e duas vezes abafou os froixos da gargalhada. Finda a relação, a filha de D. Maria d’Antas reconcentrou-se, apanhou as fontes nas mimosas mãos e murmurou:

¯ Qual virá a ser o meu destino?...

Esta pergunta era o epílogo de mil confusas idéias que se lhe embaralhavam na alma, umas sublimes, outras baixas até ao vilíssimo lodo que originariamente foi costela de homem. Com a qual costela bem podem dar-nos na cara as malfadadas a quem frechamos de sátiras, quando uns fumos iriados do prestígio, que lhes doira a nossa poesia, se rarefazem.

¯ Qual virá a ser o meu destino?

Que interrogação!

É a mulher sem parentes que a faz.

É a mulher que conheceu a pobreza.

E o desamparo.

E o desprezo dos seus.

E as injúrias caluniosas, sem que Deus ou a sociedade a vingassem e a ilibassem.

É a mulher que não vê aurora de melhor dia;

Que um mês antes quase esmolara o custo da passagem dum albergue de caridade para outro;

Que se despenhara das canduras dum primeiro amor à mais rasa, à mais estranha e imprevista miséria.

¯ Qual virá a ser o meu destino?

Há neste interrogar-se uma abdicação, um alienar direitos de dispor do que quer que seja aspirações a felicidade.

Porque é tudo escuridade e amargura em sua alma. Amargura, se se recorda; escuridade, se olha adiante.

A riqueza, que se lhe oferece, não é a que ela desejava. O meio milhão deste homem não servirá a resgatar da pobreza a família do homem assassinado por sua tia. Mas Vitorina...

(Ó costela do homem! Ó oiro que a baba da serpente converteu em lama!...)

Mas Vitorina repisara naquelas palavras de Rita: ora diga-me vossemecê: Não era melhor que esta riqueza ficasse à Sr.ª D. Ângelazinha?

E Ângela de Noronha, interrogando o silêncio da sua alma, pôs os olhos lagrimosos em Vitorina e disse:

¯ Se tu pedisses a Deus que me levasse deste mundo!...

¯ Por que, minha senhora? Por que quer morrer?

¯ Porque me julgam tão sem amparo que já me aconselham o casar-me com este homem... E, na verdade, eu sei que sou muito, muito infeliz! Não tenho nada, não sei trabalhar, não tenho outras amigas senão tu, e esta mulher a quem devo benefícios que me colocaram inferior a ela... Quem sou eu, afinal? Uma grande senhora que não pode guardar a independência de sua alma à custa dos mais rudes trabalhos... Até hoje, a minha pureza foi tão-somente manchada pela calúnia de minhas tias; mas amanhã em que posição me colocará a Providência? Toda a gente terá direito de me considerar ou perdida, ou no transe de me perder... E, depois, Vitorina? Quando sairmos daqui, onde iremos? Se, ao menos, meu pai me mandasse entregar já as jóias de minha mãe... ainda teríamos com que viver, e eu iria trabalhando nos bordados...

¯ Os bordados... – murmurou Vitorina.

¯ Sim...

¯ Os bordados, minha senhora... – tornou a criada, sorrindo amargamente. – Vossa excelência sabe quanto eu recebia de cada bordado em que a menina gastava as horas todas do dia e algumas da noite? Era conforme. Uns regulavam o tostão por dia e noite. Outros a seis vinténs. E mais diziam que era por favor, porque tinham melhor e mais barato...

Saltaram-lhe as lágrimas dos olhos.

¯ Ó minha mãe, se tu me visse chorar!... – exclamou a filha do general inclinando a face para o seio arquejante.

XVI

Por causa do Fígaro

Escreveu Ângela a João Pedro perguntado-lhe se o pai respondera. Teve resposta negativa. Que o fidalgo tivesse piorado supunha o escudeiro por ter lido numa gazeta de Lisboa que o bravo general Noronha estava em Paris sofrendo, além de antigos achaques, os graves incômodos de uma oftalmia, que o ameaçava de cegueira.

Não era já a herança que a alvoroçava. Contentá-la-ia a entrega das jóias, como um socorro imediato, para poder, agradecida a hospitalidade do brasileiro, procurar sua vida noutras condições. Mas até esta esperança se fechara à pobre senhora!

Na correnteza destes sucessos, aconteceu adoecer de hepatite Hermenegildo Fialho. Bem pode ser que o amor contribuísse a sobreexcitar a inflamação crônica do fígado, entranha que se ressente das perturbações morais por esquisita simpatia. Alguma razão, pois, tinha a mortificada Sr.ª Rita para atribuir a doença do irmão a pura paixão de alma.

A enfermidade agravou-se. Vieram as intermitentes, a intumescência da víscera, o fastio e a rápida magreza, os suores noturnos e o delírio, enfim o estado em que a medicina capitula assustadoramente a doença.

Nos delírios, o brasileiro rosnava o nome de Ângela, caso que fazia sempre repuxar chafarizes de lágrimas dos olhos da irmã, ao passo que o rosto de Ângela se entristecia compassivamente.

Uma vez que o doente desagradou notavelmente ao médico, Rita lançou-se de joelhos aos pés da hóspeda, e clamou:

¯ Meu anjinho, faça um voto a Nossa Senhora dos Remédios que há de casar com meu irmão, se ele melhorar! Faça, pelas chagas de Cristo, e por alma de sua mãezinha!

¯ Levante-se, Sr.ª Rita! – disse Ângela, inclinando-se para ergue-la nos braços.

¯ Não me levanto sem vossa excelência prometer a Nossa Senhora que há de casar com o meu pobre Hermenegildo, que morre de paixão pela senhora.

¯ Jesus! – balbuciou a atribulada menina.

¯ Então? – instou a suplicante velha. – então, minha senhora!...

¯ Pois a Sr.ª Rita cuida que a minha promessa salva seu irmão?! – argumentou Ângela.

¯ Cuido, cuido, porque Nossa Senhora há de ouvir a promessa dum anjo!

¯ Pois... sim – gaguejou a violentada senhora.

¯ Casa com ele? – acudiu Rita, radiosa de esperança.

¯ Sim... caso...

Levantou-se Rita com exultação de mentecapta, entrou no quarto do enfermo, e chamou-o tão estrondosa e vertiginosamente que o homem abriu os olhos, as ventas, e a boca, tudo a um tempo e medonhamente.

¯ Olha que a Sr.ª D. Ângela fez a Nossa Senhora dos Remédios a promessa de casar contigo, se tu melhorasses.

¯ Hum... – fez Hermenegildo, e quedou-se extático a olhar para a jubilosa cara de Rita, e ela a repetir-lhe até quarta vez a notícia.

E, ao mesmo tempo, Ângela soluçava e estalejava com os dentes vibrados por um frio nervoso. E Vitorina, a fim de consolá-la e tirar-lhe a carga da promessa, dizia-lhe:

¯ Não se aflija, menina, que o homem não escapa! Quando vossa excelência casar com ele, dou licença que me enforquem.

Voltou o médico Segunda vez naquele dia, e achou o homem menos febril, e a língua mais úmida. No seguinte, a febre foi menor; e o suor da noite quase insensível. Ao outro dia, como o doente já desemperrasse a língua para dizer que a dor o deixava respirar livremente, o médico, voltado para Rita e Ângela, declarou, com vaidade de ter restaurado um moribundo, que o doente estava livre de perigo, e ia entrar em convalescença.

E, dentro em pouco, entrou a bolear-se, a arredondar-se, a pele a encher, as orelhas a enconchar-se com um escarlate de coralinas, o nariz a vestir-se de tegumentos, o todo enfim do carão a luzir e a estilar sorosidades de sangue novo que parecia uma espumadeira de tomates.

E Ângela via tudo aquilo com o falso contentamento das viúvas do Malabar que assistem à disposição das achas para a fogueira que há de assá-las.

Hermenegildo esperava que a sua hóspeda lhe desse azo a falar-lhe em casamento; ela, porém, esquivava os lanços preparados pouco engenhosamente pela irmã do noivo.

Era fatal e indeclinável o cálix!

Uma vez, o brasileiro, esporeado pela mana, afoitou-se a perguntar a D. Ângela se queria ser sua esposa.

¯ Sim, senhor – balbuciou ela, rápida e laconicamente como o suicida que fecha os olhos, e se despenha, antes que a reflexão lhe pinte os horrores da queda.

Hermenegildo emparveceu mais que o comum nos sujeitos da sua natureza. O sorriso que lhe entreabriu as queixadas parecia escancarar os alçapões daquele peito carecido de ar, como se o júbilo o afogasse.

A careta era feia; mas amorosíssima. Havia ali mescla de sátiro cupidinoso e de amante soez. Ângela não viu a fachada do coração que sonhoreava. Se naquele instante o encarasse, bem pode ser que a Senhora dos Remédios fosse lograda.

Dado o dilacerante sim, a ideal amante de Francisco Costa, a maviosa cismadora das Esperanças, entrou no seu quarto, e não pode chorar. Sentia um peso de estupidez, uma sensação na cabeça, como um capacete de lama, permita-se a figura.

Vitorina foi eminentíssima em insartar argumentos sobre argumentos convincentes de que Ângela havia de ser feliz, embora não amasse o marido, e simplesmente o estimasse como homem que a levantava com sua riqueza à independência, à consideração pública, e ao futuro gozo de ser viúva: “porque ele, dizia a criada, doutro ataque vai-se embora”.

Numa tragédia desta ordem, como se vê, o cômico está sempre negaceando à gente por detrás daquele Fialho, o qual, apesar dos chacoteadores, tinha ares de bom homem, e talvez desse de si um marido regular, se se ajoujasse a uma fêmea da sua espécie.

Por cortar demoras, não nos deteremos a descrever a bulha que a felicidade de Rita e do irmão fazia na casa. Fialho saiu logo para o Porto a prover-se dos aprestos para o noivado, e então comprou os 6.500$000 réis de brilhantes, como consta do primeiro capítulo desta crônica social, e cortes de seda, e peças de veludo, e quanto lhe depararam as casas francesas, e modistas escrituradas que levou consigo para a quinta.

No meio desta azáfama, Ângela estava como insensível, e, na cama, onde uma febre lenta a prostrara.

Vitorina, exagerando o susto, já era de parecer que se desligasse a ama da sua palavra, e não casasse.

¯ Que me importa a mim?! – disse Ângela. – Dum ou doutro modo hei de acabar breve. O coração já não o sinto. Não tenho saudades de nada. Morro, sem faltar à minha palavra. Se Deus me não der melhor vida depois, é que não há céu.

Ângela enganou-se. Ao fim de quinze dias estava cansada de pensar na sua desgraça, e indiferente, senão identificada. Estas refundições são vulgaríssimas. É minha opinião que as lágrimas deslaçam e rompem os liames de

certas crenças e esperanças; porém, como à vida se fazem mister outros, opera-se uma renovação de vínculos que nos atam a outras preocupações. Nas índoles feminis são por via de regra tais renovações mais temporãs, em razão de operarem nelas as lágrimas em maior cópia. E se me não engano, há aí coração de senhora que pode frutificar colheitas variadas cada ano, duas, três e mais, consoante a regra de lágrimas. E uma aleivosia que o mundo ignaro lhes assaca de versatilidade não é mais que ilusões que se afogam e renovos que desabrocham assim que as lágrimas se estancam.

Postas estas coisas como explicação de outras relativas à filha do general Noronha, cumpre saber que no dia 4 de novembro de 1841, pelas 9 horas da manhã, contraíram o sacramento do matrimônio D. Ângela de Noronha Barbosa com Hermenegildo Fialho.

Entre as testemunhas deste consórcio, invejado das damas e cavalheiros do concelho, estava aquele João Pedro mordomo do general.

É que ele tinha chegado na véspera a entregar a D. Ângela o cofre das jóias de D. Maria d’Antas, e a mostrar uma carta, escrita desde Paris, em que o general dizia: “Se souberes onde para a senhora que pernoitou nessa casa, entrega-lhe um cacifro de objetos de oiro e pedras que está no meu quarto, e cobra recibo”.

João Pedro, informado da riqueza do noivo, antes de o ver, felicitou a filha de seu patrão; mas, depois que o viu, coçou as farripas da calva, e disse à puridade, a Vitorina:

¯ Oh! Com dez milheiros de diabos!...

¯ Então que é? – perguntou a criada.

¯ É que, se a fidalga não for santa, aquele homem há de ser...

E calou-se, porque adivinhou que eu tinha de contar fidelíssimas estas passagens.

XVII

História dos brilhantes

Em janeiro de 1842, Hermenegildo Fialho passou a residir no Porto em casa sua, mobiliada pomposamente, na rua do Bispo.

Diga-se desde já, para anteparar estranhezas futuras, que o brasileiro andava cismático e a modo de melancólico.

Não se descosia com ninguém, porque a irmã, sua confidente, ficara a governar a quinta dos Choupos. É, todavia, fácil entrar nas cavernas daquele peito, sem embargo do enxundioso arnês.

Fialho conjectura que Ângela o aborrece. Nem um sorriso, nem uma carícia, nem uma palavra que não seja resposta concisa e seca. Ele não ousa argüi-la; mas, se mansamente se queixa, Ângela responde com um franzir de testa e um silêncio tétrico.

Principia o arrependimento a desbastar-lhe as opulências musculares, e o fígado a dar rebates de desordem intestinal. Recorre aos emolientes; mas a esposa, como ele revelou ao compadre Atanásio, manda-lhe cingir as papas por um galego.

Ângela faz isto inocentemente. E talvez que, matrimoniada com um arcanjo, não pusesse mão em linhaça, se os arcanjos pudessem sofrer do fígado.

Debaixo das telhas do próximo passam agonias ridículas que não viu o dom Cleofas de Le Sage.

Vitorina está sempre a procurar na cara do amo sinais de morte. Se o vê mais amarelo, ou mais vermelho, com o nariz menos sucoso, e os olhos mais encovados, diz logo a Ângela: “O homem não tarda!”. A frase era elipticamente econômica; o não tardar era ir depressa para a sepultura.

Resolvido a viver e distrair-se, Fialho abriu escritório na Reboleira e comprou navios. E distraía-se. A bailes e teatros não ia, nem Ângela os desejava. Como é já notório, em substituição à missa, comprou oratório para uso da esposa. Hermenegildo, em matéria de religião, era bestial.

Decorreram seis meses. Ângela foi mudando salutarmente para ambos. Estava afeita. Conversava com melhor sombra; mas acariciava um gato para sentir o prazer nativo de suas aveludadas mãos. Hermenegildo olhava para o lombo luzidio do bicho, e espumava umas cóleras que engolia azedas como vômito de digestão derrancada.

Na primavera deste ano, o brasileiro foi à terra, e só, para queixar-se à irmã nestes termos:

¯ Ela não me tem casta de amor nenhum. Passam-se dias que não dá palavra, e noites que adormece a rezar e lá fica. Este casamento foi o diabo! Cabeçada assim nunca a deu homem de juízo! É bonita, mas de que serve? É como quem tem um painel em casa. Se é fidalga, isso cá a mim que me faz? Fidalga é a burra. Enfim, desde que me desenganei que não há volta a dar-lhe, lancei cá os meus cálculos, e já sei o que hei de fazer... Nada de me apaixonar. Mulheres que me queiram não faltam. Eu me arranjarei como fazem todos.

A irmã deu-lhe bons conselhos, e recomendou-lhe paciência e juízo.

¯ Lembra-te, dizia ela, que a pobre menina fez uma promessa para te salvar da morte, e casou contigo sem amor.

¯ Então não casasse.

¯ Eu disse-to, e tu disseste que o amor vinha depois. Então espera que ele venha, meu filho.

¯ Agora vem! Olha que ela está-se a fazer velha; e de aborrecida já nem parece a mesma. Está mais amagrada, e branca como a cal da parede.

¯ Coitadinha! – atalhou Rita, condoída.

¯ Coitadinho de mim!

¯ Mas tu estás bem gordo, Hermenegildo!

¯ Bem haja eu! Pudera não! Vou fazendo pela vida.

¯ Mas não a mortifiques, que ela é um anjo.

¯ Não me cantes lérias, Rita! Aquela mulher tem lá no interior outra paixão antiga. E queira Deus ou o diabo que ele me não pregue alguma, que eu não sou para graças. À primeira que me fizer, ponho-me ao largo.

¯ Jesus! Tu estás aí a asnear, homem de Deus! Pois uma senhora tão boa, tão rezadeira...

¯ Ora, contos, minha amiga; as que rezam muito lá sabem por que o fazem. Se elas não tem pecados, p’ra que rezam? Responde lá, se és capaz!

¯ Tu és herege, Hermenegildo!

¯ Qual herege! Sou felósefo, é o que eu sou.

E era.

Enquanto ele filosofava em linguagem correntia – mérito de que não se gabam muitos de seus confrades – lances extraordinários passavam na vida de Ângela.

Estava ela à janela em um Domingo de manhã quando viu subir da Praça Nova uma mulher de mantilha, que a fez estremecer vista de longe. Desceu de corrida ao primeiro-andar e abriu a janela a tempo que a mulher passava defronte. Duvidou, acreditou, hesitou, e enfim disse em voz alta à criada que a seguira assustada:

¯ Será Joana?!

A mulher, que passava, voltou o rosto rapidamente, deu de olhos em Ângela e estacou.

¯ É ela, é ela! – confirmou Vitorina.

¯ Suba Sr.ª Joana! – disse a senhora agitadamente, correndo a recebe-la no pátio.

¯ Ó minha senhora – exclamou Joana – Ó meu Deus! Pois eu encontro aqui a Sr.ª D. Ângela! Ainda torno a ver esta senhora!

Abraçaram-se enternecidas e subiram sem se desenlaçarem.

¯ Como ela está acabada! – disse Vitorina benzendo-se

¯ Estou muito velha e muito doente... e vossa excelência ainda tão formosa, mas mais descoradinha!... Eu vim de Viana há três meses, perguntei por vossa excelência, e ninguém me soube dizer onde parava. E estava aqui! E eu sem o saber!

¯ Então tem tido muitas amarguras na sua vida? – perguntou Ângela com os olhos afogados em lágrimas muito fitos nela.

¯ Oh, se tenho, minha senhora! Há perto de quatro anos a vivermos dum trabalho pouco rendoso...

¯ A viverem... – atalhou Ângela. – Então seu irmão...

¯ Meu irmão está comigo, minha senhora. Nunca nos desamparamos um ao outro, e Deus tem sido misericordioso conosco deixando-nos viver juntos...

¯ Aquela morte de seu marido... – balbuciou a sobrinha de D. Beatriz.

¯ Não me fale nisso, minha senhora, que ainda se me parte o coração, quando me lembro de o ver cheio de vida e lutando com a desgraça para poder pagar à Sr.ª D. Beatriz, sem vender a casa; e, em poucos dias, matou-o a paixão de se ver desonrado e...

¯ Sei tudo, sei tudo... – murmurou Ângela apartando-lhe as mãos. – Perdoe-me, sim? – continuou ela com a voz tremente. – Perdoe a quem foi a causa de morrer seu marido...

¯ A causa, minha senhora, não foi vossa excelência; foi a má estrela que nos perseguia. Ninguém podia prever o que aconteceu. Tão culpada foi a senhora, como eu, como o meu pobre Francisco. Por causa dele também vossa excelência padeceu muito, segundo lá ouvi dizer em Viana a uma criada que foi do convento. Afirmaram-me que vossa excelência chegara a sentir a precisão de trabalhar... Quem diria!...

¯ E que tem isso? Pior seria se o meu trabalho me não chegasse para o pão de cada dia... – refletiu Ângela.

¯ Quando contei isto a meu irmão, parecia que a luz dos olhos se lhe apagava nas lágrimas...

As duas senhoras referiram mutuamente a sua história, desde o momento em que se apartaram.

A leitora sensível antes quer ignorar misérias que ali se revelaram as duas amigas; que farte tristezas são já sabidas para piedade e simpatia.

Tinham decorrido três horas de prática entre sorrisos e lágrimas, quando Joana se levantou e disse:

¯ Deixe-me vossa excelência ir fazer o jantar de meu irmão.

¯ Espere... – atalhou Ângela, e foi ao seu quarto.

Parou à entrada, e exclamou, como se houvesse medo de entrar:

¯ Ah!

E, chamando Vitorina, perguntou com aflição:

¯ As jóias de minha mãe ficaram na quinta, não ficaram?

¯ Sim, minha senhora. Vossa excelência disse-me que as fechasse na cômoda, porque eram coisas antigas que já se não usavam; até seu marido, nessa ocasião lembrou que o meu melhor era trocá-las por enfeites modernos.

¯ É verdade!... – recordou Ângela com muita amargura. – Como há de ser isto? Eu queria dá-las a Joana.

¯ Dá-las?... e se seu marido perguntasse por elas?

¯ Respondia que as dei.

O tom severo desta resposta forçou a criada a silêncio.

Ângela voltou à sala, apertou entre as suas as mãos da viuva, e disse-lhe com veemente solenidade:

¯ A minha amiga vai jurar pela memória de seu marido que não dirá a seu irmão que me viu.

¯ Juro, minha senhora.

¯ E não lho dirá por que o vermo-nos complicaria o infortúnio de ambos.

¯ Não era preciso lembrar-mo vossa excelência.

¯ E promete-me aqui vir amanhã à mesma hora?

¯ Sim, minha senhora.

¯ Então vá, e creia que tem aqui ao pé da minha alma de irmã a alma de seu marido. Eu hei de melhorar a sua sorte, se a senhora nunca esquecer o seu juramento.

¯ Não esquecerei, Sr.ª D. Ângela.

Saiu Joana; e a esposa do brasileiro abriu um estojo de veludo, que continha o adereço que o marido lhe dera. Examinou as peças, procurando uma, cujas pedras se desencravassem com menos custo. Escolheu a pulseira, e dela com os bicos de tesoura extraiu um brilhante. Chamou Vitorina, e disse-lhe:

¯ Vai vender esta pedra a um ourives.

¯ Vender?!... – objetou com espanto a criada.

¯ Sim, vender.

¯ Teremos novas desgraças, minha senhora?

¯ Não. Temos desgraças antigas a remediar. Faz o que te mando, Vitorina, senão, vou eu.

A criada sentiu-se impelida por irresistível força. Ângela, quando mandava com império, fazia lembrar à velha a soberba e inflexível Maria d’Antas.

Saiu Vitorina, examinando, na rua das Flores, as ourivesarias mais abastecidas. Entrou na loja dos Srs. Mourões, e vendeu o brilhante por 250$000 réis.

Voltou a tremer, medindo a gravidade do delito pela abundância de oiro e prata que lhe pesava de certo modo na consciência. Entregou o dinheiro a sua ama, e abalançou-se a fazer considerações timoratas sobre o alcance de tal passo.

D. Ângela rebateu os sustos de Vitorina com o seu ar de infinita alegria – raio de luz que muitos anos havia não tinha tocado os lutos daquela alma.

¯ As minhas jóias já ele me disse que valeriam quatro ou cinco contos – ajuntou Ângela para aliviar dos escrúpulos a meticulosa criada. – Quando ele (ele era o marido) desse fé que eu dispusera destes brilhantes lá tem os de minha mãe para se ressarcir.

¯ Mas o pior é se ele pergunta a quem vossa excelência deu o dinheiro... – contrariou a sisuda velha.

¯ Se pergunta, responderei “dei-o”. Verás que sou pontual no que prometo, se chegar essa ocasião.

¯ Deus nos acuda por sua sagrada paixão, e morte!... – esconjurou Vitorina, e acomodou-se para não agourentar a exultação da ama.

No dia seguinte, à hora aprazada, chegou a irmã de Francisco Costa. Foi recebida com grande contentamento.

¯ A minha amiga – disse a filha do general com a mesma gravidade do dia anterior – continua a jurar pela memória de seu marido que fará quanto eu lhe disser, e não revelará a seu irmão palavra do que se aqui passar. Jura?

¯ Farei o que vossa excelência disser, sendo coisa que não possa acarretar-lhe desgostos.

¯ Não me ponha condições; se mas põem, torna-me mais desgraçada do que eu era – disse Ângela com transporte, perdendo por instantes a alegria que lhe iluminava o rosto.

¯ Farei o que vossa excelência mandar.

¯ Bem. Escute-me. Quero que a senhora mude de situação, de casa, e de tudo. Quero que seu irmão continue os seus estudos. Quero restituir-lhe o que perdeu com a morte de seu marido...

¯ Ó minha senhora, vossa excelência...

¯ Deixe-me falar. Quero que seu irmão nem em sonhos possa conjecturar donde a minha amiga recebe os recursos. Ajude-me a pensar; como há de ser isto? Como poderemos nós enganá-lo?

¯ Não sei, minha senhora... Meu irmão sabe que eu nada tenho, e que os nossos parentes todos são pobres...

¯ Eu pensei toda a noite nisto. Inventei uma mentira inocente. Veja se tem jeito... Parece-me que sim... A minha querida amiga finja que uma pessoa de Viana, que não se declara, ficou devendo em consciência a seu marido certa quantia de dinheiro, e quer restituí-la porque tem remorsos de ter contribuído para a perda e morte do Sr. José Maria. Compreende?

¯ Sim, minha senhora; mas...

¯ Espere. Ouça o resto. Essa pessoa diz na carta que irá remetendo, de tempo a tempo, a quantia que deve, e declara que não é pequena a restituição. Para que seu irmão possa, sem receio de ser interrompido por falta de meios, continuar o seu curso. Que lhe parece?

¯ Não me parece mal; mas se meu irmão quer entrar em averiguações...

¯ Na carta há de dizer a pessoa que das averiguações, se se fizerem, resulta a suspensão dos pagamentos, porque o restituidor não se esconde de Deus, mas quer esconder-se do mundo. Pensei em tudo.

¯ Mas quem há de escrever a carta? – argumentou Joana.

¯ Olhem a grande dificuldade! Escrevo-a eu.

¯ Mas ele conhece a letra de vossa excelência...

¯ Que novidade! Deixe-me acabar... Escrevo-a eu, e Vitorina chama um rapaz da escola, e paga-lhe para que a copie; e, depois, a carta finge-se trazida por um sujeito desconhecido, que a procura em sua casa enquanto seu irmão está no escritório, e lha entrega com este dinheiro.

E, dizendo, entregava a Joana os 250$000 réis em uma saquinha.

A irmã de Francisco hesitava em receber. Ângela lançou-lhe a saca ao regaço, e disse:

¯ Com esses modos não me deixa gozar todo o contentamento com que Deus me está compensando o martírio de quatro anos! Minha amiga, deixe-me inteiro este gozo, por quem é! Por alma de seu marido lhe rogo!

Lavada em lágrimas, Joana inclinou-se a querer beijar os pés da fidalga, que a estreitou com transporte ao coração.

¯ Vá que são horas – disse Ângela – guarde o dinheiro onde seu mano o não veja. Amanhã torne à mesma hora, que já hei de cá ter a carta. Fico muito alegre. Vou agradecer a Deus este raio de sol. Não me acha hoje mais bonita? Mais nova? Olhe o que faz a felicidade!... Há quatro anos à espera desta hora!... É hoje a primeira vez que vejo seu marido a sorrir para mim do outro mundo!... Não chore, que ele não quer. Vá, vá minha amiga...

Joana saiu enxugando as lágrimas, e entrou no primeiro templo que encontrou aberto a pedir ao Senhor que abençoasse a caridade da virtuosa Ângela.

Saiu-lhe bem logrado o plano à consolada senhora.

Francisco José da Costa leu a carta como assombrado dum caso de restituição em tempos de tanta filosofia alumiadora dos espíritos – quando para castigo de ladrões já não havia inferno, nem para glória de arrependidos céu. Contou o dinheiro, e disse à irmã:

¯ Agora, minha pobre Joana, cessa de trabalhar. Vai vivendo do que receberes, que eu para mim cá me arranjarei com os três tostões da escrivaninha.

¯ Isso acabou, Francisco. Deixaste de ser amanuense de tabelião.

¯ Estás doida com a tua felicidade dos 250$000 réis!...

¯ Olha, Francisco, – tornou ela – se este dinheiro e o que vier te não servir, para mim é inútil. Ou tu continuas os teus estudos, ou eu continuo a minha costura, esperando que um dia te resolvas a empregar o dinheiro. Escolhe. Juro-te que não levantarei cinco réis deste, e do que vier, sem que tu estejas formado. O que peço é que me alugues melhor casa e que a mobiles com mais limpeza. Peço-te muito por ti, e pouquíssimo por mim. Estamos em março; vê se consegues ainda este ano continuar a aula que interrompeste em fevereiro, há quatro anos. Forma-te, meu querido irmão, e serás depois o meu amparo. Então descansarei confiada somente aos teus cuidados.

A lei não permitia abrir matrícula extemporaneamente. Todavia, Francisco passou o restante do ano recordando matérias esquecidas desde as mais rudimentares das aulas preparatórias. Melhorou de casa, comprou livros, sentiu-se renascer, abendiçoou muitas vezes a Providência que sugerira no coração de quem quer que fosse a virtude de repor um roubo – virtude dificílima, digo eu, que encheria o céu de santos, se os ladrões, uma bela manhã, se combinassem para expulsar de lá os bem-aventurados por virtudes fáceis. Roubar e restituir depois, dizia ele, inculca uma transformação moral de tal magnitude que não se faz mister provar com outro fenômeno a divindade da religião que operou tal maravilha.

No primeiro capítulo deste livro vem contado o prosseguimento da venda dos brilhantes até completar-se a formatura de Francisco Costa, concluída em 1846. A ilusão do estudante nunca sofreu quebra. A restituição orçava por 1.650$000 réis, quando o cirurgião-médico, desgostoso de se ver sem clínica, bem que se distinguisse em prêmios e habilidade operatória, deliberou aceitar a proposta dum armador para ir ao Rio de Janeiro como cirurgião duma galera. O proponente era Hermenegildo Fialho, sujeito que Francisco nem de nome conhecia. Aceitou sob partido que ficaria no Rio, se lhe aprouvesse.

Joana, na véspera de embarcar-se o irmão, pediu de joelhos a D. Ângela que lhe deixasse declarar a quem deviam a sua felicidade. A esposa do brasileiro redargüiu que lhe daria mau pago se a denunciasse sem precisão nem utilidade, indo humilhar um homem que não podia agradecer, sem desconsolação, o benefício da mulher que o amou.

Pelo que respeita ao viver íntimo do brasileiro e esposa, no correr destes cinco anos, é de notar que melhorou sobremaneira. Ângela conformara-se, ou as alegrias da beneficência vislumbravam-lhe no rosto, mais afável para o marido. Ele, por sua parte, cumprindo o programa exposto equivocamente à irmã naquela frase eu me arranjarei, realizou-o exuberantemente mobiliando em S. Roque da Lameira e na Cruz da Regateira duas vivendas alegres, gaiolas de amor, em que tinha as duas aves colhidas a visgo de oiro nas florestas da sua Barrosas, segundo ele confessara, justificando os motivos a seu hospedeiro compadre Atanásio José da Silva.

E visto que chegamos ao ponto em que deixamos o brasileiro roncando, ligue-se a história, depois de havermos afastado da imaculada esposa as presunções aleivosas.

XVIII

A Infamada

Estava Ângela escrevendo a um dos três amigos de seu marido, rogando que a não considerassem esposa infiel, nem difamassem seu nome, querendo forçá-la a entrar num convento, à imitação das mulheres delinqüentes. Prometia ela defender-se, se se marido a quisesse escutar, a sós, bastando-lhe de sua inocência o testemunho de Deus, cuja providência, em tão apertado lance, lhe dava coragem para encarar de rosto qualquer desgraça, menos a de entrar no convento com a nódoa de adúltera.

A carta ia ser fechada, quando se anunciou Atanásio, com os seus amigos Pantaleão e Joaquim Antônio.

O marido da Ruiva declarou que o amigo Hermenegildo teimava em que sua mulher entrasse no convento que lhe fosse escolhido por eles, representantes de suas ordens; e que, no caso de a senhora se negar a obedecer a tão justo mandado, fizesse de conta que não tinha marido, nem casa, nem fortuna, porque todos os teres e haveres de seu homem estavam hipotecados, vendidos e alienados, como se provaria em juízo com documentos da maior validade.

Escutou-os Ângela, e disse serenamente:

¯ Mandam-me portanto sair?

¯ Sim, se a senhora não quiser ir para o convento.

¯ Não vou.

¯ Então, muito nos custa dizer-lhe que...

¯ Despeje a casa? – concluiu Ângela.

¯ Sim..., se a senhora... – repetiu Atanásio. – Bem sabe que a honra dum homem... Seu marido tem de dar contas à sociedade...

¯ E a Deus – ajuntou Ângela.

¯ Isso de Deus... – remoneou Joaquim José Antônio.

¯ Não há? – perguntou ela.

¯ Não sei se há, nem se não há. O que sei é que ele não se mete cá nestas coisas.

¯ Se a senhora está inocente – interveio Pantaleão – prove-o. Diga a quem deu 1.650$000 réis.

¯ A um pobre.

¯ Mas quem era o pobre? Saibamos isso... Era pobre honrado?

¯ Era.

¯ Como se chama?

¯ Ainda que lhes diga o nome dele, os senhores não conhecem os pobres honrados; conhecem somente os infames ricos.

¯ Tenha prudência na língua, minha senhora – rebateu Atanásio.

¯ Desçam as escadas, que quero sair, seus biltres! – exclamou a filha de D. Maria d’Antas. – Se os galegos da casa me obedecessem, haviam de fazê-los saltar pelas janelas; mas a casa já não é minha, e infame eu seja quando pedir um ceitil do que ela encerra. Aqui ficam as jóias de minha mãe, que valem quatro ou cinco contos de réis. O

seu amigo Hermenegildo que se pague do que me deu, e, se alguns vinténs sobejarem, que compre uma corda e que se enforque.

¯ Irra!... que mulher! – dizia Joaquim a Pantaleão, limpando o suor da testa em janeiro.

¯ Tem diabo no corpo! – regougou o outro.

Voltaram-lhe as costas com arremesso, e saíram vociferando palavras insultantes.

De pós eles saíram Ângela e Vitorina, deixando as portas abertas e a casa entregue aos criados, que choravam em altos clamores.

¯ Vais tão triste?! – perguntou Ângela à criada.

¯ E vossa excelência não, minha infeliz menina?

¯ Não! Pois não vês?! O que eu não deixei naquela casa foi o ouro da consciência...

¯ Sair sem nada!... Que leva vossa excelência ai nesse dispensável?...

¯ É o livro dos SONHOS do Francisco – respondeu ela sorrindo. – Não tenho mais nada que me recorde a minha alegre mocidade senão isto e tu! As coisas que mais amo vão comigo.

Vitorina chorou de agradecida, e participou involuntariamente da alegria da senhora.

Entraram na rua do Moinho de Vento e procuraram um número de casa. Subiram, e acharam-se na alegre e asseada saleta de Joana Costa, que se levantou a receber a fidalga com transporte e espanto.

¯ Venho pedir-lhe um canto da sua casinha! – disse Ângela risonhamente. – Dê-me o quarto de seu irmão para mim e para a minha Vitorina.

¯ Pois que é, minha senhora? Que é isto?! – exclamou Joana.

¯ É que fui expulsa; não tenho casa, nem “fortuna”. Veja como se cai depressa, minha amiga! Apesar disso, quando a queda não é vergonhosa, a gente parece que sente as asas dos anjos a ampará-la.

Referiu Ângela o sucesso dos brilhantes, da intimação para responder à autoridade, da mensagem dos amigos do marido, etc. se Joana a interrompia com o choro, a serena hóspeda revelava desgosto, e queixava-se do mau uso que ela fazia das lágrimas.

Finda a relação, a filha do general foi tomar posse do quarto de Francisco, quedou largo tempo a examinar as mais insignificantes coisas, buliu nos livros, nas gavetas, nos papéis escritos, sorrindo a tudo.

¯ O meu livrinho das Esperanças? – perguntou ela.

¯ Levou-o. Costuma estar neste sitio – respondeu Joana indigitando um lugar vazio entre dois livros.

¯ Pois irá para o lugar dele o livro dos SONHOS.

E colocou o manuscrito, examinando os dois livros laterais. Eram também manuscritos, e ambos com o mesmo título: ÂNGELA.

Joana disse, sorrindo:

¯ Eu nunca lhe contei que ele tinha esses livros...

¯ Não.

¯ De propósito para que vossa excelência os não quisesse ver... Escreveu-os nos primeiros quatro anos da nossa pobreza. Passava as noites nisto, depois de gastar os dias no escritório. Lia-me às vezes alguma página, e abraçava-me se eu chorava. Mas não se entristeça, minha senhora! Já mudou de semblante!

¯ É felicidade! Não me lamente, minha amiga!... Como eu quero a estes dois livros!... E era capaz de me deixar morrer sem que eu os visse?

¯ Decerto! Deus me livrasse de eu ir inquietar vossa excelência!... Já depois que meu irmão saiu, estive aqui um dia muito doente, e pensava já em os rasgar, se piorasse; que não fosse alguém ler o que ele dizia de vossa excelência...

¯ Pensemos noutra coisa, minha amiga – tornou Ângela com os olhos rasos de gozosas lágrimas. – Temos em que trabalhar?

¯ Não precisamos; que meu irmão deixou-me metade dos trezentos mil réis que foi ganhar. Apenas gastei duas moedas deste dinheiro. Abra vossa excelência essa gaveta, que lá está o resto.

¯ Mas é necessário trabalhar, minha irmã. A ociosidade é o tédio, é a doença, é o desespero. Olhe que eu, quando me chamavam a brasileira do meio milhão, em cada dia, costurava cinco horas. E foi bom conservar os costumes adquiridos na pobreza do convento. a pobreza voltou; mas desta vez encontra-me prevenida, e de mais a mais disposta a desafiá-la para que me incomode.

¯ E como o prazer lhe salta nos olhos! – dizia Joana a contemplá-la, e a saborear o seu quinhão daquela comunicável alegria.

¯ Não, que a minha irmã não imagina quanto me sinto bem! Parece que renasci! Ó Vitorina, vai ver como está isso lá de cozinha. Tenho vontade de jantar. Vamos jantar logo, Joanhinha?... E se seu irmão nos aparecesse agora! Se ele me encontrasse de posse do seu quarto e dos seus livros, e a escrever as minhas novas Esperanças... Esperanças! – sorriu ela, acentuando a palavra. – Agora é que as esperanças de amanhã não hão de inquietar o bem

de hoje! Até agora o que eu esperava era isto... esta paz, esta doçura de viver, sem parentes, sem ninguém, senão com as pessoas que sacrifiquei, e me querem bem, apesar de tudo, não é verdade?

¯ Mas se seu marido a vem buscar, minha senhora!

¯ Buscar-me! Eu morri, ou ele morreu... não sei bem quem foi; mas o certo é que nos não veremos mais...

Àquela mesma hora, Hermenegildo jantava na cevadeira de Atanásio. Escarmentado pela ceia da véspera, não comeu empadão de ostras; mas fez-se em lagosta e salmão. Depois de jantar, reuniu os amigos, e completou as instruções a seguir sobre a segura arrecadação da sua “fortuna”, alienação fraudulenta de quintas, casas e navios, tudo incontinente para antecipar-se à tentativa de divórcio com a separação do casal, a requerimento de sua mulher. Ao anoitecer, meteu-se em carruagem, e foi para S. Roque da Lameira, ou para a Cruz da Regateira: não liquidamos com certeza em qual das paragens pernoitou. O sabido é que uma das frescassas moças de Barrosas o seguiu para o Porto, no dia seguinte por noite, e tomou as rédeas do governo da casa do brasileiro, e achou bonitas as cortinas do leito nupcial de Ângela, quando pela manhã um raio de sol, através das rendas, aureolava a cabeça de Hermenegildo, contornada no braço trigueiro dela.

E, quinze dias depois, o brasileiro, chorado e lamentado dos amigos, embarcava em um dos seus navios, aproando às praias de Santa Cruz, onde, dizia ele, ia esconder a sua vergonha, associando à sua angústia a franduna rapagoa, Rosa Catraia, que se lhe encostava ao coração, enjoada com o balanço da galera!

A colônia de brasileiros portuenses longo tempo chorou a sorte dura de Fialho. Ali, na Praça-nova e no Jardim de S. Lázaro, se apinhavam os magotes daquele gentio a escoucear na honra de Ângela. Enquanto uns diziam que ela passara a abarregar-se com o incógnito amante, outros asseveravam ter exatas informações de que a tal fidalga da Cascos-de-rôlhas cedo poria em almoeda a sua beleza. E os homens honestos do Porto jungiam-se na maledicência com a vara de javardos que retoiçavam e foçavam na infâmia uns dos outros. E sobre aquela gente chovia, e chove Deus toda casta de prosperidades! E a providência ter-lhe-á dado quanto tem e pode no dia em que enviar sobre ela uma nova chuva... de albardas.

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