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Coração, cabeça e estômago

Camilo Castelo Branco

TERCEIRA PARTE

ESTÔMAGO

De como me casei

I

Procurei o refúgio dos penates, o lar em que derivam bem-aventuradas as gerações dos meus passados. Saboreei-me nas delícias do repouso, posto que em volta de mim só visse as imagens da nu-merosa família que descansava no pavimento da pequenina igreja. Lá estavam todos, como operários, que findaram sua jeira e, ao entardecer, encostaram a face ao pedestal da cruz e adormeceram.

Meditei no suave viver de meus pais e comparei-o às dores, umas lastimáveis e outras ridículas, que me tinham delido o coração, e desconcertado o aparelho de pensamento. Viver segundo a razão, alvitre que os filósofos pregoam, é bom de dizer-se e desejar-se, mas enquanto os filósofos não derem uma razão a cada homem, e essa razão igual à de todos os homens, o apostolado é de todo inútil.

Melhor avisados andam os moralistas religiosos, subordinando a humanidade aos ditames de uma mesma fé; todavia - e sem menoscabo dos preceitos evangélicos que altamente venero -, pare-ce-me que o homem, sincero crente, e devotado cristão, no meio destes mouros, que vivem à luz do século, e meneiam os negócios temporais a seu sabor, tal homem, se pedir a seu bom juízo religioso a norma dos deveres a respeitar, e dos direitos a reclamar, ganha créditos de parvo, e morre sequestrado dos prazeres da vida, se quiser poupar-se ao desgosto de ser apupado, procurando-os.

Como sabem, eu nunca andei em boas-avenças com a religião de meus pais; e por isso me abs-tenho de lhe imputar a responsabilidade das minhas quedas, seja dos pináculos aéreos onde o coração me alçou, seja do raso da razão, onde as quedas, bem que baixas, são mais igminiosas. Eu comparo o cair das alturas do coração à queda que se dá dum garboso cavalo: quem nos vê cair pode ser que nos deplore; mas decerto nos não acha ridículos. Ora, o cair da baixeza dos cálculos racionais é coisa que faz riso aos outros, e por isso muito comparável ao tombo que damos dum ignóbil burro. O cavalo des-penha-nos e, com as crinas eriçadas, resfolga e arqueia-se com gentis corcovos. O burro, depois que nos sacode pelas orelhas, não é raro escoicear-nos. É o mesmo, se a comparação vos quadra, nas que-das do amor e nas quedas do raciocínio. Das primeiras erguemo-nos sacudindo as folhas secas de umas ilusões, enquanto outros gomos vêm já desabrolhando na alma para mais tarde reflorirem. Das segun-das não há senão lama a sacudir e muita pisadura a curar com o bálsamo do tempo e duma vida brutal-mente desapegada de tudo que ultrapassa o momento da sensação.

A este viver assim de convalescença é que eu, por não sei que simpatia com a víscera essencial das nobilíssimas funções animais e espirituais, denominei o estômago.

Não cuidem, porém, que eu hei-de consumir o restante da minha individualidade em comer. Há faculdades que não se obliteram imolando-as a uma única manifestação da vida orgânica: o mais que pode fazer o espírito é impulsioná-las, concentrá-las e convergi-las todas para um ponto. De maneira que todas as minhas faculdades de ora em diante em volta do estômago as rege, e não há-de alguma idéia preocupar-me sem sair elaborada nas mesmas cinco horas que os fisiologistas assinam às funções digestivas.

II

Logo que me aposentei para largo tempo na minha casa, curei de remover e prevenir todos os empeços ao sessego das minhas digestões.

Quando esta providência falta, nenhum cálculo vinga. Nenhuma semente vos desabrocha bem prosperada, se descurais o amanho da terra. Antes sair com as mãos feridas do arroteamento de carras-cais e silvedos que ver abafados os renovos entre o mato. Notem já que a minha linguagem vai adqui-rindo um corpo e cor e uma certa consistência que não tinha. Os entendidos hão-de achar que esta gra-vidade sentenciosa só pode dá-la uma inteligência algum tanto espalmada pela pressão do estômago. E assim é que se explicam os adiposos bacamartes do frade, cujo intelecto se nutria e inflava nas roscas do cachaço, pedestal digno daquelas grandes e repletas cabeças. A ci6encia do frade, pois, era a ciência das funções alimentícias. Todo o estômago, bem regulado, produz um génio.

Convinha-me, pois, vassourar da minha testada um influência odiosa: era o regedor da freguesia que nunca ma havia perdoado os artigos em que lhe excruciei a estúpida ferocidade contra recrutas. A segunda vítima, destinada ao sacrifício da minha pachorrenta paz, era o vigário.

Enquanto ao regedor, as dificuldades deviam ser enormes, visto que todos os governos tinham achado nele um galopim, que vingava trezentos e vinte sufrágios.

Era preciso contaminar-lhe os créditos com a broca da retórica. Acerquei-me de três lavradores influentes da freguesia, expus-lhe a decadência do País e a inevitável perda da independência nacional, se continuássemos a dar o nosso voto irracionalmente a deputados da confiança do regedor.

Dei em minha casa prelecções de direito constitucional a estes e outros lavradores levados pe-los primeiros. Feri faíscas naquelas cabeças tapadas como pedreiras de mármore negro, e posso afoi-tamente asseverar que nunca a eloquência fez maiores milagres. Falei-lhes em nome do estômago, como Menénio Agripa, no monte sagrado, aos romanos fugidiços de Roma. Compreenderam o apólogo melhor que eu mesmo, e pediam-me com entusiasmo a repetição da história. O meu fito, remedando o meu ilustre predecessor no doutrinamento da plebe, mirava a convencê-la de que o regedor da fregue-sia era o cancro do estômago social. Facto admirável do instinto! Quando eu disse isto, levaram todos a mão à barriga. E assim se prova que o órgão mais sensível à eloquência é ela, e que a humanidade so-fredora é um estômago desconcertado, é bem assim se prova que todos os regedores facciosos podem ser banidos da confiança popular mediante o argumento do cancro, que eu ofereço a todas as oposi-ções.

Acertou de estar próxima a luta eleitoral. O regedor bateu às portas dos eleitores com o macete das listas, e encontrou em cada lavrador um doutrinário, um cidadão que falava da liberdade do sufrá-gio com muito menos parvoiçadas que a maior parte dos jornalistas. Enraivecido contra as minhas su-gestões, o funcionário oficiou ao governador civil pedindo-lhe autorização para me prender. O gover-nador civil deu a ordem pedida, mandando ao secretário que a lavrasse, e citou a lei do código eleitoral que me aplicava a captura. Ora, como quer que o secretário folheasse o código e não encontrasse ao artigo, a autoridade superior do distrito oficiou ao regedor lamentando com ele a impossibilidade da minha prisão.

Seguiu-se perder o governo as eleições e o regedor adoeceu de maleitas.

Passados meses, caiu o Ministério, caíram as autoridades, e eu fui nomeado regedor.

Eis aqui o meu primeiro pulo na carreira política.

O meu velho inimigo, quando recebeu o ofício da demissão, tremia como Mariano Faliero ou-vindo as fatais badaladas de S. Marcos. Um meu criado - para nada faltar à comparação com o desas-tre do infausto doge - foi ao campanário da igreja e repenicou o sino. Ao mesmo tempo, o meu vizi-nho Joaquim do Quinchoso atirou aos astros dois foguetes de lágrimas, que tinha sisado ao mordomo da festa do orago. Na aldeia próxima saiu à rua o Tio Manuel da Bouça com o lombo, e o meu compa-dre João da Fonte, que fora músico das milícias de Miranda, acordou os ecos das serras com o seu trompão.

O ex-regedor, escorrendo o suor glacial da morte, ergueu-se sobre os joelhos no seu catre, intei-riçou os braços descarnados; e, quando ia morrer nos braços do vigário, comeu uma perna de galinha, e salvou-se.

Mais um argumento da capacidade do estômago para afogar em si as decepções da política!

Como a câmara electiva fosse dissolvida, decretou o poder executivo novas eleições. Deram-se contra mim os pés o vigário e o ex-regedor. A influ6encia do primeiro era temível. Para contrariar-lha nas vésperas do sufrágio, industriei o meu fiel criado a prender a consciência política do padre com o cabresto do garrano do mesmo. O leitor acha dura de entender esta metáfora. Foi assim: o meu criado entrou numa bouça, onde pastava o garrano; tirou-o para o monte; desceu com ele a garganta de duas montanhas, e foi prendê-lo num recôncavo de matagal onde o vigário só pudesse encontrá-lo com tar-dias informações dalgum pastor desgarrado por aquelas brenhas. Cumpre, porém, dizer, em pró da mi-nha equidade, que o garrano, indigno de ser castigado com o amo, recebia todas as noites porção de feno e bebia do arroio límpido que lhe banhava os pés.

O vigário, azoado com a perda, e tolhido de ir arengar aos paroquianos das aldeias vizinhas, sentiu-se baldo de entusiasmo e patriotismo e deixou o seu correligionário em campo.

Venci as eleições por espantosa maioria. Disse-o o sino a reboar por aquelas quebradas; disse-ram-no as violas e zabumbas de sete aldeias: o ar incendiou-se de foguetes de três estalos, e eu fiz su-bir às nuvens um balão, feito de jornais em que eu fora redactor.

O garrano voltou, nesse mesmo dia, à porta do vigário, que o estreitou ao peito em fervoroso amplexo e exclamou: - Fizeste-me perder a eleição; mas para outra vez a ganharemos! Vem, filho pródigo!

III

Dois meses depois recebi o hábito de Cristo, solicitado pelo governador civil.

Seguiu-se a romaria de S. João, e eu levei o hábito. O ex-regedor, quando me viu a cruz e a fi-tinha escarlate, estava encostado a uma pipa bebendo o seu quartilho e discorrendo acerca do real-d'água e quinto para a amortização das notas, que ele chamava uma ladroeira. De repente, dá de cara comigo. Cai-lhe da mão convulsa o copo, encosta a fronte pálida ao ombro da taverneira, que tinha boas espáduas para suportar aquela esfera de granito, e ia desmaiar, quando, ao chegarem-lhe aos bei-ços uma caneca de água, ele disse que o mais acertado era chegarem-lhe vinho. E, bebendo, recobrou-se de cores, ganhou o aprumo e, para disfarce, deu um piparote no nariz da moça.

Deixá-lo lá com as suas foscas, o infeliz! Come-lhe as entranhas o rancor político. Um dia virá em que ele, descoroçoado de apanhar a regedoria, veja a Pátria pelos olhos de Bruto e, com b pequeno, se deixe morrer duma fartadela de rojões de porco, sem alguma esperança de renome entre as vítimas do patriotismo. Não!, pobre tolo que tinhas em ti uma alma tal e qual, ceteris paribus, como a dos grandes estadistas, que se hão-de rir de tuas agonias: não, meu émulo desditoso, a posteridade falará de ti, as gerações provindouras lerão nesta página, mais durável que o bronze das estátuas, o teu infortú-nio e a minha generosidade. Voere perenius victis!

O hábito de Cristo foi causa a episódios não despiciendos nestas memórias.

No arraial de S. João andava o sargento-mor de Soutelo com sua filha única, Tomásia.

Tomásia era mulher de carne e osso mais que o ordinário. Vestia de amazona: mas ficava um pouco aquém dos limites da elegância, porque era mais larga na cintura que nos ombros - visível de-feito do vestido. Tinha uns longes de cara admiráveis: figurava-se-me uma flor de magnólia entre duas rocas de cerejas.

O sargento-mor, que também era cavaleiro de Cristo, desde 1812, pensava desde muito casar Tomásia com cavaleiro da mesma ordem. Conhecia-me ele de nome e formava de mim opinião des-vantajosa: não assim a moça que me tinha visto anos antes, numa festa de Endoenças, e gostara de me ver com a opa verde de irmão das almas, funcionando nas cerimónias da igreja.

A casa do sargento-mor rendia quinhentas medidas de centeio, meia pipa de azeite e vinte car-ros de castanha; sustentava três juntas de bois e quatro irmãos padres.

O leitor ignora, talvez, a jerarquia dum sargento-mor. Pensa que é uma patente destas que en-chem a cobiça do coração de uma costureira ou criada de sala, a quem o sargento oferece sua alma e oito vinténs diários de pré?

O sargento-mor das antigas milícias era um potentado, imediato na jerarquia ao capitão-mor, com quem por igual se repartiam os lombos e os respeitos sociais. O baque da monarquia absoluta, esmagando com os privilégios o acatamento que os privilegiados incutiam, respeitou o sargento-mor de Soutelo. Os povos reverenciavam-no no teor antigo e testemunhavam seu acatamento presenteando-o com os lombos dos cevados, tal e qual como nas ominosas eras em que o sargento e o capitão-mores representavam, no aparelho gástrico do absolutismo, um dos intestinos mais importantes - o recto, se quiserem.

Tomásia era um rapariga desempenada e com olhares derretidos. De entendimento era escura, como quem não sabia ler, nem tivera, alguma hora, desgosto de sua ignorância. Tinha vinte e seis anos e nunca estivera doente. Nunca tomara chá nem café. Almoçava caldo de ovos com talhadas de chouri-ço. O Sol, ao nascer, nunca a surpreendeu em jejum. Trabalhava de portas adentro com as criadas: fa-zia as barrelas, fabricava o pão, administrava a salgadeira e vendia os cereais e as castanhas. Regular-mente calçava soquinhas debruadas de escarlate e sarapintadas de verde. As meias eram de lã ou algo-dão azuis; mas não usava ligas, de jeito que as meias caiam em refegos à roda do tornozelo - o que não era feio. Nas romarias, calçava sapato de fitas e trazia chapéu desabado com plumas brancas. Os pulsos eram duma cana só, como lá dizem para exprimirem a força. Cada palma de mão parecia uma lixa; e elogiar-lhe o cuidado das unhas seria adulação indigna da minha sinceridade. Dentes nunca os vi ricos de esmalte. Limpava-os com erva do monte, que lá chamam mentrasto; e as pomadas das suas opulentas tranças louras eram a água cristalina do tanque em que ela mergulhava a cabeça todas as manhãs. Sentava-se depois à sombra dum castanheiro, nos dias festivos, a pentear-se, e era belo vê-la então coberta de seus cabelos até à cintura, que moura mais linda a não sonharam poetas, em orvalha-das de S. João, alisando as madeixas com pente de ouro.

Assim foi que eu a vi quando cheguei à janela do quarto em que pernoitara na casa do sargento-mor, descendo eu duma feira onde fora vender um macho e comprar bezerros para criação.

IV

O pai de tomásia, erguia a toalha da mesa, onde almoçámos, às sete horas da manhã, sopa de ovos, salpicão, batatas ensopadas com toucinho e toucinho cozido com batatas, disse-me que sua filha estava casadeira e ele disposto a casá-la comigo, se eu quisesse. Antes que eu respondesse, inventariou os seus cabedais, o valor do património dos seus quatro irmãos padres, os quais estavam presentes e unanimemente disseram que tudo deixavam por escritura a sua sobrinha.

Pedi espera de alguns dias para responder; e a inst6ancias de todos, passei aquele dia em Sou-telo.

Tomásia, que tinha almoçado na cozinha, segundo o seu costume, quando havia hóspedes em casa, apareceu-me, meia-hora depois do almoço, perguntando-me se queria comer uma tigela de re-queijão e beber um pichel de vinho verde.

Gostei desta patriarcal franqueza e desci à cozinha, onde encontrei sobre a mesa do escabelo, adorno da lareira, uma tigela vermelha vidrada com requeijão e um pichel reluzente de estanho a trans-bordar de espumoso vinho verde. Tomásia sentou-se do outro lado e comeu e bebeu como a filha de Labão com Jacob.

Conversámos nestes termos também patriarcais:

- Quantos anos tem a Sra. Tomásia? - perguntei.

- Vinte e seis, feitos pela Santa Luzia.

- Muito bem empregados. Admiro que vossemecê não esteja ainda casada!

- Ainda não é tarde.

- Também digo: mas quem é tão bonita como a Sra. Tomásia onde quer acha um noivo.

- Sou sã e escorreita. Deus louvado. Se lhe pareço bonita, isso é dos seus olhos. Coma uma colher de requeijão, e beba, que o vinho está muito fresco.

- Está excelente, mas eu não posso mais.

- Então fraco homem é!

- Almocei contra o meu costume. Estou afeito a almoçar leves de café ou chá.

- Credo! Vossemecê bebe chá por almoço?!

- Pois então!

- Ora essa! Cá em casa há chá, que o compra meu tio padre João, mas é para as dores de bar-riga. À minha boca nunca ele foi, em boa hora o diga!

- As comidas fortes dão-se bem com o seu estômago?

- Ora se dão! Nunca estive doente dois dias a fio.

- Costuma cear?

- Pudera não! Almoço, janto, merendo e ceio: é o costume cá de casa; e vossemecê?

- Eu começo agora, desde que vim para a aldeia, a comer melhor; mas não pude ainda habitu-ar-me a cear.

- Pois quem não ceia, toda a noite rabeia: é ditado dos velhos. Então não come mais?

- Mais nada.

- Pois se quer vir daí à casa da eira, eu vou lá ver o que fazem os moços. Isto de servos, se a gente lhe tira os olhos de cima, pegam a mandriar que não fazem nada. Quer vir?

- Com muito gosto.

Tomásia encheu um grande cabaz de fruta e uma cabaça de vinho.

- Levo isto aos moços - disse ela - porque eles, quando eu chego à sua beira, estão sempre a olhar-me para as mãos.

- Se quer, eu levo a cabaz e o vinho - disse eu.

- Não é preciso: eu posso bem com isto.

- Ao menos deixe-me levar uma das coisas.

- Então leve a cabaça, que pesa menos.

Caminhámos ombro a ombro para a casa da eira. Tomásia parou muitas vezes a saudar os ve-lhos e velhas que ia encontrando.

Os velhos diziam-lhe:

- Deus te guarde, flor.

E as velhas já de longe vinham dizendo:

- Aí vem o anjinho do Céu, a mãe da pobreza.

E ela ia tirando do cabaz alguns punhados de fruta para dar às que não a tinham de sua casa.

Passámos no adro da igreja.

Em frente da porta principal, Tomásia depôs o cesto sobre o baixo muro do adro, fitou os olhos no santo, que tinha o seu nicho sobre a padieira da porta, fez curta oração, benzeu-se e tomou o cabaz.

Ao assomarmos ao beirado da eira, os criados, que andavam a limpar o centeio com pás e pe-neiras, redobraram de canseira.

- Assim que nos lobrigaram - disse Tomásia -, olhe como eles labutam! São uns calaceiros daquela casta!

E, levantando a voz, disse:

- Venham à fruta, a ver se refrescam. O serviço que vocês todos seis Têm feito fazia-o eu so-zinha com uma perna às costas. Sempre estão umas rabaças, vocês!

Enquanto os criados comiam sofregamente as cerejas, as peras, os malápios e os gelemendes, Tomásia, ora com a pá, ora com a peneira, limpou uma rima de centeio, procurando a eminência mais ventilada da eira. O vento sacudia-lhe levemente a fimbria da saia de chita curta de grandes rofegos na cintura. Como erguia os braços ao alto, as largas mangas da camisa arregaçavam até aos ombros, e os folhos alvíssimos do peitilho, soprados pela viração, descobriam-lhe o seio, até onde o vento pode des-cobrir sem desairar o pudor.

Pareceu-me bonita assim, muito mais que vestida de amazona, calçada de duraque, e impluma-da, qual a vi na romagem do S. João.

Voltaram os servos para o trabalho, e Tomásia veio sentar-se ao pé de mim debaixo dum co-berto de colmo.

- Está fatigada? - disse-lhe eu!

- Agora estou! Vim para aqui fazer-lhe um migalho de companhia e depois torno lá. Hoje o pão há-de ficar nas tulhas, custe o que custar.

- E deixa-me sozinho aqui?!

- Vossemecê, em se aborrecendo, vá para a casa, que lá está o pai e os tios. Vá jogar a bisca com os padres, que eles gostam muito. Sempre são!... Eu, se tivesse filhos, padre, Deus me perdoe, que não havia de ser nenhum!

- Porquê? Tem zanga dos padres?

- Agora tenho; os padres são a imagem de Deus; mas não fazem nada numa casa; dizem a sua missa, vão aos enterros e às festas, mas coisa de botarem a mão a uma sachola para tapar uma poça, ou cortar um agueiro, isso não é capaz! Olhe vossemecê ali em minha casa quatro padres duma assentada sem fazerem nada, a olharem uns pròs outros e a lerem a gazeta de Lisboa... Eles aí vêm... é milagre saírem de casa a esta hora! Vêm cá pr'amor do Sr. Silvestre.

Chegam os quatro clérigos, e um deles vinha com a Nação em punho, explicando aos outros um relanço difícil do artigo de fundo.

Fui consultado acerca da passagem obscura, e o meu parecer esclareceu as dúvidas. Tomásia, enquanto eu falava uma linguagem para ela inapercebida, estava com os olhos postos em mim. Os pa-dres louvaram a minha esperteza, e o mais velho, oráculo dos outros, disse:

- Ora o senhor, com esse talento que Deus lhe deu, devia ser realista!... É uma ingratidão não defender a religião de nossos pais quem tanto deve à Providência.

Redargui que respeitava a religião de nossos pais e que a política era uma coisa incidental na vida das nações, de todo o ponto estranho à religião.

Discutimos mansamente uma hora.

Tomásia fatigou-se logo de nos ouvir e foi trabalhar.

V

À hora da sesta fui sentar-me num escuro souto de castanheiros e meditei.

Estava o estômago no mais activo de sua chilificação. Havia uma insólita claridade no meu es-pírito. Nenhum devaneio dos que arrombam poetas em ermos e sombras me perturbava o cozimento das pingues substâncias em que abundara o jantar. As minhas meditações eram pachorrentas, terra a terra, sem enlevos que me deslocassem da felicidade do momento para me transportarem ao passado, onde estava a saudade, ou ao futuro donde me podia estar mentindo a esperança.

Que a saudade, para além dos trinta anos, é uma enchente de lágrimas que desdobra o peito da-queles mesmos que se não sentem viver no coração.

E a esperança é uma virgem de encantos doidos, a qual vos não deixa gozar os encantos doutra virgem que vos alinda os bens presentes.

E a meditar assim adormeci, reclinado sobre uma moita de malmequeres e boninas.

Quando acordei tinha sobre a face um lenço de linho, branco de neve.

Enxuguei o suor, relanceei em derredor os olhos e vi, a distância de cem passos, Tomásia, sen-tada à beira dum tanque, coberto de ramagens de para, costurando e cantando a meia voz.

- Boas tardes, Sr. Silvestre! - disse ela, risonha.

- Ande lá, que se regalou de dormir; e, se não sou eu, as moscas e os mosquitos chupavam-lhe o sangue.

- Muito obrigado, menina.

- Menina! - tornou ela. - Eu sou mulher, não sou menina.

Ergui-me e fui lavar a cara na bica do tanque. Tomásia tirou o seu avental de linho para eu me limpar. Sentei-me, depois, à sua beira, e vi que ela estava remendando uma camisa.

- Remenda o teu pano, e chegar-te-á ao ano; torna-o a remendar, e tornará a chegar - disse ela.

Estivemos silenciosos alguns segundos. Cortou Tomásia o silêncio, perguntando:

- Vai-se embora amanhã?

- Vou.

- Não gosta de estar conosco?

- Gosto; mas cada um de nós tem a sua casa.

- Isso é verdade... - disse ela, com a mão da agulha suspensa e os olhos fitos em qualquer coisa distante.

- É feliz, não é, Sra. Tomásia?

- Feliz é quem está no Céu. Diz meu tio padre João que neste mundo ninguém é contente da sorte que tem.

- Que lhe falta a si? Não tem tudo o que deseja?

- Eu desejo pouco...

- Então que mais quer para ser feliz?

- Queria que o Sr. Silvestre se deixasse estar mais alguns dias por aqui; mas, se tem que fazer na sua casa, vá. Lembra-se quando estivemos, faz anos para a Semana Santa, nas Endoenças de Santo Amaro?

- Lembro.

- Pois olhe que nunca mais me esqueceu! Vossemecê lembra-se de me ver?

- Mal me recordo...

- Lá me parecia...

- Porquê? Tem razão para supor que eu não a devia lembrar?

- É dum modo de dizer... Nem se lembra que eu lhe dei duas cavacas em casa do Sr. Vigário?

- Ah!, agora me lembro... levava os cabelos louros com laços de fita, não levava?

- E vestido vermelho de cetim.

- Tal e qual. Que linda ia! Fiquei a pensar em si muitos dias...

- Mas esqueceu-se, e nem me conheceu agora. Uma rapariga em dez anos muda de cara; estou já velha...

- Não está sequer mudada, menina.

- E ele a dar-lhe!... não gosto que me chame menina.

Chame-me Tomásia.

Neste momento chegou o sargento-mor e disse com muito afável gesto:

- Ó rapariga, olha que teus tios já lá estão perguntando se tu fugiste com o Sr. Silvestre.

- Estamos a tratar disso, meu pai; quer vossemecê fugir também connosco? - respondeu ela com muita graça e desembaraço.

- Pois vamos lá com Deus.

E o velho, aproximando-se mais, reparou na costura de Tomásia, e disse:

- Não tens vergonha de estar a remendar camisas diante deste senhor?

- Agora tenho! Pois isto é vergonha? Vergonha é trazê-las rotas. Ó Sr. Silvestre, ainda que eu seja confiada, diga-me: quem lhe arranja a sua roupa?

- A minha roupa está sempre desarranjada; quando se rompe, compro outra.

- É bom governo esse! - tornou ela -, assim é que há-de ir para diante a sua casa!... Se eu morasse mais perto de si, dizia-lhe que mandasse a roupa para cá... Ri-se? Talvez cuide que eu não sei engomar! Veja o colarinho da camisa de meu pai como está rijo!

- Pois o melhor de tudo - atalhou o velho - é que o Sr. Silvestre venha cá para casa de vez, e então lhe tratarás da roupa.

Tomásia compreendeu o figurado do dizer e pôs os olhos na costura.

Chegavam os padres, discutindo outro ponto do artigo de fundo da Nação, e caminhámos todos polemicando, até chegarmos a um campo marginal do rio, onde o sargento-mor tinha uma pequena casa com adega.

Entrámos na adega, cuja frescura consolava. Pouco depois chegou uma rapariga com o cesto da merenda. Era uma travessa de barro vermelho cogulada de trutas fritas.

Tomásia foi a uma poça colher celgas e agriões, de que fez salada, depois de esfregar as mãos com areia da margem do rio.

Rodeámos uma dorna de fundo ao alto, sobre a qual se colocou a travessa das trutas e o algui-dar da salada, donde nos servimos todos com garfos de ferro mui lustrosos.

Tomásia tirou uma truta para cima duma fatia de pão e sentou-se no socalco da pipa, donde ti-rava o vinho, que ressaltava espumando pelo batoque. Bebíamos todos do mesmo pichel de estanho; e o pichel, quando caia na mão dum padre, voltava vazio à torneira.

- Dão-me que fazer os tios!... - disse Tomásia a rir.

- Anda lá, rapariga - acudiu o padre João -, que tu também gostas de ver o fundo da cane-ca... Essas cores não se criam com água.

- Bebe, bebe, cachopa - disse o sargento-mor -, que o vinho é meia mantença.

Quando o pichel passou da minha mão à de Tomásia, reparei que ela assentou os lábios no re-bordo molhado por onde eu tinha bebido. E, como visse que eu dera fé, corou.

Ao entardecer voltámos a casa.

VI

Depois de ceia, Tomásia saiu a uma varanda de cantaria que dominava dilatadas várzeas orladas de arvoredo.

Os padres, o sargento-mor e eu ficámos praticando em sistemas de governo e discutindo as vantagens da representação nacional sobre o alvitre dum só homem. Os ardores da polémica eram re-frigerados com beijos no pichel, beijos longos, longos, e absorventes como beijos de amantes.

O sargento-mor, como já não entendesse as teorias absolutistas dos irmãos, nem as minhas de emancipação social, adormeceu encostado ao espaldar duma cadeira de couro.

A questão foi esmorecendo consoante as forças intelectuais iam convergindo para o lavor da digestão. A ceia tinha sido pouco menos chorumenta que o jantar. Afora duas galinhas, amarelas de gordas, com o seu préstito de salpicões, no centro da mesa, estava o alguidar do anho assado, que lou-rejava estirado sobre um vasto plano de arroz, atauxiado de rodelas de lingüiça.

Três padres foram deitar-se, e o mais letrado dos quatro, padre João, disse-me se eu queria ir à varanda ver o rio prateado pela Lua e as penumbras dos altos serros circumpostos à graciosa aldeia.

Quando passávamos para a varanda, parei, e pedi ao padre que parasse.

Estava Tomásia cantando uma toada popular, triste como todas as cantilenas do Minho e Trás-os-Montes. A melancolia não a dava a letra menos que a música. Dizia assim:

Teus cabelos me prenderam,

E teus olhos me mataram;

Teus lindos pés me fugiram,

Quando morta me deixaram.

Entre as mãos frias de neve

Um raminho me puseste;

Levaste as rosas e os cravos,

Deixaste murta e cipreste.

Entrei de surpresa na varando e disse à maviosa cantora:

- Quem lhe ensinou essa letra tão triste e bonita?

- Ai! - exclamou ela -, não cuidei que estava aí...

Estas cantigas eram as de menina de Chaves.

- Quem era a menina de Chaves?

O padre tomou à sua conta a resposta, e disse:

- Era a namorada dum meu condiscípulo no Seminário de Braga, que morreu de amores por ele no Convento de Sant'Ana, e ele também morreu por ela. Eram ambos de Chaves. Eu fiquei com o papelinho em que a coitada escreveu as coplas que minha sobrinha canta a chorar.

- E está a chorar! - disse eu, vendo-lhe nos olhos espelhado um raio da Lua.

- Não que eu - disse Tomásia entre risonha e lagrimosa - tenho uma pena da criatura!...

- Dela somente? - interrompi.

- E dele, que lá foi procurá-la ao outro mundo.

As lágrimas desta mulher que nome têm se não são a sublime poesia da ternura, que eu ainda agora encontro pela primeira vez!..., disse eu entre mim, de modo que o estômago me não ouvisse. E as cinzas, que foram coração, estremeceram levemente.

VII

Ao amanhecer do dia seguinte ouvi a voz do sargento-mor, que passeava no pomar contíguo à casa.

Desci ao pomar e perguntei-lhe se tinha resolvido seriamente dar-me sua filha.

O velho encostou o queixo às mãos, que assentavam sobre uma bengala alta de cana encostada em marfim, e disse:

- Eu tenho uma só palavra: sou o sargento-mor de Soutelo, cavaleiro professo na Ordem de Cristo desde 1812 e cavaleiro da Ordem da Verdade, filha de Cristo, desde que me conheço. Dou-lhe minha filha, com a condição de que o Sr. Silvestre há-de viver comigo, enquanto eu vivo for; depois, se quiser, leva a mulher para sua casa. Não a doto com isto nem com aquilo. Tudo que eu tenho e tem meus irmãos dela é. O senhor entra aqui mais como filho que como genro. Come, bebe e veste da casa. Os rendimentos da sua aplique-os ao desempenho dela, que, pelos modos, o senhor lá por esse mundo gastou muito e mal. Pagou o tributo: todos o pagam cada um por seu feitio. Eu também as fiz boas, e vi-as fazer piores a meus padres, quando já tinham a cabeça rapada. Agora com águas passadas não mói o moinho. Faça-se homem, e descanse. Mande ao diabo as extravagâncias e os prazeres das cida-des. Aqui é que reina a paz e a alegria nas boas consciências.

Prosseguiu o sargento-mor até que a filha assomou à janela da cozinha, dizendo:

- Venham daí o almoço.

- O senhor vai hoje ou fica? - perguntou, no caminho para casa, o velho.

- Vou dar as providências necessárias e voltarei, passados vinte dias, para ficar.

- Isso é decidido? É palavra de cavaleiro?

- Não mereço que o respeitável pai de Tomásia me faça essa pergunta.

- Desculpe à minha satisfação estas dúvidas. Boas são as venturas de que a gente duvida, quando as tem já na mão.

E abraçou-me com os olhos húmidos.

Estávamos à mesa. Tomásia, segundo o seu costume, andava da sala para a cozinha, levando e trazendo pratos e iguarias.

O pai mandou-a sentar ao meu lado.

Padre João, meu vizinho da direita, rolou o abdómen para dar lugar à sobrinha.

Tomásia parecia outra no acanhamento e não desfitava os olhos do pai.

- Tu que me queres moça, que olhas tão sisuda para mim? - disse ele. - Ó rapariga, o san-gue parece que te quer saltar pela cara! É assim, é assim que eu vi tua mãe há trinta e dois anos. O ca-samento dela foi tal qual como o teu. Soube-o na véspera do dia, como tu, e eu resolvi-me, de à noite para pela manhã, porque ela virtuosa, trabalhadeira e pura como as estrelas do Céu. Aí tens o teu noi-vo, Tomásia. Bebamos à saúde do nosso Silvestre!

Saíram do armário sete canecas de louça da Índia com que as saúdes se fizeram.

- São as mesmas que serviram há trinta e dois anos em casa de meu sogro - disse o sargento-mor.

Eu fiz um brinde em termos chãos à minha nova família.

Durante o almoço, Tomásia nunca me esperou um olhar.

Findo o almoço, perguntei por ela para despedir-me, e soube que estava na igreja.

Esperei-a. Entretanto, padre João entregou-me a certidão de idade da sobrinha e pediu-me que no mais breve termo lhe arremetesse a minha para se lerem os banhos.

Voltou Tomásia acelerada porque a foram chamar. Logo que pôde falar-me a sós, tirou do peito um embrulho e deu-mo, pedindo-me que lançasse ao pescoço o que ia dentro do lenço. Despedi-me e abracei-a. Tomásia não quis que outra pessoa me segurasse o estribo quando eu montava.

- Já cuida dele como de coisa sua! - disse o velho a rir, e os padres riram todos.

Depois tornou ela dentro à casa, mandando-me que esperasse um pouquinho, e veio logo com um pequenino alforge.

- É para o caminho - disse ela, atando-os às fivelas da sela.

Dei o último adeus, e Tomásia subiu ao topo de um outeiro donde se avistava grande espaço de estrada, e ali estava acenando-me até que me sumi numa baixa de serra.

Abri o embrulho: era um Agnus-Dei, encastoado em prata. O lenço que o envolvia tinha no centro um coração com muitos aleijões, atravessado por uma flecha que a caprichosa bordadeira deixa-va ver em todo o seu comprimento, de modo que parecia uma seta grudada ao coração.

Dali três léguas sentei-me à sombra duns azinheiros e abri o alforge: era uma galinha assada, uma cabaça de vinho e um pão.

A leitora de coração fino e melindroso pergunta-me se eu gostei daquilo, se me não seria mais saboroso encontrar um ramo de flores.

Não, minha senhora, eu gosto muito mais de encontrar a galinha, o pão e a cabaça.

Os prazeres das flores cedo-os bizarramente aos amadores de Vossa Excelência e a Vossa Ex-celência não levo a mal que se ria da filha do sargento-mor de Soutelo, que punha flores aos santos e cuidava seriamente do estômago das pessoas que lhe eram caras.

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