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Poesias

Júlio Dinis

TRIGUEIRA

Trigueira! que tem? Mais feia Com essa cor te imaginas? Feia! tu, que assim fascinas Com um só olhar dos teus! Que ciúmes tens da alvura Desses semelhantes de neve ! Ai, pobre cabeça, leve!
Que te nao castigue Deus.

Trigueira! se tu soubesses
O que é ser assim trigueira!
Dessa ardilosa maneira
Porque tu o sabes ser ;
Não virias lamentar-te,
Toda sentida e chorosa,
Tendo inveja à cor da rosa,
Sem motivos para a ter.

Trigueira! Porque és trigueira É que eu assim te quis tanto. Daí provém todo o encanto
Em que me traz este amor. E suspiras e murmuras;
Que mais desejavas inda? Pois serias tu mais linda, Se tivesses outra cor?

Trigueira! onde mais realça
O brilhar duns olhos pretos,
Sempre húmidos, sempre inquietos,
Do que numa cor assim?
Onde o correr duma lágrima
Mais encantos apresenta?
E um sorriso, um só, nos tenta,
Como me tentou a mim?

Trigueira! E choras por isso! Choras, quando outras te invejam Essa cor, e em vão forcejam
Por, como tu, fascinar?
Ó louca, nunca mais digas,
Nunca mais, que és desditosa.
Invejar a cor da rosa,
Em ti, é quase pecar.

Trigueira! Vamos, esconde-me
Esse choro de criança.
Ai, que falta de confiança!
Que graciosa timidez!
Enxuga os bonitos olhos,
Então, não chores trigueira,
E nunca dessa maneira
Te lamentes outra vez.

Abril de 1864

Escrita no álbum da Ex.mn Sr." D. M. Veloso
e aproveitada para o romance — As Pupilas
do Sr. Reitor — publicada no jornal do Porto
em 1866 e em volume em 1867.

A INTERCESSÂO DA VIRGEM
(H. HE1NE)

I

Jazia o filho no leito,
A mãe olhava o balcão.
— «Não te levantas, meu filho,
Para ver a procissão?»

— «Ai, mãe! se estou tão doente, Que não posso ouvir nem ver ! Penso nela... a pobre morta... Como não hei-de eu sofrer!»

— «Ergue-te, filho, e à romagem
Iremos juntos a orar,
Que aos corações doloridos
Sabe a Virgem consolar.»

Já se ouvem os sacros hinos, Da cruz flutua o pendão;
Em Colônia sobre o Reno
Vai passando a procissão.

Il

Como a Senhora está linda
Com o seu mais rico vestir!
Correm-lhe em chusma os doentes
Muito tem ela que ouvir!

Todos lhe trazem promessas Com ferventes devoções: Membros, pés e mãos de cera, Jazem no altar aos montões;

Quem lhe der um pé de cera, Logo do pé sarará;
Quem mãos de cera lhe ofereça, A mão curada verá.

Mancos, que à romagem foram, Vêem-se na corda saltar;
Outros de mãos aleijadas, Destros agora a tocar.

Da alva cera duma vela
Fez a mãe um coração.
— «Leva isto à Virgem Maria,
Que te cure essa paixão.»

Gemendo, o filho a recebe, Gemendo a vai ofertar;
Dos olhos lhe brota o pranto
Do coração este orar;

— «Ó Maria gloriosa!
Serva pura e mãe de Deus:
Virgem, dos Céus Soberana,
Escuta os lamentos meus i

«Em Colônia, onde as igrejas
Se podem contar às cem,
Os meus dias descuidado
Passava com minha mãe.

«E junto de nós vivia Margarida... a que morreu... Dou-te um coração de cera, Cura as feridas do meu!

«Cura minh'alma dorida, Que eu com devoto fervor Direi de dia e de noite:
—«Glória a ti. Mãe do Senhor!»

III

Alta noite, adormecidos
Jaziam o filho e a mãe,
E a Virgem mui de mansinho
Entrando no quarto vem.

Pendida sobre o doente
No peito a mão lhe pousou,
E com gesto suavíssimo
Sorrindo se retirou.

Como se através dum sonho, Tudo isto a mãe percebeu
E acordando alvoroçada, Junto do filho correu

Estendido sobre o leito, Morto, a triste o foi achar; Andava-lhe a luz da aurora Pelas faces a brincar.

Vendo-o assim, a mãe piedosa
Juntou as mãos com fervor
E em voz baixa disse, orando:
— « Glória a ti, Mãe do Senhor I»

Abril de 1864

METEORO

Não a viram passar? Era no Outono; Quando languesce a flor, quando na selva Se cala o rouxinol e ao abandono
Jazem as folhas na crestada relva.

Não a viram passar? As altas neves
Revestiam das serras as cumeadas,
E em vez das brisas perpassando leves,
Assopravam violentas as rajadas.

No meio da tristeza destas cenas, Ela só, muda e pálida, sorria,
O seio a anuviar-se-lhe de penas, O rosto a iluminar-se de alegria.

Não a viram? Passou. A natureza
É outra vez de galas revestida,
Mas minh'alma é coberta de tristeza
Como naquele instante da partida.

Setembro de 1860.
Escrita em um álbum

A DESPEDIDA DA AMA
        (A meu primo e amigo J. ]. Pinto Coelho)

Adeus filho do meu peito, Que do meu peito nutri... Parto. Vou deixar-te, filho, Ai, que farei eu sem ti? !

Adeus! Já quando acordares
Chorando não me verás;
As noites a acalentar-te
Outra voz escutarás.

Que amor te ganhei, meu filho I Que triste amor este meu!
Se assim tinha de deixar-te, Pra que tanto te quis eu ?

Os teus primeiros gemidos
Tua mãe não quis ouvir;
E a mim, que os calei com beijos,
Mandam-me agora partir!

Pus à volta do teu berço
Todo o amor que um seio tem,
E arrancam-te de meus braços,
Porque eu não sou tua mãe!

Os teus vagidos de infante Fui eu quem os sosseguei; Carinhos que semeava,
Para a outra os semeei !

Parto. Dentro em pouco, filho, Nem tu me hás-de conhecer;
E assim de pequenino
Te ensinam já a esquecer.

Adeus! Nesta despedida
A alma toda se me vai.
E, sem querer, o meu pranto
Sobre a tua fronte cai,

Que desse sono inocente
Te não vá ele acordar;
Que as forças me faltariam
Então, para te deixar.

Vamos, pobre mulher, vamos
Está finda a criação,
Deste vida a este menino,
Não lhe dês o coração.

O coração? Quem to pede ? Pedem-te o leite, não mais. Vamos, pobre mulher, vamos, Que o acordas com teus ais!

Adeus filho da minha alma, Teus carinhos não são meus, O choro corta-me a fala,
Mal posso dizer-te... adeus.

Março de 1865.

NO ALTAR DA PÁTRIA
      (Ao meu amigo João Marques Nogueira Uma)

1

Tinge do oriente as serras
O matutino alvor;
E do clarim das guerras
Se ouve o mortal clangor.

— «Ai, grata paz dos lares, Adeus, força é partir.
Ó sombra dos pomares! Ó rosas a florir!

«As hostes reunidas Chamam-me a combater, Ai, longas avenidas, Tornar-vos-ei a ver ?

«Adeus, loucos amores! Adeus, beijos febris, Adeus, mudos verdores,
Que em sombras os encobris.»
— «Ô mãe, dá-me uma espada
Oiço da Pátria a voz!»
— «Ei-la. É imaculada, Era a de teus avós!»

— «Pura a trarei, voltando... Se não morrer ali.»
— «Vai! disse a mãe, chorando, Eu rezarei por ti.»

— «Filho, meu filho, espera! Não me ouve já. Partiu!»
E o ardor que a sustivera
De todo se extinguiu.

No campo já se escuta Das alas o marchar. Que agigantada luta Além se vai travar?

Dá-se o sinal! Furiosas Partem as legiões; Encontram-se raivosas Bramem como os leões.

Ai, que tinir de espadas! Que estrépito fatal!
Que vozes angustiadas
Se escutam no arraial!

O sangue rutilante Inunda e tinge o chão; Aos ais do agonizante
Responde a imprecação.

 

Em pé, os combatentes, Perdidos os corcéis, Cingem-se quais serpentes Em pérfidos anéis.

A luta é braço a braço, A golpes de punhais;
Se caem de cansaço, Não se levantam mais.

A luta é peito a peito, Terrível e cruel!
Às cãs não há respeito, À dor não há quartel

Findou! Tranqüilo é tudo... Já tudo emudeceu.
O campo é triste e mudo; É triste e escuro o céu!

A custa de mil vidas Salvou-se a Pátria enfim! Mas porque são sentidas As vozes do clarim?

As hostes vitoriosas Porque tão tristes vêm? Ai, que ânsias dolorosas Sentia a pobre mãe!

Passa a primeira fila... Mísera, que o não vês!... Outra, outra mais. Vacila... Cresce-lhe a palidez!

Olha-as uma por uma, E a última passou;
E delas em nenhuma
Inquieta o filho achou!

E o céu mais se escurece ; O campo é envolto em pó ; E a triste permanece Absorta, muda e só I

Que solidão de morte! Que erma a planície jaz! Dorme no campo o forte, Sono de glória e paz.

Dorme a valente raça
De intrépidos heróis!
Cegos, ao sol que passa
Saúdam novos sóis.

Que sepulcral figura
Se adianta além subtil;
Tão cheio de amargura
O gesto e o olhar febril!

À ensangüentada arena Os passos seus conduz; Raiou sobre esta cena Da Lua a tarda luz.

Súbito em desvario
Solta um sentido ai,
Junto a um cadáver frio
Desfeita em pranto cai

«És tu! és tu? ai, filho! Ai, como te encontrei!
Como estão já sem brilho
Os olhos que eu beijei!

«Vai, sombra idolatrada, À tua Pátria, aos Céus!»
Cinge-lhe ao peito a espada; Morre ao dizer-lhe: < Adeus!»

HINO AO TABACO

No centro dos círculos De nuvens de fumo, Um deus me presumo,
Um deus sobre o altar! Nem doutros turíbulos
Me apraz tanto o incenso Como o deste imenso Cachimbo exemplar!

Em divas esplêndidos, Cruzadas as pernas, Fuma, horas eternas.
O ardente sultão Subindo-lhe ao cérebro O mágico aroma, Esquece Mafoma,
Houris e Alcorão.

Longe, oh! longe o ópio, Que os sonhos deleita
Da mísera seita
Dos Theriakis!
Horror ao narcótico
Que vem das papoulas!
E ao que arde em caçoulas
No altar de Caciz!

Que a raça gentílica Das zonas ardentes Consuma as sementes Do arábio café.
Despejem-se as chávenas
Da atroz beberagem
Da cor do selvagem
Da adusta Guiné.

E a tal folha exótica, Delícias da China, Por nossa má sina Trazida de lá,
Servida em família
Num morno hidro-infuso?... Anátema ao uso
Das folhas do chá!

Nem tu, ó alcoólico Humor dos lagares, Terás meus cantares, Meus hinos terás, Embora das ânforas, Vazado nas taças,
Aos outros tu faças, A língua loquaz.

Cerveja britânica, De furor espuma? De coisa nenhuma Me podes servir.
Quando oiço do lúpulo
Gabarem proezas
Às boas inglesas,
Desato-me a rir.

Nem venha da cânfora
Pregar maravilhas
O das cigarrilhas
Famoso inventor.
Raspail é cismático
E eu sou ortodoxo
O seu paradoxo
Não me há-de ele impor.

Meu canto é da América, País do tabaco,
Perante o qual Baco
Seu ceptro partiu.
A Europa, Ásia e África
E a Terra hoje toda
Este herói da moda
De fumo cobriu.

Até na Lapónia
Da gente pequena,
Se fuma; e no Sena,
No Tibre e no Pó,
No Volga e no Vístula,
No Tejo e no Douro;
Que imenso tesouro
Se deve a Nicot!

Meus áridos lábios
Mais fumo inda aspirem;
Que os parvos suspirem
Por beijos aos mil.
Não quero outros ósculos,
Não quero outra amante..
Qual mais doudejante
Que o fumo subtil?

Tornadas Vesúvios, As bocas fumegam
De nuvens que cegam Vomitam montões. Fumar! Oh delícias! Prazer de nababo!
E leve o Diabo
Do mundo as paixões.

TERESA
   (A minha sobrinha Ana C. Gomes Coelho)

Era uma criança loura
Quando a conheci pequena;
Mais branca do que a açucena
E pronta sempre a chorar.
Havia naqueles olhos
De um certo azul esvaído,
Não sei que oculto sentido
Que me fazia cismar.

Quantas vezes, ao pé dela, Correndo-lhe a mão nas trancas, Eu lhe disse : «Tu não danças, Como vês dançar as mais?»
Ela olhava-me e sorria, Sorria, mas suspirava,
E inda mais triste ficava, Como nem imaginais.

Meu Deus, que criança aquela! Que tão precoce tristeza!
Dizem-lhe um dia: «Teresa Sabes? tua mãe morreu.» Fêz-se pálida de morte...
E, levando as mãos ao seio, Ia a falar, mas, no meio, Reprimiu-se e emudeceu

E desde então nunca a viram Mais com as suas companheiras; Ficava-se horas inteiras
À sombra do laranjal. Surpreendiam-na sozinha
Com os olhos fitos no espaço
E esfolhando no regaço
As rosas do seu rosai.

As brisas, gemendo tristes Por entre a verd e folhagem, Segredavam-lhe a linguagem Sonora da solidão.
Essas mil vozes do campo, Todas ela compreendia, Que fadado pra poesia
Fora aquele coração.

Ai, que infância tão de gelo! Que madrugada da vida!
Ai, pobr e alma estremecida Pelas saudades da mãe! Quantas vezes, alta noite,
A triste julgava vê-la
Em cada fúlgida estrela
Que o firmamento contém!

Um dia, ao cair da tarde,
E de uma tarde de Outono,
Acordou de um brando sono
E pôs-se a rir para mim.
«Já sorris? És salva, filha,
Enfim!» E a beijei contente.
Olhando-me ternamente
Ela repetiu: «Enfim!»

Enfim!... mas que triste acento
Nessa palavra vertera!
Foi como que se dissera
A vida um último adeus.
Era como um grito d'alma,
Rompendo a prisão que a encerra,
E partindo-se da Terra
Pra fundir-se nos Céus

Iluminavam-lhe as faces
Os raios de estranho fogo.
Ao vê-la compreendi logo
Tudo o que se ia passar.
«Teresa, que tens? Responde.»
Disse, cingindo-a a meu peito;
E ao levantá-la do leito
Assustou-me aquele olhar.

As faces são-lhe de neve Na frialdade e na alvura. O sorrir que a transfigura
Dá-lhe um todo divinal.
Por sobre as cândidas roupas
Caem-lhe as trancas douradas,
E nas pálpebras cerradas
Se extingue o alento vital.

Nos lábios já descorados
Que meiga expressão escrita!
O seio já não palpita...
Lânguida a fronte lhe cai...
Uma lágrima saudosa
Pelas faces lhe resvala,
E a vida inteira se exala
Num sumido e extremo ai.

Era uma criança loura Quando a vi na sepultura, Da açucena tinha a alvura, Teve seu curto durar. Daqueles olhos serenos
De um certo azul esvaído, Ai, fatal era o sentido
Que me fazia cismar

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