De visita ao sul da Noruega, seguimos até Bergen numa viagem pelos casarios recuperados de Bryggen, na zona portuária da cidade, pelas vistas do alto do monte Floyen, pelos souvenirs do mercado do peixe e, claro está, pelos belos cenários naturais em que se enquadram alguns fiordes noruegueses.
Uma viagem tranquila onde só os preços não convidam a estadias prolongadas.
O sol aparece em força, finalmente, ao fim de três dias de céu cinzento e chuvas intermitentes. As roupas encurtam de imediato nos corpos loiros, as cores das fachadas de madeira aquecem, os turistas ficam mais sorridentes, e o viajante anima-se com tão agradável imprevisto e decide revisitar os pitorescos quarteirões de Bryggen, a histórica zona portuária da cidade de Bergen.

Visto do alto do monte Floyen, um navio de cruzeiros deixa Bergen em direcção aos fiordes noruegueses
O que faz de Bergen uma cidade tão atraente é, antes de tudo, o seu charme e a atmosfera relaxante que emana das suas artérias. E em nenhum outro lugar isso é tão evidente como em Bryggen, porta de entrada na cidade de outros tempos, com as suas casas de madeira que retribuem o aparecimento do sol com cores vivas e contrastantes. Bryggen é o que resta do antigo cais do lado este do porto central de Bergen, área reconstruída no seguimento de um incêndio que reduziu a cidade a cinzas, corria o ano de 1702. Hoje, tudo o que resta da estrutura original de Bryggen é um quarteirão recuperado sob a égide da UNESCO, uma espécie de museu vivo e ao ar livre, exibindo parte da história cultural da região. A arquitectura, o artesanato, os ofícios tradicionais, as artes ligadas à pesca.
Imbuído do ambiente do cais, decido então espreitar o mercado de peixe, paredes-meias com o quarteirão protegido de Bryggen. Segundo um folheto sobre a cidade, o mercado de peixe é considerado uma das “maiores atracções turísticas” de Bergen, e parece não haver grupo de excursionistas que não pare um instante nas suas bancas. Embora não haja mais peixe e marisco do que seria de esperar num mercado com aquele nome e, à primeira vista, ainda ao longe, se vejam mais souvenirs do que peixe.

Pormenor de uma casa de Bryggen, zona histórica de Bergen, Noruega
Calcorreio fugazmente o pequeno mercado até ser atraído pelo borbulhar do café a ferver numa máquina caseira colocada sobre um bico a gás que emana de uma das tendas. Detenho-me por instantes.
Chama à atenção a exuberância das palavras, em italiano, que se ouvem vindas de um homem sorridente e bem disposto. Não é norueguês, seguramente. Dirige-se à companheira de trabalho atrás do balcão, jovem, bonita e simpática, enquanto ela verifica se o café já subiu completamente. Dirijo-lhe a palavra, como se o cheiro do café aproximasse desconhecidos do sul da Europa no frio de uma solarenga manhã escandinava, para descobrir que se chama Rita, tal como escrito - só mais tarde reparo - no seu avental, e que é portuguesa. O jovem italiano grita “do you want to try something?” para os turistas orientais que passam à sua frente. Rita convida-me igualmente a provar um par de iguarias, entre as quais um delicioso pedaço de “salmão fumado a quente com especiarias”, e carne de baleia que, por estas paragens, nunca deixou de ser caçada, apesar de não fazer verdadeiramente parte do quotidiano culinário dos noruegueses. Desengane-se, pois, quem imagina encontrar consumidores altos e loiros como clientes e velhos e rudes pescadores ou corpulentas peixeiras norueguesas atrás das bancas. O mercado do peixe de Bergen é, acima de tudo, um espaço para turista ver.
Antes de partir, decido aproveitar o raro momento de céu limpo e dar ouvidos às palavras dos vários que haviam catalogado de imperdível uma visão global de Bergen, lá do alto. Para onde quer que o olhar se dirija, aliás, o verde das sete colinas que circundam Bergen impõem-se na paisagem. Para lá chegar, utilizo o funicular do monte Floyen, a forma mais preguiçosa de aceder à magnífica vista panorâmica sobre a cidade de Bergen que a altitude proporciona. O monte Floyen é outro dos emblemáticos bilhetes-postais da cidade e a fama é, neste caso, perfeitamente justificada.
Não será por acaso que o Norway in a nutshell é o “pacote turístico” mais popular de toda a Noruega, entre os próprios noruegueses. Permite navegar através dos fiordes Aurlandsfjord e Naeroyfjord, este último inscrito desde 2005 na exclusiva lista de locais Património da Humanidade da UNESCO, e ainda percorrer a velha e curvilínea estrada de Stalheimskleiva e a desnivelada linha-férrea de Flam. Tudo acessível a partir de Bergen, numa viagem de apenas um dia, facilmente organizada.
Verdade seja dita, Norway in a nutshell não é mais do que um conceito. São vários bilhetes individuais, de barco, comboio e autocarro, vendidos em conjunto, facilitando assim a vida aos visitantes que, num único local, adquirem todos os ingressos necessários como se de um único se tratasse. Mais ainda, faz com que os menos independentes tenham a reconfortante impressão de participar numa excursão organizada, sendo ainda útil para quem não dispõe muito tempo - quase todos os turistas. O arranque fica marcado para o dia seguinte.

Dois viajantes de caiaque no local onde os fiordes Aurlandsfjord e Naeroyfjord se encontram
Parte-se de Bergen manhã cedo e pouco depois o comboio feito toupeira rasga já o interior das montanhas em direcção a Voss. Aí, mal o visitante sai da estação de caminho-de-ferro, não tem como não notar os autocarros que por si aguardam. A sinuosa estrada de Salheimskleiva, que se percorre de seguida, é a única fase da viagem com direito a acompanhamento por parte de um guia turístico. A paragem para apreciar a vista panorâmica oferecida pelo miradouro do Hotel Salhein, a meio caminho entre Voss e Gudvangen, é apresentada como um dos momentos altos da jornada. Há dezenas de autocarros estacionados e não há tempo a perder, que os minutos estão contados para que se não perca o barco em Gudvangen.
O barco parte em direcção a Flam e, aí sim, os turistas aproximam-se do verdadeiro motivo da viagem: os fiordes. Percorre-se o Naeroyfjord, o mais estreito fiorde da Europa, e cujas montanhas que acompanham as suas águas atingem, nalguns locais, os 1.800 metros de altitude. O contraste entre as altas montanhas, brancas no topo, e a exiguidade do fiorde, proporciona quadros de grande generosidade visual. Neve, sol, montanhas e água ao alcance de um mesmo olhar, a bordo de um barco deslizando suavemente pelas águas do fiorde. Ao fundo, homens em caiaques contornam o ponto onde os fiordes Naeroyfjord e Aurlandsfjord se encontram, e uma ponta de inveja invade o convés. Desfrutam ainda mais tranquilamente das águas e da paisagem, em perfeita sintonia com os fiordes noruegueses, prodígio da Natureza!
Fonte: www.almadeviajante.com