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Camões

Almeida Garret

CANTO SEXTO

Não tinha em tanto os feitos gloriosos
De Aquiles, Alexandre na peleja,
Quanto de quem o canta os numerosos
Versos; isso só louva, isso deseja,
Lusíadas

I

O ceptro de Manuel, nas mãos já débeis
De Joane começado a desdourar-se
Do esmalte das vitórias e triunfos
Com que tanta virtude o adereçara,
O ceptro que, nas mãos doutro Joane
Que ensinou a ser reis os reis do mundo,
Fora vara de lei e de justiça,
Fiel de liberdade bem pesada
Na balança da pública ventura,
Ora na dextra de inexperto jovem
Vergado a maus conselhos, vacilante
Por meneio indiscreto, mal dirige
A máquina do estado, que parece
Mover-se ainda pelo antigo impulso
De melhor regedor. O astro de Lísia
Do zénite de sua glória descrevia

CANTO SEXTO


Curva afrontosa a miserando ocaso,
Que de Alcácer nas tórridas areias
Erros, crimes, traições lhe estão cavando.

II

Reinava Sebastião. — Se ânimo nobre,
Se valentia, amor de fama e d’honra
Bastara a fazer reis, fora um rei esse;
Mas... — Sebastião reinava. Mal dormido
Sobre os avitos louros, já correra
A segar palmas na africana terra,
Que de nossas conquistas e vitórias
Berço fatal há sido e sepultura.
Do primeiro triunfo embriagado
Cuidou já da fortuna a vária roda
Ter fixada coa espada do mancebo.
Armas, pelejas e vitórias sonha;
E entanto sobre as ondas mal seguras
Voga, à lei delas, o baixel do estado.
Ávidas mãos, do abandonado leme
Validos travam, não a endereçá-lo
Para o rumo perdido; mas cobiça
Treda, que os move, a sirtes, a naufrágios
Desarvorada a nau presto arremessa.
Em suas iras de flagelo aos povos
Um rei conquistador lhes manda o Eterno.

III

Do Escorial a onça refalsada
Os negros fios da ambição urdia
Que, por mãos de vendidos conselheiros
Em labirinto escuro enrevezavam
Os descuidados passos do monarca.
Murmurava em silêncio malsofrido
Da nobreza real o escasso resto
Que do antigo despejo lusitano


Os francos sentimentos conservava.
Impera o fanatismo, a hipocrisia:
No profanado altar, fogueiras, vítimas,
Do oriente ao ocidente lhes afumam
O incenso da cobiça, e o vapor negro
De sangue e morte que regala os monstros.
Em taças de ouro, com prazer de tigres,
De lágrimas de viúvas se embriagam;
E os suspiros dos órfãos desvalidos,
Como deleite de suave música,
Os danados ouvidos lhes afagam.

IV

Eco antigo do nome lusitano
Memórias de Pachecos e Albuquerques
Sós continham ainda os inimigos
Do vacilante império. Alucinado,
Ignorante dos males que lhe encobrem,
Crê reinar sobre um povo afortunado
Do Tejo ao Zaire, e do Amazonas ao Ganges,
O mancebo infeliz: tão vastos reinos,
Que não governa, dilatar procura.
Cego! que triste fado, em mal, o aguarda!
Que triunfos, que glórias, que esperanças,
Que sec’los de vitória, que virtudes
Não vão, num dia, perecer com ele!
Sorvei, areias d’África, essas cinzas,
Bebei todo esse sangue. — As asas mortas
Exânime enrolou, caiu por terra
O tenebroso Drago que amparara
As Quinas tanto sec’lo: então primeiro
O Leão de Pirene o olhou sem medo.

V

Um só de honrada fama, inda virtuoso
E português ainda, conservava

No ânimo real leve influência.
Aio dera o avô ao jovem príncipe
Dom Aleixo, estremado entre os mais nobres.
E em virtudes e letras ilustrados
Cavalheiros da corte. Não se atreve,
Conquanto o desejara, o rei mancebo
A afastar de seu lado este severo
Amigo, que as verdades lhe não doira,
Nem de lisonja vil empana o lustre
Que em suas rectas palavras pôs justiça.
Erros fatais, iníquos procederes,
Feios labéus de púrpura — oh! e quantos
Tem prevenido o velho! Quantas vezes
Diante dessa honrada singeleza
Tem recuado a intriga, — e despeitosa
Curvado a prepotência a cerviz dura!
Os validos, que o temem, que o detestam,
Arteiramente vão minando surdos
O favor do monarca mal experto:
Mas não puderam inda. Pura, ingénua
Como a do homem de bem, era de Aleixo
A religião sincera, detestava
A hipocrisia, o orgulho dos ministros
De um Deus todo amor, todo humildade,
Que, sem comentadores, lhe mostravam
O Evangelho e a razão. Poucos amigos
Como é de ver, contava o honrado velho,
Mas dignos dele todos. Desse número
Era — e não muitos mais de seu estado,
O castelhano ancião a quem o acaso
Hóspede e confidente ao vate dera.

Vl

Santo fervor que à lusitana corte
Trouxera o venerando missionário,
Do aio real na protecção confia
Para obter o que importa a seus misteres

Nas remotas regiões onde deixara
Cos neófitos seus alma e cuidados,
Versado nos antigos exemplares
De Grécia e Roma, aos cânticos sublimes
De Job e Isaías se aprazia
De comparar, em horas mais folgadas,
Canções de Smirna e Mântua: a miúdo o viram
Sobre os prantos de Dido verter lágrimas,
Talvez sem o remorso escrupuloso
Do eloquente Augustinho. Recebendo
Em depósito um poema de que ouvira
Falar já tanto, e de homem tão famoso
Por seu grande saber, talento e arte,
Ávido o livro abriu, leu. Admirado
De ver trajar alfaias lusitanas
Às homéreas belezas, aos apuros
Das virgilianas graças, — mais ainda
De originais, de novas formosuras
Por antigos cantores não sabidas,
— Cantores que jamais cuidou possível
Igualar, exceder por arte humana —
Seu generoso natural ardente
Se lhe inflamou de nobre entusiasmo:
— «É obra tal (exclamou), tamanho engenho,
Tão nobre amor da pátria, tão sublime,
Árdua empresa, trabalho tão difícil
Não terá galardão? Quem há mer’cido
Tanto da pátria por espada e pena,
Ingrata a pátria o deixará sem prémio?
Irá mendigo e súplica implorando
A chatim mercador de ganho avaro,
O humildoso favor de que lhe aceite
Tal obra e tanta, por mesquinho preço
Que, porventura, nem lhe mate a fome
Nem lhe cubra a nudez — Oh!...» Resoluto
Toma o bordão, caminho vai de Sintra,
A Aleixo fala, expõe-lhe o triste caso,
Maravilhas que leu conta, e as virtudes
E assinalados feitos do homem grande


Que em vão apouca a sorte. Almas formadas
Para a virtude e nobres sentimentos,
Fácil se entendem, e fácil comunicam
De seu ardor sagrado o íntimo fogo.

VII

Menezes disse ao rei: — «Senhor, um velho
E fiel servidor de tantos anos
Que jamais vos pediu mercê nenhuma,
Hoje um simples favor pequeno e único
Da bondade real — talvez justiça! —
Poderia esperar?»
— «Tudo: explicai-vos
Tudo: que pretendeis?»
— «Pouco vos peço:
Que ouçais um infeliz.»
— «Onde está ele?
Venha, mas seja breve; o tempo é curto:
E meus empenhos...»
— «Praza a Deus que sejam
Aos portugueses e ao seu rei profícuos!»
— «Certo o serão: a glória nos aguarda
Nas africanas praias impaciente.
A mim me tarda já de ir encontrá-la,
E... Porém dom Aleixo não aprova
As tenções do seu rei.»
— «Quando em conselho,
Franco ouvireis o meu; mas fora dele,
Real senhor, respeito e obediência
São os deveres únicos dum súbdito.»
— «O homem que sois, Menezes, bem conheço:
Amei-vos desde a infância, e inda vos amo.
Sois meu amigo, sei-o, e tão sincero,
Tão leal o não tenho.»
— «O céu permita
Que o cuideis sempre, e que infiéis não sejam...
Senhor, o desgraçado por quem rogo,



Nada vos pede; é português e altivo,
Como o são portugueses: mas tal feito,
Tão gloriosa empresa em prol da pátria
Cometeu e perfaz, que já desaire
Real seria de a deixar sem prémio»
— «Quem é esse homem? Que fez ele? O Gama,
O Albuquerque igualou?»
— «Fez mais do que eles;
Que os tornou imortais. Podem um dia
Erros nossos, baloiços da fortuna
Dar cabo dessas glórias do oriente,
Dessas conquistas d’Albuquerque e Vasco:
Mas a fama das letras não perece,
Nem a domina o fado. Tanta glória
De Portugal padrão eterno exige
Que lhe assegure dos vaivéns a sorte
O porvir sempre incerto. Que soubéramos
Das façanhas de Aquiles, da piedade
Do fundador primeiro dessa gente
Romana cujo nome inda enche a terra,
Se de Virgílio e Homero não ficassem
Mais duráveis, seguros monumentos,
Que as vencidas nações, que os altos muros
Das erguidas cidades? Confessá-lo
Não é força a nós outros cavaleiros:
Renome e glória, bem o ganha a espada;
Mas conservá-lo, só o pode a pena.»
— «Assim mo heis ensinado e o tenho certo.»
— «Dos mais famosos príncipes o exemplo
Vo-lo dirá melhor. Vede Alexandre
Chorar de inveja, não pelos triunfos
Do filho de Peleu, mas pelos cantos
Que imortal o fizeram: vede Augusto
Prémios, favores, honras dispensando
A quem de Roma as glórias celebrava.
Valem mais do que os feitos portugueses
Os de Gregos, Romanos? Mais vitórias,
Mais troféus, mais virtudes nos reconta
Sua falada história?»



— «Não, amigo,
Não; e eu farei que inda maior se exalte
O nome português pelo universo.»
— «Assim apraza aos céus!»
— «Praz, sim. Ou morte
Honrada, ou glória igual a meus passados
Ganharei eu.»
— «A glória dum monarca,
Nem sempre armas a dão. Dinis pacífico,
Joane o justo...»
— «Assaz mo tendes dito,
Falemos, dom Aleixo, desse livro...»

VIII

E Aleixo quanto ouvira ao missionário
Breve lhe expõe: o mérito da obra,
O glorioso renome que lhe fica
De protector das letras; enfim tudo
Quanto para inflamar o ânimo ardente
Do mancebo real melhor convinha.
— «Ouvi-lo quero» disse o rei, «chamai-o
Da minha parte: prémio terá digno
Dele e de mim, se o que dizeis é certo.»

IX

O virtuoso Aleixo corre alegre
Com a resposta ao empenhado amigo
Que de tais esperanças enlevado
Por devesas e grutas, por montanhas,
Da fresca Sintra em derredor discorre,
Té que o seu protegido alfim encontra.
Juntos desceram a escabrosa serra,
E de gratos futuros embalados
A hora aprazada para a audiência aguardam.

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