Breaking News
Home / Obras Literárias / Histórias e Tradições da Província de Minas Gerais

Histórias e Tradições da Província de Minas Gerais

 

Clique nos links abaixo para navegar no capítulo desejado:
   

A cabeça do Tiradentes Tradição mineira

Quereis, minhas senhoras, que vos conte uma história para disfarçar
o enfado destas longas e frigidíssimas noites de maio? Mas, por melhor
que seja a minha vontade, não sei, como possa satisfazer ao vosso pedido...
digo mal, – cumprir as vossas ordens.

Este frio enregela-me as asas da imaginação; este vento glacial,
que uiva pelos telhados, como uma matilha de cães danados, estes guinchos
de corujas, que parecem lamentos de precitos, fazem a inspiração
recolher-se toda encolhida aos mais íntimos esconderijos do crânio,
tiritando de frio e de medo.

A falar-vos verdade, minhas senhoras, tenho o espírito tão
seco e estéril, como a caveira de um defunto enterrado há cem
anos.

Ah! falei-vos em caveira!...

E não é, que esta idéia de caveira veio despertar-me
a reminiscência entorpecida pelo frio?! Foi como a vara mágica
de Moisés, que fez rebentar água em jorros da aridez do rochedo
do deserto.

E pois vou contar-vos a história de uma caveira memorável.

Não se arrepiem, minhas senhoras; não é história
de almas do outro mundo, de trasgos, nem de duendes.

É uma simples tradição nacional, ainda bem recente,
e da nossa própria terra.

Essa história eu a poderia intitular:

História de uma Cabeça Histórica

Era pelos fins do século passado; em 178...

Nesse tempo, esta capital de Minas, que então com justa razão
tinha o nome de Vila Rica, era opulenta e populosa, como bem poucas cidades
se podiam contar no Brasil.

Os governadores e fidalgos dessa época rodavam em ricas carruagens
tiradas por possantes mulas por essas ladeiras, onde hoje só rincham
pesados carros puxados a bois.

Havia quase sempre curros ou touradas, e cavalhadas magníficas; procissões
de esplendor e riqueza deslumbrantes; espetáculos teatrais, em que
a arte suntuosamente protegida pelos governadores era cultivada com 1 esmero
no gosto da época; uma literatura própria, se bem que um tanto
abastardada pela imitação do classicismo lusitano, literatura
de que foram dignos representantes nomes até hoje célebres.

Gonzaga, Alvarenga Peixoto e Cláudio Manuel da Costa são glórias,
que nunca mais se eclipsarão.

Havia regozijos e festas de toda a espécie, muito luxo, comércio
interior ativo, e o povo nadava na abundância.

E tudo isso por quê? Porque naquela época o ouro por essas
montanhas como que brotava à flor da terra.

O ouro era tão abundante, que os próprios pretos cativos,
com as migalhas que escapavam das lavras de seus senhores, edificaram mais
de um templo magnífico, que até hoje aí estão,
e as pretas, quando iam às suas festas costumeiras, polvilhavam a carapinha
com areia de ouro.

Mas em contraposição a tudo isso, o povo gemia debaixo da
mais vil, da mais infamante escravidão.

O bem-estar material era grande; mas a degradação moral era
profunda.

Ali sobre aquele morro se erguia o vulto sinistro e ameaçador da
forca, que nunca se desarmava, e em que a um simples aceno da tirania, apenas
com uma aparente forma de processo, se imolava tanto o criminoso como o inocente.

Acolá, no meio daquela praça pública, em face de um
templo cristão, – como um sarcasmo vivo, – até bem
pouco tempo se achava alçado o pelourinho, ainda mais infamante, em
que o cidadão era azorragado publicamente, como o mais vil escravo.

Os capitães-mores também de sua parte castigavam arbitrariamente
com açoutes, com o tronco e até com a palmatória as mais
leves faltas de seus governados.

O ouro extraído das minas pelo braço do povo era na sua maior
parte destinado a alimentar o luxo e a cobiça de seus opressores.

Minas, bem como o Brasil inteiro, era bem como uma vasta fazenda explorada
em proveito da metrópole.

O povo era uma turma de escravos, que trabalhavam debaixo do azorrague de
seus feitores, – os governadores, capitães-mores, guardas-mores
etc.

A fazenda prosperava; mas os escravos indóceis começavam a
se enfadar de arroteá-la só para benefício de seus senhores.

II

E nessa época de riqueza e opulência, de servilismo e degradação
social, no meio da praça principal desta cidade se via uma cabeça
humana dessecada, cravada sobre um alto poste.

Este poste e esta cabeça eram noite e dia guardados por uma sentinela.

E à noite uma lanterna se acendia para alumiar o lúgubre espetáculo.

Havia dois ou três anos que este sinistro padrão da mais brutal
e feroz tirania existia ali hasteado.

E por que razão esse cuidado em conservar ali tão guardado,
tão vigiado, aquele triste e miserando resto de uma vítima há
tanto tempo sacrificada?...

Para que aquela sentinela ali postada constantemente dia e noite?...

Temiam acaso que aquele crânio oco e ressequido onde há tanto
tempo se extinguira a vida e o pensamento, de novo se reanimasse, e reunindo-se
ao tronco esquartejado e esparso, desse outra vez o sinal da revolta ao povo
oprimido?...

Ou receavam que esse crânio, hasteado na ponta do estandarte da emancipação,
fosse o sinal certo da queda dos tiranos e do triunfo da liberdade, como esse
célebre tambor que os soldados húngaros fizeram da pele de seu
bravo chefe Ziska, morto no campo da batalha, tambor que quando rufava à
frente deles, era seguro prenúncio da vitória? Pobre Tiradentes!...
ainda que não fosse tão nobre e santa a causa por que te imolaste,
a morte afrontosa que sofreste, e a crueldade, direi asquerosa, com que profanaram
teus miserandos restos, eram motivos bastantes para abençoarmos tua
memória e execrarmos a de teus algozes.

III

Era uma noite tenebrosa, horrenda, como essa que aí vai correndo.

Impetuosa ventania, zunindo pelos tetos da antiga e opulenta Vila Rica submersa
no sono e no silêncio, impelia pelos ares camadas e camadas de espessa
e frigidíssima neblina, e fazendo oscilar sobre seu poste a caveira
do mártir da liberdade com sinistro estrépito, agitava-lhe os
compridos cabelos castanhos ainda aderentes ao crânio.

Parecia que aquela cabeça heróica, bafejada pelo sopro da
liberdade que rugia das montanhas, em seu fúnebre oscilar ameaçava
ainda os tiranos, e lhes predizia a próxima ruína.

O pálido clarão da lanterna, que balouçava ao vento,
ondulava lúgubre sobre a ossada branquicenta, desenhando ao vivo as
cavidades negras dos olhos e a dentadura amarelada.

O pobre sentinela, talvez considerando que estava de guarda a um crânio
ressequido que a ninguém podia fazer mal, e que longe de excitar a
cobiça, só poderia inspirar horror, o sentinela sentado no hão,
recostado sobre uma pedra, e com a arma sobre os joelhos, deixava-se furtar
do sono.

Um vulto todo rebuçado surge por entre as trevas, e se aproxima cautelosamente
do tremendo poste.

Com uma comprida vara que trazia, faz saltar do poste a caveira, apanha-a
rapidamente, e de novo desaparece com o favor das trevas e do nevoeiro.

Tudo isto foi feito com tal presteza, que quando o guarda, despertado pelo
som rouco da caveira ao cair, deu fé do ocorrido, já era tarde.
Viu apenas uma sombra engolfar-se e desaparecer através do nevoeiro.

Um instante depois o relógio da cadeia badalava meia-noite.

O guarda contou que um fantasma de fogo, esvoaçando pelos ares, havia
roubado o crânio, e desaparecera nas nuvens.

As sentinelas da cadeia atestaram o fato e o guarda do poste foi acreditado,
e não sofreu castigo.

Não era mesmo para acreditar que o anjo do Brasil viesse reivindicar
aquela relíquia veneranda do mártir da liberdade?...

IV

Conheceis essa comprida rua, que na extremidade ocidental desta cidade se
estende isolada por uma encosta acima, como a cauda de um lagarto.

Chama-se a rua das Cabeças.

A origem desse nome sinistro vem de que aí se fincavam na ponta de
estacas as cabeças dos míseros enforcados pelas esquinas dos
becos.

– Para servir de exemplo e escarmento aos povos – diziam os
tiranos.

Mas os fatos vieram depois comprovar-lhes, que erravam, procedendo assim.

No alto dessa rua, não há muitos anos, existia ainda um velho
de vida misteriosa e retraída, a quem o povo olhava com respeito e
curiosidade.

Vivendo sozinho em uma casa quase arruinada, comunicando-se raras vezes
com seus semelhantes e só em caso de necessidade, parecia um anacoreta
ou um homem possuído de singular monomania.

Entretanto os curiosos, que nunca faltam nas cidades, espiolhando um dia
pelas fendas das arruinadas paredes da morada do velho, devassaram um singularíssimo
segredo de sua vida íntima.

Viram-no abrir com ar de religioso respeito a portinhola de um nicho ou
de um armário praticado na parede, tirar dele um crânio humano
branco e mirrado, depô-lo silenciosamente sobre uma mesa colocada em
frente a um oratório, e ajoelhando-se depois com os braços encostados
sobre a mesa, assim ficar por largo tempo, em atitude de profunda meditação,
ou no êxtase de uma oração.

Mas esta descoberta, como bem se pode ver, em nada veio dissipar o mistério
que pairava sobre a vida do velho. Pelo contrário vinha ainda rodeá-la
de mais um sinistro prestígio, e em vez de acalmar a curiosidade do
povo, concorreu para mais excitá-la.

Que crânio seria esse, que o velho guardava, e parecia venerar com
religioso acatamento? Seria relíquia de algum ente amado? Seria o velho
algum assassino, que em expiação de seu crime queria ter sempre
diante de si o crânio da sua vítima para lacerar continuamente
a consciência com o cilício do remorso?...

Seria algum cenobita imitador de S. Jerônimo, que tinha sempre diante
de seus olhos uma caveira humana a fim de conservar de contínuo presente
ao espírito o nada da existência? A maior parte do povo porém
ficou tendo o pobre velho por um grande feiticeiro, e por isso tinha-lhe medo
e o respeitava.

Assim pois, descobrindo aquele segredo da vida do velho ainda a tornaram
mais misteriosa e quase sinistra.

Pouco tempo depois morreu o velho, foi pobremente enterrado no adro relvado
da capela do Senhor Bom Jesus, sita na mesma rua, e sua casa tombando em ruínas,
ficou abandonada, pois se já em vida de seu dono era objeto de terror
para o povo, muito mais o ficou sendo depois de seu falecimento.

Não foi senão alguns anos depois, que se veio no conhecimento,
de que o velho misterioso não era outro senão o ousado roubador
da cabeça do Tiradentes, e que a caveira, que com tão religioso
cuidado guardava e venerava, era a daquele ilustre e desditoso mártir
do primeiro movimento emancipador.

Contou depois isto alguém, que era o único depositário
do segredo do velho, e que por ignorância ou indiferença ligava
pouca importância a um fato tão curioso.

Que é feito porém desse crânio histórico, que
tão generosos pensamentos abrigou outrora em seu seio? Quereria seu
possuidor em sua fanática veneração pela liberdade e
por aquela relíquia do seu principal mártir, que ela fosse com
ele enterrada, e seria cumprida a sua última vontade? Ou ficaria essa
relíquia, – digna de ser encerrada em uma urna de ouro, –
calcada debaixo dos entulhos das paredes esboroadas da habitação
do velho?...

Ninguém o sabe.

Os fatos, que acabo de narrar, posto que pouco conhecidos, são tradicionais.

Perguntem aos velhos, e mesmo a alguns moços mais curiosos, das coisas
antigas da nossa terra, e se convencerão de que esta história
não é de minha lavra.

Ouro Preto, maio de 1867.

A filha do fazendeiro

Introdução

A cinco ou seis léguas ao norte da cidade de Uberaba na província
de Minas Gerais se via ainda há alguns anos uma capelinha isolada ou
ermida no alto de um espigão, dominando por todos os lados um largo
e risonho horizonte como atalaia imóvel olhando em derredor as solidões.
Era uma pequenina e tosca construção de madeira com quatro paredes,
coberta de telha e coroada por uma cruz, como se encontram muitas disseminadas
por esses vastos sertões.

Essas capelinhas têm de ordinário junto a si um cercado de
pedra ou de madeira, que serve de cemitério aos fazendeiros vizinhos.
Quando se diz – vizinho – naquelas paragens, e principalmente
em eras mais remotas, entende-se moradores de cinco, seis, sete e mais léguas
em redor.

A capelinha, a que nos referimos, tinha também junto a si o seu terreno
sagrado, cercado de muro de pedra, e com uma cruz no meio, e era ali, que
os fazendeiros daqueles contornos mandavam enterrar os seus defuntos, para
se forrarem ao trabalho de mandá-los viajar dezenas de léguas
levando-os aos povoados onde houvesse cemitérios sagrados. Esta, porém,
não foi erigida especialmente para esse fim, como se verá pelo
decurso desta história.

Do alto da capelinha enxergava-se em distância de cerca de meia légua
em um aprazível vargedo a fachada denegrida arruinada de uma grande
fazenda, com seus vastos currais, senzalas, moinho e engenho de cana, mas
tudo a desmoronar-se, tudo abafado entre o matagal, que começava a
tomar conta do terreno com a vigorosa e luxuriante vegetação,
que há naquelas regiões. A fazenda achava-se situada ao pé
de um lançante entre duas vertentes orladas de filas de coqueiros chamados
buritis, cujas linhas se perdiam na imensidade dos horizontes como fileira
de guerreiros selvagens postados em ordem de batalha ao longo dos chapadões.
As terras de cultura ou matos de plantio eram mais longe, nas escuras matas,
que acompanham as margens de um ribeirão, que vai desaguar no Rio das
Velhas.

A algumas centenas de passos além da capelinha havia à beira
do caminho uma cruz de pau toscamente lavrado, e via-se claramente que ali
havia uma sepultura. Existindo ali tão perto uma capela e um recinto
sagrado para se enterrarem os mortos, por que razão fora ali sepultado
aquele corpo, assim segregado dos outros hóspedes do túmulo?
Aquele lugar tinha reputação de mal-assombrado, e agente daqueles
contornos, que bem sabe disso, evita o mais que pode passar por ali depois
de noite fechada. Um, que por desgraça teve de passar por lá
a desoras, quase que lá ficou morto de medo fazendo companhia ao enterrado.
Con-tou, que vira sobre a sepultura levantar-se um fantasma monstruoso, o
qual depois de exalar um gemido prolongado e lamentoso como o uivo de um cão,
arrebentou dando um estouro como de um tiro, e desmanchou-se em línguas
de fogo vivo, que passearam por algum tempo por cima da sepultura, e sumiram-se
um momento depois.

Se o leitor deseja saber que acontecimentos deram lugar ao abandono daquela
linda fazenda, e qual o mistério que encerram aquela sepultura e aquela
capelinha, leia a seguinte história, que há tempos me foi contada
por um morador daquelas paragens, e que eu tratarei de reproduzir com toda
a fidelidade e individuação, que a memória me permitir.

Capítulo 1 - A caçada de onça

Estava-se abrindo uma vasta roça no meio de uma mata virgem na fazenda
de que acabamos de falar; isto há de haver mais de quarenta anos. Era
ocasião da derribada; a foice já tinha ceifado e desbastado
o mato miúdo, as taquaras e cipós, que emaranhavam a floresta.
Os troncos robustos e colossais da peroba, da canjerana, da paineira, do cedro
e do ipê ostentavam-se nus, e campeavam desafogados aqui e acolá,
como colunas que ficaram em pé de um templo cujos tetos e paredes desabaram.
Mas era mister também deitar por terra esses gigantes de vegetação,
que com suas cúpulas imensas ensombravam o terreno da plantação,
e roubavam a seiva ao solo. Contra cada um deles investiam dois ou três
vigorosos e truculentos negros brandindo pesados e possantes machados. Nus
da cintura para cima luziam-lhes as espáduas musculosas banhadas em
suor aos ardentes raios do sol de agosto. Os golpes do machado restrugiam
compassados pela encosta ao som da cantiga monótona do africano. De
tempos a tempos ouvia-se um rangido horrendo; um rápido e passageiro
tufão atravessava uivando a floresta, e a terra estremecia ao medonho
estrugido de um tronco, que baqueava no meio da grita e alarido dos rudes
trabalhadores.

Ao pé da encosta, onde se fazia a roçada, e à beira
de um pequeno córrego havia um rancho ou coberta de capim de beira
no chão, como os há em todas as roças, onde se preparava
a comida para os escravos, e que lhes servia de guarida contra os temporais.

Enquanto no interior do rancho uma escrava preparava comida dos trabalhadores,
assentada à porta se via uma alva e delicada figura, que contrastava
singularmente com a bronca e selvática perspectiva de tudo que a rodeava.
Era uma menina de dezesseis ou dezessete anos, alva, esbelta, e de compridos
cabelos castanhos.

Tinha no regaço uma peneira, em que estava limpando o arroz, que
tinha de servir ao jantar. Os pés encruzados pousavam sobre umas tamanquinhas
de marroquim vermelho, e a saia do vestido cor de rosa meio apanhada deixava
ver as extremidades das alvas e mimosas pernas. Por causa da intensa calma
descera o corpinho do vestido, e assim sem xale e em mangas de camisa quase
que se lhe viam nus os seios, que arfavam puros e castos como os de Raquel,
quando ia dar de beber ao rebanho na cisterna, onde encontrou Jacó.

Seria impudicícia um tal desalinho em outro lugar, e em outra qualquer
criatura; mas cobria-a o véu da inocência, e o recato da solidão.
De quando em quando erguia a cabeça e sacudia para trás dos
ombros as longas e bastas madeixas, que importunas lhe caíam pelas
faces a tapar-lhe os olhos e estorvar-lhe o serviço em que se ocupava,
e então deixava ver um lindíssimo oval ornado pela mais graciosa
boca e os mais magníficos olhos que se podem imaginar. A todos esses
encantos, dava esplêndido realce o vivo rubor, com que o mormaço
de um sol ardente lhe afogueava as faces.

Cairia por acaso do céu naquele bronco sítio à entrada
do pobre rancho essa estátua de marfim, tão alva, tão
delicada, digna de pousar sobre pedestal de alabastro, e de ser emoldurada
entre sanefas de ouro e brocado? Ou acaso um anjo baixara à terra como
nos tempos bíblicos a conviver e abrigar-se à sombra da grosseira
cabana do homem primitivo? Paulina era a filha do fazendeiro. Filha única
e órfã de mãe, gostava de acompanhar seu pai em todos
os rudes trabalhos da lavoura do sertão. Por isso enquanto seu pai
com um comprido rebenque na mão, calçado de grossas botas de
mateiro rompia espinhais e coivaras feitorizando o trabalho da derribada,
ela tomava conta do rancho e ajudava a preta rancheira nos misteres da cozinha.
Mimosa e delicada como era e não tendo sido criada no meio daquelas
fragueiras lides, nem por isso Paulina tinha nada de melindrosa, e se entregava
com o maior desembaraço aos mais humildes e grosseiros serviços.
Além das perfeições que recebera da natureza, Paulina
tinha tido uma educação acurada e a mais completa que naqueles
tempos em nosso país se podia dar a uma menina. Ainda em tenros anos
tinha sido enviada para um colégio em S. João del-rei, onde
a gentil sertaneja recebeu com muito aproveitamento lições de
leitura, música, dança, e aprendeu as maneiras de uma sociedade
um pouco mais polida do que era a da Uberaba naqueles tempos.

Por morte de sua mãe, a que sucedeu imediatamente a de um irmão
único que tinha, seu pai acabrunhado por tão dolorosos golpes,
e vendo-se na mais triste soledade, apressou-se em chamá-la para junto
de si, pois era ela o único bem que o céu lhe tinha deixado
para mitigar a dor de tão sensíveis perdas. Ali na solidão
daquela fazenda, todos os dotes que Paulina recebera da natureza e da educação,
vieram a tornar-se-lhe inteiramente inúteis. As belas faculdades de
que o céu a dotara, e que no colégio começavam a desabrochar
com brilho, ali, sem achar expansão alguma, concentravam-se em si mesmas,
e Paulina, que tinha muita sensibilidade e imaginação viva,
foi-se tornando de um caráter disposto à melancolia e a essas
paixões vagas, que ao despontar da puberdade costumam atormentar as
organizações poéticas e delicadas. Poucas vezes deixava
o retiro de sua fazenda para ir a Uberaba, que aliás naquele tempo
era ainda uma insignificante aldeia. A família de um fazendeiro vizinho,
seu parente, que morava daí a duas léguas, era a única
que de quando em quando vinha interromper com suas visitas a monótona
solidão do viver de Paulina. Seu pai bem a induzia a passear mais freqüentemente
ao arraial, a ir passar alguns dias em companhia de suas primas. Mas ela parece
que não achava muito encanto na companhia das primas nem nas festanças
do arraial, e lhes preferia a solidão de sua casa e a companhia de
seu velho pai, para quem era toda extremos, e poucas vezes se utilizava dessas
permissões. Alguns passarinhos, o cuidado de um pequeno e lindo jardim,
alguns livros e seus trabalhos de agulha, bastavam para encher-lhe agradavelmente
o tempo.

Havia já alguns minutos que Paulina se achava à entrada do
rancho entretida naquele serviço, quando subitamente ergueu a cabeça,
sacudiu para trás os compridos cabelos, alongou o colo, e pôs-se
a escutar... fazia lembrar o esbelto e arisco colhereiro, que estando a pescar
tranqüilamente à borda do lago, ao sentir qualquer rumor alça
o colo rosado prestes a bater as asas.

Paulina estava escutando um toque de cães de caça, que vinham
descendo pela mata, córrego abaixo, com incrível assanhamento.
Os latidos dos cães e a vozeria dos caçadores, que os açulavam,
se aproximavam rapidamente atroando a floresta, e era evidente que o animal,
fosse qual fosse, que era acossado, vinha acompanhando o córrego, e
tinha de saltar no roçado exatamente em frente do rancho, em que se
achava Paulina. Ela, posto que algum tanto afeita a essas cenas selváticas,
não deixou de amedrontar-se, e correu para dentro do rancho.

– Suzana! Suzana!... gritou ela para a negra, – não ouves?...
aquele toque de cachorros?... meu Deus! não vá ser algum bicho
bravo!...

– He! ha! santa virgem! murmurou a negra depois de chegar à
porta do rancho e escutar um momento. – Aquele toque, sinhazinha, se
ele não é de anta, quer me parecer que é de onça.
Cachorro não está latindo alegre como quando toca veado, não.

– Ouça, Suzana!... ah! meu Deus! que medo! o que será
de nós aqui sozinhas!...

– Não tem susto, sinhazinha; onça não vem cá,
não; não está aí tanta gente pra matar ela?...

– Quem sabe, Suzana; – chama meu pai, chama depressa...

– Sossega, sinhazinha; – olha, lá vem eles todos...

De feito o fazendeiro, que ouvira também a tocada dos cães,
tinha largado imediatamente o serviço e descia pela encosta acompanhado
de alguns escravos armados de foices e machados, e vinham fazer frente ao
animal que saltasse da mata.

Um momento depois um enorme animal amarelo malhado de preto surgiu da mata
e, rápido como um corisco, saltando pelas coivaras se encaminhava para
o lado do rancho, onde nesse mesmo instante chegavam dois possantes e resolutos
negros, que o velho mandara a toda a pressa para ficarem junto de Paulina.
Os negros, que avistaram a onça, romperam numa horrível gritaria:
– É onça! é onça! acode gente!... mata!
mata!– Espavorida com aqueles berros a onça estacou um momento.

Ela estava apenas como a uns duzentos passos do rancho; perto se achava
um tronco de peroba meio tombado, que ao cair ficara engastalhado na galhada
de uma árvore vizinha. A onça pulou nele, e correu a empoleirar-se
no ponto mais alto, a que pôde galgar. Os cães, que a perseguiam,
desembocavam da mata e se reuniam embaixo do tronco, escalavrando-o com unhas
e dentes, e dando saltos e ganidos furiosos. Assalto inútil! a onça
passeava mui ancha e sobranceira ao longo do pau, e ora subia até a
mais alta grimpa, ora descia até quase ao alcance deles, arreganhando-lhes
os dentes como num sorriso feroz a mofar de seus vãos esforços,
e apoiando a cabeça enorme sobre as patas dianteiras os contemplava
bem de pertinho, e como que os contava um a um em ar de desdém.

Entretanto o fazendeiro acompanhado de seus escravos vinha atropeladamente
rompendo através das coivaras, e se aproximava da fera.

Paulina que transida de pavor mal ousava deitar a cabeça fora da
portinhola do rancho, em vão bradava com quantas forças tinha:
Meu pai! meu pai! por quem é? não vá lá! O velho
avizinhou-se intrépido do terrível animal, apontou-lhe direito
ao sangrador a espingarda de fiança, que sempre trazia consigo, mas
decerto a mão vacilou-lhe, porque tiro apenas pegou de leve na costela
da onça. O animal irritado deu um urro medonho, desceu até ao
meio do tronco curvou o dorso como cobra que quer dar o bote, pulou por cima
de toda a alcatéia de cães, que esganiçando se apinhavam
embaixo do pau, correu como uma seta para o lado do rancho, e embarafustou
por ele adentro.

Os negros soltaram a um tempo um grito de pavor, e o velho fazendeiro sentiu
gelar-se-lhe o coração de susto, as pernas bambearam-lhe, e
quase que foi ao chão. Mas o amor paternal sobrepujou o terror, e o
pobre velho tropeçando, abalroando e caindo pelos tocos e coivaras
correu com a maior celeridade que pôde para o lado do rancho; o mesmo
fizeram os escravos, que o acompanhavam. A onça, quando entrara no
rancho atropelada e acossada de perto pelos cães, nem de leve tocou,
e talvez nem viu as duas criaturas, que lá se achavam; cuidando que
ali seria uma toca, onde acharia guarida segura, só tratava de defender-se
contra os que a perseguiam.

O rancho tinha somente aquela estreita entrada, onde há pouco Paulina
se achava sentada. As duas míseras mulheres não tinham nem para
onde correr, pois a onça apoderando-se dessa entrada voltara a frente
para fora mostrando a seus perseguidores as alvas e enormes presas, e as formidáveis
patas capazes de estrangular um boi. Paulina para logo caiu desfalecida; a
negra mais morta que viva recolheu-se toda ao ângulo, que a coberta
formava com o chão, como querendo entranhar-se pela terra adentro,
tiritando de medo e encomendando a alma a Deus.

Assim pois naquele mesmo lugar em que ainda há pouco se sentava a
criatura mais primorosa da terra, um transunto dos anjos do céu, respirando
inocência, paz e ventura, alapardava-se agora o mais feroz e hediondo
dos seres da criação, com os olhos chamejantes de furor, e as
goelas abrasadas em sede de sangue.

Enquanto o fazendeiro com mão trêmula carregava a espingarda,
os negros, que não tinham por armas senão foices e machados,
hesitavam na maior perplexidade sobre o que deveriam fazer. Atacar a fera
sem ter certeza alguma de matá-la de um só golpe, era perigosíssimo;
ela podia num momento estraçalhar mais de um, ou o que ainda seria
pior, recuando para o interior do rancho voltar sua sanha contra as duas infelizes,
que lá se achavam na mais crítica e assustadora situação.

Enquanto os pretos vacilavam, e o amo escorvava espingarda, um cavaleiro
a todo o galope rompe da mata, e investe para o rancho, a cuja porta a onça
dava combate sanguinolenta aos cães, que ousavam aproximar-se-lhe.
Já estava na distância de um tiro de espingarda, quando seu cavalo
embaraça-se nas coivaras, e cai. Mas lesto e pronto o cavaleiro salta
fora dos arreios, e com uma pistola em cada mão avança resoluto
para a onça e desfecha-lhe à queima-roupa um tiro na cabeça.
Em dois arrancos o feroz animal arroja-se sobre ele, lança-o por terra,
e cai também para um lado estrebuchando e morre.

Nesse momento chegavam já, porém tarde, os outros caçadores,
que vieram achar três corpos exânimes, a onça, que expirara,
o cavaleiro malferido e banhado em sangue, e Paulina desmaiada. Uma das enormes
patas da onça tinha apanhado em cheio o peito do infeliz caçador,
e lacerando-lhe cruelmente as carnes o havia derribado no chão sem
sentidos.

Uma cuia de água fria lançada na cabeça de Paulina
restituiu-lhe prontamente os sentidos, e o consternado pai levantou aos céus
as mãos agradecidas chorando de alegria ao ver que felizmente sua filha
estava ilesa. Mas o denodado caçador, o intrépido salvador de
sua filha, esvaía-se em sangue que jorrava de três largos e fundos
lanhos, que as garras do animal lhe haviam aberto no peito, e o velho e todos
os mais estavam na mais cruel aflição e desassossego por se
acharem naquele ermo tão longe de qualquer recurso. Lavatórios
de água fria, fios e ataduras, que eram os meios de que ali se podia
lançar mão, nada conseguia estancar o sangue, que corria copioso
das feridas. A própria Paulina, a quem o pai em rápidas e animadas
palavras contara o ocorrido, já esquecida do seu susto, pálida
e consternada se debruçava sobre o corpo exânime do ferido, e
rasgando o lenço e a saia do seu vestido fazia atilhos e chumaços,
que com suas próprias mãos ia aplicando sobre as feridas.

Felizmente, mais sabido do que todos eles em matéria de curar feridas,
um preto velho tinha corrido ao mato, e voltava com um punhado de folhas na
mão. Apenas chegou, todos se arredaram para lhe dar lugar. O preto
ajoelhou-se perto do ferido, tirou todos os fios e ataduras, e fazendo pantomimas
e murmurando palavras cabalísticas, mascou três ou quatro bocados
das folhas que trazia, e foi deitando-as sobre as feridas. Em poucos instantes
o sangue estava estancado, e o caçador conduzido para o interior do
rancho e cuidadosamente deposto sobre uma esteira, em menos de uma hora recobrou
os sentidos. Dali forçoso era levá-lo para casa do fazendeiro
para ser convenientemente tratado, pois havia perdido muito sangue e seu estado
era melindroso.

A onça marrada a um pau pelas quatro patas e carregada aos ombros
de dois possantes negros, que gemiam debaixo do peso do truculento animal,
e aos lados e atrás dela a cáfila dos cães arquejando
de cansaço com as línguas dependuradas, ganindo e uivando com
um choro fúnebre; em se-guida o caçador cuidadosamente acomodado
em um cobertor, de que armaram uma rede, conduzida por outros dois pretos;
atrás dele imediatamente o velho fazendeiro e sua filha pálida
e desgrenhada; depois o cavalo do caçador, que um escravo levava pela
rédea, e logo em seguida os companheiros de caça do ferido conduzindo
igualmente pela rédea suas cavalgaduras, e por fim os escravos do fazendeiro
com seus machados ao ombro, rematando como uma guarda de honra toda aquela
comitiva, tal era o singular e curioso préstito, que por uma formosa
tarde de agosto desembocando de escura e espessa mata desfilava pelo lançante
de um risonho espigão ao longo de um buritizal, dirigindo-se à
casa do capitão Joaquim Ribeiro, que ficava como a meia légua
do lugar do sinistro.

Capítulo 2 - A fazenda

Formosas e risonhas são as campinas no município da Uberaba,
profundas e gigantescas as florestas, e os horizontes sempre afogueados pelos
raios de um sol abrasador são esplêndidos e deslumbrantes. Vastíssimas
colinas se estendem com suaves ondulações por distâncias
sem-fim, orladas de verde-negros capões, que ensombram o leito de caudais
e límpidos ribeirões. Extensas linhas de buritis se enfileiram
pela macega ao longo dos brejais até se perderem nas profundidades
do horizonte. Lisos e viçosos vargedos vão terminar ao pé
de um cordão de boleados outeiros de pouca elevação,
que se desenham fumacentos no fundo do painel à semelhança de
uma nuvem cinzenta fixa na orla extrema do céu.

Nem são essas campinas como as desabridas e monótonas pampas
das regiões do sul, onde a vista em vão se cansa procurando
em derredor um ponto, em que repouse, um pequeno cômoro sequer e que
interrompa a insípida uniformidade dos horizontes; nem como essas savanas
e chapadões intermináveis, como os há nas províncias
do norte e do centro, que o viajante palmilha de sol a sol sem que jamais
lhe afaguem os ouvidos o ramalhar da folhagem, nem o consolador murmúrio
das torrentes, sem ver mais que campo e céu, e ouvindo apenas o zunido
dos ventos, e o enfadonho zumbido das cigarras. De espigão em espigão
varia a perspectiva, e apresenta novos e sempre risonhos panoramas.

No meio desses plainos por entre as manadas de gado sem conto vagueiam os
veados, e as emas passeiam em bandos erguendo o esbelto e altaneiro colo até
a altura de um cavaleiro. O canto do campeiro, que anda pelos rincões
arrebanhando o gado, os trinos agudos da siriema, o pio melancólico
da perdiz, e o monótono chiar do carro de bois, que atravessa os chapadões
carregado dos produtos de pingues colheitas, eis os únicos sons, que
de ordinário quebram o silêncio daquelas afortunadas e risonhas
solidões.

As vivendas dos fazendeiros são comumente construções
toscas e singelas, ainda que cômodas e vastas. Mas em compensação
a situação delas é quase sempre aprazível e pitoresca,
ao pé de algum suave lançante, ouvindo o marulho da torrente,
que corre à sombra dos buritizais, e olhando ao longe pelos descampados
espigões.

Em frente à casa há sempre um vasto curral ou terreiro, em
torno do qual estão o engenho, o moinho, o paiol e mais outros acessórios
da fazenda. Por detrás se estende um vasto pomar, um verdadeiro bosque
sombrio e perfumoso, onde a laranjeira, o limoeiro, a jabuticabeira, o jambeiro,
o genipapeiro, o mamoeiro, o jaracatiá, as bananeiras e coqueiros de
diversas espécies crescem promiscuamente e cruzam suas ramagens em
uma espessa abóbada cheia de fresquidão, de murmúrios
e perfumes. Os cercados são latados de maracujá com seus doces
e aromáticos frutos, ou renques de piteiras, eriçando em torno
as longas e agudas hastes como uma floresta de baionetas, do meio das quais
se ergue como um estandarte o comprido pendão coroado de brancas flores,
O jasmineiro, a cocleária, o bogari, a esponjeira também crescem
em torno da casa, pelos cercados, junto às fontes, saturando o ambiente
de suavíssimos aromas.

Aqueles céus sempre azuis e límpidos desconhecem os nevoeiros,
os invernos, e essas brumas carregadas e úmidas, que costumam embuçar
céu e terra em nossas montuosas e tristonhas regiões. Quando
é chegada a estação das chuvas, as águas se precipitam
do céu em violentas borrascas entre o estampido de horrorosas trovoadas;
ao estouro de mil raios parece que a esfera abraseada rompe-se em estilhaços,
e se despenha sobre a terra. A copiosa e grossa chuva em pouco tempo rega
e lava os espigões, alaga as várzeas, e converte os menores
ribeiros em torrentes caudalosas. Mas dura pouco aquela convulsão dos
elementos; o mesmo tufão que trouxe a tempestade a varre em breve do
firmamento, e o sol torna a dominar em toda a amplidão da esfera azul
e resplendente.

Debaixo daqueles céus ardentes, em meio daqueles plainos infindos
tão cheios de encantadoras perspectivas, cobertos de tão opulenta
vegetação e banhados de tanta luz, parece que a imaginação
se inflama ao reflexo daqueles horizontes de fogo, e o coração
nutre-se de uma seiva de amor e voluptuosidade, que o faz pulsar com mais
força, sentir com mais energia. A índole do homem ali é
plácida e calma na aparência como o céu, que o cobre,
mas no fundo é ardente de sentimento e de paixão. O sopro das
paixões lhe ruge n’alma violento e tormentoso como os pavorosos
temporais que atroam aquelas solidões.

Assim, se tomardes um lugar em roda do fogo, que aquece no rancho o caldeirão
do tropeiro, ou vos sentardes na varanda do fazendeiro em horas de serão
a conversar com o sertanejo, ouvireis sinistras lendas, horríveis histórias
de sangue e vingança, e interessantes e românticos episódios
de amor, acontecidos naquelas paragens, como este cuja história vos
estou contando.

Eduardo, – assim se chamava o caçador ferido – era um
moço natural da Vila Franca na província de S. Paulo, alto,
bem feito, e de fisionomia agradável e simpática, onde transluziam
os dotes de sua alma nobre e bem formada. Era muladeiro; ia todos os anos
à feira de Sorocaba ou Curitiba, a comprar bestas, que vendia pelas
províncias de S. Paulo, Minas e Goiás. Andava então no
giro de seu negócio, e tinha invernado a sua mulada na fazenda vizinha,
pertencente a um primo do pai de Paulina, a quem já aludimos no capítulo
antecedente. Durante esse tempo divertiu-se em caçadas, a que era muitíssimo
afeiçoado, o que deu ocasião ao lamentável incidente,
que teve lugar na roça de Joaquim Ribeiro.

O fazendeiro vizinho e um filho seu por nome Roberto eram também
da partida. Aquele depois de ter acompanhado o ferido a casa do seu parente,
despediu-se e retirou-se para a sua fazenda com os outros caçadores,
recomendando-lhe toda a paciência e cuidado com o ferido, por ser muito
seu amigo, e digno de toda a estima e apreço. Roberto, porém,
a pretexto de fazer companhia a Eduardo, deixou-se ficar; mas não fazia
mais do que aproveitar-se com avidez da ocasião que se lhe oferecia
de passar alguns dias junto de sua prima Paulina, por quem desde criança
tinha uma paixão louca. Havia mesmo já como um ajuste tácito
entre os pais para o casamento dos dois primos, e já desde a infância
os entretinham em ar de brinco com essa idéia; – mau costume
que há nas nossas famílias, e que às vezes produz funestos
resultados. Disse – ajuste entre os pais, porque Paulina por sua parte
ouvia sempre falar nisso com a maior indiferença, e entendia que aquilo
não passava de um brinquedo entre crianças. Roberto, porém,
moço que teria vinte anos de idade, sentia por sua prima uma verdadeira
e ardente paixão, alimentada constantemente desde a infância
com os mais lisonjeiros sonhos de esperança e de futuro. Além
disso encantava-o a perspectiva de uma rica herança que teria de vir-lhe
às mãos inteirinha sem outro trabalho mais que esperar que seu
futuro sogro cerrasse para sempre os olhos no leito da morte.

Roberto era um sertanejo de grosseira educação, de gênio
áspero, e asselvajado na superfície, posto que no fundo não
tivesse má índole. Com tais predicados bem se vê, que
era impossível ser agradável aos olhos da delicada e sensível
Paulina.

Posto que bem apessoado e mesmo bonito, a crosta de rudeza que o revestia,
tornava impossível qualquer simpatia entre dois caracteres talhados
por moldes tão diferentes.

No dia seguinte ao do desastre pela manhã, Paulina, seu pai e o primo
achavam-se no quarto de Eduardo, a quem a extrema fraqueza a que o reduzira
a grande perda de sangue, não permitia levantar-se da cama. Paulina
acabava de trazer um caldo ao doente, que lho agradeceu com um olhar cheio
do mais terno reconhecimento.

– Coitadinha da prima! dizia Roberto, – que susto não
rapou ontem! por Deus, que eu tinha bem vontade de ver a carinha, com que
ficou, quando a bicha embarafustou pelo rancho adentro.

– Com efeito, primo! que fraco gosto! que graça podia achar
em ver uma cara de defunta?... eu fiquei sem pinga de sangue, e caí
logo sem acordo.

– Ah! maldita bicha! mil vidas que lhe tirassem, ainda era pouco para
pagar o susto, que lhe pregou, prima.

– Ora!... o susto nada foi, já se passou; mas o golpe, que
deu no senhor Eduardo?... para esse sim, é que toda a vingança
seria ainda pouca. Admira que o primo, sendo tão valente, não
acompanhasse de perto o sr. Eduardo para ajudá-lo a matar a onça;
talvez tivesse evitado semelhante desastre.

– Isso é que é verdade; acudiu o velho; – se algum
dos outros companheiros chegasse junto aqui com o senhor, e a bicha em vez
de um recebesse dois tiros a um tempo, e que pegassem em bom lugar, talvez
não tivesse tido tempo de fazer o que fez. Mas o que querem? a rapaziada
pateteou...

– Ora essa é que é boa!... pateteou não, meu
tio; como é que eu havia de chegar a tempo, se o meu cavalo caiu engastalhado
no meio das malditas coivaras que me atravancavam a passagem, e eu levei uma
embarroada nesta perna, que me fez chiar, e que até agora está-me
doendo, e quase que eu não podia dar um passo. Não fosse isso,
eu era o primeiro a chegar, e diabos me carreguem nesta hora, se eu só
não tivesse dado cabo da bicha, sem levar um arranhão que fosse...

– Oh! pois não!... exclamou Eduardo sorrindo-se: não
havia nada mais fácil... de dizer-se. Meu amigo, eu também levei
encontroadas horríveis no meio daquelas diabólicas coivaras
e tenho o corpo todo pisado e magoado; o meu cavalo também caiu; mas
naquela ocasião eu nada sentia; já de longe eu tinha percebido
que havia mulheres dentro do rancho, e ainda que se me tivesse quebrado uma
perna havia de me arrastar, custasse o que custasse, até o lugar do
perigo. Mas se não fosse essa circunstância, não seria
eu bobo de me ir atirar assim, sem quê nem para quê, nas garras
do terrível animal.

– Ah! dessa ainda nós não sabíamos, sr. Eduardo,–
disse o fazendeiro; mais um motivo, que vem aumentar a meus olhos a imensa
obrigação em que lhe estamos. Assim o senhor não praticou
apenas um ato de estouvada valentia de caçador, e não foi sem
o saber que salvou duas criaturas? – Não, decerto; tão
louco não seria eu...

– E praticou um ato de nobre e generosa dedicação por
pessoas que nunca conheceu. Ah, sr. Eduardo! em que dívida lhe estamos,
e quando e como poderemos nunca pagá-la.

– Qual dívida, sr. Ribeiro! por favor não se inquiete
com isso. Não fiz mais do que a minha obrigação, o que
em meu lugar qualquer outro teria feito...

– Mas em seu lugar, – disse Paulina olhando de esguelha e maliciosamente
para Roberto – estavam alguns outros e não o fizeram.

Roberto enfiou, mordeu os beiços e corou até às orelhas.

– Porque não puderam – respondeu Eduardo. – Mas
se teimam em querer dar-me um sinal de gratidão, basta-me o couro da
bicha. Hei de trazê-lo sempre comigo com orgulho como um troféu,
a menos que a senhora, – acrescentou voltando-se para Paulina, –
não o queira para si a fim de pousar triunfante os seus mimosos pés
sobre os restos do medonho animal, que tão grande susto lhe causou.

– Com bem pouco se contenta, disse o fazendeiro.

– Com isso e com a sua amizade, sr. Ribeiro, eu me julgo muito bem
pago, e com a íntima satisfação que me fica n’alma
por ter sido útil em um dia de minha vida à sra. d. Paulina.

Estas lisonjeiras palavras ditas com toda a graça e afabilidade,
mas em tom de cortesia, não agradaram muito a Paulina, a qual quisera
que o moço exigisse em paga mais alguma coisa, pois estava pronta a
dar-lhe ou antes já lhe tinha dado todo o seu amor. Decerto ela não
queria que o moço lhe fizesse ali de chofre uma declaração
de amor, mas notou com mágoa íntima, que o mancebo proferiu
aquelas corteses palavras quase sem emoção alguma e sem ao menos
olhar para ela, o que causou-lhe uma horrível impressão de despeito
e desalento. Retirou-se para o canto mais escuro do aposento para esconder
a sua perturbação e uma lágrima teimosa, que lhe queria
vir aos olhos.

– Ora bolas! – exclamou estouvadamente o primo Roberto, já
escandalizado com a prima, e cioso da importância e deferência
de que Eduardo era objeto. Não vejo de que estão fazendo tamanho
escarcéu, pois o que é lá matar uma onça?... eu
cá tenho matado mais de uma, e nem por isso ando a me gabar.

– Não digas tal Roberto! – atalhou o velho, – matar
uma onça não é lá grande coisa; também
eu as tenho matado e muitas. Mas afrontar o perigo, que o sr. Eduardo arrostou
para salvar duas criaturas, é uma ação valorosa e nobre,
de que nem todos são capazes.

– Também se ele não a matasse, eu teria dado cabo dela,
como tenho dado de muitas outras, tão certo como nós estarmos
agora aqui. Que me custava?... a minha espingarda não nega fogo, e,
minha mão, louvado seja Deus, não treme ainda, e quando atiro
em um bicho destes, não atiro nas costelas, e em todo o caso a prima
sempre aqui estaria tão viva e tão sadia como agora aqui se
acha.

– Pois bem, senhores – retrucou Eduardo já agoniado com
as toleimas do primo e com um sorriso sardônico – façamos
de conta, que foi o sr. Roberto, quem matou a onça; isso pouco me importa,
e não quero que diga outra vez que estou me gabando. O que me importa
é poder restabelecer-me destas feridas para poder tratar dos meus negócios.
Peço que se esqueçam do pequeno serviço, que tive a fortuna
de fazer-lhes, e tratem somente do meu curativo.

– Esquecer! oh! isso nunca! nunca esqueceremos. Mas, silêncio,
sr. Eduardo; não lhe convém falar muito e muito menos alterar-se.
Tranqüilize-se, que não pouparemos cuidados e desvelos para o
seu completo restabelecimento. Paulina, Roberto, vamo-nos daqui, deixemos
o sr. Eduardo descansar; ele precisa mais de repouso de que de qualquer outra
coisa.

Capítulo 3- O primo

Que pedaço de bruto não é o tal senhor primo Roberto!
ficou pensando consigo Eduardo, apenas os três se retiraram. –
Pelo que vejo tem paixão pela prima, e quer me parecer que o paspalhão
começa a coçar a canela por minha causa. Forte bobo! e entrar
nos cascos de um tal palerma ser o amante de uma menina tão meigazinha,
tão delicada!... Entretanto, se eu não tivesse o coração
tão cheio de amor, tão ocupado com a imagem da minha Lucinda,
teria de amar por força esta menina. Tão meiga, tão formosa,
disputada a uma fera quase à custa da minha vida!... ah! parece que
o céu a tinha destinado para mim!... é estranho encontrar-se
nestes sertões uma criaturinha tão mimosa, tão perfeita.
Ah! senhor Roberto! senhor Roberto! dê parabéns à sua
fortuna de eu já ter empenhado o meu coração e a minha
palavra, quando não impreterivelmente o tirava do lance, e então
é que lhe havia de amargar a boca! – Então prima, o que
lhe parece o maluco daquele matador de onças? ia Roberto dizendo a
sua prima, depois que saíram do quarto de Eduardo, e enquanto atravessavam
um comprido corredor, que ia terminar numa varanda aberta dando para o vasto
curral da fazenda. – Matar uma onça então é para
qualquer?... o pateta cuidou que uma onça se mata assim como se mata
um gambá; coitado! não foi má a esfrega que levou. Tão
cedo não lhe voltará a vontade de andar pelos matos às
escaramuças com as onças.

– Quem sabe, primo Roberto, ainda pode escaramuçar muitas,
e matá-las como matou a de ontem, e talvez com mais felicidade. É
um valente e destemido moço aquele!...

Este elogio foi uma seta, que partiu da boca de Paulina para o coração
de Roberto.

– Valente! – exclamou ele com um sorriso forçado e amarelo;
– ora não fale, prima. É paulista, e basta. Dizer paulista,
é o mesmo que dizer bazófia e fanfarrice. Eu tenho matado mais
onças, antas, queixadas, jacarés, sucuris, e quanto bicho bravo
há pelo mato, do que a prima mata de pulgas na sua cama, e disso nem
dou fé e nem ando me gabando. Agora porque aquele pelintra de um muladeiro
matou por acaso uma onça estão fazendo um escarcéu, meu
Deus! já pensam que estão em casa com um Roldão ou um
Ferrabrás de Alexandria.

– Não é por ter matado a onça, primo... arre
lá! quem ouvisse isto, havia de dizer que o primo ou tem a cabeça
muito dura ou o coração muito mau; não é por ter
matado ao nça, já se lhe disse, – mas por me ter salvado
a vida, que damos e havemos de dar sempre a nossa amizade e gratidão
a esse digno moço.

– Ora gratidão!... outro qualquer teria feito o mesmo. Eu também
quando a prima era mais pequena, n&atatilde;o se lembra? não a livrei
de ser atravessada pelos chifres de um boi bravo?... se eu não agarro
e carrego-a no ombro, e pulo de um salto a cerca do curral, adeus, prima Paulina!
já estava comendo terra há muitos anos. E nem por isso eu vi
ninguém vir derreter-se em agradecimentos...

– Ora, primo, nem fale nisso. Eu era uma criancinha, não podia
dar o devido apreço a esse imenso serviço que me fez o primo.
Mas hoje eu o reconheço, e beijo-lhe as mãos agradecida, meu
bom e valente primo. Mas se também lhe devo a vida, primo, não
é isso razão para que eu deixe de mostrar-me também agradecida
a quem acaba de prestar-mo um serviço não menos importante.

Quanto mais Paulina procurava encarecer as qualidades de Eduardo, e a nobre
e valerosa façanha de que fora herói, tanto mais se exacerbava
o ciumento Roberto, e mais procurava deprimir e abocanhar aquele que em sua
imaginação já era um rival perigoso.

– Enfim, prima, – disse ele com fingida indiferença –
faça lá e pense lá o que quiser. O que sei dizer é
que se aquela maldita onça o tivesse alinhavado ali, bem pouco se perdia.

– Não fale assim, primo. Que agravo lhe fez esse moço
para lhe desejar tanto mal? – Quem sabe se a prima está pensando,
que aquela figura é alguma coisa neste mundo. Se a prima o não
conhece, conheço-o eu muito bem. Não passa de um tocador de
bestas muito ordinário e muito gangolina, que tem passado a manta a
meio mundo. A mim mesmo empurrou-me ele por duzentos mil-réis uma besta
pêlo de rato, que não vale cem, e que vem a não servir
nem para cangalha. Mesmo esse punhado de bestas, que vem tocando, a prima
pensa que é dele? Qual! O biltre não é mais do que um
capataz, que vem impingir o refugo da tropa do patrão aos bobos do
sertão.

– E que nos importa isso, meu primo, o que sei é que ele me
salvou galhardamente a vida das garras de uma onça e é motivo
de sobra para que eu lhe seja eternamente agradecida, e creio que também
para que o primo não abocanhe e não despreze assim um homem,
que não lhe fez mal algum.

– Nenhum mal!... eu sei!.. e também que me importa a mim esse
homem. Ou por sim, ou por não, amanhã ou depois, logo que ele
possa montar a cavalo, hei de levá-lo para minha casa, porque é
nosso hóspede, e meu tio nenhuma obrigação tem de agüentá-lo.

– Alto lá, primo! – atalhou Paulina com vivacidade;–
menos essa!... temos muito mais obrigação do que o senhor, e
havemos de agüentá-lo com muito prazer. Enquanto não sarar
de todo, ele é nosso, e não arreda pé daqui.

– Isso era bem belo!.. e a mulada dele que lá fica à
toa?... não hei de ser eu que hei de tomar conta dela. Aquele arranhão,
que levou, ora bolas! aquilo sara num instante, e nestes dois ou três
dias ele que trate de montar a cavalo, vá tomar conta da sua tropa,
e depois... puxe para a sua terra, e passe por lá muito bem.

– Arre! primo! que ojeriza é essa que tomou com o pobre moço!
pois ele não tem camaradas, que tomem conta da tropa!...

– Muito ordinários; uma súcia de preguiçosos.

– Nesse caso mandaremos uma pessoa capaz de tomar conta da mulada;
mas ele não; tão cedo não se poderá mover daqui.
Coitado! perdeu tanto sangue; está tão fraco.

– Coitadinho do nhonhô cheiroso! olhem não vá
morrer de fraqueza – exclamou Roberto com uma expressão de ironia
e um trejeito de cara indefinível – o tal maganão, prima,
parece que caiu-lhe no gosto... não quererá também guardá-lo
no seio?... Prima, olhe que não fica bonito a uma moça filha-família
mostrar tamanho empenho assim por um... um... pé de poeira, que ninguém
sabe donde veio, nem para onde vai...

Esta grosseira reprimenda fez enrubescer até os olhos a filha do
fazendeiro. O rústico primo tinha tocado do modo o mais rude e brutal
em uma ferida recente, de que a menina ainda nem dava fé, e a fazia
sangrar cruelmente.

Mas aquela primeira perturbação do pudor virginal para logo
passou e deu lugar ao despeito e à indignação. Vermelha
como lacre, e mal retendo uma lágrima, que lhe pendia da pálpebra
trêmula e cintilante, levantou a cabeça com altivez e respondeu:
– Senhor meu primo, não sei quem lhe deu o direito de me repreender
e regular as minhas ações!.. O senhor é muito tolo em
pensar que eu lhe devo dar satisfação do que faço e do
que digo. Felizmente ainda tenho pai, e é só dele e de mais
ninguém que aceito repreensões, ouviu, meu primo?... Se vosmecê
faz garbo de ser ingrato, eu não quero e nem posso fazer o mesmo; hei
de ser sempre muito reconhecida e grata ao moço generoso e delicado
que fez por mim, que lhe era inteiramente estranha e desconhecida, o que o
senhor, sendo parente e amigo, não pôde ou não quis fazer.

Esta violenta apóstrofe fulminou o pobre do Roberto.

– Oh! prima da minha alma!... o que é isso?... por quem é...
não se enfeze... espere... olhe, venha cá... não foi
por lhe ofender que eu falei... oh! prima... pelo amor de Deus... não
dê o cavaco...

Assim exclamava o desapontado primo com voz chorosa e balbuciante, enquanto
a prima que voltara-lhe as costas com o mais soberano desdém, desaparecia
no fundo do corredor sem lhe dar a mínima resposta.

Roberto, que com razão desconfiava de si mesmo, e tinha talvez alguma
consciência do seu pouco merecimento individual, de sua imensa inferioridade
em relação à sua inteligente e encantadora prima, não
tinha motivo para contar muito com a afeição e o amor de Paulina.
Por isso era ele ciumento como um tigre, e seu coração vivia
sempre em contínuos sustos e sobressaltos.

Não podia aportar à fazenda de seu tio um mancebo, um homem
qualquer de boa aparência e de algum tratamento, que não tremesse
logo pelo seu tesouro, julgando que já lho queriam roubar, e que logo
não voasse para lá sombrio e desconfiado a vigiá-lo com
seus próprios olhos, como o jacaré de sentinela ao seu ninho.

Julgava, – e nisso tinha alguma razão, – que ninguém
podia ver Paulina sem que logo morresse de amores por ela, e não desejasse
a todo o custo possuí-la por esposa.

O casamento dele com a prima também não passava de uma coisa
apenas conversada entre as duas famílias, uma hipótese plausível
no futuro, e nada tinha de um compromisso sério, que rigorosamente
os obrigasse. Roberto portanto, se bem que nenhum obstáculo até
então se opunha à futura realização de seu mais
ardente desejo, todavia nenhuma garantia segura tinha também que o
pudesse tranqüilizar, e por isso razão de sobejo tinha ele para
andar com alma entregue a contínuos cuidados e inquietações.

À vista disto faça-se idéia de como não ficaria
o coração do pobre rapaz, quando viu instalar-se em casa de
seu tio aquele belo e galhardo mancebo, debaixo de tão lisonjeiros
auspícios, e rodeado do prestígio das extraordinárias
e romanescas circunstâncias, que ali o trouxeram. O moço, além
de seu nobre e belo porte, tinha maneiras as mais polidas e afáveis,
e todas as qualidades próprias para inflamar o coração
das moças, e atrair as simpatias dos homens, prescindindo mesmo desse
ato de dedicação e coragem, que o tornara um ídolo aos
olhos do dono da casa.

Considere-se tudo isso, e diga-se se o pobre Roberto tinha ou não
carradas de razão para ficar rebentado de inveja, de despeito e de
ciúme.

Naquelas ardentes regiões, tão cheias de largos e luminosos
horizontes, de grandiosas perspectivas, naquelas veigas risonhas, onde tudo
convida a amar, onde a viração quente e embalsamada só
respira amor e voluptuosidade, naquele clima de luz e fogo, se o amor é
uma chama voraz, o ciúme é uma peçonha que mata.

E tanto mais cruel e pungente devia ser o ciúme de Roberto quanto
mais leal e extremosa era a sua afeição; pois o amor que o pobre
moço consagrava a sua prima, era puro e santo, como primícias
que eram de um coração virginal e novo, de uma alma infantil
e cândida. Debaixo daquela crosta grosseira havia muita força
de amor, muita paixão, muita energia de sentimento.

Roberto, pois, que tinha o coração quente, mas a cabeça
fraca e a índole estouvada, não gostou nada de ver a terna e
assídua solicitude com que Paulina e seu pai tratavam do caçador
ferido, e dava aos diabos a maldita caçada, que deu ocasião
a que viesse parar à casa da sua querida aquele importuno trambolho.

Para desvanecer a impressão que o jovem caçador tinha feito,
ou porventura poderia fazer no espírito de Paulina, Roberto no seu
bestunto de criança julgou que não havia melhor meio do que
menoscabá-lo, deprimi-lo, procurando desmerecer aos olhos da prima
o imenso serviço que acabava de fazer-lhe.

Tempo perdido!

Capítulo 4 - Paulina

Eduardo livrando a filha do fazendeiro das garras de um animal feroz, sem
querer a tinha entregado indefesa nas mãos de um algoz talvez ainda
pior, – a uma forte e irresistível paixão. A onça
a teria estrangulado em poucos instantes; mas a paixão enleando-se
astuta e sutilmente como uma serpente em torno de seu coração,
nele distilava gota a gota toda a sua mortífera peçonha.

O caráter melancólico e apaixonado de Paulina, a solidão
plácida, porém monótona e triste em que vivia, sua imaginação
viva inflamada pelos raios daqueles vagos horizontes uberabenses, cujas linhas
se perdem indecisas por longes fumacentos, tudo contribuía para que
suas impressões fossem vivas e enérgicas, seus sentimentos profundos
e cheios de paixão. O primeiro amor que lhe entrasse na alma, devia
decidir por uma vez de sua sorte futura, e torná-la para sempre feliz,
ou eternamente desventurada.

Enfim aquele vago de emoções, em que lhe ondeava o espírito
perdido em cismas melancólicas, aquele anelo de uma felicidade ignota,
que lhe fazia ofegar intumescido o seio num doce e indefinível anseio,
achou um objeto em que fixar-se, deparou a encarnação do seu
ideal; concentrou-se em Eduardo.

Se bem que até ali não tivesse descoberto nem nas palavras
nem nos olhares de Eduardo o menor sintoma de amor, todavia nem lhe passava
pelo espírito a idéia de que pudesse deixar de ser amada por
ele mais tarde ou mais cedo, – credulidade e confiança muito
natural naquela alma ingênua e inexperiente, que no enlevo e exaltação
de seu afeto acreditava que aquele mancebo não podia ter aparecido
a seus olhos tanto a propósito e em tão extraordinária
situação, senão expressamente enviado pelo céu
para ser seu companheiro e protetor, seu anjo tutelar durante toda a sua existência.

Paulina era bonita, muito bonita, e posto que nada tivesse de vaidosa, nem
de faceira, tinha plena consciência de sua incomparável formosura.
Não era só no espelho, que se fiava; a impressão de assombro,
que produzia em qualquer parte, onde chegava, os cumprimentos e homenagens
de que se via rodeada em qualquer reunião que se achasse, a inveja
das outras moças, os rumores, que lhe chegavam aos ouvidos quando rompia
alguma multidão – que linda moça! – que prodígio!
– é um anjo!... é um sol! – tudo a confirmava na
convicção de que era a mais bela dentre as belas.

Uma moça com tais predicados, rica e bem educada, não podia
deixar de agradar por toda a parte, de render todos os corações,
e se Eduardo por ora só lhe falava com fria polidez, e a olhava com
indiferença, era provavelmente porque o seu estado de extrema debilidade
ainda não lhe permitia observar nem sentir nada, principalmente na
alcova escassamente alumiada em que se achava recolhido.

Estas idéias e sentimentos formulavam-se no espírito de Paulina,
não assim limpa e distintamente como as vamos formulando à maneira
de cálculo; eram idéias e sentimentos confusos, palpites e aspirações,
que lhe ondeavam na alma, como os vapores transparentes da aurora ondeando
na valada ao sopro das brisas matinais.

Assim se passaram alguns dias. Eduardo, graças à sua boa compleição,
e aos extremosos cuidados e desvelado tratamento, que lhe dispensavam seus
hóspedes, restabelecia-se com rapidez; o amor e as inquietações
de Paulina, e os ciúmes de Roberto cresciam na mesma proporção.

Roberto andava inteiramente estomagado com sua formosa prima; mas não
ousava queixar-se, nem dizer-lhe nada. Não deprimia mais o muladeiro,
e nem se atrevia a tocar na desastrada caçada de onça, que era
o seu eterno pesadelo; tinha medo de alguma estralada pior do que a que já
houvera, e que a fizesse romper inteiramente com ele. Assim, pois, assentou
de mudar de estratégia, e como tinha ouvido dizer que o desdém
é o melhor meio de atrair a afeição das moças,
esforçou-se por aparentar o maior pouco caso do mundo para com a linda
prima; fingiu-se curado da paixão que por ela tinha; quando acontecia
falar com Paulina ou olhar para ela era com um ar da maior indiferença
e para afastar toda a idéia de arrufos e ciúmes, era ele mesmo,
quem convidava a prima para irem conversar ao quarto de Eduardo. Ali tagarelava
ele a torto e a direito soltando o dique de uma torrente de parvoíces
sem conta; falava em namoradas que dizia ter, fingia saudades de uma, exaltava
a beleza e as qualidades de outra, contava os riscos e vantajosos casamentos
que tinha à sua disposição, esforçando-se por
afetar o tom o mais descuidoso e despreocupado do mundo. Todas essas frioleiras
introduzia na conversação, viessem ou não a propósito,
porém com ar tão aparvalhado e com tal desazo, que bem se estava
vendo que tudo aquilo não passava de um expediente muito cediço,
de que lançava mão a ver se picava o amor-próprio de
Paulina, e se com o seu desdém ela se mostrava ofendida. Foi tempo
e trabalho perdido. Paulina bem pouca atenção lhe prestava,
e Eduardo sorria-se interiormente de tantas parvoíces e impertinências.

Vendo com o maior desgosto que nenhum lucro tirava de semelhante estratégia,
Roberto mudou as guardas, e tratou de ensaiar o sistema contrário.
Começou a rodear Paulina de tantos cuidados e atenções,
a dirigir-lhe tais lisonjas e galanteios, que além de ridículo
o tornavam soberanamente importuno. Todas as vezes, que Paulina aparecia na
sala, na varanda, no jardim, lá surgia pela frente o primo, endereçando-lhe
finezas as mais cediças, cumprimentos os mais grotescos, que fariam
rir Paulina, se não tivesse o espírito tão preocupado,
o coração tão cheio de cuidados e inquietações.

– Ah! prima da minha alma! não faz idéia como está
bonita!... esta prima é um peixão!... é mesmo um sol!...

Outras vezes tornava-se todo solícito pela sua saúde. –
Bons dias, prima; – amanheceu hoje tão amarelinha!... coitada!...
parece uma defuntinha! mas sempre bonita assim mesmo; bonita como ninguém!...
é tal qual uma santinha de cera!... eu já vi uma Nossa Senhora
de gesso, que era essa sua carinha sem tirar nem pôr... é preciso
a prima dar um passeio lá em casa... suas primas estão com uma
saudade da senhora! também há de ser bom para seu incômodo;
a mana Mariquinha também costuma sofrer disso e dá-se bem com
o passeio.

Outras vezes saía com uma espingarda pelo mato, e fazia as maiores
diligências para trazer à prima uma caça delicada, um
jaó, uma paca, uma perdiz.

A prima anda com tanto fastio! talvez esta caça lhe faça abrir
a vontade de comer; mande a Susana prepará-la bem feita para o seu
jantar.

Ai! todos aqueles obséquios, todas aquelas finezas eram perdidas.
Paulina bem via que Roberto a amava extremosamente; tinha pena dele, e não
desejava magoá-lo, ainda que suas contínuas atenções
e galanteios não deixassem de importuná-la. E quanto mais crescia
o amor que Eduardo lhe inspirara, mais fria, reservada e mesmo triste se mostrava,
não de propósito, mas até mesmo a pesar seu, para com
o pobre Roberto. Nem por isso deixava de dirigir-lhe algumas palavras de agradecimento,
e um sorriso, mas tão frio, tão repassado de melancolia, que
não podia fazer desabrochar muita esperança no coração
do infeliz rapaz.

Roberto trincava de raiva e desesperava-se por não poder vencer a
cruel apatia, em que para com ele se achava o coração de Paulina,
e lançava mão de todos os recursos que seu fraco bestunto lhe
sugeria. Por fim procurou vencê-la com dádivas e presentes. Uma
rica e grossa cadeia de ouro, em que trazia preso o seu relógio, pediu-lhe
que aceitasse em penhor de sua amizade, e firmeza. Ofertou-lhe mais uma linda
e excelente besta de sela, além de muitos outros mimos delicados e
de preço. Dádivas quebrantam penhas, e “a Deus rogando
e com la mano dando”, tinha ele talvez ouvido dizer senão ao
próprio Sancho Pança, ao menos a algum de seus confrades. Importunada
para aceitar, Paulina via-se em torturas para recusar semelhantes donativos
de um modo que o não desgostasse. Pobre amante! infeliz pretendente!
disputava com admirável ardor e tenacidade a posse de um coração,
e como não era repelido terminantemente em termos claros e rudes, em
sua simplicidade não compreendia quanto era completa a sua derrota.

Mas Paulina também, coitada! era porventura mais feliz do que ele?
É verdade que Eduardo mostrava com ela o mais terno interesse, e a
tratava sempre com a mais lisonjeira deferência. Nem outra coisa se
poderia esperar de um moço polido e de fina educação,
e Paulina atraía as homenagens e a admiração de todos
que a viam. Todavia era ela bastante inteligente e perspicaz para deixar de
compreender que nem nas expressões nem nos olhares de Eduardo, nem
em toda aquela afeição, aliás íntima e sincera,
que o mancebo revelava por ela, não havia a mínima centelha
de amor. Notava com extremo desgosto que Eduardo andava sempre distraído
e pensativo, que seus olhos andavam sempre passeando ao longe, e como querendo
transpor as distâncias com o pensamento. A conversação
de Eduardo rolava freqüentemente sobre lembranças de sua terra,
da qual se mostrava extremamente saudoso, e dando-se por feliz por ter sido
como um instrumento da Providência para proteger a vida de Paulina,
não deixava de lastimar o incômodo, que viera atrasar seus negócios,
e retardar sua volta ao país natal. Um cruel desalento, uma tristeza
mortal se apoderava então do coração da moça;
mas como a esperança é a última companheira que nos abandona
no infortúnio, ela procurava iludir suas tristes apreensões,
e pensava consigo: – Talvez ele seja frio e reservado de seu natural.
– O amor nem sempre brilha nos olhos, ou se derrama em palavras de fogo,
e dizem que quando existe oculto assim e guardado no coração,
é ele mais forte e violento... Tem saudades de sua terra?... que tem
isso?... há nada mais natural?... tem lá sua mãe, seus
parentes e amigos... Quem sabe!... talvez que um dia vamos juntos para lá.

Capítulo 5 - À sombra da gameleira

Assim se passaram uns quinze dias, durante os quais o espírito de
Paulina se agitava na mais cruel ansiedade entre a esperança e o desalento.

Entretanto Eduardo, mais vigoroso e quase completamente restabelecido, tinha-se
já levantado do leito, em que jazera por tantos dias, e ensaiava alguns
passeios em derredor de casa, pelos currais, pelo pomar e pelos campos vizinhos.

Estava uma linda tarde, vaporenta e melancólica, como só as
há naquelas descampadas e formosas regiões uberabenses. Como
era tempo da queima dos campos, a fumaça das queimadas embaciando os
horizontes dava-lhes formas e coloridos vagos e fantásticos. O ar estava
morno, imóvel e embalsamado. Em frente da casa se desenrolava mágico
e sublime o panorama das solidões sem-fim numa sucessão interminável
de plainos, florestas, colinas e espigões, cujas formas iam morrer
indecisas ao longe engolfadas nas ondas de um vapor dourado. O arpejo tão
lânguido, tão cadenciado do sabiá harmonizava-se docemente
com aquele místico e voluptuoso remanso, que envolvia toda a natureza.
Também cantava ao longe o boiadeiro que vinha tocando as manadas para
os currais, e o chiado monótono dos carros, que cortavam os chapadões
carregados de fartas colheitas.

Em um ângulo do vasto curral que ficava na frente da casa, havia uma
dessas gameleiras colossais, como as há em quase todos os currais das
fazendas daquele sertão, e que podem abrigar debaixo de sua gigantesca
cúpula uma numerosa manada de gado, de tronco nodoso e cheio de fendas
e cavidades, em qualquer das quais um homem se abrigaria comodamente do mais
violento temporal. Servem ao mesmo tempo de aprisco para o gado, e de coberta,
onde se guardam carros, cangas e mais arreios de carreação.

Recostado sobre a mesa de um carro, que se achava à sombra da gameleira,
achava-se Eduardo tomando o fresco, e espairecendo as vistas pela elevadora
perspectiva que tinha diante dos olhos; sem dúvida cismava saudades
de sua terra, de sua mãe, e da sua querida Lucinda. O velho fazendeiro
achava-se também encostado ao peitoril da varanda, armado de um bom
par de óculos, lendo um grosso e velho alfarrábio. Não
havia muito tempo que Eduardo se achava ali entregue a seus pensamentos, quando
Paulina descendo ligeiramente a pequena escada de pedra que vinha dar ao curral,
trouxe-lhe uma cesta de laranjas, e lhas ofereceu com um encantador sorriso
e expressões cheias de amabilidade. Como seu pai se achava ali à
vista entendeu que nenhum mal ia à sua honestidade e recato em conversar
a sós com Eduardo alguns momentos. Há muito que suspirava por
uma ocasião de entreter-se com ele sem testemunhas, e procurar devassar-lhe,
se possível fosse, os segredos do coração, e por isso
aproveitou-se com sofreguidão daquela primeira oportunidade que se
lhe oferecia, e vencendo a custo o natural pudor e acanhamento, encetou timidamente
uma conversação cuja direção já tinha ideado.

O primo Roberto, porém, que sempre desconfiado e ardendo em zelos
não perdia um só passo de Paulina e Eduardo, já de uma
janela os estava observando, e não podia suportar com paciência
aquele espetáculo, que o torturava. Interromper e perturbar a todo
transe e de qualquer modo que fosse, aquilo que a seus olhos era uma entrevista
despejada e escan-dalosa, foi logo o seu pensamento. Intrometer-se bruscamente
de permeio na conversação seria uma grosseria, que iria magoar
sua prima, a quem ao lado do muito amor tinha ele muito respeito ou antes
muito medo.

– Com mil diabos! exclamava Roberto trincando os dentes e arrancando
os cabelos. – Lá estão a conversar sozinhos! o que estarão
cochichando aquelas duas almas! eu dera a vida por ouvir tudo!... aquela prima
jurou de me estraçalhar o coração. Doidinha!... às
barbas de seu pai, e à minha vista, estar a cochichar com um estranho!...
e continuam!... não sei onde estou que... e como se estão derretendo
um com outro! oh! não! isto é demais... não consinto.

Entretanto aquele silêncio e serenidade, que ainda há pouco
reinava em torno daquela pacífica habitação, tinha-se
convertido em tumulto e algazarra infernal. O gado que chegava do campo e
entrava de tropel pela porteira do curral, atordoava o ar com seus mugidos;
não menos atordoadora era a gritaria dos campeiros, que o tocavam.
Os negros que vinham do trabalho e se recolhiam às senzalas ou conversando
ou cantando em voz baixa ao toque da marimba faziam um zumbido semelhante
ao das abelhas, quando se recolhem ao colmeal. Não menos gritava o
patrão lá de sua varanda interrompendo a espaços sua
leitura para ralhar e dar ordens a seus campeiros e escravos. Enfim o chiado
dos carros, que se avizinhavam carregados de cana para o engenho, acabava
de azoinar todos os ouvidos com aquele zunido agudo, incessante, desesperador,
que nos martiriza e quase arromba os tímpanos, som de uma intensidade
e aspereza tal, que não há no dicionário palavra assaz
expressiva para significá-lo.

Enquanto se dava toda aquela barafunda e vozeria, Roberto desceu aos pinotes
para o curral boleando em torno da cabeça um comprido laço.
Aquela tropelada tinha-lhe sugerido um expediente, que de pronto tratou de
pôr em execução para atrapalhar a conversa dos dois jovens.

– Olá, prima! – bradou ele de longe para Paulina com
voz atordoadora e sempre boleando o seu laço. – Olhe cá;
quer ver como se laça e se dá um tombo de rachar em qualquer
destes boizinhos? – Matias! – gritou ele para um dos campeiros,
toca para cá aquele boi laranjo, espanta-o bem, de modo que venha bem
disparado.

O rapaz espantou o boi, que correndo à disparada passou a algumas
braças de distância por diante de Roberto; este atirou-lhe o
laço, que caiu-lhe direito sobre os chifres. O moço segurou
a extremidade do laço sobre o quadril, estacou, fez finca-pé,
e de um safanão fez tombar de costas o mísero animal.

Conhece, boizinho! – bradou Roberto, e correndo para o boi sem dar-lhe
tempo de levantar-se agarrou-lhe nas pontas, cravou-as no chão, e sentou-se
sobre o boi, que ficou subjugado e sem poder mexer-se do lugar.

– Está vendo, prima, como se escorna um boi!... Agora vou pealar
aquele garrote pintado, que ali está me fazendo fosquinhas. Quer que
peale pelas mãos ou pelos pés? hem, prima?... toca esse boizinho,
Matias.

O escravo espantou o novilho, que saiu aos corcovos. Roberto boleou o laço
e apanhou-o pelas patas dianteiras, dando ao pobre animal um horrível
tombo, que o fez revirar pelos ares de cambotas, e estourar no meio do curral
de um modo lastimoso. – Olá, senhor Roberto!... gritou da varanda
o velho com voz áspera; – Que brincadeiras são essas!
Vosmecê dessa maneira vai a me dar cabo de quanta rês tenho no
curral.

– Não tenha susto, meu tio; queria somente desabusar este novilho;
este diabo está muito arisco; precisa levar todos os dias uma boa esfrega;
senão tão cedo não serve para o carro.

– Não duvido, meu sobrinho; mas não é quebrando-lhe
as costelas nesse chão duro, que virá a servir. Por favor modere
essas esfregas, que são mais de matar, que de amansar.

– Não tenha cuidado, meu tio; estou muito acostumado a lidar
com este bicho... Viu, minha prima, como se joga um pealo bem jogado? O amalucado
rapaz vingava-se assim nos pobres bois da raiva, com que estava contra Paulina
e Eduardo, e enquanto assim desabafava procurando atrapalhá-los escutemos
a curta conversação, que tiveram à sombra da gameleira,
conversação a cada passo interrompida pelos gritos e algazarras
do atabalhoado primo. Foi Paulina quem a encetou pelo seguinte modo: –
Como lhe vi aqui tão sozinho e tão triste, sr. Eduardo, tomei
a liberdade de vir trazer-lhe estas laranjas para se refrescar e também
se distrair com elas. Bem vejo, que é fraca distração,
mas ao menos enquanto as descasca....

Ora, d. Paulina!... um presente de suas mãos seria bastante para
acabar com toda a minha tristeza, no caso que eu tivesse tristeza no coração.
Acha então a senhora, que ando triste? – Muito, e cada vez vai-se
tornando mais triste, e não é de hoje que reparo isso.

– Deveras, minha senhora?... pode ser, e nesse caso será já
o efeito da saudade, que hei de levar deste belo sítio, e das pessoas,
que nele moram.

Este princípio não estava mau, e Paulina a estas últimas
palavras do mancebo sentiu ameigar-se-lhe o coração ao sopro
de uma aura de esperança.

– Não parece, – replicou Paulina; o que pelo contrário
me parece certo, é que as saudades que tem da sua terra, não
lhe dão muito tempo para pensar em nós.

– Oh! perdão, d. Paulina; a senhora me faz grande injustiça:
não sou ingrato a tal ponto, que as saudades dos meus e da minha terra
me risquem da memória pessoas, a quem devo tantas finezas, e as quais
sempre trarei gravadas no coração. Lembro-me na verdade sempre
e com muita saudade de minha bela Franca; tenho lá minha mãe,
parentes, amigos, e...

Eduardo interrompeu-se e suspirou.

– E mais alguma coisa, não é assim? atalhou Paulina
esforçando-se por sorrir, porém com o coração
num susto, numa ansiedade como quem espera a sentença, que vai decidir
de todo o seu futuro.

– Sim, senhora; e mais alguém, – respondeu Eduardo com
acento melancólico, – para que hei de eu negá-lo, e sempre
que olho para a senhora, me lembro de uma moça que lá conheço.

– Então parece-se comigo? – Alguma coisa... ao menos
na formosura. Linda como ela, só a senhora e mais ninguém.

– Que lisonja! murmurou Paulina, que cada vez se tornava mais pálida
e estava branca como papel.

– Lisonja não, senhora. Eu pensava, que não seria possível
encontrar no mundo criatura tão bela como Lucinda; depois que vi a
senhora, desenganei-me, e falo sinceramente e com o coração
nas mãos, se não quisesse tanto bem a Lucinda, teria impreterivelmente
de amar a senhora...

– Quem sabe!... disse automaticamente Paulina, desconcertada, trêmula
e sem já saber o que dizia. – Então o senhor quer muito
bem a essa moça? – Muito! muito! – disse Eduardo com exaltação
e sem reparar na crescente perturbação de Paulina. Amo-a sincera
e ardentemente, e nunca, nunca hei de deixar de amá-la.

– Feliz mulher!... mas dizem que os moços todos são
tão inconstantes...

– Pode ser... mas eu... eu nunca serei infiel... porém d.Paulina!...
que tem?.. está tão pálida e trêmula! Meu Deus!
está sofrendo alguma coisa?...

– Não é nada; replicou Paulina esforçando-se
por mostrar-se tranqüila; – quando o sol entra, este sereno da
tarde sempre me faz calafrios. É bom que me recolha. Boa-noite, sr.
Eduardo.

Roberto, que com suas algazarras e proezas com os bois nada tinha conseguido
no intuito de perturbar o colóquio de Eduardo e Paulina largara o laço,
e saindo sem ser notado para fora do curral, e cozendo-se com a cerca do mesmo
viera sutilmente postar-se junto deles, de modo que sem ser visto podia otimamente
espreitá-los e escutá-los. Chegou justamente a tempo de ouvir
clara e distintamente aquelas palavras de Eduardo – Amo-a muito; amo-a
sincera e ardentemente, e nunca, nunca hei de deixar de amá-la. –
Supõe para logo que eram dirigidas a sua prima, e não quis ouvir
mais. Desta vez não pôde conter-se, rangeu os dentes enfurecido,
e sem atender a consideração alguma puxou pela faca, que sempre
trazia à cinta, e ágil como um gato saltou de um pulo para dentro
do curral.

Exatamente no instante, em que Roberto de faca em punho saltava a cerca
e avançava furibundo para os dois, um troço de gado, que os
campeiros estouvadamente escaramuçavam pelo curral, entrava atropeladamente
por baixo da gameleira e ameaçava envolver em seu turbilhão
a pobre Paulina no momento em que tendo-se despedido de Eduardo se ia retirando.
Roberto vendo o iminente perigo que corria sua prima, esqueceu-se de sua cólera,
e em vez de avançar para Eduardo, correu a acudi-la. Assim por um estranho
capricho do acaso, que também parecia zombar do infeliz rapaz, achou
este mudado o seu papel no momento em que entrava em cena, e forçoso
lhe foi aceitar a mudança. Em dois saltos colocou-se junto a Paulina,
e protegendo-a com o corpo, e a pontapés esparrodava para um lado e
para outro o gado, que corria de tropel para o lado dela. Eduardo também,
apesar de sua fraqueza, lançando mão de um ferro, que arrancou
do carro, saltara para junto de Paulina. Afugentado que foi o gado, e passado
aquele incidente, Roberto achou-se em presença de sua prima e de Eduardo
na mais estranha e esquerda situação, que imagi-nar-se pode.
Estes de sua parte nem por sombra podiam desconfiar qual tinha sido a sua
primeira e sinistra intenção, pois que na triste disposição
de espírito em que se achavam, nem tinham visto donde ele surgira,
e estavam na persuasão que ele ali se apresentara no único intuito
de acudir a Paulina. Esta com voz trêmula e com um sorriso forçado,
lhe rendia os devidos agradecimentos.

– Deus lhe pague, meu primo; o senhor é um valente; se não
fosse o senhor, esses malditos bois me teriam esmagado... ah! meu Deus! –
acrescentou lançando a Eduardo um rápido olhar – que dia
aziago este de hoje! Roberto desconcertado, com os olhos baixos e como que
corrido nada respondia a sua prima, e não sabia o que devia dizer,
nem fazer. O infeliz até mesmo em seus furores sofria os mais estranhos
e cruéis desencantamentos.

– Que é lá isso, senhores? – gritou da varanda
o pai de Paulina, que observara aquele alvoroto. – Menina, o que andas
fazendo no meio desse curral cheio de gado bravo e espantadiço? Sr.
Eduardo, recolha-se também; olhe que este sereno não lhe pode
fazer bem.

Roberto entendeu, que devia escoltar sua prima, e conduziu-a para casa.
Eduardo acompanhou-os e deixou-se ficar na varanda, enquanto Paulina retirando-se
para seu aposento foi devorar em segredo sua angústia e desesperação,
e ensopou de lágrimas o travesseiro, por não ter um seio amigo
em que pudesse derramá-las.

Tinha no coração amarguras a transbordar, e as lágrimas
que chorava, lágrimas de fel e fogo, não podiam aliviá-lo.
Era desgraçada e não tinha a quem lançar a culpa de sua
desventura, senão ao destino ou ao céu que trazendo ali aquele
mancebo em tão fatais circunstâncias viera como que de propósito
e sem piedade arrojá-la no caminho do infortúnio. A morte era
o único pensamento consolador, em que se abrigava aquela alma ulcerada.
Tão vivo e ardente fora o afeto que concebera por Eduardo, tão
doloroso o golpe, que este sem querer acabava de lhe vibrar no coração.

Capítulo 6 - O Juramento

Eduardo achando-se a sós na varanda debruçou-se sobre o parapeito
e com a cabeça entre as mãos refletia sobre as ocorrências
daquela tarde. A estranha perturbação em que caíra Paulina
no fim da conversação que com ele tivera, lhe causava a mais
dolorosa impressão. Já por vezes lhe despontara no espírito
a suspeita de que Paulina havia concebido amor por ele, por maior que fosse
o cuidado e o esforço desta em ocultar seus íntimos sentimentos,
e esta idéia o afligia sumamente. Foi de alguma sorte de propósito
para sondar o coração da menina e atalhar os progressos de uma
paixão, a que não podia corresponder, que Eduardo não
hesitou em fazer-lhe a relação do amor, que consagrava a outra.
Compreendeu, então, claramente, quanto extremo de paixão abrasava
aquela alma cândida e sensível, cuja paz viera perturbar com
seu aparecimento a um tempo providencial e desastrado. Teve infinita pena
dela, e arrependeu-se mil vezes das palavras que dissera e da cruel revelação
que lhe fez sem calcular as conseqüências. Teria sido menos cruel
deixá-la na incerteza, e encarregar ao tempo e à ausência
a cura de um mal que ele com suas palavras não fez mais que exacerbar.

Além disso acrescia a consideração de que Roberto o
reputava um rival e não podia encará-lo com bons olhos. Somente
o velho chefe da casa não tinha para com ele prevenção
alguma. Achava-se, pois, Eduardo em posição sumamente melindrosa
naquela casa, e sua estada ali por mais tempo não poderia deixar de
produzir cenas desagradáveis e funestos resultados. Era-lhe pois forçoso
e indispensável deixar o mais breve possível aquela fazenda,
e quanto mais pensava e refletia, mais se firmava nessa resolução.

Destas reflexões o veio despertar Roberto, que se aproximando bruscamente,
disse-lhe em tom áspero e seco: – sr. Eduardo, é preciso
que sem mais demora o senhor saia desta casa!...

Eduardo olhou para ele espantado.

– O que está dizendo, homem? respondeu-lhe.

– É preciso que o senhor saia quanto antes desta casa, repito,
se não quer que eu ou o senhor nos ponhamos a perder.

Eduardo ia assomar-se; mas refletiu, que nenhum proveito tirava em brigar
com aquele simples e estouvado rapaz; reportou-se e respondeu-lhe.

– Senhor Roberto, eu por ora acho-me muito bem aqui, e nem vejo motivo
algum para pôr-mo-nos a perder. Os donos da casa creio que nem por sombra
pensam em despedir-me; e como quem quer o senhor enxotar- 31 me? – Se
o dono da casa soubesse que o senhor anda querendo lhe desencaminhar a filha...

– Alto lá, senhor caluniador! devagar com isso! onde e por
que modo viu o senhor que eu faltasse ao respeito no mínimo ponto que
fosse à sra. d. Paulina?... se aturo com paciência suas sandices,
não estou de ânimo a agüentar tão infame calúnia.

– Sandeu e caluniador será ele! veja onde está e com
quem fala... olhe que não sou nenhum caipira tocador de burros, arrieiro
ou capataz de tropa. Cuida que não ouvi... ainda agora... ali debaixo
da gameleira? Com esta arrieirada Eduardo ia perdendo a paciência, e
posto que nenhuma arma tivesse consigo e se achasse ainda fraco e em convalescença
para poder medir-se com um atleta armado de faca e cacete e em pleno gozo
de saúde e robustez, já de punho fechado se dispunha a responder-lhe
com meia dúzia de sopapos, quando uma idéia que atravessou-lhe
o espírito deteve-lhe o braço.

– Ouviu o quê, senhor amansa-garrotes? perguntou ele. Fale;
não esteja a me impacientar com suas meias palavras.

– Ouvi, sim; ouvi o senhor estar se derretendo todo, e dizendo melúrias
a minha prima; até por sinal, que estava lhe falando assim: hei de
amá-la sempre; nunca mais hei de deixar de amá-la.

A estas palavras Eduardo, apesar da triste e grave disposição
em que se achava, apesar da impaciência e indignação,
que lhe causavam as impertinências e impropérios do primo, não
pôde conter uma gargalhada.

– E o senhor ainda ri-se! bradou Roberto enfurecido, e avançando
com gesto ameaçador.

– Tenha mão lá, senhor Roberto; disse Eduardo segurando-lhe
brandamente o braço. O caso não é para brigarmos...

– Como não? queria ainda mais? – Ora venha cá,
escute um pouco, senhor Roberto dos meus pecados. Eis aí a que nos
podem levar as aparências. Um engano da sua parte o ia levando a praticar
desatinos contra uma pessoa que nunca o ofendeu, e nem lhe deseja mal algum.
Mas o senhor está desculpado, pois decerto não ouviu toda a
conversa, e era fácil enganar-se.

– Ouvir mais para quê?... foi de sobra o que eu ouvi.

– Não é assim, homem de Deus; tenha paciência,
escute-me. Sua prima vendo-me ali sentado sozinho e pensativo, perguntava-me
a razão por que ando triste, e se já estava aborrecido de estar
aqui. Eu respondi-lhe que me achava muito bem nesta casa, porém que
tinha muitas saudades de minha terra, e principalmente de uma pessoa de lá,
de uma moça a quem quero muito bem, com a qual se Deus não mandar
o contrário, tenho de me casar. Era dessa moça, que eu dizia
a sua prima, que nunca hei de deixar de amá-la.

32 – Vá contar essa mais adiante, que por cá não
pega. Com essa ainda não me embaça, sr. Eduardo.

– Oh! senhor!... que necessidade tenho eu de enganá-lo?...
creia, que é a pura verdade; juro-o por minha alma, e se isto não
basta, pode perguntar à própria d. Paulina.

Ao ouvir a explicação de Eduardo, Roberto sentiu no íntimo
da alma uma alegria, um alívio como há muito tempo não
experimentara. Parecia-lhe que lhe tinham tirado um enorme peso do coração,
e tomando a mão de Eduardo, disse-lhe com efusão: – Perdoe-me,
meu amigo; agora vejo que fui um grosseiro, um estonteado. Mas o senhor bem
deve saber, que onde há amor há ciúme, e eu... não
posso negar, quero um bem a minha prima... o ciúme é um inferno...
faz a gente dar por paus e por pedras sem saber o que faz... arre! cruz!...
eu mesmo estou envergonhado... mas esqueçamo-nos disso, sr. Eduardo;
aperte esta mão, e fiquemos amigos como dantes.

– Pois não, senhor Roberto; amigos sempre como dantes. O senhor
tem toda a desculpa; o caso não era para menos. Mas espero, que fique
firmemente, acreditando que eu nem de leve sou capaz de faltar ao respeito
nem desencaminhar a quem quer que seja, quanto mais a senhora sua prima a
quem tributo o maior respeito, simpatia e até admiração,
que de tudo isso ela é merecedora, mas sem a menor dose de amor, porque
como já lhe disse, tenho o coração ocupado e minha palavra
comprometida com outra.

– Isso é que eu queria saber. Agora sim! posso ficar com o
coração sossegado, já que o senhor me afirma e jura,
que não quer bem nem tem pretensão alguma sobre minha prima...
e que nunca...

– Sim, senhor Roberto; atalhou Eduardo acudindo ao embaraço
do pobre rapaz e adivinhando-lhe o pensamento. Juro-lhe pelas cinzas de meu
pai, que sinto pela sra.d. Paulina muita afeição, mas que esta
afeição em nada se parece com amor; e juro-lhe também,
que nunca em dias de minha vida porei o menor embaraço, nem servirei
de estorvo por qualquer modo que seja ao seu amor, e ao seu futuro casamento
com ela. Bem sabe que sou paulista, e quando um paulista jura... nem é
preciso jurar; basta dar sua palavra, nem que lhe cortem a cabeça,
é capaz de faltar a ela.

– Muito bem!... viva isso, meu amigo!... assim é que eu gosto
de homem. Toque aqui, havemos de ser sempre amigos... E adeus! não
quero aborrecê-lo mais. Boas-noites.

Já era noite fechada. Eduardo recolheu-se a seu quarto cada vez mais
firme na resolução de retirar-se o mais breve que lhe fosse
possível daquela casa, onde o acaso o havia conduzido para ser sem
o querer a chave do enlace de um drama, cujo desfecho poderia ser fatal.

Quanto a Roberto, esse respirava enfim desafogado, com o espírito
livre do pesadelo que o perseguia, isto é ciente de que um homem como
era o senhor Eduardo, de tanto mérito e galhardia, longe de ser seu
rival morria 33 de amores por outra.

Portanto apenas dele se despediu andou por todos os cantos da casa em que
podia penetrar, à cata da prima a fim de expandir um pouco com ela
o contentamento de que se achava possuído. Debalde: a pobrezinha tinha-se
encerrado em seu quarto e nessa noite ninguém mais lhe viu o rosto.
E o simples do primo não compreendia, que aquilo mesmo que tanto prazer
lhe causava, levara angústia mortal ao coração de sua
prima.

Daí a dois dias Eduardo despedia-se da casa do sr. Joaquim Ribeiro,
depois de se trocarem de parte a parte os mais vivos protestos de eterno reconhecimento
e amizade, e depois de ter Eduardo renovado em particular a Roberto o juramento
de nunca ter pretendido e nem pretender para o futuro ao amor, nem à
mão da senhora d. Paulina.

Ao apertar na despedida a mão desta, sentiu que estava gelada, e
que a agitava um tremor convulso, que ela procurou disfarçar retirando-a
prontamente. Eduardo, como fica dito, sentia por ela a mais viva e terna simpatia;
compungiu-se dentro da alma, e não pôde conter as lágrimas
que lhe rolavam pelas faces. Paulina as viu e não pôde chorar,
porque a angústia lhe havia secado a fonte das lágrimas.

Da janela de seu quarto ela viu Eduardo sumir-se além das últimas
colinas. Nesse momento os ouvidos lhe zuniram, e seus olhos se escureceram.

Pareceu-lhe que o túmulo a devorava em vida, e que sua alma se afogava
nas trevas da noite eterna.

Eduardo achando-se a sós na varanda debruçou-se sobre o parapeito
e com a cabeça entre as mãos refletia sobre as ocorrências
daquela tarde. A estranha perturbação em que caíra Paulina
no fim da conversação que com ele tivera, lhe causava a mais
dolorosa impressão. Já por vezes lhe despontara no espírito
a suspeita de que Paulina havia concebido amor por ele, por maior que fosse
o cuidado e o esforço desta em ocultar seus íntimos sentimentos,
e esta idéia o afligia sumamente. Foi de alguma sorte de propósito
para sondar o coração da menina e atalhar os progressos de uma
paixão, a que não podia corresponder, que Eduardo não
hesitou em fazer-lhe a relação do amor, que consagrava a outra.
Compreendeu, então, claramente, quanto extremo de paixão abrasava
aquela alma cândida e sensível, cuja paz viera perturbar com
seu aparecimento a um tempo providencial e desastrado. Teve infinita pena
dela, e arrependeu-se mil vezes das palavras que dissera e da cruel revelação
que lhe fez sem calcular as conseqüências. Teria sido menos cruel
deixá-la na incerteza, e encarregar ao tempo e à ausência
a cura de um mal que ele com suas palavras não fez mais que exacerbar.

Além disso acrescia a consideração de que Roberto o
reputava um rival e não podia encará-lo com bons olhos. Somente
o velho chefe da casa não tinha para com ele prevenção
alguma. Achava-se, pois, Eduardo em posição sumamente melindrosa
naquela casa, e sua estada ali por mais tempo não poderia deixar de
produzir cenas desagradáveis e funestos resultados. Era-lhe pois forçoso
e indispensável deixar o mais breve possível aquela fazenda,
e quanto mais pensava e refletia, mais se firmava nessa resolução.

Destas reflexões o veio despertar Roberto, que se aproximando bruscamente,
disse-lhe em tom áspero e seco: – sr. Eduardo, é preciso
que sem mais demora o senhor saia desta casa!...

Eduardo olhou para ele espantado.

– O que está dizendo, homem? respondeu-lhe.

– É preciso que o senhor saia quanto antes desta casa, repito,
se não quer que eu ou o senhor nos ponhamos a perder.

Eduardo ia assomar-se; mas refletiu, que nenhum proveito tirava em brigar
com aquele simples e estouvado rapaz; reportou-se e respondeu-lhe.

– Senhor Roberto, eu por ora acho-me muito bem aqui, e nem vejo motivo
algum para pôr-mo-nos a perder. Os donos da casa creio que nem por sombra
pensam em despedir-me; e como quem quer o senhor enxotar-me? – Se o
dono da casa soubesse que o senhor anda querendo lhe desencaminhar a filha...

– Alto lá, senhor caluniador! devagar com isso! onde e por
que modo viu o senhor que eu faltasse ao respeito no mínimo ponto que
fosse à sra. d. Paulina?... se aturo com paciência suas sandices,
não estou de ânimo a agüentar tão infame calúnia.

– Sandeu e caluniador será ele! veja onde está e com
quem fala... olhe que não sou nenhum caipira tocador de burros, arrieiro
ou capataz de tropa. Cuida que não ouvi... ainda agora... ali debaixo
da gameleira? Com esta arrieirada Eduardo ia perdendo a paciência, e
posto que nenhuma arma tivesse consigo e se achasse ainda fraco e em convalescença
para poder medir-se com um atleta armado de faca e cacete e em pleno gozo
de saúde e robustez, já de punho fechado se dispunha a responder-lhe
com meia dúzia de sopapos, quando uma idéia que atravessou-lhe
o espírito deteve-lhe o braço.

– Ouviu o quê, senhor amansa-garrotes? perguntou ele. Fale;
não esteja a me impacientar com suas meias palavras.

– Ouvi, sim; ouvi o senhor estar se derretendo todo, e dizendo melúrias
a minha prima; até por sinal, que estava lhe falando assim: hei de
amá-la sempre; nunca mais hei de deixar de amá-la.

A estas palavras Eduardo, apesar da triste e grave disposição
em que se achava, apesar da impaciência e indignação,
que lhe causavam as impertinências e impropérios do primo, não
pôde conter uma gargalhada.

– E o senhor ainda ri-se! bradou Roberto enfurecido, e avançando
com gesto ameaçador.

– Tenha mão lá, senhor Roberto; disse Eduardo segurando-lhe
brandamente o braço. O caso não é para brigarmos...

– Como não? queria ainda mais? – Ora venha cá,
escute um pouco, senhor Roberto dos meus pecados. Eis aí a que nos
podem levar as aparências. Um engano da sua parte o ia levando a praticar
desatinos contra uma pessoa que nunca o ofendeu, e nem lhe deseja mal algum.
Mas o senhor está desculpado, pois decerto não ouviu toda a
conversa, e era fácil enganar-se.

– Ouvir mais para quê?... foi de sobra o que eu ouvi.

– Não é assim, homem de Deus; tenha paciência,
escute-me. Sua prima vendo-me ali sentado sozinho e pensativo, perguntava-me
a razão por que ando triste, e se já estava aborrecido de estar
aqui. Eu respondi-lhe que me achava muito bem nesta casa, porém que
tinha muitas saudades de minha terra, e principalmente de uma pessoa de lá,
de uma moça a quem quero muito bem, com a qual se Deus não mandar
o contrário, tenho de me casar. Era dessa moça, que eu dizia
a sua prima, que nunca hei de deixar de amá-la.

– Vá contar essa mais adiante, que por cá não
pega. Com essa ainda não me embaça, sr. Eduardo.

– Oh! senhor!... que necessidade tenho eu de enganá-lo?...
creia, que é a pura verdade; juro-o por minha alma, e se isto não
basta, pode perguntar à própria d. Paulina.

Ao ouvir a explicação de Eduardo, Roberto sentiu no íntimo
da alma uma alegria, um alívio como há muito tempo não
experimentara. Parecia-lhe que lhe tinham tirado um enorme peso do coração,
e tomando a mão de Eduardo, disse-lhe com efusão: – Perdoe-me,
meu amigo; agora vejo que fui um grosseiro, um estonteado. Mas o senhor bem
deve saber, que onde há amor há ciúme, e eu... não
posso negar, quero um bem a minha prima... o ciúme é um inferno...
faz a gente dar por paus e por pedras sem saber o que faz... arre! cruz!...
eu mesmo estou envergonhado... mas esqueçamo-nos disso, sr. Eduardo;
aperte esta mão, e fiquemos amigos como dantes.

– Pois não, senhor Roberto; amigos sempre como dantes. O senhor
tem toda a desculpa; o caso não era para menos. Mas espero, que fique
firmemente, acreditando que eu nem de leve sou capaz de faltar ao respeito
nem desencaminhar a quem quer que seja, quanto mais a senhora sua prima a
quem tributo o maior respeito, simpatia e até admiração,
que de tudo isso ela é merecedora, mas sem a menor dose de amor, porque
como já lhe disse, tenho o coração ocupado e minha palavra
comprometida com outra.

– Isso é que eu queria saber. Agora sim! posso ficar com o
coração sossegado, já que o senhor me afirma e jura,
que não quer bem nem tem pretensão alguma sobre minha prima...
e que nunca...

– Sim, senhor Roberto; atalhou Eduardo acudindo ao embaraço
do pobre rapaz e adivinhando-lhe o pensamento. Juro-lhe pelas cinzas de meu
pai, que sinto pela sra.d. Paulina muita afeição, mas que esta
afeição em nada se parece com amor; e juro-lhe também,
que nunca em dias de minha vida porei o menor embaraço, nem servirei
de estorvo por qualquer modo que seja ao seu amor, e ao seu futuro casamento
com ela. Bem sabe que sou paulista, e quando um paulista jura... nem é
preciso jurar; basta dar sua palavra, nem que lhe cortem a cabeça,
é capaz de faltar a ela.

– Muito bem!... viva isso, meu amigo!... assim é que eu gosto
de homem. Toque aqui, havemos de ser sempre amigos... E adeus! não
quero aborrecê-lo mais. Boas-noites.

Já era noite fechada. Eduardo recolheu-se a seu quarto cada vez mais
firme na resolução de retirar-se o mais breve que lhe fosse
possível daquela casa, onde o acaso o havia conduzido para ser sem
o querer a chave do enlace de um drama, cujo desfecho poderia ser fatal.

Quanto a Roberto, esse respirava enfim desafogado, com o espírito
livre do pesadelo que o perseguia, isto é ciente de que um homem como
era o senhor Eduardo, de tanto mérito e galhardia, longe de ser seu
rival morriade amores por outra.

Portanto apenas dele se despediu andou por todos os cantos da casa em que
podia penetrar, à cata da prima a fim de expandir um pouco com ela
o contentamento de que se achava possuído. Debalde: a pobrezinha tinha-se
encerrado em seu quarto e nessa noite ninguém mais lhe viu o rosto.
E o simples do primo não compreendia, que aquilo mesmo que tanto prazer
lhe causava, levara angústia mortal ao coração de sua
prima.

Daí a dois dias Eduardo despedia-se da casa do sr. Joaquim Ribeiro,
depois de se trocarem de parte a parte os mais vivos protestos de eterno reconhecimento
e amizade, e depois de ter Eduardo renovado em particular a Roberto o juramento
de nunca ter pretendido e nem pretender para o futuro ao amor, nem à
mão da senhora d. Paulina.

Ao apertar na despedida a mão desta, sentiu que estava gelada, e
que a agitava um tremor convulso, que ela procurou disfarçar retirando-a
prontamente. Eduardo, como fica dito, sentia por ela a mais viva e terna simpatia;
compungiu-se dentro da alma, e não pôde conter as lágrimas
que lhe rolavam pelas faces. Paulina as viu e não pôde chorar,
porque a angústia lhe havia secado a fonte das lágrimas.

Da janela de seu quarto ela viu Eduardo sumir-se além das últimas
colinas. Nesse momento os ouvidos lhe zuniram, e seus olhos se escureceram.

Pareceu-lhe que o túmulo a devorava em vida, e que sua alma se afogava
nas trevas da noite eterna.

Capítulo 7 - O casamento

Era uma bonita e radiante tarde de sábado.

A Vila Franca do Imperador, linda e risonha povoação da província
de S. Paulo, – como que se espanejava alegre e faceira em cima de sua
colina aos últimos raios do sol de dezembro.

Era véspera do dia de descanso para os que verdadeiramente trabalham,
de prazer para os patuscos e folgazões, missa e rezas para os padres
e devotos.

Na verdade descansa-se, reza-se e diverte-se muito em todos os domingos.
Mas as tardes e noites de sábado sabem muito mais do que as de domingo.
Naquelas espera-se pela festa, o que dizem ser o melhor dela; nesta acaba-se
com ela, o que não deixa de ser triste.

Ninguém deita-se da cama mais aborrecido em uma noite de domingo
do que o estudante, o lente, o empregado público, o jornaleiro, enfim
do que todo mundo – católico, bem entendido, – à
exceção do soldado, do escravo e outros miseráveis, para
os quais não há domingo nem dia santo, e do imperador, do duque,
do frade e outros, para os quais todo o dia é dia santo.

Eis a razão por que se escolhem de ordinário as tardes e as
noites de sábado para os casamentos, batizados, bailes, concertos,
espetáculos, enfim para tudo quanto é regozijo.

No largo da matriz da Franca havia mais um motivo para a efervescência
da alegria e do prazer.

Celebrava-se nesse dia com muita pompa e arrojo o casamento de uma moça
pertencente a uma das mais ricas e distintas famílias da Franca. Os
sinos repicavam alegre e incessantemente entre as mãos de encarniçados
rapazes; uma imensidade de foguetes e girândolas estouravam nos ares,
e toldavam a atmosfera com uma abóbada de fogo e fumo. À porta
da igreja restrugia uma numerosa banda de música. Na igreja, pelo adro,
pelas ruas não se via senão gente alegre, alardeando asseados
e garridos trajes domingueiros, pois em toda a vila não ficou uma pessoa,
que pusesse gravata ao pescoço, que não fosse convidada. Parecia
aquele noivado uma festa pública, e fazia recordar as bodas de Gamacho.

A moça era formosa por sua rara beleza, e fora o alvo cobiçado
e disputado por muitos e guapos pretendentes de fora e do lugar. Era filha
do major José Ferreira, um dos mais abastados fazendeiros de toda a
comarca e chamava-se Lucinda.

Pelo nome e pelos predicados o leitor já terá atinado que
a noiva não era mais nem menos senão a namorada, a senhora dos
pensamentos do jovem muladeiro Eduardo, que vimos quase papado por uma onça
na fazenda de Joaquim Ribeiro, querendo salvar-lhe a filha. Adivinhou e sem
dúvida terá também adivinhado que o noivo era o próprio
Eduardo, e nada mais natural; eram dois amantes firmes, que há muito
tempo se queriam, e dignos um do outro; dois belos e interessantes jovens,
para os quais de há multo o himeneu entretecia sorrindo os laços
de seda e ouro, com que devia uni-los para sempre.

No momento, em que os dois guapos e jovens noivos com as mãos enlaçadas
recebiam em face do altar-mor a bênção nupcial, um viandante
cavalgando uma linda e possante mula coberta de poeira e suor, envolto em
uma pala de linho branco, e calçando botas de mateiro guarnecidas de
largas chilenas de prata, entrava pela vila e passando pelo largo da matriz,
ao ver aquela influência de povo e alvoroto festival, picado de curiosidade
apeou-se para ver que santo se festejava, e ao mesmo tempo rezar uma oração
e dar graças ao céu por ter-lhe dado até ali próspera
viagem. Deixando o animal entregue ao camarada que o acompanhava, entrou pela
porta principal, atravessando a custo a multidão. A cerimônia.
estava concluída, e os noivos entonados e radiantes vinham descendo
da nave para a porta do frontispício, atravessando a multidão
que se abria para dar-lhes passagem, como dois soberbos cisnes cortando as
ondas encrespadas de um lago agitado pelos ventos. Vendo o grande préstito
que vinha pelo meio da igreja, o viandante arredou-se para um lado para vê-lo
passar. Os noivos, que vinham na frente, foi como era natural o primeiro objeto
de sua atenção. Mal deu com os olhos neles – Lucinda!
– bradou ele com voz que ressoou por toda a igreja.

Ao som daquela voz Lucinda empalideceu e cambaleou. Todos voltaram-se para
o lado donde ele rompera, mas o viandante, agachando-se, encolhendo-se, rompeu
sereno e rápido como uma seta por entre a turba, que se agitava, e
enquanto todos atônitos indagavam com os olhos donde partira aquele
grito, saiu rapidamente por uma porta travessa, montou de um salto a cavalo,
e desapareceu no primeiro beco que encontrou. Foi direito apear-se em casa
de sua mãe, em cuja companhia morava sempre que estava na Franca.

– Meu filho! enfim... sempre chegaste! exclamou a velha, apenas o
viu, estendendo-lhe os braços.

– Ah! minha mãe! minha mãe! exclamou o mancebo, e lançou-se
nos braços dela soluçando, mas com os olhos secos e chamejantes.

– Que tens, filho, que estás assim amarelo e a tremer...

– Que golpe, minha mãe! que golpe acabo de receber! –
Golpe, meu filho?... agora?... dizia a mãe assustada reparando por
todo o corpo.

– Neste instante.

– Mas... não vejo sangue... onde foi o golpe? fala, meu filho;
não me assustes assim.

– Não é isso, minha mãe; Lucinda... quem o diria!...

– Ah! já sei; já sei. Já se casou... Graças
a Deus, respiro sossegada; pensei que te havia sucedido alguma desgraça.

– Pois quer maior desgraça, minha mãe?...

– Qual desgraça, menino! não perdes nada com isso...

– Ah! minha mãe, só Deus sabe quanto perco. Perco o
sossego e a alegria do coração e para sempre...

– Qual para sempre! estás ainda muito tolo, meu filho. Não
há mágoa, que o tempo não console. Tu és ainda
muito criança. Não faltam por esse mundo moças mais bonitas
que a Lucinda, e – aqui entre nós – mais bem-educadas,
que te queiram. És um rapaz bem parecido e de muito boas maneiras;
o ponto é que sejas comportado e saibas trabalhar, como até
aqui tens feito, que noivas ricas e formosas te sairão aos centos.

– Nem falar nisso, minha mãe! eu acreditar mais em moças!?...
não quero sujeitar-me a levar outra vez uma desfeita destas.

– Sossega, meu filho; há males que vêm para bem. Bem
sabes, que nunca aprovei muito essa tua inclinação para semelhante
rapariga. Achava nela um não sei quê de leviana e de estouvada
que nada me agradava, e nunca tive fé com esta gente de Ferreiras;
são todos falsos, e sem palavra.

As provas estás vendo. Queres que te diga uma coisa?... se não
te visse tão agoniado, era este um dos dias mais felizes de toda a
minha vida.

– Mas, minha mãe, ela mostrava querer-me tanto, e os pais pareciam
fazer tanto gosto em nosso casamento. Quem sabe se não houve por aí
algum embuste, alguma patranha... aquele Hipólito é um infame
capaz de tudo.

– Meu filho, se eu disser que aí não houve de todo sua
tal ou qual velhacaria da parte do moço, minto. Mas histórias!
aquilo é mesmo gente sem cruz nem cunho.

– Ah!... logo vi. Então sempre houve patranha.

– Um enredo que de nada valeria, se eles fossem pessoas de palavra.

– Mas enfim, minha mãe, qual foi esse enredo?... estou ardendo
por sabê-lo.

– Tu pensas, que não se soube logo por aqui de uma célebre
caçada de onça, em que andaste lá pela Uberaba?... Correu
por aqui que com risco de vida tinhas livrado das goelas de uma onça
uma mocinha, filha de um fazendeiro muito rico, e que dizem ser linda como
um sol.

– Até aí tudo é pura verdade; mas que tem isso
com...

– Vai escutando. Disseram mais que ficaste por tal forma embelezado
pela tal mocinha, que te invernaste na dita fazenda a ponto de parecer que
de lá nunca mais sairias, que eras lá todo de dentro, e já
parecias um filho da casa; que já nem cuidavas de teus negócios,
e mil outras coisas, que não me lembro.

Eduardo suspirou. Este suspiro era um pensamento vago, que queria dizer:
– Pobre Paulina!... antes assim tivesse acontecido! – Daqui a
Uberaba não é longe, – continuou a velha,– umas
vinte léguas quando muito, e não faltaram portadores que cá
trouxessem todas essas novidades. De todas essas coisas o espertalhão
do Hipólito da Cana Verde, que bem sabes que era um dos maiores apaixonados
da Lucinda, se aproveitou e foi metê-las todas nos ouvidos dela e dos
pais, e decerto acrescentando pontos e pintando a coisa com cores ainda mais
feias.

– Ah! miserável intrigante! bradou Eduardo batendo os queixos
e espumando de cólera. – Não soube aquele infame dizer
também que estando eu a caçar o acaso me fez chegar àquela
fazenda perseguindo uma onça; que fiz por aquela moça o que
faria todo o homem de bem e de coragem, – não ele, que não
tem brios, e não passa de um miserável poltrão; –
que a onça arrojando-se sobre mim feriu-me gravemente, e atirou-me
no chão sem sentidos e esvaindo-me em sangue...

– Santo Nome de Jesus!... exclamou a velha benzendo-se. – Disso
ninguém soube por cá. Que perigo! santo Deus!... nunca deixará
dessa maldita mania de caçar!... e como vais? – não sofres
mais nada?...

– Nada, minha mãe, graças a Deus. Não tive senão
perda de sangue, estou perfeitamente bom. O tratante, continuou ele, esqueceu-se
também de dizer, que fui levado em braços para a casa do fazendeiro,
e que forçoso me foi ficar ali longos dias para curar minhas feridas
e restabelecer minhas forças quase de todo esgotadas em razão
da imensa perda de sangue; que se fui tratado com todo o carinho e desvelo
pelo pai e pela filha, é porque nenhuma outra coisa se devia esperar
de pessoas de coração bem formado e agradecido vendo-me em tal
estado, ainda que nenhum serviço tivessem de mim recebido.

Esqueceu-se também o infame velhaco, que essa moça desde criança
está prometida em casamento a um primo e vizinho seu, que a estima
extremosamente; enfim que por esses motivos todos foi-me indispensável
demorar pela Uberaba muito mais do que seria preciso para aviar meus negócios,
sofrendo não pequenos prejuízos. Ah! maldito mexeriqueiro! –
concluiu Eduardo espumando de raiva e dando sobre uma mesa um murro furioso.
– Não sei onde estou, que não vou já arrancar-te
essa língua danada e com ela essa alma de lama!.. mas todo o tempo
é tempo. Amanhã... amanhã temos de ajustar contas, infame
trapaceiro.

– Sossega, meu filho; não te ponhas a perder por tão
pouco. A culpa não é tanto do Hipólito. Se a Lucinda
e sua gente tivessem grande empenho no teu casamento, não teriam acreditado
tão de leve nesses mexericos. Olha o que te digo; os Ferreiras não
estão lá muito bem de fortuna, por mais que se diga. O Hipólito
tem fama de possuir mundos e fundos, posto que seja um gangolina, um trapaceiro.
Demais é ainda parente deles, e essa gente gosta muito de casar parente
com parente e por isso é que vai saindo essa perrada mofina que estás
vendo. E tu, meu filho, não passas de um principiante, e eis aí
por quê...

– Seja lá como for, minha mãe, – interrompeu com
impaciência o filho, – em todo o caso é uma tremenda desfeita,
que me fizeram, um desaforo, que não posso por nada agüentar de
cara alegre, e de que mais tarde ou mais cedo, desta ou daquela maneira juro
que hei de me vingar.

– Cala-te, filho; o melhor modo de te vingar é não te
dares por achado. Deus e o tempo é que te hão de vingar. O tal
Hipólito além de ser um paspalhão muito sem graça,
é um atroado, um libertino. A senhora Lucinda, oh! Essa nunca me enganou,
e Deus me perdoe, – está me parecendo, que vem a dar em uma...
refinada sirigaita...

– Que está dizendo, minha mãe?...

– Não te enfades, Eduardo; não queiras tomar as dores
por quem te atraiçoa... quer me parecer, que esse casamento... não
é praga, que estou rogando, não; Deus tal não permita;
– quer me parecer, que não pode acabar bem.

– Dê no que der, juro que não hão de ter muito
alegre a sua lua-de-mel. Pelo menos hei de quebrar a cara àquele tratante.

– Deixa-te disso, menino; é como te disse, não te dês
por achado. O desprezo é a melhor vingança, e a única
que eles merecem. Finge mesmo que vieste apaixonado pela linda uberabense,
e que te julgas feliz por te terem aliviado de uma carga, que outra coisa
não é a tua Lucinda, e deixa correr trinta dias por um mês.
Enfim, meu filho, há muito tempo de conversar: sossega esse coração
e vai descansar, enquanto eu vou preparar-te uma boa ceia.

– É escusado, minha mãe; não tenho fome nenhuma,
a boca amarga-me como fel, e a minha cabeça é uma brasa.

– Quem sabe, tens algum ramo de febre.

– Qual febre! a minha febre é a raiva, é o desespero.

– Ora por quem és, esquece-te disso e vai descansar.

– Não estou cansado, minha mãe; vou passear para distrair-me
um pouco.

– Passear! não caias em tal. Olha, não vás fazer
por aí alguma loucura, Eduardo.

– Protesto que nada farei, minha mãe.

– Não quero que saias; mandarei avisar os teus amigos de tua
chegada; com eles te distrairás.

– Ora, minha mãe, o passeio me convinha mais; para que incomodar
os amigos?...

– Não, não, Eduardo; não sairás; se és
meu filho, hás de me obedecer.

A velha retirou-se, e Eduardo, que nunca nem mesmo nas mais insignificantes
coisas desobedecera a sua mãe, deixou-se ficar em casa.

Capítulo 8 - Lucinda e Paulina

O leitor por certo pensará, que vai ter lugar um terrível duelo;
que Eduardo ardendo em cólera e ciúmes desatende às ordens
de sua mãe, espera que esta esteja adormecida, salta pela janela, e
com uma pistola na mão e um punhal no seio introduz-se misteriosamente
na sala, onde se festejam as bodas da formosa Lucinda, como o cavalheiro negro
da Noite do Castelo, e aí prega uma bala na cabeça do feliz
rival, ou pelo menos o esbofeteia em pleno baile, arranca da cabeça
da noiva a grinalda nupcial e a calca aos pés rugindo. Depois de ter
feito tudo isto, sem que os assistentes, imóveis de assombro, ousassem
opor-lhe o menor embaraço, desaparece, esvai-se como um fantasma. Isto
seria por certo mais dramático, e talvez mesmo sublime. Mas eu conto
uma história, e não invento um conto; quero portanto narrar
os fatos com aquela fidelidade, que permite-me a minha memória, tais
quais mos contaram há bastantes anos.

É verdade que o nosso herói era valente e coraçudo,
tinha muito pundonor e era dotado de nobres e altivos sentimentos; mas o certo
é que só nos primeiros dias pensou em vingança. As palavras
de sua mãe tinham deixado profunda impressão em seu espírito,
e talvez também que algum sentimento íntimo ainda muito em gérmen
e adormecido nas dobras do coração, contribuísse para
acalmar o seu justo ressentimento.

Doeu-lhe cruelmente a desfeita de que fora vítima, e não pôde
por muitos dias disfarçar o despeito e rancor, de que se achava possuído.
Mas uma imagem sedutora começava a aparecer a miúdo em seu espírito,
e com seu aspecto angélico e sereno dissipava-lhe os negrumes e tormentos
do coração. Era como uma fada branca e vaporosa, que vinha varrendo
a bruma espessa dos horizontes, e fazia coar uma réstia de luz meiga
no fundo daquela alma ulcerada. Era a imagem suave e melancólica de
Paulina, que surgia por detrás da sombra de Lucinda, que se esvaecia;
era o tipo nobre e delicado da filha do fazendeiro, que apagava na tela da
imaginação as formas voluptuosas da rósea e faceira paulista.

Paulina, ainda que Eduardo disso não tivesse consciência, tinha-lhe
ficado para sempre gravada no coração em profundos e indeléveis
caracteres. Não havia nele ainda uma paixão, porque havia um
obstáculo, outra paixão; o coração humano não
pode conter a um tempo duas paixões; na tela, onde existe um retrato,
não se pode estampar outro sem apagar o primeiro.

Não havia ainda paixão, mas existia o gérmen dela,
gérmen que só esperava a ocasião e o terreno livre para
desenvolver-se com todo o viço e energia. Assim acontece por vezes,
que debaixo do chão ocupado por uma planta robusta existe oculta a
semente de outra planta. Se o ardor do sol ou a geada cresta, e faz definhar
a primeira, esta cresce e rebenta com tal viço e força, que
sufoca e mata a primeira, e toma como conta do terreno.

Eduardo confrontara no espírito as graças tão naturais,
o porte modesto, e o sorriso tão meigo de Paulina com os ademanes faceiros
e pretensiosos e a garridice de Lucinda, a cândida inocência de
uma com a maliciosa vivacidade de outra, e compreendia que, se tivesse tido
a dita de tê-las visto ambas a um tempo com o coração
livre e espírito desprevenido, nem um momento teria hesitado na escolha.
Lucinda com seu gentil donaire um pouco desenvolto, seu rosto sempre corado
e risonho, com o voluptuoso meneio das esbeltas e bem torneadas formas fascinava
os olhos, abrasava a imaginação, e era capaz de fazer arder
em febre de sensualismo o mais estóico e frio temperamento. Paulina
com a suave e angélica figura inspirava respeito, amor e adoração,
insinuava-se no coração como um meigo raio da lua no seio de
um lago dormente, e aí ficava para sempre estampada.

As qualidades de Lucinda, Eduardo as pesava e exagerava no espírito
a ponto de convertê-las em abomináveis defeitos, enquanto Paulina
lhe aparecia rodeada de uma auréola cada vez mais prestigiosa de candura
e beleza. Seu pensamento volvia-se de contínuo com a mais viva saudade
para a fazenda de Joaquim Ribeiro, recordava traço por traço
as feições de Paulina, seus gestos, suas palavras, e admirava-se
de ver como tudo lhe ficara tão intimamente gravado na memória;
eram como caracteres apagados, que um reativo faz subitamente reaparecer vivos
e distintos.

Lucinda era duplamente culpada para com Eduardo. Com sua deslealdade lhe
havia trancado por dois lados os caminhos da felicidade e do amor. Mas não
era a perda de Lucinda, que ele agora lastimava; antes o amor, que lhe havia
consagrado, se ia convertendo em desprezo e aversão; era sim a perda
de um tesouro, que a seus olhos valia mil vezes mais do que ela, de uma formosa
e adorável criatura, que o amava sincera e ardentemente, e a cujo amor
por causa de Lucinda havia renunciado para sempre. Maldita a hora em que preferira
o fatal juramento, que fizera ao primo de Paulina! maldito o estouvado e bronco
pretendente, que veio estorvar-lhe o caminho da felicidade, que o céu
como que de propósito tinha preparado diante de seus passos todo alastrado
das rosas da esperança e do amor! mais maldita ainda a estulta constância
e lealdade que guardara para com uma loureira caprichosa, que tão levianamente
o esquecera! Um anjo como que lhe caíra dos céus, e se lhe entregava
nos braços, e ele o repelira de seu seio por amor de uma mulher vulgar,
de uma filha da terra sem fé e sem pudor! Estas reflexões noite
e dia amarguravam a alma de Eduardo, e quanto mais crescia a admiração
e o amor, que concebera por Paulina, mais pungente era a angústia,
que lhe ralava o coração. O mal era sem remédio; Eduardo,
além de ser naturalmente dotado de instintos de lealdade e honradez
a toda a prova, era paulista, firme e tenaz em seu propósito, incapaz
de faltar à sua palavra e levando até ao fanatismo a religião
do juramento. Ora, Eduardo tinha dado a sua palavra de honra a Roberto, tinha-lhe
mesmo jurado pelas cinzas de seu pai, que nunca serviria de estorvo ao seu
enlace com Paulina.

Esta cruel situação o acabrunhava, e por mais esforços
que fizesse, não podia dissimular sua tristeza e abatimento aos olhos
dos que com ele tratavam, e como a ninguém comunicara ainda a causa
de seus desgostos, mais o afligia ainda o pensar que todos haviam de atribuí-los
ao pesar de se ver traído por Lucinda.

Sua estada na Franca tornara-se-lhe insuportável; seu coração
o chamava para a Uberaba e para a fazenda de Joaquim Ribeiro; mas que iria
ele lá fazer, senão avivar suas mágoas vendo de perto
um paraíso, donde um ente insignificante, um estólido trambolho,
ou antes sua tola confiança em uma mulher o tinha expelido para sempre.
E quem sabe se o amor que havia inspirado a Paulina duraria ainda, e se ela
já não estaria para sempre unida ao lorpa do primo? Mas também,
pensava Eduardo, bem poderia acontecer que Paulina, a qual segundo tinha observado
nenhuma inclinação sentia por seu primo,se recusasse obstinadamente
a dar-lhe a mão de esposa, e que nesse caso Roberto desenganado e sem
esperança, apesar da sua sandice não pusesse dúvida em
desobrigá-lo de um juramento, que em nada lhe poderia aproveitar.

Assim passou Eduardo mais de um mês com o espírito agitado
ao embate de encontrados pensamentos, pondo a imaginação em
torturas em busca de um meio, que o arrancasse daquele estado de irresolução
e tristeza que o acabrunhava. Sua mãe, que na maior inquietação
assim o via cada vez mais preocupado e abatido, procurava em vão consolá-lo
e distraí-lo: mas ela também como os demais ignorava ainda a
verdadeira causa da contínua preocupação e tristeza de
seu filho.

– Arre também com isso, Eduardo! – disse-lhe ela um dia
em tom de branda repreensão; – não mostrarás um
dia que és homem? já vou perdendo a fé contigo... Teus
irmãos estão casados uns e outros espalhados por esse mundo;
restavas perto de mim somente tu para consolo e amparo de minha velhice; mas
infelizmente vejo que também não posso contar contigo...

– Ah! minha mãe, não fale assim; por que motivo?...

– Porque pensei que eras gente, que tinhas coragem e juízo.
Agora vejo que não passas de um maluco e um moleirão; que não
tens timbre, nem disposição para nada. A Lucinda anda por aí
cada vez mais trêfega e garrida, rindo, pulando e saracoteando como
nunca, e tu meu fracalhão, andas aí todo embezerrado e amuado
como criança que apanhou bolos, sem ter ânimo de varrer da memória
aquela sirigaita!... ah! meu filho, meu filho, assim tu me desesperas! –
Ah! minha mãe, como vosmecê se engana! eu faço tanto caso
hoje de Lucinda como da primeira besta que comprei em Sorocaba, que já
nem sei de que cor era.

– Deveras!... então que motivo tens mais para andar assim triste
e sorumbático? – Minha mãe não se lembra que no
fatal dia em que aqui cheguei, procurando dar-me conselhos e consolações,
entre outras coisas me disse: – não te dês por achado,
finge mesmo que morres de amores pela linda uberabense? – Oh! se me
lembro!... como se fosse hoje, e é isso o que deverias ter feito logo.

– Pois bem, minha mãe; não é preciso fingir;
eu morro mesmo de amores por ela.

– Deveras!.. tão depressa! tão longe dela!... como pode
ser isso, meu filho? – Também não sei lhe dizer, minha
mãe. Quer-me parecer, que já a amava desde lá sem o saber.
Apagou-se de meu coração o retrato de Lucinda, e por baixo dele
achei gravado o de Paulina.

– É extraordinário; mas nem por isso posso compreender
o motivo por que andas triste. Queres bem a essa moça e ela na obrigação
em que está para contigo, é impossível que te desdenhe,
e o pai muito menos.

– Não me desdenha não, minha mãe; disso estou
certo, e até creio que me quer muito bem.

– Pois então?... ela é rica, bonita e de boa família;
tu também não és nenhum pé-rapado; vai lá,
pede-a em casamento, que estou certa que não ta negarão; casa-te
com ela e está tudo acabado. Parece até que a misericórdia
de Deus estava armando as coisas deste jeito, para que nunca fosses marido
daquela boneca de fogo – Deus me perdoe, – e tivesses uma mulher
como mereces.

– Prouvera a Deus, que assim fosse! mas, ai de mim! não pode,
não pode ser assim.

– Por que não, meu filho? quem te estorva?...

– São contos largos, minha mãe! – Pois venham
esses contos largos; tens porventura segredos para mim?...

– Nenhum por certo, e peço-lhe perdão por não
lhe ter contado tudo há mais tempo.

Eduardo contou então a sua mãe fiel e minuciosamente, tudo
quanto lhe acontecera na fazenda de Joaquim Ribeiro desde a caçada
da onça até à sua retirada.

– Já vê portanto minha mãe; – concluiu ele,
– que não me é possível por forma nenhuma pretender
jamais a mão dessa moça.

– Ora valha-me Deus!... aí temos outra. Pois menino, não
se está vendo pela pintura que me fizeste desse Roberto, que é
impossível que a moça o queira para marido, e que te prefere
um milhão de vezes? Que te importa esse paspalhão do primo?
não sejas tolo; deixa-te de escrúpulos; vai lá, e pede-a
em casamento, e dá uma figa a esse Roberto.

– Eu faltar à minha palavra, quebrar um juramento!...

– Qual juramento! isso foi um juramento louco, que Deus não
ouviu, nem aceitou.

– Louco ou não, é um juramento, minha mãe; devo
cumpri-lo.

– Será, mas... meu filho, uma promessa, um juramento o padre
pode, quando seja preciso, comutá-lo em penitências, jejuns e
romarias.

– Quando a violação dele a ninguém prejudica,
pode ser, minha mãe; mas neste caso?...

– És um louco, Eduardo; – eu creio que desejo mais do
que tu mesmo a tua felicidade – Em nome de teu pai, por cujas cinzas
juraste, eu te desobrigo desse juramento.

– Pelo amor de Deus, minha mãe, não me obrigue a lhe
desobedecer pela primeira vez em minha vida.

– Valha-te Deus, filho!... pois bem? já que assim te emperras
no teu juramento, faze o que entenderes. Mas tudo isto é culpa tua,
por não teres me dado ouvidos; não te enfades, se te falo assim.
Se me ouvisses e não ficasses embasbacado diante daquela enfatuada
Lucinda, não andarias agora enredado em tantos desgostos. O teu exemplo
deve servir de lição mestra para os rapazolas, que entendem
que a primeira mocetona bonita que lhes enche os olhos, deve ser por força
sua mulher.

– Ora, minha mãe, quem não cai nessas?...

– Isso é verdade; são todos assim, e é malhar
em ferro frio. Mas agora se queres um conselho, vai-te embora, meu filho.
É tempo de feira; pega no dinheiro que tens, e se não tens eu
te darei, e vai para Sorocaba. Vai negociar, vai girar, vai correr mundo para
te distrair. Vai divertir-te, demora-te por lá o tempo que quiseres,
e volta, não macambúzio e triste como agora, mas alegre, fresco
e bem-disposto, como foi antigamente o meu Eduardo.

– Isso pretendo eu fazer, minha mãe, e desde já vou
dispor os preparativos da viagem.

Capítulo 9 - O noivo

Uma paixão infeliz alimentada na solidão, na monótona
serenidade de um lar doméstico quase vazio, quando após um passado
de inocência, remanso e alegria nos embebemos em um futuro onde só
vemos lágrimas e dores, quando a desesperança com sopro de fogo
vem secar uma lágrima consoladora, que a saudade talvez quisesse fazer
brotar nas pálpebras lívidas, essa paixão é um
cancro que rói as fibras do coração, um sopro de morte,
que desseca e estanca a seiva da existência.

Tal era o viver da mísera Paulina, depois que vira transpor as últimas
colinas o vulto de Eduardo, e com ele todas as suas esperanças. Uma
tristeza profunda, indizível, lhe envolvia a alma como um crepe negro.
Todos os encantos da solidão que habitava, aqueles largos e luminosos
horizontes e aquelas pitorescas campinas, que a rodeavam de risonhas perspectivas,
aquelas tardes mornas e voluptuosas, tão prenhes de perfumes e canções,
tudo isso tinha-se extinguido para aquela alma, que recolhida em si mesma
só via o horizonte turvo e funéreo de suas agonias. Erra, quem
pensa que o espetáculo da natureza na solidão, que a mudez e
remanso dos ermos pode adormecer as dores fundas do coração,
consolar os grandes infortúnios; a solidão tem para o desgraçado
o olhar impassível de uma companheira, que nos sorri e nos afaga na
adversidade com o mesmo sorriso, com que nos afagou em horas de ventura e
de alegria.

Os sofrimentos da alma se faziam sentir de um modo assustador na organização
física de Paulina. O verme peçonhento tinha pousado no âmago
da tenra e mimosa flor do deserto e, devorando-lhe a seiva da vida,deixava
nele o gérmen da morte. Já ninguém a via como outrora
esbelta e ágil como a ema percorrer as campinas em busca de flores
e frutas, nem ir sentar-se corada e risonha à sombra do laranjal, ou
na relva da fonte a coser e a cantar entre as escravas. Quando saía
do seu quarto, onde passava os dias a coser ou a ler maquinalmente, viam-na
pálida e vacilante arrastar-se a passos lentos ao longo dos corredores,
descer ao curral, procurar a sombra da gameleira, sentar-se sobre a mesa do
mesmo carro onde ouvira da boca de Eduardo a fatal revelação,
que a tornara infeliz para sempre, e ali com as mãos agarradas a um
dos fueiros e a face encostada a elas, os olhos fixos ao longe pela estrada
que se perdia serpeando pelas colinas, ficar horas e horas entregue a um torpor
melancólico, que a tornava como estátua.

O pai notava com a mais viva inquietação e ansiedade o rápido
definhar de sua filha, e desesperava-se vendo que todos os cuidados e desvelos,
todos os meios de que lançava mão, não conseguiam atalhar
os progressos do mal, que ameaçava roubar-lhe sua única e querida
filha.

– Que tens, Paulina, que cada vez te vejo mais pálida e abatida,
dizia-lhe o pai já talvez pela centésima vez. Tu sofres alguma
coisa que não me queres dizer. É preciso que te distraias, que
recobres as tuas cores, a tua antiga alegria, que voltes ao que dantes eras,
se não queres que eu morra de desgosto.

– Ah! meu pai, eu mesmo não sei o que sofro; não tenho
indisposição, nem dor alguma; entretanto acho-me mal. O que
sei dizer é que desde o dia em que estive a ponto de cair nas garras
daquela onça, já não sou a mesma, e creio que nunca mais
o serei. De que serviu aquele moço ter-me livrado das garras do animal,
o choque que senti, arruinou-me a saúde.

– Assim devia ser, minha filha; compreendo muito bem, que à
vista daquele animal feroz, aqueles gritos e alaridos... aquele moço
aparecendo de improviso como caído do céu para salvar-te, e
depois lavado em sangue e quase morto... tudo isso não podia deixar
de causar um grande abalo nos nervos e alterar a saúde de uma fraca
criança, como tu és. Mas tudo isso já se passou há
tanto tempo... já lá vai quase um ano; e em vez de melhorar,
te vejo sempre a pior, a pior... oh!... minha filha!... quererás me
deixar sozinho neste mundo?...

– Oh? meu pai! não pense nisso. Deus é grande; isto
há de passar, creia-me; são ainda efeitos do abalo que senti.

– Há de passar, há de passar, sempre estás a
falar assim e cada vez estás a pior. Olha, minha filha, talvez te seja
útil mudar de ares, ver novas terras, distrair-te por esse mundo. Já
te tenho dito muitas vezes, o mal que te consome não é mais
que pura nervosia; o que te convém é distração
e não é no deserto desta fazenda que te hás de distrair.
Vamo-nos embora; venderei fazenda, escravos, gado, tudo e iremos para Vila
Rica, para S. Paulo, para o Rio de Janeiro, para onde quiseres...

– Para quê, meu pai? o mal não está nesta terra,
nem nestes ares, nem em nada do que me cerca; o mal está dentro de
mim mesma, e me acompanhará por toda parte. Sossegue, meu pai; se Deus
for servido, aqui mesmo melhorarei e ficarei boa.

– Deus assim o permita, minha filha! mas por quem és, não
vás encerrar-te no quarto, nem lá ficar estatelada embaixo da
gameleira, como costumas; não fazes idéia de quanto isso me
aflige. Vai antes passear pelo quintal, tratar das tuas flores, dos teus passarinhos...
senão fico pensando, que queres morrer mesmo, e me deixar sozinho neste
mundo.

Joaquim Ribeiro já tinha suspeitado ou antes estava certo da causa
dos sofrimentos de sua filha. Era para ele fora de dúvida que não
era senão o moço que a tinha salvado da onça, que inspirando-lhe
uma paixão cega e fatal, tendo-a livrado de uma morte desastrosa, a
ia levando a outra morte mais lenta e talvez mais cruel. Sabia também
que Eduardo estava ajustado para casar-se e talvez já estivesse casado
com uma rica e formosa moça de seu país, e portanto por esse
lado impossível lhe era tentar o mais poderoso senão o único
remédio para o mal de sua filha. Todavia respeitando o melindre de
Paulina, nunca ousou interrogá-la diretamente sobre tal assunto, porque
entendia talvez com razão, que tocar em uma ferida, para a qual não
podia dar remédio algum, só serviria para agravá-la.
Propunha passeios e distrações a sua filha, mas ela quase sempre
se recusava, e quando por condescender com seu pai os aceitava, voltava ainda
mais triste e abatida que nunca.

Depois de envidar sem resultado algum todos os expedientes e recursos de
que podia lançar mão, o velho depois de muito pensar e dar tratos
à imaginação, capacitou-se de que o único meio
que lhe restava a tentar para arrancar sua filha daquele estado de melancolia
e prostração, que a ia arrastando ao túmulo, era o casamento.

A mudança de estado, a companhia e intimidade de um bom marido, o
desempenho dos deveres domésticos, talvez produzissem no espírito
da moça uma revolução salutar, e a restituisem à
vida e à alegria. A dificuldade estava na execução desse
pensamento. Se a causa de seus sofrimentos era, como pensava, a violenta paixão
que havia concebido por Eduardo, bem difícil seria induzi-la a aceitar
um marido, fosse ele quem fosse.

Todavia Joaquim Ribeiro não recuou diante de tal dificuldade, e deliberou
envidar os últimos esforços para levar a efeito seu pensamento.
Não tinha necessidade de procurar um noivo para sua filha; desde a
infância de Paulina e Roberto havia como que um compromisso tácito
entre ele e os pais de Roberto, seus parentes e vizinhos, um projeto de família
para casá-los, caso não aparecesse algum ulterior obstáculo;
não tinha mais, pois, do que abreviar um negócio, que já
estava meio conchavado. Roberto, apesar de sua simplicidade e rudeza era bom
moço, bem apessoado, e tinha um excelente coração; aquelas
maneiras broncas e asselvajadas eram efeito da educação, e facilmente
as iria perdendo com o traquejo do mundo. Este casamento ele o proporia também
a Paulina como um ponto de honra, como um compromisso, a que nem ele nem ela
poderiam faltar sem quebra de sua lealdade.

Logo no dia seguinte ao em que concebeu aquele projeto, Joaquim Ribeiro
procurou sua filha para lhe comunicar sua resolução, disposto
a empregar todos os meios, até mesmo a autoridade paterna para induzi-la
a dar esse passo. Não foi preciso tanto; Paulina relutou muito, porém
não tanto quanto ele receava.

– Pois bem, minha filha; – disse-lhe o pai depois de muita insistência
de parte a parte; – propunha-te esse casamento porque acredito que é
o único meio de salvar-te; mas já que queres morrer e arrastar-me
contigo à sepultura, faça-se a tua vontade.

– Não, meu pai, – exclamou a moça tomando a mão
de seu pai, beijando-a com ternura e banhando-a em lágrimas; –
já que meu pai assim o quer, e assim acha conveniente, farei o que
meu pai determina, visto que esse casamento,– murmurou ela em voz mais
baixa e como a medo, se não pode me fazer feliz, também não
me tornará mais desgraçada do que sou Paulina, que já
tinha renunciado a toda a esperança de felicidade no mundo, não
quis e nem pôde recusar-se ao sacrifício que dela exigia seu
pai quase com as lágrimas nos olhos. Se não tinha amor a seu
primo, também não lhe tinha aversão. Casada ou não,
teria de sofrer sempre até morrer. Resignou-se portanto e curvou-se
à vontade de seu pai, porque assim tinha ao menos o prazer, embora
fosse por pouco tempo, de alentá-lo com a esperança de um futuro
no qual ela mesma pouca ou nenhuma confiança tinha.

Nesse mesmo dia Joaquim Ribeiro despachou um próprio com um bilhete
a Roberto, pedindo-lhe que o mais breve que fosse possível chegasse
a sua casa. Escusado é dizer, que no outro dia à hora de almoço
Roberto apeava-se ofegante e ansioso de curiosidade à porta da casa
de seu tio, e largando à porta o animal batendo virilha e pingando
suor, de dois pinotes galgou a escada da varanda; e se não chegou mais
cedo, é porque não tinha asas.

Cumpre-nos aqui dizer que Roberto, depois da partida de Eduardo, não
tinha perdido nem um ceitil da paixão que tinha por sua prima, e não
deixava de fazer reiteradas visitas à fazenda de seu tio, e ora em
caçadas, ora campeando uma rês perdida, ora por qualquer outro
pretexto, que sabia inventar, lá ia quase sempre esbarrar e pernoitar.
Vendo-a triste e indisposta perguntava-lhe o que tinha. Ela sempre meiga e
afável respondia-lhe, ora que era uma indisposição de
estômago, ora uma constipação, e o simples do rapaz acreditando
piamente estava longe de suspeitar, que tudo aquilo não era menos do
que o efeito de uma paixão profunda, da qual ele não era o objeto,
e lá de si para si julgava, que a moléstia de Paulina não
era senão vontade de se casar, pois tinha ouvido dizer a muita gente
que algumas moças adoecem e morrem por não se casarem a tempo.
Roberto, além de ser muito moço, – pois teria vinte anos
quando muito, – não tivera educação alguma; demais,
vivendo sempre na roça, não tinha a menor experiência
de mundo, e muito menos desse pequeno mundo tão cheio de problemas
e mistérios, que se chama coração humano. Era um simplório,
mas tinha um excelente caráter, e muita sensibilidade. Há muito
tempo desejava falar ao tio no seu casamento com Paulina; mas tinha vergonha
e acanhamento como uma moça. Todas as vezes, que ia a casa do tio,
ia na firme resolução de falar-lhe francamente no negócio,
mas apenas chegava à sua presença, a coragem o abandonava, falava
muito, contava mil histórias, e por fim nunca dizia ao que ia.

Portanto compreende-se como lhe caiu a sopa no mel, quando Joaquim Ribeiro,
francamente e sem rodeios, lhe declarou, que o mandara chamar com o único
fim de comunicar-lhe, que era seu desejo efetuar com a maior brevidade possível
o casamento dele com sua filha. O rapaz não cabia na pele de contente,
e não pôde disfarçar aos olhos do tio sua alegria infantil
e grotesca; estava como embriagado; beijou a mão do tio, e derretendo-se
em protestos de gratidão e amizade tais parvoíces soltou, representou
tantas farsas, que faziam sorrir o bom do velho, se não tivesse a alma
tão carregada de graves e sombrios pensamentos.

Paulina não apareceu a seu primo senão muito tarde, à
hora do jantar; desculpou-se com suas costumadas enxaquecas e indisposições;
a coitada estava efetivamente mais pálida e desfeita que nunca. O primo
desta vez já mais ousado não cessou de atormentá-la com
um chuveiro de obséquios e galanteios impertinentes, a que a moça
respondia com uma frieza e mesmo com um ar de displicência, que em vão
se esforçava por dissimular. Só a nímia simplicidade
de Roberto poderia não perceber quanto ela se achava constrangida e
contrariada. É que no coração da infeliz dava-se então
uma terrível luta, e começava a sentir, quanto era pesado o
sacrifício, a que por condescender com seu pai se havia sujeitado.

À tardinha Paulina, a despeito da advertência ou do pedido
de seu pai, foi, como tinha de costume, sentar-se debaixo dos ramos da grande
gameleira do curral, sobre a mesa do carro. Como para disfarçar o motivo,
que ali sempre a conduzia, levava um livro, que às vezes abria, mas
nunca lia; a infeliz tinha muito que ler no livro negro de seu coração.
Aquele lugar tinha para a alma de Paulina um doloroso encanto; ela o visitava
como a mãe, que volta de contínuo ao túmulo do filho
querido que perdeu, ou como a rola, que pousa arrulando gemidos de saudade
sobre os destroços do ninho, donde o gavião arrancou-lhes os
tenros filhotes.

Estava-se no mês de agosto; o sabiá cantava tristemente; abafado
entre vapores, o sol sem raios pendia vermelho e abraseado sobre os últimos
espigões, cujas formas envoltas em um véu fumacento se iam apagando
ao longe como as sombras de um painel desbotado pelo tempo. Nem uma brisa
agitava o ambiente perfumado e morno, e melancólico silêncio
pousava sobre as solidões.

Havia um ano, que naquele mesmo lugar, em uma serena e silenciosa tarde
como aquela, Paulina tinha ouvido sua sentença de morte dos lábios
daquele mesmo, que pouco antes lhe tinha salvado a vida.

Paulina olhava para o caminho da Uberaba... dava o último adeus às
suas esperanças, e dentro da alma como que lhe sussurrava um hino confuso,
mais dorido e fúnebre como o eco, da campa que tomba sobre um cadáver.

Quando mais absorvida se achava em seu angustioso cismar, eis que se lhe
apresenta em frente o rosto rubicundo e folgazão do seu bom primo,
do seu noivo. Aquela aparição inesperada, que vinha quebrar
de modo tão abrupto e cruel o fio de seus dolorosos pensamentos, causou-lhe
a mais desagradável impressão, o mais horrível choque
que imaginar-se pode. Mas forçoso lhe era dissimular.

– Prima de meu coração, – disse-lhe Roberto com
toda a meiguice de que era capaz, – o que está fazendo aqui tão
sozinha?!... vamos passear, e não aqui assim triste como uma juriti
de asa quebrada.

– Ora primo!... respondeu ela esforçando-se por sorrir. –
Estou tomando o fresco... faz tanto calor: e eu estou com tantas dores de
cabeça.

– É do estômago, prima? eu não lhe disse que tomasse
chá de losna?... a mana Josefina também costuma ter disso, e
diz que para isso chá de losna é um porrete...

– Hei de tomá-lo logo ao deitar...

– Pois tome e verá... mas, mudando de conversa... a prima já
sabe de uma?... ora também a quem vou eu perguntar!... decerto já
sabe.

– De quê, primo? – Ora! inda pergunta!.., pois não
sabe para que seu pai mandou-me chamar?...

– Eu não...

– Ora deixe-se disso;... pois ele não lhe disse nada?...

– A respeito de quê, primo?...

– Ande lá! a senhora sabe bem; está se fazendo desentendida.

– Ah! pode ser... me parece que trata-se...

– De quê, prima? fale...

– Ora! também o primo sabe muito bem, e para que hei de ser
eu a primeira a falar.

Então a prima quer... não quer? – Casar-me com o primo,
não é isso?... para que havemos de estar com mistérios,
disse Paulina impaciente por terminar aquele incidente, que a mortificava.

– Isso mesmo, prima... quer, não quer?

– Quero, primo, porque meu pai assim o quer, e é meu dever obedecer-lhe.

– São todas assim; – pensou Roberto lá com os
seus botões – estão mortas por se casarem, e sempre de
boca dura. E sabe, continuou ele em voz alta, que seu pai quer que isso seja
quanto antes? – Sei tudo, meu primo.

– Então apronte-se, minha rica prima, arranje quanto antes
o seu enxoval... seu pai quer que o noivado seja aqui na roça, muito
à capucha; mas eu não estou por essa; quero que seja no arraial
e com muito arrojo; ele que não tenha susto, que eu faço as
despesas. Que bonito noivado não há de ser... e que par feliz
não havemos de ser, hem, minha prima do meu coração,
meu benzinho da minha alma? Assim falando, Roberto agarrava com amoroso frenesi
em uma das frias e brancas mãos de Paulina, enlaçou-lhe com
força o braço em torno da cintura, e pespegou-lhe na face um
sequioso beijo, cujo estalo teria denunciado ao longe seu atrevimento, se
o curral não estivesse completamente ermo, e retirou-se à pressa
como que corrido de sua própria ousadia, e com medo de alguma reprimenda.

Capítulo 10 - Regresso extemporâneo

Ao sentir a impressão daquele beijo, ao qual seu rosto se teria incendiado
de vivo rubor, se porventura o recebesse de Eduardo, as faces de Paulina já
habitualmente pálidas se cobriram de lividez cadavérica. Esse
beijo, que não era aceito nem santificado pelo amor, viera como sopro
de ardentes e bravios páramos crestar-lhe para sempre o matiz virginal
das faces, e estampar-lhe no rosto o selo do infortúnio eterno, O sangue
todo refluiu-lhe ao coração, e largo tempo ela ficou na mesma
posição, em que a deixara Roberto, imóvel e como que
petrificada.

Saindo enfim daquela espécie de vertigem, levantou-se, e volvendo
um último olhar para a estrada da Uberaba, divisou ao longe um cavaleiro,
que vinha só dirigindo para a fazenda. Pelo que se podia julgar ao
longe, era pessoa de distinção; cavalgava possante e garboso
animal, e acompanhava-o um camarada tocando um cargueiro com canastras. Paulina,
que já se havia levantado e ia-se recolher, deteve-se alguns minutos
para reconhecer quem era o viandante. Como vinha marchando com muita rapidez,
este não levou muito tempo a chegar à porteira do curral. Quando
curvou-se sobre o animal para correr a tramela e abrir a porteira, gritando
– dá licença,– pela voz e pela figura logo o reconheceu;
já antes seu coração lho estava adivinhando. Era ele!
era Eduardo! Só Deus sabe quanto esforço foi preciso à
pobre moça para manter-se em pé, e saudar convenientemente o
cavaleiro, que entrava.

Comprimentou-o, todavia, dominando do melhor modo que pôde a sua perturbação,
convidou-o a apear-se e a subir para a varanda, e a muito custo com passos
trêmulos e vacilantes o foi acompanhando.

As faces de Paulina, onde há longo tempo não assomava nem
o mais leve rubor, se incenderam de repente, e converteram-se em duas rosas
purpúreas; o lado principalmente, em que Roberto acabava de imprimir
seus lábios, ardia-lhe como uma brasa viva. Considerava-se quase como
uma amante infiel, e parecia-lhe que Eduardo estava vendo em sua face o vestígio
do beijo que acabava de receber, e entretanto notava que Eduardo a olhava
com um olhar bem diferente do de outrora, e lhe lançava vistas repassadas
de emoção e de ternura. Pobre infeliz! acabava de se precipitar
no abismo no momento em que a mão do destino baixava talvez sobre ela
para erguê-la ao céu do amor e da felicidade.

Como porém aparecera Eduardo ali naquela ocasião?... o que
vinha ele fazer? É o que o leitor vai imediatamente saber.

Eduardo poucos dias depois da última conversa que tivera com sua
mãe, fez seus aprestos de viagem, e partiu para Sorocaba. Esperava
conseguir com as fadigas, cuidados e distrações dessa longa
jornada senão o completo esquecimento, ao menos uma grande diversão
a seus pesares.

Sorocaba em tempos de feira, assim como é um foco de atividade e
comércio, é também mansão de prazeres e divertimentos
de toda a natureza.

A afluência de uma multidão de pessoas de todas as classes
e procedências, a animação e movimento, que ali reina,
as reuniões, jogos, bailes, espetáculos e folguedos de todo
o gênero são suficientes para atordoar a cabeça de um
moço, e fazê-lo esquecer, ao menos temporariamente, a fada de
seus sonhos, por mais enamorado que esteja.

A vida do muladeiro, por outro lado, é rude e trabalhosa; exige uma
contínua vigilância, uma atividade incessante. O muladeiro quase
que não larga os arrieiros senão para deitar-se e repousar algumas
horas. Tanger manadas de milhares de mulas bravias através de imensos
e inóspitos sertões por matas, serradões e campinas abertas,
rodeá-las, repontá-las e contá-las todos os dias de manhã
e de tarde, além de outras muitas fadigas e cuidados inerentes a esse
gênero de vida, é tarefa para acabrunhar as mais ativas e robustas
organizações, e pouco ou nenhum tempo pode deixar para pensar
em amores.

Não aconteceu assim a Eduardo, que, no meio da sedução
de mil festins e prazeres, e a despeito de todas as fadigas e preocupações
de seu afanoso negócio, nem um só dia se esqueceu de Paulina.
Bem pelo contrário tudo lhe rememorava a imagem dela, e a cada passo
encontrava objetos, que lhe avivavam a saudade que o consumia. Uma bonita
perspectiva, um curral, uma gameleira, que via em seu caminho, levava-lhe
a imaginação para a fazenda de Joaquim Ribeiro e para junto
de Paulina.

Se bem que não se descuidasse dos penosos misteres do seu gênero
de vida, trabalhava como por hábito e maquinalmente, como quem se desencarrega
de uma tarefa, e não com aquele gosto, zelo e dedicação
de quem procura promover seus interesses e adquirir bens da fortuna.

O giro costumado de Eduardo nas excursões de seu negócio era
passar o Paraná, percorrer alguns municípios da província
de Mato Grosso, atravessar a de Goiás e entrar em Minas pelos municípios
de Paracatu, Patrocínio, Araxá e Uberaba, para daqui recolher-se
à Franca.

Desta vez, porém, sem plano deliberado, quase sem o querer e sem
o pensar, começou sua derrota em sentido inverso. Seu coração
o chamava para a Uberaba, e para lá tangeu a sua tropa. Bem sabia,
que não ia senão avivar suas mágoas no teatro de seu
infortúnio; mas ia assim mesmo, como o passarinho fascinado pela serpente,
e que soltando lamentosos pios vai descendo de ramo em ramo até meter-se
nas goelas do voraz e hediondo réptil.

Chegando a Uberaba, Eduardo procurou informar-se do estado da família
de Joaquim Ribeiro, e soube com prazer e consternação a um tempo,
que Paulina se achava ainda solteira, mas gravemente enferma, o que era motivo
para seu pai andar sumamente aflito e desgostoso. Eduardo logo presumiu qual
era a causa do mal de Paulina, e ficou com o coração entregue
à maior angústia e à mais cruel perplexidade. Aparecer
a Paulina era avivar-lhe uma chaga profunda e dolorosa, a que ele não
podia dar remédio algum; era agravar para ambos uma situação
já tão cruel e desesperada; era, além de tudo isso, faltar
de alguma sorte ao juramento que prestara a Roberto, pois tendo consciência
de ser adorado pela moça, só a sua presença poderia servir
de estorvo ao enlace dele com sua prima. Por outro lado considerava que no
decurso de um ano as coisas poderiam ter mudado de face, e tomado uma direção
inteiramente nova, e que ninguém sabia o que ia pelo interior daquela
família; era bem possível que Paulina se recusasse constante
e inexoravelmente a aceitar a mão de seu primo, e que este desenganado
por fim tivesse desistido de sua pretensão. Nessa eventualidade tão
natural deveria ele acaso deixar que se definhasse e morresse de pura mágoa
aquela por quem daria mil vidas que tivesse? não era pelo contrário
seu rigoroso dever voar a ela, e no caso que fosse possível, levar-lhe
consolação e esperança, e salvar-lhe segunda vez a exis-tência?
– Vou decididamente! – pensou consigo depois de um longo dia de
ansiedade e hesitação. – Tenho negócios e cobranças
a realizar por aquele lado, e não posso deixar de passar pela fazenda
de Joaquim Ribeiro. Uma hora que lá me demore, poderei saber de tudo,
e decidirei do futuro; meu e de Paulina. Jurei a Roberto de nunca servir de
estorvo ao seu casamento, mas não de nunca pôr os pés
em casa de seu tio.

Tomada esta deliberação, Eduardo montou a cavalo pela manhã,
e na tarde desse mesmo dia chegou, como vimos, à fazenda de Joaquim
Ribeiro.

Roberto estava com seu tio na sala de jantar conversando e discutindo planos
para a celebração do consórcio. O tio queria que fosse
na roça sem estrondo e com muita simplicidade; o sobrinho instava para
que fosse no arraial e com muito arrojo e galhardia.

Graças ao crepúsculo, que descia escurecendo a sombria sala,
não notaram a perturbação e o extraordinário transtorno
das feições de Paulina, quando veio comunicar-lhes a chegada
do sr. Eduardo. Esta inesperada nova causou o maior sobressalto no espírito
de ambos, assim como para Paulina fora um raio que a esmagara.

– O sr. Eduardo! – exclamou Roberto levantando-se com a maior
surpresa e agitação; – que diabo vem cá fazer agora
esse homem!... sua visita nesta ocasião era bem dispensável.

– De fato, – disse consigo o velho, – veio em bem má
ocasião. O que virá fazer?... queira Deus não venha desmanchar
com sua presença todos os meus planos?...

Na realidade a presença de Eduardo naquela ocasião vinha alterar
profundamente a situação dos indivíduos daquela pequena
família; vinha arrancar com suas mãos o bálsamo, que
o velho fazendeiro com paternal carinho aplicava sobre o coração
da filha, e que talvez com o auxílio do tempo e da reflexão
viesse a produzir saudáveis resultados.

– Vamos ter com ele, Roberto, – disse o fazendeiro; –
muito lhe devemos eu e Paulina; é nosso dever recebê-lo com os
braços abertos, e tratá-lo com toda a distinção
e carinho.

Saíram imediatamente a receber o hóspede. Paulina os acompanhou.
Tinha apenas introduzido o recém-chegado na sala de jantar e trocava
com ele as primeiras palavras de cumprimento e civilidade, quando Paulina
que se conservara em pé, trêmula e arquejante, a um canto desviado,
deu um grito agudo, e sentou-se de chofre, ou antes caiu sobre uma cadeira.

– Que é isto! que tens, Paulina – bradou o pai atirando-se
para ela. Eduardo e Roberto acudiram ao mesmo tempo.

– Paulina! Paulina! – gritava o pai sustendo-a no braço,
e agitando-a; – era debalde; a infeliz não podia ouvi-lo. Pendurada
no braço paterno a fronte branca pendia-lhe para trás como lírio
esgalhado, o corpo alquebrava-se l&aciracirc;nguido e inerte, e as pálpebras
transparentes e cerradas eram como lâmpadas de alabastro, onde a luz
acabara de extinguir-se. Estava profundamente desmaiada.

– A cavalo já, Roberto! a cavalo e depressa! – gritou
o velho. Pegue no melhor animal que aí houver, corra já a Uberaba
e traga-nos um médico.

Roberto, que em outra qualquer ocasião teria afrontado fadigas, coriscos
e raios, e teria ido ao inferno para servir a Paulina, desta vez, apesar da
gravidade do caso, hesitou e prestou-se de mau humor. Seus antigos ciúmes
renasciam, e suspeitas cruéis lhe atravessavam o espírito, suspeitas
que para outro qualquer mais perspicaz há muito teriam tomado o caráter
de certeza. Não seria aquele maldito hóspede a causa dos sofrimentos
de sua prima, e do vágado de que acabava de ser vítima?...

– Nesse caso ele que vá! – pensava ele. Quem as armou
que as desarme. No estado de irritação, de que se achava possuído
contra o recém-chegado, esteve a ponto de dizer estouvadamente: –
Aqui o sr. Eduardo, que acaba de chegar e ainda está com o animal selado,
bem nos pode fazer esse favor. Mas o amor, que consagrava a Paulina, e o respeito,
que tinha a seu tio, prevaleceram em sua alma.

Daí a alguns instantes Roberto galopava à rédea solta
através da escuridão da noite, vomitando pragas e amaldiçoando
a hora em que aparecera em casa de seu tio aquele maldito sr. Eduardo.

Capítulo 11 - Delírio e amor

O delíquio de Paulina durou cerca de um quarto de hora.

Quando voltou a si e abriu os grandes e negros olhos, encontrou o rosto
de Eduardo que, bem próximo ao seu, quase que a bafejava, observando-a
com ansiosa inquietação enquanto o pai com os braços
a sustinha sobre a cadeira.

– Ah! o senhor ainda está aqui! – exclamou ela, tapando
os olhos com a mão. Sr. Eduardo... por piedade! fuja, fuja... não
posso vê-lo!...

– Desastrado aparecimento o deste homem hoje! – refletia o amargurado
velho. – Mas porventura posso me queixar dele?... tem ele a culpa de
nada?... Infeliz Paulina!...pobre de minha filha! tão boazinha, tão
linda, tão criança, e já sabendo o que é a desgraça...
e mais desgraçado de mim ainda, que nada posso fazer por ela!... Só
esse homem, que já uma vez salvou-a, poderia salvá-la ainda,
pois não há a menor dúvida, a pobrezinha tem uma paixão
louca por esse moço... ah!... se fosse possível... que me importa
o Roberto?... tratei com ele, é verdade; mas será ele tão
bruto e tão desalmado, que não tenha pena desta infeliz?...
será tão estúpido, que não veja que não
deve, nem pode casar-se com Paulina?... mas que loucura a minha!.., ele não
pode – já está comprometido e quem sabe se já casado
com outra... Pobre da minha Paulina!... é agora que sinto a falta,
que te faz tua mãe... só ela poderia entrar no segredo desse
coração tão maltratado, e dar-lhe algum conforto e consolação...
mas, eu... pobre de mim! que posso eu fazer senão chorar contigo, filha
de minha alma!...

E as lágrimas corriam em fio pelas faces do velho na solidão
da noite, cujo silêncio só era interrompido pelos delírios
de Paulina, que entregue a um sono letárgico, murmurava sons confusos
entre os quais vinha freqüentemente o nome de Eduardo.

Este, por seu lado, também se recolhera ao aposento que lhe fora destinado,
com o coração transido de angústias, e passou a noite
nas mais cruéis tribulações de espírito. Ele passara
como o sopro do gênio do mal junto daquela formosa e interessante menina,
e lhe fizera entrever um paraíso de amor e de ventura para abismá-la
imediatamente num pego de amarguras. Aquela mimosa flor do deserto, que havia
encontrado em seu caminho, de tão belo e puro matiz, tão rica
de seiva e de perfume, vinha encontrá-la agora raquítica e pálida
como goivo despencado de uma grinalda mortuária. E essa flor, que risonha
e louçã se havia espanejado a seus olhos ofertando-lhe todo
o perfume de seu cálix, ele a havia desdenhado e passado além
com os olhos embebidos em não sei que falsa miragem... e fora esse
desdém, que lhe mirrara o seio entornando nele o gérmen da destruição.
E agora que desiludido e arrependido voltava sobre seus passos em busca da
flor, cujo perfume lhe ficara guardado no coração, ainda seria
tempo? poderia ele ainda com o bafejo de seu amor restituir-lhe o alento e
a vida?... Quem sabe? Eduardo, cujas pálpebras ardentes não
se cerraram essa noite, esperava ansioso o alvorecer do dia. Paulina amanheceu
mais tranqüila, posto que extremamente abatida e em tal estado de fraqueza,
que não lhe permitia levantar-se da cama.

Eduardo quando saiu de seu quarto encontrou já na varanda o dono
da casa debruçado ao parapeito e com os olhos na estrada de Uberaba,
à espera de Roberto com o médico. Em sua impaciência não
calculava que era ainda muito cedo para poderem chegar.

– Bom-dia, senhor Ribeiro; – disse-lhe cumprimentando-o... Como
passou a senhora sua filha? – Ah! já está de pé,
senhor Eduardo?... replicou o fazendeiro voltando-se para ele. – Paulina...
eu sei... teve ainda muita febre e delírio; mas agora está mais
sossegada. Todavia acho que não está nada boa.

– Não faz idéia quanto me dói no fundo da alma
o incômodo dela, senhor Ribeiro.

– Muito agradecido, senhor Eduardo... mas enfim... é vontade
do céu... que se há de fazer... Deus que tenha piedade de nós.

– Mas ah! senhor Ribeiro, quando penso, – e tenho motivos muito
fortes para pensar assim, quando penso, que sem o querer e por desgraça
minha sou a causa dos sofrimentos de sua filha e de todos os seus incômodos,
minha aflição toca ao desespero.

– Bem o compreendo, senhor Eduardo; e eu também... para que
negar-lhe? penso do mesmo modo...

– Portanto já vê o senhor que não devo me demorar
mais um instante em sua casa, visto que não lhe posso dar remédio
nem alívio algum. Minha presença lhe faz mal, e antes que ela
me veja outra vez, é meu dever retirar-me.

– Pelo contrário; agora já que aqui veio, tenha paciência,
há de ficar; o senhor é o único que poderá salvá-la
nesta cruel conjuntura; perdoe esta franqueza de um pobre pai desatinado pela
dor e em risco de perder sua única filha. Ela tem pelo senhor uma paixão
louca, estou disso bem persuadido; aquele sucesso da onça a fez enlouquecer...

– Também assim o creio, senhor Ribeiro; porém... desgraçadamente
em nada lhe posso valer.., tenho as mãos atadas...

– Que me diz?...ah!... já me lembro... desgraçado de
mim!... onde anda esta cabeça!... essa senhora, com quem ia casar-se
ou talvez já esteja casado...

– Nada disso, senhor Ribeiro; dessa loucura há muito estou
desencantado, e por esse lado nada mais me estorva...

– Deveras!... pois então o que lhe impede?...

– Escute ainda, senhor Ribeiro; tenha paciência; devo dizer-lhe
tudo; se naquele tempo eu tinha meu coração e minha palavra
empenhada a uma mulher, hoje a tenho empenhada a um homem...

– Como assim?... não o entendo; tenha a bondade de explicar-se
melhor.

– Pois não sabe o senhor Ribeiro, que num dia seu sobrinho
tomado de ciúmes, sem que eu desse motivo algum, cuidando que eu fazia
a corte à sra. d. Paulina, veio me tomar satisfações;
e que eu para livrá-lo do engano e da aflição em que
o via, em termos de fazer alguma loucura, protestei-lhe que não tinha
o menor amor à senhora sua filha, – e não tinha, pelo
menos eu então assim o acreditava, – e jurei-lhe pelas cinzas
de meu pai que nunca serviria de estorvo ao seu casamento com a mesma senhora?...

– Não, senhor; nunca ouvi falar em tal coisa.

– Pois é a verdade desgraçadamente, e agora... tenho
os braços atados.

– Mas que tem isso?... que importa esse juramento, se Paulina não
quiser casar-se com ele?...

– Contanto que não seja eu que o estorve...

– E será ele tão mau, tão desalmado, que queira
sacrificar sua prima?...

– Não sei, senhor. – A verdade é que dei-lhe o
juramento; desse juramento só ele pode desobrigar-me.

– E que remédio terá ele, se nem eu, nem Paulina quisermos
aceitá-lo?... Vamos, meu amigo, vamos ver a pobre menina; ela está
sempre a falar no seu nome. Veja se a pode tranqüilizar. Engane-a mesmo,
se tanto é preciso, dê-lhe uns toques de esperança. Viva
ela enganada por algum tempo; que mal faz isso? depois quando estiver mais
forte e bem disposta, com vagar e cautelosamente a irei desenganando.

– Ah! senhor Ribeiro, não sou capaz de enganar a ninguém,
quanto mais a ela. Se me permite, irei dizer-lhe toda a verdade; irei dizer-lhe,
que a amo muito... que a maior, a única felicidade minha neste mundo
depende dela...

– Deveras, senhor Eduardo?... atalhou o velho com alegre sobressalto,
– que estou eu ouvindo?... então a quer bem?...

– Muito, senhor Ribeiro, muito! mas... de que serve?...

– De que serve?!... não compreendo tal pergunta...

– E o juramento...

– Pelo amor de Deus, não me fale em tal juramento! Vamos, meu
amigo, continuou Ribeiro com alegre sofreguidão, – vamos visitá-la.

Ribeiro tomou o moço pelo braço, conduziu-o até a porta
do quarto de Paulina, que se achava sentada sobre a cama, impeliu-o de manso
para dentro dizendo a sua filha: – Paulina; aqui está o sr. Eduardo,
que vem fazer-te uma visita;– e retirou-se.

O bom do velho, ao saber que Eduardo adorava sua filha, e que nenhum impedimento
havia mais para que se casasse com ele, exultava de contentamento, e tinha
como já realizada a cura e a felicidade de sua filha. Quanto ao juramento,
esse não lhe dava muito cuidado, porque não fazia idéia
da importância que Eduardo ligava a ele, do fanático aferro e
tenaci-dade de paulista com que guardava um juramento.

– Ah! é ele! é ele ainda!?.. exclamou a moça
apenas avistou Eduardo, – que vem fazer aqui este homem?...

– Não lhe dizia eu? – disse Eduardo para o pai de Paulina,
que se ia retirando, – a minha presença a incomoda.

– Não creia tal; – disse-lhe o velho em voz baixa;–
deixe-se ficar por algum tempo, tenha paciência. Minha filha, continuou
voltando-se para Paulina; – o sr. Eduardo não te quer fazer mal
algum; ele te estima muito, e não procura senão meios de salvar-te.
Ditas estas palavras o velho retirou-se.

– Salvar-me ele! exclamou Paulina com um ar de insânia e um
sorriso indizível. Tomara eu que ele me salve de si mesmo! aqui não
há nenhuma onça, e é só das onças que ele
sabe me salvar.

– Quem sabe, d. Paulina? – disse Eduardo com um triste sorriso,
sentando-se em um tamborete junto à cabeceira da enferma. – Deus
ainda pode permitir que eu a salve de outros males. Por quem é, não
me queira mal... diga-me, vai se sentindo melhor?...

– E que lhe importa?... eu não tenho nada... Como vai a sua
querida lá da Franca? seguramente já se casaram, não
é assim?...

O delírio de Paulina exaltava-se com a presença de Eduardo;
suas palavras desassisadas, seus olhares desvairados dilaceravam o coração
do mancebo que já se arrependia da visita, que por condescender com
o velho lhe viera fazer.

– Por compaixão, – respondeu-lhe o moço, –
não me fale nisso, d. Paulina, essa mulher morreu para mim...

– Morreu?... pois que tem isso? eu também não vou morrer?...
não sabe? esta noite sonhei com ela... estava em uma sala de baile...
vestida com um luxo e uma riqueza de espantar... começou a dançar
uma valsa com o senhor... de repente foi-se virando em um dragão medonho,
enroscou-se-lhe por todo o corpo, e começou a lhe morder a nuca...
o senhor dava gritos desesperados, mas todo o mundo fugia espavorido; eu fiquei
só e queria lhe acudir; mas meus pés estavam agarrados no chão,
e meus braços não podiam mover-se; queria gritar, também
não podia; teria morrido sufocada se meu pai, que estava perto de mim,
não me acordasse...

– É singular!... ah! d. Paulina, esse sonho...

– Que tem esse sonho?...

– É uma imagem da realidade. Essa mulher era mesmo um dragão;
atraiçoou-me;... achei-a casando-se com outro.

– Bem feito! exclamou Paulina com um acento indizível de malicioso
prazer; – bem feito: foi castigo de Deus; porque fez tão pouco
caso de mim.

– Diz bem, d. Paulina; foi mesmo castigo de Deus. Mas eu não
queria parecer-me com ela. Que importa! nada perdi. Juro-lhe, d. Paulina,
que depois que vi a senhora foi-me bem custoso não me esquecer dessa
moça, e guardar-lhe a fidelidade que guardei.

– Deveras, sr. Eduardo!... pelo que vejo, quer-me bem...

– O meu amor para com a senhora, creio que não é de
agora... creio que existia desde a primeira vez; mas ai de mim!... principiou
infeliz, infeliz parece-me que vai acabar...a desgraça me persegue...
hoje não me é permitido ofertar--lhe o meu amor...

– O seu amor!... exclamou Paulina sentando-se no leito, fitando no
mancebo olhos ardentes, e sem atender que lhe apareciam quase nus os alvos
seios arquejando-lhe afanosos; era bela assim, bela de amor e de delírio.

– Sim, o meu amor, d. Paulina! o meu amor tão grande, como
eu não sei explicar, e que decerto já existia sem eu saber dentro
de meu coração, e que hoje rebenta como urna labareda, que eu
não posso conter nem disfarçar.

– Ah! veio tão tarde! – disse Paulina suspirando e abanando
tristemente a cabeça. – Outro lhe tomou a dianteira... já
não me pertenço. Olhe aqui esta face... não vê
como está vermelha?... arde-me como uma brasa... foi um beijo, e não
foi o senhor que mo deu.

– Um beijo!... quem lho deu? – Um beijo, sim... foi meu marido...

– A senhora está gracejando... quem é seu marido?...

– Pois não sabe?.., o primo Roberto é meu marido...
meu pai mandou-o chamar; ontem ficou tudo ajustado.

– Ah! já entendo, – murmurou Roberto alcançando
que as palavras de Paulina não eram puro delírio como a princípio
pensara. – Se assim é, refletiu ele consigo, – não
me resta mais esperança alguma.

– É verdade, – senhor Eduardo; – continuou Paulina
como que adivinhando e respondendo ao pensamento de Eduardo; – o primo
Roberto breve vai se casar comigo... Coitado! vai se casar com um cadáver;
a cama do noivado há de ser um esquife... Paulina acompanhou estas
palavras de um riso funéreo, que fez estremecer Eduardo; e deixou pender
a cabeça.

– Mas esse seu primo será tão duro de entranhas, que
queira assim sacrificá-la? – Mas ele me quer tanto... desde criança...

– Fatalidade! eu também, d. Paulina, eu também, da outra
vez que aqui estive, jurei a esse moço que nunca da minha parte poria
o menor estorvo ao seu casamento...

– Jurou isso?... meu Deus!... não há esperança
mais!... eu já dei-lhe o meu sim; e o senhor jurou-lhe o seu... não,
ah! ah! ah!... como isto é engraçado!...

– Mas, d. Paulina, para salvá-la, para possuí-la, tudo
devo tentar. Vou entender-me francamente com seu primo, dir-lhe-ei tudo sem
rebuço, e se ele tem dignidade e nobreza de alma, deve desistir de
sua pretensão, e me desobrigará do juramento que lhe dei.

– Roberto?... duvido; tem por mim um amor furioso... é um estonteado,
e tem cabeça dura. Roberto há de se casar comigo, ainda que
seja à beira da sepultura.

Nesse momento ouviu-se rumor de falas na varanda. Era Roberto que chegava
com o médico. Eduardo tomou a mão de Paulina, e beijou-a ternamente;
esta respondeu-lhe apertando estreitamente a dele e cravando-lhe um olhar,
que continha um treno de ternura, de amor e de sofrimento. Seu espírito
começava a serenar-se; sentia inefável prazer em saber que era
amada por aquele que seu coração escolhera, e nesse momento
de gozo ficaram adormecidas todas as suas mágoas e inquietações,
todos os seus sofrimentos físicos e morais.

– Ora pois! – dizia ela consigo, graças ao céu,
um momento sequer já fui feliz em minha vida. Agora só me resta
resignar-me para sofrer e morrer!

Capítulo 12 - Dois verdugos

O médico que viera com Roberto, era um padre. Era muito comum naqueles
sertões, onde havia quase absoluta falta de médicos profissionais,
os padres exercerem também a medicina, sendo a um tempo médicos
da alma e do corpo, reunindo em si dois sacerdócios.

Bom ! – disse consigo Paulina, quando soube dessa particularidade;
eu creio que hei de precisar mais do padre do que do médico.

O médico foi logo introduzido no quarto da doente, onde se demorou
cerca de um quarto de hora.

– Não há de ser nada, senhor Ribeiro, – disse
ele saindo; – a menina teve e tem ainda uma forte febre maligna complicada
com alguma irregularidade nas funções uterinas. Com as aplicações
e o regimen, que vou prescrever, não corre risco algum, e em breve
estará sã. Mas olhe que é preciso muita dieta, e muita
cautela... Tais achaques são muito comuns aqui pelo sertão porque
os senhores fazendeiros,– perdoe-me o dizê-lo, sr. Ribeiro, –
são muito desmazelados na criação de seus filhos; deixam
os meninos, como esta por exemplo, em uma idade tão crítica,
andarem por aí ao rigor deste sol ardente, molharem-se, apanharem sereno,
comerem frutas verdes e fazerem mil outras estrepolias...

– Há de ser isso mesmo, – acudiu bruscamente Roberto;
– a prima costuma andar aí à toa no quintal o dia inteiro
com a cabeça quarando ao sol, comendo só frutas, e quando vem
para a mesa não come nada; depois quando é de tardinha vai ali
para debaixo da gameleira, e fica apanhando sereno até a noite.

– Eis aí!... não é outra a causa de sua moléstia...

– Mas, senhor padre, – atalhou o fazendeiro, – o mal não
é de agora; já vai para um ano que ela sofre.

– Não duvido; ela tem incômodo crônico do estômago,
e as funções do útero, como já disse, não
são muito regulares. Mas tudo isso complica-se agora com uma febre
aguda, que é preciso atalhar prontamente.

– Ah! senhor padre! senhor padre! – pensou consigo Eduardo,
– se Vossa Reverendíssima lhe examinasse mais a alma do que o
corpo, se a ouvisse de confissão em vez de tomar-lhe o pulso, acharia
em outra parte a origem da moléstia.

Enquanto Joaquim Ribeiro e o padre conversavam, Eduardo, que assustado com
a gravidade e os progressos do mal de Paulina não queria perder tempo,
nem adiar para mais tarde a solução do problema de seu destino,
chamou de parte Roberto e o convidou para uma conversa particular, decidido
a dizer-lhe tudo com a mais rude franqueza. Desceram ambos a escada e dirigiram-se
para um canto do curral.

– Senhor Roberto, – começou Eduardo com tom sério
e comovido, – sei que o que tenho a dizer-lhe de maneira nenhuma lhe
pode ser agradável; vou dar em seu coração um golpe bem
cruel; mas tenha paciência; assim é preciso.

– Um golpe!... em meu coração! que quer dizer isto?!...
o senhor está caçoando, senhor Eduardo.

– Nunca falei tão sério. Tenha paciência, já
lhe pedi... aliás perco o meu tempo. Se fosse só por meu respeito,
nunca daria este passo, e hoje mesmo me sumiria para sempre desta casa; mas
é por amor daquela pobre moça, que ali jaz penando no fundo
de uma cama...

– Pior ! – interrompeu Roberto com impaciência;–
cada vez o entendo menos. Deixe-se de rodeios, senhor Eduardo; desembuche,
que estou ardendo por saber que alhada é essa.

Roberto já se achava com uma terrível predisposição
contra Eduardo, e por isso o recebia, como se costuma dizer, à ponta
de baioneta.

– Se soubesse que estava de tão má disposição,
e se não fosse tamanha a gravidade do caso, não o incomodaria...

– Não senhor; não há de me deixar assim com a
pulga na orelha; já agora diga ao que veio...

– Prontamente; vou-lhe explicar tudo em palavras bem poucas e bem
claras. Saiba, senhor Roberto, que não é por vontade dela, que
sua prima vai casar-se com o senhor.

– Não é por vontade dela! – exclamou Roberto arregalando
os olhos, cruzando os braços e dando dois passos para trás;
– e quem lhe meteu essa nos cascos, senhor Eduardo?...

– Ela mesmo, senhor Roberto; neste instante acaba de mo dizer.

– Fora com essa!... vá pregá-la mais adiante, que aqui
não pega. Ainda ontem ali ela me deu o sim sem constrangimento algum
deste mundo. Isso se não é mexerico seu, é delírio
dela.

– Nem delírio, nem mexerico, senhor Roberto; é a pura
verdade. E saiba mais, – pois é necessário declarar-lhe
com franqueza a verdade toda inteira, – saiba mais que não sei
se por felicidade ou infelicidade minha, sua prima desde a primeira vez que
me viu – naquela fatal caçada, lembra-se? criou por mim uma afeição,
uma paixão irresistível, que ela em vão tem-se esforçado
por combater. Essa paixão, que não é necessário
ser muito ladino para perceber, é a causa de todos os seus sofrimentos,
e é ela que sem dúvida alguma a levará à sepultura,
se o senhor não tiver piedade dela...

– Eu ter piedade dela!... se o entendo diabos me carreguem. Visto
ser assim como diz, o senhor por que não teve piedade dela a primeira
vez que cá esteve? por que me cedeu o campo? – O senhor tem fraca
memória; não lhe disse que minha palavra estava empenhada a
outra moça? agora felizmente esses laços estão quebrados,
e cumpre-lhe, senhor Roberto, por sua honra e dignidade, pelo sentimento de
humanidade, ceder de sua pretensão deixando-nos livres a mim e a ela,
se não quer sacrificar uma pobre menina.

Enquanto Eduardo falava, Roberto não podia ter-se de impaciência;
puxava o nariz, sustinha-se ora num pé ora noutro, fungava, trincava
os dentes, e fazia mil trejeitos.

– Oh! isto é demais! prorrompeu ele enfim depois de um curto
silêncio; – pois quando ainda ontem meu tio acaba de me chamar
para tratar de meu casamento e abreviar esse negócio, agora é
que o senhor vem com toda a frescura do mundo querer arrancar-me a minha noiva?
– Não é vontade minha só, senhor Roberto: é
também a vontade dela e o desejo mais ardente de seu tio...

– E o senhor já se esqueceu que jurou que nunca em tempo algum
serviria de estorvo ao meu casamento? é bom modo esse de cumprir um
juramento.

– Jurei, é verdade; esse juramento hei de cumpri-lo, se o senhor
tiver a alma tão empedernida, que não queira desobrigar-me dele.

– Está já lhe dando um bonito cumprimento!... quem o
chamou cá? que motivo o trouxe aqui, senão o desejo de me estorvar?...

– Engana-se. Meus negócios aqui me chamaram, e eu não
jurei de não pôr os pés nesta casa.

– Se Paulina lhe quer tanto bem, como diz, devia saber que sua presença
já era um estorvo.

– Eu estou sempre presente no coração dela, senhor Roberto;
a minha ausência em nada poderia favorecê-lo, já que quer
que lhe diga toda a verdade; o senhor vai matá-la.

– Não me mete cucas, senhor Eduardo; eu sei o que é
um coração de moça. Mande-se mudar e deixe-nos, que tudo
se arranjará por cá sem o senhor, sem dúvida nem matinada.
A moléstia de minha prima apareceu com o senhor; desapareça,
que ela também desaparecerá.

– Talvez a sua presença lhe seja mais fatal... mas não
foi para estarmos a brigar, que o chamei, senhor Roberto; já lhe disse
o que há; agora diga-me de uma vez, quer ou não quer salvar
sua prima...

– Salvá-la como?... de quê?... salvá-la do senhor?...
estou pronto.

– Não se faça desentendido. Quer ou não quer
desobrigar-nos a ela do sim que lhe deu, e a mim do juramento?...

– Do juramento?... pois o senhor já não o quebrou?..
pode ainda quebrá-lo quantas vezes quiser.

Eduardo perdia a paciência; todavia tentou ainda com termos brandos
e persuasivos reduzir a índole crespa e revessa de Roberto. Foi tempo
perdido; nenhuma razão podia calar naquela cabeça de ferro,
nenhum sentimento acalmar aquele coração irritado.

– Pois bem! – exclamou por fim Eduardo, já não
podendo sofrear sua impaciência e indignação; –
já que o senhor é um desalmado, e tem a cabeça tão
rija como uma bigorna, fique-se embora com sua teima infernal; mas esteja
bem certo que o senhor não se casa senão com um cadáver,
e esse cadáver é feito pelas suas mãos. Paulina, sua
prima, morre de paixão, e é o senhor quem lhe cava a sepultura.

– Não me venha com pataratas, senhor Eduardo; o que lhe convém
é tratar de cumprir o seu juramento, retirando-se desta casa.

– Sei mais do que o senhor cumprir a minha palavra. Olhe que num momento
posso me ver livre do senhor e desse desastrado juramento...

porventura jurei de não matá-lo?...

Eduardo, ébrio de cólera, já apalpava o cabo da faca,
que trazia presa à cava do colete, quando Joaquim Ribeiro que da varanda
os observava, e vendo que os dois moços alteravam vozes, descera ao
curral e se avizinhara sem que eles dessem fé, avançou e agarrando
seu sobrinho pelo braço, bradou-lhe: – Mas eu não lhe
jurei nada, senhor meu sobrinho!... nosso contrato está rasgado, porque
vejo que o senhor é um homem desalmado e indigno da mão de minha
filha. Nem viva nem morta ela nunca lhe pertencerá. Não é
mais o senhor, quem estorva esse casamento, senhor Eduardo; sou eu que não
o quero. O senhor está desobrigado de seu juramento.

Roberto ficou fulminado com aquela terrível apóstrofe de seu
tio; pálido e trêmulo não atinava com o que devia responder,
e ali ficaria assim por longo tempo, se Eduardo, tomando a palavra, não
viesse em seu auxílio: – Não, senhor! disse Eduardo com
voz firme; – não me considero desobrigado, enquanto ele mesmo
não desistir; ela e o senhor deram-lhe um direito que sem quebra de
lealdade não lhe podem mais negar...

– Que louca teima, senhor Eduardo!... e assim Paulina morrerá...

– Não posso, senhor, não posso ser falso às cinzas
de meu pai...

– Roberto, – disse o velho com voz suplicante, voltando-se para
seu sobrinho, – Roberto, meu sobrinho, olha o que fazes. Tua prima está
em risco de vida. Ela não te quer, e só te aceitava por marido
por comprazer comigo; só o senhor Eduardo pode fazer a sua felicidade,
só ele pode salvar-lhe a vida, que está por um fio. Roberto,
tem piedade dela...

– Ai! que isto já me enjoa, e até me cheira a desaforo!
– bradou Roberto; – o senhor Eduardo pode quebrar o juramento,
e o senhor meu tio pode faltar à sua palavra quantas vezes quiserem.
E adeus! passem muito bem, e façam o que entenderem.

E sem querer ouvir mais nada, montou em seu animal que ali estava ainda
arreado, e picou a galope caminho de sua casa.

Os dois ficaram imóveis, pasmos e silenciosos por largo tempo olhando
o cavaleiro, até que este se encobriu pela avenida de um capão
vizinho.

– Que desalmado e brutal sobrinho tem o senhor Ribeiro, – disse
Eduardo; – e era a um tal homem que o senhor ia entregar sua filha?...

– E não menos desalmado e cruel, – retrucou-lhe Ribeiro,
– é o senhor, que por um vão escrúpulo deixa sucumbir
minha infeliz filha.

– Jurei, senhor Ribeiro, e não sou homem que falte ao meu juramento
por motivo nenhum deste mundo.

– E diz que quer muito... que adora a minha Paulina... oh!... perdoe-me;
não posso acreditá-lo.

– Senhor Ribeiro, por compaixão, não agrave com suas
queixas a dor de meu coração, que, – esteja certo, –
sofre tanto ou mais do que o seu. Adoro a sua filha, e sei que sem ela serei
o mais desgraçado dos homens. Mas, meu amigo, que hei de eu fazer?...
acima de tudo está Deus, a religião, a honra, a consciência.

– Não me diga tal; nem Deus nem a religião querem o
suplicio inútil e a morte de uma inocente criatura.

– Deus abomina o perjúrio, senhor Ribeiro...

– Deus não aceita um juramento louco... Entretanto são
os senhores dois os algozes de minha filha! Pobre Paulina!... o destino fez-te
escapar das garras de uma onça para te colocar entre duas feras ainda
piores...

Dizendo isto o infeliz velho lastimava-se e chorava como uma criança,
arrancando as cãs e praguejando da sua sorte.

– Ânimo, meu amigo!... disse-lhe Eduardo, chegando-se mansamente
para ele. Não se entregue assim ao seu pesar. O estado de sua filha
não é ainda para desesperar. Com a minha ausência seu
espírito acalmará; não há sofrimento algum, a
que o tempo não traga algum alívio. Quanto a mim não
devo parar mais nem um instante nesta casa, onde a minha presença parece
que é e será sempre um desastre. Adeus, senhor Ribeiro!... perdoe-me,
se sou a causa involuntária de tantos sofrimentos... por piedade, não
se queixe de mim... sou digno de lástima, mais do que ninguém...
eu também sofro... sofro tanto como ela... e vou ser para sempre infeliz.

Falando assim o moço abaixava o rosto e tapava os olhos com a mão
para ocultar suas lágrimas.

– Acredito e lastimo-o de todo o coração, senhor Eduardo,–
respondeu-lhe o fazendeiro; – mas espero que me fará o favor
de não ir ainda hoje; espere ainda até amanhã ou depois,
tenha paciência. Quem sabe se aquele estouvado cairá ainda em
si?... ele estava atordoado com o golpe que recebeu; não sabia o que
dizia, nem o que fazia... o caso não era para menos. Mas talvez que
refletindo pense melhor... Esperemos; sou eu que lhe peço em nome de
Paulina.

Não havia resistir. Eduardo deixou-se ficar e com o coração
atravessado das mais raladoras angústias encaminhou-se para a gameleira,
a cuja sombra foi se sentar. Era ali o horto, em que há tempos fizera
tragar à mísera Paulina o cálix da amargura; era ali
também, que agora ia sorver as fezes do fel das desventuras, que ele
por uma cruel fatalidade tinha preparado com suas próprias mãos
para si e para ela.

Que de amargas reflexões, que de pungentes recordações
não o assaltaram ali naqueles curtos momentos, que resumiam uma vida
inteira de decepções, de mágoas e de angústias!

Capítulo 13 - Desengano tardio

Joaquim Ribeiro, deixando Eduardo no curral, entrou para casa e foi procurar
o padre, que estava na sala de jantar acabando de consumir pausadamente uma
excelente refeição. Ali comunicou ele confidencialmente ao padre,
que era conhecido e velho amigo seu, a verdadeira causa dos padecimentos de
sua filha, e as cruéis dificuldades, em que se via, expondo-lhe minuciosamente
tudo o que havia ocorrido em sua casa, desde a primeira vez que Eduardo nela
aparecera, até o último incidente, que entre ele e Roberto acabava
de ter lugar.

– Então já vejo, – disse o padre, que bem pouco
pode valer neste caso a medicina, e que no meu caráter de padre e de
amigo poderei talvez prestar-lhe melhores serviços aconselhando a esses
malucos para entrarem no caminho da boa razão, do qual me parece que
ambos eles andam bem desviados, ou consolando a pobre menina, e prestando-lhe,
– caso precise, o que Deus não há de permitir, –
os socorros do meu ministério. Se o senhor me permite mesmo não
sairei de sua casa, enquanto não vir todo esse negócio acomodado
e arranjado do melhor modo que for possível.

– Oh! senhor padre, quanto lhe fico agradecido!... faz-me com isso
o maior favor do mundo; eu mesmo já lhe ia pedir. Ajude-me, por quem
é, a salvar aquela pobrezinha.

– Esse é o meu dever como médico, como padre, e muito
particularmente como amigo. Por agora vamos ao quarto da menina a ver como
vai passando.

A febre de Paulina tinha declinado consideravelmente, e tinha-lhe voltado
a calma e lucidez do espírito; mas achava-se em estado de debilidade
e prostração tal, que parecia estar em delíquio. O médico
e o pai fizeram-lhe algumas perguntas, a que respondeu com voz lenta e fraca,
porém com muito acordo e conveniência.

– Está extremamente fraca, – disse o padre, – mas
antes isso... é a reação da febre; se não sobrevier
algum outro acesso, não há mais perigo... É preciso ir-lhe
dando desde já os cordiais, que indiquei, nada de alimentos, e sobretudo
muito sossego. Vamo-nos, sr. Ribeiro; deixemos a menina descansar...

– Não, senhor padre; podem ficar e conversar... não
sinto por ora necessidade de repouso. Por que não aparece também
o sr. Eduardo?... e o primo... que é dele, meu pai?...

– Roberto, – respondeu-lhe o pai, – teve precisão
de ir a casa, – e volta logo à noite. Queres que chame o sr.
Eduardo? Paulina fez um aceno afirmativo.

Ribeiro fez um sinal ao padre chamando-o para fora do quarto.

– Que diz, senhor padre, – perguntou-lhe, apenas saíram,
– acha que não haverá inconveniente em deixar que Paulina
se entretenha alguns instantes com esse moço?...

– Eu sei, meu amigo?... a presença dele vai-lhe avivar uma lembrança
que convinha trazer-lhe sempre arredada do espírito o mais que fosse
possível.

– Mas, senhor padre, de que serve não se achar ele ali, se
ela o traz sempre presente na imaginação? assim melhor será,
que de fato esteja presente; ela quer-lhe tanto... talvez a presença
dele lhe sirva de algum alívio e consolação.

– Pode ser; mas recomende ao moço toda a cautela e moderação...
uma conversação só para distraí-la e nada de tocar
em assuntos melindrosos, nada de excitar-lhe emoções...

O bom padre não considerava, que bastava verem-se para alvoroçar-se
um pego de emoções no fundo daquelas duas almas tão amantes,
e tão desafortunadas.

Eduardo ainda se achava à sombra da gameleira, absorvido em suas
amargas reflexões, quando delas foi distraído pelo chamado de
Joaquim Ribeiro.

Introduzido no quarto de Paulina, Eduardo foi sentar-se triste e silencioso
junto à sua cabeceira.

– Bem aparecido, sr. Eduardo! – disse-lhe ela; – estava
mesmo com vontade de o ver. Acho-me tão tranqüila!... parece que
a paz dos anjos desceu sobre a minha alma...

– Não faz idéia, d. Paulina, do quanto me alegram suas
melhoras...

– Mas acho-me tão fraca... tão fraca, que quase não
posso mover-me... o que vale é que o senhor me quer bem, e o seu amor
me há de dar alento e vida, não é assim? – Sim,
d. Paulina, – exclamou o mancebo tomando-lhe a mão que pendia
à beira da cama, como um jasmim debruçado à borda de
um vaso de alabastro; – o amor que lhe tenho é muito grande,
e se este amor pode restituir-lhe a saúde perdida, a vida e a felicidade,
eu me julgarei o homem mais afortunado do mundo... mas, d. Paulina, é
preciso que a senhora se tranqüilize, e evite essas lembranças.
Tratemos primeiramente da sua saúde, da sua vida, que também
é a minha, ouviu, d. Paulina? depois, quando se achar melhor trataremos
do nosso amor.

– Não, não, sr. Eduardo; tratemos dele já; tratemos
dele sempre; é só ele que me dá algum alívio aos
meus padecimentos... diga-me, esteve com o primo? falou com ele?...

– Ah! meu Deus! meu Deus! que hei de eu dizer-lhe?... pensou Eduardo
no maior embaraço, e respondeu tropeçando nas palavras: –
Com o sr. Roberto? ah!... sim... falei-lhe... porém ele...

– Acabe... mas para quê? já sei; não quis ceder
por nada, não é assim? – Não é isso, d.
Paulina; é que ele nada quis decidir; estava de muito mau humor.

– Que disfarce, sr. Eduardo! para que quer enganar-me?... bem se está
vendo por esse seu ar triste, por suas meias palavras, que não há
para nós esperança de felicidade. Que lhe dizia eu, sr. Eduardo?
Paulina, que meio sentada tinha a cabeça encostada à cabeceira
do catre, deixou-a cair tristemente sobre o peito.

– Não quero enganá-la, não d. Paulina; por quem
é, não desanime assim. Seu primo ficou muito agastado, é
verdade; era isso muito natural naquele primeiro choque, que tanto o devia
magoar... decerto mais tarde, refletindo friamente...

– Qual!... nunca! nunca!... é impossível!... interrompeu
a moça abanando tristemente a cabeça. Eu conheço-o muito...
desde criança; é mais fácil morrer do que consentir que
eu me case com outro. Que loucura a daquele pobre primo! não vê
que não encontrará mais do que um cadáver? Fuja, senhor
Eduardo; suma-se da minha presença! eu sou dele. Cumpra o seu juramento.
Eu também jurei... não vê este beijo na face... ainda
me está ardendo como brasa... isto é mais que um juramento...

Um vivo rubor despontava nas faces de Paulina; seus olhos desvairados se
incendiavam de um fulgor estranho, e o sorriso pálido da insânia
lhe vagueava pelos lábios. Era um novo acesso da febre e do delírio,
que se anunciava. Eduardo consternado e pálido de susto, em vão
procurou palavras para acalmá-la; chamou Ribeiro e o padre, que estavam
num compartimento vizinho, e saiu com o coração esmagado de
dor e desalento.

Seriam três horas da tarde, quando se manifestou em Paulina esse novo
acesso de delírio, que durou até a noite. Com a noite porém
acalmou-se, e Paulina conversou placidamente com seu pai, com o padre e com
Eduardo. Parecia reanimada; mostrou-se tão tranqüila e arrazoada;
sua conversação foi tão cheia de senso e lucidez, que
a todos encheu de esperanças. Assim esteve até perto da meia-noite
conversando sossegada e distraída sem o mais leve indício de
outro sofrimento que não fosse a nímia fraqueza. O resto da
noite, ao que pareceu, passou-a tranqüilamente adormecida.

Quando Paulina acordou era já dia. Mandou chamar seu pai, o padre
e Eduardo. Logo que chegaram, perguntou se podia abrir a janela do seu quarto,
pois estava com saudade do ar e da luz.

– Sem dúvida nenhuma, – respondeu o padre, – visto
que não há vento, e o ar não está úmido
nem frio; é mesmo conveniente renovar-se o ar deste quarto.

Estava uma manhã esplêndida. A janela do quarto de Paulina
dava para o seu jardim, desse jardim, que outrora, em tempos mais felizes,
ela cultivava com suas próprias mãos e que era o enlevo da sua
solidão.

A bafagem de ar que entrou pela janela, inundou o quarto de um delicioso
perfume de jasmins e flores de laranjeira. Uma chusma de passarinhos esvoaçava
e trinava pelos ramos florescidos do pomar; os colibris verdes cruzavam-se
zumbindo pelos ares, lindas borboletas entravam e saíam volteando pelo
quarto, e por baixo mesmo da janela, pousada sobre uma romeira ressonava uma
suavíssima e festiva orquestra de pintassilgos. O ar estava tépido
e sereno, e o céu de um esplendor e limpidez maravilhosa.

Paulina estava plácida e calma, mas em tal palidez e imobilidade,
que mais parecia uma estátua de alabastro. Pouco a pouco porém
ao contato daquele ar puro e embalsamado, daquela luz suave, suas feições
foram-se reanimando, um leve matiz de rosa assomou-lhe às faces, seus
olhos encheram-se de um meigo fulgor, e denunciavam que uma alma vivificava
ainda aquele formoso e delicado corpo. Apesar da sua prostração,
no rosto de Paulina transluzia um bem-estar, uma serenidade angélica;
seus seios arfavam brandamente, um meio sorriso da mais suave expressão
estava fixo em seus lábios, e sobre a fronte parecia que lhe pairava
um reflexo da bem-aventurança.

Parecia reinar naquele aposento um não sei quê de místico
e beatífico, um eflúvio celestial que todos aspiravam em santo
e silencioso recolhimento. Eduardo, sobretudo, cheio de emoção,
de amor e de esperança, contemplava em adoração o rosto
de Paulina, e julgava-se transportado ao paraíso.

O silêncio, que há alguns instantes reinava naquele aposento,
como em um santuário, teria durado ainda mais longo tempo, se não
viesse quebrá-lo bruscamente um pajem, que entrou aceleradamente no
quarto, e entregou uma carta a Joaquim Ribeiro. Este no mesmo instante abriu-a
sem refletir, que ia excitar a curiosidade de Paulina, e que a carta que vinha
da fazenda do pai de Roberto, podia conter uma má nova. Dentro dela
vinha outra carta dirigida a Eduardo, que Ribeiro imediatamente lhe entregou.

Ribeiro passou rápida e silenciosamente os olhos pela carta que lhe
era dirigida; o seu conteúdo era o seguinte: – “Dou-lhe
a triste notícia que meu filho Roberto amanheceu hoje morto em seu
quarto com a cabeça atravessada por uma bala. O infeliz, quando aqui
chegou ontem, encerrou-se em seu quarto sem aparecer a ninguém. Ao
romper do dia ouviu-se um tiro no seu quarto; acudiu-se prontamente, arrombou-se
a porta, e fomos achá-lo estendido no chão e lavado em sangue.
Que desgraça, meu amigo!... não posso atinar com o motivo que
o levou a tal loucura... Achou-se sobre sua mesa essa carta ao senhor Eduardo,
com a recomendação de ser entregue imediatamente, como verá
no sobrescrito.” Por mais esforço, que fizesse Ribeiro para ocultar
a sua perturbação durante a leitura, a mágoa e a consternação
pintavam-se em seu rosto.

Paulina, que tudo estava observando, perguntou-lhe com a ansiedade: –
É carta do primo Roberto, não é, meu pai?

– Não, minha filha ;– respondeu o velho esforçando-se
por mostrar-se tranqüilo; – é um simples recado de teu tio;
não tem importância alguma; pede-me apenas que entregue imediatamente
aquela carta ao senhor Eduardo, e pede-me notícias de tua saúde.

– Ah! meu pai!... meu pai!... quem sabe?... Vosmecê quer me
enganar... e essa outra carta?... de quem é, senhor Eduardo?... leia,
leia em voz alta... por favor, se não é algum segredo...

Eduardo, que acabava de decifrar não sem dificuldade os terríveis
garranchos, que o infeliz Roberto com mão convulsa tinha traçado
naquele papel, vendo que nenhum inconveniente havia na leitura daquela carta,
que à exceção da última frase, – a qual
envolvia um sentido sinistro, – continha uma lisonjeira notícia,
que ele estava ansioso por comunicar a Paulina, leu em voz alta o seguinte:
“Senhor Eduardo. Confesso e reconheço, que ontem fui estouvado
e grosseiro com o senhor. Hoje, pensando melhor, vejo que o senhor tem razão,
e que eu sou um desgraçado que nada tem mais que fazer neste mundo.
Desisto de tudo; faça de conta que eu nunca existi; e que nunca o senhor
me deu juramento nenhum. Adeus! sejam felizes, e rezem por minha alma. Roberto.”
Estas últimas palavras Eduardo suprimiu-as na leitura.

– Pobre de meu primo! – exclamou Paulina, apenas Eduardo acabou
de ler; – e eu que supunha que ele não seria capaz de dar esse
passo!... que injustiça!... hei de lhe pedir perdão de joelhos...
que coração! que alma de anjo!... meu pai!... senhor Eduardo!...

A moça quase não podia mais falar de emoção;
soluçava e arquejava comprimindo o peito com as mãos, como temendo
que lhe rebentasse.

– Basta, – exclamou o pai já cheio de inquietação;
basta, minha filha; não convém que fales mais. Acalma-te; o
céu acaba de fazer tudo para a tua felicidade; agora o que precisas
é saúde... vamos; deita-te e descansa... nada de conversas por
ora;... retiremo-nos, meus senhores.

– Para quê, meu pai?... eu acho-me tão contente... e
tranqüila... senhor Eduardo, por favor demore-se um momento... meu pai
há de permitir, que lhe diga duas palavras.

– Paulina!... mais tarde, minha filha, conversarás com ele
quanto quiseres.

– Não tenha susto, meu pai; duas palavras só, e ele
sairá logo, – disse Paulina cravando-lhe um olhar suplicante.

O pai não teve ânimo de contrariá-la mais.

– Pois bem, minha filha; porém cautela; por quem és,
não fales muito, nem te comovas.

Capítulo 14 - Conclusão

– Ah! senhor Ribeiro, – disse o padre com tom severo, apenas
se acharam fora do aposento de Paulina, – foi uma grave imprudência
a entrada daquele rapaz com as cartas no quarto da menina!... queira Deus
daí não venha algum mau resultado.

– Tem razão, senhor padre; eu também logo vi o inconveniente...
mas que havia eu de fazer?... o maldito moleque, e quem aqui o introduziu
sem licença minha, tem a culpa de tudo. Mas como ela não soube
da notícia senão na parte que tem de boa...

– Muito embora, senhor Ribeiro; toda e qualquer emoção
violenta, ainda mesmo de alegria, no estado em que ela está lhe pode
ser fatal.

– Tudo pode ser, senhor padre; mas eu nunca ouvi dizer que ninguém
morresse de alegria.

– Como não, meu amigo?... em estado de plena saúde,
ainda bem; mas no estado melindroso e crítico, em que se acha sua filha,
qualquer impressão forte seja de dor ou de prazer, pode determinar
uma crise, e nessa crise ela sucumbir.

A vida dela está presa por um fio tão delicado, que o abalo
o mais insignificante pode quebrá-lo.

– Deus tal não permita, – disse o velho consternado;
– e Deus queira que a presença desse moço também
não lhe faça mal... seria bom fazê-lo sair...

– Para quê?... já agora o choque está recebido,
e se tiver de produzir algum mau resultado, quer ele esteja, quer não,
ele sempre há de aparecer.

Ribeiro e o padre continuaram conversando sem se afastarem muito do quarto
de Paulina para poderem acudir prontamente no caso de algum acidente.

– Paulina!... minha Paulina! exclamou o mancebo, logo que se acharam
a sós, sentando-se à beira da cama, e tomando entre as suas
as mãos da moça. – Graças ao céu hoje posso
chamar-te minha!... Deus teve compaixão de nós... somos felizes,
Paulina.

– É verdade, Eduardo!... somos felizes; muito felizes... eu
bem estava sonhando esta noite que uns anjos do céu estavam voando
em roda de mim, cantando e dizendo que eu era a mais feliz de todas as mulheres.
Eu estava muito contente; mas o que me causou mágoa... foi ver lá
somente o meu primo, que estava a um canto sombrio e pesaroso, e não
te ver em parte alguma...

– Mas estás vendo-me agora, minha querida, feliz e contente
junto a ti, e isto agora não é um sonho.

– Não é... mas parece... custa-me a crer em tamanha
felicidade... que eu nunca esperei. Eu ia morrer de mágoa e pesar...
mas agora creio que morro de felicidade... Eduardo!...

Paulina arquejava; suas faces começavam a enrubescer, e seus olhos
enchiam-se daquele reflexo brilhante e vago, que costumava acompanhar o delírio.

– Ah! meu Deus! meu Deus! – murmurou consigo Eduardo aterrado
e com o coração transido de angústia;– é
a febre!... é o delírio que volta!...

– D. Paulina, – disse em voz alta, – deixemos esta conversa
para logo... temos tempo de sobejo para isso... temos uma vida inteira de
amor e felicidade... por enquanto a senhora precisa de descanso; deite-se
e sossegue.. . adeus!... eu vou mandar vir-lhe um cordial, e volto breve.

– Não, não! – disse a moça cada vez com
mais exaltação. Não consinto; fica aí, Eduardo.
Não quero perder um momento... de tua companhia neste dia tão
feliz... o melhor cordial é o nosso amor, não é assim,
Eduardo?...

– É, d. Paulina, mas a sua saúde...

– Não me fales em saúde... eu não sofro nada...
sou tão feliz.. Olha, Eduardo, olha esta face... este beijo funesto...
está me ardendo ainda... apaga-o, Eduardo, apaga esse beijo com tua
boca...

Falando assim Paulina estendia a cabeça, e apresentava a face a Eduardo
de um modo tão meigo e suplicante, que ele quase contaminado do mesmo
delírio chegou-lhe os lábios e beijou-a com ardor.

A face de Paulina estava fria. Eduardo aterrado desviou o rosto, e encarou-a
com atenção. Os olhos baços mal refletiam uma luz frouxa
como de quem vai adormecer; o carmim das faces tomava um tom lívido,
as pálpebras tremiam-lhe; mas um fraco sorriso estava sempre fixo em
seus lábios, e pairava-lhe sobre a fronte angélica serenidade.

Paulina enlaçou-se ao pescoço de Eduardo, e deitou a cabeça
sobre o ombro dele como criança, que quer adormecer. – Eduardo!
– murmurou com voz sumida, exalou um fraco soluço, e ficou imóvel.

– Paulina! Paulina! – exclamou o moço assustado, agitando
a brandamente. – Estava de feito adormecida.

Eduardo pousou-a de mansinho sobre o travesseiro; examinou a com mais atenção.
Estava morta ! Tão tênue era o fio, que prendia à vida
aquela débil e mimosa criatura, que não pôde resistir
àquela última emoção.

Morreu nos braços da felicidade, com o sorriso nos lábios
e o prazer no coração.

Dir-se-ia, que não foi a morte com o seu sopro sinistro que extinguiu
aquela existência; mas que um anjo de Deus, baixando sobre o frágil
e formoso corpo de Paulina, veio sorrindo cerrar-lhe as pálpebras,
e sorvendo-lhe a alma num beijo, a conduziu para o céu.

Algumas horas depois dois pretos conduzindo um cadáver ensangüentado
em uma rede chegavam à casa de Joaquim Ribeiro.

Era o cadáver do infeliz Roberto, que levavam a sepultar no cemitério
de Uberaba.

O padre, porém, não consentiu que dessem aquela caminhada
inútil, fazendo-lhes ver que o pároco da Uberaba por modo nenhum
podia consentir, que se enterrase em lugar sagrado o cadáver do suicida.

Foi sepultado a meia légua de distância da fazenda, junto a
um capão à beira da estrada.

O padre não quis benzer o lugar da cova, nem rezar sobre o cadáver
as orações dos finados.

Mas o povo, que compreende melhor a infinita misericórdia divina,
e tem mais fé nelas do que os próprios ministros da religião,
cravou sobre a sepultura uma cruz de pau toscamente lavrada; – à
sombra desse símbolo santo toda a terra é sagrada.

Joaquim Ribeiro também não consentiu que a filha fosse enterrada
no cemitério comum; não queria afastar-se, nem mesmo na morte,
daquela que tanto idolatrara na vida. Não podendo guardar aqueles restos
queridos em um magnífico túmulo de mármore, porque naqueles
sertões faltava-lhe tudo – o artífice e a matéria
– mandou benzer e cercar um pequeno terreno no alto de uma risonha colina
que ficava à vista da casa, não muito além do sítio
em que dormia o eterno sono o desafortunado Roberto, e ali guardou no seio
da terra aquele depósito sagrado. Mandou depois erigir ali uma capelinha
singela, mas alva e asseada, que se divisava a grandes distâncias servindo
de farol ao viandante por aquelas vastas e descampadas solidões.

Ali o velho e infeliz pai ia rezar todos os dias, até que pouco tempo
depois ali foi também repousar ao lado de sua filha.

Contava o povo, que um triste noitibó, que todas as noites fazia
seu pouso nos braços da cruz da sepultura de Roberto, saía de
lá alta noite soltando guinchos lamentosos, e vinha pousar nos muros
do cemitério; e que uma pomba alva como neve saía batendo as
asas da sepultura de Paulina, e desaparecia nos ares.

Era, dizia o povo supersticioso, a alma de Roberto, que andava penando em
busca de Paulina, que fugindo sempre dele ia se esconder no céu.

Assim o sempre infeliz Roberto, bem como durante a vida, viera também
depois de morto repousar e suspirar ainda junto daquela, por quem seu coração
havia suspirado em vão durante a vida inteira.

Eduardo desapareceu, e ninguém sabe ao certo o que fora feito desse
mal-aventurado moço.

Correu fama de que se retirara para a Bahia e que aí tomando o burel
de frade morrera pouco tempo depois em um convento.

Jupira

Capítulo I

Jupira estava sentada à sombra de uma canjerana ainda nova, de folhagem
mui viçosa e cerrada, que dava fresquíssima sombra. Estava tecendo
um cabaz de palhas de buriti, enquanto sua mãe, índia algum
tanto idosa, a alguns passos de distância moqueava um gordo e grande
tiú.

Era isto à margem do Rio Grande de Minas, algumas léguas acima
das paragens onde ele, reunindo-se ao Parnaíba toma o nome de Paraná.

Como a pequena árvore, que lhe prestava sombra, Jupira era também
uma flor nova das selvas, que apenas abria o cálix às virações
do deserto; uma linda caboclinha de treze a catorze anos, mas de tez um pouco
mais clara do que a das suas companheiras da floresta. Era no veranico de
janeiro; o rio estava baixo, e na larga zona de areia, que mediava entre ele
e a floresta que o bordeja, viam-se dispersos alguns bugres de ambos os sexos,
uns pescando ou banhando-se, outros dormindo ou comendo. O sol ardentíssimo
do meio-dia reverberava no seio do rio e nas areias da praia, a ponto de ofuscar
as vistas; estava um calor insuportável.

Pouco abaixo daquele grupo via-se um indígena de formas truculentas
e vigorosas cortando as águas em todas as dire&cccedil;ões, ora
nadando com rapidez, ora boiando à flor do rio, ora sumindo-se de mergulho
na profundez dos rebojos, e era preciso olhar com muita atenção
para ver que tinha em uma das mãos uma delgada linha. Ninguém
diria que ele estava pescando. O índio pesca à linha os grandes
peixes, quase como quem persegue um veado ou uma anta através de campos
e florestas. Com um pequeno anzol ou fisga, e uma linha de tucum da grossura
de um fio de barbante, pescam não só os pequenos bagres e pirapitingas,
como os corpulentos dourados e curumatãs, e o jaú, que atinge
às vezes o tamanho de um homem de alta estatura, e tem a força
de um touro. Apenas o peixe ferra a isca, e que o índio o percebe fisgado,
em vez de procurar puxá-lo à terra, salta na água e dá-lhe
corda, acompanhando-o em todas as voltas que lhe apraz dar pelo rio, tenteando
a corda de modo que não se quebre, como quem tempera as rédeas
a um poldro bravio e fogoso. A própria força do peixe arrasta
o índio e o ajuda a romper as águas sem fatigar-se muito, e
assim ora pairando à flor do rio, ora cortando-o veloz como uma seta,
ora sumindo-se nos escuros abismos, o índio acompanha todos os seus
movimentos, até que o peixe extenuado de cansaço se deixa facilmente
arrastar para a praia.

Depois de ter gasto cerca de meia hora naquelas evoluções,
o índio surgiu à praia agarrando pelas guelras com ambas as
mãos e arrastando a custo um enorme peixe que media a altura de seu
corpo, e ainda a cauda vinha abrindo um sulco pela areia, e dirigiu-se à
sombra onde se achava a linda caboclinha.

– Uff!... Jupira!... – exclamou largando o peixe e deixando-o
estourar no chão; – sei que não gostas do tiú,
que é o que tua mãe tem para te dar, e fui ao fundo do rio buscar
esse peixe para ti; custou-me bem a arrancá-lo da água. Fala,
menina, qual desses teus fracos companheiros é capaz de lutar no fundo
da água com um peixe destes?...

Jupira contemplou o peixe por alguns instantes com admiração,
depois olhou para o índio, fez-lhe um ligeiro gesto de agradecimento,
e continuou no seu serviço. O índio deitou-se de ventre sobre
a areia a alguns passos de distância e fitava os olhos ardentes sobre
a gentil menina. Parecia truculenta jibóia procurando fascinar com
os olhos a tímida pomba, que pretende devorar.

– Então ingrata columi, – disse o índio abanando
a cabeça, – de todo não queres saber do infeliz Baguari?...

Por única resposta Jupira levantou-se, e levando o seu trabalho foi
sentar-se por detrás de sua mãe, como para esconder-se do índio
e furtar-se a seus olhares devoradores.

Baguari pôs-se em pé de um salto, arrancou do íntimo
peito um gemido rouco, antes um rugido e disse: – Jupira, olha que o
canguçu quando vê a veadinha tenra pelos bosques, nunca mais
lhe perde o rasto, e não descansa enquanto não lhe lança
as garras. E eu sou o canguçu e tenho fome de ti! – Baguari!
– exclamou a mãe assustada por sua filha, que cada vez mais se
chegava a ela; – a menina ainda é muito nova... olha agora é
que os peitos lhe vêm apontando. Para que apanhar a flor que ainda não
abriu, colher os favos do jataí que ainda não tem mel?.. Deixa
passar mais algumas luas; quando o ipê der flores outra vez, Jupira
te abraçará.

– Não fale assim, minha mãe! – murmurou a menina
ao ouvido de sua mãe. – Assim pudesse o ipê nunca mais
dar flores! Baguari afastou-se silencioso, e chegando ao meio do areal da
praia, bateu palmas e soltou um assovio estridente como o da anta. A horda
que se achava dispersa pela margem, reunia-se em torno dele. Baguari mostrou-lhes
o peixe, e os selvagens soltando alaridos de alegria, em um instante o fizeram
em postas levando cada um o seu pedaço para se banquetearem aquela
tarde.

Jupira disse a sua mãe: – Não viu aquele peixe tão
grande, que Baguari matou? – Pois não vi, minha filha?.. foi
para ti que ele o pescou.

– Não quero do seu peixe, nem de nada que passar por suas mãos.
Tenho mais medo dele do que daquele jaú, se o encontrasse no fundo
da água.

Daí a pouco a tarde trazia sombra e fresquidão por aquelas
magníficas solidões e os índios, tripudiando e banqueteando-se,
com seus alegres alaridos faziam saltarem espantadas as feras de seus covis,
e os passarinhos deixarem em sobressalto os seus abrigos de verdura.

Somente Baguari, – que cuidara nessa tarde abrevar-se de cauim e de
prazer nos braços da gentil Jupira, – retirado no mais recôndito
antro da floresta, arrancava rugidos de amargura de despeito.

Capítulo II

Em seu lado sudoeste a província de Minas termina em um ângulo
agudo, em uma vasta nesga de terra encravada entre as províncias de
Goiás e de S. Paulo, das quais a separam os dois grandes rios Parnaíba
e Rio Grande, que se vão reunir na ponta do ângulo. Nessas regiões,
sobre as quais a natureza parece ter entornado a flux todo o cofre de seus
favores, trinta léguas pouco mais ou menos acima da confluência
dos dois rios, está situado o Seminário de Nossa Senhora Mãe
dos Homens, fundado há cerca de cinqüenta anos pelos padres da
Congregação da Missão de S. Vicente de Paula em uma vasta
e rica fazenda, que lhes deixou em legado um opulento fazendeiro daquelas
paragens.

Possui a fazenda matas na prodigiosa uberdade, pingues e magníficas
pastagens, por entre as quais um caudaloso ribeirão vai sereno rolando
suas águas cor de esmeralda sombreadas por duas orlas de frondoso e
verde-negro arvoredo, pelo que decerto lhe deram o nome de Rio Verde. Atravessa
as mais formosas e risonhas campinas entrecortadas de viçosos capões
e palmares pitorescos, e vai perder-se no Rio Grande, que passa a cinco ou
seis léguas do seminário ocultando seu curso entre gigantescas
e profundas matas.

Pelas imediações do seminário para logo se foram agregando
alguns moradores, e em torno dele construindo-se algumas casinhas dispersas
pela campina, de sorte que o lugar chamado Campo Belo, nome que perfeitamente
lhe quadra, tornou-se como uma pequena aldeia.

Por aqueles sertões vagavam por esse tempo alguns restos de tribos
selvagens vindas de Goiás e Mato Grosso, já algum tanto familiarizadas
com a sociedade dos brancos, mas conservando ainda os hábitos selváticos
e a independência da vida errante. Os padres fizeram reiterados esforços
para chamá-los ao grêmio do cristianismo e da vida social, doutriná-los,
e utilizar seus serviços.

Os missionários de S.Vicente, porém, parecem que não
são dotados daquele tino e habilidade, de que dispunham os discípulos
de Inácio de Loiola para catequizar os indígenas. Por vezes
conseguiram reunir na fazenda alguns bandos; mas nunca alcançaram que
se sujeitassem por muito tempo a um trabalho contínuo e regular.

Atraídos pelo desejo de obterem algumas roupas, ferramentas, armas
e enfeites, acudiam de quando em quando ao seminário; mas no fim de
um a dois meses quando muito aborreciam-se do trabalho, entregavam-se à
sua natural indolência e, se apertavam com eles, desapareciam, e internavam-se
de novo pelas matas do Rio Grande, continuando sua vida nômade e selvática.

Em um desses bandos, que se acolhiam às vezes à fazenda de
Campo Belo havia uma caboclinha nova por nome Jurema, não de todo linda,
mas um pouco menos feia e mais bem-feita do que as suas companheiras. José
Luís, moço branco e bem-disposto, empregado no seminário,
agradou-se sumamente dela, e por tal arte soube catequizá-la, que no
fim de algum tempo Jurema lhe deu uma linda e viçosa filhinha.

Sabedores do fato os padres induziram José Luís a casar-se
com a índia. Batizaram-se ao mesmo tempo a mãe e a filha, e
no dia seguinte o pai e a mãe receberam-se em legítimo matrimônio.
Jurema trocou o seu nome selvático pelo de Ana, e a filha, que a mãe
chamava Jupira, pelo de Maria.

Os índios não punham dificuldade alguma em se deixarem batizar,
casar e receber todos os mais sacramentos da igreja; mas isso para eles era
um ato sem conseqüência. No dia seguinte esqueciam seus novos nomes,
e os esposos se separavam com a mesma facilidade com que largavam seus vestidos,
para tomarem de novo a araçóia, e tornavam aos matos para serem
tão bons adoradores de Tupã como dantes.

Aconteceu pois que um belo dia a esposa de José Luís anoiteceu
e não amanheceu, desaparecendo com seus irmãos em Tupã,
e levando consigo sua filhinha ainda de mama. José Luís ficou
sumamente aflito e magoado com este acontecimento; fez imensas diligências
para apanhar ao menos a filha pois com a mãe já não contava
mais à vista de um tal pro-cedimento.

Mas todos os seus passos foram perdidos, e depois de um ano de pesquisas
e excursões pelas matas, desanimou...

As florestas são imensas, e aquela gente não tem pouso certo
nem por uma semana.

Eram já passados mais de dois anos, quando Jurema sem mais cerimônia
entrou-lhe pela porta dentro, e se lhe apresentou conduzindo pela mão
a pequena Jupira, e já com outro caboclinho às costas acocorado
em uma pequena maca de buriti, que trazia presa à testa, como é
costume entre as índias. Apareceu a seu marido sorrindo-se tranqüila
e fresca, como se nada houvesse acontecido, como se se tivessem separado na
véspera. José Luís ficou atônito com aquela inesperada
visita; maior porém foi a sua alegria do que o seu espanto, e deu graças
ao céu, que lhe restituiu a filha, a qual ele tratou logo de pôr
em bom recato e segurança, despedindo cortesmente a mãe, que
com isso não se mostrou nem de leve magoada, pois segundo as aparências
já tinha novo esposo no bando dos seus.

Receoso José Luís, de que sua filha não fosse de novo
levada para o mato por sua mãe, guardou-a com toda a cautela, confiando-a
aos cuidados de uma velha parenta que era a sua caseira, e não respirou
tranqüilo enquanto Jurema com todo o seu bando não desapareceram
das imediações de Campo Belo.

A menina crescia linda, engraçada, e travessa como uma ariranha.
Tinha muita vivacidade e penetração, mas os instintos selváticos
prevaleciam nela, e foi com muita dificuldade, que seu pai no fim de sete
anos conseguiu que ela adquirisse alguns costumes de civilização,
andasse vestida, cosesse, lesse e escrevesse alguma coisa. Muitas vezes a
iam agarrar pelos matos quase nua, trepada como macaco nas mais altas árvores,
ou nadando nos profundos remansos do Rio Verde em risco de ser devorada por
algum jaú ou sucuri.

Todavia Jupira era uma interessante menina, e pela singularidade de suas
qualidades físicas e morais era o enlevo de toda aquela pequena povoação.

Andava de casa em casa, e em todas elas era mui querida e festejada. Às
vezes também penetrava no seminário, aí fazia o regalo
e as delícias dos padres e dos estudantes.

Quando, porém, ali se achava algum bando dos seus parentes da selva,
não queria mais sair do meio deles; já lhes conhecia bem a língua,
da qual já balbuciava algumas palavras quando voltara do mato. Por
isso muitas vezes servia de intérprete entre os índios e os
padres com sumo gosto e contentamento de todos. Somente José Luís
– e com razão – se afligia muito com isso, e não
gostava nada de ver sua filha tão afeiçoada aos seus parentes
do mato. Zangava-se, ralhava, castigava, mas era debalde; o pendor que a menina
tinha para os seus era irresistível.

Jupira já tinha nove para dez anos, quando sua mãe, depois
de vaguear largos anos pelos sertões de Goiás, Pará e
Mato Grosso, tornou a aparecer em Campo Belo com a horda, a que pertencia.
Jupira!... exclamou a índia, apenas pôs os olhos em sua filha.
Esta também imediatamente reconheceu sua mãe, saltou-lhe ao
colo, e nunca mais quis deixá-la.

José Luís ficou cheio de gosto e inquietação
com o reaparecimento da mãe de sua filha. Desta vez redobrou de cuidados
e precauções. Jupira sem que ela o soubesse, não andava
sem uma sentinela à vista. Era um primo seu, um sobrinho de José
Luís, por nome Carlos, e a quem todos chamavam Carlito, pouco mais
velho do que ela, rapazinho vivo e esperto como um diabrete. Não tendo
podido parar no seminário em razão de seu gênio trêfego,
indócil e insubordinado, freqüentava como externo a escola de
primeiras letras, onde se havia muito mal. Entretanto era excelente para servir
de companheiro de brinquedos e ao mesmo tempo de sentinela a sua prima durante
o dia, porque de noite dormia ela fechada debaixo de chave em companhia da
velha caseira de José Luís.

Todavia apesar de todas essas precauções, uma bela manhã
Jupira não amanheceu em casa. Tinha arranjado modo de trepar pela parede,
e como a casa era de telha-vã, isto é, sem forro no teto, descobriu
um pedaço de telhado, saltou fora, e voou para as selvas em companhia
de sua mãe.

Capítulo III

Esta segunda fuga foi muito mais dolorosa ao coração de José
Luís do que a primeira. Já amava extremosamente sua filha, e
tinha a mais terna solicitude por aquela interessante menina, cuja criação
lhe tinha custado tantos cuidados e desvelos, cujo fruto em um só momento
vira esvaecer-se. Era à semelhança de uma flor peregrina e rara,
em cuja cultura o jardineiro se esmera com o mais desvelado amor. Um dia porém,
quando pela manhã vai visitar o tenro botão, que de dia a dia
anseia por ver desabrochar em flor, acha-a cortada pela raiz por verme daninho,
murcha e perdida para sempre.

José Luís fez altas diligências para reaver sua filha,
mas sempre sem resultados. Bem quisera ele para reivindicá-la armar
uma bandeira e levar a guerra a todas as tribos selvagens, como outrora Menelau
levou toda a Grécia armada aos muros de Tróia para reconquistar
a esposa, que um peralta lhe havia seduzido e roubado. Mas não lhe
era isso possível, e contentava-se em dirigir súplicas ao céu,
e fazer promessas a Nossa Senhora Mãe dos Homens para que lhe restituísse
a filha.

Nas selvas Jupira cresceu linda e garbosa como a palmeira das campinas,
mas esquiva e soberba como a ema, rainha dos chapadões. Suas graças
fascinaram as vistas de todos os jovens bugres, que a seguiam, admirando-a
e adorando-a como a um manitô caído do céu; mas a nenhum
deles foi dado colher aquela peregrina flor das selvas. Baguari era chefe
de uma forte e numerosa horda estranha. Encontrando-se com o bando de Jupira,
encantado de sua beleza, abandonou os seus para segui-la.

Mas Jupira fugia dele como a tímida lontra foge do jacaré,
ou como a pomba se esconde do gavião. Era à sombra de sua mãe
que vinha arquejante e espantada como a caça acossada pelo jaguar,
abrigar-se das perseguições do cacique. Temerosa de cair-lhe
nas garras a menina mal ousava arredar-se alguns passos da companhia dos seus.

Os outros bugres pretendentes aos favores de Jupira, que sabiam das intenções
de Baguari, furiosos de raiva e de ciúme, e não ousando opor-se
de viva força ao possante cacique, ainda que desejassem devorar-se
uns aos outros, uniam-se para fazer face ao inimigo comum e mais forte, e
seguiam e vigiavam por toda a parte a formosa menina a fim de obstar a que
o cacique lograsse seus intentos. Assim Jupira sem querer e sem o pensar tinha
sempre ao pé de si uma escolta ativa e vigilante para a defender contra
qualquer tentativa violenta de seu sanhudo amante, como sói acontecer
entre as brutas alimárias, pouco acima das quais se achavam aqueles
selvagens na categoria dos entes. Baguari era valente e terrível;

membrudo e robusto como a anta, ágil e veloz como a onça, já
tinha sufocado nos braços um dos seus rivais, e traspassado o coração
a outro com uma flecha, por terem ousado disputar-lhe abertamente a posse
da formosa Jupira. Mas era só e detestado por todos, e eram muitos
contra ele. Por isso também da parte dele havia constrangimento e receio.

O tronco do ipê já se tinha de novo toucado de seus tufados
cachos de flores amarelas. Baguari que conforme a promessa de Jurema, estava
esperando com impaciência aquela quadra, foi ter com ela, e disse-lhe:
– Olha, Jurema, o ipê já está florescendo. É
tempo de cumprires a promessa que me fizeste, e entregar-me tua filha.

– Ah! minha mãe! minha mãe! dá-me antes a um
sucuri, – exclamou Jupira, atracando-se com a mãe.

– Jupira, – disse Jurema para sua filha, – olha que Baguari
é forte e te quer muito bem. Vai com ele, minha filha.

– Se minha mãe teima, eu irei lançar-me na lagoa dos
sucuris retorquiu a menina com firmeza.

A lagoa dos sucuris era um banhado, que por ali havia e onde existia enorme
quantidade desses formidáveis répteis. Quem nela caía
era irremissivelmente devorado pelos monstros. Jurema sabia, que sua filha
era bem capaz de pôr em prática a sua ameaça, e disse
ao cacique: – Estás ouvindo, Baguari? – ela não
te quer ainda. É que ainda não é tempo. Espera ainda,
Baguari;... mais tarde...

– Cala-te, filha de Anhangá! – bradou o índio
rugindo e batendo o pé com força – não quero mais
te escutar, boicininga enganadora... ou hoje ou nunca!...

Ouvindo os gritos e vendo a atitude ameaçadora do cacique, os outros
bugres, que estavam de alcatéia, aproximaram-se de arco e flecha em
punho, murmurando palavras de ameaça. Baguari lançou-me de revés
um furibundo olhar, soltou um rugido de raiva e de despeito, e retirou-se
vagarosamente rosnando como um tigre enfurecido.

Vendo que nem por bem, nem por violência lhe era possível obter
a posse da virgem indiana, Baguari que não desistia de seus intentos
sobre ela, recorreu às ciladas.

Jupira gostava de caçar pássaros. Com um pequeno arco e flechas
proporcionadas às suas forças, ela varava os jaós, inhambus,
macucos, capoeiras e outras aves que abundavam naquelas florestas, e abastecia
de copiosa caça o rancho de seu pequeno bando. Um dia à hora
do pôr-do-sol ela estava sozinha com sua mãe à beira de
um capão embalando-se indolentemente em sua maca de palhas de buriti
e abanando o rosto e enxotando as mutucas com o cocar de penas, que havia
tirado da cabeça. Seus companheiros vagueavam pelo campo a pouca distância.
Um jaó começou a piar dentro da mata. Jupira saltou lestamente
da rede, tomou o arco e flechas, e embrenhou-se no capão, sem que sua
mãe, que estava ocupada em esfolar um tamanduá, desse fé
daquele movimento.

O jaó é uma ave grande e excelente de se comer, mas muito
arisca e dificílima de se caçar.

Os índios e os sertanejos, que com eles aprenderam, empregam uma
engenhosa astúcia para os atrair e apanhar. É de ordinário
ao pôr-do-sol que os jaós costumam piar, vagueando pelas sombras
da mata. O caçador esconde-se cuidadosamente em alguma moita junto
ao lugar, em que os ouve piando, e começa também a piar, imitando-os
com toda a perfeição. O jaó acudindo àquele chamado,
que cuida ser de algum de seus companheiros, vem se aproximando, descobre-se,
e então o caçador atira-lhe ou flecha-o muito à vontade.

Jupira, que era habilíssima neste manejo foi se esconder e começou
a responder ao jaó. Mas este em vez de aproximar-se, ia-se afastando
aos poucos, e piando cada vez mais ao longe. Jupira piando sempre e mudando
de esconderijo em esconderijo o foi acompanhando, sem nunca conseguir avistá-lo,
entranhou-se a uma grande distância pelo capão adentro. O sol
já era entrado, e as sombras do crepúsculo começavam
a escurecer a floresta; Jupira desanimada ia já voltando, quando sentiu
pelas costas mão de ferro agarrar-lhe o ombro, e uma voz medonha bradou-lhe
– Jupira, agora és minha!– Era Baguari que usara daquela
negaça para atrair Jupira e arredá-la dos seus. Assim a pobre
menina cuidando ser a caçadora era a caça, que vinha descuidada
cair nas mãos de seu feroz perseguidor.

Jupira deu um grito de terror; mas o cacique levou-lhe imediatamente a mão
à boca, e nem os companheiros dela poderiam ouvi-la, na distância
em que se achavam. Viu que nenhum partido poderia tirar da resistência,
e procurou aplacar o seu feroz agressor.

– Espera, Baguari! – dizia ela arquejando de susto: –
Não me faças mal; eu me entrego... mas larga-me.

– Não; tu queres enganar-me; mas é escusado; desta vez
não me escaparás.

– Não quero te enganar, não, Baguari. Vamos onde está
minha mãe... ela me entregará a ti, e eu te juro que não
hei de pôr dúvida nenhuma em ser tua.

– Por Tupã!... nesse laço não caio eu, minha
formosa garça do Paraná. Já agora não sairás
mais dos meus braços, quer tu e tua mãe queiram, quer não
queiram.

– Pois bem, Baguari; sou tua; não te fugirei mais;... mas larga-me...
tu assim me sufocas... ai...

Falando assim e debatendo-se Jupira procurava ganhar tempo a ver se seus
companheiros dando por falta dela vinham em seu socorro, ou a excogitar algum
ardil para arrancar-se dos braços do seu brutal amante. Melhor porém
do que ela esperava, veio o destino ou o céu em seu auxílio.
Pisada pelo índio uma enorme jararaca que dormia em uma moita de capim
quase debaixo de seus pés, salta enfurecida, e enrosca-se-lhe nas pernas.
O índio dá um grito de horror, sacode vigorosamente a perna,
e atira longe o medonho réptil, que felizmente não o havia picado,
recua em dois pulos com Jupira nos braços, larga-a no chão,
e investe de tacape alçado sobre a cobra, que ia se esgueirando pelo
matagal adentro. Jupira não perdeu um só instante; mal se viu
solta dos braços do truculento cacique, enquanto este a rijos botes
de tacape perseguia a cobra, mais veloz e sutil do que uma irara desapareceu
pela mata, e chegou suando e arquejante ao pé de sua mãe.

–Está morta!... – bradou triunfante o cacique. –
Jupira!... Jupira!... Jupira!... Onde estás? Mas Jupira já estava
longe.

Capítulo IV

Quando Baguari, perseguindo Jupira, chegou ao lugar em que Jurema se achava,
já era noite e os outros bugres já ali reunidos estavam acendendo
seus fogos.

– Que fizeste a Jupira, que ela me apareceu correndo e chorando, toda
assustada? perguntou Jurema a Baguari.

– Não lhe fiz mal algum, Jurema; ela é arisca e medrosa
como a saracura do brejo.

– Tem medo de ti, porque não sabes amimá-la. A pomba
foge do carcará, que lhe fisga as unhas, mas gosta do trocaz, que a
beija e acaricia.

– Mas porventura sou eu algum jacaré do rio para ela fugir-me
assim, e obrigar-me a negaceá-la como o jaguar que anda à espia
da veada nova?...

– Por essa forma, Baguari, nunca Jupira te quererá.

– Não queira embora; há de ser minha. Para que me deu
Tupã estes olhos, que enxergam mais do que os do gavião, e estes
pulsos mais fortes do que os do canguçu?...

A estas palavras ressoou por entre os outros bugres um murmúrio surdo,
e alguns rosnaram palavras de indignação e de ameaça.
Baguari vibrou sobre eles um olhar de fogo e sangue, e voltando-se para Jurema
e sua filha: – Está bem, – disse; – não quero
mais teimar contigo, Jurema. Vou-me embora para os meus. E tu Jupira fica-te
em paz; não te perseguirei mais. Dou-te seis luas para me esperar e
ai daquele, que ousar tocar-te, e ai de ti, se te entregares a algum! De feito
eram já passados dois meses, e ninguém mais via por aquelas
paragens o sanhudo Baguari. Tinha realmente ido reunir-se a seus companheiros,
cuja residência favorita era para as bandas de Sant’Ana do Parnaíba
próximo à junção dos dois grandes rios.

Jupira pois podia já passear sozinha e desassombrada, e adormecer
tranqüila à sombra da figueira silvestre pelas margens do seu
pátrio Paraná, ela que tinha mais medo do amor de um homem do
que das sanhas do canguçu, das ciladas do sucuri.

Em uma sesta ardente ela estava sozinha sentada à sombra bem junto
à margem do rio. Pendurada a um galho se via perto dela uma pequena
maca, onde dormia um irmãozinho seu, que ela embalava cantando, e enxotando
com um ramo os maribondos e mutucas, que lhe esvoaçavam em torno. Espalhados
pela praia, pendurados ou encostados pelos troncos viam-se armas, redes, esteiras
e mais utensílios indianos, sinal de que a sua horda não devia
andar por longe. De feito, Jurema e seus companheiros tinham-se entranhado
pela floresta à cata de jabuticabas, araticuns, bacuparis e outras
frutas silvestres de que abundam aquelas matas, e deixaram ali Jupira tomando
conta do rancho e vigiando a criança.

Entretida com aquele cuidado Jupira não viu um vulto, que na margem
oposta surgiu da mata, e atirando-se ao rio o veio atravessando sereno e sem
ruído, como um jacaré, mal tendo a cabeça fora da água.

Ao aproximar-se da barranca mergulhou, e Jupira só o viu quando surgindo
fora da água, saltou na praia perto dela. Soltou um grito de susto
cuidando ser algum monstro aquático, que a vinha devorar; porém,
seu terror ainda subiu de ponto, quando naquele vulto reconheceu Baguari,
que se erguia ao pé dela gotejante, gigantesco e hediondo, com os olhos
vermelhos e chamejantes como duas brasas.

– Jupira, hoje é o dia! – bradou o índio lançando-lhe
as mãos. – Hás de ir comigo ou hei de dar-te a comer aos
peixes deste rio.

Jupira tremendo e transida de horror, deixou-se ficar muda e queda, como
a corça que sentiu no cangote a garra aguçada da suçuarana.

– Vamos, Jupira!... desta vez eu te juro não me escaparás
mais.

– Sim, vamos, Baguari; – disse Jupira voltando-se do susto e
recobrando sua natural coragem e resolução. – Devo ser
tua; bem vejo que Tupã me destinou para ti, e que não me é
possível por mais que faça escapar ao teu poder.

– Ah!... enfim!... ainda bem que o conheces. Acompanha-me.

Falando assim Baguari a ia arrastando para a mata.

Presa à barranca estava uma canoa que aqueles indígenas, que
já tinham alguma indústria e possuíam alguma ferramenta,
haviam fabricado.

– Não! para aí não! exclamou Jupira. –
Minha gente não pode tardar a voltar, e ai de nós se nos encontrarem!
matar-nos-ão a mim e a ti!... Entremos naquela canoa, vamos para a
outra banda, e fujamos para bem longe.

Não pareceu má a Baguari aquela proposta.

– Seja como quiseres... mas esse columim?... disse o índio
apontando para a criança.

– Tupã tomará conta dele – respondeu a menina
apontando para o céu.

Entraram na canoa, e Jupira para mostrar que de bom grado acompanhava o
seu roubador, levou para dentro dela seu arco e flechas, e mais utensílios
que lhe pertenciam. Sua intenção porém era precipitar-se
no meio do rio, e deixar-se afogar, no caso que não pudesse matar Baguari.
Chegados que foram ao meio do rio, Jupira debruçccedil;ou-se sobre o bordo
da canoa como para mirar a profundidade das águas. Um forte pé
de vento, que então se levantou, arrancou-lhe da cabeça e atirou
no rio o bonito canitar de penas de arara guarnecido de ouro e pedrarias,
que trouxera da casa de seu pai.

Uma súbita inspiração atravessou o espírito
de Jupira.

– Ah! o meu canitar!... o meu canitar!... exclamou a menina ajuntando
as mãos com mostras de grande lástima.

– O meu canitar, que eu quero tanto... lá se vai pela água
abaixo!... ah! meu Deus, espera, Baguari!... vou ver se o posso apanhar.

Dizendo isto fazia gesto de quem ia lançar-se a nado.

– Espera tu aí, que eu já te trago o teu canitar.

Disse e de um salto atirou-se ao rio. Apenas se havia afastado umas quatro
ou cinco braças da canoa, Jupira toma o arco, e acocha-lhe uma flecha,
que foi cravar-se-lhe na espádua. O índio arrancou um rugido
de dor, e afundou-se por um momento; apenas surgiu de novo à tona da
água, nova flecha voou do arco de Jupira e foi cravar-se na outra espádua
do índio. Nenhuma das flechas porém havia penetrado muito fundo,
e nem lhe tolhiam o movimento dos braços; o índio enfurecido
lançou-se sobre a canoa, a qual também não sendo governada
vinha rapidamente sobre ele levada pela torrente. Quem o visse então
com aquelas duas hastes emplu-madas sobre o dorso, cuidaria ver um dragão
alado arrojando-se sobre a canoa para devorar a infeliz menina. Jupira, que
o esperava em pé com um feroz sorriso de triunfo, deixou-o chegar,
e quando o índio enfurecido ia deitar a mão ao bordo da pequena
igara, descarregou-lhe com toda a força o remo sobre a cabeça
e rebentou-lhe o crânio. O índio desapareceu, e foi surgir um
pouco abaixo à flor da água entre uma multidão de peixes,
que saltitando devoravam o sangue e os miolos que escorriam do crânio
do desventurado cacique.

Capítulo V

O cadáver de Baguari foi rolando longos dias à mercê
da torrente do Paraná, servindo de pasto aos peixes, e de banquete
e batel a um tempo aos urubus, que sobre ele iam boiando rio abaixo, até
que enfim foi encalhar em uma praia arenosa justamente em um lugar, onde então
achavam-se arranchados os seus companheiros. Dir-se-ia, que a mão do
destino para ali o tangera de propósito como para clamar vingança.
Posto que já meio devorado pelos peixes, foi logo reconhecido pelos
seus. Baguari ao partir lhes havia prometido que em menos de três luas
havia de voltar com Jupira; que se até então não aparecesse
é porque o teriam morto, e nesse caso deixava a cargo deles a sua vingança.
De feito voltou, mas sem vida e sem Jupira, e apenas trazendo ainda no dorso
as flechas que ela lhe havia cravado, como em vida havia trazido cravadas
no peito as setas, com que os lindos olhos de Jupira lhe haviam atravessado
o coração.

Apenas os índios o reconheceram, soltaram grandes alaridos de dó,
recolheram o cadáver em uma grande maca, teceram em torno dele danças
fúnebres, e deram-lhe sepultura à sombra de uma velha sucupira.

Feitas as honras fúnebres ao seu valente chefe, aqueles indígenas
trataram logo de marchar pela margem do Rio Grande acima a fim de lhe vingarem
a morte. A horda de Baguari era muito mais numerosa e forte do que o bando
desorganizado em que vivia Jupira, o qual constava de relí-quias de
hordas devastadas e dispersadas pelos brancos. De longo tempo em contato com
os brancos tinham perdido os hábitos belicosos, e grande parte de sua
coragem e fereza selvática. Em breve chegou-lhes aos ouvidos a notícia
de que a gente de Baguari marchava contra eles a fim de vingar a morte de
seu chefe. Fracos e pusilânimes, aqueles restos da família caiapó
não podiam resistir aos robustos e aguerridos Guaianás, que
sobre eles vinham cheios de cólera e sede de vingança, e seriam
infalivelmente exterminados.

Jupira não havia ocultado aos seus a morte do sanhudo Baguari; pelo
contrário, risonha e triunfante lhes narrou com toda a franqueza e
ingenuidade a astúcia de que se valera para livrar para sempre daquele
feroz pretendente. Contando como certa a sua ruína e possuídos
de terror, seus covardes companheiros resolveram mandar um emissário
ao encontro dos inimigos para dar-lhes satisfações e dizer-lhes
que nenhuma parte tinham tido na morte de seu chefe, que fora Jupira a única
autora daquele atentado, e que para aplacar sua justa cólera estavam
prontos a entregar-lhes viva ou morta a criminosa. Este teria sido o destino
da linda caboclinha se um de seus pretendentes, esperando assim fazer jus
à gratidão e ao amor da rapariga, não a tivesse avisado
da bárbara e aleivosa intenção dos seus.

Jupira e sua mãe fugiram para Campo Belo e acolheram-se à
fazenda dos padres, resolvidas a nunca mais voltarem para a companhia de seus
pérfidos companheiros.

Era já a quarta vez que Jupira desde que nascera trocava a selva
pela casa paterna, e a casa pela selva alternativamente. Seu pai a recebeu
com os braços abertos, e sentiu grande alegria em tornar a achar a
filha, na qual já há muito havia perdido as esperanças
de tornar a pôr os olhos em dias de sua vida. Recolheu-a para casa,
e extasiado de sua formosura e do viçoso desenvolvimento de suas esbeltas
formas deu-lhe lindos vestidos e enfeites, que ela de bom grado trocou pelo
curto saiote e pelo canitar de que usava nas selvas, e empregou todos os meios,
todas as carícias e seduções possíveis para fixá-la
de uma vez para sempre no seio da sociedade civilizada.

Se com os trajos selváticos Jupira por seu garbo e gentileza fazia
lembrar uma Moema ou uma Lindóia, vestida à maneira da gente
civilizada era uma rapariga sedutora, capaz de alvoroçar o coração
e inflamar o sangue de um anacoreta. Era alta e muito bem-feita. Os cabelos
negros, corredios e luzentes como asa do anu, eram tão bastos e compridos
que a linda cabocla ainda pouco adestrada na arte de se toucar, via-se em
apuros para acomodá-los sobre sua pequena cabeça e muitas vezes
rebelando-se contra as fitas e prisões, as quebravam e tombando-lhe
pelo colo se derramavam em liberdade pelos nédios e morenos ombros.
Os olhos um pouco levantados nos cantos exteriores, eram bem rasgados, e dardejavam
das pupilas negras lampejos, que denunciavam o ardor de seu temperamento e
uma alma enérgica e resoluta. Os lábios rubros, carnosos, e
úmidos eram como dois favos túrgidos de mel da mais inefável
voluptuosidade, e quando se fendiam em um sorriso mostravam duas linhas de
alvíssimos dentes um pouco aguçados como os dos carnívoros,
e seu sorriso tinha singular e indefinível expressão de ingenuidade
e de selvática fereza. A todos esses encantos, a todas essas linhas
e voluptuosas formas, servia como de brilhante invólucro a tez de uma
cor original, um róseo acaboclado, como que dourado pelos raios do
sol, que dava peregrino relevo à sua linda figura.

Quando ia à missa aos domingos, na pequena capela do seminário
todos os olhos voltavam-se para a interessante cabocla, todos a contemplavam
sorrindo com o mais curioso interesse e complacência. Até mesmo
os seus gestos e ademanes um pouco estouvados, o ar desajeitado e constrangido,
com que vergava as suas vestiduras, tudo nela parecia galante, e encantador.

Se bem que na pia batismal tivesse recebido o nome de Maria, os moradores
de Campo Belo conservavam-lhe sempre o seu nome indígena de Jupira,
por acharem-no mais galante e entenderem que lhe assentava melhor.

É escusado dizer, que não faltaram apaixonados àquela
tão sedutora quão peregrina formosura. Mas como já corria
pela aldeia a história da morte do cacique que às mãos
da frágil menina pagara com a vida a sua audácia, os amantes
de Jupira tinham-lhe certo respeito, e não a requestavam senão
com certa timidez e reserva, se bem que nenhum deles tivesse intenção
de lançar-lhe mãos violentas. Mas aquele episódio de
sua vida rodeando-a de um terrível prestígio servia-lhe de salvaguarda,
e de broquel contra qualquer desacato ao seu pudor.

Entre os amantes de Jupira o mais assíduo, ardente e apaixonado,
e talvez também o mais guapo, o mais rico e considerado de todos, era
um mancebo por nome Quirino, filho de um abastado fazendeiro daqueles arredores.
Era um rapagão alto e bem disposto, de barba cerrada e negra, e pupila
ardente e viva, em que transluzia todo o fogo de sua alma capaz de todos os
extremos.

Quirino amava, não como se ama na cidade, onde se namora muito e
ama-se quase nada, mas como se ama no sertão, em meio da solidão,
debaixo daqueles céus ardentes, no seio daquela natureza esplêndida:
amava com paixão, com fogo. Quirino freqüentava assiduamente a
casa de José Luís, onde cercava a rapariga de mil atenções,
obséquios e adorações, sem que ela nem de leve se mostrasse
sensível a tantas demonstrações de afeto, por mais que
ele empregasse todos os meios ao seu alcance para ganhar-lhe o coração.
A princípio nem lhe passava pelo pensamento casar-se com uma pobre
cabocla filha de uma gentia e criada nos matos.

Porém quanto maior era a insensibilidade e esquivança de Jupira,
mais ardente se tomava a paixão do rapaz, e mais se lhe atiçava
o desejo de possuí-la; estava disposto a empregar todos os meios, a
fazer todos os sacrifícios para esse fim.

Como Jupira tratava todos os outros amantes com a mesma indiferença
e talvez pior do que a ele, Quirino entendeu que toda aquela insensível
esquivança não era senão resultado dos poucos anos e
da selvática timidez e acanhamento da rapariga, e esperava que de modo
nenhum ela recusasse uma proposta de casamento com um moço como ele
era, bem apessoado, rico e de boa família. Depois de ter lutado em
vão por vencer a obstinada indiferença da menina, era aquele
o seu último recurso. Uma vez casado mais fácil lhe seria catequizá-la
e ganhar-lhe a vontade e o coração.

Demais, já esse casamento não lhe parecia tão ridículo
e desigual, pois Jupira era filha legítima de José Luís,
e José Luís empregado do seminário, tinha adquirido alguns
bens de fortuna, e era homem que gozava de respeito e consideração
no lugar. Quirino pois, não hesitou mais um instante, e foi pedir-lhe
a mão de sua filha.

José Luís acolheu com infinita satisfação a
proposta do mancebo; não podia desejar melhor partido nem maior ventura
para sua filha, e foi logo comunicar-lhe a pretensão do moço.

Ela porém com grande pasmo e desgosto de José Luís
recusou-se obstinadamente a semelhante casamento. Foi debalde que José
Luís por muitos dias lutou com ela empregando exortações,
conselhos, súplicas e até por fim repreensões e ameaças
para induzi-la a aceitar a mão de Quirino.

– Meu pai, – disse-lhe ela afinal com um sorriso, que fez arrepiarem-se
as carnes de José Luís, – ninguém será capaz
de dar-me um marido contra a minha vontade; eu já sei como a gente
se livra deles, quando nos querem levar à força!

José Luís assombrado com aquela resposta recolheu-se ao silêncio,
e desistiu do seu propósito.

Check Also

Sobrefusão

Sobrefusão

Definição de Sobrefusão Sobrefusão é o fenômeno em que um líquido perma-nece nesse estado a …

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

dezesseis + 5 =