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O Defunto

Eça de Queiroz

I


NO ano de 1474, que foi por toda a Cristandade tão abundante em mercês divinas, reinando em Castela el-rei Henrique IV, veio habitar na cidade de Segóvia, onde herdara moradias e uma horta, um cavaleiro moço, de muito limpa linhagem e gentil parecer, que se chamava D. Rui de Cardenas.

Essa casa, que lhe legara seu tio, arcediago e mestre em cânones, ficava ao lado e na sombra silenciosa da igreja de Nossa Senhora do Pilar; e, em frente, para além do adro, onde cantavam as três bicas de um chafariz antigo, era o escuro e gradeado palácio de D. Alonso de Lara, fidalgo de grande riqueza e maneiras sombrias, que já na madureza da sua idade, todo grisalho, desposara uma menina falada em Castela pela sua alvura, cabelos cor de sol-claro e colo de garça real. D. Rui tivera justamente por madrinha, ao nascer, Nossa Senhora do Pilar, de quem sempre se conservou devoto e fiel servidor; ainda que, sendo de sangue bravo e alegre, amava as armas, a caça, os saraus bem galanteados, e mesmo por vezes uma noite ruidosa de taverna com dados e pichéis de vinho. Por amor, e pelas facilidades desta santa vizinhança, tomara ele o piedoso costume, desde a sua chegada a Segóvia, de visitar todas as manhãs, à hora de Prima, a sua divina madrinha e de lhe pedir, em três Ave-Marias, a bênção e a graça.

Ao escurecer, mesmo depois de alguma rija correria por campo e monte com lebréus ou falcão, ainda voltava para, à saudação de Vésperas, murmurar docemente uma Salve-Rainha.

E todos os domingos comprava no adro, a uma ramalheteira mourisca, algum ramo de junquilhos, ou cravos, ou rosas singelas, que espalhava, com ternura e cuidado galante, em frente ao altar da Senhora.

A esta venerada igreja do Pilar vinha também cada domingo D. Leonor, a tão falada e formosa mulher do senhor de Lara, acompanhada por uma aia carrancuda, de olhos mais abertos e duros que os de uma coruja, e por dois possantes lacaios que a ladeavam e guardavam como torres. Tão ciumento era o senhor D. Alonso que, só por lho haver severamente ordenado o seu confessor, e com medo de ofender a Senhora, sua vizinha, permitia esta visita fugitiva, a que ele ficava espreitando sofregamente, de entre as rexas de uma gelosia, os passos e a demora. Todos os lentos dias da lenta semana os passava a senhora D. Leonor no encerro do gradeado solar de granito negro, não tendo para se recrear e respirar, mesmo nas calmas do Estio, mais que um fundo de jardim verde-negro, cercado de tão altos muros, que apenas se avistava, emergindo deles, aqui, além, alguma ponta de triste cipreste. Mas essa curta visita a Nosa Senhora do Pilar bastou para que D. Rui se enamorasse dela tresloucadamente, na manhã de Maio em que a viu de joelhos ante o altar, numa réstia de sol, aureolada pelos seus cabelos de ouro, com as compridas pestanas pendidas sobre o livro de Horas, o rosário caindo de entre os dedos finos, fina toda ela e macia, e branca, de uma brancura de lírio aberto na sombra, mais branca entre as rendas negras e os negros cetins que à volta do seu corpo cheio de graça se quebravam, em pregas duras, sobre as lajes da capela, velhas lajes de sepulturas. Quando depois dum momento de enleio e de delicioso pasmo se ajoelhou, foi menos para a Virgem do Pilar, sua divina Madrinha, do que para aquela aparição mortal, de quem não sabia o nome nem a vida, e só que por ela daria vida e nome, se ela se rendesse por tão incerto preço. Balbuciando, com uma prece ingrata, as três Ave-Marias com que cada manhã saudava Maria, apanhou o seu sombreiro, desceu levemente a nave sonora e no portal se quedou, esperando por ela entre os mendigos lazarentos que se catavam ao sol. Mas, quando ao cabo de um tempo, em que D. Rui sentiu no coração um desusado bater de ansiedade e medo, a senhora D. Leonor passou e se deteve, molhando os dedos na pia de mármore de água benta, os seus olhos, sob o véu descido, não se ergueram para ele, ou tímidos ou desatentos. Com a aia de olhos muito abertos colada aos vestidos, entre os dois lacaios, como entre duas torres, atravessou vagarosamente o adro, pedra por pedra, gozando decerto, como encarcerada, o desafogado ar e o livre sol que o inundavam. E foi um espanto para D. Rui quando ela penetrou na sombria arcada, de grossos pilares, sobre que assentava o palácio, e desapareceu por uma esguia porta recoberta de ferragens. Era, pois, essa a tão falada D. Leonor, a linda e nobre senhora de Lara...

Então começaram sete arrastados dias, que ele gastou sentado a um poial da sua janela, considerando aquela negra porta recoberta de ferragens como se fosse a do Paraíso, e por ela devesse sair um anjo para lhe anunciar a Bem-Aventurança. Até que chegou o vagaroso domingo: e passando ele no adro, à hora de Prima, ao repicar dos sinos, com um molho de cravos amarelos para a sua divina Madrinha, cruzou D. Leonor, que saía de entre os pilares da escura arcada, branca, doce e pensativa, como uma lua de entre as nuvens. Os cravos quase lhe caíram naquele gostoso alvoroço em que o peito lhe arfou mais que um mar, e a alma toda lhe fugiu em tumulto através do olhar com que a devorava. E ela ergueu também os olhos para D. Rui, mas uns olhos repousados, uns olhos serenos, em que não luzia curiosidade, nem mesmo consciência de se estarem trocando com outros, tão acesos e enegrecidos pelo desejo. O moço cavaleiro não entrou na igreja, com piedoso receio de não prestar à sua Madrinha divina a atenção, que decerto lhe roubaria toda aquela que era só humana, mas dona já do seu coração, e nele divinizada.

Esperou sôfregamente à porta, entre os mendigos, secando os cravos com o ardor das mãos trémulas, pensando quanto era demorado o rosário que ela rezava. Ainda D. Leonor descia a nave, já ele sentia dentro de alma o doce rugir das sedas fortes que ela arrastava nas lajes. A branca senhora passou -e o mesmo distraído olhar, desatento e calmo, que espalhou pelos mendigos e pelo adro, o deixou escorregar sobre ele, ou porque não compreendesse aquele moço que de repente se tornara tão pálido, ou porque não o diferenciava ainda das coisas e das formas indiferentes.

D. Rui abalou, com um fundo suspiro; e, no seu quarto, pôs devotamente ante a imagem da Virgem as flores que não oferecera, na igreja, ao seu altar. Toda a sua vida se tornou então um longo queixume por sentir tão fria e desumana aquela mulher, única entre as mulheres, que prendera e tornara sério o seu coração ligeiro e errante. Numa esperança, a que antevia bem o desengano, começou a rondar os muros altos do jardim - ou embuçado numa capa, com o ombro contra uma esquina, lentas horas se quedava contemplando as grades das gelosias, negras e grossas como as dum cárcere. Os muros não se fendiam, das grades não saía sequer um rasto de luz prometedora. Todo o solar era como um jazigo onde jazia uma insensível, e por trás das frias pedras havia ainda um frio peito. Para se desafogar compôs, com piedoso cuidado, em noites veladas sobre o pergaminho, trovas gementes que o não desafogavam. Diante do altar da Senhora do Pilar, sobre as mesmas lajes onde a vira ajoelhada, pousava ele os joelhos, e ficava, sem palavras de oração, num cismar amargo e doce, esperando que o seu coração serenasse e se consolasse, sob a influência d’Aquela que tudo consola e serena. Mas sempre se erguia mais desditoso e tendo apenas a sensação de quanto eram frias e rígidas as pedras sobre que ajoelhara. O mundo todo só lhe parecia conter rigidez e frieza.

Outras claras manhãs de domingo encontrou D. Leonor: e sempre os olhos dela permaneciam descuidados e como esquecidos, ou quando se cruzavam com os seus era tão singelamente, tão limpos de toda a emoção, que D. Rui os preferiria ofendidos e faiscando de ira, ou soberbamente desviados com soberbo desdém. Decerto D. Leonor já o conhecia: - mas, assim, conhecia também a ramalheteira mourisca agachada diantedo seu cesto à beira da fonte; ou os pobres que se catavam ao sol diante do portal da Senhora. Nem D. Rui já podia pensar que ela fosse desumana e fria. Era apenas soberanamente remota, como uma estrela que nas alturas gira e refulge, sem saber que, em baixo, num mundo que ela não distingue, olhos que ela não suspeita a contemplam, a adoram e lhe entregam o governo da sua ventura e sorte.

Então D. Rui pensou:

- Ela não quer, eu não posso: foi um sonho que findou, e Nossa Senhora a ambos nos tenha na sua graça!

E como era cavaleiro muito discreto, desde que a reconheceu assim inabalável na sua indiferença, não a procurou, nem sequer ergueu mais os olhos para as grades das suas janelas, e até nem penetrava na igreja de Nossa Senhora quando casualmente, do portal, a avistava ajoelhada, com a sua cabeça tão cheia de graça e de ouro, pendida sobre o Livro das Horas.

II

A VELHA aia, de olhos mais abertos e duros que os de uma coruja, não tardara em contar ao senhor de Lara que um moço audaz, de gentil parecer, novo morador nas velhas casas do arcediago, constantemente se atravessava no adro, se postava diante da igreja para atirar o coração pelos olhos à senhora D. Leonor. Bem amargamente o sabia já o ciumento fidalgo, porque quando da sua janela espreitava, como um falcão, a airosa senhora a caminho da igreja, observara os giros, as esperas, os olhares dardejados daquele moço galante - e puxara as barbas de furor. Desde então, na verdade, a sua mais intensa ocupação era odiar D. Rui, o impudente sobrinho do cônego, que ousava erguer o seu baixo desejo até à alta senhora de Lara. Constantemente agora o trazia vigiado por um serviçal - e conhecia todos os seus passos e pousos, e os amigos com quem caçava ou folgava, e até quem lhe talhava os gibões, e até quem lhe polia a espada, e cada hora do seu viver. E mais ansiosamente ainda vigiava D. Leonor - cada um dos seus movimentos, os mais fugitivos modos, os silêncios e o conversar com as aias, as distrações sobre o bordado, o jeito de cismar sob as árvores do jardim, e o ar e a cor com que recolhia da igreja... Mas tão inalteradamente serena, no seu sossego de coração, se mostrava a senhora D. Leonor, que nem o ciúme mais imaginador de culpas poderia achar manchas naquela pura neve. Redobradamente áspero então se voltava o rancor de D. Alonso contra o sobrinho do cônego, por ter apetecido aquela pureza, e aqueles cabelos cor de sol-claro, e aquele colo de garça real, que eram só seus, para esplêndido gosto da sua vida. E quando passeava na sombria galeria do solar, sonora e toda de abóbada, embrulhado na sua samarra orlada de peles, com o bico da barba grisalha espetado para diante, a grenha crespa eriçada para trás e os punhos cerrados, era sempre remoendo o mesmo fel:

- Tentou contra a virtude dela, tentou contra a minha honra... É culpado por duas culpas e merece duas mortes!

Mas ao seu furor quase se misturou um terror, quando soube que D. Rui já não esperava no adro a senhora D. Leonor, nem rondava amorosamente os muros do palacete, nem penetrava na igreja quando ela lá rezava, aos domingos; e que tão inteiramente se alheava dela que uma manhã, estando rente da arcada, e sentindo bem ranger e abrir a porta por onde a senhora ia aparecer, permanecera de costas voltadas, sem se mover, rindo com um cavaleiro gordo que lhe lia um pergaminho. Tão bem afectada indiferença só servia decerto (pensou D. Alonso) a esconder alguma bem danada tenção! Que tramava ele, o destro enganador? Tudo no desabrido fidalgo se exacerbou - ciúme, rancor, vigilância, pesar da sua idade grisalha e feia. No sossego de D. Leonor suspeitou manha e fingimento; - e imediatamente lhe vedou as visitas à Senhora do Pilar.

Nas manhãs costumadas corria ele à igreja para rezar o rosário, a levar as desculpas de D. Leonor - “que no puede venir (murmurava curvado diante do altar) por lo que sabeis, virgem puríssima!” Cuidadosamente visitou e reforçou todos os negros ferrolhos das portas do seu solar.

De noite soltava dois mastins nas sombras do jardim murado.

À cabeceira do vasto leito, junto da mesa onde ficava a lâmpada, um relicário e o copo de vinho quente com canela e cravo para lhe retemperar as forças - luzia sempre uma grande espada numa. Mas, com tantas seguranças, mal dormia - e a cada instante se solevava em sobressalto de entre as fundas almofadas, agarrando a senhora D. Leonor com mão bruta e sôfrega, que lhe pisava o colo, para rugir muito baixo, numa ânsia: “Diz que me queres só a mim!...” Depois, com a alvorada, lá se empoleirava, a espreitar, como um falcão, as janelas de D. Rui. Nunca o avistava, agora, nem à porta da igreja às horas de missa, nem recolhendo do campo, a cavalo, ao toque de Ave-Marias.

E por o sentir assim sumido dos sítios e giros costumados - é que mais o suspeitava dentro do coração de D. Leonor.


Enfim, uma noite, depois de muito trilhar o lajedo da galeria, remoendo surdamente desconfianças e ódios, gritou pelo intendente e ordenou que se preparassem trouxas e cavalgaduras. Cedo, de madrugada, partiria, com a senhora D. Leonor, para a sua herdade de Cabril, a duas léguas de Segóvia! A partida não foi de madrugada, como uma fuga de avarento que vai esconder longe o seu tesouro: - mas realizada com aparato e demora, ficando a liteira diante da arcada, a esperar longas horas, de cortinas abertas, enquanto um cavalariço passeava pelo adro a mula branca do fidalgo, enxairelada à mourisca, e do lado do jardim a récua de machos, carregados de baús, presos às argolas, sob o sol e a mosca, aturdiam a viela com o tilintar dos guizos. Assim D. Rui soube a jornada do senhor de Lara: - e assim a soube toda a cidade.

Fora um grande contentamento para D. Leonor, que gostava de Cabril, dos seus viçosos pomares, dos jardins, para onde abriam, rasgadamente e sem grades, as janelas dos seus aposentos claros: aí ao menos tinha largo ar, pleno sol, e alegretes a regar, um viveiro de pássaros, e tão compridas ruas de loureiro e teixo, que eram quase a liberdade. E depois esperava que no campo se aligeirassem aqueles cuidados que traziam, nos derradeiros tempos, tão enrugado e taciturno seu marido e senhor. Não logrou esta esperança, porque ao cabo de uma semana ainda se não desanuviara a face de D. Alonso - nem decerto havia frescura de arvoredos, sussurros de águas correntes, ou aromas esparsos nos rosais em flor, que calmassem agitação tão amarga e funda. Como em Segóvia, na galeria sonora de grande abóbada, sem descanso passeava, enterrado na sua samarra, com o bico da barba espetado para diante, a grenha basta eriçada para trás, e um jeito de arreganhar silenciosamente o beiço, como se meditasse maldades a que gozava de antemão o sabor acre. E todo o interesse da sua vida se concentrara num serviçal, que constantemente galopava entre Segóvia e Cabril, e que ele por vezes esperava no começo da aldeia, junto ao Cruzeiro, ficando a escutar o homem que desmontava, ofegante, e logo lhe dava novas apressadas.

Uma noite em que D. Leonor, no seu quarto, rezava o terço com as aias, à luz duma tocha de cera, o senhor de Laras entrou muito vagarosamente, trazendo na mão uma folha de pergaminho e uma pena mergulhada no seu tinteiro de osso. Com um rude aceno despediu as aias, que o temiam como a um lobo. E, empurrando um escabelo para junto da mesa, volvendo para D. Leonor a face a que impusera tranquilidade e agrado, como se apenas viesse por coisas naturais e fáceis:

- Senhora - disse - quero que me escrevais aqui uma carta que muito convém escrever...

Tão costumada era nela a submissão, que, sem outro reparo ou curiosidade, indo apenas pendurar na barra do leito o rosário em que rezara, se acomodou sobre o escabelo, e os seus dedos finos, com muita aplicação, para que a letra fosse esmerada e clara, traçaram a primeira linha curta que o Senhor de Lara ditara e era: “Meu cavaleiro...” Mas quando ele ditou a outra, mais longa, e dum modo amargo, D. Leonor arrojou a pena, como se a pena escaldasse, e, recuando da mesa, gritou, numa aflição:

- Senhor, para que convém que eu escreva tais coisas e tão falsas?...

Num brusco furor, o senhor de Lara arrancou do cinto um punhal, que lhe agitou junto à face, rugindo surdamente:

- Ou escreveis o que vos mando e que a mim me convém, ou, por Deus, que vos varo o coração!

Mais branca que a cera da tocha que os alumiava, com a carne arrepiada ante aquele ferro que luzia, num tremor supremo e que tudo aceitava, D. Leonor murmurou:

- Pela Virgem Maria, não me façais mal!... Nem vos agasteis, senhor, que eu vivo para vos obedecer e servir... Agora, mandai, que eu escreverei.

Então, com os punhos cerrados nas bordas da mesa, onde pousara o punhal, esmagando a frágil e desditosa mulher sob o olhar duro que fuzilava, o senhor de Lara ditou, atirou roucamente, aos pedaços, aos repelões, uma carta que dizia, quando finda e traçada em letra bem incerta e trémula: - “Meu cavaleiro: Muito mal haveis compreendido, ou muito mal pagais o amor que vos tenho, e que não vos pude nunca, em Segóvia, mostrar claramente... Agora aqui estou em Cabril, ardendo por vos ver; e se o vosso desejo corresponde ao meu, bem fàcilmente o podeis realizar, pois que meu marido se acha ausente noutra herdade, e esta de Cabril é toda fácil e aberta. Vinde esta noite, entrai pela porta do jardim, do lado da azinhaga, passando o tanque, até ao terraço. Aí avistareis uma escada encostada a uma janela da casa, que é a janela do meu quarto, onde sereis bem docemente agasalhado por quem ansiosamente vos espera...”

- Agora, senhora, assinai por baixo o vosso nome, que isso sobretudo convém!

D. Leonor traçou vagarosamente o seu nome, tão vermelha como se a despissem diante de uma multidão.

- E agora - ordenou o marido mais surdamente, através dos dentes cerrados - endereçai a D. Rui de Cardenas!

Ela ousou erguer os olhos, na surpresa daquele nome desconhecido.

- Andai!... A D. Rui de Cardenas! - gritou o homem sombrio.

E ela endereçou a sua desonesta carta a D. Rui de Cardenas.

D. Alonso meteu o pergaminho no cinto, junto ao punhal que embainhara, e saiu em silêncio com a barba espetada, abafando o rumor dos passos nas lajes do corredor.

Ela ficara sobre o escabelo, as mãos cansadas e caídas no regaço, num infinito espanto, o olhar perdido na escuridão da noite silente. Menos escura lhe parecia a morte que essa escura aventura em que se sentia envolvida e levada!. Quem era esse D. Rui de Cardenas, de quem nunca ouvira falar, que nunca atravessara a sua vida, tão quieta, tão pouco povoada de memórias e de homens? E ele decerto a conhecia, a encontrara, a seguira, ao menos com os olhos, pois que era coisa natural e bem ligada receber dela carta de tanta paixão e promessa...

Assim, um homem, e moço decerto bem nascido, talvez gentil, penetrava no seu destino bruscamente, trazido pela mão de seu marido? Tão ìntimamente mesmo se entranhara esse homem na sua vida, sem que ela se apercebesse, que já para ele se abria de noite a porta do seu jardim, e contra a sua janela, para ele subir, se arrumava de noite uma escada!... E era seu marido que muito secretamente escancarava a porta, e muito secretamente levantava a escada... Para quê?...

Então, num relance, D. Leonor compreendeu a verdade, a vergonhosa verdade, que lhe arrancou um grito ansiado e mal sufocado. Era uma cilada! O senhor de Lara atraía a Cabril esse D. Rui com uma promessa magnífica, para dele se apoderar, e decerto o matar, indefeso e solitário! E ela, o seu amor, o seu corpo, eram as promessas que se faziam rebrilhar ante os olhos seduzidos do moço desventuroso. Assim seu marido usava a sua beleza, o seu leito, como a rede de ouro em que devia cair aquela presa estouvada! Onde haveria maior ofensa? E também quanta imprudência! Bem poderia esse D. Rui de Cardenas desconfiar, não aceder ao convite tão abertamente amoroso, e depois mostrar por toda a Segóvia, rindo e triunfando, aquela carta em que lhe fazia oferta do seu leito e do seu corpo a mulher de Alonso de Lara! Mas não! o desventurado correria a Cabril - e para morrer, miseràvelmente morrer no negro silêncio da noite, sem padre, nem sacramentos, com a alma encharcada em pecado de amor! Para morrer, decerto - porque nunca o senhor de Lara permitiria que vivesse o homem que recebera tal carta. Assim, aquele moço morria por amor dela, e por um amor que, sem lhe saber nunca um gosto, lhe valia logo a morte! Decerto por amor dela - pois que tal ódio do senhor de Lara, ódio que, com tanta deslealdade e vilania, se cevava, só podia nascer de ciúmes, que lhe escureciam todo o dever de cavaleiro e de cristão. Sem dúvida ele surpreendera olhares, passos, tenções deste senhor D. Rui, mal acautelado por bem namorado.

Mas como? quando? Confusamente se lembrava ela de um moço que um domingo a cruzara no adro, a esperara ao portal da igreja, com um molho de cravos na mão... Seria esse? Era de nobre parecer, muito pálido, com grandes olhos negros e quentes. Ela passara - indiferente... Os cravos que segurava na mão eram vermelhos e amarelos... A quem os levava?... Ah! se o pudesse avisar, bem cedo, de madrugada!

Como, se não havia em Cabril serviçal ou aia de quem se fiasse? Mas deixar que uma bruta espada varasse traiçoeiramente aquele coração, que vinha cheio dela, palpitando por ela, todo na esperança dela!.,.

Oh! a desabrida e ardente correria de D. Rui, desde Segóvia a Cabril, com a promessa do encantador jardim aberto, da escada posta contra a janela, sob a mudez e proteção da noite! Mandaria realmente o senhor de Lara encostar uma escada à janela? Decerto, para com mais facilidade o poderem matar, ao pobre, e doce, e inocente moço, quando ele subisse, mal seguro sobre um frágil degrau, as mãos embaraçadas, a espada a dormir na bainha... E assim, na outra noite, em face ao seu leito, a sua janela estaria aberta, e uma escada estaria erguida contra a sua janela à espera de um homem! Emboscado na sombra do quarto, seu marido seguramente mataria esse homem...

Mas se o senhor de Lara esperasse fora dos muros da quinta, assaltasse brutalmente, nalguma azinhaga, aquele D. Rui de Cardenas, e, ou por menos destro, ou por menos forte, num terçar de armas, caísse ele traspassado, sem que o outro conhecesse a quem matara? E ela, ali, no seu quarto, sem saber, e todas as portas abertas, e a escada erguida, e aquele homem assomando à janela na sombra macia da noite tépida, e o marido que a devia defender morto no fundo duma azinhaga... Que faria ela, Virgem Mãe? Oh! decerto repeliria, soberbamente, o moço temerário. Mas o espanto dele e a cólera do seu desejo enganado! “Por Vós é que eu vim chamado, senhora!” E ali trazia, sobre o coração, a carta dela, com seu nome, que a sua mão traçara. Como lhe poderia contar a emboscada e o dolo? Era tão longo de contar, naquele silêncio e solidão da noite, enquanto os olhos dele, húmidos e negros, a estivessem suplicando e trespassando... Desgraçada dela se o senhor de Lara morresse, a deixasse solitária, sem defesa, naquela vasta casa aberta! Mas quanto desgraçada também se aquele moço, chamado por ela, e que a amava, e que por esse amor vinha correndo deslumbrante, encontrasse a morte no sítio da sua esperança, que era o sítio do seu pecado, e, morto em pleno pecado, rolasse para a eterna desesperança... Vinte e cinco anos, ele - se era o mesmo de quem se lembrava, pálido, e tão airoso, com um gibão de veludo roxo e um ramo de cravos na mão, à porta da igreja, em Segóvia...

Duas lágrimas saltaram dos cansados olhos de D. Leonor. E dobrando os joelhos, levantando a alma toda para o céu, onde a Lua se começava a levantar, murmurou, numa infinita magoa e fé:

- Oh! Santa Virgem do Pilar, Senhora minha, vela por nós ambos, vela por todos nós!...

III

D. RUI entrava, pela hora da calma, no fresco pátio da sua casa, quando de um banco de pedra, na sombra, se ergueu um moço de campo, que tirou de dentro do surrão uma carta, lha entregou, murmurando:

- Senhor, daí-vos pressa em ler, que tenho de voltar a Cabril, a quem me mandou...

D. Rui abriu o pergaminho; e, no deslumbramento que o tomou, bateu com ele contra o peito, como para o enterrar no coração...

O moço do campo insistia, inquieto:

- Aviai, senhor, aviai! Nem precisais responder. Basta que me deis um sinal de vos ter vindo o recado...

Muito pálido, D. Rui arrancou uma das luvas bordadas a retrós, que o moço enrolou e sumiu no surrão. E já abalava na ponta das alpercatas leves, quando, com um aceno, D. Rui o deteve:

- Escuta. Que caminho tomas tu para Cabril?

- O mais curto e sòzinho para gente afoita, que é pelo Cerro dos Enforcados.

- Bem.

D. Rui galgou as escadas de pedra, e no seu aposento, sem mesmo tirar o sombreiro, de novo leu junto da gelosia aquele pergaminho divino, em que D. Leonor o chamava de noite ao seu quarto, à posse inteira do seu ser. E não o maravilhava esta oferta - depois de uma tão constante, imperturbada indiferença. Antes nela logo percebeu um amor muito astuto, por ser muito forte, que, com grande paciência, se esconde ante os estorvos e os perigos, e mudamente prepara a sua hora de contentamento, melhor e mais deliciosa por tão preparada. Sempre ela o amara, pois, desde a manhã bendita em que os seus olhos se tinham cruzado no portal de Nossa Senhora. E enquanto ele rondava aqueles muros do jardim, maldizendo uma frieza que lhe parecia mais fria que a dos frios muros, já ela lhe dera a sua alma, e cheia de constância, com amorosa sagacidade, recalcando o menor suspiro, adormecendo desconfianças, preparava a noite radiante em que lhe daria também o seu corpo.

Tanta firmeza, tão fino engenho nas coisas do amor, ainda lha tornavam mais bela e mais apetecida!

Com que impaciência olhava então o Sol, tão desapressado nessa tarde em descer para os montes! Sem repouso, no seu quarto, com as gelosias cerradas para melhor concentrar a sua felicidade, tudo aprontava amorosamente para a triunfal jornada: as finas roupas, as finas rendas, um gibão de veludo negro e as essências perfumadas. Duas vezes desceu à cavalariça a verificar se o seu cavalo estava bem ferrado e bem pensado. Sobre o soalho, vergou e revergou, para a experimentar, a folha da espada que levaria à cinta... Mas o seu maior cuidado era o caminho para Cabril, apesar de bem o conhecer, e a aldeia apinhada em torno ao mosteiro franciscano, e a velha ponte romana com o seu Calvário, e a azinhaga funda que levava à herdade do senhor de Lara. Ainda nessa Inverno por lá passara, indo montear com dois amigos de Astorga, e avistara a torre dos de Lara, e pensara: - “Eis a torre da minha ingrata!” Como se enganava! As noites agora eram de Lua, e ele sairia de Segóvia caladamente, pela porta de S. Mauros. Um galope curto o punha no Cerro dos Enforcados... Bem o conhecia também, esse sítio de tristeza e pavor, com os seus quatro pilares de pedra, onde se enforcavam os criminosos, e onde os seus corpos ficavam, baloiçados da ventania, ressequidos do sol, até que as cordas apodrecessem e as ossadas caíssem, brancas e limpas da carne pelo bico dos corvos. Por trás do cerro era a lagoa das Donas. A derradeira vez que por lá andara, fora em dia do apóstolo S. Matias, quando o corregedor e as confrarias de caridade e paz, em procissão, iam dar sepultura sagrada às ossadas caídas no chão negro, esburgadas pelas aves. Daí o caminho, depois, corria liso e direito a Cabril.

Assim D. Rui meditava a sua jornada venturosa, enquanto a tarde ia caindo. Mas, quando escureceu, e em torno às torres da igreja começaram a girar os morcegos, e nas esquinas do adro se acenderam os nichos das Almas, o valente moço sentiu um medo estranho, o medo daquela felicidade que se acercava e que lhe parecia sobrenatural. Era, pois, certo que essa mulher de divina formosura, famosa em Castela, e mais inacessível que um astro, seria sua, toda sua, no silêncio e segurança duma alcova, dentro em breves instantes, quando ainda se não tivessem apagado diante dos retábulos das Almas aqueles lumes devotos? E o que fizera ele para lograr tão grande bem? Pisara as lajes de um adro, esperara no portal de uma igreja, procurando com os olhos outros dois olhos, que não se erguiam, indiferentes ou desatentos. Então, sem dor, abandonara a sua esperança... E eis que de repente aqueles olhos distraídos o procuram, e aqueles braços fechados se lhe abrem, largos e nus, e com o corpo e com a alma aquela mulher lhe grita: - “Oh! mal-avisado, que não me entendeste! Vem! Quem te desanimou já te pertence!” Houvera jamais igual ventura? Tão alta, tão rara era, que decerto atrás dela, se não erra a lei humana, já devia caminhar a desventura! Já na verdade caminhava; - pois quanta desventura em saber que depois de tal ventura, quando de madrugada, saindo dos divinos braços, ele recolhesse a Segóvia, a sua Leonor, o bem sublime da sua vida, tão inesperadamente adquirido por um instante, recairia logo sob o poder de outro amo!

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