Breaking News
Home / Obras Literárias / Poesias – Raul Pompéia

Poesias – Raul Pompéia

PUBLICIDADE

Clique nos links abaixo para navegar no capítulo desejado:

Raul Pompéia

A Mudança da Capital da República

Enquanto se debatem estas atribuições da vida popular, há
filósofos admiráveis, de bastante calma para meditar a mudança
da capital da República.

Foi uma das idéias da semana a da mudança, nada menos (mudança
de capital…) do Rio de Janeiro para o sertão de Goiás!

Houve ingênuos que admiraram a simples transferência de um obelisco
das margens do Nilo para a capital da França. A vingar a idéia
de mudança da capital da República para o sítio da Formosa
da Imperatriz do chapadão goiano, teremos ocasião de ver coisa
muito mais espantosa, a transferência total, em conjunto ou por partes,
de uma enorme cidade.

Há coisas nessa transferência que só pensar nelas perturba
a imaginação. Que se levem as estátuas das praças,
concebe-se — dentro de caixas apropriadas e convenientemente sólidas.
Que se leve o chafariz do antigo Largo do Paço ou o zimbório
da Candelária, também se concebe; basta que se o pegue por cima
do chafariz com um bom guindaste pela ponta da pirâmide, pela esfera
armilar e que se suspenda para cima de uma robusta carreta. O zimbório
da Candelária, pega-se pela cruz. Compreende-se que vá também
a caixa d’água da Carioca, desde que a montem sobre quatro rodas, como
um carrinho de caixão de meninos. Pode-se até aproveitar o espaço
vão e meter-lhe dentro, cautelosamente empilhados, os arcos todos do
Aqueduto de Santa Tereza. Os edifícios também é fácil
imaginar que irão desconjuntados, parede por parede, escada por escada,
teto por teto, desde que se numerem as diferentes peças para se não
confundirem. Não foi assim que veio o Teatro Apolo todinho de Paris
até aqui? Que se trasladem os pequenos morros do centro da cidade,
conjetura-se igualmente: são de terra: podem ir aos bocados em carroças,
por exemplo, e lá no seu destino acumulam-se outra vez. Porventura
não se está fazendo a mudança pouco a pouco de alguns
desses morros para dentro da baía?… Mas há mudanças
inconcebíveis. Como conseguirão os mudadores da capital trasladar
o Corcovado?. Rochas, águas, florestas e a estrada de ferro. Como hão
de poder mudar para lá, para o sertão da Formosa o Pão
de Açúcar, as fortalezas, a barra, elementos decorativos da
nossa bela capital que mudada sem eles não se teria mudado?!

A Noite

… le ciel Se ferme lentement comme une grande alcôve, Et l’homme
impatient se change en bête fauve.

C. BAUDELAIRE

Chamamos treva à noite. A noite vem do Oriente como a luz. Adiante,
voam-lhe os gênios da sombra, distribuindo estrelas e pirilampos.

A noite, soberana, desce. Por estranha magia revelam-se os fantasmas de
súbito. Saem as paixões más e obscenas; a hipocrisia
descasca-se e aparece; levantam-se no escuro as vesgas traições,
crispando os punhos ao cabo dos punhais; à sombra do bosque e nas ruas
ermas, a alma perversa e a alma bestial encontram-se como amantes apalavrados;
tresanda o miasma da orgia e da maldade — suja o ambiente; cada nova
lâmpada que se acende, cada lâmpada que expira é um olhar
torvo ou um olhar lúbrico; familiares e insolentes, dão-se as
mãos o vício e o crime — dois bêbedos.

Longe daí a gemedora maternidade elabora a certeza das orgias vindouras.

E a escuridão, de pudor, cerra-se, mais intensa e mais negra. Chamamos
treva à noite — a noite que nos revela a subnatureza dos homens
e o espetáculo incomparável das estrelas.

A Perseguição às Cartomantes

A perseguição às cartomantes, que constitui boa parte
do movimento da semana, não se pode dizer que esteja de acordo com
a liberdade de cultos que existe e que se apregoa na atualidade.

Não há dúvida.

A superstição é a filosofia dos pobres. Dos pobres de
espírito por natureza, e dos que, somente porque não encontraram
nos recursos materiais da vida um meio de serem ricos de espírito,
tiveram de permanecer irremediavelmente na penúria. Ser tolo, que imenso
mal! Crer no milagre e na revelação da cartomante… Porventura
será uma obrigação possuir a filosofia dos atilados?

Todos nós temos no cérebro uma porção mais ou
menos considerável de imaginação voltada para o sobrenatural.
Desde que se não acha meio de imaginar. Por exemplo, a correta religião,
a gente vai-se arranjando com um cultozinho de meia tigela, que é um
ridículo para muitos, mas que para a gente é uma grande coisa
e dá satisfação sofrivelmente a todas as suspeitas e
curiosidade da ignorância.

A seita das cartomantes é desta espécie. Vem da necessidade
entre profana e religiosa do milagre barato. Quem não tem cabeça
nem latim para se entender familiarmente com o mistério da Transubstanciação,
vai-se arranjando com o misteriozinho de Mme. Joséphine, que é
capaz de adivinhar, sem mais nem menos, onde está o gato ou quem matou
o cão.

Mas especulam, recebem dinheiro pelas consultas velhacas. Que tem a polícia
com a despesa particular dos tolos? A curatela dos insensatos que desperdiçam
não foi ainda armada de apito para entrar em função.
Espere a polícia que transpareça um caso de fraude comum ou
de violência.

Outrora, no tempo da fé privilegiada, elas viviam livres, as cartomantes,
com o seu baralho mágico, carteando a sua jogatina com os tolos e os
tolos perdendo sempre.

Pensava-se que os que perdiam, lucravam contudo a embriaguez da sua toleima,
que voltava da consulta lisonjeada e aplaudida. Que necessitam em rigor as
ânsias espirituais? Que um processo espiritual as acalme. Imaginem a
tolice assoberbada por uma grande ansiedade moral, parecida com essas que
para os espíritos de melhor quilate encontrariam desafogo num conselho
filosófico ou num preceito religioso, o terror boçal de um feitiço,
por exemplo. A cartomante em vez de aplicar ao caso a regra de um filósofo
ou de um padre da igreja, raciocinava que a tolice é tola e como tola
deve ser tratada, e, para a asneira do feitiço, receitava com sucesso
a asneira do contrafeitiço. Poder-se-ia considerar a vítima
de uma fraude alguém que às cartomantes recorria para alcançar
o seu sossego de espírito, e voltava da consulta realmente sossegado?

Permitia-se então outrora que a religião da tolice fizesse
sua vida, com a condição apenas de se não patentear pela
forma exterior de nenhum escândalo.

Se assim sucedia outrora, como é que hoje, que os foros da cidade
foram facilitados a todos os cultos, vai-se contra a pobre e simpática
religião dos tolos desenvolver a oposição das ameaças
aterradoras do xadrez?!

Se ao folhetim se consultasse qual deveria ser o procedimento lógico
do momento, dir-se-ia aqui em resposta: liberdade aos tolos da sua tolice;
que se deixem esfolar os parvos pelo preço da sua parvoíce;
dêem cartas as cartomantes como um mandão da roça; conselhos,
medicina, adivinhações, toda a espécie de sortilégio
do desfrute tenha livre prática. Reúnam-se até em sinagoga,
se quiserem, todas as espertas ledoras de buena dicha. Quando a todas as religiões
se permite a liberdade absoluta dos seus ritos é de elementar eqüidade
que aos tolos se faculte a religião da toleima, o livre exercício
do seu culto, a livre presença do seu templo, mesmo, se eles ambicionarem
na linha ordinária de todas as outras casas de culto, com a forma exterior
que muito bem resolvam, assinalando em plena evidência a arquitetura
simbólica da letra T.

Amarelo, Desespero

Ouro e sol; ouro, o desespero da cobiça, sol, o desespero da contemplação:
a cor dos ideais perdidos.

Sobre o leito, o cheiro mau das chagas era como uma antecipação
da morte. Descamava-se a pele em crostas ásperas sobre o grude do pus.
Ela morria, alcançada pelo sorteio inexorável da Peste. À
porta, o anjo negro da maldição; longe, a espavorida caridade.

Ali, na parede, havia flores adornando um retrato de moço. Simples
lembrança da Páscoa, flores da aleluia, colhidas numa escapada
de amantes. Amor não faz quaresma… Cobertas de ouro as árvores…
Ela também triunfante: ouro sobre o esplendor adorado do sexo… Agora
fitava as flores secas. Junto dela, o filho, pequeno animal sem vontade, sem
vida, que lhe chegava aos lábios um copo d’água.

Sobrara-lhe um filho nos desperdícios do passado, para vigiar-lhe
a agonia. Ninguém mais, ninguém mais, nem Deus com ela: apenas
as flores do desespero e aquele copo d’água de vez em quando, que ela
sorvia como uma medicina amarga de lágrimas…

As Canções sem Metro

Vibrações

Comme des longs échos qui de loin se confondent
Dans une ténébreuse et profonde unité,
Vaste comme la nuit et comme la clarté,
Les parfums, les couleurs et les sons se repondent.
C. BAUDELAIRE

Vibrar, viver. Vibra o abismo etéreo à música das esferas;
vibra a convulsão do verme, no segredo subterrâneo dos túmulos.
Vive a luz, vive o perfume, vive o som, vive a putrefação. Vivem
à semelhança os ânimos.

A harpa do sentimento canta no peito, ora o entusiasmo, um hino, ora o adágio
oscilante da cisma. A cada nota, uma cor, tal qual nas vibrações
da luz. O conjunto é a sinfonia das paixões. Eleva-se a gradação
cromática até à suprema intensidade rutilante; baixa
à profunda e escura vibração das elegias.

Sonoridade, colorido: eis o sentimento.

Daí o simbolismo popular das cores.

As Greves

Depois, não carecemos de culpas reprováveis para ter a agitação
popular no Rio de Janeiro. Aí estão as grèves.

Supunha-se que era privilégio das populações operárias
da velha Europa. As grèves foram pouco a pouco emigrando para o nosso
continente; aclimaram-se nos Estados Unidos do Norte; desceram depois pela
carta geográfica e invadiram o Chile. Agora estão na capital
fluminense.

É justiça, contudo, reconhecer que as nossas grèves
de um povo feliz, são calmas e moderadas, quase circunspectas; o que,
longe de enfraquecê-las, deve ao contrário prestigiá-las
diante daquelas contra quem representam.

Em atenção a essa mesma brandura dos que reclamam, devem os
patrões cuidar em atendê-los da melhor vontade.

A indústria mal começa a existir entre nós, a opinião
operária, por assim dizer, começa apenas a constituir-se. Mas
com o natural progresso ela há de ter voto enérgico, aqui como
em toda parte, e é bom que aqueles de quem o acordo mais depende, para
estabelecer-se entre o capital e o trabalho, vão desde já implantando,
entre os seus subordinados, pela eqüidade das concessões, os hábitos
de harmonia e mútuo bom humor indispensáveis à vida econômica
da produção. E para que regatear em um dia o que no dia seguinte
se vai conceder? O meio-tempo não passa de um prazo útil de
azedume.

Dir-se-á que, enquanto a impaciência dos grevistas vai e vem,
folgam alguns lucros. Mas a indústria não é com certeza
uma coisa efêmera, que se adstrinja às vantagens de um momento.

E resistir é unicamente adiar, isto mesmo quando a resistência
é profícua; e adiar é instituir a reclamação
perpétua em regime; é arvorar em mal crônico uma crise
passageira. Acrescendo a consciência de que a resistência fatalmente
sucumbirá por fim, o que a faz insensata sobre malévola.

Reparem bem no que é a grève.

A grève é a transformação moderna da guerra.

Ë mais do que a transformação: é a própria
guerra invertida. A guerra é um movimento de agressão; a grève
é a imobilidade agressiva. A grève dispõe da mais poderosa
das forças da natureza, a celebrada força da inércia.
Pela guerra o soldado vence o inimigo; pela grève faria coisa mais
difícil: venceria o comandante. Se a guerra e a grève se confundissem,
por efeito de uma conspiração generosa das classes armadas,
a guerra seria abolida: o monstro inquieto das ambições internacionais
morreria paralítico.

Esta reforma da estratégia das lutas sociais veio da alteração
da índole dos povos. A sociedade atual tem no Oriente do seu futuro
uma aurora evidente de paz.

Paz no velho sentido da palavra. O progresso industrial e a decadência
da guerra proporcionam-se entre si inevitavelmente. O século XIX, chamado
século do operário, tem fabricado armas de guerra incomparavelmente
mais do que nenhum outro; mas, apreciando-o com justiça, não
custa descobrir que ela as fabrica muito mais para vender do que para matar.
Não há dúvida. A paz aí vem. E porque ela promete
vir, os homens foram pensando em fazer dela mesmo… como diremos? arma de
guerra. Guerra aqui em sentido moderno. E, como se sabe dos compêndios
de tática que a guerra é principalmente a mobilização,
recorreu-se ao princípio contrário da imobilização,
para conhecer-lhe a eficácia hostilizadora. O velho princípio
da hostilidade é atacar; o novo princípio é não
atacar, mas em compensação não fazer mais nada. Braços
cruzados! tornou-se um grito de campanha mais perigoso do que o anacrônico
— Às armas! Com a velha guerra corria o sangue, o que era mau;
com a grève nova deixam de correr os juros, o que é mil vezes
pior.

Vejam lá os chefes industriais que incômoda situação
lhes pode reservar a teoria da resistência.

Entre nós porque a massa dos trabalhadores não é numerosa
e a imigração de pessoal para o trabalho é quotidiana,
ainda pode haver o apelo para gente nova, em substituição dos
seus antecessores incontestados. Basta, porém, que se forme o povo
operário domiciliado e que possa a cabala de classe girar melhor, com
a intimidade de próximas e antigas camaradagens, para que já
não haja outro recurso senão, como na Europa desabusada, o das
absurdas coações brutais e mortíferas.

Azul, Ciúme

Céu e oceano, a soledade sem fim. O ciúme é isolamento,
queixa sem ecos do coração solitário.

Ao despertar, estava só na triste câmara. Enferma e abandonada!
Calcadas aos pés as juras de ontem, como destroços de um ídolo
quebrado. Fronteira ao leito, a janela parecia alargar-se mais e mais para
mostrar o firmamento. Sob o reflexo azul sonhara Rosita o abandono, eles felizes
numa concha de safira, levados à flor do grande lago, docemente, cantando,
docemente, se a barcarola os levasse. Morreu, fechando na pálpebra
a estampa diurna daquele azul fundo, deserto

Branco, Paz

Arminho imaculado e virginais capelas, o sagrado leito das mães, o
rosto calmo dos mortos, os tranqüilos fantasmas.

"Terminada a luta, minha boa Irene. Torno a ver-te enfim e aos queridinhos.
Ver-me-ás também. Como se fica velho neste ambiente de pólvora
queimada!"

Dizia assim a carta, datada do acampamento. Irene ergueu os olhos para a
tarde, os olhos rasos de pranto. Expirava o crepúsculo na ditosa agonia
dos patriarcas, lenta e mansa; errava no ocidente a neblina lúcida
da última hora, saudade apenas no dia extinto. A estrela plácida
das tardes parecia olhar a terra; em frente alava-se a lua e o luar noctâmbulo
ia, pelos caminhos, semeando a difusão suavíssima da paz.

Irene abandonou-se ao êxtase contemplativo, gozando o crepúsculo,
como se lhe invadisse o sentimento a letargia edênica do anoitecer.

Indústria

Que la fournaise flambe, et que les lourds marteaux,
Nuit et jour et sans fin, tourmentent les métaux!

A. BRIZEUX.

O homem bate-se contra o mundo.

Cada força viva é um inimigo. À parte a luta das paixões, trava-se na sociedade
a batalha perene das indústrias. Combate-se contra o tempo que atrasa e contra
a distância que afasta.

A locomotiva atravessa as planícies como um turbilhão de ferro; a rede nervosa
da telegrafia cria a simultaneidade e a solidariedade na face do globo; o
steamer suprime o oceano; o milagre de Guttemberg precipita em tempestade
as idéias, reduzindo o esforço cerebral; exacerbam-se os ímpetos produtores
do solo, com a energia vertiginosa das máquinas. Vibram as cidades ao rumor
homérico das caldeiras.

Cada dia, o combate ganha uma nova feição e o ventre fecundo, o ventre inexaurível
das forjas, para as novas pugnas, produz novas armas. Bendita febre industrial!
Bendito o operário, mártir das indústrias! Estenda-se por todo o firmamento
o fumo que paira sobre as cidades, vele aos nossos olhos os abismos da amplidão
e os signos impenetráveis das esferas.

Inverno

Ya la esperanza a los hombres
Para siempre abandonó:
Los recuerdos son tan solo
Pasto de su corazon.

J. DE ESPRONCEDA.
(El Diablo mundo).

Inverno! inverno! inverno! Tristes nevoeiros, frios negrumes da longa treva
boreal, descampados de gelo cujo limite escapa-nos sempre, desesperadamente,
para lá do horizonte, perpétua solidão inóspita, onde apenas se ouve a voz
do vento que passa uivando como uma legião de lobos, através da cidade de
catedrais e túmulos de cristal na planície, fantasmas que a miragem povoam
e animam, tudo isto: decepções, obscuridade, solidão, desespero e a hora invisível
que passa como o vento, tudo isto é o frio inverno da vida.

Há no espírito o luto profundo daquele céu de bruma dos lugares onde a natureza
dorme por meses, à espera do sol avaro que não vem.

Nem ao menos a letargia acorda ao clarão de falsas auroras, nem uma vez ao
menos a cúpula unida das névoas abre um postigo para o outro céu, a região
dos astros. Nada! Nada! Procuramos encontrar fora de nós alguma coisa do que
nos falta e os pobres olhos cansados não vão além dos cabelos brancos que
caem pela fronte; sofre-se o desengano do invernado que da fria choupana contasse
ver a seara loura dos bons dias por entre as franjas de neve que os tetos
babam ao frio.

Tudo sombrio e triste. Triste o derradeiro consolo do inverno que embriaga
entretanto como o último vinho dos condenados: a recordação dos dias idos,
a acerba saudade da primavera.

Negro, Morte

O contraste da luz é a noite negra.

Sente-se na epiderme a carícia do calefrio; envolve-nos um clima glacial;
estranha brisa penetra-nos, feita de agulhas de gelo. Em vão flameja
o sol a pino. Sente-se dentro na altura a noite negra, invernosa, polar; sofre-se
o contato da Sombra. Tudo trevas, sinistramente trevas. O dia, resplandecente
na alvura dos edifícios, produz o efeito da prata nos catafalcos. Vemos
as flores, o prado. Monstros! Reclamam a carne do pé que os pisa; o
verme sôfrego espreita-nos através da terra… Rir?! Mas o riso
tem a cruel vantagem de acentuar, sob a pele, a caveira…

Há destas escuras noites no espírito.

O Ventre

A atração sideral é uma forma do egoísmo. O equilíbrio dos egoísmos, derivado
em turbilhão, faz a ordem nas cousas. Passa-se assim em presença do homem:
a fúria sedenta das raízes penetra a terra buscando alimento; na espessura,
o leão persegue o antílope; nas frondes, vingam os pomos assassinando as flores.
O egoísmo cobiça a destruição. A sede inabrandável do mar tenta beber o rio,
o rio pretende dar vazão às nuvens, a nuvem ambiciona sorver o oceano. E vivem
perpetuamente as flores, e vivem os animais nas brenhas, e vive a floresta;
o rio corre sempre, a nuvem reaparece ainda. Esta luta de morte é o quadro
estupendo da vida na terra; como o equilíbrio das atrações ávidas dos mundos,
trégua forçada de ódios, apelida-se a paz dos céus. A fome é a suprema doutrina.
Consumir é a lei. A chama devora e cintila; a terra devora e floresce; o tigre
devora e ama.

O abismo prenhe de auroras alimenta-se de séculos.

A ordem social também é o turbilhão perene ao redor de um centro. Giram as
instituições, gravitam as hipocrisias, passam os Estados, bradam as cidades…
O ventre, soberano como um deus, preside e engorda.

Rosa, Amor

O sorrir das virgens, e o adorável pudor, e a primeira luz da manhã.

Esta criança pensativa. Acompanha com a vista o revoar dos pombos;
escuta o misterioso segredo dos casais pousados. Vive-lhe ainda no semblante
a candura da infância e nos formosos cabelos o cálido aroma do
berço. Súbito, duas pombas partem. Vão. Longe, são
como pontos brancos no azul; o bater das asas imita cintilações:
vão, espaço a fora, estrelas enamoradas.

A cismadora criança experimenta a vertigem do azul e a alma escapa,
sedenta de amplidão, e voa ao encalço das estrelas.

Há noites de pavor nas almas, há belos dias igualmente e gratas
expansões matinais, auroras de rosa como em Homero.

Há também nas almas o incolor diáfano do vidro.

Dinheiro, amor, honraria, sucesso, nada me falta. O programa das ambições
tracei, realizei. Tive a meu serviço a inteligência estudiosa
do Ocidente e a sensualidade amestrada do Levante. Tive por mim as mulheres
como deusas e os homens como cães. Nada me falta e disto padeço.
Todos dizem: aspiração! e eu não aspiro. Todos sentem
a música do universo e a harmonia colorida dos aspectos. Para mim só,
vítima da saciedade! tudo é vazio, escancarado, nulo como um
bocejo.

E os dias passam, que vou contando lento, lento torturado pela implacável
cor de vidro que me persegue.

Há, enfim, a coloração indistinta dos sentimentos, nas
almas deformadas.

Veio de longe, muito longe, mísero! Teve outrora um céu, uma
pátria, muitas afeições, a cabana da aldeia. Agora só
tem o ódio. O ódio mora-lhe no peito, como um tigre na furna.
Tiraram-lhe a pátria, a companheira, votaram-lhe à morte os
filhos, as filhas à torpeza; deram-lhe em compensação…
Mostrava a face preta, o sangue a correr. Quem são os teus algozes?

– Os homens brancos.

Ela odeia os homens brancos; odeia a torre aguda, ao longe, como um punhal
voltado contra os céus: odeia o trem medonho de fogo e ferro, que muge
e passa, troando, escândalo do ermo.

Roxo, Tristeza

Tinta tomada à palheta do ocaso e às flores da morte.

Alegre, ela. Muita luz no espaço; bailava no ar o cântico sereno
da manhã; na relva os arbustos orvalhados tinham um pequenino sol em
cada folha. Somente as violetas sofriam, pungidas pelo dia.

Outra manhã, tudo mudado. Na atmosfera, um torpor gélido e
sombrio. Os extremos da paisagem gastam-se na cerração como
as orlas de uma pintura velha: nem sol nem pássaros na relva.

Agora, órfã.

As violetas revivem, as melancólicas, desabrochando em suspiros, sob
as lágrimas da chuva.

Verão

La Débauche et la Mort sont deux animables filles,
Prodigues de baisers et riches de santé,
Dont le flanc toujours vierge et drapé de guenilles
Sous l’éternel labeur n’a jamais enfanté.

C. BAUDELAIRE

O verão é o êxtase do fogo. Desabrocha francamente a primavera púbere. O
esplendor viçoso das formas da juventude aguarda a carícia da asa do estio
que aquece e fecunda.

Chega então a festa do amor, a orgia do fogo. Fulge no abrasado zênite o
sol, como um troféu de espadas nuas e a natureza enleada pelas serpentes da
lascívia estival, debate-se à luz, vencida, — bela amante que sucumbe ao amor
carnívoro, pungente de um semideus guerreiro, na própria tenda de campanha,
bêbedo ainda do furor do recontro, excitado pelo cheiro cruento da matança.
Ser amada assim! suspirava a selvagem Rute, meiga e aérea criança, no fundo
misterioso do sangue.

Amor de verão! Viver a intensidade mortal da vida, arder, arder e morrer,
como o fogo que cresce, cresce e de si mesmo morre, enfermo do seu triunfo.

Verde, Esperança

A impetuosa alegria da terra, à passagem de Flora, a primavera verde,
compromisso maternal do outono e da opulência.

Náufragos no mar.

Sem pão, sem rumo. Em roda, o gume afiado do horizonte, a reverberação
do sol nas águas e o silêncio solene da calmaria. A vela do barco,
flácida, pendente – imagem do abatimento. Ligeira viração
depois; denso nevoeiro… quatro dias! sudário de brumas que envolve
o barco, elimina o céu. Vão acabar assim, amortalhados na bruma.
Um ramo, apenas, sobre as águas, um ramo cor da esperança. Salvos!
Adivinha-se o continente salvador através da névoa e o panorama
verde das florestas

Vermelho, Guerra

Sangue, cólera, vingança, os hinos marciais, golpes, o incêndio,
vermelho o manto dos tiranos e Marte, o astro dos combates.

Da casinha à beira-mar, olhos em febre, a velha mãe argüía
a distância. Lá, mergulhara o vapor que lhe roubava o filho para
a guerra. A tarde passa e a noite; a velha, imóvel, marmorizada na
dor, como uma escultura do Stabat Mater. E vem a aurora, uma aurora brutal
de chama e sangue. A mãe do soldado caiu como morta.

Ouvira, das bandas da aurora, um grito de morte e a voz perdida do agonizante
era a voz do filho.

Viação Urbana

Sem sair do assunto de viação urbana.

Os carros do Rio de Janeiro fazem a sua vida e a sua sociedade a par da população
humana, infelizmente algumas vezes por cima dela; uma vida interessante cheia
de episódios, de animação, de variedade.

Os veículos têm o seu caráter e vive cada um a seu modo;
uns são aristocráticos, outros são plebeus; uns são
ativos, outros são lerdos; há ricos e pobres, modestos e arrogantes,
honrados e perversos. Têm suas paixões: o caminhão odeia
o bond, o bond odeia a vitória. Brigam freqüentemente, sempre
tal qual a sociedade dos homens, o mais forte, mesmo o mais injusto, tomando-lhe
o lugar, ou esmagando o mais fraco. Através dessas intrigas rodantes,
passa a honrada carroça, séria, com a sua carga de granito talhado
a balançar de cadeias de ferro, rude e válida como o trabalho.
Ninguém lhe toque, ela vai séria e grave o seu caminho: O bond
bate-lhe tanto pior: perde a plataforma. O landau brazonado roça-lhe
insolente, com o pára-lama mete-lhe a lanterna à cara: perde
o pára-lama, perde a lanterna.

Fora da intriga geral, passa também o carrinho do pão, madrugador
e ativo, como que a gritar com o estrépito das rodas que a atividade
é que dá o pão; passa o tílburi leviano e célere,
salvando-se da sua fraqueza pela celeridade, como os veados esquivando-se,
fugindo, passando sempre adiante; esperto como um bom arranjador da vida,
furtando aqui e ali um pouco de trilho ao bond, como a mostrar que a esperteza
e a consciência não são geralmente predicadas complementares.
Mas o que mais interessa da vida dos veículos é a hipótese
referida em que eles, que fazem a vida ao lado da vida da população
humana, dão muita vez para fazê-la por cima. ..

Mais interessante porque mais gravemente nos afeta, e porque é um
ponto de discussão.

É a questão da responsabilidade dos cocheiros.

Ainda esta semana, no Campo da Aclamação, deu-se um horrível
desastre. A vítima foi uma mulher. Contundida por um carro da Companhia
de São Cristóvão, teve o coração varado
por um fragmento das costelas, que se lhe quebraram com a pancada do veículo,
e sucumbiu imediatamente. A crônica dos desastres de rua nesta cidade
exagera-se, salvas as proporções, sobre qualquer estatística
congênere dos centros mais populosos, registrando todos os dias tristes
incidentes resultados da imprudência dos cocheiros.

Reclamam-se providências, inventam-se e adotam-se salva-vidas, mas
a epidemia dos sinistros de rua não cessa.

Indagando-se as causas de semelhante mal, considerando que já se tem
atendido a alguma coisa a esse respeito e o mal não decresce, pode-se
com quase certeza o descobrir-lhe a principal origem na impunidade dos cocheiros.

Glosando o tema da imprudência dos transeuntes, a imprensa tem concorrido
para esse regime de injustiça que a favorece aos culpados dos sinistros
de rua, com revoltante violação do princípio da segurança
pública.

O transeunte, dizem, tem obrigação de ver por onde passa, de
ser atento e prudente. Porventura entenderá quem assim diz, que os
conselheiros gratuitos têm mais interesse em que um desastre não
se dê do que quem pode ser vítima dele? E a atenção
porventura é coisa que imponha como um dever? E não é
patente que aquele que segue, preocupado com os seus graves negócios,
absorvido por qualquer preocupação de sentimento ou de interesse,
tem direito a que a sociedade vele por ele, proteja-lhe os imprudentes descuidos
da sua preocupação.

Porventura poupa ele despesas de segurança, pagas pelos impostos que
o estado a seu favor aplica e aproveita?

Ao condutor de um veículo, entretanto, que é remunerado para
estar atento, que faz profissão da sua habilidade em guiar, livre de
solavancos e desvios, o seu carro, inocenta-se, a pretexto de que o público
deve ter cuidado em não se meter embaixo das rodas.

A respeito disto de prudência do transeunte, é de notar que
as vítimas dos desastres de rua produzido pelos veículos são
em maior número mulheres e crianças, exatamente criaturas às
quais chega a assistir o direito da imprudência.

A opinião seria outra, se para a crítica desta espécie
de crimes desculpados, cuja arma é o peso de uma carruagem, se recordasse
um costume, apenas, dos cocheiros, o que eles têm de "espantar"
para abrir caminho ao seu carro, de espantar precipitando a carreira dos seus
animais sobre o transeunte que lhe passa um tanto demorado por diante das
parelhas.

Assustado efetivamente o pobre, muitas vezes uma velha, um mendigo, um miserável
semi-ébrio, ameaçado literalmente de morte, escapa-se o mais
depressa que pode e o desastre às vezes se evita. Não seria,
contudo, muito mais natural que os cocheiros procedessem por outra manobra,
refreando a carreira do seu carro, estacando o belo galope de seus cavalos,
e esperando, com a paciência de quem faz por salvar a vida de um homem,
que se lhe tenha desfeito em caminho toda a probabilidade do mais horrível
homicídio?

Voto Feminino e Voto Estudantil

Verdade é que não deram voto as mulheres.

Mas as mulheres o que precisam é de mais atenções, de
mais proteção social, não é de mais direitos políticos.

O direito de voto com extensão às mulheres seria a instuição
legal da virago, que é a mais feia da monstruosidade de que dá
cópia a sociedade, ainda pior do que a extravagância oposta do
maricas; porque o defeito deste está na influência e o da virago
está na demasia, e o mal por excesso sempre dá mais na vista.
Viragos já basta que o sejam por necessidade de temperamento algumas
respeitáveis sogras, que entendem tomar excessivamente a sério
o seu papel.

Também o Congresso não deu voto aos estudantes maiores de 18
anos, nem de nenhuma outra idade.

Mas, para que o voto aos estudantes? É preciso que a gente tenha tempo
de ser moço, e ser moço é poder fazer figas a tudo neste
mundo, a começar pela política. Já em São Paulo
o jornal político da Academia matou a serenata. E todos sabem quanto
perdeu a poética cidade dos estudantes, com a morte das guitarras.
E o interessante é que os oradores dos clubs partidários, não
oram hoje como cantavam antigamente os trovadores das orgias ao luar.

O voto aos estudantes seria a consagração desse descalabro
na lei; seria a abolição dos verdes anos, alguma cousa como
a revogação da primavera. Com a idade de 15 anos, de 18 que
fosse, entrava-se em sinistra maioridade e adeus idade dos poemas, adeus uma
boêmia, adeus credores amáveis, adeus mesmo à risonha
mesada, porque as divergências políticas paralisariam muitas
vezes, a manuficência periódica dos cofres paternos. Era começar
logo a vida da responsabilidade, a vida prática… Vida prática.
As escolas sabem o sentido destas duas terríveis palavras na imaginação
de quem ainda a tem ocupada pelo revôo das estrofes e pelo cantar das
rimas.

Já bem pouco de moços têm os moços brasileiros
que tão depressa cedem à preocupação melancólica
da vida, para mais se agravar essa tendência de fraqueza, sobrecarregando-a
com responsabilidades eleitorais.

Nenhum mal faz que mesmo com perda para estatística dos círculos
da cabala se vão deixando os estudantes à estudantina.

Conteúdo Relacionado

 

Veja também

Velhas Árvores

Olavo Bilac PUBLICIDADE Olha estas velhas árvores, — mais belas, Do que as árvores mais …

Plutão – Olavo Bilac

Olavo Bilac PUBLICIDADE Negro, com os olhos em brasa, Bom, fiel e brincalhão, Era a …

O Trabalho – Olavo Bilac

Olavo Bilac PUBLICIDADE Tal como a chuva caída Fecunda a terra, no estio, Para fecundar …

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Time limit is exhausted. Please reload the CAPTCHA.