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Carta de Pero Vaz de Caminha

 

CARTA DO DESCOBRIMENTO DO BRASIL

Escrivão da frota de Cabral, Pero Vaz de Caminha redigiu esta carta ao rei d. Manuel para comunicar-lhe o descobrimento das novas terras.

Datada de Porto Seguro, no dia 1º de maio de 1500, foi levada a Lisboa por Gaspar de Lemos, comandante do navio de mantimentos da frota; é o primeiro documento escrito da nossa história.

Carta de Pero Vaz de Caminha

Senhor,

posto que o Capitão-mor desta Vossa frota, e assim os outros capitães escrevam a Vossa Alteza a notícia do achamento desta Vossa terra nova, que se agora nesta navegação achou, não deixarei de também dar disso minha conta a Vossa Alteza, assim como eu melhor puder, ainda que -- para o bem contar e falar -- o saiba pior que todos fazer!

Todavia tome Vossa Alteza minha ignorância por boa vontade, a qual bem certo creia que, para aformosentar nem afear, aqui não há de pôr mais do que aquilo que vi e me pareceu.

Da marinhagem e das singraduras do caminho não darei aqui conta a Vossa Alteza -- porque o não saberei fazer -- e os pilotos devem ter este cuidado.

E portanto, Senhor, do que hei de falar começo:

E digo quê:

A partida de Belém foi -- como Vossa Alteza sabe, segunda-feira 9 de março. E sábado, 14 do dito mês, entre as 8 e 9 horas, nos achamos entre as Canárias, mais perto da Grande Canária. E ali andamos todo aquele dia em calma, à vista delas, obra de três a quatro léguas. E domingo, 22 do dito mês, às dez horas mais ou menos, houvemos vista das ilhas de Cabo Verde, a saber da ilha de São Nicolau, segundo o dito de Pero Escolar, piloto.

Na noite seguinte à segunda-feira amanheceu, se perdeu da frota Vasco de Ataíde com a sua nau, sem haver tempo forte ou contrário para poder ser !

Fez o capitão suas diligências para o achar, em umas e outras partes. Mas... não apareceu mais !

E assim seguimos nosso caminho, por este mar de longo, até que terça-feira das Oitavas de Páscoa, que foram 21 dias de abril, topamos alguns sinais de terra, estando da dita Ilha -- segundo os pilotos diziam, obra de 660 ou 670 léguas -- os quais eram muita quantidade de ervas compridas, a que os mareantes chamam botelho, e assim mesmo outras a que dão o nome de rabo-de-asno. E quarta-feira seguinte, pela manhã, topamos aves a que chamam furabuchos.

Neste mesmo dia, a horas de véspera, houvemos vista de terra! A saber, primeiramente de um grande monte, muito alto e redondo; e de outras serras mais baixas ao sul dele; e de terra chã, com grandes arvoredos; ao qual monte alto o capitão pôs o nome de O Monte Pascoal e à terra A Terra de Vera Cruz!

Mandou lançar o prumo. Acharam vinte e cinco braças. E ao sol-posto umas seis léguas da terra, lançamos ancoras, em dezenove braças -- ancoragem limpa. Ali ficamo-nos toda aquela noite. E quinta-feira, pela manhã, fizemos vela e seguimos em direitura à terra, indo os navios pequenos diante -- por dezessete, dezesseis, quinze, catorze, doze, nove braças -- até meia légua da terra, onde todos lançamos ancoras, em frente da boca de um rio. E chegaríamos a esta ancoragem às dez horas, pouco mais ou menos.

E dali avistamos homens que andavam pela praia, uns sete ou oito, segundo disseram os navios pequenos que chegaram primeiro.

Então lançamos fora os batéis e esquifes. E logo vieram todos os capitães das naus a esta nau do Capitão-mor. E ali falaram. E o Capitão mandou em terra a Nicolau Coelho para ver aquele rio. E tanto que ele começou a ir-se para lá, acudiram pela praia homens aos dois e aos três, de maneira que, quando o batel chegou à boca do rio, já lá estavam dezoito ou vinte.

Pardos, nus, sem coisa alguma que lhes cobrisse suas vergonhas. Traziam arcos nas mãos, e suas setas. Vinham todos rijamente em direção ao batel. E Nicolau Coelho lhes fez sinal que pousassem os arcos. E eles os depuseram. Mas não pôde deles haver fala nem entendimento que aproveitasse, por o mar quebrar na costa. Somente arremessou-lhe um barrete vermelho e uma carapuça de linho que levava na cabeça, e um sombreiro preto. E um deles lhe arremessou um sombreiro de penas de ave, compridas, com uma copazinha de penas vermelhas e pardas, como de papagaio. E outro lhe deu um ramal grande de continhas brancas, miúdas que querem parecer de aljôfar, as quais peças creio que o Capitão manda a Vossa Alteza. E com isto se volveu às naus por ser tarde e não poder haver deles mais fala, por causa do mar.

À noite seguinte ventou tanto sueste com chuvaceiros que fez caçar as naus. E especialmente a Capitaina. E sexta pela manhã, às oito horas, pouco mais ou menos, por conselho dos pilotos, mandou o Capitão levantar ancoras e fazer vela. E fomos de longo da costa, com os batéis e esquifes amarrados na popa, em direção norte, para ver se achávamos alguma abrigada e bom pouso, onde nós ficássemos, para tomar água e lenha. Não por nos já minguar, mas por nos prevenirmos aqui. E quando fizemos vela estariam já na praia assentados perto do rio obra de sessenta ou setenta homens que se haviam juntado ali aos poucos. Fomos ao longo, e mandou o Capitão aos navios pequenos que fossem mais chegados à terra e, se achassem pouso seguro para as naus, que amainassem.

E velejando nós pela costa, na distância de dez léguas do sítio onde tínhamos levantado ferro, acharam os ditos navios pequenos um recife com um porto dentro, muito bom e muito seguro, com uma mui larga entrada. E meteram-se dentro e amainaram. E as naus foram-se chegando, atrás deles. E um pouco antes de sol-pôsto amainaram também, talvez a uma légua do recife, e ancoraram a onze braças.

E estando Afonso Lopez, nosso piloto, em um daqueles navios pequenos, foi, por mandado do Capitão, por ser homem vivo e destro para isso, meter-se logo no esquife a sondar o porto dentro. E tomou dois daqueles homens da terra que estavam numa almadia: mancebos e de bons corpos. Um deles trazia um arco, e seis ou sete setas. E na praia andavam muitos com seus arcos e setas; mas não os aproveitou. Logo, já de noite, levou-os à Capitaina, onde foram recebidos com muito prazer e festa.

A feição deles é serem pardos, um tanto avermelhados, de bons rostos e bons narizes, bem feitos. Andam nus, sem cobertura alguma. Nem fazem mais caso de encobrir ou deixa de encobrir suas vergonhas do que de mostrar a cara. Acerca disso são de grande inocência. Ambos traziam o beiço de baixo furado e metido nele um osso verdadeiro, de comprimento de uma mão travessa, e da grossura de um fuso de algodão, agudo na ponta como um furador. Metem-nos pela parte de dentro do beiço; e a parte que lhes fica entre o beiço e os dentes é feita a modo de roque de xadrez. E trazem-no ali encaixado de sorte que não os magoa, nem lhes põe estorvo no falar, nem no comer e beber.

Os cabelos deles são corredios. E andavam tosquiados, de tosquia alta antes do que sobre-pente, de boa grandeza, rapados todavia por cima das orelhas. E um deles trazia por baixo da solapa, de fonte a fonte, na parte detrás, uma espécie de cabeleira, de penas de ave amarela, que seria do comprimento de um coto, mui basta e mui cerrada, que lhe cobria o toutiço e as orelhas. E andava pegada aos cabelos, pena por pena, com uma confeição branda como, de maneira tal que a cabeleira era mui redonda e mui basta, e mui igual, e não fazia míngua mais lavagem para a levantar.

O Capitão, quando eles vieram, estava sentado em uma cadeira, aos pés uma alcatifa por estrado; e bem vestido, com um colar de ouro, mui grande, ao pescoço. E Sancho de Tovar, e Simão de Miranda, e Nicolau Coelho, e Aires Corrêa, e nós outros que aqui na nau com ele íamos, sentados no chão, nessa alcatifa. Acenderam-se tochas. E eles entraram. Mas nem sinal de cortesia fizeram, nem de falar ao Capitão; nem a alguém. Todavia um deles fitou o colar do Capitão, e começou a fazer acenos com a mão em direção à terra, e depois para o colar, como se quisesse dizer-nos que havia ouro na terra. E também olhou para um castiçal de prata e assim mesmo acenava para a terra e novamente para o castiçal, como se lá também houvesse prata!

Mostraram-lhes um papagaio pardo que o Capitão traz consigo; tomaram-no logo na mão e acenaram para a terra, como se os houvesse ali.

Mostraram-lhes um carneiro; não fizeram caso dele.

Mostraram-lhes uma galinha; quase tiveram medo dela, e não lhe queriam pôr a mão. Depois lhe pegaram, mas como espantados.

Deram-lhes ali de comer: pão e peixe cozido, confeitos, fartéis, mel, figos passados. Não quiseram comer daquilo quase nada; e se provavam alguma coisa, logo a lançavam fora.

Trouxeram-lhes vinho em uma taça; mal lhe puseram a boca; não gostaram dele nada, nem quiseram mais.

Trouxeram-lhes água em uma albarrada, provaram cada um o seu bochecho, mas não beberam; apenas lavaram as bocas e lançaram-na fora.

Viu um deles umas contas de rosário, brancas; fez sinal que lhas dessem, e folgou muito com elas, e lançou-as ao pescoço; e depois tirou-as e meteu-as em volta do braço, e acenava para a terra e novamente para as contas e para o colar do Capitão, como se dariam ouro por aquilo.

Isto tomávamos nós nesse sentido, por assim o desejarmos! Mas se ele queria dizer que levaria as contas e mais o colar, isto não queríamos nós entender, por que lho não havíamos de dar! E depois tornou as contas a quem lhas dera. E então estiraram-se de costas na alcatifa, a dormir sem procurarem maneiras de encobrir suas vergonhas, as quais não eram fanadas; e as cabeleiras delas estavam bem rapadas e feitas.

O Capitão mandou pôr por baixo da cabeça de cada um seu coxim; e o da cabeleira esforçava-se por não a estragar. E deitaram um manto por cima deles; e consentindo, aconchegaram-se e adormeceram.

Sábado pela manhã mandou o Capitão fazer vela, fomos demandar a entrada, a qual era mui larga e tinha seis a sete braças de fundo. E entraram todas as naus dentro, e ancoraram em cinco ou seis braças -- ancoradouro que é tão grande e tão formoso de dentro, e tão seguro que podem ficar nele mais de duzentos navios e naus. E tanto que as naus foram distribuídas e ancoradas, vieram os capitães todos a esta nau do Capitão-mor. E daqui mandou o Capitão que Nicolau Coelho e Bartolomeu Dias fossem em terra e levassem aqueles dois homens, e os deixassem ir com seu arco e setas, aos quais mandou dar a cada um uma camisa nova e uma carapuça vermelha e um rosário de contas brancas de osso, que foram levando nos braços, e um cascavel e uma campainha. E mandou com eles, para lá ficar, um mancebo degredado, criado de dom João Telo, de nome Afonso Ribeiro, para lá andar com eles e saber de seu viver e maneiras. E a mim mandou que fosse com Nicolau Coelho. Fomos assim de frecha direitos à praia. Ali acudiram logo perto de duzentos homens, todos nus, com arcos e setas nas mãos. Aqueles que nós levamos acenaram-lhes que se afastassem e depusessem os arcos. E eles os depuseram. Mas não se afastaram muito. E mal tinham pousado seus arcos quando saíram os que nós levávamos, e o mancebo degredado com eles. E saídos não pararam mais; nem esperavam um pelo outro, mas antes corriam a quem mais correria. E passaram um rio que aí corre, de água doce, de muita água que lhes dava pela braga. E muitos outros com eles. E foram assim correndo para além do rio entre umas moitas de palmeiras onde estavam outros. E ali pararam. E naquilo tinha ido o degredado com um homem que, logo ao sair do batel, o agasalhou e levou até lá. Mas logo o tornaram a nós. E com ele vieram os outros que nós leváramos, os quais vinham já nus e sem carapuças.

E então se começaram de chegar muitos; e entravam pela beira do mar para os batéis, até que mais não podiam. E traziam cabaças d'água, e tomavam alguns barris que nós levávamos e enchiam-nos de água e traziam-nos aos batéis. Não que eles de todo chegassem a bordo do batel. Mas junto a ele, lançavam-nos da mão. E nós tomávamo-los. E pediam que lhes dessem alguma coisa.

Levava Nicolau Coelho cascavéis e manilhas. E a uns dava um cascavel, e a outros uma manilha, de maneira que com aquela encarna quase que nos queriam dar a mão. Davam-nos daqueles arcos e setas em troca de sombreiros e carapuças de linho, e de qualquer coisa que a gente lhes queria dar.

Dali se partiram os outros, dois mancebos, que não os vimos mais.

Dos que ali andavam, muitos -- quase a maior parte --traziam aqueles bicos de osso nos beiços.

E alguns, que andavam sem eles, traziam os beiços furados e nos buracos traziam uns espelhos de pau, que pareciam espelhos de borracha. E alguns deles traziam três daqueles bicos, a saber um no meio, e os dois nos cabos.

E andavam lá outros, quartejados de cores, a saber metade deles da sua própria cor, e metade de tintura preta, um tanto azulada; e outros quartejados d'escaques.

Ali andavam entre eles três ou quatro moças, bem novinhas e gentis, com cabelos muito pretos e compridos pelas costas; e suas vergonhas, tão altas e tão cerradinhas e tão limpas das cabeleiras que, de as nós muito bem olharmos, não se envergonhavam.

Ali por então não houve mais fala ou entendimento com eles, por a barbana deles ser tamanha que se não entendia nem ouvia ninguém. Acenamos-lhes que se fossem. E assim o fizeram e passaram-se para além do rio. E saíram três ou quatro homens nossos dos batéis, e encheram não sei quantos barris d'água que nós levávamos. E tornamo-nos às naus. E quando assim vínhamos, acenaram-nos que voltássemos. Voltamos, e eles mandaram o degredado e não quiseram que ficasse lá com eles, o qual levava uma bacia pequena e duas ou três carapuças vermelhas para lá as dar ao senhor, se o lá houvesse. Não trataram de lhe tirar coisa alguma, antes mandaram-no com tudo. Mas então Bartolomeu Dias o fez outra vez tornar, que lhe desse aquilo. E ele tornou e deu aquilo, em vista de nós, a aquele que o da primeira agasalhara. E então veio-se, e nós levamo-lo.

Esse que o agasalhou era já de idade, e andava por galanteria, cheio de penas, pegadas pelo corpo, que parecia seteado como São Sebastião. Outros traziam carapuças de penas amarelas; e outros, de vermelhas; e outros de verdes. E uma daquelas moças era toda tingida de baixo a cima, daquela tintura e certo era tão bem feita e tão redonda, e sua vergonha tão graciosa que a muitas mulheres de nossa terra, vendo-lhe tais feições envergonhara, por não terem as suas como ela. Nenhum deles era fanado, mas todos assim como nós.

E com isto nos tornamos, e eles foram-se.

À tarde saiu o Capitão-mor em seu batel com todos nós outros capitães das naus em seus batéis a folgar pela baía, perto da praia. Mas ninguém saiu em terra, por o Capitão o não querer, apesar de ninguém estar nela. Apenas saiu -- ele com todos nós -- em um ilhéu grande que está na baía, o qual, aquando baixamar, fica mui vazio. Com tudo está de todas as partes cercado de água, de sorte que ninguém lá pode ir, a não ser de barco ou a nado. Ali folgou ele, e todos nós, bem uma hora e meia. E pescaram lá, andando alguns marinheiros com um chinchorro; e mataram peixe miúdo, não muito. E depois volvemo-nos às naus, já bem noite.

Ao domingo de Pascoela pela manhã, determinou o Capitão ir ouvir missa e sermão naquele ilhéu. E mandou a todos os capitães que se arranjassem nos batéis e fossem com ele. E assim foi feito. Mandou armar um pavilhão naquele ilhéu, e dentro levantar um altar mui bem arranjado. E ali com todos nós outros fez dizer missa, a qual disse o padre frei Henrique, em voz entoada, e oficiada com aquela mesma voz pelos outros padres e sacerdotes que todos assistiram, a qual missa, segundo meu parecer, foi ouvida por todos com muito prazer e devoção.

Ali estava com o Capitão a bandeira de Cristo, com que saíra de Belém, a qual esteve sempre bem alta, da parte do Evangelho.

Acabada a missa, desvestiu-se o padre e subiu a uma cadeira alta; e nós todos lançados por essa areia. E pregou uma solene e proveitosa pregação, da história evangélica; e no fim tratou da nossa vida, e do achamento desta terra, referindo-se à Cruz, sob cuja obediência viemos, que veio muito a propósito, e fez muita devoção.

Enquanto assistimos à missa e ao sermão, estaria na praia outra tanta gente, pouco mais ou menos, como a de ontem, com seus arcos e setas, e andava folgando. E olhando-nos, sentaram. E depois de acabada a missa, quando nós sentados atendíamos a pregação, levantaram-se muitos deles e tangeram corno ou buzina e começaram a saltar e dançar um pedaço. E alguns deles se metiam em almadias -- duas ou três que lá tinham -- as quais não são feitas como as que eu vi; apenas são três traves, atadas juntas. E ali se metiam quatro ou cinco, ou esses que queriam, não se afastando quase nada da terra, só até onde podiam tomar pé.

Acabada a pregação encaminhou-se o Capitão, com todos nós, para os batéis, com nossa bandeira alta. Embarcamos e fomos indo todos em direção à terra para passarmos ao longo por onde eles estavam, indo na dianteira, por ordem do Capitão, Bartolomeu Dias em seu esquife, com um pau de uma almadia que lhes o mar levara, para o entregar a eles. E nós todos trás dele, a distância de um tiro de pedra.

Como viram o esquife de Bartolomeu Dias, chegaram-se logo todos à água, metendo-se nela até onde mais podiam. Acenaram-lhes que pousassem os arcos e muitos deles os iam logo pôr em terra; e outros não os punham.

Andava lá um que falava muito aos outros, que se afastassem. Mas não já que a mim me parecesse que lhe tinham respeito ou medo. Este que os assim andava afastando trazia seu arco e setas. Estava tinto de tintura vermelha pelos peitos e costas e pelos quadris, coxas e pernas até baixo, mas os vazios com a barriga e estômago eram de sua própria cor. E a tintura era tão vermelha que a água lha não comia nem desfazia. Antes, quando saía da água, era mais vermelho. Saiu um homem do esquife de Bartolomeu Dias e andava no meio deles, sem implicarem nada com ele, e muito menos ainda pensavam em fazer-lhe mal. Apenas lhe davam cabaças d'água; e acenavam aos do esquife que saíssem em terra. Com isto se volveu Bartolomeu Dias ao Capitão. E viemo-nos às naus, a comer, tangendo trombetas e gaitas, sem os mais constranger. E eles tornaram-se a sentar na praia, e assim por então ficaram.

Neste ilhéu, onde fomos ouvir missa e sermão, espraia muito a água e descobre muita areia e muito cascalho. Enquanto lá estávamos foram alguns buscar marisco e não no acharam. Mas acharam alguns camarões grossos e curtos, entre os quais vinha um muito grande e muito grosso; que em nenhum tempo o vi tamanho. Também acharam cascas de berbigões e de amêijoas, mas não toparam com nenhuma peça inteira. E depois de termos comido vieram logo todos os capitães a esta nau, por ordem do Capitão-mor, com os quais ele se aportou; e eu na companhia. E perguntou a todos se nos parecia bem mandar a nova do achamento desta terra a Vossa Alteza pelo navio dos mantimentos, para a melhor mandar descobrir e saber dela mais do que nós podíamos saber, por irmos na nossa viagem.

E entre muitas falas que sobre o caso se fizeram foi dito, por todos ou a maior parte, que seria muito bem. E nisto concordaram. E logo que a resolução foi tomada, perguntou mais, se seria bem tomar aqui por força um par destes homens para os mandar a Vossa Alteza, deixando aqui em lugar deles outros dois destes degredados.

E concordaram em que não era necessário tomar por força homens, porque costume era dos que assim à força levavam para alguma parte dizerem que há de tudo quanto lhes perguntam; e que melhor e muito melhor informação da terra dariam dois homens desses degredados que aqui deixássemos do que eles dariam se os levassem por ser gente que ninguém entende. Nem eles cedo aprenderiam a falar para o saberem tão bem dizer que muito melhor estoutros o não digam quando cá Vossa Alteza mandar.

E que portanto não cuidássemos de aqui por força tomar ninguém, nem fazer escândalo; mas sim, para os de todo amansar e apaziguar, unicamente de deixar aqui os dois degredados quando daqui partíssemos.

E assim ficou determinado por parecer melhor a todos.

Acabado isto, disse o Capitão que fôssemos nos batéis em terra. E ver-se-ia bem, quejando era o rio. Mas também para folgarmos.

Fomos todos nos batéis em terra, armados; e a bandeira conosco. Eles andavam ali na praia, à boca do rio, para onde nós íamos; e, antes que chegássemos, pelo ensino que dantes tinham, puseram todos os arcos, e acenaram que saíssemos. Mas, tanto que os batéis puseram as proas em terra, passaram-se logo todos além do rio, o qual não é mais ancho que um jogo de mancal. E tanto que desembarcamos, alguns dos nossos passaram logo o rio, e meteram-se entre eles. E alguns aguardavam; e outros se afastavam. Com tudo, a coisa era de maneira que todos andavam misturados. Eles davam desses arcos com suas setas por sombreiros e carapuças de linho, e por qualquer coisa que lhes davam. Passaram além tantos dos nossos e andaram assim misturados com eles, que eles se esquivavam, e afastavam-se; e iam alguns para cima, onde outros estavam. E então o Capitão fez que o tomassem ao colo dois homens e passou o rio, e fez tornar a todos. A gente que ali estava não seria mais que aquela do costume. Mas logo que o Capitão chamou todos para trás, alguns se chegaram a ele, não por o reconhecerem por Senhor, mas porque a gente, nossa, já passava para aquém do rio. Ali falavam e traziam muitos arcos e continhas, daquelas já ditas, e resgatavam-nas por qualquer coisa, de tal maneira que os nossos levavam dali para as naus muitos arcos, e setas e contas.

E então tornou-se o Capitão para aquém do rio. E logo acudiram muitos à beira dele.

Ali veríeis galantes, pintados de preto e vermelho, e quartejados, assim pelos corpos como pelas pernas, que, certo, assim pareciam bem. Também andavam entre eles quatro ou cinco mulheres, novas, que assim nuas, não pareciam mal. Entre elas andava uma, com uma coxa, do joelho até o quadril e a nádega, toda tingida daquela tintura preta; e todo o resto da sua cor natural. Outra trazia ambos os joelhos com as curvas assim tintas, e também os colos dos pés; e suas vergonhas tão nuas, e com tanta inocência assim descobertas, que não havia nisso desvergonha nenhuma.

Também andava lá outra mulher, nova, com um menino ou menina, atado com um pano aos peitos, de modo que não se lhe viam senão as perninhas. Mas nas pernas da mãe, e no resto, não havia pano algum.

Em seguida o Capitão foi subindo ao longo do rio, que corre rente à praia. E ali esperou por um velho que trazia na mão uma pá de almadia. Falou, enquanto o Capitão estava com ele, na presença de todos nós; mas ninguém o entendia, nem ele a nós, por mais coisas que a gente lhe perguntava com respeito a ouro, porque desejávamos saber se o havia na terra.

Trazia este velho o beiço tão furado que lhe cabia pelo buraco um grosso dedo polegar. E trazia metido no buraco uma pedra verde, de nenhum valor, que fechava por fora aquele buraco. E o Capitão lha fez tirar. E ele não sei que diabo falava e ia com ela para a boca do Capitão para lha meter. Estivemos rindo um pouco e dizendo chalaças sobre isso. E então enfadou-se o Capitão, e deixou-o. E um dos nossos deu-lhe pela pedra um sombreiro velho; não por ela valer alguma coisa, mas para amostra. E depois houve-a o Capitão, creio, para mandar com as outras coisas a Vossa Alteza.

Andamos por aí vendo o ribeiro, o qual é de muita água e muito boa. Ao longo dele há muitas palmeiras, não muito altas; e muito bons palmitos. Colhemos e comemos muitos deles.

Depois tornou-se o Capitão para baixo para a boca do rio, onde tínhamos desembarcado.

E além do rio andavam muitos deles dançando e folgando, uns diante os outros, sem se tomarem pelas mãos. E faziam-no bem. Passou-se então para a outra banda do rio Diogo Dias, que fora almoxarife de Sacavém, o qual é homem gracioso e de prazer. E levou consigo um gaiteiro nosso com sua gaita. E meteu-se a dançar com eles, tomando-os pelas mãos; e eles folgavam e riam e andavam com ele muito bem ao som da gaita. Depois de dançarem fez ali muitas voltas ligeiras, andando no chão, e salto real, de que se eles espantavam e riam e folgavam muito. E conquanto com aquilo os segurou e afagou muito, tomavam logo uma esquiveza como de animais montezes, e foram-se para cima.

E então passou o rio o Capitão com todos nós, e fomos pela praia, de longo, ao passo que os batéis iam rentes à terra. E chegamos a uma grande lagoa de água doce que está perto da praia, porque toda aquela ribeira do mar é apaulada por cima e sai a água por muitos lugares.

E depois de passarmos o rio, foram uns sete ou oito deles meter-se entre os marinheiros que se recolhiam aos batéis. E levaram dali um tubarão que Bartolomeu Dias matou. E levavam-lho; e lançou-o na praia.

Bastará que até aqui, como quer que se lhes em alguma parte amansassem, logo de uma mão para outra se esquivavam, como pardais do cevadouro. Ninguém não lhes ousa falar de rijo para não se esquivarem mais. E tudo se passa como eles querem -- para os bem amansarmos !

Ao velho com quem o Capitão havia falado, deu-lhe uma carapuça vermelha. E com toda a conversa que com ele houve, e com a carapuça que lhe deu tanto que se despediu e começou a passar o rio, foi-se logo recatando. E não quis mais tornar do rio para aquém. Os outros dois o Capitão teve nas naus, aos quais deu o que já ficou dito, nunca mais aqui apareceram -- fatos de que deduzo que é gente bestial e de pouco saber, e por isso tão esquiva. Mas apesar de tudo isso andam bem curados, e muito limpos. E naquilo ainda mais me convenço que são como aves, ou alimárias montezinhas, as quais o ar faz melhores penas e melhor cabelo que às mansas, porque os seus corpos são tão limpos e tão gordos e tão formosos que não pode ser mais! E isto me faz presumir que não tem casas nem moradias em que se recolham; e o ar em que se criam os faz tais. Nós pelo menos não vimos até agora nenhumas casas, nem coisa que se pareça com elas.

Mandou o Capitão aquele degredado, Afonso Ribeiro, que se fosse outra vez com eles. E foi; e andou lá um bom pedaço, mas a tarde regressou, que o fizeram eles vir: e não o quiseram lá consentir. E deram-lhe arcos e setas; e não lhe tomaram nada do seu. Antes, disse ele, que lhe tomara um deles umas continhas amarelas que levava e fugia com elas, e ele se queixou e os outros foram logo após ele, e lhas tomaram e tornaram-lhas a dar; e então mandaram-no vir. Disse que não vira lá entre eles senão umas choupaninhas de rama verde e de feteiras muito grandes, como as de Entre Douro e Minho. E assim nos tornamos às naus, já quase noite, a dormir.

Segunda-feira, depois de comer, saímos todos em terra a tomar água. Ali vieram então muitos; mas não tantos como as outras vezes. E traziam já muito poucos arcos. E estiveram um pouco afastados de nós; mas depois pouco a pouco misturaram-se conosco; e abraçavam-nos e folgavam; mas alguns deles se esquivavam logo. Ali davam alguns arcos por folhas de papel e por alguma carapucinha velha e por qualquer coisa. E de tal maneira se passou a coisa que bem vinte ou trinta pessoas das nossas se foram com eles para onde outros muitos deles estavam com moças e mulheres. E trouxeram de lá muitos arcos e barretes de penas de aves, uns verdes, outros amarelos, dos quais creio que o Capitão há de mandar uma amostra a Vossa Alteza.

E segundo diziam esses que lá tinham ido, brincaram com eles. Neste dia os vimos mais de perto e mais à nossa vontade, por andarmos quase todos misturados: uns andavam quartejados daquelas tinturas, outros de metades, outros de tanta feição como em pano de ras, e todos com os beiços furados, muitos com os ossos neles, e bastantes sem ossos. Alguns traziam uns ouriços verdes, de árvores, que na cor queriam parecer de castanheiras, embora fossem muito mais pequenos. E estavam cheios de uns grãos vermelhos, pequeninos que, esmagando-se entre os dedos, se desfaziam na tinta muito vermelha de que andavam tingidos. E quanto mais se molhavam, tanto mais vermelhos ficavam.

Todos andam rapados até por cima das orelhas; assim mesmo de sobrancelhas e pestanas.

Trazem todos as testas, de fonte a fonte, tintas de tintura preta, que parece uma fita preta da largura de dois dedos.

E o Capitão mandou aquele degredado Afonso Ribeiro e a outros dois degredados que fossem meter-se entre eles; e assim mesmo a Diogo Dias, por ser homem alegre, com que eles folgavam. E aos degredados ordenou que ficassem lá esta noite.

Foram-se lá todos; e andaram entre eles. E segundo depois diziam, foram bem uma légua e meia a uma povoação, em que haveria nove ou dez casas, as quais diziam que eram tão compridas, cada uma, como esta nau capitaina. E eram de madeira, e das ilhargas de tábuas, e cobertas de palha, de razoável altura; e todas de um só espaço, sem repartição alguma, tinham de dentro muitos esteios; e de esteio a esteio uma rede atada com cabos em cada esteio, altas, em que dormiam. E de baixo, para se aquentarem, faziam seus fogos. E tinha cada casa duas portas pequenas, uma numa extremidade, e outra na oposta. E diziam que em cada casa se recolhiam trinta ou quarenta pessoas, e que assim os encontraram; e que lhes deram de comer dos alimentos que tinham, a saber muito inhame, e outras sementes que na terra dá, que eles comem. E como se fazia tarde fizeram-nos logo todos tornar; e não quiseram que lá ficasse nenhum. E ainda, segundo diziam, queriam vir com eles. Resgataram lá por cascavéis e outras coisinhas de pouco valor, que levavam, papagaios vermelhos, muito grandes e formosos, e dois verdes pequeninos, e carapuças de penas verdes, e um pano de penas de muitas cores, espécie de tecido assaz belo, segundo Vossa Alteza todas estas coisas verá, porque o Capitão vo-las há de mandar, segundo ele disse. E com isto vieram; e nós tornamo-nos às naus.

Terça-feira, depois de comer, fomos em terra, fazer lenha, e para lavar roupa. Estavam na praia, quando chegamos, uns sessenta ou setenta, sem arcos e sem nada. Tanto que chegamos, vieram logo para nós, sem se esquivarem. E depois acudiram muitos, que seriam bem duzentos, todos sem arcos. E misturaram-se todos tanto conosco que uns nos ajudavam a acarretar lenha e metê-las nos batéis. E lutavam com os nossos, e tomavam com prazer. E enquanto fazíamos a lenha, construíam dois carpinteiros uma grande cruz de um pau que se ontem para isso cortara. Muitos deles vinham ali estar com os carpinteiros. E creio que o faziam mais para verem a ferramenta de ferro com que a faziam do que para verem a cruz, porque eles não tem coisa que de ferro seja, e cortam sua madeira e paus com pedras feitas como cunhas, metidas em um pau entre duas talas, mui bem atadas e por tal maneira que andam fortes, porque lhas viram lá. Era já a conversação deles conosco tanta que quase nos estorvavam no que havíamos de fazer.

E o Capitão mandou a dois degredados e a Diogo Dias que fossem lá à aldeia e que de modo algum viessem a dormir às naus, ainda que os mandassem embora. E assim se foram.

Enquanto andávamos nessa mata a cortar lenha, atravessavam alguns papagaios essas árvores; verdes uns, e pardos, outros, grandes e pequenos, de sorte que me parece que haverá muitos nesta terra. Todavia os que vi não seriam mais que nove ou dez, quando muito. Outras aves não vimos então, a não ser algumas pombas-seixeiras, e pareceram-me maiores bastante do que as de Portugal. Vários diziam que viram rolas, mas eu não as vi. Todavia segundo os arvoredos são mui muitos e grandes, e de infinitas espécies, não duvido que por esse sertão haja muitas aves!

E cerca da noite nós volvemos para as naus com nossa lenha.

Eu creio, Senhor, que não dei ainda conta aqui a Vossa Alteza do feitio de seus arcos e setas. Os arcos são pretos e compridos, e as setas compridas; e os ferros delas são canas aparadas, conforme Vossa Alteza verá alguns que creio que o Capitão a Ela há de enviar.

Quarta-feira não fomos em terra, porque o Capitão andou todo o dia no navio dos mantimentos a despejá-lo e fazer levar às naus isso que cada um podia levar. Eles acudiram à praia, muitos, segundo das naus vimos. Seriam perto de trezentos, segundo Sancho de Tovar que para lá foi. Diogo Dias e Afonso Ribeiro, o degredado, aos quais o Capitão ontem ordenara que de toda maneira lá dormissem, tinham voltado já de noite, por eles não quererem que lá ficassem. E traziam papagaios verdes; e outras aves pretas, quase como pegas, com a diferença de terem o bico branco e rabos curtos. E quando Sancho de Tovar recolheu à nau, queriam vir com ele, alguns; mas ele não admitiu senão dois mancebos, bem dispostos e homens de prol. Mandou pensar e curá-los mui bem essa noite. E comeram toda a ração que lhes deram, e mandou dar-lhes cama de lençóis, segundo ele disse. E dormiram e folgaram aquela noite. E não houve mais este dia que para escrever seja.

Quinta-feira, derradeiro de abril, comemos logo, quase pela manhã, e fomos em terra por mais lenha e água. E em querendo o Capitão sair desta nau, chegou Sancho de Tovar com seus dois hóspedes. E por ele ainda não ter comido, puseram-lhe toalhas, e veio-lhe comida. E comeu. Os hóspedes, sentaram-no cada um em sua cadeira. E de tudo quanto lhes deram, comeram mui bem, especialmente lacão cozido frio, e arroz. Não lhes deram vinho por Sancho de Tovar dizer que o não bebiam bem.

Acabado o comer, metemo-nos todos no batel, e eles conosco. Deu um grumete a um deles uma armadura grande de porco montês, bem revolta. E logo que a tomou meteu-a no beiço; e porque se lhe não queria segurar, deram-lhe uma pouca de cera vermelha. E ele ajeitou-lhe seu adereço da parte de trás de sorte que segurasse, e meteu-a no beiço, assim revolta para cima; e ia tão contente com ela, como se tivesse uma grande jóia. E tanto que saímos em terra, foi-se logo com ela. E não tornou a aparecer lá.

Andariam na praia, quando saímos, oito ou dez deles; e de aí a pouco começaram a vir. E parece-me que viriam este dia a praia quatrocentos ou quatrocentos e cinqüenta. Alguns deles traziam arcos e setas; e deram tudo em troca de carapuças e por qualquer coisa que lhes davam. Comiam conosco do que lhes dávamos, e alguns deles bebiam vinho, ao passo que outros o não podiam beber. Mas quer-me parecer que, se os acostumarem, o hão de beber de boa vontade! Andavam todos tão bem dispostos e tão bem feitos e galantes com suas pinturas que agradavam. Acarretavam dessa lenha quanta podiam, com mil boas vontades, e levavam-na aos batéis. E estavam já mais mansos e seguros entre nós do que nós estávamos entre eles.

Foi o Capitão com alguns de nós um pedaço por este arvoredo até um ribeiro grande, e de muita água, que ao nosso parecer é o mesmo que vem ter à praia, em que nós tomamos água. Ali descansamos um pedaço, bebendo e folgando, ao longo dele, entre esse arvoredo que é tanto e tamanho e tão basto e de tanta qualidade de folhagem que não se pode calcular. Há lá muitas palmeiras, de que colhemos muitos e bons palmitos.

Ao sairmos do batel, disse o Capitão que seria bom irmos em direitura à cruz que estava encostada a uma árvore, junto ao rio, a fim de ser colocada amanhã, sexta-feira, e que nos puséssemos todos de joelhos e a beijássemos para eles verem o acatamento que lhe tínhamos. E assim fizemos. E a esses dez ou doze que lá estavam, acenaram-lhes que fizessem o mesmo; e logo foram todos beijá-la.

Parece-me gente de tal inocência que, se nós entendêssemos a sua fala e eles a nossa, seriam logo cristãos, visto que não têm nem entendem crença alguma, segundo as aparências. E portanto se os degredados que aqui hão de ficar aprenderem bem a sua fala e os entenderem, não duvido que eles, segundo a santa tenção de Vossa Alteza, se farão cristãos e hão de crer na nossa santa fé, à qual praza a Nosso Senhor que os traga, porque certamente esta gente é boa e de bela simplicidade. E imprimir-se-á facilmente neles qualquer cunho que lhe quiserem dar, uma vez que Nosso Senhor lhes deu bons corpos e bons rostos, como a homens bons. E o Ele nos para aqui trazer creio que não foi sem causa. E portanto Vossa Alteza, pois tanto deseja acrescentar a santa fé católica, deve cuidar da salvação deles. E prazerá a Deus que com pouco trabalho seja assim!

Eles não lavram nem criam. Nem há aqui boi ou vaca, cabra, ovelha ou galinha, ou qualquer outro animal que esteja acostumado ao viver do homem. E não comem senão deste inhame, de que aqui há muito, e dessas sementes e frutos que a terra e as árvores de si deitam. E com isto andam tais e tão rijos e tão nédios que o não somos nós tanto, com quanto trigo e legumes comemos.

Nesse dia, enquanto ali andavam, dançaram e bailaram sempre com os nossos, ao som de um tamboril nosso, como se fossem mais amigos nossos do que nós seus. Se lhes a gente acenava, se queriam vir às naus, aprontavam-se logo para isso, de modo tal, que se os convidáramos a todos, todos vieram. Porém não levamos esta noite às naus senão quatro ou cinco; a saber, o Capitão-mor, dois; e Simão de Miranda, um que já trazia por pagem; e Aires Gomes a outro, pagem também. Os que o Capitão trazia, era um deles um dos seus hóspedes que lhe haviam trazido a primeira vez quando aqui chegamos -- o qual veio hoje aqui vestido na sua camisa, e com ele um seu irmão; e foram esta noite mui bem agasalhados tanto de comida como de cama, de colchões e lençóis, para os mais amansar.

E hoje que é sexta-feira, primeiro dia de maio, pela manhã, saímos em terra com nossa bandeira; e fomos desembarcar acima do rio, contra o sul onde nos pareceu que seria melhor arvorar a cruz, para melhor ser vista. E ali marcou o Capitão o sítio onde haviam de fazer a cova para a fincar. E enquanto a iam abrindo, ele com todos nós outros fomos pela cruz, rio abaixo onde ela estava. E com os religiosos e sacerdotes que cantavam, à frente, fomos trazendo-a dali, a modo de procissão. Eram já aí quantidade deles, uns setenta ou oitenta; e quando nos assim viram chegar, alguns se foram meter debaixo dela, ajudar-nos. Passamos o rio, ao longo da praia; e fomos colocá-la onde havia de ficar, que será obra de dois tiros de besta do rio. Andando-se ali nisto, viriam bem cento cinqüenta, ou mais. Plantada a cruz, com as armas e a divisa de Vossa Alteza, que primeiro lhe haviam pregado, armaram altar ao pé dela. Ali disse missa o padre frei Henrique, a qual foi cantada e oficiada por esses já ditos. Ali estiveram conosco, a ela, perto de cinqüenta ou sessenta deles, assentados todos de joelho assim como nós. E quando se veio ao Evangelho, que nos erguemos todos em pé, com as mãos levantadas, eles se levantaram conosco, e alçaram as mãos, estando assim até se chegar ao fim; e então tornaram-se a assentar, como nós. E quando levantaram a Deus, que nos pusemos de joelhos, eles se puseram assim como nós estávamos, com as mãos levantadas, e em tal maneira sossegados que certifico a Vossa Alteza que nos fez muita devoção.

Estiveram assim conosco até acabada a comunhão; e depois da comunhão, comungaram esses religiosos e sacerdotes; e o Capitão com alguns de nós outros. E alguns deles, por o Sol ser grande, levantaram-se enquanto estávamos comungando, e outros estiveram e ficaram. Um deles, homem de cinqüenta ou cinqüenta e cinco anos, se conservou ali com aqueles que ficaram. Esse, enquanto assim estávamos, juntava aqueles que ali tinham ficado, e ainda chamava outros. E andando assim entre eles, falando-lhes, acenou com o dedo para o altar, e depois mostrou com o dedo para o céu, como se lhes dissesse alguma coisa de bem; e nós assim o tomamos!

Acabada a missa, tirou o padre a vestimenta de cima, e ficou na alva; e assim se subiu, junto ao altar, em uma cadeira; e ali nos pregou o Evangelho e dos Apóstolos cujo é o dia, tratando no fim da pregação desse vosso prosseguimento tão santo e virtuoso, que nos causou mais devoção.

Esses que estiveram sempre à pregação estavam assim como nós olhando para ele. E aquele que digo, chamava alguns, que viessem ali. Alguns vinham e outros iam-se; e acabada a pregação, trazia Nicolau Coelho muitas cruzes de estanho com crucifixos, que lhe ficaram ainda da outra vinda. E houveram por bem que lançassem a cada um sua ao pescoço. Por essa causa se assentou o padre frei Henrique ao pé da cruz; e ali lançava a sua a todos -- um a um -- ao pescoço, atada em um fio, fazendo-lha primeiro beijar e levantar as mãos. Vinham a isso muitos; e lançavam-nas todas, que seriam obra de quarenta ou cinqüenta. E isto acabado -- era já bem uma hora depois do meio dia -- viemos às naus a comer, onde o Capitão trouxe consigo aquele mesmo que fez aos outros aquele gesto para o altar e para o céu, (e um seu irmão com ele). A aquele fez muita honra e deu-lhe uma camisa mourisca; e ao outro uma camisa destoutras.

E segundo o que a mim e a todos pareceu, esta gente, não lhes falece outra coisa para ser toda cristã, do que entenderem-nos, porque assim tomavam aquilo que nos viam fazer como nós mesmos; por onde pareceu a todos que nenhuma idolatria nem adoração têm. E bem creio que, se Vossa Alteza aqui mandar quem entre eles mais devagar ande, que todos serão tornados e convertidos ao desejo de Vossa Alteza. E por isso, se alguém vier, não deixe logo de vir clérigo para os batizar; porque já então terão mais conhecimentos de nossa fé, pelos dois degredados que aqui entre eles ficam, os quais hoje também comungaram.

Entre todos estes que hoje vieram não veio mais que uma mulher, moça, a qual esteve sempre à missa, à qual deram um pano com que se cobrisse; e puseram-lho em volta dela. Todavia, ao sentar-se, não se lembrava de o estender muito para se cobrir. Assim, Senhor, a inocência desta gente é tal que a de Adão não seria maior -- com respeito ao pudor.

Ora veja Vossa Alteza quem em tal inocência vive se se convertera, ou não, se lhe ensinarem o que pertence à sua salvação.

Acabado isto, fomos perante eles beijar a cruz. E despedimo-nos e fomos comer.

Creio, Senhor, que, com estes dois degredados que aqui ficam, ficarão mais dois grumetes, que esta noite se saíram em terra, desta nau, no esquife, fugidos, os quais não vieram mais. E cremos que ficarão aqui porque de manhã, prazendo a Deus fazemos nossa partida daqui.

Esta terra, Senhor, parece-me que, da ponta que mais contra o sul vimos, até à outra ponta que contra o norte vem, de que nós deste porto houvemos vista, será tamanha que haverá nela bem vinte ou vinte e cinco léguas de costa. Traz ao longo do mar em algumas partes grandes barreiras, umas vermelhas, e outras brancas; e a terra de cima toda chã e muito cheia de grandes arvoredos. De ponta a ponta é toda praia... muito chã e muito formosa. Pelo sertão nos pareceu, vista do mar, muito grande; porque a estender olhos, não podíamos ver senão terra e arvoredos -- terra que nos parecia muito extensa.

Até agora não pudemos saber se há ouro ou prata nela, ou outra coisa de metal, ou ferro; nem lha vimos. Contudo a terra em si é de muito bons ares frescos e temperados como os de Entre-Douro-e-Minho, porque neste tempo d'agora assim os achávamos como os de lá. Águas são muitas; infinitas. Em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo; por causa das águas que tem!

Contudo, o melhor fruto que dela se pode tirar parece-me que será salvar esta gente. E esta deve ser a principal semente que Vossa Alteza em ela deve lançar. E que não houvesse mais do que ter Vossa Alteza aqui esta pousada para essa navegação de Calicute bastava. Quanto mais, disposição para se nela cumprir e fazer o que Vossa Alteza tanto deseja, a saber, acrescentamento da nossa fé!

E desta maneira dou aqui a Vossa Alteza conta do que nesta Vossa terra vi. E se a um pouco alonguei, Ela me perdoe. Porque o desejo que tinha de Vos tudo dizer, mo fez pôr assim pelo miúdo.

E pois que, Senhor, é certo que tanto neste cargo que levo como em outra qualquer coisa que de Vosso serviço for, Vossa Alteza há de ser de mim muito bem servida, a Ela peço que, por me fazer singular mercê, mande vir da ilha de São Tomé a Jorge de Osório, meu genro -- o que d'Ela receberei em muita mercê.

Beijo as mãos de Vossa Alteza.

Deste Porto Seguro, da Vossa Ilha de Vera Cruz, hoje, sexta-feira, primeiro dia de maio de 1500.

Pero Vaz de Caminha.

Fonte: www.casadostradutores.com.br

Carta de Pero Vaz de Caminha

I - O Gênero

É incontestável a sua importância quanto ao significado histórico, etnográfico e cultural.

E uma verdadeira “certidão do descobrimento”, o primeiro documento de nossa história que “contém dia, mês, ano e até as horas em que a região foi avistada”, ou seja, ao entardecer, “a horas de véspera” (PEREIRA, 1999:62).

O historiador Paulo Roberto Pereira, não há dúvidas de que a Carta é o primeiro texto literário do Brasil, podendo mesmo ser comparada a um filme de aventuras:”Ler o relato do missivista-cronista é como assistir a um filme de aventura: a história salta aos nossos olhos. com todas as peripécias vividas pelas personagens”.

Questionando o aspecto estético da missiva, o ensaísta Flávio R. Kothe argumenta que a Carta não foi escrita para ser publicada, não é um texto literário e nem sequer é de autor brasileiro.

Radicalizando sua opinião, Kothe considera ser o texto mera “correspondência burocrática oficial do Estado Português”.

Embora insista que a missiva é antes um documento jurídico português do que texto literário brasileiro, Flávio Kothe, em seu ensaio, várias vezes recorre ao termo “ficção”, afirmando que essa carta “participa da ficção legitimadora da presença portuguesa, e ela mesma é uma ficção, mas uma ficção jurídica”, acrescentando:

“A história torna-se estória, pois conta-se uma ficção como se fosse realidade, a historiografia passa a ser a história que o sistema dominante quer que tenha sido não a história que aconteceu. Não há fatos, apenas interpretações. Inaugura-se a linhagem retórica da Literatura Brasileira.”

A palavra “retórica”, usada pelo ensaísta, está no seu sentido amplo de “teoria ou ciência da arte de usar a linguagem com vistas a persuadir ou influenciar”.
Reinaldo Marques transcreve um trecho da carta, exemplificando, na descrição dos costumes dos silvícolas, a literariedade da escritura de Caminha:

“Eles não lavram, nem criam. Não há aqui boi, nem vaca, nem cabra, nem ovelha, nem galinha, nem qualquer outra alimárea, que costumada seja ao viver dos homens. Nem comem senão desse inhame, que aqui há muito, e dessa semente e frutos, que a terra e as árvores de si lançam. E com isto andam tais e tão rijos e tão nédios, que o não somos nós tanto, com quanto trigo e legumes comemos”.

As vertentes real e ficcional estão presentes no texto caminhiano, mesclando o histórico e o literário, como observa Maria A.Ribeiro.

Se falta ao escrivão o conhecimento de cosmografia e de detalhes da navegação, sobra-lhe o caráter impressionista, a freqüente inserção de sua subjetividade em trechos da carta (“segundo a mim me pareceu”; “isto me faz presumir”; “isto tomávamos nós assim por assim o desejarmos”).

Comenta o crítico Paulo Roberto Pereira que, em Caminha, não há a linguagem artificial e rebuscada, pois ele “está longe dos jogos de conceitos da língua literária da Renascença que atingiu seu paroxismo no Barroco”.

Por outro lado, Silviano Santiago considera que, nos trechos em que o escrivão aborda as partes genitais das nativas, os seus olhos e palavras assemelham-se mais a “olhos e palavras de poeta barroco, pois a decoram em estilo gracioso e com volutas de trocadilho. (...)A palavra “vergonha» serve, ao mesmo tempo, para descrever o objeto do desejo, para retirar dele o véu do pudor e para elevá-lo idealmente à categoria de superior ao da européia”

O trecho em questão, comentado por Santiago, é o seguinte:

“(...)e sua vergonha, que ela não tinha, tão graciosa que a muitas mulheres de nossa terra, vendo-lhe tais feições, fizera vergonha por não terem a sua como ela”.

Fazendo circular em seu verbo a ambigüidade da palavra “vergonha”, Pero Vaz imprime em seu texto certas marcas que hão de assinalar a escritura da renascença lusitana: inteligência, alegria comedida, equilíbrio, realismo.

Aliás, é preciso que se destaque que a epístola de Caminha, além de auxiliar a compreender a geografia, põe fim a uma concepção medieval de que elementos fantásticos existiam abaixo da linha do equador.

A Carta mescla aspectos da crônica histórica, do diário de bordo e de missiva informativa e impressionista.

Ela foi escrita entre 22 de abril e primeiro dia de maio de 1500, a bordo da nau capitânia.

II – A Estrutura da Carta

A Carta, escrita numa seqüência cronológica, aproximando-se de um diário, é um relato que pode ser assim estruturado:

I. Introdução: do vocativo “Senhor” (Rei Dom Manuel 1) ao enunciado metalingüístico:“hei de falar começo e digo”;
II. A síntese da viagem de Portugal até se avistar a nova terra, dia.22 de abril;
III. Acontecimentos do dia 23 de abril;
IV. Acontecimentos da sexta-feira, dia 24 de abril;
V. Acontecimentos do sábado, dia 25 de abril;
VI. Acontecimentos do domingo, dia 26 de abril;
VII. Acontecimentos de segunda-feira, dia 27 de abril;
VIII. Acontecimentos de terça-feira, dia 28 de abril;
IX. Acontecimentos de quarta-feira, dia 29 de abril;
X. Acontecimentos de quinta-feira, dia 3b de abril;
XI. Acontecimentos de sexta-feira, dia primeiro de maio.
XII. Epílogo da Carta: pedido pessoal e despedida.

Ao longo do texto, percebe-se o grande apego do autor às categorias sensoriais, isto é, a valorização dos sentidos, principalmente o da visão.

Embora desconheça o significado das cores das tinturas dos índios, Caminha várias vezes faz questão de descrevê-las.

O caráter plástico o atrai mais do que a possível significação social e cultural.

O escrivão projeta nos signos da sua escritura a visão ideológica européia, que situa esse continente e sua raça como o centro de tudo.

Daí falarmos em etnocentrismo ou eurocentrismo, o que está por detrás dos vários equívocos transmitidos na epístola.

Donaldo Schüler aborda um desses equívocos:

“A desinteligência não se restringe à fala e aos gestos. Qual era o sentido das pinturas que revestiam o corpo dos silvícolas? Os descobridores estavam longe de imaginar que a finalidade daquelas formas coloridas, resistentes ao contato com a água, era mais que estética. Escapava-lhes que naquelas linhas estava inscrita hierarquia, função, nacionalidade. Advertidos de que impropriamente restringimos a escrita ao alfabeto, devemos considerar aquelas cores e traços signos de um sistema de escrita pictórica, ex pela organização social”.

O escrivão busca, na leitura equivocada de cores, gestos e ações do Outro, as marcas do Mesmo: deseja que os nativos ajam como os portugueses, interessem-se pela Cruz, façam mesuras diante do Capitão, evidenciem reverências e objetivem as referências àquilo mesmo que interessa mais: as riquezas da terra.

III – O Estilo

Em linhas gerais, alguns traços do autor e de seu estilo podem ser exemplificados com passagens de seu texto:

Modestia:

“Posto que o Capitão-mor desta vossa frota,e assim os outros capitães escrevam a Vossa Alteza a nova do achamento desta vossa terra nova, que se ora nesta navegação achou, não deixarei também de dar disso minha conta a Vossa Alteza, assim como eu melhor puder ainda que para o bem contar e falar o saiba pior que todos fazer”

Comedimento no relato, no sentido de não deformar a verdade:

...a qual bem certo creia que por aformo-sentar nem afear haja aqui de por mais que aquilo que vi e me pareceu”.

Precisão no uso de números:

E a quinta-feira, pela manhã,fizemos vela e seguimos direito a terra e os navios pequenos diante indo por 17, 16, 15, 14, 13, 12, 10 e 9 braças até meia léqua de terra, onde todos lançamos âncoras em direito da boca dum rio.”

Visão etnocêntrica, eurocêntrica dos aborígenes:

“A feição deles é serem pardos, maneira de avermelhados, de bons rostos e bons narizes, bem feitos (...)“

Uso de comparações com elementos da cultura européia

“(...)e o que lhe fica entre o beiço e os dentes é feito como roque de xadrez (...)“

“(...)e andava todo por louçainha cheio de penas pegadas pelo corpo, que parecia assetado como são Sebastião.”

Predisposição em descrever o que interessa ao desejo do colonizador:

“Viu um deles umas contas de rosário, brancas; acenou que lhas dessem e folgou muito com elas, e lançou-as ao pescoço e depois tirou- as e embrulhou-as no braço, e acenava para a terra e então para as contas e para o colar do Capitão, como dizendo que dariam ouro por aquilo. Isto tomávamos nós assim por o desejarmos, mas se ele queria dizer que levaria as contas e mais o colar isto não queríamos entender porque não lho havíamos de dar (...)“

Senso de humor e de aguda visão sensual no perfil das nativas:

“Ali andavam entre eles três ou quatro moças bem moças e bem gentis, com cabelos muito pretos, compridos pelas espáduas, e suas vergonhas tão altas, e tão cerradinhas e tão limpas das cabeleiras, que de as nós muito bem olharmos, não tínhamos nenhuma vergonha.”

Observação detalhada das partes íntimas, evidenciando provável preconceito:

“(...)sem ter nenhuma maneira de cobrirem suas vergonhas, as quais não eram fanadas, e as cabeleiras delas bem rapadas e feitas. “

Uso moderado da linguagem metafórica e jogo de palavras:

“Fomos assim de frecha direitos à praia; ali acudiram logo obra de 200 homens, todos nus e com arcos e setas nas mãos.”

Sentimento de religiosidade:

“E pregou uma solene e proveitosa pregação da estória do evangelho, e em fim dela tratou de nossa vinda e do achamento desta terra, conformando-se com o sinal da cruz, sob cuja obediência viemos; a qual veio muito a propósito e fez muita devoção.”

Fixação de detalhes pitorescos:

“Trazia este velho o beiço tão furado, que lhe caberia pelo furado um grande dedo polegar; e trazia metido no furado uma pedra verde ruim que sarava por fora aquele buraco; e o Capitão lha fez tirar; e ele não sei que diabo falava e ia com ela para a boca do Capitão, para lha meter; estivemos sobre isso um pouco rindo, e então enfadou-se o Capitão e deixou (...)“ .

Depreciação do indígena:

Os outros dois que o Capitão teve nas naus, a que deu o que já dito é, nunca aqui mais apareceram, de que tiro ser gente bestial e de pouco saber e por isso são assim esquivos.

Admiração da saúde do indígena:

«Eles, porém, com tudo andam muito bem curados e muito limpos, e naquilo me parece ainda mais que são como aves ou alimárias montesas que lhes faz o ar melhor pena e melhor cabelo que às mansas,porque os corpos seus são tão limpos e tão gordos e tão formosos, que não pode mais ser (..)“

Cuidado em não fazer afirmações definitivas, cautela nas observações:

“Traziam alguns deles uns ouriços verdes de árvores que na cor queriam parecer de castanheiros, se não quanto eram mais e mais pequenos (...)“

Concepção do aborígene como tabula rasa, passivo à catequese:

“(...) segundo a santa tenção de Vossa Alteza fazerem-se cristãos e crerem na nossa santa fé, a qual praza a Nosso Senhor que os traga, porque certo esta gente é boa e de boa simplicidade, e imprimir-se- á ligeiramente neles qualquer cunho que lhes quiseram dar; e logo lhes Nosso Senhor deu bons corpos e bons rostos como a bons homens; e ele, que nos por aqui trouxe, creio que não foi sem causa.”

Senso do visual, armação de cenas de intensa plasticidade pictórica:

“Enquanto andávamos nessa mata a cortar lenha, atravessavam alguns papagaios por essas árvores, deles verdes e outros pardos, grandes e pequenos, de maneira que me parece que haverá nesta terra muitos, porém eu não veria mais que até 9 ou 10. Outras aves então não vimos, somente algumas pombas seixas, e pareceram-me maiores em boa quantidade que as de Portugal. Alguns diziam que viram rolas; eu não as vi; mas segundo os arvoredos, são mui muitos e grandes e de infindas maneiras. Não duvido que por esse sertão haja muitas aves.”

Exaltação da terra descoberta:

“(...) águas são muitas; infindas. E em tal maneira é graciosa que querendo-a aproveitar dar-se-á nela tudo por bem das águas que tem(...)”

Subserviência ao rei e interesse pessoal:

“E pois que, Senhor é certo que assim neste cargo que levo como em outra qualquer coisa que de vosso serviço for Vossa Alteza há deserde mim muito bem servida, a ela peço que por me fazer singular mercê mande vir da ilha de São Thomé Jorge Dosoiro, meu genro, o que dela receberei em muita mercê. Beijo as mãos de Vossa Alteza. “

IV – As Projeções da Carta

A projeção da Carta de Pero Vaz de Caminha expressa bem como o verbo é caminhante, peregrinando por várias veredas da História, da Literatura, da Antropologia e de várias fontes de cultura.

O Hino Nacional espelha a grandeza do entusiasmo do escrivão na terra dos papagaios.

Toda uma literatura que se ufana desse país elege, como paradigma, as palavras do amigo do rei que, à sua maneira, viu aqui uma espécie de Pasárgada.

Algumas passagens da epístola tornaram-se emblemáticas, como a da procissão:”Eram já ali alguns deles, obra de 70 ou 80, e quando nos assim viram vi alguns deles se foram meter debaixo dela (da Cruz) a ajudar-nos”.

O professor Reinaldo Martiniano Marques, analisando esse trecho, observa que é uma cena “carregada de denso simbolismo, premonitória, e que vale como acabada alegoria da exploração e espoliação, por parte do conquistador europeu, de seu outro exterior”.

Vários poetas modernistas, dotados de forte senso crítico, apropriaram-se da Carta para uma revisão de leitura e de país.

Oswald de Andrade, no seu livro de poemas Pau-Brasil, no texto ‘As meninas da gare”, recorta a passagem da descrição das índias nuas e desloca-as para o espaço da estação ferroviária, descarrilando o sentido e antecipando a questão da exploração sexual, da prostituição da nativa pelo colonizador.

“Eram três ou quatro moças bem moças e bem gentis
Com os cabelos mui pretos pelas espáduas
E suas vergonhas tão altas e tão saradinhas
Que de nós as muito olharmos
Não tínhamos nenhuma vergonha.”

Murilo Mendes, em História do Brasil, faz caricatura da fertilidade de nossa terra, descrita por Pero Vaz, escrevendo coisas assim:

“A terra é mui graciosa,/ tão fértil eu nunca vi.
A gente vai passear,/ no chão espeta um caniço,
No dia seguinte nasce/ bengala de cartão de ouro.
Tem goiabas, melancias./Banana que nem chuchu”

Já Cassiano Ricardo, em Mastim Cererê, opta pelo caminho da paráfrase, aproveita trechos da carta-certidão para endossar a visão do colonizador, em trechos como esse:

“A terra é tão fermosa/ e de tanto arvoredo
tamanho e tão basto/ que o homem não dá conta?(...)
anjo de cor bronzeada,/ cabelo corredio,
nu, listrado em xadrez,/tal como Deus o fez”

Mas nesse mesmo livro, em tom mais humorístico, próprio da paródia, Cassiano Ricardo carnavaliza o episódio da primeira missa celebrada por Frei Henrique, assistida pelos papagaios que “voltam, todos, pro mato,/ já falando latim...”

Também Sebastião Nunes, em História do Brasil, revisita o episódio da primeira missa, numa prosa mordaz e saudavelmente avacalhadora:

“Homens sadios suspirando e esfregando o saco irritadíssimo. Para que missa? Antes beiço grosso e bunda grande para o regalo e a esfregação. Mas vocês não perdem por esperai; um dia a missa acaba, pensavam o grumete e o capitão, fazendo de conta que não”

O episódio da nudez das índias inspira José Paulo Paes:

“A língua se me abrase./ Das donas falarei./Ai vergonhas tão altas e cerradas,/ tão limpas, tão tosadas,/ Senhor meu El-Rei”.

V - Post-scriptum

Na leitura da Carta, o leitor deverá atentar-se para as coisas que NÃO foram ditas: por exemplo, o escrivão nada fala do mar e da navegação em si, do suposto erro que levou a frota de Cabral a chegar casualmente a este país...

Ao contrário do pensamento de Riobaldo, personagem de Guimarães Rosa, o português não se atém ao problema da travessia.
Outra coisa que é silenciada na epístola é o nome ou topônimo indígena: os nativos são chamados de forma abrangente como “homens”, “gente”, e são reduzidos à alimária, a bárbaros, ainda que seus corpos sejam belos.
Nada sabemos dos crimes dos degredados que são obrigados a aqui ficarem, dando início ao processo civilizatório.
Não sabemos a causa da fuga dos grumetes.
O texto não diz, mas nas entrelinhas vislumbramos o racismo contra negros e judeus (afinal, os aborígines não tinham “bons rostos e bons narizes e não eram fanados”?).
O texto não expressa a visão da maioria dos marinheiros: a sua reação diante dos índios e dos rituais religiosos.
E os índios, o que pensavam os índios de tudo aquilo?
Para Caminha, o contacto entre culturas diferentes foi marcado por muito escambo, muita dança, muita festa e amizade, aliás, muito mais da parte dos homens da terra do que dos homens do mar...
O texto de Caminha, conforme aponta Flávio Kothe, inaugura “uma grande fantasia quanto à colonização lusitana: de que teria sido pacifica, como se cada um procurasse no outro o paraíso: o europeu, no contato com a natureza, em forma de locus amoenus, Eldorado ou harmonia primária; o indígena, no conforto da civilização e do céu cristão”
Se os índios não cobriam suas vergonhas, o verbo de Caminha sutilmente joga um véu sobre a violência que se inicia, fazendo do nativo o verdadeiro degredado.

Fonte: www.objetivoitajuba.com.br

Carta de Pero Vaz de Caminha

REDESCOBRIMENTO DO BRASIL: A CARTA DE PERO VAZ DE CAMINHA (1971) DE GLAUCO RODRIGUES

Considerada a “Certidão de Nascimento” da Nação brasileira, a Carta de Pero Vaz de Caminha, escrita em 1500, já recebeu inúmeras releituras e análises que objetivavam representá-la ou simplesmente citá-la. Entre a numerosa quantidade de intelectuais de diferentes áreas que pesquisaram sobre este documento do século XVI, destaco apenas dois pintores, Victor Meirelles e Glauco Rodrigues.

A relevância de suas obras, que tiveram a Carta como fonte primordial, se dão devido a aproximação de suas temáticas central: a identidade nacional brasileira.

Victor Meirelles foi um grande pintor acadêmico do século XIX que realizou a pintura Primeira Missa no Brasil, em 1861. Diferentemente de Glauco Rodrigues que não teve uma formação acadêmica tradicional e viveu a arte brasileira um século depois, realizando a série Carta de Pero Vaz de Caminha sobre o Descobrimento da Terra Nova que fez Pedro Álvares Cabral a El Rey Nosso Senhor em 1971

Tendo em vista que os dois artistas tiveram como princípio norteador o texto escrito por Pero Vaz de Caminha em 1500 e ambos abordaram de maneira explícita a identidade nacional brasileira, cada um dentro de seu contexto político cultural. Para compreendermos estes trabalhos, devemos retomar a importância que o documento histórico tem para o imaginário da nação brasileira e para a construção de sua identidade.

A Carta de Pero Vaz de Caminha foi publicada pela primeira vez em 1817 pelo Padre Manuel Aires Casal, na cidade do Rio de Janeiro (AGUIAR, 2000: 39). Antes de ser publicado, este documento já havia sido descoberto pelo pesquisador espanhol J. B. Muños em 1735, entretanto não foi divulgado (ARROYO, 1963: 11).

Foi a partir da primeira veiculação que a Carta tornou-se o documento oficial do nascimento da nação católica brasileira, originando ainda alguns mitos, “como o ‘novo mundo’, o ‘paraíso terrestre recuperado’, o ‘bom selvagem’, etc., etc.” inclusive o “ufanismo sentimental que se encontra em tantas manifestações brasileiras” (CASTRO, 1985: 12). Sendo estes os pontos mais destacados pelo escrivão em 1500 e que foram resgatados durante a história do país como forma de exaltar a nação.

O Instituto Histórico Geográfico Brasileiro do Rio de Janeiro (IHGB) publicou em 1877, com texto do Visconde de Porto Seguro, Francisco Adolfo Varnhagem, a Carta de Pero Vaz de Caminha, com o título: A cerca de como não foi na – Coroa Vermelha – na enseada de Santa Cruz: que Cabral desembarcou e em que fez dizer a primeira missa. O principal objetivo desta publicação era divulgar a “certidão de nascimento” da nação brasileira. Em pleno Romantismo, a exaltação da nação era uma das principais temáticas que o Estado Imperial dava apoio para as publicações literárias e trabalhos artísticos.

Desta forma, houve um constante apoio do Governo Imperial e a Carta de Caminha tornou-se um elemento importantíssimo para a busca de homogeneidade da nação, pois ela representava, naquele momento, o primeiro contato dos brancos portugueses com os índios americanos. Esse acontecimento foi escrito em forma de narrativa de viagem e mostrava uma harmonia entre esses dois povos distintos.

Brevemente falando, neste momento da história do país teve-se a formação de um mito nacional, o qual, segundo Marilena Chauí (2001: 5-9), o imaginário nacional foi construído através dos setores culturais desde 1500 até os dias atuais, destacando-se duas situações: primeiramente que o Brasil é um “povo novo” que surgiu de “três raças valorosas: os corajosos índios, os estóicos negros e os bravos sentimentos lusitanos”; e em segundo lugar, da existência de significativas representações homogêneas do Brasil, que permitem “crer na unidade, na identidade e na individualidade da nação e do povo brasileiro”.

As questões levantadas pela autora podem ser visualizadas na obra de Victor Meirelles, A Primeira Missa no Brasil. Esta obra faz parte do imaginário nacional desde que foi apresentada no Salon de Paris em 1861 e é a representação visual do batismo da nação brasileira. Originou-se da narrativa de Pero Vaz de Caminha de 1500 e tornou-se uma das imagens pictóricas mais conhecidas e reproduzidas na sociedade brasileira.

Apesar de representar o nascimento do Brasil, a pintura de Meirelles foi realizada em solo parisiense durante seus anos de bolsista da Academia Imperial de Belas Artes do Rio de Janeiro. Foi orientado, a distância, por Araujo Porto-Alegre, o qual o indicou a temática da obra, pois, ele tinha “consciência do papel da arte figurativa e particularmente da pintura histórica na formação da identidade nacional” (AGUILAR, 2000: 104).

Este pensamento de Porto-Alegre, dava-se devido ao período em que o Brasil presenciava o movimento cultural Romântico, que tinha como uma de suas principais características a produção de quadros históricos com a intenção da propagação da identidade nacional. Compreende-se desta forma que era interesse do Império levar estes artistas para o exterior, para aprenderem as técnicas européias e dialogarem com os movimentos culturais que estavam surgindo. Assim, Meirelles correspondeu às expectativas de seu tutor.

Assim, com o auxilio do Governo Imperial e o apoio dado pelos escritores e pintores, podemos afirmar que foi no século XIX que a descoberta do Brasil foi inventada, como resultado das características do Movimento Romântico e devido ao projeto de construção nacional realizado pelo Império. Esta construção deu-se de duas formas, de um lado pelos historiadores que “fundamentava cientificamente uma ‘verdade’ desejada” e de outro os artistas, que criaram “crenças que se encarnavam num corpo de convicções coletivas” (COLI, 2005: 23); que ocorria tanto através da literatura como das artes plásticas.

Assim, com o auxilio do Governo Imperial e o apoio dado pelos escritores e pintores, podemos afirmar que foi no século XIX que a descoberta do Brasil foi inventada, como resultado das características do Movimento Romântico e devido ao projeto de construção nacional realizado pelo Império. Esta construção deu-se de duas formas, de um lado pelos historiadores que “fundamentava cientificamente uma ‘verdade’ desejada” e de outro os artistas, que criaram “crenças que se encarnavam num corpo de convicções coletivas” (COLI, 2005: 23); que ocorria tanto através da literatura como das artes plásticas.

Em outras palavras, a pintura de Meirelles teve um papel de consolidar uma “cena de elevação espiritual, celebrada por duas culturas”, a portuguesa e a indígena. Mais do que isso, esta cena representa o “batismo da nação brasileira” como forma de fusão das raças, “criando identidades fundadas em sentimentos unificadores em torno do sentir-se brasileiro” (MAKOWIECKY, 2008: 739).

A veiculação desta “nova” identidade brasileira, que surgiu a partir da imagem pictórica do século XIX deve-se muito as reproduções nos livros didáticos e feitos pela mídia, além de cédulas de moedas comemorativas. Como afirma Jorge Coli (2005: 39-43), “Caminha não apenas encontrou um tradutor visual” para a sua carta, mas conseguiu que o espectador moderno fizesse parte da Primeira Missa. “Esta imagem dificilmente será apagada, ou substituída. Ela é a Primeira Missa no Brasil. São os poderes da arte fabricando a história”.

Partindo deste pensamento de Jorge Coli, e que a pintura de Meirelles não se limita no fato da missa em si, mas em toda a narrativa de Caminha, parto para a série pintada por Glauco Rodrigues em 1971. Nesta, o pintor, ao desejar falar de identidade nacional, foi mais cuidadoso que o artista romântico e organizou vinte e seis obras cada uma delas retomando um trecho do texto de 1500. Entre elas, logicamente que a cena mais emblemática não ficaria de fora, e uma releitura da Primeira Missa de Meirelles é feita.

Glauco Rodrigues, pode-se dizer que foi, acima de qualquer coisa, um pintor de seu tempo, seu cotidiano e sua realidade política e cultural. Em pleno regime militar brasileiro, denunciou de maneira sarcástica o nacionalismo exacerbado do governo. Utilizou as cores nacionais, a bandeira, o índio, o branco, a praia, o carnaval, etc, tudo que estava ao seu alcance e que se dizia ser brasileiro.

Com formação artística nada formal mas um conhecimento da técnica do desenho e da pintura, Glauco não deixava dúvidas de seu realismo pictórico. A mistura de tempos, personagens e situações eram feitos através de diversas citações que o pintor fazia e referenciava, como forma de homenagem, ou crítica, que representaram a nação brasileira ao longo dos seus quase quinhentos anos de descobrimento. Hans Staden, Jean-Baptiste Debret, Victor Meirelles, José Maria Medeiros, Tarsila do Amaral, Rugendas, Lasar Segall, além de fotografias dos anos 1970 dele mesmo ao lado de seus amigos cariocas ou, retiradas de uma revista qualquer daquela mesma época. Era assim o Brasil deste artista gaúcho.

Seu olhar de estrangeiro, mas nativo, sabia que para “redescobrir” o Brasil seria necessário começar pela praia, para depois explorar terra firme.

Portanto, seguiu os passos dos portugueses de 1500, narrado pelas palavras do escrivão Perto Vaz de Caminha: “... e assim seguimos nosso caminho, por este mar de longo até que... topamos alguns sinais de terra...”. E esta é a primeira frase que podemos observar citada pelo pintor na pintura número um da série. Desta mesma forma seguem as demais vinte e cinco pinturas, totalizando vinte e seis obras, referenciando diferentes passagens de 1500, mas com imagens modernas.

Nas suas pinturas encontramos desde características da arte pop norte americana até mesmo ao hiper-realismo e ao novo realismo francês. Seguiu ainda os passos do modernista Oswald de Andrade e deglutiu os movimentos plásticos estrangeiros para repensar e questionar a arte nacional. Declarou-se um antropófago, pintou de acordo com o movimento tropicalista, o qual, de maneira declarada, pensava em uma cultura brasileira, mas não elitista, e sim para todos.

Onde o erudito e o popular se fundissem e não se excluíssem, que o negro, o branco e o índio convivessem lado a lado, o Brasil arcaico e moderno, subdesenvolvido e com orgulho disso. A natureza farta, mas diversificada, os diferentes brasis, o de ontem e o de hoje, o do norte e o do sul, formando um só, mas não homogêneo, ao contrario, com suas diferenças e características, todas juntas formando uma nova.

A pintura de Glauco alcança este pensamento de arte brasileira, e não apenas na questão cultural, mas a própria identidade nacional. O Brasil que fomos e que somos e que ainda iremos ser. O arcaico, o subdesenvolvido, o selvagem índio, ao lado do moderno, desenvolvido e civilizado homem branco. O negro? Este representa grande parte da nação brasileira e, diferentemente de Meirelles, ele não foi esquecido. Sua cultura e religião aparecem constantemente em seus quadros ao fazer referência ao candomblém, ao carnaval da escola de samba mangueira, e ao próprio índio, como personagem atuante da formação desta “nova civilização”, chamados de brasileiros.

A miscigenação entre o índio, o negro e o branco são as peças chaves para a compreensão da pintura do artista gaucho. O Brasil se formou com a fusão de três raças, e o mito nacional defende que o que cada uma delas tem de melhor é o que faz do brasileiro um povo tão bom. Glauco não afirma isso em momento algum, ele questiona essa junção, e os resultados disso.

Ele coloca lado a lado os portugueses “civilizados” e os índios “selvagens” de 1500 com os brasileiros de 1971 e nos deixa a perguntar: “qual a diferença entre esses dois tempos tão distantes nessa mesma terra?” A resposta ele não nos fornece, talvez, através de suas obras isso seja sugerido apenas, mas nada com muita exatidão.

Se levarmos o contexto político em que se vivia naquele momento, o artista presenciava prisões, torturas, censuras, perseguições, exílios, em decorrência ao AI-5. Logo, comparando brevemente, aqueles homens brancos que se diziam civilizados e que reprimiam toda e qualquer cultura diferente da que eles conheciam e pregavam e acreditavam que podiam exterminá-la, não era muito diferente aos militares que perseguiam, prendiam, matavam e proibiam tudo aquilo que não os era favorável.

Assim se construiu a identidade nacional brasileira, com cortes, com extermínios – não apenas de pessoas, mas de culturas, religiões e políticas –, onde aquilo que deveria ser visto e lembrado, era exaltado, e aquilo que “não era civilizado” o suficiente, escondia-se. Glauco, a sua maneira, discreta e, para os mais apressados, um nacionalista, trouxe a tona todos esses personagens e tempos, civilizados ou não, de glória ou de perdas. Desta vez, Caminha não encontrou um tradutor visual para a sua Carta, e sim, o Brasil encontrou um tradutor visual para o mosaico que é a sua identidade nacional.

Roberta Ribeiro Prestes

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

AGUIAR, Nelson org. Mostra do redescobrimento: carta de Pero Vaz de Caminha – letter from Pero Vaz de Caminha. São Paulo: Fundação Bienal de São Paulo/ Associação Brasil 500 Anos, 2000. 208p.
ARROYO, Leonardo. Pero Vaz de Caminha. Carta a El Rey D. Manuel. São Paulo: Dominus Editora, 1963.103p.
Carta de Pero Vaz de Caminha. (p. 13 – 37). IN: Revista Trimestral do Instituto Historico Geographico e Ethnographico do Brasil. Rio de Janeiro, B. L. Garnier – Livreiro Editor: 1877. Tomo XL parte segunda.617p.
CASTRO, Silvio. O descobrimento do Brasil: A Carta de Pero Vaz de Caminha. Porto Alegre: L&PM Editores Ltda., 1985.132p.
CHAUI, Marilena. Brasil: Mito fundador e sociedade autoritária. São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo, 2001. 104p.
COLI, Jorge. Primeira Missa e a invenção da descoberta. (p. 107 – 121). IN: NOVAES, Adauto (org.). A Descoberta do homem e do mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 1998. 541p
CORTESÃO, Jaime. Cabral e as origens do Brasil. Ensaio de topografia histórica. Rio de Janeiro: Edição do Ministério das Relações Exteriores, 1944. 173p.
D’ANGELO, Paolo. A estética do Romantismo. Lisboa : Estampa, 1998.p. 212
KELLY, Celso. A Pintura do Romantismo. (p. 13 – 26). IN: Ciclo de conferências promovido pelo Museu Nacional de Belas Artes. Século XIX: O Romantismo. Rio de Janeiro: Museu Nacional de Belas Artes, 1979. P. 199
MAKOWIECKY, Sandra. O contato com uma obra prima: a primeira missa de Victor Meirelles e o renascimento de uma pintura. 17° Encontro Nacional da Associação Nacional de Pesquisadores em Artes Plásticas. Panorama da Pesquisa em Artes Visuais – 19 a 23 de agosto de 2008 – Florianópolis
PEREIRA, Paulo Roberto (org.) Os três únicos testemunhos do descobrimento do Brasil. Rio de Janeiro: Lacerda Ed., 1999. 109p.
VARNHAGEN, Francisco Adolfo de. (Visconde de Porto Seguro). A cerca de como não foi na – Coroa Vermelha – na enseada de Santa Cruz: que Cabral desembarcou e em que fez dizer a primeira missa. (p. 5 – 12) IN:
Revista Trimestral do Instituto Historico Geographico e Ethnographico do Brasil. Rio de Janeiro, B. L.
Garnier – Livreiro Editor: 1877. Tomo XL parte segunda. 617p.

Fonte: www.unicamp.br

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