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Nem Sempre – Junqueira Freire

 

Junqueira Freire

Bem sei que te sorris com riso angélico,
Como as aves do céu e a flor dos bosques;
Porém deste sorrir – por mais donoso,
Nem sempre gosto.

Olhas-me, eu sinto, com olhar tão terno,
Que, como um talismã, quebranta os ânimos;
Porém de teu olhar – tão doce embora,
Nem sempre gosto.

Coa-te as faces candidez lucente,
Nítida e vítrea – como a flor do jaspe;
Porém desse palor – tão lindo embora,
Nem sempre gosto.

Falas com som melodioso e harmônico,
Com som tocante – como etéreas harpas;
Porém desse falar – por mais sonoro,
Nem sempre gosto.

Andas com passos breves e calados,
Soturno – como o divagar da noite;
Porém dos passos teus – por mais mimosos,
Nem sempre gosto.

De um rir irado, estrídulo e sardônico,
Que, como a seta, me transpassa as fibras;
De um rir danado, que me inspira fúrias,
Às vezes gosto.

De olhar fogoso, trépido e fosfórico,
Como o luzir e o crepitar do raio;
De olhar raivoso, que me acenda o gênio,
Às vezes gosto.

De um rubro afoguear de acesas faces,
– Sintoma de coléricos transportes;
De um rubro afoguear – como um incêndio,
Às vezes gosto.

De um tom vibrante, rápido e precípite,
Como a voz do oceano entre as procelas;
De um tom de voz, que me afigure a raiva,
Às vezes gosto.

De um passo nobre, arrebatado e válido,
Como os impulsos da paixão nos peitos;
De um passo forte, que vacile a terra,
Às vezes gosto.

A mole imagem da apatia inerte
Já me basta de vê-la em teu semblante;
Da guerra das paixões, do horror da cólera
Às vezes gosto.

Ao menos uma vez quisera,ó virgem,
Ver em teu rosto a contração da raiva,
Que do terno langor que te define,
Nem sempre gosto.

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