Obras Literárias

março, 2017

  • 16 março

    Tristura

    Mário de Andrade “Une rose dans les ténèbres” Mallaemé Profundo. Imundo meu coração… Olha o edifício: Matadouros da Continental. Os vícios viciaram-me na bajulação sem sacrifícios… Minha alma corcunda como a avenida São João… E dizem que os polichinelos são alegres! Eu nunca em guizos nos meus interiores arlequinais!… Paulicéias, …

  • 16 março

    Tietê

    Mário de Andrade Era uma vez um rio… Porém os Borbas-Gatos dos ultra-nacionais esperiamente! Havia nas manhãs cheias de Sol do entusiasmo as monções da ambição… E as gigânteas! As embarcações singravam rumo do abismal Descaminho… Arroubos… Lutas… Setas… Cantigas… Povoar!… Ritmos de Brecheret!… E a santificação da morte!… Foram-se …

  • 16 março

    Quando eu Morrer Quero Ficar

    Mário de Andrade Quando eu morrer quero ficar, Não contem aos meus inimigos, Sepultado em minha cidade, Saudade. Meus pés enterrem na rua Aurora, No Paissandu deixem meu sexo, Na Lopes Chaves a cabeça Esqueçam. No Pátio do Colégio afundem O meu coração paulistano: Um coração vivo e um defunto …

  • 16 março

    Poemas da Amiga

    Mário de Andrade A tarde se deitava nos meus olhos E a fuga da hora me entregava abril, Um sabor familiar de até-logo criava Um ar, e, não sei porque, te percebi. Voltei-me em flor. Mas era apenas tua lembrança. Estavas longe doce amiga e só vi no perfil da …

  • 16 março

    Paisagem N° 3

    Mário de Andrade Chove? Sorri uma garoa de cinza, Muito triste, como um tristemente longo… A Casa Kosmos não tem impermeáveis em liquidação… Mas neste Largo do Arouche Posso abrir o meu guarda-chuva paradoxal, Este lírico plátano de rendas mar… Ali em frente… – Mário, põe a máscara! -Tens razão, …

  • 16 março

    Paisagem N.º 1

    Mário de Andrade Minha Londres das neblinas finas! Pleno verão. Os dez mil milhões de rosas paulistanas. Há neve de perfumes no ar. Faz frio, muito frio… E a ironia das pernas das costureirinhas parecidas com bailarinas… O vento é como uma navalha nas mãos dum espanhol. Arlequinal!… Há duas …

  • 16 março

    Os Cortejos

    Mário de Andrade Monotonias das minhas retinas… Serpentinas de entes frementes a se desenrolar… Todos os sempres das minhas visões! “Bon Giorno, caro.” Horríveis as cidades! Vaidades e mais vaidades… Nada de asas! Nada de poesia! Nada de alegria! Oh! os tumultuários das ausências! Paulicéia – a grande boca de …

  • 16 março

    Ode ao Burguês

    Mário de Andrade Eu insulto o burguês! O burguês-níquel o burguês-burguês! A digestão bem-feita de São Paulo! O homem-curva! O homem-nádegas! O homem que sendo francês, brasileiro, italiano, é sempre um cauteloso pouco-a-pouco! Eu insulto as aristocracias cautelosas! Os barões lampiões! Os condes Joões! Os duques zurros! Que vivem dentro …

  • 16 março

    O Domador

    Mário de Andrade Alturas da Avenida. Bonde 3. Asfaltos. Vastos, altos repuxos de poeira sob o arlequinal do céu oiro-rosa-verde… As sujidades implexas do urbanismo. Filés de manuelino. Calvícies de Pensilvânia. Gritos de goticismo. Na frente o tram da irrigação, onde um Sol bruxo se dispersa num triunfo persa de …

  • 16 março

    Moça Linda Bem Tratada

    Mário de Andrade Moça linda bem tratada, Três séculos de família, Burra como uma porta: Um amor. Grã-fino do despudor, Esporte, ignorância e sexo, Burro como uma porta: Um coió. Mulher gordaça, filó, De ouro por todos os poros Burra como uma porta: Paciência… Plutocrata sem consciência, Nada porta, terremoto …