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Velório de um Comendador

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João Cabral de Melo Neto

I

Quem quer que o veja defunto
havendo-o tratado em vida,
pensará: todo um alagado
coube aqui nesta bacia.

Resto de banho, água choca,
na banheira do salão,
sua preamar permanente
se empoça, em toda a acepção.

A brisa passa nas flores,
baronesas no morto-água,
mas nem de leve arrepia
a pele dela, estagnada.

Talvez porque qualquer água
fique mais densa, se morta,
mais pesada aos dedos finos
das brisas, ou a outras cócegas.

Não há dúvida, a água morta
se torna muito mais densa:
ao menos, se vê boiando,
nesta, o metal da comenda.

Não se entende é porque a água
não arrebenta o caixão:
mais densa, pesará mais,
terá mais forte pressão.

Como seja: agora um dique
detém, de simples madeira,
uma água morta que ele era,
sem confins, mar de água mangue.

II

Todos os que o vejam assim,
coberto de tantas flores,
pensarão que num canteiro,
não num caixão, está hoje.

O tamanho e as proporções
fazem o engano mais perfeito:
pois é idêntico o abaulado
de leirão e de canteiro.

Nem por estar numa sala,
está essa imagem desfeita:
se em salas não há jardins,
há contudo jardineiras.

E só não se enganaria
nem cairia na imagem,
alguém que entendesse muito
de jardins e reparasse:

que a terra do tal canteiro
deve ser da mais salobre,
dado o pouco tempo que abre
o guarda-sol dessas flores

com que os amigos que tinha
o quiseram ajardinar,
e que murcham, se bem cheguem
abertas de par em par.

Na verdade, as flores todas
fecham rápido suas tendas.
A não ser a flor eterna,
por ser metal, da comenda,

que, de metal, pode ser
que dure e nunca enferruje.
Ou um pouco mais: pois parece
que já a ataca o chão palustre.

III

Embarcado no caixão,
parece que ele, afinal,
encontrou o seu veículo:
a marca e o modelo ideal.

Buscava um carro ajustado
ao compasso do que foi;
mais ronceiro, se possível,
que os mesmos carros-de-boi.

Mais dos que achava dizia
perigosos de se usar.
Igual dizia dos livros
e das correntes-de-ar.

E agora tem, no caixão,
esse veículo buscado;
não é um carro, porém
é um veículo, um barco.

O que buscava, queria
sem rodas, como este mesmo;
rodas lhe davam vertigem
senão em comenda, ao peito.

E isso porque quando via
qualquer condecoração,
se bem de forma rebelde,
de cusparada ou explosão,

via nela só o metal,
a âncora a atar-se ao pescoço
para não deixar que nada
se mova de um mesmo porto.

Morto, ei-lo afinal que encontra
seu tão buscado modelo:
o barco em que vai, parado,
não tem roda, é todo freios.

IV

Está no caixão, exposto
como uma mercadoria;
à mostra, para vender,
quem antes tudo vendia:

antes, abria as barricas
para mostrar a qualidade,
ao olfato do freguês,
de seu bacalhau, seu charque;

ou com gestos joalheiros
espalhava no balcão
para melhor demonstrá-las
suas gemas: milho, feijão;

e o que se julga com o tato,
fubás, farinha-do-reino,
ele mostrava escorrendo-os,
sensual, por entre os dedos.

Mostrar amostras foi lema
de seu armazém de estiva.
e eis que agora aqui à mostra
o mercador mercadoria,

mesmo com essa comenda
no peito, a recomendá-lo,
e é nele como a medalha
de um produto premiado,

e assim acondicionado
como está, em caixão vitrina,
bem mais fino que os caixotes
onde mostrava as farinhas,

mesmo com essa comenda
e essa embalagem de flor,
eis que ele, em mercadoria,
não encontra comprador.

 

 

 

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