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Coração, cabeça e estômago

Camilo Castelo Branco

VIII

Cheguei a minha casa e estranhei-a como se não fosse a minha.

Vi uns velhos criados, que se moviam taciturnos e tristes. Peava-me no peito aquela soli-dão, mais amargurada pelas lembranças da infância. O espírito refugiava-se em Soutelo, e eu pasmava de não sentir renascer o coração ao calor daqueles desejos, que semelhavam saudades.

Abreviei os meus arranjos, fazendo ler o primeiro proclame do meu casamento no dia imediato, que era domingo, dispondo novos arrendamentos dos bens, demitindo-me da regedoria e comprando na vila próxima algumas prendas de noivado.

Nestes preparativos, andava comigo um contentamento plácido e sereno como eu nunca houve-ra experimentado. Adormecia e acordava alegre, bem que esta alegria do despertar não fosse um alvo-roço, uma embriaguez de gozo como eu sentira em outra idade, nos efêmeros prazeres, ou meras espe-ranças de os alcançar. Agora, a minha satisfação era toda ver-me sequestrado do mundo, estimado de cinco velhos felizes, ligado a uma mulher inocente, moldada pelas doces imagens que eu julgava ex-tintas nos tempos bíblicos. Figurava-se-me a minha vida futura no decurso de trinta anos, que podia ainda viver. Antevia a uniformidade, no trabalho sem fadiga e no respeito e estima dos meus conterrâ-neos. Lia da minha pequena livraria os poetas bucólicos, e especialmente relia e decorava uma ode de Meléndez que principiava assim:

Ya vuelvo a ti pacífico retiro:

Altas colinas, vale silencioso

Término a mis deseos,

Faustos me recebid; dadme el reposo

Por que en vano suspiro

Entre el tumulto y tristes devaneos

De la corte enganosa:

Con vuestra sombra amiga

Mi inocencia cubrid, y en paz dichosa

Dadme esperar el golpe doloroso

De la parca enemiga...

Algumas vezes interrogava a minha consciência, perguntando-lhe se eu amava Tomásia. Não me respondia, por se julgar desautorizada para a resposta. Ao coração é que tocava o discutirmos se-melhantes pontos de pouquíssima importância para o complemento da minha felicidade. Eu tinha lido a Bíblia e não vira lá os patriarcas oferecendo ou pedindo amor às mulheres com quem se esposavam. Booz não diz a Rute que a ama. Jacob, conquanto dessimpatize com os olhos doentios de Lia, não se declara amoroso de Raquel. Abraão casou com Sara sem se despender em maravalhas do coração. Na idade de ouro, a mulher era a fêmea do homem: casavam para procriarem, segundo suas espécies, e procriando envelheciam ditosos.

O amor inventou-o depois o estragamento dos bons costumes gregos e romanos, como coisa ne-cessária e acirrante aos paladares botos dos filhos viciosos das cidades.

Ainda agora nas aldeias, afastadas dos focos da corrupção, coisa que eu nunca ouvi dizer é: "A Maria do Ribeiro ama o António da Capela." Lá não se diz ama; é querem-se. "Querem-se" é outra coisa; é amalgamarem-se num só ser, em uma só vontade, numa identidade de alma e corpo tal, e tão uma que nem sequer cogitam se há desgraça com força de desuni-los aquém da morte. E para lá da sepultura ainda eles têm como segura a vida imortal em união de penas ou glórias.

O amor dispensa-se onde está a profunda estima. Lá nesses consórcios bem-aventurados que florescem obscuros nas gargantas das serranias e nas selvas que bordam as margens dos rios não há tempo nem ocasião de discutirem subtilezas do coração. Crê-se ali que o vínculo é eterno e o sacra-mento do matrimónio uma religião, ou o dogma mais sacratíssimo dela. Pode ser que nem isto mesmo pensem: o que eles deveras sabem é que são felizes.

Eu cismava estas e outras coisas quando me estava preparando para entregar a minha vida às quietas delícias dum casamento que faria rir de piedade os meus amigos.

IX

Fui.

No carvalhal que forma o ádito da povoação de Soutelo esperavam-me os quatro clérigos, o sargento-mor, o abade, o boticário e o juiz eleito. Abraçaram-me todos sem ser apresentado aos três personagens que ampliavam o círculo das minhas relações. Aquela boa gente das aldeias vem direita a um homem, dá-lhe um abraço de amolgar as costelas e levanta-o ao ar na veemência de sua credulida-de. Coisa que nunca por lá me disseram foi: "Aqui lhe apresento o Sr. Fulano".

Os Fulanos da aldeia julgam-se sempre assaz visíveis para dispensarem que outrem diga deles: "Aqui lho mostro".

Abalámos dali para casa.

Tomásia veio receber-me ao patim da escada e logo me perguntou pelo Agnus Dei. Mostrei-lho, tirando-o do peito. A contente moça beijou a relíquia e disse:

- Vê meu pai? Cá o tem ao peito. Vossemecê dizia que o Sr. Silvestre não punha isto!... Eu bem sabia que ele era cristão!

Estava a mesa posta e coberta de pratos de trutas e escalos, entre açafates de fruta.

Merendámos e ficámos em palestra na varanda de cantaria até ao toque das ave-marias.

Depois da reza saíram os convidados: os padres também saíram para rezar o breviário, o sar-gento-mor foi tomar um banho no rio e eu fiquei sozinho com tomásia.

Coaxavam as rãs e zumbiam os besouros. Dos soutos e carvalheiras vinha o pio gemente das corujas e dos mochos. Os morcegos voejavam por entre os pilares da varanda. Nas cortes vizinhas da casa balavam os cordeiros, e refocilavam-se as cabras, produzindo o som cavo do embate das marradas - divertimento que a humanidade usa com menos estrondo e mais às claras.

Tomei a mão de tomásia e disse-lhe:

- És muito minha amiga?

- Sou - respondeu ela, dando a outra mão, que eu apertei entre as minhas.

- És feliz em casar comigo?

- Agora é que tenho quanto desejo.

- E se eu não voltasse, se eu não casasse contigo, eras desgraçada?

- Deus me livre! Morria como a menina de Chaves.

- E se te dissessem que eu gostava doutra mulher, querias-me?

- Se o Sr. Silvestre gostasse doutra não me queria a mim.

- Mas se eu viesse a gostar depois de casado?

Tomásia retirou as mãos. Não sei se perdeu a cor, que era suficiente a claridade das estrelas para este estudo.

- Porque tiras as tuas mãos das minhas?! - perguntei.

Tomásia deu-as outra vez, sem responder.

Insisti na pergunta.

- Isso não pode ser - disse ela.

- O que não pode ser?

- Casar comigo e gostar doutra depois... Meu pai quis sempre muito a minha mãe, e todos os casados que conheço são como era meu pai.

- E eu serei como eles, minha amiga. Não penses mais nestas perguntas.

Abracei-a, dei-lhe um beijo na face e deixei-a ir dar as ordens para a ceia.

O beijo recebeu-o sem estremecimentos de pudor, como as donzelinhas dos romances.

X

Dois dias depois, às seis horas da manhã, ouvi um tiroteio que vinha soando das montanhas e vales convizinhos da aldeia.

Eram os amigos do sargento-mor, chamados e não chamados a festejar o casamento da morga-da. Assim a denunciavam por ser filha única.

Encheram-se os extensos casarões de gente. Chamavam lá cobrados e casarões ao que nas terras onde já chegou a ilustração das palavras se chama "salas".

Vinham à mistura com os lavradores muitas moças de alegres rostos, com abadas de flores des-folhadas.

O juiz eleito vestia casaca e o boticário parecia trazer na gola da sua todo o laboratório farma-cêutico.

Tomásia trajava de cetim azul. Fora mandado vir de Chaves o vestido. A irmã do juiz eleito, que estivera a banhos na Foz, penteou-a à moda do Porto; mas a minha noiva, vendo-se ao espelho, desmanchou o penteado e formou da grande trança loura um diadema, sem mais enfeites que uma rosa de Alexandria. Por cima dos ombros, que o vestido deixava nus, lançou Tomásia um xaile de Tonquim escarlate, que eu havia mandado a minha mãe e ela nunca vestira.

Saímos para a igreja entre alas de activo bombardeamento. Eram centenares de pessoas de am-bos os sexos.

As velhas erguiam as mãos aos céus, exclamando:

- Como tu vais linda! Bendito seja Deus! Pareces Nossa Senhora!

Confessamo-nos, comungamos e recebemos as bênçãos.

Desde que saímos da Igreja até à entrada de casa caminhámos sempre debaixo de nuvens de flo-res. O estrondo dos bacamartes era atroador e os dois sinos da freguesia repicaram desde que saímos do templo até ao anoitecer desse dia.

Meia hora depois que chegámos entrei no quarto de minha mulher e encontrei-a de joelhos di-ante duma imagem de S. João dos Bem-Casados.

Ergueu-se ela, benzendo-se, e esperou que eu a beijasse pela segunda vez. Penso que o público me releva a confissão de que, ao dar-lhe este segundo beijo, encontrei os lábios. Era o instinto das sen-sações agradáveis, mas honestas, que ensinou a minha mulher o segredo do máximo prazer de um bei-jo.

Estava o almoço na mesa.

O EDITOR AO RESPEITÁVEL PÚBLICO

Os autógrafos do meu amigo Silvestre da Silva carecem de nexo e ordem desde a data do seu casamento. Salta logo aos olhos que o ilustre autobiógrafo, chegado ao macro da bem-aventurança, quedou-se a repousar da peregrinação - Deus sabe quão penosa! - que trouxera pelas precipitosas veredas do seu passado.

Vejo aqui muito fragmento de obras bosquejadas, sobre assuntos de higiene caseira. Os mais aproveitáveis tendem a mostrar que a deusa da fortuna é a predilecta amiga dos que submetem a vida ao regime suave da matéria e só exercitam seu espírito para corrigir-lhe as demasias. Estes trechos soltos acho-os enfaixados sob o título: A Felicidade pelo Estômago.

Há outros manuscritos que encarecem o egoísmo, mas o racional egoísmo de Bentham. É esta uma das máximas: "O homem só vive bem com os outros quando vive mais para si". E neste ponto de sentenças podia eu mostrar, se tivesse paciência para copiá-las, que Silvestre da Silva, se cultivasse o género, poderia ser um La Rochefoucauld fora de Soutelo.

Pospondo como coisas da segunda ordem as manifestações intelectuais de Silvestre, vou tentar, auxiliado pelos apontamentos dele, e notícias que alcancei, organizar a sucessão dos factos posteriores ao casamento.

Silvestre foi eleito presidente da Câmara de Carrazedo de Montenegro, que assim se denomina o conselho onde a ventura lhe bafeja o outono da vida. Estreou-se nas funções municipais mandando construir uma porca nova para o sino da igreja e compor uma estrada descalçada que lhe passava à porta; depois propôs em sessão que se pedisse ao Governo uma estrada do Porto a Chaves, com um ramal por Soutelo.

Este alvitre criou-lhe créditos, que foram um espeque à sua reputação algum tanto abalada com o facto de consumir os dinheiros do cofre municipal na reconstrução do caminho de sua exclusiva ser-ventia. Mais meiga lhe soprou a aura popular, quando ele, mediante a solicitude do deputado, que fize-ra eleger, conseguiu que o conselho de Carrazedo absorvesse, na divisão do território, outro conselho limítrofe.

Nas próximas eleições, Silvestre da Silva, sem inculcar-se aos povos, nem recomendar sua can-didatura, foi eleito deputado, contra a vontade das autoridades.

Tomásia, sabendo que seu marido se apartava dela no segundo ano de casada, fez tamanha e tão sincera choradeira que Silvestre desistiu da candidatura e fez que no escrutínio suplementar saísse de-putado o juiz eleito, que também não serviu por se ter recusado a prestar o juramento, como legítima que era de entranhas.

O Governo chamou ao seu partido a influ6encia de Silvestre e conseguiu fazer eleger no seu círculo um candidato desconhecido dos eleitores. Ganhou com isso o genro do sargento-mor uma co-menda para seu sogro e outra para ele, e uma abadia pingue para o padre Atanásio, tio de sua mulher. Em consequência do que todos os padres voltaram a sotaina e proclamaram a legitimidade da Senhora D. Maria II, com grande desgosto do juiz eleito, que rompeu relações com a família dos renegados, ou arrenegados, como ele dizia.

Desta desavença resultou que os jornais do Porto agrediram Silvestre da Silva, acoimando-o de desviar os dinheiros do Município em benefício das suas propriedades.

Agora é tempo de dizer que Silvestre saíra muito empenhado do Porto e os credores o tinham em conta de insolvente por saberem que a sua pequena casa estava hipotecada a dívidas mais antigas. Ora, como quer que os credores o vissem tratado nos periódicos como proprietário e indagassem, até saber que ele casara rico, e onde, remeteram deprecadas para ele ser citado com sua mulher. Então se saiu Silvestre com uma escritura nupcial, em que os bens havidos e por haver de sua mulher ficavam isentos de pagar as dívidas do marido, contraídas até à data do casamento. Os credores mais antigos saíram com as suas acções de execução sobre as hipotecas e retiraram pasmados de verem cópias de escrituras anteriores. O certo é que Silvestre da Silva, se necessário fosse, mostraria que seus avós ti-nham hipotecado a casa, alguns séculos antes de ela existir.

É mui pouco de louvar-se este proceder; mas uma razão ilustrada concede que um homem mal-tratado pelas mulheres se vingasse nos credores. Um espírito sublime, quando trata de despicar-se, vinga-se em globo. Verdadeiramente inultos são aqueles que nem credores têm sequer!

O sargento-mor, conquanto fosse carácter dos bons tempos, transigiu com as velhacadas do genro e admirou-lhe a esperteza. A comenda iluminara-lhe o espírito, a cuja luz ele viu as coisas, os homens e a época.

Ao terceiro ano de casado, Silvestre formava com o peito e abdómem um arco. A gordura em-bargava-lhe a acção e abafava-lhe o espírito nas enxúndias.

Vi-o na Foz, e conheci então a Sra. Tomásia, e seu pai, e um menino de dois anos, que era a doidice do avô.

Falei em assuntos literários com o meu antigo colega na imprensa. O homem ria-se de mim e dizia:

- Ainda estás nisso, pobrezote?! Esquece-te, brutaziza-te, faz-te estômago, se quiseres viver à imagem de Deus, que faz os homens neste tempo!

O único livro que lhe vi à cabeceira da cama era a Fisiologia do Paladar, de Brillat-Savarin, e a Gastronomia, poema de Bouchet.

Pediu-me que fosse passar com ele uma temporada a Soutelo, se queria voltar ao mundo com alma nova. Anuí, e lá me detive dois meses, voltando com o estômago arruinado pelo sarro do muito toucinho sobre o qual o meu amigo me prometia reconstruir o aparelho espiritual.

Observei, na Foz, que Silvestre procurava a distracção do jogo: dizia que a fortuna dos seus credores dependia dos ganhos que ele obtivesse. Os credores do meu amigo perdiam com ele, como pessoas infelicíssimas que eram.

Explicava Silvestre a excentricidade deste mundo, julgando-o bom e de nenhum modo interes-sado em ludibriar-me, o mundo folgou de explorar um tolo que abria o coração e a algibeira a todas as perfídias e zombarias.

Não tive um sincero amigo que me desse dinheiro sem primeiro me furar as algibeiras para o aparar com uma das mãos, enquanto a outra mo emprestava, já cercado dos juros. Os meus mais dedi-cados amigos serviam-me de indicadores de usurários, que me davam o décimo do valor da letra, que eu assinava. Era um jogo de ladrões; foram empréstimos da infâmia; só podem ser pagos com infames meios. A consciência de Santo António e de S. Francisco das Chagas não foram mais puras do que há-de ir a minha à presença do supremo Juiz. Creio que não devo nada, porque os juros que paguei exce-dem o capital: ora o que eu não devo só por absurdo posso pagá-lo com o que não for meu.

Parece-me que a lógica manqueja nesta argumentação. Seja como for, há muito quem deixe de pagar como Silvestre da Silva; mas não pagar, firmado em raciocínios, à primeira vista, irrefutáveis, nisso é que ele foi singular.

Direi o que me pareceu a vida doméstica do meu amigo.

D. Tomásia adorava-o e, sem o querer, polira-se por amor dele, a ponto de renunciar às suas antigas ocupações de portas adentro. Andavam à competência de quem engordaria mais; e, nas horas de dormir, excediam a toda a gente, menos um ao outro. Silvestre levara do Porto um cozinheiro, que contribuiu grandemente para derrancar o estômago do sargento-mor e dos padres. A mesa de Silvestre cobrou fama nos arredores, principalmente depois que o boticário, comensal insaciável, morreu de uma indigestão de almôndegas. Estava sendo no Verão que eu lá passei muito concorrida a casa de famílias remotas, entre as quais vi gente que o dilúvio respeitou, e eu também.

Posso jurar que Silvestre nunca deu sombra de ciúme a sua mulher. A segurança em que mutu-amente se tinham é escusado dizê-la. D. Tomásia era folgazã, ria até arrebentar, fazia rir com as suas simplicidades: porém, no que diz respeito à invulnerabilidade da sua castidade de esposa, nunca nin-guém, excepto a leitora casada, me deu tão alto grau de certeza. E era bela, a não poder ser mais, aquela mulher de trinta e dois anos! A mesma exuberância de carnes parecia enfeitar-lhe as formas duma certa majestade, que faria o terror de Vossa Excelência, menina de Lisboa, cuja cintura, como a quebrar-se, vai ondeando ao capricho da brisa.

Mais de uma vez tentei espertar o entorpecido engenho do meu amigo, recordando as nossas palestras literárias nos cafés e citando passagens mais conhecidas dos seus folhetins. Silvestre acorda-va por instantes, ouvia-me com aspecto melancólico de saudade; mas logo retomava o ar alarve e mo-tejador de quem se bandeia com os mofadores das letras. Aqui se me depara agora um poesia, que ele, em hora bem-humorada, tirou desta mesma pasta para me ler. Quando a releio e aquilato a tendência satírica de Silvestre, mal posso perdoar ao mundo que o exilou da pátria luminosa do espírito para as estúpidas de uma vida cuja felicidade eu desejaria, como vingança, a quem ma aconselhasse. Aqui tem o leitor os versos:

Da oca ostentação as vãs negaças,

E os tantos seus ridículos tamanhos,

Fazem chorar e rir.

Ó eras primitivas dos rebanhos,

Ó tempos patriarcais

Deixai que possa esta alma reflorir!

A filha de Labão enchia a bilha;

Penélope, a rainha, ensaboava

Os carpins conjugais.

Lucrécia com a roca sirandava,

E muito grandes damas

Faziam tudo aquilo, e muito mais.

E era um gosto ver como elas tinham

As casas petrechadas, trastejadas,

Mourejadas, varridas!

Curavam por mãos suas as meadas,

Teciam suas teias

E tinham sempre as arcas bem fornidas.

Ao domingo, depois de ouvirem missa,

Cuidavam do jantar à portuguesa,

Farta sopa e cozido.

Depois, para ajudar a natureza,

Vão dar um passeio

Desintourindo o bucho entumecido.

Ao lusco-fusco, as portas se trancavam,

E marido e mulher, numa só alma,

E numa cama só,

Ressonavam em doce e mansa calma;

Sonhavam sonhos d'ouro,

E amor os estreitava em mago nó.

Ó tempos patriarcais!... Com que saudade

Eu, filho destas eras pataratas,

Invejo os meus avós!

Vivíeis pendurados dos rabichos,

Virtudes portuguesas!

O rabicho caiu, caístes vós.

E agora... ai!, que desmancho, que toleimas,

Que gente, que nação e que costumes

Os teus, ó Portugal!

Se há civilização, é só nos lumes,

Nos lumes-prontos só;

E, se teimam que há luz, é infernal!

Vão ver o que se passa em cada casa,

Que vive à lei de gótica nobreza,

E seus festins nos dá!

Se é jantar, o talher que vem à mesa,

O usuário o dera

Em troca do serviço que é do chá.

Se é baile, vai em troca do serviço

A inútil baixela do jantar;

E assim se faz figura;

E, se é jantar e chá, vão-se alugar

Ao sórdido judeu

Ambas as coisas, que absorve a usura.

As famílias do tom mais miserandas

Aquelas são que têm sege em cachoeira

E seu guarda-portão;

Que dos riscos de giz do merceeiro

Deduz-se que a barriga

É imolada às glórias do brasão.

São moda agora uns fofos vaporentos

Omelettes souflés denominados,

E omelettes sucrées;

Emblema são do tempo estes bocados,

De todo o ponto avessos

Ao estômago sincero português!

Pondera alguém que as raças se depuram

Ao passo que a tintura vermelhaça

Dos semblantes se some;

Dizem que a palidez extrema a raça;

Mas eu de mim não creio

Que seja perfeição: acho que é fome.

Em caução da minha crítica, declaro que me afasto dos admiradores de Silvestre, se alguns ele tem, como poeta. A genuína poesia não é aquilo, nem o foi nunca. O poeta puro-sangue levanta-se so-bre o lodo da vida real e senhoreia-se dos milhares de mundos que Deus criou para os génios e os gé-nios tomaram das mãos de Deus para cantá-los. Poeta que canta a sopa e o cozido falseia a sua vocação de medíocre cozinheiro. Assim é que eu, zeloso sacerdote da arte, entendo a poesia, e nem aos mortos indulto. Antes quisera ter de o criticar somente por umas bagatelas métricas com que Silvestre da Silva algumas vezes rastreou Nicolau Tolentino. A mordacidade distancia-se da poesia quanto as sátiras de Boileau discriminam das contemplações de Vitor Hugo. Aqui se traslada, ainda assim, o género em que prelevou Silvestre, à competência com Faustino Xavier de Novais, ambos, para assim dizer, feridos do mesmo dente da musa mordente:

Eu já fui rapaz do tom,

E, com pesar de o ter sido,

Resolvi fazer-me bom;

E ao mundo que hei ofendido,

Em paga, faço-lhe um dom.

Dos meus colegas, é certo,

Que os artifícios traidores

Hei-de mostrar bem de perto.

Quero pôr a descoberto

Seus planos sedutores.

Quando a vítima incauta

(Quero dizer a donzela),

Chilreando em tom de flauta,

Lança à noite da janela

Cartinha escrita por pauta:

O poetastro entra em casa,

Devora, sôfrego, a empada,

E, se não é maré vaza

De inspiração desgrenhada,

Bate do estro a negra asa.

O que primeiro lhe acode

Não é o ardente dizer,

Que pintá-lo melhor pode;

Primeiro, cumpre saber

Se há-de ser canção ou ode.

Vai, depois, pondo em fileira

As regrinhas desasadas;

Arrepela a cabeleira,

Rói as unhas mal lavadas,

E, por fim, rebenta asneira.

Borra a pintura que fez,

E versos novos maquina;

Recorda doutros que, há um mês,

Mandara a certa menina,

Que, com ele, amava três.

Nova edição incorreta

Da cataplasma daninha

Impinge o vesgo poeta

À analfabeta vizinha

Que engole os versos e a peta.

Engole, digo, pois quando

Ela, com custo, os soletra,

Parece está-los mascando;

E admira não ver setra

Com dois corações sangrando!

Repete os versos à amiga

Que diz nunca os vira iguais;

Mas, não sabendo o que diga

Em resposta a mimos tais,

Manda-lhe velha cantiga.

Os diques da inspiração

Rompem-se alfim em torrentes

De frutos de maldição;

Não são trovas, são candentes

Jorros de aceso vulcão.

Já começa a dar gemidos

A imprensa pouco honesta

Com os versos nunca lidos,

Que leitor grave detesta

Porque os fins são já sabidos.

E não leva a bela a mal

Que o mundo diga que é ela

Quem figura no jornal,

Disfarçada em nívea estrela

Com promessas de imortal.

À inveja de certa amiga

Nem isto quer que se esconda.

E, soberba, se impertiga,

Vendo-se em letra redonda,

Do pai cruel inimiga.

Já o vate exímio abarca

Um pensamento profundo,

Vem-lhe à memória Petrarca,

Que deixou cá neste mundo

Laura zombando da parca;

E estoutra Laura, tão sua,

Quer fazê-la eterna em verso;

E, quando pensa que actua

Na admiração do universo,

Não o conhecem na rua.

Trinta cadernos apronta

De pavorosa escritura,

Tira prospectos por conta

De equívoca assinatura,

Que por um terço desconta.

Sai a lume, e em trevas morre,

Filho da asneira e do amor,

Livro que insónias socorre;

Mas quem risco amargo corre

É decerto o impressor.

Entretanto, a virgem meiga

Os versinhos, doce prenda,

Cada vez mais n'alma arreiga,

A tempo já que na tenda

Se embrulha nela manteiga.

Vive na fé, todavia,

Que do amante a loquaz fama,

Que até aos astros a envia,

Já seu talento proclama

Muito além da freguesia.

E, convicta disto assim,

Tendo-se em conta de eterna,

Julga ser mister ruim,

Coser ceroula paterna

Ou remendar o carpim.

Infeliz pai!, que aflições

Não tens tu de amargurar

Ao tirar dos gavetões

A peúga sem calcanhar

E a camisa sem botões!

Em velhice desditosa,

Dói-me ao ver-te submerso!

Enquanto a filha radiosa

Se fez imortal em verso,

Morres tu em chilra prosa.

Mas, ó patusca poesia,

És a varinha de condão,

És no deserto água fria,

És tábua de salvação,

És farol que à Pátria guia!

Sem ti, doce companheira,

Amiga, sócia fiel,

A fábrica da Abelheira

Não venderia o papel,

Nem teria prémio a asneira,

Nem seria a mulher rola,

Nem celeste o seu sorriso,

Talvez fosse menos tola,

E tivesse mais juízo;

Mas isso de que consola?

Aí têm as futilidades com que, a grandes intervalos de tempo, se saía aquele espírito, que tam-bém sorteado entrara na república das letras! Vejam como se descompadecem a felicidade estúpida do marido de Tomásia e o engenho! Quão melhor lhe fora pedir ele à sociedade que lhe rasgasse de novo as cicatrizes e instilasse nelas o veneno que transpira depois em vociferações eloquentes na comédia, no poema e no romance! Ao menos, aquele brilhante astro, afogado no charco do estômago, irradiaria como tantos outros infelizes em volta da região intangível da felicidade, e o mundo, que o crucificara, seria depois o primeiro a apregoá-lo grande.

Saí de Soutelo no fim do Verão.

Silvestre acompanhou-me aos banhos da Póvoa e já vinha com todos os sintomas de caquexia, resultante da imobilidade, e cansaço das molas digestivas. Retirou-se para a província logo que os pri-meiros banhos e as primeiras perdas ao jogo lhe molestaram o corpo e o espírito. De lá me escreveu, contando os progressos da cabeça da doença e prognosticando o seu próximo fim. Nesta carta prometia o meu amigo legar-me os seus papéis, com plena autorização de divulgá-los, se eu visse que podiam ser de proveito para a iniciação da mocidade. À maneira do moralista Duclos, dizia ele: "J'ai vécu, je voudrais être utile à ceux qui ont à vivre.

Poucos meses depois recebi da mão de um almocreve uma chapeleira de couro repleta de em-brulhos, que me enviava a Sra. D.Tomásia, e uma carta do sargento-mor asseverando-me que seu genro morrera como um passarinho - a morte do justo; com a diferença que não ajustou contas com os cre-dores, para quem a salvação do meu amigo é coisa muito duvidosa...

Na carta do saudoso sogro vinha o seguinte soneto, que o moribundo fizera, à imitação dos dis-tintos génios de ambos os sexos, que sonetearam à hora da morte, tais como a poetisa D. Catarina Bal-semão e Bocage.

O soneto reza assim:

Abri meu coração às mil quimeras;

Encheram-mo de fel, e tédio, e alma,

Tive, em paga do amor, riso de infama...

Ai!, pobre coração!, quão tolo eras!

Dobrei-me da razão às leis austeras;

Quis moldar-me ao viver que o mundo ama

O escárnio, a detracção me suja a fama,

E a lei me pune as intenções severas.

Cabeça e coração senti sem vida,

No estômago busquei uma alma nova

E encontrá-lo pensei... Crença perdida!

Mulher aos pés o coração me sova;

Foge ao mundo a razão espavorida;

E por muito comer eu desço à cova!

Bem se vê que o soneto era o da morte. Um grande merecimento tem ele: é ser o último.

Fim

Fonte: www.bibvirt.futuro.usp.br

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