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Dentro da Noite – João do Rio

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João do Rio

Dentro da noite

Então causou sensação?

Tanto mais quanto era inexplicável. Tu amavas a Clotilde, não?
Ela coitadita! parecia louca por ti e os pais estavam radiantes de alegria.
De repente, súbita transformação. Tu desapareces, a família
fecha os salões como se estivesse de luto pesado. Clotilde chora…
Evidentemente havia um mistério, uma dessas coisas capazes de fazer
os espíritos imaginosos arquitetarem dramas horrendos. Por felicidade,
o juízo geral é contra o teu procedimento.

Contra mim?

Podia ser contra a pureza da Clotilde.

Graças aos deuses, porém, é contra ti. Eu mesmo concordaria
com o Prates que te chama velhaco, se não viesse encontrar o nosso
Rodolfo, agora, às onze da noite, por tamanha intempérie metido
num trem de subúrbio com o ar desvairado…

Eu tenho o ar desvairado?

Absolutamente desvairado.

Vê-se?

É claro. Pobre amigo! Então, sofreste muito? Conta lá.
Estás pálido, suando apesar da temperatura fria, e com um olhar
tão estranho, tão esquisito. Parece que bebeste e que choraste.
Conta lá. Nunca pensei encontrar o Rodolfo Queirós, o mais elegante
artista desta terra, num trem de subúrbio, às onze de uma noite
de temporal. É curioso. Ocultas os pesares nas matas suburbanas? Estás
a fazer passeios de vício perigoso?

O trem rasgara a treva num silvo alanhante, e de novo cavalava sobre os trilhos.
Um sino enorme ia com ele badalando, e pelas portinholas do vagão viam-se,
a marginar a estrada, as luzes das casas ainda abertas, os silvedos

empapados d’água e a chuva lastimável a tecer o seu infindável
véu de lágrimas. Percebi então que o sujeito gordo da
banqueta próxima – o que falava mais – dizia para o outro:

Mas como tremes, criatura de Deus! Estás doente?

O outro sorriu desanimado.

Não; estou nervoso, estou com a maldita crise.

E como o gordo esperasse:

Oh! meu caro, o Prates tem razão! E teve razão a família
de Clotilde e tens razão tu cujo olhar é de assustada piedade.
Sou um miserável desvairado, sou um infame desgraçado.

Mas que é isto, Rodolfo?

Que é isto! É o fim, meu bom amigo, é o meu fim. Não
há quem não tenha o seu vício, a sua tara, a sua brecha.
Eu tenho um vício que é positivamente a loucura. Luto, resisto,
grito, debato-me, não quero, não quero, mas o vício vem
vindo a rir, toma-me a mão, faz-me inconsciente, apodera-se de mim.
Estou com a crise. Lembras-te da Jeanne Dambreuil quando se picava com morfina?
Lembras-te do João Guedes quando nos convidava para as fumeries de
ópio? Sabiam ambos que acabavam a vida e não podiam resistir.
Eu quero resistir e não posso. Estás a conversar com um homem
que se sente doido.

Tomas morfina, agora? Foi o desgosto decerto…

O rapaz que tinha o olhar desvairado perscrutou o vagão. Não
havia ninguém mais – a não ser eu, e eu dormia profundamente…
Ele então aproximou-se do sujeito gordo, numa ânsia de explicações.

Foi de repente, Justino. Nunca pensei! Eu era um homem regular, de bons
instintos, com uma família honesta. Ia casar com a Clotilde, ser de
bondade a que amava perdidamente. E uma noite estávamos no baile das
Praxedes, quando a Clotilde apareceu decotada, com os braços nus. Que
braços! Eram delicadíssimos, de uma beleza ingênua e comovedora,
meio infantil, meio mulher – a beleza dos braços das Oreadas pintadas
por Botticelli, misto de castidade mística e de alegria pagã.
Tive um estremecimento. Ciúmes? Não. Era um estado que nunca
se apossara de mim: a vontade de tê-los só para os meus olhos,
de beijá-los, de acariciá-los, mas principalmente de fazê-los
sofrer. Fui ao encontro da pobre rapariga fazendo um enorme esforço,
porque o meu desejo era agarrar-lhe os braços, sacudi-los, apertá-los
com toda a força, fazer-lhes manchas negras, bem negras, feri-los…
Por quê? Não sei, nem eu mesmo sei – uma nevrose! Essa noite
passei-a numa agitação incrível. Mas contive-me. Contive-me
dias, meses, um longo tempo, com pavor do que poderia acontecer O desejo,
porém, ficou, cresceu, brotou, enraizou-se na minha pobre alma. No
primeiro instante, a minha vontade era bater-lhe com pesos, brutalmente. Agora
a grande vontade era de espetá-los, de enterrar-lhes longos alfinetes,
de cosê-los devagarinho, a picadas. E junto de Clotilde, por mais compridas
que trouxesse as mangas, eu via esses braços nus como na primeira noite,
via a sua forma grácil e suave, sentia a finura da pele e imaginava
o súbito estremeção quando pudesse enterrar o primeiro
alfinete, escolhia posições, compunha o prazer diante daquele
susto de carne que havia de sentir.

Que horror!

Afinal, uma outra vez, encontrei-a na sauterie da viscondessa de Lajes,
com um vestido em que as mangas eram de gaze. Os seus braços – oh!
que braços, Justino, que braços! – estavam quase nus. Quando
Clotilde erguia-os, parecia uma ninfa que fosse se metamorfoseando em anjo.
No canto da varanda, entre as roseiras, ela disse-me: "Rodolfo, que olhar
o seu. Está zangado?" Não foi possível reter o desejo
que me punha a tremer, rangendo os dentes. – "Oh! não! fiz. Estou
apenas com vontade de espetar este alfinete no seu braço." Sabes
como é pura a Clotilde. A pobrezita olhou-me assustada, pensou, sorriu
com tristeza: – "Se não quer que eu mostre os braços por
que não me disse há mais tempo, Rodolfo? Diga, é isso
que o faz zangado?" – "É , é isso, Clotilde."
E rindo – como esse riso devia parecer idiota! – continuei: "É
preciso pagar ao meu ciúme a sua dívida de sangue. Deixe espetar
o alfinete." "Está louco, Rodolfo?" "Que tem?"
"Vai fazer-me doer" "Não dói." "E o
sangue?" "Beberei essa gota de sangue como a ambrosia do esquecimento."
E dei por mim, quase de joelhos, implorando, suplicando, inventando frases,
com um gosto de sangue na boca e as fontes a bater, a bater… Clotilde por
fim estava atordoada, vencida, não compreendendo bem se devia ou não
resistir Ah! meu caro, as mulheres! Que estranho fundo de bondade, de submissão,
de desejo, de dedicação inconsciente tem uma pobre menina! Ao
cabo de um certo tempo, ela curvou a cabeça, murmurou num suspiro:
"Bem. Rodolfo, faça… mas devagar, Rodolfo! Há de doer
tanto!". E os seus dois braços tremiam.

Tirei da botoeira da casaca um alfinete, e nervoso, nervoso como se fosse
amar pela primeira vez, escolhi o lugar, passei a mão, senti a pele
macia e enterrei-o. Foi como se fisgasse uma pétala de camélia,
mas deu-me um gozo complexo de que participavam todos os meus sentidos. Ela
teve um ah! de dor, levou o lenço ao sítio picado, e disse,
magoadamente: "Mau!"

Ah! Justino, não dormi. Deitado, a delícia daquela carne que
sofrera por meu desejo, a sensação do aço afundando devagar
no braço da minha noiva, dava-me espasmos de horror! Que prazer tremendo!
E apertando os varões da cama, mordendo a travesseira, eu tinha a certeza
de que dentro de mim rebentara a moléstia incurável. Ao mesmo
tempo em que forçava o pensamento a dizer: nunca mais farei essa infâmia!
todos os meus nervos latejavam: voltas amanhã; tens que gozar de novo
o supremo prazer! Era o delírio, era a moléstia, era o meu horror..

Houve um silêncio. O trem corria em plena treva, acordando os campos
com o desesperado badalar da máquina. O sujeito gordo tirou a carteira
e acendeu uma cigarreta.

Caso muito interessante, Rodolfo. Não há dúvida de
que é uma degeneração sexual, mas o altruísmo
de S. Francisco de Assis também é degeneração
e o amor de Santa Tereza não foi outra coisa. Sabes que Rousseau tinha
pouco mais ou menos esse mal? É mais um tipo a enriquecer a série
enorme dos discípulos do marquês de Sade. Um homem de espírito
já definiu o sadismo: a depravação intelectual do assassinato.
É um Jack hipercivilizado, contenta-se com enterrar alfinetes nos braços.
Não te assustes.

O outro resfolegava, com a cabeça entre as mãos.

Não rias, Justino. Estás a tecer paradoxos diante de uma criatura
já do outro lado da vida normal. E lúgubre.

Então continuaste?

Sim, continuei, voltei, imediatamente. No dia seguinte, à noitinha,
estava em casa de Clotilde, e com um desejo louco, desvairado. Nós
conversávamos na sala de visitas. Os velhos ficavam por ali a montar
guarda. Eu e a Clotilde íamos para o fundo, para o sofá. Logo
ao entrar tive o instinto de que podia praticar a minha infâmia na penumbra
da sala, enquanto o pai conversasse. Estava tão agitado que o velho
exclamou: "Parece, Rodolfo, que vieste a correr para não perder
a festa."

Eu estava louco, apenas. Não poderás nunca imaginar o caos
da minha alma naqueles momentos em que estive a seu lado no sofá, o
maelstrom de angústias, de esforços, de desejos, a luta da razão
e do mal, o mal que eu senti saltar-me à garganta, tomar-me a mão,
ir agir, ir agir… Quando ao cabo de alguns minutos acariciei-lhe na sombra
o braço, por cima da manga, numa carícia lenta que subia das
mãos para os ombros, entre os dedos senti que já tinha o alfinete,
o alfinete pavoroso. Então fechei os olhos, encolhi-me, encolhi-me,
e finquei. Ela estremeceu, suspirou. Eu tive logo um relaxamento de nervos,
uma doce acalmia. Passara a crise com a satisfação, mas sobre
os meus olhos os olhos de Clotilde se fixaram enormes e eu vi que ela compreendia
vagamente tudo, que ela descobria o seu infortúnio e a minha infâmia.
Como era nobre, porém! Não disse uma palavra. Era a desgraça.
Que se havia de fazer?…

Então depois, Justino, sabes? foi todo o dia. Não lhe via a
carne mas sentia-a marcada, ferida. Cosi-lhe os braços! Por último
perguntava: – "Fez sangue, ontem?" E ela pálida e triste,
num suspiro de rola: "Fez"… Pobre Clotilde! A que ponto eu chegara,
na necessidade de saber se doera bem, se ferira bem, se estragara bem! E no
quarto, à noite, vinham-me grandes pavores súbitos ao pensar
no casamento porque sabia que se a tivesse toda havia de picar-lhe a carne
virginal nos braços, no dorso, nos seios… Justino, que tristeza!…

De novo a voz calou-se. O trem continuava aos solavancos na tempestade, e
pareceu-me ouvir o rapaz soluçar. O outro porém estava interessado
e indagou:

Mas então como te saíste?

Em um mês ela emagreceu, perdeu as cores. Os seus dois olhos negros
ardiam aumentados pelas olheiras roxas. Já não tinha risos.
Quando eu chegava, fechava-se no quarto, no desejo de espaçar a hora
do tormento. Era a mãe que a ia buscar. "Minha filha, o Rodolfo
chegou. Avia-te." E ela de dentro: "Já vou, mãe".
Que dor eu tinha quando a via aparecer sem uma palavra! Sentava-se à
janela, consertava as flores da jarra, hesitava, até que sem forças
vinha tombar a meu lado, no sofá, como esses pobres pássaros
que as serpentes fascinam. Afinal, há dois meses, uma criada viu-lhe
os braços, deu o alarme. Clotilde foi interrogada, confessou tudo numa
onda de soluços. Nessa mesma tarde recebi uma carta seca do velho desfazendo
o compromisso e falando em crimes que estão com penas no código.

E fugiste?

Não fugi; rolei, perdi-me. Nada mais resta do antigo Rodolfo. Sou
outro homem, tenho outra alma, outra voz, outras idéias. Assisto-me
endoidecer Perder a Clotilde foi para mim o soçobramento total. Para
esquecê-la percorri os lugares de má fama, aluguei por muito
dinheiro a dor das mulheres infames, freqüentei alcouces. Até
aí o meu perfil foi dentro em pouco o terror As mulheres apontavam-me
a sorrir, mas um sorriso de medo, de horror.

A pedir, a rogar um instante de calma eu corria às vezes ruas inteiras
da Suburra, numa enxurrada de apodos. Esses entes querem apanhar do amante,
sofrem lanhos na fúria do amor, mas tremem de nojo assustado diante
do ser que pausadamente e sem cólera lhes enterra alfinetes. Eu era
ridículo e pavoroso. Dei então para agir livremente, ao acaso,
sem dar satisfações, nas desconhecidas. Gozo agora nos tramways,
nos music-halls, nos comboios dos caminhos de ferro, nas ruas. E muito mais
simples. Aproximo-me, tomo posição, enterro sem dó o
alfinete. Elas gritam, às vezes. Eu peço desculpa. Uma já
me esbofeteou. Mas ninguém descobre se foi proposital. Gosto mais das
magras, as que parecem doentes.

A voz do desvairado tomara-se metálica, outra.

De novo porém a envolveu um tremor assustado.

Quando te encontrei, Justino, vinha a acompanhar uma rapariga magrinha.
Estou com a crise, estou… O teu pobre amigo está perdido, o teu pobre
amigo vai ficar louco…

De repente, num entrechocar de todos os vagões o comboio parou. Estávamos
numa estação suja, iluminada vagamente. Dois ou três empregados
apareceram com lanternas rubras e verdes. Apitos trilaram. Nesse momento,
uma menina loira com um guarda-chuva a pingar, apareceu, espiou o vagão,
caminhou para outro, entrou. O rapaz pôs-se de pé logo.

Adeus.

Saltas aqui?

Salto.

Mas que vais fazer?

Não posso, deixa-me! Adeus!

Saiu, hesitou um instante. De novo os apitos trilaram. O trem teve um arranco.
O rapaz apertou a cabeça com as duas mãos como se quisesse reter
um irresistível impulso. Houve um silvo. A enorme massa resfolegando
rangeu por sobre os trilhos. O rapaz olhou para os lados, consultou a botoeira,
correu para o vagão onde desaparecera a menina loira. Logo o comboio
partiu. O homem gordo recolheu a sua curiosidade, mais pálido, fazendo
subir a vidraça da janela. Depois estendeu-se na banqueta. Eu estava
incapaz de erguer-me, imaginando ouvir a cada instante um grito doloroso no
outro vagão, no que estava a menina loira. Mas o comboio rasgara a
treva com o outro silvo, cavalgando os trilhos vertiginosamente. Através
das vidraças molhadas viam-se numa correria fantástica as luzes
das casas ainda abertas, as sebes empapadas d’água sob a chuva torrencial.
E à frente, no alto da locomotiva, como o rebate do desespero, o enorme
sino reboava, acordando a noite, enchendo a treva de um clamor de desgraça
e de delírio.

Emoções

Ontem, às 6 horas da tarde, fui buscar ao club da rua do Passeio o
velho barão Belfort, que me prometera mostrar, três dias antes,
sua cara coleção de esmaltes árabes. O barão jogava
e perdia com um moço febril, que à lapela trazia um crisântemo
amarelo, da cor da sua tez. Ao ver-me, disse amavelmente:

– Estamos a jogar. O Oswaldo ganha como um inglês e com a alucinação
de um brasileiro. Estou perdendo e apreciando este bom Oswaldo, que ainda
tem emoções.

Os seus olhares seguiam, frios e argutos, o jogo do bom Oswaldo, e, a cada
cartada, tamborilando os dedos na mesa, Belfort sorria um sorriso mau, entre
desconfiado e satisfeito. De repente, porém, as pupilas acenderam-se-lhe.
Pôs as duas mãos nervosas na mesa, e perguntou, enquanto mais
pálido o moço estacava:

– E tu não jogas?

– Não.

– Fazes bem. Um escritor do tempo de Balzac dizia que o jogo era para a mocidade
o veneno da perdição. O veneno! ora vê tu, o veneno!

Sorriu com delicadeza.

– O Oswaldo permite? Vou embora sem mais um real. Até amanhã.
E não deixe de tomar água de flor de laranja…

Levantou-se, mirou as unhas brunidas, mirou a gravata, e saiu, deixando o
jovem só naquele salão que o pleno verão tomara deserto.
Acompanhei-o, não sem olhar para trás. O moço pendia
a cabeça na sombra, e assim pálido, como um pálido crisântemo,
os seus olhos tinham chispas de susto e de prazer.

Embaixo, no vestiário, o barão deixou que lhe enfiassem o paletó,
mandou chamar o coupé, e partimos discretamente, sob a tarde luminosa
e cor-de-pérola. Belfort aconchegou-se à almofada de cetim malva,
acendeu uma cigarrilha do Egito com o seu monograma em ouro e, enquanto o
carro rodava, indagou:

– Que tal achaste o Oswaldo? É o meu estudo agora. Havia meia hora
que me roubava escandalosamente… Não lhe disse nada. Ainda é
possível salvá-lo…

– Quer perdê-lo? indaguei habituado às excentridades desse álgido
ser.

– Oh! não, quero gozá-lo. Tu sabes, o homem é um animal
que gosta. O gosto é que varia. Eu gosto de ver as emoções
alheias, não chego a ser o bisbilhoteiro das taras do próximo,
mas sou o gozador das grandes emoções de em tomo. Ver sentir,
forçar as paixões, os delírios, os paroxismos sentimentais
dos outros é a mais delicada das observações e a mais
fina emoção.

– Oh! ser horrível e macabro!

– Seja; horrível, macabro, mas delicado. É por isso que eu
não quero perder o Oswaldo, quero apenas gozá-lo. Preciso não
limitar a minha ação humana aos passeios pelo Oriente, às
coleções autênticas e a alguns deboches nos restaurantes
de grão tom. Mas daí a perdê-lo, c’est tropfort…

– Pois não imagina o mal que fez ao pobre Oswaldo. O rapaz estava
horrivelmente pálido!

– Tal qual como o outro. Que exemplar, meu caro! que caso admirável!
Esse pequeno há seis meses odiava o víspora. Hoje tem a voracidade
de ganhar, e tamanha que já rouba. Amanhã arde, queima, rebenta
numa banca de jogo. Ah! o jogo! É o único instinto de perdição
que ainda desencadeia tempestades nos nervos da humanidade. O Oswaldinho é
tal qual o outro, o chinês, a minha última observação.

– O chinês?

Belfort soprou o fumo da cigarrilha, sorrindo.

– Imagina que vai para um ano fui apresentado a um rapaz chamado Praxedes,
filho de uma chinesa e de um negociante português em Macau.

O homem falava inglês, estava no comércio e vinha de Shangai,
com um carregamento de poterias e bronzes por contrabando, para vender. Simpatizei
com ele. Era imberbe, ativo, paciente, dizia a cada instante frases amáveis
e casara com uma interessante rapariga, a Clotilde – Clô para os íntimos.
Conversou da China, dos boxers, confessou o contrabando e levou-me a vê-lo.
Que vida feliz a daquele casal!

O Praxedes saía pela manhã, trabalhava, voltava para o jantar
e não se largava mais de junto da Clô. Não tinha um vício,
nunca tivera um vício, era um chinês espantoso, sem dragões
e sem vícios! Estudei-o, analisei-o. Nada. Legislativamente moral.

Uma noite em que o convidara para jantar, jogávamos. Adivinharia alguém
que cratera esperava o momento de rebentar nessa alma tranqüila? A senhora,
a Clotilde, cantava no meu piano, com voz triste, a ária do suicídio
da detestável Gioconda. Eu estava receoso que depois surgissem variações
sobre o bailado das Horas. Disse-lhe despreocupado – "Quer jogar?"

"Não sei". "É sempre agradável ensinar
mesmo o vício". – "Então ensine". Pegou das cartas,
olhou-as indiferente, mas as minhas palavras ouvia-as desvanecedoramente.
Jogamos a primeira partida. Os seus olhos começaram a luzir. Jogamos
outra. – "Mas isso assim sem dinheiro? Ponhamos dois tostões".
– "Pois seja". Perdi. "Redobra se a parada? ""Oito
tostões?"

"Sim". – "Pois seja". À meia-noite jogávamos
a dez mil-réis, e Clotilde, muito cansada, já sem cantar, fazia
inúteis esforços para o arrancar à mesa.

Deitei-me sem conclusões, e só no dia seguinte, quando o chinês
enleado apareceu pedindo outra partida, é que compreendi o assombro.
A paixão estalara, – a paixão voraz, que corrói, escorcha,
rebenta… Invejei-o, e, como homem delicado, joguei e perdi. No outro dia,
Praxedes voltou. Levei-o ao club à roleta, donde saiu a ganhar pela
madrugada.

Ah! meu caro, que cena! que fina emoção! O jogo, quando empolga,
domina e envolve o homem, é o mais belo vício da vida, é
o enlouquecedor espetáculo de uma catástrofe sempre iminente,
de um abismo em vertigem. O chinês era patético. Com os dedos
trêmulos, assoando-se de vez em quando, os olhos embaciados, quase vítreos,
o Praxedes rouquejava num estertor silvante que parecia agarrar-se desesperadamente
à bola: 27, 15, 2ª dúzia! 27, 15, 2ª dúzia!
E a bola corria, e a alma do pobre esfacelava-se na corrida, esforçando-se,
puxando-a para o número desejado, num esforço que o tomava roxo…

Jantei no club só para não perder algumas horas o interesse
desse espetáculo. Também durante três dias e três
noites. Praxedes não deixou a roleta. Estava pálido, fraco.
A gente do club, vendo-o ganhar, ganhar mesmo uma fortuna, já o tratava
de dom Praxedes. Ao cabo de uma semana, entretanto, a chance desandou. Praxedes
começou a perder bruscamente com gestos de alucinado, espalhando as
fichas como quem arranca pedaços da própria carne.

– "Calma, meu caro, dizia-lhe eu". " Impossível! impossível!"
murmurava ele.

Pediu-me dinheiro, dei-o, pediu a outros, deram-lho. Pediu mais

deixou de ser o dom Praxedes, recebeu recusas brutas. Acabou não voltando
mais ao club. Eu, porém, sentia-o em outros antros, definitivamente
preso à sua cruz de horror, à cruz que cada homem tem de carregar
na vida…

Certa noite, meses depois, encontrei-o numa batota da rua da Ajuda, com

o fato enrugado e a gravata de lado. Correu para mim, "Foi Deus que
o trouxe. Estou farto de peruar Isto de mirone não me serve. Empreste-me
cinqüenta mil-réis para arrumar tudo no 00. Ah! está dando
hoje escandalosamente. Faremos uma vaca? Vai dar pela certa."

Agarrou a nota como um desesperado, precipitou-se na roda que cercava o tableau
da direita: "Tenho aqui cincoentão; esperem!" E caiu por
cima dos outros, com o braço esticado.

O duble-zero falhou. Ele voltou cínico: "É preciso insistir;
deixe ver mais algum. Não dá? Olhe, escute aqui, hipoteco-lhe
uma mobília de quarto, serve?"

– Compreendi então a descabida vertigem daquela queda. Tive pena.
Arrastei-o quase à força para a rua, fi-lo contar-me a vida.
Estava desempregado, abandonara o emprego, vendera o mobiliário, as
jóias da Clô, os vestidos, as roupas, mudara-se para uma casa
menor e alugara a sala da frente. A cábula, a má sorte, a guigne
perseguiam-no, e, pendido ao meu braço o miserável soluçava:
– "Havemos de melhorar, empreste-me algum. Estou sem níquel!"

Deixei-o sem níquel, mas fui ao outro dia ver a Clotilde, uma flor
de beleza, com os olhos vermelhos de chorar e as roupas já estragadas.
Ia sair, arranjar dinheiro… – "E seu marido?" – "Meu marido
está perdido. Anda por aí a jogar. Há dois dias não
o vejo; hoje não comi…" – "Abandone-o!" – "Abandoná-lo
eu? E a sociedade, e ele? Que seria dele?" – "Ora, ele!" -"Ele
ama-me, ama-me como dantes. Mas que quer? Veio-lhe a desgraça. As vezes
brigo, mas ele diz-me: Ai! Clô, que hei de fazer? É uma força,
uma força que me puxa os músculos. Parece que desenrolaram uma
bola de aço dentro de mim, tenho de jogar. E cai em prantos, por aí,
tão triste, tão triste que até lhe vou arranjar dinheiro,
que saio a pedir…"

É espantoso, pois não? O homem tinha uma bola de aço
e a fidelidade da mulher! Só esses seres especiais conseguem coisas
tão difíceis!

Um instante o barão calou-se. O coupé rolava pela praia, e
a noite, caindo, desdobrava por sobre o mar a talagarça fuliginosa
das primeiras sombras. – Respeitei a Clotilde, por sistema, já assustado
com as proporções emocionais do marido. Ao outro dia, porém,
Praxedes, com sorrisinhos equívocos na face escaveirada: "Esteve
com a Clô, hem? Conservada apesar da desgraça, a minha mulherzinha,
pois não9 Recuei assombrado. Aquele homem bom, digno no fundo, aquele
homem que amava a mulher, para arranjar dinheiro com que satisfazer as cartas
e a roleta, mercandejava-a aberta, cínica, despejadamente. – "Que
queres tu? indaguei áspero, tem vergonha, vai, some-te!"

"Eu hipoteco uma mobília. Só quinhentos, só quinhentos!"

Era a alucinação. Corri-o, e esperei ansioso, como quem espera
o final de uma tragédia, porque tinha a certeza do paroxismo daquele
vício. Afinal há de haver seis meses, antes do meu encontro
com o Oswaldo, li, na cama às 3 da manhã, este bilhete desesperado:
"Venha. Praxedes matou-se. Estou sem ninguém. Acuda-me. – Clô".

Ai! menino, não sei o que senti. A minha vontade era ver, era saber,
era acabar logo. Precipitei-me. Quando cheguei, às voltas com a polícia
que queria levar o corpo para o Necrotério, Clotilde, desgrenhada,
com os lábios em sangue, caiu nos meus braços. – "Então,
como foi isso?" "Sei lá como foi! Tinha que ser! A desgraça!
Estava doido. Hipotecou a mobília, os juros eram semanais. Não
arranjei dinheiro e o judeu levou-a. Dormi no chão. Ontem não
apareceu. Hoje estava eu a dormir quando o senti que caminhava. Risquei o
fósforo. Era ele, lívido, embrulhando a casaca do casamento.
Não sei o que me deu. – "Onde vais?"

– "Vou ver se arranjo uns cobres, respondeu. Preciso jogar, sinto uma
ânsia, não posso mais." – "Estás doido!"
Não estou, Clô, não estou, fez ele arregalando os olhos.
Eu fui cruel: olha que se vendes a casaca ficas sem roupa para o enterro.
Ele parou. "Para o enterro? para o meu enterro? É melhor mesmo,
é melhor mesmo, eu não posso mais!" E, de repente, desesperado,
começou a bater com a cabeça pelas paredes. Praxedes! Praxedes!
Não faças isso! Praxedes! Gritei, solucei. Qual! Cada vez arrumava
o crânio com mais força de encontro às quinas das portas.
O som, ah! esse som como me ensandece! Ainda o ouço! E ele todo em
sangue, todo em sangue… Agarrei-o. Arrastou-me até à janela,
voltou-se, deixou-se cair em cheio com a nuca na sacada, esticou o pescoço
desesperadamente e rodou…

"Oh! o horror! salve-me! salve-me!"

Abri o grupo dos agentes, fui ver Praxedes. Estava cor-de-cera, com a cabeça
fendida e os lábios coagulados de sangue roxo. E o olhar vítreo,
a mão recurva, assim, sob a luz da madrugada, pareciam seguir ainda
e acompanhar o mal a que o impelira a sua bola de aço.

Esse record de emoção desesperada prostrou-me. Nunca vi sentir
tão vertiginosamente.

O carro parara. O barão saltou, subiu devagar as escadas de mármore,
enquanto no interior do palacete retiniam campainhas elétricas.

– Preciso sentir vendo os outros sentir, fez mirando-se no alto espelho do
vestiário. Só assim tenho emoções. Garanto-te
que o Oswaldo acaba como o chinês de Macau, mas por outro meio – com
a morfina talvez. Só os chineses morrem às cabeçadas
por sentir demais!

E fomos jantar tranqüilamente na sua mesa florida de cravos e anêmonas
brancas.

História de gente alegre

– O terraço era admirável. A casa toda parecia mesmo ali pousada
à beira dos horizontes sem fim como para admirá-los, e a luz
dos pavimentos térreos, a iluminação dos salões
de cima contrastava violenta com o macio esmaecer da tarde. Estávamos
no Sman-Club, estávamos ambos no terraço do Smart-Club, esse
maravilhoso terraço de vila do Estoril, dominando um lindo sítio
da praia do Russel – as avenidas largas, o mar, a linha ardente do cais e
o céu que tinha luminosidades polidas de faiança persa. Eram
sete horas. Com o ardente verão ninguém tinha vontade de jantar.
Tomava-se um aperitivo qualquer, embebendo os olhos na beleza confusa das
cores do ocaso e no banho viride de todo aquele verde em redor. As salas lá
em cima estavam vazias; a grande mesa de bacará, onde algumas pequenas
e alguns pequenos derretiam notas do banco – a descansar. O soalho envernizado
brilhava. Os divãs modorravam em fila encostados às paredes
– os divãs que nesses clubes não têm muito trabalho. Os
criados, vindos todos de Buenos Aires e de S. Paulo, criados italianos, marca
registrada como a melhor em Londres, no Cairo, em New York, empertigavam-se.
E a viração era tão macia, um cheiro de salsugem polvilhava
a atmosfera tão levemente, que a vontade era de ficar ali muito tempo,
sem fazer nada. Mas a noite já estendia o seu negro brocado picado
de estrelas e no plein-air do terraço começavam a chegar os
smart-diners. Que curioso aspecto! Havia franceses condecorados, de gestos
vulgares, ingleses de smoking e parasita à lapela, americanos de casaca
e também de brim branco com sapatos de jogar o foot-ball e o lawn-tennis,
os elegantes cariocas com risos artificiais, risos postiços, gestos
a contragosto do corpo, todos bonecos vítimas da diversão chantecler,
os noceurs habituais, e os michés ricos ou jogadores, cuja primeira
refeição deve ser o jantar, e que apareciam de olheiras, a voz
pastosa, pensando no bac chemin de fer; no 9 de cara e nos pedidos do último
béguin. O prédio, mais uma "vila’ da bacia do Mediterrâneo,
ardia na noite serena, parecia a miragem dos astros do alto; as toalhas brancas,
os cristais, os baldes de cristofle tinham reflexos. Por sobre as mesas corria
como uma farândola fantasista de pequenas velas com capuchons coloridos,
e vinha de cima uma valsa lânguida, uma dessas valsas de lento inebriar,
que adejam vôos de mariposas e têm fermatas que parecem espasmos.
No meio daquela roda de homens, que se cumprimentavam rápidos, dizendo
apenas as últimas sílabas das palavras: – B’jour; Plo… deus!
goo, iam chegando as cocottes, as modernas Aspásias da insignificância.
Algumas vinham a arrastar vestidos de cinco mil francos; outras tinham atitudes
simplistas dos primitivos italianos. Havia na sombra do terraço, um
desfilar de figuras que lembravam Rossetti e Helleu, Mirande e Hermann-Paul,
Capielo e Sem, Julião e também Abel Faivre, porque havia cocottes
gordas, muito gordas e pintadas, ajaezadas de jóias, suando e praguejando.
Falavam todas as línguas estrangeiras – o espanhol, o francês,
o italiano, até o alemão com o predomínio do parigot,
do argot, da langue verte. Só se falava mesmo calão de boulevard.
Fora, à entrada, paravam as lanternas carbunculantes dos autos, havia
fonfons roucos, arrancos bruscos de máquinas H.P 6o. Aquele ambiente
de internacionalismo à parisiense cheio do rumor de risos, de gluglus
de garrafas, de piadas, era uma excitação para a gente chique.
O barão André de Belfort, elegantíssimo na sua casaca
impecável, convidara-me para um jantar a dois em que se conversasse
de arte antiga – porque ele tinha estudos pessoais sobre a noção
da linha na Grécia de Péricles. Evidentemente, antes de terminar
o jantar teríamos a mesa guarnecida por alguma daquelas figurinhas
escapas de Tanagra ou qualquer dos gordos monstros circulantes…

De súbito, porém na alegria do terraço ouvi por trás
de mim, uma voz de mulher dizer:

– Pois então não sabes que a Elsa morreu hoje de madrugada?

Não me voltei. A mulher conversava noutra mesa. Mas senti um pasmo
assustado. Elsa! Seria a Elsa d’Aragon, uma carnação maravilhosa
de dezoito anos, lançada havia apenas um mês por um manager de
music hall, cuja especialidade sexual era desvirginar meninas púberes?
Seria ela com os seus olhos verdes, a pele veludosa de rosa-chá e aquela
esplêndida cabeleira negra de azeviche? E morrer em plena apoteose,
cheia de jóias e de apaixonados! Indaguei do meu conviva:

– Morreu a Elsa d’Aragon?

O barão Belfort encomendava enfim o cardápio. Acabou tranqüilamente
agrave operação, descansou o monóculo em cima da mesa.

– Exatamente. Parece que a apreciavas? Pobre rapariga! Foi com efeito ela.
Morreu esta madrugada.

– De repente?

– Com certeza. Devia ter sido uma linda morte. Beleza horrível. Não
se fala noutra coisa hoje nas pensões de artistas, em todos os conventilhos
elegantes patronados pelas velhas cocottes ricas, nas rodas dos jogadores.
A Elsa era muito nature, com a fobia do artificio, mas soube morrer furiosamente.

– Como foi?

Neste momento chegara a "bisque" e o balde com a Moet, brut imperiale,
que o velho dândi bebe sempre desde o começo do jantar.

O barão atacou a "bisque", deu não sei que ordem
ao maitre-d’ hôtel, e murmurou:

– É uma história interessante. Você decerto ainda não
quis fazer a psicologia da mulher alegre atirando-se a todos os excessos por
enervamento de não ter o que fazer? Quase todas essas criaturas, altamente
cotadas ou apenas da calçada, são, como direi? as excedidas
das preocupações. Estão sempre enervadas, paroxismadas.
O meio é atrozmente artificial, a gargalhada, o champagne, a pintura
encobrem uma lamentável pobreza de sentimentos e de sensações.
Ao demais, a vida tem um regulamento geral de excessos, e elas fatalmente
pela lei, têm que fazer pagar caro e arruinar os idiotas, têm
de amar um rapazola miserável que lhes coma a chelpa e as bata, têm
que embriagar-se e discutir os homens, os negócios das outras, tudo
mais ou menos exorbitando. Uma paixão de cocotte é sempre caricatural,
é sempre para além do natural, do verdadeiro, e a sua pobre
vida, tenha ela centenas de contos ou viva sem um real pelas bodegas reles,
é sempre uma hipótese falsificada de vida, uma espécie
de fjord num copo d’água, à luz elétrica. Todas amam
de modo excepcional, jogam excessivamente, embriagam-se em vez de beber, põem
dinheiro pela janela afora em vez de gastar, quando choram, não choram,
uivam, ganem, cascateiam lágrimas. Se têm filhos, quando os vão
ver fazem tais excessos que deixam de ser mães, mesmo porque não
o são. Duas horas depois os pequenos estão esquecidos. Se amam,
praticam tais loucuras que deixam de ser amantes, mesmo porque não
o são. Elas têm várias paixões na vida. Cinco anos
de profissão acabam com a alma das galantes criaturinhas. Não
há mais nada de verdadeiro. Uma interessante pequena pode se resumir:
nome falso, crispação de nervos igual à exploração
dos "gigolôs" e das proprietárias, mais dinheiro apanhado
e beijos dados. São fantoches da loucura movidos por quatro cordelins
da miséria humana.

– A Elsa, então?

– A Elsa foi atirada subitamente numa pensão do Catete. Sabes o que
é a vida em casas de tal espécie. Elas acordam para o almoço,
em que aparecem vários homens ricos. O almoço é muito
em conta, os vinhos são caríssimos.

A obrigação é fazer vir vinhos. Desde manhã elas
bebem champagne e licores complicados. Nesses almoços discute-se a
generosidade, a tolice, ou a voracidade dos machos. A tarde é dada
a um ou a dois. Às cinco toilette e o passeio obrigatório. À
noite, o jantar em que é preciso fazer muito barulho, dançar
entre cada serviço ou mesmo durante, dizer tolices. Depois o passeio
aos music-halls, com os quais têm contrato as proprietárias,
e a obrigação de ir a um certo club aquecer o jogo. Cada uma
delas tem o seu cachet por esse serviço e são multadas quando
vão a outro – que, como é de prever, paga a multa. O resto é
ainda o homem até dormir. Nesse fantochismo lantejoulado há
vários gêneros: o doidivana, o sério, o reservado, o nature,
o romântico, e para encher o vazio, os vícios bizarros surgem.
Elas ou tomam ópio, ou cheiram éter, ou se picam com morfina,
e ainda assim, nos paraísos artificiais são muito mais para
rir, coitadas! mais malucas no manicômio obrigatório da luxúria.
A Elsa era do gênero nature. Ancas largas, pele sensível, animal
sem vícios. Tentou os petimetres, os banqueiros fatigados, os rapazes
calvos e, com oito dias estava com os nervos esgarçados, estava excedida.
Mesmo porque, desde a primeira hora olhava-a com seu olhar de mona a Elisa,
a interessante Elisa.

– Ah!

– Elisa é um tipo talvez normal nesse ambiente. Tem os cabelos cortados,
usa eternamente um gorro de lontra. Nunca a vi com uma jóia e sem o
seu tailleur cor-de-castanha. É feia, não deve agradar aos homens,
mas presta-se a todos os pequenos serviços dessas damas. Escreve cartas,
arranja entrevistas, tem conhecimentos, e dizem-na com todos os vícios,
desde o abuso do éter até o unissexualismo. Ora, era Elisa com
os seus dois olhos mortos e velados que olhava Elsa, e Elsa sentia uma extraordinária
repugnância, um nojo em que havia medo ao mais simples contato. Elisa
sorria, a Elisa que está sempre nesses lugares, sem colete com o seu
corpo de andrógino morto. E era em toda parte aquele mesmo olhar acompanhando
Elsa, pregando-se a todos os seus gestos, lambendo cada atitude da criatura.
Uma noite, as duas Lacroix Ducerny, as que vestem sempre iguais e fazem fortuna
em comum, asseguraram-me que Elisa já não servia para nada,
perdida, louca de paixão; e, com grande pasmo meu ao entrar num club
ultra-infame, eu vi a Elsa com um conhecido banqueiro e, muito naturalmente,
Elisa ao lado. Era a aproximação…

– Safa!

– Meu caro, nada de repugnâncias. Prove este faisão. Está
magnífico. Ora, ontem, no Casino, como a pobre Elsa estava totalmente
fora dos nervos e com um vestido verdadeiramente admirável, tive prazer
em ir apertar-lhe a mão. – "Então, como vai com esta vida?"
– "Como vê, muito bem." – Mas está nervosa." –
"Há de ser de falta de hábito. Acabo por acostumar."
– ‘Com um tão belo físico…" – "Não seja mau,
deixe os cumprimentos." E de súbito: – "Diga-me, barão,
não há um meio da gente se ver livre disto? Não posso,
não tenho mais liberdade, já não sou eu. Hoje, por exemplo,
tinha uma imensa vontade de chorar." – "Chore, é uma questão
de nervos. Ficará decerto aliviada." – "Mas não é
isso, não é isso, homem!" – "Se a menina continua
a gritar, participo-lhe que vou embora." – "Não, meu amigo,
perdoe. E que eu estou tão nervosa! tanto! tanto… Queria que me desse
um conselho." – "Para quê?" – "Para aliviar-me."

– "É difícil. Você sofre de um mal comum, a surmenagem
do artifício. Eu podia dizer-lhe: recolha-se a um convento. Mas pareceria
brincadeira e talvez viesse a morrer mística, a conversar com os anjos,
como Swdenborg. Conheci algumas que acabaram assim. Podia também, se
fosse um idiota, aconselhar a vida honesta. Mas isso seria impossível
porque o pesar de ter saído desta em que o desperdício é
a norma, a saudade e as lembranças deixá-la-iam amargurada.
Depois não tem recursos e teria sempre que pôr em circulação
o seu lindo capital."

– "Barão, por quem é, fale-me sinceramente."

– "Então, minha filha, aconselho uma paixão ou um excesso,
um belo rapaz ou uma extravagância." – "Nesta roda não
há belos rapazes." – "De acordo, há quando muito velhos
recém-nascidos. Mas é recorrer à multidão, passar
uma noite percorrendo os bairros pobres, experimentar. Ou então, minha
cara, um grande excesso: champagne, éter ou morfina…" Voltei-me
para a sala. Num camarote fronteiro a Elisa olhava com os seus dois olhos
de morta. "E se não a repugna muito uma grande mestra dos paraísos
artificiais, a Elisa." – "Não fale alto, que ela percebe."
– "Então já a sabia lá?"

"Corri-a ontem do meu quarto. É um demônio." – "Mas
você precisa de um demônio."

– "O que ela faz…" – "Já sei, toda a gente faz. Mas
naturalmente ela é excepcional." – "Barão, vá
embora." – "Adeus, minha querida." Quando dei a volta para
falar a Elisa, já esta deixara vazio o camarote.

– E então, como morreu a linda criatura?

– Aceitando o meu conselho. A sua morte pertence ao mistério do quarto,
mas devia ser horrível. Elsa partiu do music-hall diretamente para
casa, pretextando ao banqueiro que lhe ia pôr um pequeno palácio,
a forte dor de cabeça – a clássica migraine das cocottes enfaradas
ou excedidas. E apareceu na ceia da pensão como uma louca, a mandar
abrir champagne por conta própria. Quando por volta de uma hora apareceu
a figura de larva da Elisa, deu um pulo da cadeira, agarrou-lhe o pulso: "Vem;
tu hoje és minha!" Houve uma grande gargalhada. Essas damas e
mais esses cavalheiros tinham uma grande complacência com a Elisa, e
aquela vitória excitava-os. Elisa molemente sentou-se ao lado da Elsa,
que bebia mais champagne, sentia afrontações e torcia os dedos
da apaixonada por baixo da mesa. Era o desespero. Mimi Gonzaga assegurou-me
que ela recebera uma carta da mãe logo pela manhã. No fim, Elsa,
pálida e ardente, dizia: "Viens, mon chéri, que e te baise!"
e mordia raivosamente o pescoço da Elisa. Via-se a repugnância,
raiva com que ela fazia a cena de Lesbos – pobre rapariga sem inversões
e estetismos a Safo… A ceia acabou em espetáculo, e acabaria com
todos os espectadores, se algumas mulheres com ciúmes dos seus senhores
– ah! como elas são idiotas! – não os tivessem levado. Elsa
às duas e meia fez erguer-se a Elisa, calada e misteriosamente fria.
"Vão tomar morfina?" interrogou um dos assistentes, "cuidado,
hem?" Elsa deu de ombros, sorriu, saiu arrastando a outra. E a desaparição
foi teatral ainda. Os olhos verdes da Elisa bistrados, a sua cabeleira desnastra,
agarrando com um desespero de bacante a pastosidade oleosa e aloirada da miserável
que a queria.

– Que horror!

– A coitadinha aturdia-se. E o processo habitual. Para mostrar a sua livre
vontade caía na extravagância, agarrava o tipo que a repugnava,
para mergulhar inteiramente no horror. Estive quase a acreditar que tivesse
recebido alguma lembrança dos parentes, e imaginei um instante a cena
sinistramente atroz do quarto enfim, como uma larva diabólica, o polvo
loiro da roda iria arrancar um pouco de vida àquela linda criatura
ardente, ainda com uns restos d’alma de mulher… Nunca porém pensei
no fim súbito.

– Pelas cinco horas da manhã, a pensão acordava a uns gemidos
roucos, que vinham do quarto de Elsa. Eram bem gritos estertorados de socorro.
As mulheres desceram em fralda, os criados ergueram-se com o sorriso cínico
habituado àquelas madrugadas agitadas de ataques e de delírios
histéricos. A porta do quarto estava fechada. Bateram, bateram muito,
enquanto lá dentro o som rouco rouquejava. Foi preciso arrombar a porta.
E a cena fez recuar no primeiro momento a tropa do alcouce. Como luz havia
apenas a lamparina numa redoma rosa. O quarto, cheio de sombra, mostrava,
em cima das poltronas, as sedas e os dessous de renda da Elsa. Um frasco de
éter aberto, empestava o ambiente. A Elisa, o corpo da Elisa estava
de joelhos à beira da cama. Os braços pendiam como dois tentáculos
cortados. Inteiramente nua, o corpo divino lívido, os cabelos negros
amarrados ao alto como um casco de ébano, Elsa d’Aragon, as pernas
em compasso, a face contraída ainda sentada garrava com as duas mãos
numa crispação atroz, a cabeça da Elisa. Era Elisa que
rouquejava. Elsa estava bem morta, o corpo já frio. Devia ter havido
luta, resistência de Elsa, triunfo da mulher loira e por fim sem fim
até a morte. enquanto a outra se estorcia, apertava-a, arrancava-lhe
os cabe1os, machucava-lhe o rosto – aquele horror. Elsa entrara do nada debatendo-se,
vitima de um suplício diabólico, mas no último espasmo
as suas mãos agarram a assassina. Quando esta afinal satisfeita quis
erguer-se, sentiu-se presa pelos cabelos, tentou lutar, viu que a pobre era
cadáver. E passou-se então para o monstro o momento do indizível
terror, o momento em que se vê para sempre o mundo perdido porque ficou
imóvel rouquejando, de joelhos, a cabeça no regaço do
cadáver, que mantinha nas mãos cerradas a massa dos seus cabelos
de ouro. Os dedos de resto pareciam de aço. Uma das mulheres recorreu
à tesoura para despegar a cabeça de Elisa das mãos do
cadáver. Quando o corpo tombou no leito com um punhado de cabeleira
nas mãos, o bando estremunhado viu surgir a face de Elisa, tão
decomposta, tão velha que parecia outra, como que aparvalhada.

Houve um silêncio. O criado servia frutas geladas, esplêndidas
pêras de Espanha e uvas das regiões vinhateiras da Burgonha,
grandes uvas negras. O barão trincou de uma pêra.

– Foi uma complicação para afastar a polícia e impedir
noticias nos jornais que desmoralizariam a casa. Elisa seguiu horas depois
para o hospício, babando e estertorando. A Elsa devia ter sido enterrada
hoje à tarde. Estive lá a ver o cadáver. Tinha ainda
nas mãos cerradas fios de cabelos loiros, como se quisesse arrancar
para o túmulo a prova desesperada da sua morte horrível.

E mordeu com apetite a pêra. No salão de cima uma valsa lenta,
chorada pelos violinos, enlanguecia o ar. Das mesas do terraço entre
a iluminação bizantina das velas de capuchons coloridos subia
o zumbido alegre feito de risos e de gorjeios de todas aquelas mulheres que
o jantar alegrava.

O Feitiço

Nós dependemos do Feitiço.

Não é um paradoxo, é a verdade de uma observação
longa e dolorosa. Há no Rio magos estranhos que conhecem a alquimia
e os filtros encantados, como nas mágicas de teatro, há espíritos
que incomodam as almas para fazer os maridos incorrigíveis voltarem
ao tálamo conjugal, há bruxas que abalam o invisível
só pelo prazer de ligar dois corpos apaixonados, mas nenhum desses
homens, nenhuma dessas horrendas mulheres tem para este povo o indiscutível
valor do Feitiço, do misterioso preparado dos negros.

É provável que muita gente não acredite nem nas bruxas,
nem nos magos, mas não há ninguém cuja vida tivesse decorrido
no Rio sem uma entrada nas casas sujas onde se enrosca a indolência
malandra dos negros e das negras. É todo um problema de hereditariedade
e psicologia essa atração mórbida. Os nossos ascendentes
acreditaram no arsenal complicado da magia da idade média, na pompa
de uma ciência que levava à forca e às fogueiras sábios
estranhos, derramando a loucura pelos campos; os nossos avós, portugueses
de boa fibra, tremeram diante dos encantamentos e amuletos com que se presenteavam
os reis entre diamantes e esmeraldas. Nós continuamos fetiches no fundo,
como dizia o filósofo, mas rojando de medo diante do Feitiço
africano, do Feitiço importado com os escravos, e indo buscar trêmulos
a sorte nos antros, onde gorilas manhosos e uma súcia de pretas cínicas
ou histéricas desencavam o futuro entre cágados estrangulados
e penas de papagaio!

Vivi três meses no meio dos feiticeiros, cuja vida se finge desconhecer,
mas que se conhece na alucinação de uma dor ou da ambição,
e julgo que seria mais interessante como patologia social estudar, de preferência,
aos mercadores da paspalhice, os que lá vão em busca de consolo.

Vivemos na dependência do Feitiço, dessa caterva de negros e
negras, de babaloxás e iauô, somos nós que lhe asseguramos
a existência, com o carinho de um negociante por uma amante atriz. O
Feitiço é o nosso vício, o nosso gozo, a degeneração.
Exige, damos-lhes; explora, deixamo-nos explorar, e, seja ele maitre-chanteur,
assassino, larápio, fica sempre impune e forte pela vida que lhe empresta
o nosso dinheiro.

Os feiticeiros formigam no Rio, espalhados por toda a cidade, do cais à
Estrada de Santa Cruz.

Os pretos, alufás ou orixás, degeneram o maometismo e o catolicismo
no pavor dos aligenum, espíritos maus, e do exu, o diabo, e a lista
dos que praticam para o público não acaba mais. Conheci só
num dia a Isabel, a Leonor, a Maria do Castro, o Tintino, da rua Frei Caneca;
o Miguel Pequeno, um negro que parece os anões de D. Juan de Byron;
o Antônio, mulato conhecedor do idioma africano; Obitaiô, da rua
Bom Jardim; o Juca Aboré, o Alamijo, o Abede, um certo Maurício,
ogan de outro feiticeiro – o Brilhante, pai-macumba dos santos cabindas; o
Rodolfo, o Virgílio, a Dudu do Sacramento, que mora também na
rua do Bom Jardim; o Higino e o Breves, dois famosos tipos de Niterói,
cuja crônica é sinistra; o Oto Ali, Ogan-Didi, jogador da rua
da Conceição; Armando Ginja, Abubaca Caolho, Egidio Aboré,
Horácio, Oiabumin, filha e mãe-de-santo atual da casa de Abedé;
Ieusimin, Torquato Arequipá, Cipriano, Rosendo, a Justa de Obaluaei,
Apotijá, mina famoso pelas suas malandragens, que mora na rua do Hospício,
322 e finge de feiticeiro falando mal do Brasil; a Assiata, outra exploradora,
a Maria Luiza, sedutora reconhecida, e até um empregado dos Telégrafos,
o famoso pai Deolindo…

Toda essa gente vive bem, à farta, joga no bicho como Oloô-Teté,
deixa dinheiro quando morre, às vezes fortunas superiores a cem contos,
e achincalha o nome de pessoas eminentes da nossa sociedade, entre conselhos
às meretrizes e goles de parati. As pessoas eminentes não deixam,
entretanto, de ir ouvi-los às baiucas infectas, porque os feiticeiros
que podem dar riqueza, palácios e eternidade, que mudam a distância,
com uma simples mistura de sangue e de ervas, a existência humana, moram
em casinholas sórdidas, de onde emana um nauseabundo cheiro.

Para obter o segredo do feitiço, fui a essas casas, estive nas salas
sujas, vendo pelas paredes os elefantes, as flechas, os arcos pintados, tropeçando
em montes de ervas e lagartos secos, pegando nas terrinas sagradas e nos obélês,
cheios de suor.

– V. S., se deseja saber quais são os principais feitiços,
é preciso acostumar-se antes com os santos, dizia-me o africano.

Acostumei-me. São inumeráveis. As velhas que lhes discutem
o preço em conversa, até confundem as histórias. Em pouco
tempo estava relacionado com Exu, o diabo, a que se sacrifica no começo
das funçanatas, Obaluaiê, o santo da varíola, Ogum, o
deus da guerra, Oxóocí, Eíulé, Oloro-quê,
Obalufan, Orixá-agô, Exu-maré, Orixá-ogrinha Aíra,
Orominha, Ogodô, Oganju, Baru, Orixalá, Bainha, Dadá,
Percuã, Coricotó, Doú, Alabá, Ari e as divindades
beiçudas, esposas dos santos – Aquará, Oxum-gimoun, Aíá-có,
a mãe da noite, Inhansam, Obi-am, esposa de Orixá-lá;
Orainha, Ogango, Jená, mulher de Elôquê; Io-máo-já,
a dona de Orixáocô; Oxum de Xangô e até Obá,
que, príncipe neste mundo, é no éter hetairia do formidável
santo Ogodô.

Os fetiches contaram-me a história de Orixá-alum, o maior dos
santos que aparece raras vezes só para mostrar que não é
de brincadeiras, e eu assisti às cerimônias do culto, em que
quase sempre predomina a farsa pueril e sinistra. Diante dos meus olhos de
civilizado, passaram negros vestidos de Xangô, com calça de cor,
saiote encarnado enfeitado de búzios e lantejoulas, avental, babadouro
e gorro; e esses negros dançavam com Oxum, várias negras fantasiadas,
de ventarolas de metal na mão esquerda e espadinha de pau na direita.
Concorri para o sacrifício de Obaluaiê, o santo da varíola,
um negro de bigode preto com a roupa de Polichinelo e uma touca branca orlada
de urtigas. O santo agitava uma vassourinha, o seu xaxará, e nós
todos em derredor do babaloxá víamos morrer sem auxílio
de faca, apenas por estrangulamento, uma bicharada que faria inveja ao Jardim
Zoológico.

Os africanos porém continuavam a guardar o mistério da preparação.

– Vamos lá, dizia eu, camarário, como é que faz para
matar uni cidadão qualquer?

Eles riam, voltavam o rosto com uns gestos quase femininos.

– Sei lá!

Outros porém tagarelavam:

– V. S. não acredita? É que ainda não viu nada. Aqui
está quem fez um deputado! O…

Os nomes conhecidos surgiam, tumultuavam, empregos na polícia, na
Câmara, relações no Senado, interferências em desaguisados
de famílias notáveis.

– Mas como se faz isso?

– Então o senhor pensa que a gente diz assim o seu meio de vida?

E imediatamente aquele com quem eu falava, descompunha o vizinho mais próximo
– porque, membros de uma maçonaria de defesa geral, de que é
chefe o Ojó da rua dos Andradas, os pretos odeiam-se intimamente, formam
partidos de feiticeiros africanos contra feiticeiros brasileiros, e empregam
todos os meios imagináveis para afundar os mais conhecidos.

Acabei julgando os babaloxás sábios na ciência da feitiçaria
como o Papa João XXII e não via negra mina na rua sem recordar
logo o bizarro saber das feiticeiras de d’Annunzio e do Sr. Sardou. A lisonja,
porém, e o dinheiro, a moeda real de todas as maquinações
dessa ópera pregada aos incautos, fizeram-me sabedor dos mais complicados
feitiços.

Há feitiços de todos os matizes, feitiços lúgubres,
poéticos, risonhos, sinistros. O feiticeiro joga com o Amor, a Vida,
o Dinheiro e a Morte, como os malabaristas dos circos com objetos de pesos
diversos. Todos entretanto são de uma ignorância absoluta e afetam
intimidades superiores, colocando-se logo na alta política, no clero
e na magistratura. Eu fui saber, aterrado, de uma conspiração
política com os feiticeiros, nada mais nada menos que a morte de um
passado presidente da República. A principio achei impossível,
mas os meus informantes citavam com simplicidade nomes que estiveram publicamente
implicados em conspirações, homens a quem tiro o meu chapéu
e aperto a mão. Era impossível a dúvida.

– O presidente está bem com os santos, disse-me o feiticeiro, mas
bastava vê-lo à janela do palácio para que dois meses
depois ele morresse.

– Como?!

– E difícil dizer. Os trabalhos dessa espécie fazem-se na roça,
com orações e grandes matanças. Precisa a gente passar
noites e noites a fio diante do fogareiro, com o tessubá na mão,
a rezar. Depois matam-se os animais, às vezes um boi que representa
a pessoa e é logo enterrado. Garanto-lhe que dias depois o espírito
vem dizer ao feiticeiro a doença da pessoa.

– Mas por que não matou?

– Porque os caiporas não me quiseram dar sessenta contos.

– Mas se você tivesse recebido esse dinheiro e um amigo do governo
desse mais?

– O feitiço virava. A balança pesa tudo e pesa também
dinheiro. Se Deus tivesse permitido a essa hora, os somíticos estariam
mortos.

Esse é o feitiço maior, o envoutement solene e caro. Há
outros, porém, mais em conta.

Para matar um cavalheiro qualquer, basta torrar-lhe o nome, dá-lo
com algum milho aos pombos e soltá-los numa encruzilhada. Os pombos
levam a morte… É poético. Para ulcerar as pernas do inimigo
um punhado de terra do cemitério é suficiente. Esse misterioso
serviço chama-se etu, e os babaloxás resolvem todo o seu método
depois de conversar com os iffá, uma coleção de 12 pedras.
Quando os iffá estão teimosos, sacrifica-se um cabrito metendo
as pedras na boca do bicho com alfavaca de cobra.

Os homens são em geral volúveis. Há o meio de os reter
per eternum sujeitos à mesma paixão, o effifá, uma forquilha
de pau preparada com besouros, algodão, linhas e ervas, sendo que durante
a operação não se deve deixar de dizer o ojó,
oração. Se eu amanhã desejar a desunião de um
casal, enrolo o nome da pessoa com pimenta-da-costa, malagueta e linha preta,
deito isso ao fogo com sangue, e o casal dissolve-se; se resolver transformar
Catão, o honesto, no mais desbriado gatuno, arranjo todo esse negócio
apenas com um bom tira, um rato e algumas ervas! E maravilhoso.

Há também feitiços porcos, o mantucá, por exemplo,
preparado com excremento de vários animais e coisas que a decência
nós salva de dizer; e feitiços cômicos como o terrível
xuxuguruxu… Esse faz-se com um espinho de Santo Antônio besuntado
de ovo e enterra-se à porta do inimigo, batendo três vezes e
dizendo:

– Xuxuguruxu io le bará….

Para ô homem ser absolutamente fatal, D. Juan, Rotschild, Nicolau II
e Morny, recolhi com carinho uma receita infalível; É mastigar
orobó quando pragueja, trazer alguns tiras ou breves escritos em árabe
na cinta, usar do ori para o feitiço não pegar, ter aléni
do xorá, defesa própria, o essiqui, cobertura e o irocó,
defumação das roupas, num fogareiro cm que se queima azeite-de-dendê,
cabeças de bichos e ervas, visitar os babaloxás e jogar de vez
em quando o até ou a praga. Se apesar de tudo isso a amante desse homem
fugir, há um supremo recurso: espera-se a hora do meio-dia e crava-se
um punhal detrás da porta.

Mas o que não sabem os que sustentam os feiticeiros, é que
a base, o fundo de toda a sua ciência é o Livro de S. Cipriano.
Os maiores alufás, os mais complicados pais-de-santo, têm escondida
entre os tiras e a bicharada uma edição nada fantástica
do S. Cipriano. Enquanto criaturas chorosas esperam os quebrantos e as misturadas
fatais os negros soletram o S. Cipriano, à luz dos candeeiros…

O feitiço compõe-se apenas de ervas arrancadas ao campo depois
de lá deixar dinheiro para o saci, de sangue, de orações,
de galos, cabritos, cágados, azeite-de-dendê e do livro idiota.
É o desmoronamento de um sonho!

Os feiticeiros, porém, pedem retratos, exigem dos clientes coisas
de uma depravação sem nome para agir depois fazendo o egum,
ou evocação dos espíritos, o maior mistério e
a maior pândega dos pretos; e quase todos roubam com descaro, dando
em troco de dinheiro sardinhas com pó-de-mico, cebolas com quatro pregos
espetados, cabeças de pombo em salmoura para fortalecer o amor, uma
infinita série de extravagâncias. Os trabalhos são tratados
como nos consultórios médicos: a simples consulta de seis a
dez mil réis, a morte de homem segundo a sua importância social
e o recebimento da importância por partes. Quando é doença,
paga-se no ato – porque os babaloxás são médicos, e curam
com cachaça, urubus, penas de papagaio, sangue e ervas.

A policia visita essas casas como consultante. Soube nesses antros que um
antigo delegado estava amarrado a uma paixão, graças aos prodígios
de um galo preto. A polícia não sabe pois que alguns desses
covis ficam defronte de casas suspeitas, que há um tecido de patifarias
inconscientes ligando-as. Mas não é possível a uma segurança
transitória acabar com um grande vício como o Feitiço.
Se um inspetor vasculhar amanhã os jabotis e as figas de uma das baiúcas,
à tarde, na delegacia os pedidos choverão…

Eu vi senhoras de alta posição saltando, às escondidas,
de carros de praça, como nos folhetins de romances, para correr, tapando
a cara com véus espessos, a essas casas; eu vi sessões em que
mãos enluvadas tiravam das carteiras ricas notas e notas aos gritos
dos negros malcriados que bradavam.

– Bota dinheiro aqui!

Tive em mãos, com susto e pesar, fios longos de cabelos de senhoras
que eu respeitava e continuarei a respeitar nas festas e nos bailes, como
as deusas do Conforto e da Honestidade. Um babaloxá da costa da Guiné
guardou-me dois dias às suas ordens para acompanhá-lo aos lugares
onde havia serviço, e eu o vi entrar misteriosamente em casas de Botafogo
e da Tijuca, onde, durante o inverno, há recepções e
conversationes às 5 da tarde como em Paris e nos palácios da
Itália. Alguns pretos, bebendo comigo, informavam-me que tudo era embromação
para viver, e, noutro dia, tílburis paravam à porta, cavalheiros
saltavam, pelo corredor estreito desfilava um resumo da nossa sociedade, desde
os homens de posição às prostitutas derrancadas, com
escala pelas criadas particulares. De uma vez mostraram-me o retrato de uma
menina que eu julgo honesta.

– Mas para que isso?

– Ela quer casar com este.

Era a fotografia de um advogado.

– E vocês?

– Como não quer dar mais dinheiro, o servicinho está parado.
A pequena já deu trezentos e cinqüenta.

Tremi romanticamente por aquela ingenuidade que se perdia nos poços
do crime à procura do Amor…

Mas esse caso é comum. Encontrei papelinhos escritos em cursivo inglês,
puro Coração-de-Jesus, cartões-bilhetes, pedaços
de seda para misteres que a moralidade não pode desvendar. Eles diziam
os nomes com reticências, sorrindo, e eu acabei humilhado, envergonhado,
como se me tivessem insultado.

– A curiosidade tem limites, disse a Antônio que desaparecera havia
dias para levar aos subúrbios umas negras. Se eu dissesse metade do
que vi, com as provas que tenho!… Continuar é descer o mesmo abismo
vendo a mesma cidade misteriosamente rojar-se diante do Feitiço…
Basta!

– V. S. não passou dos primeiros quadros da revista. É preciso
ver as loucuras que o Feitiço faz, as beberagens que matam, os homicídios
nas camarinhas que nunca a polícia soube; é preciso chegar à
apoteose. Venha…

E Antônio arrastou-me pela rua, do General Gomes Carneiro

A Casa das Almas

Os negros "cambindas" do Rio guardam com terror a história
de um branco que lhes apareceu certa vez em pleno sertão africano.
Quando o rei deu por ele, que por ali vinha calmo, com as suas barbas de sol,
precipitou-se mais a tribo em atitude feroz. O branco tirou da cinta um pequeno
feitiço de metal e prostrou morto, golfando sangue, o babaláo.

– Exu! Exu! ganiu a tribo, recuando de chofre.

– Quem és tu, santo que eu não conheço? perguntou trêmulo
o poderoso rei.

– Sou o que pode tudo, bradou o branco. Vê.

Estendeu a mão de novo e matou outros negros.

– Só te deixarei em paz se me mostrares todos os teus feitiços.

Sua Majestade, apavorada, levou-o à tenda real e durante o dia e durante
a noite, sem parar, lhe deu tudo quanto sabia.

– Perdôo-te, disse o branco. Adeus! Levo para o mistério a rainha.

Aconchegou o feitiço, que parecia egum, o deus da guerra, no seio
da preferida, deixou-a cair, e partiu devagar pela estrada a fora…

Não precisei dos meios violentos do Caramuru da África, para
saber do mais terrível mistério da religião dos minas:
– o egum ou evocação das almas. Naquela mesma noite em que encontrara
Antônio, o negro serviçal levou-me a uma casa nas imediações
da praia de Santa Luzia.

– Em tudo é preciso mistério, dizia ele. V. S. vai à
casa do babaloxá, finge acreditar e depois é convidado para
uma cerimônia na casa das almas. Poderá então ver o segredo
da pantomima. Quem descobre o segredo do egum, morre. Eu me arrisco a morrer.

A sua voz era trêmula.

– Tens medo?

– Não, mas se morrer amanhã, todos os feiticeiros dirão
que foi o feitiço. Do egum depende toda a traficância. O negro
parou. Não imagina! Abubáca Caolho, que mora na rua do Resende,
é um dos tais. Quando há uma morte, vai logo dizer que foi quem
a fez. Se fôssemos acreditar nas suas mentiras, Abubáca tinha
mais mortes no costado que cabelos na cabeça. V. S. já o viu.
É um negro que usa gravata do lado e pontas – as roupas velhas dos
outros… Apotijá é outro.

– Mas há desse gênero de morte, Antônio? indaguei eu acendendo
o cigarro com um gesto shakespereano.

– Ora se há! Vou provar quando quiser. De morte misteriosa lembro
a Maria Rosa Duarte, sogra do mama Pão Baltazar, alufá muito
amigo de um político conhecido; o Salvador Tapa, a Esperança
Laninia, Larê-quê, Fantuchê, o Jorge da rua do Estácio,
Ougu-olusaim… Todos morreram por ter descoberto o egum. Na Bahia, então,
esses assassinatos são comuns. Hei de lembrar sempre o velho feiticeiro
Aguidi, coitado! Era dos que sabem. Um dia, farto de viver, descobriu a traficância
e logo depois morria no incêndio do Tabão, com os braços
cruzados, impassível e a sorrir. Aguidi na minha língua significa:
– o que quer morrer… Ele quis.

Pela praia de Santa Luzia o luar escorria silenciosamente, e de leve o vento,
sacudindo as folhas das árvores em melancólico sussurro, entristecia
Antônio.

– Ah! meu senhor. Não é só por causa do egum que negro
mata. Quando as iauô não andam direito, quando não fingem
bem, quase nunca escapam de morrer. Há vários processos de morte,
a morte lenta, com beberagens e feitiços diretos, a morte na camarinha
por sufocação… Muitos negros apertam uma veia que a gente
tem no pescoço e dentro de um minuto qualquer pessoa está morta.
Outros dependuram as criaturas e elas ficam bracejando no ar com os olhos
arregalados.

A Morte e a Loucura nem sempre se limitam ao estreito meio dos negros. As
beberagens e o pavor atuam suficientemente nas pessoas que os freqüentam.
A Assiata, uma negra baixa, fula e presunçosa, moradora à rua
da Alfândega, dizem os da sua roda que pôs doida na Tijuca uma
senhora distinta, dando-lhe misturadas para certa moléstia do útero.
Apotijá, o malandro da rua do Hospício, que aproveita os momentos
de ócio para descompor o Brasil, tem também uma vastíssima
coleção de casos sinistros.

A Morte e todas as vesânias não são apenas os sustentáculos
dos seus ritos e das suas transações religiosas, são
também o meio de vida extra-cultual, o processo de apanhar heranças.
Alikali, lemamo atual dos alufás, e Amando Ginja, cujo nome real é
Fortunato Machado, quando morre negro rico vão logo à polícia
participar que não deixou herdeiros. Alikali é testamenteiro
de quase todos e bicho capaz de fazer amuré com as negras velhas, só
para lhes ficar com as casas. A certidão de óbito é dada
sem muitas observações.

– Mas, você conhece mais feiticeiros, Antônio?

– Pois não! O João Mussê, alufá feiticeiro tremendo,
que mora na rua Senhor dos Passos, 222 e é respeitado por todos; Obalei-ié,
Obio Jamin, Ochu-Toqui, Ochu-Bumin, Emin-Ochun, Oumigi, Obitaiô-homem,
Obitaiô-mulher, Ochu Taiodé, a Ochu-boheió, da rua do
Catete, Siê, Xangô-Logreti, Ajagum-baru, Eçu-hemin, Angelina,
o ogan Conrado… Mais de cem feiticeiros, mais cem.

– Quase todos com os nomes dos santos…

– Os negros usam sempre o nome do santo que têm no corpo…

Mas de repente Antônio parou entre as árvores.

– Temos ebó de iê-man-já. A negralhada vem ….. Se quer
ver, esconda-se detrás de algum tronco.

Com efeito, sentiam-se vozes surdas ao longe, cantando.

O despacho, ou ebó, da mãe-d’Água salgada, é
um alguidar com pentes, alfinetes, agulhas, pedaços de seda, dedais,
perfumes, linhas, tudo o que é feminino.

Detrás da árvore, pouco depois eu vi aparecer no plenilúnio
a teoria dos pretos. À frente vinha uma com o alguidar na cabeça,
e cantavam baixo.

Baô de ré se equi je-man-já
Pelé bé Apotá auo yo tô toro fym la cho
Ere…

Era o ofertório. Ao chegar à praia, na parte em que há
uns rochedos, a negra desceu, depositou o alguidar. Uma onda mais forte veio,
bateu, virou o vaso de barro, quebrou-o, levou as linhas e todos balbuciaram,
rojando:

– Iê-man- já!

A santa aparecera na fosforescência lunar, agradecendo…

Depois os sacerdotes ergueram-se, reuniram e nós ficamos de novo sós,
enquanto o oceano rugia e, ao longe, tristemente a canzoada ladrava.

– Ainda apanhamos o candomblé, disse Antônio. É preciso
que o babaloxá convide V. S. para o egum…

Noutro dia, pouco mais ou menos à meia-noite, estávamos no
ilê-saim ou casa das almas.

O egum é uma cerimônia quase pública, a que os feiticeiros
convidam certos brancos para presenciar a pantomima do seu extraordinário
poder. Esses curiosos fetiches, que para fazer o guincho de santo Ossaim amarram
nas pernas bonecas de borracha, com assobio; cujos santos são uni produto
de bebedeiras e de hipnose, têm na evocação dos espíritos
a máxima encenação da sua força sobre o invisível.
Quando morre alguém, quando todos estão diante do corpo, um
dos pretos esconde-se e dá um grito. No meio da confusão geral,
então, mudando a voz, esse negro grita:

– Emim, toculoni mopé, cá-um-pé, emim! Eu que morri
hoje, quero que chamem por mim.

Os donos do defunto arranjam o dinheiro para a evocação, pessoas
estranhas ajudam também com a sua quota para aproveitar e saber do
futuro. O babaloxá não faz o egum enquanto não tem pelo
menos trezentos mil réis. Arranjada a quantia, começa a cerimônia.

Quando entramos na sala das almas, à luz fumarenta dos candeeiros
a cena era estranha. Havia brancas, meretrizes de grandes rodelas de carmim
nas faces, mulatas em camisa, mostrando os braços com desenhos e iniciais
em azul dos proprietários do seu amor, e negros, muitos negros. Estes
últimos, sentados em roda do assoalho, estavam quase nus, e algumas
negras mesmo inteiramente nuas com os seios pendentes e a carapinha cheia
de banha.

– Por que estão eles assim?

– Para mais facilmente receber o espírito.

Junto à porta do fundo, três negros de vara em punho quedavam-se
estáticos. Eram os annichans, que faziam guarda ao saluin ou quarto-dos-espíritos.
Ouvi dentro do saluin um barulho de pratos, de copos tocados, de garrafas
desarrolhadas; um momento pareceu-me ouvir até o estouro forte do champanha
barato.

– Há gente lá dentro?

– As almas. Está-se banqueteando. O banquete foi pago pelos presentes.
Mas, psiu! Daqui a pouco começarão as cantigas, que ninguém
compreende. Os africanos inventam nomes para a cena parecer mais fantástica.

Com efeito, minutos depois, aos primeiros sons dos atabaques, as negras bradaram:

– Aluá! o espírito! e romperam uma cantiga assustadora e trôpega.

Anu-ha, a o ry au od á
San-ná-elê-o ou baba
Locá-aló

A porta continuava fechada, mas eu vi surgir de repente um negro vestido
de dominó com os pés amarrados em panos. Os três annichans
ergueram as varas, o dominó macabro começou a bater a sua no
chão, os xeguedês sacudiram-se, e outra cantiga estalou medrosa:

Lou-â gége ou-rou ó uá
Xó la-ry la-ry lary
Que què oura ô uchô
La-ry la mamau rú nam babá

Quando o santo aos pulos aproximava-se de alguma mulher, ela recuava bradando
com desespero:

– Afapão!

– Vão aparecer as almas, avisou Antônio, a cantiga diz: Procuramos
a alma de Fulano e de Sicrano e não a encontramos dormindo. Cansamos
sem saber o mistério que a envolvia. A alma está aqui e entrou
pela porta do quintal.

– Mas quem é este dominó?

– É Baba-Egum. As almas têm vários cargos. O que traz
uma gamela chama-se Ala-té-orum, o 2.º Opocó-echi, o 3.º
Eguninhansan, e no meio de sete espíritos aparece o invocado.

Entretanto o dominó Baba-Egum batia furiosamente no chão com
a sua vara de marmelo, e no alarido aumentado apareceu aos pulos outro dominó,
o Alabá, que por sua vez também se pôs a bater. Era o
ritual da entrega das almas. Por fim apareceu Ousaim, enfiado numa fantasia
de bebê, de xadrez variado, com duas máscaras: uma nas costas,
outra tapando o rosto.

– Quem é esse?

– O Bonifácio da Piedade, um malandro de cavaignac, que faz sempre
de Eruosaim.

Eruosaim também dançava. Entre as cantigas, os annichans ergueram
de novo as varas, a porta abriu-se, dois negros ficaram um de cada lado, o
atafim, ou confidente, e o anuxam, secreta. De dentro saíram mais três
dominós cheios de figas e espelhinhos, com os pés embrulhados
nos trapos. As negras aterrorizadas uivavam, com o amarelo dos olhos virados
e os espíritos, naquela algazarra, pareciam cambalear. Havia gente
porém que os reconhecia.

– Eles fingem os gestos dos mortos, segredou-me Antônio. Palmas ressoavam
estridentes saudando a chegada do invisível, as varas de marmelo lanhavam
o ar e as almas, e naquele círculo silvante, ao som dos xeguedés
e dos atabaques batiam surdamente no chão aos pulos da dança
demoníaca.

Um dos espíritos, porém, sentiu-se numa espécie de trono
de mágica. Como por encanto a dança cessou e naquela pávida
atmosfera, em que o medo gemia, as mulheres de borco, os homens contorsionados,
o negro fantasiado guinchou do alto.

– Guilhermina ocê percisa gostá de Antônio… José
tem que fazê ebô para espírito mau.

Chica, um home há de vi aí, ocê vai com ele…

– Veja V. S. a chantage, murmurou Antônio. Os negros recebem dinheiro
antes dos homens e obrigam as criaturas pelo terror a tudo quanto quiserem.
Por isso quem descobre o egum, morre.

A Chica, uma mulatinha, coitada! tremia convulsivamente, mas já outras,
nuas, em camisa, sacudindo os membros lassos, ganiam de longe, batendo as
varas num terror exaustivo.

– E eu? e eu?

– E eu? e eu?

– Ocê tá dereita, sua vida vai pr’a frente.

– E eu? e eu? gargolejaram outras bocas em estertores.

– Ocê está pra traz, percisa ebô.

Aproximei-me de um dos espíritos; cheirava a espírito de vinho;
estava literalmente bêbedo.

Quando a cerimônia atingia ao desvario e já os espíritos
tinham pastosidade na voz, caiu na sala, como um bedengó, Inhansam,
um negro fingindo de santo materializado e, em meio do pavor geral, ao som
das cantigas, esticou a mão sinistra, foi pedindo a cada criatura 16
obis, 16 orobôs, 16 galos, 16 galinhas, 16 pimentas-de-costa, 16 mil
réis, um cabrito, um carneiro. Ao chegar às meretrizes brancas,
Inhansam ferozmente exigia peças de chita, fazendas e objetos caros.
A turba gritava toda: Inhansam! Inhansam! gente nova entrava na sala, e de
repente, como todos se voltassem a um grito da porta, os espíritos
desapareceram… Tinham fugido tranqüilamente pelo corredor.

– Está acabado, fez Antônio. Os espíritos vão
se despir, e voltam daí a pouco para ver se o pessoal acreditou mesmo…

A cena mudara entretanto. Dissipado o sudário apavorado, todas aquelas
carnes hiperestizadas erguiam-se ainda vibrantes para a bacanal.

O álcool e a queda na realidade estabeleciam o desejo. Negros arrastavam-se
para quintal, para os cantos, longos sorrisos lúbricos abriam em bocejos
as bocas espumantes, risinhos rebentavam e negros fortes, estendidos no chão,
rolavam as cabeças numa sede de gozo.

Há entre as negras uma propensão sinistra para o tribadismo.
Em pouco, naquela casinhola suja e mal-cheirosa, eu via como uma caricatura
horrenda as cenas de deboche dos romances históricos em moda. Mais
dois negros entraram.

– Então egum esteve bom?

– E eu que não cheguei em tempo…

– Veja, mostrou Antônio, lá está o Bonifácio Eruosaim,
vendo se causou efeito fantasiado de bebê. Venha até o quarto
do banquete.

Fomos. Antônio empurrou uma porta e logo nos achamos numa sala com
garrafas pelo chão, pratos servidos, copos entornados, rolhas, os destroços
de uma fome voraz. Num canto a Chica dizia baixinho para um lindo rapaz de
calças bombachas:

– É você que o espírito disse?…

Quando reaparecemos o babaloxá murmurava:

– A festa está acabada, companheiros… É não deixar
de trazer o que Inhansam pediu.

Saímos então. Vinha pelo céu raiando a manhã.
Palidamente, na calote cor de pérola, as estrelas tremiam e desmaiavam.
Antônio cambaleava. Chamei um carro que passava, meti-o dentro. Em torno
tudo dizia o mistério e a incompreensão humana, o éter
puro, os vagalhões do mar, as árvores calmas. Tinha a cabeça
oca, e, apesar dos assassinatos, dos roubos, da loucura, das evocações
sinistras, vinha da casa das almas julgando babalaôs, babaloxás,
mães-de-santo e feiticeiros os arquitetos de uma religião completa.
Que fazem esses negros mais do que fizeram todas as religiões conhecidas?

O culto precisa de mentiras e de dinheiro. Todos os cultos mentem e absorvem
dinheiro. Os que nos desvendaram os segredos e a maquinação
morreram. Os africanos também matam.

E eu, perdoando o crime desse sacerdócio mina, que se impõe
e vive regaladamente, tive vontade de ir entregar Antônio negro e a
dormir à casa de Ojô, para que nunca mais desvendasse a ninguém
o sinistro segredo da casa das almas.

Os Feitiços de Sanin

Pois seja! disse Antônio, tomando coragem. V. S. pode ir, mas não
cuspa, não fume e não coma nessa casa. Eu não vou.

– Acompanhas-me até a porta?

– Até à esquina. Ficarei de alcatéia. Sanin e Ojô
são capazes de me acabar com a vida.

A vida de Antônio é uma vida, sob todos os títulos, preciosa,
e naquele momento ainda o era mais, porque a sustentava eu. Refleti e concordei.

– Está direito, ficas à esquina.

Chovia a cântaros. Antônio, sem guarda-chuvas, metido num capote
que lhe ia até aos pés, acendia constantemente um charuto, que
apagava.

– Mas, que é esse Sanin, afinal?

– Um feiticeiro danado!

– Mas babaloxá, babalaô, traficante?.

– Babalaô, não senhor. Para ser babalaô é preciso
muita coisa. Só de noviciado, leva-se muito tempo, anos a fio, e a
cerimônia é dificílima. Quando um iniciado quer ser babalaô,
tem que levar ao babalaô que o sagra, dois cabritos pretos, duas galinhas
d’Angola, duas galinhas da terra, dois patos, dois pombos, dois bagres, duas
preás, um quilo de limo, um ori, um pedaço de ossum, um pedaço
de giz, dois gansos, dois galos, uma esteira, dois caramujos e uma porção
de penas de papagaio encarnadas.

– É difícil.

– E não é tudo. Tem que levar também um quilo de sabão-da-costa,
que se chama ochê-i-luaiê, e não entra para o ibodoiffá
ou quarto dos santos sem estar de roupa nova e levar na algibeira pelo menos
200$OOO. O futuro babalaô fica sete dias no ibodô, onde não
entra ninguém para não ver o segredo.

– O segredo?

– O segredo é um ovo de papagaio. V. S. já viu um ovo de papagaio?
Nunca! É difícil. E quem vê um ovo desses, arrisca-se
a ficar cego. O ovo em africano chama-se éiu, o papagaio odidé.
É o ovo que guardam dentro de uma cuia ou ybadu. O iniciado fica inteiramente
nu, senta-se na esteira, e o velho babalaô indaga se é de seu
gosto fazer o iffa. Se a resposta for afirmativa, lavam-se quarenta e dois
caroços de dendê com diversas ervas, e nessa água o babalaô
novo toma banho.

Depois raspa-se-lhe a carapinha, guardando-a para o grande despacho, pinta-se-lhe
o crânio com giz e faz-se a matança.

– Todos os animais?

– Todos caem ao golpe das navalhas afiadas, o sangue enche os alguidares,
escorre pela casa, mas ninguém sabe, porque lá dentro, de vivos,
só há os dois babalaôs e o acólito. O primeiro
sacrifício é para exu. Mistura-se o sangue do galo com tabatinga,
forma-se um boneco recheado com os pés, o fígado, o coração
e a cabeça dos bichos; metem-se em forma de olhos, nariz e boca, quatro
búzios e está feito o exu. Em seguida esfaqueiam-se os outros
bichos, sacrificando aos iffá. O novo babalaô recebe na cabeça
um pouco desse sangue, o acólito ou ogibanam amarra-lhe na testa uma
pena de papagaio com linha preta e, assim pronto, o novo matemático
fica seis dias aprendendo a prática de alguns feitiços temíveis
e rezando aos odu jilá.

Os iffá são dezesseis: – eidi-obé, ojécu-meigi,
jori-meigi, uri-meigi, ôrosê-meigi, nani-meigi, obará-meigi,
ocairá-meigi, egundá-meigi, osé-meigi, oturá-meigi,
oreté-meigi, icá-meigi, eturáfan-meigi, achemeigi e ogio-ofum.
No fim dos sete dias juntam-se os ossos, as cabeças, os pés
dos animais com os restos de comida, a pena de papagaio do jovem professo,
as ervas dos serviços anteriores, coloca-se tudo num alguidar para
jogar onde o opelé disser, no mar, num lago, em qualquer rio. O iniciado
é quem leva o alguidar, sem perder a razão, e canta no trajeto
três cantigas…

Estávamos no largo do Capim. A chuva era tanta que nos obrigara a
recolher a um botequim qualquer, e Antônio, já sentado, bebendo
vinho do Porto e acendendo pela trigésima vez a horrenda ponta do seu
charuto, preparava-se para entoar as maviosas cantigas. Chegou mesmo a perpetrar
uma, a segunda, a mais curta.

O-ché-yturá a narê praquê
Abá gun-nem-gum gebo
Oury ôcú ou-myn-nan
Essé ouxy-cá gô-xê-nan ló nan.

Esta apavorada oração significa: sabão-da-Costa serve
para resguardar-se a gente do rei que come urubu e limo-da-costa. Nós,
se comermos limo ou urubu pelo pé, hoje mesmo morreremos. Ele não
defende filho como filho.

– Mas, o Sanin?

– V. S. não quer aprender mesmo? Deixe o Sanin. Está chovendo
tanto!

– O Sanin é ou não um sábio?

– É malandro.

– Ainda melhor.

Quando saí, de dentro do botequim, Antônio esticou a mão.

– Orum-my-lá ború ybó, ye, ybó, ybó, xixé!

Negro amável!! Com aquele seu gesto sacerdotal dizia-me:

– Satisfaça ao Deus que faz tudo e tudo entorta, amém!

Abri o guarda-chuva e respondi já de longe.

– Ybó-xixé!

Sanin mora agora na casa do famoso Ojô, o diretor social da feitiçaria.
A casa de Ojô fica na rua dos Andradas, quase no começo, com
um aspecto pobre e um cheiro desagradável. Quando batemos, a chuva
rufava em torno um barulho ensurdecedor. Não nos responderam. Batemos
de novo. Alguém decerto nos espiava. Afinal abriu-se a rótula
e uma mulher apareceu.

– Baba Sanin?

– Não está.

– Venho mandado por um conhecido. Sem receio.

– A casa é de Emanuel…

– Ojô, sei bem. Foi o Miguel Pequeno que me mandou. Abre.

De novo a rótula fechou. A mulher ia consultar, mas não demorou
muito que voltasse abrindo de esguelha e dizendo misteriosamente.

– Entre.

A sala tinha areia no assoalho, os móveis consertados indicavam que
Ojô vive bem. Numa cadeira um fato branco engomado, e mais longe o chapéu
de palha atestava a presença do feiticeiro.

– Então Sanin?

– Vem já.

Pouco tempo depois apareceu Sanin, de blusa azul e gorro vermelho, o tipo
clássico do mina desaparecido, andando meio de lado, com o olhar desconfiado.
O pobre-diabo vive assustado com a polícia, com os jornais, com os
agentes. Para o seu cérebro restrito de africano, desde que chegou,
o Rio passa por transformações fantásticas. É
um malandro, orgulhoso do feitiço e com um medo danado da cadeia. Fora
decerto quase à força que aparecera, e só muito lentamente
o pavor o deixou falar.

– Baba Sanin, o Miguel Pequeno mandou-me aqui para um negócio muito
grave. Baba tem uns feitiços novos.

– Não tem…

– Eu sei que tem. Abri a carteira, uma carteira de efeito, como usam os homens
da praça, enorme, com fechos de prata. Não tenha medo. Se o
Baba não me faz o trabalho, estou perdido. É a minha última
esperança.

– Que trabalho?

Revolvi as notas da carteira, devagar, para mostrá-las, tirei um papelzinho
e misteriosamente murmurei:

– Aqui tem o nome dela…

Na cara do feiticeiro deslizou um sorriso diabólico:

– Aha! Aha… Está bom.

– Sanin, eu tenho fé nos santos, mas os outros feiticeiros não
dão volta ao negócio.

– Você vai acabar. Olhe, pode contar…

Tudo neste mundo é esperança de dinheiro, de felicidade, de
paz, e tanto vive de esperança o feiticeiro que a dá como as
pobres criaturas que com ele a vão procurar.

Sanin começou a falar dos feitiços dos outros, lembrou-se dos
seus aos bocados, e em pouco, com a esperança de ganhar mais, fazia-me
revelações.

Cada feiticeiro tem feitiços próprios. Abubaca Caolho, o alcoólico
da rua do Resende, tem o ibá, cuia com pimenta-da-costa e ervas para
fazer mal. Quando se fala do ibá, diz-se simplesmente: o feitiço
do Abubaca. Gia, cabeça de pato com lesmas e o cabelo da pessoa, é
uma descoberta de Ojô e serve para enlouquecer. Quem quer enlouquecer
o próximo, arranja ou falsifica a obra de Ojô.

– Mas Baba Sanin, como é que sabe tudo isso?…

– Então, não aprendi? Eu sei tudo.

E como sabe tudo, dá-me receitas. Fico sabendo, sem pasmo, sentado
numa cadeira, que giba de camelo com corpo de macaco e um cabrito preto em
ervas matam a gente e que esta descoberta é do celebrado João
Alabá, negro rico e sabichão da rua Barão de S. Félix,
76. Não é tudo. Sanin faz-me vagarosamente dar a volta ao armazém
do feitiço. Eu tomo notas curiosas dessa medicina moral e física.

Para matar, ainda há outros processos. O malandrão Bonifácio
da Piedade acaba um cidadão pacato apenas com cuspo, sobejos e treze
orações; João Alabá conseguirá matar a
cidade com um porco, um carneiro, um bode, um galo preto, um jaboti e a roupa
das criaturas, auxiliado apenas por dois negros nus com o tessubá,
rosário, na mão, à hora da meia-noite; pipocas, braço
de menino, pimenta-malagueta e pé-de-anjo arrancados ao cemitério
matam em três dias; dois jabotis e dois caramujos, dois abis, dois orobós
e terra de defunto sob sete orações que demorem sete minutos
chamando sete vezes a pessoa, é a receita do Emídio para expedir
desta vida os inimigos..

Há feitiços para tudo. Sobejo de cavalo com ervas e duas orações,
segundo Alufá Ginja, produz ataques histéricos; um par de meias
com o rastro da pessoa, ervas e duas orações, tudo dentro de
uma garrafa, fá-la perder a tramontana; cabelo de defunto, unhas, pimenta-da-costa
e ervas obrigam o indivíduo a suicidar-se; cabeças de cobras
e de cágado, terra do cemitério e caramujos atrasam a vida tal
qual como os pombos com ervas daninhas, e não há como pombas
para fazer um homem andar para trás…

– Mas para dar sorte, caro tio?

– Há mão de anjo roubada ao cemitério em dia de sexta-feira.

– E para tornar um homem ladrão, por exemplo?

– Um rato, cabeça de gato, ervas, o nome da pessoa e orações.

– E para fazer um casal brigar?

– Cabeça de macaco, aranha e uma faca nova.

– E para amarrá-los por toda a vida?

O negro pensou, olhando-me fixamente:

– Um obi, um orobô, unhas dos pés e das mãos, pestanas
e lesmas…

– Tudo isso?

– Preparado por mim.

Então Sanin fala-me dos seus feitiços. Sanin é poeta
e é fantasista.

Sob a dependência de Ojô, quase seu escravo, esse negro forte,
de quarenta anos, trouxe do centro da África a capacidade poética
daquela gente de miolos torrados, as últimas novidades da fantasia
feiticeira. Para conquistar, Sanin tem um breve, que se põe ao pescoço.
O breve contém dois tiras, uma cabeça de pavão e um colibri
tudo colorido e brilhante; para amar eternamente, cabeças de rola em
saquinhos de veludo; para apagar a saudade, pedras roxas do mar.

Quando lhe pagam para que torne um homem judeu errante, o preto prepara cabeças
de coelho, a presteza assustada; pombos pretos, a dor; ervas do campo, e enterra
em frente à porta do novo Ashaverus; quando pretende prender para sempre
uma mulher, faz um breve de essências que o apaixonado sacode ao avistá-la.
Sanin é também mau – mas de maneira interessante.

Os seus trabalhos de morte são os mais difíceis. Sanin ao meio-dia
levanta no terreiro uma vara e reza. Pouco tempo depois sai da vara um maribondo
e o maribondo parte, vai procurar a vítima, e não pára
enquanto não lhe inocula a morte.

O maribondo é vulgar à vista do boto vivo metido dentro de
uma caveira humana; em presença do feitiço do morcego, a asa
que roça e mata, a raposa e o lenço, e eu o fui encontrar pondo
em execução o maior feitiço: baiacu de espinho com ovo
de jacaré – que é o babalaô da água, baiacu que
faz secar e inchar à vontade das rezas e domina as almas para todo
o sempre.

Mas por que você, um homem tão poderoso, não me queria
receber?

– Por que andam a falar de nós, porque a polícia vem aí.
Fizemos outro dia até um despacho no campo de Santana com os dentes,
os olhos de um carneiro, jabotis, ervas e duas orações para
quem fala de nós deixar de falar.

– Mas por que um carneiro?

– Porque o carneiro morre calado. Foi o Antônio Mina quem fez o despacho
e todos nós rezamos de bruços e todos nós demos para
o despacho, que custou cento e oitenta e três mil reis.

Então eu apanhei o meu chapéu, apertei a mão do fantasista
Sanin.

– Pois fez mal, Baba, fez muito mal em dar o seu dinheiro, porque quem fala
de vocês sou eu.

E como o negro aterrado abrisse a boca enorme, eu abri a carteira e o convenci
de que todas as suas fantasias, arrancadas ao sertão da África,
não valem o prazer de as vender bem.

Dinheiro, mortes, e infâmia as bases desse templo formidável
do feitiço!

A Igreja Positivista

O amor por principio
E a ordem por base.
O progresso por fim.

Era domingo, à porta do templo da Humanidade, na rua Benjamim Constant.

Com o céu luminosamente azul e o sol tépido, havia muita concorrência
nessa rua, de ordinário deserta: – senhoras, cavalheiros de sobrecasaca,
militares, crianças. Uns subiam logo as escadas do templo, cuja fachada
recorda um templo grego; outros mais íntimos, seguiam para o fundo,
pelo lado direito. Teixeira Mendes fazia a sua prédica dominical.

Tínhamos ido a conversar com um velho positivista. A princípio
ele anunciara um profundo desprezo pela frivolidade jornalística e
a imprensa. Mas depois, como eu risse sem rancor, permitiu-se levar-me até
a Igreja e foi tão bondoso que ali estávamos, tagarelando de
coisas superiores, enquanto ao templo continuava a afluir a onda de fardas,
de senhoras e de cavalheiros solenes.

– Não é possível negar a influência positivista
na nossa política, sobre os brasileiros cultos, ia eu dizendo, mas
o público..

– Os jornais…

– … o grande público não compreende e irrita-se. O meu amigo
pode falar de Spencer, de Kant, de outros filósofos. Passa por erudito
e é respeitado. Basta, porém, falar de Comte para que o tomem
por um esquisitão e perguntem injuriosamente se essa é a religião
de Clotilde de Vaux.

– É natural. É a gentinha que não conhece o culto, adulterado
por espíritos anárquicos. Mas você vê que os honestos
já começam a compreender a doce religião que submeteu
a inteligência ao sentimento.

– Tem-lhes custado.

– O positivismo tem quarenta anos de propaganda no Brasil. Em 1864, o Dr.
Barreto de Aragão publicava urna aritmética dando a hierarquia
científica de Comte e o Dr. Brandão escrevia a Escravidão
no Brasil. Foram esses os primeiros livros positivistas, hoje quase desconhecidos.
Depois é que o positivismo começou a ser falado entre matemáticos
e que os professores da Central e da Escola Militar deram em citar a Astronomia
e o primeiro volume da Filosofia.

– Era o tempo em que se considerava a Política um livro ímpio…

– Ainda não se fizera sentir a necessidade de dispensar os serviços
provisórios de Deus. O caráter religioso do positivismo não
era conhecido. Isso não impediu que Benjamim Constant, fazendo concurso
na Escola Militar, declarasse ser positivista ortodoxo e republicano, e que
o próprio Benjamim, com os Drs. Oliveira Guimarães e Abreu Lima,
constituísse o núcleo dos ortodoxos em 1872.

– A influência foi nula… – interrompi eu, olhando uma senhora loura
que entrava com o catecismo encadernado em veludo verde.

– Nada se perde. Oliveira Guimarães deixou um discípulo, Oscar
de Araújo; Benjamim levou às escolas a palavra religiosa do
mestre, regenerou o ensino da matemática e foi o primeiro brasileiro
que teve no seu quarto o retrato de Clotilde de Vaux. Os trabalhos adotados
na Escola Militar são quase todos de discípulos seus. No meio
inteligente desses últimos surgiram Raimundo e Miguel Lemos; era um
momento de agitação. Pereira Barreto publicava o 1.º volume
da obra As três filosofias, e tanto Miguel como Teixeira Mendes eram
litréistas, considerando a parte religiosa de Comte como obra de louco.

Foi com eles que Oliveira Guimarães fez aliança para fundar
a biblioteca positivista e abrir cursos científicos.

– Era a filosofia da Academia…

– Sem jardins. O começo do positivismo no Brasil é absolutamente
acadêmico. Em 1876 a Escola de Medicina manifestou-se com a tese Da
Nutrição, de Ribeiro de Mendonça, e a primeira sociedade
positivista foi feita de professores ortodoxos e de estudantes litréistas.

– Seria curioso saber como estes mudaram.

– As pequenas causas têm às vezes grandes efeitos. Uma censura
ao diretor da escola motivou serem suspensos, por dois anos, Teixeira Mendes
e Miguel Lemos, que foram para a Europa; e enquanto só, Benjamim propagava
aqui, os dois em Paris litréizavam. Mendes veio o mesmo, achando o
Comte da Política maluco. Miguel ficou, e lá, sponte sua, abandonou
Littré e relacionou-se com Laffite.

– E converteu-se?

– A 4 de julho de 1879.

Solenemente, o meu amigo positivista apanhava sol. Levei-o com carinho para
o jardim, onde devia florir o bosque sagrado com as sepulturas dos homens
dignos. Não havia bosques, nem sepulturas. Apenas algumas árvores.
O positivista acendeu o cigarro, depois de o fazer com um forte fumo Rio Novo.
Eu perguntei pasmado:

– Toma café?

Ele riu.

– Como toda a gente! Essa história de não tomar café
e não fumar é apenas uma léria. Então você
pensa que Augusto Comte imaginasse, de mau, fazer o mundo deixar o café
e o fumo, só para arruinar o Brasil? O fato é outro. O grande
filósofo não fumava nem bebia excitantes, porque lhe faziam
mal; Miguel Lemos, doente como é, não se atira a esses excessos;
Teixeira Mendes, um homem que reflete dezesseis horas a fio, não se
pode dar aos devaneios da fumaça… Não há proibições
formais para o horrendo vício; há apenas medo…

Puxei com vigor uma baforada.

– A propaganda desapareceu com a estada de Miguel Lemos em Paris?

– Não. A sociedade passou a chamar-se Sociedade Positivista do Rio
de Janeiro, sendo aclamado presidente o Dr. Ribeiro de Mendonça, que
se filiou a Laffite:

– Começou a era do lafitismo…

– E com excesso. Concorríamos até pecuniariamente para o subsídio
sacerdotal da igreja em Paris. Lemos influiu de tal modo sobre Teixeira Mendes,
que pouco tempo depois este também se convertia. Foi, ligada a Laffite,
que a nossa igreja iniciou as comemorações de caráter
religioso com a festa de Camões em 1886; que se comemorou o 22.º
passamento de Comte e a festa da Humanidade; e é dessa época
que data a primeira procissão cívica no Rio de Janeiro, com
andores e o busto de Camões esculpido por Almeida Reis.

– Quando Miguel voltou, aspirante ao Apostolado, as reuniões tornaram-se
regulares aos domingos, na rua do Carmo, n.0 14, e Ferreira de Araújo
abriu uma seção na Gazeta com o título Centro Positivista,
cujo primeiro artigo dava a teoria científica do calendário.
Em 1881, já presidente Miguel Lemos, o Centro passou para a rua Nova
do Ouvidor, as exposições da religião tornaram-se regulares,
e Raimundo fez no Liceu um curso do catecismo, interrompido pelas suas célebres
conferências de antigo litréista contra o sofisma de Littré.

– Era a prosperidade.

– Nesse ano, em que se comemorou a Tomada da Bastilha, Lemos foi a São
Paulo, fez nove conferências, fundou uma filial com Ferreira Souto,
Carvalho de Mendonça, Oliveira Marcondes, Godofredo Martins e Silva
Jardim, e as intervenções do Centro na nossa vida política
acentuaram-se contra a imoralidade da colonização chinesa, traçando
o programa do candidato positivista, protestando contra as loterias, exigindo
o registro civil, a abolição, opondo-se às universidades…

– Já nesse tempo?

– Os artigos foram publicados na Gazeta de Notícias e fizeram que
o imperador se opusesse à idéia, aconselhando ao ministro que
reformasse o ensino por outro qualquer meio que não fosse as universidades.

O meu velho amigo andou alguns passos pelo futuro bosque sagrado. Acompanhei-o.

Ouvia-se lá dentro o som múltiplo de uma orquestra. Raros retardatários
entravam.

– Neste ano também, continuou com calma, uma circular instituiu o
subsídio sacerdotal, o que deu lugar à retirada de Benjamim
Constant, e foram conferidos os primeiros sacramentos aos filhos de Miguel
Lemos, Teixeira Mendes e do Dr. Coelho Barreto.

– Hoje esses sacramentos são comuns?

– Como os do matrimônio, em grande número.

– A ruptura com Laffite deu-se logo depois?

– Em 1883. Lemos ficou o único responsável do positivismo no
Brasil, continuando a ingerir-se na vida pública da sua pátria.

– Mas este templo como foi feito?

– O Apostolado deixou a sede da rua Nova do Ouvidor para a rua do Lavradio.
A mudança determinou o lançamento de um empréstimo em
1891 para a construção do templo, no que muito concorreram Pereira
Reis, Otero, Rufino de Almeida, Décio Vilares. A inauguração
foi em 1894, e a igreja custou 250 contos.

– É mais uma prova da importância do Centro no regime republicano.

– A nossa intervenção no início da República
foi de primeira ordem. Basta citar a Bandeira Nacional, a separação
da Igreja do Estado, a liberdade dos professores, a reforma do código
no caso da tutela de filhos menores.

– O Centro também tem uma casa em Paris?

O semblante do positivista anuviou-se.

– Sim, a casa em que morreu Clotilde. Foi comprada por 70 mil francos. É
triste. Em Paris não estavam preparados para compreender Teixeira Mendes.
Era tarde para a campanha… Mas venha ver a nossa tipografia.

Caminhamos com intimidade pela avenida estreita. De vez em quando ouvia-se
o som de uma voz acre. Era a prédica.

A tipografia fica embaixo, correspondendo a toda a extensão da nave
em cima. É completa. Pergunto respeitoso o número de publicações
dessa oficina.

– As obras de maior valor são o Ano sem Par, a Biografia de Benjamim
Constant, a Visita aos Lugares Santos do Positivismo, a Química Positiva,
as Últimas Concepções de A. Comte (onde se acha a teoria
dos números sagrados), todas obras de Raimundo Mendes. A publicação
de folhetos é talvez superior a 600.

– Mas os subescritores são muitos?

– São suficientes. A Igreja do Brasil tem recebido também auxílios
de Londres.

O pavimento embaixo não é só ocupado pela tipografia.
Há também o gabinete luxuoso de Miguel Lemos e a sala Daniel
Encontre, onde Teixeira Mendes expõe aos jovens discípulos da
humanidade, e a quem quiser ouvi-lo, as sete ciências. Ouvem-no lentes
de academias e professores notáveis.

– É grande o número de positivistas?

– No Brasil os ortodoxos devem ser uns 700. Os simpáticos não
se podem mais contar. As gerações que saem da nossa Escola Militar
são quase que compostas de simpáticos.

– E a influência moral aumenta?

O positivista confessou com tristeza.

– Vai-se tornando fraca. Não se admire. Será por fraqueza dos
apóstolos? Será porque o público se afasta da realidade,
corrompido moralmente? O fato é patente. Ainda há pouco o privilégio
funerário foi uma campanha perdida… Mas entremos.

Com o chapéu na mão, nós entramos. Havia luxo e conforto.
De um lado a secretária, onde se vendem as obras editadas pela igreja,
de outro, a sala onde está a escada para o coro, com orquestra e uma
rica biblioteca de carvalho lavrada. Degraus atapetados dão acesso
à nave.

O templo da humanidade é lindo. Ao alto, junto ao teto correm janelas
que arejam o ambiente. Todo pintado de verde-mar, está-se dentro como
num suave banho de esperança. Sentam-se os homens na nave, que tem
catorze capelas; – colunas de pau negro sustentando em portais abertos bustos
esculturados por Décio Vilares. Os bustos representam os meses do calendário:
Moisés ou Teocracia inicial, Homero, Aristóteles, Arquimedes
ou a poesia, filosofia e a ciência antiga; César ou a civilização
militar; São Paulo, ou o catolicismo; Carlos Magno ou a civilização
feudal: Dante, Gutenberg, Shakespeare, Descartes, Frederico Bichat, ou a epopéia,
a indústria, o drama, a filosofia, a política, a ciência
moderna, e Heloisa, a santa entre as santas, que fica na última capela,
voltando o seu semblante magoado para a porta.

Na capela-mor, rica de tapetes e de madeiras esculpidas, há uma cátedra,
onde se senta Teixeira Mendes com as vestes sacerdotais negras debruadas de
verde. Por trás fica um busto de bronze de A. Comte, e, dominando toda
a sala, o quadro de carvalho lavrado com letras de ouro, de onde surge a figura
delicada de Clotilde, a humanidade simbolizada por Décio numa das suas
miríficas atmosferas sonhadoras.

A voz de Raimundo corre com a continuidade de uma queda de águas;
na nave cheia cintilam galões e lunetas graves; na capela-mor, senhoras
ouvem com atenção essa palavra, que não deixa de ser
demolidora.

– Que é positivismo? sussurro eu, sentando-me.

– É uma religião que respeita as religiões passadas
e substitui a revelação pela demonstração. Nasceu
da ruptura do catolicismo e da evolução científica do
século XVII para cá. De Maistre dizia que o catolicismo ia passar
por muitas transformações para ligar a ciência a religião.
Comte descobriu a lei dos três estados, a chave da sociologia, e quando
era o grande

filósofo, Clotilde apareceu e ensinou que a inteligência é
apenas o ministro do coração.

Agir por afeição,
Pensar para agir.

Comte proclamou que o homem e a mulher se completam sob o tríplice
aspecto: sentimento, inteligência e atividade. A religião divide-se
em Culto, Dogma e Regime, o que vem a ser bem amar, bem conhecer e bem servir
a humanidade, o Grande Ser, o conjunto das gerações passadas
e futuras pela geração presente. A existência do Grande
Ser está ligada à terra, o Grande-Fetiche, e ao espaço,
o Grande Meio…

– Mas quantas senhoras!

– As mulheres devem amar o positivismo. Comte dignificou-as. A mulher é
a força moderadora, o sentimento puro do amor que faz a sociabilidade,
é a sacerdotiza espontânea da Humanidade que modifica pela afeição
o orgulho vão e o reino da força: a mulher é a humildade,
o fogo do culto no lar, é Beatriz, é Clotilde, é Heloisa,
mãe, esposa e filha, a Veneração, a Doçura e o
Bem. As mulheres deviam ser todas positivistas.

Enquanto o meu amigo assim falava, Raimundo Mendes, do alto da cátedra,
relampejava. Na catadupa das palavras faltavam rr, havia repetições
do pensamento, de frases, mas na explicação cultual, de repente,
inconoclastamente, o azorrague partia contra os fatos, contra a anarquia atual:
e um esto de amor, de amor indizível, de amor pela Vida, subia, como
um incensório, à alma das mulheres.

Fiquei enlevado a ouvi-lo. Esse mesmo homem, puro como um cristal, que tem
o saber nas mãos, eu já o vira uma vez, de manhã, carregando
com dignidade um embrulho de carvão…

As mulheres sorriam; em toda a translúcida claridade parecia vibrar
a alma do grande filósofo terno e bom, e do alto, Clotilde, a Humanidade,
abria como um lírio a graça suave do seu lábio.

Os Maronitas

O povo maronita, dizia o papa Benedito, é como uma flor entre os espinhos.
Se o pontífice notável tinha esta doce frase para pintar os
homens do monte Líbano, os que lhe sucederam guardaram tão perfumada
imagem, e hoje, quando se fala dos maronitas, logo se recorda a flor e os
espinhos antigos. Tudo, porém, neste mundo tem o vinco fatal do destino.
A frase dos papas tornou-se profética e através da vida imensa,
os de Marun continuam a perfumar a crença impoluta entre os espinhos
das hostilidades.

Os maronitas, gente extremamente religiosa, habitam a Síria e descendem
dos Aramilas, filhos de Aram, de Sem, de Noé.

Ascendência tão digna de respeito só os preparou para
um longo e pungente sofrer. Desde os tempos dos Apóstolos, dizem os
Atos no versículo 22 do capítulo XV, eram cristãos, conservando
a fé ortodoxa havida do príncipe dos Apóstolos no ano
38 da era de Jesus Cristo. Quando no quarto século começaram
a aparecer no Oriente as heresias e as doutrinas falsas, protegidas pelos
soberanos coroados de pedrarias, impostas pelas armas, e a fé e a soberania
ao mesmo tempo vacilavam, S. Marun, chefe dos eremitas da Síria, saiu
de sua toca de cilícios e orações e veio salvá-los.

– Quem é esse homem de grandes barbas, meio roto? indagavam os homens,
vendo a figura ressurgida do santo sem pecado.

S. Marun não respondia; seguia pelas estradas cheias de sol, na atmosfera
de milagre do azul sem mancha, e pregava a doutrina pura, exortava o povo
a conservar a sua verdadeira fé.

– Acredita sempre em Deus, tal qual te ensinaram os Apóstolos, e conservarás
a tua liberdade!

A gente, que dos seus lábios ouvia as palavras ungidas pela meditação
contínua, seguia num novo esplendor de crença, em cada coração
a esperança brotava, e em pouco tempo o povo da província do
monte Líbano era chamado maronita. Os heresiarcas quiseram caluniá-lo,
mas Marun era puro como o cristal. S. João Crisóstomo, o boca-d’oiro,
na carta que lhe escrevia, rogava que por ele orasse, e a ironia como a calúnia
fenderam-se de encontro ao seu broquel de bondade.

Quando a sua alma irradiou, deixando o invólucro terreno, o povo maronita
tinha inabalável a crença para suportar todas as sangrentas
perseguições, e tem sido desde então o mesmo ordeiro
e persistente auxiliar da obra divina.

Durante as cruzadas combateu ao lado dos cristãos contra os ímpios.
Ao aproximarem-se os exércitos, desciam da montanha, alimentavam e
vestiam os cruzados nus e com fome. Sempre que os turcos entravam sedentos
de sangue pelo seu território, sofriam como mártires o sacrifício
sem protestar. O ódio do Maometano seguia-os, entretanto, na vida simples
e indolente dos mosteiros. Em 1860 os druzos, povo pagão e feroz, recordando
velhos ódios religiosos, atiraram-se subitamente sobre os pobres maronitas,
traídos e abandonados.

A carnificina foi horrenda. A França então, sempre benevolente
para os cristãos do Oriente, mandou uma esquadra às águas
do Levante, forçando o Turco a modificar o governo do Líbano
e a dar-lhe uma certa autonomia. Desde essa época o governo é
cristão nomeado pelas sete grandes potências européias,
a câmara dos representantes faz-se por eleição livre e
o chefe da policia deve ser cristão. O chefe da polícia em todos
os povos do Oriente representa um papel formidável.

Extremamente religiosos, os maronitas dependem civil, militar e religiosamente,
em qualquer parte em que se achem, dos sacerdotes, e a hierarquia da sua igreja
compõe-se de um prelado, com o título de Patriarca de Antióquia
e de todo o Oriente, de doze bispos diretores de doze dioceses e de um número
infindável de sacerdotes inteligentes e bons.

A intervenção européia, entretanto, espalhou pelo mundo
a flor pontifícia. A imigração esvazia aos poucos o Líbano.
Não se pode viver com farturas em terras tão antigas, as autoridades
conservam a influência aterradora do Sultão. Os que primeiro
saíram, com os ortodoxos e outros crentes de Jesus, escreveram chamando
os que ficavam, a perspicácia maometana facilitou a emigração
para enfraquecer os libertos da sua prepotência e os maronitas vêm
para os Estados Unidos, para a Argenúna, para o Brasil, num lento êxodo…

Nós temos uma considerável pétala da celebrada flor.
Uma das nossas maiores colônias hoje é incontestavelmente a colônia
síria. Há oitenta mil sírios no Brasil, dos quais cinqüenta
mil maronitas. Só o Rio de Janeiro possui para mais de cinco mil.

Quando os primeiros apareceram aqui, há cerca de vinte anos, o povo
julgava-os antropófagos, hostilizava-os e na província muitos
fugiram corridos à pedra. Até hoje quase ninguém os separa
desse qualificativo geral e deprimente de turcos. Eles, todos os que aparecem,
são turcos!

Os sírios, arrastados na sua imensa necessidade de amizade e amparo,
davam com a muralha de uma língua estranha, num país que os
não suportava. Agremiaram-se, fizeram vida à parte e, como a
colônia aumentava, foram por aí, mascates a crédito, fiando
a toda a gente, montaram botequins, armarinhos, fizeram-se negociantes. Quem
os amparou? Ninguém! Só, por um acaso, Ferreira de Araújo,
o Mestre admirável, escreveu defendendo-os. Os sacerdotes maronitas
respeitam-lhe a memória, e na data da sua morte rezam-lhe missas por
alma, guardando delicadamente uma gratidão duradoura.

No mais, a hostilidade, os espinhos da frase papal.

Há nessa gente operários hábeis, médicos, doutores,
homens instruídos que discutem com clareza questões de política
internacional, jornalistas e até oradores. A vida é dura, porém;
jornalistas e doutores vendem alfinetes e linhas em casas pouco claras da
rua da Alfândega, do Senhor dos Passos, do Núncio e dos subúrbios.
A totalidade ainda ignora o português!

Conversei com alguns maronitas, sempre de uma amabilidade penetrante. Um
deles, dando-me a satisfação da sua prosa torrencial, falou
como um estrategista da guerra russo-japonesa. Esse homem não falava,
redigia um artigo de jornal com a retórica empolada que fez a delícia
dos nossos pais e ainda hoje é a força do jornalismo dogmático.
Eu ouvia-o de lábios entreabertos.

– Se a justiça de Deus não desapareceu, se a vida humana decorre
dos desejos da divindade, é possível crer que os japoneses possam
vencer?

– Oh! não!

Eu respondera, como no teatro, mas estava interessado por esses organismos
simples, criados na chama de uma crença inabalável, desses românticos
do Oriente.

Todos são feitos de exagero, de entusiasmo, de amor e de ilusão.
Os dois jornais sírios têm os títulos simbólicos
e extremos: – A Justiça, A Razão. Os homens naturalmente perdem
o limite do natural. Numa outra casa em que sou recebido, um gordo cavalheiro
preocupa-se com o problema da colonização.

– A colonização síria, diz, é a melhor para o
Brasil. Os brasileiros ainda não a compreenderam. O sírio não
é só o comerciante, é também agricultor, operário.
Desprezam-nos? Este país não vê que conosco, povo tranqüilo
e dócil, não poderia haver complicações diplomáticas?
Os espanhóis, os portugueses, os italianos enriquecem, partem, pedem
indenizações. Nós, pobres de nós! não pedimos
nada, queremos ser apenas do Brasil.

Não respondo. Talvez bem cedo os sírios sejam assimilados à
família heterogênea da nossa pátria. Estas criaturas têm
qualidades muito parecidas com as dos brasileiros.

Vários negociantes que comigo discutem, porque os sírios discutem
sempre, são como jornais retóricos e brandos; diziam naturalmente:

– No Amazonas perdi há pouco 400 contos. A colônia síria
teve na baixa do café um prejuízo de 70 mil contos. As últimas
remessas de fazendas elevam-se a 200 contos.

A princípio eu os acreditei um bando de Vanderbilts, falando com desprendimento
do ouro e das riquezas. Mas não. Um sacerdote amigo nos desfaz o sonho.
Há fortunas restritas. A totalidade porém tem relações
com o alto comércio, compra a crédito para vender a crédito
aos mercadores ambulantes do interior e às vezes a situação
complica-se, quando lhes falta o pagamento dos últimos, tudo por causa
do exagero, a mania de aparentar riqueza. Cada cérebro oriental tem
um Potosi nas circunvoluções.

– Os sírios chegam, ganham dois mil réis por dia e já
estão contentes. Nunca serão verdadeiramente ricos, porque aparentam
ter oito quando apenas têm dois.

Este feitio os há de fazer compreendidos dos brasileiros.

Mas os maronitas, sob a proteção do velho santo austero, são
essencialmente bons, de uma bondade à flor da pele, que se desfaz em
gentilezas ao primeiro contacto com um bombom. Os homens falam sempre, as
mulheres olham com os seus líquidos olhos insondáveis e por
todas essas casas, há, inseparável da vida, o mistério
da religião, no amor que as mulheres, algumas inefavelmente belas,
proporcionam, nos negócios, nas idéias e nas refeições.
Quando um maronita enferma, a primeira coisa que faz é chamar um padre
para se confessar; quando um negócio vai mal, aconselha-se com o sacerdote,
só casa pelo seu rito, o único verdadeiro, e trabalhando para
viver, funda irmandades, colégios e pensa em edificar capelas.

De 1900 data a fundação da Irmandade Maronita, posterior a
outras duas que se desfizeram. Foram sócios fundadores: Dieb Aical,
Arsanius Mandur Galep Toyam, Seba Preod Curi, Miguel Carmo, Acle Miguel, João
Facad, Antonio Nicobá, Antonio Kairur, Bichara Bueri, Gabriel Ranie,
Salbab, José Chalhub e Bichara Duer. Brevemente abrirá as suas
portas o colégio dos Jovens Sírios.

Apesar da permissão para dizer missa em todas as igrejas católicas
e de celebrarem aos domingos na Saúde e em Cascadura, já compraram
o terreno na rua do Senhor dos Passos para edificar a capela maronita, e a
propaganda se faz mesmo entre os sírios ortodoxos e maometanos, porque
uma ordem do Papa lhes indica que pela bondade façam voltar à
crença única as ovelhas tresmalhadas.

Atualmente há três padres maronitas em São Paulo e quatro
no Rio, os Revs. Pedro Abigaedi, Pedro Zaghi, Luiz Trah e Luiz Chediak. Andam
todos de barba cerrada, usam óculos e são suavemente eruditos.
Trah, por exemplo, esteve oito anos na Bélgica e discursa como um regato
tranqüilo; Chediak é professor, e cada palavra sua vem repassada
de doçura. É sabido que a reconciliação dos maronitas
com a igreja romana data de 1182. A reconciliação foi incompleta
a princípio, mas hoje é quase integral. Os padres, podendo casar,
abandonam essa idéia; há o maior respeito pelo Sumo Pontífice,
e a política do Vaticano consegue aos poucos outras reformas.

Como os padres me levassem a ver o terreno donde a igreja maronita surgirá,
interroguei-os a respeito do rito da sua seita.

– É quase idêntico ao romano, dizem-me. A liturgia é
redigida em siríaco. É uma necessidade. Há sírios
que sabem de cor o sacrifício da missa. Talvez o mesmo não aconteça
numa igreja romana, que conserva o latim.

– A começar pelos sacristãos.

– Há além disso as missas privadas, a regra é a de Santo
Antônio e seguimos o martirológio de S. Marun.

– Dizem que os maronitas foram a princípio monotelistas…

– Dizem tanta coisa no mundo!

Eles tinham parado diante de uns velhos muros.

– Será aqui a igreja?

– Querendo Deus!

E não sei porque, vendo-os tão simples diante das paredes carcomidas,
esses sacerdotes de um povo religiosamente bom, eu recordei a frase profética
dos papas. O povo maronita é como uma flor entre espinhos, mas uma
flor cujo viço é eterno. Os espinhos continuam persistentes
mas a velha flor espalha-se pelo mundo, recendendo a mais doce ternura e a
mais profunda crença…

Os Fisiólatras

Quando resolvi interrogar o hierofante Magnus Sondhal, sabia da fisiolatria
o que os prosélitos deixavam entrever em artigos de jornal cheios de
nomes arrevezados e nos comunicados, nos copiosos comunicados trazidos aos
diários por homens apressados e radiantes. Pelos artigos ficara imaginando
a fisiolatria um conjunto de positivismo, ocultismo e socialismo; pelos comunicados
vira que os fisiólatras, quase todos doutores, criavam cooperativas
e academias. Entretanto o Sr. Magnus Sondhal certa vez à porta de um
café definira para meu espanto a sua religião.

– A fisiolatria não é um culto no sentido vulgar da palavra,
mas uma verdadeira cultura mental. É, antes, a sistematização
racional do processo espontâneo da educação dos seres
vivos, donde resultaram todas as aptidões, mesmo físicas e fisiológicas,
respectivamente adquiridas.

Pus as mãos na cabeça assombrado. Magnus tossiu, revirou os
olhos azuis.

– A fisiolatria baseia-se, como toda a reforma sociocrático-libertária,
na sistematização da lógica universal ou natural que
o hierofonte + SUN intitula ortologia.

– Ortologia? fiz sem compreender.

– Do grego orthos, logos – reta razão.

A religião também é chamada ortolatria, ou verdadeira
cultura, como ortodoxia significa verdadeira doutrina. Os fisiólatras
pretendem fazer uma remodelação de todas as coisas humanas,
não limitando a sua ação à modificação
dos conceitos.

– Mas o remodelamento geral é possível?

Sondhal sorriu com calma:

– Nós somos onibondosos, oniscientes e onipotentes.

– Os atributos de Deus.

– Nós nos intitulamos os verdadeiros deuses. A reforma abrange as
opiniões, os costumes, o Homem e a própria Terra.

Arregalei os olhos, pus o pé bem firme no chão, passei o lenço
trêmulo na fronte e olhei os verdadeiros deuses. Para o que falava,
envolto na sobrecasaca, com uma barbinha rala e o nariz ao vento, escavoquei
a religião do ideal divino e não lhe achei comparação.
O outro torcia um bigode sensual por cima do lábio rosado.

– Com que então deuses? Dera-me de repente a vontade de ser também
onisciente e onipotente. Mas que é preciso para eu ser também?

– A propaganda toma um cunho secreto. Os aspirantes à Ortologia têm
de passar pela iniciação esotérica, que custa, além
das provas morais, quinhentos mil réis em moeda corrente.

Era relativamente barato, e eu pensava em fazer uma redução
shilockeana, quando Magnus começou a desdobrar a beleza útil
da vida fisiólatra.

A iniciação dá entrada na Universidade Ortológica
resumida no hierofante, a qual se intitula Maçonaria + Católica.
A Maçonaria Católica divide-se em lojas, cujo conjunto, em três
graus, constitui o respectivo templo. Os aspirantes representam as lojas,
o templo só pode ser representado pelo hierofante ou por um areopagita.

– Onde esse templo?

– Os fisiólatras, os que praticam a magia ortológica, não
precisam de local determinado. São os novos homens, fazem excursões
pelos prados, montes e lagos em Fraterias Estéticas, Filosóficas
ou Ortológicas, conforme o grau do ludâmbulos.

– Ludâmbulos?

– Uma palavra da língua universal!

– O volapuck? O esperanto?

– Não, uma língua inventada por mim, o Al-tá.

– Mas que vem a ser o Al-tá?

– Aplicando a Ortologia (ou Lógica Universal) aos fatos da Linguagem,
verifica-se que os elementos fonéticos, sons e entonações
(ou consoantes e vogais) são por toda a parte idênticos. Deduz-se
que são oriundos das mesmas impressões e resultantes das mesmas
aptidões expressionais. Colocando em sínese, descobre-se que
os sons, que exprimem relações, formam uma escala semitonal,
como a da música, e composta de treze notas, ou graves primárias
como todas as escalas, aliás: – U (grave fundamental) A (dominante
e geratriz) e I (sensível superior) estabelecem todas as relações
sinésicas:

U A I (e U)

Gênese Megaforema Metaforema

Origem Crescimento Transformaçio

Passado Presente Futuro

Corpo Espaço Movimento

Sentir Pensar Agir

Opressio Libertaçio Aspiraçao

Escuro Amarelo Rubro e Branco

etc. etc. etc.

Quanto às Entonações, essas formam três teclas,
donde três escalas, também, analógicas mas distintas:

H (Geratriz)

TECLA GUTURAL TECLA DENTAL TECLA LABIAL

Metafonias Metafonias Metafonias

K (Chave) T (Chave) P (Chave)

G (guê) D B

Ch R F

J r (brando) V

– L –

– Lh –

– S –

– Z –

– N –

– Nh M

Aplicando a Sínese ortológica às Teclas orais, como
se fez relativamente aos Sons, temos:

TECLA GUTURAL TECLA DENTAL TECLA LABIAL

Gênese Megaforema Metaforema

Objetivo Subjetivo Ativo

Eidonomia Eimologia Ergonomia

e

Erostergia

Detalhando, enfim, o valor fracional dos fonemas em geral, obtém-se,
por dedução lógica, a expressão natural; – de
qualquer espécie de impressão: – sensacional, emocional ou acional…
e a Língua Universal está, enfim, racionalmente instituída.

Exemplo perfunctório:

K é a raiz de Corpo, concreto, etc.

A significa o atual e ação,

donde:

Ativo: K A – O Corpo que se apresenta e se move.

e

Passivo: A K – O Corpo que é impelido ou sofre a ação.

M é o símbolo do sentir e agir, donde:

Passivo A M=Eu=amo=sou…

e

Ativo: M A=Mu=mover=mãe, mulher… criar.

Eu não compreendera muito bem, não compreendera mesmo nada.
Magnus Sondhal porém foi íntimo e educador.

– Vou dar-lhe alguns nomes esotéricos dos iniciados da Maçonaria
Católica. Sobem a milhares, além de alguns que foram condenados
ao olvido, ao au-tá…

Fez uma pausa, depois como quem se confessa:

– Eu devo dizer esotericamente, o espírito que preside à Propaganda
da Razão. A minha emancipação de Ortólogo, vai
a um extremo inacessível para a totalidade dos homens coevos. Por isso,
tudo que eu faço toma o aspecto joco-sério, desde o deboche
até o sagrado, desde a Orgia até o Culto da Natureza!… De
fato estou exterminando pelo ridículo todas as velhas e caducas crenças
e instituições e todos os preconceitos, mesmo científicos
e filosóficos! Em mim a Consciência superior, a dignidade e a
nobreza destruíram por completo toda espécie de Veneração,
Respeito ou Tolerância!… Mas, voltemos aos nomes esotéricos.

Todo Iniciado na Maçonaria Católica toma um Nome, por sua própria
escolha, em substituição ao nome, sem sentido, que lhe deram
seus pais Gorilhas. Esse novo Nome é a síntese de seu verdadeiro
Ideal ou Aspiração superior para o Progresso. Em torno desse
novo Símbolo o Iniciado constrói a sua nova Existência
Subjetiva, isto é, o seu KARMA. Quem souber identificar-se com o seu
Nome de Regenerado, está, ipso facto, isento de toda e qualquer perturbação
subjetiva, causada habitualmente pelos ataques malévolos da Canalha
humana. Mas a adoção voluntária do novo Nome é,
além disso, um ato belamente revolucionário, e um protesto solene
contra todas as velharias e convenções hipócritas e perversivas.
Quem escolheu o seu próprio NOME, também rompeu, ipso facto,
com todas as imposições e Imposturas que tendam a tiranizar
a sua Vontade e tolher a sua Liberdade de Indivíduo!… Mil outros
motivos há que advogam esse Rito da Adoção.

– Os nomes esotéricos! supliquei, vendo que se eternizava num misterioso
falar.

Ele sentou-se com um papel e um lápis.

– Antes de tudo, é preciso conhecer o esquema da figura da Lei Universal,
ou Ciclo da Matéria, donde se deduz a Ortologia, ou a Sabedoria Universal.

Diante daquele lápis hostil, tremi.

– Os nomes sem figuras, Magnus.

Ele coçou a ponta do nariz.

– Ei-los:

SUN, nome do HIEROFONTE (+) atual; Significa: – sol no NADIR, ou Sol posto
e, por extensão, Luz Invisível, isto é, Sol subjetivo.

Etimologia: – S … símbolo de Fonte e de Brilho em sua máxima
intensidade e, portanto, símbolo de SOL; – N… . símbolo de
infinito e indefinido, de espaço e de espírito, portanto: num
ponto indefinido do Espaço. A quer dizer: presente, ou visível,
donde SAN – Sol acima da horizonte visual. I significa o que está para
vir e o que sobe, donde SIN – o Sol que vai nascer ou nascituro. U quer dizer
o que está embaixo, donde – SUN o Sol no Nadir.

BLUM-SAN-UR – A Flor que o Sol gerou. Nome de um Areopagita, cujo símbolo
é a cruz.

AM-VA – Viver para o Amor. Nome de outro Areopagita em São Paulo.

UN-AN – O espírito de Origem, engerador. Nome de outro Areopagita,
em Minas.

GVAM-IL – Viver, Amar e ser Livre. Nome de um iniciado do 2.º grau.

AL-GAI – Aquele que quer que todos folguem. Nome de um cientista bom e inteligente.
Iniciado do 2.º grau.

VAR-UN – A vida que palpita imperceptivelmente no seio da Matéria.
Nome de um distinto iniciado do 1.º grau.

SIR-US – O Filho da Aurora Boreal. Nome de um companheiro dedicadíssimo
que propulsionou a Propaganda da Razão no Estado do Paraná.

GAM-AR – Aquele que vai alegrar-se e folgar agindo com entusiasmo pela Regeneração
Humana.

Um instante calamo-nos. O hierofante Sun limpava o suor. Mas dentro em pouco
continuou a falar.

– Temos, disse, idealizados quatro templos para serem erigidos no centro
de cada uma das quatro partes em que dividimos a terra. Os templos chamam-se
os templos da Razão.

Também em épocas que todos chamam das grandes transformações,
os homens deram templos à Razão encarnada.

– Há muita gente iniciada? indaguei, afundando em amargas comparações
históricas.

– Muita. Só agora, porém, é que a iniciação
deixou de ser grátis. Não imagina como progredimos.

Há quatro ou cinco anos que em Minas Gerais se fazem festas sociolátricas.
As peripatéias ou excursões cultuais são comuns em todos
os Estados, máxime no Paraná.

– E aqui?

– Vamos entre as árvores discutindo e conversando.

Platão! Aristóteles! Jesus! Dellile! Procurei acalmar o meu
estado nervoso. Assistira à missa-negra, vivera entre os negros orixalás,
que sobre o opelê dizem a vida da gente, ouvira os espíritas,
o ocultistas, os gnósticos católicos. Essa reforma desorganizava-me.

– Mas isso tudo foi inventado pelo senhor?

– Foi.

– E desde quando pensa na reforma?

– Desde a idade de cinco anos, em que aprendia a ler sozinho. Só porém
em 1884 é que cheguei aos resultados práticos em Cataguazes.

– É brasileiro?

– Descendente de islandeses, os verdadeiros descobridores da América.

Recolhi meditando a questão. Aquele homem que aprendera a ler com
tenções de reformar a sociedade, a ortologia, as peripatéias,
a reforma da terra – tudo isso assustava. Refleti entretanto. Magnus era um
vasto saber, calmo e prático, formado em Cabala, tendo viajado o mundo
inteiro.

Se apenas nessa qualidade dissesse ter inventado o motocontínuo nas
asas das borboletas, eu, deplorando-o, levá-lo-ia ao hospício.
Mas Sondhal inventara uma religião, a religião que é
o bálsamo das almas, uma religião brasileira, e, como Jesus
à beira do lago Tiberíade, ensinava aos iniciados à beira
da lagoa Rodrigo de Freitas e da lagoa dos Patos. Era mais um profeta, venerei-o;
e assim fazendo quis saber quem comigo o venerava. A fisiolatria é
uma religião de doutores; numa lista de 200 ortólogos, sessenta
por cento são bacharéis.

As listas são feitas com pompa, e em cada uma eu li: – Drs. Toledo
de Loiola, Tavares Bastos, Jango Fischer, Flávio de Moura, Luís
Caetano de Oliveira, Antônio Ribeiro da Silva Braga, Adolfo Gomes de
Albuquerque, Floripes Rosas Júnior, José Vicente Valentim, Ulisses
Faro, Barbosa Rodrigues Júnior… Uma série interminável
de bacharéis!

Tantos doutores devem assegurar a doutrina doutíssima. Fui então
procurar o hierofante no seu templo, que tem percorrido várias casas
na Cidade Nova. Magnus Sondhal recebeu-me com o seu inalterável sorriso
e o seu inalterável pince-nez.

– Há tantos doutores na sua religião, hierofante, que eu a
considero.

– Pois, ergonte, uma das idéias da minha religião é
acabar com os doutores!

Sentamo-nos divinamente e eu o interroguei:

– A sua religião tem qualquer coisa de positivismo?

– Fui apóstolo da Humanidade seis anos. Só depois é
que comecei a propaganda da União Universal, a princípio com
um filósofo dinamarquês, depois com os Drs. Adolfo de Albuquerque,
Silva Braga e outros Areopagistas. A fisiolatria transforma as palavras e
expressões das outras línguas, transformando as instituições
humanas existentes e inexistentes em fatos positivos. Os fenômenos sobrenaturais
tornam-se até sensíveis.

– A reforma é então geral?

– Até no vestuário. Acredita o senhor que no futuro continuaremos
a usar sobrecasasa? Pois, não!

As roupas dos ergontes serão determinadas pelas estações
do ano com um cunho simbólico e as cores tiradas da figura universal.
No verão, por exemplo, 1.ª estação, macrofísica
e que representa o dia da vida, usar-se-ão as três cores fundamentais;
no outono, 2.ª estação, a tarde da vida, cores sombrias;
no inverno, 3.ª estação, microfísica, a noite da
vida, roupas negras, e na primavera, a 4.ª estação, roupas
brancas para corresponder ao albor da existência…

– Muito poético. As nossas casacas passarão a ser empregadas
apenas nos bailes de máscaras, como fantasias de gosto. Também,
que seria do vestido de Maria Stuart se não fosse o carnaval? Consolemo-nos
com a homenagem dos futuros ergontes!

Enquanto essas loucuras eram ditas, Magnus Sondhal sorria.

– Uma religião tão nova deve ter o seu custo especial.

– Tem, com efeito: o kratu, ou culto público, e a magia, ou culto
íntimo.

O kratu tem um quadro sinótico.

Ei-lo:

KARMA

(ou: – a Criação e Transformação Eterna, geradas
e contempladas pelo Amor).

__________________________ _______________________

KOSMOS ONTOS | ETOS

| e

| ESTETOS

____________________________

EIDONOMIA E EIMOLOGIA | ERGONOMIA

| e

| EROSTERGIA

1.º Grau 2.º Grau 3.º Grau

__________________________ _______________________

FISIOLATRIA

__________________________ ___________________________

IDOLATRIA BIOLATRIA PSICOLATRIA

——————————————————————————–
———————- ————————–

1.º Dia SOL Fecundação Sentir Amor

2.º Dia LUA Gestação Conceber Sabedoria

3.º Dia TERRA Procriação Construir Poesia

4.º Dia MAR Nutrição Mecânica Sensualismo

5.º Dia AR Respiração Química Vitalismo

6.º Dia CÉU Lhômição Al-Químia Animismo

7.º Dia NOITE Subjetivação Hiper-Químia Idealismo

——————————————————————————–
———————– ————————-

Donde REFLEXÃO… CONSCIÊNCIA… MAGIA

A palavra MAGIA é empregada no sentido de sua etimologia Altaíca,
isto é, derivada de MAC – Força ou Ação e I –
sobre ou para o Futuro. Representa o estado superior da Vida, em que o Espírito
ou a Razão dirige a Força Inconsciente.

A magia começa a revelar-se nas próprias iniciações
maçônicas pela adoção de um nome esotérico
que liberta das más influências. Só eu a posso empregar,
porque sou o único a conhecer a hiperquímica ortológica,
ou as leis naturais das influências psíquicas.

A hiperquímica, de hyper e da língua universal kim, que significa
a parte invisível e indestrutível da matéria, tem duas
ciências preliminares: a alquimia, ou tratado da reação
das matérias em estado das correntes puras, e a químia. O princípio
alquímico é que a matéria é una, vive, evolui
e se transforma. O princípio unitário Lhôma entra como
causa em todas as reações e por ele se explicam o fenômeno
microfísico das funções cerebrais, a função
das imagens interiores e a influência da moral sobre o físico.

Mas tudo isso está nos nossos livros: – A Reforma Sociocrática
e a maior evolução do mundo, o Catecismo Ortológico a
Arte de Enriquecer ou extinção do pauperismo pela instituição
da plutometria em substituição à plutocracia, a Explicação
de Deus ao Papa, a Pré-história segundo a Ortologia e outros
volumes. O essencial acha-se porém num livro manuscrito, que não
se imprime: – o Catecismo Esotérico.

Depois paternalmente o hierofante disse:

– Venha hoje ver uma sessão de magia. Nós comemoramos a morte
de um iniciado. O templo é uma sala, mas é de dever deduzi-lo
da figura da Lei Universal ou Al-Miz: ao norte a loja azul, ou do 1.º
grau; a este a loja amarela, ou do 2.º grau; ao sul a loja rubra, ou
do 3.º grau; a oeste o dumma, ou sala negra, no canto o templo ou empíreo.
O dumma e o empíreo significam o branco e o negro, dois elementos antitéticos
do Binário Universal… Venha às 11½.

Eu fui. Era uma noite úmida, de chuva, no dia 5 de agosto. O iniciado
que morrera, meu amigo, um gênio musical, passara pela vida agarrado
a todas as fantasias. Eu fui e delirei tranqüilamente. Tínhamos
combinado estar na pensão de Sondhal. Quando lá cheguei, encontrei
treze homens de chapelão desabado e manto negro. Pareciam conspiradores.
Abri o manto de um deles e vi que estava forrado de seda roxa; abri o de outro,
também, e todos tinham varinhas na mão, onde brilhavam ametistas,
a pedra da magia! Reparei então que o hierofante era um deles.

– De que é feita essa bagueta? inquiri.

– De uma liga metálica que é um segredo alquímico! respondeu
uma voz. E com o hierofante à frente, todos deslizaram pelo corredor
escuro. Eu os seguia como a sombra dos seus mantos. De repente, pararam a
um sinal seco e eu retive um grito. Na extremidade superior do cetro do hierofante,
começava a bruxulear uma luz fosforescente.

– Meu Deus!

– Cala-te, é a luz física, e o au-lis!

Todos os magos ergueram verticalmente as baguetas estendendo o braço
direito para o ar, e na extremidade de cada uma, como uma misteriosa gambiarra
de vagalumes, o au-lis acendia a sua fulguração indizível.
Nas copas dos chapéus dos magos vibrava o telegormo, que transmite
as palavras pensadas.

A luz porém cessou, as varas abateram-se e os treze saíram
para a rua como simples transeuntes.

No curto trajeto do hotel à sala do templo, eu tive a impressão
de um ser à parte num mundo à parte, e quando cavamente a porta
se fechou num cavo rebôo e subimos aos tropeços as escadas, pareceu-me
cair outra vez, na amada vida. A luz reaparecera.

Na sala, cheia dessa luz, o hierofante subiu os três degraus do altar,
voltou-se para os magos, deu na ara três pancadas e falou. Era a prece
da Evocação. Agarrei-me a um portal, tremendo. Com toda a solenidade
o homem foi ao outro canto e fez a segunda prece, a Invocação.
Depois, voltado para o oriente disse a Efusão. Terminado que foi, sentou-se.
Reparei então que havia um estrado e em cada canto sentavam-se quatro
magos.

– Aquele estrado? fiz num sopro.

– É o palco dos Fantasmas, ou lig-ôma!

De novo três pancadas bateram. O hierofante, em pé, fez um gesto
sagrado, colocando a mão esquerda sobre o coração, fonte
do Viver e do Sentir, e a direita, ou da ação, na fronte, centro
psíquico. Depois um gesto para o ar e para a fronte indicou o porvir
e o ideal.

Todos os magos bradaram:

– Au-ár! An-ár!

E a voz do hierofante abriu na treva:

– "Pobre e triste humanidade de mortos!… Pressentiste o poder da alma
humana, e inventaste a invocação, o culto e a prece!… Mas,
a quem te dirigias tu? – As ficções impotentes!

"Não conhecias a matéria no seu estado unitário
de Lhôma, embora teus grandes filósofos chegassem quase a determinar
sua existência.

"Que era o culto do Lhôma na Pérsia antiga e o do Sôma,
na Índia, senão o grande vislumbre da grande magia fisiolátrica!…

"Mas agora o Universo nos está revelado, em todas as suas maravilhosas
manifestações: – aquímicas, químicas e hiperquímicas!…

"Pelo Cérebro, abalamos o Lhôma, que penetra toda a Matéria
orgânica ou inorgânica!…

"E o Cérebro é um universo microfísico, onde os
átomos valem os astros do espaço sideral!…

"E lá dentro do crânio há luz, por que é
do Lhôma tenebroso que, por toda parte, ela se gera?…

"Que mais pode surpreender ao Ortólogo?!… Onde pode haver um
canto no Universo que sua Vontade não penetre?!… Onde um Ser ou Fato
que sua Microtagia não desvende?!…

"Homens mortos!… Vítimas da Feitiçaria teolátrica
e da negra magia das forças brutas e inconscientes da Matéria!…
Sede eternamente malditos!… Mostrai-vos ali! no palco dos fantasmas, em
toda nudez do vosso hediondo Sofrimento!…"

Eu bati os dentes com um frio que traspassava os ossos. A luz acendia de
vez em quando, e naquele estrado, onde os espíritos mais deviam estar,
eu via o vazio, o vazio horrível, o vazio doloroso.

– "Surgi. Vós também, ó Heróis do Bem –
continuara o mago – que vivereis eternamente, impulsionando os Progressos
que só a Razão inspira!

"Ei-los!…

Eis os quadros da vida humana!… torpe, miserável!…

"Quem é aquele sublime LIC-UR, cercado de Amores e de Harmonias,
e cuja presença de Luz dissipa e dissolve os tenebrosos e estúpidos
NUROS corruptores?!…

"É o SAN-A’R…

"Ei-lo, sorridente e vitorioso!… vitorioso da própria Morte!

"Ei-lo sublime que nos aponta o Futuro, onde fulgura também a
nossa suprema Vitória!

"Assim como ele anulou a corrupção dos Mortos, nos quadros
telefênicos do Espaço sideral, nós também anularemos
a corrupção dos Vivos decadentes, que são de mais na
superfície do Planeta’

De mais! os que são de mais! eu ali dentro estava de mais! Então
abri a porta, saí, olhando para trás, aterrado do san-ár;
dos nuros, desci agarrado aos balaústres da escada e quando sentei
na soleira da porta, fatigado, com o cérebro vazio, senti que suava
e que me ardiam as faces.

No outro dia encontrei o fisiólatra Magnus acompanhado de vários
iniciados.

– Vou fundar uma Universidade no Liceu de Artes e Ofícios. Não
deixe de ir assistir às conferências preparatórias.

– Mas ontem, ontem que fizeram vocês?

Houve uma pausa.

– Meditamos até de manhã à beira da Sabedoria para que
a Sabedoria viesse.

E Magnus Sondhal, com um volume de Nietzsche debaixo do braço, seguiu
com os iniciados pela rua a fora, como se fosse um ser natural…

A sensação do passado

Estávamos a conversar no gabinete de Jorge Praxedes. Era um fim de
tarde prolongado por um lindo e maravilhoso ocaso. Jorge oferecia chá
em xícaras de porcelana da Pérsia; havia largos divãs
sonhadores entre as mesas atulhadas de bugigangas de arte, e naturalmente,
a atmosfera, o tabaco turco, o chá, tudo isso nos dava a lombeira das
recordações e o desejo de fazer frases. Já tínhamos
falado do amor, da vertigem do tempo, do galope da existência e de outras
coisas novas.

— É curioso, disse um da roda, nós os homens modernos
não temos a sensação do passado, do não sentido,
do total alheamento que o passado devia dar. As dores, as alegrias, as modas
ficam na memória como coisas presentes que se afastaram. Para um homem
que vive a vida intensa não há propriamente passado, há
um acumulador que não dá a impressão especial do antigo,
do acabado, do que não volta mais e há muito tempo terminou.

— Paradoxo!

— É fato. Como homem as minhas amantes mesmo mortas vivem todas
na minha memória como se estivessem ali, por trás do paravento;
como artista nunca me foi possível ter a impressão do extinto
diante de uma estátua grega, a ouvir um trecho de musica clássica,
a ver uma linda tela antiga.

Houve um prudente silêncio, e todos olhavam prudentemente as janelas,
quando o barão Belfort, que tocava um pouco distante um vago Schumann
num piano meio desafinado por falta de uso, exclamou:

— Como tem você razão! Os grandes sentimentos e as grandes
emoções são sempre os mesmos. Por isso, os homens guardam
na história o mesmo fenômeno de memória da sua vida interna,
lembram-se mais de fatos do tempo de infância do que do tempo de ontem.
Como artistas, neste torvelinho moderno em que a beleza desapareceu, só
o que é medíocre, muito medíocre, dá a sensação
do passado, mesmo que seja de ontem. Diante da Vitória de Samotrácia
no Louvre é impossível deixar de ter o enebriamento do triunfo
diante daquele bloco de pedra ardente que parece arrastar as embaterias da
conquista, e anima os nossos nervos de hoje como animaria os dos helenos.
A vista da delicadeza pré-angelical de uma cabeça de Murilo,
o nosso amor pela beleza vibra como vibrava o dos contemporâneos do
grande artista. Que digo! Diante dos simples pedaços de pedra apanhados
nas escavações do Egito nós sentimos a vida porque eles
sabiam reproduzir a feição eterna da Vida. Um homem moderno
não se admira do progresso porque o presente não sente o passado
porque o guarda no próprio plasma.

— Grande fantasista.

— Repito, só a mediocridade, a camelote pode dar a sensação
do bem velho, do velho quase incompreensível para nós, do velho
antipático, do velho repugnante, do passado integral. E para isso bastam
dois anos. Eu apalpo as opiniões, o afinamento nervoso dos homens,
nas pequenas coisas, nas emoções dos sentidos. Qual dos senhores
que amam perfumes sente a velhice da essência de rosas? É dos
mais velhos perfumes do mundo e é divino e sempre da nossa alma. Qual
dos senhores será capaz de usar, sem se sentir fora da moda, fora do
tempo, um perfume lançado por qualquer fabricante francês com
grande espalhafato e grande êxito há vinte anos, o «Jockey
Clube» por exemplo? Ao ouvir uma sinfonia de Mozart, sentindo a cada
passagem uma sugestão aos sentimentos eternos, ninguém achará
essa música velha. Ao ouvir uma valsa de 1870, cada um de vocês
tratará de fugir…

A roda riu desabaladamente. O barão, levantou-se do piano, um pouco
animado.

— Mas é um fato. Só as coisas absolutamente insignificantes
dão a sensação do passado. Eu já tive essa sensação,
não solitariamente, como me aconteceria cheirando um frasco de perfume
da ex-moda, mas num salão de baile, num dia de baile. E até
jamais esquecerei a sensação porque vi, olhei, encarei e sofri
o miserável passado com toda a sua imensa insignificância.

Como André de Belfort contava sempre coisas interessantes, os cavalheiros
presentes aguçaram a atenção.

— Nunca pensei, meus amigos, que fosse tão simples e tão
doloroso. Eu que saía dos museus de indumentária da Idade Média
com ensinamento de arte e a alma renascida, eu que vibrara diante dos frescos
de Botticeli como diante da revelação para o futuro, fiquei
aniquilado.

Há cerca de três anos, fui convidado para um baile nas Laranjeiras.
Não era um sarau super-elegante, absolutamente fashion… Aqueles senhores
dançavam ao som de um piano. Havia, entretanto, casacas, algumas notabilidades
literárias e científicas arrumadas na saleta de fumar, um farto
serviço de buffet, a elegância das mulheres, das moças
vestidas de tecidos leves, a adejar a gracilidade suave dos gestos. O dono
da casa recebeu-me com as reverências com que receberia um bonzo. As
moças olharam-me curiosamente, os valsistas ergueram os olhos, as matronas
indagaram o meu nome e eu fui conduzido ao fumoir, onde murchavam cinco ou
seis glórias urbanas. Nesta sala estava o piano, o piano torturador.
Um mulato de pastinhas, com os colarinhos altíssimos e o jeito pernóstico
de levantar o dedo mínimo onde fuzilava um solitário, dirigia
a caravana das notas, radiante como um deus e suado como uma caldeira. De
vez em quando, chegavam rapazes com vozes súplices:

— Firmino, agora, aquela tua polca.

— Qual delas? interrogava o pianista com a fronte de orango camarinhada
de suor.

— Aquela muito bonita, aquela mole…

E, ali mesmo, baixinho, trauteavam compassos.

— Tocas?

— Pois não.

Por esta apreensibilidade de motivos musicais, percebi estar diante de um
desses pianistas da moda, peculiares à nossa sociedade, homenzinhos
que vivem de escrever, com alguns erros e muitas aclamações,
polcas, valsas e outros sons dançantes. Os jornais anunciavam mensalmente,
havia dois anos, novas composições suas, e, como um decreto,
o seu nome triunfava nos salões modestos.

A vaidade enlouquecera-o quase. O Firmino tinha a certeza de estar no galarim
e, tocando, acompanhava com os ombros e a cabeça o balanço langoroso
dos compassos, de olho aberto, beiço revirado, tal qual um gênio
inebriado com a própria revelação.

Talvez o fosse. Há gênios para tudo.

Eu ficara depositado numa rocking, ouvindo o Firmino e um velho químico,
professor de Faculdade, o dr. Hortêncio Guedes. O dr. Hortêncio
falava mal do próximo, de modo que o Firmino não me escapava,
dada a minha natural reserva de responder com monossílabos quando se
ataca a vida alheia.

O pianista era, de resto, curiosíssimo. À roda do piano havia
três ou quatro indivíduos hipnotizados pela sua virtuosidade.
De vez em quando, um rancho de moças, escoltadas por cavalheiros, invadia
a saleta para lhe fazer o pedido de uma composição comovente,
e o Firmino logo esticava mais os dedos, erguia a cabeça ao teto, fingindo-se
em pleno sonho, para ter um sobressalto, curvar-se, dizer:

— Minhas senhoras…

Então, todas falavam a um tempo

— Firmino, toca a Estrela d’alva.

— Não! Antes a Irresistível…

— Silêncio! Firmino, mlle. Abigail deseja aquela tua valsa…
aquela muito dançante. Como se chama, mlle.?

— Lolita.

— É isso, a Lolita.

O pianista lambia os beiços.

— Ah! v. exa. gosta da Lolita? Um poucochinho velha, tem seis meses.

— Mas é tão bonita!

— Muito obrigado.

E, mais suado, com o lenço entre o pescoço e o colarinho a
desabar, o pianista sacudia no piano os saracoteios da valsa. Não sei,
meus senhores, qual a vossa impressão ouvindo esse gênero musical.
Eu, francamente, sentia-me moço, com vontade de dar à perna,
tamborilando nos braços da cadeira, gostando. Aqueles sons eram do
meu tempo.

De repente, porém, quando o relógio batia uma hora, o Firmino
parou bruscamente, pôs a mão no queixo.

— Não posso mais!

Logo acudiram rapazes, o dono da casa, senhoras. Era a desgraça. A
nevralgia, a terrível nevralgia do Firmino rebentara. A notabilidade
passava o lenço da fronte ao queixo numa ânsia raivosa. Havia
dor de dentes e, principalmente, a dor de não poder continuar a ser
o ídolo do grupo. As meninas, cheias de carinho, já tinham ido
buscar cocaína, um palito, algodão; um dançarino trouxera
o espelhinho do toucador:

— Põe isso, Firmino, a ver se passa.

— Qual! não passa… chorava o artista. E, subitamente, desapareceu
da sala, arrastando os dançarinos.

Durante dez minutos o dr. Hortêncio tomou sorvete e absorveu as atenções.
Eu já estava enfastiado, quando o anfitrião surgiu:

— Ora esta! E que tal, hein? Uma festa que ia correndo tão bem!
Logo hoje o sr. Firmino dá para ter dores de dentes. Estraga-me a noite!

Atrás do anfitrião vinham a pouco e pouco surgindo os convidados
e o interesse de gozar a noite aumentava o ódio contra o pianista,
como se ele tivesse a nevralgia só para os desgostar. Aquilo não
passa! É um mulato de maus dentes! E agora? Sim, e agora? Que se há
de fazer? D. Julieta toca? D. Julieta era tímida e ainda estava estudando.
Ninguém tocava, ninguém sabia o que fazer? E tudo por causa
desse Firmino…

Um dos rapazes, que usava lunetas e parecia muito brincalhão, propôs
o suicídio geral, um holocausto a Terpsychore e, para dar o exemplo,
atirou-se à janela. Mas voltou de lá, em pontas de pé,
a face feliz, pedindo silêncio

— Meus senhores, está tudo resolvido. Descobri um pianista!
Agarrei o impossível!

Todos, num ímpeto, indagaram onde o guardava

— Ali, em baixo, na rua, vendo o baile. É o Prates. O Prates,
há vinte e cinco anos, era o Firmino de hoje. Morreu-lhe a mulher,
foi para uma fazenda, não sei. O fato é que, quando voltou,
já outros lhe tinham tomado o lugar. O Prates anda por aí furioso
contra os rivais, e passa as noites assistindo aos bailes como convidado do
sereno. Não perdeu o hábito, coitado! Era a sua atmosfera…
De manhã lê os cumprimentos dos jornais e à noite espia
os saraus. Original. Lá está ele. É aquele gorducho,
de cavaignac branco, com um ar de agente de polícia aposentado.

— Que romântico! fez o Dr. Hortêncio, e todos nós
fomos à janela, sutilmente, espiar a rua negra, onde, com um cavaignac
branco estava o caso esquisito.

O mocinho indagou do anfitrião:

— V. ex. permite que o vá chamar?

— Sei lá! se os senhores quiserem.

— É velho, clamou alguém.

— Que tem isso? indagou facundamente o Dr. Hortêncio. Então,
se ali embaixo estivessem Beethoven, Schumann, Mozart ou outros luminares
da música, nós não os deixaríamos entrar!

Aquele argumento pareceu decisivo, apesar de estarmos convencidos de que
se Beethoven e os outros luminares aparecessem, teriam que ficar na calçada
e sem abrigo.

O jovem partira, entretanto, e minutos depois entrava na sala conduzindo
um homem ventrudo que tinha um cavaignac de bode branco e rolava o chapéu
nas mãos.

— Meus senhores, o pianista Prates, que teve a bondade de aceitar o
nosso convite.

— Eu passava na ocasião, murmurava o homem, achei linda a festa…

Um bando de dançarinos já o envolvia, oferecendo-lhe licores,
tirando-lhe o chapéu, sentando-o ao piano.

— Vai tocar alguma coisa?

— Quem estava aqui?

— Nós todos.

— Pareceu-me ouvir as composições do Sr. Firmino… Abancou,
correu uma escala do piano. Hein? Que era aquilo? Era uma outra escala, uma
escala estranha.

— Bem, vou tocar uma valsa.

— Bem moderna, Sr. Prates; uma valsa dançante.

— Sim, sim…

Os pares voltaram todos ao salão. Prates pareceu recordar; atacou
um acorde, depois outro, e os primeiros compassos ecoaram. Um vago mal estar
pareceu, de repente, estreitar a sala. Que coisas cômicas, que coisas
grotescas, que coisas estúpidas, essas notas de piano sugestionavam
à gente!… A sensação do passado enraivece sempre. Os
convidados estavam irritados como se fossem recebendo uma longa humilhação.
Eu tinha vontade de rir e ao mesmo tempo de destruir, de quebrar o piano.
Na sala, as meninas largaram os pares desanimadas; moças nervosas sentavam-se
aos cantos e era uma crescente exclamação de desprazer.

— Qual! Não é possível! Ninguém compreende
isso! Pára! Afinal, um, mais ousado, aproximou-se do piano:

— Ó Prates, toca qualquer coisa de mais novo.

Uma voz rouca respondeu:

— Hein? não estão gostando?

— Muito, não. Vê se nos dá a Valse Bleu.

— A Bleu? Ah! Essa não conheço. Parou, fitou um instante
a parede fronteira, correu a mão pelo teclado:

— Vou tocar um dos meus sucessos.

Eu olhava-o como se olha um monstro, um trambolho que é preciso destruir
e ele estatelava nas sete oitavas uma espécie de belchior melódico,
tendo tudo, desde o Seu soldado não me prenda até os compassos
do tempo em que o Furtado Coelho intitulava as valsas de homenagens e as meninas
dançavam a Flor de neve, a Flor de baile, a Feíticeirinha e
a Varsoviana.

Eu nunca vira coisa tão assustadoramente horrenda. Era como se, de
súbito, saltasse ao salão uma velha horrível, remexendo
molemente as pernas bambas. A mixórdia espoucava como um rebate devastador.
Os tais sons dançantes eram impossíveis de dançar. Por
mais desejos, por mais esforços que fizessem os dançarinos hábeis
no «boston» e nas «americanas», eram incapazes de
fazer duas voltas sem errar, sem se encontrarem, sem desanimar. Dançar
com aquela música tornava-se um tormento superior para os mais alegres.
E ele, feliz, com o cavaignac pendente, num gozo infinito, corria os dedos,
evocando recordações, o Prates de outrora, que dirigia os salões,
o Prates querido, o Prates animado no turbilhão das valsas, enquanto
cada um de nós sentia o acostar de um espectro, o esmagamento com o
dia de ontem, uma impressão de bolor, de umidade, de ridículo…

No salão o gás silvava só, e as janelas abriam num largo
bocejo para a escuridão da noite. O pianista chegava ao fim em dificuldades,
de mãos cruzadas no teclado, empinando o cavaignac, glorioso, ébrio
de satisfação. De repente, parou, olhou para todos os lados,
sem ver, limpou o suor das fontes, abriu a boca num sorriso alvar.

Não havia ninguém.

Já muita vez, com certeza, lhe acontecera aquilo, na sua peregrinação
melancólica.

Prates ergueu-se pálido, tão pálido que eu pensei vê-lo
cair com uma vertigem; pegou do chapéu, apertou o lenço na boca
barbuda, como afogando um soluço e saiu vagarosamente. Dentro batiam
os cristas da ceia…

Foi esta a única vez que eu tive a sensação do passado.

Aventura de hotel

Naquele hotel da rua do Catete havia uma sociedade heteróclita mas
toda bem colocada. O proprietário orgulhava-se de ter o senador Gomes
com as suas sobrecasacas imundas, o ex-vice-presidente da ex-missão
do México, a primeira ex-grande atriz de revista, com o seu cachorro,
Mme de Santarém, divorciada pela quarta vez em diversas religiões,
o barão de Somerino do Instituto Histórico, um negociante tuberculoso
chegado das altitudes suíças com o fardo enorme da esposa, o
engenheiro Pereira mais a mulher, mais sete filhos, mais a criada, a notável
trágica Zulmira Simões em conclusão da sua última
peregrinação provincial em companhia do elegante Raimundo de
Souza, duas senhoras entre viúvas, solteiras ou estritamente casadas,
enfim, todo um mundo variado, mas que pagava bem. De resto, o proprietário,
como assegurava a ex-estrela de revista, correspondia, isto é, servia
com cuidado. Havia eletricidade em todos os quartos, um aparelho de duchas
no terraço de cima e um cozinheiro chinês.

Ao almoço era curioso ver toda aquela gente na sala de baixo, ornada
de palmeiras e de flores comuns, entre os metais polidos das guarnições
das mesas. A sala era baixa, com uma luz baça de recanto submarino
Parecia um aquário. A mim pelo menos. As atrizes tomavam ares graves
de peixes evoluindo cerimoniosamente no fundo d’água para cumprimentar
as damas sem palco; os homens eram reservadíssimos. Tudo aquilo mastigava
calado, cada um na sua mesa, batendo o talher. Só quando havia hóspede
novo é que surgiam frases breves.

– Quem é?

– O deputado Gomensoro.

– Ah!

Sempre grandes nomes, gente importante, um complexo armorial de celebridades
funcionárias e de titulares empastilhados. E à noite, no saguão
guarnecera de um indizível mobiliário hesitante entre o estilo
otomano, os belchiors e o confortável inglês, podia-se ver os
representantes de todas as classes sociais desde a diplomacia até o
trololó.

Precisamente tínhamos mais dois hóspedes, o velho ministro
do Supremo, Melchior, e seu sobrinho Raul Pontes, rapaz elegante, vivaz, espirituoso,
com vinte anos irresistíveis. Todos no hotel respeitavam Melchior e
gostavam do Raul, e ainda ninguém esquecera a sua verve quando o deputado
Gomensoro, depois de apertar-lhe a mão, dera por falta do relógio.
Onde se fora o relógio? No bonde? Roubado? Saíra Gomensoro com
ele? O Dr. Raul Pontes ria a bom rir. O relógio evaporara-se decerto.
Era o calor. E ficou muito bem aquele estouvamento, tanto mais quanto o velho
Melchior representante da justiça, mostrava-se incomodado.

No dia seguinte, ao vestir-me para o almoço, lembrei que na minha
gravata creme ficava bem um alfinete de turmalina azul com brilhantes do Cabo,
linda jóia e lindo presente. Abri a gaveta onde deixara à noite.
Não estava lá. Abri outras gavetas, procurei, remexi malas e
bolsas. O alfinete desaparecera. Quis descer, prevenir o gerente. Mas contive-me.
Podia tê-lo atirado para qualquer canto. Quando se quer achar um objeto,
a gente está vendo-o e é como se não o visse. Depois
uma queixa sem provas contra o criado acirra a má vontade. Menos talvez
que as queixas com provas, mas sempre o bastante para sermos malservidos.
Eu sou prudente. Três ou quatro dias depois, no saguão, o senador
Gomes, que só tinha livros e roupas velhas no seu aposento, perguntou-me
de repente:

– Você tem um alfinete de turmalina azul, não?

Além de prudente, sou inteligente. Por que diabo naquele distinto
hotel, o senador indagava de um alfinete desaparecido? Tê-lo-ia apanhado
por farsa? Era pouco próprio para o alto cargo legislativo, mas para
mim uma confiança simpática. Fez-me o efeito de um piparote
no ventre. Respondi:

– Tenho sim. Por que pergunta? Ainda hoje sai com ele…

Gomes travara com a genial Zulmira Simões, oráculo teatral
de aquém e de além-mar, uma discussão superior sobre
Calderon de la Barca, a quem, aliás, ambos imputavam várias
peças de Lope de Vega. Em tão elevada esfera da dramaturgia
espanhola, Gomes não respondeu à minha pergunta, e eu que nessa
noite não saí de casa, ao subir antes do chá, encontrei
no corredor apenas o velho Melchior meio abatido, fechei a porta por dentro,
dormi e no dia seguinte dei por falta do meu porte-monnaie de prata. Coisa
estúpida afinal!

O gatuno – porque era o gatuno, não havia dúvida, – o gatuno
ou farsista sem graça deixara a minha carteira e deixara até
os níqueis, certo para mostrar que aquilo era seu, que aquilo estava
ali porque ele voltaria. Que fazer? Prevenir o proprietário? Mas eu
estava num hotel tão distinto! Era pouco correto e estabeleceria o
desequilíbrio na confiança geral. Não! seria melhor esperar.

No dia seguinte, como voltasse de ouvir o D. Cesar de Bazan com Zulmira Simões
e o brumeliano de Sousa, enquanto de Sousa subia à frente, a atriz
murmurou:

– Ah! meu amigo, este hotel tem casos curiosos… Sabe que fui roubada?

– Sério?

– Sim. O objeto tinha um valor todo estimativo, era um berloque que me dera
o Raimundo logo no começo da nossa ligação. Não
lhe diga nada que o incomodaria. De resto, não sou eu a única.
O Dr Pontes foi também roubado no seu porte-monnaie.

– Como eu!

– O Sr. também? Mas estamos na caverna de Ali-Babá.

Horas depois felizmente rebentava o escândalo. Pela manhã, Mme.
de Santarém dera queixa por lhe terem roubado um face â mam de
madrepérola com incrustações de ouro sob desenhos, dizia
ela, de um pintor húngaro. E o gerente pôs fora o criado Antônio,
porque a ele faltavam também passadores de guardanapos – dois, três
por dia. Antônio saiu protestando, furioso. Falou até de processo
por perdas e danos. Era um ladrão cínico. E durante o almoço
a conversa generalizou-se. Ninguém escapara. O que acontecera comigo
acontecera com de Sousa, com o barão de Somerino, com o negociante
tuberculoso, com o ex-vice-presidente da ex-missão do México,
com a estrela revisteira, com o Dr. Melchior. Todos tinham sido roubados e
confessavam por desabafar. Havia até mesmo recordações.
O Dr. Pontes, o nosso caro Raul, indagava da genial Simões:

– V. Excia. andava à cata do ladrão naquele dia em que a encontrei
no corredor?

– Não; ainda não sabia. Tive apenas um pressentimento. Acho
que deviam prender o homem.

– Mas não há provas! exclamava Mme. de Santarém. Não
encontraram nada! Era esperto. No dia em que desapareceu o meu face â
mam, não saí do quarto.

– Roubos excepcionais…

– Estamos no domínio dos ladrões geniais.

– Precisamos de um grande agente dedutivo para resolver o crime…

– E prender o Antônio copeiro? Ora para ladrões desse gênero
basta a nossa polícia!

Aliás o tal Antônio gatuno parecia mais um doente. O homem afinal
não tirara nunca dinheiro, e as argolas de guardanapos do hotel eram
lastimáveis como valores. Mas, fosse gatuno genial ou doente, Antônio
partira e a confiança renascia. Passamos assim uma semana e, com grande
pasmo nosso, Mme. de Santarém e a atriz Zulmira Simões, no mesmo
dia, à mesma hora, encontraram em cima do lavatório, uma o seu
face â mam, outra o seu berloque.

É uma aventura! É um caso de diabolismo! sentenciava o negociante
tuberculoso.

O hotel convulsionava-se. Só o senador Gomes resmungou:

– Que besta!

E aquela frase dita tristemente preocupou-me. No fundo, porém, o sujo
e ilustre homem tinha razão. O gatuno, ou o sportman da ladroeira não
era Antônio, era outro, existia, anunciava a sua presença, estava
ali, ao nosso lado. Audácia? Loucura? Estupidez? No dia seguinte deu-se
por falta do colar de ouro com pedras finas da atriz Simões, os brincos
da mulher do tuberculoso sumiram-se. Foi o terror. Os hóspedes trancavam
o quarto e saíam levando os valores no bolso, mesmo para almoçar.
A limpeza era feita na presença dos respectivos locatários.
Já ninguém se falava direito, já ninguém conversava.
Havia entre nós um ladrão. Um ladrão! O medo prendia
as senhoras aos quartos. Ninguém saía sem necessidade urgente,
com receio de ser apontado pelo menos um segundo, como o fora o Antônio.
Éramos os forçados daqueles crimes; tínhamos que chegar
à tragédia. O gerente, lívido, armava uma polícia
interna ferocíssima; os criados serviam, coitados! com uma humildade
dolorosa, temendo a suspeita, o ex-vice-presidente da ex-missão do
México teimava em escrever ao chefe de polícia, em varejar os
quartos.

– Pelo amor de Deus! gemia o proprietário.

– É outra tolice, acrescentava Gomes. Nós temos aqui gente
respeitável.

– Pois está claro! dizia logo Mme de Santarém, divorciada pela
quarta vez.

E, apesar da vigilância, continuaram a desaparecer objetos. Não
era possível! Ou sair, ou dar queixa à polícia.

Uma vez encontrei na cidade Melchior e Pontes, acompanhando Mme de Santarém
a uma confeitaria. Eram duas horas da tarde. Voltei à pensão.
Por uma coincidência, morava no mesmo corredor que essas três
pessoas, mesmo pegado ao senador Gomes. Estava a despir-me, quando senti passos
abafados. Abri a porta devagar. Era o alegre e sempre espirituoso Pontes.
Vinha para o seu quarto. Mas não. Parou no quarto de Mme. de Santarém,
experimentou uma chave, torceu, entrou. Oh! a imoralidade dos hotéis
honestos! O felizardo ia gozar as delícias de um aprês-midi amoroso
com a honestíssima senhora! Pouco depois, porém, ouvi um leve
rumor, espiei de novo. Era Pontes, com o ar mais natural, que fechava o quarto
e andava ligeiro. Quis fazer-lhe uma pilhéria, gritar; – aí
maganão! ou outra parvoice qualquer – porque eu sou de natural pândego.
Mas deixei para o jantar, recolhi. E no jantar Mme de Santarém, que
chegara momentos antes, apareceu transmudada: tinham-lhe roubado o broche
de rubis.

Estávamos todos no salão e sustiveram-se todos num pasmo raivoso,
quando a gentil senhora bradou:

– Acabam de roubar o meu broche de rubis! Mais um!

Os meus olhos cravaram-se no Dr. Pontes. Tinha o mesmo pasmo dos outros,
o mesmo ar, o mesmo olhar.

Uma idéia atravessou-me o espírito. Era ele o gatuno! Não
havia dúvida. Era agarrá-lo ali, logo… Mas se fosse apenas
o amante? Afinal era um homem que devia respeitar a família e o tio!

As provas eram contra ele, absolutamente contra. No hotel ninguém
poderia lembrar-se de sair depois daqueles roubos. A situação
precisava ficar clara. Eu cometeria um escândalo, diria ali que o vira
entrar no quarto de Mme de Santarém e as explicações
viriam depois.

Ia falar, ia contar tudo, quando senti que pesavam em mim os dois olhos do
senador Gomes, enquanto este, balançando a cabeça, balançando
a faca entre os dedos, parecia por todos os modos pedir-me para não
dizer nada. Gomes sabia! Desde o dia em que falara do meu alfinete! Contive-me.
Mesmo porque entravam a Pepita, mais o seu cachorro, ambos desesperados com
o desaparecimento de um anel marquise, admirável, segundo a opinião
da estrela.

O engenheiro Pereira ergueu-se.

– Gerente! Não fico mais um dia no seu hotel. A situação
é delicada para o primeiro que sair do ergástulo, mas eu arrosto-a.
Tenho família, tenho uma esposa nervosa e tenho valores. Sou o engenheiro
Salústio Pereira. As minhas malas passam pelo seu balcão, para
o exame. Tire-me a conta…

O diplomata, que, entretanto, devia cinco semanas, teve um esforço:

– Eu também saio.

Os outros ficaram quietos, incapazes, mas com grande admiração
minha, o Dr. Pontes falou:

– Vivemos nesta aflição há já algum tempo. Há
um gatuno aqui, ou um gatuno de fora que possui a chave.

– É isso, a chave… atalhei eu.

– Mas apesar do mútuo respeito que nos devemos, a desconfiança
existe. Ora, eu já pensei mal de meu tio. Proponho, pois que ao sair
daqui, façamos uma passeata pelo hotel, entrando e varejando todos
os quartos. Serve?

Eu tinha acabado de sorver o café e admirei Pontes: ou um gatuno esplêndido
ou um inocente. Em compensação, o senador Gomes olhava a porta
absolutamente pálido. Que se iria passar?

– Serve? tornou a dizer Pontes.

– Mas está claro, fez o Gomes. Partimos todos para a passeata lá
da entrada. É o meio alegre de acabar com uma pressão séria.

– Apoiado! Este Pontes sempre o mesmo!

Mas Gomes erguia-se no rumor das exclamações.

Erguia-me, alcancei-o no corredor Estávamos sós. Sussurrei-lhe:

– O gatuno é ele. Vi-o entrar no quarto da Santarém…

– Não é.

– Então quem é?

– Não sei.

– É impossível negar mais tempo. Ou o senhor diz-me ou eu explico
tudo em público. Só o muito respeito…

Gomes teve um gesto alucinado, junto à escada que dava para os aposentos
superiores.

– Nada de palavras inúteis. Jura segredo?

– É um crime.

– Jura?

– Juro.

– Pois salvemos uma pobre mulher, salvemos uma desvairada, meu amigo, salvemo-la!
Não, pergunte por quê. Amo-a como pai, como amante, como quiser.

É ela que rouba, é ela. Não há meio de impedir
Vou mandá-la embora e ao mesmo tempo tremo de vê-la no cárcere.
É louca. Neste momento mesmo estamos à mercê da sorte
e do disparate do Pontes, a quem eu devia odiar Mas vamos salvá-la.
É preciso salvá-la. Tudo será restituído. Já
tenho feito isso. Psiu! Esconda-se, esconda-se. Aí debaixo da escada.
Não a veja, não a veja…

Alguém descia a escada sutilmente. Escondi-me com o coração
batendo, enquanto Gomes amparava-se ao corrimão. O silêncio parecia
aumentar a vastidão da escada. A voz do Gomes indagou:

– Tudo?

– Sim, meu medroso, sim, eu tinha tudo junto. Toma. E agora, até…

O vulto passou para o saguão de entrada. Da sala de jantar vinham
vindo os hóspedes, excitados com aquela investigação
policial aos quartos. Trêmulo, lívido, Gomes meteu-me na mão
um embrulho, enquanto empurrava nas vastas algibeiras da sobrecasaca e da
calça outros pequenos rolos, a dizer:

– Amanhã, restituiremos pelo correio, amanhã saem muitos. Sê
bom, salva-a!

Era atroz, era trágico, era ridículo ver aquele homem ilustre
e honesto a guardar os roubos de uma cleptomaníaca satânica e
era estúpido o que eu fazia! Mas irresistível.

Fosse quem fosse essa gatuna inteligente, era de uma ousadia, de um plano,
de uma afoiteza, de um egoísmo diabolicamente esplêndidos. Estiquei
o pescoço na ânsia da curiosidade, a saber quem era, a ver quem
podia ser no hotel tão cheio de hóspedes, aquela de que me fazia
cúmplice, aquela que misteriosamente, impalpavelmente, durante um mês,
trouxera ao hotel atmosfera de dúvida, de crime, de infâmia.
E, contendo um grito de pasmo, vi Mme de Santarém entrar no saguão
sorridente e calma.

O monstro

Pelas margens sagradas do Eufrates, que fugia, então, sem espuma e
sem ondas, caminhavam, na infância maravilhosa da Terra, a Dor e a Morte.
Eram dois espetros longos e vagos, sem forma definida, cujos pés não
deixavam traços na areia. De onde vinham, nem elas próprias
sabiam. Guardavam silêncio, e marchavam sem ruído olhando as
coisas recém-criadas.

Foi isto no sexto dia da Criação. Com o focinho mergulhado
no rio, hipopótamos descomunais contemplavam, parados, a sua sombra
enorme, tremulamente refletida nas águas. Leões fulvos, de jubas
tão grandes que pareciam, de longe, estranhas frondes de árvores
louras, estendiam a cabeça redonda, perscrutando o Deserto. Para o
interior da terra, onde o solo começava a cobrir-se de verde, velando
a sua nudez com um leve manto de relva moça, que os primeiros botões
enfeitavam, fervilhava um mundo de seres novos, assustados, ainda, com a surpresa
miraculosa da Vida. Eram aves gigantescas, palmípedes monstruosos,
que mal se sustinham nas asas grosseiras, e que traziam ainda na fragilidade
dos ossos a umidade do barro modelado na véspera. Algumas marchavam
aos saltos, o arcabouço à mostra, mal vestidas pela penugem
nascente. Outras se aninhavam, já, nas moitas sem espinhos, nos primeiros
cuidados da primeira procriação. Batráquios de dorso
esverdeado porejando água, fitavam mudos, com os largos olhos fosforescentes
e interrogativos, a fila cinzenta dos outeiros longínquos, que pareciam,
à distância, à sua brutalidade virgem, uma procissão
silenciosa, contínua, infinita, de batráquios maiores. Auroques
taciturnos, sacudindo a cabeça brutal, em que se enrolavam, encharcadas
e gotejantes, braçadas de ervas dos charcos, desafiavam-se, urrando,
com as patas enfiadas na terra mole.

Rebanho monstruoso de um gigante que os perdera, os elefantes pastavam em
bando, colhendo com a tromba, como ramalhetes verdes, moitas de arbustos frescos.
Aqui e ali, um alce galopava, célere. E à sua passagem, os outros
animais o ficavam olhando, como se perguntassem que focinho, que tromba, ou
que bico, havia privado das folhas aquele galho seco e pontiagudo que ele
arrebatava na fuga. Ursos primitivos lambiam as patas, monotonamente. E quando
um pássaro mais ligeiro cortava o ar, num vôo rápido,
havia como que uma interrogação inocente nos olhos ingênuos
de todos os brutos.

Em passo triste, a Dor e a Morte caminham, olhando, sem interesse, as maravilhas
da Criação. Raramente marcham lado a lado. A Dor vai sempre
à frente, ora mais vagarosa, ora mais apressada; a outra, sempre no
mesmo ritmo, não se adianta, nem se atrasa. Adivinhando, de longe,
a marcha dos dois duendes, as coisas todas se arrepiam, tomadas de agoniado
terror. As folhas, ainda mal recortadas no limo do chão, contraem-se,
num susto impreciso. Os animais entreolham-se inquietos e o vento, o próprio
vento, parece gemer mais alto, e correr mais veloz à aproximação
lenta, mas segura, das duas inimigas da Vida.

Súbito, como se a detivesse um grande braço invisível,
a Dor estacou, deixando aproximar-se a companheira.

Para que mistério – disse, a voz surda, – para que mistério
teria Jeová, no capricho da sua onipotência, enfeitado a terra
de tanta coisa curiosa?

A Morte estendeu os olhos perscrutadores até os limites do horizonte,
abrangendo o rio e o Deserto, e observou, num sorriso macabro, que fez rugir
os leões:

– Para nós ambas, talvez…

– E se nós próprias fizéssemos, com as nossas mãos,
uma criatura que fosse, na terra, o objeto carinhoso do nosso cuidado? Modelado
por nós mesmas, o nosso filho seria, com certeza, diferente dos auroques,
dos ursos, dos mastodontes, das aves fugitivas do céu e das grandes
baleias do mar. Tra-lo-íamos, eu e tu, em nossos braços, fazendo
do seu canto, ou do seu urro, a música do nosso prazer… Eu o traria
sempre comigo, embalando-o, avivando-lhe o espírito, aperfeiçoando-lhe
à alma, formando-lhe o coração. Quando eu me fatigasse,
tomá-lo-ias, tu, então, no teu regaço… Queres?

A Morte assentiu, e desceram, ambas, à margem do rio; onde se acocoraram,
sombrias, modelando o seu filho.

– Eu darei a água… – disse a Dor, mergulhando a concha das mãos,
de dedos esqueléticos, no lençol vagaroso da corrente.

– Eu darei o barro… – ajuntou a Morte, enchendo as mãos de lama
pútrida, que o sol endurecera.

E puseram-se a trabalhar. Seca e áspera, a lama se desfazia nas mãos
da oleira sinistra que, assim, trabalhava inutilmente.

– Traze mais água! – pedia.

A Dor enchia as mãos no leito do rio, molhava o barro, e este, logo,
se amoldava, escuro, ao capricho dos dedos magros que o comprimiam. O crânio,
os olhos, o nariz, a boca, Os braços, o ventre, as pernas, tudo se
foi formando, a um jeito, mais forte ou mais leve, da escultora silenciosa.

– Mais água! – pedia esta, logo que o barro se tornava menos dócil.

E a Dor enchia as mãos na corrente, e levava-a à companheira.

Horas depois, possuía a Criação um bicho desconhecido.
Plagiado da obra divina, o novo habitante da Terra não se parecia com
os outros, sendo, embora, nas suas particularidades, uma reminiscência
de todos eles. A sua juba era a do leão; os seus dentes, os do lobo;
os seus olhos, os da hiena; andava sobre dois pés, como as aves, e
trepava, rápido, como os bugios.

O seu aparecimento no seio da animalidade alarmou a Criação.
Os uros, que jamais se haviam mostrado selvagens, urravam alto, e escarvavam
o solo, à sua aproximação. As aves piavam nos ninhos,
amedrontadas e os leões, as hienas, os tigres, os lobos, reconhecendo-se
nele, arreganhavam o dentes ou mostravam as garras, como se a terra acabasse
de ser invadida, naquele instante, por um inimigo inesperado.

Repelido pelos outros seres, marchava, assim, o Homem pela margem do rio,
custodiado pela Dor e pela Morte. No seu espirito inseguro, surgiam, às
vezes, interrogações inquietantes. Certo, se aqueles seres se
assombravam à sua aproximação, era porque reconheciam,
unânimes, a sua condição superior. E assim refletindo,
comprazia-se em amedrontar as aves, e em perseguir em correrias desabaladas
pela planície, ou pela margem do rio, esquecendo por um instante a
Dor e a Morte, os gamos, os cerdos, as cabras, os animais que lhe pareciam
mais fracos.

Um dia, porém, orgulhosas do seu filho, as duas se desavieram, disputando-se
a primazia na criação do abantesma.

– Quem o criou fui eu! – dizia a Morte. – Fui eu quem contribuiu com o barro!

– Fui eu! – gritava a outra. – Que farias tu sem a água, que amoleceu
a lama?

E como nenhuma voz conciliadora as serenasse, resolveram, as duas, que cada
uma tiraria da sua criatura a parte com que havia contribuído.

– Eu dei a água! – tornou a Dor.

– Eu dei o barro! – insistiu a Morte.

Abrindo os braços, a Dor lançou-se contra o monstro, apertando-o,
violentamente, com as tenazes das mãos. A água, que o corpo
continha, subiu, de repente, aos olhos do Homem, e começou a cair,
gota a gota… Quando não havia mais água que espremer, a Dor
se foi embora. A Morte aproximou-se, então, do monte de lama, tomou-o
nos ombros, e partiu…

O bebê de tarlatana rosa

— Oh! uma história de máscaras! quem não a tem
na sua vida? O carnaval só é interessante porque nos dá
essa sensação de angustioso imprevisto… Francamente. Toda
a gente tem a sua história de carnaval, deliciosa ou macabra, álgida
ou cheia de luxúrias atrozes. Um carnaval sem aventuras não
é carnaval. Eu mesmo este ano tive uma aventura…

E Heitor de Alencar esticava-se preguiçosamente no divã, gozando
a nossa curiosidade.

Havia no gabinete o barão Belfort, Anatólio de Azambuja de
que as mulheres tinham tanta implicância, Maria de Flor, a extravagante
boêmia, e todos ardiam por saber a aventura de Heitor. O silêncio
tombou expectante. Heitor, fumando um gianaclis autêntico, parecia absorto.

— É uma aventura alegre? indagou Maria.

— Conforme os temperamentos.

— Suja?

— Pavorosa ao menos

— De dia?

— Não. Pela madrugada.

— Mas, homem de Deus, conta! suplicava Anatólio. Olha que está
adoecendo a Maria.

Heitor puxou um largo trago à cigarreta.

— Não há quem não saia no Carnaval disposto ao
excesso, disposto aos transportes da carne e às maiores extravagâncias.
O desejo, quase doentio é como incutido, infiltrado pelo ambiente.
Tudo respira luxúria, tudo tem da ânsia e do espasmo, e nesses
quatro dias paranóicos, de pulos, de guinchos, de confianças
ilimitadas, tudo é possível. Não há quem se contente
com uma…

— Nem com um, atalhou Anatólio.

— Os sorrisos são ofertas, os olhos suplicam, as gargalhadas
passam como ao arrepios de urtiga pelo ar. É possível que muita
gente consiga ser indiferente. Eu sinto tudo isso. E saindo, à noite,
para a pornéia da cidade, saio como na Fenícia saíam
os navegadores para a procissão da primavera, ou os alexandrinos para
a noite de Afrodite.

— Muito bonito! ciciou Maria de Flor.

— Está claro que este ano organizei uma partida com quatro ou
cinco atrizes e quatro ou cinco companheiros. Não me sentia com coragem
de ficar só como um trapo no vagalhão de volúpia e de
prazer da cidade. O grupo era o meu salva-vidas. No primeiro dia, no sábado,
andamos de automóvel a percorrer os bailes. Íamos indistintamente
beber champanhe aos clubes de jogo que anunciavam bailes e aos maxixes mais
ordinários. Era divertidíssimo e ao quinto clube estávamos
de todo excitados. Foi quando lembrei uma visita ao baile público do
Recreio. -«Nossa Senhora! disse a primeira estrela de revistas, que
ia conosco. Mas é horrível! Gente ordinária, marinheiros
à paisana, fúfiasdos pedaços mais esconsos da rua de
S. Jorge, um cheiro atroz, rolos constantes…». -Que tem isso? Não
vamos juntos?

Com efeito. Íamos juntos e fantasiadas as mulheres. Não havia
o que temer e a gente conseguia realizar o maior desejo: acanalhar-se, enlamear-se
bem. Naturalmente fomos e era uma desolação com pretas beiçudas
e desdentadas esparrimando belbutinas fedorentas pelo estrado da banda militar,
todo o pessoal de azeiteiros das ruelas lôbregas e essas estranhas figuras
de larvas diabólicas, de íncubos em frascos de álcool,
que tem as perdidas de certas ruas, moças, mas com os traços
como amassados e todas pálidas, pálidas feitas de pasta de mata-borrão
e de papel de arroz. Não havia nada de novo. Apenas, como o grupo parara
diante dos dançarinos, eu senti que se roçava em mim, gordinho
e apetecível, um bebê de tarlatanarosa. Olhei-lhe as pernas de
meia curta. Bonitas. Verifiquei os braços, o caído das espáduas,
a curva do seio. Bem agradável. Quanto ao rosto era um rostinho atrevido,
com dois olhos perversos e uma boca polpuda como se ofertando. Só postiço
trazia o nariz, um nariz tão bem feito, tão acertado, que foi
preciso observar para verifica-lo falso. Não tive dúvida. Passei
a mão e preguei-lhe um beliscão. O bebê caiu mais e disse
num suspiro -ai que dói! Estão vocês a ver que eu fiquei
imediatamente disposto a fugir do grupo. Mas comigo iam cinco ou seis damas
elegantes capazes de se debochar mas de não perdoar os excessos alheios,
e era sem linha correr assim, abandonando-as, atrás de uma frequentadora
dos bailes do Recreio. Voltamos para os automóveis e fomos cear no
clube mais chique e mais secante da cidade.

— E o bebê?

— O bebê ficou. Mas no domingo, em plena avenida, indo eu ao
lado do chauffeur, no borborinho colossal, senti um beliscão na perna
e uma voz rouca dizer: «para pagar o de ontem». Olhei. Era o bebê
rosa, sorrindo, com o nariz postiço, aquele nariz tão bem feito.
Ainda tive tempo de indagar: onde vais hoje?

— À toda parte! respondeu, perdendo-se num grupo tumultuoso.

— Estava perseguindo-te! comentou Maria de Flor.

— Talvez fosse um homem… soprou desconfiado o amável Anatólio.

— Não interrompam o Heitor! fez o barão, estendendo a
mão.

Heitor acendeu outro gianaclis, ponta de ouro, sorriu, continuou:

— Não o vi mais nessa noite, e segunda-feira não o vi
também. Na terça desliguei-me do grupo e caí no mar alto
da depravação, só, com uma roupa leve por cima da pele
todos os maus instintos fustigados. De resto a cidade inteira estava assim.
É o momento em que por trás das máscaras as meninas confessam
paixões aos rapazes, é o instante em que as ligações
mais secretas transparecem, em que a virgindade é dúbia e todos
nós a achamos ínútil, a honra uma caceteação,
o bom senso uma fadiga. Nesse momento tudo é possível, os maiores
absurdos, os maiores crimes; nesse momento há um riso que galvaniza
os sentidos e o beijo se desata naturalmente.

Eu estava trepidante, com uma ânsia de acanalhar-me, quase mórbida.
Nada de raparigas do galarim perfumadas e por demais conhecidas, nada do contato
familiar, mas o deboche anônimo, o deboche ritual de chegar, pegar,
acabar, continuar. Era ignóbil. Felizmente muita gente sofre do mesmo
mal no carnaval.

— A quem o dizes!… suspirou Maria de Flor.

— Mas eu estava sem sorte, com a guigne, com o caiporismo dos defuntos
índios. Era aproximar-me, era ver fugir a presa projetada. Depois de
uma dessas caçadas pelas avenidas e pelas praças, embarafustei
pelo S. Pedro, meti-me nas danças, rocei-me àquela gente em
geral pouco limpa, insisti aqui, ali. Nada!

— É quando se fica mais nervoso!

— Exatamente. Fiquei nervoso até o fim do baile, vi sair toda
a gente, e saí mais desesperado. Eram três horas da manhã.
O movimento das ruas abrandara. Os outros bailes já tinham acabado.
As praças, horas antes incendiadas pelos projetores elétricos
e as cambiantes enfurnadas dos fogos de bengala, caíam em sombras -sombras
cúmplices da madrugada urbana. E só, indicando a folia, a excitação
da cidade, um ou outro carro arriado levando máscaras aos beijos ou
alguma fantasia tilintando guizos pelas calçadas fofas de confetti.
Oh! a impressão enervante dessas figuras irreais na semi-sombra das
horas mortas, roçando as calçadas, tilintando aqui, ali um som
perdido de guizo! Parece qualquer coisa de impalpável, de vago, de
enorme, emergindo da treva aos pedaços… E os dominós embuçados,
as dançarinas amarfanhadas, a coleção indecisa dos máscaras
de último instante arrastando-se extenuados! Dei para andar pelo largo
do Rocio e ia caminhando para os lados da secretaria do interior, quando vi,
parado, o bebê de tarlatana rosa.

Era ele! Senti palpitar-me o coração. Parei.

— «Os bons amigos sempre se encontram», disse. O bebê
sorriu sem dizer palavra. Estás esperando alguém? Fez um gesto
com a cabeça que não. Enlacei-o. -«Vens comigo?».
-«Onde?», indagou a sua voz áspera e rouca. -«Onde
quiseres!». Peguei-lhe nas mãos. Estavam úmidas mas eram
bem tratadas. Procurei dar-lhe um beijo. Ela recuou. Os meus lábios
tocaram apenas a ponta fria do seu nariz. Fiquei louco.

— Por pouco…

— Não era preciso mais no Carnaval, tanto mais quanto ela dizia
com a sua voz arfante e lúbrica: -«Aqui não!». Passei-lhe
o braço pela cintura e fomos andando sem dar palavra. Ela apoiava-se
em mim, mas era quem dirigia o passeio e os seus olhos molhados pareciam fruir
todo o bestial desejo que os meus diziam. Nessas fases do amor não
se conversa. Não trocamos uma frase. Eu sentia a ritmia desordenada
do meu coração e o sangue em desespero. Que mulher! Que vibração!
Tínhamos voltado o jardim. Diante da entrada que fica fronteira à
rua Leopoldina, ela parou, hesitou. Depois arrastou-me, atravessou a praça,
metemo-nos pela rua, escura e sem luz. Ao fundo, o edifício das Belas
Artes era desolador e lúgubre. Apertei-a mais. Ela aconchegou-se mais.
Como os seus olhos brilhavam! Atravessamos a rua Luiz de Camões, ficamos
bem em baixo das sombras espessas do Conservatório de Música.
Era enorme o silêncio e o ambiente tinha uma cor vagamente russa com
a treva espancada um pouco pela luz dos combustores distantes. O meu bebê
gordinho e rosa parecia um esquecimento do vício naquela austeridade
da noite. -«Então, vamos?», indaguei. -«Para onde?».
-«Para a tua casa». -«Ah! não, em casa não
podes… Então por aí». -«Entrar, sair, despir-me.
Não sou disso!». -«Que queres tu, filha? É impossível
ficar aqui na rua. Daqui a minutos passa a guarda». -«Que tem?».
-«Não é possível que nos julguem aqui para bom
fim, na madrugada de cinzas. Depois, às quatro tens que tirar a máscara».
-«Que máscara?». -O nariz». -«Ah! sim!».
E sem mais dizer puxou-me. Abracei-a. Beijei-lhe os braços, beijei-lhe
o colo, beijei-lhe o pescoço. Gulosamente a sua boca se oferecia. Em
torno de nós o mundo era qualquer coisa de opaco e de indeciso. Sorvi-lhe
o lábio.

Mas o meu nariz sentiu o contato do nariz postiço dela, um nariz com
cheiro a resina, um nariz que fazia mal. -«Tira o nariz!». -Ela
segredou: «Não! não! custa tanto a colocar!». Procurei
não tocar no nariz tão frio naquela carne de chama.

O pedaço de papelão, porém, avultava, parecia crescer,
e eu sentia um mal estar curioso, um estado de inibição esquisito.
-«Que diabo! Não vás agora para casa com isso! Depois
não te disfarça nada». -«Disfarça sim!».
-«Não!». Procurei-lhe nos cabelos o cordão. Não
tinha. Mas abraçando-me, beijando-me, o bebê de tarlatana rosa
parecia uma possessa tendo pressa. De novo os seus lábios aproximaram-se
da minha boca. Entreguei-me. O nariz roçava o meu, o nariz que não
era dela, o nariz de fantasia. Então, sem poder resistir, fui aproximando
a mão, aproximando, enquanto com a esquerda a enlaçava mais,
e de chofre agarrei o papelão, arranquei-o. Presa dos meus lábios,
com dois olhos que a cólera e o pavor pareciam fundir, eu tinha uma
cabeça estranha, uma cabeça sem nariz, com dois buracos sangrentos
atulhados de algodão, uma cabeça que era alucinadamente -uma
caveira com carne…

Despeguei-a, recuei num imenso vômito de mim mesmo. Todo eu tremia
de horror, de nojo. O bebê de tarlatana rosa emborcara no chão
com a caveira voltada para mim, num choro que lhe arregaçava o beiço
mostrando singularmente abaixo do buraco do nariz os dentes alvos. -«Perdoa!
Perdoa! Não me batas. A culpa não é minha! Só
no Carnaval é que eu posso gozar. Então, aproveito, ouviste?
aproveito. Foste tu que quiseste…».

Sacudi-a com fúria, pu-la de pé num safanão que a devia
ter desarticulado. Uma vontade de cuspir, de lançar apertava-me a glote,
e vinha-me o imperioso desejo de esmurrar aquele nariz, de quebrar aqueles
dentes, de matar aquele atroz reverso da luxúria… Mas um apito trilou.
O guarda estava na esquina e olhava-nos, reparando naquela cena da semi-treva.
Que fazer? Levar a caveira ao posto policial? Dizer a todo a mundo que a beijara?
Não resisti. Afastei-me, apressei o passo e ao chegar ao largo inconscientemente
deitei a correr como um louco para a casa, os queixo batendo, ardendo em febre.

Quando parei á porta de casa para tirar a chave, é que reparei
que a minha mão direita apertava uma pasta oleosa e sangrenta. Era
o nariz do bebê de tarlatana rosa…

Heitor de Alencar parou, com o cigarro entre os dedos, apagado. Maria de
Flor mostrava uma contração de horror na face e o doce Anatólio
parecia mal. O próprio narrador tinha a camarinhar-lhe a fronte gotas
de suor. Houve um silêncio agoniento. Afinal o barão Belfort
ergueu-se, tocou a campainha para que o criado trouxesse refrigerantes, e
resumiu:

— Uma aventura, meus amigos, uma bela aventura. Quem não tem
do carnaval a sua aventura? Esta é pelo menos empolgante.

E foi sentar-se ao piano.

A parada da ilusão

A João de Barros

Como tinha sido aquilo! Diante do espelho, a dar um laço frouxo no
lenço de seda, Geraldo sorria o sorriso satisfeito e vagamente mau
que têm todos os homens quando recordam uma aventura em que foram os
mais espertos. Como tinha sido!… O acaso, apenas o acaso. Pobre, sem pretensões,
alugara por uma ninharia aquele casinhoto do morro, bem na rua de Santa Luzia,
defronte do mar. O mar é um fornecedor de energia. Contemplar as ondas,
aspirar o ar infiltrado de salsugem fazia-lhe bem. Depois, acordava cedo,
quase de madrugada, e como a vizinhança era quase toda de pescadores,
de banhistas, de jovens dos centros de regatas, ia mesmo de camisa-de-meia,
com os pés nus metidos nuns enormes tamancos, ao estabelecimento balneário.
Quem o visse grosso, forte, o bigode espesso, a negra cabeleira ondeante,
o braço cabeludo, não o diria jamais um estudante de medicina.
Havia no seu olhar qualquer coisa dos barqueiros de Nápoles, do langor
das serenatas, e na alegria do semblante, na gesticulação, o
ar da raça, o ar que não falha. Basta olhar um homem para se
sentir donde ele veio. Geraldo começara humilde, de origem italiana.
De trabalho em trabalho fizera-se afinal acadêmico, graças à
pertinácia da sua inteligência. Mas, por mais querido que fosse
entre os colegas, era uma delícia para a sua alma ir arrastar as pernas
pela madrugada nos corredores da casa de banhos, quase nu, a conversar em
napolitano com os banhistas, os tradicionais banhistas há vinte anos
os mesmos.

Era tão bom, tão bizarro! A princípio, postava-se no
pátio, junto da barraca do gerente, escura de roupas em trouxas com
um quadro das chaves e o bico de gás aceso. Era a chegada dos freqüentadores.
Havia mulheres pálidas, mães de família acompanhadas
de crianças e de criadas, verdadeiros regimentos de cloróticos;
havia sujeitos de passo trôpego, reumáticos, beribéricos,
talvez tísicos; havia os habituais, senhores respeitáveis, burgueses
de ar solene, que tomavam banho de mar desde crianças, aconselhando
para todas as moléstias um mergulho no salso elemento; e sujeitos que
vinham especialmente para a pândega, as lições de natação,
os namoros com apertões debaixo da água, as meninas assanhadas,
as cocottes, as cocottes de uma palidez mortal àquela hora… e havia
também muita mulher chic, muita mulher de estalo, que os mirones da
praia até olhavam de binóculo.

Mas Geraldo não tinha pretensões a conquistas, e aquele espreguiçamento
na casa de banhos era apenas uma tonificação para o estudo,
que recomeçava horas mais tarde, com o curso dos hospitais, as aulas,
os livros. Depois de descansar na gerência ia trocar palavras com os
banhistas, rindo, brincando. Afinal atirava-se à água, no meio
da algazarra dos conquistadores e das pequenas, e sempre tímido, só
metido a gente do serviço. Ninguém o tomaria por um estudante
e o próprio pessoal da casa tratava-o familiarmente por tu.

Uma vez, estava no corredor estreito e escuro a conversar com Nicolau, quando
mesmo ao pé abriu-se a porta a um dos quartinhos e uma linda criatura
loira chamou:

– O senhor banhista, venha cá.

Nicolau adiantou-se.

– Não, o outro. Sim, você mesmo.

Geraldo sorriu enleado. Tomavam-no por banhista! Ele, um estudante, um acadêmico!
Mas, ao mesmo tempo que o fato o humilhava um pouco, sentia um desejo imprevisto
e romântico de se deixar passar por banhista e ter assim a sua primeira
façanha de estudante. Os estudantes são todos levados da breca!
Apertou o braço do Nicolau, disse-lhe em calão de Nápoles
que o deixasse, e aproximou-se. A dama loira estava já vestida para
o banho.

– Não quero mais aquele banhista velho. Há cinco dias que tomo
banho e logo no primeiro pedi-lhe conservar-se o quarto seco. Não há
meio. Veja só. Fica você. Quer?

Geraldo curvava-se, sem uma palavra. A dama loira abriu a bolsa de prata,
tirou uma nota.

– Tome. Não quer receber? Ora esta! Receba. Para esquentar. Ande lá.

– Grazzie, signorina…

– Diga: é italiano?

– lo sono venuto da Napoli fa tre anni…

– Ah! bem. E quantos anos tem de idade?

– Vinte e due.

A dama loura olhou-o profundamente, teve um leve suspiro, e ainda indagou:

– Como se chama?

– Túlio.

– Venha dar-me banho.

Infinitamente alegre com a aventura, Geraldo seguiu para o oceano a dar banho
na dama loura, e quando voltou estava a arrebentar de riso. Não é
que a mulherzinha o tomava mesmo por banhista? Entretanto, o imprevisto do
caso acendia-lhe o desejo de continuar. Sim, continuaria. E falou ao dono
da casa de banhos. O homem, um italiano velho, não gostava de patifarias
no estabelecimento. Mas, como era ele, Geraldo, consentia. Os outros riam
a perder, um pouco envaidecidos porque, afinal, um estudante era tal qual
eles. E Geraldo, que não dissera a coisa na escola por um certo pudor,
não faltou mais. Logo cedo lá estava no estabelecimento, de
pés nus, calção de meia, camisa aberta. A dama loura
chegava sempre às seis e meia.

– Então, Túlio, o meu quarto?

– Pronto patroa, prontinho.

No fim do quinto dia ele fazia tão bem o papel de banhista de opereta,
que ela lhe disse o nome. Era Alda Pereira, brasileira, do sul, tinha vinte
e sete anos, e um protetor sério, o senador Eleutério, que a
tomara depois da separação do marido. Dizia essas coisas naturalmente,
aprendendo a nadar.

– Ai! não me afogues, rapaz. Morrer aos vinte e sete anos…

Ou então:

– Palavra de rio-grandense e de Alda Pereira que aprender a nadar custa!

Ele sorria queria levá-la para longe.

– Não, que o senador Eleutério pode saber; e eu, meu filho,
depois que me separei do meu marido, tenho muito medo do ciúme…

Uma suave intimidade brotava aos poucos daquela hora de banho.

Ele procurava termos vulgares, copiava o rir dos outros, dizia coisas grossas
com um ar ingênuo, o seu tom de analfabeto, e ela parecia ter cada dia
mais confiança. Já se encostava ao seu ombro, já lhe
agarrava o pulso potente de certo modo. Uma vez perguntou-lhe:

– Você, um rapaz inteligente, por que não muda de vida?

– Para que, signorina? Aqui vivo, aqui hei de morrer…

– Criança! E não tem aspirações?

– Não, signorina!

– Aposto que nem sabe ler?

Ele parou um instante atônito. Estaria ela a brincar, já sabedora
de tudo? Seria o caso de avançar e não gozar mais o prazer de
ser conquistado. Mas Alda tinha uma expressão de tão velutínea
piedade, que não hesitou na farsa.

– É verdade. Nem sei ler.

– Meu Deus! Um rapaz de vinte e dois anos que não sabe ler!

Os seus olhos nesse dia tomaram-se mais úmidos, e ao rebentar de uni
onda na ponte ela se deixou positivamente cair no seu largo peito. Não
tinha dúvida! A mulher amava-o como certas damas amam os impetuosos
adolescentes das classes baixas; a criatura era uma nevrosada romântica.
Decididamente estava de sorte.

No dia seguinte, à saída, Alda Pereira indagou:

– Ô Túlio, quereria você aprender a ler?

– A signorina paga o professor?

– Ensino eu mesma.

– Então quero. Onde?

– Vá à minha casa. Logo, à noite, às sete; é
a melhor hora.

Ele arranjara um dólmã de brim, um capote comprido; comprara
o lenço de seda e um chapéu desabado para aparecer com a cor
local. E fora. A dama loura habitava, numa rua transversal à Lapa,
uma casa elegante e discreta, com duas criadas apenas. Fizeram-no entrar para
uma saleta de estilo moderno, em que os móveis eram incômodos
e as paredes tinham mulheres de túnica soprando trombetas. Alda lá
estava.

– Entre, Túlio. Nada de acanhamentos. Francine, deixa a porta aberta…
Sabe que já lhe comprei o seu livro? Sente-se, menino, sente-se…

Evidentemente, ela estava comovida, com um riso nervoso, as faces coradas.
Ele achava aquilo deliciosamente ridículo. Outro qualquer teria avançado;
a sua natural timidez, a pretensão de levar a cabo uma fantasia inibiam-no
de um movimento de ataque. E parecia-lhe o cúmulo aprender o alfabeto
ensinado por aquela interessante mulher, tal qual nos vaudevilles franceses,
numa cena de burla. Sentou-se. Ela mostrou-lhe o livro na mesa aproximando
a cadeira do outro lado. E começou a ensinar, com a voz molhada de
mistério.

– Que letra é esta?

Geraldo fazia-se inteiramente bronco, curvava-se muito para sentir os loiros
cabelos dela roçando-lhe ao de leve a fronte. As vezes as mãos
se encontravam. As dela estavam geladas. As dele eram de brasa. Ao fim de
uma hora, ela disse num suspiro:

– Bom, vai embora.

Ele quase não podia falar. Curvou-se mais, respirando forte, e ia
tocá-la. quando ela chamou:

– Francine, acompanha o Túlio até a porta…

Como saiu ele furioso! A sua vontade foi declarar a verdadeira posição.
tomar uma atitude. Mas, para quê? Não teria realizado nada! Não
a gozaria! Era uma aventura falha. Nunca! Tivesse que estudar o alfabeto a
vida inteira – aquela, ao menos, não lhe escaparia. E, desde a madrugada,
foi esperá-la na casa de banhos, apaixonado. Sim, de fato, apaixonado.
Ele não estava senão apaixonado. A paixão é quase
sempre o desejo de um triunfo, que se imagina de um certo e determinado modo.
Há sempre um vencedor na alma de um amante. Ele queria pregar uma peça.
Que peça? Enfim, queria confundir a linda mulher de estranha vontade.
E Alda Pereira parecia também amá-lo, porque apareceu de olheiras,
com um ar fatigado.

– Sabe que estudei? fez ele, olhando-a fixo.

– Palavra?

– Quer tomar a lição hoje?

– Não, amanhã…

Ele se preparou, e foi. Já sabia o alfabeto. Alda Pereira sorria,
enlevada.

– Mas como é inteligente! Vamos a soletrar. Olhe que você pode
dar orgulho a um professor.

A aula ia continuar. Ela tinha a cabeça curvada, mostrando a nuca
nua. Ele estava encostado à mesa, com aquele tom vulgar e potente,
que o seu físico ajudava. A luz era tênue. Geraldo moveu apenas
a cabeça e roçou o bigode no pescoço venusto. Ela estremeceu,
estendeu as mãos e suspirou como uma rola.

– Ah! Túlio…

Ele firmou os lábios polpudos e apertou-lhe as mãos. Ela se
debateu, voltou a cabeça e a sua boca purpurina, ansiosa e ávida,
sugou o lábio de Geraldo. Nem uma palavra. Estavam num outro mundo.
Ele caiu de joelhos, ela pendeu, rolaram os dois. Era frenética e deliciosa.
Deliciosamente deliciosa. A própria paixão a vibrar. E Geraldo
voltou ao casinhoto, Outro homem, aturdido, sem compreender o que via, a lembrar-se
dos seus abraços e das palavras suas:

– Túlio! Túlio! não digas a ninguém! É
a minha vida! Lembra-te do que fiz por ti. Só o amor, muito amor…

A vida de delírio começou então. Ela entregava-se e
sentia-o como um imenso acorde do seu próprio ser. Cada beijo era uma
revelação, cada abraço a dissolução de
um mundo. E a necessidade de ocultar de olhares profanos aquele sentimento
ainda mais os incendiava. No banho, ela estudava o momento de apertá-lo,
de mordê-lo, esperava com a porta do quarto entreaberta para um beijo;
em casa, as lições de leitura eram a leitura de Paulo e Francesca,
no verso de Dante. Jamais, porém, ela mostrava desconfiar da sua verdadeira
situação, e Geraldo, sentindo-se indigno de si mesmo, continuava
a ser o banhista Túlio, sem forças para dizer a verdade.

Afinal, o senador Eleutério soubera do caso, e, mais pai do que amante,
resolvera mandar Alda à Europa, a ver se o escândalo terminava.
Alda chorava, queria viver sem roupas, em Santa Luzia, com o seu Túlio,
e fora um verdadeiro trabalho o convencê-la de uma breve separação.

– Tu queres, Túlio?

– É para teu bem.

– Queres mesmo? É o nosso amor que matas…

Eleutério comprara as passagens combinara tudo. Era no dia seguinte
que Alda partiria. Geraldo, preparando-se para a última visita, relembrava
aqueles dois meses loucos de romantismo. Como aquilo fora! Era lá possível
prever? Antes, porém, da partida era preciso dizer-lhe a verdade. Ele
ia para o último ato.

Então penteou o cabelo como os banhistas, com muita brilhantina, pôs
o chapéu e o capote, consertou ainda uma vez o lenço de seda
e partiu. Alda estava na mesma sala da primeira vez, muito abatida. Estendeu-lhe
as mãos e a boca.

– Meu amor… A última vez!

E deixou-se cair.

– Alda, que é isso? ânimo…

– Lembras-te? Há dois meses!… Quanto amor! Quando te vi, desde que
te vi, meu amor, amei-te. Que me importava que tu fosses banhista? Se era
a tua carne, o teu corpo, os teus olhos que eu desejava, meu adivinhado querido…
Nunca, nunca mais sentirei o que senti por ti, no mar, quando te tinha a meu
lado, forte, meu, fiel… Dize!… Nenhuma outra será como eu. Pois
não?

– Mas, Alda…

– Aquela casa vão tantas mulheres! E tu tens que servir a todas, tens
que as segurar, tens que as salvar…

Geraldo viu que era o momento.

– Alda, tenho que te dizer…

– Não digas! não digas nada!

– Não, há um engano; um engano que não pode continuar.

– Não há, Túlio, não há!…

– Há.

– Pois deixa-o!

– Não. Tu pensas que eu sou o banhista Túlio, nascido em Nápoles.

– E não és? Es sim, és o meu Túlio.

– Criança! Eu sou estudante de medicina, chamo-me Geraldo Pietri.

Mas, como Alda recuava, com a fisionomia demudada, Geraldo teve um resto
de piedade.

– Sim, Geraldo, estudante, que se fez passar por banhista para te amar…

Um silêncio tombou. Alda sentara-se. Depois, como Geraldo se aproximasse,
sorriu, afastando-o.

– Não, senta-te. Ou vai-te. É melhor ires. Vai-te.

– Mas a nossa última noite?

– Vai-te.

– Zangaste-te?

– Não, pensei que tinhas mais espírito. Não tens. Eu
sabia, ouviste? eu sabia desde o primeiro dia, quem eras tu. Se não
soubesse, teria perguntado por ti e dar-me-iam informações.
Eu sabia. O meu amor nasceu de uma brincadeira. Tudo na vida é ilusão
e só a ilusão é verdadeira. A verdade é a mentira
porque é o comum e o vulgar. Amei-te, querendo fazer desse sentimento
uma parada de gozo superfino em que ambos nos esforçássemos
por dar a cada um a ilusão. Nunca se desengana uma mulher porque não
se mata a ilusão. Eu amava um ser idealizado, que seria chocante se
fosse verdadeiro, um banhista imprevisto, um selvagem, filho do mar e das
canções, em ti que o fingias bem. Tu mataste Túlio. Que
me importa a mim o estudante Geraldo? Já nem parto. Não é
preciso. Adeus! E nunca, ingênuo rapaz, queiras ser verdadeiro nas coisas
do sentimento que ama a ilusão.

Geraldo, nervoso, sem saber o que fazer do seu chapéu calabrês,
sentia a lamentável, uma curiosa e lamentável sensação
de que retomava o seu eu; um eu vulgar e comum. Alda fez-lhe ainda um vago
gesto. Na rua, outra vez, envergonhado, furioso, triste, o pobre rapaz deitou
quase a correr, com o receio de que o conhecessem ainda malvindo da parada
romântica. E só no quarto humilde é que pôde chorar,
chorar longamente não ter sabido guardar integralmente o princípio
da vida – a ilusão…

Laurinda Belfort

Laurinda Belfort teve um sobressalto. O relógio de marfim, engastado
discretamente no canto esquerdo do carro, marcava duas e cinco, e esse relógio,
certo, incapaz de adiantamentos ou de atrasos, marcava sempre a hora precisa
para que Laurinda Belfort pudesse regularizar com calma e tempo os múltiplos
afazeres dos seus perfumados dias. Havia, pois, trinta e cinco minutos que
o pobre Guilherme Guimarães a esperava, apaixonado e comum, numa casa
solitária.

Laurinda recostou-se, hesitando entre a idéia de apressar o cocheiro
e o desejo de lá não ir, de falhar mais uma vez. Vinha-lhe o
guloso apetite de deixar sem o seu corpo a absorvente entrevista. Mas, certamente,
à noite teria a acompanha-la numa queixa muda e feroz, o olhar de Guilherme,
ou no teatro ou no raout da condessa de Souto; e, à proporção
que se aproximava o carro, Laurinda sentia as mãos frias, uma vaga
contrariedade, a esquisita negação de todo o corpo como a tem
a gente antes de fazer um enorme sacrifício…

Ah! Francamente já enfarava. No primeiro dia, na manhã em que
correra à primeira entrevista, teria chicoteado o cocheiro para andar
depressa, para voar; nesta maldita quinta-feira vestira-se devagar, conversara
durante o almoço como toda a sua vida fora um resultado de imitações,
fora um acompanhamento de figurinos. Em criança, imitava os gestos
pretensiosos de altas linhagens de algumas das colegas de Sion; em menina
e moça a sua linha fora sempre copiada de alguns tipos de romance,
e quando a mamã lhe fez notar a necessidade de casar para satisfazer
todos os apetites de luxo, imediatamente casou, inaugurando aquela grande
vida artificial e custosa, com as salas compostas segundo desenhos de decoristas
ingleses, os vestidos vindos de Paris e um ar de boneca social, que para sempre
lhe tirara a idéia de amar alguém, além da sua prezadíssima
pessoa. A grande vida um tempo fê-la mesmo esquecer quase o marido,
porque era preciso passar o carnaval em Nice, estar no outono em Paris, passear
os hotéis depravados do Cairo no inverno, dar opiniões sobre
artistas e pintores, falar de viagens e manter o seu salão no Rio,
o seu salão invejado, criticado, incomparável como Edmond Rostand,
o campanilo de S. Marcos, a erosão inglesa do esporte e a graça
parisiense. Fora nessa ocasião que tomara como dama de companhia uma
velha inglesa esbelta, grande conhecedora de arte, que sabia versos de Morris
de cor e se apaixonara pelos fados portugueses a ponto de acabar caissièrede
hotel no Estoril. Laurinda tomou-a como quem consulta um pequeno Larousse,
e as suas extraordinárias toilletes, os seus adereços, feitos
no Vevert da rua da Paz, em que as pedras brasileiras tinham rebrilhos inéditos
cravadas em brilhantes, eram desenhos da velha inglesa. Grande época
aquela! Época de excessos, de conquista, de triunfo. O grave Belfort
de vez enquanto pasmava.

— Pois que! Tu agora fumas?

— Com efeito, grelho uma cigarreta.

— Mas é grosseiro.

— É ultra fashion. Não sabes nada disso. És old
style.

E montou um salão de banho, em que a água da piscina parecia
descer de um enorme vitral representando avalanches de neve em montes, tudo
quanto há de mais pré-rafaelita. Todos os objetos e utensílios
obedeciam ao motivo algas do fundo do mar.

Mas em breve, a vitória mundana fatigou-a. Era preciso mais alguma
coisa. Uma Alice Verride, senhora entendida em adultérios mas da melhor
sociedade disse-lhe um dia:

— Minha cara Laurinda, precisas de um homem.

— É boa. E meu marido?

— O marido não conta nunca, principalmente quando nos faz todas
as vontades. Precisas de um homem que te preocupe, cuja paixão seja
um piment para a tua vida, um ser violento. Nunca amaste?

— Oh! Não!

— Pois é chique, menina. Admira até que tu, tão
conhecedora de Paris…

No dia seguinte, Laurinda acordou convencidíssima de que precisava
de um amante. Sim! Ela, uma parisiense, que tinha como nenhuma outra a arte
sutil da maquilage, essa admirável estesia ateniense herdada por Paris,
ela ainda não tinha um amante. Que atraso, que femme vieux jeu! Decididamente
retardava, retardava uns trinta anos pelo menos. E, quando apareceu ao almoço,
com os olhos cernés, o gesto lasso, o lábio rubro, Laurinda
olhou o paciente Belfort com um vago desprezo, tal qual as damas dos romances
a que uma grande paixão sacode.

Ainda não tinha nenhuma. Mas viria a ter. Seria a última etapa
de mundanismo e de puro sangue da sua já gloriosa carreira na alta
sociedade, teria também o seu romance. E para realizar esse romance,
entre muitos adoradores profissionais, o que já insistia de há
muito era precisamente Guilherme. Que fazer? Torturada pela súplica
de Guilherme o marido, ansiando pelo fato que lhe fosse pretexto para não
ir -porque Laurinda, sem indagar de razões, sentia-se presa a esse
dever, ao dever do amor. Afinal, sempre se decidira. Mais uma vez, Deus do
céu! E lá ia sem compreender porque, para a casa à beira
mar ouvir o marulhar do oceano e a voz do Guilherme!

Pobre Guilherme! Estava decerto à espera, torturando as pontas farpadas
do bigode, chegara talvez cedo de mais. Também não fazia outra
coisa agora, passava a vida amando-a; e, ela, decididamente, enfastiava-se.
Tudo quanto é demais, aborrece.

Fora levada àquilo por mundanice, por cabriolice da alma, como diria
a sra. de Souza Castro, titular em decadência, hoje dama de companhia.
De ver as outras damas amadas por homens discretos e bem vestidos, achara
aquilo smart e comprometedor, com um leve tom de crime consentido. Ir assim,
no seu carro, no carro do seu marido, entregar-se à paixão do
outro, do cavalheiro elegante, parecia-lhe uma nota essencial da moda, lembrava-lhe
logo os romances de Paris, a psicologia passional das duquesas de alta linhagem,
que às vezes tem dois, sem contar o esposo.

Era-lhe grata como se a sua existência fosse a última elegância
esperada para faze-la ultra superior.

De resto custara, e muito até. Acostumada ao louvor das costureiras
e dos íntimos, intimamente convencida de que onde fosse a admirariam,
muito risonha e muito audaz, quem a visse naquela vertigem de diversões
inventando o prazer e o «flerte», não a julgaria no fundo
tão profundamente temerosa das coisas positivas…

O pobre Guilherme vivera de platonismos longo tempo. Onde ela estivesse,
ele lá se achava. Na rua dava-lhe cercos para lhe tirar o chapéu,
curvar-se; em casa, valsando (depois de conversar com o marido, muito seu
amigo), escorria-lhe no pescoço declarações de amor respeitoso.
Era a sugestão, a tentação, a perdição…
Ela ouvia-o, marcava-lhe o lugar da sua frisa para que ele comprasse uma poltrona
fronteira, dizia-lhe com antecedência os bailes e os five-o-clock que
teriam a sua presença. Quando Guilherme falou do grande acorde, sentiu
um desejo surdo de se negar. Então era fatalmente preciso? O desejo
fora, entretanto, muito forte, entontecera-a. Ela, que tinha o nome nos jornais
mundanos, no livro das costureiras e no lábio de toda a gente, quis
ouvi-lo pronunciado ternamente por um homem elegante. A curiosidade aguçou-se.
Como seria emocionante desmaiar, tal qual o pintam nas gravuras e nos romances!
Seria antes de tudo high-life. Guilherme era chique.

Guilherme! que nome horrível! Mas, coitado, amava-a, estava sempre
em toda a parte, tinha uma porção de roupas, andava à
inglesa, trotando, com os braços meio abertos, repartia o cabelo ao
meio como nos figurinos, e possuía um encanto inédito; limava
as unhas, dava-lhe um brilho metálico, incrível, um lustro,
que, quando movia os dedos, parecia ter nas pontas palhetas de nácar.
Ah! as unhas desse Guilherme!

Quando o jovem afortunado lhe premia a mão, o contato envernizado
daquelas unhas dava-lhe num arrepio a delícia de mais um ofertório
à sua beleza tão aguda, tão clara, tão moderna
e tão perturbadora. Fora talvez essa a única razão porque
se entregara à sensualidade meio snob, meio cerebral, de se sentir
despir por aqueles pedaços de um vermelho especial e lustroso, o contato
daquelas unhas artificiais e extra-humanas. E nos passeios, nos banquetes,
as luminosas unhas de Guilherme preocupavam-na como o olhar invejoso de uma
amiga, o luxo de mais uma renda, a volúpia de uma jóia, que
se não pôde possuir senão à custa de um enorme
sacrifício…

Fez concessões a princípio, foi só a trechos pouco frequentados
conversar apenas, discutir os tenores da companhia lírica e as infâmias
da sua roda. Mas, como de uma feita, ele, de mãos postas e joelhos
em terra, sem se incomodar com a calça, rogasse a sua ida ao infalível
ninho de amor, ela cedeu afinal, incapaz de resistir por mais tempo…

Nesse dia foi meia hora antes, e agora, ali no carro, indo outra vez, ainda
tinha na memória a exasperação sensual da tarde intensa.
Guilherme, outro, rouco, e aquelas unhas brilhantes, coralisadas, que envermelheciam
mais, que se machucavam desfazendo tecidos, que tocavam frias à sua
epiderme, luziam nas batistescomo carapaças de pequenos monstros estranhos,
para acabar empalidecendo, fenecendo de perpassar pela sua carne como fica
sem cor um rosto sempre votado à oração… Naquele momento,
toda a sua alma vibrara de um prazer como nunca tivera, o prazer sutil de
gozar e desfazer o artifício máximo do outro. Mas, desde então,
ficara de gelo, esfriara, diante da pertinácia alvar daquela paixão.

Pobre homem! não se contentara! Antes pelo contrário, parecia
furioso depois do primeiro dia. Pedia-lhe entrevistas a todas as horas, em
todos os lugares, tinha sempre nos olhos uma queixa, e obrigara-a a dias certos!
Ela, uma senhora afinal, achava aquilo brutal, uma violência de quem
paga e que a reduzia, que a humilhava.

Não havia duvida amava-a. Mas isso, não era razão e
plausível para tamanhos excessos. Certamente era gentil esperava-a
sempre com o quarto florido. Mas, em a vendo, era sempre aquele beijo, o beijo
infalível e a frase:

— Sempre vieste! como te amo, Laurinda, como eu te amo!

Uf! que banalidade! Era baboso, era de entorpecer. E, positivamente, estragar
um dia por semana, roubar-se à admiração do próximo
para ouvir aquele senhor soluçar queixas de amor, parecia até
pouco sério. Depois, Guilherme nem sabia, nem tinha préstimo
para vestir uma senhora. Os seus vestidos, complicados, com ligaduras difíceis
e ousadias de corte, eram amarfanhados por ele, rasgados, e mesmo, num dia
de frio, caindo do céu a umidade, diante do espelho, Laurinda suava
de impaciência, tanto o idiota custava para lhe atacar o colete -já
com as unhas quebradas; sem brilho de se roçarem e de a apertarem.

Antes de ir para essas sessões, Laurinda vestia-se lentamente com
a dor de saber que se ia despir, demorava, imaginava afazeres, olhando o relógio.
De repente, porém, quando já os ponteiros passavam da hora,
não se continha. Mandava tocar à toda, corria ao rendez-vouscom
a louca vontade de que ele não a esperasse mais. Porque ia então?
Ora! porque ia! Por condescendência, por fraqueza, por não achar
o meio sério de se livrar de vez. E só então Laurinda
lembrou que ia, naquele momento, para o suplício! Pegou do tubo acústico,
soprou desesperada:

— Mais devagar, José!

Se aquele pobre Guilherme tivesse mais alguma novidade além das unhas!
Mas -coitada dela!- era certo vê-lo ajoelhar, vê-lo dizer: -sempre
vieste! mostrando as unhas polidas e brilhantes prestes ao sacrifício!
Era infalível que teria um fato novo, que a beijaria como a beijava
sempre nos olhos para lhe tirar a veloutinedo rosto, era fatal que arrebentaria
o cordão do seu espartilho diante do psyché -que é como
a alma do nosso físico… Ao menos, se o jovem feliz não a obrigasse
a despir, conversasse apenas, tivesse, enfim, um aspecto novo -vá!
Mas não. Havia de ser tal qual, inexoravelmente tal qual. Oh! era estúpido!

Um espasmo de raiva fê-la esticar os dedos coriscantesde anéis.
Seria eterno aquilo? Não acabaria mais nunca? O monstro abusaria até
o fim da sua posição de mulher honesta e fraca?

De repente o carro parou.

Deus! ia começar a tortura, o desespero! As janelas estariam abertas,
era certo. O imbecil ainda acabava morando lá! Lentamente, como se
levantasse o mundo, suspendeu o storede seda branca, e mais lentamente ainda
ergueu os olhos tristes.

A casa estava totalmente fechada.

Hein? Seria possível? Ele, então -e de súbito o desespero
sufocou-a- não a esperava mais? Acabara a paixão? Então,
ele também estava farto, estava cansado? Oh! ela já enjoava,
já aborrecia aquele cidadão que a perseguira dois anos! Mas
então essas coisas acabavam assim com a porta fechada, na cara, na
sua face! O grosseirão insultava-a a ela, a ela, Laurinda Belfort,
esposa de Soares Belfort!

Abriu a portinhola. Saltou. No seu cérebro baralhavam as idéias
como se a afronta a ensandecesse. Em derredor, a rua deserta modorrava. No
céu muito azul, de um azul muito claro, o sol vibrava, e do mar, que
abria pelo espaço um outro céu, vinha a úmida aragem
de um dia primaveril. Deu dois ou três passos, certificou-se rangendo
os dentes de desespero.

Oh! era ela -para seu castigo, por ter querido ser boa, por ter pena do infeliz,
era ela quem não se fazia receber! Oh! a vida! Quantas surpresas amargas!

Meteu-se outra vez no carro, bateu a portinhola.

Ah! não! nunca mais! estava acabado! O Sr. Guilherme queria o insulso,
o idiota? Tanto melhor! Só assim não perderia mais o tempo,
ela que tinha tanto que fazer, que ainda não fora ao costureiro e tinha
teatro à noite, jantar, um five-o-clock das Teixeira impreterivelmente
às quatro e meia! Que bom! E o cretino a pensar que a humilhava, que
a incomodava! A rua do Ouvidor devia estar esplêndida. Se ao menos ela,
Laurinda Belfort, não estivesse muito mal! Sempre que vinha àquela
horrível casa vinha tão sem gosto… O seu vestido era de rendas
brancas, sobre um fundo de liberty verde gaio. Abriu o estojo do coufé,
tirou um espelho, um pompon de pó de arroz, viu-se, achou-se bela com
o seu chapéu que era uma rosa debruada de uma enorme pluma verde pálido.
E, de fronte do espelho, a idéia de fugir à humilhação
apuou-lhe de novo o cérebro. Não havia dúvida. Nada de
cenas que demonstrem amor. Apenas, ao encontrar o mariola -uma frase triste:

— Ah! meu amigo, foi-me impossível ir hoje!

Gozar a cara dele, negar a sua ida lá, e mesmo que ele dissesse não
ter ido também mostrar um ar indiferente… Ah! Tortura-lo com uma
indiferença calma, ignorante, com alguns bocejos, até tê-lo
uma última vez e deixa-lo, abandona-lo, não ir mais -ela, ela,
ela a vencedora! desprezar as suas unhas, o prazer mórbido de toca-las,
as unhas… ah! canalha!

Então, sob essa impressão, Laurinda Belfort inclinou-se vivamente:

— José, para a cidade, depressa!

O carro tornou a rodar, enquanto, reclinada na almofada de seda, Laurinda
torcendo os dedos, sentia, por mais que não quisesse sentir, a falta
daquela hora infame, daquelas frases tolas, a falta daquelas unhas que lhe
davam a renovação de uma sensação toda cerebral,
para ao menos quebra-las mais uma vez morde-las, despreza-las. Instintivamente,
na imensa confusão dos seus desejos, olhava os transeuntes com ânsia,
a ver se o via, a ver se o encontrava, para parar o carro, ou tocar à
toda, ou cumprimenta-lo, ou fingir que não o via… Sabia lá!
Mas para vê-lo um momento ao menos, o pobre diabo, com os seus bigodes
e aquelas unhas da cor do nácar rosa… E nos seus olhos brotavam,
de desespero e de desejo, lágrimas a fio -por não ter tido,
apenas naquele dia, o brinquedo de um pobre ente para torturar e espezinhar,
o brinquedo aborrecido uma hora antes.

A peste

E de súbito, um indizível pavor prega-me ao banco. É
um dia brumosamente invernal. O azul do céu parece tecido de filamentos
de brumas. O sol como que desabrocha, entre as brumas. O ar, um pouco úmido
e um pouco cortante, congela as mãos, tonifica a vegetação,
e o mar, que se vê à distância num recanto de lodo, tem
reflexos espelhentos de grandes escaras de chagas, de óleo escorrido
de feridas, à superfície quase imóvel. O cheiro de desinfecção
e ácido fênico, o movimento sinistro das carrocinhas e dos automóveis
galopando e correndo pela rua de mau piso, aquela sujeira requeimada e manchada
das calçadas, o ar sem pingo de sangue ou supremamente indiferente
dos empregados da higiene, a sinistra galeria de caras de choro que os meus
olhos vão vendo, põem-me no peito um apressado bater de coração
e na garganta como um laço de medo. A bexiga! A bexiga! É verdade
que há uma epidemia… E eu vou para lá, eu vou para o isolamento,
eu!

Um mês antes ria dessa epidemia. Para que pensar em males cruéis,
nesses males que deformam o físico, roem para todo o sempre ou afogam
a vida em sangue podre? Para que pensar? E Francisco, o meu querido Francisco,
a quem eu amava como a melhor coisa do mundo, pensava todo o dia, lia os jornais,
tomava informações. "A média de casos fatais é
de trinta por dia. Ela vem aí, a vermelha", dizia. E já
organizara um regime, tomara quinino, tinha o quarto cheio de anti-sépticos,
os bolsos com pedras das farmácias para afastar o vírus. Coitado!
Era impressionante. Eu bem lhe dizia:

– Mas criatura, não tenhas medo. Andamos todo o dia pelas ruas, vamos
aos teatros. Qual varíola! Vê como toda gente ri e goza. Deixa
de preocupações.

De manhã, porém, nós líamos juntos, ao almoço,
os jornais. Para que mentir? Havia, havia sim! A sinistra rebentava em purulências
toda a cidade. Um dia em que passava por uma igreja, Francisco ouviu os sinos
a badalar sinistramente. Teve a curiosidade de saber por quem tão tristes
badalavam e perguntou a um velho.

– É promessa, meu senhor, é para que Santo António não
mate a todos nós de bexiga.

Francisco ficou como desvairado. Ao jantar encontrou-se comigo.

– Ah!, filho, falta-me o apetite. Estamos perdidos. É impossível
lutar. Ela está aí.

– Acabas doido.

– Antes! – fez, no orgulho da sua beleza.

Há uma semana, indo por uma rua de subúrbio, encontrou com
gritos e imprecações um bando de gente que arrastava ao sol
um caixão. Era uma pobre família levando à igreja o cadáver
de uma criança em holocausto, para que Deus tivesse piedade e misericórdia.
A impressão prostrou-o. Chegou à casa ainda mais assustado.

– Sabes! Estamos perdidos. A polícia já deixa arrastarem os
variolosos pela rua. Dentro em pouco só lepra, a lepra de dentro encherá
as ruas. Cada dia aumenta mais, cada dia aumenta. Quando chegará a
nossa vez?

– Mas vai embora, homem, sobe a montanha, afasta-te…

E comecei eu também a indagar, a querer saber. Então, continuava?
Como era? Como se morria de bexigas? As pessoas ficavam muito coradas, sentiam
febre. Havia várias espécies. A pior é a que matava sem
rebentar, matava dentro, dentro da gente, apodrecendo em horas! Palavra, não
era para brincadeiras. O Francisco abalara para o Corcovado, uma noite, sem
me falar, sem me dar um abraço, e de repente naquela manhã,
hoje, sabia por uma nota que ele estava no São Sebastião, com
bexiga também, talvez morto! Deu-me um grande ímpeto! Covarde!
Fora o medo. E agora? Era preciso vê-lo, não era possível
deixa-lo morrer sem um amigo ao lado. Nunca tive medo de moléstias,
morre quem tem de morrer. Depois a cidade estava tão alegre, tão
movimentada, tão descuidosa. Tomei o tramway quase tranqüilo.
Mas ali, tudo indica a morte, a angústia, o horror, ali é impossível,
e eu sentia um frio, um frio…

"- Estamos no ponto terminal; não salta?" diz-me o condutor,
virando os bancos. Faço um esforço, salto. E vou. Vou devagar,
vou não querendo ir. A impressão de fim, de extinção
violenta! Aquele recanto, aquele hospital com ar de cottage inglês aviltado
por usinas de porcelana, é bem o grande forno da peste sangrenta. Como
deve morrer gente ali, como devem estar morrendo naquele instante. Desço
a rua atordoado, com um zumbido nos ouvidos. O mar é um vasto coalho
de putrefações, de lodo que se bronzeia e se esverdinha em gosmas
reluzentes na praia morna. O chão está todo sujo, e passam carroças
da Assistência, carroças que vêm de lá, que para
lá vão. Quase não há rumor. É como se os
transeuntes trouxessem rama de algodão nos pés. Só as
carroças fazem barulho. E quando param – como elas param! – é
o pavor de ver descer um monstro varioloso, desfeito em pus, seguindo para
a cova… Espero que não haja nenhuma carroça à porta,
precipito-me pela alameda que sobe ao hospital. Vou quase a correr, paro à
porta de uma sala que parece escritório.

– O diretor?

– É alguma coisa de urgente? – indaga um jovem.

– É. É e não é.

– Vou preveni-lo. Sente-se. O senhor está pálido.

Caio numa cadeira. Sinto as mãos frias. As pernas tremem. Eu tenho
medo, oh! muito medo… E aquele trecho da secretaria não é
para acalmar o destrambelhamento dos meus nervos. Tudo é branco, limpo,
asseado, com o ar indiferente nas paredes, nos móveis sem uma poeira.
Os empregados, porém, movem-se com a precipitação triste
a que a morte obriga os que ficam. Retintins de telefones repicam seguidamente
nos quatro cantos. Os diálogos cruzam-se, diálogos em que as
vozes falam para dores indizíveis.

– Mais um doente?

– Ah! sim, ciente.

– Qual? Não há mais lugar. O de nome José Bernardino?
Vou ver.

E mais adiante:

– Olhe, 425? Morreu ontem à noite. Se já seguiu? Já.

Enquanto essas notícias são dadas às bocas dos fones,
há mulheres pálidas e desgrenhadas que esperam novas dos seus
doentes, há velhos, há homens de face desfeita, uma série
de caras em que o mistério da morte, lá fora, entre as árvores,
incute um apavorado respeito e uma sinistra revolta. Quantas mães sem
filhos! Quantos pais à espera da certeza da morte dos filhos! Quantos
filhos ali, apenas para tratar do enterro dos que lhe deram o ser. Ela não
respeita idade, passa a foice purulenta em tudo, está lá reinando,
fora, no jardim, entre as árvores, morro acima. Os funcionários
têm uma delicadeza fria.

– Que deseja, minha senhora?

– Saber do meu filho. É o 390.

– Há quantos dias?

– Há quatro. Ainda elas não tinham saído. Foi o médico
que disse. Ai! O meu pequeno!

– Está decerto no pavilhão de observação. Vou
mandar ver.

– Meu senhor, a minha mulherinha, diga-me por Deus, diga-me.

– Espere, homem. Nada de barulho.

Os retintins telefônicos continuam. Algumas faces não dizem
nada. Estão lá sentadas, esperando, esperando, esperando. E
há marcados, marcados do terrível mal, que vão sair,
não morreram, estarão dentro em pouco na rua com a fisionomia
torcida, roída, desfeita para todo o sempre. E ele? E Francisco? Ficará
assim? Assim, horrível, horrível… É preciso vê-lo!
É preciso!

O rapaz volta, faz-me um gesto, sigo-o, dou no gabinete do diretor, muito
louro, com a sua face inteligente vincada de tristeza.

– Então, por cá? Não teve medo? Está com a mão
fria. Ah! meu amigo, a apostar que não acreditava na devastação
do mal? Pois é horrível, é inaudito. Tenho presentemente
no hospital setecentos e vinte doentes, desde varíola hemorrágica,
que mata em horas, até a bexiga branca, que nem sempre mata. Já
não há lugares. Nunca São Sebastião esteve assim.
Mandei construir às pressas mais dois pavilhões. Estou arrasado
de trabalho e desolado. Afinal, por mais que se esteja habituado, sempre se
tem coração para sentir a dolorosa atmosfera de desgraça…
Mas que deseja? Diga.

– Eu desejava tomar uma informação. Está aqui no hospital
um rapaz do norte, Francisco Nogueira, estudante…

– Francisco? Há tanta gente que entra e tão pouca que sai.
Em que dia entrou?

– Creio que anteontem.

– Vou mandar ver.

Tocou um tímpano. Apareceu um funcionário. Falaram ambos.

O funcionário saiu, e desde que saiu, um tremor apoderou-se do meu
corpo. Estaria morto? Estaria vivo? Aquela carne feita de ouro e de rosas
já teria se transformado numa chaga purulenta? E se estivesse morto?
Uma criança tão cheia de esperanças, tão entusiástica,
tão pura, sem os pais aqui, sem ninguém a não ser eu,
que tremia. Nossa Senhora! Que me viriam dizer? E ao mesmo tempo, o desejo
de encobrir tamanha emoção forçava-me a fingir um sorriso,
a dizer mundanamente coisas frívolas ao homem bom cujos olhos tinham
tanta piedade.

– É o diabo. A epidemia tem impedido vários prazeres da season.
As grandes estrelas mundiais, os teatros…

– Pouca gente.

– Menos do que se devia esperar. Não freqüenta?

– Não tenho tempo.

– Ninguém dirá entretanto que a varíola…

– Nas grandes cidades as pestes dão uma impressão muito menos
dolorosa do que outrora…

– Na Idade Média, não, doutor?

Mas um nó subitâneo estrangula-me a frase. O funcionário
voltara, dava informações baixo ao diretor. O médico
pôs-se de pé e diante de mim.

– Está cá. Entrou anteontem. Está vivo. O médico
da enfermaria diz que há esperanças.

– Quero vê-lo, doutor.

Houve uma pausa grave.

– É vacinado?

– Sou.

– Já viu um varioloso?

– Não.

– Gosta desse rapaz?

– É meu amigo.

O diretor pensou. Depois:

– E melhor não vê-lo. Aceite o meu conselho. A ele nada falta.
O senhor parece tão comovido. Tenha esperança, vá descansar.
As emoções fazem mal neste período…

– Quero vê-lo, doutor, quero. É um grande obséquio que
lhe fico a dever.

O diretor ainda hesitou um instante, mas diante da minha resolução
que se fazia súplica, fez um gesto e eu acompanhei o funcionário,
passei a secretaria, entrei no jardim, comecei a subir para o morro onde entre
as árvores erguiam-se os grandes pavilhões, com as redes das
janelas pintadas de vermelho. Era ali, naqueles enormes galpões, com
janelas forradas de tela rubra que a varíola punha putrefações
e gangrenas nos corpos dias antes bons. O homem ia depressa, e eu arquejava
atrás, com as têmporas batendo. Meu Deus! Que iria ver? Que se
daria? De repente parou, subiu uma escada. Subi também. Abriu uma porta
de tela, entro. Entrei com ele. Abriu outra, passou. Passei com ele. Encaminhou-se
para um compartimento. Segui-o. Onde estava eu? Sei lá! Não
sabia! Não sabia! Vi-me diante de um leito, onde um cobertor tapava,
por completo, pequeno volume. Para diante havia outros leitos cobertos de
vermelho, outros muitos cobrindo a negregada. Certo cavalheiro indagava: "-
Quer ver então?" "- Sim, senhor." "- Não
é grave. Este escapa. Mas tenha coragem!"

Depois, com infinito cuidado, pegou das pontas do cobertor e foi levantando
aos poucos. Fechei os olhos, abri-os, tornei a fecha-los. " Não
há engano?" "- A papeleta não erra. É ele mesmo."

Eu tinha diante de mim um monstro. As faces inchadas, vermelhas e em pus,
os lábios lívidos, como para arrebentar em sânie. Os olhos
desaparecidos meio afundados em lama amarela, já sem pestanas e com
as sobrancelhas comidas, as orelhas enormes. Era como se aquela face fosse
queimada por dentro e estalasse em empolas e em apostemas a epiderme. Quis
recuar, quis aproximar-me. Só consegui dizer para o horror: "-
Francisco, Francisco, então como vais?" Os lábios moveram-se,
e uma voz, outra voz, uma voz que era outra, passou vagarosa: "- Ah!
és tu?"

Enquanto isso o corpo não fazia um gesto. Era ele, ele, sim, porque
sobre o travesseiro, só uma coisa não desaparecera dele e da
podridão parecia tomar um redobro de brilho: a sua enorme cabeleira
negra, com reflexos de ouro azul-tinta…

Então veio-me um louco desejo de chorar, um desejo desvairado. Fiz
um vago gesto. O funcionário abriu-me a porta e eu saí tropeçando,
desci o morro a correr quase, entre os empregados num vaivém constante
e as macas que subiam com as podridões. Um delírio tomava-me.
As plantas, as flores dos canteiros, o barro das encostas, as grades de ferro
do portão, os homens, as roupas, a rua suja, o recanto do mar escamoso,
as árvores, pareciam atacados daquele horror de sangue maculado e de
gangrena. Parei. Encarei o sol, e o próprio sol, na apoteoso de luz,
pareceu-me gangrenado e pútrido. Deus do céu! Eu tinha febre.
Corri mais, corri daquela casa, daquele laboratório de horror em que
o africano deus selvagem da Bexiga, Obaluaiê, escancarava a face deglutindo
pus. E atirei-me ao bonde, tremendo, tremendo, tremendo…

Há epidemia, oh! sim, há epidemia! E eu tenho medo, meu amigo,
um grande, um desastrado pavor…

E Luciano Torres, após a narrativa, caiu-me nos braços a soluçar.
Era de noite e foi há dois dias. Ontem vieram dizer-me que Luciano
Torres, meu amigo e colega, fora conduzido em automóvel da Assistência
do seu elegante apartamento das Laranjeiras para o posto de observação.
Está com varíola.

Última noite

— Perdeste?

— Não, ganhei por treze. Veja você a cábula!

E Armando recebia do parceiro mil réis pela partida de bilhar. Para
fazer semelhante aposta fora preciso a boa vontade do Jeremias, o principal
caixeiro, que emprestara os dez tostões e durante toda a partida levara
a peruar, grasnando. «Anda com isso, homem. Pois ainda não ganhaste?
Olha que se perdes…». Armando suspirou, bateu com o taco no soalho.

— Vamos outra, parceiro? silvou o contendor, um sujeito lívido,
de olhar desconfiado.

— Não posso. Tenho onde estar às sete.

— Quem? Você? Qual! O que você tem é medo. Um pixote
com uma sorte maluca.

— Ah! filho, quem dá a sorte é Deus.

Mas o Jeremias vinha arrastando as chinelas, em mangas de camisa. E, apanhando
as bolas no pano sujo de giz, a apagar um dos bicos de gás, resmungou
tirânico:

— Deixa-o lá. Não lhe dês conversas. O dianho perde
e ainda se põe com luxos!

Mesmo ali, entregou-lhe a nota do empréstimo, piscou o olho para outro
caixeiro, um camaradão esse, foi até à cigarreria receber
fiado um maço dos de carteirinha e uma caixa de fósforos. Acendeu
um, vagou um pouco pela atmosfera deletéria do botequim, repleto de
cambistas, de vendedores de senhas, de gente que não tinha o que fazer
ao lado de uns tipos de torrinha, que trabalhavam o dia para fazer da claque
à noite, olhou-se um instante no espelho. Estava pálido, com
olheiras, a barba por fazer e o seu colarinho, emprestado, havia oito dias
que lhe apertava o pescoço. Sentiu uma tonteira. Fome, de certo. Não
comera desde a véspera, e o dia anterior passara-o com uma media e
meio pão com manteiga, repartido afetuosamente com o Clodomiro. Iria
comer um bife no frege.

Saiu devagar, desceu a rua do Senado, entrou numa casa de pasto da rua do
Espirito Santo, e foi bem para o fundo, com medo dos camaradas necessitados,
que talvez quisessem repartir. O caixeiro, um gordo, com o ventre muito grande
e o nariz rubicundo, assentou as duas mãos na toalha suja, e desfiou
diante dele a lista cantada das iguarias.

— Um bife e um caldo verde.

— O bife depois?

— Está visto.

— Salta um caldo verde! ladrou para dentro o homem.

Armando pediu tambem vinho. Logo que o caldo lhe caiu no estômago,
um calorsinho agradável percorreu-lhe o corpo, e o estômago pareceu-lhe
que acordava -o seu bom estômago, amigo às direitas, sem exigências,
sem queixumes, um estômago que perdera a noção do jantar
e do almoço e parecia dormir-lhe nas suas entranhas. Devorou o caldo
com grossos pedaços de pão, devorou o bife, sorveu a meia garrafa
de vinho, mastigou duas bananas. Oh! Tinha fome para muito mais! O proprietário
porém não fiava, e já era muito aquele jantar. Apanhou
os níqueis do troco, saiu, com as mãos no bolso, e verificou
no meio da rua que não tinha nada a fazer. Era um homem, completara
vinte anos, conservara rijos os músculos e cheia de ambições
a alma. Entretanto estava ali, na calçada, como um trapo, ao deus-dará
da vaga humana, sem trabalho, sem morada. Para onde iria ele, coitado? Era
onde calhasse que havia de dormir. Talvez ceiasse. E talvez no dia seguinte
encontrasse um emprego. Oh! o emprego! Quantas desilusões e a quanta
coisa descera para arranja-lo! Lembrou-se de que uma grande influencia política,
um senador, olhando-o muito intimamente, dissera-lhe:

— Veremos, ainda se pode arranjar…

Ainda se pode! Armando sorriu. Ora se ainda! Os seus orgulhos, e sua altivez,
a noção de honra, de hombridade, de vergonha tinham naqueles
quatro meses de miséria se adelgaçado assaz. Tudo é tão
relativo neste mundo! Quando está a roupa no fio e o estômago
vazio está, tira-se partido mesmo do que nos repugna ao menos para
jantar. E ele, perdendo a cor da face, impondo ainda o seu tipo sensual de
adolescente, entrava em intimidades perigosas, arranjava pequenas ladroeiras
mais perigosas que grandes roubos, metia-se em histórias inconfessáveis,
e lentamente, cada dia descia mais.

Aquilo acontecera a tantos! Ele viera da terra remetido a um tio padre que
vivia em mancebia com uma cabrocha gorda para os lados da Penha. Era forte,
airoso e com essa sensualidade à flor da pele que só têm
os homens de Portugal. Por causa da cabrocha o tio despachara-o para uma taberna
na cidade. Ele ia indo bem e assim passou dois anos. Mas um dia uns camaradas
lembraram ir ao teatro, a uma grande revista de certa companhia portuguesa.
Foi, de terno novo, com um ramo de violetas à lapela. Nunca vira um
teatro. Apaixonou-se por todas as mulheres, começou logo a considerar
os cômicos grandes homens. Nessa noite esperou a saída dos artistas.
No dia seguinte, apesar de tomar conta da taberna, às onze horas saiu
pé ante pé para não acordar os outros, bateu a porta
e voltou ao teatro. E como não tivessem percebido a sua fugida, todas
as noites deu para fazer o mesmo. Estava de dia a cair de sono, mas já
conhecia os coristas, já dizia a sua piada às coristas, já
o porteiro da caixa lhe pedira dinheiro para o deixar passar, e uma artista,
a Etelvina Soares, uma de pernas grossas, já lhe passara duas cadeiras
de beneficio. O teatro, a caixa, os artistas exerciam a sua fatal tentação
e para a folia da noite Armando cortava na gaveta do patrão uma féria
permanente. Mas, ao voltar uma noite à taberna, encontrou de pé,
à porta, o patrão a bufar de cólera, que o espancou furiosamente,
insultando-o a berrar:

— Pensavas, patife, que eu não viria a saber!

Ele foi digno. Que importavam empregos? Exigiu as suas contas, recebeu economias
de dois anos que o patrão com a ameaça da polícia dera
imediatamente, e caiu no oceano daquela vida sedutora, despreocupado e feliz.
Passava os dias nos ensaios, nas bodegas de artistas meio esfomeados, passava
bilhetes de benefício. As mulheres não o amavam, mas ele conhecia
todas; os grandes cômicos não lhe sabiam o nome, mas ele, Armando,
conhecia-lhes todos os papéis, tinha opiniões, criticava, sabia
de cor uma porção de coplas. O ar pezado da aldeia, desfizera-o
a vida na cidade; o tom grosso de caixeiro, aquele roçar com cômicos
transformara. Acabou por desprezar os seus antigos colegas, e na noite de
despedida da companhia, no embarque da mesma, fez loucuras de entusiasmo.
Ah! Aquilo é que era! Mas já não lhe restava mais nada
das economias e era preciso empregar-se. Empregos! Todas as portas se lhe
fechavam nas casas de comércio, sabendo do tempo em que estivera desempregado.
Alguns sabiam mesmo a história, e o próprio Armando sentia não
poder mais voltar àquele trabalho, enquanto os dias iam se passando
pelos teatros, pelos botequins, à cata de dinheiro, amoldando-se ainda
mais à infâmia, aos desejos misteriosos, às pândegas
das noites. Por último era aquilo sujo, com fome, sem ter onde dormir,
e entretanto julgando-se mais do que fora antes, julgando-se mais, reagindo
contra uma resolução que o fizesse mandar buscar pelos pais
ou de novo o pusesse a trabalhar. Que vida!

Armando parou à porta de um botequim numa roda de atores principiantes,
de contra-regras, de figurantes. Há sujeitinhos lavados, bem como os
coristas, há tipos em mangas de camisa, há também estômagos
vazios. São conhecimentos das noites passadas em claro nos cafés-bilhares,
nas baiucas fétidas de jogo. Armando olha um sujeito de grosso bengalão:
é o chefe da claque. Cumprimenta-o, fala-lhe.

— Não tem disso, não! Fomente-se!

Mas é bom, dá-lhe uma senha. De posse da entrada, o rapaz põe-se
logo a andar, embarafusta pelo teatro, atravessa o jardim sem ver ninguém,
entra na caixa, sobe uma estreita escada de quatro ou cinco degraus, atravessa
um monte de cenários velhos, que de vez em quando saem da poeira letárgica
para um espetáculo de arromba.

Vira à esquerda, passa pelo pano do fundo para a carreira de camarins
das notabilidades, sobe outra escada, dá em meia dúzia de bricoetes.
Armando abre um. É o do ator Espínola. Quem é o Espínola?

Ninguém sabe. O Espínola foi comerciante, apaixonou-se pelo
teatro, passou misérias atrozes, e vive agora de fazer pontas com cento
e cinquenta mil réis por mês. É tímido, é
assustadiço, e tem piedade pelos outros.

— Então que há.

— Parece que a companhia dissolve.

— É o diabo. Vamos para o interior? Com quem?

— Um pequeno grupo…

Espínola pinta-se mal e dá informações. Com os
olhos queimados, a face oleosa pela falta de repouso, Armando ouve-o. Lá
em baixo tocam um grande sino. Vai começar. Espínola sai. Armando
diminui a luz do gás, tira o casaco e deita-se na mala. Dormir, não
pensar, dormir apenas… E dorme, dorme um sono mau, fatigante, interrompido
pelas entradas do Espínola, cortado de toques de sino, de inferneiras
de mulheres, de gritos, de músicas. Faz no camarim uma temperatura
de caldeira. Afinal, à meia noite, Espínola acorda-o. Terminou
o espetáculo. Armando lava a cara, penteia o cabelo, prepara-se, saem
os dois devagar. Espínola não tem amantes, e por uma evidente
infelicidade Armando não arranjou nenhuma. Tomam café no largo
do Rocio. O bom Espínola, que habita um cômodo com mais cinco
pessoas, despede-se. Armando, só, sem coragem, volta de novo ao botequim
onde ganhou dez tostões. Há como ele outros rapazes, há
coristas, há tipos reles. Às vezes fazem-se pândegas.
Mas naquela noite ir amanhecer no Leme ou no Mercado? Não, não
é possível.

Os botequins vão fechando, rareia o trânsito, Passa de vez em
quando um bonde. Aparecem os varredores da Limpeza Pública, numa nuvem
sufocante de poeira. Armando está ainda à esquina, mastigando
a ponta do cigarro. E vê então que há luar. A lua cheia,
muito lânguida e muito pálida, estende pela casaria a poesia
misteriosa da sua luz. Oh! a velha lua! Como consola os tristes e os desgraçados!
Armando vai indo a pé, olhando o céu, olhando a lua. Desce as
ruelas escuras, dá no gradil do campo de Santana, rescendente de aromas
silvestres. Tudo é calmo, tudo é docemente quieto. A brisa leve
embala os ramos das árvores num suave perpassar, e do alto, amplo,
como uma ânfora de consolo e bem-aventurança, o astro derrama
a delícia tranquila do seu esplendor. Não poder saltar aquele
gradil, estender-se na relva, ofertar-se à lua numa longa hora de choro
e de lágrimas… Dói-lhe tanto o estômago! Vai até
a Central, já com os focos apagados. Há uma negra vendendo mingau
para uma roda de notâmbulos: marinheiros e soldados ébrios, fúfias
de galhinho de arruda e chinelas sujeitos ambíguos de calça
balão. Palavrões choviam. A negra lavava a louça, e ao
seu lado um canzarrão cinzento com vestígios de lepra, roncava.
Um momento hesitou. Tomaria o mingau? Mas a viagem? Não! Era melhor
dormir, dormir tranquilo. Entrou, caminhou até ao saguão, foi
até ao embarcadouro. No saguão havia o vigia a dormir. Na gare,
um cavalheiro passeava devagar com uma formosa senhora. Ele parecia radiante,
e ela tinha esse olhar amortecido que as mulheres têm quando querem
saber mais alguma coisa na vida. Um perfume delicado errava à sua passagem,
e quando ela ria, o seu riso animava a tristeza sombria da estação.

Armando não olhou sequer. Preocupava-o a bilheteira. Quando a viu
aberta, comprou um bilhete de ida e volta para o subúrbio, correu a
um vagão de segunda classe, estendeu-se refasteladamente Estava só.
Ia dormir!

Pouco depois soaram campainhas. O chefe do trem acenou para o maquinista
com um lanternim de vidros vermelhos e verdes, um silvo partiu, houve um ranger
de ferros. O trem moveu-se, a principio devagar, depois vertiginosamente,
deixando na corrida louca o renque do casario, as duas fitas dos combustores.

— Praia Formosa! grita o condutor, saltando para a plataforma.

Entram alguns indivíduos, talvez cocheiros. Falam de burros, de atrasos,
de parelhas.

— Faz obséquio do seu bilhete.

Armando abre os olhos. No vagão, o diminuto número de passageiros
tem um ar de sono e de fadiga. Havia gente vinda dos bailes, das tipografias,
do trabalho, e muitos, também como Armando, lá se achavam apenas
para passar algumas horas fora do relento. Uns vinham estirados sobre os bancos;
outros apenas cochilando. Armando reconhecia-os, sem pena, indiferente. Tinha
que ser. Talvez alguns tivessem ainda a pensão do jantar. Ele sim,
ele é que longe da família, longe da sua terra, sem auxílios,
descia a rampa da vida certo de encontrar o abismo, mas incapaz de soltar
um grito -por falta de coragem, por falta de energia, porque tinha de ser…
Um soluço sacudiu-lhe o peito. Para ocultar as lágrimas, puxou
as abas do chapéu, virou o rosto. O trem continuava a galopar, sacolejando
os corpos. Os campos inundados de luar passavam numa visão branca.
E, de repente, Armando sentiu um bem-estar. Ia caminho da casa, tinha menos
quatro anos. Era tarde, o pai ralharia, mas a mãezinha lá estava
à espera, com o fogareiro de espírito, para aquentar o café.

— Boa noite, mãe.

— Meu filho, baixo. Olha teu pai. Por que veio assim tão tarde?
E suado, com este frio da noite!… Não vás apanhar uma constipação.

Oh! a sua mãezinha. Então sentava-se, contava-lhe tudo, o sonho
que tivera, o seu abandono, as dormidas ao relento, as infâmias, os
engates no jogo, tudo por má cabeça…

— Má cabeça tua, meu filho. Mas tu tens tua mãe.
Vai dormir, anda, vai descansar. Descansa que eu te arranjo tudo. Não
há pedido de mãe que Deus não ouça.

Então ele sentia-se ainda mais pequeno, cheio de vontades. Queria
uma roupa nova, um par de botas, chocolate. Gostava tanto de chocolate! Ele
pedia, ela prometia chorando. E assim os dois, a velha é que o deitava,
que o cobria com a colcha limpa.

— Dorme, meu filho, dorme.

E ele dormia, dormia tão bem na sua cama, ao lado de sua mãe,
na sua casa! Dormia bem mesmo, muito, sentindo o prazer indizível de
estar dormindo.

De repente, porém, sentiu um estalo no ouvido. Acordou. O vagão
estava cheio. Era de madrugada. O trem voltava cheio de operários.
A manhã nascia lavada e cor de pérola. Os artífices bulhentos
tinham resolvido acorda-lo, e um da roda, todo a gingar, com ar de desafio
e de troça, batia-lhe palmas junto ao ouvido.

Armando ergueu-se, encarou-o.

— Estou incomodando, cidadão? chalaceou o outro.

O pobre rapaz recalcou a cólera, sorriu.

— Não, até me fez bem… Tirou-me um sonho!

E foi para a plataforma do vagão olhar os últimos vestígios
de uma das suas noites. Que havia de fazer agora? O mesmo que fizera antes,
a mesma miséria, a mesma infâmia, o mesmo horror. Nossa Senhora!
Mas não haveria meio de ganhar a vida, de comer, de dormir, de viver?
Não haveria quem tivesse piedade da sua atroz agonia?…

Sentou-se na escadinha, acabado. O trem continuava a galopar pelos campos
dourados do sol nascente. A natureza abria em flor, ao beijo da madrugada.
Uma corrente pendia entre o vagão em que estava e o outro vagão.
Inconscientemente estendeu a mão. Seria tão interessante pega-la.
Mas custava. Tudo no mundo custa. Estendeu mais o corpo, quase deitado, estendeu
mais. O corpo falseou, pendeu. Quis salvar-se, numa súbita e desesperada
angústia. Com os pés enlaçados na grade, ainda conseguiu
prender as mãos nos para-choques. Mas um solavanco desprendeu-o. O
corpo caiu. As rodas do outro vagão esmigalharam qualquer coisa. O
trem continuou na luminosidade da manhã. E ninguém do trem reparou
naquele fim de vida tão desconsolada, sob o calor do sol que começava…

Uma mulher excepcional

– Está a brincar!

– Sério. É irrevogável. Preciso um pouco de ar, um pouco
de descanso, de repouso, de sossego. A vida desta cidade ataca-me muito os
nervos…

Era no salão de Irene de Souza, o salão em que a esplêndida
atriz fundira o confortável inglês com o luxo do antigo, espalhando
entre os divãs fartos da casa Mapple, bergeres mais ou menos autênticas
do século XVIII, contadores do tempo de Carlos V, e por cima das mesas,
por cima dos móveis, nos porta-bugigangas de luxo, marfins orientais,
esmaltes árabes, estatuetas raras, fotografias com dedicatórias
notáveis. Irene de pé, diante da secretária, sorria,
estendendo-me as duas mãos finas, nervosas, enquanto os seus dois grandes
olhos ardiam mais loucos e mais passionais.

Irene de Souza! Que legenda e que beleza! Os seus inimigos asseguravam-na
apanhada como criada de servir perto de um quartel para os lados de S. Cristóvão;
outros diziam-na filha de uma família muito distinta do Sul. Ao certo
porém ninguém sabia senão aquela aparição
brusca no teatro, bela como a Vênus de Médicis, a arrastar nos
decadentes tablados cariocas vestidos de muitos bilhetes de mil, criados pelo
Paquin e pelo Ruff. Não era uma pequena qualquer. Era a bela Irene
de Souza que queria ser a boa, a humilde, a simpática, a talentosa
Irene. A critica fora jantar a sua "vila" de Copacabana, onde Irene,
ao nascer do sol, num regime essencialmente esportivo, fazia duas horas de
bicicleta e sessenta minutos de natação. E a critica suportara
o seu companheiro Agostinho Azambuja, empreiteiro, rico, casado; a crítica
elogiara Irene, e de chofre todas as atrizes, todos os cabotinos sentiram-se
diminuídos lendo no cartaz, em grossas letras, o nome de Irene en vedette,
de Irene repentinamente footlight. Ela continuava tão boa porém,
tão amiga, tão simples, tão séria… Tão
séria? Deram-lhe todos os amantes imagináveis em vão,
por vingança afirmaram que os seus dentes como os seus sapatos eram
feitos em Paris, emprestaram-lhe instintos perversos, e foi célebre
a frase de um jornalistinha desprezado: De pé é a Vênus
de Médicis, deitada é a Vênus Andrógina. Mas Irene
mostrava o claro fio da dentadura com uma despreocupação tal,
tratava tão camarariamente os homens que a calúnia tombou.

De resto Agostinho Azambuja tinha uma confiança muito elegante. A
lenda era esse homem vulgar, possuído de uma paixão devoradora,
agarra uma pobre rapariga no mais reles alcouce e fizera-a uma obra sua para
dominar a cidade, uma mulher perfeita, falando quatro ou cinco línguas,
conhecendo música, vibrante de arte e de elegância que é
a arte de ser sempre a tentação. Mas a paixão, o ciúme,
esses paroxismos fatais de quem quer muito bem, Azambuja encobria-os numa
serenidade de bom tom, talvez mesmo para Irene, deixando-a sair só,
não lhe perguntando nunca de onde viera, recebendo na própria
casa os apaixonados que a ela poderiam ser úteis para o reclamo, colocando-a
numa posição verdadeiramente superior, sem esquecer o lado prático,
porque lhe assegurava o futuro, comprava-lhe casas, jóias. No dia em
que correu ter o Azambuja presenteado Irene com uma baixela de ouro lavrado,
herdada do avô, um vago judeu argentário, as mulheres tiveram
a certeza da superioridade da rival, e foi notada a resposta do Azambuja a
Etelvina, primeira ingênua casada e adúltera da companhia:

– Minha filha, já não estou na idade de satisfazer os caprichos
de uma mulher. A Irene quem a fez tal qual fui eu. Vivo do orgulho que ela
me dá. É o meu chic.

– E se o trair?

– Tem bastante espírito para o não fazer, e lucrarias mais
se fosses sua amiga.

Mas isso é que ninguém concebia: a Irene sem enganar o Azambuja.
Afinal era uma rapariga de vinte e cinco anos, um verão ardentíssimo,
uma beleza que chamava paixões! Muita vez no seu camarim, forrado de
seda cor-de-rosa, faziam-se comentários.

– Mas não ama o velho Agostinho?

– Está claro que não o posso amar como Julieta a Romeu. Há
uma grande diferença de idades. Mas respeito-o e sou-lhe grata. É
quanto basta. Eis a razão por que resisti a princípio e hoje
sou invulnerável.

– Francamente?

– Deve compreender que seria muito parva se fosse perturbar a minha vida
e a beleza que vocês proclamam com uma paixão. Ora só
a paixão poderia influir. Essa não vem, não vem, e não
virá nunca. Conheço os homens.

De fato, tinha razão. Como o seu sorriso tomava-se cortante, as narinas
palpitavam e com o seu ar de Diana à caça, ela permitia-se abraços
e beijos com as companheiras, mais falsas que a onda, logo se formou irrevogável
a legenda.

– Irene? Amantes não… A Irene procura alguém de quem o Azambuja
não tenha ciúmes. Lembrar-te da frase do Gomide?

A legenda foi mesmo tão espalhada que súbitas ternuras apareceram,
e alguns camarotes eram insistentemente ocupados pelas mesmas damas nas noites
das suas representações, e vários convites surgiram para
tê-la na companhia de senhoras bem cotadas.

– Es uma criatura imperfeita, disse-lhe eu um dia.

– Por quê?

– Porque não amas o amor. Lembra-te dos versos do Poeta:

Que os vossos corações aprendam a viver,

Amando o amor, amando a perfeição,

A perfeição da alma que nos traz o prazer

Supremo e a suprema ilusão!

Ela suspirou, tristemente.

– Se é assim? Que hei de eu fazer? Mas que romântico, Deus!

E todos nós, jantando nas suas pratas, escrevendo a respeito do seu
talento, tínhamos aceitado o caso como definitivo. Até Irene
mesmo, mostrando predileções excessivas, parecia sossegar com
a esquisita calúnia e mostrava uma alegria, uma imensa satisfação
na vida. De modo que aquela partida brusca, após seu último
sucesso agradável numa comédia inglesa, era de desnortear. Ao
saber a resolução pelo velho Azambuja na rua, eu tomara um tílburi,
interessado como diante da saída de um ministro, e estava ali, interrogando-a,
no meio da desordem do salão, onde havia malas, chapéus, plumas
e um intenso cheiro de heliotropo.

– Mas por que partir, Irene?

– Porque é preciso.

– Uma briga com o Azambuja? Não? Aquele ataque da Suzana Serny? Também
não? Então? Querem ver que afinal tem uma paixão?

Irene sorriu, no seu quimono rosa, guamecido de uma leve renda antiga.

– Paixão? Sabe o que estava a fazer, quando entrou? Estava a limpar
a secretária, a rasgar declarações amorosas e a atirá-las
para este cesto. Tudo quanto está vendo nesta secretária, tudo
quanto vê neste cesto – é paixão!

Recuei assombrado. Nunca tinha visto tanta paixão reunida e um sorriso
tão destruidor nos lábios de Irene.

– Oh! não se assuste! Essa paixão é uma das faces do
meu amor ao teatro. O Azambuja sabe e, às vezes, lê as cartas
comigo. Guardo os artigos de jornal num álbum e a chama amorosa na
secretária. Algumas ainda não li, mas foi por falta de tempo…

– Cruel!

– Oh! É lá possível ler tudo quanto a tolice humana
escreve? Recebo as cartas de bom humor porque é impossível zangar,
e acabo considerando-as a homenagem anônima, uma espécie de palmas
num teatro cheio. Quer lê-las?

Uma ansiedade invadiu-me.

– Irene, nunca amou? Francamente? Posso ler todas, todas?

– Todas, fez ela. Sem receio. Divirta-se! Eu vou mandar fazer um pouco de
chá, feito da flor, enviado diretamente da China para um inglês
rico que me adorou em vão.

Ergueu-se. Houve um deslocamento de perfumes. A meus pés o cesto abria
a fauce abarrotada; diante das minhas mãos a secretária escancarava-se.
Hesitei, olhei-a, não resisti.

Ah! o estranho capitulo de psicologia, a descraziante página de análise!
Daquela papelada subia como uma fúria de paixão, de doença,
de loucura. Havia mais de quinhentas cartas, havia mais de mil postais e nesses
quadriláteros de papel ardia um arco-íris passional desde a
chama roxa da melancolia à chama rosa do amor precoce. A primeira carta
que abri tinha ao canto um passarinho voando, e começava assim: "D.
Irene, queira desculpar, ao receber esta maltraçadas linhas que lhe
envio do Internato. Tenho quinze anos e vi-a ontem. Como é bonita!"

– Conheceu?

– Nunca o vi. Pobre pequeno! Do seu primeiro amor não guardará
ao menos más recordações.

– Cá tenho outro: "Senhora. As horas fogem e a esperança
fica. Quem a chamou de feia e a senhora não sabe quem é."

– Quantos nestas condições! Vá vendo…

Eu ia com efeito vendo. Peguei de outro: "Adeus, flor da minha vida!
E que nas outras cidades deixe os mesmos corações despedaçados.-
Maníaco."

– Este confessa-se maluco!

– O que não fazem os outros…

Mas as tolices, os gritos de paixão, que são sempre ridículos,
não acabavam mais. Eu lia versos, lia pensamentos patetas, via toda
a palpitação ingênua do coração dos homens;
ameaças de suicídio, ofertas de dinheiro, descrições
de vida futura, pedidos de uma humildade de rafeiro, agonias com erros de
português, máximas idiotas e generosas: "A amizade da mulher
tem um encanto mais suave do que a do homem: é ativa, vigilante, terna
e durável", graças nevrálgicas de palhaço
amoroso. Deus! O amor, que dolorosa moléstia… eu não sei por
que um nervosismo incompreensível fazia-me trêmulos os dedos,
eu procurava com ânsia, humilhado, espezinhado, como se fosse responsável
por todas as sandices do meu fraco sexo.

– A carta anônima é às vezes melhor que a carta de amor!

– Sabe que teve um pensamento?

– Como os que acabou de ler?

– Não, um pensamento diamantino.

– Pois venha tomar chá.

A criada servia, com efeito, o chá num lindo "tête-à-tête"
de porcelana com guarnições en vermeille. A encantadora Irene
parada; os seus olhos pareciam levemente inquietos. Eu continuava a remexer
a secretária. Uma das missivas era enorme. Abri-a. "Peço
a V. Ex. que me perdoe a ousadia, e, genuflexo, reclamo o seu carinho para
os queixumes de um coração sofredor. Não sei fazer poesia,
sou imensamente avesso às flores de retórica e suponho que não
me igualarei ao gorjeio dos rouxinóis ou às asas das borboletas
inquietas…"

– Basta! Basta! fez Irene, tapando os ouvidos.

– É a paixão.

– Venha antes tomar chá. Olhe a frase de Ibsen, na Comédia
do Amor: O amor é como o chá. Bebamo-lo!

– Ah! minha querida! Como os homens são idiotas! Essa mania de escrever
cartas de amor é bem o sintoma de inferioridade. Se eles soubessem
o fim das suas letras e o pouco-caso que delas fazem as mulheres. Ainda não
tive amante que com ela não rasgasse as cartas dos que me tinham precedido.

– Era uma afirmação de que pelo menos no momento não
o enganavam.

– Quem sabe?

Ela sorria com a chávena na mão. Era realmente bela. Toda de
rosa, naquele quimono de seda, lembrava uma flor maravilhosa, uma flor de
lenda, inacessível aos mortais. Eu compreendia a futilidade, a tolice,
a miséria lamentável dos homens, diante da sedução
de Vênus Vingadora, da Vênus que não se entregara nunca,
e era honesta sem amantes, sem crimes, sem calunias…

Mas por que ia ela para a Europa? Por que me humilhava com aquela intimidade
de correspondência aberta? Por quê? Os meus dedos encontraram
uma gaveta. Abri-a. Nunca a linda Irene de Souza amara um homem! Era honesta,
era o pólo do desejo! Ah! não… várias cartas. Apanho
uma ao acaso. Um selo italiano. Tirei-a do invólucro: "Cruel.
Hei de matar-te se alguma vez te encontrar ajeito. Não me quiseste
e eu peno, peno há cinco anos. Conto que ainda hei de ver o teu sorriso
indiferente, 6 8,6 8, oitavo do século, no mesmo lugar. Preciso muito…"

Não continuei.

– E olhe que tem também um doido.

– Palavra?

– Um sujeito que está na Itália, ao que parece. Fala do número
8, chama-a cruel.

– E eu que ainda não tinha lido! Com efeito. E curioso. E assina-se
César! Não faz coleção de selos? A filatelia está
em moda.

– Como todas as parvoices inofensivas. Ainda lá não cheguei.

Depois, parei. Ela estava preocupada, séria, um tanto fria talvez.
Decididamente aborrecia a bela Irene de Souza. E era de compreender. Irene
preparava a sua partida, desejava estar só. Curvei-me.

– Adeus, então. Seja mais humana lá fora.

– Eu? Com os espias e as agências de informação pagas
pelo Azambuja? Da última vez que estive em Paris, Azambuja mostrou-me
um dossier tão copioso que eu pensei no Affaire Dreyffus. Qual, meu
amigo, sou invulnerável. E rindo alegremente: já se vê
que pour cause…

Saí varado, porque afinal não há nada mais impertinente
do que encontrar realmente honesta uma mulher que não tem o direito
de o ser, e indo pela Avenida Beira-Mar a matutar naquela criatura excepcional
encontrei o velho Justino Pereira, a passear também.

– Poesia?

– Não, idéias. Venho da casa da Irene.

– Boa pega!

– Oh! não, um espírito prático, incapaz de amar. Mostrou-me
verdadeiras cascatas de amor.

– As mulheres nunca mostram todas as cartas. É o seu grande trunfo.

– Velho céptico!

– Mesmo porque há cartas que os maridos e os amantes podem ler, cartas
desvairadas, sem sentido… Que cara a tua! Pareces criança. Pois meu
tolo basta uma combinação prévia, basta uma chave do
sentido oculto. Por exemplo: Hei de matar-me. Tradução: Não
deixes de vir. Peno há cinco anos. Tradução: Preciso
de dinheiro.

– Ora o fantasista! Não me vai dizer que a Irene tem amantes.

– E se disser que tem mesmo uma espécie de gigolô, a quem sustenta?

Indignado, como se fosse uma questão de honra pessoal, estaquei.

– Sr. Justino Pereira, nada de calúnias. Irene está acima de
maledicência. O senhor calunia e é pelo menos incapaz de nomear
o tal gigolô.

– Oh! filho, fez Justino a sorrir. Soube-o por um acaso, não tenho
que guardar. É até um lindo rapaz, corpo de esgrimista, olhos
devoradores. Nasceu em S. Paulo, chama-se Victorino Maesa e partiu há
dois meses para a Itália.

Como me visse pálido, aturdido, sem saber o motivo daquela emoção,
sem saber que como um imbecil eu tivera a carta na mão:

– Estás apaixonado? Contrariei-te? Todas as mulheres são excepcionais
quando se lhes quer prestar atenção. Mas no mundo não
há uma que não tenha um segredo simples, que lhe mostra um reverso
inteiramente diverso da aparência…

E desatou a rir enquanto eu esforçava-me por fazer o mesmo.

A mais estranha moléstia

A Afrânio Peixoto

Era o momento verde, o momento do aperitivo outrora absinto, hoje uma série
de envenenamentos de cores variadas e de nomes ingleses, a que a leve estética
sem inventiva dos cafés e das confeitarias continuava de chamar sempre
o momento da água glauca. Por hábito, sentara-me a uma das mesas
do terraço de confeitaria, os olhos perdidos na contemplação
de Avenida, àquela hora vaga tão cheia de movimento e de ruído.
No asfalto da rua era a corrida dos carros, apitos, trilos, largo bater de
patas de cavalos, chicotadas estalando no pêlo das magras pilecas dos
tílburis, carroções em disparada, cornetas de automóvel
buzinando arredas, gente a correr, ou parada nos refúgios, à
espera de um claro para poder passar, o estrépito natural do instante,
à hora da noite nas cidades. Nas calçadas uma dupla fila de
transeuntes sempre a renovar-se, o cinema colossal de homens das classes mais
diversas, operários e dândis, funcionários públicos
e comerciantes, ociosos e bolsistas, devagar ou apressados ao lado de uma
multicor galeria de mulheres, a teoria infinita do feminino para os gêneros:
pequenas operárias, cocottes notáveis, senhoras de distinção,
meninas casadeiras, simples apanhadoras de amor. As sombras, a princípio
de um azul-furiureáceo, depois de um cinza-espesso, iam preguiçosamente
espalhando o veludo da noite na silhueta em perspectiva das grandes fachadas.
À beira das calçadas, a pouco e pouco os pingos de gás
dos combustores formavam uma tríplice candelária de pequenos
focos, longos rosários de contas ardentes, e era aqui o estralejamento
surdo das lâmpadas elétricas de um estabelecimento; mais adiante,
o incêndio das montras faiscantes, de espaço a espaço
as rosetas como talhadas em vestes d’Arlequins dos cinematógrafos,
brasonando de pedrarias irradiantes as fachadas. Ah! os contos de fadas que
são as cidades! Os meus olhos se fixavam na confusão miriônima
das cores, vendo em cada roseta um caleidoscópio, sentindo em cada
tabuleta o sonho postiço de um tesouro de Goiconda, a escorrer para
a semi-opacidade da noite cascatas de rubis, lágrimas de esmeraldas,
reflexos cegadores de safiras, espelhamentos jaldes de topázios, e
eu recordava outras cidades, outras casas, o eterno boulevard, suprema orquestração
do bom gosto urbano. Que fazer? Os meus olhos descansaram na multidão.

Algum tempo depois, reconheci, como tendo perdido alguma coisa, os olhos
à procura, o nariz ao vento, o delicado Oscar Flores, um ente muito
fino, muito sensível, do qual diziam horrores e que de resto parecia
ter n’alma um fatigante segredo. Os segredos fizeram-se para ser contados.
Tudo vai de ocasião. Que estaria Oscar Flores, com a sua palidez e
as suas lindas mãos, a procurar assim? Esperei alguns minutos olhando
a ver se via a causa daquela aflição e por fim, quando o jovem
se resolvia a continuar, chamei-o ruidosamente. Ele voltou-se, como se fosse
apanhado em flagrante. Estava visivelmente contrariado.

Vem daí tomar um aperitivo.

– Não obrigado. Tenho que fazer.

– Pois se já perdeste a pessoa a quem acompanhavas?…

– Viste? fez ainda mais pálido.

– Vi, isto é – sossega – vi que procuravas alguém.

Ele teve um suspiro, deixou-se cair na cadeira. Já agora tomava um
cock-tail. O seu caso porém era outro. E fechou-se num silêncio
nervoso, cortado de sobressaltos, alheado de mim – o seu habitual silêncio
em todas as rodas, como sempre à espera de um sinal misterioso para
partir e desaparecer. Olhei-o então com vagar. Era encantadoramente
lindo com o seu ar de adolescente de Veroneso, a pele morena, o negro cabelo
anelado. Como devia ser feliz assim rico e belo, com a sua bengala de castão
de turquesa, a gravata presa de um raro esmalte, a atitude inquieta de um
príncipe assassino e radiante, o Oscar Flores! E falavam tanto mal
dele! Disse-lhe, íntimo e confidencial:

– Então, Oscar, onde estás? É por isso que te caluniam…

– Ah! tomou sorrindo, ainda falam de mim?

– Cada vez mais. Es o leitmotiv da falta de assunto. De resto há sempre
na voz do povo um pouco de razão. Estou a acreditar que realmente tens
um segredo. Ora, os segredos deixam-se para as mulheres e para os homens sem
interesse, os homens vulgares…

Mas não tenho segredos, protestou cansado. Tenho apenas a mais estranha
moléstia nervosa que ninguém sabe. Curioso, hem? Diante de mim
toda a gente sente a anormalidade, outra esfera, outra vibração.
Que será? Os mais espessos – e dessa espessura intelectual se faz a
opinião da massa pensam logo nas degenerações normais,
no centro das loucuras que é a cidade. E não é nada disso,
é outra coisa – é a minha moléstia. A existência
concentro-a nela, no desejo de domá-la e na irresistível vontade
de satisfazê-la. Tenho estudado, tenho lido, tenho feito observações
a ver se encontro outro tipo igual. Absolutamente impossível…

Tomou um gole de cock-tail com evidente prazer, sorriu mais acalmado.

– Todos pensam que é um segredo porque ninguém imagina. E eu
sofro desde criança. A princípio, na mais tenra idade, apareceu
como escandalosa precocidade; até a adolescência tive-o como
um crime horrível, castigo e prazer do pecado. Com a razão porque
eu sou um sujeito muito razoável e muito refletido – vim a descobrir
que era um desequilíbrio dos sentidos, a exaltação lírica,
o desenvolvimento assustador de um dos sentidos, capaz de dominar os outros,
submetê-los e virar aos poucos em fonte de todos os prazeres, em único
foco das sensações agradáveis, em tirano da impalpável
luxúria.

Já decerto conversaste com os artistas jovens, os que falam na realização
da arte, no ideal que jamais se corporifica e é na nossa alma como
o perpétuo sonho irrealizável. A minha moléstia, o meu
desequilíbrio, o império de um único sentido no meu organismo
e nesta sensibilidade caldeado numa ascendência de requintados, deu-me
da vida íntima uma prévia noção incorpórea,
deslocou-me para um mundo de fantasia exasperante, fez-me o lascivo da atmosfera,
o gozador das essências esparsas, o detalhador do imponderável,
o empolgado da miragem da vida.

Emborquei tranqüilamente o veneno que me tirava o apetite, e murmurei:

– Meu caro Oscar, tenho uma profunda simpatia por ti, em primeiro lugar porque
és belo, em segundo porque tens espírito, em terceiro porque
nem a beleza nem o espírito conseguiram reduzir-te à atroz banalidade
de ser totalmente feliz. Daí o poder ouvir sem comentário todas
as narrativas lindas com que me queres honrar. Esse teu desequilíbrio
é de fato de uma psicologia muito sutil, muito trabalhada.

Oscar teve um gesto de impaciência.

– Quando digo! É tão inverossímil que ninguém
acreditaria. Entretanto tens diante de tio homem que analisa o seu tormento
e não lhe resiste. Sabes que é o sentido soberano? O olfato,
apenas o olfato. Sou como o escravo, o ergastulado do cheiro. Tudo é
cheiro. É o cheiro que guia, repele, atrai, repugna, o cheiro é
o condutor das almas. As nossas impressões são filhas do cheiro
que atua como a luz e muito mais porque há cegos e não há
ser vivo que não respire e não sinta o cheiro. O cheiro plasma,
porque está no ambiente. Os caracteres dos homens são feitos
de essências, as profissões dão aos entes certos e determinados
cheiros. Vive oito dias numa casa de perfumes ou no houdoir de uma mulher
galante, e as tuas idéias tomam aspecto de idéias com pó-de-arroz,
de idéias efeminadas, made expressely para uma certa roda pueril. Sente
o cheiro dos marinheiros, com o cheiro do mar e três ou quatro escalas
de cheiros de óleos refrescados pela viração larga. Um
homem sensível não pode viver muito tempo nesses lugares porque
o cheiro permanente dá-lhe como uma continuidade da visão oceânica
e um estado trepidante que lembra a vagabundagem de grandes navios por mares
ignotos. A alma dos entes revela-se pelo cheiro. A das coisas também,
só pelo cheiro. Conheço os interiores das casas, o gênero,
a classe das pessoas que as habitam-a pelo cheiro, como de olhos fechados
dir-te-ei a casa vazia apenas aspirando-a. Posso mesmo dizer-te que cada cidade
tem um cheiro próprio, e que eu os sinto ao aproximar-me, ao saltar
no desembarcadouro, cheiros que conseguem dar a impressão geral dos
habitantes, cheiros honestos, cheiros voluptuosos, cheiros de seio…

– Mas, realmente, é delicioso.

– É atroz.

– A hiperacuidade de um sentido dirigida com estética. És o
homem dos perfumes.

– Não me fales de perfumes, do perfume com a significação
normal de extrato fabricado para o mercado. É outra coisa. Sou a vítima
do cheiro. Para mim não há cheiros repugnantes, há cheiros
desagradáveis. Tenho a sensualidade dos cheiros os mais diversos, do
cheiro da terra, do cheiro da erva, do cheiro dos estábulos e do cheiro
das rosas. Como comecei a sofrer desse desenvolvimento paroxismado do sentido
olfativo? Sei lá! Não foi o perfume, foi a extensão vasta
dos cheiros que não são perfumes. Em criança, antes de
levar qualquer gulodice à boca, instintivamente cheirava-a de olhos
cerrados, para sentir bem, e prelibar deliciosamente o prazer de degustá-la.
Depois, quando me tomavam ao colo, ao beijar-me, achava sempre meio de cheirar,
de aspirar as pessoas agradáveis. Cada pessoa tem um cheiro diverso.
Na minha infância a perversão – sê-lo-á de fato?
– surgiu ensinando-me todo o pecado. Gostei da carne porque cada nuca é
um pouco do olor da natureza, e há bocas que são como orquestrações
de odores. Ah! esse tempo ainda ingênuo, esse tempo instintivo… Eu
me envolvia nas roupas brancas que as raparigas tinham usado, pendia para
as cabeleiras com tal ânsia aspiradora, tinha uns modos tão pouco
normais que a família se assustava e as raparigas achavam uma infinita
graça. Ah! que pequeno vicioso! Elas diziam convencidas de que eu gostava
apenas do cheiro das suas roupas. Não era, porém. A minha nervrose
olfativa se acentuava cada vez mais, cada dia mais com caráter desabridamente
sensual, e já rapazola, não distinguia o que me poderia conceder
o prazer: a erva molhada, o cheiro dos estábulos, um cheiro de nuca,
um cheiro de corpo, e já começava a sentir as cruciantes necessidades
de certos cheiros, que eram tão violentas quanto a fome ou amor. Então
era preciso alhear-me, deixar a roda dos conhecidos, sair por aí, a
ver se descobria o cheiro que eu precisava, o cheiro que não sabia
qual era, mas devia tranqüilizar-me.

– Tinhas a obsessão de um cheiro nunca sentido?

– Exatamente. Ainda era romântico e até aos dezoito anos tentei
com um pouco de literatura e alguns conhecimentos químicos, o prazer
dos perfumes, dos cheiros artificiais. Arranjei catálogos, estudei
longamente, tive baterias de perfumes em frascos de cristal, fiz como todo
sujeito lido em livros franceses, a sinfonia dos perfumes, a alegoria dos
perfumes, a pintura sugestiva dos perfumes, combinando essências, renovando
as camadas de ar do aposento com pulverizadores cheios de misturas sábias
ao lado de incensários a queimar olências exóticas. Era
perturbador e era irritante. O meu olfato desejava, tal as marafonas que a
sorte eleva ao grande luxo, excessos de natureza, virilidades de ambiente.
Esses perfumes que as mulheres usam, esses perfumes com que vocês se
civilizam e se friccionam são ignóbeis. Na composição
química da enorme quantidade por mim aspirada senti apenas que poderia
fazer um catálogo, dividindo em classes de almas a diversa temperatura:
perfumes quentes, semi-oleosos, perfumes tépidos, perfumes frios. Os
perfumes de Haubigant dão sempre a impressão de calidez, de
calor opressivo. Os ingleses e os americanos fazem-nos frios, desses que a
gente ao aspirar pensa em águas geladas e madrugadas hibemais. Meia
dúzia de refinados franceses conseguem a meia temperatura, evolando-se
lentamente. E há também os medíocres, os reles, os que
lembram montras de boulevards em bluffs de luxo e de conforto, elegâncias
por todo o preço de armazéns duvidosos.

Quer uns quer outros, entretanto, acabaram por me fazer mal, dores de cabeça,
apertões nas têmporas, uma impressão angustiosa de acachapamento.
Mas era muito artista. Um amigo, de volta do Oriente, trouxe-me então
uma coleção de perfumes. Eram maravilhosos. Andei doente e morno,
com uma alma de serralho e de mel por aspirar um frasco de essência
de rosas. Esses perfumes entravam-me no crânio como estofos bordados
de pedraria, como broquéis incrustados de gemas coruscantes. Deixavam-me
sonambúlico, com frases de antifonário e sonhos de rosas de
Chraz, de Kemar, de Kashmir. Vi então que a minha doença não
amava as concentrações mais ou menos industriais.

– Príncipe Encantador, havia as flores…

– Sim, as flores, amei as flores, tateando na sombra do mal. As flores são
as caçoulas dos perfumes naturais. A natureza condensa nelas o olor
das suas paixões, a alma dos seus desejos, as recordações
de tonturas, de frenesis ou de grandes repousos celestes. Não sorrias.
O que eu sinto não o dizem palavras. É preciso descobrir frases
prismáticas como certos cristais e vê-las à luz do sentimento,
que percebe para além das coisas visíveis. Os deuses gostavam
de perfumes; o perfume exorta e exalta. Por que lisonjear os deuses com perfumes,
se não tivéssemos a idéia do sacrifício, do grande
pecado da natureza que ele representa? Há flores cujo perfume é
cínico, outras cujo cheiro é banal, outras cujo olor se celestiza,
outras ainda que nos dão desesperos de carne. É possível
ter à lapela uma gardênia sem sentir cefalalgias horas depois?
É possível cheirar certas rosas sem odiá-las?

– Mas, meu querido, procuras apenas pretexto para dizer coisas infantilmente
interessantes. Olha que antes de ti outros estetas falaram… Odiar as rosas!

– Sim! odiá-las. Há flores carnudas, as rosas rosas, as rubro-negro
como sangue coagulado, que a gente aspira, absorve o odor, cheira, cheira,
e depois estraçalha com ódio porque prometem mais do que dão,
porque deixam em meio o gozo, não nos completam o prazer anunciado
pelo cheiro. Ah! essa aflição que dá aos sentidos o cheiro
de algumas flores, as violetas, cujas emanações são como
sons de violino em noites de luar, as tuberosas. crispantes de cio, as rosas
chá que cheiram como carnes morenas, o resedá, a flor do resedá
que o Fezensac cantou idiotamente num trocadilho e que entretanto guardam
um frio e exasperante odor de gérmen fecundante, cheiro de marfim raspado…
E, para notares a correspondência de cheiros idênticos nas coisas
mais diversas, a flor que cheira a marfim, é também, cheiro
resumo do cheiro inicial da vida, irmão odor do odor da semente criadora,
estranhamente perdido entre as ervas… Oscar caíra num abatimento.
Eu começava a temer o delírio.

– Então, se não amas os perfumes que te fazem mal, se odeias
as flores que te exasperam, em que consiste o desproporcional domínio
do olfato sobre os teus sentidos? É decerto um estado de anemia, uma
grande fraqueza que te adoece e te faz sensível aos odores. Não
amas os cheiros, temes todos os cheiros desde que eles se especializam, se
individualizam.

– Ao contrário, fez, de novo animado, ao contrário. Tenho entre
mim e a vida comum um como véu de talagarça espessa. E tudo
quanto na vida se faz, eu sinto pelo cheiro, pelos cheiros, como um "seter"
humano, amarrado à corrente da conveniência. É a existência
de miragem olfativa, uma existência em que os cheiros visionam ambientes,
descrevem as almas dos tipos que me rodeiam, dão-me sensações
de cor, porque há odores de todas as cores; de sons, de músicas,
porque cada cheiro é como um som diverso e o cheiro da baunilha é
bem uma nota abemolada diversa do cheiro do cravo vermelho, esse sustenido
de clarim; de gosto, porque os cheiros têm gosto; de excitação,
porque todos os sentidos calcados por tamanha acuidade vibram a arcada furiosa
de um desejo incompreensível, perpétuo, demoníaco, no
meu pobre corpo. Oh! não estejas a olhar para mim assim irônico.
Há uma íntima correlação entre as sensações
do homem normal, que o faz amar a harmonia das coisas e o faz pensar na Beleza
esplendente. Quando ele ama e sente assim, na floração da Arte,
que é o arrimo da vida, minhando o seu pensamento sutil e vaga essa
misteriosa afinidade entrelaça os sentidos, para que o homem sinta
numa curva de anca a música das linhas, na carne de uma espádua
o perfume da rosa, no entreabrir de um lábio o sabor dos frutos, na
criatura que se desnuda o bruto. Desejo cego, caos das sensações…
Quando é como eu, porém vitima de um só sentido, morbidamente
absorve os outros e leva louco, no delírio perpétuo, a tentar
reaver a harmonia.

– Daí…

– Daí, fez Oscar afastando nervosamente o cock-tail em meio, daí
para a minha sensibilidade compreender que a natureza é inconsciente,
que todos esses perfumes ela os espalhou brutalmente, desvairadamente, e que
só um instante a razão lhe voltou, quando fazia a carne, quando
criava a criatura, onde todos os cheiros da terra se encontram em suaves nuanças.
O que eu amo é olor da carne, sempre uma orquestração,
uma sinfonia de recordações de outros cheiros, o cheiro das
bocas, o cheiro dos cabelos, o cheiro das nucas o estonteante cheiro das axilas…
Há cabelos, sabes? que relembram o aconchego arminoso dos ninhos dos
pássaros, cabelos em que a gente se perde como num imenso oceano de
olências reparadoras, cabelos musicais que fazem pensar em manacás
e em magnólias, cabelos que são o tecido de todos os cheiros
reconfortantes. Há carnes doiradas, carnes feitas de leite e de sangue
de cerejas que ao aspirá-las pensa um pobre no descanso dos bosques,
em ragais, em fraudas rústicas, em grandes abraços pagãos
sobre as liras. E as bocas? Já reparaste nas bocas? Há bocas
quentes e frias, bocas sem cheiro algum, e bocas que quando falam junto a
ti têm um cheiro íntimo de rosa murcha, quando te beijam parecem
feitas de pétalas de rosas, e quando as sugas transfundem a alma como
uma essência especial que parece o mel feito de todos os perfumes dos
campos. As criaturas são as ânforas da harmonia dos cheiros.
Cada carne tem o seu corpo ódico que é o cheiro, cada ser faz-me
sentir a alma pela veste incorpórea do cheiro, desse cheiro que cada
um tem próprio e jamais igual ao do outro, do cheiro que se procura
para aquietar e amar…

– Realmente, com um pouco de "toilette", cada qual faz o seu cheiro.

– Não! não é isso. Talvez pela toilette e a perfumaria
sejam-me indiferentes as formosas mulheres que deixam rastilhos de perfumes
industriais e parecem feitas para os retratos de Helleu ou do Amoedo. Não
as amo, porque, maceradas de essências, com os vestidos pulverizados
de perfumes, a boca lavada por águas e pós brilhantes, os lábios
carminados, a face empoada, são como os manequins da Moda. O cheiro
é a alma dos seres. Elas afogam a alma no artificial para encantar
os simples, os brutais. Os meus instintos gelam-se, morrem em frente dessas
baiadeiras mascaradas com a máscara transparente de outros cheiros.
Houve um silêncio pesado.

– Ah! disse eu vendo a expirar a confissão, é grave…

Oscar olhou para mim, cândido como Adônis, e cansado como se
sustentas se nos ombros o mundo.

– Por isso, murmurou, procuro – é horrível! – procuro as criaturas
simples, as que não se perfumam, as que ignoram o postiço ignóbil
da civilização, e guardam o próprio cheiro: as crianças,
as adolescências rústicas, as criaturas que saem do banho brilhando
mais e cheirando mais, os que não sabem se cheiram bem porque pensam
que o cheiro é a falsificação dos perfumistas. Um lindo
corpo, um corpo branco, cor-de-leite, que tem todos os suspiros campinos das
bobinas, dos malmequeres, das margaridas, o sonho casto das violetas brancas
e o anseio tranqüilo, o cheiro animal de qualquer coisa que se não
sabe! Um corpo moreno, feito de um raio de sol, guardando a carnação
das rosas e o cheiro da lascívia!… Beijar corpos assim, aspirá-los,
aspirá-los… É quando há a simpatia do cheiro, que o
irmanamento das almas. Tudo quanto toca a pessoa fica com o seu cheiro, o
lenço esquecido, um pedaço de móvel. Parta ela, desapareça,
cheira aquele pedaço. O poeta sensual já escreveu:

Ela andou por aqui, andou. Primeiro

Porque há vestígios das suas mãos; segundo

Porque ninguém como ela tem no mundo

Este esquisito, este suave cheiro.

E é. De chofre, à calentura do cheiro dela, uma onda de gozo
nos transmuda, faz-nos reviver delícias e nevroses da gama que se acordava
com o teu desejo. E a música mortal. Que digo eu? A roupa? Os trastes?
Não! Basta o lábio cansado de roçar, basta o contato
das mãos pelo seu corpo. Nós não conhecemos a própria
alma porque não sentimos o nosso cheiro, enigmas para nós mesmos
indecifráveis. O cheiro dos outros fica, impera. De volta de um cheiro
amado, é cheirar as mãos e sentir o olor do amor como um velador
nos próprios dedos. Ah! não! E dizer-te que eu uma vez, há
quatro anos, senti esse cheiro, o cheiro do meu amor, numa criatura miserável,
dizer que não me lembro das suas feições pelo muito que
me lembro da completa satisfação do meu desejo, dizer que nunca
mais a vi, que a procuro, que a procuro e jamais a encontro… Como queres
tu que eu ouça as conversas idiotas, como queres tu que pense noutra
coisa? Vou em busca do meu perfume, do perfume que amo, da uma desse sonho,
do corpo dessa alma. E degringolo a razão, a moral, respeito da sociedade,
rolo o abismo dos lugares pouco distintos, dou-me a relações
pouco brilhantes, aspiro todos os corpos à espera de um dia encontrar
o perfume incomparável, a essência doce dessa carne de ouro.

– Curioso.

– A mais rara moléstia que ninguém sabe.

De repente, porém, os seus olhos chisparam. Ergueu-se. Sorriu.

– Espera um instante.

Sumiu-se apressado. Eu também sorri então. Não voltaria.
Alguém passara que se parecera com o seu cheiro. Pobre rapaz! Talvez
fosse na desvairada luxúria o grande sensual do ideal. E talvez não,
talvez fosse um louco. Somos todos loucos mais ou menos. Foi então
que vi serem oito horas. Como o personagem do poema, Oscar procurava novos
perfumes no seu cheiro ideal e os prazeres não sentidos, sempre mais
amargos e menos consoladores. Ergui-me. Já em toda a Avenida, centenas
de lâmpadas elétricas acendiam a sua grande extensão no
clarão da luz, – "a mensageira da verdade visível"…

O carro da semana santa

Para nós, vindos de peregrinar pelas igrejas, a luz Auer que iluminava
o café era talvez desagradável. Ficáramos todos lívidos,
com uma face de orgia. Sob o teto baixo, entre as mesas de mármore
lustroso, os criados arrastavam os passos já meio exaustos, e como
a sala fosse forrada de espelhos, velhos espelhos que reproduziam apagadamente
os perfis, estávamos como num aquário, esquisitos, espectadores
de uma cena em que tomávamos parte, em que nos víamos a representar
noutro mundo – um mundo sem data, sem tempo, sem fim. Algumas vezes dávamos
com um gesto nosso a desaparecer de súbito esburado pela falta de aço
num pedaço de espelho, e era desinteressante, desoladoramente desinteressante.
De resto, a noite fora curiosa. Éramos um pequeno grupo: dois homens
que riam de tudo e pagavam a despesa, um menino com ares de Antino viçoso,
cujos princípios todos ignoravam, um poeta obrigado a ser espirituoso,
dois jornalistas, eu. Havia também um homem chamado Honório.
Tomávamos uma mistura repugnante de alcoóis variados e tínhamos
vindo cansados de dar encontrões na última igreja. A quinta-feira
santa dissolvera na cidade a impalpável essência da luxuria e
dos maus instintos. Quanta coisa de profano, de sacrílego, de horrível
havíamos visto no redemoinhar da turba pela nave dos templos? Fúfias
dos bairros sórdidos esmolando com a opa das irmandades para o Senhor
Morto, bandos de rapazes estabelecendo o arrocho junto do altar-mor para beliscar
as nádegas das raparigas, adolescentes do comércio com os olhos
injetados roçando-se silenciosamente entre as mulheres, e mulheres,
muitas mulheres, raparigas vestidas de branco, de azul, de cores vivas, matronas
de luto fechado, pretas quase apagadas em panos negros, mestiças cheirando
a éter floral, com gargalhadinhas agudas, o olhar ardente, todas como
que picadas pela tarântula do desejo. A dolorosa cerimônia tinha
qualquer coisa de orgíaco, como em geral as cerimônias religiosas
deste fim de raça, em que os instintos inconfessáveis se escancaram
ao atrito dos corpos, nos grandes agrupamentos. Na Candelária, junto
a uma das colunas, o rapaz que lembrava Antino tivera a lembrança de
se colocar entre uma cabrocha e um alentado sujeito "para verificar o
escândalo", dizia ele. Em S. Francisco, o cidadão Honório
batera no ombro de uma espanhola de mantilha, apontando-lhe a porta, para
dizer-nos quando já ela se sumia: "Uma nevrosada: gatuna de carteiras
pela semana santa." E nós estávamos afinal, naquele café
do Carceler, perto de duas igrejas a comentar a extravagância sensual
da multidão.

– Fazer horrores junto ao corpo do Senhor Morto! Mas deve ser uma delícia!
paradoxou o jovem ambíguo.

– Pois está visto! gaguejou um dos desconhecidos que pagara.

Nós sorríamos, fartos de igrejas e de sacrilégios, e
íamos sair, quando o cidadão Honório, que até
aquele momento não falara, murmurou:

– Tudo na vida é luxúria. Sentir é gozar, gozar é
sentir até ao espasmo. Nós todos vivemos na alucinação
de gozar, de fundir desejos, na raiva de possuir. É uma doença?
Talvez. Mas é também verdade. Basta que vejamos o povo para
ver o cio que ruge, um cio vago, impalpável, exasperante. Um deus morto
é a convulsão, é como um sinal de pornéia. As
turbas estrebucham. Todas as vesânias anônimas, todas as hiperestesias
ignoradas, as obsessões ocultas, as degenerações escondidas,
as loucuras mascaradas, inversões e vícios, taras e podridões
desafivelam-se, escancaram, rebolam, sobem na maré desse oceano. Há
histéricas batendo nos peitos ao lado de carnações ardentes
ao beliscão dos machos; há nevropatas místicas junto
a invertidos em que os círios, os altares, os panos negros dos templos
acendem o braseiro, o incêndio, o vulcão das paixões perversas.
A semana santa! Tenho medo desta quinta-feira. Para quem conhece bem uma grande
cidade, esse dia especial sem rumores, sem campainhas, é um tremendo
dia em que os súcubos e os incubos voltam a viver. Até as ruas
cheias de sombra parecem incitar ao crime, até o céu cheio de
estrelas e de luar põe no corpo dos homens a ânsia vaga e sensual
de um prazer que se espera.

Às palavras do cidadão Honório fizera-se em tomo um
expectante silêncio. O homem era pálido, de uma palidez bistrada.
Estava vestido de preto e a sua mão exangue tinha no dedo mínimo
como a quebrá-lo um negro morcego de aço prendendo entre as
garras o turvo brilho de uma opala. Só então reparamos que não
ria e talvez assustasse almas menos céticas. Ele, de resto, após
uma pausa, continuou sem que lho pedissem.

– Oh! sim! Tenho medo desta quinta-feira porque vocês vêem o
vicio aparente, o vício às claras, o vício que os jornais
não noticiam apenas em atenção ao arcebispado. Eu vi
o vicio que se não vê e dão calafrio do supremo horror,
o vício misterioso e devorador rodando em tomo das igrejas. Há
três anos acompanho-o. Ainda agora, ao sairmos da Candelária,
lá estava ele na praça, fatal, definitivo, cruel, esperando…

Aquela confissão era a de um doente. O pequeno Antino abriu a polpa
carnuda do lábio num sorriso de flor que desabrocha.

– Honório, que vicio é esse? Fale. Morremos de curiosidade.

– O vicio que ninguém vê? Conta lá.

– E o carro da semana santa.

– O carro? regougou um dos cavalheiros, é boa é muito boa!

– Quem sabe? fez Honório pensativo. Depois, num repente: Há
três anos, quinta-feira de endoenças, resolvi sair à noite.
Não deveria ter saído. Neste dia a cidade visita igrejas. Além
das igrejas só a impressionam as confeitarias com os seus balcões
de bombons e os botequins. Saí, entretanto, assim de preto, com um
fraque idêntico. Estive numa confeitaria, hesitei alguns minutos, e
afinal, como estivesse no largo da Carioca, comecei a subir para a igreja
da Ordem 3ª.

Ia inconscientemente quase. Ao deixar a confeitaria, tinha o vago desejo
de ver se encontrava qualquer coisa de interessante, e estava ali, de repente,
com vontade de uma perversão qualquer, com o instinto de qualquer coisa
de bem baixo, de bem vil, de bem indigno, em que refocilar o meu temperamento
à solta. Talvez as luzes trêmulas, aquela gente que subia devagar
e descia depressa, ao cheiro de suor, de perfume barato, de cosméticos
e de cera, o roçar da canalha, o contato do meu corpo com outros corpos,
peles de mãos ásperas umas, algumas macias, sugestionassem os
nervos do meu pobre ser; talvez apenas fosse o fundo de lama com que fomos
todos feitos… O fato é que ao voltar à rua da Carioca, eu
era um homem que deseja, cuja percepção da luxúria é
mais aguda, cujos nervos vibram mais. Uma saia repuxada, o relevo forte de
uma anca, os encontrões brutais dos marçanos em traje de ver
a Deus, dois olhos mais acesos, faziam-me parar, retroceder, pensar em frases,
morder o bigode, andar devagar em tomo dos vendedores de doces e de refrescos,
excitado pela frescura das peles, pelos trechos de carne ocultos, com as têmporas
a suar frio e um calor nas faces, uma palpitação… A vontade
do acanalhamento devorava-me, e eu ao mesmo tempo que queria satisfazê-la,
queria ocultá-la.

Ninguém, todavia, dera ainda por aquela nevrose, quando senti perfeitamente
dois olhos pregados nos meus movimentos. Onde esses dois olhos? Eu os sentia,
eu os sentia bem. Onde? Voltei-me, observei, desconfiado. A turba rumorejava
na semipenumbra. Não havia ali cara que me olhasse. Só, perto
do chafariz, dando àquele canto uma nota anormal, uma velha berlinda
com os estores arriados, parecia esperar alguém. Que berlinda, filhos!
Lembrava um velho carro da Assistência. Era suja, era grande, era vasta,
quase um leito. Na boléia o cocheiro parecia de pedra, e os estores
de pano vermelho estavam imóveis. Estaria vazia? Esperava mesmo alguém?
Dei uma volta indagadora em tomo, e tive, oh! sim! tive a certeza de que ali
dentro havia uma criatura, que ali vibrava estranhamente alguém, porque
assim como sentira o calor, o fluido ardente de dois olhos fixos sobre mim,
a descobrir-me a alma, sentia agora que a minha observação perturbava
esses olhos. Quem estaria naquele carro? Quem? Um homem? Uma mulher? Quis
falar ao cocheiro, mas, de repente, a berlinda pôs-se em movimento,
desaparecendo pesadamente na rua Uruguaiana.

Fiquei um instante trepidante, nervoso. Mas é um fato que quando as
crises de pornéia da multidão agem sobre os nervos dos fracos,
esses começam por desejar seguir alguém, seja quem for, com
o desejo flutuante, o cio indeciso e como que tocado também de uma
curiosidade malsã pelo vício dos outros. O carro desaparecendo
causou-me uma vaga tristeza. Como seria agradável o que se fazia dentro,
nas suas velhas almofadas! Larguei-me para a Candelária, que me pareceu
um teatro tanta era a gente e tanta a luz elétrica, e estava lá
roçando-me à turba, quando vi um conhecido. Sai então
à pressa, sem lhe dar tempo aos cumprimentos e às fatais perguntas;
sai, mergulhei de novo nas ruas mal-iluminadas, em que o luar punha uma suave
pulverização de sonho. Iria a S. Bento, que tem um morro, árvores,
mais sombras, mais recantos sugestivos, o Arsenal pegado e a vista do mar
– o pai de todos os grandes vícios incomensuráveis…

Quando, porém, ia chegando ao Arsenal, lá dei com o carro outra
vez, vasto como um quarto, com o cocheiro impassível e os estores vermelhos.
A sombra cobria a calçada; no céu andava a Lua num estendal
de ouro-pálido. Que esquisito peregrinar! que estranha peregrinação!
Abriguei-me no desvão de uma porta. Passaram-se dez minutos assim,
e era impossível apagar a ansiedade dos meus nervos para descobrir
o enigma. A berlinda parecia tremer a capota empoeirada sob o sudário
do luar. Depois, rodou devagar, como se tivesse uma alma e estivesse a disfarçar
uma ação feia. Ao chegar ao escuro beco de Bragança parou,
a portinhola abriu-se, uma sombra golfou, então aí a berlinda
precipitou a marcha. Deus! que seria aquilo? Um crime? uma extravagância?
A passeata de algum crente agonizando, que tivesse feito a promessa de arrastar
a sua agonia aos pés de todos os corpos de Jesus expostos? Mas a sombra?
Eu amo o horror das coisas inacreditáveis. Meti-me quase a correr pelo
beco. No meu cérebro havia um escachoar de idéias…

Não encontrei a sombra, o vulto que eu vira sair do carro. E a procurá-la,
de rua em rua, com a face a queimar, fui até a igreja do Rosário.
Como? Não sei. O sangue latejava-me nas têmporas, um suor viscoso
molhava-me a palma das mãos. Quando dei por mim, tinha diante de mim
a velha igreja, e ao canto esquerdo do templo, exatamente igual, tal qual,
a velha berlinda. Coincidência… Há desses encontros de gente
que nunca se falará, em reuniões dominadas pelo vício.
Não filosofei, porém. Fui ao cocheiro, querendo saber. – "Olá,
camarada, desocupado? "- "Não", respondeu ele seco.
– "Pago bem." – "Não posso, já disse." –
"Tem alguém ai então?" O cocheiro cuspiu para o lado.
"Ó seu, vá se pondo fora, se não quer que lhe aconteça
alguma." Fiquei sem palavra e ele tocou.

Mas o desejo de conhecer a razão daquelas paradas à beira das
igrejas era muito. Segui por onde vira perder-se a berlinda. "Ainda a
vejo hoje!" pensava. E de fato, fui encontrá-la quase ao fim da
noite, em frente à catedral, do lado do largo do Paço. Não
me aproximei. Era melhor esperar de longe. O trecho da rua ardia em luzes,
tal qual como hoje. Vendedores ambulantes serviam com estrépito refrescos
e doces. Gente de preto ia, vinha, passava, desdobrando pelas calçadas
negras serpentes interminais. Fuzileiros navais ébrios, malandros de
calça bombacha, marinheiros, formavam grupos perigosos, fora da calçada.
Criaturas ambíguas chispavam olhares desvairados de esguelha, no burburinho
da populaça. De repente, o carro começou a mover-se, foi até
a rua Sete, depois embicou para a esquerda, para o lado dos jardins. Precipitei-me.
A berlinda misteriosa acompanhava um marinheiro, forte homenzarrão
hercúleo e jovem. Não havia dúvida. Era. Oh! se era!
Ia devagar, devagar… O marinheiro, a principio hesitava. Em seguida pareceu
compreender a inutilidade de fugir, relanceou os olhos a ver se o espreitavam,
e seguiu bamboleando o passo, – um passo que espera o chamado. Em frente ao
Telégrafo parou, cortou pelo jardim, como se fosse para o ex-Mercado.
A berlinda rodou mais depressa pela primeira quebra dos jardins, e foi encontrá-lo,
já atravessando a rua para a rampa. Ai o rapagão estacou. O
carro também. De dentro falaram, deviam ter falado, porque o marinheiro
aproximou-se da portinhola que se abriu, tragando-o. Fiquei estarrecido, com
tais palpitações que sentia no pescoço a artéria
bater. Já a berlinda descia lentamente, como quem dá uma volta
à espera de freguês. Perto de mim, meia dúzia de catraeiros
olhavam com esse ar de mordente complacência que a canalha tem a receber
as fraquezas da gente da alta. Compus a fisionomia, indaguei.

– É boa aquela do carro, hem?

– É danada! respondeu um dos tipos.

– O que admira é a resistência dela! exclamou outro.

– Como resistência?

– Pois V. S. não sabe? É a mulher do carro da semana santa.
Já está muito conhecida. Vem sempre naquele carro e chama os
que agradam…

– E vocês vão?

– Rapaziada não respeita… ela paga bem.

– E são muitos?

– Ela só aparece na semana santa. Mas é até pela manhãzinha.

Recuei. Ali, naquele velho carro, rodando à beira das igrejas, uma
Gorgona de vicio abria a fauce tragando as flores da ralé, gente que
lhe servia de pasto a troco de dinheiro; naquele carro silencioso estorcia-se
uma nevrose desesperada; naquela berlinda, misteriosamente, a fúria
de um súcubo, a ânsia de uma diabólica fundia nos braços
um bando de homens com o desespero sensual despedaçador! Oh! o vicio
que se não vê! Essa criatura, essa criatura! E, há três
anos, todas as quintas-feiras santas, acompanho a berlinda procurando vê-la,
procurando encarar o polvo de luxúria, que lá dentro distende
os tentáculos. Quem será? Uma senhora de sociedade? Uma perdida?
Sei lá! Uma louca, uma desvairada, uma desgraçada, de que ninguém
sabe o nome, de que ninguém talvez possa reconhecer o semblante, na
rua, quando passa…

– Delicioso caso! fez o efebo literato erguendo o corpo airoso, que recordava
os pajens dos Valois. Honório pôs-se de pé. Todos nós
fizemos o mesmo em silêncio. A história impressionara, e principalmente
a ele, ao Honório, ao próprio narrador. Talvez quisesse ainda
rever a berlinda. O fato é que chegou à porta, consultou o relógio,
e ia despedir-se, quando de súbito esticou a mão exangue, onde
a opala lembrava o perturbado brilho de sua alma.

– Olhem, lá está ela, lá está… Era fatal…
Ninguém sabe o que encerra. É o segredo das vitimas. Não.
É o segredo dela apenas… Espera decerto alguém. Estão
vendo? Naquele pedaço de sombra, junto à igreja… Ao lado há
um beco. A vítima sairá do beco… Espantoso. Já ouvi
dizer que é uma mulher com bexigas, outrora bela. Um dos convidados
conseguiu, disse-me, ver-lhe a cara através do véu. Conta que
é queimada. Mas não. Outros asseguram que tem pústulas.
É a lenda. A opinião geral é mesmo a de ser uma formosa
senhora de alta posição. Não! não é nada
disso. É apenas o horrível vício que se não vê,
a luxúria exasperada…

Nós olhávamos a sombra, nervosos, como à espera. Honório
falava intercortado, estava quase de cera, e parou subitamente de falar. Uma
camisa branca surgira à portinhola da berlinda, parara. Era um adolescente.
Vimos um gesto de negativa, vimos, apesar do gesto, a portinhola abrir-se,
vimos o rapaz pôr o pé no estribo, ser como que puxado, e logo
o ruído seco da portinhola.

– Mas é um crime! ganiu um dos senhores que pagavam as despesas.

– Quem sabe? fez frio o cidadão Honório.

Nesse momento as luminárias da igreja apagaram. Acabara a visitação
ao Senhor Morto. Havia a confusão natural nos fins de tais solenidades:
gente apressada, senhoras nervosas por apanhar conduções, homens
parados a ver se lhe agradavam as mulheres, gritos mais fortes de vendedores
ambulantes, estalar de chicotes, carros, chamados, pragas. E, como a rua tivesse
caído na sombra, já se sentia o luar da noite esplêndida
iluminar os jardins interminos, lá, mais longe.

O cidadão Honório despediu-se. O carro rodava devagar no meio
da turba compacta. Era o mesmo carro de que ouvíramos a história,
velho, sujo, vasto, lembrando a Assistência, o mesmo a levar o horror
desesperado, a fúria da volúpia voraz, o pavoroso mistério
do vicio delirante…

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