Breaking News
Home / Obras Literárias / A Ilustre Casa de Ramires

A Ilustre Casa de Ramires

PUBLICIDADE

 

Clique nos links abaixo para navegar no capítulo desejado:

 

Eça de Queirós

CAPÍTULO I

Desde as quatro horas da tarde, no calor e silêncio do domingo de junho,
o Fidalgo da Torre, em chinelos, com uma quinzena de linho envergada sobre
a camisa de chita cor-de-rosa, trabalhava. Gonçalo Mendes Ramires (que
naquela sua velha aldeia de Santa Irenéia, e na vila vizinha, a asseada
e vistosa Vila-Clara, e mesmo na cidade, em Oliveira, todos conheciam pelo
“Fidalgo da Torre”) trabalhava numa Novela Histórica, A Torre
de D. Ramires, destinada ao primeiro número dos Anais de Literatura
e de História, revista nova, fundada por José Lúcio Castanheiro,
seu antigo camarada de Coimbra, nos tempos do Cenáculo Patriótico,
em casa das Severinas.

A livraria, clara e larga, escaiolada de azul, com pesadas estantes de pau-preto
onde repousavam no pó e na gravidade das lombadas de carneira, grossos
fólios de convento e de foro, respirava para o pomar por duas janelas,
uma de peitoril e poiais de pedra almofadados de veludo, outra mais rasgada,
de varanda, frescamente perfumada pela madressilva que se enroscava nas grades.
Diante dessa varanda, na claridade forte. pousava a mesa – mesa imensa de
pés torneados, coberta com uma colcha desbotada de damasco vermelho,
e atravancada nessa tarde pelos rijos volumes da História genealógica
todo o Vocabulário de Bluteau, tomos soltos do Panorama, e ao canto,
em pilha, as obras de Walter Scott sustentando um copo cheio de cravos amarelos.
E daí, da sua cadeira de couro, Gonçalo Mendes Ramires, pensativo
diante das tiras de papel almaço, roçando pela testa a rama
de pena de pato, avistava sempre a inspiradora da sua Novela – a Torre, a
antiquíssima Torre, quadrada e negra sobre os limoeiros do pomar que
em redor crescera, com uma pouca de hera no cunhal rachado, as fundas frestas
gradeadas de ferro, as ameias e a miradoura bem cortadas no azul de junho,
robusta sobrevivência do Paço acastelado, da falada Honra de
Santa Irenéia, solar dos Mendes Ramires desde os meados do século
X.

Gonçalo Mendes Ramires (como confessava esse severo genealogista,
o morgado de Cidadelhe) era certamente o mais genuíno e antigo Fidalgo
de Portugal. Raras famílias, mesmo coevas, poderiam traçar a
sua ascendência, por linha varonil e sempre pura, até aos vagos
Senhores que entre Douro e Minho mantinham castelo e terra murada quando os
barões francos desceram, com pendão e caldeira, na hoste do
Borguinhão. E os Ramires entroncavam limpidamente a sua casa, por linha
pura e sempre varonil, no filho do Conde Nuno Mendes, aquele agigantado Ordonho
Mendes, senhor de Treixedo e de Santa Irenéia, que casou em 967 com
Dona Elduara, Condessa de Carrion, filha de Bermudo, o Gotoso, Rei de Leão.

Mais antigo na Espanha que o Condado Portucalense, rijamente, como ele, crescera
e se afamara o Solar de Santa Irenéia – resistente como ele às
fortunas e aos tempos. E depois, em cada lance forte da História de
Portugal. sempre um Mendes Ramires avultou grandiosamente pelo heroísmo,
pela lealdade, pelos nobres espíritos. Um dos mais esforçados
da linhagem, Lourenço, por alcunha o Cortador, colaço dê
Afonso Henriques (com quem na mesma noite, para receber a pranchada de Cavaleiro.
velara as armas na Sé de Zamora), aparece logo na batalha de Ourique,
onde também avista Jesus Cristo sobre finas nuvens de ouro, pregado
numa cruz de dez côvados. No cerco de Tavira, Martim Ramires, freire
de Santiago, arromba a golpes de acha um postigo da Couraça, rompe
por entre as cimitarras que lhe decepam as duas mãos. e surde na quadrela
da torre albarrã, com os dois pulsos a esguichar sangue, bradando alegremente
ao Mestre: – “D. Payo Peres, Tavira é nossa! Real, Real por Portugal!”
O velho Egas Ramires, fechado na sua Torre, com a levadiça erguida,
as barbacãs eriçadas de frecheiros, nega acolhida a El-Rei D.
Fernando e Leonor Teles que corriam o Norte em folgares e caçadas –
para que a presença da adúltera não macule a pureza extrema
do seu solar! Em Aljubarrota, Diogo Ramires o Trovador desbarata um troço
de besteiros, mata o adiantado-mor de Galiza, e por ele, não por outro,
cai derribado pendão real de Castela, em que ao fim da lide seu irmão
de armas, D. Antão de Almada, se embrulhou para o levar, dançando
e cantando, ao Mestre de Avis. Sob os muros de Arzila combatem magnificamente
dois Ramires, o idoso Soeiro e seu neto Fernão, e diante do cadáver
do velho, trespassado por quatro virotes, estirado no pátio da Alcáçova
ao lado do corpo do Conde de Marialva – Afonso V arma juntamente Cavaleiros
o Príncipe seu filho e Fernão Ramires, murmurando entre lágrimas:
“Deus vos queira tão bons como esses que aí jazem… “Mas
eis que Portugal se faz aos mares! E raras são então as armadas
e os combates de Oriente em que se não esforce um Ramires – ficando
na lenda trágico-marítima aquele nobre capitão do golfo
Pérsico, Baltasar Ramires, que, no naufrágio da Santa Bárbara,
reveste a sua pesada armadura, e no castelo de proa, hirto, se afunda em silêncio
com a nau que se afunda, encostado à sua grande espada. Em Alcácer-Quibir,
onde dois Ramires sempre ao lado de El-Rei encontram morte soberba, o mais
novo, Paulo Ramires, pajem do Guião, nem leso nem ferido, mas não
querendo mais vida pois que El-Rei não vivia, colhe um ginete solto,
apanha uma acha de armas, e gritando; – “Vai-te, alma, que já
tardas, servir a de teu senhor!” – entra na chusma mourisca e para sempre
desaparece. Sob os Filipes, os Ramires, amuados, bebem e caçam nas
suas terras. Reaparecendo com os Braganças, um Ramires, Vicente, governador
das Armas de Entre-Douro e Minho por D. João IV, mete a Castela, destroça
os Espanhóis do Conde de Venavente, e toma Fuente Guinal, a cujo furioso
saque preside da varanda de um convento de Franciscanos, em mangas de camisa,
comendo talhadas de melancia. Já, porém, como a nação,
degenera a nobre raça… Álvaro Ramires, valido de D. Pedro
II, brigão façanhudo, atordoa Lisboa com arruaças, furta
a mulher de um Vedor da Fazenda que mandara matar a pauladas por pretos, incendeia
em Sevilha depois de perder cem dobrões uma casa de tavolagem, e termina
por comandar uma urca de piratas na frota de Murad o Maltrapilho. No reinado
do Sr. D. João V Nuno Ramires brilha na Corte, ferra as suas mulas
de prata, e arruina a casa celebrando suntuosas festas de Igreja, em que canta
no coro vestido com o hábito de Irmão Terceiro de S. Francisco.
Outro Ramires, Cristóvão, presidente da Mesa de Consciência
e Ordem, alcovita os amores de El-Rei D. José I com a filha do Prior
de Sacavém. Pedro Ramires, Provedor e Feitor-Mor das Alfândegas,
ganha fama em todo o Reino pela sua obesidade, a sua chalaça, as suas
proezas de glutão no Paço da Bemposta com o Arcebispo de Tessalônica.
Inácio Ramires acompanha D. João VI ao Brasil como Reposteiro-Mor,
negocia em negros, volta com um baú carregado de peças de ouro
que lhe rouba um Administrador, antigo frade capuchinho, e morre no seu solar
da cornada de um boi. O avô de Gonçalo, Damião, doutor
liberal dado às Musas, desembarca com D. Pedro no Mindelo, compõe
as empoladas proclamações do Partido, funda um jornal, o Anti-Frade,
e depois das Guerras Civis arrasta uma existência reumática em
Santa Irenéia, embrulhado no seu capotão de briche, traduzindo
para vernáculo, com um léxicon e um pacote de simonte, as obras
de Valerius Flaccus. O pai de Gonçalo, ora Regenerador, ora Histórico,
vivia em Lisboa no Hotel Universal, gastando as solas pelas escadarias do
Banco Hipotecário e pelo lajedo da Arcada, até que um Ministro
do Reino, cuja concubina, corista de S. Carlos, ele fascinara, o nomeou (para
o afastar da Capital) Governador Civil de Oliveira. Gonçalo, esse,
era bacharel formado com um R no terceiro ano.

E nesse ano justamente se estreou nas Letras Gonçalo Mendes Ramires.
Um seu companheiro de casa, José Lúcio Castanheiro, algarvio
muito magro, muito macilento, de enormes óculos azuis, a quem Simão
Craveiro chamava o “Castanheiro Patriotinheiro”, fundara um Semanário,
a Pátria – “com o alevantado intento (afirmava sonoramente o Prospecto)
de despertar, não só na mocidade Acadêmica. mas em todo
o país, do cabo Sileiro ao cabo de Santa Maria, o amor tão arrefecido
das belezas, das grandezas e das glórias de Portugal!” Devorado
por essa Idéia. “a sua idéia”, sentindo nela uma carreira,
quase uma missão, Castanheiro incessantemente, com ardor teimoso de
Apóstolo, clamava pelos botequins da Sofia, pelos claustros da Universidade,
pelos quartos dos amigos entre a fumaça dos cigarros – “a necessidade,
caramba, de reatar a tradição! de desatulhar, caramba, Portugal
da aluvião do estrangeirismo!” – Como o Semanário apareceu
regularmente durante três domingos. e publicou realmente estudos recheados
de grifos e citações sobre as Capelas das Batalha, a Tomada
de Ormuz, a Embaixada de Tristão da Cunha, começou logo a ser
considerado uma aurora. ainda pálida mas segura, de Renascimento Nacional.
E alguns bons espíritos da Academia, sobretudo os companheiros de casa
do Castanheiro, os três que se ocupavam das coisas do saber e da inteligência
(porque dos três restantes um era homem de cacete e forças, o
outro guitarrista, e o outro “premiado”), passaram. aquecidos por
aquela chama patriótica, a esquadrinhar na Biblioteca, nos grossos
tomos nunca dantes visitados de Fernão Lopes, de Rui de Pina, de Azurara,
proezas e lendas – “só portuguesas. Só nossas; (como suplicava
o Castanheiro), que refizessem à nação abatida uma consciência
da sua heroicidade!” Assim crescia o “Cenáculo Patriótico
da casa das Severinas. E foi então que Gonçalo Mendes Ramires,
moço muito afável, esbelto e loiro, duma brancura sã
de porcelana. com uns finos e risonhos olhos que facilmente se enterneciam,
sempre elegante e apurado na batina e no verniz dos sapatos – apresentou ao
Castanheiro, num domingo depois do almoço, onze tiras de papel intituladas
D. Guiomar. Nelas se contava a velhíssima história da castelã,
que, enquanto longe nas guerras do Ultramar o castelão barbudo e cingido
de ferro atira a acha de armas às portas de Jerusalém, recebe
ela na sua câmara, com os braços nus, por noite de maio e de
lua, o pajem de anelados cabelos… Depois ruge o inverno, o castelão
volta, mais barbudo, com um bordão de romeiro. Pelo vílico do
Castelo, homem espreitador e de amargos sorrisos, conhece a traição,
a mácula no seu nome tão puro, honrado em todas as Espanhas!
E ai do pajem! ai da dama! Logo os sinos tangem a finados. Já no patim
da Alcáçova o verdugo, de capuz escarlate, espera, encostado
ao machado, entre dois cepos cobertos de panos de dó… E no final
choroso da D. Guiomar; como em todas essas histórias do Romanceiro
de Amor, também brotavam rente às duas sepulturas, escavadas
no ermo, duas roseiras brancas a que o vento enlaçava os aromas e as
rosas. De sorte que (como notou José Lúcio Castanheiro, coçando
pensativarnente o queixo) não ressaltava nesta D. Guiomar nada que
fosse “só português, só nosso, abrolhando do solo
e da raça!” Mas esses amores lamentosos passavam num solar de
Riba-Coa: os nomes dos Cavaleiros, Remarigues, Ordonho, Froilás, Gutierres
tinham um delicioso sabor godo: em cada tira ressoavam bravamente os genuínos:
“Bofé… Mentes pela gorja!… Pajem, o meu murzelo! e através
de toda esta vernaculidade circulava uma suficiente turba de cavalariços
com saios alvadios, beguinos sumidos na sombra das cogulas, ovençais
sopesando fartas bolsas de couro, uchões espostejando nédios
lombos de cerdo… A Novela portanto marcava um salutar retrocesso ao sentimento
nacional.

– E depois – acrescentava o Castanheiro – este velhaco do Gonçalinho
surde com um estilo terso, másculo, de boa cor arcaica… De ótima
cor arcaica! Lembra até o Bobo, o Monge de Cister!… A Guiomar, realmente,
é uma castelã vaga, da Bretanha ou da Aquitânia. Mas no
vílico, mesmo no castelão, já transparecem portugueses,
bons portugueses de fibra e de alma, de entre Douro e Cávado… Sim
senhor! Quando o Gonçalinho se enfronhar dentro do nosso passado, das
nossas crônicas, temos enfim nas Letras um homem que sente bem o torrão,
sente bem a raça!

D. Guiomar encheu três páginas da Pátria. Nesse domingo,
para celebrar a sua entrada na Literatura, Gonçalo Mendes Ramires pagou
aos camaradas do Cenáculo e a outros amigos uma ceia onde foi aclamado,
logo depois do frango com ervilhas, quando os moços do Camolino, esbaforidos,
renovavam as garrafas de Colares, como “o nosso Walter Scott!” Ele,
de resto, anunciara já com simplicidade um romance em dois volumes,
fundado nos anais da sua Casa, num rude feito de sublime orgulho de Tructesindo
Mendes Ramires, o amigo e Alferes-Mor de D. Sancho I. Por temperamento, por
aquele saber especial de trajes e alfaias que revelara na D. Guiomar, até
pela antigüidade da sua linhagem, Gonçalinho parecia gloriosamente
votado a restaurar em Portugal o Romance Histórico. Possuía
uma missão e começou logo a passear pela Calçada, pensativo,
com o gorro sobre os olhos, como quem anda reconstruindo um mundo. No ato
desse ano levou o R.

Quando regressou das férias para o Quarto Ano já não
refervia na rua da Matemática o Cenáculo ardente dos Patriotas.
O Castanheiro. formado, vegetava em Vila Real de Santo Antônio: com
ele desaparecera a Pátria: e os moços zelosos que na Biblioteca
esquadrinhavam as Crônicas de Fernão Lopes e de Azurara, desamparados
por aquele Apóstolo que os levantava. recaíram nos romances
de Georges Ohnet e retomaram à noite o taco nos bilhares da Sofia.
Gonçalo voltava também mudado, de luto pelo pai que morrera
em agosto, com a barba crescida, sempre afável e suave, porém
mais grave, averso a ceias e a noites errantes. Tomou um quarto no Hotel Mondego,
onde o servia, de gravata branca, um velho criado de Santa Irenéia,
o Bento: – e os seus companheiros preferidos foram três ou quatro rapazes
que se preparavam para a Política, folheavam atentamente o Diário
das Câmaras, conheciam alguns enredos da Corte, proclamavam a necessidade
duma “Orientação positiva” e dum “largo fomento
rural”, consideravam como leviandade reles e jacobina a irreverência
da Academia pelos Dogmas. e, mesmo passeando ao luar no Choupal ou no Penedo
da Saudade, discorriam com ardor sobre os dois chefes de Partido – o Braz
Victorino, o homem novo dos Regeneradores, e o velho Barão de São
Fulgêncio, chefe clássico dos Históricos. Inclinado para
os Regeneradores, porque a Regeneração lhe representava tradicionalmente
idéias de conservantismo, de elegância culta e de generosidade.
Gonçalo freqüentou então o Centro Regenerador da Couraça.
onde aconselhava à noite, tomando chá preto, “o fortalecimento
da autoridade da Coroa”, e “uma forte expansão colonial!”
Depois, logo na primavera, desmanchou alegremente esta gravidade política:
e ainda tresnoitou, na taberna do Camolino, em bacalhoadas festivas, entre
o estridor das guitarras. Mas não aludiu mais ao seu grande romance
em dois volumes: e ou recuara ou se esquecera da sua missão de Arte
Histórica. Realmente só na Páscoa do Quinto Ano retomou
a pena – para lançar, na Gazeta do Porto, contra um seu patrício,
o Dr. André Cavaleiro, que o Ministério do S. Fulgêncio
nomeara Governador Civil de Oliveira, duas correspondências muito acerbas,
dum rancor intenso e pessoal (a ponto de chasquear “a feroz bigodeira
negra de S. Exa.”). Assinara JUVENAL, como outrora o pai, quando publicava
comunicados políticos de Oliveira nessa mesma Gazeta do Porto, jornal
amigo, onde um Vilar Mendes, seu remoto parente, redigia a Revista Estrangeira.
Mas lera aos amigos no Centro – “os dois botes decisivos que atirariam
o Sr. Cavaleiro abaixo do seu Cavalo!” E um desses moços sérios,
sobrinho do Bispo de Oliveira, não disfarçou o seu assombro:

– Oh Gonçalo, eu sempre pensei que você e o Cavaleiro eram íntimos!
Se bem me lembro quando você chegou a Coimbra, para os Preparatórios,
viveu na casa do Cavaleiro, na rua de S. João… Pois não há
uma amizade tradicional, quase histórica, entre Ramires e Cavaleiros?…
Eu pouco conheço Oliveira, nunca andei para os vossos sítios;
mas até creio que Corinde, a quinta do Cavaleiro, pega com Santa Irenéia!

E Gonçalo enrugou a face, a sua risonha e lisa face, para declarar
secamente que Corinde não pegava com Santa Irenéia: que entre
as duas terras corria muito justificadamente a ribeira do Coice: e que o Sr.
André Cavaleiro, e sobretudo Cavalo, era um animal detestável
que pastava na outra margem! – O sobrinho do Bispo saudou e exclamou:

– Sim senhor, boa piada!

Um ano depois da Formatura, Gonçalo foi a Lisboa por causa da hipoteca
da sua quinta de Praga, junto a Lamego, que certo foro anual de dez réis
e meia galinha, devido ao abade de Praga, andava empecendo terrivelmente nos
Conselhos do Banco Hipotecário; – e também para conhecer mais
estreitamente o seu chefe, o Braz Victorino, mostrar lealdade e submissão
partidária, colher algum fino conselho de conduta Política.
Ora uma noite, voltando de jantar em casa da velha Marquesa de Louredo, a
“tia Louredo”, que morava a Santa Clara, esbarrou no Rossio com
José Lúcio Castanheiro, então empregado no Ministério
da Fazenda, na repartição dos Próprios Nacionais. Mais
defecado, mais macilento, com uns óculos mais largos e mais tenebrosos,
o Castanheiro ardia todo, como em Coimbra, na chama da sua Idéia -“a
ressurreição do sentimento português!” E agora, alargando
a proporções condignas da Capital o plano da Pátria,
labutava devoradoramente na criação duma revista quinzenal,
de setenta páginas, com capa azul, os Anais de Literatura e de História.
Era uma noite de maio, macia e quente. E, passeando ambos em torno das fontes
secas do Rossio, Castanheiro, que sobraçava um rolo de papel e um gordo
fólio encadernado em bezerro, depois de recordar as cavaqueiras geniais
da rua da Misericórdia, de maldizer a falta de intelectualidade de
Vila Real de Santo Antônio – voltou sofregamente à sua Idéia,
e suplicou a Gonçalo Mendes Ramires que lhe cedesse para os Anais esse
Romance que ele anunciara em Coimbra, sobre o seu avoengo Tructesindo Ramires,
Alferes-Mor de Sancho I.

Gonçalo, rindo, confessou que ainda não começara essa
grande obra!

– Ah! – murmurou o Castanheiro, estacando, com os negros óculos sobre
ele, duros e desconsolados. – Então você não persistiu?…
Não permaneceu fiel à Idéia?…

Encolheu os ombros, resignadamente, já acostumado, através
da sua missão, a estes desfalecimentos do Patriotismo. Nem consentiu
que Gonçalo, humilhado perante aquela Fé que se mantivera tão
pura e servidora – aludisse, como desculpa, ao inventário laborioso
da Casa, depois da morte do papá…

– Bem, bem! Acabou! Procrastinare lusitanum est. Trabalha agora no verão…
Para Portugueses, menino, o verão é o tempo das belas fortunas
e dos rijos feitos. No verão nasce Nuno Álvares no Bonjardim!
No verão se vence em Aljubarrota! No verão chega o Gama à
índia!… E no verão vai o nosso Gonçalo escrever uma
novelazinha sublime!… De resto os Anais só aparecem em dezembro,
caracteristicamente no primeiro de dezembro. E você em três meses
ressuscita um mundo. Sério, Gonçalo Mendes!… É um dever,
um santo dever, sobretudo para os novos, colaborar nos Anais. Portugal, menino,
morre por falta de sentimento nacional! Nós estamos imundamente morrendo
do mal de não ser Portugueses!

Parou – ondeou o braço magro, como a correia dum látego, num
gesto que açoitava o Rossio, a Cidade, toda a Nação.
Sabia o amigo Gonçalinho o segredo desta borracheira sinistra? É
que, dos Portugueses, os piores desprezavam a Pátria – e os melhores
ignoravam a Pátria. O remédio?… Revelar Portugal, vulgarizar
Portugal. Sim, amiguinho! Organizar, com estrondo, o reclamo de Portugal,
de modo que todos o conheçam – ao menos como se conhece o Xarope Peitoral
de James, hem? E que todos o adotem – ao menos como se adotou o sabão
do Congo, hem? E conhecido, adotado, que todos o amem enfim, nos seus heróis,
nos seus feitos, mesmo nos seus defeitos, em todos os seus padrões,
e até nas veras pedrinhas das suas calçadas! Para esse fim,
o maior a empreender neste apagado século da nossa História,
fundava ele os Anais. Para berrar! Para atroar Portugal, aos bramidos sobre
os telhados, com a noticia inesperada da sua grandeza! E aos descendentes
dos que outrora fizeram o Reino incumbia, mais que aos outros, o cuidado piedoso
de o refazer… Como? Reatando a tradição, caramba!

Assim, vocês! Por essa história de Portugal fora, vocês
são uma enfiada de Ramires de toda a beleza. Mesmo o desembargador,
o que comeu numa ceia de Natal dois leitões!… E apenas uma barriga.
Mas que barriga! Há nela uma pujança heróica que prova
raça, a raça mais forte do que promete a força humana,
como diz Camões. Dois leitões, caramba! Até enternece!…
E os outros Ramires, o de Silves, o de Aljubarrota, os de Arsila, os da Índia!
E os cinco valentes, de quem você talvez nem saiba, que morreram no
Salado! Pois bem, ressuscitar estes varões, e mostrar neles a alma
façanhuda, o querer sublime que nada verga, é uma soberba lição
aos novos… Tonifica, caramba! Pela consciência que renova de termos
sido tão grandes sacode este chocho consentimento nosso em permanecermos
pequenos! É o que eu chamo reatar a tradição… E depois
feito por você próprio, Ramires, que chic! Caramba, que chic!
É um Fidalgo, o maior Fidalgo de Portugal, que, para mostrar a heroicidade
da Pátria, abre simplesmente, sem sair do seu solar, os arquivos da
sua Casa, velha de mais de mil anos. É de rachar!… E você não
precisa fazer um grosso romance… Nem um romance muito desenvolvido está
na índole militante da revista. Basta um conto, de vinte ou trinta
páginas… Está claro, os Anais por ora não podem pagar.
Também, você não precisa! E que diabo! não se trata
de pecúnia, mas duma grande renovação social… E depois,
menino, a literatura leva a tudo em Portugal. Eu sei que o Gonçalo
em Coimbra, ultimamente, freqüentava o Centro Regenerador. Pois, amigo,
de folhetim em folhetim, se chega a S. Bento! A pena agora, como a espada
outrora, edifica reinos… Pense você nisto! E adeus! que ainda hoje
tenho de copiar, para letra cristã, este estudo do Henriques sobre
Ceilão… Você não conhece o Henriques?… Não
conhece. Ninguém conhece. Pois quando na Europa, nessas grandes Academias
da Europa, há uma dúvida sobre a História ou a Literatura
cingalesa, gritam para cá, para o Henriques!

Abalou, agarrado ao seu rolo e ao seu tomo – e Gonçalo ainda o avistou,
na porta e claridade da tabacaria Nunes, agitando o braço esguio de
Apóstolo diante dum sujeito obeso, de vasto colete branco, que recuava,
com espanto, assim perturbado no quieto gozo do seu grosso charuto e da doce
noite de maio.

O Fidalgo da Torre recolheu para o Bragança, impressionado, ruminando
a idéia do Patriota. Tudo nela o seduzia – e lhe convinha: a sua colaboração
numa revista considerável, de setenta páginas, em companhia
de Escritores doutos, lentes das Escolas, antigos Ministros, até Conselheiros
de Estado: a antigüidade da sua raça, mais antiga que o Reino,
popularizada por uma história de heróica beleza, em que com
tanto fulgor ressaltavam a bravura e a soberba de alma dos Ramires; e enfim
a seriedade acadêmica do seu espírito, o seu nobre gosto pelas
investigações eruditas, aparecendo no momento em que tentava
a carreira do Parlamento e da Política!… E o trabalho, a composição
moral dos vetustos Ramires, a ressurreição arqueológica
do viver Afonsino, as cem tiras de almaço a atulhar de prosa forte
– não o assustavam… Não! porque felizmente já possuía
a “sua obra” – e cortada em bom pano, alinhavada com linha hábil.
Seu tio Duarte, irmão de sua mãe (uma senhora de Guimarães,
da Casa das Balsas), nos seus anos de ociosidade e imaginação,
de 1845 a 1850, entre a sua carta de Bacharel e o seu Alvará de Delegado,
fora poeta – e publicara no Bardo, semanário de Guimarães, um
Poemeto em verso solto, o Castelo de Santa Irenéia, que assinara com
duas iniciais D. B. Esse castelo era o seu, o Paço antiquíssimo
de que restava a negra torre entre os limoeiros da horta. E o Poemeto cantava,
com romântico garbo, um lance de altivez feudal em que se sublimara
Tructesindo Ramires, Alferes-Mor de Sancho I, durante as contendas de Afonso
II e das senhoras Infantas. Esse volume do Bardo, encadernado em marroquim,
com o brasão dos Ramires, o açor negro em campo escarlate, ficara
no Arquivo da Casa como um trecho da Crônica heróica dos Ramires.
E muitas vezes em pequeno Gonçalo recitara, ensinados pela mamã,
os primeiros versos do Poema, dê tão harmoniosa melancolia:

Na palidez da tarde, entre a folhagem
Que o outono amarelece…

Era com esse sombrio feito do seu vago avoengo que Gonçalo Mendes
Ramires decidira em Coimbra, quando os camaradas da Pátria e das ceias
o aclamavam “o nosso Walter Scott”, compor um Romance moderno, dum
realismo épico, em dois robustos volumes, formando um estudo ricamente
colorido da Meia-Idade Portuguesa… E agora lhe servia, e com deliciosa facilidade,
para essa Novela curta e sóbria, de trinta páginas, que convinha
aos Anais.

No seu quarto do Bragança abriu a varanda. E debruçado, acabando
o charuto, na dormente suavidade da noite de maio, ante a majestade silenciosa
do rio e da Lua, pensava regaladamente que nem teria a canseira de esmiuçar
as crônicas e os fólios maçudos… Com efeito! toda a
reconstrução Histórica a realizara, e solidamente, com
um saber destro, o tio Duarte. O Paço acastelado de Santa Irenéia,
com as fundas carcovas, a torre albarrã, a alcáçova,
a masmorra, o farol e o balsão: o velho Tructesindo, enorme, e os seus
flocos de cabelos e barbas ancestrais derramados sobre a loriga de malha;
os servos mouriscos, de surrões de couro, cavando os regueiros da horta;
os oblatos resmungando à lareira as Vidas dos Santos; os pajens jogando
no campo do tavolado – tudo ressurgia, com verídico realce, no Poemeto
do tio Duarte! Ainda recordava mesmo certos lances: o truão açoitado;
o festim e os uchões que arrombavam as cubas de cerveja; a jornada
de Violante Ramires para o Mosteiro de Lorvão…

Junto à fonte mourisca, entre os olmeiros,
A cavalgada pára…

O enredo todo com a sua paixão de grandeza bárbara, os recontros
bravios em que se saciam a punhal os rancores de raça, o heróico
falar despedido de lábios de ferro – lá estavam nos versos do
titi, sonoros e bem balançados…

Monge, escuta! O solar de D. Ramires
Por si, e pedra a pedra se aluíra,
Se jamais um bastardo lhe pisasse,
Com sapato aviltado, as lajes puras!

Na realidade só lhe restava transpor as formas fluidas do Romantismo
de 1846 para a sua prosa tersa e

máscula (como confessava o Castanheiro), de ótima cor arcaica,
lembrando o Bobo. E era um plágio? Não! A quem, com mais seguro
direito do que a ele, Ramires, pertencia a memória dos Ramires históricos?
A ressurreição do velho Portugal, tão bela no Castelo
de Santa Irenéia, não era obra individual do tio Duarte – mas
dos Herculanos, dos Rebelos, das Academias, da erudição esparsa.
E, de resto, quem conhecia hoje esse Poemeto, e mesmo o Bardo, delgado semanário
que perpassara, durante cinco meses, há cinqüenta anos, numa vila
de Província?…! Não hesitou mais, seduzido. E enquanto se
despia, depois de beber aos goles um copo d’água com bicarbonato de
soda, já martelava a primeira linha do conto, à maneira lapidária
da Saíambô: – “Era nos Paços de Santa Irenéia,
por uma noite de inverno, na sala alta da Alcáçova…”

Ao outro dia, procurou José Lúcio Castanheiro na repartição
dos Próprios Nacionais, à pressa – porque, depois duma conferência
no Banco Hipotecário, ainda prometera acompanhar as primas Cheias a
uma Exposição de Bordados na livraria Gomes. E anunciou ao Patriota
que, positivamente, lhe assegurava para o primeiro número dos Anais
a Novela, a que já decidira o título – a Torre de D. Ramires:

– Que lhe parece?

Deslumbrado, José Castanheiro atirou os magríssimos braços,
resguardados pelas mangas de alpaca, até a abóbada do esguio
corredor em que o recebera:

– Sublime!… A Torre de D. Ramires!… O grande feito de Tructesindo Mendes
Ramires contado por Gonçalo Mendes Ramires!… E tudo na mesma Torre!
Na Torre o velho Tructesindo pratica o feito; e setecentos anos depois, na
mesma Torre, o nosso Gonçalo conta o feito! Caramba, menino, carambíssima!
Isso é que é reatar a tradição!

Duas semanas depois, de volta a Santa Irenéia, Gonçalo mandou
um criado da quinta, com uma carroça, a Oliveira, á casa de
seu cunhado José Barrolo, casado com Gracinha Ramires, para lhe trazer
da rica livraria clássica que o Barrolo herdara do tio Deâo da
Sé todos os volumes da História genealógica – “e
(acrescentava numa carta) todos os cartapácios que por lá encontrares
com o título de Crônicas do Rei Fulano’ “~. Depois, do pó
das suas estantes. desenterrou as obras de Walter Scott. volumes desirmanados
do Panorama, a História de Herculano, o Bobo, o Monge de Cister. E
assim abastecido, com uma farta resma de tiras de almaço sobre a banca,
começou a repassar o Poemeto do tio Duarte, inclinado ainda a transpor
para a aspereza duma manhã de dezembro, como mais congênere com
a rudeza feudal dos seus avós, aquela luzida cavalgada de donas, monges
e homens de armas que o tio Duarte estendera, através duma suave melancolia
outonal, pelas veigas do Mondego…

Na palidez da tarde. entre a folhagem
Que o outono amarelece…

Mas. como era então junho e a lua crescia. Gonçalo determinou
por fim aproveitar as sensações de calor, luar e arvoredos,
que lhe fornecia a aldeia – para levantar, logo à entrada da sua Novela.
negro e imenso Paço de Santa Irenéia, no silêncio duma
noite de agosto, sob o resplendor da lua cheia.

E já enchera desembaraçadamente, ajudado pelo Bardo, duas tiras,
quando uma desavença com o seu caseiro. o Manuel Relho. que amanhava
a quinta por oitocentos mil réis de renda, veio perturbar. na fresca
e noviça inspiração do seu trabalho, o Fidalgo da Torre.
Desde o Natal o Relho, que durante anos de compostura e ordem se emborrachava
sempre aos domingos com alegria e com pachorra, começara a tomar, três
e quatro vezes por semana, bebedeiras desabridas, escandalosas, em que espancava
a mulher, atroava a quinta de berros, e saltava para a estrada, esguedelhado,
de varapau, desafiando a quieta aldeia. Por fim, uma noite em que Gonçalo,
à banca, depois do chá, laboriosamente escavava os fossos do
Paço de Santa Irenéia – de repente a Rosa cozinheira rompeu
a gritar: “Aqui d’El-Rei contra o Relho!” E, através dos
seus brados e dos latidos dos cães, uma pedra, depois outra, bateram
na varanda venerável da livraria! Enfiado, Gonçalo Mendes Ramires
pensou no revólver… Mas justamente nessa tarde o criado, o Bento,
descera aquela sua velha e única arma à cozinha para a desenferrujar
e arear! Então, atarantado, correu ao quarto, que fechou à chave,
empurrando contra a porta a cômoda com tão desesperada ansiedade
que frascos de cristal, um cofre de tartaruga, até um crucifixo, tombaram
e se partiram. Depois gritos e latidos findaram no pátio – mas Gonçalo
não se arredou nessa noite daquele refúgio bem defendido, fumando
cigarros, ruminando um furor sentimental contra o Relho, a quem tanto perdoara,
sempre tão afavelmente tratara, e que apedrejava as vidraças
da Torre! Cedo, de manhã convocou o Regedor; a Rosa, ainda trêmula,
mostrou no braço as marcas roxas dos dedos do Relho; e o homem, cujo
arrendamento findava em outubro, foi despedido da quinta com a mulher, a arca
e o catre. Imediatamente apareceu um lavrador dos Bravais, o José Casco,
respeitado em toda a freguesia pela sua seriedade e força espantosa,
propondo ao Fidalgo arrendar a Torre. Gonçalo Mendes Ramires, porém,
já desde a morte do pai, decidira elevar a renda a novecentos e cinqüenta
mil réis: – e o Casco desceu as escadas, de cabeça descaída.
Voltou logo ao outro dia, repercorreu miudamente toda a quinta, esfarelou
a terra entre os dedos, esquadrinhou o curral e a adega, contou as oliveiras
e as cepas: e num esforço, em que lhe arfaram todas as costelas, ofereceu
novecentos e dez mil réis! Gonçalo não cedia, certo da
sua equidade. O José Casco voltou ainda com a mulher; depois, num domingo,
com a mulher e um compadre – e era um coçar lento do queixo rapado,
umas voltas desconfiadas em torno da eira e da horta, umas demoras sumidas
dentro da tulha, que tornavam aquela manhã de junho intoleravelmente
longa ao Fidalgo, sentado num banco de pedra do jardim, debaixo duma mimosa,
com a Gazeta do Porto. Quando o Casco, pálido, lhe veio oferecer novecentos
e trinta mil réis – Gonçalo Mendes Ramires arremessou o jornal,
declarou que ia ele, por sua conta, amanhar a propriedade, mostrar o que era
um torrão rico, tratado pelo saber moderno, com fosfato, com máquinas!
O homem de Bravais, então, arrancou um fundo suspiro, aceitou os novecentos
e cinqüenta mil réis. À maneira antiga o Fidalgo apertou
a mão ao lavrador – que entrou na cozinha a enxugar um largo copo de
vinho, esponjando na testa, nas cordoveias rijas do pescoço, o suor
ansiado que o alagava.

Mas, como entulhada por estes cuidados, a veia abundante de Gonçalo
estancou – não foi mais que um fio arrastado e turvo. Quando nessa
tarde se acomodou à banca, para contar a sala de armas do Paço
de Santa Irenéia por uma noite de lua – só conseguiu converter
servilmente numa prosa aguada os versos lisos do tio Duarte, sem relevo que
os modernizasse, desse majestade senhorial ou beleza saudosa àqueles
maciços muros, onde o luar, deslizando através das reixas, salpicava
centelhas pelas pontas das lanças altas, e pela cimeira dos morriões…
E desde as quatro horas, no calor e silêncio do domingo de junho, labutava.
empurrando a pena como lento arado em chão pedregoso, riscando logo
rancorosamente a linha que sentia deselegante e mole, ora num rebuliço,
a sacudir e reenfiar sob a mesa os chinelos de marroquim, ora imóvel
e abandonado à esterilidade que o travava, cornos olhos esquecidos
na Torre, na sua dificílima Torre, negra entre os limoeiros e o azul,
toda envolta no piar e esvoaçar das andorinhas.

Por fim, descorçoado. arrojou a pena que tão desastrosarnente
emperrara. E fechando na gaveta, com uma pancada, o volume precioso do Bordo:

– Irra! Estou perfeitamente entupido! É este calor! E depois aquele
animal do Casco, toda a manhã!…

Ainda releu, coçando sombriamente a nuca. a derradeira linha rabiscada
e suja:

– “… Na sala altaneira e larga, onde os largos e pálidos raios
da lua…” Larga, largos!… E os pálidos raios, os eternos pálidos
raios!… Também este maldito castelo, tão complicado!… E
este D. Tructesindo, que eu não apanho, tão antigo!… Enfim,
um horror!

Atirou, num repelão, a cadeira de couro; cravou. com furor, um charuto
nos dentes; e abalou da livraria, batendo desesperadamente a porta, num tédio
imenso da sua obra, daqueles confusos e enredados Paços de Santa Irenéia,
e dos seus avós, enormes, ressoantes, chapeados de ferro, e mais vagos
que fumos.

CAPÍTULO II

Bocejando, apertando os cordões das largas pantalonas de seda que
lhe escorregavam da cinta, Gonçalo, que durante todo o dia preguiçara,
estirado no divan de damasco azul, com uma vaga dor nos rins, atravessou languidamente
o quarto para espreitar, no corredor, o antigo relógio de charão.
Cinco horas e meia!… Para desanuviar, pensou numa caminhada pela fresca
estrada dos Bravais. Depois numa visita (devida já desde a Páscoa!)
ao velho Sanches Lucena, eleito novamente deputado, nas Eleições
Gerais de abril, pelo círculo de Vila Clara. Mas a jornada à
Feitosa, à quinta do Sanches Lucena, demandava uma hora a cavalo, desagradável
com aquela teimosa dor nos rins que o filara na véspera à noite,
depois do chá, na Assembléia da Vila. E, indeciso, arrastava
os passos no corredor, para gritar ao Bento ou à Rosa que lhe subissem
uma limonada, quando, através das varandas abertas, ressoou um vozeirão
de grosso metal, que gracejando mais se engrossava, rolava pelo pátio,
numa cadência cava de malho malhando:

– Oh sô Gonçalo! Oh sô Gonçalão! Oh só
Gonçalíssimo Mendes Ramires!…

Reconheceu logo o Titó, o Antônio Vilalobos, seu vago parente,
e seu companheiro de Vila Clara, onde aquele homenzarrão excelente,
de velha raça Alentejana, se estabelecera sem motivo, só por
afeição bucólica à vila. E havia onze anos que
a atulhava com os seus possantes membros, o lento ribombo do seu vozeirão,
e a sua ociosidade espalhada pelos bancos, pelas esquinas, pelas ombreiras
das lojas, pelos balcões das tabernas, pelas sacristias a caturrar
com os padres, até pelo cemitério a filosofar com o coveiro.
Era um irmão do velho morgado de Cidadelhe (o genealogista), que lhe
estabelecera urna mesada de oito moedas para o conservar longe de Cidadelhe
– e do seu sujo serralho de moças do campo, e da obra tenebrosa a que
agora se atrelara, a Verídica Inquirição, uma Inquirição
sobre as bastardias, crimes e títulos ilegítimos das famílias
fidalgas de Portugal. E Gonçalo, desde estudante, amara sempre aquele
Hércules bonacheirão, que o seduzia pela prodigiosa força,
a incomparável potência em beber todo um pipo e em comer todo
um anho, e sobretudo pela independência, uma suprema independência,
que, apoiada ao bengalão terrífico e com as suas oito moedas
dentro da algibeira, nada temia e nada desejava nem da Terra nem do Céu.
– Logo debruçado na varanda, gritou:

– Oh Titó, sobe!… Sobe enquanto eu me visto. Tomas um cálice
de genebra… Vamos depois passear até aos Bravais…

Sentado no rebordo do tanque redondo e sem água que ornava o pátio,
erguendo para o casarão a sua franca e larga face requeimada, cheia
de barba ruiva, o Titó movia lentamente como um leque um velho chapéu
de palha:

– Não posso… Ouve lá! Tu queres hoje à noite cear
no Gago, comigo e com o João Gouveia? Vai também o Videirinha
e o violão. Temos uma tainha assada, uma famosa. E enorme, que eu comprei
esta manhã a uma mulher da Costa por cinco tostões. Assada pelo
Gago!… Entendido, hem? O Gago abre pipa nova de vinho, do abade de Chandim.
Eu conheço o vinho. E daqui, da ponta fina.

E Titó, com dois dedos, delicadamente, sacudiu a ponta mole da orelha.
Mas Gonçalo, repuxando as pantalonas, hesitava:

– Homem, eu ando com o estômago arrasado… E desde ontem à
noite uma dor nos rins, ou no fígado, ou no baço, não
sei bem, numa dessas entranhas!… Até hoje, para o jantar, só
caldo de galinha e galinha cozida… Enfim, vá! Mas, à cautela,
recomenda ao Gago que me prepare para mim um franguinho assado… Onde nos
encontramos? Na Assembléia?

O Titó despegara logo do tanque, pousando na nuca o chapéu
de palha:

– Hoje não me gasto pela Assembléia. Tenho senhora. Das dez
para as dez e meia, no Chafariz… Vai também o Videirinha com a viola.
Viva!… Das dez para as dez e meia! Entendido… E franguinho assado para
S. Exa., que se queixa do rim!

E atravessou o pátio, com lentidão bovina, parando a colher
numa roseira, junto ao portão, uma rosa com que floriu a quinzena de
veludilho cor de azeitona.

Imediatamente Gonçalo decidira não jantar, certo dos benefícios
daquele jejum até às dez horas, depois de um passeio pelos Bravais
e pelo vale da Riosa. E, antes de entrar no quarto para se vestir, empurrou
a porta envidraçada sobre a escura escada da cozinha, gritou pela Rosa
cozinheira. Mas nem a boa velha, nem o Bento por quem também berrou
furiosamente, responderam, no pesado silêncio em que jaziam, como abandonados,
esses sombrios fundos de grande laje e de grande abóbada que restavam
do antigo Palácio, restaurado por Vicente Ramires depois da sua campanha
em Castela, incendiado no tempo de El-Rei D. José I. Então Gonçalo
desceu dois degraus da gasta escadaria de pedra e atirou outro dos longos
brados com que atroava a Torre – desde que as campainhas andavam desmanchadas.
E descia ainda para invadir a cozinha quando a Rosa acudiu. Saíra para
o pátio da horta com a filha da Críspola! não sentira
o Sr. Doutor!…

– Pois estou a berrar há uma hora! E nem você nem Bento!…
E porque não janto. Vou cear à Vila Clara com os amigos.

A Rosa, do sonoro fundo do corredor, protestou, desolada. Pois o Sr. Doutor
ficava assim em jejum até horas da noite? – Filha dum antigo hortelão
da Torre, crescida na Torre, já cozinheira da Torre quando Gonçalo
nascera, sempre o tratara por menino, e mesmo por “seu riquinho”
até que ele partiu para Coimbra e começou a ser, para ela e
para o Bento, o “Sr. Doutor”. – E o Sr. Doutor, ao menos, devia
tornar o caldinho de galinha, que apurara desde o meio-dia, cheirava que nem
feito no céu!

Gonçalo, que nunca discordava da Rosa ou do Bento, consentiu – e já
subia, quando reclamou ainda a Rosa para se informar da Críspola, uma
desgraçada viúva que, com um rancho faminto de crianças,
adoecera pela Páscoa de febres perniciosas.

– A Críspola vai melhor, Sr. Doutor. Já se levanta. Diz a pequena
que já se levanta… Mas muito derreadinha…

Gonçalo desceu logo outro degrau, debruçado na escada, para
mergulhar mais confidencialmente naquelas tristezas: – Olhe, oh Rosa, então
se a pequena aí está, coitada, que leve para casa à mãe
a galinha que eu tinha para jantar. E o caldo… Que leve a panela! Eu tomo
uma chávena de chá com biscoitos. E olhe! Mande também
dez tostões à Críspola… Mande dois mil réis.
Escute! Mas não lhe mande a galinha e o dinheiro assim secamente…
Diga que estimo as melhoras, e que lá passarei por casa para saber.
E esse animal do Bento que me suba água quente!

No quarto, em mangas de camisa, diante do espelho, um imenso espelho rolando
entre colunas douradas, estudou a língua que lhe parecia saburrosa,
depois o branco dos olhos, receando a amarelidão de bílis solta.
E terminou por se contemplar na sua feição nova, agora que rapara
a barba em Lisboa, conservando o bigodinho castanho, frisado e leve, e uma
mosca um pouco longa, que lhe alongava mais a face aquilina e fina, sempre
duma brancura de nata. O seu desconsolo era o cabelo, bem ondeado, mas tênue
e fraco, e, apesar de todas as águas e pomadas, necessitando já
risca mais elevada, quase ao meio da testa clara.

– É infernal! Aos trinta anos estou calvo…

E todavia não se despegava do espelho, numa contemplação
agradada, recordando mesmo a recomendação da tia Louredo, em
Lisboa: -“Oh sobrinho! o menino, assim galante e esperto, não
se enterre na província! Lisboa está sem rapazes. Precisamos
cá um bom Ramires!” – Não! Não se enterraria na
província, imóvel sob a hera e a poeira melancólica das
coisas imóveis, como a sua Torre!… Mas vida elegante em Lisboa, entre
a sua parentela histórica, como a agüentaria com o conto e oitocentos
mil réis de renda que lhe restava, pagas as dívidas do papá?
E depois realmente vida em Lisboa só a desejava com uma posição
política – cadeira em São Bento, influência intelectual
no seu Partido, lentas e seguras avançadas para o Poder. E essa, tão
docemente sonhada em Coimbra, nas fáceis cavaqueiras do Hotel Mondego
– muito remota a entrevia! Quase inconquistável, para além de
um muro alto e áspero, sem porta e sem fenda!… Deputado – como? Agora,
com o horrendo S. Fulgêncio e os Históricos no Ministério
durante três gordos anos, não voltariam Eleições
Gerais. E mesmo nalguma Eleição Suplementar que possibilidade
lograria ele, que, desde Coimbra, bem levianamente, arrastado por uma elegância
de tradições, se manifestara sempre Regenerador, no “Centro”
da Couraça, nas Correspondências para a Gazeta do Porto, nas
verrinas ardentes contra o chefe do Distrito, o Cavaleiro detestável?…
Agora só lhe restava esperar. Esperar, trabalhando; ganhando em consistência
social; edificando com sagacidade, sobre a base do seu imenso nome histórico,
uma pequenina nomeada política; tecendo e estendendo a malha preciosa
das amizades partidárias desde Santa Irenéia até ao Terreiro
do Paço… Sim! eis a teoria esplêndida: – mas consistência,
nomeada, afeições políticas, como se conquistam? “Advogue,
escreva nos jornais!” fora o conselho distraído e risonho do seu
chefe, o Braz Victorino. Advogar em Oliveira, mesmo em Lisboa? Não
podia, com aquele seu horror ingênito, quase filosófico, a autos
e papelada forense. Fundar um jornal em Lisboa como o Ernesto Rangel, seu
companheiro de Coimbra no Hotel Mondego? Era façanha fácil para
o neto adorado da Sra. D. Joaquina Rangel que armazenava dez mil pipas de
vinho nos barracões de Gaia. Batalhar num jornal de Lisboa? Nessas
semanas de Capital, sempre pelo Banco Hipotecário, sempre com as primas.
nem formara relações duráveis e úteis nos dois
grandes Diários Regeneradores, a Manhã e a Verdade… De sorte
que. realmente, nesse muro que o separava da fortuna só descobria um
buraquinho, bem apertado mas serviçal – os Anais de Literatura e de
História, com a sua colaboração de Professores, de Políticos,
até de um Ministro, até de um Almirante, o Guerreiro Araújo,
esse tocante maçador. Apareceria pois nos Anais com a sua Torre, revelando
imaginação e um saber rico. Depois. trepando da Invenção
para o terreno mais respeitável da Erudição, daria um
estudo (que até lhe lembrara no comboio, ao voltar de Lisboa!) sobre
as “Origens Visigóticas do Direito Público em Portugal…”
Oh, nada conhecia, é certo, dessas Origens, desses Visigodos. Mas,
com a bela História da Administração Pública em
Portugal que lhe emprestara o Castanheiro, comporia corrediamente um resumo
elegante… Depois, saltando da Erudição às Ciências
Sociais e Pedagógicas – por que não amassaria urna boa “Reforma
do Ensino Jurídico em Portugal” em dois artigos maçudos,
de Homem de Estado?… Assim avançava, bem chegado aos Regeneradores,
construindo e cinzelando o seu pedestal literário, até que os
Regeneradores voltassem ao Ministério, e no muro se escancarasse a
desejada porta triunfal. – E no meio do quarto, em ceroulas, com as mãos
nas ilhargas, Gonçalo Mendes Ramires concluiu pela necessidade de apressar
a sua Novela.

– Mas, quando acabarei eu essa Torre? Assim emperrado, sem veia, com o fígado
combalido?…

O Bento, velho de face rapada e morena, com um lindo cabelo branco todo encarapinhado,
muito limpo, muito fresco na sua jaqueta de ganga, entrara vagarosamente,
segurando a infusa d’água quente.

– Oh Bento, ouve lá! Tu não encontraste na mala que eu trouxe
de Lisboa, ou no caixote, um frasco de vidro com um pó branco? E um
remédio inglês que me deu o Sr. Dr. Matos… Tem um rótulo
em inglês, com um nome inglês, não sei que, fruit salt…
Quer dizer sal de frutas…

O Bento cravou no soalho os olhos, que depois cerrou, meditando. Sim, no
quarto de lavar, em cima do baú vermelho, ficara um frasco com pó,
embrulhado num pergaminho antigo como os do Arquivo.

– É esse! – declarou Gonçalo. – Eu precisava em Lisboa uns
documentos por causa daquele malvado foro de Praga. E por engano, na balbúrdia,
levo do Arquivo um pergaminho perfeitamente inútil! Vai buscar o rolo…
Mas tem cuidado com o frasco!

O Bento, cuidadoso, sempre lento, ainda enfiou os botões de ágata
nos punhos da camisa do Sr. Doutor, e desdobrou sobre a cama, para ele vestir,
a quinzena, as calças bem vincadas, de cheviote leve. E Gonçalo,
retomado pela idéia de artigos para os Anais, folheava, rente à
janela, a História da Administração Pública em
Portugal, quando Bento voltou com um rolo de pergaminho, donde pendia, por
fitas roídas, um selo de chumbo.

– Esse mesmo! – exclamou o Fidalgo atirando o volume para o poial da janela.
– É esse mesmo que eu enrolei no pergaminho para se não quebrar.
Desembrulha, deixa em cima da cômoda… O Sr. Dr. Matos aconselhou que
o tomasse com água tépida, em jejum. Parece que ferve. E limpa
o sangue, desanuvia a cabeça… Pois eu muito necessitado ando de desanuviar
a cabeça!… Toma tu também, Bento. E diz à Rosa que
torne. Todos tomam agora, até o Papa!

Com cuidado, o Bento desenrolara o frasco, estendendo sobre o mármore
da cômoda o pergaminho duro, onde a letra do século XVI se encarquilhava
amarela e morta. E Gonçalo, abotoando o colarinho:

– Ora aí está o que eu levo preciosamente para deslindar o
foro de Praga! Um pergaminho do tempo de D. Sebastião… E só
percebo mesmo a data, mil quatrocentos… Não, mil quinhentos e setenta
e sete. Nas vésperas da jornada da África… Enfim! serviu para
embrulhar o frasco.

O Bento, que escolhera no gavetão um colete branco, relanceou de lado
o pergaminho venerável:

– Naturalmente foi carta que El-Rei D. Sebastião escreveu a algum
avozinho do Sr. Doutor…

– Naturalmente – murmurava o Fidalgo, diante do espelho. – E para lhe dar
alguma coisa boa, alguma coisa gorda… Antigamente ter Rei era ter renda.
Agora… Não apertes tanto essa fivela, homem! Trago há dias
o estômago inchado… Agora, com efeito, esta instituição
de Rei anda muito safada, Bento!

– Parece que anda – observou gravemente o Bento. – Também, o Século
afiança que os Reis estão a acabar, e por dias. Ainda ontem
afiançava. E o Século é jornal bem informado… No de
hoje, não sei se o Sr. Doutor leu, lá vem a grande festa dos
anos do Sr. Sanches Lucena, e o fogo de vistas, e o bródio que deram
na Feitosa…

Enterrado no divã de damasco, Gonçalo estendera os pés
ao Bento que lhe laçava as botas brancas:

– Esse Sanches Lucena é um idiota! Ora que arranjo fará a esse
homem, aos sessenta anos, ser deputado, passar meses em Lisboa no Francfort,
abandonar as propriedades, deixar aquela linda quinta… E para quê?
Para rosnar de vez em quando “apoiado”! Antes ele me cedesse a cadeira,
a mim, que sou mais esperto, não possuo grandes terras, e gosto do
Hotel Bragança. E por Sanches Lucena… O Joaquim amanhã que
me tenha a égua pronta. a esta hora, para eu ir à Feitosa visitar
esse animal… E ponho então o fato novo de montar que trouxe de Lisboa,
com as polainas altas… Há mais de dois anos que não vejo a
D. Ana Lucena. É uma linda mulher!

– Pois quando o Sr. Doutor estava em Lisboa eles passaram aí, na caleche.
Até pararam, e o Sr. Sanches Lucena apontou para a Torre, a mostrar
à senhora… Mulher muito perfeita! E traz uma grande luneta, com um
grande cabo. e um grande grilhão, tudo de ouro…

– Bravo!… Encharca bem esse lenço com água-de-colônia,
que tenho a cabeça tão pesada!… Essa D. Ana era uma jornaleira,
urna moça do campo, de Corinde?

Bento protestou, com o frasco suspenso, espantado para o Fidalgo:

– Não senhor! A Sra. D. Ana Lucena é de gente muito baixa!
Filha dum carniceiro de Ovar… E o irmão andou a monte por ter morto
o ferrador de Ilhavo.

– Enfim – resumiu Gonçalo-, filha de carniceiro, irmão a monte,
bela mulher, luneta de ouro… Merece fato novo!

Em Vila-Clara, às dez horas, sentado num dos bancos de pedra do Chafariz,
sob as olaias, o Titó esperava com o amigo João Gouveia – que
era o Administrador do Concelho da Vila. Ambos se abanavam com os chapéus,
em silêncio, gozando a frescura e o sussurro da água lenta na
sombra. E a “meia” batia no relógio da Câmara, quando
Gonçalo, que se retardara na Assembléia num voltarete enremissado,
apareceu anunciando uma fome terrível, “a fome histórica
dos Ramires”, e apressando a marcha para o Gago – sem mesmo consentir
que o Titó descesse à tabacaria do Brito, a buscar uma garrafa
de aguardente de cana da Madeira, velha e “da ponta fina…”

– Não há tempo! Ao Gago! Ao Gago!… Senão devoro um
de vocês, com esta furiosa fome Ramírica!

Mas, logo ao subirem a Calçadinha, parou ele cruzando os braços,
interpelando divertidamente o Sr. Administrador do Concelho pelo estupendo
feito do seu Governo… então o seu Governo, os seus amigos Históricos,
o seu honradíssimo S. Fulgêncio – nomeavam, para Governador Civil
de Monforte, o Antônio Moreno! O Antônio Moreno, tão justamente
chamado em Coimbra, Antoninha Morena! Não, realmente, era a derradeira
degradação a que podia rolar um país! Depois desta, para
harmonia perfeita dos serviços, só outra nomeação,
e urgente – a da Joana Salgadeira, Procuradora-Geral da Coroa!

E o João Gouveia, um homem pequeno, muito escuro, muito seco, de bigode
mais duro que piaçava, esticado numa sobrecasaca curta, com o chapéu-de-coco
atirado para a orelha, não discordava. Empregado imparcial, servindo
os Históricos corno servira os Regeneradores, sempre acolhia com imparcial
ironia as nomeações de bacharéis novos, Históricos
ou Regeneradores, para os gordos lugares Administrativos. Mas, neste caso,
sinceramente, quase vomitara, rapazes! Governador Civil, e de Monforte, o
Antônio Moreno, que ele tantas vezes encontrara no quarto, em Coimbra,
vestido de mulher, de roupão aberto, e a carinha bonita coberta de
pó-de-arroz!… – E, travando do braço do Fidalgo, recordava
a noite em que o José Gorjão, muito bêbedo, de cartola
e com um revólver, exigia furiosamente que o Padre Justino, também
bêbedo, o casasse com o Antoninho diante de um nicho da Senhora da Boa
Morte! Mas o Titó, que esperava, floreando o bengalão, declarou
àqueles senhores que se o tempo sobejava para arrastarem assim na rua,
a conversar de Política e de indecências – então voltava
ele ao Brito, buscar a aguardentezinha… Imediatamente o Fidalgo da Torre,
sempre brincalhão, sacudiu o braço do Administrador, e galgou
pela Calçadinha, aos corcovos, com as mãos fortemente juntas,
como colhendo uma rédea, contendo um cavalo que se desboca.

E na sala alta do Gago, ao cimo da escada esguia e íngreme que subia
da taberna, a um canto da comprida mesa alumiada por dois candeeiros de petróleo,
a ceia foi muito alegre, muito saboreada. Gonçalo, que se declarava
miraculosamente curado pelo passeio até os Bravais e pelas emoções
do voltarete em que ganhara dezenove tostões ao Manuel Duarte – começou
por uma pratada de ovos com chouriço, devorou metade da tainha, devastou
o seu “frango de doente”, clareou o prato da salada de pepino, findou
por um montão de ladrilhos de marmelada; e através deste nobre
trabalho, sem que a fina brancura da sua pele se afogueasse, esvaziou uma
caneca vidrada de Alvaralhão, porque logo ao primeiro trago, e com
desgosto do Titó, amaldiçoara o vinho novo do abade. À
sobremesa apareceu o Videirinha, “o Videirinha do violão”,
tocador afamado de Vila-Clara, ajudante de Farmácia, e poeta com versos
de amor e de patriotismo já impressos no Independente de Oliveira.
Jantara nessa tarde, com o violão, em casa do Comendador Barros, que
celebrava o aniversário da sua comenda: e só aceitou um copo
de Alvaralhão, em que esmagou um ladrilho de marmelada “para adocicar
a goela”. Depois, à meia-noite, Gonçalo obrigou o Gago
a espertar o lume, ferver um café “muito forte, um café
terrível, Gago amigo! um café capaz de abrir talento no Sr.
Comendador Barros!” Era essa a hora divina do violão e do “fadinho”.
E já o Videirinha recuara para a sombra da sala, pigarreando, afinando
os bordões, pousado com melancolia à borda dum banco alto.

– A Soledad, Videirinha! – pediu o bom Titó, pensativo, enrolando
um grosso cigarro.

Videirinha gemeu deliciosamente a Soledad:

Quando fores ao cemitério
Ai Soledad, Soledad!…

Depois, apenas ele findou, aclamado, e enquanto acertava as cravelhas, o
Fidalgo da Torre e João Gouveia, com os cotovelos na mesa, os charutos
fumegando, conversaram sobre essa venda de Lourenço Marques aos Ingleses,
preparada sorrateirarnente (conforme clamavam, arrepiados de horror, os jornais
da Oposição) pelo Governo do S. Fulgêncio. E Gonçalo
também se arrepiava! Não com a alienação da Colônia
– mas com a imprudência do S. Fulgêncio! Que aquele careca obeso,
filho sacrílego dum frade que depois se fizera merceeiro em Cabecelhos,
trocasse a libras, para se manter mais dois anos no poder, um pedaço
de Portugal, torrão augusto, trilhado heroicamente pelos Gamas, os
Ataídes, os Castros, os seus próprios avós – era para
ele uma abominação que justificava todas as violências,
mesmo urna revolta, e a casa de Bragança enterrada no lodo do Tejo!
Trincando, sem parar, amêndoas torradas, João Gouveia observou:

– Sejamos justos, Gonçalo Mendes! Olhe que os Regeneradores..

O Fidalgo sorriu superiormente. Ah! se os Regeneradores realizassem essa
grandiosa operação -bem! Esses, primeiramente, nunca cometeriam
a indecência de vender a Ingleses terra de Portugueses! Negociariam
com Franceses, com Italianos, povos latinos, raças fraternas… E depois
os bons milhões soantes seriam aplicados ao fomento do País,
com saber, com probidade, com experiência. Mas esse horrendo careca
do S. Fulgêncio!… – E no seu furor, engasgado, gritou por genebra,
porque realmente aquele cognac do Gago era urna peçonha torpe!

O Titó encolheu os ombros, resignado:

– Não me deixaste ir buscar a aguardentezinha, agora agüenta…
E a genebra é ainda mais peçonhenta. Nem para os negros desse
Lourenço Marques que tu queres vender… Portugueses indecentes, a
vender Portugal! Até o Sr. Administrador do Concelho devia proibir
estas conversas…

Mas o Sr. Administrador do Concelho afirmou que as consentia, e rasgadamente…
Porque também ele, como Governo, venderia Lourenço Marques,
e Moçambique, e toda a Costa oriental! E às talhadas! Em leilão!
Ali, toda a África, posta em praça, apregoada no Terreiro do
Paço! E sabiam os amigos por quê? Pelo são princípio
de forte administração (estendia o braço, meio alçado
do banco, como num Parlamento)… Pelo são princípio de que
todo o proprietário de terras distantes, que não pode valorizar
por falta de dinheiro ou gente, as deve vender para consertar o seu telhado,
estrumar a sua horta, povoar o seu curral, fomentar todo o bom torrão
que pisa com os pés… Ora a Portugal restava toda uma riquíssima
província a amanhar, a regar, a lavrar, a semear – o Alentejo!

O Titó lançou o vozeirão, desdenhando o Alentejo como
uma película de terra de má qualidade, que, fora umas léguas
de campos em torno de Beja e de Serpa, por um grão só dava dois,
e, apenas esgaravatada, logo mostrava o granito…

– O mano João tem lá uma herdade imensa, imensíssima,
que rende trezentos mil réis!

O Administrador, que advogara em Mértola, protestou, encristado. O
Alentejo! Província abandonada, sim! Abandonada miseravelmente, desde
séculos, pela imbecilidade dos governos… Mas riquíssima, fertilíssima!

– Pois então os Árabes… E qual Árabes! Ainda há
dias o Freitas Galvão me contava…

Mas Gonçalo Mendes, que cuspira também a genebra com uma carantonha,
acudiu. num resumo varredor, condenando todo o Alentejo como uma desgraçada
ilusão!

Estirado por sobre a mesa. o Administrador gritava:

– Você já esteve no Alentejo?

– Também nunca estive na China, e…

– Então não fale! Só a vinha espantosa que plantou o
João Maria…

– Quê! Umas cem pipas de zurrapa! Mas, noutros sítios, léguas
e léguas sem…

– Um celeiro!

– Uma charneca!

E através do tumulto o Videirinha, repenicando com solitário
ardor, levado na torrente de ais do “fado” da Anosa, soluçava
contra uns olhos negros, donos do seu coração:

Ai! que dos teus negros olhos
Me vem hoje a perdição…

O petróleo dos candeeiros findava: e o Gago, reclamado para trazer
castiçais, surdiu em mangas de camisa, detrás duma cortina de
chita, com a sua esperta humildade banhada em riso, lembrando a Suas Excelências
que passava da uma horazinha da noite… O Administrador, que detestava noitadas,
nocivas à sua garganta (de amígdalas loucamente inflamáveis),
puxou o relógio com terror. E rapidamente reabotoado na sobrecasaca,
de chapéu-coco mais tombado à banda, apressou o lento Titó,
porque ambos moravam no alto da Vila-ele defronte do Correio, o outro na viela
das Teresas, numa casa onde outrora habitara e aparecera apunhalado o antigo
carrasco do Porto.

O Titó porém não se aviava. Com o bengalão debaixo
do braço, ainda chamou o Gago ao fundo sombrio da sala estreita, para
cochichar sobre o embrulhado negócio de urna compra de espingarda,
soberba espingarda Winchester, empenhada ao Gago pelo filho do Tabelião
Guedes de Oliveira. E, quando desceu a escadaria, encontrou à porta
da taberna, no estendido luar que orlava a rua adormecida, o Fidalgo da Torre
e o João Gouveia bruscamente engalfinhados na costumada contenda sobre
o Governador Civil de Oliveira – o André Cavaleiro!

Era sempre a mesma briga, pessoal, furiosa e vaga. Gonçalo clamando
que não aludissem diante dele, pelas cinco chagas de Cristo, a esse
bandido, esse Sr. Cavaleiro e sobretudo Cavalo, mandão burlesco que
desorganizava o Distrito! E João Gouveia muito teso, muito seco, com
o coco mais caído na orelha, assegurando a inteligência superior
do amigo Cavaleiro, que estabelecera limpeza e ordem, corno Hércules,
nas cavalariças de Oliveira! O Fidalgo rugia. E Videirinha, com o violão
resguardado atrás das costas, suplicava aos amigos que recolhessem
à taberna, para não alvorotar a rua…

– Tanto mais que defronte, coitada, a sogra do Dr. Venâncio está
desde ontem com a pontada!

– Pois então – berrou Gonçalo – não venham com disparates
que revoltam! Dizer você, Gouveia, que Oliveira nunca teve Governador
Civil como o Cavaleiro!… Não é por meu pai! O papá
já lá vai há três anos, infelizmente. Concordo
que não fosse boa autoridade. Era frouxo, andava doente… Mas depois
tivemos o Visconde de Freixomil. Tivemos o Bernardino. Você serviu com
eles. Eram dois homens!… Mas este cavalo deste Cavaleiro! A primeira condição
para a autoridade superior dum Distrito é não ser burlesca.
E o Cavaleiro é de entremez! Aquela guedelha de trovador, e a horrenda
bigodeira negra, e o olho languinhento a pingar namoro, e o papo empinado,
e o pó-pó-poh! E de entremez! E estúpido, duma estupidez
fundamental, que lhe começa nas patas, vem subindo, vem crescendo.
Oh senhores, que animal!… Sem contar que é malandro.

Teso na sombra do imenso Titó, como uma estaca junto duma torre, o
Administrador mordia o charuto. Depois, de dedo espetado, com uma serenidade
cortante:

– Você acabou?… Pois, Gonçalinho, agora escute! Em todo o
distrito de Oliveira, note bem, em todo ele! não há ninguém,
absolutamente ninguém, que de longe, muito de longe, se compare ao
Cavaleiro em inteligência, caráter, maneiras, saber, e finura
política!

O Fidalgo da Torre emudeceu, varado. Por fim sacudindo o braço, num
desabrido, arrogante desprezo:

– Isso são as opiniões dum subalterno!

– E isso são as expressões dum malcriado! – uivou o outro,
crescendo todo, com os olhinhos esbugalhados a fuzilar.

Imediatamente entre os dois, mais grosso que um barrote, avançou o
braço do Titó, estendendo uma sombra na calçada:

– Olá! Oh rapazes! Que desconchavo é este? Vocês estão
borrachos?… Pois tu, Gonçalo…

Mas já Gonçalo, num desses seus impulsos generosos e amoráveis
que tão finamente seduziam, se humilhava, confessava a sua brutalidade,
sensibilizado:

– Perdoe você, João Gouveia! Sei perfeitamente que você
defende o Cavaleiro por amizade, não por dependência… Mas que
quer, homem? Quando me falam nesse Cavalo… Não sei, é por
contágio da besta, orneio, atiro coice!

O Gouveia. sem rancor, logo reconciliado (porque admirava carinhosamente
o Fidalgo da Torre), deu um puxão forte à sobrecasaca e apenas
observou “que o Gonçalinho era uma flor, mas picava…” Depois,
aproveitando a emoção submissa de Gonçalo. recomeçou
a glorificação do Cavaleiro, mais sóbria. Reconhecia
certas fraquezas: Sim, com efeito, aquele modo empertigado… Mas que coração!
– E o Gonçalinho devia considerar…

O Fidalgo, de novo revoltado. recuou, espalmando as mãos:

– Escute você. oh João Gouveia! Por que é que você
lá em cima. á ceia, não comeu a salada de pepino? Estava
divina. até o Videirinha a apeteceu! Eu repeti. acabei a travessa…
Por que foi? Porque você tem horror fisiológico, horror visceral
ao pepino. A sua natureza e o pepino são incompatíveis. Não
há raciocínios, não há sutilezas, que o persuadam
a admitir lá dentro o pepino. Você não duvida que ele
seja excelente. Desde que tanta gente de bem o adora: mas você não
pode… Pois eu estou para o Cavaleiro como você para o pepino. Não
posso! Não há molhos. nem razões, que mo disfarcem. Para
mim é ascoroso. Não vai! Vomito!… E agora ouça.

Então Titó. que bocejava, interveio, já farto:

– Bem! Parece-me que apanhamos a nossa dose de Cavaleiro, e valente! Somos
todos muito boas pessoas e só nos resta debandar. Eu tive senhora,
tive tainha… Estou derreado. E não tarda a madrugada. que vergonha!

O Administrador pulou. Oh diabo! E ele. às nove horas da manhã,
com comissão de recenseamento!… Para esmagar bem o amuo, cingiu Gonçalo
num rijo abraço. E, quando o Fidalgo descia para o Chafariz com o Videirinha
(que nestas noites festivas de Vila-Clara o acompanhava sempre pela estrada
até o portão da Torre), João Gouveia ainda se voltou,
pendurado do braço do Titó no meio da Calçadinha, para
lhe lembrar um preceito moral “de não sei que filósofo”:

– “Não vale a pena estragar boa ceia por causa de má política…”
Creio que é de Aristóteles!

E até Videirinha, que de novo afinava a viola, se preparava para um
solto descante ao luar, murmurou respeitosamente por entre abafados arpejos:

– Não vale a pena, Sr. Doutor… Realmente não vale a pena,
porque em Política hoje é branco, amanhã é negro,
e depois, zás, tudo é nada!

O Fidalgo encolhera os ombros. A Política! Como se ele pensasse na
Autoridade, no Sr. Governador Civil de Oliveira – quando injuriava o Sr. André
Cavaleiro, de Corinde! Não! O que detestava era o homem – o falso homem
de olho langoroso! Porque entre eles existia um desses fundos agravos que
outrora, no tempo dos Tructesindos, armavam um contra o outro, em dura arrancada
de lanças, dois bandos senhoriais… – E pela estrada, com a lua no
alto dos outeiros de Valverde, enquanto no violão do Videirinha tremia
o choro lento do fado do Vimioso, Gonçalo Mendes recordava, aos pedaços,
aquela história que tanto enchera a sua alma desocupada. Ramires e
Cavaleiros eram famílias vizinhas, uma com a velha torre em Santa Irenéia,
mais velha que o Reino – a outra com quinta bem tratada e rendosa em Corinde.
E quando ele, rapaz de dezoito anos, enfiava enfastiadamente os preparatórios
do Liceu, André Cavaleiro, então estudante do Terceiro Ano,
já o tratava como um amigo sério. Durante as férias,
como a mãe lhe dera um cavalo, aparecia todas as tardes na Torre; e
muitas vezes, sob os arvoredos da quinta ou passeando pelos arredores de Bravais
e Valverde, lhe confiava, como a um espírito maduro, as suas ambições
políticas, as suas idéias de vida que desejava grave e toda
votada ao Estado. Gracinha Ramires desabrochava na flor dos seus dezesseis
anos; e mesmo em Oliveira lhe chamavam a “Flor da Torre”. Ainda
então vivia a governante inglesa de Gracinha, a boa Miss Rhodes – que,
como todos na Torre, admirava com entusiasmo André Cavaleiro pela sua
amabilidade, a sua ondeada cabeleira romântica, a doçura quebrada
dos seus olhos largos, a maneira ardente de recitar Victor Hugo e João
de Deus. E, com essa fraqueza que lhe amolecia a alma e os princípios
perante a soberania do Amor, favorecera demoradas conversas de André
com Maria da Graça sob as olaias do Mirante e mesmo cartinhas trocadas
ao escurecer por sobre o muro baixo da Mãe-d’Água. Todos os
domingos o Cavaleiro jantava na Torre: e o velho procurador Rebelo já
preparara, com esforço e resmungando, um conto de réis para
o enxoval da “menina”. O pai de Gonçalo, Governador Civil
de Oliveira, sempre atarefado, enredado em Política e em dívidas,
amanhecendo só na Torre aos domingos, aprovava esta colocação
de Gracinha, que, meiga e romanesca, sem mãe que a velasse, criava
na sua vida, já difícil, um tropeço e um cuidado. Sem
representar como ele uma família de imensa Crônica, anterior
ao Reino, do mais rico sangue de Reis godos, André Cavaleiro era um
moço bem-nascido, filho de general, neto de desembargador, com brasão
legítimo na sua casa apalaçada de Corinde, e terras fartas em
redor, de boa semeadura, limpas de hipotecas… Depois, sobrinho de Reis Gomes,
um dos chefes históricos, já filiado no Partido Histórico
(desde o Segundo Ano da Universidade), a sua carreira andava marcada com segurança
e brilho na Política e na Administração. E enfim Maria
da Graça amava enlevadamente aqueles reluzentes bigodes, os ombros
fortes de Hércules bem-educado, o porte ufano que lhe encouraçava
o peitilho e que impressionava. Ela, em contraste, era pequenina e frágil,
com uns olhos tímidos e esverdeados que o sorriso umedecia e enlanguescia,
urna transparente pele de porcelana fina, e cabelos magníficos, mais
lustrosos e negros que a cauda dum corcel de guerra, que lhe rolavam até
os pés, em que se podia embrulhar toda, assim macia e pequenina. Quando
desciam ambos as alamedas da quinta, Miss Rhodes (que o pai, professor de
Literatura Grega em Manchester, recheara de Mitologia) pensava sempre em “Marte
cheio de força amando Psique cheia de graça”. E mesmo os
criados da Torre se maravilhavam do “lindo par”! Só a Sra.
D. Joaquina Cavaleiro, a mãe de André, senhora obesa e rabugenta,
detestava aquela terna assiduidade do filho na Torre, sem motivo pesado, só
por “desconfiar da pinta da menina e desejar nora mais comezinha…”
Felizmente, quando André Cavaleiro se matriculava no Quinto Ano, a
desagradável matrona morreu duma anasarca. O pai de Gonçalo
recebeu a chave do caixão: Gracinha tomou luto; e Gonçalo, companheiro
de casa do Cavaleiro na rua de S. João, em Coimbra, enrolou um fumo
na manga da batina. Logo em Santa Irenéia se pensou que o esplêndido
André, libertado da peca oposição da mamã, pediria
a “Flor da Torre” depois do Ato de Formatura. Mas, findo esse desejado
Ato, Cavaleiro abalou para Lisboa – porque se preparavam Eleições
em outubro, e ele recebera do tio Reis Gomes, então Ministro da Justiça,
a promessa de “ser deputado” por Bragança.

E todo esse verão o passou na Capital; depois em Sintra, onde o negro
langor dos seus olhos úmidos amolecia corações; depois
numa jornada quase triunfal a Bragança com foguetes e “vivas ao
sobrinho do Sr. Conselheiro Reis Gomes”! Em outubro Bragança “confiou
ao Dr. André Cavaleiro (como escreveu o Eco de Trás-os-Montes)
o direito de a representar em Cortes com os seus brilhantes conhecimentos
literários e a sua formosíssima presença de orador…”
Recolheu então a Corinde; mas nas suas visitas à Torre, onde
o pai de Gonçalo convalescia duma febre gástrica que exacerbara
a sua antiga diabetes, André já não arrastava sofregamente
Gracinha, como outrora, para as silenciosas sombras da quinta, permanecendo
de preferência na sala azul, a conversar sobre Política com Vicente
Ramires, que se não movia da poltrona, embrulhado numa manta. E Gracinha,
nas suas cartas para Coimbra a Gonçalo, já se carpia de não
correrem tão doces nem tão íntimas as visitas do André
à Torre, “ocupado, como andava sempre agora, a estudar para deputado…”
Depois do Natal o Cavaleiro voltou para Lisboa, para a abertura das Cortes,
muito apetrechado, com o seu criado Mateus, uma linda égua que comprara
em Vila-Clara ao Manuel Duarte, e dois caixotes de livros. E a boa Miss Rhodes
sustentava que Marte, como convinha a um herói, só reclamaria
Psique depois dum nobre feito, uma estréia nas Câmaras, “num
discurso lindo, todo flores…” Quando Gonçalo, nas férias
de Páscoa, apareceu na Torre, encontrou Gracinha inquieta e descorada.
As cartas do seu André, que se estreara “e num discurso lindo,
todo flores…”, eram cada semana mais curtas, mais calmas. E a última
(que ela lhe mostrou em segredo), datada da Câmara, contava em três
linhas mal rabiscadas “que tivera muito que trabalhar em comissões,
que o tempo se pusera lindo, que nessa noite era o baile dos condes de Vilaverde,
e que ele continuava com muitas saudades o seu fiel André…”
Gonçalo Mendes Ramires, logo nessa tarde, desabafou com o pai, que
definhava na sua poltrona:

– Eu acho que o André se está portando muito mal com a Gracinha…
O papá não lhe parece?

Vicente Ramires apenas moveu, num gesto de vencida tristeza, a mão
descarnada donde a cada momento lhe escorregava o anel de armas.

Por fim em maio a sessão das Câmaras terminou – essa sessão
que tanto interessara Gracinha, ansiosa “que eles acabassem de discutir
e tivessem férias”. E quase imediatamente ela em Santa Irenéia,
Gonçalo em Coimbra, souberam pelos jornais que “o talentoso Deputado
André Cavaleiro partira para Itália e França numa longa
viagem de recreio e de estudo”. E nem uma carta à sua escolhida,
quase sua noiva!… Era um ultraje, um bruto ultraje, que outrora, no século
XII, lançaria todos os Ramires, com homens de cavalo e peonagem, sobre
o solar dos Cavaleiros, para deixar cada trave denegrida pela chama, cada
servo pendurado duma corda de canave. Agora Vicente Ramires, apagado e mortal,
murmurou simplesmente: “Que traste”! Ele em Coimbra, rugindo, jurou
esbofetear um dia o infame! A boa Miss Rhodes, para se consolar, desembrulhou
a sua velha harpa, encheu Santa Irenéia de magoados arpejos. E tudo
findou nas lágrimas que Gracinha, durante semanas, tão desconsolada
da vida que nem se penteava, escondeu sob as olaias do Mirante.

E, ainda depois desses anos, a esta lembrança das lágrimas
da irmã, um rancor invadiu Gonçalo, tão redivivo que
atirou para o lado, para sobre as sebes da vala, uma bengalada, como se fossem
as costas do Cavaleiro! – Caminhavam ent&atiatilde;o junto à ponte da
Portela, onde os campos se alargam, e da estrada se avista Vila-Clara, que
a lua branqueava toda, desde o convento de Santa Teresa, rente ao Chafariz,
até o muro novo do cemitério, no alto, com os seus finos ciprestes.
Para o fundo do vale, clara também no luar, era a igrejinha de Craquede,
Santa Maria de Craquede, resto do antigo Mosteiro em que ainda jaziam, nos
seus rudes túmulos de granito, as grandes ossadas dos Ramires Afonsinos.
Sob o arco, docemente, o riacho lento, arrastando entre os seixos, sussurrava
na sombra. E Videirinha, enlevado naquele silêncio e suavidade saudosa,
cantava, num gemer surdo de bordões:

Baldadas são tuas queixas,
Escusados são teus ais,
Que é corno se eu morto fora,
E não me verás nunca mais!…

E Gonçalo retomara as suas recordações, repassava tristezas
que depois caíram sobre a Torre. Vicente Ramires morrera numa tarde
de agosto, sem sofrimento, estendido na sua poltrona à varanda, com
os olhos cravados na velha Torre, murmurando para o Padre Soeiro: – “Quantos
Ramires verá ela ainda, nesta casa, e à sua sombra?” Todas
essas férias as consumiu Gonçalo no escuro cartório,
desajudado (porque o procurador, o bom Rebelo, também Deus o chamara),
revolvendo papéis, apurando o estado da casa – reduzida aos dois contos
e trezentos mil réis que rendiam os foros de Craquede, a herdade de
Praga, e as duas quintas históricas, Treixedo e Santa Irenéia.
Quando regressou a Coimbra deixou Gracinha em Oliveira, em casa de uma prima,
D. Arminda Nunes Vilegas, senhora muito abastada, muito bondosa, que habitava
no Terreiro da Louça um imenso casarão cheio de retratos de
avoengos e de árvores de costado, onde ela, vestida de veludo preto,
pousada num canapé de damasco, entre aias que fiavam, perpetuamente
relia os seus Livros de Cavalaria, o Amadis, Leandro o Belo, Tristão
e Brancaflor; as Crônicas do Imperador Clarimundo… Foi aí que
José Barrolo (senhor duma das mais ricas casas de Amarante) encontrou
Gracinha Ramires, e a amou com uma paixão profunda, quase religiosa
– estranha naquele moço indolente, gorducho, de bochechas coradas como
uma maçã, e tão escasso de espírito que os amigos
lhe chamavam “o José Bacoco”. O bom Barrolo residira sempre
em Amarante com a mãe, não conhecia o traído romance
da “Flor da Torre” – que nunca se espalhara para além dos
cerrados arvoredos da quinta. E, sob o enternecido e romanesco patrocínio
de D. Arminda, noivado e casamento docemente se apressaram, em três
meses, depois duma carta de Barrolo a Gonçalo Mendes Ramires jurando
– “que a afeição pura que sentia pela prima Graça,
pelas suas virtudes e outras qualidades respeitáveis, era tão
grande que nem achava no Dicionário termos para a explicar…”
Houve uma boda luxuosa: e os noivos (por desejo de Gracinha, para se não
afastar da querida Torre), depois duma jornada filial a Arnarante, armaram
o seu ninho” em Oliveira, à esquina do largo de El-Rei e da rua
das Tecedeiras, num palacete que o Bacoco herdara, com largas terras, do seu
tio Melchior, Deão da Sé. Dois anos correram, mansos e sem história.
E Gonçalo Mendes Ramires passava justamente em Oliveira as suas últimas
férias de Páscoa quando André Cavaleiro, nomeado Governador
Civil do Distrito, tomou posse, estrondosamente, com foguetes, filarmônicas,
o Governo Civil e o Paço do Bispo iluminados, as armas dos Cavaleiros
em transparentes no café da Arcada e na Recebedoria!… Barrolo conhecia
o Cavaleiro quase intimamente, admirava o seu talento, a sua elegância,
o seu brilho Político. Mas Gonçalo Mendes Ramires, que dominava
soberanamente o bom Bacoco, logo o intimou a não visitar o Sr. Governador
Civil, a não o saudar sequer na rua, e a partilhar, por dever de aliança,
os rancores que existiam entre Cavaleiros e Ramires! José Barrolo cedeu,
submisso, espantado, sem compreender. Depois uma noite, no quarto, enfiando
as chinelas, contou a Gracinha “a esquisitice de Gonçalo”:

– E sem motivo, sem ofensa, só por causa da Política!… Ora,
vê tu! Um belo rapaz como o Cavaleiro! Podíamos fazer um ranchinho
tão agradável!…

Outro sereno ano passou… E nessa primavera, em Oliveira, onde se demorara
para a festa dos anos de Barrolo, eis que Gonçalo suspeita, fareja,
descobre uma incomparável infâmia! O empertigado homem da bigodeira
negra, o Sr. André Cavaleiro, recomeçara com soberba impudência
a cortejar Gracinha Ramires, de longe, mudamente, em olhadelas fundas, carregadas
de saudade e langor, procurando agora apanhar como amante aquela grande fidalga,
aquela Ramires, que desdenhara como esposa!

Tão levado ia Gonçalo pela branca estrada, no rolo amargo destes
pensamentos, que não reparou no portão da Torre, nem na portinha
verde, à esquina da casa, sobre três degraus. E seguia, rente
do muro da horta, quando Videirinha, que estacara com os dedos mudos nos bordões
do violão, o avisou, rindo:

– Oh, Sr. Doutor, então larga assim a estas horas de corrida para
os Bravais?

Gonçalo virou, bruscamente despertado, procurando na algibeira, entre
o dinheiro solto, a chavinha do trinco:

– Nem reparava… Que lindamente você tem tocado, Videirinha! Com lua,
depois de ceia, não há companheiro mais poético.. Realmente
você é o derradeiro trovador português!

Para o ajudante de Farmácia, filho de um padeiro de Oliveira, a familiaridade
daquele tamanho Fidalgo, que lhe apertava a mão na botica diante do
Pires boticário e em Oliveira diante das Autoridades, constituía
uma glória, quase uma coroação, e sempre nova, sempre
deliciosa. Logo sensibilizado, feriu os bordões rijamente:

– Então, para acabar, lá vai a grande trova, Sr. Doutor!

Era a sua famosa cantiga, o Fado dos Ramires, rosário de heróicas
Quadras celebrando as Lendas da Casa ilustre que ele desde meses apurava e
completava, ajudado na terna tarefa pelo saber do velho Padre Soeiro, capelão
e arquivista da Torre.

Gonçalo empurrou a portinha verde. No corredor espirrava urna lamparina
mortiça, já sem azeite, junto ao castiçal de prata. E
Videirinha, recuando ao meio da estrada, com um “dlindlon” ardente,
fitara a Torre, que, por cima dos telhados da vasta casa, mergulhava as ameias,
o negro miradouro, no luminoso silêncio do céu de verão.
Depois para ela e para a lua atirou as endechas glorificadoras, na dolente
melodia dum fado de Coimbra, rico em ais:

Quem te verá sem que estremeça,
Torre de Santa Irenéia,
Assim tão negra e calada,
Por noites de lua cheia…
Ai! Assim calada, tão negra,
Torre de Santa Irenéia!

Ainda suspendeu para agradecer ao Fidalgo, que o convidava a subir e enxugar
um cálice de genebra salvadora. Mas retornou logo o descante, ditoso
em descantar, como sempre arrebatado pelo sabor dos seus versos, pelo prestígio
das Lendas, enquanto Gonçalo desaparecia – com folgazãs desculpas
ao trovador “por cerrar a portinha do Castelo”…

Aí! Aí estás, forte e soberba,
Com uma história em cada ameia,
Torre mais velha que o reino,
Torre de Santa Irenéia!…

E começara a quadra a Múncio Ramires, Dente de Lobo, quando
em cima uma sala, aberta à frescura da noite, se alumiou – e o Fidalgo
da Torre, com o charuto aceso, se debruçou da varanda para receber
a serenada. Mais ardente, quase soluçante, vibrou o cantar do vídeirinha.
Agora era a quadra de Gutierres Ramires, na Palestina, sobre o monte das Oliveiras,
à porta da sua tenda, diante dos Barões que o aclamavam com
as espadas nuas, recusando o Ducado de Galiléia e o senhorio das Terras
de Além-Jordão. – Que não podia, em verdade, aceitar
terra, mesmo Santa, mesmo de Galiléia…

Quem já tinha em Portugal
Terras de Santa Irenéia!

– Boa piada! – murmurou Gonçalo.

Videirinha, entusiasmado, entoou logo outra nova, trabalhada nessa semana
– a do saimento de Aldonça Ramires, Santa Aldonça, trazida do
mosteiro de Arouca ao solar de Treixedo, sobre o almadraque em que morrera,
aos ombros de quatro Reis!

– Bravo! – gritou o Fidalgo pendurado da varanda. – Essa é famosa,
oh Videirinha! Mas aí há Reis demais… Quatro Reis!

Enlevado, empinando o braço do violão, o ajudante da Farmácia
lançou outra, já antiga – a daquele terrível Lopo Ramires
que, morto, se erguera da sua campa no Mosteiro de Craquede, montara um ginete
morto, e toda a noite galopara através da Espanha para se bater nas
Navas de Tolosa! Pigarreou – e, mais chorosamente, atacou a do Descabeçado:

Lá passa a negra figura…

Mas Gonçalo, que abominava aquela lenda, a silenciosa figura degolada,
errando por noites de inverno entre as ameias da Torre com a cabeça
nas mãos – despegou da varanda, deteve a Crônica imensa:

– Toca a deitar, oh Videirinha, hem? Passa das três horas, é
um horror. Olhe! O Titó e o Gouveia jantam cá na Torre, no domingo.
Apareça também, com o violão e cantiga nova; mas menos
sinistra… Bona sera! Que linda noite!

Atirou o charuto, fechou a vidraça da sala – a “sala velha”,
toda revestida desses denegridos e tristonhos retratos de Ramires que ele
desde pequeno chamava as carantonhas dos vovós. E, atravessando o corredor,
ainda sentia rolarem ao longe, no silêncio dos campos cobertos de luar,
façanhas rimadas dos seus:

Ai! lá na grande batalha…
El-Rei Dom Sebastião…
O mais moço dos Ramires
que era pajem do guião…

Despido, soprada a vela, depois de um rápido sinal-da-cruz, o Fidalgo
da Torre adormeceu. Mas no quarto, que se povoou de sombras, começou
para ele uma noite revolta e pavorosa. André Cavaleiro e João
Gouveia romperam pela parede, revestidos de cotas de malha, montados em horrendas
tainhas assadas! E lentamente, piscando o olho mau, arremessavam contra o
seu pobre estômago pontoadas de lança, que o faziam gemer e estorcer
sobre o leito de pau-preto. Depois era, na Calçadinha de Vila-Clara,
o medonho Ramires morto, com a ossada a ranger dentro da armadura, e El-Rei
D~ Afonso II, arreganhando afiados dentes de lobo, que o arrastavam furiosamente
para a batalha das Navas. Ele resistia, fincado nas lajes, gritando pela Rosa,
por Gracinha, pelo Titó! Mas D. Afonso tão rijo murro lhe despedia
aos rins, com o guante de ferro, que o arremessava desde a Hospedaria do Gago
até a Serra Morena, ao campo da lide, luzente e fremente de pendões
e de armas. E imediatamente seu primo de Espanha, Gomes Ramires, Mestre de
Calatrava, debruçado do negro ginete, lhe arrancava os derradeiros
cabelos, entre a retumbante galhofa de toda a hoste sarracena e os prantos
da tia Louredo trazida como um andor aos ombros de quatro Reis!… Por fim,
moído, sem sossego, já com a madrugada clareando nas fendas
das janelas e as andorinhas piando no beiral dos telhados, o Fidalgo da Torre
atirou um derradeiro repelão aos lençóis, saltou ao soalho,
abriu a vidraça – e respirou deliciosamente o silêncio, a frescura,
a verdura, o repouso da quinta. Mas que sede! uma sede desesperada que lhe
encortiçava os lábios! Recordou então o famoso fruit
salt que lhe recomendara o Dr. Matos, arrebatou o frasco, correu à
sala de jantar, em camisa. E, a arquejar, deitou duas fartas colheradas num
copo d’água da Bica-Velha, que esvaziou dum trago, na fervura picante.

– Ah! que consolo, que rico consolo!…

Voltou derreadamente à cama: e readormeceu logo, muito longe, sobre
as relvas profundas dum prado da África, debaixo de coqueiros sussurrantes,
entre o apimentado aroma de radiosas flores que brotavam através de
pedregulhos de ouro. Dessa perfeita beatitude o arrancou o Bento, ao meio-dia,
inquieto com “aquele tardar do Sr. Doutor”.

– É que passei uma noite horrenda, Bento! Pesadelos, pavores, bulhas,
esqueletos… Foram os malditos ovos com chouriço; e o pepino… Sobretudo
o pepino! Uma idéia daquele animal do Titó… Depois, de madrugada,
tomei o tal fruit salt, e estou ótimo, homem!… Estou otimíssimo!
Até me sinto capaz de trabalhar. Leva para a livraria uma chávena
de chá verde, muito forte… Leva também torradas.

E momentos depois, na livraria, com um roupão de flanela sobre a camisa
de dormir, sorvendo lentos goles de chá, Gonçalo relia junto
da varanda essa derradeira linha da Novela, tão rabiscada e mole, em
que “os largos raios da lua se estiravam pela larga sala de armas…”
De repente, numa rasgada impressão de claridade, entreviu detalhes
expressivos para aquela noite de Castelo e deverão – as pontas das
lanças dos esculcas faiscando silenciosamente pelos adarves da muralha,
e o coaxar triste das rãs nas bordas lodosas dos fossos…

– Bons traços!

Achegou devagar a cadeira, consultou ainda no volume do Bardo o Poemeto do
tio Duarte. E, desanuviado, sentindo as Imagens e os Dizeres surgirem como
bolhas duma água represa que rebenta, atacou esse lance do Capítulo
1 em que o velho Tructesindo Ramires, na sala de armas de Santa Irenéia,
conversava com seu filho Lourenço e seu primo D. Garcia Viegas, o Sabedor,;
de aprestos de guerra… Guerra! Por quê? Acaso pelos cerros arraianos
corriam, ligeiros entre o arvoredo, almogávares mouros? Não!
Mas desgraçadamente, “naquela terra já remida e cristã,
em breve se cruzariam, umas contra outras, nobres lanças portuguesas!…”

Louvado Deus! a pena desemperrara! E, atento às páginas marcadas
num tomo da História de Herculano, esboçou com segurança
a Época da sua Novela – que abria entre as discórdias de Afonso
II e de seus irmãos por causa do testamento de El-Rei seu pai, D. Sancho
I. Nesse começo do Capítulo já os infantes D. Pedro e
D. Fernando, esbulhados, andavam por França e Leão. Já
com eles abandonara o Reino o forte primo dos Ramires, Gonçalo Mendes
de Sousa, chefe magnífico da casa dos Sousas. E agora, encerradas nos
castelos de Montemor e de Esgueira, as senhoras infantas, D. Teresa e D. Sancha,
negavam a D. Afonso o senhorio real sobre as vilas, fortalezas, herdades e
mosteiros, que tão copiosamente lhes doara El-Rei seu pai. Ora, antes
de morrer no Alcáçar de Coimbra, o Senhor D. Sancho suplicara
a Tructesindo Mendes Ramires, seu colaço e Alferes-Mor, por ele armado
Cavaleiro em Lorvão, que sempre lhe servisse e defendesse a filha amada
entre todas, a Infanta D. Sancha, senhora de Aveiras. Assim o jurara o leal
Rico-Homem junto do leito onde, nos braços do Bispo de Coimbra e do
Prior do Hospital sustentando a candeia, agonizava, vestido de burel como
um penitente, o vencedor de Silves… Mas eis que rompe a fera contenda entre
Afonso II, asperamente cioso da sua autoridade de Rei – e as Infantas, orgulhosas,
impelidas à resistência pelos freires do Templo e pelos Prelados
a quem D. Sancho legara tão vastos pedaços do Reino! Imediatamente
Alenquere os arredores doutros castelos são devastados pela hoste real
que recolhia das Navas de Tolosa. Então D. Sancha e D. Teresa apelam
para El-Rei de Leão, que entra com seu filho D. Fernando por terras
de Portugal a socorrer as donas oprimidas”. – E neste lance o tio Duarte,
no seu Castelo de Santa Irenéia, interpelava com soberbo garbo o Alferes-Mor
de Sancho I.

Que farás tu, mais velho dos Ramires?
Se ao pendão leonês juntas o teu
Trais o preito que deves ao Rei vivo!
Mas se as Infantas deixas indefesas
Trais ajura que destes ao Rei morto!…

Esta dúvida, porém, não angustiara a alma desse Tructesindo
rude e leal que o Fidalgo da Torre rija-mente modelava. Nessa noite, apenas
recebera pelo irmão do Alcaide de Aveiras, disfarçado em beguino,
um aflito recado da senhora D. Sancha – ordenava a seu filho Lourenço
que, ao primeiro arrebol, com quinze lanças, cinqüenta homens
de pé da sua mercê e quarenta besteiros, corresse sobre Montemor.
Ele no entanto daria alarido – e em dois dias entraria a campo com os parentes
de solar, um troço mais rijo de Cavaleiros acontiados e de frecheiros,
para se juntar a seu primo, o Sousão, que na vanguarda dos leoneses
descia de Alva-do-Douro.

Depois logo de madrugada o pendão dos Ramires, o Açor negro
em campo escarlate, se plantara diante das barreiras gateadas; e ao lado,
no chão, amarrado à haste por uma tira de couro, reluzia o velho
emblema senhorial, o sonoro e fundo caldeirão polido. Por todo o Castelo
se apressavam os serviçais, despendurando as cervilheiras, arrastando
com fragor pelas lajes os pesados saios de malhas de ferro. Nos pátios
os armeiros aguçavam ascumas, amaciavam a dureza das grevas e coxotes
com camadas de estopa. Já o adail, na ucharia, arrolara as rações
de vianda para os dois quentes dias da arrancada. E por todas as cercanias
de Santa Irenéia, na doçura da tarde, os atambores mouriscos,
abafados no arvoredo, tararã! tararã! ou mais vivos nos cabeços,
ratatá! ratatã! convocavam os Cavaleiros de soldo e a peonagem
da mesnada dos Ramires.

No entanto o irmão do Alcaide, sempre disfarçado em beguino,
de volta ao castelo de Aveiras com a boa nova de prestes socorros, transpunha
ligeiramente a levadiça da cárcova… E aqui, para alegrar tão
sombrias vésperas de guerra, o tio Duarte, no seu Poemeto, engastara
uma sorte galante:

À moça, que na fonte enchia a bilha,

O frade rouba um beijo e diz Amém!

Mas Gonçalo hesitava em desmanchar com um beijo de Clérigo
a pompa daquela formosa sortida de armas… E mordia pensativamente a rama
da pena – quando a porta da livraria rangeu.

– O correio…

Era o Bento com os jornais e duas cartas. O Fidalgo apenas abriu uma, lacrada
com o enorme sinete de armas do Barrolo – repelindo a outra em que reconhecera
a letra detestada do seu alfaiate de Lisboa. E imediatamente, com uma palmada
na mesa:

– Oh diabo! quantos do mês, hoje? quatorze, hem?

O Bento esperava com a mão no fecho da porta.

– É que não tardam os anos da mana Graça! De todo esqueci,
esqueço sempre. E sem ter um presentinho engraçado… Que seca,
hem?

Mas na véspera o Manuel Duarte, na Assembléia, à mesa
do voltarete, anunciara uma fuga a Lisboa por três dias, para tratar
do emprego do sobrinho nas Obras Públicas. Pois corria a Vila -Clara
pedir ao Sr. Manuel Duarte que lhe comprasse em Lisboa um bonito guarda-solinho
de seda branca com rendas…

– O Sr. Manuel Duarte tem gosto; tem muito gosto! E então o Joaquim
que não sele a égua; já não vou ao Sanches Lucena.
Oh, senhores, quando pagarei eu esta infame visita? Há três meses!…
Enfim, por dois dias mais a bela D. Ana não envelhece; e o velho Lucena
também não morre.

E o Fidalgo da Torre, que decidira arriscar o beijo folgazão, retomou
a pena, arredondou o seu final com elegante harmonia:

“A moça, furiosa, gritou: Fu! Fu! vilão! E o beguino,
assobiando, aligeirou as sandálias pelo córrego, na sombra das
altas faias, enquanto que por todo o fresco vale, até Santa Maria de
Craquede, os atambores mouriscos, tararã! ratatã! convocavam
a mesnada dos Ramires, na doçura da tarde…”

CAPÍTULO III

Durante a longa semana, nas horas da calma, o Fidalgo da Torre trabalhou
com aferro e proveito. E nessa manhã, depois de repicar a sineta no
corredor, duas vezes o Bento empurrara a porta da livraria, avisando o Sr.
Doutor “que o almocinho, assim à espera, certamente se estragava”.
Mas de sobre a tira de almaço Gonçalo rosnava “já
vou!” – sem despegar a pena, que corria como quilha leve em água
mansa, na pressa amorosa de terminar, antes do almoço, o seu Capítulo
I.

Ah! e que canseira lhe custara, durante esses dias, esse copioso Capítulo,
tão difícil, com o imenso Castelo de Santa Irenéia a
erguer; e toda uma idade esfumada da História de Portugal a condensar
em contornos robustos; e a mesnada dos Ramires a apetrechar, sem que faltasse
uma ração nos alforjes, ou uma garruncha nos caixotes, sobre
o dorso das mulas! Mas felizmente, na véspera, já movera para
fora do Castelo o troço de Lourenço Ramires, em socorro de Montemor,
com um vistoso coriscar de capelos e lanças em torno ao pendão
tendido.

E agora, nesse remate do Capítulo, era noite, e o sino de recolher
tangera, e a almenara luzira na Torre Álbarrã, e Tructesindo
Ramires descera à sala térrea da alcáçova para
cear – quando fora, diante da cárcova, com três toques fortes
anunciando filho de algo, uma buzina apressada soou. E, sem que o vílico
tomasse permissão do senhor, o alçapão da levadiça
rangeu nas correntes de ferro, ribombou cavamente nos apoios de pedra. Quem
assim chegava em dura pressa era Mendo Pais, amigo de Afonso II e mordomo
da sua Cúria, casado com a filha mais velha de Tructesindo, D. Teresa
– aquela que, pelo ondeante e alvo pescoço, pelo pisar mais leve que
um vôo, os Ramires chamavam a Garça Real. O Senhor de Santa Irenéia
correra ao patim para acolher, num abraço, o genro amado – “membrudo
Cavaleiro, com os cabelos ruivos, a alvíssima pele da raça germânica
dos visigodos…” E, de mãos enlaçadas, ambos penetraram
nessa sala de abóbada, alumiada por tochas que toscos anéis
de ferro seguravam, chumbados aos muros.

Ao meio pousava a maciça mesa de carvalho, rodeada de escanhos até
o topo, onde se erguia, diante dum áspero mantel de linho coberto de
pratos de estanho e de pichéis luzidios, a cadeira senhorial com o
Açor grossamente lavrado nas altas espaldas, e delas suspensa, pelo
cinturão tauxiado de prata, a espada de Tructesindo. Por trás
negrejava a funda lareira apagada, toda entulhada de ramos de pinheiro, com
a prateleira guarnecida de conchas, entre bocais de sanguessugas, sob dois
molhos de palmas trazidas da Palestina por Gutierres Ramires, o de Ultramar
Rente a um esteio da chaminé, um falcão, ainda emplumado, dormitava
na sua alcândora; e ao lado, sobre as lajes, numa camada de juncos,
dois alões enormes dormiam também, com o focinho nas patas,
as orelhas rojando. Toros de castanheiro sustentavam a um canto um pipo de
vinho. Entre duas frestas engradadas de ferro, um monge, com a face sumida
no capuz, sentado na borda de uma arca, lia, à claridade do candil
que por cima fumegava, um pergaminho desenrolado… Assim Gonçalo adornara
a soturna sala Afonsina com alfaias tiradas do tio Duarte, de Walter Scott,
de narrativas do Panorama. Mas que esforço!… E mesmo, depois de colocar
sobre os joelhos do monge um fólio impresso em Mogúncia por
Ulrick ZelI, desmanchara toda essa linha tão erudita, ao recordar,
com um murro na mesa, que ainda a Imprensa se não inventara em tempos
de seu avô Tructesindo, e que ao monge letrado apenas competia “um
pergaminho de amarelada escrita…”

E caminhando nos ladrilhos sonoros, desde a lareira até o arco da
porta cerrado por uma cortina de couro, Tructesindo, com a branca barba espalhada
sobre os braços cruzados, escutava Mendo Pais, que, na confiança
de parente e amigo, jornadeara sem homens da sua mercê, cingindo apenas
por cima do brial de lã cinzenta uma espada curta e um punhal sarraceno.
Açodado e coberto de pó correra Mendo Pais desde Coimbra para
suplicar ao sogro em nome do Rei e dos preitos jurados, que se não
bandeasse com os de leão e com as senhoras Infantas. E já desenrolara
ante o velho todos os fundamentos invocados contra elas pelos doutos Notários
da Cúria – as resoluções do Concilio de Toledo! a bula
do Apóstolo de Roma, Alexandre! o velho foro dos Visigodos!… De resto,
que injúria fizera às senhoras Infantas seu real irmão,
para assim chamarem hostes Leonesas a terras de Portugal? Nenhuma! Nem Regedoria
nem renda dos castelos e vilas da doação de D. Sancho lhes negava
o senhor D. Afonso. O Rei de Portugal só queria que nenhum palmo de
chão português, baldio ou murado, jazesse fora de seu senhorio
real. Escasso e ávido, El-Rei D. Monso?… Mas não entregara
ele à senhora D. Sancha oito mil morabitinos de ouro? E a gratidão
da irmã fora o Leonês passando a raia e logo caídos os
castelos formosos de Ulgoso, de Contrasta, de Urros e de Lanhoselo! O mais
velho da casa dos Sousas, Gonçalo Mendes, não se encontrara
ao lado dos Cavaleiros da Cruz na jornada das Navas, mas lá andava
em recado das Infantas, como mouro, talando terra portuguesa desde Aguiar
até Miranda! E já pelos cerros de Além-Douro aparecera
o pendão renegado das treze arruelas – e por trás, farejando,
a alcatéia dos Castros! Carregada ameaça, e de armas cristãs,
oprimindo o Reino – quando ainda Moabitas e Agarenos corriam à rédea
solta pelos campos do Sul!… E o honrado Senhor de Santa Irenéia,
que tão rijamente ajudara a fazer o Reino, não o deveria decerto
desfazer arrancando dele os pedaços melhores para monges e para donas
rebeldes! – Assim, com arremessados passos, exclamara Mendo Pais, tão
acalorado do esforço e da emoção, que duas vezes encheu
de vinho uma conca de pau e de um trago a despejou. Depois, limpando a boca
às costas da mão trêmula:

– Ide por certo a Montemor, senhor Tructesindo Ramires! Mas em recado de
paz e boa avença, persuadir vossa senhora D. Sancha e as Senhoras Infantas
que voltem honradamente a quem hoje contam por seu pai e seu Rei!

O enorme senhor de Santa Irenéia parara, pousando no genro os olhos
duros, sob a ruga das sobrancelhas, hirsutas e brancas como sarças
em manhã de geada:

– Irei a Montemor, Mendo Pais, mas levar o meu sangue e o dos meus para que
justiça logre quem justiça tem.

Então Mendo Pais, amargurado, ante a heróica teima:

– Maior dó, maior dó! Será bom sangue de Ricos-homens
vertido por más desforras… Senhor Tructesindo Ramires, sabei que
em Canta-Pedra vos espera Lopo de Baião, o Bastardo, para vos tolher
a passagem com cem lanças!

Tructesindo ergueu a vasta face – com um riso tão soberbo e claro
que os alões rosnaram torvamente, e, acordando, o falcão esticou
a asa lenta:

– Boa nova e de boa esperança! E, dizei, senhor Mordomo-Mor da Cúria,
tão de feição e certa assim ma trazeis para me intimidar?

– Para vos intimidar?… Nem o Senhor Arcanjo S. Miguel vos intimidaria descendo
do céu com toda a sua hoste e a sua espada de lume! De sobra o Rei,
Senhor Tructesindo Ramires. Mas casei na vossa casa. E já que nesta
lide não sereis por mim bem ajudado, quero, ao menos, que sejais bem
avisado.

O velho Tructesindo bateu as palmas para chamar os sergentes:

– Bem, bem, a cear, pois! À ceia, Frei Múnio!… E vós,
Mendo Pais, deixai receios.

– Se deixo! Não vos pode vir dano que me anseie de cem lanças,
de duzentas, que vos surjam a caminho.

E, enquanto o monge enrolava o seu pergaminho, se acercava da mesa – Mendo
Pais ajuntou com tristeza, desafivelando vagarosamente o cinturão da
espada:

– Só um cuidado me pesa. E é que, nesta jornada, senhor meu
sogro, ides ficar de mal com o Reino e com o Rei.

– Filho e amigo! De mal ficarei com o Reino e como Rei, mas de bem com a
honra e comigo!

Este grito de fidelidade, tão altivo, não ressoava no poemeto
do tio Duarte. E quando o achou, com inesperada inspiração,
o Fidalgo da Torre, atirando a pena, esfregou as mãos, exclamou, enlevado:

– Caramba! Aqui há talento!

Rematou logo o Capítulo. Estava esfalfado, à banca do trabalho
desde as nove horas, a reviver intensamente, e em jejum, as energias magníficas
dos seus fortes avós! Numerou as tiras – fechou na gaveta à
chave o volume do Bardo. Depois à janela, com o colete desabotoado,
ainda lançou o brado genial num grave e rouco tom, como o lançaria
Tructesindo: -… “de mal com o Reino e com o Rei, mas de bem com a honra
e comigo E sentia nele realmente toda a alma de um Ramires, como eles eram
no século XII, de sublime lealdade, mais presos à sua palavra
que um santo ao seu voto, e alegremente desbaratando, para a manter, bens,
contentamento e vida!

O Bento, que espalhara outro repique desesperado, escancarou a porta da livraria:

– E o Pereira… Está lá embaixo no pátio o Pereira
que quer falar ao Sr. Doutor.

Gonçalo Mendes franziu a testa, com impaciência, assim repuxado
daquelas alturas onde respirava os nobres espíritos da sua raça:

– Que maçada!… O Pereira… Que Pereira?

– O Pereira; o Manuel Pereira, da Riosa; o Pereira Brasileiro.

Era um lavrador, com casal na Riosa, chamado Brasileiro por ter herdado vinte
contos de um tio, regatão no Pará. Comprara então terras,
trazia arrendada a Cortiga, a falada propriedade dos condes de Monte-Agra,
envergava aos domingos uma sobrecasaca de pano fino, e dispunha de sessenta
votos na Freguesia.

– Ah! Dize ao Pereira que suba, que conversamos enquanto almoço…
E põe outro talher.

A sala de jantar da Torre, que abria por três portas envidraçadas
para uma funda varanda alpendrada, conservava, do tempo do avô Damião
(o tradutor de Valerius Flaccus), dois formosos panos de Arras representando
a Expedição dos Argonautas. Louças da Índia e
do Japão, desirmanadas e preciosas, recheavam um imenso armário
de mogno. E sobre o mármore dos aparadores rebrilhavam os restos, ainda
ricos, das pratas famosas dos Ramires que o Bento constantemente areava e
polia com amor. Mas Gonçalo, sobretudo de verão, sempre almoçava
e jantava na varanda luminosa e fresca, bem esteirada, revestida até
meio muro por finos azulejos do século XVIII, e oferecendo a um canto,
para as preguiças do charuto, um profundo canapé de palhinha
com almofadas de damasco.

Quando lá entrou, com os jornais da manhã que não abrira,
o Pereira esperava, encostado a um grosso guarda-sol de paninho escarlate,
considerando pensativamente a quinta que, dali, se abrangia até os
álamos da ribeira do Coice e aos outeiros suaves de Valverde. Era um
velho esgalgado e rijo, todo ossos, com um carão moreno, de olhos miudinhos
e azulados, e uma barbicha rala, já branca, entre dois enormes colarinhos
presos por botões de ouro. Homem de propriedade, acostumado à
Cidade e ao trato das Autoridades, estendeu largamente a mão ao Fidalgo
da Torre, e aceitou, sem embaraço, a cadeira que ele lhe empurrara
para a mesa – onde dominavam, com os seus ricos lavores, duas altas infusas
de cristal antigo, uma cheia de açucenas e a outra de vinho verde.

– Então, que bom vento o traz pela Torre, Pereira amigo? Não
o vejo desde abril!

– É verdade, meu Fidalgo, desde o sábado em que caiu a grande
trovoada, na véspera da eleição! – confirmou o Pereira
afagando o cabo do guarda-sol que conservara entre os joelhos.

Gonçalo, numa esfaimada pressa do almoço, repicou a campainha
de prata. Depois rindo:

– E os seus votos, Pereira amigo, segundo o costume, lá foram para
o eterno Sanches Lucena, direitinhos, como os rios vão para o mar!

O Pereira também riu, com um riso agradado que lhe descobria os maus
dentes. Pois o círculo era uma propriedade do Sr. Sanches Lucena! Cavalheiro
de fortuna, homem de bem, conhecedor, serviçal… E então, quando
lhe calhava como em abril o apoio do Governo, nem Nosso Senhor Jesus Cristo
que voltasse à Terra e se propusesse por Vila-Clara desalojava o patrão
da Feitosa!

O Bento, vagaroso, de jaqueta de lustrina preta sobre o avental resplandecente,
entrava com um prato de ovos estrelados, quando o Fidalgo, que desdobrara
o guardanapo, o amarrotou, arremessou com nojo:

– Este guardanapo já serviu! Eu estou farto de gritar. Não
me importa guardanapo roto, ou com passagens, ou com remendos… Mas branquinho,
fresquinho cada manhã, a cheirar a alfazema!

E reparando no Pereira, que discretamente arredava a cadeira:

– O quê! Você não almoça, Pereira?…

Não, agradecia muito ao Fidalgo, mas nessa tarde comia as sopas com
o genro nos Bravais, que era festa pelos anos do netinho.

– Bravo! Parabéns, Pereira amigo! Dê lá um beijo meu
ao netinho… Mas então ao menos um copo de vinho verde.

– Entre as comidas, meu Fidalgo, nem água nem vinho.

Gonçalo farejara, arredara os ovos. E reclamou o “jantar da família”,
sempre muito farto e saboroso na Torre, e começando por essas pesadas
sopas de pão, presunto e legumes, que ele desde criança adorava
e chamava as palanganas. Depois, barrando de manteiga uma bolacha:

– Pois francamente, Pereira, esse seu Sanches Lucena não faz honra
ao círculo! Homem excelente, decerto, respeitável, obsequiador…
Mas mudo, Pereira! Inteiramente mudo!

O lavrador roçou vagarosamente pelas ventas cabeludas o lenço
vermelho, enrolado em bola:

– Sabe as coisas, pensa com acerto…

– Sim! mas pensamento e acerto não lhe saem de dentro do crânio!
Depois está muito velho, Pereira! Que idade terá ele? Sessenta?

– Sessenta e cinco. Mas de gente muito rija, meu Fidalgo. O avô durou
até os cem anos. E ainda o conheci na loja…

– Como, na loja?

Então o Pereira, enrolando mais o lenço, estranhou que o Fidalgo
não soubesse a história do Sanches Lucena. Pois o avô,
o Manuel Sanches, era um linheiro do Porto, da rua das Hortas. E casado também
com uma moça muito vistosa, muito farfalhuda…

– Bem! – atalhou o Fidalgo. – Isso é honroso para o Sanches Lucena.
Gente que engordou, que trepou… E eu concordo, Pereira, o círculo
deve mandar a Lisboa um homem como o Sanches Lucena, que tenha nele terra,
raízes, interesses, nome… Mas é preciso que seja também
homem com talento, com arrojo. Um deputado, que, nas grandes questões,
nas crises, se erga, transporte a Câmara!… E depois, Pereira amigo,
em Política quem mais grita mais arranja. Olhe a estrada da Riosa!
Ainda em papel, a lápis vermelho… E, se o Sanches Lucena fosse homem
de berrar em S. Bento, já o Pereira trazia por lá os seus carros
a chiar.

O Pereira abanou a cabeça, com tristeza:

– Aí talvez o Fidalgo acerte… Para essa estradinha da Riosa sempre
faltou quem gritasse. Aí talvez o Fidalgo acerte!

Mas o Fidalgo emudecera, embebido na cheirosa sopa, dentro duma caçoila
nova, com raminhos de hortelã. E então o Pereira, acercando
mais a cadeira, cruzou no rebordo da mesa as mãos, que meio século
de trabalho na terra tornara negras e duras como raízes – e declarou
que se atrevera a incomodar o Fidalgo, àquelas horas do almocinho,
porque nessa semana começava um corte de madeiras para os lados de
Sandim, e desejava, antes que surgissem outros arranjos, conversar com S.
Exa. sobre o arrendamento da Torre…

Gonçalo reteve a colher, num pasmo risonho:

– Você queria arrendar a Torre, Pereira?

– Queria conversar com V. Exa.. Como o Relho está despedido…

– Mas eu já tratei como Casco, o José Casco dos Bravais! Ficamos
meio apalavrados, há dias… Há mais de uma semana.

O Pereira coçou arrastadamente a barba rala. Pois era pena, grande
pena… Ele só no sábado se inteirara da desavença com
o Relho. E, se o Fidalgo não ressalvava o segredo, por quanto ficara
o arrendamento?

– Não ressalvo, não, homem! Novecentos e cinqüenta mil
réis.

O Pereira tirou da algibeira do colete a caixa de tartaruga, e sorveu detidamente
uma pitada, com o carão pendido para a esteira. Pois maior pena, mesmo
para o Fidalgo. Enfim! depois de palavra trocada… Mas era pena, porque ele
gostava da propriedade; já pelo S. João pensara em abeirar o
Fidalgo; e apesar dos tempos correrem escassos, não andaria longe de
oferecer um conto e cinqüenta, mesmo um conto cento e cinqüenta!

Gonçalo esqueceu a sopa, numa emoção que lhe afogueou
a face fina, ante um tal acréscimo de renda – e a excelência
de tal rendeiro, homem abastado, com metal no banco, e o mais fino amanhador
de terras de todas as cercanias!

– Isso é sério, ó Pereira?

O velho lavrador pousou a caixa de rapé sobre a toalha, com decisão:

– Meu Fidalgo, eu não era homem que entrasse na Torre para caçoar
com V Exa.! Proposta a valer, escritura a fazer… Mas se o arrendamento está
tratado…

Recolheu a caixa, apoiava a mão larga na mesa para se erguer, quando
Gonçalo acudiu, nervoso, empurrando o prato:

– Escute, homem!… Eu não contei por miúdo o caso do Casco.
Você compreende, sabe como essas coisas passam… O Casco veio, conversamos;
eu pedi novecentos e cinqüenta mil réis e porco pelo Natal. Primeiramente
concordou, que sim; logo adiante emendou, que não… Voltou com o compadre;
depois, com a mulher e o compadre, e o afilhado, e o cão! Depois só.
Andou aí pela quinta, a medir, a cheirar a terra; acho até que
a provou. Aquelas rabulices do Casco!… Por fim, uma tarde, lá gemeu,
lá aceitou os novecentos e cinqüenta mil réis, sem porco.
Cedi do porco. Aperto de mão, copo de vinho. Ficou de aparecer para
combinar, tratar da escritura. Não o avistei mais, há quase
duas semanas! Naturalmente já virou, já se arrependeu… Para
resumir, não tenho com o Casco contrato firme. Foi uma conversa em
que apenas estabelecemos, como base, a renda de novecentos e cinqüenta.
E eu, que detesto coisas vagas, já andava pensando em encontrar melhor
homem!

Mas o Pereira coçava o queixo, desconfiado. Ele, em negócios,
gostava de lisura. Sempre se entendera bem com o Casco. Nem por um condado
se atravessaria nos arranjos do Casco, homem violento, assomado. De modo que
desejava as coisas claras, para não surgir desgosto rijo. Não
se lavrara escritura, bem! Mas ficara, ou não, palavra dada entre o
Fidalgo e o Casco?

Gonçalo Mendes Ramires, que findara apressadamente a sopa e enchia
um copo de vinho verde para se acalmar, fitou o lavrador, quase severamente:

– Homem, essa pergunta!… Pois se eu tivesse confirmado ao Casco decisivamente
a palavra de Gonçalo Ramires, estava agora aqui a tratar, ou sequer
a conversar consigo, Pereira, sobre o arrendamento da Torre?

O Pereira baixou a cabeça. Também era verdade!… Pois, nesse
caso, ele abria a sua tenção, claramente. E, como conhecia a
propriedade, e apurara o seu cálculo – oferecia ao Fidalgo um conto
cento e cinqüenta mil réis, sem porco. Mas não dava para
a família nem leite, nem hortaliça, nem fruta. O Fidalgo, homem
só, pouco se aproveitava. A Torre, porém, casa antiga, enxameava
de gentes e de aderentes. Todos apanhavam, todos abusavam… Enfim, esse era
o seu princípio. E de resto, para a mesa do Fidalgo e mesmo dos criados,
bastavam o pomar e a horta de regalo… Que horta e pomar necessitavam trato
mais jeitoso; mas ele, por amor do Fidalgo, e gosto seu, por lá passaria
e tudo luziria… E quanto às outras condições, aceitava
as do antigo arrendamento. E escritura assinada para a outra semana, no sábado…
Estava feito?

Gonçalo, depois de um momento em que pestanejou nervosa e tremulamente,
estendeu a mão aberta ao Pereira:

– Toque! Agora sim! Agora fica palavra dada!

– E Nosso Senhor lhe ponha virtude – concluiu o Pereira, firmado no imenso
guarda-sol para se erguer. – Então no sábado, em Oliveira, para
a escritura… Assina V. Exa. ou o Sr. Padre Soeiro?

Mas o Fidalgo calculava:

– Não, homem, não pode ser! No sábado, com efeito, estou
em Oliveira, mas são os anos da mana Maria da Graça…

O Pereira destapou de novo os maus dentes, num riso de estima:

– Ah! e como vai a Sra. D. Maria da Graça? Há que idades a
não vejo! Desde o ano passado, na procissão de Passos, em Oliveira…
Muito boa senhora! Muito dada! E o Sr. José Barrolo? Pessoa excelente
também, a valer, o Sr. José Barrolo… E que terra a dele, a
Ribeirinha! A melhor propriedade destas vinte léguas em redor. Linda
propriedade! A do André Cavaleiro que lhe está pegada, a Biscaia,
não se lhe compara – e como cardo ao pé de couve.

O Fidalgo da Torre descascava um pêssego, sorrindo:

– Do André Cavaleiro nada presta, Pereira! Nem tenra nem alma!

O lavrador pareceu surpreendido. Ele imaginava que o Fidalgo e o Cavaleiro
continuavam chegados e amigos… Não em Política! Mas particularmente,
como cavalheiros…

– O quê? Eu e o Cavaleiro? Nem como cavalheiro nem como político.
Que ele nem é cavalheiro nem político. É apenas cavalo,
e ressabiado.

O Pereira ficou silencioso, com os olhos na toalha. Depois, resumindo:

– Então está entendido, no sábado, na cidade. E, se
não faz transtorno ao Fidalgo, passamos pelo Tabelião Guedes,
e fica o feito arrumado. O Fidalgo, naturalmente, vai para casa da senhora
sua mana…

– Sempre. Apareça você às três horas. Lá
conversamos com o Padre Soeiro!

– Também há que idades não encontro o Sr. Padre Soeiro!

– Oh! esse ingrato, agora, raramente aparece na Torre. Sempre em Oliveira,
com a mana Graça, que é a menina dos seus encantos… Então
nem um cálice de vinho do Porto, Pereira?… Bem, até sábado.
Não esqueça o beijinho para o neto.

– Cá me vai no coração, meu Fidalgo… Ora essa! Pois
consentia eu que V. Exa. se levantasse? Sei perfeitamente a escada, e ainda
passo pela cozinha para debicar com a tia Rosa. Já desde o tempo do
paizinho de V. Exa., que Deus haja, conheço bem a Torre!… E sempre
me esperancei de trazer nesta quinta uma lavoura a meu gosto, de consolar!

Durante o café, esquecido dos jornais, Gonçalo gozou a excelência
daquele negócio. Duzentos mil réis mais de renda. E a Torre
tratada pelo Pereira, com aquele amor da terra e saber de lavra que transformara
o chavascal do Monte-Agra numa maravilha de seara, vinha e horta!… Além
disso, homem abastado, capaz de um adiantamento. E eis aí mais uma
evidência do valor da Torre, esse afinco do Pereira em a arrendar, ele
tão apertado, tão seguro… Quase se arrependia de lhe não
ter arrancado um conto e duzentos. Enfim, a manhã fora fecunda! E,
realmente, nenhum acordo firmado o colava ao Casco. Entre eles apenas se esboçara
uma conversa, sobre um arrendamento possível da Torre, a debater depois
miudamente, numa base nova de novecentos e cinqüenta mil réis…
E que insensatez se ele, por escrupuloso respeito dessa conversa esboçada,
recusasse o Pereira, retivesse o Casco, lavrador de rotina – dos que raspam
a terra para comer, e a deixam cada ano deperecendo, mais cansada e chupada!…

– Bento, traze charutos! E o Joaquim que tenha a égua selada das cinco
para as cinco e meia. Sempre vou à Feitosa… Hoje é o dia!

Acendeu um charuto, voltou à livraria. E, imediatamente, releu o final
magnífico: “De mal com o Reino e como Rei, mas de bem com a honra
e comigo!” – Ah! como ali gritava a alma inteira do velho português,
no seu amor religioso da palavra e da honra! E, com a tira de almaço
entre os dedos, junto da varanda, considerou um momento a Torre, as poeirentas
frestas engradadas de ferro, as resistentes ameias, ainda inteiras, onde agora
adejava um bando de pombas… Quantas manhãs, às frescas horas
da alva, o velho Tructesindo se encostara àquelas ameias, então
novas e brancas! Toda a terra em redor, semeada ou bravia, decerto pertencia
ao poderoso Rico-homem. E o Pereira, nesse tempo colono ou servo, só
abordava a seu Senhor de joelhos e tremendo! Mas não lhe pagava um
conto cento e cinqüenta mil réis de sonora moeda do Reino. Também,
que diabo, o vovô Tructesindo não precisava… Quando as sacos
rareavam nas arcas, e as acostados rosnavam por tardança de soldo,
o leal Rico-homem, para se prover, tinha as tulhas e as adegas dos Concelhos
mal defendidos – ou então, numa volta de estrada, o ovençal
voltando de recolher as rendas reais, o bufarinheiro genovês com os
machos ajoujados de trouxas. Por baixo da Torre (como lhe contara o papá)
ainda negrejava a masmorra feudal, meio atulhada, mas com restos de correntes
chumbadas aos pilares, e na abóbada a argola de onde pendia a polé,
e no lajedo os buracos em que se escorava o potro. E, nessa surda e úmida
cova, ovençal, bufarinheiro, Clérigos e mesmo burgueses de foro
uivavam sob o açoite ou no torniquete, até largarem agonizando
o derradeiro morabitino. Ah! a romântica Torre, cantada tão meigamente
ao luar pelo Videirinha, quantos tormentos abafara!…

E de repente, com um berro, Gonçalo agarrou de sobre a mesa um volume
de Walter Scott, que atirou sem piedade, como uma pedra, contra a tronco de
uma faia. É que descortinara a gato da Rosa cozinheira, trepado, de
unhas fincadas num ramo, arqueando a espinha, para assaltar um ninho de melros.

Quando nessa tarde o Fidalgo da Torre, airoso no seu fato novo de montar,
polainas de couro polido, luvas de camurça branca, parou a égua
ao portão da Feitosa – um velho todo esfarrapado, com longos cabelos
caídos pelos ombros e imensas barbas espalhadas pelo peito, imediatamente
se ergueu do banco de pedra onde comia rodelas de chouriço, bebendo
de uma cabaça, para o avisar que o Sr. Sanches Lucena e a Sra. D. Ana
andavam por fora, de carruagem. Gonçalo pediu ao velho que puxasse
o ferro da sineta. E, entregando um cartão ao moço, que entreabrira
a rica grade dourada, com um S e um L entrelaçados sob uma coroa de
conde:

– O Sr. Sanches Lucena, bem?

– O Sr. Conselheiro, agora, um pouquinho melhor…

– O quê? Esteve doente?

– Pois o Sr. Conselheiro, aqui há três ou quatro semanas, andou
muito agoniado…

– Oh! Sinto muito… Diga ao Sr. Conselheiro que sinto muitíssimo!

Chamou o velho que repicara a sineta para o recompensar com um tostão.
E, interessado por aquelas barbaças e melenas de mendigo de Melodrama:

– Vossemecê pede esmola por estes sítios?

O homem ergueu para ele os olhos sujos, avermelhados da poeira e da sal,
mas risonhos, quase contentes:

– Também me chego pela Torre, meu Fidalgo. E, graças a Deus,
lá me fazem muito bem.

– Então quando lá voltar diga ao Bento… Você conhece
o Bento?

Se conhecia! E a Sra. Rosa…

– Pois diga ao Bento que lhe dê umas calças, homem! Você
assim, com essas calças, não anda decente.

O velho riu, num riso lento e desdentado, mirando com gosto os sórdidos
farrapos que lhe trapejavam nas canelas, mais denegridas e secas que galhos
de inverno:

– Rotinhas, rotinhas… Mas o se Dr. Júlio diz que me ficam assim
bem. O Sr. Dr. Júlio, quando lá passa, sempre me tira o retrato
na máquina. Ainda na semana passada… Até com uns pedaços
de grilhões dependuradas do pulso, e uma espada erguida na mão…
Parece que para mostrar ao Governo.

Gonçalo, rindo, picou a égua. Pensava agora em alongar por
Valverde: depois recolheria por Vila-Clara, e tentaria o Gouveia a partilhar
na Torre um cabrito assado no espeto de cerejeira, para que ele na véspera,
na Assembléia, convidara o Manuel Duarte e o Titó. Mas ao atravessar
a “Cruz das Almas”, onde a estrada de Corinde, tão linda,
com as suas filas de álamos, cruza a ladeira de Valverde, parou – notando
ao fundo, para o lado de Corinde, como o confuso esbarro de uma carrada de
lenha, e uma carriola de açougue, e uma mulher de lenço escarlate
bracejando sobre a albarda dum burro, e dois lavradores de enxada às
costas. E, de repente, todo o encalhe se despegou – a mulher trotando no seu
burrinho, logo sumida numa volta de arvoredo; a carriola solavancando num
rolo leve de poeira; o carro avançando para a “Cruz das Almas”
a chiar tardamente; os cavadores descendo para uma chã através
das leiras de feno… Na estrada só restou, como desamparado, um homem
de jaqueta ao ombro, que se arrastava penosamente, coxeando. Gonçalo
trotou, com curiosidade:

– Que foi?… Vossemecê que tem?

O homem, com a perna encolhida, levantou para Gonçalo uma face arrepanhada,
quase desmaiada, que reluzia sob as camarinhas de suor:

– Nosso Senhor lhe dê muito boas-tardes, meu Fidalgo! Ora o que há
de ser? Desgraças desta vida!

E, gemendo, contou a sua história. – Desde meses padecia duma chaga
num tornozelo, que não secara, nem com emplastros, nem com pó
de murtinhos, nem com benzeduras… E agora andava arriba, na fazenda do Sr.
Dr. Júlio, a consertar um socalco, para ajudar um compadre também
doente com maleitas – e, zás, desaba um pedregulho, que topa na ferida,
leva a carne, lasca o osso, o deixa naquela lástima!… Até
rasgara a fralda para ensopar o sangue e amarrar por cima o lenço.

– Mas assim não pode andar, homem! Donde é vossemecê?

– De Corinde, meu Fidalgo. Manuel Solha, do lugar da Finta. Até lá,
sempre me hei-de arrastar.

– E então, dessa gente toda, que aí estava há bocado,
ninguém o pode ajudar?… Uma carriola, dois latagões..,.

Uma rija guinada, no teimoso esforço de firmar a perna, arrancou um
grito ao Solha. Mas sorriu, arquejando… Que queria o Fidalgo? Cada um, neste
mundo, tem a sua pressa… Enfim, a rapariga do burro prometera passar pela
Finta, para avisar. E talvez um dos seus rapazes aparecesse na estrada com
uma eguazita que ele comprara pela Páscoa – e que, por desgraça,
também mancava!…

Imediatamente, com um salto leve, o Fidalgo da Torre desmontou:

– Bem! Então, égua por égua, já vossemecê
tem aqui esta…

O Solha embasbacou para Gonçalo:

– Ora essa! Santo nome de Deus!… Pois eu havia de ir a cavalo, e V Exa.
a pé?

– Gonçalo ria:

– Homem, com essas discussões de “eu a pé” e “você”
a cavalo”, e “faz favor” e “não senhor”, é
que perdemos um tempo precioso. Monte, esteja quieto, e trote para a Finta!

O outro recuava para a valeta da estrada, sacudindo a cabeça, esgazeado,
como no espanto de um sacrilégio;

– Isso é que não, meu senhor, isso é que não!
Antes eu acabasse aqui à míngua, com a chaga em bolor!

Gonçalo bateu o pé, com autoridade:

– Monte, que mando eu! Vossemecê é um lavrador de enxada, eu
sou um Doutor formado em Coimbra, sou. eu que sei, sou eu que mando!

E o Solha, logo submisso ante aquela força deslumbrante do Saber superior,
agarrou em silêncio a crina da égua, enfiou respeitosamente o
estribo, ajudado pelo Fidalgo, que, sem tirar as luvas brancas, lhe amparava
o pé entrapado e manchado de sangue.

Depois, quando ele repousou no selim com um ah! consolado:

– Então que tal?

O homem só murmurava o nome de Nosso Senhor, na gratidão e
no assombro daquela caridade:

– Mas isto é a volta do mundo… Eu aqui, na égua do Fidalgo!
E o Fidalgo, o Sr. Gonçalo Ramires, da Torre, a pé pela estrada!

Gonçalo gracejou. E, para entreter a caminhada, perguntou pela quinta
do Dr. Júlio, que agora se arrojara a obras e plantações
de vinha. Depois, como o Manuel Solha conhecia o Pereira Brasileiro (que pensara
em arrendar as terras do Dr. Júlio), conversaram sobre esse esperto
homem, sobre as grandezas da Cortiga. Já sem embaraço, direito
no selim, no gosto daquela intimidade com o Fidalgo da Torre, o Solha esquecia
a chaga, a dor que adormentara. E à estribeira do Solha, atento e sorrindo,
o Fidalgo estugava o passo na poeira branca.

Assim se avizinhavam da Bica-Santa, um dos sítios decantados daquelas
cercanias formosas. Aí a estrada, cortada na encosta dum monte, alarga
e forma um arejado terraço, donde se abrange todo o vale de Corinde,
tão rico em casais, em arvoredos, em searas, em águas. No pendor
do monte, coberto de carvalhos e de fragas musgosas, brota a fonte nomeada,
que já em tempos de El-Rei D. João V curava males de entranhas
e que uma devota senhora de Corinde, D. Rosa Miranda Carneiro, mandou encanar
desde o alto até a um tanque de mármore, onde agora corre beneficamente,
por uma bica de bronze, sob a imagem e patrocínio de Santa Rosa de
Lima. De cada lado do tanque se encurvam dois compridos bancos de pedra, que
a espalhada ramaria das carvalheiras tolda de sombra e frescura. E um suave
retiro onde se apanham violetas, se comem merendas, e senhoras dos arredores
se sentam em rancho, nas tardinhas de domingo, escutando os melros, gozando
a povoada, luminosa e verdejante largueza do vale.

Antes porém de desembocar na Bica-Santa, e perto do lugar do Serdal,
a estrada de Corinde quebra numa volta: – e, aí, de repente, a égua
pulou, num reparo, que obrigou o Fidalgo da Torre, desconfiado da perícia
do Solha, a deitar a mão à caimba do freio. Fora o encontro
inesperado duma carruagem – uma caleche forrada de azul, com a parelha coberta
de redes brancas contra a mosca, e na almofada, teso, um cocheiro de bigode,
farda de gola escarlate e chapéu de tope amarelo. E Gonçalo
mantinha ainda a égua pelo freio, como melro serviçal em trilho
perigoso – quando avistou, untado num dos bancos de pedra, junto da Bica,
com um xale-manta por cima dos joelhos, o velho Sanches Lucena. Ao lado o
trintanário, agachado, esfregava com um molho de erva a botina que
a bela D. Ana lhe estendia, apanhando o vestido de linho cru, apoiando a outra
mão, sem luva, na cinta vergada e fina.

A desconcertada aparição do Fidalgo da Torre, puxando pela
rédea a sua égua onde se escarranchava regaladamente um cavador
em mangas de camisa, alvorotou aquele repousado e dormente recanto da Bica.
Sanches Lucena esbugalhava os olhos, esbugalhava os óculos, num arremesso
de curiosidade que o levantara, com o pescoço esticado, o xale-manta
escorregado para a relva. D. Ana recolheu bruscamente a botina, logo empertigada
na gravidade condigna da senhora da Feitosa, retomando como uma insígnia
o cabo de ouro da luneta de ouro, suspensa por um cordão de ouro. E
até o trintanário ria pasmadamente para o Solha.

Mas já, como seu desembaraço elegante, Gonçalo, num
relance, saudara D. Ana, apertava com fervor a mão espantada do Sanches
Lucena, e, alegremente, se congratulava por aquele encontro ditoso! Pois vinha
justamente da Feitosa! E aí soubera com desgosto, por um moço
da quinta decerto exagerado, que o Sr. Conselheiro nas últimas semanas
andara doente… E, então como estava? como estava? Oh! a fisionomia
era excelente!

– Pois não é verdade, Sra. D. Ana? O aspecto é excelente!

Com um leve requebro da cabeça, um fofo ondear do molho de plumas
brancas sobre o chapéu de palha vermelha, ela volveu numa voz rolada,
lenta e gorda, que arrepiou Gonçalo:

– O Sanches agora, graças a Deus, desfruta melhor saúde…

– Um pouco melhor, sim, com efeito, muito agradecido a V. Exa., Sr. Gonçalo
Ramires! – murmurou o descarnado e corcovado homem, repuxando para os joelhos
o xale-manta.

E, com os óculos a luzir, cravados em Gonçalo, na curiosidade
que o abrasava, quase lhe rosara a face afilada, mais amarela que um círio:

– Mas, com perdão de V. Exa.! como é que V. Exa. anda por aqui,
pela estrada de Corinde, neste estado, a pé, trazendo à rédea
um lavrador de enxada?…

Rindo, sobretudo para D. Ana, cujos olhos formosamente negros, duma funda
refulgência líquida, também esperavam, sérios e
reservados, Gonçalo contou o desastre do bom homem, que encontrara
no caminho gemendo, arrastando a perna escalavrada…

– De sorte que lhe ofereci a minha égua… E até, se V Exa.
me permite, minha senhora, é necessário que eu combine com ele
o resto da jornada…

Rapidamente, voltou ao Solha, que, de novo acanhado ante os Senhores da Feitosa,
com o chapéu na mão, encolhido sobre o selim, como atenuando
a sua grandeza, logo se desestribou para desmontar. Mas já Gonçalo
lhe ordenava que trotasse para a Finta – e lhe mandasse a égua por
um dos seus rapazes, ali à Bica-Santa, onde ele se demorava com o Sr.
Conselheiro. E quando o Solha largou, saudando desabaladamente, torcido, como
impelido a seu pesar pelos acenos risonhos com que o Fidalgo o despedia, o
assombro do Sanches Lucena recomeçou:

– Ora uma coisa destas! Eu tudo esperaria, tudo, menos o Sr. Gonçalo
Mendes Ramires a trazer à rédea, pela estrada de Corinde, um
cavador de enxada! E a repetição do Bom Samaritano… Mas para
melhor!

Gonçalo gracejou, sentado no banco, junto de Sanches Lucena. – Oh!
o Bom Samaritano não merecera uma página tão amável
no Evangelho, somente por oferecer o burro a um Levita doente: decerto mostrara
virtudes mais belas… – E sorrindo para D. Ana, que, do Outro lado de Sanches
Lucena, espalhava a luneta, com lentidão majestosa, pelas árvores
e pela Fonte que tão bem conhecia:

– Há dois anos, minha senhora, que eu não tenho a honra…

Mas Sanches Lucena despediu um grito:

– Oh! Sr. Gonçalo Ramires! V. Exa. traz sangue na mão!

O Fidalgo reparou, espantado. Sobre a luva de camurça branca ressaltavam
duas manchas arroxeadas:

– Não é sangue meu! foi naturalmente quando o Solha montou,
e eu lhe segurei o pé escalavrado…

Arrancou a luva, que arremessou para as ervas bravas, por trás do
banco de pedra. E continuando o sorriso:

– Com efeito, não tenho a honra de encontrar a V. Exa., minha senhora,
desde o baile do Barão das Marges, em Oliveira, o famoso baile de Entrudo…
Há mais de dois anos, era eu estudante. E ainda me recordo que V Exa.
estava vestida esplendidamente de Catarina da Rússia…

E, enquanto a envolvia no sorrir dos olhos finos e meigos, pensava: – “Formosa
criatura! mas ordinária! e que!…” D. Ana também se recordava
do baile dos Marges:

– O cavalheiro, porém, está equivocado. Eu não fui de
Russa, fui de Imperatriz…

– Sim, de Imperatriz da Rússia, da Grande Catarina… E com um gosto!
com um luxo!

Sanches Lucena voltou vagarosamente para Gonçalo os óculos
de ouro, apontou um dedo alongado e lívido:

– Pois também eu me lembro que sua mana, e minha senhora, a Sra. D.
Graça, trazia um traje de lavradeira de Viana… Foi uma luzidíssima
festa; nem admira; o nosso Marges é sempre primoroso… E desde essa
noite não tornei a encontrar a mana de V. Exa. em intimidade. Apenas
de longe, na missa…

De resto pouco residia agora em Oliveira, apesar de conservar a casa montada,
criadagem e cocheira porque, ou culpa do ar ou culpa da água, não
se dava bem na Cidade.

Gonçalo acalorou mais o seu interesse:

– Mas então, realmente, V. Exa. o que tem tido?

Sanches Lucena sorriu, com amargura. Os médicos, em Lisboa, não
se entendiam. Uns atribuíam ao estômago – outros atribuíam
ao coração. Portanto, aqui ou ali, víscera essencial
atacada. E sofria crises – más crises… Enfim, com a graça
de Deus, e regime, e leite, e descanso, ainda esperava arrastar uns anos.

– Oh! com certeza! – exclamou Gonçalo alegremente. – E V. Exa. não
pensa que a estada em Lisboa, e as Câmaras, e a Política, a terrível
Política, o fatiguem, o agitem?…

Não, pelo contrário, Sanches Lucena passava toleravelmente
em Lisboa. Melhor mesmo que na Feitosa! Depois, gostava daquela distração
das Câmaras. E como conservava amigos na Capital, uma roda escolhida,
uma roda fina…

– Um desses nossos excelentes amigos, V. Exa. decerto conhece. Ele é
parente de V. Exa…. O D. João da Pedrosa.

Gonçalo, alheio ao homem, mesmo ao nome, murmurou polidamente:

– Sim, o D. João, decerto…

E Sanches Lucena, passando pelas suíças brancas a mão
magríssima, quase transparente, onde reluzia um enorme anel de armas
de safira:

– E não somente o D. João… Outro dos nossos amigos é
igualmente parente de V. Exa., e chegado. Muitas vezes temos falado de V.
Exa., e da sua casa. Que ele pertence também à primeira nobreza…
É o Arronches Manrique.

– Cavalheiro muito dado, muito divertido! – acrescentou D. Ana, com uma convicção
que lhe alteou o peito, a que o corpete justo marcava a força viçosa
e a perfeição.

A Gonçalo também nunca chegara esse nome sonoro. Mas não
hesitou:

– Sim, perfeitamente, o Manrique… De resto, eu tenho tantos parentes em
Lisboa, e vou tão pouco a Lisboa!… E V. Exa., Sra. D. Ana…

Mas o Sanches Lucena insistia, deliciado naquela conversa de parentescos
fidalgos:

– V. Exa., naturalmente, tem em Lisboa toda a sua parentela histórica.
Assim eu creio que V. Exa. é primo do Duque de Lourençal…
O Duarte Lourençal! Ele não usa o título, por Miguelismo,
ou antes por hábito; mas enfim é o legítimo Duque de
Lourençal. É quem representa a casa de Lourençal.

Gonçalo, sorrindo atentamente, desabotoara o fraque, procurava a sua
velha charuteira de couro.

– Sim, com efeito, o Duarte… Somos primos. Diz ele que somos primos. E
eu acredito. Entendo tão pouco de árvores de costado!… De
fato as casas em Portugal andam muito cruzadas; todos somos parentes, não
só pelo lado de Adão, mas pelos Godos… E V Exa., Sra. D. Ana,
prefere a estada em Lisboa?

Mas, reparando que escolhera um charuto, distraidamente o trincara:

– Oh! perdão minha senhora… Ia fumar sem saber se V. Exa….

Ela saudou, descendo as longas pestanas:

– O cavalheiro pode fumar; o Sanches não fuma, mas eu até aprecio
o cheiro.

Gonçalo agradeceu, enjoado com aquela voz redonda e gorda, aqueles
horrendos “cavalheiro, o cavalheiro!…” Mas pensava: – “que
linda pele! que bela criatura!…” E Sanches Lucena, inexorável,
estendera o dedo agudo:

– Pois eu conheço muito, não o Sr. D. Duarte Lourençal,
não tenho essa subida honra por ora, mas seu irmão, o Sr. D.
Filipe. Cavalheiro estimabilíssimo, como V. Exa. decerto sabe… E
depois, que talento… Que talento, no cornetim!

– Ah!

– O quê! V. Exa. não ouviu seu primo, o Sr. D. Filipe Lourençal,
tocar cornetim?

E até a bela D. Ana se animou, com um sorriso lânguido dos beiços
cheios, mais vermelhos que cerejas maduras sobre o fresco rebrilho dos dentes
pequeninos:

– Oh! toca ricamente! O Sanches gosta muito de música; eu também…
Mas, como V. Exa. compreende, aqui na aldeia, com a falta de recursos…

Gonçalo, arremessando o fósforo, exclamara logo, num sincero
interesse:

– Então, queria que V. Exa. ouvisse um amigo meu, que é verdadeiramente
sublime no violão, o Videirinha!…

Sanches Lucena estranhou o nome, a sua vulgaridade. E o Fidalgo, singelamente:

– É um rapaz muito meu amigo, de Vila-Clara… O José Videira,
ajudante da Farmácia…

Os óculos de Sanches Lucena cresceram de puro espanto:

– Ajudante da Farmácia e amigo do Sr. Gonçalo Mendes Ramires!

– Sim, desde estudante, dos exames do Liceu. Até o Videirinha passava
as férias na Torre, com a mãe, antiga costureira da casa. Tão
bom rapaz, tão simples… E na realidade, no violão, um gênio!

– Agora tem ele uma cantiga admirável que chamou o Fado dos Ramires.
A música é com efeito um fado de Coimbra, um fado conhecido.
Mas os versos são dele, umas quadras engraçadas sobre coisas
da minha Casa, lendas, patranhas… Pois ficou sublime! Ainda há dias
na Torre, comigo e com o Titó…

E a este nome, familiar e menineiro, Sanches Lucena mostrou outro reparo:

– O Titó?

O Fidalgo ria:

– É uma velha alcunha de amizade que nós damos ao Antônio
Vilalobos.

Então Sanches Lucena atirou ambos os braços, como se alguém
muito querido aparecesse na estrada:

– O Antônio Vilalobos! Mas esse é um dos nossos fiéis
e bons amigos! Cavalheiro estimabilíssimo! Quase todas as semanas nos
faz o favor de aparecer pela Feitosa…

E agora era o Fidalgo que pasmava ante essa intimidade a que nunca o Titó
aludira, quando no Gago, na Torre, na Assembléia, se berrava, politicando,
o nome do Sanches Lucena!

– Ah, V. Exa. conhece…

Mas D. Ana, que se erguera bruscamente do banco, e, debruçada, recolhia
a luva e a sombrinha – lembrou ao marido o esfriar lento da tarde, a neblina
subindo sempre àquela hora do vale aquecido:

– Sabes que nunca te faz bem… E também não faz bem à
parelha, assim parada, há tanto tempo.

Imediatamente Sanches Lucena, receoso, puxara da algibeira um espesso lenço
de seda branca para abafar o pescoço. E, receoso também pela
parelha, logo se arrancou pesadamente do banco de pedra, com um aceno cansado
ao trintanário para apanhar o xale, avisar o cocheiro. Mas ainda atravessou,
vergado e arrimado à bengala, para o parapeito que resguarda a estrada
sobre o despenhado pendor do monte, dominando o vale. E confessava a Gonçalo
que aquele era, nos arredores da Feitosa, o seu passeio preferido. Não
só pela beleza do sítio, já cantado pelo “nosso
mavioso Cunha Torres”; mas porque do terraço da Bica, sem esforço,
sentado no banco, avistava numa largueza terras suas:

– Olhe V. Exa…. Para além daquele souto, até a chã
e ao cômoro onde está a casota amarela e por trás o pinhal,
tudo é meu… O pinhal ainda é meu… Acolá, do renque
de álamos para diante, depois do lameiro, é também meu…
Ali, do lado da ermida, pertence ao Monte-Agra… Mas, mais para lá,
passado o azinhal, pelo monte acima, é tudo meu!

O lívido dedo, o braço escanifrado na manga de casimira preta,
cresciam por sobre o vale. – Além os pastos… Adiante os centeios…
Depois o bravio… – Tudo dele! E, por trás da magra figura alquebrada,
de chapéu enterrado na nuca, o abafo de seda subido até às
pálidas orelhas quase despegadas, D. Ana, esbelta, clara e sã
como um mármore, com um sorriso esquecido nos lábios gulosos,
o formoso peito mais cheio, acompanhava a enumeração copiosa,
afincava a luneta sobre os pastos, e os pinhais, e os centeios, sentindo já
– tudo dela!

– E agora acolá, detrás do olival – concluiu Sanches Lucena
com respeito – é sítio seu, Sr. Gonçalo Mendes Ramires…

– Meu?

– De V. Exa., quero dizer, ligado à Casa de V Exa.. Pois não
reconhece?… Além, por trás do moinho, passa a estrada de Santa
Maria de Craquede. São os túmulos dos seus antepassados… Passeio
que eu também às vezes faço, e com gosto. Ainda há
um mês visitamos detidamente as ruínas. E acredite que fiquei
impressionado! Aquele bocado de claustro tão antigo, os grandes esquifes
de pedra, a espada chumbada à abóbada por cima do túmulo
do meio… É de comover! E achei muito bonito, muito filial, da parte
de V. Exa., o ter sempre aquela lâmpada de bronze acesa de noite e de
dia…

Gonçalo engrolou um murmúrio risonho – porque não se
recordava da espada, nunca recomendara a lâmpada. Mas Sanches Lucena,
agora, suplicava um precioso favor ao Sr. Gonçalo Mendes Ramires. E
era que V. Exa. lhe concedesse a honra de o conduzir na carruagem à
Torre… Alvoroçadamente Gonçalo recusou. Nem podia! combinara
com o homem da perna dorida esperar ali, na Bica, pela sua égua.

– Mas fica aqui o meu trintanário, que leva a égua de V. Exa.
à Torre.

– Não, não, se V. Exa. me permite, eu espero… Depois meto
pelo atalho da Crassa, porque tenho às oito horas na Torre, à
minha espera para jantar, o Titó.

D. Ana, do meio da estrada, apressou logo o marido sacudidamente, com a ameaça
renovada da friagem, do relento… Mas, junto da caleche, Sanches Lucena ainda
emperrou para afirmar a Gonçalo, com a descarnada mão sobre
o encovado peito, que aquela tarde lhe ficava célebre…

– Porque vi uma coisa que poucas vezes se terá visto: o maior Fidalgo
de Portugal, a pé pela estrada de Corinde, levando à rédea
no seu próprio cavalo um cavador de enxada!

Ajudado por Gonçalo, trepou enfim pesadamente ao estribo. D. Ana já
se enterrara nas almofadas, alçando entre as mãos, como uma
insígnia, o cabo rebrilhante da luneta de ouro. O trintanário
também se entesou, cruzou os braços: e a caleche aparatosa,
com as manchas brancas das redes dos cavalos, mergulhou no silêncio
e na penumbra da estrada, sob a espalhada ramaria das faias.

– Que maçada! – exclamou Gonçalo. E não se consolava
de tarde tão linda assim desperdiçada… Intolerável,
esse Sanches Lucena, com o Sr. D. Fulano e o Sr. D. Sicrano, e a sua gula
de “roda fina”, e “tudo dele” por colina e vale! A mulher,
esplêndida peça de carne, como filha de carniceiro – mas sem
migalha de graça ou alma. E que voz, Jesus, que voz! Gente pedante
e sabuja… E agora só desejava recuperar a sua égua, galopar
para a Torre, e desabafar com o Titó, familiar da Feitosa!, o seu asco
por toda aquela Sancharia.

A égua não tardou, a trote largo, montada pelo filho do Solha,
que, ao avistar o Fidalgo, saltou à estrada, de chapéu na mão,
encouchado e encarnado, balbuciando que o pai chegara bem, pedia a Nosso Senhor
lhe pagasse a caridade…

– Bem, bem! Recados a teu pai. Que estimo as melhoras. Lá mandarei
saber.

Num pulo montara – galopava pelo fácil atalho da Crassa. Mas, diante
do portão da Torre, encontrou um moço do Gago, com um bilhete
do Titó, anunciando que não podia jantar na Torre porque partia
nessa semana para Oliveira!

– Que disparate! Para Oliveira também eu parto; mas janto hoje! Até
combinávamos, o levava na carruagem… Ele que ficou a fazer, o Sr.
D. Antônio?

O rapaz coçou pensativamente a cabeça:

– O Sr. D. Antônio passou lá por casa para eu trazer o bilhete
ao Fidalgo… Depois, creio que tem festa, porque entrou defronte no tio Cosme
fogueteiro, a comprar bichas de rabear…

Aquelas inesperadas bichas de rabear causaram logo ao Fidalgo uma imensa
inveja:

– E onde é a festa, sabes?

– Eu não sei, meu Fidalgo… Mas parece que é coisa rija, porque
o Sr. João Gouveia encomendou lá ao patrão dois grandes
pratos de bolos de bacalhau.

Bolos de bacalhau! Gonçalo sentiu como a amargura de uma traição:

– Oh! que animais!

E de repente ideou uma vingança alegre:

– Pois se vires hoje o Sr. D. Antônio ou o Sr. João Gouveia
não te esqueças de lhes dizer que sinto muito… Que eu também
cá tinha à noite na Torre uma festa. E havia senhoras. Vinha
a Sra. D. Ana Lucena… Não te esqueças, hem?

Gonçalo galgou as escadas rindo da sua invenção. Mas,
nessa noite, às nove horas, depois do arrastado e atochado jantar com
o Manuel Duarte, entrou na sala grande dos retratos, apenas alumiada pelo
lampião dourado do corredor, para buscar uma caixa de charutos. E casualmente,
através da janela aberta, reparou num homem que, embaixo, rente da
sombra dos álamos, rondava, espreitava… Mais atento, imaginou reconhecer
os poderosos ombros, o andar bovino do Titó. Mas não, com certeza!
o homem trazia jaqueta e carapuço de lã. Curioso, abafando os
passos, ainda se abeirou da varanda. O vulto porém descera da estrada,
logo sumido sob as árvores duma quelha que contorna o Casal do Miranda,
e desemboca adiante, na Portela, junto das primeiras casas de Vila-Clara.

CAPÍTULO IV

O palacete dos Barrolos em Oliveira (conhecido desde o começo do século
pela Casa dos Cunhais) erguia a sua fidalga fachada de doze varandas no largo
de El-Rei, entre uma solitária viela que conduz ao Quartel e à
rua das Tecedeiras, velha rua mal empedrada, ladeirenta, oprimida pelo comprido
terraço do jardim, e pelo muro fronteiro da antiga cerca das Mônicas.
E nessa manhã, justamente quando Gonçalo, na caleche da Torre
puxada pela parelha do Torto, desembocava no largo de El-Rei, subia pela Tecedeiras,
dobrando a esquina dos Cunhais, num cavalo negro de fartas clinas, que feria
as lajes com soberba e garbo, o Governador Civil, o André Cavaleiro,
de colete branco e chapéu de palha. Num relance, do fundo da caleche,
o Fidalgo ainda o surpreendeu levantando os pestanudos olhos negros para as
varandas de ferro do palacete. E pulou, com um murro no joelho, rugindo surdamente
– “que biltre!” Ao apear no portão (um portão baixo,
como esmagado pelo imenso escudo de armas dos Sás) tão sufocada
indignação o impelia que não reparou nas efusões
do porteiro, o velho Joaquim da Porta, e esqueceu dentro da caleche os presentes
para Gracinha, a caixa com o guarda-solinho e um cesto de flores da Torre
coberto de papel de seda. Depois em cima, na sala de espera, onde José
Barrolo correra, ao sentir nas lajes do largo silencioso o estrépito
do calhambeque, desabafou logo, arrebatadamente, atirando o guarda-pó
para uma cadeira de couro:

– Oh senhores! Que eu não possa vir à cidade sem encontrar
de cara este animal do Cavaleiro! E sempre no largo, defronte da casa! E sorte!…
Esse bigodeira não achará outro lugar para onde vá caracolar
com a pileca?

José Barrolo, um moço gordo, de cabelo ruivo e crespo, com
um buço claro numa face mais redonda e corada que uma bela maçã,
acudiu, ingenuamente:

– Pileca?!.. Oh, menino, tem agora um cavalo lindo! Um cavalo lindo, que
comprou ao Marges!

– Pois bem! É um burro feio em cima dum cavalo bonito. Que fiquem
ambos na cavalariça. Ou que vão ambos pastar para as Devesas!

O Barrolo escancarou a boca larga e fresca, de soberbos dentes, num lento
pasmo. E de repente, com uma patada no soalho, vergado pela cinta, rompeu
numa risada que o sufocava, lhe inchava as veias:

– Essa é de arromba! Não, essa é para contar no Club…
Um burro feio em cima dum cavalo bonito! E ambos a pastarem!… Tu vens hoje
rico, menino! Olha que essa! Ambos a pastarem, com os focinhos na erva, o
Governador Civil e o cavalo… E de arromba!

Rebolava pela sala, com palmadas radiantes sobre a coxa obesa. E Gonçalo,
adoçado por aquela ovação que celebrava a sua facécia:

– Bem. Dá cá esses ossos, ou antes esses untos. E como vai
a família? A Gracinha?… Oh! viva a linda flor!

Era ela, com a sua ligeireza airosa e menineira, os magníficos cabelos
soltos sobre um penteador de rendas, correndo alvoroçada para o irmão,
que a envolveu num abraço e em dois beijos sonoros. E imediatamente,
recuando, a declarou mais bonita, mais gorda:

– Positivamente estás mais gorda, até mais alta… É
sobrinho?… Não? nada, por ora?

Gracinha corou, com aquele seu lânguido sorriso que mais lhe umedecia
e lhe enternecia a doçura dos olhos esverdeados.

– Se ela não quer, ela não quer! – gritava o José Barrolo,
gingando, com as mãos enterradas nos bolsos do jaquetão que
lhe desenhava as ancas roliças. – A culpa não é cá
do patrão… Mas ela não se decide!

O Fidalgo da Torre repreendeu a irmã:

– Pois é necessário um menino. Eu por mim não caso,
não tenho jeito; e lá se vão desta feita Barrolos e Ramires!
A extinção dos Barrolos é uma limpeza. Mas, acabados
os Ramires, acaba Portugal. Portanto, Sra. D. Graça Ramires, depressa,
em nome da nação, um morgado! Um morgado muito gordo, que eu
pretendo que se chame Tructesindo!

Barrolo protestou, aterrado:

– O quê? Turtesinho? Não! para tal sorte não o fabrico
eu!

Mas Gracinha deteve aqueles gracejos picantes, desejosa de saber da Torre,
e do Bento, e da Rosa cozinheira, e da horta, e dos pavões… Conversando,
penetraram na outra sala, guarnecida de contadores da índia, de pesados
cadeirões dourados de damasco azul, com três varandas sobre o
largo de El-Rei. Barrolo enrolou um cigarro, reclamou a história do
Relho, da grande desordem. Também ele arranjara uma pega com o rendeiro
da Ribeirinha, por causa dum corte de pinhal. Essa do Relho, porém,
fora tremenda…

E Gonçalo, enterrado ao canto do fundo canapé azul, desabotoando
preguiçosamente o jaquetão de chaviote claro:

– Não! foi muito simples. Já há meses esse Relho andava
bêbado, sem despegar… Uma noite berrou, ameaçou a Rosa, agarrou
numa espingarda. Eu desci, e num instante a Torre ficou desembaraçada
de Relhos e de barulhos.

– Mas veio o Regedor, com cabos! – acudiu o Barrolo.

Gonçalo sacudiu os ombros, impaciente:

– Veio o Regedor? Veio depois, para legalizar! Já o homem abalara,
corrido. E como resultado arrendei a Torre ao Pereira, ao Pereira da Riosa…

Contou esse negócio excelente, tratado na varanda, ao almoço,
entre dois copos de vinho verde. Barrolo admirou a renda – gabou o rendeiro.
Assim Gonçalo descortinasse outro Pereira para a quinta de Treixedo,
terra tão generosa, tão mal amanhada!

À borda do canapé, coberta pelos belos cabelos que lavara nessa
manhã e que cheiravam a alecrim, Gracinha contemplava o irmão
com ternura:

– E do estômago, andas melhor? Continuam as ceias com o Titó?

– Oh! esse animal! – exclamou Gonçalo. – Há dias prometeu jantar
na Torre, até a Rosa assou um cabrito no espeto, magnífico…
Depois falhou: creio que teve uma orgia infame, com bichas de rabear. Ele
vem esta semana a Oliveira… E é verdade! vocês sabiam da intimidade
do Titó com o Sanches Lucena?

Historiou então, com exagero alegre, o encontro da Bica-Santa, o horror
que lhe causara a bela D. Ana, a descoberta inesperada dessa familiaridade
do Titó na Feitosa.

Barrolo recordou que uma tarde, antes do S. João, avistara o Titó,
diante do portão da Feitosa, a passear pela trela um cãozinho
branco de regaço…

– Mas o que eu não compreendo, menino, é esse teu “horror”
pela D.Ana… Caramba! Mulher soberba! Um quebrado de quadris, uns olhões,
um peitoril…

– Cale essa boca impura, devasso! – gritou Gonçalo. – Pois aqui ao
lado da sua mulher, que é a flor das Graças, ousa louvar semelhante
peça de carne!

Gracinha rindo, sem ciúmes, compreendia “a admiração
do José”. Realmente, a Ana Lucena, que vistosa, que bela!…

– Sim – concedeu Gonçalo -, bela como uma bela égua… Mas
aquela voz gorda, papuda… E a luneta, os modos… E “o cavalheiro pode
fumar, o cavalheiro está enganado…” Oh! senhores, pavorosa!

Barrolo gingava, diante do sofá, com as mãos nos bolsos da
rabona:

– Uvas verdes, Sr. D. Gonçalo, uvas verdes!

O Fidalgo dardejou sobre o cunhado uns olhos ferozes:

– Nem que ela se me oferecesse, de joelhos, em camisa, com os duzentos contos
do Sanches numa salva de ouro!

Sorrindo, vermelha como uma peônia, com um “oh” escandalizado,
Gracinha bateu no ombro de Gonçalo – que puxou por ela, galhofeiramente:

– Venha lá essa bochecha, e outra beijoca, para purificar! Com efeito,
só pensar na D. Ana arrasta a gente às imagens brutais… Dizias
então do estômago… Sim, filha, combalido. E há dias
mais pesado, desde o tal cabrito no espeto e da companhia beberrona do Manuel
Duarte. Tu tens cá água de Vidago?… Então, Barrolinho,
sê angélico. Manda trazer já uma garrafinha bem fresca.
E olha! pergunta se subiram um açafate e uma caixa de papelão
que eu deixei na caleche? Que ponham no meu quarto. E não desembrulhes,
que é surpresa… Escuta! Que me levem água bem quente. Preciso
mudar toda a roupa… Estava uma poeirada por esse caminho!

E quando o Barrolo abalou, a rebolar e a assobiar, Gonçalo, esfregando
as mãos:

– Pois vocês ambos estão esplêndidos! E na harmonia que
convém. Tu positivamente mais forte, mais cheia. Até pensei
que fosse sobrinho. E o Barrolo mais delgado, mais leve…

– Oh, agora o José passeia, monta a cavalo, já não adormece
tanto depois de jantar…

– E a outra família? A tia Arminda, o rancho Mendonça? Bem?…
Padre Soeiro, que é feito desse santo?

– Teve um ataquezito de reumatismo, muito ligeiro. Agora bom, sempre no Paço
do Bispo, na Biblioteca… Parece que se entretém a fazer um livro
sobre os Bispos.

– Bem sei, a História da Sé de Oliveira… Pois eu também
tenho trabalhado muito, Gracinha! Ando a escrever um Romance.

– Ah!

– Um Romance pequeno, uma Novela, para os Anais de Literatura e de História,
uma Revista que fundou um rapaz meu amigo, o Castanheiro… É sobre
um fato histórico da nossa gente… Sobre um avô nosso, muito
antigo, Tructesindo.

– Tem graça, que fez ele?

– Horrores. Mas é pitoresco… E depois o Paço de Santa Irenéia,
no século XII, em todo o seu esplendor! Enfim uma bela reconstrução
do velho Portugal e sobretudo dos velhos Ramires. Hás de gostar…
Não há amores, tudo guerras. Apenas, muito remotamente, uma
das nossas antepassadas, uma D. Menda, que eu nem sei se realmente existiu.
Tem seu chic, bem?… E tu compreendes, como eu desejo tentar a Política,
preciso primeiramente aparecer, espalhar o meu nome…

Gracinha sorria docemente para o irmão, no costumado enlevo:

– E agora tens alguma idéia? A tia Arminda lá continua sempre
com a teima que devias entrar na Diplomacia. Ainda há dias… “Ai,
o Gonçalinho, assim galante, e com aquele nome, só numa grande
embaixada!”

Gonçalo despegara lentamente do vasto canapé, reabotoando o
jaquetão claro:

– Com efeito ando com uma idéia, há dias… Talvez me viesse
dum romance inglês, muito interessante, e que te recomendo, sobre as
antigas Minas de Ofir, King Solomon’s Mines… Ando com idéias de ir
para a África.

– Oh Gonçalo, credo! Para a África?

O escudeiro entrara com duas garrafas de água de Vidago, ambas desarrolhadas,
numa salva. Precipitadamente, para aproveitar o “piquezinho”, Gonçalo
encheu um copo enorme de cristal lavrado. Ah! que delícia de água!
– E como o Barrolo voltava, anunciando que cumprira as ordens de S. Exa.:

– Bem! então logo conversamos ao almoço, Gracinha! Agora lavar,
mudar de roupa, que não paro com estas infames comichões…

Barrolo acompanhou o cunhado ao quarto, um dos mais espaçosos e alegres
do Palacete, forrado de cretones cor de canário com uma varanda para
o jardim, e duas janelas de peitoril sobre a rua das Tecedeiras e os velhos
arvoredos do convento das Mônicas. Gonçalo impaciente despiu
logo o casaco, sacudiu para longe o colete:

– Pois tu estás esplêndido, Barrolo! Deves ter perdido três
ou quatro quilos. São naturalmente os quilos que Gracinha ganhou…
Vocês, se assim se equilibram, ficam perfeitos.

Diante do espelho Barrolo acariciava a cinta, com um risinho deleado:

– Realmente, parece que adelgacei… Até sinto nas calças…

Gonçalo abrira o gavetão da rica cômoda de ferragens
douradas, onde conservava sempre roupa (até duas casacas), para evitar
o transporte de malas entre os Cunhais e a Torre. E ria, aconselhava o bom
Barrolo a “adelgaçar” sem descanso, para beleza da futura
raça Barrólica – quando embaixo, na silenciosa rua das Tecedeiras,
as patas de um cavalo de luxo feriram as lajes em cadência lenta.

Logo desconfiado, Gonçalo correu à janela, ainda com a camisa
que desdobrava. E era ele! Era o André Cavaleiro, que descia ladeando,
sopeando a rédea, para escarvar com garbo e fragor a rampa mal empedrada.
Gonçalo virou para o Barrolo a face chamejante de furor:

– Isto é uma provocação! Se este descarado deste Cavaleiro
passa outra vez na maldita pileca, por debaixo das janelas, apanha comum balde
d’água suja!…

Barrolo, inquieto, espreitou:

– Naturalmente vai para casa das Lousadas… Anda agora muito íntimo
das Lousadas… Sempre por aqui o vejo… E é para as Lousadas.

– Que seja para o inferno! Pois, em toda a cidade, não há outro
caminho para casa das Lousadas? Duas vezes em meia hora! Grande insolente!
Tem uma chapada d’água de sabão, pela grenha e pela bigodeira,
tão certo como eu ser Ramires, filho de meu pai Ramires!

Barrolo beliscava a pele do pescoço, constrangido ante aqueles rancores
ruidosos que desmanchavam o seu sossego. Já, por imposição
de Gonçalo, rompera desconsoladamente com o Cavaleiro. E agora antevia
sempre uma bulha, um escândalo que o indisporia com os amigos do Cavaleiro,
lhe vedaria o Club e as doçuras da Arcada, lhe tornaria Oliveira mais
enfadonha que a sua quinta da Ribeirinha ou da Murtosa, solidões detestadas.
Não se conteve, arriscou o costumado reparo:

– Ó Gonçalinho, olha que também todo esse espalhafato
só por causa da Política…

Gonçalo quase quebrou o jarro, na fúria com que o pousou sobre
o mármore do lavatório:

– Política! Aí vens tu com a Política! Por Política
não se atira água suja aos Governadores Civis. Que ele não
é Político, é só malandro! Além disso…

Mas terminou por encolher os ombros, emudecer, diante do pobre bacoco de
bochechas pasmadas, que, naquelas rondas do Cavaleiro pelos Cunhais, só
notava o “lindo cavalo” ou “o caminho mais curto para as Lousadas!…”

– Bem! – resumiu. – Agora larga, que me quero vestir… Do bigodeira me encarrego
eu.

– Então, até logo… Mas se ele passar nada de asneiras, bem?

– Só justiça, aos baldes!

E bateu com a porta nas costas resignadas do bom Barrolo, que, pelo corredor,
suspirando, lamentava o assomado gênio do Gonçalinho, as cóleras
desproporcionadas em que o lançava “a Política”.

Enquanto se ensaboava com veemência, depois se vestia numa pressa irada,
Gonçalo ruminou aquele intolerável escândalo. Fatalmente,
apenas se apeava em Oliveira, encontrava o homem da grande guedelha, caracolando
por sob as janelas do palacete, na pileca de grandes clinas! E o que o desolava
era perceber no coração de Gracinha, pobre coração
meigo e sem fortaleza, uma teimosa raiz de ternura pelo Cavaleiro, bem enterrada,
ainda vivaz, fácil de reflorir… E nenhum outro sentimento forte que
a defendesse, naquela ociosidade de Oliveira nem superioridade do marido,
nem encanto dum filho no seu berço. Só a amparava o orgulho,
certo respeito religioso pelo nome de Ramires, o medo da pequena terra espreitadeira
e mexeriqueira. A sua salvação seria o abandono da cidade, o
encerrado retiro numa das quintas do Barrolo, a Ribeirinha, sobretudo a Murtosa,
com a linda mata, os musgosos muros de convento, a aldeia em redor para ela
se ocupar como castelã benéfica. Mas quê! Nunca o Barrolo
consentiria em perder o seu voltarete no Club, e a cavaqueira da tabacaria
“Elegante”, e as chalaças do major Ribas!

Afogueado pelo calor, pela emoção, Gonçalo abriu a varanda.
Embaixo, no curto terraço ladrilhado, orlado de vasos de louça,
precedendo o jardim, Gracinha, ainda soltos os cabelos por cima do penteador,
conversava com outra senhora, muito alta, muito magra, de chapéu marujo
enfeitado de papoulas, que segurava entre os braços um repolhudo molho
de rosas.

Era a “prima” Maria Mendonça, mulher de José Mendonça,
condiscípulo do Barrolo em Amarante, agora capitão do Regimento
de Cavalaria estacionado em Oliveira. Filha dum certo D. Antônio, senhor
(hoje Visconde) dos Paços de Severim, devorada pela preocupação
de parentescos fidalgos, de origens fidalgas, ligava sempre sorrateiramente
o vago solar de Severim a todas as casas nobres de Portugal – sobretudo, mais
gulosamente, à grande Casa de Ramires; e, desde que o regimento se
aquartelara em Oliveira, tratara logo Gracinha por “tu” e Gonçalo
por “primo”, com a intimidade especial, que convém a sangues
superiores. Todavia mantinha amizades muito seguidas e ativas com brasileiras
ricas de Oliveira – até com a viúva Pinho, dona da loja de panos,
que (segundo se murmurava) lhe fornecia os dois filhos ainda pequenos de calções
e de jalecas. Também convivia intimamente, já na cidade, já
na Feitosa, com D. Ana Lucena. Gonçalo gostava da sua graça,
da sua agudeza, da vivacidade maliciosa que a agitava numa linda crepitação
de galho, ardendo com alegria. E quando, ao rumor da janela perra, ela levantou
os olhos luzidios e espertos, foi em ambos uma surpresa carinhosa:

– Oh prima Maria! Que felicidade, logo que chego e que abro a janela…

– E para mim, primo Gonçalo, que o não via desde a sua volta
de Lisboa!… Pois está mais lindo, assim de bigode…

– Dizem que estou lindíssimo, absolutamente irresistível! Até
aconselho à prima Maria que se não aproxime muito de mim, para
se não incendiar.

Ela deixou pender desoladamente nos braços o seu pesado molho de rosas:

– Ai Jesus, então estou perdida, que ainda agora prometi à
prima Graça jantar cá esta tarde!… Oh Gracinha, por quem és,
põe um biombo entre os dois!

Gonçalo gritou, pendurado da varanda, já deliciado com os chistes
da prima Maria:

– Não! enfio eu um abat-jour pela cabeça para atenuar o meu
brilho!… E o maridinho, os pequenos? Como vai o nobre rancho?

– Vivendo, com algum pão e muita graça de Deus… Então
até logo, primo Gonçalo! E seja misericordioso!

E ainda ele ria, encantado – já a prima Maria, depois de cochichar
e de estalar dois beijos apressados na face de Gracinha, desaparecera pela
porta envidraçada da sala com a sua elegância esgalgada. Gracinha,
lentamente, subiu os três degraus de mármore do jardim. Da varanda,
Gonçalo ainda avistou através da ramaria leve, entre as sebes
de buxo, o penteador branco, os fartos cabelos caídos, reluzindo no
sol como uma cascata de azeviche. Depois o negro brilho, as claras rendas,
desapareceram sob os loureiros da rua que conduzia ao Mirante.

Mas Gonçalo não se arredou de entre as janelas, limando vagamente
as unhas, espreitando pelas cortinas, numa desconfiança, quase num
terror que o Cavaleiro de novo surgisse na pileca – agora que Gracinha se
embrenhara para os lados desse cômodo Mirante, construção
do século XVIII, imitando um Templozinho do Amor, que rematava o longo
terraço do jardim e dominava a rua das Tecedeiras. Mas a calçada
permanecia silenciosa, sob as derramadas sombras de arvoredo do Palacete e
do Convento. E por fim decidiu descer, envergonhado da espionagem – certo
que a irmã não se mostraria ao Cavaleiro na varandinha do Mirante,
assim com os cabelos em desalinho, por cima dum penteador.

E cerrava a porta, quando se encontrou diante dos braços do Padre
Soeiro, que o prenderam pela cinta com afago e respeito.

– Oh! meu ingratíssimo Padre Soeiro! – exclamava Gonçalo, batendo
ternamente nas gordas costas do capelão. – Então que feia ação
foi esta? Mais de um mês sem aparecer na Torre! Agora para o Sr. Padre
Soeiro já não há Gonçalinho, há só
Gracinha…

Enternecido, quase com uma lágrima a bailar nos mansos olhos miúdos,
que mais negrejavam entre a frescura rósea da face roliça e
a cabecinha branca como algodão – Padre Soeiro sorria, fechando as
mãos sobre o peito da batina de alpaca, donde surgia a ponta de um
lenço de quadrados vermelhos. E não lhe escasseara certamente
o desejo de ir à Torre. Mas aquele trabalhinho na Biblioteca do Paço
do Bispo… Depois o seu reumatismozito… Enfim a Sra. D. Graça sempre
esperando S. Exa., um dia, outro dia…

– Bem, bem! – acudiu alegremente Gonçalo, contanto que o coração
não se esquecesse da Torre…

– Ah! esse! – murmurou Padre Soeiro com comovida gravidade.

E pelo corredor de paredes azuis, adornadas com gravuras coloridas das batalhas
de Napoleão, Gonçalo resumiu as novidades da Torre:

– Como o Padre Soeiro sabe, rebentou aquele escândalo do Relho… E
ainda bem, porque concluí um negócio esplêndido. Imagine!
Arrendei há dias a quinta ao Pereira Brasileiro, ao Pereira da Riosa,
por um conto cento e cinqüenta mil réis…

O capelão suspendeu a pitada, que colhera numa caixa de prata dourada,
pasmado para o Fidalgo:

– Ora aí está como as coisas se inventam! Pois por cá
constou que V Exa. tratara com o José Casco, o José Casco dos
Bravais. Até no domingo, ao almoço, a Sra. D. Graça…

– Sim – interrompeu o Fidalgo com uma fugidia cor na face fina.

– Efetivamente o Casco veio à Torre, conversamos. Primeiramente quis,
depois não quis. Aquelas coisas do Casco! Enfim, uma maçada…
Não ficou nada

E ainda ele ria, encantado – já a prima Maria, depois de cochichar
e de estalar dois beijos apressados na face de Gracinha, desaparecera pela
porta envidraçada da sala com a sua elegância esgalgada. Gracinha,
lentamente, subiu os três degraus de mármore do jardim. Da varanda,
Gonçalo ainda avistou através da ramaria leve, entre as sebes
de buxo, o penteador branco, os fartos cabelos caídos, reluzindo no
sol como uma cascata de azeviche. Depois o negro brilho, as claras rendas,
desapareceram sob os loureiros da rua que conduzia ao Mirante.

Mas Gonçalo não se arredou de entre as janelas, limando vagamente
as unhas, espreitando pelas cortinas, numa desconfiança, quase num
terror que o Cavaleiro de novo surgisse na pileca – agora que Gracinha se
embrenhara para os lados desse cômodo Mirante, construção
do século XVIII, imitando um Templozinho do Amor, que rematava o longo
terraço do jardim e dominava a rua das Tecedeiras. Mas a calçada
permanecia silenciosa, sob as derramadas sombras de arvoredo do Palacete e
do Convento. E por fim decidiu descer, envergonhado da espionagem – certo
que a irmã não se mostraria ao Cavaleiro na varandinha do Mirante,
assim com os cabelos em desalinho, por cima dum penteador.

E cerrava a porta, quando se encontrou diante dos braços do Padre
Soeiro, que o prenderam pela cinta com afago e respeito.

– Oh! meu ingratíssimo Padre Soeiro! – exclamava Gonçalo, batendo
ternamente nas gordas costas do capelão. – Então que feia ação
foi esta? Mais de um mês sem aparecer na Torre! Agora para o Sr. Padre
Soeiro já não há Gonçalinho, há só
Gracinha…

Enternecido, quase com uma lágrima a bailar nos mansos olhos miúdos,
que mais negrejavam entre a frescura rósea da face roliça e
a cabecinha branca como algodão – Padre Soeiro sorria, fechando as
mãos sobre o peito da batina de alpaca, donde surgia a ponta de um
lenço de quadrados vermelhos. E não lhe escasseara certamente
o desejo de ir à Torre. Mas aquele trabalhinho na Biblioteca do Paço
do Bispo… Depois o seu reumatismozito… Enfim a Sra. D. Graça sempre
esperando S. Exa., um dia, outro dia…

– Bem, bem! – acudiu alegremente Gonçalo, contanto que o coração
não se esquecesse da Torre…

– Ah! esse! – murmurou Padre Soeiro com comovida gravidade.

E pelo corredor de paredes azuis, adornadas com gravuras coloridas das batalhas
de Napoleão, Gonçalo resumiu as novidades da Torre:

– Como o Padre Soeiro sabe, rebentou aquele escândalo do Relho… E
ainda bem, porque concluí um negócio esplêndido. Imagine!
Arrendei há dias a quinta ao Pereira Brasileiro, ao Pereira da Riosa,
por um conto cento e cinqüenta mil réis…

O capelão suspendeu a pitada, que colhera numa caixa de prata dourada,
pasmado para o Fidalgo:

– Ora aí está como as coisas se inventam! Pois por cá
constou que V Exa. tratara com o José Casco, o José Casco dos
Bravais. Até no domingo, ao almoço, a Sra. D. Graça…

– Sim – interrompeu o Fidalgo com uma fugidia cor na face fina.

– Efetivamente o Casco veio à Torre, conversamos. Primeiramente quis,
depois não quis. Aquelas coisas do Casco! Enfim, uma maçada…
Não ficou nada decidido. E quando o Pereira, uma bela manhã,
me apareceu com a proposta, eu, inteiramente desligado, aceitei, e com que
alvoroço!… Imagine! Um aumento soberbo de renda, o Pereira como rendeiro…
O Padre Soeiro conhece bem o Pereira…

– Homem entendido – concordou o capelão coçando embaraçadamente
o queixo. – Não há dúvida. E homem de bem… Depois não
havendo palavra dada ao Cas…

– Pois o Pereira para a semana vem à cidade – atalhou apressadamente
Gonçalo. – O Padre Soeiro previne o Tabelião Guedes, e assinamos
essa bela escritura. São as condições costumadas. Creio
que há uma reserva a respeito da hortaliça e do porco… Enfim
o Padre Soeiro deve receber carta do Pereira.

E imediatamente, descendo a escada, passando o lenço perfumado pelo
bigode, gracejou com o capelão sobre o famoso Fado dos Ramires em que
ele colaborava com o Videirinha. Oh! Padre Soeiro fornecera lendas sublimes!
Mas aquela de Santa Aldonça, realmente, fora ataviada com exageração…
Quatro Reis a levarem a Santa aos ombros!

– São Reis demais, Padre Soeiro!

O bom capelão protestou, logo interessado e sério, no amor
daquela obra que glorificava a Casa:

– Ora essa! Com perdão de V. Exa…. Perfeitissimamente exato. Lá
o conta o Padre Guedes do Amaral, nas suas Damas da Corte do Céu, livro
precioso, livro raríssimo, que o Sr. José Barrolo tem na Livraria.
Não especifica os Reis, mas diz quatro… “Aos ombros de quatro
Reis e com acompanhamento de muitos Condes.” Mas o nosso José
Videira declarou que não podia meter os condes por causa da rima.

O Fidalgo ria, dependurando num cabide, ao fundo da escada, o chapéu
de palha com que descera:

– Por causa da rima, pobres condes… Mas o fado está lindo. Eu trago
uma cópia para a Gracinha cantar ao piano… E agora outra coisa, Padre
Soeiro. O que se conta por aí do Governador Civil, desse Sr. André
Cavaleiro?…

O capelão encolheu os ombros, desdobrando cautelosamente o seu vasto
lenço de quadrados vermelhos:

– Eu, como V. Exa. sabe, não entendo de Política. Depois também
não freqüento os cafés, os sítios onde se questiona
Política… Mas parece que gostam.

No corredor um escudeiro gordo, de opulentas suíças ruivas,
que Gonçalo não conhecia, badalou a sineta do almoço.
Gonçalo reparou, avisou o homem que a Sra. D. Maria da Graça
andava para o fundo do jardim…

– Entrou agora, Sr. D. Gonçalo! – acudiu o escudeiro. – E até
manda perguntar se V. Exa. deseja para o almoço vinho verde de Amarante,
de Vidainhos.

Sim, com certeza, vinho de Vidainhos. Depois sorrindo:

– Oh Padre Soeiro, previna este escudeiro novo que eu não tenho Dom.
Sou simplesmente Gonçalo, graças a Deus!

O capelão murmurou que todavia, em documentos da Primeira Dinastia,
apareciam Ramires com Dom. E, como Gonçalo parara diante do reposteiro
corrido da sala, logo o bom velho se curvou, com as suas escrupulosas, reverentes
cerimônias, para o Fidalgo passar.

– Então, Padre Soeiro, por quem é!

Mas ele, com apegado respeito:

– Depois de V. Exa., meu senhor…

Gonçalo afastou o reposteiro, empurrou docemente o capelão:

– Padre Soeiro, já nos documentos da Primeira Dinastia se estabeleceu
que os Santos nunca andam atrás dos Pecadores!

– V. Exa. manda, e sempre com que graça!

Depois dos anos de Gracinha, uma tarde, pelas três horas, Gonçalo,
recolhendo com Padre Soeiro duma visita à Biblioteca do Paço
do Bispo, sentiu logo da antecâmara o vozeirão do Titó,
que rolava na sala azul em trovão lento. Franziu vivamente o reposteiro
– e sacudiu o punho para o imenso homem que enchia um dos cadeirões
dourados, estirando por sobre as flores do tapete umas botas novas de grossas
tachas reluzentes:

– Oh infame!… Então noutro dia assim me larga, sem escrúpulo,
depois de eu lhe preparar um cabrito estupendo, assado num espeto de cerejeira?
E para quê?… Para uma orgia reles, com bolinhos de bacalhau e bichinhas
de rabear!

Titó não desmanchou a sua conchegada beatitude:

– Impossibilíssimo. De tarde encontrei o João Gouveia no Chafariz.
E só então nos lembramos de que eram os anos da D. Casimira.
Dia sagrado!

Aquelas ceias de Vila-Clara, as tresnoitadas “pândegas” com
violão, impressionavam sempre Barrolo, que as apetecia. E com o olho
aguçado, do canto da mesa onde esfarelava cuidadosamente pacotes de
tabaco dentro de uma terrina do Japão:

– Quem é a D. Casimira? Vocês em Vila-Clara descobrem uns tipos…
Conta lá!

– Um monstro! – declarou Gonçalo. Uma matronaça bojuda como
uma pipa, com um pêlo nojento no queixo. Vive ao pé do Cemitério,
num cacifro que tresanda a petróleo, onde este senhor e as autoridades
vão jogar o quino, e derriçar com umas sirigaitas de casabeque
vermelho e de farripas… Nem se pode decentemente contar diante do Sr. Padre
Soeiro!

O capelão, que sem rumor se esbatera numa sombra discreta, entre os
franjados cetins duma cortina e um pesado contador da Índia, moveu
os ombros num consentimento risonho, como acostumado a todas as fealdades
do Pecado. E, com pachorra, o Titó emendava o esboço burlesco
do Fidalgo:

– A D. Casimira é gorda, mas muito asseada. Até me pediu para
eu lhe comprar hoje, na cidade, uma bacia nova de assento. A casa não
cheira a petróleo e fica por trás do convento de Santa Teresa.
As sirigaitas são simplesmente as sobrinhas, duas raparigas alegres
que gostam de rir e de troçar… E o Sr. Padre Soeiro podia, sem medo…

– Bem, bem! – atalhou Gonçalo. – Gente deliciosa! Deixemos a D. Casimira,
que tem bacia nova para os seus semicúpios… Vamos à outra
infâmia do Sr. Antônio Vilalobos!

Mas Barrolo insistia, curioso:

– Não, não, conta lá, Titó… Noite de anos,
patuscada rija, hem?

– Ceia pacata – contou o Titó com a seriedade que lhe merecia a festa
das suas amigas. – A D. Casimira tinha uma bela frangalhada com ervilhas.
O João Gouveia trouxe do Gago uma travessa de bolos de bacalhau que
calharam… Depois, fogo de vistas na horta. O Videirinha tocou, as pequenas
cantaram… Não se passou mal.

Gonçalo esperava – irresistivelmente interessado pela ceia das Casimiras:

– Acabou, bem?… Agora a outra infâmia, mais grave! Então o
Sr. Antônio Vilalobos é íntimo do Sanches Lucena, freqüenta
todas as semanas a Feitosa, toma chá e torradas com a bela D. Ana,
e esconde tenebrosamente dos seus amigos estes privilégios gloriosos?…

– Sem contar – gritou o Barrolo deliciosamente divertido – que lhe passeia
à trela os cãezinhos felpudos!

– Sem contar que lhe passeia à trela os cãezinhos felpudos!
– ecoou cavamente Gonçalo. – Responda, meu ilustre amigo!

O Titó remexeu o vasto corpo dentro do cadeirão, recolheu as
botas de tachas luzentes, afagou lentamente a face barbuda, que uma vermelhidão
aquecera. E depois de encarar Gonçalo, intensamente, com um esforço
de sagacidade que mais o afogueou:

– Tu já alguma vez, por curiosidade, me perguntaste se eu conhecia
o Sanches Lucena? Nunca me perguntaste…

O Fidalgo protestou. Não! Mas constantemente na Assembléia,
no Gago, na Torre, eles berravam, em questões de Política, o
nome do Sanches Lucena! Nada mais natural, até mais prudente, do que
aludir o Sr. Titó à sua intimidade ilustre! Ao menos para evitar
que ele, ou os amigos, diante do Sr. Titó que comia as torradas da
Feitosa, tratassem o Sanches Lucena como um trapo!

O Titó despegou do cadeirão. E afundando as mãos nos
bolsos da quinzena de alpaca, sacudindo desinteressadamente os ombros:

– Cada um tem sobre o Sanches a sua opinião… Eu apenas o conheço
há quatro ou cinco meses, mas acho que é sério, que sabe
as coisas… Agora, lá nas Câmaras…

Gonçalo, indignado, bradava que se não discutiam os méritos
do Sr. Sanches Lucena – mas os segredos do Sr. Titó Vilalobos! E o
escudeiro novo, avançando as suíças ruivas por uma fenda
do reposteiro, anunciou que o Sr. Administrador de Vila-Clara procurava S.
Exa….

Barrolo largou logo a terrina de tabaco:

– O Sr. João Gouveia! Que entre! Bravo! Temos cá toda a rapaziada
de Vila-Clara!

E Titó, da janela onde se refugiara, lançou o vozeirão,
mais troante, abafando a importuna conversa do Sanches e da Feitosa:

– Viemos ambos! Por sinal numa traquitana infame… Até se nos desferrou
uma das pilecas e tivemos de parar na Vendinha. Não se perdeu tempo,
que há agora lá um vinhinho branco que é daqui da ponta
fina!…

Beliscava a orelha. Aconselhava ruidosamente Barrolo e Gonçalo a passarem
na Vendinha, para provar a pinga celeste.

Até aqui o Sr. Padre Soeiro lhe atiçava uma caneca valente,
apesar do Pecado!

Mas João Gouveia entrou, encalmado, empoeirado, com um vinco vermelho
na testa, do chapéu e do calor – e abotoado na sobrecasaca preta, de
calças pretas, de luvas pretas. Sem fôlego, apertou silenciosamente
pela sala as mãos amigas que o acolhiam. E desabou sobre o canapé,
implorando ao amigo Barrolo a caridade duma bebidinha fresca!

– Estive para entrar no café Mônaco. Mas refleti que nesta grandiosa
casa dos Barrolos as bebidas são de mais confiança.

– Ainda bem! Você que quer? Orchata? Sangria? Limonada?

– Sangria.

E, limpando o pescoço e a testa, amaldiçoou o indecente calor
de Oliveira:

– Mas há gente que gosta! Lá o meu chefe, o Sr. Governador
Civil, escolhe sempre a hora do calor para passear a cavalo. Ainda hoje…
Na repartição até o meio-dia; depois, cavalo à
porta; e larga até a estrada de Ramilde, que é uma África…
Não sei como lhe não fervem os miolos!

– Oh! – acudiu Gonçalo – é muito simples. Se ele os não
tem!

O Administrador saudou gravemente:

– Já cá faltava com a sua ferroadazinha o Sr. Gonçalo
Mendes Ramires! Não comecemos, não comecemos… Este seu cunhado,
Barrolo, é bicho indomesticável! Sempre reponta!

O bom Barrolo gaguejou, constrangido, que Gonçalinho em Política
não dispensava a piada…

– Pois olhe! – declarou o Administrador, sacudindo o dedo para Gonçalo.
– Esse Sr. André Cavaleiro, que não tem miolos, ainda esta manhã
na Repartição gabou com imensa simpatia os miolos do Sr. Gonçalo
Mendes Ramires!…

E Gonçalo, muito sério:

– Também não faltava mais nada! Para esse Governador Civil
ser perfeitamente absurdo só lhe restava que me considerasse um asno!

– Perdão! – gritou o Administrador, que se erguera, desabotoando logo
a sobrecasaca, para comodidade da contenda.

Barrolo acudiu, aflito, carregando nos ombros do Gouveia – para o sossegar
e o repor no canapé:

– Não, meninos, não! Política, não! E então
essa maçada do Cavaleiro… Vamos ao que importa. Você janta
conosco, João Gouveia?

– Não, obrigado. Já prometi jantar com o Cavaleiro. Temos lá
o Inácio Vilhena. Vai ler um artigo que escreveu para o Boletim de
Guimarães sobre umas fôrmas de fabricar ossos de mártires,
descobertas nas obras do convento de S. Bento. Estou com curiosidade… E
a Sra. D. Graça, bem? Quem eu não avistava havia meses era o
Sr. Padre Soeiro. Nunca aparece agora pela Torre!… Mas sempre rijo, sempre
viçoso. Oh, Sr. Padre Soeiro, qual é o seu segredo para toda
essa meninice?

Do seu canto, o capelão sorriu timidamente. O segredo? Poupar a Vida
– não a consumindo nem com ambições nem com decepções.
Ora para ele, louvado Deus, a vida corria muito simples e muito pequenina.
E fora o seu reumatismo…

Depois, corando de acanhamento, através das sentenças evangélicas
que lhe escapavam:

– Mas mesmo o reumatismo não é mal perdido. Deus, que o manda,
sabe por que o manda… Sofrer edifica. Porque enfim o que nós sofremos
nos leva a pensar no que os outros sofrem…

– Pois olhe – volveu com alegre incredulidade o Administrador -, eu, quando
tenho os meus ataques de garganta, não penso na garganta dos outros!
Penso só na minha que me dá bastante cuidado. E agora a vou
regalar naquela bela sangria…

O escudeiro vergava, com a luzente bandeja de prata, carregada de copos de
sangria onde boiavam rodelinhas de limão. E todos se tentaram, todos
beberam, até Padre Soeiro, para mostrar ao Sr. Antônio Vilalobos
que não desdenhava o vinho, dádiva amável de Deus – pois
como ensina Tibulo com verdade, apesar de gentílico, vinus facit dites
animos, mollia corda dat, enrija a alma e adoça o coração.

João Gouveia, depois dum suspiro consolado, pousou na bandeja o copo
que esvaziara dum trago e interpelou Gonçalo:

– Vamos a saber! Então noutro dia que história fantástica
foi essa duma festa na Torre, com senhoras, com a D. Ana Lucena?… Eu não
acreditei quando o pequeno do Gago me encontrou, me deu o recado. Depois…

Mas dentre as cortinas da janela, onde acabava a sangria, Titó novamente
ribombou, interpelando também o Fidalgo:

– Ó sô Gonçalo! E o que me contou há pouco o Barrolo?…
Que andavas com idéias de abalar para a África?

Ao espanto de João Gouveia quase se misturou terror. Para a África?…
O quê? Com um emprego para a África?…

– Não! plantar cocos! plantar cacau! plantar café! – exclamava
o Barrolo, com divertidas palmadas na coxa.

Pois Titó aprovava a idéia! Também ele, se arranjasse
um capital, dez ou quinze contos, tentava a África, a traficar com
o preto… E também se fosse mais pequeno, mais seco. Que homens do
seu corpanzil, necessitando muito comezaina e muita vinhaça, não
agüentam a África, rebentam!

– O Gonçalo sim! É chupado, é rijo; não carrega
na aguardente; está na conta para Africanista… E sempre te digo!
Carreira bem mais decente que essa outra por que tens mania, de deputado!
Para quê? Para palmilhar na Arcada, para bajular Conselheiros.

Barrolo concordou, com alarido. Também não compreendia a teima
de Gonçalo em ser deputado! Que maçada! Eram logo as intrigas,
e as desandas nos jornais, e os enxovalhos. E sobretudo aturar os eleitores.

– Eu, nem que me nomeassem depois Governador Civil, com um título
e uma grã-cruz a tiracolo, como o Freixomil!

Gonçalo escutara, num silêncio risonho e superior, enrolando
laboriosamente um cigarro com o tabaco do Barrolo:

– Vocês não compreendem… Vocês não conhecem a
organização de Portugal. Perguntem aí ao Gouveia… Portugal
é uma fazenda, uma bela fazenda, possuída por uma parceria.
Como vocês sabem há parcerias comerciais e parcerias rurais.
Esta de Lisboa é uma parceria política, que governa a herdade
chamada Portugal… Nós os Portugueses pertencemos todos a duas classes:
uns cinco a seis milhões que trabalham na fazenda, ou vivem nela a
olhar, como o Barrolo, e que pagam; e uns trinta sujeitos em cima, em Lisboa,
que formam a parceria, que recebem e que governam. Ora eu, por gosto, por
necessidade, por hábito de família, desejo mandar na fazenda.
Mas, para entrar na parceria política, o cidadão português
precisa uma habilitação – ser deputado. Exatamente como, quando
pretende entrar na Magistratura, necessita uma habilitação –
ser bacharel. Por isso procuro começar como Deputado para acabar como
parceiro e governar… Não é verdade, João Gouveia?

O Administrador voltara à bandeja das sangrias, de que saboreava outro
copo, agora lentamente, aos goles.

– Sim, com efeito, essa é a carreira… Candidato, Deputado, Político,
Conselheiro, Ministro, Mandarim. É a carreira… E melhor que a de
África. Por fim na Arcada, em Lisboa, também cresce cacau e
há mais sombra!

Barrolo no entanto abraçara o ombro possante do Titó, com quem
mergulhou no vão da janela, numa confraternidade de idéias,
gracejando:

– Pois eu, sem ser dos tais parceiros, também mando nos bocados de
Portugal que mais me interessam porque me pertencem!… E sempre queria ver
que esse S. Fulgêncio, ou o Braz Victorino, ou lá os políticos
do Terreiro do Paço, se metessem a dispor nas minhas terras, na Ribeirinha
ou na Murtosa… Era a tiro!

Encostado à vidraça, Titó coçava a barba, impressionado:

– Pois sim, Barrolo! Mas você na Ribeirinha e na Murtosa tem de pagar
as contribuições que eles mandarem. E nesses concelhos tem de
agüentar as autoridades que eles nomearem. E goza para lá de estradas
se eles lhas fizerem. E vende o carro de pão e a pipa de vinho com
mais ou menos proveito, segundo as leis que eles votarem… E assim tudo.
O Gonçalo não deixa de acertar. É o diabo! Quem manda
é quem lucra… Olhe! o maroto do meu senhorio em Vila-Clara, agora
para o S. Miguel, aumenta a renda da casa em que eu moro, um cochicho que
ninguém quer, porque mataram lá o carrasco, que ainda lá
aparece… E o Cavaleiro, esse, como parceiro, vive de graça neste
belo palácio de S. Domingos, com cocheira, com jardim, com horta…

Barrolo atirou um chut, de mão espalmada, abafando o vozeirão
do Titó, com medo que as regalias do Cavaleiro, assim proclamadas,
renovassem as fúrias de Gonçalo. Mas o Fidalgo não percebera,
atento ao João Gouveia, que, enterrado no canapé depois da sangria,
novamente contava o seu assombro, ao encontrar no chafariz, em Vila-Clara,
o rapazola do Gago com o recado da grande festa na Torre:

– E cheguei a desconfiar que realmente você desse festa, quando bateram
as nove, depois as nove e meia, e o Titó sem chegar para a ceia da
D. Casimira!… Bem, pensei, também recebeu recado e abalou para a
Torre! Por fim, apenas ele apareceu, de carapuço e de jaqueta, percebi
que fora troça do Sr. D. Gonçalo…

Então o Fidalgo pasmou com uma inesperada, estranha suspeita:

– De carapuço e jaqueta? O Titó andava nessa noite de carapuço
e de jaqueta?…

Mas bruscamente Barrolo, da funda janela, lançou para dentro, para
a sala, um brado de pavor:

– Oh! rapazes! Santo Deus! Aí vêm as Lousadas! João Gouveia
saltou do canapé, como num perigo, reabotoando arrebatadamente a sobrecasaca;
Gonçalo, atarantado, esbarrou com o Titó e o Barrolo que recuavam,
no terror de serem apercebidos através dos vidros largos; até
Padre Soeiro, prudente, abandonou o seu recanto onde corria os óculos
pela Gazeta do Porto. E todos, dentre a fenda das cortinas, como soldados
na fresta de uma cidadela, espreitavam o largo, que o sol das quatro horas
dourava por sobre os telhados musgosos da Cordoaria. Do lado da rua das Pegas,
as duas Lousadas, muito esgalgadas, muito sacudidas, ambas com manteletes
curtos de seda preta e vidrilhos, ambas com guarda-sóis de xadrezinho
desbotado, avançavam, estirando pelo largo empedrado duas sombras agudas.

As duas manas Lousadas! Secas, escuras e gariulas como cigarras, desde longos
anos, em Oliveira, eram elas as esquadrinhadoras de todas as vidas, as espalhadoras
de todas as maledicências, as tecedeiras de todas as intrigas. E na
desditosa Cidade não existia nódoa, pecha, bule rachado, coração
dorido, algibeira arrasada, janela entreaberta, poeira a um canto, vulto a
uma esquina, chapéu estreado na missa, bolo encomendado nas Matildes,
que os seus quatro olhinhos furantes de azeviche sujo não descortinassem
– e que a sua solta língua, entre os dentes ralos, não comentasse
com malícia estridente! Delas surdiam todas as cartas anônimas
que infestavam o Distrito; as pessoas devotas consideravam como penitências
essas visitas em que elas durante horas galravam, abanando os braços
escanifrados; e sempre por onde elas passassem ficava latejando um sulco de
desconfiança e receio. Mas quem ousaria rechaçar as duas manas
Lousadas? Eram filhas do decrépito e venerando general Lousada; eram
parentas do Bispo; eram poderosas na poderosa confraria do Senhor dos Passos
da Penha. E depois duma castidade tão rígida, tão antiga
e tão ressequida, e por elas tão espaventosamente alardeada
– que o Marcolino dO INDEPENDENTE as alcunhara de Duas Mil Virgens.

– Não vêm para cá! – trovejou o Titó, com imenso
alívio.

Com efeito no meio do largo, rente à grade que circunda o antigo relógio
de sol, as duas manas paradas erguiam o bico escuro, farejando e espiando
a Igrejinha de S. Mateus onde o sino lançara um repique de batizado.

– Oh, com os diabos, que é para cá!

As Lousadas, decididas, investiam contra o portão dos Cunhais! Então
foi um pânico! As gordas pernas do Barrolo, fugindo, abalaram, quase
derrubaram sobre os contadores os potes bojudos da Índia. Gonçalo
bradava que se escondessem no pomar. Desconcertado, o Gouveia rebuscava com
desespero o seu chapéu-coco. Só o Titó, que as abominava
e a quem elas chamavam o Polifemo, retirou com serenidade, abrigando o Padre
Soeiro sob o seu braço forte. E já o bando espavorido se arremessara
sobre o reposteiro – quando Gracinha apareceu, com um fresco vestido de sedinha
cor de morango, sorrindo, pasmada, para o tropel que rolava:

– Que foi? Que foi?…

Um clamor abafado envolveu a doce senhora ameaçada:

– As Lousadas!

– Oh!

Fugidiamente o Titó e João Gouveia apertaram a mão que
ela lhes abandonou, esmorecida. A sineta do portão tilintara, temerosa!
E a fila acavalada, onde Padre Soeiro rebolava a reboque, enfiou para a Livraria
que o Barrolo aferrolhou, gritando ainda a Gracinha, com uma inspiração:

– Esconde as sangrias!

Pobre Gracinha! Atarantada, sem tempo de chamar o escudeiro, carregou ela
para uma banqueta do corredor, num esforço desesperado, a pesada salva
– com que as Lousadas, se a descortinassem, edificariam por sobre a cidade,
e mais alta que a Torre de S. Mateus, uma história pavorosa de “vinhaça
e bebedeira”. Depois, ofegando, relanceou no espelho o penteado. E direita
como numa arena, com a temeridade simples e risonha dos antigos Ramires, esperou
a arremetida das manas terríveis.

No outro domingo, depois do almoço, Gonçalo acompanhou a irmã
à casa da tia Arminda Vilegas, que na véspera, ao tomar (como
costumava todos os sábados) o seu banho aos pés, se escaldara
e recolhera à cama, apavorada, reclamando uma junta dos cinco cirurgiões
de Oliveira. Depois acabou o charuto sob as acácias do Terreiro da
Louça, pensando na sua Novela abandonada na Torre durante essas semanas,
e no lance famoso do Capítulo II que o tentava e que o assustava-o
encontro de Lourenço Ramires com Lopo de Baião, o Bastardo,
no vale fatal de Canta-Pedra. E recolhia aos Cunhais (porque prometera ao
Barrolo uma trotada a cavalo, até o Pinhal de Estevinha, para aproveitar
a doçura do domingo enevoado) quando, na rua das Velas, avistou o Tabelião
Guedes, que saia da confeitaria das Matildes com um grosso embrulho de pastéis.
Ligeiramente, o Fidalgo atravessou logo a rua – enquanto o Guedes, da borda
do passeio, pesado e barrigudo, na ponta dos botins miudinhos gaspeados de
verniz, descobria, numa cortesia imensa, a calva, emplumada ao meio pelo famoso
tufo de cabelo grisalho que lhe valera a alcunha de “Guedes Popa”:

– Por quem é, meu caro Guedes, ponha o chapéu! Como está?
Sempre fero e moço. Ainda bem!… Falou com o meu Padre Soeiro? O Pereira
da Riosa, por fim, só vem à cidade na quarta-feira…

Sim! Sim! O Sr. Padre Soeiro passara pelo cartório, para avisar e
ele apresentava os parabéns a S. Exa. pelo seu novo rendeiro…

– Homem muito competente, o Pereira! Já há vinte anos que o
conheço… E olhe V. Exa. a propriedade do Conde de Monte-Agra! Ainda
me lembro dela, um chavascal; hoje que primor! Só a vinha que ele tem
plantado! Homem muito competente… E V. Exa. com demora?

– Dois ou três dias… Não se atura este calor de Oliveira.
Hoje, felizmente, refrescou. E que há de novo? Como vai a política?
O amigo Guedes sempre bom Regenerador, leal e ardente, bem?

Subitamente o Tabelião, com o seu embrulho de doces conchegado ao
colete de seda preta, agitou o braço gordo e curto, numa indignação
que lhe esbraseou de sangue o pescoço, as orelhas cabeludas, a face
rapada, toda a testa até as abas do chapéu branco orlado de
fumo negro:

– E quem o não há de ser, Sr. Gonçalo Mendes Ramires?
Quem o não há de ser?… Pois este último escândalo!

Os risonhos olhos de Gonçalo logo se alargaram, sérios:

– Que escândalo?

O Tabelião recuou. Pois S. Exa. não sabia da última
prepotência do Governador Civil, do Sr. André Cavaleiro?

– O quê, caro amigo?…

O Guedes cresceu todo sobre o bico dos botins pequeninos, e bojou, e inchou,
para exclamar:

– A transferência do Noronha!… A transferência do desgraçado
Noronha!

Mas uma senhora, também obesa, de buço carregado, toda a estalar
em ricas e rugidoras sedas de missa, arrastando severamente pela mão
um menino que rabujava, parou, fitou o Guedes porque o digno homem com o seu
ventre, o seu embrulho, a sua indignação, atravancava a entrada
das Matildes. Apressadamente, o Fidalgo levantou, para ela entrar, o fecho
da porta envidraçada. Depois, num alvoroço:

– O amigo Guedes naturalmente vai para casa. É o meu caminho. Andamos
e conversamos… Ora essa! Mas o Noronha… Que Noronha?

– O Ricardo Noronha… V. Exa. conhece. O pagador das Obras Públicas!

– Ah! sim, sim… Então transferido? Transferido arbitrariamente?

Na rua das Brocas por onde desciam, no silêncio, e solidão das
lojas cerradas, a cólera do Guedes ressoou, mais solta:

– Infamemente, Sr. Gonçalo Mendes Ramires, infamissimamente! E para
Almodôvar, para os confins do Alentejo!… Para uma terra sem recursos,
sem distrações, sem famílias!…

Parara, com os doces contra o coração, os olhinhos esbugalhados
para o Fidalgo, coriscando. O Noronha! Um empregado trabalhador, honradíssimo!
E sem Política, absolutamente sem Política. Nem dos Históricos,
nem dos Regeneradores. Só da família, das três irmãs
que sustentava, três flores… E homem estimadíssimo na cidade,
cheio de prendas! Um talento imenso para a música!… Ah! o Sr. Gonçalo
Ramires não sabia? Pois compunha ao piano coisas lindas! Depois precioso
para reuniões, para anos. Era ele quem organizava sempre em Oliveira
as representações de curiosos…

– Porque, como ensaiador, creia V. Exa. que não há outro, mesmo
na capital… Não há outro! E, zás, de repente, para
Almodôvar, para o Inferno, com as irmãs, com os tarecos! Só
o piano!… Veja V. Exa. só o transporte do piano!

Gonçalo resplandecia:

– É um belo escândalo. Ora, que felicidade esta de o ter encontrado,
meu caro Guedes!… E não se sabe o motivo?

De novo caminhavam demoradamente pelo passeio estreito. E o Tabelião
encolhia os ombros, com amargura. O motivo! Publicamente, como sempre nestas
prepotências, o motivo era a conveniência do serviço…

– Mas todos os amigos do Noronha, por toda a cidade, conhecem o verdadeiro
motivo… O íntimo, o secreto, o medonho!

– Então?

Guedes relanceou a rua, com prudência. Uma velha atravessava, coxeando,
segurando uma bilha. E o Tabelião segredou cavamente, junto à
face deslumbrada do Fidalgo.

– É que o Sr. André Cavaleiro, esse infame, se encantara com
a mais velha das irmãs Noronhas, a D. Adelina, formosíssima
rapariga, alta e morena, uma estátua!… E repelido (porque a menina,
cheia de juízo, uma pérola, percebera a intenção
vilíssima), em quem se vinga, por despeito, o Sr. Governador Civil?
No pagador! Para Almodôvar com as meninas, com os tarecos!… Era o
pagador quem pagava!

– É uma bela maroteira! – murmurou Gonçalo, banhado de gosto
e riso.

– E note V. Exa.! – exclamava o Guedes, com a mão gorda a tremer por
cima do chapéu. – Note V. Exa. que o pobre Noronha, na sua inocência,
tão bom homem, gostando sempre de agradar aos seus chefes, ainda há
semanas dedicara ao Cavaleiro uma valsa linda!… A Mariposa, uma valsa linda!

Gonçalo não se conteve, esfregou as mãos num triunfo:

– Mas que preciosa maroteira!… E não se tem falado? Esse jornal
de oposição, o Clarim de Oliveira, nem uma denúncia,
nem uma alusão?…

O Guedes pendeu a cabeça, descorçoado. O senhor Gonçalo
Ramires conhecia bem essa gente do Clarim… Estilo – e estilo brincado, opulento…
Mas para assoalhar, assim num caso gravíssimo como o do Noronha, a
verdade bem nua – pouco nervo, nenhuma valentia. E depois o Biscainho, o redator
principal, andava a passar sorrateiramente para os Históricos. Ah!
O Sr. Gonçalo Mendes Ramires não se inteirara? Pois esse torpíssimo
Biscainho bolinava. Decerto o Cavaleiro lhe acenara com posta… Além
disso, como provar a infâmia? Coisas íntimas, coisas de família.
Não se podia apresentar a declaração da D. Adelina, menina
virtuosíssima – e com uns olhos!… Ah! se fosse no tempo do Manuel
Justino e da Aurora de Oliveira!… Esse era homem para estampar logo na primeira
página, em letra graúda: “Alerta! Que a Autoridade superior
do Distrito tentou levar a desonra ao seio da família Noronha!…”

– Esse era um homem! Coitado, lá está no cemitério de
S. Miguel… E agora, Sr. Gonçalo Ramires, o despotismo campeia, desenfreado!

Bufava, arfava, esfalfado daquele fogoso desabafo. Dobraram calados a esquina
das Brocas para a bela rua, novamente calçada, da Princesa D. Amélia.
E logo na segunda porta, parando, tirando da algibeira o trinco, o Guedes,
que ainda resfolegava, ofereceu a S. Exa. para descansar.

– Não, não, obrigado, meu caro amigo. Tive imenso, imenso prazer,
em o encontrar… Essa história do Noronha é tremenda!… Mas
nada me espanta do Sr. Governador Civil. Só me espanta que o não
tenham corrido de Oliveira, como ele merece, com pancada e assuada… Enfim,
nem toda a gente boa jaz no cemitério de S. Miguel… Até amanhã,
meu Guedes. E obrigado!

Da rua da Princesa D. Amélia até o largo de El-Rei, Gonçalo
correu com o deslumbramento de quem descobrisse um tesouro e o levasse debaixo
da capa! E aí levava com efeito “o escândalo, o rico escândalo”,
que tanto farejara, por que tanto almejara, para desmantelar o Sr. Governador
Civil na sua fiel cidade de Oliveira, que lhe levantava arcos de buxo! E,
por uma mercê de Deus, “o rico escândalo” demoliria
também o homem no coração de Gracinha, onde, apesar do
antigo ultraje, ele permanecia como um bicho num fruto, esfuracando e estragando…
E não duvidava da eficácia do escândalo! Toda a cidade
se revoltaria contra a Autoridade femeeira, que oprime, desterra um funcionário
admirável – porque a irmã do pobre senhor se recusou à
baba dos seus beijos. E Gracinha?… Como resistiria Gracinha àquele
desengano – o seu antigo André abrasado pela menina Noronha e por ela
repelido com nojo e com mofa? Oh! o escândalo era soberbo! Só
restava que estalasse, bem ruidoso, sobre os telhados de Oliveira e sobre
o peito de Gracinha como trovão benéfico que limpa ares corrompidos.
E desse trovão, rolando por todo o Norte, se encarregava ele com delícia.
Libertava a cidade dum Governador detestável, Gracinha dum sonho errado.
E assim, com uma certeira penada, trabalhava pro patria et pro domo!

Nos Cunhais correu ao quarto do Barrolo, que se vestia trauteando o Fado
dos Ramires, e gritou através da porta com uma decisão flamejante:

– Não te posso acompanhar à Estevinha. Tenho que escrever urgentemente.
E não subas, não me perturbes. Necessito sossego!

Nem atendeu aos protestos desolados com que o Barrolo acudira ao corredor,
em ceroulas. Galgou a escada. No seu quarto, depois de despir rapidamente
o casaco, de excitar a testa com um borrifo d’água-de-colônia,
abancou à mesa – onde Gracinha colocava sempre entre flores, para ele
trabalhar, o monumental tinteiro de prata que pertencera ao tio Melchior.
E sem emperrar, sem rascunhar, num desses soltos fluxos de Prosa que brotam
da paixão, improvisou uma Correspondência rancorosa para a Gazeta
do Porto contra o Sr. Governador Civil. Logo o título fulminava – Monstruoso
atentado! Sem desvendar o nome da família Noronha, contava miudamente,
como um ato certo e por ele testemunhado, “a tentativa viloa e baixa
da primeira Autoridade do Distrito contra a pudicícia, a paz de coração,
a honra de uma doce rapariga de dezesseis primaveras!” Depois era a resistência
desdenhosa – “que a nobre criança opusera ao Don Juan administrativo,
cujos belos bigodes são o espanto dos povos!” Por fim vinha –
“a desforra torpe e sem nome que S. Exa. tomara sobre o zeloso empregado
(que é também um talentoso artista), obtendo deste nefasto Governo
que fosse transferido, ou antes arrojado, cruelmente exilado, com a família
de três delicadas senhoras, para os confins do Reino, para a mais árida
e escassa das nossas Províncias, por o não poder empacotar para
a África no porão sórdido duma fragata!” Lançava
ainda alguns rugidos sobre “a agonia política de Portugal”.
Com pavor triste, recordava os piores tempos do Absolutismo, a inocência
soterrada nas masmorras, o prazer desordenado do Príncipe sendo a expressão
única da Lei! E terminava perguntando ao Governo se cobriria este seu
agente – “este grotesco Nero que, como outrora o outro, o grande, em
Roma, tentava levar a sedução ao seio das famílias melhores,
e cometia esses abusos de poder, motivados por lascívias de temperamento,
que foram sempre, em todos os séculos e todas as civilizações,
a execração do justo!” – E assinava Juvenal.

Eram quase seis horas quando desceu à sala, ligeiro e resplandecente.
Gracinha martelava o piano, estudando o Fado dos Ramires. E Barrolo (que não
se arriscara a um passeio solitário) folheava, estendido no canapé,
uma famosa História dos Crimes da Inquisição que começara
ainda em solteiro.

– Estou a trabalhar desde as duas horas! – exclamou logo Gonçalo,
escancarando a janela. – Fiquei derreado. Mas, louvado seja Deus, fiz obra
de Justiça… Desta vez o Sr. André Cavaleiro vai abaixo do
seu cavalo!

Barrolo fechou imediatamente o livro, com o cotovelo nas almofadas, inquieto:

– Houve alguma coisa?

E Gonçalo, plantado diante dele, com um risinho suave, um risinho
feroz, remexendo na algibeira o dinheiro e as chaves:

– Oh! quase nada. Uma bagatela. Apenas uma infâmia.. Mas para o nosso
Governador Civil infâmias são bagatelas.

Sob os dedos de Gracinha o Fado dos Ramires esmoreceu, apenas roçado,
num murmúrio incerto.

O Barrolo esperava, esgazeado:

– Desembucha!

E Gonçalo desabafou, com estrondo:

– Pois uma maroteira imensa, homem! O Noronha, o pobre Noronha, perseguido,
espezinhado, expulso! Com a família.. Para o inferno, para o Algarve!

– O Noronha pagador?

– O Noronha pagador. Foi o infeliz pagador que pagou!

E, regaladamente, desenrolou a história lamentável. O Sr. André
Cavaleiro namoradíssimo, todo em chamas pela irmã mais velha
do Noronha. E atacando a rapariga com ramos, cartas, versos, estrupidos cada
manhã por diante da janela, a ladear na pileca! Até lhe soltara,
ao que parece, uma velha marafona, uma alcoviteira… E a rapariga, um anjo
cheio de dignidade, impassível. Nem se revoltava, apenas se ria. Era
uma troça em casa das Noronhas, ao chá, com a leitura da versalhada
ardente em que ele a tratava de “Ninfa, de estrela da tarde…”
Enfim, uma sordidez funambulesca!

O pobre Fado dos Ramires debandou pelo teclado, num tumulto de gemidos desconcertados
e ásperos.

– E eu não ter ouvido nada! – murmurava o Barrolo, assombrado. – Nem
no Club, nem na Arcada…

– Pois, meu amiguinho, quem ouviu, e um famoso estampido, foi o pobre Noronha.
Arremessado para o fundo do Alentejo, para um sitio doentio, coalhado de pântanos.
E a morte… E uma condenação à morte! A esta aparição
da Morte, surgindo dos pântanos,

Barrolo atirou uma palmada ao joelho, desconfiado:

– Mas quem diabo te contou tudo isso?

O Fidalgo da Torre encarou o cunhado com desdém, com piedade:

– Quem me contou!? E quem me contou que D. Sebastião morreu em Alcácer-Quibir?…
São os fatos. É a História. Toda Oliveira sabe. Por acaso
ainda esta manhã o Guedes e eu conversamos sobre o caso. Mas eu já
sabia!… E tenho tido pena. Que diabo! Não há crime em se estar
apaixonado como o pobre André. Louco, perdido! Até a chorar
na Repartição, diante do Secretário-Geral. E a rapariga
às gargalhadas!… Agora onde há crime, e horrendo, é
na perseguição ao irmão, ao pagador, empregado excelente,
de um talento raro… E o dever de todo o homem de bem, que preze a dignidade
da Administração e a dignidade dos costumes, é denunciar
a infâmia… Eu, pela minha parte, cumpri esse bom dever. E com certo
brilho, louvado Deus!

– Que fizeste?

– Enterrei na ilharga do Sr. Governador Civil a minha boa pena de Toledo,
até à rama!

O Barrolo, impressionado, beliscava a pele do pescoço. O piano emudecera;
mas Gracinha não se movia do mocho, com os dedos entorpecidos nas teclas,
como esquecida diante da larga folha onde se enfileiravam, na letra apurada
do Videirinha, as quadras triunfais dos Ramires. E subitamente Gonçalo
sentiu naquela imobilidade sufocada o despeito que a trespassava. Sensibilizado,
para a libertar, lhe poupar algum soluço escapando irresistivelmente,
correu ao piano, bateu com carinho nos pobres ombros vergados que estremeceram:

– Tu não dás conta desse lindo fado, rapariga! Deixa, que eu
te cantarolo uma quadra, à boa moda do Videirinha… Mas primeiramente
sê um anjo… Grita ai no corredor que me tragam um copo d’água
bem fresca do Poço Velho.

Ensaiou as teclas, entoou versos, ao acaso, num esforço esganiçado:

Ora na grande batalha,
Quatro Ramires valentes…

Gracinha desaparecera por uma fenda do reposteiro, sem rumor. Então
o bom Barrolo, que diante da sua terrina da Índia enrolava um cigarro
com pensativo cuidado, correu, desafogou, debruçado sobre Gonçalo,
da certeza que lentamente o invadira:

– Pois, menino, sempre te digo… Essa irmã do Noronha é um
mulherão soberbo! Mas o que eu não acredito é que ela
se fizesse arisca. Com o Cavaleiro, bonito rapaz, Governador Civil?… Não
acredito. O Cavaleiro saboreou!

E com as bochechas luzidias de admiração:

– Aquele velhaco! Para cavalos e para mulheres não há outro,
em Oliveira!

CAPÍTULO V

A Gazeta do Porto, com a correspondência vingadora, devia desabar sobre
Oliveira na quarta-feira de manhã, dia dos anos da prima Maria Mendonça.
Mas Gonçalo, ainda que não temesse (ressalvado pelo seu pseudônimo
de Juvenal) uma briga grosseira com o Cavaleiro nas ruas da Cidade, nem mesmo
com algum dos seus partidários servis e façanhudos como o Marcolino
do Independente – recolheu discretamente a Santa Irenéia na terça-feira,
a cavalo, acompanhado pelo Barrolo até a Vendinha, onde ambos provaram
o vinho branco celebrado pelo Titó. Depois, para recordar os lugares
memoráveis em que na sua Novela se encontravam, com desastrado choque
de armas, Lourenço Ramires e o Bastardo de Baião, tomou o caminho
que, atravessando os pomares da espalhada aldeia de Canta-Pedra, entronca
na estrada dos Bravais.

Num trote folgado passara a Fábrica de Vidros, depois o Cruzeiro sempre
coberto pelas pombas que esvoaçam do pombal da Fábrica. E entrava
no lugar de Nacejas – quando, à janela duma casinha muito limpa, rodeada
de parreiras, apareceu uma linda rapariga, morena e fina, com jaqué
de pano azul e lenço de cambraieta bordada sobre fartos bandós
ondeados. Gonçalo, sopeando a égua, saudou, sorriu suavemente:

– Perdão, minha menina… Vou bem por aqui, para Canta-Pedra?

– Vai, sim senhor. Embaixo, à ponte, mete para a direita, para os
álamos. E é sempre a seguir…

Gonçalo suspirou, gracejando:

– Antes desejava ficar!

A moça corou. E o Fidalgo ainda se torceu no selim para gozar a fina
face morena, entre os dois craveiros da janelinha, na casa tão bem
caiada.

Nesse momento, ao lado, duma quelha enramada, desembocava um caçador
do campo, de jaleca e barrete vermelho, com a espingarda atravessada nas costas,
seguido por dois perdigueiros. Era um latagão airoso, que todo ele,
no bater dos sapatões brancos, no menear da cinta enfaixada em seda,
no levantar da face clara de suíças louras, transbordava de
presunção e pimponice. Num relance surpreendeu o sorriso, a
atenção galante do Fidalgo. E estacou, pregando sobre ele, com
lenta arrogância, os belos olhos pestanudos. Depois passou desdenhosamente,
sem se arredar da égua na ladeira estreita, quase raspando pela perna
do Fidalgo o cano da caçadeira. Mas adiante ainda atirou uma tossidela
seca e de chasco com um bater mais petulante dos tacões.

Gonçalo picou a égua, colhido logo por aquele desgraçado
temor, aquele desmaiado arrepio da carne, que sempre, ante qualquer risco,
qualquer ameaça, o forçava irresistivelmente a encolher, a recuar,
a abalar. Embaixo, na ponte, desesperado contra a sua timidez, deteve o trote,
espreitou para trás, para a branca casa florida. O mocetão parara,
encostado à espingarda, sob a janela onde a rapariga morena se debruçava
entre os dois vasos de cravos. E assim encostado, depois de rir para a moça,
acenou ao Fidalgo, num desafio largo, com a cabeça alta, a borla do
barrete toda espetada como uma crista flamante.

Gonçalo Mendes Ramires meteu a galope pelo copado caminho de álamos
que acompanha o riacho das Donas. Em Canta-Pedra nem se demorou a estudar
(como tencionava para proveito da sua Novela) o vale, a ribeira espraiada,
as ruínas do Mosteiro de Recadães sobre a colina, e no cabeço
fronteiro o moinho que assenta sobre as denegridas pedras da antiga e tão
falada Honra de Avelãs. De resto o céu, cinzento e abafado desde
manhã, entenebrecia para os lados de Craquede e de Vila-Clara. Um bafo
morno remexeu a folhagem sedenta. E já gotas pesadas se esmagavam na
poeira – quando ele, sempre galopando, entrou na estrada dos Bravais.

Na Torre encontrou uma carta do Castanheiro. O patriota ansiava por saber
“se essa Torre de D. Ramires se erguia enfim para honra das letras, como
a outra, a genuína, se erguera outrora, em séculos mais ditosos,
para orgulho das armas”. E acrescentava num Post Scriptum – “Planeio
imensos cartazes, pregados a cada esquina de cada cidade de Portugal, anunciando
em letras de côvado a aparição salvadora dos Anais! E,
como tenciono prometer neles aos povos a sua preciosa Novelazinha, desejo
que o amigo Gonçalo me informe se ela tem, à moda de 1830, um
saboroso subtítulo, como Episódios do século XII, ou
Crônica do Reinado de Afonso II, ou Cenas da Meia-Idade Portuguesa…
Eu voto pelo subtítulo. Como o subsolo num edifício, o subtítulo
num livro alteia e dá solidez. À obra, pois, meu Ramires, com
essa sua imaginação feracíssima!…”

Esta invenção de imensos cartazes, com o seu nome e o título
da sua Novela em letras de cores estridentes, enchendo cada esquina de Portugal,
deleitou o Fidalgo. E logo nessa noite, ao rumor da chuva densa que estalava
na folhagem dos limoeiros, retomou o seu manuscrito, parado nas primeiras
linhas, amplas e sonoras, do Capítulo II…

Através delas, e na frescura da madrugada, Lourenço Mendes
Ramires, com o troço de Cavaleiros e peonagem da sua mercê, corria
sobre Montemor em socorro das senhoras Infantas. Mas, ao penetrar no vale
de Canta-Pedra, eis que o esforçado filho de Tructesindo avista a mesnada
do Bastardo de Baião, esperando desde alva (como anunciara Mendo Pais)
para tolher a passagem. E então, nesta sombria Novela de sangue e homizios,
brotava inesperadamente, como uma rosa na fenda dum bastião, um lance
de amor, que o tio Duarte cantara no Bardo com dolente elegância.

Lopo de Balão, cuja beleza loura de Fidalgo godo era tão celebrada
por toda a terra de Entre-Minho e Douro que lhe chamavam o Claro-Sol, amara
arrebatadamente D. Violante, a filha mais nova de Tructesindo Ramires. Em
dia de S. João, no solar de Lanhoso, onde se celebravam lides de touros
e jogos de tavolagem, conhecera ele a donzela esplêndida, que o tio
Duarte no seu Poemeto louvava com deslumbrado encanto:

Que líquido fulgor dos negros olhos!
Que fartas tranças de lustroso ébano!

E ela, certamente, rendera também O coração àquele
moço resplandecente e cor de ouro, que, nessa tarde de festa, arremessando
o rojão contra os touros, ganhara duas faixas bordadas pela nobre dona
de Lanhoso – e à noite, no sarau, se requebrara com tão repicado
garbo na dança dos Marchatins… Mas Lopo era bastardo, dessa raça
de Baião, inimiga dos Ramires por velhíssimas brigas de terras
e precedências desde o Conde D. Henrique – ainda assanhadas depois,
durante as contendas de D. Tareja e de Afonso Henriques, quando na cúria
dos Barões, em Guimarães, Mendo de Baião, bandeado com
o Conde de Trava, e Ramires o Cortador colaço do moço Infante,
se arrojaram às faces os guantes ferrados. E, fiel ao ódio secular,
Tructesindo Ramires recusara com áspera arrogância a mão
de Violante ao mais velho dos de Baião, um dos valentes de Silves,
que pelo Natal, na Alcáçova de Sta Irenéia, lha pedira
para Lopo, seu sobrinho, o Claro-Sol, oferecendo avenças quase submissas
de aliança e doce paz. Este ultraje revoltara o solar de Baião
– que se honrava em Lopo, apesar de bastardo, pelo lustre da sua bravura e
graça galante. E então Lopo, ferido doridamente no seu coração,
mais furiosamente no seu orgulho, para fartar o esfaimado desejo, para infamar
o claro nome dos Ramires – tentou raptar D. Violante. Era na primavera, com
todas as veigas do Mondego já verdes. A donosa senhora, entre alguns
escudeiros da Honra e parentes, jornadeava de Treixedo ao mosteiro de Lorvão,
onde sua tia D. Branca era abadessa… Languidamente, no Bardo, descantara
o tio Duarte o romântico lance:

Junto à fonte mourisca, entre os olmeiros,
A cavalgadura pára…

E junto aos olmeiros da fonte surgira o Claro-Sol – que, com os seus, espreitava
de um cabeço! Mas, logo no começo da curta briga, um primo de
D. Violante, o agigantado senhor dos Paços de Avelim, o desarmou, o
manteve um momento ajoelhado sob o lampejo e gume da sua adaga. E com vida
perdoada, rugindo de surda raiva, o Bastardo abalou entre os poucos solarengos
que o acompanhavam nesta afoita arremetida. Desde então mais fero ardera
o rancor entre os de Baião e os Ramires. E eis agora, nesse começo
da Guerra das Infantas, os dois inimigos rosto a rosto no vale estreito de
Canta-Pedra! Lopo com um bando de trinta lanças e mais de cem besteiros
da Hoste Real. Lourenço Mendes Ramires com quinze Cavaleiros e noventa
homens de pé do seu pendão.

Agosto findava: e o demorado estio amarelecera toda a relva, as pastagens
famosas do vale, até a folhagem de amieiros e freixos pela beira do
riacho das Donas que se arrastava entre as pedras lustrosas, em fios escassos,
com dormido murmúrio. Sobre um outeiro, dos lados de Ramilde, avultava,
entre possantes ruínas eriçadas de sarças, a denegrida
Torre Redonda, resto da velha Honra de Avelãs, incendiada durante as
cruas rixas dos de Saízedas e dos de Landim, e agora habitada pela
alma gemente de Guiomar de Landim, a Mal-casada. No cabeço fronteiro
e mais alto, dominando o vale, o mosteiro de Recadâes estendia as suas
cantarias novas, com o forte torreão, asseteado como o duma fortaleza
– donde os monges se debruçavam, espreitando, inquietos com aquele
coriscar de armas que desde alva enchia o vale. E o mesmo temor acossara as
aldeias chegadas – porque, sobre a crista das colinas, se apressavam para
o santo e murado refúgio do convento gentes com trouxas, carros toldados,
magras filas de gados.

Ao avistar tão rijo troço de Cavaleiros e peões, espalhado
até à beira do riacho por entre a sombra dos freixos, Lourenço
Ramires sofreou, susteve a leva, junto dum montão de pedras onde apodrecia,
encravada, uma tosca cruz de pau. E o seu esculca que largara rédeas
soltas, estirado sob o escudo de couro, para reconhecer a mesnada – logo voltou,
sem que frecha ou pedra de funda o colhessem, gritando:

– São homens de Baião e da Hoste Real! –

Tolhida pois a passagem! E em que desigualado recontro! Mas o denodado Ramires
não duvidou avançar, travar peleja. Sozinho que assomasse ao
vale, com uma quebradiça lança de monte, arremeteria contra
todo o arraial do Bastardo… – No entanto já o Adail de Baião
se adiantara, curveteando no rosilho magro, com a espada atravessada por cima
do morrião que penas de garça emplumavam. E pregoava, atroava
o vale com o rouco pregão:

– Deter, deter! que não há passagem! E o nobre senhor de Baião,
em recado de El-Rei e por mercê de Sua Senhoria, vos guarda vidas salvas
se volverdes costas sem rumor e tardança!

Lourenço Ramires gritou:

– A ele, besteiros!

Os virotes assobiaram. Toda a curta ala dos Cavaleiros de Santa Irenéia
tropeou para dentro do vale, de lanças ristadas. E o filho de Tructesindo,
erguido nos estribões de ferro, debaixo do pano solto do seu pendão
que apressadamente o Alferes sacara da funda, descerrou a viseira do casco
para que lhe mirassem bem a face destemida, e lançou ao Bastardo injúrias
de furioso orgulho:

– Chama outros tantos dos vilões que te seguem que, por sobre eles
e por sobre ti, chegarei esta noite a Montemor!

E o Bastardo, no seu fouveiro, que uma rede de malha cobria, toda acairelada
de ouro, atirava a mão calçada de ferro, clamava:

– Para trás, donde vieste, voltarás, burlão traidor,
se eu por mercê mandar a teu pai o teu corpo numas andas!

Estes feros desafios rolavam em versos serenamente compassados no Poemeto
do tio Duarte. E depois de os reforçar, Gonçalo Mendes Ramires
(sentindo a alma enfunada pelo heroísmo da sua raça como por
um vento que sopra de funda campina) arrojou um contra o outro os dois bandos
valorosos. Grande briga, grande grita…

– Ala! Ala!

– Rompe! Rompe!

– Cerra por Baião!

– Casca pelos Ramires!

Através da grossa poeirada e do alevanto zunem os garruchões,
as rudes balas de barro despedidas das fundas. Almograves de Santa Irenéia,
almograves da Hoste Real, em turmas ligeiras, carregam, topam, com baralhado
arremesso de ascumas que se partem, de dardos que se cravam; e ambas logo
refogem, refluem enquanto, no chão revolto, algum mal ferido estrebucha
aos urros, e os atordoados cambaleando buscam, sob o abrigo do arvoredo, a
fresquidão do riacho. Ao meio, no embate mais nobre da peleja, por
cima dos corcéis que se empinam, arfando ao peso das coberturas de
malha, as lisas pranchas dos montantes lampejam, retinem, embebidas nas chapas
dos broquéis; e já, dos altos arções de couro
vermelho, desaba algum hirto e chapeado senhor, com um baque de ferragens
sobre a terra mole. Cavaleiros e infanções, porém, como
num torneio, apenas terçam lanças para se derribarem, abolados
os arneses, com clamores de excitada ufania; e sobre a vilanagem contrária,
em quem cevam o furor da matança, se abatem os seus espadões,
se despenham as suas achas, esmigalhando os cascos de ferro como bilhas de
greda.

Por entre a peonagem de Baião e da Hoste Real Lourenço Ramires
avança mais levemente que ceifeiro apressado entre erva tenra. A cada
arranque do seu rijo murzelo, alagado de espuma, que sacode furiosamente a
testeira rostrada – sempre, entre pragas ou gritos por Jesus!, um peito verga
trespassado, braços se retorcem em agonia. Todo o seu afã era
chocar armas com Lopo. Mas o Bastardo, tão arremessado e afrontador
em combate, não se arredara nessa manhã da lomba do outeiro
onde uma fila de lanças o guardava, como uma estacada; e com brados,
não com golpes, aquentava a lide! No ardor desesperado de romper a
viva cerca Lourenço gastava as forças, berrando roucamente pelo
Bastardo com os duros ultrajes de churdo! e marrano! Já dentre a trama
falseada do camalho lhe borbulhavam do ombro, pela loriga, fios lentos de
sangue. Um lanço de virotão, que lhe partira as charneiras da
greva esquerda, fendera a perna donde mais sangue brotava, ensopando o forro
de estopa. Depois, varado por uma frecha na anca, o seu grande ginete abateu,
rolou, estalando no escoucear as cilhas pregueadas. E, desembrulhado dos loros
com um salto, Lourenço Ramires encontrou em roda uma sebe eriçada
de espadas e chuços, que o cerraram – enquanto do outeiro, debruçado
na sela, o Bastardo bramava:

– Tende! tende! para que o colhais às mãos!

Trepando por cima de corpos, que se estorcem sob os seus sapatos de ferro,
o valente moço arremete, a golpes arquejados, contra as pontas luzentes
que recuam, se furtam… E, triunfantes, redobram os gritos de Lopo de Baião:

– Vivo, vivo! tomade-lo vivo!

– Não, se me restar alma, vilão! – rugia Lourenço.

E mais raivosamente investia, quando um calhau agudo lhe acertou no braço
– que logo amorteceu, pendeu, com a espada arrastando, presa ainda ao punho
pelo grilhão, mas sem mais servir que uma roca. Num relance ficou agarrado
por peões que lhe filavam a gorja, enquanto outros com varadas de ascuma
lhe vergavam as pernas retesadas. Tombou por fim direito como um madeiro;
e nas cordas com que logo o amarraram, jazeu hirto, sem elmo, sem cervilheira,
os olhos duramente cerrados, os cabelos presos numa pasta de poeira e de sangue.

Eis pois cativo Lourenço Ramires! E, diante das andas feitas de ramos
e franças de faias em que O estenderam, depois de o borrifarem à
pressa com a água fresca do riacho – o Bastardo, limpando às
costas da mão o suor que lhe escorria pela face formosa, pelas barbas
douradas, murmurava, comovido:

– Ah! Lourenço, Lourenço, grande dor, que bem pudéramos
ser irmãos e amigos!

Assim, ajudado pelo tio Duarte, por Walter Scott, por notícias do
Panorama, compusera Gonçalo a mal-aventurada lide de Canta-Pedra. E
com este desabafo de Lopo, onde perpassava a mágoa do amor vedado,
fechou o Cap. II, sobre que labutara três dias – tão embrenhadamente
que em torno o Mundo como que se calara e se fundira em penumbra.

Uma girândola de foguetes estoirou ao longe, para o lado dos Bravais,
onde no domingo se fazia a romaria celebrada da Senhora das Candeias. Depois
da chuva daqueles três dias, uma frescura descia do céu amaciado
e lavado sobre as campos mais verdes. E como ainda restava meia hora farta
antes de jantar, o Fidalgo agarrou o chapéu, e mesmo na sua velha quinzena
de trabalho, com uma bengalinha de cana, desceu à estrada, tomou pelo
caminho que se estreita entre o muro da Torre e as terras de centeio onde
assentavam no século XII as barbacãs da Honra de Santa Irenéia.

Pela silenciosa vereda, ainda úmida, Gonçalo pensava nos seus
avós formidáveis. Como eles ressurgiam, na sua Novela, sólidos
e ressoantes! E realmente uma compreensão tão segura daquelas
almas Afonsinas mostrava que a sua alma conservava o mesmo quilate e saíra
do mesmo rico bloco de ouro. Porque um coração mole, ou degenerado,
não saberia narrar corações tão fortes, de eras
tão fortes – e nunca o bom Manuel Duarte ou o Barrolo excelente entenderiam,
bastante para lhes reconstruir os altos espíritos, Martim de Freitas
ou Afonso de Albuquerque… Nesta fina verdade desejaria ele que os críticos
insistissem ao estudar depois a Torre de D. Ramires – pois que o Castanheiro
lhe assegurara artigos consideráveis nas Novidades e na Manhã.
Sim! eis o que convinha marcar com relevo (e ele o lembraria ao Castanheiro!)
– que os Ricos-homens de Santa Irenéia reviviam no seu neto, se não
pela continuação heróica das mesmas façanhas,
pela mesma alevantada compreensão do heroísmo… Que diabo!
sob o reinado do horrendo S. Fulgêncio ele não podia desmantelar
o solar de Baião, desmantelado há seiscentos anos por seu avô
Leonel Ramires – nem retomar aos Mouros essa torreada Monforte onde o Antoninho
Moreno era o lânguido Governador Civil! Mas sentia a grandeza e o préstimo
histórico desse arrojo que outrora impelia os seus a arrasar Solares
rivais, a escalar Vilas mouriscas; ressuscitava pelo Saber e pela Arte, arrojava
para a vida ambiente esses varões temerosos, com os seus corações,
os seus trajes, as suas imensas cutiladas, as suas bravatas sublimes; dentro
do espírito e das expressões do seu Século era pois um
bom Ramires – um Ramires de nobres energias, não façanhudas,
mas intelectuais, como competia numa Idade de intelectual descanso. E os jornais,
que tanto motejam a decadência dos Fidalgos de Portugal, deveriam em
justiça afirmar (e ele o lembraria ao Castanheiro!): -“Eis aí
um, e o maior, que, com as formas e os modos do seu tempo, continua e honra
a sua raça!”

Através destes pensamentos, que mais lhe enrijavam as passadas sobre
chão tão calcado pelos seus – o Fidalgo da Torre chegara à
esquina do muro da quinta, onde uma ladeirenta e apertada azinhaga a divide
do pinheiral e da mata. Do portão nobre, que outrora se erguera nesse
recanto com lavores e brasão de armas, restam apenas os dois umbrais
de granito, amarelados de musgo, cerrados contra o gado por uma cancela de
tábuas mal pregadas, carcomidas da chuva e dos anos. E nesse momento,
da azinhaga funda, apagada em sombra, subia chiando, carregada de mato, um
carro de bois, que uma linda boeirinha guiava

– Nosso Senhor lhe dê muito boas-tardes!

– Boas-tardes, florzinha!

O carro lento passou. E logo atrás surgiu um homem, esgrouviado e
escuro, trazendo ao ombro O cajado, donde pendia um molho de cordas.

O Fidalgo da Torre reconheceu o José Casco dos Bravais. E seguia,
como desatento, pela orla do pinheiral, assobiando, raspando com a bengalinha
as silvas floridas do valado. O outro porém estugou o passo esgalgado,
lançou duramente, no silêncio do arvoredo e da tarde, o nome
do Fidalgo. Então, com um pulo do coração, Gonçalo
Mendes Ramires parou, forçando um sorriso afável:

– Olá! É você, José! Então que temos?

O Casco engasgara, com as costelas a arfar sob a encardida camisa de trabalho.
Por fim, desenfiando das cordas o marmeleiro que cravou no chão pela
choupa:

– Temos que eu falei sempre claro com o Fidalgo, e não era para que
depois me faltasse à palavra!

Gonçalo Ramires levantou a cabeça com uma dignidade lenta e
custosa – como se levantasse uma maça de ferro:

– Que está você a dizer, Casco? Faltar à palavra! em
que lhe faltei eu à palavra?… Por causa do arrendamento da Torre?
Essa é nova! Então houve por acaso escritura assinada entre
nós? Você não voltou, não apareceu…

O Casco emudecera, assombrado. Depois, com uma cólera em que lhe tremiam
os beiços brancos, lhe tremiam as secas mãos cabeludas, fincadas
ao cabo do varapau:

– Se houvesse papel assinado o Fidalgo não podia recuar!… Mas era
como se houvesse, para gente de bem!… Até V. Sra. disse, quando eu
aceitei: “viva! está tratado!” O Fidalgo deu a sua palavra!

Gonçalo, enfiado, aparentou a paciência dum senhor benévolo:

– Escute, José Casco. Aqui não é lugar, na estrada.
Se quer conversar comigo apareça na Torre. Eu lá estou sempre,
como você sabe, de manhã… Vá amanhã, não
me incomoda.

E endireitava para O pinhal, com as pernas moles, um suor arrepiado na espinha
– quando o Casco, num rodeio, num salto leve, atrevidamente se lhe plantou
diante, atravessando o cajado:

– O Fidalgo há-de dizer aqui mesmo! O Fidalgo deu a sua palavra!…
A mim não se me fazem dessas desfeitas… O Fidalgo deu a sua palavra!

Gonçalo relanceou esgazeadamente em redor, na ânsia dum socorro.
Só o cercava solidão, arvoredo cerrado. Na estrada, apenas clara
sob um resto de tarde, o carro de lenha, ao longe, chiava, mais vago. As ramas
altas dos pinheiros gemiam com um gemer dormente e remoto. Entre os troncos
já se adensava sombra e névoa. Então, estarrecido, Gonçalo
tentou um refúgio na idéia de Justiça e de Lei, que aterra
os homens do campo. E como amigo que aconselha um amigo, com brandura, os
beiços ressequidos e trêmulos:

– Escute, Casco, escute, homem! As coisas não se arranjam assim, a
gritar. Pode haver desgosto, aparecer o Regedor. Depois é o tribunal,
é a cadeia. E você tem mulher, tem filhos pequenos… Escute!
Se descobriu motivo para se queixar, vá à Torre, conversamos.
Pacatamente tudo se esclarece, homem… Com berros, não! Vem o cabo,
vem a enxovia…

Então de repente o Casco cresceu todo, no solitário caminho,
negro e alto como um pinheiro, num furor que lhe esbugalhava os olhos esbraseados,
quase sangrentos:

– Pois o Fidalgo ainda me ameaça com a justiça!… Pois ainda
por cima de me fazer a maroteira me ameaça com a cadeia!… Então,
com os diabos! primeiro que entre na cadeia lhe hei-de eu esmigalhar esses
ossos!…

Erguera o cajado… – Mas, num lampejo de razão e respeito, ainda
gritou, com a cabeça a tremer para trás, através dos
dentes cerrados:

– Fuja, Fidalgo, que me perco!… Fuja que o mato e me perco!

Gonçalo Mendes Ramires correu à cancela entalada nos velhos
umbrais de granito, pulou por sobre as tábuas mal pregadas, enfiou
pela latada que orla o muro, numa carreira furiosa de lebre acossada! Ao fim
da vinha, junto aos milheirais, uma figueira brava, densa em folha, alastrara
dentro dum espigueiro de granito destelhado e desusado. Nesse esconderijo
de rama e pedra se alapou o Fidalgo da Torre, arquejando. O crepúsculo
descera sobre os campos – e com ele uma serenidade em que adormeciam frondes
e relvas. Afoutado pelo silêncio, pelo sossego, Gonçalo abandonou
o cerrado abrigo, recomeçou a correr, num correr manso, na ponta das
botas brancas, sobre o chão mole das chuvadas, até o muro da
Mãe d’Água. De novo estacou, esfalfado. E julgando entrever,
longe, à orla do arvoredo, uma mancha clara, algum jornaleiro em mangas
de camisa, atirou um berro ansioso: – “Oh! Ricardo! Oh! Manuel! Eh lá!
alguém! Vai aí alguém…? – A mancha indecisa fundira
na indecisa folhagem. Uma rã pinchou num regueiro. Estremecendo, Gonçalo
retomou a carreira até o canto do pomar – onde encontrou fechada uma
porta, velha porta mal segura, que abanava nos gonzos ferrugentos. Furioso,
atirou contra ela os ombros que o terror enrijara como trancas. Duas tábuas
cederam, ele furou através, esgarçando a quinzena num prego.
– E respirou enfim no agasalho do pomar murado, diante das varandas da casa
abertas à frescura da tarde, junto da Torre, da sua Torre, negra e
de mil anos, mais negra e como mais carregada de anos contra a macia claridade
da lua nova que subia.

Com o chapéu na mão, enxugando o suor, entrou na horta, costeou
o feijoal. E agora subitamente sentia uma cólera amarga pelo desamparo
em que se encontrara, numa quinta tão povoada, enxameando de gentes
e dependentes! Nem um caseiro, nem um jornaleiro, quando ele gritara, tão
aflito, da borda da Mãe d’Água! De cinco criados nenhum acudira
– e ele perdido, ali, a uma pedrada da eira e da abegoaria! Pois que dois
homens corressem com paus ou enxadas – e ainda colhiam o Casco na estrada,
o malhavam como uma espiga.

Ao pé do galinheiro, sentindo uma risada fina de rapariga, atravessou
o pátio para a porta alumiada da cozinha. Dois moços da horta,
a filha da Críspola, a Rosa, tagarelavam, regaladamente sentados num
banco de pedra, sob a fresca escuridão da latada. Dentro o lume estralejava
– e a panela do caldo, fervendo, rescendia. Toda a cólera do Fidalgo
rompeu:

– Então, que sarau é este? Vocês não me ouviram
chamar?… Pois encontrei lá embaixo, ao pé do pinheiral, um
bêbedo, que me não conheceu, veio para mim com uma foice!…
Felizmente levava a bengala. E chamo, grito… Qual! Tudo aqui de palestra,
e a ceia a cozer! Que desaforo! Outra vez que suceda, todos para a rua…
E quem resmungar, a cacete!

A sua face chamejava, alta e valente. A pequena da Críspola logo se
escapulira, encolhida, para a recanto da cozinha, para trás da masseira.
Os dois moços, erguidos, vergavam como duas espigas sob um grande vento.
E enquanto a Rosa, aterrada, se benzia, se derretia em lamentações
sobre “desgraças que assim se armam!” – Gonçalo, deleitado
pela submissão dos dois homens, ambos tão rijos, com tão
grossos varapaus encostados à parede, amansava:

– Realmente! sois todos surdos, nesta pobre casa!… Além disso a
porta do pomar fechada! Tive de lhe atirar um empurrão. Ficou em pedaços.

Então um dos moços, o mais alentado, ruivo, com um queixo de
cavalo, pensando que o Fidalgo censurava a frouxidão da porta pouco
cuidada, coçou a cabeça, numa desculpa:

– Pois, com perdão do Fidalgo!… Mas já depois da saída
do Relho se lhe pôs uma travessa e fechadura nova… E valente!

– Qual fechadura! – gritou o Fidalgo soberbamente. – Despedacei a fechadura,
despedacei a travessa… Tudo em estilhas!

O outro moço, mais desembaraçado e esperto, riu, para agradar:

– Santo nome de Deus!… Então, é que o Fidalgo lhe atirou
com força!

E o companheiro, convencido, espetando O queixo enorme:

– Mas que força! a matar! Que a porta era rija… E fechadura nova,
já depois do Relho!

A certeza da sua força, louvada por aqueles fortes, reconfortou inteiramente
o Fidalgo da Torre, já brando, quase paternal:

– Graças a Deus, para arrombar uma porta, mesma nova, não me
falta força. O que eu não podia, por decência, era arrastar
aí por essas estradas um bêbedo com uma foice até casa
do Regedor… Foi para isso que chamei, que gritei. Para que vocês o
agarrassem, o levassem ao Regedor!… Bem, acabou. Oh! Rosa, dê a estes
rapazes, para a ceia, mais uma caneca de vinho… A ver se para outra vez
se afoutam, se aparecem…

Era agora como um antigo senhor, um Ramires de outros séculos, justo
e avisado, que repreende uma fraqueza dos seus solarengos – e logo perdoa
por conta e amor das façanhas próximas. Depois com a bengala
ab ombro, como uma lança, subiu pela lôbrega escada da cozinha.
E em cima no quarto, apenas o Bento entrara para o vestir, recomeçou
a sua epopéia, mais carregada, mais terrifica – assombrando o sensível
homem, estacado rente da cômoda, sem mesmo pousar a infusa d’água
quente, as botas envernizadas, a braçada de toalhas que o ajoujavam…
O Casco! O José Casco das Bravais, bêbedo, rompendo para ele,
sem o conhecer, com uma foice enorme, a berrar – “Morra, que é
marrão!… E ele na estrada, diante do bruto, de bengalinha! Mas atira
um salto, a foiçada resvala sobre um tronco de pinheiro… Então
arremete desabaladamente, brandindo a bengala, gritando pelo Ricardo e pelo
Manuel como se ambos o escoltassem – e ataranta o Casco, que recua, se some
pela azinhaga, a cambalear, a grunhir…

– Hem, que te parece? Se não é a minha audácia, o homem
positivamente me ferra um tiro de espingarda!

O Bento, que quase se babava, com o jarro esquecido a pingar no tapete, pestanejou,
confuso, mais atônito:

– Mas o Sr. Dr. disse que era uma foice!

Gonçalo bateu o pé, impaciente:

– Correu para mim com uma foice. Mas vinha atrás do carro… E no
carro trazia uma espingarda. O Casco é caçador, anda sempre
de espingarda… Enfim estou aqui vivo, na Torre, por mercê de Deus.
E também porque felizmente, nestes casos, não me falta decisão!

E apressou o Bento – porque com o abalo, o esforço, positivamente
lhe tremiam as pernas de cansaço e de fome… Além da sede!

– Sobretudo sede! Esse vinho que venha bem fresco… Do Verde e do Alvaralhão,
para misturar.

O Bento, com um trêmulo suspiro da emoção atravessada,
enchera a bacia, estendia as toalhas. Depois, gravemente:

– Pois, Sr. Dr., temos esse andaço nos sítios! Foi o mesmo
que sucedeu ao Sr. Sanches Lucena, na Feitosa…

– Como, ao Sr. Sanches Lucena?

O Bento desenrolou então uma tremenda história trazida à
Torre, durante a estada do Sr Doutor em Oliveira, pelo cunhado da Críspola,
o Rui carpinteiro, que trabalhava nas obras da Feitosa. O Sr. Sanches Lucena
descera uma tarde, ao lusco-fusco, à porta do Mirante, quando passam
na estrada dois jornaleiros, bêbedos ou facínoras, que implicam
com o excelente senhor. E chufas, risinhos, momices… O Sr. Sanches, com
paciência, aconselhou os homens que seguissem, não se desmandassem.
De repente um deles, um rapazola, sacode a jaqueta do ombro, ergue o cajado!
Felizmente o companheiro, que se afirmara, ainda gritou: – “Ai! rapaz,
que ele é o nosso deputado!” O rapazola abalou, espavorido. O
outro até se atirou de joelhos diante do Sr. Sanches Lucena… Mas
o pobre senhor, com o abalo, recolheu à cama!

Gonçalo acompanhara a história, secando vagarosamente as mãos
à toalha, impressionado:

– Quando foi isso?

– Pois disse ao Sr. …… Quando o Sr. Dr. estava em Oliveira. Um dia antes
ou um dia depois dos anos da Sra. D. Graça.

O Fidalgo arremessou a toalha, limpou pensativamente as unhas. Depois com
um risinho incerto e leve:

– Enfim, sempre serviu de alguma coisa ao Sanches Lucena ser Deputado por
Vila-Clara…

E já vestido, abastecendo a charuteira (porque resolvera passar a
noite na Vila, a desabafar com o Gouveia) – de novo se voltou para Bento,
que arrumava a roupa:

– Então o bêbedo, quando o outro lhe gritou “Ai, que é
o nosso deputado”, caiu em si, fugiu, hem?… Ora vê tu! Ainda
vale ser deputado! Ainda inspira respeito, homem! Pela menos inspira mais
respeito que descender dos Reis de Leão!… Paciência, toca a
jantar.

Durante o jantar, misturando copiosamente o Verde e o Alvaralhão,
Gonçalo não cessou de ruminar a ousadia do Casco. Pela vez primeira,
na história de Santa Irenéia, um lavrador daquelas aldeias,
crescidas à sombra da Casa ilustre, por tantos séculos senhora
em monte e vale, ultrajava um Ramires! E brutamente, alçando o cajado,
diante dos muros da quinta histórica!… Contava seu pai que, em vida
do bisavô Inácio, ainda desde Ramilde até Corinde, os
homens dobravam o joelho nos caminhos quando passava o Senhor da Torre. E
agora levantavam a foice!… E por quê? Porque ele não se desfalcara
submissamente das suas rendas em proveito dum façanhudo! – Em tempos
do avô Tructesindo, vilão de tal atentada assaria, como porco
montês, numa ruidosa fogueira, diante das barbacãs da Honra.
Ainda em dias do bisavô Inácio apodreceria numa masmorra. E o
Casco não podia escapar sem castigo. A impunidade só lhe incharia
a audácia: e assomado, rancoroso, noutro encontro, sem mais falas,
desfechava a caçadeira. Oh! não lhe desejava um mal durável,
coitado, com dois filhas pequeninos – um que mamava. Mas que o arrastassem
à Administração, algemado, entre dois cabos de polícia
– e que na triste saleta, donde se avistam as grades da cadeia, apanhasse
uma repreensão tremenda do Gouveia, do Gouveia muito seco, muito esticado
na sobrecasaca negra… Assim se devia resguardar, por meios tortuosos – pois
que não era deputado, e que, com o seu talento, o seu nome, essa espantosa
linhagem de avós que edificara o Reino, carecia o prestígio
dum Sanches Lucena, o precioso prestígio que suspende no ar os varapaus
atrevidos!

Apenas findou o café, mandou pelo Bento avisar os dois moços
da horta, o Ricardo e o outro de queixo de cavalo, que o esperassem no pátio,
armados. Porque na Torre ainda sobrevivia uma “Sala de armas” –
cacifro tenebroso, junto ao Arquivo, onde se amontoavam peças aboladas
de armaduras, um lorigão de malha, um broquel mourisco, alabardas,
espadões, polvarinhos, bacamartes de 1820, e entre esta poeirenta ferralhagem
negra três espingardas limpas com que os moços da quinta, na
romaria de S. Gonçalo, atiravam descargas em louvor do Santo.

Depois, ele, encafuou o revólver na algibeira, desenterrou do armário
da corredor um velho bengalão de cabo de chumbo entrançado,
agarrou um apito. E assim precavido, aquecido pelo Verde e pelo Alvaralhão,
com os dois criados de caçadeira ao ombro, importantes e tesos, partiu
para Vila-Clara, procurar o Sr. Administrador do Concelho. A noite envolvia
os campos em sossego e frescura. A lua nova, que alimpara o tempo, roçava
a crista das outeiros de Valverde como a roda lustrosa dum carro de ouro.
No silêncio os rijos sapatões pregueados dos dois jornaleiros
ressoavam em cadência. E Gonçalo adiante, de charuto flamante,
gozava aquela marcha, em que de novo um Ramires trilhava os caminhos de Santa
Irenéia com homens da sua mercê e solarengos armados.

Ao começo da vila, porém, recolheu discretamente a escolta
na taverna da Serena: e ele cortou para o Mercado da Erva, para a Tabacaria
do Simões, onde o Gouveia, àquela hora, antes da partida da
Assembléia, costumava pousar, comprar uma caixa de fósforos,
considerar pensativamente na vidraça as cautelas da Loteria. Mas nessa
noite o Sr. Administrador faltara ao Simões costumado. Largou então
para a Assembléia; e logo embaixo, no bilhar, um sujeito calvo, que
contemplava as carambolas solitárias do marcador, espapado na bancada,
de colete desabotoado, mascando um palito – informou o Fidalgo da doença
do amigo Gouveia:

– Coisa leve, inflamação de garganta… V. Exa. decerto o encontra
em casa. Não arreda do quarto desde domingo.

Outro cavalheiro, porém, que remexia o seu café à esquina
duma mesa atulhada de garrafas de licor, afiançou que o Sr. Administrador
já espairecera nessa tarde. Ainda pelas cinco horas ele o encontrara
na Amoreira, com o pescoço atabafado numa manta de lã.

Gonçalo, impaciente, abalou para a Calçadinha.. E atravessava
o largo da Chafariz quando descortinou o desejado Gouveia, à porta
muita alumiada da loja de panos do Ramos, conversando com um homenzarrão
de forte barba retinta e de guarda-pó alvadio.

E foi o Gouveia, que, de dedo espetado, investiu para Gonçalo:

– Então, já sabe?

– O quê?

– Pois não sabe, homem?… O Sanches Lucena!

– O quê?

– Morreu!

O Fidalgo embasbacou para o Administrador, depois para o outro cavalheiro,
que repuxava na mão enorme, com um esforço inchado, uma luva
preta apertada e curta.

– Santo Deus!… Quando?

– Esta madrugada. De repente. Angina pectoris, não sei quê no
coração… De repente, na cama.

E ambos se consideraram, em silêncio, no espanto renovado daquela morte
que impressionava Vila-Clara. Por fim Gonçalo:

– E eu ainda há bocado, na Torre, a falar dele! E, coitado, como sempre,
com pouca admiração…

– E eu! – exclamou o Gouveia. – Eu, que ainda ontem lhe escrevi!… E uma
carta comprida, por causa dum empenho do Manuel Duarte… Foi o cadáver
que recebeu a carta.

– Boa piada! – rosnou o sujeito obeso, que se debatia ferrenhamente contra
a luva. – O cadáver recebeu a carta… Boa piada!

O Fidalgo torcia a bigode, pensativo:

– Ora, ora… E que idade tinha ele?

O Gouveia sempre o imaginara um completo velho, de setenta invernos. Pois
não! apenas sessenta, em dezembro. Mas consumido, arrasado. Casara
tarde, com fêmea forte…

– E aí temos a bela D. Ana, viúva aos vinte e oito anos, sem
filhos, naturalmente herdeira, com o seu mealheiro de duzentos contos… Talvez
mais!

– Boa maquia! – roncou de novo o opado homem que enfiara a luva, e agora
gemia, com as veias túmidas, para lhe apertar o colchete.

Aquele cavalheiro constrangia o Fidalgo – ansioso por desafogar com o Gouveia
sobre “a vacatura política”, assim inesperadamente aberta,
no círculo de Vila-Clara, pela brusca desaparição do
chefe tradicional. E não se conteve, puxou o Administrador pela botão
da sobrecasaca para a sombra favorável da parede:

– Oh! Gouveia! então agora, bem?… Temos eleição suplementar…
Quem virá pelo círculo?

E o Administrador, muito simplesmente, sem se resguardar do homenzarrão
de guarda-pó, que, enfim enluvado, acendera a charuto, se acercava
com familiaridade – deduziu as fatos:

– Agora, meu amigo, com a tio do Cavaleiro ministro da Justiça e o
José Ernesto ministro do Reino, vai Deputado pela círculo quem
o André Cavaleiro mandar. E claro… O Sanches Lucena manteve sempre
o seu lugar em S. Bento por uma indicação natural do partido.
Era aqui o primeiro homem, o grande homem dos Históricos… Bem! Hoje,
para decidir o Governo, como falta a indicação natural do partido,
que resta? O desejo pessoal do Cavaleiro. Você sabe como o Cavaleiro
é regionalista. Pelo círculo pois, logicamente, sai quem se
apresente ao Cavaleiro como um bom continuador do Lucena, pela influência
e pela estabilidade territorial… Noutro circulo ainda se podia encaixar
à pressa um Deputado fabricado em Lisboa, nas Secretarias. Aqui não!
O Deputado tem de ser local e Cavaleirista. E o próprio Cavaleiro,
acredite você, está a esta hora embaraçado.

O gordalhufo murmurou com importância, através do imenso charuto
que mamava:

– Amanhã já estou com ele, já sei…

Mas o Administrador emudecera, coçava o queixo, cravando em Gonçalo
os olhos espertos, que rebrilhavam, como se uma ditosa idéia, quase
uma inspiração, o iluminasse. E de repente, para o outro, que
cofiava a barba retinta:

– Pois, meu caro senhor, até além de amanhã. Ficamos
entendidos. Eu remeto o cestinho dos queijos diretamente ao Sr. Conselheiro.

Tomou o braço de Gonçalo, que apertou com impaciência.
E sem atender mais ao homenzarrão, que saudava rasgadamente, arrastou
o Fidalgo para a Calçadinha silenciosa:

– Oh, Gonçalo, ouça lá… Você agora tinha uma
ocasião soberba! Você, se quisesse, dentro de poucos dias, estava
Deputado por Vila-Clara!

O Fidalgo da Torre estacara – como se uma estrela de repente se despenhasse
na rua mal alumiada.

– Ora escute! – exclamou o Administrador, largando o braço de Gonçalo,
para desenrolar mais livremente a sua idéia. – Você não
tem compromissos sérios com os Regeneradores. Você deixou Coimbra
há um ano, tenta agora a vida pública, nunca fez ato definitivo
de partidário. Lá uma ou outra correspondência para os
jornais, histórias!…

– Mas…

– Escute, homem! Você quer entrar na Política? Quer. Então,
pelos Históricos ou pelos Regeneradores, pouca importa. Ambos são
constitucionais, ambos são cristãos… A questão é
entrar, é furar. Ora você, agora, inesperadamente, encontra uma
porta aberta. O que o pode embaraçar? As suas inimizades particulares
com o Cavaleiro? Tolices!

Atirou um gesto, largo e seco, como se varresse essas puerilidades:

– Tolices! Entre vocês não há morte de homem. Nem vocês,
no fundo, são inimigos. O Cavaleiro é rapaz de talento, rapaz
de gosto… Não vejo outro, aqui no distrito, com quem você tenha
mais conformidade de espírito, de educação, de maneiras,
de tradições… Numa terra pequena, mais dia menos dia, fatalmente,
se impunha a reconciliação. Então seja agora, quando
a reconciliação o leva às Câmaras!… E repito.
Pela círculo de Vila-Clara sai Deputado quem o Cavaleiro mandar!

O Fidalgo da Torre respirou, com esforço, na emoção
que o sufocava. E depois dum silêncio em que tirara o chapéu,
abanara com ele, pensativamente, a face descaída:

– Mas o Cavaleiro, como você disse, é todo local, todo regional…
Não quererá impor senão um homem como o Lucena, com fortuna,
com influência…

O outro parou, alargou os braços:

– E então, você?… Que diabo! Você tem aqui propriedade.
Tem a Torre, tem Treixedo. Sua irmã hoje é rica, mais rica que
o Lucena. E depois o nome, a família… Vocês, os Ramires, estão
estabelecidos, com solar em Santa Irenéia, há mais de duzentos
anos.

O Fidalgo da Torre ergueu com viveza a cabeça:

– Duzentos?… Há mil, há quase mil!

– Ora, aí tem! Há mil anos. Uma casa anterior à monarquia.
Pelo menos coeva! Você é portanto mais Fidalgo que o Rei! E então,
isso não é uma situação muito superior à
do Lucena? Sem contar a inteligência… Oh! diabo!

– Que foi?

– A garganta… Uma picadita na garganta. Ainda não estou consolidado.

E decidiu logo recolher, gargarejar, porque o Dr. Macedo proibira as noitadas
festivas. Mas Gonçalo acompanhava até a porta o amigo Gouveia.
E, conchegando o abafo de lá, a Administrador resumiu a sua idéia:

– Pelo círculo de Vila-Clara, Gonçalinho, sai quem o Cavaleiro
mandar. Ora, o Cavaleiro, creia você, tem imenso empenho de o eleger,
de o lançar na Política.

Se você portanto estender a mão ao Cavaleiro, o círculo
é seu. O Cavaleiro tem o maior, o maioríssimo empenho, Gonçalinha!

– Isso é que eu não sei, João Gouveia…

– Sei eu!

E em confidência, na solidão da Calçadinha, João
Gouveia revelou ao Fidalgo que o Cavaleiro ansiava pela ocasião de
reatar a velha fraternidade com o seu velho Gonçalo! Ainda na semana
passada o Cavaleiro lhe afirmara (palavras textuais): – “Entre os rapazes
desta geração nenhum com mais seguro e mais largo futuro na
Política que o Gonçalo. Tem tudo! grande nome, grande talento,
a sedução, a eloqüência… Tem tudo! E eu, que conservo
pelo Gonçalo todo o carinho antigo, gastava ardentemente, ardentissimamente,
de o levar às Câmaras

– Palavras textuais, meu amigo!… Ainda há seis ou sete dias, em
Oliveira, depois do jantar, a tomarmos ambos café no quintal.

A face de Gonçalo ardia na sombra, devorando as revelações
do Administrador. Depois, com lentidão, como descobrindo candidamente
todos os recantos da sua alma:

– Eu, na realidade, também conservo a antiga simpatia pelo Cavaleiro.
E certas questões íntimas, adeus!… Envelheceram, caducaram,
tão obsoletas hoje como os agravos dos Horácios e dos Curiácios…
Como você lembrou há pouco, com razão, nunca se ergueu
entre nós morte de homem. Que diabo! Eu fui educado com o Cavaleiro,
éramos como irmãos… E acredite você, Gouveia! Sempre
que o vejo, sinta um apetite doido, mas doido de correr para ele, de lhe gritar:
“Oh! André! nuvens passadas não voltam, atira para cá
esses ossos!” Creia você, não o faço por timidez…
E timidez… Oh! não, lá por mim, estou pronto à reconciliação,
todo o coração ma pede! Mas ele?… Porque, enfim, Gouveia,
eu, nas minhas Correspondências para a Gazeta do Porto, tenho sido feroz
com o Cavaleiro!

João Gouveia parou, de bengala ao ombro, considerando o Fidalgo com
um sorriso divertido:

– Nas Correspondências? Que tem você dito nas Correspondências?
Que o Sr. Governador Civil é um déspota e um D. Juan?… Meu
caro amigo, todo o homem gosta que, por oposição política,
lhe chamem déspota e D. Juan. Você imagina que ele se afligiu?
Ficou simplesmente babado!

O Fidalgo murmurou, inquieto:

– Sim! Mas as alusões à bigodeira, à guedelha…

– Oh! Gonçalinho! Belos cabelos anelados, belos bigodes torcidos não
são defeitos de que um macho se envergonhe… Pelo contrário!
Todas as mulheres admiram. Você pensa que ridicularizou o Cavaleiro?
Não! anunciou simplesmente às madamas e meninas, que lêem
a Gazeta do Porto, a existência de um mocetão esplêndido
que é Governador Civil de Oliveira.

E parando de novo (porque defronte, na esquina, luziam as duas janelas abertas
da sua casa), o Administrador estendeu o dedo firme para um conselho supremo:

– Gonçalo Mendes Ramires, você amanhã manda buscar a
parelha do Torto, salta para a sua caleche, corre à cidade, entra pelo
Governo Civil de braços abertos, e grita sem outro prólogo:
– “André, o que lá vai, lá vai, venham essas costelas!
E como o circulo está vago, venha também esse círculo!”
– E você, dentro de cinco ou seis semanas, é o Sr. Deputado por
Vila-Clara, com todos os sinos a repicar… Quer tomar chá?

– Não, obrigado.

– Bem, então viva! Tipóia amanhã e Governo Civil. Está
claro, é necessário arranjar um pretexto…

O Fidalgo acudiu, com alvoroço:

– Eu tenho um pretexto! Não!… Quero dizer, tenho necessidade real,
absoluta, de falar com o Cavaleiro ou com o Secretário-Geral. E uma
questão de caseiro… Até por causa dessa infeliz trapalhada
o procurava eu hoje a você, Gouveia!

E aldravou a aventura do Casco, com traços mais pesados que o enegreciam.
Durante semanas, aferradamente, esse fatal Casco o torturara para lhe arrendar
a Torre. Mas ele tratara com o Pereira, o Pereira Brasileiro, por uma renda
esplendidamente superior à que o Casco oferecia a gemer. Desde então
o Casco rugia, ameaçava, por todas as tabernas da Freguesia. E, nessa
tarde, surde duma azinhaga, rompe para ele, de varapau erguido! Mercê
de Deus, lá se defendera, lá sacudira o bruto, com a bengala.
Mas agora, sobre o seu sossego, sobre a sua vida, pairava a afronta daquele
cajado. E, se o assalto se renovasse, ele varava o Casco com uma bala, como
um bicho montês… Urgia pois que o amigo Gouveia chamasse o homem,
o repreendesse rijamente, o entaipasse mesmo por algumas horas na cadeia…

O Administrador, que escutara palpando a garganta, atalhou logo, com a mão
espalmada:

– Governo Civil, caro amigo, Governo Civil! Esses casos de prisão
preventiva pertencem ao Governo Civil. Repreensão não basta,
com tal fera!… Só cadeia, um dia de cadeia, a meia ração…
O Governo Civil que me mande um ofício ou telegrama. Você realmente
corre perigo. Nem um instante a perder!… Amanhã tipóia e Governo
Civil. Mesmo por amor da Ordem Pública!

E Gonçalo, compenetrado, com os ombros vergados, cedeu ante esta soberana
razão da Ordem Pública:

– Bem, João Gouveia, bem!… Com efeito é uma questão
de Ordem Pública. Vou amanhã ao Governo Civil.

– Perfeitamente – concluiu o Administrador puxando o cordão da campainha.
– Dê recados meus ao Cavaleiro. E só lhe digo que havemos de
arranjar uma votação tremenda, e foguetório, e vivas,
e ceia magna no Gago… Você não quer tomar chá, não?
Então, boas-noites… E olhe! Daqui a dois anos, quando você
for ministro, Gonçalo Mendes Ramires, recorde esta nossa conversa,
à noite, na Calçadinha de Vila-Clara!

Gonçalo seguiu pensativamente por defronte do Correio; torneou a branca
escadaria da igreja de S. Bento; meteu, alheado e sem reparar, pela estrada
plantada de acácias que conduz ao Cemitério. E, naquele alto
da Vila, donde, ao desembocar da Calçadinha, se abrange a largueza
rica dos campos desde Valverde a Craquede – sentiu que também na sua
vida, apertada e solitária como a Calçadinha, se alargara um
arejado espaço cheio de interessante bulício e de abundância.
Era o muro, em que sempre se imaginara irreparavelmente cerrado, que de repente
rachava. Eis a fenda facilitadora! Para além reluziam todas as belas
realidades que desde Coimbra apetecera! Mas… – Mas no atravessar da fenda
fragosa decerto se rasgaria a sua dignidade ou se rasgaria o seu orgulho.
Que fazer?…

Sim! seguramente! Estendendo os braços ao animal do Cavaleiro conquistava
a sua Eleição. O círculo, enfeudado aos Históricos,
elegeria submissamente o Deputado que Ó chefe Histórico ordenasse
com indolente aceno. Mas essa reconciliação importava a entrada
triunfal do Cavaleiro na quieta casa do Barrolo… Ele vendia pois o sossego
da irmã por uma cadeira em S. Bento! Não! não podia por
amor de Gracinha! – E Gonçalo suspirou, com ruidoso suspiro, no luminoso
silêncio da estrada.

Agora, porém, durante três. quatro anos, os Regeneradores não
trepavam ao Governo. E ele, ali, através desses anos, no buraco rural,
jogando voltaretes sonolentos na Assembléia da Vila, fumando cigarros
calaceiros nas varandas dos Cunhais, sem carreira, parado e mudo na vida,
a ganhar musgo, como a sua caduca, inútil Torre! Caramba! era faltar
cobardemente a deveres muito santos para consigo e para com o seu nome!…
Em breve os seus camaradas de Coimbra penetrariam nos altos Empregos, nas
ricas Companhias; muitos nas Câmaras por vacaturas abençoadas
como a do Sanches; um ou outro mesmo, mais audaz ou servil, no Ministério.
Só ele, com talentos superiores, um tal brilho histórico, jazeria
esquecido e resmungando como um coxo numa estrada, quando passa a romaria.
E por quê? Pelo receio pueril de pôr a bigodeira atrevida do Cavaleiro
muito perto dos fracos lábios de Gracinha… E por fim esse receio
constituía uma injúria, uma nojenta injúria, à
seriedade da irmã. Porque Portugal não se honrava com mulher
mais rigidamente séria, de mais grave e puro pensar! Aquele corpinho
ligeiro, que o vento levava, continha uma alma heróica. O Cavaleiro?…
Podia S. Ex.’ sacudir a guedelha com graça fatal, jorrar dos olhos
pestanudos a languidez às ondas – que Gracinha permaneceria tão
inacessível e sólida na sua virtude como se fosse insexual e
de mármore. Oh, realmente por Gracinha, ele abriria ao Cavaleiro todas
as portas dos Cunhais – mesmo a porta do quarto dela, e bem larga, com uma
solidão bem preparada!… E depois não se cuidava de uma donzela,
nem duma viúva. Na casa do largo de El-Rei governava, mercê de
Deus, marido brioso, marido rijo. A esse, só a esse, competia escolher
as intimidades do seu lar – e nele manter quietação e recato.
Não! esse receio de uma imaginável fragilidade de Gracinha,
da sua honrada, altiva Gracinha – esse receio, perverso e louco, certamente
o devia varrer, com o coração desafogado e sorrindo. – E, na
clara solidão da estrada, Gonçalo Mendes Ramires atirou um gesto
decidido e terminante que varria.

Restava porém a sua própria humilhação. Desde
anos, ruidosamente, conversando e escrevendo, em Coimbra, em Vila-Clara, em
Oliveira, na Gazeta do Porto – ele demolira o Cavaleiro! E subiria agora,
de espinhaço vergado, as escadarias do Governo Civil, murmurando o
seu – peccavi, mea culpa, rnea maxima culpa?… Que escândalo na cidade!
– “O Fidalgo da Torre lá precisou e lá veio…” Era
o transbordante triunfo do Cavaleiro. O único homem que no Distrito
se conservava erguido, pelejando, trovejando as verdades – desarmava, emudecia,
e encolhidamente se enfileirava no séquito louvaminheiro de S. Exa.”
Bem duro!… Mas, que diabo, havia superiormente o interesse do país!
– E, tão admirável lhe apareceu esta razão, que a bradou
com ardor na mudez da estrada: – “Há o país!…”

Sim, o país! Quantas reformas a proclamar, a realizar! Em Coimbra,
no quinto ano, já se ocupara da Instrução Pública
– duma remodelação do Ensino, todo industrial, todo colonial,
sem latim, sem ociosas belas-letras, criando um povo formigueiro de Produtores
e de Exploradores… E os camaradas, nos sonhos ondeantes de Futuro, quando
repartiam os Ministérios, concordavam sempre: – “O Gonçalo
para a Instrução Pública!” Por essas idéias
poderosas, pelo saber acumulado, todo ele se devia à Nação
– como outrora, pela força, os grandes Ramires armados. E pela Nação
cumpria que o seu orgulho de homem cedesse ante a sua tarefa de cidadão…

Depois, quem sabe? Entre o Cavaleiro e ele afogadamente se enroscava todo
um passado de camaradagem, apenas entorpecido – que talvez revivesse nesse
encontro, os enlaçasse logo num abraço penetrante, onde os antigos
agravos se sumiriam como um pó sacudido… Mas para que imaginar, remoer?
Uma necessidade se sobrepunha, iniludível – a de comparecer logo de
manhã em Oliveira, no Governo Civil, requerendo a supressão
do Casco. Dessa pressa dependia o seu sossego de vida e de inteligência.
Nunca ele lograria trabalhar na Novela, trilhar folgadamente a estrada de
Vila-Clara, sabendo que em torno o outro, pelas quelhas e sombras, rondava
com a espingarda. E para não regressar aos costumes bravios dos seus
avós, circulando através do Concelho entre as carabinas dos
criados, necessitava o Casco domado, imobilizado. Era pois inadiável
correr ao Governo Civil, para bem da Ordem. E depois, quando ele se encontrasse
no gabinete do Cavaleiro, diante da mesa do Cavaleiro – a Providência
decidiria… – “A Providência decidirá!”

E, ancorado nesta resolução, o Fidalgo da Torre parou, olhou.
Levado pela quente rajada de pensamentos, chegara à grade do Cemitério
da Vila que o luar branqueava como um lençol estendido. Ao fundo da
alameda que o divide, clara na claridade triste, o escamado Cristo chagado
e lívido, sobre a sua alta cruz negra, pendia, mais dolorido e lívido
no silêncio e na solidão, com uma tristissima lâmpada aos
pés esmorecendo. Em torno eram ciprestes, sombras de ciprestes, brancuras
de lápides, as cruzes rasteiras das campas pobres, uma paz morta pesando
sobre os mortos; e no alto a lua amarela e parada. Então o Fidalgo
sentiu um arrepiado medo do Cristo, das lousas, dos defuntos, da lua, da solidão.
E despediu numa carreira até avistar as casas da Calçadinha,
por onde descambou como uma pedra solta. Quando se deteve no largo do Chafariz,
um mocho piava na torre da Câmara, melancolizando o repouso da Vila-Clara
apagada e adormecida. Mais impressionado, Gonçalo correu à taberna
da Serena, recolheu os criados que esperavam jogando a bisca lambida. E com
eles atravessou de novo a Vila até a cocheira do Torto – para recomendar
que lhe mandassem à Torre, às nove horas da manhã, a
parelha ruça.

Através do postigo, que se abrira com cautela no portão chapeado,
a mulher do Torto gemeu, indecisa:

– Ai, meu Deus, não sei se poderá… Ele às nove tem
um serviço… Pois não faria mais conta ao Fidalgo aí
pela volta das onze?

– As nove! – berrou Gonçalo.

Desejava apear cedo ao portão do Governo Civil, para evitar a curiosidade
daqueles cavalheiros de Oliveira – que, depois do meio-dia, se juntavam na
praça, vadiando por debaixo da Arcada.

Mas às nove e meia Gonçalo, que até o luzir da madrugada
se agitara pelo quarto num tumulto de esperanças e receios – ainda
se barbeava, em camisa, diante do vasto espelho de colunas douradas. Depois
aproveitou a caleche para deixar na Feitosa os seus bilhetes de pêsames
à bela viúva, à D. Ana. Ao meio-dia, esfaimado, almoçou
na Vendinha, enquanto a parelha resfolegava. E batia a meia depois das duas
quando enfim se apeou em Oliveira diante do portão do antigo convento
de S. Domingos, ao fundo da praça, onde seu pai, quando chefe do Distrito,
instalara faustosamente as repartições do Governo Civil.

Àquela hora, já na frescura e sombra da Arcada, que orla um
lado da praça (outrora praça da Prataria, hoje praça
da Liberdade), os cavalheiros de Oliveira mais desocupados, “os rapazes”,
preguiçavam, em cadeiras de verga à porta da Tabacaria Elegante
e da loja do Leão. Gonçalo, cautelosamente, baixara as cortinas
verdes da caleche. Mas no pátio do Governo Civil, ainda guarnecido
de bancos monumentais do tempo dos frades, esbarrou com o primo José
Mendonça, que descia a escadaria, fardado. Foi um assombro para o alegre
capitão, moço esbelto, de bigode curto, picado levemente de
bexigas.

– Tu por aqui, Gonçalinho! E de chapéu alto! Caramba, deve
ser coisa gorda!

O Fidalgo da Torre confessou corajosamente. Chegava nesse instante de Santa
Irenéia para falar ao André Cavaleiro…

– Está ele cá, esse ilustre senhor?

O outro recuou, quase aterrado:

– Ao Cavaleiro?! É ao Cavaleiro que vens falar?!… Santíssima
Virgem! Então desabou Tróia!

Gonçalo gracejou, corando. Não! não se passara desgraça
épica como a de Tróia… De resto podia revelar ao amigo Mendonça
o caso que o arrastava à presença augusta de Sua Exa. o Sr.
Governador Civil. Era um homem dos Bravais, um Casco, que, furioso por não
conseguir o arrendamento da Torre, o ameaçara, rondava agora a estrada
de Vila-Clara, de noite, à espreita, com uma espingarda. E ele, não
ousando “fazer alta e boa justiça” pelas mãos dos
seus criados, como os Ramires feudais – reclamava modestamente da Autoridade
Superior uma ordem para que o Gouveia mantivesse dentro da legalidade e dos
Mandamentos de Deus o façanhudo dos Bravais…

– Só isto, uma pequenina questão de paz pública… E
então o grande homem está lá em cima? Bem, até
logo, Zezinho… A prima, de saúde? Eu naturalmente janto nos Cunhais.
Aparece!

Mas o capitão não despegava do degrau de pedra, abrindo pachorrentamente
a cigarreira de couro:

– E que me dizes tu à novidade? O pobre Sanches Lucena?…

Sim, Gonçalo soubera na Assembléia. Um ataque, hem? – Mendonça
acendeu, chupou o cigarro:

– De repente, com um aneurisma, a ler o Notícias!… Pois ainda há
três dias a Maricas e eu jantamos na Feitosa. Até eu toquei a
duas mãos, com a D. Ana, o quarteto do Rigoletto. E ele bem, conversando,
tomando a sua aguardentezinha de cana…

Gonçalo esboçou um gesto de piedade e tristeza:

– Coitado… Também há semanas o encontrei na Bica-Santa. Bom
homem, bem-educado… E aí temos agora a bela D. Ana vaga.

– E o círculo!

– Oh, o círculo! – murmurou o Fidalgo da Torre com risonho desdém.
– A mim antes me convinha a viúva. É Vênus com duzentos
contos! Infelizmente tem uma voz medonha…

O primo Mendonça acudiu, com interesse, uma convicção
dedicada:

– Não! não! na intimidade, perde aquele tom empapado… Não
imaginas! até um timbre natural, agradável… E depois, menino,
que corpo! que pele!

– Deve ficar esplêndida agora com o luto! – concluiu Gonçalo.
– Bem, adeusinho! Aparece nos Cunhais… Eu corro ao Cavaleiro, para que Sua
Exa. me salve com o seu braço forte!

Sacudiu a mão do Mendonça, galgou a escadaria de pedra.

Mas o capitão, que metera para a travessa de S. Domingos, desconfiou
daquela história de ameaças, de espingardas… “Qual! Aqui
anda Política!” E quando, passada uma hora lenta, repenetrou na
praça e avistou a caleche da Torre ainda encalhada à porta do
Governo Civil – correu à Arcada, desabafou logo com os dois Vila-Velhas,
ambos pensativamente encostados aos dois umbrais da Tabacaria Elegante:

– Vocês sabem quem está no Governo Civil?… O Gonçalo
Ramires!… Com o Cavaleiro!

Todos em roda se mexeram, como acordando, nas gastas cadeiras de verga –
onde os estenderam sonolentamente o silêncio e a ociosidade da arrastada
tarde de verão. E o Mendonça, excitado, contou que desde as
duas horas e meia Gonçalo Mendes Ramires, “em carne e osso”,
se conservava fechado como Cavaleiro, no Governo Civil, numa conferência
magna! O espanto e a curiosidade foram tão ardentes que todos se ergueram,
se arremessaram para fora dos Arcos, a espiar a bojuda varanda do convento,
sobre o portão – que era a do gabinete de Sua Excelência.

Precisamente. nesse momento, José Barrolo, a cavalo, de calça
branca, de rosa branca na quinzena de alpaca, dobrava a esquina da rua das
Vendas. E o interesse todo daqueles cavalheiros se precipitou para ele, na
esperança de uma revelação:

– Oh Barrolo!

– Oh Barrolinho, chega cá!

– Depressa, homem, que é caso rijo!

Barrolo, ladeando, abeirou da Arcada; e os amigos imediatamente lhe atiraram
a nova formidável, apertados em volta da égua. O Gonçalo
e o Cavaleiro cochichando secretamente, toda a manhã! A caleche da
Torre à espera, com a parelha adormecida! E já começavam
a repicar os sinos da Sé!

Barrolo, num pulo, desmontou. E enquanto um garoto lhe passeava a égua
– estacou entre os amigos, com o chicote detrás das costas, pasmando
também para a varanda de pedra do Governo Civil.

– Pois eu não sei nada! O Gonçalo a mim não me disse
nada! – afirmava ele, assombrado. – Também já há dias
não vem à cidade… Mas não me disse nada! E da última
vez que cá esteve, nos anos da Graça, ainda destemperou contra
o Cavaleiro!

A todos o caso parecia “de estrondo”! E subitamente um silêncio
esmagou a Arcada, trespassada de emoção. Na varanda, entre as
vidraças abertas vagarosamente, aparecera o Cavaleiro com o Fidalgo
da Torre, conversando, risonhos, de charutos acesos. Os largos olhos do Cavaleiro
pousaram logo, com malícia, sobre “os rapazes” apinhados
em pasmo à borda dos Arcos. Mas foi um lampejar de visão. S.
Exa. remergulhara no gabinete – o Fidalgo também, depois de se debruçar
na varanda, espreitar a caleche da Torre. Entre os amigos rompeu um clamor:

– Viva! Reconciliação!

– Acabou a guerra das Rosas!

– E as correspondências da Gazeta do Porto?…

– É que houve peripécia tremenda!

– Temos o Gonçalinho Administrador de Oliveira!

– Upa, Exmo Sr., upa!

Mas de novo emudeceram. O Cavaleiro e o Fidalgo reapareciam, numa enfronhada
conversa, que os deteve um momento esquecidos, na evidência da varanda
escancarada. Depois o Cavaleiro, com uma familiaridade carinhosa, bateu nas
costas de Gonçalo – como se publicasse a sua reconciliação
diante da praça maravilhada. E outra vez se sumiram, nesse passear
conversado e íntimo, que os trazia da sombra do gabinete para a claridade
da janela, roçando as mangas, misturando o fumo leve dos charutos.
Embaixo o bando crescia, mais excitado. Passara o Melo Alboim, o Barão
das Marges, o Dr. Delegado; e, chamados com ânsia, cada um correra,
devorara esgazeadamente a novidade, embasbacara para o velho balcão
de pedra que o sol dourava. Os grossos ponteiros do relógio do Governo
Civil já se acercavam das quatro horas. Os dois Vila-Velhas, outros
“rapazes”, estafados, retrocederam às cadeiras de verga da
Tabacaria. O Dr. Delegado, que jantava às quatro e sofria do estômago,
despegou desconsoladamente dos Arcos, suplicando ao Pestana seu vizinho “que
aparecesse ao café para contar o resto… “Melo Alboim, esse,
enfiara para casa, defronte do Governo Civil, na esquina do largo; e da janela,
disfarçado por trás da mulher e da cunhada, ambas de chambres
brancos e de papelotes, sondava o gabinete de S. Exa. com um binóculo.
Por fim bateram, com estendida pancada, as quatro horas. Então o Barão
das Marges, na sua impaciência borbulhante, decidiu subir ao Governo
Civil, “para farejar!…”

Mas nesse momento André Cavaleiro assomava de novo à varanda
– sozinho, com as mãos enterradas no jaquetão de flanela azul.
E quase imediatamente a caleche da Torre largou da porta do Governo Civil,
atravessou a praça, com os estores verdes meio corridos, descobrindo
apenas, àqueles cavalheiros ávidos, as calças claras
do Fidalgo.

– Vai para os Cunhais!

Lá o apanhava poiso Barrolo! E todos apressaram o bom Barrolo a que
montasse, recolhesse, para ouvir do cunhado os motivos e os lances daquela
paz histórica! O Barão das Marges até lhe segurou o estribo.
Barrolo, alvoroçadamente, trotou para o largo de El-Rei.

Mas Gonçalo Mendes Ramires, sem parar nos Cunhais, seguia para a Vendinha,
onde decidira jantar, dando um descanso à parelha esfalfada. E logo
depois das últimas casas da cidade subiu os estores, respirou deliciosamente,
com o chapéu sobre os joelhos, a luminosa frescura da tarde – mais
fresca e de uma claridade mais consoladora que todas as tardes da sua vida…
Voltava de Oliveira vencedor! Furara enfim através da fenda, através
do muro! E sem que a sua honra ou o seu orgulho se esgaçassem nas asperezas
estreitas da fenda!… Abençoado Gouveia, esperto Gouveia! E abençoada
a esperta conversa, na véspera, pela Calçadinha de Vila-Clara!…

Sim, decerto, fora custoso aquele mudo momento em que se sentara secamente,
hirtamente, à borda da poltrona, junto da pesada mesa administrativa
de S. Exa.. Mas mantivera muita dignidade e muita simplicidade…- “Sou
forçado (dissera) a dirigir-me ao Governador Civil, à Autoridade,
por um motivo de Ordem Pública..; E a primeira avença partira
logo do Cavaleiro, que torcia a bigodeira, pálido: – “Sinto profundamente
que não seja ao homem, ao velho amigo, que Gonçalo Mendes Ramires
se dirija…” Ele ainda se conservava retraído, resistente, murmurando
com uma frieza triste: – “As culpas não são decerto minhas…”
E então o Cavaleiro, depois de um silêncio em que lhe tremera
o beiço: “Ao cabo de tantos anos, Gonçalo, seria mais caridoso
não aludir a culpas, lembrar somente a antiga amizade, que, pelo menos,
em mim, se conservou a mesma, leal e séria”. A esta sensibilizada
invocação, ele volvera, com doçura, com indulgência:
– “Se o meu antigo amigo André recorda a nossa antiga amizade,
eu não posso negar que em mim também ela nunca inteiramente
se apagou…” Ambos balbuciaram ainda alguns confusos lamentos sobre
os desacordos da vida. E quase insensivelmente se trataram por tu! Ele contou
ao Cavaleiro a torpe ousadia do Casco. E o Cavaleiro, indignado como amigo,
mais como Autoridade, telegrafara logo ao Gouveia um mandado forte para inutilizar
o valentão dos Bravais… Depois conversaram da morte do Sanches Lucena,
que impressionava o Distrito. Ambos louvaram a beleza da viúva, os
seus duzentos contos. O Cavaleiro recordou a manhã, na Feitosa, em
que entrando pela porta pequena do jardim a surpreendera, dentro de um caramanchão
de rosas, a apertar a liga. Uma perna divina! Ambos se recusaram, rindo, a
casar com a D. Ana, apesar dos duzentos contos e da divina perna… – Já
entre eles se restabelecera a antiga familiaridade de Coimbra. Era “tu
Gonçalo, tu André, oh menino, oh filho!”

E fora André, naturalmente, que aludira à desaparição
do Deputado do Governo, à surpresa do circulo vago… Ele então,
com indiferença, estirado na poltrona, rufando com os dedos na borda
da mesa, murmurara:

– Sim, com efeito… Vocês agora devem estar embaraçados, assim
de repente…

Mais nada! Apenas estas indolentes palavras, murmuradas através do
rufo. E o Cavaleiro, logo, sem preparação, apressadamente, empenhadamente,
lhe oferecera o círculo! – Pousara os olhos nele com lentidão,
como para o penetrar, o escutar… Depois, insinuante e grave:

– Se tu quisesses, Gonçalo, não estávamos embaraçados…

Ele ainda exclamara, com surpresa e riso:

– Como, se eu quisesse?

E o André, sempre com os olhos nele cravados, os largos olhos lustrosos,
tão persuasivos:

– Se tu quisesses servir o País, ser Deputado por Vila-Clara, já
não estávamos embaraçados, Gonçalo!

Se tu quisesses… E perante esta insistência que rogava, tão
sincera e comovida, em nome do País, ele consentira, vergara os ombros:

– Se te posso ser útil, e ao País, estou às vossas ordens.

E eis a fenda transposta, a áspera fenda, sem rasgão no seu
orgulho ou na sua dignidade! Depois conversaram desafogadamente, passeando
pelo gabinete, desde a estante carregada de papéis até a varanda
– que André abrira, por causa dum cheiro persistente de petróleo
entornado na véspera. André tencionava partir nessa noite para
Lisboa – para conferenciar com o Governo, depois daquela inesperada desaparição
do Lucena. E, agora em Lisboa, imporia o querido Gonçalo como único
Deputado, depois do Sanches de Lucena, seguro e substancial – pelo nome, pelo
talento, pela influência, pela lealdade. E eis a eleição
consumada! De resto (declarara o Cavaleiro, rindo) aquele Circulo de Vila-Clara
constituía uma propriedade sua – tão sua como Corinde. Livremente,
poderia eleger o servente da Repartição que era gago e bêbedo.
Prestava pois um serviço esplêndido ao Governo. à Nação,
apresentando um moço de tão alta origem e de tão tina
inteligência… Depois acrescentara:

– Não tens a pensar mais na eleição. Vais para a Torre.
Não contas a ninguém, a não ser ao Gouveia. Esperas lá,
muito quietinho, telegrama meu de Lisboa. E, recebido ele, estás Deputado
por Vila-Clara, anuncias a teu cunhado, aos amigos… Depois, no domingo,
vens almoçar comigo a Corinde, às onze.

Então ambos se apertaram num abraço que fundiu de novo, e para
sempre, as duas almas apartadas. Depois, ao cimo da escadaria de pedra onde
o acompanhara, André, repenetrando timidamente no Passado. murmurou
com um riso pensativo: – “Que tens tu feito ultimamente, nessa querida
Torre?” E, ao saber da Novela para os Anais, suspirou com saudade dos
tempos de Imaginação e de Arte em Coimbra, quando ele amorosamente
lapidava o primeiro canto dum poema heróico, o Fronteiro de Ceuta.
Enfim outro abraço – e ali voltava Deputado por Vila-Clara.

Todos esses campos, esses povoados que avistava da portinhola da caleche,
era ele que os representava em Cortes, ele, Gonçalo Mendes Ramires…
E superiormente os representaria, mercê de Deus! Porque já as
idéias o invadiam, viçosas e férteis. Na Vendinha, enquanto
esperava que lhe frigissem um chouriço com ovos e duas postas de sável,
meditou, para a Resposta ao Discurso da Coroa, um esboço sombrio e
áspero da nossa Administração na África. E lançaria
então um brado à Nação, que a despertasse, lhe
arrastasse as energias para essa África portentosa, onde cumpria, como
glória suprema e suprema riqueza, edificar de costa a costa um Portugal
maior!… A noite cerrara, ainda outras idéias o revolviam, vastas
e vagas – quando o trote esfalfado da parelha estacou no portão da
Torre.

Ao outro dia (terça-feira) às dez horas, o Bento entrou no
quarto do Fidalgo com um telegrama, que chegara à Vila de madrugada.
Gonçalo pensou com um deslumbrado pulo do coração: –
‘~É do Governo!” – Era do Pinheiro, gritando pela Novela. Gonçalo
amarrotou o telegrama. A Novela! Como poderia labutar na Novela, agora, todo
na impaciência e no esforço da sua Eleição?…
Nem almoçou sossegadamente – retendo, através dos pratos que
arredava, um desejo desesperado de “contar ao Bento”. E, sorvido
o café num sorvo impaciente, atirou para Vila-Clara, a desafogar com
o Gouveia. O pobre Administrador jazia de novo no canapé de palhinha,
com papas na garganta. E toda a tarde na estreita sala forrada de papel verde-gaio,
Gonçalo exaltou os talentos do André, “homem de governo
e de idéias, Gouveia!” – celebrou o Ministério Histórico,
o único capaz de salvar esta choldra, Gouveia!” – desenrolou vistosos
Projetos de Lei que meditava sobre a África, “a nossa esperança
magnífica, Gouveia!”

– Enquanto o Gouveia, estirado, só rompia a mudez e a imobilidade
para murmurar chochamente, apalpando o calor das papas:

– E a quem deve você tudo isso, Gonçalinho? Cá ao meco!

– Na quarta-feira, ao acordar, tarde, o seu pensamento saltou logo sofregamente
para o André Cavaleiro, que a essa hora, em Lisboa, almoçava
no Hotel Central (sempre, desde rapaz, André se conservara fiel ao
Hotel Central). E todo o dia, fumando cigarros insaciavelmente através
do silêncio da casa e da quinta, seguiu o Cavaleiro nos seus giros de
chefe de Distrito, pela Baixa, pela Arcada, pelos Ministérios… Naturalmente
jantaria com o tio Reis Gomes, Ministro da Justiça. Outro convidado
certamente seria o José Ernesto, Ministro do Reino, condiscípulo
do Cavaleiro, seu confidente político… Nessa noite, pois, tudo se
decidia!

– Amanhã, pelas dez horas, tenho cá telegrama do André.

Nenhuma notícia chegou à Torre: – e o Fidalgo passou a lenta
quinta-feira à janela, vigiando a estrada poeirenta por onde surdiria
o moço do telégrafo, um rapaz gordo que ele conhecia pelo boné
de oleado e pela perna manca. A noitinha, intoleravelmente inquieto, mandou
um moço a Vila-Clara. Talvez o telegrama arrastasse, esquecido, pela
mesa daquela “besta do Nunes do Telégrafo”! Não havia
telegrama para o Fidalgo. Então ficou certo de surgirem em Lisboa dificuldades!
E toda a noite, sem sossego, numa indignação que rolava e crescia,
imaginou o Cavaleiro cedendo molemente a outras exigências do Ministro
– aceitando com servilismo para Vila-Clara a candidatura de algum imbecil
da Arcada, de algum chulo escrevinhador do Partido!

Pela manhã injuriou o Bento, por lhe trazer tão tarde os jornais
e o chá.

– E não há telegrama, nem carta?

– Não há nada.

Bem, fora traído! Pois nunca, nunca, aquele infame Cavaleiro transporia
a porta dos Cunhais! De resto, que lhe importava a burlesca Eleição?
Mercê de Deus que lhe sobravam outros meios de provar soberbamente o
seu valor – e bem superiores a uma ensebada cadeira em S. Bento! Que miséria,
na verdade, curvar o seu espírito e o seu nome ao rasteiro serviço
do S. Fulgêncio, o obeso e horrendo careca! E resolveu logo regressar
aos cimos puros da Arte, ocupar altivamente todo o dia no nobre e elegante
trabalho da sua Novela.

Depois do almoço ainda abancou, com esforço, remexeu nervosamente
as tiras de papel. E de repente agarrou o chapéu, abalou para Vila-Clara,
para o telégrafo. O Nunes não recebera nada para S. Exa.! –
Correu, coberto de suor e pó, à Administração
do Concelho. O Sr. Administrador partira para Oliveira!… Positivamente vencera
outra combinação – eis a sua confiança burlada! E recolheu
à Torre, decidido a tomar um desforço tremendo do Cavaleiro
por tanta injúria amontoada sobre o seu nome, sobre a sua dignidade!
Toda a abafada e enevoada sexta-feira a consumiu amargamente meditando esta
vingança, que queria bem pública e bem sangrenta. A mais saborosa,
mais simples, seria rasgar a bigodeira do infame com chicotadas, na escadaria
da Sé, um domingo, à saída da missa! Ao escurecer, depois
dó jantar que mal debicara, naquele despeito e humilhação
que o pungiam, envergou o casaco para voltar a Vila-Clara. Não entraria
no Telégrafo – já com vergonha do Nunes. Mas gastaria a noite
na Assembléia, jogando o bilhar, tomando um alegre chá, lendo
risonhamente os Jornais Regeneradores, para que todos recordassem a sua indiferença
– se por acaso, mais tarde, conhecessem a trama em que resvalara.

Desceu ao pátio, onde as árvores adensavam a sombra do crepúsculo
carregado de fuscas nuvens. E abria o portão, quando esbarrou com um
rapaz que se esbaforia sobre a perna manca e gritava: – “É um
telegrama!” Com que voracidade lho arrancou das mãos! Correu à
cozinha, ralhou desabridamente à Rosa pela falta da luz tardia! E,
com um fósforo a arder nos dedos, devorou, num lampejo, as linhas benditas:
– “Ministro aceita, tudo arranjado O resto era o Cavaleiro lembrando
que no domingo o esperava em Corinde, às onze, para almoçarem
e conversarem…

Gonçalo Mendes Ramires deu cinco tostões ao moço do
telégrafo – galgou as escadas. Na livraria, à claridade mais
segura do candeeiro, releu o telegrama delicioso. Ministro aceita, tudo arranjado!…
Na sua transbordante gratidão pelo Cavaleiro, ideou logo um jantar
soberbo, oferecido nos Cunhais pelo Barrolo, cimentando para sempre a reconciliação
das duas Casas. E recomendaria a Gracinha que, para mais honrar a doce festa,
se decotasse, pusesse o seu colar magnífico de brilhantes, a derradeira
jóia histórica dos Ramires.

Aquele André! que flor, que rapaz!

O relógio de charão, no corredor, rouquejou as nove horas.
E só então Gonçalo percebeu a densa chuva que alagava
a quinta, e a que ele, embebido na sua glória, passeando pela livraria
num luminoso rolo de imaginações, não sentira o rumor
sobre a pedra da varanda, nem sobre a folhagem dos limoeiros.

Para se calmar, ocupar a noite encerrada, deliberou trabalhar na Novela.
E realmente agora convinha que terminasse essa Torre de D. Ramires antes do
afã da Eleição – para que em janeiro, ao abrir das Cortes,
surgisse na Política com o seu velho nome aureolado pela Erudição
e pela Arte. Envergou o roupão de flanela. E à banca, com o
costumado bule de chá inspirador, repassou lentamente o começo
do Capitulo II- que o não contentava.

Era no castelo de Santa Irenéia, naquele dia de agosto em que Lourenço
Ramires caíra no vale de Canta-Pedra, malferido e cativo do Bastardo
de Baião. Pelo Almocadém dos peões, que, com o braço
varado por uma chuçada, voltara em desesperada carreira ao Castelo,
já Tructesindo Ramires conhecia o desventuroso desfecho da lide. –
E neste lance o tio Duarte, no seu poemeto do BARDO, com um lirismo mole,
mostrava o enorme Rico-homem gemendo derramadamente através da sala
de armas, na saudade desse filho, flor dos Cavaleiros de Riba-Cavado, derrubado,
amarrado numas andas, à mercê da gente de Baião…

Lágrimas irrepresas lhe rebentam,
Arfa o arnês c’o soluçar ardente!…

Ora, levado no harmonioso sulco do tio Duarte, também ele, nas linhas
primeiras do Capítulo, esboçara o velho abatido sobre um escanho,
com lágrimas reluzentes sobre as barbas brancas, as duras mãos
descaídas como as de lânguida dona – enquanto que nas lajes,
batendo a cauda, os seus dois lebreus o contemplam numa simpatia ansiada e
quase humana. Mas, agora, este choroso desalento não lhe parecia coerente
com a alma tão indomavelmente violenta do avô Tructesindo. O
tio Duarte, da casa das Balsas, não era um Ramires, não sentia
hereditariamente a fortaleza da raça: – e, romântico plangente
de 1848, inundara logo de prantos românticos a face férrea de
um lidador do século XII, dum companheiro de Sancho I! Ele porém
devia restabelecer os espíritos do Senhor de Santa Irenéia dentro
da realidade épica. E, riscando logo esse descorado e falso começo
de Capitulo, retomou o lance mais vigorosamente, enchendo todo o castelo de
Santa Irenéia duma irada e rija alarma. Na sua lealdade sublime e simples,
Tructesindo não cuida do filho – adia a desforra do amargo ultraje.
E o seu esforço todo se comete a apressar os aprestos da mesnada, para
correr ele sobre Montemor, e levar às Senhoras Infantas os socorros
de que as privara a emboscada de Canta-Pedra! Mas quando o impetuoso Rico
homem com o Adail, na sala de armas, regia a ordem da arrancada – eis que
os esculcas, abrigados do calor de agosto nos miradouros, enxergam ao longe,
para além do arvoredo da Ribeira, coriscos de armas, uma cavalgada
subindo para Santa Irenéia. O Vílico, o gordo e azafamado Ordonho,
galga arquejando aos eirados da torre albarrã – e reconhece o pendão
de Lopo de Baião, o seu toque de trompas à mourisca, arrastado
e triste no silêncio dos campos. Então arqueia as cabeludas mãos
na boca, atira o alarido:

– Armas, armas! que é gente de Baião!… Besteiros, às
quadrelas! Homens em chusma às levadiças da cárcova!

E Gonçalo, coçando a testa com a rama da pena, rebuscava ainda
outros verídicos brados, de bravo som Afonsino – quando a porta da
livraria abriu cautelosamente, através daquele perro rangido que o
desesperava. Era o Bento, em mangas de camisa:

– O Sr. Dr. não poderia descer cá baixo à cozinha?

Gonçalo embasbacou para o Bento, pestanejando, sem compreender:

– A cozinha?…

– E que está lá a mulher do Cascô a levantar uma celeuma.
Parece que lhe prenderam o homem esta tarde… Apareceu aí por baixo
de água, com os pequenos, até um de mama. Quer por força
falar com o Sr. Dr. E não se cala, lavada em lágrimas, de joelhos
com os filhos, que é mesmo uma Inês de Castro!

Gonçalo murmurou: “que maçada!” E que contrariedade!
A mulher, numa agonia, entre gritos, arrastando os filhos suplicantes até
o portão da Torre! E ele, nas vésperas da sua Eleição,
aparecendo a todas as freguesias enternecidas como um Fidalgo desumano!…
Atirou a pena furiosamente:

– Que maçada! Dize à criatura que me deixe, que se não
aflija… O Sr. Administrador amanhã manda soltar o Casco. Eu mesmo
vou a Vila-Clara, antes do almoço, para pedir. Que se não aflija,
que não aterre os pequenos… Corre, dize, homem!

Mas o Bento não despegava da porta:

– Pois a Rosa e eu já lhe dissemos… Mas a mulherzinha não
acredita, quer pedir ao Sr. Dr.! Veio por baixo de água. Até
um dos pequenitos está bem doentinho, ainda não fez senão
tremer…

Então Gonçalo, sensibilizado, atirou à mesa um murro
que tresmalhou as tiras da Novela:

– Ora se uma coisa destas se atura! Um homem que me quis matar! E agora,
por cima, é sobre mim que desabam as lágrimas, e as cenas, e
a criança doente! Não se pode viver nesta terra! Um dia vendo
casa e quinta, emigro para Moçambique, para o Transvaal, para onde
não haja maçadas… Bem, dize à mulher que já
desço.

O Bento aprovou, com efusão:

– Pois se o Sr. Dr. lhe não custa… E como é para dar uma
boa nova… Sempre consola a pobre mulherzinha!…

– Lá vou, homem, lá vou! Não me maces também…
Impossível trabalhar nesta casa! Outra noite perdida!

Enfiou violentamente para o quarto, atirando as portas – com a idéia
de meter na algibeira do roupão duas notas de dez tostões que
consolariam os pequenos. Mas, diante da gaveta, recuou, vexado. Que brutal
idade, compensar com dinheiro criancinhas – a quem ele arrancara o pai, algemado,
para o trancar numa enxovia! Agarrou simplesmente numa boceta de alperces
secos – dos famosos alperces do Convento de Santa-Brígida, de Oliveira,
que na véspera lhe mandara Gracinha. E, cerrando lentamente o quarto,
já se arrependia da sua severidade, tão estouvada, que assim
desmanchava a quietação de um casal. Depois no corredor, ante
a chuva clamorosa que dos telhados se despenhava nas lajes do pátio,
ainda mais doridamente se impressionou, com a imagem da pobre mulher, tresloucada
pela negra estrada, puxando os filhinhos encharcados, moídos, contra
a tormenta solta. E ao penetrar no corredor da cozinha – tremia como um culpado.

Através da porta envidraçada sentiu logo a Rosa e o Bento consolando
a mulher, com palradora confiança, quase risonhos. Mas os ‘ais”
dela, os ruidosos lamentos pelo “seu rico homem”, ressoavam, mais
agudos, como a rebater e a abafar toda a consolação. E apenas
Gonçalo empurrou timidamente a porta – quase acuou no espanto e medo
daquela aflição estridente que se arremessava para ele e para
a sua misericórdia! De rojos nas lajes, torcendo as magras mãos
sobre a cabeça, toda de negro, parecendo mais negra e dolorosa contra
a vermelhidão do lençol estendido que secava ao lume forte da
lareira – a criatura estalara num tumulto de súplicas e gritos:

– Ai, meu rico Senhor, tenha compaixão! Ai, que me prenderam o meu
homem, que mo vão mandar para a África degredado! Jesus, meus
filhinhos da minha alma que ficam sem pai! Ai, pelas suas almas, meu senhor,
e por toda a sua felicidade!… Eu sei que ele teve culpa! Aquilo foi perdição
que lhe deu! Mas tenha piedade destas criancinhas! Ai, o meu pobre homem que
está a ferros Ai, meu rico Senhor, por quem é!

Com as pálpebras umedecidas, agarrando, desesperadamente, a boceta
de alperces, Gonçalo balbuciava, através da emoção
que o estrangulava:

– Oh mulher, sossegue, já o vão soltar! Sossegue! Já
dei ordem! Já o vão soltar!

E de um lado a Rosa, debru&cccedil;ada sobre a escura criatura que gemia,
recomeçava docemente: – “Pois foi o que lhe dissemos, tia Maria!
Logo pela manhã, o vão soltar!”- E do outro o Bento, batendo
na coxa, com impaciência: -“Oh mulher, acabe com esse escarcéu!
Pois se o Sr. Dr. prometeu! Logo pela manhã o vão soltar!”

Mas ela não se calmava, com o lenço da cabeça desmanchado,
uma trança desprendida, soluçando e clamando através
dos soluços:

– Ai que eu morro, se o não vejo solto! Ai, perdão, meu rico
Senhor da minha alma!…

Então Gonçalo, que aquele infindável e obtuso queixume
torturava, como um ferro cravado e recravado, bateu o chinelo nas lajes, berrou:

– Escute, mulher! E olhe para mim! Mas de pé, de pé!… E olhe
bem, olhe direita!

Hirtamente erguida, atirando as mãos para as costas como a escapar
de algemas que também a ameaçassem – ela arregalou para o Fidalgo
os olhos espavoridos, fundos olhos pretos, de fundas olheiras tristes, que
lhe enchiam a face rechupada e morena.

– Bem, perfeitamente! – exclamava Gonçalo. – E agora diga! Acha que
tenho bojo de lhe mentir, quando vossemecê está nessa aflição?
Pois então sossegue, acabe com os gritos, que, sob minha palavra. amanhã
cedo, o seu homem está solto!

E a Rosa e o Bento, ambos triunfando:

– Pois que lhe dizia a gente, criatura de Deus? Se o Sr. Dr. tinha prometido…
Amanhã lá tem o homem! Lentamente ela limpava as lágrimas,
já silenciosa, à ponta do avental negro. Mas ainda desconfiada,
com os tenebrosos olhos mais arregalados, devorando Gonçalo. E o fidalgo
mandava com certeza a ordem, cedinho, de madrugada?… Foi o Bento que a convenceu,
com violência:

– Oh mulher, você até parece atrevida! Ora essa! Pois duvida
da palavra do Sr. Dr.?

Ela soltou o avental, baixou a cabeça, suspirou simplesmente:

– Ai, então muito obrigada, seja pela felicidade de todos…

E agora a curiosidade de Gonçalo procurava os pequenos que ela acarretara
desde os Bravais através da chuva cerrada. A pequenina de mama dormia
com beatitude sobre a tampa de uma arca, onde a boa Rosa a aconchegara entre
mantas e fronhas. Mas o pequeno, de sete anos, encolhido numa cadeira diante
do lume, rente ao lençol que secava, secando também, com a carinha
afogueada de febre, tossia despedaçadamente, num cabecear de sono e
cansaço, a arquejar, a gemer contra a tosse que o esfalfava. Gonçalo
pousou a boceta de alperces na arca, palpou a mão com que ele, sem
cessar, raspava pela abertura da camisa encardida o peito ainda mais encardido.

– Mas esta criança tem febre!… E você, com uma noite destas,
traz o pequeno assim desde os Bravais, mulher?

Da cadeirinha baixa, onde se sentara prostrada, ela murmurou, sem erguer
a magra face, torcendo a ponta do avental:

– Ai! era para que eles também pedissem, que estavam sem pai, coitadinhos!

– Vossemecê é doida, mulher! E pretende talvez voltar para os
Bravais, debaixo d’água, com as crianças?

Ela suspirou:

– Ai! volto, volto… Não posso deixar sozinha a mãe do meu
homem, que tem oitenta anos e está entrevada…

Então o Fidalgo cruzou descorçoadamente os braços –
no embaraço daquela aventura, em que, por culpa da sua ferocidade,
se arriscavam duas crianças. Mas a Rosa entendia que a pequenina, a
de mama, não sofreria com a caminhada, bem achegadinha ao colo da mãe,
debaixo de uma manta grossa. Agora o outro, com a tosse, com a febre…

– Esse fica cá! – exclamou logo Gonçalo, decidido. – Como se
chama ele? Manuel… Bem! O Manuel fica cá. E vá descansada,
que a Sra. Rosa toma cuidado. Precisa uma boa gemada, depois um bom suadouro.
Um destes dias lá lhe aparece nos Bravais, curado e mais gordo… Vá
sossegada!

De novo a mulher suspirou, no cansaço imenso que a invadira, a amolecia.
E sem resistir, no seu longo e abatido hábito de submissão:

– Pois sim senhor, se o Fidalgo manda, está muito bem…

O Bento, entreabrindo a porta do pátio, anunciava uma “aberta”,
o negrume a levantar. Gonçalo imediatamente apressou a volta aos Bravais:

– E não tenha medo, mulher. Vai um moço da quinta com uma lanterna,
e um guarda-chuva para abrigar a pequena.. Escute! Vossemecê até
podia levar uma capa de borracha!… O Bento, corre, desce a minha capa de
borracha. A nova, a que comprei em Lisboa…

E quando o Bento trouxe o “impermeável” de longa romeira,
o lançou por sobre os ombros da mulher, que o estofo rico intimidava,
com o seu ruge-ruge de seda – foi na cozinha uma divertida risada. O pranto
passara, como a chuva. Agora era uma visita amorável, findando num
arranjo alegre de agasalhos. A Rosa apertava as mãos, banhada de gosto:

– Assim é que vossemecê fica uma bonita Madama, hem!… Se fosse
de dia, olhe que se juntava gente!

A mulher sorria enfim, descoradamente, sem interesse:

– Ai! nem sei que pareço… Que avantesma!

Através do pátio, onde as acácias gotejavam docemente,
Gonçalo acompanhou o rancho até a porta do pomar, gritando ainda
– “Agasalhem bem a pequena!” – quando já a lanterna do moço
se fundia na úmida espessura da noite acalmada. Depois, na cozinha,
batendo contra as lajes as solas dos chinelos molhados, apalpou novamente
o Manuelzinho, que adormecera num sono rouquejado, torcido sobre as costas
da cadeira.

– Tem pouca febre… Mas precisa um suadouro forte. E, antes de o cobrirem
bem, um leite quente, quase a ferver, com cognac… O que ele precisava, também,
era esfregado a coco… Que porcaria de gente! Enfim fica para mais tarde,
quando se curar… E agora, ó Rosa, mande acima alguma coisa para eu
cear, coisa sólida, que não jantei, e o sarau foi tremendo!

Na livraria, depois de mudar os chinelos, descansar, Gonçalo escreveu
ao Gouveia uma carta reclamando com comovida urgência a liberdade do
Casco. E acrescentava: – “É o primeiro pedido que lhe faz o Deputado
por Vila-Clara (cumprimente!), porque acabo de receber telegrama do nosso
André, anunciando que ‘tudo feito, ministro concorda, etc.’. De sorte
que precisamos comunicar! Queira pois Vossa Mercê vir jantar amanhã
a esta sua Torre, à sombra do Titó e com acompanhamento de Videirinha.
Estes dois beneméritos são indispensáveis para que haja
apetite e harmonia. E rogo, Gouveia amigo, que os avise do festim, para me
evitar a remessa de circulares eloqüentes…”

Lacrada a carta, retomou languidamente o manuscito da Novela. E, trincando
a rama da pena, ainda procurou vozes, de bom sabor medieval, para aquele lance
em que o Vílico e as roldas enxergavam a cavalgada do Bastardo, pela
encosta da Ribeira, com refulgidos de armas, sob o rijo sol de agosto…

Mas a sua imaginação, desde a carta escrita ao Gouveia pelo
“Deputado de Vila-Clara”, escapava desassossegadamente da velha
Honra de Santa Irenéia – esvoaçava teimosamente para os lados
de Lisboa, da Lisboa do S. Fulgêncio. E o eirado da torre albarrã,
onde o gordo Ordonho gritava esbaforido – incessantemente se desfazia como
névoa mole, para sobre ele surgir, apetitoso e mais interessante, um
quarto do Hotel Bragança com varanda sobre o Tejo… Foi um alivio
quando o Bento o apressou para a ceia. E à mesa espalhou livremente
a imaginação por Lisboa, pelos corredores de S. Carlos, por
sob as árvores da avenida, através dos antiquados palácios
dos seus parentes em S. Vicente e na Graça, através das salas
mais modernas de cultos e alegres amigos – parando às vezes diante
de visões que considerava com um riso deleitado e mudo. Alugaria aos
meses, certamente, uma carruagem da Companhia. E para as sessões de
S. Bento sempre luvas cor de pérola, uma flor no peito. Por comodidade
levava o Bento, bem apurado, com casaca nova…

O Bento entrou com a garrafa do cognac numa salva. Dera a carta ao Joaquim
da Horta, com a recomendação de correr logo às seis horas
à casa do Sr. Administrador, de se demorar na Vila por diante da Cadeia
até soltarem o Casco.

– E já deitamos o pequeno no quarto verde. Fica perto de mim, que
tenho o sono leve, se ele berrar… Mas já dorme regaladamente.

– Está sossegado, hem? – acudiu Gonçalo, sorvendo à
pressa o cálice de cognac. – Vamos ver esse cavalheiro!

E tomou um castiçal, subiu ao quarto verde com o Bento, sorrindo,
abafando os passos pela estreita escada. No corredor, junto da porta, num
desbotado canapé de damasco verde, a Rosa dobrara carinhosamente a
roupa trapalhona do pequeno, o colete esgarçado, as calças enormes,
só com um botão. Dentro o leito de pau-preto, vasto leito de
cerimônia, atravancava a parede forrada dum velho papel aveludado de
ramagens verdes. Ao lado dos dois postes torneados, à cabeceira, pendiam
dois painéis, retratos de antigos Ramires, um Bispo obeso folheando
um fólio, um formoso Cavaleiro de Malta, de barba ruiva, apoiado à
espada, com um laçarote de rendas sobre a couraça polida. E
nos altos colchões o Manuelzinho ressonava, sem tosse, quieto, abatido
pela grossura dos cobertores, umedecido por um suor fresco e sereno.

Gonçalo, caminhando sempre de leve, repuxou cuidadosamente a dobra
do lençol. Desconfiado das janelas decrépitas, experimentou
que não entrasse traiçoeiro ar pelas gretas. Mandou pelo Bento
buscar uma lamparina, que arranjou sobre o lavatório, com a luz esbatida
por trás duma vasilha. Ainda atentamente relanceou os olhos lentos
pelo quarto, para se assegurar do sossego, do silêncio, da penumbra,
do conforto. E saiu, sempre na ponta dos pés, sorrindo, deixando o
filho do Casco velado pelos dois nobres Ramires – o Bispo com o seu Tratado,
o Cavaleiro de Malta com a sua pura espada.

Recolhendo do Tanque-Velho, do fundo da quinta, onde passara a calma, depois
do almoço, na frescura do arvoredo, entre sussurros de águas
correntes, a folhear um volume do Panorama – Gonçalo encontrou sobre
a mesa da Livraria, com o correio de Oliveira, uma carta que o surpreendeu,
enorme, em papel almaço, fechada por uma obréia. E dentro a
assinatura, desenhada a tinta azul, era um coração chamejante.

Num relance devorou as linhas, pautadas a lápis, de uma letra gorda,
arredondada com esmero: – “Caro e Exmo Sr. Gonçalo Ramires. O
galante Governador Civil do Distrito, o nosso atiradiço André
Cavaleiro, passeava agora constantemente por diante dos Cunhais, olhando com
ternura para as janelas e para o honrado brasão dos Barrolos. Como
não era natural que andasse a estudar a arquitetura do Palacete (que
nada tem de notável), concluiu a gente séria que o digno Chefe
do Distrito esperava que V. Exa. aparecesse a alguma das janelas do largo,
ou das que deitam para a rua das Tecedeiras, ou sobretudo no mirante do jardim,
para reatar com V. Exa. a antiga e quebrada amizade. Por isso muito acertadamente
procedeu V Exa. em correr pessoalmente ao Governo Civil, e propor a reconciliação
e abrir os braços generosos ao velho amigo, evitando assim que a primeira
Autoridade do Distrito continuasse a esbanjar um tempo precioso naqueles passeios,
de olhos pregados no Palacete dos fidalguíssimos Barrolos. Enviamos,
portanto, a V. Exa. os nossos sinceros parabéns por esse acertado passo
que deve calmar as impaciências do fogoso Cavaleiro e redondar em benefício
dos serviços públicos!”

Revirando o papel nas mãos, Gonçalo pensou:

– É das Lousadas!

Ainda estudou a letra, as expressões, descortinando que redundar fora
escrito com um O, arquitectura sem C. E rasgou furiosamente a grossa folha,
rosnando o silêncio da Livraria:

– Aquelas bêbedas!

Sim, era delas, das odiosas Lousadas! E essa origem mais o aterrava – porque
maledicência, lançada por tão ardentes espalhadoras de
maledicências, já certamente penetrara em todas as casas de Oliveira,
mesmo na Cadeia, mesmo no Hospital! E agora a cidade divertida, lambendo o
escândalo, relacionava perfidamente os rodeios do André pelos
Cunhais com essa sua visita ao Governo Civil que assombrara a Arcada. Na idéia
pois de Oliveira, e sob a inspiração das Lousadas – fora ele,
ele, Gonçalo Mendes Ramires, que arrancara o Cavaleiro à sua
Repartição, o conduzira serviçalmente ao largo de El-Rei,
lhe escancarara as portas do Palacete até aí rondadas e miradas
sem proveito, e com sereno descaro alcovitara os amores da irmã! Se
tais desavergonhadas não mereciam que lhes arregaçassem as sujas
saias no meio da praça, em manhã de Missa, e lhes fustigassem
as nádegas meladas, furiosamente, até que o sangue ensopasse
as lajes!…

E, para maior dano, as aparências todas se combinavam contra ele, traidoramente!
Essa insistência de André, cocando Gracinha, estrondeando a calçada
em torno do Palacete, crescera, impressionava, justamente agora, neste agosto,
nas vésperas dessa sua aparição à janela do Governo
Civil, que Oliveira comentava com um mistério histórico. Que
inoportunamente morrera o animal do Sanches Lucena! Meses antes, nem mesmo
a malícia das Lousadas ligaria a sua reconciliação com
André a um cerco amoroso que não começara, ou não
andava tão murmurado. Três ou quatro meses depois, André,
sem esperança ante o Palacete inacessível, certamente findaria
os seus giros pelo largo, de rosa ao peito! Mas não! infelizmente quando
esse André, com maior estrépito, ronda a porta almejada – é
que ele acode, e abraça o rondador, e lhe facilita a porta! E assim
a maledicência das Lousadas encontrava uma base, a que todos na cidade
podiam palpar a substância e a solidez, e sobre ela se erigia como Verdade
Pública! Infames Lousadas!

Mas agora? O quê? Manter rigidamente as suas relações
com o Cavaleiro dentro da Política, evitando escorregadias intimidades
que o tornassem logo nos Cunhais, como outrora na Torre, o conviva desejado?
Como poderia? Desde que ele se reconciliava com André, logo e tão
naturalmente como a sombra segue a inclinação do ramo, se reconciliava
também o Barrolo, seu cunhado e sua sombra… Mas como impor ao Barrolo
que a sua renovada familiaridade com o Cavaleiro se realizasse unicamente
dentro da Política como dentro de um Lazareto? – “Eu sou outra
vez o velho amigo do André, tu, Barrolo, também – mas nunca
o convides para a tua mesa, nem lhe abras a tua porta!” – Imposição
desconcertada, de dura impertinência – e que, na pequena Oliveira, logo
os fáceis encontros, a simplicidade hospitaleira do Barrolo, quebrariam
como um barbante puído… E depois que grotesca atitude a sua, hirto
diante do portão do Palacete, como um Arcanjo S. Miguel, de bengala
de fogo na mão, para sustar a intrusão de Satanás, chefe
do Distrito! Mas também que toda a cidade largasse a cochichar pelos
cantos o nome de Gracinha embrulhado ao nome de André, com o nome dele,
Gonçalo, emaranhado através como o fio favorável que
os atara – era horrível.

E na impaciência desta dificuldade, de malhas tão ásperas,
que tanto o feriam, terminou por esmurrar a mesa, revoltado:

– Irra, que maçada! São tudo maçadas, nestas terras
pequenas e coscuvilheiras…

Em Lisboa quem se importaria que o Sr. Governador Civil passeasse num certo
largo – e que certo Fidalgo da Torre se reconciliasse com o Sr. Governador
Civil?… Pois acabou! Romperia soberbamente para diante, como se habitasse
Lisboa, desafogado de mexericos e de malignos olhinhos a cocar. Era Gonçalo
Mendes Ramires, da Casa de Ramires! Mil anos de nome e de solar! Dominava
bem acima de Oliveira, de todas as suas Lousadas. E não só pelo
nome, louvado Deus, mas pelo espírito… O André era seu amigo,
entrava em casa de sua irmã – e Oliveira que estourasse!

E nem consentiu que a suja carta das Lousadas desmanchasse a quieta manhã
de trabalho para que se preparara desde o almoço, relendo trechos do
Poemeto do tio Duarte, folheando artigos do Panorama sobre as guerras de muralhas
no século XII. Com um esforço de atenção erudita
abancou, mergulhou a pena no tinteiro de latão que servira a três
gerações de Ramires. E enquanto repassava as tiras trabalhadas,
nunca o Castelo de Santa Irenéia lhe parecera tão heróico,
de tão soberana estatura, sobre tamanha colina de História,
sobranceando o Reino, que em torno dele se alargava, se cobria de vilas e
messes, pelo esforço dos seus castelões!

Temerosa, com efeito, se erguia a antiga Honra de Santa Irenéia, nessa
Afonsina manhã de agosto e rijo sol, em que o pendão do Bastardo
surgira, entre fulgidos de armas, para além dos arvoredos da Ribeira!
Já por todas as ameias se apinhavam os besteiros, espiando, encurvadas
as bestas. Das torres e adarves subia o fumo grosso do breu, fervendo nas
cubas, para despejar sobre os homens de Baião que tentassem a escalada.
O Adail corria pelas quadrelas, relembrando as traças de defesa, revistando
os feixes de virotões, os pedreguIhos de arremesso. E no imenso terreiro,
por entre os alpendres colmados, surdiam velhos solarengos, servos do forno,
servos da abegoaria, que se benziam com terror, puxavam pelo saião
de algum apressado homem de rolda, para saberem da hoste que avançava.
No entanto a cavalgada passara a Ribeira sobre a rude ponte de pau – já,
por entre os álamos, serenamente se acercava do Cruzeiro de granito,
outrora erguido nos confins da Honra por Gonçalo Ramires, o Cortador.

E, no sossego da manhã abrasada, mais fundamente ressoaram as buzinas
do Bastardo, e o seu toque lento e triste à mourisca…

Mas quando Gonçalo, enlevado no trabalho, tentava reproduzir, com
termos bem sonoros, avidamente rebuscados no Dicionário de Sinônimos,
o toar arrastado das buzinas de Baião – sentiu realmente, do lado da
Torre, um gemer de sons graves que crescia através dos limoeiros. Deteve
a pena – e eis que o Fado dos Ramires se eleva ofertadamente da horta, em
serenata, para a varanda florida de madressilva:

Ora, quem te vê solitária,
Torre de Santa Irenéia…

O Videirinha! – Correu alvoroçadamente à janela. Um chapéu-coco
tremulou entre os ramos, um brado estrugiu, aclamador:

– Viva o Deputado por Vila-Clara! Viva o ilustre Deputado Gonçalo
Ramires!

No violão rompera triunfalmente o Hino da Carta. Videirinha, alçado
na biqueira das botas gaspeadas de verniz, gritava – “Viva a ilustre
Casa de Ramires!” E por baixo do chapéu-coco, sacudido com delírio,
João Gouveia, sem poupar a garganta, urrava – ‘Viva o ilustre Deputado
por Vila-Clara! Viva!”

Majestosamente, Gonçalo, alagado de riso, estendeu da varanda o braço
eloqüente:

– Obrigado, meus queridos concidadãos! Obrigado!… A honra que me
fazeis, vindo assim, nesse formoso grupo, o chefe glorioso da Administração,
o inspirado Farmacêutico, o…

Mas reparou… E o Titó?

– O Titó não veio?… Ó João Gouveia, você
não avisou o Titó?

Repondo sobre a orelha o chapéu-coco, o Administrador, que arvorara
uma gravata de cetim escarlate, declarou o Titó “um animal”:

– Estava combinado virmos todos três. Até ele devia trazer uma
dúzia de foguetes, para estalar aqui com o Hino… A reunião
era ao pé da Ponte… Mas o animal não apareceu. Em todo o caso
ficou avisado, avisadíssimo… E se não vier, é traidor.

– Bem, subam vocês! – gritou Gonçalo. – Eu num instante me visto.
E, para aguçar o apetite, proponho um verniouth, depois uma volta pela
quinta até ao pinhal!…

Imediatamente Videirinha, teso, empinando o violão, meteu pela rua
larga da horta, recoberta de parreira; e atrás João Gouveia
atirava os passos em cadência nobre, alçando o guarda-sol como
um pendão. Quando Gonçalo entrou no quarto, berrando pelo Bento
e por água quente – o Fado dos Ramires soava, em trinados heróicos,
através do feijoal, por sob a janela aberta onde secava o lençol
do banho. E eram as quadras preferidas do Fidalgo, as quadras em que o grande
avô Rui Ramires, sulcando os mares de Mascate numa urca, encontra três
fortes naus inglesas, e, do alto do seu castelo de proa, vestido de grã
vermelha, com a mão no cinto de anta tauxiado de ouro e pedras, soberbamente
as intima a que se rendam…

Todo alegre, a mão no cinto,

Junto da Signa Real,

Gritando as naus – “Amainai

Por El-Rei de Portugal…”

Gonçalo abotoava à pressa os suspensórios, retomara
o canto glorificador – Todo alegre, a mão no cinto… Junto da Signa
Real… – E, através do esforço esganiçado, pensava que
com tal linha de avós, bem podia desprezar Oliveira e as suas Lousadas
horrendas. Mas o trovão lento de Titó retumbou no corredor:

– Então esse Deputado de Vila-Clara?… Já está a vestir
a farda?

Gonçalo correu à porta do quarto, radiante:

– Entra, Titó! Os deputados já não usam farda, homem!
Mas se ativesse, com os diabos, ia hoje farda, e espadim e chapéu armado,
para honrar hóspedes tão ilustres!

O outro avançara vagarosamente, com as mãos nas algibeiras
da rabona de veludo cor de azeitona, o vasto chapéu braguês atirado
para a nuca, desafogando a honesta face barbuda, vermelha de saúde
e sol:

– Eu, por farda, queria dizer libré… Libré de lacaio.

– Ora essa!?

E o outro, mais retumbante:

– Pois o que vais tu ser, homem, senão um sujeito às ordens
do S. Fulgêncio, do horrendo careca? Não lhe serves o chá,
quando ele te mandar; mas, quando ele te mandar votar, votas! Ali, direitinho,
às ordens! “Oh Ramires, vote lá!” E Ramires, zás,
vota… E de escudeiro, homem, é de escudeiro de libré…

Gonçalo sacudiu os ombros, impaciente:

– Tu és uma criatura das selvas, lacustre, quase pré-histórica…
Não entendes nada das realidades sociais!… Na sociedade não
há princípios absolutos!…

Mas o Titó, imperturbável:

– E esse Cavaleiro? Também já é rapaz de talento? Também
já governa bem o Distrito?

Então Gonçalo protestou, picado, com uma roseta forte na face.
E quando negara ele ao André talento ou jeito de governar? Nunca! Só
rira, gracejando, da sua pompa, da bigodeira lustrosa… E, de resto, o serviço
do País exigia que por vezes se aliassem homens que nem partilhavam
os mesmos gostos, nem procuravam os mesmos interesses!

– E enfim o Sr. Antônio Vilalobos, vem hoje um moralista muito terrível,
um Catão com quem se não pode jantar!… Ora foi sempre o costume
dos filósofos muito ríspidos fugir da sala do banquete, onde
triunfa o devasso, e protestar comendo na cozinha!

Titó, serenamente, virou as costas majestosas.

– Onde vais, ó Titó?

– Para a cozinha!

E, como Gonçalo ria, Titó, junto da porta, girando como uma
torre que gira, encarou o seu amigo:

– Sério, sério, Gonçalo! Eleição, reconciliação,
submissão, e tu em Lisboa às cortesias ao S. Fulgêncio,
e em Oliveira de braço dado com o André, tudo isso me parece
que destoa… Mas enfim se a Rosa hoje se apurou, não aludamos mais
a coisas tristes!

E Gonçalo bracejava, de novo protestava – quando o violão ressoou
no corredor, com as patadas bem marchadas do Gouveia, e o Fado recomeçou,
mais meigo, mais glorificador:

– Velha Casa de Ramires,
Honra e flor de Portugal!

CAPÍTULO VI

A casa do Cavaleiro em Corinde era uma edificação dos fins
do século XVIII, sem elegância e sem arte, pintada de amarelo,
lisa e vasta, com quatorze janelas de frente, quase ao meio duma quinta chá,
toda de terras lavradas. Mas uma avenida de castanheiros conduzia, com alinhada
nobreza, ao pátio da frente, ornado por dois tanques de mármore.
Os jardins conservavam a abundância esplêndida de rosas que os
tornara famosos – e lhes merecera em tempos do avó de André,
o Desembargador Martinho, uma visita da Sra. D. Maria II. E dentro todas as
salas reluziam de asseio e ordem, pelos cuidados da velha governanta, uma
parenta pobre do Cavaleiro, a Sra. D. Jesuína Rolim.

Quando Gonçalo, que viera da Torre na égua, atravessou a ante-sala,
ainda reconheceu um dos painéis da parede, fumarento combate de galeões,
que ele uma tarde rasgara jogando o espadão com André. Sob esse
painel, à borda do canapé de palhinha, esperava melancolicamente
um amanuense do Governo Civil, com a sua pasta vermelha sobre os joelhos.
E de uma porta remota, ao fundo do corredor, André, avisado pelo criado,
o fiel Mateus, gritou alegremente:

– Ó Gonçalo, entra para cá, para o quarto! Saí
da tina… Ainda estou em ceroulas!

E em ceroulas o abraçou, num generoso abraço de parabéns.
Depois, enquanto se vestia, por entre as cadeiras atravancadas com o recheio
das malas – gravatas, peúgas de seda, garrafas de perfumes – conversaram
do calor, da jornada enfadonha, de Lisboa despovoada…

– Um horror! – exclamava o Cavaleiro aquecendo um ferro de frisar à
lâmpada de álcool. – Todas as ruas da Baixa em obras, cobertas
de caliça, de poeirada. O Central infestado de mosquitos. Muito mulato.
Uma Túnis, Lisboa!… Mas enfim, lá combatemos bravamente o
bom combate!

Gonçalo sorria, do canto do divan onde se acomodara, entre uma pilha
de camisas de cor e outra de ceroulas com monograma flamante:

– E então, Andrezinho, tudo arranjado, hem?

O Cavaleiro, diante do toucador, frisava com enlevado esmero as pontas grossas
do bigode. E só depois de o ensopar em brilhantina, de acamar as ondas
da cabeleira rebelde, de se mirar, de se requebrar, assegurou a Gonçalo,
já inquieto, que a eleição ficara sólida…

– Mas imagina tu! Quando apareci em Lisboa, no Ministério do Reino,
encontrei o Círculo prometido ao Pita, ao Teotônio Pita, o grande
homem da Verdade…

O Fidalgo pulou, despenhando a ruma de camisas:

– E então?…

E então ele mostrara muito asperamente ao José Ernesto a inconveniência
de dispor do Círculo como de um charuto, sem o consultar, a ele, Governador
Civil – e dono do Círculo… E como o José Ernesto se arrebitava,
aludia à conveniência superior do Governo, ele logo, estendendo
o dedo firme: – “Pois Zezinho, flor, ou trago o Ramires por Vila-Clara,
ou me demito, e arde ~ Espantos, escarcéus, berreiros – mas o José
Ernesto cedera, e tudo findou jantando ambos em Algés com o tio Reis
Gomes, onde à noite, ao bluff as senhoras lhe arrancaram quatorze mil
reis.

– Em resumo, Gonçalinho, precisamos conservar os olhos atentos. O
José Ernesto é rapaz leal, meu velho amigo. E depois conhece
o meu gênio… Mas há os compromissos, as pressões…
E agora a novidade pitoresca. Sabes quem se propõe contra ti, pelos
Regeneradores?… Adivinha… O Julinho!

– Que Julinho?… O Júlio das fotografias?

– O Júlio das fotografias.

– Diabo!

O Cavaleiro encolheu os ombros, com piedade:

– Arranja dez votos à porta da quinta, tira o retrato a todos os taverneiros
do Círculo em mangas de camisa, e continua a ser o Julinho… Não!
só Lisboa me inquieta, a canalha política de Lisboa!

Gonçalo torcia o bigode desconsolado:

– Imaginei tudo mais sólido, mais inabalável… Assim com todas
essas intrigas, ainda surde trapalhada… Ainda lá não vou!

O Cavaleiro, ao espelho, esticava o fraque – que experimentara abotoado,
depois repuxadamente aberto sobre o colete de fustão cor de azeitona,
onde, no trespasse largo, tufava a gravata de sedinha clara, prendida por
uma safira. Por fim, encharcando o lenço com essência de feno:

– Nós estamos bem aliados, bem consagrados, não é verdade?
Então meu caro Gonçalo, sossega, e almocemos regaladamente !…
Creio que este fraque do nosso Amieiro assenta com certa graça, hem?

– Magnífico! – afirmou Gonçalo.

– Bem. Então agora descemos ao jardim, para tu reveres os velhos pousos
e te florires com uma rosa de Corinde.

E logo no corredor, ornado de jarrões da Índia, de arcas de
charão, enlaçando o braço de Gonçalo, do seu recuperado
Gonçalo:

– Pois, meu filho, aqui pisamos ambos de novo os nobres soalhos de Corinde,
como há cinco anos… E nada mudou, nem um criado, nem uma cortina!
Agora, um destes dias, preciso visitar a Torre.

Gonçalo acudiu ingenuamente:

– Oh! a Torre está muito mudada… Muito mudada!

E um embaraçado silêncio pesou – como se entre eles surgisse
a imagem entristecida da antiga quinta, no tempo dos amores e das esperanças,
quando André e Gracinha procuravam as últimas violetas de abril,
sob o sorriso tutelar de Miss Rhodes, rente aos úmidos muros da Mãe
d’Água. Ainda em silêncio desceram a escada de caracol – por
onde ambos outrora se despenhavam cavalgando o corrimão. E embaixo,
numa sala abobadada, rodeada de bancos de madeira com as armas dos Cavaleiros
nas espaldas, André quedou diante da porta envidraçada do jardim,
ondeou um gesto desconsolado e lânguido:

– Eu também, agora, pouco apareço em Corinde. E compreendes
bem que não me retêm em Oliveira os cuidados da Administração…
Mas este casarão arrefeceu, alargou, desde a morte da mamã.
Ando aqui como perdido. E acredita, quando cá me demoro, são
uns passeios tristonhos por esses jardins, pela rua Grande… Ainda te lembras
da rua Grande?… Vou envelhecendo muito solitariamente, meu Gonçalo!

Gonçalo murmurou, por concordância, simpatia renovada:

– Eu também me aborreço na Torre…

– Mas tens outro gênio!… E eu realmente sou um elegíaco.

Correu, com um esforço, o fecho perro da porta envidraçada.
E limpando os dedos ao lenço perfumado:

– Eu creio que Corinde, agora, só me encantava com grandes cerros
escalvados, grandes rochedos agrestes… As vezes, cá dentro da alma,
necessito o ermo de S. Bruno…

Gonçalo sorria daquele apetite ascético, murmurando com preciosidade,
através da bigodeira torcida a ferro, resplandecente de brilhantina.
E no terraço, junto à balaustrada de pedra enramada de hera,
galhofou, louvando o areado alinho, o reluzente viço do jardim:

– Com efeito, para um discípulo de S. Bruno, que escândalo todo
este asseio! Mas para um pecador como eu, que delícia!… O jardim
da Torre anda um chavascal.

– A prima Jesuína gosta de flores. Tu não conheces a prima
Jesuína? Uma velha parenta da mamã, que governa agora a casa.
Coitada! e com um escrúpulo, com um amor… Se não fosse a santa
criatura, os porcos fossavam nos canteiros… Meu filho, onde não há
saia, não há ordem!

Desceram a escadaria redonda, por entre os vasos de louça azul que
transbordavam de gerânios, de sécias, de canas-da-índia.
Gonçalo recordou a véspera de S. João em que rolara por
aqueles degraus, num trambolhão tremendo, com os braços carregados
de foguetes. E lentamente, através do jardim, evocavam memórias
da camaradagem antiga. Lá se conservava o trapézio, dos tempos
em que ambos cultivavam a religião heróica da força,
da ginástica, do banho frio… Naquele banco, sob a magnólia,
lera uma tarde André o primeiro canto do seu Poema, o Fronteiro de
Arzila. E o alvo? O alvo onde se exerciam à pistola, para os futuros
duelos, inevitáveis na campanha que ambos meditavam contra o velho
Sindicato Constitucional?… – Oh! toda essa parte do muro, que pegava com
o lavadouro, fora derrubada depois da morte da mamã, para alargar a
estufa…

– De resto o alvo era inútil! – acrescentou o Cavaleiro. – Eu logo
por esse tempo entrei também no Sindicato… E agora entras tu, pela
porta que eu te abro!

Então Gonçalo, que colhera e esmagara entre os dedos, para
lhe sorver o perfume, folhas de lúcia-lima – acudiu com uma franqueza,
que aquele desenterrar de recordações tornava mais penetrante
e sentida:

– E eu desejo entrar, e ardentemente, bem sabes. Mas tu afianças a
eleição, com segurança? Não surgirá dificuldade,
Andrezinho?… Esse Pita é um hábil!

O Cavaleiro murmurou apenas, mergulhando os dedos nas cavas do colete:

– Da habilidade dos Pitas se ri a força dos Cavaleiros…

Por três degraus de tijolo baixaram ao outro jardim, desafogado de
arvoredo e sombra, onde desabrochava desde maio, com esplendor, o tão
celebrado bosque de roseiras, orgulho da quinta de Corinde, que deleitara
uma Rainha. Aquele fácil desdém pelo Pita confirmava a segurança
da Eleição. Gonçalo, caminhando respeitosamente como
num Museu, regou de louvores deslumbrados as rosas do Cavaleiro:

– Uma beleza, André, uma maravilha! Tens aqui rosas sublimes… Aquelas
repolhudas, além, que luxo! E estas amarelas? deliciosas!… Olha este
encanto! o ruborzinho a surdir, a raiar, do fundo das pétalas brancas…
Oh, que escarlate! Oh, que divino escarlate!

O Cavaleiro cruzara os braços, com gracejadora melancolia:

– Pois vê tu! Tal é a minha solidão social e sentimental
que, com todas estas rosas abertas, não tenho a quem mandar um ramo!…
Estou reduzido a florir as Lousadas!

Um escarlate, mais vivo do que as rosas que gabava, cobriu as faces do Fidalgo:

– As Lousadas! Oh que desavergonhadas!

André atirou ao seu amigo os lustrosos olhos, num inquieto reparo
de curiosidade:

– Por quê?… Desavergonhadas, por quê?

– Por quê? Porque o são! Pela sua natureza, e pela vontade de
Deus!… São desavergonhadas como estas rosas são vermelhas.

E o Cavaleiro, tranqüilizado:

– Ah, genericamente… Com efeito têm imensa peçonha. Por isso
eu as cubro de rosas. E em Oliveira, todas as semanas, meu filho, tomo com
elas um chá respeitoso!

– Pois não as amansas – rosnou o Fidalgo.

Mas o Mateus aparecera nos degraus de tijolo com o guardanapo na mão,
a calva rebrilhando ao sol. Era o almoço. O Cavaleiro colheu para Gonçalo
uma “rosa triunfal” – e para si um “botão inocente”.
E, enflorados, subiam para o terraço entre o brilho e o perfume de
outras roseiras – quando o Cavaleiro parou com uma idéia:

– A que horas vais tu para Oliveira, Gonçalinho?

O Fidalgo hesitou. Para Oliveira?… Não tencionava aparecer em Oliveira,
toda essa semana…

– Por quê? É urgente que vá a Oliveira?

– Pois certamente, filho! Amanhã mesmo precisamos conversar com o
Barrolo, combinarmos, por causa dos votos da Murtosa!… Meu querido Gonçalo,
não podemos adormecer. Não é pelo Júlio, é
pelo Pita!

– Bem! bem! – acudiu logo Gonçalo, assustado.

– Parto para Oliveira.

– Porque então – continuava André – vamos ambos logo, a cavalo.
É um bonito passeio pelos Freixos, sempre com sombra… Tens talvez
de mandar à Torre, por causa de roupa…

Não! Gonçalo, para evitar a importunidade de malas, conservava
nos Cunhais um bragal inteiro, desde a chinela até a casaca. E entrava
em Oliveira como o filósofo Bias em Atenas – com uma simples bengala
e paciência infinita…

– Delicioso! – declarou André. – Fazemos então logo a nossa
entrada oficial em Oliveira. É o começo da campanha.

O Fidalgo torcia o bigode, consternado, pensando nos risinhos perversos das
Lousadas, de toda a cidade, perante uma entrada tão aparatosamente
fraternal. E, quando o Cavaleiro recomendou ao Mateus que mandasse aprontar
o Rossilho e a égua do Fidalgo para as quatro horas e meia, Gonçalo
exagerou o seu receio do calor, da poeira. Antes partissem às sete,
pela fresca! (Assim esperava penetrar em Oliveira despercebidamente, esbatido
no crepúsculo.) Mas André protestou:

– Não, é uma seca, chegamos à noite. Precisamos entrar
com solenidade, à hora da música no Terreiro… Às cinco,
hem?

E Gonçalo, vergando os ombros sob a Fatalidade:

– Pois sim, às cinco.

Na sala de jantar, esteirada, com denegridos painéis de flores e frutas
sobre um papel vermelho imitando damasco, André ocupou a veneranda
cadeira de braços do avô Martinho. O brilho das pratas, a frescura
das rosas numa floreira de Saxe revelavam os desvelos da prima Jesuína
– que, com dor de entranhas nessa manhã, não se vestira, almoçava
no quarto. Gonçalo louvou aquela elegante ordem, tão rara numa
casa de solteirão, lamentando a falta de uma prima Jesuína na
Torre… E André sorria deliciadamente, desdobrando o guardanapo, com
a esperança que Gonçalo contasse aos Barrolos o confortável
luxo de Corinde. Depois, picando com o garfo uma azeitona:

– Pois é verdade, meu querido Gonçalo, lá estive nessa
grande Capital, depois um dia em Sintra…

O Mateus entreabriu a porta para recordar a S. Exa. o amanuense do Governo
Civil, que esperava.

– Pois que espere!- gritou S. Exa..

Gonçalo lembrou que talvez o digno homem se impacientasse, com fome…

– Pois que almoce! – gritou S. Exa..

Aquele seco desprezo de André pelo pobre empregado, esquecido no banco
de entrada, com a sua pasta sobre os joelhos – constrangia o Fidalgo. E espetando
também uma azeitona:

– Dizias então, Sintra…

– Sem sabor – resumiu André. – Poeirada horrenda, femeaço medíocre…
E já me esquecia. Sabes quem

lá encontrei, na estrada de Colares? O Castanheiro, o nosso Castanheiro,
o dos Anais, de chapéu alto. Ergueu logo os braços ao céu,
desolado: – “E então esse Gonçalo Mendes Ramires não
me manda o romance?” Parece que o primeiro número da Revista sai
em dezembro, e ele precisa o original em começos de outubro… Lá
me suplicou que te sacudisse, que te recordasse a glória dos Ramires.
E tu devias acabar a Novela… Até convém que, antes de entrares
na Câmara, apareça um trabalho teu, um trabalho sério,
de erudição forte, bem português…

– Pois convém! – concordou vivamente Gonçalo.

– E à Novela só falta o Capítulo quarto. Mas esse justamente
demanda mais preparação, mais pesquisas… Para o acabar precisava
o espírito bem sossegado, a certeza desta infernal eleição…
Não é o animal do Júlio que me inquieta. Mas a canalha
intrigante de Lisboa… Que te parece?

Cavaleiro riu, estendendo de novo o garfo para as azeitonas:

– Que me parece, Gonçalinho? Que estás como uma criança
pequena, aflita, com medo que te não chegue o prato de arroz-doce.
Sossega, menino, apanhas o teu arroz-doce!… Mas, com efeito, encontrei o
José Ernesto muito teimoso. Já existiam compromissos antigos
com o Pita. A Verdade tem sido furiosamente ministerial… E esse Pita, agora
quando souber que lhe tapei Vila-Clara, arde em furor contra mim. O que me
é soberanamente indiferente; colerazinhas ou piadinhas do Pita não
me tiram o apetite… Mas o José Ernesto admira o Pita, necessita do
Pita, está empenhado em pagar ao Pita com um Círculo… Ainda
no último dia me disse na Secretaria, até lhe achei graça:
– “Eu vejo que os deputados por Vila-Clara morrem; ora se, por esse bom
costume, o teu Ramires morrerem breve, então entra o Pita”.

Gonçalo recuou a cadeira:

– Se eu morrer!… Que animal!

– Oh, se morreres para o Círculo! – atalhou o Cavaleiro rindo. – Por
exemplo, se nos zangássemos, se amanhã entre nós surgisse
uma dissidência… Enfim, o impossível!

O Mateus entrava com a terrina do caldo de galinha, que rescendia.

– A ele! – exclamou André. – E não se fale mais de Círculos,
nem de Pitas, nem de Júlios, nem da negregada Política!… Conta
antes o enredo da tua Novela… Histórica, hem?… Meia-idade? D. João
V?… Eu, se tentasse agora um Romance, escolhia uma época deliciosa,
Portugal sob os Filipes…

Os três quartos, depois das seis, batiam no relógio sempre adiantado
da igreja de S. Cristóvão, em Oliveira, quando André
Cavaleiro e Gonçalo, descendo da rua Velha, penetraram no Terreiro
da Louça (agora largo do Conselheiro Costa Barroso).

Todos os domingos, tocando num coreto que o Conselheiro, quando presidente
da Câmara, mandara construir sobre o velho Pelourinho demolido, a charanga
do Regimento ou a filarmônica Lealdade tornavam aquele largo o centro
mais sociável da quieta e caseira cidade. Nessa tarde porém,
como começara no Convento de Santa Brígida o bazar patrocinado
pelo Bispo, as senhoras rareavam nos bancos de pedra e nas cadeiras do Asilo
espalhadas por sob as acácias. As Lousadas faltavam no seu pouso reservado,
superiormente escolhido para espiarem todo o Ferreiro, as casas que o cerram
do lado de S. Cristóvão e do lado das Trinas, a rua Velha e
a rua das Velas, a barraca da limonada, e até outro retiro pudicamente
disfarçado por uma caniçada de heras. E o único rancho
conhecido, D. Maria Mendonça, a Baronesa das Marges, as duas Alboins,
conversavam com as costas para o Terreiro, junto da grade de ferro que o limita
sobre a antiga muralha – donde se dominam campos, a cerca do Seminário
Novo, todo o pinhal da Estevinha e as voltas lustrosas da ribeira de Crede.

Mas entre os cavalheiros que trilhavam vagarosamente a aléia do largo
denominada o “Picadeiro”, gozando a Marcha do Profeta, o espanto
reviveu (apesar de todos conhecerem a reconciliação famosa do
Governo Civil) quando os dois amigos apareceram, ambos de chapéus de
palha, ambos de polainas altas, ao passo solene das duas éguas – a
de Gonçalo airosa e baia de cauda curta à inglesa, a do Cavaleiro
pesada e preta, de pescoço arqueado, a cauda farta rojando as lajes.
Melo Alboim, o Barão das Marges, o Dr. Delegado, pararam numa fila
pasmada, a que se juntou um dos Vila-Velhas, depois o morgado Pestana, depois
o gordo major Ribas com a farda desabotoada, rebolando e galhofando sobre
“aquela amigação…” O Tabelião Guedes, o Guedes
popa, derrubou a cadeira no alvoroço com que se ergueu, indignado mas
respeitoso, descobrindo a calva numa cortesia imensa em que o chapéu
branco lhe tremia. E o velho Cerqueira, o advogado, que saía do retiro
encaniçado de hera e se abotoava, embasbacou, com os óculos
na ponta do nariz alçado, os dedos esquecidos nos botões das
calças.

No entanto os dois amigos, gravemente, seguiam pela correnteza de casas que
o palacete de D. Arminda Vilegas domina, com o pesado brasão dos Vilegas
na cimalha, as suas dez nobres varandas de ferro opulentadas por cortinas
de damasco amarelo. Na varanda de esquina, o Barrolo e José Mendonça
fumavam, sentados em mochos de palhinha. E ao sentir as patas lentas das éguas,
ao avistar tão inesperadamente o cunhado – o bom Barrolo quase se despenhou
da varanda:

-Ó Gonçalo! Ó Gonçalo!… Vais lá para
casa?

E nem esperou uma certeza, berrou de novo, bracejando:

– Nós já vamos! Jantamos cá esta tarde… A Gracinha
está lá em cima, com a tia Arminda. Vamos já também!
É um momento!

O Cavaleiro acenou risonhamente ao capitão Mendonça. Já
Barrolo mergulhara com entusiasmo para dentro dos damascos amarelos. E os
dois amigos, deixando pelo Terreiro aquele sulco de espanto, penetraram na
rua das Velas onde um polícia se perfilou com a mão no bonnet
– o que foi agradável ao Fidalgo da Torre.

O Cavaleiro acompanhou Gonçalo ao largo de El-Rei. Diante do Palacete
um homem de boina vermelha remoía no seu realejo o coro nupcial da
Lucia, espiando as janelas desertas. O Joaquim da Porta correu do pátio
a segurar a égua do Fidalgo. Com um mudo sorriso o tocador estendera
a boina. E depois de lhe atirar um punhado de cobre – Gonçalo hesitou,
murmurou enfim, com embaraço e corando:

– Não queres entrar e descansar, André?…

– Não, obrigado… Então amanhã às duas, no Governo
Civil, com o Barrolo, para combinarmos sobre os votos da Murtosa… Adeus,
minha flor! Demos um belo passeio e espantamos os povos!

E S. Exa., envolvendo o Palacete num demorado olhar, desceu pela rua das
Tecedeiras.

No seu quarto (sempre preparado, com a cama feita) Gonçalo acabava
de se lavar, de se escovar, quando Barrolo se precipitou pelo corredor, esbofado,
sôfrego – e atrás dele Gracinha, ofegante também, desapertando
nervosamente as fitas escarlates do chapéu. Desde a tarde em que Barrolo
“presenciara com os olhos bem acordados!” a palestra de Gonçalo
e de André na varanda do Governo Civil – fervera nele e em Gracinha
uma impaciência desesperada por penetrar os motivos, a encoberta história
daquela reconciliação surpreendente. Depois a fuga de Gonçalo
na caleche para a Torre, sem parar nos Cunhais; a repentina jornada do Cavaleiro
a Lisboa; o silêncio que sobre aquele caso se abatera mais pesado que
uma tampa de ferro – quase os aterrou. Gracinha à noite, no Oratório,
murmurava através das rezas distraídas: – “Oh, minha rica
Nossa Senhora, que será?” – Barrolo não ousara correr à
Torre; mas até sonhava com a varanda do Governo Civil, que lhe aparecia
enorme, crescendo, atravancando Oliveira, roçando já as janelas
dos Cunhais de onde ele a repelia com o cabo de uma vassoura… E eis agora
Gonçalo e André que entram na cidade a cavalo, muito serenamente,
ambos de chapéu de palha, como companheiros constantes recolhendo dum
passeio!

Logo à porta do quarto, Barrolo atirou os braços, rompeu aos
brados:

– Então que tem sido tudo isto?… Não se fala noutra coisa!…
Tu com o André!

Gracinha, arfando, tão vermelha como as fitas do chapéu, só
balbuciava:

– E nem vens, nem escreves… Nós com tanto cuidado…

E mesmo rente da porta aberta, sem se sentarem, o Fidalgo aclarou o “Mistério”
, com a toalha ainda nas mãos:

– Uma coisa muito inesperada, mas muito natural. O Sanches Lucena morreu,
como vocês sabem. Ficou vago o círculo de Vila-Clara. E um círculo
por onde só pode sair um homem da terra, com propriedade, com influência.
O governo imediatamente me mandou perguntar, pelo telégrafo, se eu
me desejava propor… Ora eu, no fundo, estou de bem com os Históricos,
sou amigo do José Ernesto… Estimava entrar na Câmara… Aceitei.

O Barrolo esmagou a coxa com uma palmada triunfal:

– Então era certo, caramba!

O Fidalgo continuava, enxugando interminavelmente as mãos:

– Aceitei, está claro, com condições; e muito fortes.
Mas aceitei… Neste caso, como vocês sabem, convém que o candidato
se entenda com o Governador Civil. Eu, ao princípio, não queria
renovar relações. Instado porém, muito instado de Lisboa,
e por considerações superiores de Política, consenti
nesse sacrifício. Nas dificuldades em que se encontra o país
todos devem fazer sacrifícios. Eu fiz esse… O André, de resto,
foi muito amável, muito afetuoso. De sorte que estamos outra vez amigos.
Amigos políticos: mas muito bem, muito lealmente… Almocei hoje com
ele em Corinde, viemos juntos pelos Freixos. Uma tarde linda!… Enfim renasceu
a antiga harmonia. E a eleição está segura.

– Venham de lá esses ossos! – berrou o Barrolo, transportado.

Gracinha terminara por se sentar à borda do leito, com o chapéu
no regaço, enlevada para o irmão, num silencioso enternecimento
em que os seus doces olhos se umedeciam e riam. O Fidalgo, que se desprendera
do abraço do Barrolo, dobrava a toalha com um vagar distraído:

– A eleição está segura, mas precisamos trabalhar. Tu,
Barrolo, tens de conversar também com o Cavaleiro. Já combinei.
Amanhã no Governo Civil, às duas horas. É necessário
que vocês se entendam por causa dos votos da Murtosa…

– Pronto, menino! o que vocês quiserem! Votos, dinheiro…

E Gonçalo, borrifando vagamente o jaquetão com água-de-colônia
que pingava no soalho:

– Desde o momento em que eu me reconciliei com o André, tudo acabou.
Tu, Barrolo, imediatamente te reconcilias também…

Barrolo quase pulou, no seu deslumbramento:

– Pois está claro! E ainda bem, que eu gosto imensamente do Cavaleiro!
Até sempre teimava com Gracinha… “Oh senhores, esta tolice,
por causa da Política!…”

– Bem! – concluiu o Fidalgo. – A Política nos separou, a Política
nos reúne… E o que se chama a inconstância dos Tempos e dos
Impérios.

E agarrou Gracinha pelos ombros, com um beijo brincalhão, estalado
em cada face:

– A tia Arminda? Boa, da escaldadela? Já voltou às façanhas
de Leandro o Belo?

Gracinha resplandecia, com o lento sorriso que se não desfizera, a
envolvia toda em claridade e doçura:

– A tia Arminda está melhor, já anda. Perguntou por ti… Mas,
ó Gonçalo, tu decerto queres jantar!

– Não, almocei tremendamente em Corinde… Vocês, como jantaram
à hora antiga da tia Arminda, ceiam, hem? Então logo ceio…
Agora apenas uma chávena de chá, muito forte!

Gracinha correu, no alvoroço de servir o herói querido. E pela
escada, descendo com Barrolo que o contemplava, o Fidalgo da Torre lamentou
os seus sacrifícios:

– É verdade, menino, é uma maçada… Mas que diabo!
todos devemos concorrer para tirar o país do atoleiro!

Barrolo, maravilhado, murmurava:

– E sem dizeres nada… Assim à capucha! Assim à capucha!…

– E agora outra coisa, Barrolo. Amanhã, no Governo Civil, deves convidar
o André a jantar…

– Com certeza! – gritou o Barrolo. – Jantar de estrondo?

– Não, homem! Jantar muito quieto, muito íntimo. Unicamente
o André e o João Gouveia. Telegrafas ao João Gouveia.
Também podes convidar os Mendonças… Mas jantar muito discreto,
só para conversarmos, para firmar a reconciliação dum
modo mais sociável, mais elegante.

Ao outro dia, no Governo Civil, Barrolo e o Cavaleiro apertaram as mãos
com tanta singeleza, como se ambos, ainda na véspera, andassem jogando
o bilhar e caturrando no club da rua das Pegas. De resto conversaram sumariamente
sobre a Eleição. Apenas o Cavaleiro aludira com indolência
aos votos da Murtosa – o bom Barrolo quase se engasgou, na ânsia de
os oferecer:

– E o que vocês quiserem… Votos, dinheiro, o que vocês quiserem!…
Vocês digam! Eu vou para a Murtosa, e é comezaina, e pipa de
vinho aberta, e a freguesia inteira a votar no meio de foguetório…

O Cavaleiro, rindo, amansou aquele fervor faustoso:

– Não, meu caro Barrolo, não! Nós preparamos uma eleição
muito sóbria, muito sossegada. Vila-Clara elege Gonçalo Mendes
Ramires deputado, naturalmente, como o seu melhor homem. Não há
combate, o Julinho é uma sombra. Portanto…

O Barrolo persistia, radiante, gingando:

– Perdão, André, perdão! Lá isso vinhaça,
e vivório, e foguetório, e festança magna…

Mas Gonçalo, embaraçado, ansioso por suster a garrulice do
Barrolo, as palmadas carinhosas com que ele se atufava na intimidade do Cavaleiro,
apontou para a mesa de S. Exa..

– Tu tens que fazer, André. Vejo aí uma papelada pavorosa…
Não roubemos mais tempo ao chefe ilustre do Distrito! Ao trabalho!

Trabalhar, meu irmão, que o trabalho
E André, é virtude, é valor!…

Agarrara o chapéu, acenando ao cunhado. Então Barrolo, com
as bochechas a estalar de gosto, balbuciou o convite que firmaria a reconciliação
de um modo sociável e elegante:

– Cavaleiro, para conversarmos melhor, se você nos quiser dar o gosto
de vir jantar… Quinta-feira, às seis e meia… Nós, quando
cá está o Gonçalo, jantamos sempre mais tarde.

O Cavaleiro, que corara, agradeceu com discreta cerimônia:

– É para mim um imenso prazer, uma imensa honra…

E à porta da ante-sala onde os acompanhara, segurando o pesado reposteiro
de baeta escarlate com as Armas Reais bordadas – suplicou ao Barrolo que pusesse
os seus respeitos aos pés da Sra. D. Graça…

Barrolo, descendo a larga escadaria de pedra, limpava a testa, o pescoço,
umedecidos pela emoção. E no pátio desabafou:

– Muito simpático este André! Rapaz franco, de quem sempre
gostei… Realmente estava morto que acabassem estas histórias… E
mesmo lá para os Cunhais, para a companhia, para o cavaco, que bela
aquisição!

Quinta-feira de manhã depois do almoço, no terraço do
jardim onde tomavam café, Gonçalo recomendou ao Barrolo que
“para acentuar mais completamente a intimidade simples do jantar, não
pusesse casaca…”

– E tu, Gracinha, vestido afogado. Mas vestidinho claro, alegre…

Gracinha sorriu, indecisamente, continuando a folhear um Almanach de lembranças
estendida numa cadeira de verga, com um gatinho branco no regaço.

Depois do alvoroço e pasmo de domingo, ela aparentava agora um desinteresse
silencioso pela reconciliação que ainda abalava Oliveira, pela
Eleição, pelo jantar. Mas nesses dias não sossegara –
tão impaciente e sensível que o bom Barrolo incessantemente
lhe aconselhava o grande remédio da mamã contra os nervos, “flores
de alecrim, cozidas em vinho branco”.

Gonçalo percebia claramente a perturbação em que a lançava
aquela entrada triunfal de André, do antigo André, na sua casa
de casada, nos Cunhais. E para se tranqüilizar evocava (como na estrada
do cemitério em Vila-Clara) a seriedade de Gracinha, o seu rígido
e puro pensar, a altivez da sua almazinha heróica. Nessa manhã
mesmo, todo no fresco e sôfrego cuidado da sua Eleição,
só receava que Gracinha, por embaraço ou cautela, acolhesse
secamente o Cavaleiro, o esfriasse no seu renovado fervor pela Casa de Ramires,
no seu patrocinato Político. E insistiu, gracejando:

– Ouviste, Gracinha? Um vestido branco. Um vestidinho alegre, que sorria
aos hóspedes…

Ela murmurou, mergulhada no seu Almanach:

– Sim, realmente, com este calor…

Mas Barrolo bateu uma palmada na coxa. Que pena! que pena não terem
Oliveira, “para o brinde de reconciliação”, um famoso
vinho do Porto, da garrafeira da mamã, preciosíssimo, velhíssimo,
do tempo de D. João II…

– D. João II? – rosnou Gonçalo. – Está estragado!

Barrolo hesitou:

– D. João II ou D. João VI… Um desses Reis. Enfim, um vinho
único, do século passado! Só restam à mamã
oito ou dez garrafas… E hoje, era dia para uma, bem?

O Fidalgo deu um sorvo lento ao café:

– O André, antigamente, também gostava muito de ovos queimados…

Bruscamente Gracinha fechou o Almanach – e, com uma fuga e um silêncio
que emudeceram Gonçalo, sacudiu do colo o gato dorminhoco, atravessou
o terraço, desapareceu entre os teixos altos do jardim.

Mas à tarde, quando o Fidalgo ocupou o seu lugar na mesa oval, junto
da prima Maria Mendonça – logo notou, entre duas compoteiras, uma travessa
de ovos queimados. Apesar de jantar tão íntimo serviam, com
a louça da China, os famosos talheres dourados da baixela do tio Melchior.
E duas jarras de Saxe transbordavam de cravos brancos e amarelos, cores heráldicas
dos Ramires.

D. Maria, que não encontrara o querido primo desde os anos de Gracinha,
murmurou com um sorriso, uma grave cortesia, naquele cerimonioso silêncio
em que se desdobravam os guardanapos:

– Ainda lhe não dei os parabéns, primo Gonçalo…

Ele acudiu, mexendo nervosamente nos copos:

– Chut! prima, chut! Hoje aqui, já está decidido, não
se alude sequer à Política… Está muito calor para Política.

Ela suspirou de leve, como desfalecida: Ai, o calor… Que horrível
calor! Desde que entrara nos Cunhais com aquele vestido preto que “era
o seu pálio rico – ainda não cessara de invejar a frescura do
vestido branco de Gracinha…

– Que bem que lhe fica! Está hoje linda!

Era um vestido liso de crepom branco, que aclarava, remoçava a sua
graça quase virginal. E nunca realmente tanto prendera, assim clara
e fina, com os verdes olhos refulgindo como esmeraldas lavadas, uma ondulação
mais lustrosa nos pesados cabelos, um macio rubor transparente, todo um fresco
brilho de flor regada, de flor revivida, apesar do acanhamento que lhe imobilizava
os dedos ao erguer a colher de prata dourada. E ao lado, superiormente robusto
e largo, com o petilho arqueado como uma couraça e cravejado de duas
safiras, uma rosa branca desabrochada na lapela, André Cavaleiro, que
recusara a sopa (oh, no verão nunca comia sopa!), dominava a mesa,
levemente comovido também, passando sobre o reluzente bigode um lenço
tão perfumado que afogava o perfume dos cravos. Mas foi ele que encadeou
a animação com risonhos queixumes sobre o calor – o escandaloso
calor de Oliveira… Ah! que Purgatório abrasado – depois dos seus
dois dias de Paraíso, na frescura deliciosa de Sintra!

D. Maria Mendonça adoçou os espertos olhos para o Sr. Governador
Civil. – E então Sintra? Animada? Muitos ranchos à tarde, em
Seteais? Encontrara a Condessa de Cheias – a prima Chelas?…

Sim, na Pena, na sua visita à Rainha, Cavaleiro conversara durante
um momento com a Sra. Condessa de Chelas…

– Ah! E a Rainha?…

– Oh, sempre encantadora…

A Sra. Condessa de Chelas, essa, um pouco magra. Mas tão amável,
tão inteligente, tão verdadeiramente grande dame – não
é verdade? E, como se inclinara para Gracinha, com uma doçura
infinita no simples mover da cabeça – ela, perturbada, mais vermelha,
balbuciou que não conhecia a Condessa de Cheias… -D. Maria Mendonça
acusou logo a inércia dos primos Barrolos, sempre encafurnados nos
Cunhais, sem nunca se aventurarem a Lisboa no inverno, para conviver, para
conhecer os parentes…

– E a culpa é do primo José, que detesta Lisboa… Oh, não!
Barrolo não detestava Lisboa! Se pudesse acarretar para Lisboa as suas
comodidades, o seu quarto, a sua cocheira, a boa água do pomar, a rica
varanda sobre o jardim – até se regalava!

– Mas entalado naqueles quartinhos do Bragança… E depois a má
comida, o barulho… A Gracinha em Lisboa nunca dorme… E a maçada
das manhãs?… Não há nada que fazer em Lisboa, de manhã!

O Cavaleiro sorria para o Barrolo, como enlevado na sua graça e razão.
Depois confessou que ele, apesar de habitar também (mercê do
Estado!) um palacete confortável, e gozar também uma água
excelente, a finíssima água do Poço de S. Domingos. lamentava
que os deveres de Política, a disciplina de Partido o amarrassem a
Oliveira. E toda a sua esperança era a queda do Ministério,
para se libertar, passar três meses divinos cm Itália…

Do outro lado de Gracinha, João Gouveia (sempre acanhado e mudo diante
de senhoras) exclamou, num impulso de amizade, de convicção:

– Pois, Andrezinho, vai perdendo a esperança! O S. Fulgêncio
não arreia! Ainda cá te apanhamos uns três ou quatro anos!

E insistiu, debruçado sobre Gracinha, num esforço de amabilidade
que o esbraseava:

– O S. Fulgêncio não arreia. Ainda cá temos o nosso André
mais três ou quatro anos.

André protestava, com um requebro, as espessas pestanas quase cerradas:

– Oh, meu João! não me queiras mal, não me queiras mal!…

E teimava. Ah, com certeza! ainda que desertasse o seu partido (e que importa
em hoste poderosa uma lança ferrugenta?) esses meses de Itália
no inverno já os sonhara, já os preparava… – E a Sra. D. Graça
não permitia que ele a servisse de um pouco de vinho branco?

Barrolo estendeu o braço, com efusão:

– Oh Cavaleiro! eu tenho empenho em que você prove esse vinho com cuidado…
E da minha propriedade do Corvelo… Faço muito gosto nele. Mas prove
com atenção!

S. Exa. provou com devoção, como se comungasse. E com uma cortesia
compenetrada para Barrolo que reluzia de gosto:

– Uma delícia! uma verdadeira delícia!

– Hem? Não é verdade? Eu, para mim, prefiro este vinho do Corvelo
a todos os vinhos franceses, os mais finos… Até ali o nosso amigo
Padre Soeiro, que é um Santo, o aprecia!

Silencioso, esbatido por trás duma das altas jarras de cravos, Padre
Soeiro corou, sorriu:

– Com muita água, infelizmente, Sr. José Barrolo… O gosto
pede, mas o reumatismo não consente.

Pois José Mendonça, que não temia reumatismos, atacava
sempre bravamente aquele bendito Corvelo…

– Que lhe parece a você, João Gouveia?

Oh! João Gouveia já o conhecia, louvado Deus! E certamente
nunca encontrara em Portugal, como vinho branco, nenhum comparável
pela frescura, pelo aroma, pela seiva…

– E cá lhe vou atiçando com fervor, Barrolo amigo! Esta bela
garrafa de cristal vai de vencida!

Barrolo exultava. O seu desgosto era que Gonçalo nunca honrasse “aquele
néctar”. – Não! Gonçalo não tolerava vinhos
brancos…

– E então hoje estou com uma destas sedes que só me satisfaz
vinho verde, assim um pouco espumante, e com gelo… Que este de Vidainhos
também é do Barrolo. Oh, eu não desprezo os vinhos da
família… Este Vidainhos sinceramente o considero sublime.

Então Cavaleiro desejou provar esse sublime vinho verde da quinta
de Vidainhos, em Amarante. O escudeiro, a um aceno entusiasmado do Barrolo,
apresentou a S. Exa. um copo esguio, especial para aquele vinho que espumava.
Mas o Cavaleiro, acariciando o fresco copo sem o erguer, repisou a idéia
de férias, de viagens, como acentuando o seu cansaço e fastio
de Oliveira. – E sabia a Sra. D. Graça para onde ele seguiria, depois
da Itália, nesse inverno, se por caridade de Deus o Ministério
caísse?… Para a Ásia Menor.

– E era uma viagem para que eu, com certeza, tentava o nosso Gonçalo…
Tão fácil, agora, com os caminhos de ferro!… De Veneza a Constantinopla
um mero passeio. Depois, de Constantinopla a Esmirna, um dia, dois dias, num
vapor excelente. E daí numa boa caravana, por Tripoli, pela antiga
Sidônia, penetrávamos em Galiléia… Galiléia!
Hem, Gonçalo? Que beleza!

Padre Soeiro, suspendendo o garfo, lembrou timidamente – que em Galiléia
o Sr. Gonçalo Ramires pisaria terra que outrora, por pouco, pertencera
à sua Casa:

– Um dos antepassados de V. Exa., Gutierres Ramires, companheiro de Tancredo
na primeira Cruzada, recusou o ducado de Galiléia e de Além-Jordão…

– Fez pessimamente! – gritou Gonçalo, rindo. – Oh, esse avô
Gutierres andou pessimamente! Porque não existia agora, neste mundo,
disparate mais divertido do que eu Duque de Galiléia! O Sr. Gonçalo
Mendes Ramires, Duque de Galiléia e de Além-Jordão!…
Era simplesmente de rebentar!

Cavaleiro protestou, com simpatia:

– Ora essa! Por quê?

– Não acredite! – acudiu, com os olhos coruscantes, D. Maria Mendonça.
– O primo Gonçalo, com todas estas graças, no fundo, é
muitíssimo aristocrata… Mas terrivelmente aristocrata!

O Fidalgo da Torre pousou o copo de Vidainhos, depois dum trago saboreado
e fundo:

– Aristocrata… Está claro que sou aristocrata. Sentiria com efeito
certo desgosto em ter nascido, como uma erva, de outras ervas vagas. Gosto
de saber que nasci de meu pai Vicente, que nasceu de seu pai Damião,
que nasceu de seu pai Inácio, e assim sempre até não
sei que Rei Suevo…

– Recesvinto! – informou respeitosamente Padre Soeiro.

– Pois até esse Recesvinto. O pior é que o sangue de todos
esses pais não difere realmente do sangue dos pais do Joaquim da Porta.
E que depois do Recesvinto, para trás, até Adão, não
tenho mais pais!

E, enquanto todos riam, D. Maria Mendonça, debruçada para ele,
por trás do leque largamente aberto, murmurou:

– O primo está com esses desprezos… Pois eu sei duma senhora que
tem a maior admiração pela Casa de Ramires e pelo seu representante.

Gonçalo enchia de novo o copo, com amor, atento à espuma;

– Bravo! “Mas convém distinguir”, como diz o Manuel Duarte.
Por quem tem ela a verdadeira admiração, por mim ou pelo Suevo,
pelo Recesvinto?

– Por ambos.

– Diabo!

Depois, pousando a garrafa, mais sério:

– Quem é?

Oh! ela não podia confessar. Não era ainda bastante velha para
andar com recadinhos de sentimento. Mas Gonçalo dispensava o nome –
só desejava as qualidades… Nova? Bonita?

– Bonita? – exclamou D. Maria. – É uma das mulheres mais formosas
de Portugal!

Espantado, Gonçalo lançou o nome:

– A D. Ana Lucena!

– Por quê?

– Porque mulher assim tão formosa, e vivendo nestes sítios,
e tão conhecida da prima que lhe faz confidências, só
a D. Ana.

D. Maria, ajeitando as duas rosas que lhe alegravam o corpete de seda preta,
sorria:

– Talvez seja, talvez seja…

– Pois estou imensamente lisonjeado. Mas ainda distingo, como o Manuel Duarte.
Se, da parte dela, essa simpatia toda é para o bom fim, não!
Não, santo Deus, não!… Mas se é para o mau fim, então,
prima, cumprirei honradamente o meu dever, dentro das minhas forças…

D. Maria escondeu a face no leque, escandalizada. Depois, espreitando, com
os agudos olhos a faiscar:

– Oh primo, mas o bom fim é que convinha, porque a coisa é
a mesma e são duzentos contos a mais!

Gonçalo gritou de admiração:

– Oh! esta prima Maria! Não há em toda a Europa ninguém
mais esperto!

Todos curiosamente ansiaram por saber a nova graça da Sra. D. Maria.
Mas Gonçalo deteve as curiosidades:

– Não se pode contar. É casamento.

Então José Mendonça recordou a novidade picante que
desde a véspera remexia Oliveira:

– Por casamento!… Que me dizem ao casamento da D. Rosa Alcoforado?

Barrolo, depois o Gouveia, até Gracinha, todos o proclamaram “um
horror”. Aquela perfeita rapariga, de pele tão cor-de-rosa, de
cabelo tão cor de ouro, amarrada ao Teixeira de Carredes, um patriarca
carregado de netos… Que desastre!

Pois ao Cavaleiro o casamento não parecia assim “desastrado”.
O Teixeira de Carredes, além de muito fino, de muito inteligente, era
um velho verdejante, quase sem rugas – até bonito com aquele contraste
do bigode escuro e da grenha riçada e branca. E na Sra. D.Rosa, com
todas as rosas de sua pele e todo o ouro dos seus cabelos, dominava “um
não sei quê” de amolentado e de sorvado… Depois pouco
esperta. E pouco cuidadosa – sempre mal penteada, sempre mal pregada…

– Enfim, V. Exa. perdoem… Mas quem faz um casamento muito desenxabido é
o pobre Teixeira de Carredes.

D. Maria Mendonça considerava o Governador Civil com um espanto amável:

– Pois se o Sr. Cavaleiro não admira a Rosinha Alcoforado, não
sei então que rapariga admire dentro do seu Distrito…

Ele, logo, com galante rasgo:

– Mas, além de Exa., não admiro ninguém! Realmente eu
governo, em Portugal, o Distrito mais desprovido de beleza…

Todos protestaram. E a Maria Marges? E a pequena Reriz, da Riosa? E a Melozinho
Alboim, com aqueles olhos?… Mas o Cavaleiro não consentia, a todas
demolia com um sarcasmo leve, ou pela pele sem frescura, ou pelo pisar desairoso,
ou pelo provincianismo de gosto e modos, sempre pela carência das belezas
e graças que ornavam Gracinha – lançando assim disfarçadamente,
aos pés de Gracinha, um rolo de senhoras vencidas e amarfanhadas. Ela
percebera a sutil adulação, os seus olhos alumiaram com um fulgor
mais enternecido o rubor que a afogueava. Desejou repartir incenso tão
acumulado – lembrou timidamente outra beleza de que se orgulhava o Distrito:

– A filha do Visconde de Rio-Manso, a Rosinha Rio-Manso… É linda!

O Cavaleiro triunfou com facilidade:

– Mas tem doze anos, minha senhora! Nem é rosinha, é botãozinho
de rosa!…

Quase humildemente, Gracinha recordou a Luísa Moreira, filha dum lojista,
muito admirada aos domingos na missa da Sé e no Terreiro da Louça:

– É uma bela rapariga… Sobretudo a figura…

Cavaleiro triunfou ainda, com requebrada segurança:

– Sim, mas os dentes tortos, Sra. D. Graça! Os dentes acavalados!
V. Exa. nunca reparou… Oh! uma boca muito desagradável! E, além
dos dentes, o irmão, o Evaristo, com aquela cara mais chata que a alma,
e a caspa, e a porcaria, e o jacobinismo… Não há mulher bonita
com irmão tão feio!

Mendonça estendera o braço, com outra curiosidade que ocupava
Oliveira:

– E por Evaristo!… Ele sempre funda o novo jornal republicano, o Rebate?

O Sr. Governador Civil encolheu os ombros com uma ignorância superior
e risonha. Mas João Gouveia, vermelho e luzidio depois da sua garrafa
de Corvelo e da sua garrafa de Douro, afiançou que o Rebate aparecia
em novembro. Até ele conhecia o patriota que esportulava a “massa”
. E a campanha do Rebate começava com cinco artigos esmagadores sobre
a Tomada da Bastilha.

O espanto de Gonçalo era como o Republicanismo alastrara em Portugal
– até na velhota, na devota Oliveira…

– Quando eu andava em preparatórios existiam simplesmente dois republicanos
em Oliveira, o velho Salema, lente de Retórica, e eu. Agora há
partido, há comitê, há dois jornais… E há mesmo
o Barão das Marges com a Voz Pública na mão, debaixo
da Arcada…

Mendonça não receava a República, gracejava:

– Ainda vem longe, muito longe… Ainda nos dá tempo de comermos estes
belos ovos queimados.

– Deliciosos – murmurou o Cavaleiro.

– Sim – concordou Gonçalo – ainda temos tempo para os ovos… Mas
que rebente uma revolução em Espanha, ou que morra o Reizinho
na sua menoridade, que naturalmente morre…

– Credo! Coitadinho! Pobre mãe! – murmurou Gracinha sensibilizada.

Imediatamente o Cavaleiro a tranqüilizou. Por que morrer o Reizinho
de Espanha? Os republicanos espalhavam boatos sombrios sobre os males da excelente
criança. Mas ele conhecia a realidade – assegurava à Sra. D.
Graça que, felizmente para a Espanha, ainda reinaria um Afonso XIII
e mesmo um Afonso XIV. Enquanto aos nossos republicanos, esses… Meu Deus!
mera questão de guarda municipal! Portugal, nas suas massas profundas,
permanecia monárquico, de raiz. Apenas ao de cima, na burguesia e nas
escolas, flutuava uma escuma ligeira, e bastante suja, que se limpava facilmente
com um sabre…

– V. Exa., Sra. D. Graça, que é uma dona de casa perfeita,
conhece esta operação que se faz à panela do caldo…
Escumar a panela. É com uma colher. Aqui é com um sabre. Pois
assim, com toda a simplicidade, se clarifica Portugal. E foi isto que ainda
ultimamente eu declarei a El-Rei.

Alteara a cabeça – o seu peitilho resplandecia, mais largo, como couraça
bastante rija para defender toda a Monarquia. E, no compenetrado silêncio
que se alargou, duas rolhas de champagne estalaram, por trás do biombo,
na copa.

Apenas o escudeiro, apressado, enchera as taças – o Fidalgo da Torre
com uma gravidade que o sorriso adoçava:

– André, à tua saúde. Não é ao Governador
Civil, é ao amigo!

Todos os copos se ergueram num sussurro acariciador. João Gouveia
agitou o seu, com especial efusão, gritando: – “Andrezinho, meu
velho!” S. Exa. apenas tocou de leve no cálice de Gracinha. Padre
Soeiro murmurou as “graças”. E Barrolo, atirando o guardanapo:

– Café aqui ou na sala?… Na sala estamos mais frescos.

Na sala grande, a sala dos veludos vermelhos, o lustre rebrilhava solitariamente;
pelas três janelas abertas penetrava a serenidade da noite quente, o
recolhido silêncio de Oliveira; e embaixo, no largo, alguns sujeitos,
mesmo duas senhoras de manta de lã branca pela cabeça, pasmavam
para aquela claridade de festa que jorrava dos Cunhais. O Cavaleiro e Gonçalo
acenderam os charutos na varanda, respirando a frescura escassa. E o Cavaleiro,
com beatitude:

– Pois sempre te digo, Gonçalinho, que se janta sublimemente em casa
de teu cunhado!…

Gonçalo desejou que, no domingo, ele jantasse na Torre. Ainda restavam
umas garrafas de Madeira do tempo do avô Damião – a que se daria,
com socorro do Gouveia e do Titó, um assalto heróico.

O Cavaleiro prometeu, já deliciado – tomando da pesada bandeja de
prata, que derreava o escudeiro, a sua chávena de café, sem
açúcar.

– E tu, com efeito, Gonçalo, agora não deves arredar da Torre.
O teu papel é todo de presença na localidade. O Fidalgo da Torre
está no meio das suas terras, por onde vai ser eleito para as Cortes.
É o teu papel…

O Barrolo, com um riso enlevado, surdiu entre os dois amigos, que enlaçou
ternamente pela cinta:

– E nós cá ficamos, ambos a trabalhar, o Cavaleiro e eu!…

Mas D. Maria, do canapé onde se enterrara, reclamou o primo Gonçalo
“para negócios”. Junto dum console, João Gouveia e
Padre Soeiro, remexendo o seu café, concordavam na necessidade dum
Governo forte. E Gracinha, com o primo Mendonça, revolvia as músicas
sobre a tampa do piano, procurando o Fado dos Ramires. Mendonça tocava
com corredio brilho, compusera valsas, um hino ao coronel Trancoso, o herói
de Machumba – e mesmo o primeiro ato duma ópera, A Pegureira. E como
não descortinavam o Fado com as quadras do Videirinha – foi justamente
uma das suas valsas, a Pérola, duma cadência amorosa e cansada
lembrando a valsa do Fausto, que ele atacou, sem largar o charuto.

Então André Cavaleiro, que repenetrara vagarosamente na sala,
repuxou o colete, afagou o bigode, e avançando para Gracinha, com um
modo meio grave, meio folgazão:

– Se V. Exa. me quer dar a grande honra?…

Oferecia, abria os braços. E Gracinha, toda escarlate, cedeu, levada
logo nos largos passos deslizados que o Cavaleiro lançou sobre o tapete.
Barrolo e João Gouveia correram a afastar as poltronas, clareando um
espaço, onde a valsa se desenrolou com o suave sulco branco do vestido
de Gracinha. Pequenina e leve, toda ela se perdia, como se fundia, na força
máscula do Cavaleiro, que a arrebatava em giros lentos, com a face
pendida, respirando os seus cabelos magníficos.

Da borda do canapé, com os finos olhos a fuzilar, D. Maria Mendonça
pasmava:

– Mas que bem que valsa, que bem que valsa o Sr. Governador Civil!…

Ao lado Gonçalo torcia nervosamente o bigode, na surpresa daquela
familiaridade, assim renovada pelo Cavaleiro com tão serena confiança,
por Gracinha com tanto abandono… Eles torneavam, enlaçados. Dos lábios
do Cavaleiro escorregava um sorriso, um murmúrio. Gracinha arfava,
os seus sapatos de verniz reluziam sob a saia que se enrolava nas calças
do Cavaleiro. E Barrolo, em êxtase, quando eles o roçavam, atirava
palmas carinhosas, bradava:

– Bravo! Bravo! Lindamente… Bravíssimo!

CAPÍTULO VII

Gonçalo recolhia para o almoço depois dum passeio no pomar
percorrendo a Gazeta do Porto, quando avistou no banco de pedra, rente à
porta da cozinha, onde a Rosa mudava o painço na gaiola do seu canário,
o Casco, o José Casco dos Bravais, que esperava, pensativo e abatido,
como chapéu sobre os joelhos. Vivamente, para se esquivar, remergulhou
no jornal. Mas percebeu a esgalgada magreza do homem, que surdia da sombra
da latada, avançava na claridade faiscante do pátio, hesitando,
como assustado… E, animado pela vizinhança da Rosa, parou, forçando
um sorriso – enquanto o Casco enrolava nas mãos trêmulas a aba
dura do chapéu, balbuciava:

– Se o Fidalgo me fizesse a esmola de uma palavra…

– Ah! é você, Casco! Homem, não o conheci… E então?

Dobrou o jornal, tranqüilizado – gozando mesmo a submissão daquele
valente que tanto o apavorara, erguido e negro como um pinheiro, na solidão
do pinheiral. E o Casco, engasgado, repuxava, esticava o pescoço de
dentro dos grossos colarinhos bordados – até que atirou toda a alma
numa súplica soluçada, retendo as lágrimas que marejavam:

– Ai, meu Fidalgo, perdoe por quem é! Perdoe, que eu nem lhe sei pedir
perdão!…

Gonçalo atalhou o homem, com generosidade e doçura. Ele bem
o avisara! Nada se emenda, a gritar, com o pau alçado…

– E olhe, Casco! Quando você me saiu ao pinhal eu levava um revólver
na algibeira… Trago sempre um revólver. Desde que uma noite em Coimbra,
no Choupal, dois bêbados me assaltaram, ando sempre à cautela
com o revólver… Pense você agora que desgraça se tiro
o revólver, se desfecho!… Que desgraça, hem?… Felizmente,
num relance, pensei que me perdia, que o matava, e fugi. Foi por isso que
fugi, para não desfechar o revólver… Enfim tudo passou. E
eu não sou homem de rancores, já esqueci. Contanto que você,
agora sossegado e no seu juízo, esqueça também.

O Casco amassava as abas do chapéu, com a cabeça derrubada.
E sem a erguer, sem ousar, rouco dos soluços que o entalavam:

– Pois agora é que eu me lembro, meu Fidalgo! Agora é que me
ralo por aquela doidice! Agora! depois do que o Fidalgo fez pela mulher e
pelo pequeno!…

Gonçalo sorriu, encolheu os ombros:

– Que tolice, Casco!… Pois a sua mulher aparece aí numa noite d’água…
E o pequenito doente, coitadito, com febre… Como vai ele, o Manelzinho?

O Casco murmurou do fundo da sua humildade:

– Louvado seja Deus, meu senhor, muito sãozinho, muito rijinho.

– Ainda bem… Ponha o chapéu. Ponha o chapéu, homem! E adeus!…
Você não tem que agradecer, Casco… E olhe! Traga cá
um dia o pequeno. Eu gostei do pequeno. É espertinho.

Mas o Casco não se arredava, pregado às lajes. Por fim, num
soluço que rebentou:

– É que eu não sei como hei-de dizer, meu Fidalgo… Lá
o dia de cadeia, acabou! Tenho gênio, fiz a asneira, com o corpo a paguei.
E pouco paguei, graças ao Fidalgo… Mas depois quando saí,
quando soube que a mulher viera de noite à Torre, e que o Fidalgo até
a embrulhara numa capa, e que não deixara sair o pequeno…

Estacou, afogado pela emoção. E como Gonçalo, também
comovido, lhe batia risonhamente no ombro, “para acabar, não se
falar mais nessas bagatelas…” – o Casco rompeu, numa grande voz dolorosa
e quebrada:

– Mas é que o Fidalgo não sabe o que é para mim aquele
pequeno!… Desde que Deus mo mandou tem sido uma paixão cá
por dentro que até parece mentira!… Olhe que na noite que passei
na cadeia da vila não dormi… E Deus me perdoe, não pensei
na mulher, nem na pobre da velha, nem na pouquita terra que amanho, tudo ao
desamparo. Toda a noite se foi a gemer: – “ai o meu querido filhinho!
ai o meu querido filhinho’ Depois quando a mulher, logo pela estrada, me diz
que o Fidalgo ficara com ele na Torre, e o deitara na melhor cama, e mandara
recado ao médico… E depois quando soube pelo Sr. Bento que o Fidalgo
de noite subia a ver se ele estava bem coberto, e lhe entalava a roupa, coitadinho…

E arrebatadamente, num choro solto, gritando: -“Ai meu Fidalgo! meu
Fidalgo!…”- o Casco agarrou as mãos de Gonçalo, que beijava,
rebeijava, alagava de grossas lágrimas.

– Então, Casco! Que tolice!… Deixe homem!

Pálido, Gonçalo sacudia aquela gratidão furiosa – até
que ambos se encararam, o Fidalgo com as pestanas molhadas e trêmulas,
o lavrador dos Bravais soluçando, numa confusão. E foi ele por
fim que, recalcando um derradeiro soluço, se recobrou, desafogou da
idéia que o trouxera, que decerto fundamente o trabalhara, e que agora
lhe enrijava a face e o gesto numa determinação que nunca vergaria:

– Meu Fidalgo, eu não sei falar, não sei dizer… Mas se de
hoje em diante, seja para que for, o Fidalgo necessitar da vida dum homem,
tem aqui a minha!

Gonçalo estendeu a mão ao lavrador, muito simplesmente como
um Ramires de outrora recebendo a preitesia dum vassalo:

– Obrigado, José Casco.

– Entendido, meu Fidalgo, e que Deus nosso Senhor o abençoe!

Gonçalo, perturbado, galgou pela escadinha da varanda – enquanto o
Casco atravessava o pátio vagarosamente, com a cabeça bem erguida,
como homem que devera e que pagara.

E em cima, na Livraria, Gonçalo pensava com espanto: “Aí
está como neste mundo sentimental se ganham dedicações
gratuitamente1 Porque enfim! Quem não impediria que uma criancinha
com febre afrontasse de noite uma estrada negra, sob a chuva e o vendaval?
Quem a não deitaria, não lhe adoçaria um grog, não
lhe entalaria os cobertores para a conservar bem abafada? E por esse grog
e por essa cama – corre o pai, tremendo e chorando, a oferecer a sua vida!
Ah! como era fácil ser Rei – e ser Rei popular!

E esta certeza mais o animava a obedecer às recomendações
do Cavaleiro – a começar imediatamente as suas visitas aos Influentes
eleitorais, essas aduladoras visitas que assegurariam à Eleição
uma unanimidade arrogante. Logo ao fim do almoço, mesmo sobre a toalha,
arredando os pratos, copiou a lista desses Magnates – por um rascunho anotado
que lhe fornecera o João Gouveia. Era o Dr. Alexandrino; o velho Gramilde,
de Ramilde; o Padre José Vicente, da Finta; outros menores; e o Gouveia
marcara com uma cruz, como o mais poderoso e mais difícil, o Visconde
de Rio-Manso, que dispunha da imensa freguesia de Canta-Pedra. Gonçalo
conhecia esses senhores, homens de propriedade e de dinheiro (com todos outrora
o papá andara endividado) – mas nunca encontrara o Visconde de Rio-Manso,
um velho brasileiro, dono da quinta da Varandinha, onde vivia solitariamente
com uma neta de onze anos, essa linda Rosinha que chamavam “O botão
de Rosa”, a herdeira mais rica de toda a Província. E logo nessa
tarde, em Vila-Clara, reclamou ao João Gouveia uma carta de apresentação
para o Rio-Manso:

O Administrador hesitou:

– Você não precisa carta… Que diabo! Você é o
Fidalgo da Torre! Chega, entra, conversa… Além disso na Eleição
passada o Rio-Manso ajudou os Regeneradores; de modo que estamos um pouco
secos. O Rio-Manso é um casmurro… Mas com efeito, Gonçalinho,
convém começar essa caça &aagrave; popularidade!

Nessa noite, na Assembléia, o Fidalgo, encetando a “caça
à popularidade”, aceitou um convite do Comendador Romão
Barros (do maçador, do burlesco Barros) para o bródio faustoso
com que ele celebrava, na sua quinta da Roqueira, a festa de S. Romão.
E essa semana inteira, depois outra, as gastou assim por Vila-Clara, amimando
eleitores – a ponto de comprar horrendas camisas de chita na loja do Ramos,
de encomendar um saco de café na mercearia do Telo, de oferecer o braço
no largo do Chafariz à nojenta mulher do bebedíssimo Marques
Rosendo, e de freqüentar, de chapéu para a nuca, o bilhar da rua
das Pretas. João Gouveia não aprovava estes excessos – aconselhando
antes “boas visitas, com todo o chic, aos influentes sérios”.
Mas Gonçalo bocejava, adiava, na insuperável preguiça
de afrontar a maledicência rabugenta do velho Gramilde ou a solenidade
forense do Dr. Alexandrino.

Agosto findava; e por vezes, na Livraria, Gonçalo, coçando
desconsoladamente a cabeça, considerava as brancas tiras de almaço,
o Capítulo III da Torre de D. Ramires encalhado… Mas quê! não
podia, com aquele calor, com o afã da Eleição, remergulhar
nas eras Afonsinas!

Quando refrescavam as tardes lentas montava, alongava o passeio pelas freguesias,
não se descuidando das recomendações do Cavaleiro – enchendo
sempre o bolso de rebuçados de avenca para atirar às crianças.
Mas, numa carta ao querido André, já confessara que “a
sua popularidade não crescia, não enfunava…”

– “Não! positivamente, velho amigo, não tenho o dom! Sei
apenas palestrar familiarmente com os homens, cumprimentar pelo seu nome as
velhas às soleiras das portas, gracejar com a pequenada, e se encontro
uma boeirinha de saiazita rota dar cinco tostões à boeirinha
para uma saiazita nova… Ora todas estas coisas tão naturais sempre
as fiz naturalmente, desde rapaz, sem que me conquistassem influência
sensível… Necessito portanto que essa querida Autoridade me empurre
com o seu braço possante e destro…”

Todavia já uma tarde, encontrando junto da Torre o velho Cosme de
Nacejas, e depois, num domingo, cruzando às Ave-Marias na Bica-Santa
o Adrião Pinto do lugar da Levada, ambos lavradores considerados e
remexedores de eleições – lhes pedira os votos, desprendidamente
e rindo. E quase se assombrara da prontidão, do fervor, com que ambos
se ofereceram. – “Para o Fidalgo? Pois isso está entendido! Ainda
que se votasse contra o Governo, que é pai!” – E em Vila-Clara,
com o Gouveia, Gonçalo deduzia destas ofertas tão acaloradas
“a inteligência política da gente do campo”:

– Está claro que não é pelos meus lindos olhos! Mas
sabem que eu sou homem para falar, para lutar pelos interesses da terra…
O Sanches Lucena não passava dum Conselheiro muito rico e muito mudo!
Esta gente quer Deputado que grite, que lide, que imponha… Votam por mim
porque sou uma inteligência.

E o Gouveia volvia, contemplando pensativamente o Fidalgo:

– Homem! quem sabe? Você nunca experimentou, Gonçalo Mendes
Ramires. Talvez seja realmente pelos seus lindos olhos!

Num desses passeios, numa abrasada sexta-feira, com o sol ainda alto, Gonçalo
atravessava o lugarejo da Veleda, no caminho de Canta-Pedra. Ao fim dos casebres
que se apertam à orla da estrada alveja, muito caiada, num terreiro
defronte da Igreja, a taverna famosa “do Pintainho”, onde os caramanchões
do quintal e a nomeada do coelho guisado atraem vasto povo nos dias da feira
da Veleda. Nessa manhã o Titó, depois duma madrugada às
perdizes, em Valverde, aparecera na Torre para almoçar, urrando, de
esfomeado. Era sexta-feira – a Rosa preparara uma pescada com tomates, depois
um bacalhau assado, formidáveis. E Gonçalo, toda a tarde torturado
com sede, mais ressequido pela poeira da estrada, parou avidamente diante
do portão da venda, gritou pelo Pintainho.

– Oh meu Fidalgo!…

– Oh Pintainho! depressa! Uma sangria! Uma grande sangria bem fresca, que
morro…

O Pintainho, velhote roliço de cabelo amarelo, não tardou com
o copo apetitoso e fundo onde boiava, na espumazinha do açúcar,
uma rodela de limão. E Gonçalo saboreava a sangria com inefável
delícia – quando da janela térrea da venda partiu um assobio
lento, fino e trinado, como o dos arneiros que animam as bestas a beber nos
riachos. Gonçalo deteve o copo, varado. A janela assomara um latagão
airoso, de face clara e suíças louras, que, com os punhos sobre
o peitoril e a cabeça levantada, num descarado modo de pimponice e
desafio, o fitava atrevidamente. E num lampejo o Fidalgo reconheceu aquele
caçador que já uma tarde, no lugar de Nacejas, ao pé
da Fábrica de vidros, o mirara com arrogância, lhe raspara a
espingarda pela perna, e ainda depois, parado sob a varanda duma rapariga
de jaqué azul, lhe acenara chasqueando enquanto ele descia a ladeira…
Era esse! Como se não percebesse o ultraje – Gonçalo bebeu apressadamente
a sangria, atirou uma placa ao pobre Pintainho enfiado, e picou a fina égua.
Mas então da janela rolou uma risadinha, cacarejada e troçante,
que o colheu pelas costas como o estalo duma vergasta. Gonçalo soltou
a galope. E adiante, sopeando a égua no refúgio duma azinhaga,
pensava, ainda trêmulo: – “Quem será o desavergonhado?…
E que lhe fiz, eu, Santo Deus? que lhe fiz, eu?…” Ao mesmo tempo todo
o seu ser se desesperava contra aquele desgraçado medo, encolhimento
da carne, arrepio da pele, que sempre, ante um perigo, uma ameaça,
um vulto surgindo duma sombra, o estonteava, o impelia furiosamente a abalar,
a escapar! Porque à sua alma, Deus louvado, não faltava arrojo!
Mas era o corpo, o traiçoeiro corpo, que num arrepio, num espanto,
fugia, se safava, arrastando a alma – enquanto dentro a alma bravejava!

Entrou na Torre, mortificado, invejando a afoiteza dos seus moços
da quinta, remoendo um rancor soturno contra aquele bruto de suíças
louras, que certamente denunciaria ao Cavaleiro e enterraria numa enxovia!
– Mas, logo no corredor, o Bento lhe debandou os pensamentos, aparecendo com
uma carta que “trouxera um moço da Feitosa…”

– Da Feitosa?

– Sim senhor, da quinta do Sr. Sanches Lucena, que Deus haja. Diz que vinha
de mandado das senhoras…

– Das senhoras!… Que senhoras?

Sem tarja de luto, a carta não era da bela D. Ana… Mas era de D.
Maria Mendonça, que assinava – “prima muito amiga, Maria Severim”.
Num relance a leu, colhido logo por esta surpresa nova, distraído da
venda do Pintainho e da afronta: – “Meu querido Primo. Estou há
três dias aqui com a minha amiga Anica, e como passou o mês inteiro
do nojo e ela já pode sair (e até precisa porque tem andado
fraca) eu aproveito a ocasião para percorrer estes arredores que dizem
tão bonitos, e pouco conheço. Tencionamos no domingo visitar
Santa Maria de Craquede, onde estão os túmulos dos antigos tios
Ramires. Que impressão me vai fazer!… Mas, ao que parece, além
dos túmulos do claustro, há outros, ainda mais antigos, que
foram arrombados no tempo dos Franceses, e que ficam num subterrâneo,
onde se não pode entrar sem licença e sem que tragam a chave.
Peço pois, querido Primo, que dê as suas ordens para que no domingo
possamos descer ao subterrâneo, que todos afiançam muito interessante,
porque ainda lá restam ossos e armas. Se na Torre houvesse uma senhora,
eu mesma iria, para lhe fazer este pedido… Mas não se pode visitar
um solteirão tão perigoso. Case depressa!… De Oliveira boas
notícias. Creia-me sempre, etc.”

Gonçalo encarou o Bento – que esperava, interessado com aquele assombro
do Sr. Doutor:

– Tu sabes se em Santa Maria de Craquede há outros túmulos,
num subterrâneo?

O assombro então saltou para o Bento:

– Num subterrâneo?… Túmulos?

– Sim, homem! Além dos que estão no claustro parece que há
outros, mais antigos, debaixo da terra… Eu nunca vi, não me lembro.
Também há que anos não entro em Santa Maria de Craquede!
Desde pequeno!… Tu não sabes?

O Bento encolheu os ombros.

– E a Rosa não saberá?

O Bento abanou a cabeça, duvidando.

– Também vocês nunca sabem nada! Bem! Amanhã cedo corre
a Santa Maria de Craquede e pergunta na Igreja, ao sacristão, se existe
esse subterrâneo. Se existir que o mostre no domingo a umas senhoras,
à Sra. D. Ana Lucena, e à Sra. D. Maria Mendonça, minha
prima Maria… E que tenha tudo varrido, tudo decente!

Mas, repassando a carta, reparou num Post-Scriptum em letra mais miudinha,
ao canto da folha: – “No domingo, não se esqueça, a visita
será entre as cinco e cinco e meia da tarde!”

Gonçalo pensou: – ‘Será uma entrevista?” E na Livraria,
atirando para uma cadeira o chapéu e o chicote, assentou que era uma
entrevista, bem clara, bem marcada! E talvez nem existisse esse subterrâneo
– e Maria Mendonça, com a sua tortuosa esperteza, o inventasse, como
natural motivo de lhe escrever, de lhe anunciar que no domingo, às
cinco e meia, a bela D. Ana e os seus duzentos contos o esperavam em Santa
Maria de Craquede. Mas então a prima Maria não gracejara, em
Oliveira? Gostava dele, realmente, essa D. Ana?… E uma emoção,
uma curiosidade voluptuosa atravessaram Gonçalo à idéia
de que tão formosa mulher o desejava. – Ah! mas certamente o desejava
para marido, porque se o apetecesse para amante não se socorria dos
serviços da D. Maria Mendonça – nem a prima Maria, apesar de
tão sabuja com as amigas ricas, os prestaria assim descaradamente como
uma alcoviteira de Comédia! E caramba! casar com a D. Ana – não!

E subitamente ansiou por conhecer a vida da D. Ana! Aturara ela tantos anos,
em severa fidelidade, o velho Sanches? Sim, talvez, na Feitosa, na solidão
dos grandes muros da Feitosa – porque nunca sobre ela esvoaçara um
rumor, em terríolas tão gulosas de rumores malignos. Mas em
Lisboa?… Esses “amigos estimabilíssimos” de que se ufanava
o pobre Sanches, o D. João não sei quê, o pomposo Arronches
Manrique, o Filipe Lourençal com o seu cornetim?… Algum decerto a
atacara – talvez o D. João, por dever tradicional do nome. E ela?…
Quem o informaria sobre a história sentimental da D. Ana?

Depois, ao jantar, de repente pensou no Gouveia. Uma irmã do Gouveia,
casada em Lisboa com certo Cerqueira (arranjador de Mágicas e empregado
na Misericórdia), costumava mandar ao mano Administrador relatórios
íntimos sobre todas as pessoas conhecidas de Oliveira, de Vila-Clara,
que se demoravam em Lisboa – e que interessavam o mano ou por Política,
ou por mexeriquice. E decerto, pela irmã Cerqueira, o querido Gouveia
conhecia miudamente os anais da D. Ana, durante os seus invernos de Lisboa,
nas delícias da sua “roda fina”.

Nessa noite, porém, o Administrador não aparecera na Assembléia.
E Gonçalo, desconsolado, recolhia à Torre – quando no largo
do Chafariz o encontrou com o Videirinha, ambos sentados num banco, sob as
olaias escuras.

– Chegou lindamente! – exclamou o Gouveia. – Estávamos mesmo a marchar
para minha casa, tomar chá. Quer você, também?.. Você
costuma gostar das minhas torradinhas.

O Fidalgo aceitou – apesar de cansado. E logo pela Calçadinha, enlaçando
o braço do Administrador, contou que recebera uma carta de Lisboa,
dum amigo, com uma nova estupenda… O quê? – O casamento da D. Ana
Lucena.

O Gouveia parou, assombrado, atirando o coco para a nuca:

– Com quem?!

Gonçalo, que inventara a carta – inventou o noivo:

– Com um vago parente meu, ao que parece, um D. João Pedroso ou da
Pedrosa. Muitas vezes o Sanches Lucena me falou nele… Conviviam muito em
Lisboa…

Gouveia bateu com a ponta da bengala nas pedras:

– Não pode ser!… Que disparate! A D. Ana não ajustava casamento
sete semanas depois de lhe morrer o marido… Olhe que o Lucena morreu no
meado de julho, homem! Ainda nem teve tempo de se acostumar à sepultura!

– Sim, com efeito! – murmurou Gonçalo. E sorria, sob uma doce baforada
de vaidade – pensando que, sete semanas depois de viúva, ela, sem resistir,
calcando decência e luto, oferecia a ele uma entrevista nas ruínas
de Craquede.

A mentira de resto, apesar de disparatada, aproveitara – porque, depois de
subirem à saleta verde do Administrador, o espanto recomeçou.
Videirinha esfregava as mãos, divertido:

– Oh Sr. Dr., olhe que tinha graça!… Se a Sra. D. Ana, depois de
apanhar os duzentos contos do velhote, logo passadas semanas, zás,
se engancha com um rapazote novo…

Não, não!… Gonçalo agora, reparando, também
considerava despropositada a notícia do casamento, assim com o pobre
Sanches ainda morno…

– Naturalmente entre ela e esse D. João havia namorico, olhadela…
Por isso imaginaram. Com efeito, alguém me contou, há tempos,
que o tal D. João se atirava valentemente, como cumpre a um D. João,
e que ela…

– Mentira! – atalhou o Administrador, debruçado sobre a chaminé
do candeeiro, para acender o cigarro.

– Mentira! Sei perfeitamente, e por excelente canal… Enfim, sei por minha
irmã! Nunca, em Lisboa, a D. Ana deu azo a que se rosnasse. Muito séria,
muitíssimo séria. Está claro, não faltou por lá
maganão que lhe arrastasse a asa lânguida… Talvez esse D. João,
ou outro amigo do marido, segundo a boa lei natural. Mas ela, nada! Nem olho
de lado! Esposa romana, meu amigo, e dos bons tempos romanos!

Gonçalo, enterrado no canapé, torcia lentamente o bigode, regalado,
recolhendo as revelações. E o Gouveia, no meio da sala, com
um gesto convencido e superior:

– Nem admira! Estas mulheres muito formosas são insensíveis.
Belos mármores, mas frios mármores… Não, Gonçalinho,
lá para o sentimento, e para a alma, e mesmo para o resto, venham as
mulheres pequeninas, magrinhas, escurinhas! Essas sim!… Mas os grandes mulherões
brancos, do gênero Vênus, só para vista, só para
museu.

Videirinha arriscou uma dúvida:

– Uma senhora tão bonita como a Sra. D. Ana, e com aquele sangue,
assim casada com um velhote…

– Há mulheres que gostam de velhotes porque elas mesmas têm
sentimentos velhotes! – declarou o Gouveia, de dedo erguido, com imensa autoridade
e imensa filosofia.

Mas a curiosidade de Gonçalo não se contentava. E na Feitosa?
Nunca se rosnara de alguma aventura escondida? Parece que com o Dr. Júlio…

De novo o Fidalgo inventava. De novo Gouveia repeliu a “mentira”:

– Nem na Feitosa, nem em Oliveira, nem em Lisboa… De resto, é o
que lhe digo, Gonçalo Mendes. Mulher de mármore!

Depois, saudando, em submissa admiração:

– Mas, como mármore… Vocês, meninos, não imaginam a
beleza daquela mulher decotada!

Gonçalo pasmou:

– E onde a viu você decotada?

– Onde a vi decotada? Em Lisboa, num baile do Paço… Até foi
justamente o Lucena que me arranjou o convite para o Paço. Lá
me espanejei, de calção… Uma sensaboria. E mesmo uma vergonha,
toda aquela turba acavalada por cima dos bufetes, aos berros, a agarrar furiosamente
pedaços de peru…

– Mas então, a D. Ana?

– Pois a D. Ana, uma beleza! Vocês não imaginam!… Santo nome
de Deus! Que ombros! que braços! que peito! E a brancura, a perfeição…
De endoidecer! Ao princípio, como havia muita gente, e ela estava para
um canto, acanhadota, não fez sensação. Mas depois lá
a descobriram. E eram correrias, magotes embasbacados… E “quem será?”
E “que encanto!” Todo o mundo perdidinho, até o Rei!

E um momento os três homens emudeceram na impressão do formoso
corpo evocado, que entre eles surgia, quase despido, inundando com o esplendor
da sua brancura a modesta sala mal alumiada. Por fim Videirinha acercou a
cadeira, em confidência, para fornecer também a sua informação:

– Pois, por mim, o que posso afirmar é que a Sra. D. Ana é
uma mulher muito asseada, muito lavada…

E como os outros se espantavam, rindo, de uma certeza tão íntima
– Videirinha contou que todas as semanas aparecia um moço da Feitosa,
na botica do Pires, a comprar três e quatro garrafas de água-de-colônia
portuguesa, da receita do Pires.

– Até o Pires dizia sempre, a esfregar as mãos, que na Feitosa
regavam as terras com água-de-colônia. Depois é que soubemos
pela criada… A Sra. D. Ana toma todos os dias um grande banho, que não
é só para lavar, mas para prazer. Fica uma hora dentro da tina.
Até lê o jornal dentro da tina. E em cada banho, zás,
meia garrafa de água-de-colônia… Já é luxo!

Então Gonçalo sentiu como um aborrecimento de todas aquelas
revelações do Administrador, do ajudante da Farmácia,
sobre os decotes e as lavagens da linda mulher que o esperava entre os túmulos
dos Ramires seculares. Sacudiu o jornal com que se abanava, exclamou:

– Bem! E passando a cantiga mais séria… Oh Gouveia, você que
tem sabido do Dr. Júlio? O homem trabalha na eleição?

A criada entrara com a bandeja do chá. E em torno da mesa, trincando
as torradas famosas, conversaram sobre a Eleição, sobre os informes
dos Regedores, sobre a reserva do Rio-Manso – e sobre o Dr. Júlio,
que Videirinha encontrara nos Bravais pedinchando votos pelas portas, acompanhado
por um moço com a máquina fotográfica às costas.

Depois do chá, Gonçalo, cansado e já provido de “revelações”,
acendeu o charuto para recolher à Torre.

– Você não acompanha, Videirinha?

– Hoje, Sr. Dr., não posso. Parto de madrugada para Oliveira, na diligência.

– Que diabo vai você fazer a Oliveira?

– Por causa duns sapatos de praia e dum fato de banho lá da minha
patroa, da D. Josefa Pires… Tenho de os trocar nos Emílios, levar
as medidas.

Gonçalo ergueu os braços, desolado:

– Ora vejam este país! Um grande artista, como o Videirinha, a carregar
para Oliveira com os sapatos de banho da patroa Pires!… Oh Gouveia! quando
eu for Deputado precisamos arranjar um bom lugar para o Videirinha, no Governo
Civil. Um lugar fácil e com vagares, para ele não esquecer o
violão!

Videirinha corou de gosto e de esperança – correndo a despendurar
do cabide o chapéu do Fidalgo.

Pela estrada da Torre, os pensamentos de Gonçalo esvoaçaram
logo, com irresistida tentação, para D. Ana – para os seus decotes,
para os lânguidos banhos em que se esquecia lendo o jornal. Por fim,
que diabo!… Essa D. Ana assim tão honesta, tão perfumada,
tão esplendidamente bela, só apresentava, mesmo como esposa,
um feio senão – o papá carniceiro. E a voz também – a
voz que tanto o arrepiara na Bica-Santa… Mas o Mendonça assegurava
que aquele timbre rolante e gordo, na intimidade, se abatia, liso e quase
doce… Depois, meses de convivência habituam às vozes mais desagradáveis
– e ele mesmo, agora, nem percebia quanto o Manuel Duarte era fanhoso! Não!
mancha teimosa, realmente, só o pai carniceiro. Mas nesta Humanidade
nascida toda dum só homem, quem, entre os seus milhares de avós
até Adão, não tem algum avô carniceiro? Ele, bom
Fidalgo, de uma casa de Reis donde Dinastias irradiavam, certamente, escarafunchando
o Passado, toparia com o Ramires carniceiro. E que o carniceiro avultasse
logo na primeira geração, num talho ainda afreguesado, ou que
apenas se esfumasse, através de espessos séculos, entre os trigésimos
avós – lá estava, com a faca, e o cepo, e as postas de carne,
e as nódoas de sangue no braço suado!…

E este pensamento não o abandonou até a Torre – nem ainda depois,
à janela do quarto, acabando o charuto, escutando o cantar dos galos.
Já mesmo se deitara, e as pestanas lhe adormeciam, e ainda sentia que
os seus passos impacientes se embrenhavam para trás. para o escuro
passado da sua Casa, por entre a emaranhada História, procurando o
carniceiro… Era já para além dos confins do Império
Visigodo, onde reinava com um globo de ouro na mão o seu barbudo avô
Recesvinto. Esfalfado, arquejando, transpusera as cidades ocultas, povoadas
de homens cultos – penetrara nas florestas que o mastodonte ainda sulcava.
Entre a úmida espessura já cruzara vagos Ramires, que carregavam,
grunhindo, reses mortas, molhos de lenha. Outros surgiam de tocas fumarentas,
arreganhando agudos dentes esverdeados para sorrir ao neto que passava. Depois
por tristes ermos, sob tristes silêncios, chegara a uma lagoa enevoada.
E à beira da água limosa, entre os canaviais, um homem monstruoso,
peludo como uma fera, agachado no lodo, partia a rijos golpes, com um machado
de pedra, postas de carne humana. Era um Ramires. No céu cinzento voava
o Açor negro. E logo, dentre a neblina da lagoa, ele acenava para Santa
Maria de Craquede, para a formosa e perfumada D. Ana, bradando por cima dos
Impérios e dos Tempos: – “Achei o meu avô carniceiro!”

No Domingo, Gonçalo acordou com uma “esperta idéia!”
Não correria a Santa Maria de Craquede com uma pontualidade sôfrega,
às cinco horas (às cinco horas marcadas no Post-Scriptum da
prima Maria) – mostrando o seu alvoroço em encontrar a tão bela
e tão rica D. Ana Lucena! Mas às seis horas, quando findasse
a romaria das senhoras aos túmulos, apareceria ele indolentemente,
como se, recolhendo dum passeio pelas frescas cercanias, se recordasse, parasse
nas ruínas para conversar com a prima Maria.

Logo às quatro horas porém se começou a vestir com tantos
esmeros, que o Bento, cansado das gravatas que o Sr. Dr. experimentava e arremessava
amarfanhadas para o divan, não se conteve:

– Ponha a de sedinha branca, Sr. Dr.! Ponha a branca, que lhe fica melhor!
E refresca mais, com este calor.

Na escolha dum ramo para o casaco ainda requintou, juntando as cores heráldicas
dos Ramires, um cravo amarelo com um cravo branco. Ao portão, apenas
montara na égua, temeu que as senhoras (não o encontrando no
Claustro) encurtassem a visita, estugou o trote pelo atalho da Portela. Depois
adiante, ao desembocar na antiga estrada real, soltou num galope impaciente
que o branqueou de poeira.

Só retomou um passo indiferente, ao acercar da linha do Caminho de
Ferro, onde um carro de lenha e dois homens esperavam diante da cancela, que
se fechara para a lenta passagem dum trem carregado de pipas. Um desses homens,
de alforje aos ombros, era o Mendigo – o vistoso Mendigo que passeava por
aquelas aldeias a rendosa majestade das suas barbaças de Deus fluvial.
Erguendo gravemente o chapéu de vastas abas, desejou ao Fidalgo a companhia
de Nosso Senhor.

– Então hoje a ganhar a rica vida por Craquede?…

– Cá me arrasto às vezes para a passagem do comboio de Oliveira,
meu Fidalgo. Os passageiros gostam de me ver de pé no talude, correm
sempre às janelas…

Gonçalo, rindo, recordou que o encontro daquele ancião precedia
sempre um encontro seu com a bela D. Ana. – “Quem sabe? pensou. É
talvez o Destino! Os antigos pintavam assim o Destino, com longas barbas e
longas guedelhas, e o alforje às costas contendo as sortes humanas…”
– E com efeito ao cabo do pinheiral silencioso, que estiradas réstias
de sol docemente douravam – avistou a caleche da Feitosa, parada sob uma carvalha,
com o cocheiro fardado de negro dormitando na almofada. A estrada real de
Oliveira costeia aí o antigo adro do mosteiro de Craquede, queimado
pelo fogo do céu, naquela irada tempestade que chamam de S. Sebastião,
e que aterrou Portugal em 1616. Uma erva agora alfombra o chão, crescida
e verde, entre os poderosos troncos dos castanheiros velhíssimos. A
Igrejinha nova alveja, bem caiada, ao fundo da ramaria; e, ligada a ela por
um muro esbrechado que densa hera veste, tomando todo o lado nascente do Terreiro
– sobe, enche ainda magnificamente o céu lustroso a fachada da Igreja
do vetusto Mosteiro, suavemente amarelecida e brunida pelos tempos, com o
seu imenso portal sem portas, a rosácea desmantelada, e esvaziados
os nichos de enterramento onde outrora se estiraçavam as imagens dos
fundadores, Fróilas Ramires e sua mulher Estevaninha, Condessa de Orgaz,
por alcunha a Queixa-perra. Duas casas térreas povoam o lado fronteiro
do adro – uma limpa, com as ombreiras das janelas pintadas de azul estridente,
a outra deserta, quase sem telhado, afogada na verdura dum quinteiro bravo,
onde girassóis resplandecem. Um pensativo silêncio envolvia o
arvoredo, as altivas ruínas. E nem o quebrava, antes serenamente o
embalava, o sussurro duma fonte, que a estiagem adelgaçara em fio lento,
e mal enchia o seu tanque de pedra, toldado pela pálida e rala folhagem
de um chorão muito alto.

O trintanário da Feitosa, ao enxergar o Fidalgo, saltou risonhamente
da borda do tanque onde picava tabaco, para segurar a égua. E Gonçalo,
que desde pequeno não penetrava nas ruínas de Craquede, seguia
por um carreirinho cortado na relva, atentamente, encantado com aquela romântica
solidão de lenda e verso, quando, sob o arco do portal, apareceram
as duas senhoras voltando do velho claustro. D. Maria Mendonça, com
a sua sacudida vivacidade, agitou logo o guarda-sol de xadrezinho, semelhante
ao vestido, cujas mangas, tufando desmedidamente nos ombros, lhe vincavam
mais a elegância esgalgada. E ao lado, na claridade, D. Ana era uma
silenciosa e esbelta forma negra, de lã negra e de escumilha negra,
onde apenas transparecia, suavizada sob o véu negro, a brancura esplêndida
da sua face sensual e séria.

Gonçalo correra, erguendo o chapéu de palha, balbuciando o
seu “prazer por aquele encontro… ‘Mas já D. Maria o repreendia,
sem lhe consentir a fábula do “encontro”:

– O primo não é nada amável, nada amável…

– Oh, prima’….

– Pois sabia que vínhamos, pela minha carta! E nem está à
hora aprazada, para fazer as honras, como devia…

Ele, rindo, com o seu desembaraço airoso, negou esse dever! Aquela
casa não era sua, mas do Bom Deus! Ao Bom Deus competia “fazer
as honras” – acolher tão doces romeiras com algum milagre amável…

– E então gostaram? V. Exa., Sra. D. Ana, gostou das ruínas?…
Muito interessantes, não é verdade?

Através do véu, com uma lentidão que a espessa renda
negra tornava mais grave, ela murmurou:

– Eu já conhecia… Vim cá uma tarde, com o pobre Sanches que
Deus haja.

– Ah…

Àquela evocação do pobre morto, Gonçalo sumira
todo o sorriso, com polida tristeza. Mas D. Maria Mendonça acudiu,
atirando um dos seus magros gestos, como para arredar a sombra importuna:

– Ai! não imagina o que gostei, primo! É de apetite todo o
claustro… Logo aquela espada enferrujada, chumbada por cima do túmulo..
Não há nada que impressione como estas coisas antigas… Oh,
primo, e pensar que estão ali antepassados nossos!

O sorriso de Gonçalo de novo lampejou, alegre e acolhedor, como sempre
que D. Maria se empurrava com desesperada gula para dentro da Casa de Ramires.
E gracejou, afavelmente. Oh, antepassados… Simples punhados de cinza vã!
– Pois não era verdade, Sra. D. Ana?… Realmente! quem conceberia
que a prima Maria, tão viva, tão sociável, tão
engraçada, descendesse duma poeira tristonha guardada dentro duma pia
de pedra? Não! não se podia ligar tanto ser a tanto não
ser… – E como D. Ana sorria, numa vaga concordância, encostando as
duas mãos fortes e muito apertadas na peliça negra ao alto cabo
de aljôfar da sombrinha, ele atalhou com interesse:

– V. Exa. está talvez cansada, Sra. D. Ana?

– Não, não estou cansada… Ainda vamos mesmo entrar na capela,
um bocadinho… Eu nunca me canso.

E pareceu a Gonçalo que a voz da formosa criatura não rolava
do papo, tão grossa e gorda – mas que se afinara, adoçada e
velada pelo luto de escumilha e lã, como esses grossos e rolantes rumores
que a noite e o arvoredo adelgaçam. Mas D. Maria confessou o seu imenso
cansaço! Nada a esfalfava como visitar curiosidades… E além
disso a emoção, a idéia de heróis tão antigos!

– Se nos sentássemos naquele banco, hem? É muito cedo para
recolhermos, não é verdade, Anica? E está tão
agradável neste sossego, nesta frescura…

Era um banco de pedra, rente ao muro esbrechado que a hera afogava. Em torno
a relva crescia, mais silvestre e florida com os derradeiros malmequeres e
botôes-de-ouro que o sol de agosto poupara. Um aromazinho fino, de algum
jasmineiro emaranhado na hera, errava, adocicava a serena tarde. E na rama
dum álamo, defronte do portão da Capela duas vezes um melro
cantara. Gonçalo sacudiu todo o banco cuidadosamente com o lenço.
E sentado na ponta, junto de D. Maria, louvou também a frescura, o
recolhimento daquele cantinho de Craquede… E ele que nunca se aproveitara
de refúgio tão santo, e quase seu, nem mesmo para um almoço
bucólico! Pois agora certamente voltaria a fumar um charuto, revolver
idéias de paz sob a paz das carvalheiras, na vizinhança dos
vovós mortos… Depois, com uma curiosidade:

– É verdade, prima! E o subterrâneo?

Oh! não existia subterrâneo!… Sim, existia – mas entulhado,
sem sepulturas, sem antigüidades. E o sacristão logo lhes afiançara
que “não valia a pena sujarem as saias…”

– É verdade, oh Anica, deste alguma coisa ao sacristão?

– Oh filha, dei cinco tostões… Não sei se foi bastante.

Gonçalo assegurou que se pagara suntuosamente ao sacristão.
E, se previsse tamanha generosidade da Sra. D. Ana, agarrava ele um molho
de chaves, até enfiava uma opa preta, para mostrar e para embolsar…

– Pois é o que devia ter feito! – exclamou D. Maria, com um corisco
nos espertos olhos. – E decerto se lhe davam os cinco tostões! Porque
sempre seria mais instrutivo que o homenzinho, que mascava, não sabia
nada!… Semelhante morcão! E eu com tanta curiosidade por aquele túmulo
aberto, com a tampa rachada… O mono só soube resmungar que “eram
histórias muito antigas lá do Fidalgo da Torre…”

Gonçalo ria:

– Pois essa história por acaso sei eu, prima Maria! Sei agora pelo
Fado dos Ramires, o fado do Videirinha.

D. Maria Mendonça levantou as compridas mãos aos céus,
revoltada com aquela indiferença pelas tradições heróicas
da Casa. Conhecer somente os seus Anais desde que eles andavam repicados num
fado!… O primo Gonçalo não se envergonhava?

– Mas porquê, prima, por quê? O fado do Videirinha está
fundado em documentos autênticos que o Padre Soeiro estudou. Todo o
recheio histórico foi fornecido pelo Padre Soeiro. O Videirinha só
pôs as rimas. Além disso, antigamente, prima, a História
era perpetuada em verso e cantada ao som da lira… Enfim quer saber esse
caso do túmulo aberto, segundo as quadras do Videirinha? Eu sempre
conto! Mas só para a Sra. D. Ana, que não sofre desses escrúpulos…

– Não! – acudiu D. Maria. – Se o Videirinha tem essa autoridade histórica
então conte também para mim, que sou da Casa!

Gonçalo, por gracejo, tossiu, passou o lenço pelos beiços:

– Pois eis o caso! Nesse túmulo habitava, naturalmente morto, um dos
meus avós… Não me lembro o nome, Gutierres ou Lopo. Creio
que Gutierres… Enfim, lá jazia quando foi da batalha das Navas de
Tolosa… A prima Maria conhece a batalha das Navas, os cinco Reis mouros,
etc. Como o tal Gutierres soube da batalha não contam os versos do
Videirinha. Mas, apenas lá dentro lhe cheirou a carnificina, arromba
o túmulo, sai por este pátio como um desesperado, desenterra
o seu cavalo que fora enterrado no adro onde agora crescem estes carvalhos,
monta nele todo armado, e Cavaleiro morto sobre cavalo morto, larga a galope
através da Espanha, chega às Navas, arranca a espada, e destroça
os mouros… Que lhe parece, Sra. D. Ana?

Dedicara a história a D. Ana, procurando nos seus belos olhos a atenção
e o interesse. E ela, que a furto, através do decoro melancólico
a que se esforçava, adoçara o sorriso, atraída e levada,
murmurou apenas: -“Tem graça!” – D. Maria, porém,
quase esvoaçou sobre o banco de pedra, num êxtase: – “Lindo!
Lindo! Que poesia!… Oh! uma lenda de todo o apetite!” – E, para que
Gonçalo desenrolasse ainda a graça do seu dizer, outras maravilhas
da sua Crônica:

– Conte, primo, conte… E voltou para Craquede esse tio Ramires?

– Quem, prima, o Gutierres?… Ou fosse ele tolo! Apenas se apanhou livre
da maçada da sepultura não apareceu mais em Santa Maria de Craquede.
O túmulo vazio, como está, e ele por Espanha numa pândega
heróica!… Imagine! um defunto que por milagre se safa do seu jazigo,
daquela postura eterna, tão apertada, tão esticada!…

Subitamente emudeceu, lembrando o Sanches Lucena, também esticado
no seu caixote de chumbo, sob o seu vistoso jazigo de Oliveira… – D. Ana
baixara a face, mais sumida no véu, esfuracando a erva com a ponta
da sombrinha. E a esperta D. Maria, para desfazer a sombra impertinente que
de novo os roçara, rompeu noutra curiosidade, que ainda se encadeava
na nobreza dos Ramires:

– É verdade! Sempre me esquece de lhe perguntar. O primo ainda tem
muitos parentes em França… Talvez também não saiba?

Sim! Gonçalo, casualmente, conhecia essa história dos seus
parentes de França – apesar de que o Videirinha os não cantara
no fado!

– Então conte! Mas que seja história alegre!

Oh, não era prodigiosamente divertida! Um avô Ramires, Garcia
Ramires, acompanhara nas suas famosas jornadas o Infante D. Pedro, o filho
de El-Rei D. João I… A prima Maria sabia – o Infante D. Pedro, o
que correu as Sete Partidas do mundo… Pois o Infante D. Pedro e os seus
Fidalgos, de volta da Palestina, pousaram um ano inteiro na Flandres, com
o Duque de Borgonha. Até se celebraram então festas maravilhosas,
com um banquete que durou sete dias, e que anda nos compêndios da História
de França. Onde há danças há amores. Ao avô
Ramires sobejavam imaginação e arrojo… Fora ele que diante
de Jerusalém, no Vale de Josafá, lembrara que se erguesse um
sinal para que o Infante e os seus companheiros de romagem se reconhecessem
no grande Dia de Juízo. Depois, naturalmente, belo mocetão de
barba negra e cerrada à Portuguesa… Enfim casara com uma irmã
do Duque de Cleves, uma tremenda Senhora, sobrinha do Duque de Borgonha e
Brabante. Mais tarde, através dessas ligações, uma avó
Ramires, já viúva, casou também em França com
o Conde de Tancarville. Esses Tancarvilles, Grão-Mestres de França,
possuíam o mais formidável castelo da Europa, e…

D. Maria bateu as palmas, rindo:

– Bravo! lindamente! Sim, senhor!… Então oprimo que se gaba de não
saber nada de fidalguias… Olhe como conhece pelo miúdo a história
desses grandes casamentos! Hem, Anica?… É uma Crônica viva!

Gonçalo vergou os ombros, confessou que se ocupara de toda essa heráldica
história por um motivo bem rasteiro – por miséria!…

– Por miséria?

– Sim, prima Maria, por penúria de moeda, de cobres.

– Conte! conte! Olhe, a Anica está ansiosa…

– Quer saber, Sra. D. Ana?… Pois foi em Coimbra, no meu segundo ano de
Coimbra. Os companheiros e eu chegamos a não juntar entre todos um
vintém. Nem para cigarros! Nem para o sagrado decilitro de carrascão
e as três azeitonas do dever… Um deles então, rapaz muito engraçado,
de Melgaço, surdiu com a idéia estupenda de que eu escrevesse
aos meus parentes de França, a esses Cleves, a esses Tancarvilles,
senhores decerto imensamente ricos, e solicitasse, com desembaraço,
um emprestimozinho de trezentos francos.

D. Ana não conteve um riso, sinceramente divertido:

– Ai! tem muita graça!

– Mas não teve resultado, minha senhora… Já não existem
Cleves, nem Tancarvilles! Todas essas grandes famílias feudais findaram,
se fundiram noutras casas, até na Casa de França. E o meu Padre
Soeiro, apesar de todo o seu saber genealógico, nunca conseguiu descobrir
quem as representava com bastante afinidade para me emprestar, a mim parente
pobre de Portugal, esses trezentos francos.

Aquela penúria de Gonçalo, de tamanho Fidalgo, quase enternecera
D. Ana:

– Ora estarem assim sem vintém! Quem soubesse… Mas tem graça!
Essas histórias de Coimbra têm sempre muita graça. O D.
João da Pedrosa, em Lisboa, também contava muitas…

D. Maria Mendonça, porém, através dessa facécia
de estudantes, descortinara outra prova inesperada da grandeza dos Ramires.
E imediatamente a estendeu diante de D. Ana com habilidade:

– Ora vejam!… Todas essas grandes casas de França, tão ricas,
tão poderosas, acabaram, desapareceram. E cá no nosso Portugalzinho
ainda dura a Casa de Ramires!

Gonçalo acudiu:

– Acaba agora, prima!… Não olhe para mim assim espantada. Acaba
agora… Pois se eu não caso!

Então D. Maria recuou o magro peito – como se esse casamento do primo
dependesse de doces influências, que convinha se trocassem bem chegadamente,
sem Marias Mendonças de permeio no estreito banco com grandes mangas
bufantes tolhendo as correntes de eflúvio. E sorria, quase languidamente:

– Ora não casa… Mas por quê, primo, por quê?

– Porque não tenho jeito, prima. O casamento é uma arte muito
delicada que necessita vocação, gênio especial. As Fadas
não me concederam esse gênio. E se me dedicasse a semelhante
obra, ai de mim! com certeza a estragava.

D. Ana, como se outra idéia a ocupasse, puxara lentamente do cinto
o relógio preso por uma fita de cabelo. E D. Maria insistia, recusava
os motivos do Fidalgo:

– São tolices. O primo que gosta tanto de crianças…

– Gosto, gosto muito de crianças, até de criancinhas de mama.
As crianças são os únicos seres divinos que a nossa pobre
humanidade conhece. Os outros anjos, os de asas, nunca aparecem. Os santos,
depois de santos, ficam na Bem-aventurança a preguiçar, ninguém
mais os enxerga. E, para concebermos uma idéia das coisas do céu,
só temos realmente as criancinhas… Sim, com efeito, prima, gosto
muito de crianças. Mas também gosto de flores, e não
sou jardineiro, nem tenho jeito para a jardinagem.

E D. Maria com uma faísca no olhar prometedor:

– Sossegue, que ainda vem a aprender!

Depois, para D. Ana, que se esquecera na contemplação do relógio:

– Achas que vão sendo horas? Então, se queres, entramos na
Capela… Oh primo, veja se está aberta.

Gonçalo correu, empurrou a porta da Capela. Depois acompanhou as duas
senhoras pela pequenina nave soalhada, entre delgados pilares recobertos de
uma cal áspera e crua – que recamava também as paredes lisas,
apenas guarnecidas, na sua rígida nudez, por litografias de Santos
dentro de caixilhos de pinho. Diante do altar as senhoras ajoelharam – a prima
Maria enterrando a face nas mãos juntas como num vaso de Piedade. Gonçalo
dobrou o joelho de leve, engrolou uma Ave-Maria.

Depois voltou para o adro, acendeu um cigarro. E, pisando lentamente a relva,
considerava quanto a viuvez melhorara D. Ana. Sob o negrume do luto, como
numa penumbra que esfuma a grosseira deselegância das coisas, todos
os seus defeitos se fundiam – os defeitos que tanto o horripilavam na tarde
da Bica Santa, o rolar gordo da voz, o peito empinado, a ostentação
de burguesa ricaça pinguemente repimpada na vida. Até já
nem dizia – “o cavalheiro!” E ali, no adro melancólico de
Craquede, certamente parecia interessante e desejável.

As senhoras desciam os dois degraus da Capela. Um melro esvoaçou na
ramagem dos álamos. E Gonçalo encontrou o lampejo dos olhos
sérios de D. Ana, que o procuravam.

– Peço perdão de não lhes ter oferecido água
benta à saída, mas a concha está seca…

– Jesus, primo, que Igreja tão feia!

D. Ana arriscou, com timidez:

– Depois das ruínas e dos túmulos, até parece pouco
religiosa.

A observação impressionou Gonçalo, como muito fina.
E junto dela, demorando os passos com agrado, sentia, esparzido pelos seus
movimentos, pelo roçar do vestido, um aroma também fino, que
não era o da horrenda água-de-colônia da botica do Pires.
Em silêncio, sob a ramagem das carvalhas, caminharam para a caleche,
onde o cocheiro se aprumara, bem estilado, tirando o chapéu. Gonçalo
notou que ele rapara o bigode. E a parelha reluzia, atrelada com esmero.

– E então, prima Maria, ainda se demora pelos nossos sítios?

– Sim, primo, mais uns quinze dias… A Anica é tão amável,
quis que eu trouxesse os pequenos. O que eles se têm divertido na quinta,
não imagina!

D. Ana murmurou, sempre séria:

– São muito engraçados, fazem muita companhia… Eu também
gosto muito de crianças.

– Ai, a Anica adora crianças! – acudiu D. Maria com fervor. – O que
ela atura os pequenos! Até joga com eles o mafarrico.

Perto da caleche, Gonçalo pensou que outra volta pelo adro, mais lenta,
com a D. Ana e o seu fino aroma, seria doce, naquele sossego da tarde que
findava, tingida de tão lindas cores de rosa sobre os pinheirais escurecidos.
Mas já o trintanário se acercava segurando a sua égua.
E D. Maria, depois de admirar e acariciar a égua, chamou o primo discretamente
– para saber a distância da Feitosa a Treixedo, a outra quinta histórica
dos Ramires.

– A Treixedo, prima?… Cinco léguas fartas, com maus caminhos.

E imediatamente se arrependeu, antevendo um passeio, um novo encontro:

– Mas na estrada ultimamente andaram obras. E é muito bonito sitio,
num alto, com um resto de muralhas… Treixedo era um castelo enorme… Na
quinta há uma lagoa entre arvoredo antigo… Oh! sítio delicioso
para um pic-nic!

D. Maria hesitou:

– É um pouco longe, veremos, talvez.

E como D. Ana esperava em silêncio – Gonçalo abriu a portinhola,
tomou ao trintanário as rédeas da égua. D. Maria Mendonça,
no seu contentamento por tão proveitosa tarde, sacudiu ardentemente
a mão do primo jurando “que ia apaixonada por Craquede!”
D. Ana mal roçou os dedos de Gonçalo, acanhada e corando.

Sozinho, com a rédea da égua enfiada no braço, Gonçalo
sorria. Na verdade, nessa tarde, D. Ana não lhe desagradara. Outros
modos, outra singeleza grave, outra doçura na sua possante beleza de
Vênus rural…

E aquela observação sobre a Capela, “pouco religiosa”
depois das ruínas seculares do claustro, era uma observação
fina. Quem sabe? Talvez sob carne tão sensual se escondesse uma natureza
delicada. Talvez a influência doutro homem, que não o estupidíssimo
Sanches, desenvolvesse na filha esplêndida do carniceiro qualidades
de muito encanto… Oh, evidentemente, a observação sobre os
túmulos e a sua religiosidade emanando da Lenda e da História
– era fina.

E então também o tomou a curiosidade de visitar esse claustro
onde não entrara desde pequeno – quando ainda a Torre conservava as
suas carruagens montadas e a romântica Miss Rhodes escolhia sempre o
passeio de Craquede para as tardes pensativas de outono. Puxou a égua,
transpôs o portal, atravessou o espaço descoberto que fora a
nave – atulhado de caliça, de cacos, de pedras despegadas da abóbada
e afogadas nas ervas bravas. E pela brecha dum muro a que ainda se amparava
um pedaço de altar – penetrou na silenciosa crasta Afonsina. Só
dela restam duas arcadas em ângulo, atarracadas sobre rudes pilares,
lajeadas de poderosas lajes puídas que nessa manhã o sacristão
cuidadosamente varrera. E contra o muro, onde rijas nervuras desenham outros
arcos, avultam os sete imensos túmulos dos antiqüíssimos
Ramires, denegridos, lisos, sem um lavor, como toscas arcas de granito, alguns
pesadamente encravados no lajedo, outros pousando sobre bolas que os séculos
lascaram. Gonçalo seguia um carreiro de tijolo, rente aos arcos, recordando
quando ele outrora e Gracinha pulavam ruidosamente por sobre essas campas,
enquanto no pátio do claustro, entre as pilastras tombadas e a verdura
das ruínas, a boa Miss Rhodes, agachada, procurava florinhas silvestres.
Na abóbada, sobre o mais vasto túmulo, lá negrejava chumbada
a espada, a famosa espada, com a sua corrente de ferro pendendo do punho,
a folha roída pela ferrugem das longas idades. Sobre outro lá
ardia a lâmpada, a estranha lâmpada mourisca, que não se
apagara desde a tarde remota em que algum monge, com uma tocha de saimento,
silenciosamente a acendera… Quando se acendera ela, a eterna lâmpada?
Que Ramires jazeriam nesses cofres de granito, a que o tempo raspara as inscrições
e as datas, para que nelas toda a História se sumisse, e mais escuramente
se volvessem em leve pó sem nome aqueles homens de orgulho e de força?…
Depois na ponta do claustro era o túmulo aberto, e ao lado, derrubada
em dois pedaços, a tampa que o esqueleto de Lopo Ramires arrombara
para correr às Navas de Tolosa e bater os cinco Reis mouros. Gonçalo
espreitou para dentro, curiosamente. A um canto da funda arca alvejava um
montão de ossos, limpos e bem arrumados! Esquecera o velho Lopo, na
sua pressa heróica, esses poucos ossos, já despegados do seu
esqueleto?… O crepúsculo cerrara, e com ele uma melancólica
sombra que se adensava sobre as abóbadas da crasta, cobria de tristeza
morta aquela jazida de mortos. Então Gonçalo sentiu a desolada
solidão que o envolvia, o separava da vida, ali desgarrado, e sem socorro
entre a poeira e a alma errante dos seus avós temerosos! E de repente
estremeceu, no arrepiado medo de que outra tampa estalasse com fragor e através
da fenda surgissem lívidos dedos sem carne! Repuxou desesperadamente
a égua pelo muro desmantelado, nas ruínas da nave pulou para
o selim, e varou num trote o portal, galgou o adro com ânsia – só
sossegou ao avistar, ao fim do pinhal, a cancela do Caminho de Ferro aberta,
e uma velha que a passava tangendo o seu burro carregado de erva.

CAPÍTULO VIII

Ao fim da semana Gonçalo, que desde a visita a Santa Maria de Craquede
arrastava o remorso incômodo da sua preguiça, do tão longo
abandono da Novela – recebeu de manhã, ao sair do banho, uma carta
do Castanheiro. Era curta: – e declarava ao amigo Gonçalo que, se em
meado de outubro não chegassem a Lisboa três Capítulos
do original, ele, com pesar seu e da Arte, publicaria no primeiro número
dos Anais, em vez da Torre de D. Ramires, um drama do Nuno Carreira num ato,
intitulado Em Casa do Temerário… “Apesar de drama e de fantasia
(acrescentava), convém à índole erudita dos Anais porque
este Temerário é Carlos o Temerário, e a ação
toda, fortemente tecida, se passa no Castelo de Peronne, onde se encontram
nada menos que Luís XI de França, e o nosso pobre Afonso V,
e Pero de Covilhã que o acompanhava, e outros figurões de rija
estatura histórica. Imagine!… Está claro, o chic supremo seria
Tructesindo Mendes Ramires contado pelo nosso Gonçalo Mendes Ramires!
Mas, pelo que vejo, esse chic supremo está impedido por uma indolência
suprema. Sunt Lacrymae Revistarum!”

Gonçalo atirou a carta, gritou pelo Bento:

– Leva para a livraria chá verde, forte, com torradas. Hoje só
almoço tarde, às duas… Talvez nem almoce!

E, enfiando o roupão de trabalho, decidiu amarrar à banca,
como um cativo ao remo, até que rematasse esse difícil Capítulo
III, onde ressaltava o bárbaro e sublime rasgo do avô Tructesindo.
Não, que diabo! não lhe convinha perder a aparição
da Novela em tão proveitoso momento, nas vésperas da sua chegada
a Lisboa, quando para a influência política e para o prestigio
social necessitava desse brilho que, segundo o velho Vigny, “uma pena
de aço acrescenta a um elmo dourado de Fidalgo…” Felizmente,
nessa luminosa manhã em que as águas da horta fartamente cantavam,
ele sentia também a veia borbulhando, contente em se soltar e correr.
Depois da visita à crasta de Craquede a sua imaginação
concebia menos enevoadamente os seus avós Afonsinos: e como que os
palpava enfim no seu viver e pensar desde que contemplara os grandes túmulos
onde se desfaziam as suas grandes ossadas.

Na livraria retomou com apetite, depois de lhes sacudir a poeira, as tiras
da Novela sobre que emperrara, naquele atarantado lance de susto e alarme
– quando o Vílico, o velho Ordonho, reconhecia o pendão do Bastardo
surgindo à borda da ribeira do Coice entre o coriscar de lanças
empinadas, passando a antiga ponte de madeira, e, um momento sumido na verdura
dos álamos, de novo avançando, alto e tendido, até o
rude Cruzeiro de pedra de Gonçalo Ramires o Cortador.. O gordo Ordonho
então, atirando o brado de – “Prestes, prestes! que é gente
de Baião!” -, descambava pelo escadão da muralha como um
fardo que rola.

No entanto Tructesindo Ramires, no empenho de aprestar a sua mesnada e abalar
sobre Montemor, regera já com o Adail a ordem da arrancada, mandando
que as buzinas soassem mal o sol batesse na margela do Poço grande.
E agora, na sala alta da Alcáçova, conversava como seu primo
de Riba-Cávado e costumado camarada de armas, D. Garcia Viegas – ambos
sentados nos poiais de pedra duma funda janela, onde uma bilha d’água
com o seu púcaro refrescava entre vasos de manjericão. D. Garcia
Viegas era um velho esgalgado e ágil, de escuro carão rapado,
com uns miúdos olhos coruscantes – que merecera a alcunha de Sabedor
pela viveza e suculência do seu dizer, as suas infinitas manhas de guerra,
e a prenda de falar latim mais doutamente que um Clérigo da Cúria,
Convocado por Tructesindo, como os outros parentes de solar, para engrossar
a mesnada dos Ramires em serviço das Infantas, correra logo a Santa
Irenéia fielmente com o seu pequeno poder de dez lanças – começando
por saquear no caminho a herdade de Palha-Cá, dos de Severosa, que
andavam com pendão alto na Hoste Real contra as Donas oprimidas. Tão
rijamente se apressara que, desde a madrugada, apenas comera sobre a sela,
em Palha-Cá, duas rodelas dos chouriços roubados. E com a sede
da afogueada correria, ainda na emoção de tão amarga
nova, a derrota de Lourenço Ramires seu afilhado, novamente enchia
d’água o púcaro de barro – quando pela porta da sala de armas,
que três cabeças de javali dominavam, rompeu o velho Ordonho
esbaforido:

– Sr. Tructesindo! Sr. Tructesindo Ramires! o Bastardo de Baião passou
a Ribeira, vem sobre nós com grande troço de lanças!

O velho Rico-homem saltou do poial. E arremessando a mão cabeluda,
cerrada com sanha, como se já pela gorja empolgasse o Bastardo:

– Pelo sangue de Cristo! em boa hora vem que nos poupa caminho! Hem, Garcia
Viegas? A cavalo e sobre ele…?

Mas, rente aos trôpegos calcanhares de Ordonho, correra um Coudel de
Besteiros, que gritou dos umbrais, sacudindo o capelo de couro:

– Senhor! Senhor! A gente de Baião parou ao Cruzeiro! E um Cavaleiro
moço, com um ramo verde, está diante das barbacãs, como
trazendo mensagem…

Tructesindo bateu o sapato de ferro sobre as lajes, indignado com tal embaixada
mandada por tal vilão… – Mas Garcia Viegas, que dum sorvo enxugara
o púcaro, recordou serenamente e lealmente os preceitos:

– Tende, tende, primo e amigo! Que, por uso e lei de aquém e de além
serras, sempre mensageiro com ramo se deve escutar…

– Seja pois! – bradou Tructesindo. – Ide vós fora às barreiras
com duas lanças, Ordonho, e sabei do recado!

O Vílico rebolou pela denegrida escada de caracol até ao patim
da Alcáçova. Dois acostados, de lança ao ombro, recolhendo
de alguma rolda, conversavam com o armeiro, que sarapintara de amarelo e escarlate
cabos de ascumas novas e as enfileirava contra o muro para secarem.

– Por ordem do Senhor! – gritou Ordonho. – Lança direita, e comigo
às barbacãs, a receber mensagem!…

Ladeado pelos dois homens que se aprumaram, atravessou as barreiras; e pelo
postigo da barbacã, que uma quadrilha de besteiros guardava, saiu ao
terreiro da Honra, largueza de terra calcada, sem relva ou árvore,
onde se erguiam ainda as traves carcomidas duma antiga forca, e se amontoavam
agora, para os consertos da Alcáçova, ripas de madeira, e grossas
cantarias lavradas. Depois, sem arredar do umbral, empinando o ventre entre
os dois acostados, bradou ao moço Cavaleiro, que esperava sob o rijo
sol, sacudindo os moscardos com o seu ramo de amoreira:

– Dizei de que gente sois! e a que vindes! e que credência trazeis!…

E como arqueara logo a mão inquieta sobre a orelha – o Cavaleiro,
serenamente, entalando o ramo entre o coxote e o arção, arqueou
também os dois guantes reluzentes de escamas na abertura do casco,
bradou:

– Cavaleiro do solar de Baião!… Credência não trago
que não trago embaixada… Mas o Sr. D. Lopo ficou além ao Cruzeiro,
e deseja que o nobre Sr. da Honra, o Sr. Tructesindo Ramires, o escute do
eirado da barbacã…

O Vílico saudou – recolheu pela poterna abobadada da torre albarrã,
murmurando para os dois acostados:

– O Bastardo vem a tratar o resgate do Sr. Lourenço Ramires…

Ambos rosnaram:

– Feio feito.

Mas, quando Ordonho ofegante se apressava para a Alcáçova,
encontrou no pátio Tructesindo Ramires – que, na irada impaciência
daquelas delongas do Bastardo, descera, todo armado. Sobre o comprido brial
de lã verde-negra, que recobria a vestidura de malha, as suas barbas
rebrilhavam, mais brancas, atadas num grosso nó como a cauda dum corcel.
Do cinturão tauxiado de prata pendia a um lado o punhal recurvo, a
buzina de marfim – ao outro uma espada goda, de folha larga, com alto punho
dourado onde cintilava uma pedra rara trazida outrora da Palestina por Gutierres
Ramires, o de Ultramar. Um sergente conduzia sobre uma almofada de couro os
seus guantes, o seu capelo redondo, de viseira gradada, como usara El-Rei
D. Sancho; outro carrecava o imenso broquel, da forma dum coração,
revestido de couro escarlate, com o Açor negro rudemente pintado, esgalhando
as garras furiosas. E o Alferes, Afonso Comes, seguia com o guião enrolado
na funda de lona.

Com o velho Rico-homem descera D. Garcia Viegas, e os outros parentes do
Solar – o decrépito Ramiro Ramires, um veterano da tomada de Santarém,
torcido pelos reumatismos como a raiz de um roble, e arrimando os passos trêmulos,
não a um bastão, mas a um chuço; o formoso Leonel, o
mais moço dos Samoras de Condufe, o que matara os dois ursos dos brejos
de Cachamuz e que tão bem trovava; Mendo de Briteiros, o das barbas
vermelhas, grande queimador de bruxas, ledo arranjador de folgares e danças;
e o agigantado Senhor dos Paços de Avelim, todo coberto, como um peixe
fabuloso, de escamas que reluziam, Como o sol se acercava da margela do Poço
grande, marcando a hora da arrancada sobre Montemor – já, dos fundos
alpendres que escondiam os campos do tavolado, os cavalariços puxavam
os ginetes de guerra, com as suas altas selas pregueadas de prata, as ancas
e os peitos resguardados por coberturas de couro franjado que rojavam nas
lajes. Por todo o Castelo se espalhara que o Bastardo, depois da lide fatal
aos Ramires, correra de Canta-Pedra, ameaçava a Honra; – e debruçados
dos passadiços que ligavam a muralha aos contrafortes da Alcáçova,
ou metidos por entre os engenhos de arremesso que atulhavam as corredouras,
os moços da ucharia, os servos das hortas, os vilões acolhidos
para dentro das barbacãs, espreitavam o Senhor de Santa Irenéia
e aqueles Cavaleiros fortes, com ansiedade, tremendo do assalto dos de Baião
e dessas horrendas bolas de ferro, cheias de fogo, que agora as mesnadas Cristãs
arrajavam tão destramente como as bordas Sarracenas. – No entanto com
a sua gorra esmagada contra o peito, Ordonho, arfando, apresentava a Tructesindo
o recado do Bastardo:

– É Cavaleiro moço, não traz credência… O Sr.
Bastardo espera ao Cruzeiro. – E pede que o atendais da quadrela das barbacãs…

– Que se acerque, pois! – gritou o velho. – E com quantos queira dos vilões
que o seguem!

Mas Garcia Viegas, o Sabedor, sempre avisado, com a sua esperta mansidão:

– Tende, primo e amigo, tende! Não subais vós à tranqueira
antes que eu me assegure se Baião nos vem com arteirice ou falsura.

E, entregando a sua pesada lança de faia a um donzel, enfiou pela
escada soturna da Torre albarrã. Em cima, no eirado, sussurrando um
chuta! chuta! à fila de besteiros que guarnecia as ameias, atenta e
com a besta encurvada – penetrou no miradouro, espiou pela seteira. O arauto
de Baião galopara para o Cruzeiro, que uma selva movediça de
lanças rodeava coriscando. E curto recado lançou – porque logo,
no seu fouveiro acobertado por uma rede de malha acairelada de ouro, Lopo
de Baião despegou do denso troço de Cavaleiros com a viseira
erguida, sem lança ou ascuma de monte, e ociosas sobre o arção
da sela mourisca as mãos onde se enrodilhavam as bridas de couro escarlate.
Depois, a um toque arrastado de buzina, avançou para as barbacãs
da Honra, vagarosamente, como se acompanhasse um saimento. Não movera
o seu pendão amarelo e negro. Apenas seis infanções o
escoltavam, também sem lança ou broquei, com sobrevestes de
pano roxo sobre os saios de malha. Atrás quatro alentados besteiros
carregavam aos ombros umas andas, toscamente armadas com troncos de árvores,
onde um homem jazia estirado, como morto, coberto, contra o calor e os moscardos,
por leves folhagens de acácia. E um monge seguia numa mula branca,
segurando misturadamente com as rédeas um crucifixo de ferro, sobre
que pendia a orla do seu capuz e uma ponta de barba negra.

Da seteira, mesmo sem descortinar por entre a camada de ramagens a face do
homem estendido nas andas, o Sabedor adivinhou Lourenço Ramires, o
doce afilhado que tanto amara, que tão bem ensinara a terçar
lanças e a treinar falcões. E cerrando os punhos, gritando surdamente
“Bem prestos! Besteiros, bem prestos!” – desceu a escura escadaria,
tão arremessado pela cólera e pela mágoa que o seu elmo
cavamente bateu contra o arco da porta, onde o esperava Tructesindo com os
Cavaleiros parentes.

– Senhor primo! – bradou. – Vosso filho Lourenço está diante
das barreiras da Honra deitado sobre umas andas!

Com um rosnar de espanto, um atropelo dos sapatos de ferro sobre as lajes
sonoras, todos seguiram pela poterna da albarrã o Rico-homem – até
o escadão de madeira que se empurrava contra a quadrela das barbacãs.
E, quando o enorme velho surgiu no eirado, um silêncio pesou, tão
ansioso, que se sentia para além do vergel o chiar triste e lento da
nora e o latir dos mastins.

No terreiro, em frente à cancela gateada, o Bastardo esperava, imóvel
sobre o seu ginete, com a formosa face bem levantada, a face de Choro-Sol,
onde as barbas aneladas, caindo nas solhas do arnês, rebrilhavam como
ouro novo. Vergando o capelo de ouropel, saudou Tructesindo com gravidade
e preito. Depois alçou a mão, que descalçara do guante.
E num considerado e sereno falar:

– Senhor Tructesindo Ramires, nestas andas vos trago vosso filho Lourenço,
que em lide leal, no vale de Canta-Pedra, colhi prisioneiro e me pertence
pelo foro dos Ricos-homens de Espanha. E de Canta-Pedra caminhei com ele para
vos pedir que entre nós findem estes homizios e estas feias brigas
que malbaratam sangue de bons Cristãos… Senhor Tructesindo Ramires,
como vós venho de Reis. De D. Afonso de Portugal recebi a pranchada
de Cavaleiro. Toda a nobre raça de Baião se honra em mim…
Consenti em me dar a mão de vossa filha D. Violante, que eu quero e
que me quer, e mandai erguer a levadiça para que Lourenço ferido
entre no seu solar e eu vos beije a mão de pai.

Das andas, que estremeceram sobre os ombros dos besteiros, um desesperado
brado partiu:

– Não, meu pai!

E hirto na borda do eirado, sem descruzar os braços, o velho Tructesindo
retomou o brado – que por todo o terreiro da Honra rolou, mais arrogante e
mais cavo:

– Meu filho, antes de mim, te respondeu, vilão!

Como se uma pontoada de lança lhe topasse o peito, o Bastardo vacilou
na alta sela; e, colhido pelo repuxão das rédeas, o seu fouveiro
recuou alteando a testeira dourada. Mas, a um novo arremesso, repulou contra
a cancela. E Lopo de Baião, erguido sobre os estribos, gritava com
ânsia, com furor:

– Sr. Tructesindo Ramires, não me tenteis!…

– Arreda, vilão e filho de viloa, arreda! – clamou soberbamente o
velho, sem desprender os braços de sobre o levantado peito, na sua
rija imobilidade e teima, como se todo o corpo e alma fossem de rijo ferro.

Então o Bastardo, arrojando o guante contra o muro da barbacã,
rugiu, chamejante e rouco:

– Pois pelo sangue de Cristo e pela alma de todos os meus te juro, que se
me não dás neste instante essa mulher que eu quero e que me
quer, sem filho ficas, que por minhas mãos, diante de ti e nem que
todo o Céu acuda, lhe acabo o resto da vida!

Já na mão lhe lampejava um punhal. Mas num ímpeto de
sublime orgulho, um ímpeto sobre-humano, em que cresceu como outra
escura torre entre as torres da Honra, Tructesindo arrancara a espada:

– Com esta, covarde! com esta! Para que seja puro, não vil como o
teu, o ferro que atravessar o coração de meu filho!

Furiosamente, com as duas possantes mãos, arremessou a espada, que
rodopiou silvando e faiscando, se cravou no duro chão, onde tremia,
ainda faiscava, como se uma cólera heróica também a animasse.
E no mesmo relance, com um urro, um salto do ginete, o Bastardo, debruçado
do arção, enterrara o punhal na garganta de Lourenço
– em golpe tão cravado que o esguicho do sangue lhe salpicou a clara
face, as barbas de ouro.

Depois foi uma bruta abalada. Os quatro besteiros sacudiram para o chão
as andas, o corpo morto enrodilhado nos ramos – e atiraram pelo terreiro,
como lebres em clareira, atrás do monge que se agachava agarrado às
crinas da mula. Numa curta desfilada o Bastardo, os seis Cavaleiros, gritando
o alarme, mergulharam no arraial que estacara ao Cruzeiro. Um tumulto remoinhou
em torno ao devoto pilar. E em rodilhado tropel a mesnada desenfreou para
a Ribeira, varou a velha ponte, logo enublada em pó e sumida para além
do arvoredo, num fugidio coriscar de capelinas e de lanças apinhadas.

Uma alta grita, no entanto, atroara as muralhas de Santa Irenéia!
Virotes, flechas, balas de fundas assobiavam, despedidas no mesmo furioso
repente, sobre o bando de Baião: – mas apenas um dos besteiros que
carregara as andas tombou, estrebuchando, com uma flecha na ilharga. Pela
cancela das barreiras já Cavaleiros e donzéis de armas empurravam
desesperadamente para recolher o corpo de Lourenço Ramires. E Garcia
Viegas, os outros parentes, galgaram ao eirado da barbacã, donde Tructesindo
se não arredara, rígido e mudo, fitando as andas e seu filho
estatelado com elas sobre o terreiro da sua Honra. Quando, ao rumor, ele pesadamente
se voltou – todos emudeceram ante a serenidade da sua face, mais branca que
as brancas barbas, duma morta brancura de lápide, com os olhos ressequidos
e cor de brasa, a latejar, a refulgir, como os dois buracos dum forno. Com
a mesma sinistra serenidade, tocou no ombro do velho Ramiro, que tremia arrimado
ao seu chuço. E numa vagarosa e vasta voz:

– Amigo! cuida tu do corpo de meu filho, que a alma ainda hoje, por Deus!
lha vou eu sossegar!…

Afastou aqueles senhores emudecidos de assombro e de emoção
– e baixou pela gasta escada de madeira, que rangia sob o peso do enorme Rico-homem
carregado de ira e dor.

Nesse momento, entre besteiros e serviçais que se atropelavam – o
corpo de Lourenço Ramires transpunha o portelo das barbacãs,
segurado pelo formoso Leonel e por Mendo de Briteiros, ambos afogueados de
lágrimas e rouquejando ameaças furiosas contra a raça
de Baião. Atrás o trôpego Ordonho gemia, abraçado
à espada de Tructesindo, que apanhara no chão do Terreiro e
que beijava como para a consolar. À borda do fosso uma aveleira espalhava
a sombra leve num bronco tabuão pregado sobre toros – de onde, aos
domingos, com o adanel dos besteiros, Lourenço dirigia os jogos de
besta e frecha, distribuindo fartamente as recompensas de bolos de mel e de
vinho em pichéis. Sobre essas tábuas o estiraram – recuando
todos depois, enquanto aterradamente se benziam. Um Cavaleiro de Briteiros,
temendo por aquela alma desamparada e sem confissão, correra à
capela da Alcáçova procurar Frei Múncio. Outros, rodeando
toda a muralha até o Baluarte-Velho, gritavam, com desesperados acenos,
para o torreão escalavrado, onde, como um mocho, habitava o Físico.
Mas o certeiro punhal do Bastardo acabara o denodado Lourenço, flor
e regra de Cavaleiros por toda a terra de Riba-Cávado… E que lastimoso
e desfeito – com suja terra na face, a garganta empastada de sangue negro,
as malhas do saio rotas sobre os ombros e embebidas nas carnes retalhadas,
e nua, sem greva, toda inchada e roxa, a perna ferida em Canta-Pedra, onde
mais sangue e lama se empastavam!

Tructesindo descia, lento e rígido. E as secas brasas dos seus olhos
mais se incendiam, enquanto, através do dorido silêncio, se acercava
do corpo de seu filho. Diante do banco ajoelhou, agarrou a arrefecida mão
que pendia; e, junto à face manchada de sangue e terra, segredou, de
alma para alma, num abafado murmúrio, que não era de despedida
mas de alguma suprema promessa, e que findou num beijo demorado sobre a testa,
onde uma réstia de sol rebrilhou, dardejada dentre as folhas da aveleira.
Depois erguido num arrebate, atirando o braço como para nele recolher
toda a força da raça, gritou:

– E agora, senhores, a cavalo, e vingança brava!

Já pelos pátios, em torno da Alcáçova, corria
um precipitado fragor de armas. Aos ásperos comandos dos almocadéns
as filas de besteiros, de arqueiros, de fundibulários rolavam dos adarves
dos muros para cerrar as quadrilhas. Rapidamente, os cavalariços da
carga amarravam sobre o dorso das mulas os caixotes do almazém, os
alforjes da trebalha. Pelas portas baixas da cozinha, peões e sergentes,
antes de largar, bebiam à pressa uma conca de cerveja. E no campo das
barreiras os Cavaleiros, chapeados de ferro, carregadamente se içavam,
com a ajuda dos donzéis, para as altas selas dos ginetes – logo ladeados
pelos seus infanções e acostados, que aprumavam a lança
sobre o coxote assobiando aos lebréus.

Enfim o Alferes, Afonso Gomes, sacou da funda e desfraldou o pendão
num embalanço largo em que as asas do Açor negrejaram, abertas,
como soltando o vôo enfurecido. O grito agudo do Adail ressoara por
toda a cerca – ala! ala! De cima de um marco de pedra, junto ao postigo da
barbacã, Frei Múncio estendia as magras mãos ainda trêmulas,
abençoava a hoste. Então Tructesindo, sobre o seu murzelo, recebeu
do velho Ordonho a espada, de que tão terrivelmente se apartara. E,
estendendo a reluzente folha para as torres da sua Honra como para um altar,
bradou:

– Muros de Santa Irenéia, não vos torne eu a ver, se em três
dias, de sol a sol, ainda restar sangue maldito nas veias do traidor de Baião!

E, escancaradas as barreiras, a cavalgada tropeou em torno ao pendão
solto – enquanto, na torre de Almenara, sob o parado esplendor da sesta de
agosto, o sino grande começava a tanger a finados.

Quando Gonçalo à tarde, enterrado na poltrona à varanda,
releu este Capítulo de sangue e furor sobre que se esfalfara durante
a semana, pensou “que o lance impressionaria”.

Sentiu então o apetite de recolher sem demora os louvores merecidos
– e de mostrar a Gracinha e ao Padre Soeiro os três Capítulos
completos antes de remeter o manuscrito para os Anais. E mesmo lhe convinha
– porque a erudição arqueológica do Padre Soeiro forneceria
talvez algum traço novo, bem Afonsino, que mais avivasse aquela ressurreição
da Honra de Santa Irenéia e dos seus senhores formidáveis. Imediatamente
resolveu partir de manhã para Oliveira com o seu trabalho – que, depois
de esmiuçado pelo Padre Soeiro, confiaria ao procurador de D. Arminda
Vilegas para ele o copiar naquela sua formosa letra, tão celebrada
em todo o Distrito e apenas igualada (nas maiúsculas) pela do Escrivão
da Câmara Eclesiástica.

Sacudia já da poeira uma antiga pasta de marroquim para transportar
a Obra amada – quando o Bento empurrou a porta, ajoujado com uma cesta de
vime que uma toalha de rendas cobria.

– Um presente.

– Um presente… De quem?

– Da Feitosa, das senhoras.

– Bravo!

– E com uma carta, que vem pregada na toalha.

Com que curiosidade Gonçalo despedaçou o sobrescrito! Mas,
apesar de lacrado com um pomposo selo de Armas, apenas continha linhas a lápis
num bilhete de visita da prima Maria Mendonça:

– “Ontem ao jantar contei quanto o primo Gonçalo gosta de pêssegos
sobretudo aboborados em vinho, e a Anica toma por isso a liberdade de lhe
mandar esse cestinho de pêssegos da Feitosa, que como sabe são
falados em todo o Portugal… Mil saudades”.

– Gonçalo imaginou logo no fundo da cesta, debaixo dos pêssegos,
docemente escondida, uma cartinha da D. Ana!

– Bem! São pêssegos… Deixa ai sobre uma cadeira…

– Era melhor que os levasse já para a copa, Sr. Dr., para os arrumar
na prateleira…

– Deixa sobre a cadeira!

Apenas o Bento cerrara a porta, estendeu no chão a toalha, entornou
cuidadosamente por cima os pêssegos formosos que perfumavam a Livraria.
No fundo da cesta encontrou apenas folhas de palra. Levemente desconsolado,
cheirou um pêssego. Depois considerou que os pêssegos, arranjados
por ela, com parra que ela apanhara na latada, sob toalha que ela escolhera
no armário, formavam na sua mudez cheirosa um recadinho sentimental.
Ainda agachado na esteira, comeu o pêssego: – e recolocou os outros
na cesta para os levar a Gracinha.

Mas, ao outro dia, às duas horas, já com a parelha do Torto
engatada à caleche, já com as luvas calçadas para a jornada
de Oliveira, recebeu uma inesperada visita a visita do Sr. Visconde de Rio-Manso.
Descalçando as luvas o Fidalgo pensava: – “O Rio-Manso! Que me
quererá esse casmurro?” – Na sala, pousado à beira do canapé
de veludo verde e esfregando os joelhos, o Visconde contou que de volta de
Vila-Clara e diante do portão da Torre vencera o seu teimoso acanhamento
para apresentar os seus respeitos ao Sr. Gonçalo Ramires. E não
só para esse gostoso dever – mas também (como soubera que S.
Exa. se propunha Deputado pelo Circulo) para lhe oferecer na freguesia de
Canta-Pedra o seu préstimo e os seus votos…

Gonçalo, risonho e pasmado, saudava, torcia embaraçadamente
o bigode. E o Visconde de Rio-Manso não estranhava aquele pasmo porque
decerto o Sr. Gonçalo Ramires o conhecera sempre como ferrenho Regenerador…
Mas então! Ele pertencia à geração, agora bem
rareada, que antepunha aos deveres da Política os deveres da gratidão:
– e além da simpatia que lhe merecia o Sr. Gonçalo Ramires (pelo
que constava em todo o Distrito do seu talento, da sua afabilidade, da sua
caridade) também conservava para com S. Exa. uma divida de gratidão,
ainda aberta, não por indiferença, mas por timidez…

– V. Exa. não adivinha, Sr. Gonçalo Mendes Ramires?… Não
se lembra?

– Não, realmente, Sr. Visconde, não me…

Pois uma tarde o Sr. Gonçalo Mendes Ramires passava a cavalo pela
quinta da Varandinha, quando a sua neta, brincando no terraço (aquele
terraço gradeado donde se curva uma magnólia), deixou escapar
uma péla para a estrada. O Sr. Gonçalo Mendes Ramires, rindo,
apeou imediatamente, apanhou a péla, e, para a restituir à menina
debruçada da grade, abeirou a égua do muro depois de montar
– e com que ligeireza e garbo!…

– V. Exa. não se lembrava?

– Sim, sim, agora…

Pois no ladrilho do terraço, rente da grade, pousava um jarro cheio
de cravos. O Sr. Gonçalo Mendes, depois de gracejar com a menina (que,
louvado Deus, não era acanhada!) pediu um cravo, que ela escolheu –
e que lhe deu, toda séria, como uma senhora. E ele, que observara da
janela do seu quarto, pensava: – “Ora aí está! Este Fidalgo
da Torre, um tão grande Fidalgo, que amável!” – Oh S. Exa.
não tinha que rir e corar… A gentileza fora grande – e a ele, avô,
parecera imensa! Mas não ficara somente na péla apanhada…

– O Sr. Gonçalo Mendes Ramires não se recorda?…

– Sim, Sr. Visconde. com efeito, agora…

Pois, logo no outro dia, o Sr. Gonçalo Mendes Ramires mandara da Torre
um precioso cesto de rosas, com o seu bilhete, e numa linha este gracejo:
– “Em agradecimento dum cravo, rosas à Sra. D. Rosa”.

Gonçalo quase pulou na cadeira, divertido:

– Sim, sim, Sr. Visconde, perfeitamente!,,, Agora me recordo!

Pois desde essa tarde ele sempre almejara por uma oportunidade de mostrar
ao Sr, Gonçalo Mendes Ramires o seu reconhecimento, a sua simpatia,
Mas quê! era tímido, vivia muito retirado,,, Nessa manhã,
porém, em Vila-Clara, soubera pelo Gouveia que S, Exa. se apresentava
Deputado pelo Círculo, Apesar de ser eleição tão
segura, já pela influência do Sr, Ramires, já pela influência
do Governo, logo pensara: – “Bem, aí está a ocasião!”
E agora oferecia a S. Exa., na freguesia de Canta-Pedra, o seu préstimo
e os seus votos.

Gonçalo murmurou, enternecido:

– Realmente, Sr. Visconde, nada me podia sensibilizar mais do que uma oferta
tão espontânea, tão…

– Sou eu que me sensibilizo por V. Exa. aceitar. E agora não falemos
mais nesse meu pobre préstimo e nesses meus pobres votos… Pois V.
Ex. tem aqui uma venerável vivenda.

E como o Visconde aludia ao desejo, já nele antigo, de admirar de
perto a famosa torre, mais velha que Portugal – ambos desceram ao pomar. O
Visconde, com o guarda-sol ao ombro, pasmou em silêncio para a torre:
reconheceu (apesar de liberal) o prestigio que resulta duma tão alta
linhagem como a dos Ramires; e gabou sinceramente o laranjal. Depois, sabendo
que o Pereira da Riosa arrendara a quinta, invejou ao Sr. Ramires tão
cuidadoso e honrado rendeiro… – Diante do portão, o char-à-bancs
do Visconde esperava, atrelado de duas mulas lustrosas e nédias. Gonçalo
admirou as mulas. E, abrindo a portinhola, suplicou ao Sr. Visconde que beijasse
por ele a mãozinha da Sra D. Rosa. Comovido, o Visconde confessou uma
ousadia, uma esperança – e era que S. Exa. um dia, à sua escolha,
parasse em Canta-Pedra, jantasse na quinta, para conhecer mais intimamente
a menina da péla e do cravo…

– Mas com imensa honra!.. E desde já me proponho a ensinar à
Sra. D. Rosa. se ela o não sabe, o jogo da péla à antiga
portuguesa.

O Sr. Visconde saudou, banhado de gosto e riso, com a mão sobre o
coração.

Gonçalo, trepando as escadas, murmurava: – “Oh senhores, que
simpático homem! E que generoso homem, que paga rosas com votos! Ora
vejam como as vezes, por uma pequenina atenção, se ganha um
amigo! Com certeza, para a semana vou a Canta-Pedra jantar”… Homem
encantador!’

E foi num ditoso estado de alma que acomodou na caleche a pasta de marroquim
com o manuscrito, o cesto sentimental dos pêssegos da D. Ana – e acendeu
um charuto, e saltou á almofada, e tomou as rédeas para lançar,
num trote alegre até Oliveira, a parelha branca do Russo.

No largo de El-Rei, antes de apear, perguntou logo ao Joaquim da Porta notícias
dos senhores. Os senhores todos muito bem, graças a Deus… O Sr. José
Barrolo partira de manhã a cavalo para a quinta do Sr Barão
das Marges, só recolhia á noite…

– E o Sr Padre Soeiro?

– O Sr. Padre Soeiro, creio que está para casa da Sra. D. Arminda…

– E a Sra. D. Graça?

– A Sra. D. Graça desceu há um bocadinho grande para o Mirante,
de chapéu… Naturalmente ia à Igreja das Mônicas.

– Bem. Leva esse cesto de pêssegos e dize ao Joaquim da Copa que os
ponha na mesa, assim mesmo no cesto, com as folhas… E que me subam ao quarto
água quente.

O relógio da parede, na sala de espera, gemia preguiçosamente
as cinco horas. O palacete repousava num claro silêncio. E, depois da
poeira e dos solavancos da estrada, pareceu mais doce a Gonçalo a frescura
do seu quarto com as quatro janelas abertas sobre o jardim regado e sobre
a cerca das Mônicas. Cuidadosamente, guardou logo numa gaveta da cômoda
a pasta preciosa de marroquim. Uma criada de olhos repolhudos entrara com
o jarrão d’água quente: – e o Fidalgo, como sempre, chasqueou
a moça sobre os lindos sargentos de Cavalaria, cujo quartel tentador
dominava o lavadouro da quinta, e retinha as raparigas da casa ensaboando
todo o dia com paixão. Depois ainda se demorou, mudando o fato empoeirado,
assobiando vagamente, encostado à varanda sobre a calada rua das Tecedeiras.
O sino das Mônicas lançou um lindo repique… E Gonçalo,
enfastiado da sua solidão, decidiu descer pelo terraço do jardim,
e surpreender Gracinha nas suas devoções, na Igrejinha.

Embaixo, no corredor, cruzou o Joaquim da Copa:

– Então o Sr. Barrolo hoje não janta?

– O Sr. Barrolo foi jantar com o Sr. Barão das Marges, na quinta…
São os anos da menina. Naturalmente só recolhe à noite.

Gonçalo, no jardim, ainda tardou por entre os alegretes, compondo
para o casaco um ramo de flores ligeiras. Depois rodeou a estufa, sorrindo
da porta com que o Barrolo a enriquecera, uma porta envidraçada, arqueada
em ferradura, com um monograma de cores rutilantes; e meteu pela rua que conduzia
ao repuxo, coberta de silêncio e penumbra pela rama enlaçada
dos seus altos loureiros. Adiante, circundado de bancos de pedra, de árvores
de aroma e flor, cantava dormentemente o fino repuxo num tanque redondo, de
borda larga, onde se espaçavam grossos vasos de louça branca
com o brasão ramalhudo dos Sás. Certamente na véspera
ou de manhã se lavara o tanque, porque na água muito transparente,
sobre as lajes muito claras, nadavam com redobrada vivacidade, em lampejos
rosados, os peixes que Gonçalo assustou mergulhando e agitando a bengala.
E daquela borda do tanque já ele avistava ao fundo de outra rua, debruada
de dálias abertas, o Mirante – uma construção do século
XVIII, simulando um Templozinho grego, cor de rosa desbotado, com um gordo
Cupido sobre a cúpula, e janelinhas de rocalha entre o meio-relevo
das colunas caneladas por onde trepavam jasmineiros.

Gonçalo arrancou, como costumava, folhas dum ramo de lúcia-lima
para esmagar e perfumar as mãos; e continuou para o Mirante, vagarosamente,
por entre as dálias apinhadas. Na aléia, novamente ensaibrada,
os sapatos finos de verniz que calçara pousavam sem rumor no saibro
mole. E assim, num silêncio de sombra indolente, se acercou do Mirante
– e duma das janelinhas que, mal cerrada, conservava corrida por dentro a
persiana de tabuinhas verdes. Rente dessa janela era a escada de pedra, que,
do elevado e comprido terraço sobre que se estendia o jardim, comunicava
com a encovada rua das Tecedeiras, quase em frente à Capela das Mônicas.
E Gonçalo, sem pressa, descia – quando, através da persiana
rala, sentiu dentro do Mirante um sussurro, um cochichar perturbado. Sorrindo,
pensou que alguma das criadas da casa se refugiara nesse Templozinho de Amor
com um dos sargentos terríveis de Cavalaria,,, Mas, não! impossível!
Pois se, momentos antes, Gracinha roçara aquela janela e pisara aquela
escada, no seu caminho para as Mônicas! E então outra idéia
o varou como uma espada – e tão dolorosa que recuou com terror da beira
do Mirante donde ela perversamente o assaltara. Já porém uma
desesperada curiosidade o agarrara, o empurrava – e colou a face à
persiana com a cautela de um espião. O Mirante recaíra em silêncio
– Gonçalo temia que o traíssem as pancadas do seu coração…
Santo Deus! De novo o murmúrio recomeçara, mais apressado, mais
turbado. Alguém suplicava, balbuciava: – “Não, não,
que loucura!” – Alguém urgia, impaciente e ardente: – “Sim,
meu amor! sim, meu amor!” E a ambos os reconheceu – tão claramente
como se a persiana se erguesse e por ela entrasse toda a vasta claridade do
jardim. Era Gracinha! Era o Cavaleiro!

Colhido por uma imensa vergonha, no atarantado pavor de que o surpreendessem
junto do Mirante e da torpeza escondida – enfiou pela rua das dálias,
encolhido, com os sapatos leves no saibro mole, costeou o repuxo por sob a
ramaria dos arbustos, remergulhou na escuridão dos loureiros, deslizou
sorrateiramente por trás da estufa – penetrou no sossego do Palacete.
Mas o murmúrio do Mirante ainda o envolvia, mais desfalecido, mais
rendido – “Não, não, que loucura!… Sim, sim, meu amor!…”

Abalou através das salas desertas como uma sombra acossada; escorregou
abafadamente pela escadaria de pedra, varou o portão numa carreira,
espreitando, com medo do Joaquim da Porta. No largo parou, diante da grade
do relógio do sol. Mas o sussurro do Mirante errava por todo o largo
como um vento enroscado, raspando as lajes, batendo as barbas dos Santos sobre
o portal da Igreja de S. Mateus, redemoinhando nos telhados musgosos da Cordoaria…-
“Não, não, que loucura! Sim, sim! meu amor!” Então
Gonçalo sentiu a ansiedade desesperada de escapar para longe, para
imensamente longe do largo, do Palacete, da cidade, de toda aquela vergonha
que o trespassava. Mas uma carruagem?… Pensou na alquilaria do Maciel, a
mais retirada, para além das últimas casas, na estrada do Seminário.
E cosido com os muros baixos dessas ruas pobres, correu, mandou engatar uma
caleche fechada.

Enquanto esperava à porta, num banco, passou pela estrada uma lenta
carroça com móveis, panelas de cozinha, um grande colchão
onde se alastrava uma nódoa. Bruscamente Gonçalo recordou o
divan que guarnecia o Mirante. Era enorme, de mogno, todo coberto de riscadinho,
com molas lassas que rangiam. E de repente o murm&uacuacute;rio recomeçou,
cresceu, rolando com fragor de trovão por sobre os casebres vizinhos,
por sobre a cerca do Seminário, por sobre Oliveira espantada: – “Não,
não, que loucura! Sim, sim, meu amor!”

Com um salto, Gonçalo gritou para dentro, para a cavalariça
escura:

– Então, que inferno! não acaba, essa carruagem?

– Já a largar, meu Fidalgo.

No relógio da Piedade sete horas batiam – quando ele se atirou para
a caleche, e fechou os stores perros, e se enterrou no fundo, bem sumido,
esmagado, com a sensação que o Mundo tremera, e as mais fortes
almas se abatiam, e a sua Torre, velha como o Reino, rachava, mostrando dentro
um montão ignorado de lixo e de saias sujas.

CAPÍTULO IX

À porta da cozinha, sacudindo um sobrescrito já amarrotado,
Gonçalo ralhava com a Rosa cozinheira:

– Oh Rosa! pois tanto lhe recomendei que não escrevesse à mana
Graça?… Que teimosa! Então não arranjávamos
a pequena, sem essas lamúrias para Oliveira? Graças a Deus,
a Torre é larga bastante para mais uma criancinha!

É que morrera a Críspola – a desgraçada viúva,
vizinha da Torre, que com um rancho miúdo de dois pequenos, três
raparigas, definhava no catre desde a Páscoa. E agora Gonçalo,
que mantivera o casebre em fartura, andava acomodando as pobres crianças
– já por cuidado dele muito asseadamente vestidas de luto. A rapariga
mais velha (também Críspola), sempre encafuada na cozinha da
Torre, passava regularmente a “ajudante da Rosa”, com soldada. Um
dos rapazes, de doze anos, espigado e esperto, também Gonçalo
o empregava na Torre como andarilho, para os recados, com fardeta de botões
amarelos. O outro, mole e ranhoso, mas com o jeito e o amor de carpinteirar,
já Gonçalo, sob o patrocínio da tia Louredo, o colocara
em Lisboa, na Oficina de S. José. Duma das outras raparigas se encarregava
a mãe de Manuel Duarte, amorável senhora que habitava uma quinta
formosa junto a Treixedo, e adorava Gonçalo de quem se considerava
“vassala”. Mas para a mais novinha e a mais fraquinha não
se arranjava amparo sólido. A Rosa lembrara então – “que
certamente a Sra. D. Maria da Graça recolheria a criaturinha…”
Gonçalo rosnara com secura: – “Oh! por uma côdea mais de
pão não se necessita incomodar a cidade de Oliveira!” Rosa,
porém, enlevada na obra, desejando para pequerrucha tão franzina
e loira o agasalho duma senhora, escrevera a Gracinha, pela esmerada letra
do Bento, uma verbosa carta com o pedido, e toda a história lamentosa
da Críspola, e louvores devotos à caridade do Sr. Doutor. E
era a resposta de Gracinha, demorada mas enternecida, com a recomendação
“de lhe mandarem logo a pobre criança” – que impacientava
o Fidalgo.

Porque, desde a tarde abominável do Mirante, estranhamente se apoderara
dele uma repugnância quase pudica em comunicar com os Cunhais! Era como
se esse Mirante e a torpeza abrigada dentro das suas paredes cor-de-rosa empestassem
o jardim, o Palacete, o largo d’El-Rei, toda a cidade de Oliveira, e ele agora,
por asseio moral, recuasse ante essa região empestada onde o seu coração
e o seu orgulho sufocavam… Logo depois da sua fuga recebera do bom Barrolo
uma carta espantada: – “Que telha foi essa? Por que não esperaste?
Eu, quando voltei à noite da quinta do Marges, até fiquei com
cuidado. E não imaginas como a Gracinha anda nervosa! Soubemos da partida,
por acaso, por um cocheiro do Maciel. Já hoje comemos os pêssegos,
mas não compreendemos!…

Gonçalo respondeu secamente num bilhete: “Negócios”.
Depois recordou que deixara na gaveta do seu quarto o manuscrito da Novela;
e mandou um moço da quinta, de madrugada, com um recado quase secreto
ao Padre Soeira, “para que entregasse a pasta ao portador, bem embrulhada,
sem contar aos senhores…” Entre a Torre e os Cunhais só desejava
separação e silêncio.

E nos encerrados dias que passou na Torre (sem se arriscar a Vila-Clara,
no terror de que a vergonha do seu nome já andasse rosnada pelo estanco
do Simões ou pelo armazém do Ramos) não cessou de vibrar
numa cólera espalhada que a todos varava… Cólera contra a
irmã que, calcando pudor, altivez de raça, receio dos escárnios
de Oliveira, tão fácil e estouvadamente como se calcam as flores
desbotadas de um tapete, correra ao Mirante, ao macho da bigodeira, apenas
ele lhe acenara com o lenço almiscarado! Cólera contra o Barrolo,
o bochechudo bacoco, que empregava os seus bacocos dias celebrando o Cavaleiro,
arrastando o Cavaleiro para o largo d’El-Rei, escolhendo na adega os vinhos
mais finos para que o Cavaleiro aquecesse o sangue, ajeitando as almofadas
de todos os canapés para que o Cavaleiro saboreasse estiradamente o
seu charuto e a graça presente de Gracinha! Enfim cólera contra
si, que, pela baixa cobiça de uma cadeira em S. Bento, abatera a única
muralha segura entre a irmã e o homem da marrafa luzente – que era
a sua inimizade, aquela escarpada inimizade, sempre, desde Coimbra, tão
rijamente reforçada e recaiada!… Ah! todos três horrendamente
culpados!

Depois, uma tarde, enfastiado da solidão, ousou um passeio por Vila-Clara.
E reconheceu que na Assembléia, no estanco do Simões, na loja
do Ramos, os amores de Gracinha eram certamente tão ignorados como
se passassem nas profundidades da Tartária. Imediatamente a sua alma
doce, agora sossegada, se abandonou à doçura de tecer desculpas
sutis para todos os culpados daquela queda triste… Gracinha, coitada, sem
filhos, com tão molengo e insosso marido, alheia a todos os interesses
da inteligência, indolente mesmo para uma costura ou bordado cedera,
que mulher não cederia? à crédula e primitiva paixão
que lhe brotara na alma, nela se enraizara, lhe dera as suas únicas
alegrias do mundo e (influência ainda mais poderosa!) lhe arrancara
as suas únicas lágrimas! O Barrolo, coitado, era o Bacoco –
e como o “pilriteiro” da cantiga, incapaz de mais nobres frutos,
só produzia os “pilritos” da sua Bacoquice. E ele, coitado
dele, pobre, ignorado, irresistivelmente se rendera à fatal Lei de
Acrescentamento, que o levara, como a todos leva na ânsia de fama e
fortuna, a furar precipitadamente pela porta casual que se abre, sem reparar
na estrumeira que atravanca os umbrais… Ah realmente todos bem pouco culpados
diante de Deus que nos criou tão variáveis, tão frágeis,
tão dependentes de forças por nós ainda menos governadas
do que o Vento ou do que o Sol!

Não, irremissivelmente culpado – só o outro, o malandro da
grenha ondeada! Esse, em toda a sua conduta com Gracinha, desde estudante,
mostrara sempre um egoísmo atrevido, só punível como
puniam os antigos Ramires, com a morte depois dos tormentos, e a carcaça
posta aos corvos. Enquanto lhe agradou, na ociosidade dos longos estios, um
namoro bucólico sob os arvoredos da Torre – namorara. Quando considerou
que uma mulher e filhos lhe atravancariam a vida ligeira – traíra.
Logo que a antiga bem-amada pertenceu a outro homem – recomeçara o
cerco lânguido para colher, sem os encargos da paternidade, as emoções
do sentimento. E apenas esse marido lhe entreabre a sua porta – não
se demora, fende brutalmente sobre a presa! Ah como o avô Tructesindo
trataria vilão de tal vilania! Certamente o assava numa rugidora fogueira
diante das barbacãs – ou, nas masmorras da Alcáçova,
lhe entupia as goelas falsas com bom chumbo derretido…

Pois ele, neto de Tructesindo, nem sequer podia, quando encontrasse o Cavaleiro
nas ruas de Oliveira, carregar o chapéu sobre a testa e passar! A menor
diminuição nessa intimidade tão desastradamente reatada
– seria como a revelação da torpeza ainda abafada nas paredes
do Mirante! Toda Oliveira cochicharia, riria. – “Olha o Fidalgo da Torre!
Mete o Cavaleiro nos Cunhais com a irmã, e logo, passadas semanas,
rompe de novo com o Cavaleiro! Houve escândalo, e gordo!” – Que
delícia para as Lousadas! Não, ao contrário! agora devia
ostentar pelo Cavaleiro uma fraternidade tão larga e tão ruidosa
– que, pela sua largueza e o seu ruído, inteiramente tapasse e abafasse
o sujo enredo que por trás latejava. Fingimento torturante – e imposto
pela honra do nome! O sujo enredo bem guardado entre os mais densos arvoredos
do jardim, na mais cerrada penumbra do Mirante! – e por fora, ao sol, nas
praças de Oliveira, ele sempre com o braço carinhosamente enlaçado
no braço do Cavaleiro!

Os dias rolavam – e no espírito de Gonçalo não se estabelecia
serenidade. E sobretudo o amargurava sentir que era forçado a essa
intimidade vistosa com o Cavaleiro – tanto pelo cuidado do seu nome, como
pela conveniência da sua Eleição. Toda a sua altivez por
vezes se revoltava: – “Que me importa a Eleição! Que valor
tem uma encardida cadeira em S. Bento? Mas logo a seca Realidade o emudecia.
A Eleição era a única fenda por onde ele lograria escapar
do seu buraco rural; e, se rompesse com o Cavaleiro, esse vilão, vezeiro
a vilanias, imediatamente, com o apoio da horda intrigante de Lisboa, improvisaria
outro Candidato por Vila-Clara… Desgraçadamente ele era um desses
seres vergados que dependem. E a triste dependência de onde provinha?
Da pobreza – dessa escassa renda de duas quintas, abastança para um
simples, mas pobreza para ele, com a sua educação, os seus gostos,
os seus deveres de fidalguia, o seu espírito da sociabilidade.

E estes pensamentos lenta e capciosamente o empurraram a outro pensamento
– à D. Ana Lucena, aos seus duzentos contos… Até que uma manhã
encarou corajosamente uma possibilidade perturbadora: – casar com a D. Ana!
– Por que não? Ela claramente lhe mostrara inclinação,
quase consentimento… Por que não casaria com a D. Ana?

Sim! o pai carniceiro, o irmão assassino… Mas também ele,
entre tantos avós até os Suevos ferozes, descortinaria algum
avô carniceiro; e a ocupação dos Ramires, através
dos séculos heróicos, consistira realmente em assassinar. De
resto o carniceiro e o assassino, ambos mortos, sombras remotas, pertenciam
a uma Lenda que se apagava. D. Ana, pelo casamento, subira da Populaça
para a Burguesia. Ele não a encontrava no talho do pai, nem no valhacouto
do irmão – mas na quinta da Feitosa, já Rica-dona, com procurador,
com capelão, com lacaios, como uma antiga Ramires. Ah! sinceramente,
toda a hesitação era pueril – desde que esses duzentos contos,
de dinheiro muito limpo, de bom dinheiro rural, os trazia com o seu corpo,
mulher tão formosa e séria. Com esse puro ouro, e o seu nome,
e o seu talento, não necessitaria para dominar na Política a
refalsada mão do Cavaleiro… E depois que vida nobre e completa! A
sua velha Torre restituída ao esplendor sóbrio doutras eras;
uma lavoura de luxo no histórico torrão de Treixedo; as viagens
fecundas às terras que educam!… E a mulher que fornecia estes regalos
não lhes amargava o gozo, como em tantos casamentos ricos, com a sua
fealdade, os seus agudos ossos, ou a sua pele relentada… Não! Depois
do brilho social do dia não o esperava na alcova um mostrengo – mas
Vênus.

E assim, lentamente trabalhado por estas tentações, mandou
uma tarde um bilhete à prima Maria, à Feitoso, pedindo – para
se encontrarem, sós, nalgum passeio dos arredores, porque desejava
ter com ela uma conversazinha séria e íntima…” Mas três
imensos dias se arrastaram – e não apareceu a almejada carta da Feitoso.
Gonçalo concluiu que a prima Maria, tão esperta, farejando a
natureza da conversazinha e sem uma certeza para o alegrar, retardava, se
recusava. Atravessou então uma desolada semana, remoendo a melancolia
duma vida que sentia oca e toda feita de incertezas. O orgulho, um pudor complicado,
não lhe consentiam voltar a Oliveira, ao quarto donde implacavelmente
avistaria, por sobre o arvoredo, a cúpula do Mirante com o seu gordo
Cupido: – e quase o arrepiava a idéia de beijar a irmã na face
que o outro babujara! Sobre a Eleição descera um silêncio
de abóbada – e outra repugnância, mais acerba, lhe vedava escrever
ao Cavaleiro. João Gouveia gozava as suas férias na costa, de
sapatos brancos, apanhando conchinhas na praia. E Vila-Clara não se
tolerava nesse meado ardente de setembro – com o Titó no Alentejo onde
o levara uma doença do velho morgado de Cidadelhe, o Manuel Duarte
na quinta da mãe dirigindo as vindimas, e a Assembléia deserta
e adormecida sob o inumerável sussurro das moscas…

Para se ocupar e atulhar as horas, mais que por dever ou gosto de Arte, retomou
a sua Novela. Mas sem fervor, sem veia ágil. Agora era a sanhuda arrancada
de Tructesindo e dos seus Cavaleiros, correndo sobre o Bastardo de Baião.
Lance dificultoso – reclamando fragor, um rebrilhante colorido medieval. E
ele tão mole e tão apagado!… Felizmente, no seu Poemeto, o
tio Duarte recheara esse violento trecho de bem apinceladas paisagens, de
interessantes rasgos de guerra.

Logo na ribeira do Coice, Tructesindo encontrava cortada a machado a decrépita
ponte cujos rotos barrotes e tabuões carcomidos entulhavam no fundo
a corrente escassa. Na sua fuga o Bastardo acauteladamente a desmantelara
para deter a cavalgada vingadora. Então a pesada hoste de Santa Irenéia
avançou pela esguia ourela, ladeando os renques de choupos em demanda
do vau do Espigal… Mas que tardança! Quando as derradeiras mulas
de carga choutaram na terra de além-ribeira já a tarde se adoçava,
e nas poças d’água, entre as poldras, o brilho esmorecia, umas
ainda de ouro pálido, outras apenas rosadas. Imediatamente Dom Garcia
Viegas, o Sobedor, aconselhou que a mesnada se dividisse: – a peonagem e a
carga avançando para Montemor, esgueirada e calada, para esquivar recontros;
os senhores de lança e os besteiros de cavalo arrancando em dura carreira
para colher o Bastardo. Todos louvaram o ardil do Sabedor; e a cavalgada,
aligeirada das filas tardas de arqueiros e fundibulários, largou, soltas
as rédeas, através de terras ermas, depois por entre barrocais,
até aos Três-Caminhos, desolada chã onde se ergue solitariamente
aquele carvalho velhíssimo que outrora, antes de exorcizado por S.
Froalengo, abrigava no sábado mais negro de janeiro, ao clarão
de archotes enxofrados a Grande Ronda de todas as bruxas de Portugal. Junto
do carvalho Tructesindo sopeou a arrancada; e, alçado nos estribos,
farejava as três sendas que se trifurcam e se encovam entre ásperos,
lôbregos cerros de bravio e de tojo. Passara aí o Bastardo malvado?…
Ah! por certo passara e toda a sua maldade – porque no respaldo duma fraga,
junto a três cabras magras retouçando o mato, jazia, com os braços
abertos, um pobre pastorinho morto, varado por uma frecha! Para que o triste
cabreiro não soprasse novas da gente de Baião – uma bruta seta
lhe atravessara o peito escamado de fome, mal coberto de trapos. Mas por qual
das sendas se embrenhara o malvado? Na terra solta, raspada pelo vento suão
que rolava de entremontes, não apareciam pegadas revoltas de tropel
fugindo. E, em tal solidão, nem choça ou palhoça donde
vilão ou velha alapada espreitassem à levada do bando… Então,
ao mando do Alferes Afonso Gomes, três almograves despediram pelos três
caminhos à descoberta – enquanto os Cavaleiros, sem desmontar, desafivelavam
os morriões para limpar nas faces barbudas o suor que os alagava, ou
abeiravam os ginetes dum sumido fio d’água que à orla da chã
se arrastava entre ralo caniçal. Tructesindo não se arredou
de sob a ramaria do carvalho de S. Froalengo, imóvel sobre o murzelo
imóvel, todo cerrado no ferro da sua negra armadura, as mãos
juntas sobre a sela e o elmo pesadamente inclinado como em mágoa e
oração. E ao lado, com as coleiras eriçadas de pregos,
as sangrentas línguas penduradas, arquejavam, estirados, os seu dois
mastins.

Já no entanto a espera se alongava, inquieta, enfadonha quando o almograve
que metera pela senda de Nascente reapareceu num rolo de poeira, atirando
logo o alarde de longe, com a escuma alta. A hora escassa de carreira avistara
num cabeço uma hoste acampada, em arraial seguro, rodeado de estaca
e vala!…

– Que pendão?

– As treze arruelas.

– Deus louvado! – gritou Tructesindo, que estremeceu como acordando. – E
D. Pedro de Castro, o Castelão, que entrou com os Leoneses e vem pelas
senhoras Infantas!

Por esse caminho pois não se atrevera o Bastardo!… Mas já
pela senda de Poente recolhia outro almograve contando que entre cerros, num
pinhal, topara um bando de bufarinheiros genoveses, retardados desde alva,
porque um deles esmorecera com mal de febres. E então?… – Então,
pela borda do pinheiral apenas passara em todo o dia (no jurar dos genoveses)
uma companhia de truões voltando da feira de Grajelos. Só restava
pois o trilho do meio, pedregoso e esbarrancado como o leito enxuto de uma
torrente. E por ele, a um brado de Tructesindo, tropeou a cavalgada. Mas já
o crepúsculo tristíssimo descia – e sempre o caminho se estirava,
agreste, soturno, infindável, entre os cerros de urze e rocha, sem
uma cabana, um muro, uma sebe, rasto de rês ou homem. Ao longe, mais
ao longe, enfim, enxergaram a campina árida, coberta de solidão
e penumbra, dilatada na sua mudez até a um céu remoto, onde
já se apagava uma derradeira tira de poente cor de cobre e cor de sangue.
Então Tructesindo deteve a abalada, rente de espinheiros que se torciam
nas lufadas mais rijas do suão:

– Por Deus, senhores, que corremos em pressa vã e sem esperança!…
Que pensais, Garcia Viegas?

Todo o bando se apinhara; e uma fumarada subia dos ginetes arquejantes sob
as coberturas de malha. O Sabedor estendeu o braço:

– Senhores! O Bastardo, antes de nós, galgou de escapada essa campina
além, e meteu a Vale-Murtinho para pernoitar na Honra de Agredel, que
é bem afortalezada e parenta de Baião…

– E nós, pois, D. Garcia?

– Nós, senhores e amigos, só nos resta também pernoitar.
Voltemos aos Três-Caminhos. E de lá, em boa avença, ao
arraial do Sr. D. Pedro de Castro, a pedir agasalho.. A par de tamanho senhor
encontraremos mais fartamente que nos nossos alforjes o que todos, cristãos
e brutos, vamos necessitando, cevada, um naco de vianda, e de vinhos três
golpes rijos…

Todos bradaram com alvoroço: – ‘Bem traçado! bem traçado”…
– E de novo, pelo barranco pedregoso, a cavalgada trotou pesadamente para
os Três-Caminhos – onde já dois corvos se encarniçavam
sobre o corpo do pastorinho morto.

Em breve, ao cabo do caminho do Nascente, no cabeço alto, alvejaram
as tendas do arraial, ao clarão das fogueiras que por todo ele fumegavam.
O Adail de Santa Irenéia arrancou da buzina três sons lentos
anunciando Filho-de-Algo. Logo de dentro da estacada outras buzinas soaram,
claras e acolhedoras. Então o Adail galopou até o valado, a
anunciar às atalaias postadas nas barreiras, entre luzentes fogos de
almenara, a mesnada amiga dos Ramires. Tructesindo parara no córrego
escuro, que o pinheiral cerrado mais escurecia movendo e gemendo no vento.
Dois Cavaleiros, de sobreveste negra e capuz, logo correram pelo pendor do
outeiro – bradando que o Sr. D. Pedro de Castro esperava o nobre senhor de
Santa Irenéia e muito se prazia para todo seu regalo e serviço!
Silenciosamente Tructesindo desmontou; e com D. Garcia Viegas, e Leonel de
Samora e Mendo de Briteiros e outros parentes do solar, todos sem lança
ou broquel, descalçados os guantes, galgaram o cabeço até
a estacada, cujas cancelas se escancararam, mostrando, na claridade incerta
dos fogaréus sombrios, magotes de peões – onde, por entre os
bacinetes de ferro, surgiam toucas amarelas de mancebas e gorros enguizalhados
de jograis. Apenas o velho assomou aos barrotes dois infanções,
sacudindo a espada, bradaram:

– Honra! honra! aos Ricos-homens de Portugal!

As trompas misturavam o clangor ríspido aos rufos lassos dos tambores.
E por entre a turba, que caladamente recuara em alas lentas, avançou,
precedido por quatro Cavaleiros que erguiam archotes acesos, o velho D. Pedro
de Castro, o Castelão, o homem das longas guerras e dos vastos senhorios.
Um corselete de anta com lavores de prata cingia o seu peito já curvado,
como consumido por tamanhas fadigas de pelejar e tamanhas cobiças de
reinar. Sem elmo, sem armas, apoiava a mão cabeluda de rijas veias
a um bastão de marfim. E os olhos encovados faiscavam, com afável
curiosidade, na requeimada magreza da face, de nariz mais recurvo que o bico
de um falcão, repuxada a um lado por um fundo gilvaz que se sumia na
barba crespa, aguda e quase branca.

Diante do senhor de Santa Irenéia alargou vagarosamente os braços.
E com um grave riso que mais lhe recurvou, sobre a barba espetada, o nariz
de rapina:

– Viva Deus! Grande é a noite que vos traz, primo e amigo! Que não
a esperava eu de tanta honra, nem sequer de tanto gosto!…

Ao rematar este duro Capítulo, depois de três manhãs de
trabalho, Gonçalo arrojou a pena com um suspiro de cansaço.
Ah! já lhe entrava a fartura dessa interminável Novela, desenrolada
como um novelo solto – sem que ele lhe pudesse encurtar os fios, tão
cerradamente os emaranhara no seu denso Poema o tio Duarte que ele seguia
gemendo! E depois nem o consolava a certeza de construir obra forte. Esses
Tructesindos, esses Bastardos, esses Castros, esses Sabedores eram realmente
varões Afonsinos, de sólida substância histórica?…
Talvez apenas ocos títeres, mal engonçados em erradas armaduras,
povoando inverídicos arraiais e castelos, sem um gesto ou dizer que
datassem das velhas idades!

E ao outro dia não reuniu em todo o seu ser coragem para retomar aquela
sôfrega correria dos de Santa Irenéia sobre o bando escapadiço
de Baião. De resto já remetera três Capítulos da
Novela – já calmara as ânsias do Castanheiro. Mas a ociosidade
mais lhe pesou nessa semana, arrastada pelos canapés ou por entre os
buxos do jardim, fumando e tristemente sentindo que a Vida lhe fugia em fumo.
Para o enervar acrescia um aborrecimento de dinheiro – uma letra de seiscentos
mil réis, do derradeiro ano de Coimbra, sempre reformada, sempre avolumada,
e que agora o emprestador, um certo Leite, de Oliveira, reclamava com dureza.
O seu alfaiate de Lisboa também o importunava com uma conta pavorosa,
atulhando duas laudas. Mas sobretudo o desolava a solidão da Torre.
Todos os alegres amigos dispersos pela beira-mar ou nas quintas. A Eleição
encalhada como uma barca no lodo. A irmã decerto com o outro no Mirante.
Até a prima Maria, desatendendo ingratamente o seu tímido pedido
de uma “conversazinha”. E ele no seu quente casarão, sem
energia, imobilizado numa inércia crescente, como se cordas o travassem,
cada dia mais apertadas – e de homem se volvesse em fardo.

Uma tarde no seu quarto, vagaroso e sombrio, sem mesmo parolar com o Bento,
acabava de se vestir para montar a cavalo, espairecer num galope pelos caminhos
de Valverde – quando o pequeno da Críspola já estabelecido na
Torre como pajem, de fardeta de botões amarelos) bateu esbaforidamente
à porta. – Era uma senhora que parara ao portão, dentro duma
carruagem, pedia ao Fidalgo para descer…

– Não disse o nome’?

– Não, senhor. E uma senhora magra, puxada a dois cavalos, com redes…

A prima Maria! Com que alvoroço correu, agarrando no cabide do corredor
um velho chapéu de palha! E embaixo foi como se contemplasse a Deusa
da Fortuna na sua roda ligeira.

– Oh prima Maria, que surpresa!… Que felicidade!

Debruçada da portinhola da carruagem (a caleche azul da Feitosa),
D. Maria Mendonça, com um chapéu novo enramalhetado de lilases,
desculpou atrapalhadamente e rindo o seu silêncio. Recebera a carta
do primo muito atrasada… Sempre o fatal carteiro, trôpego e bêbedo…
Depois uns dias muito atarefados em Oliveira com a Anica, que preparava para
o inverno a casa da rua das Velas.

– E finalmente, como devia uma visita em Vila-Clara à pobre Venância
Rios, que tem estado doente, achei mais simples e mais completo parar na Torre…
E então?

Gonçalo sorria, embaraçado:

– Então, nada de grave, mas… É que desejava conversar consigo…
Por que não entra?

Abrira a portinhola. Ela preferia passear na estrada. E ambos se encaminharam
para o velho banco de pedra que os álamos abrigavam em frente ao portão
da Torre. Gonçalo sacudiu com o lenço a ponta do banco.

– Pois, prima Maria, eu desejava conversar… Mas é difícil,
tão difícil!… Talvez o melhor seja atacar a questão
brutalmente.

– Ataque.

– Então lá vai!… A prima acha que eu perco o meu tempo se
me dedicar à sua amiga D. Ana?

Pousada de leve à borda do banco, enrolando atentamente a seda preta
do guarda-solinho, Maria Mendonça tardou, murmurou:

– Não, acho que o primo não perde o seu tempo…

– Ah! acha?

Ela considerava Gonçalo, gozando a sua perturbação e
ansiedade.

– Jesus, prima!… Diga alguma coisa mais!

– Mas que quer que lhe diga mais? Já lhe declarei em Oliveira. Ainda
sou muito nova para andar com recadinhos de sentimento. Mas acho que a Anica
é bonita, é rica, é viúva…

Gonçalo arrancou do banco, erguendo os braços, em desolação.
E, como D. Maria também se erguera, ambos seguiram pela tira de relva
que orla os álamos. Ele quase gemia, desconsolado:

– Ora, bonita, viúva, rica… Para conhecer esses grandes segredos
não a incomodava eu, prima!… Que diabo! seja boa rapariga, seja franca!
A prima sabe, decerto já ambas conversaram… Seja franca. Ela tem
por mim alguma simpatia?

D. Maria parou, murmurou, riscando com a ponta do guarda-solinho o trilho
amarelado da relva:

– Pois está claro que tem…

– Bravo! Então, se daqui a um tempo, passados estes primeiros meses
de luto, eu me declarasse, me…

Ela dardejou a Gonçalo os espertos olhos:

– Santo Deus, como o primo por aí vai, a galope… Então é
uma paixão?

Gonçalo tirou o seu velho chapéu de palha, passou lentamente
os dedos pelos cabelos. E num imenso e triste desabafo:

– Olhe, prima! É sobretudo a necessidade de me acomodar na vida! Pois
não lhe parece?

– Tanto me parece que lhe indiquei o bom pouso… E agora adeus, passa das
cinco horas. Não me quero demorar por causa dos criados.

Gonçalo protestou, suplicou:

– Mais um bocadinho!… E tão cedo! Só outra coisa, com franqueza.
Ela é boa rapariga?

D. Maria voltara, ao cabo do renque de álamos, recolhendo à
caleche:

– Uma pontinha de gênio, para animar a existência. Mas muito
boa rapariga… E uma dona de casa admirável! O primo não imagina
como anda a Feitosa. A ordem, o asseio, a regularidade, a disciplina… Ela
olha por tudo, até pela adega, até pela cocheira!

Gonçalo esfregou radiantemente as mãos:

– Pois se daqui a um ano se realizar o grande acontecimento hei de gritar
por toda a parte que foi a prima Maria que salvou a Casa de Ramires!

– Por isso eu trabalho, para servir o brasão e o nome! – exclamou
ela, saltando ligeiramente para a caleche, como se fugisse, arremessada aquela
clara confissão.

O trintanário trepara à almofada. E enquanto os cavalos folgados
largavam, aos corcovos, D. Maria ainda gritou:

– Sabe quem encontrei em Vila-Clara? O Titó!

– O Titó?…

– Chegou do Alentejo, vem jantar consigo. Eu não o trouxe na carruagem
por decência, para o não comprometer…

E a caleche rolou – entre os risos e os doces acenos com que ambos se alagavam,
naquela nova concordância mais calorosa duma conspiração
sentimental.

Gonçalo largou logo alegremente para Vila-Clara, ao encontro do Titó.
E já o alvoroçava a idéia de colher do Titó, íntimo
da Feitosa, informações sobre a D. Ana, o seu gênio, os
seus modos. A prima Maria, por amor dos Ramires (sobretudo, coitada, para
proveito dos Mendonças!), idealizava a noiva. Mas o Titó, o
homem mais verídico do Reino, amando a Verdade com a antiga devoção
de Epaminondas, apresentaria D. Ana sem um enfeite nem um desenfeite. E o
Titó… Ah! sob o seu vozeirão troante, a sua indolência
bovina, o Titó possuía um espírito muito atento, muito
penetrante.

Logo à Portela os dois amigos se encontraram. E, apesar de separação
tão curta, o abraço foi estrondoso.

– Ó sõ Gonçalão!…

– Ó Titozinho querido! tens feito cá uma falta enorme!… E
teu irmão?

– O mano melhor, mas arrasado. Muito cartapácio e muita fêmea
para velho de sessenta anos. E ele lá o avisara: – “Mano João,
mano João! olhe que assim sempre agarrado aos papéis velhos
e às cachopas novas, o mano rebenta!” – E por cá? Essa
eleição?

– A eleição agora para outubro, nos começos de outubro…
De resto, sensaboria universal. Gouveia na costa, Manuel Duarte na vindima…
Eu secadote, murchote, sem veia, até sem apetite.

– Olha que eu venho jantar e convidei o Videirinha.

– Bem sei, já me disse a prima Maria, que parou um bocado na Torre…
Ela está na Feitosa com a D. Ana.

Durante um momento repisou sobre a intimidade da prima Maria na Feitosa,
com a tentação de desabafar, logo ali na estrada, sobre o inesperado
romance que desabrochara. Mas não ousou! Era um angustiado acanhamento,
como a vergonha de cobiçar assim todos os restos do pobre Lucena –
o Círculo e a viúva.

Então, conversando do Alentejo e do mano João (que contara
muitas antigualhas maçadoras sobre a genealogia dos Ramires), desceram
da Portela à Torre, com tenção de estirar o passeio até
aos Bravais. Mas, na Torre, Gonçalo desejou avisar a Rosa dos dois
convivas inesperados, senhores de tão poderoso garfo. Entraram pela
porta do pomar onde um fio lento d’água se atardava nos regueiros.
Aos brados galhofeiros do Fidalgo a Rosa acudiu, limpando as mãos ao
avental. O quê! dois convidados! Mesmo quatro, e mais valentes, que
graças a Deus nosso Senhor o jantarinho sobrava! Ainda de tarde comprara
a uma mulher da Costa um cesto de sardinhas, graúdas e gordas que regalavam!…
O Titó reclamou logo uma fritada tremenda de sardinha e ovos. E os
dois amigos atravessavam o pátio – quando Gonçalo reparou no
Bento, escarranchado no banco da latada, diante duma tigela, e areando com
entusiasmo um castão de prata lavrada, que emergia de dentro duma toalha
enrolada como duma bainha.

– Que castão é esse, Bento? assim embrulhado?

O Bento lentamente sacou da toalha torcida um chicote, escuro e comprido,
com três arestas afiadas como as dum florete.

– Nem o Sr. Dr. sabia! Estava no sótão. Agora de tarde andava
lá a escarafunchar por causa duma ninhada de gatos, e detrás
dum baú dou com umas esporas de prateleira e com este arrocho…

Gonçalo estudou o maciço castão de prata, sacudiu a
fina vara que zinia:

– Esplêndido chicote… Ó Titó, bem?… Afiado como um
cutelo. E antigo, muito antigo, com as minhas armas… De que diabo é
feito? baleia?

– De cavalo-marinho… Uma arma terrível. Mata um homem… O mano
João tem um, mas com castão de metal… Mata um homem!

– Bem – rematou Gonçalo. – Limpa e põe no meu quarto, Bento!
Passa a ser o meu chicote de guerra!

Á porta do pomar ainda encontraram o Pereira da Riosa, de quinzena
de cotim deitada aos ombros. Em breve, no dia de S. Miguel, o Pereira tomava
enfim a lavra da Torre. E Gonçalo gracejou, mostrando ao Titó
o lavrador famoso. Eis o homem! eis o grande homem que se preparava a tornar
a Torre uma falada maravilha de seara, vinha e horta! O Pereira coçava
a barba rala:

– E também a enterrar bom dinheiro! Enfim um gosto sempre valeu mais
que um vintém! E o Fidalgo, como patrão, merece terra em que
os olhos se esqueçam de regalados!…

– Oh, Sr. Pereira! – ribombou o Titó. – Então não se
esqueça de cuidar dos melões. É uma vergonha! Nunca na
Torre se comeu um bom melão!

– Pois para o ano, assim Deus nos conserve, já V. Exa. comerá
na Torre um bom melão!

Gonçalo abraçou ainda o esperto lavrador – e apressou para
a estrada, decidido a desenrolar toda a confidência ao Titó,
na solidão favorável do arvoredo dos Bravais. Mas, apenas recomeçaram
a caminhada, o mesmo enleio o travou – quase temendo agora as informações
do Titó, homem tão severo, de Moral tão escarpada. E
todo o demorado giro pelos Bravais o findaram, sem que Gonçalo desafogasse.
O crepúsculo descera, mole e quente, quando recolheram – conversando
sobre a pesca do sável no Guadiana.

Defronte do portão da Torre Videirinha esperava, dedilhando o violão
na penumbra dos álamos. Como a noite se conservava abafada, sem uma
aragem, jantaram na varanda, com dois candeeiros acesos. Logo ao desdobrar
o guardanapo o Titõ, vermelho e espraiado sobre a cadeira, declarou
“que graças ao Senhor da Saúde, a sede era boa!” Ele
e Gonçalo praticaram as usadas façanhas de garfo e de copo.
Quando o Bento serviu o café uma imensa e lustrosa lua nova surgia,
ao fundo da quinta escura, por trás dos outeiros de Valverde. Gonçalo,
enterrado numa cadeira de vime, acendeu o charuto com beatitude. Todos os
tédios e incertezas dessas semanas se despegavam da sua alma como cinza
apagada, brevemente varrida. E foi sentindo menos a doçura da noite,
que um sabor melhor à vida desanuviada, que exclamou:

– Pois, senhores, agora, está uma delícia!…

Videirinha, depois dum curto cigarro, retomara o violão. Através
da quinta, pedaços de muros caiados, algum trilho de rua mais descoberto,
a água do Tanque-Grande, rebrilhavam ao luar que resvalava dos cerros;
e a quietação do arvoredo, da claridade, da noite penetravam
na alma com adormecedora carícia. Titó e Gonçalo saboreavam
o famoso cognac de Moscatel, preciosa antigualha da Torre, silenciosamente
enlevados no Videirinha – que recuara para o fundo da varanda, se envolvera
em sombra. Nunca o bom cantador ferira as cordas com inspiração
mais enternecida. Até os campos, o céu inclinado, a lua cheia
sobre as colinas escutavam os queixumes do fado da Anosa. E no escuro, sob
a varanda, o pigarro da Rosa, os passos abafados dos criados, algum sumido
riso de rapariga, o bater das orelhas dum perdigueiro – eram como a presença
dum povo suavemente atraído pelo descante formoso.

Assim a noite se alongou, a lua subiu com solitário fulgor. Titó,
pesado do bródio, adormecera. E como sempre, para findar, Videirinha
atacou ardentemente o Fado dos Ramires:

Quem te verá sem que estremeça,
Torre de Santa Irenéia,
Assim tão negra e calada,
Por noites de lua cheia…

E lançou então uma quadra nova, que trabalhara nessa semana
com amor sobre uma erudita nota do bom Padre Soeiro. Era a glória magnífica
de Paio Ramires, Mestre do Templo – a quem o Papa Inocêncio, e a Rainha
Branca de Castela, e todos os Príncipes da Cristandade suplicam que
se arme, e corra em dura pressa, e liberte S. Luís Rei de França,
cativo nas terras de Egito…

Que só em Paio Ramires
Põe agora o mundo a esperança…
Que junte os seus Cavaleiros
E que salve o Rei de França!

E por este avô e tal façanha até Gonçalo se interessou
– acompanhando o canto, num trêmulo esganiçado, de braço
erguido:

Ai, que junte os seus Cavaleiros
E que salve o Rei de França!…

Ao rolar mais forte do coro Titó descerrou as pálpebras, arrancou
do canapé o corpanzil imenso – e declarou que marchava para Vila-Clara:

– Estou derreado! Sempre em jornada e sem dormir, desde ontem às quatro
da manhã que larguei de Cidadelhe… Caramba, dava agora, como aquele
Rei grego, um cruzado por um burro!

Então Gonçalo, animado pelo cognac, também se ergueu
com uma resolução quase alegre:

– O Titó, antes de saíres anda cá dentro que quero falar
contigo a respeito dum caso!

Agarrara um dos candeeiros, penetrou na sala de jantar onde errava o cheiro
de magnólias morrendo num vaso. E aí, sem preparação,
com os olhos bem decididos, bem cravados no Titó – que o seguira arrastadamente,
ainda se espreguiçava:

– O Titó, ouve lá e sê franco. Tu ias muito à
Feitosa… Que te parece aquela D. Ana?

Titó, que despertara como ao rebentar dum morteiro, considerou Gonçalo
com assombro:

– Ora essa! Mas a que propósito?…

Gonçalo atalhou, na pressa de colher rapidamente uma certeza:

– Olha! Eu para ti não tenho segredos. Nestas últimas semanas
houve ai umas conversas, uns encontros… Enfim, para resumir, se daqui a
tempos eu pensasse em casar com a D. Ana, creio que ela, por seu lado, não
recusava. Tu ias à Feitosa. Tu sabes… Que tal rapariga é ela?

Titó cruzara os braços violentamente:

– Pois tu vais casar com a D. Ana?

– Homem, não vou casar. Não sigo esta noite para a Igreja.
Por ora quero só informações… E de quem as posso ter,
mais francas e mais seguras, do que de ti, que és meu amigo e que a
conheces?

Titó não descruzara os braços levantando para o Fidalgo
da Torre a face honesta e severa:

Pois tu pensas em casar com a D. Ana, tu, Gonçalo Mendes Ramires?…

Gonçalo atirou um gesto de impaciência e fartura:

Oh! se me vens com a fidalguia e com o Paio Ramires…

O Titó quase berrou, na sua indignação:

– Qual fidalguia! É que um homem de bem, como tu, não pensa
em casar com uma criatura como ela!… Fidalguia?… Sim! Mas fidalguia de
alma e de coração!

Gonçalo emudeceu, trespassado. Depois, com uma serenidade a que se
forçara, argumentou, deduziu:

– Bem! tu então sabes outras coisas… Eu por mim sei que ela é
bonita e rica; sei também que é séria, porque nunca sobre
ela se rosnou nem aqui nem em Lisboa; são qualidades para se casar
com uma mulher… Tu agora afianças que se não pode casar com
ela. Portanto sabes outras coisas… Dize.

Foi então o Titó que emudeceu, imóvel diante do Fidalgo
como se o laço duma corda o colhesse e o travasse. Por fim, soprando,
com um esforço enorme:

– Tu não me chamaste para eu depor como testemunha… Em principio,
sem explicações, perguntas se podes casar com essa mulher. E
eu, sem explicações, em principio, declaro que não…
Que diabo queres mais?

Gonçalo exclamou, revoltado:

– Que quero? Pelo amor de Deus, Titó… Supõe tu que estou
doidamente apaixonado pela D. Ana, ou que tenho um interesse imenso em casar
com ela… Que não estou, nem tenho; mas supõe! Nesse caso não
se desvia um amigo dum ato em que ele está tão fundamente empenhado,
sem lhe apresentar uma razão, uma prova…

Assim apertado Titó baixou a cabeça, que coçou com desespero.
Depois acovardadamente, para escapar, adiou a contenda:

– Olha, Gonçalo, eu estou muito estafado. Tu não vais a esta
hora para a Igreja; e ela menos, que o outro marido ainda não arrefeceu
na cova. Então amanhã conversamos.

Atirou duas passadas enormes, empurrou a porta da varanda, berrando pelo
Videirinha:

– São que horas, Videira! Toca a abalar, que não dormi desde
Cidadelhe.

Videirinha, que preparava com esmero um grog frio, esvaziou atabalhoadamente
o copo, recolheu o violão precioso. E Gonçalo não os
deteve, esfregando silenciosamente as mãos, amuado com aquela recusa
do Titó tão desamiga e teimosa. Como sombras atravessaram uma
sala onde dormia, esquecida desde os Ramires do século XVIII, uma espineta
de charão. No patamar da escada que conduzia à portinha verde,
Gonçalo, para os alumiar, erguera um castiçal. Titó acendeu
um cigarro à vela. A sua mão cabeluda tremia.

– Então entendido… Apareço amanhã, Gonçalo.

– Quando quiseres, Titó.

E no seco assentimento do Fidalgo transparecia tanto despeito – que Titó
hesitou nos estreitos degraus que atulhava. Por fim desceu pesadamente.

Videirinha, já na estrada, considerava o céu, a luminosa serenidade:

– Que linda noite, Sr. Doutor!

– Linda, Videirinha… E obrigado. Você hoje tocou divinamente!

Gonçalo entrara na sala dos retratos, pousara apenas o castiçal
– quando, por baixo da varanda aberta, o vozeirão do Titó retumbou:

– Ó Gonçalo, desce cá abaixo.

O Fidalgo rolou pelos degraus com sofreguidão. Para além dos
álamos, no luar da estrada, Videirinha afinava o violão. E apenas
a face do Fidalgo surdiu na claridade da porta, o Titó, que esperava
com o chapéu para a nuca, desabafou:

– Oh Gonçalo, tu ficaste amuado… É tolice! E entre nós
não quero sombras. Então lá vai! Tu não podes
casar com essa mulher porque ela teve um amante. Não sei se antes ou
depois desse teve outro. Não há criatura mais manhosa, nem mais
disfarçada. Não me venhas agora com perguntas. Mas fica certo
que ela teve um amante. Sou eu que to afirmo: e tu sabes que eu nunca minto!

Bruscamente meteu à estrada, com os possantes ombros vergados. Gonçalo
não se movera de sobre os degraus de pedra, diante dos mudos álamos,
como ele imóveis. Uma palavra passara, irreparável, no macio
silêncio da noite e da lua – e eis o alto sonho que ele construíra
sobre a D. Ana e a sua beleza e os seus duzentos contos despenhado no lodo!
Lentamente subiu, repenetrou na sala. Por cima da chama alta da vela, num
painel fusco, uma face acordara, uma seca, amarelada face, de altivos bigodes
negros, que se inclinava, atenta como reparando. E longe, Videirinha espalhava
pelos campos adormecidos os ingênuos versos celebrando a glória
tamanha da Casa ilustre:

Que só em Paio Ramires
Põe agora o mundo esperança…
Que junte os seus Cavaleiros
E que salve o Rei de França!

CAPÍTULO X

Até noite alta Gonçalo, passeando pelo quarto, remoeu a amarga
certeza de que sempre, através de toda a sua vida (quase desde o colégio
de S. Fiel!), não cessara de padecer humilhações. E todas
lhe resultavam de intentos muito simples, tão seguros para qualquer
homem como o vôo para qualquer ave – só para ele constantemente
rematados por dor, vergonha ou perda! A entrada da vida escolhe com entusiasmo
um confidente, um irmão, que traz para a quieta intimidade da Torre
– e logo esse homem se apodera ligeiramente do coração de Gracinha
e ultrajosamente a abandona! Depois concebe o desejo tão corrente de
penetrar na Vida Política – e logo o Acaso o força a que se
renda e se acolha à influência desse mesmo homem, agora Autoridade
poderosa, por ele durante todos esses anos de despeito tão detestada
e chasqueada! Depois abre ao amigo, agora restabelecido na sua convivência,
a porta dos Cunhais, confiado na seriedade, no rígido orgulho da irmã
– e logo a irmã se abandona ao antigo enganador, sem luta, na primeira
tarde em que se encontra com ele na sombra favorável dum caramanchão!
Agora pensa em casar com uma mulher que lhe oferecia com uma grande beleza
uma grande fortuna – e imediatamente um companheiro de Vila-Clara passa e
segreda: – “A mulher que escolheste, Gonçalinho, é uma
marafona cheia de amantes!” Decerto essa mulher não a amava com
um amor nobre e forte! Mas decidira acomodar nos formosos braços dela,
muito confortavelmente, a sua sorte insegura – e eis que logo desaba, com
esmagadora pontualidade, a humilhação costumada. Realmente o
Destino malhava sobre ele com rancor desmedido!

– E por quê? – murmurava Gonçalo, despindo melancolicamente
o casaco. – Em vida tão curta, tanta decepção… Por
quê? Pobre de mim!

Caiu no vasto leito como numa sepultura – enterrou a face no travesseiro
com um suspiro, um enternecido suspiro de piedade por aquela sua sorte tão
contrariada, tão sem socorro. E recordava o presunçoso verso
do Videirinha, ainda nessa noite proclamado ao violão:

Velha Casa de Ramires
Honra e flor de Portugal!

Como a flor murchara! Que mesquinha honra! E que contraste o do derradeiro
Gonçalo, encolhido no seu buraco de Santa Irenéia, com esses
grandes avós Ramires cantados pelo Videirinha – todos eles, se História
e Lenda não mentiam, de vidas tão triunfais e sonoras! Não!
nem sequer deles herdara a qualidade por todos herdada através dos
tempos – a valentia fácil. Seu pai ainda fora o bom Ramires destemido
– que na falada desordem da romaria da Riosa avançava com um guarda-sol
contra três clavinas engatilhadas. Mas ele… Ali, no segredo do quarto
apagado, bem o podia livremente gemer – ele nascera com a falha, a falha de
pior desdouro, essa irremediável fraqueza da carne que, irremediavelmente,
diante de um perigo, uma ameaça, uma sombra, o forçava a recuar,
a fugir… A fugir de um Casco. A fugir dum malandro de suíças
louras que, numa estrada e depois numa venda, o insulta sem motivo, para meramente
ostentar pimponice e arreganho. Ah vergonhosa carne, tão espantadiça!

E a Alma… Nessa calada treva do quarto bem o podia reconhecer também,
gemendo. A mesma fraqueza lhe tolhia a Alma! Era essa fraqueza que o abandonava
a qualquer influência, logo por ela levado como folha seca por qualquer
sopro. Porque a prima Maria uma tarde adoça os espertos olhos e lhe
aconselha por trás do leque que se interesse pela D. Ana – logo ele,
fumegando de esperança, ergue sobre o dinheiro e a beleza de D. Ana
uma presunçosa torre de ventura e luxo. E a Eleição?
essa desgraçada Eleição? Quem o empurrara para a Eleição,
e para a reconciliação indecente com o Cavaleiro, e para os
desgostos daí emanados? O Gouveia, só com leves argúcias,
murmuradas por cima do cache-nez desde a loja do Ramos até a esquina
do Correio! Mas quê! mesmo dentro da sua Torre era governado pelo Bento,
que superiormente lhe impunha gostos, dietas, passeios, e opiniões
e gravatas! – Homem de tal natureza, por mais bem dotado na Inteligência,
é massa inerte a que o Mundo constantemente imprime formas várias
e contrárias. O João Gouveia fizera dele um candidato servil.
O Manuel Duarte poderia fazer dele um beberrão imundo. O Bento facilmente
o levaria a atar ao pescoço, em vez duma gravata de seda, uma coleira
de couro! Que miséria! E todavia o Homem só vale pela Vontade
– só no exercício da Vontade reside o gozo da Vida. Porque se
a Vontade bem exercida encontra em torno submissão – então é
a delícia do domínio sereno; se encontra em torno resistênciam
– então é a delícia maior da luta interessante. Só
não sai gozo forte e viril da inércia que se deixa arrastar
mudamente, num silêncio e macieza de cera… Mas ele, ele, descendendo
de tantos varões famosos pelo Querer – não conservaria, escondida
algures no seu Ser, dormente e quente como uma brasa sob cinza, uma parcela
dessa energia hereditária?… Talvez! nunca porém nesse peco
e encafuado viver de Santa Irenéia a fagulha despertaria, ressaltaria
em chama intensa e útil. Não! pobre dele! Mesmo nos movimentos
da Alma onde todo o homem realiza a liberdade pura – ele sofreria sempre a
opressão da Sorte inimiga!

Com outro suspiro mais se enterrou, se escondeu sob a roupa. Não adormecia,
a noite findava – já o relógio de charão, no corredor,
batera cavamente as quatro horas. E então, através das pálpebras
cerradas, no confuso cansaço de tantas tristezas revolvidas, Gonçalo
percebeu, através da treva do quarto, destacando palidamente da treva,
faces lentas que passavam…

Eram faces muito antigas, com desusadas barbas ancestrais, com cicatrizes
de ferozes ferros, umas ainda flamejando como no fragor de uma batalha, outras
sorrindo majestosamente como na pompa duma gala – todas dilatadas pelo uso
soberbo de mandar e vencer. E Gonçalo, espreitando por sobre a borda
do lençol, reconhecia nessas faces as verídicas feições
de velhos Ramires, ou já assim contempladas em denegridos retratos,
ou por ele assim concebidas, como concebera as de Tructesindo, em concordância
com a rijeza e esplendor dos seus feitos.

Vagarosas, mais vivas, elas cresciam dentre a sombra que latejava espessa
e como povoada. E agora os corpos emergiam também, robustíssimos
corpos cobertos de saios de malha ferrugenta, apertados por arneses de aço
lampejante, embuçados e fuscos mantos de revoltas pregas, cingidos
por faustosos gibões de brocado onde cintilavam as pedrarias de colares
e cintos – e armados todos, com as armas todas da História, desde a
dava goda de raiz de roble eriçada de puas até o espadim de
sarau enlaçarotado de seda e ouro.

Sem temor, erguido sobre o travesseiro, Gonçalo não duvidava
da realidade maravilhosa! Sim! eram os seus avós Ramires, os seus formidáveis
avós históricos, que, das suas tumbas dispersas corriam, se
juntavam na velha casa de Santa Irenéia nove vezes secular – e formavam
em torno do seu leito, do leito em que ele nascera, como a Assembléia
majestosa da sua raça ressurgida. E até mesmo reconhecia alguns
dos mais esforçados, que agora, com o repassar constante do Poemeto
do tio Duarte e o Videirinha gemendo fielmente o seu “fado”, lhe
andavam sempre na imaginação…

Aquele além, com o brial branco a que a cruz vermelha enchia o peitoral,
era certamente Gutierres Ramires, o d’Ultramar como quando corria da sua tenda
para a escalada de Jerusalém. No outro, tão velho e formoso,
que estendia o braço, ele adivinhava Egas Ramires, negando acolhida
no seu puro solar a El-Rei D. Fernando e à adúltera Leonor!
Esse, de crespa barba ruiva, que cantava sacudindo o pendão real de
Castela, quem, senão Diogo Ramires, o Trovador ainda na alegria da
radiosa manhã de Aljubarrota? Diante da incerta claridade do espelho
tremiam as fofas plumas escarlates do monão de Paio Ramires, que se
armava para salvar S. Luís Rei de França. Levemente balançado,
como pelas ondas humildes dum mar vencido, Rui Ramires sorria às naus
inglesas que ante aproa da sua Capitânia submissamente amainavam por
Portugal. E, encostado ao poste do leito, Paulo Ramires, pajem do Guião
de El-Rei nos campos fatais de Alcácer, sem elmo, rota a couraça,
inclinava para ele a sua face de donzel, com a doçura grave dum avô
enternecido…

Então, por aquela ternura atenta do mais poético dos Ramires,
Gonçalo sentiu que a sua Ascendência toda o amava – e da escuridão
das tumbas dispersas acudira para o velar e socorrer na sua fraqueza. Com
um longo gemido, arrojando a roupa, desafogou, dolorosamente contou aos seus
avós ressurgidos a arrenegada Sorte que o combatia e que sobre a sua
vida, sem descanso, amontoava tristeza, vergonha e perda! E eis que subitamente
um ferro faiscou na treva, com um abafado brado: – “Neto, doce neto,
toma a minha lança nunca partida!” E logo o punho duma clara espada
lhe roçou o peito, com outra grave voz que o animava: -“Neto,
doce neto, toma a espada pura que lidou em Ourique1 E depois uma acha de coriscante
gume bateu no travesseiro, ofertada com altiva certeza: – “Que não
derribará essa acha, que derribou as portas de Arzila9

Como sombras levadas num vento transcendente todos os avós formidáveis
perpassavam – e arrebatadamente lhe estendiam as suas armas, rijas e provadas
armas, todas, através de toda a História, enobrecidas nas arrancadas
contra a Moirama, nos trabalhados cercos de Castelos e Vilas, nas batalhas
formosas com o Castelhano soberbo… Era, em torno do leito, um heróico
reluzir e retinir de ferros. E todos soberbamente gritavam: – “Oh neto,
toma as nossas armas e vence a Sorte inimiga! Mas Gonçalo, espalhando
os olhos tristes pelas sombras ondeantes, volveu: – “Oh avós,
de que me servem as vossas armas – se me falta a vossa alma?…”

Acordou muito cedo, com a enredada lembrança dum pesadelo em que falara
a mortos – e, sem a preguiça que sempre o amolecia nos colchões,
enfiou um roupão, escancarou as vidraças. Que formosa manhã!
uma manhã dos fins de setembro, macia, lustrosa e fina; nem uma nuvem
lhe desmanchava o vasto, o imaculado azul; e o sol já pousava nos arvoredos,
nos outeiros distantes, com uma doçura outonal. Mas, apesar de lhe
respirar alentadamente o brilho e a pureza, Gonçalo permaneceu toldado
de sombras, das sombras da véspera, retardadas no seu espírito
oprimido, como névoas em vale muito fundo. E foi ainda com um suspiro,
arrastando tristonhamente as chinelas, que puxou o cordão da campainha.
O Bento não tardou com a infusa da água quente para a barba.
E acostumado ao alegre acordar do Fidalgo tanto estranhou aquele silencioso
e enrugado mover pelo quarto, que desejou saber se o Sr. Doutor passara mal
a noite…

– Pessimamente!

Bento declarou logo, com vivacidade e reprovação – que certamente
fizera mal ao Sr. Doutor tanto cognac de moscatel. Cognac muito adocicado,
muito excitante… Bom para o Sr. D. Antônio, homenzarrão pesado.
Mas o Sr. Doutor, assim nervoso, nunca devia tocar naquele cognac. Ou então,
meio cálice escasso.

Gonçalo ergueu a cabeça, na surpresa de encontrar logo ao começo
do seu dia e tão flagrante aquele domínio que todos sobre ele
se arrogavam – e de que tanto se lastimava, através de toda a amarga
noite! Eis ai o Bento mandando – marcando a sua ração de cognac!
E justamente o Bento insistia:

– O Sr. Doutor bebeu mais de três cálices. Assim não
convém… Eu também tive culpa em não tirar a garrafa…

Então, perante despotismo tão declarado, o Fidalgo da Torre
teve uma brusca revolta:

– Homem, não dês tantas leis. Bebo o cognac que preciso e que
quero!

Ao mesmo tempo, com a ponta dos dedos, experimentava a água na infusa:

– Esta água está morna! – exclamou logo. – Já me tenho
fartado de dizer! Para a barba, preciso sempre água a ferver.

O Bento, gravemente, mergulhou também o dedo na água:

– Pois esta água está quase a ferver… Nem para a barba se
necessita água mais quente.

Gonçalo encarou o Bento com furor. O quê! mais objeções,
mais leis!

– Pois vá imediatamente buscar outra água! Quando eu peço
água quente, pretendo que venha em cachão. Irra! tanta sentença!…
Eu não quero moral, quero obediência!

O Bento considerou Gonçalo através dum espanto que lhe inchara
a face. Depois, lentamente, com magoada dignidade, empurrou a porta, levando
a infusa. E já Gonçalo se arrependia da sua violência.
Coitado, não era culpa do Bento se a vida lhe andava a ele tão
estragada e sacudida! Depois, em casa tão antiga, não destoava
a tradição dos antigos aios. E o Bento com perfeito rigor lhes
reproduzia a rabugice e a lealdade! Mas ascendência, e livre falar bem
lhe cabiam – bem os merecia por tão longa, tão provada dedicação…

O Bento, ainda vermelho e inchado, voltava com a infusa fumegante. E Gonçalo
logo docemente, para o adoçar:

– Dia muito bonito, bem, Bento?

O velho rosnou, ainda amuado:

– Muito bonito.

Gonçalo ensaboava a face, rapidamente, na impaciência de reatar
com o Bento, de lhe restabelecer a supremacia amorável. E por fim mais
doce, quase humilde:

– Pois se achas o dia assim bonito, dou um passeio a cavalo antes do almoço.
Que te parece? Talvez me faça bem aos nervos… Com efeito, aquele
cognac não me convém… Então, Bento, faze o favor, grita
aí ao Joaquim que me tenha a égua pronta imediatamente. Com
certeza me acalma uma galopada… E no banho agora a água bem esperta,
bem quente. Também me acalma a água quente. Por isso necessito
sempre água bem quente, a ferver. Mas tu, com essas tuas velhas idéias…
Pois todos os médicos o declaram. Para a saúde água quente,
bem quente, a sessenta graus!

E depois do rápido banho, enquanto se vestia, abriu mais familiarmente
ao velho aio a intimidade das suas tristezas:

– Ah! Bento, Bento, o que eu verdadeiramente precisava para me calmar, não
era um passeio, era uma jornada… Trago a alma muito carregada, homem! Depois
estou farto desta eterna Vila-Clara, da eterna Oliveira. Muito mexerico, muita
deslealdade. Precisava terra grande, distração grande.

O Bento, já reconciliado, enternecido, lembrou que o Sr. Doutor brevemente,
em Lisboa, encontraria uma linda distração, nas Cortes.

– Eu sei lá se vou às Cortes, homem! Não sei nada, tudo
falha… Qual Lisboa!… O que eu necessito é uma viagem imensa, à
Hungria, à Rússia, a terras onde haja aventuras.

O Bento sorriu superiormente daquela imaginação. E apresentando
ao Fidalgo o jaquetão de velvetina cinzenta:

– Com efeito, na Rússia parece que não faltam aventuras. Anda
tudo a Chicote, diz o Século… Mas aventuras, Sr. Doutor, até
a gente as encontra na estrada… Olhe! o paizinho de V. Exa., que Deus haja,
foi lá embaixo diante do portão que teve a bulha com o Dr. Avelino
da Riosa, e que lhe atirou a chicotada, e que levou com o punhal no braço…

Gonçalo calçava as luvas de anta, mirando o espelho:

– Pobre papá, coitado, também teve pouca sorte… E por chicote.
ó Bento, dá cá àquele chicote de cavalo-marinho
que tu ontem areaste. Parece que é uma boa arma.

Ao sair o portão, o Fidalgo da Torre meteu a égua, sem destino,
num passo indolente, pela estrada costumada dos Bravais. Mas no Casal Novo,
onde dois pequenos jogavam a bola debaixo das carvalheiras, pensou em visitar
o Visconde de Rio-Manso. Certamente lhe consertaria os nervos a companhia
de tão sereno e generoso velho. E, se ele o convidasse a almoçar,
gastaria os seus cuidados visitando essa falada quinta da Varandinha e cortejando
“o botão de Rosa”.

Gonçalo recordava apenas confusamente que o terraço da Varandinha
dominava uma estrada plantada de choupos, algures, entre o lugar da Cerda
e a espalhada aldeia de Canta-Pedra. E tomou o caminho velho que desce das
carvalheiras do Casal Novo, e penetra no vale, entre o cabeço de Avelã
e as ruínas do Mosteiro de Ribadais, no solo histórico onde
Lopo de Baião derrotara a mesnada de Lourenço Ramires… Ora
enterrada entre valados, ora entre toscos muros de pedra solta, a vereda seguia
sem beleza, e cansativa; mas as madressilvas nas sebes, por entre as amoras
maduras, rescendiam; o fresco silêncio recebia mais frescura e graça
dos frêmitos de asa que o roçavam; e tanto era o radiante azul
nos céus serenos que um pouco elo seu rebrilho e serenidade se instilava
na alma. Gonçalo, mais desanuviado, não se apressava; na Igreja
dos Bravais, quando ele passara ao Casal Novo, batiam apenas as nove horas;
e depois de costear um lameiro de erva magra parou a acender pachorrentamente
um charuto, rente da velha ponte de pedra que galga o riacho das Donas. Quase
seca pela estiagem, a água escura mal corria, sob as folhas largas
dos nenúfares, por entre os juncais que a atulhavam. Adiante, à
orla dum ervaçal, no abrigo duma moita de álamos, reluziam as
pedras dum lavadouro. Na outra margem, dentro dum velho bote encalhado, um
rapazito, uma rapariguinha conversavam profundamente, com dois molhos de alfazema
esquecidos nos regaços. Gonçalo sorriu do idílio – depois
teve uma surpresa descobrindo, no cunhal da ponte, rudemente entalhado, o
seu Brasão de Armas, um Açor enorme, que alargava as garras
ferozes. Talvez aquelas terras outrora pertencessem à Casa – ou alguns
do seus avós benéficos construíra a ponte, sobre torrente
então mais funda, para segurança dos homens e dos gados. Quem
sabe se o avô Tructesindo, em memória piedosa de Lourenço
Ramires, vencido e cativo nas margens daquela ribeira!

O caminho, para além da ponte, alteava entre campos ceifados. As medas
lourejavam, pesadas e cheias, por aquele ano de fartura. Ao longe, dos telhados
baixos dum lugarejo, vagarosos fumos subiam, logo desfeitos no radiante céu.
E lentamente, como aqueles fumos distantes, Gonçalo sentia que todas
as suas melancolias lhe escapavam da alma, se perdiam também no azul
lustroso… Uma revoada de perdizes ergueu o vôo dentre o restolho.
Gonçalo galopou sobre elas, gritando, sacudindo o seu forte chicote
de cavalo-marinho, que zinia como uma fina lâmina.

Em breve o caminho torceu, costeando um souto de sobreiros, depois cavado
entre silvados com largos pedregulhos aflorando na poeira – e ao fundo o sol
faiscava sobre a cal fresca duma parede. Era uma casa térrea, com porta
baixa entre duas janelas envidraçadas, remendos novos no telhado e
um quinteiro que uma escura e intensa figueira assombreava. Numa esquina pegava
um muro baixo de pedra solta, continuado por uma sebe, onde adiante uma velha
cancela abria para a sombra duma ramada. Defronte, no vasto terreiro que se
alargava, jaziam cantarias, uma pilha de traves; passava uma estrada, lisa
e cuidada, que pareceu a Gonçalo a de Ramilde. Para além, até
a um distante pinheiral, desciam chás e lameiros.

Sentado num banco, junto da porta, com uma espingarda encostada ao muro,
um rapaz grosso, de barrete de lá verde, acariciava pensativamente
o focinho dum perdigueiro. Gonçalo parou:

– Tem a bondade… Sabe por acaso qual é o bom caminho para a quinta
do Sr. Visconde de Rio-Manso, a Varandinha?

O rapazote ergueu a face morena, de buço leve, remexendo vagamente
no carapuço.

– Para a quinta do Rio-Manso… Siga pela estrada até a pedreira,
depois à esquerda a seguir, sempre rente da várzea…

Mas nesse instante assomava à porta um latagão de suíças
louras em mangas de camisa, a cinta enfaixada em seda. E Gonçalo, com
um sobressalto, reconheceu logo o caçador que o injuriara na estrada
de Nacejas, o assobiara na venda do Pintainho. O homem relanceou superiormente
o Fidalgo. Depois, com a mão encostada à ombreira, chasqueou
o rapazote:

– Oh Manuel, que estás tu aí a ensinar o caminho, homem! Este
caminho por aqui não é para asnos!

Gonçalo sentiu a palidez que o cobriu – e todo o sangue do coração,
num tumulto confuso, que era de medo e de raiva. Um novo ultraje, do mesmo
homem, sem provocação! Apertou os joelhos no selim para galopar.
E a tremer, num esforço que o engasgava:

– Você é muito atrevido! E já pela terceira vez! Eu não
sou homem para levantar desordens numa escada… Mas fique certo que o conheço,
e que não escapa sem lição.

Imediatamente, o outro agarrou a um cajado curto e saltou à estrada,
afrontando a égua, com as suíças erguidas, um riso de
imenso desafio:

– Então cá estou! Venha agora a lição… E para
diante é que você já não passa, seu Ramires de
merd…

Uma névoa turvou os olhos esgazeados do Fidalgo. E de repente, num
inconsciente arranque, como levado por uma furiosa rajada de orgulho e força,
que se desencadeava do fundo do seu ser, gritou, atirou a fina égua
num galão terrível! E nem compreendeu! O cajado sarilhara! A
égua empinava, numa cabeçada furiosa! E Gonçalo entreviu
a mão do homem, escura, imensa, que empolgava a camba do freio.

Então, erguido nos estribos, por sobre a imensa mão, despediu
uma vergastada do chicote silvante de cavalo-marinho, colhendo o latagão
na face, de lado, num golpe tão vivo da aresta aguda que a orelha pendeu,
despegada, num borbotar de sangue. Com um berro o homem recuou, cambaleando.
Gonçalo galgou sobre ele, noutro arremesso, com outra fulgurante chicotada,
que o apanhou pela boca, lhe rasgou a boca, decerto lhe espedaçou dentes,
o atirou, urrando, para o chão. As patas da égua machucavam
as grossas coxas estendidas – e, debruçado, Gonçalo ainda vergastou,
cortou desesperadamente face, pescoço, até que o corpo jazeu
mole e como morto, com jorros de sangue escuro ensopando a camisa.

Um tiro atroou o terreiro! E Gonçalo, com um salto no selim, avistou
o rapazote moreno ainda com a espingarda erguida, a fumegar, mas já
hesitando aterrado.

– Ah, cão!

Lançou a égua, com o chicote alto – o rapaz, espavorido, corria
lentamente através do terreiro, para saltar o valado, escapar para
as várzeas ceifadas!

– Ah cão, ah cão! – berrava Gonçalo. Estonteado, o rapaz
tropeçara numa viga solta. Mas já se endireitava, largava, quando
o Fidalgo o alcançou com uma cutilada do chicote no pescoço,
logo alagado de sangue. Estendendo as mãos incertas, ainda cambaleou,
abateu, estalou contra a aresta dum pilar, a cabeça mais sangue jorrou.
Então Gonçalo, a arquejar, deteve a égua. Ambos os homens
jaziam imóveis! Santo Deus! Mortos? De ambos corria o sangue sobre
a terra seca. O Fidalgo da Torre sentia uma alegria brutal. Mas um grito espantado
soou do lado do quinteiro.

– Ai que mataram o meu rapaz!

Era um velho que corria da cancela, numa carreira agachada, rente com a sebe,
para a porta da casa. Tão certeiramente o Fidalgo arremessou a égua,
para o deter – que o velho esbarrou contra o peitoril que arfava coberto de
suor e de espuma. E ante o inquieto animal escarvando, e Gonçalo alçado
nos estribos, com a face chamejante, o chicote a descer – o velho, num terror,
desabou sobre os joelhos, gritou ansiadamente:

– Ai, não me faça mal, meu Fidalgo, por alma de seu pai Ramires.

Gonçalo ainda o manteve assim um momento, suplicante, a tremer, sob
o justiceiro faiscar dos seus alhos – e gozava soberbamente aquelas calosas
mãos que se erguiam para a sua misericórdia, invocavam o nome
de Ramires, de novo temido, repossuído do seu prestígio heróico.
Depois, recuando a égua:

– Esse malandro do rapazola desfechou a caçadeira!… Você também
não tem boa cara! Que ia você correndo para casa? Buscar outra
espingarda?

O velho alargou desesperadamente os braços, oferecia o peito, em testemunho
da sua verdade:

– Oh meu Fidalgo, não tenho em casa nem um cajado!… Assim Deus me
ajude e me salve o rapaz!

Mas Gonçalo desconfiava. Quando descesse agora pela estrada de Ramilde,
bem poderia o velho correr ao casebre, agarrar outra caçadeira, desfechar
traiçoeiramente. E então com a presteza de espírito que
a luta afiara concebeu contra qualquer emboscada um ardil seguro E até
num relance sorriu recordando “traças de guerra”, de D. Garcia
Viegas, o Sabedor.

– Marche lá diante de mim, sempre a direito, pela estrada!

O velho tardou, sem se erguer, aterrado. E batia com as grossas mãos
nas coxas, numa ânsia que o engasgava:

– Oh meu Fidalgo, oh meu Fidalgo! mas deixar assim o rapaz sem acordo?…

– O rapaz está só atordoado, já se mexeu… E o outro
malandro também… Marche você!

E ao irresistível mando de Gonçalo, o velho, depois de sacudir
demoradamente as joelheiras, começou a avançar pela estrada,
vergado diante da égua, como um cativo, com os longos braços
a bambolear, rosnando, num rouco assombro: – Ai como elas se armam! Ai Santo
nome de Deus, que desgraça! – A espaços estacava, esgazeando
para Gonçalo um olhar torvo onde negrejava medo e ódio… Mas
logo o comando forte o empurrava: “Marche!…” E marchava. Adiante,
onde se erguia um cruzeiro em memória do abade Paguim, assassinado,
Gonçalo reconheceu um largo atalho para a estrada dos Bravais que chamavam
o Caminho da Moleira. E para ai enfiou o velho, que no pavor daquela azinhaga
solitária, pensando que Gonçalo o afastava de caminhos trilhados
para o matar comodamente, rompeu a gemer: Ai que isto é o fim da minha
vida! Ai Nossa Senhora, que é o fim da minha vida!” E não
cessou de gemer, emaranhando os passos trôpegos, até que desembocaram
na estrada alta entre taludes escarpados, revestidos de giesta brava. Então
de repente, com outro terror, o homem bruscamente revirou, atirando as mãos
ao barrete:

– Oh meu senhor, o Fidalgo não me leva preso?…

– Marche! Corra! Que agora a égua trota!

A égua trotou – o velho correu, desengonçado, arquejando como
um fole de forja. Uma milha galgada, Gonçalo parou, farto do cativo,
da lenta marcha. De resto antes que o homem agora corresse a casa, e agarrasse
uma arma, e virasse para o alcançar, se desforrar – entraria ele, num
galope solto, o portão da Torre! Então bradou, com o sobrolho
duro:

– Alto! Agora pode voltar para trás… Mas, antes: como se chama aquele
seu lugar?

– A Grainha, meu Fidalgo.

– E você como se chama, e o rapaz?

O velho, com a boca aberta, esperou, hesitou:

– Eu sou João, o meu rapaz Manuel… Manuel Domingues, meu Fidalgo.

– Você naturalmente mente. E o outro malandro, de suíças
louras?

Dum fôlego, o velho gritou:

– Esse é o Ernesto de Nacejas, o valentão de Nacejas, que chamam
o Caça-abraços, e que tanto me desencaminhou o rapaz…

– Bem! Pois diga lá a esses dois marotos que me atacaram a pau e a
tiro, que não ficam quites somente com a sova, e que agora têm
de se entender com a Justiça… Ela lá irá! Largue!

Do meio da estrada, Gonçalo ainda vigiou o velho que abalara, forçando
as passadas derreadas, limpando o suor que lhe pingava. Depois, pela conhecida
estrada, galopou para a Torre.

E ia levado, galopando numa alegria tão fumegante, que o lançava
em sonho e devaneio. Era como a sensação sublime de galopar
pelas alturas, num corcel de lenda, crescido magnificamente, roçando
as nuvens lustrosas… E por baixo, nas cidades, os homens reconheciam nele
um verdadeiro Ramires, dos antigos na História, dos que derrubavam
torres, dos que mudavam a configuração dos Remos – e erguiam
esse maravilhoso murmúrio que é o sulco dos fortes passando!
Com razão! com razão! Que ainda de manhã, ao sair da
Torre, não ousaria marchar para um rapazola decidido que brandisse
um varapau… E depois, de repente, na solidão daquela casa térrea,
quando o bruto das suíças louras lhe atira a sua injúria
eis um não sei quê que se desprende dentro do seu ser, e transborda,
e lhe enche cada veia de sangue ardido, e lhe enrija cada nervo de força
destra, e lhe espalha na pele o desprezo e a dor, e lhe repassa fundamente
a alma de fortaleza indomável… E agora ali voltava, como um varão
novo, soberbamente virilizado, liberto enfim da sombra que tão dolorosamente
assombreara a sua vida, a sombra mole e torpe do seu medo! Porque sentia que
agora, se todos os valentões de Nacejas o afrontassem num rijo erguer
de cajados – esse não sei quê, lá dentro, no seu ser,
de novo se soltaria, e o arremessaria, com cada veia inchada, cada nervo retesado,
para o delicioso fragor da briga! Enfim era um homem! Quando em Vila-Clara
o Manuel Duarte, o Titó com o peito alto, contassem façanhas,
já ele não enrolaria encolhidamente o cigarro encolhido, mudo
não somente pela ausência desconsoladora das valentias, mas sobretudo
pela humilhante recordação das fraquezas. E galopava, galopava
apertando furiosamente o cabo do chicote, como para investidas mais belas.
Para além dos Bravais, mais galopou, ao avistar a Torre. E singularmente
lhe pareceu, de repente, que a sua Torre, agora mais sua, e que uma afinidade
nova fundada em glória e força o tornava mais senhor da sua
Torre!

Como para acolher Gonçalo mais dignamente, o portão grande,
sempre cerrado, oferecia uma entrada triunfal com os dois pesados batentes
escancarados. Ele atirou a égua para o meio do pátio, bradando:

– Oh Joaquim! Oh Manuel! Eh lá! um de vocês!

O Joaquim surgiu da calavariça, de mangas arregaçadas, com
uma esponja na mão.

– Oh Joaquim, depressa! Aparelha o Rocilho, corre a um sitio na estrada de
Ramilde, a que chamam a Grainha… Tive agora lá uma grande desordem!
Creio que dei cabo de dois homens… Ficaram numa poça de sangue! Não
digas que vais da Torre, que te podem atacar! Mas sabe o que sucedeu, se estão
mortos!… Depressa, depressa!

O Joaquim, estonteado, remergulhou na cavalariça escura. E de cima
duma das varandas do corredor, partiram exclamações assombradas:

– Oh Gonçalo, o que foi?! santo Deus! o que foi?!

Era o Barrolo. Sem desmontar, sem surpresa ante a aparição
do Barrolo, Gonçalo atirou logo para a varanda a história da
bulha, tumultuosamente. Um malandro que o insultara… Depois outro, que desfechou
a caçadeira… E ambos derribados sob as patas da égua, numa
poça de sangue…

O Barrolo despegou da varanda – e noutro relance, investia pelo pátio,
com os curtos braços a boiar, enfiado. Mas então? mas então?…
E Gonçalo, desmontando, trêmulo agora do cansaço e da
emoção, esmiuçou mais lances… Na estrada de Ramilde!
Um valentão que o injuriou! A esse rasgara a boca, decepara a orelha…
Depois o outro, um rapazola, desfecha uma carabina… Ele corre, tão
vivamente o colhe com uma cutilada que o estira, para cima duma pedra, como
morto…

– Uma cutilada?

– Com este chicote, Barrolo! Arma terrível!… Bem dizia o Titó!…
Estou perdido se não levo este chicote.

Esgazeado, Barrolo remirava o chicote. Sim, com efeito ainda manchado de
sangue. – Então Gonçalo atentou no chicote, no sangue… Sangue
de gente! Sangue fresco, que ele arrancara…. E por entre o seu orgulho,
uma piedade passou que o empalideceu:

– Que desgraça, vejam que desgraça!

Esquadrinhou vivamente o fato, as botas, no horror de nódoas de sangue,
que o salpicassem. Sim, santo Deus! sangue na polaina!… E imediatamente
ansiou por se despir, se lavar – galgou a escada, com o Barrolo que enxugava
o suor, balbuciava: – “Ora uma dessas! E de repente! Assim na estrada’
Mas no corredor, subindo numa carreira da cozinha, apareceu Gracinha, pálida,
com a Rosa atrás, que enterrava os dedos entre o lenço e o cabelo
num pavor mudo.

– Que foi, Gonçalo? Jesus, que foi?!

Então, encontrando Gracinha junto dele, na Torre, nesse momento magnífico
do seu orgulho, depois de tão rijo perigo vencido, Gonçalo esqueceu
o André, o Mirante, as sombrias humilhações, e no abraço
em que a colheu, nos fortes beijos que atirou à face querida, todo
o seu amuo se fundiu em ternura. Com ela ainda chegada ao coração,
suspirou de leve, como uma criança cansada. Depois apertando as duas
pobres mãos trêmulas, com um lento, enternecido sorriso, enquanto
os olhos se lhe umedeciam de confusa emoção, de confusa alegria:

– Pois foi o diabo, filha! Uma desordem horrível, eu que sou tão
pacato! imagina tu…

E pelo corredor recomeçou para Gracinha, que arfava, e para a Rosa,
estarrecida, a história do encontro, e o sujo ultraje, o tiro que falhara
e os malandros lacerados a chicote, e o velho marchando como um cativo, a
gemer pela estrada de Ramilde. Apertando o peito, num desmaio, Gracinha murmurou:

– Ai, Gonçalo! E se um dos homens estivesse morto!

O Barrolo, mais vermelho que uma peônia, berrou logo que tais malandros
mereciam ricamente a morte! E mesmo feridos, ainda necessitavam castigo tremendo
de África! O Gouveia! era necessário mandar a Vila-Clara, avisar
o Gouveia!… Mas largas passadas ávidas abalaram o soalho – e foi
o Bento, que se ergueu diante de Gonçalo, bracejando numa ânsia:

– Então, Sr. Doutor?… Diz que uma grande desordem!

E à porta do escritório, onde todos pararam, novamente atentos,
a história recomeçou, especialmente para o Bento, que a bebia,
num lento riso de gosto, crescendo, inchando, com os olhinhos úmidos
a reluzir, como se também triunfasse. Por fim, triunfou, com estrondo:

– Foi o chicote, Sr. Doutor! O que serviu ao Sr. Doutor foi o chicote que
eu lhe dei!

Era verdade. E Gonçalo, comovido, abraçou o velho aio, que
numa excitação, gritava para a Rosa, para Gracinha, para o Barrolo:

– O Sr. Doutor deu cabo deles!… Aquele chicote mata um homem!… Os malvados
estão mortos!… E foi o chicote! Foi o chicote que eu dei ao Sr. Doutor!

Mas Gonçalo reclamava água quente para se lavar da poeira,
do suor, do sangue… E o Bento correu, berrando ainda pelo corredor! depois
pelas escadas da cozinha – “que fora o chicote! o chicote, que ele dera
ao Sr. Doutor!” Gonçalo entrara no quarto, acompanhado pelo Barrolo.
E pousou o chapéu sobre o mármore da cômoda, com um imenso
ah consolado! Era o consolo imenso de se encontrar, depois de tão violenta
manhã, entre as doces coisas costumadas, pisando o seu velho tapete
azul, roçando o leito de pau-preto em que nascera, respirando pelas
vidraças abertas, onde as ramagens familiares das faias se empurravam
na aragem para o saudar. Com que gosto se acercou do espelho de colunas douradas,
se mirou e se remirou, como a um Gonçalo novo e tão melhorado,
que nos ombros reconhecia mais largueza, e até no bigode um arquear
mais crespo.

E foi ao arredar do espelho, topando com o Barrolo, que subitamente despertou
numa curiosidade imensa:

– Mas, ó Barrolo, como é que vos encontro esta manhã
na Torre?

Resolução da véspera, ao chá. Gonçalo
não aparecia, não escrevia… Gracinha a matutar, inquieta.
Ele também espantado daquele sumiço depois do cesto dos pêssegos.
De modo que ao chã, pensando também que a parelha necessitava
uma trotada, lembrara a Gracinha: – “Vamos nós amanhã à
Torre? no phaéton?”

– Além disso precisava falar contigo, Gonçalo… Tenho andado
aborrecido.

O Fidalgo juntou duas almofadas no divan, onde se enterrou:

– Como aborrecido?… Aborrecido por quê?…

Barrolo, com as mãos nos bolsos da rabona de flanela, que lhe cingia
as ancas gordas, considerou as flores do tapete, melancolicamente:

– É uma grande seca! A gente não pode confiar em ninguém…
Nem ter familiaridades!…

Num lampejo Gonçalo imaginou o Cavaleiro e Gracinha mostrando estouvadamente
nos Cunhais, como outrora entre os arvoredos da Torre, o sentimento que os
dominava. E pressentiu um desabafo, alguma queixa triste do pobre Barrolo,
amargurado por suspeitas, talvez por intimidades que espreitara. Mas a emoção
suprema da sua batalha sumira para uma sombra inferior os cuidados que, ainda
na véspera, o oprimiam; todas as dificuldades da vida lhe apareciam
agora, de repente, naquele frescor da sua coragem nova, tão fáceis
de abater como os desafios dos valentões; e não se assustou
com as confidências do cunhado, bem seguro de impor àquela alma
submissa de bacoco a confiança e a quietação. Até
sorriu, com indolência:

– Então, Barrolinho? Sucedeu alguma peripécia?

– Recebi uma carta.

– Ah!

Gravemente Barrolo desabotoou o jaquetão, puxou do bolso interior
uma larga carteira, de couro verde e lustroso, com monograma de ouro. E foi
a carteira que ele mostrou a Gonçalo, com satisfação.

– Bonita, hem? Presente do André, coitado… Creio que até
a mandou vir de Paris. O monograma tem muito chic.

Gonçalo esperava, espantado. Enfim o bom Barrolo tirou da carteira
uma carta – já amarrotada, depois alisada. Era, num papel pautado,
uma letra miudinha que o Fidalgo apenas relanceou, declarando logo com segurança:

– É das Lousadas.

E leu, vagarosamente, serenamente, com o cotovelo enterrado na almofada:
Ex.mo Sr. José Barrolo. – V Exa., apesar de todos os seus amigos o
alcunharem de Zê Bacoco, mostrou agora muita esperteza, chamando de
novo para a sua intimidade e de sua digna esposa o gentil André Cavaleiro,
nosso Governador Civil. Com efeito a esposa de V Exa., a linda Gracinha, que
neste últimos tempos andava tão murcha e até desbotada
(o que a todos nos inquietava), imediatamente refloriu, e ganhou cores, desde
que possui a valiosa companhia da primeira autoridade do distrito. Portou-se
pois V. Exa. como marido zeloso, e desejoso da felicidade e boa saúde
de sua interessante esposa. Nem parece rasgo daquele que toda a Oliveira considera
como o seu mais ilustre pateta! Os nossos sinceros parabéns!”

Gonçalo guardou muito sossegadamente na algibeira aquela carta que,
dias antes, o lançaria em infinita amargura e fúria:

– É das Lousadas… E tu deste importância a semelhante baboseira?

O Barrolo repontou, com as bochechas abrasadas:

– Se te parece! Sempre embirrei com bilhetinhos anônimos… E depois
essa insolência a respeito de os amigos me chamarem Bacoco… Grande
infâmia, hem? Tu acreditas?… Eu não acredito! mas lança
cizânia entre mim e os rapazes… Nem voltei ao Club… Bacoco! Por
quê? Porque eu sou simples, sempre franco, disposto a arranchar… Não!
Se os rapazes no Club me chamam bacoco pelas costas, caramba, mostram ingratidão!
Mas eu não acredito! – Rebolou pelo quarto, desconsoladamente, as mãos
cruzadas sobre as gordas nádegas. Depois, estacando diante do divan,
donde Gonçalo o considerava, com piedade:

– Enquanto ao resto da carta é tão estúpido, tão
atrapalhado que ao princípio nem compreendi. Agora percebo… Querem
dizer que a Gracinha e o Cavaleiro têm namoro… E o que me parece que
querem dizer! Ora vê tu que disparate! Até a intimidade do Cavaleiro
é mentira. O pobre rapaz, desde que lá jantou, só apareceu
três ou quatro vezes, à noite, para a manilha, com o Mendonça…
E agora abalou para Lisboa.

Então o Fidalgo pulou, de surpresa.

– O quê! o Cavaleiro foi para Lisboa?

– Pois partiu há três dias!

– Com demora?

– Com demora, com grande demora… Só volta no meado de outubro para
a Eleição.

– Ah!

Mas o Bento rompeu pelo quarto, com o jarro d’água quente, duas toalhas
de rendas, ainda numa excitação que o azafamava. Diante do espelho,
lentamente Barrolo reabotoava o jaquetão:

– Bem, até logo, Gonçalinho. Eu desço à cavalariça,
visitar a parelha. Não imaginas! desde Oliveira, sem descanso, uma
trotada esplêndida. E nem um pêlo suado! Tu guardas a carta?

– Guardo, para estudar a letra.

Apenas Barrolo correra a porta – o Fidalgo recomeçou com o Bento a
deliciosa história da briga, revivendo as surpresas e os rasgos, simulando
os arremessos da égua, arrebatando o chicote para representar as cutiladas
silvantes, que arrancavam febra e sangue… E de repente, em ceroulas:

– Oh Bento, traze o meu chapéu… Estou desconfiado que a bala roçou
pelo chapéu.

Ambos remiraram, esquadrinharam o chapéu. O Bento, no seu encarecimento
da façanha, achava a copa amolgada – até chamuscada.

– A bala passou de raspão, Sr. Doutor!

O Fidalgo negou, com a modéstia grave dum forte:

– Não! Nem de raspão!… Quando o malandro desfechou já
o braço lhe tremia… Devemos agradecer a Deus, Bento. Mas eu realmente
não corri grande perigo!

Depois de vestido, Gonçalo, passeando no quarto, releu a carta. Sim,
certamente das Lousadas. Mas agora essa maledicência, soprada com tão
sórdida maldade sobre as pobres bochechas do Barrolo, não causava
dano – antes servia, quase beneficamente, como a brasa dum ferro, para sarar
um dano. O pobre Barrolo apenas se impressionara com a revelação
da sua bacoquice, essa ingrata alcunha posta pelos rapazes amigos, em galhofas
ingratas do Club e debaixo dos Arcos. A outra insinuação terrível,
Gracinha reverdecendo ao calor amoroso do Cavaleiro, essa mal a compreendera,
escassamente a atendera num desdém distraído e cândido.
Mas a carta que assim silvava por sobre o bom Barrolo como flecha errada –
acertava em Gracinha, feriria Gracinha no seu orgulho, no seu impressionável
pudor, mostrando à pobre tonta como o seu nome e mesmo o seu coração
já arrastavam enxovalhadamente, pela rasteira, mexeriquice das Lousadas!…
Certeza tão humilhadora não apagaria um sentimento – que se
não apagava com humilhações mais íntimas, tanto
mais dolorosas. Mas estimularia a sua reserva e o seu desconfiado recato:
– e agora que André se afastara para Lisboa, operaria nela, surdamente,
solitariamente, sem que a presença tentadora lhe desmanchasse a influência
sossegadora e salutar. Assim o torpe papel aproveitava a Gracinha como um
aviso temeroso pregado na parede. E rancorosamente preparada pelas duas fêmeas
para desencadear nos Cunhais escândalo e dor – talvez restabelecesse,
na ameaçada casa, quietação e gravidade. – Gonçalo
esfregou as mãos pensando – que em tão ditosa manhã talvez
esse mal redundasse em bem!

– Oh Bento, onde está a Sra. D. Graça?

– A menina subiu agora há pouco para o seu quarto, Sr. Doutor.

Era o seu quarto de solteira, claro e fresco sobre o pomar, onde ainda se
conservava o seu leito de linda madeira embutida, um toucador ilustre que
pertencera à Rainha D. Maria Francisca de Sabóia, e o sofá,
as cadeiras de casimira clara em que Gracinha bordara, num arrastado labor
de anos, o Açor negro dos Ramires. E sempre que voltava à Torre
Gracinha gostava de reviver, no seu quarto, as horas de solteira, remexendo
as gavetas, folheando velhos romances ingleses na estantezinha envidraçada,
ou simplesmente da varanda contemplando a querida quinta estendida até
aos outeiros de Valverde, a verde quinta, tão misturada à sua
vida que cada árvore lhe sussurrava, cada recanto de verdura era como
um recanto do seu pensamento.

Gonçalo subiu bateu à porta cerrada com o antigo aviso: – “Licença
para o mano!” Ela correu da varanda, onde regava nos seus antigos vasos
vidrados plantas sempre renovadas e cuidadas pela Rosa com carinho. E desabafando
logo do pensamento que a enchia:

– Oh Gonçalo! mas que felicidade nós virmos à Torre,
justamente hoje, que te sucedeu coisa tamanha!

– É verdade, Gracinha, grande sorte! E não me admirei nada
de te ver… Era como se ainda vivesses na Torre e te encontrasse no corredor…
Quem estranhei foi o Barrolo! E no primeiro momento depois de desmontar, pensava
assim, vagamente: “mas que diabo faz aqui o Barrolo? Como diabo se acha
aqui o Barrolo?…” Curioso, hem? Foi talvez que, depois da desordem,
me senti remoçado, com um sangue novo, e me julguei no tempo em que
desejávamos uma guerra em Portugal, e nós cercados na Torre,
sob o nosso pendão, o nosso terço atirando bombardas aos espanhóis…

Ela ria, lembrada dessas imaginações heróicas. E com
o vestido entalado entre os joelhos recomeçou a lenta rega dos seus
vasos – enquanto Gonçalo, encostado à varanda, considerando
a Torre, retomado pela idéia duma concordância mais íntima,
que desde essa manhã se estabelecera entre ele e aquele heróico
resto da Honra de Santa Irenéia, como se a sua força, tanto
tempo quebrada, se soldasse enfim firmemente à força secular
da sua raça.

– Oh Gonçalo! tu deves estar muito cansado! Depois dessa verdadeira
batalha…

– Não, cansado não… Mas com fome. Com fome, e com uma sede
esplêndida!

Ela pousou logo o regador, sacudindo as mãos alegremente:

– Pois o almoço não tarda!… Já andei a trabalhar na
cozinha, com a Rosa, numa pescada à espanhola… É uma receita
nova do Barão das Marges.

– Então insossa, como ele.

– Não! até picante: foi o Sr. Vigário-Geral que lha
ensinou.

E como diante do toucador da Rainha Maria Francisca, ela arranjava à
pressa os ganchos do cabelo, para aproveitar a solidão favorável,
apressou com um esforço a confidência que o comovia:

– E em Oliveira? Lá por Oliveira?

– Em Oliveira, nada… Muito calor!

Gonçalo, movendo os dedos lentos pela moldura do espelho, fino entrelaçamento
de açucenas e louros, murmurou:

– Eu sei apenas das Lousadas, das tuas amigas Lousadas. Continuam em plena
atividade…

Gracinha negou candidamente:

– As Lousadas? Não! Nem têm aparecido.

– Mas têm tecido!

E como os verdes olhos de Gracinha se alargaram, sem compreender, Gonçalo
arrancou vivamente da algibeira a carta que guardara, que agora lhe pesava,
como uma chapa de ferro:

– Olha, Gracinha. Mais vale desabafarmos! Aí tens o que elas há
dias escreveram a teu marido…

Num relance Gracinha devorou as linhas terríveis. E com ondas de sangue
nas faces apertando as mãos numa aflição, um desespero,
em que o papel amarfanhou:

– Oh Gonçalo! pois…

Gonçalo acudiu:

– Não! o Barrolo não se importou! até se riu! E eu também,
quando ele me entregou esse papelucho… E a prova de que ambos o consideramos
uma mexeriquice insensata é que eu to mostro tão francamente.

Ela esmagava a carta nas mãos juntas e trêmulas, pálida
agora e emudecida pelo espanto, retendo grandes lágrimas que rebrilhavam.
E Gonçalo comovido, com gravidade, com ternura:

– Mas tu, Gracinha, sabes o que são terras pequenas. Sobretudo Oliveira!
Precisas muito cuidado, muita reserva… Ai de mim! De mim vem a culpa. Reatei
relações que nunca se deviam reatar… Bem me tenho arrependido!
E acredita! por causa dessa situação tão falsa e tão
perigosa, que eu criei, levianamente, por ambição tola, passei
aqui na Torre dias amargurados… Até nem me atrevia voltar a Oliveira.
Hoje, não sei por quê, depois desta aventura, parece que tudo
se esbateu, se afundou para uma grande sombra… Enfim já não
me arde tão em brasa no coração… Por isso desabafo
assim, serenamente.

Ela desatou num solto, doloroso, choro em que a sua fraca alma se desfazia.
Com redobrada ternura Gonçalo abraçou os pobres ombros vergados
que os soluços espedaçavam. E foi com ela toda refugiada no
seu peito, que ainda a aconselhou, docemente:

– Gracinha, o passado morreu, e todos precisamos, para honra de todos, que
continue morto. Pelo menos que por fora, em cada gesto teu, pareça
bem morto! Sou eu que to peço, pelo nosso nome!…

Dentre os braços do irmão, ela gemeu com infinita humildade:

– Mas ele até foi embora!… Nem quis estar mais em Oliveira!

Gonçalo acariciou a acabrunhada cabeça que de novo se escondera
contra o seu peito, contra ele se apertava, como procurando a fresca misericordiosa
que dentro sentia brotar:

– Bem sei. E isso me mostra que tens sido for-te… Mas precisas muita reserva,
muita vigilância, Gracinha!… E agora sossega. Não falemos mais,
nunca mais, neste incidente… Porque foi apenas um acidente. E que eu provoquei,
ai de mim, por leviandade, por ilusão. Passou, está esquecido!
Sossega, descansa. E quando desceres traze os olhos bem secos.

Lentamente a desprendera dos braços, onde ela se arraigava como ao
abrigo mais certo e à consolação mais desejada. E saia,
engasgado pela emoção, recalcando também as lágrimas…
Um gemido tímido, suplicante, ainda o reteve:

– Gonçalo! mas tu pensas…

Ele voltou, de novo a abraçou, a beijou na testa lentamente:

– Eu penso que tu, agora bem avisada, bem aconselhada, vais mostrar muita
dignidade, muita firmeza.

Rapidamente abalou, cerrou a porta. E na escada estreita, escassamente alumiada
por uma clarabóia baça, limpava as pálpebras, quando
esbarrou com o Barrolo, que procurava Gracinha, para apressar o almoço.

– A Gracinha já desce! – atabalhoou o Fidalgo. – Está a lavar
as mãos! Já desce!… Mas antes do almoço vamos à
cavalariça. Devemos uma visita à égua, a essa querida
égua que me salvou!

– É verdade, caramba! – concordou logo Barrolo revirando nos degraus,
com entusiasmo. – Precisamos visitar a égua… Grande, briosa, hem!
Mas aposto que ficou mais suada que as minhas… Imagina! uma trotada daquelas,
desde Oliveira, e nem um pêlo molhado! Grandes éguas! Também,
o que eu as olho, o que as trato!

Na cavalariça, ambos afagaram a égua. Barrolo lembrou que se
mimoseasse com uma ração larga de cenoura. Depois – para que
Gracinha, com vagar, se calmasse – o Fidalgo arrastou o Barrolo ao pomar e
à horta…

– Tu não vens à Torre há perto de seis meses, Barrolinho!
Precisas ver, admirar progressos. Anda agora por aqui a mão forte do
Pereira da Riosa…

– Imagino! grande homem, o Pereira! Mas eu tenho uma fome, Gonçalinho!

– Também eu!

Uma hora batia quando entraram na varanda onde a mesa esperava, florida e
em festa – e Gracinha, à beira do divan, percorria pensativamente a
velha Gazeta do Porto. Apesar de muito banhados, os seus belos olhos conservavam
um ardor; e para o justificar, e o seu modo abatido, logo se lastimou, corando,
duma enxaqueca. Eram as emoções, o perigo de Gonçalo…

– Também eu tenho dor de cabeça! – declarou o Barrolo, rondando
a mesa. – Mas a minha vem da fome… Oh, filhos, é que estou desde
as sete da manhã com uma chávena de café e um ovo quente!

Gonçalo repicou a campainha. Mas quem rompeu pela porta envidraçada,
esbaforido, escancarando a boca num riso imenso, foi o Joaquim, o moço
da cavalariça que voltava da Grainha.

Gonçalo atirou os braços, sôfrego:

– Então?! então?!

– Pois lá estive, meu Fidalgo! – exclamou o Joaquim com o peito a
estalar de importância. – E vai por lá um povoléu, todos
já sabem! Uma rapariga dos Bravais espreitou tudo, de dentro do quinteiro…
Depois correu, badalou… Mas o velho, o tal Domingues que mora. na casa,
e o filho, abalaram ambos. E o rapaz, ao que dizem, pouco ferido. Se caiu,
sem sentidos, foi com o susto. O Ernesto de Nacejas, esse sim, santo nome
de Deus, apanhou. Lá o levaram em braços para casa dum compadre
ali ao pé, na Arribada. Parece que fica sem orelha, e que fica sem
boca!… Pois por todos aqueles sítios era o ai-jesus das moças!…
E logo lá o carregaram para o hospital de Vila-Clara, que na casa do
compadre não pode sarar. Um povoléu, e todos dão a razão
ao Fidalgo. O tal Domingues era malandro. E o Ernesto, esse ninguém
o podia enxergar! Mas todos lhe tinham medo… O Fidalgo fez uma limpeza!

Gonçalo resplandecia. Ah! Ainda bem! que não passara dano mais
forte, que beleza perdida do D. Juan de Nacejas!

– E então o povo por lá, a falar, a olhar para o sítio?

– Pois o povo não se arreda! E a mostrar o sangue, no chão,
e as pedras por onde se atirou a égua do Fidalgo… E agora até
contam que foi uma espera, e que desfecharam três tiros ao Fidalgo,
e que depois adiante no pinhal ainda saltaram três homens mascarados
que o Fidalgo escangalhou…

– Eis a lenda que se forma! – declarou Gonçalo.

O Bento aparecera com uma larga travessa fumegante. O Fidalgo afagou risonhamente
o ombro do Joaquim. E embaixo a Rosa que abrisse, para o almoço da
família, duas garrafas de vinho do Porto, velho. Depois com a mão
nas costas da cadeira murmurou gravemente: – Pensemos um momento em Deus,
que me tirou hoje dum grande perigo!

Barrolo pendeu a cabeça, reverente. Gracinha, através dum leve
suspiro, pensou uma leve oração. E desdobravam os guardanapos;
Gonçalo aclamava a travessa de pescada à espanhola – quando
o pequeno da Críspola empurrou ainda a porta envidraçada “com
um telegrama, que viera da Vila!” Uma inquietação deteve
os garfos. A manhã correra com tantas agitações e espantos!
Mas já um sorriso de gosto, de triunfo, se espalhara na fina face de
Gonçalo:

– Não é nada… É do Castanheiro, por causa dos capítulos
do Romance que eu lhe mandei… Coitado! Bom rapaz!

E, recostado na cadeira, recitou vagarosamente o telegrama, que os seus olhos
afagavam: – “Capítulos romance recebidos. Leitura feita amigos.
Entusiasmo! Verdadeira obra-prima! Abraço!…”

Barrolo, com a boca cheia, bateu as palmas. E Gonçalo, sem reparar
na travessa da pescada que Bento lhe apresentava, mas enchendo o copo de vinho
verde, com uma vaga tremura, um sorriso ditoso que não se dissipava:

– Enfim, boa manhã… Grande manhã!

Gonçalo, apesar das insistências de Gracinha e do Barrolo, não
os acompanhou para Oliveira no desejo de acabar, durante essa semana, o derradeiro
Capítulo da Novela, e depois cerrar o preguiçoso giro de visitas
aos influentes Eleitorais do Círculo. Assim rematava a Obra de Arte
e a obra de Política, e cumpria, Deus louvado, a tarefa desse verão
fecundo!

Logo nessa noite retomou o manuscrito da Novela e na margem larga lançou
à data uma nota: “Hoje, na freguesia da Grainha, tive uma briga
terrível com dois homens que me assaltaram a pau e tiro, e que castiguei
severamente…” Depois, com facilidade atacou o lance de tanto sabor
medieval, em que Tructesindo Ramires, correndo no rasto do Bastardo, penetrava,
ao espalhado e fumarento clarão dos archotes, no arraial de D. Pedro
de Castro.

Com grave amizade acolhia o velho homem de guerra aquele seu primo de Portugal,
que lhe trouxera a sua forte mesnada, de Santa Irenéia, quando os Castros
combateram um grande poder de Mouros em Enxarez de Sandornim. Depois, na vasta
tenda, reluzente de armas, tapizada de peles de leão e de urso, Tructesindo
contava, ainda a arfar de dor represa, a morte de seu filho Lourenço,
ferido na lide de Canta-Pedra, acabado a punhalada pelo Bastardo de Baião,
diante das muralhas de Santa Irenéia, com o sol no céu alto
a olhar a traição! Indignado, o velho Castro esmurraçou
a mesa, onde um rosário de ouro se misturava a grossas peças
de xadrez; jurou pela vida de Cristo que, em sessenta anos de armas e surpresas,
nunca soubera de feito mais vil! E, agarrando a mão do senhor de Santa
Irenéia, ardentemente lhe ofereceu, para a empresa da santa vingança,
a sua hoste inteira – trezentas e trinta lanças, vasta e rija peonagem.

– Por Santa Maria! Formosa arrancada! – bradou Mendo de Briteiros com as
vermelhas barbas a flamejar de gosto.

Mas D. Garcia Viegas, o Sabedor entendia que para colherem o Bastardo vivo,
como convinha a uma vingança vagarosa e bem gozada, mais utilmente
serviria uma calada e curta fila de Cavaleiros, com alguns homens de pé…

– Por quê, D. Garcia?

– Porque o Bastardo, depois de se aligeirar, junto da Ribeira, da peonada
e carriagem correra, com a mira em Coimbra, para se acolher à força
da Hoste Real. Nessa noite, com o seu esfalfado bando de lanças, pernoitara
certamente no solar de Landim. E com o luzir da alva, para encurtar, certamente
retomava a galopada pelo velho caminho de Miradáes, que trepa e foge
através das lombas do Caramulo. Ora ele, Garcia Viegas, conhecia para
diante do Poço da Esquecida, certo passo, onde poucos Cavaleiros, e
alguns besteiros, bem postados por entre o bravio, apanhariam Lopo de Baião
como lobo em fojo…

Tructesindo, incerto e pensativo, metia os dedos lentos pelos fios da barba.
O velho Castro duvidava, preferindo que se pusesse batalha ao Bastardo em
campo bem liso onde se avantajassem tantas lanças já aprestadas,
que depois correriam em alegre levada a assolar as terras de Baião.
Então Garcia Viegas rogou aos seus primos de Espanha e de Portugal
que saíssem ao terreiro, diante da tenda, com fartura de tochas para
bem se alumiarem. E aí, no meio dos Cavaleiros curiosos, à claridade
dos lumes inclinados, D. Garcia vergou o joelho, riscou sobre a terra, com
a ponta duma adaga, o roteiro da sua caçada para lhe comprovar a beleza…
Dalém castelo Landim, largaria com a alva o Bastardo. Por aqui, quando
a lua nascesse, abalariam eles, com vinte Cavaleiros dos Ramires e dos Castros,
para que lidadores de ambas as mesnadas gozassem a lide. Além, se postariam,
alapados no matagal, besteiros e peões de frecha. Por trás,
deste lado, para entaipar o Bastardo, o senhor D. Pedro de Castro, se com
tão gostosa ajuda ele honrasse o Senhor de Santa Irenéia. Adiante,
acolá, para colher pela gorja o vilão, o senhor D. Tructesindo
que era o pai e Deus mandava fosse o vingador. E ali, na estreitura o derrubariam
e o sangrariam como um porco – e como o sangue era vil, a um tiro de besta
encontrariam água farta para lavar as mãos, a água do
pego das Bichas!…

– Famosa traça! – murmurou Tructesindo convencido.

E D. Pedro de Castro bradou atirando um faiscante olhar aos Cavaleiros de
Espanha:

– Vida de Cristo, que se meu tio-avô Gutierres tivera por Coudel aqui
o Sr. D. Garcia, não lhe escapavam os de Lara quando levaram o Rei-menino,
na grande carreira, para Santo Estêvão de Gurivaz!… Entendido,
pois, primo e amigo! E a cavalo, para a monteria, mal reponte a lua!

E recolheram as tendas – que já nas fogueiras lourejavam os cabritos
da ceia, e os uchões acarretavam, dentre os carros da sarga, os pesados
odres de vinho de Tordesilhas.

Com a ceia no arraial (grave e sem ruído, porque um luto velava o
coração dos hóspedes) Gonçalo terminou, nessa
noite, o seu capítulo IV, lançando à margem outra nota:
– “Meia-noite… Dia cheio. Batalhei, trabalhei .” – Depois no seu
quarto, enquanto se despia, traçou todo o alvoroto da briga curta em
que o Bastardo como lobo em fojo quedaria cativo, à mercê vingadora
dos de Santa Irenéia… Mas de manhã, antes do almoço,
ao abancar com gosto para o trabalho – recebeu dois telegramas, que o desviaram
deliciosamente da ardente correria contra o Bastardo de Baião.

Eram dois telegramas de Oliveira, um do Barão das Marges, outro do
capitão Mendonça – ambos com parabéns ao Fidalgo “por
assim escapar de tão terrível espera, destroçando os
valentões de Nacejas”. O Barão das Marges acrescentava:
– “Bravíssimo! É de herói!”

Gonçalo, enternecido, mostrou os telegramas ao Bento. A nova da sua
façanha, pois, já se espalhara, impressionara Oliveira.

– Foi o Sr. José Barrolo que contou! – acudiu o Bento. – E o Sr. Dr.
verá! o Sr. Dr. verá… Até no Porto se vão assombrar!

Ao bater meio-dia, rompeu pelo corredor, com estrondo, o imenso Titó,
acompanhado pelo João Gouveia que chegara na véspera à
tarde da Costa, soubera da aventura na Assembléia, corria à
Torre, como amigo para o abraço, antes de comparecer, como Autoridade,
para o auto. Então Gonçalo, ainda nos braços do Gouveia,
pediu generosamente “que se não procedesse contra os bandidos…”
O Administrador recusou, decidido e seco, proclamando o princípio da
Ordem, e necessidade dum escarmento rijo, para que Portugal não recuasse
aos tempos bárbaros do João Brandão de Midões.
Ele e Titó almoçaram na Torre – e Titó, à sobremesa,
lembrou galhofeiramente a conveniência dum brinde, e bramou ele o brinde,
comparando Gonçalo ao elefante, “sempre bom, que tanto agüenta,
e de repente, zás, esmaga o mundo!”

Depois João Gouveia acendendo um grande charuto reclamou a representação
verídica da desordem, com os pulos, os gritos, para ele se compenetrar
como autoridade. Então através da varanda, reviveu a história
heróica, simulando com o chicote sobre o divan (que terminou por esgaçar)
os golpes que arremessara imitando os tombos meio desmaiados do valentão
de Nacejas, quando já o sangue o alagava. O Administrador e o Titó
visitaram na cavalariça a égua histórica; e no pátio,
Gonçalo ainda lhes mostrou as duas polainas de couro secando ao sol,
lavadas do sangue que as salpicara.

Diante do portão João Gouveia bateu gravemente no ombro do
Fidalgo:

– Gonçalo, você deve aparecer esta noite na Assembléia…

Apareceu – e foi acolhido como o vencedor de uma batalha ilustre. No bilhar,
por proposta do velho Ribas, flamejou um grande punch – e o Comendador Barros,
afogueado, teimava que no domingo se celebrasse em S. Francisco um Te-Deum
de graças, de que ele custearia as despesas, com orgulho, caramba!
À saída, acompanhado pelo Titó, pelo Gouveia, pelo Manuel
Duarte, por outros sócios, encontraram o Videirinha – que não
pertencia à Assembléia, mas rondava, esperando o Fidalgo para
lhe lançar duas trovas do Fado, improvisadas nessa tarde, em que o
exaltava acima dos outros Ramires, da História e da Lenda!

O rancho quedou no chafariz. O violão gemeu, com amor. E o cantar
do Videirinha, elevado da alma, varou a muda ramagem das olaias:

Os Ramires doutras eras
Venciam com grandes lanças,
Este vence com um chicote,
Vede que estranhas mudanças!

É que os Ramires famosos,
Da passada geração,
Tinham a força nas armas
E este a tem no coração!

A tão requebrado conceito – os amigos romperam em vivas a Gonçalo,
à Casa de Ramires. E o Fidalgo recolhendo à Torre, comovido,
pensava:

– É curioso! Esta gente toda parece gostar de mim!…

Mas que emoção quando, de manhã cedo, o Bento o acordou
com um telegrama de Lisboa! Era do Cavaleiro – que “soubera pelos jornais
atentado, lhe mandava entusiástico abraço pela felicidade e
pela valentia!” Gonçalo berrou, sentado na cama:

– Caramba! então os jornais em Lisboa já falam, Bento! o caso
anda celebrado!

Certamente celebrado! – porque durante o delicioso dia, o moço do
Telégrafo, esbaforido sobre a perna manca, não cessou de empurrar
o portão da Torre, com outros telegramas, todos de Lisboa, da Condessa
de Chelas; de Duarte Lourençal; dos Marqueses de Coja felicitando;
da tia Louredo com “parabéns ao destemido sobrinho”; da Marquesa
de Esposende “esperando que o caro primo tivesse agradecido a Deus!”…
E o último do Castanheiro, com exclamações: – Magnifico!
Digno de Tructesindo! – Gonçalo, pela Livraria, erguia os braços,
estonteado:

– Santo nome de Deus! mas que terão dito os jornais?

E, por entre os Telegramas, acudiam os cavalheiros dos arredores, os influentes
– o Dr. Alexandrino, aterrado, antevendo um regresso ao Cabralismo; o velho
Pacheco Valadares de Sá, que não se espantara do seu nobre primo,
porque sangue de Ramires, como sangue de Sás, sempre ferve; o Padre
Vicente da Finta, que, com os seus parabéns, ofereceu um cestinho de
cachos do seu famoso moscatel tinto; e por fim o Visconde de Rio-Manso, que
agarrado a Gonçalo, soluçou, no enternecimento quase ufano de
que a briga assim rompesse, na estrada, quando “o querido amigo, o amigo
da sua Rosa” se encaminhava para a Varandinha. Gonçalo, afogueado,
banhado de riso, abraçava, recontava pacientemente a façanha,
acompanhava até o portão aqueles cavalheiros, que, ao montar
as éguas, ao entrar nas caleches, sorriam para a velha Torre, escura
e rígida, na doce claridade da tarde de setembro, como saudando, depois
do herói, o secular fundamento do seu heroísmo.

E o Fidalgo, galgando as escadas para a Livraria, de novo murmurava, estonteado:

– Que terão dito os jornais de Lisboa?

Nem dormiu, na ansiedade de os devorar. Quando o Bento, em alvoroço,
rompeu pelo quarto com o correio – Gonçalo saltou, arrojou o lençol,
como se abafasse. E logo no Século, sofregamente percorrido, encontrou
o telegrama de Oliveira, contando o assalto! os tiros disparados! a imensa
coragem do Fidalgo da Torre, que com um simples chicote… O Bento quase arrebatou
o Século das mãos trêmulas do Fidalgo, para correr à
cozinha, bramar à Rosa a notícia gloriosa!

De tarde, Gonçalo correu à Vila-Clara, à Assembléia,
para devorar os outros jornais de Lisboa, os do Porto. Todos contavam, todos
celebravam! A Gazeta do Porto, atribuindo o atentado a Política, ultrajava
furiosamente o Governo. O Liberal Portuense, porém, relacionava “com
certas vinganças dos republicanos de Oliveira o pavoroso atentado que
quase causara a morte dum dos maiores Fidalgos de Portugal e de Espanha e
dum dos mais pujantes talentos da nova geração!” Os jornais
de Lisboa glorificavam sobretudo “a coragem esplêndida do Sr. Gonçalo
Ramires”. E o mais ardente era a Manhã, num verboso artigo (decerto
escrito pelo Castanheiro), recordando as heróicas tradições
da Casa ilustre, esboçando as belezas do Castelo de Santa Irenéia
e terminando por afirmar que, “agora, se esperava com redobrada ansiedade
a aparição da novela de Gonçalo Ramires, fundada sobre
um feito de seu avô Tructesindo no século XII, e prometida para
o primeiro número dos Anais de Literatura e de História, a nova
Revista do nosso querido amigo Lúcio Castanheiro, esse benemérito
restaurador da Consciência heróica de Portugal!” – As mãos
de Gonçalo, ao desdobrar os jornais, tremiam. E o João Gouveia,
também sôfrego, devorando também os artigos, por sobre
o ombro do Fidalgo, murmurava, impressionado:

– Você, Gonçalinho, vai ter uma votação tremenda!
Depois nessa noite, recolhendo à Torre, Gonçalo encontrou uma
carta que o perturbou. Era de Maria Mendonça, num papel perfumado,
com o mesmo perfume que tão docemente espalhava D. Ana pelo adro de
Santa Maria de Craquede: – “Só esta manhã soubemos o grande
perigo que passou, e ficamos ambas muito comovidas. Mas ao mesmo tempo eu
(e não só eu) muito vaidosa da magnífica coragem do primo.
É dum verdadeiro Ramires! Eu não vou aí abraçá-lo
(com risco de me comprometer e fazer invejas) porque um dos meus pequenos,
o Neco, anda muito constipado. Felizmente não é coisa de cuidado…
Mas aqui todos, até os pequenos, ansiamos por ver o herói, e
não creio que houvesse nada de extraordinário, nem dum lado
nem de outro, em que o primo por aqui aparecesse além de amanhã
(quinta-feira) pelas três horas. Dávamos um passeio na quinta,
e até se merendava, à boa e velha moda dos nossos avós.
Está dito? Muitos cumprimentos, muitos, da Anica, e o primo creia-me,
etc.” – Gonçalo sorriu, pensativamente, considerando a carta,
recebendo o aroma. Nunca a prima Maria lhe empurrara, tão claramente,
a D. Ana para os braços… E como D. Ana se deixava empurrar, pronta,
e de olhos cerrados… Ah, se fosse somente para a alcova! Mas ai! era também
para a Igreja. E de novo sentia aquele vozeirão de Titó, nos
degraus da portinha verde com a lua cheia por cima dos olmos negros: ‘Essa
criatura teve um amante, e tu sabes que eu nunca minto!”

Então tomou lentamente a pena, respondeu a D. Maria Mendonça:
– “Querida prima – Fiquei muito enternecido com o seu cuidado, e os seus
entusiasmos. Não exageremos! Eu não fiz mais que correr a chicote
uns valentões que me assaltaram a tiro. É façanha fácil
para quem tenha, como eu, um chicote excelente. Enquanto à visita à
Feitosa, que me seria tão agradável, não a posso realizar
com fundo pesar meu, nem na quinta-feira, nem mesmo por todo este mês…
Ando ocupadíssimo com o meu livro, a minha Eleição, a
minha mudança para Lisboa. A era dos cuidados sérios soou severamente
para mim – cerrando a doce era dos passeios e dos sonhos. Peço que
apresente à Sra. D. Ana os meus profundos respeitos. E com muitas amizades
para si, e bons desejos pelo restabelecimento desse querido Neco, espero me
creia sempre seu dedicado e grato primo, etc.”

Fechou vagarosamente a carta. E batendo o seu sinete de armas sobre o lacre
verde, pensava:

– Assim aquele maroto do Titó me rouba duzentos contos!…

Durante toda essa macia semana dos fins de setembro, Gonçalo trabalhou
no Capítulo final da sua Novela.

Era enfim a madrugada vingadora em que os Cavaleiros de Santa Irenéia,
reforçados pelas mais nobres lanças da mesnada dos Castros,
surpreendiam, no bravio desfiladeiro marcado por Garcia Viegas, o Sabedor,
o bando de Baião, na sua açodada corrida sobre Coimbra… Briga
curta e falsa, sem destro e brioso terçar de armas, mais semelhante
a montaria contra um lobo do que a arremetida contra um Filho-de-Algo. E assim
a desejara Tructesindo, com ruidosa aprovação de D. Pedro de
Castro, porque não se cuidava de combater um inimigo, mas de colher
um matador.

Antes do luzir da alva, o Bastardo abalara do castelo de Landim, em dura
pressa e com tão descuidada segurança, que nem almogávar
nem coudel lhe atalaiavam os trilhos. As cotovias cantavam quando ele, em
áspero trote, penetrou por essa brecha, entalada entre escarpas de
penedia e urze, que chamam a Racha do Mouro, desde que Mafoma a fendeu para
que escapassem às adagas cristãs de El-Rei Fernando, o Magno,
o Alcaide mouro de Coimbra e a monja que ele arrebatara à garupa. E
apenas pela esguia greta enfiara a derradeira lança da fila – eis que
da outra embocadura do vale surge o cerrado troço dos Cavaleiros de
Santa Irenéia, que Tructesindo guia, com a viseira erguida, sem broquel,
sacudindo apenas uma ascuma de monte como se folgadamente andasse em caçada.
Da selva arredada que os encobria, rompem por trás as lanças
dos Castros, ristadas e cerrando a brecha mais densamente que as puas duma
levadiça. Do recosto dos cerros rola, como represa solta, uma rude
e escura peonagem! Colhido, perdido, o Bastardo terrível! Ainda arranca
furiosamente a espada, que redemoinhando o coroa de coriscos. Ainda com um
fero grito arremete contra Tructesindo… Mas bruscamente, dentre um es curo
magote de fundeiros baleares, parte ondeando uma corda de cânave, que
o laça pela gargalheira, o arranca num brusco sacão da sela
mourisca, o derriba, sobre pedregulhos em que a sua larga espada se entala
e se parte rente ao punho dourado. E enquanto os Cavaleiros de Baião
agüentam assombradamente o denso cerco de lanças, que os envolvera
– um rolo de peões, em dura grita, como mastins sobre um cerdo, arrastarn
o Bastardo para a lomba do outeiro, onde lhe arrancam broquel e adaga, lhe
despedaçam o brial de lã roxa, lhe quebram os fechos do elmo,
para lhe cuspirem na face, nas barbas cor de ouro, tão belas e de tanto
orgulho!

Depois a mesma bruta matula o iça, amarrado, para sobre o dorso duma
possante mula de carga, o estende entre dois esguios caixotes de virotões,
como rês apanhada ao recolher da montaria. E servos da carriagem ficam
guardando o Cavaleiro soberbo, o Claro-Sol que alumiava a casa de Baião,
agora entaipado entre dois caixotes de pau, com cordas nos pés, e cordas
nas mãos, e nelas espetado um triste ramo de cardo – emblema da sua
traição.

No entanto os seus quinze Cavaleiros juncavam o chão, esmagados sob
o furioso cerco de lanças que os investira – uns hirtos, como adormecidos,
dentro das negras armaduras, outros torcidos, desfeitos, com as carnes retalhadas,
pendendo horrendamente entre malhas rotas dos lorigais. Os escudeiros, colhidos,
empurrados a pontoada de chuço para a boca duma barroca, sem resgate
ou mercê, como alcatéia imunda de roubadores de gado, acabaram,
decepados a macheta pelos barbudos estafeiros leoneses. Todo o vale cheirava
a sangue como um pátio de magarefes. Para reconhecer os companheiros
do Bastardo, uma turma de Cavaleiros desafivelava os gorjais, as viseiras,
arrancando furtivamente as medalhas de prata, os bentos, saquinhos de relíquias,
que todos traziam como bem-tementes. Numa face, de fina barba negra, que uma
espuma sangrenta manchava, Mendo de Briteiros reconheceu seu primo Soeiro
de Lugilde com quem, pela fogueira de S. João, folgara tão docemente
e bailara no castelo de Unhelo – e vergado sobre a alta sela rezou, pela pobre
alma sem confissão, uma devota Ave-Maria. Fuscas, tristonhas nuvens,
abafavam a manhã de agosto. E afastados à entrada do vale, sob
a ramagem dum velho azinheiro, Tructesindo, D. Pedro de Castro, e Garcia Viegas,
o Sabedor, decidiam que morte lenta, e bem dorida e viltosa, se daria ao Bastardo,
vilão de tão negra vilta.

Contando assim a sombria emboscada com o gemente esforço de quem empurra
um arado por terra pedreira – gastara Gonçalo essa doce semana de setembro.
E no sábado, cedo, na Livraria, com os cabelos ainda molhados do banho
de chuva, esfregava as mãos diante da banca – porque certamente com
duas horas de atento trabalho findaria antes do almoço a sua Novela,
a sua Obra! E todavia esse final quase o repelia, com o seu sujo horror. O
tio Duarte no seu Poemeto apenas o esboçara, com esquiva indecisão,
como nobre Lírico que ante uma visão de bruta ferocidade solta
um lamento, resguarda a Lira, e desvia para sendas mais doces. E, ao tomar
a pena, Gonçalo, também, realmente lamentava que seu avô
Tructesindo não matasse outrora o Bastardo, no fragor da briga, com
uma dessas cutiladas maravilhosas, e tão doces de celebrar, que racham
o Cavaleiro e depois racham o ginete, e para sempre retinem na História.

Mas não! Sob a folhagem do azinheiro, os três Cavaleiros combinavam
com lentidão uma vingança terrifica. Tructesindo desejara logo
recolher a Santa Irenéia, alçar uma forca diante das barbacãs,
no chão em que seu filho rolara morto, e nela enforcar, depois de bem
açoitado, como vilão, o vilão que o matara. O velho D.
Pedro de Castro, porém, aconselhava despacho mais curto, e também
gostoso. Para que rodear por Santa Irenéia, desbaratar esse dia de
agosto na arrancada que os levava a Montemor, a socorro das Infantas de Portugal?
Que se estendesse o Bastardo amarrado sobre uma trave, aos pés de D.
Tructesindo, como porco pelo Natal, e que um cavalariço lhe chamuscasse
as barbas, e depois outro, com facalhão de ucharia, o sangrasse no
pescoço, pachorrentamente.

– Que vos parece, Sr. D. Garcia?

O Sabedor desafivelara o casco de ferro, limpava nas rugas o suor e a poeira
da lide:

– Senhores e amigos! Temos melhor, e perto também, sem delongas de
cavalgada, logo adiante destes cerros, no Pego das Bichas… E nem torcemos
caminho, que de lá, por Tordezelo e Santa Maria da Varge, endireitamos
a Montemor, tão direitos como voa o corvo… Confiai em mim, Tructesindo!
Confiai em mim, que eu arranjarei ao Bastardo tal morte e tão vil,
que doutra igual se não possa contar desde que Portugal foi condado.

– Mais vil que forca, para Cavaleiro, meu velho Garcia?

– Lá vereis, senhores e amigos, lá vereis!

– Seja! Mandai dar às buzinas.

Ao comando de Afonso Gomes, o Alferes, as buzinas soaram. Um troço
de besteiros e de estafeiros leoneses rodearam a mula que carregava o Bastardo
amarrado e entalado entre dois caixotes. E, acaudilhada por D. Garcia, a curta
hoste meteu para o Pego das Bichas, em desbando com os senhores de lança
espalhados, como em marcha de folgança e paz (?), e todos numa rija
falada recordando, entre gabos e risos, as proezas da lide.

As duas léguas de Tordezelo e do seu castelo formoso, se escondia
entre os cerros o Pego das Bichas. Era um lugar de eterno silêncio e
de eterna tristeza. Em esmerados versos lhe marcara o tio Duarte a desolada
asperidão:

Nem trilo de ave em balançado ramo!

Nem fresca flor junto de fresco arroio!

Só rocha, matagal, ribas soturnas,

E em meio o Pego, tenebroso e morto!…

E quando os primeiros Cavaleiros, galgada a lomba dum cerro, o avistaram,
na melancolia da manhã nevoenta, emudeceram da larga falada, repuxaram
os freios, assustados ante tão áspero ermo, tão propício
a Bruxas, a Avantesmas e a Almas penadas. Diante do escalavrado barranco,
por onde os ginetes escorregavam, ondulava uma ribanceira, aberta com charcos
lamacentos, quase chupados pela estiagem, luzindo pardamente, por entre grossos
pedregulhos e o tojo rasteiro. Ao fundo, a meio tiro de besta, negrejava o
Pego, lagoa estreita, lisa, sem uma ruga n’água, duramente negra, com
manchas mais negras, como lâmina de estanho onde alastrasse a ferrugem
do tempo e do abandono. Em torno subiam os cerros, eriçados de mato
bravio e alto, sulcados por trilhos de saibro vermelho como por fios de sangue
que escorresse, e rasgado no alto por penedias lustrosas, mais brancas que
ossadas. Tão pesado era o silêncio, tão pesada a soledade,
que o velho D. Pedro de Castro, homem de tanta jornada, se espantou:

– Feia paragem! E voto a Cristo, a Santa Maria, que nunca antes de nós,
nela entrou homem remido pelo batismo.

– Pois, Sr. D. Pedro de Castro! – acudiu o Sabedor já por aqui se
moveu muita lança, e luzida, e ainda em tempos do Conde D. Soeiro,
e de vosso Rei D. Fernando, se erguia naquela beira d’água, uma castelania
famosa! Vede além! – E mostrava na ponta do Pego, fronteira ao barranco,
dois rijos pilares de pedra, que emergiam da água negra, e que chuva
e vento poliram como mármores finos. Um passadiço de traves,
sobre estacas limosas e meio apodrecidas, atava a margem ao mais grosso dos
pilares. E a meio desse rude esteio pendia uma argola de ferro.

No entanto já o tropel da peonagem se espalhara pela ribanceira. D.
Garcia Viegas desmontou, bradando por Pero Ermigues, o Coudel dos besteiros
de Santa Irenéia. E, ao lado do ginete de Tructesindo, risonho e gozando
a surpresa, ordenou ao Coudel que seis dos seus rijos homens descessem o Bastardo
da mula, o estirassem no chão, o despissem, todo nu, como sua mãe
barregã o soltara à negra vida…

Tructesindo encarou o Sabedor, franzindo as sobrancelhas hirsutas:

– Por Deus, D. Garcia! que me ides simplesmente afogar o vilão, e
sujar essa água inocente!…

E alguns Cavaleiros, em redor, murmuraram também contra morte tão
quieta e sem malícia. Mas os miúdos olhos de D. Garcia giravam,
lampejavam de triunfo e gosto:

– Sossegai, sossegai! Velho estou certamente, mas ainda o senhor Deus me
consente algumas traças. Não! Nem enforcado, nem degolado, nem
afogado… Mas chupado, senhores! Chupado em vida, e devagar, pelas grandes
sanguessugas que enchem toda essa água negra!

D. Pedro de Castro, maravilhado, bateu o guante nas solhas do coxote:

– Vida de Cristo! Que ter numa hoste o Sr. D. Garcia, é ter juntamente,
para marchas e conselho, enrolados num só, Anibal e Aristóteles!

Um rumor de admiração correu pela hoste:

– Boa traça, boa traça!

E Tructesindo, radiante, bradava:

– Andar, andar, besteiros! E vós, senhores, recuai para a lomba do
cerro, como para palanque, que vai ser grande a vista! Já seis besteiros
descarregavam da mula o Bastardo amarrado. Outros cercavam, com molhos de
cordas. E, como magarefes para esfolar uma rês, toda a rude turma se
abateu sobre o malfadado, arrancando por cordas que desatavam a cervilheira,
o saio, as grevas, os sapatões de ferro, depois a grossa roupa de linho
encardido. Agarrado pelos compridos cabelos, filado pelos pés, onde
se cravavam agudas unhas no furor de o manter, com os braços esmagados
sob outros grossos braços retesos, o possante Bastardo ainda se estorcia,
urrando, cuspindo contra as faces confusas da matulagem um cuspo avermelhado,
que espumava!

Mas, por entre o escuro tropel que o cobria, o seu corpo, todo despido, branquejava,
atado com cordas mais grossas. Lentamente o seu furioso urrar esmorecia, arquejado
e rouquenho. E um após outro se erguiam os besteiros, esfalfados, bufando,
limpando o suor do esforço.

No entanto os Cavaleiros de Espanha, de Santa Irenéia, desmontavam
cravando o couto das lanças entre o tojo e as pedras. Todos os recostos
dos outeiros se cobriam da mesnada espalhada, como palanques em tarde de justa.
Sobre uma rocha mais lisa, que dois magros espinheiros toldavam de folha rala,
um pajem estendera peles de ovelha para o Sr. D. Pedro de Castro, para o senhor
de Santa Irenéia. Mas só o velho Castelão se acomodou,
para uma repousada delonga desafivelando o seu corselete de ferro tauxiado
de ouro.

Tructesindo permanecera erguido, mudo, com os guantes apoiados ao punho da
sua alta espada, os olhos fundos avidamente cravados na tenebrosa lagoa que,
com morte tão fera e tão suja, vingaria seu filho… E pela
borda do Pego, peões, e alguns Cavaleiros de Espanha, remexiam com
virotôes, com os coutos das ascumas, a água lodosa, na curiosidade
das negras bichas escondidas, que o povoam.

Subitamente a um brado de D. Garcia, que rondava, toda a chusma de peões
amontoada em torno ao Bastardo se arredou: e o forte corpo apareceu, nu e
branco, sobre a terra negra, com um denso pêlo ruivo nos peitos, a sua
virilidade afogada noutra mata de pêlo ruivo, e todo ligado por cordas
de cânave que o inteiriçavam. Naquela rigidez de fardo, nem as
costelas arfavam – apenas os olhos refulgiam, ensangüentados, horrendamente
esbugalhados pelo espanto e pelo furor. Alguns Cavaleiros correram a mirar
a aviltada nudez do homem famoso de Baião. O senhor dos Paços
de Argelim mofou, com estrondo:

– Bem o sabia, por Deus! Corpo de manceba, sem costura de ferida!…

Leonel de Samora raspou o sapato de ferro pelo ombro do malfadado:

– Vede este Claro-Sol, tão claro, que se apaga agora, em água
tão negra!

O Bastardo cerrava duramente as pálpebras – donde duas grossas lágrimas
escaparam, lentamente rolaram… Mas um agudo pregão ressoou pela ribanceira:

– Justiça! Justiça!

Era o Adail de Santa Irenéia, que marchava, sacudia uma lança,
atroava os cerros:

– Justiça! justiça que manda fazer o senhor de Treixedo e de
Santa Irenéia, num perro matador!… Justiça num perro, filho
de perra, que matou vilmente, e assim morra vilmente por ela!…

Três vezes pregoou por diante da hoste apinhada nos cerros. Depois
quedou, saudou humildemente Tructesindo Ramires, o velho Castro, como ajulgadores
no seu Estrado de julgamento.

– Aviai, aviai! – bradava o Senhor de Santa Irenéia.

Imediatamente, a um comando do Sabedor, seis besteiros, com as pernas embrulhadas
em mantas da carga, ergueram o corpo do Bastardo como se ergue um morto enrolado
no seu lençol, e com ele entraram na água, até o mais
alto pilar de granito. Outros, arrastando molhos de cordas, correram pelo
limoso passadiço de traves. Com um alarido de agüenta! endireita!
alça! num desesperado esforço o robusto corpo branco foi mergulhado
n’água até as virilhas, arrimado ao mais alto pilar, depois
nele atado com um longo calabre que, passando pela argola de ferro, o suspendia,
sem escorregar, tão seguro e colado como um rolo de vela que se amarra
ao mastro. Rapidamente os besteiros fugiram d’água, desentrapando logo
as pernas, que palpavam, raspavam no horror das bichas sugadoras. Os outros
recolheram pelo passadiço, numa fila que se empurrava. No Pego ficava
Lopo de Baião bem arranjado para a vistosa morte lenta, com a água
que já o afogava até as pernas, com cordas que o enroscavam
até o pescoço, como a um escravo no poste; e uma espessa mecha
dos cabelos louros laçada na argola de ferro, repuxando a face clara,
para que todos nela gozassem largamente a humilhada agonia do Claro-Sol.

Então o atento da hoste, esperando espalhada pelos recostos dos cerros,
mais entristeceu o enevoado silêncio do ermo. A água jazia sem
um arrepio, com as suas manchas, negras como uma lâmina de estanho enferrujado.
Entre as cristas das rochas, arqueiros postados pelo Sabedor atalaiavam, para
além, os descampados. Um alto vôo de gralha atravessou grasnando.
Depois um bafo lento agitou as flâmulas das lanças cravadas no
tojo denso.

Para despertar, aviar a lentidão das bichas, alguns peões atiravam
pedras à água lodosa. Já alguns Cavaleiros espanhóis
rosnavam impacientes com a delonga, naquela cova abafada. Outros, descendo
agachados à borda da lagoa, para mostrar que as faladas bichas nunca
acudiriam, mergulhavam lentamente, n’água negra, as mãos descalçadas,
que depois sacudiam, rindo e mofando do Sabedor… Mas de repente um estremeção
sacudiu o corpo do Bastardo; os seus rijos músculos, no furioso esforço
de se desprenderem, inchavam entre as cordas, como cobras que se arqueiam;
dos beiços arreganhados romperam, em rugidos, em grunhidos, ultrajes
e ameaças contra Tructesindo covarde, e contra toda a raça de
Ramires, que ele emprazava, dentro do ano, para as labaredas do Inferno! Indignado,
um Cavaleiro de Santa Irenéia agarrou uma besta de garrunche, a que
retesou a corda.

Mas D. Garcia deteve o arremesso:

– Por Deus, amigo! Não roubeis às sanguessugas nem uma pinga
daquele sangue fresco!… Vede como vêm! vede como vêm!

Na água espessa, em torno às coxas mergulhadas do Bastardo,
um frêmito corria, grossas bolhas empolavam – e delas, molemente, uma
bicha surdiu, depois outra e outra, luzidias e negras, que ondulavam, se colavam
à branca pele do ventre, donde pendiam, chupando, logo engrossadas,
mais lustrosas como lento sangue que já escorria. O Bastardo emudecera
– e os seus dentes batiam estridentemente. Enojados, até rudes peões
desviaram a face cuspindo para as urzes. Outros, porém, chasqueavam,
assuavam as bichas, gritando: – a ele, donzelas! a ele! E o gentil Çamora
de Cendufe clamava rindo contra tão insossa morte! Por Deus! Uma apostura
de bichas, como a enfermo de almorreimas. Nem era sentença de Rico-homem
– mas receita de herbanista mouro!

– Pois que mais quereis, meu Leonel? – acudiu alegremente o Sabedor, resplandecendo.
– Morte é esta para se contar em livros! E não tereis este inverno
serão à lareira, por todos os solares de Minho a Douro, em que
não volte a história deste Pego, e deste feito! Olhai nosso
primo Tructesindo Ramires! Formosos tratos presenciou decerto em tão
longo lidar de armas!… E como goza! tão atento! tão maravilhado!

Na encosta do outeiro, junto do seu balsão, que o Alferes cravara
entre duas pedras, e como ele tão quedo, o velho Ramires não
despregava os olhos do corpo do Bastardo, com deleite bravio, num fulgor sombrio.
Nunca ele esperara vingança tão magnífica! O homem que
atara seu filho com cordas, o arrastara numas andas, o retalhara a punhal
diante das barbacãs da sua Honra – agora, vilmente nu, amarrado também
como cerdo, pendurado dum pilar, emergido numa água suja, e chupado
por sanguessugas, diante de duas mesnadas, das melhores de Espanha, que miravam,
que mofavam! Aquele sangue, o sangue da raça detestada, não
o bebia a terra revolta numa tarde de batalha, escorrendo de ferida honrada,
através de rija armadura – mas, gota a gota, escuramente e molemente
se sumia, sorvido por nojentas bichas, que surdiam famintas do lodo e no lodo
recaíam fartas, para sobre o lodo bolçar o orgulhoso sangue
que as enfartara. Num charco, onde ele o mergulhara, viscosas bichas bebiam
sossegadamente o Cavaleiro de Baião! Onde houvera homizio de solares
fundado em desforra mais doce?

E a fera alma do velho acompanhava, com inexorável gozo, as sanguessugas
subindo, espalhadamente alastrando por aquele corpo bem amarrado, como seguro
rebanho pela encosta da colina onde pasta. O ventre já desaparecia
sob uma camada viscosa e negra, que latejava, reluzia na umidade morna do
sangue. Uma fila sugava a cinta, encovada pela ânsia, donde sangue se
esfiava, numa franja lenta. O denso pêlo ruivo do peito, como a espessura
duma selva, detivera muitas, que ondulavam, com um rasto de lodo. Um montão
enovelado sangrava um braço. As mais fartas, já inchadas, mais
reluzentes, despegavam, tombavam molemente; mas logo outras, famintas, se
aferravam. Das chagas abandonadas o sangue escorria delgado, represo nas cordas,
donde pingava como uma chuva rala. Na escura água boiavam gordas postemas
de sangue esperdiçado. E assim sorvido, ressumando sangue, o malfadado
ainda rugia, através ultrajes imundos, ameaças de mortes, de
incêndios, contra a raça dos Ramires! Depois, com um arquejar
em que as cordas quase estalavam, a boca horrendamente escancarada e ávida,
rompia aos roucos urros, implorando água, água! No seu furor
as unhas, que uma volta de amarras lhe colara contra as fortes coxas, esfarrapavam
a carne, cravavam-se na fenda esfarrapada, ensopadas de sangue.

E o furioso tumulto esmorecia num longo gemer cansado – até que parecia
adormecido nos grossos nós das cordas, as barbas reluzindo sob o suor
que as alagara como sob um grosso orvalho, e entre elas a espantada lividez
dum sorriso delirado.

No entanto já na hoste derramada pelos cerros, como por um palanque,
se embotara a curiosidade bravia daquele suplício novo. E se acercava
a hora da ração de meridiana. O Adail de Santa Irenéia,
depois o Almocadém Espanhol, mandaram soar os anafins. Então
todo o áspero ermo se animou com uma faina de arraial. O almazém
das duas mesnadas parara por detrás dos morros, numa curta almargem
de erva, onde um regato claro se arrastava nos seixos, por entre as raízes
de amieiros chorões. Numa pressa esfaimada, saltando sobre as pedras,
os peões corriam para a fila dos machos de carga, recebiam dos uchões
e estafeiros a fatia de carne, a grossa metade dum pão escuro; e, espalhados
pela sombra do arvoredo, comiam com silenciosa lentidão, bebendo da
água do regato pelas concas de pau. Depois preguiçavam, estirados
na relva – ou trepavam em bando pela outra encosta dos morros, através
do mato, na esperança de atravessar com um virote alguma caça
erradia. Na ribanceira, diante da lagoa, os Cavaleiros, sentados sobre grossas
mantas, comiam também, em roda dos alforjes abertos, cortando com os
punhais nacos de gordura nas grossas viandas de porco, empinando, em longos
tragos, as bojudas cabaças de vinho.

Convidado por D. Pedro de Castro, o velho Sabedor descansava, partilhando
duma larga escudela de barro, cheia de bolo papal, dum bolo de mel e flor
de farinha, onde ambos enterravam lentamente os dedos, que depois limpavam
ao forro dos morriões. Só o velho Tructesindo não comia,
não repousava, hirto e mudo diante do seu pendão, entre os seus
dois mastins, naquele fero dever de acompanhar, sem que lhe escapasse um arrepio,
um gemido, um fio de sangue, a agonia do Bastardo. Debalde o Castelão,
estendendo para ele um pichel de prata, gabava o seu vinho de Tordesilhas,
fresco como nenhum de Aquilat ou de Provins, para a sede de tão rija
arrancada. O velho Rico-homem nem atendera: – e D. Pedro de Castro, depois
de atirar dois pães aos alões fiéis, recomeçou
discorrendo com Garcia Viegas sobre aquele teimoso amor do Bastardo por Violante
Ramires que arrastara a tantos homizios e furores.

– Ditosos nós, Sr. D. Garcia! Nós a quem a idade e o quebranto
e a fartura já arredam dessas tentações… Que a mulher,
como me ensinava certo físico quando eu andava com os Mouros, é
vento que consola e cheira bem, mas tudo enrodilha e esbandalha. Vede como
os meus por elas penaram! Só meu pai, com aquela desvairança
de zelos, em que matou a cutelo minha doce madre Estevaninha. E ela tão
santa, e filha do Imperador! A tudo, tudo leva, a tonta ardência! Até
a morrer, como este, sugado por bichas, diante duma hoste que merenda e mofa.
E por Deus, quanto tarda em morrer, Sr. D. Garcia!

– Morrendo está, Sr. D. Pedro de Castro. E já com o demo ao
lado para o levar!

O Bastardo morria. Entre os nós das cordas ensangüentadas todo
ele era uma ascorosa avantesma escarlate e negra com as viscosas pastas de
bichas que o cobriam, latejando com os lentos fios de sangue que de cada ferida
escorriam, mais copiosos que os regos de umidade por um muro denegrido.

O desesperado arquejar cessara, e a ânsia contra as cordas, e todo
o furor. Mole e inerte como um fardo, apenas a espaços esbugalhava
horrendamente os olhos vagarosos, que revolvia em torno com enevoado pavor.
Depois a face abatia, lívida e flácida, com o beiço pendurado,
escancarando a boca em cova negra, de onde se escoava uma baba ensangüentada.
E das pálpebras novamente cerradas, intumescidas, um muco gotejava,
também como de lágrimas engrossadas com sangue.

A peonagem, no entanto, voltando da ração, reatulhava a ribanceira,
pasmava, com rudes chufas para o corpo pavoroso que as bichas ainda sugavam.
Já os pajens recolhiam mantéis e alforjes. D. Pedro de Castro
descera do cabeço com o Sabedor até a borda da água lodosa,
onde quase mergulhava os sapatos de ferro, para contemplar, mais de cerca,
o agonizante de tão rara agonia! E alguns senhores, estafados com a
delonga, afivelando os gibanetes, murmuravam: – “Está morto! Está
acabado!”

Então Garcia Viegas gritou ao Coudel dos Besteiros:

– Ermigues, ide ver se ainda resta alento naquela postema.

O Coudel correu pelo passadiço de traves, e arrepiado de nojo palpou
a lívida carne, acercou da boca, toda aberta, a lâmina clara
da adaga que desembainhara.

– Morto! morto! – gritou.

Estava morto. Dentro das cordas que o arroxeavam o corpo escorregava, engelhado,
chupado, esvaziado. O sangue já não manava, havia coalhado em
postas escuras, onde algumas bichas teimavam latejando, reluzindo. E outras
ainda subiam, tardias. Duas, enormes, remexiam na orelha. Outra tapava um
olho. O Claro-Sol não era mais que uma imundície que se decompunha.
Só a madeixa dos cabelos louros, repuxada, presa na argola, reluzia
com um lampejo de chama, como rastro deixado pela ardente alma que fugira.

Com a adaga ainda desembainhada, e que sacudia, o Coudel avançou para
o senhor de Santa Irenéia, bradou:

– Justiça está feita, que mandastes fazer no perro matador
que morreu!

Então o velho Rico-homem, atirando o braço, o cabeludo punho,
com possante ameaça, bradou, num rouco brado que rolou por penhascos
e cerros:

– Morto está! E assim morra de morte infame quem traidoramente me
afronte a mim e aos da minha raça!

Depois, cortando rigidamente pela encosta do cerro, através do mato,
e com um largo aceno ao Alferes do Pendão:

– Afonso Gomes, mandai dar às buzinas. E a cavalo, se vos praz, Sr.
D. Pedro de Castro, primo e amigo, que leal e bom me fostes!…

O Castelão ondeou risonhamente o guante:

– Por Santa Maria, primo e amigo! que gosto e honra os recebi de vós.
A cavalo pois se vos praz! Que nos promete aqui o Sr. D. Garcia vermos ainda,
com sol muito alto, os muros de Montemor.

Já a peonagem cerrava as quadrilhas, os donzéis de armas puxavam
para a ribanceira os ginetes folgados que a vasta água escura assustava.
E, com os dois balsões tendidos, o Açor negro, as Treze Arruelas,
a fila da cavalgada atirou o trote pelo barranco empinado, donde as pedras
soltas rolavam. No alto, alguns Cavaleiros ainda se torciam nas selas para
silenciosamente remirarem o homem de Baião, que lá ficava, amarrado
ao pilar, na solidão do Pego, a apodrecer. Mas quando a ala dos besteiros
e fundibulários de Santa Irenéia desfilou, uma rija grita rompeu,
com chufas, sujas injúrias ao “perro matador”. A meio da
escarpa, um besteiro, virando, retesou furiosamente a besta. A comprida garruncha
apenas varou a água. Outra logo ziniu, e uma bala de funda, e uma seta
barbada – que se espetou na ilharga do Bastardo, sobre um negro novelo de
bichas. O Coudel berrou: “cerra! anda!” A récua das azêmolas
de carga avançava, sob o estalar dos látegos; os moços
da carriagem apanhavam grossos pedregulhos, apedrejavam o morto. Depois os
servos carreteiros marcharam, nos seus curtos saios de couro cru, balançando
um chuço curto: – e o capataz apanhou simplesmente esterco das bestas,
que chapou na face do Bastardo sobre as finas barbas de ouro.

CAPÍTULO XI

Quando Gonçalo, estafado e já todo o ardor bruxuleando, retocou
este derradeiro traço da afronta – a sineta no corredor repicava para
o almoço. Enfim! Deus louvado! eis finda essa eterna Torre de Ramires!
Quatro meses, quatro penosos meses desde junho, trabalhara na sombria ressurreição
dos seus avós bárbaros. Com uma grossa e carregada letra, traçou
no fundo da tira Finis. E datou, com a hora, que era de meio-dia e quatorze
minutos.

Mas agora, abandonada a banca onde tanto labutara, não sentia o contentamento
esperado. Até esse suplício do Bastardo lhe deixara uma aversão
por aquele remoto mundo Afonsino, tão bestial, tão desumano!
Se ao menos o consolasse a certeza de que reconstituíra, com luminosa
verdade, o ser moral desses avós bravios… Mas quê! bem receava
que sob desconcertadas armaduras, de pouca exatidão arqueológica,
apenas se esfumassem incertas almas de nenhuma realidade histórica!…
Até duvidava que sanguessugas recobrissem, trepando dum charco, o corpo
dum homem, e o sugassem das coxas às barbas, enquanto uma hoste mastiga
a ração!… Enfim, o Castanheiro louvara os primeiros Capítulos.
A Multidão ama, nas Novelas, os grandes furores, o sangue pingando;
e em breve os Anais espalhariam, por todo o Portugal, a fama daquela Casa
ilustre, que armara mesnadas, arrasara castelos, saqueara comarcas por orgulho
de pendão, e afrontara arrogantemente os Reis na cúria e nos
campos de lide. O seu verão, pois, fora fecundo. E para o coroar, eis
agora a Eleição, que o libertava das melancolias do seu buraco
rural…

Para não retardar as visitas ainda devidas aos influentes, e também
para espairecer, logo depois do almoço montou a cavalo – apesar do
calor, que desde a véspera, e naquele meado de outubro, esmagava a
aldeia com o refulgente peso duma canícula de agosto. Na volta da estrada
dos Bravais um homem gordo, de calça branca enxovalhada, que se apressava,
bufando, sob o seu guarda-sol de paninho vermelho, deteve o Fidalgo com uma
cortesia imensa. Era o Godinho, amanuense da Administração.
Levava um ofício urgente ao Regedor dos Bravais, e agora corria à
Torre de mandado do Sr. Administrador…

Gonçalo recuou a égua para a sombra duma carvalha:

– Então que temos, amigo Godinho?

O Sr. Administrador anunciava a S. Exa. que o maroto do Ernesto, o valentão
de Nacejas, em tratamento no Hospital de Oliveira, melhorara consideravelmente.
Já lhe repegara a orelha, a boca soldava… E, como se procedeu à
querela, o patife passava da enfermaria para a cadeia…

Gonçalo protestou logo, com uma palmada no selim:

– Não senhor! Faça o obséquio de dizer ao Sr. João
Gouveia que não quero que se prenda o homem! Foi atrevido, apanhou
uma dose tremenda, estamos quites.

– Mas Sr. Gonçalo Mendes…

– Pelo amor de Deus, amigo Godinho! Não quero, e não quero…
Explique bem ao Sr. João Gouveia… Detesto vinganças. Não
estão nos meus hábitos, nem nos hábitos da minha família.
Nunca houve um Ramires que se vingasse… Quero dizer, sim, houve, mas…
Enfim explique bem ao Sr. João Gouveia. De resto eu logo o encontro,
na Assembléia… Bem basta ao homem ficar desfeado. Não consinto
que o apoquentem mais!… Detesto ferocidades.

– Mas…

– Esta é a minha decisão, Godinho!

– Lá darei o recado de V. Exa..

– Obrigado. E adeus!… Que calor, bem!

– De rachar, Sr. Gonçalo Mendes; de rachar!

Gonçalo seguiu, revoltado pela idéia de que o pobre valentão
de Nacejas, ainda moído, com a orelha mal soldada, baixasse à
sórdida enxovia de Vila-Clara, para dormir sobre uma tábua.
Pensou mesmo em galopar para Vila-Clara, reter o zelo legal do João
Gouveia. Mas perto, adiante do lavadouro, era a casa de um Influente, o João
Firmino, carpinteiro e seu compadre. E para lá trotou, apeando ao portal
do quinteiro. O compadre Firmino largara cedo para a Arribada, onde trabalhava
nas obras do lagar do Sr. Esteves. E foi a comadre Firmina que correu da cozinha,
obesa e luzidia, com dois pequenos dependurados das saias e mais sujos que
esfregões. O Fidalgo beijou ternamente as duas faces ramelosas:

– E que rico cheiro a pão fresco, ó comadre! Foi a fornada,
bem? Pois então grande abraço ao Firmino. E que se não
esqueça! A Eleição vem para o outro domingo. Lá
conto como voto dele. E olhe que não é pelo voto, é pela
amizade.

A comadre arreganhava os dentes magníficos num regalado e gordo riso:
– “Ai o Fidalgo podia ficar seguro! Que o Firmino já jurara, até
ao Sr. Regedor, que para o Fidalgo era todo o sítio a votar, e quem
não fosse a amor ia a pau”. O Fidalgo apertou a mão da
comadre – que do degrau do quinteiro, com os dois pequenos enrodilhados nas
saias, e o gordo riso mais embevecido, seguiu a poeira da égua como
o sulco dum Rei benéfico.

E depois nas outras visitas, ao Cerejeira, ao Ventura da Chiche, encontrou
o mesmo fervor, os mesmos sorrisos luzindo de gosto. “O quê! para
o Fidalgo! Isso tudo! E nem que fosse contra o Governo!” – Na tasca do
Manuel da Adega, um rancho de trabalhadores bebia, já ruidoso, com
as jaquetas atiradas para cima dos bancos; o Fidalgo bebeu com eles, galhofando,
gozando sinceramente a pinga verde e o barulho. O mais velho, um avejão
escuro, sem dentes, e a face mais engelhada que uma ameixa seca, esmurrou
com entusiasmo o balcão: – “Isto, rapazes, é Fidalgo que,
quando um pobre de Cristo escalavra a perna, lhe empresta a égua, e
vai ele ao lado mais duma légua a pé, como foi como Solha! Rapazes!
isto é Fidalgo para a gente ter gosto!” As saúdes atroaram
a venda. E quando Gonçalo montou, todos o cercavam como vassalos ardentes,
que a um aceno correriam a votar – ou a matar!

Em casa do Tomás Pedra, a avó Ana Preta, uma velha entrevada,
muito velha e trêmula, rompeu a choramingar por o seu Tomás andar
para o Olival quando o Fidalgo o visitava. “Que aquilo era como visita
de santo!”

– Ora essa, tia Pedra! Pecador, grande pecador!

Dobrada na cadeirinha baixa, com as farripas brancas descendo do lenço,
pela face toda chupada de grelhas e peluda, a tia Ana bateu no joelho agudo:

– Não senhor! não senhor! que quem mostrou aquela caridade
pelo filho do Casco merece estar em altar!

O Fidalgo ria, beijocava pequenadas encardidas, apertava mãos ásperas
e rugosas como raízes, acendia o cigarro à brasa das lareiras,
conversando, com intimidade, das moléstias e dos derriços. Depois,
no calor e pó da estrada, pensava: – “É curioso! parece
haver amizade, nesta gente!”

Às quatro horas, derreado, decidiu cessar o giro, recolher à
Torre pela estrada mais fresca da Bica Santa. E passara o lugarejo do Cerdal,
quando na volta aguda do Caminho, rente ao souto de azinheiros, quase esbarrou
com o Dr. Júlio, também a cavalo, também no seu giro,
de quinzena de alpaca, alagado em suor, debaixo dum guarda-sol de seda verde.
Ambos detiveram as éguas, se saudaram amavelmente.

– Muito gosto em o ver, Sr. Dr. Júlio…

– Igualmente, com muita honra, Sr. Gonçalo Ramires…

– Então também na tarefa?…

O Dr. Júlio encolheu os ombros:

– Que quer V. Exa.? Se me meteram nesta! E sabe V. Exa. como isto acaba?…
Acaba em eu mesmo, no outro domingo, votar em V. Exa..

O Fidalgo riu. Ambos se debruçaram, para se apertarem as mãos
com alegria, com estima.

– Que calor este, Sr. Dr. Júlio!

– Horroroso, Sr. Gonçalo Ramires… E que maçada!

Assim o Fidalgo empregou essa semana nas visitas aos Eleitores – “os
grandes e os miúdos”. E dois dias antes da Eleição,
numa sexta-feira à tarde, com um tempo já macio e fresco, partiu
para Oliveira – onde chegara, na véspera, o André Cavaleiro,
depois da sua tão longa, tão falada demora em Lisboa.

Nos Cunhais, apenas saltara da caleche, logo se enfureceu ao saber, pelo
bom João da Porta – “que as Sras. Lousadas estavam em cima, de
visita, com a Sra. D. Graça…

– Há muito?

– Já lá estão pegadas há meia hora boa, meu senhor.

Gonçalo enfiou sorrateiramente para o seu quarto, pensando: – “Que
desavergonhadas! Chegou o André, vêm logo cocar!” E já
se lavara, mudara o fato cinzento – quando o Barrolo apareceu, esbaforido,
desusadamente radiante, de sobrecasaca, de chapéu alto, com as bochechas
acesas, alvoroçadamente radiantes:

– Eh, seu Barrolo, que janota!

– Parece bruxedo! – gritou o Barrolo, depois dum abraço, que repetiu,
com desacostumado fervor. – Estava agora mesmo para te mandar um telegrama,
que viesses…

– Para quê?

O Barrolo gaguejou, com um riso reprimido que o iluminava, o inchava:

– Para quê? Para nada… Quero dizer, para a Eleição!
Pois a Eleição é além de amanhã, menino!
O Cavaleiro chegou ontem. Agora volto eu do Governo Civil. Estive no Paço
com o Sr. Bispo, depois passei pelo Governo Civil… Ótimo, o André!
Aparou o bigode, parece mais moço. E traz novidades… Traz grandes
novidades!

E o Barrolo esfregava as mãos, num tão faiscante alvoroço,
com tanto riso escapando dos olhos e da face reluzente, que o Fidalgo o encarou
curioso, impressionado:

– Ouve lá, Barrolinho! Tu tens alguma coisa boa para me anunciar?

Barrolo recuou, negou com estrondo, como quem bruscamente fecha uma porta.
Ele? Não! Não sabia nada! Só a Eleição!
Na Murtosa votação tremenda…

– Ah! pensei – murmurou Gonçalo. – E a Gracinha?

– A Gracinha também não!

– Também não quê, homem? Como está? Simplesmente
como está?

– Ah! está com as Lousadas. Há mais de meia hora, aquelas bêbedas!…
Naturalmente por causa do Bazar do Asilo Novo… Esta maçada dos Bazares…
E ouve lá, Gonçalinho! Tu ficas até domingo?

– Não, volto amanhã para a Torre.

– Oh!…

– Pois dia de Eleição, homem! devo estar em casa, no meu centro,
no meio das minhas freguesias…

– É pena – murmurou o Barrolo. – Logo se sabia juntamente com a Eleição…
Eu dava um jantar tremendo…

– Logo se sabia, o quê?

O Barrolo emudeceu, com outro riso nas bochechas, que eram duas brasas gloriosas.
Depois novamente gaguejou, gingando:

– Logo se sabia… Nada! O resultado, o apuramento. E grande bródio,
grande foguetório. Eu, na Murtosa, abro pipa de vinho.

Então Gonçalo risonhamente prendeu o Barrolo pelos ombros:

– Dize lá, Barrolinho. Dize lá. Tu tens uma coisa boa para
contar ao teu cunhado.

O outro escapou, protestando com alarido: Que teima, que tolice. Ele não
sabia nada. O André não lhe contara nada!

– Bem – concluiu o Fidalgo, certo de um amável mistério, que
pairava. – Então descemos. E se essas carraças das Lousadas
ainda estiverem lá pegadas, manda dizer pelo escudeiro à sala,
bem alto, à Gracinha, que cheguei, que lhe desejo falar imediatamente
no meu quarto; com esses monstros não há considerações.

O Barrolo balbuciou, hesitando:

– O Sr. Bispo gosta delas… Muito amável comigo, ainda há
pouco, o Sr. Bispo.

Mas, logo nas escadas, sentiram o piano, Gracinha cantarolando. Já
se libertara das Lousadas. Era uma antiga canção patriótica
da Vendéia, que outrora, na Torre, ela e Gonçalo entoavam com
emoção, quando os inflamava o amor Fidalgo e romântico
dos Bourbons e dos Stuarts:

Monsieur de Charette a dit à ceux d’Ancenes

“Mes amis!…”

Monsieur de Charette a dit…

Gonçalo franziu vagarosamente o reposteiro da sala, rematando a estrofe,
com o braço erguido como uma bandeira:

“Mes amis!

Le Rai va rammener les Fleurs de Lys!

Gracinha saltou do mocho, numa surpresa.

– Não te esperávamos! Imaginei que passavas a Eleição
na Torre… E por lá?

– Na Torre, tudo bem, com a ajuda de Deus… Mas eu com trabalho imenso.
Acabei o meu romance; depois visitas aos Eleitores.

Barrolo, que não sossegava pela sala, rompeu para eles, com o mesmo
riso sufocado:

– Queres tu saber, Gracinha? Tem estado este homem, desde que chegou, numa
curiosidade, a ferver. Imagina que eu tenho uma boa nova, uma grande nova
para lhe contar… Eu não sei nada, a não ser a Eleição!
Pois não é verdade, Gracinha?

Gonçalo, muito sério, prendeu o queixo da irmã:

– Sabes tu, dize lá.

Ela sorriu, corada… Não, não sabia nada, só a Eleição.

– Dize lá!

– Não sei… São tolices do José.

Mas então, ante aquele sorriso fraco, rendido, que confessava – o
Barrolo não se conteve, desafogou como um morteiro estoura: – Pois
bem! sim! com efeito! – Grande novidade! Mas o André, que a trouxera
de Lisboa, fresquinha a saltar, queria ele, só ele, causar a surpresa
a Gonçalo…

– De modo que eu não posso! Jurei ao André. A Gracinha sabe,
que eu já lhe contei ontem… Mas também não pode, também
jurou. Só o André. Ele vem logo tomar chá, e rebenta
a bomba… Que é uma bomba! e graúda!

Gonçalo, roído de curiosidade, murmurou simplesmente, encolhendo
os ombros:

– Bem, já sei, é uma herança! Tens quinze tostões
de alvíssaras, Barrolo.

Mas durante o jantar e depois na sala tomando café, enquanto Gracinha
recomeçara as velhas canções patrióticas, agora
as jacobitas, em louvor dos Stuarts – Gonçalo ansiou pela aparição
do Cavaleiro. Nem receava que a esse encontro se misturasse amargura, despeito
sufocado. Todo o seu furor contra o Cavaleiro, aceso na dolorosa tarde do
Mirante, revolvido na Torre durante torturados dias, logo se dissipara lentamente
depois da sua tocante conversa com a irmã, na manhã histórica
da briga da Grainha. Gracinha então, com grandes lágrimas de
pureza e de verdade, jurara reserva, retraimento. Gonçalo, abandonando
Oliveira, mostrava também uma resistência louvável contra
o sentimento ou a vaidade que o transviara. Demais ele não podia romper
novamente com o Cavaleiro, andando ainda nos mexericos e espantos de Oliveira
aquela reconciliação ruidosa que chamara o Cavaleiro à
intimidade dos Cunhais. E por fim de que valiam furores ou mágoas?
Nenhum rugir ou gemer seu anulariam o mal que se consumara no Mirante – se
porventura se consumara. E assim toda a cólera contra o André
se dissipara naquela sua leve e doce alma, onde os sentimentos, sobretudo
os mais escuros, os mais carregados, sempre facilmente se desfaziam como nuvens
em céu de estio…

Mas quando, perto das nove horas, o Cavaleiro penetrou na sala, vagaroso
e magnífico, com o bigode encurtado mas mais retorcido, uma gravata
vermelha entufando estridentemente no largo peito que entufava, Gonçalo
sentiu uma renovada aversão por toda aquela petulância recheada
de falsidade – e apenas pôde bater molemente, desenxabidamente, nas
costas do velho amigo, que o apertava num abraço de aparatosa ternura.
E enquanto André, torcendo as luvas claras, languidamente enterrado
na poltrona que o Barrolo lhe achegou com carinho, contava de Lisboa e de
Cascais, tão alegre, e partidas de bridge e da Parada e d’El-Rei –
Gonçalo revivia a tarde do Mirante, o seu pobre coração
a bater contra a persiana mal fechada, a bruta súplica murmurada através
daqueles bigodes atrevidos, e emudecera, como empedernido, esmigalhando nervosamente
entre os dentes o charuto apagado. Mas Gracinha conservava uma serenidade
atenta, sem nenhum dos seus chamejantes rubores, dos seus desgraçados
enleios de modo e gesto, apenas levemente seca, duma secura preparada e posta.
Depois André aludira muito desprendidamente ao seu regresso a Lisboa,
depois da Eleição, “porque o tio Reis Gomes, o José
Ernesto, esses cruéis amigos, lhe andavam atirando para os ombros todo
o trabalho da Nova Reforma Administrativa”.

Entre ele e Gracinha, separados por um curto tapete, parecia cavada uma funda
légua de fosso, onde rolara, se afundara todo aquele romance do verão,
sem que na face de ambos restasse um afogueado vestígio do seu ardor.
E Gonçalo, insensivelmente contente pela aparência, terminou
por abandonar a cadeira onde se empedernira, acendeu o charuto na vela do
piano, perguntou pelos amigos de Lisboa. Todos (segundo o Cavaleiro) ansiavam
pela chegada de Gonçalo.

Lá encontrei também o Castanheiro… Entusiasmado com o teu
Romance. Parece que nem no Herculano, nem no Rebelo existe nada tão
forte, como reconstrução histórica. O Castanheiro prefere
mesmo o teu realismo épico ao do Flaubert, na Salanimbô. Enfim,
entusiasmado! E nós, está claro, ardendo por que apareça
a sublime obra.

O Fidalgo corou profundamente, murmurando: – “Que tolice!” Depois
roçou pela poltrona em que se enterrava o André, afagou suavemente
o largo ombro do André:

– Pois, tens feito cá muita falta, meu velho! Há dias passei
em Corinde, tive saudades…

Então o Barrolo, que não sossegava, vermelho, a estourar rebolando
pela sala, espiando ora o Cavaleiro, ora o Gonçalo, com um riso mudo
e ávido, não se conteve mais, gritou:

– Bem, basta de prólogos… Vamos lá agora à grande
surpresa, André! Eu tenho estado toda a tarde a rebentar… Mas enfim,
jurei e calei! Agora não posso… Vamos lá. E tu, Gonçalinho,
vai preparando os quinze tostões.

Gonçalo, com a curiosidade de novo refervendo, apenas sorria, desprendidamente:

– Com efeito! Parece que tens uma bela novidade.

O Cavaleiro alargou lentamente os braços, sempre enterrado na vasta
poltrona, sem pressa:

– Oh! é a coisa mais simples, mais natural… A Sra. D. Graça
já sabe, não é verdade?… Não há motivo
para surpresa… Tão legitima, tão natural!

Gonçalo exclamou, já impaciente:

– Mas enfim, venha lá, dize.

O Cavaleiro insistia, indolente. Todo o espanto era que só agora se
pensasse em a realizar, coisa tão devida, tão adequada. Pois
não lhe parecia à Sra. D. Graça?

Gonçalo, numa brasa, berrou:

– Mas quê? que diabo?

O Cavaleiro, que se despegara vagarosamente da poltrona, puxou os punhos,
e diante de Gonçalo, no silêncio atento, alteando o peito, grave,
quase oficial, começou:

– Meu tio Reis Gomes, e o José Ernesto, tiveram uma idéia muito
natural, que comunicaram a El-Rei, e que El-Rei aprovou… Que aprovou mesmo
ao ponto de a apetecer, de se assenhorear dela, de desejar que fosse só
sua. E hoje é só de El-Rei. El-Rei pois pensou, como nós
pensamos, que um dos primeiros Fidalgos de Portugal, decerto mesmo o primeiro,
devia ter um título que consagrasse bem a antigüidade ilustre
da Casa, e consagrasse também o mérito superior de quem hoje
a representa… Por isso, meu querido Gonçalo, já te posso anunciar,
e quase em nome de El-Rei, que vais ser Marquês de Treixedo.

– Bravo! bravo! – bramou o Barrolo, com palmas delirantes. – Saltem para
cá os quinze tostões, Sr. Marquês de Treixedo!

Uma onda de sangue cobria a fina face de Gonçalo. Num relance sentiu
que o Título era um dom do Cavaleiro, não ao chefe da Casa de
Ramires, mas ao irmão complacente de Gracinha Ramires… E sobretudo
sentia a incoerência de que, ao chefe duma Casa dez vezes secular, mãe
de Dinastias, edificadora do Reino, com mais de trinta dos seus varões
mortos sob a armadura, se atirasse agora um oco título, através
do Diário do Governo, como a um tendeiro enriquecido que subsidiou
eleições. Todavia saudou o Cavaleiro, que esperava a efusão,
os abraços: – Oh! Marquês de Treixedo! certamente muito elegante,
muito amável… Depois, esfregando as mãos, com um sorriso de
graça e de espanto… Mas, meu caro André, com que autoridade
me faz El-Rei Marquês de Treixedo?

O Cavaleiro levantou vivamente a cabeça numa ofendida surpresa:

– Com que autoridade? Simplesmente com a autoridade que tem sobre nós
todos, como Rei de Portugal que ainda é, Deus louvado!

E Gonçalo, muito simplesmente, sem fumaça ou pompa, com o mesmo
sorriso de suave gracejo:

– Perdão, Andrezinho. Ainda não havia Reis de Portugal, nem
sequer Portugal, e já meus avós Ramires tinham solar em Treixedo!
Eu aprovo os grandes dons entre os grandes Fidalgos; mas cumpre aos mais antigos
começarem. El-Rei tem uma quinta ao pé de Beja, creio eu, o
Roncão. Pois dize tu a El-Rei, que eu tenho imenso gosto em o fazer,
a ele, Marquês do Roncão.

O Barrolo embasbacara, sem compreender, com as bochechas descaídas
e murchas. Da beira do canapé, Gracinha, toda corada, faiscava de gosto,
por aquele lindo orgulho que tão bem condizia com o seu, mais lhe fundia
a alma com a alma do irmão amado. E André Cavaleiro, furioso,
mas vergando os ombros com irônica submissão, apenas murmurou:
– “Bem, perfeitamente!… Cada um se entende a seu modo…”

O escudeiro entrava com a bandeja do chá.

E no domingo foi a Eleição.

Ainda com uma desconfiança, uma reserva supersticiosa, o Fidalgo desejou
atravessar esse dia muito solitariamente, quase escondido, e no sábado,
enquanto todos os amigos de Vila-Clara, mesmo os de Oliveira, o consideravam
estabelecido nos Cunhais, e em comunicação azafamada com o Governo
Civil, montou a cavalo ao escurecer, e trotou sorrateiramente para Santa Irenéia.

Mas o Barrolo (ainda abalado com “aquele despautério do Gonçalo,
que era uma ofensa para o Cavaleiro! até para El-Rei!”) ficara
com a missão de telegrafar para a Torre as notícias sucessivas
das assembléias, à maneira que elas acudissem ao Governo Civil.
E, com ruidoso zelo, logo depois da missa, estabeleceu entre os Cunhais e
o velho Convento de S. Domingos um serviço de criados formigando sem
repouso. Gracinha, na sala de jantar, ajudada por Padre Soeiro, copiava com
amor, numa letra muito redonda, os telegramas mandados pelo Cavaleiro, que
ajuntava a lápis alguma nota amável – “Tudo Otimamente!
– Vitória cresce. – Parabéns a V Exa.s.”

Pela estrada de Vila-Clara à Torre, incessantemente, o moço
do Telégrafo se esbaforia sobre a perna manca. O Bento rompia pela
Livraria, berrando: “outro telegrama, Sr. Doutor”. Gonçalo,
nervoso, com um imenso bule de chá sobre a banca, a bandeja já
alastrada de cigarros meio fumados, lia o telegrama ao Bento. O Bento, com
vivas pelo corredor, corria a bramar o telegrama à Rosa.

E assim, quando cerca das oito horas, o Fidalgo consentiu em jantar – já
conhecia o seu triunfo esplêndido. E o que o impressionava, relendo
os telegramas, era o entusiasmo carinhoso daqueles influentes, povos que ele
mal rogava, e que convertiam o ato da Eleição quase num ato
de Amor. Toda a freguesia dos Bravais marchara para a Igreja, cerrada como
uma hoste, como José Casco na frente erguendo uma enorme bandeira,
entre dois tambores que estouravam. O Visconde de Rio-Manso entrara no adro
da Igreja de Ramilde na sua vitória, com a neta toda vestida de branco,
seguido por uma vistosa fila de char-à-bancs, onde se apinhavam eleitores
sob toldos de verdura. Na Finta todos os casais se esvaziavam, as mulheres
carregadas de ouro, os rapazes de flor na orelha, correndo à Eleição
do Fidalgo entre o repenicar das violas, como à romaria dum Santo.
E diante da taberna do Pintainho, em face à Igreja, a gente da Veleda,
da Riosa, do Cercal erguera um arco de buxo, com dístico vermelho,
sobre paninho: -“Viva o nosso Ramires, flor dos homens!”

Depois, enquanto jantava, um moço da quinta voltou de Vila-Clara,
alvoroçado, contando o delírio, as filarmônicas pelas
ruas, a Assembléia toda embandeirada, e na casa da Câmara, sobre
a porta, um transparente com o retrato de Gonçalo, que uma multidão
aclamava.

Gonçalo apressou o café. Por timidez, receoso dos vivórios,
não ousava correr a Vila-Clara – a espreitar. Mas acendeu o charuto,
passou à varanda, para respirar a doce noite de festa, que andava tão
cheia de clarões e rumores em seu louvor. E ao abrir a porta envidraçada
quase recuou, com outro espanto. A Torre iluminara! Das suas fundas frestas,
através das negras reixas de ferro, saía um clarão; e
muito alta, sobre as velhas ameias, refulgia uma serena coroa de lumes! Era
uma surpresa, preparada, com delicioso mistério, pelo Bento, pela Rosa,
pelos moços da quinta que agora, todos, no escuro, por baixo da varanda,
contemplavam a sua obra, alumiando o céu sereno. Gonçalo percebeu
os passos abafados, o pigarro da Rosa. Gritou alegremente da borda da varanda:

– O, Bento! Ó, Rosa!… Está aí alguém?

Um risinho esfuziou. A jaqueta branca do Bento surdiu da sombra.

– O Sr. Dr. queria alguma coisa?

– Não, homem! Queria agradecer… Foram vocês, hem? Está
linda a iluminação! Mas linda. Obrigado, Bento. Obrigado, Rosa!
Obrigado, rapazes! De longe deve fazer um efeito soberbo.

Mas o Bento ainda se não contentava com aquelas lamparinas frouxas.
A Torre, para sobressair, necessitava chamas fortes de gás. O Sr. Dr.
nem imaginava a altura, depois em cima, a imensidão do eirado.

Então. de repente, Gonçalo sentiu um desejo de subir a esse
imenso eirado da Torre. Não entrara na Torre desde estudante – e sempre
ela lhe desagradara por dentro, tão escura, de tão duro granito,
com a sua nudez, silêncio e frialdade de jazigo, e logo no pavimento
térreo os negros alçapões chapeados de ferro que levavam
as masmorras. Mas agora as luzes nas frestas aqueciam, reviviam aquela derradeira
ossada. Honra de Ordonho Mendes. E de entre as suas ameias, mais alto que
da varanda, lhe parecia interessante respirar aquela rumorosa simpatia esparsa,
que em torno, pelas freguesias rolava, subindo para ele, através da
noite, como um incenso. Enfiou um paletot. desceu à cozinha. O Bento.
o Joaquim da Horta, divertidos, agarraram grandes lanternas. E com eles atravessou
o pomar, penetrou pela atarracada poterna, de funda ombreira, começou
a trepar a esguia escadaria de pedra, que tanta sola de ferro polira e puíra.

Já desde séculos se perdera a memória do lugar que ocupava
aquela torre nas complicadas fortificações da Honra e Senhorio
de Santa Irenéia. Não era decerto (segundo Padre Soeiro) a nobre
torre albarrã, nem a de Alcáçova, onde se guardava o
tesouro, o cartório, os sacos tão preciosos das especiarias
do Oriente – e talvez, obscura e sem nome, apenas defendesse algum ângulo
de muralha, para os lados em que o Castelo enfrontava com as terras semeadas
e os olmedos da Ribeira. Mas, sobrevivente às outras mais altivas,
compreendida nas construções do Paço formoso que se erguera
dentre o sombrio Castelo Afonsino, e que dominava Santa Irenéia durante
a dinastia de Avis, ligada ainda por claras arcarias dum terraço ao
Palácio de gosto italiano, em que Vicente Ramires converteu o Paço
manuelino depois da sua campanha de Castela; isolada no pomar, mas sobranceando
o casarão que lentamente se edificara depois do incêndio do Palácio
em tempo de El-Rei D. José, e a derradeira certamente onde retiniram
armas e circularam os homens do Terço dos Ramires – ela ligava as idades
e como que mantinha, nas suas pedras eternas, a unidade da longa linhagem.
Por isso o povo lhe chamara vagamente a “Torre de D. Ramires”. E
Gonçalo, ainda sob a impressão dos avós e dos tempos
que ressuscitara na sua Novela, admirou com um respeito novo a sua vastidão,
a sua força, os seus empinados escalões, os seus muros tão
espessos. que as frestas esguias na espessura se alongavam como corredores,
escassamente alumiadas pelas tigelinhas de azeite, com que o Bento as despertara.
Em cada um dos três sobrados parou, penetrando curiosamente. quase com
uma intimidade, nas salas nuas e sonoras, de vasto lajedo, de tenebrosa abóbada,
com os assentos de pedra, estranho buraco ao meio, redondo como o dum poço
e ainda pelas paredes riscadas de sulcos de fumos, os anéis dos tocheiros.
Depois em cima, no imenso eirado que a fieira de lamparinas, cingindo as ameias,
enchia de claridade, Gonçalo, erguendo a gola do paletot na aragem
mais fina, teve a dilatada sensação de dominar toda a Província,
e de possuir sobre ela uma supremacia paternal, só pela soberana altura
e velhice da sua torre, mais que a Província e que o Reino. Lentamente
caminhou em roda das ameias, até o miradouro. a que um candeeiro de
petróleo, sobre uma cadeira de palhinha posta em frente à fresta,
estragava o entono feudal. No céu macio, mas levemente enevoado, raras
estrelas luziam, sem brilho. Por baixo a quinta, toda a largueza dos campos,
a espessura dos arvoredos se fundiam em escuridão. Mas na sombra e
silêncio, por vezes além, para o lado dos Bravais, lampejavam
foguetes remotos. Um clarão amarelado e fumarento, caminhando mais
longe, entestando para a Finta, era decerto um rancho com archotes festivos.
Na alta Igreja da Veleda tremeluzia uma iluminação vaga, rala.
Outras luzes, incertas através do arvoredo, riscavam o velho arco do
Mosteiro, em Santa Maria de Craquede. Da terra escura subia, por vezes, um
errante som de tambores. E lumes, fachos, abafados rufos, eram dez freguesias
celebrando amoravelmente o Fidalgo da Torre, que lhes recebia o amor e o preito
no eirado da sua torre, envolto em silêncio e sombra.

O Bento descera, com o Joaquim, para reforçar as lamparinas nas frestas
dos muros, onde elas esmoreciam na espessura. E Gonçalo sozinho, acabando
o charuto, recomeçou a rolda, lento, em torno às ameias, perdido
num pensamento que já o agitara estranhamente, através daquele
sobressaltado domingo… Era pois popular! Por todas essas aldeias, estendidas
à sombra longa da Torre, o Fidalgo da Torre era pois popular! E esta
certeza não o penetrava de alegria, nem de orgulho – antes o enchia
agora, naquela serenidade da noite, de confusão, de arrependimento!
Ah! se adivinhasse – se ele adivinhasse!… Como caminharia, com a cabeça
bem levantada, com os braços bem estendidos, sozinho, em confiança
risonha para todas essas simpatias que o esperavam, tão certas, tão
dadas. Mas não! Sempre se julgara cercado da indiferença daquelas
aldeias, onde ele, apesar do antiquíssimo nome, era o costumado moço,
que volta de Coimbra e vive silenciosamente da sua renda, passeando na sua
égua. A essas indiferenças tão naturais nunca ele imaginara
arrancar o punhado de votos, o punhado de papelinhos que necessitava para
entrar na Política, onde ele conquistaria pela destreza o que os velhos
Ramires recebiam por herança – fortuna e poder. Por isso se agarrara
tão avidamente à mão do Cavaleiro, à mão
do Sr. Governador Civil – para que S. Exa., o bom amigo, o mostrasse, o impusesse
como o homem necessário, o querido do Governo, o melhor entre os bons,
a quem as freguesias deviam oferecer num domingo o punhado de votos.

E na impaciência desse favor abafara a memória de amargos agravos;
diante de Oliveira pasmada abraçara o homem detestado desde anos, que
andava chasqueando e demolindo, por praças e jornais facilitara a ressurreição
de sentimentos que para sempre deviam jazer enterrados; e envolvera o ser
que mais amava, a sua pobre e fraca irmãzinha, em confusão e
miséria moral… Torpezas e danos – e para quê? Para surripiar
um punhado de votos que dez freguesias lhe trariam correndo, gratuitamente,
efusivamente, entre vivas e foguetes, se ele acenasse e lhos pedisse…

Ah! eis aí… Fora a desconfiança, essa encolhida desconfiança
de si mesmo – que desde o colégio, através da vida, lhe estragara
a vida. Era a mesma desgraçada desconfiança, que ainda semanas
antes, diante de uma sombra, um pau erguido, uma risada numa taberna, o forçava
a abalar, a fugir, arrepiado e praguejando contra a sua fraqueza. Por fim,
um dia, numa volta de estrada, avança, ergue o chicote – e descobre
a sua força! E agora, penetra por entre o povo, agarrado timidamente
à mão poderosa, por se imaginar impopular – e descobre a sua
popularidade imensa. Que vida enganada, e tanto a sujara – por não
saber!

O Bento não aparecia, ainda azafamado em iluminar condignamente as
reixas da Torre. Gonçalo atirou a ponta do charuto, e com as mãos
nas algibeiras do paletot, parou junto do miradouro, olhou vagamente para
as estrelas. A névoa adelgaçara quase sumida – lumes mais vivos
palpitavam no céu mais profundo. De lumes e céus descia essa
sensação de infinidade, de eternidade, que penetra, como uma
surpresa, nas almas desacostumadas da sua contemplação. Na alma
de Gonçalo passou, muito fugidiamente, o espanto dessas eternas imensidades
sob que se agita, tão vaidosa da sua agitação, a rasteira,
a sombria poeira humana. Longe, algum derradeiro foguete ainda lampejava,
logo apagado na escuridão serena. As luzinhas sobre a capela de Veleda,
sobre o arco de Santa Maria de Craquede, esmoreciam, já ralas. Todo
o remoto rumor de musicatas se perdera, na mudez mais funda dos campos adormecidos.
O dia de triunfo findava, breve como os luminares e os foguetes. – E Gonçalo,
parado, rente do miradouro, considerava agora o valor desse triunfo por que
tanto almejara, por que tanto sabujara. Deputado! Deputado por Vila-Clara,
como o Sanches Lucena. E ante esse resultado, tão miúdo, tão
trivial – todo o seu esforço tão desesperado, tão sem
escrúpulos, lhe parecia ainda menos imoral que risível. Deputado!
Para quê? Para almoçar no Bragança, galgar de tipóia
a ladeira de S. .Bento, e dentro do sujo convento escrevinhar na carteira
do Estado alguma carta ao seu alfaiate, bocejar com a inanidade ambiente dos
homens e das idéias, e distraidamente acompanhar, em silêncio
ou balando, o rebanho do S. Fulgêncio, por ter desertado o rebanho idêntico
do Braz Victorino. Sim, talvez um dia, com rasteiras intrigas e sabujices
a um chefe e à senhora do chefe, e promessas e risos através
de Redações, e algum Discurso esbraseadamente berrado – lograsse
ser Ministro. E então? Seria ainda a tipóia pela calçada
de S. Bento, com o correio atrás na pileca branca, e a farda malfeita,
nas tardes de assinatura, e os recurvados sorrisos de amanuenses pelos escuros
corredores da Secretaria, e a lama escorrendo sobre ele de cada gazeta de
oposição… Ah! que peca, desinteressante vida, em comparação
de outras cheias e soberbas vidas, que tão magnificamente palpitavam
sob o tremeluzir dessas mesmas estrelas! Enquanto ele se encolhia no seu paletot,
Deputado por Vila-Clara, e no triunfo dessa miséria – Pensadores completavam
a explicação do Universo; Artistas realizavam obras de beleza
eterna; Reformadores aperfeiçoavam a harmonia social; Santos melhoravam
santamente as almas; Fisiologistas diminuíam o velho sofrer humano;
Inventores alargavam a riqueza das raças; Aventureiros magníficos
arrancavam mundos de sua esterilidade e mudez… Ah! esses eram os verdadeiramente
homens, os que viviam deliciosas plenitudes de vida, modelando com as suas
mãos incansadas formas sempre mais belas ou mais justas da humanidade.
Quem fora como eles, que são os sobre-humanos! E tal ação
tão suprema requeria o Gênio, o dom que, como a antiga chama,
desce de Deus sobre um eleito? Não! Apenas o claro entendimento das
realidades humanas – e depois o forte querer.

E o Fidalgo da Torre, imóvel no eirado da Torre, entre o céu
todo estrelado, e a terra toda escura, longamente revolveu pensamentos de
Vida superior – até que enlevado, e como se a energia da longa raça,
que pela Torre passara, refluísse ao seu coração, imaginou
a sua própria encaminhada enfim para uma ação vasta e
fecunda, em que soberbamente gozasse o gozo de verdadeiro viver, e em torno
de si criasse vida, e acrescentasse um lustre novo ao velho lustre de seu
nome, e riquezas puras o dourassem, e a sua terra inteira o bem-louvasse porque
ele inteiro e num esforço pleno bem servira a sua terra…

O Bento surdiu da portinha baixa do eirado, com a lanterna:

– O Sr. Doutor ainda se demora?

– Não. A festa acabou, Bento.

Nos começos de dezembro, com o primeiro número dos Anais,
apareceu a Torre de D. Ramires. E todos os jornais, mesmo os da oposição,
louvaram “esse estudo magistral (como afirmou a Tarde) que, revelando
um erudito e um artista, continuava, com uma arte mais moderna e colorida,
a obra de Herculano e de Rebelo, a reconstituição moral e social
do velho Portugal heróico”. Depois das festas de Natal, que ele
passou alegremente nos Cunhais, ajudando Gracinha a cozinhar bolos de bacalhau
por uma receita sublime do Padre José Vicente, da Finta, os amigos
de Oliveira, os rapazes do Club da Arcada ofereceram ao Deputado por Vila-Clara,
na sala da Câmara, adornada de buxos e bandeiras, um banquete, a que
assistia o Cavaleiro, de grã-cruz, e em que o Barão das Marges
(que presidia) saudou “o prestigioso moço que, talvez em breve,
nas cadeiras do Poder, levantasse do marasmo este brioso país, com
a pujança, a valentia, que são próprias da sua raça
nobilíssima!”

No meado de janeiro, por uma agreste noite de chuva, Gonçalo partiu
para Lisboa; e através do inverno, em Lisboa, andou sempre nos Carnet-Mondain
e High-Life dos jornais, nas noticias de jantares, do raouts, de tiros aos
pombos, de Caçadas de El-Rei, tão notado nos movimentos mais
simples da sua elegância, que os Barrolos assinaram o Diário
Ilustrado para saber quando ele passeava na avenida. Em Vila-Clara, na Assembléia,
o João Gouveia já encolhia os ombros, rosnando: – “Desandou
em janota!” – Mas nos fins de abril uma notícia de repente alvoroçou
Vila-Clara, espantou na quieta Oliveira os rapazes do Club e da Arcada, perturbou
tão inesperadamente Gracinha, então em Amarante com o Barrolo,
que nessa noite ambos abalaram para Lisboa – e na Torre atirou a Rosa para
um banco de pedra da cozinha, lavada em lágrimas, sem compreender,
gemendo:

– Ai o meu rico menino, o meu rico menino, que o não torno mais a
ver!

Gonçalo Mendes Ramires, silenciosamente, quase misteriosamente, arranjara
a concessão dum vasto prazo de Macheque, na Zambézia, hipotecara
a sua quinta histórica de Treixedo, e embarcava em começos de
junho no paquete Portugal, com o Bento, para a África.

CAPÍTULO XII

Quatro anos passaram ligeiros e leves sobre a velha Torre, como vôos
de ave.

Numa doce tarde dos fins de setembro, Gracinha, que chegara na véspera
de Oliveira acompanhada pelo bom Padre Soeiro, descansava na varanda da sala
de jantar, estendida sobre o canapé de palhinha, ainda com um grande
avental branco, tapando o vestido até ao pescoço, um velho avental
do Bento. Todo o dia, de avental, através do casarão, ajudada
pela Rosa e pela filha da Críspola, se esfalfara, arrumando e limpando,
com tanto gosto e fervor no trabalho, que ela mesma sacudira o pó a
todos os livros da Livraria, o seu sossegado pó de quatro anos. O Barrolo
também se ocupara, dando sentenças nas obras da cavalariça,
que a valente égua da briga da Grainha em breve partilharia com uma
égua inglesa, de meio sangue, comprada em Londres. Também Padre
Soeiro remexera, pelo Arquivo, zelosamente, com um espanejador. E até
o Pereira da Riosa, o bom rendeiro, apressava desde madrugada dois moços
na final limpeza da horta, agora muito cuidada, já com meloal, já
com morangal, e duas novas ruas, ambas bordadas de roseiras e recobertas de
latada que a parra densa já recobria.

Com efeito a Torre, entre a alvoroçada alegria de todos, enfeitava
a sua velhice – porque no domingo, depois dos seus quatro anos de África,
Gonçalo regressava à Torre.

E Gracinha, estendida no canapé com o seu velho avental branco, sorrindo
pensativamente para a quinta silenciosa, para o céu todo corado sobre
Valverde, recordava esses quatros anos, desde a manhã em que abraçara
Gonçalo, sufocada e a tremer, no beliche do Portugal… Quatro anos!
Assim passados, e nada mudara no mundo, no seu curto mundo dentre os Cunhais
e a Torre, e a vida rolara, e tão sem história como rola um
rio lento numa solidão; Gonçalo na África, na vaga África,
mandando raras cartas, mas alegres, e com um entusiasmo de fundador de Império;
ela nos Cunhais, e o seu Barrolo, num tão quieto e costumado viver,
que eram quase de agitação os jantares em que reuniam os Mendonças,
os Marges, o coronel do 7, outros amigos, e à noite na sala se abriam
duas mesas de pano verde para o voltarete e para o boston.

E neste manso correr de vida se desfizera mansamente, quase insensivelmente,
a sombria tormenta do seu coração. Nem ela agora compreendia
como um sentimento, que através das suas ansiedades ela justificava,
quase secretamente santificava por o saber único, e o desejar eterno,
assim se sumira, insensivelmente, sem dilacerações, deixara
apenas um leve arrependimento, alguma esfumada saudade, também estranheza
e confusão, restos de tanto que ardera, formando uma cinza fina…
A sucessão das coisas rolara, como o vento às lufadas num campo,
e ela rolara, levada com a inércia duma folha seca.

Logo depois do derradeiro Natal passado com Gonçalo, André,
que ainda os acompanhara à Missa do Galo e consoara nos Cunhais, voltou
para Lisboa, para essa “Reforma”, de que se lastimava… No silêncio
que entre ambos então se alargou, corria já uma frialdade de
abandono… E quando André recolheu a Oliveira, ao seu Governo Civil,
partia ela para Amarante, onde a santa mãe do Barrolo adoecera, com
uma vagarosa doença de anemia e velhice, que em maio a levou para o
Senhor.

Em junho fora o comovido embarque de Gonçalo para a África
– e no tombadilho do paquete, entre o barulho e as bagagens, um encontro com
André, que chegara de Oliveira, dias antes, e contou muito alegremente
do casamento da Mariquinhas Marges. Todo esse verão, como o Barrolo
decidira fazer obras consideráveis no velho palacete do largo de El-Rei,
o passaram na quinta da Murtosa, que ela escolhera por causa da linda mata,
dos altos muros de convento. A essa solidão atribuiu logo o Barrolo
a sua melancolia, a sua magreza, aquele cansado cismar a que se abandonava,
pelos bancos musgosos da mata, com um romance esquecido no regaço.
Para que ela se distraísse, se fortificasse com banhos do mar, alugou
em setembro, na Costa, o vistoso chalé do Comendador Barros. Ela não
tomou banhos, nem aparecia na praia, à fresca hora das barracas, entre
as senhoras sentadas em cadeirinhas baixas; – e só à tarde passeava
pelo comprido areal, rente à vaga, acompanhada por dois enormes galgos
que lhe dera Manuel Duarte. Uma manhã, ao almoço, ao abrir as
Novidades, Barrolo pulou, com um berro, um espanto. Era a queda inesperada
do Ministério do S. Fulgêncio! André Cavaleiro apresentava
logo a sua demissão pelo telégrafo. E ainda pelas Novidades
souberam na Costa que S. Exa. partira para uma ‘longa e pitoresca viagem”,
a viagem a Constantinopla, à Ásia Menor, que ele anunciara ao
jantar nos Cunhais. Ela abrira um Atlas: com o dedo lento caminhou desde Oliveira
até a Síria, por sobre fronteiras e montes; já André
lhe parecia desvanecido, nesses horizontes mais luminosos; fechou o Atlas,
pensando simplesmente “como a gente muda!”

Em novembro voltaram a Oliveira, num sábado de chuva, e ela na carruagem
sentia toda a melancolia e a frialdade do céu penetrar no seu coração.
Mas no domingo acordou com um lindo sol nas vidraças. Para a missa
das onze na Sé, ela estreou um chapéu novo; depois, no caminho
para casa da tia Arminda, levantou os olhos para o casarão do Governo
Civil; agora habitava lá outro Governador Civil, o Sr. Santos Maldonado,
um moço louro que tocava piano.

Na outra primavera o Barrolo, agora escravizado pela paixão de obras,
imaginou demolir o Mirante para construir outra estufa, mais vasta, com um
repuxo entre palmeiras, que formaria “um jardim de inverno catita”.

Os trabalhadores começaram por esvaziar o Mirante da velha mobília
que o guarnecia desde o tempo do tio Melchior; o imenso divan jazeu dois dias
no jardim, encalhado contra uma sebe de buxo, e o Barrolo, impaciente, com
aquele desusado traste, de molas quebradas, nem o consentiu nas arrecadações
do sótão, mandou que o queimassem com outras cadeiras, partidas,
numa fogueira de festa, na noite dos anos de Gracinha. E ela andou em torno
da fogueira. O estofo puído flamejou, depois o mogno pesado mais lentamente,
com um leve fumo, até que uma brasa ficou latejando, e a brasa escureceu
em cinza.

Logo nessa semana as Lousadas, mais agudas, mais escuras, invadiram uma tarde
os Cunhais – e apenas espetadas no sofá, logo lhe contaram, com um
riso feroz nos olhinhos furantes, do grande escândalo, o Cavaleiro!
em Lisboa! sem rebuço! com a mulher do Conde de S. Romão! um
fazendeiro de Cabo Verde!

Nessa noite, ela escreveu a Gonçalo uma carta muito longa que começava:
– “Por cá estamos todos bem, e neste ramerrame costumado…”
E com efeito a vida recomeçara, no seu ramerrame, simples, contínua,
e sem história, como corre um rio claro numa solidão.

À porta envidraçada da varanda o filho da Críspola espreitou
– o filho da Críspola, que ficara sempre na Torre, como “andarilho”,
mas crescera muito para fora da sua antiga jaqueta de botões amarelos,
usava agora jaquetões velhos do Sr. Doutor, e já repuxava o
buço:

– E que está lá embaixo o Sr. Antônio Vilalobos, com
o Sr. Gouveia e outro senhor, o Videirinha, e perguntam se podem falar à
senhora…

– O Sr. Vilalobos! Sim! que subam, que entrem para aqui, para a varanda!

Ao atravessar a sala, onde dois esteireiros de Oliveira pregavam uma esteira
nova, o vozeirão do Titó já ribombava, notando os “preparativos
da festa…” E quando entrou na varanda a sua face mais barbuda, mais
requeimada, rebrilhava com a alegria de encontrar enfim a Torre despertando
daquela modorra, em que tudo dentro parecia tristemente apagado, até
o lume das caçarolas:

– Peço desculpa da invasão, prima Graça. Mas passamos,
de volta dum passeio dos Bravais, soubemos que a prima viera com o Barrolo…

– Oh! gosto imenso, primo Antônio. Eu é que peço desculpa
desta figura, assim despenteada, de grande avental… Mas todo o dia em arranjos,
a preparar a casa… E o Sr. Gouveia, como tem passado? Não o vejo
desde a Páscoa.

O Administrador, que não mudara nesses quatro anos, escuro, seco,
como feito de madeira, sempre esticado na sobrecasaca preta, apenas com o
bigode mais amarelado do cigarro, agradeceu à Sra. D. Graça…
E passara menos mal, desde a Páscoa. A não ser a desavergonhada
da garganta…

– E então o nosso grande homem? quando chega? quando chega?

– No domingo. Estamos todos em alvoroço… Então não
se senta, Sr. Videira? Olhe, puxe aquela cadeira de vime. A varanda por ora
não está arranjada.

Videirinha, logo depois da Eleição, recebera de Gonçalo
o lugar prometido, fácil e com vagares. para não esquecer o
violão. Era amanuense na Administração do Concelho de
Vila-Clara. Mas convivia ainda na intimidade do seu chefe, que o utilizava
para todos os serviços, mesmo de enfermeiro, e o mandava sempre com
uma autoridade seca, mesmo ceando ambos no Gago.

Timidamente arrastou a cadeira de vime, que colocou, com respeito, atrás
da cadeira do seu chefe. E depois de tirar as luvas pretas, que agora sempre
trazia para realçar a sua posição, lembrou que o comboio
chegava ao apeadeiro de Craquede às dez e quarenta, não trazendo
atraso. Mas talvez o Sr. Doutor apeasse em Corinde, por causa das bagagens…

– Duvido – murmurou Gracinha. – Em todo ocaso o José está com
tenção de partir de madrugada, para o encontrar na bifurcação,
em Lamelo.

– Nós, não! – acudiu o Titó, que se sentara familiarmente
no rebordo da varanda. – Cá o nosso rancho vai simplesmente a Craquede.
Já é terra da família, e sítio mais sossegado
para o vivório… Mas então esse homem não se demorou
em Lisboa, prima Graça?

– Desde domingo, primo Antônio. Checou no domingo, de Paris, pelo Sud-Express.
E teve uma chegada brilhante… Oh! muito brilhante! Ontem recebi eu uma carta
da Maria Mendonça, uma grande carta em que conta…

– O quê? A prima Maria Mendonça está em Lisboa?

– Sim, desde os fins de agosto, numa visita a D. Ana Lucena…

Vivamente, João Gouveia puxou a cadeira, numa curiosidade que decerto
o remoera:

– É verdade, Sra. D. Graça! Então parece que a D. Ana
Lucena comprou uma casa em Lisboa, anda em arranjos de mobília?…
V Exa. ouviu, Sra. D. Graça?

Não, Gracinha não sabia. Mas era natural, agora que tanto se
demorava em Lisboa, pouco se aproveitava da Feitosa, tão linda quinta…

– Então casa! – exclamou o Gouveia, com imensa convicção.
– Se anda em arranjos de mobília, então casa. É natural,
quer posição. Depois, já lá vão quatro
anos de viuvez, e…

Gracinha sorriu. Mas o Titó, que coçava lentamente a barba,
voltou à carta da prima Maria Mendonça, contando a chegada.

– Sim! – acudiu Gracinha – conta, esteve na Estação, no Rossio.
Parece que o Gonçalo ótimo, mais forte… Olhe, primo Antônio,
leia a carta. Leia alto! Não tem segredos. É toda sobre o Gonçalo…

Tirara do bolso um pesado envelope, com sinete de armas no lacre. Mas a prima
Maria escrevia sempre depressa, numa letra atabalhoada, com as linhas cruzadas.
Talvez o primo Antônio não compreendesse… – E com efeito, diante
das quatro folhas de papel eriçadas de negras linhas, parecendo uma
sebe espinhosa, o Titó recuou, aterrado. Mas o João Gouveia
imediatamente se ofereceu, com a sua perícia em decifrar ofícios
de Regedores… Não havendo segredos.

– Não, não há segredos – afiançou Gracinha, rindo.
– É unicamente sobre o Gonçalo, como num jornal.

O Administrador folheou a imensa carta, passou os dedos sobre o bigode, com
certa solenidade:

‘Minha querida Graça… A costureira do Silva diz que o vestido…”

– Não! – acudiu Gracinha. – É na outra página, no alto.
Volte a página.

Mas o Administrador gracejou, ruidosamente. Oh! está claro, carta
de senhora, logo os trapos… E a Sra. D. Graça a assegurar que era
toda sobre Gonçalo. Pois já veriam se pelo meio se não
falava ainda em vestidos… Ah! estas senhoras, com os trapos!… – Depois
recomeçou, na outra página, com lentidão e gravidade:

“… Deves agora estar ansiosa por saber da grande chegada do primo
Gonçalo. Foi realmente brilhante, e parecia uma recepção
de pessoa real. Éramos mais de trinta amigos. Está claro, apareceu
toda a roda da nossa parentela; e se rebentasse de repente nessa manhã
uma revolução, os Republicanos apanhavam ali junta, na estação
do Rossio, toda a flor da nobreza de Portugal, da velha, da boa. De senhoras,
era a prima Chelas, a tia Louredo, as duas Esposendes (com o tio Esposende,
que, apesar do reumatismo e da vindima, veio expressamente da quinta de Torres),
e eu. Homens, todos. E como estava o Conde de Arega, que é secretário
de El-Rei, e o primo Olhalvo, que é o seu Mordomo-Mor, e o Ministro
da Marinha e o Ministro das Obras Públicas, ambos condiscípulos
e íntimos de Gonçalo, as pessoas na estação deviam
imaginar que chegava El-Rei. O Sud-Express trouxe quarenta minutos de demora.
De modo que parecia um salão, com toda aquela gente de sociedade, muito
alegre, e o primo Arega, sempre tão amável e engraçado,
e fazendo já convites para um jantar (que depois deu) ao primo Gonçalo.
Lá fui a esse jantar com o meu vestido verde, novo, que ficou bem…

Gouveia gritou triunfando:

– Hem? Que disse eu?! cá está vestido. Vestido verde!

– Lê para diante, homem! – bramou o Titó.

E o Administrador, realmente interessado, recomeçou, com entono:

“…com o meu vestido verde novo, exceto a saia, um pouco pesadota.
Creio que fui eu a primeira que avistou o primo Gonçalo, na plataforma
do Sud-Express. Não imaginas como vem… ótimo! Até mais
bonito, e sobretudo mais homem. A África nem de leve lhe tostou a pele.
Sempre a mesma brancura. E duma elegância, dum apuro! Prova de como
se adianta a civilização da África! dizia o primo Arega,
este é estilo novo de tangas em Macheque!… Como imaginas, muito abraço,
muita beijoca. A tia Louredo choramingou. Ah, já esquecia! Estava também
o Visconde de Rio-Manso, com a filha, a Rosinha. Muita linda ela, com um vestido
do Redfern, fez sensação. Todos me perguntavam quem era, e o
Conde de Arega, está claro, logo com apetite de ser apresentado. O
Rio-Manso também choramingou ao abraçar o primo Gonçalo.
E ali viemos todos, em nobre séquito, pela estação fora,
entre o pasmo dos povos. Mas imediatamente uma cena. De repente, no meio de
toda aquela nata de brasões, o primo Gonçalo rompe e cai nos
braços do homenzinho de bonnet agaloado que recebia à porta
os bilhetes. Sempre o mesmo Gonçalo! Parece que o conheceu ao chegar
a Lourenço Marques, onde o homem tratava de se estabelecer como fotógrafo.
Mas já esquecia o melhor – o Bento! Não imaginas o Bento…
Magnífico! Deixou crescer um bocado de suíça. É
um modelo, vestido em Londres, de grande casaco de viagem de pano claro, até
aos pés, luvas amareladas, gravidade imensa. Gostou de me ver na estação
– perguntou logo, com o olho miúdo, pela Sra. D. Graça, e pela
Rosa. A noite, o José e eu jantamos em família, com o primo
Gonçalo, no Bragança, para conversar da Torre e dos Cunhais.
Ele contou muitas coisas interessantes da África. Traz notas para um
livro, e parece que o prazo prospera. Nestes poucos anos plantou dois mil
coqueiros. Tem também muito cacau, muita borracha. Galinhas são
aos milhares. É verdade que uma galinha gorda em Macheque vale um pataco.
Que inveja! Aqui em Lisboa custa seis tostões, só com ossos
– porque tendo também alguma carne no peito, salta para cá dez
tostões, e agradece! No prazo já se construiu uma grande casa,
próximo do rio, com vinte janelas e pintada de azul. E o primo Gonçalo
declara que já não vende o prazo nem por oitenta contos. Para
felicidade completa até achou um excelente Administrador. Eu todavia
duvido que ele volte para a África. Tenho agora cá a minha linda
idéia sobre o futuro do primo Gonçalo. Talvez até rias.
E não adivinhas… com efeito, eu mesma só nessa noite em que
jantamos no Bragança, recebi de repente a inspiração.
O Rio-Manso está também no Bragança. Quando descíamos
para o jantar, para um gabinete, encontramos no corredor o velho com a pequena.
O homem tornou logo a abraçar Gonçalo, com uma ternura de pai.
E a Rosinha tão vermelha se fez, que até Gonçalo, apesar
de excitado e distraído, notou e corou de leve. Parece que já
há entre eles um conhecimento antigo, por causa dum cesto de rosas,
e que, desde anos, o Destino os anda sorrateiramente chegando. Ela é
realmente uma beleza. E tão simpática, tão bem-educada!…
Diferença de idade, apenas onze anos; e o dote tremendo. Falam em quinhentos
contos. Ha: apenas a questão de sangue, e o dela, coitadinha… Enfim,
como se diz em heráldica – “o Rei faz a pastora Rainha”.
E os Ramires não só vêm dos Reis, mas os Reis vêm
dos Ramires. – E agora passando a assunto menos interessante…”

Discretamente João Gouveia dobrou a carta, que entregou a Gracinha,
louvando a Sra. D. Maria Mendonça como um repórter precioso.
Depois, com um cumprimento:

– E; minha senhora, se as previsões dela se realizam…

Mas não! Gracinha não acreditava! Ora! imaginações
da Maria Mendonça.

– O primo Antônio bem a conhece, sabe como ela é casamenteira…

– Pois se até a mim me quis casar – ribombou o Titó saltando
do rebordo da varanda. – Imagine a prima… Até a mim! Com a viúva
Pinho, da loja de panos.

– Credo!

Mas o Gouveia insistia, com superioridade, um sentimento verdadeiro da vida
positiva:

– Olhe, Sra. D. Graça, acredite V. Exa., sempre era melhor arranjo
para o Gonçalo que a África… Eu não acredito nesses
prazos… Nem na África. Tenho horror à África. Só
serve para nos dar desgostos. Boa para vender, minha senhora! A África
é como essas quintarolas, meio a monte, que a gente herda duma tia
velha, numa terra muito bruta, muito distante, onde não se conhece
ninguém, onde não se encontra sequer um estanco; só habitada
por cabreiros, e com sezões todo o ano. Boa para vender.

Gracinha enrolava lentamente nos dedos a fita do avental:

– O quê! vender o que tanto custou a ganhar, com tantos trabalhos no
mar, tanta perda de vida e fazenda?!

O Administrador protestou logo, com calor, já enristado para a controvérsia:

– Quais trabalhos, minha senhora? Era desembarcar ali na areia, plantar umas
cruzes de pau, atirar uns safanões aos pretos… Essas glórias
de África são balelas. Está claro, V. Exa. fala como
fidalga, neta de Fidalgos. Mas eu como economista. E digo mais…

O seu dedo agudo ameaçava argumentos agudos.

Titó acudiu, salvou Gracinha:

– Oh, Gouveia, nós estamos a tirar o tempo à prima Graça,
que anda nos seus arranjos. Essas questões da África são
para depois, com o Gonçalo, à sobremesa… E então, minha
querida prima, até domingo, em Craquede. Lá comparece o rancho
todo. E quem atira os foguetes sou eu!

Mas Gouveia, cofiando o coco com a manga, ainda esperava converter a Sra.
D. Graça às idéias sãs, sobre Política
Colonial.

– Era vender, minha senhora, era vender! – Ela sorria, já consentia
– tomando a mão de Videirinha, que hesitava, com os dedos espetados:

– E então, Sr. Videira, tem agora algumas quadras novas para o Fado?

Corando, Videirinha balbuciou que “arranjara uma coisita, também
num fado, para a volta do Sr. Doutor”. Gracinha prometeu decorar, para
cantar ao piano.

– Muito agradecido a V. Exa…. Criado de V. Exa….

– Então até domingo, primo Antônio… Está uma
tarde linda.

– Até domingo, em Craquede, prima.

Mas à porta envidraçada, João Gouveia parou mais teso,
bateu na testa:

– Já me esquecia, desculpe V. Exa.! Recebi uma carta do André
Cavaleiro, da Figueira da Foz. Manda muitas saudades ao Barrolo. E quer saber
se o Barrolo lhe poderia ceder daquele vinho verde de Vidainhos. E também
para um africanista, para o Conde de S. Romão… Parece que a Sra.
Condessa se péla por vinho verde!

E os três amigos, em fila, atravessaram a sala de jantar, onde o vozeirão
do Titó ainda ribombou, louvando a esteira nova de cores. No corredor,
Videirinha espreitou para a Livraria, notou o molho de penas de pato espetado
no velho tinteiro de latão, que esperava, rebrilhando solitariamente
sobre a mesa nua sem papéis nem livros. Depois a Rosa apareceu à
porta do quarto de Gonçalo, ajoujada de roupa, com um riso em cada
ruga da sua face redonda e cor de tijolo, que o farto lenço de cambraia,
muito branco, circundava como um nimbo. O Titó afagou carinhosamente
o ombro da boa cozinheira:

– Então, tia Rosa, agora recomeçam essas grandes petisqueiras,
hem?

– Louvado seja Deus, Sr. D. Antônio! Que imaginei que não tornava
a ver o meu rico senhor. Também já tinha decidido… Se me enterrassem
o corpo aqui em Santa Irenéia, antes de eu ver o menino, a alma com
certeza ia à África para lhe fazer uma visita.

Os seus miúdos olhos piscaram, lacrimejando de gosto – e seguiu pelo
corredor, tesa e decidida, com a sua trouxa que rescendia a maçã
camoesa. O Gouveia murmurara com uma careta: – “Safa!” E os três
amigos desceram ao pátio onde, por curiosidade do Titó, visitaram
as obras da cavalariça.

– Veja você! – exclamou ele para o Gouveia, que acendia o charuto.
– Você a negar!… Mobílias, obras, égua inglesa… Tudo
já dinheiro de África.

O Administrador encolheu os ombros:

– Veremos depois como ele traz o fígado…

Diante do portão o Titó ainda parou a colher, na roseira costumada,
uma rosinha para florir o jaquetão de veludilho. E juntamente entrava
o Padre Soeiro, recolhendo duma volta pelos Bravais, com o seu grande guarda-sol
de paninho e o seu breviário. Todos acolheram com carinho o santo e
douto velho, tão raro agora na Torre.

– E então, no domingo, cá temos o nosso homem, Padre Soeiro!

O capelão achatou sobre o peito a mão gorda, com reverência,
com gratidão…

– Deus ainda me quis conceder, na minha velhice, mais esse grande favor…
Pois mal o esperava. Terras tão ásperas, e ele tão delicado…

E para conversar de Gonçalo, da espera em Craquede, acompanhou aqueles
senhores até a ponte da Portela. João Gouveia manquejava, aperreado
por umas infames botas novas que nessa manhã estreara. E descansaram
um momento no belo banco de pedra que o pai de Gonçalo mandara colocar,
quando Governador Civil de Oliveira. Era esse o doce sítio donde se
avista Vila-Clara, tão asseada, sempre tão branca, àquela
hora toda rosada, desde o vasto convento de Santa Teresa até o muro
novo do cemitério no alto, com os seus finos ciprestes.

Para além dos outeiros de Valverde, longe, sobre a Costa, o sol descia,
vermelho como um metal candente que arrefece, entre nuvens vermelhas, acendendo
ainda, em ouro coruscante, as janelas da Vila.

Ao fundo do vale, uma claridade nimbava as altas ruínas de Santa Maria
de Craquede, entre o seu denso arvoredo. Sob o arco, o rio cheio corria sem
um rumor, já dormente na sombra dos choupos finos, onde ainda pássaros
cantavam. E na volta da estrada, por cima dos álamos que escondiam
o casarão, a velha Torre, mais velha que a Vila e que as ruínas
do Mosteiro, e que todos os casais espalhados, erguia o seu esguio miradoiro,
envolto no vôo escuro dos morcegos, espreitando silenciosamente a planície
e o sol sobre o mar, como em cada tarde desses mil anos, desde o Conde Ordonho
Mendes.

Um pequeno com uma alta aguilhada passou, recolhendo duas vacas lentas. Do
lado da Vila, o Padre José Vicente da Finta trotou na sua égua
branca, saudou o Sr. Administrador, o amigo Soeiro, abençoando também
a chegada do Fidalgo para quem já preparara uma bela cesta da sua uva
moscatel. Três caçadores, com uma matilha de coelheiros, atravessaram
a estrada, descendo pelo portelo à quelha que contorna o casal do Miranda.

Um silêncio ainda claro, de imenso repouso, tão doce como se
descesse do céu, cobria a largueza povoada dos campos, onde não
se movia uma folha, na macia transparência do ar de setembro. Os fumos
das lareiras acesas já se escapavam, lentos e leves, dentre a telha
rala. Na loja do João ferreiro, adiante da Portela, o clarão
da forja avivou, mais vermelho. Um bum-bum de tambor bateu festivamente para
o lado dos Bravais, cresceu apressado, marchando – nalgum cabeço, depois
lentamente se afastou, esmoreceu, logo sumido, em arvoredos ou no vale mais
fundo.

João Gouveia, que se recostara no canto do largo assento de pedra,
como seu coco sobre os joelhos, acenou para o lado dos Bravais:

– Estou a lembrar aquela passagem do romance do Gonçalo, quando os
Ramires se preparam para socorrer as Infantas, andam a reunir a mesnada. É
assim, a estas horas da tarde, com tambores; e por sítios… “Na
frescura do vale…” Não! “Pelo vale de Craquede…”
Também não! Esperem vocês, que eu tenho boa memória…
Ah! “E por todo o fresco vale até Santa Maria de Craquede, os
atambores mouriscos abafados no arvoredo, tarará! tarará! ou
mais vivos nos cerros, ratatá! ratatá! convocavam a mesnada
dos Ramires, na doçura da tarde…” É lindo!

Por sobre as costas do Titó que, debruçado, riscava pensativamente
com o bengalão a poeira da estrada, Videirinha adiantou para o seu
chefe a face estendida, com um sorriso de finura:

– Oh Sr. Administrador, olhe que talvez seja ainda mais bonito, quando os
Ramires largam a perseguir o Bastardo! Cá para mim, tem mais poesia.
Quando o velho faz aquela jura com a espada e depois lá na Torre, muito
devagar, começa a tocar a finados… É de apetite!

À borda do assento, encolhido contra o Titó, para que o Sr.
Administrador se alastrasse confortavelmente, Padre Soeiro, com as mãos
no cabo do seu guarda-sol, concordou:

– Com certeza! são lances interessantes… Com certeza! Naquela Novela
há imaginação rica, muito rica; e há saber, há
verdade.

O Titó, que depois de Simão de Nântua, em pequeno, não
abrira mais as folhas dum livro, e não lera a Torre de D. Ramires,
murmurou, com um risco mais largo na poeira:

– Extraordinário, aquele Gonçalo!

O Videirinha não findara o seu enlevado sorriso:

– Tem muito talento… Ah! o Sr. Doutor tem muito talento.

– Tem muita raça! – exclamou o Titó, levantando a cabeça.
– E é o que o salva dos defeitos… Eu sou amigo de Gonçalo,
e dos firmes. Mas não o escondo, nem a ele… Sobretudo a ele. Muito
leviano, muito incoerente… Mas tem a raça que o salva.

– E a bondade, Sr. Antônio Vilalobos! – atalhou docemente Padre Soeiro.
– A bondade, sobretudo como a do Sr. Gonçalo, também salva…
Olhe, às vezes há um homem muito sério, muito puro, muito
austero, um Catão que nunca cumpriu senão o dever e a lei…
E todavia ninguém gosta dele, nem o procura. Por quê? Porque
nunca deu, nunca perdoou, nunca acarinhou, nunca serviu. E ao lado outro leviano,
descuidado, que tem defeitos, que tem culpas, que esqueceu mesmo o dever,
que ofendeu mesmo a lei… Mas quê? É amorável, generoso,
dedicado, serviçal, sempre com uma palavra doce, sempre com um rasgo
carinhoso… E por isso todos o amam, e não sei mesmo, Deus me perdoe,
se Deus também o não prefere…

A curta mão que acenara para o céu recaiu sobre o cabo de osso
do guarda-sol. Depois, e corado com a temeridade de pensamento tão
espiritual, acudiu cautelosamente:

– Que esta não é propriamente doutrina da Igreja!… Mas anda
nas almas; anda já em muitas almas.

Então João Gouveia abandonou o recosto do banco de pedra e
teso na estrada, com o coco à banda, reabotoando a sobrecasaca, como
sempre que estabelecia um resumo:

– Pois eu tenho estudado muito o nosso amigo Gonçalo Mendes. E sabem
vocês, sabe o Sr. Padre Soeiro quem ele me lembra?

– Quem?

– Talvez se riam. Mas eu sustento a semelhança. Aquele todo de Gonçalo,
a franqueza, a doçura, a bondade, a imensa bondade, que notou o Sr.
Padre Soeiro… Os fogachos e entusiasmos, que acabam logo em fumo, e juntamente
muita persistência, muito aferro quando se fila à sua idéia…
A generosidade, o desleixo, a constante trapalhada nos negócios, e
sentimentos de muita honra, uns escrúpulos, quase pueris, não
é verdade?… A imaginação que o leva sempre a exagerar
até à mentira, e ao mesmo tempo um espírito prático,
sempre atento à realidade útil. A viveza, a facilidade em compreender,
em apanhar… A esperança constante nalgum milagre, no velho milagre
de Ourique, que sanará todas as dificuldades… A vaidade, o gosto
de se arrebicar, de luzir, e uma simplicidade tão grande, que dá
na rua o braço a um mendigo… Um fundo de melancolia, apesar de tão
palrador, tão sociável. A desconfiança terrível
de si mesmo, que o acovarda, o encolhe, até que um dia se decide, e
aparece um herói, que tudo arrasa… Até aquela antigüidade
de raça, aqui pegada à sua velha Torre, há mil anos…
Até agora aquele arranque para a África… Assim todo completo,
com o bem, com o mal, sabem vocês quem ele me lembra?

– Quem?…

– Portugal.

Os três amigos retomaram o caminho de Vila-Clara. No céu branco
uma estrelinha tremeluzia sobre Santa Maria de Craquede. E Padre Soeiro, com
o seu guarda-sol sob o braço, recolheu à Torre vagarosamente,
no silêncio e doçura da tarde, rezando as suas Ave-Marias, e
pedindo a paz de Deus para Gonçalo, para todos os homens, para campos
e casais adormecidos, e para a terra formosa de Portugal, tão cheia
de graça amorável, que sempre bendita fosse entre as terras.

Conteúdo Relacionado

 

Veja também

Velhas Árvores

Olavo Bilac PUBLICIDADE Olha estas velhas árvores, — mais belas, Do que as árvores mais …

Plutão – Olavo Bilac

Olavo Bilac PUBLICIDADE Negro, com os olhos em brasa, Bom, fiel e brincalhão, Era a …

O Trabalho – Olavo Bilac

Olavo Bilac PUBLICIDADE Tal como a chuva caída Fecunda a terra, no estio, Para fecundar …

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Time limit is exhausted. Please reload the CAPTCHA.