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Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

O caminho de Carlos Drummond de Andrade estava escrito nas estrelas, na cauda raivosa de um cometa montado por um anjo torto. Aos 15 anos, ele sonhava com o melhor dos mundos e escreveu numa folha de caderno escolar:

Uma onda veio, mansamente, espreguiçar-se nas praias, numa carícia dolente.

Muitos anos depois, este caminho o levava à beira de um abismo e a mesma mão gravou em outra folha de papel:

Ganhei (perdi) meu dia E baixa a coisa fria Também chamada noite, e o frio ao frio Em bruma de entrelaça num suspiro E me pergunto e me respiro Na fuga deste dia que era mil Para mim que esperava Os grandes sóis violentos, me sentia Tão rico neste dia E lá se foi secreto, ao serro frio Perdi minha alma à flor do dia, ou já perdera Bem antes sua vaga pedraria?

O menos místico, talvez o menos religioso dos grandes poetas brasileiros não tirava os olhos do infinito. O Halley, o mais notável dos cometas periódicos (pois aparece a cada 76 anos) , marcou tanto os primeiros anos do futuro poeta não-periódico na galáxia da lira brasileira que ele escreveu mais tarde o poema O Cometa. "A descrição do céu me fascina", observou. "Serei astrônomo na idade provecta, nasci para isto e não sabia. Meus olhos viajarão e explorarão corpos estrelares infinitos e morrerei copernicamente doutor em galáxias." Achou que era o fim do mundo:

Olho o cometa Com deslumbrado horror de sua cauda (...) O sentimento crava unhas Em mim: não tive tempo Nem mesmo de pecar, ou pequei bem?

O menino nada podia contra o universo, mas tentou domá-lo com palavras e assim se tornou parte dele, no seu lado mineral, pétreo, aquoso - entre uma onda, a "coisa fria", a "noite", a "fuga deste dia que era mil", os "sóis violentos", a "vaga pedraria". Não poderia ser diferente.

"Eu era uma pessoa inadaptada à vida social, não sabia como me explicar", disse ele na maturidade. E não era para ter sido assim, segundo o senso comum. Carlos era o nono filho de um fazendeiro e político, um "coronel" daqueles bons, de outrora, Carlos de Paula Andrade, e de Julieta Augusta Drummond, do lar. Ele (morto em 1931) era severo, orgulhoso, autoritário, corajoso e viril, descendente remoto de uma casta de nobres portugueses que incluíam donos de terra ladrões e assassinos. Ela (morta em 1948) era tímida, preocupada apenas com os afazeres domésticos, e descendente remota de nobres escoceses sanguinários que barbarizavam e saqueavam as terras dos vizinhos (o próprio poeta, que fez uma pesquisa sobre suas origens, desistiu de saber mais). Os genes medonhos não impediram, de modo algum, que Carlinhos tivesse um temperamento afável.

Tudo ia muito bem no seu currículo escolar até que o expulsaram do Colégio Anchieta, de Nova Friburgo (RJ), para onde o pai o mandou como aluno interno. Ganhou uma nota 4 em português, "por comiseração", conforme achou, "porque os jesuítas daquele tempo eram diabólicos". Tinha 17 anos.

Escreveu uma carta reclamando que deveria ter recebido nota ainda mais baixa e os padres ficaram indignados com sua "rebeldia de espírito". As conseqüências foram enormes para o aluno. "Num certo sentido, liquidaram com a minha vida", escreveu depois. "Perdi a fé. Perdi tempo. E sobretudo perdi a confiança na justiça dos que me julgavam. Nunca mais fiz um curso regular na vida. Se tivesse tido uma formação cultural mais completa, acredito que pudessem me chamar razoavelmente de escritor

POETA

O poeta Carlos Drummond de Andrade era um sujeito bastante curioso. Defendia a sua intimidade não freqüentando a vida literária do Rio de Janeiro, onde passou grande parte de sua vida, evitando ao máximo a exposição pública e até mesmo entrevistas. Por outro lado, ele mesmo se encarregou de escrever pequenas autobiografias, crônicas em que tratava a si mesmo como sendo um outro e, em surdina, orelhas de alguns de seus livros, mas, neste último caso, sem assiná-las, mantendo-se no esconderijo do anonimato.

Essa ambigüidade de Drummond era um traço forte de sua personalidade. Na poesia lírica, onde a presença do "eu" é parte inerente da composição, isso é obviamente flagrante. Como registrou, sempre com acerto e concisão, o crítico literário Antonio Candido, "sentimos então um problema angustioso: se o alvo da poesia é o próprio eu, pode esta impura matéria privada tornar-se, na sua contingência, objeto de interesse ou contemplação, válido para os outros? A pergunta reaparece periodicamente na obra de Drummond."

Contradição ou não, Drummond balançava entre o mundo e o "eu". Mas não sem angústia, já que em quase todos os textos autobiográficos o poeta zelava pela modéstia, pelo distanciamento, ironizando, como poucos, os acontecimentos pessoais que possam interessar num auto-retrato. É como se diante do espelho o reflexo viesse distorcido, entortado por uma aguda consciência crítica de si mesmo e de sua época. Não que se menosprezasse. O poeta não era um homem tolo e hipócrita. Sabia de suas deficiências, ressaltava-as, mas tinha noção clara da importância de sua poesia e de sua obra para a cultura brasileira.

Dois de seus auto-retratos surgiram de encomendas. Num deles, publicado na Revista Acadêmica, ele próprio fez questão de frisar o caráter de encomenda logo nas primeiras linhas (e também no título), "Autobiografia para uma revista". E assim justificava-se: "Convidado pela Revista Acadêmica a escrever minha autobiografia, relutei a princípio, por me parecer que esse trabalho seria antes de tudo manifestação de impudor. Refleti, logo, porém, que, sendo inevitável a biografia, era preferível que eu próprio a fizesse". Mas a escrita não seria de loas, pois, diz ele, "praticando aparentemente um ato de vaidade, no fundo castigo o meu orgulho, contando sem ênfase os pobres e miúdos acontecimentos que assinalam a minha passagem pelo mundo, e evitando assim qualquer adjetivo ou palavra generosa, com que o redator da revista quisesse, sincero ou não, gratificar-me".

É nesse tom de auto-ironia que o texto, escrito no estilo de suas crônicas, vai se desenrolando. Depois de relatar nascimento, infância, adolescência, primeiros livros publicados, o poeta lança um piparote contra seu poema "No meio do caminho", alvo predileto do próprio Drummond que, em várias situações, usou e abusou da arte do humor refinado para comentar este poema. Não por acaso, símbolo de sua arte poética. É uma espécie de falso desdém, já que o poeta sabia sobejamente que seus repetitivos versos modificaram a maneira de pensar e de conceber a poesia no Brasil, como ele registra no último parágrafo do texto: "Entro para a antologia, não sem registrar que sou o autor confesso de certo poema, insignificante em si, mas que a partir de 1928 vem escandalizando meu tempo, e serve até hoje para dividir no Brasil as pessoas em duas categorias mentais". Na seqüência, ele reproduz "No meio do caminho".

Nos textos em que se retratou ou em algumas das entrevistas que concedeu, Drummond sempre teve de falar sobre esse poema-símbolo de sua poesia. Na segunda crônica, publicada na revista Leitura, em 1943, o poeta modifica o ponto de vista. Coloca-se frente a um espelho, como faria um pintor, e se pincela em terceira pessoa. Este "outro" é tratado como manda o figurino da boa educação, ou seja, por "sr. Carlos Drummond de Andrade", mas logo após inicia a difamação escarninha, como se percebe já nas primeiras linhas: "Diz o espelho: O sr. Carlos Drummond de Andrade é um razoável prosador que se julga bom poeta, no que se ilude. Como prosador, assinou algumas crônicas e alguns contos que revelam certo conhecimento das formas graciosas de expressão, certo humour e malícia. Como poeta, falta-lhe tudo isso e sobram-lhe os seguintes defeitos: é estropiado, antieufônico, desconceituoso, arbitrário, grotesto e tatibitate."

E mais uma vez, o poema-chave: "O sr. Carlos Drummond de Andrade passa por ser o autor de um poema (?) ou que melhor nome tenha, a que deu o título "No meio do caminho". Essa produção corre mundo e é considerada ora obra de gênio ora monumento de estupidez. Na realidade, não é nenhuma dessas coisas, nem pertence ao estro do sr. Drummond. Com efeito, quem se der ao trabalho de examinar-lhe o texto verificará que se trata tão-somente da repetição, oito vezes seguidas, dos substantivos "meio", "caminho" e "pedra", ligados por preposições, artigos e um verbo. Não há nisso poema algum, bom ou mau. Há apenas alguns vocábulos, que podem ser encontrados facilmente no Pequeno Dicionário da Língua Brasileira, revisto pelo sr. Aurélio Buarque de Holanda".

Quanto ao fato de ele ser um homem fechado, que preferia o "sofá de sua velha casa", como disse certa vez, ou visitar alguns (poucos) amigos, ele próprio joga - e se diverte - com as contradições de sua figura pública: "O sr. Drummond de Andrade é um indivíduo oculto, como certos sujeitos da oração, ausente mesmo, usa no trato social palavras poucas e frias. Não é visto no Amarelinho nem na livraria José Olympio. Uns acham-no tímido, outros, convencido. Quando está caceteado na presença de outro escritor, costuma acariciar a orelha com a ponta dos dedos à procura de um fio de cabelo, que arranca discretamente. Em geral não ri".

Nas duas crônicas, nota-se o desejo de marcar claramente que "não há nada de interessante na vida do sr. Carlos Drummond de Andrade, embora ele pense o contrário". Numa entrevista a Homero Sena, em 1945, ano de lançamento de A rosa do povo, livro marcado pelo engajamento social do poeta, ele voltaria a este tópico: "Penso que a biografia do escritor deve ser dada a conhecer ao público quando é movimentada, rica de passagens curiosas e quando os vários lugares em que o mesmo esteve e as pessoas que conheceu influíram de algum modo em sua obra. A vida de Raul Bopp, por exemplo, que já esteve no Japão, na Amazônia, na Califórnia. Não a minha, triste vida de burocrata..."

Drummond manteve-se fiel a essa postura, sempre que precisou falar de si mesmo preferiu ser direto e sem maiores rodeios (menos na poesia, claro, onde tudo é diferente e o próprio "eu" é questionador de si mesmo e do estado das coisas). Em 1984, o poeta, depois de 41 anos na José Olympio, passa para a Record. Na edição de sua Antologia poética, ele próprio se apresenta num rápido e objetivo retrato chamado "Aos novos leitores": "Nasci em Itabira, Minas Gerais, em 1902, e o meio físico e social de minha terra marcou-me profundamente. Pertenço à classe média brasileira. Ganhei a vida como funcionário público e jornalista. Dediquei-me à literatura por prazer. Hoje que estou aposentado naquelas duas atividades, posso considerar-me escritor profissional, pois a fonte principal de meu sustento é resultado do fato de escrever e publicar livros, que o público tem recebido com simpatia".

Claro, o poema-símbolo mais uma vez comparece: "Fui muito criticado e ridicularizado quando jovem. O meu poema "No meio do caminho", composto de dez versos, repete de propósito sete vezes as palavras "tinha" e "pedra", e seis vezes as palavras "meio" e "caminho". Isso foi julgado escandaloso; hoje o poema está traduzido em 17 línguas, e me diverti muito publicando um livro de 194 páginas contendo as descomposturas mais indignadas contra ele, e também os elogios mais entusiásticos." Mas, lembrará o poeta, o tempo passou e "a maioria das opiniões é favorável à minha poesia, e direi até que há talvez excesso de benevolência com relação a ela."

O desfecho desse rápido retrato não deixa de ser melancólico - mas com uma pontada de esperança: "Não tenho pretensão de ser mestre em coisa alguma, e conheço minhas limitações. Depois de praticar a literatura durante mais de 60 anos, publicando 16 livros de prosa e 25 de poesia, não cultivo ilusões, mas continuo acreditando com o mesmo fervor na beleza da palavra e do texto elaborado com arte".

Carlos Drummond de Andrade, que foi Antônio Crispim, Aloísio Goulart, Belmiro Borba, Constantino Serpa, Gato Félix, Inocêncio Raposo, Manoel Fernandes da Rocha, Mickey, Policarpo Quaresma, neto, Puck, Wimpl e tantos outros nomes com os quais assinou várias crônicas, foi também o anônimo e zeloso orelhista de Passeios na ilha, Lição de coisas, Esquecer para lembrar, Discurso de primavera e alguma sombras, livros escritos pelo próprio poeta mineiro Carlos Drummond de Andrade.

Segundo informações recolhidas por Geneton Moraes Neto, em Dossiê Drummond (Ed. Globo), algumas vezes coube ao poeta a tarefa publicitária de escrever a orelha de seus livros. Tudo começou quando, por falta de orelhista, o editor Daniel Pereira pediu a Drummond que as escrevesse. O poeta aceitou a tarefa e acabou escrevendo algumas outras com a justificativa razoável de que era melhor ele próprio escrever do que outra pessoa, que fatalmente se rasgaria em elogios e perderia a objetividade. Conta ainda Pereira que certo crítico, por exemplo, ao escrever uma orelha para um livro de Drummond tascou a palavra "gênio" mais de cinco vezes. Um exagero dispensável num texto de orelha.

O Drummond orelhista via o poeta e prosador Drummond com objetividade, descrevendo o conteúdo do livro, sem tecer elogios desnecessários. Desses quatro livros, o único em prosa é Passeios na ilha, livro de 1952, mas reeditado em 1975, quando então surgiu o texto da orelha. Esta obra se destaca - ao lado de Confissões de Minas (dois livros infelizmente ainda não-reeditados) - pelo ensaísmo. Ou, como ele explica, "neste livro, Carlos Drummond de Andrade foge à crônica propriamente dita, como página de impressões e flagrantes do cotidiano, para se aplicar, de preferência, ao ensaio sobre livros, idéias, personalidades e costumes literários".

Depois de listar os temas versados em seus ensaios (como o reflexivo "Meditação no Alto da Boa Vista", que poderia se encaixar na categoria de poema em prosa), o poeta aborda o caráter irônico de seus textos: "Sua ironia, porém, nunca é destruidora e reflete antes a serenidade de quem, por muito ter visto e ouvido, não cultiva ilusões, mas compreende-as no próximo." Revela-se, assim, o ceticismo marcante de Drummond, mas que tem por objetivo levar o leitor a uma reflexão sobre seu tempo e os acontecimentos que o cercam.

Essa preocupação não é diferente na orelha de Lição de coisas, um dos "clássicos" da poesia drummondiana, publicado em 1962. O mesmo traço "desconfiado" e "sem ilusões" reaparece: "O mundo de sempre, com problemas de hoje, está inevitavelmente projetado nestas páginas. O autor participante de Rosa do Povo, a quem os acontecimentos acabaram entediando, sente-se de novo ofendido por eles, e, sem motivos para esperança, usa entretanto essa extraordinária palavra, talvez para que ela não seja de todo abolida de um texto de nossa época."

Nesta mesma orelha, Drummond orelhista explica a modificação ocorrida em sua poesia. Em Lição de coisas, como toda a crítica observou, o poeta voltou-se para a palavra enquanto objeto concreto de constituição do poema - ou como diziam os concretistas, para a "palavra-coisa". Como ele mesmo explica, o poeta "pratica, mais do que antes, a violação e a desintegração da palavra, sem entretanto aderir a qualquer receita poética vigente". Para bom entendedor, meia palavra basta: Drummond se fixa na palavra enquanto coisa, mas se desvencilha da experiência da poesia concreta, que era presença marcante no panorama da literatura brasileira dos anos 60.

Numa outra passagem da orelha de Lição de coisas, Drummond comenta alguns poemas memorialísticos e, consciente ou não, lança o projeto do que seria, anos mais tarde, a sua série Boitempo, formada por três livros de memória: Boitempo (de 1968), Menino antigo (de 1973) e Esquecer para lembrar (de 1979). É como se ele, obrigado a se reler e se comentar pelo exercício publicitário da orelha, percebesse um veio poético forte brotando em sua obra: "Reminiscências de autor foram reduzidas ao mínimo de anotações - ensaio, possivelmente, de um tipo menos enxundioso de memórias: o objeto visto de relance, com o sujeito reduzido a espelho."

Em crônica publicada no Correio da Manhã, no mesmo período, o cronista Carlos Drummond de Andrade, ou CDA, como gostava de se assinar, fala sobre o poeta, como se esse fosse um outro: "Com a amabilidade que convém aos autores, se quiserem ser lidos, o poeta Carlos Drummond de Andrade oferece-me os dois livros que acaba de publicar: Lição de coisas (editora José Olympio) e Antologia poética (Editora do Autor). A circunstância de tratar-se de homônimo deste cronista não me inibe de lavrar o registro de tais obras".

As observações gerais da crônica sobre Lição de coisas pouco diferem da orelha escrita para o mesmo livro, só tom que é mais irônico (o que é uma característica do gênero): "Não sei se o poeta perdeu a força de irritar, que o distinguia; sei que abre de novo o baú de lembranças, reage contra o excesso de bomba do nosso tempo, narra dramas amorosos e psicológicos do próximo, trata galantemente da cidade do Rio, ex-capital sempre capitalíssima, fala de pombos-correio, fazendas, muladeiros, santas, rende preito a Portinari, a Chaplin, ao pintor colonial Ataíde e a Mário de Andrade, explora a palavra como som e como signo, em aproximações, contrastes, esfoliações, distorções e interpretações endiabradas. Os senhores julgarão por si."

Drummond ainda escreveria mais duas orelhas, a de Discurso de primavera e algumas sombras (de 1977) e a de Esquecer para lembrar (de 1979). No primeiro livro, o poeta destaca a sua própria capacidade de desentranhar poesia de acontecimentos que possam parecer "antipoéticos". Essa capacidade é uma marca d'água de sua obra poética. E é assim que ele a registra na orelha: "Parece antipoético por excelência um tema como a poluição, mas Drummond aplica seus recursos de lirismo para enfrentá-lo extraindo das sombras de hoje (sombras que também aparecem no título da obra) uma advertência tanto aos descuidados e aos indiferentes como aos responsáveis pelo equilíbrio social. O verso adquire assim a utilidade imediata que tem um sinal de alarme ou um grito de S.O.S varando a noite."

É essa mesma capacidade de desentranhador de poemas que Drummond ressaltará na última orelha - até onde se saiba - que ele próprio escreveu, a de Esquecer para lembrar. Depois de listar quase todos os temas desse livro, "constituído de mais de 200 poemas", como observou, o orelhista se pergunta: "Mas é possível fazer poesia com essas coisas? Perguntará, talvez, algum remanescente do convencionalismo literário, que só admitia "temas nobres". Não só é possível como Drummond o comprova: nada é alheio à poesia, quando ela, mediante recursos artísticos, vai ao fundo das coisas e dele extrai substância humana."

A primeira orelha de Drummond, na verdade, foi escrita e assinada por ele mesmo em 1959, para a coletânea Poemas, que reunia nove livros. Tratava-se do poema "Poema-orelha", em que o poeta começa dizendo: "Esta é a orelha do livro/ por onde o poeta escuta/ se dele falam mal/ ou se o amam (...)". Mas no caso da orelhas citadas, a orelha é também onde o poeta fala, no esconderijo do anonimato, sobre sua própria poesia. O que corrobora, de certa maneira, os belos versos finais desse poema: "A orelha pouco explica/ de cuidados terrenos/ e a poesia mais rica/ é um sinal de menos". A orelha só franqueia a entrada para "o jogo e a confissão/ que nem distingo eu mesmo/ o vivido e o inventado".

Fonte: www.estadao.com.br

Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) é considerado o principal poeta da literatura brasileira devido à repercussão e alcance de sua obra. Costuma ser colocado como pertencente à Geração de 30.

Nasceu em Itabira, Minas Gerais, em 31 de outubro de 1902 (cidade cuja memória viria a permear parte de sua obra). A maior parte da vida foi funcionário público, embora tenha começado a escrever desde cedo e manteve a atividade até o fim de sua vida. Faleceu em 17 de agosto de 1987 no Rio de Janeiro, doze dias após a morte de sua única filha.

Sua obra pode ser dividida em fases, ora mais politizadas ou céticas, ora mais intimistas ou sarcársticas.

Além de poesia, produziu contos e crônicas.

Temas típicos da Poesia de Drummond

O Indivíduo: "um eu todo retorcido". o indivíduo na poesia de Drummond é complicado, torturado, estilhaçado.

A Terra Natal: a relação dura e triste com o lugar de origem, que o indivíduo abandona, mas que a terra não abandona o indivíduo.

A Família: O indivíduo interreoga, sem alegria, mas sem sentimentalismo, a estranha realidade familiar, a família que existe nele próprio.

Os Amigos: "cantar de amigos", (título que parafraseia com as Cantigas de Amigo). Homenagens a figuras que o poeta admira, próximas ou distantes, desde Mário de Andrade a Manuel Bandeira, desde Machado de Assis a Charles Chaplin.

O Choque Social: O espaço social onde se expressa o indíviduo e as suas limitações face aos outros.

O Amor: Nada romântico ou sentimental, o amor em Drummond é uma amarga forma de conhecimento dos outros e de si próprio A Poesia: O fazer poético aparece como reflexão ao longo da sua poesia.

Exercícios lúdicos, ou poemas-piada. Jogos com palavras, por vezes de aparente inocência näif, mas que podem levar a reflexões complexas.

A Existência: a questão de estar-no-mundo.

Fonte: pt.wikipedia.org

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