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Inéditos e Esparsos

Júlio Dinis

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Carta do Visconde de Castilho a Júlio Dinis acerca
do seu romance Uma Família Inglesa, transcrita, por amável concessão
do Sr. Visconde de Castilho Quito), das Novas Telas Literárias (vol.
IIP (1).)

Ex.mo Sr. Joaquim Guilherme Gomes Coelho.

Recebi, mas só muitos dias depois, o exemplar, com que V. Ex."
me obsequiou, do seu romance Uma Família Inglesa.

Dizer a V. Ex." que nos lançámos a ele com verdadeira
sofreguidão, fora uma superfluidade; acrescentar que o levámos
de um fôlego, sem a mínima distracção, até
à última página, e que depois dela nos estava ainda inteiro
o apetite para o dobro, ou o triplo, outra superfluidade não menos
escusada.

Sim senhor: a sua inglesinha não é menos para amores que a
Margarida. Esta sua segunda filha há-de-lhe dar tanta glória
como a primogénita; e se lha não der maior, é porque
não pode ser.

Coisa muito para se citar com louvor e admiração neste seu
novo livro, é (quanto a mim) que, sendo tão sóbrio o
enredo, e tão pequeno o teatro da acção, o interesse
dela é todavia dos mais poderosos.

0 talento real foi sempre assim, e assim é também em todos
os seus poemas a Natureza: de elementos mínimos compõe, sem
esforços nem violência, os máximos efeitos.

Deus o conserve (e já se vê que o há-de conservar até
ao fim) no óptimo sistema que adoptou.

Outros que o elogiem (e com esses também eu faço coro) como
escritor de romances já distintíssimo, não só
para entre nós. Eu, por cima desse mérito, reconheço-lhe
ainda o de filósofo e moralista, que algum dia tem de ser colocado
entre os de primeira plana. Teófrasto e La Bruyère não
debuxaram com mais exacção os caracteres. Balzac mesmo não
lê mais por dentro nos indivíduos. V. Ex.a, além do esmero
com que nos pinta o mundo exterior, e nos fotografa a sociedade, tem.

NOTAS

Colhidas de um livro manuscrito.

PRINCIPIEI a escrever as «Pupilas» em Ovar (1863) durante os
meses de Julho e Agosto. Terminei-as no Porto em Setembro ou Outubro. Ficaram-me
na gaveta até ao ano de 1866 em que solvi publicá-las. Alterei
bastante o romance e ampliei-o introduzindo- lhe personagens e capítulos
novos. Publicou-se em 1866 de Março a Julho. Publicou-se em volume
em Outubro de 1867. O primeiro exemplar brochado em 20 de Outubro.

Os primeiros factos da minha existência literária remontam
aos 11 anos. Não os recordo porque pretenda persuadir-te que efectivamente
de algum valor eram já essas façanhas de criança, mas
tão somente para me darem ensejo de fazer algumas reflexões
sobre os motivos principais que podem actuar sobre a inspiração
nascente e criar o gosto pelas letras; assim como, mais tarde, apreciar as
causas que podem educá-lo em melhor caminho.

Permite-me que te recorde alguns factos da minha vida.

Sabes que aos 5 anos fiquei sem mãe, que a nossa vida de família…

…(Não continua).

P. — Um homem que doma feras como está mais sujeito a morrer
? R. — De uma dor. (Domador).

P. — Que basta a qualquer para enriquecer ? R. — Ser Henrique.
(Enrique-cer).

P, — Em que dia do ano tocam melhor os sinos ? R. — No dia de
defuntos porque tocam todos a finados. (Afinados).

P. — Para que serve a cal na artilharia ? R. — Para fazer peças
de cal e bronze. (Calibre onze).

P. — Qual é o exemplo de um homem inevitavelmente incurável
? R. — Um abade sem cura. (Coadjutor).

Principiei a escrever «Os Fidalgos da Casa Mourisca», no Funchal,
em Março de 1869. Levava-o em meio do capitulo 8.° quando voltei
ao Porto em Maio do mesmo ano. Trabalhei no Porto e escrevi-o até princípios
do capítulo 17, desde Junho até Outubro, época em que
voltei para a Madeira. Concluí-o no Funchal em 11 de Abril de 1870.

Levei-o manuscrito para o Porto. Principiei a copiá-lo aí
e levei a revisão e cópia até ao capítulo 22.
Concluí este segundo trabalho no Funchal a 27 de Novembro de 1870.

AUSÊNCIAS

ACTO I

1863 — Ovar.

1864 — Felgueiras, Amarante, Leiria, Alcobaça, Batalha, Nazaré,
Aveiro, Ovar.

1865 — Felgueiras, 1866 — 1867 — Aveiro, Ovar, Vila do
Conde, Póvoa.

1868 — Matosinhos, Leça, Lisboa.

1869 — Lisboa, Funchal, Coimbra, Fânzeres.

1869-1870 —Lisboa, Funchal.

Quando uma nação forte e vigorosa, no gozo da sua autonomia,
respirando a aura vivificadora da liberdade, é invadida pela agressão
estrangeira; quando o despotismo e a servidão se aproximam, a campo
descoberto, dos seus muros, estes transformam-se em baluartes, a reacção
é pronta e eficaz, cada indivíduo é um soldado, cada
soldado cinge-se da coroa dos heróis e o sangue, patriótica
e generosamente vertido no altar da pátria, reverdece salutarmente
as palmas da vitória.

Mas se o mal se aproximou obscura e lentamente, se o veneno se inoculou
gota a gota nos espíritos, pervertendo-os, infeccionando-os; se rastejou
como a serpente; se a falsa doutrina foi insidiosamente segredada no confessionário,
pregada do púlpito, administrada em sacrílega comunhão
com a hóstia consagrada; se as gerações novas a bebem
na educação, dirigida por a hipocrisia, a vida da nação
definha, os espíritos aviltam-se, os sentimentos nobres perdem-se,
a alma adormece voluptuosamente numa inacção vergonhosa ou,
se um dia um excesso de opressão a faz acordar, se pretende reagir,
o esforço momentâneo não a salva, antes acaba de a deprimir.

A luta é ainda gloriosa, mas improfícua e talvez prejudicial.
Disto, a Europa nos ofereceu há pouco um triste exemplo.

No mundo fisiológico há também umas e outras destas
comoções, bem comparáveis às comoções
políticas a que nos referimos. Às vezes o mal vem do exterior,
acomete subitamente, violento sim, mas declarado, franco, sumário.
Então a economia, na presença do perigo, rica de todos os seus
recursos, forte de toda a sua energia, põe em jogo toda a sua actividade
de que está de posse. E o combate trava-se, pronto, violento, muitas
vezes eficaz. A febre é o tipo destas revoluções fisiológicas.

Mas se as causas obraram lentamente, se desde o primeiro e misterioso instante
da existência, esse momento que encerra séculos, o da fecundação,
se assenhoreou da organização, se perverteu o leite materno,
se infeccionou as fontes de toda a substância, viciando o ar, envenenando
as águas… então o organismo cede-lhe pouco a pouco, segue,
sem reagir, um plano de vida mórbida, ou, quando reage, está
longe de manifestar aquelas eficazes e salutares sinergias que decidem os
fenómenos mórbidos como se estivessem despedaçados os
laços da unidade vital. É uma reacção anormal,
irregular, aquela que muitas vezes afronta (?) a subjeição do
corpo. (?) Os organismos, em certas moléstias crónicas, são
um exemplo destas outras comoções.

Baixou do ministério do reino aos estabelecimentos de instrução
superior uma portaria mandando-os consultar sobre um plano geral de reforma
e nela o ministro deixou transparecer o seu pensamento em relação
aos destinos de cada um desses estabelecimentos.

Prepara-se pois uma reforma radical na instrução pública
do País; desde a instrução primária, a tão
descurada sempre dos nossos governos, até à instrução
superior, tão longe ainda entre nós do que devia ser. A portaria
é a aurora de um clarão que promete iluminar- -nos para a legislatura
seguinte; faremos votos para que não seja apenas uma aurora boreal,
como a que aparece aos navegadores dos mares do norte para, momentos depois,
se resolver em trevas.

O convite que o ministério do reino fez às escolas e às
academias, vimos nós fazê-lo aqui a toda a Imprensa, a todos
os publicistas, a todos os pensadores do reino e principalmente aos das províncias
do norte, que mais que nenhuns têm razões para se ocuparem desta
tentativa de reforma.

O nosso país é pequeno em área; mas ainda assim parece
que já não é um só o dialecto que se fala em todas
as regiões dele. Palavras há que, segundo as latitudes em que
se pronunciam, assim tomam diversas acepções.

A palavra reforma está neste caso.

Quando pelas secretarias do Terreiro do Paço, pelos gabinetes dos
ministros, pelas salas e corredores das duas câmaras e pelas praças
e teatros principia a vogar esta palavra — reforma — os ouvidos
da capita! escutam-na com prazer; mas, se os ventos a transmitem às
províncias, se os ecos da Imprensa a repercutem, é raro que
não estremeçam de apreensões os espíritos menos
timoratos.

De onde provém esta diferença? É que ha muito as reformas
manifestam-se em Lisboa por amplia ção nos quadros dos funcionários,
aumento da despesa pública, elevação das cifras de vencimentos,
criação de sinecuras, com que a proverbial indolência
dos nossos compatriotas do sul se pressente lisonjeada.

Para nós, porém, os que vivemos longe do sol, aquele belo
e fomentador sol da capital, diversa e quase antinómica acepção
tem a palavra, quando a procuramos no dicionário, que por experiência
sabemos ser o mais fiel.

Em tudo é assim. Como a antiga Roma, que fora da sua cidade não
via senão países bárbaros, Lisboa para lá dos
seus muros, esquece que existe o País e procura só por si absorver
tudo.

We view the world with our own eyes, each of us; and we make from wifhin
us the world we see. A weary heart gets no gladness out of sunshine; a selfish
man is sceptical about friendship, as a man with no ear doesn’t care for music.

Thackeray — The english humourísts of the eighteen
century (pág. 39 Swift).

Les éléments de la conjecture au sujet de telle ou telle action
sont, d’une part, ce que l’on croit savoir du caractere de celui qui l’a fait;
de 1’autre, le caractere de celui qui la juge. Les bons supposent volontiers
de bons motifs; les méchants ou les sots en supposent de méchants
ou de sots. De même qu’on ne trouve dans un livre qu’autant d’esprit
que l’on en a, on ne peut aussi sentir que dans la mesure de son propre mérite
ou de sa propre délicatesse, le mérite et la délicatesse
d’autrui. Attendez-vous donc à ce que les gents sans esprit et sans
cceur, c’est-à-dire un três grand nombre de gens, supposent à
vos actions les motifs mesqums qui réglent les leurs.

Émile Deschanel — Étude sur le Rochefoucauld.

Causou-me vivo prazer a leitura dos dois trechos que transcrevi, por me ter
encontrado no pensamento com os seus ilustres autores, quando escrevi na Morgadinha:
«É uma triste verdade esta da pouca ou nenhuma fé que
se tem no desinteresse dos outros!

«Não há explicação mais difícil
de ser recebida do que a que se fundamenta em um sentimento nobre de abnegação
ou de generosidade, «É preciso que duvidemos muito de nós
mesmos para assim desconfiarmos do próximo. Porque afinal o que é
verdade, é que a mais exacta e infalível ciência do coração
humano só se adquire pelo estudo do próprio coração;
esse é o único que nos está bem patente. É por
isso que as melhores almas são de ordinário as mais crentes.

«Um homem a quem a desconfiança tenazmente escuda contra todas
as aparências de virtude, ainda as mais insinuantes, tem já tão
inquinado o coração como supõe o dos outros.»

Li ainda no estudo de Deschanel:

Chamfort conte quelque part ceci: «Mr. Th. me disait un jour qu’en
general dans la société, lorsqu’on avait fait quelque action
honnête et courageuse par un motif digne d’elle, c’est-à-dire
três noble, il fallait que celui qui avait fait cette action lui prétat,
pour adoucir l’envie, quelque motif moins honnête et plus vulgaíre.

Este pensamento devido a um autor desconhecido, igualmente me causou satisfação
por haver também posto na boca de Jenny na Família Inglesa:
«O mundo é assim. Dá-se-lhe a verdadeira explicação
dos factos, raras vezes a acredita. Forja-se outra, às vezes menos
natural e plausível, quase sempre a prefere. Principalmente se a verdadeira
é generosa e nobre e a falsa interesseira e mesquinha.» E na
de Mr. Richard: «E julgas tu que a gratidão é facto mais
natural para o mundo do que a iniciativa no benefício? Se subtraíres
da explicação o elemento interesse, o facto será incompreensível.»

Quand un discours naturel peint une passion ou un effet, on trouve dans soi
même la vérité de ce qu’on entend, qu’y était sans
qu’on le sut, et on se sent porte à aimer celui qui nous le fait sentir.
Car il ne nous fait pas montre de son bien, mais du notre et ainsi ce bienfait
nous le rend aimable; outre que cette communauté d’intélligence
que nous avons avec lui, incline nécessairement le coeur à 1’aimer.

Pascal — Pensées VII du 1 article — Edit.
Bibl. Nation., pág. 33.

Quand on voit le style naturel on est tout étonné et ravi;
car on s’attendait de voir un auteur et on trouve un homme; au lieu que ceux
qui ont le goút bon et qui en voyant un livre croient voir un homme,
sont surpris de trouver un auteur plus poetico quam humane locuttes est.

Idem VIII, pág. 33.

II y en a qui masquent toute la nature. II n’y a point de roi parmi eux,
mais un auguste monarque; point de Paris, mais une capitale de royaume. II
y a des endroits ou il faut appeler Paris, Paris, et d’autres ou il faut l’appeler
capitale du royaume.

Idem IX, pág. 34.

Transcrevi estes pensamentos de Pascal por me parecerem mais segura guia
literária do que os conselhos que me deram alguns críticos em
público e em particular, de ataviar mais o meu estilo nos romances
que escrevo porque o achavam demasiado desornado. Em contraposição
tinha a maioria dos leitores a convencer-me de que o êxito de alguns
dos meus livros era principalmente devido a essa pobreza de ornatos e arabescos,
que me apontavam os censores. Muita vez ouvi dizerem-me que liam com prazer
os romances que eu escrevia porque os entendiam do princípio até
ao fim. Pareceu-me entrever nos pensamentos de Pascal mais a confirmação
do pensar do vulgo do que o dos críticos.

Funchal, 27 de Outubro.

We are so fond of him because we laugh at him so.

Thackeray — Engl. humourist 100.

Acho um pensamento profundamente verdadeiro nesta frase Thackeray.

* Acabo de ler pela primeira vez na Histoire de Sibylle de Octávio
Feuillet o seguinte: «En été, quand 1’aube s’est levée
radieuse dans un azur ímmaculé, les prernières heures
du jour ont une pureté et un calme que l’on croirait éternels.
Cependant des brises folies se levent tout-à-coup, inclinent les herbes
et agitent le feuiilage, des roseaux blanchâtres s’entrecroisent dans
le ciei d’un horizon à 1’autre, comme des voiles tendus soudain par
de mains invisibles. On s’inquiete et l’on se dit qui pourrait bien venir
de l’orage dans la journée.» Ora em 1866 havia eu escrito na
Família Inglesa, a págs. 268: «No Estio dos nossos climas
amanhece às vezes o dia puro e formosíssimo; o céu é
azul, resplendentes os raios do Sol; tépida e perfumada a viração
que agita as folhas dos arvoredos; pouco a pouco parece que o Sol desmaia,
que desbota o azul do céu, que nos abafa a atmosfera inflamada; acumulam-se
no horizonte e espalham-se depois por todo o firmamento nuvens de um azulado
de chumbo; forma-se a trovoada.» O símile è aplicado por
Octávio Feuillet a indicar-nos a revolução que se operou
na infância de Sibylle, depois dos seis anos.

No meu romance escrevi eu: «Esta manhã de Cecília foi
bem semelhante a um destes dias de Verão.» Com estas e outras
descobertas aprende-se, à custa própria, a não ser precipitado
em atribuir propósitos de plagiário a quem inocentemente muitas
vezes o foi. Ninguém se deve persuadir de que, depois de tantos séculos
de literatura, ainda qualquer possa ter pensamentos ou conceber imagens absolutamente
novos. Esta, de mais a mais, que é já chamada por Octávio
Feuillet une vieille image.

Funchal, Dezembro de 1869.

S’il y avait un lieu dans l’univers ou un homme put n’avoir sous les yeux
que 1’aspect des grandes scènes de la nature et 1’espectacle d’honnêtes
gens, il serait difficile que son âme, si bouleversée qu’on la
suppose, n’y recouvrat pas un peu de paix et de confiance.

Oct. Feuillet — Hist. de Sibylle, pág. 339.

O romancista convencido desta verdade, deve empregar o poder criador da sua
imaginação em realizar esse lugar bem-aventurado, onde se possa
passar mentalmente algum tempo da vida e colher parte dos benéficos
frutos que tão ridente realidade prometeria. O autor das linhas citadas
assim o faz e eu conheço, por experiência, o efeito salutar dos
seus livros.

Pourvu que tout vienne se reunir dans un même noeud facile à
saisir, la simplicité d’une action dépend beaucoup moins du
nombre des intérêts et des personnages qu’y concourent que du
jeu naturel et clair des ressorts qui la font mouvoir. Mais, de plus, il ne
faut jamais oublier que 1’unité par Shakespeare consiste dans une idée
dominante qui, se reproduisant sous diverses formes, ramène, continue,
redouble sans cesse la même impression.

Guizot — Notice sur le Roi Lear

Parece-me verdadeira esta observação do erudito tradutor de
Shakespeare. E se ela se pode admitir em relação ao drama, onde
a acção tem necessidade de se restringir, com muita mais razão
vigora no romance cujo plano é naturalmente mais vasto e permite mais
explanação.

É por isso que não posso concordar com os que taxam de falta
de unidade o meu romance A Morgadinha. Todas as personagens e episódios
nele introduzidos estão ligados por interesses comuns e subordinados
a uma ideia principal. Essa é a unidade que eu procuro sempre realizar.

Funchal—Janeiro de 1870

No difuso e confuso livro de critica de Luciano Cordeiro, lê-se a pág.
240: «O chamado romance de costumes, geralmente variante bucólica
daquela (a feição social), desfastio da literatura burguesa,
sem alcance crítico»… É uma das muitas leviandades e
fraquezas de critério do que a si mesmo se apresenta como o reformador
da crítica.

Os romances de costumes, bem compreendidos, pintando a maneira de viver
e o pensar comum dos povos, sobre serem de irresistível interesse para
a actualidade e os que mais prontamente adquirem os tão disputados
foros de popularidade, são mina preciosa para o estudo da época
fornecida aos vindouros. Se as idades passadas da nossa literatura cultivassem
o género, importante subsídio colheriam nele os historiadores,
que tanto se queixam da aridez das crónicas e dos escritos literários
desses tempos.

Estou convencido de que é mais provável que a posteridade
leia com mais interesse o romance de costumes, que não chega ao alcance
da critica do Sr. Luciano Cordeiro, do que, com seriedade, os ditames, que
uma pretensiosa e pedantesca coorte de rapazelhos, lhe está ditando,
cá do nosso século, como se gozassem do privilégio de
videntes.

Funchal — Março de 1870

Das cartas mencionadas nesta relação existiam
na posse da família de Júlio Dinis apenas as duas que em seguida
se publicam, do poeta portuense Faustino Xavier de Novais.

II.m° Sr.

Rio de Janeiro, 23 de Dezembro de 1867.

Não sei se lhe será completamente estranho o nome que assina
carta. Nessa hipótese vão algumas palavras necessárias
como exórdio ao assunto que me move a escrever-lhe.

Sou natural do Porto, lá passei a infância e a parte melhor
da mocidade. Filho de um pobre e honrado artista tive por brasões os
calos que me deixara nas mãos o uso da ferramenta empregada no trabalho
de ourivesaria, de que vivi muitos anos. Estudei as primeiras letras apenas.
Apareceu-me tarde a paixão pela literatura e se hoje não sou
inteiramente ignorante, devo o pouquíssimo que sei à perseverança
com que me dediquei, em horas vagas, à leitura de bons livros e à
convivência que tive com literatos, e especialmente com Camilo Castelo
Branco, a quem posso chamar mestre, como lhe chamo amigo. Publiquei dois volumes
de versos satíricos e rabisquei por aí muito papel em jornais.

Loucuras do coração me impeliram a deixar a pátria
em 1858, dirigindo-me para aqui, onde me tenho conservado sempre e onde me
esperam sete palmos de terra que o mundo não poderá negar-me.

A minha saída foi traduzida aí como ambição,
ou antes cobiça.

Eu deixei ao mundo a liberdade da tradução, escondendo as minhas
mágoas onde não pudesse perturbá-las o sarcasmo dos moralistas
de máscara.

Tenho sido sempre infeliz, estou pobríssimo e altamente convencido
que assim morrerei.

Cansado de dissabores, vivo retirado do mundo, que só frequento no
exercício de um emprego que me dá a subsistência. Abandonei
a literatura, sem prejuízo para mim nem para ela e perdi de todo a
vontade de escrever. Ao terminar esta página, perguntaria V, S.\ se
tivesse a quem, com que fim o estou eu maçando com esta narração
biográfica. Eu lhe digo. Quis mostrar-lhe que sei ler, que tenho coração
e que sou fanático por Camilo Castelo Branco, para lhe dar depois os
mais sinceros parabéns pelo resultado do seu trabalho literário
As Pupilas do Senhor Reitor.

Ainda não vi aqui anunciado o livro à venda mas foi-me confiado
um exemplar, de cinco que vieram para o Gabinete de Leitura, e li-o com prazer
e com entusiasmo.

Sinceramente lhe digo que hâ muito tempo não encontrei um livro
tão precioso como o seu.

Acresce em mim a circunstância de me serem muito conhecidos os costumes
do campo, que por várias vezes observei de perto e detidamente quando
eu achava poesia em tudo o que a tinha.

Admirei, pois, a extrema verdade das suas descrições e lembrei-
me com saudade de colegas que conheci do Reitor, do João Semana e do
José das Dornas.

É impossível que V. S.* não seja filho do José
das Dornas; mesmo porque dizem os jornais que o autor do romance se chama
Joaquim Guilherme Gomes Coelho e é lente na Escola Médico-Cirúrgica
do Porto. Médico também era o Daniel.

Aceite, pois, os meus sinceros parabéns e creia que conto no número
das minhas mágoas a impossibilidade em que estou de dar-lhe um abraço.

Oxalá que a vida lhe corra próspera e desassombrada e que
a sua robusta inteligência continue, com mais frutos como aquele, a
enriquecer a nossa literatura.

São estes os mais ardentes votos de um homem que V. S." obrigou
a assinar-se

Amigo e ardente admirador Faustino Xavier de Novais,

Amigo Senhor Gomes Coelho.

Rio —Março 23-1868

Satisfez-me, penhorou-me, encantou-me a sua carta de 26 de ‘Fevereiro último.
É o seu retrato moral. De nada mais preciso para avaliá-lo como
homem, como, pelas Pupilas, o tinha avaliado como escritor.

Vejo que compreendeu bem a sinceridade das minhas palavras a carta que lhe
dirigi, inspirada pelo entusiasmo que me causara o eu magnífico livro.

Não sou lisonjeiro nem pretendo mostrar-me. A um literato de grande
e antiga nomeada, não haveria entusiasmo que me impelisse a escrever
naquele sentido, não havendo entre nós relações
de amizade.

Receava que me julgasse adulador, ou charlatão, porque a um homem
notável nunca se apresenta, prestando-lhe homenagem, o obscuro e ignorante.
Nesses casos eu mesmo julgo mal muitas vezes. Se não conheço
de perto o que se apresenta, fico em dúvida se vai ver, ou mostrar-se.
Cedi, pois, ao impulso do entusiasmo que me inspirara o livro, porque a modéstia
do autor se revelava no pseudónimo.

Os seus apontamentos biográficos é que vieram tarde. Quando
lhe escrevi perguntei daqui a meu irmão Miguel Novais se o conhecia
e pedi-lhe informações a seu respeito. Deu-mas imediatamente
recordando- me também a antiga actriz do Teatro de Camões, de
que me lembro perfeitamente. As suas feições de então
desenhava-as eu ainda agora, se fosse conhecedor da arte. As de hoje, porém,
devem ser outras, que eu queria ver copiadas pela fotografia.

Se eu lhe merecesse essa prova de estima! Estou ansioso por ver mais trabalhos
literários seus. Os correspondentes do Porto para os jornais daqui
anunciaram a próxima publicação de outro seu romance,
já publicado em folhetins, intitulado — Uma Família de
Ingleses no Porto.—É verdade que vai aparecer? Desejo-o ardentemente.

Louvo sinceramente a resolução em que está de não
adoptar a literatura como profissão, que o não pode ser em Portugal,
e menos, muito menos, aqui.

Aceite um conselho que lhe oferece a amizade, auxiliada pela experiência.
Conserve sempre essas ideias. Tome como extraordinário o lucro que
lhe advenha da literatura e nunca o espere para ocorrer às necessidades
da vida. A inspiração desaparece no momento em que a atenção
do escritor começa a fixar-se no interesse que lhe dará a sua
obra, calculando antecipadamente a aplicação que há-de
dar ao produto.

Chegada essa ocasião, o escritor não escreve — trabalha.
E esse trabalho é de todos o mais mal remunerado.

Estimei saber que convive ainda com o Augusto Luso e com o Custódio
Passos, duas recordações vivas de dois amigos mortos.

Ainda bem que em ambos sobra o merecimento próprio, diante do que
se modifica a saudade.

Abrace-os em meu nome, assim como ao Nogueira Lima, António Correia
e mais amigos que se lembrarem de mim. Eu recordo-me de todos eles.

Se quiser escrever-me algumas vezes, creia que o prazer de ler as suas cartas
me distrairá do desalento em que vivo, sem esperança em coisa
alguma e, com mágoa o digo, quase sem as crenças que outrora
me tornavam feliz.

Agradecendo-lhe as suas benévolas expressões termino pedindo-
-lhe que no número dos seus afeiçoados conte afoitamente o seu

Amigo e admirador F. X. de Novais

IDEIAS QUE ME OCORREM

Extracto de um livro manuscrito

TENHO ouvido dizer que à índole do romance repugna a lentidão
no suceder das cenas e episódios; que num género de literatura,
como é aquele, o leitor quer depressa chegar ao desenace e impacienta-se
quando o autor entra em profusas descrições, em análises
de caracteres, ou em divagações metafísicas.

Já me apontaram isto em processo de crítica feita a um dos
meus livros.

Examinei com cuidado os argumentos que se apresentaram e, na melhor boa
fé, pensei nisto alguns dias. Acabei por convencer-me de que não
tinham razão os censores.

Se foi bem tirada a conclusão, não sei; mas que a adoptei
com sincera convicção, posso afirmá-lo.

Ainda que suspeito, devo, primeiro que tudo, declarar que não sei
bem por que se há-de julgar o romance uma forma literária menos
grave e perfeita que as outras quando ela pode conter em si, em boa e fecunda
harmonia, as qualidades de todas.

Este descrédito do romance, que seguindo, com mais ou menos fidelidade
os modelos de Walter Scott, é a forma literária verdadeiramente
característica dos nossos tempos, provém dos abusos dos romancistas
que, possuídos por uma falsa ideia, julgaram ser a imaginação
a única base do romance.

Pensaram e pensam estes que o romance é o enredo e esta ideia generalizou-se
e radicou-se a tal ponto que muitos críticos, aliás ilustrados,
fizeram e fazem, talvez irreflectidamente, artigos de legislação
literária inspirados por ela.

Parece-me que a opinião que me suscitou estas reflexões está
nesse caso. O romance é o enredo? tudo o mais são condições
secundárias, elementos indispensáveis para que a acção
principie, para que o nó se aperte e enfim para que o desenlace termine
a obra ? Por isso se clama contra o romancista se a acção não
caminha durante dois, três ou mais capítulos; por isso se diz,
em ar de censura, ao autor, como se a descoberta o devesse desgostar: —já
sei o fim do romance; F. casa com L… M. perdoa ao filho, etc, etc.

Porque é que está em deplorável e espantosa decadência
o romance de imaginação? Porque se tem derrancado o género
até às indigestas e escandalosas produções de
Ponson du Terrail? Exactamente por não pretenderem prender o leitor
senão pela sucessão rápida das peripécias e dos
lances imprevistos.

Nem uma análise de caracteres, nem um curto olhar lançado
ao íntimo do coração humano a devassar o que lá
é de costume encontrar- se e não nenhuma dessas monstruosidades,
que poderiam ter existido num ou noutro coração, mas por excepção,
e que o leitor não tem decerto no seu.

Não caluniem o público dizendo que é só desse
alimento que ele digere. Não é assim. Vós sois que o
alimentais há muito nesse vicioso regímen, que, sem dar sólida
nutrição, estraga o paladar, cuja sensibilidade embotada exige
estímulos cada vez mais acres e irritantes.

Há uma lei do gosto literário em que eu acredito firmemente.

O excepcional, o extravagante, o desregrado não é o que desperta
nos leitores ou nos espectadores o mais verdadeiro, o mais duradouro interesse;
pelo contrário, é o comum, o vulgar na justa acepção
do termo.

Quando encontramos em um livro pensamentos que já tivemos um dia,
sentimos agradável surpresa, como ao darmos em um lugar, inesperadamente,
com uma pessoa conhecida; quando no carácter, no coração
de uma personagem literária há alguma coisa que é nossa,
quando nos reconhecemos em parte personificados numa criação,
redobra o interesse com que o acompanhamos nas peripécias do drama.

É por isso que eu gosto dos romances lentos, em que o autor nos identifica
bem com as personagens entre quem se passa a acção, antes de
a travar.

Depois desta iniciação, creiam-no ou experimentem-no, excita-
-nos mais interesse um simplíssimo drama que se passe entre esses indivíduos,
do que uma violenta e ultradramática tragédia em que tomam parte
personagens que o autor apenas nos faz conhecer pelos nomes.

Querem um exemplo a corroborar a minha opinião, que não é
só minha? Muita vez haveis de ter ouvido contar um caso notável,
acompanhado das mais curiosíssimas circunstâncias, um grande
e horroroso crime, por exemplo, acontecido entre pessoas que vos são
desconhecidas.

O caso é de si bastante para vos espantar, independentemente das
personagens e, efectivamente, por um momento pasmais do que ouvis. Mas a impressão
embota-se, extingue-se e cedo pensais em outra coisa, porque ignorando o carácter
das pessoas a quem mais directamente o caso afecta, não podeis prever
a natureza das paixões (?) que elas suscitaram. Não as conheceis
(?) antes para poder calcular o reflexo psicológico desse facto.

Contem-vos, porém, um acontecimento muito mais simples, um destes
casos comuns na história de todas as famílias, mas que se refere
a pessoas de cujo carácter, de cujo viver, de cujos hábitos
estais bem ao facto e a notícia vos impressionará muito mais
do que a outra e correreis de memória, uma por uma, aquelas pessoas,
calculando e prevendo pelo conhecimento que tendes delas o estado em que esse
acontecimento as conservará.

Isto reproduz-se no sucesso literário de um livro de romance.

As complicadas peripécias de uma história à Ponson
du Terrail atordoam- vos, como a descrição de um crime horroroso
cometido a distância da vossa terra; mas deixai passar oito dias sobre
essa leitura e não vos ficará dela memória porque nunca
chegastes a conhecer e fixar, a estimar portanto, as pessoas entre quem ele
se travou.

Pelo contrário, dos simples episódios de um romance como o
Vigário de Waksfield e tantos outros da escola genuinamente inglesa,
fica-vos uma como memória saudosa, porque aquelas figuras que vistes
em acção, que sofreram e choraram, eram já de há
muito conhecidas vossas e tínheis tido tempo durante a acção
lenta da história para lhes conhecer bem o carácter antes de
as ver sofrer.

Mas os episódios indiferentes, que não conduzem ao enredo?
Para que roubar tempo com eles? Para aumentar o efeito das cenas principais.
Insensivelmente, sofreis a influêndia deles.

Ainda outro exemplo, tirado da vida real: Suponde que tendes um vizinho
a quem, por involuntária e distraída observação,
tendes descoberto certos hábitos. Vede-lo sair a certas horas, falar
de certa maneira, parar em certas lojas, etc, etc. São factos indiferentes
em que maquinalmente atentais.

Uma manhã dizem-vos que este homem teve o prémio grande da
lotaria, por exemplo, ou outro facto análogo. E todos os pormenores
do viver desse homem vos acodem à memória e a todos ligais valor,
ao referi-los aos vossos amigos, e destas particularidades indiferentes resulta
mais interesse para o episódio principal.

; É por estas e análogas reflexões que eu não
posso concordar com os críticos a que me referi.

1 Assinalamos com um sina! interrogativo as palavras que não temos a certeza
de haver fielmente decifrado. O autor nos seus livros manuscritos escrevia
com muita rapidez e usava numerosas e curtas abreviaturas de difícil decifração.

Conseguir com meios naturais e conhecidos um resultado daqueles ; comover
e excitar o interesse sem recorrer ao extravagante nem sair da órbita
do verosímil; pintar com cores próprias um quadro da vida e
com tão perfeita perspectiva que a ilusão seja completa, não
requer isto mais imaginação, não exige mais esforço
de inteligência do que a concepção desses romances desregrados
em que todas as lembranças se aproveitam sem as sujeitar ao critério
da lógica literária, em que o autor tem sempre um subterfúgio
à mão para se desembaraçar das veredas sem salda onde
a sua inteligência imprudente o conduziu ? Parece poder servir-me de
um símile para confirmar a minha ideia. Nos espectáculos de
prestidigitação tendes visto alguns artistas trabalharem rodeados
de uma multidão de acessórios complicadíssimos? mesas
com fundos falsos, caixas de todos os tamanhos, maquinismo igualmente misterioso,
armas de fogo de construção particular, etc, etc? Conquanto
não saibais trabalhar com esses aparelhos de magia branca, desde logo
acreditais que são eles os principais elementos do espectáculo
e não admirais demasiadamente a prestidigitação do artista.

Vedes, porém, outros apresentarem-se diante de vós, sem aparato,
com fato simples, mãos nuas, uma mesa sem falso, etc, etc, e surpreender-vos
aliás, tanto como o outro, com sortes maravilhosas.

A este aplaudis com mais entusiasmo e vontade porque aplaudis um verdadeiro
artista. Admirais o resultado de estudos e esforços de longo tempo
para, com tão simples meios, vos maravilhar assim.

Dizei agora se não vos moverá também o mesmo sentimento
a aplaudir mais o escritor consciencioso que vos comove com os recursos naturais
que lhe fornece a observação do homem, do que o pelotiqueiro
literário que recorre para vos prender e maravilhar a todas as extravagâncias
possíveis?

Funchal, Novembro de 1869

Muitos autores de romances e dramas julgam que os amantes em literatura escusam
de ter carácter próprio. A heroína é uma rapariga
que ama, o herói é um rapaz que a ama a ela. A linguagem de
um e de outro é sempre mais ou menos casta e liricamente erótica.

Encontram-se, falam de amor; separam-se, falam um do outro e não
têm ocasião de revelar ao leitor mais nenhuma qualidade do seu
carácter, senão a de estarem apaixonados.

Resulta daqui que em vez de serem criaturas humanas, vivas, dominadas por
uma paixão, que combinada com o seu carácter individual as leva
a actuarem de determinada maneira, são simples personificações
do amor, frias e incapazes de comover, como alegoria, como personagens abstractas
daqueles poemas em que falam as virtudes e os vícios personificados.

O leitor não pode fixar uma feição característica
desse par, cujos infortúnios, tribulações e felicidade
ou infelicidade final, compõem a narração e, por isso,
dias depois da leitura, evaporaram-se essas imagens, como a de uma prova fotográfica
não fixada e confundem-se no vago em que já se haviam perdido
as feições de outros muitos ternos casais, cuja sorte já
anteriormente o tinha igualmente comovido.

Desenganem-se… Para que o romance ou o drama produzam profundo e duradouro
interesse, é indispensável desenhar bem as feições
características das personagens e dar-lhes um colorido de carnação
que simule a vida. A não ser assim, a alma assiste indiferente à
leitura ou à representação.

Funchal, Novembro de 1869

Nos meus romances não há indivíduos caracterizadamente
maus.

Não tenho pintado crimes; quando muito, vícios. Alguém
há que me tem feito o favor de me louvar essa falta como virtude, como
se andasse nisso propósito literário. Verdadeiramente não
há.

Não penso que o estudo moral de uma alma criminosa ou perversa não
seja digno da arte. O que me custa a admitir, a não ser como excepção
rara, são os tiranos sem lógica, sem motivo, que amam o mal
por instinto e sem que à prática dele sejam levados por o impulso
de uma paixão.

A razão por que fogem do campo da minha imaginação
aqueles tipos é outra. Tanto eu me deleito em conceber um carácter
com que simpatize, em o encarar por todas as suas faces para as pôr
em evidência aos olhos do leitor, em vê-lo em acção
e em harmonizar o diálogo com esse carácter, quanto me repugna
e enfastia o demorar o pensamento em um tipo antipático, em um carácter
revoltante, em uma destas criaturas em cuja contemplação a alma
se enoja ou se indigna.

O artista deve vencer essa repugnância, se a arte o exigir. Eu, porém,
que procuro na cultura das letras distracção e não a
tomo por ofício, quero condescender com os meus prazeres, sem que deixe
por isso de admirar as concepções magníficas dos romancistas
que sabem pintar o mal e a perversidade, sempre que o fazem, por assim dizer,
logicamente.

Funchal, Novembro de 1869

Lendo um rápido estudo biográfico de Thackeray sobre os escritores
humoristas ingleses do século XVIIIe as notas que o acompanham, algumas
das quais constam de cartas dos próprios escritores, lembrei-me da
miséria da vida literária do nosso país, onde a preciosa
correspondência dos nossos homens de letras raras vezes se salva para
a posteridade.

Quem há, por exemplo, que se tenha lembrado de coligir as cartas
particulares de Garrett, que por tantos motivos deviam ser um elemento poderoso
para a apreciação daquele vulto literário e para a da
história da literatura moderna em Portugal, de que ele foi o principal
instituidor? Devíamos aprender com os estrangeiros a dar o devido valor
a estas origens preciosas de informação para a crítica
e para a história.

Funchal, 3 de Janeiro de 1869

Acabo de ler o romance de Octávio Feuillet Histoire de Sibylle, A
morte da heroína no desenlace não me parece muito justificada
pelas regras naturais da arte. O problema principal do romance estava resolvido
da maneira que o autor julgou plausível resolvê-lo. O cepticismo
religioso de Raul era o obstáculo único para a felicidade dos
dois amantes. Esperava-se que a influência poderosa de Sibylle, já
provada com o doido Feray, com o reitor Renaud, com os duques de Vargnes e
com a duquesa Clotilde, se exercesse também sobre Raul, cujo ânimo
mais do que os outros, devia sujeitar-se à catecjuese daquela mulher
que ele idolatrava. Restava saber as circunstâncias que deviam cooperar
para a conversão, que conspiração de influências
poderia incutir naturalmente a fé em uma alma generosa, leal, incapaz
de hipocrisia e de simular, por interesse, uma unção religiosa
que não sentisse. Que bálsamo havia de curar aquele cancro da
dúvida num coração que lamentava sinceramente a perda
das passadas crenças? Conseguiu-se tudo isso. Após uma crise
violenta em que a descrença do homem da sociedade parecia mais radicada,
o simples espectáculo da mulher que ele amava, desfalecida pela comoção,
numa pobre choupana, à borda do mar, ao calor de uma fogueira, bastou
para fazer penetrar a luz da fé naquele coração assombrado
pela dúvida e para prostrar de joelhos em oração sentida,
esse homem que não cria em Deus. Bem ou mal, o problema estava pois
resolvido.

Inesperadamente, porém, surge mais uma entidade no romance; aparece
uma febre perniciosa que em duas páginas sacrifica a heroína
e dissipa as esperanças de felicidade que finalmente parecia sorrirem
aos simpáticos amantes.

Revolta-me a brutalidade desta febre paludosa.

Que papel literário representa ela aqui? Por acaso a morte de Sibylle
era necessária para a conversão de Raul? Não; e tanto
que, só depois de se haver bem verificado essa conversão, é
que Sibylle pediu ao reitor que lhe abençoasse a união, e que
o reitor se resolveu a fazê-lo.

Completaria ela o carácter da heroína, como uma consequência
necessária da sua exaltação mórbida, da sua esquisita
sensibilidade? Mas trata-se de uma infecção palustre, da prosaica
realidade de uma perniciosa, que nada tem que ver com os caracteres dos doentes.

Consolidar-se-iam mais firmemente as crenças do convertido com a
morte daquela, cuja influência lhe abrira o coração ao
raiar da fé? É duvidosa a hipótese e no mesmo romance
há um exemplo de que nem sempre os golpes da adversidade fortalecem
o ânimo para a fé; antes às vezes fazem descrer da justiça
divina e da existência de um Deus que premeia os bons. Este exemplo
é o do doido Feray. As crenças, ainda tíbias de Raul,
não se fortaleceriam mais na vida de paz e ventura, que o futuro lhe
prometia, do que com aquele doloroso transe, com aquele inesperado fugir da
felicidade, no momento em que julgava possuí-la? Não é
o mero desgosto de ver acabar mal o romance o que me leva a estas reflexões.
Eu concebo os fins trágicos, que concorrem para o desenvolvimento da
ideia primordial da obra literária, quando são a consequência
lógica das situações dramáticas imaginadas ou
o complemento do desenho de um carácter. Comove-me o lutuoso fim dos
amores de Lucy Ashton, de Paulo e Virgínia, de Eurico e Hermengarda
e de Madalena de Vilhena.

Suprimi o fim trágico destas e análogas concepções
literárias e alterar-lhes-eis completamente a índole e falsear-lhes-eis
a significação artística.

Na história de Sibylle, porém, não se dá o mesmo
caso.

A febre perniciosa é um acidente brutal que nada significa, que não
em razão de ser, debaixo do ponto de vista da arte, que aflige sem
comover. É uma simples impertinência do autor.

Na vida real há disso; mas estes tristes acidentes da vida, quando
entram no campo literário, precisam representar aí algum papel;
de outra forma não são mais do que uma desagradável e
cruel inutilidade.

Funchal, 4 de Dezembro de 1869

A ausência prolongada, digam o que quiserem, é prejudicial as
mais estreitas amizades. A conveniência habitual, pelo contrário
fomenta-as.

Separaram-se dois amigos íntimos. Ao principio escrevem-se todos
os dias e enchem folhas e folhas de papel com mútuas expansões;
pouco a pouco, as cartas resumem-se e rareiam, e mais tarde deixam de escrever
quando não têm necessidade que a isso os impila. Nenhum quererá
admitir que a amizade sofreu a menor quebra da sua parte, «Que excelente
rapaz aquele, dirá um do outro; palavra de honra que é dos poucos
amigos que tenho… Esta minha preguiça em escrever.

Há tanto tempo que lhe não dou notícias minhas nem
dele as tenho».

Ora, na minha opinião, muito enfraquecida está já a
amizade que nem tem força para dissipar a preguiça de escrever.
É da experiência de todos o prazer que se encontra em escrever
a qualquer pessoa, quando deveras a trazemos no coração.

Funchal, Janeiro 1870

Quando escrevo, é para mim estimulo o completo segredo. Se por acaso
durante o trabalho sou traído por alguma indiscrição,
sinto-mo esfriar e durante dias repugna-me o assunto, que até então
me atraia.

Não compreendo como, pelo contrário, muitos autores gostam
de fazer constar que vão encetar uma obra e estimam até que
o público seja informado, passo a passo, do progresso do seu trabalho.

Todos os dias leio nas gazetas de notícias uma ou outra dessas revelações
literárias, atrás das quais andam os noticiaristas. «Consta-
-nos que o Sr. F. vai escrever um drama que tem por título «As
misérias dos ricos». O Sr. C. concluiu já o primeiro acto
de um drama, que nos dizem ser magnifico. O Sr. B. leu ontem a alguns amigos
as primeiras cenas do seu drama e viu coroada pelos aplausos deles a sua magnífica
concepção», etc, etc.

Estas e análogas participações, que parece alentarem
muitos, a mim dissipariam aquele misterioso prestigio que tem o trabalho discreto.

Já experimentei este efeito de indiscrição alheia.
Escrevia «A Morgadinha dos Canaviais» e entregava-me com ardor
ao trabalho. Um dia o correspondente portuense do «Jornal do Comércio»,
de Lisboa, noticiou ao público que eu andava escrevendo um novo romance
assim intitulado.

Causou-me uma desagradável surpresa a revelação e por
muitos dias não me apeteceu trabalhar.

A razão principal deste efeito em mim, está em me serem insuportáveis
todas as espécies de peias neste género de trabalho.

Quero absoluta liberdade para alterar, modificar, inverter e até
abandonar um assunto desde que me desagrada. E esta liberdade é sempre
tanto mais restrita, quanto mais informado está o público da
natureza e do progresso da obra.

A cada momento inquirirão sobre o provável termo do livro
em que se trabalha. Se, condescendendo com uma dessas passageiras indisposições
para escrever, que atacam mais ou menos todos os homens de letras, se interromper
a obra, terá de sofrer-se a impertinência dos que não
compreendem que a composição literária não é
tarefa de empreitada para a qual não se precise consultar a aptidão.

Se é conhecido um capítulo do romance, antes de completo este,
á quase é vedado ao autor alterá-lo, ainda quando assim
o exija um melhor plano que lhe ocorra ou mais perfeita harmonia do todo alterada
em ulteriores capítulos.

Enquanto o manuscrito é só conhecido do autor, este decide
desaontado os incidentes que durante a composição sobrevêm,
guia-se pela ideia literária que concebeu, e mutila, suprime ou acrescenta
conforme convém ao completo desenvolvimento dessa ideia.

Se mais alguém foi admitido à confidência do segredo
literário, vem uma consideração a mais perturbar a livre
acção tão necessária ao autor: «Assim ficava
melhor, pensa ele muita vez, mas F. gostou tanto deste capítulo que
havia de estranhar que eu o modificasse ou suprimisse». E o capítulo
fica em atenção ao tal F.

Quantos defeitos descobre muitas vezes a crítica que não tiveram
outra razão de existir? Depois, o prestígio de uma obra literária
perde sempre com a assistência do leitor às minúcias da
composição. Ler hoje uma cena de paixão violenta, amanhã,
ao repetir a leitura, encontrar a mesma cena conduzida por outra forma, dissipa
a ilusão, deixa ver muito a arte, que só deve mostrar a sua
obra depois de removidos da oficina os instrumentos e mais aprestos com que
trabalha.

Guarde-se, pois, muito escrupulosamente o autor de devassar os segredos
da sua elaboração literária e só apareça
ao público para lhe apresentar completa a nova criação.
Siga o exemplo que lhe dá a natureza, que tão avara se mostra
dos mistérios da formação dos seres, para a celebração
dos quais como que, mais do que para outros, se recata e concentra.

Funchal, Janeiro 1870

A publicação de um livro, por muita glória e proveito
que traga ao autor, é sempre uma espécie de profanação
desses filhos queridos da fantasia, que ele velava e acalentava com um verdadeiro
amor de pai.

Há uma espécie de antagonismo nos sentimentos de alma com
que o autor vê sair do recato do seu gabinete para o mundo da publicidade
o manuscrito a que dedicou longas horas de meditação e de vigília.
Por um lado experimenta-se a satisfação que acompanha sempre
a realização de qualquer projecto.

Para o público foi escrito o livro; o dia em que ao público
se entrega é pois um dia de vitória. Porém, ao mesmo
tempo uma certa melancolia, uma quase saudade nos punge nesse momento solene.

Toda aquela gente que vivia só para nós, vai ser o alvo da
observaç&atatilde;o de milhares de pessoas. O mundo onde só os
nossos olhares penetravam, vai ser devassado por olhares curiosos; cessa de
alguma maneira o império absoluto da nossa vontade no destino daquelas
criaturas.

Daí em diante já não são exclusivamente nossas.
Emancipam-se.

Eu, pelo menos, que nunca me enfado de reler o manuscrito em que trabalho,
só com esforço consigo levar ao fim um capítulo de romance
meu, depois de publicado e conhecido. Sinto que não tenho tanto amor
àquela gente, como tinha antes de a introduzir no mundo; que é
menos minha do que era.

O autor está no caso de um pai que educa esmeradamente uma filha
estremecida para fazer dela um dia uma esposa e mãe digna destes sagrados
nomes. Anseia pelo momento de a entregar a um marido que a estime e faça
feliz. Chega, enfim, esse dia, realiza-se sob os melhores auspícios
o desejado casamento e o pai, sem deixar de agradecer a Deus a realização
de seus desejos, sente o coração oprimido todo o dia. E, ao
entregar nos braços do esposo a virgem que para ele com tanto amor
educou, parece-lhe quase praticar uma profanação. Fica menos
sua aquela filha que lhe era a melhor parte da vida e desvanece-se aquele
casto perfume virginal que o enlevava.

Desde esse dia o seu amor por ela não pode deixar de sofrer uma leve
diminuição porque não e o único a amá-la
e a enlevar-se nos seus encantos.

Funchal, Janeiro de 1870

Há livros que são monumentos e livros que são instrumentos.

Os primeiros levantam-se a perpetuar a memória de uma literatura,
ainda mesmo que se extinga a nacionalidade a que pertencia. Primorosamente
trabalhados, constituídos por os materiais mais duráveis, é
antes para o futuro que eles se erigem do que para os contemporâneos,
cuja maioria nem sempre os compreende Os livros instrumentos são, pelo
contrário, para andarem nas mãos de todos, para o uso quotidiano,
para educarem, civilizarem e doutrinarem as massas.

Daí, dessa diversidade de destinos, vem a diversidade de exigências
a que uns e outros devem satisfazer.

O livro instrumento precisa ser popular, escrito na linguagem do dia, ao
alcance das inteligências da época, de fácil trato em
suma. Os extremos de lavor, que ornam o monumento, podem ser prejudiciais
ao instrumento que, menos ambicioso, deve contentar-se com mais modesta execução.

À crítica compete ter isto em vista para que lhe não
suceda instaurar processo a um livro que se destina a instrumento, como se
na mente do autor estivesse a ideia de levantar com ele um monumento à
posteridade.

Grande e bom serviço prestam já os autores que conseguem escrever
livros para o seu tempo, de cuja leitura possa resultar algum bem para quem
os lê.

Direi até que esta turba mais obscura de autores não é
menos útil à sociedade do que os raros génios que a alumiam
de quando em quando e que, se o progresso da humanidade estivesse só
confiado a estes excepcionais luminares, nem sempre compreendidos por os seus
contemporâneos, decerto não estaria ainda no grau que já
atingiu.

Se os arquitectos levantassem somente pirâmides e monumentos e desprezassem
a construção de casas e outras edificações mais
modestas, a civilização não lhes seria devedora de tantos
benefícios. Um povo pode viver sem monumentos; mas não sem as
construções que as primeiras necessidades da natureza exigem.

O símile é de fácil e óbvia aplicação.

Funchal, Fevereiro de 1870

Há uma idade em que a mulher gosta mais de ser namorada do que amada.
Entre um amor recatado e reverente e um galanteio indiscreto e ostensivo,
não hesita; prefere o segundo. O que lhe enche o coração
não é o amor; é a vaidade. Lisonjeia-a o culto que recebe
e quer que as outras mulheres a vejam triunfante. O mais puro e dedicado amor
que lhe tributassem não a satisfaria, se fosse ignorado pelo Quando
um homem de afeições sinceras e profundas se apaixona por uma
destas mulheres, pode ter a certeza de que principia para ele uma dolorosa
provação.

Funchal, Março de 1870

ESCRITOS INCOMPLETOS

Uma parte do drama Bolo Quente, escrito aos 17 anos de idade.
— Acção passada no Minho.

ACTO II

CENA I

Francisco, criado, pondo a mesa para uma ceia que o filho da fidalga oferece
em sua casa aos primos de Lisboa, seus hóspedes. João, primo de Francisco.

JOÃO

Então como é isto? Eles não ceiam senão fruta?

FRANCISCO

Não, homem. A fruta põe-se na mesa, com flores e com os vinhos,
e o mais é servido por fora.

JOÃO

Por fora? Então eles ceiam fora de casa e vêm depois comer
a fruta aqui?

FRANCISCO

Ora adeus! Tu és tolo? Ceiam aqui; mas os pratos trazem-se à
volta da mesa para cada um se servir do que quiser.

JOÃO

Ah! agora entendo. Mas que moda! Antes me quero com a moda da aldeia, porque
a gente, tendo a comida defronte de uma pessoa, sabe logo o que vai comer.

FRANCISCO

Tudo vai do costume… Os fidalgos têm outra criação.
Estão afeitos a coisas que a gente só conhece nas cidades…
E, é verdade, como vai o negócio do teu casamento ? Dá-me
cá essa garrafa. A coisa faz-se ou não se faz ?

JOÃO

Nem eu sei, Francisco, nem eu sei. Vontade tenho eu e mais a namorada. O
pai também não vai longe disso: mas… falta o principal.

FRANCISCO

Aquilo com que se compram os melões? Chega para cá essas cadeiras,

JOÃO

Tal e qual.

FRANCISCO

Tu não tens nada, e ela nada tem, e a gente não vive do ar.

JOÃO

Pois é assim, é, Mas eu estou tão farto de esperar
pela sorte, que nunca me favorece, que às vezes cuido que, depois de
casado ela me virá, e por isso acho que…

FRANCISCO

Ora adeus; não faças tolices. O orvalho não mata a
sede, nem tiram a fome as raízes do monte. Vê lá se vais
dar por aí alguma cabeçada.

Toma conta!

JOÃO

Não tenhas medo. Não que, ainda que eu quisesse dá-la,
tanto juizo tem a minha rapariga que não deixava. E depois o tio Marcos
é quem manda, e ele já me disse que enquanto eu não ganhar
para sustentar minha mulher, não quer ouvir falar em tal casamento.

FRANCISCO

E tu não tens feito diligências para arranjar emprego?

JOÃO

Ora se tenho ! Mas tanto faz. Ninguém me quer

FRANCISCO

Porquê?

JOÃO

É por não estar arrumado.

FRANCISCO

Ora essa! Explica-me isso.

JOÃO

Pois é como te digo. Quando um homem tem um emprego menos mau, há
quem lhe ofereça outro melhor porque, diz lá consigo: O patrão
que o tem em casa é porque ele é bom. Convém-me ainda
que lhe pague mais alguma coisa, porque isto de meter vadios em casa é
arriscado…’ Vês tu? De maneira que um homem não arranja emprego
exactamente porque precisa dele.

FRANCISCO

A modo que tens razão. Hei-de falar à fidalga e tu também
lhe podes pedir. Olha ela aí vem. Não fujas! Deixa-te ficar
que ela não repara nisso. É uma santa senhora. Se ela te falar,
tens de a tratar por excelência.

CENA II Os mesmos e D. Joana

D. JOANA

Olhe la, Francisco, não ponha na mesa vinhos muito fortes nem comidas
indigestas. De noite é preciso toda a cautela. Não me agradam
nada estas ceias. É isto que estraga por aí tantos rapazes que,
aos vinte anos, já andam cheios de achaques, como se fossem velhos…

Quem é este rapaz?

FRANCISCO

É meu primo, minha senhora.

D. JOANA

Ah sim; já me falou nele… Chama-se… João.

JOÃO

João do Choupelo, minha senhora, para a servir.

D. JOANA

É isso mesmo, que está para casar…

FRANCISCO

Com a filha do mestre-escola, o mestre Marcos. É este mesmo.

D. JOANA

E então porque não casaram ainda? A sua noiva é uma
bonita rapariga e um belo coração. O pai é um santo e
honrado velho a quem minha família muito deve. Em tempos aflitivos
foi ele que nos valeu. É verdade. Das suas mãos caridosas recebemos
já, eu e os meus, a esmola do pão e do abrigo. Vai muito bem,
João; melhor noiva não encontra, por mais que procure.

JOÃO

Diz bem, minha senhora. Por essa estou eu.

D. JOANA

Pois olhe, eu tenho deveres a cumprir para com essa família e muito
desejo cumpri-los. Avise-me com antecedência, e, se quiserem, já
me ofereço para madrinha. Quando será, pouco mais ou menos?

JOÃO

Ó minha senhora, muito obrigado por tão grande favor… Eu
sei la quando nos casaremos? FRANCISCO (a meia voz) Sabes que mais? Conta-lhe
tudo que talvez seja bom.

D. JOANA

O que diz, Francisco?

FRANCISCO

Eu não sei se devo servir a maionese de lagosta que é um dos
pratos da ceia.

D. JOANA

Ai não, não. Credo! É tudo quanto há de mais
indigesto à noite.

Nem lhe fale nela, ouviu? Mas então o que é que estorva o
seu casamento, João? Assim como assim, visto vossa… vossa…

FRANCISCO

Excelência.

Visto que vossa excelência tanto se interessa por nós, com
sua licença, vou contar-lhe tudo, toda a verdade, com o coração
nas mãos.

D. JOANA

Isso mesmo é o que eu quero. Fale à vontade.

Pois, minha senhora, como o outro que diz, eu sou um pobre rapaz e mais
nada. Sabe a senhora?

D. JOANA

Pobre, honrado…

La isso não é para me gabar…

D. JOANA

E trabalhador…

Isso é que não.

D. JOANA

Como não? Para ser trabalhador, faz míngua trabalhar, para
trabalhar é preciso que haja em que e para haver em què e necessário
que alguém no-lo queira dar, percebe vossa…

FRANCISCO

Excelência.

JOÃO

Vossa excelência?

D. JOANA

Pobre rapaz! Está então desarrumado?

JOÃO

Estou, sim, minha senhora.

D. JOANA

E é por isso que não casa? Mas parece impossível! Pois
não há por aí tantos modos de vida?

JOÃO

Isto em mim é a minha sina. O que quer a senhora?

D. JOANA

Ah! não, não… não diga isso, João. Neste mundo
não há sinas nem para o bem nem para o mal. Dores todos as sentem,
lágrimas todos as choram, e risos… vamos, também não
há alma tão atribulada que não tenha conhecido o prazer
que dá uma alegria verdadeira

JOÃO

Pois quer vossa… vossa excelência ouvir? Depois me dirá se
isto é sina ou não é sina. Nós éramos três
os filhos de minha santa mãe, que Deus tenha; não é verdade,
Francisco?

FRANCISCO

Sim, a tia Quitéria, tua mãe, teve três filhos.

JOÃO

Eu era o mais novo. Meu pai, Deus lhe perdoe, era pedreiro; meus irmãos,
um era aprendiz do mesmo ofício, o outro quis embarcar.

Vai eu, tinha dez anos e aí cai meu pai dumas obras abaixo e morreu
no hospital; o nosso José teve a febre no Brasil e lá se foi
também, e o nosso Manuel, que ia principiando a endireitar a vida,
deram-lhe na cidade as bexigas e morreu queimadinho, que nem eu quero que
me lembre. E aí fiquei eu com a minha pobre mãe que se matava
a chorar. Bom. Vai eu, quis ir para a cidade aprender um ofício Mas
corno havia de ser se a minha santa criatura me ficou cega de repente ? Havia
de deixá-la ? Coitadinha! Aqui na terra há gente caridosa que
não nos deixava morrer de fome. Na cozinha do lavrador ha sempre, como
a senhora sabe, sobras de pão e de caldo para os que os não
têm.

Andava eu pois com ela de porta em porta, meio envergonhado quando via passar
os rapazes da minha idade com a saca dos livros da aula ou com a ferramenta
do ofício; mas que havia eu de fazer? Chamavam-me o rapaz da cega ou
o João da cega.

Era um desprezado que nem companheiros tinha para brincar! Um dia, depois
de muito sofrer, levou-me Deus para si aquela desgraçadinha que sempre
me teve a seu lado até ao último suspiro.

3om, agora que estás só no mundo trata da vida, João,
dizia eu para mim. Mas quem me queria? Roto e pedinte, achavam-me taludo para
aprendiz e estragado na vadiagem, Eu bem lhes dizia que nada mais tinha feito
que o meu dever servindo de bordão a uma pobre cega, que me tinha só
a mim, e que isto não era coisa ruim nem crime. Matavam- me a fome
mas ninguém me queria! Até que um bom homem, velho carpinteiro,
teve compaixão de mim e aceitou-me. Principiei então a trabalhar
e a andar mais contente. Cuidei até que estava feliz para o resto da
vida.

Foi por esse tempo que eu vi a filha do mestre Marcos e logo fiquei doido
por ela. Até com ela sonhava! Mas nunca futurei que ela fizesse caso
de mim. Se andavam tantos a arrastar-lhe a asa, tantos, e todos eram mais
do que eu! Mas, veja a senhora aquele coração! Foi para mim,
que era o mais pobre e desgraçado do rancho, que ela se inclinou.

Uma tarde, havia festa no adro, entrei a sentir-me tão triste, tão
triste, que peguei em mim e fui parar ao cemitério onde não
estava ninguém, porque toda a gente andava a divertir-se e a dançar
na festa.

Vai senão quando, quem me há-de ali aparecer? Era ela, a filha
do mestre Marcos. Eu fiquei sem pinga de sangue e, vai ela, diz-me assim com
aquela voz que sabe dizer as coisas: «Que está aqui a fazer no
cemitério, João, em que está a pensar?» Penso,
menina, disse-lhe eu, que estou só no mundo, tão só,
tão só, que era bem melhor para mim me fosse deitar ali ao pó
de minha mãe. «Ainda é cedo para procurar companhia no
cemitério — disse-me ela;—já todos os vivos ha negaram?»
Nem eu me atrevo a pedi-la.—«Pois nisso é que faz mal».—
E que tenho eu para agradar a alguém? —«O seu bom coração,
a sua alma, João», e nisto foi-se embora. Olhe, minha senhora,
que isto passou- se assim tal como lhe estou contando e vai daí principiou
esta nossa inclinação e ela tais artes empregou que até
o tio Marcos entrou a querer-me bem. Vai depois, sucede, por minha desgraça,
andar eu a trabalhar de carpinteiro em casa do fidalgo de Altotojo quando
desa pareceu lá de uma gaveta uma porção de notas que
valiam muito dinheiro.

Fez-se muito barulho em toda a casa, procura daqui, procura dacolá,
perguntam estes, revistam aqueles. Foi um caso falado em toda a aldeia e vai,
de repente o fidalgo entra a olhar para mim carrancudo e no dia seguinte manda-me
despedir. Perguntei porquê, ninguém me respondeu. Imagine a senhora
o que isto deu que falar depois do que se tinha passado. Como eu estava inocente,
não podia futurar que na terra todos me chamavam ladrão. O próprio
mestre Marcos não me acusava, sim, mas tinha para mim uns modos tão
secos, tão zangados que eu logo entendi tudo. Estava perdido. Não
sei como não rebentei de dor, logo ali. Saltaram-me as lágrimas
dos olhos quando me lembrei que a Ana também me havia de julgar ladrão
e, como um desesperado, corri em busca dela. Mal a topei, gritei-lhe de longe:
Ó menina, olhe que eu… Ela não me deixou continuar. Cala-te,
João, cala-te, disse-me ela, chorando tanto como eu, não me
digas nada porque não te julgo culpado. Não te desculpes comigo
porque eu conheço-te e sei que não podes deixar de estar inocente.

Ouvindo-lhe estas palavras tão boas, não sei o que teve mão
em.

mim para não ir a correr dizer a toda a gente: Sabem que mais ? Se
querem acreditar que eu sou um ladrão, acreditem. Não se me
importa o que vós todos pensais porque já sei que a Ana não
pensa como vós.

Mas, enfim, ela acalmou-me, e disse-me mesmo que era mister convencer os
outros, pois não tinham os mesmos motivos que ela para não acreditar
o que se dizia na terra. Fui então procurar o fidalgo mas não
me quis ver. Vai um dia, olhe, senhora, que até custa a acreditar,
ao acabar a missa, estava o adro cheio de gente e o fidalgo vinha a sair.
A Ana põe-se-lhe diante no caminho e diz-lhe em voz alta que todos
ouviram: «Sr. D. Álvaro, queira perdoar. Corre a fama em toda
a aldeia que o fidalgo acusa aquele rapaz que está ali» —
e apontou para mim, que estava a um canto muito envergonhado — «de
ter feito o roubo de dinheiro em casa do fidalgo. Ele é meu noivo e
está inocente, que o sei eu, que o vou jurar porque sei a alma que
ali está. Por aí todos o acusam e o Sr. D. Álvaro, se
é um homem de honra, não pode mentir e há-de aqui, diante
de toda esta gente, declarar que ele não é o ladrão,
porque é impossível que o não saiba, e que, se despediu
aquele rapaz de sua casa, foi por outro motivo. Responda, fidalgo, mas lembre-se
que vem da missa e que esteve ajoelhado no altar do Santíssimo».

Se a senhora quer ver?! Toda a gente pasmada, a Ana a olhar direita para
ele e o fidalgo, enfiado, fez-se vermelho, depois branco, tremeu, suou e afinal
disse assim esta fala: —«Esse rapaz é inocente.

O roubo foi feito por pessoa de casa. E eu quis desviar suspeitas.

Peço-lhe perdão».

Afinal, sabe a senhora? o ladrão tinha sido o filho dele, para extravagâncias,
O fidalgo ficou tão envergonhado que deixou a aldeia e não voltou.
Veja a senhora como eu fiquei contente e todos ficaram ali sabendo que eu
era o noivo da Ana. Mas isto foi há três meses e nada arranjei
ainda porque a família do fidalgo faz-me guerra, por vingança,
porque se veio a saber que foram eles que aconselharam o fidalgo a fazer o
que ele fez, para não dar que falar contra o filho, que era vergonha
para todos os parentes.

D. JOANA

Sabe que é simpática e comovente a sua história ?

JOÃO

Assim Deus salve a minha alma como é verdade tudo quanto disse.

D. JOANA

Acredito. E como a história me interessa, por ambos, pela pureza
e generosidade dos seus sentimentos, prometo-lhes para ela um agradável
final.

JOÃO

O que diz, minha senhora?

D. JOANA

Nunca lhe contaram histórias em pequeno, João?

JOÃO

Contaram, sim, minha senhora. Ainda me lembro daquela da Gata Borralheira
que minha mãezinha nos contava nas noites de Inverno.

D. JOANA

Então há-de saber que há sempre um rapaz que gosta
de uma rapariga. Se eles casam, a história acaba bem e, se não
casam… o fim é triste e faz chorar quem a ouve.

JOÃO

Quer então vossa… excelência dizer…

D. JOANA

Que a sua história há-de acabar bem.

JOÃO

Mas…

D. JOANA

Mau; se se diz logo tudo, o fim não tem graça nenhuma.

JOÃO (querendo beijar-lhe a mão) Ó minha protectora
I

D. JOANA (retirando-se)

Está bom, está bom. Não gosto disso. Ande, vá
à sua vida e guarde antes esse beijo para a sua desposada.

FRANCISCO

Então eu não te disse que era melhor contar-lhe tudo?

JOÃO (sorrindo)

Dá-me um abraço. Agora começo a acreditar que sou feliz
e vou a correr contar tudo à minha Ana.

Ouve-se-lhe a voz dentro, cantando.

Quem se ri, está contente.

Quem está contente é feliz; Mas… cala-te, coração,
O que sentes não se diz.

O ROMANCE DE UM GUARDA-BARREIRA

Um dos meus amigos, mártir entusiasta da caça, que tem sofrido
com uma resignação heróica aguaceiros diluviais, sóis
calculadores, ventos de assolar cidades, que vadeia rios, escala montes, embrenha-se
em matas gigantes, atola-se em brejos pérfidos, aspira miasmas sezonáticos,
come o pão negro do lavrador hospitaleiro, sem o menor quebrantamento
de ânimo, instigado pelo ardor da perseguição das lebres,
codornizes e galinholas; amigo cruel que tem feito de mim uma vítima
da estopante odisseia das suas façanhas venatórias, que me quer
obrigar a decorar as biografias de quantos podengos e perdigueiros têm
sido os companheiros das suas excursões intermináveis; um amigo
como decerto o leitor há-de ter algum, contou-me há dias uma
pequena história que eu, por minha vez, vou contar ao leitor, É
curta, não lhe roubará meia hora ao seu tempo tão ocupado.

Há meses, no tempo do Inverno, tinha este Actéon, inexorável
flagelo das tímidas lebres do monte, saldo a montear de espingarda
ao ombro, botas de água, polvorinho a tiracolo, chapéu largo,
sanduíches de queijo londrino na saca e vinho no pichei, despedindo-se
da família assim como se fosse empreender uma exploração
aos pólos.

Se não houve lágrimas na despedida é porque o hábito
desses apartamentos costumou os olhos a não chorar. Apenas a mãe,
boa senhora, toda votada a coisas domésticas, contraste perfeito com
a bossa aventureira e viajante de seu único filho, lhe disse do alto
das escadas ao vê-lo sair: — Olha lá se tens cautela com
essa arma, meu filho… Sempre que e lembra que um dia…

A história contou-a a boa senhora às meninas de casa que,
sendas a trabalhar em costura, contavam mentalmente os dias que faltapara
o desejado domingo.

Sossegue o leitor que não pretendo arrancá-lo do mole repouso
do seu gabinete para o constranger a seguir o meu amigo no fadigoso exercício
de sua paixão dominante. Esteja descansado. Saiba que tem em mim um
homem que odeia a caça e que por coisa nenhuma se decidiria a servir-lhe
de companheiro nestas excursões sanguinárias e laboriosas.

Demais, seria mal escolhido o dia para tentar o passeio, porque o meu amigo,
segundo ele mesmo confessou, esteve de uma infelicidade excepcional. Era quase
noite e nem lhe tinha aparecido caça de jeito, nem a pouca que pôde
ver conseguira fazer pontaria certeira.

Imaginem o desespero e mau humor com que ele voltava a casa.

Este mau humor para alguma coisa lhe havia de dar. Chegando à base
de um monte de onde se descia para a estrada, o meu amigo, em vez de o costear
até ao lugar onde ele se nivelava com o caminho, pretendeu imprudentemente
descê-lo ali mesmo. Principiou a segurar-se aos troncos das giestas,
a firmar os pés nalgumas raízes de pinheiros que rompiam a parede
saibrosa do caminho; mas, a uma vara de altura do solo, o pé resvalou,
as mãos não puderam sustentar o peso do corpo e o desapontado
caçador veio cair no chão, sentindo uma dor agudíssima
na articulação do pé direito com a perna, que o fez involuntariamente
soltar um gemido.

—Estou arranjado!—disse ele.—Uma fractura pelo menos.
Quarenta dias de imobilidade e de entalação ! E faltou-lhe o
ânimo para se mexer e verificar se efectivamente tinha fracturado o
pé.

Quanto tempo assim esteve ? Quando os romancistas fazem esta pergunta é
sinal de que se lhes não pode responder. É o caso em que estou.

Umas crianças que vinham do monte viram aquele homem estirado e deitaram
a correr, gritando: — Um homem morto! Um homem morto! O meu amigo deixou-as
gritar. Tinha procurado mover o pé e julgou que o não sentia.
, — Adeus! Este já me não pertence. Declarou-se independente
da metrópole. Faz bem. Não lhe durará muito a autonomia.

Esta reflexão parece muito ligeira nas circunstâncias sérias
em que se encontrava o meu amigo. E o que é certo é que não
tinha nada tranquilo o espírito quando pronunciara estas palavras.
Depois lembrou-se do tratamento de fracturas, da cara do seu facultativo,
das pessoas que o iriam visitar durante o processo de consolidação
da sua tíbia e já procurava saber qual o seu passatempo nessas
horas de forçado ócio.

— É ocasião de ler um romance do Ponson du Terrail.
F. irá lá por casa para jogarmos uma partida de xadrez. Peço
a C. que me empreste o estereoscópio…

Foi interrompido nestas cogitações pelo ruído de uns
passos apressados e vozes confusas e cedo se viu rodeado por um magote de
povo, capitaneado ao que parecia por um velho de bigode branco e espingarda
ao ombro, vestido com o uniforme de guarda das barreiras municipais.

— Ó criatura de Cristo, você ainda vive ? — Foi
a interrogação que lhe dirigiu este homem.

— Eu julgo que sim.

— E o outro fugiu ? — O outro? — O assassino! —
Qual assassino ? — Adeus minha vida! Então não o mataram
? — Eu julgo que não.

— Então que está você ai a fazer ? — exclamou
já meio desconfiado o velho guarda.

— Eu… estou a pensar.

— A pensar !—disseram os circunstantes espantados com a extravagância
da resposta.

— A pensar em quê? —perguntou o velho guarda-barreira
adiantando- se.

— A pensar… ai!… nos grandes serviços que prestam… ai!…
ai!…

ai!… à humanidade esses modestos filantropos… ai!… ai!… a
quem chamamos cadeirinhas… ai!… ai!… ai!…—Estes ais eram desafiados
pelas pungentes dores da articulação tíbio-társica
direita do meu amigo.

— Está bêbedo! — murmurou o guarda aos que o rodeavam
e depois, dirigindo-se ao meu amigo: — Levante-se e ande daí.

— Isso é bom de dizer. Andar! É dos maiores prazeres
deste mundo, é; mas…

— Vamos — e aproximando-se dele puxou-o por um braço.

— Ai… ai… ai…

— O que é ? — disse o velho, largando-o.

— Pois não vê que tenho um pé…

— Dois vejo eu.

— Pois está enganado, porque um já me não pertence,
porque está quebrado.

— Oh diabo! Isso então é mais sério.

— A quem você o diz! E muito sério porque perdi o meu
rico pé.

— Tem razão: visto isso… Eh! rapazes, levantem este senhor
e levem-no para o meu quarto.

— Ai… ai… Esperem… Façam isso com jeito! — Peguem
nele com cautela e aviem-se.

Para encurtar razões: passada meia hora estava o meu amigo deitado
na enxerga do guarda-barreira, com o pé ligado com panos embebidos
em água fria.

A lesão não passava afinal de uma distensão de ligamentos.

{Não continua).

O RAMO DAS MAIAS

QUE aparência festival dão aos campos as giestas quando em Maio
ostentam as vistosas galas da sua vigorosa florescência! Que profusão
de corolas amarelas naquele verde, tão verde, dos ramos tenazes! É
por certo a flor mais alegre que a natureza produz; por isso lhe querem as
galhofeiras raparigas do campo, onde nunca foi moda a melancolia.

Aí está a violeta; é uma flor bonita sem dúvida,
mas triste. A mim só o cheiro da violeta me faz cismar, deste cismar
que os Franceses chamam rêverie e que nós não sei bem
que nome lhe damos. É a razão por que os poetas a cantam. Os
poetas são habitualmente inclinados à tristeza e às coisas
que a suscitem.

As rosas têm já um aspecto mais risonho, é verdade,
mas ainda comedido ou, como hoje se diz, guardam as conveniências nas
suas alegrias. É um júbilo grave aquele seu.

Uma elegante pode irrepreensivelmente trazer no chapéu uma rosa artificial;
mas vão la dizer-lhe que traga um ramo de maias! É que as maias
são alegres à moda dos campos, que é a verdadeira moda
de o ser, a mais racional. É ali que o contentamento se não
revela em um simples e espremido sorriso, mas em prolongadas e altissonantes
gargalhadas; é ali que se usam os lenços escarlates e amarelos,
e se odeiam as cores escuras; que se canta desde o nascer do Sol até
ao nascer das estrelas e onde, no fim da vida, se tem rido mais do que chorado,
a ponto de fazer duvidar da exactidão do epíteto de vale de
lágrimas com que o cristianismo designa o mundo em que vivemos.

Ora eu tenho, em muitas coisas, gostos campesinos; é por isso que
poucas flores me agradam tanto como as flores das maias.

Inéditos e Esparsos
É que as maias são alegres à moda dos campos…

perdoe-me a leitora delicada esta confissão de mau gosto, mas sincera.

Tenho-lhe afeição deveras á despretensiosa flor.

Não é uma alegria estudada aquela sua; é uma alegria
expansiva, lhana, sem refolhos, sem momices afectadas; alegria de flor montanhesa,
enfim.

O ar das montanhas é inimigo do cerimonial, que prescreve até
as maneiras próprias de manifestarmos nossos prazeres e nossas penas!
A gargalhada de um highlander produziria uma irritação de nervos
em um homem das planícies; ao pé das flores de jardins e de
estufa, as singelas maias haviam de ser estranhadas e escarnecidas; seriam
como uma camponesa de cores viçosas e sadias numa reunião dessas
formosuras pálidas e franzinas que povoam os salões.

Decididamente o gosto está estragado! Pois não é nestas
últimas que os poetas vão, de ordinário, escolher tipos
para heroínas de poemas e romances ?! Como se não fossem belezas
degeneradas! Como se nossa mãe Eva, que é de supor ter sido
o ideal da beleza feminina, não tivesse possuído uma organização
robusta, excelente carnação e cores para invejar. A saúde
é para mim como um complemento da beleza.

Era já opinião dos antigos que a perfeição dos
organismos depende de quatro condições: integridade, força,
beleza e saúde; reparem bem — e saúde.

A febre, os espasmos, a histeria, a demência, podem excitar-me a compaixão
pelos infelizes que as padecem, mas daí a adoptar como rigor de estética
a necessidade de uma destas moléstias para cada protagonista de romance,
vai muito longe.

Vejam as mulheres da Bíblia; que poéticos e interessantes
tipos aqueles! E sabem de alguma cuja saúde melindrosa nos suscite
apreensões? Em toda a literatura clássica pouco há que
ver com a medicina.

Se algumas doenças por lá aparecem, encaram-se literariamente,
não se lhes desenvolve a patogenia com um rigor científico digno
de uma memória académica. Não se vêem ali conferências
de médicos, estupendos récipes, nem frascos medicinais e tisanas
por cima das mesas; as rubricas dos autores dramáticos não obrigam
as actrizes a tossirem de vez em quando para forçar o interesse dos
espectadores, incomodando- os.

O delírio de Orestes, prudentemente atribuído às fúrias,
não era explicado ao público por nenhuma teoria médica.

Hoje, então, um médico tomando o pulso, percutindo e auscultando
a protagonista doente, é uma cena de efeito seguro. Digam-me se no
teatro clássico viram alguma vez entrar em cena Hipócrates,
Galeno, Celso, Ambrósio Pare e outros vultos da extensa galeria médica
que havia já então ? É que a doença não
estava em moda. Hoje não há autor que, a não querer arriscar
o interesse inspirado pela sua heroína, se atreva a fazê-la sã
e escorreita; pelo menos uma doença nervosa é inevitável.
Eu por mim julgo ser isto uma perversão de gosto. Enganar- me-ei ?
É uma igual perversão que faz com que as flores das maias não
sejam apreciadas, não estejam na moda. São alegres e garridas
como qualquer lavradeira em dia de romaria. Excitam de longe as vistas com
a cor viva de suas pétalas, destacando-se do fundo verde-escuro das
folhas e dos ramos.

Ora venham cá dizer-me que não são flores bonitas!
Eu tenho por elas uma afeição desinteressada, sincera, que data
de muitos anos.

Criança ainda, nunca voltava do campo, no fim de uma tarde de Maio,
que não viesse adornado das prazenteiras flores; mais tarde, em certa
época em que me quiseram ensinar botânica, nunca tive coração
para dilacerar a bicos de alfinetes essas pobres flores alpestres com o único
fim, o mais fútil de quantos pode imaginar uma ciência, de substituir
o nome prático que lhe dá o povo, por o nome pedante da nomenclatura
técnica.

O botânico! Nunca vi gente mais fleumàticamente cruel! Com
que indiferença eles partem uma manhã para o campo, munidos
do indispensável estojo, que me produz o efeito de um aparelho de torturas
em tribunal inquisitorial, e atravessam planícies, trepam colinas e
outeiros, profundam vales, devassam moitas, costeiam rios, colhendo quantas
flores encontram, sem que o belo das cores ou o inebriante dos perfumes lhes
mereçam uma exclamação de prazer. Com que selvagem sangue-frio
procedem a esta provisão de plantas, que amontoam sem gosto em suas
caixas de folha ou de cartão, e voltam à cidade carregados de
modestas presas para, fechados no seu gabinete, encetarem o seu trabalho de
destruição! Já os viram alguma vez postos à obra
? Que espectáculo! Nas suas mãos as pobres flores são
torturadas, despedaçadas, como as vítimas nos circos pelas garras
das feras ; pétala a pétala caem desfolhadas; os bicos de alfinetes
movidos por mãos sem piedade rasgam-lhes os cálices, destroem-lhes
os nectários, penetram nos ovários que rompem, disseminam-lhes
os grãos, gérmenes de futuras flores que sem remorsos aniquilam,
estendem-lhes os restos inanimados sob o campo do microscópio e, com
a placidez do filósofo e uma insensibilidade de selvagens, examinam
as ruínas de uma bela obra.

E para quê, santo Deus? Que buscam eles nestes trabalhos de destruição?
Um nome, um nome pedantesco, bárbaro, inarmónico, prosaico,
nome de bulir com os nervos, nome que fomenta as silabadas, para o aplicarem,
sem compaixão nem consciência, à obra mais singela, poética
e despretensiosa da natureza! Eu quando vejo a ciência ocupar-se com
os fósseis, com os mastodontes, os pterodáctilos, digo comigo:
sois dignos um do outro; mas, quando volta as suas iras classificadoras contra
as flores, lamento-lhe a barbaridade.

De todas as vezes que eu ia a colher uma dessas vitimas inofensivas de uma
ciência cruel, parecia-me vê-las animarem-se, erguerem- se na
haste para me olharem, rociadas de gotas de orvalho que semelhavam lágrimas,
e dizerem-me: — Tem piedade de nós! Que as borboletas e as abelhas
nos beijem, namoradas dos nossos matizes e perfumes. Se esse beijo nos der
a morte, embora; morreremos em um estremecimento de prazer.

Se nos colhe a mão delicada da virgem que fantasia amores. Se em
breve nos espera o esquecimento e o desprezo… ao menos fomos por um instante
amadas. Que nos desfolhe a brisa na corrente dos arroios… partirá
com nossos perfumes e embalsamará com eles os prados e os bosques.
É uma espécie de imortalidade que nos dá…

Mas tu… para que nos cortas? Em criança amavas-nos e, como as borboletas,
deixavas-te namorar das nossas cores viçosas e dos nossos aromas; então
éramos nós as primeiras a inclinarmo-nos na tua passagem para
te desafiar os afagos e para morrermos amadas; mas hoje é com fria
indiferença que nos procuras, que nos vens separar da haste para nos
desfolhar sem dó, dilacerar-nos, sepultar-nos entre as folhas de um
herbário, sem vida, sem perfumes, esqueleto do que fomos, pálidas
múmias que ufanamente designais com um nome, só de per si capaz
de nos fazer murchar. Oh! tem piedade de nós! Esta voz das plantas
fez-me desgostar da botânica, que penso ser a ciência mais bárbara
que ainda inventaram homens.

Um dia em que numa destas explorações científicas chegara
a vez das pobres maias de serem classificadas, a tal voz que eu escutei pareceu
falar mais alto; a ponto que não pude resolver-me a despedaçá-
las para as classificar. Se eu as conhecia de criança! Era quase um
sacrilégio.

Com este culto pelas flores em geral e esta afeição pelas
maias em particular, tinha eu ido passar ao campo os mais floridos meses do
ano.

Todos os dias o Sol, despontando por cima da crista dos outeiros, me encontrava
sentado ou, mais rigorosamente, deitado nas pedras musgosas de um muro derrocado
ou junto ao tronco meio carcomido de algum carvalho secular.

Um frondoso e ameníssimo vale seguia em sinuosidades por entre duas
colinas, em cujas fraldas e encostas rompia uma vigorosa vegetação
de sovereiros e carvalhos e cujos cimos eram coroados pelas elegantes umbelas
de pinheiros mansos que faziam lembrar uma vila napolitana. As arcadas de
um extenso aqueduto avistavam-se ao longe e, através delas, descobria-se
àquela hora um céu sem nuvens apavonado pelos nascentes clarões
da luz oriental. Enchia as espessuras do vale e das encostas fronteiras um
enxame de pássaros, cujos gorjeios se confundiam, combinavam, ou afrouxando,
ou crescendo, e produzindo sempre a harmonia na dissonância, coisa que
a arte julga um absurdo, mas que a natureza entende e realiza.

Era no último dia de Abril. Flores em profusão esmaltavam
de variado matiz o fundo verde da relva.

Havia lugares em que o campo tinha reflexos dourados, roxos azuis, de magníficos
efeitos e lá estavam também dispersas pela colina e debruçadas
sobre o vale as minhas queridas flores das maias, todas alegres e festivas.

Eu estava enfeitiçado com o que via. Todo me embevecia a seguir com
a vista uma rosa que o vento desfolhara no rio e que, arrebatada pela corrente
ia, bem longe da roseira que a produzira, exalar o último alento; outras
vezes acompanhava a abelha no seu adejar de flor em flor ou o movimento da
sombra da folhagem agitada projectando-se sobre a relva do chão.

(Não conclui).

PECADOS LITERÁRIOS

Programa de um conto para os novos Serões da Província.

PAULO AMÉRICO encetou prematuramente a vida de escritor.

Criança ainda, já firmava com o seu nome escritos de todo
o género. Perdeu cedo aquele virginal pudor que é tão
salutar reserva para os escritores incipientes. Costumou-se ao público,
aos risos e zombarias de críticos e já o não magoavam
os golpes com que o feriam, quando entrou na idade da adolescência.

Imaginação viva e espirito cultivado, Paulo Américo
tornou-se um escritor distinto mas pouco simpático.

A única família que conhecera fora um tio velho e egoísta,
que não lhe soubera semear no coração sentimentos ternos
e nobres. Não havia carinhos de mulher nas suas recordações
de infância. De pequeno se familiarizou com o vício e aos vinte
anos achava-se um desiludido.

Assim, os seus livros eram eivados de cepticismo e desconsoadores.

Romances à imitação dos de uma certa escola francesa,
em que o vício se adorna de galas sedutoras e a virtude é tratada
com risos de zombaria, eram a sua produção favorita. A mocidade
procurava- os com avidez, porque tinham para ela a sedução do
vício.

Paulo Américo tornou-se um escritor conhecido, lido clandestinamente
selos filhos, temido e abominado pelos pais.

Um dia chegou à cidade uma viúva rica e muito requestada por
os pretendentes a casamentos vantajosos, um dos quais era Paulo Américo.

A viúva manifestou por ele alguma predilecção mas depressa
o desiludiu, declarando-lhe que nunca tencionara casar-se segunda vez.

Que a razão da simpatia que manifestava por ele, era a compaixão
que ele lhe inspirava. Paulo Américo pede-lhe a explicação
destas palavras e ela diz-lhe que, estudando-o e conhecendo as suas obras,
não o supunha um cínico, mas apenas um infeliz que nunca amara
e que daí provinha o seu desespero.

Paulo Américo concorda em parte e a viúva, depois de vários
conselhos, acaba por decidi-lo a ir passar algum tempo à terra dela
na província.

Paulo Américo vai. A mudança de hábitos e de meio faz
dele um outro homem e, tempos depois, apaixona-se por uma menina, filha de
um facultativo pobre, casa burguêsmente e propõe-se sinceramente
a realizar o tipo de marido de que tanto zombara.

Escreveu ainda um romance de género inteiramente oposto aos antecedentes,
no que procurou esmerar-se como em nenhum. O público porém,
repudiou-o, achando que o autor estava fora do seu género.

Isto desgostou Paulo Américo que nunca mais escreveu.

Passaram-se anos e Paulo Américo teve uma filha cuja educação
absorvia todos os seus desvelos. A filha cresceu e era a mais formosa e ingénua
criança que pode causar o enlevo de um pai. Paulo Américo era
verdadeiramente feliz, quando um dia a filha o surpreende pedindo- lhe para
ler os romances que ele publicara em tempo. Paulo Américo assusta-se.
Cônscio dos seus delitos, nunca falara a filha nas suas obras. Tremia
só de imaginar que os seus livros chegassem às mãos da
filha. Esta, porém, ouvira a uma menina de Lisboa, que passara alguns
dias na sua terra, falar deles e agora ansiava por lê-los.

Principiou uma verdadeira tortura para Paulo Américo, uma quase expiação.
Falou nisso à mulher e ambos procuraram desvanecer aquela ideia na
filha.

Um dia Paulo Américo entra no quarto da filha e vê um livro
em cima da banca; repara, era justamente o mais escandaloso dos seus romances.
O pobre pai tem quase uma síncope. A mulher acode e faz-lhe ver que
o livro está ainda por abrir. Informando-se, soube que a filha ainda
não o vira e que o livro tinha chegado momentos antes remetido pela
menina de Lisboa. É subtraído o livro juntamente com um bilhete
em que lho anunciavam como o melhor do pai. A mãe tem a lembrança
de o substituir pelo último romance, único honesto, que publicou
Paulo Américo e deste modo a filha pôde ler um livro do pai,
sem perigo para a reputação paterna.

UM RETÁBULO DE ALDEIA

Programa de um conto para os novos Serões da Província.

(I) Uma irmandade ou confraria de certa paróquia rural, procurando
dar aplicação ao dinheiro que tinha em cofre, convoca assembleia
para se discutir o assunto. Aventam-se vários e desencontrados alvitres
e afinal resolve-se mandar pintar à cidade um retábulo para
o altar da santa sob cuja invocação se erigiu a irmandade.

(II) Os mordomos dirigem-se para esse fim a um proprietário da localidade
que, passando metade do ano em Lisboa, estava no caso de melhor do que eles
arranjar artista para a execução da obra. Assim se fez. O proprietário
escreve a um rapaz seu amigo, discípulo da Escola de Belas-Artes, para
se encarregar da pintura do retábulo e, tendo de partir para o estrangeiro,
oferece ao amigo a sua casa na aldeia para lhe servir de atelier.

(III) O artista aceita, encantado com a perspectiva do tempo delicioso que
vai passar no campo e ao mesmo tempo orgulhoso de encontrar finalmente uma
tela, uma obra de mais fôlego do que os retratos de burgueses a cuja
confecção se via constrangido a aplicar os seus talentos.

(IV) Parte para a aldeia. Aloja-se na casa senhorial que o amigo deixou
vaga à sua disposição. Toma as medidas da obra, estuda
a luz e procura informar-se da história da santa.

(V) Contam-lhe a lenda respectiva.

(VI) O artista percorre, solitário, os montes da aldeia, à
procura de inspiração. O povo principia a notá-lo e a
desconfiar dos seus modos.

A inspiração chegou. A santa fora pastora e o artista, um
dia, depara com uma linda serrana adormecida sobre uns pitorescos rochedos
e rodeada de numeroso gado. Vê realizado o tipo que se esforçara
por conceber. Ali mesmo o esboça rapidamente e sente que venceu a primeira
dificuldade da obra.

— Então ? — O recém-chegado responde com a primeira
copla da xácara de Claralinda.

Uma voz parece contestá-lo cantando a segunda. É de um outro
cavaleiro que chega em trajos de viagem, inculcando ter caminhado muito. Os
primeiros interrogam-no. O recém-chegado é novo ainda, alegre
e descuidado. Responde que chegou há pouco de Paris, onde seguiu o
estudo da medicina, que é nascido em Évora e que vem para viver
na corte. Que sabendo em Lisboa que ela estava em Almeirim, para ali se dirigia,
porém que o seu cavalo precisa de pronto socorro, razão pela
qual ele não passará mais além de uma pequena taberna,
que avista dali, sem recuperar novas forças. Com mais algumas palavras
afastam-se, os primeiros em direcção a Almeirim e o último
na da taberna.

Apesar das fortes pancadas que o fatigado cavaleiro descarrega na porta
da taberna, esta não se abre logo. Porfiando, aparece-lhe uma gorda
personagem de fartos bigodes e aspecto marcial que, em português, com
ressaibos de castelhano, lhe pergunta rudemente o que quer. — Repouso
e comida para mim e para o meu cavalo. — O estalajadeiro fez uma visagem
como se o requerimento o lançasse em dificuldades imprevistas. A taberna
parece estar inteiramente desprovida do necessário. O cavaleiro, João
de Évora, estranha o seu hospedeiro e a singularidade da recepção.

Ainda não tinham chegado a um acordo quando subitamente entrou na
taberna um embuçado, em vestidos de paisano, que não reparando
em João de Évora, rompe em exclamações contra
o rei e a corte de Portugal e Castela e lamenta apaixonadamente a Excelente
Senhora, a quem se mostra devotado do fundo de alma. O estalajadeiro faz-lhe
sinais que ele não compreende até que por acaso repara em João
de Évora. Surpreende-se e instintivamente leva a mão à
adaga. João de Évora procura tranquilizá-lo e inspirar-lhe
confiança, dizendo que tem vivido fora de Portugal e que é inteiramente
alheio aos negócios políticos, que não compreendera o
segredo que pressentira, nem, que o compreendesse, era de ânimo a abusar
dele. • O espanhol retira-se um pouco mais tranquilo para mudar de trajo.

Rompe a tempestade e uma chuva diluviai. Quando o fingido estalajadeiro
vai fechar a porta, uma nova personagem entra na taberna fugindo à
chuva. Descobre-se e João de Évora e ele acham-se conhecidos.

Dois anos antes o recém-chegado, agora oficial da casa do Duque de
Beja, D. Manuel, tinha ido a Paris fazendo parte da embaixada mandada por
D. João II a Carlos VIII por causa da prisão de Maximiliano
em Bruges. Foi lá que tomou conhecimento e amizade com João
de Évora, então estudante.

O desconhecido espanhol volta, já vestido de cavaleiro e por sua
vez Filipe do Casal (o recém-chegado) o reconhece e mostra estar ao
facto do segredo dele. O espanhol afecta-se contrariado por ver as relações
de intimidade de Filipe e João de Évora. Filipe tranquiliza-c
relativamente’ ao carácter do seu amigo e o fidalgo castelhano resolve-se
a ser franco. Confessa que vive na corte, onde procura desviar de si todas
as suspeitas, mas que é um dos últimos e fiéis partidários
da causa da infeliz D. Joana de Castela e que jurou empregar todos os esforços
para a tirar da clausura em que vive encerrada, Para isso faz visitas frequentes
ao convento sob disfarce e, para não atrair suspeitas, tomou esta pequena
casa isolada onde se disfarça, encarregando o seu criado fiel D. Manrique
Pantalon, do papel de taberneiro. Foi no convento de Santarém que Filipe,
que tinha lá uma parente, chegara a descobrir D. Pedro Aires ser o
burguês disfarçado e o seu segredo.

Filipe procura convencer D. Pedro da loucura dos seus projectos, mas encontra
nele um paladino de antigos tempos pronto a desafiar o poder reunido de Portugal
e Castela em favor da dama de quem traz a divisa.

D. Pedro retira-se deixando a casa aos dois amigos que por algum tempo continuam
as suas conferências.

João de Évora admira a dedicação do castelhano.
Filipe observa, sorrindo, que ali há um pouco de amor também.
João de Évora espanta- se da loucura daquele amor e, às
observações de Filipe de que os há mais loucos e mais
fatais, descobre que o seu amigo está apaixonado e convida-o à
confidência.

Filipe conta-lhe que tendo sido há pouco tempo enviado a Castela
por negócios do Duque D. Manuel salvara por acaso da perseguição
da Inquisição a velha mulher e a filha de um célebre
judeu que fora queimado dias antes em Sevilha. Ao princípio a compaixão
e mais tarde um amor nascente pela judia levaram-no a prometer-lhes conduzi-
la a um porto de onde pudessem procurar um asilo seguro. Chegando a Portugal,
para onde tinham vindo já avisos de Castela e fazendo- se aqui, desde
1485, severa inquirição e justiça sobre os judeus refugiados
de Espanha, que fossem mais culpados de heresias, foi-lhe mister todo o recato
para não atrair suspeitas. Apenas confiou este segredo a D. Manuel
e enquanto preparava ama embarcação em Lisboa para transportar
as fugitivas, abrigara-se numa pobre casa de um pescador de Alfange onde a
bela judia, sob o nome de Clara, passava por amante clandestina de um alto
senhor da corte — insinuação que teve de fazer entrever
ao pescador para lhe vencer os escrúpulos.

Agora confessava Filipe que nas vésperas de as ver partir hesitava
e que a sua paixão crescera a ponto que não podia afirmar que,
se Ester lhe confessasse amá-lo como ele a amava a ela, não
fugiria também do reino, confiando-se às cegas àquele
amor e ao seu destino.

João de Évora procura combater-lhe aquela paixão, mas
encontrou o seu amigo profundamente possuído por ela. Nisto ouvem um
estrépito de cavalos que passam.

No entretanto a tempestade serena, a noite é já adiantada
e Filipe .propõe a João de Évora que o acompanhe a casa
de Ester. João de Évora aceita e partem.

Chegam a casa do pescador. Tudo é silencioso. A porta está
aberta e dentro tudo é escuridade. Apenas algumas brasas no lar.

Filipe chama por Ester e ninguém lhe responde. Chama por Débora,
a velha judia. Uma voz seca e severa responde desta vez. Ao mesmo tempo o
fogo do lar ateia-se em alguma lenha ainda não queimada e alumia de
uma luz amarela o recinto. A velha mulher está acocorada junto ao lar
com os cotovelos apoiados nos joelhos e a barba nas mãos. Há
no olhar dela um fulgor sinistro.

Filipe pergunta por Ester. — Partiu — responde a velha. Pergunta-
lhe para onde e como partira. — Para a perdição e nos
braços do seu amante.

Durante a tempestade Ester havia abandonado a casa e a mãe para fugir
com um jovem cavaleiro que a requestara e por quem ela se apaixonara a ponto
de não poder deixar Portugal como Filipe combinara.

Filipe desespera-se, blasfema, chora e jura vingar-se. A velha parece insensível
e lança-lhe em rosto a fraqueza, afirmando-lhe que a vingança
de Deus correrá atrás deles. Passado ternpo Filipe aconselha-
lhe que fuja, que ele procurará a filha. Ela recusa e diz que não
deixará aquele lugar, pois ali espera a filha culpada e o seu roubador
porque a vingança de Deus lhos trará ali, mortos ou vivos, e
que, só então, abandonará esta terra.

Filipe exorta-a debalde. Ela diz-lhe que não procure a filha, que
é inútil o esforço. Espera que a vingança de Deus
a trará. Impossível demovê-la desta resolução.

Filipe não sabe que partido seguir. João de Évora,
combinando este acontecimento com o que ouvira aos da cavalgada com quem se
encontrara, insinua a Filipe que Ester fora raptada por pessoas da corte e
que lá a encontrará. Filipe propõe-se a seguir para Almeirim
mas pede a João de Évora que vá a Lisboa para ver se
descobre os fugitivos e ao mesmo tempo para dar aviso contrário ao
barco que destinara à fugida das israelitas. João de Évora
condescende e combinando encontrarem-se em Évora, separam-se.

Termina o prólogo.

Passaram-se alguns dias. A corte está toda em Évora. João
de Évora, de volta da sua comissão, entra pela primeira vez,
depois que dali saiu criança, na sua cidade natal. É noite;
depois de errar ao acaso pelas ruas estreitas e escuras, pára em uma
taberna onde abundam os grupos populares e entra para descansar. A conversa
corre animada.

Fala-se em negócios da corte; respiram-se mal extintos ódios
contra Castela, mas com desejos de paz. Superstições, alvoroços
pelas festas próximas e amor pelo rei, do qual se referem várias
anedotas. Murmura- se da nobreza, cujos excessos no último reinado
se referem.

Contam-se vagamente os casos dos Duques de Bragança e Viseu. Uma
personagem que parecia de autoridade entre os do grupo, fixa atentamente João
de Évora e dirige-lhe a palavra. João de Évora entra
na conversa e granjeia simpatias pelo que conta de Paris. Este interlocutor
e João de Évora ficam sós depois que os populares se
retiram.

Tomado de súbita afeição por João de Évora,
o seu recém-conhecido oferece-lhe o seu valimento no Paço, onde
ele é benquisto por S. A. e conta-lhe a origem deste valimento: Em
1475, no ano do casamento de D. João II, era este homem, que se chama
Vaz Gil, escudeiro de um fidalgo de Évora, que se apaixonara por uma
mulher da burguesia de extraordinária beleza mas que debalde requestava.
Esta mulher principiou a ser requestada também por muita gente da corte
e também pelo próprio D. João, então príncipe,
ao qual ela afinal cedeu, recebendo-o muita vez de noite em sua casa. O amo
de Vaz Gil, sabendo das visitas nocturnas a Margarida, reuniu uma noite com
ele, Vaz Gil e outro escudeiro, homem de prodigiosa força, e postos
de emboscada, esperaram o visitador nocturno. Vaz Gil ignorava a jerarquia
do homem que estavam esperando.

Noite alta, chegaram três embuçados e a luta travou-se. Vaz
Gil fez o que pôde, mas foi rudemente mimoseado com um enorme golpe
que, por pouco, lhe decepava uma orelha. Caiu sem sentidos e não soube,
senão depois, que os seus companheiros, mais felizes, tinham fugido
à aproximação dos guardas e que, passados dias, haviam
desaparecido de Évora.

Mestre António, físico do Paço, então judeu,
mas que anos depois veio a receber o baptismo, sendo o rei padrinho e servindo-lhe
de toalha a própria manga da camisa real, obedecendo às ordens
de D. João, que a todos os físicos ordenara que lhe dessem parte
de quantos feridos de espada tratassem naqueles dias, denunciou Vaz Gil, a
quem D. João mandou chamar e, em vez de o castigar, revelou- se-lhe
como o adversário da véspera e recebeu-o como oficial da sua
casa, contentando-se apenas em o alcunhar pela enorme cicatriz aberta pela
espada do rei e, invertendo-lhe os dois nomes do seu apelido — Vaz Gil
de Gilvaz. Desde então gozava Vaz Gil do seu emprego e das boas graças
de S. A. e nunca mais ouvira falar do amo, da rapariga, nem dos seus companheiros
da briga.

João de Évora agradece e aceita o oferecimento de Vaz Gil
e combina encontrar-se com ele no dia seguinte de manhã, ali mesmo
na taberna, para ser introduzido na corte, sob os auspícios de tão
valente personagem. Pede-lhe instruções para atinar com o convento
de Santa Maria do Espinheiro, onde é esperado por um parente seu, e
os dois separam-se em cordial amizade.

(Note-se que as portas fecham-se e Santa Maria está fora dos muros)

João de Évora é recebido em Santa Maria do Espinheiro
por Frei Domingos, homem de quem recebia todos os recursos de vida e de educação.
O frade mostra prazer em vê-lo, mas apesar das boas palavras que lhe
dirige, há pouco de afectuoso na voz e na expressão desse homem.
Durante a ceia com que recebe o jovem doutor e a que este faz a devida honra,
o frade deixa entrever-lhe a ideia de que alguma coisa tem a exigir dele em
troca de tantos serviços prestados.

João de Évora conserva no diálogo uma leviandade que
exaspera o frade. O frade principia a dar as razões que o levaram a
fazer seguir João de Évora a carreira da medicina e associa
esta resolução a vagos pensamentos de vingança, que excitam
a desconfiança de João de Évora, o qual lhe afirma nunca
abusará da sua profissão para fins menos honrosos. O frade ridiculariza
as ideias de pundonor e João de Évora começa a achar
no frade um ar e expressão diabólicos e francamente lho declara,
O frade transige a princípio, mas quando por suas explicações
João de Évora parece mais tranquilo, volta de novo à
questão e afirma a João de Évora que ele tem uma história
que deveria procurar saber e que exige uma vingança. Que a mãe
dele fora vítima de um homem que a lançou na miséria
e na infâmia e que perseguiu sem piedade todos os membros da sua família.
E esse homem ainda vive. João de Évora pergunta-lhe por que
o não fez cavaleiro para que pedisse razão no campo a esse homem.
O frade responde que era impossível atingi-lo em salto de leão
e só em meneios de serpente. João de Évora declara francamente
a sua repugnância por vinganças dessa ordem. Frei Domingos responde-lhe
ironicamente, que é melhor aceitar a desonra e a miséria da
mãe e reprimir o impulso de filho pundonoroso que lhe reclama a vingança.
João de Évora pergunta-lhe se sua mãe ainda existe. O
frade afirma-lho mas assegura-lhe que nunca ele lhe revelará o nome,
sem que primeiro tenha jurado solenemente vingá-la. João de
Évora hesita porque lhe repugna o papel de traição que
o frade lhe destina. Depois de alguns momentos de luta, o frade concede-lhe
tempo para decidir e deixa-o. João de Évora adormece e o frade,
vendo-o adormecido, observa-o com desprezo e censura o seu carácter
que ele alcunha de covarde. Em seguida encaminha-se para a cela do prior.

O prior do convento era um antigo partidário do Duque de Bragança
e mais ainda do Cardeal de Alpedrinha, neste tempo em grande valimento em
Roma; apoiara deveras as lucubrações políticas do duque
chegando a fazer da sua cela o lugar do conciliábulo dos nobres, mas,
como político que era, não concedera confiança nem aprovação
à malograda e louca empresa do Duque de Viseu, à qual o astuto
amigo do Cardeal D. Jorge não viu alcance político. A entrevista
de Frei Domingos com o prior é toda política. Frei Domingos
procura ressuscitar o partido da alta nobreza, ferido de morte nas pessoas
dos seus mais poderosos representantes. O prior pondera-lhe a inanidade destes
projectos. Recorda-lhe a próxima aliança de Castela e Portugal,
que vem destruir o antigo elemento em que se firmara o Duque de Bragança.
Refere-se à pouca importância dos actuais nobres, uns devotados
ao rei que os exaltou, outros incapazes de qualquer acção por
covardia e falta de chefe. Frei Domingos lembra D. Manuel. O prior responde
que o mais conveniente é lançar sobre outros fundamentos os
projectos de resistência. Que a ocasião das revoluções
declaradas passou. A decadência da nobreza feudal não é
obra de D. João II; e obra do tempo. A classe média julga que
a queda do feudalismo é já a aurora de um dia de glória.
O principal é fazer-lhe mentida a esperança, deixar cair o feudalismo
mas evitar que o municipalismo lhe venha ocupar o lugar. Para isso, é
procurar dominar a realeza, sendo a ocasião propícia para o
clero dominar.

Estava a declinar o reinado actual. Precisava-se de paciência para
contemporizar e ir fazendo a sementeira para o reinado futuro. D. Afonso era
um ânimo fraco e fácil de vencer. Convinha segurá-lo.
D. Manuel, personagem de influência, que bem podia tomar um dia o caminho
do trono, era também uma presa que se não devia perder de vista.

A grande influência do cardeal em Roma, o aumento de poder que ia
cada vez mais tomando a inquisição, preparavam o terreno.

Frei Domingos, lembrou se não conviria antecipar os acontecimentos
apressando o reinado do fraco. O prior, como prudente, iludiu a pergunta e
recomendou a Frei Domingos que, como director espiritual de Justa Rodrigues,
ama de D. Manuel, procurasse dominar o espírito do duque. Frei Domingos
aludiu, sorrindo, às inclinações do duque para a corte
de Castela e em especialidade para alguém dessa corte que em breve
estaria em Portugal (primeira alusão à paixão de D. Manuel
pela infanta D. Isabel). O prior acolheu com um sorriso favorável a
alusão e aconselhou que se não perdesse de vista e, por sua
vez, dá informações sobre o carácter fanático
da infanta. O frade retira-se da cela do prior e, a sós, mostra um
soberano desprezo por todas estas vistas políticas, das quais ele procura
servir-se como instrumentos da sua vingança particular.

No dia seguinte ergue-se João de Évora, ainda preocupado pela
conversação que tivera com o frade na véspera, mas, por
disposição natural, resolvido a distrair-se, toma o caminho
da cidade para comparecer no lugar marcado a Gil Vaz. No entretanto não
adopta resolução alguma enquanto à proposta do frade.

Meio distraído, acha-se à porta da Sé (ou S. Francisco)
onde entra a fazer oração. Impressões que recebe no interior
deste templo. Ora com fervor para que Deus decida na sua consciência
a luta que as palavras do frade nela despertaram e lhe mande a inspiração.
No momento em que está ajoelhado, passam por ele Marta e D. Briolanja.

Sensação que lhe causa Marta e o sentido misterioso que liga
às palavras que ela ia dizendo a sua tia. Levanta-se, segue-a até
à porta e avança, colocando-se de lado para a ver passar. Marta
repara no ardor com que ele a fita e baixa os olhos. Afagos de Marta a uma
criança pobre. João de Évora, obedecendo a um impulso
irresistível, cobre de beijos a criança que Marta afagara. Confusão
de Marta. João de Évora propõe-se segui-la. Nisto dobram
a esquina três cavaleiros que cortejam Marta, descendo um do estribo
para lhe falar. João de Évora fita-o com despeito, que não
passa despercebido pelos dois outros cavaleiros, que se sorriem e comunicam
entre si. Quando Marta continua o seu caminho, João de Évora,
que a vai seguir, é impedido pelos três cavaleiros, um dos quais
o interroga impertinentemente (era o que falara a Marta). João de Évora
responde-lhe com soberba, dizendo-lhe que «as cabeças dos vilões
andam mais elevadas desde que principiaram a rolar pelos cadafalsos e nos
desvãos de janelas as dos fidalgos e cavaleiros». Esta alusão
ao suplício do Duque de Bragança e assassínio do Duque
de Viseu, fez empalidecer o cavaleiro aparentemente mais moço, enquanto
que um dos outros levou com ímpeto a mão à espada e correu
para João de Évora. Aquele, que parecia exercer alguma autoridade
nos outros dois, sustém-no e murmura-lhe algumas palavras ao ouvido,
fitando em João de Évora um olhar de orgulho soberano. Neste
momento desembocava de uma outra rua uma guarda de ginetes comandada por Fernão
Martim Mascarenhas, o qual fez respeitosa cortesia aos três cavaleiros.
João de Évora, ainda na posição defensiva que
o gesto do fidalgo lhe fizera tomar, saiu da sua abstracção
à voz de um homem que lhe falava da porta de uma casa junto da qual
se ia dando o conflito. Este homem aconselhava-lhe se aproveitasse da distracção
ocorrida para sair do campo que a sua imprudência lhe tinha tornado
perigoso. João de Évora reconhece no monitor André Girarte,
o taberneiro da véspera. Interroga-o sobre o sentido das suas palavras
e dele sabe que dos três cavaleiros, um é o Duque de Beja, D.
Manuel, irmão do Duque de Viseu, assassinado pelo rei em Setúbal,
os outros, D. João e D. Nuno Manuel, filhos de Justa Rodrigues, a ama
de D. Manuel e ambos íntimos do duque.

João de Évora segue o aviso de Girarte e entra na taberna,
a qual era de mais a mais o ponto de reunião marcado por Gil Vaz. Este
não se fez esperar e, alegando para desculpa da demora de alguns minutos
as suas ocupações no Paço, onde a proximidade das festas
do casamento do príncipe traz tudo atarefado, põe-se à
disposição de João de Évora para o servir na sua
introdução na corte. João de Évora em vão
procura saber dele quem seja a desconhecida da Sé; as suas indicações,
bastante vagas, a nada conduzem o espírito preguiçoso de Gil
Vaz.

Gil Vaz entra com João de Évora no Paço. Grande movimento
de pajens e cavaleiros nos corredores e antecâmaras. Impressões
de João de Évora. Gil Vaz serve-lhe de cicerone, mas João
de Évora vai sus peitando que a sua importância na corte não
é tão grande como ele dava a entender. Afinal Gil Vaz aproximou-se
de um pajem muito moço e de aspecto agradável e maneiras corteses
e procurou servir-se do seu intermédio para abrir a João de
Évora o acesso do gabinete real.

Este pajem é Garcia de Resende, então moço de câmara
do rei. Garcia de Resende manifestou a opinião de que seria difícil
naquele dia receber audiência, porquanto o rei está muito ocupado.
Que está tratando com Martinho de Castelo Branco e Henrique de Figueiredo
dos grandes preparativos da festa, dos quais Garcia fala com volubilidade
de pajem e entusiasmo de mancebo e que além disso tinham vindo noticias
de Aveiro de que a infanta D. Joana estava mui gravemente doente e que por
isso S. A. tencionava ouvir em seguida mestre António para irem vê-la
ao convento alguns dos médicos da corte. Que depois tinha o rei de
conferenciar com o seu conselho a respeito de negócios de África,
dizendo-se que se tratava de tomar Targa e Camice, sendo a empresa confiada
a D. Fernando de Meneses. Gil Vaz perguntou se mestre António já
tinha chegado, respondendo Garcia de Resende que já há muito
aguardava o rei no gabinete particular. Nisto os porteiros anunciam o rei
que atravessou a antecâmara, dirigindo a palavra a alguns nobres. Impressões
de João de Évora.

Passado algum tempo sai da câmara mestre António. Gil Vaz aproxima-
se dele e apresenta-lhe João de Évora. Mestre António,
a princípio distraído, atende com deferência João
de Évora desde que o sabe doutor em Paris; pratica com ele sobre algumas
notabilidades médicas da Universidade e promete-lhe o seu valimento.
Em seguida, como se lhe ocorresse um pensamento, pergunta-lhe se tem alguma
dúvida em sair por alguns dias de Évora, numa comissão
que o pode adiantar no favor real. João de Évora, não
obstante se lembrar da sua desconhecida, não se atreve a recusar. Mestre
António diz-lhe então que tendo de partir para Aveiro para observar
a infanta D. Joana, que se dizia em perigo de vida, fora encarregado por el-rei
de escolher, além do Dr. Lucena, físico-mor, um outro físico
de confiança que o acompanhasse e que ele iria dar parte a el-rei da
sua escolha de João de Évora se este aceitasse acompanhá-lo.
João de Évora aceita e agradece.

Mestre António volta à câmara real e traz a concessão
do rei.

Gil Vaz, orgulhoso pelo resultado da sua intervenção, convida
João de Évora para jantar em casa de um amigo. Mestre António
combina para o dia seguinte a partida.

No entretanto D. Manuel e os seus companheiros continuam cavalgando até
saírem as portas da cidade e procuram os arrabaldes. Conversam com
familiaridade sobre o encontro com João de Évora e pretensões
do povo, sobre algumas lendas que certos pontos de Évora lhes fazem
lembrar. A qualquer alusão sobre as próximas festas anuvia-
se o rosto de D. Manuel. Chegam a uma casa dos arrabaldes. É a casa
de Justa Rodrigues. Entram. Justa recebe-os com alegria e na conversação
revela as suas tenções de se retirar do mundo e encerrar- se
no convento que projecta edificar. Frei Domingos aparece na sala e saúda
D. Manuel. Este mostra-se constrangido na presença dele.

Justa retira-se. A conversa declina para uma feição política,
procurando o frade e os filhos de Justa instigar o ânimo do duque para
tomar a direcção da resistência às pretensões
da monarquia. O duque mostra reserva e prudência. O frade alude aos
boatos da próxima morte da infanta D. Joana e que depois desse acontecimento
D. João II tencionava chamar à corte o seu bastardo D. Jorge,
ainda em poder de sua irmã, para o ter mais próximo dos degraus
do trono, para que, dado algum caso imprevisto, possa tolher o passo a alguém
que S. A. não gostaria de ver sentar-se nele. D. Manuel não
pode inteiramente ocultar o seu desgosto ao ouvir isto. D. João e D.
Nuno clamam contra as pretensões reais. O frade fingindo tranquilizá-los,
lembra, hipocritamente, que o próximo casamento do príncipe
D. Afonso tirará toda a importância à medida, assegurando
um herdeiro directo ao trono.

O tiro não errou o alvo porque D. Manuel, mal podendo reprimir a
sua comoção, chega a soltar algumas palavras imprudentes que
a chegada de Justa Rodrigues lhe faz reprimir. Justa vê o duque abatido
e procura alentá-lo com a esperança de um brilhante futuro,
que é nela um presságio. O duque mostra que a posição
que ocupa, rodeado de suspeitas e vigilâncias, lhe não deixará
nunca abalançar-se a grandes empresas. Justa diz-lhe que tenha fé
na sua estrela. Frei Domingos, entrando na conversa, pergunta se D. Manuel
já consultou o célebre astrólogo judeu que vive junto
a uma das portas da cidade, mais afamado que o próprio Galeotti (?)
é um verdadeiro profeta. Excita ao duque e aos fidalgos o desejo de
o consultarem e sai.

Frei Domingos, deixando os nobres em casa de Justa Rodrigues, foi procurar
o astrólogo judeu. A habitação deste não desdizia
nada da pragmática astrológica. O frade entra como para consultar
o astrólogo ; mas, sentando-se, principiou a blasonar de céptico
e a ridicularizar a ciência do sábio. Este irrita-se. O frade
mostra-se conhecedor de alquimia e de astrologia judiciária e revela-se
ao astrólogo como um competidor respeitável. Este pergunta-lhe
o que o levou a procurá- lo. Frei Domingos responde-lhe que a vontade
de lhe prestar um serviço. Pergunta-lhe o astrólogo qual. Frei
Domingos diz-lhe que lhe vem ler o horóscopo. O astrólogo dispensa-o.
O frade insiste e diz-lhe que ele também possui a ciência judiciária
e que esta prevê que o astrólogo está sob uma fatal influência
e que ao longe avista o clarão da fogueira com que se castigam os heréticos.
O astrólogo, judeu refugiado de Castela, perturba-se e olha com suspeita
para o frade. Este tranquiliza-o assegurando que está para com ele
nas melhores intenções e que a prova é vir ensinar-lhe
novos e mais seguros processos astrológicos do que os da antiga ciência.
O astrólogo desconfia que alguma tenção oculta trouxe
o frade ali e prepara-se para escutá-lo.

Este aconselha-o a que não fite tantas vezes os astros, mas que procure
achar a previsão dos acontecimentos humanos nos sinais terrenos.

Que escute mais os homens como melhores guias e conselheiros para formular
os seus vaticínios. Que, por exemplo, não despreze os avisos,
ainda dos mais humildes. Que se ele um dia viesse dizer-lhe que três
nobres, disfarçados, tencionavam procurá-lo numa certa noite,
todos ambiciosos mas prudentes e dissimulados e que a dois podia, sem receio
de desagrado, predizer honras, grandezas e favor real, sendo provável
que o futuro não deixasse muito mentiroso o vaticínio, mas que
a um, ao que trouxesse por exemplo um anel de esmeralda, o futuro devia ser
mais prometedor, elevá-lo, elevá-lo ao mais alto, não
duvidando para isso derrubar alguns obstáculos que lhe tolhiam o passo,
aos últimos degraus—sem dizer a maneira como — deixando
apenas entrever que um pouco de boa vontade da parte do consultante, alguma
condescendência para com os amigos, facilitaria o acesso. Que procedendo
assim se faria uma astrologia menos visionária.

O astrólogo compreendeu o frade e prometeu aproveitar a lição.
Frei Domingos retira-se. O astrólogo, como para se vingar da superioridade
que o frade assumia sobre ele, disse-lhe à saída, que, enquanto
ele falara lhe estivera lendo o horóscopo. Frei Domingos pergunta-lhe
com desprezo o que tinha descoberto. — Que a vossa cabeça anda
arriscada, reverendo nono—foi a resposta do astrólogo, dita com
uma simplicidade velhaca. O frade encolheu os ombros coro desdém e
prometeu voltar.

Segundo o frade tinha predito os três nobres não faltaram à
consulta do astrólogo. Este, avisado por Frei Domingos, preparou-se
para os receber, fingindo ignorar que debaixo das capas de cavaleiros se ocultavam
três grandes personagens. Promete a D. João e D. Nuno um futuro
de glória, de poder e de valimento real. D. João afecta descrença
e numa frase dá a conhecer a D. Manuel a causa, que é o seu
pouco valimento com D. João II. O astrólogo fala num reinado
em que os abatidos serão exaltados, os expatriados restituídos
à pátria e honradas as memórias dos condenados. A predição
do judeu causa sensação e D. Manuel, ao adiantar-se para ouvir
o seu horóscopo, tremia. O judeu permanece por muito tempo silencioso
ante a contemplação dos astros, depois volta para D. Manuel
os olhos espantados e fita de novo os astros.

Em seguida mostra-se confundido e hesita em formular a sua predição.

D. Manuel insiste. O judeu diz-lhe que o vê subir a um ponto tão
alto que mal acredita em seus olhos, que o que é impossível
se realiza, que todos os obstáculos se aplanam no caminho, que os que
julgaram ferir a árvore só deram mais vigor ao novo rebento,
que ele seria o Venturoso, pois que ambições de poder, de glória,
de riqueza e até de amor, tudo realizaria; que o mundo se alargaria
para se lhe submeter ao seu império, que o seu nome voaria a partes
ignoradas e que a paz sorriria (?) à sombra do seu manto real. D. Manuel
pálido, interrompe o judeu, ao ouvi-lo pronunciar esta profecia, perguntando-lhe
se sabe quem ele é. O astrólogo responde que o ignora mas que
os astros falam claro e que mostram nele um rei. Os nobres retiram-se impressionados
e D. Manuel recompensou generosamente a predição do astrólogo.
Quando eles saem o astrólogo abre um gabinete onde o frade se ocultou
e pergunta-lhe, sorrindo: — Que dizes da profecia?— Representais
optimamente, mestre, Dir-vos-iam verdadeiramente inspirado.

Transporta-se a cena ao paço e à câmara de D. João
II. O rei está encostado, consultando um livro de onde transcreve nomes
para um rol. Em pé, por detrás da cadeira real, está
Garcia de Resende, com uma pena molhada em tinta, pronta para substituir aquela
com que S. A.

escreve desde que esta seque. D. João mostra-se preocupado no trabalho.

Como Garcia desviasse o rosto para não ler o que o rei escrevia,
não lhe deu a pena a tempo. S. A. repreendeu-o e mandou-o olhar, que
não se trigava (?) dele e diz-lhe que terminara a lista dos oficiais
da casa do príncipe, escolhendo-os do livro particular em que se registam
os homens que são para os ofícios e que o incluíra a
ele Garcia de Resende. O pajem mostra-se sentido por ter de deixar o serviço
de S. A. e abandonar o Paço. O rei fala-lhe afectuosamente e diz- -lhe
que o continuará a proteger e que vivendo D. Afonso juntamente com
ele rei, não terá Garcia de sair do Paço. D. João
II, cansado de trabalhar, recosta-se numa cadeira de braços e convida
Garcia de Resende a cantar-lhe algumas canções. Garcia canta.
O rei faz algumas observações sobre a importância da poesia,
afirmando o muito apreço em que tem a arte. Garcia faz ao rei a confidência
de que também compõe. O rei deseja ouvir-lhe as suas produções.
Garcia obedece. O rei aplaude-o e faz-lhe os maiores elogios, falando dele
com louvor Rui de Pina, que entra na câmara, e põe a par os seus
méritos de cronista e de trovador.

Rui de Pina chama a atenção do rei para os negócios
sérios e de política. Fala-se do casamento e da paz com Castela.
Alude-se aos reparos de Castela em quanto às fortificações
na fronteira. Combina-se a resposta. Em seguida entram Henrique de Figueiredo
e Martinho de Castelo Branco. S. A. dá algumas instruções
para as festas do casamento.

Antão de Faria vem depois com o prior do Crato e Fernão Martins
de Mascarenhas; fala-se em negócios de política em África,
França, Roma e Inglaterra, na doença da infanta D. Joana e probabilidades
da sua morte. O rei manifesta a vontade de educar na corte D. Jorge.

Observações do prior do Crato sobre a repugnância da
rainha. Antão de Faria aconselha S. A. que procure a rainha e cavalheiramente
lhe peça para receber o bastardo. Depois de algumas hesitações
S. A.

adopta o conselho. O rei fica só com Antão de Faria. O privado
é mais explícito agora, desvanece ao rei os receios que podia
ter de encontrar da parte da rainha uma resistência que o humilhasse.
A existência em Évora de uma filha natural do Duque de Viseu,
que a rainha e D. Manuel, irmão do duque, para subtraírem à
perseguição, que receiam do rei, fazem educar como filha do
antigo médico da infanta D. Beatriz, sua mãe, torna a rainha
cautelosa e pouco disposta a exacerbar o ânimo de seu esposo. Antão
de Faria, há muito ao facto da existência daquela filha natural
de D. Diogo, comunicou o segredo ao rei que, fingindo ignorá-lo, principiou
a encher de honras e distinções o Dr. Lucena, a ponto de o atrair
a si e, a pretexto desta protecção encarregou-se de lhe casar
a filha com um dos pajens de sua casa muito favorito de S. A. Estas vistas
contrariavam muito a rainha e D. Manuel, o qual favorecia as aspirações
de D. João Manuel, colaço do duque, à mão da filha
de D. Diogo e viam no casamento, que S. A.

premeditava, uma aliança desigual. O rei sabia-o, o que mais o fazia
insistir no seu projecto. Despedindo Antão de Faria, o rei mandou,
por Garcia de Resende, parte à rainha que a iria procurar e chamou
Antão de Figueiredo, moço do guarda-roupa, para que o vestisse.
Era este o noivo destinado por S. A. à filha suposta do Dr. Lucena.
Era um rapaz cheio de vícios que, por uma destas singularidades frequentes
nos homens mais severos, era muito predilecto do rei, com quem tinha grande
familiaridade. Antão de Figueiredo tardou em responder ao chamamento
do rei. S. A. repreendeu-o. O pajem defende-se secamente.

O rei, vestindo-se, pergunta-lhe o motivo do seu desgosto.

Queixa-se o pajem de que S. A. sendo ele tão bom servidor, não
lhe dava mais que 1500 rs. de moradia, sem tença nem outra coisa.

O rei, sorrindo, pergunta-lhe quem lhe sustenta seis homens de capa, seis
moços, quatro escravos e duas escravas brancas e dois ginetes e duas
azémolas? Ao enleio de Antão, o rei acrescentou que se calasse
que ele dispunha do seu guarda-roupa para tudo porque ele lhe fazia disso
mercê e não porque o ignorasse; portanto não tinha razão
de queixa por não receber mais tença. Acabando de vestir- se
tomou a direcção dos aposentos da rainha.

Antes de receber o aviso da visita do rei, a rainha estava só com
uma das suas mais intimas damas. Adormecida, com a cabeça sobre os
joelhos da rainha, está a filha de D. Álvaro de Bragança,
que ficou em Portugal e foi sempre educada na corte. A rainha afaga tristemente
a cabeça da criança e suspira. A dama interroga-a por esta tristeza.

A rainha diz que esta criança lhe faz sempre pena; que a acha triste
por dormir assim sobre um regaço real. As feridas que as últimas
lutas do rei e dos nobres abriram no coração da pobre princesa
não fecharam ainda; ainda estão iminentes as lágrimas
pela sorte desgraçada de seu irmão e dos seus, lágrimas
que diante do esposo, que deveria ser o confidente das suas penas, ela tinha
que reprimir.

Lamenta a realeza; sem ela não teriam tido lugar as cena3 que lhe
despedaçavam o coração. Recorda-se de que um destino
fatal parece pesar sobre a sua família. Lembra-se dos infortúnios
da rainha Isabel, mulher de Afonso V, da época de lutas e dissensões
em que se fez o casamento com D. João e, chorando, lamenta não
ter a obscuridade de uma aldeã. Em seguida tira do seio uma carta de
sua mãe, a infanta D. Beatriz, que lhe fala no filho natural de D.
Diogo, que vive obscuramente em Pinhel e lhe pede que vigie sempre por D.
Manuel e por a filha natural a que já nos referimos no capítulo
antecedente.

Mostra a incerteza das suas acções. Vê essa pobre rapariga
próxima a ser sacrificada à vontade de el-rei e nem ousa manifestar
a sua opinião e o seu interesse por ela, com receio de excitar desconfianças.

É neste momento que recebe o aviso da visita do rei; oculta apressadamente
a carta da infanta e acorda a criança para que vá ao encontro
do rei a beijar-lhe a mão.

D. João II entra no aposento da rainha com o sorriso nos lábios;
depois de afagar a criança, que lhe beija a mão, corteja a rainha,
senta- se junto dela e informa-se com interesse da sua saúde. Diz-lhe
que a sua ocupação nos preparativos da festa lhe impediu de
a visitar mais cedo. Dá-lhe conta de alguns projectos meditados para
os festejos e pede-lhe mesmo um conselho. Diz que tenciona permitir o uso
de sedas e pergunta à rainha se já viu as que têm chegado
do estrangeiro.

Encaminhando a conversa para o assunto que o trouxe ali, manifesta o receio
de que algum desgosto venha transtornar estas festas, pois que as notícias
vindas de Aveiro a respeito da saúde da infanta são más.
A rainha mostra-se sinceramente sentida. D. João, ponderando os resultados
daquela morte, menciona o nome de D. Jorge. A rainha não pôde
reprimir um movimento de desgosto que o rei finge não perceber. Continua,
pedindo desculpa à rainha por se referir a um assunto de antigas dissensões
conjugais, felizmente hoje acabadas, .

mas que, enfim, é pai e como tal não pode ver sem apreensões
a pobre criança privada do benéfico carinho da sua santa irmã,
D. Joana; que, confiando no ânimo generoso da rainha, ousava vir pedir-lhe
que abrisse os braços àquele pobre órfão, que
ia ficar sem as caricias de uma mulher de que tanto precisava. A rainha não
pôde suster as lágrimas à ideia do sacrifício que
se exige dela e lembra a D. João que ela lhe supõe um coração
diferente do coração humano; que já sacrificcu muito
à realeza, as saudades, a afeição fraternal e o orgulho
de esposa; pede-lhe que a não sujeite a uma nova humilhação.
D. João afirma-lhe que não se humilha perdoando nobremente antigas
culpas e estendendo a mão a uma criança, que a não ofendeu.
— E julgais que lhe posso abrir o coração também
? — exclama a rainha. O rei diz-lhe que sim, porque lhe conhece a generosidade
e depois, como exemplo, mostrou como ela trata em sua casa a filha de D. Álvaro,
de quem recebeu muitas injúrias e que de Castela ousou escrever-lhe
uma carta insolente.

A rainha não pôde deixar de perguntar-lhe por que não
estende a mesma generosidade ao bastardo de Portel (primeiro do Duque de Viseu).
D. João, já menos bondoso, responde-lhe que pela tranquilidade
do reino; que a infanta D. Beatriz (perdoasse-lhe falar assim de sua mãe)
tinha já dado provas de leveza, deixando apoderar-se a cabeça
de seu filho de ideias loucas que lha perderam; que, por felicidade desse
bastardo, julgava bom arredá-lo dessas influências perigosas.

Por isso achara aplicável a receita que a infanta e os reis de Castela
em tempo aconselhavam para seu filho D. Jorge. A rainha observa-lhe que, para
quem vem pedir o esquecimento, ele se mostra muito lembrado.

D. João afirma que sabe esquecer e não hesita em fazê-lo
quando só tem a sacrificar o seu orgulho. Que às vezes chega
a ser demasiado confiado. Acaso manifestou alguma má vontade contra
D. Manuel? Não o educou junto de si, não lhe deu aumento e riqueza?
— o que o não impede de conspirar um pouco, acrescenta sorrindo.
A rainha defende o irmão, dizendo injusta a acusação.
O rei tranquiliza-a dizendo que é leve o pecado do duque, apenas o
de escutar às vezes, com complacência, as lisonjas de certos
amigos imprudentes e não afastar de si alguns visionários perigosos;
mas que confia no bom senso e juízo do duque, que não dará
passo algum que o comprometa. Enquanto a chamarem-lhe cruel, repare a rainha
que nem para todos os bastardos da família dele, ele se apresenta como
perseguidor. A insinuação, que parece referir-se à filha
do Duque de Viseu, aterra D. Leonor, que em vão procura ler no rosto
de el-rei o sentido daquelas palavras.

D. João repete o pedido de chamar à corte D. Jorge. A rainha,
ainda atemorizada com o que ouvira, acede, acrescentando que ele será
o companheiro de jogos de Beatriz, a filha de D. Álvaro. D. João
beija a mão à rainha, com tanta galantaria e afecto que a comove
até às lágrimas.

• Nisto entra na sala D. Afonso. É ainda muito moço,
formoso, mas efeminado, traja com um apuro excessivo cetins e arminhos e em
tudo mostra delicadeza. Aproxima-se do rei e da rainha e corteja-os com respeito,
mas ao mesmo tempo com certa petulância de filho amimado.

A rainha olha-o com amor. D. João, que o viu entrar, acolheu-o com
um olhar de profundo afecto, mas com uma certa severidade perguntou- -lhe,
apontando para o cinto desarmado, onde tinha deixado a espada? D. Afonso sorriu
e respondeu que achava impróprio do trato doméstico uma arma
de ofensa ou defesa, quando se vivia em completa harmonia.

O rei recorda-lhe que já mais do que uma vez o encontrara desarmado
e que, para um futuro rei de uma nação, que conquistou, palmo
a palmo, o solo que ocupa e que vai, dia a dia, alargando à custa do
sangue dos infiéis, é uma triste garantia. D. Afonso observa
ao rei, com certa confiança, que ele não tem culpa em ter nascido
em época de menos guerras e cavalarias e que talvez a sua pouca tendência
para as armas provenha de ter visto, quando começava a fazer uso da
razão, infringirem-se as regras de cavalaria na pessoa de D. Joana
de Castela que se sacrificara ao bem do estado, o que mostrava que essa devia
ser a razão principal das acções de um rei. D. João
II mostrou- se irritado com a atrevida alusão do filho. A rainha interveio
sorrindo, lembrando a D. Afonso que esse acto político lhe preparara
a felicidade, assegurando-lhe o próximo casamento na casa de Castela.

— Não sou eu que o censuro! — exclamou o príncipe.
— Vejo antes nele uma justificação do meu amor pela paz,
cujo reinado chegou.

O rei, mais severo, replicou que o amor pela paz obriga muitas vezes à
guerra e que não é cuidando de enfeites e galas próprias
de mulheres que os grandes reis se formam. D. Afonso pergunta ao rei qual
a razão por que ele repreendeu um dos moços da sua câmara
por usar espada, sendo criança. — Porque não quero vê-las
empunhadas por quem as não saiba honrar, brandindo-as. Espero que o
meu filho não esteja neste caso e não esqueça que é
neto de Afonso V, do Infante D. Pedro, de D. João I e que da sua idade
fui eu armado cavaleiro na mesquita de Arzila, onde combati ao lado dos mais
valentes. — Visivelmente irritado, D. João retirou-se recomendando
a rainha que se esforçasse por criar um rei como o povo havia mister.

A rainha, ficando só com o filho, chama-o para junto de si. Afonso
senta-se-lhe aos pés em um tamborete raso. A rainha passando-lhe a
mão pelos cabelos, censura-lhe os modos de acolher as observações
de el-rei. Afonso desculpa-se, perguntando se seu pai o desejaria ver de armadura
e viseira calada ao vir receber as bênçãos de sua mãe.

A rainha sorri com complacência, mas adverte-o que o rei vê
com desgosto o muito cuidado que o príncipe dá aos enfeites,
que D. João é inimigo de homens efeminados, que olha para a
companhia que D. Afonso mais frequenta, com desgosto visível. Afonso
defende os seus amigos. Prosseguem estes conselhos maternais e terminam por
a rainha dar o seu parecer sobre o costume que D. Afonso tenciona usar por
ocasião das festas e sobre os lenços bordados de que S. A.

usa e contra os quais tinha acabado de falar, contando o que o rei dissera
a um fidalgo que os usava.

Anuncia-se D. Manuel. A rainha recebe o irmão com evidentes sínais
de afecto. Pede-lhe, sorrindo, que venha em seu auxílio para fazer
do príncipe um homem, comunicando àquela cabeça leve
um pouco do seu juízo. O duque responde em favor de D. Afonso. Este
agradece, e acrescenta que o duque alguma coisa tem na consciência que
lhe não permite aceitar os gabos da rainha. A razão desta alusão
é que o príncipe, que desde já podemos dizer o raptador
da judia Ester, julgou que esta era amante de D. Manuel, por mal interpretadas
informações colhidas. D. Manuel não entendeu o verdadeiro
sentido da alusão e fitou o príncipe, não ousando acreditar
e ao mesmo tempo receando, que ele pudera referir-se ao mais recôndito
segredo do seu coração, ao seu amor a Isabel de Castela, que
sentia desde criança quando a vira em Moura nos tempos das Terçarias.
No entretanto, o príncipe, sempre inquieto, levantou-se para brincar
com Beatriz, que adormecera no berço, passando-lhe pelas faces a ponta
de um lenço ao de leve.

D. Manuel, aproximando-se da rainha, perguntou-lhe se era verdade que el-rei
tencionava chamar D. Jorge à corte. A rainha respondeu- lhe afirmativamente.
— E V. A. consente? — disse D. Manuel com desgosto, — Assim
é preciso. — Sempre humilhações, exclama D Manuel,
suspirando. D. Leonor recorda-lhe que eles têm alguém a proteger
e que por isso convém não irritar el-rei, contrariando-o.

D. Manuel diz à rainha constar que D. João tencionava apressar
o casamento de sua sobrinha Marta com Antão de Figueiredo. Também
se lhe consentiria isso? A rainha promete opor-se formalmente. Nisto Beatriz
queixa-se de D. Afonso. A rainha repreende o filho e pede a D. Manuel que
se retire com ele. Depois de a cortejarem saem os dois.

Pelo corredor que conduz aos aposentos do duque, D. Afonso, apoiando-se no
seu braço e precedido por pajens com tochas e seguidos por oficiais
de armas em riste, vai conversando com D. Manuel, queixando-se das injustiças
de opinião que lhe atribui a ele príncipe, uma cabeça
estouvada, em quanto que muito levianamente concede a D. Manuel uma prudência
e sisudez, que em parte é simulada.

D. Manuel sorri e pergunta-lhe em que fundamenta o seu modo de pensar. Afonso
responde vagamente, referindo-se por obscuras alusões à desconhecida
de Almeirim que ele diz estar agora"»mais perto do amor que a procura.
O duque julga que D. Afonso suspeita alguma coisa do seu secreto amor pela
princesa e confunde-se. Esta confusão aumenta o bom humor do príncipe
que se despede do duque, rindo de boa vontade.

Filipe do Casal, um dos oficiais que mais de perto seguia os reais parentes,
pôde ouvir a conversa dos dois e por ela ficou suspeitando ser D. Manuel
o raptador.

D. Afonso seguiu até chegar aos seus aposentos. Aparência destes
; o luxo. A corte de D. Afonso é demasiado jovial. Todos elegantes,
moços e estouvados. D. Afonso entretém-se com eles de aventuras
amorosas. Referem-se a Ester, que se sabe estar em Évora.

Afonso mostra-se enfadado dela e julga conveniente, atendendo ao seu próximo
casamento, livrar-se de todos os laços importunos. Antão de
Figueiredo, um dos mais afeiçoados ao príncipe, pede-lhe autorização
para se encarregar dessa empresa. O príncipe sorri e lembra-lhe que
ele está igualmente em vésperas de casar. Antão encolhe
os ombros respondendo que lhe pesam pouco esses laços e não
receia que o estorvem.

Depois de alguma discussão, organiza-se um bando para irem tentar
a empresa de remirem o príncipe das ligações amorosas
que o prendem. E com a maior alegria saem do quarto para se espalharem pelas
ruas de Évora,

(Fim do programa do 1.° volume)

Esboço de um programa para o conto A vida nas terras pequenas.

Cap. I — Quem eram Estêvão e Adelina. Motivos da sua partida
para a vila de Meloais do Duque. Sentimentos de um e de outro.

Cap. II — A chegada. Aspecto da vila. Comentários do público.

A casa. A vizinhança. A senhoria. Visita do boticário e da
sua gente.

Reflexões de Estêvão e de Adelina.

Cap. III — Estêvão é levado pelo boticário
à câmara. O presidente.

Vítor de Ansão e o que se diz dele. Desilusões de Estêvão.

Estêvão entra em exercício.

Cap. IV — A visita da família do administrador. Tipos. Conversação.

O reverso da medalha. Fala-se no presidente, no boticário e em Vítor
de Ansão. Convite. Comentários da vizinhança.

Cap. V — Os serões de Estêvão. Uma tentação.
Catequese inconsciente de Adelina, Resoluções de Estêvão.
Na botica.

Cap. VI — A visita ao boticário. Confidências de Matilde
e Adelina.

Conselhos desta. Despeitos de Joana. Procedimento de Estêvão.
Joga-se o quino. Murmura-se do administrador. Reflexões dos irmãos
em casa.

Cap. VII — O serão em casa do administrador. A família.
O delegado.

O juiz e Eurico. Charadas e recitação. Murmura-se do presidente
e do boticário. Oposição ao clube. A Sociedade Filotécnica.

Oferecimento a Estêvão. O doutor Venceslau e os sonetos.

Cap. VIII — Clínica de Estêvão. Em casa da moleira.
O cónego e a viúva. Entrevista com Joana. Conselhos de Estêvão.
Desfeitas de Matilde. Desgosto de Estêvão contra o boticário.

Cap. IX — No clube. O que se diz de Estêvão. Desgosto
do presidente…

Adelina encontra Vítor em casa da moleira. Carta de Vítor
a Estevão pedindo-lhe para deixar voltar a irmã, que ele não
voltará.

Carta anónima a Adelina participando-lhe os sacrifícios de
Estêvão.

Resolução de Adelina. As jóias vão parar às
mãos de Vítor. Suspeitas de Estêvão. Vítor
convence o Dr. Venceslau a deixar-se operar.

PERSONAGENS

Adelina — Dezoito anos, bondosa, sem afectação. Cheia
de boa fé para com todos. Passando através do mal e das intrigas
sem suspeitar- lhe a existência. Confia no irmão como num herói.

Estêvão — Espírito honesto, mas não entusiasta.
Incapaz de uma paixão extrema; mas com o coração amoldado
para sentimentos brandos, O amor fraterno é o mais ardente afecto que
lá encerra. Pode sacrificar-se mas reflectidamente ou como obedecendo
a um dever e não por irresistível impulso de entusiasmo. Não
forma sonhos dourados nem ambiciosos. Homem para transigir com o mundo tal
como ele é.

Vítor de Ansão — Rapaz de excelente educação
e hábitos da moda. Vive na província porque os seus teres não
lhe permitem viver em Lisboa. Convive pouco, É mais entusiasta do que
Estêvão; mas exigente em relação ao futuro. Pouco
dissimulado. Mais querido entre a classe baixa do que entre a média,
que, não obstante, se lisonjeia sempre que lhe merece atenções,
o que raras vezes sucede.

Estouvado nos seus primeiros dias da mocidade.

D. Roberta de Ansão — Senhora de fina educação
e profundo bom senso. As provações da sua vida têm-lhe
dado uma têmpera de tolerância e uma repugnância à
convivência que perfeitamente se identifica com o génio de Vítor,
por quem é extremosa.

Baltasar — Boticário. Génio vivo e forte, fácil
em encolerizar-se.

Homem político e a alma do presidente da camara. Exerce descaradamente
a medicina e promove guerra aos médicos que lhe vão nisso, à
mão. Gosta de fazer ostentação da sua liberalidade. Descura
um pouco a farmácia.

D. Maria do Céu — Mulher dele.. Tipo de burguesa faladora,
curiosa e maledicente. Exaltando a importância do marido, mas sempre
deixando entrever que é de procedência superior à dele;
mas que não olhou a isso porque a verdadeira distinção
está no saber e na inteligência.

Matilde e Joana — As filhas. Ambas curiosas janeleiras e amigas de
namorar. Matilde, de melhor fundo, tem uma afeição sincera pelo
praticante da botica, a qual, não obstante temporárias infidelidades,
sobrevive sempre no seu coração. Joana é menos ingénua.
Aspira a um casamento vantajoso. Odeia mais cordialmente do que a irmã,
a filha do administrador, e ambiciona o afecto de Estêvão. Em
tempo namorou-a Vítor de Ansão.

Belchior Azevedo — O administrador. Homem muito preocupado da sua posição
oficial, falando a todo o momento dos seus ofícios ao governador civil
e ao governo. Com pretensões a conhecedor dos negócios públicos
e dos usos diplomáticos.

D. Heloísa — Sua mulher. Senhora de educação
literária mas sem senso. Preciosa ridícula. Discorre em literatura
e pretende que a sua casa seja um grémio literário. Escolheu
para os filhos nomes românticos.

Casa bem mobilada, mas sem feição característica.

Julieta — Filha do administrador. Participa um pouco das qualidades
da mãe. Aspirações a espirituosa e julga-se muito superior
a todas as raparigas da vila. Fala sempre em Lisboa, teatros, etc. Antigo
namoro de Vítor de Ansão.

Eurico — O irmão de Julieta. Estudante dos primeiros anos da
Universidade. Um pouco pedante com pretensões a falar de tudo com eloquência.

O Zé do boticário — Pobre rapaz que ama sinceramente
a filha mais nova do patrão. Aflige-se quando ela lhe é infiel
e perdoa-lhe, de todas as vezes, as infidelidades.

Dominguinhos da Praça — Um pateta. Cavalheiro servente de quase
todas as meninas da vila. Adivinha charadas figuradas, faz flores de papel,
arma e enfeita altares, superintende em todas as funções.

Recita ao piano.

O delegado — Rapaz namorador, cujo maior prazer é conversar
com senhoras. Conviva do administrador e sarcástico contra o partido
do presidente. Fala muito no seu tio do Supremo Tribunal.

O juiz — Surdo. Apaixonado do voltarete e contando sempre as mesmas
histórias.

O presidente da câmara — Criatura cheia de importância
e no fundo um parvo, que o boticário move à vontade. Proprietário
rico e influente na terra.

O cónego—Velho rabugento e sem contemplações
com ninguém.

A viúva — Mulher positiva e metódica.

Dr. Venceslau — Poço de direito rábula. Metrificador
de sonetos a propósito de tudo.

O capitão do destacamento — Gordo e comodista.

Adelina — Luta contra o seu amor a Vítor pelo mau conceito
em que o fazem ter as intrigantes.

Estêvão — Preocupado com a felicidade da irmã,
faz por vencer todas as causas pessoais de desgosto. Só se exalta quando
supõe ameaçada a felicidade de Adelina.

Vítor—Deixa-se possuir cada vez mais pelo amor a Adelina, cuja
frieza o não aflige.

D. Roberta — Ambiciona que o casamento de Vítor lhe dê
mais uma filha e netos que suavizem a velhice. Aprova a escolha do filho e
condescende com Vítor em salvar Adelina de -censuras públicas.

Joana — Odeia Adelina quando suspeita do seu amor a Vítor.

Odeia Estêvão por este a haver razoavelmente dissuadido do
seu amor.

Julieta — Tem quase os mesmos motivos que Joana.

Baltasar—O seu desgosto contra Estêvão procede da intimação
do administrador para se coibir de exercer a medicina e do parecer sobre a
criação de porcos.

O. Heloísa — Suspeitas sobre as tenções de Estêvão
em relação ao cónego.

A VIDA NAS TERRAS PEQUENAS Dois capítulos de um conto

TINHA vinte e quatro anos Estêvão de Urzeiros quando recebeu,
legalmente selado e rubricado, um diploma que o declarava apto para tratar
de medicina e de cirurgia em todo o continente, ilhas e mais possessões
do reino.

Concluíra, sem prémios nem erres, a sua formatura na Escola
do Porto, à custa de alguns sacrifícios do pai, que nesta cidade
exercia com escrupuloso zelo um modesto emprego público.

Durante o tirocínio escolar, Estêvão não se apaixonara
por a ciência, nem prometera ser homem para a fazer progredir; mas é
certo também que não a odiava, nem lhe negava as atenções
devidas.

Convivia com ela, como a grande maioria dos maridos convivem com as suas
mulheres, sem extremos de paixão mas também sem as tratarem
mal.

Meses antes do ultimato dos seus estudos, sofreu Estêvão um
golpe, que sobre doloroso que lhe foi para o coração, veio estorvar-
lhe com um embaraçoso tropeço os primeiros passos na carreira
da vida.

Morreu-lhe quase de repente o pai, deixando-lhe por única herança
uma irmã de dezoito anos, tendo por dote bondade e formosura e que,
além do irmão, ninguém mais possuía no mundo a
quem legitimamente se encostasse.

Estêvão recebeu-a com os braços abertos e as lágrimas
nos olhos.

Adelina, que assim se chamava a órfã, desorientada por uma
perda que nunca previra, em que nunca pensara, cingiu-se estreita mente ao
peito do irmão, onde sentia bater um coração movido por
os mesmos afectos que a atribulavam, e a consciência desta simpatia
mais lhe engrossava o pranto.

—Não chores, minha pobre Adelina — dizia-lhe Estêvão,
tão comovido como ela — não chores que enquanto eu puder…

— Ai, não é o medo do que vem que me faz chorar, Estêvão;
é a saudade do que passou. Eu bem sei que tu me protegerás,
tu que és tão bom; e se tu me protegeres, que posso eu recear
? Esta ingénua confiança no valor do braço a que se apoiava
era sincera na inexperiente criança. E o mais é que ao ouvir
aquelas palavras, Estêvão sentia com o simpático orgulho
que lhe vinha da consciência da sua superioridade, o alento de uma nobre
coragem. Olhou para a formosa cabeça que, para chorar, se lhe ocultou
no seio, e convencia- se de que em ser a providência daquela orfandade,
no velar, trabalhar, sacrificar-se pela felicidade dela, havia para a alma
uma suave e consoladora tarefa, no preenchimento da qual encontraria a melhor
recompensa a esperar no mundo; porque, se para cá do túmulo
há alguma coisa que se possa chamar Céu e Inferno, é
na própria consciência que se encontra.

Não se julgue, porém, que Estêvão não
antevia sombras quando alongava a vista pela desconhecida vastidão
do futuro.

Antevia-as e bem cerradas! O leitor experiente do mundo não só
não estranhará estas apreensões, mas antes será
capaz de com antecipação indicar os fortes motivos que Estêvão
tinha para senti-las.

É uma época solene a da entrada na vida social.

Até àquele momento teve-se por viver o sonhar. Acorda-se então.

É um segundo nascimento quase; é a transmigração
da alma humana para um mundo novo.

E não há-de ela estremecer na passagem? Tendes reparado alguma
vez nesses pobres emigrantes que, seduzidos pelos ouropéis de enganosas
esperanças, saem meninos das sombras da sua aldeia e vêm, em
folgada peregrinação, até ao porto de mar onde os espera
o navio que tem de os levar a praias desconhecidas? Antes de verem o oceano,
essas imprevidentes crianças vinham alegres, riam, cantavam, sem saudades
da sua terra, sem terrores do futuro e suspirando só pelo fim da jornada,
que a sua impaciência alonga desesperadoramente. Mas, à vista
do mar, dessa imensidade de águas que nunca tinham sonhado; à
vista do navio, essa movediça habitação, que por muito
tempo vai ser a sua; quando lhes dizem que têm de perder-se como um
ponto naquele horizonte vago, indistinto e solenemente monótono, ao
grado daquelas ondas irrequietas, baixa-lhes ao coração uma
nuvem de tristeza, corre-lhes os membros um estremecimento de receio; assaltam-nos
as primeiras saudades, que são para as tristezas do desterro o que
os vapores do Outono são para as cruezas do Inverno, chama-os então
da aldeia que abandonaram uma voz desvanecida em que se confundem o canto
das aves, o ciciar dos arvoredos e o sussurrar das fontes e dos ribeiros.

Assim na vida. Nós todos, iludidos como essas crianças, vimos
dos risonhos vergéis da infância, através das floridas
e pitorescas veredas da juventude, ansiosos por chegar ao termo da jornada
e confiamo-nos às ondas deste oceano do mundo, em demanda de não
sei que nunca realizado futuro. Não nos retêm as flores que se
debruçam dos caminhos; quando muito, colhemo-las distraídos
e sem piedade as desfolhamos, deixando-as no chão murchas e esquecidas,
e seguimos sempre com os olhos e com o pensamento no termo da estrada que
trilhamos.

Mas ao chegarmos à praia, ao vermos diante de nós as grandes
águas e os que nos precederam, em luta já com elas, ora elevando-se-
-lhes no dorso, ora engolfando-se-lhes no seio, apodera-se-nos então
do coração um certo pavor, fogem-nos dos lábios o riso
e o canto e também sentimos as primeiras saudades do passado, as primeiras
apreensões do futuro.

Estêvão de Urzeiros achava-se neste momento crítico.

E davam-se com ele circunstâncias que mais crítico o tornavam.

O coração humano, digam o que quiserem os que o taxam de egoísta,
desfalece menos ante a perspectiva dos perigos quando é único
a arrostá-los, do que quando a tempestade que ameaça feri-lo,
atinge também outro a que os afectos o ligam.

O nosso espírito prevê melhor o futuro quando nenhum outro
futuro depende dele; concebe e previne melhor as eventualidades, calcula melhor
o alcance e a compreensão da desgraça, porque pelo conhecimento
que tem de si, pode pressentir o mal que ele lhe causará.

Mas, se mais alguém sofre connosco, como não temos consciência
do sentir dos outros, nem podemos antever neles a intensidade do mal, mais
nos assusta o pensamento do futuro porque há nele uma maior porção
de desconhecido e o desconhecido é o eterno terror do homem.

Estêvão podia fazer entrar como elemento dos seus cálculos
do futuro a sensibilidade do próprio coração, mas não
a do coração de Adelina.

Deus só sabia até que ponto qualquer sucesso possível
afectaria aquela delicadíssima índole feminina.

Isto o fazia receoso.

Depois vinha a natureza da missão social que lhe cumpria desempenhar.

É natural que o confrangimento de coração que à
semelhança do actor novel, experimenta todo o homem, ao entrar em cena
neste grande teatro da sociedade, seja tanto mais intenso e doloroso quanto
maior é a importância do papel que vai representar.

No teatro o actor encarregado de um papel sem importância, de entregar
uma mensagem, de anunciar a entrada de uma figura do drama, que não
tem de falar ao coração do público, não pode sentir
a comoção que sente o protagonista, em quem todos os olhos se
fitam, cujas palavras e gestos têm de dirigir-se aos afectos, de excitar
a sensibilidade, de desencadear as paixões no público que o
escuta.

E, sendo assim, concebem-se mais justificadas e mais angustiosas apreensões
do que as do estudante de medicina de ontem a quem a faculdade, em cujo seio
viveu descuidado, lhe diz, separando-o de si e impelindo-o às lutas
sociais:—«parte, lida; é tempo de experimentares as armas
que te confiei».

O que não estremecer nesse momento solene, o que se não sentir
hesitante, impressionado por uma íntima desconfiança em si próprio,
nas suas forças e faculdades, não é digno de ser médico
porque não compreende nem compreenderá nunca o alcance da missão
que vai desempenhar.

Na vida que o espera não há afecto humano com que não
tenha de confrontar-se, desgraça que lhe não projecte no caminho
o seu triste reflexo, interesse que não possa depender dos seus actos,
segredo que não possa ser confiado à sua lealdade. Abrir-lhe-ão
um dia a porta de uma casa a esperança e as bênçãos;
fechar-lha-ão amanhã a ingratidão e as injúrias;
recebê-lo-á hoje aqui o desespero, acolá o crime, além
a miséria e, como um espectro implacável, lhe surgirá
a cada momento a morte, sob formas sempre diversas e sempre pavorosas, cingida
com a capela virginal umas vezes, coroada outras pelas cãs de velhice,
animada por o sorriso da infância ou sinistra com os vestígios
do crime.

Vai pois viver em uma atmosfera de afectos, mover-se no íntimo seio
das famílias, onde cada movimento levanta um capricho, magoa um preconceito,
agita um interesse ou revolta uma paixão.

O que, sabendo isto, aceita com desassombro a missão, ou não
tem inteligência para a compreender, ou possui um carácter de
deplorável natureza.

Estêvão não estava em nenhum destes casos. Ao seu carácter
faltava-lhe, diga-se a verdade, um elemento dos mais poderosos para, na sua
situação, lhe infundir coragem: — a paixão do ideal.

Os que no mundo perseguem esta luminosa visão, esta fada atraente
e sedutora, aqueles cujas vistas penetram através do mundo das realidades
e além dele, descobrem um mundo novo, o mundo das ilusões e
da poesia, sentem-se, ao empreender uma destas tarefas árduas e dolorosas,
rodeados de um prestígio que lhes dá alentos e, longe de desanimarem,
mais se lhes exalta o ânimo com as provações da vida.
Estas frontes humanas parecem ambicionar uma coroa, seja embora de espinhos,
que misturem o seu pungir às embriagadoras comoções da
glória.

Estêvão, porém, era um homem positivo. A imaginação
não lhe coloria a perspectiva com tintas suas; deixava-lhe o colorido
real.

Antes da morte do pai, Estêvão, olhando friamente para o futuro,
concebera uns projectos que nada tinham de ambiciosos. Contentava- se em estabelecer-se
como facultativo municipal em qualquer terra da província e realizar
aí um casamento, senão rico, remediado, embora não presidissem
às núpcias nem a beleza da noiva nem a intensa paixão
do coração.

Ao sentir-se o amparo de Adelina, Estêvão, sem renunciar de
todo aos seus projectos, recuou para mais remota época a realização
de parte deles e tomou para primeira tarefa a felicidade da irmã.

Para estes brandos afectos tinha ele coração, que não
para paixões violentas.

Era honrado, prudente, exacto no cumprimento dos seus deveres, regular na
divisão do seu trabalho; um destes espíritos tão raros
hoje em que os hábitos sociais e não sei que auras que se respiram
nas cidades, fazem tão predominantes os temperamentos nervosos, com
as suas alternativas de desalento e de coragem, de actividade e de indolência,
que não os deixa trabalhar com regular constância em qualquer
obra empreendida. Mas por isso mesmo que via tudo friamente, Estêvão
não desconhecia as muitas dificuldades com que tinha de lutar.

Oferecera-se-lhe um partido municipal na vila de Meloais do Duque, pseudónimo
que adoptamos para comodidade da narração e por julgarmos que
não pertence a trato algum de terra na corografia pátria. Estêvão
escreveu ao presidente da câmara, este respondeu- -lhe, entraram em
negociações e enfim Estêvão foi nomeado superintendente
da saúde pública da mencionada vila.

Apurou, a muito custo, o dinheiro preciso para as despesas de instalação
e de transporte, preparou a bagagem e partiu na companhia da irmã para
a sua nova terra, levando em dois baús todos os seus haveres, em sete
ou oito livros a sua ciência e numa pequena caixa de folha os seus diplomas
de formatura e de nomeação de facultativo municipal.

Estêvão ia grave e meditabundo. Interrogava-se intimamente,
achava-se inexperiente; procurava pesar a ciência com que podia contar,
achava-a tão leve! E aos ouvidos soava-lhe lugubremente como formidável
memento, pronunciado pela boca de espectro perseguidor, o aforismo hipocràtico:
— Vita brevis, ars longa, occasio celers, experímentum pericolosum,
judicium difficile.

Estas cinco breves orações eram como badaladas a dobrar por
finados; faziam-no esmorecer.

Adelina, pelo contrário, ia descuidada e distraída pelas impressões
da jornada. A alegria dos dezoito anos principiava já a romper a nuvem
de luto com que a morte do pai a assombrara. Os sorrisos vinham-lhe já
aos lábios talhados para eles.

Ela não sentia apreensões pelo futuro. Tal era a confiança
que depositava em Estêvão que não concebia perigos que
ele não pudesse arrostar, desgraça que a ferisse sob tão
valiosa protecção.

O irmão com a sua robustez, com a sua juventude, com a sua ciência,
com a sua posição social, era para a ingénua criança
um herói, que lhe inspirava coragem, a qual florescia em sorrisos naquela
expressiva e simpática fisionomia. Porque era deveras simpática
Adelina com os seus olhos negros e amoráveis que temperavam sempre,
pela expressão de bondade que tinham, o sorriso da travessura e inofensiva
malícia que às vezes lhe brincava nos lábios juvenis.

Era Adelina uma destas raparigas delicadas de compleição mas
em quem a delicadeza nada tem de mórbido; onde não domina tão
absolutamente o sistema nervoso que as torne escravas das suas caprichosas
determinações.

Com este carácter, Adelina era para Estêvão uma óptima
companheira de jornada, temperando com o seu bom humor as impaciências
do irmão.

II

QUER-ME parecer que poucos leitores necessitarão que eu lhes descreva
as impressões recebidas por um pobre viajante, extenuado pelas fadigas
de uma fastidiosa jornada, desconjuntado pelo chouto de uma cavalgadura manhosa,
numa palavra, mal disposto do corpo e do espírito, ao entrar de noite
em uma vila do interior da província.

Uma vila! Perdoem-me as muitas pessoas estimáveis constrangidas pelos
fados a contar num desses circulozinhos sociais os trezentos sessenta e cinco
dias do ano, mas a minha sinceridade constrange- me a declará-lo: uma
vila é a mais impertinente localidade em que um homem pode desgastar
as rodas do seu complicado mecanismo.

Ainda se é uma dessas povoações, de onde se escuta
o rugir do mar vizinho e que participa do ar de família que têm
todas as terras marítimas, um ar alegre, desafogado, que é como
o sorriso das povoações, modifica-se um pouco a feição
característica e a alma não se acha oprimida ao encerrar-se
ali.

Mas, se é uma terra bem encravada no centro da província,
uma dessas pinhas de casas velhas, cortadas por quatro ruas tortuosas e doze
vielas intransitáveis, que de quando em quando interrompem o curso
de uma estrada, se é uma terra bem sertaneja, onde em geral se fala
do mar como de uma coisa mitológica, uma vila com uns forais e um pelourinho
e uns fidalgos e uns pardieiros que foram uns palácios, uma vila, enfim,
perfeito espécime do género, e não excepção,
duvido que haja coração despreocupado que não se sinta
opresso ao entranhar-se nela. Ora a vila de Meloais do Duque era tudo isto.

Por isso Estêvão e até a própria Adelina, cediam
a uma opressora melancolia quando as cavalgaduras que os transportavam começaram
a trilhar o lajedo das ruas estreitas e não iluminadas da terra que
tinha de ser o campo de manobras do novo facultativo.

Adelina, a jovial Adelina, olhava para as casas altas e velhas que parecia
curvarem-se para a verem passar, procurava devassar o segredo das adufas e
crivos discretos que sentia entreabrirem-se a satisfazer curiosidades de quem
por dentro deles se ocultava, perdia o olhar nas lojas funebremente esclarecidas
por uma mortiça luz de azeite, que desenhava em escuro o grupo de fregueses
estacionados no vão da porta a desfiar a crónica do dia, e a
pobre rapariga, tão sequiosa de espectáculos alegres, experimentava
esta aura de tristeza, que precede às vezes uma explosão de
pranto. Mas cedo triunfava desta influência com uma reflexão
jovial.

— Olha, Estêvão, repara — dizia ela, mostrando
ao irmão uma casa por diante da qual passavam naquele momento —
esta casa, com aquela janela aberta e assim corcovada, não te parece
mesmo uma velha a tossir? Estêvão desviou o olhar distraído
para a casa em questão e respondeu com um sorriso à lembrança
da irmã.

Ao passarem os nossos dois desconfortados viajantes, deixavam atrás
de si uma esteira de comentários trocados de adufa para adufa, de uma
loja para outra, da rua para as janelas, ou entre os grupos que estacionavam
nas esquinas e largos.

— É ele, é — dizia, por exemplo, uma voz de mulher
que saía através de uns crivos meio descerrados.

— Bem disse o Chico do boticário que eles vinham hoje—
respondia outra voz da água-furtada fronteira.

— Vai na burra do Zé Domingues.

— E a madama é mulher dele? — Pelos modos dizem que é
irmã.

— E tem só aquela ? — Tem. O pai morreu no outro dia.

— E ele é novo ainda ? — É uma criança;
pois se ainda ontem, se pode dizer, acabou os estudos.

— Hum! E então já lhe dão assim o partido ? Mais
adiante ficou a dizer um caixeiro de balcão para a menina da casa defronte,
com quem provavelmente tinha de vir a casar.

— É o médico novo.

— Ai é ?! E a senhora que vai com ele ? — Diz que é
irmã.

— Ele é solteiro, Manelzinho?

— É, sim, menina; veja se lhe serve.

— Ora não é por isso. Também! — Não,
não se constranja; a irmã também é solteira.

— Adeus, adeus; não se ponha a brincar. Olhe, viu se ela ia
de chapéu ? — Para lhe falar a verdade, não reparei. Acho
que não; levava assim uma manta ..

— Um cachené ? — Não, menina. Era assim uma coisa…
seria um cachené, seria.

— Mas olhe, o vestido era de fazenda? — Isso agora é
que eu não sei, menina.

Um homem, que, ao dobrar uma esquina, parara para os ver passar, disse,
entrando depois na loja próxima, para outro que, embrulhado num capote
e calçado com socos e meias de lã, estava sentado no banco da
porta : — Então chegou o bicho? — Quê? — O
cirurgião novo.

— Ai, pois era esse que ai passou? Ora com Deus venha.

— Se não for melhor do que o outro…

— Hã-de ser como todos; o melhor sempre é não
lhes cair nas mãos.

— Isto daqui até que se ponha ao facto da natureza das pessoas!
A resposta foi um prolongado assobio, acompanhado de um movimento da cabeça
sobre o dorso.

— Quem são ? quem são ? — perguntava, incorporando-se
no grupo que se formara numa esquina, um indivíduo que os vira passar.

— É o cirurgião do Porto — responderam-lhe.

— Ai, é verdade. Ele sempre vai morar para a casa da Teresa
do Carniceiro? — Vai. O presidente lá lhe arranjou esse negócio.

— Qual presidente; foi o Baltasar boticário que é afinal
quem ganha com o negócio.

— Ai sim; porque a Teresa deve-lhe umas dez moedas.

— Por quanto anda aquela casa ? — Ele alugou-a por nove moedas.

— Oh! que logração! — Pois vedes! Aquele menino!
Uma ou outra palavra destes variados diálogos, a que ele dava motivo,
chegavam aos ouvidos de Estêvão e mostravam-lhe que pouco teria
já que informar aquela gente a respeito da biografia própria,
tão adiantada a vinha já encontrar.

A cavalgada prosseguia entretanto ao longo da rua principal da vila, a qual
abundava em lojas de ferradores e quase impedida de três em três
portas por uma recua de cavalgaduras de carga, entregues à própria
discrição à porta das tabernas e alquiles, Sons predominantes:
o das campainhas das alimárias, o das ferraduras na calçada
e o das pragas dos almocreves. Cheiro: o de palha curtida e da erva segada
nas estrebarias.

Quase ao fim desta rua e no ponto mais estreito dela havia uma casa de triste
aparência, tendo defronte outras casas mais altas a assombrarem-na.

Pararam aí. Tinham chegado ao termo da jornada.

As janelas e portas da vizinhança trasbordavam de curiosos.

Estêvão desmontou e foi ajudar a irmã a saltar em terra.

Esta, ao ver a fachada da casa em que ia entrar, sentiu a impressão
de um pesadelo.

A senhoria, com uma vela acesa na mão, a qual, com a outra, resguardava
das correntes de vento, veio ao limiar da porta a receber os seus inquilinos.

Estêvão, depois de a cumprimentar, dispunha-se a vencer o íngreme
lanço de escadas que o deviam conduzir aos aposentos superiores e,
nesse intuito, segurava-se já ao corrimão de corda que seguia
junto à parede salitrosa.

Adelina imitava-o.

Ouviram porém atrás de si a voz da senhoria, que, antes de
retirar- se, dava as boas noites à vizinhança. Voltaram-se logo
e por um acto de cortesia imitaram-na.

Imediatamente rompeu das janelas das casas vizinhas um coro de vozes de
todos os timbres, de homens, de mulheres, de novos, de velhos e de crianças
a corresponderem-lhes à saudação.

Dentro de alguns minutos mais, achavam-se os dois irmãos instalados
na sua nova residência.

Era uma sala baixa e desguarnecida, com janelas acanhadas olhando para a
rua, duas alcovas e um corredor, na extensão do qual havia dois quartos
pequenos e no fim a cozinha e uma exígua casa de jantar.

A senhoria, que para ceder o andar nobre aos inquilinos, passava a habitar
os baixos da casa, andou de luz em punho a mostrar-lhes toda a topografia
do lugar, demorando-se muito em explicações e comentários
a propósito de cada compartimento.

Adelina, conquanto sentisse que lhe passava ao coração o desconforto
que a rodeava, fazia frente à verbosa rendatária, respondia-
-lhe e interrogava-a com o insinuante tom de bondade que lhe era natural.

Estêvão não se forçava a tanto; ouvia mudo e
soturno as divagações da velha; não sei se lhes prestava
atenção.

Ela falava por ambos. Em menos de um quarto de hora, operando as mais rápidas
e imprevistas transições, conseguiu esboçar a própria
história genealógica, a descrição minuciosa da
doença e morte do marido, a relação comentada das pessoas
que tinham morado já naquela casa, idem dos facultativos que tinham
precedido Estêvão, das qualidades do último; a rápida
resenha das principais famílias da terra e dos seus parentescos no
Porto.

Estêvão não pôde mais tempo lutar. Deixou-se cair
extenuado sobre um baú e declarou os irresistíveis desejos que
tinha de dormir.

Adelina olhou, compadecida, para o irmão.

— Pois pudera não! — disse a implacável senhoria—quem
vem de uma caminhada dessas! Eu nunca na minha vida dormi tão bem como
em uma ocasião em que fui ao Porto pelo Entrudo. Umas senhoras minhas
amigas, que lhe chamam aqui as Aparícias. Não sei se têm
ouvido falar? Estêvão não respondeu.

Adelina disse, sentando-se também no outro baú da jornada
que estava no meio da sala: — Não ; daqui não conhecemos
ninguém.

— Elas vêm a ser primas dos Borges do Porto; esses conhecem?
— Lá há muitos Borges — disse Estêvão,
bocejando e com mau humor.

— São uns que têm negócio para o Brasil —
insistiu a senhoria e aguardou a ver se com esta particularidade ficava elucidada
a questão dos Borges.

Como não observasse indícios disso, continuou: — Que
têm uma filha casada e outra solteira? Nova pausa.

— Um deles chama-se António e outro José ? Idem.

— Pois eles são muito conhecidos.

Adelina acudiu: — Sim, mas como o Porto é muito grande…

— Até um tio deles não sei o que é la do governo
de Lisboa…

— Bem, mas então que fizeram esses Lopes? — perguntou
Estêvão.

— Lopes! Não é Lopes, é Borges. Por isso o senhor
não conhecia! Borges, Borges; um homem bem apessoado. Ainda são
aparentados com os Cardosos. Esses conhecem decerto? — Não sei;
pode ser.

— Que tem um filho que é oficial da tropa, que anda a cavalo.

Estêvão trocou com a irmã um olhar de lástima.

Adelina interveio.

— Mas dizia a Sr. Teresa que tinha ido ao Porto…

— Fui com as tais senhoras. Elas andavam a perseguir-me para irmos
e uma vez em casa do sr. major… Conhecem o sr. major, um que é…

— Sim, sim, que é da tropa; esse conheço; lembro-me
de ter ouvido falar nele —• apressou-se a dizer Estêvão
para conjurar o vendaval de explicações que via iminente.

E a senhoria em pé no limiar da porta, como quem está para
sair, preparava-se para entrar na interminável divagação
sobre a sua ida ao Porto, sem atenção à fadiga manifesta
dos seus dois inquilinos, que mal a ouviam já.

No meio, porém, desta divagação interrompeu-a o ruído
de passos na escada e uma voz varonil que bradava de baixo: — Dá
licença, sr. doutor? — Ai que é o Sr. Baltasar, boticário!
— exclamou a Sr." Teresa, acudindo alvoroçada a alumiar
a escada, que estalava sob o peso do recém-chegado.

— Não se incomode, não se incomode — dizia ele,
subindo.

Estêvão e Adelina levantaram-se a receber a visita.

— Ora muito boas noites—disse, entrando na sala, um homem baixo
e gordo, vivo de movimentos e de fisionomia jovial; e sempre voz em grita,
prosseguiu — Eu sou o Baltasar, boticário, estabelecido nesta
freguesia há vinte e dois anos, que os faz para o Santiago, moro aqui
mesmo defronte e venho oferecer, em meu nome e no de minha mulher, aquela
fraca choupana para tudo aquilo em que lhes possa ser útil.

Estêvão e Adelina agradeceram com reconhecimento.

— Não tem que agradecer — continuou o Sr. Baltasar; —
isto é sincero. Nós cá não somos de cerimónias.
Eu sei o que é isto de uma mudança, apesar de que estou naquela
casa, vai fazer para o S. Miguel quinze anos; mas até assentar, também
corri fadário… Isso, antes que as coisas entrem na ordem, é
uma consumição.

— Isso é verdade — disse Adelina,—Temos para uma
semana.

Só se dá por a falta das coisas quando se precisa delas.

— Ora pois aí está; por isso è que eu digo. Ó
Sr.’ Teresa, então não prepara o chá para esta senhora?
Provavelmente tomam chá à noite? — Sim; costumamos tomar
— respondeu Estêvão.

— Eu logo vi. É o sistema da cidade. Eu cá não
posso costumar-me.

Aqui onde me vê já estou ceado. E lá a minha patroa
é o mesmo. As pequenas é que já não tanto…

—Ah! tem meninas, Sr. …

— Baltasar, um seu criado, minha senhora.

— Sr. Baltasar — concluiu Adelina.

— Tenho, tenho, por meus pecados. Tenho duas raparigas. Elas queriam
cá vir agora, porém…

— Então porque não vieram ?— perguntou Adelina.

— Davam-nos muito prazer — secundou Estêvão, com
pouca sinceridade.

O boticário chegou à janela e berrou para defronte: —
Ó meninas! — Meu pai ?! — responderam duas frescas vozes
de mulher.

— Então vinde e digam à mãe.

Voltando-se para dentro, continuou, passeando de um para outro lado da sala
e fazendo estalar as articulações dos dedos.

— Pois é verdade… Com que então vêm para esta nossa
terra…

Eu lhe digo; isto por aqui ainda não é mau de todo. A questão
é uma pessoa dar-se bem. Olhe que ainda há por estes sítios
um par de famílias, que não fazem maus lucros a um facultativo;
o ponto está que ele se acredite e queira trabalhar. Ora o sr. doutor
está novo…

— Ah! e não me falta vontade de trabalhai", pode crê-lo.

— Pois bom é isso. Aqui o que há de pior são
as intrigas.

— Ai, sim? — Isso não falemos. Com certa gente é
preciso viver com toda a cautela. Foi o que perdeu o outro que daqui saiu;
principiou a frequentar certa roda, a meter-se com certa gente…

Ouviram-se risos e vozes na escada, o ranger de saias engomadas, o raspar
dos sapatos no lajedo do portal e, pouco depois, entravam a mulher e as meninas
do boticário, que beijaram e abraçaram Adelina e cumprimentaram
cerimoniàticamente Estêvão.

A Sr.’ Teresa foi buscar aos quartos cadeiras para todos e o círculo
formou-se.

As meninas eram duas formosuras vulgares, rosadas, sadias, de cabelos escuros,
bonitos dentes e riso pronto; a mãe uma senhora gorda, de voz arrastada
e ditos sentenciosos.

Entraram logo em conversa com Adelina, contando-lhe o que tinham dito umas
às outras em relação a esta visita, porque não
tinham vindo logo e a pressa com que resolveram vir, e falavam quase a um
tempo.

— E a Joaninha queria vestir-se — dizia uma.

— Eu não me queria vestir. Olha a mentirosa! — atalhou
a outra.

— Eu disse-lhe: Ó menina, deixa-te agora disso — Eu vim
como estava — notou a mãe.

— E eu também — acudiu a Joaninha.—Mas é
que esta Matilde tem um costume… Credo!…

— Deixe falar; é cisma dela.

— Escusas de negar.

— Tu é que negas que te foste vestir.

— E a dar-lhel Olhe, sabe? É que eu estava de avental.

— Olha, olha! Lá vem ela com o avental! Pois não foste!
Ela já tinha dobrado o avental na cesta da meia.

— É mentira. Então não tinha o avental verde
? — Qual avental verde? — Qual há-de ser ? O das florzinhas.

— Ora viva, esse ainda ontem o deste a lavar.

— Olha a mentirosa! já viram? Se eu até hoje te disse
assim…

Adelina ouvia toda esta discussão, à qual debalde tentaríamos
transmitir toda a vida que o atabalhoado do diálogo lhe dava e, como
não pudesse intervir, limitava-se a olhar para as contendoras com um
sorriso de amabilidade.

A mãe foi quem cortou o diálogo, dizendo para Adelina: —
Não, que isto é sempre assim; em se tratando de sair, já
não sabem o que fazem.

— Ora a mãe também! Ela é que.,.

E começou nova discussão, digna em volubilidade da precedente.

O boticário, que estivera falando com Estêvão a respeito
das pessoas da terra, disse para a senhoria, no tom de familiaridade de quem
está na sua casa: — Ó Sr.ª Teresa, olhe se dá
andamento a isto que esta senhora há-de querer acomodar-se.

— Eu vou — disse a senhoria. — E então sempre hão-de
querer o chá? — Pois então ? já disseram que sim.

— Eu o que sinto é estar ainda tão estranha nesta casa
— disse Adelina — que nem sei se posso ou devo pedir-lhes o favor
de nos fazerem companhia.

— Ora essa é boa — acudiu a senhora do boticário.

— Então eu não sei o que é isso? E até,
deixe-me então dizer-lhe, que é provável que sintam a
falta de muita coisa e não têm mais do que mandar ali defronte.
Olhe lá, ó senhora Teresa, tem cá serviço de chá
em termos? — Eu… assim ele remedeie.

— Nada, nada; sabe que mais? Ó Joaninha, chega a casa e manda
trazer o aparelho azul. Leva a chave do guarda-louça; toma, é
esta.

Adelina e Estêvão debalde quiseram opor-se ao oferecimento.

Estava aberto o dique aos obséquios, difícil era retê-los.

As meninas andaram para cá e para lá, trazendo isto e aquilo.

A mãe dava-lhes ordens sobre ordens na sala, repetia-lhas do patamar
quando elas desciam a escada; vinha explicá-las ou modificá-las
à janela, quando já iam na rua, ou ainda quando elas já
lhe respondiam das janelas da casa.

Graças a esta febre obsequiadora tudo se resolveu. A senhora do boticário
em tudo pôs a sua mão metódica e administradora. Infundiu
o chá, cortou as tostas, teimou em fazer uma cama, deitou a mão
a um móvel, que, a conselho seu, se mudou de um para outro quarto,
preparou as lamparinas e mil outros serviços. As meninas eram diligentes
correios e atravessaram a rua um sem-número de vezes e quase nunca
com as mãos vazias. O boticário era mais pronto em dar ordens
do que em executá-las e foi pródigo em conselhos em relação
a melhoramentos futuros.

Feito o chá, a família do Sr. Baltasar não se recusou
a tomar parte nele.

De maneira que Estêvão e Adelina, logo na primeira noite da
chegada, tiveram reunião em casa e só conseguiram descansar
de tantos obséquios perto das dez horas. famílias de pescadores,
longe de imprimirem aparências de vida e animação à
feição severa e melancólica do quadro, antes parecia
concorrer para lha exagerar, talvez recordando épocas de maior movimento
na praia e fazendo, pelo contraste, sentir o seu actual abandono.

As companhas não trabalhavam naquela tarde. Os arrais, estudando
com os olhos experimentados a cor do céu, o rumo do vento, a forma
das nuvens e a ondulação particular das vagas, prudentemente
mandaram recolher as lanchas à praia. Esta não apresentava,
portanto, aquele laborioso tumulto e confusa agitação que acompanha
sempre o trabalho das pescarias.

Apenas algumas crianças de pernas nuas, crestadas pelo sol e pelas
brisas marítimas, lutavam umas com as outras na areia ou brincavam
com as ondas, ora correndo para elas, ora fugindo-lhes, mas nem sempre com
a presteza necessária para no movimento do fluxo não serem alcançadas,
acontecimento que era sempre saudado com estrepitosas gargalhadas e apupos.
Dos pescadores, uns haviam ido saborear à vila o tempo de tréguas
que lhes concedera o mar, outros refocilavam-se na taberna da tia Salgada,
a mais afamada da costa do Furadouro, com longas e preciosas libações
do vinho da Bairrada que desafiava competências com os mais acreditados
que se vendiam na vila; finalmente alguns mais sóbrios, dispersos em
grupos na praia, conversavam tranquilamente, quando não dormiam ao
som monótono das ondas e na convidativa cama de areia solta, que tão
confortavelmente se lhes amoldava às formas do corpo.

O grupo, de onde haviam partido as poucas palavras que pudemos ainda escutar,
era um daqueles em que mais intensamente pareciam absorvidas as atenções
pelo assunto que se discutia. Na posição e no gesto de quase
todos os que o formavam, revelava-se uma ávida curiosidade e o velho
Cabaça, que tinha a palavra naquela ocasião, assumira certo
ar de gravidade que não concorria pouco para o efeito produzido.

Era o tio Cabaça uma bela figura de velho, alentado e musculoso e
de uma robustez de organização que reagia ainda, vitoriosamente,
contra o peso dos anos.

Era tido em grande conta na companha, não só pelo muito que
entendia de coisas do mar, como pelo bem que sabia contar histórias
curiosas, crónicas dos tempos passados, recebidas por tradição
dos seus pais e que de boa vontade transmitia aos moços, que o escutavam
sempre atentos, embebidos naquelas recordações, quase todas
aloriosas para a gente do mar.

Desta vez, porém, o objecto da narração parecia ter
encontrado incrédulos entre o auditório, cujo cepticismo chegara
a manifestar-se por aquela exclamação de dúvida, com
que abrimos o primeiro capítulo desta singela e despretensiosa história.

O velho protestara, como vimos, pela veracidade do facto; mas ainda assim,
encontrou uma voz de incrédulo que redarguiu: — Essa lá
me custa a crer, ti’Cabaça. Eu sei que há muitas estranhas e
esquisitas castas de peixes lá por esses mares de Cristo. Velho não
sou eu nesta vida de pescador e, contudo, posso já dizer, sem me gabar,
que tenho visto alguma coisa e que não ando nisto de todo às
cegas. Vi já alguns peixes levantarem voo como os pássaros,
outros eriçados de espinhos, que nem ouriços; já experimentei
o abalo que causam as tremelgas vivas quando se lhes toca com o pé,
e até um dia me mostraram de longe o chafariz de água que fazem
as baleias ao respirar; mas agora as tais sereias… na verdade… peixes
que falam e que cantam como a gente!…

— Que falam e que cantam, sim, senhor, que falam e que cantam.

então que falar e que cantar! Não é lá qualquer
coisa! Eu só queria que vocês ouvissem o meu pai, que Deus haja,
contar o caso.

— Mas então diga-nos mais por miúdo como isso foi —
exclamou do lado um jovem pescador, que se mostrava excessivamente interessado
com a história e mais disposto do que o seu companheiro a acreditar
na existência do fabuloso animal de que falara o velho.

O tio Cabaça sacudiu fleumàticamente a cinza do seu volumoso
cachimbo, soprou ao tubo para o desimpedir, fez nova provisão de tabaco
e acendeu-o — tudo isto com movimentos pausados — e, depois de
expelir a primeira baforada, principiou, revestindo-se da devida gravidade,
a narração que se lhe pedira.

— O caso que lhes vou contar sucedeu, pelos modos, no tempo em que
meu avô era ainda rapaz. Vai por isso… Eu sei lá!?… há
mais de um cento de anos bem contados. Tinham ido certa tarde as companhas
para o mar. Nos lanços da manhã a safra havia sido pequena,
apesar de ter esperado que a sardinha, fugindo à trovoada que toda
a semana andara pelo mar alto, viesse em abundância à costa.
Mas, como tal não sucedera, tiveram de se fazer de tarde os barcos
mais ao largo. Estava um tempo assim como hoje: os ares soturnos, o vento
sul e o mar picado. Laigaram-se as redes e seria aí pelo fim da tarde
quando de novo remaram para a praia. Chega não chega, desembarca não
desembarca, era já lusco-fusco. O mar começou então a
levantar-se mais, sem que tivesse havido mudança de vento ou coisa
que fosse motivo para isso. Os homens mais entendidos das companhas não
podiam dizer o que adivinhava o mar, que assim tão do pé para
a mão se fizera ruim. Este dizia uma coisa, aquele dizia outra, tantas
cabeças, tantas sentenças, e ninguém se entendia.

No entretanto puxavam-se as redes para terra: a canalha fazia, cantando,
a algazarra do costume, os homens berravam como… vocês berram ainda
agora, rapazes… eis senão quando… " Um movimento de curiosidade
se manifestou na assembleia ando o velho Cabaça chegou a este tópico
da sua descrição, que ele, como profundo conhecedor da arte
de impressionar os auditórios, soube fazer valer por uma pausa conveniente
e uma particular e expressiva inflexão de voz.

Depois correu a vista por todos aqueles rostos, eloquentes de curiosidade
e, satisfeito consigo pelos dotes oratórios de que se percebia possuidor,
continuou: — Eis senão quando, principiou-se a ouvir uma música,
a modo de música de igreja.

— De instrumental, ti’Cabaça? — Não, homem, daquela
música que se toca nas igrejas do Porto.

— Já sei, é a dos realejos.

— Não é dos realejos, não; é dos orgos,
orgos — emendou um outro, melhor informado sobre a matéria.

— Pois é verdade ! — continuou o orador. — Começou-se
a ouvir aquela música e logo todos se calaram a escutar. Pareceu-lhes
depois mais uma voz de mulher que chorava e que rompia em altas queixas.

Olharam em redor para ver de onde partia aquilo e quanto mais olhavam mais
se lhes afigurava virem do mar os tais choros e gemidos.

Contudo, por mais que reparassem para as ondas, nada podiam enxergar.

Continuavam puxando as redes e continuavam a ouvir as vozes, que cada vez
aumentavam mais. Havia já quem pensasse ser feitiçaria aquilo.

— Feitiçaria, sim. Bem me fio eu nisso — disse, não
desmentindo o seu provado cepticismo, o mesmo pescador que pusera em dúvida
a existência das sereias.

O velho Cabaça julgou do seu dever corrigir a incredulidade deste
companheiro, a qual lhe ia parecendo demasiada.

— Homem, sabes que mais? Pede a Deus para que não venhas à
tua custa a fiar-te em bruxedos e feitiços. Tu fazes-te muito valente,
meu rapazote, mas acautela-te, porque um dia…—E operando uma rápida
diversão no curso das suas ideias, o velho prosseguiu: — Mas
no meio deste — que será que não será — estavam
as redes chegando à praia; o pranto ouvia-se ainda mais claro, até
que enfim… viram os pescadores a coisa mais maravilhosa, que ainda apareceu
na costa.

— Era a sereia? — perguntaram, a um tempo, com ansiosa curiosidade
alguns impacientes, cujo ânimo lhes não deixara sofrer as delongas
da narração.

O tio Cabaça continuou imperturbável.

— Viram um animal que da cinta para baixo era um peixe completo.

— Um peixe?! — Sem tirar nem pôr, escamas, cauda, barbatanas,
finalmente tudo.

— Ah! Barbatanas também? — Também barbatanas.

— E da cinta para cima ? — Da cinta para cima era a mulher mais
bonita que se tem visto no mundo.

— Ah! — Ora essa! — Isso era arte do Diabo! — E então
tinha cabelo e dentes e…

— Era uma mulher perfeita; não lhes estou eu a dizer? —
Vou-me por esse mundo! — Olhem os meus pecados! — E então
falava, ti’Cabaça? — Pois dela é que vinha a tal carpideira
e os tais choros que te disse.

— Ah! Estou para morrer.

— Eu se visse tal estarrecia.

— E que dizia ela, ti’Cabaça? — Chorava e carpia-se que
metia mesmo dó. Toda a sua pena era tirarem-na do mar. O que ela pedia
é que a soltassem da rede e que a deixassem voltar para a água,
pois só lá é que podia viver.

— E ela falava assim como a gente, ti’Cabaça? — Pois
então ? E com uma voz e de uma maneira que fazia mesmo enternecer os
mais empedernidos. — E o narrador, forçando a voz a um desafinado
falsete, para lhe dar a mais feminil modulação de que ela era
susceptível, tentou, pouco modestamente, reproduzir o timbre fascinador
da sereia, dizendo, conforme a tradição que fielmente conservara:
— «Ai, soltai-me, soltai-me — dizia ela — deixai-me
voltar para o mar, que, se me levais para terra, eu morrerei logo.»
— Pobre rapariga! — Pobre peixe! — emendou outro.

— E porque há-de ser peixe e não rapariga? — O
quê ? O quê ? Aquilo tem la alma ? — Eu sei lá se
ela tem alma ? — Que dizes tu, homem, nem que fosse gente cristã!
— Mas ela que falava…

— Isso é por artes do Mafarrico.

O velho Cabaça prosseguiu, depois de terminada esta acidental discussão
psicológica: — Houve ainda assim quem quisesse tirá-la
para seco, mas tais foram os seus queixumes, que o arrais, comovido, mandou
soltá-la da rede.

— E era muito grande, ti’Cabaça? — Assim como uma corvina…
taluda.

— Está feito! — Logo que se viu livre — continuou
o orador — fugiu nadando, como um peixe que era, mas a cantar e com
tanta aquela que nem música de anjos do Céu pode ser tão
linda. Era um cantar de tal casta, que toda a companha se deixou ficar a escutá-lo,
sem se lhe importar com a sardinha que já estava na areia. As cachopas
da vila, que tinham vindo aos caminhos para o Carregal, não queriam
saber de outra coisa que não fosse ouvir aquela voz. E assim ficaram
todos postos enquanto ela se pôde ouvir e só depois se deitaram
ao trabalho, ainda que com bem pouca alma.

Foi então que um pescador velho disse ser aquilo uma sereia e que
bem mal tinham feito em a deixar fugir, pois de nada sabia tão perigoso
para os marinheiros como encontrá-las no mar largo ou escutá-las
muito tempo.

— Então o que fazem elas, ti’Cabaça? —perguntou
um dos pescadores mais jovens e que de todos parecia também o mais
interessado pela narração.

— Com aqueles cantos — respondeu o interpelado — pelos
modos atordoam a gente, que fica assim como com uma bebedeira. Não
se faz mais coisa com coisa, não se atina com o governo do leme, nem
com o das velas ou dos remos. Neste comenos elas levantam o mar e um homem
vai para os peixinhos que é mesmo uma consolação.

— E nunca mais voltou à costa essa… esse peixe? — perguntou
ainda o mesmo pescador.

— Nunca mais até hoje. Ele anda sempre muito ao largo e só
quando alguma trovoada forte o escorraça é que foge para as
costas.

Seguiram-se vários comentários sobre a plausibilidade do caso.

O tio Cabaça contara-o com tal acento de convicção,
e era tão pouco dado a gracejos o velho pescador, que todo o auditório
se sentiu inclinado a admitir o carácter verídico do facto extraordinário
que lhe acabara de ser narrado.

Depois de muito conversar, dispersou-se finalmente o grupo, aí pelo
cerrar da noite, e a taberna da tia Salgada viu aumentar o número dos
hóspedes e o das bocas que faziam justiça, por palavras e obras,
às excelências do seu Bairrada.

Na praia apenas ficaram dois homens.

Um era o tio Cabaça, que, sentado, com as mãos entrelaçadas
por diante dos joelhos e o cachimbo pendente dos lábios crestados,
olhava para as ondas que se sucediam na areia e parecia absorvido em profunda
meditação.

Este hábito de cismar gera-o a continuada contemplação
das cenas marítimas.

O homem que vive e envelhece a escutar aquela música das ondas, que
do alvorecer ao crepúsculo é embalado por elas, o que alternadamente
as conheceu afáveis e irritadas, que delas recebeu carícias
e ameaças e as viu ora suavemente iluminadas pelo luar, ora reflectindo
a luz sinistra dos relâmpagos, surpreende-se muitas vezes nestas silenciosas
e inexprimíveis divagações do espírito, tão
frequentes nos poetas.

Em todos os portos de mar se encontram, ao fim da tarde, desses velhos cismadores
que, aparentemente atentos nas formas em que se condensa no ar o fumo do seu
cachimbo, trazem por bem longe o pensamento, "alvez que a colher saudades
nas recordações daquele viver incerto de marinheiro, para cujas
laboriosas peripécias os anos os invalidaram já.

O velho Cabaça principiava a pensar nessa época próxima,
na qual lhe havia de fraquejar o braço que ainda movia vigorosamente
o remo; nesses longos dias, em que, preso à terra, se veria obrigado
a ocupar- se num trabalho de mulheres, reparando as redes da companha, Aquele
futuro tranquilo, reservado à sua velhice, entristecia-o, como, nos
tempos de brios cavalheirosos, desanimava o guerreiro a ideia de uma morte
que não fosse no meio da refrega e disputada até ao último
suspiro com feitos de arrojada bravura.

Por isso o tio Cabaça tinha frequentes momentos de melancolia.

O outro homem era o pescador moço, a quem tanto interessara a história
da sereia, contada pelo primeiro, havia pouco, e que, desde que a ouvira,
parecia haver ficado sob o domínio de uma profunda impressão.

A alta estatura deste jovem pescador, as suas formas bem desenvolvidas e
a fisionomia expressiva de inteligência e vivacidade, davam- -lhe um
certo ar de nobreza e resolução que fazia lembrar aquele célebre
herói napolitano, o ousado e patriótico Mazaniello.

As amplas e pitorescas vestes de pescador deixavam sobressair todas as vantagens
da sua vigorosa e excelente corporatura.

Era uma organização cheia de vida e de robustez, a daquele
moço, em cujo rosto trigueiro e imberbe se desenhavam neste momento
os sinais evidentes, ainda que desvanecidos, de uma certa preocupação
de espírito.

Por baixo do clássico gorro de lã escarlate saíam-lhe
profusos os cabelos, que lhe vinham quase pousar nos ombros. Com os braços
cruzados e a fronte pendida, este homem passeava silencioso no extremo da
praia, tão próximo das ondas, que estas, nos maiores fluxos,
chegavam a alcançá-lo sem que mesmo assim conseguissem distraí-lo
daquela abstracção em que parecia concentrado.

Este pescador que com o velho Cabaça ficou na praia, o Pedro do Ramires,
andava, de há tempo, apreensivo e taciturno. Possuía instintos
de poeta, o malfadado.

Eram esses instintos que o impeliam para aquela irresistível tendência
à solidão, os que lhe faziam perceber, no som plangente das
vagas, modulações, para as quais os seus companheiros não
tinham sentidos organizados, que por muito tempo o conservavam imóvel,
a seguir com a vista aquelas ondas espumosas que se desfaziam na areia, as
formas extravagantes das nuvens, os contrastes surpreendentes da luz que as
atravessa ou se reflecte nelas, colorindo-as com inimitável paleta,
a curva descrita na amplidão pela ave aquática de voo rápido,
e até o estalai do trovão e o fuzilar dos relâmpagos em
noites de tempestade.

Pedro sentia, e por infelicidade sua, sentia com excesso. Este mundo, evidentemente
não foi feito para quem sente assim! Aceitava, porém, as impressões
que recebia sem se lembrar de as discutir; aceitava-as como um quase fatalismo,
que nem lhe deixava pensar na possibilidade de se subtrair a elas.

Via que por toda a parte o acompanhava uma como atmosfera de inebriantes
aspirações’ e recebia a influência balsâmica desse
ambiente sem se interrogar sobre a natureza dele.

Sentia, sem a conhecer, a poesia da natureza, a que se revela em cores,
em sons e em perfumes e que desperta a poesia do sentimento em almas organizadas
para esses sublimes acordes. Era um poeta sem ter a consciência de o
ser, sem ter sequer a consciência da poesia.

Quando esta espécie de encarnação de um segundo verbo,
mistério original dos entes privilegiados que se dizem poetas, se opera
em espíritos que a educação não vem cultivar depois,
surgem caracteres, como o de Pedro, nos quais se passam os mais estranhos
e admiráveis fenómenos que pode oferecer ao estudo a natureza
humana.

É uma luta contínua, um antagonismo inútil, um combater
desesperado de aspirações que se estorcem impotentes sob a cadeia
que lhes sopeia os esforços. Algemados Prometeus que têm por
principal suplício os irrealizáveis anelos do seu próprio
génio! Tântalos, sequiosos de um ignoto licor, que adivinham,
sem o conhecer, como o alívio único à ansiedade que os
martiriza! — Mas em que andavas tu a cismar agora que nem sequer me
vias, de tão perto que estavas? — Diga-me, ti’Cabaça,
sempre será verdade que existem sereias? O interrogado, recebendo à
queima-roupa a interpelação, vacilou um bocado; assumiu, porém,
em breve, todo o seu sangue-frio e respondeu: — Conquanto eu as não
visse, nem ouvisse nunca — é nem disso me resta pena —
creio que as há, pelo que já disse do que muita vez ouvi contar
a meu pai — o Senhor o chame a si.

— E é certo que esses peixes ou essas mulheres, que não
sei ao certo como lhes chame, cantam às maravilhas? — Assim o
dizem. Pelos modos é com esses cantares que elas perdem os navegantes
no alto mar. Poucos são os que têm força para as não
seguir, só para escutar-lhes aquela música de anjos.

Pedro ficou novamente silencioso e pensativo. O velho pescador respeitou
por algum tempo aquele silêncio, mas enfim dirigiu ao seu companheiro
uma súbita interrogação.

— Mas para que diabo queres tu saber isso, rapaz? — É
porque…—Pedro ia a responder, mas outra vez hesitou.

— Porque é ? Fala! — Olhe, ti’Cabaça. Vou dizer-lhe
uma coisa: mas não se ponha a rir de mim, que juro-lhe, por minha mãe,
ser verdade tudo quanto me ouvir.

— Fala lá, rapaz — respondeu o tio Cabaça, que
tomou logo um ar sisudo e grave, ao ouvir a invocação a que
recorrera Pedro e já deveras interessado pela comunicação
que ia receber. — Fala, que eu te escuto.

— É que eu… ouvi já cantar uma sereia, ti’Cabaça
— disse Pedro em tom misterioso e interrogando ao mesmo tempo a fisionomia
do velho, a ver o género de impressão que esta nova produzira
nele.

— Ouviste cantar uma sereia! — disse João Cabaça
deveras surpreendido.

— Quando? — Há algumas noites a fio que a escuto, —
Onde?’ — Aqui, da praia. É uma música de anjos que vem
das ondas.

Uma música como ainda a não ouvi em parte alguma. Não
é alegre e divertida, como a das festas e arraiais; nem séria
e de devoção, como a que cantam as mulheres na vila à
missa do dia, ao consagrar da hóstia e do cálix; mas é
uma música triste, saudosa, uma música que me faz chorar. A
voz que canta parece de mulher, mas, ao ouvi-la, até chego a esquecer-me
do lugar em que estou. Sabe? A praia, o mar, as estrelas, o céu, tudo
desaparece diante de mim. Parece-me que então só sei viver para
ouvir aquela voz no meio do barulho das ondas, que não consegue abafá-la.
Procuro, apesar da escuridão da noite, descobrir a mulher, se é
mulher, eu sei? a fada, talvez o anjo, que canta assim, mas nada pude ainda
ver. Sinto em mim uma coisa que não sei bem dizer o que é. Queria
seguir aquela voz. Tenho sentido desejos de me deitar às ondas para
ouvir de mais perto aquele cantar divino.

É quase uma tentação tão forte que lhe tenho
resistido a custo e não sei se alguma vez…

O velho pescador segurou com ímpeto no braço de Pedro, como
se naquele momento o visse já próximo a seguir a voz que perfidamente
o atraía.

— Que te livre Deus de tal, rapaz! — exclamou João Cabaça.
— Não te disse eu que corre à sua perdição
quem se deixar levar por esse canto que parece de anjos, mas que é
antes de demónios? Pedro prosseguiu: — Eu perguntava há
muito a mim mesmo que mistério seria aquele. Ao princípio julguei
que fosse um engano dos meus ouvidos.

Os ventos da noite e o barulho das ondas soam às vezes de maneira
que semelham uma música a distância, mas era diferente o que
eu ouvia; os pássaros do mar, gemendo às noites pelas praias,
imitam também queixumes e gemidos, mas eu que nasci e tenho vivido
a escutá-los, bem lhes sei distinguir o canto; se o tempo é
sossegado e o vento favorável, o cantar dos marinheiros de algumas
embarcações que pairam ao largo, chega-nos aos ouvidos confuso
e quase sumido; mas a música que eu escutava não era para se
confundir com aquela. Era de mulher a voz, mas o estilo do cantar não
era o da nossa terra. Nunca até então o tinha eu escutado, não
sei até se em alguma parte do mundo se canta assim. Quando há
pouco lhe ouvi a história da sereia, foi como se uma luz me alumiasse
na escuridão em que estava.

É aquele, deve ser aquele o canto de que falavam os antigos pescadores.

Nem eu sei que outro possa haver mais para nos confundir e perder.

Bem vejo que pode ser perigosa para os marinheiros, porque, digo-lhe uma
coisa, se aquela voz cantasse do fundo de um abismo, parece-me que poucos
se venceriam para, levados por ela, se não precipitarem.

A praia estava, enfim, completamente deserta.

O vento tinha virado a oeste. Nuvens cada vez mais negras e grandes como
montanhas, levantavam-se do ocidente, semelhantes a informes monstros marinhos,
surgindo do seio das águas. Bandos de aves aquáticas ora baixavam
o voo ligeiro até roçarem com as asas pela superfície
das ondas, ora se erguiam a perderem-se de vista no espaço nebuloso,
onde por algum tempo volteavam em curvas complicadas ; depois soltando gritos
agudos e lastimosos, desciam de novo em parábolas de extensa curvatura,
para colherem do oceano a presa que com o olhar penetrante haviam descoberto
da altura em que se libravam.

Por toda aquela imensa amplidão de água nem uma vela, nem
um pequeno barco sequer; na longa planície de areia que forma esta
povoação da costa, eram os palheiros escuros e fechados, as
lanchas em seco ou alguma embarcação, ainda de menor lote, a
única diversão que encontrava a vista cansada da monotonia da
perspectiva.

Haviam chegado as horas talhadas para o descanso e os pescadores, que tinham
com o sono antigas dívidas a solver, encerravam-se nas acanhadas recoletas,
onde quase miraculosamente se albergam numerosas famílias desta pobre
gente e, dentro em pouco, estavam experimentando quanto é fácil
a um espírito tranquilo e a um corpo fatigado encontrarem as restauradoras
delícias do sono, ainda que em camas bem pouco de apetecer.

A Pedro do Ramires, porém, sobrava-lhe imaginação para
o não deixar, tão facilmente como os seus companheiros, saborear
este prazer.

As horas da noite eram as suas horas predilectas, eram as suas horas de
vida. Então podia ele, sem despertar estranhezas, ficar imóvel
a olhar para as ondas, essas suas companheiras inseparáveis, com as
quais brincara tantas vezes em criança e que pareciam conservar ainda
para ele uma linguagem misteriosa, corresponder-lhe, saudá-lo como
a um antigo conhecimento.

Aquele carácter, essencialmente contemplativo, sentia-se livre e
desafogado então. Não havia ninguém a espiar-lhe no semblante
o refluxo dos encontrados pensamentos que de contínuo o assaltavam;
ninguém a perguntar-lhe a causa, por ele mesmo talvez ignorada, de
um sorriso instantâneo, de uma melancolia mais duradoura, e às
vezes até de uma lágrima, em que a sua tristeza habitual parecia
de quando em quando condensar-se, raras crises que por momentos lhe desanuviavam
o espírito visionário.

Por isso caminhava longas horas pensativo pelo ermo da costa, Parecia procurar
acalmar, por esta forma, a vaga inquietação que sentia em si.
Como se aquela ânsia que o devorava fora a necessidade de movimento!
Pobre alma! Iludia-se na sua ignorância. A actividade a que tendiam
as suas aspirações não era aquela; não se realiza
assim. O movimento dos afectos, as lutas da inteligência, o estímulo
da glória, os gozos da vida do espirito, tudo isso ela procurava, mas,
cega, andava tacteando um caminho bem longe do que a devia conduzir ali. Como
não teria de sucumbir no empenho! Como não cairia exausta de
forças, e abatida pelo desalento! Que vale ao febricitante a incoerente
convulsão em que se revolve no leito? Mitigam-lhe, acaso, esses movimentos
o angustioso escaldar do fogo que lhe circula nas veias ? No mesmo caso estava
Pedro ao procurar satisfazer os seus indecifráveis anelos, correndo
pela beira-mar, às vezes possuído de uma verdadeira alucinação.

Esta noite, em que tivera lugar o diálogo entre ele e o velho João
Cabaça, foi uma daquelas em que Pedro do Ramires prolongou até
horas adiantadas o seu passeio habitual, seguindo para o sul da costa.

Absorvido em seus pensamentos, caminhou insensivelmente a passos rápidos
e desiguais, até deixar a uma grande distância os palheiros da
povoação do Furadouro.

Por este tempo já a escuridade da noite era completa, antecipada,
como fora, pelos cúmulos de nuvens que, partindo do ocidente, se tinham,
em pouco, espalhado por toda a abóbada celeste.

O jovem pescador parou enfim; parou e pôs-se a olhar vagamente para
o mar,- como se de mistura com o clamor das ondas, esperasse receber alguma
voz que lhe fosse destinada.

Depois quase se deixou cair na areia da praia e pousando a cabeça
nas mãos encruzadas, deitou-se e fitou os olhos nas nuvens, como se
nas formas irregulares que elas desenhavam no espaço estivesse lendo
uma página misteriosa escrita em caracteres desconhecidos.

E assim se conservou durante horas, não o inquietando a violência
do vento húmido que lhe açoutava as faces, os gritos roucos
e angustiados de alguma ave que fugia à borrasca iminente, nem o rumor
surdo que já se escutava de quando em quando, eco ameaçador
de tempestades longínquas.

Mas, de súbito, estremeceu, levantou sobressaltado a cabeça
e, recostando-se ao braço, trémulo de inquietação,
dirigiu a vista para aquele espaço tenebroso que se estendia diante
dele, como pretendendo devassar na obscuridade da noite o que quer que fosse
que tão repentinamente o arrancava da imóvel contemplação
em que se conservava havia tanto.

A noite foi, porém, discreta; não ergueu uma só ponta
do seu manto para revelar o mistério. Pedro continuava na mesma posição
tão expressiva de ávida curiosidade que de repente tomara.

Pouco a pouco as notas maviosas de um cantar distante chegaram, como um
eco ainda mal apreciável, aos ouvidos atentos do pescador.

Escutando-o, ele erguia-se fremente e agitado sobre os joelhos e, de mãos
postas e a cabeça inclinada na direcção de onde chegava
esta voz, conservava-se imóvel e em profundo recolhimento, como um
eleito do Senhor, recebendo em êxtase a inspiração divina.
Aquele som contrastava, na sua melodia e suavidade, com o bramir discorde
das vagas, que batiam violentas na praia.

Dir-se-ia o canto de algumas dessas fadas que, segundo as crenças
populares, atravessam extensas regiões marítimas em fantástica
viagem e sob um fatal encantamento.

Pedro escutava embevecido aquela música cuja toada lhe era estranha
e de um estilo inteiramente diverso do das canções populares,
únicas que até então ele tinha conhecido.

Falava-lhe por isso poderosamente à imaginação esse
canto, cujas palavras a distância lhe não permitia ainda perceber,
A invisível cantora parecia aproximar-se; percebiam-se agora melhor
as modulações so.ioros:Ssimas daquela voz potente e argentina
que conseguia dominar o ruído das vagas e que se estendia ao longe
pela praia, como à procura de um eco que a. repercutisse.

Agora já a letra da canção podia ser percebida. Mas,
se o estilo pouco vulgar daquela música causara já estranheza
e influíra poderosamente no ânimo agora excitado do moço
pescador, a linguagem desconhecida de que era acompanhada não lhe produzia,menor
impressão.

Ignorava o que dizia, mas achava-lhe qualidades musicais que o enlevavam
ao escutá-la. Era uma linguagem cujas palavras pareciam ter um sentido
universalmente apreciado, em tão perfeita e inexplicável concordância
pareciam estar com as ideias e sentimentos que exprimiam, De repente pareceu-lhe
distinguir um ruído, como o do bater de remos na água e, com
a vista excitada de pescador, julgou reconhecer, não obstante o tenebroso
da noite, uma forma negra movendo-se no cimo das ondas, erguendo-se, abaixando-se,
desaparecendo para tornar a surgir e a elevar-se e como demandando a praia
com esforços porfiados! Pedro fitou aquele objecto com ansiedade. Nas
formas mal distintas, nos movimentos, no som particular que produzia ao caminhar,
dividindo as águas, parecia-lhe um destes pequenos barcos que os pescadores
chamam chinchorro, frágeis esquifes em que esta intrépida gente
do mar tantas vezes arrosta, a esforços de poucos braços, com
a violência das ondas.

Impelido pela força do vento e pelo esforço dos remos, este
barco cada vez se aproximava mais da praia. Pedro não sabia ainda era
dele que partira o canto que havia seis noites o trazia enlevado pela solidão
da costa marítima e que, depois da história narrada pelo tio
João Cabaça, muito seriamente atribuía já à
soberba e artificiosa filha das ondas, de que se julgava vítima.

À medida, porém, que ele se avizinhava, pôde perceber
o som ‘e várias vozes de timbre diverso empenhadas num diálogo
animado; e, cedo, a pouca distância a que já vogava da costa
tornou distintas seguintes palavras: — Eu bem disse à Madama
que era perigoso o passeio numa noite destas. O mar não é o
rio, e…

Isto dizia uma voz rouca e áspera, à qual outra de timbre
melodioso e vibrante, e que evidentemente pertencia à pessoa a quem
fora dirigida a insinuação, respondeu: — Acaso me competirá
a mim dar ânimo a homens, que, desde lança, vivem no mar? Que
vergonha! —E riu-se. Estas palavras foram ditas com uma certa inflexão,
que denunciava a origem estraneira da que as pronunciara.

Pedro reconheceu nesta voz a da cantora desconhecida e o coração
sobressaltava-se-lhe a escutá-la.

A voz rouca respondeu à arguição que a outra lhe fizera:
— Não, Madama, não somos nós que temos medo do
mar e tanto que não pusemos pecha em a trazermos aqui. Mas por um divertimento,
brincar assim com as ondas; escolher uma noite escura, fria e ventosa para
vir cantar desta forma ao ar livre, quando estão aí à
porta tantas de luar claro, como o dia! A falar a verdade…

Uma risada jovial respondeu à observação e a mesma
voz feminima replicou: — Parece-lhes tudo isto uma loucura, não
é assim ? Pobres homens! E talvez tenham razão. Mas eu quero
satisfazer as minhas loucuras todas. Sinto nisto um prazer!… Mas não
se inquietem. Eu conheço alguma coisa o mar e sei ler na direcção
do vento e no aspecto das nuvens as mudanças prováveis do tempo.
Estudei as tempestades da minha terra. Nasci como vós à beira-mar.
Meus pais eram pescadores também. O berço que me embalou nos
meus primeiros sonos foi o barco em que toda a minha família se transportava;
a rede a coberta única em que muita vez me envolveram para dormir.
Aprendi assim, de pequena, esta música das ondas, de pequena me costumei
a cantar com elas. Depois que a sorte me impeliu nesta vida artística,
errante e aventureira que tenho seguido, não esqueci nunca as predilecções
os meus primeiros anos. Sou como as aves aquáticas; ando sempre junto
às costas marítimas. A escola em que aprendi foi a escola do
mar; não me quero longe deste mestre inspirado que me ensinou a arte
sublime da música. Parece-me que lhe sei já compreender os segredos
todos; cada praia revela-me um novo mistério de arte. As ondas do Adriático,
o mar da minha terra, não cantam como as outras. O mar é como
o povo. Em cada país tem a música popular um génio próprio,
uma índole especial. Assim também o mar. Tenho escutado as ondas
de quase todas as praias da Europa. O mar Negro, o Mediterrâneo, o Báltico,
a Mancha, o Atlântico, todos têm uma modulação sua
e que me parece já distinguir. Nuns é mais majestosa e terrível
a música das tempestades; outros têm mais suaves harmonias nas
noites sossegadas de calma. Já vêem que eu e o mar somos antigos
companheiros.

Ele entende-me e eu também o compreendo. Sosseguem, pois; eu não
me iludo com a sua agitação desta noite. Bem cedo o veremos
tranquilo.

Os pescadores não responderam. Estranhas lhe deviam parecer estas palavras,
incompreensíveis até. A mulher que as pronunciara num tom de
voz em que se revelava toda a exaltação de um carácter
entusiasta e ardente, falava mais a si própria do que às rudes
inteligências dos seus companheiros nesta extraordinária excursão
marítima.

Pedro escutava, porém, aquelas palavras, com um entusiasmo de artista
apaixonado e como que se lhe comunicava o fogo oculto da imaginação
que as ditava. Sobressaltavam-no, como se lhe oferecessem a inesperada solução
de um enigma em que, muito havia, lidava a sua inteligência. É
que o mar também lhe falava. Ele pressentia-lhe uma linguagem que procurava
adivinhar. Longas horas passava nas praias a escutar aquele rumor melancólico
e solene e perguntava às vezes a si próprio o que o retinha
ali. As palavras da cantora pareciam ter sido a resposta aguardada, há
muito, àquela tácita interrogação da sua consciência.

Havia, pois, mais alguém que, como ele, escutava as ondas e se deliciava
com a sua harmonia? Passado algum tempo, a noite, como se quisesse confirmar
o prognóstico da desconhecida, principiou a serenar um pouco mais,
abrandou a violência da ventania e as ondas vinham já quebrar-se
com menos força nas areias da praia.

— Vejamos — disse a cantora — que lhes dizia eu, homens
sem confiança no mar? Aí temos o vento sul para nos ajudar na
volta. A que distância estamos de Espinho? — A légua e
meia, Madama; ali mais adiante estão os palheiros do Furadouro.

— Voltemos. Não lhes disse eu que era desnecessário
aproximarmo- nos tanto da costa ? Ao largo ! Ao largo! Os pescadores obedeceram-lhe,
o barco sulcou as ondas afastando- se da praia, o rumor das vozes tomou-se
cada vez menos distinto, mais confusa a forma escura do barco, até
que enfim tudo se confundiu na escuridão da noite e no rumor monótono
das vagas, já menos impetuosas.

Pedro ainda por muito tempo interrogou aquelas trevas e aquele ruído
confuso do mar…

Era uma formosíssima noite de luar, aquela! A alvacenta nebrina que
se condensara na atmosfera aumentava o aspecto teatral da cena, difundindo
em toda ela um certo colorido vaporoso de surpreendente efeito artístico.

As vagas onde a luz se quebrava em multiplicados e cintilantes reflexos,
estendiam-se languidamente pela praia, com um brando murmúrio.

Das pequenas cataratas que, ao dobrarem-se sobre si, produziam as ondas,
levantava-se um orvalho denso que retratava a luz num íris desvanecido.
Alvejavam ao longo da costa flocos de espuma que, num lento refluxo, desciam
de novo às águas, até que outra vaga os impelia mais
longe.

Tudo era solidão! No mar, na praia e no céu! O mar sem um
barco, a praia sem uma habitação, o céu sem uma estrela!
E a Lua, como uma lâmpada mortiça pendente da vasta abóbada
de um templo deserto, alumiava esta majestosa e imponente solidão!
Pedro caminhava rápido por este vasto areal da praia e nem sentia o
seu isolamento, que povoada levava a fantasia por mil imagens e pensamentos
encontrados.

Era noite avançada quando chegou à vista dos palheiros de
Espinho.

Palpitava-lhe de ansiedade o coração ao aproximar-se daquele
lugar.

Aquelas sombras escuras em que se destacavam no horizonte, tingido de um
azul-pálido pelos reflexos do luar os palheiros desta parte do litoral,
envolviam uma mulher que, sem o suspeitar, se transformara em objecto de um
culto fervoroso para um mancebo em cujo coração virgem pela
primeira vez se ateara a chama ardente de uma paixão definida.

Pela primeira vez Pedro afrouxou a velocidade dos seus passos e parou levando
a mão ao coração como para lhe sentir as palpitações
agitadas e irregulares.

Dominando esta comoção momentânea, prosseguiu, porém,
na sua marcha e penetrou no centro da povoação. Estava quase
deserta àquela hora. Pedro correu, como em delírio, todas aquelas
estreitas e turtuosas ruas de areia, que seguiam por entre os palheiros, e
parou em toda a parte onde imaginava encontrar aquela que tão ansiosamente
procurava.

Em cada sombra que se destacava no vão esclarecido de uma janela,
supunha ver o perfil da mulher a quem consagrara todos os afectos do coração,
todos os seus pensamentos e aspirações.

Cansou-o esta inútil pesquisa, desalentou-o este baldado procurar,
e quase se deixou cair, extenuado de forças e de esperanças,
junto à porta de um pequeno palheiro situado no extremo oposto da povoação.
Assim permaneceu alguns minutos sem consciência do que se passava em
torno de si, pensando no destino da sua paixão insensata e absorvido
por amargas ideias de que tantas vezez se lhe alimentava a imaginação.

Pouco a pouco principiou a despertar-lhe a atenção, até
ali poderosamente distraída, um rumor de vozes que vinham do interior
do palheiro à porta do qual se encostara. Uma das que falava não
lhe era desconhecida e esta circunstância operou uma salutar diversão
naquele preocupado pensamento, afugentando-lhe por instantes o tropel de ideias
negras que o assombravam.

Aplicando o ouvido à porta detrás da qual lhe chegava aquele
sussurro, Pedro pôs-se a escutar, com mal reprimida curiosidade, o que
se dizia lá dentro.

— Sabes que a Madama nos tomou outra vez o barco para todo o resto
da semana? — dizia uma das vozes.

— Outra vez ?! Julguei que desde aquela noite de ventania lhe passara
o gosto por estes passeios.

— Enquanto a mim aquilo é mania. Pois não vês
tu como ela não aproveitou as belas noites que têm estado e agora
diz que quer o barco, quer chova, quer vente?…

— Estas estrangeiras têm destas coisas. Ela, pelos modos, é
alguma princesa; paga que nem uma rainha.

— O sor Morgado que aqui esteve a banhos o ano passado disse no outro
dia que a conhece do Porto. É uma fidalga estrangeira que anda a viajar.

. — Há gente que vem a este mundo só para passar vida
de rosas.

— E aborrecem-se dele. É ver como ela acha gosto naquilo que
nos dá pena a nós outros. Deu-lhe para cantar no mar! —
E olha que lá isso!… Sempre canta que é um gosto ouvi-la.

— Mas para que lhe havia de dar! Cantar no mar! A falar a verdade…

Aquilo nem sei o que parece! — Deixa lá, homem. Para nós
tem sido uma providência; às más pescas que tem havido,
de muito nos têm valido os tais passeios da Madama.

— Mas também caro pagamos esses lucros, que quando ela empreende
demorar-se por lá, nem que a levássemos a Lisboa a satisfaríamos.

— E então não há mar que a intimide. Uma mulher
tão animosa ainda estou para ver.

— Sempre é estrangeira! Será ela cristã ?

— Ih! Não vês como fala tanto na Virgem ? E as esmolas
que dá! Não, isso, boa senhora é ela. Verdade, verdade.

— Isso é. Tirante lá aquela veneta!…

— Quem tem dinheiro nem sabe em que o há-de gastar, —
Quanto tempo se conservará ela ainda aqui na praia ? — Disse-me
que até ao fim da semana. Depois vai para o Porto.

— Nem eu sei como se tem demorado tanto, agora que não é
tempo de banhos, e tudo isto está deserto.

Pedro escutava, com indescritível avidez, este diálogo dos
pescadores; esforçava-se por não perder uma só das particularidades
referidas nele, relativas à desconhecida viajante.

Nas disposições de espírito em que o apaixonado moço
estava naquele momento, o nome só da pessoa que assim nos traz, como
os dele, avassalados os pensamentos, não é escutado sem uma
extrema e agradável comoção.

Recolhia, como revelações preciosas, tudo quanto diziam os
pescadores e ardia em desejos de lhes dirigir milhares de interrogações
a respeito da mulher que eles tinham a ventura de transportar no seu barco
às horas solenes da noite e pela majestosa solidão do mar. Porque
preço não pagaria ele esse invejado prazer! Desta quase extática
contemplação foi finalmente arrebatado pelas vozes de um piano
que partiam do palheiro próximo. Pedro estremeceu, escutando os prelúdios
que uma mão exercitada extraía das teclas sonoras.

Poucas vezes, se algumas, Pedro tinha ouvido um piano. Aqueles sons encantavam-no,
estimulavam-lhe os vivíssimos instintos musicais que possuía,
ignorando-os, essa alma nobre de artista, criada para grandes concepções,
que o destino impossibilitava de realizar, condenando- a totalmente a sucumbir
de contínuo nos esforços a que, por instinto, obedecia, desconhecendo
sempre o alvo em que eles se convergiam.

Depois teve um pressentimento de que a mão que despertava do silêncio
da noite aquela suave harmonia era a da mulher que ele procurava.

Que febril agitação então a sua! Era uma quase vertigem
o que ! ele experimentava! — Ela aí principiou a cantar. E então
é como os rouxinóis… Canta só de noite — disse
um dos pescadores cujo diálogo Pedro estivera escutando.

Então a mesma voz, que tantas vezes o apaixonado moço escutara
na praia, e que por muito tempo julgara um mistério do mar, principiou
cantando, acompanhada, desta vez, pelos acordes sonorosos do piano, que mais
a fazia sobressair.

Agora o estilo da música era suave e melancólico; era a canção
da rosa, a ária formosíssima da qual Flotow fez o motivo de
toda a sua ópera, a Marta, e que raros têm o poder de escutar
sem que se sintam possuídos de uma profunda comoção e
com disposições para lágrimas.

A artista cantava-a na letra italiana da ópera, cuja tradução
é, aproximadamente, a seguinte:

Aqui, só, virgínea rosa, Como podes florescer I Inda em botão
desditosa, E já próxima a morrer !

Em vez do orvalho da vida Cresta-te a neve e o tufão É já
sobre a haste pendida Incidias a fronte ao chão!

Escutando aquela música elegíaca e sentida, Pedro experimentou
uma comoção ainda mais profunda que das outras vezes; não
compreendendo a letra italiana do canto, tal era a expressão da cantora
e a eloquência da música que ele ouvia-a com intenso recolhimento,
como se escutasse a voz do seu próprio coração. Esquecia-se
de tudo, como nos esquecemos, levados pela corrente dos nossos pensamentos,
a escutar a nossa própria consciência.

Quando as últimas notas deste canto magoado se desvaneceram, confundindo-se
com o murmúrio do mar, Pedro, voltando a si do êxtase em que
esta música o arrebatara, sentiu que as lágrimas lhe banhavam
as faces.

— Que é isto, meu Deus? — exclamou o pobre adolescente
com um acento de desespero. —Porque me faz chorar esta música?
Porque me sinto entristecer sempre que a oiço cantar, a esta mulher
que não conheço, que nem sequer ainda a vi? Que homem sou eu,
tão singular! Jesus, Jesus! Será isto uma loucura? Tudo na praia
recaíra em profundo silêncio. Pedro, com os olhos postos na janela
obscura, conservava-se imóvel, como se temesse desvanecer uma visão
deliciosa ou quisesse recolher as últimas e imperceptíveis vibrações
sonoras que um sentido superiormente organizado lhe permitia ainda apreciar.

Principiava a tingir-se o horizonte dos rubores da madrugada e Pedro em
vão se esforçava por se arrancar dali. Prendia-o uma esperança;
a de entrever, por instantes que fosse, a mulher por quem concebera tão
violenta paixão; instava com ele, para partir, aquela espécie
de pudor do coração, com que de todas as vistas procuramos esconder
os menores vestígios de um primeiro amor, tanto mais ardentemente quanto
maior é a sua candura e quanto mais digno ele é da nobreza de
sentimentos próprios da juventude.

Era já manhã alta quando Pedro voltou ao Furadouro.

Notaram a sua falta na companha, que à hora do costume se fizera
ao mar e, segundo a lei, foi multado na parte do quinhão que lhe tocava.

Na noite desse dia reproduziu-se para Pedro a aparição do mar.

Foi pela altura dos palheiros, então ainda desertos, de Maceda e
Cortegaça, que ele a veio encontrar.

A noite estava tranquila, o mar sereno. A claridade da Lua, penas velada
por um transparente cendal de tenuíssima nebrina, permitiu distinguir
o vulto da cantora que, recostada à proa, entoava ma música
cheia de entusiasmo e energia, uma espécie de hino patriótico,
a cujas palavras ela sabia comunicar todo o fervor do seu animo exaltado.
Ainda desta vez foi contagioso para o impressionável moço o
sentimento que em todo aquele canto se reflectia.

Assim como na véspera a melancolia do canto lhe havia feito assomar
aos olhos lágrimas incompreensíveis, agora a energia, o ardor
com que as palavras pátria e liberdade eram pronunciadas pela cantora,
comunicaram-se ao enlevado mancebo, que experimentava um desses voluptuosos
estremecimentos e sensações indefiníveis que ressentimos
nos movimentos de entusiasmo, e nos transformam, e nos sublimam, elevando-nos
acima de nós mesmos e fazendo-nos capazes de superiores concepções
e empenhos.

Ele caminhava na praia como atraído por aquela harmonia sedutora.

Ela fugia-lhe já. O barco movia-se em direcção ao norte.
Pedro seguia-o, seguia-o com uma velocidade que só lhe podia vir da
alucinação que o dominava. Já mal se percebia o canto,
já quase se tornara indistinto o barco de onde aquela música
partia e Pedro, com o olhar fixo naquele ponto e com os ouvidos atentos à
desvanecida harmonia, caminhava ainda, e caminhou sempre, até que um
súbito obstáculo lhe tolheu os passos.

Estava defronte da Barrinha.

Quem viajasse há anos por esta parte da província da Beira,
deve conhecer, por tradição, senão por experiência,
o ponto do litoral que recebeu este nome e onde tantos episódios, uns
cómicos e outros trágicos, se sucederam, antes que se construísse
a ponte que hoje o viajante, ao percorrer a linha férrea, próximo
à estação de Esmoriz, descobre desenhando os seus quatro
arcos sobre o fundo esverdeado das aguas do oceano.

A Barrinha é uma estreita abertura cavada pelo mar na costa de areia,
interrompida neste ponto, e por a qual ele se precipita, vaga a vaga, em um
pequeno golfo que se estende para o norte e para o sul, separando dois extensos
cabos de areia fronteiros um ao outro. Nas marés brandas, e quando
o mar é pouco agitado, esta abertura é vadeável e os
viandantes, aproveitando o refluxo, quase a pé enxuta atravessam, tão
incólumes como Moisés atravessou as ondas do mar Vermelho; mas
uma hesitação, uma demora pode ser-lhe fatal; se a vaga volta
com um pouco mais de violência, envolve o incauto e não poucas
vezes o arrasta consigo.

Nas marés vivas, porém, e quando as correntes marítimas
são mais fortes, a passagem torna-se impossível, a não
ser nos barcos que estacionam no pequeno golfo, e cujas águas nem sempre
são plácidas, recebendo a agitação que o oceano,
em completa comunicação com elas, lhes transmite.

Ora nesta noite era a Barrinha intransitável; ainda então
não existia a ponte que hoje permite fácil passagem em toda
a ocasião, e o mar era abundante.

E, contudo, Pedro hesitou ainda, como se tentasse lutar com a natureza no
obstáculo que ela lhe oferecia. Mas o canto cessara de todo, a vista
já não distinguia no mar o menor vestígio do barco; o
alento que animara até ali o pobre vagabundo abandonou-o todo à
languidez da sua definhada saúde.

Em algumas das noites sucessivas, tranquilas como esta, voltaram de novo
o barco e a cantora. Pedro procurou-os com o mesmo fervor, escutou-a com o
mesmo recolhimento, viu-a afastar-se com a mesma ou mais intensa saudade.

E o pobre pescador abatia-se a olhos vistos.

João Cabaça vivia taciturno e oprimido, preso às suas
crenças e preconceitos, sentindo o estado de Pedro, a quem de cada
vez mais se sentia afeiçoado.

! Na opinião do velho, opinião que ele não revelava
para não excitar terrores ou causar maiores desgraças, era evidente
ser tudo aquilo malefícios da sereia. Ao que já soubera pela
comunicação que lhe tinha feito Pedro, acresceu uma nova circunstância,
que muito influiu para corroborar esta crença no ânimo do velho
pescador.

É que ele também a ouvira, também em uma das últimas
noites lhe escutara o canto e não lhe ficou dúvida que’ era’
de sereia, pois nunca tinha ouvido mulher cantar assim e muito mais no mar
e por tais horas da noite.

O velho tinha sido obrigado a ir a Espinho e, ao voltar, aí próximo
da capela da Senhora Aparecida, principiou a ouvir aquele canto que o sobressaltou;
aplicou o ouvido e percebeu-o mais distante.

O velho ficou aterrado! Quanto mais involuntariamente o deleitava aquela
música, tanto maior vulto tomavam as suas apreensões.

Considerava-se já perdido, mas teve uma inspiração
salvadora: correu para a pequena ermida, que lhe estava próxima, e,
ajoelhando-se na entrada, pôs o pensamento na Virgem e serviu-se do
expediente que, segundo a fábula, tinha utilizado um companheiro de
Ulisses em uma situação idêntica. A prática surtiu
efeito. Quando o velho destapou os ouvidos, já não se percebia
o canto; tinha, pois, esconjurado o malefício.

Prosseguiu no seu caminho, mas sempre inquieto.

Nessa noite não pôde conciliar o sono. Volvia-se e revolvia-se
no eito, fechava os olhos e escondia a cabeça no travesseiro… Debalde…

Era sempre aquela ideia a afugentar-lhe o sono; afigurava-se-lhe ainda ouvir
aquela voz e o pobre velho principiava a imaginar-se enfeitiçado.

Fez o sinal da cruz, encomendou-se à Virgem e ao Pedro Santo que,
antes de ser Papa, fora pescador; mas parece que desta vez tinha de ser ineficaz
tão valiosa intercessão. Depois lembrava-se de Pedro, bom do
velho, e compreendia como ele devia andar perdido, quando a si próprio
nem a reflexão nem o peso dos anos lhe foram preservativo contra a
influência daquela endemoninhada tentadora.

Se, próximo à manhã, João Cabaça conseguiu
dormir, foi de um sono tão agitado, tão cheio de sonos febris
e assustadores que, longe de o restaurar, o fatigou…

Quando apareceu diante dos da companha, perguntaram-lhe de todos os lados
se estava doente.

Esta pergunta desagradou ao velho.

— Doente! E que me acham vocês para o pensarem ? — Está
amarelo, o ti’Cabaça, que nem uma cidra e tem cara de quem lidou com
bruxas.

— Malditas, malditas! Só de as ouvir uma vez, já assim
me puseram! — exclamou o velho, não podendo reprimir uma indignação.

— Quem? Quem? — perguntaram várias vozes com grande curiosidade.

João Cabaça apenas respondeu: — Ninguém, ninguém.
Eu cá me entendo.

Vejam como deveria ter adquirido firmeza a crença de João
Cabaça, quando juntara à experiência de estranhos a sua
própria experiência.

Procurou Pedro e, desta vez, foi eloquente na prédica em que lhe
pintou com as mais vivas cores os artifícios das sereias, e pediulhe
que resistisse àquela tentação que lhe viria a ser funesta.
Que ele próprio, por a ter ouvido uma noite, se sentira incomodado
e que, portanto, tomasse tento, que mais sujeita ao perigo andava a juventude
do que a idade em que alvejam os cabelos e a fronte enruga e verga sob a pressão
‘dos anos.

Estas e outras muitas coisas dizia o bom do velho, mas o seu companheiro
escutava-as distraído e provavelmente sem ter sequer consciência
do que elas significavam. A abstracção de Pedro aumentara de
ponto a fazer julgar a todos que ele transpusera as raias da loucura.

Tudo fazia maquinalmente; se respondia às perguntas que lhe dirigiam
era como se as não houvesse compreendido.

Esta distracção continuada, que o alheava ao trato usual dos
seus companheiros, acabou por o isolar completamente, pois todos pareciam
experimentar um certo afastamento por aquele carácter excessivãmente
concentrado e tão sujeito a aberrações que se assemelhavam
a uma verdadeira loucura.

Apesar das recomendações de João Cabaça, já
a noite veio encontrar a Pedro no seu posto de vigia.

A tarde estivera magnífica.

No firmamento límpido não se formara uma só dessas
pequenas nuvens que são o primeiro assomo da cólera dos elementos.
Reinava uma calmaria completa ainda no princípio da noite.

A atmosfera tépida e asfixiante não era agitada pela menor
viração ; as ondas, como que dominadas pela geral languidez
da natureza, estendiam-se lentamente na praia com suave murmúr-io.

E, contudo, no meio desta tranquilidade, Pedro sentia-se inquieto, como
se alguma coisa pressentisse ameaçando-o de um perigo latente.

As organizações impressionáveis são formadas
por estas misteriosas percepções, que se não explicam.

Por um instinto, semelhante ao das aves que volteiam sobre as praias ainda
quando a tempestade está longe, mas que elas pressentem já,
não as ilude as aparências de bonança que o céu
às vezes oferece ; o que quer que seja de invisível lhes prognostica
as tormentas.

Aonde se engana a experiência dos anos, realiza-a a voz profética
destes inexplicáveis instintos.

Nesta noite Pedro sentia-se triste, e experimentava um secreto medo que
a si próprio admirava.

Não sei o que descobria no cintilar das estrelas, que o assustava;
a voz das vagas, na sua aparente suavidade, parecia-lhe murmurar ameaças
surdas; o sorriso da natureza dir-se-ia um sorriso traiçoeiro; não
lhe infundia confiança.

Passeava na praia, com os olhos fitos naquela imensa superfície líquida
de onde lhe tinham vindo os únicos momentos de felicidade que entrevira
na vida. Mas comprimia-se-lhe desta vez o coração respirando
a inflamada atmosfera daquela noite de sinistra influência.

Esta vez os temores que ressentia, na aparência mal fundados, pouco
a pouco os principiou a justificar o novo aspecto que foram tomando o mar
e o firmamento.

Levantou-se do sul uma viração, ao princípio branda,
mas que adquiriu gradualmente mais intensidade, turbando a limpidez do céu
com um sem-número de pequenas nuvens que coalhavam a imensa abóbada
que se descobria dali. A forma, a disposição destas nuvens era
de um agouro pouco seguro para os olhos amestrados. Pedro surpreendeu toda
a significação destes sintomas do céu e via confirmados
por eles os seus vagos terrores de há pouco.

Temia já que o barco, cujo aparecimento ele tão ardentemente
esperava, não viesse aquela noite, e só com esta lembrança
sentia-se desfalecer.

Era como se aquela esperança, se aquele gozo de momentos fosse o
único laço que já agora o prendia à vida.

Pensar que lhe poderia faltar era para ele a origem de uma tristeza tão
íntima, de uma tão absoluta desesperança, que na morte
antevia o único alívio a esperar, depois de tão dolorosa
desilusão.

Mas, no meio destas apreensões, puderam seus olhos descobrir, apesar
da cerração cada vez mais densa que principiava a ocultar- lhe
o mar, uma forma que lhe pareceu a do barco que aguardava com tanto fervor.

Trémulo de ansiedade indizível, se aproximou da beira-mar,
fazendo excessivos esforços, para devassar o fundo impenetrável
daquela escuridão.

O coração dizia-lhe que era aquela a aparição
pela qual esperava, no seu palpitar ansiado, e na misteriosa sensação
que ressentia.

De repente, como respondendo à tácita interrogação
daquela alma apaixonada, e impelindo-a a extremos de júbilo indefinível,
a conhecida voz feminima principiou cantando uma evocação à
tempestade, que se poderia traduzir assim:

« Vinde I Soprai furiosos, Ventos de tempestade Ergue-te, majestade
! Ergue-te, ó vasto mar ! Passai, legiões de nuvens! Velai o
céu de estrelas! Ó gemo das procelas ! Vem, quero-ta saudar!

«A luz fatal do raio Guie o meu barco apenas I E rujam como hienas
As vagas ao redor…

Pairem nos ar’s fatídicos As aves de carnagem.

E cave-se a voragem Com súbito fragor !

«Surjam do fundo abismo Os pavorosos vultos Dos náufragos sepultos
Dos mares na amplidão ! Responda à voz das águas Fermentes,
agitadas, O silvo das rajadas, Os brados do trovão !

«Do arcanjo de extermínio O gládio chamejante Ostente-se
radiante De ameaçadora luz ! Da tempestade às fúrias
Assistirei sorrindo, E bradarei: «Bem-vindo!» Ao génio
que a conduz!

«Bem-vindo, sim, que eu sinto No seio, mais violenta, Uma cruel tormenta,
A luta das paixões ! Procuro o mar furioso Como um seguro asilo 1 Arrosto-o,
e não vacilo Das ondas aos baldoes !

Como se efectivamente a tempestade obedecesse a esta evocação
singular, um violento tufão do sul veio encapelar as ondas já
inquietas, encobrindo com a sua voz poderosa as últimas notas da canção.

O barco jogava nas ondas agitadas de uma maneira assustadora.

Os remadores faziam esforços poderosos para resistirem à violência
das ondas e, pelos seus movimentos, denotavam a pouca tranquilidade de espírito
que possuíam já.

Nos intervalos das rajadas, algumas palavras destacadas da tumultuosa discussão
e ordens encontradas da manobra que se trocavam entre eles, vinham até
aos ouvidos de Pedro, que principiava a inquietar- se pela sorte daquela a
quem votara todos os seus pensamentos, a quem consagrara inteiros os tesouros
de seus ardentes afectos.

— Temo-la connosco! — dizia um dos remadores. — E esta
é de respeito! — Quem o havia de dizer, com a noite que estava
I — Já me não agrada muito, a falar a verdade…

Neste ponto, nova rajada impediu que chegasse à praia o resto do
diálogo.

Quando, por sua vez, serenou, era a voz da cantora a que se ouvia dizer:
— Hei-de ser eu ainda desta vez que lhes dê ânimo ? Homens
há tanto no mar e que ainda não têm confiança neste
seu companheiro de juventude! Sosseguem, eu lhes asseguro que…

O fuzilar de um relâmpago, que iluminou com o clarão sinistro
toda a extensa amplidão do mar, interrompeu estas palavras; e, instintivamente,
a cantora levou as mãos aos olhos, exclamando: — Jesus! O ruído
ensurdecedor de um altíssono trovão acabou de desorientar os
pescadores, em cujo manobrar inconsequente se reconhecia toda a turbação
de ânimo que sentiam.

Pedro examinava com indescritível ansiedade o resultado daquela luta
de súbito travada entre os elementos enfurecidos e a força humana.

Palpitava-lhe violentamente o coração com a lembrança
do perigo que aquele barco corria e, por vezes, uma força instintiva
o aproximava

1 Esta poesia vem publicada nas últimas edições das Poesias de Júlio Dínis
com o titulo Evocação à tempestade. Deve ter sido escrita em Ovar em 1863.

das ondas, como para voar em socorro daquela existência, à qual
tão indissoluvelmente deixara ligar a sua.

— Não é possível vencer este mar! Faz-te à
terra, Lourenço, que eu já mal posso segurar o remo I —
É melhor, é melhor. A terral — Vira!—bradaram os
outros.

Quando, seguindo esta nova ordem de manobra, o barco se voltou para demandar
a praia, um forte tufão de vento soprou tão de súbito
e com tal violência que, apanhando de lado o barco, por pouco o virava.

Um dos homens, que se achava desprevenido, não pôde resistir
ao impulso e caiu ao mar.

— Santa Virgem!—bradou com voz angustiada a jovem italiana.

— Acudam! A este grito sucederam as exclamações dos
remadores, que se esforçaram para salvar o seu companheiro. Este pôde
voltar ao cimo da água a tempo de se encontrar ainda a pouca distância
do barco e, firmando-se sobre a borda, saltou para dentro. A escuridão
da noite era completa.

Pedro ouviu da praia o grito angustiado da cantora, o qual lhe penetrou
até ao coração.

Ouviu as vozes confusas dos remadores e uma ideia terrível lhe passou
pelo espírito. Pensou que aquela mulher desconhecida havia caído
às ondas e lutava nesse momento com a violência do mar.

Pedro era um dos melhores nadadores do Furadouro. De pequeno fazia admirar
os mais hábeis pela maneira como se confiava ao seio das ondas quando
mais inquietas, e como que brincava com elas.

Não hesitou muito tempo; correu como um louco ao longo da praia e
deitou-se ao mar, nadando na direcção do barco.

Guiava-o o som das vozes dos remadores no meio daquelas trevas que o rodeavam.

Mas, passados os primeiros momentos, Pedro sentiu que o abandonavam as forças
em que, por hábito, confiara. Mal fundada esperança fora esta
sua! O pobre moço já não era aquele pescador robusto
e vigoroso para quem um remo era um brinco de criança, e que fazia
inveja aos mais alentados, por aquela força muscular que subjugava
a violência das vagas; tinham-no alquebrado as vigílias contínuas
e os extremos da paixão que lhe absorveram todas as faculdades daquela
alma até então virgem de afectos tão poderosos. Agora
sentia-se desfalecer.

A meio caminho da praia ao barco que procurava, já os movimentos
lhe eram dificultosos e um certo atordoamento de cabeça lhe impedia
regularizá-los.

Já o animava apenas aquela força instintiva que nos estimula
em situações desesperadas.

De quando em quando deixava-se tomar de um desalento tão completo
que a custo sufocava a tentação de se deixar vencer pela força
da corrente e baixar, sem esforços de resistência, ao túmulo
que se lhe cavava aos pés. Depois a voz do instinto reanimava a energia
de lutar, quando ele já deixava pender exaustos os músculos
e se sentia sucumbir.

Renovava-se então aquele combate singular, terrível e solene,
cujos resultados não podiam ser duvidosos.

O mar parecia deleitar-se em atormentar a sua vítima antes de a devorar.
Uma vaga impetuosa anulava em um momento os esforços de muitos; depois
abrandava-se, como deixando-se vencer, para cedo redobrar de violência
e subjugá-lo.

A situação do infeliz era desesperada.

No seu espírito principiavam a suceder-se, em confuso tropel, cujo
rápido voltear lhe fazia sentir uma verdadeira vertigem, mil imagens
variadas, origem de quantas ideias nos últimos tempos lhe haviam preocupado
o pensamento.

Por momentos esquecia-se já do fim a que tendiam todos estes esforços
extenuantes que estava empregando, perdia a consciência da sua situação
precária, duvidava da iminência do perigo, parecia-lhe um sonho
tudo o que estava passando por ele e como se esforçava por acordar.
Mas cedo aparecia-lhe a realidade mais amarga ainda, torturava-lhe o coração
um paroxismo de desespero.

Vinham-lhe as saudades de um passado que havia esquecido, surgiam-lhe os
terrores de um futuro que ia devassar.

Dúvidas, superstições, preconceitos, tudo lhe assaltava
a consciência e o fazia delirar. Depois a lembrança daquela a
cuja salvação sacrificara a sua existência surgia-lhe
de repente como um clarão nas trevas que o cercavam e por instantes
lhe comunicava uma energia improfícua. Era um lidar inútil,
aquele. Já sem consciência dos rumos, não vendo, não
ouvindo nada que lhe indicasse a direcção na qual devia fazer
convergir os seus esforços, lutava por instinto; mas o espírito
alucinado já não presidia à luta. Os membros enregelados,
entorpecidos, exaustos, não lhe permitiam uma muito mais longa resistência.

Subitamente um relâmpago prolongado iluminou o vasto teatro desta
cena terrível. Aos olhos de Pedro, já meio velados pela angústia,
mostrou-se bem claro e próximo o barco que tão energicamente
demandava e sentada nele a mulher por quem votava em sacrifício a própria
vida, depois de lhe ter tributado todos os tesouros da sua alma.

Um novo relâmpago reflectiu a sua luz fulgurante nas feições
simpaticamente belas daquela mulher extraordinária.

Este resultado reanimou por instantes as forças já abatidas
do náufrago. Pela primeira vez lhe era dado contemplar o rosto daquela
por quem concebeu uma tão singular paixão. Essa vista fascinou-o!
Com uma energia quase sobre-humana, segurou-se à borda do barco, quando
este se abaixava obedecendo à ondulação das vagas, e,
com os olhos espantados, fitou aquela mulher, cuja voz o enfeitiçava
e, como a da sereia, parecia arrastá-lo a uma inevitável perdição.

Ela também o viu.

Batia-lhe em cheio no rosto, desfigurado singularmente pelos afectos que
então se combatiam tumultuosos e contrários naquele peito, um
novo clarão de relâmpago.

A cantora deu um grito ao descobrir aquela inesperada aparição.

Por um instinto de compaixão estendeu as mãos ao náufrago.

O barco, neste mesmo instante, executou um movimento; as forças de
Pedro abandonaram-no; quebrara-lhas de todo a violência da última
comoção que recebeu. Soltou as mãos do bordo do barco,
o qual lhe passou por cima do corpo.

— Esperem! Esperem! — bradou angustiada a cantora. — Um
homem no mar! Os pescadores pararam e olharam uns para os outros, como contando-se.

— Estamos todos — responderam depois. — A Madama enganou-
se.

— Vi-o! Não foi ilusão! Segurou-se à borda do
barco, agora mesmo! Valham-lhe! Tenham piedade dele ! Os pescadores estenderam
as vistas por toda a extensão do mar, que os relâmpagos iluminavam
por intervalos, mas não descobriram vestígios do náufrago.
Demais eles tinham pressa de se pôr a salvo e não depositavam
demasiada confiança no sossego de espírito da cantora para supor
que não fosse possível uma ilusão da sua parte.

Passado tempo, o maior furor da tempestade abrandara, os pescadores puderam
vencer a resistência do mar e, algumas horas depois, desembarcavam na
praia de Espinho, jurando nunca mais tornarem a meter-se ao mar numa noite
como aquela por dinheiro nenhum deste mundo.

O ânimo da cantora não era desta vez contrário a iguais
disposições de espírito.

Impressionara-a demasiado aquela figura do náufrago que entrevira
e que ela não acreditava haver sido alucinação dos sentidos;
impressionara-a, sobretudo, a estranha expressão daquela fisionomia
descomposta, onde parecia reflectir-se, entre os tormentos da agonia, um certo
reflexo de inexplicável voluptuosidade.

Era já dia claro quando as companhas se reuniram na praia, preparando-se
para se fazerem ao mar.

O tempo melhorara. E do aspecto do céu tiravam os entendidos prognósticos
favoráveis.

Um grupo de pescadores no qual se contava o nosso conhecido João Cabaça,
caminhava, conversando, em direcção à beira-mar. A trovoada
da véspera era o assunto discutido.

— E então que te parece a trovoada desta noite ? — perguntava
um dos mais idosos.

— S. Jerónimo ! Alguns trovões estalaram mesmo em cima
dos palheiros. Julguei que não ficaria um só de pé! —
Vinha puxada do sul com uma força ! — Mas deixa lá! Era
precisa para limpar os ares. Olha que manhã está hoje! Não
há-de ser pequena a safra.

— É precisa, é precisa. Olha, o pior é dos que
ela apanhou no mar — disse João Cabaça, meneando a cabeça.

— Lá isso é verdade ! Mas que remédio! —
Andem mais depressa, rapazes! Olhai que os barcos estão prontos. Não
vêem? — Mas que diabo fazem aqueles ali, ao pé do mar?
— Para que será que eles olham assim? A curiosidade apressou
o passo aos pescadores, que correram em direcção ao ponto da
costa onde muitos dos da companha já estavam reunidos.

— Que é ? Que é ? — perguntavam uns aos outros,
amontoando- se, comprimindo-se, empurrando-se, sem obterem a explicação
que desejavam.

— Aquilo é afogado decerto… — dizia um pescador novo,
depois de aplicar a vista por algum tempo a um objecto que boiava nas águas.

Estas palavras excitaram a curiosidade de João Cabaça, que
se aproximou do que as dissera, com não disfarçada curiosidade.

— Mostra-me o que tu dizes que é um afogado, Luís do
Moleiro.,.

TRECHOS

Tirados de dois manuscritos referentes aos romances Pupilas
e Morgadinha.

D. DOROTEIA

E disso se poderia gabar quem há cinco anos fosse admitido na sala
de recepção da sr." morgada das Fontainhas, Doroteia de
Melo Carragena e Sousa de França e Albergaria, às horas em que
se tomava o chá. O solar da septuagenária, representante de
tantos nomes ilustres, ficava situado nos subúrbios da vila de Ovar,
pátria da nobre fidalga, e onde seu pai foi capitão-mor em tempos
cuja memória arrancava, a cada passo, do peito de D. Doroteia um suspiro
de saudosa significação.

D. Doroteia não tinha cabedal para sustentar com o devido esplendor
e galhardia a sua árvore genealógica tão carregada de
nobilíssimas produções; era-lhe insuportável a
vista do luxo que ostentavam famílias cujos mais próximos ascendentes
não se cobriam diante dos seus; e, na impossibilidade de os sobrepujar
em luxo e magnificências, ela preferia encerrar-se em uma quase completa
reclusão, sob o pretexto de um desapego ao mundo e descrença
em coisas e pessoas, digna, tanto na manifestação como na sinceridade,
de um dos nossos cépticos de vinte anos.

Enclausurava-se, pois, D. Doroteia com as suas pratas, os seus vestidos,
cuja moda estava esquecida há vinte anos, os seus gatos, os seus criados
e os seus móveis, e lançava, da sua clausura, olhares de soberano
desdém para o resto do mundo.

O acesso às salas desguarnecidas da aristocrática morgada
era dificílimo. Frequentavam-nas, a titulo de amigos, apenas um padre
meio fidalgo, dois velhos fidalgotes, igualmente ilustres e igualmente pobres,
que passavam o tempo a consumir os restos de uma fortuna que demandas e hipotecas
haviam, de ano para ano, reduzido em proporção assustadora,
a título de familiares, que nunca se deviam esquecer do favor que recebiam
nisso, sob pena de lhes ser lembrado, com severas admoestações,
um boticário da vila e um doutor que ajudava a morgada a perder várias
demandas e lhe preparava o andamento de outras.

O lugar onde, de ordinário, se reunia esta escolhida assembleia,
era uma pequena sala quadrada, de soalho nu e carcomido, tecto de castanho
pintado de branco, e altas paredes que uma série de quadros adornava,
de caixilhos negros, contendo umas péssimas litografias, escandalosamente
coloridas, das passagens mais interessantes da parábola do filho pródigo.

A mobília desta sala mostrava uma variedade prodigiosa; o canapé
de mogno era flanqueado por duas cadeiras de pau-preto de estilo inteiramente
diverso; em volta da sala, cadeiras de variadas qualidades, e junto ao canapé,
um pequeno tapete que revelava longos anos de serviço no desbotado
das cores. Sobre uma pequena mesa, uma redoma onde se abrigava um São
João de marfim, e ao lado dois castiçais de prata ofuscantemente
polidos.

Logo ao princípio da noite, às horas em que, quando o vento
não era contrário, chegavam à solidão do solar
da morgada os sons das ave-marias da igreja de Ovar, a mesa puxava-se para
junto do canapé, os habituais convivas acercavam-se dela e a criada
trazia os preparativos do chá.

D. Doroteia dignava-se prepará-lo e servi-lo com hospitaleira amabilidade
e a conversa principiava a tomar uma vivacidade mais considerável,
graças à confortável infusão e ao delicioso doce
com que a verbosidade dos circunstantes era alimentada. D. Doroteia, constrangida
pelas circunstâncias a prescindir de muitas ostentações,
limitava-se a caprichar no bem servido do chá, e em mostrar, no serviço
magnífico de prata e porcelana, uma passada riqueza de que hoje restavam
apenas raros espécimes. Educada num convento de Aveiro, D. Doroteia
trouxera de lá uma qualidade apreciável, a de saber preparar
uma infinita variedade de doce que lhe granjeara entre a vizinhança
uma merecida reputação.

D. Doroteia tinha sido casada com um coronel de milícias que a deixou
viúva passado pouco tempo e do qual lhe ficou um filho único
para educar e imensas dívidas a satisfazer.

A decadência da sua fortuna principiava daí; procuradores às
mãos de quem a confiou continuaram a obra até ao ponto em que
então se encontrava.

O filho da sr.ª morgada, na impossibilidade de viver da sua fortuna,
foi obrigado a seguir uma carreira. A única que pareceu à descendente
dos Carragenas digna de tão alta linhagem foi a das armas.

Duarte foi enviado para Lisboa e recomendado a um titular, seu primo em
terceiro grau, e entrou para o Colégio dos Nobres.

D. Doroteia, como estes monumentos antigos que o vandalismo e o gosto estragado
dos modernos têm coberto de emplastagens de cal e gesso que lhes ocultam
o estilo da época, encobria, sob pastas de algodão, tranças
de ébano, e marcas de carmim, os vestígios que atestavam a idade
deste espécime de arquitectura viva. Não havia a nobre morgada
abdicado de todas as velhas pretensões de elegância com que tanto
brilhara nos salões do tempo de D. Carlota Joaquina e conservava ainda
a tal respeito uma excelente opinião de si, corroborada pelas lisonjas
aduladoras dos seus comensais, a quem as deliciosas sensações
que o doce modelo de D. Doroteia produziam no paladar, exigiam tal retribuição.

Acabara justamente de encetar uma destas finezas insinuadoras a descendente
da produtiva enxertia de tantos troncos ilustres, na ocasião em que
nós também penetrámos neste salão privilegiado
que o espirito nivelador da época não modificara ainda. A fineza
partira de um dos fidalgos que, com a boca cheia de toucinho do céu,
deveu talvez a esta circunstância a doçura do cumprimento.

A morgada sorriu com um gesto de amabilidade de outros tempos e respondeu,
oferecendo ao galanteador uma fatia de pão-de-ló: — Vamos,
Sr. de Refojos. Agora compete-me pagar doçura com doçura. Este
pão-de-ló coberto…

O fidalgo estendeu a mão e agradeceu com os olhos a oferta, Com os
olhos, poderia dizer, parodiando o poeta, porque a boca lhe atravancavam de
doces uns fragmentos volumosos.

— O Sr. de Refojos — disse o outro fidalgo que se reputava seu
rival nas boas graças de D. Doroteia — o Sr. de Refojos é
muito feliz.

Os seus galanteios são-lhe pagos com usura.

— Doçura, quer dizer, Sr. de Alpedrinha — respondeu o
interpelado tendo conseguido desembaraçar a língua o suficiente
para pronunciar estas palavras.

— Deixe lá, primo — disse D. Doroteia para o segundo
que falara.

— Longe de me arruinar com os juros que pago, ainda me considero em
dívida; e como gosto de ser leal em minhas contas, vai o Sr. de Refojos
dar-me o prazer de aceitar esta pêra de doce.

O Sr. de Refojos não recusou esse prazer à sua amável
parenta.

O morgado de Alpedrinha mostrava-se impaciente. D. Doroteia acalmou- o voltando-se
para ele com um sorriso: — O primo Henrique quer ter o martírio
de me servir o açúcar ? O primo Henrique apressou-se em satisfazer
o convite e endirei tando-se na cadeira meditou uma resposta galanteadora.
Mas a imaginação do bom do morgado não era para pressas.
Em casa, no silêncio de um gabinete, era fertilíssimo em ditos
lisonjeiros e finezas de bom gosto que, se viessem em tempo oportuno, dever-lhe-iam
ter valido mais do que uma fortuna amorosa; mas na ocasião era de uma
esterilidade desesperadora.

— Os mártires… — dizia ele, sem poder encontrar o fio
do galanteio— os mártires… os mártires…

— Fala-nos de Marrocos, Sr. de Alpedrinha? — perguntou com ares
de simplicidade o doutor, ao passo que escolhia do tabuleiro o mais bem recheado
covilhete que o adornava.

O Sr. de Alpedrinha, já embaraçado com a perspectiva de um
galanteio, acabou de perder-se com a interpelação do doutor.
Não sabia conservar o seu sangue-frio na presença de um aparte.

— De Marrocos, não senhor. Em Marrocos… em Marrocos…—
balbuciou o Sr. de Alpedrinha, tendo Marrocos atravancado na garganta como
tivera os mártires. Fora tão infeliz na execução
do epigrama como no galanteio.

Felizmente que uma rajada do oeste, seguida de um desses aguaceiros de que
este vento é tantas vezes acompanhado, veio operar uma natural diversão
no diálogo, com grande aprazimento do Sr. de Alpedrinha, que decididamente
não era para respostas de momento.

O boticário foi o primeiro a fazer sobre o tempo uma observação
importante.

— Esta é a mais fresca de hoje! Estão-se a preparar
os caminhos para regressarmos à vila! — Isto &eeacute; nuvem que
passa e como as terras estão secas não formam lama — acrescentou
o doutor em tom de confiança.

— Deixe chover, Sr. Bento Firmino — disse D. Doroteia pousando
a xícara — deixe chover que bem precisado estava o trigo e o
milho.

Que se não perca tudo já agora que se foi a colheita do centeio
e da cevada.

— Tem razão V. Ex.*, minha senhora. Isto não é
chuva, é maná.

Até as hortaliças estavam secas que metiam dó.

— Ai, primo Alexandre, que tempos estes! Parece o fim do mundo! Olhe
aquelas minhas terras das Leivas que me chegaram a render três e quatro
carros de pão macho e este ano nem um terço, nem a quarta parte
talvez me produzirão.

— Que quer, prima, é como o vinho da Bairrada. Este ano nem
uma pipa me veio.

— E então os braços estão tão caros! —
disse o Sr. de Alpedrinha que estendia a xícara para, pela quarta vez,
a encher de chá.

O doutor, que se ocupava agora a palitar os dentes, tomou também
parte na conversa.

— E o sustento! A carne sobe a um preço extraordinário;
o vinho está pelo que se sabe; a fruta vai toda para o embarque; o
pescado…

— O pescado — disse o boticário interrompendo-o —
o pescado come-se em toda a parte menos aqui na vila. Mal os marinhões
chegam aos Campos já ele está todo vendido para esses homens
das estradas que juraram fazer-nos morrer de fome, pois levam-nos quanto peixe
se vem ali vender. E quem há que lhes pode cobrir o lanço ?
Homens ordinários como eles são! — Má praga esta
das estradas — acrescentou D. Doroteia, suspirando.

— Há pouco, as de macadame, agora as de ferro, amanhã
as de ouro… e as nossas terras a partirem-se, a retalharem-se que faz mesmo
enegrecer o coração ao vê-las.

— Mas eles indemnizam os proprietários — disse o doutor,
que sabia ser esta a objecção mais insuportável para
D. Doroteia.

— Indemnizam! Tem graça a palavra, doutor. Dez-réis
de mel coado por um terreno onde se empregavam para mais de quatro alqueires
de semeadura. Indemnizam! O Demo os indemnize a eles quando mesmo pagassem
o valor do terreno! Pagam-me o desgosto de ver as terras retalhadas? E as
despesas, ao fabricá-las, não aumentaram? E então para
quê? Pois não se ia até hoje ao Porto e a Lisboa pelos
caminhos que havia? O padre que estivera calado lendo um número do
Direito, único jornal, no Porto, órgão do partido legitimista,
levantou a cabeça a esta apóstrofe da sr." morgada contra
o progresso e acrescentou: — Hoje é a época das estradas,
menos a da virtude onde crescem cardos e abrolhos de pouco calcada que vai.
Edificam-se imensos casarões para teatros, para palácios e para
estações; e não se edificam igrejas nem capelas. A época
vai boa, não tem dúvida nenhuma! Boa para esses pássaros
de arribação que vêm do estrangeiro chupar-nos a última
gota de sangue e bom para os pedreiros….

E em tom de aparte acrescentou: — … livres! E continuou a ler com
frieza imperturbável um artigo de fundo da política cediça
que acabara de parafrasear.

D. Doroteia, que vivia em eterna admiração da eloquência,
profundeza de vistas e pureza de sentimentos do seu confessor, abanou a cabeça
e suspirou melancolicamente, o que exprimia adesão completa às
palavras pronunciadas e de comiseração pelos destinos futuros
da sociedade actual.

— Por isso nos castiga Deus, por isso deu um ano de sequeiro e o mar…

II

AS DUAS MANAS

QUE santa paz de espírito gozavam as sr.as D. Quitéria e D.
Genoveva na sua casa de Alvapenha aí pelo correr do ano de 1847! Ambas
solteiras e quinquagenárias, ambas muito aferradas aos seus hábitos,
muito tementes a Deus e inimigas da murmuração, as duas irmãs
passavam uma vida, onde se descobria um suave cheiro de santidade, como o
da alfazema que perfumava as suas gavetas e repassava a roupa branca pela
qual elas velavam com escrupuloso carinho.

A inalterável harmonia mantida há muitos anos entre elas,
dava que entender a quantos as conheciam. E com razão, pois não
é vulgar observá-la em casos tais, quando a idade e o humor
naturalmente um tanto acre das velhas celibatárias, justificam as pequenas
impertinências que, sem outro auxílio, bastam já para
originar tempestades no seio das famílias.

As duas irmãs, porém, tinham o bom senso e abnegação
suficientes para fazerem mútuos sacrifícios em honra dos seus
pequenos caprichos, inclinações ou antipatias. Há vinte
e tantos anos que viviam ali isoladas na companhia apenas de uma criada tão
velha como elas, e em todo esse tempo não se ouvira dentro daquelas
paredes uma só palavra que, por mais alto pronunciada ou por significar
uma menos evangélica paciência, destoasse da invariável
monotonia dos seus diálogos habituais.

Era um exemplo edificante que elas davam aos seus vizinhos que, devorados
por demandas entre primos, irmãos, pais e filhos, tios e sobrinhos,
mostravam claramente, por seus actos, que era semente caída em amaldiçoado
terreno.

Estas discórdias intestinas entre as famílias de seu conhecimento
faziam suspirar as senhoras de Alvapenha e aumentavam o número de padre-nossos
com que toda a noite se faziam lembrar dos santos de quem eram validas, pedindo
a felicidade dos outros, tanto ou mais ainda que a sua.

A alma ia-lhes toda nestas orações. Ouvir rezar as duas irmãs,
era escutar uma resenha das diferentes calamidades que afligem o género
humano e que elas pretendiam desta maneira evitar. Um padre-nosso a São
Marçal para que nos livre do fogo; outro a Santa Luzia milagrosa para
que nos defenda da cegueira; outro a São Brás para nos proteger
das doenças da garganta; um padre-nosso por todos os que andam sobre
as águas do mar; outro por os pobres sem abrigo nem alimento; outro
pelos órfãos; outro pelos doentes; um pelos bons, outro pelos
maus; um pelos vivos, outro pelos mortos; um pelos justos, outro pelas almas
do Purgatório; não hesitando mesmo a sua clemência a transpor
as portas do Inferno e pedir também a remissão dos condenados;
— enfim, depois desta enumeração, um último padre-nosso
compreendia todos aqueles não mencionados por esquecidos, que pudessem
necessitar das suas orações.

D. Genoveva, mais velha três anos que sua irmã, era a despenseira
e superintendente dos negócios caseiros. D. Quitéria ocupava-
se das contas e direcção dos contratos monetários, arrecadação
de rendas, etc, etc.

Elas tinham uma fortuna sofrível que, não obstante as respectivas
omissões que o seu procurador lhes fazia, bastava de sobra para elas,
cujas necessidades eram limitadas.

Havia quem tivesse já dado a entender a estas senhoras quão
mal administrada lhes andava a fortuna nas mãos daquele homem…

que fazia render os seus serviços.

A estes avisos razoáveis as boas irmãs respondiam sorrindo.

— Deixá-lo, deixá-lo. Nós estamos costumadas
com ele e não nos poderíamos entender com outro.

Nestes caracteres o hábito impera como senhor despótico.

A sociedade habitual das boas senhoras era, como já disse, a sua
criada Antónia; tipo de criada velha bastante comum, para dispensar
descrição. Nesta preponderava um pouco o elemento malicioso
e murmurador, sempre vantajosamente combatido pelo espirito tolerantemente
conciliador das suas amas, que a repreendiam com severidade.

Os negócios de lavoura andavam a cargo de um jovial hortelão
que, de quando em quando, subia às salas a divertir as senhoras de
Alvapenha com as suas rústicas franquezas e simplórias observações.

Além disto, apenas recebiam como visitas alguns, poucos, vizinhos,
entre os quais olhavam como valido um modesto rapaz de vinte anos, futuro
ministro do altar, para o que se habilitava no Porto…

Tinham há pouco acabado de almoçar as senhoras de Alvapenha
e preparavam-se para se votarem à labutação da casa,
quando Antónia, com a roca à cinta, entrou na sala tossindo,
como quem preparava a voz para dar uma novidade.

Uma continuada convivência tinha habilitado as suas amas a decifrar
a significação destes modos de expressão da criada: era
uma semiótica muito do seu conhecimento. Por isso D. Genoveva, que,
naquele momento, fechava o armário onde arrecadara o açucareiro,
manteigueira e o bule, voltou-se para a recém-chegada, dirigindoe um
interrogatório: — Então que temos ? Antónia tossiu
de novo, como para se ver livre de um importuno cataarro que ameaçava
interrompê-la no meio da novidade e explicou: — Sabem quem chegou?
D. Genoveva encolheu os ombros em resposta.

— Ora! Pois não se lembram? Não sabem que estamos em
Julho? — E que tem isso ? — Pois em Julho quem é que chega
? — É o Verão — disse, da sala próxima, a
voz de D. Quitéria, que escutara a conversa.

— O Verão?! — observou a criada meio espinhada.—Bem
digo eu! Ó senhoras, pois na verdade…

— Vá, vá —disse D. Genoveva, que não gostava
de enigmas.— Deixe-se disso. Se quer dizer, diga. Se não, trate
da sua vida que eu tenho mais que fazer…

— Chegou o Sr. Valentim. Ora, quem havia de ser! As senhoras às
vezes…

Esta nova efectivamente parecia de interesse para as duas irmãs.

D. Genoveva, que não concedeu grande atenção até
aí à criada, voltou- se agora risonha para ela.

— Ah! Chegou? Quando? — Esta manhã, disse-mo o padeiro,
que o viu passar…

D. Quitéria também entrou na sala a perguntar com carinhosa
solicitude: — E virá bom, não sabe ? — Bem vê
a senhora que eu não lhe pus ainda olho. Digo o que me contaram.

— Pobre rapaz! — observou D. Genoveva. — Aquele é
um coração de pomba, é um bom-serás, como se contam
poucos.

— E que vocação aquela para a vida eclesiástica!
Senhor o ajude! — Enquanto a isso — observou a criada, que era
a céptica da casa — veremos. Estes rapazes novos mudam de tenções
de um momento para o outro.

— Não aquele! — replicou D. Genoveva.

— Também digo — apoiou a irmã.

— E que gosto para aquela pobre mãe, que tantos sacrifícios
tem feito para o sustentar nos estudos! — Bem lhe valeriam eles se as
senhoras o não socorressem! — disse Antónia, que não
gostava de ocultar benefícios.

. — Pois, Deus nos aceite a boa vontade e não é preciso
que ninguém o saiba. Você gosta muito de dar à língua,
mulher! — observou D. Quitéria com algum azedume.

Era Valentim que entrava na sala, com expressão de íntimo contentamento
no rosto, e não sei que suave alegria no coração, como
sempre sentia ao entrar na casa de Alvapenha.

As duas irmãs acercaram-se dele com ansiosa solicitude.

Pareciam devorar-lhe aquela fisionomia plácida, que não reflectia
nada das tempestades interiores, se as havia; pois podiam ter-se originado
naquele peito que de pequeno se conhecera votado às coisas divinas
e aceitara, sem exteriorização de saudade pelas coisas terrenas,
o destino que lhe haviam traçado no berço.

Valentim nunca deixara perceber que o amito lhe pesava nos ombros, que as
mãos lhe vacilavam a sustentar o cálix, o símbolo da
fé, nem que as lágrimas humedeciam, em noites de angustiosas
vigílias, o leito solitário.

Se era mártir, tinha a fortaleza do martírio; se, sob o crepe
do sacerdote, lhe palpitava o coração, ainda rico de vida, nem
no rubor das faces se lhe traía essa agitação comprimida.

E por isso lhe festejavam a vinda e suspiravam por o glorioso dia em que
o tinham de ver, revestido de todas as dignidades sacerdotais, entrar, pela
primeira vez, no altar do Senhor, pagar com a sagrada bênção
as carinhosas bênçãos maternais e as de tantos que o viam
caminhar seguro pelo caminho da fé.

D. Genoveva, depois de muito o observar em silêncio, e de o fazer
sentar na mais cómoda cadeira da sala, ficando ela em pé defronte
do futuro sacerdote, e nisto acompanhada por sua irmã, passou a informar-
se do adiantamento de Valentim na carreira eclesiástica.

— Então, então, quando temos missa nova? — Quando
mo permitir a idade. Ainda não tenho 25 anos.

— Eu peço a Deus que me não chame à sua divina
presença antes de receber de suas mãos, Valentim, a bênção
paroquial — disse D. Quitéria, que tinha esperança de
que o cuidado da abadia passasse, em pouco, às mãos do jovem
sacerdote.

Valentim sorriu.

— É uma profecia? Deus a realize. Ser-me-ia grato consagrar-me
ao serviço de Deus na mesma terra onde recebi as primeiras noções
da religião; poder socorrer com as consolações da fé
aqueles a quem antigas afeições me ligam.

— E espero em Deus que o há-de permitir. E então o senhor
abade há-de ver como lhe querem os fregueses! —Muito contente
devia ficar sua mãe ao vê-lo hoje ! Pobre mulher! É uma
consolação para a sua velhice. E ela que tantas consumições
teve noutras idades! — Minha mãe!—disse Valentim, com voz
afectuosa. — Quando, ao abraçar o sacerdócio, eu tivesse
de consumar grandes sacrifícios, a sua alegria mos compensaria de sobra;
e eu ainda teria de agradecer a Deus a constância que me concedeu…

As palavras de Valentim suspiravam uma melancolia vaga de mais para ser
percebida pelas senhoras de Alvapenha, que se exultaram com a evangélica
vocaçãp do mancebo.

No momento em que Valentim se dispunha a pôr termo à sua visita,
soaram à porta duas sonoras pancadas que puseram em excitação
os nervos da parte feminina da assembleia.

Era o portador de uma carta do correio.

A chegada de uma carta era um acontecimento em Alvapenha.

As duas irmãs perdiam-se em conjecturas sobre o objecto e procedência
da epístola, antes de se resolverem a adoptar a única medida
que as poderia esclarecer: a sua leitura.

— Uma carta! Que lhe parece, mana Genoveva, de onde pode ela vir?
— Eu sei, menina. Do procurador…

— Não, por certo que não. E daí…

Valentim, que reparara no carimbo, observou que ela vinha de Lisboa.

Nova surpresa.

— De Lisboa? — De quem pode ser então ? Antónia
notou com timidez: — Da mana das senhoras, talvez…

— Da Anica — disse D. Quitéria com estupefacção.

Esta admiração explica-se, sabendo-se que há muitos
anos as irmãs da província não se correspondiam com a
mana da corte.

— Pois na verdade será da mana Anica? Lê lá, Quitéria!
— Leia, mana Genoveva, leia! — Não. Lê tu. E senão…
deixa estar. O Valentim lê, não lê? — Mas… quem
sabe… que negócios…— observou o interpelado.

— Connosco não há segredos. E demais, se os houvesse,
era a um sacerdote que os confiávamos.

— Leia, Valentim, leia!…

Valentim cedeu e abriu a carta.

No fim da página lia-se a assinatura de João Soares de Carvalho.

— Ai, é do mano João? Acaso a Anica estará doente?
Leia, leia!…

Valentim leu: « Estimadíssimas manas: «Desejo-lhes saúde
e felicidades. Há muito que não recebo notícias suas
e espero que não sejam más as primeiras que obtiver.

«Escrevo-lhes para lhes pedir um obséquio e ouso confiar que
serei atendido pelas manas, não obstante não lho merecer.

Sua mana e minha mulher acha-se presentemente algum tanto adoentada, a ponto
de me causar receios; os médicos votam por ares de campo e ela lembrou-se
da casa onde passou grande parte da sua vida e na qual deixou pessoas por
muitos respeitos dignas do amor que ela sempre lhes tributou. Se as manas
virem que não há inconveniente em nos receber aí por
algum tempo, peço-lhes mo — queiram participar e por isso lhe
ficará muito obrigado aquele que se confessa « Seu mano e muito
atencioso criado, «Lisboa, 17 de Julho de 1852.

«João Soares de Carvalho. »

A leitura terminada, houve um solene silêncio na assembleia.

s hábitos pacíficos e monotonamente uniformes das senhoras
de ‘Alvapenha esta carta produziu o efeito de uma completa subversão.

Por algum tempo se conservaram mudas, por não saberem o que haviam
de dizer ou de pensar de tudo aquilo.

D. Genoveva mantinha-se na mesma atitude de religiosa atenção
com que escutara a leitura, enquanto os dedos polegares descreviam maquinalmente,
em volta um do outro, círculos intermináveis.

D. Quitéria, com a boca semiaberta, os olhos espantados, o queixo
apoiado sobre a mão direita, não se mostrava em menor grau de
abstracção.

Antónia, cujos olhos oscilavam de uma para a outra, parecia ansiosa
por escutar a resposta.

D. Genoveva foi a primeira que interrompeu o silêncio, mas nao ainda
para decidir coisa nenhuma. Voltando-se para Valentim, cujo pensamento se
diria muito longe dali, disse: — Ora faz favor de tornar a ler. Tenha
paciência.

A importância desta medida era contestável; mas passou sem
oposição.

Valentim obedeceu.

As coisas ameaçavam permanecer em statu quo, como… outras muitas
coisas.

D. Quitéria desta vez foi mais além que sua irmã.

— Não tem que ver, mana Genoveva; que venham, que venham, coitados.

— Pois, porque não? — respondeu esta, como se achasse
muito natural o que ainda agora a deixara toda perplexa. — É
dizer-lhe que sim.

— Mas… — balbuciou Antónia.

A observação não foi admitida.

— Mas… — disse D. Quitéria — não temos
senão que escreverlhes e preparar-lhes os quartos.

— Eles trarão a pequena? — observou D. Genoveva.

— Pois haviam de deixá-la, mana Genoveva? E a coisa ficou discutida.

Valentim pôde enfim retirar-se, deixando aquela boa gente toda atrapalhada
com a repentina nova da chegada dos seus próximos parentes da capital.

Quem sacrificou, com menos resignação, os seus hábitos
de pacífico remanso foi a velha Antónia…

De resolver responder ao rico capitalista lisboeta a pôr em prática
a medida ia grande distância.

As senhoras de Alvapenha nunca haviam cultivado a epistolografia e era empresa
esta, de escrever uma carta, digna de muito meditar.

D. Genoveva lembrou-se de Valentim, mas, chegado de pouco, o pobre rapaz
precisava de todo o tempo para visitas e descanso.

E que rude fadiga não era o redigir uma carta para o mano João
Soares ! — Nada! Nem que nos custe, mana Quitéria, vamos atirar-nos
a isto. Escreve tu, que tens melhor letra, que eu dito.

E D. Quitéria, depois de procurar o tinteiro, que, não sendo
ali traste de primeira necessidade, não se achava à mão,
dobrou com toda a arte uma folha de papel, molhou a pena e esperou.

D. Genoveva assoou-se, tossiu, esfregou a testa e disse: — Põe-lá.

E parou.

— O quê? — perguntou D. Quitéria.

— Espera.

Novo silêncio, durante o qual D. Genoveva tornou a assoar-se, a tossir
e a esfregar a testa.

D. Quitéria experimentou a pena fazendo S S.

— Põe lá — disse, pela segunda vez, D. Genoveva.

Depois de outra pausa, continuou: — Estimadíssimo mano do coração.

— Do coração — repetiu D. Quitéria, depois
de escrever, — Puseste? — Pus.

— Bem. Recebemos a sua carta…

— Carta… — repetiu o eco.

— E por ela tivemos notícia…

— Notícia…

— De que a mana Anica…

— Anica…

— Se acha adoentada.

— A… do… en… ta… da…

— Se os médicos dizem…

— Dizem…

— Que os ares do campo lhe fazem bem…

— Bem…

— Esta casa aqui está…

— Está…

— Que pobre como é…

– É . . .

— Os há-de receber com prazer…

Neste ponto D. Quitéria não apoiou a redacção
e, como um deputado discutindo a resposta ao discurso da coroa, observou,
pousando a pena: — Ó mana Genoveva, não é melhor
dizer gente em vez de casa ? Sim, pois a casa não é que sente
prazer…

— Dizes bem, mana Quitéria, mas agora como há-de ser?
— Emenda-se.

— Ora lê do princípio e tem paciência.

D. Quitéria leu o que tinha escrito.

A emenda foi adoptada e modificou-se o último parágrafo da
seguinte maneira: esta casa que aqui está, pobre como é, e a
gente dela que os há-de receber com prazer.

D. Genoveva continuou: — Por isso, mano, quando quiser…

— Quiser…

— Utilizar-se do nosso fraco préstimo… — E acrescentou:
— Olhe que préstimo é palavra grega, mana.

— E então? — disse D. Quitéria, que não
pôde tirar nenhum corolário da observação.

D. Genoveva elucidou: — É que escreve-se com ípsilo.

— Ah! É verdade! — disse D. Quitéria, escrevendo
em virtude da nota: o nosso fraco prestymo.

— Acredite que o veremos com júbilo.

— É grega também, mana? – É .

E D. Quitéria escreveu jubylo.

— Recomendações à mana Anica e muitos beijos
à Laurinha e façam por vir o mais cedo que puderem — Puderem.

— Suas manas que muito o estimam e muito reconhecidas aos seus obséquios.

— Obséquios. Agora assine, mana…

D. Genoveva aproximou-se da mesa e, depois de ter puxado a escrita assinou
com a mão trémula: Genoveva Martins.

Depois seguiu-se a colocação das vírgulas, tarefa importante
de que as boas senhoras se saíram sofrivelmente, colocando vírgulas
quase de duas em duas palavras, sistema de ortografia tão bom como
outro qualquer, visto que não temos nenhum.

Antónia foi chamada para ouvir a leitura e todas três admiraram
a redacção da carta, que não duvidaram em considerar
um modelo no género.

III

A CHEGADA

DIFÍCIL empresa seria tentar descrever o alvoroço que ia naquele
momento em Alvapenha. O sangue-frio das boas senhoras abandonou- as completamente
quando noticiaram a chegada da cavalgada.

Antónia, cuja vida isolada a tinha tornado um pouco insociável,
correu a esconder-se na cozinha. D. Genoveva, que tremia com a lembrança
de não receber condignamente os seus cunhado e mana, foi ter com o
Santo António, a quem fez uma prece do coração para que
a não desamparasse.

D. Quitéria foi quem mostrou ali mais firmeza. Puxou para diante
os folhos da sua touca, arrojou a distância o avental do serviço,
e galgando as escadas, postou-se à porta a esperar os recém-chegados.

Ela não queria acreditar os seus olhos, quando viu aproximar-se,
em rápido trote, a gentil amazona da cavalgada.

— Jesus, santo nome de Jesus! Ela vai despedaçar-se! —
murmurou D. Quitéria, e principiou a encomendar a cavaleira à
Senhora da Nazaré, que valeu a Fuas Roupinho num caso idêntico,
quando esta, por um ágil movimento, se desapeou, atirando as rédeas
para as mãos de um criado e num momento a boa senhora se viu rodeada
por os braços da elegante menina, que a beijava com efusão.

— Não me conhece, pois não? — dizia ela, da completa
estupefacção da pobre senhora que nunca na sua vida vira aqueles
trajos! Com qual das minhas tias falo eu? D. Quitéria caiu em si. Era
pois a menina.

— Pois tu és a Laura! Tão crescida! — E afastando-a
de si para a ver melhor, exclamava, benzendo-se: — Em nome do Padre
e do Filho e do Espírito Santo! Pois tu és a Laura ?! Laura,
uma vez que este é o seu nome, continuava a sorrir-se e parecia deleitar-se
com a estupefacção de sua tia.

— Ó mana Genoveva — bradou esta para as escadas. —
Venha ver, venha ver, ande cá depressa! — Ah! Então é
a tia Quitéria — exclamou Laura, apertando-a de novo nos braços.

D. Quitéria desta vez correspondeu a esta prova de efusão.

A mana Genoveva decidiu-se enfim a descer com a protecção
de Santo António e houve repetição da cena.

Elas olhavam assim para Laura como para uma coisa bonita que nunca tinham
visto e pareciam estranhar-lhe sobretudo a altura. De acto as duas irmãs,
não tendo ouvido falar de Laura senão quando esta era criança,
costumaram-se a imaginá-la ainda nessa idade, esquecendo- se que, desde
então, se haviam passado quinze anos.

Antónia, debruçada no corrimão da escada, espreitava
para baixo, surpreendida pelo chapéu e vestido de Laura, mas não
ousava aproximar- se.

No entretanto chegara o resto da cavalgada. João Soares de Carvalho
cumprimentou com afecto, ainda que menos expansivo, suas cunhadas, e, apeando-se,
ajudou a descer sua mulher, a quem as duas irmãs receberam nos braços,
derramando lágrimas de enternecimento.

Ana Soares, irmã mais nova das senhoras de Alvapenha, enfraquecida
pela doença, trémula pela emoção que a vista dos
sítios onde passara a infância e de pessoas tão queridas
lhe determinava, vacilou aos primeiros passos que deu. Laura apressou-se a
dar-lhe o braço, que ela parecia preferir e, enquanto João Soares
dava ordens em baixo aos criados, tendentes à melhor acomodação
das cavalgaduras, a mãe e a filha, precedidas pelas boas senhoras que,
à vista de sua irmã, puseram de parte todo o estudo da etiqueta
constrangida, para seguirem apenas os ditames do instinto, entraram na sala
verde destinada ao alojamento dos hóspedes.

Depois de conduzir sua mãe a uma cadeira de braços, objecto
de antiga existência na casa, Laura aproximou-se da janela a contemplar
a perspectiva campestre que se descobria de lá.

D. Ana, no meio de suas irmãs, passeava por toda aquela sala olhares
de um sentimento exaltado e susceptível, que todas as organizações
recebem quando afectadas por estas doenças que lavram latentes na economia,
em sintomas que atormentam em acessos ou paroxismos, mas apenas gastam as
forças do corpo para exaltar as do espírito.

— Então está muito doentinha, mana Anica ? — perguntou
D. Geno veva, com inflexão de voz carinhosa.

. —Não muito — respondeu a irmã.—Apenas
uma fraqueza que estes ares do campo hão-de curar, espero eu.

— Hão-de, hão-de ; Nosso Senhor há-de permiti-lo
— acrescentou D. Quitéria.

— Os ares do campo ? E não é só isso —
continuou a doente— e a companhia das manas e a lembrança daqueles
tempos que aqui passámos juntas e em que havemos de falar muito, não
é verdade? As duas senhoras sorriram, fazendo um gesto de aquiescência.

— E também a companhia da…— E a bondosa senhora procurou
com os olhares alguém na sala, que não encontrou. — Que
é dela? — Quem? — perguntou D. Quitéria. —A
Laurinha? — Não… Antónia porque não aparece?
! —Eu nem sei—disse a irmã, levantando-se. — Querem
ver que a mulher tem vergonha?— E, chegando à porta, chamou pela
criada, no interior da qual se travava, efectivamente, naquele instante uma
luta entre os desejos de ver a sua ama de outros tempos e o seu acanhamento.

Enfim sempre veio trazida a reboque por D. Quitéria.

— Está muito estranha, esta menina — disse D. Quitéria
ao entrar na sala.

— Venha cá, Antónia! Já se esqueceu de mim? —
Quem, eu, minha senhora? Eu não me esqueço assim depressa.

— Então não fuja, venha cá.

Antónia ganhou ânimo e aproximou-se. Laura voltara-se e examinava
com interesse a criada, em que sua mãe lhe falara bastas vezes.

Antónia cumprimentou-a o mais lisonjeiramente que pôde, E a
conversa generalizou-se.

João Soares de Carvalho entrou, por sua vez, na sala.

As cunhadas levantaram-se ao vê-lo.

— Por quem são, manas. Nada de cerimónias. Laura —
disse, voltando-se para a filha — uma das tuas malas já está
desimpedida.

Laura pediu para a conduzirem ao quarto que lhe era destinado e Antónia,
que terminou o seu estudado cumprimento ao cunhado das senhoras, foi por estas
mandada a acompanhá-la. Subindo as escadas com a vivacidade que se
traía em todos os seus gestos e movimentos, Laura dirigiu a palavra
a Antónia: — Já principio por lhe dar incómodo,
Sr.’ Antónia…

D. Quitéria foi em diligência ao quarto da gentil rapariga
e despertou- a daquela quase abstracção em que ela se achava.

— Credo, menina! Olha se o ar da noite te vai fazer mal. Sempre ouvi
dizer que esta hora das trindades é mal-azada a quem a ela se expõe.

Laura sorriu.

— Sossegue, minha tia, a mim nada me faz mal e depois…

este espectáculo é novo para mim, que tenho vivido tão
pouco no campo.

D. Quitéria aproximou-se para ver o espectáculo de que falava
a sobrinha. É de crer que o não achasse empolgante, pois observou:
— Mas isto são horas de descer, menina. Vai-se tomar o chá.

A mãe está inquieta.

— Eu vou, eu vou, minha tia; só o tempo de mudar de fato.

D. Quitéria desceu, de novo, à sala onde serenou o ânimo
da irmã.

Além da família havia apenas naquele momento, na sala, o reitor,
que conversava em assuntos sérios com o comerciante lisbonense, e sua
sobrinha que, à fé de historiador, eu afirmo ser tal, embora,
como todos os homens, o nosso reitor não escapasse às línguas
viperinas de seus desmoralizados fregueses.

Esta menina fora mandada convidar pelas senhoras de Alvapenha, porque as
suas muitas prendas a faziam uma companhia conveniente para Laura, que não
podia encontrar no resto da assembleia elementos tão adequados para
seu entretenimento.

Inês dispensa descrição. Era uma mulher como há
muitas. Nem feia que incomodasse a vista, nem bela que entusiasmasse. Tinha
uma fisionomia vulgar, destas que zombam da arte dos pintores… ‘ Os dotes
espirituais orçavam pelos corpóreos; não tinha instintos
que a chamassem ao mal, nem inteligência para compreender o bem.

O seu sistema era um indiferentismo por tudo e por todos, que nada vencia.

Quando Laura entrou na sala, trazia um vestido de cassa branca, liso e singelo;
os cabelos sem um único adorno, mais sobressaindo pelo contraste da
enfeitada cabeça de Inês. Laura foi sentar-se junto da sobrinha
do reitor, depois de ter cumprimentado as novas personagens da roda das tias.

Entre as duas raparigas travou-se um diálogo, indiferente à
primeira vista, mas cujas primeiras palavras bastaram a Laura para formar
ideia do carácter ridiculamente pretensioso da sua interlocutora.

Inês mostrava-se em atitude de não ser compreendida naquela
terra de selvagens, onde não havia uma única inteligência
culta.

— Não faz ideia, menina — dizia ela suspirando e com
um gesto de enfado — com que gente rústica se lida aqui; vejo-me
obrigada a viver isolada, porque esta sociedade e convivência estupidifica,
longe de civilizar.

— Sim? — respondia Laura. Depois perguntou, com um certo sabor
de zombaria, que Inês não compreendeu: — Veio há
muito do colégio, menina? — Há seis meses.

— Ah! Este monossílabo mostrava que Laura tinha achado a explicação
do soberbo spleen da colegial. A vida do colégio dá, na verdade,
um certo verniz de pedantaria que só o tempo ou o bom gosto natural
fazem perder.

Momentos depois, uma nova visita entrou no círculo que se formara
na sala.

Era Valentim.

Nas maneiras do protegido das senhoras de Alvapenha havia um certo acanhamento
não desgracioso, filho da natural timidez daquele carácter singular. Graças
ao muito que dele haviam já dito as santas cunhadas de João Soares e que o
reitor confirmara, o acolhimento que recebeu Valentim foi mais que favorável.
D. Ana Soares, sobretudo, quis que viesse para ao pé de si. Os doentes gostam
de quem lhes faça lembrar a religião, cujos auxílios

1 É difícil compreender o manuscrito nesta passagem.

eles talvez em pouco tempo exijam, e a vocação de Valentim para a vida da
Igreja, apregoada por suas irmãs, valeram-lhe no ânimo de D. Ana Soares uma
certa veneração que ela não disfarçava.

IV
VALENTIM

Apobre mulher não via neste mundo senão o filho. De cada vez
que o via entrar ressentia uma alegria nova.

— Boas noites, mãe — disse Valentim, sentando-se junto
dela e segurando-lhe as mãos entre as suas.

— Como vens frio, filho. Faz-te mal este ar dos campos assim tão
tarde.

— Frio? É um engano! Veja! — E levou-lhe as mãos
à fronte.

— A testa escalda. Tanto pior. Recolhe-te, Valentim; parece que te
não sentes bem.

— Sinto; e, se a mãe quisesse, podíamos ficar um pouco
mais a conversar. Há ocasiões em que não gosto de estar
só. Tenho pensamentos…

— Pois sim, filho, sim. Não te fazendo isso mal…

— Não faz, mãe, não faz.

— Ora diz-me, Valentim: tu pareces-me triste. Que tens, filho? Eu
bem sei que sou uma pobre mulher, que não sei como hei-de dizer-te
para te consolar. Mas olha, não sei porque é, mas uma mãe
sempre atina com palavras para consolar seus filhos…

Valentim levou aos lábios a mão de sua mãe.

— É assim, mãe. O que nos consola não são
as palavras, é o amor que nelas verte o coração. Às
vezes uma só palavra é mais rica de sentimentos que longas frases
e discursos.

— Pois então, filho, diz-me o que assim te faz tão triste.

— Triste ? Pois acha que quem, como eu, se destina ao serviço
de Deus pode acolher a alegria infundada que os prazeres nos fazem sentir?
— A seriedade cabe bem aos sacerdotes, mas há também uma
alegria que nos dá a consciência quando está de bem com
Deus e consigo mesma; uma alegria séria… que nem outro nome lhe sei
eu dar a essa…

— E essa, mãe, quem a pode ter? Pois quem tem a consciência
tão pura que lhe não sinta a voz a todo o instante? —
Olha — disse a pobre mãe depois de fitar em Valentim uns olhos
perscrutadores — tu sabes que o meu maior desejo é ver-te seguir
essa santa carreira a que te destinas. Mas, vê bem, se para isso tens
de fazer sacrifícios para que te faltam as forças e te não
sentes com ânimo para a seguir até ao fim,..

E parava dizendo isto, como se, para concluir, tivesse de fazer um esforço
superior…

— Então, filho, então… pára…

Valentim não respondeu. Deixando pender a cabeça, parecia
meditar nas últimas palavras de sua mãe, que era o mesmo que,
há muito tempo, lhe murmurava baixinho a consciência.

Terminada esta meditação silenciosa, ergueu a cabeça.
Havia resignação na sua fisionomia.

— Não. Eu posso ter instantes de fraqueza; mas espero me não
abandonarão inteiramente as forças. Desanimado tão cedo,
para as primeiras dificuldades… Pois que esperava eu? Não as devia
ter previsto e não as previ, de facto? Não, mãe, ainda
me não falece o ânimo, — Espero em Deus que nunca te abandonará.
Mas de onde vens tu, que assim te puseste tão triste? — De casa
das senhoras de Alvapenha.

— Ah! Não havia gente de fora esta noite? Pareceu-me ouvir
dizer…

— Havia… A família de Lisboa…

E Valentim calou-se de novo, como se lhe acudissem outra vez as imagens
tumultuosas que as palavras de sua mãe tinham, em parte, afugentado.

— Boa noite, mãe — disse o inquieto jovem, levantando-se
com vivacidade.

— Vai deitar-te, vai, filho, que bem o precisas tu. Deus queira que
não seja doença, isso.

Valentim retirou-se para o seu quarto, simples aposento despido de ornatos
e que denunciava os hábitos simples da vida do pobre adolescente. Uma
mesa, um leito e poucas cadeiras eram toda a mobília.

De uma das paredes nuas pendia, um crucifixo que ele recebera de sua mãe,
e sobre a mesa alguns papéis dispersos, em desordem, revelavam laboriosas
vigílias a que se entregava o melancólico protegido das senhoras
de Alvapenha.

Valentim, entrando no quarto, sentou-se à mesa. Deixou pender a cabeça
sobre as mãos e por tanto tempo se manteve assim imóvel que,
quando enfim se ergueu, já os primeiros alvores do dia penetravam pelas
frestas das janelas.

Foi num destes momentos em que a ideia de Valentim seguia a sua melancólica
propensão, que Laura, tentando arrebatá-lo daquele desconforto
em que o via mergulhado, lhe disse sorrindo: — Vamos, Sr. Valentim,
eu e meu pai já explanámos as nossas predilecções
literárias; queremos saber as suas. Recite-nos alguma coisa. Não
lhe ocorre nada? Valentim ergueu a cabeça a estas palavras e sorriu.

Havia naquele sorriso uma expressão de amargura sensível aos
olhos menos perspicazes. Laura observou-o atentamente.

— Agora mesmo me estavam ocorrendo — disse Valentim com o tom
melancólico que lhe era habitual — umas estâncias irregulares
cujo autor ignoro. Quero-lhes pelo assunto.

— Qual é ? — perguntou Laura com interesse.

— É uma elegia sobre o túmulo de um padre.

— Ah! — disse Laura fixando os seus olhares sobre o rosto do
mancebo. — Recite, recite…

Valentim correu a mão pela fronte, que deixou ficar encostada, enquanto
que, com a voz vagarosa, e repassada de tristeza, o olhar perdido no espaço,
recitou as singelas quadras que., na véspera, lhe haviam sido ditadas
pelo coração junto ao túmulo onde tantas vezes parou,
a meditar no seu destino.

O BOM REITOR

Sabem a história triste Do bom reitor? Mísero! toda a vida
Levou com dor.

Fez quanto bem podia…

Mas… afinal, Morre, e na pobre campa, Nem um sinal!

Nem uma cruz, ao menos, Se ergue do chão! Geme-lhe só no túmulo
A viração.

Vedes além, no vale, Junto ao rosal, Flórea que há desfolhado
O vendaval?

Cobrem-lhe a lousa fria, A criação Só lhe venera as
cinzas Co’ignota mão.

Pobres que tanto amava Nunca, ao passar, Curvam a fronte e ajoelham Para
rezar.

Nunca, ao nascer do dia, O lavrador Passa e lamenta a sorte Do bom reitor.

Nem, do cair da tarde, À ténue luz, Serve, de triste lâmpada,
Humilde cruz.

Há nesta vida amarga Sortes assim…

Vive-se num martírio.

Morre-se enfim.

Sem que memória fique Para dizer Às gerações
futuras Nosso sofrer.

E calou-se. Todos pareciam respeitar aquele silêncio e fitavam em Valentim
olhares de solícito interesse.

Laura foi quem primeiro rompeu este prolongado silêncio.

— E o resto? — disse ela, não desviando a vista de Valentim.

Este estremeceu como se uma voz o despertasse de um sonho.

Ergueu a cabeça e, corando levemente, respondeu com aparente indiferença:
— O resto é curto, é uma súplica apenas. —E
acrescentou:

Quem me escutar, se, um dia, Ao vale for, Reze sentida prece Ao bom reitor.

Laura conservou-se pensativa depois que Valentim terminou a última
estância.

João Soares interrogou-o sobre o autor daquela poesia.

— Ignoro-o — respondeu Valentim; mas tendo-se, por acaso, os
seus olhares encontrado com os de Laura, baixou os olhos com embaraço.

— «Entendo — murmurou esta para consigo.—Parece-me
que atinei enfim com a verdadeira causa daquela tristeza. Veremos.»
A noite ia-se adiantando.

D. Ana Soares retirara-se com suas irmãs e apenas se demoravam na
sala Valentim, Laura e seu pai. Tinham descoberto a maneira de .conciliar
com os seus, os hábitos regulares das senhoras de Alvapenha.

João Soares retirara-se um tanto para o lado a examinar umas cartas
que recebera de Lisboa naquela tarde, e mostrava-se absorvido na leitura.

Laura e Valentim acharam-se, quase sós, na presença um do
outro.

— É uma história singela, mas triste a que nos contou.

Valentim ergueu a cabeça ouvindo isto, como se correspondesse ao
que ele próprio estava pensando naquele momento.

— Eu sempre pensei — continuou Laura — que não
são menos para lamentar estes mártires de espírito, deixe-me
assim chamar-lhes, que se estorcem nas angústias de uma tortura moral,
do que aqueles cujo martírio todos lamentam porque todos os compreendem.

— É certo — disse Valentim — sofre-se mais talvez
quando se sofre uma dor que muitos julgam fingida e de que muitos não
fazem ideia sequer.

— E, contudo, quem sabe? —disse Laura, como se os seus pensamentos
tomassem uma outra direcção. — Quem sabe se o pobre reitor,
se existiu, como creio, se julgava a si mesmo infeliz! O poeta imaginava-o
assim, porque o imaginou por si. O bom homem talvez nunca aspirasse a esta
espécie de imortalidade que é o sonho dourado das almas jovens
e entusiastas; e talvez se achasse tão feliz com esse olvido que sucedeu
à morte, como com a obscuridade que o envolveu em vida.

Valentim corou a estas palavras.

Laura prosseguiu: — Eu tenho por costume procurar ler, através
das obras, os pensamentos dos autores; nos romances, nos poemas, toda a minha
atenção se fixa nas personagens que o autor parece tratar mais
do coração. É a essas que ele encarrega de exprimir os
seus próprios sentimentos; é pois nas acções e
nas palavras destas que eu busco descobri-los.

Valentim escutava Laura com um interesse que não procurava disfarçar.

Ela continuou: — Este sistema não digo que não possa
falhar, mas acerto muitas vezes. Por exemplo, quer que lhe diga como eu imagino
o autor daquela poesia que recitou há pouco? E tenho pena que o não
conheça para me desenganar se não adivinhei.

— Diga — disse Valentim com um visível movimento de curiosidade
— diga…

Laura notou-o e, afectando um ar indiferente, prosseguiu: — Imagino-o
um homem ainda jovem, por circunstâncias especiais votado a viver em
uma esfera obscura e que sente em si alguma coisa que o proclama capaz de
aspirações mais subidas. Este homem ainda muito novo, mas que
a glória já embriaga, não renuncia, sem um doloroso sacrifício,
a esses dourados futuros que a sua imaginação insiste em lhe
representar; mas foge-lhes talvez por um exagerado sentimento de dever, talvez
porque se julgue ligado por uma força maior a uma missão que
exige dele esses sacrifícios… E todos faz, mas ao mesmo tempo despedaça-lhe
o coração cada um que realiza…

As senhoras de Alvapenha davam lições de madrugação
ao pró prio dia. Ainda o Sol não pensava em alumiar a Terra,
já elas saltavam fora do leito a procederem aos seus trabalhos domésticos.
Era interessante ver as duas irmãs, à luz duvidosa que antecede
a aurora, combinada com os amortecidos raios de uma quase extinta lamparina,
passarem e perpassarem naquele quarto, sem despertarem o menor ruído
que pudesse acordar os hóspedes cujo aposento era subjacente ao seu.
O diálogo que se trocava entre elas, não longo e com frequentes
intermitências, era pronunciado em uma voz baixa, como se se tratasse
de mistérios espantosos.

Na manhã seguinte à noite em que se passou o capítulo
precedente, a azáfama que ia no quarto das irmãs de D. Ana Soares
era maior ainda que a de costume. Havia nos seus movimentos uma vivacidade
de que elas se não julgavam capazes e uma pressa notável de
terminar a arrumação em que se mostravam empenhadas.

É que naquele dia — era um domingo — não tardou
que na torre da igreja paroquial se ouvissem tocar as badaladas que chamam
os fiéis à missa primeira.

Envolvidas nas suas longas capas de pano e cobrindo a cabeça com
um modesto lenço de cor escura, as senhoras de Alvapenha, chamando
Antónia, que lhes não ficava atrás em hábitos
madrugadores, e depois de recomendar ao Sr. Vicente a vigilância da
casa, saíram através dos campos e dirigiram-se à igreja,
ainda então quase vazia.

Começaram as suas rezas pieparatórias, encomendando-se a todos
os santos e santas que existiam nos altares e mesmo a alguns que ali não
tinham representantes.

Nestes actos de piedade cristã punham as senhoras de Alvapenha toda
a atenção. Olhos no altar, pensamento no Céu, bem podia
abalar-se o templo nos seus alicerces que se lhes não desviaria a cabeça
num movimento de justificada distracção.

Também ninguém as interrompia, inteiramente entregues àquela
santa abstracção. Deixemo-las nós também por um
pouco e aproximemo- nos de um outro grupo que ali junto da pia baptismal dá
largas à verbosidade de que participa cada uma das três personagens
de que ele é formado.

Bento Crispim é um deles, outro o seu amigo José da Fábrica,
o terceiro o boticário Bartolomeu, todos importantes personagens da
terra, três caudilhos que os candidatos não dispensam em épocas
eleitorais.

Bento Crispim tem a palavra, quando nos acercamos. O boticário luta
com os restos de um catarro matinal e José da Fábrica abre,
de quando em quando, a boca, ruidosa manifestação de simpatia
pelo travesseiro que abandonou há pouco.

V O PEQUENO ÂNGELO

ENTÃO era este o juízo que o menino me prometia ter? Não
sabe que é até um pecado zombar assim de um velho? Quando o
papá me perguntar como o Ângelo se tem portado, o que hei-de
dizer? Ora vamos. Reze outra vez ao seu anjo da guarda e não faça
mais travessuras destas, que parecem muito mal a um menino bem-educado.

O pequeno Ângelo, sinceramente contrito, juntou as mãos e principiou
rezando a oração ao seu anjo custódio com verdadeiro
fervor: — Anjo da minha guarda, por Deus enviado a proteger-me com as
tuas asas brancas, vela por mim enquanto eu durmo e guarda-me dos maus sonhos
como dos maus pensamentos, conduzindo-me pela mão no caminho do dever,
não me abandonando nas aflições nem nas alegrias, mostrando-me
sempre o Céu através das penas e dos prazeres da Terra e ensinando-me
a recebê-los como da mão do Senhor.

Em seguida, benzeu-se devotamente e beijando a mão que sua mãe
lhe estendia, recebeu por bênção beijos e afagos em que
parecia esgotarem-se todos os tesouros maternais.

— Bem — dizia a mãe em tom já carinhoso, anediando
com os dedos as longas madeixas da criança — agora vai-te deitar
que são horas. E não faças arengar a Doroteia, não?
Olha que tens de te confessar este ano e vê lá se queres ir logo
da primeira vez carregado de culpas. Se tiveres juizo hei-de mandar-te vir
de Lisboa uma galgazinha preta…

— Ai, mande, mande, mamã. E eu hei-de pôr-lhe, ao pescoço,
uma golazinha de veludo vermelho, sim? — Pois sim, mas…

— E um guizo ? Não é bonito um guizo também ?

— Também, mas é se…

— Sim, mas olhe, mamã. E um casaco para o frio…

— Também há-de ter um casaco.

— E de que cor, mamã, de que cor há-de ser ? —
Nós veremos.

— Azul, sim, mamã? — Pois seja azul, mas…

— Olhe, mamã, e… e… como se há-de chamar? —
Tu o dirás.

— Borboleta não, pois não? — Como quiseres…

— Não, Borboleta não… Andorinha é mais bonito,
pois não é? — Não é feio…

— Há-de ser Andorinha… e… o casaco há-de ter fitas,
mamã? — Sim, há-de ter…

— Ah! E… Não sei que queria dizer… Ah!… E quando a manda
vir, mamã? — Breve, se tiveres juízo.

— Tenho. A mamã verá. Olhe, vou-me já deitar
e prometo não dizer nem uma palavra a Doroteia.

— Não, pois não lhe hás-de dar as boas noites
? O que eu não quero é que te vás pôr a conversar
e a rir até que horas.

— Não ponho, não… Ora há-de ver! — Pois
hei-de ver.

Nisto entrou na sala Torcato, seguido de Doroteia, antiga criada da casa,
mulher baixa, de uma gordura não extremamente vulgar e cores florescentes,
em cuja fisionomia alegre transluzia um génio bonacheirão e
o contentamento de si e de sua sorte verdadeiramente digno de inveja.

—Doroteia— disse-lhe a senhora, pousando o filho no chão
depois de um último beijo — vá deitar este menino e não
se me ponha agora a contar-lhe histórias. Estragam-me as crianças
com esses contos de feiticeiras; fazem-nas umas medrosas que se não
atrevem a passar, às escuras, por um corredor ou a ficar de noite só
num quarto. Vá, Ângelo, e olhe o que eu lhe recomendei. Daqui
a pouco irei ver se o menino está sossegado.

— Boas noites, mamã.

— Adeus, filho, boas noites.

E beijando-o ainda outra vez, entregou-o a Doroteia, que saiu com ele da
sala.

— Sabes, Doroteia — disse-lhe pelo caminho a criança,
a quem o júbilo quase obrigava a saltar; — a mamã vai
mandar-me vir uma galguinha preta que se há-de chamar Andorinha. Tu
é que lhe hás-de dar de comer… Não, não… isso
hei-de ser eu… Tu… hás-de fazer-lhe uma goleira de veludo… ou
então…

O resto dos projectos já se não ouviu na sala.

Cedo, porém, uma prolongada risada de Doroteia veio mostrar que o
pequeno Ângelo não cumpria escrupulosamente a promessa que fizera
momentos antes.

VI APRESENTAÇÃO

MAS com razão terá o leitor estranhado que tão sem-cerimónia
o tenhamos introduzido numa casa e feito assistir a algumas cenas da vida
doméstica de uma família, sem previamente o apresentarmos.

Não obstante, serão as principais personagens que teremos
de encontrar no decurso desta narração.

Passo, desde já, a emendar esta falta de método, o que farei
o mais sucintamente que possa, por saber que, regra geral, não são
bem recebidas estas notas explicativas.

Ela torna-se, contudo, indispensável.

O palacete, em cujo salão principal surpreendemos dormindo a sono
solto o nosso conhecido Torcato, pertencia a João Mexia de Melo e Moita,
conde de Aveleiras, o mais benquisto proprietário da sua comarca. João
de Alvito, ou, como ele próprio se assinava por uma inofensiva veleidade
aristocrática. D. João de Alvito, era um homem de quarenta e
tantos anos, ainda vigoroso e activo, de maneiras corteses, ânimo generoso
e resoluções inabaláveis.

De estatura elevada e de porte airoso, ele possuía as aparências
de um verdadeiro fidalgo.

D. João de Alvito era legitimista, mais por tradição
do que por.

crença, embora quisesse sustentar o contrário. Repugnava-lhe
mudar de ideias políticas em que fora educado, parecia-lhe uma quase
apostasia para a qual lhe faltava o ânimo e que lhe reprovava com antecipação
a consciência. Era, porém, do número daqueles que transigia
com o estado actual dos negócios políticos, a ponto de aceitar,
por vezes, uma candidatura às cortes e prestar o juramento exigido,
não sei se com reservas mentais.

Como deputado, granjeara sempre merecidos créditos. Era um orador
pouco vulgar e nunca negociara com o mandato, vendendo o seu voto para utilidade
sua ou dos protegidos. Solícito em promover os interesses locais do
círculo que o elegera, não tentou nunca antepor- lhes os interesses
gerais do País. Nem os governos nem a oposição contavam
com ele, porque de um momento para outro era-lhe infiel por consciência…

Em família não era menos exemplar. Quando o não chamavam
à capital os trabalhos parlamentares recolhia-se à obscuridade
da vida provinciana, todo absorvido no afecto da esposa e na educação
dos filhos que, em pessoa, dirigia.

Ao apartar-se deles borbulhavam-lhe as lágrimas nos olhos e a custo
podia pronunciar as palavras de despedida.

O carácter de D. Luísa oferecia a maior conformidade possível
com o de seu marido.

Era a mesma gravidade, as mesmas maneiras afáveis e delicadas, o
mesmo coração compassivo, os mesmos impulsos generosos. Conservava
em todos os seus actos uma certa majestade natural, que imprimia às
afeições, que geralmente inspirava, um cunho de veneração.

O seu nome adquirira já um verdadeiro prestigio entre os infelizes,
que era tão solícita em socorrer…

Adelaide fora educada por sua mãe, que se esmerara em formar- lhe
o coração de que hoje tanto se descura na pretensiosa educação
dos colégios que recebem raparigas.

Adelaide não era destas presumidas que, aos quinze anos, nos cumprimentam
em francês e travam connosco um diálogo moldado pelos do Guia
de Conversação, que dançam uma valsa e garganteiam uma
cavatina de um modo elegantemente detestável, o que as autoriza a falarem
da prima-dona da companhia lírica com conhecimento de causa e desdenhosas
superioridades, que…

Que mal-educados corações palpitam por baixo daqueles apertados
espartilhos! Perdoem-me as amáveis leitoras que foram confiadas a um
colégio se eu tenho saudades da educação mais patriarcal
de outros tempos em que as mães não abdicavam tão completamente
do seu dever de instruidoras da infância.

As meninas ficavam talvez falando um pouco mais defeituosamente o francês,
porém, quer-nos parecer que ficavam sentindo e amando melhor, mais
pelo coração e menos pela fantasia.

Mas voltemos a Adelaide.

Esta aprendeu noutra e na melhor das escolas: tivera por mestra a mãe
que a educara à sua semelhança.

Adelaide lia poucos romances e mal suspeitava até, quando em companhia
de D. Luísa socorria os seus pobres amigos doentes, quase mortos de
fome e de frio, que estava imitando esta ou aquela heroína de quem
nunca ouvira falar.

Tais coisas fazia-as naturalmente, sem ao menos se lembrar do efeito que
poderiam produzir. Não tinha culpa no interesse que a todos inspirava.

Adelaide cantava como os passarinhos que, no laranjal fronteiro à
sua janela pareciam, de contínuo, provocá-la. Desafiava-lhe
hinos a verdura do arvoredo, o rumorejar das fontes e as meias-tintas das
madrugadas e dos crepúsculos. Cantava para acalentar as criancinhas
nuas e tiritando de frio que ia procurar às choupanas, como uma presa
que arrebata à miséria; cantava para entreter as raparigas da
sua idade que se enlevavam a ouvi-la ou quando seu pai manifestava desejos
de escutá-la. Eram quase sempre singelas canções e toadas
populares que ela preferia — outro ponto em que infringia o sancionado
código da elegância, que não admite que se cante senão
em língua estrangeira.

Subindo da pouco confortável sala dos retratos, D. Luísa entrou
na câmara imediata, cujo aspecto contrastava notavelmente com o daquela.
Quanto ali tudo respirava tristeza e abandono, aqui se denunciavam as aparências
da vida em cada particularidade, a mais insignificante. Nas luzes, nas flores,
nos tapetes, nos estofos e almofadas das cadeiras e sofás, no papel
de custo que forrava as paredes, nas cortinas de damasco que adornavam as
janelas, no magnífico piano Erard, aberto ainda, no fogão consolador,
tudo indicava que a imaginação esgotara todos os recursos para
reunir a elegância à comodidade.

Era a antecâmara de D. Luísa o ponto de reunião da família,
onde tinham lugar os prolongados serões do Inverno, as lições
nocturnas de Ângelo e as leituras em comum feitas em voz alta por D.
João de Alvito, e escutadas com religiosa atenção, e
até os concertos familiares em que a voz de Adelaide. .

— Adelaide — disse D. Luísa passado algum tempo —
esta solidão em que vivemos aqui é demasiado triste para a tua
juventude.

Nessa idade amam-se, é verdade, as flores e o canto das aves que
se vêem e escutam em abundância da janela do teu quarto.

São as primeiras a dar-te os bons dias todas as madrugadas, são
as primeiras amigas que nos saúdam; mas o coração também
nos pede afectos, que a nenhuma convivência que temos aqui te não
permite activar…

— Que diz, mamã? Faltam-me por acaso afectos nesta casa? Afeições
de pai, de mãe; do Ângelo; a do velho Torcato, da Doroteia, de…

Enganar-me-ei acreditando que todos aqui me querem ? — Não,
filha, não te- engana a consciência quando assim to afirma.

Mas falta-te uma amiga a quem não hesites em confiar todos os teus
pensamentos, diante de quem não cores quando, com a penetração
da amizade,, te devassar alguns que reserves ocultos.

— E não tenho eu essa amiga? — disse Adelaide, baixando
os olhos um tanto confusa, como se temesse denunciar na expressão deles
um pensamento diverso do que ia exprimir. — Quando é que a mamã
se recusou a escutar-me as confidências de todas as minhas penas e prazeres;
desde quando é que o seu coração deixou de participar
de todos os sentimentos do meu? — Canta, Adelaide, a primeira canção
que te lembrar. Aquela que ontem cantaste quando te recolheste ao teu quarto.
Lembras-te dela? Estas palavras pareciam ocasionar em Adelaide uma inexplicável
confusão.

— Não me recordo bem…— respondeu ela, desviando os
olhos dos de sua mãe.

D. Luísa continuou: — A canção das Andorinhas,
julgo eu…

— Ah! Essa! — disse Adelaide como se lhe repugnasse aceder ao
convite de sua mãe.

— Gostei ontem de te ouvir. Se te não custasse…

Adelaide encaminhou-se para o piano com visível constrangimento.

Sentou-se e principiou a preludiar.

Sua mãe fitava os olhos nela e sorria-se vendo aquele enleio, como
se compreendesse a causa que o ocasionava.

Cedo a voz argentina de Adelaide, interrompendo o silêncio da noite,
principiou a cantar, em toada popular, a seguinte canção conhecida
nos arredores:

Volta andorinha aos países Dos perfumados verdores, Onde têm
mais viço as flores Onde tem mais luz o céu…

Cruza o mar, que a Primavera Já ri nos vales e outeiros . Dispersando
os nevoeiros Em que o Inverno os envolveu…

CARTAS LITERÁRIAS

COISAS VERDADEIRAS"

Ao folhetinista (Ramalho Ortigão) do «Jornal
do Porto»

Publicada sob o pseudónimo de Diana de Aveleda, naquele
jornal, em 25 de Fevereiro de 1863.

II."’- Sr.

Há tempos escreveu V. S." no «Jornal do Porto» um
folhetim, onde debaixo da pérfida e insinuante epigrafe: — Coisas
inocentes — dizia as falsidades mais abominavelmente culpáveis
que eu tenho lido em folhetins, dos quais não é, de ordinário,
a inocência a feição característica.

Logo eu duvidei da sinceridade e exactidão do titulo, quando no curto
argumento que se lhe segue e no qual se acha em resumo, como é de estilo,
o tema da subsequente dissertação, vi duas palavras que quase
nunca se juntam sem prejuízo reciproco para as ideias que designam:
a filosofia e a mulher.

É sabido que uma eterna pendência, perpetuada através
dos séculos, lavra entre nós, as mulheres, e os filósofos,
essa porção mais impertinentemente pretensiosa do sexo feio,
do qual V. S." é um exemplar.

E isto vem de longe! Recebi ontem o escrito, que hoje se publica com este
título e que será concluído a folha de amanhã.
Era ele acompanhado de uma carta muito elegante igualmente assinada pela autora.
Aplaudo-me de haver escrito com o título de «Coisas inocentes»
a bagatela que me proporcionou esta honra. Ignoro se Diana de Aveleda ó
um pseudónimo ou um nome. Basta-me também saber que é
uma senhora quem o escreve.

Em um folhetim que hei-de publicar brevemente, buscarei provar que fui mal
compreendido e mal analisado pela minha leritora e colaboradora excelente.
No entanto Curvo-me1 muito respeitosamente diante da fineza que acabo de receber
e ponho o meu cordial agradecimento aos pés de Diana dei Aveleda.

Ramalho Ortigão.

Veja o que disse Salomão, citado por V. S.\ Salomão que, a
acreditarmos as letras sagradas, tinha motivos para falar de nós com
mais conhecimento do causa; recorde-se de Aristóteles, o maior folhetinista
do seu tempo, o qual nos supunha uma obra por concluir nas oficinas da natureza;
repare como Demócrito… também trazido a juízo há
poucos dias por V. S.", Demócrito que, dizem, em tudo achava pasto
para a sua alacridade, chegou a arrancar os olhos, falo também sob
a responsabilidade de Tertuliano e de V, S.", para não ver mulher
nenhuma, lembrança que V. S." muito ajuizadamente taxou de estúpida,
com grande aprazimento meu.

E depois disto, depois de tantas causas de agravo, com que olhos poderemos
nós encarar os filósofos e a filosofia, não me dirá?
Poucos são os que, à imitação dos três que
mencionei, se não distraíram em seus momentos de pedantesco
spleen à custa de nós outras mulheres, caluniando-nos, ensaiando
em nossa humilde personalidade as suas aguadas vocações epigramáticas,
tentando até ter espírito, que ó o ponto mais alto a
que podem subir as aspirações de um filósofo.

Acerca das mulheres e dos médicos, toda a gente se julga com direito
para gracejar. É balda antiga! O epigrama a nosso respeito tornou-se
juntamente com as observações sobre o bom e o mau tempo, um
lugar comum de todas as conversas fúteis, assunto acomodado à
inteligência de todos os parvos e excelente material para o tiroteio
de banalidades, remoques alambicados e galanteadoras sandices, que fazem as
delicias dos nossos encasacados frequentadores de bailes.

E a culpa disso tiveram-na os filósofos com suas sumarentas sentenças
e apotegmas absurdos. Pois quem mais? É irreconciliável já
agora esta aversão que nos separa deles; um ódio perpétuo
cavará entro nós um abismo imensurável. Nunca seus livros
terão acesso em nossos gabinetes, nunca repousarão às
nossas cabeceiras ou em nossos cestos de costura.

Podem-se esfalfar e mumificar, esses senhores, à vontade, em estupendas
elucubrações sobre a identidade do eu e do não eu, sobre
os fins finais, as essências e as modalidades e quantas outras extravagâncias
lhes acudam à ideia, que nunca farão com que uma mulher, verdadeiramente
digna deste nome, lhes conceda um só momento de suas horas de deliciosos
e frequentes ócios.

Repare que digo uma mulher verdadeiramente digna deste nome ; porque é
notório que muitas há que o não merecem.

São essas tais, ridículos disparates da natureza que se descuidou,
insuflando em formas femininas um espírito varonil com todas as suas
impertinências e engravatadas predilecções.

Assim: há mulheres que, como M.ml!Dacier, sabem o grego e traduzem
Homero! Que abominável saber! Outras, como a nossa Alcipe, que entendia
o latimI Algumas até, ó monstruosa aberração!
que chegam, como não sei que marquesa parisiense, a comentar o próprio
Newton e a lidar com fórmulas algébricas; isto com grande aplauso
dos filósofos, a quem essas tais agradam! São exactamente as
que eu detesto; a respeito das quais penso como Aristóteles, não
serem mais que homens abortidos. Contra elas protesto! Nunca impassível
as verei agremiadas a um sexo que, à custa de muitos esforços
e sacrifícios, conseguiu adquirir uma tríplice qualificação,
da qual deve justamente ufanar-se: a de belo e por isso devemos protestar
contra as feias, tomadas como espécime do género; a de amável
e por isso protestaremos sempre contra as eruditas e versadas em línguas
mortas ou em ciências espinhosas; e a de frágil e por isso protestaremos
também contra as chamadas mulheres fortes, muito do gosto aliás
dos senhores poetas. Sim; deve saber que nunca pude simpatizar com as Judites,
Joanas d’Arc, Carlotas Cordays e outras heroínas que adquiriram grande
reputação entre as mulheres, justamente por o não saberem
ser.

Para mim, a mulher verdadeira é, por exemplo, aquela Licínia
de um romance de Mery, que adormeceu enquanto um filósofo laquista
lhe lia uma dissertação sobre os sonhos e que, dormindo, converteu
o tal filósofo à razão.

É a mulher como a Ifigénia do teatro grego que, votada à
morte, chora, ajoelha-se, procura comover, implora a vida, lamenta as flores
que vai deixar, o esplendor do dia, a claridade do céu, os prazeres
gozados e tantos outros, vagamente entrevistos ainda e de que o futuro lhe
falava. Lamentos que, como diz Saint-Marc Girardin há-de sempre repetir
toda a rapariga moribunda, porque são saudades pelos bens mais universais
e mais doces da vida.

Esta ó que é a verdadeira mulher, a mulher frágil e
não as estóicas heroínas que tanto vos despertam a atenção
e o interesse.

A mulher digna de o ser é aquela em cuja ortografia os eruditos tenham
que lamentar a ignorância absoluta das letras gregas e latinas, a que
dos jornais políticos só lê o folhetim, a que de um livro
passa em claro os prólogos, que põe de parte as considerações
filosóficas dos romancistas para seguir o entrecho do romance; que
perde de vista a ideia metafísica do autor, para não ver nos
acontecimentos narrados senão acontecimentos; a que não tem
o ridículo descoco de repetir após a leitura o qu’est ce que
cela prouve de filosófica e insuportável memória. É
a que folga com os casamentos no final da novela, chora sinceramente a morte
da heroína, sonha com a beleza do herói e odeia do coração
o pai, o tio, tutor ou conselho de família que se opõe à
realização dos castos desejos dos dois amantes.

É assim que eu compreendo a mulher, pois é assim que eu sou
formada, eu e as minhas amigas todas. Ora é exactamente o contrário
disto que os senhores nos fazem. Quer para bem, quer para mal, nunca os poetas,
romancistas e filósofos, nos pintam tais como somos. É vulgar
chamarem-nos anjos e demónios, raríssimo que nos chamem simplesmente
mulheres.

Por saber isto e o mais que vem dito, foi que logo principiei a agourar mal
da apregoada inocência do folhetim que V. S.* assinava e no qual se
prometia uma confrontação entre a mulher e a filosofia.

A leitura dele veio mostrar-me que, se em parte me enganara, fora em parte
fatídico o meu pressentimento.

De facto, V. S.* principia bem. Começa a rir dos filósofos,
que é passatempo inocente e para o qual eu me sinto sempre nas melhores
disposições de espirito; duvida da ciência desses moralistas
antigos e modernos, que tanto falaram da mulher e tão pouco a conheceram,
do que muitos deixaram irrecusáveis e eloquentes testemunhos; ocuparam-
se, diz pouco mais ou menos V. S.*, de uma mulher que não existe, de
uma mulher imaginária, mulher de convenção, mulher mito,
feita à imagem da fantasia deles, que aqui para nós, digo eu
agora, não fornece grandes modelos; e ai está o que eles fiseram.

E eu a gostar de ouvi-lo! Oh! 3e gostava! Tratava-se pois de refazer o trabalho
desde o princípio; propôs- se V. S.’ a isso, adoptando o método
analítico para chegar ao descobrimento da verdade. Logo me não
agradou a escolha. Receei que analisando meia dúzia de mulheres, se
apressasse a generalizar, arvorando a excepção em regra e caindo
no mesmo defeito dos filósofos que combatia e que me parece terem pecado
por analíticos de mais.

Contudo entrei de ânimo folgado no corrente das considerações
que sobre o assunto V. S.’ expendeu.

Cedo perdi as ilusões que me seguiram até ali.

Ainda desta vez não nos faziam justiça.

Era ainda a mesma fisiologia da mulher—aleijão, da mulher —
anomalia, da mulher — extravagância e não da mulher —
mulher, a única que, não obstante, mais importaria conhecer
a um verdadeiro fisiologista.

Meu marido possui um livro de um tal Geoffroy de Saint-Hilaire.

que trata de todas as monstruosidades humanas: é horrível!
Pois as suas fisiologias da mulher, meus caros senhores, fazem-me lembrar
este livro. Pode ser que tenham um valor cientifico igual ao dele, o qual
valor, aqui para nós, eu ainda não pude compreender bem qual
seja.

Depois de acabar de ler o folhetim de V, S.", tive vontade de lhe responder
imediatamente para refutar, um por um, os aforismos com que termina, dos quais
nenhum lhe posso admitir; mas há tanto tempo que perdi o hábito
destes empreendimentos, que me custou a decidir-me.

Se fosse noutro tempo!…

Noutro tempo era eu também mulher— excepção,
mulher — extravagância, ou como quiser chamar-lhe. Febricitava-me
a vacina do romanticismo, como lhe chamou Garrett, o Jenner da nossa literatura,
e dava-me então para velar noites inteiras à janela, entre os
ramos de trepadeiras que me enfloravam o balcão, vestida com um penteador
branco, os cabelos soltos, a face encostada à mão e de olhos
fitos na Lua, naquela mesma Lua que andava então tanto na moda. Escrevi-lhe
uma balada sentimental e não como as de Alfredo Musset, que nos acessos
desse derrancado romanticismo, lhe chamou quantas extravagâncias e nomes
feios lhe vieram à cabeça, tais como: o ponto de letra !, olho
do céu zanaga, máscara de um querubim, sonsa, bola, aranha sem
pernas e relógio dos condenados e não sei que mais injúrias.
Eu não; não ofendi as conveniências, que se devem ter,
para com um astro fêmea. A minha balada publiquei-a na Miscelânea
Poética, vasto viveiro de poetas e poetisas que havia por aquele tempo
no Porto.

Um critico de então, o qual V. S.» conhece muito bem, fez-me
o favor de me profetizar um auspicioso futuro literário. O crítico
enganou- se, acontecimento vulgar nos críticos, assim como eu também
me enganei com ele; pois agoirando-lhe igualmente pela minha parte, em vista
das suas tendências romântica?, a elaboração futura
de dez volumes de poesias sentimentais, v n’e dramas ultra-românticos
e ultra- -históricos, etc, etc, vejo-o hoje todo entregue a estudos
paleográficos, entre pergaminhos amarelos e monstruosos in-fólios,
anotando e discutindo bulas e pastorais e correspondendo-se com bispos, arcebispos
e eminentíssimos dignitários da cúria.

Se fosse nesse tempo, em que despedi o meu facultativo de partido por me
dizer um dia que para ele o coração era apenas «um músculo
oco, com suas^fibras e válvulas e o principal motor do movimento sanguíneo»,
não teriam mediado tantos dias entre a leitura do folhetim de V. S.»
e a minha refutação; mas hoje, que me deixei de versos para
tratar dos filhos, que a realidade de um marido expeliu do meu coração
os luminosos fantasmas ideais, belos como o arcanjo São Miguel, que
estavam comigo, quando todos me julgavam solitária; hoje que as canseiras
domésticas me não deixam tempo para inventar tormentos imaginários,
hesitei, por não saber se me não abandonaria o fôlego
antes de levar ao fim o empreendimento. Por isso deixei passar tanto tempo
sem responder, por isso nunca responderia talvez, se me não instigassem
algumas amigas, igualmente escandalizadas como eu corn a falsa fisiologia
da mulher, exposta por V. S.».

Fisiologia da mulher! Principiaremos por aqui.

De duas uma, ou a mulher não é uma entidade moralmente distinta
do homem e então para que tentar presentear-nos com as honras de uma
fisiologia especial? Ou o é e cumpre nesse caso que as descobertas
fisiológicas que nos disserem respeito, nos sejam exclusivas, capazes
de caracterizar o sexo, de lhe fazer perder o aspecto nebuloso, de que alguns
teimam em revesti-lo chamando à mulher um mito e ficando muito satisfeitos
de si, como se tivessem dito alguma coisa de jeito.

Ora não estão nesse caso muitas das suas observações,
meu caro senhor, as quais são igualmente aplicáveis aos homens
e, desde então, impróprias de uma fisiologia especial do sexo
amável.

Vamos por ordem: Rompe V. S.« por a seguinte proposição:
Toda a mulher que cora não é inocente.

Segue-se uma definição da inocência e uma teoria do
pudor, teoria contra a qual nos revoltamos nós todas com as reminiscências
de nossos sentimentos passados.

O pudor é instintivo na mulher, precede a razão que o explica.

Cora-se, sem saber porquê, como a criança chora de medo antes
de ter conhecimento do perigo. Os caracteres mais feminilmente delicados,
ou, como quiser, mais delicadamente feminis, recebem da natureza a faculdade
de corar de pejo, como um sexto sentido, que lhes faz pressentir um mal ainda
para eles indeterminado. São como estas organizações
excessivamente nervosas que experimentam sensações indefiníveis
na aproximação das tempestades e enquanto um céu ainda
límpido as não revela às minuciosas observações
dos homens entendidos.

É uma faculdade misteriosa esta de corar, própria da mulher,
como a contractilidade da sensitiva; é como o instinto da andorinha
que a impele à procura de climas novos, sem conceber o perigo que corre
persistindo nas mesmas florestas, cuja verdura começa apenas a desbotar.

Adora o pudor, diz V. S.», mas prefere-lhe a inocência. E aonde
é que a vai reconhecer, essa apreciável inocência? Na
mulher que não cora ?! Pois deveras pensa isso ? Custa-me a acreditar
que nos falasse sincero! Nem sequer lhe ocorreram à ideia aqueles belos
versos que Racine pôs na boca de Fedra e que Scribe fez repetir a Lecouvreur,
quando na presença do amante comum, fulminava com um gesto a sua poderosa
rival:

… Je ne suis point de ces femmes hardies Qui goutant dans le crime une
tranquille paix, Ont su se feire un front qui «ne rougil jamais».

Fedra não era inocente mas ainda se não supunha tão
culpada que lá nem sequer corasse. Era um resto de inocência,
que lhe ficava ainda, e esse rubor que lhe tinge as faces, é justamente
o que em nosso conceito a salva, o que nos comove uma fibra oculta do coração.

Veja como são as coisas. Eu, se tivesse de fazer um aforismo sobre
o pudor, proporia o seguinte para substituir o que analiso: Toda a mulher
que não cora ou é idiota ou desfaçada.

Uma não cora porque seus instintos embotados não lhe facultam
essas delicadas impressões, exclusivas das organizações
mais perfeitas, tem a inocência da ovelha — inocência mais
que modesta para inspirar poetas. Outra não cora porque um perfeito
conhecimento do mal a familiarizou de há muito com ele; são
relações antigas; estas não têm inocência.
Se estivessem no teatro que V. S.a imaginou, esteja certo que se haviam de
rir às escâncaras, ou baixar hipocritamente os olhos, corar é
que não poderiam; é um recurso de que não dispõe
quem quer. É pois pela candura destas que V. S.» opta? Deve ser,
sob pena de se mostrar inconsequente. E tem alma para preferir essa candura
à castidade, que é a inocência que cora? Dir-se-ia que
V. S." pertence a uma seita de literatos que, por comodidade própria,
exigem tais condições a uma rapariga para lhe passarem diploma
de inocência, que o mesmo vale negar a existência dessa qualidade
neste mundo sublunar. Ora negada ela, ficam esses senhores mais -à
vontade por não terem tantas contemplações a guardar.

Alphonse Kajrr, por exemplo, que nunca foi modelo em platonismos e que,
estou certa, V. S.a não quereria tomar como norma em costumes, dir-se-ia,
ao ouvi-lo, o homem mais pechoso em matérias de virgindade, que ainda
apareceu no mundo e, se não, oiça esses versos, que são
dele: descrevem-nos a virgem que diz imaginar.

Vierge d’âme et de corps, ignorante, ignorèe Vierge de ses
propres dèsirs, Vierge qu’aucun n’a vue et dèsirèe, Vierge
qui n’a jamais étê même effleurêe Par de iointains
soupirsl

E mais adiante:

Car je n’appelle pas vierge une jeune filie Qui donne des cheveux à
son petit cousin Ou qui chaque matin se rencontre et babille Avec un ecolier
dans le fond du jardin; J’n’apelle pas vierge une filie qui donne

Un coup d’ceil au miroir sitôt que quelqu’un sonne.

Pour celui-ci d’abord, pour Ia première fois Elle voulait être
belie et parèe; Par cet autre sa main en dansant fut serrèe;
Ceiui-la vit sa jambe un certain jour qu’au bois On montait à cheval;
un autre eut un sourire; Un autre s’empara, tout en feignant de rire D’une
fleur morte sur son sein; Un autre ose baiser sa main Dans ces jeux innocents,
source de tant de fièvres Qui troubíent les jeunes sens Un monsieur
a baisé, devant les grands parents Tout en baissant la joue, un peu
la com des lèvres;

On a rougi vingt fois, d’un gest ou d’un rega rd ; On a recu des vers
et rendu de la prose…

Conceda-me que não prossiga na citação, para não
ser forçada a corar — o que me faria descer consideravelmente
no conceito de V. S.°.

O que, de mim para mim fiquei julgando, ao ler esses versos, foi que tão
extremas exigências tinham por certo um fim reservado, o qual me parece
haver descoberto, e vem a ser: que elevando tão alto o tipo de absoluta
virgindade, tão alto que foge da Terra; para se misturar com os anjos,
o escritor pretendia talvez desculpar-se a si próprio do pouco respeito
que lhe impunham as virgindades reais, que se encontram neste mundo, de onde
muito há se retirou o absoluto; queria talvez abafar remorsos que lhe
falavam de tantas sacrificadas por ele, em seus momentos de irreverente cepticismo.

E esta consideração me fez formular o seguinte aforismo, que
ofereço hoje como pendant ao de V. S.* sobre o pudor feminino: —
Os mais pechosos em matérias de inocência e virgindade são
justamente os menos dispostos a respeitá-las.

Não queira, porém, ver nisto a menor alusão pessoal.
Eu abro uma excepção para o delicado folhetinista do «Jornal
do Porto», semelhante àquela em que teve a bondade de incluir
as senhoras portuenses.

Vamos adiante Estou suspeitando que V. S.* há-de ter já feito
reparo em me ver tanto em dia com os escritos da Boémia literária
de Paris, e terá feito suas considerações, repletas de
bom senso, sobre a inconveniência de tais leituras para uma senhora.
Não pode deixar de estar pensando isto, uma vez que é de opinião
que «um livro escondido no estojo de costura ou aberto na gaveta do
toucador, pode fazer ajuizar de como pensa nesse dia a dona do toucador e
do estojo». Asserção, que voltarei a discutir mais tarde.

Por agora, deixe-me observar-lhe que sou mãe, que também creio,
como o senhor, «que um mau livro é mais perigoso do que geralmente
se julga» e é esse talvez o único ponto em que estamos
de acordo, por ser uma verdade antiga e quase uma banalidade — e que
por isso preciso conhecê-los, esses maus livros, para os arredar do
quarto de minhas filhas.

Dos bons livros tem-se dito muita vez: La mère en permettra la lecture
à sa filie.

Isto faz supor que as mães precisam ler tudo para saber escolher.

E por estas considerações sou naturalmente conduzida a examinar
outra das proposições de V. S.*.

«A mulher virtuosa, que acompanha e convive com a mulher leviana,
tem por força defeito grave; ou lhe tomou o exemplo ou se julga exemplar.
Uma coisa exclui a outra mas qualquer delas é péssima.»
Pobres mães que chegastes a reconhecer em vossas filhas os graves sintomas
da leviandade; tendes de hoje por diante de cessar a vossa abençoada
obra de educação sob pena de se vos apegar o mal que pretendíeis
curar ou serdes tidas na conta de presumidas.

Eu tenho duas filhas, Ernestina e Luísa Ernestina é de uma
sisudez de carácter, de uma constância nos afectos, de uma perseverança
nos sentimentos bons, que a mim e a todos que a conhecem, impõe, apesar
dos seus quinze anos apenas, uma certa veneração. Luísa
é boa também, mas afectada de-leviandade, que cedo principiou
a inquietar aquela pobre cabeça. Sei que é volúvel, sinto
apreensões pelo seu futuro, temo, se temo! que pode vir a causar o
infortúnio dos que lhe confiarem o seu amor, fazendo-os sacrificar,
a um mero capricho, a uma fantasia momentânea, a mais violenta paixão
que se possa inspirar.

E sabe a única esperança que me restava ainda? Era a influência
benéfica de Ernestina; confiava nela para dominar as más tendências
da irmã, não por meio de prédicas presumidas e ridículas,
mas com a silenciosa eloquência do exemplo, género de educação
que, sem repararmos, pouco a pouco se apodera de nós e cedo nos tem
avassalado inteiramente, operando em nossos pensamentos uma completa metamorfose.

Sempre que as via juntas, as duas irmãs, parecia-me aquilo a realização
de uma vista providencial, imaginava o anjo a purificar a pecadora. E hei-de
acaso, de hoje em diante, ver em lugar disso a pecadora a contaminar o anjo?
Não; é desconsoladora de mais essa maneira de pensar. Eu continuarei
sem receio a reunir as duas irmãs, folgarei sempre que as vir juntas;
porque ainda acredito no poder do bem e espero que Ernestina há-de
vencer.

Agora seguem-se algumas observações acerca da mulher, colhidas
no teatro. Permita-me desde já que lhe diga que foi péssima
a escolha do terreno para as explorações a que V. S.a se propôs.

O teatro é fértil em observações para nós
outras, que não para os senhores. A plateia! Que mau posto de observação!
Basta reparar na posição forçada e violenta em que são
obrigados a manterem-se os homens que aspiram a observar-nos no teatro.

Em pé, com a cabeça em fadigosa extensão, o binóculo
sustentado a uma altura, necessariamente incomodativa, as costas voltadas
para o palco, circunstância que os obriga a interromper o seu exame
durante todo o tempo do espectáculo para só o continuar nos
intervalos, é essa uma espécie de observação de
astrólogo, falsa como todas as deles.

Nós porém estudamos-vos dos camarotes o mais comodamente possível.

Basta-nos baixar os olhos, toda a plateia nos fica aos pés; observamos-
vos justamente quando menos o suspeitais, quando, distraídos, esqueceis
o vosso belo ar de convenção e, sem o saber, vos achais revestidos
das aparências que melhor se harmonizam com o vosso carácter
e indiscretamente o denunciam. Oh! nós temos nesse ponto uma superioridade
inquestionável e só a cedemos aos espectadores das varandas.

Esses sim! O folhetinista deve trepar ali, se quiser estudar os mistérios
de uma noite de teatro; lá é o terreno dos verdadeiros filósofos.

Aquelas gargalhadas estrepitosas, que dali rebentam de quando em quando,
nada vos dizem? Pois a mim causam-me um efeito formidável! Não
é sem um certo terror que às vezes ouso profundar as vistas
nas meias trevas daquele recinto, de onde com olhos de águia, vos contemplam
desapiedados observadores! Doem-me bem mais as tais gargalhadas do que me
afligem todas as vossas baterias de binóculos impertinentemente assestados
contra os nossos camarotes.

Pobre gente das plateias! míseros diletantes da superior! mostrai-
-nos o resultado das vossas observações, forçosamente
mesquinhas.

Aí estão duas: 1." — «A mulher que, na ópera,
compassa o andamento da música com o bambear da cabeça ou com
o rufo dos dedos no parapeito do camarote, ou é mestra de música,
ou é pretensiosa.» E foi para isto que passastes uma noite inteira
a incomodar-nos com o vosso binóculo? Realmente não valia a
pena.

Esta ó uma das tais leis da fisiologia da mulher que passam por serem
comuns ao homem e portanto não servem para caracterizar o sexo.

Contudo é necessário em todo o caso fazer-lhe uma modificação;
pois tenho bons fundamentos para pensar que os que procedem na ópera,
como V. S.* diz, são os mais crassamente ignorantes dos principais
rudimentos de arte. Deixe ir só o pretensioso e suprima o professor
de música e ter-se-ão encontrado as nossas observações.

Mas, nesse sentido, quanto mais rica é a minha ciência! Que
belos aforismos não poderia eu fazer a respeito: dos que entram na
plateia de chapéu na cabeça, quando o pano já está
em cima, despertando-nos a atenção com o ruidoso bater de seus
tacões; dos que murmuram uns bravos em voz cavernosa, assim como um
aparte de tirano, e isto nos momentos em que o silêncio é geral;
dos que fixam impertinentemente o binóculo na prima-dona, ou na cantora
predilecta do público, a darem-se as aparências de preferidos
ou profundamente engolfados nas intrigas de bastidor; dos que desviam os olhos
do palco para os fitarem nos camarotes justamente quando todos seguem mais
ávidos o espectáculo; dos que trauteiam a letra da cavatina
antes que os cantores, esperando pelo compasso, voltem à boca de cena
do seu passeio obrigado aos bastidores do fundo e principiem a gargantear;
dos que de vez em quando fazem uma cara feia, dando a entender que o seu ouvido
admiravelmente acústico, percebera uma desafinação ignorada
pelos profanos; dos que se levantam antes dos fins dos actos, demonstrando
que, sem a advertência do apito, já sabem quando eles estão
próximos a terminar; dos que percorrem numa noite os sessenta camarotes
das três primeiras ordens, e nem sequer elevam as vistas para a quarta,
como se ignorassem até a sua existência, dos que dizem meia dúzia
de palavras em italiano e tratam familiarmente com o artista de moda, etc.

Era obra esta para mais vagar e não a desenvolverei por agora.

Vamos à 2.* observação: — «Aquela que ao
findar o espectáculo vira as costas ao seu marido e levanta silenciosamente
os braços para receber a capa que sabe já com certeza ele lhe
lançará nos ombros, é mulher de mau génio que
domina e subjuga o osso do seu osso e de quem é lícito suspeitar
que o espanca muita vez.»

Queira confrontar essa proposição com a reciproca que ofereço
a V. S.\ — «O marido que, ao findar o espectáculo, não
tem a delicadeza de lançar nos ombros de sua mulher a capa de salda,
é homem malcriado, que despreza e maltrata o osso de seu osso e de
quem é lícito suspeitar que a espanca muitas vezes.» Sendo
os dois aforismos verdadeiros, todos os ménages devem ser de uma amabilidade!…

Quer-me antes parecer que ambos são falsos e que entre casados reina
em geral a mais beatifica harmonia e invejável concórdia.

Há mais uma observação relativa aos livros, à
qual já aludi. Essa é recolhida fora dos teatros.

Nada nos revela também de característico a respeito das mulheres,
por ser comum e até mais peculiar aos homens.

E senão, diga-me: não vê por aí tantos que se
julgam Chattertons ? tantos que macaqueiam os heróis de Byron? outros
que batem na cabeça, como André Chónier e teimam, contra
a opinião pública, qu’il y a pourtant quelque chose là
? Não os houve tão tolos que se fizeram salteadores, depois
de lerem Schiller; ou se suicidaram para tomarem as românticas aparências
de Werther? Extremos de imitação de que uma mulher nunca seria
capaz.

Permita-me que passe por hoje em claro a observação relativa
aos dentes negros e às bocas grandes porque, quando se discute abstractamente
a mulher—a mulher-tipo—deve supor-se sempre bela, como já
disse no princípio da minha carta.

A respeito das mulheres faladoras e das mudas, o que, em tudo o que V. S."
disse há de verdade é admiravelmente aplicável também
ao sexo masculino. E reparo até que é lustamente aos folhetinistas
que parecem referir-se os caracteres apontados por V. S." «Homem
que fala muito de si e de todos e ri descomedidamente de tudo, incluindo as
coisas mais sérias e lúgubres».

As conclusões que V. S.a tirar portanto a respeito de tais mulheres,
eu as aplicarei pela minha parte a tais homens.

Em quanto ao silêncio das mulheres remeto V. S." para a máxima
grega, que dizia ser essa qualidade o melhor ornato do sexo.

D>ana de Aveleda

COISAS INOCENTES

A filosofia e a mulher—Sistemas empregados para descobrir
a verdade. — Transcrito, com autorização do seu autor,
do Jornal do Porto, de 21 de Janeiro de 1863,

«Não meiabalanço eu a decidir até que ponto um
homem pode conhecer outro homem, e muito menos, se é possível,
que um homem conheça uma mulher.

Dá-se uma coisa: O nosce te ipsum tem atravessado séculos
sempre venerado pelos estudantes de lógica como o verbo supremo da
filosofia copiosamente transcendental e bojudamente séria.

Aquela compendiosa sentença do filósofo é ainda hoje
tida por alguns crendeiros simplórios e ainda por um ou outro engenho
agudo, mas de bom comer, como o teorema sumo em que pode pôr a mira,
a atrevida, a esfomeada, a insaciável ciência humana.

Pois se o meu curto juízo me não engana, a razão da
popularidade deste preceito está na rasteira faculdade que ele barateia
a qualquer joão-ninguém de considerar-se impunemente sábio.

É verdade, não há dúvida alguma em ser verdade,
que os sábios desmereceram muito a consideração pública
e que o respeito que a gente lhes tem anda muito caldeado de galhofa depois
que ultimamente se descobriu que eles não prestavam para nada, os maganões
dos sábios.

Mas com ser pequena e desasseada esta pobre vaidade da sabedoria, aqueles
a querem que não têm coisa melhor para desejar.

Pelo que foram os ignorantes, segundo eu alcanço, que deram ao nosce
te ipsum a celebridade que lhe anda aforada.

Tanto que o ouviram gostaram daquilo, quiseram-no para si, e adoptaram-no
para ornamento e lustre da sua inteligência e juízo, assim como
também pegaram na moda das calças largas as pessoas cambaias
e de pés volumosos. «Vamos, isto disfarça» foi o
sentido deles.

Estas grandes verdades que passam em julgado, e são confirmadas por
sentença no tribunal da opinião pública, por via de regra,
são mentiras. Haja vista aos rifões. Eu lembro-me apenas de
um que seja absolutamente verdadeiro, que é o seguinte: Dá Deus
o frio conforme a roupa. É rigorosamente assim: está provado
que quem tem pouca roupa tem muito frio e quem tem muita não tem frio
nenhum. — Este é excepção.

Ora no fim de tudo conhecer-se a si mesmo devemos desenganar- nos de que
é fácil e vulgaríssima coisa. O que é peregrino,
excepcional, raríssimo, é haver homem que se não conheça
perfeita e cabalmente.

Encontra-se um toleirão com fumos de avisado.

Vemo-lo entrar em todas as discussões de chapéu na cabeça,
como conhecido velho, avassalar a conversação, puxá-la
para diante de si, trinchar o assunto para os convivas; e é então
o caso de cuidar a gente que aquele homem se, não conhece. Conhece
! conhece ! e sabe profundamente que é um parvo. Olhem lá se
ele se apresenta alguma vez qual é. se ele se faz bonacheirão
ou simples! Faz-se atilado é o que ele se faz; faz-se vivo, sagaz,
fura-paredes. Atabafar a penúria de dentro e èncampar-nos como
possa o fingimento de fora é no que ele cuida.

E esse cuidar é de tolo, mas de tolo que se conhece.

Há em todos os corações uma latente corda sumamente
boa e uma outra sumamente má que ninguém mostra aos seus amigos
mais particulares e mais íntimos. Costumamos tanto as nossas índoles
à estreiteza de molduragem comum e mãe que já nos envergonhamos
de parecermos tão bons como às vezes somos, e tão maus
como frequentemente nos vemos.

Quantos milhões de homens terão passado a vida a fingir! Quantos
idearam um tipo que lhes pareceu bom e consumiram depois a existência,
trazendo ajustada à face a máscara daquele herói filho
da sua imaginação! Quantos terão rido e quantos chorado
ao cotejar perante a consciência o que intimamente são e o que
são no mundo! Venera a sociedade este que morreu esmagado pelo sobrepeso
de uma honradez medíocre, e que, obedecendo ao natural pendor da vontade,
teria desafogadamente sido um salteador insigne; e é desprezado aquele,
transviado em diversa trilha, que mais mau é pelo que finge ser do
que por aquilo que realmente é.

Dizia o Agostinho de Macedo, metendo o caso a chacota, segundo era useiro,
que Larochefoucauld era moquenco como um padre da companhia de Jesus. Não
quero desfazer das mordeduras de anavalhada memória com que o célebre
crítico assinalava o transeunte, mas nunca puderam nem o José
Agostinho, nem o próprio Lamartine, convencer- me a mim de que não
fosse um discreto pensador aquele duque Larochefoucauld. Ainda me recordo
que lá reprega ele a minha asseveração em uma notável
máxima, cuja substância é esta: O hábito de encobrir
os nossos pensamentos muitas vezes faz com que os ocultemos a nós mesmos.

Ocultamos e fechamos os olhos e dizemo-nos até que os não
vemos; — ressaltos da nossa vaidade tantas vezes atarantada entre o
aplauso do mundo, que nos laureia, e a íntima corrimaça da consciência,
que nos escarniça e apupa! Ora vá lá agora cada um conhecer
assim os outros como se conhece a si! Os escritores que melhor demonstram
conhecer o coração humano fizeram um estudo de introversão,
e leram na sua alma os ditames da doutrina que pregoam.

Isto é estudar o coração, isto é talvez conhecer
o homem, mas a grande ciência, a que dificilmente se atinge, e que mais
importava alcançar, tem outro fim. O seu objecto é conhecer
um certo homem e principalmente conhecer uma certa e determinada mulher.

Alphonse Karr, o conhecido autor de dois excelentes e bem pensados livros
Les lemmes e Encore les femmes consta que se divorciara no fim do primeiro
ano de casado. O simpático escritor conhecia as mulheres… excepto
uma, a que mais lhe convinha conhecer, a que ele escolheu para si.

Molière, que tão fundamente conhecia o coração
humano e a sociedade, sabe-se que não gozou a felicidade conjugal.

Labruyère, o imortal autor dos Caracteres, receou tanto iludir-se
que se conservou celibatário.

Todos os moralistas do meu conhecimento consumiram a existência a
estudar a mulher, a qual mulher dos moralistas, cá no meu entender,
é um mito, é um ser mitológico, é um ente de convenção
que eu não encontrei nunca no mundo.

O resultado é que as opiniões divergem porque se não
conhece o assunto, os tiros encontram-se porque se não vê o alvo.
Já não há argumento nem a favor nem contra, que não
esteja refutado.

Que importa que Malherbe escrevesse esta linda frase a favor da mulher:
«Deus, que se arrependeu de fazer o homem, não se arrependeu
nunca de ter feito a mulher?» Acodem a isso os pessimistas que foi justamente
para se desfazer do primeiro que o Criador imaginou a segunda; e Aristóteles
lá diz claramente que a natureza só produz mulheres, quando
não consegue fazer homens. O príncipe de Ligne assegura que,
seguindo-se durante a sua vida cem pessoas de cada sexo hão-de encontrar-se
vinte vezes mais virtudes no sexo feminino do que no sexo feio, e Salomão
assevera-nos que em mil homens encontrou um bom, e que em todas as mulheres
não encontrou boa nenhuma.

Balzac, a quem se não pode negar toda a competência nestas
matérias, Balzac, que é geralmente tido como um dos mais sagazes
observadores da sociedade e do coração humano, diz què’
a mulher ó a criação transitória entre o homem
e o anjo, e chama-lhe a mais perfeita das criaturas, ao passo que São
Jerónimo, grande santo e grande doutor, escreveu que a mulher de boa
índole é mais rara do que a esfinge.

Espero eu que as minhas amáveis leitoras se não sensibilizem
rom os argumentos que meramente reproduzo. Não se entende o que fica
dito com nenhuma de V. Ex.as. Tudo isto é a respeito da mulher, quer
dizer: a respeito do mito, que é como se disséssemos a respeito
da Lua.

No tempo em que me dei a estes conspícuos estudos segui eu uma senda
diversa e procurei conhecer por mera observação a feição
predominante no carácter das pessoas que via, antes de falar-lhes ou
de perguntar quem fossem.

O método para estes trabalhos é o analítico puro. A
dificuldade do sistema consiste em descobrir as grandes causas nos efeitos
mínimos, em conhecer o gigante pela unha.

Vou com inicicar ao leitor o resultado das minhas observações,
resutado por cuja infalibilidade eu me responsabilizo porque está já
confirmada e consagrada pelos factos.

Pensa-se geralmente que o rubor que sobe às faces da donzela é
um respiro de candura que lhe perfuma como olores do Céu a alma virgem.
Eu estabeleço a respeito do rubor o axioma seguinte: Toda a mulher
que cora não é inocente.

Inocência na acepção em que tomamos a palavra, quer
dizer ignorância do que é impuro. Quem cora ao ouvir uma impudência,
claro é que distingue, e quem distingue duas coisas conhece-as ambas.

Tenho notado que uma criança de quatro anos não cora nunca,
e que as meninas só principiam a corar depois que vão para a
mestra.

Não se pense que eu venho aqui a menosprezar o pudor. Oh! eu adoro
o pudor!… mas prefiro a inocência.

Duas meninas igualmente bem educadas, igualmente conhecedoras e respeitadoras
da sua dignidade ouvem no palco de um teatro uma dessas frases ambíguas
criadas por gamenho indecente e expostas em farsícula de cordel para
regalo de paladares broeiros; a plateia escancara uma gargalhada estrepitosamente
galega; uma das meninas corou, a outra pôs-se a rir daquela bulha. Pensem
os outros a seu modo, eu opto pela candura da que riu, e deixo que vá
jurar quem quiser a inocência da que está vermelha.

Releva que estejamos precavidos sempre contra estes abusões, que
são copiosos e vulgaríssimos, como brevemente demonstrarei em
um capítulo ad hoc.

A verdade apresenta característicos infalíveis e de todo o
ponto concludentes.

Por exemplo: A mulher que na ópera compassa o andamento da música
com o bambear da cabeça ou com o rufo dos dedos no parapeito do camarote
ou é mestra de música ou pretensiosa.

A mulher virtuosa que acompanha e convive com mulher leviana tem por força
defeito grave: — ou lhe tomou o exemplo, ou se julga exemplar. Uma coisa
encobre a outra, mas qualquer delas é péssima.

Aquela que, ao findar o espectáculo vira as costas a seu marido e
levanta silenciosamente os braços para receber a capa que sabe já
com certeza que ele lhe lançará nos ombros, é mulher
de mau génio, que domina e subjuga o osso do seu osso, e de quem é
lícito suspeitar que o espancou alguma vez. * As meninas contemplativas
que lêem romances, ou se julgam semelhantes às heroínas
deles ou procuram fingir que o são. Daqui resulta que pelo livro escondido
no estojo da costura ou aberto no toucador, podemos ajuizar como pensa nesse
dia a dona do toucador e do estojo.

Ainda resulta outra coisa, mas essa não vem ao ponto, e é
que um livro mau é muito mais perigoso do que geralmente se cuida.

Os bonitos dentes e a boca pequena têm a desconveniência de
aconselhar sorrisos demasiadamente frequentes. As senhoras de maus dentes
são sempre de uma compostura irrepreensível. As meninas de boca
grande chegam a ser presumidas no seu recato e tenho observado que afectam
quase todas uma melancolia sobremaneira cómica.

Há dois tipos que eu frequentemente encontro. Um é a mulher
que fala muito de si e de todos, e ri descomedidamente de tudo o que eu lhe
digo, incluídas as coisas mais sérias e mais lúgubres;
o outro é aquela que só fala ao ouvido de uma amiga que tem
junto de si, e não entra na conversação comum, senão
para enviusar os beiços, figurar com eles um canudo e gotejar de longe
em longe a palavra sim ou a palavra não, isto é, despender da
voz o estrito necessário para comprar o silêncio. — São
os dois extremos a tocarem-se pelo ridículo que pertence a ambos, é
a boca demasiadamente graciosa e a boca sem graça nenhuma, é
o dente alvíssimo e dente negro.

Ninguém me diga que o silêncio aturado e pertinaz inculca discrição.

A senhora que nunca tira as luvas tem a pele áspera ou as unhas mal
talhadas; a que não fala nunca, tenho para mim que troca o b pelo v
ou que é tátara.»

J. D. Ramalho Ortigão.

1 Este tipo, assim como alguns outros de que terei de ocupar-me, para bem
da ciência, não existe no Porto. O autor destas linhas estima por muitos títulos
as senhoras portuenses, e respeita e venera sobretudo os seus elevados dotes
como esposas virtuosíssimas.

A CIÊNCIA A DAR RAZÃO AOS POETAS

Cartas ao redactor do «Jornal do Porto»

Meu amigo: Nestes tempos que correm, asados para toda a espécie de
luta, é de alegrar deveras a notícia de uma reconciliação
cordial entre inimigos velhos. O ditado português, Ódio velho
não cansa, que o Sr. Rebelo da Silva tomou para epígrafe do
seu primeiro romance, sofre felizmente ainda de quando em quando notáveis
desmentidos.

A nossa época está presenciando fenómenos bastante
singulares.

Enquanto por um lado, e tão perto de nós, vemos o espectáculo
desconsolador de um inglório e já fastidioso certame entre os
nossos literatos, contenda desapiedada e nem sempre cortês, de onde
as reputações feitas saem enxovalhadas, as nascentes, feridas
talvez de morte pela dureza do combate, e só incólume quem nada
arriscou, por nada ter que perder; lá por fora, mostram-se-nos insòlitamente
amáveis para com as fantasias dos poetas até os seus antigos
adversários — os homens da ciência! É já
um facto reconhecido o da galantaria da ciência contempoea.

Esta sisuda dona, a quem dantes as harmonias da lira romântica escandalizavam
os ouvidos, demasiado escrupulosos, já lhes sorri e despojada de velharias
pedantescas, vai reconhecendo que, sob aparências frívolas mas
não obstante ou não sei se por isso mesmo,

1 Publicada em Dezembro de 1879 e acompanhada da seguinte nota da redacção:
«Entre os manuscritos de Júlio Dinis, que vimos há pouco, encontramos as duas
cartas que vamos publicar, escritas em 1864, as quais deveriam ser seguidas
de outras, e se perderam se porventura chegaram a ser escritas.»

agradáveis, a musa dos poetas e romancistas costuma às vezes
dizer coisas, que valem bem a pena de ser atendidas.

Não concorda, meu amigo, que estes factos são uma feliz compensação
para aqueles outros, que eu lamentava? Quando lavre no seio de um povo a guerra
civil, ao menos que ande ele em paz com os seus vizinhos da fronteira.

Se estiver para me ouvir, quero entretê-lo hoje a respeito de uma
destas finezas da ciência à literatura.

Trata-se do coração, assunto ao qual, sem flagrante injustiça,
se não poderá negar o epíteto de palpitante.

Há-de saber, que entre os poetas e fisiologistas reinava de há
muito grande divergência em quanto à maneira de conceber a vida
do coração.

Cada estância de poema erótico, na qual era referido àquela
víscera o misterioso e delicadíssimo mundo dos afectos, passava
por uma verdadeira blasfémia científica; cada soneto de Petrarca,
ou meditação de Lamartine, cada estrofe de Byron, de Zorrilla
ou de Musset, em que se via escrito o nome deste órgão, único
que os poetas cínicos disputam aos sábios, eram para estes atrevidas
heresias, e quando muito perdoadas, corno uma leviandade sem consequências,
por aquela espécie de tolerância, com que se perdoa um absurdo
se é dito pela boca de uma mulher bonita.

Ora, devemos confessá-lo, algumas dessas formas poéticas,
dessas frases sonoras relativas ao coração, eram de tão
impertinente arrojo, de desplante tão provocador que se não
podia de todo culpar o fisiologista que, mais insofridamente cioso das prerrogativas
da ciência, franzisse o sobrolho a essas veleidades literárias
da atrevida coorte de poetas, romancistas e folhetinistas, pretéritos
e contemporâneos; não se lhe podia estranhar demasiado que ralhasse
ao ver, que sem ao menos terem notícia de Harvey, esses estouvados
se punham assim a falar no coração que, ignorando quais e quantos
os tubos arteriais e venosos que se continuam com este músculo oco,
quantas as válvulas que lhe fecham as cavidades, os planos de fibras
que o constituem, se apregoavam por aí, urbi et orbi, profundos conhecedores
desse órgão que nunca sequer tinham visto dissecar.

Quem tivesse vagar para se deitar à colheita de várias asserções,
a respeito do coração pelos livros dos prosadores e dos poetas,
teria tarefa para longo tempo e curiosíssima e instrutiva.

Se mo permite, recordar-lhe-ei alguns exemplos colhidos em livros familiares
a todos nós, e que por acaso tenho à mão: Lamartine fala-nos
em uma das suas melhores Meditações de um coração:
lasse de tout, même de 1’espérance. A patologia deixava- o dizer,
mas nunca tomou a sério a frase. Se falassem nisso a Barillaud estou
certo que se punha a rir.

Une tristesse vague, une ombre de malheur Comme un frisson sur l’eau courut
sur tout inon coeur

Dizia ainda o mesmo admirável poeta no seu inspirado livro —
o Jocelyn.

Não havia, porém, médico que visse nestes dois alexandrinos
a expressão de um facto digno de ser arquivado. Uma sombra de desgraça
sobre o coração; eis aí um fenómeno que sem dúvida
o mais experimentado especialista confessaria ignorar.

Abre-se o Camões, do Almeida Garrett — livro do qual não
sei se os contendores da actual questão literária já
fizeram também pataratas para se acometerem — depara-se logo
ao princípio com estes singularíssimos versos:

Saudade Misterioso númen que aviventas Corações que
estalaram e gotejam Não já sangue de vida mas delgado Soro de
estanques lágrimas…

Veja o que aí vai! O anatómico intransigível, ao ler
isto, não podia deixar de se afligir. Imaginava sentir as glândulas
lacrimais a estremecerem no canto das órbitas e protestarem contra
uma tal usurpação de direitos; e ele achava-lhes razão,
achava-lhes razão contra Garrett e contra Lamartine, que é relapso
nesta ordem de pecados, porque no Rafael tinha também escrito:

Dans cette larme qui tombe toule chaude de votre coeur sur ma main —

O Sr. Alexandre Herculano, carácter sisudo e o mais severamente português
dos nossos tempos, não era isento de culpa perante o tribunal dos científicos
escrupulosos. Em uma passagem da Harpa do Crente parece tentado a atribuir
ao coração não sei que usos vocais e arvorá-lo
em habitação de memória; tentativa que a ciência
moderna, nisto mais intolerante que algumas das suas ascendentes, não
podia acolher sem protestar.

A passagem a que me refiro está nestes dois versos:

Que férreo coração esquece a terra Que lhe escutou os
infantis suspiros.

Pois Vítor Hugo ? Esse génio que tão bem e tanto à
vontade sabe manejar a arma perigosa das antíteses e das imagens, tantas
vezes fatal aos menos destros e experientes, e cujos arrojos líricos
chegam a espantar, a intimidar até os mais dispostos a admirá-los,
como não havia de escandalizar os fiéis respeitadores da frase
ao pé da letra! Nas Contemplações, por exemplo, fala-nos
ele de uma rapariga que, em apaixonado colóquio com o amante, lhe diz
entre outras coisas:

Oh! de mon cceur leve les chastes voiles Si tu savais comme il est plein
d’ètoilest

Com estes dois versos também os astrónomos tinham que ver.

Ora é verdade que Lamartine, que é tido por mais moderado
do que o autor dos Miseráveis, já também dissera no Rafael:
«Eu sentia que nunca mais haveria noite nem frialdade em meu coração,
porque ele (Júlio) af luziria sempre.» Diga-me se não
tinham alguma desculpa os que protestavam contra tais liberdades? A anatomia,
que há tantos anos anda a estudar o coração pelo escalpelo
e pelo microscópio, e que algum proveito julga haver tirado já
desse estudo, devia encolher os ombros de apiedada, ouvindo o Sr. Mendes Leal
começar assim a primeira das suas Indianas:

Foi-se a têmpera dos peitos Dos portugueses leões; Quem sabe
de que eram feitos Seus robustos corações?

Quem sabe de que eram feitos! Se ela não veio a campo a elucidar esta
dúvida, foi por uma espécie de contemplação delicada,
por uma abstenção, como a do astrónomo cortês,
diante de quem uma senhora põe em dúvida a exactidão
das suas previsões.

O nosso Camões usou também de iguais liberdades para com o
coração. Recorda-se, por exemplo, daquele:

Tu, só tu, puro amor, com força crua Que os corações
humanos tanto obriga?

Filinto pinta-nos o coração devorado por consumições:

As penas e os cuidados que os humanos Corações remordiam como
abrolhos.

Bocage descrevendo-nos a agonia de Leandro:

e de Hero o nome Do ansioso coração num ai lhe arranca.

A ciência ainda mal conformada com este ai, saído do coração,
achou-se na presença de Espronceda, que, pelo contrário, lhe
falava de um outro que para lá entrava:

un ay Que penetra el corazon

E já que estamos de volta com o lírico espanhol, não
posso resistir ao desejo de transcrever por inteiro a sentidíssima
quintilha do Estudiante de Salamanca, como mais outra heresia fisiológica,
e das mais arrojadas:

Hojas dei arbol caídas Juguetes del viento son Las illusiones perdidas
Ayl son ojas desprendidas De! arbol del corazon.

Com certeza não era da árvore circulatória que o poeta
falou e por conseguinte — delito.

Fazer falar o coração em um aperto amigável de mão.
é também frequente nos poetas.

Garrett, por duas vezes que eu saiba, deixou entrever tentação
de encerrar a alma inteira dentro do coração. Foi na D. Branca

Que a alma nesses países regelados

(Refere-se à Inglaterra).

Toda no coração não vem aos lábios

E noutro lugar:

…quando a alma inteira Rompe do coração e acode aos lábios.

No mesmo poema ainda, não hesita em pôr na boca do próprio
Diabo, em uma ocasião em que o maligno espírito sentia o alvoroço
das pulsações cardíacas de um cavaleiro, que fugia com
uma beleza nos braços, as seguintes palavras:

«Tu que bates assim, má tenção levas.»

Autorizar com o nome do Diabo, que dizem ser de peso em coisas destas, uma
opinião que de encontro à ciência, atribui ao coração
tenções reservadas é muito sério.

Muitas outras amostras, como estas, se podiam trazer para aquí, respigando-as
pelos poetas de todas as nações e de todas as idades.

Estas, porém, bastam para nos levar a conceder, que provas evidentes
de tolerância deu ainda assim a ciência, ouvindo quase resignada
estas heterodoxas interpretações do coração e
não saindo a campo a combatê-las.

Diga-me como podia ser agradável a qualquer erudito, rígido
observador do suum cuique, ouvir falar de Balzac, o romancista, que provavelmente
nunca viu um stothoscopo, nem teve notícias do plessi metro do Sr.
Piorny, imortal descoberta que, à falta de épicos, o próprio
autor celebrou em alexandrinos, e ouvir falar de Balzac, mas como? Como de
um profundo conhecedor do coração humano, reputação
adquirida com detrimento de Andral, de Bouillaud, de Laenec, de Beau e tantos
que por longa experiência clínica a mereciam.

Caprichos de opinião pública! Mas o certo é que essas
gratuitas ideias, assim espalhadas pelos poetas, ganharam raízes profundas,
vulgarizaram-se e ao lado do coração fisiológico, científico,
ortodoxo, órgão motor da circulação sanguínea,
de há muito se insinuara outro, um coração convencional,
romântico, poético, sem foro de ciência, contra o qual
do ádito do santuário se fulminaria a excomunhão, se
ele manifestasse tentações de lá entrar.

Seja porém dito em seu abono que nunca as manifestou; procedeu, como
esses escritores, queridos das multidões e a quem as academias repelem,
deviam todos proceder.

Agora é justo confessar que dos dois corações, o mais
popular e simpático, não era decerto o primeiro, o legal, o
académico.

Que dama namorada, que mãe extremosa, que poeta inspirado, que guerreiro
sob o domínio da paixão de glória, que expatriado consumido
pelas saudades da sua terra, que nauta, suspirando no meio da sublime mas
desconsoladora solidão das vagas, aceitaria sem repugnância,
aquele coração máquina, músculo, órgão
impulsor do sangue e nada mais, que lhe apresentavam os sábios? Embora
lho vitalizassem um pouco ultimamente, não era ainda nada, para aquele
irresistível instinto que lhes pedia mais.

Verdade é que já lho não apresentavam como uma simples
máquina hidráulica, uma espécie de bomba aspirante e
expelente, concepção tão grosseiramente materialista
que revoltou os próprios fisiologistas; mas, em todo o caso, melhor
enervado e vivificado, promovido da categoria de máquina à de
órgão, do mundo físico e mecânico ao vital; era
ainda o órgão da circulação e não passava
daí.

Os poetas deixavam dizer os fisiologistas e continuavam na sua propaganda
e o vulgo aplaudia-os com alma e identificava-se com aquelas crenças
poéticas, sem cuidar do seu carácter hipotético.

Quantas vezes os adeptos da ciência, os discípulos em via de
iniciação, punham de lado, na banca do estudo, as páginas
de ciência positiva sobre a vida do coração, para saborearem
furtivamente a fisiologia de contrabando, que em todas as línguas do
mundo mortas e vivas os poetas oferecem às imaginações
seduzidas.

Mas o encanto era ainda poderoso; revelava-se por provas ainda mais evidentes.

Os próprios sacerdotes, os que proclamavam o interdito contra as
falsas doutrinas, os que dentro do templo nunca permitiriam a entrada a essas
metrificadas fisiologias do coração — não obstante
lá terem entrado coisas muito menos racionais e em estilo incomparavelmente
pior — os próprios sacerdotes digo, fecharam muita vez sobre
si as portas do santuário e iam-se a praticar amavelmente com esses
livres-pensadores e poetas paradoxais, agradados, sem saber porque, daqueles
mesmos paradoxos, contra os quais seriam inexoráveis quando chamados
a juízo no tribunal da ciência, Muitos foram até os que
aprenderam a falar essa mesma linguagem profana, espécie de gíria
poética que condenavam como ímpia, herética e atentatória
contra os dogmas da fisiologia.

Haller, por exemplo, a quem principalmente se deve uma das mais fecundas
revoluções que tem sofrido a ciência da vida — foi
poeta também. E ainda hoje parece que os seus compatriotas mais o conhecem
por essa qualidade, do que por aquela que lhe granjeou, na história
da ciência, um nome imorredouro.

Ora ser poeta, sem falar alguma vez do coração à maneira
dos poetas, não sei bem como possa ser. Desejava agora consultar as
produções literárias deste sábio alemão,
a ver se o encontrava, como suspeito, em flagrante delito de lesa-fisiologia,
justamente naquele artigo, que, como poucos, ele tinha razão e interesse
de respeitar.

Mas, no meio de tudo isto, uma coisa não perdoo eu aos homens de
ciência — que é o não haverem meditado sobre quais
pudessem ser os fundamentos desta crença tão geral que, a seu
pesar, domina até o homem mais versado nas teorias científicas,
e no próprio selvagem se manifesta, pois que na sua mímica expressão,
a mão sobre o lado em que pulsa o coração, traduz a existência
de um sentimento de afecto, de amizade, de amor, de dedicação
— gesto, que o actor mais exercitado, pelo estudo, em exprimir vivamente
as paixões humanas, não se esquece de imitar.

II

Dizia eu que quando um facto se apresenta assim com um tal carácter
de generalidade, quando um tão completo assentimento aceita a interpretação
unânime a expressão nímia que parece confirmá-lo,
não obstante os protestos da ciência, quando os mais rigorosos
nem sempre são demasiado austeros na observação dos preceitos
da moral cientifica — se assim lhes posso chamar — que proclamam,
à ciência compete reflectir sobre este facto, e fiel ao seu programa
de análise filosófica, procurar-lhe a razão de ser.

Época houve em que a ciência deu provas de querer congraçar-
se neste ponto com a poesia, direi até, foi talvez quem deu o exemplo
destas teorias hoje olhadas por cima do ombro pelos sábios intolerantes,
Mas em que tempo foi isto? Quando as ciências naturais eram poesia também
e não haviam adquirido ainda este ar severo e grave que hoje as caracteriza.
Filósofos e poetas eram à porfia quais deixariam mais à
solta correr a imaginação. Foi quando Platão, desenvolvendo,
o sistema de Pitágoras, colocava no coração a parte da
alma de onde a generosidade, a coragem, a cólera dependiam; e Aristóteles
supunha que dele nasciam as paixões, que era essa a urna onde o fogo
natural era mantido. Depois disso ainda sob a influência de Galeno —
que tinha muito de poeta também — a ciência fazia sair
do coração uns certos espíritos que eram alguma coisa
mais subtil e poético do que o sangue; mas ultimamente, orgulhosa com
as últimas riquezas adquiridas, ensoberbeceu-se e rejeitou com desdém
e ate pouca delicadeza os enfeites que, em épocas de privação,
não duvidara aceitar de sua mais leviana, mas, e talvez que por isso
mesmo, mais sedutora rival.

Mas enfim a nossa época é, por mais que façam, uma
época de reconciliação e tolerância. Os homens
de ciência e os poetas dão-se finalmente as mãos e fazem
concessões mútuas.

Nunca se viram tão amigos e reciprocamente lisonjeiros.

Os poetas celebram em verso teorias que dantes apenas conseguiam ser prosaicamente
expostas nas páginas pouco elegantes dos livros eruditos.

Em um interessante opúsculo de Aug. Langel que, sob o título
de Problèmes de la natvre, foi há pouco editado por Balliere
na Biblioteca de Filosofia Contemporânea, já o autor faz notar
esta crescente popularidade das ciências, como um dos fenómenos
mais singulares da nossa época: Observa-nos, como o historiador Michelet,
que a opinião pública de França (como a de Portugal)
não está ainda resolvida a aceitar como um velho estonteado
e treslido — e a romancista George Sand, ambos na idade em que é
lícito repousar no seio da glória adquirida, se deitaram à
obra e deixando um o domínio da história, outro o da paixão,
entraram no reino sempre virgem da natureza.

«Eu não sou daqueles, concluiu o autor citado, que censuram
ou temem estas excursões um pouco aventurosas no terreno da observação
e da experiência.

«A ciência é invulnerável; se pode desprezar os
golpes dos seus inimigos, porque lhes havia de temer os amplexos demasiado
apaixonados? Pode ficar nua como a verdade, mas as suas formas nobres conservam-se
ainda visíveis debaixo da ténue púrpura que a imaginação
lhe deita aos ombros. Já tão naturalista com Goethe, Byron e
Lamartine, a poesia, ainda mais o ficou nos versos de Vítor Hugo. Deu
uma voz harmoniosa, não só ao Homem, mas a tudo quanto vive,
e aos mares, aos ventos, às estrelas e até à própria
Terra.» Isto em relação aos poetas; em quanto aos homens
de ciência vemo-los a atenderem mais cuidadosamente ao estilo e não
desprezarem, nem afugentarem as imagens quando estas travessas se lhes põem
a voejar em torno da sua secretária.

Os médicos, sobretudo, têm ido longe nesta via de concessões.

Um professor agregado na Universidade de Medicina de Paris, não pôs
dúvida nenhuma em tomar para epígrafe de um livro de filosofia
médica, uma quadra de Gerard de Nerval! Gerard de Nerval! o tradutor
e amigo de Henry Heine, o infeliz poeta — mais uma alma do que um homem,
como Heine dizia dele, cuja morte trágica roubou à França
um dos mais prometedores talentos líricos da época? Gerard de
Nerval, o suicida da ignóbil rua de la Vieille lanterne, levado àquele
acto de desespero pela pobreza um pouco, mas por um desses ocultos padecimentos
que são um mistério para as organizações menos
delicadas? E forneceu epígrafe, para uma obra de ciência! É
verdade. Ainda não vai longe a época em que os próprios
que mais ornavam a literatura, os menos severos para com as produções
dos engenhos literários, que olhavam como fúteis, não
se atreveriam a passar além da citação latina. Quando
muito teriam escrito:

Mens agitat molem et magno se corpore mistet

em vez da quadra romântica que escolheu Bouchut.

Espere, enfin, mon ame, espere Du doute brise le reseau, Non, ce globe n’est
pas ton père Le nid na pas crèe l’oiseau.

Rasga da dúvida as redes! Espera, ó minh’alma, espera.

Tu da Terra não procedes, O ninho as aves não gera.

Eu considero o facto desta epígrafe como o maior preito prestado até
hoje por homens de ciência à escola romântica actual.

Aos médicos competia dar destes exemplos. Os filhos de Esculápio
deviam lembrar-se, como bem diz L. Peine, de que Apolo, pai do semideus, estabelece
o estreito parentesco entre a poesia e a arte salutar.

Ora o número dos médicos poetas tem sido bastante avultado,
mas é certo que não andavam com franqueza e à vontade
nesta empresa de conciliação.

Quando muito metrificavam ciência, o que é uma tarefa perigosa
de tentar, pois dá muitas vezes em resultado espécimes como
este do Sr. Piorry:

Le diamant gazeux et le pur oxigene, Se mariant à 1’hydrogène,
Se groupèrent en végetaux; ..L’azote. .elastique fluide Se mêtamorphosant
en matière liquide, S’y joigni’ pour former les corps des animaux.

Não lhe parece que estamos em plena inspiração lírica?
Outros sabiam ser alternadamente poetas e eruditos; duas entidades reunidas
no mesmo indivíduo mas em completa independência. — Nos
seus versos ninguém podia descobrir a sombra do barrete de doutor e
ao escreverem obras de ciência tinham o cuidado de apagar cautelosamente
o facho da imaginação.

Hoje a fusão é mais natural e desassombrada.

Por isso era esta mais que nenhuma a época destinada para que a face
poética do coração, até agora deixado na sombra
pelos homens de ciência, se adiantasse para o campo luminoso da observação
e da análise; e a crença unânime da opinião viesse
pedir à ciência a sua razão de ser.

E quem se encarregou de estudar o problema? Exemplo eloquente de conciliação
de que falamos! Foi Claude Bernard. Se por acaso sabe quem é Claud
Bernard há-de por certo admirar-se.

Claude Bernard é um fisiologista mais que tudo experimental, um homem
costumado a manejar o escalpelo, a empregar os reagentes, a manipular o microscópio;
um homem a quem as vivissecções não comovem e que, no
Colégio de França, prossegue imperturbável uma das suas
interessantes e proveitosíssimas lições, sem que o afectem
os gritos dos animais que se estorcem mutilados, vítimas de uma demonstração
fisiológica; sem que hesite em sacrificar nas aras da ciência,
desde a rã, um pobre e fleumático animal já chamado por
alguém o Job da fisiologia, até ao cão, o fiel companheiro,
o amigo dedicado do homem, até ao inofensivo coelho, e até,
isto sobretudo poucas leitoras lhe perdoariam, até à pomba,
o símbolo de inocência, querida das almas ternas e pelas quais
os poetas mitológicos faziam mover o coche de Cítera.

Pois foi este homem, de quem uma senhora dizia não possuir coração,
que há pouco na Sorbona inaugurou uma lição por estas
palavras : «Para o fisiologista o coração é o órgão
central da circulação do sangue. Mas, por um singular privilégio,
que com nenhum outro aparelho orgânico se dá, a palavra coração
passou, da linguagem do fisiologista, para a do poeta, romancista, e homem
de sociedade, com acepções muito diversas. O coração
não seria somente um motor vital impelindo o líquido sanguíneo
a todas as partes do corpo que anima, mas também a sede e o emblema
dos mais nobres sentimentos e dos mais ternos de nossa alma. O esludo do coração
humano não deveria ser somente o objecto do anatómico e do fisiologista,
mas servir também de base a todas as concepções do filósofo,
a todas as inspirações do poeta e do artista.

«A fisiologia deverá desvanecer-nos estas ilusões e
mostrar-nos que o papel sentimental atribuído em todos os tempos ao
coração, não passa de uma acção puramente
arbitrária? Numa palavra, teremos a assinalar uma contradição
completa e peremptória entre a ciência e à arte, entre
o sentimento e a razão ? Em quanto a mim não creio na possibilidade
dessa contradição. A verdade não pode diferir de si mesmo
e a verdade do sábio não poderia contradizer a verdade do artista.
Pelo contrário, eu creio que a ciência que provém de uma
fonte pura, para todos se fará luminosa, e que ciência e arte
por toda a parte se darão as mãos interpretando-se e explicando-se
uma pela outra.

«Eu não procurarei negar sistematicamente, em nome da ciência,
o que em nome da arte se tenha dito sobre o coração, considerado
como órgão destinado a exprimir nossos sentimentos e afeições.
Pelo contrário, desejaria demonstrar a arte pela ciência, tentando
explicar por meio da fisiologia o que até ao presente não passava
de uma simples intuição do espirito. Empresa difícil,
também temerária até, por causa do estado ainda hoje
tão pouco avançado da ciência dos fenómenos vitais.

«Entretanto a beleza da questão e os clarões que a fisiologia,
me parece, já poder lançar sobre ela, tudo me determina e anima.»
E efectivamente, depois da primeira parte da sua prelecção,
na qual, debaixo do ponto de vista anatómico, tratou do coração
e da sua fisiologia oficial, isto é, das suas funções
como órgão impulsor do sangue — parte a que não
me referirei, por ser para as leitoras a parte antipática do órgão
— o célebre membro do Instituto entrou na questão pendente,
a propósito das relações do coração com
o sistema nervoso e particularmente com o cérebro.

Um dia Davy, depois de uma longa meditação sobre as propriedades
e usos do sangue, este mais que todos importantíssimo líquido
orgânico, não pôde deixar de escrever:’ It is a mysterious
fluid the blood.

Bem se podia, parodiando o médico;inglês, exclamar também:
É um misterioso órgão o coração.

Basta que é ele o infatigável obreiro’desta complicadíssima
oficina orgânica; o que primeiro se ergue paira o trabalho no ainda
mal distinto crepúsculo da vida embrionária; o último
a despegar da tarefa quando os outros já repousam no sono da morte.
O primum vivens e o ultimum moriens, como bem o chamou Haller que, como médico
e poeta, o conhecia bem, Haller, essa delicada organização germânica,
a quem o grito da dor e a vista do sangue afastou sempre do anfiteatro para
onde aliás o chamava a vasta profundeza dos seus conhecimentos médicos,
e a ardente ansiedade do seu amor de saber.

As primeiras palpitações, comparáveis às primeiras
oscilações do pêndulo regulador da vida, começam.quando
ainda o coração mal se desenha no campo germinal e pelas;suas
exíguas dimensões recebe ainda o nome de ponto — punctum
saliens. Na galinha… (não se revoltem as leitoras se concluímos
do coração da galinha para o coração humano; debaixo
do ponto de vista circulatório não é que eles se distinguem)
; na galinha nas primeiras vinte seis ou trinta horas de incubação
manifesta-se o fenómeno.

Depois de definitivamente organizado e desenvolvido o coração
continua no seu lidar incessante, sem precisar dessas interrupções
reparadoras que exigem os outros músculos, após um exercício
continuado.

As pernas do mais maravilhoso andarilho vergam-se no fim de um excessivo
trabalho; o braço do mais aguerrido campeador cai desfalecido depois
de brandir por muito tempo o pesado montante a decepar cabeças de inimigos;
a voz dos mais vigorosos tribunos abandona- os depois de uma oração
muito prolongada; finalmente a fadiga, a impossibilidade do exercício
produzida pelo exercício, parece a lei geral do funcionar dos órgãos,
o cunho da fraqueza humana impresso em cada peça da máquina.
E só o coração não cansa! só este órgão,
cujo trabalho violento e rápido, cujas contracções vigorosas
e sucessivas, pareciam mais próprias para o extenuarem e exigirem a
influência benéfica de um repouso vivificador, é o que
produz o suplício de Ixion, começando incessantemente a tarefa
terminada; como se a consciência da sua responsabilidade o impedisse
de adormecer; ele é sempre vigilante, desconhece a inacção
proveitosa do sono. O sono para ele não é somente a imagem da
morte, mas a morte verdadeira.

Outro facto singular da vida deste órgão, facto em que Cláudio
Bernard crê» piamente, conquanto nem todos os fisiologistas o
acompanhem tão longe, é a emancipação do coração,
permita-se-me esta linguagem, da tutela administrativa do sistema nervoso.
Como potência que é, o coração trata de igual para
igual com o cérebro, essa outra potência que impõe leis
a todos os órgãos. Contrai com ele relações muito
íntimas, mas sem fazer cessão completa de sua espontaneidade.

O movimento nos outros músculos tem sempre por facto anterior o da
excitação dos cordões nervosos que os prendem aos grandes
centros inervadores.

Ora estes nervos e centros nervosos excitam-se por meios diversos—
acções mecânicas, agentes químicos, estímulos
eléctricos, tudo pode dar o efeito final, o encurtamento, a contracção
do músculo onde o nervo se ramifica e por ela o movimento desta ou
daquela parte do corpo. E independente destes estímulos artificiais,
os mesmos efei tos se produzem quando só à evocação
da vontade, parte do cérebro a corrente misteriosa pelo mesmo caminho
dos nervos, para diversos pontos da massa muscular.

Pois o coração, diz Cláudio Bernard, reproduzindo neste
ponto uma já antiga teoria de Haller, o coração é
independente do cérebro e nisto se extrema dos órgãos
seus congéneres.

Arrancado do peito de um animal bate ainda sobre a mesa da dissecção
e por tempo considerável. Este facto, porém, já há
muito sabido, presta-se a outras explicações e não resolve
imediatamente a questão no sentido favorável à opinião
halleriana.

Mas, diz Bernard, se nós pusermos a nu os nervos que se distribuem
no coração, nervos que se chamam pneumogástricos… —
Não queiram mal à ciência por inventar este nome na verdade
pouco eufónico; ainda ela aqui teve algumas contemplações
para com as exigências da harmonia, que se fosse obedecer ao pensamento
de que se inspirou ao formá-lo, teria de lhe multiplicar muito mais
as sílabas ; mas, dizia eu, se descobrirmos os pneumogástricos
e aplicarmos sobre eles os estímulos ordinários, em vez da exacerbação
de contracção cardíaca que seria de esperar, o que se
observa? a suspensão súbita das suas pulsações;
as quais só continuam depois de cessar o estímulo, se a impressão
recebida não foi tão forte ou tão continuada que trouxesse
consigo a suspensão definitiva e com ela a morte.

Este facto mostra no coração uma certa disposição
para contrariar as ordens nervosas, efectivamente singular. Bem merecia um
nome feminino uma víscera assim! Se repetirmos a experiência,
observaremos o mesmo resultado, somente cada vez menos pronunciado. Sucede
com todos os músculos que a repetição de uma impressão
estimuladora embota a faculdade de a ressentir.

Com o coração sucede o mesmo; somente como ele revela a influência
recebida não pela acção, mas pela supressão dela,
a indiferença adquirida evidencia-se aqui pela continuação
das pulsações sob a influência dos estímulos.

Os que não querem admitir em todo o seu valor a lei de independência
que Bernard admite em relação ao coração, recordam
a existência de uma outra espécie de nervo neste órgão,
nervo que desta vez tem um nome a fazê-lo benquisto dos mais exigentes;
chama-se o grande simpático. Mas sigamos Bernard, que foi esse o nosso
intento.

Nestes estudos sobre o coração em geral e o humano em particular,
os homens da ciência moderna tiveram um valiosíssimo colaborador.

Graças a ele muitos destes pontos da fisiologia do coração
adquiriram um grau de exactidão até agora nunca obtido. Imagine
de que colaborador eu falo ? Do mais competente neste assunto; do próprio
coração.

É facto; o coração auxiliou com as suas memórias,
escritas por ele mesmo, o trabalho dos fisiologistas.

As memórias do coração! O coração autobiógrafo!
Sim, senhor. Aquele misterioso órgão, aquela discreta e reservada
individualidade, que todos julgavam incapaz de trair um segredo — e
tantos se lhe confiavam! — cedeu à tentação da
época — deu em escritor! — Ele próprio, em pessoa,
se encarregou de traçar sobre um papel com o estilete antigo as suas
impressões… vitais. E fê-lo e tem-no feito na presença
de um curso; diante do auditório de Bernard e de outros fisiologistas
experimentadores, que andam agora a ensinar a escrever a todas as vísceras
e órgãos da economia.

O Dr. Marey, laureado pela Academia, afeiçoou a pena e o papel; pô-la
ao alcance do órgão e ele não hesitou; palpitando ora
regular e pausado, ora tumultuoso e rápido, fez as suas confissões,
revelou os seus mistérios.

Graças ao cardiógrafo — é o nome do instrumento
— pode-se já dizer sem metáfora que se lê no coração
humano.

Pressinto o susto que estarão experimentando as leitoras ao ouvirem
esta revelação. Ai, que se o coração lhes fala!
Se lhe der para publicar também as suas memórias! O que aí
não iria, santo Deus! Ó reservas de tantos tempos, que singulares
explicações não receberíeis ! Como a todos nos
surpreenderia o conceito dessas continuadas charadas, que nós, pobres
inteligências, tanto às cegas andamos a decifrar, sílaba
a sílaba—-procurando interpretar um sorriso, um olhar, uma lágrima,
um rubor, um movimento de leque, um movimento de cortinas, e que tantas desilusões
nos preparam! Já imagino estas interessantes déspotas meditando
um sistema repressivo contra a mania da publicidade que temem; procurando
organizar a censura para vigiar pelas indiscrições do seu coração.

Assusta-as esta liberdade e verdadeiros diplomatas, só querem deixar
falar os lábios, e quando muito os olhos, os quais uma longa educação
já conseguiu há muito diplomatizar, se me permitem esta expressão.

Mas sosseguem, minhas senhoras, ainda não chegou para esse império
despótico que V. Ex.1" exercem contra as franquias e liberdades
dos seus órgãos um novo 93. O coração de V. Ex.a»
é ainda demasiadamente feminino, para dizer assim toda a verdade. Mais
concentrado que o dos homens, tem já causado o desespero dos fisiologistas.
Querem ouvir Cláudio Bernard? Depois de nos descrever o cardiógrafo,
esse, para V. Ex.»’ antipático instrumento do delito da publicidade
dos mistérios do coração, ele conclui: «Este instrumento
é tanto mais delicado e mais fiel quanto mais próximo do coração
se pode aplicar e menos separado dele fica pelas paredes do peito. É
fácil, pois, de conceber, sem que eu o explique, por que é mais
fácil ler no coração das crianças do que no dos
adultos, e também por que é naturalmente mais difícil
ler no coração das mulheres do que no dos homens.» A independência
que, segundo Bernard, admitimos para o coração não se
deve entender, repetimos, como absoluta carência de relações
entre ele o o cérebro, este suserano da confederação
orgânica.

Nisto se extrema a teoria moderna de outras anteriores, que à primeira
vista parecem manter com ela estreito parentesco, Assim, já vimos que
as excitações dos nervos são ressentidas, a seu modo,
pelo coração; elas modificam, suspendendo-o, o exercício
do próprio órgão. Mas a espontaneidade deste exercício
é que caracteriza a independência.

Nas condições normais, de integridade e normalidade do organismo,
as coisas passam-se de uma maneira análoga à que a experimentação
revelou.

Um facto novo entra no fenómeno — a sensibilidade.

CARTA AO REDACTOR DO «JORNAL DO PORTO» ACERCA DE VÁRIAS
COISAS

Publicada com o pseudónimo de Diana de Aveleda, naquele
jornal, em 28 de Maio de 1864.

Meu caro redactor: Permita-me que aproveite hoje meia hora de
ociosidade a conversar consigo. A nós outras, mulheres, assiste-nos
o inauferível direito de fazer, de quando em quando, destas exigências
e os senhores devem ser-nos reconhecidos por assim usarmos dele, pois é
um dos poucos ensejos, que se lhes oferecem na prática da vida, de
se mostrarem amáveis — coisa da qual os homens sérios
e preocupados tão impertinentemente se descuidam.

Não espere de mim, estimável redactor, que, sujeitando-me
às praxes geralmente seguidas, principie esta carta por apresentar
o programa que desenvolverei no decurso dela, pondo em relevo a ideia principal,
o pensamento subordinante e, numa palavra, observando escrupulosamente os
ditames de uma lógica inflexível.

Sei que seria mais metódica se o fizesse e contudo não o farei.

Por quem é, deixe-me ser mulher à vontade! Não sabe
que odeio a lógica? Era nome com que antipatizava havia muito, este
nome de lógica, como, regra geral, antipatizo com quase todos os esdrúxulos;
mas, principalmente depois que soube o que a coisa era, subiu a minha antipatia
a um ponto elevadíssimo.

Disseram-me um dia que assim se chamava a arte de cogitar ou de raciocinar.

Que pretensiosa arte! Folguei depois muito em saber que um tal Dalembert,
o qual, Deus lhe perdoe, julgo que também foi filósofo, dizia
que esta arte só aproveitava aos que podiam passar sem ela.

Sabe de alguma outra, da qual se possa dizer o mesmo? Só
se for a dos cabeleireiros, a qual aproveita principalmente aos calvos, que
pareciam ter motivos para, melhor que ninguém, prescindirem dos seus
serviços.

Portanto não me exija grandes exibições de lógica,
nem me censure por falta de método.

Programa para quê? Há lá nada mais desacreditado? Desde
os programas dos ministérios até aos dos pedicuros, ainda não
apareceu um que fosse cumprido, por mais compridos que sejam todos, Não
me leve a mal o calembur, que prometo não abusar da indulgência
com que mo desculpar.

Não farei programa. Está decidido. Vou escrever sem saber
ainda de que tratarei. É a mais agradável maneira de conversar
que eu conheço.

Semelha-se a bordejar sem destino no rio por uma tarde de Primavera.

Primavera? Como me veio esta ideia? Bonita maneira de gozar a Primavera
através das persianas do meu quarto! A primavera das cidades! Que insípida
paródia à primavera dos campos ! Faz-me lembrar estas paisagens
de teatro, onde a luz do gás substitui a aurora e as árvores
de lona, na sua imobilidade, exigem do espectador a força de concepção
necessária para as supor rumorejando : Ai o campo! o campo! Há
um ano fui eu lá passar alguns meses. Aconselharam-mo os facultativos,
• a pretexto de combater as tendências de uma diátese hereditária;
— o termo é deles. Ora eu, confesso-o, tenho a fragilidade de
os respeitar, temer e servir.

Era também em plena Primavera! O campo estava esplendidamente verde,
o céu magnificamente azul.

Que madrugadas! Que crepúsculos! Como eu me sentia bem no meio de
tantas maravilhas! Como se me inoculava a vida da natureza inteira! Aqueles
ares embalsamados, infiltrando-se por entre a espessura dos arvoredos; aquela
relva, humedecida como orvalho matutino, aqueles arbustos que, quando eu passava,
me faziam a delicada surpresa de me cobrirem de pétalas esfolhadas,
como se eu fosse uma prima-dona em noite de seu beneficio; aquele inimitável
concerto de pássaros, insectos, brisas, ribeiros, açudes e campanários;
aquela turbamulta de borboletas e abelhas com suas valsas extravagantes por
sobre moitas enfloradas; aquelas criancinhas loiras e meias nuas que me surgiam
de toda a parte, como espontâneas produções do campo,
a rirem por entre os silvados em que colhiam amoras, do meio das searas onde
pareciam flutuar em um oceano de verdura, a espreitarem- me da copa frondosa
dos carvalhos e castanheiros, como estas cabeças de querubins que marchetam
o pedestal de nuvens de Nossa Senhora da Conceição; a saudarem-me,
batendo as palmas quando me viam passar pela margem dos pequenos rios, onde
se banhavam nuas, tudo isto, meu caro redactor, me deliciava; tudo isto operou
em mim uma metamorfose completa. Hábitos, gostos, pensamentos, tudo
senti eu que se me ia pouco a pouco modificando… não sei se para
bem se para mal.

Era outra, muito outra do que fora. Desconhecia-me’ Não encontrava
prazer em tantas coisas que apreciava na cidade e descobria, em outras, belezas
que até então ignorava! Não me viessem falar, por exemplo,
em monumentos de arquitectura ou modelos de estatuária. Artes são
estas que nasceram nas cidades, que para as cidades vivem, sérias e
graves de mais para se darem naqueles ares campestres, onde tudo é
ligeiro, folgazão e jovial.

Produziriam lá o mesmo desgraçado efeito, que uma daquelas
elegantes dos arredores, que eu via a cada passo, exibindo por montes e vales
o seu vestido de moire e xale de tonquin, ridículas futilidades, no
meio das futilidades sublimes da natureza: flores, perfumes e harmonias.

O que sobretudo me agradava então era o desenho ligeiro, esboçado
apenas, ao correr do crayon; o ornato fantasiado e caprichoso, como os arrendilhados
irregulares que descrevem na relva as sombras da folhagem; as aguarelas em
que o pincel copiara a traços rápidos as paisagens mais campestres;
agradava-me a simples obra de talha que adornava as colunatas dos altares
na igreja paroquial, e a cruz rústica a marcar no cemitério
o lugar onde a genuflexão e a prece de um amigo pode ser mais grata
à memória do morto.

Pois em música? Pode acreditar que não trocaria então
por uma composição de Bellini, cantada pelo melhor tenor do
mundo, as cantilenas singelíssimas que as raparigas entoavam por lá
em coro ao voltarem às trindades do trabalho ou nos serões nocturnos?
Mais ainda, e agora hesito deveras ao fazer a confissão, achava até…

desculpem-me os legisladores municipais, achava no chiar dos carros ao longe
uma harmonia inexprimível. Às vezes chegava a impressionar-
me mais… ó génio da arte, perdoa-me, que me parece vou ser
herética!… do que me lembro ter-me impressionado a rabeca de Sivori,
quando me entusiasmou no Porto.

De igual influência se ressentiam as minhas predilecções
literárias.

Quer saber? Não me foi possível apreciar a leitura de Notre-
-Dame, por exemplo: o Chatterton do A. de Vigny, também o não
compreendia; Ponsard, achava-o de gelo; o monge de Cister não me satisfez
como dantes; Byron parecia-me falso; Balzac raras vezes correspondia aos meus
desejos. Falava-se tão pouco de árvores e campinas em quase
todos aqueles livros; tantas vezes me apareciam edifícios, praças
e salões em vez de choupanas, florestas e lares, que eu não
me dava bem com eles. Achava-os deslocados. Que querem? Pus-me então
a reflectir.

Isto que era em mim apenas uma feição passageira
do gosto, feição acidental, como o novo sistema de vida que
levava, para quantos não seria permanente? Quantos, desejando ler,
teriam procurado sempre em vão, como eu somente procurava agora, um
livro que pudessem compreender, ao alcance da sua inteligência, à
altura do seu sentimento, que não saísse da esfera dos seus
hábitos ? Quantos poderiam repetir aquela sublime exclamação
de Reine Garde, a simpática costureira para quem Lamartine escreveu
o seu romance Genoveva: Quem nos dará a esmola de um livro?! Que expressiva
frase! Sempre que a recordo me sinto comovida até às lágrimas.
Quem me dera poder satisfazer aquela sede de espírito! Aflige-me então
a minha incapacidade, como quando, em criança, um velho mendigo se
chegava a mim pedindo-me esmola, que eu não tinha para lhe dar.

Ora se o povo francês, pela boca de Reine Garde ou pela boca de Lamartine
pedia assim a esmola de um livro, que fará o nosso povo, coitado, para
o qual escasseiam muito mais ainda os alimentos intelectuais.

Como os nossos escritores se lembram pouco dele! Bem o sentia eu quando
esgotava a pequena biblioteca que da cidade levara comigo, escolhida segundo
as minhas predilecções anteriores, e desesperava de encontrar
um livro que me servisse.

Apareceu um finalmente, um livro, cujo autor abençoarei com todas
as veras do meu coração. Infeliz! Morreu já.

A meu ver desapareceu com ele um dos mais prometedores talentos de romancista
popular, que têm surgido entre nós. O autor era Rodrigo Paganino,
o livro Os Contos do Tio Joaquim.

A Imprensa havia recomendado pouco este livro.

Tem desses descuidos a Imprensa. Lio-o por isso sem a menor prevenção
favorável. Mas era justamente um livro assim que Reine Garde pedia;
é deste género de literatura que o povo precisa; é por
esta forma que se resolve a importante questão das subsistências
intelectuais, não menos valiosa do que a que ocupa as atenções
dos economistas.

Pouco tempo antes, discutia-se primazias entre os Lusíadas e o poema
do Sr. Tomás Ribeiro; tratava-se de tirar a limpo qual dos dois seria
preferível como livro para leitura nas aulas de instrução
primária.

Todos se lembram dessas renhidas controvérsias. Eu por mim nunca
pude tomá-las a sério naquele ponto. Achei sempre muita graça
ao empenho em que via metidos os críticos. Quem se podia convencer
seriamente de que qualquer daqueles excelentes livros fosse próprio
para as inteligências infantis dos pequenos leitores? Um com o seu sabor
clássico e épico e suas comparações mitológicas,
o outro com o seu pronunciadíssimo carácter de lirismo e suas
imagens românticas e arrojadas, e ambos a suscitarem fundamentadas apreensões
aos mestres, por um ou outro episódio, que, baldados os esforços
dos críticos, ninguém poderá considerar como demasiado
edificantes.

Ora quando eu li o livro de Faganino pareceu-me encontrar nele justamente
tudo o que debalde os críticos procuravam nos outros.

Aquele, sim, era um livro verdadeiramente escrito para o povo e para as
crianças! livro em que a atenção se prende pela verdade,
em que o gosto se educa pelo estilo, em que o sentimento se cultiva por uma
moral sem liga, porque é a moral do decálogo e do evangelho:
livro escrito segundo o programa estabelecido por Lamartine naquele belo prefácio
da Genoveva e talvez mais fielmente observado ainda por o nosso romancista
do que por o próprio legislador.

Lembro-me bem que o li a um rancho de raparigas do campo e pude observar
como elas o compreendiam sem custo. Não havia uma palavra que ignorassem,
uma maneira de dizer que lhes causasse estranheza, as imagens faziam-nas sorrir
pela exactidão, como sorrimos ao ver o retrato fiel de uma pessoa conhecida;
não eram caracteres extravagantes, paixões excepcionais, situações
inesperadas e únicas o que assim lhes absorvia a atenção;
pelo contrário, era por aquelas personagens pensarem, sentirem e viverem
como elas, que tanto lhes interessava o livro.

Foi uma grande perda a de Rodrigo Paganino! E, vejam: aquele volume, escrito
para se ler no campo, como eu o li, junto à fogueira que crepita no
lar, sobre a ponte rústica que atravessa o ribeiro ou no degrau da
ermida que, elevando-se no topo do monte, domina a aldeia toda, passou quase
desapercebido no mundo das letras. Não suscitou esse murmúrio
literário, que acompanha certas obras felizes, murmúrio em que
se reúne o louvor à maledicência, a hipérbole laudatória
à calúnia escandalosa, os guindados elogios às censuras
exageradas.

Foi um livro anunciado apenas, lido por poucos, comprado por menos, livro
cujo autor não tem o seu retrato gravado na Revista Contemporânea
e que portanto quem quer tem o direito de desconhecer.

E, apesar de tudo isso, aquele livro, como disse não sei quem a respeito
de não sei que obra, era alguma coisa mais do que um bom livro, era
uma boa acção! Aceitem-se-me estas palavras — não
a título de critica literária — Deus me defenda de pretensões
a esse género — mas como um tributo rendido à memória
de um escritor infeliz, a quem sou devedora de algumas horas de incomparável
prazer, que a sua leitura me proporcionou.

Já que estou em maré de comunicar-lhe as minhas
impressões daquela época, permita-me que lhe refira uma outra
observação, que então principiei a fazer e que desse
tempo para cá tenho tido o desgosto de ver confirmada muita vez.

Depois da leitura dos romances, havia eu passado para a leitura
das poesias, e pela primeira vez notei, dolorosa descoberta! que uma terrível
doença lavrava em grande número dos jovens poetas, de cujas
produções me havia rodeado.

Quando menos o esperava, saiam-me filósofos! Filósofos a fazerem
versos! Cada poesia era a exposição de uma teoria de metafísica
ultragermânica, uma argumentação de sofista, e até,
quando Deus queria, o desenvolvimento de qualquer princípio de ciência
politica; e nós, as mulheres, que nos afizéramos a contar com
os poetas do nosso lado, a acharmo-nos abandonadas por eles! É uma
das faces mais peculiares do nosso tempo.

Singularíssima face! Os homens de ciência amenizam-se; perdem
a clássica e quase selvagem esquivança que os caracterizava;
as teorias outrora inacessíveis, procuram revesti-las hoje de formas
elegantes que deleitam, que atraem, que seduzem; e os poetas, pelo contrário,
fazem-se bisonhos, científicos, dissertam, discutem, demonstram, concluem
em verso e ninguém os entende.

Quantas vezes eu, mulher, eu, que aborreço as torturas da inteligência,
me ponho a ler o Michelet, o Babinet, o sr. visconde de Vila Maior, o Sr.
Lapa e outros cultores da ciência inteligível e amável,
de preferência a muitos dos nossos poetas, que me dão muito mais
que entender j Como eu tinha vontade de dizer-lhes: «Não vos
desenganareis, meus caros poetas, que trilhais um caminho errado? Se renegais
as nossas bandeiras, se desertais das nossas coortes, correis à vossa
perdição.

«Gloriosa ala dos namorados, não vedes que as vitórias
alcançadas, as deveis principalmente a essa antiga e simpática
divisa do vosso estandarte? «Olhai: crede-me, os filósofos nunca,
por mais que teimeis, aceitarão as vossas teorias metrificadas; os
governos, também não espereis que tomem a sério os vossos
sistemas de organização social. Só nós é
que vos sabemos ter na importância que mereceis e contudo assim vos
descuidais de escrever para nós? «É uma ingratidão
indesculpável e da qual tereis ainda de dar estreitas contas um dia.»
Pois o amor, pois a natureza, pois a Pátria, pois a liberdade, pois
Deus, já não serão fontes perenes da mais verdadeira
inspiração? Estarão esgotados esses inesgotáveis
assuntos? Porque os pondes de parte? ou, quando os tratais, porque os transformais
em tema de dissertações, em vez de motivos para cantos? Discutis
o amor, discutis a liberdade, discutis Deus, mas não os cantais.

Quase nunca os cantais. Já vos envergonhais de ser simplesmente poetas!
Mas, reparai:

Quando foi que Soares de Passos, esse grande talento lírico,
que vós todos admirais, se elevou mais alto nos voos da sua poderosa
imaginação de poeta? Não foi, quando, erguendo os olhos
ao Céu, se sentiu inspirado pelo magnificente espectáculo do
firmamento, e nas páginas abertas desse «livro do infinito»
leu uma hossana ao Criador? Não foi, quando volvendo as vistas para
o passado as fixou no maior e mais sublime vulto da nossa história
pátria, em Camões, e, sondando o «estreito espaço»
daquele seio heróico, lhe compreendeu, com instintos de poeta, a «imensidade
do tormento» que lá ia? É um poeta a revelar-nos os mistérios
do coração de outro poeta, em tão soleníssimo
instante.

Escutai-o, que vos será utilíssima a lição.

Que viu ele a combater-se naquela grande alma «como o vento nas ondas
do oceano»? Que imagens a povoavam?

O amor da Pátria, a ingratidão doa homens Natércia,
a glória, as ilusões passadas E a Pátria Exalando moribunda
Seu último gemido.

Vós provavelmente não teríeis resistido
à tentação de nos pintar Camões lutando também
com alguns desses insolúveis problemas de esfinge, como o «ío
be or not to be» de Hamlet.

Ora confessai: não é verdade que não teríeis
resistido ? Mas o Camões de Soares de Passos não morre como
o seu Sócrates.

O sentimento predomina naquele, e o sentimento não discute.

O primeiro era um poeta, o segundo era um filósofo.

Ao filósofo competia morrer rodeado dos seus discípulos; a
morte era a última lição que lhes dava; ao poeta competia
morrer pronunciando aquele

«Pátria querida, morreremos juntos»!

Assim o compreendeu Soares de Passos e assim o tinha já
compreendido Garrett ao terminar também o seu poema com a sentida exclamação
do grande épico:

Pátria, ao menos, juntos morreremos.

Para Camões, Natércia e Portugal! Amor e Pátria
para todos os poetas! E que alma inspirada de poesia deixaria de ter um cântico
a sagrar-lhes ?

Não queirais que seja a vossa; é impossível
que ela não proteste contra a tirania dos vossos caprichos. Quereis
saber agora como a natureza também inspirou Soares de Passos? Vede-o
no Buçaco, sentindo- se estremecer ao escutar o solene rumorejar dos
cedros; vede-o, quando, servindo-me de suas próprias palavras:

Mais longe deste mundo Mais próximo dos Céus Ali,
meditabundo Se erguia aos pés de Deus.

Reparai também como ele lhe consagrava um cântico,
quando a viu despir melancólica no Outono as suas galas festivas e
misturar já com as primeiras lágrimas de orvalho os seus últimos
sorrisos; como ela o inspirava na Primavera, ao cingir alvoroçada as
suas vestes de verdura e adornando-se de flores. O passado brilhante e o incerto
porvir da pátria; a fé na redenção, a liberdade,
o amor nas suas mais puras e delicadas sensações, a solene comoção
do momento da partida, a saudade… eis as principais notas daqueles seus
cantos harmoniosos, notas que em todos os peitos, patentes à poesia,
despertarão sempre um eco, que todas as almas repercutirão.

No volume de Soares de Passos não há uma só poesia
que nós, as mulheres, não compreendamos: nos vossos, auspiciosos
talentos literários que surgis agora, quantas se contarão, se
continuais assim ? É um pedido de mulher, não é um conselho
de crítico, o que eu registo aqui.

Por amor de Deus, não nos abandoneis, poetas! Olhai que somos nós
as vossas mais fiéis aliadas, nós as que temos sempre protestado
contra o ostracismo a que muitos homens sisudos vos têm votado por vezes.

Vítor Hugo, entre as suas poesias transcendentes e metafísicas,
tem composições para nós. Nos volumes das Contemplações,
porventura os mais filosóficos de todos os seus, há pequenas
poesias que vós talvez julgásseis indignas da vossa empertigada
seriedade. Ficam-vos tão mal esses ares catedráticos, meus queridos
poetas ! Não que se soubésseis como vos ficam mall Disseram-me
que era a escola de Vítor Hugo, a que seguis.

Que Deus perdoe ao ilustre poeta, se ele concorreu para vos pôr assim.
Mas eu julgo-o inocente.

Que culpa teria Leotard, por exemplo, se algum imprudente, querendo imitá-lo
nos seus voos de trapézio, quebrasse as pernas às primeiras
tentativas? Dos imitadores de Píndaro, dizia Horácio, segundo
eu vejo numa tradução de Garrett — não vão
agora julgar que eu sei latim — «que se fiavam em asas que tinham
pegado com cera e que, novos ícaros, viriam a ter a sorte deste».

Se se chegasse um dia a dizer o mesmo de vós? Perdoai-me este mau
humor impertinente; mas se a poesia lírica era a minha leitura favorita
e vós ma preparais de maneira que eu tenho de renunciar a ela! Respeitai
a pronunciada individualidade poética de Vítor Hugo e desenvolvei
a vossa, que é melhor. Não vedes que estais fazendo torturas
ao vosso talento, o qual tem faculdades de sobra para ser original ? Tudo
isto que eu pensava o ano passado, penso ainda agora, porque vejo aumentar
de intensidade a febre filosófica de alguns dos nossos poetas.

As justas e torneios da Idade-Média acabaram. Nós resignamo-
-nos. Os gabinetes diplomáticos usurparam-nos o direito de decidir
das contendas.

A humanidade pouco lucrou com a mudança de júri. Nós,
se pudéssemos, não teríamos deixado esmagar a Polónia
e tomaríamos decerto o partido do fraco nessa desigual e antipática
luta travada na Dinamarca; ou, pelo menos, faríamos observar as leis
da cavalaria, que tão esquecidas andam nestes tempos. Mas enfim resignemo-
nos.

Restavam-nos os certames literários, competia-nos naturalmente cingir
os lauréis à fronte do vencedor, pagar-lhes os brios do combate
com um gesto, com uma flor, com um sorriso; mas se eles já não
combatem por nós? se abjuraram o nosso culto? se nos falam uma linguagem
que nós não compreendemos ?! se nos querem iniciar nos dogmas
da sua filosofia abstrusa, nebulosa, ininteligível ?! Assistiremos
impassíveis a mais esta nova usurpação? Eu não,
por certo, e peço-lhe licença, meu caro redactor, já
que as minhas ideias tomaram tal direcção, para dedicar o resto
desta carta às leitoras do seu jornal.

Sim, quero promover uma cruzada feminina, cujos destinos deverão
ser brilhantíssimos.

De nós, de nós todas, minhas amáveis leitoras, é
que deve partir a desejada e salutar reacção. Olhai que nos
querem privar da poesia que se canta, dando-nos a poesia que se estuda. Vede
que os poetas nos fogem, justamente na ocasião em que os homens da
ciência se estavam fazendo galanteadores e amáveis, pensai no
que disto pode resultar e empenhai toda a força dos vossos atractivos
para conjurar esse mal.

O que não poderá conseguir um olhar, um sorriso, um pedido,
uma simples insinuação, um arrufo, uma lágrima… sim,
até uma lágrima das vossas? Por amor de Deus, chorai, chorai
se tanto preciso for, mas salvai- me a poesia da doença que a corrói,
transformai-me estes poetas, de reformadores em amantes, e tereis conseguido
tudo, tereis operado uma das mais salutares revoluções que se
têm visto no mundo.

E permita-me que com esta peroração fique hoje por aqui, amigo
redactor, confessando-me.

Maio de 1864.

Sua toda dedicada Diana de Aveleda.

IMPRESSÕES DO CAMPO A CECÍLIA

Transcrita do «Jornal do Porto», de 1 de Agosto
de 1864.

…Levantava-me então pela manhã cedo e ia passear.

No campo farias o mesmo, acredita. Perderias também esses enraizados
hábitos de vida da cidade, que tão escrupulosamente respeitas
em ti. Se é tão fácil sair no campo! Não imaginas!
Passa-se, tão naturalmente, tão sem se sentir, da sala para
a rua, que nem a tua indolência se intimidaria com a ideia, como sucede
ai.

Era levantar-se a gente da mesa de costura, pôr o primeiro chapéu
que encontrasse à mão, e, sem consultar o espelho, ir por esses
campos fora, comendo cerejas, como uma criança e sem a afectada compostura
a que somos obrigadas aqui.

O meu passeio favorito era por uma extensa avenida de castanheiros que havia
.nas imediações. Que majestade a daquelas árvores! Quantas
vezes me lembrei das árvores anãs do teu jardim, disso a que
tu chamas pomposamente a tua floresta.

A tua floresta, Cecília! Floresta de tangerinas e lilases! Valha-te
Deus, minha pretensiosa! Se as devesas e soutos, que vi por lá, soubessem
do insulto! Quase sempre saía só, levando apenas um livro comigo.

Esta faculdade de sair só! Atreves-te a marcar-lhe o preço
? Só, só, repara bem! Só por meio dos campos, só
à sombra dos bosques, só pelas margens arrelvadas dos ribeiros!
Que vida! Que desafogo! Que liberdade de respirar e, o que é mais ainda,
de cismar! Às vezes sentava-me para ler no primeiro lugar pitoresco
que encontrava; um tronco de árvore derrubada, uma pedra musgosa, um
cômoro virente, tudo me oferecia uma convidativa estação.

Passados momentos, era sabido, achava-me rodeada de criancinhas, rotas e
quase nuas, que me contemplavam admiradas.

Pegava na mais pequena ao colo e beijava-a. As outras riam e olhavam-se,
como espantadas de me verem fazer aquilo.

Distribuía por cada uma delas uma pequena moeda de cobre e aí
se dispersava, saltando, aquela turba infantil, como um bando de pássaros
que se levantam de uma seara, inquietos pela voz do lavrador.

Não cabiam em si de contentes, as pobrezinhas, com a inesperada fortuna
e corriam apressadas a comunicar a nova ãs mães, que as acariciavam.

Pobres crianças! Contava muitos amigos neste pequenino povo, não
fazes ideia. Tinha entre eles uma popularidade! Basta que te diga que já
me saudavam pelo nome quando me viam passar e todas as manhãs me vinham
trazer raminhos de malmequeres, margaridas e violetas silvestres, ufanas com
o presente e orgulhosas pelo prazer com que eu o recebia.

Prazer sincero, podes acreditá-lo. Olha que nunca apreciei tanto
as mais bonitas camélias do teu jardim, desculpa-me a confissão,
como estas floritas selvagens e sem perfumes que tinha então sempre
no quarto.

Outro espectáculo que me atraía sempre a atenção,
era o das lavadeiras. Que alegria aquela! Ai, Cecília, Cecília,
como é ridículo o nosso sentimentalismo e vaporosa melancolia
das cidades! Pois que quer dizer isto, que não existia enquanto os
romancistas e poetas o não inventaram, mas de que logo a humanidade
se apropriou, como faz sempre a tudo quanto é afectado e piegas, como
se apropria dos enfeites com que a imaginação estragada de qualquer
modista parisiense se lembra de adornar as cabeças de suas freguesas
? Que quer dizer isto, que passa por uma coisa muito natural e a que eufònicamente
se chama: devaneios, tristezas vagas, aspirações ignotas, anseio
sem motivo, lágrimas inexplicáveis e não sei que mais,
que não está, que não pode estar na natureza humana,
a qual é espontaneamente alegre e expansiva e só disposta a
ser afectada por infortúnios reais e não por males, como esses,
fictícios e fantásticos? É falso. Tudo isso é
falso e forçado como um pé de chinesa.

Reconheci-o então e cheguei a envergonhar-me de ter, eu também,
por vezes julgado ser uma vítima desse mal da moda, que não
tem, que não pode ter a mínima razão de ser. Arrebiques
de caracteres românticos que destoam no meio da simplicidade do viver
campesino e… nada mais.

No caminho que eu frequentemente seguia nestes meus passeios matutinos há
uma pequena ponte de pedra de dois arcos, por baixo da qual corre mansamente
o rio da aldeia. Rio sem nome ! Por isso mesmo eu lhe queria. Não compreendes
isto? Um rio sem nome, um rio que não vem nas cartas geográficas,
virgem das explorações e estudos dos engenheiros hidráulicos,
conservando toda a poesia dos primeiros tempos!… É quase um tesouro
oculto e tem não sei quê de misterioso que, por isso mesmo, me
atraía.

As margens elevam-se, de um e outro lado, em suavíssimos declives,
orlam-nas renques de álamos aos quais as vides se abraçam estreitamente,
debruçando-se depois em viçosos íestões a tocarem
quase na água. Pequenas ilhas, todas floridas e ramosas, agrupam-se
na mais graciosa miniatura de arquipélago, que se pode conceber.

Nesta parte do rio e àquela hora da manhã era certo encontrarem-
se, a lavar e a cantar, as mais bonitas raparigas do sítio e tão
desafogada e jovialmente o faziam que comunicavam alegria aos mais hipocondríacos.

Que pureza e frescura de timbre em algumas daquelas vozes! Eu só
queria que as ouvisses. Tu, que em gosto musical não fazes envergonhar
a tua canonizada homónima, minha Cecília, confessarias que é
raro encontrar mais simpática voz de contralto do que a da Margarida,
a filha da minha lavadeira.

Vejo-te sorrir ao ler isto. Não me acreditas, bem sei.

Os preconceitos artísticos… Mas não tens razão.

Outra vez te falarei ainda de Margarida. Tenho uma pequena história
a contar-te a respeito dela. É uma curta história de amores.

Agora não.

Como eu dizia, demorava-me muito naquele sítio. Aprazia-me em escutar
aquelas singelas canções — tão graciosas algumas
— e sem autor, que se saiba; poetas e maestros desconhecidos e às
vezes bem dignos de celebridade, vamos.

O amor é o tema favorito destas composições. Recordo-me
ainda de uma quadra que muitas vezes ouvi e à qual achava uma certa
elegância e singeleza de dizer inexprimíveis.

A ver se concordas comigo. Era assim:

Os teus olhos, negros, negros São gentios da Guiné.

Da Guiné por serem negros.

Gentios por não ter fé.

Cito-te de preferência este por estarem no referido caso
os teus olhos, que, em sua negrura, revelam uma incredulidade verdadeiramente
gentílica, incredulidade de que só aqueles ares de campo te
podem vir a curar.

Sim, minha Cecília, sim; devias ir ao campo para dar largas a essa
bondade de coração que possuis, mas que o espartilho comprime.

É certo. Em quanto a mim o espartilho não influi só
na arcadura das costelas, como pensa o meu facultativo, mas no carácter
moral das mulheres também e muito. Pois um coração comprimido,
encaniçado, entalado entre varas de aço e baleia pode lá
bater livre, ter estas expansões de bondade, estas explosões
de sentimento, que alegram, que fazem bem, que aliviam? Eu pelo menos sinto-me
em geral de tanto mais endurecida disposição de ânimo,
quanto mais apertada ando. Nos bailes, por exemplo, reconheço em mim
uma malignidade de Mefistófeles e a causa é essa; não
sei de outra.

Depois os teus instintos de artista, adormecidos no teu bonito e confortável
quarto da cidade, inebriados na atmosfera do «patchouly» e água-de-colónia
que o perfuma, despertariam por lá. Verias. Isso com certeza.

Aí, que tens tu a inspirar-te? a ramagem do papel das paredes, as
rosáceas do tapete, os acantos do estuque, as florestas e lagos das
gravuras encaixilhadas, os gorjeios de uma avezita aprisionada, as flores
agrupadas com artifício e esmero em jarras de porcelana, montes de
cadernos de música, o piano aberto… que inspirações,
meu Deus! que inspirações, comparadas com a grandeza das que
se recebem no campo! Os nossos artistas — poetas, pintores e músicos
— são em geral como tu. Encontro-os nas praças do Porto,
estacionados nas lojas mais concorridas, nos teatros, frequentam os cafés,
dizem-me… mas no campo, na presença desses magníficos espectáculos
da natureza que os inspirariam, a escutarem as lições desta
grande mestra da arte…

só por uma casualidade, de que eles próprios se admiram.

As vezes penso, por exemplo, vendo elevar-se com tão violento impulso
de inspiração entre os nossos actuais poetas um dos mais jovens,
mais verdadeiros e o mais injustamente deslembrado no areópago dos
promulgadores de diplomas de celebridades contemporâneas, numa palavra,
Guilherme Braga, pois que para ti basta dizer-lhe o nome para dizer tudo;
penso a que altura prodigiosa o veríamos nós subir, se fosse
de quando em quando, vigorizar ao ar livre do campo aquele seu talento; tão
robusto que nem os hábitos indolentes da vida urbana conseguem amortecer.

Dos nossos pintores ainda encontrei às vezes por aqueles lugares
o Resende, sobraçando a sua pasta de esboços ou parado diante
de uma paisagem surpreendente.

Basta vê-lo em verdadeiro êxtase diante de um efeito qualquer
de luz, para se lhe reconhecer as pronunciadas tendências artísticas
que possui.

A projecção da sombra de uma nuvem, numa parte do horizonte,
o colorido do ocidente no crepúsculo, o efeito da atmosfera nas tintas
sob que se apresentam desenhadas as montanhas distantes… é o bastante
para o arrebatar.

E é contagioso aquele entusiasmo. Tenho-o sentido.

Mas, perdoa-me a digressão, sabes que é modo meu e que já
agora não perco. Eu continuo.

Da ponte de que te falei seguia eu pela encosta de uma pequena
colina, debaixo de um continuado toldo de verdura, parando, de momento a momento,
para colher uma flor ou um desses bonitos insectos de asas cintilantes e matizadas
que brilham como pedras preciosas. Outras vezes era a ouvir o rouxinol. O
rouxinol, percebes? o verdadeiro rouxinol, a filomela clássica, o rouxinol,
que eu quase cheguei a pensar ser um mito, o rouxinol de que tanto se fala
na cidade e que a máxima parte da gente que fala dele nunca ouviu.

Ia até jurar que neste caso está a maioria dos nossos poetas.
Ó imperdoável descuido! Numa planura em que terminava a colina,
estava o cemitério da paróquia, um cemitério de aldeia;
não to descrevo. Imagina-lo sem isso, não é verdade?
Continuava-se com o cemitério um prado extenso, todo orlado de álamos
gigantes e revestido de relva. Era no meio dele que se elevava a velha igreja
paroquial, cujo estado de ruína, devido à sua remota antiguidade,
a fizera, de há muito, abandonar de pároco e paroquianos.

Em mais completa ruína se achava ainda a casa do último abade,
que, apesar disso, ali vivera sempre e atrás de cujo féretro
se haviam fechado as portas da residência para nunca mais se abrirem.

O novo abade vivia próximo à capela, para onde provisoriamente
se transferiu a sede paroquial; ficava um quarto de légua afastada
da primeira e mais no centro do povoado, que, como acontece tantas vezes,
pouco a pouco se deslocara, abandonando a sua antiga igreja em torno à
qual primitivamente se havia agrupado e procurando aproximar- se da estrada
principal que passava perto; de maneira que hoje só se encontram nas
proximidades do velho templo meia dúzia de pardieiros desertos e tão
arruinados como ele, os quais dão ao sítio um aspecto melancólico.

A mudança da paróquia, que se dizia provisória, prometia
tornar- se efectiva. O novo abade não manifestava desejos de viver
no ermo em que jazia a sua verdadeira residência e menos ainda os fregueses
de ir ouvir missa tão distante, quando mais perto de casa a podiam
ter.

Folgavam com a resolução as corujas e os mochos, agora senhores
absolutos daquelas ruínas; e uma multidão de répteis,
rastejando em liberdade por baixo das pequenas moitas de ortigas, parietárias
e leitugas que rebentavam luxuosamente de entre os montões de tijolo
e caliça do tecto desmoronado que se acumulavam no chão.

Subia eu esta colina e sentava-me no último degrau de pedra que havia
à porta da casa arruinada e ficava horas esquecidas a contemplar tudo
aquilo, que estava diante de mim e que mal te posso descrever.

Deste ponto dominava-se a aldeia toda. As suaves ondulações
daquele terreno, pitorescamente acidentado, eram todas forradas de folhagem
viçosa; as casas alvíssimas disseminadas por aquela verdura,
tinham um aspecto festivo, que consolava o coração. O pequeno
rio que atravessava a aldeia em tortuosos meandros, o meu rio anónimo,
cortado a cada passo por pontes rústicas e açudes, fazia mais
aprazível a cena; nas relvas de um verde magnífico, verdadeira
relva inglesa, alvejavam as roupas estendidas por lavadeiras madrugadoras
; numerosas manadas de gado pastavam por lameiros extensos e a sons de frauta
pastoril, a frauta primitiva, nobilitada há pouco por um artista inspirado,
vinha ecoar nas concavidades da colina e desafiar as vozes das aves escondidas
na impenetrável espessura dos arbustos que a guarneciam.

O colorido da aurora animava, poetizava tudo isto, tornava tudo surpreendente,
inimitável. Nunca em paleta alguma de artista se combinaram tintas
assim.

Digo-te, minha Cecília, que raras vezes me tenho sentido tão
comovida como me sentia então.

Uma manhã levara comigo o Jocelin, aquele teu livro predilecto, mas
do qual mais gostarias ainda, se o lesses ali. Olha que há nele coisas
que eu só então compreendi e que tinham escapado à apreciação
que dele fazíamos nas nossas leituras em comum. Lembras-te? Garrett
tem razão quando diz que certos livros devem ler-se em certos lugares
e de certo modo.

Eu por mim, se for ao Buçaco, hei-de levar comigo La chute d’un ange.
Quero ler debaixo daqueles cedros seculares a magnífica descrição
do Líbano primitivo, visto que já desesperei de o fazer no próprio
Líbano.

Mas… por Buçaco, sabes tu que estou com medo de lá ir? Este
caminho de ferro povoou-me aquelas solidões majestosas e despoetizou-
mas; estou vendo. Temo de encontrar por lá uma família burguesa
jantando à sombra dos cedros como jantaria à sombra de qualquer
parreiral, com a mesma insensibilidade, com a mesma irreverência, e,
o que é pior, dormindo a sesta depois. Tremo de encontrar meninas a
jogar as escondidas e a cabra-cega naquela famosa mata, rapazes jogando a
bola ou homesns sérios a lerem jornais e a tomarem café para
auxiliarem a digestão. Se tal me acontecesse… ficava doente oito
dias. Por isso tremo de lá ir. Continuemos.

Tinha eu comigo o Jocelyn, que abri ao acaso. Li algumas páginas
das mais apaixonadas daquele belo livro e fiquei-me a cismar, sabes em quê?
Nos destinos do padre, não do padre vulgar e prosaico que vemos todos
os dias; mas do padre ideal, irrealizável talvez como a gente concebe
e como quase acredito que já não existe. Um padre como Jocelyn;
com travadas lutas, com íntimas tempestades no coração
e com a impassível serenidade e brandura no semblante; como esse pároco
obscuro, que Genoveva servia e de cuja juventude o leitor do inspirado poema
de Lamartine sabia bastante já para mais admirar a heroicidade daquela
vida tranquila, para cismar no que havia de ir no coração do
malfadado quando lhe pairava nos lábios um sorriso de placidez que
enganava, de benevolência que atraía; esse homem sem pre votado
à consolação dos outros, ele, o desconfortado, que abafou
no crepe as revelações dos seus tormentos.

Pensava nisto, Cecilia, nestes martírios obscuros e ignorados; nestes
heróis que se não celebram, nestes poemas que se não
escrevem, nestas lágrimas que se escondem, nestes suspiros que se abafam…

pensava nisto e comovia-me.

Quem pudesse devassar os dramas íntimos de algumas isoladas residências
rurais! E isto a ocorrer-me e logo a lembrança de que justamente naquele
momento estava eu sentada talvez nas ruínas de um desses teatros, onde
dolorosos dramas íntimos se tinham passado já.

A vida solitária do último pároco, aquele seu apego
à velha igreja e residência, que ambas ameaçavam a cada
instante sepultá-lo nas suas ruínas, a pouca memória
que deixara de si… tudo parecia conspirar- se para fazer-me crer ter sido
este um daqueles heróis em que eu pensava, um daqueles mártires
sem panegiristas, vítimas sacrificadas sem deixarem vestígios
que lhes prolonguem, mais que a vida, a memória entre os que ficam,
quando a não perpetuem.

Sob o domínio desta ideia, levantei-me e possuiua de certa inquietação,
olhei para aquelas paredes arruinadas, como se a ver ae elas encontrariam
uma voz com que me dissessem: «É verdade! padeceu»; como
se pudesse descobrir ainda vestígios de lágrimas vertidas em
segredo ; como se a tristeza de um olhar se pudesse imprimir, pela continuação,
nos objectos em que se fixa.

E queres que te diga? Pareceu-me então que alguma coisa havia efectivamente
naquelas pedras soltas, que não podia ter outra origem.

Puerilidade minha, não é verdade? Mas olha, Cecília,
eu às vezes penso: Quem sabe que mistérios terá ainda
a devassar a ciência? Sabes tu? Tenho sempre escrúpulos de me
rir dos visionários e utopistas; receio que os vindouros se riam do
meu riso. Isto de ver as coisas só à luz da ocasião tem
seus inconvenientes também.

O que é certo é que me pus a examinar as paredes com atenção
e quase com supersticioso temor.

Ainda não durava um quarto de hora este exame, quando fiz uma descoberta.

Próximo a um dos ângulos da parede reconheci, em letras a lápis
quase desvanecido o que quer que era escrito. Corri para elas com uma sofreguidão
que não descrevo.

Não foi sem dificuldade que consegui ler e às vezes adivinhar
o que elas diziam.

Eram versos.

Pareciam uma resposta às minhas mudas interrogações.
Se o espírito das ruínas me ouviria? Aí tos copio da
minha carteira, onde então os escrevi com a mão trémula
e em sobressalto:

O BOM REITOR

Sabem a história triste
Do bom reitor ? Mísero ! toda a vida
Levou com dor.

Fez quanto bem podia… Mas… afinal
Morre, e na pobr e campa
Nem um sinal.

Nem uma cruz ao meno3
Se ergue do chão !
Geme-lhe só no túmulo
A viração.

Vedes, além… na relva
Junto ao rosal
Flores que há desfolhado
O vendaval?

Cobrem-lhe a lousa humilde: A criação
Paga-lhe assim a dívida
De compaixão.

Pobres que amava tanto, Nunca ao passar
Choram, curvando a fronte
Para rezar,

Nunca, ao romper do dia
O lavrador
Pára e lamenta a sorte
Do bom reitor.

As criancinhas nuas
Que estremeceu
Já nem sequer se lembram
Do nome seu.

No salgueiral vizinho, Ao pô r d o Sol,
Vai-lhe carpir saudades
O rouxinol.

Lágrimas, pobr e campa! Ai, não as tem,
Só de manhã o orvalho
Rociá-la vem

Da solitária Lua
A triste luz
Grava-lhe em vagas sombras
Estranha cruz.

E ele repousa, dorme… Vive no Céu;
Dorme esquecido e humilde
Como viveu.

Há nesta vida amarga
Sortes assim,
Vive-se num martírio,
Morre-se enfim…

Sem que memória fique
Para dizer
Às gerações que passam
Nosso viver.

Quem me escutar se um dia
Ao prado for
Ore pelo descanso
Do bom reitor.

Não te copio a poesia se não por lhe andar ligada uma das
mais profundas e indeléveis impressões que trouxe do campo.

Que mão escreveu estes versos? Ignoro. Alguém que passou e
que, como eu, se sentiu arrebatar por a mesma série de pensamentos,
dominar pela mesma ordem de impressões.

Na aldeia não só não há quem faça versos,
mas até não sei de quem os leia.

O primeiro leitor desta pequena produção fui por certo eu.
Que te direi mais? Vais rir da minha simplicidade. Desci ao cemitério,
procurei, adivinhei o lugar onde o velho pároco repou• sava e…
cumpri o desejo do poeta, ajoelhei e orei. Depois colhi da roseira próxima
quantas flores ela tinha e esfolhei-as na campa.

Era talvez a primeira homenagem que recebia o bom velho. Ser-lhe-ia ao menos
grata? Gosto de acreditar que sim.

Adeus, minha boa Cecília, até cedo ; pois bem sabes que fiz
voto de te comunicar as minhas impressões do campo, a ver se te converto.

Porto, Julho de 1864.

Diana de Aveleda

*

Publicada em 21 de Agosto de 1864 no «Jor• nal
do Porto».

Ai está como tu és. Falei-te de tanta coisa na minha última
carta, empreguei todos os meus esforços em excitar o teu interesse
a favor de um pobre e obscuro pároco, ou antes da sua memória
tão mal con• servada entre os homens… e tu vais logo ocupar
a imaginação… com o quê ? Com uma palavra que eu soltei
ao acaso, uma promessa que fiz, talvez sem pensar em satisfazê-la; e
agora já me não deixas, impa- cientas-te, agitas-te, interrogas-me,
persegues-me para que eu te fale… nos amores de Margarida.

Mas sabes o que me custa, filha? é supores tu talvez que é
a his• tória de uns amores românticos, que eu tenho para
te contar. E com certeza que o supões, de outra sorte não insistirias
assim. Que sei eu ? Imaginas que enquanto examinava o rol da minha lavadeira
descobri na filha dela uma Virgínia, uma Graziela, uma dessas raras
pérolas de que os romancistas se apoderam sôfregos e que os leitores
com mais sofreguidão contemplam e admiram ? Pérolas na maior
parte artificiais, sempre to irei dizendo. Estás fantasiando cenas
de requintado senti• mentalismo, frases de delicada ingenuidade, frases
que estão mesmo a pedir que Manuela Rei as pronuncie, porque só
na boca dela real• çam com toda a sua graciosa singeleza; e vais
decerto ficar… ficar… sim, ficar desapontada quando souberes o que é.

Primeiro que tudo preciso dizer-te que Margarida nada tem de vaporoso, silfídico,
e franzino; não é destas mulheres nevoeiros que nos aparecem
nos romances e que nos conservam em continuado sobressalto, receando que o
menor raio de Sol as evapore, que o mais leve sopro de vento as desvaneça.

Margarida não é pálida, não tosse, não
tem ataques nervosos, dorme tranquilamente, tem digestões fáceis
e ri com todas as veras do coração, quando há motivo
para o riso.

Já vês que não tem nenhum dos requisitos das heroínas
de romances sentimentais. Margarida não permanece em contemplações
extáticas diante da luz poética da Lua. Quando a vê, sai-lhe
esponta• neamente dos lábios, quando muito, uma saudação
como esta:

Ó luar da meia-noite,
Tu és o meu inimigo,
Estou ã porta de quem amo,
Não posso falar contigo,

que dantes visitava apenas os velhos, fez-lhe a fineza de o acalentar no
berço? É muito para agradecer, porque ela sempre antipatizou
com crianças. Dé-me licença, Sr. F…, o meu par vem
buscar-me.

Bem vê que ainda danço. Observe-me, mas… por quem é,
seja benigno.

E o meu filósofo assesta a luneta, senta-se a um canto e observa.
Que pena que conserve inéditos os sumarentos frutos da sua observação
nocturna! Mas o que eu lhe dizia era verdade ; ainda danço; mas, aqui
para nós, não danço à minha vontade.

A dança não é, não deva ser isto assim.

Antigamente é que se compreendia o dançar. Basta dizer que
não havia quem de o fazer se envergonhasse.

Em quanto a mim, aquele século de Luís XIV não se chamou
o grande século só por as grandezas políticas, militares,
financeiras e literárias do reinado desse monarca. Concorreram, e muito,
para lhe granjearem o epíteto, as festas esplêndidas de Fouquet,
as noites deslumbrantes de Versalhes e aqueles bailados que Molière
era cons• trangido a entremear nas suas comédias para satisfazer
a mania coreo• gráfica da corte e nos quais tomava parte o próprio
rei, transfigurado em pastor; dessa graciosa raça de pastores que povoavam
os tablados daquele tempo. E julgas que Luís XIV era lá homem
que dançasse como qualquer dos nossos partners da actualidade executa
um fastidioso solo? Qual! dançava saltando, rodopiando e cabriolando,
que é a ver• dadeira maneira de dançar.

Dançar, dançava David à frente da arca da aliança
e vejam lá os nossos elegantes se se lhes mete na cabeça deixarem
aos vindouros memória de si, mais acatada e sisuda do que a do rei
salmista.

Sisudos e até sombrios foram D. Pedro ! e D. João II e digam-me
se eles não dançaram com toda a agilidade dos seus músculos.

D. Pedro, o terrível D. Pedro, o amante de D. Inês, tomava
parte em folias populares, e D. João II só deixou de dançar
quando a gordura o impediu de o fazer, diz o cronista, o que prova que não
se conten• tava com dançar, passeando.

E depois… que santos e singelíssimos costumes aqueles! As mais
honradas e respeitáveis damas não punham muito em saírem
à rua de pandeiro na mão e em festivais coreias por ocasião
de regozijos públicos.

Uma tal D. Briolanja Henriques, que eu quisera dar por modelo às
elegantes dos nossos dias, fê-lo nas ruas de Évora, diante de
D. João II, o qual tanto folgou com a lembrança, que a tomou
nas ancas do seu cavalo e assim a levou aos paços.

Ora a isto é que eu chamo compreender o dançar. No século
passado…

Ai, perdão, perdão ! esquecia-me que estás impaciente,
que estás febril, que estás frenética, por eu não
entrar no assunto.

Venham os amores de Margarida à barra. Vamos lá aos amores
de Margarida.

Desci ao largo para gozar mais de perto daquela alegria. Marga• rida
veio ter comigo. Estava ofegante.

— Bravo! disse-lhe eu, estiveste inimitável, sabes? Nunca admi•
rei tanto a tua agilidade na dança, nem a tua voz no canto! —
Está a mangar ? — Falo séria. Muito alegre te principiou
hoje o dia! — Que diz, senhora; alegre ! Não, ao que hoje tenho
chorado já…

— Mas… nesse caso, Margarida, se essas são as tuas tristezas,
não me darás uma amostra das tuas alegrias? — Então
? a gente precisa de se distrair. Isso lá! De que vale dar-se uma pessoa
à melancolia? Não remedeia nada e…

— E posso saber a causa das tuas tristezas ? — atalhei eu.

— Ai, porque não? julguei até que a sabia já.
É que ontem pren• deram o Luis… a senhora conhece-o…

— Bem sei, o teu conversado. Mas… prenderam-no porquê ? —
Prenderam-no para soldado.

— Para soldado?! — É verdade, minha senhora. Veja o pobre
rapaz que é tão sossegado, tão bom, tão metido
consigo. Aquilo é mesmo um cora• ção de pomba.
Que vai ele fazer com uma espingarda, ele que nem aos pardais atira? No dia
em que ele matar alguém na guerra, estala-lhe o coração
de pena, assim como me estalaria a mim se o matassem a ele.

— Sossega, Margarida, os nossos soldados não matam ninguém…
na guerra ; felizmente não lhes dão ocasião para isso.
Morrer, isso lá morrem… mas como toda a gente, como qualquer de nós
pode morrer. Tu estás muito nova; dentro em cinco anos Luís
obtém a baixa e estão muito em idade de se casarem.

— Dentro em cinco anos! Ora! daqui até lá, tinha ele
tempo de me esquecer. Longe da vista…

— Nem para tão longe vai que vos não possais ver e visitar.
Do Porto aqui é um passeio e assim não tens probabilidades de
ser esque• cida, falando-lhe a miúdo.

— Falar-lhe? Que diz, senhora? Sendo ele soldado! — Ah! então?
— Não, isso é que não, senhora. Que diriam por
aí se me vissem a falar com um soldado? — Mas sendo esse soldado
um rapaz da terra, sendo Luís…

— Nem assim. Isso parece muito mal.

— Mas então… estás resolvida a romper para sempre
com ele ? — Eu! Agora estou.

— Mas não dizes que os cinco anos de ausência.., —
Mas é que eu… Olhe, tenho a dizer-lhe e a pedir-lhe uma coisa…
Agora vou dançar, mas volto já.

E, dizendo assim, afastou-se de mim a saltar e, dentro em pouco, escutava-lhe
já a voz cantando:

Água leva o ribeirinho
Pra regar o laranjal;
As pena3 do amor que eu peno
Hão-de acabar afinal.

Aí está, pensava eu comigo, vão lá acusar aquele
coração de insensibilidade. É próprio da natureza
humana esta inconstância na dor ; cada vez mais o acredito. —
Percebo o gesto que fazes ao leres isto, Cecília. Eu bem sei. Entre
nós são menos vulgares estas súbitas transições,
mas… será porque o nosso coração seja menos volúvel?
Que te parece, Cecília, será ? Fala-me com franqueza. Eu, pela
minha parte, hesito em afirmá-lo. Não haverá antes em
nós um pouco de afectação também? A sociedade
para tudo faz regulamentos, é a sua mania; em tudo quer as aparências
salvas. Decreta que o órfão seja inconsolável durante
seis meses, e mânda-o vestir de rigoroso dó ; outros seis meses
quer que os empregue a consolar-se, sem o conseguir de todo, e traje luto
aliviado; passado o ano, deve considerar-se consolado, e permite-lhe esquecer
completamente os pais falecidos. Para irmãos reduz apenas a metade
estas manifestações de saudade. Se durante o prazo em que nos
manda ser tristes, se infringe a mais pequena cláu• sula do seu
regulamento funerário, estigmatiza a infracção com severi•
dade ; mas, se no fim desse tempo, nunca mais se venera a memória do
morto, pouco se lhe importa com isso, não se julga autorizada a censurar
porque se teve para com ela as atenções reclamadas.

Ora muitas das nossas inconsoláveis amantes, repara que ainda não
digo todas, bem vontade tinham de fazer como Margarida, mas a moda tem exigências!
e por isso conservam a tristeza por tempo conveniente… Margarida que não
sabia afectar o que não sentia, ia assim alternando com suas lamentações
as cantigas festivais que a dis• traiam. Fazia ela muito bem.

Quando de novo se interrompeu a dança, voltou a procurar-me.

— Então que me querias tu pedir ? — Olhe; lembrou-me
uma coisa. Disseram-me que quem der não sei quantas moedas se livra
de soldado. Ora o rapaz, coitado, não as tem. Sabe Deus como ele se
arranja com o pouco que ganha. Mas aquela senhora que era minha madrinha,
quando morreu, deixou-me um ourito, que eu tenho no fundo da caixa, porque
afinal a gente anda cá no tra• balho e quase nunca traz aquilo.
Lembrou-me que se o vendesse…

— Então quere s desfazer-te do teu ouro, Margarida? Mas repara
bem.

— Ora, senhora, então? É bom tê-lo para as ocasiões.
E esta é uma. Luís é trabalhador. Eu… vendendo o meu
ouro… perco, é ver• dade ; mas, quem sabe? Talvez ainda venha
a ganhar.

— Como ? — Por isto. Olhe, deixando ele de ser soldado e casando
comigo, eu por um lado e ele por outro, iremos mareando a nossa vida melhor;
e em pouco tempo poderei comprar ainda mais ouro do que tenho agora. Em quanto
que ficando ele soldado…

— E então que me querias tu pedir ? — Era para que falasse
a minha mãe nisso. Eu tenho medo que ela me não deixe.

Terminei este diálogo, como tu o terminarias, Cecília; apertei
Margarida nos braços e prometi-lhe colaborar naquela boa acção.
Margarida voltou a dançar. Dançar outra vez! Ainda! Que incons•
tância! Não é verdade ? Mas quantas das nossas belas apaixonadas,
que se privariam de dançar oito dias depois da ausência de um
namo• rado como Luis, não teriam coração para se
desfazerem… do seu leque que fosse, mesmo sabendo que esse pequeno sacrifício
lho restituiria? Não te ofendas por quem és, nem tu nem as tuas
amigas; repara que não disse todas.

Eu voltei para casa e pus-me a pensar nisto. Contei tudo a meu marido e
deixei-lhe percebe r desejos de poupar este sacrifício à rapa•
riga, adiantando ele o dinheiro para a soltura.

Sabes o que ele me respondeu ? — «Deixa-a. Esse sacrifício
de agora é uma garantia para a sua felicidade futura. Dá-lhe
direitos a exigi-la daquele por quem assim o realiza». Em vista deste
parecer, resolvi falar à mãe e, com algumas dificuldades, sempre
obtive o seu consentimento.

Meu marido encarregou-se de comprar, ele próprio, o ouro que pagou
por um preço muito superior ao seu valor e que conserva ainda em seu
poder, desconfio que para fazer presente dele a Margarida no dia do seu noivado.

Luís foi efectivamente livre. Comoveu-me vê-lo chorar de alegria
aos pés da sua desposada. Por nossa intervenção conseguiu
uma colo• cação mais lucrativa do que a que tinha, Arrendou
uma quinta e sus• peito que já capitaliza um poucochito. O rapaz
não deseja casar sem ter algum pequeno dote a oferecer àquela
que se sacrificou por ele. Ora aqui tens o que eu te queria contar dos amores
de Marga• rida. Bem vês que não há aqui nada de
romântico; é uma história que a gente conta sem percebe
r que a está contando e da mesma maneira a escuta, tão desprovida
ela é de situações que afectem a imaginação.

Não me queiras mal por te haver feito conceber esperanças,
que não pude realizar. Eu prometo nunca mais cair nessa imprudência.
Adeus, Cecília, adeus que se eu continuo a falar não acabo hoje;
até outra vez

Porto, Agosto de 1864.

Tua afeiçoada

Diana de Aveleda.

Publicada no «Jornal do Porto» em 11 de Janeiro
de 1865.

Fragmento de uma carta que não era para ser publicada.

III

Já que me falaste em música na tua última carta, não
quero ter• minar esta sem te dizer quais os meus pensamentos actuais
sobre o assunto.

Repara que digo — actuais. — É que eu sou já cautelosa.
Receio que a minha versatilidade, que sou a primeira a reconhecer, me ponha
em contradição comigo mesma dentro em pouco tempo.

Vamos por isso firmando desde já a cláusula que me seja depois
desculpa. Tratemos pois de música.

Poucas como tu estão no caso de falar nisto; poucas, menos do que
eu, no de te responder.

Sabes que estou muito longe de ser uma mulher da moda. Sou uma mulher do
antigo sistema e nada mais.

Meus pais entenderam que me seria mais útil uma educação
que me tornasse prestável, quando os anos da juventude me não
garan• tissem já um bill de indemnidade para a minha inaptidão,
do que rodear-me desses mil pequenos dotes que até aos vinte anos nos
ser• vem de alguma coisa, mas que, depois de certa idade, infalivelmente
nos abandonam, deixando-nos então mais desacompanhadas e indefe•
sas que nunca.

Meu pai teve, por exemplo, o mau gosto de me mandar ensinar a cozinhar;
minha mãe não abdicou nas directoras do colégio o cui•
dado da minha educação. Coitada! dizia ela que não me
poderia for• mar tão bem a inteligência, mas que o coração,
tinha fé que o formaria melhor.

Em quanto ao primeiro artigo da sua piedosa e sincera crença, acredito-o
porque esta inteligência não saiu lá de grandes forças.

Reconheço-me, em desenvolvimento intelectual, muito aquém
de todas as mulheres da geração nova, que falam francês
com uma acen• tuação de parisiense pur sang; copiam a
dois crayons cabeças de Julien e discutem Meyerbeer, Rossini com um
desplante admirável. Ultimamente parece que até se filiam nas
lojas maçónicas — pelo menos assim mo afirmaram.

Não sei se tu também estarás já iniciada nos
mistérios do grande Oriente.

Agora sim, acredito na regeneração da pátria. Çà
irà.

Mas em todo o caso, bem sei que eu não posso discutir música
contigo; nem é essa a minha tenção.

Com este génio que Deus me deu hei-de — isso sim — dizer
tudo o que penso, que a mais não pode ninguém ser obrigado.

Respondo-te como te responderia se me falasses nisso em um daqueles despretensiosos
colóquios que tantas vezes temos tido em que até os maiores
absurdos e atrevidos paradoxos são aventados sem a menor responsabilidade,
sem incorrermos na censura de nin• guém. Porque hei-de ter mais
escrúpulos escrevendo-te do que falando-te ? Acaso terá uma
carta mais fundadas pretensões à imortalidade do que um diálogo
? As palavras voam, os escritos ficam. Histórias! Se os escritos ficassem
todos, em pouco tempo o mundo seria uma papeleira. Só fica o que merece
ficar.

Há palavras que atravessaram séculos e escritos que nem duram
dias. Mas vamos ao assunto.

Tu entraste em plenos mistérios da arte, Cecília. Admirei-te
mas compreendi-te mal. Via-te cá de baixo, subir, não te pude
seguir.

O mau humor que dai me resultou, explica talvez a direcção,
que estranharás em minhas ideias.

E depois eu recebi a tua carta em uma época em que andava preocupada
por um pensamento, que alguns meses de vida campes• tre me haviam sugerido.
Foi talvez por isso que não pude apreciar as tuas teorias musicais,
como as apreciaria aí debaixo das mesmas impressões sob que
as meditaste e formulaste.

Ocupava-me muito da música popular, cuja singeleza e originali•
dade me tinham enamorado.

Sabes que eu em música tenho o mau gosto, que só a ti muito
baixinho confessarei, de preferir a execução fiel e correcta
de qual• quer trecho lírico que me agrade, às brilhantes
fioritures e variações de fantasia com que um artista de génio
consegue revelá-lo, sacrifi• cando— aos meus ouvidos profanos
— o motivo musical que lhe serve de pretexto.

É por uma razão análoga àquela que me faz preferir
o ondeado natural das tuas belas tranças negras ao impertinente e caprichoso
fri• sado com que as martirizas em uma noite de baile.

Espero que a comparação me faça perdoar a heresia de
arte, que acima julgo que pronunciei.

Podes ver que com estas decididas tendências para tudo que é
natural e singelo, estou muito arriscada a apaixonar-me pela música
popular, por essa caprichosa e ligeira música que voga nos ares com
todos os mais rumores de que a escola romântica há tempos os
traz povoados.

Ora, apaixonada assim, diz-me se me era possível escutar com a reverência
de discípula ignorante, a erudita dissertação, a que
o último concertista, de quem eu te pedi informações,
deu lugar.

Esses períodos da rua apreciável carta vieram despertar-me
de uma espécie de sonho — e digo sonho por não saber bem
como hei-de traduzir de outra maneira aquela eloquente rêverie dos Franceses
— em que me deixara arrebatar; é natural que respondesse com
a rabu- gice própria do despertar.

Vinhas fazer-me a apologia da música científica, académica,
clás• sica, entendida só por os raros iniciados nos mistérios
do contraponto, e eu, que estava a escutar uma cantilena aldeã repassada
de poesia, impacientei-me, reagi.

Contrariedade por contrariedade, minha querida. Agora hás-de ouvir-me
tu. Vê se a tua ciência musical te dá a solução
do seguinte problema que era o que me preocupava. É como respondo à
tua dis• sertação. Este problema — em que eu muitas
vezes cismo e para o qual peço a tua cooperação —
é o da origem da música popular.

Sabes-me dizer qual o maestro inspirado dessas toadas singelas que se cantam
ao bater das roupas nos ribeiros, ao esfolhar das espi• gas nas eiras,
ao espadelar do linho nos serões? E terão elas compositor? Chego
a duvidá-lo. Ouve a minha teoria: Às vezes lembra-me que o povo
é como os pássaros, que ame• nizam a espessura das selvas.
Qual deles foi o autor desses quebros e gorjeios que todos repetem ? Quais
os maestros? Quais os discí• pulos? Não há distinção.
Cantam assim porque lhes está na natureza aquele cantar, porque as
vozes do campo desafiam um eco e eles res- pondem-lhes, como a concavidade
da colina responde aos ventos que bafejam. — Ai está.

Assim me parece o povo.

Uma noite — penso eu — as brisas adormentadas mal fazem ciciar
os olmedos da campina; os ribeiros afagam serenamente, e murmu• rando
apenas, os musgos húmidos das levadas; cintilam as estrelas no azul-escuro
do céu; prorrompe das moitas e silvados um concerto magnífico
de insectos… e o povo sente vagamente a poesia da hora, a poesia da noite,
a poesia da natureza.

Sente-a o velho pensativo à soleira da porta, balanceando lenta•
mente nos joelhos um gracioso grupo de netos adormecidos, sente-a a mãe,
jovem e desvelada, ao acalentar o filho no berço e fitando os olhos
na mais brilhante dessas estrelas, como se ali se escrevera o destino daquela
criança que estremece; sente-a a aldeã namorada aspirando os
aromas que dos alegretes do jardim lhe sobem até ao peitoril da janela,
onde se esquece a devanear; sente-a a própria infância, deixando
os brinquedos ruidosos, falando baixo, escutando, cismando…—Este cismar
da infância! este cismar da infância! Que gérmen de futuros
pensamentos! Nessa noite pois, em uma noite assim, opera-se o mistério,
o génio popular estremece, visita-o o fogo sagrado, a brisa da noite
acorda a estátua de Mémnon; e então, no mesmo instante,
no instante solene, um canto vem naturalmente aos lábios desses numerosos
poe• tas, que todos sentiram e cismaram.

Do balcão enflorado, do limiar da porta, de junto dos berços,
dos largos, das encruzilhadas, prorrompe uma voz; o ancião, a donzela,
a mãe, as crianças cantam a um tempo e uma nova música
nasce então, suave, saudosa, melancólica, como as maviosíssimas
notas daquela noite que a inspirou.

Todos compuseram, todos imitaram. Mistérios das multidões!
Decifre-os quem puder. Eu não os discuto; creio neles, como outros
tantos artigos de fé.

Como explicar de outra sorte as nenhumas reclamações de pro•
priedade, tão naturais à vaidade humana, e que, até no
seio das mais doutas academias, consomem a máxima parte do tempo, que
devia ser votado a investigações mais úteis, do que as
de prioridade entre dois inventores litigantes ? Não sei.

Que melancolia a de alguns daqueles cantares; que festiva graça a
de outros ! Lembra-me que uma noite deixara eu aberta a janela do meu quarto
— vinha-me de fora um tão suave perfume de laranjeiras que não
tive coragem para fechá-la — o rouxinol, esse poeta dos bos•
ques, o chefe da escola romântica entre aquela sonora turba, porque
não sofre modular as suas canções por formas sempre as
mesmas, antes as varia, segundo as aspirações do seu génio,
o rouxinol estava admirável! As folhas brincavam com a luz do luar
e desenhavam no corti• nado do meu leito uma renda buliçosa de
extravagantes ramagens. Cedi à influência languescente e deliciosa
daquela noite de Estio. Adormeci. Por altas horas acordei ao som de uma cantiga
aldeã.

Entoava-a uma voz feminina, cujo timbre melodioso e juvenil me comoveu como
ainda nenhuma prima-dona. Perdão, perdão, reconsi• derei
a tempo. É certo, porém, que me comoveu aquela voz. Durante
o meu sono a luz desaparecera e agora cintilavam algumas estrelas pálidas,
procurando combater infrutuosamente a escuridão mais intensa que preced
e o amanhecer.

Não pude resistir, corri à janela.

A voz partia já de mais distante. Era a de uma jovem lavadeira, que
ia para as presas lavar.

Olhei o relógio; pouco passava das quatro horas! Pobre rapariga!
Ela aí ia sozinha votar-se ao trabalho! Aos dezoito anos, repara tu
e todas as tuas elegantes companheiras; à hora em que vós apagais
a luz, ainda com a imaginação alvoroçada pelas aventuras
da mais simpática personagem do romance que vos disputou ao sono, à
hora em que desprendeis o enfeite que vos adornou as tranças no baile
e vos despis, cismando na frase de leviano galanteio que vos segredou o último
valsista, ela, coitada! ergue-se para ir lavar, ergue-se para atravessar sozinha
os caminhos ermos, cujo aspecto bastaria para vos desafiar um ataque de nervos,
melin• drosas organizações. • Muito felizes sois!
muito malfadada é ela! E contudo.,. —vede . — De quando
em quando o vosso silêncio é interrompido por um suspiro, que
não podeis reprimir; caís em desalento no sofá vizinho
do leito e apodera-se de vós uma tristeza que vos faz chorar.

E ela ? ela canta, ela desperta, cantando os ecos escondidos pelas quebradas
e afugenta os espectros sinistros que povoavam os recan• tos obscuros.

Mas é que vós não podeis cantar como ela, por isso
também não tendes aquelas expansões que distraem e aliviam.

Cantar! Pobres meninas! Se vos ensinam a cantar em italiano! Se a moda,
essa tirânica divindade que do alto do seu trono de ren• das e
vidrilhos vos impõe um código absurdo, menospreza a nossa harmoniosa
língua! Se para saudardes a Lua precisais de lhe chamar — casta
diva — e repetir a letra de Felice Romani! se só com o auxílio
dos libretos e martirizando a língua do Dante podeis celebrar Deus,
as flores, as estrelas, o mar! Se vos ensinam a erguer-vos às onze
horas! Se vos mostram as belezas do amanhecer nas gravuras ingle• sas
ou, quando muito, no poliorama que adorna uma das mesas do vosso salão!
Se só vedes o mar quando apequenado pela afluência de banhistas!
Se vos mandam cantar ao espelho para estudardes o gesto conveniente a uma.
cantora que tem escola! Se quando cantais tendes na ideia tudo menos o canto!
Oh! vós não podeis, vós não sabeis cantar! Com
todo o vosso estudo ficais suplantadas por tantas espontâ• neas
cantoras que abundam nos campos.

Ainda não encontrei artista de profissão que afinal de contas
não fizesse caretas a cantar e ainda não vi rapariga aldeã
que não fosse mais bonita cantando. Porque é isto? O artifício
mata-vos.

E não é só a letra estrangeira que neutraliza para
vós todo o efeito calmante que um antigo ditado português de
tempos imemo• riais concede ao canto, é também a música
estrangeira.

Da Itália, da França, da Alemanha, da Inglaterra, da Espanha,
de toda a parte aceitais de bom grado a música; só desdenhosamente
sorris para a que não é de importação.

Ao lado do vosso piano, se se depara com alguma composição
firmada com um nome português, é como envergonhada e escondida
nas rimas de cadernos onde, em grande tipo, se lêem os nomes de compositores
de fora, nem sempre dignos de celebridade.

— Mas se nós não temos música popular —
disse-me ainda há pouco um dos nossos melhores talentos musicais. Não
o contestei; seria arrojo da leiga, heresia de profana. Houve quem, sem o
saber, lhe respondesse — e pela Imprensa — que a fizesse ele.
O artista lendo o conselho, encolheu os ombros e riu-se. Desta vez tinha razão.

— Como! fazer música popular! Pois a música popular
faz-se ? Se ela não existe, haveria génio tão superior
que a tirasse do nada? Mas, não existirá de facto? Ai é
qu e se resume a questão. Pois será este nosso povo um povo
que não canta? ou para cantar irá pedir trovas emprestadas às
outras nações? Responde por mim essa harmonia que sai dos campos,
que nos enche os ouvidos, que anima o trabalho das ceifas, das esfolhadas,
das malhas… Música rudimentar — dizem-me. Concordo. Mas é
que se não vai assim de repente à ópera.

Exigir de um compositor que escreva uma ópera com música nacional
é exigir muito, é marcar-lhe uma meta superior às forças
de qualquer artista.

Fossem lá dizer aos escritores de língua portuguesa, esses
que balbuciavam as primícias da poesia nacional, ao autor daquela canção
do Figueiredo das Donas por exemplo — se é que depois da opinião
de um nosso ilustre crítico ainda lhe podemos dar o foro de nacio•
nalidade— fossem lá dizer-lhe: Escrevei um poema épico
nacional! Tomai fôlego, fazei o que fez Homero, o que fez Virgílio.

Mas a ave não sobe às alturas logo ao primeiro voo. Camões
só podia nascer quando nasceu.

Não digais, pois, aos nossos compositores: Escrevei óperas
nacio• nais. — Isso é exigir-lhes o impossível —
mas dizei-lhe: Escrevei tro• vas, escrevei canções, escrevei
cantigas… porque deveras não sei por que se há-de pôr
de parte esta palavra e esta coisa tão genuina• mente portuguesa
— a cantiga — deveras que não sei.

Vós que falais em romanzas, em cavatinas, em rondós, em bar•
carolas, sentis um certo escrúpulo de mau gosto em falar de cantigas.
Pois eu, se estivesse no vosso lugar, legisladores do gosto, não o
sentiria; eu havia de dizer desafogadamente aos nossos talentos artísticos:
Fazei música para cantigas inspirando-vos do gosto popu• lar,
subireis depois às composições líricas ligeiras
e mais tarde, no futuro, os nossos netos aplaudirão a verdadeira ópera
nacional — antes disso tentá-lo é absurdo.

As artes têm todas a sua infância. E Deus nos livre de crianças
assenhoradas que é a mais antipática espécie de Preciosas
ridículas que eu conheço.

Mas atendei a que não é só dos compositores que depende
a reforma.

Alguns têm feito as primeiras tentativas, mas como lutar entre a tremenda
potestade que se chama a moda ? Ainda me recordo de um malicioso sorriso que
te vi nos lábios quando em certa reunião uma senhora teve a
coragem de cantar deli ciosamente a canção do Marujo, do drama
de César de Lacerda. Sor• risos como esse é que estragam
tudo, Cecília.

Momentos depois ouvias, já muito sisuda e atenta, uma pequena ária
francesa, destas que os editores de romances publicam nas capas dos seus feuilletons
e que se podem cantar sem ofensa do bom-tom — porque são francesas.

Eu tenho vontade de promover uma revolução proclamando neste
sentido: — Senhores folhetinistas, é necessário convencer
as nossas ele• gantes que não é de mau gosto cantar em
música portuguesa poesia portuguesa; ridiculizai muito embora a Jovem
Lília e as antigas modi• nhas, mas substituí-lhe canções
nacionais como elas. Não vos mostreis benignos somente para com os
ohimés, infelices, míseros, mios con• tentos e addios
das letras italianas.

A moda é um potentado. Para a combater é preciso uma aliança
poderosa, poderosíssima.

Não exijais de ninguém desacompanhado essa façanha
de Hér• cules. Não há forças isoladas que
bastem.

Vós não criareis música nacional nos salões
e gabinetes. Desen- ganai-vos. Ide ao campo e às ruas, percorrei as
províncias e depois ponde à moda a Euterpe rústica que
tiverdes encontrado por lá, per- fumando-a e apresentando-a com a etiqueta
do estilo, na sociedade elegante.

É uma subservivência necessária. A musa popular, para
se tornar nacional, tem de sujeitar-se a essas formalidades. Os promulgadores
dos diplomas não lho dispensam. Sujeite-se, que faz bem. Coloque-se
à moda, depois o resto virá naturalmente.

Aí tens o meu modo de pensar.

Em troca da tua dissertação científico-artística,
que me impacien• tou — por ininteligível — dou-te
uma opinião de leiga que te revol• tará — por absurda.

Estamos quites. Até outra ocasião.

Continuo a ser toda ao teu, dispor.

Janeiro de 1865.

Diana de Aveleda

UMA DAS MINHAS MADRUGADAS
CARTA A CECÍLIA

(Inédita)

Na antevéspera da nossa partida, o administrador, vindo visi- tar-nos,
perguntou-nos quais os nossos projectos para o dia seguinte.

— O arranjo das malas, respondeu-lhe a L… sorrindo.

— Por amor de Deus ;—disse aquele jovial companheiro dos nos•
sos serões da aldeia. — Por amor de Deus! V. Ex.a s fazem-me
recor• dar o tempo das liteiras e das jornadas com almocreves, os meus
bons tempos de Coimbra. O arranjo das malas ! isso, actualmente, é
obra de uma hora quando muito.

— Mas também que mais curiosidades nos pode oferecer a sua
terra meu caro senhor doutor? A seus olhos triplicemente investiga•
dores de arqueólogo, de naturalista e de poeta, que poderá ter
ainda escapado ? — O mosteiro.

— O mosteiro ?! Escuso dizer-te, Cecília, que ficámos
já sem a menor vontade de contrariar o nosso cicerone. Eu a acabar
de pronunciar aquela palavra mágica — mosteiro — e logo
um mundo todo de fantasia, como se evocado por um condão misterioso,
a surgir-me, a encan- tar-me, a pedir-me toda a atenção aos
meus sentidos distraídos… Um mosteiro ! E nós há um
mês ali, ignorando-lhe a existência.

— Sabe, doutor — disse-lhe eu — que é indesculpável
a levian• dade com que até hoje se tem conservado silencioso
em relação a esse mosteiro? Não’nos podia ter prevenido
da existência dele, para eu ao menos me preparar com a leitura ale Walter
Scott e ir bem pre • venida do espírito fantasioso que concebeu
a «Dama do Lago», aquela deliciosa criação?

— Seria uma triste desilusão para V. Ex.a s quando vissem as
mudanças que o tempo exerceu naquele antigo retiro de virgens.

— E de mais a mais mosteiro de monjas extintas! Ó doutor, cada
vez estou menos disposta a perdoar-lhe. O tempo! as mudanças do tempo?
Tem graça. Tanto melhor. Hera pelos muros, não é isso
que quer dizer? Estátuas derrubadas, fustes partidos, capitéis
despedaça• dos nos lajedos, baldaquins e cornijas servindo de
asilo às aves? Tudo isso aumenta prodigiosamente o interesse da cena.
Pois uma lenda bem conservada na memória do povo vizinho, cheia de
maravilhoso, cheia de fantástico. Diga, diga se há em toda esta
sua terra, a que tanto quer, coisa mais digna de se mostrar e menos capaz
de se esquecer ? — Infelizmente, minha senhora — continuava o
desapiedado dou• tor, parecendo deliciar-se em destruir todas estas
minhas fantasias com a indiferença revoltante do botânico que
desconjunta a mais bela flor do campo para — inútil crueldade
— para a classificar. — Infeliz• mente, minha senhora, o
mosteiro onde desejo conduzi-las oferece pouco alimento à curiosidade
justificadamente feminil de V. Ex.as. Não é a poesia do tempo
que se respira ali. Desta vez deu-lhe o mitológico velho para ser utilitário
e esqueceu os seus antigos brios de poeta. Verão V. Ex.as a cerca aproveitada
para hortas, transformadas as celas em tulhas e vivendas de rendeiros e a
igreja invadida pela cal e pelo desastrado pincel do único artista
da localidade.

— Nesse caso não vamos.

— Porque não? — disse a L… — deixa falar o doutor.
Eu te pro• meto que a poesia e a saudade do passado conseguirão
romper toda essa grande camada de prosa. Os perfumes de uma e de outra hão-de
subir ao ar com os vapores que de tarde se elevam de entre o milho desses
mesmos campos, penetrar nas celas com os últimos raios de sol, voejar
na igreja com as partículas coloridas da poeira que a clari•
dade de uma fresta venha iluminar.

— Bravo! — exclamou o doutor. — Com essa boa vontade,
minhas senhoras, não há poesia que se não encontre.

— Emprazamo-lo para amanhã, doutor.

— E têm coragem de madrugar ? — Boa! Ao romper do dia
estaremos prontas.

— Então, até ao romper do dia de amanhã.

Tu sabes como eu sou, Cecília, podes imaginar em que azáfama
andou toda aquela noite a minha fantasia. Eu que ainda não consegui
olhar com indiferença para o convento de Monchique, do Porto, não
obstante estar desde criança habituada com aquelas ruínas e
apesar da influência do Trem, da Alfândega e de tudo, como poderia
receber de ânimo frio a inesperada promessa de um mosteiro retirado,
quase destruído, talvez ignorado de todos ou pelo menos ignorado por
mim, Porque para mim é de facto nova a existência do convento
de… das… Então não queres tu ver que nem nome lhe posso
dar! Pois é verdade, satisfiz-me com a denominação genérica
de mos• teiro e nem me lembrou perguntar qual a invocação
sob que foi eri• gido aquele obscuro asilo de almas tímidas e
qual a ordem monástica que por tanto tempo o habitou.

Mas que importa? Não é também uma memória arqueológica
que eu te escrevo. É uma carta, como todas as minhas, como todas as
tuas em que se diz tudo quanto lembra e não se fica responsável
por nada do que esqueceu.

Mas, como eu te dizia, cismei e sonhei em monjas toda a noite. Lembrou-me
efectivamente Walter Scott e lembrou-me também Meyerbeer.

A dança fantástica que no quarto acto do Roberto fascinava
o filho de Bertrand e cuja música, por uma diabólica coincidência,
a L… lhe deu para tocar essa noite no piano, parecia atordoar-me também.

Acordei deste sono pouco restaurador quando me vieram dizer que principiava
a madrugada e que há muito havia luz no quarto do doutor.

Tu não sabes bem ao certo o que é uma madrugada, tu a quem
vai despertar no teu tranquilíssimo bairro o ruído das dez horas
da manhã; nem eu me proponho a fazer-te a análise dos encontrados
sentimentos que nos agitam em tais ocasiões. Dir-te-ei só, de
passa• gem, que parece que naqueles momentos a habitual corrente das
nossas ideias muda de direcção. Costumadas a pensar no meio
de um determinado grupo de condições, de luz, de movimento,
de vida, quase sempre as mesmas, quando em presença de condições
tão outras das ordinárias, como são as de uma madrugada,
como que os nossos pen• samentos tomam uma diversa feição
e novas soluções a problemas, que tínhamos por definitivamente
resolvidos, avultam e avultam sob um aspecto tão luminoso que todos
os mais ofusca.

Isto não é filosofia, sossega; é a simples expressão
do que eu senti quando acordada por L… me dispunha, não sem um pouco
de má vontade, a cumprir a promessa feita na véspera ao doutor.

AL.. . estava admirada do meu silêncio, pois desde que principiara
a vestir-me não lhe dera uma palavra só.

— Em que pensas tu? — disse-me por fim, impaciente — se
isso não é ainda sonhar.

— Não é, não. Queres saber ? Penso que talvez
não tiveram razão os que mandaram fechar as portas dos conventos
e proibiram as profissões.

AL.. . obrigou-me a repetir esta resposta.

— Que extravagante reflexão política é essa tua
agora? ! — É que eu, por mais que tenha estado a recordar-me
dos argu• mentos pelos quais havia conseguido, julgava eu, convencer-me
da utilidade de tal reforma, não os encontro.

— Vê se os deixaste no travesseiro — disse a L…, rindo.

— Olha que te falo séria! Nesse caso dir-te-ei que a razão
mais justificativa, a meu ver, é a de nos ter proporcionado esta visita
matinal, que espero será deli• ciosa. Porque, olha que se existissem
lá freiras que não fossem pena• das, tudo mudava.

Eu odeio, como sabes, os doces e os conceitos das freiras e deci•
didamente não acompanharia o doutor, se me esperassem lá essas
duas espécies de gulodices.

Não gostei da feição jocosa que a L… continuava a
dar à conversa, e por isso calei-me.

A ditadura de D. Pedro IV estava a ser julgada no tribunal da minha consciência.

Bem vês que o momento era solene.

Tal se manifestou em mim desta vez a influência da madrugada. Mais
poder do que as jovialidades de L… teve porém a voz do admi•
nistrador cantando junto de nossas janelas como o baixo no primeiro acto do
Trovador: Alerta! Alerta! Respondemos-lhe pondo os chapéus e apresentando-nos
na rua.

— Vamos a saber, doutor, inventou alguma bonita mentira para nos contar
quando estivermos no mosteiro? — Eu? ! — Sim; é impossível
que há tanto tempo nesta terra tenha resis• tido à tentação
de meditar a esse respeito algum romance.

— Um romance meditado no gabinete da administração!
Nem V. Ex." sabe o que pede .

— Nesse caso medite-o no caminho porque não posso dispensar
uma história quando visito ruínas.

— É um mau sistema. O mais interessante é fantasiá-la
cada um a seu modo na ocasião. É a maneira melhor de nos satisfazer.
Eu por mim tenho sempre achado muito aquém do merecimento da cena as
lendas dos sítios que visito.

E neste conversar fomos nós matando o tempo do nosso curto passeio.

Como sabes estávamos no Outono e as manhãs eram já
repas• sadas daquela suavíssima poesia da tua estação
predilecta.

O caminho que seguíamos, ora por vales cheios de sombras e de mistérios,
ora por planuras desafogadas, compensaria de sobra o sacrifício da
madrugada, quando a visita do mosteiro nos não reser• vasse outra
compensação.

Àquela hora do dia há mais vida nos campos do que nesses magní•
ficos sarcófagos que se chamam cidades.

Cantam nos montes os guardadores de gado, nos ribeiros as lava• deiras,
os lavradores nos campos e o moleiro ao ruído das levadas despedaçando-se
nas rodas das azenhas.

Depois e melhor que todos cantam as aves e tantas e tão variadas
na cor, no canto e no voo que eu não sei como há naturalistas
que as conheçam a todas, se é verdade o que se diz.

Eu sinto-me outra em passeios assim, inteiramente outra.

Pois há lá prazer como o de internar-se a gente por entre
campos orlados de moitas viçosas, sebes naturais do onde se debruçam
as rosas e as madressilvas seduzindo com seus perfumes o caminhante, que raro
deixa de ceder aos encantos destas formosas flores, colhen- do-as na passagem?
A luz do Sol coada pelas frondes dos álamos e castanheiros e das vides
que estreitamente abraçadas com eles suspendem no caminho seus festões
verdejantes, cheios de cachos prometedores, derrama uma meia claridade nestas
veredas pouco frequentadas e por isso mesmo gratas talvez às recordações
de muitos amantes campesinos. Numa manhã bem clara, passando por uma
rua assim, Cecília, parece-me que com os insectos que a minha chegada
vai perturbar e que, impacientes, ou amedrontados, se põem a voltear-me
em torno da cabeça, se ergue também um enxame de memórias
agradáveis que me ficaram pelos campos nos poucos mas deliciosos momentos
da minha vida que tenho passado lá, turba inquieta que me envolve,
que me embriaga, que me arrebata, no seu voo vertiginoso longe, ai bem longe
do presente, da realidade, do mundo.

Digo-te uma coisa; então reproduzem-se em mim aquelas intensas e
desanuviadas alegrias de criança que tão depressa os anos modifi•
cam, alegrias espontâneas sem pensamento reservado, sem explica•
ção possível, que se não reprimem, que rompem
em risos, em cantos, em jogos, alegrias de causa toda interior que nenhum
travo perturba.

Depois de algum tempo de caminho o administrador, que dirigia o rancho,
retrocedeu a com uma fisionomia entre risonha e contra• riada disse:
— Uma dificuldade imprevista! — Qual é ? — perguntámos
nós a um tempo.

— Nada menos que uma cancela a transpor e uma cancela que se não
pode abrir.

Saudámo-la com uma exclamação de prazer que deixou
embara• çado o administrador, homem comodista, que desejaria
ver alisar-se- -lhe debaixo dos pés em suave macadame todos os caminhos
e arra- sarem-se-lhe os mais insignificantes estorvos, qualquer que fosse
o ponto do universo para onde a necessidade ou o capricho o pudes• sem
um dia levar.

— Então que é isso? Pois deveras não as amedronta
uma cancela? ! — Está a gracejar — disse a L… Pelo contrário
acolhemo-la como um interessante episódio no decurso de um poema.

— Ah!… pois estão nessas disposições? Então
eu lhes prometo dificuldades, verdadeiros episódios para o poema, inclusive
um ata• que de cães de quinta.

— Menos isso — exclamou a L… já quase séria
Devo porém confessar-te que efectivamente foi com o coração
folgado que eu vi surgir a dificuldade da cancela. Que queres tu? Outra puerilidade
minha.

Nisto conservo todos os instintos de criança. É sabido que
nada há mais fastidioso para estes pequenos entes, cujos instintos
naturais ainda não foram falsificados pelo prosaísmo da vida
ordinária e pela influência das ocupações que,
tantas vezes com bem pouco fundamento, se dizem mais graves que as deles,
como a seguir um caminho fácil, cómodo, feito de propósito,
trilhado por toda a gente. Eles odeiam as estradas principais, acham-nas monótonas,
sem acidentes, sérias de mais para eles, essas risonhas criaturas de
Deus.

E se não, observa aos domingos qualquer desses numerosos grupos de
famílias burguesas que transpõem as barreiras da nossa cidade
e se espalham nos arrabaldes para sobre a mesa de lousa e à sombra
das frondosas ramadas dos deliciosos retiros campestres, celebrarem o bom
repasto patriarcal a que classicamente se chama merenda. Enquanto os pais
e as mães seguem em linha recta pelo meio da estrada conversando, aqueles,
do tempo do cerco, do estado das novidades agrícolas e das questões
do abade com a confraria do Sacramento e da confraria com o abade e estas,
das criadas, das nove• nas e das teias de pano de linho que deitaram
esse ano; enquanto as meninas donzelas, de braço dado, e languidamente
apoiadas uma na outra, entregues a confidências de tal ordem que nem
se atrevem a fitar-se, quando muito descrevem ziguezagues caminhando obliqua•
mente entre os dois lados da estrada; o rancho infantil, turbulento, ruidoso,
indomável, borboleteia em torno de uns e de outros, amea- çando-lhes
perturbar estonteados cometas, a regularidade da trajec• tória
que seguiam. Trepa aos muros, salta aos valados, interna-se nos campos, explora
os caminhos vicinais, desaparece atrás de um cômoro, surge às
gargalhadas do alto de outro mais distante, pendura-se das árvores,
rebola-se na relva, atola-se nos lameiros, rasga-se pelo tojo e silvas, indiferente
aos gritos, exclamações, ameaças e até às
cor• recções maternas e paternas.

E se, por acaso, a pacifica caravana depara com uma dessas can• celas
rústicas como a que tínhamos diante de nós, enquanto
os papás se preparam para abri-la, já as crianças a têm
cavalgado, receando perde r a ocasião de uma nova peripécia
que vem aumentar o interesse do passeio.

Efectivamente abrir uma cancela é uma vulgaridade, é o que
todos os dias cada um faz em sua própria casa e uma excursão
nos arrabaldes, sendo um facto excepcional no curso monótono da vida,
a regra manda evitar tudo quanto seja vulgar.

Eu sou ainda como eles, essas criaturas sem presunção, que
não têm pejo de brincar, saltar um muro, sendo possível,
transpor uma cancela, franquear um valado de silvas, vadear um ribeiro…
que impa• gáveis prazeres ! Passados momentos achávamo-nos
em plena campina.

Tínhamos diante de nós a indicar-nos o caminho um desses estrei•
tos carreiros conservado entre terras cultivadas para o serviço das
lavouras. De um lado e de outro eleva-se-nos o milho até aos joelhos.
Em torno uma imensa planície verd e onde só alvejavam as camisas
brancas dos sachadores dispersos em numerosos grupos em toda ela. As improvisadas
cantigas com que esta gente se anima no tra• balho cruzavam-se em disputado
certame, interrompido de quando em quando por um coro de sonoras gargalhadas.

O sossego da hora, a vastidão do horizonte do lugar e o timbre puro
daquelas vozes deixavam ir ao longe, muito ao longe, esses vilan- cetes cantados
na popular toada da Cana-Verde. Percebiam-se ainda distintamente das colinas
circunvizinhas, cujos ecos as repetiam como se participando da contenda.

Altos castanheiros, cuja plena florescência os tingia naquele tempo
de reflexos dourados e as faias de tronco liso que, agitadas pela viração,
ofereciam alternadamente aos raios solares as duas faces da sua folhagem bicolor,
repartiam em figuras irregulares toda esta pla• nície. Aqui e
ali uma pequena casa branca em cujo telhado se beijavam as pombas e volitavam
as andorinhas, que vinham aninhar-se-lhe nos beirais. Nos quinteiros adjacentes
misturava-se com o agradável ruído de vozes infantis o cantar
do galo respondido por o de outros mais afastados.

Depois eiras extensas onde numerosas raparigas ripavam o linho colhido de
pouco, cabanas e colmo de tentarem o pincel de um artista, medas de palha
dispostas em longas fileiras, que vistas de noite à luz fantástica
da Lua, tantas vezes se me afiguravam compridas pro• cissões
de monges brancos, aspecto que, sabe Deus, quanta supers• tição
tem fomentado por lá! Plena aldeia enfim, plena aldeia da nossa terra,
fértil, risonha, amena, abundante em verdura, em flores e em água,
onde a luz e as sombras se casam em misteriosa combinação; cheia
de vagos rumores de folhas agitadas, de arroios invisíveis, de gorjeios
de aves, de tudo o que consola, de tudo o que nos dá vida.

Tendo atravessado os campos subimos por entre giestas e urzes em flor e à
sombra de magníficas carvalheiras, o mais frondoso dos outeiros que
os limitavam e, atraídos pelo longínquo rumor de uma queda de
água fomos ladeando a encosta até encontrarmos a corrente de
onde esse rumor partia.

Era para ver a agilidade com que eu e L… descíamos então
a ver• tente oposta da colina, seguindo sempre a beira da levada, com
grande susto da parte do doutor que, a cada momento, estava esperando ver-
-nos despenhadas no abismo.

— Cautela! cautela! — bradou ele de longe, embaraçado
em afas• tar os estorvos que lhe interrompiam a passagem.

De quando em quando voltávamo-nos. Víamo-lo apegado aos tron•
cos das giestas, deixando-se escorregar docemente pelo suave declive todo
arrelvado e que ele insultou com o nome de despenhadeiro. A nossa hilaridade
saudava-o então cá de baixo.

A corrente era a cada passo interrompida por açudes e moinhos, atravessada
por pontes rústicas, oculta às vezes pelos arbustos das margens
e, dos sitios mais profundos, soltava do seio os amieiros sem• pr e
ávidos e insaciáveis de frescura.

Conduziu-nos finalmente este caminho a uma devesa na qual ces• saram
as tribulações do administrador. O mau humor que a descida lhe
tinha exacerbado desvaneceu-se totalmente no remanso que o esperava ali e
não foi ele o que menos se riu dos seus passados ter• rores e
apreensões.

Mas que devesa aquela, Cecília! Que íntimo recolhimento !
Que misteriosa tranquilidade! Os rouxinóis, ocultos na copa espessíssima
de carvalhos seculares, cantavam à porfia sem que a nossa presença
os inquietasse. A andorinha dos bosques, cheia de confiança, passava
ao nosso lado perseguindo os insectos com aquela graciosa agilidade de movimentos,
que nos encanta nela. De quando em quando uma folha seca, uma lande desprendida
da árvore vinham cair-nos aos pés ; um raio de Sol que, atravessando
já amortecido aquele arren• dado de verdura, descia a procurar
na relva a florinha cor de anil que não sei que nome bárbaro
tem em botânica, traçava obliquamente no recinto assombrado pelo
arvoredo uma coluna luminosa que se dissera fuste tombado de um templo em
ruínas. Insectos de cor variada, cujos zumbidos eram o maior rumor
daquela solidão, seduzidos por este raio de luz procuravam-no com ansiedade
e vertigem.

Instintivamente falávamos baixo ali.

Subjuga-nos tanta solenidade, intimida-nos, sentimo-nos pequenos e;.. —A
caminho! a caminho!—foi a exclamação que ruidosamente
nos arrancou da silenciosa abstracção em que pouco a pouco nos
dei• xáramos cair.

Desnecessário será dizer-te que foi do doutor que ela partiu.
Para tanto só a coragem dele.

— A terra da promissão não está longe —
continuou, apontando por entre um claro que deixava a folhagem.

Olhámos nessa direcção. Descobrimos ao longe a grimpa
e toda a parte superior de um velho campanário. Saiu-nos dos lábios
uma exclamação de prazer a mim e à L…

— O mosteiro ? — O próprio.

A estas duas palavras sucedeu o silêncio. Com os olhos fitos naquele
enegrecido edifício que, pouco a pouco, parecia ir-se des• pojando
à nossa vista do invólucro da folhagem que ao princípio
no-lo encobria, fomos caminhando para ele de novo, possuídas daquela
mesma impressão que sentíramos na véspera.

Perdoa à minha ignorância de arquitectura se omito a minuciosa
descrição daquele vetusto convento, transformado hoje em uma
dúzia de coisas muito diversas, que nem já te sei enumerar.
Não perde s muito, tu, nem perd e a arte com a lacuna porque afinal
de contas conhecia-se pelo que vimos ainda dele que o convento nunca passou
de uma dessas construções irregularíssirnas, acanhadas,
sem estilo, que um pensamento religioso erguia a cada canto para abrigo dos
foragidos aos tormentos mundanos e nos quais se procurava simboli• zar
o desapego ãs vaidades da Terra na ausência completa da menor
beleza arquitectónica. Extensas paredes crivadas de janelas mesqui•
nhas, carência absoluta de simetria nas construções posteriores
à do edifício principal, assim uma coisa à semelhança
do convento de Cor• pus Christi em Vila Nova de Gaia e mais nada.

Tinha alguma razão o administrador quando nos falava no carác•
ter prosaico das modificações que o tempo introduzira neste
mosteiro. Nada do grandioso das ruínas! renovações escandalosas,
verda• deiros sacrilégios de arte, isso, muitas. Montes de palha
por toda a parte e a vegetação das hortaliças de uma
exuberância insolente! AL.. . bem se esforçava por reconstituir
um romance com o pouco que via; mas as galinhas que esgaravatavam nos claustros
dilacera- vam-lho à nascença. É uma ave essencialmente
burguesa a galinha. Não há lenda que possa florescer onde constantemente
cacarejam estes prosaicos bipedes.

AL.. . chegou a desesperar.

— Visto isso, nem uma pedr a histórica, nem uma memória
ligada a estas paredes. Ó doutor, compadeça-se desta nossa ansiedade.

Recorde, descubra, invente um romance — dizia eu.

— Eu só conheço o lugar como a matriz de um círculo
eleitoral e ligada a este recinto só posso recordar-me da história
das eleições passadas.

Cheguei a odiar o administrador ao ouvir-lhe dizer isto.

— Silêncio ! Nada de profanações.

— E contudo estas naves — disse a L… entrando na igreja, efecti•
vamente a parte mais solene do edifício — são ainda assim
longas, ele• vadas bastante, convenientemente obscuras. Nem as reformas
tolas dos restauradores conseguiram privá-las de uma certa majestade
e poesia. Doutor, doutor, eu quero levar daqui alguma impressão mais
dura• doura ! Não saio sem isso.

E, dizendo estas palavras, encaminhou-se para uma capela mal alumiada por
um lampadário antigo e ainda não visitada por nós.

Seguimo-la. À entrada, porém, a imprevista aparição
de um vulto fez-nos recuar. Não er a afinal nenhuma alma do outro mundo,
tão somente um rapaz muito pálido, vestido com singeleza, o
qual com um sorriso modesto e melancólico nos cortejou.

O doutor correspondeu-lhe com um gesto de afabilidade.

— Quem é este homem ? — perguntei ao doutor quando o
recém- -aparecido se afastou de nós.

— É o mestre-escola da aldeia.

— Ninguém o dirá! Tem uma fisionomia inteligente.

— E desta vez não fica mal Laváter.

— Deveras? Mas… mestre-escola! — Então que quer ? Com
aquele estofo — disse o doutor, apon• tando para ele que já
ia à porta da igreja — fazia-se talvez um bom académico,
fazia. Mas amarraram-no à atafona das primeiras letras.

Nisto saía a L… da capela, verdadeiramente desesperada.

— Não há meio de tirar coisa alguma destas paredes.
Temos de nos resignar a partir com as nossas carteiras em branco. Incomode,
sacuda a sua imaginação para nos mentir, doutor, ande. Invente,
seja amável uma vez na vida.

— Não sou poeta e V. Ex.a s perderam talvez a ocasião
de satisfa• zerem tão inofensivo desejo deixando sair esse rapaz.

— Quê ! Pois é também poeta! exclamei, admirada.

— Afiança-me que pode dizer-nos alguma coisa interessante ?
— perguntou a L…

— Aqui, para o que V. Ex.as desejam, ou ele ou ninguém.

— Pois vou chamá-lo.

E a L… com aquele estouvamento que lhe conheces dirigiu-se para a porta,
sem fazer caso das minhas observações e dentro em pouco voltava
com o pálido mestre-escola, singularmente embaraçado com a assistência
que se lhe pedia.

— Emprazamo-lo — disse a L…, usando das maneiras convenien•
temente familiares com que logo à primeira entrevista sabe pôr
à von• tade os seus interlocutores. — Emprazamo-lo para
que nos tire destas paredes, destas naves, destas abóbadas uma memória,
uma lenda, um drama, seja o que for. Porque, há-de concordar, ir a
gente daqui sem qualquer destas coisas é desagradável, é
impertinente, é triste.

O professor sorriu e naturalmente dirigiu o olhar para a capela de onde
o víramos sair.

— Dali ? — exclamou a L… que lhe seguira o olhar. —Bem
me quis parecer. Há um ar de mistério naquele altar, há;
mas já procurei e nada vi.

— Quer V. Ex.’ que as paredes falem, sem se lembrar que elas só
dizem o que a gente lhe ordena.

— Cale-se, doutor. Os códigos asfixiaram-lhe toda a poesia
que talvez em tempos felizes existiu em si. E se não experimentemos.
Glose este mote alambicado:

Saudade, cruel saudade
Tormento da minha vida

— Não sou capaz de a satisfazer a não ser que me conceda
algu• mas semanas para procurar inspiração nos autos administrativos
e par• tes dos regedores.

— Então, silêncio! Este senhor, tenho fé que satisfará
gentilmente a nossa curiosidade. Ou ele não fosse um poeta! —
Poeta! — disse timidamente o interpelado.

— Sim. Sabemo-lo porque o doutor o denunciou e denunciava-o até
esta sua visita solitária à capela de onde há pouco saiu.
Vamos, diga-nos, o que há nela de interessante? O mancebo continuou
a sorrir e parecia hesitar em tomar uma resolução. Depois, corando
levemente, tirou de um livro que trazia na mão um pequeno papel, no
qual se enfileiravam linhas regulares de uma letra miúda mas de traço
firme e entregou-o sem pronunciar uma só palavra à L,.., que
se apoderou dele com vivacidade. Com não menor presteza nos aproximámos
eu e o doutor e por cima do ombro da L… fomos acompanhando a leitura das
seguintes quadras, leitura a que ela procedeu com voz profundamente comovida

A NOVIÇ A

«Oh! vem, querida irmã; do santuário do templo
Já desce a receber-te o celestial esposo.
Vem ser da nossa fé sublime e vivo exemplo;
Vem, deixa sem pesar do mundo o falso gozo.

«Vem; dos círios à luz, ao som de alegres hinos, Cinge
o hábito escuro, emblema da humildade,
E, abrasada no ardor dos teus estos divinos
Despe, ao entrar no claustro, as galas da vaidade.

«Esposa do Senhor, virgem cândida e pura, Do teu noviciado expiram
hoje os dias.
Não tremas ao fitar as portas da clausura, Também na estreita
cela há grandes alegrias.»

Assim das monjas soa o religioso canto: Juntas, em procissão pelas
extensas naves Espalham-se na igreja as vozes do hino santo Melancólica
voz de aprisionadas aves.

Caído o longo véu por sobre a fronte airosa
Caminha lentamente a pálida noviça;
Nos olhos lhe fulgura uma aura misteriosa,
Um como cintilar de lâmpada mortiça.

Sobe os degraus do altar, humilde se ajoelha
E ao culto fervoroso as tranças sacrifica.
«Recolhe-te ao redil, imaculada ovelha,
Teus tesouros d’amor nas asas santifica.»

E o coro ergue outra vez o ritual hosana,
Entre nuvens de incenso, à voz do órgão sagrado ; Responde-lhe
o rezar de multidão profana,
Que transpôs curiosa o pórtico elevado.

A cerimónia é finda; a monja de joelhos
Permanece, inclinada a face para a terra ;
Era no ocaso o Sol; e seus clarões vermelhos
Vinham tingir o altar, ungindo ao longe a serra.

Longo tempo ali esteve, as pálpebras descidas,
. Imóvel, silenciosa, em êxtase absorta,
Ergueram-na afinal as monjas comovidas;
Doloroso mistério, a pobre estava morta!

— Tinha ou não razão ? — exclamou a L…, elevando
ao ar o papel assim que acabou de o ler.

Todos instintivamente procurámos o autor. Havia desaparecido.

Estupefactos olhámo-nos em silêncio sem saber o que pensar
desta surpresa. Bem longe estava eu naquele momento de encontrar um metrificador
de alexandrinos ! — Agora o que me apetecia decifrar — disse eu
ao doutor — era o mistério deste melancólico e simpático
mestre-escola.

— Se V. Ex.* ordena, porei em acção os meus cabos de
polícia para qualquer dia me habilitar a revelar-lho, já se
sabe, em estilo de relatório administrativo, — Pois olhe, esse
mistério preocupa-me pouco — disse L… — o que pretendo
é saber os fundamentos disto — e apontou para o papel que conservava
na mão.

— Fantasias — disse o doutor.

— E como diz isso! Fantasias! E é coisa de pouco valor isto
de fantasias? Assim fantasia quem quer ? Pois há três horas estou
eu a pedir-lhe que fantasie e o doutor sem me fazer essa fineza que, pelos
modos, lhe parec e fácil tarefa. Ora, na verdade, não lhe mereço
essa crueza de frase que me está revoltando.

— Por amor de Deus, não me condene, minha senhora. Ninguém
admira mais do que eu as obras de imaginação; mas como vejo
que V. Ex." quer achar forçosamente razão de ser a uma
coisa que a con• tém em si, é por isso que eu…

— Mas ele olhava insistentemente para esta capela. Deve estar aqui
a explicação que procuramos.

— Vamos — disse eu — tenha a condescendência de
procurar connosco.

— Mas procurar o quê ? — O mistério.

— Mas que mistério ? — O vestígio do drama denunciado
nestes versos — disse a L… — Venha, acompanhe-nos.

Investigámos tudo. Eu, pela minha parte, nada encontrava. AL.. .
não era mais feliz. De repente o doutor perguntou, no tom de indi•
ferença que lhe dera para afectar naquela manhã; — Serve-lhes
uma inscrição tumular ? — Uma inscrição?
— exclamou a L… —Pois que mais poderemos querer ? Está
decifrado o enigma! Leia, leia depressa.

— Hic jacet — principiou a dizer o doutor.

— Latim, doutor! — exclamámos nós a um tempo,
com o mais justificado dos terrores.

— Eu traduzirei, que até aí ainda chega a minha sabedoria.

O pior é que as letras estão quase todas safadas. Aqui jaz…
a irmã Maria de.. . não sei quê… Nasceu aos… do ano
do Senhor de mil seis• centos e… tantos, professou aos… tantos de
tal e morreu in codem no mesmo dia. Pater noster.

— Vitória! — exclamou a L… com um grito que ecoou por
toda a igreja. — Até que enfim! Esta pedr a com o seu eloquente
laconismo vale um tesouro! — Que entusiasmo! Não o compreendo
— dizia o doutor, sorrindo.

— Que grande significação acha V. Ex." nessa descoberta?
— Que significação ? Pois não vê nela confirmada
a interessante história contada nestes versos? Desvendado o doloroso
mistério que matou aquela pobre mártir no próprio dia
do seu noviciado? — Romances, romances… poesia, minha senhora. Se
V. Ex.a quer, eu vou glosar-lhe mais prosaicamente este epitáfio. Era
talvez uma menina…

— Cale-se, bárbaro ! Que aflição! Não
lhe perdoaria nunca se me tirasse a memória agradável que afinal
consegui levar daqui. E, sabe ? Vou rezar por aquela desventurada.

E a L…, ajoelhando junto ao altar da capela, pôs-se a rezar. No
entretanto dizia eu ao doutor: — O que me parece interessante, curioso
e, quem sabe se huma• nitário até, é estudar o
carácter e história deste mestre-escola tão triste quanto
simpático. Porque não há-de dar-se a essa tarefa, doutor?
— Estava pensando agora nisso mesmo. Alguma coisa que sei já
dele excita-me a curiosidade.

— Então diga o que sabe, diga.

— Deixe-me investigar o que me falta saber para então lhe contar
a história completa.

— E promete não se esquecer ? — Prometo.

1— Dou-lhe então quinze dias.

— Será pouco; mas farei a diligência por não faltar.

Ao sair da igreja ainda fomos à escola da aldeia procurar o profes•
sor, mas não o encontrámos. Voltámos em seguida para
casa. AL… com a poesia e com a sincera crença na história
da noviça, história que ficará sempre misteriosa se algum
romancista a não quiser decifrar, e eu inte• ressada em conhecer
a vida deste mestre-escola e insistindo com o dou• tor para se não
demorar em satisfazer esta tão justificada curiosidade.

Se ele cumprir a promessa, terás cedo, minha Cecília, notícias
minhas.

Diana de Aveleda

CARTAS À VONTADE A CECÍLIA

Publicada em 10 de Julho de 1867 no sema• nário
«Mocidade».

AMAS, MESTRA S E MARIDOS

Vais gritar: paradoxo! ao ouvir-me afirmar, Cecília, que da maneira
por que as coisas vão, cedo veremos desaparecer da cena social essa
poética e amável entidade, esse tipo afectuoso e cândido
a que chamamos mãe.

Pois é com íntimo convencimento que to digo, acredita, e com
doloroso aperto de coração também. A mãe, a mulher
sublime, que tantas vezes inspirara o escopro, o pincel e a pena, que a arte
aureo• lava de prestígios ao apresentar-no-la espiando com antecipada
ale• gria o primeiro sorrir da criança adormecida ou apertando-a
amorosa• mente ao seio, àquele seio que pela segunda vez a faria
mãe; o anjo da guarda que velava com carinhosa solicitude o sucessivo
desabro• char da inteligência do ente fraco, que a natureza e
a sociedade colo• caram sob a sua protecção e assim fazia
a abençoada sementeira de afectos, que deviam mais tarde florescer
e frutificar; a confidente natu• ral dos primeiros segredos do coração,
que nasce para a vida dos objectos; a fada que pela magia do seu amor extremoso,
debaixo da sua suavidade, serenava a revolta das paixões, tornava salutar
o fogo que pudera ser destruidor, essa mãe tende a desaparecer ; mais
algum tempo e tornar-se-á lendária. Matam-na, anulam-na os hábitos
actuais.

Um dia virá em que o poeta, tocado pela majestade daquele tipo, pelo
augusto daquela missão, não poderá exclamar, dirigindo-se
a elas, como ainda não há muito o fazia um poeta portuense;

Ó santas que embalais o berç o das crianças
!

Não; porque as não encontrará aí junto desse
berço, de onde a moda terá conseguido arrancá-las para
as substituir pela ama mer• cenária.

Ao coroar-se de flores de laranjeira, a noiva dos nossos dias não
principia vida nova; para ela não se fecham as portas dos bailes e
dos salões. Espera que os vagidos infantis a não afastem de
lá, retendo-a no gineceu, porque em outros ouvidos declinará
a impertinência de os escutar, em outros seios o encargo de os satisfazer;
não será ela que escutará enlevada, que procurará
decifrar as primeiras mal arti• culadas sílabas do pequeno ser
que desperta à luz do mundo, não, que mais agradáveis
lhe são as frases completas, inteligíveis, tornea• das,
elegantes, pelas quais recebe nas salas a afirmação de que é
ainda bela.

Bela ! E precisa que lho afirmem! Como se a verdadeira mater• nidade
não devera ter sempre a consciência de que o é! juram-lhe
que perante o viço exuberante da sua formosura, ninguém a acredi•
tará mãe e isto lisonjeia-a! Corre-se deste nome sagrado que
em casa, a todo o momento, lhe está apregoando entre choros e sorrisos
essa criança que não sabe ser lisonjeira, calando-ol’ Este continuado
— memento quia mater es — se me é lícito falar latim,
impacienta-a! Pobre senhora! Ela tem razão. Como se não bas•
tassem para preocupá-la e afligi-la os descuidos e as imperfeições
da costureira! Olha, Cecília, no pequeno drama íntimo, que o
nascimento de uma criança faz representar sob cada tecto, o papel mais
simpático é, quanto a mim, o da ama.

Ela, a quem muitas vezes a miséria obriga a recusar o seio ao próprio
filho para o oferecer ao de outra mulher que, quase sempre, voluntariamente
o nega ao seu, olha ao princípio com desculpável aversão
para este inocente usurpador que se lhe pendura ao colo; mas pouco a pouco
afaz-se àquele olhar carinhoso que a fita; àquele sorriso que
inscientemente a consola quando a saudade lhe está ainda orvalhando
de lágrimas os olhos; àquelas pequenas mãos, que a afa•
gam ; àqueles lábios que a beijam; e ela, a pobre, a rude mulher,
chega a persuadir-se que um milagre de Deus permitiu que o espírito
de seu filho viesse animar este corpo débil, que voasse evocado pelo
amor materno, a acolher-se ao seu abrigo, e iludida, apaixonada, já
não distingue entre os dois, já sente de novo estremecer suas
entranhas de mãe a cada grito aflitivo do infante, inundar-se-lhe de
júbilo o coração, a cada sorriso de alegria! Enquanto
a mãe verdadeira se embriaga no volutear das valsas, que a arrebatam
de sala em sala, como em nuvens de harmonias e perfumes, ela só, à
luz da lamparina doméstica, acalenta-lhe o sono do filho, cantando
uma daquelas melan• cólicas e populares cantilenas, que a mãe
ignora, pois só lhe ensina• ram a cantar romanzas, baladas e
rondós, em italiano. Ora o estilo do cantar da ópera não
é muito próprio para acalentar crianças, e neste ponto,
é uma providência que a mãe se não julgue obrigada
a soltar junto do berço as notas que foram aplaudidas na sala.

Assim decorrem meses de íntima convivência da ama e da criança.
Fora um pensamento de interesse que trouxera aquela mulher àquela casa;
mas agora um laço mais forte a retém ali, prende-a um sentimento
generoso como poucos; e é quando o laço é mais forte,
é quando o amor a estreita à criança, à qual cedeu
porção de sua vida, que um dia lhe dizem — «Parte!».

O amor que ela viu nascer, que cultivou com alegria, não lhe era
destinado; arrancar-lho-ão do seio, embora este fique sangrando ao
separar das raízes. A afeição daquela criança
é como a planta estimada que receb e de um terreno a seiva que a faz
vigorosa e a outro concede mais tarde a sombra da sua folhagem e o perfume
das suas flores.

Pobre mulher! Curvando resignada a cabeça à crueldade da sua
sorte, parte, acompanhada de saudades, como com elas viera. Rega segunda vez
de lágrimas o limiar daquela porta. Encontra lá sentada, onde
a deixara, a imagem da melancolia, que lhe estende novamente a mão.

E a mãe, a mãe elegante, recebe então nos braços
a criança, que passada já a idade dos primeiros vagidos, é
menos exigente e incómoda; agora já diverte pelos seus ditos
e brinquedos; é uma dis• tracção para a indolente
senhora. Mas como todas as distracções repe• tidas cansam,
estas mesmas graças infantis acabam por aborrecê-la. Depois vem
a época da educação e esta exige cuidados e aten•
ções para as quais falta a paciência à nervosa
dama, que, sem grande prejuízo dos negócios do toucador, se
não poderia entregar a eles.

Novas exigências sérias obrigam portanto a uma nova abdicação.
Deixando o regaço materno é a criança entregue aos cuidados
de: uma mestra.

Uma mestra! Valha-nos Deus! nesta personagem nem sequer encontra a poesia
da ama. É um tipo exótico e de procedência britâ•
nica principalmente, que eu do coração detesto. As melhores
não pas• sam de um código vivo de regras e máximas
de bem viver, frio, rígido, inflexível, impertinente, antipático.

A preceptora, que ensina como se dança, como se reza, como se fala,
como se corteja, como se deve sorrir e até não sei se como se
deve chorar, esmera-se principalmente em insinuar no ânimo de suas educandas
os princípios de hipocrisia social, que se chama a eti• queta,
e esforça-se por sufocar tudo o que são impulsos naturais, espontâneos
de um coração sensível. Das suas mãos saem destas
rapa• rigas que nós todos os dias encontramos na sociedade em
que cada gesto, cada palavra, cada movimento, cada sorriso, é regulado
pelas prescrições de uma coisa, que se chama por aí—uma
educação distinta.

Pobres meninas! Constrange-as, mais do que o espartilho, uma absurda pragmática,
à qual se deixou usurpar o lugar da verda• deira moral.

Daí vêm essas reservas, menos modestas e cândidas do
que as expressões cheias de confiança, de quem muitas vezes
não desvia os olhos do mal, por o desconhecer; daí vêm
esses ouropéis da inteli• gência, com que se procura encobrir
a nudez, em que deixaram o coração.

A língua francesa, uma geografia comezinha, uma história do
Museu das Famílias, as primeiras noções de desenho e
não sei o que mais, soma total, uma pedantaria que desespera, um falar
de tudo com suposição de que de tudo se sabe, eis a grande ciência
por cuja aqui• sição as tristes raparigas pagam o exorbitante
preço das carícias mater• nas ! Cada composição
francesa, insulsa e descorada, que a mestra aplaude como um modelo de linguagem
e de estilo, foi escrita à custa de um grande sacrifício; foi
preciso resignar por ela o ensino afável mas insinuante, despretensioso
mas contínuo, livre mas indelével que uma mãe verdadeira
sabe fazer com um sorriso, com uma oração, com uma esmola e
com o exemplo.

Malfadadas mães, que estais por vossas próprias mãos
rasgando a alva túnica da pureza, o véu mágico da poesia
com que o nosso amor vos revestira! Já vos não víamos
junto dos berços e ainda agora vos não encontramos a presidir
aos jogos, a dirigir as primeiras preces1, a formar o coração
dessas pequenas mulheres, que um dia em sua consciência vos julgarão
e condenarão por lhes terdes privado assim a infância de afectos
e carinhos.

Que mal compreendeis a vossa missão sagrada! Abdicastes a vossa dignidade
abençoada, perante a instituição dos colégios.
Os colégios! Perdoa-me, minha boa Cecília, se não posso
calar a minha aversão por esta palavra e por a coisa que ela exprime
— os colégios.

O colégio é uma empresa industrial, que se propõe formar
inte• ligências e corações para a sociedade. E como
os forma ela? Muitas vezes ouvi da tua boca humorística a descrição
dos seus processos. As regras da ciência e os preceitos da moral são
formulados em comum e horas fixas por dia a todos os que ali concorrem; observa-se
nisso a escrupulosa regularidade de um estabelecimento industrial.

A regr a do ensino é inflexível, inalterável, única.
Não se modifica para amoldar-se às desigualdades de aptidões
e caracteres de cada discípulo, que para tanto falta o tempo e a paciência.

Não se procura combater o mal, sob as suas formas mais ocultas e
dissimuladas; institui-se contra ele uma batalha organizada e geral.

É sob um fogo cerrado de preceitos e conselhos, registados no programa,
artilharia formidável cujo estrondo é repercutido ao longe,
que se procura a vitória dos bons princípios. Ora o inimigo
é arteiro e dado à guerra de emboscadas. Deixa troar nos ares
os canhões da educação oficial, mostra-se subjugado pelos
princípios que lhe são respeitávelmente impostos e, oculto
em algum lugar inacesso às metra• lhadas disciplinares, espera
por ocasião favorável para desenrolar aos ventos a sua bandeira
de guerrilha.

Porque o desgraçado estava intimidado, mas não convertido,
se não aparecia era por prudência e não porque tivesse
deposto as armas e renunciado à rebelião. Para o converter,
para tornar impossível a insubordinação futura, era mister
substituir o general que com as bocas dos seus canhões e espingardas
defende todas as estradas e caminhos e o obriga a viver oculto pelas cavernas
e florestas, pele missionário que se aventura à longa, laboriosa
e até terrível peregrinação do deserto, que fosse
procurar o rebelde ao seu esconderijo, que se aproximasse dele com o sorriso
nos lábios e a fé no olhar; que lhe falasse com amor e brandura,
sem se deixar intimidar nem desalentar pelas primeiras resistências
e defecções; que dali se não levantasse sem o trazer
con• sigo pela mão, humilde, resignado, mais do que resignado,
contente pela estrada ampla da virtude para o bom caminho da felicidade.

Mas este papel de missionário só uma mãe o pode desempenhar.
Esta obra de persuasão, e não de repressão, só
do ensino individual, doméstico, íntimo pode ser exigida.

A directora do colégio contenta-se com a submissão aparente,
com a obediência explícita; não gasta tempo nas delicadas
e metafí• sicas sondagens das consciências sempre que a
rebelião se não revele em actos, embora esteja nos espíritos.
Proclama a ordem.

É uma espécie de ordem de Varsóvia. É o Evangelho
imposto a lançadas e pelouros e não pelo poder de catequese.
Os actos de submissão da educanda são muitas vezes comparáveis
à missa hugue- note de Henrique IV.

Nem outra coisa se podia exigir destas casas de educação.

O ensino nos colégios há-de ser forçosamente administrado
como a alimentação — em refeitório. Mal da instituidora
se ia a fazer cozinha a parte segundo os gostos e talvez as necessidades de
organização de cada educanda. A tanto não vai o seu compromisso.
Só as mães sabem temperar diferentemente o prato de cada filho,
só elas igualmente sabem ministrar, sob formas diversas, a cada um
o ensino dos pre • ceitos invariáveis de uma sã moral.

A este deve o ensino ser feito com sorrisos; àquele quase que com
lágrimas; umas vezes uma súplica vale um código de preceitos;
outras, uma palavra severa, um gesto de desagrado, corrigem mais que todas
as clássicas penalidades do colégio. Mas a preceptora tem por
prática adoptada não tomar estas fases diversas, o que, segundo
ela, seria indigno da sua gravidade e importância profissional.

Não ri, não chora e não suplica; endireita-se, franze
o sobrolho e repreend e — com a mesma voz com que manda trabalhar, manda
brincar, manda rezar, manda até dormir. Sempre o regulamento, sempre
a disciplina! Oh! eu abomino os colégios e por isso é que morro
de simpa• tias por todas as privilegiadas que, como tu, Cecília,
saíram daquelas casas com os afectos do coração salvos
e com o espírito livre de pedan- tescos preconceitos, numa palavra,
tão propriamente tu como se nunca tivesses saído de junto de
tua mãe, que só a chorar se resignava ao sacrifício de
te apartar de si.

A mestra é quando muito como o director de uma oficina de fun•
dição que recebe de fora os moldes em que tem de vazar os metais
mais diversos confiados aos seus cadinhos e procede a essa obra com escrúpulo,
mas sem aspirações; a mãe é o artista, que a golpe
de cinzel vai modelando a sua obra, vendo-a tomar vulto e expressão
com estremecimentos de entusiasmo. A inspiração nunca a abandona,
a cada instante o génio lhe formula um preceito, a cada instante lhe
modifica outros. É mais íntima a sua relação com
a obra que produz, porque ela é efectivamente a realização
de um pensamento seu ; é como que uma parte de si mesma numa existência
independente.

Deixem embora às mestras o cuidado de dar às jovens educan•
das esse verniz de educação que as tornará bem vistas
na sociedade, quando as mães lho não saibam dar, mas não
lhes confiem o resto, não lhes confiem sobretudo o coração,
que é mais uma vez deixar de ser mãe, renunciar a um dos mais
santos, mais invejados direitos da mater• nidade.

Mas enfim volta a casa com quinze anos a filha que aos oito se sepa•
rara da vigilância materna.

Como vem prendada ! Sabe dançar, tocar piano, bordar, cantar, falar
francês, inglês e italiano, sabe que o mundo é uma esfera,
que o descobridor da América foi Cristóvão Colombo, que
Sampetersburgo é a capital da Rússia, que Napoleão perdeu
a batalha de Waterloo, sabe de cor os nomes de todos os poetas e romancistas
notáveis da França e Inglaterra, sabe tudo que a mestra lhe
ensinou e muita coisa que lhe deixou aprender. Traz os baús cheios
de livros de devoção fran• ceses, volumes de Bonald, de
Lorgnes e Dupanloup e de envolta a literatura de Alphonse Karr e Teoph. Gautier
e a ciência de Figuier e da Biblioteca das Maravilhas.

Numa palavra, vem uma menina da sociedade elegante, mais devota que religiosa.
Costumada ao culto do regulamento, sujeitar- -lhe-á também o
cumprimento dos seus deveres para com a divindade. Fora das horas de devoção
não lhe deixará remorsos um estouvamento, um pecado de maledicência,
uma inveja implacável; porém, nos momen• tos decretados
para o culto, a mais inocente e involuntária distracção
lhe avultaria como uma tentação diabólica, como um delito
para ser expiado por jejuns e cilícios. É moral de ocasião,
infelizmente muito na moda.

Eis a ocasião escolhida pela mãe para fazer valer os seus
direi• tos, para principiar a colher os frutos apetecidos do amor filial.
Agora sim, que é uma inteligência desenvolvida já, que
saberá apreciar devi• damente os extremos maternais, que com
a dedicação de filha lhe recompensará o ter pago a sua
amamentação a uma pobre mulher de quem já ninguém
se lembra, e despendido avultadas mensalidades para a aquisição
daquela geografia, daquela história, daquela educa• ção
que todos admiram. Enfim, chega o tempo de principiar a mãe a ser mãe,
tarefa que até agora tem adiado. É, porém, tarde para
isso.

O coração da menina já começou vida nova, passou
a oportunidade para essas suavíssimas afeições que, cultivadas
a tempo, deixam ves• tígios eternos mas que não podem
desenvolver-se quando semeadas tarde.

O ideal revestiu novas formas, não o podereis vós realizar.
Pobres mães e dignas de piedade sois decerto, se a peito tomais a tentativa.
Um dia aparece um homem a pedir-vos a mão de vossa filha.

Este homem, ou seja impelido a dar este passo pelas incitações
apai• xonadas da menina, ou pelos cálculos positivos do pai,
é em todo o caso mais um rival vosso e desta vez aquele que nunca vos
restituirá a filha que ides confiar-lhe.

«Por este deixarás pai e mãe», esta lei quase
fatal a que nós todas, mães e filhas, nos curvamos resignadas,
era uma lei, cujo cumprimento nunca deixava de ser selado com lágrimas
de tristeza e de saudade.

E vós mesmo tendes-vos esforçado por lhe facilitar a execução.
Afastando de vós o berço de vossos filhos, negando-lhes o seio,
con• fiando a estranhos a sua educação, deixando a outros
tomar o lugar de confidente dos primeiros segredos, anulais-vos ante seus
olhos, e quando um dia aparece o homem, que as separará de vós,
dei- xam-vos quase sem uma lágrima, porque mal vos conhecem, porque
se acostumaram a orar, a pensar, a chorar e a sorrir longe de vós,
sem vós, que de pequenas as repelistes.

É muitas vezes então que começa o vosso castigo. Os
anos mos• tram-vos a inanidade dos gozos do mundo em que viveis, pedem-vos
e ensinam-vos a apreciar a concentração do lar doméstico,
a alegria íntima, o amor dos filhos; mas é tarde.

Quando os procurais com sincero amor, fogem-vos eles.

Então, se a cegueira e a loucura da vaidade vos não acompanhar
até ao limiar do túmulo, só vos resta ser a mãe
dos vossos netos.

É frequente de facto, Cecília, vermos muitas dessas mulheres
a quem as loucas exigências da moda trouxeram sempre arredadas dos deveres
da maternidade, tornarem-se depois as mães estremecidas dos filhos
de seus filhos, pagando assim tarde à natureza o tributo que, quase
sacrllegamente, até ali lhe haviam negado.

É tempo de terminar esta carta, Cecília, que não tem
a pretensão de te moralizar. Tu és destas índoles privilegiadas
que saem intactas de todas as más influências.

Vives no mundo onde a moda é soberana e contudo, vê a fé
que eu tenho em ti, estou certa que, se um dia fores mãe, evitarás
que te usurpem o amor dos teus filhos essas duas rivais da maternidade —
a ama e a mestra— e, se o fizeres, está certa que nunca to usurpará
intei• ramente o rival, quase sempre vitorioso — o marido.

A afeição filial, duplamente confirmada pelo estado de amamenta•
ções e dos ensinos não murchará nunca, ainda mesmo
que passe sobre ela o vento esterilizador da paixão.

Adeus até breve.

Tua sempre Diana de Aveleda

CARTAS PARA A MINHA FAMÍLIA

Meu amigo

Voltámos ontem do campo sem que merecêssemos à política
o favor da tua presença, por poucos dias que fosse.

As pequenas chegaram boas e parece-me que não demasiado saudosas
dos prazeres e das belezas campestres.

É tão raro que raparigas de dezasseis anos amem a bucólica!
E é pena, que se me enchia o coração de alegria e de
confiança, quando as via a elas à sombra daquelas árvores
salutares, respirando com desafogo um ar embalsamado e vivificador.

Não sei como me persuadia de que era impossível que elas me
adoecessem ali.

Sabes, meu amigo, aqueles meus continuados sustos, aqueles meus escuros
pressentimentos pela saúde dos nossos filhos, motivo de me ralhares
tantas vezes? Pois nunca os senti lá.

O campo era para mim como uma destas pessoas de juízo a quem se deixa
entregue um filho, quando a necessidade nos obriga a sepa- rar-nos dele por
momentos.

Olhava para aquelas velhas e frondosas árvores e parecia-me achar-
-lhes uns ares protectores e amigáveis que me inspiravam confiança.

Dir-se-ia que ao abrigarem minhas filhas na sua sombra me diziam: Deixa-as
connosco que tas protegeremos.

Mas enfim viemos; aqui estamos outra vez nesta terra do Porto e aqui estaremos
até à hora de emalarmos para qualquer praia de banhos.

E tu em Lisboa, e tu ocupado em acudir à Pátria, meu bom amigo,
e esquecendo por ela um poucochinho a família.

É uma virtude cívica a venerar em ti, Gustavo? Será?
Eu sei? Desculpa-me mas, como sabes, não morro de amores pela polí

tica. Ou eu não fora mulher, com quem em geral os políticos são
bem pouco amáveis.

Além de que a política ocupa-se de umas pequeninas coisas,
que são, sem contestação, as mais detestáveis
de todas as coisas pequeninas.

Mas deixemos por hoje as minhas reflexões e reparos sobre politica,
Gustavo, e façamos como é nosso costume, quando aqui estás.
Lembras-te? Depois do chá conversamos às vezes horas esque•
cidas sobre os acontecimentos do dia, ora domésticos, ora civis, ora
alegres, ora tristes, e dizemos tudo quanto nos acode à ideia, sem
observância de programa nem de método, sem escrúpulos
de estilo e até sem rigoroso respeito pela coerência lógica
da opinião.

Se a politica te não derrancou ainda de todo a bondade natural e
te não cerrou a alma às expansões afectuosas, ser-te-á
agradável a leitura das minhas cartas escritas, como conversamos, à
vontade.

Escrever-te-ei sob a impressão dominante do dia. A de hoje é
pouco agradável.

Como te disse, chegamos do campo e as pequenas vinham ver• dadeiramente
ansiosas pelas distracções da cidade.

Andavam-me a falar em toilettes e teatros havia oito dias, Não tive
remédio senão condescender.

Ao entrarmos na cidade depararam-se-nos nas esquinas uns car• tazes
enormes, anunciando no teatro de São João a Grã-Duquesa
de Gerolstein.

As pequenas fitaram-me uns olhos eloquentes.

Este olhar, as saudades que eu deveras sentia já por aquele nosso
elegante teatro e este titulo Grã-Duquesa, que há tanto tempo
me anda nos ouvidos como um zumbir de importuno mosquito volteando em torno
de mim, formaram a minha resolução de ir ao teatro essa mesma
noite.

Fui; fomos e que doida alegria a da Ernestina e da Luísa! Pobres
pequenas! apesar de todo o prazer que me vem sempre da vossa ale• gria,
quis mal a mim mesma por ter cedido à tentação desta
vez.

O Gustavo, tu que viste já a Grã-Duquesa, não adivinharás
o resto da minha carta? Tu que tens vivo o sentimento e o respeito da arte,
que te entusiasmas pelo belo, que concebes o que deve ser o teatro na sociedade,
não voltaste de assistir a essa híbrida e absurda compo•
sição teatral, como eu vim ontem de lá? com desgosto,
com tédio, com indignação, duvidando do progresso da
arte, acreditando na total degeneração do gosto entre nós?
Que época atravessamos, meu amigo? Que cidade de quase cem mil almas
é esta em que só se aplaude o disparate ? Há nada mais
vergonhoso do que uma crónica da última época teatral
no Porto ? Dois êxitos brilhantes a caracterizam: O jovem Telémaco
e a Grã- -Duquesa, dois disparates, duas irreverências para com
o bom senso, para com o bom gosto, para com a arte nobre e digna, para com
a arte que se respeita! Mas não é isto uma imoralidade também?
Pois não é certo que as belas artes têm uma missão
social a preencher ? Não é certo que encaminhá-las erradamente
é ofender o interesse público ? Não é verdade
que progride na carreira da civilização um povo, cujo bom gosto
e instintos se educam e aperfeiçoam pela arte e que se deprava e desmoraliza
o que se costuma a insultá-la? Que malévolo espírito
move então os artistas a perverterem assim o gosto em vez de o educar?
a porem às ordens do despropó• sito e do desconchavo as
harmonias da música, a cadência da poesia, as ilusões
da pintura, numa palavra, todos os prestígios da arte ? E ilumina-se
para isto um teatro! e enfeitam-se as senhoras nos toucadores! e rodam as
carruagens nas ruas e avilta-se uma orquestra para acompanhar o carro do triunfo
do disparate! E no dia seguinte emprega-se tipo para falar no assunto! Acabou
pois a religião da arte entre nós? Pois não é
a arte uma religião também? Não haverá ninguém
a quem estas orgias aflijam e revoltem, como o austero, o fervente sacerdote
que visse o tripúdio profanando o lugar de augustos sacrifícios
? Esta aberração do gosto público, este desvairamento
que invade todas as cabeças, esses excessos e abusos que fazem recuar
séculos o nosso progresso artístico, dura, reina, propaga-se,
sem que uma coorte de leais entusiastas e vigorosos lutadores se levante para
com• bater a todo o transe o mal deplorável! combatê-lo
através de sacri• fícios, combatê-lo apesar da indiferença
ou das repugnâncias do público, combatê-lo como combateu
Garrett, como combateu Vítor Hugo, como combateram todos quantos tentaram
uma reforma literária útil e eficaz.

Pois tinha fé que venceriam, se bem de alma e com boa coragem o tentassem!
Os instintos da arte não morrem no povo; adormecem às vezes;
mas é pronto o seu acordar, se os desperta uma voz altí- loqua
animada por uma verdadeira crença, por uma sincera e pura intenção.

É preciso pronto remédio para este mal, que é grave.

Há muito que lavra, revelado por essas produções mórbidas
da arte, que se chamam paródias e disparates, galhas venenosas que
vegetam sobre os ramos viçosos de uma literatura e lhe roubam a seiva
dissipando-a em excrescências balofas e inúteis como bugalhos
ou prejudiciais como esses cogumelos destruidores das searas.

Isto acusa uma debilidade crescente na imaginação dos autores
e uma assustadora irreverência nas massas para tudo quanto há
de belo e portanto de venerável.

Afadiga-se um compositor em traduzir pela música as paixões
violentas, os efeitos suaves, as tristezas e os júbilos, que formam
o drama da vida. Exaltado, febril, na excitação nervosa que
acompanha os mistérios da concepção, não vive
senão para aquela ideia, através da qual antevê o esplendor
da glória. A inspiração visita-o, ilumina-lhe as noites
de tão longas e laboriosas vigílias e após esta aurora,
surge a obra de arte esplêndida, impregnada do pensamento do artista,
cheia de vida e de futuro e anelando levantar o voo em busca de mais amplos
horizontes, por um instinto como o da ave que, ainda com pouco vigor para
bater as asas, já estremece seduzida pelo espaço vasto que a
rodeia.

Um dia parte a filha predilecta. Separa-se dela a procurar a rea•
lização da sua última metamorfose, a sua encarnação
final.

Chega ao teatro perante uma multidão que a aguarda despre •
venida ; revela-se enfim, primeiro timidamente como se as nervosas pulsações
do compositor naquele momento se reflectissem na obra ; pouco a pouco ganha
coragem e desassombro; fala, penetra nos cora• ções, subjuga
os sentidos, domina as massas, e o sonho da ambição do artista
realiza-se e compensa-lhe as vigílias de muitas noites uma só
noite de glória.

Mas, a um canto da sala, no meio desse mesmo entusiasmo e delí•
rio, há um coração frio e incapaz de sentir, que se não
comove; há um olhar maligno que estuda a comoção da plateia
e não se fascina; há um pensamento satânico que premedita
uma obra sacrílega.

E uma noite basta a esse espírito para consumar a obra fácil,
ímpia, fatal à arte, perversa e imoral que premeditou: A mesma
música concebida para exprimir sentimentos e paixões elevados
e nobres é por ele rebaixada às vulgares, ridículas e
insulsas peripécias de um enredo chocho e rasteiro; e a musa que nas
vestes alvíssimas com que a inspiração a cingira, arrebatara
a multidão, agora, irreverentemente, vestida com o jaleque multicor
de truão e atada ao pelourinho das praças, receb e as alvares
e insultuosas gargalhadas dos mesmos que a adoraram e que experimentam um
maligno prazer em desprestigiar o seu ídolo.

E quando de novo se apresenta aos mesmos olhares, sob as suas primeiras
vestes, há sempre quem se recorde de a ter visto já de outra
maneira, e ainda então o riso a insulta.

Não é esta uma acção altamente condenável?
Não é quase o mesmo que expor em completa nudez aos olhos cinicamente
curiosos do povo uma virgem ingénua e pura, cuja ino• cência
os mais ousados respeitam e condená-la assim a corar eter• namente
ao recordar a sua involuntária aviltação? E esta profanação
é a última recompensa que recebe o artista pelas suas fadigas!
Nos seus sonhos de glória não contara com o apupar das turbas!
E consente-se o atentado! E não se protege a obra do génio de
tão irreverentes ataques? Estes insultos tem-nos recebido com a música,
a poesia também.

A paródia nada respeita. Os mais belos tipos, as mais ideais concepções,
as mais brilhantes imagens que tem concebido uma fantasia de poeta, de dramaturgo,
de romancista, tudo ela abocanha e profana.

Para fazer rir as turbas, os truões dos nossos dias, ignorantes dos
verdadeiros mistérios da arte, destituídos de engenho, incapazes
de produzir nada útil, especulam com os contrastes irreverentes e fazem
rir como o macaco porque irrisòriamente imita as visagens do homem,
como o papagaio porque de igual forma, lhe imita a fala! E todos riem, ainda
que me quer parecer que no peito de lodos se esconde certo desgosto, como
o que eu sinto e em geral toda a gente, perante essas duas paródias
do homem, que nos apresenta a natureza. Quem há que experimente por
um mono a mesma afeição que tem a um cão? Ou que ligue
a um papagaio o interesse que lhe inspira o original e inspiradíssimo
rouxinol? Em geral é o gosto duvidoso de um embarcadiço ou sertanejo
da América que mais os aprecia.

Mas ao lado da paródia nasce o disparate. É mais um passo
dado pela arte no caminho da devassidão.

A musa perd e então todo o casto pudor que caracterizava as nove
filhas de Júpiter.

Ei-la no palco, desgrenhada, descomposta, ébria, rouca da orgia e
do tripúdio, soltando como a bacante cantigas licenciosas e risadas
cínicas. Reparem para aqueles gestos, para aquelas maneiras, para aquelas
danças e digam se ó esta a musa que se respeita, se é
esta a musa que civiliza.

E é no mesmo tablado onde nos apareceu já a severa e nobre
Melpómene, no palco onde se nos revelou o génio de Donizetti,
de Bellini, de Meyerbeer; em que o drama leal e consciencioso nos tem por
vezes comovido e onde havemos aplaudido a boa e salutar comé•
dia; é a esse mesmo tablado que deixaram subir a embriagada?! E não
receiam que não volte ao templo assim profanado a arte que se preza?
Fechem antes os teatros, fechem-nos, porque os espectáculos assim não
são os que civilizam, corrompem; não educam, pervertem.

Sabes tu, meu amigo? estou em acreditar que vamos a respeito de arte num
período de retrocesso.

Não sei se te lembras de que nos nossos tempos de criança
havia nesta hoje tão enfastiada cidade uma companhia lírica
italiana e uma companhia nacional. Tenho uma vaga ideia de que o teatro português,
bom ou mau que fosse, era então concorrido, que ninguém se enver•
gonhava de o frequentar e de se interessar por os assuntos teatrais.

A arte não florescia, é certo, mas encontrava no interesse
do público uma garantia da sua regeneração. Pouco a pouco
abandonaram o tea• tro nacional e só foi moda tratar do teatro
lírico. Hoje nem desse.

De maneira que no decurso de um ano, abrem-se três ou quatro vezes
as portas dos nossos teatros e lançam-se ao difícil e apurado
paladar do nosso público delicados manjares como este : «El joven
Telémaco», «Franchifredo», «Os sete castelos
do Diabo», a «Grã- -Duquesa»; amanhã o «Barba-Azul»
e não sei quantas mais paródias, mágicas e disparates
e tudo isto condimentado com uma especiaria de cenas cómicas insulsas
e farsas sem sabor, em que um falso cómico usurpa o lugar do cómico
de bom quilate.

E o talento de alguns bons actores que temos, a corromper-se a falta de
exercício nobre e consciencioso da arte! Diz-me tu quantas vezes encontras
o Taborda desempenhando um papel digno dele ? Do coração abomino
todos os colaboradores desta obra ímpia da depravação
da arte. Não perdoo, por exemplo, a Offenbach o aceder ao derrancado
gosto da época, pondo ao serviço dele o seu grande talento musical.
Um homem verdadeiramente artista nunca o teria consentido.

O sacerdote que, para satisfazer os caprichos de uma companhia de ébrios,
consente em entoar salmos e antífonas na sala de uma orgia, avilta
a religião de que é ministro e polui os lábios que nunca
mais celebrarão nos altares com a pureza digna do sacrifício.

Mas, dizem os homens para quem as regras do bom gosto são mudáveis
e chegam todos os anos com os figurinos de Paris e das capitais à moda,
que escrúpulos são esses de portuguesa puritana? Acaso não
se aplaude hoje a «Grã-Duquesa» em Paris? o «Barba-
-Azul»? e todo este género a que tanta aversão mostras?
E que me importa ? Se fosse certo como dizem, que em Paris é este o
gosto dominante, o que não posso ainda acreditar, se fosse certo que
o mais espirituoso povo do mundo precisava já para excitar a sua embotada
sensibilidade, destes derrancados produtos de uma arte aleijada e doentia,
eu não duvidaria dizer que a arte estava em lamentável decadência
lá também; que a imaginação parisiense sen- tia-se
esgotada e o gosto em via de perder-se.

Se em vez de se r só Paris, toda a Europa, todo o mundo aplau•
disse estes escândalos, ainda assim a consciência nos dizia que
toda a Europa, que todo o mundo estava em declinação em assuntos
de arte e de gosto porque não são de convenção
as regras do belo. Há em nós alguma coisa que no-las formula,
que no-lo ensina a reconhecer e que nos dá a coragem e a convicção
para nos revoltarmos contra a opinião geral, quando a sentimos extraviada
da verdadeira e recta estrada que o gosto e a razão lhe traçaram.

Mas não é assim, não pode ser assim! Em Paris ao lado
do mal está o remédio; ao lado da arte doente e degenerada,
a arte sã e vigorosa.

Entre nós o mal é maior porque, nação de pouca
gente, quando o mau gosto estabelece uma corrente para os teatros, desaparece
o bom gosto, à falta de quem o siga.

E depois nós hoje estamos em um período de educação
artística, desfavorável à verdadeira arte e no qual estes
excessos são perigo• síssimos.

O gosto de uma nação corre fases como o gosto de qualquer indi•
víduo. Em criança, por exemplo, o teatro interessa-nos de uma
maneira diversa daquela por que nos influi adultos. É o enredo do drama
que nos comove e não as belezas literárias, não o mérito
dos artistas que, se nos influem, é sem que o percebamos. Choramos
as desgraças da protagonista, odiamos o tirano, aflige-nos como real
a morte das personagens simpáticas, trememos ante a perspectiva de
um duelo e recolhemos a casa alegres ou tristes, conforme a natureza do desfecho.

Esta ingenuidade dissipa-se cedo ; substitui-a mais tarde o gosto pelas
belezas da composição e da execução. Este, porém,
forma-se mais lentamente do que se dissipa a primitiva ilusão de que
falámos. Daqui resulta haver um período de transição
em que já nos não ilude o enredo como em criança nem
ainda nos comovem as belezas literá• rias, como quando o bom
gosto se formou em nós.

Nesse período frequenta-se o teatro com insensibilidade artística,
apreciam-se tanto os intervalos como os actos, é indiferente perde
r uma cena inteira ou no principio ou no fim e, se a moda pôs isso em
costume, adopta-se o costume da melhor vontade.

Então aplaude-se tudo quanto a moda recomenda, o entusiasmo não
é espontâneo, é de convenção e antes de
saber se nos devemos arrebatar, perguntamos se o que vemos já arrebatou
alguém que auto• rize o entusiasmo.

O nosso povo na sua educação artística está
quase neste caso, acha-se neste antipático e estéril período
de transição.

Perdeu já aquela ingenuidade dos bons tempos em que corria aos teatros
interessado pelas peripécias dos grandes dramas em que chorava e ria
e se indignava com diversos episódios que presenciava de boa fé;
em que tão completamente encarnava nos actores as per• sonagens
do drama, que nem os distinguia.

Ele não queria então saber quem er a o autor da obra dramática,
que o interessava. Esquecia-se até de que um drama precisa de ter um
autor.

Estava na infância do gosto, nem os teatros eram então con•
corridos.

Desenvolveu-se, porém, o nosso público e hoje já assiste
com o sorriso céptico aos espectáculos; já tem vergonha
de os tomar a sério, de chorar nas cenas sentimentais, de rir abertamente
nas cómicas. Mas, por infelicidade, o bom gosto não veio ainda
ocupar o terreno para fazer florescer a arte. Não há ainda bastante
amor e conheci• mento dela para manter entre nós um teatro permanente.

Quem dá as leis, quem domina exclusivamente é a moda. Aplau•
de-se o bom e o mau, contanto que a moda o recomende.

São capazes de fazer hoje uma ovação à Ristòri
e passar a noite seguinte a ouvir em delírio as intermináveis
e insulsas coplas de Telé- maco na ilha de Calipso.

Ponham pois em moda o bom, os legisladores da moda, Perdoa-me demorar tanto
esta minha conversa, Gustavo; mas sabes que eu tenho destas indignações
a que preciso dar expansão.

Custa-me ver que, reconhecendo o mal que está corrompendo entre nós
a arte nascente, não se organize entre os nossos homens de letras uma
cruzada leal e corajosa, tendo por divisa a arte e comba• tendo sem
quartel nem misericórdia o mau gosto que nos vem do estrangeiro de
mistura com os chignons e os mais artigos da moda. Adeus que chegam visitas
a que tenho de atender; até breve.

Porto, 6 de Setembro de 1868.

Diana de Aveleda.

que dantes visitava apenas os velhos, fez-lhe a fineza de o acalentar no
berço? É muito para agradecer, porque ela sempre antipatizou
com crianças. Dé-me licença, Sr. F…, o meu par vem
buscar-me.

Bem vê que ainda danço. Observe-me, mas… por quem é,
seja benigno.

E o meu filósofo assesta a luneta, senta-se a um canto e observa.

Que pena que conserve inéditos os sumarentos frutos da sua observação
nocturna! Mas o que eu lhe dizia era verdade; ainda danço; mas, aqui
para nós, não danço à minha vontade.

A dança não é, não deva ser isto assim.

Antigamente é que se compreendia o dançar. Basta dizer que
não havia quem de o fazer se envergonhasse.

Em quanto a mim, aquele século de Luís XIV não se chamou
o grande século só por as grandezas políticas, militares,
financeiras e literárias do reinado desse monarca. Concorreram, e muito,
para lhe granjearem o epíteto, as festas esplêndidas de Fouquet,
as noites deslumbrantes de Versalhes e aqueles bailados que Molière
era constrangido a entremear nas suas comédias para satisfazer a mania
coreográfica da corte e nos quais tomava parte o próprio rei,
transfigurado em pastor; dessa graciosa raça de pastores que povoavam
os tablados daquele tempo. E julgas que Luís XIV era lá homem
que dançasse como qualquer dos nossos partners da actualidade executa
um fastidioso solo? Qual! dançava saltando, rodopiando e cabriolando,
que é a verdadeira maneira de dançar.

Dançar, dançava David à frente da arca da aliança
e vejam lá os nossos elegantes se se lhes mete na cabeça deixarem
aos vindouros memória de si, mais acatada e sisuda do que a do rei
salmista.

Sisudos e até sombrios foram D. Pedro ! e D. João II e digam-me
se eles não dançaram com toda a agilidade dos seus músculos.

D. Pedro, o terrível D. Pedro, o amante de D. Inês, tomava
parte em folias populares, e D. João II só deixou de dançar
quando a gordura o impediu de o fazer, diz o cronista, o que prova que não
se contentava com dançar, passeando.

E depois… que santos e singelíssimos costumes aqueles! As mais
honradas e respeitáveis damas não punham muito em saírem
à rua de pandeiro na mão e em festivais coreias por ocasião
de regozijos públicos.

Uma tal D. Briolanja Henriques, que eu quisera dar por modelo às
elegantes dos nossos dias, fê-lo nas ruas de Évora, diante de
D. João II, o qual tanto folgou com a lembrança, que a tomou
nas ancas do seu cavalo e assim a levou aos paços.

Ora a isto é que eu chamo compreender o dançar.

No século passado…

Ai, perdão, perdão! esquecia-me que estás impaciente,
que estás febril, que estás frenética, por eu não
entrar no assunto.

Venham os amores de Margarida à barra. Vamos lá aos amores
de Margarida.

Desci ao largo para gozar mais de perto daquela alegria. Margarida veio
ter comigo. Estava ofegante.

— Bravo! disse-lhe eu, estiveste inimitável, sabes? Nunca admirei
tanto a tua agilidade na dança, nem a tua voz no canto! — Está
a mangar ? — Falo séria. Muito alegre te principiou hoje o dia!
— Que diz, senhora; alegre ! Não, ao que hoje tenho chorado já…

— Mas… nesse caso, Margarida, se essas são as tuas tristezas,
não me darás uma amostra das tuas alegrias? — Então
? a gente precisa de se distrair. Isso lá! De que vale dar-se uma pessoa
à melancolia? Não remedeia nada e…

— E posso saber a causa das tuas tristezas ? — atalhei eu.

— Ai, porque não? julguei até que a sabia já.
É que ontem prenderam o Luis… a senhora conhece-o…

— Bem sei, o teu conversado. Mas… prenderam-no porquê? —
Prenderam-no para soldado.

— Para soldado?! — É verdade, minha senhora. Veja o pobre
rapaz que é tão sossegado, tão bom, tão metido
consigo. Aquilo é mesmo um coração de pomba. Que vai
ele fazer com uma espingarda, ele que nem aos pardais atira? No dia em que
ele matar alguém na guerra, estala-lhe o coração de pena,
assim como me estalaria a mim se o matassem a ele.

— Sossega, Margarida, os nossos soldados não matam ninguém…

na guerra; felizmente não lhes dão ocasião para isso.
Morrer, isso lá morrem… mas como toda a gente, como qualquer de nós
pode morrer.

Tu estás muito nova; dentro em cinco anos Luís obtém
a baixa e estão muito em idade de se casarem.

— Dentro em cinco anos! Ora! daqui até lá, tinha ele
tempo de me esquecer. Longe da vista…

— Nem para tão longe vai que vos não possais ver e visitar.
Do Porto aqui é um passeio e assim não tens probabilidades de
ser esquecida, falando-lhe a miúdo.

— Falar-lhe? Que diz, senhora? Sendo ele soldado! — Ah! então?
— Não, isso é que não, senhora. Que diriam por
aí se me vissem a falar com um soldado? — Mas sendo esse soldado
um rapaz da terra, sendo Luís…

— Nem assim. Isso parece muito mal.

— Mas então… estás resolvida a romper para sempre
com ele? — Eu! Agora estou.

— Mas não dizes que os cinco anos de ausência.., —
Mas é que eu… Olhe, tenho a dizer-lhe e a pedir-lhe uma coisa…
Agora vou dançar, mas volto já.

E, dizendo assim, afastou-se de mim a saltar e, dentro em pouco, escutava-lhe
já a voz cantando:

Água leva o ribeirinho Pra regar o laranjal; As pena3 do amor que
eu peno Hão-de acabar afinal.

Aí está, pensava eu comigo, vão lá acusar aquele
coração de insensibilidade. É próprio da natureza
humana esta inconstância na dor; cada vez mais o acredito. — Percebo
o gesto que fazes ao leres isto, Cecília. Eu bem sei. Entre nós
são menos vulgares estas súbitas transições, mas…
será porque o nosso coração seja menos volúvel?
Que te parece, Cecília, será? Fala-me com franqueza. Eu, pela
minha parte, hesito em afirmá-lo. Não haverá antes em
nós um pouco de afectação também? A sociedade
para tudo faz regulamentos, é a sua mania; em tudo quer as aparências
salvas. Decreta que o órfão seja inconsolável durante
seis meses, e mânda-o vestir de rigoroso dó; outros seis meses
quer que os empregue a consolar-se, sem o conseguir de todo, e traje luto
aliviado; passado o ano, deve considerar-se consolado, e permite-lhe esquecer
completamente os pais falecidos. Para irmãos reduz apenas a metade
estas manifestações de saudade. Se durante o prazo em que nos
manda ser tristes, se infringe a mais pequena cláusula do seu regulamento
funerário, estigmatiza a infracção com severidade ; mas,
se no fim desse tempo, nunca mais se venera a memória do morto, pouco
se lhe importa com isso, não se julga autorizada a censurar porque
se teve para com ela as atenções reclamadas.

Ora muitas das nossas inconsoláveis amantes, repara que ainda não
digo todas, bem vontade tinham de fazer como Margarida, mas a moda tem exigências!
e por isso conservam a tristeza por tempo conveniente… Margarida que não
sabia afectar o que não sentia, ia assim alternando com suas lamentações
as cantigas festivais que a distraiam.

Fazia ela muito bem.

Quando de novo se interrompeu a dança, voltou a procurar-me.

— Então que me querias tu pedir ? — Olhe; lembrou-me
uma coisa. Disseram-me que quem der não sei quantas moedas se livra
de soldado. Ora o rapaz, coitado, não as tem.

Sabe Deus como ele se arranja com o pouco que ganha. Mas aquela senhora
que era minha madrinha, quando morreu, deixou-me um ourito, que eu tenho no
fundo da caixa, porque afinal a gente anda cá no trabalho e quase nunca
traz aquilo. Lembrou-me que se o vendesse…

— Então queres desfazer-te do teu ouro, Margarida? Mas repara
bem.

— Ora, senhora, então? É bom tê-lo para as ocasiões.
E esta é uma. Luís é trabalhador. Eu… vendendo o meu
ouro… perco, é verdade; mas, quem sabe? Talvez ainda venha a ganhar.

— Como ? — Por isto. Olhe, deixando ele de ser soldado e casando
comigo, eu por um lado e ele por outro, iremos mareando a nossa vida melhor;
e em pouco tempo poderei comprar ainda mais ouro do que tenho agora. Em quanto
que ficando ele soldado…

— E então que me querias tu pedir? — Era para que falasse
a minha mãe nisso. Eu tenho medo que ela me não deixe.

Terminei este diálogo, como tu o terminarias, Cecília; apertei
Margarida nos braços e prometi-lhe colaborar naquela boa acção.

Margarida voltou a dançar. Dançar outra vez! Ainda! Que inconstância!
Não é verdade? Mas quantas das nossas belas apaixonadas, que
se privariam de dançar oito dias depois da ausência de um namorado
como Luis, não teriam coração para se desfazerem… do
seu leque que fosse, mesmo sabendo que esse pequeno sacrifício lho
restituiria? Não te ofendas por quem és, nem tu nem as tuas
amigas; repara que não disse todas.

Eu voltei para casa e pus-me a pensar nisto. Contei tudo a meu marido e
deixei-lhe perceber desejos de poupar este sacrifício à rapariga,
adiantando ele o dinheiro para a soltura.

Sabes o que ele me respondeu ? — «Deixa-a. Esse sacrifício
de agora é uma garantia para a sua felicidade futura. Dá-lhe
direitos a exigi-la daquele por quem assim o realiza». Em vista deste
parecer, resolvi falar à mãe e, com algumas dificuldades, sempre
obtive o seu consentimento.

Meu marido encarregou-se de comprar, ele próprio, o ouro que pagou
por um preço muito superior ao seu valor e que conserva ainda em seu
poder, desconfio que para fazer presente dele a Margarida no dia do seu noivado.

Luís foi efectivamente livre. Comoveu-me vê-lo chorar de alegria
aos pés da sua desposada. Por nossa intervenção conseguiu
uma colocação mais lucrativa do que a que tinha, Arrendou uma
quinta e suspeito que já capitaliza um poucochito. O rapaz não
deseja casar sem ter algum pequeno dote a oferecer àquela que se sacrificou
por ele.

Ora aqui tens o que eu te queria contar dos amores de Margarida.

Bem vês que não há aqui nada de romântico; é
uma história que a gente conta sem perceber que a está contando
e da mesma maneira a escuta, tão desprovida ela é de situações
que afectem a imaginação.

Não me queiras mal por te haver feito conceber esperanças,
que não pude realizar. Eu prometo nunca mais cair nessa imprudência.

Adeus, Cecília, adeus que se eu continuo a falar não acabo
hoje; até outra vez.

Porto, Agosto de 1864.

Tua afeiçoada

Publicada no «Jornal do Porto» em 11 de Janeiro de 1865.

Fragmento de uma carta que não era para ser publicada.

III

Já que me falaste em música na tua última carta, não
quero terminar esta sem te dizer quais os meus pensamentos actuais sobre o
assunto.

Repara que digo — actuais. — É que eu sou já cautelosa.
Receio que a minha versatilidade, que sou a primeira a reconhecer, me ponha
em contradição comigo mesma dentro em pouco tempo.

Vamos por isso firmando desde já a cláusula que me seja depois
desculpa. Tratemos pois de música.

Poucas como tu estão no caso de falar nisto; poucas, menos do que
eu, no de te responder.

Sabes que estou muito longe de ser uma mulher da moda. Sou uma mulher do
antigo sistema e nada mais.

Meus pais entenderam que me seria mais útil uma educação
que me tornasse prestável, quando os anos da juventude me não
garantissem já um bill de indemnidade para a minha inaptidão,
do que rodear-me desses mil pequenos dotes que até aos vinte anos nos
servem de alguma coisa, mas que, depois de certa idade, infalivelmente nos
abandonam, deixando-nos então mais desacompanhadas e indefesas que
nunca.

Meu pai teve, por exemplo, o mau gosto de me mandar ensinar a cozinhar;
minha mãe não abdicou nas directoras do colégio o cuidado
da minha educação. Coitada! dizia ela que não me poderia
formar tão bem a inteligência, mas que o coração,
tinha fé que o formaria melhor.

Em quanto ao primeiro artigo da sua piedosa e sincera crença, acredito-o
porque esta inteligência não saiu lá de grandes forças.

Reconheço-me, em desenvolvimento intelectual, muito aquém
de todas as mulheres da geração nova, que falam francês
com uma acentuação de parisiense pur sang; copiam a dois crayons
cabeças de Julien e discutem Meyerbeer, Rossini com um desplante admirável.

Ultimamente parece que até se filiam nas lojas maçónicas
— pelo menos assim mo afirmaram.

Não sei se tu também estarás já iniciada nos
mistérios do grande Oriente.

Agora sim, acredito na regeneração da pátria. Çà
irà.

Mas em todo o caso, bem sei que eu não posso discutir música
contigo; nem é essa a minha tenção.

Com este génio que Deus me deu hei-de — isso sim — dizer
tudo o que penso, que a mais não pode ninguém ser obrigado.

Respondo-te como te responderia se me falasses nisso em um daqueles despretensiosos
colóquios que tantas vezes temos tido em que até os maiores
absurdos e atrevidos paradoxos são aventados sem a menor responsabilidade,
sem incorrermos na censura de ninguém.

Porque hei-de ter mais escrúpulos escrevendo-te do que falando-te
? Acaso terá uma carta mais fundadas pretensões à imortalidade
do que um diálogo ? As palavras voam, os escritos ficam. Histórias!
Se os escritos ficassem todos, em pouco tempo o mundo seria uma papeleira.
Só fica o que merece ficar.

Há palavras que atravessaram séculos e escritos que nem duram
dias. Mas vamos ao assunto.

Tu entraste em plenos mistérios da arte, Cecília. Admirei-te
mas compreendi-te mal. Via-te cá de baixo, subir, não te pude
seguir.

O mau humor que dai me resultou, explica talvez a direcção,
que estranharás em minhas ideias.

E depois eu recebi a tua carta em uma época em que andava preocupada
por um pensamento, que alguns meses de vida campestre me haviam sugerido.
Foi talvez por isso que não pude apreciar as tuas teorias musicais,
como as apreciaria aí debaixo das mesmas impressões sob que
as meditaste e formulaste.

Ocupava-me muito da música popular, cuja singeleza e originalidade
me tinham enamorado.

Sabes que eu em música tenho o mau gosto, que só a ti muito
baixinho confessarei, de preferir a execução fiel e correcta
de qualquer trecho lírico que me agrade, às brilhantes fioritures
e variações de fantasia com que um artista de génio consegue
revelá-lo, sacrificando— aos meus ouvidos profanos — o
motivo musical que lhe serve de pretexto.

É por uma razão análoga àquela que me faz preferir
o ondeado natural das tuas belas tranças negras ao impertinente e caprichoso
frisado com que as martirizas em uma noite de baile.

Espero que a comparação me faça perdoar a heresia de
arte, que acima julgo que pronunciei.

Podes ver que com estas decididas tendências para tudo que é
natural e singelo, estou muito arriscada a apaixonar-me pela música
popular, por essa caprichosa e ligeira música que voga nos ares com
todos os mais rumores de que a escola romântica há tempos os
traz povoados.

Ora, apaixonada assim, diz-me se me era possível escutar com a reverência
de discípula ignorante, a erudita dissertação, a que
o último concertista, de quem eu te pedi informações,
deu lugar.

Esses períodos da rua apreciável carta vieram despertar-me
de uma espécie de sonho — e digo sonho por não saber bem
como hei-de traduzir de outra maneira aquela eloquente rêverie dos Franceses
— em que me deixara arrebatar; é natural que respondesse com
a rabugice própria do despertar.

Vinhas fazer-me a apologia da música científica, académica,
clássica, entendida só por os raros iniciados nos mistérios
do contraponto, e eu, que estava a escutar uma cantilena aldeã repassada
de poesia, impacientei-me, reagi.

Contrariedade por contrariedade, minha querida. Agora hás-de ouvir-me
tu. Vê se a tua ciência musical te dá a solução
do seguinte problema que era o que me preocupava. É como respondo à
tua dissertação.

Este problema — em que eu muitas vezes cismo e para o qual peço
a tua cooperação — é o da origem da música
popular.

Sabes-me dizer qual o maestro inspirado dessas toadas singelas que se cantam
ao bater das roupas nos ribeiros, ao esfolhar das espigas nas eiras, ao espadelar
do linho nos serões? E terão elas compositor? Chego a duvidá-lo.

Ouve a minha teoria: Às vezes lembra-me que o povo é como
os pássaros, que amenizam a espessura das selvas. Qual deles foi o
autor desses quebros e gorjeios que todos repetem? Quais os maestros? Quais
os discípulos? Não há distinção. Cantam
assim porque lhes está na natureza aquele cantar, porque as vozes do
campo desafiam um eco e eles respondem- lhes, como a concavidade da colina
responde aos ventos que bafejam. — Ai está.

Assim me parece o povo.

Uma noite — penso eu — as brisas adormentadas mal fazem ciciar
os olmedos da campina; os ribeiros afagam serenamente, e murmurando apenas,
os musgos húmidos das levadas; cintilam as estrelas no azul-escuro
do céu; prorrompe das moitas e silvados um concerto magnífico
de insectos… e o povo sente vagamente a poesia da hora, a poesia da noite,
a poesia da natureza.

Sente-a o velho pensativo à soleira da porta, balanceando lentamente
nos joelhos um gracioso grupo de netos adormecidos, sente-a a mãe,
jovem e desvelada, ao acalentar o filho no berço e fitando os olhos
na mais brilhante dessas estrelas, como se ali se escrevera o destino daquela
criança que estremece; sente-a a aldeã namorada aspirando os
aromas que dos alegretes do jardim lhe sobem até ao peitoril da janela,
onde se esquece a devanear; sente-a a própria infância, deixando
os brinquedos ruidosos, falando baixo, escutando, cismando…—Este cismar
da infância! este cismar da infância! Que gérmen de futuros
pensamentos!

Nessa noite pois, em uma noite assim, opera-se o mistério, o génio
popular estremece, visita-o o fogo sagrado, a brisa da noite acorda a estátua
de Mémnon; e então, no mesmo instante, no instante solene, um
canto vem naturalmente aos lábios desses numerosos poetas, que todos
sentiram e cismaram.

Do balcão enflorado, do limiar da porta, de junto dos berços,
dos largos, das encruzilhadas, prorrompe uma voz; o ancião, a donzela,
a mãe, as crianças cantam a um tempo e uma nova música
nasce então, suave, saudosa, melancólica, como as maviosíssimas
notas daquela noite que a inspirou.

Todos compuseram, todos imitaram. Mistérios das multidões!
Decifre-os quem puder. Eu não os discuto; creio neles, como outros
tantos artigos de fé.

Como explicar de outra sorte as nenhumas reclamações de propriedade,
tão naturais à vaidade humana, e que, até no seio das
mais doutas academias, consomem a máxima parte do tempo, que devia
ser votado a investigações mais úteis, do que as de prioridade
entre dois inventores litigantes ? Não sei.

Que melancolia a de alguns daqueles cantares; que festiva graça a
de outros ! Lembra-me que uma noite deixara eu aberta a janela do meu quarto
— vinha-me de fora um tão suave perfume de laranjeiras que não
tive coragem para fechá-la — o rouxinol, esse poeta dos bosques,
o chefe da escola romântica entre aquela sonora turba, porque não
sofre modular as suas canções por formas sempre as mesmas, antes
as varia, segundo as aspirações do seu génio, o rouxinol
estava admirável! As folhas brincavam com a luz do luar e desenhavam
no cortinado do meu leito uma renda buliçosa de extravagantes ramagens.

Cedi à influência languescente e deliciosa daquela noite de
Estio.

Adormeci. Por altas horas acordei ao som de uma cantiga aldeã.

Entoava-a uma voz feminina, cujo timbre melodioso e juvenil me comoveu como
ainda nenhuma prima-dona. Perdão, perdão, reconsiderei a tempo.
É certo, porém, que me comoveu aquela voz. Durante o meu sono
a luz desaparecera e agora cintilavam algumas estrelas pálidas, procurando
combater infrutuosamente a escuridão mais intensa que precede o amanhecer.

Não pude resistir, corri à janela.

A voz partia já de mais distante. Era a de uma jovem lavadeira, que
ia para as presas lavar.

Olhei o relógio; pouco passava das quatro horas! Pobre rapariga!
Ela aí ia sozinha votar-se ao trabalho! Aos dezoito anos, repara tu
e todas as tuas elegantes companheiras; à hora em que vós apagais
a luz, ainda com a imaginação alvoroçada pelas aventuras
da mais simpática personagem do romance que vos disputou ao sono, à
hora em que desprendeis o enfeite que vos adornou as tranças no baile
e vos despis, cismando na frase de leviano galanteio que vos segredou o último
valsista, ela, coitada! ergue-se para ir lavar, ergue-se para atravessar sozinha
os caminhos ermos, cujo aspecto bastaria para vos desafiar um ataque de nervos,
melindrosas organizações. • Muito felizes sois! muito
malfadada é ela! E contudo.,. —vede. — De quando em quando
o vosso silêncio é interrompido por um suspiro, que não
podeis reprimir; caís em desalento no sofá vizinho do leito
e apodera-se de vós uma tristeza que vos faz chorar.

E ela ? ela canta, ela desperta, cantando os ecos escondidos pelas quebradas
e afugenta os espectros sinistros que povoavam os recantos obscuros.

Mas é que vós não podeis cantar como ela, por isso
também não tendes aquelas expansões que distraem e aliviam.

Cantar! Pobres meninas! Se vos ensinam a cantar em italiano! Se a moda,
essa tirânica divindade que do alto do seu trono de rendas e vidrilhos
vos impõe um código absurdo, menospreza a nossa harmoniosa língua!
Se para saudardes a Lua precisais de lhe chamar — casta diva —
e repetir a letra de Felice Romani! se só com o auxílio dos
libretos e martirizando a língua do Dante podeis celebrar Deus, as
flores, as estrelas, o mar! Se vos ensinam a erguer-vos às onze horas!
Se vos mostram as belezas do amanhecer nas gravuras inglesas ou, quando muito,
no poliorama que adorna uma das mesas do vosso salão! Se só
vedes o mar quando apequenado pela afluência de banhistas! Se vos mandam
cantar ao espelho para estudardes o gesto conveniente a uma. cantora que tem
escola! Se quando cantais tendes na ideia tudo menos o canto! Oh! vós
não podeis, vós não sabeis cantar! Com todo o vosso estudo
ficais suplantadas por tantas espontâneas cantoras que abundam nos campos.

Ainda não encontrei artista de profissão que afinal de contas
não fizesse caretas a cantar e ainda não vi rapariga aldeã
que não fosse mais bonita cantando. Porque é isto? O artifício
mata-vos.

E não é só a letra estrangeira que neutraliza para
vós todo o efeito calmante que um antigo ditado português de
tempos imemoriais concede ao canto, é também a música
estrangeira.

Da Itália, da França, da Alemanha, da Inglaterra, da Espanha,
de toda a parte aceitais de bom grado a música; só desdenhosamente
sorris para a que não é de importação.

Ao lado do vosso piano, se se depara com alguma composição
firmada com um nome português, é como envergonhada e escondida
nas rimas de cadernos onde, em grande tipo, se lêem os nomes de compositores
de fora, nem sempre dignos de celebridade.

— Mas se nós não temos música popular —
disse-me ainda há pouco um dos nossos melhores talentos musicais. Não
o contestei;

seria arrojo da leiga, heresia de profana. Houve quem, sem o saber, lhe respondesse
— e pela Imprensa — que a fizesse ele. O artista lendo o conselho,
encolheu os ombros e riu-se. Desta vez tinha razão.

— Como! fazer música popular! Pois a música popular
faz-se ? Se ela não existe, haveria génio tão superior
que a tirasse do nada? Mas, não existirá de facto? Ai é
que se resume a questão. Pois será este nosso povo um povo que
não canta? ou para cantar irá pedir trovas emprestadas às
outras nações? Responde por mim essa harmonia que sai dos campos,
que nos enche os ouvidos, que anima o trabalho das ceifas, das esfolhadas,
das malhas… Música rudimentar — dizem-me. Concordo. Mas é
que se não vai assim de repente à ópera.

Exigir de um compositor que escreva uma ópera com música nacional
é exigir muito, é marcar-lhe uma meta superior às forças
de qualquer artista.

Fossem lá dizer aos escritores de língua portuguesa, esses
que balbuciavam as primícias da poesia nacional, ao autor daquela canção
do Figueiredo das Donas por exemplo — se é que depois da opinião
de um nosso ilustre crítico ainda lhe podemos dar o foro de nacionalidade—
fossem lá dizer-lhe: Escrevei um poema épico nacional! Tomai
fôlego, fazei o que fez Homero, o que fez Virgílio.

Mas a ave não sobe às alturas logo ao primeiro voo.

Camões só podia nascer quando nasceu.

Não digais, pois, aos nossos compositores: Escrevei óperas
nacionais.

— Isso é exigir-lhes o impossível — mas dizei-lhe:
Escrevei trovas, escrevei canções, escrevei cantigas… porque
deveras não sei por que se há-de pôr de parte esta palavra
e esta coisa tão genuinamente portuguesa — a cantiga —
deveras que não sei.

Vós que falais em romanzas, em cavatinas, em rondós, em barcarolas,
sentis um certo escrúpulo de mau gosto em falar de cantigas.

Pois eu, se estivesse no vosso lugar, legisladores do gosto, não
o sentiria; eu havia de dizer desafogadamente aos nossos talentos artísticos:
Fazei música para cantigas inspirando-vos do gosto popular, subireis
depois às composições líricas ligeiras e mais
tarde, no futuro, os nossos netos aplaudirão a verdadeira ópera
nacional — antes disso tentá-lo é absurdo.

As artes têm todas a sua infância. E Deus nos livre de crianças
assenhoradas que é a mais antipática espécie de Preciosas
ridículas que eu conheço.

Mas atendei a que não é só dos compositores que depende
a reforma.

Alguns têm feito as primeiras tentativas, mas como lutar entre a tremenda
potestade que se chama a moda ? Ainda me recordo de um malicioso sorriso que
te vi nos lábios quando em certa reunião uma senhora teve a
coragem de cantar deliciosamente a canção do Marujo, do drama
de César de Lacerda. Sorrisos como esse é que estragam tudo,
Cecília.

Momentos depois ouvias, já muito sisuda e atenta, uma pequena ária
francesa, destas que os editores de romances publicam nas capas dos seus feuilletons
e que se podem cantar sem ofensa do bom-tom — porque são francesas.

Eu tenho vontade de promover uma revolução proclamando neste
sentido: — Senhores folhetinistas, é necessário convencer
as nossas elegantes que não é de mau gosto cantar em música
portuguesa poesia portuguesa; ridiculizai muito embora a Jovem Lília
e as antigas modinhas, mas substituí-lhe canções nacionais
como elas. Não vos mostreis benignos somente para com os ohimés,
infelices, míseros, mios contentos e addios das letras italianas.

A moda é um potentado. Para a combater é preciso uma aliança
poderosa, poderosíssima.

Não exijais de ninguém desacompanhado essa façanha
de Hércules.

Não há forças isoladas que bastem.

Vós não criareis música nacional nos salões
e gabinetes. Desenganai- vos. Ide ao campo e às ruas, percorrei as
províncias e depois ponde à moda a Euterpe rústica que
tiverdes encontrado por lá, perfumando- a e apresentando-a com a etiqueta
do estilo, na sociedade elegante.

É uma subservivência necessária. A musa popular, para
se tornar nacional, tem de sujeitar-se a essas formalidades. Os promulgadores
dos diplomas não lho dispensam. Sujeite-se, que faz bem. Coloque-se
à moda, depois o resto virá naturalmente.

Aí tens o meu modo de pensar.

Em troca da tua dissertação científico-artística,
que me impacientou — por ininteligível — dou-te uma opinião
de leiga que te revoltará — por absurda.

Estamos quites.

Até outra ocasião.

Continuo a ser toda ao teu, dispor.

Janeiro de 1865.
Diana de Aveleda.

A ILHA DA MADEIRA

Funchal, Março 1870

Meu amigo Funchal, Março 1870

Recordo-me de lhe haver prometido, ao separarmo-nos, escre- ver-lhe de quando
em quando desta ilha, onde pela segunda vez abordei, à procura do ideal
que se chama saúde.

Tarde me lembrei do cumprimento da promessa; mas a tempo vai ainda.

Não é uma monografia que eu vou fazer. Deixarei em paz a constituição
geológica, a flora, a fauna da ilha e todas as questões médicas,
económicas e políticas que se prendem a este torrão fertilís-
simo. O meu intento é mais modesto.

Quero mostrar-lhe a Madeira através das individualissimas impres•
sões que o meu espírito recebe nela e isto sem plano, sem método,
sem coordenação didáctica e só conforme a corrente
irregular e capri• chosa das minhas ideias.

Fazer-lhe esta observação equivale a avisá-lo de que
não serão de tintas muito vivas os quadros que traçarei.

A imaginação de um valetudinario tinge de cores amortecidas
as mais ridentes paisagens e as cenas mais pitorescas que observa; para ele
o brilho do Sol é visto como através de um cristal corado; perceb
e as gradações de luz, mas sempre sob o tom uniforme e som•
brio do cristal, que neste caso se chama: preocupação.

As viagens, esse sonho dourado que tanto seduz a imaginação
da mocidade, ansiosa como a ave prisioneira, por alargar horizontes e bater
asas em demanda de climas novos, transforma-se em amarga proscrição,
sempre que as empreendemos, forçados por uma triste necessidade e partimos
levando o espírito assombrado por uma ideia, ou antes, por um pressentimento
doloroso, Nada então nos compensa as lágrimas da despedida e
o cruel confrangimento do coração, que responde ao último
adeus do amigo que, de olhos húmidos, nos acena da gare do caminho
de ferro ou nos aperta a mão no tombadilho do vapor. Partimos com a
alma oprimida e sem aqueles voluptuosos estremecimentos de júbilo que
se mistu• ram às saudades de quem se aparta dos seus, seduzido
pelo prazer de viajar.

Quando se perd e de vista a terra em que nos ficaram todos os afectos Íntimos,
parece-nos escutar uma voz interior a perguntar-nos se voltaremos a vê-la.
E não há um clarão de esperança a responder a
essa interrogação! Que tristeza a daquele instante! Depois o
mar, o mar, esse imenso foco de melancolias, acaba de escurecer-nos o pensamento!
Olhar em roda e não avistar um só desses objectos que nos falam
do passado, da família, do remanso doméstico! Ver tudo em movimento,
tudo em irrequietação, tudo revolto! Ter necessidade, para satisfazer
a instintiva ânsia de repouso que sen• timos, de elevar os olhos
para o Céu, como faz o homem desalen• tado pelo tumultuar das
vagas da vida e que considera aquela outra pátria como o único
lugar do verdadeiro repouso. Impressões são estas que não
dissipam as nuvens do nosso horizonte, antes mais as carregam.

Apesar da sua grandiosa solenidade, o oceano é um desconso- la,dor
companheiro para a alma naquelas disposições.

Por isso quando, ao amanhecer de um desses dias longos e deso• ladores
se avista além, muito além no horizonte, uma sombra mal dis•
tinta, através da qual só o olhar amestrado do marinheiro consegue
distinguir a terra demandada, saúda-se essa sombra como uma pro•
messa de redenção.

Todos os olhos a procuram com ansiedade e, à medida que ela se ergue
e aclara e avulta e se contorneia e se colora com as tintas naturais, revelando-se
enfim, tal qual é, entre o azul do mar e o azul do céu, dissipa-se
a mais e mais a cerração da melancolia que nos pousava no coração.

Como a ave, extenuada de longa travessia por sobre mares vas• tíssimos,
abate o voo a repousar na terra que lhe surge do seio das ondas, assim o espírito,
cansado daquela imensidade e irrequieta agitação das águas,
voa a engolfar-se no regaço das verduras que parec e haverem enfim
obedecido à evocação das suas nostálgicas saudades.

Quando a formosa ilha da Madeira, levantando-se da espuma do mar como a
mitológica Citereia, crescia para nós a receber-nos, abrindo
o seu seio,benéfico e maternal aos desconfortados que nela só
depositavam as suas derradeiras esperanças, sentíamos todos
pene- trar-nos o coração um desses suaves prazeres como o que
nos produz, no meio de uma turba de estranhos, o encontro de um rosto e de
um sorriso de amigo.

Formava um consolador contraste com a tremenda severidade do mar a amena
perspectiva da ilha! Horas depois de a avistar, a marcha rápida do
vapor fez-nos dobrar o cabo de São Lourenço; transpondo o amplo
pórtico que ele forma com o grupo das penhascosas Desertas, sentira-se
uma súbita mudança de clima, como se de repente se tivessem
vencido muitos graus de latitude. Afagou-nos a face a brisa tépida
e perfumada da ilha, aspirámos com prazer o hálito acalentador
e salutífero desta fada marítima; achávamo-nos sob o
seu abençoado encantamento, reco• nhecíamos enfim a Madeira!
A costa do sul ia passando em revista com as suas rochas escar• padas,
as suas ribeiras profundas, a sua vegetação vigorosa, as suas
formidáveis quebradas e os altos picos onde pousam as nuvens, os vales
fertilíssimos e as povoações graciosas.

Momentos depois, vencida a ponta do Garajão, as casas e as quintas
do Funchal, iluminadas por. um esplêndido sol de Outono, que dourava
as extensas plantações de cana, saudaram-nos por sua vez.

A magia do espectáculo emudecera-nos. De um lado o mar, do outro
as serras, e entre estas duas grandezas majestosas, a cidade sorrindo, coroo
a criança adormecida entre os pais, que a defendem e acalentam.

Dentro em pouco pousávamos pé em terra.

Não é grata a impressão recebida ao desembarcar. Costumados
aos extensos e alvejantes areais das nossas praias tão ricas de formo•
síssimas conchas e em cujas penhas se formam aquários naturais,
onde aos raios do Sol as actínias matizadas escondem os seus braços
gela• tinosos e as algas crescem em delicadíssimas arborizações,
costuma• dos às praias risonhas que atraem as mulheres e as crianças
com o animado e variadíssimo espectáculo que lhes oferecem e
os abun• dantes tesouros de pedrarias que escondem nas suas móveis
areias, afecta-nos tristemente o aspecto desta praia negra, formada de calhaus
roliços, cor de lousa, sem uma dessas pequenas maravilhas naturais
que são o principal atractivo da beira-mar.

Esta pedr a escura parece conservar ainda evidentes os vestígios
do cataclismo vulcânico que a arremessou à superfície
das águas. Dir- -se-ia que ainda está defumada e quente do fogo
do imenso forno em que foi fundida. Ao seu aspecto comprime-se o coração
do viajante.

Entrámos na cidade. Há um não sei quê de melancólico
no aspecto dela. Por isso mesmo que é a generosa consoladora de tantos
aflitos, por isso mesmo que acolhe no seio maternal os que sofrem e que de
toda a parte do mundo correm a abrigar-se ao seu calor salutar, por isso mesmo,
parece anuviar-lhe os sorrisos aquele ar de piedade e de compaixão
que é, por assim ‘dizer, a alegria da caridade.

Não nos sentimos impelidos a saudá-la com um cântico
festivo, com uma aclamação de prazer; mas apenas com uma serena
comoção, igual àquela com que se beija a mão generosa
que se estende a socor- rer-nos ou a enxugar-nos as lágrimas.

Ó Funchal! Que tristes dramas se têm passado à luz do
teu sol benéfico! Que lutuosos desenlaces de tantas histórias
de paixões! Que de lágrimas ardentes caídas no teu solo
sequioso que se apressa a escondê-las discreto! E à sombra das
tuas árvores quantas frontes escaldando de febre vergaram sob o peso
da cruel melancolia! Ilusões desvanecidas, esperanças desfolhadas,
sonhos de amor, de glória, de felicidade, dos quais se desperta à
beira do túmulo, tudo tens presenciado, ó humanitária
cidade! E debaixo dos cedros e ciprestes dos teus cemitérios dormem
o último sono muitos mártires sem que as lágrimas dos
que os amaram lhes caiam na campa como tributo.

Dai vem a simpatia e a tristeza que inspiras. As tuas virtudes como irmã
de caridade que consagra os dias ao cumprimento de uma missão cristianíssima,
brilham entre cenas e espectáculos de deso• lação
e de dor.

Este carácter da cidade avulta aos primeiros passos dados no interior
dela. O viajante cruza-se a cada momento com certas figuras pálidas,
emaciadas, pensativas, marchando lentamente, ou transporta• das em redes,
encontra-as nos assentos dos passeios em ociosa medi• tação,
ou fitando melancolicamente as ondas que se sucedem na praia; são ingleses
cadavéricos, alemães diáfanos, portugueses des•
carnados, brasileiros, norte-americanos, russos; são velhos, adultos,
crianças, vaporosas belezas femininas de todas as partes do mundo,
todos a convencer-nos de que estamos na città dolente; mas no pór•
tico desta não se lê gravado o dístico desesperador que
o poeta ins• creveu no da região das tormentas eternas. Pelo
contrário, à entrada aqui, revestem-se de esperança os
próprios condenados.

Para que a Madeira nos sorria, para que nos apareça formosa como
a descreve o poeta inglês e fragrante como uma verdadeira flor do oceano,
é necessário sair do recinto da cidade, procurar as fregue•
sias rurais, subir as íngremes ladeiras que costeiam os picos e espraiar
então a vista pelos formosíssimos vales que vão descobrindo
o seio fecundíssimo aos nossos olhos maravilhados, Que vigor e variedade
de vegetação ! O verde dourado da cana realça entre as
diferentes cambiantes da mesma cor de plantas de todos os climas. A palmeira
de Africa agita a sua fronte graciosa junto dos carvalhos da Europa; a bana•
neira, vergando sob o peso dos seus cachos, cresce cheia de viço nos
mesmos pomares onde se enfeitam de flores os pessegueiros e as laranjeiras
odoríferas. As rosas, as malvas, as madressilvas florescem espontâneas
à beira dos caminhos; debruçam-se dos muros as «bou- gainvillias»
entretecendo os seus cachos roxos com as flores alaranjadas das bignónias;
tudo tem um ar de festa e alegria. A choça mais humilde tem um jardim
à entrada; as flores sorriem à porta dos ricos e dos pobres.

E quanto mais nos elevamos mais se pronuncia este magnifico aspecto do país.
De um lado vemos aos nossos pés, o mar liso como um espelho, azul como
safira, limitado ao longe pelo grupo das Desertas vagamente tingidas do azulado
da distância; do outro as altas serranias que rompem as nuvens e cujos
cimos tantas vezes tinge a ofuscante alvura das neves. E nos flancos, abertos
em fundas que• bradas, sulcados em ribeiras pelas torrentes do Inverno,
uma vege• tação exuberante, cheia de vida, encobrindo
aqui uma casa isolada, enfeitando além uma povoação risonha,
que se agrupa em torno de um campanário.

Então sim, então a atmosfera embriaga, o peito aspira com
volup- tuosidade esse ar balsâmico, o espírito liberta-se de
todas as apreen• sões que nos gelavam os sorrisos nos lábios
e goza-se despreocupado do mais surpreendente espectáculo que pode
imaginar-se.

Mas não é só a natureza que tão afável
e acariciadora se mostra aos desesperados enfermos que se refugiam aqui; impressões
igual• mente gratas, igualmente consoladoras lhes vêm de origem
diversa.

É geral a simpatia que os doentes inspiram à gente da Madeira.
Se os doces afectos de família, se os carinhos de uma esposa, de uma
mãe ou de uma filha se podem substituir no mundo, é aqui a terra
para tentar a experiência.

Sentis que vos rodeia uma atmosfera de simpatia. Pessoas que nunca vos falaram,
que não conheceis, seguem passo a passo, com sincero interesse, os
progressos das vossas melhoras ou as alterna• tivas do vosso padecimento.

Com o olhar que a experiência tem amestrado, estudam-vos no semblante
as probabilidades de bom ou mau êxito na luta pertinaz da natureza contra
o influxo fatal que vos subjuga. E esse prognóstico é quase
sempre infalível.

Rara é a família que, levada por generosa curiosidade, se
não informe com o médico que a visita ou com os proprietários
dos hotéis, do estado dos estrangeiros doentes.

Nestas vitórias do clima sobre a doença, estão empenhados
os brios e o principal brasão da terra, e o amor pátrio é
um sentimento profundamente entranhado no coração deste povo.
Uma cura operada é um triunfo e todos a conservam na tradição
gloriosa da terra com simpático e louvável orgulho.

A simpatia vai ainda mais longe, revela-se sob mais cordial mani•
festação, exerce-se mais eficaz e abençoada ainda. As
formosas madei• renses, e quem, tendo visitado esta terra, não
conservará memória delas? condescendem muita vez em animar a
alma desolada dos soli• tários enfermos com o raio vivificador
dos seus olhares magnéticos. Amoráveis, movidas por uma generosa
simpatia, exaltadas pelo entusiasmo natural a um coração de
rapariga, acalentam muitas vezes esses amores que elas bem sabem ser sem futuro,
e iluminam os últimos dias de uma triste existência com a doce
luz do mais casto e imaculado afecto. Quantos que morriam longe dos seus com
o coração partido de saudades, lhes devem os últimos
doces sonhos da sua vida, as derra• deiras ilusões e um tributo
de lágrimas na campa? Anjos adoráveis, corações
generosos, vós concorreis com o tesouro dos vossos afectos para a santa
missão que se desempenha aqui. Às vezes sob a influência
do vosso amor, voltam as cores às faces desmaiadas, um sangue novo
circula nas veias exauridas e por um milagre de afecto renasce para a vida
o que a ciência já condenara. Outros sucumbem, mas tendo ao menos
nos lábios um nome querido, no pensamento uma imagem e no coração
a esperança de que não ficará sem sentido para todos
a inscrição funerária que lhes gravarem na lousa.

Abençoadas sejais pelo conforto que tendes dado ãs almas tristes,
que sucumbiam à míngua dele! Reparo porém agora, meu
amigo, no tom elegíaco que vai tomando a missiva. Será prudente
parar aqui, procurando para outra vez ser mais alegre.

Seu do coração

CARTAS PARTICULARES

A SEU PAI QUANDO TEVE NOTÍCIAS DA SUA NOMEAÇÃO DE DEMONSTRA. DOR DA ESCOLA
MÉDICA DO PORTO

Papá

A estas horas é provável que já saiba que estou despachado.
Não tinha informado inexactamente o amigo do Teixeira Pinto, quando
disse que na quinta-feira se assinava o decreto da minha nomeação.

É com a data de 20 que ele vem no Diário de 22.

Esse mesmo rapaz escreveu de Lisboa e eu acabo de ver o Diário. O
amanuense da Escola escreveu-me também. Finalmente está decidido;
acabaram-se todas as dúvidas e inquietações.

Nesta ocasião em que o meu futuro se fixou, não posso deixar
de me recordar do muito que devo ao Papá pelos sacrifícios feitos
por mim.

Alegra-me duplamente o resultado deste meu empenho porque, com o prazer
que me causa, sei que não menos intenso havia de pro• duzir no
Papá, que até agora tão improfícuos tinha visto
ficarem os seus grandes esforços para a felicidade dos filhos.

Meus irmãos foram privados, não sei por que vistas providen•
ciais, de colherem neste mundo os frutos da esmerada educação
que lhes dera. Esse mesmo poder, que os sacrificou tão novos, parece
ter-me reservado, como que para realizar em mim a recompensa que lhe merecia
a resignação do Papá.

Alegra-me esta ideia e anima-me a acreditar que não me faltará
a vida e a saúde para poder cumprir essa missão talvez providencial.

Creia que tenho sentimentos para avaliar todos os seus sacri• fícios
e para compreender o alcance da delicadeza com que procurava não mos
fazer sentir.

Neste dia, um dos mais solenes de toda a minha vida, permita-me que cumpra
com o meu primeiro dever beijando-lhe respeitosamente a mão.

Seu filho grato e afectuoso Joaquim         

Felgueiras, 24 de Julho de 1865.

A SEU PAI, DE FINS DE MARÇO DE 1868, DEPOIS DA REPRESENTAÇÃO
DAS «PUPILAS» EM LISBOA

(Inédita)

Papá

Continuo a passar bem e por enquanto não posso dizer quando partirei.

As «Pupilas» foram bem desempenhadas e prometem dar à
empresa bastantes enchentes.

Do que se passou na noite em que eu lá estive dá conta exacta
a noticia que envio, a qual foi publicada por um Diário daqui. Ontem
esperavam-me à noite em casa do Mendes Leal, mas como às segundas-
-feiras é lá reunião de etiqueta, a que se vai de casaca
e em rigor, fui para o teatro francês e dei por desculpa que n&atiatilde;o
queria deixar a com• panhia com quem tinha vindo a Lisboa.

No teatro da Trindade, no sábado, pediu-me o Mendes Leal para ir
ao camarote dele, visto este não poder deixar só as senhoras
com quem estava. No palco fui cumprimentado por diferentes pessoas, e entre
elas, o Chamiço. O Castilho já me veio visitar.

As «Pupilas» foram postas em cena com bastante fidelidade de
vestuário e de costumes.

O terceiro acto, na esfolhada, agradou muito, e na verdade estava bastante
animado. Foi no final desse acto que me principiaram a reco• nhecer.
No 6.° quadro, quando o Reitor acompanha a Margarida e lhe beija a mão,
não me deixaram ficar na plateia; obrigaram-me a ir ao palco onde fiquei
todo o quadro final.

Peço recomendações a toda a família e ao tio
Bernardo.

Peço também que mande entregar ao Dr. Reimão os livros
que ai deixei para ele e que se alguém aí for procurar os exemplares
da Dissertação do Ilídio, lhe entreguem os que estão
em um dos armários inferiores da estante.

Que não esqueça também mandar-me esfregar o quarto.

Seu f.o ob.te Joaquim.

A SUA SOBRINHA ANA C. GOMES COELHO

Anitas

Cumprindo a promessa que te fiz hoje mesmo, não me quis deitar sem
primeiro te escrever. Cheguei a salvamento a esta terra, tendo engolido muito
pó pelo caminho, petisco de que, nem por isso, fiquei gostando.

Ceei bem e espero dormir melhor.

A estas horas em que te estou a escrever já tu deves estar sonhando
com a cabeça no travesseiro. Estimarei saber que sonhaste em coisas
agradáveis e que acordaste pela manhã satisfeita da tua vida.

Espero que te lembres de mim ainda que seja só quando almo•
çares em São João Novo e tiveres de fazer por ti mesma
as tuas fatias. Adeus por hoje. Manda-me dizer as flores que tens feito e
reco- menda-me à Mamã, a quem hei-de escrever breve, e aos teus
dois manos e, se te não esqueceres, faz também as visitas do
costume às pessoas que sabes.

O Guilherme ‘ disse-me o número da vossa casa em Monchique, mas esqueceu-me.
Vê se mo mandas dizer na tua carta, que podes dar ao Josèzinho
! para ma enviar com a dele.

Adeus.

Ovar, 7-5-63.

Teu tio e muito amigo Joaquim

UMA DAS MINHAS MADRUGADAS CARTA A CECÍLIA

(Inédita)

Na antevéspera da nossa partida, o administrador, vindo visitar- nos,
perguntou-nos quais os nossos projectos para o dia seguinte.

— O arranjo das malas, respondeu-lhe a L… sorrindo.

— Por amor de Deus ;—disse aquele jovial companheiro dos nossos
serões da aldeia. — Por amor de Deus! V. Ex.as fazem-me recordar
o tempo das liteiras e das jornadas com almocreves, os meus bons tempos de
Coimbra. O arranjo das malas ! isso, actualmente, é obra de uma hora
quando muito.

— Mas também que mais curiosidades nos pode oferecer a sua
terra meu caro senhor doutor? A seus olhos triplicemente investigadores de
arqueólogo, de naturalista e de poeta, que poderá ter ainda
escapado ? — O mosteiro.

— O mosteiro ?! Escuso dizer-te, Cecília, que ficámos
já sem a menor vontade de contrariar o nosso cicerone. Eu a acabar
de pronunciar aquela palavra mágica — mosteiro — e logo
um mundo todo de fantasia, como se evocado por um condão misterioso,
a surgir-me, a encantar- me, a pedir-me toda a atenção aos meus
sentidos distraídos… Um mosteiro ! E nós há um mês
ali, ignorando-lhe a existência.

— Sabe, doutor — disse-lhe eu — que é indesculpável
a leviandade com que até hoje se tem conservado silencioso em relação
a esse mosteiro? Não’nos podia ter prevenido da existência dele,
para eu ao menos me preparar com a leitura ale Walter Scott e ir bem prevenida
do espírito fantasioso que concebeu a «Dama do Lago», aquela
deliciosa criação?— Seria uma triste desilusão
para V. Ex.as quando vissem as mudanças que o tempo exerceu naquele
antigo retiro de virgens.

— E de mais a mais mosteiro de monjas extintas! Ó doutor, cada
vez estou menos disposta a perdoar-lhe. O tempo! as mudanças do tempo?
Tem graça. Tanto melhor. Hera pelos muros, não é isso
que quer dizer? Estátuas derrubadas, fustes partidos, capitéis
despedaçados nos lajedos, baldaquins e cornijas servindo de asilo às
aves? Tudo isso aumenta prodigiosamente o interesse da cena. Pois uma lenda
bem conservada na memória do povo vizinho, cheia de maravilhoso, cheia
de fantástico. Diga, diga se há em toda esta sua terra, a que
tanto quer, coisa mais digna de se mostrar e menos capaz de se esquecer ?
— Infelizmente, minha senhora — continuava o desapiedado doutor,
parecendo deliciar-se em destruir todas estas minhas fantasias com a indiferença
revoltante do botânico que desconjunta a mais bela flor do campo para
— inútil crueldade — para a classificar. — Infelizmente,
minha senhora, o mosteiro onde desejo conduzi-las oferece pouco alimento à
curiosidade justificadamente feminil de V. Ex.as. Não é a poesia
do tempo que se respira ali. Desta vez deu-lhe o mitológico velho para
ser utilitário e esqueceu os seus antigos brios de poeta.

Verão V. Ex.as a cerca aproveitada para hortas, transformadas as
celas em tulhas e vivendas de rendeiros e a igreja invadida pela cal e pelo
desastrado pincel do único artista da localidade.

— Nesse caso não vamos.

— Porque não? — disse a L… — deixa falar o doutor.
Eu te prometo que a poesia e a saudade do passado conseguirão romper
toda essa grande camada de prosa. Os perfumes de uma e de outra hão-de
subir ao ar com os vapores que de tarde se elevam de entre o milho desses
mesmos campos, penetrar nas celas com os últimos raios de sol, voejar
na igreja com as partículas coloridas da poeira que a claridade de
uma fresta venha iluminar.

— Bravo! — exclamou o doutor. — Com essa boa vontade,
minhas senhoras, não há poesia que se não encontre.

— Emprazamo-lo para amanhã, doutor.

— E têm coragem de madrugar ? — Boa! Ao romper do dia
estaremos prontas.

— Então, até ao romper do dia de amanhã.

Tu sabes como eu sou, Cecília, podes imaginar em que azáfama
andou toda aquela noite a minha fantasia. Eu que ainda não consegui
olhar com indiferença para o convento de Monchique, do Porto, não
obstante estar desde criança habituada com aquelas ruínas e
apesar da influência do Trem, da Alfândega e de tudo, como poderia
receber de ânimo frio a inesperada promessa de um mosteiro retirado,
quase destruído, talvez ignorado de todos ou pelo menos ignorado por
mim, Porque para mim é de facto nova a existência do convento
de… das…

Então não queres tu ver que nem nome lhe posso dar!

Pois é verdade, satisfiz-me com a denominação genérica
de mosteiro e nem me lembrou perguntar qual a invocação sob
que foi erigido aquele obscuro asilo de almas tímidas e qual a ordem
monástica que por tanto tempo o habitou.

Mas que importa? Não é também uma memória arqueológica
que eu te escrevo. É uma carta, como todas as minhas, como todas as
tuas em que se diz tudo quanto lembra e não se fica responsável
por nada do que esqueceu.

Mas, como eu te dizia, cismei e sonhei em monjas toda a noite.

Lembrou-me efectivamente Walter Scott e lembrou-me também Meyerbeer.

A dança fantástica que no quarto acto do Roberto fascinava
o filho de Bertrand e cuja música, por uma diabólica coincidência,
a L… lhe deu para tocar essa noite no piano, parecia atordoar-me também.

Acordei deste sono pouco restaurador quando me vieram dizer que principiava
a madrugada e que há muito havia luz no quarto do doutor.

Tu não sabes bem ao certo o que é uma madrugada, tu a quem
vai despertar no teu tranquilíssimo bairro o ruído das dez horas
da manhã; nem eu me proponho a fazer-te a análise dos encontrados
sentimentos que nos agitam em tais ocasiões. Dir-te-ei só, de
passagem, que parece que naqueles momentos a habitual corrente das nossas
ideias muda de direcção. Costumadas a pensar no meio de um determinado
grupo de condições, de luz, de movimento, de vida, quase sempre
as mesmas, quando em presença de condições tão
outras das ordinárias, como são as de uma madrugada, como que
os nossos pensamentos tomam uma diversa feição e novas soluções
a problemas, que tínhamos por definitivamente resolvidos, avultam e
avultam sob um aspecto tão luminoso que todos os mais ofusca.

Isto não é filosofia, sossega; é a simples expressão
do que eu senti quando acordada por L… me dispunha, não sem um pouco
de má vontade, a cumprir a promessa feita na véspera ao doutor.

AL… estava admirada do meu silêncio, pois desde que principiara
a vestir-me não lhe dera uma palavra só.

— Em que pensas tu? — disse-me por fim, impaciente — se
isso não é ainda sonhar.

— Não é, não. Queres saber? Penso que talvez
não tiveram razão os que mandaram fechar as portas dos conventos
e proibiram as profissões.

AL… obrigou-me a repetir esta resposta.

— Que extravagante reflexão política é essa tua
agora?! — É que eu, por mais que tenha estado a recordar-me dos
argumentos pelos quais havia conseguido, julgava eu, convencer-me da utilidade
de tal reforma, não os encontro.

— Vê se os deixaste no travesseiro — disse a L…, rindo.

— Olha que te falo séria! Nesse caso dir-te-ei que a razão
mais justificativa, a meu ver, é a de nos ter proporcionado esta visita
matinal, que espero será deliciosa.

Porque, olha que se existissem lá freiras que não fossem penadas,
tudo mudava.

Eu odeio, como sabes, os doces e os conceitos das freiras e decididamente
não acompanharia o doutor, se me esperassem lá essas duas espécies
de gulodices.

Não gostei da feição jocosa que a L… continuava a
dar à conversa, e por isso calei-me.

A ditadura de D. Pedro IV estava a ser julgada no tribunal da minha consciência.

Bem vês que o momento era solene.

Tal se manifestou em mim desta vez a influência da madrugada.

Mais poder do que as jovialidades de L… teve porém a voz do administrador
cantando junto de nossas janelas como o baixo no primeiro acto do Trovador:
Alerta! Alerta! Respondemos-lhe pondo os chapéus e apresentando-nos
na rua.

— Vamos a saber, doutor, inventou alguma bonita mentira para nos contar
quando estivermos no mosteiro? — Eu?! — Sim; é impossível
que há tanto tempo nesta terra tenha resistido à tentação
de meditar a esse respeito algum romance.

— Um romance meditado no gabinete da administração!
Nem V. Ex." sabe o que pede.

— Nesse caso medite-o no caminho porque não posso dispensar
uma história quando visito ruínas.

— É um mau sistema. O mais interessante é fantasiá-la
cada um a seu modo na ocasião. É a maneira melhor de nos satisfazer.
Eu por mim tenho sempre achado muito aquém do merecimento da cena as
lendas dos sítios que visito.

E neste conversar fomos nós matando o tempo do nosso curto passeio.

Como sabes estávamos no Outono e as manhãs eram já
repassadas daquela suavíssima poesia da tua estação predilecta.

O caminho que seguíamos, ora por vales cheios de sombras e de mistérios,
ora por planuras desafogadas, compensaria de sobra o sacrifício da
madrugada, quando a visita do mosteiro nos não reservasse outra compensação.

Àquela hora do dia há mais vida nos campos do que nesses magníficos
sarcófagos que se chamam cidades.

Cantam nos montes os guardadores de gado, nos ribeiros as lavadeiras, os
lavradores nos campos e o moleiro ao ruído das levadas despedaçando-se
nas rodas das azenhas.

Depois e melhor que todos cantam as aves e tantas e tão variadas
na cor, no canto e no voo que eu não sei como há naturalistas
que as conheçam a todas, se é verdade o que se diz.

Eu sinto-me outra em passeios assim, inteiramente outra.

Pois há lá prazer como o de internar-se a gente por entre
campos orlados de moitas viçosas, sebes naturais do onde se debruçam
as rosas e as madressilvas seduzindo com seus perfumes o caminhante, que raro
deixa de ceder aos encantos destas formosas flores, colhendo- as na passagem?
A luz do Sol coada pelas frondes dos álamos e castanheiros e das vides
que estreitamente abraçadas com eles suspendem no caminho seus festões
verdejantes, cheios de cachos prometedores, derrama uma meia claridade nestas
veredas pouco frequentadas e por isso mesmo gratas talvez às recordações
de muitos amantes campesinos.

Numa manhã bem clara, passando por uma rua assim, Cecília,
parece-me que com os insectos que a minha chegada vai perturbar e que, impacientes,
ou amedrontados, se põem a voltear-me em torno da cabeça, se
ergue também um enxame de memórias agradáveis que me
ficaram pelos campos nos poucos mas deliciosos momentos da minha vida que
tenho passado lá, turba inquieta que me envolve, que me embriaga, que
me arrebata, no seu voo vertiginoso longe, ai bem longe do presente, da realidade,
do mundo.

Digo-te uma coisa; então reproduzem-se em mim aquelas intensas e
desanuviadas alegrias de criança que tão depressa os anos modificam,
alegrias espontâneas sem pensamento reservado, sem explicação
possível, que se não reprimem, que rompem em risos, em cantos,
em jogos, alegrias de causa toda interior que nenhum travo perturba.

Depois de algum tempo de caminho o administrador, que dirigia o rancho,
retrocedeu a com uma fisionomia entre risonha e contrariada disse: —
Uma dificuldade imprevista! — Qual é ? — perguntámos
nós a um tempo.

— Nada menos que uma cancela a transpor e uma cancela que se não
pode abrir.

Saudámo-la com uma exclamação de prazer que deixou
embaraçado o administrador, homem comodista, que desejaria ver alisar-se-
-lhe debaixo dos pés em suave macadame todos os caminhos e arrasarem-
se-lhe os mais insignificantes estorvos, qualquer que fosse o ponto do universo
para onde a necessidade ou o capricho o pudessem um dia levar.

— Então que é isso? Pois deveras não as amedronta
uma cancela? ! — Está a gracejar — disse a L… Pelo contrário
acolhemo-la como um interessante episódio no decurso de um poema.

— Ah!… pois estão nessas disposições? Então
eu lhes prometo dificuldades, verdadeiros episódios para o poema, inclusive
um ataque de cães de quinta.

— Menos isso — exclamou a L… já quase séria.

Devo porém confessar-te que efectivamente foi com o coração
folgado que eu vi surgir a dificuldade da cancela. Que queres tu? Outra puerilidade
minha.

Nisto conservo todos os instintos de criança. É sabido que
nada há mais fastidioso para estes pequenos entes, cujos instintos
naturais ainda não foram falsificados pelo prosaísmo da vida
ordinária e pela influência das ocupações que,
tantas vezes com bem pouco fundamento, se dizem mais graves que as deles,
como a seguir um caminho fácil, cómodo, feito de propósito,
trilhado por toda a gente. Eles odeiam as estradas principais, acham-nas monótonas,
sem acidentes, sérias de mais para eles, essas risonhas criaturas de
Deus.

E se não, observa aos domingos qualquer desses numerosos grupos de
famílias burguesas que transpõem as barreiras da nossa cidade
e se espalham nos arrabaldes para sobre a mesa de lousa e à sombra
das frondosas ramadas dos deliciosos retiros campestres, celebrarem o bom
repasto patriarcal a que classicamente se chama merenda. Enquanto os pais
e as mães seguem em linha recta pelo meio da estrada conversando, aqueles,
do tempo do cerco, do estado das novidades agrícolas e das questões
do abade com a confraria do Sacramento e da confraria com o abade e estas,
das criadas, das novenas e das teias de pano de linho que deitaram esse ano;
enquanto as meninas donzelas, de braço dado, e languidamente apoiadas
uma na outra, entregues a confidências de tal ordem que nem se atrevem
a fitar-se, quando muito descrevem ziguezagues caminhando obliquamente entre
os dois lados da estrada; o rancho infantil, turbulento, ruidoso, indomável,
borboleteia em torno de uns e de outros, ameaçando- lhes perturbar
estonteados cometas, a regularidade da trajectória que seguiam. Trepa
aos muros, salta aos valados, interna-se nos campos, explora os caminhos vicinais,
desaparece atrás de um cômoro, surge às gargalhadas do
alto de outro mais distante, pendura-se das árvores, rebola-se na relva,
atola-se nos lameiros, rasga-se pelo tojo e silvas, indiferente aos gritos,
exclamações, ameaças e até às correcções
maternas e paternas.

E se, por acaso, a pacifica caravana depara com uma dessas cancelas rústicas
como a que tínhamos diante de nós, enquanto os papás
se preparam para abri-la, já as crianças a têm cavalgado,
receando perder a ocasião de uma nova peripécia que vem aumentar
o interesse do passeio.

Efectivamente abrir uma cancela é uma vulgaridade, é o que
todos os dias cada um faz em sua própria casa e uma excursão
nos arrabaldes, sendo um facto excepcional no curso monótono da vida,
a regra manda evitar tudo quanto seja vulgar.

Eu sou ainda como eles, essas criaturas sem presunção, que
não têm pejo de brincar, saltar um muro, sendo possível,
transpor uma cancela, franquear um valado de silvas, vadear um ribeiro…
que impagáveis prazeres!

Passados momentos achávamo-nos em plena campina.

Tínhamos diante de nós a indicar-nos o caminho um desses estreitos
carreiros conservado entre terras cultivadas para o serviço das lavouras.
De um lado e de outro eleva-se-nos o milho até aos joelhos.

Em torno uma imensa planície verde onde só alvejavam as camisas
brancas dos sachadores dispersos em numerosos grupos em toda ela.

As improvisadas cantigas com que esta gente se anima no trabalho cruzavam-se
em disputado certame, interrompido de quando em quando por um coro de sonoras
gargalhadas.

O sossego da hora, a vastidão do horizonte do lugar e o timbre puro
daquelas vozes deixavam ir ao longe, muito ao longe, esses vilancetes cantados
na popular toada da Cana-Verde. Percebiam-se ainda distintamente das colinas
circunvizinhas, cujos ecos as repetiam como se participando da contenda.

Altos castanheiros, cuja plena florescência os tingia naquele tempo
de reflexos dourados e as faias de tronco liso que, agitadas pela viração,
ofereciam alternadamente aos raios solares as duas faces da sua folhagem bicolor,
repartiam em figuras irregulares toda esta planície.

Aqui e ali uma pequena casa branca em cujo telhado se beijavam as pombas
e volitavam as andorinhas, que vinham aninhar-se-lhe nos beirais. Nos quinteiros
adjacentes misturava-se com o agradável ruído de vozes infantis
o cantar do galo respondido por o de outros mais afastados.

Depois eiras extensas onde numerosas raparigas ripavam o linho colhido de
pouco, cabanas e colmo de tentarem o pincel de um artista, medas de palha
dispostas em longas fileiras, que vistas de noite à luz fantástica
da Lua, tantas vezes se me afiguravam compridas procissões de monges
brancos, aspecto que, sabe Deus, quanta superstição tem fomentado
por lá! Plena aldeia enfim, plena aldeia da nossa terra, fértil,
risonha, amena, abundante em verdura, em flores e em água, onde a luz
e as sombras se casam em misteriosa combinação; cheia de vagos
rumores de folhas agitadas, de arroios invisíveis, de gorjeios de aves,
de tudo o que consola, de tudo o que nos dá vida.

Tendo atravessado os campos subimos por entre giestas e urzes em flor e à
sombra de magníficas carvalheiras, o mais frondoso dos outeiros que
os limitavam e, atraídos pelo longínquo rumor de uma queda de
água fomos ladeando a encosta até encontrarmos a corrente de
onde esse rumor partia.

Era para ver a agilidade com que eu e L… descíamos então
a vertente oposta da colina, seguindo sempre a beira da levada, com grande
susto da parte do doutor que, a cada momento, estava esperando ver- -nos despenhadas
no abismo.

— Cautela! cautela! — bradou ele de longe, embaraçado
em afastar os estorvos que lhe interrompiam a passagem.

De quando em quando voltávamo-nos. Víamo-lo apegado aos troncos
das giestas, deixando-se escorregar docemente pelo suave declive todo arrelvado
e que ele insultou com o nome de despenhadeiro. A nossa hilaridade saudava-o
então cá de baixo.

A corrente era a cada passo interrompida por açudes e moinhos, atravessada
por pontes rústicas, oculta às vezes pelos arbustos das margens
e, dos sitios mais profundos, soltava do seio os amieiros sempre ávidos
e insaciáveis de frescura.

Conduziu-nos finalmente este caminho a uma devesa na qual cessaram as tribulações
do administrador. O mau humor que a descida lhe tinha exacerbado desvaneceu-se
totalmente no remanso que o esperava ali e não foi ele o que menos
se riu dos seus passados terrores e apreensões.

Mas que devesa aquela, Cecília! Que íntimo recolhimento !
Que misteriosa tranquilidade! Os rouxinóis, ocultos na copa espessíssima
de carvalhos seculares, cantavam à porfia sem que a nossa presença
os inquietasse. A andorinha dos bosques, cheia de confiança, passava
ao nosso lado perseguindo os insectos com aquela graciosa agilidade de movimentos,
que nos encanta nela. De quando em quando uma folha seca, uma lande desprendida
da árvore vinham cair-nos aos pés; um raio de Sol que, atravessando
já amortecido aquele arrendado de verdura, descia a procurar na relva
a florinha cor de anil que não sei que nome bárbaro tem em botânica,
traçava obliquamente no recinto assombrado pelo arvoredo uma coluna
luminosa que se dissera fuste tombado de um templo em ruínas. Insectos
de cor variada, cujos zumbidos eram o maior rumor daquela solidão,
seduzidos por este raio de luz procuravam-no com ansiedade e vertigem.

Instintivamente falávamos baixo ali.

Subjuga-nos tanta solenidade, intimida-nos, sentimo-nos pequenos e;.. —A
caminho! a caminho!—foi a exclamação que ruidosamente
nos arrancou da silenciosa abstracção em que pouco a pouco nos
deixáramos cair.

Desnecessário será dizer-te que foi do doutor que ela partiu.

Para tanto só a coragem dele.

— A terra da promissão não está longe —
continuou, apontando por entre um claro que deixava a folhagem.

Olhámos nessa direcção. Descobrimos ao longe a grimpa
e toda a parte superior de um velho campanário. Saiu-nos dos lábios
uma exclamação de prazer a mim e à L…

— O mosteiro ? — O próprio.

A estas duas palavras sucedeu o silêncio. Com os olhos fitos naquele
enegrecido edifício que, pouco a pouco, parecia ir-se despojando à
nossa vista do invólucro da folhagem que ao princípio no-lo
encobria, fomos caminhando para ele de novo, possuídas daquela mesma
impressão que sentíramos na véspera.

Perdoa à minha ignorância de arquitectura se omito a minuciosa
descrição daquele vetusto convento, transformado hoje em uma
dúzia de coisas muito diversas, que nem já te sei enumerar.
Não perdes muito, tu, nem perde a arte com a lacuna porque afinal de
contas conhecia-se pelo que vimos ainda dele que o convento nunca passou de
uma dessas construções irregularíssirnas, acanhadas,
sem estilo, que um pensamento religioso erguia a cada canto para abrigo dos
foragidos aos tormentos mundanos e nos quais se procurava simbolizar o desapego
ãs vaidades da Terra na ausência completa da menor beleza arquitectónica.
Extensas paredes crivadas de janelas mesquinhas, carência absoluta de
simetria nas construções posteriores à do edifício
principal, assim uma coisa à semelhança do convento de Corpus
Christi em Vila Nova de Gaia e mais nada.

Tinha alguma razão o administrador quando nos falava no carácter
prosaico das modificações que o tempo introduzira neste mosteiro.

Nada do grandioso das ruínas! renovações escandalosas,
verdadeiros sacrilégios de arte, isso, muitas. Montes de palha por
toda a parte e a vegetação das hortaliças de uma exuberância
insolente! AL… bem se esforçava por reconstituir um romance com o
pouco que via; mas as galinhas que esgaravatavam nos claustros dilaceravam-
lho à nascença. É uma ave essencialmente burguesa a galinha.

Não há lenda que possa florescer onde constantemente cacarejam
estes prosaicos bipedes.

AL… chegou a desesperar.

— Visto isso, nem uma pedra histórica, nem uma memória
ligada a estas paredes. Ó doutor, compadeça-se desta nossa ansiedade.

Recorde, descubra, invente um romance — dizia eu.

— Eu só conheço o lugar como a matriz de um círculo
eleitoral e ligada a este recinto só posso recordar-me da história
das eleições passadas.

Cheguei a odiar o administrador ao ouvir-lhe dizer isto.

— Silêncio ! Nada de profanações.

— E contudo estas naves — disse a L… entrando na igreja, efectivamente
a parte mais solene do edifício — são ainda assim longas,
elevadas bastante, convenientemente obscuras. Nem as reformas tolas dos restauradores
conseguiram privá-las de uma certa majestade e poesia.

Doutor, doutor, eu quero levar daqui alguma impressão mais duradoura
! Não saio sem isso.

E, dizendo estas palavras, encaminhou-se para uma capela mal alumiada por
um lampadário antigo e ainda não visitada por nós.

Seguimo-la. À entrada, porém, a imprevista aparição
de um vulto fez-nos recuar. Não era afinal nenhuma alma do outro mundo,
tão somente um rapaz muito pálido, vestido com singeleza, o
qual com um sorriso modesto e melancólico nos cortejou.

 

O doutor correspondeu-lhe com um gesto de afabilidade.

— Quem é este homem ? — perguntei ao doutor quando o
recém- -aparecido se afastou de nós.

— É o mestre-escola da aldeia.

— Ninguém o dirá! Tem uma fisionomia inteligente.

— E desta vez não fica mal Laváter.

— Deveras? Mas… mestre-escola! — Então que quer? Com
aquele estofo — disse o doutor, apontando para ele que já ia
à porta da igreja — fazia-se talvez um bom académico,
fazia. Mas amarraram-no à atafona das primeiras letras.

Nisto saía a L… da capela, verdadeiramente desesperada.

— Não há meio de tirar coisa alguma destas paredes.
Temos de nos resignar a partir com as nossas carteiras em branco. Incomode,
sacuda a sua imaginação para nos mentir, doutor, ande. Invente,
seja amável uma vez na vida.

— Não sou poeta e V. Ex.as perderam talvez a ocasião
de satisfazerem tão inofensivo desejo deixando sair esse rapaz.

— Quê! Pois é também poeta! exclamei, admirada.

— Afiança-me que pode dizer-nos alguma coisa interessante ?
— perguntou a L…

— Aqui, para o que V. Ex.as desejam, ou ele ou ninguém.

— Pois vou chamá-lo.

E a L… com aquele estouvamento que lhe conheces dirigiu-se para a porta,
sem fazer caso das minhas observações e dentro em pouco voltava
com o pálido mestre-escola, singularmente embaraçado com a assistência
que se lhe pedia.

— Emprazamo-lo — disse a L…, usando das maneiras convenientemente
familiares com que logo à primeira entrevista sabe pôr à
vontade os seus interlocutores. — Emprazamo-lo para que nos tire destas
paredes, destas naves, destas abóbadas uma memória, uma lenda,
um drama, seja o que for. Porque, há-de concordar, ir a gente daqui
sem qualquer destas coisas é desagradável, é impertinente,
é triste.

O professor sorriu e naturalmente dirigiu o olhar para a capela de onde
o víramos sair.

— Dali ? — exclamou a L… que lhe seguira o olhar. —Bem
me quis parecer. Há um ar de mistério naquele altar, há;
mas já procurei e nada vi.

— Quer V. Ex.’ que as paredes falem, sem se lembrar que elas só
dizem o que a gente lhe ordena.

— Cale-se, doutor. Os códigos asfixiaram-lhe toda a poesia
que talvez em tempos felizes existiu em si. E se não experimentemos.
Glose este mote alambicado:

Saudade, cruel saudade Tormento da minha vida.

— Não sou capaz de a satisfazer a não ser que me conceda
algumas semanas para procurar inspiração nos autos administrativos
e partes dos regedores.

— Então, silêncio! Este senhor, tenho fé que satisfará
gentilmente a nossa curiosidade. Ou ele não fosse um poeta! —
Poeta! — disse timidamente o interpelado.

— Sim. Sabemo-lo porque o doutor o denunciou e denunciava-o até
esta sua visita solitária à capela de onde há pouco saiu.
Vamos, diga-nos, o que há nela de interessante? O mancebo continuou
a sorrir e parecia hesitar em tomar uma resolução. Depois, corando
levemente, tirou de um livro que trazia na mão um pequeno papel, no
qual se enfileiravam linhas regulares de uma letra miúda mas de traço
firme e entregou-o sem pronunciar uma só palavra à L,.., que
se apoderou dele com vivacidade. Com não menor presteza nos aproximámos
eu e o doutor e por cima do ombro da L… fomos acompanhando a leitura das
seguintes quadras, leitura a que ela procedeu com voz profundamente comovida

A NOVIÇA

«Oh! vem, querida irmã; do santuário do templo
Já desce a receber-te o celestial esposo.
Vem ser da nossa fé sublime e vivo exemplo;
Vem, deixa sem pesar do mundo o falso gozo.

«Vem; dos círios à luz, ao som de alegres hinos, Cinge
o hábito escuro, emblema da humildade,
E, abrasada no ardor dos teus estos divinos
Despe, ao entrar no claustro, as galas da vaidade.

«Esposa do Senhor, virgem cândida e pura, Do teu noviciado expiram
hoje os dias.
Não tremas ao fitar as portas da clausura, Também na estreita
cela há grandes alegrias.»

Assim das monjas soa o religioso canto: Juntas, em procissão pelas
extensas naves Espalham-se na igreja as vozes do hino santo Melancólica
voz de aprisionadas aves.

Caído o longo véu por sobre a fronte airosa
Caminha lentamente a pálida noviça;
Nos olhos lhe fulgura uma aura misteriosa,
Um como cintilar de lâmpada mortiça.

Sobe os degraus do altar, humilde se ajoelha
E ao culto fervoroso as tranças sacrifica.
«Recolhe-te ao redil, imaculada ovelha,
Teus tesouros d’amor nas asas santifica.»

E o coro ergue outra vez o ritual hosana,
Entre nuvens de incenso, à voz do órgão sagrado ; Responde-lhe
o rezar de multidão profana,
Que transpôs curiosa o pórtico elevado

A cerimónia é finda; a monja de joelhos
Permanece, inclinada a face para a terra ;
Era no ocaso o Sol; e seus clarões vermelhos
Vinham tingir o altar, ungindo ao longe a serra.

Longo tempo ali esteve, as pálpebras descidas,
. Imóvel, silenciosa, em êxtase absorta,
Ergueram-na afinal as monjas comovidas;
Doloroso mistério, a pobre estava morta!

— Tinha ou não razão ? — exclamou a L…, elevando
ao ar o papel assim que acabou de o ler.

Todos instintivamente procurámos o autor. Havia desaparecido.

Estupefactos olhámo-nos em silêncio sem saber o que pensar
desta surpresa. Bem longe estava eu naquele momento de encontrar um metrificador
de alexandrinos ! — Agora o que me apetecia decifrar — disse eu
ao doutor — era o mistério deste melancólico e simpático
mestre-escola.

— Se V. Ex.* ordena, porei em acção os meus cabos de
polícia para qualquer dia me habilitar a revelar-lho, já se
sabe, em estilo de relatório administrativo, — Pois olhe, esse
mistério preocupa-me pouco — disse L… — o que pretendo
é saber os fundamentos disto — e apontou para o papel que conservava
na mão.

— Fantasias — disse o doutor.

— E como diz isso! Fantasias! E é coisa de pouco valor isto
de fantasias? Assim fantasia quem quer ? Pois há três horas estou
eu a pedir-lhe que fantasie e o doutor sem me fazer essa fineza que, pelos
modos, lhe parec e fácil tarefa. Ora, na verdade, não lhe mereço
essa crueza de frase que me está revoltando.

— Por amor de Deus, não me condene, minha senhora. Ninguém
admira mais do que eu as obras de imaginação; mas como vejo
que V. Ex." quer achar forçosamente razão de ser a uma
coisa que a con• tém em si, é por isso que eu…

— Mas ele olhava insistentemente para esta capela. Deve estar aqui
a explicação que procuramos.

— Vamos — disse eu — tenha a condescendência de
procurar connosco.

— Mas procurar o quê ? — O mistério.

— Mas que mistério ? — O vestígio do drama denunciado
nestes versos — disse a L… — Venha, acompanhe-nos.

Investigámos tudo. Eu, pela minha parte, nada encontrava. AL.. .
não era mais feliz. De repente o doutor perguntou, no tom de indi•
ferença que lhe dera para afectar naquela manhã; — Serve-lhes
uma inscrição tumular ? — Uma inscrição?
— exclamou a L… —Pois que mais poderemos querer ? Está
decifrado o enigma! Leia, leia depressa.

— Hic jacet — principiou a dizer o doutor.

— Latim, doutor! — exclamámos nós a um tempo,
com o mais justificado dos terrores.

— Eu traduzirei, que até aí ainda chega a minha sabedoria.

O pior é que as letras estão quase todas safadas. Aqui jaz…
a irmã Maria de.. . não sei quê… Nasceu aos… do ano
do Senhor de mil seis• centos e… tantos, professou aos… tantos de
tal e morreu in codem no mesmo dia. Pater noster.

— Vitória! — exclamou a L… com um grito que ecoou por
toda a igreja. — Até que enfim! Esta pedr a com o seu eloquente
laconismo vale um tesouro! — Que entusiasmo! Não o compreendo
— dizia o doutor, sorrindo.

— Que grande significação acha V. Ex." nessa descoberta?
— Que significação ? Pois não vê nela confirmada
a interessante história contada nestes versos? Desvendado o doloroso
mistério que matou aquela pobre mártir no próprio dia
do seu noviciado? — Romances, romances… poesia, minha senhora. Se
V. Ex.a quer, eu vou glosar-lhe mais prosaicamente este epitáfio. Era
talvez uma menina…

— Cale-se, bárbaro ! Que aflição! Não
lhe perdoaria nunca se me tirasse a memória agradável que afinal
consegui levar daqui. E, sabe ? Vou rezar por aquela desventurada.

E a L…, ajoelhando junto ao altar da capela, pôs-se a rezar. No
entretanto dizia eu ao doutor: — O que me parece interessante, curioso
e, quem sabe se huma• nitário até, é estudar o
carácter e história deste mestre-escola tão triste quanto
simpático. Porque não há-de dar-se a essa tarefa, doutor?
— Estava pensando agora nisso mesmo. Alguma coisa que sei já
dele excita-me a curiosidade.

— Então diga o que sabe, diga.

— Deixe-me investigar o que me falta saber para então lhe contar
a história completa.

— E promete não se esquecer ? — Prometo.

1— Dou-lhe então quinze dias.

— Será pouco; mas farei a diligência por não faltar.

Ao sair da igreja ainda fomos à escola da aldeia procurar o profes•
sor, mas não o encontrámos. Voltámos em seguida para
casa. AL… com a poesia e com a sincera crença na história
da noviça, história que ficará sempre misteriosa se algum
romancista a não quiser decifrar, e eu inte• ressada em conhecer
a vida deste mestre-escola e insistindo com o dou• tor para se não
demorar em satisfazer esta tão justificada curiosidade.

Se ele cumprir a promessa, terás cedo, minha Cecília, notícias
minhas.

Diana de Aveleda.

CARTAS PARA A MINHA FAMÍLIA

Meu amigo

Voltámos ontem do campo sem que merecêssemos à política
o favor da tua presença, por poucos dias que fosse.

As pequenas chegaram boas e parece-me que não demasiado saudosas
dos prazeres e das belezas campestres.

É tão raro que raparigas de dezasseis anos amem a bucólica!
E é pena, que se me enchia o coração de alegria e de
confiança, quando as via a elas à sombra daquelas árvores
salutares, respirando com desafogo um ar embalsamado e vivificador.

Não sei como me persuadia de que era impossível que elas me
adoecessem ali.

Sabes, meu amigo, aqueles meus continuados sustos, aqueles meus escuros
pressentimentos pela saúde dos nossos filhos, motivo de me ralhares
tantas vezes? Pois nunca os senti lá.

O campo era para mim como uma destas pessoas de juízo a quem se deixa
entregue um filho, quando a necessidade nos obriga a sepa- rar-nos dele por
momentos.

Olhava para aquelas velhas e frondosas árvores e parecia-me achar-
-lhes uns ares protectores e amigáveis que me inspiravam confiança.

Dir-se-ia que ao abrigarem minhas filhas na sua sombra me diziam: Deixa-as
connosco que tas protegeremos.

Mas enfim viemos; aqui estamos outra vez nesta terra do Porto e aqui estaremos
até à hora de emalarmos para qualquer praia de banhos.

E tu em Lisboa, e tu ocupado em acudir à Pátria, meu bom amigo,
e esquecendo por ela um poucochinho a família.

É uma virtude cívica a venerar em ti, Gustavo? Será?
Eu sei? Desculpa-me mas, como sabes, não morro de amores pela política.
Ou eu não fora mulher, com quem em geral os políticos são
bem pouco amáveis.

Além de que a política ocupa-se de umas pequeninas coisas,
que são, sem contestação, as mais detestáveis
de todas as coisas pequeninas.

Mas deixemos por hoje as minhas reflexões e reparos sobre politica,
Gustavo, e façamos como é nosso costume, quando aqui estás.
Lembras-te? Depois do chá conversamos às vezes horas esque•
cidas sobre os acontecimentos do dia, ora domésticos, ora civis, ora
alegres, ora tristes, e dizemos tudo quanto nos acode à ideia, sem
observância de programa nem de método, sem escrúpulos
de estilo e até sem rigoroso respeito pela coerência lógica
da opinião.

Se a politica te não derrancou ainda de todo a bondade natural e
te não cerrou a alma às expansões afectuosas, ser-te-á
agradável a leitura das minhas cartas escritas, como conversamos, à
vontade.

Escrever-te-ei sob a impressão dominante do dia. A de hoje é
pouco agradável.

Como te disse, chegamos do campo e as pequenas vinham ver• dadeiramente
ansiosas pelas distracções da cidade.

Andavam-me a falar em toilettes e teatros havia oito dias, Não tive
remédio senão condescender.

Ao entrarmos na cidade depararam-se-nos nas esquinas uns car• tazes
enormes, anunciando no teatro de São João a Grã-Duquesa
de Gerolstein.

As pequenas fitaram-me uns olhos eloquentes.

Este olhar, as saudades que eu deveras sentia já por aquele nosso
elegante teatro e este titulo Grã-Duquesa, que há tanto tempo
me anda nos ouvidos como um zumbir de importuno mosquito volteando em torno
de mim, formaram a minha resolução de ir ao teatro essa mesma
noite.

Fui; fomos e que doida alegria a da Ernestina e da Luísa! Pobres
pequenas! apesar de todo o prazer que me vem sempre da vossa ale• gria,
quis mal a mim mesma por ter cedido à tentação desta
vez.

O Gustavo, tu que viste já a Grã-Duquesa, não adivinharás
o resto da minha carta? Tu que tens vivo o sentimento e o respeito da arte,
que te entusiasmas pelo belo, que concebes o que deve ser o teatro na sociedade,
não voltaste de assistir a essa híbrida e absurda compo•
sição teatral, como eu vim ontem de lá? com desgosto,
com tédio, com indignação, duvidando do progresso da
arte, acreditando na total degeneração do gosto entre nós?
Que época atravessamos, meu amigo? Que cidade de quase cem mil almas
é esta em que só se aplaude o disparate ? Há nada mais
vergonhoso do que uma crónica da última época teatral
no Porto ? Dois êxitos brilhantes a caracterizam: O jovem Telémaco
e a Grã- -Duquesa, dois disparates, duas irreverências para com
o bom senso, para com o bom gosto, para com a arte nobre e digna, para com
a arte que se respeita!

Mas não é isto uma imoralidade também? Pois não
é certo que as belas artes têm uma missão social a preencher
? Não é certo que encaminhá-las erradamente é
ofender o interesse público ? Não é verdade que progride
na carreira da civilização um povo, cujo bom gosto e instintos
se educam e aperfeiçoam pela arte e que se deprava e desmoraliza o
que se costuma a insultá-la? Que malévolo espírito move
então os artistas a perverterem assim o gosto em vez de o educar? a
porem às ordens do despropó• sito e do desconchavo as
harmonias da música, a cadência da poesia, as ilusões
da pintura, numa palavra, todos os prestígios da arte ? E ilumina-se
para isto um teatro! e enfeitam-se as senhoras nos toucadores! e rodam as
carruagens nas ruas e avilta-se uma orquestra para acompanhar o carro do triunfo
do disparate! E no dia seguinte emprega-se tipo para falar no assunto! Acabou
pois a religião da arte entre nós? Pois não é
a arte uma religião também? Não haverá ninguém
a quem estas orgias aflijam e revoltem, como o austero, o fervente sacerdote
que visse o tripúdio profanando o lugar de augustos sacrifícios
? Esta aberração do gosto público, este desvairamento
que invade todas as cabeças, esses excessos e abusos que fazem recuar
séculos o nosso progresso artístico, dura, reina, propaga-se,
sem que uma coorte de leais entusiastas e vigorosos lutadores se levante para
com• bater a todo o transe o mal deplorável! combatê-lo
através de sacri• fícios, combatê-lo apesar da indiferença
ou das repugnâncias do público, combatê-lo como combateu
Garrett, como combateu Vítor Hugo, como combateram todos quantos tentaram
uma reforma literária útil e eficaz.

Pois tinha fé que venceriam, se bem de alma e com boa coragem o tentassem!
Os instintos da arte não morrem no povo; adormecem às vezes;
mas é pronto o seu acordar, se os desperta uma voz altí- loqua
animada por uma verdadeira crença, por uma sincera e pura intenção.

É preciso pronto remédio para este mal, que é grave.

Há muito que lavra, revelado por essas produções mórbidas
da arte, que se chamam paródias e disparates, galhas venenosas que
vegetam sobre os ramos viçosos de uma literatura e lhe roubam a seiva
dissipando-a em excrescências balofas e inúteis como bugalhos
ou prejudiciais como esses cogumelos destruidores das searas.

Isto acusa uma debilidade crescente na imaginação dos autores
e uma assustadora irreverência nas massas para tudo quanto há
de belo e portanto de venerável.

Afadiga-se um compositor em traduzir pela música as paixões
violentas, os efeitos suaves, as tristezas e os júbilos, que formam
o drama da vida. Exaltado, febril, na excitação nervosa que
acompanha os mistérios da concepção, não vive
senão para aquela ideia, através da qual antevê o esplendor
da glória. A inspiração visita-o, ilumina-lhe as noites
de tão longas e laboriosas vigílias e após esta aurora,
surge a obra de arte esplêndida, impregnada do pensamento do artista,
cheia de vida e de futuro e anelando levantar o voo em busca de mais amplos
horizontes, por um instinto como o da ave que, ainda com pouco vigor para
bater as asas, já estremece seduzida pelo espaço vasto que a
rodeia.

Um dia parte a filha predilecta. Separa-se dela a procurar a rea•
lização da sua última metamorfose, a sua encarnação
final.

Chega ao teatro perante uma multidão que a aguarda despre •
venida ; revela-se enfim, primeiro timidamente como se as nervosas pulsações
do compositor naquele momento se reflectissem na obra ; pouco a pouco ganha
coragem e desassombro; fala, penetra nos cora• ções, subjuga
os sentidos, domina as massas, e o sonho da ambição do artista
realiza-se e compensa-lhe as vigílias de muitas noites uma só
noite de glória.

Mas, a um canto da sala, no meio desse mesmo entusiasmo e delí•
rio, há um coração frio e incapaz de sentir, que se não
comove; há um olhar maligno que estuda a comoção da plateia
e não se fascina; há um pensamento satânico que premedita
uma obra sacrílega.

E uma noite basta a esse espírito para consumar a obra fácil,
ímpia, fatal à arte, perversa e imoral que premeditou: A mesma
música concebida para exprimir sentimentos e paixões elevados
e nobres é por ele rebaixada às vulgares, ridículas e
insulsas peripécias de um enredo chocho e rasteiro; e a musa que nas
vestes alvíssimas com que a inspiração a cingira, arrebatara
a multidão, agora, irreverentemente, vestida com o jaleque multicor
de truão e atada ao pelourinho das praças, receb e as alvares
e insultuosas gargalhadas dos mesmos que a adoraram e que experimentam um
maligno prazer em desprestigiar o seu ídolo.

E quando de novo se apresenta aos mesmos olhares, sob as suas primeiras
vestes, há sempre quem se recorde de a ter visto já de outra
maneira, e ainda então o riso a insulta.

Não é esta uma acção altamente condenável?
Não é quase o mesmo que expor em completa nudez aos olhos cinicamente
curiosos do povo uma virgem ingénua e pura, cuja ino• cência
os mais ousados respeitam e condená-la assim a corar eter• namente
ao recordar a sua involuntária aviltação? E esta profanação
é a última recompensa que recebe o artista pelas suas fadigas!
Nos seus sonhos de glória não contara com o apupar das turbas!
E consente-se o atentado! E não se protege a obra do génio de
tão irreverentes ataques? Estes insultos tem-nos recebido com a música,
a poesia também.

A paródia nada respeita. Os mais belos tipos, as mais ideais concepções,
as mais brilhantes imagens que tem concebido uma fantasia de poeta, de dramaturgo,
de romancista, tudo ela abocanha e profana.

Para fazer rir as turbas, os truões dos nossos dias, ignorantes dos
verdadeiros mistérios da arte, destituídos de engenho, incapazes
de produzir nada útil, especulam com os contrastes irreverentes e fazem
rir como o macaco porque irrisòriamente imita as visagens do homem,
como o papagaio porque de igual forma, lhe imita a fala! E todos riem, ainda
que me quer parecer que no peito de lodos se esconde certo desgosto, como
o que eu sinto e em geral toda a gente, perante essas duas paródias
do homem, que nos apresenta a natureza. Quem há que experimente por
um mono a mesma afeição que tem a um cão? Ou que ligue
a um papagaio o interesse que lhe inspira o original e inspiradíssimo
rouxinol? Em geral é o gosto duvidoso de um embarcadiço ou sertanejo
da América que mais os aprecia.

Mas ao lado da paródia nasce o disparate. É mais um passo
dado pela arte no caminho da devassidão.

A musa perd e então todo o casto pudor que caracterizava as nove
filhas de Júpiter.

Ei-la no palco, desgrenhada, descomposta, ébria, rouca da orgia e
do tripúdio, soltando como a bacante cantigas licenciosas e risadas
cínicas. Reparem para aqueles gestos, para aquelas maneiras, para aquelas
danças e digam se ó esta a musa que se respeita, se é
esta a musa que civiliza.

E é no mesmo tablado onde nos apareceu já a severa e nobre
Melpómene, no palco onde se nos revelou o génio de Donizetti,
de Bellini, de Meyerbeer; em que o drama leal e consciencioso nos tem por
vezes comovido e onde havemos aplaudido a boa e salutar comé•
dia; é a esse mesmo tablado que deixaram subir a embriagada?! E não
receiam que não volte ao templo assim profanado a arte que se preza?
Fechem antes os teatros, fechem-nos, porque os espectáculos assim não
são os que civilizam, corrompem; não educam, pervertem.

Sabes tu, meu amigo? estou em acreditar que vamos a respeito de arte num
período de retrocesso.

Não sei se te lembras de que nos nossos tempos de criança
havia nesta hoje tão enfastiada cidade uma companhia lírica
italiana e uma companhia nacional. Tenho uma vaga ideia de que o teatro português,
bom ou mau que fosse, era então concorrido, que ninguém se enver•
gonhava de o frequentar e de se interessar por os assuntos teatrais.

A arte não florescia, é certo, mas encontrava no interesse
do público uma garantia da sua regeneração. Pouco a pouco
abandonaram o tea• tro nacional e só foi moda tratar do teatro
lírico. Hoje nem desse.

De maneira que no decurso de um ano, abrem-se três ou quatro vezes
as portas dos nossos teatros e lançam-se ao difícil e apurado
paladar do nosso público delicados manjares como este : «El jovenTelémaco»,
«Franchifredo», «Os sete castelos do Diabo», a «Grã-
-Duquesa»; amanhã o «Barba-Azul» e não sei
quantas mais paródias, mágicas e disparates e tudo isto condimentado
com uma especiaria de cenas cómicas insulsas e farsas sem sabor, em
que um falso cómico usurpa o lugar do cómico de bom quilate.

E o talento de alguns bons actores que temos, a corromper-se a falta de
exercício nobre e consciencioso da arte! Diz-me tu quantas vezes encontras
o Taborda desempenhando um papel digno dele ? Do coração abomino
todos os colaboradores desta obra ímpia da depravação
da arte. Não perdoo, por exemplo, a Offenbach o aceder ao derrancado
gosto da época, pondo ao serviço dele o seu grande talento musical.
Um homem verdadeiramente artista nunca o teria consentido.

O sacerdote que, para satisfazer os caprichos de uma companhia de ébrios,
consente em entoar salmos e antífonas na sala de uma orgia, avilta
a religião de que é ministro e polui os lábios que nunca
mais celebrarão nos altares com a pureza digna do sacrifício.

Mas, dizem os homens para quem as regras do bom gosto são mudáveis
e chegam todos os anos com os figurinos de Paris e das capitais à moda,
que escrúpulos são esses de portuguesa puritana? Acaso não
se aplaude hoje a «Grã-Duquesa» em Paris? o «Barba-
-Azul»? e todo este género a que tanta aversão mostras?
E que me importa ? Se fosse certo como dizem, que em Paris é este o
gosto dominante, o que não posso ainda acreditar, se fosse certo que
o mais espirituoso povo do mundo precisava já para excitar a sua embotada
sensibilidade, destes derrancados produtos de uma arte aleijada e doentia,
eu não duvidaria dizer que a arte estava em lamentável decadência
lá também; que a imaginação parisiense sen- tia-se
esgotada e o gosto em via de perder-se.

Se em vez de se r só Paris, toda a Europa, todo o mundo aplau•
disse estes escândalos, ainda assim a consciência nos dizia que
toda a Europa, que todo o mundo estava em declinação em assuntos
de arte e de gosto porque não são de convenção
as regras do belo. Há em nós alguma coisa que no-las formula,
que no-lo ensina a reconhecer e que nos dá a coragem e a convicção
para nos revoltarmos contra a opinião geral, quando a sentimos extraviada
da verdadeira e recta estrada que o gosto e a razão lhe traçaram.

Mas não é assim, não pode ser assim! Em Paris ao lado
do mal está o remédio; ao lado da arte doente e degenerada,
a arte sã e vigorosa.

Entre nós o mal é maior porque, nação de pouca
gente, quando o mau gosto estabelece uma corrente para os teatros, desaparece
o bom gosto, à falta de quem o siga.

E depois nós hoje estamos em um período de educação
artística, desfavorável à verdadeira arte e no qual estes
excessos são perigo• síssimos O gosto de uma nação
corre fases como o gosto de qualquer indi• víduo. Em criança,
por exemplo, o teatro interessa-nos de uma maneira diversa daquela por que
nos influi adultos. É o enredo do drama que nos comove e não
as belezas literárias, não o mérito dos artistas que,
se nos influem, é sem que o percebamos. Choramos as desgraças
da protagonista, odiamos o tirano, aflige-nos como real a morte das personagens
simpáticas, trememos ante a perspectiva de um duelo e recolhemos a
casa alegres ou tristes, conforme a natureza do desfecho.

Esta ingenuidade dissipa-se cedo ; substitui-a mais tarde o gosto pelas
belezas da composição e da execução. Este, porém,
forma-se mais lentamente do que se dissipa a primitiva ilusão de que
falámos. Daqui resulta haver um período de transição
em que já nos não ilude o enredo como em criança nem
ainda nos comovem as belezas literá• rias, como quando o bom
gosto se formou em nós.

Nesse período frequenta-se o teatro com insensibilidade artística,
apreciam-se tanto os intervalos como os actos, é indiferente perde
r uma cena inteira ou no principio ou no fim e, se a moda pôs isso em
costume, adopta-se o costume da melhor vontade.

Então aplaude-se tudo quanto a moda recomenda, o entusiasmo não
é espontâneo, é de convenção e antes de
saber se nos devemos arrebatar, perguntamos se o que vemos já arrebatou
alguém que auto• rize o entusiasmo.

O nosso povo na sua educação artística está
quase neste caso, acha-se neste antipático e estéril período
de transição.

Perdeu já aquela ingenuidade dos bons tempos em que corria aos teatros
interessado pelas peripécias dos grandes dramas em que chorava e ria
e se indignava com diversos episódios que presenciava de boa fé;
em que tão completamente encarnava nos actores as per• sonagens
do drama, que nem os distinguia.

Ele não queria então saber quem er a o autor da obra dramática,
que o interessava. Esquecia-se até de que um drama precisa de ter um
autor.

Estava na infância do gosto, nem os teatros eram então con•
corridos.

Desenvolveu-se, porém, o nosso público e hoje já assiste
com o sorriso céptico aos espectáculos; já tem vergonha
de os tomar a sério, de chorar nas cenas sentimentais, de rir abertamente
nas cómicas. Mas, por infelicidade, o bom gosto não veio ainda
ocupar o terreno para fazer florescer a arte. Não há ainda bastante
amor e conheci• mento dela para manter entre nós um teatro permanente.

Quem dá as leis, quem domina exclusivamente é a moda. Aplau•
de-se o bom e o mau, contanto que a moda o recomende.

São capazes de fazer hoje uma ovação à Ristòri
e passar a noite seguinte a ouvir em delírio as intermináveis
e insulsas coplas de Telé- maco na ilha de Calipso.

Ponham pois em moda o bom, os legisladores da moda Perdoa-me demorar tanto
esta minha conversa, Gustavo; mas sabes que eu tenho destas indignações
a que preciso dar expansão.

Custa-me ver que, reconhecendo o mal que está corrompendo entre nós
a arte nascente, não se organize entre os nossos homens de letras uma
cruzada leal e corajosa, tendo por divisa a arte e comba• tendo sem
quartel nem misericórdia o mau gosto que nos vem do estrangeiro de
mistura com os chignons e os mais artigos da moda. Adeus que chegam visitas
a que tenho de atender; até breve.

Porto, 6 de Setembro de 1868.

Diana de Aveleda

A ILHA DA MADEIRA

Funchal, Março 1870

Meu amigo Funchal, Março 1870

Recordo-me de lhe haver prometido, ao separarmo-nos, escre- ver-lhe de quando
em quando desta ilha, onde pela segunda vez abordei, à procura do ideal
que se chama saúde.

Tarde me lembrei do cumprimento da promessa; mas a tempo vai ainda.

Não é uma monografia que eu vou fazer. Deixarei em paz a constituição
geológica, a flora, a fauna da ilha e todas as questões médicas,
económicas e políticas que se prendem a este torrão fertilís-
simo. O meu intento é mais modesto.

Quero mostrar-lhe a Madeira através das individualissimas impres•
sões que o meu espírito recebe nela e isto sem plano, sem método,
sem coordenação didáctica e só conforme a corrente
irregular e capri• chosa das minhas ideias.

Fazer-lhe esta observação equivale a avisá-lo de que
não serão de tintas muito vivas os quadros que traçarei.

A imaginação de um valetudinario tinge de cores amortecidas
as mais ridentes paisagens e as cenas mais pitorescas que observa; para ele
o brilho do Sol é visto como através de um cristal corado; perceb
e as gradações de luz, mas sempre sob o tom uniforme e som•
brio do cristal, que neste caso se chama: preocupação.

As viagens, esse sonho dourado que tanto seduz a imaginação
da mocidade, ansiosa como a ave prisioneira, por alargar horizontes e bater
asas em demanda de climas novos, transforma-se em amarga proscrição,
sempre que as empreendemos, forçados por uma triste necessidade e partimos
levando o espírito assombrado por uma ideia, ou antes, por um pressentimento
doloroso, Nada então nos compensa as lágrimas da despedida e
o cruel confrangimento do coração, que responde ao último
adeus do amigo que, de olhos húmidos, nos acena da gare do caminho
de ferro ou nos aperta a mão no tombadilho do vapor. Partimos com a
alma oprimida e sem aqueles voluptuosos estremecimentos de júbilo que
se mistu• ram às saudades de quem se aparta dos seus, seduzido
pelo prazer de viajar.

Quando se perd e de vista a terra em que nos ficaram todos os afectos Íntimos,
parece-nos escutar uma voz interior a perguntar-nos se voltaremos a vê-la.
E não há um clarão de esperança a responder a
essa interrogação! Que tristeza a daquele instante! Depois o
mar, o mar, esse imenso foco de melancolias, acaba de escurecer-nos o pensamento!
Olhar em roda e não avistar um só desses objectos que nos falam
do passado, da família, do remanso doméstico! Ver tudo em movimento,
tudo em irrequietação, tudo revolto! Ter necessidade, para satisfazer
a instintiva ânsia de repouso que sen• timos, de elevar os olhos
para o Céu, como faz o homem desalen• tado pelo tumultuar das
vagas da vida e que considera aquela outra pátria como o único
lugar do verdadeiro repouso. Impressões são estas que não
dissipam as nuvens do nosso horizonte, antes mais as carregam.

Apesar da sua grandiosa solenidade, o oceano é um desconso- la,dor
companheiro para a alma naquelas disposições.

Por isso quando, ao amanhecer de um desses dias longos e deso• ladores
se avista além, muito além no horizonte, uma sombra mal dis•
tinta, através da qual só o olhar amestrado do marinheiro consegue
distinguir a terra demandada, saúda-se essa sombra como uma pro•
messa de redenção.

Todos os olhos a procuram com ansiedade e, à medida que ela se ergue
e aclara e avulta e se contorneia e se colora com as tintas naturais, revelando-se
enfim, tal qual é, entre o azul do mar e o azul do céu, dissipa-se
a mais e mais a cerração da melancolia que nos pousava no coração.

Como a ave, extenuada de longa travessia por sobre mares vas• tíssimos,
abate o voo a repousar na terra que lhe surge do seio das ondas, assim o espírito,
cansado daquela imensidade e irrequieta agitação das águas,
voa a engolfar-se no regaço das verduras que parec e haverem enfim
obedecido à evocação das suas nostálgicas saudades.

Quando a formosa ilha da Madeira, levantando-se da espuma do mar como a
mitológica Citereia, crescia para nós a receber-nos, abrindo
o seu seio,benéfico e maternal aos desconfortados que nela só
depositavam as suas derradeiras esperanças, sentíamos todos
pene- trar-nos o coração um desses suaves prazeres como o que
nos produz, no meio de uma turba de estranhos, o encontro de um rosto e de
um sorriso de amigo.

Formava um consolador contraste com a tremenda severidade do mar a amena
perspectiva da ilha! Horas depois de a avistar, a marcha rápida do
vapor fez-nos dobrar o cabo de São Lourenço; transpondo o amplo
pórtico que ele forma com o grupo das penhascosas Desertas, sentira-se
uma súbita mudança de clima, como se de repente se tivessem
vencido muitos graus de latitude. Afagou-nos a face a brisa tépida
e perfumada da ilha, aspirámos com prazer o hálito acalentador
e salutífero desta fada marítima; achávamo-nos sob o
seu abençoado encantamento, reco• nhecíamos enfim a Madeira!
A costa do sul ia passando em revista com as suas rochas escar• padas,
as suas ribeiras profundas, a sua vegetação vigorosa, as suas
formidáveis quebradas e os altos picos onde pousam as nuvens, os vales
fertilíssimos e as povoações graciosas.

Momentos depois, vencida a ponta do Garajão, as casas e as quintas
do Funchal, iluminadas por. um esplêndido sol de Outono, que dourava
as extensas plantações de cana, saudaram-nos por sua vez.

A magia do espectáculo emudecera-nos. De um lado o mar, do outro
as serras, e entre estas duas grandezas majestosas, a cidade sorrindo, coroo
a criança adormecida entre os pais, que a defendem e acalentam.

Dentro em pouco pousávamos pé em terra.

Não é grata a impressão recebida ao desembarcar. Costumados
aos extensos e alvejantes areais das nossas praias tão ricas de formo•
síssimas conchas e em cujas penhas se formam aquários naturais,
onde aos raios do Sol as actínias matizadas escondem os seus braços
gela• tinosos e as algas crescem em delicadíssimas arborizações,
costuma• dos às praias risonhas que atraem as mulheres e as crianças
com o animado e variadíssimo espectáculo que lhes oferecem e
os abun• dantes tesouros de pedrarias que escondem nas suas móveis
areias, afecta-nos tristemente o aspecto desta praia negra, formada de calhaus
roliços, cor de lousa, sem uma dessas pequenas maravilhas naturais
que são o principal atractivo da beira-mar.

Esta pedr a escura parece conservar ainda evidentes os vestígios
do cataclismo vulcânico que a arremessou à superfície
das águas. Dir- -se-ia que ainda está defumada e quente do fogo
do imenso forno em que foi fundida. Ao seu aspecto comprime-se o coração
do viajante.

Entrámos na cidade. Há um não sei quê de melancólico
no aspecto dela. Por isso mesmo que é a generosa consoladora de tantos
aflitos, por isso mesmo que acolhe no seio maternal os que sofrem e que de
toda a parte do mundo correm a abrigar-se ao seu calor salutar, por isso mesmo,
parece anuviar-lhe os sorrisos aquele ar de piedade e de compaixão
que é, por assim ‘dizer, a alegria da caridade. Não nos sentimos
impelidos a saudá-la com um cântico festivo, com uma aclamação
de prazer; mas apenas com uma serena comoção, igual àquela
com que se beija a mão generosa que se estende a socor- rer-nos ou
a enxugar-nos as lágrimas.

Ó Funchal! Que tristes dramas se têm passado à luz do
teu sol benéfico! Que lutuosos desenlaces de tantas histórias
de paixões! Que de lágrimas ardentes caídas no teu solo
sequioso que se apressa a escondê-las discreto! E à sombra das
tuas árvores quantas frontes escaldando de febre vergaram sob o peso
da cruel melancolia! Ilusões desvanecidas, esperanças desfolhadas,
sonhos de amor, de glória, de felicidade, dos quais se desperta à
beira do túmulo, tudo tens presenciado, ó humanitária
cidade! E debaixo dos cedros e ciprestes dos teus cemitérios dormem
o último sono muitos mártires sem que as lágrimas dos
que os amaram lhes caiam na campa como tributo.

Dai vem a simpatia e a tristeza que inspiras. As tuas virtudes como irmã
de caridade que consagra os dias ao cumprimento de uma missão cristianíssima,
brilham entre cenas e espectáculos de deso• lação
e de dor.

Este carácter da cidade avulta aos primeiros passos dados no interior
dela. O viajante cruza-se a cada momento com certas figuras pálidas,
emaciadas, pensativas, marchando lentamente, ou transporta• das em redes,
encontra-as nos assentos dos passeios em ociosa medi• tação,
ou fitando melancolicamente as ondas que se sucedem na praia; são ingleses
cadavéricos, alemães diáfanos, portugueses des•
carnados, brasileiros, norte-americanos, russos; são velhos, adultos,
crianças, vaporosas belezas femininas de todas as partes do mundo,
todos a convencer-nos de que estamos na città dolente; mas no pór•
tico desta não se lê gravado o dístico desesperador que
o poeta ins• creveu no da região das tormentas eternas. Pelo
contrário, à entrada aqui, revestem-se de esperança os
próprios condenados.

Para que a Madeira nos sorria, para que nos apareça formosa como
a descreve o poeta inglês e fragrante como uma verdadeira flor do oceano,
é necessário sair do recinto da cidade, procurar as fregue•
sias rurais, subir as íngremes ladeiras que costeiam os picos e espraiar
então a vista pelos formosíssimos vales que vão descobrindo
o seio fecundíssimo aos nossos olhos maravilhados, Que vigor e variedade
de vegetação ! O verde dourado da cana realça entre as
diferentes cambiantes da mesma cor de plantas de todos os climas. A palmeira
de Africa agita a sua fronte graciosa junto dos carvalhos da Europa; a bana•
neira, vergando sob o peso dos seus cachos, cresce cheia de viço nos
mesmos pomares onde se enfeitam de flores os pessegueiros e as laranjeiras
odoríferas. As rosas, as malvas, as madressilvas florescem espontâneas
à beira dos caminhos; debruçam-se dos muros as «bou- gainvillias»
entretecendo os seus cachos roxos com as flores alaranjadas das bignónias;
tudo tem um ar de festa e alegria. A choça mais humilde tem um jardim
à entrada; as flores sorriem à porta dos ricos e dos pobres.

E quanto mais nos elevamos mais se pronuncia este magnifico aspecto do país.
De um lado vemos aos nossos pés, o mar liso como um espelho, azul como
safira, limitado ao longe pelo grupo das Desertas vagamente tingidas do azulado
da distância; do outro as altas serranias que rompem as nuvens e cujos
cimos tantas vezes tinge a ofuscante alvura das neves. E nos flancos, abertos
em fundas que• bradas, sulcados em ribeiras pelas torrentes do Inverno,
uma vege• tação exuberante, cheia de vida, encobrindo
aqui uma casa isolada, enfeitando além uma povoação risonha,
que se agrupa em torno de um campanário.

Então sim, então a atmosfera embriaga, o peito aspira com
volup- tuosidade esse ar balsâmico, o espírito liberta-se de
todas as apreen• sões que nos gelavam os sorrisos nos lábios
e goza-se despreocupado do mais surpreendente espectáculo que pode
imaginar-se.

Mas não é só a natureza que tão afável
e acariciadora se mostra aos desesperados enfermos que se refugiam aqui; impressões
igual• mente gratas, igualmente consoladoras lhes vêm de origem
diversa.

É geral a simpatia que os doentes inspiram à gente da Madeira.
Se os doces afectos de família, se os carinhos de uma esposa, de uma
mãe ou de uma filha se podem substituir no mundo, é aqui a terra
para tentar a experiência.

Sentis que vos rodeia uma atmosfera de simpatia. Pessoas que nunca vos falaram,
que não conheceis, seguem passo a passo, com sincero interesse, os
progressos das vossas melhoras ou as alterna• tivas do vosso padecimento.

Com o olhar que a experiência tem amestrado, estudam-vos no semblante
as probabilidades de bom ou mau êxito na luta pertinaz da natureza contra
o influxo fatal que vos subjuga. E esse prognóstico é quase
sempre infalível.

Rara é a família que, levada por generosa curiosidade, se
não informe com o médico que a visita ou com os proprietários
dos hotéis, do estado dos estrangeiros doentes.

Nestas vitórias do clima sobre a doença, estão empenhados
os brios e o principal brasão da terra, e o amor pátrio é
um sentimento profundamente entranhado no coração deste povo.
Uma cura operada é um triunfo e todos a conservam na tradição
gloriosa da terra com simpático e louvável orgulho.

A simpatia vai ainda mais longe, revela-se sob mais cordial mani•
festação, exerce-se mais eficaz e abençoada ainda. As
formosas madei• renses, e quem, tendo visitado esta terra, não
conservará memória delas? condescendem muita vez em animar a
alma desolada dos soli• tários enfermos com o raio vivificador
dos seus olhares magnéticos. Amoráveis, movidas por uma generosa
simpatia, exaltadas pelo entusiasmo natural a um coração de
rapariga, acalentam muitas vezes esses amores que elas bem sabem ser sem futuro,
e iluminam os últimos dias de uma triste existência com a doce
luz do mais casto e imaculado afecto. Quantos que morriam longe dos seus com
o coração partido de saudades, lhes devem os últimos
doces sonhos da sua vida, as derra• deiras ilusões e um tributo
de lágrimas na campa? Anjos adoráveis, corações
generosos, vós concorreis com o tesouro dos vossos afectos para a santa
missão que se desempenha aqui. Às vezes sob a influência
do vosso amor, voltam as cores às faces desmaiadas, um sangue novo
circula nas veias exauridas e por um milagre de afecto renasce para a vida
o que a ciência já condenara. Outros sucumbem, mas tendo ao menos
nos lábios um nome querido, no pensamento uma imagem e no coração
a esperança de que não ficará sem sentido para todos
a inscrição funerária que lhes gravarem na lousa.

Abençoadas sejais pelo conforto que tendes dado ãs almas tristes,
que sucumbiam à míngua dele! Reparo porém agora, meu
amigo, no tom elegíaco que vai tomando a missiva. Será prudente
parar aqui, procurando para outra vez ser mais alegre.

Seu do coração

CARTAS PARTICULARES

A SEU PAI QUANDO TEVE NOTÍCIAS DA SUA NOMEAÇÃO DE DEMONSTRA. DOR DA ESCOLA
MÉDICA DO PORTO

Papá

A estas horas é provável que já saiba que estou despachado.
Não tinha informado inexactamente o amigo do Teixeira Pinto, quando
disse que na quinta-feira se assinava o decreto da minha nomeação.

É com a data de 20 que ele vem no Diário de 22.

Esse mesmo rapaz escreveu de Lisboa e eu acabo de ver o Diário. O
amanuense da Escola escreveu-me também. Finalmente está decidido;
acabaram-se todas as dúvidas e inquietações.

Nesta ocasião em que o meu futuro se fixou, não posso deixar
de me recordar do muito que devo ao Papá pelos sacrifícios feitos
por mim.

Alegra-me duplamente o resultado deste meu empenho porque, com o prazer
que me causa, sei que não menos intenso havia de pro• duzir no
Papá, que até agora tão improfícuos tinha visto
ficarem os seus grandes esforços para a felicidade dos filhos.

Meus irmãos foram privados, não sei por que vistas providen•
ciais, de colherem neste mundo os frutos da esmerada educação
que lhes dera. Esse mesmo poder, que os sacrificou tão novos, parece
ter-me reservado, como que para realizar em mim a recompensa que lhe merecia
a resignação do Papá.

Alegra-me esta ideia e anima-me a acreditar que não me faltará
a vida e a saúde para poder cumprir essa missão talvez providencial.

Creia que tenho sentimentos para avaliar todos os seus sacri• fícios
e para compreender o alcance da delicadeza com que procurava não mos
fazer sentir.

Neste dia, um dos mais solenes de toda a minha vida, permita-me que cumpra
com o meu primeiro dever beijando-lhe respeitosamente a mão.

Seu filho grato e afectuoso

Joaquim Felgueiras, 24 de Julho de 1865.

A SEU PAI, DE FINS DE MARÇO DE 1868, DEPOIS DA REPRESENTAÇÃO
DAS «PUPILAS» EM LISBOA

Papá

Continuo a passar bem e por enquanto não posso dizer quando partirei.

As «Pupilas» foram bem desempenhadas e prometem dar à
empresa bastantes enchentes.

Do que se passou na noite em que eu lá estive dá conta exacta
a noticia que envio, a qual foi publicada por um Diário daqui. Ontem
esperavam-me à noite em casa do Mendes Leal, mas como às segundas-
-feiras é lá reunião de etiqueta, a que se vai de casaca
e em rigor, fui para o teatro francês e dei por desculpa que não
queria deixar a com• panhia com quem tinha vindo a Lisboa.

No teatro da Trindade, no sábado, pediu-me o Mendes Leal para ir
ao camarote dele, visto este não poder deixar só as senhoras
com quem estava. No palco fui cumprimentado por diferentes pessoas, e entre
elas, o Chamiço. O Castilho já me veio visitar.

As «Pupilas» foram postas em cena com bastante fidelidade de
vestuário e de costumes.

O terceiro acto, na esfolhada, agradou muito, e na verdade estava bastante
animado. Foi no final desse acto que me principiaram a reco• nhecer.
No 6.° quadro, quando o Reitor acompanha a Margarida e lhe beija a mão,
não me deixaram ficar na plateia; obrigaram-me a ir ao palco onde fiquei
todo o quadro final.

Peço recomendações a toda a família e ao tio
Bernardo.

Peço também que mande entregar ao Dr. Reimão os livros
que ai deixei para ele e que se alguém aí for procurar os exemplares
da Dissertação do Ilídio, lhe entreguem os que estão
em um dos armários inferiores da estante.

Que não esqueça também mandar-me esfregar o quarto.

Seu f.o ob.te Joaquim.

A SUA SOBRINHA ANA C. GOMES COELHO

Anitas

Cumprindo a promessa que te fiz hoje mesmo, não me quis deitar sem
primeiro te escrever. Cheguei a salvamento a esta terra, tendo engolido muito
pó pelo caminho, petisco de que, nem por isso, fiquei gostando.

Ceei bem e espero dormir melhor.

A estas horas em que te estou a escrever já tu deves estar sonhando
com a cabeça no travesseiro. Estimarei saber que sonhaste em coisas
agradáveis e que acordaste pela manhã satisfeita da tua vida.

Espero que te lembres de mim ainda que seja só quando almo•
çares em São João Novo e tiveres de fazer por ti mesma
as tuas fatias. Adeus por hoje. Manda-me dizer as flores que tens feito e
reco- menda-me à Mamã, a quem hei-de escrever breve, e aos teus
dois manos e, se te não esqueceres, faz também as visitas do
costume às pessoas que sabes.

O Guilherme ‘ disse-me o número da vossa casa em Monchique, mas esqueceu-me.
Vê se mo mandas dizer na tua carta, que podes dar ao Josèzinho
! para ma enviar com a dele.

Adeus.

Ovar, 7-5-63.

Teu tio e muito amigo

Joaquim

LIV

Meu Passos Funchal, 2 de Novembro de 1870.

Aproveito a passagem do vapor de Africa para te escrever duas linhas.

Vou passando como aí passava, dias melhores, dias piores; impaciente
com a falta de notícias e monotonia desta terra.

Estes primeiros quinze dias pareceram-me uma eternidade.

Li as confissões de Rousseau e o Cromwel de Vítor Hugo.

Perco-me em conjecturas sobre os resultados prováveis do cerco de
Paris e pergunto a mim mesmo se por acaso os vizinhos castelhanos ainda não
passariam as fronteiras.

Está resumida a minha vida no Funchal.

Aguardo com impaciência que me informes de tudo. Faz-me sempre lembrar
ao Luso, Silva e Albuquerque se os vires.

Em que nova província da História Natural dirige agora o nosso
amigo Luso as suas sempre gloriosas campanhas? Adeus, para outra vez serei
mais extenso, sem, com certeza, ser mais noticioso.

Teu amigo do coração Coelho.

LV Meu caro Passos

Depois do que me disseste nas tuas últimas cartas, aguardo com impaciência
aquela em que deves pronunciar o Consummatum est, prenúncio, a meu
ver, de um período de plácida felicidade na tua vida.

A inquietação febril em que há tanto tempo te tiveram
as dúvidas e hesitações do teu espírito acalmarão;
essas apreensões de catástro• fes, que te assombram, hão-de
dissipar-se e tu acharás que eu tinha razão ao dizer-te que
o passo que, à força de muito pensar nele, nos costumamos a
considerar terrível, não merecia, afinal, o estupendo conceito
que dele fazíamos. É esta a minha convicção e
por isso desejo deveras saber de ti a boa nova de haveres enfim saído
da insustentável situação em que há muito nós
ambos temos vivido.

Sou tão desinteressado nisto que te digo, que contra minha con•
veniência falo.

O que será o Porto para mim depois que tu deres por terminada a tua
vida de rapaz, deves imaginá-lo bem tu que desde muitos anos sabes
qual o meu sistema de vida aí e quais os meus passatempos pre•
dilectos. Afasta, porém, da consideração esta ideia para
insistir na urgente necessidade que tens de mudar de hábitos de vida.
O futuro é de Deus, esse eterno Josué, como lhe chama com esquisito
sainete o nosso amigo Nogueira Lima na sua última poesia; mas tanto
quanto é dado a um homem prognosticá-lo, palpita-me que se te
não pre• para muito sombrio. Animo, pois! Que te direi de mim?
Eu vivo aqui no Inverno como me vês aí viver no Verão.
A mesma saúde instável, o mesmo aborrecimento, a mesma indiferença
por quase tudo aquilo por que os homens se interessam. Leio e escrevo às
vezes; passeio sempre que o tempo o con• cede, mas a minha sensibilidade
já não é excitada pelos passeios do Funchal. Para mim
isto agora é já como o Porto.

Precisava de viver com quem me excitasse a arrancar-me destes hábitos
que contraí e me fizesse empreender excursões pelos campos.

A iniciativa, porém, das pessoas com quem mais trato regula por a
minha. Daqui resulta que vou vivendo morna e sornamente.

Este ano a Madeira é uma Babel. Todas as nações têm
aqui os seus representantes. Há alemães que já adoeceram
em conse• quência das marchas forçadas dos generais de
S. M. o Imperador da Alemanha.

Morreu aqui um médico prussiano esfalfado pelo excessivo tra•
balho dos hospitais de sangue.

O Porto, segundo vejo das locais do Jornal do Porto, passa sem novidade.
Deus o conserve.

Funchal, 20 de Dezembro de 1870.

LVI

Meu caro Passos

Funchal, 19 de Janeiro de 1871.

Mais um golpe daqueles que eu e tu conhecemos. Mais uma pessoa que desaparece
do estreito círculo das que estimo deveras.

Quando daí vim, sabia que isto tinha de suceder durante a minha ausência.
O adeus que dei à minha pobre tia, sabia que era o último.

Sabia-o eu e ela também. Não me iludiu a comoção
e o silêncio com que se despedia de mim; compreendi-a como se me dissesse
tudo o que tinha no pensamento. Mas tu bem sabes que estas coisas, embora
esperadas, nunca deixam de nos surpreender dolorosamente quando sucedem. Em
cada correio esperava a carta tarjada de preto de meu primo a participar-me
o falecimento da mãe dele, que o foi quase minha, e apesar disso causou-me
abalo, assim que esta manhã ma vieram entregar, essa carta fatal.

Parece que nestes momentos morre em nós uma infundada espe•
rança em não sei que milagre, que bem sabemos que se não
dará.

Custa-me imenso esta perda. Desde a idade de quatro anos que fiquei sem
mãe e nesta minha tia, única que foi mãe também,
encontrei os mesmos extremos que tinha pelos seus próprios filhos.
Isto me fez querer-lhe um pouco mais que às outras, um pouco mais com
afeição de filho.

No intervalo de um ano morreram as minhas desveladas enfer• meiras.
Quem sabe se os cuidados que tiveram comigo concorreriam para mais depressa
sucumbirem! Tu deves imaginar o efeito que produzem no meu espírito
estes sucessos. Sem esperança de um longo futuro, assusta-me a ideia
de sair desta vida tão desprendido de afectos. Aqui na Madeira tenho
sido testemunha desse doloroso espectáculo de um homem que morre longe
de parentes e de amigos e tendo à cabeceira uma pessoa estra•
nha e indiferente. Deve ser desesperador. E cada vez estou mais con•
vencido de que essa sorte me está reservada. ‘ Desejava azedar o espirito
até ao ponto de essa ideia me ser indiferente. Ainda o não consegui.

Perdoa-me esta carta. É quase um crime chamar-te o pensa• mento
para a beira de uns escuros abismos de onde espontaneamente te aproximas mais
vezes do que convinha à tua saúde e placidez de espirito; mas
experimentei nisto um certo alívio e confiei na tua ami• zade
para me perdoar.

Que me dês notícias alegres na primeira carta que me escreve•
res é o que eu mais desejo, e que essas notícias te digam respeito.

Teu amigo do coração Coelho.

P. S. — Esquecia-me dizer-te que de saúde continuo passando
como passava aí no Verão.

LVII

Funchal, 26 de Fevereiro de 1871.

Não te escrevi no vapor passado e escrevo-te pouco neste por um motivo:
tenho estado bastante doente. O que foi nem eu sei bem. Uma verdadeira tempestade
nervosa que caiu sobre o meu organismo e mo pôs em completa anarquia.
Serenada ela, depois das mais estu• pendas metralhadas de medicina,
ficou uma exacerbação do meu catarro habitual e uma fraqueza
devido à doença e ao tratamento, de qu e espero sair comendo
e passeando.

Faleceu oito meses depois, em 12 de Setembro de 1871, no Porto, rodeado de
parentes e de alguns amigos dos mais íntimos,

Por ora o apetite não é o que precisava ser ; mas vai desenvol-
vendo-se gradualmente.

Emagreci; quase me desconheço quando, ao pentear, me vejo. Valham-me
os meses de Março, Abril e Maio e a atmosfera desta ilha para me reconduzirem
ao estado anterior.

Escuso de te dizer qual teria sido o estado do meu espirito nesta crise.
Deves supô-lo.

Acho-me melhor depois que escrevi esta carta. Despeço-me por aqui
e mando-te com um abraço muitas e verdadeiras saudades.

Teu velho amigo Coelho.

LVIII

Meu caro Passos Funchal, 19 de Abril de 1871.

Não te escrevi nos vapores passados porque, em parte mal podia escrever
e, em parte, porque entendi que era melhor não carregar de sombras
escuras os teus pensamentos, que eu já previa estivessem sob a influência
habitual e complexa que inclina à melan• colia. Creio que não
me enganei muito. Bom foi, pois, que não te escrevesse e talvez bom
seria que ainda desta vez seguisse o mesmo exemplo.

O meu estado de saúde ia cada vez pior; sentia-me desfalecer de dia
para dia e já não tinha coragem para me mirar a um espelho.

A ideia da dissolução orgânica aterra-me. Fiz um esforço;
abracei uma das únicas medidas que me têm salvado. Mudei de residência.
Deixei o centro do Funchal, procurei um quarto em um hotel inglês nos
subúr• bios desta cidade e onde é mais fácil passear
e gozar das vantagens do campo.

Principiei a comer melhor, deitei-me ao vinho fraco e forte, à cerveja,
aos ovos e ao leite e consegui cor e mais força (que em parte também
é febre). Dizem-me que vou melhor e aplaudem-me a resolução.

Agora, o reverso. Na aparência reconheço todas essas vantagens.

A tosse e expectoração continuam, porém ; os intestinos
estão capri• chosos e de noite o calor e suor não me deixam.
Respiro pior do que respirava e canso às subidas.

Está empenhada a luta. Veremos o que resulta até 20 de Maio.

Fonte: www.dominiopublico.gov.br

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