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Estação Carandiru

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INTRODUÇÃO

Quando eu era pequeno, assistia eletrizado àqueles filmes de cadeia
em branco e preto. Os prisioneiros vestiam uniforme e planejavam fugas de
tirar o fôlego na cadeira do cinema.
Em 1989, vinte anos depois de formado médico cancerologista, fui gravar
um vídeo sobre AIDs na enfermaria da Penitenciária do Estado,
construção projetada pelo arquiteto Ramos de Azevedo nos anos
20, no complexo do Carandiru, em São Paulo. Quando entrei e a porta
pesada bateu atrás de mim, senti um aperto na garganta igual ao das
matinês do cine Rialto, no Brás. Nas semanas que se seguiram,
as imagens do presídio não me saíram da cabeça.
Os presos na soleira das celas, o carcereiro com a barba por fazer, um Pm
de metralhadora distraído na muralha, ecos na galeria mal iluminada,
o cheiro, a ginga da malandragem, tuberculose, caquexia, solidão e
a figura calada do Dr. Getúlio, meu ex-aluno no cursinho, que cuidava
dos pre-SOS COM AIDS.

Duas semanas depois, procurei o dr. Manoel Schechtman, responsável
pelo departamento médico do sistema prisional, e me ofereci para fazer
um trabalho voluntário de prevenção à AIDs. Na
conversa, o dr. Manoel me explicou que a situação da epidemia
na Penitenciária não era das piores se comparada à dos
7200 presos da Casa de Detenção, o maior presídio do
país, situado no mesmo complexo, de frente para a movimentada avenida
Cruzeiro do Sul, vizinho do metrô, a dez minutos da praça da
Sé, quilômetro zero de São Paulo.
O trabalho começou em 1989 e dura até hoje. Com o apoio da Universidade
Paulista/UNIP, uma instituição particular de São Paulo,
fizemos pesquisas epidemiológicas sobre a prevalência do HIV,
organizamos palestras, gravamos vídeos, editamos a revista em quadrinhos
O Vira Lata, um Carlos Zéfiro dos anos 90 escrito por Paulo Garfunkel
e desenhado por Libero Malavoglia, e atendi doentes. Com os anos, ganhei confiança
e pude andar com liberdade pela cadeia. Ouvi histórias, fiz amizades
verdadeiras, aprendi medicina e muitas outras coisas. Na convivência,
penetrei alguns mistérios da vida no cárcere, inacessíveis
se eu não fosse médico.

Neste livro, procuro mostrar que a perda da liberdade e a restrição
do espaço físico não conduzem à barbárie,
ao contrário do que muitos pensam. Em cativeiro, os homens, como os
demais grandes primatas (orangotangos, gorilas, chimpanzés e bonobos),
criam novas regras de comportamento com o objetivo de preservar a integridade
do grupo. Esse processo adaptativo é regido por um código penal
não escrito, como na tradição anglo-saxônica, cujas
leis são aplicadas com extremo rigor:

– Entre nós, um crime jamais prescreve, doutor. Pagar a dívida
assumida, nunca delatar o companheiro, respeitar a visita alheia, não
cobiçar a mulher do próximo, exercer a solidariedade e o altruísmo
recíproco,
conferem dignidade ao homem preso, O desrespeito é punido com desprezo
social, castigo físico ou pena de morte:

– No mundo do crime, a palavra empenhada tem mais força do que um
exército. Não é objetivo deste livro denunciar um sistema
penal antiquado, apontar soluções para a criminalidade brasileira
ou defender direitos humanos de quem quer que seja. Como nos velhos filmes,
procuro abrir uma trilha entre os personagens da cadeia: ladrões, estelionatários,
traficantes, estupradores, assassinos

e o pequeno grupo de funcionários desarmados que toma conta deles.
A narrativa será Interrompida pelos interlocutores, para que o leitor
possa apreciar-lhes a fluência da linguagem, as figuras de estilo e
as gírias que mais tarde ganham as ruas. Por razões éticas,
os casos descritos nem sempre se passaram com os personagens a que foram atribuídos.
Como diz a malandragem:

– Numa cadeia, ninguém conhece a moradia da verdade.

ESTAÇÃO CARANDIRU

– Cadeia é um lugar povoado de maldade.

Pego o metrô no largo Santa Cecília, na direção
Corinthians-Itaquera, e baldeio na Sé. Desço na estação
Carandiru e saio à direita, na frente do quartel da Pm. Ao fundo, a
perder de vista, a muralha cinzenta com os postos de vigia. Vizinho do quartel
abre-se um pórtico majestoso: CASA DE DETENÇÃO, EM letras
pretas. O portão da rua leva a um pátio de estacionamento lotado
de carros. Por ele circulam advogados, mulheres com sacolas e funcionários
corpulentos de calça jeans que falam do trabalho, riem uns dos outros
e mudam de assunto quando um estranho se aproxima. Há que cumprimentá-los
com decisão; caso contrário, dá vontade de gritar de
dor quando a mão é esmagada no aperto. Trinta passos para dentro
fica o predinho da Administração, fechado por um portão
verde no qual se acha recortado um portãozinho para pedestres. Para
entrar, não é necessário bater; bastá aproximar
a cabeça da janela do portãozinho que por telepatia o rosto
do porteiro aparece mal iluminado, lá dentro. A abertura obedece à
velha rotina das cadeias, segundo a qual uma porta só pode ser aberta
quando a anterior e a se guinte forem fechadas.

É de boa educação esperar sem inúteis demonstrações
de impaciência. Ouço a batida do destranque e caio na Ratoeira,
um átrio gradeado com dois guichês rasgados à esquerda,
para o visitante se identificar. De entre os guichês sai um corredor
que dá acesso à sala do diretor-geral, ampla e cheia de luz.
A mesa é antiga.

Na parede atrás dela, uma foto do governador. Mais abaixo, um dos
diretores, cadeeiro de muitos anos, afixou uma placa de cobre: “É
mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico
entrar preso na Casa de Detenção”. Retorno à Ratoeira,
espero abrir o portão interno e fico de frente para a muralha que circunda
a cadeia, vigiada por policiais militares armados com submetralhadoras. Passo
para a Divinéia, um pátio amplo em forma de funil.

Na parte estreita fica a sala de Revista Corporal, parada obrigatória
dos que entram, exceto médicos, diretores e advogados. Antes do acesso
aos pavilhões, é preciso entrar nesta sala e levantar os braços
diante dos revistadores, que se limitam a bater as mãos na cintura
e na face lateral das coxas do revistado. Revistar é outro ritual de
cadeia.

Engana-se, no entanto, quem julga pura encenação tão
mecânica revista: volta e meia alguém é flagrado com droga,
vai preso e cumpre pena nas dependências do coc (Centro de Observação
Criminal). Uma vez, cinco presos do pavilhão Cinco, armados de facas,
tomaram funcionários como reféns na Lavanderia, para conseguir
transferência de presídio. A porta da cadeia ficou cheia de polícia
e repórteres com câmeras. Um funcionário aproveitou a
confusão para entrar com um quilo e meio de cocaína. Foi pego
na Revista. Seu Jesus, diretor de Vigilância, ex-lutador profissional
de luta livre, hoje pastor protestante, fez o que pôde para identificar
o destinatário da encomenda: – É melhor contar. Olha a tua situação,
meu: de manhã, você chega no trabalho como chefe de família,
respeitado; à tarde, sai daqui preso. Vai pegar cinco ou seis anos
lá no coc.

Teus meninos, agora, são filhos de bandido. Tua esposa não
é mais senhora de um servidor público, é mulher de malandro.
O apelo emocional foi de pouca valia para a Vigilância. O convívio,
mestre persistente, havia ensinado ao carcereiro-traficante o mandamento supremo
da marginalidade:

– O Crime é silêncio.

Outro dia, um funcionário do pavilhão Oito, atarracado, de
bigode, quis entrar com um pacote de crack amarrado à face interna
das coxas. O revistador, que andava meio desconfiado, descobriu. Surpreendido,
o rapaz atarracado saiu correndo para dentro da cadeia com o objetivo de atingir
o Oito, no fundo do complexo, onde poderia contar com a ajuda dos proprietários
da droga para se livrar do flagrante. Não atingiu o intento; na correria,
foi derrubado pelos colegas.

Do lado da Revista fica a Copa da diretoria, construção recente
executada pelos próprios presos. Um deles, quando a obra estava no
final, fez questão de me mostrar o trabalho; com os olhos brilhando
de orgulho, apontava as tábuas do teto caprichosamente alinhadas por
ele e um companheiro estrábico que se perfilava a seu lado, balançando
vigorosamente a cabeça em anuencia completa às explicações
do marceneiro -chefe. No final, apertei-lhes a mão em despedida. Só
então escutei a voz empostada do ajudante:

– Reeducando Xavier às suas ordens, doutor.

A Divinéia é cheia de movimento durante o dia. Tudo o que
entra ou sai da cadeia passa obrigatoriamente por ela. Sem atravessá-la,
só pulando a muralha ou cavando túnel. Caminhões descarregam
comida, tijolos, madeira e material para o trabalho nos Patronatos, além
de retirar toneladas de lixo. Humanamente impossível revistar tudo
o que entra. Paralisaria o presídio. É na Divineia o ponto final
dos camburões que trazem os presos ou que os levam para fora: depoimentos
no Fórum, reconhecimento nos distritos ou transferência para
outros presídios – procedimento chamado de “bonde”, na linguagem
da cadeia. Os que chegam descem algemados pela porta de trás do camburão,
ofuscados pela luz repentina. À noite, com a Divinéia escura,
a cena de chegada na cadeia provoca melancolia.

A Detenção tem mais gente do que muita cidade. São
mais de 7 mil homens, o dobro ou o triplo do número previsto nos anos
50, quando foram construídos os primeiros pavilhões. Nas piores
fases, o presídio chegou a conter 9 mil pessoas.

Como o trabalho de carga e descarga fica por conta dos detentos, é
na Divinéia o meu primeiro contato com eles. Facílimo reconhecê-los,
basta olhar para a calça de cor bege, uniforme obrigatório.
Paletó é proibido, o cabelo tem que estar curto. Não
podem andar descalços, de peito nu ou a barba por fazer. Camisa, malha
e blusão são livres. A camiseta é soberana. A alvinegra
do Esporte Club Corinthians Paulista é disparado a mais popular, bate
as do Palmeiras, São Paulo e Santos somadas. Em época de Copa,
a da seleção tinge os corredores de canário, depois rareia
e desaparece. Camiseta-propaganda de político ninguém usa, pega
mal no ambiente.

Em minha direção vem um malandro desdentado, na ginga, sandália
de dedo e uma T-shirt impecável da New York University:

– Chegando, doutor?

– Estou. Como foi o fim de semana?

– Suave.

Na parte ampla do funil que é a Divinéia, o pátio é
fechado por um paredão com figuras natalinas pintadas anos atrás:
um pastorzinho contra o céu estrelado, montanhas com neve e três
ovelhinhas bondosas. Atrás delas, erguem-se os andares superiores do
pavilhão Seis, central.

Do lado esquerdo da Divinéia, há um bosque com macaquinhos
nos galhos e um coreto inútil. Entre as árvores, um caminho
asfaltado leva ao portão que conduz aos pavilhões Dois, Cinco
e Oito.
Do lado oposto, vizinho à Copa da diretoria, há um canteiro
de flores e uma fontezinha assentada num receptáculo de caco de cerâmica,
no qual um dia nadaram peixinhos or namentais. A fonte é despojada:
três discos revestidos com azulejos azuis, de diâmetros crescentes
do topo para baixo, concêntricos em torno de um eixo de concreto.

Do disco superior, escorre sobre os outros um minguado fio de água,
exausto para a tarefa de projetar-se ao alto e na queda oxigenar a água
em que viveram os peixinhos, conforme a concepção original.
É uma obra que não faz justiça à tradição
brasileira no campo dos chafarizes. Deste lado, em posição simétrica
à que dá acesso ao Dois, entre o jardim caipira e a fonte, fica
o portão de entrada para os pavilhões do lado direito da cadeia:
o da frente é o Quatro, depois vêm o Sete e o Nove. No último
andar do Quatro está situada a enfermaria, local de muitas histórias
contadas neste livro.

O CASARÃO

A Detenção é um presídio velho e malconservado.
Os pavilhões são prédios cinzentos de cinco andares (contado
o térreo como primeiro), quadrados, com um pátio interno, central,
e a área externa com a quadra e o campinho de futebol.

As celas ficam de ambos os lados de um corredor – universalmente chamado
de “galeria” – que faz a volta completa no andar, de modo que as
de dentro, lado 1, têm janelas que dão para o pátio interno
e as outras para a face externa do prédio, lado E. Paredes altas separam
os pavilhões, e um caminho asfalta do, amplo, conhecido como “Radial”,
por analogia a movimentada avenida da zona leste da cidade, faz a ligação
entre eles.
O portão de entrada dos pavilhões é guardado por um funcionário
sem armas nem uniforme. Para diferenciálos dos presos, os carcereiros
vestem calça escura ou jeans. É proibido entrar no presídio
com armas, exceção feita ao temido pelotão de Choque
da Pm, nos dias de revista geral.

As celas são abertas pela manhã e trancadas no final da tarde.
Durante o dia, os presos movimentam-se com liberdade pelo pátio e pelos
corredores. Cercade mil detentos possuem cartões de trânsito
para circular entre os pavilhões. São faxineiros, carregadores,
carteiros, estafetas, burocratas, gente que conta com a confiança da
administração, além daqueles que os conseguem por meios
ilícitos. Para os funcionarios, esse passa-passa torna a cadeia incontrolável,
e, se cada pavilhão pudesse ser isolado como unidade autônoma,
ficaria mais fácil vigiar.

Por segurança, a entrada do pavilhão é gradeada em
forma de uma gaiola constituída pela porta externa e pelas internas,
que bloqueiam o acesso à escada e à galeria do térreo.
O mesmo sistema de gaiolas repete-se na entrada de todos os andares. Com as
gaiolas trancadas, quem vem pela galeria é obrigado a abrir duas portas
para ter acesso à escada do andar e, ao atingir o térreo, outras
duas, na gaiola de baixo, para sair do pavilhão. Não há
portas elétricas como nos filmes: o abre e fecha é no braço.
No folclore do Casarão há muitas menções às
“ruas Dez” palcos tradicionais de disputas violentas.

Na verdade, rua Dez nada mais é do que o trecho da galeria oposto
à gaiola de entrada do andar, do outro lado do quadrado, longe da visão
dos guardas, que, para atingi-la, são obrigados a percorrer as galerias
laterais, onde ficam expostos à visão dos “olheiros”
estrategicamente dispostos nas duas esquinas da Dez, nos momentos mais agudos.
Não há briga de soco na rua Dez, paulada e facada é que
acertam diferenças sob o olhar excitado dos circunstantes.

O perdedor, quando sai vivo, desce para a Carceragem e pede transferência
de pavilhão, geralmente para o Cinco. O adversário melhora a
posição no ranking. Outras vezes, o condenado à morte
é atraído para lá e esfaqueado por um grupo de composição
variável. Nessas situações, há quem aproveite
para dar um golpe a mais mesmo em alguém que nenhum mal lhe causou.
O velho Jeremias, de carapinha branca, sobrevivente de quinze rebeliões
e pai de dezoito filhos com a mesma mulher, não considera a valentia
o ponto forte dos agressores:

– Tantos anos na cadeia, doutor, e nunca vi ninguém matar alguém
sozinho. Chega a juntar vinte, trinta, para meter a bicuda naquele que vai
morrer. Pode ser forte que for, não tem defesa. A cadeia perversa a
mente do sentenciado num tanto tal, que o cara está levando os golpes
muitos que não têm nada a ver com a fita pegam carona na desgraça
do alheio e soltam a faca também, só de maldade. Isso aqui,
é a maior covardia!

No térreo dos pavilhões ficam os setores de apoio: eletricidade,
hidráulica, uma sala de atendimento médico, a Carceragem com
os arquivos dos presos, a escolinha as igrejas. Em cima das mesas não
há computadores, apenas máquinas de escrever. Diante delas,
sentam-se funcionários auxiliados por equipes de detentos encarregados
da burocracia. Na parede, invariavelmente, há um quadro-negro com os
dados numéricos do pavilhão. O fluxo de transferências?
libertações é intenso.

A população da Casa é móvel: cerca de 3 mil
homens são libertados ou transferidos anualmente. Construída
para albergar apenas presos à espera de julgamento, a Detenção
transformouse numa prisão geral. Ao lado de ladrões primários
condenados a poucos meses, ali cumprem pena criminosos condenados a mais de
um século.

OS PAVILHÕES

Embora a arquitetura externa dos pavilhões seja semelhante, suas
divisões internas e a geografia humana são bem diferentes. Como
vimos, quem vem da rua para a Divinéia fica de frente para o pavilhão
Seis, central. Da entrada para o fundo, à esquerda, vêm os pavilhões
Dois, Cinco e Oito. À direita, em posição simétrica,
o Quatro e depois o Sete e o Nove.

PAVILHÃO DOIS

É a entrada da cadeia. Vivem ali oitocentos presos que cui dam da
Administração: Chefia, Carceragem, serviço de som e refeitório
dos funcionários. Além dos setores de apoio, no térreo
do Dois funcionam a alfaiataria, a barbearia, a fotografia, a rouparia e a
laborterapia, que controla a remissão de pena à qual fazem jus
aqueles que trabalham (para cada três dias trabalhados, o detento ganha
um de remissão da pena).

Ao chegar na Casa, o preso desce do camburão na Divinéia e
vai direto para o Controle Geral do Dois, encarregado de registrá-lo,
fotografá-lo e distribuí-lo para os diferentes pavilhões.
É no pátio interno do pavilhão Dois que acontece o ritual
de chegada: o detento é registrado, fica de cueca na frente de todos
e deposita a roupa na Rouparia. Recebe a calça cáqui, chamada
de “calça jega”. e corta o cabelo modelo “tigela”,
primeiro e último corte gratuito na cadeia.

O corte dos “triagens” é único. Parece, de fato,
que colocaram uma tigela pequena no topo da cabeça e passaram a máquina
zero da beirada para baixo. Dá ao recém-chegado um ar tosco,
especialmente no caso dos mais velhos.

Despersonalizado, o novato é recolhido na Triagem Um, no térreo,
uma cela de oito metros por quatro, lotada de acordo com o número de
detentos que a Casa recebeu naquele dia. Dali, no dia seguinte, vai para a
Triagem Dois, no terceiro andar, aguardar a distribuição, que
é feita obrigatoriamente por um dos três diretores: o diretor-geral,
o de Disciplina ou o de Vigilância. Fechada durante as 24 horas do dia,
esta cela chega a albergar sessenta, setenta e até oitenta homens,
dependendo do fluxo de entrada.

Quando ocorrem rebeliões nos distritos policiais, podem chegar cinqüenta
ou mais presos de uma vez só. Numa dessas, recentemente, duzentos detentos
vieram transferidos. Como se queixam os funcionários, sempre cabe mais
gente:

– Isso aqui é pior do que coração de mãe.

Ou, numa visão mais prosaica:

– Aqui desemboca o esgoto da cidade.

Na distribuição, o diretor reúne grupos de dez a quinze
triagens que, respeitosamente, de mãos para trás, ouvem as normas
da Casa:

-Vocês estão chegando na Casa de Detenção de
São Paulo para pagar uma dívida com a sociedade. Aqui não
é a casa da vovó e nem da titia, é o maior presídio
da América Latina. Aqueles que forem humildes e respeitarem a disciplina,
podem contar com os funcionários para ir embora do jeito que a gente
gosta: pela porta da frente, com a família esperando. Agora, o que
chega dizendo que é do Crime, sangue nos olhos, que é com ele
mesmo, esse, se não sair no rabecão do Instituto Médico
Legal, pode ter certeza que vamos fazer de tudo para atrasar a vida dele.
Gente assim, nós temos mania de esquecer aqui dentro.

Cuidado especial é dedicado à segurança dos recém-chegados.
Seu Jesus, diretor de Vigilância, tem uma forma peculiar de abordar
o problema:

– Se algum dos senhores por acaso tem dificuldade de relacionamento social
num dos pavilhões, não faça cerimônia, meu filho,
pode abrir o coração comigo. Deixa a gente ajudar agora, antes
que seus inimigos o façam.

A seguir, de um em um, para certificar-se do tipo de crime que resultou na
condenação e já prevendo a invariável negativa
de autoria, pergunta sério:

– Qual foi o delito que dizem que o senhor cometeu?

O critério de distribuição não é rígido,
mas obedece às regras básicas. Por exemplo, artigo 213 – estupro
– normalmente é encaminhado para o pavilhão Cinco; reincidentes,
no Oito; primários, Nove; e os raríssimos universitários
vão morar nas celas individuais do pavilhão Quatro. Na Triagem,
muitos pedem para ficar no próprio Dois. Devido à disponibilidade
de trabalho e, talvez, por situar-se na frente do presídio, mais próximo
da Administração, o pavilhão tem fama de tranqüilo:

– Lá é mais fácil correr atrás da liberdade.

PAVILHÃO QUATRO

Fica do lado oposto, simétrico ao Dois. Contém menos de quatrocentos
presos, alojados em celas individuais, caso único na Detenção.
Durante a triagem, quando o recém-chegado pede para ser designado para
o Quatro, o diretor responde:

morar.

– Não diga?… No Quatro, meu filho, até eu gostaria de

A intenção original era a de que fosse um pavilhão exclusivo
do Departamento de Saúde. De fato, no térreo estão os
xadrezes dos presos com tuberculose e no quinto andar funciona a enfermaria
geral. No entanto, por necessidade de proteção aos marcados
para morrer, a direção foi obrigada a criar um setor especial
no térreo, a “Masmorra”, de segurança máxima
o pior lugar da cadeia.

A Masmorra fica em frente à gaiola de entrada do pavilhão.
É guardada por uma porta maciça, ao lado da qual uma placa avisa
que é terminantemente proibida a entrada de qualquer pessoa não
autorizada. São oito celas de um lado da galeria escura e seis do outro,
úmidas e superlotadas. O número de habitantes do setor não
é inferior a cinqüenta, quatro ou cinco por xadrez, sem sol, trancados
o tempo todo para escapar do grito de guerra do Crime:

– Vai morrer!

Ambiente lúgubre, infestado de sarna, muquirana e baratas que sobem
pelo esgoto. Durante a noite, ratos cinzentos passeiam pela galeria deserta.

A janela do xadrez é vedada por uma chapa de ferro fenestrada, que
impede a entrada de luz. Por falta de ventilação, o cheiro de
gente aglomerada é forte e a fumaça de cigarro espalha uma bruma
fantasmagórica no interior da cela. Tomar banho exige contorcionismo
circense embaixo do cano na parede ou na torneira da pia, com uma caneca.

A Masmorra é habitada pelos que perderam a possibilidade de conviver
com os companheiros. Não lhes resta outro lugar na cadeia; nem nas
alas de Seguro, como o Amarelo do Cinco, por exemplo. Mofam trancados até
que a burocracia do Sistema decida transferi-los para outro presídio.
O nome “Masmorra” periodicamente chama a atenção da
imprensa e das organizações de defesa dos direitos dos presos
e obriga a Corregedoría a inspecionar o local.

Numa destas visitas o diretor-geral, irritado com o juiz corregedor que o
culpava pela situação desumana em que viviam os habitantes da
ala, propôs-lhe com firmeza:

– Doutor, vou abrir cela por cela e o senhor vai perguntar quem aceita ser
transferido daqui para qualquer pavilhão da Casa. Se eles estiverem
de acordo, transfiro todo mundo e fecho o setor na sua presença.

Após a abertura do segundo xadrez, o corregedor entendeu que o desejo
de cada um era mudar de presídio, só que se recusavam a sair
da Masmorra enquanto não cantasse a transferência, por se julgarem
protegidos naquele local.

Em dia de sol, no pátio do Quatro, o visitante vai encontrar muitos
presos em precárias cadeiras de roda. Quase sempre são ladrões
que perderam o movimento das pernas em tiroteios, e cumprem pena no Quatro
para cuidar das sondas urinárias e das escaras que não cicatrizam.
Além disso, podem utilizar o elevador do pavilhão, o único
que ainda funciona na cadeia. Os paraplégicos são muito respeitados
pelos companheiros, que costumam auxiliá-los nas tarefas diárias.

No segundo andar, há um trecho da galeria cujas celas são
identificadas com um cartão afixado: “DM” , sigla que identifica
os “doentes mentais”. O critério para lhes atribuir tal rótulo
é incerto, uma vez que não existe serviço especializado
em psiquiatria na Casa. Alguns dos DMS já chegaram com distúrbios
sérios de comportamento, outros entraram em surtos psicóticos
na própria cadeia e avançaram sem motivo para esganar o companheiro,
tentaram suicídio, desenvolveram quadros depressivos graves ou esgotaram
o cérebro no cachimbo de crack.

Genival, um dos habitantes do setor, diz que perdeu o juízo por causa
da visão de um senhor que ele matou num assalto:

– Quando a noite caía, a alma penada dele vinha me assombrar, na
escada, na galeria e até no xadrez trancado. Tentei me suicidar duas
vezes para escapar da perseguição.

Como nos manicômios do século xix, passam o tempo reclusos
em seus xadrezes. A medicação psiquiátrica que recebem
é praticamente a mesma para todos. A situação desses
presos só não é pior por causa da dedicação
comovente de um cearense de cabelo ondulado convertido a pastor do Exército
da Salvação, condenado a doze anos por crimes que ele dizia
fazer de tudo para esquecer, que chefiou por muito tempo um grupo de auxiliares
encarregados da higiene, da medicação e de dar comida na boca
dos que não conseguiam se alimentar. A falta de médicos especializados
em distúrbios psiquiátricos permite que a malandragem mau caráter
simule quadros psicóticos para se refugiar entre OS DMs e escapar da
vingança dos inimigos.

Como diz Bigode, um homem de caráter forte, antigo no pavilhão,
chefe de uma quadrilha de piratas no porto de Santos, cumprindo 213 anos:

– Para se livrar da patifaria que aprontou, ele finge que perdeu o juízo
e vem parar no meio dos DMS, no Quatro. Ama nhã vai para a rua e ainda
tira uma que cumpriu pena na Detenção, que ele é do Crime,
sangue bom.

O castigo destes pode vir através da medicação psiquiátrica
prescrita, que provoca impregnação e impõe dificuldade
de coordenação motora, tremores, descontrole dos esfincteres
e outras alterações neurológicas. Por imperativos de
segurança, discretamente a diretoria manda para o Quatro alguns estupradores
e justiceiros, bandidos geralmente contratados por comerciantes da periferia
para matar ladrões do bairro. Como o pavilhão é menos
populoso, mais tranqüilo, os praticantes desses delitos têm mais
chance de escapar da ira coletiva. A presença oculta deles, no entanto,
cria um clima de desconfiança em relação ao pessoal do
Quatro:

– Ali, ninguém sabe quem é e quem não é.

PAVILHÃO CINCO

É o que está em pior estado de conservação. Fica
do lado oposto ao Quatro, vizinho do Dois. Tem escadas com degraus desbeiçados,
fiação elétrica por fora das paredes infiltradas pelos
vazamentos, água empoçada e lâmpadas queimadas na galeria.
Nas janelas, a malandragem hasteia mastros para secar a roupa. Clima de cortiço.

É o pavilhão mais abarrotado da cadeia. Movimento intenso
nos corredores. Há momentos em que não se consegue alojar um
preso a mais sequer. Moram ali 1600 homens, o triplo do que o bom senso recomendaria
para uma cadeia inteira. Para tomar conta deles, a Detenção
escala de oito a dez funcionarios durante o dia e cinco ou seis à noite,
às vezes menos.

No primeiro andar, além da Carceragem, da enfermaria e da sala de
aula com uma biblioteca pobrezinha, fica a Isolada, um conjunto de vinte celas
que guardam de quatro a dez homens espremidos em cada uma. São detentos
pegos em contravenções locais, como porte de arma, pinga, tráfico,
desrespeito aos funcionários ou plano de fuga. Cumprem trinta dias
nesse lugar abafado, escuro, com ajanela coberta por uma chapa perfurada igual
à da Masmorra. Tranca dura, permanente. Os trinta dias sem sol.

Seu Lupércio, com mais de oitenta anos e dezenas de entradas e saídas
na Casa por fumar e vender maconha, diz que isso não é nada:

– Antigamente trancava tantos numa cela, que precisava fazer rodízio
para dormir. Metade ficava em pé, quietinho para não acordar
os outros. Na troca de turno é que aproveitava para urinar. Precisava
comer pouco, porque não podia evacuar o intestino no xadrez. Só
quarta e sábado, quando destrancava por uma hora para o banho e as
necessidades. Castigo durava noventa dias, não era essa moleza de trinta
como agora.

No segundo andar moram os presos integrantes da Faxina, encarregados da
limpeza geral e da distribuição das refeições,
além dos que trabalham nos patronatos, no judiciário e na entrega
das sacolas de alimentos trazidas durante a semana, para quem tem a felicidade
de contar com família.

O terceiro andar é conhecido como o dos estupradores e justiceiros,
também chamados de “pés-de-pato” , embora nem todos
os seus ocupantes pertençam a essas categorias. A experiência
recomenda colocar os estupradores junto com os justiceiros, para que os dois
grupos se protejam em caso de vingança da massa carcerária,
que não perdoa o estupro e odeia caçadores de ladrões.
No quarto andar moram os que não conseguiram lugar melhor, outros que
foram expulsos dos pavilhões devido a mau procedimento ou derrota em
disputas pessoais, além de mais estupradores e justiceiros. Nesse andar,
porém, o que chama a atenção do visitante é a
presença dos travestis, com as maçãs do rosto infladas
de silicone, calças agarradas e andar rebolado. Durante o dia, alguns
fazem ponto na porta das celas.

No último andar, à direita, fica a ala da Assembléia
de Deus, o grupo evangélico de presença mais forte na Casa.
São inconfundíveis: jamais calçam tênis, sempre
de sapato, camisa de manga comprida abotoada no colarinho e a Bíblia
preta desbotada. Moram na ala mais de quinhentas pessoas que rezam dia e noite
sob a supervisão de um enérgico pastor-chefe e seus auxiliares.
É uma igreja e um centro de recuperação ao mesmo tempo.

Vizinho dos crentes, à esquerda, ainda no quinto andar, fica o Amarelo,
um conjunto de segurança fechado 24 horas por dia. Vão para
o Amarelo os que estão ameaçados de morte e alguns infelizes
que, simplesmente, não têm onde morar. Vi vem no Amarelo de quinhentos
a seiscentos presos, quase 10% da população da Casa, pelo menos
seis ou sete em cada xadrez de três metros por dois de largura.

O Cinco é o pavilhão dos sem-família, dos sem-teto
e dos “humildes” Embora homens respeitados cumpram pena nas suas
dependências, no conceito da malandragem é o pavilhão
da ralé. Vi ladrão barbado chorar feito criança ao ser
transferido para lá.

Como na população local misturam-se justiceiros, estupradores,
delatores e presos que estão em dívida com outros, os habitantes
do Cinco, conscientes do perigo que correm, precisam estar preparados para
se defender. Podem passar anos em paz, mas um dia a cadeia vira e eles acabam
na ponta de uma faca. Como diz a malandragem:

-Aqui, quem tem mancada no Crime vive em sobressalto.

Por isso o Cinco, além de tradicional produtor de “maria – louca”
, a pinga destilada clandestinamente, é considerado o pavilhão
mais armado:

– O Cinco é a fábrica de faca da cadeia.

PAVILHÃO SEIS

Fica entre o Dois e o Quatro. É o único em posição
central no complexo. Tem cerca de trezentos presos. No térreo funcionou
a Cozinha Geral até 1995, quando ela foi desativada e a Casa passou
a receber a comida dos presos em quentinhas. As instalações,
no entanto, ainda continuam no local: enormes panelas de pressão com
o revestimento externo amassado, piso destruído, azulejos despregados
e goteiras do teto. À noite, a Cozinha abandonada parece cenário
de filme expressionista. No segundo andar há um auditório enorme,
no qual chegamos a reunir mais de mil detentos em palestras sobre prevenção
à AIDS.

Nesse local funcionou um cinema, até ser des truído numa rebelião.
Daí em diante ficou apenas o grande salão, com um palco de madeira
elevado, na frente. No segundo e no terceiro andar do Seis funcionam as salas
destinadas à Administração: Vigilância, Disciplina,
Departamento de Esportes, Judiciário e diretoria de Valorização
Humana.

As celas começam no quarto andar. Dois, três, cinco, até
quinze prisioneiros em cada uma delas. No quinto andar, um setor chamado mps
(Medida Preventiva de Segurança) foi criado como alternativa à
superlotação do Amarelo; entretanto, devido ao impacto desagregador
do crack na ordem interna, inaugurado, o mps lotou imediatamente.

Quem visita o Seis encontra rodinhas de homens negros falando uma língua
estranha. São nigerianos conversando no dialeto nativo (embora quase
todos falem inglês e às vezes português, com sotaque forte).
Fazem parte da conexão nigeriana do tráfico de cocaína,
detidos no país e aqui obrigados a cumprir pena.
Caçapa, um ladrão que cumpre cinco anos no Seis, que ganhou
20 mil dólares num assalto a banco, com os quais comprou um mercadinho
no bairro da Pedreira e, assim, atendeu aos apelos da mulher para que abandonasse
o crime e que seis meses depois, para não perder a moral, teve que
perseguir e matar os dois adolescentes que assaltaram o referido estabelecimento,
tem a respeito dos nigerianos uma opinião que reflete a da maioria:

– Se o senhor pergunta, eles respondem e não esticam o assunto; se
não pergunta, eles ficam na deles. Eles não são do Crime,
são aventureiros do tráfico, não ajudam e nem atrasam
a vida do ladrão, são humildes, sangue bom. A gente enaltece
a pessoa deles.

PAVILHÃO SETE

Quem está na Divinéia de frente para o pavilhão Seis,
central, fica com o Sete à sua direita, vizinho do Quatro. Os xadrezes
do Sete contêm de três a seis pessoas, no máximo, e a maioria
dos presos trabalha. No térreo, como nos outros pavilhões, funcionam
a burocracia, os setores de manutenção e o Patronato, que organiza
o trabalho encomendado de fora: colocar espirais em caderno, elásticos
em pastas, construção de miniaturas de barcos a vela (antiga
tradição das cadeias brasileiras), costurar bolas de futebol
e outras tarefas manuais.

No segundo andar mora a Faxina, constituída por um grupo de vinte
a trinta presos, e nos outros andares os demais habitantes, distribuídos
sem ordem aparente.

No quinto andar, estão os xadrezes reservados aos que cumprem castigo.
No pátio há uma quadra de esportes e dois campinhos de futebol
empoeirados, palcos de batalhas futebolísticas nas quais os atletas
não chegam propriamente a primar pela técnica, muito menos pela
elegância do vestuário.

O Sete foi construído para ser um pavilhão de trabalho e assim
permanece. A ocupação, as práticas esportivas e a relativa
ausência de superlotação são responsáveis
pela fama de calmo atribuída ao pavilhão. De fato, muitas vezes
passam-se dois ou três anos sem ocorrer uma única morte em suas
dependências. Por ser o pavilhão mais próximo da muralha,
no entanto, o Sete é o local preferido para as fugas subterrâneas:

– O Sete é a fábrica de túnel da cadeia.

PAVILHÃO OITO

Fica atrás, à esquerda, e forma, com o Nove, o “fundão”
do presídio:

– O problemático fundão.

O pavilhão é quadrado como os outros, porém enorme,
as galerias chegam a ter quase cem metros de comprimento. No total, moram
no Oito cerca de 1700 pessoas, mais de seis vezes a população
da prisão americana de Alcatraz, desativada nos anos 60.

No segundo andar ficam as celas dos faxineiros, de 150 a duzentos homens.
Nos andares de cima, nos xadrezes que dão para o pátio interno,
vivem em média seis pessoas. Já os da fachada externa do pavilhão
podem ser semicoletivos e albergar dois ou três homens, ou coletivos,
com dez a doze. No quinto andar há oito celas de Castigo, semelhantes
às dos outros pavilhões.

No térreo, além das seções burocráticas,
funcionam uma capela católica, os templos da Assembléia de Deus,
a Igreja Universal, a Deus é Amor e o Centro de Umbanda.

No pátio do Oito, além de uma quadra esportiva, está
o maior campo de futebol da cadeia. No chão batido são disputados
os campeonatos internos e as partidas contra os times da rua que a convite
enfrentam a seleção da cadeia. Nessas ocasiões, pobre
daquele que desrespeitar um visitante. Os xadrezes do Oito, assim como os
do Sete, do Cinco e do Nove, têm proprietários, prática
tradicional da Detenção que será explicada mais adiante.
Por isso, quem não tem de trezentos a quatrocentos reais para comprar
a cela de um companheiro vai morar nas “duchas” do Oito. Nestas,
anteriormente destinadas aos banhos coletivos, moram de seis a dez pessoas
num espaço de três metros de comprimento por dois. Há
uma ducha no terceiro, no quarto e no quinto andar. A principal característica
do Oito, no entanto, não está na planta física ou na
superlotação, mas na paisagem humana. Vão para lá
os reincidentes no crime; réus primários são raros. A
concentração de presos conhecedores das leis da cadeia estabelece
regras de comportamento bem definidas.

Rolney, um ladrão da zona sul que cumpriu doze anos no pavilhão
e foi libertado, mas retornou porque ao surpreender a mulher morando – na
casa que era dele – com seu melhor amigo, convidou o rival para uma cerveja
no bar da favela e quando este tentou consolá-lo dizendo que a vida
era assim mesmo, matou-o com dois tiros para provar que não, caracteriza
o Oito da seguinte forma:

– Aqui mora quem já passou pelo jardim-de-infância da cadeia.
Entre nós não existem meias palavras. Não pode confundir
a com b. Ou é ou não é. Se não é, morreu.

Gersinho, portador do vírus da AIDs, dezenove anos, assaltante primário
aceito no pavilhão porque um ladrão que o viu nascer, e que
talvez tenha sido namorado de sua mãe, convidou-o para morar em seu
xadrez, diz que aprendeu muito com a convivência:

– No Oito, cada qual carrega sua cruz, calado. O sofrimento dos anos de
cadeia ensina o sentenciado a se trancar na própria solidão.
É uma escola de sábios.

O pavilhão é para aqueles com nome feito no Crime. Geralmente,
o habitante do Oito é mais velho e não se envolve em confusão.
Olha, escuta e fica quieto.
Não age, reage:

– Faz como a cascavel: só dá o bote quando pisam nele.

PAVILHÃO NOVE

Faz par com o Oito, no fundo. Chega a ter mais de 2 mil presos, a maioria
condenada pela primeira vez. As dimensões, a organização
dos setores de serviço e a distribuição dos xadrezes
é a mesma do Oito. As semelhanças param por aí, entretanto.

No Nove, existem duas celas de triagem com um número de prisioneiros
que pode chegar a trinta, dormindo no chão, espremidos, tomando cuidado
para não encostar o rosto nos pés do companheiro. As Triagens
ficam trancadas o tempo todo. Os presos só descem para receber as visitas
aos domingos ou às quartas-feiras das oito às quinze, quando
são liberados para procurar xadrez, tarefa árdua para os novatos
desconhecidos, porque o direito de posse da moradia, como dissemos, é
dos ladrões há muito tempo. Na reforma que o pavilhão
sofreu depois do massacre de 1992, os beliches de madeira varados de bala
foram substituídos por lajes de concreto. Por essa razão, no
Nove, quem não tem condições financeiras para comprar
um xadrez inteiro pode adquirir apenas o direito de exclusividade da “pedra”,
ou cama.

Assim que os triagens chegam, os outros sobem para ver se entre eles há
amigos ou inimigos. Nesse caso, o desafeto é ameaçado de morte
e tem duas alternativas: pedir refúgio, desmoralizado, no Amarelo do
Cinco, ou enfrentar o desafio e as facas do inimigo e seus parceiros. Como
dizem os funcionários:

– O Nove é um pavilhão de encontro.

Embora a direção propositalmente mantenha alguns presos mais
experientes no Nove, a alta concentração de jovens impetuosos
é responsável pelas freqüentes confusões criadas
no pavilhão.

Imediatamente depois do massacre de 1992, um faxineiro do Oito condenado
a 27 anos por assalto a um banco na XV de Novembro, no centro de São
Paulo, no qual perdeu a vida o gerente, fez a seguinte crítica aos
companheiros do Nove:

– É tudo cabeça- de-bagre, doutor. No meio de uma bagunça
daquelas, deixar os funças ir embora e ficar só os presos para
dentro do pavilhão é pedir para a PM invadir. Um barato daqueles
jamais teria se passado no Oito.

Majestade, assaltante dos anos 70 que cumpre pena há vinte anos sem
sair do Nove, diz que a diferença em relação ao Oito
é a seguinte:

– Em nenhum dos dois pode pisar no ovo, só que no Oito é você
mesmo que coloca o ovo. No Nove, são os outros, e ainda espalham sabonete
no chão para escorregar.

O BARRACO

A cela, xadrez ou barraco é a unidade funcional da cadeia. Suas dimensões
variam sem lógica aparente: algumas, até espaçosas, são
individuais; em outras, espremem-se sete, oito, vinte ou, como nas de Triagem,
sessenta homens.

Há muitos anos a direção da Casa perdeu o direito de
posse nos pavilhões maiores, como o Cinco, o Sete, o Oito e o Nove.
Nesses, cada xadrez tem dono e valor de mercado. No pavilhão Cinco,
custam mais barato: de 150 a 200 reais; no Oito há um xadrez de luxo
com azulejos de primeira, cama de casal e espelhos que vale 2 mil.

A origem da propriedade perde-se no passado, quando os recursos da Casa
começaram a minguar e a manutenção das celas ficou por
conta dos próprios detentos, como explica Juscelino, um mineiro de
sorriso encantador que comprava maconha no sertão de Pernambuco e voltava
de ônibus-leito com a droga na mochila:

– O companheiro gasta o dele no melhoramento do barraco. Depois, a polícia
vai querer colocar outro lá para morar de graça. Cadê
a justiça?

Na opinião do dr. Walter, que começou ainda menino como carcereiro,
formou-se advogado e chegou a diretor-geral do presídio, para resolver
o problema seria preciso transferir todos os detentos, fechar a cadeia e começar
de novo:

– No meio da noite, o senhor manda o preso para um xadrez. De manhã,
ele sai e diz que não fica de jeito nenhum;sem explicar por quê.
Pode insistir, ameaçar, fazer o que quiser que ele não volta;
tem medo de morrer. Há xadrez em que o dono é libertado e deixa
um inquilino pagando aluguel ou um amigo morando de graça. Se o proprietário
voltar para a Detenção, o outro tem que devolver o imóvel.
Veja a que situação chegamos!

No início a diretoria chegava a expulsar os ocupantes de uma cela
e trancava-a por quinze dias. Quando resolvia abri-la era inútil: preso
nenhum aceitava morar nela.

A situação é especialmente adversa para os que chegam
na cadeia sem amigos nem dinheiro. Valtércio, um arrombador de carros
que, num dia de Copa, roubou oito televisores no portamala dos automóveis
estacionados nas imediações do Fórum e mais tarde foi
à falência num acerto com a polícia, constatou com amargura:

– É a situação do país, doutor, ter que pagar
para morar na cadeia.

A luz entra pelas barras da janela, a “ventaria”, ilumina o xadrez
e bate na porta, na parede oposta. A porta da cela é maciça,
metálica, equipada com uma tranca que corre por fora, na qual é
preso um cadeado forte. A presença desse cadeado, porém, não
garante segurança a quem está trancado, pois no ambiente existem
exímios praticantes da arte de abrir, ou “michar”, qualquer
tipo de fechadura. Por essa razão, alguns soldam uma alça de
metal na parte interna da porta, outra no batente e prendem um cadeado entre
elas, para se trancar por dentro. A prática é contra o regulamento
e pode custar trinta dias na Isolada.

Uma noite, no pavilhãatilde;o Cinco, durante a distribuição
do segundo número do Vira Lata, perguntei através da janelinha
de uma cela às escuras quantos moravam ali, para saber o número
de gibis a entregar. Um negro forte acordou, pulou da cama e avançou
para a porta com uma faca enorme na mão esquerda (pela rapidez com
que a sacou, ela só podia estar escondida embaixo do travesseiro).
Até entender o que se passava ele ficou ali, imóvel, com olhos
de terror, a faca apontada na direção da porta. É pouco
provável que confiasse na firmeza da tranca.

Na parte central da porta, abre-se uma pequena janela basculante, o “guichê”,
fechado por uma cortininha interna através da qual passam as entregas
e efetuam-se as duas contagens diárias, ritual rigorosíssimo
da cadeia. O guichê é suficientemente amplo para permitir a passagem
da cabeça de um homem, expediente utilizado para xeretar a galeria
no horário da tranca. Para garantir a privacidade do espaço
interno, pendura-se no teto, um pouco atrás da porta, o “come
quieto” um lençol que vem quase até o chão.
Ao contrário das prisões do cinema, em que as portas são
gradeadas para expor os prisioneiros à vigilância permanente,
na Detenção, os homens trancados nas celas não são
vistos por quem passa na galeria. Se os carcereiros querem saber o que acontece,
devem se restringir ao campo visual do guichê ou abrir a cela. Quando
a situação é mais séria e decidem pela segunda
opção, a boa técnica manda fazer os prisioneiros saírem
pelados e colar as mãos à parede da galeria oposta ao xadrez.
Toda cela tem um vaso sanitário velho mas geralmente limpo, o “boi”,
de formas variadas. Alguns são daqueles antigos, do tipo francês,
com um buraco e dois apoios para os pés; outros são os clássicos
vasos de louça encravados num cone invertido de concreto. As privadas
terminam num buraco seco, por onde corre a descarga.

Por asseio, os presos jogam água fervente depois que o último
usou o banheiro, à noite. Os mais cuidadosos tapam o buraco da privada
com um saco plástico cheio de areia, para evitar odores, baratas e
os ratos do encanamento. Para não manipular diretamente o saco, prendem-no
a uma cordinha que passa por uma roldana fixada à parede.

Todas as celas têm uma pia e um chuveiro ou pelo menos um cano com
saída de água na parede. Muitos gozam do conforto de duchas
elétricas, que podem ser vendidas num momento de aperto ou aflição
do corpo implorando cocaína. No pavilhão Oito, num xadrez coletivo
de 27 homens, no fundo, havia um banheiro com um cano quase encostado à
parede, através do qual escorria um fio de água. Apesar da ginástica
a que eram obrigados, ai daquele que não tomasse o banho diário,
mesmo no frio de junho. Os mais velhos cuidavam de impor essa obrigação
aos novatos.

É grave a situação da parte hidráulica. Os vazamentos
fazem parte da rotina; infiltram paredes, inundam galerias, o pátio
interno e o interior das celas.

Alguns canos Já foram tão emendados que os consertos ficam
complicados. Os beliches são de alvenaria ou madeira, às vezes
engenhosamente colocados em cima da porta, junto às grades da janela
ou tão próximos do teto que seus ocupantes se esgueiram como
cobras para entrar no exíguo espaço. A este dão o nome
de “galhada”.

A privacidade no leito é obtida com cortinas coloridas que correm
em fios presos ao beliche de cima ou diretamente no teto.

– O cortinório é de lei, devido que senão, tem gente
olhando para mim o tempo todo. Sabe lá o que é isso, doutor,
entra ano e sai ano, nenhum minuto o senhor poder ficar na sua? É onde
que muito companheiro de mente fraca perde as faculdades e dá cabo
da própria existência.

Nos grandes xadrezes coletivos, como os de Triagem, com sessenta, setenta
pessoas, as camas são substituídas por
colchonetes de espuma de borracha, dispostos lado a lado no chão. A
redução do espaço pode ser tal que os homens dormem invertidos,
os pés de um no rosto do companheiro:

– Que não tem cabimento ficar dois malandros esfregando o nariz um
no outro.

Os menos afortunados sequer têm acesso ao pequeno conforto da espuma,
pois os tais colchõezinhos faltam ou são vendidos para pagar
dívidas, como é rotina entre os craqueiros. Nesta situação,
deitam-se sobre cobertores ou pedaços de papelão, a sandália
de dedo como travesseiro.

Nas Triagens, com os homens chegando e saindo o tempo todo, a prioridade
na escolha do espaço é estabelecida por critério temporal:

– Quem por último chega, rói o pescoço. Não
tem o que perguntar, já vai se aninhando do lado do boi. Só
sai dali no dia que entrar um mais recruta.

A mobília é rústica; pequenos guarda-louças,
cabides para as roupas e prateleiras para os objetos pessoais, além
de bancos toscamente construidos com a madeira que aparece ninguém
sabe de onde. Num final de ano, a prefeitura de São Paulo instalou
um palco junto ao campo do pavilhão Oito, para um show no qual vários
conjuntos se apresentaram, inclusive o Reunidos por Acaso, tradicional grupo
de pagode da Casa.

Dois ou três dias depois, quando os organizadores apareceram para desmontar
as instalações, descobriram que o palco havia desaparecido ou,
como prefere dizer a malandragem, tinha sido “passado na seda”:

-Tantas tábuas dando moleza, doutor, nós no maiores gano; caiu
do céu…

Uma peça fundamental em qualquer xadrez é o fogareiro: um tijolo
com um sulco esculpido pelo qual serpenteia uma resistência elétrica
ligada à fiação que corre por fora da parede.

Muitos, ao receber as refeições, lavam os alimentos, adicionam-lhes
outros temperos e cozinham tudo de novo, procedimento que leva o nome de “recorte”.
Demonstrar habilidades culinárias pode ser decisivo na luta por uma
vaga num xadrez decente. Em troca da moradia o “barraqueiro”, como
é chamado o recortador, cuida da alimentação de todos.
A comida servida pela Casa é triste. Depois de alguns dias, não
há cristão que consiga digeri-la; a queixa é geral. Os
que não têm ganha-pão na própria cadeia ou família
para ajudar, sofrem. Riquíssima em amido e gordura, a dieta, entretanto,
engorda. Obesidade aliada à falta de exercício físico
é um dos problemas de saúde da Detenção.

As galerias são lavadas todo final de tarde pelos “faxinas”,
um grupo de homens que constitui a espinha dorsal da cadeia, como veremos
mais tarde. Tudo é limpo, ninguém ousa jogar lixo nas áreas
internas. É raro ver um xadrez sujo, e, quando acontece, seus ocupantes
são chamados de maloqueiros, com desdém. Na Copa de 94, assisti
Brasil versus Estados Unidos num xadrez com 25 presos, no pavilhão
Dois.

Não havia um cisco de pó nos móveis, o chão dava
gosto de olhar. Em sistema de rodízio, cada ocupante era responsável
pela faxina diária: após o café da manhã, ensaboar
e escovar o chão, jogar um tacho de água fervente nos dois sanitários,
tirar pó dos móveis e bater os tapetinhos; terminado o almoço,
varrer bem varrido e água fervente nos bois; depois do jantar, água
e sabão, lavar tudo de novo, enxugar e colocar os tachos no fogareiro
para a limpeza final, pelando, nas privadas. Sabiá, ex-motorista da
prefeitura que usava o carro oficial para entregar cocaína no centro
da cidade, até que se apaixonou por uma mocinha da repartição
e foi entregue à polícia pela esposa traída, explica
o sistema:

– Passamos vários anos neste lugar; tem que zelar como se fosse nossa
casa. Eu limpo hoje e só serei encarregado daqui a 26 dias. Não
teria desculpa para não fazer no maior capricho. Outra, também,
é que não ia dar certo. Querer bancar o espertinho, entre nós,
tudo malandro, ó, nunca tem final feliz.

As roupas molhadas são estendidas na própria cela, em cantos
do corredor ou presas a um pau hasteado através da janela. Muitos ganham
a vida lavando para fora.

Uma vez, presenciei uma discussão na galeria do pavilhão Cinco
porque os fregueses da Jaquelina, uma travesti lavadeira e passadeira presa
por aplicar o golpe do suador, segundo o qual seus clientes eram surpreendidos
em plena atividade sexual pelo amante dela armado de revólver, descobriram
que ela ensaboava as roupas na água da privada. Revoltados, xingaram-na
de suja, maloqueira e babá. Jaquelina, empertigada, com as mãos
na cintura, garantia que o boi de seu xadrez era mais limpinho do que a cama
em que dormiam aqueles vagabundos sem classe.

Mulheres nuas decoram paredes, armários e, caracteristicamente, a
face interna das portas. São escandalosas, recortadas de revistas masculinas,
trocadas ou vendidas em pequenas bancas armadas na galeria, expostas ao lado
de pacotes de macarrão, pó de café, latas de ervilha
e tênis usados. As mais populares são as loiras, de quatro, fotografadas
por trás, com o olhar provocante voltado para o espectador. Não
há pudor em misturá-las com imagens de santos, iemanjás,
Nossa Senhora Aparecida ou o piedoso Coração de Jesus, em coloridos
painéis ecumênicos.

Retratos de homem, jamais; só se for do pai, do irmão ou de
artista em cela de travesti. Aqueles que têm mulheres ciumentas ou religiosas
recolhem cuidadosamente suas musas na véspera da visita, deixando solitários
os santos nas paredes.

Nos xadrezes mais cuidados, o conjunto de cortininhas, tapetes bordados,
colchas de retalhos e imagens de santo confere ao ambiente um jeito de casinha
caipira. O xadrez é espaço sagrado. É preciso muita confiança
para entrar sem convite na cela de um companheiro. Ainda assim, como diz seu
Jeremias, aquele senhor pai de dezoito filhos com a mesma mulher, firme de
caráter, cumprindo sete anos desta vez:

– Sem o proprietário estar lá, você não entra.
Por mais intimidade que teja ou não teja. É mancada grave! Já
vi nego morrer por um pão. O cara tinha muita amizade com o outro,
fumou maconha, ficou com larica e entrou no xadrez enquanto o amigo estava
no Fórum. Tinha dois pãezinhos; comeu um. O outro voltou e disse
que tinha guardado o pão para não ter que comer a janta fria.
Pronto: de madrugada, matou ele dormindo.

Surpreendidos furtando, os “ratos de xadrez”, como são rotulados,
apanham de pau e faca. Chegam na enfermaria dizendo invariavelmente que caíram
da escada, ensangüentados, cabeça rachada, o corpo marcado de
vergões e facadas superficiais, especialmente na região glútea,
castigo imposto quando se decide desmoralizar o contraventor. Dessa forma,
os ladrões tornam explícito que seu código penal é
implacável quando as vítimas são eles próprios.

– Ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão, só
que quando a gente pega é problema.

SOL E LUA

O dia começa às cinco para a turma que serve o café
da manhã. Moram todos juntos, geralmente no segundo andar do pavilhão,
e fazem parte da confraria da Faxina, que é a espinha dorsal da cadeia,
como foi dito. Carregam os pães e grandes vasilhames com café
em carrinhos de ferro. Pelo guichê das celas trancadas surgem canecas
e bules amassados, à medida que o grupo passa. Os inimigos da aurora
deixam a vasilha de café no guichê da porta e penduram um saco
plástico para receber o pãozinho com manteiga e evitar o suplício
de sair da cama.

Ainda no escuro, acendem-se as luzes dos barracos, em silêncio, para
respeitar o sono alheio, como explica o SemChance, um mulato franzino que
ganhou o apelido de tanto repetir essas palavras no final das frases: – Tem
que ser na manha. Se acordar cedinho, todo mundo dormindo, se for urinar no
boi e der descarga ou fazer qualquer zuadinha, o senhor tem que mudar de xadrez.
Acordar vagabundo, é sem chance. Perto das cinco da manhã, os
carcereiros do noturno efetuam a contagem. Para tanto, obrigam a malandragem
a pular da cama e postar-se diante do guichê, para ter certeza de que
estão todos presentes e vivos antes da entrega do plantão. Segundo
um dos funcionários que há anos exerce essa atividade:

– Nessa hora, cara feia ali é mato.

Às oito começa o destranque. A partir das gaiolas dos andares,
sai um grupo de funcionários pela direita e outro pela esquerda da
galeria. Com um molho de chaves, o da frente abre os cadeados; o que vem atrás
retira-os e puxa a tranca. Sons metálicos reverberam pelo corredor.
Das celas, como formigas, os homens saem silenciosos.

Nos pavilhões de trabalho, eles rapidamente assumem seus postos.
Outros, como os costuradores de bola de futebol, por exemplo, exercem suas
atividades no próprio xadrez. Muitas vezes me detive diante deles,
admirando a elegância com que costuram. Trabalham sentados, os gomos
da bola presos entre os joelhos, e, a palma das mãos protegida por
tiras de couro, passam as laçadas com movimentos rítmicos, precisos,
para ca e para o outro lado, até o ponto da amarra. É um balé
manual.

Embora a vagabundagem empedernida resista no leito, o vaivém é
infernal na galeria e na escada gasta pelo uso. Andam invariavelmente depressa,
sobem os degraus de dois em dois; mal acabam de descer para o campo, voltam
ao xadrez e, de novo, para baixo. Parecem homens de negócios com hora
marcada.
O corre-corre sossega lá pelas nove, estranha hora de servir, ou “pagar”
, o almoço. Como não existem refeitórios gerais nos pavilhões,
novamente entra em ação o grupo de faxinas. Com as portas abertas,
agora o ritual do serviço é um pouco diferente daquele do café:
cada um deve estar em seu xadrez, a galeria livre para a passagem do carrinho
com as pilhas de quentinhas ou, quando ainda funcionava a Cozinha Geral, com
tachos de arroz, feijão e a mistura de carne com batata e cenoura,
o popular “picadão” , A presença na galeria neste
momento delicado é interpretada como um atentado à higiene alimentar
e punida com severidade.

Uma vez, atendi um grandão, estrábico, cabelo escovinha, cheio
de escoriações. Alegava ter caído da cama, mentira evidente
pelas características dos ferimentos. A verdadeira história
pouco depois eu ouvi do Pequeno, um rapaz de língua presa, de um metro
e meio de altura, que deu fim à vida de quatro Pms que, segundo ele,
mataram seus pais: enquanto os faxinas serviam o almoço, o grandão,
distraído, saiu na galeria com a camisa aberta e uma toalha no pescoço.
Imediatamente, um dos faxineiros virou-se para ele:

– Tu é bem folgado, simpatia.

Foi a senha para os outros faxinas empurrarem o grandão para a rua
Dez, baterem nele e voltarem ao trabalho, como se nada tivesse acontecido.

O velho Lupércio, maconheiro, convicto, conta que no tempo em que
havia respeito, nas refeições estendia-se um cobertor Parahyba
no chão do xadrez e sobre ele colocavam-se os pratos. Então,
o que estava preso há mais tempo naquela cela escolhia o seu; o mais
novo era o último a se servir. As regras de comportamento no horário
da comida eram rígidas:

– Nessa hora não podia usar banheiro, escarrar, tossir e muito menos
chupar dente, que tomava paulada no ato. No período da manhã
se concentra o grosso das atividades esportivas e de lazer: futebol, boxe,
capoeira, halterofilismo, música e as aulas. A mais popular é
disparado o futebol. Nos jogos, quando a bola mal chutada vai parar na canaleta
da muralha, o PM que estiver passando por ali dificilmente a devolve ao campo.

A explicação para o descaso – dada por um policial transferido
para essa função após a morte de um colega, seguida do
fuzilamento de quatro membros da quadrilha que o matara – é vocacional:

– Não entrei na Pm para ser gandula de vagabundo.

Os campeonatos são organizados com regulamento que é posto
no papel, depois de discussões intermináveis, pelo pe soal da
FIFA (Federação Interna de Futebol Amador), um grupo unido de
detentos experientes e respeitados, escolhidos por eleição direta
entre os times de futebol de cada pavilhão, comandados pelo diretor
do Departamento de Esportes, o funcionário Waldemar Gonçalves,
que tem o hábito de mascar cravos que ele guarda numa latinha de pastilhas
Valda.

No meio de tantos jogadores é possível montar uma seleção
geral de bom nível técnico, o que não evita resultados
desastrosos contra excelentes times de várzea convidados para enfrentá-los.
Essas derrotas ocasionais, embora decepcionem a malandragem, jamais provocam
reações desrespeitosas contra os visitantes. Seu Reinaldo Drumond,
um funcionário da portaria, negro, forte como touro, uma vez propôs
trazer um time do bairro para enfrentar a seleção da cadeia
e justificou para o Waldemar:

– Eu sei que eles vão perder, que o time da malandragem é
forte. Mas a minha intenção é fazer que quem está
se desviando lá na Vila, pensando em entrar para o crime, venha ver
aonde é que leva essa vida.

Anos atrás, num dos campeonatos para seniores, jogadores com mais
de trinta anos, fui convidado a dar o pontapé inicial. Honrado pela
escolha, que partiu justamente dos mais velhos na cadeia, não só
dei o referido pontapé como procurei assistir aos jogos. Na partida
decisiva? time do pavilhão Oito venceu o do Dois, por três a
um.

No final, os atletas reuniram-se ao redor da mesinha do representante da
FIFA disposta na lateral, bem na metade do campo, para as premiações.
Havia um prêmio especial para os jogadores que mais se destacaram no
time dos campeões e vices. O Waldemar me passou uma medalha pendurada
numa fita azul e branca e anunciou o nome do melhor jogador do time do Dois,
o vice-campeão.

Era o Gaúcho, um zagueiro com cara de amazonense, que tinha chegado
na periferia de São Paulo há vinte anos, como assentador de
azulejo. Foi bem no trabalho, até fazer amizade com um ladrão
da vizinhança e, por causa dele, meter-se numa briga em que perderam
a vida dois contendores. Como conseqüência, fugiu de casa, perdeu
emprego, tudo o que tinha, e acabou sócio do amigo ladrão, que
não lhe faltou nessa hora.

Depois de lhe pendurar a medalha no pescoço, estendi a mão
para cumprimentá-lo. Ele tremia de emoção, o olho úmido
apertado Para não trair o sentimento, brilhando como o das crianças
premiadas na escola primária. Ao redor de duas, três da tarde,
já é servida a janta, obedecendo ao mesmo ritual de faxinas,
carrinhos, galerias vazias e respeito obsessivo pela higiene. Dessa hora em
diante, quem tiver fome que se vire por conta própria. Os horários
esdrúxulos das refeições justificam-se em função
da contagem, que deve acontecer às cinco da tarde. Daí a importância
do recorte e a necessidade dos “jumbos”:

– O jumbo é a sacolada que a família traz para nós
na visita ou deixa na portaria nos dias de semana. Ajuda muito, embora que
tem uns cabeça-de-bagre que passam o Jumbo na seda para pagar dívida
de droga.

Às dezessete horas, todos são recolhidos a seus andares e as
gaiolas são fechadas. As celas permanecem abertas até as sete
e meia, exceto as daqueles cujas atividades justifiquem a permanência
fora do xadrez, como os faxinas e os enfermeiros, por exemplo. A tranca é
outro dos rituais da cadeia: a galeria está movimentada, cheia de luzes,
feijão no fogo, as portas abertas com as mulheres peladas voltadas
para lado de fora, vozerio, pagode no radinho, entra-e-sai com panelas e roupas.
De repente, um funcionário aparece na gaiola do andar e bate seguidamente
um cadeado contra a grade ou um cano contra o chão: péim, péim,
péim, ritmado, sem parar. Corre cada um para o seu xadrez; depressa,
porque a tranca impõe respeito. Em pares os carcereiros começam
a fechar: o primeiro pendura o cadeado na alça, o que vem atrás
puxa a tranca e trava o cadeado. Tudo rápido, ninguém pode ficar
de fora.

Vacilou, na primeira vez tem o nome anotado; na reincidência, são
trinta dias de castigo na Isolada, inesquecíveis. Os funcionarios justificam
o rigor:

– Se não for enérgico vira bagunça, doutor. Aqui é
tudo malandro, a maioria sem ocupação, a não ser ficar
de olho numa vantagem. Se der moleza uma noite, na seguinte o senhor não
tranca mais ninguém.

Fechadas as celas, nas galerias ouve-se o barulho de pratos, falatório,
risadas, as vozes do Aqui e Agora e o jornal Nacional. Depois, gradativamente,
as luzes se apagam e o silêncio cai pesado. Mesmo os notívagos
que assistem filme até acabar a programação tomam cuidado
com volume da Tv, porque sono de malandro é sagrado.

Sem a agitação do dia, sem o sobe-e-desce e o entra-e-sai,
a cadeia perde a face humana, transforma-se num casarão ermo, galerias
escuras e os altarezinhos de Nossa Senhora Aparecida com vela acesa e vaso
com flor de plástico.

Tarde da noite, andando por esses corredores mal-assombrados, com o silêncio
quebrado por uma tosse anônima, o miado de um gato, a porta que bate
ao longe, entendi por que os suicídios acontecem de manhã, depois
de noites de depressão ou pânico claustrofóbico, espremidos
entre os outros, sem poder chorar:

– Homem que chora na cadeia não merece respeito.

Seu Lupércio, criado num orfanato de Poá, vendedor de maconha
no varejo que na mocidade foi massagista do São Paulo, diz que perdeu
a conta de quantos se enforcaram nas grades das janelas, e acha que as noites
ficaram mais calmas depois que permitiram as visitas íntimas.

– Antigamente era pior. O calado da noite era quebrado por gritos que ecoavam
pela cadeia inteira. Em seguida, o pessoal começava a bater caneca
na grade. já era: podia o funça vim buscar que alguém
tinha sido estuprado.

FIM DE SEMANA

Sexta-feira, deu meio-dia a água corre nos barracos, alaga a galeria
e desce a escada aos borbotões. Cheiro de sabão forte, pagodes
e sertanejos da periferia misturam-se no corredor com a bateção
de rodos e vassouras. A malandragem estende a roupa na Janela, arrasta móveis
e esconde as mulheres peladas.
Faxineiros com bota de borracha, sob o olhar do companheiro encarregado da
faxina do andar, empurram a enxurrada escada abaixo, enquanto os que vêm
atrás secam a galeria. Entre eles, ágil, desloca-se o encarregado,
enérgico e educado, para impedir que sobre qualquer ilha sem enxugar.
Na escadaria, a cascata espumante despenca até a gaiola do térreo
e desemboca nas águas pretas que outra coluna de faxinas vem puxando
a rodo pela Radial, a avenida que une os pavilhões. Tudo, como diz
o encarregado- geral do pavilhão Sete:

– Para as visitas encontrar nós num ambiente mais adequado nos princípios
de higiene e civilização.

As famílias madrugam na porta, mulheres na imensa maioria. São
namoradas, esposas, irmãs, tias e a inseparável mãe,
dificil de abandonar o filho preso, por mais crápula que ele seja.
Em dez anos na cadeia, assisti a tais demonstrações de amor
materno que, confesso, encontrei sabedoria no dito: amor, só de mãe.

Uma senhora do Paraná, de coque no cabelo e pernas grossas de varizes,
viajava seiscentos quilômetros de ônibus a cada quinze dias, religiosamente,
para visitar o filho condenado a 120 anos. Quatro anos antes, o rapaz, a convite
de um amigo traficante, tinha invadido uma casa cujos moradores ele sequer
conhecia e chacinou seis pessoas, acusadas de terem pedido providências
à polícia para acabar com a boca de crack de propriedade desse
amigo, situada na frente da casa delas. Num domingo, a senhora de coque implorou
a um guarda do presídio que cuidasse do menino dela:

– Eu sei que o meu filho fez coisa errada por causa das companhias, mas
quando olho para ele, não acredito que ele tirou a vida daquela gente
como dizem, vejo ele pequeninho no colo, rindo no fundo dos meus olhos.

Num sábado, no campo do Oito, conheci a mãe do Pirata, uma
senhora baixa e encorpada, na ponta dos pés e o dedo em riste no nariz
dele. Chefe de uma quadrilha que abordava navios na barra de Santos, encarregado
de prender uma corda com gancho na murada por onde subiam com as metralhadoras,
o Pirata ouvia a descompostura de cabeça baixa, as mãos entrecruzadas
atrás, humilde como um zagueiro diante do cartão amarelo.

As visitas carregam sacolas de plástico abarrotadas; potinhos de
plástico com pastéis, maionese, macarronada, calabresa frita
e frango assado. Não há a menor preocupação com
o colesterol: trazem só o que o preso gosta. Vêm muitos bebês
agasalhados, boa parte deles concebida na própria cadeia. Crianças
maiores enfadadas pela inatividade da espera completam o contingente infantil.

É uma população bem heterogênea de gente pobre,
que passa horas em pé: senhoras sofridas, crentes de trança,
mães de família, morenas de calça justa e loiras oxigenadas
que falam e gingam no ritmo da malandragem. Algumas chegam tristes, com seus
filhos. Outras trazem cadeiras de armar e cumprimentam a fila inteira.
Como as mulheres sempre encontram assunto entre elas, com o passar das horas
a fila engrossa de rodinhas femininas enquanto o pelotão de diabinhos
corre, tropeça, derruba sorvete na roupa e toma beliscões no
meio delas. Está longe de ser desprezível o sacrifício
dessas pessoas. Uma vez, seu Mavi, diretor do pavilhão Nove, perguntou
a um grupo de presos que se queixava da comida:

– Estão reclamando do quê? Comem sem trabalhar; boa ou má,
recebem assistência médica e remédio de graça,
direito que trabalhador não tem; quando aprontam um companheiro cisma
de matar vocês, nós transferimos para o Seguro. Quem tira cadeia
é a família, que sai de casa no escuro com a sacolada, pega
três conduções ainda reúne o dinheirinho ganho
com suor para vocês gastarem no crack.

Quando o sol está alto, a horda de ambulantes ataca e a névoa
de churrasquinho de gato embaça a calçada. Vendem lataria, bolacha,
cocada de tabuleiro, raspadinha de groselha, cachorro-quente recheado com
purê de batata e refrigerante de dois litros. Barracas expoem camisetas,
tênis usados, alugam paletós para os homens poderem entrar (exigência
que ultimamente caiu em desuso) ou vestidos discretos para as mais ousadas,
porque o ambiente exige respeito.

Em todos os cantos apregoam maços de cigarro, a moeda oficial atrás
das grades. O básico é o Cominander, anunciado a 7 reais o pacote
de dez. Lá dentro, cada maço vale 50 centavos; Hollywood e Marlboro
custam o dobro. O valor do maço obedece à lei da oferta e da
procura: entrou muito cigarro, o preço cai; faltou, sobe. Como a oferta
flutua de acordo com a condição financeira da família,
que, por sua vez, reflete a situação econômica do país,
nos períodos de crise nacional as visitas levam menos cigarro e o preço
do maço sobe. No plano Collor, no auge do congelamento, Xanto, um ladrão
que ao visitar a tia-madrinha no Pari baleou tanto o tio bêbado que
teve a infeliz idéia de espancá-la na frente dele, como os dois
primos que tinham vindo em socorro do pai (atirou no peito dos três
porque, como reconhece, não saber dar tiro nas pernas dos outros é
um de seus defeitos), fez a seguinte análise:

– Isso jamais teria se sucedido entre nós. Já imaginou, uma
mocinha chegar aqui e anunciar que a grana nossa, ganhada na luta, tinha congelado?
já era, doutor, não sobrava nem o pensamento na mente dela.

Os pavilhões Dois, Cinco e Oito, do lado esquerdo de quem entra, recebem
os familiares aos domingos; os demais, aos sá bados. No último
final de semana de cada mês é autorizada a visita em ambos os
dias: é a “dobradinha”. Os portões abrem às
sete, quando a fila já está enorme. obrigatório passar
pelas baias de Revista. A dos homens é mais superficial; as mulheres
são revistadas por funcionárias que olham até dentro
da calcinha e, quando desconfiam, mandam que a revistada a tire e se agache,
para verificar se há corpo estranho na genitália.

Por mais tato que as revistadoras possam ter, o exame é constrangedor,
especialmente para senhoras recatadas. Até as onze horas, a fila de
entrada anda a toque de caixa, para que todos possam estar fora antes das
quatro, horário da contagem geral. Final de semana comum, vêm
de 2 a 3 mil pessoas. Quando faz frio aparece menos gente, e com chuva, menos
ainda. Páscoa, Dia das Mães e Natal é enorme a multidão
que se aglomera.

Na tarde da segunda-feira que antecedeu o Natal de 1997, cheguei no presídio
para ver os doentes e já havia uma pequena fila com cobertores, cadeiras
e camas de armar. Eram mulheres e crianças que, terminada a visita
da véspera, não tinham voltado para casa: postaram-se ali, dispostas
a aguardar até o próximo final de semana.

Nos dias que se seguiram, a fila cresceu; as mulheres se revezando, comendo
de marmita, usando banheiro nos bares da vizinhança e trocando fralda
de bebê ali mesmo, protegidas apenas por uma cobertura rústica
de amianto que a direção construiu sobre a calçada nos
últimos anos.

Naquela semana, sexta-feira depois do expediente, houve uma cervejada de
Natal dos funcionários num bar vizinho. Mais de meia-noite, quando
saímos alegres, a fila ia longe, bem para lá do abrigo, passava
pelo quartel da Pm e chegava no metrô. Uma mulata de sorriso franco,
Zilá, das primeiras na ordem de chegada, disse que estava muito feliz
porque o marido fizera chegar a ela uma quentinha com macarronada preparada
por ele no xadrez, para inveja das amigas na fila. Zilá tinha uma escadinha
de quatro filhas, das quais apenas a mais velha havia sido concebida com o
pai em liberdade, seis anos antes. Naquele dia, para lhe fazer companhia e
ser apresentada a um parceiro do marido, tinha chegado a Fran, uma vizinha
do Taboão da Serra, magrinha, tímida, que podia ter no máximo
vinte anos. Apesar de compactuar com as intenções, Zilá
desaconselhava a pretensão da amiga:

– É o que eu digo para a Fran: você quer conhecer o Roberval
eu te levo, mas não desejo para ninguém o cansaço da
fila, a humilhação na Revista, sempre sozinha, morta de saudade,
as crianças perguntando quando o papai volta para casa. Só com
muito amor no coração uma mulher suporta essa vida.

Ao lado, Fran, o rosto na penumbra projetada pelo poste de luz, concordava
com a cabeça, mas pretendia passar a noite ali decidida a conhecer
o tal de Roberval, um mulherengo de bigode, sócio do marido de Zilá
no negócio de assaltar carga.

As visitas entram através de portinholas que abrem diretamente na
calçada, depositam as sacolas diante do funcionário, que as
examina, e depois são submetidas à revista pessoal. Tarefa absurda
revistar tanta gente; levaria dias para ser executada com rigor.

Essa dificuldade estratégica cria oportunidade para um funcionário
articular-se com a visita e fazer vista grossa à entrada de itens proibidos,
procedimento arriscado para quem traz e para os que deixam passar. Estes são
fiscalizados pelos próprios colegas, como explica um deles:

– Comigo foram contratados mais de duzentos fúncionários.
Dez anos depois, sobraram cinco ou seis. Com esse salário baixo, alguns
se contaminam com o crime e viram pilantras. Só que a gente nunca sabe
quem são. Tem que desconfiar de todos, lamentavelmente.

Mais tarde, fiquei sabendo que o desconfiado autor das palavras acima, por
sua vez, também despertava desconfiança entre seus colegas.
Como diz o dr. Walter, diretor-geral:

– A coisa mais difícil numa cadeia é identificar os que estão
envolvidos com os ladrões.

Os visitantes que fazem tráfico de droga para o interior do presídio
correm risco. Quando pegos, são encaminhados ao distrito mais próximo,
onde é lavrado o flagrante de tráfico; inafiançável.
Um domingo, cruzei com uma mocinha de dezenove anos que saía chorando,
presa ao entrar com vinte gramas de cocaína para o namorado.

Num outro dia, a diretoria substituiu inesperadamente um funcionário
da porta e surpreendeu uma visita com 32 quilos de maconha, em duas sacolas.
A apreensão causou problemas internos:

– Deixou nós na maior secura. No desdobramento, subiu o preço
do crack. As mulheres que trazem droga, fazem no para tirar o companheiro
ou o filho de um apuro ou para que ele ganhe atrás das grades o sustento
da família.

Os funcionários que fiscalizam a entrada parecem cães farejadores
movidos por percepções extra-sensoriais. Um deles, um mulato
grandão com olhar de boi manso, doze anos de portaria, utiliza a seguinte
técnica:

– Revisto a sacolada, mas sem descuidar da fila. Quando percebo alguém
fora da naturalidade, dou uma olhada rápida nos olhos da pessoa, seguida
de outra. À medida que ela (digo ela porque quem traz bagulho é
quase sempre mulher) começa a chegar perto, meu olhar ganha comprimento.
No fim, quando ela põe a pacoteira em cima da mesa, eu nem ligo, meu
olhar está fixo dentro dos olhos dela. Quem deve, não resiste,
vacila. Outros estendem a mão para cumprimentar a visita e sentir se
está fria, trêmula ou molhada de suor. Com o rabo do olho, não
deixam escapar um detalhe da figura humana que se apresenta: a roupa, a ginga
difícil de disfarçar, uma tatuagem, os modos e a giria:

– Se a mulher se aproxima e diz: “Ô, chef’ão”, já
sei que é mulher de ladrão!

O olfato é um aliado poderoso dos que guardam a saída: o cheiro
da cadeia entranha no homem preso. Difícil definir que odor é
esse. Parece mistura de vários outros: alho frito, pano de chão
guardado, suor e um toque de creolina. Embora não possa ser classificado
como mau cheiro, é desagradável. Quente e pesado.

É tão pegajoso que os carcereiros, ao abrir as celas de Castigo,
apinhadas, nunca se colocam diante da abertura:

– Não fica na frente da porta, doutor, esse bafo gruda na roupa da
gente de um jeito que nem lavando sai.

Os dias de visita exigem atenção redobrada dos guardas. Sair
disfarçado de visitante é estratégia tradicional nos
presídios. Uma vez, um detento trocou a calça cáqui por
um jeans e saiu com um grupo de funcionários. O guarda da porta ficou
um pouco atrapalhado – tanta gente trabalha na Casa…

– De que grupo você é?

– Sou do grupo tal, vim de reforço.

– Pediu autorização para o seu Raimundo?

– Lógico!

– Então, malandro, a casa caiu, que nem seu Raimundo não tem!

Outro preso, de estatura baixa, com o mesmo disfarce, deu de cara com um
funcionário do tamanho de um guarda-roupa de casal, que um dia eu ouvi
atender o telefone identificando-se modestamente: “Aqui é o príncipe
negro da Portaria”.

Sua Alteza desconfiou da palidez do baixinho:

– Qual é o teu grupo?

– Grupo um.

– E o teu número?

– Número um.

– Tudo número um! Qual é, você é da Bralima,
malandro?

Esses casos, que mais tarde viram folclóricos, são punidos
com trinta dias de castigo na Isolada, mas não
causam revolta:

– Se ele vem na moral, tudo bem, é direito dele. Não prejudicou
ninguém, é respeitado. A cara dele é fugir, a nossa é
não deixar. Vai para o Castigo, mas sem dosar corretivo. Agora, se
vem na forçada, como um que me agüentou no portão com um
revólver engatilhado na minha cabeça, mas acabou preso antes
de chegar na esquina, aí é outra coisa. Lamentavelmente, foi
ele mesmo que pediu.

Lidar com a fila exige habilidade no trato social. É preciso paciência
com as pessoas nervosas, ajudar senhoras de idade, as grávidas, e encarar
com firmeza as que apelam para a ignorância. Muitos conhecem as líderes
naturais do grupo e, por intermédio delas, acalmam as outras nos momentos
de tensão. É tarefa para profissionais habilidosos, que sofrem
o impacto psicológico do trabalho, como diz o funcionário de
olhos mansos:

– Meus colegas me acham tolerante. Para eles pode ser, mas a família
se queixa que eu mudei. Antes, eu era caseiro, tranqüilo, visitava minha
madrinha todo dia, conversava. Depois de doze horas nesse trabalho, chego
em casa com a cabeça quente, janto quieto e vou dormir. Nem me lembro
da madrinha.

VISITAS ÍNTIMAS

São nebulosas as origens das visitas íntimas. Contam que começaram
no início dos anos 80, insidiosamente, com alguns presos que improvisavam
barracas nos pátios dos pavilhões nos dias de visita. Outros,
mercenários, juntavam dois bancos compridos, cobriam-nos com cobertores
e alugavam o espaço interno para a intimidade dos casais.

Na época, as autoridades fizeram vista grossa, convencidas de que
aqueles momentos de privacidade acalmavam a violência da semana. Quando
surgiram as primeiras queixas de menores engravidadas nesses encontros furtivos,
ficou evidente que a situação escaparia do controle. Incapazes
de acabar com o privilégio adquirido, decidiram, então, oficializar
as visitas íntimas: as maiores de idade podiam subir ao xadrez do companheiro,
desde que previamente registradas com identificação e foto.
Desta forma, no melhor estilo Pantaleón e suas visitadoras, personagens
de Vargas Llosa, o sexo foi burocratizado na Casa de Detenção
de São Paulo e o sistema espalhou-se pelo país.

Cada detento tem direito de inscrever uma única mulher. Esposa, amásia
ou namorada, não há exigência de laços legais.
No caso de rompimento, outra só pode ser indicada depois de seis meses.
Com jeitinho, porém, esse período às vezes é substancialmente
reduzido. Mais de 2 mil mulheres fazem parte do programa.

A rotina é caprichosa: após a revista elas se dirigem ao pavilhão,
onde os homens esperam de roupa passada, cabelo penteado e perfume cheiroso.
No térreo, numa mesinha, na porta que dá acesso à escada
que conduz às celas, fica um funcionário com a caixa de fichas.
Os casais fazem fila diante da mesa, a mulher entrega a carteira de identidade,
ele confere a foto, prende o documento à ficha com um clipe e o retém
até a saída. Da porta para dentro não há carcereiros,
os presos administram a própria visita.

Nos pavilhões mais populosos, como o Cinco, o Oito e o Nove, o pátio
interno fica tão cheio de gente que os presos sem visita evitam descer
para deixar espaço, e como não podem permanecer nas celas ocupadas
pelos casais, aguardam em pé, no corredor. A galeria fica cheia de
homens. Quem nunca entrou no presídio imagina que os mais fortes tomem
as mulheres dos mais fracos num corredor como esse, cheio de malandros encostados
na parede.

Ledo engano: o ambiente é mais respeitoso do que pensionato de freira.
Quando um casal passa, todos abaixam a cabeça. Não basta desviar
o olhar, é preciso curvar o pescoço. Ninguém ousa desobedecer
a esta regra de “procedimento”, seja a mulher esposa, noiva ou prostituta.
Uma vez, Genésio, um nordestino cicioso que esbanjou nas boates da
zona norte o dinheiro roubado em mais de cem assaltos, reconheceu na galeria
uma mulher da qual havia sido cliente:

– o companheiro vinha com o braço no ombro dela. Virei de costas para
a parede, para evitar que ela me visse e deixasse transparecer. Olha que elegância,
doutor! Num xadrez, caso um único morador receba visita, todo o tempo
disponível é dele; se houver vários, o horário
é dividido em partes iguais. Não há necessidade de bater
na porta; a pontualidade é britânica. Nas celas maiores, com
vinte, trinta homens, em que não existe outra possibilidade senão
a do uso concomitante, eles improvisam espaços privativos com cobertores
pendurados. Para acobertar as manifestações mais exaltadas do
arroubo feminino, ligam os rádios bem alto. Os sem-visita podem alugar
o xadrez para companheiros mais afortunados:

– Que nada é de graça numa cadeia.

Se houver disponibilidade econômica e um pouco de conhecimento, é
até possível tirar visita em outro pavilhão, expediente
utilizado para receber a esposa no xadrez de origem, no sábado, e a
namorada em outro pavilhão com visita aos domingos. O número
de funcionários é insignificante para coibir a infidelidade.

Por um desses mistérios da alma feminina, são muitos os que
arranjam namorada enquanto cumprem pena. Uma vez, o juiz corregedor, de tanto
analisar pedidos envolvendo detentos e suas mulheres, queixou-se ao diretorgeral:

– Doutor, o que o preso tem que nós não temos?

Muitas moças vêm visitar um parente e acabam apresentadas ao
amigo dele. Outras respondem a correios amorosos de revistas femininas e são
convidadas a conhecer o missivista, invariavelmente um rapaz de bons princípios
que deu um mau passo e espera encontrar no amor de uma mulher a força
para se regenerar.

As visitantes sentem-se protegidas no ambiente. Ao retirar os carcereiros
do interior dos pavilhões, a direção sabiamente entregou
a administração da visita aos únicos capazes de garantir
segurança total. O homem preso tem pavor de perder a mulher amada.

Sem-Chance, ladrão escolado, fala da esperteza do “Ricardão”,
nome atribuído ao amante da mulher de quem está na cadeia:

– Se na visita não tiver respeito, doutor, elas vão ficar com
medo de voltar, onde que uma conta para outra algum fato lastimável
sucedido e, daqui a pouco, entre elas: eu não vou mais lá! Se
você não vai, eu também não, é perigoso!
Pronto, ói nós aqui no maior veneno e elas curtindo lá
fora, que Ricardão é o que mais tem, pronto para dar o bote
traiçoeiro na fragilidade da mulher solitária. É sem
chance.

É preciso saber proceder: jamais cobiçar a mulher do próximo
e manter impecável a ordem geral. Não há falta considerada
pequena, qualquer deslize é gravíssimo. Certa vez, um estelionatário
de bigodinho bateu na esposa durante a visita e os gritos foram ouvidos nas
celas vizinhas. A sorte do agressor foi um funcionário, minutos depois,
escutar três rapazes no pátio organizando um grupo para matar
o arruaceiro assim que terminasse a visita, e providenciar sua imediata transferência
para o Amarelo, setor dos jurados de morte.

A estratégia funcionou apenas em parte: nas primeiras horas da manhã
seguinte, em pleno Seguro, o valentão tomou duas facadas. Em estado
grave, foi levado para o Hospital do Mandaqui, sofreu cirurgia, passou quatro
dias na UTI, perdeu oitenta centímetros de intestino e ganhou uma colostomia,
mas escapou com vida. A malandragem se espantou:

– Deu a maior sorte!

Embora participem do programa mulheres de todas as idades, as jovens constituem
maioria. Na saída, chama a atenção o número de
mocinhas com bebês. Muitas saem de cabelos molhados, denunciadores do
banho tomado no xadrez.

O BAQUE

O trabalho no Carandiru começou com um diagnóstico da epidemia.
De maio a agosto de 1990, colhemos sangue de 2492 detentos e aplicamos um
questionário epidemiológico com perguntas sobre comportamento
sexual e uso de drogas, entre outras.

Pela manhã, ao abrir as celas, os funcionários convocavam
de setenta a oitenta homens que iam escoltados para o pavilhão Quatro
e aguardavam trancados na gaiola do térreo, para evitar encontro com
desafétos. Da gaiola, em grupos de dez, eram encaminhados ao laboratório
para tirar sangue e responder ao questionário. O estudo foi realizado
com o auxílio decisivo de seis presos do pavilhão Quatro, entre
eles, os responsáveis pela coleta de sangue, ex-usuarios de cocaína
injetável para os quais não havia acesso venoso impossível;
na falta de opção, puncionavam vasos invisíveis no cotovelo.
O mais habilidoso, de cabelo crespo e olhos rápidos, que ria fora de
hora, preso por assaltos em parceria com a mulher do melhor amigo, que quis
matá-lo quando descobriu a cumplicidade dos dois, justificou com modéstia
o elogio que lhe fiz:

– Doutor, quem já injetou cocaína no escuro, com agulha sem
ponta, lavada na chuva do telhado, colher sangue com esse material descartável
que o senhor traz é até covardia da parte nossa.

Os resultados mostraram que 17,3% dos presos da Detenção estavam
infectados pelo Hiv. Entre eles foram identificados dois fatores de risco
significantes: uso de cocaína injetável e número de parceiros
sexuais no ano anterior a pesquisa. Ao lado destes, estudamos um grupo de
82 travestis presos na Casa e constatamos que 78% eram portadores do vírus.
Dos que se achavam há mais de seis anos no presídio, 100% tinham
o teste positivo.

No trabalho com os travestis, encontramos o caso da Sheila, condenada a
três anos e dois meses por ter comprado eletrodomésticos para
o casamento de um ex-namorado (pelo qual ela, boba, ainda estava apaixonada)
com o talão de cheque roubado de um pastor protestante que a tinha
contratado na avenida. Seios enormes, blusa com nó acima do umbigo,
Sheila confessava na presença de testemunhas mais de mil parceiros
sexuais na Casa de Detenção no decorrer do ano anterior à
pesquisa. Com eles havia praticado relação retal receptivo,
desprotegido, a prática sexual associada ao mais alto risco de transmissão
da AIDS. Ela era Hiv-negativa, teste repetido e confirmado no Laboratório
Bioquímico de São Paulo e no de Retrovirologia da Cleveland
Clinic dos Estados Unidos, demonstrando que algumas pessoas não se
infectam mesmo após inúmeras exposições ao vírus.

Quase ao mesmo tempo, um grupo da usi, conduziu estudo semelhante com os
detentos no dia em que chegavam para triagem no pavilhão Dois. Os resultados
obtidos foram muito próximos dos nossos, sugerindo que a grande maioria
das infecções acontecia na rua, antes da prisão. Na época,
a moda era cocaína injetável. Nos cantos do presídio,
os carcereiros achavam seringas e puniam os donos. Quando o batalhão
de choque da PM revistava as celas, ao lado das facas apreendidas empilhavam
um monte de seringas usadas.

Chocolate, um ladrão azarado do Jardim Bonfiglioli que roubou, sem
saber, a casa da namorada do tio traficante e tomou uma surra de corrente
pelo engano, e depois assaltou uma outra sem ter idéia de que era do
filho de um delegado, contou assim uma visita do Choque:

– Os homens entraram com cachorro e metralhadora. Abriram a porta do xadrez
e deram voz para a gente sair pelado, colar as mãos na parede da galeria
e não olhar direto na cara deles. Acharam uma grinfa ainda com sangue
dentro, debaixo da cama do Coça-Coça. Nem indagaram pelo pai
da criança, já saíram dando paulada em nós todos,
com a pastorzada pegando doído.

A repressão, contraditoriamente, favorecia a disseminação
de hepatite C AIDS, pois estimulava o uso comunitário de seringas e
agulhas, que podiam ser alugadas ou vendidas já cheias de droga para
usuários que as injetavam em frações proporcionais à
quantia paga, sem qualquer cuidado, a agulha passando direto da veia de um
para o braço do outro.

Com caneta bic usada e havaiana velha, um ladrão de fala mansa, marido
de uma mulher bonita da qual ele morria de ciúmes, chamado Chico Ladeira,
preso por seguranças armados de metralhadora num assalto a um templo
da igreja Universal, ganhava bom dinheiro fabricando seringa:

– Pego a bic e tiro a carga. Esquento uma agulha de injeção,
que eu consigo por meios próprios de mim mesmo, e encaixo na ponta
da caneta, que com o calor derrete o plástico e gruda firme. O êmbolo
eu faço com uma borrachinha redonda cortada da alça da havaiana,
fincada na ponta de um arame duro. Firmeza, dou garantia. Se vazar pode devolver
que eu troco.

Muitos traziam nos braços o estigma da dependência: trajetos
venosos esclerosados e cicatrizes de abscessos bacterianos. Além dos
usuários ocasionais, havia os chamados “baqueiros”, subjugados
pelo vício, assustados nas galerias, olhando para trás, para
os lados e até para o teto como se algo fosse lhes cair sobre a cabeça,
vítimas do delírio persecutório que inferniza o usuário
crônico de cocaína.

Coça-Coça, que ganhou o apelido por causa de um amigo que
o surpreendeu na zona pedindo para a prostituta passar as unhas em suas costas,
descrevia assim esse delírio:

– Eu tomava baque na casa de um considerado meu que vivia amigado com uma
mulher feia como a fome. Quando nós estava são, ó, o
maior respeito! Era só injetar farinha na veia que ele entrava numa
que a gente tinha que sair correndo, porque senão eu comia a mulher
dele. Nós corria até perder o fôlego, aí o barato
abaixava e a gente raciocinava: pra que isso, parceiro? Aí, voltava
para casa, normal, na amizade, e tomava outro baque. A paranóia retornava
tudo de volta e a gente tinha que correr de novo. Quando a farinha estava
pela hora, nós chegava tão cansado que caía no chão,
ridículo, sem força.

A situação era grave. Havia uma epidemia de cocaina injetável
no presídio, reflexo da que se disseminava na periferia de São
Paulo e de outras cidades brasileiras. Uma vez assisti a um ritual de cocaína
injetável, ou “baque” , ao redor de uma mesinha, durante
a gravação de um video educativo, num armazém abandonado.
Eram quatro participantes: um jamaicano negro de rosto comprido, recém-saído
da cadeia, que dizia ter sido preso injustamente ao visitar amigos colombianos
de Medelín num hotelzinho da rua Aurora; um filho de árabes
envelhecido precocemente; um magrelo de dentes estragados pai de dois filhos,
que assaltava bilheteria de metrô; e um nissei da máfia que explorava
lenocínio nas boates da Liberdade, o bairro oriental de São
Paulo. Cada qual chegou com o pacotinho de cocaína enrolada em papel-manteiga
e uma seringa pequena com agulha fina., dessas de insulina para diabético,
fundamental para evitar marcas no braços. Colocaram três copos
de vidro no centro da mesa:

um vazio, outro cheio de água da torneira e um terceiro com água
fervida; entre eles, uma colher de sopa bem lavada. O jamaicano encheu um
terço da seringuinha no copo com água fervida, enquanto o japonês
explorador de mulheres derrubava uma dose de cocaína na colher seca.

O jamaicano esvaziou a seringa na colher e com o protetor da agulha dissolveu
o pó no líquido, elogiando a qualidade daquela partida que se
diluía facilmente. À direita dele, o japonês, mudo, apertava
com força os músculos do braço, os olhos fixos nas veias
expostas. Com a seringa, o aplicador aspirou o pó diluído na
colher e introduziu a agulha bem devagar na pele do oriental impassível,
até o sangue refluir vermelho. Como parte do ritual que eu desconhecia,
injetou apenas um quarto do conteúdo da seringa e aspirou com o embolo
um volume de sangue igual ao do líquido injetado.

Em seguida, repetiu a operação de injetar e aspirar varias
vezes. O japonês mantinha os olhos arregalados na seringa, fascinado
pelo entra e sai de sangue em seu interior. A administração
durou dois ou três minutos, após os quais o explorador de mulheres
levantou-se e começou a falar incoercivelmente, enquanto o árabe
de rosto enrugado fazia saltarem as veias do antebraço.

O procedimento repetiu-se idêntico com os outros dois participantes:
diluição do pó na colher, introdução lenta
da agulha, fluxo e refluxo de sangue, olhar vidrado na seringa, agitação
e monólogos concomitantes. Para minha surpresa, entretanto, o efeito
da injeção era efémero. O aplicador ainda estava com
a agulha na vela do magrinho de dentes estragados, o terceiro da roda, e o
nisseiansioso ria garroteava o braço de novo. Enquanto este tomava
o segundo baque, era a vez do árabe ficar agitado, depois do banguela
e assim sucessivamente, num frenesi de intensidade crescente que só
terminou quando o último grão de pó foi consumido.

Completada a primeira rodada, antes de iniciar a segunda oj amaicano lavou
a seringa suja de sangue no copo com água da torneira e a esvaziou
no copo inicialmente vazio. Depois de repetir duas vezes a operação
de limpeza, o aplicador voltou a carregar a seringa no copo com água
fervida para diluir a nova dose de pó na colher.

No final, o copo inicialmente cheio de água da torneira estava quase
seco e o outro, vazio no inicio, continha uma solução tinta
de sangue venoso.
Era a festa do Hiv. Embora cada um trouxesse a própria seringa, bastava
alguém na roda estar infectado para espalhar vírus na água
da lavagem das seringas e, ainda, contaminar a colher que todos usavam. Talvez
por isso mais tarde eu tenha encontrado tantos ex-usuarios com AIDS que juravam
nunca haver utilizado seringas alheias.

Quando acabou, os baqueiros continuavam falando sem parar nem ouvir, a boca
seca pelo efeito do alcalóide tantas vezes injetado. No final, enquanto
recolhíamos equipamento, vi o banguela pai de dois filhos pegar da
mesa um copo com a solução sanguinolenta, subproduto da limpeza
das seringas, e levá-lo à boca sem abalar os que estavam a seu
lado.

– Não bebe isso! – gritei.

Ele não entendeu e começou a tomar o líquido grosso
de sangue. Até eu conseguir deter-lhe o braço, bebeu pelo menos
metade do copo:

– Olha o que você está bebendo, cara, isso é sangue
puro! – Nossa! Nem percebi, pensei que era agua.

NO CINEMA

Então, vieram as palestras do cinema. A Casa tem um enorme salão
cimentado, no segundo andar do pavilhão Seis, para mais de mil ocupantes,
onde antigamente funcionou o cinema, destruído numa rebelião.
Ali nós reuníamos trezentos ou quatrocentos presos, montávamos
um telão com equipamento de som, passávamos vídeos educativos
sobre AiDs e eu respondia as perguntas da platéia. O trabalho de montagem
ficava por conta de dois funcionários da UNIP, o Roberto e o Luís,
ajudados por uma equipe de detentos coordenada pelo Gerson do pavilhão
Oito. Com o passar do tempo, Roberto e Luís ganharam popularidade na
Casa, o primeiro apelidado de Pc pela malandragem devido à semelhança
fisica com o personagem trágico de Alagoas.

Deslocar tantos homens do pavilhão de origem para o cinema e levá-los
de volta ilesos não era simples. A operação, comandada
pelo Waldemar Gonçalves, funcionário responsável pelo
Departamento de Esportes, começava às oito da manhã.
Os xadrezes dos andares cujos ocupantes desceriam para assistir à palestra
eram destrancados antes dos demais e a malandragem dirigia-se para o pavilhão
Seis. No final, lá pelas onze horas, percorriam ordeiros o trajeto
de volta.

Uma semana após a outra, durante anos, centenas de presos indo e
voltando, muitas vezes cruzando com inimigos de morte, e jamais ocorreu qualquer
incidente. Entre os ladrões, havia um pacto de respeito ao cinema das
sextas – feiras.

Hernani, um falsário ou “171”, como prefere a malandragem,
que se gabava de ser mais perigoso com a caneta do que os companheiros de
revólver, justificou a tranqüilidade do ambiente:

– O senhor, o Luís e o Pc vêm fazer uma coisa boa para nós.
Se algum mano criar caso, um acerto de conta, uma palhaçada, vai se
colocar contra o bem geral. Aí é problema! Precisa desprezar
o apego na vida.

Os homens chegavam em grupos. Boa parte, por princípio, ia direto
para o fundo e sentava no chão, mesmo que houvesse lugar à vontade
nos bancos da frente. No telão, enquanto entravam, passávamos
vídeos de cantores populares. Ouviam atentos, marcando o ritmo no balanço
do pé, discretos. Dançar ou mexer o corpo,jamais: – Que onde
já se viu malandro rebolar na frente do outro! Lá pelas nove
horas, parávamos a música, acendíamos as luzes e eu subia
ao palco para dizer o seguinte:

– Atenção, malandragem, existe uma epidemia de AIDS na Casa.
Os companheiros de vocês ficam magros, enfraquecem, vão para
a enfermaria do Quatro e nunca mais voltam. Nós vamos passar um vídeo
e depois responder perguntas sobre a doença. Não conversem agora.
Nada é mais triste na vida de um homem do que acabar seus dias numa
cadeia.

Durante as primeiras palestras, seu Florisval, o diretor de Disciplina,
postava-se no palco, de costas para mim, e encarava a platéia. Um dia,
pedi-lhe que não se preocupasse e fiquei sozinho com os presos. Deu
certo, comecei a me entender melhor com eles. Enquanto passava o vídeo
de AIDS, às vezes ouvia-se conversa no fundo da sala. Uma das manhãs,
durante a projeção, no escuro, resolvi cruzar o cinema e sentar
lá no fundo, entre eles, só para ver se a conversa parava. Fui,
movido por uma sensação racional de confiança, mas estava
com medo. Atravessei o cinema devagar. Quando cheguei nas últimas filas,
a conversa calou. Sentei no chão, no meio dos ladrões, e fiquei
assistindo ao vídeo. Tinha as mãos geladas e os batimentos cardíacos
acelerados. Veio a sensação de que alguém pularia por
trás para me esganar. Controlei o medo e resisti até o final.
Então, levantei e voltei sem pressa para o palco. No caminho, notei
que aquele andar não era bem o meu: tinha um toque da malandragem nas
ruas do Brás. Na semana seguinte, repeti a experiência. O medo
voltou bem menos intenso. Na terceira vez, o medo acabou.

Terminado o vídeo, eu respondia às perguntas feitas num outro
microfone com fio comprido levado pelo Santista, um ladrão que dizia
ter aproveitado a vida: fechava a boate, pagava bebida para todos, depois
ia cheirar cocaína no motel com as moças da casa e, generoso,
cobria o corpo delas com dinheiro roubado:

– Eu era o rei da noite, todas queriam sair comigo.

As dúvidas e as questões levantadas eram concretas. AIDS para
eles não constituía preocupação teórica,
era problema prático. Queriam saber os cuidados com as secreções
corpóreas dos doentes, o risco de transmissão para os familiares,
os sintomas iniciais e o tempo de evolução da doença.

Após a última resposta, em dois minutos, no máximo,
eu resumia três idéias essenciais. Primeira: a solidariedade
com o companheiro de xadrez, doente, não representa risco porque AIDs
não se transmite no contato casual. Segunda: sem camisinha, o vírus
passa do homem para mulher e da mulher para o homem, e nas relações
homossexuais o parceiro ativo também corre perigo. Terceira: todos
os que tomam droga na veia vão pegar o vírus, é questão
de tempo.

No fim, eu acrescentava em tom evangélico: quem não consegue
escapar do inferno da cocaína engole, faz supositório, fuma,
mas baque na veia não, pelo amor de Deus!

A recomendação para substituir a via injetável era
deixada para o final porque, no desfecho, quando eu insistia que fu massem
em vez de injetar, explodia uma salva de palmas per meada por longos assobios,
o que criava um clima apoteótico para a minha saída da sala.

Na época, esta última mensagem sobre a cocaína injetável
foi dada assim porque me parecia ridículo, naquele ambiente, repetir
slogans ingênuos do tipo “diga não às drogas”
A razão de tantos aplausos, no entanto, eu só compreenderia
em toda a profundidade bem depois, quando ficou claro que o crack varreria
a cocaína injetável da cadeia.
A tarefa de tirar da cama centenas de malandros, antes das oito, para assistir
a um vídeo educativo seguido de recomendações médicas,
considerada irreal pelos funcionários mais experientes, foi facilitada
decisivamente pelo Hernani, um senhor de cabelo grisalho, especialista no
golpe da arara, através do qual montava firmas fantasmas para quebrá-las
e dar calote na praça:

– Doutor, acordar vagabundo é um problema problemático. Por
que o senhor não deixa passar um vídeo erótico no final
da programação? No esgano que a moçada se encontra, vai
lotar o cinema.

Fizemos um teste. No final, depois que eu saía da sala, entrava um
vídeo de erotismo explícito. A estratégia de misturar
música, medicina preventiva e sexo foi imbatível: um sucesso
de público. Pode dar certo em outras cadeias, desde que sejam tomadas
duas precauções: não permitir a entrada para assistir
apenas ao último vídeo, pois a programação é
um pacote indivisível, e, o mais importante, o filme erótico
só começa quando o médico sai da sala.

Já nas primeiras palestras fiquei surpreso com a consideração
que os homens demonstravam por mim. Nas perguntas usavam termos e expressões
como “relação retal” “penetração”,
“prostituição”, “homossexuais” ou “mulheres
de cadeia” – jamais uma palavra grosseira, palavrão, nem pensar.
Certa ocasião, ao interromper um vídeo de Daniela Mercury para
colocar o de AIDS, uns três ou quatro do fundo assobiaram por brincadeira,
como fazem os alunos de cursinho. Esta pequena manifestação
deu o que fazer para o Waldemar Gonçalves convencer o pessoal que ajudava
na montagem do equipamento a não esfaquear os assobiadores. Santão,
um mulato musculoso cumprindo dezoito anos por assalto a banco, que ajudava
a montar o equipamento de som, era dos mais revoltados:

– Qual é a desses caras, meu, querer zoar o médico que vem
conscientizar os manos do perigo dessa praga e dar uma distração
para a coletividade? Eles não estão tirando o doutor, estão
tirando nós!

Na semana seguinte, antes de começar a palestra, o Benê, um
filho de alcoólatra que odiava bêbado e baleou dois deles numa
padaria de Parelheiros porque importunaram uma moça que ele nem conhecia,
homem de poucas palavras e moral suficiente para apitar a decisão do
campeonato interno de futebol daquele ano, apareceu com três jovens:

-Doutor, os manos aqui querem trocar uma idéia com o senhor.

O mais velho dos três, que na adolescência teve o olho esquerdo
vazado por uma bala perdida, falou de cabeça baixa e com as mãos
cruzadas atrás:

– Em nome meu e dos parceiros aqui presentes, junto, a gente veio pedir
desculpa muito pelos assovios. Não foi por mal, mas se os companheiros
entenderam que sim, quem somos nós para discordar.

Essa aura de respeito sincero em torno da figura do médico que lhes
trazia uma pequena ajuda exaltou em mim o senso de responsabilidade em relação
a eles.

Com mais de vinte anos de clínica, foi no meio daqueles que a sociedade
considera como escória que percebi com mais clareza o impacto da presença
do médico no imaginario humano, um dos mistérios da minha profissão.

Rita cadilac

Fizemos um concurso de cartazes de prevenção à AIDS
patrocinado pela UNIP, com prêmio de mil dólares convertidos
em maços de cigarro, a moeda local, dividido entre os cinco ganhadores.
O Waldemar Gonçalves, do Esporte, e um grupo de presos dos postos culturais
dos pavilhões distribuíram cartolina branca e pincel mágico
preto. Cópias dos melhores cartazes foram posteriormente afixadas pela
cadeia inteira.

O primeiro colocado desenhou uma camisinha, dentro da qual havia uma seringa
pingando sangue. Embaixo, os dizeres: AIDS Você pode evitar”.

Tantos cartazes de AIDS e nunca vi alguém unificar com tanta propriedade
a idéia do preservativo e da seringa numa mensagem unica, como fez
o vencedor, um magrinho com dentes em péssimo estado que tinha parado
de estudar na escola primária e cumpria cinco anos, por pequenos assaltos
em parceria com o primo mais velho na região do largo Treze, zona sul
de São Paulo. Os prêmios foram entregues numa tarde de calor
intenso, no cinema do Seis. Estavam presentes mais de mil detentos. Para abrilhantar
a cerimônia, o Waldemar convidou Rita Cadillac, ex-chacrete que encantava
os homens diante da TV, sábado à noite. O pagode ficou por conta
do Reunidos por Acaso.

Depois da quinta música, o mestre – de- cerimônias, Demétrio,
um senhor careca com anel no dedinho, viciado em corrida de cavalo, anunciou
com voz melosa:

– Prezados reeducandos deste estabelecimento penal, o humilde locutor que
vos dirige o verbo tem a honra de anunciar esta grande artista figurativa
da televisão. Musa indomável da arte dançarina. Aquela
que foi a bailarina crooner do impredizível Chacrinha, que Deus o tenha.
Neste momento festivo, convido para adentrar ao palco a madrinha da Casa de
Detenção: Rita Cadillac!

As últimas sílabas dos dois nomes próprios saíram
intermináveis. De saia justa, Rita subiu decidida, os seios balançando
na blusa entreaberta. Uivos e suspiros na platéia. Com sorriso malicioso
ela encarou o público, fez um sinal para os músicos e caiu no
samba. Mulher sensual, requebrado maravilhoso!
Excitada, a massa gritava:

-Vira, madrinha! Vira, Rita, pelo amor de Deus!

Ela, desentendida, continuou seu bailado lascivo de frente, no máximo
de lado, para os homens suplicantes:

– Vira como a gente gosta! Vira, Ritinha, só uma vez!

Quando os gritos atingiram o clímax, Rita, de saia preta, ar de colegial,
levou a ponta do dedo indicador ao lábio e com a outra mão desenhou
um círculo imaginario, como a consultar o desejo da malandragem.

– Isso, vira! Agora, madrinha, mata nós! Suada, dois botões
desabotoados, ela afinal fez a vontade dos fãs.

Imediatamente as vozes calaram. Silêncio total.
No pagode do Reunidos, o cantor, de cavaquinho, atacou estribilho de sua autoria:

– “Liberdade é você, o nosso amor é um barraco
para nos aquecer.”

De costas para o público extasiado, no ritmo, suas cadeiras começaram
um movimento sinuoso de amplitude crescen-te. Quando esta atingiu o grau máximo,
Rita Cadillac, com a mão na nuca e a outra abaixo do umbigo, dobrou
gradativamente os joelhos sem afrouxar o rebolado, até as coxas ficarem
paralelas ao nível do palco. Resistiu longo tempo requebrando nesta
posição, de salto alto e costas eretas. Depois tomou o caminho
inverso ao da descida. No meio do percurso para cima, quando as coxas atingiram
45 graus em relação ao palco, subitamente sua bunda estancou
no ar, por segundos. Rosto de perfil, queixo sobre o ombro, mão esquerda
levantando o cabelo do pescoço molhado, as cadeiras, afinal, deram
o tranco definitivo para o alto e, artista, saiu na direção
do pandeiro, para o delírio total da malandragem, que quase pôs
abaixo o velho cinema. Com todo o respeito.

ATROPELO NA DIVINÉIA

Com freqüência, ao terminar as palestras, os presos me paravam
no corredor para expor problemas de saúde. Queixavam-se de febres noturnas,
fraqueza, ínguas, tosse, lesões de pele, moléstias venéreas.
Vinham magrinhos, com fôlego curto e sintomas característicos
da fase avançada da AIDS. Impossível resolver seus casos naquelas
consultas-relâmpago, palpar pescoços, olhar gargantas inflamadas
ou feridas nos genitais, em pé, no meio dos curiosos. Não havia
como evitar essas abordagens ou deixar de me envolver com os dramas individuais.
Às vezes, uma afecção banal como o sapinho, igual ao
da boca dos bebês, fácil de curar com alguns comprimidos, impedia
o doente de engolir até saliva. Gente com sintomatologia sugestiva
de tuberculose automedicava-se com inúteis vitaminas e mastruz, uma
erva à qual atribuem propriedades medicinais.

A assistência médica no presídio era precária
para enfrentar uma epidemia como aquela. Para cuidar dos 7 mil prisioneiros,
havia dez médicos, se tanto. Os baixos salários, a falta de
condições de trabalho haviam corroído o ânimo da
maioria, de tal forma que poucos, deste grupo já pequeno, exerciam
a função com dignidade.

Nessa fase, eu saía da cadeia com um misto de impotência e
culpa. De um lado, não conseguia esquecer o olhar encovado dos doentes;
de outro, o que tinha eu a ver com aquilo? já não bastavam o
tempo gasto com as palestras e o risco de andar naquele meio? Além
disso, muitas das expressões que me sensibilizavam como médico
possivelmente nunca haviam demonstrado complacência diante de suas vítimas
indefesas, na rua.

O impasse tinha duas soluções: parar de ir à cadeia
ou encontrar um horário para atender os doentes, organizadamente. Prevaleceu
a segunda alternativa. Aquele mundo havia entranhado em mim, era tarde para
fugir dele. Como médico, não me cabia julgar os crimes dos pacientes,
a sociedade tinha Juízes preparados para essa função.
Além disso, fazer medicina naquele lugar, só com o estetoscópio,
como os médicos antigos, após tantos anos de clínica
apoiada em exames laboratoriais e imagens radiológicas, era um desafio.

Uma manhã de inverno, subi até o quinto andar do pavilhão
Quatro para acertar os detalhes com o dr. Mário Mustaro, o chefe do
serviço médico da Casa, por coincidência meu ex-professor
de bioquímica na faculdade. Falamos da burocracia interna, das patologias
mais prevalentes e conheci meu primeiro enfermeiro, Edelso, um rapaz com jeitão
de classe média, preso por roubo de automóvel e exercício
ilegal da medicina.

Estávamos nessa conversa quando entrou um funcionário:

– Doutores, precisam sair rápido. Três presos fizeram refém
no pavilhão Cinco e estão vindo para a frente na direção
da Divinéia.

Na escada, o médico-chefe, mais de trinta anos de serviço público,
aconselhou-me:

– Vê como é? As instalações são precárias,
falta material, remédio, pessoal, tudo, e quando alguém tem
boa vontade, esbarra no problema disciplinar. Quer um conselho? Não
perde tempo com isso aqui. Descemos depressa. Ele saiu para a portaria e eu,
curioso para ver a confusão, aproveitei um pretexto e fiquei para trás
com um guarda que me pôs a par do acontecido.

Cada um com sua faca, três presos do Amarelo tinham agarrado o carcereiro:

– É o seguinte, chefão: reagiu, morreu!

Com o refém em ponta de faca, desceram até o térreo
e saíram do pavilhão. A malandragem abriu espaço no pátio.
Na porta que separa o Cinco do Dois, o porteiro percebeu a situação
do colega:

– Passam só os três e eu tranco de novo. O resto fica!

Deu um tempo para destrancar. Enquanto isso, os detentos que estavam no
pátio do pavilhão Dois puderam ser recolhidos e a porta da gaiola
interna foi fechada. Um mulato, baixinho e troncudo, de camisa aberta, à
direita do refém, com uma das mãos segurou-lhe o braço
esquerdo passado por trás das costas e, com a outra, encostoulhe uma
lâmina de 30 centímetros contra o tórax. Do lado oposto,
um branco de cabelo desgrenhado, dentes falhados na frente, mantinha posição
simétrica à do mulato, de modo que o funcionário, lívido,
ficava com os braços cruzados por trás do corpo e uma faca de
cada lado do peito. O terceiro, musculoso de malhação, puxava
o refém pela gola da camisa e espetava-lhe, de leve, embaixo do queixo,
uma lâmina pontiaguda. Percorreram a Radial, que liga os pavilhões,
e pararam diante do portão do Dois, que dá para a Divinéia.
A essa altura, na muralha, três PMs movimentavam-se nervosos com as
armas para atirar. Na Divinéia, um grupo de funcionários mais
velhos tomou posição. Negociação tensa para abrir
a porta de acesso à Divinéia; escorria sangue do queixo do carcereiro
rendido. Os ladrões exigiam transferência para outro presídio,
a Pm esperava uma brecha para atirar e os funcionários para cair em
cima. Mútuas ameaças de morte, porta trancada, gritaria e indecisão.

Dada finalmente a ordem, apenas o portãozinho de pedestres foi aberto
– passagem estreita para dois, impossível para quatro. Os funcionários
em círculo ao redor do portão abriram alas.

O fortão, musculoso, passou antes com a faca no queixo do carcereiro,
o mulato e o descabelado ficaram para trás. Descuido grave. Um Pm da
muralha engatilhou. Com o ruído, o mulato, ato reflexo, abaixouse.
O descabelado que vinha atrás dele foi obrigado a parar. Como que ensaiados,
dois canos metálicos cantaram no ar.

No susto, o musculoso voltou-se para trás, afrouxando a faca ensangüentada.
Descuido fatal. O refém agarrou o braço do algoz e imobilizou
a arma.

Em volta dos três formou-se uma aglomeração de calças
jeans. Impossível ver detalhes. Quando tudo acalmou, o funcionário
-refém, branco como cera, fascies doloroso, saiu carregado pelos colegas,
com o pé direito fraturado de vingança. O mulato e o musculoso,
cheios de equimoses, foram embolados num carrinho de mão usado para
transportar tachos de comida. O descabelado, camisa em frangalhos, sangue
escorrendo na fronte, olho direito fechado por um inchaço vermelho,
incapaz de dar dois passos em linha reta, vinha ao lado do carrinho. Vendo-o
trôpego, na direção da enfermaria, um funcionário
recém-chegado na Divinéia gritou: – Ainda consegue andar, ladrão?
Os colegas têm coração mole!

BEM-VINDO

Na semana seguinte a essa tentativa de transferência frustrada pela
ação dos funcionários de coração mole,
voltei ao pavilhão Quatro. O elevador estava quebrado, subi as escadas
até o quinto andar, segui o corredor e saí na enfermaria. Era
uma galeria com doze celas de um lado e dez do outro, uma copa no fundo à
esquerda, um banheiro grande com mais azulejos despregados do que assentados
na parede e três chuveiros elétricos, dos quais apenas um esquentava.

Neste, sob a água que escorria em pingos grossos, um preso sem camisa,
com cara de boxeador, esfregava um trapo ensaboado nas costas esqueléticas
de um doente e, com a outra mão, agarrava-o pela axila para mantê-lo
em Pé. O paciente tinha ferida cruenta no rosto, extensa, que pegava
toda a região frontal direita, avançava sobre as pálpebras,
encobria completamente o olho e descia pela face, provocada por Herpes Zoster,
um vírus oportunista freqüente nos casos de AIDS. Aquele enfermeiro
-pugilista amparando sem jeito o doente bambo com o rosto desfigurado, parecia
cena de filme macabro.

Os quartos, na realidade, eram celas comuns caladas de azul-ingênuo
na metade de baixo e branco na de cima, pé-di-reito alto, claras de
dia e com uma luz mortiça à noite. No interior deles, um catre
metálico, colchãozinho de espuma cortada à faca, privada,
pia e mais nada. Na parede oposta à porta maciça, uma janela
gradeada com os vidros quebrados.

No espaço exíguo entre a cama e a parede, os doentes amontoavam
algumas peças de roupa, um par de tênis, o chi-nelo, sacos plásticos
com comida, banana, pão amanhecido e a caneca do café.

Alguns pareciam bem de saúde; recuperavam-se de cirurgias após
tiroteios, facadas, problemas ortopédicos, queimaduras por água
fervente derramada por desafétos, crises de bronquite asmática
e dermatites. Outros, emagrecidos pela tuberculose epidêmica no presídio,
perambulavam de bermuda e chinelo rider, enchendo a galeria de acessos de
tosse e bacilo de Koch. Nas camas, enrolados em cobertores ordinários,
jaziam homens febris, caquéticos, a mucosa da boca coberta de sapinho,
dispnéicos, molhados de urina, em fase terminal de evolução
da AIDs. Tinham o olhar resignado que a morte impõe quando chega devagar.

Com o Edelso e mais dois detentos, passei a primeira visita. No final, entrei
no quarto de um rapaz de Santo André, ladrão de automóveis,
pele e osso, que tossia incoercivelmente e cuspia uma secreção
sanguinolenta. O escarro tingia o chão de vermelho rutilante, não
havia onde pisar.

– Você não pode cuspir assim! Está com tuberculose,
quem entra aqui, pisa e espalha a doença pela enfermaria.

– Doutor, se as tosses fossem menas e a força mais, eu podia se erguer
para cuspir na pia, mas do jeito que eu estou ruim do fôlego não
tem condições.

Paramos, os enfermeiros e eu, na saída da enfermaria, junto a ouvidos
curiosos. Expliquei-lhes que o bacilo da tuberculose está presente
no escarro e nas gotículas invisíveis espalhadas no ar pela
tosse, e que o risco de transmissão naquele ambiente era real, inclusive
para nós mesmos.

Terminei de prescrever, dei algumas orientações e me despedi.
Um dos enfermeiros, Juliano, fortão, de bigode, que pu xava a perna
esquerda atingida numa emboscada em que perderam a vida un irmão e
outro parceiro, acompanhou-me ao elevador:

– Bom descanso, doutor. O senhor volta?

Fui para casa com medo de pegar tuberculose.

O IMPACTO

Naquela época, eu tinha vinte anos de experiência clínica
com doentes graves e terminais, e a Impressão de conhecer o ambiente
da cadeia. Mesmo assim, fiquei chocado. Passei a semana introspectivo e desinteressado
dos acontecimentos sociais, as lembranças da enfermaria indo e voltando.
Minha mulher disse que nunca me viu tão calado.

A introspecção, no entanto, não refletia a tristeza
que como médico talvez eu devesse sentir diante daquela miséria
humana. A perspectiva de penetrar fundo o universo marginal, embora assustadora,
era tão fascinante que para dizer a verdade eu estava feliz, excitado
com aquele trabalho e apaixonado pela medicina, profissão caprichosa
como a mulher amada, capaz de despertar crises inesperadas de paixão
pela vida inteira.

Comecei a estudar tuberculose, que eu não tratava desde os anos 70,
quando pensávamos que a moléstia seria erradicada do Brasil
a curto prazo. Durante muitos dias, ao lembrar da cadeia, reconhecia sensações
interiores que me remetiam à infância correndo atrás de
balão, no Brás. A vida pulsava mais forte.

Voltei na semana seguinte e reuni o trio de auxiliares: o falso médico
Edelso, Juliano, que puxava a perna, especializado em bancos e carros-fortes,
e Pedrinho, um tipo de barba cerrada e passado misterioso, com três
balas alojadas no tórax, condenado a 22 anos. Antes de ir para a enfermaria,
ensi nei-lhes como administrar a medicação contra a tuberculose
e os cuidados gerais com os pacientes. Eles ouviram interessados, fizeram
perguntas e deram sugestões para melhorar o atendimento.

A visita transcorreu num clima bem diverso da anterior. Vários doentes
referiam alívio da tosse, da sudorese noturna e aumento da disposição.
Quando passamos pelo rapaz de Santo André que cuspia sangue, ele estava
sentadona cama, afundando um pãozinho no café com leite. Um
outro, com uma pneumonia associada à AIDs, agoniado com a falta de
ar na semana anterior, andava devagarinho pela galeria.
De xadrez em xadrez, do final da manhã até o meio da tarde,
examinei os pacientes. Do meu lado, os três enfermeiros sem almoço,
na maior seriedade. Na saída, havia um clima de respeito profissional
entre nós. Fui embora com sede, faltou coragem para tomar água
da torneira. Na outra semana, a caminho da enfermaria, sentados no banco junto
à porta da sala de atendimento ambulatorial, meia dúzia de presos
aguardavam. Um deles, guarda-costas de um traficante da Rocinha, vestido com
a camiseta do Flamengo, os braços cobertos de feridas que ele coçava
ininterruptamente, falou num sotaque carioca arrastado:

– Com sua permissão, doutor, sabemos que o senhor vem para atender
os manos da enfermaria com HIV, mas eu e os companheiros aqui do Oito estamos
assim, modo de dizer, no maior esgano. Uns com febre e fraqueza, outros com
comichão no corpo que não deixa dormir. Por isso, viemos apelar
para a sua boa vontade de dar uma força para a gente.

Visivelmente, precisavam de ajuda. Dos seis, quatro estavam com tuberculose
avançada, um apresentava um quadro neurológico estranho e o
carioca com coceira tinha lesões dermatológicas disseminadas
que eu não fazia idéia do que representavam.

Terminei de vê-los e fui para a enfermaria com o trio de auxiliares.
Com exceção de uns dois ou três portadores de AIDS cujo
estado geral se deteriorava progressivamente, os demais continuavam melhorando.
Chegamos a dar algumas altas.

Horas mais tarde, ao sair, na porta da sala de atendimento nova surpresa,
desta vez mais numerosa: quinze doentes com a mesma conversa de que precisavam
de ajuda. Tinha caído a noite quando terminei. O juliano desceu comigo
até o térreo e chamou o funcionário para destrancar a
gaiola. O carcereiro veio com um molho de chaves:

– Até essa hora, doutor! Nem sabia que o senhor ainda estava lá
em cima. E você, Juliano já era. Pode subir que eu vou te trancar.

Juliano deu um sorriso estranho e subiu de volta. Saí do pavilhão,
cruzei a Divinéia e bati no portão que leva à portaria.
Através da janelinha, o porteiro da noite me mediu de alto a baixo.

– Quem é você?

– Sou médico, estava atendendo no Quatro.

Encarou-me outra vez, demoradamente, depois abaixou o olhar na direção
da minha calça:]

– É o seguinte: eu vou falar com o plantão, e se ninguém
te conhecer, você fica.

– Sou médico, pode perguntar para o funcionário que me abriu
a gaiola do Quatro.

– Não é você que vai me dizer para quem eu devo perguntar.
Espera aí.

Desconfiado, olhou fixo nos meus olhos e saiu sem pressa na direção
da Ratoeira. Apesar de saber que tudo acabaria esclarecido, o fato de estar
do lado de dentro e experimentar a rudeza do contato com aquele que tinha
a posse da chave provocou-me certo desconforto, talvez semelhante ao expresso
pelo sorriso do Juliano quando ele subiu para ser trancado no xadrez.

No final dei sorte, o porteiro voltou com um funcionário que me conhecia
e se desculpou:

– Não leva a mal, doutor, são 7 mil aí dentro. A minha
cara é desconfiar!

BIOTONICO FONTOURA

Nas semanas subseqüentes, a realidade demonstrou-se mais complexa do
que eu imaginava. O número de doentes que vinha dos pavilhões
para atendimento ambulatorial aumentava sem parar. Não eram apenas
os casos de AIDS e tuberculose, a clientela tornou-se variada: facadas, acessos
de asma, diabéticos, hipertensos, abscessos, craqueiros dispnéicos,
paraplégicos com escaras, epilépticos em crise, dermatites diversas
e, inclusive, gente saudável com intenção de tirar vantagem
do médico ingenuo. Parecia um minipátio de milagres.

Eu tinha que ser rápido: ouvir as queixas, palpar, auscultar, olhar,
fazer o diagnóstico e receitar o medicamento em cinco minutos no máximo.
Sem errar, se possível. Medicina de antigamente: ouvir, examinar e
dar o remédio.

Inútil solicitar exames laboratoriais porque os resultados, quando
vinham, não chegavam a tempo de auxiliar na conduta. Uma velha máquina
de raio X passava semanas quebrada ou aguardando licitação para
a compra de filme radiográfico.

Dificuldades não faltavam. A medicação prescrita percorria
complicadas vias burocráticas, e, nas freqüentes transferências
dos detentos de um pavilhão para outro, perdia-se no caminho. A burocracia
era tanta que as internações e altas da enfermaria eram batidas
em seis cópias, trazidas para assinar sem papel-carbono. Muitas vezes,
como é característico no serviço público, existia
fartura de antibióticos e antivirais caríssimos, enquanto faltava
aspirina e remédio para sarna.

Ao lado desses problemas operacionais, havia a ignorância dos pacientes.
Classicamente, no tratamento da tuberculose os sintomas costumam desaparecer
ao redor de quatro a oito semanas, porém a medicação
deve ser mantida por seis meses, no mínimo, sob risco de recaída
e, pior, do aparecimento de bacilos resistentes altamente letais que podem
infectar os contatuantes. Manter adesão ao esquema prescrito era dificuldade
intransponível para a maioria dos doentes, muitos dos quais dependentes
de drogas de uso compulsivo como o crack.

Para complicar, eu não estava à altura daquela clínica
antiquada, sem imagens radiológicas ou confirmação laboratorial.
O espectro das patologias era amplo demais para alguém como eu, treinado
na época das especializações.

As doenças de pele, por exemplo, epidêmicas nas celas apinhadas,
compreendiam a dermatologia inteira: eczemas, alergias, infecções,
picadas de percevejos, sarna e a muquirana, um ácaro ousado que se
esconde nas dobras das roupas, capaz de saltar longas distâncias de
uma pessoa à outra.

Uma vez, chegou um doente chamado Mil e Um, referência à falta
dos quatro incisivos na arcada superior, que cumpria trinta dias de castigo
na isolada porque apreenderam em seu xadrez duzentos gramas de crack e oito
aparelhos de televisão, supostamente tomados de devedores inadimplentes.
Ele era Hivpositivo e tinha feridas pequenas espalhadas nas pernas, coxas
e parte inferior do abdômen, das quais saía um líquido
claro e minúsculas larvas brancas, rastejantes. Não parou um
segundo de se coçar enquanto falou comigo. Tratei a infecção
associada e, frustrado, fiquei sem saber que agente era aquele, porque Mil
e Um foi transferido para a Penitenciária, no desdobramento do caso
dos televisores.

De todos os problemas, entretanto, o pior era a mentira. Naquele lugar,
é tudo complicado. Ao lado de pacientes graves, outros fingem doença,
e separar os dois grupos nem sempre é fácil para o médico.
O preso entrava pálido, cabelo amarrota-do, referindo fraqueza, diarréia,
vômitos, tontura e malestar.
A aparência era de pessoa doente, mas como ter certeza? A palidez podia
ser conseqüência do jejum intencional, da noite sem dormir, do
crack ou do talento de ator; as queixas subjetivas, como comprovar? O objetivo
dos fingidos era conseguir transferência para a enfermaria ou evitar
a alta e terem que deixá-la. Apesar da precariedade das instalações,
aquele lugar era um luxo, como explicou Juliano:

– Eles chegam na piolhagem, porque isso aqui é hotel três estrelas,
vista do lugar daonde que eles são originados.

Quase todos pediam receitas de vitaminas, com estranha predileção
pela B12 injetável. De início, achei que era por se sentirem
fracos e considerarem pobre a alimentação servida pela Casa.
Cheguei até a fazer algumas dessas prescrições inúteis,
pensando num possível efeito placebo que lhes desse conforto psicológico.
Logo percebi que entre os habitantes da cadeia também estava na moda
a crença nos poderes miraculosos das vitaminas e sais minerais, criando
um movimentado comércio paralelo desses produtos, no qual a dolorida
injeção de B12, por exemplo, valia cinco pedras de crack. Descobri
graças à honestidade do Pequeno, o baixinho de língua
presa que confessava ter assassinado os quatro Pms que teriam matado seus
pais e que apanhava feito gente grande cada vez que o pelotão de choque
revistava a cadeia:

– Doutor, preciso de umas vitaminas, mas não vou enganar a sua pessoa.
Não é que eu vou tomar elas, vou vender para
comprar sabonete e papel higiênico. Sou sozinho, não recebo visita
e me viro com a ajuda dos médicos.

Fiquei atrapalhado. Havia fornecido prescrições para diversos
mentirosos, estaria certo negar para o único sincero?
Por isso após descobrir o outro lado, proteger esse pequeno delito
tornava-me cúmplice do Pequeno e sabe lá de quantos mais, no
futuro. Neguei, com uma ponta de remorso:

– Pequeno, até aqui eu não sabia da existência desse
comércio. De hoje em diante, não receito vitamina para mais
ninguém.

Ele respondeu:

– Se é assim, para ninguém mais, o senhor tem o meu respeito.
Desde então, nunca mais prescrevi vitaminas, ganhei a consideração
do Pequeno e aprendi que um dos segredos daquele lugar era não abrir
exceções: fez para um, difícil negar para os outros.

Outra vez, apareceu um descendente de árabes, nariz avantajado, cheio
de correntes embaraçadas nos pêlos do peito:

– Doutor, preciso uma receita de Biotônico Fontoura que eu tomo desde
pequeno, para a minha família trazer na visita.

Eu nem sabia que ainda fabricavam o tal tônico revigorante e dei a
receita ao Turco, alcunha óbvia desse personagem que anos mais tarde
fugiu por um túnel cavado no pavilhão Sete; sem ela o Biotônico
trazido pelas visitas seria barrado na portaria.
Depois dessa solicitação, vieram outras; sempre a história
do Biotônico Fontoura da mamãe. Mesno esquema das vitaminas,
nada vi de errado em receitar o assim chamado fortificante, uma vez que eram
as famílias que o compravam, e se o preso decidisse posteriormente
vendê-lo, problema dele.
Uma tarde, ao cruzar a Divinéia, encontrei o chefe do serviço
médico, meu ex-professor:

– Vocês agora tratam AIDS com Biotônico Fontoura? Qual é
a gozação?

– Ninguém te avisou que é proibido? Eles bebem misturado,com
a pga desfiada e Saridesiina. Uns anos atrás, de tanto ouvir falar
nessa maria-louca com Biotônico, resolvi experimentar. Um preso trouxe
uma xícara cheia, anunciando pela galeria que estava chegando o café
forte do dr. Mário.

– E que gosto tem?

– Gosto de fogo adocicado!

Na semana seguinte, na enfermaria, reclamei com meus auxiliares:

– Prescrevo Biotôníco para malandro colocar na maria-louca
e ninguém me diz nada!

Eles riram, sem graça. Menos o Pedrinho, que respondeu sério:

– Doutor, o senhor ajuda nós e nós agimos legal com o senhor.
Pode confiar, mas não conta com a gente para entregar os companheiros.

Devagar, aprendi que a cadeia infantiliza o homem e que tratar de presos
requer sabedoria pediátrica. Muitas vezes é suficiente deiXá-los
se queixar ou simplesmente concordar com a intensidade do sofrimento que referem
sentir, para aliviá-los. O ar de revolta que muitos traziam para a
consulta desaparecia depois que lhes palpava o corpo e auscultava pulmões
e coração. No final, não era raro encontrar ternura no
olhar deles. A paciência de escutar e o contato do exame físico
desarmavam o ladrão.
Ainda assim, os acontecimentos diários deixavam claro que a complexidade
daquele trabalho exigia atenção permanente e discernimento para
saber o que não deveria ser dito.

Um dia de chuva, entrou um ladrão do pavilhão Sete enrolado
num cobertor, feito um beduíno do deserto, apenas os olhos de fora.
Tinha os lábios rachados de febre, a conjuntiva amarelo – avermelhada
e uma dor tão forte nos músculos que gritou quando lhe apertei
a panturrilha.

Era leptospirose, doença transmitida pela urina do rato, comum naquela
época do ano em que chovia toda tarde, o Tietê transbordava para
a Marginal e o trânsito na região do Carandíru virava
um inferno. Com tantos ratos e tantos esgotos entupidos, não era de
estranhar a ocorrência de um ou outro caso. Aquela manhã, entretanto,
estava atípica: em duas horas de atendimento, era o quarto doente com
os mesmos sintomas. Muita coincidência. Enquanto o ladrão falava,
dei uma espiada nas fichas dos tres pacientes anteriores e verifiquei que
todos vinham do Sete, justamente o pavilhão mais próximo da
muralha. Quando ele terminou de relatar seus sintomas, perguntei-lhe em tom
de brincadeira:

– Você também trabalha no túnel?

Brincadeira infeliz! O rapaz ficou mais pálido ainda, os olhos amarelos
arregalaram para dentro dos meus. Como se tivesse ficado surdo, Edelso, o
falso médico, retirou-se da sala. Percebi que, imprudente, havia cruzado
uma barreira perigosa. Na cadeia, certos temas queimam a língua de
quem fala e os ouvidos que escutam. Parece que ficamos horas ali, tensos,
naquele olhar mudo, até eu romper o silêncio:

– Desculpa, estou brincando. Nunca vi tanta leptospirose como hoje. Você
é a quarta pessoa.

– Doutor, agora o senhor me complicou.

Desconcertado pela surpresa, ele não negou nem confirmou o trabalho
no túnel. Procurei tranqüilizá-lo:

– Olha, não sou polícia, venho aqui para atender quem está
doente. Pode confiar.

– Pelo amor de Deus, doutor, essa fila pode gerar desgraça em mim
e nos companheiros que passaram por aqui hoje.

– Já nem sei de que assunto você está falando.

Lentamente, seu rosto se desanuviou. Sugeri-lhe que ficasse internado na
enfermaria, mas ele recusou; preferiu tomar antibiótico no xadrez.
Disse que podia contar com a ajuda dos companheiros.
Duas ou três semanas depois, em casa, no café da manhã,
abro o jornal: “Detentos fogem através de túnel no Carandiru”.

O buraco, escondido atrás de uma imagem de Nossa Senhora Aparecida,
foi aberto numa sala do Patronato, área onde os presos trabalham, no
térreo do Sete, passou sob a muralha e terminou na sala de jantar de
uma casa da rua vizinha ao presídio. Há quem diga haver percorrido
o caminho inverso: da sala da casa em direção ao Patronato do
Sete.

Alheios ao risco de desabamento, os homens rastejaram mais de cem metros
pelo túnel inundado, com ratos afogados, boiando. Um dos primeiros
a passar derrubou uma lâmpada da iluminação improvisada
que, em contato com a água, eletrificou o trajeto. Na escuridão,
espremidos entre as paredes do buraco, tomando choque no corpo molhado, sessenta
e três homens escaparam para a liberdade.

Só não fugiu mais gente porque um deles, obeso, entalou na
boca do túnel disfarçada atrás da santa. O Rolha, conforme
ficou conhecido esse rapaz, foi transferido da Detenção às
pressas, para não ser morto pelos companheiros frustrados que vinham
atrás, na fila.

ANJOS-DEMÔNIOS

A Faxina é a espinha dorsal da cadeia. Sem entender sua estrutura,
impossível compreender o dia-a-dia, dos momentos corriqueiros aos mais
agudos.

Sua função é “pagar a bóia”, isto
é, distribuir cela por cela as três refeições diárias
e cuidar da limpeza geral. O número de faxineiros varia conforme o
pavilhão. Naqueles com menos gente, como é o caso do Quatro,
do Seis ou do Sete, eles são cerca de vinte; nos mais populosos, como
o Cinco, o Oito e o Nove, pavilhões com mais de mil prisioneiros cada,
são necessários de 150 a duzentos faxinas, divididos entre os
que servem comida e aqueles que tiram o lixo, varrem e lavam tudo. A Faxina
tem hierarquia militar. Os recém-admitidos recebem ordens dos mais
velhos e em cada andar há um encarregado que presta contas ao encarregado
-geral do pavilhão. De acordo com a gravidade do problema, pode haver
contato entre os encarregados- gerais, mas o comando é estanque ao
pavilhão, não existe um chefe supremo da cadeia. Aliás,
chamar os encarregados de chefes é ofendê-los, bem como a seus
subalternos:

– Quem tem chefe é índio.

Aos funcionários não cabe escolher faxineiros, é a
corporação que recruta seus membros. Para ser aceito, o candidato
não pode ter delatado companheiro nem ter sido responsável pela
prisão de alguém, não pode estar endividado, não
pode ter ameaçado de morte um desafeto e não cumprir, não
pode ter levado um tapa na cara nem assumido o papel de “laranja”,
ou seja, ter se responsabilizado pela ação cometida por outro.
Enfim:

– Não pode ter mancada no Crime.

Um dos faxinas da enfermaria resume os requisitos em linhas mais abrangentes:

– O faxina é um ser humano como qualquer preso, mas tem que ter álibi
com a malandragem. Não pode ser pilantra. A corporação
é especialmente zelosa do comportamento sexual de seus membros. Estuprador
jamais é aceito, e, se desmascarado, corre perigo de vida. Preso abusado
sexualmente só será admitido se matar seus ofensores. Se for
homossexual, então:

– Aí é que entra menos ainda. Não tem cabimento uma
pessoa que pratica coisas com a bunda vim mexer na alimentação
da coletividade.

Quando um membro é recrutado, os mais velhos explicam-lhe as regras
de procedimento: não fazer dívida, respeitar visitas alheias,
ajudar os necessitados, colaborar para a solução das desavenças
e obedecer às decisões do grupo. Em caso de receber ordem que
considere injusta, primeiro deve cumpri-la e depois, com respeito, discuti-la
com os superiores. Se a ordem for extrema, deverá soltar a faca com
os demais. É uma família: mexeu com um, comprou briga geral.

A união assegura autoridade irrefutável à Faxina. Para
enfrentá-la seria preciso organizar um grupo mais forte, capaz de desencadear
uma guerra interna pelo poder, acontecimento altamente improvável porém
não impossível, como veremos mais tarde.

De sua parte, a administração do presídio tem uma visão
darwiniana do processo, como deixa claro um antigo diretor, famoso por lutar
boxe com os detentos mais fortes:

– Na competição, os presos mais hábeis dominam os fracos.
É inevitável. Nós não impomos um chefe para eles

– seria ótimo se pudéssemos. O que nós fazemos é
tirar partido da seleção natural do líder, usando a estrutura
da Faxina para que ele assuma o comando dos outros. Se cada um fizesse o que
bem entende, quem controlaria isso aqui?

O diálogo da administração com a cúpula da Faxina
é fundamental para a manutenção da ordem. Uma tarde,
houve uma reunião do diretor com os encarregados-gerais dos pavilhões,
para acabar com a moda de fazer funcionários reféns em ponta
de faca como meio de forçar transferência para outros presídios.
O diretor prometeu agilizar a burocracia das transferências e os encarregados
assumiram o compromisso de acalmar os desesperançados. Por mágica,
a paz estendeu seu manto sobre a Detenção. Reunião do
diretor de Disciplina com o encarregado geral parece a do presidente da companhia
com o gerente-executivo: voz baixa, cada um explica o que quer e até
onde pode chegar. Compromisso assumido é compromisso cumprido.

A Faxina é absolutamente fundamental no controle da violência
interna. Se alguém deve e não paga, o credor não pode
soltar a faca sem antes conversar com o encarregado – geral, que ouve as partes
e dá um prazo para a situação ser resolvida. Antes que
este expire, pobre do credor que ousar agredir o outro. Sem o aval do encarregado
– geral, nada pode ser feito:

– Porque é ele que segura todas as ocorrências do pavílhão.
Naquele momento, podem estar cavando um túnel, armando um plano de
fuga, e uma facada fora de hora põe tudo por água abaixo.

Uma vez, Zico, com fama de bandidão na Vila Guaram,reconheceu a fisionomia
de um recém-chegado no pavilhão Nove e foi conversar com o encarregado
– geral, um negro de lábios grossos conhecido como Bolacha, ladrão
de longa carreira:

– Quero pedir licença para dar uma lição nesse pilantra.
É estuprador, abusou da amiga da minha irmã, lá na vila!

Bolacha ouviu em silêncio e, quando o outro terminou o relato, voltou-se
para ele:

– Se é como você diz, que ele desrespeitou a honestidade da
moça, que a mãe dela deu parte na delegacia, deve de existir
um boletim de ocorrência. É moleza, escreve para a tua vizinha
e manda ela trazer cópia desse beó, que está liberado.

Zico seguiu a orientação à risca. O flagrante, de fato,
havia sido lavrado e o xerox comprovava a versão apresentada ao Bolacha.
Foi autorizado a matar o estuprador.

Recebida a autorização, porém, Zíco ouviu os
amigos e refletiu que talvez não fosse aquela a melhor atitude. Não
tinha nenhum laranja para assumir seu lugar na autoria do futuro crime: certamente
seria condenado a muitos anos mais, logo agora que estava prestes a conseguir
transferência para a Colônia, em regime semiaberto. Alguns dias
depois, Zico foi chamado no xadrez do Bolacha na presença de testemunhas:

– Zico, qual é a tua, meu? Está esperando o que para resolver
o caso daquele pilantra?

– Bolacha, sucedeu-se que subiu meu recurso para a Colônia e eu achei
melhor deixar quieto por enquanto e acertar ele na rua.

– O, Zico, agora você me desapontou! Pede para matar o cara, traz prova
do estupro e depois muda as idéias. Arruma tuas coisas e atravessa
para o Cinco, que o Nove ficou pequeno para você. Você não
é do Crime, meu. Você é um cômico.

Atendendo pedido do próprio Zico, os funcionários endossaram
a decisão da Faxina e bateram a transferência para o pavilhão
Cinco. Zé da Casa Verde, marido de duas mulheres, na época internado
na enfermaria, fez o seguinte comentário a respeito da atitude dos
faxineiros neste episódio:

– A Faxina tanto faz para auxiliar, como ajuda a prejudicar. Eles são
anjos-demônios.

Entrar para a Faxina é estratégia perigosa de sobrevivência:
de um lado, a proteção do grupo; de outro, a obediência
cega às ordens dos superiores, para bem ou para o mal.

Quem chega ao topo da hierarquia deve ser homem de respeito e estar preso
há alguns anos para conhecer o ambiente. Idade não é
documento e no mundo do crime de pouca valia é a força física
individual, ao contrário do que muitos pensam.

Conheci um encarregado franzino, de 25 anos, que comandava um pavilhão
com 1600 homens. E o maior brutamontes da cadeia foi assassinado enquanto
dormia, por um branquinho obstinado de 44 quilos. O comando da Faxina jamais
é entregue a um facínora desmiolado. Todos os encarregados –
gerais que conheci eram homens de poucas palavras e extremo bom senso, que
assumiram a liderança graças à habilidade de resolver
conflitos e formar coalizões.

Abrão, um nordestino atarracado, ex-proprietário de inferninho
no cais de Santos, cumprindo 25 anos pela morte de um cliente abusado que
bateu numa das prostitutas de seu harem, ressaltou as seguintes qualidades
do encarregado -geral:

– Ele tem que ter cacife, situação verbal boa, escutar muito
e falar pouco, para não dar aproximação. Tem que ter
equilíbrio nas atitudes para dizer um isso está certo, um aquilo
está errado, um você pega suas coisas e atravessa para o Cinco.
Aqui, não é como na rua, que um louco pode ser chefe de seção,
gerente de firma, chegar até presidente da república que nem
aquele, que diz que cheirava farinha e tinha cara mesmo. Aqui, o líder
é o que sabe ouvir a voz da razão, debater com os companheiros
e se agrupar para ficar forte, porque, como é dito, contra a força
não há resistência.

É árdua a rotina do encarregado. Do momento em que as celas
se abrem até o horário da tranca, é preciso estar atento.
Para se afastar do pavilhão por cinco minutos que seja, tem que deixar
o subencarregado em seu posto. A necessidade desta precaução
tem justificativa: – Em cinco minutos muita desgraça pode acontecer
numa cadeia.

Vivem atarefados. Na enfermaria, atendi dois deles com sintomas visíveis
de estresse, como se fossem altos executivos de multinacional ou, como prefere
dizer o Bolacha, como se fossem juízes de direito:

– Lá acordo cheio de problema: é o cara que quer acertar uma
bronca da rua, um que precisa matar o pilantra, cavar um túnel, cobrar
dívida, o outro que ouviu uma palavra mal colocada, e vai assim até
a tranca. Precisa apaziguar tanta zica, doutor, que pareço pai de família,
só acalmo de noite, depois que todos foram para a cama.
Na verdade, nas fases mais agitadas do pavilhão, nem na cama Bolacha
tinha sossego:

– No silêncio da noite, a mente trabalha solitária porque a
decisão final é minha e dela depende a sorte de um ser humano.
Sou o juiz do pavilhão. Só que o juiz da rua trabalha aquelas
horinhas dele e vai para casa com o motorista; eu, é 24 por 48. Ele,
só tem que julgar se o acusado vai preso; no máximo, dar uma
pena mais longa. Eu, assino pena de morte.

OS FUNCIONÁRIOS

No início, fiquei com a impressão de que os funcionários
não confiavam em mim. Depois, tive certeza. Eram arredios, mais tarde
me contaram, por acharem que eu estaria ligado às associações
de defesa dos direitos humanos ou teria interesses políticos.

Nos primeiros anos, descontados o Waldemar Gonçalves, que virou amigo
íntimo, mais uns dois ou três, os restantes mudavam de assunto
à minha chegada. Se, por curiosidade, eu fazia uma pergunta sobre a
mais corriqueira ocorrência, da vam respostas evasivas. Depois de uma
palestra no cinema do pavilhão Seis, cruzei com um rapaz ensangüentado
a caminho da enfermaria e perguntei ao funcionário que o escoltava
o que havia acontecido:

– Despencou uma telha na cabeça dele.

Outra vez, encontrei uma confusão na Divinéia. Gente que entrava
e saía da sala de Revista, lotada; ânimos exaltados. Certamente
tinham flagrado alguém com algo proibido. Quando perguntei o que se
passava a um senhor baixinho que guardava o portão de acesso à
Divinéia (onde anos depois encontrou a morte, prensado por um caminhão
de lixo numa tentativa cinematográfica de fuga), ele respondeu sério:

– Um colega se sentiu mal com o calor.

A desconfiança não tinha motivação pessoal.
Nada que eu tivesse feito ou dito poderia justificá-la. Na verdade,
guardas de presídio não gostam de pessoas estranhas no ambiente
de trabalho. A realidade é desconcertante numa prisão, o que
parece certo muitas vezes está errado, e aparentes absurdos encontram
lógica em função das circunstâncias.

O visitante, ingênuo, tira conclusões precipitadas e pode fazer
comentários indiscretos que eventualmente cheguem aos ouvidos da Corregedoria,
encarregada de investigar abusos de autoridade, ou à redação
dos jornais.
Os militantes das associações de defesa dos direitos humanos
e da Pastoral carcerária da Igreja Católica de um modo geral
são malvistos. Os funcionários dizem que eles só estão
interessados nos direitos dos bandidos.

– Doutor, nesse tempo, o senhor já perdeu a conta de quantos colegas
nossos foram agüentados em ponta de faca. Não tem humilhação
pior para um pai de família.

Só quem passou por isso pode contar. Alguma vez o senhor viu chegar
alguém dos direitos humanos ou esses padres da Pastoral pra dar apoio
ao funcionário?

Respondi que, de fato, nunca tinha visto. Ele prosseguiu:

– Um homem que não fazia mal para uma mosca, como o seu Joãozinho,
morreu esmagado pelo caminhão de lixo no portão da Divinéia,
naquela tentativa de fuga.

Pergunta se alguém veio dizer uma palavra de conforto para a viúva?
Agora, vai dar um tapa num ordinário sem-vergonha qualquer para ver
o processo que eles armam para a gente!

Os jornalistas, por sua vez, são mestres no desagrado, conseguem
inimizades entre gregos e troianos. De medo que alguma vítima antiga
lhes reconheça a fisionomia e novos processos aumentem o débito
com a justiça, os presos fogem das objetivas como o diabo da cruz.
Apontar-lhes uma máquina fotográfica ou câmera de TV faz
com que cubram o rosto e de sapareçam mais depressa do que diante da
metralhadora de um Pm. Os funcionários também evitam a imprensa,
dizem que ela só serve para criticar e distorcer o que é dito.

Uma vez, seis detentos seqüestraram um grupo de carcereiros na lavanderia,
junto ao pavilhão Seis, para exigir transferência de presídio,
procedimento que se tornou rotina após o massacre do Nove. Quando cheguei,
a frente da cadeia, nos baixos do elevado por onde passa o metrô, estava
cheia de câmeras, microfones e carros de reportagem. Ao entrar na Casa,
perguntei a um dos diretores que participava das negociações
a razão do alvoroço:

– São abutres, doutor. Pousam aqui quando pressentem qualquer desgraça
que ajude a vender jornal. A convivência encarregou-se de quebrar a
resistência da corporação à minha pessoa, como
disse seu Aparecido Fidélis, funcionario experiente, enquanto tomávamos
um chope no Recanto Nordestino, ao lado da cadeia:

– Com o passar dos anos, nós percebemos que o senhor veio para somar.

A partir daí, tive ampla liberdade. Pude circular até nas áreas
de segurança, do Amarelo à Masmorra. Andar sozinho pela cadeia
no meio dos ladrões transmitiu-me uma sensação de autoconfiança
que não ficou limitada ao espaço interno do presídio.

Hoje, há funcionários que demonstram ao me ver a mesma alegria
que sinto ao encontrá-los. Conversamos sobre o tra balho, problemas
de saúde, agruras financeiras (que não são poucas entre
eles), dificuldades com a família e desencontros com as mulheres (que
são muitas). O respeito entre nós reforçou os laços
que me prenderam à Detenção.

A vida que levam é dura. Para sobreviver dignamente, o salário
não dá. Os que teimam na honestidade, fazem bico como segurança
em banco, supermercado, loja, boate ou casa de tolerância.

Boa parte desse trabalho é a serviço de empresas clandestinas,
sem direitos trabalhistas. Nem armamento recebem, utilizam o revólver
pessoal, geralmente não legalizado, uma vez que a categoria não
tem direito a porte de arma. Num assalto, se forem feridos ou matarem o assaltante,
a empresa pode se eximir da responsabilidade. Não existe vínculo
empregatício. Se morrerem, a família que se arranje com a pensão
do Estado.

A jornada de trabalho é interminável. Os que dão plantão
noturno saem às sete da manhã diretamente para o bico. Cama,
somente na noite seguinte, quando folgam na cadeia. O pessoal do diurno inverte.
Aqueles que cumprem horário fixo, das oito às dezoito, diariamente,
ficam em situação pior: cochilam algu mas horas no serviço
e é só. Deitar na cama, só na folga do final de semana.
A ausência de casa desarticula a rotina familiar, destrói casamentos
e dá ensejo a vidas duplas, dividindo-os entre a esposa e outras mulheres.
Para agüentar a tensão inerente à atividade e o cansaço
das noites, muitos abusam da bebida. Alcoolismo e obesidade são doenças
prevalentes entre guardas de presídio. Bebem para valer, não
é fácil acompanhá-los.

Uma noite, após a distribuição do quarto número
do Vira Lata, o gibi erótico de prevenção à AIDS,
juntei a equipe que participou do trabalho e fomos para o bar na frente da
Detenção, chamado Alcatraz. Ao chegarmos, lá pelas onze
da noite, encontramos um grupo de funcionários do diurno que bebia
desde a saída, às sete. Ambiente de botequim: balcão
congestionado de garrafa de cerveja, pratinho com calabresa acebolada, música
de vitrola automática, falatório e fumaça de cigarro.
Um dos carcereiros, quando me viu, estendeu-me a mão e com a voz de
quem tem uma batata quente na boca, fez um pequeno discurso:

– Doutor Várella, quanta honra esta figura científica aqui,
com este humilde funça, que no entanto é uma pessoa humana que
tem no coração tanta dignidade como o senhor e neste momento
de confraternização faz questão absoluta de oferecer-lhe
uma pinga, que o senhor terá a fidalguia de aceitar.

Apesar do vernáculo persuasivo, titubeei; a distribuição
da revista havia atrapalhado a minha rotina de tal forma que eu estava apenas
com o café da manhã.

Aquela pinga, em jejum, não ia fazer bem. Diante da hesitação,
um colega mais sóbrio do funcionário cambaleante veio em meu
auxílio:

– Deixa quieto, que o doutor não é homem de tomar pinga em
botequim.

A observação tocou meus brios. Respondi que honrado era eu,
por beber em tão distinta companhia.
Veio um daqueles copos de bar com frisos paralelos e uma dose para lá
de generosa: dois terços do copo. Com os olhares voltados para mim,
dei um gole de homem, como eles. O líquido escorreu incandescente pelo
esôfago, deu um tranco na boca do estômago e um baque instantâneo
no cérebro. Senti o corpo arrepiar. Aí o Waldemar sugeriu um
frango a passarinho, no capricho, especialidade do Alcatraz, acompanhado de
cerveja, é claro, e da voz melodiosa da Alcione cantando “Nem
morta” Quando a música acabava, alguém punha outra ficha
na vitrola e a cantora repetia o “Nem morta” a Alcione e o copo
cheio pareciam moto-contínuo.

Cheguei em casa e entrei no chuveiro com o gosto do franguinho encharcado
no óleo do Alcatraz e as imagens da cadeia. No meio do banho, tomei
um susto com a voz da minha mulher:

– Isso é hora de ouvir samba nesse volume?

– O rádio nem está ligado!

– Lógico, acabei de desligar. Você nem percebeu?

Não é intenção transmitir uma visão romântica
desses homens, mesmo porque alguns não valem defesa. Envolvem-se com
os ladrões, aceitam propinas nas transferências de xadrez, cobram
pedágio nas portas dos pavilhões, compactuam com o tráfico
e vendem facas para defesa pessoal. Corrupção pé-de-chinelo,
universal nos presídios. Impossível de acabar. Provavelmente
participam também de contravenções mais graves, como
facilitação de fugas (um diretor-geral que assumiu logo após
o massacre do Nove acabou preso no coc, por envolvimento em várias
delas), ou deixam entrar armas de fogo, prática arriscada que provoca
atitudes agressivas nos próprios colegas postos em risco.

Os que agem assim tornam-se indistinguíveis dos ladrões, porque,
como afirmam os de conduta séria:

– Quem anda com porco, come farelo.

A convivência prolongada com a malandragem, a falta crônica
de dinheiro e a própria burocracia da justiça brasileira fermentam
o caldo da corrupção. Um antigo diretor, certa vez, recebeu
denúncia de que o funcionário encarregado de dar andamento à
papelada dos detentos no Fórum cobrava serviço por fora. Sem
dar dinheiro para ele, podia-se mofar na cadeia. O diretor passou-lhe uma
descompostura, transferiu-o para vigiar o portão do pavilhão
Nove e nomeou uma pessoa de sua confiança para a estratégica
função, porque quando cessam as transferências para o
regime semi-aberto e as libertações, o ambiente fica péssimo,
pronto para explodir.

Pois bem: semanas depois, em meio ao descontentamento crescente da massa
carcerária, e sem conseguir fazer andar papel nenhum, o funcionário
de confiança voltou ao diretor:

– Doutor, quer um conselho? Devolve fulano para a função.
Só ele conhece o caminho das pedras no Fórum.

Ali, sem caixinha, cria teia de aranha. O diretor, um homem de senso prático
que começou a vida batendo de cassetete em cabeça de bêbado
criador de caso no cais de Santos, resolveu não dar murro em ponta
de faca e chamou o funcionário malandro:

– Olha aqui, fulano, faz quase um mês que você abre e fecha
porta para vagabundo, no Nove. Deu tempo de aprender a lição.
Volta para o Fórum e faça o que for necessário para andar
os papéis do pessoal, antes que a situação fique pior
do que está.

Justiça seja feita, porém: há muitos guardas de presídio
sérios, apesar da má fama da profissão, dos salários
ridículos, do risco de contrair tuberculose, virar refém ou
morrer na ponta de uma faca. Não fossem eles, seria impossível
tocar a cadeia.

Seguindo a tradição do serviço público brasileiro,
na Detenção são muitos os servidores inativos e pouquissimos
nas funções produtivas. Além disso, a desvalorização
da carreira de guarda de presídio provocou deserção de
muitos homens experientes, forçando a contratação de
jovens sem treinamento adequado.

Uma vez, na Radial, junto ao portão que separa o Seis do Dois, em
voz baixa o Chico Bagana, ladrão de muitas passagens pela Casa, gozador
empedernido, chamou minha atenção para o novato da guarita:

– Doutor, vê se tem cabimento botar um menino desses para tomar conta
da gente. Ele está amarelo de medo.

Esses fatores, aliados ao absenteísmo, criam situações
surrealistas. Durante o dia, por exemplo, de dez a doze funcionários
tomam conta de um pavilhão como o Oito, com mais de 1500 detentos reincidentes;
à noite, o número cai para seis ou sete. Para cuidar dos 1600
presos do Cinco, a mesma precariedade.

Como um grupo tão pequeno de homens sem armas consegue controlar
um presídio daquele tamanho é um dos mistérios da cadeia.
Talvez o maior. A estrutura é tão frágil que a única
explicação para não ocorrerem fugas espetaculares, daquelas
de esvaziar pavilhão, é a dada pelo seu Reinaldo, da portaria:

– A nossa sorte é que eles não falam a mesma língua.

Reduzido à essência, o trabalho dos carcereiros consiste em
dividir a malandragem, maquiavelicamente. Como diz seu Bonilha, ex-diretor
do Cinco, que uma vez pagou do bolso um pacote de cigarro que um ladrão
devia, só para evitar um homicídio a mais em seu pavilhão:

– Eu passo o dia jogando areia na deles.

Seu Fidélis, cadeeiro da velha guarda, diz que o segredo do oficio
é tirar partido do conflito de interesses entre os detentos:

– Doutor, o Crime é uma profissão. O malandro de verdade chega
aqui para tirar a cadeia em paz, voltar para a rua o mais rápido possível
e assaltar, que essa é a vida dele. Ele segura os companheiros, não
se envolve em plano de fuga, droga ou facada, para não comprometer
o objetivo de ir embora. Sem perceber, o maior bandidão acaba nosso
aliado.

A habilidade para estabelecer alianças com as pessoas certas, os
líderes da massa carcerária, é essencial para o bom anda
mento da cadeia e para a segurança física do funcionário.

O convívio com os presidiários é capaz de criar sólidas
relações de amizade. Para o homem preso, o carcereiro representa
o contato com a sociedade exterior – o único, no caso dos que não
recebem visitas. Um pequeno favor, o apoio numa hora difícil ou a simples
paciência para escutar um desabafo despertam no detento extrema consideração
pelo funcionário. O respeito mútuo é parte do equilíbrio
de forças que se estabelece na cadeia e pode ser decisivo para preservar
a vida nos momentos de violência irracional.

Nos dias conturbados que se seguiram ao massacre de 1992, a malandragem
de moral chegava a escoltar funcionários até a saída,
para evitar possíveis represálias da massa revoltada.

Ao lado das amizades certas, uma boa equipe de delatores é fundamental
para a paz interna. O alcagüeta é personagem tão velho
quanto os presídios. Delata a troco de uma vantagem pessoal: transferência,
pagamento de dívida, vingança, inveja, intriga de mulher ou
para eliminar o traficante concorrente, como diz seu Florisval, que começou
como carcereiro e chegou a diretor:

– Quando aparece um alcagüeta, procuro ver se a informação
que ele traz vale a vantagem que ele quer tirar.

Luisão, legendário ex-diretor da Casa, jura que era capaz de
identificar aqueles nos quais a cagüetagem é qualidade inata:

– Ele já nasce cagüeta, doutor.

É atividade de alto risco no mundo do crime; passível de execução
sumaria. Ainda assim, para desespero da malandragem, como admite pesarosamente
o SemChance:

– Tem sempre um cagüeta na fita, doutor. É sem chance.

Numa cadeia, como os acontecimentos são descritos segundo a versão
preferida de cada narrador, ninguém sabe de que lado está a
verdade. Ouvir dez pessoas é escutar dez histórias, e separar
o joio do trigo, um quebra-cabeça que exige preparo intelectual. O
funcionário experiente registra tudo o que se passa ao redor, mesmo
o insignificante. Quando surge um problema, ouve os bem-informados, chama
o chefe da Faxina, debate com os colegas e convoca os delatores. Até
tomar a decisão final:

– A gente pisa em ovos; qualquer deslize pode acabar em morte.

Quando quer descobrir culpados, seu Jesus, diretor de Vigilância,
diz que evita movimentos bruscos: – Eu cutuco de leve e espero para ver onde
a onça vaigritar.

São espertos; na astúcia, confundem a malandragem desunida.
Uma vez o pavilhão Oito passou o dia trancado, por causa de um boato
de que estava sendo cavado um túnel. Na tran ca-represália,
ninguém serve comida e o mau humor cresce no decorrer do dia. No final
da tarde, quando seu Jesus, do alto de seus 120 quilos, cruzou o pátio
do pavilhão, ouviu de uma janela:

– Vai morrer, seu Jesus!

– E você não, malandro? – respondeu de imediato.

Ao lado dos defensores de técnicas civilizadas, porém, existem
funcionários mais radicais:

– O que segura uma cadeia, doutor, é pau e bonde, o resto é
bobagem. Acerta o cara e transfere lá para a penitenciária de
Presidente Wericeslau, quase na divisa com Mato Grosso, para ver se ele não
volta mansinho. Na Detenção, as agressões aos presos,
tradição forte no sistema prisional brasileiro, não desapareceram,
mas diminuíram de intensidade com o passar dos anos, pois, como diz
Luisão, atualmente aposentado:

– Quando eu comecei, a moda era ser caceteiro; hoje é parar de bater.
O funcionário se adapta aos tempos. O senhor leva a patroa ao baile,
doutor, toca valsa, o senhor vai querer dançar samba?

Curioso é que os presos mais velhos consideram o coronel Guedes, um
militar dos anos 70, época da ditadura, como o melhor diretor de todos
os tempos. Falam dele com grande admiração:

– O lema era pau e cela, mas existia respeito, de nossa parte e dos funcionários.
Andava sozinho pela cadeia inteira, na moral, todo mundo de mão para
trás quando ele passava. O homem era fascista, não dava mole
para nós nem para a justiça, com ele tinha que cumprir a lei
dos dois lados. Telefonava para as autoridades e dizia que a pena tinha acabado:
ou chegava o alvará de soltura ou ele punha o elemento na rua. Ajuizada
tinha medo do coronel.

Dadas as condições do presídio, é impossível
acabar com as agressões, porque no convívio com os ladrões
alguns funcionários se embrutecem de tal modo que não enxergam
outra alternativa para impor ordem. Como vigiá-los na calada da noite,
no canto escondido de um pavilhão escuro?
Uma vez, seu Lourival, funcionário calejado, comentou a respeito de
um episódio rumoroso, no qual dois presos se queixaram ao padre de
terem levado uma surra de cano de ferro e o caso foi parar na Corregedoria:

– Duvido que alguém faça concurso para guarda de presídio
só para bater em detento. É o ambiente daqui que deixa a pessoa
assim.
Na prisào, a violência que explode em ciclos invade a vida dos
guardas. Nos acertos de contas entre a malandragem, quando um grupo decide
dar cabo de alguém, os funcionários têm ordem para não
interferir. Morra aquele que tiver de morrer; paciência, trabalham desarmados:

– Nessa hora não dá, doutor, é como querer apartar briga
de cachorro louco.

Um funcionário de trinta e poucos anos que faz bico como segurança
de um prostíbulo em Diadema, que ele garante ser lugar de respeito
e insiste que eu vá visitar, contou que a imagem do primeiro preso
que ele viu morrer, há cinco anos, retorna quando menos espera:

– Chegaram oito com faca e pau no xadrez do tal de Alagoas. Ele me viu e
começou a gritar: me ajuda, seu Paulo, pelo amor de Deus! A única
coisa que eu pude fazer foi pedir para não matarem o rapaz. Não
adiantou nada. Tomou mais de vinte golpes. É feio, doutor, um ser humano
berrando feito porco apunhalado e o senhor não poder fazer nada.

Com o tempo, Paulo presenciou outras mortes semelhantes, mas a impressão
da primeira foi inesquecível:

– Até hoje a expressão de terror daquele rapaz volta na minha
mente, num aniversário de família, na cama com a minha mulher
ou na frente da TV com as crianças. De minha parte, posso assegurar
que a influência do meio está longe de ser desprezível.
Apesar de médico, diversas vezes tive vontade de bater em alguém
na cadeia, não por terem me faltado ao respeito, fato jamais ocorrido,
mas pela revolta diante da perversidade de um preso com outro.

O REBANHO

Padres, pastores, médiuns, pais e mães-de-santo e até
adoradores de Satanás freqüentam o presídio para converter
à palavra do Senhor as ovelhas desgarradas. A crença na ajuda
divina é para muitos presos a derradeira esperanca de conforto espiritual,
única forma de ajudá-los a estabelecer alguma ordem no caos
de suas vidas pessoais.

A pregação dos pastores protestantes, que oferecem o caminho
do céu pelo conhecimento da Bíblia e de uma divisão clara
entre o Bem e o Mal, obtém mais sucesso do que a dos padres católicos.

Entre os crentes da Detenção, o grupo mais coeso é
o da Assembléia de Deus, que congrega perto de mil homens mais de 10%
da população da Casa. Só no pavilhão Nove há
duzentos; no quinto andar do Cinco, vizinho do Amarelo, 180. Andam de manga
comprida, colarinho abotoado, e para onde vac, carregam o livro santo. Chamam-se
de irmãos, proclarriamse tementes a Deus e repetem jargões bíblicos
em tom monocórdio.

Na prática, com os crentes sempre tive dificuldade para diferenciar
aqueles convertidos à palavra do Senhor, dos que adotaram o mesmo estereótipo
para fugir do acerto de contas com a massa carcerária. Estupradores,
Justiceiros, usuários de droga inadimplentes, delatores e ladrões
que trapacearam na divisão do roubo às vezes fingem se converter
para contar com a proteção do grupo religioso. Como usam as
mesmas roupas,carregam a Bíblia e repetem o nome do Senhor a cada frase,
é impossível distingui-los dos crentes de verdade. Os próprios
ladrões queixam-se da mesma dificuldade. Respeitam os crentes, porem
exigem coerência. Uma vez, atendi na enfermaria um membro da Igreja
Universal que apanhou dos ladrões no pavilhão Nove quando o
pegaram fumando um cigarro escondido. O rapaz tinha vergões nas costas,
um hematoma no olho direito e um corte de faca no braço. Meus enfermelros
justificaram a agressão: – Quer ser crente, nós respeitamos
a caminhada dele, mas não pode tirar uma para cima da gente. A cara
dele é passar o dia rezando para Deus proteger nós, ladrões.

Para conquistar novos adeptos, os irmãos chegam a liquidar dívidas
do recém-convertido. Tarefa muitas vezes inglória, como esclarece
um dos pastores do quinto andar do Cinco, um homem em formato de barril, preso
por vender lotes no meio da represa Billings e por outros golpes contra a
economia popular:

-Como a própria Bíblia diz que é para apaziguar, Eclesiástico
10 e 4, a gente acerta a dívida dele. Mas, como uns e outros não
é sincero, depois que pagou ele fica bravo de novo: porque eu sou isso,
aquilo, sou 157 e mais não sei o quê. Enquanto está no
meio dos lobos, ele é ovelhinha; chega aqui, vai querer bancar o lobo
no aprisco de Deus.

No pavilhão Cinco, um pastor-chefe comanda a ala, auxiliado por três
outros. Os pastores devem ser casados, ter bom testemunho e reputação
ilibada com a diretoria do presídio. São escolhidos pelo tempo,
após cumprirem os estágios de cooperador, diácono e presbítero.
Ficam sob observação durante três ou quatro anos antes
de serem indicados, segundo um diácono de olhar piedoso, cumprindo
pena por assalto, tráfico de crack e participação numa
chacina na favela de Heliópolis:

– São vistos se têm nível espiritual, conhecimento da
Palavra e se são pessoas de oração, porque tem um que
não está totalmente de pé, outro que ainda é meio
bravo, outro que masturba no sexo, ou seja, não é membro em
comunhão com o povo de Deus.

É árdua a trajetória dos novos convertidos, pois a
marcação sobre a vida alheia é cerrada. O fiel não
escapa à vigilância permanente do grupo e ao olhar onipresente
do Senhor. Valente, um rapaz com forte sotaque paranaense, condenado por sete
mortes a 130 anos, justifica a necessidade do rigor:

– O problema é que às vezes tem uns camaradas aqui que é
ator perigoso. Perigosíssimo, 171 bravo! Por isso, uma equipe de diáconos
observa ele 24 por 48. Não é que nós &eacueacute; polícia
e investiga, é o Espírito Santo de Deus quem avisa que aquela
pessoa cometeu e tal e não quer permanecer no rebanho.

O código de comportamento é severo, a conduta do crente precisa
se destacar na massa. Deve largar gíria, mulheres, vestir roupa social,
andar de sapato engraxado, perder a ginga, tomar banho e pentear o cabelo.
Pessoas amasiadas não podem morar na galeria da Assembléia,
apenas os solteiros e os casados legalmente, no papel. Homossexuais são
aceitos, porém com uma ressalva:

– Tem que abandonar a vida pecaminosa e voltar a ser cidadão normal.

Valente diz que os estupradores, odiados por todos, para os crentes são
pessoas que merecem o perdão do Senhor, porque têm problemas:

– Problemas mentais e diabólicos.

Iludem-se, no entanto, os que se juntam aos crentes esperando uma vida fácil.
São cheios de espinhos os caminhos que conduzem a Deus, diz o diácono
de olhos piedosos:

-A rotina da Igreja na cadeia não dá tempo capcioso.

Às oito horas, assim que destrancam as portas, saem todos para a
primeira oração, que dura sessenta minutos. Às nove,
começa a Campanha: oito, dez pessoas reunidas nas celas, orando por
mais uma hora. Metade da Campanha é oração, quinze minutos
são de louvores e quinze de Palavra, quando todos falam ao mesmo tempo
e as vozes se elevam a Deus. Quem passa pela galeria neste momento tem impressão
de estar na torre de Babel, com aquele falatório simultâneo.
No final, os irmãos chegam a pingar de suor, afónicos, de tanto
elevar-se ao Criador.

Depois dessa Campanha, inicia-se outra às dez, na qual um irmão
mais velho ministra a Palavra até as onze e meia. Aí é
hora do banho, para almoçar e descer depressa, porque das treze às
quinze o culto é ao ar livre, para atrair novas vocacões. Terminou,
é subir rápido porque às quatro é a tranca e os
crentes não atribulam os funcionários, por princípio.

Trancou, vêm mais orações, louvores e Palavra até
as seis e meia. Aí se lavam e jantam. Depois, rezam, estudam a Bíblia
ou ministram a Palavra até a hora de dormir. Cedo, porque televisão
é proibido, e nas rádios não se admite pagode, samba,
rock, nada, apenas as emissoras evangélicas.
A Igreja funciona como centro de recuperação, talvez o único
disponível no presídio. Descontados os falsos crentes, que “jogam
areia nos olhos dos irmãozinhos”, os demais são felizes,
na visão do pastor:

– A gente sente Deus operando na existência deles.

Aqui tem grade e muralha, não dá para fugir, mas você
olha o céu e vê Deus. A presença d’Ele transmite
paz e, com o coração inundado de fé, você ora com
devoção para ir embora deste lugar maligno.

AMARELO

Vizinho doscrentes, no último andar do pavilhão Cinco, fica
o Amarelo, um dos recantos mais lúgubres do presídio. Quinhentas
e tantas pessoas, juradas de morte em sua maioria, vivem em cubículos
densos de fumaça de cigarro, nos quais se espremem quatro, cinco ou
às vezes mais prisioneiros. Um cheiro forte de cadeia se espalha pelo
ambiente. O estado de conservação das celas é precário.
Falta de água, entupimentos, goteiras e inundações acontecem
com freqüência. Nestas circunstâncias, os habitantes de um
xadrez podem passar a noite inteira em pé, no molhado.

Para os habitantes do Amarelo a tranca é permanente, e, soltá-los,
uma operação que obriga a prender o restante do pavilhão.
Ainda assim, precavidos, os funcionários limitam a abertura aos sábados,
dia de visita no Pavilhão Seis, vizinho do Cin co. Uma hora só
e pronto, sobem de volta. A medida é sensata, pois a presença
das famílias no prédio ao lado garante a paz no pátio
do Cinco. Apesar disso, há quem ache mais prudente abrir mão
do sol e permanecer trancado:

– Seguro morreu de velho, doutor.

O Amarelo nunca foi pintado dessa cor: a denominação deriva
do desbotado da pele de seus ocupantes privados do sol. É rica a biodiversidade
do setor: craqueiros insolventes, delatores, justiceiros, estupradores, perdedores
de disputas individuais, gente que encontra na cadeia inimigos da rua e muitos
outros que, na pior, não conseguiram comprar um xadrez decente ou venderam
o que possuíam.
Uma vez, atendi um ladrão do Amarelo, com o corpo coberto de pequenas
feridas contagiosas, uma calça velha e a camiseta em frangalhos, que
pediu um atestado médico para a mulher, advogada, encaminhar ao Fórum.
Perguntei se a esposa não poderia ajudá-lo a sair daquele lugar
e ele respondeu:

– Doutor, mais do que ela faz por mim? já me trouxe dinheiro cinco
vezes, para comprar um xadrez. Fumei os cinco no cachimbo.

O crack e a tranca impiedosa são um atentado à sanidade mental
dos ocupantes do Amarelo, como diz Dionísio, um ladrão com tuberculose
incurável, abandonado pela mulher cansada das promessas de que ele
abandonaria a droga:

– Dia e noite preso, no meio de cara chapado e neurótico da mente.
O senhor dorme do lado de um desconhecido, dá cinco minutos nele e
ele te voa na sua garganta. Não tem descanso, é tortura psicológica
para o ser humano, doutor.
O dia no Amarelo é a mais absoluta ociosidade, os presos jogados nos
colchonetes, quando os há para todos. Ninguém lê ou vê
televisão. Na final da Copa de 1998, o Waldemar Gonçalves fez
planos para colocar uma Tv na galeria e liberá-los para ver o jogo.
Não deu certo, a diretoria desaconselhou por questões de segurança.

Para ampliar o horizonte visual, os presos sobem na janela do xadrez, sentam
se com as pernas para fora e abraçam as grades. Permanecem assim por
horas consecutivas, conferindo decoração singular à fachada
do Pavilhão Cinco, com uma fileira de pernas pendentes do último
piso. Por este costume, são também denominados “calcinhas”,
depreciativamente.

Das janelas que dão para o lado externo, os canelinhas conseguem
assistir ao jogo de futebol no campo do Oito ou falar aos gritos com os transeuntes
da Radial. Menos afortunados são os que ocupam os xadrezes voltados
para o pátio interno, quadrado, com visão apenas para as roupas
que secam nas janelas dos xadrezes em frente. Os habitantes do lado interno
estabeleceram uma simbiose curiosa com os crentes da Assembléia de
Deus que fazem o culto coletivo, diário, ao ar livre, no pátio.
Enquanto os irmãos oram para converter os infiéis ao caminho
do Senhor, a galera do Amarelo prende um saco plástico a um tênis
velho para servir de contrapeso, amarra-o a um barbante e arremessa-o para
baixo, na direção dos religiosos. Fazem-no com perícia,
o comprimento do barbante exato para o saco chegar a um metro do chão.
Pacientes como pescadores, seguram o fio esticado até que os irmãos
demonstrem publicamente, com bananas, pães, balas ou roupas, o amor
que referem sentir pelo próximo.

Papo Doce, um traficante do Oito merecedor do apelido, que trazia cocaína
da Bolívia e ameaçava matar seus distribuidores que misturassem
a droga com outros produtos porque tinha um nome a zelar no comércio,
justifica a origem do Seguro:

-A existência do Amarelo acontece devido que entre nós não
tem departamento de cobrança, onde que gera multa polêmica. Doutor,
se eu vendo uma pedra de crack e o elemento não ITIC paga, não
posso chegar no juiz para reclamar do sucedido e nem tenho promissoria para
protestar. Agora, se eu deixar despercebido, fico com fama de vacilão,
ninguém mais me paga e o meu fornecedor não quer saber. É
uma corrente, a dívida de um provoca conseqüência no outro.

A segurança do Amarelo é relativa, entretanto. Seu Florisval,
diretor de Disciplina, unanimemente tido por seus pares como um dos que mais
conhecem a Detenção, é realista:

-A gente faz o que pode, mas infelizmente aqui não existe lugar seguro.
Quando eles decidem matar alguém, é muito difícil impedir.
Na cadeia, a morte não respeita geografia.

Mário Cachorro, um ladrão que estourava ajanela das casas
com macaco de automóvel e numa delas encontrou doze quilos em barras
de ouro, sendo depois preso com uma loira no Nordeste, apresentou-se uma tarde
na sala da Carceragem do Nove, dizendo-se ameaçado de morte por supostos
inimigos no pavilhão, e pediu transferência para o Seguro. No
Amarelo, comportamento exemplar, ganhou a confiança dos funcionários
e foi integrado à equipe que servia refeições para os
colegas de infortúnio.

Dias depois, chegou na Detenção um certo Ronaldinho, careca
como o jogador, detido por haver estuprado mãe e filha, entre outros
delitos graves. Com este passado, avisou que não tinha possibilidade
de convívio com a massa e foi direto para o Amarelo. Acontece que Mário
Cachorro era filho e irmão das mulheres violentadas e havia pedido
transferéncia para o Amarelo, antecipadamente, porque descobrira que
o estuprador estava preso num distrito e seria transferido para a Detenção.

Na hora do café, Mário Cachorro abriu o xadrez do inimigo.
A primeira facada vazou o olho direito do estuprador, que, em vão,
tentou encontrar a porta de saída. Quando vi o corpo, chamava a atenção
o número de golpes desferidos e, principalmente, os olhos vazados e
dois ferimentos profundos, perfurocortantes, simétricos, nas solas
dos pés. Em volta do corpo, um malandro comentou com respeito:

– O Mário Cachorro agiu com manha de gato.

Seu Jeremias, saudoso dos tempos antigos, se um dia fosse convidado pelo
governador para assumir a diretoria-geral da Detenção, acabaria
com o Seguro, como primeira iniciativa:

– Ia resolver o problema, devido que o elemento faz dívida de droga
e pede Seguro. Isso não é proceder de homem que é homem.
Se ele sabe que não tem para onde fugir, vai assumir a responsabilidade
das atitudes. Sem Amarelo, iam morrer uns e outros, mas era bom porque voltava
o respeito de antes.

A primeira vez que atendi o pessoal do Amarelo foi numa noite de inverno.
Levei o Julinho, um auxiliar da enfermaria que mais tarde foi transferido
para o pavilhão Nove, quando descobriram que ele desviava medicamentos
dos presos com a provável cumplicidade de um funcionário ou
dois, talvez.

Subimos ao quinto andar e improvisamos um consulto rio numa cela da ala
dos crentes. Um a um, os doentes foram trazidos à nossa presença.
Tuberculose geral: gente emagrecida, com febre, sudorese noturna e tosse,
espalhando gotículas de secreção no xadrez apinhado.
Naquele ambiente mal ventilado, o unico que não podia se queixar das
condições de vida era o bacilo de Koch.

A maioria dos doentes coçava-se de dar aflição. Tinham
pequenas bolhas nas pernas, antebraços e parte inferior do tronco,
o o ar cansado das noites insones.

O ato de coçar rompia as vesículas, deixando vazar o conteúdo
cristalino. Com a rup tura, o prurido melhorava, mas começava a arder.
No local surgia, então, uma espessa crosta negra que, ao cair, deixava
uma cicatriz escura, definitiva. As unhas contaminadas com o líquido
das lesões semeavam novas vesículas à distância
e entretinham o processo infeccioso por meses. Quase dez da noite, terminamos.
No final, cerimonioso, chegou o pastor-chefe:

– Doutor, sei que sua pessoa deve estar cansada e precisa repousar na paz
do Senhor, mas tem uma travesti que está com o silicone inflamado na
parte de trás do assento, dotraseiro dela. Ela sofre de dores e insistiu
para pedir para o doutor.

– Não! Chega. Isto aqui não tem fim. Além do mais,
não entendo nada de silicone.

– Lógico, doutor, vou falar para ela ter paciência e orar com
fé, para Jesus atuar na vida dela.

Sucumbi à chantagem em nome do Senhor e mandei chamá-Ia. Hoje
agradeço ao pastor por ter me apresentado Veronique, personagem de
uma outra história. Depois dessa vez, voltei com regularidade ao Amarelo,
o que me conferiu prestígio entre os funcionários porque muitos
deles, por medo, recusavam-se a trabalhar naquele setor. Atendia os doentes
numa salinha com um guichê aberto para a gaiola de entrada. Não
havia privacidade; para examinar os doentes sem roupa tinha que fazê-los
entrar no banheirinho contíguo. Esse banheiro, destinado aos funcionários
de plantão, tinha uma privada e uma pia, o chão inundado e as
paredes infiltradas pelo vazamento constante. Para lavar as mãos, era
preciso abrir o registro na parede e pular ágil para trás, a
fim de escapar da água que esguichava do cano junto a ele. A simples
abertura do registro fazia a água jorrar com força na pia e
na descarga da privada. Mais recentemente, no Amarelo, passei a contar com
a ajuda do Paulo Xavier, o Paulo Preto, enfermeiro do Hospital Sírio-Libanês
que se dispôs a me auxiliar com os doentes. Paulo organizava o atendimento
com o auxílio de um preso chamado Lúcio, um rapaz forte, com
um olho de cada cor.

Lúcio era dedicado com os doentes e gentil comigo. Uma vez contou
ter sido preso depois de uma briga de rua. Ele vinha desarmado, quando apareceu
um arquiinimigo com muitas mortes no currículo e um facão afiado
nas mãos.

Lúcio tomou três facadas, mas conseguiu pegar um pedaço
de pau e rachar a cabeça do opositor. Em seguida, aproveitando-se do
facão e da inconsciência do outro, decepou-lhe os dois braços
para que ele nunca mais esfaqueasse ninguém.

Num sábado, Paulo Preto, Lúcio, seu Manoel, um homem de barba
espessa, antigo funcionário do pavilhão, e eu, decidimos atacar
a epidemia de sarna que infernizava a vida dos presos. A operação
começou às sete. O pavilhão inteiro amanheceu trancado
para o Amarelo descer. Nas celas do setor, os presos empilharam os pertences
no chão para serem borrifados com inseticida. No pátio, junto
à parede lateral do prédio, esperavaos um cano de água
fria. junto ao cano, os ladrões fizeram fila, enquanto um preso aplicava
inseticida em todas as celas. Fazia frio. Seu Manoel, com seus vinte anos
de experiência, avisou:

– Pode se preparar, doutor, ladrão é como gato: tem medo de
água fria.

De fato, choradeira não faltou. Diziam que estavam com tosse, tuberculose,
pneumonia, outro sofria de bronquite e alguns simplesmente se negavam a entrar
no banho gelado. Dirigi-me à fila e expliquei que aqueles que não
se lavassem e passassem remédio, espalhariam sarna para os demais,
para prejuízo de todos. O argumento os convenceu: malandro não
arrisca ser acusado de prejudicar os companheiros.
Durante o banho, observei que eles entravam embaixo do cano com as costas
quase encostadas na parede. Comentei o fato com seu Manoel, que explicou:

– Ladrão nunca fica de bunda para os outros, doutor.

Roxos de frio, acabada a ducha os homens apresentavamse a um companheiro
encarregado de borrifar remédio contra sarna pelo corpo inteiro. Depois
de secos, aqueles que apresentavam infecções dermatológicas,
eram separados por Lúcio e Paulo Preto e trazidos à minha presença.
O trabalho, que envolveu mais de quinhentos homens, foi completado até
o meio-dia, hora exata de trancar o Amarelo e soltar o resto do pavilhão.
Prevendo alguns acessos de asma desencadeados pelo inseticida, deixei dez
ampolas de cortisona para o Lúcio medicá-los e saí com
o Paulo Preto. Fomos embora contentes com o sucesso da operação,
dando risada da malandragem embaixo da água fria, com a bunda encostada
na parede.

TUDO NA COLHER

O crack invadiu a cadeia em meados de 1992, sorrateiramente. Uma tarde,
no campo de futebol do Oito, vinha um rapaz completamente chapado. Falava
em tom intimidatório e gesticulava para uma figura imaginária
na janela de um xadrez do segundo andar. Na porta do pavilhão, um funcionário
corpulento e precocemente hipertenso fez o diagnóstico e uma previsão
amarga: – Olha aí, doutor, é o crack chegando na Detenção.
Só faltava mais essa.

Fiquei surpreso. Na minha ingenuidade, crack era coisa de filme americano,
problema do Bronx, em Nova York, jamais no Carandiru.

Na cadeia, o processo de preparação do crack é artesanal.
Misturam cocaína com bicarbonato de sódio ou amoníaco
numa colher, embaixo da qual acendem um isqueiro, para aquecer e derreter
a mistura. Quando esta se liquefaz, surge na superfície uma fase oleosa
que vai sendo empurrada para as bordas da colher com um palito de fósforo,
para esfriar e se solidificar. A pedra resultante é fumada em cachimbos
improvisados. O processo é trabalhoso, como se queixa Tristeza, um
traficante interno que passava as madrugadas no preparo e que uma vez foi
pego com trezentos gramas de pedras prontas para o consumo:

– O pessoal falam que eu ganho dinheiro que nem água, mas ninguém
repara no sacrifício que eu faço. Na rua é mole za, o
crack já vem preparado do laboratório; aqui, é tudo na
colher.

O crack entrou e varreu a cocaína injetável do mapa. É
droga compulsiva, não sobra para o dia seguinte. Na crise de abstinência,
se o dependente vê o pó, a pedra de crack ou alguém sob
o efeito dela, passa mal: tem sudorese, taquicardia, cólicas abdominais,
diarréia e vômitos. Ronaldo, um ladrão COM AIDs que fugiu
do hospital penitenciário e foi preso em flagrante fumando crack na
rua do Triunfo quarenta horas depois, contou que, num assalto a uma loja de
tecidos na rua Augusta, quando a gerente abriu o caixa ele teve um mal-estar
súbito: – Foi bater os olhos no dinheiro, me veio a imagem de eu comprando
cocaína na bocada. O estômago embrulhou na hora, saí vomitando
pelo rneio do assalto.

A cocaína pode ser cheirada, injetada ou fumada. Pela via nasal,
o pó adere à mucosa do nariz e vai sendo gradualmente absorvido;
o efeito é crescente, atinge um pico e depois decresce. Injetada na
veia, cai direto na circulação, passa pelos pulmões e
vai para o cérebro; a euforia vem depressa e acaba rápido; dá
zumbido na cabeça e um baque no cérebro (daí, o nome).
No crack a ação é ainda mais instantânea, porque
a cocaína cai direto nos pulmões, não perde tempo na
circulação venosa. Ronaldo, que aprendeu a fumar crack com a
esposa, mae dos quatro filhos dele, diz que a qualidade da cocaína
no presídio decaiu:

-Antigamente dava um tuim comprido no ouvido. Hoje, faz tuóm, um
instantinho só, e já era.

O usuário de cocaína injetável não se interessa
pelo efeito lento da via inalatória, forma de administração
que ele considera careta. O crack, porém, provoca sensação
semelhante à do baque, além de trazer vantagens: é mais
barato, não deixa cicatrizes nos braços e, principalmente, não
transmite AIDS. No presídio, em poucos meses a via endovenosa ficou
restrita a uns poucos baqueiros velhos, que mais tarde morreram de AIDs na
enfermaria do Quatro. Silenciosamente, como entrou, o baque saiu de moda no
Carandiru. Em janeiro de 1994, repetimos o estudo de prevalência feito
quatro anos antes. Encontramos 13,7% dos presos infectados pelo HIV (contra
17,3% na pesquisa de 1990). A única explicação encontrada
para a queda do número de infectados nos quatro anos que separaram
os dois estudos foi a redução do número de usuários
de droga endovenosa. Em 1998, em 250 voluntários testados, dezoito
eram HIV-POSitiVOS (7,2%).

Com o passar dos anos, muitos ex-usuários de cocaína injetável
revelaram ter mudado para o crack por causa das palestras do cinema. Se for
verdade, fico feliz. Talvez até o crack tenha um lado bom.

PARA DERRUBAR A MALANDRAGEM

O crack transtornou a cadeia, todos reconhecem. É droga traiçoeira.
Nas primeiras vezes o efeito custa a passar; com a repetição
diária, porém, acaba em segundos. Vicia rapidamente; na enfermaria
conheci rapazes que depois do primeiro contato com a droga nunca mais conseguiram
parar, nem presos nas celas de Seguro, endividados, correndo risco de vida.

Com o tempo, o usuário de cocaína desenvolve quadros de delírio
persecutório toda vez que usa a droga. Na cadeia, os portadores dessa
síndrome, à qual dão o nome de paranóia ou nóia,
andam pelas galerias apavorados, trancam o xadrez por dentro, encolhem-se
feito crianças embaixo da cama, gritam ou fogem de inimigos imaginários.

Ronaldo, o pai de quatro filhos que vomitou durante o assalto e veio a morrer
de tuberculose na enfermaria seis meses depois de recapturado, descrevia assim
a paranóia que o torturava:

– O crack é tão devastador para a mente da pessoa que eu fumo
trancado no xadrez e cismo que tem alguém debaixo da cama com a faca
para me matar. Fico apavorado, quero olhar mas tenho medo de abaixar e ele
me furar os olhos. Demoro para criar coragem e espio bem depressa. Lógico
que não vejo ninguém, estou sozinho no xadrez fechado, mas mesmo
assim fico na dúvida: tem sim, eu é que não vi direito.
Abaixo mais uma vez, apesar do medo que me fure o olho, e não vejo
nada. Mas não adianta, não me convenço, e olho de novo.
E assim é, dez, quinze vezes. Quando o efeito vai abaixando, eu percebo
que foi tudo paranóia: como é que pode ter alguém aqui,
se o xadrez é minúsculo e a porta está trancada?

Antes de dar outra cachimbada, olho debaixo da cama e confiro se a porta
está bem fechada; chego a espiar dentro do boi. Tudo bem, vou fumar
de novo e dessa vez a nóia não vai me atacar. É só
cachimbar, doutor, repete tudo a mesma coisa: tem alguém debaixo da
cama, vai me matar, se eu olhar vai me furar a vista…

No final, Ronaldo resume a existência do usuário de crack:

– É triste o nosso destino. Se existe o inferno na Terra, é
a vida de nós, craqueiros. Impossível saber quantos fumam crack
no presídio. Na estimativa dos detentos, pelo menos 60%. Uma vez, perguntei
ao Lúcio, o enfermeiro do Amarelo que decepou os braços do desafeto
para que ele parasse com a mania de esfaquear os outros, quantos craqueiros
havia no Amarelo. Ele respondeu:

– Todos, doutor. Quando aparece um que não é, eu tiro daqui
e peço para o pastor aceitar ele na galeria dos crentes. Os carcereiros
de carreira dizem com nostalgia:

– Que saudade do tempo do baseado, doutor! Tinha mais respeito entre a malandragem,
o preso fumava e ficava quietinho no seu canto, pensativo, comia e ia dormir.
Ninguém perdia a casa da família por causa da maconha. A gente
era feliz e não sabia.

O crack abalou a estrutura do poder interno, a moral da malandragem e gerou
mais violência. Na compulsão, o dependente gasta o que não
pode; depois, chantageia os familiares dizendo-se ameaçado de morte.
Quando a família é exaurida, vende os pertences pessoais e,
nada mais tendo de valor, rouba, apanha na cara, toma facada, assume a responsabilidade
de crime cometido por outros e até mata sob encomenda, em troca de
uma pedra para fumar.

O vício está associado à derrocada financeira do usuário.
Uma das técnicas que uso para identificar os que não usam crack
é olhar o pé deles: se o tênis é novo, certeza,
não é craqueiro.

Carlão, que passou um ano na rua e dois na cadeia, fumando crack
sem parar e mais tarde ficou livre da droga, chegou ao extremo:

– A pedra veio para derrubar a malandragem, por causa dela vendi até
o revólver, minha ferramenta de trabalho. Fui preso assaltando com
a faca da cozinha da minha tia.

Dívida em cadeia não tem perdão: não pagou,
foge, leva paulada ou morre. Para escapar, a única alternativa é
pedir proteção aos funcionários. Estes, quando se convencem
da gravidade do caso, transferem o preso para o Amarelo. No próprio
Seguro o craqueiro contrai novas dívidas, perde outra vez o ambiente
e vai parar na Masmorra do pavilhão Quatro, derradeira oportunidade
de sobrevivência. O pedido de socorro à polícia desmoraliza
o ladrão.

Uma vez, encontrei a enfermaria em alvoroço porque o Júlio,
um bandidão cumprindo vinte anos pela morte de três rivais que
o emboscaram num beco de favela, havia pedido refúgio no Amarelo para
escapar do acerto de 38 reais com um traficante metade do tamanho dele. No
final, um piracicabano sem queixo internado na enfermaria por causa de uma
furunculose crônica em ambas as axilas, que o obrigava a andar com os
braços abertos feito asa, resumiu com o forte sotaque da cidade natal:

– A pedra acaba com a vergonha na cara do cidadão. Outra vez, Xanto,
o ladrão do Pari que baleou o tio
bêbado no peito por não saber dar tiro nas pernas de ninguém,
estava revoltado com o companheiro que, na visita, ofereceu a própria
mulher ao traficante para saldar uma dívida. O fato da moça
trabalhar como prostituta num bar do lpiranga não serviu de atenuante.

– Não interessa como ela ganha a vida lá fora. Aqui, para
nós, ela é mulher de um companheiro e merece respeito. Entregar
ela é muita sem-vergonhice de caráter.

A opinião de Xanto não era isolada. No dia seguinte à
visita, o craqueiro devedor foi obrigado a juntar os pertences e mudar para
o pavilhão Cinco:

– Não se fez merecedor do nosso respeito. Filó, um traficante
franzino do Oito, armador do time do pavilhão, nascido no Canindé,
ao lado do campo da Portuguesa, arrombador de residências e pai de duas
meninas mantidas por ele em escola particular, dava duas semanas para o craqueiro
pagar a droga consumida e nem um dia mais. Em cinco anos de cadeia e tráfico,
enviou muita gente para o Seguro, embora reconhecesse a inutilidade do procedimento:

– Que adianta os malucos trancados lá, de caneliDha, e eu sem receber
aqui?

Um dia, a roda do destino girou e Filó foi transferido para uma penitenciária
do interior. Encontrou três ex-companheiros da Detenção,
por ele enviados para o Amarelo. Morreu degolado, na noite de chegada. A cadeia
hoje é muito diferente da que conheci ao chegar, em 1989. O crack subverteu
a ordem interna. Como as pessoas, as cadeias também mudam com o tempo.

NA PIOLHAGEM

A droga corre atrás do viciado, é o que diz a malandragem.
Duas visitas ao exterior convenceram-me desta realidade. A primeira foi em
Rykers Island, a maior prisão de Nova York, quando passei na porta
de um banheiro coletivo situado na ala que se mostra aos visitantes e senti
um cheiro forte de maconha. A segunda foi na periferia gelada de Estocolmo,
numa prisão-modelo vigiada por 350 funcionários treinados, exclusiva
para cinqüenta jovens loirinhos (sete funcionários por preso),
ex-usuários de droga, que todas as manhãs, quando se abriam
as celas individuais, eram obrigados a descer para a enfermaria e, na presença
do médico, urinar num vidro para exame toxicológico. Volta e
meia o laboratório detectava heroína, cocaína, álcool,
maconha e até a prosaica cola de sapateiro na urina dos meninos, misteriosamente
introduzidas no reformatório -modelo.

Supor que a droga entre na Detenção sem conivência de
funcionáaacute;rios ou dos guardas da muralha é discordar da lógica
do Pequeno, o baixinho de língua presa que matou quatro Pms:

– O sentenciado pode sair na rua para buscar cocaína, doutor?

É injusto generalizar, entretanto. A maioria dos guardas jamais se
envolveu com o tráfico, apesar dos baixos salários e do desalento
com a profissão. Além disso, a direção vive preparando
armadilhas para surpreender os que “passam para o outro lado” ,
e quando pega o castigo é amargo: cinco ou seis anos de prisão,
como vimos.

Fumaça, tipo popular, contador de casos exagerados nos quais inevitavelmente
desempenha o papel de protagonista, é testemunha de que a droga não
é problema exclusivo do Carandiru:

– Em novembro, completei dezoito anos no Sistema. Já rodei diversas
unidades, e em todas pude fumar meu baseado, meu cachimbo de crack (que eu
parei faz dois anos, que é sem futuro) e, no tempo do baque, só
não tomei porque não gosto desse barato de ficar se picando.
É interessante, doutor, não ligo para sangue dos outros, mas
me escurece a vista quando vejo o meu próprio.
O mesmo Pequeno da língua presa acrescenta:

– Se a cocaína corrompe a sociedade livre, por que na cadeia, cheia
de ladrão, traficante e consumidor, ia ser diferente? Logo aqui, que
custa o dobro da rua?

No ambulatório, quando os doentes vinham com tuber culose, eu os
proibia de jogar fumaça nos pulmões, viesse ela de maconha,
cigarro comum ou crack. Não havia problema em fazê-los entender
que a fumaça era prejudicial aos pulmões inflamados. Nas semanas
seguintes, quando lhes perguntava se haviam parado, a maioria tinha abandonado
a maconha e mesmo o crack, mas o cigarro não. Conseguiam se livrar
do crack, mas poucos deixavam o cigarro. Tantos foram os casos que acabei
convencido de que a nicotina é a substancia que mais dependência
química provoca.

O preso que consegue pôr a droga para dentro pode ven dê-Ia.
Não é como na rua, em que o traficante é dono de um ponto
defendido a bala. Como explica Horácio, um paraplégi co filho
de portugueses, abandonado pela mulher depois de

perder os movimentos das pernas ao bater de moto roubada, uma loura na garupa,
contra a traseira de um caminhão: – O cabeção despeja
para os que trabalham para ele. Se ele compra o quilo a 4 mil, vai repassar
para nós, intermediários, a 7 ou 8 mil, para dobrar o capital.
Eu vou querer vender a grama por 10, por conta do risco. Se rodar é
crime hediondo; isso apavora o sentenciado que já tirou um monte de
cadeia.

Lenildo, um ladrão que nunca traficou na rua, mas que na cadeia começou
a fazê-lo para sustentar as duas mulheres, três filhos e a mãe
que sofre de reumatismo, diz que não é fácil escapar
vivo no comércio do crack:

– Tem que ser duro na queda, medir o que fala e pesar a conseqüência
do que possa acontecer. Uma vacilada e eu acabo seus dias na ponta de uma
bicuda, como aquele mano que o senhor examinou o corpo na semana passada.
Só eu contei mais de trinta facadas. Tá louco, doutor, deu vontade
de abandonar o Crime!

De fato, eu havia visto o corpo. Era um moço bem forte, moreno, com
uma tatuagem no peito: são Jorge num cavalo empinado diante do dragão
pondo fogo pela boca. O santo, com estilo, cravava a lança na goela
do monstro. Na cintura do guerreiro havia um férimento, perfurante,
outro junto à cauda em seta do dragão, mais um resvalando o
penacho do capace-te do santo e muitos outros golpes. Talvez fossem mesmo
mais de trinta. Tudo conseqüência de uma transação
rotineira. Um consumidor habitual veio comprar 5 reais de pedra para pagar
domingo. Desconfiado da insolvência do outro, o rapaz da tatuagem disse
que estava sem mercadoria. O comprador contrariado comentou o caso com os
amigos. Decidiram enviar um laranja para propor o mesmo tipo de operação
ao rapaz da tatuagem que, sem desconfiar, vendeu fiado. Nunca poderia ter
dado ao laranja o crédito negado ao freguês antigo. Erro fatal.

Casos semelhantes são tão freqüentes que eu não
entendia por que eles mesmos não proibiam terminantemente as vendas
a fiado. Uma vez tentei reunir alguns líderes da malandragem para lhes
propor a adoção de tal medida. Fui desanimado pelo Sarará,
um negro loiro com muitas passagens pela Casa:

– Não tem chance de dar certo, doutor. O viciado fica devendo 20
reais e entrega a televisão por esse preço. Dá muito
lucro. É o mesmo princípio de que os bancos da rua, o senhor
fica devendo 20 mil e eles tomam a sua casa que vale 100. Ninguém acaba
com um negócio desses. Lenildo, que se orgulha de manter as casas das
duas mulheres e a da mãe sem nada faltar, explica que o comércio
do crack obriga o traficante a tomar medidas extremas, mesmo contra a vontade:

– Eu pego sessenta gramas do cabeção e fico devendo 400 contos.
Faço uns papelzinhos, vendo aqui, ali, uns me pagam e outros pedem
para esperar o fim de semana. Chega segunda-feira o meu fornecedor quer receber.
Se eu não pago, ele vai pôr os óculos na minha atitude.
Diante desta perspectiva, a preservação da própria vida
fala mais alto:

– Então, para que não venha a rodar uma faca para cima de
mim que tenho família para adiantar, vou soltar a faca no devedor,
dar paulada, jogar água fervendo, para que aquele veja que eu tomei
uma atitude diante deste. E assim, um vai vivendo perante a desgraça
do outro. Existem situações, entretanto, em que é mais
vantajoso assumir o prejuízo:

– O comprador não pagou? Deixa quieto. Só que aí, na
piolhagem, qualquer tipo de acontecimento, numa perca que eu tenha, é
ele que vai soltar a faca no meu lugar, justamente para abater aquela dívida.
Senão sobra para ele, Iamentavelmente.

Apesar da repressão, os meandros do tráfico permeiam o presídio.
Cada “cabeção” comanda um grupo de vendedores, que
controla os dependentes sequiosos de droga.

– Faz uma rede invisível, secreta, como a máfia.

Mente ociosa é moradia do demônio, a própria malandragem
reconhece. Ao contrário do que se imagina, a maioria prefere cumprir
pena trabalhando. Dizem que o tempo passa mais depressa, e à noite:

– Com o corpo cansado, a saudade espanta. Poderiam, também, aprender
um oficio e voltar para casa com alguma perspectiva.

Soltá-los mais pobres e ignorantes do que quando entraram não
ajuda a reabilitá-los. Sérvulo, um ladrão de Guaianases,
encarregado da enfermaria do Oito que nos dias de atendimento me pedia para
trazer dois ou três doentes e aparecia com dez, de cada um dos quais,
descobri mais tarde, ele cobrava dois maços de cigarro para conseguir
a consulta, vê outra vantagem no trabalho:

– A cadeia seria menos perigosa, com essas mentes malignas ocupadas.

Para servir de estímulo, a lei estabelece que cada três dias
trabalhados abatem um dia da pena a cumprir, matemática nem sempre
respeitada para quem não tem advogado constituído. Ainda assim,
muitos disputam os poucos empregos disponíveis. Outros, no entanto,
mais ortodoxos:

– Trabalhar? Nem na rua, com o meu pai pegando no pé.

Aqui dentro, jamais. Questão de princípio. Um venezuelano
naturalizado brasileiro, que ia buscar droga na selva amazônica e depois
matava os entregadores por sair mais em conta do que pagá-los, é
radical:

– Trabalhar para a sociedade, só depois de morto, se me cremarem
e colocarem minhas cinzas num daqueles relógios de ampulheta.

justiça seja feita, porém: com exceção das atividades
ligadas à segurança, as demais tarefas da cadeia são
executadas pelos presos – cozinham, distribuem as refeições,
lavam tudo, recolhem toneladas de lixo, consertam, levam e trazem, organizam
campeonatos de futebol e a Campanha do Agasalho. A rotina do Casarão
é tocada pelos detentos, sem eles seria o caos.

Algumas empresas empregam mão-de-obra local para costurar bolas de
couro, chinelos, colocar espiral em cadernos, varetas em guarda-chuvas, parafusos
nas dobradiças e trabalhos similares. Teoricamente, os presos deveriam
receber pelos serviços prestados, o que poderia ajudar a família
desamparada ou servir de poupança para quando fossem libertados. Na
prática, porém, a burocracia para retirar o dinheiro recebido
é tanta que muitos aceitam o pagamento em maço de cigarro, a
moeda tradicional.

Como trabalho é privilégio de poucos, passam o dia encostados,
contam mentiras nas rodinhas do pátio, levantam peso na academia, jogam
capoeira no cinema, andam para baixo e para cima, inventam qualquer bobagem
para se entreter e, principalmente, arrumam confusão. O tal venezuelano
preocupado com o destino de suas cinzas chama a atenção do visitante
que passa desavisado entre os grupos que se formam no campo de futebol do
Oito:

– É tanta história de assalto, revólver e troca de
tiro, doutor, que precisa passar abaixado entre eles por causa das balas perdidas.

Ao lado do trabalho organizado, que reduz a pena, existe uma economia informal.
São os que trabalham sem carteira assinada: lavam roupa para fora,
costuram, cortam cabelo, constroem barcos à vela com distintivo dos
times de futebol, cozinham (há uma pastelaria numa cela do terceiro
andar do pavilhão Oito e uma sorveteria no pavilhão Dois), destilam
pinga e armam bancas na galeria – mantimentos, tênis usado, roupa, rádio
de pilha, aparelho de Tv e foto de mulher pelada.

As compras são à base de troca, pagas com maços de
cigarro ou, disfarçadamente, com dinheiro mesmo. O comércio
interno é fundamental para a vitalidade da economia; por intermédio
dele os bens são redistribuídos, as mercadorias circulam e as
dívidas podem ser liquidadas. Num lugar em que os homens recebem apenas
comida e a calça jega, todo o resto fica por conta deles: – Existe
custo de vida na cadeia.
Oriundos das camadas mais pobres da sociedade brasileira, nem todos contam
com ajuda externa. Ao contrário, a maioria precisa sustentar mulher,
filhos e pais idosos, razão pela qual gente que em liberdade nunca
se envolveu com droga vira traficante de cadeia para manter a integridade
da estrutura familiar.

Nas celas de Seguro e na Isolada, cheias de fumaça de cigarro, trancados
o tempo todo, os homens passam o dia conversando e, quando o assunto acaba,
olham para a parede ou se entretêm com um pretexto qualquer. Na experiência
de seu Jeremias, pai de muitos filhos com a mesma mulher, a ociosidade pode
enlouquecer o homem:

– Antigamente, no tempo da solitária, vi muito nego entrar bom e sair
de lá para o manicômio. Numa dessas celas, na escuridão
total, ele passou três meses sozinho. Para se ocupar, jogava uma bolinha
de gude na parede e tateava o chão até encontrá-la. Chegou
a repetir a operação cento e setenta e sete vezes no mesmo dia:

– Mas, graças a Deus, saí de lá com juízo.

PENA CAPITAL

É universal o ódio aos estupradores. Os ladrões aceitam
tudo: agressão física, estelionato, roubo, exploração
do lenocínio e assassinos torpes – menos o estupro. A ojeriza a este
crime é compartilhada pelos próprios funcionários e pela
sociedade em geral. Na periferia de São Paulo, um homem abusou de um
menino e o matou. Os jornais publicaram fotografias do assassino e da criança.
Numa tarde de sexta-feira, por aparente descuido burocrático, um grupo
de presos veio transferido para a Casa sem a direção se dar
conta de que o criminoso estava no meio. Do momento em que ele desceu do camburão
na Divinéia, até sua morte no pavilhão Cinco, passaram-se
exatos cinqüenta minutos. Tomou tanta facada que quase lhe desarticularam
o braço direito. Marcolino, apontador de jogo do bicho e comerciante
de dinheiro falso, que estava para ser libertado naqueles dias, disse que
a chegada do marginal no pavilhão não foi surpresa:

– Nós estávamos para lá de prevenidos. Tinha recorte
de jornal espalhado nos andares, com a foto dele escrachada. Os manos esfaqueavam
e emprestavam a faca para quem vinha atrás na fila. Tomou mais de setenta
golpes e, ó, acredite se quiser, morreu sem dar um grunhido. Eu achei
aquilo muito esquisito, ó. Credo!

Outra vez, Gilson, um representante de vendas de trinta anos, deu carona
no fusca para uma estudante de quinze e fez de tudo para levá-la ao
motel. Quando se convenceu de que ela não iria, puxou o revólver
e não adiantou choro, dizer que era virgem, nada. Com a menina na mira,
dirigiu para um lugar ermo e a estuprou. À noite, enquanto ele assistia
ao Jornal Nacional com o filhinho adormecido no colo, a esposa e a sogra lavando
a louça do jantar, tocou a campainha. Era a polícia:

– Esse fusca parado na porta foi roubado hoje? Respondeu que não.
Quiseram saber, ainda, se ele havia emprestado o carro para algum amigo. Gilson
negou e foi algemado.

No distrito, disse aos colegas de infortúnio que havia assaltado
um feirante. No dia seguinte, na cela coletiva, um craqueiro iletrado pediu-lhe
para escrever uma carta de desculpas à mãe, que havia prometido
abandoná-lo definitivamente caso fosse preso outra vez. O representante,
no capricho, assim iniciou a missiva:

“Querida mãezinha, é de joelhos, com o coração
pungente, que peço humilde perdão à senhora. Errado estou,
não nego, mas arrependi-me ao cerne de meu ser…”

Ao terminar a redação, o vendedor leu-a para o outro, que,
emocionado com a beleza das palavras, não pôde conter o choro.

No meio da leitura, chegou o carcereiro com uma garrafa de uísque
pela metade:

– Quem é fulano de tal? Qual é teu artigo?

– 157. Assalto de feirante.

– Feirante, porra nenhuma! Estuprou uma menina de quinze anos, com o revólver
na cabeça da coitadinha. Se tivesse malandro com vergonha na cara nesse
xadrez, te zoava bem zoado e ainda ganhava meio Drurys de presente. Irrefutável.
Trazia o boletim de ocorrência e tudo. O rapaz da carta foi o primeiro.
Ainda com lágrimas nos olhos, ficou em pé e chutou-lhe a cara.
Em seguida, vieram os outros; eram dezoito no xadrez. O estuprador apanhou
até perder os sentidos.

Acordou com um balde de água suja no rosto. Estava amarrado às
grades da cela:

– Me fizeram segurar uma lâmpada na mão e encostaram um fio
descascado na grade. A água que jogaram era para conduzir melhor a
corrente. Choque de 220. Só desligavam quando a luz acendia na minha
mão. Dava um tranco horrível no corpo, a língua enrolava,
depois aquele clarão da lâmpada. Achei que ia morrer. Só
pedi a Deus que fosse logo.

Quando se cansaram da brincadeira, o vendedor desabou semiconsciente, cheio
de sangue e com o rosto deformado. Nessa hora, urinaram em cima dele.

Aí o Barriga, um ladrão que tinha sido preso entalado na clarabóia
do forro de uma casa na qual esperava encontrar uma fortuna em jóias
contrabandeadas, abaixou-lhe as calças:

– Agora vai sentir que nem a mina que você estuprou!

O representante de vendas diz que Barriga não conseguiu penetrá-lo.
Cilinho, um ladrão do Cinco que matou a amante infiel e o sócio
traidor que planejava fugir com ela e o dinheiro do assalto, testemunha dos
fatos no distrito, desmente, discreto:

– Conseguiu sim. Mesmo no estado deplorável em que o cidadão
se encontrava. Doutor, aquele barrigudo é mais macho que nós
dois juntos!

A direção da cadeia tenta proteger a integridade física
dos estupradores recolhendo-os no pavilhão Cinco, no Amarelo ou até
na Masmorra. A segurança é relativa, porém, como assegura
o Sem-Chance:

– Um dia nós descobre eles. É o curioso que bisbilhota no
prontuário, é um mano que conhece o passado sujo do cara ou
um funça que não simpatiza, vários modos. É sem
chance.

Muitas vezes, ao estuprador é dada a oportunidade de conviver pacificamente
com a massa por longos períodos. Um dia, no anonimato de uma rebelião,
a turma enfurecida descarrega nele o ódio represado. Nessas ocasiões,
são atirados do telhado, esfaqueados ou torturados com requintes de
crueldade, como um catarinense que atendi na enfermaria com a língua
queimada por uma faca em brasa e infectada pelos micróbios presentes
nos excrementos que o obrigaram a ingerir a cada trinta minutos. A imprevisibilidade
do ajuste de contas torna a vida do estuprador um sobressalto permanente.
Qualquer movimento fora da rotina pode prenunciar o castigo fatal.

Num ambiente em que o assassino de um pai de família indefeso merece
respeito, pode parecer desproporcional a aversão ao estuprador. Seu
Lupércio, que se orgulha de nunca haver roubado, embora tenha passado
a maior parte da vida na cadeia por causa da maconha, e que anos atrás,
no Oito, viu um branquelo, estuprador de meninas japonesas, ser empalado com
cabo de vassoura introduzido à marreta, explica a filosofia:

– Não pode deixar essa gente freqüentar o ambiente, porque aqui
nós recebemos nossa esposa, a mãe e as irmãs. Quem cometeu
uma pilantragem dessa, pode recair e faltar com o devido respeito. Eu sou
contra a pena de morte no nosso país, mas sou a favor no caso de estupro.

LARANJA

– Laranja é o personagem patético que segura bronca

É ele que se apresenta como culpado quando o carcereiro encontra uma
faca escondida, a serpentina para destilar pinga ou o corpo sem vida. Muitos
são recrutados ao chegar nas celas de triagem. Para aqueles que a família
traz mantimentos, não faltam amigos e um canto para morar; outros,
por sorte, encontram parceiros da rua no pavilhão. Quanto aos recém-chegados
desconhecidos e pobres – De dez xadrezes que eles pedem vaga, onze negam.
Aí, para sair do esgano da Triagem, aquele humilde, despojado de condição
financeira avantajada, só tem um jeito: virar laranja, porque os caras
exigem que ele segure todas as ocorrências do barraco.

O contingente maior de laranjas, porém, é recrutado nas fileiras
do crack. Muitos dependentes assumem delitos de terceiros em troca da droga.
O traficante não precisa executar o serviço sujo. Quando alguém
perde a vida na rua Dez, os carcereiros trancam todas as celas até
que o culpado apareça. A técnica é infalível,
preso nenhum ousa enfrentar o pavilhão inteiro enjaulado por causa
dele. No final, quem aparece para assumir a responsabilidade é quase
sempre o laranja.

Embora os funcionários saibam que aquele não é o verdadeiro
autor do crime ou contravenção, pouco podem fazer contra o código
de silêncio que rege a vida no crime.

Uma vez tratei um branquinho chamado Alfinete, magro e feito um cabo de vassoura,
que fez carreira nos semáforos da avenida Paulista. Todas as carteiras,
relógios e correntinhas roubadas, ele fumou no cachimbo de crack, até
ser preso. No pavilhão, usuário contumaz, consumiu 60 reais
além de suas posses. Um dia, o credor chamou-o no xadrez:

– Alfinete, já faz uns dias que você me deve. Vai pagar quando?

– Neste momento, estou justamente sem condições, devido que
a minha mãe não veio na visita, porque se encontra no hospital
com a minha irmã que tomou um tiro no peito, na mesma fita em que o
meu cunhado foi chacinado…

O outro o interrompeu:

– Alfinete, é o seguinte: no final da tarde, vai aparecer um finado
na rua Dez do quarto andar. Você desce para a Carceragem e se apresenta.
Diz que o cara ofendeu a senhora tua mãe que está no hospital,
cuidando da filha viúva.

Alfinete assumiu a autoria do crime, na verdade cometido por seis detentos,
e foi direto cumprir castigo na Isolada, no térreo do Cinco. Mais tarde,
o laranja assim descreveria os trinta dias que passou nesse local, dividindo
o espaço com mais cinco:

– Para mim não faltava nada, que os companheiros levavam comida, baseado
para fumar e até pinga para criar coragem de encarar a quentinha.

Como a Isolada fica no térreo e a janela é fechada por uma
chapa metálica perfurada, os companheiros do lado de fora, no pátio,
junto à parede lateral externa do pavilhão, passavam através
dos orifícios da chapa, para o interior da cela, um canudo longo na
ponta do qual Alfinete sugava a maria-louca diretamente da outra extremidade,
mergulhada num inocente bule de café que um dos verdadeiros autores
do assassinato, distraído, segurava encostado à parede.

Alfinete assinou a confissão quando havia cumprido dois anos e três
meses de uma pena de quatro. Quitou a dívida com o traficante, mas
custou-lhe doze anos a mais de pena a cumprir.

Outra vez, cheguei na sala de atendimento médico e notei o clima
esquisito. Os enfermeiros separavam as fichas dos doentes em silêncio
e trocavam olhares enigmáticos. Perguntei-lhes o que se passava, disseram
que não era nada. Dei cinco minutos e repeti a pergunta. A resposta
foi idêntica. Comecei a atender os pacientes, e eles calados como túmulos.
Resolvi ser mais incisivo:

– Vocês vão contar o que aconteceu ou vou ter que descobrir
sozinho?

O chefe deles, um ladrão magrinho, implacável com os inimigos
e cujo maior desgosto era o irmão mais novo ter entrado para a Pm,
sorriu amarelo:

– Caiu uma faca nossa que estava mocosada na estufa de esterilizar os instrumentos.
Faca miúda, só para defesa pessoal.

Eles tinham retirado a placa do fundo da estufa, escondido a faca e parafusado
novamente. Era pouco provável que os funcionários descobrissem
o esconderijo sem colaboração de algum informante. Quando lhes
perguntei quem havia assumido a responsabilidade da contravenção,
responderam que tinha sido o Peninha, um rapaz esquálido internado
em fase final de evolução da AIDS, que virtualmente mal parava
em pé.

Seu Lupércio, 82 anos de idade, avalia a situação penal
do laranja:

– juiz não quer saber de laranjice, condena com caneta pesada e manda
tirar de ponta. Todo beneficio que pede, ele nega.

Se o laranja desce para a Carceragem e assina uma dessas mortes, não
tem como voltar atrás. Ao depor, no Fórum, se negar o que confessou
antes, corre risco de vida ao retornar à cadeia. Mesmo que seja transferido
para outro presídio, é perigoso:

– Morre também, que nós tudo se comunicamos. Todo dia chega
e sai gente da cadeia, contando as novidades. É a rádio Boca
de Ferro.

A potência da rádio Boca de Ferro é de tal ordem que,
mesmo libertado, o laranja arrependido não terá sossego na rua:

– Aí é que morre mais ainda!

Embora o número de laranjas na cadeia tenha aumentado significativamente
na era do crack, sua existência não é exclusiva dos tempos
modernos, como explica o Filósofo, um moreno de óculos consertados
com esparadrapo, estelionatário de muitos golpes:

– Sempre existiu esse indivíduo que segura a morte de alguém
e que um dia, devido o caminho sinuoso do destino, ele próprio acabará
no bico da faca de uma pessoa que, por sua propria vez, vai pôr um laranja
para assumir a morte dele. E, assim, por meio da laranjice, vão-se
os filhos queridos de muitas mães, deixando apenas lágrimas
que rolam no rosto do sofrimento humanitário.

– Sai todo mundo do xadrez e encosta as mãos na parede da galeria.

Bebeto estava para lá do quinto sono quando os três funcionários
deram essa ordem. Ficou preocupado, havia chegado na cadeia há apenas
três dias, mal conhecia os companheiros. Os sete saíram em silêncio
e os carcereiros vasculharam tudo. Estavam quase desistindo, quando um deles
despregou o fundo de um armário junto à parede e encontrou duas
facas. Bebeto surpreendeu-se:

– Eu nem tinha noção que duas bicudas daquelas cabiam naquele
espaço.

De quem eram, quiseram saber os funcionários:

– Os manos na maior miguelagem, ó. Vou dizer que não é
minha? Uma que os polícias não vão acreditar, outra que
eu passo por cagüeta, porque se não é minha, é deles.

A solidariedade custoulhe trinta dias na Isolada. No final, acha que valeu
a pena:

– Saí de lá com fama de sangue-bom. Minha caminhada ficou
mais fácil na cadeia.

A lei diz que é melhor pagar por crime alheio do que delatar o companheiro.
Ao acusado é permitido protestar inocência; dar o nome do responsável,
jamais. No caso de punição injusta, o verdadeiro culpado arca
com a dívida da gratidão, no mínimo.

Gitano, um ladrão tatuado que trabalhou na enfermaria, recebeu uma
carta da mulher. Açoitado pelo ciúme, foi atrás de um
gole de maria-louca no pavilhão Oito. Cidinho Bigorna, seu fornecedor,
lamentou não poder atendê-lo, estavam na entressafra, após
uma batida do choque da Pm. Entretanto, condoído pela tristeza do amigo,
Cidinho Bigorna conseguiu-lhe uma garrafa de Dreher por 50 reais. Gitano pagou
vinte, assumiu trinta de dívida e levou a bebida:

– Para acertar a diferença, vendi umas doses, onde que dei azar,
um companheiro ficou bêbado e desrespeitou um funça. Os homens
chegaram para saber a origem do conhaque, que se eu entregasse o fornecedor,
minha cara estava limpa.

Gitano explicou que o litro havia aparecido pela manhã, misteriosamente,
na porta da cela. Pagou trinta dias no castigo, mas poupou Cidinho Bigorna,
um ladrão que uma vez cravou o punhal com tanta força na mão
de um comerciante japonês que tinha se negado a abrir o cofre, que a
lâmina trespassou os ossos e enterrou na mesa. Para seu azar, a polícia
chegou em seguida e, ao ver o senhor com a mão encravada na mesa, bateu
tanto em Cidinho e nos dois asseclas que ele perdeu a audição?
todos os dentes da frente.
O gesto de Gitano não passou despercebido a Cidinho:

– Sangue-bom. Se ele me dá eu, tinha complicado a situação
jurídica da minha pessoa, que eu já agravei a Colônia
não posso dar mancada, senão perco o beneficio.

Mas não deixei passar batido, usei minha aproximação
com um funça para levar uma lata de goiabada para ele, na Isolada,
que ali é um mês na quentinha pura, sem recorte. Esse tipo de
reconhecimento respeitoso não se aplica aos laranjas, desprezados por
assumir a culpa alheia por motivo considerado torpe: covardia, perdão
de dívida ou imediata recompensa. A diferença entre o sangue-bom
e o laranja é muitas vezes sutil, pois envolve a motivação
que levou ao ato, como explica seu Chico, um ex-marinheiro que matou o cunhado,
foi preso e não viu mais os filhos, porque, em retaliação,
a mulher disse a eles que o pai havia morrido na penitenciária: – O
laranja assume em troca de vantagem imediata, é toma lá, dá
cá. O sangue-bom ajuda o companheiro sem saber se um dia vai ser recompensado;
merece nosso respeito porque é um altruísta.

TRAVESTIS

No início, com os travestis, meu problema era a identidade. Sentava-se
frente à mesa um homem de seios; e gestos delicados em cuja ficha eu
lia Raimundo da Silva, mas que todos chamavam de Loreta. Como o médico
deve se dirigir a esta pessoa? Raimundo, toma o remédio, ou Loreta,
minha filha?

Logo percebi que o certo era Loreta. Tratá-las como mulher não
as ofendia, muito pelo contrário. A trajetória do travesti é
marginal. Vêm todos das camadas mais pobres, e quando saem à
noite, de seios crescidos

• saia agarrada, são automaticamente identificados como perigosos,
independentemente do que tenham feito. Presos, vão para o distrito.
Os delegados procuram alojá-los em celas especiais, mas quando não
há espaço, o que fazer? Espremídos no meio de homens,
numa situação em que muito valente corre perigo, curiosamente
o travesti acha força na fragilidade feminina e impõe respeito.
Na Detenção, a maioria vive no quarto andar do pavilhão
Cinco, mas há outros espalhados pela cadeia. Nem tudo são rosas
entre elas; brigam e falam mal umas das outras, porém se unem diante
do perigo, por instinto de sobrevivência.
O negro Jeremias diz que nos velhos tempos a cadeia era diferente:

– Tinha menas travesti e mais bicha.

Diz que uma delas, de cabelos compridos, conhecida como índia, fazia
as unhas do diretor, o temido coronel linha-dura.

– Era linda. Quando a irmã dela vinha na visita, não díferenciava
da outra.

Quando os mais novos lhe pedem, e só nesta condição,
seu jeremias, sobrevivente de muitos conflitos, dá o seguinte conselho:

– Se você vem na galeria e vem uma bicha vindo, é melhor passar
de cabeça baixa. Já vi muita morte porque foram contar que o
cara olhou para a bicha do outro. Tem razão, os maridos são
possessivos. Mulher de cadeia casada jamais circula pela galeria, e para descer
ao pátio, só acompanhada. Para casar, o marido deve estar em
boa situação financeira, pois a ele cabe o sustento da casa;
a ela, a submissão ao provedor. De forma velada, alguns condenam, mas
a união é respeitada socialmente.

O parceiro passivo não é considerado do sexo masculino. Nos
estudos que conduzimos, não bastava perguntar se mantinham relações
homossexuais. Era preciso acrescentar: e com mulher de cadeia?

Antes das visitas íntimas, a homossexualidade era prolífica.
Uma vez, dei o resultado positivo do teste de AIDS para um ladrão desdentado
e perguntei-lhe se havia usado droga injetável no passado:

– Nunca. Peguei esse barato comendo bunda de cadeia. Muita bunda, doutor!

Travestis solteiros movimentam-se sem perigo no meio da malandragem, desde
que saibam se colocar no devido lugar. Em caso de desavença com algum
ladrão, podem se defender verbalmente, como fazem as mulheres, porém
jamais chegar às vias de fato como os homens. Uma vez, dois traficantes
do Oito foram ao Cinco cobrar uma dívida e se desentenderam com os
devedores e os amigos destes. Foram esfaqueados. Entre os agressores, um travesti.

Problema grave: o pessoal do Oito não deixava por menos, queria invadir
o Cinco. Conflito de sérias proporções – são pavilhões
apinhados – contornado pela esperteza e persistência do diretor do pavilhão.
A revolta do Oito não era por causa da agressão, corriqueira
em cobrança de dívida, mas pelo fato de um travesti haver participado.
Zacarias, um asmático em crise, faxineiro do Oito, queixou-se ao seu
Valdir, funcionário do Cinco:

– Olha a que ponto chegou a cadeia, hoje em dia até puto dá
facada em ladrão!

Quando vêm para a Detenção, os travestis estão
há tempos longe da família. Sem ajuda no presídio, ou
casam ou continuam na prostituição, como antes na avenida. Neste
caso, a preço vil, a troco de uma lata de óleo, um bom pedaço
de frango ou uma pedrinha de crack. Patrícia Evelin, de cílios
postiços, foi condenada porque matou um cliente que não quis
pagá-la numa travessa da avenida Indianópolis e, o que mais
a revoltou, foi estúpido, enxotou-a do carro feito uma cachorra. Um
dia, ao pedir uma banana a mais para o faxina que distribuía o almoço,
Patrícia recebeu uma proposta indecorosa:

– Só se você der uma cara aqui, para o ladrão. Hoje ela
ri. Diz que foi o michê mais barato da vida:

– Fazer o quê, estava louca por uma banana.

A AIDS foi devastadora entre os travestis da Casa. Chegavam na enfermaria
com tuberculose avançada, feridas no períneo, os seios definhados
pela interrupção da pílula de hormônio e o silicone
industrial infiltrado nos músculos caquéticos. Sofrimento para
mulher de verdade. No final, restritos ao leito, ainda sorriam com meiguice
feminina. Perdi a conta de quantos morreram.

INOCENCIA

Em inocência, a cadeia é farta. Na primeira conversa, o observador
se convencerá de que ninguém é culpado. São todos
vítimas de alguma armação da polícia, de um delator,
do advogado sem-vergonha, do juiz, da mulher ingrata ou do azar.

Paulão é um mulato de quarenta anos, meio gordo, de sorriso
agradável e barba cerrada, que vivia em movimento pela enfermaria.
Durante meses, nosso contato ficou restrito ao café que ele trazia
no meio da tarde, num copo com friso de ouro e uma índia com maiô
de oncinha. Na primeira vez, levei a bebida à boca com uma cerimoniosa
preocupação que, para minha surpresa, mostrou-se descabida:
o café era forte e amargo, um alento no ambulatório interminável.
Uma tarde, ele veio com o copo da indiazinha no intervalo entre dois atendimentos:
– Paulão, queria agradecer essa gentileza. Toda vez, café fresquinho.
Vou te trazer um pacote, não é justo você gastar do seu.

– Não faça isso, doutor, vai me entristecer. É um prazer
que eu tenho.

– Quanto é tua pena, Paulão?

-Ainda não fui julgado.

– Assalto?

– Não, doutor, que é isso! Estou no aguardo do julgamento
devido um rapaz que morreu na vila onde eu moro.

– Quem foi que você matou?

– Mataram meu irmão. Depois de uns dias, o assassino teve um encontro
com a morte. A suspeita recaiu-se sobre a minha pessoa. Uns dizem que fui
eu, mas não viram, e outros dizem que viram que eu não fui.
E, nessa de uns achar que fui eu sem ver e outros ver que não, eu estou
aqui na expectativa do que o juiz vai decidir. Meses depois, no julgamento,
o juiz o condenou a treze anos e quatro meses.

RICARDÃO

Era noite sem lua. O camburão encostou na Divinéia e os dezoito
presos desceram algemados. Diante deles, o guarda de plantão resmungou:

– E depois dizem que vão desativar a Detenção. Como
protesto contra a superlotação, os dezoito haviam destruído
as celas do distrito em que se encontravam:

– Sempre a mesma história: resolvem todos os problemas do Sistema
despejando mais gente em cima de nós. No escuro da Divinéia,
um carcereiro à frente do grupo e dois atrás, em silêncio,
o cortejo entrou à esquerda pela porta do pavilhão Dois, parou
na Carceragem para os procedimentos burocráticos e foi encaminhado
à cela da Triagem, no térreo. Um funcionário parou à
porta, até todos estarem reunidos. Abriu. A luz estava acesa.

Um dos membros do grupo de depredadores, Zildenor, por ironia preso numa
loja de brinquedos quando comprava honestamente um trenzinho para os filhos
com dinheiro roubado num assalto, não pôde acreditar que os carcereiros
iriam trancá-los ali:

– A maior caloria lá dentro. Mais de trinta ladrões deitados
no chão.

Alguns dormiam em colchões de espuma, outros sobre cobertores iguais
aos dos craqueiros que perambulam pelo centro de São Paulo. Barbantes
esticados de uma parede à outra serviam de varal para a roupa molhada.
Sacos de plástico com pertences pessoais pendiam dos pregos na parede.
Uns poucos privilegiados penduravam redes no alto e pairavam acima dos demais
(são conhecidos como “morcegos”).
Zildenor conta que a chegada dos transferidos revoltou os ocupantes da Triagem:

– Quando se viu que nós era em dezoito, começou o batefundo.
Reclamação pra caramba, que não tinha condição,
que não cabia mais, que eles iam matar um de nós para reforçar
os argumentos. Mas os funças puseram a gente para dentro, que eles
não estão nem aí para sofrimento de ladrão.

Um carcereiro ainda justificou:

– É para ninguém se queixar que aqui falta calor humano. Dentro
da cela, os transferidos explicaram aos companheiros irritados que não
estavam lá por opção; haviam quebrado o Distrito. Zildenor
até ressaltou um Ponto em comum:

– justamente, nós era vítimo do mesmo processo: a superpopulação
do sistema presidiário do país. Não foi fácil
aquietar os revoltados, que viviam naquele calor, trancados o dia todo, com
as muquiranas picando e se escondendo nas dobras da roupa. Com muito custo
as coisas se acalmaram e os dezoito se acomodaram em volta do vaso sanitário,
como rezam as leis da prioridade. Para eles, foi até um alívio:

– É que no distrito estava um esgano monumental. Precisava fazer
turno para dormir: uns deitavam, o resto ficava em pé, espremido, sem
poder encostar no outro, que é tudo homem com homem.

Na noite seguinte, chegou na Triagem um branquinho de olhos claros com os
pertences embrulhados numa folha de jornal. Entrou quieto e tomou posição
ao lado do vaso.

Um pouco mais tarde, um moreno de fala fanhosa deitado perto da janela identificou
o branquinho como o amante de sua mulher.

Assunto grave: namorar mulher de detento desperta ódio

– O alemãozinho foi obrigado a entrar na do grandão do coletivo
na cadeia. Vi diversos assassinatos causados por esses canto.

triângulos amorosos: marido que vai preso, mulher que arruma outro,
que mais tarde cai no mesmo presídio do rival desconsolado. Seu Aparecido
Fidélis, funcionário antigo que garante haver conhecido ou pelo
menos passado na porta de todos os salões de baile de São Paulo,
afirma que é mais fácil uma esposa abandonar o marido na cadeia
do que a amante vir a fazê-lo.

Da janela, o fanhoso gritou:

– Tu bateu no meu reconhecimento, maluco. Descolei que você é
o Ricardão da minha mulher. Agora, vai morrer! Zildenor classificou
assim o incidente:

– Um caso de Ricardão e dona Maria Faltosa.

O fanhoso preterido avançou na direção do loirinho,
mas a turma do deixa-disso interveio:

– Deixa disso, cara, vai tirar um montão de cadeia, tua pena é
pouquinho. Na rua você acerta esse pilantra.

O argumento aguçou o bom senso do marido traído, que resolveu
se vingar de forma menos radical:

– Está bom, eu não mato o Ricardão filho da puta, mas
ele vai ter que pagar com a mesma moeda que fez na minha mulher. Vou subir
nas costas dele! O branquinho, humilde, procurou demovê-lo de tal intenção:

– Não faz isso, cara, eu SOU Hiv, não vai ser bom. Eu já
vou morrer mesmo, você vai querer pegar AIDS também?

Neste momento, levantou no canto um gordo desdenta-do, ladrão de muitas
entradas na Casa:

– Deixa o alemão para o tiozinho aqui. Não tem problema, eu
também SOU HIV!

Zildenor conta que, lamentavelmente:

No dia seguinte, percebendo que Zildenor era novo como ele no xadrez, o branquinho
veio chorar as mágoas:

– Pó, cara, eu contei uma mentira, inventei essa história que
não tem nada a ver. Eu não SOU HIV. Zildenor confortou o rapaz:

– Não esquenta não, o patrício do canto também
não é. A ojeriza à figura do Ricardão foi captada
sem piedade por um Pm que guardava a muralha paralela aos fundos do pavilhão
Oito. Em seu plantão, às dez da noite pontualmente, ele saía
da guarita, deslocava-se até um ponto escuro da muralha, próximo
às janelas do pavilhão, e batia com o capacete três ve
zes: bum bum buin:

Aí, ladrão, você na tranca e ela lá, fodendo
com o Ricardão. Seguia-se um longo silêncio, rompido invariavelmente
pela mesma voz de tenor:

– Gambé, filho da puta!

Era a senha para um crescendo infernal de impropérios:

– Pm corno do caralho! Vou contar pra tua irmã na visita de domingo!
Já comi tua mulher de quatro! Vai buscar tua mãe na zona, gambé!

– A gritaria atingia o nível máximo de intensidade, ininteligível,
e decrescia até se calarem as últimas vozes. Impassível,
com a silhueta na penumbra, o Pm aguardava a volta do silêncio. Então
batia novamente o capacete contra a muralha: bum bum bum

– Aí, ladrão, você na tranca e ela lá, fodendo
gostoso com o Ricardão.

QUEBRA-CABEÇA

Anos atrás, num inverno, o clima ficou pesado no pavilhão Cinco.
O diretor de Disciplina recebeu queixas de que os faxinas cobravam proteção
para estupradores e dívidas de droga diretamente das visitas: – É
o seguinte, minha senhora, se não trouxer o dinheiro no fim de semana
que vem, seu filho vai morrer! Diante desta inadmissível contravenção
às leis da malandragem, segundo as quais um preso, por mais intimidade
que tenha com o companheiro, só pode se dirigir a um familiar do outro
se convidado a fazê-lo, seu Luís, diretor de Disciplina, chamou
Jocimar, encarregado -geral da Faxina do pavilhão:

– Tenho recebido reclamação de que tem faxineiro extorquindo
família de preso, e isso eu não admito. Para evitar conseqüências
desagradáveis para o seu pessoal, é melhor você por ordem
no pavilhão.

Seu Luís não gostou nem um pouco da justificativa de Jo

-Acho que informaram mal o senhor. Mais a mais, não é todas
as ocorrências que eu consigo segurar. cimar:

Na segunda-feira seguinte, o silêncio da noite foi interrompido pela
gritaria no xadrez de um asmático do segundo andar. O carcereiro -rondante
olhou pelo guichê, viu o doente azul de falta de ar e abriu a cela.
Os
seis ocupantes saíram com facas, renderam o rondante, desceram para
a Carceragem e dominaram os cinco funcionários de plantão. Diziam-se
ameaçados de morte por ladrões inimigos e queriam transferência
para outro presídio.

Nessas situações, apesar da tensão, estabelece-se um
acordo de cavalheiros: os funcionários rendidos não reagem e
os presos não abusam da violência, para evitar conseqüências
posteriores. Naquele episódio, entretanto, tudo foi diferente, os amotinados
agrediram um dos reféns e roubaram dinheiro dos outros. Havia dois
faxineiros entre os amotinados.

As negociações prolongaram-se madrugada adentro. Com a chegada
do pessoal do diurno o ambiente piorou. Indignados com a humilhação
pela qual passavam os colegas, os carcereiros pressionaram a direção
para deixá-los resolver o caso à força. Não foi
fácil contê-los. Finalmente os negociadores chegaram a um acordo
com os rebelados. Na porta da cadeia, os funcionários rodearam o camburão
que iria transportá-los para outro presídio, conforme exigiam.

Nesse momento, com a perspicácia que os anos trazem para certas pessoas,
seu Luís, homem encorpado, de óculos, postou-se junto à
porta do camburão e dirigiu-se aos colegas cegos de ódio:

– É o seguinte, pessoal: o que esses caras aprontaram é inadmissível.
Vamos quebrar eles, mas vocês esperam até eu dar a primeira.
Eu sou o diretor de Disciplina, ninguém bate antes de mim.

Além da inegável autoridade moral de quem começou a
carreira menino ainda, como carcereiro, e chegou a diretor, seu Luís
trazia nas mãos um convincente pedaço de cano de um metro.

No pátio, os presos saíram usando os reféns como escudo.
Agitados, os funcionários fizeram um círculo em volta deles,
enquanto os soldados da Pm guardavam com metralhadoras a entrada do presídio.
Quando os presos chegaram na porta do camburão, o diretor de Disciplina,
num movimento brusco, com o cano na mão, empurrou-os depressa para
dentro do camburão e trancou a porta imediatamente, sem dar tempo para
a reação dos colegas indignados. No mesmo momento, voltou-se
para eles:

– Nós somos profissionais. Já era, pessoal. Todo mundo para
dentro. já era. Somos profissionais. Dizem, mas ninguém sabe
ao certo, que durante o caminho os ladrões transferidos receberam a
surra desejada pelos profissionais frustrados, pelas mãos pesadas dos
Pms que os transportaram para um presídio do interior. Resolvido esse
episódio, o diretor de Disciplina encontrou-se diante do seguinte dilema:
falar de novo com o encarregado-geral da Faxina seria interpretado como manifestação
de fraqueza da diretoria; por outro lado, destituí-lo e colocar alguém
no lugar não estava a seu alcance. São os ladrões que
escolhem o chefe da Faxina, não ele.

Seu Luís, avô de dois netos e filho de uma senhora de cabelos
brancos como algodão que passou a vida preocupada com a segurança
dele no meio dos ladrões, percebeu que era sua vez no tabuleiro. Seus
subalternos humilhados esperavam vingança; a malandragem, em silêncio,
aguardava o movimento seguinte.

Para ganhar tempo, o que não é desprezível na situação
em que se encontrava, seu Luís fez um lance ousado: transferiu o encarregado-geral
da Faxina para a Penitenciária do Estado e declarou vago o cargo. Com
a medida, demonstrou determinação no comando, acalmou os colegas
e assustou os ladrões.

Passaram-se dois ou três dias sem encarregado e surgiu o impasse inevitável:
quem seria o substituto? Na visão de seu Luís, a Faxina provavelmente
escolheria alguém que mantivesse o status quo de extorsões,
constragimento de visitas e falta de respeito com os funcionários.
Nas noites maldormidas que se seguiram, cuidando da esposa recém-operada,
o cadeeiro chegou a pensar numa medida radical: transferir a Faxina inteira,
espalhá-los pelo Sistema. Abandonou a idéia porque surgiria
um vácuo de poder perigoso, e na disputa para ocupá-lo talvez
muitos perdessem a vida. Além disso, não se pode esquecer que
os faxineiros exercem funções importantes na rotina da cadeia.
já no dia seguinte, quem distribuiria o café da manhã
e o almoço? E se por medo, solidariedade ou outro motivo ninguem assumisse
as tarefas dos transferidos? Como diz o velho Lupércio, maconheiro
desde o tempo em que se podia fumar baseado, tranqüilo, pela rua Direita,
pela Quintino Bocaíúva e na praça da Sé, porque
os transeuntes pensavam que era cigarro de palha: – Cadeia sem comida é
dinamite com pavio aceso, doutor. Os anos passados na diretoria de Disciplina
deram tempo para seu Luís organizar uma intrincada rede de informantes
com ramificações pela cadeia inteira (se não tivesse
tido competência para montá-la, há muito teria perdido
a posição que ocupava).

Através dos alcagüetas, pôde avaliar melhor o ambiente
no pavilhão. Havia presos revoltados com o proceder dos faxineiros,
gente que tinha sido extorquída, humilhada ou simplesmente que desaprovava
a conduta deles por razões morais. Descobriu que até dentro
da própria Faxina existia um grupo que não compactuava com os
métodos empregados pelos companheiros. Maquiavelicamente, seu Luís
lembrou-se do Pirulão, um alcagüeta que fez carreira num distrito
do centro, passando informações em troca de parte dos bens apreendidos
com os ladrões delatados por ele. O passado sujo do “ganso”,
como são conhecidos esses tipos, aproximou-o do diretor em busca de
proteção assim que chegou na cadeia. Seu Luís foi solícito,
prometeu-lhe discrição e garantiu-lhe que a massa não
teria acesso a seu prontuário criminal. Naquele momento, o diretor
nada pedia em troca; um dia, quem sabe? O futuro a Deus pertence, era a filosofia
de seu Luís na condução da cadeia.

Pirulão, magro, alto e estrábico, tomava conta da Copa dos
funcionários do pavilhão com um grupo de companheiros. Semanas
antes, um deles, condenado por estupro, havia sido morto a facadas por seis
faxineiros, na saída da Copa.

Seu Luís chamou-o em sua sala e ofereceu-lhe um café:

– Pirulão, desde que você pôs o pé aqui dentro
eu tenho te protegido. Fui legal, salvei tua vida. Se da minha boca, Deus
o livre, escapasse teu passado de ganso, você era um homem morto. Pois
bem, chegou a hora de demonstrar gratidão: quero que você comande
o grupo que vai assumir a Faxina.

Pirulão era esperto, seu Luís não precisou explicar
tudo, apenas o ajudou a arregimentar os descontentes e aqueles sobre os quais
a diretoria tinha ascendência. Com cautela, em poucos dias conseguiu
unir trezentos dissidentes ao redor do novo líder, e fez a contabilidade:

– São cerca de duzentos faxineiros. Os números estão
a meu favor.

Apesar da vantagem numérica, o diretor sabia que a tomada do poder
seria traumática. A essa altura, poderia transferir a Faxina inteira
e instalar Pirulão e seus asseclas na chefia, mas ficaria evidente
para a malandragem que a polícia estava por trás da armação,
e o grupo montado com tanta perspicácia seria considerado por todos
um bando de traidores. Muitos pagariam com a vida esse erro de cálculo.

O velho diretor concluiu, então, que a única solução
seria o novo grupo tomar as celas da Faxina, expulsar os derrotados e impor
respeito no pavilhão, na melhor tradição do Crime: “Contra
a força não há resistência”.

Na linguagem da cadeia, seu Luís estava pisando em casca de ovo.
Todo cuidado é pouco, pensou ele:

– Violência é remédio difícil de dosar.

O dia da batalha final transcorreu igual a tantos. Às cinco todos
subiram. Nos andares, vindo ninguém sabe de onde, boca a boca, como
em outras oportunidades, correu o boato de que haveria batida geral da Carceragem
atrás de faca, pinga e droga. Quem tinha, correu para esconder. No
horário habitual, o funcionário bateu seguidamente o cadeado
na grade. Corre-corre para o xadrez, barulho de ferro, televisão e
um cantor no cavaquinho. Rotina total, exceto por um detalhe: não houve
a contagem geral, sagrada na cadeia.

Baianinho, um ladrão de olhos puxados, com mais de cem assaltos e
duas mortes no prontuário, que morava de graça num dos seis
xadrezes COM Tv, de propriedade de Jocimar, o encarregado-geral recém-transferido
para a Penitenciária, sob a condição de nele esconder
oito cas e assumir a responsabilidadeda posse delas em caso de apreensão,
estranhou a falta da contagem:

– Mas como diz que vai ter batida, pensei que era devido a esse pormenor
dos fatos. Tudo bem, os polícias não vão achar nada no
xadrez nosso; na piolhagem, nós mocosamos todas as facas na ducha de
tomar banho. A mínima perturbação na rotina de uma cadeia
deixa os homens apreensivos. Naquela noite, o boato da batida e a falta da
contagem criou um clima de expectativa nas celas. Caiu um silêncio profundo.
Mau sinal. Oito e quinze, ouviu-se movimento na galeria mal iluminada. Roberto
Carlos, um ladrão magrinho, com uma Nossa Senhora Aparecida tatuada
no peito e cego do olho direito, que tinha recebido alta da enfermaria duas
semanas antes, olhou ressabiado pelo guichê de sua cela:

– Não gostei do que o meu olho viu: ladrão solto pela galeria
nessa hora, uns dez ou doze. Se vai ter revista, como é que esses caras
estão por aí à vontade e nenhum funça por perto?

Atrás dos dez ou doze, subiram mais de duzentos. Rostos cobertos
por capuzes do tipo ninja, formaram um corredor polonês duplo por toda
a extensão da galeria dos xadrezes dos faxineiros, no segundo andar.
Vinham com facas, paus, pedaços de cano e o molho de chaves. Abriram
o primeiro xadrez; justamente o do Roberto Carlos:

– Mandaram a gente sair só de cueca, que nós era tudo metido
a bandidão, tomador de dinheiro de visita e que nós ia morrer.
Dos oito que nós estava, ninguém quis sair em primeiro. Para
a gente, naquela hora, nossos dias tinham chegado a termo. Tentamos bater
o pé, mas nós estava sem recurso, as facas todas na ducha.

Tivessem sabido antes que o plano seria tomar a Faxina, não as teriam
escondido e, principalmente, desobedeceriam à ordem de se recolher
às celas na hora da tranca.

Mais experiente que os companheiros de cela, Roberto Carlos assumiu a liderança:

– Já que nós é para encontrar a morte, que seja livre,
correndo pela galeria e não feito frango acuado no poleiro. Fiquei
só de zorba e saí, que quando o navio vai a pique, o homem sem
iniciativa se afoga mais primeiro.

Em treze anos de caminhada pelo Sistema, Roberto Carlos jamais viu tanta
faca quanto as que avistou na saída do barraco. Confessa que teve medo:

– Naquele corredor polonês devia ser tudo justiceiro, estuprador,
só coisa que não presta, e mais algum ladrão com bronca
da gente. Não tinha como esboçar combate, nem explicar que nós
estava por fora da fita. Dei três passos e tomei logo uma paulada que
encheu o olho de estrela. Mesmo assim tentei me sobressair sobre os companheiros
que vinham correndo atrás.
Até chegar na escada, Roberto Carlos tomou sete ou oito pancadas com
paus e pedaços de cano. Quando a atingiu, nova surpresa o aguardava:

– Em cada dois degraus tinha um inimigo postado, de ninja.

Um deles, por ironia, empunhava uma das facas que Roberto Carlos havia escondido
pessoalmente na ducha e desfériu-lhe um golpe contra o peito:

– Oi, como é o destino! Eu escondo a faca, um cara acha e dá
justo em mim, para acertar no coração, só que pegou no
ombro. Não sei se ele errou na emoção ou foi obra da
santinha tatuada no meu peito.

Desceu a escada aos socos e pontapés até a porta de entrada
do pavilhão, onde chegou a respirar aliviado por continuar vivo. Mas,
como felicidade de ladrão dura pouco, no trecho da Radial que liga
o pavilhão Cinco com o Seis havia outro corredor polonês de calças
amarelas e capuzes ninja. Entre estes, dizem que se enfileiravam. funcionários
com pedaços de cano, porque era o plantão da mesma equipe que
havia sido rendida e desrespeitada quinze dias antes. Os cinqüenta metros
de Radial que separam os dois pavilhões pareceram intermináveis
ao ladrão: – Para mim aparentou mais longe do que o Rio de Janeiro.

Uma a uma, as celas dos faxineiros foram abertas e seus ocupantes expulsos
a pau, cano e espetadas de faca. A intenção era despejar e assustar
a Faxina, sem acidentes fatais. Estropiados, mas vivos, os faxineiros e seus
comparsas foram recolhidos na gaiola de entrada do pavilhão Seis, vizinho.
De lá, transferidos para a segurança da Masmorra, do pavilhão
Quatro.

Os acontecimentos daquela noite foram seguidos atentamente através
das janelas de frente, do pavilhão Oito, com visibilidade parcial para
o andar da Faxina desapropriada.

Na manhã seguinte, Pirulão, na condição de chefe
do grupo vitorioso, e dois auxiliares diretos cruzaram para o Oito em missão
diplomática: debater com a Faxina local as condições
para o reconhecimento da nova ordem. Com o apoio do pessoal do Oito, pensaram,
o pavilhão dos mais velhos, dos reincidentes, certamente ganhariam
o respeito da cadeia inteira.

Reuniram-se num xadrez da rua Dez, longe da vista dos carcereiros. O diálogo
foi um pouco tenso:

-Agora vai morrer os três. Primeiro você, Pirulão, que
é o chefe dessa patifaria. A gente não vai com a tua fachada
que tu defende estuprador, que nem aquele teu considerado que os manos teve
o bom gosto de matar. Mais a mais, se queriam tomar a Faxina, tudo bem, é
direito seus, só que tinha de ser na luz do dia. De noite, com os manos
na tranca, é crocodilagem.

Agarraram os três, trouxeram um latão de lixo e puseram o Pirulão
dentro com as mãos amarradas para trás: – Vai morrer queimado
e depois vamos te esquartejar igual Tiradentes.

Nessa circunstância extrema, Pirulão demonstrou sua habilidade
de negociador, sem a qual jamais teria chegado na situação em
que se encontrava:

– Sabe por que vocês não vão fazer isso? Porque se der
quinze minutos e nós três não voltar são e salvo-conduto
para o Cinco, os sete companheiros de vocês que estão lá,
de castigo na Isolada, vão morrer a pior das mortes.

pós instantes de indecisão, Pirulão e os outros dois
foram liberados sob a ameaça de encontrar a morte em qualquer prisão
do Sistema para a qual fossem transferidos.

Na época das palestras do cinema, conheci um assaltante e receptador
de nome Santão, que certa vez se desentendeu com um amigo de infância
e o matou porque ele o chamou de Zoreia. De fato, Santão havia nascido
sem uma orelha, mas detestava o apelido e tinha razão para isso: –
Zoreia é o cara que tem as duas orelhas, mas elas é de abano.
O meu caso é diferente.

Santão era o oitavo filho de um carregador do Mercado Central com
uma lavadeira da Vila Matilde. Aos sete anos já se defendia: engraxava
sapato na cidade, limpava pára-brisa de automóvel e vendia rosa
para ajudar na despesa. Precocemente desenvolvido, aos treze mudou de rumo:
– É que despertou a curiosidade pelo mais alto: bater carteira, dar
trombada e bote no bolso de transeunte. Quando era preso na rua, os policiais
não acreditavam que um mulato forte daqueles, revoltado e sem uma orelha
fosse menor de idade e o encaminhavam para O DEIC, COMO OS adultos:

– Ficava recolhido no meio das feras, apanhando da polícia que queria
meus crimes e eu só tinha trombadinha, furto de loja e cavalo louco,
que era arrancar a carteira da mão da pessoa no momento que ela ia
pagar alguma coisa.

O corpo musculoso lhe trazia desvantagem; para a polícia, um assaltante
perigoso; para os companheiros mais velhos, um ladrãozinho que só
tinha tamanho. Aos dezesseis anos, dependurado de cabeça para baixo
em cinco sessões de pau-de-arara no presídio do Hipódromo,
tomou a decisão de mudar de vida.
– Nessa aí eu falei: preciso fazer alguma coisa mais grave para ter
o que dar para os homens na próxima vez que eles me pendurar.

Abandonou o centro e foi assaltar casa, supermercado e caminhão de
entrega. Acabou no pavilhão Nove da Detenção, condenado
a dezoito anos. Na cadeia, com o tempo conformou-se:

– Se eu continuasse do jeito que eu vinha, tinha morrido ou ficado paralítico.
A vida no crime deixa a gente embriagado de sucesso.

Essa era a história dele. Quando o fato que contarei a seguir se
passou, tínhamos concluído o estudo mostrando que 78% dos travestis
da Casa estavam infectados pelo vírus da AIDS. Impressionado com o
número, combinei com o Waldemar Gonçalves dar uma aula para
os travestis. O Waldemar conversou com o grupo preso no quarto andar do Cinco
e acertou para uma sexta às oito horas, no cinema.

No dia, cheguei no cinema do pavilhão Seis meia hora antes. Foi sorte,
porque o céu escureceu e uma tempestade cheia de relâmpago e
trovão cortou a luz da cadeia. Ninguém havia chegado. Entrei
sozinho, na penumbra, e fui para a janela oposta à porta de entrada
ver a chuva. Meu olhar ficou entretido com a água que caía sobre
a muralha e na fachada do pavilhão Cinco.

Num dado momento, sem querer, notei um vulto. Era um mulato alto, de camiseta
branca, na soleira da porta de entrada, a uns vinte metros de mim. Ficou um
tempo ali, quieto, olhando na minha direção. Depois virou as
costas e foi embora. Eu, de lado na janela, fingi não ter notado a
presença dele.

Passou um pouco, chegaram dois outros que se encostaram nos batentes da
porta. Em seguida, voltou ele e se colocou a mão no meio dos dois,
com o peso do corpo apoiado na perna direita e a outra jogada displicente
para a esquerda. Os três não trocaram uma palavra. Senti medo,
naquele escuro, sozinho, o temporal ensurdecedor. Perdi a noção
do tempo. O mulato de camiseta branca começou a vir devagar, na cadência
da malandragem. Os outros dois continuaram parados na porta. Quando ele cruzou
metade da distância que nos separava, desisti de demonstrar que estava
tudo normal e virei o corpo na direção dele.
Ele empinou o queixo no rosto escuro. Fiz o mesmo, o coração
disparado, e esperei-o chegar. Quando estava mais perto, mudei o peso do corpo
para a outra perna e coloquei as mãos na cintura, como açucareiro,
de frente para ele, queixo para o alto, em sincronismo completo com a expressão
de seu rosto, agora possível de enxergar.

A dois passos de mim ele abriu um sorriso e me estendeu

– Firmeza, doutor?

– E aí, meu?

– É o seguinte, doutor, queria colaborar com o senhor nesse trabalho
do cinema. O, o maior respeito!

– Você sabe mexer com equipamento de som?

– Dá para me ajeitar, doutor. Na rua, trabalhei com receptação
de eletrônicos.

Combinamos que ele iniciaria na semana seguinte. Apertou minha mão
com força e sorriu de novo. Perguntei como faria para encontrá-lo:

– É só chamar pelo Santão, todo mundo conhece.

MULHER, MOTEL E GANDAIA

Santão veio ajudar na montagem do equipamento. Um dia, no final de
uma palestra apareceu com a seguinte conversa: – Doutor, sem querer abusar
do prestígio que eu tenho na sua amizade, será que o senhor
podia espiar o Ezequíel, um considerado meu que está padecendo
do pulmão, lá no Oito? O xadrez de Ezequiel estava repleto de
mulheres coloridas. Eram tantas que perdiam a individualidade, formavam um
mosaico que cobria a parede e a porta. Na cama de baixo, jazia ele, sem dentes
na frente, desidratado, com febre alta, dor no peito e o rosto escorrendo
suor.

Ezequiel contou que havia cumprido pena por tráfico e receptação,
numa penitenciária do interior. Uma noite, nesse lugar, viu dois carcereiros
retirarem um preso do xadrez. No dia seguinte, o rapaz apareceu morto. A versão
foi de que havia tentado fugir. Inconformado, Ezequiel denunciou os dois ao
diretor do presídio.

Anos mais tarde, transferido para a Colônia Penal, em regime semi-aberto,
Ezequiel deu de cara com os mesmos funcionários, que para lá
haviam sido designados em conseqüência do caso anterior. Ele concluiu
com pesar: – A Colônia não é um mar de rosas como dizem.
Prevendo o pior, sete dias depois Ezequiel saiu para o trabalho e não
voltou. Conformou-se:

– Eu pensei de um jeito, mas o destino traiçoeiro quis

Numa casinha que inundava, na beira do córrego da Vila Joaniza, ele
encontrou os pais idosos passando necessidade e a irmã mais velha com
quatro crianças, abandonada pelo marído. Assumiu o comando da
família. Fugitivo, não tinha endereço fixo, mas aparecia
na casa dos pais para almoçar ou jantar. Nem bem terminava a refeição
e já estava na rua outra vez:

– Uma coisa de bom eu tenho, estou no crime faz tempo e nunca invadiram
a minha casa. Não dou esse tipo de liberdade para a polícia.

Para recomeçar, um amigo emprestou-lhe duzentos gramas de cocaína.
No tráfico, logo aprumou. Poucas vezes teve que dormir nos hotéis
da Boca do Lixo, com as prostitutas do baixo meretrício; passava as
noites na casa de mulheres usuárias da droga em São Paulo, Santos
e São Vicente.

– A vida fugitiva é agitada: mulher, motel e gandaia.

No meio da noite, o senhor está numa boate tomando um birinaite,
toca a sirene lá longe e pronto: já acha que são os homens.
Está no centro da cidade, passa um carro da polícia, dá
um frio no espinhaço, onde tem cara que foge e é preso de bobeira,
quando o barato nem era com ele. É uma vida desassossegada permanente.
Ganhava bem, comprava a 250 o grama e revendia a 600 ou 700. Entregava de
moto, pessoalmente. Faziam-no entrar e ofereciam-lhe bebidas importadas. Confiavam
tanto que até cheque lhe passavam. Ezequiel depositava-os na conta
da irmã, que desde criança o protegia. Devagarinho, acertou
a vida da família, uma casinha mais no alto, provisões na despensa
e as crianças arrumadas pela irmã caprichosa. Para poupá-los,
dizia-lhes estar no ramo de compra e venda de automóveis.

– Nesse interinho, arrumei uma namorada que trabalhava na Telesp e tinha
conhecimento desse pessoal da sociedade, advogados, médicos, gerente
da Bolsa de Valores e um cara que fazia propaganda na ,, gente de Primeiro
Mundo que gostava de mim porque eu só vendia da pura, desbatizada.
Inclusive, um cliente meu, o maior bicheiro da zona sul, cujo nome não
posso nomear, dizia que eu era um moço muito honesto. Um dia, um de
seus fregueses foi preso e a situação complicou:

– Devem ter arregaçado o elemento de um jeito que ele deu eu como
traficante. Entregou até a placa da minha moto que estava no nome do
meu pai. Puxaram a filiação e deu eu, em dívida com a
justiça e tal.
Dias mais tarde, ele estava sentado no cavalete da moto, tomando um sorvete,
quando surgiram dois revólveres por trás:

– E aí, Ezequiel dos Santos, como é que vai o fugitivo?
Um dos policiais, de óculos escuro, fez a revista, enquanto o colega
de barba guardava distância. Ezequiel estava desarmado.

Passado o susto inicial, ele perguntou se havia possibilidade de acerto:

– Os homens queriam oitocentos contos ou eu voltava para a cadeia. Respondi
que já tinha tirado dez anos, sofrido o pão que o diabo amassou,
que os velhos dependiam de mim e tal e mais a irmã e os sobrinhos,
que eles não iam ganhar nada me prendendo, que eu não praticava
o mal para a sociedade, só vendia para quem queria comprar. Aí,
naquela de pá e pá, acabou que eles ficaram com a moto, que
valia quatrocentos, em troco da liberdade.

Sem a moto, perdeu agilidade no atendimento da clientela e as vendas caíram.
Contraiu dívida com o fornecedor que trazia da Bolívia.

A solução para a crise veio através do tal gerente
da Bolsa de Valores, numa boate da Vila Olímpia. O rapaz cheirou uma
nova partida, espreguiçou-se, pôs o braço no ombro de
Ezequiel e cochichou:

– Você é gente boa, cara, só me traz farinha pura.

Quer saber? Vou te dar um lance de meio milhão de dólares.
Você merece! Ezequiel, então, soube que a namorada do rapaz da
Bolsa era secretária de um doleiro dos jardins que guardava 500 mil
dólares no cofre de casa. O corretor deu o endereço do doleiro,
contou que ele tinha três filhos e que a esposa andava de cadeira de
rodas por causa de um acidente.

– Resolvi caprichar no planejamento do plano. Passei dez dias na campana
do cidadão.

Descobriu que o doleiro saía às seis do escritório
e ia direto para casa. De início, pensou dominá-lo na saída,
levá-lo para casa e obrigá-lo a abrir o cofre. Abandonou a idéia,
por achar complicado seqüestrar alguém em plena Faria Lima, no
horário de movimento. Achou mais prudente entrar na residência
da futura vítima, no final da tarde, manter como reféns a senhora
da cadeira de rodas, as crianças e as duas empregadas, e aguardar a
chegada do doleiro, que não teria alternativa. Para executar o assalto,
precisava de um parceiro e de um carro veloz. Lembrou-se do Alcindo, de Santo
André, que havia cumprido pena com ele na cadeia de Presidente Wenceslau.

– O Alcindo tinha fama de melhor piloto do ABC,inclusive ganhou a alcunha
de Airton. Acertaram tudo para uma quarta-feira. Na véspera roubariam
o carro, que ficaria escondido na casa de Alcindo. Na porta do veículo
pintariam em letras brancas:

“Floricultura Rosa Gardênia”, e, na hora marcada, chegariam
na casa do doleiro com as flores para entregar. Os passos foram ensaiados
diversas vezes. Tudo perfeito, já faziam planos para os dólares.
Como no episódio da Colônia Penal, no entanto, o destino traiçoeiro
mais uma vez decidiria de outra forma.
Terça-feira, saíram atrás do automóvel. Não
estava fácil, Alcindo era exigente com a qualidade do veículo.
Depois de muito andar, encontraram um casal discutindo num carro que pareceu
adequado ao piloto. Apresentaram-se com um revólver em cada janela.
O rapaz não esboçou reação, pediu-lhes apenas
que deixassem a noiva em paz. Eles explicaram que lhes interessava só
o automóvel e saíram por São Caetano.

Dobraram três ou quatro esquinas e, quando iam respirar aliviados,
surgiu não se sabe de onde uma viatura do tático móvel
com sirene e tudo. Começou a perseguição: – Os homens
vinham pendurados nas janelas, com os pneus cantando e as armas apontadas.
Só não atiravam porque tinha muito carro em volta. Naquele aperto,
descobri que o Alcindo, de Airton não tinha nada, estava mais branco
que ambulância. O trânsito abria por causa da sirene e ele feito
barata tonta esbarrava nos carros, só no descontrole do sistema nervoso.

Quando entraram no viaduto da GM, em São Caetano, colidiram de frente
com o Gol de um rapaz que levava a esposa grávida ao médico.
Com o impacto, Ezequiel desmaiou.

– Acordei na porta do hospital, mas os caras me deram um rasgo, uma coronhada
Luger de 9 milímetros no queixo, que eu caí fora de si outra
vez.

Na mesma noite recebeu alta. Ao chegar no distrito, foi informado de que
o proprietário do carro roubado era da Rota e havia telefonado para
a polícia, que iniciou a perseguição. Para piorar, o
rapaz do Gol abalroado, com a esposa grávida, era investigador do DEic.
A dupla coincidência tornou o castigo mais pesado:

Perdi sete dentes e ainda tive que arrancar o único que sobrou sozinho,
na frente. Me penduraram pra valer; tomei tanto bicudo de coturno no costado
que tenho problema até hoje quando o tempo esfria.

Os homens chutavam e diziam:

– Se a criança do cara morrer, nós vamos acabar com a tua
raça, vagabundo!

Ele jurava ter paixão por criança, que era louco pelos sobrinhos,
principalmente o caçula, afilhado de batismo, e que jamais tivera intenção
de matar um inocente no ventre da mãe. Não adiantava, era chute
na boca, nas costelas, e máquina de choque no corpo molhado.

– Dia de azar, doutor. O cabrito para o pinote era de um cara da Rota, a
trombada no Gol do investigador, ainda mais com a mulher grávida, e
o Alcindo, de Airton, só o vulgo. Culpa minha que entrei nessa, cara
criado em favela vai dirigir bem com 22 anos de idade? Nunca teve carro!

As recordações não pareciam confortá-lo:

– Está difícil, doutor. Subo a escada do pavilhão sem
fôlego, arqueado como um velhinho e ainda agoniado com o sofrimento
da família sem mim, passando dificuldade.

MARIA-LOUCA

Ezequiel curou-se da tuberculose e ficamos amigos. Era o mais respeitado
destilador de maria-louca do pavilhão Oito. A fama de sua pinga atraía
fregueses da cadeia inteira.

A tal de maria-louca é a aguardente tradicional do presídio.
Segundo os mais velhos, sua origem é tão antiga quanto o sistema
penal brasileiro. Apesar da punição com castigo na Isolada,
a produção em larga escala resistiu. O alto teor alcoólico
da bebida torna os homens violentos. Eles brigam, esfaqueiam-se e faltam com
o respeito aos funcionários que tentam reprimi-los. A opinião
de Ezequiel sobre a própria arte não primava pela modéstia:

– Só vendo da boa e da melhor. Se eu ponho a minha pinga numa colher,
o senhor apaga a luz e risca um fósforo, sai um fogo azul puríssimo.
Que muitos tiram, mas nem pega fogo; sai um vinagre. Eu tiro uísque.
O milho de pipoca que a mãe lhe trazia, sem saber a que se destinava,
era a matéria-prima de Ezequiel: num tambor grande comprado na Cozinha
Geral, juntava cinco quilos de milho, com açúcar e cascas de
frutas como melão, mamão, laranja ou maçã. Depois,
cobria a abertura do tambor com um paninho limpo e atarraxava a tampa, bem
firme:

– Esse é o segredo! Se vazar, o cheiro sai para a galeria e os polícias
caem em cima, que eles é sujo com pinga. Diz que o cara bebe e fica
folgado com a pessoa deles. Do jeito que eu fecho, doutor, pode passar um
esquadrão no corredor com o nariz afiado, que pelo odor jamais percebe
a contravenção praticada no barraco.

Durante sete dias a mistura fermenta.

– No sétimo, a fermentação é tanta que o tambor
chega a andar sozinho, parece que está vivo. Devido à pressão
interna, todo cuidado é pouco para abrir o recipiente. Aberto, seu
conteúdo é filtrado num pano e os componentes sólidos
desprezados. Nessa hora, a solução tem gosto de cerveja ou vinho
seco. Um golinho dessa maria-louca amortece o esôfago e faz correr um
arrepio por dentro. Cada cinco litros dela, vai virar um litro de pinga, depois
de destilada a mistura.

Na destilação, o líquido é transferido para
uma lata grande com um furo na parte superior, no qual é introduzida
uma mangueirinha conectada a uma serpentina de cobre. A lata vai para o fogareiro
até levantar fervura. O vapor sobe pela mangueira e passa pela serpentina,
que Ezequiel esfria constantemente con uma caneca de água fria. O contato
do vapor com a serpentina resfriada provoca condensação, fenômeno
fisico que impressionava o bigorneiro, nome dado ao destilador da bebida:
– Olha a força do choque térmico! Aquilo que é vapor
se transforma num líquido!

Na saída da serpentina emborcada numa garrafa, gota a gota, pinga
a maria-louca. Cinco quilos de milho ou arroz cru e dez de açúcar
permitem a obtenção de nove litros da bebida.

– Sai limpíssima, é a coisa mais gostosa do mundo. Do bom
e do melhor. Pinga minha não dá sede de madrugada, nem vontade
de urinar, e não incha os pés.

Quando começou, Ezequiel era um dos poucos bigorneiros do Oito. Trabalhava
muito, das oito da noite às três e meia da madrugada, porque
isso não é trabalho que se faça à luz do dia.
Ganhou prestígio:

– Vendia o litro por uma paranga de 10 contos. Hoje qualquer vagabundo tira
pinga, sai um vinagre azedo e custa os olhos da cara: 30, 40 contos o litro.
Os caras perdeu a noção.

Cuidadoso, Ezequiel nunca foi pego por desleixo na prática de seu
oficio:

– As três vezes que a casa caiu, foi por crocodilagem.

Na primeira, passou noventa dias num cubículo com mais oito, no calor
do verão. Nas duas outras, pegou apenas trinta dias. Os tempos haviam
mudado, a mãe até armou um esquema para visitá-lo nos
finais de semana. Orgulhoso de seu trabalho, Ezequiel só abandonou
a maria-louca quando caiu gravemente enfermo. Malandro esperto, nunca se interessou
pelo lucro fácil da cocaína:

– Doutor, eu tenho quatro inquéritos de 157, tudo assalto. Nunca
fui pego com droga. Se eu entrar em cana mexendo com crack aqui dentro, vou
cair no 12, tráfico. já se trata de um artigo diferente, adquirido
na própria cadeia. Crime contínuo; crime como fantasia, o juiz
poderá argumentar. Vai querer tirar eu como irrecuperável e
negar todos os benefícios.

O pavilhão Oito, dos reincidentes, é por tradição
o maior produtor da maria-louca que abastece a cadeia, seguido pelo Cinco.
Nele, em maio de 1998, numa única batida foram encontrados mil litros
da bebida. Diante do meu espanto ao saber da quantidade apreendida, um funcionário
comentou:

– Pode parecer muito, doutor, mas não se esqueça de que são
7 mil presos.

De fato, os mil litros de maio não quebraram a marca de uma apreensão
anterior: 1200 litros destilados, prontos para a venda.

MIGUEL

Miguel assaltava com o parceiro, Antônio Carlos. Confia vam tanto
um no outro, que assumiram o compromisso mútuo de cuidar das duas famílias
caso um deles fosse preso. Num assalto a um supermercado, conseguiram um bom
dinheiro e aplicaram em cocaína. Prosperaram e continuaram no ramo,
pequenos comerciantes de Taboão da Serra. Um dia, vinham com dois companheiros
na carroceria de uma caminhonete carregada de móveis, com dois quilos
de cocaína escondidos num armário, e encontraram uma barreira
policial. No tiroteio, perdeu a vida um dos companheiros da carroceria. Miguel
foi dar pessoalmente a notícia à viúva. A moça
ouviu pálida, em silêncio. Depois chorou comovida. Miguel disse
que também estava triste. Entregou-lhe a parte do marido no trabalho
e, qualquer coisa, Antônio Carlos e ele estariam à disposição.
Foi embora encantado com a beleza da morena. Nem na TV tinha visto pernas
tão bonitas, sonhava com elas à noite. Por causa dessa moça,
Miguel largou da família e viveu um grande amor pela primeira vez,
ele aos 38 anos, ela, com 22.

Uma tarde, quando a união ia para o segundo ano, Antônio Carlos,
que morava na quadra de baixo, apareceu na casa de Miguel. A morena tinha
ido visitar a mãe. A conversa foi truncada, esquisita, até Miguel
interromper:

– Qual é, Antônio Carlos? Vamos entrar no assunto que te trouxe.

– Tua mulher te passa pra trás com um polícia. – Quem falou?

Antônio Carlos deu o nome do motel onde eles se encontravam e disse
que tinha visto os dois, pessoalmente, namorando na viatura da delegacia,
numa travessa do largo do Taboão.

O coração de Miguel acusou a punhalada. Matar o investigador
passou por sua cabeça, mas abandonou a idéia; teria que fugir
da cidade. Dar fim à vida dela? Como? Não é fácil
matar a mulher amada, constatou. Com um nó apertado no peito, Miguel
dobrou as roupas dela, pôs a mala do lado de fora e passou o trinco
na porta. Quando a morena chegou, bateu forte:

– Que é isso, Miguel, ficou maluco?

No início, ele nem respondeu, mas ela insistiu, disse que tinha direito
de saber o que aquilo representava. Se ele estava apaixonado por outra, ela
iria embora mesmo, que ela não era de dividir homem com vagabunda nenhuma.
Depois, queixouse de que os vizinhos ouviam tudo, e ele abriu a porta.
Na sala, ela se assustou com o estado trêmulo do marido. Tirou o copo
de bebida da frente dele e despejou na pia. Em voz baixa, procurou acalmá-lo
até conseguir que ele falasse:

– Você é puta, sem-vergonha. Larguei da mãe dos meus
filhos, te dei conforto, carinho e amizade e você pagou com a moeda
da traição. Estou sabendo do polícia que você encontra
no motel atrás do posto de gasolina na Raposo Tavares, faz mais de
um ano, enquanto o trouxa aqui arrisca a pele para rechear teu guarda-roupa.
A morena ouviu impassível. Depois, interrompeu o silêncio:

– Quem foi que te contou?

– Não interessa.

– É lógico que sim. Uma pessoa conta uma história que
destrói o nosso lar e eu não tenho direito de saber quem é
ela?

Ele disse que não, que ela não prestava, não valia um
pãozinho da padaria, e que tinha sorte dele ser bom, caso contrário
cometeria um desatino. Ela, de mãos frias, ignorava as ofensas. Apenas
queria saber:

– Quem foi que te contou?

Com a persistência das mulheres, insistiu nesse ponto até Miguel
confessar:

– Foi o Antônio Carlos. Por quê?

– Então, você vai fazer ele repetir na minha cara.

Depois, pego minha mala e vou para a minha mãe. Antônio Carlos
repetiu a história inteira na frente
dela e do marido, referiu-se até a detalhes que havia poupado do amigo:

– Vi você morder a orelha dele, na viatura!

Ela escutou calada, no sofá, até terminar a narrativa. Caiu
outro silêncio, novamente quebrado por ela:

-Você falou tudo, mas esqueceu a parte melhor.

– Como assim?

A morena, que tinha o olhar perdido nos bibelôs da cristaleira enquanto
ouvia o relato, levantou do sofá, postou-se diante de Antônio
Carlos e, direto nos olhos dele:

-Você não contou que me pediu para abandonar o Miguel? fugir
com você. E que eu não aceitei porque amo meu marido, sou amiga
da tua mulher.

Antônio Carlos chamou-a de mentirosa, disse que não fosse o
respeito pelo amigo arrebentava a cara dela. Xingou-a de mente diabólica.
Ela não respondeu. Como estátua, pegou a mala e foi embora.
Antônio Carlos virou-se para o amigo:

– Miguel, você não acreditou nessa pilantra, acreditou? A gente
tem quatro anos de parceria e nunca partiu de mim qualquer crocodilagem.

– Deixa quieto, Antônio Carlos. Antônio Carlos notou uma ponta
de hesitação no tom do parceiro.

Enquanto acontecia essa conversa, a morena tocava a campainha na casa do
difamador. Uma loira oxigenada apareceu na janela. Era Dina, mulher dele.
Conversaram em pé, na sala:

– Dina, o Antônio Carlos é veado? – Que pergunta, Marli!

– Desculpa, mas ele veio para o Miguel com uma história que eu saio
com um polícia, que nunca existiu. Veio com tudo, para destruir meu
casamento. Então eu pensei: ou ele quer que eu vá embora para
ficar com o Miguel ou quer que ele vá para ficar comigo.

– Que é isso? O Antônio Carlos tem nojo de bicha.

– Então, minha filha, é de eu que ele está a fim. Pegou
o ônibus e foi para a casa da mãe. Antônio Carlos era mulherengo,
e Dina, um poço de ciúmes. Uma vez engalfinhou-se com uma prostituta
das relações dele, e foram necessários dois homens e
uma senhora para separar. Quando Antônio Carlos entrou em casa, Dina
cravoulhe as unhas no rosto:

– Ordinário, sem-vergonha, sempre falei que você tinha um quê
por ela. Mas você dizia que eu era louca. Nem mulher de amigo você
respeita mais, cachorro?

Na manhã seguinte, Antônio Carlos bateu na porta de Miguel:

– Dormiu com gato?

– Você não acredita. Tua mulher saiu daqui, foi para minha
casa e pôs na cabeça da Dina que eu estou a fim dela. Quando
cheguei a Dina voou com as unhas na minha cara.

Miguel inspecionou os ferimentos no rosto do parceiro e disse:

– Antônio Carlos, o corvo da desconfiança pousou na nossa amizade.
Daqui por diante, cada um segue seu destino. O amigo tentou argumentar, explicar
que a sociedade era vantajosa para ambos, mas foi inútil. No dia seguinte,
Miguel foi buscar Marli na casa da mãe. Ela aceitou voltar com a condição
de que passassem uma borracha no acontecido e voltassem à harmonia
de antes. Ele prometeu e cumpriu, parcialmente. Passou a segui-la, inventava
viagens e aparecia em casa no meio da noite; até pos um capanga na
esperança de surpreendê-la. Nada: o comportamento dela era exemplar.

Um ano depois, bem estabelecido nos negócios, mudaram para uma casa
maior, passada no nome de Marli, porque ele não podia ter nada em seu
nome. A fase de suspeição havia chegado ao final. Quanto ao
parceiro, não se encontraram mais. Antônio Carlos tinha sido
preso e condenado a cumprir pena na Casa de Detenção.
Nessa ocasião, Miguel levantou 40 mil dólares num seqüestro
e resolveu triplicar o dinheiro. Disse para a mulher que comprariam um sítio
depois do golpe.

Chegou de ônibus em Santa Cruz de la Sierra. De lá, pegou uma
jardineira dessas em que as pessoas entram com engradado de galinha e desceu
na praça principal do povoado, em frente ao hotel da mãe do
vendedor de cocaína. Miguel pagou 50% do valor da encomenda e o boliviano
mandou refinar a cocaína. Levou dois dias, mas ele não se aborreceu.
Aproveitou para uma pescaria no barco do irmão do fabricante, um sujeito
contador de casos engraçados. A droga foi entregue do lado brasileiro.
Para fugir da rota mais vigiada, Miguel pegou ônibus para Brasília,
depois Belo Horizonte, São Paulo e Santos, onde vendeu a cocaína.
Vestia terno azul-marinho e camisa abotoada, na mão uma Bíblia,
que leu durante todo o percurso:

– Só para desbaratinar.

Chegou em casa com quase 100 mil dólares. Abriu o portão e
atravessou o corredor escuro. O cachorro latiu e veio fazer festa. Bebeu água
no filtro e foi para o quarto. A morena dormia de calcinha e camiseta regata.
Deitou-se ao lado daquele corpo quente e mordeu-lhe com delicadeza o pescoço.
Miguel estava feliz, outra vez. Na manhã seguinte, ela acordou cedo
e foi comprar pão. Ligou do orelhão da padaria:

– O passarinho voltou para a gaiola. Trouxe um saco de alpiste.

A polícia surpreendeu Miguel no vaso sanitário. O amante de
Marli chefiou a operação. Depois, viajou com ela para o Nordeste.

Miguel chegou na Detenção e chafurdou no crack. Pegou tuberculose,
não tratou direito e morreu magrinho, na enfermaria. De tristeza, disse
o Antônio Carlos, que cuidou do amigo até o último dia
de vida.

UM ABRAÇO

Claudiomiro diz que só foi preso porque tinha mulher e filho. O delegado
investigou os postos de saúde e encontrou a ficha de vacinação
do menino, com o endereço da mãe. Achou a moça bonita
e mandou segui-la. Uma noite, ela tomou o ônibus para Leme com o menino
e hospedou-se na casa da tia. Na vizinhança, a polícia montou
um posto de observação. Uma campana móvel, como dizem.
Três dias depois ele apareceu, morto de saudade. Conheci Claudiomiro
por uma exigência da Detenção: todo preso convocado para
depor nas delegacias, antes de sair precisava de um atestado de integridade
física. Mandei-o tirar a roupa. O corpo era forte, tinha três
cicatrizes antigas e nenhum sinal de violência recente. Perguntei se
havia apanhado:

– Aqui, não. Vamos ver agora no DERI.M. – Muita coisa lá?

– Querem me atribuir dezessete assaltos a banco e oito

-Vai assinar quantos?

-Nenhum, doutor. Nem posso, já tenho mais de quinze anos para tirar.

Dois dias mais tarde, vi na televisão uma tentativa de fuga coletiva
no DEPATRI (Departamento de Proteção ao Patrimônio). Claudiomiro
foi um dos líderes e voltou na mesma noite para a Detenção.
Encontrei-o na Radial:

– E aí, quantos você assinou no DEPATRI?

– Não chegaram a me interrogar.

– Ganha dinheiro nesse negócio de banco e carro-forte?

– Ganha, mas o dinheiro só vale a metade, às vezes até
menos.

A esta frase enigmática seguiu-se uma conversa sobre a profissão
dele:

– Precisa muita disciplina, doutor. Deu oito da noite, eu me recolho. Não
fico em bar, boate, porque a polícia pode me pegar de bobeira numa
batida qualquer. Durmo cedo e, em casa, quem acorda o galo sou eu. Claudiomiro
auxiliava a mulher nos trabalhos domésticos, fazia feira, trocava fralda
e contava história para o menino na cama. Quando se escondia, nem a
esposa sabia seu paradeiro. Mas não abusava da confiança: –
Para ladrão de banco não falta mulher. Só que muitos
acabam na cadeia ou na armadilha de outro bandido, porque mulher com o amor-próprio
ferido é capaz de muita vileza.
Claudiomiro diz que a informação precisa é fundamental:
a que horas passa o carro-forte, quantos mil no cofre do banco, o número
de guardas, todos os detalhes. Para isso, valia-se dos próprios vigilantes
das empresas de segurança, com cautela:

– Não pode ser intempestivo: ô meu, me dá a lança
aí.

Tem que se achegar através de um amigo, uma pessoa da família,
num bar, uma cervejinha.
Chegou a passar seis meses atrás da informação desejada:
– Fiquei amigo do rapaz, emprestei dinheiro, até no batizado do filhinho
eu fui. Tem que ganhar a confiança primeiro, para conscientizar depois.
Explicar que ele arrisca a vida para defender dinheiro dos outros e ganhar
uma mixaria, que essas firmas exploram o cara pra caramba, que se ele morrer
no trabalho, a mulher e os filhos vão passar necessidade.
É uma catequese:

– Até a pessoa dar a fita. Depois, semanas ou meses para planejar
a ação. Se é um banco, é preciso desenhar um croqui
com a posição dos caixas, do cofre, das câmeras de circuito
interno e dos seguranças. Quando é carro-forte, cronometrar
o trajeto por dias consecutivos, preparar o mapa das ruas próximas
e definir a hora exata da abordagem. Tarefa demorada e solitária:

– É eu e Deus. Saio de terno, gravata e pasta de couro, e conforme
o caso, abro uma conta na agência com documento falso, para justificar
a ida diária.

Com o plano organizado, Claudiomiro sai para contratar o pessoal. A pior
parte, segundo ele:

– Precisa saber lidar com ladrão.

Um assalto desses pode exigir até uma dúzia de homens e Claudiomiro
não tinha quadrilha fixa, por motivo de segurança. Achava mais
prudente terceirizar certas tarefas, com exceção daquelas executadas
por dois companheiros há muitos anos com ele. Mesmo assim:

– Eles não sabem onde eu moro, nem com quem eu vivo. Quando tenho
uma lança, eu que vou atrás deles. Reunimos cedinho, dois dias
antes do assalto eu conto o plano, mas não digo aonde é, nem
eles perguntam. Só no dia, meia hora antes de sair é que todos
ficam sabendo. Os três analisam o croqui e calculam quantos e a que
preço os homens serão contratados. Alguns ganham fixo, outros
por percentagem. O cálculo deve ser bem-feito:

– Senão vira repartição pública e ninguém
vê a cor do dinheiro.

Depois da reunião, Claudiomiro volta para casa e os outros saem para
montar a equipe e roubar os veículos de fuga, ou cavalos de pinote,
como preferem, que mais tarde serão abandonados nas cercanias do assalto,
porque os Ocupantes passarão para outro automóvel, às
vezes até com pessoas comuns em seu interior, para disfarçar:

– Tem gente que põe uma senhora gorda para dirigir e até criança
no banco de trás. Eu não exponho inocente; a polícia,
quando chega, não quer conversa.

No dia combinado, Claudiomiro sai às quatro e meia da manhã
para buscar o armamento: fuzis de repetição, metralhadoras e
revólveres importados. Só ele sabe o esconderijo: no mundo do
crime, arma é poder:

– Geralmente deixo na casa de gente que não passa sobre ela qualquer
suspeita, uma pessoa de fé ou uma viúva que freqüenta igreja.

A pessoa presta o serviço pelo aluguel da casa, cesta básica
ou auxílio num momento de necessidade. A cumplicidade cria laços
afetivos:

– Cinco da manhã, quando apareço para buscar as ferramentas,
tem uma senhora que me serve café com mandioca cozida e bolo de milho.
O pitoresco é que eu chego sem avisar nem nada, e está a mesa
posta, toalha limpinha, bolo e o leite no fogo. Na saída ela me deseja:
Deus te proteja meu filho! Naquele momento, é um conforto ouvir essas
palavras de uma senhora de idade. No horário das cinco às dez
da manhã, com as armas no carro, começa o perigo. Os policiais
da Delegacia de Assalto a Banco conhecem os modelos de automóveis preferidos
pelos ladrões e sabem que é o momento de pegá-los:

– Depois do assalto, com o dinheiro na mão, um abraço. O trabalho
exige sangue-frio. Nem quando tudo dá certoa tensão afrouxa.
O assalto põe a polícia na rua e assanha os marginais:

– Eu, quando pego uma bolada, evaporo. Mudo de casa, troco o carro, não
recebo visita para ver minha TV, geladeira nova, o conforto da minha família.
Prefiro assim do que ter que contratar segurança, como muitos fazem,
e perder a privacidade da família.
A notícia chega até na cadeia:

– Pó, fulano está com carro zero bala. Está dando dinheiro.
É o Sílvio Santos. Deu sorte mas é trouxa, a corridinha
dele é curta. O quê? Um pé-de-china com essa pacoteira?
Eu mando enquadrar e um abraço.
Certa vez, Claudiomiro foi abordado por dois homens armados que o revistaram
e pediram 30 mil dólares. Era ordem do chefe deles, para deixá-lo
em paz. Claudiomiro disse que o dinheiro estava no cofre do banco. Foram até
lá. Um dos chantagistas ficou do lado de fora com os revólveres
e o outro aguardou no saguão da agência.
Claudiomiro foi até o cofre e voltou com um pacote na mão. Deu
três tiros num deles e mais dois no outro, sem abrir o pacote. Os mortos
não imaginaram que poderia haver um revólver no cofre.
Claudiomiro não se vangloria da esperteza; agiu a contragosto:

– Era mais vantagem ter pagado os 30, que eu tinha levantado 74 no assalto,
do que matar os dois no meio de todo mundo, arriscando levar tiro dos seguranças
ou da polícia que chegou em seguida. Só que não posso
passar como vacilão, porque, aí, é um bote atrás
do outro, e eu tenho mulher e filho para adiantar.
Claudiomiro sempre dispunha de 50 mil dólares para o
caso de ser preso. Se a polícia chegava, a primeira pergunta que ele
fazia era se havia possibilidade
de acerto:

– Se eu percebo que o cidadão vacila, eu conscientizo ele: olha, você
ganha 700, 800 reais por mês, paga aluguel, não dá para
comprar um brinquedo para o filho, sustenta a mãe ou a sogra, vai ganhar
o quê, me levando preso? Para mim, sai mais barato acertar com você
do que entregar na mão do advogado, que vai me soltar em outras instâncias.

Por isso, dizia que seu dinheiro valia metade.
Outra vez conseguiu boa soma numa agência Bradesco. Alugou um apartamento
de três quartos na Manoel Dutra, no Bixiga, e mobiliou no gosto da esposa,
com todos os eletrodomésticos:

– Não usufruí vinte dias no conforto.

Uma tarde, foi fazer compras no supermercado da praça 14 Bis. Quando
saiu, notou a presença de um homem de boné na banca de jornal,
ao lado. Em vez de atravessar a rua, Claudiomiro virou à direita, na
direção da Barata Ribeiro. No farol, antes de cruzar, olhou
para os lados: o homem de boné havia virado em sua direção.
Claudiomiro não teve dúvida:

– Polícia. Farejo de longe.

Foi para casa distraído, vestiu a bermuda, calçou um chinelo,
pegou a mulher, o nenê, o carrinho, a sacola com as mamadeiras em cima
do dinheiro, e desceram.
O homem de boné estava no posto de gasolina, em frente. Deve ter pensado
que os pais levavam a criança para passear e esperou que voltassem,
em vão:

– Dobramos a Treze de Maio, parei um táxi e um abraço. Largaram
tudo para trás:

– Televisão, câmera de vídeo, dormitório de casal
e tudo o mais. Até o meu Verona novo, com os documentos certinhos na
garagem. Minha senhora não disse um ai. Não era a primeira vez
que abandonava tudo, nem seria a última, mas aquele dia me cortou o
coração ver as lágrimas no rosto dela.

Meses mais tarde, Claudiomiro foi transferido e fugiu da cadeia. Continuou
sua caminhada até cair sob o impacto das balas de uma viatura da Pm
que, por acaso, passava pela porta do banco no momento do assalto. Tinha 35
anos, deixou a mulher grávida e o menino pequeno.

DEUSDETE E MANÉ

Quando cheguei no pavilhão Quatro, o sol batia forte na gaiola do
térreo. O Pequeno conversava com um funcionário na beira da
escada. Perguntei se o elevador estava funcionando. Respondeu com o erre arrastado
na língua presa:

– Para variar, não. Doutor, o senhor já viu os corpos? Num
banheiro do térreo improvisado como necrotério,
jaziam os corpos de dois rapazes. Um deles, de bermuda, estava horrivelmente
queimado. As bolhas ocupavam o corpo todo, principalmente o rosto e o tórax;
algumas haviam rompido expondo a derma profunda, escura e úmida. O
outro, de camiseta do Baú da Felicidade, estava todo esfaqueado.

Os corpos eram de Deusdete e Mané de Baixo, criados na mesma vizinhança,
amigos inseparáveis até os catorze anos, quando Mané
de Baixo arranjou emprego num ferro-velho e saiu da escola. Na mesma época,
o pai de Deusdete perdeu a vida num trem de subúrbio. Orfão,
Deusdete foi trabalhar de dia e estudar à noite. Mané de Baixo
envolveu-se com o crime e desinteressou- se pela vida esforçada do
amigo.
Uma noite, Francineide, irmã do meio de Deusdete, na volta da padaria,
foi molestada por dois marginais da vila. Um disse que queria chupar o sexo
dela; ofendida, ela o mandou chupar a mãe, vagabundo. Apanhou, chegou
em casa com o vestido rasgado e a boca inchada. Ao ver a irmã naquele
estado, Deusdete correu para a Delegacia. Esperou mais de duas horas para
ouvir o escrivão dizer que ficaria louco se registrasse todas as queixas
de agressão da vila.

Uma semana após o incidente, no ônibus, um vizinho o avisou
de que os agressores souberam da ida dele à delegacia e queriam pegá-lo.
Deusdete pediu adiantamento na firma e saiu pela vila atrás de um revólver.
Não demorou para encontrar.
Apesar da arma, mudou de itinerário. Não adiantou, eles o acharam
na volta da escola, sozinho, por uma rua
escura.

– Aonde pensa que vai o estudante dedo-duro?

– Não quero briga. Deixa eu ir para casa.

– Você vai para a casa da mamãe, veado, só que antes
a gente vai te fazer uns carinhos, que nem nós fez para a tua mãzinha.

O primeiro que se aproximou tinha uma barra de ferro na mão. Abusado,
não percebeu que Deusdete havia sacado o revólver. Tomou dois
tiros e caiu morto. O companheiro saiu correndo com a faca. Deusdete atirou,
errou e seguiu no encalço. Três, quatro esquinas depois o fugitivo
entrou num bar. Deusdete esperou agachado atrás do muro de uma casa
em frente, até que o inimigo saiu, olhou ao redor desconfiado e cruzou
a rua bem na direção em que ele se encontrava. Levou as três
últimas balas do tambor, para espanto do gordo de bermuda e do barbudo
que jogavam sinuca no alpendre do botequim e mais tarde testemunharam contra
ele, no julgamento. Quando Deusdete chegou na Detenção foi acolhido
por Mané de Baixo, proprietário de um xadrez no pavilhão
Cinco, cumprindo oito anos e seis meses por roubo de carga e formação
de quadrilha. Com a ajuda do amigo, Deusdete, condenado a nove anos por homicídio
duplo, fez ambiente com a malandragem. Dava aula na escolinha do pavilhão,
escrevia cartas para os menos letrados e batia petições para
anexar aos processos dos companheiros.

A harmonia, entretanto, foi abalada quando Mané de Baixo conheceu
o crack. De nada adiantaram os conselhos do amigo, tudo o que Mané
conseguia evaporava na fumaça das pedras.
Na noite da tragédia, apareceu o Fuinha no guichê da cela: –
Mané, trouxe umas pedras da melhor para nós fumar. Deusdete
perdeu a paciência:

– Chega! Você não vai fumar comigo aqui dentro. Quer se matar,
foda-se, mas fuma amanhã, depois que eu sair! Fuinha preferiu se retirar:

– Deixa quieto, Mané, amanhã nós fala.

Mané de Baixo, diminuído na presença de Fuinha, não
disse uma palavra. De madrugada, enquanto o companheiro de infância
dormia, encheu um tacho com cinco litros de água, uma lata de óleo,
um quilo de sal e acendeu o fogareiro. Quando a mistura levantou fervura,
despejou-a em cima do outro.

Deusdete morreu na enfermaria do Pavilhão Quatro nas primeiras horas
da manhã. Ao meio-dia, os companheiros revoltados reuniram-se com a
Faxina do Cinco, num “debate”, como eles dizem, que envolveu mais
de quarenta pessoas. Resolveram que um grupo aguardaria nas imediações
da entrada do pavilhão e outro bloquearia a escada no primeiro andar.
Quando Mané entrou, o grupo de baixo subiu atrás.
Seu corpo foi levado para o Quatro num carrinho de transportar comida. Lá,
um detento o agarrou pelos braços, outro pelas pernas e o depositaram
deitado de lado, no espaço do corredorzinho que sobrou entre Deusdete
e a parede. O braço inerte de Mané caiu sobre a cintura do amigo.

AMOR DE MÃE

– Cadeia é lugar onde o filho sofre e a mãe não vê.

A noite havia caído. Na sala de consulta, eu louco para ir embora,
entrou um altão, forte, devagarinho, as pernas abertas e as mãos
amparando os testículos. Precisou de dois enfermeiros para subir na
maca. O rapaz tinha fama de assaltante destemido, ligação com
bicheiros, cicatriz no supercílio direito e era subencarregado da Faxina
do pavilhão Oito, o dos reincidentes. Apresentava um abscesso na bolsa
escrotal do tamanho de um pêssego graúdo. A lesão, vermelha
como fogo, tinha conteúdo líquido, flutuante; na parte central,
a pele estava tão tensa que chegava a brilhar. – Olha, precisa lancetar
para tirar o pus. Vou te encaminhar para o Hospital do Mandaqui.

– Doutor, faz oito dias que eu estou sofrendo. já me encaminharam
para o Mandaqui três vezes, mas faltou viatura. Ontem, depois de eu
implorar, no desespero, acabaram me levando, mas nem desci do camburão
porque os PMs falaram que ia demorar e eles não eram ama-seca de vagabundo.
Não tem condições do senhor lancetar aqui mesmo?

– O material daqui é precário. Além disso, você
não tem noção da dor que dá. É duro de
agüentar sem anestesia. Ele esboçou um sorriso:

– Que é isso, doutor, o senhor está falando com um homem que
tem quatro balas no corpo, Só no antigo DEIC me penduraram mais de
vinte vezes. lá apanhei de cano de ferro duas horas e não entreguei
o que os homens queriam. Se é pela dor, já era: é comigo
mesmo!

Sofrimento por sofrimento, pensei, talvez ele tivesse razão. Esses
encaminhamentos para hospitais externos eram complicados, pois o regulamento
exigia escolta da Polícia Militar, em viaturas nem sempre disponíveis,
para evitar fuga ou ataque de quadrilha para resgatar o prisioneiro. Nas filas
dos hospitais públicos, a demora acabava de azedar o relacionamento
com a Pm. Assisti a diversas mortes na enfermaria enquanto os doentes aguardavam
transferência.

Do nosso lado, o médico podia enfrentar problemas legais quando um
falso doente, encaminhado por ele para atendimento externo, fugia. Comigo
aconteceu duas vezes. Numa delas, um ex-mecanico com caquexia associada à
AIDS conseguiu tirar a mão esquálida da algema presa ao leito
e sumiu. Na outra, Romário, um craqueiro com tuberculose avançada,
pulou o alambrado do Hospital Central, situado atrás da Detenção,
enquanto os guardas assistiam Brasil versus Alemanha na TV, passou quinze
dias na rua fumando crack e voltou preso, para morrer dois meses depois na
enfermaria.

Se o doente estava disposto, tudo bem. Na falta de médico-cirurgião,
mandei chamar o Lula, responsável pelas pequenas operações
da enfermaria, assaltante de banco, operador prático e personagem de
outra história. Quando Lula chegou com o material, distribuí
quatro detentos -enfermeiros em volta da maca, nos braços e pernas
do faxina. Com cuidado, levantei o testículo doente e coloquei um chumado
de algodão por baixo. A menor mobilização da região
inflamada provocava dor intensa. Chegava a escorrer suor na fronte do faxina.

Tudo pronto, indiquei o local da incisão.

De luvas, Lula, canhoto, com uma lâmina de bisturi entre o indicador
e o dedo médio, cortou fundo a pele infiltrada e no mesmo movimento
Jogou a lâmina na bandeja e espremeu forte, da periferia para o centro
da região abscedada. Apertou firme, sem trégua. O pus jorrou
amarelo, grosso.

A incisão pareceu indolor. A compressão, no entanto, provocou
um urro oriundo das entranhas do faxina. Seu corpo retesou-se como um arco
apoiado na cabeça e nos calcanhares. Não fosse a contenção
obstinada dos quatro enfermeiros, a maca teria virado. Lula, impassível,
no aperto. O espasmo gutural só terminou quando faltou ar nos pulmões
do faxina:

– Ai, pelo amor de Deus, larga… Ai, mamãezinha… Vela eu, maezinha
querida.

Lula, sem dó, permanente, até a secreção amarela
rarear e o sangue tingir o algodão de bordô. Então, soltou
e espremeu mais três vezes, bem apertado, para ter certeza do serviço
bemfeito. Quando, afinal, largou, o queixo do ladrão tremia feito vara
verde. Pálido, lavado de suor, ele continuava obcecado pelo amor filial:
– Ai, mãezinha querida… Ai, minha Nossa Senhora, me ajuda… Vela
o teu filho, mãezinha.
Minutos depois, aliviado, o faxina agradeceu, humilde:

– Graças a Deus, melhorou. Deus abençoe vocês. Deus
abençoe o senhor, doutor. Deus te proteja, Lula. Profissional, recolhendo
os instrumentos com cara de poucos amigos, Lula interrompeu:

– Chega, deixa Ele em paz agora. Muito Deus na boca de ladrão, não
presta!

Em câmera lenta, o doente desceu da maca e saiu de pernas abertas,
capenga pela galeria. Quando a porta fechou, Pedrinho, passando um pano ensaboado
na maca, comentou em voz baixa:

– Pó, um bandidaço assim, assaltante de carro-forte, subencarregado
de Faxina, implorar pela mamãezinha desse jeito!

De todos os presos que passaram pela enfermaria, Edelso era o que tinha
mais jeito para medicina. Era o preferido da malandragem para aplicar injeções,
fazer curativos e, nas madrugadas sofridas, receitar o melhor tratamento sintomático.
Com a experiência, aprendeu a diagnosticar tuberculose melhor do que
muito médico. Trazia o doente já com a conduta: – Doutor, esse
aqui tem febre, dor no peito e sudorese noturna. Foi receitado soro com vitamina
e ampicilina, mas eu já comecei o esquema tríplice.

Agradável no trato, dentes preservados, roupa cuidada, destoava naquele
ambiente de homens pobres e corpos marcados pela violência.

Edelso tinha várias passagens por roubo de automóveis. Veio
para a Detenção condenado a oito anos e sete meses, enquadrado
em vários artigos do Código Penal: receptação,
formação de quadrilha e falsidade ideológica. Foi preso
porque assumiu a identidade de um médico recém-falecido em Mogi
das Cruzes. Com documentos falsos, alugou um sobradinho numa cidade vizinha
e montou consultório, com placa na porta, receituário e número
de CRM.
– Eu comprava carro roubado num desmanche de São Paulo e vendia na
fronteira com o Paraguai.
Para disfarçar, o papel de médico caía como uma luva
para ele, ex-aluno de um curso de auxiliar de enfermagem: – Médico
toda hora com carro novo, é normal.

Fez a mudança para a residência-consultório à
noite. O vizinho até ajudou a carregar os móveis. Na manhã
seguinte, acordou com a campainha. Olhou pela Janela do banheiro e viu dois
soldados da PM, um alto de bigode ruço e o outro suado, enxugando a
testa com um lenço. O ladrão lamentou a sorte:

– Nem bem cheguei e a casa caiu!

Pensou em fugir pelos fundos a pé. Não seria a primeira vez
a deixar os pertences para trás. Hesitou, enquanto a campainha insistia.
Por fim, resolveu bancar o desentendido e desceu com calma, o revólver
enfiado no cinto. Pela janelinha da porta, perguntou o que os policiais desejavam:

– Doutor, tem uma criança passando mal no posto de saúde e
o médico não chega. Dá pra quebrar o galho da gente?
Quando Edelso chegou no posto, havia várias pessoas em volta de uma
menina de sete anos que ardia em febre e dor de garganta, na maca. Gente humilde.
Uma senhora de preto que parecia ser a avó explicou que a criança
vinha com dor forte de cabeça. Edelso estranhou:

– Criança pequena com cefaléia?

Passou a mão por trás do pescoço da menina e tentou
dobrar-lhe a cabeça para encostar o queixo no peito. A criança
gritou de dor:

– Rigidez de nuca!

O sinal neurológico foi suficiente para o falso médico fazer
o diagnóstico:

– Meningite! Precisa levar a menina para o Emílio Ribas. Aqui não
tem condições.
Neste momento, enquanto Edelso orientava o caso, chegou o médico de
verdade, assim descrito pelo falsário:

– Um tipo esquisito, de peito peludo e chiclete na boca. Entrou de branco,
não falou com ninguém, só olhou a garganta da pacientinha,
receitou Keflex de seis em seis horas e virou as costas.
Edelso ficou calado, procurando uma desculpa para escapar dali. O negócio
dele era outro e não podia correr perigo. Quando saiu, o pai da menina
veio atrás:

– Doutor, o senhor acha que é meningite, o outro médico disse
que é só amigdalite, mas nem examinou a menina. O que eu faço?

– Se a filha fosse minha, eu levava para o Emílio Ribas. Prevaleceu
o bom senso paterno. No hospital confirmaram o diagnóstico de meningite
bacteriana, internaram e curaram a criança.

A fama de Edelso correu e a clínica prosperou. Cobrava baratinho ou
atendia de graça, conforme as posses do cliente. Não dependia
da medicina para sobreviver, ganhava de 2 a 3 mil dólares em cada carro
que levava para o Paraguai:

– São duras essas viagens, doutor. Tem que rodar tudo de noite para
evitar a fiscalização, sozinho, que não pode envolver
um amigo ou uma mulher inocente, numa treta dessas. E se a polícia
parar? Furar o cerco, parar e ir preso, ou entregar tudo na mão deles?
Um dia a casa caiu, de fato. Um clínico-geral de Mogi das Cruzes atendeu
uma cliente com prescrição dada por Edelso em nome do médico
falecido e deu parte na delegacia.

A carreira de Edelso na enfermaria terminou num final de semana. A chefia
do pavilhão Dois transferiu-o para o pavilhão Sete, porque numa
batida no xadrez de um traficante, segundo disseram, seu nome constava na
lista de devedores, com 10 reais de débito.
Meses mais tarde, cruzei com ele na Radial. Estava bem de aparência,
descansado do trabalho com os doentes. Fazia até planos para quando
cantasse a liberdade:

– Vou parar com esse negócio de carro, desmanche, Paraguai, que é
sem futuro. Com a medicina que aprendi com o senhor, não vejo a hora
de montar consultório num lugarzinho simples e viver tranqüilo
cuidando dos meus pacientes.

Fui apresentado ao Lula no ambulatório por causa de um alemãozinho
sardento com uma facada na região glútea. O rapaz, pálido,
com uma águía de asas abertas tatuada nas costas, vinha deitado
de bruços na maca, com as calças abaixadas e a cueca rasgada
pela lâmina. O golpe tinha atingido a musculatura profunda mas poupado
os nervos e vasos sangüíneos mais importantes; bastava lavar e
suturar.

Com uma fila de doentes por atender, achei que devia encaminhar o doente
para um pronto-socorro, pretensão imediatamente contra-indicada pelo
Edelso:

– A essa hora, já era, doutor. Vai ficar para amanhã. Por
que o senhor não autoriza o Lula?

Lula era ladrão de longa carreira. Chegou na cadeia com foto escrachada
no Fantástico, depois de cair baleado no saguão da agencia Itaú
de Santa Cecília, num assalto em que morreram dois ladrões.
Baleados, ele e o chefe da quadrilha, um rapaz miúdo chamado Ferrinho,
chegaram no Carandiru. cercados de respeito. Bandeco, figura popular do Cinco,
que fala feito metralhadora, diz que nada é tão gratificante:

– Chegar numa cadeia e os companheiros te tratarem com todo o respeito é
a coisa mais bonita na vida de um ladrão. Menos de um mês depois,
Ferrinho, torturado pela depressão, enforcou-se com um lençol
na janela do xadrez. No bolso da calça, tinha o retrato de um menino
pequeno e de uma loira de boca pintada.

Mal Edelso saiu, Lula entrou, sapato branco, correntinha de prata com crucifixo
no peito desabotoado, e tinha pressa. Sem me dar muita atenção,
observou o ferimento e aproximou varias vezes os bordos do corte. – Dá
para fazer, doutor, não ofendeu nenhum nervo. Facada na bunda é
só para esculachar a vítima.

Foi nosso primeiro contato. Insisti que o segredo era anestesiar o ferimento
e lavá-lo demoradamente com água e sabão. Quando terminou,
veio me chamar para dar alta ao ferido. A sutura estava ótima, as distâncias
entre os pontos perfeita, o sangue escorrido cuidadosamente retirado.

Não sei quem o treinou – a verdade é que era operador talentoso.
Com instrumentos precários e fio grosso de algodão, fazia delicadas
suturas de cicatrizes imperceptíveis, drenava abscessos, extraía
projéteis do corpo e, habilidosamente, retirava ciscos dos olhos com
a ponta de uma agulha de injeção.

Uma vez, trouxe-me um paciente com um lipoma gigante nas costas. Era uma
tumoração mole, gordurosa, de quinze centímetros de diâmetro.
Queria que eu autorizasse a exerese. Achei difícil uma cirurgia daquelas
sem anestesia geral. Disse-lhe que eram loucos, ele e o outro. Respondeu-me
que Já havia feito operações maiores, em locais menos
acessiveis.

Meses depois, encontrei o rapaz do lipoma no pátio do Sete e ele,
sorridente, levantou a camisa para me mostrar a cicatriz do tumor operado.
Estava perfeita, em forma de Z para aliviar a tensão da pele repuxada
sobre o corte. Perguntei-lhe quem o havia operado: – Foi o Lula. Não
ficou bom?
– Como, se eu não autorizei?
– Ele pediu para outro médico.

Trabalhamos muitos meses em contato. Ensinei-lhe princípios de assepsia,
noções sobre as linhas de força da pele para orientá-lo
nas incisões e emprestei- lhe um atlas de anatomia, que ele folheou
com os olhos brilhando de curiosidade e nunca mais devolveu. Aprendi a admirar-lhe
a habilidade cirúrgica e o prazer que tinha no aprendizado-Com o tempo,
ficamos amigos.

Num final de ano, notei que seu comportamento se alterou. O riso espontâneo
desapareceu; andava agitado e tenso. Na galeria, olhava desconfiado para trás
e para os lados. No horário de trabalho, às vezes desaparecia.
Ficou magro e com o rosto marcado.
Uma manhã, cruzei com ele no corredor:

– Lula, quero falar com você, em particular. Entramos na sala do centro
cirúrgico. Ele trancou a porta e guardou a chave no bolso.

-Você está fumando crack.

– Que é isso, doutor? Nem posso, ainda mais operando o pessoal aí.

– Lula, você entendeu mal, não é pergunta: estou afirmando
que você fuma crack, todo dia, e muito. Negou de novo, mas eu insisti
que não ficava bem para nós, homens barbados, pais de família,
brincarmos de enganar um ao outro.

– É, doutor, comecei fazem seís meses. No começo era
de vez em quando; passava uma semana sem fumar. De uns tempos para cá,
é todo dia.

– Toda hora.

– A bem dizer verdade, é toda hora. Acordo já na fissura de
ir para o fundão, no Oito, atrás de pedra. Tem vez que eu falo,
está me prejudicando, vou dar um tempo. Que nada, passa um dia ou dois,
estou indo para o fundo na maior neurose. Gasto uma média de 20, 30
contos por dia nessa desgraça.

– E o dinheiro?

-Vem da cirurgia. Aqui nada é de graça, doutor.

– Mas você opera as pessoas e depois fuma essa praga: vai perder a
habilidade manual.

– Desculpa, aí o senhor se engana. Eu não fumo crack depois
de operar, eu fumo antes.

-Você é louco, irresponsável. O crack tira o controle
dos movimentos.

– Doutor, aí o senhor está novamente enganado. Às vezes
eu tenho que fazer uma sutura grande, difícil. Desço para o
barraco e cachimbo. Subo, injeto o anestésico e lavo a ferida com água
e sabão, conforme o senhor ensinou. Lavo sem pressa, chego a passar
quinze minutos embaixo da torneira escovando, espuma alta, não me importo
com o sangue. Seco bem, tudo limpinho, e quando vou operar, ó, maior
barato, vejo os vasos brilhando fluorescente. Amarro um por um, mão
firme no porta-agulha, não deixo escapar nada. Só quando a ferida
fica seca, sem escorrer uma gota, as bordas bem aproximadas pelos pontos do
subcutâneo, é que eu suturo a pele. Se o senhor medir a distância
entre o buraco da passada da minha agulha e a borda do corte, de um lado e
do outro da cicatriz, vai ver que não tem diferença nem de um
milímetro, tanto é a precisão.

O crack acabou com ele. Dias depois o diretor do pavilhão o demitiu
da enfermaria e o transferiu para o Oito. A permanência foi curta; privado
da clínica particular, não teve como manter o vício,
contraiu dívidas e perdeu a moral entre os companheiros. Um dia, foi
encontrado sem vida no xadrez. Ao lado do corpo, uma seringa suja de sangue.
Overdose, foi a notícia que correu na cadeia. Achei muito estranho;
o pessoal da enfermaria, que tinha trabalhado anos com ele, nunca soube que
o Lula injetasse na veia.

MARGÔ SUELY

Margô passou três meses no distrito, numa cela com 32 homens,
e ninguém abusou dela. Apesar da sainha agarrada, do bustiê e
do silicone nas coxas, o maior respeito. Quando veio transférida para
o Carandiru, conheceu um ladrão e se apaixonou. Ele foi franco com
ela:

– Se quiser ser minha, é o seguinte: só minha, entendeu? Te
ponho num barraco, dou conforto, mas não vai tirar eu, não.
Manter mulher de cadeia custa o olho da cara. Tirou eu, já era.

O xadrez da Margô tinha um beliche, cortina bege e um tapete de talagarça
com dois cisnes e uma casinha, para não pisar na friagem. Entrando,
dava-se de cara com o come-quieto, um lençol azul pendurado logo, atrás
da porta, para assegurar a privacidade. Na janela do fundo, uma cortininha
xadrez. Recortes de artistas inundavam as paredes. Sob a janela, um armário
tosco servia de mesa para o fogareiro. Sobre ele, o bule de café com
o bico coberto por uma galinha de crochê. Ao lado, a Tv com bombril
na antena. Cigarro, guloseimas, o baseado da tardinha, a pílula para
os seios e o respeito da malandragem, por conta do ladrão. Da parte
dela, apenas a fidelidade total. Sair no corredor, nem pensar, seu lugar era
a cela, porta fechada, come-quieto cerrado e cortina xadrez puxada para evitar
galinhagem e derramamento de sangue. De vez em quando, um solzinho podia,
porém nunca desacompanhada; três seguranças do ladrão,
desciam com ela.

Na parte de cima do beliche morava a ZIzi, travesti mais velha, de rosto
assimétrico devido ao deslizamento do silicone injetado na região
malar. Era a doméstica, cuidava da cozinha, limpeza, lavar e passar.
Nas visitas do ladrão, discreta, recolhia-se.

Margô se apaixonou porque no começo ele foi bom para ela, protetor,
exigente, não deixava faltar nada. Quanto a ela, passava os dias na
TV, com as revistas femininas e o esmalte de unha. As outras morriam de inveja.
Um domingo de visita (não para elas, há muito distantes da família),
com sangue nos olhos, o ladrão invadiu o barraco:

-Você vai aprender a calar essa filha da puta da tua boca!

E, antes que ela entendesse, acertou-lhe um murro no queixo com tamanha
força que Margô, em pé ao lado do beliche, perdeu o equilíbrio,
bateu a cabeça no armário e com o cotovelo derrubou o bule do
chá de erva-doce para acalmar o nervoso da Zizi. Isso porque a mulher
do ladrão, mãe dos três filhos dele, na visita, disse
que já sabia de tudo e que só voltaria quando ele largasse daquele
degenerado!

O incidente estremeceu o relacionamento de Margô com o ladrão.
As coisas nunca mais foram como antes. A crise atingiu o auge quando ela teve
uma ferida íntima, dolorosa e úmida. O ladrão não
se conformou: – Sem sexo, acabou o luxo, minha filha!

Dito isto, cortou batom, pílula, baseado, reforço na despensa
e, o pior para ela e a Zizi, até o cigarro. Quando a ferida arruinou,
Margô Suely veio para a enfermaria. Passou um tempo com a gente. No
primeiro dia, o ladrão apareceu e foi compreensivo; depois, nunca mais,
apesar dos sucessivos recados que ela mandava. No final de uma tarde de inverno,
melhorzinha, Margô recebeu alta e voltou para o pavilhão Cinco.
Chegou na hora da contagem. Enfraquecida, subiu a escada com dificuldade.
Na galeria do quarto andar, numa fileira de oito lâmpadas apenas duas
teimavam acesas. Margô, mal agasalhada, seguiu até o fundo, virou
à direita e deu de cara com um funcionário:

– Aonde pensa que vai?

– Estou chegando da enfermaria. já falei com o seu Valdir lá
embaixo, ele disse que podia subir.

– Qual é o teu xadrez?

– 417-E.

– Vai indo, ainda não tranquei.

De fato, a porta estava encostada; havia luz, som de tv e cheiro de alho
frito. De dentro vinha o quentinho do fogareiro, sobre o qual se debruçava
a Zizi, entretida na fritura.
– Zizi, olha eu de volta!

A outra virou-se assustada, a colher borrifando óleo quente na parede,
os olhos esbugalhados, desiguais. Margô então percebeu que havia
outra personagem na cena. Na cama, vestindo as meias de lã que eram
suas, estava deitada Leidi Dai, aquela putinha polaca cinco anos mais nova,
por quem a malandragem, idiota, suspirava.

Chocada com a ousadia da intrusa, Margô ordenou:

– Tira a minha meia já e sai da minha cama, sua vaca!

– Que é isso? Casei com o teu ex-marido. Estou naonde que me pertence,
bofe velha.

Margô, humilhada, virou-se para Zizi ainda petrificada com a colher:

– Zizi, cadela traidora! Vou matar vocês duas!

Atirou-se nos cabelos de Leidi Dai e bateu-lhe a cabeça contra a
parede; diversas vezes. A gritaria foi infernal. Bisbilhoteiros enfiaram a
cabeça através dos guichês de suas celas. Zizi aproveitou
a bagunça e correu para o xadrez do ladrão, excitadíssima:

– Saí de lá, a Margô Suely estava dando com a cabeça
da Leidi na parede, com toda a força. Que horror, precisa ver o sangue!
Você tem que fazer alguma coisa! Eu, fazer? Fazer o quê? Me meter
em briga de mulher?

SEU CHICO

Seu Chico matou o cunhado, tipo à-toa; matou um outro, que ganhou
consideração na quadrilha com o objetivo precípuo de
alcagüetar todos; e um terceiro que ele nem conta:

– Não merecia viver, doutor.

As mortes não lhe trazem remorsos:

– Se valessem arrependimento, não tinham morrido.

Seu Chico é pai de duas mocinhas e um filho que deve estar grande.
Foi abandonado pela mulher, ingrata, filha de família que não
presta, responsável pela entrada dele no mundo do crime, segundo sua
opinião. Cumpre quinze anos de uma pena de 44. Sofre saudades dos filhos
mas se conforma, acha até bom não virem para não freqüentar
o ambiente da cadeia.
O corpo não aparenta cinqüenta anos:

– O homem preso precisa fazer exercício para não perder a
dignidade.

Desde que o prenderam, a mulher interceptou-lhe a correspondência com
as crianças, como vingança pela morte do irmão. Para
os filhos, disse que o pai morreu na penitenciária.
Parado de braços cruzados, cabeça raspada, caveira tatuada no
antebraço direito apoiada em dois punhais, o peso do corpo uniformemente
distribuído sobre os pés paralelos, sua postura denuncia o passado
na marinha mercante. Época de trabalho duro na casa das máquinas,
portos distantes, brigas de faca e mulheres inesquecíveis.

Na coletividade das galerias, do empedernido piolho de cadeia ao mais reles
ladrão, seu nome é pronunciado com entonação respeitosa:

– Foi seu Chico que falou… Se essa fita parar no conhecimento do seu Chico,
vai ser problema. Quando seu Chico é consultado, o ladrão chega
e aguarda o convite para a aproximação enquanto ele termina
o que está fazendo, seja o que for. Num dado instante, dirige o olhar
ao recém-chegado: é a senha. Quem fala, gesticula, é
sempre o ladrão; ele se mantém calado, o olhar perdido num ponto
distante ou entretido num pequeno afazer. Depois, volta-se para
o interlocutor, diz algumas frases na baixa intensidade sonora das conversas
sérias entre homens presos e perde o olhar na direção
inicial. Está encerrado o papo.

COZINHA GERAL

Zelão, Flavinho e Capote comandavam a Cozinha Geral com mão
de ferro. Eram três marginais de dar medo, não tanto pela enorme
folha corrida, mas pelo ar de revolta que estampavam no rosto. Estavam presos
há pelo menos dez anos e condenados a mais de trinta cada um. Entre
eles, falavam apenas o essencial. As palavras eram inúteis, substituídas
pela agilidade dos olhares que trocavam nos momentos de decisão. Compartilhavam
o mesmo xadrez e confessavam-se dispostos a entregar a vida para defender
a dos outros dois, caso as circunstâncias exigissem. Ninguém
ousava desafiá-los no comando dos setenta e poucos cozinheiros.

Todo o material da Cozinha ficava sob a responsabilidade dos três.
Um dia, antes do almoço, desapareceu um facão de cortar carne.
Procuraram, e nada. Às duas da tarde, Capote proferiu o ultimato:

– A partir das cinco horas, vai morrer um cozinheiro por dia até
o facão aparecer!

Quinze minutos depois, misteriosamente, o facão despencou de umajanela
do pavilhão Nove e retornou ao devido lugar.

A Cozinha talvez fosse dos mais vivos exemplos de deterioração
do velho presídio. Era um grande salão com goteiras, no térreo
do pavilhão Seis, cheio de água empoçada nas lacunas
entre os azulejos azuis que, em petição de miséria, remendavam
o piso impossível de enxugar. À direita da entrada e na parede
oposta a ela, alinhavam-se oito panelas de pressão, com capacidade
para duzentos litros cada. Os exaustores encaixados acima das janelas tinham
parado de funcionar há anos, de modo que em franca operação
as panelas descarregavam todo o vapor no ambiente interno. Nas horas que precediam
as refeições, a fumaça era tanta que a Cozinha parecia
o inferno de Dante. Mal se conseguia discernir a figura dos homens que circulavam
de botas de borracha e o cabelo coberto por um pano que lhes caía sobre
os ombros, à moda dos soldados da Legião Estrangeira nos filmes.
A fumaça era tão densa que, por segurança, aqueles que
se deslocavam com faca na mão, precisavam fazê-lo com a superfície
de corte voltada para dentro e a ponta para baixo.

Os panelões achavam-se assentados sobre uma sapata de cimento construída
para deixá-los num plano superior ao rés do chão. Esse
amplo degrau em forma de L estava revestido pelos mesmos azulejos encardidos.
No desnível entre o degrau e o resto do piso existia um sulco profundo
por onde corria, a céu aberto, um riacho caudaloso que recolhia a água
desprezada e a conduzia direto para a abertura do esgoto junto à porta
de entrada. Nos cantos do salão, encostados às colunas, estacionavam
os carros de madeira com arcabouço metálico e os tachos usados
no transporte da alimentação servida de cela em cela. Arroz
e feijão eram despejados diretamente dos sacos nas panelas de pressão
e serviam de base para a mistura de pedaços de carne com batata e cenoura
cozida, junto com a farinha acrescentada para dar consistência ao prato.

Cozinha é ponto nevrálgico em qualquer presídio. O
diretor de Disciplina diz que num lugar superpovoado como a Detenção,
pior ainda:

– Se faltar comida, isso aqui explode em menos de 24 horas.

Para evitar tragédias, a direção entregava o comando
da Cozinha aos próprios detentos, um dos muitos exemplos de autogestão
para compensar a falta crônica de funcionários.

As sucessivas administrações nunca foram ingenuas a ponto
de imaginar que este sistema evitaria o desvio de mantimentos da despensa
para o mercado negro, com a inestimável colaboração de
alguns fúncionários, pois isso ocorre em todas as prisões
do mundo. O que a direção pretendeu ao atribuir a responsabilidade
de chefia aos próprios detentos foi criar um mecanismo de controle
sobre a quantidade desviada, de modo a evitar roubos que comprometessem o
abastecimento.

Por isso, os encarregados de impor ordem ao ambiente e guardar as facas
de corte não podiam ser pessoas quaisquer; deviam ser homens temidos,
respeitados pela massa, como Zelão, Flavinho e Capote, caso contrário
a despensa seria pilhada pelos mais audaciosos. Zelão praticou mais
de duzentos assaltos e matou dois ex-companheiros de quadrilha; é magro,
cabelo curto por igual, cordial no trato e tem fama de violento na reação.
Flavinho, bandido da zona sul, chegou aos dezoito anos com três mortes
e um respeitável currículo de fugas da Febem; baixo e magro,
sua figura não inspira respeito, a menos que, contrariado, seus olhos
negros fixem os do interlocutor. O terceiro, Capote, que adquiriu fama e perdeu
os dentes da frente por resistir a sucessivos interrogatórios policiais
sem delatar os companheiros, jura que amadureceu na cadeia e tem remorso de
haver roubado gente humilde. Quando sair, pretende se regenerar; promete que
só encostará o revólver na cabeça de políticos
corruptos. Seu maior desejo é um dia assaltar dois ex-governadores
de São Paulo.

Como a marcenaria do pavilhão Seis funcionava no mesmo andar do velho
cinema onde fazíamos as palestras sobre AIDS, à distância
diversas vezes observei Zelão, Flavinho ou Capote conversando com o
marceneiro-chefe, seu Chico, o velho marinheiro que matou o cunhado e os outros
dois que não mereciam viver. A dinâmica dessas conversas secretas
respeitava o ritual descrito nas consultas que a malandragem fazia ao ex-marinheiro:
os encarregados da cozinha aguardavam de seu Chico a permissão para
se aproximar, falavam em voz baixa, ouviam seus conselhos e retiravam-se.
Estava claro que, da marcenaria, seu Chico comandava a Cozinha Geral.

Em 1995, a direção da Casa desativou a Cozinha e contratou
uma empresa para fornecer refeições. Estava inaugurada a época
da quentinha. Segundo a malandragem: – Duro de encarar, doutor.

REENCONTRO

Numa tarde chuvosa, tocou o telefone na Carceragem do Oito. Um funcionário
atendeu e trouxe o recado em voz baixa para o seu Pires, o diretor do pavilhão:
– Telefone para o seu Chico, é voz de moça. Como o regulamento
proíbe ligações externas para detentos, o diretor foi
ver quem era: – Quem quer falar com o seu Chico? Aqui não pode atender
telefonema de fora!
Do outro lado, ouviu uma voz tímida:

– Meu senhor, me desculpa, eu tenho vinte anos, uma irmã de dezoito
e meu irmão, dezessete. Somos filhos do seu Chico. A última
vez que vi meu pai eu tinha cinco anos, e meu irmão era tão
pequeno que nem lembra o rosto dele. A gente pensava que ele tinha morrido.
Quando eu soube que não, reuni com os irmãos e o pastor da igreja
sem minha mãe saber, e decidimos procurar o pai. Foi muito difícil
falar aí, mas hoje consegui explicar direitinho para a telefonista,
que ficou com dó da gente e permitiu.

A voz vinha embargada de medo, O chefe mandou chamar seu Chico.

Seu Chico entrou ressabiado na Carceragem. Deu uma olhada geral; tudo parecia
na rotina, os funcionários e alguns presos dedicados ao trabalho burocrático;
seu Pires, de cabelos grisalhos e um lápis atrás da orelha,
lia um relatório na escrivaninha.

De frente para a janela, de costas para os outros, seu Chico disse alô
e ficou mudo, por muito tempo. De onde estava, seu Pires percebeu as lágrimas
nos olhos do prisioneiro.

Por vários dias o diretor do pavilhão observou o comportamento
solitário do outro. Sem entender, os ladrões mantinham respeitosa
distância do líder entristecido. Dias depois seu Chico o procurou
em tom grave:

– Seu Pires, quero pedir um favor que faço questão de jamais
esquecer. Contou o drama daqueles anos todos, a vingança da mulher
por causa da morte do irmão, as cartas devolvidas, morto para os filhos,
e a conversa com a mais velha. – Queria que o senhor me autorizasse a encontrar
com eles lá fora, no coreto da Divinéia. Não quero meus
filhos dentro de uma cadeia.

Assim o senhor me complica. Imagina se os outros 7 mil me pedem a mesma
coisa. Em todo caso, como é uma situação especial, depois
de tantos anos, vou abrir uma exceção, mas o senhor não
pode ficar mais do que vinte minutos.

Na tarde marcada, seu Chico dirigiu-se ao coreto com dois detentos carregando
um tapete vermelho, um vaso de flores, dois litros de guaraná, bolachas,
pastéis e uma mesinha com toalha xadrez.

Tudo arrumado no coreto, o ex-marinheiro, com camisa de manga comprida para
esconder a tatuagem, parou com os braços cruzados sobre o peito forte
e esperou. Passaram-se duas horas e as crianças não chegaram.
Quando seu Pires decidiu, enfim, recolhê-lo, encontrou-o sentado, cotovelos
apoiados nas coxas e a cabeça afundada nas mãos. Os dois homens
voltaram ao pavilhão sem trocar palavra.

Na semana seguinte, no mesmo horário, novamente a telefônista:
os filhos de seu Chico aguardavam na portaria. Tantos anos no presídio
não impediram que seu Pires se emocionasse. Foi ele mesmo dar a notícia
na marcenaria. Encontrou o prisioneiro serrando um banco, a serra cantando
de ensurdecer. Desligou-a da tomada: – Seu Chico, se arruma para ver seus
filhos. Quando os olhos incrédulos do detento fitaram os dele, descobriram
um homem terno que seu Chico não conhecia. Por sua vez, os do diretor
captaram no rosto anguloso do ex-marinheiro o olhar da criança que
pegou um balão caído do céu.

Encontraram-se no coreto adornado às pressas com o tapete vermelho,
a mesa, o lanche e o vaso de flores retiradas do altar de Nossa Senhora Aparecida,
na capela do pavilhão. As duas mocinhas tinham tranças e vestidos
compridos; o menino, terno azul, gravata e uma Bíblia. Abraçaram-se
e choraram, os quatro, demoradamente. Repetidas vezes.

Trinta minutos depois, o encarregado da Divinéia aproximou-se para
levar seu Chico de volta para o pavilhão. Não teve coragem de
interromper o encontro familiar e retornou da escadinha do coreto. O mesmo
fez seu Pires, duas horas mais tarde.

Meses depois do reencontro, numa Revista incerta, os carcereiros encontraram
no xadrez de seu Chico um arsenal de facas, entre elas uma enorme foice improvisada.
A malandragem mais jovem nunca entendeu por que ele não escondia as
armas em outro lugar:

– O velho era sistemático, não adotava o método moderno,
tinha que ser do jeito próprio que ele estava acostumado.

Como punição seu Chico foi transferido para o interior. No
mesmo movimento, Zelão e Flavinho foram para a Penitenciária
do Estado. Nunca mais os vi, mas continuei recebendo notícias de seu
Chico através do Capote, que continua na Casa esperando cantar a liberdade
para se regenerar e, finalmente, assaltar os ex-governadores.

ZÉ DA CASA VERDE

Seu nome era Kenedi Baptista dos Santos, porém todos o conheciam
como Zé da Casa Verde. As gírias, o cantado da fala paulista,
o jeito de parar com o corpo jogado para trás, a disposição
permanente para gozar os companheiros, tudo nele recendia malandragem.

Era ladrão desde a adolescência. Na volta dos bailes, quando
a padaria levantava as portas e os empregados traziam pães para as
prateleiras, roubava uma rosca doce e levava para o pai, que desconhecia a
origem ilegal do presente. Fazia isso apenas para se vingar dele, homem honesto
que brigava para o filho criar juizo.
Uma vez, Zé e eu conversávamos no pátio do pavilhão
Quatro, quando um detento que trabalhava na burocracia trouxe um papel para
assinar. O Zé calou a boca, sério, até o outro sair de
perto.

– O que foi, Zé?

– Nunca me dei com traficante, é tudo cara safado.

Eles se envolvem com os polícias e quem anda com polícia cagüeta.

Sua lógica era euclidiana: como ladrão, ele entrava num banco,
pegava todos de surpresa e fugia com os malotes. A polícia que corresse
atrás do prejuízo.

Se viesse, bala neles, que ele vinha com o objetivo de levar o dinheiro
e duas famílias o esperavam. Já o traficante, não:

– Tem que ter acesso no viciado, ser dono de uma bocada. O tráfico
está aberto 24 por 48, é lugar fixo, com movimento, como um
mercado. A polícia fica logo sabendo. Para funcionar, tem que pagar
o porrete deles. É a maior patifaria. Por isso, Zé da Casa Verde
era categórico:

– Lugar de ladrão é com ladrão. Traficante, que se entenda
com a polícia!
Zé era casado com duas mulheres, Valda e Maria Luísa:

– A Valda tem pele branca como a neve. É de uma família de
bem, em Santana, que nunca aceitou o nosso romance por causa da minha cor.

Os dois se conheceram num baile, ela ainda virgem, dançando com um
rapaz no qual Zé não sentiu firmeza. No domingo seguinte, enquanto
o rival disputava uma partida na várzea, Zé aproximou-se dela,
na beirada do campo: – Levanta e vem comigo, que eu vou te pedir em casamento
para os teus pais.
-Você nem me conhece!

Ele falou dela no baile, da pele alva que contrastava com o preto da sua
e dos filhos misturados que nasceriam lindos, cada um numa cor. Falou e foi
esperá-la no fusca, que havia acabado de equipar com dinheiro roubado.
A espera não foi longa. Ela apareceu na janela do carro: -Você
falou sério?

– Como nunca na vida.

Pararam o fusca na porta do sobrado dos pais, em Santana, ela hesitante
em fazê-lo entrar, ele tentando convencê-la da honestidade de
seus propósitos. Estavam nesta conversa quando surgiu o rival na esquina,
ainda com o uniforme de futebol, disposto a cobrar a ofensa. Zé não
vacilou, desceu do carro e deu três tiros na direção do
rapaz. O zagueiro esquerdo saiu correndo, na pressa perdeu até um pé
de chuteira.

Zé, persuasivo, virou-se para a amada:

– Amanhã, às oito, reúne teus pais e tuas irmãs
que eu venho te pedir em casamento. Esquece esse cara, se ele gostasse de
você, enfrentava o perigo.

No dia seguinte, às oito, a reação da família
foi a pior possível. Apesar do fusca envenenado e de se apresentar
como trabalhador, filho de uma família exemplar, proprietária
de um imóvel com escritura lavrada no cartório da Casa Verde,
o pai da moça disse que preferia a filha morta do que casada com um
negro malandro daqueles. Com a persistência obstinada do Zé,
os ânimos se exaltaram, o pai referindo-se à cor dele com desrespeito
crescente. Quando foi chamado de negrinho insolente, Zé perdeu a paciência.
Subiu na mesa, puxou o revólver, gritou que matava o primeiro que reagisse:

– Tranquei todo mundo no banheiro e levei o meu amor comigo, a minha mão
preta no algodão da mão dela. Teve quatro filhos com a Valda.
Diz que são como ele

– Cada um numa tonalidade, doutor.

Viveram na maior felicidade até ele conhecer Maria Luísa,
passista da Império da Casa Verde:
– A bateria pegando pesado e ela dançando na frente, de vestidinho
curto e um sorriso que iluminava a quadra inteira. Parecia uma deusa de ébano.

No carnaval, na concentração da escola, minutos antes do desfile,
ele de guerreiro xangô, Maria Luísa de biquíni com lantejoula,
ninguém sabe de onde, surgiram Valda e a irmã mais nova do Zé,
solidária com a cunhada, e se engalfinharam com a rival. Ele outra
vez perdeu a paciência e puxou o revólver:
– Dei uma coronhada na cabeça de cada uma, mandei as três para
casa e sambei sozinho na avenida.

Na vida dupla, teve três filhos com Maria Luísa.
Depois, foi preso em flagrante num assalto a uma sapataria na Voluntários
da Pátria, pertinho do Carandiru. No primeiro domingo na cadeia, recebeu
a visita da Valda. Sentaram-se de mãos dadas num banco forrado com
cobertor, junto à muralha.

Às tantas, Zé ouviu anunciar na Boca de Ferro:
– Kenedi Baptista dos Santos, dirija-se à entrada do pavilhão.

Sentiu um frio no estômago, só podia ser a Maria Luísa!
Pediu licença à Valda, correu para a sala das caldeiras, ao
lado, e se lambuzou de graxa. Encontrou a mulata na porta, sorridente de saudades.
Beijou-a com cerimônia para não esbarrar as mãos sujas
nela e explicou:

– Meu amor, que bom que você veio, mas, infelizmente, não vou
poder te receber porque estou trabalhando num conserto, devido que a caldeira
estourou e o homem quer tudo pronto até o final que acabar a visita.

– Zé, você está é com aquela vagabunda. Nem na
rua tu nunca trabalhou, vai me convencer que na cadeia, dia de domingo, é
que resolveu regenerar?

Contra a força dos fatos não há argumento, pensou ele,
e se rendeu à lógica feminina:

– Está bem, é verdade, porém você já veio
e agora não tem mais volta para trás. Hoje nós três
vamos entrar num entendimento.

Deu trabalho convencê-la a se encontrar com a outra.

No banco, Valda não achou palavras para exprimir o que sentiu ao
vê-lo chegar com Maria Luísa, oferecer-lhe um lugar ao lado dela
e sentar-se entre as duas. Seguiu-se um longo silêncio.

Finalmente, em voz baixa para evitar escândalo, Valda virou-se para
ele:

– Como é que você traz essa vagabunda aqui?

– Querida, a Maria Luísa não é vagabunda, trabalha
na tecelagem e cria nossos três filhos com o maior carinho. Em seguida,
voltando-se para a Maria Luísa:

-Você, por sua vez, também disse lá fora que a Valda
era vagabunda. Da mesma forma, não é verdade, ela é trabalhadeira,
auxiliar de repartição na prefeitura, e toma conta dos quatro
filhos que nós pôs no mundo.

– Você vai decidir agora com qual de nós duas quer ficar insurgiu-se
Maria Luísa, com o que concordou imediatamente a Valda. Ele ficou desconsolado:

– Assim vocês vão partir meu coração no meio.

Segundo Zé, a harmonia hoje é tanta que aos domingos as duas
passeiam juntas com as sete crianças no parque do Carmo. Em liberdade,
ele vai realizar o velho sonho de juntar as duas famílias na mesma
casa, na santa paz

NEGUINHO

Neguinho começou assim:

– A minha senhora mãe matou, acho que o amante delaque chegou bêbado
e quis bater outra vez na gente. O meu pai não poderia saber, porque
justamente se encontrava recluso na Penitenciária. Foi onde que teve
a revolta de nós mesmos e cada um viveu o seu lado. Eram seis filhos:
Neguinho, quatro irmãs e um irmão mais novo. Com a prisão
da mãe, as meninas foram internadas no Juizado de Menores e os dois
meninos na Asdrúbal Nascimento. Ao contrário do irmão,
mais obediente, Neguinho ficou pouco tempo no velho prédio do centro
de São Paulo onde recolhiam menores desamparados e infratores. Precoce,
pegou carona num plano de fuga dos mais velhos e sumiu na rua.

Com a sabedoria dos seis anos, Neguinho viveu por conta própria na
cidade. Dormia embaixo das marquises dos prédios enrolado num cobertorzinho,
com jornal enfiado por dentro da roupa; batia carteira, vendia bala em saco,
chiclete e doce de leite Embaré e assaltava de arrastão, com
os companheiros mais graúdos.

– Vira e mexe, passava a Recolha e me levava de volta para a Asdrúbal
Nascimento. Eu nem ficava triste, aprendia no quadro-negro da vida.

Um dia descuidavam e ele fugia de novo.

– E, assim, trilhei meu destino de ladrão. Passava um, todo bonito
e simpático, era dia de festa, os outros com seus brinquedinhos e eu
sem nada. Com isso eu tornei-me tipo a pessoa egoísta, porque queria
ter mas não poderia e nem teria capacidade, justamente pela falta da
mãe e do pai para que acontecesse o dia-a-dia. Dos seis aos dezoito
anos, somadas as passagens pelo Juizado, esteve quase onze na prisão
– um ano e pouco em liberdade. Foi parar até em Mogi, classificado
na categoria C, os de maior periculosidade. Fugiu de lá também.
Quando completou quinze anos, o pai saiu da Penitenciária decidido
a reunir a família. Pegou uma filha aqui, outra acolá, o filho
mais novo que era menino comportado e foi atrás de Neguinho, no Crime.
Encontrou-o numa mesa de sinuca na rua Guaianases, Boca do Lixo:

– Chega dessa vida, meu filho, teu pai está de volta.

Foram morar numa casinha para lá da Vila Ema, todos trabalhando exceto
ele, que roubava e trazia mantimentos, guloseimas e refrigerante à
vontade. Um dia, Juciléia, a irmã mais velha, apaixonou-se por
um tipo à-toa. O pai, que havia sofrido na cadeia e não queria
marginal na família, proibiu o namoro. Uma noite, ao chegar do trabalho,
deu com o namorado da filha estatelado no sofá da sala, com uma garrafa
de cerveja pela metade. O sangue subiu-lhe à cabeça:

– Falou que não queria bandido da porta para dentro da nossa casa
e que da próxima vez punha ele para fora a bofetão. A repreensão
foi mal recebida:

– Mexeu com o instinto do elemento, que deu dois tiros no estômago
do meu pai.
Por obra do acaso, neste exato momento Neguinho chegou em casa, acompanhado:

– Do meu vinte-e-doisinho, que não desgrudava de mim. Viu o pai caído
na sala e o elemento ainda com a arma na mão, de costas para a porta.

– Só chamei: o que que é isso, rapaz? No que ele se virou,
dei vários tiros na cabeça dele. Neguinho atribui a reação
às circunstâncias:

– Devido às condições que eu vi meu pai, foi aonde
que foi tomada essa atitude forte.
Para não deixar o corpo no meio da família, na sala, Neguinho
o arrastou para o meio da rua e mandou as irmãs chamarem a polícia,
que chegou logo, e uma ambulância, que demorou horas. Voltou para a
Febem. O pai fez duas operações e escapou com vida, a irmã
esqueceu do namorado, hoje é casada e tem família, como as outras
três, e o irmão trabalha numa firma muito boa. Ele, continuou
a viver seu destino.

Chegou na Detenção pela primeira vez ao atingir a maioridade.
Numa noite de ensaio, saiu da escola de samba com quatro amigos num táxi
e vieram por Cangaíba, cruzaram o mercado da Penha e desceram para
a Marginal, quando uma viatura da polícia deu luz para parar. Contrariando
as ordens dos cinco, o motorista, que nada tinha a ver com a história,
encostou o carro e se jogou no asfalto com as mãos na cabeça.
Neguinho e os amigos saíram atirando: – Nessa daí, fui alvejado
seis vezes. Pegou dois nas costas, um na barriga, três no peito e um
de raspão na orelha, que eu nem conto. Mesmo assim, não fiquei
deficiente nem nada.

Cumpriu nove meses e ganhou novamente a liberdade, porque o juiz considerou
a reação como legítima defesa. Afinal, os policiais também
atiraram e não foram feridos, ao contrário:

-Eles é que me atingiram em diversos pontos do organismo.

Na rua, a alegria durou pouco, como sempre. A polícia cercou a favela,
em seu encalço:

– Eu caí, devido que eles tomaram partido da surpresa.

Me algemaram, puseram eu no camburão e levaram para um mato ermo.
Lá, fizeram eu descer com os braços para trás, na algema,
alegaram que eu matei um primo deles, que também era polícia,
sendo que nada ficou provado em juízo porque a testemunha não
me reconheceu, e, além disso, eu tinha saído da cadeia fazia
duas semanas só. Dessa vez o castigo deixou seqüela. Tomou dezoito
tiros: nas costas, pernas e braços. Uma bala penetrou através
do maxilar superior, passou por trás da órbita e foi parar no
cérebro, próximo de outra que entrou direto pela calota craniana:

– As duas estão na minha mente até hoje, mas não me
afetam. Graças a Deus, converso normal e penso as idéias certas.
O único que me atingiu foi um que eles me deram na espinha, onde que
eles encostaram a arma, apertaram e falaram: levanta, vagabundo! Neguinho
tentou, mas as pernas não obedeceram. Se não morrer, fica aleijado,
disseram.

– Depois, puseram o 22 na minha mão, e apertaram três vezes,
como coisa que eu tinha trocado tiro com eles. Aí, agarraram, balançaram
meu corpo bambo para lá e para cá, me jogaram de volta na viatura
e vieram devagarinho. Eu no esvaimento do sangue, com as pernas mortas, e
eles na maior tranqüilidade. Só quando chegou nas imediações
da vizinhança do Hospital das Clínicas é que ligaram
a sirene. Hoje eu interpreto que eles agiram meio na covardia.

Passou vários dias na UTI, cheio de soros e drenos cirúrgicos.
Nem esperaram a recuperação completa para dar alta; ficaram
com medo de que os companheiros aparecessem para resgatá-lo. Terminou
o pós-operatório no hospital da Penitenciária.

Naquele presídio, de cadeira de rodas, passou cerca de dez anos, até
surgir a oportunidade do semi-aberto. Na Colônia, cumpriu três
meses e foi solto. Ficou apenas doze dias em liberdade porque, segundo alega,
a polícia forjou um flagrante de um quilo e meio de pedra de crack,
dez metralhadoras e uma PT, arma de treze tiros da Taurus:

– Chegou no Fórum, provei que não teria condições
de eu, paraplégico, deficiente, fazer contato com marginal nenhum,
sendo que eu morava na favela e não possuía veículo para
me demover. O juiz, não sei por quê, desconsiderou meus argumentos
e me mandou para o distrito. Fiquei perambulando de uma delegacia para outra,
da 45 para a 90, com escara nas nádegas, sem ter como fazer curativo,
o pus escorrendo na carne morta. Conheci Neguinho de cadeira de rodas e sonda
vesical, condenado a 48 anos, o rosto talhado como estátua africana,
olhar de poucos amigos. Tinha as pernas paralisadas e hipotróficas,
a pele descamativa e uma escara funda na região glútea, na qual
caberiam dois limões galegos, pelo menos. A ferida expunha a anatomia
dos feixes musculares profundos e uma parte da articulação coxofemoral.

Um dos rapazes da enfermaria fazia o curativo diário.

Com uma pinça, cavoucava um chumaço de gaze embebido em pomada
de furacin misturada com açúcar. Mexia com força para
avivar os brios cicatriciais da lesão. Não doia, o local era
insensível.

Neguinho era respeitado por todos, mesmo pelos funcionários. Na hora
do curativo, ocasionalmente me chamavam para ver a lesão. Fora isso,
nosso relacionamento não ia além de boa-tarde e boa-noite. Nunca
o surpreendi descontraído, rindo ou brincando com alguém. O
rosto crispado parecia sempre disposto a reivindicar seus direitos.

Uma tarde, ele vinha de lá e eu de cá, na galeria; só
nós dois e a cadeira de rodas rangendo:

– E aí, como vai a escara?

– Melhorou, está sequinha e mais rasa. – Vai sarar.

– Obrigado. Deus proteja o senhor.

Parece que esboçou um sorriso. Senti o ódio fugir-lhe da expressão.
Não que nela tivesse se instalado a tranqüilidade, longe disso;
num lampejo, nos olhos pretos como jabuticaba reluziu um brilho desarmado,
fugaz.

MANGA

Antes de chegar aos presos, as cartas são abertas. Três pessoas
fazem o serviço. Na mesa, um detento corta com tesoura a lateral do
envelope, um funcionário esvazia o conteúdo à procura
de objetos estranhos e outro detento grampeia a parte aberta. Não há
curiosidade em lê-las; nem haveria tempo, são milhares. Em seguida,
a correspondência é separada de acordo com o pavilhão
ao qual se destina, para ser distribuída pelo carteiro de cela em cela.

Uma das lições que aprendi com o funcionário Waldemar
Gonçalves foi ouvir os presos que entregam as cartas: Para conhecer
o andamento da cadeia, é fundamental falar com eles, doutor.

Manga, um carteiro detido no pavilhão Sete, gostava de conversar
comigo – e eu com ele. Era um sergipano alto, fluente, com um vozeirão,
que havia fugido da cidade natal para escapar da vingança dos irmãos
de uma moça que alegava ter perdido a virgindade com ele. Com o tempo,
Manga confiou em mim a ponto de descrever com detalhes o movimento de droga
na cadeia, o que me ajudava na estratégia das campanhas de prevenção
à AIDS. Por exemplo, foi ele o primeiro a dizer:

Doutor, nem precisa insistir com os manos para não injetar na veia,
que o baque já era. Pode correr a cadeia inteira que o senhor não
acha uma seringa para contar a história. Agora é a vez do crack.
Veio para arrebentar bunda de malandro.

Manga jurava que tinha vindo parar na Detenção por um erro
judiciário. Anos antes, ao sair da cadeia de Sorocaba, sem dinheiro,
um amigo emprestou-lhe meio quilo de maconha. Vendia na rua do Estudante,
onde morava, na Dr. Lundi e na Thomaz Gonzaga, no bairro da Liberdade, centro
de São Paulo. Dava para as despesas e sobrava um pouco:

– Para comprar roupinha para o nenê que ia nascer, uma pizza no domingo
e cuidar da esposa, dar aquele carinho que toda mulher necessita.

Então, entrou em cena a tal de Sonha, uma vizinha com quem Manga
mantinha relacionamento comercial: – A Sonha foi pega com doze parangas de
fumo enfurnadas na panela de pressão e, para livrar a cara dela, deu
eu. Foi onde que eu levei um bote do DEIC. Os policiais invadiram sua casa
e encontraram um quilo de maconha:

– Tive que entregar tudo e mais uma boa grana para escapar do flagrante.
Tudo bem, só me mandaram deixar quieto uns dias.

Voltou para casa deprimido, outra vez sem dinheiro:

– Meu filho tinha acabado de nascer e eu na pior dureza, chamando mendigo
de Excelência.
Nesse momento delicado, Genival, um de seus fregueses, tocou a campainha:

– õ, Manga, me vende uma paranga de fumo aí, amanhã
te dou o dinheiro.

– Não vou te vender paranga nenhuma, que eu vou passar três
dias parado. Então, é o seguinte, leva este caroço aqui
para fumar com os malucos no beco da igreja e esquece do Manga, que eu estou
deixando quieto a pedido dos homens.

Genival agradeceu e foi embora. Passaram-se algumas horas e Manga saiu para
pensar na vida. Quando virou a rua da Glória na direção
da praça João Mendes, em sua direção veio o Águas
Turvas:

– Manga, ia na tua casa atrás de uma paranga.

– Já era, a última eu dei para o Genival.

Águas Turvas não gostou da resposta:

– É, chegou esses dias das Alagoas, nem bem entrou na área
e já está levando uma de traficante e tal. Manga desconhecia
o passado de Genival:

– Tu nega fumo para mim e vende para aquele pilantra, que tem mancada, estupro
assinado e tudo, vim querer fumar na nossa bancada, no meio dos ladrão!

Dito isto, Águas Turvas tirou um cano da cintura e desferiu um golpe
contra a cabeça de Manga. A força foi tanta que ? ferro cantou
no ar. Agilmente, o sergipano esquivou-se, maso cano resvalou-lhe o supercílio.
Cego de ódio e sangue, puxou a faca e, antes que o adversário
tivesse tempo para atacalo de novo, cravou-lhe o punhal no peito.

Águas Turvas desequilibrou-se, para trás, mas não largou
o cano. Manga, então, raciocinou:

– Se eu não der um fim neste maluco, agora, vou perder sossego para
andar na rua.

Foram mais três facadas, bem dadas, duas no abdômen uma nas
costas enquanto o outro caía de bruços, na sarjeta. Largou o
desafeto numa poça de sangue, no meio da curiosidade assustada dos
transeuntes, e correu para casa. Pegou a mulher, o filho recém-nascido,
trancou tudo e fugiram para a casa da sogra, na Vila Madalena. – A situação
só Ia para trás: o acerto com a polícia tinha me quebrado,
depois essa fita de furar o Águas, o moleque pequenininho cheio de
necessidade, ainda mais na casa da sogra que enchia a cabeça da filha
por causa da vida que eu levava.

Para não depender da sogra, resolveu roubar um toca-fita em Pinheiros
com um rapaz que atendia pelo vulgo de Boca-Larga. O toca-fita estava na perua
de uma floricultura, ao lado do cemitério da Cardeal Arcoverde. Foi
só abrir a porta, especialidade do amigo, o alarme disparou. Boca-Larga
saiu correndo, Manga tentou puxar o toca-fita, mas não tinha experiência
com esse tipo de roubo:

– O alarme buzinava sem parar; eu nervoso com o tocafita que não
saía. Aí, pega ladrão daqui, pega dali, acabei cercado
e tive que pular para dentro do cemitério. Sabe onde eu fui cair?

Não foi feliz na queda, andava mesmo com azar:

– Bem no buraco de uma cova aberta. Aquele cemiterião enorme, e eu
pulo o muro justo em cima da cova! Era um buracão, doutor, o polícia
me catou de lá, com a perna sem condição de agüentar
o peso do corpo. No distrito, com dor, Manga deu nome falso. Dois dias mais
tarde, foi identificado e transferido para o presídio do Hipódromo,
onde encontrou um desafeto vingativo. A fase de azar persistia:

– O irmão do Águas Turvas, cujo vulgo era conhecido como Zóio
Vesgo. Ali, fiquei sabendo que o Águas não tinha morrido; embora
que ficou com um defeitão no meio da barriga. Batemos boca, o Zóio
Vesgo e eu e tal, mas lá tem segurança para prevenir desentendimento
e ficamos só no: quando sair na rua, vai ser você ou eu!

Vai ser mesmo! Manga saiu primeiro, voltou ao comércio de maconha,
retornou à rua dos Estudantes com a mulher e o filho e comprou um revólver.
Uma noite, trombou com o inimigo na Baixada do Glicério:

– Zóio Vesgo e eu, cara a cara, como daqui naquela parede lá
no fundo da galeria, uns dez metros. Pulei para detrás de um carro
parado e dei seis tiros nele. E ele, seis tiros em mim.

Doze balas perdidas que quebraram os vidros dos automóveis estacionados.
Quando se certificaram de que a munição havia acabado, partiram
para o confronto físico. A briga começou no quarteirão
de cima e rolou ladeira abaixo. Terminou no meio de uma aglomeração,
com os dois exaustos, ensangüentados e presos por um Pm que passava.

Foram parar no distrito, assinaram porte ilegal de arma, crime afiançável,
e voltaram para a rua.

– Passado um mês, um truta meu, o Batata, que roubava comigo, fez
um assalto de parceria com o Zóio Vesgo. Na partilha, o Zóio
deu um chapéu no Batata. Quando o Batata descobriu que tinha tomado
um banho na fita, foi lá e deu três tiros nele; dois na cabeça,
para ter certeza. O Águas Turvas nunca mais vi. Por causa da passagem
anterior pela delegacia, Manga foi acusado da morte de Zóio Vesgo.
Sem advogado, nem álibi convincente, foi condenado a cumprir nove anos
de cadeia. Não se conformava com a falta de sorte: – Tanta maconha
que eu vendi, assaltos, roubo de loja, venho preso justamente por um crime
que não cometi. A Justiça é cega, doutor.

Manga foi um dos fugitivos do túnel do pavilhão Sete.

Dois anos depois voltou para a Detenção. Num final de tarde
procurou-me para um assunto particular.
Conversamos na sala dos médicos; o sol entrava pela janela e projetava
uma sombra gradeada em seu rosto. Estendeu-me um envelope sobrescrito com
letra bordada. Na carta, a mulher dizia estar cansada de sofrer por causa
dele e decidida a ouvir os conselhos da mãe. Tinha ido para Minas com
as duas crianças, a menor nascida depois da fuga, para nunca mais voltar.

Enquanto eu lia a carta, ele chorou de soluçar. Quando terminei, fiquei
quieto esperando que se acalmasse. Então, as lágrimas pararam
de correr. Ele enxugou os olhos, levantou, agradeceu e saiu, antes que eu
tivesse dito uma só palavra de conforto.

SEU JEREMIAS

Seu Jeremias desentendeu-se com um funcionário e pegou trinta dias
na Isolada. Fui visitá-lo com o Waldemar Gonçalves. Pelo guichê
da cela escura, mal pude discernir suas feições de negro velho
e a carapinha grisalha. Quando saiu, veio agradecer a visita. Estava magro
e tinha os olhos tristes. Sua figura, no entanto, transmitia uma força
de caráter que lembrava meu pai.

– Para quem passou um mês na tranca brava, o senhor até que
está bem.
– Tantos anos preso, doutor, a mente aprende a dominar corpo.

Assim começou nossa amizade. Aprendi muito com ele sobre a vida na
cadeia e fora dela também. Seu Geremias fugiu da seca na Bahia nos
anos 40 e desembarcou na Estação da Luz, recém-casado;
ela com um lencinho na cabeça, morta de frio, e ele com os pertences
do casal na mala de papelão.

Tiveram dezoito filhos, que lhes deram 32 netos e sete bisnetos. Homem obstinado,
conseguiu manter a família com dignidade; as filhas casaram de véu
na igreja, os meninos jamais pisaram numa delegacia e a esposa, muito católica,
vem visitálo todos os finais de semana, há vinte anos, embora
nunca tenha concordado com os erros que ele cometeu:

– Em casa, se ela descobria um grão de alpiste ganho sem o suor do
meu rosto, saía para dar parte na polícia. Um custo para segurar,
precisavam os filhos interferir. Por isso, doutor,não é tudo
que se pode contar para uma mulher, por mais que o senhor goste dela. Casamento
não é confessionário. Seu Jeremias é daqueles
homens que jogaram uma pá de cal sobre o passado. Nunca tive coragem
de perguntar-lhe a respeito da vida no crime; ele tampouco deu tal liberdade.
Apenas uma vez, contou que foi preso em Santos ao desentocar dez cigarros
de maconha do porão de sua vendinha, para entregálos a dois
estivadores. Falou de passagem e cortou o assunto. Apesar dos atropelos gramaticais,
sua linguagem é rica; as frases entonadas com uma ponta de sotaque
nordestino são entremeadas por momentos de silêncio que prendem
o fôlego do interlocutor. É um prazer ouvi-lo. Não fosse
analfabeto, seu Jeremias podia escrever um manual de sobrevivência:

– Visto de antigamente, a Detenção agora é um parque
infantil. Quando morre dois ou três, fica todo mundo assustado. Aí,
eu falo: vocês não sabem como era há vinte anos atrás.

Naquele tempo, nas disputas, morriam quarenta ou cinqüenta só
no Oito e Nove. Depois, atravessavam para os outros pavilhões e matavam
mais gente ainda:

– Quando caíam as bocas dos traficantes, por cagüetagem, saía
um comboio de vinte ou trinta dando rupa, matando tudo que achasse pela galeria;
se fosse e o que não fosse. Até bicha morria nisso. Isto aqui,
é um barril de pólvora!
Os mortos eram recolhidos na sala de guardar material de limpeza no térreo
do Cinco; necrotério de emergência:

– Ali, a morte irmanava todos. Empilhava um em cima do outro, até
chegar o homem do livro preto para pendurar um cartão no pescoço,
anotado os dados do morto.

Isto aqui, acontece coisa que a gente nem gosta de lembrar! Experiente e
respeitado, nunca o assustaram as confusões de corredor, o bate-boca
num xadrez, nem as brigas da rua Dez. Para ele, os momentos de tranqüilidade
é que são perigosos:

– Quando o senhor vê a cadeia em silencio, pouco movi-mento na galeria,
muita obediência, vai acontecer alguma coisa. É um túnel
que estão fazendo, vão morrer dois ou três; vai explodir.
Todo mundo sabe, mas não pode bater com a língua no dente. Isto
aqui, tem que ter um olho no padre, outro na missa!

Seu Jeremias disse que aprendeu com os mais velhos a não participar
de rodinhas, nem andar com outros presos para não se envolver em problemas
alheios. Para ele, solidão é estratégia de sobrevivencia:
– Posso morrer de doença, mas assassinado na cadeia, não. Acabo
a conversa com o senhor, vou direto para o xadrez e fecho a porta. Não
confio em ninguém e não tenho amigo nenhum; amigo preso, eu
não quero; que é isso! Muitos me conhecem, estou aqui há
tantos anos; opa, opa, vou passando. Na cadeia, tem que andar sozinho, e Deus.
Isto aqui, é pisar em casca de ovo!

Apesar dos estupros daquele tempo sem visitas íntimas, ele diz que
havia mais respeito. A direção da Casa detinha a posse dos xadrezes:

– Eles não queriam saber se já estava cheio, iam pondo mais
três ou quatro aqui, ali e acolá. Aí, tinha que pedir
licença, tirar o sapato, que o xadrez era forrado com aquelas mantas
Parahyba e perguntar quem estava há mais tempo na cela. O mais velho
mandava ler o regulamento num papel grudado atrás da porta, e tinha
que obedecer. Isto aqui, é cheio de mistério!

Os códigos eram mais rígidos. Uma vez, um bandido do pavilhão
Oito envolveu-se com um homossexual. Num domingo, a mulher veio visitá-lo
sem que ele a esperasse, encontrouo com o amante e armou escândalo:

-Arranhou toda a cara da bicha, que ficou furiosa e gritou para ela: vai
embora, não precisa mais vim aqui, que eu Ja banco ele a semana toda!
A malandragem estranhou:

– O que é isso? Tudo ao contrário, agora é a bicha que
banca para o ladrão?
O desfecho não esperou:

– No dia seguinte, quando foram ver direitinho, o preto no branco, a bicha
comia ele. Os caras pensando que ele era marido da bicha e ele dando para
ela.

Foi fatal, mataram ele e a bicha também. Isto aqui, é um lugar
sem dó nem piedade!

Uma vez perguntei se havia lhe acontecido algo de bom na cadeia. Respondeu
que a sensação de sair para a rua, em liberdade, com a mulher
esperando na porta é indescritível:

– É uma felicidade que transborda do peito. O senhor quer rir, mas
é pouco; tem vontade de chorar, mas dá vergonha. Ao contrário:

-A coisa mais horrível da cadeia é duas: o cara rouba na rua,
mata, pinta o diacho e muitos chegam aqui e têm que virar bicha. A outra,
é acabar os seus dias numa poça de sangue na galeria.

Num começo de ano, seu Jeremias foi transferido e nunca mais o vi.
Passou o tempo. Uma manhã, cheguei no hospital Sírio-Libanês
e havia um rapaz me esperando. Era filho dele. O pai tinha sido libertado
e no domingo seguinte completaria o septuagésimo aniversário.

Como falava de nossa amizade para a família, queriam fazer-lhe a surpresa
de levar-me para visitá-lo nessa data. Domingo, desci do metrô
na última estação, Itaquera, encontrei o rapaz e pegamos
um ônibus que demorou quarenta minutos até o ponto final. De
lá, foi quase meia hora a pé por ruas de terra até chegar
a uma casinha com alpendre, abarrotada de filhos e netos. Seu Jeremias estava
no quintal com dois meninos que levantavam um carramanchão de chuchu
para ele consertar a cerca, do lado de um canteiro de dálias. Quando
me viu, seus olhos se emocionaram. Tive vontade de dar um abraço nele,
mas fiquei com vergonha.

VERONIQUE, A JAPONESA

Na primeira vez que atendi os presos do Amarelo, como já contei, um
pastor da Assembléia de Deus me pediu para atender um travesti com
dores nas coxas. Esse travesti insistia que a chamassem de Veronique. Teimava,
batia o pé, mas para a malandragem ela era a Japonesa, referência
aos olhos puxados de cabocla mato-grossense. Desde pequena brincava de boneca
e vestia roupas da mãe. Na infância, o primeiro arroubo sexual
foi por causa de um homem, como acontece com muitos meninos que mais tarde
serão homossexuais. Em Corumbá, quando completou onze anos,
órfã de pai, começou a tomar hormônio feminino.
Aos treze, debutou num motel com um senhor que só contratava menores.
Um ano depois, cansada das surras do irmão, fugiu com uma amiga para
Porto Velho. De lá, vieram para São Paulo, morar num cômodo
da Barra Funda e fazer ponto na avenida de acesso à Cidade Universitária.
Nesta época, Veronique procurou uma “bombadeira”, que lhe
deu um suco de maracujá para acalmar e injetou-lhe um litro de silicone
industrial nas nádegas.

Com o tempo, este silicone, comprado em loja de material para construção,
infiltrou-se entre as fibras dos músculos e provocou um processo Inflamatório
crônico, razão de seu sofrimento no Amarelo. A face posterior
das coxas estava inchada, vermelha e tão dolorida que ela mal conseguia
andar. Internei-a na enfermaria.

Lá, extrovertida, virou vedete. Confortava os aflitos, brincava e
cantava na galeria; todos riam de seu jeito escandaloso:

– O ladrão precisa da gente neste lugar, doutor, é muito homem
fechado, sem aquela coisa feminina para dar apoio. Eu escuto, dou conselho,
faço carinho, depois eles me agradam: um maço, um docinho, umajóia.
Dois homens marcaram seu coração: um traficante ciumento na
cadeia e um francês na avenida, que no início pensou que ela
fosse mulher. Foi casada um ano com o bandido; com o francês, oito meses,
ganhou pulseira de ouro, vestidos, dinheiro e um colar de pérolas que
ela empenhou na Caixa.

– Teve também um turcão peludo, pai de três filhos,
que se apaixonou e quis me matar com três tiros quando descobriu que
eu estava de caso com um sargento da Pm.

Veronique vivia armando confusão com os outros travestis do Cinco
mas, passada a raiva, perdoava as companheiras:

– Tem muita competição entre nós, porque uma quer ser
mais do que a outra. Se uma fala que vai para a Itália, a amiga que
não tem onde cair morta diz que foi convidada para desfilar no Japão.
Se uma compra um frango, a amiga que não tem onde cair morta até
se prostitui para mostrar que é chique e come frango também.
Querem se engrandecer em tudo. Devido a isso que dá essas brigas de
rolar no chão e arrancar cabelo. Depois, acalma e volta tudo na amizade,
que a gente não é revoltada como esses ladrão, que matam
o amigo. No fundo, a gente é unida porque uma precisa da outra para
sobreviver. Contam as más línguas que anos atrás no pavilhão
Cinco, tarde da noite, a galeria inteira ouviu a ameaça de Veronique:

– É tempo de Natal. A Veronique aqui está a fim de ganhar
um mimo de certos ladrão, para não contar as sem-vergonhices
que eles pedem para ela fazer neles. A Verô está muitonervosa.
Tem 24 horas para acalmar ela, se não quiser sujar a reputação
de muito malandro!

No dia seguinte, um bisbilhoteiro ficou boquiaberto com a quantidade de
presentes caros espalhada em cima da cama dela. Realmente, discrição
não era sua maior virtude, e muitos de seus problemas foram conseqüentes
à falta deste requisito, fundamental na cadeia. Uma vez, o diretor
de Vigilância dava atendimento aos presos em sua sala no Pavilhão
Seis, quando Veronique entrou pela porta da frente, toda afetada:

– Ai, seu Jesus, socorro, o bicho está pegando.

Falou, cruzando a sala, e saiu pela porta lateral. Imediatamente, atrás,
veio um ladrão com a faca no pescoço de um funcionário,
ameaçando o diretor:

– Se fizer alguma coisa, ele morre. Quero bonde para Avaré!

Dias mais tarde seu Jesus, com humor, referia-se ao acontecido:

– Ela falou, mas não deu tempo de tomar providência nenhuma;
foi uma alcagüetagem relâmpago.]

Numa das muitas confusões em que se meteu no Cinco, as companheiras
de xadrez expulsaram-na da cela. juntou seus pertences e não se fez
de rogada:

-Vou embora mesmo, porque vocês são gentinha. Sem a Verô
aqui para trazer uma guloseima, vão ter que chafurdar na quentinha,
a seco. Eu sou chique, querida na cadeia, tenho convite para morar em qualquer
pavilhão. Vocês, vão mofar no quarto andar do Cinco, suas
filhas da zona leste!

De fato, passou a noite no xadrez de um malandro do Sete. O rapaz, todo
gentil, cedeu-lhe a cama e dormiu a seus pés, no chão. Para
quê? No dia seguinte, os faxineiros viram a cena pelo guichê e
levaram o caso para o encarregado da Faxina, que expulsou o cavalheiro do
pavilhão:

– Onde já se viu, ladrão de respeito pôr a bicha na cama
e dormir no chão! Agora inverteu tudo?

A maior ousadia de Vêronique, entretanto, foi enganar diretor de Disciplina,
homem que começou a vida profissional décadas atrás abrindo
e fechando porta no pavilhão Nove. Correu um boato de que havia um
revólver no Oito. Conversa de arma de fogo na cadeia é sempre
levada a sério, porque se for verdade, coloca a vida de todos em risco.
O diretor de Disciplina trancou o pavilhão, mandou revistar de cela
em cela “operação pente-fino” Nada! Colocou em campo
a rede de informantes aguardou, impaciente.
No outro dia, Veronique apareceu na sala dele, misteriosa feito gata:

– Seu Lopes, conheço um certo ladrão que entrega o dono do
cano para o senhor em troca de um bonde para a Penitenciária. Só
que tem o seguinte, ele só dá mi depois que for transferido;
tem medo de morrer se falar antes.

Aceita a proposta pelo diretor, Veronique voltou acompanhada do pretenso
delator, um moreninho de cabelo ondulado, com uma pinta saliente na ponta
do queixo. Ela se aproximou da mesa; ele, arisco, parou na soleira da porta:

– Seu Lopes, conta aqui para o bofe se não é verdade que se
ele entregar, o senhor dá o bonde dele para a Penitenciária.
É verdade, pode confiar; elajá falou comigo.

Viu, medrosão, não te disse?

Seu Lopes prometeu e cumpriu. Terça-feira transferiu o bofé
e avisou os colegas da Penitenciária para transmitir-lhe a informação,
assim que o rapaz falasse. Quarta e quinta-feira, e nenhum telefonema. Na
sexta, o diretor de Disciplina acordou irritado e foi direto para a Penitenciária
cobrar a promessa:

– Qual é meu, está querendo me dar chapéu? Eu te transfiro,
e você, nada?

– Como nada, seu Lopes, mandei os 200 reais do senhor pela Veronique.

Mais tarde, seu Lopes comentaria que a vida inteira é pouco para
conhecer uma cadeia. Na hora, porém, enfezou-se, levou o falso alcagüeta
de volta para a Detenção e, no intuito de evitar vingança,
transferiu Veronique para o Amarelo, onde fui encontrá-la naquela noite,
chorando de dor nas coxas inflamadas.

NEGO-PRETO

Cheguei no ambulatório e o Arnaldo não estava. Sem ele, o atendimento
ficava complicado por causa da burocracia com as fichas médicas e a
liberação de medicamentos. Perguntei por ele:

Está resolvendo um probleminha na enfermaria e já volta. Arnaldo
demorou e eu resolvi procurá-lo. Encontrei-o no corredor discutindo
com um grupo de doentes. Conversa tensa; acusavam-no de não entregar
a medicação prescrita. Um preso com o corpo queimado voltou-se
para mim:

– Desculpa, doutor, estamos resolvendo um problema com o companheiro aqui
que está dando mancada.

Para acalmar os ânimos eu disse que o Arnaldo trabalhava há
três meses na enfermaria e que eu não tinha queixas dele. Um
rapaz franzino, dos mais exaltados na roda, respondeu:

– É por isso que ele está tendo a oportunidade de se defender.
Porque já tinha mano dizendo que amanhã, quando ele fosse entregar
os remédios no fundo da galeria, o caminho seria sem volta.

Nesse momento, veio pela galeria um rapaz escuro e parou a um metro da rodinha.
Sua aproximação foi precedida pelo silêncio dos outros:

– Não acredito que vocês estão debatendo um problema
desses na presença do médico. Onde nós estamos?

A interferência dele acabou com a discussão. Um a um, os debatedores
se dispersaram. No final do ambulatório mandei chamar o rapaz que acabou
com a briga. Nego-Preto a seu dispor, disse ele. Pedi-lhe que interviesse
para evitar violência contra o Arnaldo. Respondeu que eu podia ficar
tranqüilo, a situação já estava resolvida.

Depois disso, sempre aparecia para conversar, contava casos da cadeia e
falava das preocupações com a família, principalmente
com o filho mais velho, adolescente sem juízo, que não obedecia
à mãe.

O passado de Nego-Preto era semelhante ao dos outros, a infância nas
ruas de terra da periferia, muitos irmãos e más companhias.
Na década de 70, o pai esteve preso por nove anos na Detenção,
e quando saiu não era o mesmo:

– Devido que ficou transtornado.

A prisão de Nego-Preto ocorreu após uma sucessão de
acontecimentos a partir de um assalto a uma joalheria da Barão de Itapetininga,
no centro de São Paulo:

– Combinamos de se encontrar os tres na esquina do assalto. Nove horas, saí
da favela e fui catar um carro com o revólver. O Marlon, meu vizinho
de barraco, passou na casa do Escovão.

Quando entraram foi rápido. Os balconistas entregaram tudo o que
reluzia e mais o dinheiro do cofre. Os três saíram sem correr,
dobraram a esquina, pegaram o carro roubado e fugiram na direção
de Santana. De lá, para o Parque Edu Chaves. Largaram o Opala na Fernão
Dias e entraram pela favela com o produto do roubo.
No barraco, mal começou a partilha, Nego-Preto teve uma surpresa desagradável:

– Nesse intuito, que eu estou de cabisbaixo, olho de esguelha e, quem diria,
ó, o Escovão está com a mão no revólver
do cinto! Só que estava meio desesperado, olhando para a direita e
para esquerda, onde que eu se aproveitei deste pequeno descuido e sapequei
ele. Questão de sobrevivência, se não sapeco, sapecado
seria eu.

Foram três tiros. Escovão não teve tempo para revidar;
do jeito que estava, ficou. Imediatamente, Nego-Preto voltou a arma para o
peito de Marlon:

– Ele podia estar de piolhagem com o Escovão ou, então,nele?
tomar a liberdade de discordar da minha atitude.

Nem uma, nem outra; Marlon permaneceu estático, com os olhos assustados.
Então, Nego-Preto quis saber:

– Por que você ficou quietinho enquanto eu dei os tiros

– Porque ele já tinha me ligado, que ia te matar para dividir a parte
de você.

A resposta deixou Nego-Preto perplexo:

– Pó, você sabia que o cara ia apertar eu e ficar com todo
esses baratos aí, sendo que nós três estamos igual na
fita e se um vai para a cadeia os outros dois vão junto! Você
podia ter evitado este acontecimento lastimável, ter dialogado com
ele para ele não tomar uma atitude feia dessas.

Nego-Preto diz que só escapou com vida por ser homem sistemático:

– Em hora de partilha eu não mosco. É olho por olho e dente
por dente, que amigo é amigo, e dinheiro é a maldição
do Cão.

Marlon justificou-se dizendo que Escovão vinha de vários homicídios
e poderia matá-lo caso fosse denunciado. NegoPreto não aceitou
a justificativa:

– Pó, parceiro, podia ser temido, o que fosse, meu; não matou
nós. Se você dá um alô, ninguém ia morrer,
porque nós ia debater. Esse negócio de dar tiro nos amigos não
e do meu feitio.

Diante da argumentação, Marlon fez uma autocrítica:

– Pó, Nego-Preto, nisso daí eu fui um pouco meio frágil.

– Então deixa passar despercebido; traição por crocodilagem
é a coisa mais feia, é um Judas quem age assim, é pessoa
que cuspiu na cara de Jesus!

Carregaram o corpo até um riacho e o caso foi mantido em segredo:

– Na favela, as pessoas têm olhos mas não vêm, os ouvidos
são surdos e ninguém fala.

Alguns dias depois, o corpo apareceu no rio Tietê:

– Bem inchadão, doutor, feio, todo decomposto.

Movido por razões de foro íntimo, Nego-Preto foi ao enterro:

– Devido que nós ter sido criado perto, se eu não fosse ia
dar na percepção que eu seria culpado dos acontecimentos.

Com o objetivo de afastar suspeita, passou o velório inteiro do lado
do corpo. Encostado no caixão, conta que as lembranças voltavam
como num filme:

– Po, parceiro, você deu mancada, meu. Coisa mais desagradável,
querer ficar com tudo! Não devia de ter feito isso! Ainda mais que
nós era da mesma infância, empinava pipa e roubava goiaba na
casa da velha. Viu no que deu o egoísmo? Acabou sem nada; da terra,
só levarás esse terço branco enrolado na mão.

Meses depois, Marlon roubou um sobrado, em Pinheiros. Deu azar, a casa era
de um investigador de polícia. Foi preso e pendurado de cabeça
para baixo para contar onde estavam os objetos roubados, a esta altura já
vendidos:

– Numa boca de fumo na favela da Mimosa, perto da Fernão Dias, para
um elemento que atendia pelo vulgo de Bom Cabelo.

Para sair do pau-de-arara sem entregar Bom Cabelo que pertencia a um grupo
fortemente armado, Marlon preferiu dar o nome do autor da morte de Escovão.
Nego-Preto foi parar no DEIC, onde encontrou o amigo delator:

– Marlon, você me deu no assalto também, meu?

– Não, no assalto não, Negão.

O emprego do aumentativo irritou Nego-Preto:

– Negão é papagaio de carvoeiro. Você sabe que eu não
gosto que me tratem assim.

Marlon explicou que não disse por mal, e o outro continuou:

– Pó, mano, mas você vai me dar logo no homicídio? Era
melhor ter me dado num dos assaltos.

– Eu te dei no homicídio porque os irmãos do Escovão
estavam pensando que era eu que tinha matado ele. De fato, nós saímos
juntos da casa dele para o assalto. Foi quando que eu apareci de volta e ele
retornou finado.

Nego-Preto mais uma vez foi magnânimo:

– Pó, meu, estou desconsolado! Podia te envolver no homicídio,
mas não é meu feitio. Já que você me deu, vou confirmar
teu depoimento: que matei ele sozinho, joguei no rio e você está
limpo.
Na verdade, a benevolência também atendeu a interesses menos
altruísticos; se contasse tudo à polícia, iria responder
ainda pelo roubo do carro e o assalto à joalheria. Além disto,
tirar Marlon do processo poderia trazer vantagens futuras:

– Tenho a cópia de tudo, onde consta que ele me entregou, mas eu
não delatei ele. Se um dia ele cruzar o meu caminho na cadeia querendo
levar uma, vai ser a minha vez de falar: você é que vai levar
uma, porque está em dívida comigo!

Mesmo assim, Nego-Preto diz que não costuma vingar-se desta forma,
por causa de seus princípios:

– Eu não uso dessas artimanhas, para não denegrir a imagem
do sentenciado, onde que vou ver ele ser espancado, ser tomado, roubado e
escurrado. Este não é o meu ser. O meu feitio é ter olho
e não enxergar, ter boca e calar.

O juiz não acreditou na história de que ele matou o comparsa
em legítima defesa. Condenou-o também por ocultação
de cadáver e, como agravante, julgou frieza criminosa sua atitude de
comparecer ao enterro e postar-se pensativo diante do caixão. Pegou
dezenove anos e seis meses. Uma tarde, quando cruzei o pátio do pavilhão,
ele conversava sério com um rapaz novinho, de pele mais clara do que
a dele. Era o filho mais velho, que acabava de chegar à Detenção,
condenado a três anos e dois meses por assalto a mão armada.

OLHO POR OLHO

Charuto entrou com o dedo enterrado numa cebola cozida. A mão esquerda
amparava a outra; nesta, os dedos estavam dobrados, com exceção
do indicador, esticado, a metade digital introduzida num túnel aberto
na cebola quente, de sair fumaça.

Sentou-se à minha frente, com cara de dor, e desembainhou o dedo
ofendido. Estava bem inchado; na última falange, logo abaixo da linha
de inserção da unha, havia dois cortes profundos, transversais,
simétricos em relação à linha média, no
meio de um hematoma pulsátil.

– Mordida de rato?

– É, doutor, atingiu o osso.

Ratos de várias raças infestavam o presídio. No escuro,
circulavam nas galerias, corredores e interior das celas. Na Cozinha Geral,
após a distribuição da janta, mal os faxinas acabavam
de enxugar o chão esburacado, o exército murino invadia o território
e saqueava a despensa. Ao clarear o dia, inimigos da luz, escondiam-se nos
esgotos até cair outra noite, inexpugnaveis.

– Foi meia hora atrás.

– Mordida de rato de dia?

– Estava trabalhando, ó, doutor, desentupindo aquele esgoto que entope
no pavilhão Dois, quando aconteceu o acidente. Charuto tirou a tampa
de ferro que cobre a abertura do esgoto que sempre entope, em frente à
fachada do Dois. O buraco estava até a boca de tranqueira e comida
velha boiando.

Desceu naquela água imunda, até os joelhos, e começou
a tirá-la com um balde. Quando a manilha grossa apareceu, Charuto enfiou
a mão pela lateral, para retirar um saco plástico que atrapalhava
o desentupimento. Neste momento sentiu uma dor lancinante, assim descrita:

– Pegou horrível na ponta do dedo, fina, ardida, e espalhou como
um choque pelo braço; deu até amargor na boca. Puxou a mão,
no reflexo; veio junto o rato pendurado no dedo indicador, mordendo fixo.
Era preto, enorme:

– Pensei até que fosse um cachorrinho desses de madame. No desespero,
a mão desenhou um círculo no ar e bateu o rato contra o cimento,
mas a pega estava tão firme que não soltou. Infernizado com
a dor que até choque dava, o rato travado no osso, Charuto levantou
o braço o mais alto que pode e despencou o animal no chão; com
toda força.

– Só aí, com perdão da palavra, foi que o desgraçado
largou. Ficou esperneando as patinhas para cima.

– Morreu?

– Que nada, doutor, o bicho é o demônio!

Foi então que Charuto, cego de ódio, agarrou o inimigo com
as duas mãos, segurou-lhe a boca para não levar outra mordida
e vingou-se:

– Cravei os dentes na mente do infeliz. Mordi duro, até ele parar
de debater. Depois escovei os dentes, e já era.

PAIXÃO ARREBATADORA

Esse tal de Charuto tinha sorriso alvo e dentição perfeita,
raridade no ambiente. Malandro completo no andar, falar e olhar, assaltante
incorrigível, estava condenado a dezesseis anos, nesta segunda passagem
pela cadeia.

Dois anos depois do entrevero com o rato, ele convenceu o Zoinho, um ladrão
estrábico internado com sarna disseminada, a vender o próprio
colchão para comprar crack, depois tapeou o amigo, fumou as pedras
sozinho e quando um funcionário da enfermaria descobriu a venda, Charuto
armou uma confusão tal que Zoinho não só assumiu a culpa
de tudo, como pegou trinta dias de castigo na Isolada. Duas semanas mais tarde,
Charuto apareceu no ambulatório, com ar cerimonioso, acompanhado de
um companheiro narigudo, felliniano:

– Doutor, daria para o senhor atender este considerado meu, que está
com uma coceira cabulosa? Tratava-se do incauto comprador do colchão
infestado do Zoinho.

Depois disso, passei tempos sem vê-lo. Um dia, Charuto retornou com
muita tosse, febre, dispnéia e os olhos encovados: tuberculose pulmonar
com derrame de líquido pleural à direita do tórax. Órfão
de mãe, Charuto não recebia visitas desde que chegou à
cadeia, desta segunda vez, há quatro anos. Nos primeiros meses, ainda
lia jornal e pedia notícias da rua, mas logo concluiu que satisfazer
a curiosidade trazia mais sofrimento e alienou-se dos acontecimentos do lado
de lá da muralha, como fazem muitos homens sem família condenados
a penas longas.

Dos parentes, não sentia saudades, com exceção do filho
mais velho:

– O pequenininho eu não quero ver, porque ele está bem com
a avó, a mãe da Rosirene. Agora, o grande eu não sei,porque
ele vive com a Rosane, minha outra mulher, e ela é fumadora de crack.

Após cumprir dez anos, em sua primeira passagem pela Detenção,
Charuto foi posto em liberdade. Ao sair, soube que Rosane, mãe de seu
primeiro filho, tinha acabado de ser presa. Um domingo foi visitá-la
na penitenciária de Tremembé. Levou o menino para ver a mãe
e cinco gramas de cocaína, de presente. No ônibus de volta, com
o primogénito no colo, foi abordado por uma senhora de fino trato:

– Escuta aqui, simpatia, eu também sou malandra, sabe, eu sou malandra.
Vim visitar minha irmã e vi você dando um barato lá para
a sua mulher. É sua mulher, não é? É o seguinte,
eu trafico. Não tem condição de você arrumar umas
dez gramas para mim? Pode confiar que eu sou do ramo. Sou do ramo, entendeu?
Sou malandra! Charuto sentiu firmeza. Terça-feira, pegou um ônibus
até o Jabaquara e, de lá, o Jardim Míriam:

– Levei uma cara de farinha. Eu não conhecia aquela quebrada; o maior
jogo duro para achar a casa.
No quarto dessa senhora, dona Joana, Charuto entregou a droga e sentou para
conversar com seu Machado, um senhor que morava com ela.

Foi quando a tentação entrou pela porta dos fundos, sorrindo,
de vestidinho com alça: Rosirene.

– Nega dos lábios finos, nariz empinado, bunda de escola de samba
e eu no esgano, ó, saindo da cadeia, depois de tirar dez anos. Naquela
hora, pensei com a minha cabeça, preciso comer essa nega de qualquer
jeito! Não sei se isso já aconteceu com o senhor, doutor, amor
à primeira vista! Paixão arrebentadora!

Encantado pela mulata, chamou seu Machado para um canto:

– E essa mina aí?

– Essa mina aí, está aí.

– Então, fala para essa nega que é o seguinte: vou levar ela
para Santos amanhã.
Voltou na quarta-feira, mas não foi preciso viajar tão longe:

– já saímos direto para o Flor da Lapa, a maior festa e tal,
gastei dinheiro que nem água. Depois, achei que tudo bem, experimentei
a fruta, já era. Apenas que ela não foi embora.

Como as condições não lhe permitiam Flor da Lapa toda
noite, alugaram uma maloca num cortiço da Dino Bueno, perto da Rodoviária
velha, para viver no maior amor:

– Embora que de vez em quando tinha que dar uns murros nela, que a nega
era folgada pra caramba.
Uma noite, Charuto foi dormir muito louco e acordou com a gritaria:

– õ, vê se acorda que a casa está pegando fogo! Eram
os vizinhos do cortiço:

– Uma tremenda fumaceira, saí a milhão de dentro do quarto.

Rosirene tinha jogado tudo que era dele, roupas, chinelo, sapato, em cima
da cama do casal e ateado fogo. A vizinhança ameaçava chamar
a polícia; e ele sem saber se apagava o fogo ou acalmava os vizinhos.
Se a Pm chegasse, iria prendê-lo noato; havia acabado de sair da cadeia.
A incendiária, do lado de lá da rua, assistia de camarote, cínica,
dando risada. – Pó, queimou tudo, até a minha calça de
baile! O maior custo para convencer os vizinhos deixar quieto, a polícia
não ia querer saber.
Quando acabou o fogo, descalço, Charuto saiu para tomar ar. A mulata
veio atrás. Na Dino Bueno com o Largo Coração de Jesus
ele parou numa fogueira:

– Na maior neurose, querendo pegar ela de quebrada. Sentou. Ela também,
com prudência, do outro lado, em frente. Depois de um tempo, Charuto
levantou devagar com um cigarro apagado no canto da boca, pegou um tição
do fogo como se fosse acendê-lo e avançou na direção
da Rosirene:

– Dei umas trinta tiçãozadas nela. Era fagulha para todo lado,
parecia que nós estava no inferno de Satanás! Vingado, refugiou-se
num bar na famosa esquina da São João com a Ipiranga e tomou
várias para rebater. Mais tarde, quando voltou para casa, encontrou
a maloca em silêncio:

– A primeira coisa que eu olho na cama queimada é a nega dormindo,
ó! Puta vida, vai embora daqui, já. Não vou. E, nessa
de vai embora já, não vou, vai, não vou, ela acabou não
fondo, e nós ficamos naquele amor aconchegado.
Viveram dois anos juntos. Esqueceu do filho e da mulher na cadeia de Tremembé,
por causa dessa paixão. Amanheciam fumando pedra, escovavam os dentes
com a mesma escova, pediam um comercial no bar e comiam no mesmo prato, de
tão bem que se davam:

– Eu roubava, ela se virava.

Segundo ele, não adiantava: mesmo quando roubava uma quantia suficiente
para passarem alguns dias curtindo, saía de manhã e, quando
voltava à tarde, cadê a Rosirene?

– Estava na Estação da Luz se virando. Sabe, elas viciam e
não querem sair dali. Eu não podia fazer nada. Quer dar? É
com ela mesmo. A única coisa que eu falava era: só não
dá para amigo meu, que eu te quebro o pescoço.

O destino os desuniu quando ele ficou caído de tanto crack e ela
voltou para a casa da mãe, com o menino que tinha nascido.

Uma noite, trombaram na Boca do Lixo e Rosirene confessou estar namorando
um amigo dele, Mato Grosso, o dono das pedras, e que os dois tinham planos
de mudar para Ponta Porã.

-Veja só, dando para amigo meu e ainda os dois fazendo plano!

Hoje, ele reconhece ter perdido a mulher porque não há harmonia
que resista ao crack. Mesmo assim, continuava decidido a resolver o caso pela
via passional.

– Quando sair da cadeia, vou matar o Mato Grosso. Ela não, porque
o errado é ele, que me conhece e sabe que a mulher é minha;
não tem nada que cantar ela e levar embora. É eu que ele está
tirando, não ela. A decisão de poupar Rosirene do castigo fatal,
no entanto, é fruto recente da ponderação, pois quando
chegou na cadeia seu desejo era atraí-la para um lugar ermo, cortar-lhe
os pés fora com um machado e justificar: – Não vou te matar
porque nós temos um filho, e não quero que ele me venha falar
que eu matei a mãe dele. Mais tarde, ele vai te ver sem pé,
vai perguntar por que e você vai dizer: eu dei para outro cara. E, aí,
ele vai saber que o pai dele agiu na razão. Sua intenção
era fazer uma malvadeza que Rosirene jamais esquecesse. Afinal, largou Rosane
por causa dela. Na época, ele gostava da Rosane; a primeira vez em
que esteve preso,pensou que se Rosane o abandonasse, iria enlouquecer. Até
ameaçou:

– Se você não me visitar, te furo os olhos. Ela, sorriu e tranqüilizou-o:

– Quem falou que eu sou mulher de abandonar homem meu na cadeia?

Prometeu e cumpriu. Visitou-o, quase dez anos, todo final de semana, com
as sacolas e o menino. Até ir presa. Ele é que a traiu, por
causa da Rosirene:

– Fui cachorro; abandonei a Rosane presa em Tremembé; ó, maior
ingratidão!

O castigo veio a cavalo quando Rosane saiu da cadeia, antes da data prevista.
Uma noite, ele dormia tranqüilo num hotelzinho, com a Rosirene, certo
de que a outra continuava presa, quando Rosane, libertada, foi à Boca
do Lixo cobrar a referida ingratidão. Perguntou sobre o paradeiro do
ingrato num bar:

– Ele está dormindo com a mulher dele no Copa 70. – Ali, mulher dele,
é? Cachorro!

Entrou no quarto quebrando tudo; de cara jogou a Tv no chão e avançou
para cima da Rosirene, cujo tamanho era o dobro do seu. Ligeiro, ele vestiu
a roupa e sumiu. Ficou num botequim, esperando a poeira baixar. Meia hora
depois, apareceu o português do hotel: – Vai ver o que aquela baixinha
aprontou lá. Encheu a cara da tua mulher, espetou um alfinetão
na bunda dela que tirou sangue, ainda rasgou e tacou fogo nas roupas da grandona!

Charuto tem febre e sudorese noturna; está magro e com os pulmões
afetados. Ri, as recordações parecem deixá-lo feliz.
Apesar da eterna gratidão à Rosane, só pensa na Rosirene:

– Doutor, se eu morrer na cadeia, não vou ficar sossegado. Tenho
que ver aquela mulher de novo. Depois, vou matar o Mato Grosso, mas a primeira
coisa é ver a Rosirene, só mais uma vez. Ela é linda,
doutor! Tá louco, a nega me enfeitiçou.

SEM-CHANCE

Sem-Chance diz que não era ladrão nem nada. Mulato, franzino,
riso aberto, o caçula da casa, chegou aos dezenove anos sem trabalhar.
Os pais, na medida do possível, faziam todas as vontades dele: – O
maior dengo.

Uma ocasião brigou com a família e saiu: – Só de bronca.

Depois de dois dias, com fome, lá na vila mesmo, parou numa fogueira
onde alguns amigos se aqueciam: – Eles também não eram ladrões,
mas estavam com o pensamento de tomar o revólver do vigia da pedreira.
Sem-Chance foi com eles, não por convicção, mas por não
ter para onde ir. Só para não ficar ali sozinho, na fogueira.

Entraram todos menos ele, que guardou o lado de fora.

Ao perceber o movimento, o vigia entrou em pânico e começou
a gritar. Um deles atirou e acertou a cabeça do coitado. Apanharam
o radinho, a jaqueta de guarda noturno e o revólver e fugiram.

Esse crime deu um processo de latrocínio que estragou a vida dele.
Foi condenado: doze anos e oito meses. – Só para ver que nós
não tinha maldade nenhuma, doutor, nós roubava onde todo mundo
conhece nós. Nós é criado ali. É sem chance.
Atrás das grades aprendeu o que faltava, e quando saiu, em 1987:

– Comecei a roubar, bem roubado.

Assaltou firmas, padarias e gente andando na rua. Especializou-se no “gogó”,
método através do qual dava uma gravata no transeunte, enquanto
os parceiros limpavam a vítima. Conta que nunca matou; chegava dizendo
isto é um assalto e, se a vítima não acreditasse, dava
uma coronhada na cabeça para intimidar. Não roubava mulher desacompanhada,
só de medo de chegar na cadeia com fama de estuprador.

-Voltei para a Detenção em agosto de 9 1, por causa desse
barato de gogó e uns cinqüenta, cem assaltos, por aí. Peguei
mais dezenove anos, que o juiz não quis saber das atenuantes. Foi sem
chance.

Dessa pena, já cumpriu cinco anos. Desde que chegou, ninguém
lhe traz um maço de cigarros. Sobrevive às custas dos conhecidos.
Vende relógios e roupas dos companheiros endividados; o proprietário
pede cinco, ele anuncia por sete ou oito. Tudo o que ganha na luta acaba no
cachimbo de crack.

– Eu tenho uma coisa de bom no caráter da minha pessoa: só
fumo no dinheiro! O senhor nunca vai ouvir que o SemChance comprou um cisco
de crack no fiado. Ando pela galeria de cabeça em pé, sem rabo
preso com vagabundo nenhum. Aqui dentro, comigo, é no respeito! Depois
que perdeu a mãe, para a família ele não existe mais:
– Para a sociedade, eu não passo de um reles, rejeitado que nem cachorro
sarnento. Se aqui na cadeia os manos não tratar eu como considerado,
não vou ser nada para ninguém, sou um zero no mundo. Vou perder
a identidade própria do ser humano. É sem chance. Tratei-o de
uma tuberculose grave, instalada nos gânglios linfáticos. Tinha
ínguas volumosas no pescoço e axilas. Magrinho, quase morreu.
Depois de um mês, já sem febre e com apetite, teve alta da enfermaria.
Insisti com ele sobre a importância de manter a regularidade do tratamento
e que era fundamental dar um tempo com o crack.

No pavilhão, ele fez exatamente o oposto e voltou pior, com a doença
disseminada nos pulmões, falta de ar ao mínimo esforço
e caquexia. Na recidiva o bacilo veio agressivo e resistente à medicação.
Em poucos dias ficou fraco, dispnéico, caído na cama o dia inteiro.
Ainda assim, sorria quando eu chegava para examiná-lo. Uma tarde, fui
vê-lo antes do ambulatório. A cela estava invadida por uma luz
bonita, alaranjada, reflexo do sol na mulher pelada da parede. Em coma, encolhido
no catre, pele e osso, ele parecia uma criança. Migalhas de pão
espalhavam-se em volta da boca ressecada. Atrás delas, um batalhão
de formigas apressadas andava em ziguezague pelo rosto agônico de Sem-Chance.

SEU VALDOMIRO

Seu Valdomiro é um mulato de rosto vincado e cantos grisalhos na carapinha.
Em seu olhar de homem preso, as vezes brilha uma luz que ilumina o rosto inteiro.
Os setenta anos e as histórias de cadeia ao lado de bandidos lendários
como Meneghetti, Quinzinho, Sete Dedos, Luz Vermelha e Promessinha fizeram
de seu Valdo um homem de respeito no presídio.

Na caminhada, cumpriu pena em diversas unidades. Numa delas, após
quatro meses de solitária na escuridão total, quebrada só
quando abriam o guichê da cela para passar o prato de comida, que ele
precisava engolir depressa para se antecipar ao assanhamento das baratas,
seu Valdo simulou ter perdido o juízo. Para convencer os carcereiros
da insanidade, rasgou uma nota de cinco e comeu os próprios excrementos:

– Tive que fazer essa sujeira para sair daquele lugar.

Na solitária daquele tempo, a gente aprendia o limite de um ser humano.

Seu Valdo nasceu numa ladeira de terra do Pari, perto do largo Santo Antônio,
neto de uma avó racista que discriminava a mãe dele, de pele
negra:

– Meu pai, por ser assim de mente fraca nas influências, se largou
e eu fiquei ao léo dará, com a mãe e duas irmãs
pequenas.

Naquelas circunstâncias, a mãejuntou os três filhos e
voltou para a casa da mãe dela na alameda Glete. A acolhida foi calorosa:

-A minha avó materna, que justamente tinha um puteiro, recebeu nós
de braços abertos.
A casa dessa avó, na zona do baixo meretrício de São
Paulo, era um predinho de três andares, no qual trabalhavam doze mulheres.
No fundo ficava a casa deles, normal.
– Com o dinheiro que a vovó ganhou administrando o puteirinho, compramos
um parque de diversões e, nisso, começamos a correr trecho.

Seu Valdo era grandão, já tinha dezesseis anos, tomava conta
do estande de tiro ao alvo e vivia amigado com a Betina, ex-funcionária
do predinho da alameda Glete.
Um dia, por traição do destino, o parque pegou fogo e a família
voltou para uma pequena chácara da avó previdente, perto da
represa de Guarapiranga, na periferia de São Paulo.

Seu Valdo foi trabalhar como desentupidor de fossa, levantou uma casinha
e levou vida de trabalhador até que os acontecimentos mudaram o rumo
das coisas. A mulher foi a causa de tudo, segundo ele:

– Devido que era muito ciumenta, até dos meus cachorros. Eu adoro
cachorro e nem podia tratar deles direito que ela enfezava, dizia que eu punha
mais atenção nos bichos do que propriamente na figura dela.
Veja que absurdo, doutor, um ser humano rivalizado com um animal. O gênio
da esposa era um suplício. Ciúmes de outras mulheres, então:

-Virgem, Deus o livre!

Se ele cumprimentava uma vizinha, ela xingava de mulher da vida em diante,
e cada vez que ele se atrasava, eram quatro horas de falatório, no
mínimo. O gênio da esposa criava problema com maridos e irmãos
das moças ofendidas. Ele só fazia apaziguar; tarefa inglória:

– Não tem jeito, doutor, mulher quando engata no ciúme é
o Cão vestido de saia. De noite, o senhor quer dormir para trabalhar
cedo e a peste não pára. O senhor bebe uma cachaça depois
do serviço, chega em casa disfarçando na hortelã, ela
fareja o bafo e pronto! já acha que estava com outra, que homem tudo
não vale nada. E vai o filho de Deus provar que não! Um dia,
mudou-se para a vizinhança uma mulata assim descrita por ele:
– Maravilhosa, doutor, duas pernas torneadas por Deus e um rebolado de parar
a feira.
Na rua, quando a mulata vinha de lá, seu Valdo, discretíssimo,
abaixava a cabeça. O comedimento tinha justificativa:
– Para não atiçar a jaguatirica em casa.
E também, admite, para não despertar a ira do marido, afamado
como baiano ciumento, criador de vários casos por causa da mulata.
Um domingo de sol, seu Valdo no portão de casa estreava o primeiro
óculos escuros de sua vida, quando passou a morena requebrante. Distraído,
ele nem percebeu que, atrás dele, Betina chegou na janela para bater
o pano de pó:
– Para quê, doutor! A onça invocou que eu estava de olho comprido
na mulher do baiano. Deu a volta sorrateira, meiga como quem vai me fazer
um carinho, e foi básica: zap! Agarrou no meu membro. Veja só
o desrespeito! Num instante, Betina avaliou a dureza em questão e concluiu
que seu Valdo era um ordinário sem-vergonha e não valia o feijão
que ela enchia na marmita dele. A gritaria atraiu os vizinhos. Seu Valdo não
sabia onde esconder a cara. Por fim, convencido da impossibilidade de acalmar
a esposa, mandou-se para o botequim, morto de vergonha dos conhecidos.

– A estrupício ainda veio atrás até a esquina falando
um monte, tudo na voz esganiçada.
No bar ele encontrou o Joca, que lhe pagou um rabo-de-galo para acalmar e
o convidou para uma partida de sinuca. Experiente no taco e com as mulheres,
Joca aconselhava o companheiro quando chegou o baiano. Não tinha achado
bonito o papel de seu Valdo:
– O que você aprontou com a Cida?
– Nunca nem olhei para a sua esposa, cidadão. Até peço
desculpas à sua pessoa, mas o acontecido não é motivo
para ofensa. Minha mulher é ciumenta possessa e sempre dá vexame.
A vila inteira reconhece o feitio dela. – Tua própria senhora disse
na frente de todo mundo que você não tira os olhos da Cida quando
passa. Vou te ensinar a respeitar a mulher do próximo, seu preto vagabundo!
O baiano puxou a peixeira. Joca, amigo de verdade, não gostou da ofensa
e puxou o revólver:
– Ele é preto sim. E por acaso você é muito branco?
Agora: vagabundo não, que ele tem carteira assinada. Se der um passo
à frente, quem morre é você, baiano! O baiano vinha cego
de ciúmes ou era valente de fato. Mesmo baleado ainda tentou esfaquear
seu Valdo. Só não conseguiu porque este lhe deu uma pancada
na fronte, com a parte grossa do taco de bilhar. O baiano morreu no hospital.
Joca, que andava procuradíssimo pela polícia, fugiu para o Nordeste.
E seu Valdo:
– Trouxa, dois dias depois se apresentei na delegacia, pobre, sem advogado,
alegando legítima defesa. Dia de visita, um mês mais tarde na
Casa de Detenção, anunciaram o nome de seu Valdo para receber
uma pessoa na entrada do pavilhão. Morto de ódio, diz ele, no
caminho até a porta decidiu esganar a Betina, aquela mulher possessiva
responsável pela desgraça que o atingira.
No portão, entretanto, não era Betina quem o aguardava:
– Era a morena, a pivô da tragédia, de vestido vermelho, olhos
trêmulos e lábios rútilos. Me abriu um sorriso tão
alvo, doutor, que encantou meu coração.
E nesse dia abençoado começou o nosso amor, que pela vontade
de Deus resiste até hoje.

O FILHO PRÓDIGO

À noite Valente não saía sozinho pela vila: tinha medo
de ladrão. Filho de lavradores crentes do norte do Paraná, veio
para São Paulo morar com um primo na periferia de Guarulhos. Foi bem
até conhecer as pessoas erradas, cheirar cocaína, perder o emprego
e se desentender com o primo. Em seis meses começou a assaltar padaria,
açougue, pagamento de firma e a matar gente: – Tem pessoas que a gente
conversa com ele, assim, ou vai fazer um trabalho junto, mas a gente não
gosta dele. Um espírito com o outro não bate. Para quem está
na vida do crime, matar ele é que nem beber um copo de água.
Um de seus amigos, Salviano, vivia com uma mulher que havia namorado um Pm.
Uma noite, por ciúmes, Salviano convidou Valente para matar o policial.
Ele diz que aceitou o convite porque estava mesmo sem fazer nada: – Esperamos
no ponto do ônibus. Era para ele chegar às
dez, apareceu às onze e meia. Demos oito tiros nele e saímos
fora.
Outra vez ele levava a namorada para casa, quando passou um rapaz e disse
um palavrão. Valente deixou a moça e foi atrás do outro:
– Quando alcancei, falei pra ele: ô, boca-suja! Foram cinco tiros. Valente
era homem de poucas palavras: – Muitas pessoas do Crime até debate
com a vítima; comigo não tinha conversa.

Em seguida, perderam a vida dois comerciantes do Alto da Penha que tentaram
reagir ao assalto, um ladrão que falou mal dele para uma vizinha e
um outro no botequim por causa de uma cerveja derramada. A sétima ocorreu
na divisão de 30 mil dólares roubados em companhia de dois parceiros.
Estavam repartindo o dinheiro quando um deles teve a má idéia
de ir ao banheiro:
– Fiquei esperto, porque olho de ladrão cresce mais do que devia.
Quando o comparsa saiu do banheiro, trazia a jaqueta de couro no braço,
cobrindo parcialmente a mão direita. Valente não hesitou:
– Catei o revólver da mesa e dei três tiros nele. Desperdício,
o primeiro acertou bem no meio das vistas. O outro companheiro se assustou:
– Você está louco, matou o cara!
– Ele ia atirar em mim.
Foram até o corpo, levantaram a jaqueta e verificaram que o morto não
tinha nada nas mãos, o revólver permanecia na cinta. Paciência,
o amigo consolou:
– Morreu por culpa dele próprio: a mesa cheia de dinheiro e ele aparece
assim, por detrás, ainda com a mão encoberta! Infelizmente,
ele vacilou.
Três anos nessa vida e Valente resolveu organizar uma quadrilha para
assaltar banco. Viajou para o Rio e comprou uma metralhadora na Rocinha. Não
chegou a utilizá-la, porque dois de seus parceiros foram mortos num
assalto e outro foi embora para o interior. Sobraram ele e Salviano, co-autor
do assassinato do Pm.
Salviano, nessa época, apaixonou-se por uma menina de dezesseis anos
e abandonou a ex-namorada do Pm. Com o amorpróprio ferido, a moça
foi ao DEIc e denunciou os dois comparsas.

A polícia chegou enquanto ele dormia. Ainda quis alcançar a
arma, mas não deu tempo. Nunca imaginou ser preso com tanta facilidade:
– Sofri dez dias no pau-de-arara, meia hora por dia.
Teve dia que me penduraram duas vezes. Eles queriam bastante coisa, até
o que eu não devia. Por causa da metralhadora, só de assalto
a banco, que eu nem cheguei cometer, eles queriam que eu assinasse oito. Confessei
só o que eu devia, menos quatro homicídios que ficaram de fora.
De início foi condenado a dezoito anos. Oito meses depois, no júri
seguinte, pegou 112 de uma só vez. A pena total ficou em 130 anos e
nove meses.

– Eu abati um pouco. Mas não mudei de vida, até piorei para
pior. Fui para o pavilhão Nove. Lá eu queria apresentar que
era bandido perigoso. Chegava no cara e dizia: você é de ver?
Se é, nós vamos trocar agora! Aí, se ele não queria
trocar, eu falava: então você deixa a televisão, as coisas
suas e pode atravessar para o Cinco, que é o teu lugar. Eu pensava
que a minha vida não tinha mais jeito, já que era para morrer
na cadeia, não custava que fosse hoje. Se tinha que ser esse o meu
destino, que sêsse.
Então, veio um dia de chuva. Para se abrigar, ele encostou na parede
junto à igreja, no térreo do Nove e, sem querer, ouviu a pregação
do pastor:
– A Bíblia diz em Isaías capítulo 9, verso 6, que Jesus
Cristo é o Conselheiro, é o Deus forte, Pai da Eternidade e
Príncipe da Paz. Você que vive na vida errada, Deus tem um plano
para você. Venha hoje para Jesus, que amanhã pode ser tarde.
Não importa se é bandido, quantos matou, Jesus Cristo faz questão
de perdoar você com todos os teus pecados, te tirar das trevas e operar
uma obra na sua vida.
Valente chegou um pouco para dentro. Sentiu que o Espírito Santo de
Deus falava pela boca do pastor:

– Quem quer aceitar Jesus? Quem quer levanta a mão!
As veias do pescoço do pregador saltaram e os olhos cuspiram fogo.
Valente achou que a fisionomia estava desfigurada pelo Espírito Santo
de Nosso Senhor.
Sentiu um punhal frio penetrar-lhe a carne. Levantou o braço: – Dobra
o joelho, irmão!
Valente obedeceu e caiu no choro:
-Arrependi dos crimes, da raparigagem e das maldades. Chorei feito nenê
no colo da mãe.
Quando levantou, estava desanuviado. Sentiu o perdão do Senhor pousar
em sua fronte.
Continuou morando no Nove, mas os companheiros estranharam a mudança:
– Tinha uns, mais no espírito entrevado, que ameaçavam: está
bom, agora é crente, então vai morrer e tal, que nós
não suporta bandidão arrependido. Andava pelas galerias do Nove
com o Velho Testamento, sem maldade no coração, lutando para
colocar os companheiros no caminho da Verdade:
– De repente, bateu um desassossego na minha mente que era para eu ir embora
do Nove. Que tinha que ser logo. Que ali não era mais o meu lugar.
Pediu guarida para os irmãos da Assembléia de Deus, no Cinco,
e juntou-se a eles, no quinto andar. Era outro homem: – já não
usava mais gíria nem palavra torta e não tinha mais perversidade
na alma. Estava num plano de Deus, era Jesus abreviando na minha vida, elegendo
eu para continuar vivo no seu Reino, porque dois dias depois que eu saí,
a Pm invadiu o Nove, com cachorro e metralhadora.

APRENDIZ DE FEITICEIRO

Dois dias depois que o desassossego tirou Valente do pavilhão Nove,
reuni os travestis nos fundos do cinema para uma aula de prevenção
à AIDs. Era a primeira sexta-feira de outubro de 1992.
No final, insisti no perigo da penetração sexual desprotegida
e perguntei se havia alguma dúvida. A meu lado, um rapaz franzino de
Sapopemba, conhecido como Pérola Byington, pernas cruzadas feito mulher
e com a mão desmunhecada, roendo as unhas o tempo todo, fez o seguinte
comentário:
– Doutor, faz meia hora que o senhor está explicando como é
que pega e não pega esse vírus. Desculpa, mas isso nós
estamos cansadas de saber. Muitas amigas nossas já morreram. Nós
precisamos de camisinha, não aula! Se não tem camisinha para
a gente obrigar o ladrão a usar, de que adianta essa conversa, doutor?
Pouco depois apareceu o dr. Pedrosa, diretor-geral do presídio que,
na época, andava sozinho pela cadeia inteira, prática que posteriormente
cairia em desuso: – Tudo bem, doutor? Na saída, passa na minha sala
para tomar um café.
Nesse café, conversamos sobre distribuição de preservativos
aos detentos, medida que naqueles dias
despertava reações emocionais entre as autoridades judiciárias,
como a de um promotor de terno cinza e sapato azul-marinho que me respondeu
num debate:

– Se a sociedade não pode entregar um litro de leite para as crianças
da favela, o senhor nunca me convencerá a distribuir camisinha para
vagabundo na cadeia. O diretor e eu elaboramos uma estratégia para
apresentar o problema pessoalmente a algumas pessoas influentes do Sistema.
Depois, ele me mostrou uma “teresa” apreendida. Era uma corda de
doze metros, feita com tiras de cobertor cuidadosamente enroladas ao longo
de fios de arame, o que lhe conferia resistência para suportar o peso
de um homem disposto a escalar a muralha. A teresa puxou outras histórias
de fuga e, quando percebi, já era meio-dia e meia:
– Vou correr para o hospital, é tarde. Além disso, atrasei o
senhor.
– Por mim não, hoje é sexta-feira, dia deles lavarem tudo para
a visita do fim de semana. A cadeia está na maior calmaria.
Cerca de duas horas depois dessa observação, houve um desentendimento
entre dois presos no Pavilhão Nove.

O LEVANTE

Naquela tarde, no campo do Nove, enfrentavam-se o Furacão 2000 e o
Burgo Paulista na disputa do campeonato interno do pavilhão. Nos andares,
os presos arrumavam os xadrezes. Tudo calmo, como imaginava o diretor. No
decorrer do jogo, inesperadamente, como ocorrem os acontecimentos mais graves
nas cadeias, o Barba brigou com o Coelho na rua Dez do segundo andar do pavilhão,
um armado de faca, o outro com um pedaço de pau. Briga de rotina, não
fossem as terríveis conseqüências. A razão da desavença
não foi esclarecida devidamente, de acordo com o Baiano Comedor, um
traficante de cocaína sócio de uma pizzaria no Ipiranga, que
se gabava de haver namorado as mulheres mais bonitas do bairro, testemunha
ocular dos fatos:

– Uns dizem que foi por causa de uma dívida de cinco maços
de cigarro. Tem quem acha que foi uma maconha que gerou os desentendimentos,
mas alguns que estavam perto até falam que foi discussão de
futebol. Tantas teses defendidas que, como diz o outro, jamais será
encontrada a moradia da verdade.

Como Coelho e Barba pertenciam a duas facções rivais das zonas
norte e sul, respectivamente, que há tempos se estranhavam na rotina
do pavilhão, no momento da briga os companheiros alinharam-se em torno
dos dois antagonistas e trocaram ameaças de morte. Na confusão
que se estabeleceu, o pessoal do campo subiu para o segundo andar e o confronto
adquiriu proporções mais sérias.

Seu Jeremias diz que nessas horas de tensão o desfecho depende de
um equilíbrio delicado:

– Em briga de cadeia, doutor, se a coisa passa de um certo ponto, desanda,
e aí só pára depois que morrer uma meia dúzia
de uns três ou quatro.

Para conter os ânimos, os funcionários recolheram os presos
do campo, medida preventiva que facilita trancá-los para evitar o pior,
se necessário. Mas não havia mais condições de
obrigar a malandragem exaltada a entrar nas celas. O conflito era irreversível.
A tensão cresceu tão depressa que Majestade, um dos ladrões
mais respeitados, presidente de Esportes do pavilhão, um dos últimos
a deixar o campo, ao chegar com as bolas e a rede nem tentou dialogar com
os mais novos, como habitualmente fazia nesses momentos:

– Parecia feira de peixe, doutor. Quando está assim, é bobagem
querer apaziguar. O sangue ferve e fica todo mundo desvairado.

Subi na minha, mas em vista das facas que estão passando na escada,
bateu no meu presságio de que aquilo não vai acabarlegal.

Quando começou o corre-corre e os gritos de vai morrer, mesmo quem
nada tinha a ver com os acontecimentos acautelou-se. Zelito, um negro alto
e forte que mais tarde conheci na enfermaria cego dos dois olhos pelo gás
lacrimogênio, tirou a faca do esconderijo:

– Eu não tinha nada com aquela zica, mas nunca vi um passa-passa de
bicuda e pau como aquele. Vou desentocar a minha também, pensei comigo.
No meio daquela bagunça podia sobrar para minha pessoa, perfeitamente.
Majestade, que havia escapado vivo da rebelião de 1985, convenceu o
companheiro de xadrez a se recolher:

-Vamos ficar na nossa, até morrer quem tiver que morrer.

A correria e os gritos disseminaram o tumulto pelos andares. Cadeia é
como panela de pressão: quando explode, impossível conter.

Adelmiro, um filho de portugueses atarracado, cujo tio tinha um desmanche
na Água Rasa em sociedade com um delegado, ao cruzar com um funcionário
que contra o regulamento trazia as cartas endereçadas a ele sem passar
pela censura administrativa, murmurou discreto, para não ser acusado
de traidor pelos companheiros:

– Desce que está embaçado, chefão.

O carcereiro entendeu o recado e desceu rápido para o pátio
interno, onde estavam cerca de dez colegas, impotentes diante das dimensões
do tumulto. Atrás dele veio um bando de detentos com capuzes do tipo
ninja e começou a depredar a Carceragem na esperança de destruir
os próprios prontuários criminais.

Os funcionários de plantão contam que nessa hora ocorreu a
primeira baixa no grupo da zona norte e que a esta se seguiram outras de ambos
os lados, em retaliação. Mais tarde, a Pm afirmou ter encontrado
mortos ao invadir o pavilhão. Na versão dos presos, ninguém
morreu no acerto de contas.

Outra divergência envolve a saída dos funcionários do
pavilhão amotinado. Há quem diga que a pequena equipe de plantão,
para não correr o risco de cair refém, abandonou o pavilhão
e trancou a porta de fora. Os carcereiros envolvidos afirmam que a Pm, alertada
pelos guardas da muralha, já estava no presídio e deu ordem
para que eles saíssem.

De qualquer modo, com a ausência dos guardas, o pavilhão caiu
nas mãos dos rebelados. Logo o Nove, onde vai parar principalmente
a garotada presa pela primeira vez. Gente sem experiência de cadeia,
como o Nardão, um ladrãozinho principiante que aderiu porque,
por coincidência, tinha tomado um baque de cocaína no xadrez
quando começou o alvoroço:

– A cadeia caiu no nosso poder. Digo nosso porque, naquela circunstância,
nós está tudo envolvido. Aí protestamos contra a nossa
melhoria, que o ambiente já não vinha do melhor, muitos manos
querendo transferência, cara com a Colônia assinada, pena vencida,
as visitas um pinguinho só, e já era.

É verdade, há tempos os funcionários alertavam que
o ambiente no Nove deixava a desejar, mas fazer o quê? Num pavilhão
daqueles, na época com 2 mil homens espremidos feito sardinha, fases
mais tensas aconteciam periodicamente. Como adivinhar o momento da explosão?
Excluídos os mais sensatos, que se trancaram nos xadrezes, os outros
armaram um berreiro infernal, faca, pau, cano de ferro e quebra-quebra, correndo
descontrolados, contagiando a massa com a excitação, feito estouro
de boiada. Naquele momento, Santão, o rapaz sem a orelha direita que
montava o equipamento nas palestras no cinema, cumprindo dezoito anos de uma
pena que acabaria em fevereiro do ano seguinte, olhou pela janela do xadrez
e viu o pelotão de Choque enfileirado na porta de fora do pavilhão,
de máscara ninja cobrindo o rosto, escudo, metralhadora e a cachorrada.

Nos andares, agitados como formigas antes do temporal, os detentos queimavam
e destruíam o que estivesse ao alcance. Alguns aproveitavam velhas
rixas para saquear xadrezes alheios, provocando retaliação por
parte dos saqueados.

Mais tarde o irracionalismo da turba teria conseqüências desastrosas,
como observou Ôrra Meu, um faxina de pescoço longo como os de
Modigliani e sotaque italianado característico do bairro da Mooca,
preso num caminhão de lenha que trazia maconha de Pernambuco para um
armazém da Vila Matilde:

– õrra, meu, a bem dizer verdade, bagunçamos mesmo, normal.
Nessa, que uns imbecil se apossaram de umas latonas de óleo da Faxina
e derramaram tudo na escada para a polícia escorregar. Digo imbecil
porque são muito burros os caras, meu. Mais tarde a armadilha se voltaria
contra nós próprios.

Enquanto isso, oficiais da Polícia Militar, acompanhados de autoridades
judiciárias, assumiam o comando da cadeia. O diretor ainda tentou convencê-los
a deixá-lo dialogar com os prisioneiros. De fato, chegou até
a porta que dá acesso ao pátio externo do Nove, mas, antes que
pudesse entrar, a Pm em formação militar atrás dele disparou
portão adentro. Só podem contar o que se passou daí em
diante, como diz o dr. Pedrosa:

– A Pm, os presos e Deus. Ouvi apenas os presos. Segundo eles, tudo aconteceu
como está relatado a seguir.

O ATAQUE

Recolhido em seu xadrez, Majestade, corintiano fanático desde criança,
como o tio que o levava para assistir aos treinos no Parque São Jorge,
escutou a Pm anunciar do térreo:

– Entra todo mundo no xadrez que nós vamos invadir. Segundo os relatos,
os presos obedeceram, pois, como dízem, é tradição
na cadeia:

– A gente pode ser tudo ignorante, ladrão, malandro, mas burro não.
Ninguém gosta de morrer. Quando a Pm invade, todo mundo corre para
o xadrez, que os homens vêm de coturno, cachorro e calçado nas
armas. Não tem condição de encarar eles na galeria com
faca e pedaço de pau. No terceiro andar, ao ouvir o aviso para sair
da galeria, Dadá, um ladrão de Carapicuíba que sobreviveu
a seis tiros de um justiceiro contratado pelos comerciantes do bairro, único
desencaminhado numa família de crentes praticantes e que na véspera
havia recebido uma carta da mãe pedindo-lhe que não deixasse
de ler na Bíblia o Salmo 9 1, teve uma impressão falsa:

– Estava meio sinistro. Vinha uma pá de polícia de máscara,
só com os olhos de fora, metralhadora, latido de cachorro e um helicóptero
abaixando bem baixinho, com um cano para fora. já entraram no andar
de baixo atirando, mas eu, idiota, achei que era bala de festim.

Dadá correu para sua cela, onde encontrou mais treze pessoas tentando
se esconder dos invasores, como ele. Achou um canto atrás de um pequeno
muro junto à pia e se agachou.

Não esperou muito nessa posição incômoda. O Choque
chegou depressa no terceiro andar. Pelos gritos, então, percebeu que
as balas não eram inofensivas como havia imaginado:

– Vocês não me chamaram? Não pediram a morte? E é
só barulho de rajada. Os infelizes que moscaram para se esconder foram
os primeiros a cair. Era tiro seco e grito de pelo amor de Deus! Nós
quietinhos no xadrez, eu feito avestruz, sem coragem para levantar a cabeça
de trás da pilastrinha da pia.

A morte correu pela galeria e chegou na porta de sua cela:

– Um polícia abriu o guichezinho da porta, enfiou a metralhadora
e gritou: Surpresa, chegou o diabo para carregar vocês para o inferno!
Deu duas rajadas para lá e para cá. Encheu o barraco de fumaça,
maior cheirão de pólvora. Só fui perceber que estava
vivo quando senti um quente pingando nas costas. Era sangue, na hora até
pensei que fosse meu. Olhei para os parceiros, tudo esfumaçado, furado
de bala, pondo sangue pela boca. Morreram onze, escapei só eu, com
um tiro de raspão no pescoço, e um companheiro da Cohab de Itaquera,
ó, ileso, maior sorte.

No segundo andar, Jacó, um dos faxineiros do Nove, baixinho de fala
ágil, traficante de cocaína que se orgulhava de fazer negocios
por telefone, sem sequer tocar na droga, escapou por pouco:

– Foi o maior panico, todo mundo correu para o xadrez.

Eles vinham intencionados de matar a Faxina inteira. Assim que apareceram
no segundo andar, um Pm
gritou: Vamos dar fim nesses filhos da puta da Faxina!

Por não conhecer a cadeia, entretanto, os soldados pegaram a galeria
no sentido oposto ao das celas dos faxineiros. Sorte de Jacó e azar
do carteiro, que foi o primeiro a morrer; justamente ele, sobrevivente daquele
caso em que os carcereiros de um distrito da capital trancaram mais de cinqüenta
homens numa cela apertada, matando dezoito por asfixia. Depois do carteiro,
vieram os outros da mesma ala.

Em seu xadrez, Majestade, vendo confirmada a premonição, sentou-se
num banquinho com os cotovelos apoiados nos joelhos e a cabeça grisalha
entre as mãos, o olhar na direção dos pés. O companheiro,
apavorado, tremia no canto da cama. Quando a porta da cela foi aberta, Majestade
permaneceu estático, de cabeça baixa.

Pelo canto dos olhos viu apenas o coturno do policial e esperou o tiro de
misericórdia na nuca:

– Depois de uma eternidade, ele perguntou se a gente estava na bagunça.
Expliquei que eu não era criança, sem levantar os olhos do chão,
que nós só mexia com esporte, que ele podia ver as bolas espalhadas
no xadrez. O Pm ficou quieto, eu esperando o tiro. Aí o coturno deu
meia-volta na direção da galeria e eu ouvi o companheiro caindo
no choro descontrolado. Continuei feito estátua.

Os vizinhos de cela de Majestade não tiveram a mesma sorte. Entre
eles, o centro-avante do Furacão 2000, que momentos antes da rebelião
estava radiante com os cinco gols marcados contra Marcão, goleiro do
Burgo Paulista (que também encontrou a morte), e com a perspectiva
da liberdade na terça-feira seguinte.
No quinto andar, num xadrez com nove pessoas, morreram sete, inclusive dois
irmãos cariocas, presos uma semana antes após assaltar um motorista
na Castelo Branco, para voltar ao Rio e assistir ao casamento de uma prima:

– Morreu um sentado na cama e o outro no apavoro.

Nesse xadrez, Salário Mínimo, um ladrão condenado pelo
latrocínio de dois policiais em Itapevi, conseguiu sobreviver graças
à baixa estatura. No meio do tiroteio, encolheu-se num canto e puxou
para cima do seu o corpo enorme de Rambo, o primeiro a cair morto na cela.

Passava das três da tarde quando a Pm invadiu o pavilhão Nove.
O ataque foi desfechado com precisão milítar: rápido
e letal. A violência da ação não deu chance para
defesa. Embora tenha sobrado para todos, as baixas mais pesadas ocorreram
no terceiro e no quinto andar. Cerca de trinta minutos depois de ordenada
a invasão, nas galerias cheias de fumaça ouviram-se gritos de
“Pára, pelo amor de Deus! Não é para matar! já
chega, acabou! Acabou!”.

Uma depois da outra, as metralhadoras silenciaram.

O RESCALDO

Quando os tiros calaram, caiu um silêncio de morte na galeria.

Atrás do murinho, Dadá só pensava no desgosto da mãe
com a morte dele e no arrependimento por não ter lido o Salmo 91. Minutos
depois, escutou passos de coturno:

– Quem está vivo, levanta, tira a roupa e sai pelado! Ergueram-se
o Itaquera e ele:

– Ainda tentei reavivar um companheiro que eu conhecia da rua, mas ele já
estava de olho virado. Saí para a galeria. Maior esgano, ó,
um corredor polonês de Pm: corre, corre! Levei paulada nas costas e
pontapé nas pernas.

Quando chegou na gaiola, antes da escada, um policial soltou um pastor preto
que pulou no pescoço do ladrão ferido. Dadá deu uma finta
no animal e escapou para a escada, mas levou um chute que veio não
sabe de onde, desequilibrou-se nos degraus lambuzados de óleo, caiu
e bateu a cabeça. O pastor veio em cima:

– O tombo causou um branco na mente. Foi até bom, porque na hora
nem senti as mordidas do cachorro nas pernas e no testículo.

Acordou com o cassetete do Pm:

– Levanta, vagabundo, mão na cabeça!

Como Dadá, os demais sobreviventes tiraram a roupa e correram no
meio da pancadaria, escada abaixo, escorregando no óleo e no sangue
derramado, com os cachorros no encalço.

Jacó, o traficante por telefone, diz que não houve espaço
para altruísmo:

– Saí do xadrez e o cachorro veio atrás. Quando ia me alcançar,
desviei por trás de um companheiro mais gordo, de modo que ele ficou
entre a fera e eu. Infelizmente para ele, coitado, que tomou uma mordida no
braço, que nem rodando o animal no ar ele largava. Não tive
condições de socorrer o rapaz, porque ali era cada um por si
e Deus por quem Ele julgava merecedor.
Majestade controlou os nervos, a cabeça entre as mãos, até
ouvir a ordem de descer:

– Saí desabalado, para escapar da pancadaria. A pressa foi tão
nervosa que, ó, esqueci de tirar a roupa.
Desceu as escadas de bermuda e a inseparável camisa do Corinthians.
Quando chegou no pátio interno, havia um Pm com a metralhadora apontada
para os que desciam. Entre as pernas do policial jazia um homem morto, com
sangue escorrendo pela boca. Era o Santão, que nos ajudava no cinema.
Apesar do tempo de cadeia, Majestade tomou um choque ao ver o corpo do amigo:

– Quando vi o Santão ali, feito troféu no meio das pernas
do Pm com a metranca, meu raciocínio paralisou. Ao vê-lo de roupa,
o policial soltou a trava da arma:

– ó, corintiano mosca-de-boi, está vestido por quê?

Ao ouvir o som do destrave, Majestade e todos os que estavam perto jogaram-se
no chão, um por cima dos outros. Ele diz que nunca tirou a roupa mais
depressa:

– Mergulhei de peito no chão e já levantei pelado. Os policiais
dispuseram a massa em fila no pátio interno do pavilhão e ordenaram
que todos sentassem com os braços cruzados sob as coxas e a cabeça
entre os joelhos. Quem levantasse o olhar para ver o que se passava, tomava
cacetada e mordida dos pastores alemães.

Ficaram horas sentados no pátio, pelados, em silêncio, com
a Pm e os cachorros excitados em volta. Quietinho, preocupado apenas em preservar
a vida, Chico Heliópolis, ladrão da favela de mesmo nome, perdeu
a corrente de ouro e a santa protetora que ganhou da madrinha na primeira
comunhão:

– O Pm abaixou do meu lado: vê se é bom fazer isso com os outros,
seu vagabundo, e arrancou a correntinha do meu pescoço. Justamente
eu que só roubei firma, banco e mansão e nunca me sujei por
coisa miúda. Lá pelas dez da noite a Pm tomou posição
na escada e nas galerias e começou a recolher os presos. Subiram os
cinqüenta ou sessenta da primeira fila. Minutos depois, mais tiros, gritos
e latidos.

No pátio, com medo das balas, os homens procuravam se arrastar, discretamente,
para as filas de trás. Gaguinho, um apontador de jogo do bicho e vendedor
de maconha que trabalhava na copa dos funcionários, descreveu assim
o caminho de volta:

– Na subida da escada, tem uma coisa interessante: estava lavado de sangue,
um monte de cadáver espalhado. Não podia parar a fila, os polícias
mandavam correr e ameaçavam: se alguém me espirrar sangue, vai
morrer! Tinha que correr descalço naquela sangueira, sem levantar os
pés para não sujar os elementos, que eles queriam achar pretexto
pra matar.

A aversão dos policiais pelo sangue derramado custou a vida de vários
desastrados, como explicou Isaías, um ladrão que perdeu o movimento
do braço esquerdo por overdose de crack e anos depois morreu de tuberculose
na enfermaria:

– Tudo alucinante, na velocidade, e ainda mandava nós gritar: Viva
o Choque! Viva o Choque! Um tiozinho que vinha, em vez de pisar num finado
estendido na passagem, desviou para o lado do polícia encostado na
parede, só que pisou na poça de sangue e espirrou na calça
do cidadão. O polícia não teve dúvida: parou a
escada na hora e pou, pou, dois tiros, na frente de todo mundo. Atirou, puxou
o corpo de lado e gritou para um preso de óculos que vinha em seguida
na fila:

– Você aí, carrega esse cadáver lá para baixo!
Nesse momento, a mente do finado deve ter entrado em pane, porque ele caiu
no choro e disse que não tinha coragem. Ah! Você não vai,
é? Deu um tiro seco, que só não foi à queima-roupa
porque o rapaz estava pelado, como todos nós. Numa fração
de segundo, já virou para a fila: Não pára! não
pára!
Os homens foram distribuídos ao acaso nos xadrezes. Em cada um, colocavam
o máximo possível, trancavam e lotavam o seguinte, até
prenderem todos.
Os corpos tiveram que ser carregados para o térreo pelos próprios
presos. Jacó, o baixinho que traficava por telefone, foi um dos carregadores.

– Chegaram para mim e mais quatro: Vocês; aí, podem catar os
cadáveres da galeria do segundo andar e levar pra Escola, lá
embaixo! A gente pegava nas pernas e nos braços e descia. Tudo depressa,
com os polícias apavorando.

A essa altura, embora os acontecimentos já lhe tivessem anestesiado
o medo da morte, Jacó se preocupou por estar descalço, com os
pés esfolados do futebol:

– Tanto Hiv na cadeia, se escapar vivo vou acabar pegando AIDs. Foi quando
um PM mandou a gente empilhar direito os corpos, na Escola, que estava a maior
bagunça de braço e perna, as cabeças cada uma para um
lado. Nisso que ele está falando, alguém se mexeu na pilha.
Ele foi dar uma coronhada de metralhadora no cara e se distraiu, aonde que
eu me aproveitei e deitei num cantinho, no meio dos falecidos. Ficou imóvel
na brecha entre os corpos, com a respiração quase presa, até
que os quatro entraram com o último cadáver. O Pm se dirigiu
a eles:

– Terminou? Eles responderam que sim. Rã, rã, rã, rajou
os quatro. Caíram duro por cima dos próprios companheiros que
a gente tinha carregado.

Enquanto o medo da AIDS salvava a vida de Jacó, um oficial da Pm
dava ordem para Dadá descer os corpos do terceiro andar:

Só na gaiola do terceiro tinha uns trinta cadáveres amontoados.
A pilha tinha quase dois metros de altura. Descemos eles para o carro do IML
estacionado na entrada. já estavam até rijos, com uns arrombos
no peito. Quando Dadá e os companheiros acabaram, o tenente mandou
chamá-lo:

– Vem cá, vagabundo, você está em latrocínio
de polícia,
– Eu, não senhor, vim preso de laranja.
– Você matou polícia, sim, não me engana!
– Nunca matei ninguém, senhor, minha pena é pouquinha, três
anos só. Caí de laranja.
– Então, antes que eu me arrependa, sobe com essa fila aí. Sai
da minha presença, que você vai pegar o maior boi porque tem
a cara do meu filho mais velho! Mais tarde o ladrão de Carapicuíba
deu graças a Deus pela semelhança física com o primogênito
do militar:

– Eu tirei a noção de que o filho dele me salvou a vida, depois
de ver que os demais carregadores sumiram para sempre.

Com os presos trancados, os carros da polícia e do imi transportaram
os mortos até tarde da noite. Nas celas o ambiente era trágico,
diz Dadá:

– Não conseguimos dormir dentro do barraco. Uma, porque nós
ficamos perturbadíssimos, e, outra, que o cheiro de carniça
era forte; o chão estava de sangue até o rodapé. Só
no dia seguinte é que limpamos tudo, e eu arranjei uma Bíblia.

No livro sagrado, Dadá finalmente leu o Salmo 91 recomendado pela
mãe na véspera, e diz que chorou feito criança com o
trecho:

– Mil cairão a teu lado e dez mil à tua direita, mas tu não
serás atingido; nada chegará a tua tenda.
No dia 2 de outubro de 1992, morreram 111 homens no pavilhão Nove,
segundo a versão oficial. Os presos afirmam que foram mais de duzentos
e cinqüenta, contados os que saíram feridos e nunca retornaram.
Nos números oficiais não há referência a feridos.
Não houve mortes entre os policiais militares.

Bárbara

No Amarelo

Conheci Bárbara gripada, de calça justa e um nó na blusa
acima do umbigo. Tinha um brinco só, uma borboleta colorida tatuada
no pescoço e um morango na nádega esquerda, parcialmente escondido
pela calcinha de renda.

Foi no lugar mais lúgubre do Carandiru: o Amarelo, galeria escura
de paredes úmidas, com vinte celas de cada lado do corredor central,
no último andar do Pavilhão Cinco. Para lá vão
os marcados para morrer, gente que desrespeitou as leis do crime: estupradores,
delatores, uma multidão de craqueiros insolventes e ladrões
que ludibriaram comparsas ou deitaram na cama da mulher de algum companheiro
preso.

No Amarelo, as celas têm dois metros e pouco de largura por três
metros de comprimento e ficam trancadas as vinte e quatro horas do dia. O
visitante que vem pela galeria não tem acesso visual ao interior. A
porta de entrada é de ferro maciço, com um pequeno guichê
central fechado por dentro. Através dele, a malandragem esgueira a
cabeça para bisbilhotar, trocar uma idéia cara a cara com o
vizinho e passar mercadoria pelo fio de barbante.

A pintura encardida das celas exibe as manchas das cabeças que nela
encostaram. No alto da parede oposta à porta, meia dúzia de
grades grossas constitui o único acesso ao mundo exterior. A paisagem
são as janelas das outras três faces que completam o quadrilátero
interno do pavilhão e um pedaço de céu no alto.

Naquela época, cumpriam pena no Amarelo quase seiscentos homens para
lá transferidos por livre e espontânea vontade. Sete, oito, doze,
às vezes, num espaço restrito, nublado de fumaça de cigarro.
Ociosos, sentados no chão durante o dia e deitados em colchonetes de
espuma à noite; um corpo para lá, outro para cá, invertidos,
a cabeça de cada um voltada para os pés do companheiro, porque
dois malandros jamais dormem com os rostos virados um para o outro.

Sol, apenas aos sábados, das oito ao meio dia. Nesse dia, o pavilhão
inteiro amanhece fechado para que eles possam descer ao pátio sem risco.
Mesmo assim, muitos abrem mão desse direito, preferem continuar trancados.
São homens precavidos, empenhados em sair com vida da cadeia.

Às segundas-feiras, com o auxílio do enfermeiro voluntário
Paulo Preto, homem livre como eu, e do Faustino, um preso do Amarelo, eu atendia
os habitantes do setor. Quando chegávamos ao quinto andar, um funcionário
abria as duas portas que dão acesso à galeria central e nos
trancava lá dentro. À noite, para sair, gritávamos para
ele trazer as chaves.

Fim

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