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Antonica da Silva

Joaquim Manuel de Macedo

Cavalheiros idosos e senhoras, dois leigos franciscanos, soldados do regimento de Moura, homens e mulheres, escravos e escravas de Peres.

A ação se passa na cidade do Rio de Janeiro; época: a do vice-reinado do Conde da Cunha, fins de 1763 a 1767.

VISTO. – Rio, Sala das Sessões do Conservatório Dramático, 22 de abril de 1879. Cardozo de Meneses.

VISTO. – Rio, 28 de Janeiro de 1880. P. de Mattos.

Representada pela primeira vez no Rio de Janeiro, no teatro da Phenix Dramática, na noite de 29 de Janeiro de 1880.

ATO PRIMEIRO

Sala na casa de Peres: portas ao fundo, e uma, a de entrada, à esquerda; janelas à esquerda e à direita; mobília antiga.

CENA primeira Peres, Mendes, Benjamim, vestido de mulher e de mantilha; alguns homens idosos; Joana, Inês, Brites, e algumas senhoras. Sinais de festim; Peres lê uma carta que traz outra inclusa.

CORO meio abafado 2 A esta hora Uma senhora! Que será? Trouxe carta Longa e farta: Que será? Há mistério...

O caso é sério Que será?...

PERES (A Mendes.) – Compadre, vem ler esta carta. (Mendes vai.).

INÊS e BRITES (Curiosas.) – Será bonita ou feia?...

CORO A carta é de segredo, Ali anda mexida...

JOANA – Receio algum enredo.

CORO Há mistério...

O caso é sério Que será?...

MENDES (Entregando a carta a Peres.) – E tu?...

PERES (A Mendes.) – Dou-lhe asilo. Então?...

MENDES (A Peres.) – E que o diabo leve o vice-rei.

PERES – Joana, esta senhora é filha de um velho amigo meu, e vem passar alguns dias em nossa casa.

JOANA – É uma fortuna! (Vai abraçar Benjamim).

PERES (A todos) – Questão de casamento que o pai não aprova: a menina há de mostrar-se razoável. O dever das filhas é aceitar os noivos da escolha dos pais. (Vai conversar com Mendes).

BRITES (A Inês) – Inês, isto é conosco. Ouviste? INÊS (A Brites) – Que me importa?... coitadinha da moça... que barbaridade!...

JOANA (A Benjamim) – Porque não tira a sua mantilha?...

BENJAMIM – Tenho muita vergonha, sim senhora...

JOANA – Mas é preciso descansar... (Curiosidade das senhoras).

BENJAMIM – Então eu tiro a mantilha, sim senhora (Joana ajuda-a).

BRITES (A Inês) – Que cintura grossa... (BENJAMIM muito vexado) INÊS (A Brites) – Olha o buço que ela tem! JOANA – A sua idade, menina?...

BENJAMIM – Minha mãe que é quem sabe, diz que tenho dezoito anos.

JOANA – Como se chama? 3 BENJAMIM – Antonica da Silva, para servir a vosmencê.

MENDES – Toca para a cidade! Minha afilhada, teu pai deu-nos excelente jantar; mas é tempo... recebe minha bênção e dá-me um abraço. (Despedidas: as senhoras vão tomar suas mantilhas em quarto vizinho).

INÊS (A Brites) – Jantar excelente!... meia dúzia de velhos, e nem um único moço para a gente entreter os olhos! (Despedidas).

BENJAMIM (À parte) – Que peixão de afilhada tem aquele velho! dessa fazenda eu nunca vi nem por amostra em Macacu! CORO Agora até mais ver! Saúde e felicidade E quem tiver saudade Que saiba aparecer.

E adeus! Até outra folgança! E adeus!...

Até outra festança! E adeus! adeus!... adeus! Quem sabe querer bem O longe torna perto, E quer mais bem por certo Quem menos tarde vem E adeus!...

Até outra folgança! PERES – Joana, acompanha os nossos amigos!... vão também, meninas. (Vão-se).

CENA II Peres e Benjamim.

PERES – Complete a carta de seu pai; que houve? BENJAMIM – Eu era sacristão da igreja do convento dos franciscanos de Macacu: aprendi o latim e a música e queria chegar a ser frade.

PERES – Deixemos isso... vamos ao essencial...

BENJAMIM – Caí no ódio do capitão-mor, e... foi-se o frade...

PERES – Seu pai fala-me em honra da família...

BENJAMIM – Meu pai é pobre, e o capitão-mor tentou debalde seduzir minha irmã... uma noite, por sinal que eu saía do convento, o capitão-mor vem a mim, e me oferece três moedas de ouro para que eu lhe entregasse minha irmã...

PERES—E que fez?...

BENJAMIM – Confessar, confesso: eu dei uma bofetada no capitão-mor.

PERES – Depois? BENJAMIM – No outro dia ordem de me prenderem para soldado e eu duas semanas no mato como negro fugido! depois minha mãe foi lá vestir-me assim, meu pai 4 deu-me a carta para vossa mercê, meteram-me num barco e eis o aspirante a frade metido em saias de mulher.

PERES – Quero abraçá-lo pela bofetada que deu. (Abraça-o.) CENA III Peres, Benjamim, Joana, Inês, Brites e Mendes.

JOANA (À parte) – E esta?... o meu homem manda-nos acompanhar os convidados, deixa-se ficar aqui, e venho encontrá-lo abraçando a Antonica da Silva!...

PERES (A Mendes) – Espera, compadre (A Benjamim) Escute. (A um lado) Minha mulher e minhas filhas devem absolutamente ignorar o seu verdadeiro sexo. Não posso responder por línguas de mulheres: o vice-rei é cruel e nós ambos estamos expostos a grandes castigos.

BENJAMIM (A Peres) – Juro pelos frades franciscanos que nenhuma das três senhoras terá conhecimento do meu disfarce sexual.

JOANA (À parte) – Agora segredinhos... mesmo na minha cara!...

PERES – Joana, o lugar está bonito: vai com as meninas e com a senhora Antonica dar duas voltas pelo jardim: tenho um particular com o compadre... (Fala a este).

BENJAMIM (À parte) – Que encanto e que precipício! caso de heroicidade original em que um homem deve mostrar que não é homem! com a velha não há perigo; mas as meninas!... é mais fácil estar escondido no mato!1 PERES – Vai, Joana! JOANA (À parte) – Ele a quer bem fresquinha com o sereno da noite... e eu criada da Dulcinéia!...(Alto.) Vamos, meninas2.

CENA IV

Peres e Mendes.

PERES – Pedi que ficasses para te consultar. Compadre, começa a preocupar-me a inconveniência de guardar em minha casa este rapaz vestido de mulher.

MENDES— Quê!... o vice-rei já te faz medo?...

PERES – Tenho duas filhas moças e solteiras: entendes agora?...

MENDES – Mãos à palmatória!... tens razão: mas sem ofensa da amizade não podes livrar-te do hóspede...

PERES – Posso: ele tem asilo seguro no convento dos franciscanos... não te lembra a carta do guardião ao provincial?...

MENDES – E verdade; ótimo recurso: amanhã já...

PERES – E que pensará Jerônimo? pobre, mas meu amigo de quase meio século! ele podia ter mandado o filho diretamente para o convento da cidade; teve, porém, confiança em mim!...

MENDES – Não conheço o grau da amizade que tens com esse Jerônimo: o caso é melindroso: dá cá tabaco. (Tomam) 1 Depois das primeiras representações fez-se suprimir as seguintes palavras: “com a velha não há perigo; mas as meninas!” 2 Corrigiu-se do seguinte modo: “Vá Sra. Joana!... seja criada da Dulcinéia! (Alto) Vamos, meninas.” 5 PERES – Olha: eu deixo a Antonica em casa oito dias...

MENDES – Oito dias a mecha ao pé do paiol da pólvora!...1 PERES – É isso! toma tabaco (Tomam) reduzo os oito dias a cinco.

MENDES – Em cinco noites uma gambá acaba com um galinheiro.2 PERES – Pois bem: ao menos três dias...

MENDES – Dá-me mais tabaco...

PERES – Não dou: Jerônimo merece algum sacrifício, O pior é que não me animo a confiar o segredo...

MENDES – À comadre?.,, é santa criatura; mas logo contaria tudo às filhas... e estas.

PERES – Tal e ....... e então a sua afilhada? apesar da educação severa que lhe dou, é cabeça de fogo, toda exaltada... por tua culpa! ensinaste-lhe ler contra a minha vontade...

trazes-lhe novelas...

MENDES – E hei de trazer-lhas,,, não te dou satisfações. (À janela) Venha, comadre! o sereno pode fazer-lhe mal.

CENA V Peres, Mendes, Joana, Inês, Brites e Benjamim.

PERES – Joana, o compadre não volta a estas horas do Saco do Alferes para a cidade; dormiremos no meu quarto cá do andar de baixo... temos aí duas camas: não te ocupes com ele. É verdade!... a senhora Antonica talvez tenha fome: jantou? BENJAMIM – Não, senhor; mas gosto de jejuar (À parte) Rebentando de fome!...

seria capaz de comer o próprio capitão-mor, se mo dessem reduzido a bifes!...

PERES – Brites, manda pôr à mesa alguns assados, doces e vinho... (Brites sai).

JOANA (À parte) – Que cuidados!... como está cheio de ternuras o diabo do velho!... E mesmo na minha cara.3 PERES (A Joana) – Manda preparar nesta mesma sala um leito para a senhora Antonica... amanhã lhe daremos melhor cômodo... (Fala a Mendes).

JOANA (À parte.) – É demais!... quer que eu lhe faça a cama e aqui!... perto do quarto, onde vai dormir!...4 PERES – Escuta, mulher! (A Joana) deixa em completa liberdade esta menina... em toda liberdade aqui!...

JOANA (À parte.) —Claríssimo!... em completa liberdade!... e ele cá embaixo! mas eu não passo a noite lá em cima.5 BENJAMIM (À parte) – A velha está me olhando raivosa! seria engraçado se tem ciúmes de mim com o marido!... não pode ser outra coisa; mas eu protesto!...

JOANA – Sr. Peres, e ouça também, compadre! a menina, coitada, pode ter medo de dormir aqui sozinha; acho melhor levá-la para o sobrado; dormiria perto de nós...

MENDES (A Peres) – Dá cá tabaco, compadre!... (Toma ele só).

PERES – Não: ela prefere dormir aqui... em liberdade... ela já mo disse.

1 Substituiu-se pelo seguinte: “Em Oito dias há uma semana, com um dia de mais que pertence ao diabo.” 2 Substituiu-se por: “É muito! Em uma hora cai a casa” 3 Corrigiu-se assim: “É demais! Ferve-me o sangue”.

4 Correção: “É demais!” 5 Fizeram-se riscar as últimas palavras desde “e ele cá em baixo.” 6 JOANA (À parte) – O demônio até já perdeu a vergonha!... (Alto) Mulher, como nós, não teria vexame da nossa companhia... é por isso que eu lembrava...

INÊS – Mesmo, se meu pai consentisse, a Sra Antonica podia bem dormir comigo.

BENJAMIM (À parte) – Que choque nervoso!... estremeceu-me o corpo todo...

MENDES (A Peres) – Dá cá tabaco! PERES (Severo a Joana) – A Sra Antonica dormirá aqui! BRITES (Entrando) – A mesa está servida: meu pai quer que levemos a Sra.

Antonica?...

PERES – Esperem. (À janela) Martinho, o meu cavalo russo e o do compadre selados, e já dou pajens com archotes!...

MENDES (A Peres) – Que extravagância é esta? PERES (A Mendes) – Vou ao convento dos franciscanos levar a carta do guardião de Macacu... hão de abrir-me a portaria por força...

MENDES (A Peres) – Perdeste a cabeça, compadre!...

PERES (A Mendes) – Se a tua boa afilhada já quer dormir com ele! MENDES (A Peres) – Com ela, caluniador! Inês se propunha a dormir com uma menina da sua idade.

PERES (A Joana) – Não quero nem um momento de intimidade de nossas filhas com esta moça: logo que eu sair, manda as meninas para o sobrado. A Antonica dorme aqui: arranja-lhe a cama, e recolhe-te também. O compradre vai, mas volta comigo.

JOANA (À parte) – Et coetera, et coetera... é positivo.

PERES – Vamos, compadre; os cavalos devem estar prontos.

MENDES – Vamos; mas dá cá tabaco (Tomam tabaco e saem; Joana, Inês e Brites os acompanham).

BENJAMIM (Só) – A menina Inês com o inocente desejo de dormir comigo fez revolução na casa! Ora eis como são as coisas! a velha arde em ciúmes por causa da saia que eu trago por cima dos calções, e o velho partiu desatinado por causa dos calções que eu trago por baixo da saia!... mas a menina Inês, se queria dormir comigo, bem poderia fazê-lo sem prevenir o pai; deitou tudo a perder!1 CENA VI Benjamim, Joana, Inês e Brites.

JOANA – Meninas, tenho ordem de mandá-las já para o sobrado; mas acho melhor que vão para a mesa com a senhora Antonica. Eu fico para arranjar-lhe a cama (Com intenção).

INÊS – Mamãe tem mais juízo do que meu pai. (A Benjamim) Vamos! BENJAMIM (À parte) – Valha-me Santo Antônio!... que tentação!...

BRITES – Venha... está trêmula!.

BENJAMIM – E nervoso: sou muito vexada... e tenho as vezes comoções em que não sei o que faço, nem o que digo. Ai!... e tanto medo de dormir sozinha!... (Vão-se).

CENA VII Joana e logo escravas, que entram e saem.

1 Corrigiu-se assim: “mas a menina Inês, na crença de que sou mulher, está livre de pecado, coitadinha!” 7 JOANA (No fundo) – Benta! Marta! (À frente) É preciso arranjar a cama! que desaforo! (Entram as escravas) Tragam o catre que está no quarto do corredor, e aprontem a cama... ali... (As escravas vão e voltam, obedecendo; Joana passeia à frente) Um velho que já não presta para nada!1 como pôs a calva à mostra! Ele dormirá lá dentro... pertinho; ela aqui sozinha; e eu... no sobrado! (As escravas) Andem com isso! (A frente) Tenho medo do gênio do Peres: mais hei de pôr esta mulher na rua! (As escravas que saem) Acabaram? vão fechar a casa. A cama está pronta!... oh! haja o que houver, eu hei de passar a noite embaixo desta cama!... Tenho o meu plano... (No fundo) Brites! vem cá.

Cena VIII Joana e Brites.

BRITES – A Antonica da Silva, come que parece um pato, e bebe, que para mulher é boa esponja! JOANA – Já sei o que ela é... uma inimiga nossa! (Admiração de Brites) Eu te explicarei. Olha: teu pai voltará muito tarde... o demônio de saia diz que tem medo de dormir sozinha... Vamos divertir-nos esta noite? mas, acabada a função, vocês duas vão dormir e não se importem comigo. Tenho que fazer cá embaixo. Entendes? BRITES – Eu julgava a Antonica tão boa! Inês está doida por ela...

JOANA – Inês vai ficar como uma cobrinha assanhada. Apaguemos estas luzes; basta deixar uma, (Apagam) É verdade! a roupa que serviu a teu irmão naquela dança que houve no ano em que ele foi para Coimbra, estava no baú grande...

BRITES – E está.

JOANA – Vai ver se a harpia acaba enfim de comer, (Brites sai) Pois não, senhora Antonica da Silva!... já lhe aprontei a cama, veremos se a acha macia.

Cena IX Joana, Inês, Brites e Benjamim.

BENJAMIM – Donzela infeliz; mas aqui tratada como filha, peço licença para beijar a mão protetora da senhora e as mãozinhas destas duas angélicas meninas, JOANA – Oh, não! a senhora merece mais; agora faça as suas orações e durma, BENJAMIM – Eu sozinha nesta sala tão grande!... ah!... acaso já morreu alguma pessoa aqui? JOANA – Tem medo de almas do outro mundo?... esta casa pertence-nos há vinte anos, e ainda ninguém nos morreu nela.

BENJAMIM— Valha-me esta consolação.

JOANA – E verdade que o seu primeiro proprietário, que era muito avarento, e o filho dele que foi juiz almotacel1, homem mau, que fez a infelicidade de muitas moças, morreram aqui; mas... ora... foi há tanto tempo! BENJAMIM – Ai! ai! tenho tanto medo de dormir sozinha!...

JOANA – Fique sossegada: Boa noite! andem meninas! 1 Corrigiu-se assim: “Como o diabo do velho pôs a calva à mostra!...

1 Inspetor encarregado de fiscalizar pesos e medidas; e da taxação e gêneros alimentícios.

8 BRITES – Boa noite! (Seguindo adiante).

INÊS – Eu queria que a senhora dormisse comigo, mas meu pai não quis, Boa noite! BENJAMIM (Suspirando) – Boa noite. (Joana segue as filhas).

Cena X Benjamim.

BENJAMIM – Afotunado bofetão dei no capitão-mor! mas que perigos para a minha inocência aqui! sem a menor duvida sou bonito rapaz, se o não fosse o meu disfarce já teria sido descoberto e a gralha ficaria sem estas penas de pavão (Mostrando os vestidos).

Que será de mim amanhã?... que ladrões de olhos tem a Inês!... qual! o velho não me entrega preso! e a mãozinha de cetim... e que rosto! ora, eu não quero mais ser frade (Sentase na cama) E agora?... a coisa não está em despir-me; mas amanhã?... camisa... anágua...

seios postiços... o lencinho.. . nada: vou dormir vestido. (Deita-se) Ainda tenho no nariz o cheiro suave... (Levanta-se) E que durma um pobre pecador com um cheiro assim no nariz!... é preciso distrair-me... (Canta) — Lá em Macacu eu era sacristão, Tocava o sino din-delin-din-din...

É tal qual! O capitão-mor por simples bofetão Em fuga pôs-me, como malandrim E eis-me afinal Fingindo moça; mas rapaz no intento Amando Inês, e pelo pensamento Em pecado mortal.

Velas de cera, o resto da galheta2, Espórtulas3, caídas tinha eu: É tal e qual! Fechada a igreja e ao toque da sineta Súcia me fecit, todo dia meu, E eis-me afinal Fingindo moça; mas rapaz no intento, Amando Inês, e pelo pensamento Em pecado mortal.

Valha-me Santo Antônio! se eu pudesse dormir (Senta na cama).

Cena XI Benjamim e Joana que envolvida em imensa mortal/ia negra, vem a passas vagarosos.

JOANA (Dentro) – Meu dinheiro! meu dinheiro!...

2 Pequeno vaso que guarda o vinho para missa.

3 Esmola.

9 BENJAMIM – Que é lá?... eu não creio em almas do outro mundo... (Em pé: Joana entra) Oh!... oi... (na cama e cobre-se).

JOANA (Canto lúgubre.) – O catre é meu; Nele morri: No travesseiro (Benjamim treme aterrado e fala durante o canto) Ouro escondi: BENJAMIM – Vade retro, retro, vade retro! abrenuntio! uh!... uh!... uh!... (A tremer) JOANA – Quero o meu ouro...

Eu voltarei.

Se não m’o deres (Empurra a cama e depois mete-se em baixo) Te matarei BENJAMIM – Cre... do... credo... vade retro... per signum... libera nos... per signum... (Ao empurrar Joana a cama) Santo Antônio... me valha! (Silêncio) Libera nos (Silêncio) Creio... que estou livre... (Levanta o lençol aos poucos) Oh! (Em pé e espantado) Nunca vi almas do outro mundo no cemitério de Macacu... não acreditava... mas esta é a do avarento!... se me deitei sem fazer oração... (Ajoelha-se e reza).

Cena XII Benjamim e Brites, envolvida em mortalha branca.

BRITES (Dentro) – Ai!...

BENJAMIM (Corre para a cama a tremer) – Outra!... Misericórdia! BRITES (Canto pungente) – O almotacé defunto...

Aqui de noite vaga...

E a vítima que apanha...

Em frio abraço esmaga! BENJAMIM (Fingindo medo) – Ah! ah!... credo... vade retro... (Levantando a ponta do lençol) ah! esta alma padecente conheço eu... a voz não engana. (A tremer) uh!... uh!...uh!...

(Finge medo).

BRITES – Por ela seduzida E em seus braços morrendo...

Sou alma condenada..

E vago padecendo! (Passa a mão pelo rosto coberto de Benjamim e vai-se) Ai! BENJAMIM (Treme) – Uh! uh! uh! (Ao passar da mão) Ai! mi... mi...

misericórdia! (Silêncio.) Foi-se... (Descobre-se) A outra alma que deveras me aterrou era 10 portanto a velha enciumada!... divertem-se comigo: pois divirtam-se... a menina Brites saiu sem levar uma oração minha; porque (Em pé e rindo) eu bem sei porque..

Cena XIII Benjamim e Inês, com o rosto muito apolvilhado, vestido ricamente de almotacel e com imenso véu transparente.

INÊS (Dentro.) – Minha noiva! minha noiva! BENJAMIM (Fingindo medo) – Ai!... é a alma do almotacel!... estou perdido!... (À parte) E a mezinha! que belo, belo, belo!...

INÊS – Finado sou; mas amo-te! (Indo a Benjamim que recua) Adivinhei-te e vim: Por minha noiva quero-te: Hás de ser minha, sim! Sim! sim!... (Persegue Benjamim) BENJAMIM (Recuando) – Oh, trance cruel! alma de sedutor, fugi-te!... onze mil virgens, salvai-me! INÊS (Perseguindo)— Hás de ser minha, sim! (Aceleram os passos) Sim! sim!...

BENJAMIM – Alma condenada, vade retro! ai, que angústia!...

INÊS (Recuando) – Serás minha noiva!...

BENJAMIM (Recuando menos vivo) – Já me faltam as forças, ai de mim!... (À parte) quero ver só o que o demoninho da moça vai fazer comigo. (Alto) Não posso mais! (Inês toma-o pelo braço) Ai que frio de morte! (À parte) E uma febre de fogo...

INÊS – Amo-te! BENJAMIM – Mas não ofenda o meu pudor! tomara eu que ela queira ofendê-lo).1 INÊS – És minha noiva.. dá-me um abraço!...

BENJAMIM – Oh... não! poupe a mísera donzela!...

INÊS – Um abraço! um abraço!...

BENJAMIM – Ai de mim! pois bem, senhor almotacel... eu lhe dou um abraço...

mas um abraço só... depois o senhor me deixa... vai-se embora... me deixa...

INÊS – Oh! vem! (Abraça-o, e separa-se e foge).

BENJAMIM – Agora me deixe... me deixe...

INÊS (À parte) – E que abraço apertado me deu! como está nervosa!.

(A Benjamim) E minha noiva, há de acompanhar-me para o cemitério...

BENJAMIM – Para o cemitério! não... isso não...

INÊS – E dormirá na minha sepultura...

BENJAMIM (Fingindo terror) – Senhor almotacel, tudo quanto quiser, mas não me leve para o cemitério! sou sua noiva, sim!... amo-o... mas tenho medo do cemitério... não me leve... amo-o! quer que lhe dê um beijo?... (Beija a face de Inês) por quem é não me leve! quer outro beijo? (Beija-a) outro? (Beija-a) amo-o! (De joelhos e beijando-lhe as mãos) adoro-o! sou seu escravo... seu escravo!... quero dizer, sua escrava.

JOANA (Saindo de baixo da cama, e pondo a cabeça de fora) – Inês, ela é homem!...

INÊS (Afastando-se confundida) – Oh!...

1 Suprimiram-se as palavras “tomara eu ,etc.” 11 Cena XIV Benjamim, Inês, Joana e Brites, que entra.

JOANA – O senhor não é capaz de negar que é varão do sexo masculino.

BENJAMIM (À parte) – Como hei de negá-lo depois que ela fez o descobrimento da América (A Joana) sim senhora, confesso que sou homem... mas inofensivo.

INÊS (À parte) – Agora não posso mais olhar para ele...

JOANA – Mas o senhor abusou... devia ter-nos dito! BENJAMIM – Foi o Sr. Peres que me ordenou segredo absoluto...

BRITES (À parte) – De que escapei!...

JOANA (À parte) – Coitado do meu Peres!... que aleive lhe levantei... (Alto) Pois bem: como foi ordem do meu homem, conserve o segredo seu e dele; mas guarde também o nosso: o das loucuras desta noite; o senhor não é do sexo masculino... para nós.

BENJAMIM – Não sou, não; eu sou Antonica da Silva para as senhoras... podemos viver santamente na comunidade do nosso sexo (Batem à porta)1 JOANA – É Peres que chega. Ele deve ficar pensando que já estamos todas dormindo. Não se esqueça de apagar a luz... venham, meninas (Batem).

BENJAMIM – Sou muito esquecida... é melhor já (Apaga a luz).

JOANA – Andem... Andem...

BENJAMIM (De joelhos beija a mão de Inês, quando ela passa, vão-se Joana, Inês e Brites) – Juro pelos frades franciscanos que não quero mais ser frade (Ergue-se e vai às apalpadelas para a cama).

FIM DO PRIMEIRO ATO

ATO SEGUNDO

Á esquerda, varanda de colunas, tendo no meio cancela de grades e escada para o jardim e pomar que se estende para o fundo, e para a direita; ao fundo e à direita, portão largo, à frente espaço livre e pequenos bancos de pau.

Cena primeira Peres e Mendes, que descem a escada.

PERES – Como estão mudados os tempos! o provincial dos franciscanos fora do convento ainda depois da meia-noite!...

MENDES – Ajudando a bem morrer uma pobre agonizante cumpria o seu dever.

PERES – Aposto que ajudava a mal viver a alguma pecadora de predileção...

MENDES – Estás até maldizente, compadre! PERES – Pois se nem posso ir para a cidade! tinha de fazer uma remessa de açúcar para Lisboa, e dinheiro a receber hoje.

MENDES – Dá cá tabaco (Tomam). Vamos para a cidade...

1 Corrigiu-se assim: “Santamente aqui.” 12 PERES – Deixando aqui a mecha ao pé do paiol da pólvora como tu dissestes. Não vou.1 MENDES – A comadre sabe olhar para as filhas, e tu estarás de volta ao meio-dia...

PERES – Acreditando que o Benjamim é Antonica, tua comadre pode descuidar-se, e a Antonica declarar-se Benjamim a Inês ou Brites. Não vou. (Um criado traz uma carta; Peres abre e lê) E do provincial!... (A um aceno, vai-se o criado) Daqui a uma hora Fr.

Antão e dois leigos vêm receber o rapaz.

MENDES – Estás enfim livre da Antonica da Silva.

PERES (Triste) – Livre... do filho de Jerônimo! compadre, vamos para a cidade...

MENDES – Não: agora deves ficar em casa... Fr. Antão vem...

PERES – Não quero ver sair, como expulso... devo estar fora... Escreverei a Jerônimo dizendo que em minha ausência e contra os meus desígnios...

MENDES – Hipocrisia e mentira... compadre? PERES – Antes dez filhos do que uma filha!... e então duas!...

MENDES – Que serviços deves ao teu amigo Jerônimo?...

PERES – Muitos; mas um! olha: éramos soldados do mesmo corpo e da mesma companhia na África; em um combate eu ia talvez ser morto por um golpe de lança...

Jerônimo atirou-se adiante de mim... recebeu a lançada no peito... e caiu... esteve a morrer dois meses, e escapou por milagre. (Comovido) Toma tabaco, compadre! MENDES – Não quero! é tabaco de homem ingrato.

PERES – Velho rabugento, que querias que eu fizesse?...

MENDES – Ontem devias ter dito tudo, tin tin por tin tin à comadre.

PERES – E as meninas?... e o Benjamim? isto é, ele com elas? ...

MENDES – As meninas também deviam ficar sabendo toda a história do passado e do presente...

PERES – E para coroar a obra eu mandaria minhas filhas brincar o vai-te esconder com o Benjamim...

MENDES – Não; mas dirias ao filho de Jerônimo: eis aí, minhas duas filhas, escolhe uma para tua noiva.

PERES – Compadre, tu falas sério?...

MENDES – Eu falo sempre sério. Agora que te dei a lição, dá cá tabaco (Tomam).

PERES – Não desejo... não quero que minhas filhas se casem.

MENDES – Que é? pensas mesmo que consentirei em que pelo menos minha afilhada sofra os martírios de solteirona?... estás muito enganado! hei de casá-la e bem a gosto seu... eu já lho disse, ouviste?...

PERES – Começas a aborrecer-me! vamos para a cidade.

MENDES – Não deves ir! PERES – Hei de ir...

MENDES – Estás com remorsos! PERES – Olha: farei por Benjamim o que faria por meu filho. Adoto-o; mas aqui com as meninas, não. (A escada) Joana, desce! (A Mendes) Vou preveni-la da vinda de Fr.

Antão, mas sem esclarecê-la sobre o fim que o traz aqui. Darei instruções em regra...

MENDES – Compadre, o teu tabaco é melhor do que a tua consciência. Dá cá tabaco (Tomam).

1 Suprimiram-se as primeiras palavras: Mendes apenas diz “Não vou”.

13 Cena II Peres, Mendes e Joana, que desce a escada.

PERES – A Antonica da Silva?...

JOANA – Encerrou-se no quarto, que lhe destinamos.

PERES – E as meninas?...

JOANA – Bordavam ao pé de mim.

PERES – Manda-as bordar sozinhas no sobrado...

JOANA – Então a Antonica é moça de costumes suspeitos? PERES – Não; mas queria casar contra a vontade do pai, um mau exemplo para as nossas filhas. Anda, preciso dizer-te uma coisa... (Vão indo).

MENDES – Comadre; pode ser que seu marido se salva, mas não entra no céu sem passar pelo purgatório ( Vão-se pelo portão).

Cena III Inês, observa da varanda e depois desce.

INÊS – Até o meio dia ou pouco mais ficamos sós. Não sei que sinto... desejo, mas não posso olhar para o moço!... há no meu seio alvoroço, na minha alma confusão... não me entendo! quando ele se aproxima, estremeço toda... tenho lido em novelas tantas lições de amor! ai, meu Deus!... se eu amo, o amor incomoda muito no princípio (Canta)1 Depois daquele abraço e dos beijos sem conta Que ele me deu, e eu dei.

Sabendo que era homem, nem pude ver afronta No ardor que provoquei...

Mas agora...

Não posso olha-lo, ai, não! Junto dele bisonha O pejo me devora...

Sou toda olhos no chão...

Tenho tanta vergonha! De moço em roupa justa vestida ele me viu E de calções até Culpada mamãe só, que foi quem me vestiu E fez-me Almotacé Mas agora...

Não posso olha-lo, ai, não! !...

Junto dele bisonha O pejo me devora, Sou toda olhar no chão...

Tenho tanta vergonha! 1 Suprimiu-se a última palavra “no princípio.” 14 Cena IV Inês e Benjamim, que desce a escada.

BENJAMIM – Este momento é um milagre de amor...

INÊS – Ah! (Medrosa) mamãe... (Olhando).

BENJAMIM – Não tarda; é por isso que tenho pressa. Quisera ficar aqui vestido de mulher toda a minha vida; mas tanta dita não dura: esperam-me perseguição, tormentos...

INÊS – Corre algum perigo?...

BENJAMIM – Pouco importa: resistirei à mais cruel adversidade, se merecer levar comigo a esperança do seu amor. Eu amo-a! INÊS – Senhor...

BENJAMIM – É que sua mãe não tarda... não tarda... (Toma-lhe a mão).

INÊS – Tenho muita vergonha...

BENJAMIM – Entre duas moças, como nós somos, não devem haver essas vergonhas! eu amo-a! e mamãe não tarda...

INÊS – Não sei... não ouso...

BENJAMIM (Larga a mão de Inês) – Ora está... aí vem sua mãe... (Triste) sou muito infeliz! INÊS (Voltando o rosto e abaixando os olhos) – Amo-o.

BENJAMIM – Ah! brilhou a luz do meu futuro! a mamãe agora pode chegar... pode chegar...

Cena V Inês, Benjamim, Joana e Brites.

JOANA (A Benjamim) – Que fazia aqui junto de Inês? BENJAMIM – Não fazia nada, não senhora: como ainda sou Antonica da Silva, tratava de salvar as aparências.

JOANA – Creio que apertava a mão de minha filha...

BENJAMIM – Qual! não apertava, não senhora: as moças, quando passeiam no jardim, costumam às vezes dar-se as mãos. Eu estava fingindo costumes de mulher.

JOANA (A Inês)— Que te dizia este se... esta senhora? INÊS – Eu me sentia muito vexada... não sei bem... penso que me falava... de Macacu...

BENJAMIM – Exatamente: falava de Macacu.

JOANA – E que dizia? (Senta-se, e Brites a seu lado; Inês em outro banco).

BENJAMIM (Em pé) – Descrevia as festas pomposas lá da vila: então as da igreja dos franciscanos! quando o guardião sobe ao púlpito, grita com uma eloqüência que faz dor de ouvidos (Senta-se junto de Inês) E as procissões!...

JOANA – Brites, senta-te ao pé de Inês; venha o senhor... a senhora para cá (Brites e Benjamim trocam os lugares).

BENJAMIM – Eu apenas salvava as aparências: as moças gostam de sentar-se juntinhas. Mas... os franciscanos.

JOANA – Os franciscanos? (À parte) Quem sabe?... (A Benjamim) quero ouvi-lo; ainda não me contou a sua história verdadeira (Leva-o para o fundo).

BRITES – Inês, mamãe já desconfia que gostas do Benjamim, e opõe-se...

15 INÊS – Para mim oposição é estímulo: sim! amo este moço e vou dizê-lo a meu padrinho...

BRITES – Ai, cabeça de novelas, vê lá, se te fazes heroína!...

INÊS – Se fosse preciso...

BRITES – Tonta! olha meu pai!...

INÊS (Encolhendo os ombros) – Tenho meu padrinho.

BRITES – Que faremos até ao meio-dia?... vou mandar trazer almofadas e banquinhas: quero ver se a Antonica da Silva faz rendas (Sobe a escada, dá ordens e volta).

JOANA (Voltando com Benjamim) – Ainda bem que não o prenderam.

BENJAMIM – Fugi, mas só à vingança do potentado; ao medo da guerra, não: as senhoras podem acreditar, que metido nestas saias está um homem.

JOANA – Provou-o, dando a bofetada no capitão-mor.

INÊS – Mamãe, ele deu bofetada em algum capitão-mor?...

JOANA – E por isso o perseguem, querem assentar-lhe praça de soldado... mas é preciso não falar nisto: segredo!...

BRITES – Recrutamento malvado! Em pouco tempo só ficarão velhos para noivos das moças. E para desesperar! JOANA – (Vendo escravos que trazem quatro banquinhas e quatro almofadas) – Faremos rendas?... lembraram bem (Sentam-se nas banquinhas e tomam as almofadas).

INÊS (À parte) – Recrutamento e vingança... é horrível! (Senta-se).

JOANA (A Benjamim) – O senhor parece que não é novo na almofada! BENJAMIM – O pior é que eu faço rendas; mas não as tenho.

BRITES – A senhora Antonica da Silva aprendeu a fazer rendas com os frades? (Trabalham todas).

BENJAMIM – Com os frades? não senhora; aprendi com as freiras; ora... eis aí...

estou atrapalhado (A Inês) Pode ensinar-me como se trocam os bilros neste ponto?...

JOANA – Ensino eu... deixe ver...

BENJAMIM (À parte) – Mamãe Joana não me deixa salvar aparência alguma! (A Joana) Muito obrigado, já acertei (Troca os bilros com ardor).

BRITES – Vamos cantar?... (A Benjamim) a senhora Antonica da Silva que sabe tudo, sabe cantar o romance de Dagoberto?...

BENJAMIM – Canto, mas não sei se entôo.

BRITES – Cantemo-lo pois... ouviremos a sua voz... olhe que deve ser de tiple4.

BENJAMIM – Não, senhora; será de tenor; mas só por culpa da natureza que me deu por engano garganta de homem (Cantam) BENJAMIM – Dagoberto o cavaleiro Sem pajem nem escudeiro Do torneio a liça entrou JOANA, BRITES e INÊS – Viseira baixa e no escudo Belo mote que diz tudo INÊS – “De Beatriz escravo sou” TODOS – De Beatriz escravo sou.

BENJAMIM – Dez cavaleiros desmonta Dos mais já nenhum afronta O paladim vencedor.

4 Soprano.

16 JOANA, BRITES e INÊS – Quem é, o conde pergunta Quem é a condessa ajunta.

INÊS – E Beatriz murmura amor! TODOS – E Beatriz murmura amor.

BENJAMIM – Dagoberto triunfante Ao conde chega ofegante, Ergue a vieira e lhe diz: JOANA, INÊS e BRITES – Não sou barão mas guerreiro, Fui armado cavalheiro; INÊS – E escravo sou de Beatriz.

TODOS – Escravo sou de Beatriz.

BENJAMIM – Dagoberto espera e o conde Olhando a filha, responde: Cavaleiro, sê feliz! JOANA, INÊS e BRITES – Quem é paladim tão bravo De Beatriz não seja escravo, INÊS – Seja esposo de Beatriz.

TODOS – Seja esposo de Beatriz.

BRITES – A senhora Antonica da Silva canta muito bem.

Cena VI Inês, Benjamim, Joana, Brites e Matinho assustado.

MARTINHO – Um oficial seguido de muitos soldados tem já a casa cercada, e quer entrar por ordem do vice-rei.

JOANA – Oh!... e Peres ausente!...que será?... (Inês aflita).

BENJAMIM – Claro como o dia! vem prender-me... e eu não me escondo mais...

entrego-me.

INÊS —(Aflita) —Não!... não!...

BENJAMIM – Sim: só me assusta o ridículo (A Joana) Minha senhora, me empreste um casaco e um colete do Sr. Peres... Calções eu trago por baixo das saias.

JOANA – Não; meu marido me recomendou a segurança de sua pessoa...

INÊS – Brites, vai escondê-lo atrás do altar da capela... depois sai e tranca a porta...

JOANA – É um recurso... leva-o, Brites, vá senhor...

BENJAMIM – Perdão! quero entregar-me preso...

INÊS – E eu não quero!... (Terna) peço-lhe que vá... entende?... eu peço que vá...

BENJAMIM – Ah! eu vou! (À parte) Positivamente... agora foram-se as aparências!... (Segue Brites e vai-se) MARTINHO (Vindo do fundo) – Um soldado já está de sentinela ao portão...

JOANA – Faze entrar o oficial (Martinho vai-se: Joana à parte) O lhe peço de Inês, e a obediência do rapaz tem dente de coelho... mas agora não é tempo de tomar contas...

estou a tremer...

Cena VII Inês, Joana, Alferes Paula, soldados, gente da casa a observar.

PAULA – Em nome e por ordem do senhor vice-rei conde da Cunha!...

17 JOANA – Que manda o senhor vice-rei! PAULA – Minha senhora, incumbido de importante diligência, tenho de correr a sua casa em busca severa.

JOANA – Meu marido está ausente: vou mandar chamá-lo já.

PAULA – É inútil: trago ordens precisas, e não posso esperar. Vou proceder à busca.

JOANA – Pode ao menos dizer-me com que fim?...

PAULA – O Sr. Peres Nolasco tem asilado em sua casa um rapaz que se disfarça vestido de mulher, e veio ontem da vila de Macacu. ... chama-se Benjamim.

INÊS – E perseguido cruelmente; porque deu e devia dar uma bofetada no capitãomor de Macacu.

JOANA – Menina!...

PAULA – A senhora o sabe? ... pois eu venho prender esse valentão Benjamim.

INÊS – Aqui o tem: sou eu.

JOANA – Oh!...

PAULA (A Inês) – Está preso.

JOANA – Não! esta é Inês, é minha filha!.

INÊS (Alto a Joana) – Minha senhora, eu agradeço a sua nobre generosidade... não devo abusar mais...

PAULA – Vamos!... siga para diante... (A Inês).

JOANA – Mas eu lhe juro que esta é minha filha! INÊS (Ao oficial) – Conceda um momento à gratidão do pobre asilado... devo abraçar a minha protetora (Abraçando Joana) Mamãe, não tenha medo; enquanto vou presa, salve Benjamim e mande avisar a meu padrinho. (A Paula) Estou às ordens.

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