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Breves Contos

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Voltaire

Apresentação

Em “Breves Contos” reunimos oito textos de Voltaire. São
curtos, mas contêm todo o estilo inigualável do filósofo.
O espírito crítico, com a peculiar ironia e irreverência
do autor estão presentes em todos eles, lado a lado com as suas profundas
e atraentes reflexões.

“Aventura da Memória” contém uma apologia da teoria
na qual se defende que nossos conhecimentos decorrem da experiência;
é também uma crítica à teoria cartesiana das idéias
inatas.

“O Sonho de Platão” traz algumas idéias do filósofo
grego, em que ele sonha sobre a criação do mundo pelo grande
Demiurgo e os equívocos cometidos pelos gênios que receberam
a incumbência de adaptar parte do universo às suas próprias
concepções.

“Carta de um Turco” é uma crítica aos ascetismo
cristão e ao misticismo oriental.

“Pequena Digressão” e “Aventura Oriental”
são dois capítulos de uma obra maior: “O Filósofo
Ignorante”. O primeiro conto trata da cegueira, o segundo trata da insatisfação
das plantas, dos animais e dos homens com sua própria natureza.

“Elogio Histórico da Razão” traz uma crítica
aos homens que se deixam dirigir por inúmeros impulsos, inclusive os
mais cruéis, e não se aproximam da Razão.

“O Carregado Zarolho” e “Cosi-Sancta” são
trabalhos de 1747. Demonstram profunda influência de Boccaccio, cuja
obra fizera muito sucesso na França do século XVI.

Nélson Jahr Garcia

AVENTURA DA MEMÓRIA

O gênero humano pensante, isto é, a centésima-milésima
parte do gênero humano, quando muito, acreditara por muito tempo, ou
pelo menos por muitas vezes o repetira, que nós não tínhamos
idéias senão por intermédio dos sentidos, e que a memória
era o único instrumento com o qual podíamos reunir duas idéias
e duas palavras.

Eis por que Júpiter, símbolo da natureza, se enamorou, à
primeira vista, de Mnemósine, deusa da memória; e desse casamento
nasceram as nove Musas, que inventaram todas as artes.

Este dogma, no qual se fundam todos os nossos conhecimentos, foi universalmente
aceito, e até mesmo a Nonsobre o adotou, embora se tratasse de uma
verdade.

Algum tempo depois surgiu um argumentador, metade geômetra, metade
lunático, o qual se pôs a argumentar contra os cinco sentidos
e contra a memória. E disse ao reduzido grupo do gênero humano
pensante:
— Até agora estivestes enganados, porque os vossos sentidos são
inúteis, porque as idéias são inatas em vós, antes
de que qualquer dos vossos sentidos possa ter operado; porque já tínheis
todas as noções necessárias quando viestes ao mundo;
porque já sabíeis tudo sem nunca haver sentido nada; todas as
vossas idéias, nascidas convosco, se achavam presentes em vossa inteligência,
chamada alma, e sem auxílio da memória. Esta memória
não serve para coisa alguma.

A Nonsobre condenou tal proposição, não porque fosse
ridícula mas porque era nova. No entanto, quando em seguida um inglês
começou a provar, e a provar longamente, que não havia idéias
inatas, que nada era tão necessário como os cinco sentidos,
que a memória muito servia para reter as coisas recebidas pelos cinco
sentidos, a Nonsobre condenou suas próprias idéias, visto que
eram agora as mesmas de um inglês. Ordenou por conseguinte ao gênero
humano que acreditasse dali por diante nas idéias inatas, e perdesse
toda e qualquer crença nos cinco sentidos e na memória. O gênero
humano, em vez de obedecer, pôs-se a rir da Nonsobre, a qual entrou
em tamanha fúria, que quis mandar queimar a um filósofo. Pois
dissera esse filósofo que era impossível formar idéia
completa de um queijo sem o ter visto e comido; e chegou o celerado a afirmar
que os homens e mulheres jamais poderiam fazer trabalhos de tapeçaria
se não tivessem agulhas e dedos para as enfiar.

Os liolistas juntaram-se à Nonsobre pela primeira vez na vida; e
os sejanistas, inimigos mortais dos liolistas, reuniram-se por um momento
a estes. Chamaram em seu auxílio os antigos dicastéricos; e
todos eles, antes de morrer, baniram unanimemente a memória e os cinco
sentidos, e mais o autor que dissera bem dessa meia dúzia de coisas.

Um cavalo que estava presente ao julgamento estatuído por aqueles
senhores, embora não pertencesse à mesma espécie e houvesse
muita coisa que os diferenciava, tal como a estatura, a voz, as crinas e as
orelhas, esse cavalo, dizia eu, que tanto possuía senso como sentidos,
contou a história a Pégaso, na minha estrebaria, e Pégaso,
com a sua ordinária vivacidade, foi repeti-la às Musas.

As Musas que, durante uns cem anos, vinham singularmente favorecendo o país,
por tanto tempo bárbaro, onde se passava esta cena, ficaram muito escandalizadas;
amavam ternamente a Memória, ou Mnemósine, sua mãe, à
qual essas nove filhas são credoras de tudo quanto sabem. Irritou-as
a ingratidão dos homens. Não satirizaram os antigos dicastéricos,
os liolistas, os sejanistas e a Nonsobre, porque as sátiras não
corrigem ninguém, irritam os tolos e os tornam ainda piores. Elas imaginaram
um meio de esclarecê-los, punindo-os. Os homens haviam blasfemado contra
a memória; as Musas lhes tiraram esse dom dos deuses, a fim de que
aprendessem de uma vez por todas, a que se fica reduzido sem o seu auxílio.

Aconteceu, pois, que durante uma bela noite todos os cérebros se
obscureceram, de modo que no dia seguinte, de manhã, todos se acordaram
sem a mínima lembrança do passado. Alguns dicastérios,
deitados com as suas mulheres, quiseram aproximar-se delas por um resto de
instinto Independente da memória. As mulheres, que só muito
raramente possuem o instinto de entrar em contato com os maridos, repeliram
asperamente as suas desagradáveis carícias, e a maioria dos
casais acabou aos tapas.

Alguns senhores, encontrando um chapéu, serviram-se dele para certas
necessidades que nem a memória nem, o bom senso justificam. E senhoras
empregaram para o mesmo uso as bacias de rosto. Os criados, esquecidos do
contrato que haviam feito com os patrões, entraram no quarto dos mesmos,
sem saber onde se achavam; mas, como o homem nasceu curioso, abriram todas
as gavetas; e, como o homem ama naturalmente o brilho da prata e do ouro,
sem ter para isso necessidade de memória, apanharam tudo o que estava
a seu alcance. Os patrões quiseram bradar contra ladrão; mas,
tendo-lhes saído do cérebro a idéia de ladrão,
não pôde a palavra lhes chegar à língua. Cada qual,
tendo esquecido o seu idioma, articulava sons informes. Era muito pior que
em Babel, onde cada um inventava imediatamente uma língua nova. A inata
inclinação dos criados moços pelas mulheres bonitas se
manifestou com tal premência que os atrevidos se lançaram irrefletidamente
sobre as primeiras mulheres ou raparigas que encontraram, fossem elas taberneiras
ou presidentas; e estas, esquecidas das leis do pudor, deixaram-se manobrar
com toda liberdade.

Foi preciso almoçar; ninguém sabia o que fazer para isso.
Ninguém fora ao mercado, nem para vender nem para comprar. Os criados
tinham vestido a roupa dos patrões, e os patrões a dos criados.
Todo mundo se olhava aparvalhado. Os que tinham mais jeito para obter o necessário
(e era a gente do povo) conseguiram um pouco com que viver; aos outros, faltou-lhes
tudo. O ministro e o arcebispo andavam inteiramente nus, e seus palefreneiros
passeavam, uns de hábito vermelho, outros com dalmáticas: tudo
estava confundido, iam todos morrer de miséria e de fome, por falta
de mútuo entendimento.

Ao cabo de alguns dias, as Musas tiveram piedade dessa pobre raça:
elas são boas afinal, embora algumas vezes façam sentir aos
maus a sua cólera; suplicaram, pois, à mãe, que devolvesse
àqueles blasfemos a memória que lhes havia tirado. Mnemósine
desceu à região dos contrários, onde tão temerariamente
a tinham insultado, e falou-lhes nos seguintes termos:
— Perdôo-vos, imbecis; mas lembrai-vos de que sem sentido não
há memória e sem memória não há senso.

Os dicastéricos agradeceram-lhe secamente, e decidiram fazer-lhe
uma admoestação. Os sejanistas publicaram toda essa aventura
na sua gazeta; viu-se que ainda não estavam curados. Os liolistas transformaram
o caso numa intriga de corte. Mestre Coger, pasmado da aventura e sem compreender
patavina daquilo tudo, disse a seus alunos do quinto ano este belo axioma:
Non magis musis quam hominibus infensa est ista quae vocatur memoria. (O que
se chama memória não é mais infenso às musas que
aos homens)

SONHO DE PLATÃO

Platão sonhava muito, e não menos se tem sonhado até
agora. Imaginava ele que o ser humano era outrora duplo e que, como castigo
de suas faltas, foi dividido em macho e fêmea.

Demonstrara que não pode haver senão cinco mundos perfeitos,
porque, na matemática, só há cinco corpos regulares.
A sua República foi um de seus grandes sonhos. Sonhara ainda que o
dormir nasce da vigília e a vigília do dormir, e que se perde
infalivelmente a vista contemplando um eclipse, a não ser numa bacia
d’água.

Eis aqui um de seus sonhos, que não é dos menos interessantes.
Fantasiou que o grande Demiurgo, o eterno Geômetra, depois de povoar
o infinito de globos inumeráveis, quis experimentar a ciência
dos gênios que haviam testemunhado o seu trabalho. Deu a cada um deles
uma pequena porção de matéria para que a afeiçoasse
a seu modo, da mesma forma que Fídias e Zeuxis distribuiriam a seus
discípulos o material para fazerem estátuas e quadros, se é
permitido comparar as pequenas coisas às grandes.

Demogórgon recebeu, como partilha a porção de lama
que se chama a terra; e, tendo-a arranjado tal como hoje a vemos, julgava
ter feito uma obra-prima. Pensava haver subjugado a inveja e esperava elogios,
até mesmo de seus confrades; muito surpreso ficou de ser recebido com
forte vaia.

Um deles, que não poupava gracejos, disse-lhe:
— Na verdade, fizeste um excelente trabalho: dividiste o teu mundo em
dois e puseste um grande espaço d’água entre os dois hemisférios,
a fim de que não houvesse comunicação entre ambos. Os
humanos vão enregelar-se nos teus dois pólos e morrer de calor
na tua linha equatorial. Distribuíste prudentemente, pelas terras,
grandes desertos de areia, para que os viajantes morressem de fome e de sede.
Estou muito satisfeito com os teus carneiros, as tuas vacas e as tuas galinhas;
mas, francamente, não vou muito com as tuas cobras nem com as tuas
aranhas. As tuas cebolas e alcachofras são excelentes; mas não
concebo qual foi a tua intenção ao cobrir a terra de tantas
plantas venenosas, a menos que tivesses o desejo de envenenar seus habitantes.
Parece-me, por outro lado, que formaste umas trinta espécies de macacos,
muito mais espécies de cães e apenas quatro ou cinco espécies
de homens; é verdade que deste a este último animal aquilo a
que chamas razão; mas, para te falar com toda a sinceridade, essa tal
razão é demasiado ridícula e muito se aproxima da loucura.
Parece-me aliás que não fazes grande caso desse animal de dois
pés, visto lhe haveres dado tantos inimigos e tão pouca defesa,
tantas doenças e tão poucos remédios, tantas paixões
e tão pouca sabedoria. Pelo que se vê, não queres que
fiquem muitos desses animais sobre a face da terra: pois, sem contar os perigos
a que os expões, arranjaste de tal modo as coisas que um dia a varíola
arrebatará regularmente todos os anos a décima parte dessa espécie
e a irmã dessa varíola envenenará a fonte da vida nos
nove décimos restantes; e, como se ainda não bastasse, fizeste
de modo que metade dos sobreviventes se ocupará em demandas e a outra
metade em matar-se. Eles, sem dúvida, muito te ficarão devendo,
e fizeste na verdade uma bela obra.

Demogórgon enrubesceu: bem sentia que na sua obra havia mal moral
e mal físico; mas sustentava que havia mais bem que mal
— É fácil criticar – disse ele, – mas achas
tão fácil fazer um animal que seja sempre razoável, que
seja livre, e que jamais abuse da sua liberdade. Pensas que, quando se tem
de nove a dez mil plantas para fazer proliferar, seja tão fácil
impedir que algumas dessas plantas tenham qualidades nocivas? Imaginas que,
com certa quantidade de água, de areia, de lama e de fogo, não
se possa ter nem mar nem deserto? Acabas, senhor trocista, de arranjar o planeta
Marte; veremos como te houveste com os teus costados e que belo efeito não
hão de fazer as tuas noites sem lua; veremos se entre a tua gente não
há nem loucura nem doença.

Com efeito, os gênios examinaram Marte e caíram de rijo sobre
o galhofeiro. Nem o grave gênio que modelara Saturno foi poupado; seus
confrades, os fabricadores de Júpiter, de Mercúrio, de Vênus,
tiveram cada um de suportar censuras.

Escreveram grossos volumes e brochuras; disseram frases de espírito;
fizeram canções, ridicularizaram-se uns aos outros; as facções
se desmandaram na linguagem; até que o eterno Demiurgo impôs
silêncio a todos:
— Fizestes (lhes disse ele) coisas boas e coisas más, porque
tendes muita inteligência e sois imperfeitos; as vossas obras durarão
somente algumas centenas de milhões de anos; após o que, já
possuindo mais experiência, haveis de fazer coisa melhor: só
a mim é dado fazer coisas perfeitas e imortais.

Eis o que Platão ensinava aos discípulos. Quando parou de
falar, um deles disse-lhe: E ai então vós acordastes.

CARTA DE UM TURCO SOBRE OS FAQUIRES E O SEU AMIGO BABABEC

Quando me achava na cidade de Benarés, à margem do Ganges,
antiga pátria dos brâmanes, procurava instruir-me. Compreendia
passavelmente o hindu; escutava muito e observava tudo. Parava em casa de
meu correspondente Omri, o homem mais digno que já conheci na vida.
Era ele da religião dos brâmanes; quanto a mim, tenho a honra
de ser muçulmano; mas nunca trocamos uma palavra mais alta a respeito
de Maomé e de Brama. Fazíamos as abluções cada
qual para o seu lado; bebíamos da mesma limonada, comíamos do
mesmo arroz, como irmãos.

Fomos um dia juntos ao pagode de Gavani. Vimos ali vários bandos
de faquires. Uns eram janguis, isto é, faquires contemplativos; e os
outros eram discípulos dos antigos ginossofistas, que levavam uma vida
ativa. Possuem, como é sabido; uma língua erudita, que é
a dos mais antigos brâmanes, e, nessa língua, um livro chamado
os Vedas. É certamente o mais antigo livro de toda a Ásia, sem
excetuar o Zend Avesta.

Passei por um faquir que lia esse livro.

— Ah! desgraçado infiel! – exclamou ele. – Tu me
fizeste perder o número das vogais que eu estava contando; e por isso
a minha alma vai passar para o corpo de uma lebre, em vez de ir para o de
um papagaio, como eu tinha motivos de crer.

Dei-lhe uma rúpia para consolá-lo. Dali a alguns passos, aconteceu-me
a desgraça de espirrar, e o ruído que fiz despertou um faquir
que se achava em êxtase.

— Onde estou? – disse ele. – Que horrível queda!
Não vejo mais a ponta do nariz; a luz celeste dissipou-se.

— Se sou o causante – disse-lhe eu – de que afinal enxergues
além da ponta do nariz, eis uma rúpia para reparar o mal. Retoma
a tua luz celeste.

Depois de assim contornar discretamente a situação, fui ter
com os ginossofistas: vários deles me trouxeram uns preguinhos muito
bonitos, para os fincar em meus braços e coxas, em honra de Brama.
Comprei-lhes os pregos, com os quais mandei pregar meus tapetes. Outros dançavam
sobre as mãos; outros na corda bamba; outros andavam num pé
só. Havia uns que carregavam correntes, outros uma sela, outros que
conservavam a cabeça dentro de uma caixa: de resto, a melhor gente
do mundo.

Meu amigo Omri levou-me à cela de um dos mais famosos; chamava-se
Bababec: estava nu como um macaco e trazia ao pescoço uma grossa cadeia
que pesava mais de sessenta libras. Achava-se sentado em um banco de madeira,
lindamente guarnecido de pregos que lhe penetravam nas nádegas, e dir-se-ia
que estava num leito de cetim. Muitas mulheres vinham consultá-lo;
era o oráculo das famílias; e pode-se dizer que gozava de grande
reputação. Fui testemunha da longa conversa que Omri teve com
ele.

— Acreditas, meu pai – perguntou-lhe Omri, – que, após
haver passado pela prova das sete metempsicoses, possa eu chegar à
morada de Brama?
— Isto é conforme – disse o faquir. – Como vives?

— Trato – disse Omri – de ser bom cidadão, bom esposo,
bom pai, bom amigo. Empresto dinheiro sem juros aos ricos e dou aos pobres.
Incentivo a paz entre meus vizinhos.

— Não metes algumas vezes pregos no ânus?
— Nunca, reverendo.

— Sinto muito: dessa maneira, só irás para o décimo-nono
céu; e é uma pena.

— Qual! Está certo. Sinto-me muito contente com a minha parte.
Que me importa o décimo-nono ou o vigésimo, contanto que eu
cumpra o dever na minha peregrinação, e seja bem recebido na
última morada. Não será suficiente ser um homem direito
neste país e depois um homem venturoso no país de Brama? Para
que céu pretendes ir então, com os teus pregos e as tuas correntes?

— Para o trigésimo-quinto – disse Bababec.

— És muito engraçado – replicou Omri – com
isso de quereres ficar alojado acima de mim: talvez não seja mais que
um sinal de excessiva ambição. Se condenas aqueles que buscam
honrarias nesta vida, por que então ambicionas honrarias tão
grandes na outra? E de resto, por que motivo pretendes ser mais bem tratado
do que eu? Fica sabendo que dou em esmolas, em dez dias, mais do que te custam
em dez anos todos os pregos que fincas no traseiro. A Brama, pouco se lhe
dá que passes o dia nu, com uma corrente ao pescoço. Belo serviço
prestas assim à pátria. Considero cem vezes mais a um homem
que semeia legumes ou planta árvores do que todos os teus camaradas
que olham para a ponta do nariz ou carregam uma sela, por excesso de nobreza
d’alma. Depois de assim falar, Omri se abrandou, mostrou-se gentil, acarinhou-o,
persuadindo-o enfim a que deixasse os pregos e as correntes, e fosse viver
uma vida às direitas, na sua companhia.

Tiraram-lhe o cascão, aspergiram-no de perfumes, vestiram-no decentemente.

Viveu quinze dias muito sensatamente, e confessou que era mil vezes mais
feliz do que antes.

Mas desacreditava-se entre o povo e as mulheres não vinham mais consultá-lo.
Ele deixou Omri e voltou a seus pregos para ter consideração.

PEQUENA DIGRESSÃO

Logo no começo da fundação dos Quinze-Vingts, sabe-se
que os asilados eram todos iguais e seus assuntos se decidiam por votação.
Distinguiam perfeitamente, pelo tato, a moeda de cobre da de prata; nenhum
deles tomou jamais vinho de Brie por vinho de Borgonha. Seu olfato era mais
fino que o de seus patrícios que tinham dois olhos. Aprofundaram-se
perfeitamente nos quatro sentidos, Isto é, ficaram sabendo acerca deles
tudo quanto é possível; e viveram tranqüilos e felizes
na medida em que os cegos o podem ser. Infelizmente, um de seus professores
julgou possuir noções claras sobre o sentido da vista; fez-se
ouvir, intrigou, granjeou partidários; reconheceram-no afinal como
chefe da comunidade. Pôs-se a julgar soberanamente em matéria
de cores, e ai é que foi a perdição.

Esse primeiro ditador dos Quinze-Vingts formou primeiro um pequeno conselho,
com o qual se tornou depositário de todas as esmolas. Por esse motivo,
ninguém se atreveu a resistir-lhe. Decidiu ele que todas as roupas
do Quinze-Vingts eram brancas; os cegos acreditaram; não falavam senão
de seus belos trajes brancos, embora não houvesse entre eles um único
dessa cor. Como todo o mundo começasse então a zombar deles,
foram queixar-se ao ditador, que os recebeu muito mal; tratou-os de inovadores,
de espíritos fortes, de rebeldes, que se deixavam seduzir pelas opiniões
errôneas daqueles que tinham olhos e ousavam duvidar da infalibilidade
de seu senhor. Dessa querela, formaram-se dois partidos.

O ditador, para os apaziguar, baixou um decreto segundo o qual todas as
suas vestes eram vermelhas. Não havia uma única veste vermelha
entre os Quinze-Vingts. Riram-se deles mais do que nunca. Novas queixas da
comunidade. O ditador enfureceu-se, os outros cegos também. Disputaram
longamente, e só se restabeleceu a concórdia quando foi permitido,
a todos os Quinze-Vingts, suspenderem o juízo sobre a cor de sua roupa.

Um surdo, ao ler esta pequena história, confessou que os cegos tinham
feito muito mal em querer julgar a respeito de cores, mas permaneceu firme
na opinião de que só aos surdos compete falar de música.

AVENTURA INDIANA TRADUZIDA PELO IGNORANTE

Durante a sua estada na Índia, Pitágoras aprendeu com os ginossofistas,
como todos sabem, a linguagem dos animais e das plantas. Passeando um dia
por um campo à beira-mar, ouviu estas palavras: “Que desgraça
a minha ter nascido relva! Mal chego a duas polegadas de altura, vem logo
um monstro devorador, um animal horrível, que me aplastra com seus
largos pé; a sua boca é armada com uma dupla fila de foices
cortantes, com a qual me arranca, me tritura e me engole. Os homens, chamam
a esse monstro de ovelha. Não creio que haja no mundo mais abominável
criatura.”
Pitágoras avançou alguns passos e topou com uma ostra que bocejava
sobre um rochedo. O filósofo ainda não havia adotado essa admirável
lei que nos proíbe comer aos animais nossos semelhantes. Ia, pois,
engolir a ostra, quando a pobre pronunciou estas comoventes palavras: “Ó
Natureza! Como é feliz a relva, que é, como eu, obra tua! Ela,
depois de cortada, renasce: é imortal. E nós, miseráveis
ostras, em vão somos defendidas por uma dupla couraça; e uns
celerados nos comem às dúzias, ao almoço, e tudo se acaba
para sempre. Que terrível o destino de uma ostra, e como são
bárbaros os homens!”
Pitágoras estremeceu; sentiu a enormidade do crime que ia praticar:
debulhado em pranto, pediu perdão à ostra e colocou-a cuidadosamente
sobre o seu rochedo.

De regresso à cidade, a meditar profundamente sobre essa aventura,
viu aranhas que comiam moscas, andorinhas que comiam aranhas, gaviões
que comiam andorinhas. “Esse pessoal todo – dizia ele consigo
– não tem a mínima filosofia”.

Ao entrar na cidade, foi Pitágoras atropelado, contundido, derrubado
por uma multidão de cretinos e cretinas que corriam a gritar: “Bem
feito! Bem feito! É mesmo merecido!”
— “Quem? O quê? Como!” – disse Pitágoras,
erguendo-se do chão. E a gente sempre a correr, exclamando: “Ah!
como não vai ser bom vê-los cozer!”
Pitágoras julgou que falavam de lentilhas ou quaisquer outros .legumes;
absolutamente: tratava-se de dois pobres hindus. “Ah, sem dúvida
– pensou Pitágoras – são dois grandes filósofos
que estão cansados da vida e querem renascer sob outra forma; é
um prazer mudar de casa, embora se fique sempre mal alojado; de gostos não
se discute.”
Avançou com a multidão até a praça pública
e foi lá que viu uma grande pira acesa e, defronte a essa pira, um
banco a que chamavam tribunal, e, nesse banco, uns juizes, e esses juizes
seguravam todos uma cauda de vaca e usavam todos um barrete que se assemelhava
perfeitamente às duas orelhas do animal que transportou Sileno, quando
este veio outrora à Índia em companhia de Baco, depois de atravessarem
a seco o mar Eritreu e terem feito parar o sol e a lua, como vem fielmente
descrito nas Órficas.

Entre esses juizes. havia um excelente homem conhecido de Pitágoras.
O sábio da Índia explicou ao sábio de Samos em que consistia
a festa que iam oferecer ao povo indiano.

“Os dois hindus” – disse ele – “não
têm o mínimo desejo de ser queimados; os meus graves confrade
condenaram ambos a esse suplício: um por haver dito que a substância
de Xaca não é a substância de Brama; e o outro, por haver
suspeitado que se podia agradar ao Ser Supremo pela simples virtude, sem que
seja preciso, à hora da morte, segurar uma vaca pela cauda; pois que,
dizia ele, a gente pode ser sempre virtuoso, mas nem sempre se encontra uma
vaca à mão. De tal forma se horrorizaram as boas mulheres da
cidade com tão heréticas proposições que não
deram descanso aos juizes enquanto estes não mandaram os dois infelizes
para a fogueira.”
Pitágoras considerou que, desde a relva até o homem, há
sobejos motivos de aborrecimento. No entanto, fez que os juizes, e até
mesmo os devotos, ouvissem a voz da razão; e foi essa a única
vez em que tal coisa aconteceu.

Em seguida foi pregar tolerância em Crotona; mas um intolerante lhe
ateou fogo à casa: e Pitágoras morreu queimado, ele que tirara
dois hindus da fogueira…

Salve-se quem puder!

ELOGIO HISTÓRICO DA RAZÃO PRONUNCIADO EM UMA ACADEMIA DE PROVÍNCIA
por M…

Fez Erasmo, no século XVI, o elogio da Loucura. Vós me ordenais
que vos faça o elogio da Razão. Essa Razão, com efeito,
só costuma ser festejada duzentos ano após sua inimiga, e às
vezes muito mais tarde; e existem nações onde ela ainda não
foi vista.

Era tão desconhecida entre nós, no tempo do. druidas, que
nem sequer tinha nome em nossa língua. César não a levou
nem à Suíça, nem a Autan, nem a Paris, que não
passava então de uma aldeola de pescadores; e ele próprio quase
a não conhecia. V
Possuía tantas e tamanhas qualidades que a Razão não
pode encontrar lugar em meio delas. Esse magnânimo insensato saiu de
nosso país devastado para ir devastar o seu e para deixar-se mimosear
com vinte e três punhaladas por vinte e três outros ilustres furiosos
que estavam longe de emparelhar com ele.

O sicambro Clodvich, ou Clóvis, cerca de quinhentos anos depois,
veio exterminar parte da nossa nação e subjugar a outra. Não
se ouviu falar em razão, nem no seu exército nem nas nossas
infelizes aldeias, a não ser na razão do mais forte.

Apodrecemos por muito tempo nessa horrível e aviltante barbárie,
da qual as Cruzadas não nos tiraram. Foi essa, ao mesmo tempo a mais
universal, a mais atroz, a mais ridícula e desgraçada das loucuras.
A essas longínquas cruzadas, sucedeu a abominável loucura da
guerra civil e sagrada que exterminou tanta gente da língua de OC e
da língua de OIL. A Razão não tinha como achar-se ali.
Em Roma reinava então a Política, que tinha como ministras suas
duas irmãs, a Velhacaria e a Avareza. Via-se a Ignorância, o
Fanatismo, a Fúria, percorrerem sob suas ordens a Europa toda; a Pobreza
lhes seguia o rastro; a Razão ocultava-se num poço, como a Verdade
sua filha. Ninguém sabia onde ficava esse poço, e, se o farejassem,
ali teriam descido para degolar mãe e filha.

Depois que os turcos tomaram Constantinopla, redobrando os espantosos males
da Europa, dois ou três gregos, ao fugir, tombaram nesse poço,
ou antes, nessa caverna, semimortos de fadiga, de fome e de medo.

A Razão recebeu-os com humanidade, deu-lhes de comer sem distinção
de carnes (coisa que jamais haviam conhecido em Constantinopla). Receberam
dela algumas instruções, em pequeno número: pois a Razão
não é prolixa. Obrigou-os a jurar que não revelariam
o local do seu retiro. Partiram, e chegaram, depois de muito andar, à
corte de Carlos Quinto e Francisco I.

Receberam-nos ali como a prestidigitadores que viessem fazer seus passes
de mágica para distrair a ociosidade dos cortesãos e das damas,
no intervalo de seus encontros galantes. Os ministros dignaram-se olhá-los
nos momentos de folga que lhes pudessem permitir a lufa-lufa dos negócios.
Chegaram até a ser acolhidos pelo imperador e pelo rei de França,
que lhes lançaram um olhar de passagem, quando iam ter com suas amantes.
Mas eles colheram melhor fruto nas pequenas cidades, onde encontraram alguns
burgueses que ainda tinham, não se sabia como, algum vislumbre de senso
comum.

Esses flébeis clarões se extinguiram em toda a Europa, entre
as guerras civis que a assolaram. Duas ou três faíscas de razão
não podiam aclarar o mundo no meio das tochas ardentes e das fogueiras
que o fanatismo acendeu durante tantos anos. A Razão e sua filha ocultaram-se
mais do que nunca.

Os discípulos de seus primeiros apóstolos suicidaram-se, com
exceção de alguns que foram bastante desavisados para irem apregoar
a Razão desarrazoadamente, e fora de tempo: isso lhes custou a vida,
como a Sócrates; mas ninguém prestou atenção à
coisa. Nada mais desagradável do que ser enforcado obscuramente. Por
tanto tempo se havia a gente ocupado com noites de S. Bartolomeu, massacres
da Holanda, cadafalsos da Hungria, e assassínios de reis, que não
havia nem tempo, nem suficiente liberdade de espírito para pensar nos
crimes miúdos e nas calamidades secretas que inundavam o mundo, de
um extremo a outro.

A Razão, informada do que ocorria por alguns exilados que se haviam
refugiado no seu retiro, sentiu-se tomada de compaixão, embora não
passe por ser muito terna. Sua filha que é mais ousada do que ela,
animou-a a que fosse ver o mundo e tratasse de curá-lo. Apareceram
as duas, falaram mas encontraram tantos malvados interessados em contradizê-las,
tantos imbecis a soldo desses malvados, tantos indiferentes apenas preocupados
consigo mesmos e com o momento atual e que não se importavam nem com
elas nem com seus inimigos, que resolveram ambas voltar muito sabiamente para
o seu asilo.

Todavia, algumas sementes dos frutos que elas carregam sempre consigo, e
que haviam espalhado, germinaram na terra; e até sem apodrecer.

Enfim, há algum tempo lhes deu vontade de ir em peregrinação
a Roma, disfarçadas e anônimas, por medo da Inquisição.
Logo de chegada, dirigiram-se ao cozinheiro do papa Ganganelli – Clemente
XIV. Sabiam que era o menos ocupado cozinheiro de Roma. Pode-se até
dizer que era, depois de vossos confessores, o homem mais folgado da sua profissão.

Esse homem, depois de ter servido às duas peregrinas uma refeição
quase tão frugal quanto a do papa, levou-as à presença
de Sua Santidade, a quem encontraram lendo os Pensamentos de Marco Aurélio.
O papa reconheceu os disfarces e beijou-as cordialmente, apesar da etiqueta.

“— Minhas Senhoras, se eu pudesse imaginar que estavam neste
mundo, ter-lhes-ia feito a primeira visita.”
Após os cumprimentos, trataram de negócios. Logo no dia seguinte,
Ganganelli abulia a bula In coena Domini, um dos maiores monumentos da loucura
humana, que por tanto tempo ultrajara a todos os potentados. No outro dia,
tomou a resolução de destruir a companhia de Garasse, de Guiguard,
de Garnet, de Busenbaum, de Malagrida, de Paulian, de Patouillet, de Nonnotte;
e a Europa bateu palmas. No terceiro dia, diminuiu impostos de que o povo
se queixava. Animou a agricultura e todas as artes; fez-se estimado de todos
aqueles que passavam por inimigos de seu posto. Disseram então, em
Roma, que não havia mais que uma nação e uma lei no mundo.

As duas peregrinas, atônitas e satisfeitas, despediram-se do papa,
que lhes fez presente, não de agnus e de relíquias, mas de uma
boa carruagem para continuarem a viajar. A Razão e a Verdade não
tinham até então o hábito de andar a gosto.

Visitaram toda a Itália, e surpreenderam-se de encontrar, em vez
do maquiavelismo, uma verdadeira emulação entre os príncipes
e as repúblicas, desde Parma a Turim, para ver quem tornaria seus súditos
mais honrados, mais ricos e mais felizes.

Minha filha – dizia a Razão à Verdade, – creio
que o osso reinado bem poderia começar, após tão longa
prisão. Alguns dos profetas que nos foram visitar no poço devem
ter sido mesmo muito poderosos em palavras e obras, para assim mudarem a face
da terra. Bem vês que tudo vem tarde. Era preciso passar pelas trevas
da ignorância e da mentira antes de entrar em teu palácio de
luz, de que foste escorraçada comigo durante tantos séculos.
Acontecerá conosco O que aconteceu com a Natureza; esteve ela coberta
de um véu, e toda desfigurada, durante inumeráveis séculos.
Afinal chegou um Galileu, um Copérnico, um Newton, que a mostraram
quase nua, fazendo os homens se enamorarem dela.“
Assim conversando, chegaram a Veneza. O que consideraram mais atentamente
foi um procurador de S. Marcos que segurava um grande par de tesouras, diante
de uma mesa toda coberta de jarras, de bicos e de plumas negras.

Ah! – exclamou a Razão, – Deus me perdoe, lustrissimo
Signor, mas creio que essa é uma das tesouras que levava para o meu
poço, quando ali me refugiei com minha filha! Como a obteve Vossa Excelência,
e que faz com ela?
— Lustrissima Signora – respondeu o procurador, – bem pode
ser que a tesoura tenha pertencido outrora a Vossa Excelência; mas foi
um chamado Fra Paolo que no-la trouxe há muito, e dela nos servimos
para cortar as garras da Inquisição, que vedes espalhadas sobre
esta mesa.

Essas plumas negras pertenciam a harpias que vinham comer o alimento da
república; nós lhes aparamos todos os dias as unhas e a ponta
do bico. Se não fora essa precaução, teriam acabado por
devorar tudo; nada teria sobrado para os grandes, nem para os pregadi, nem
para os cidadãos.

Se passardes pela França, talvez encontreis em Paris vosso outro
par de tesouras, em poder de um ministro espanhol, que as empregava da mesma
forma que nós em seu país, e que será um dia abençoado
pelo gênero humano..

Depois de terem assistido à Ópera veneziana, partiram as duas
viajantes para a Alemanha. Viram com satisfação esse país,
que no tempo de Carlos Magno não passava de uma floresta imensa entrecortada
de pântanos, coberto agora de cidades florescentes e tranqüilas;
esse país, povoado de soberanos outrora bárbaros e pobres, e
agora todos polidos e magníficos; esse país, cujo sacerdócio,
nos tempos antigos, só era constituído por feiticeiras, que
então imolavam criaturas humanas sobre pedras grosseiramente talhadas;
esse país que fora depois inundado por seu próprio sangue, para
saber ao certo se a coisa era in, cum, sub, ou não; esse país
que enfim acolhia ao seio três religiões inimigas, espantadas
de viver pacificamente juntas.

“Louvado seja Deus! – disse a Razão. – Essa gente
veio afinal a mim, à força de demência.”
Conduziram-nas à presença de uma imperatriz muito mais que sensata,
pois era generosa. Tão contentes ficaram com ela as peregrinas, que
não levaram em conta alguns costumes que as chocaram; mas ambas se
enamoraram do imperador seu filho.

Redobrou-lhes o espanto ao chegarem à Suécia. “Como!”
– diziam, – “uma revolução tão difícil
e no entanto tão rápida! tão perigosa e no entanto tão
pacifica! E, desde esse grande dia, nem um só dia perdido para a prática
do bem, e tudo isso na idade que é tão raramente a da razão!
Bem fizemos em sair de nosso esconderijo quando esse grande acontecimento
enchia de admiração a Europa inteira!”
Dali, atravessaram às pressas a Polônia. “Ah! minha mãe,
que contraste! – exclamou a Verdade. – Dá-me até
vontade de voltar para o poço. Eis no que dá ter esmagado sempre
a mais útil porção do gênero humano e tratado aos
lavradores – pior do que eles tratam aos animais que os servem! Esse
caos de anarquia só podia redundar em ruína: já o haviam
predito claramente. Lamento um monarca virtuoso, sábio e humano; e
ouso esperar que ele seja feliz, pois os outros reis começam a sê-lo,
e as vossas luzes se comunicam gradualmente.

“Vamos ver – continuou ela – uma transformação
mais favorável e surpreendente. Vamos a essa imensa região hiperbórea,
tão bárbara há oitenta anos e hoje tão esclarecida
e invencível. Vamos contemplar aquela que cumpriu o milagre de uma
nova criação…” Lá acorreram, e confessaram que
não lhes haviam exagerado.

Não cessavam de admirar o quanto mudara o mundo em alguns anos. Concluíram
que talvez um dia o Chile e as Terras Centrais fossem o centro da civilização
e do bom gosto e que se teria de ir ao pólo antártico para aprender
a viver.

Chegadas que foram à Inglaterra, disse a Verdade à sua mãe:

— Parece-me que a felicidade desta nação não é
constituída como a das outras; foi mais louca, mais fanática,
mais cruel e mais infeliz do que qualquer uma das que eu conheço; e
eis que instituiu um governo único, no qual conservou tudo o que a
monarquia tem de útil e tudo o que uma república tem de necessário.
É superior na guerra, nas leis, nas artes, no comércio. Apenas
a vejo embaraçada com a América setentrional, que conquistou
num extremo do universo, e com as mais belas províncias da Índia,
subjugadas no outro extremo. Como carregará ela esses dois fardos da
sua felicidade?
— O peso é considerável – disse a Razão,
– mas, desde que ela me escute um pouco, há de encontrar alavancas
que o tornarão mais leve.

Afinal a Razão e a Verdade passaram pela França, onde já
haviam feito algumas aparições, tendo sido dali escorraçadas.
“Não vos lembrais – dizia a Verdade à sua mãe
– do grande desejo que tivemos de nos estabelecer entre os franceses
nos belos dias de Luis XIV? Mas as impertinentes querelas dos jesuítas
e dos jansenistas nos obrigaram a fugir em seguida. Não mais nos chegam
agora os apelos contínuos do povo. Ouço as aclamações
de vinte milhões de homens que abençoam os Céus. Este
acontecimento, dizem uns, é tanto mais jubiloso porquanto não
nos custa nada essa alegria. Bradam outros: O luxo não é mais
que vaidade. Os empregos acumulados, as despesas supérfluas, os lucros
extraordinários, tudo isso vai ser cortado. E têm razão.
Todo e qualquer novo imposto será abolido. E nisso não têm
razão: pois cumpre que cada particular pague alguma coisa em proveito
da felicidade geral.

“As leis vão ser uniformes. Nada mais desejável, mas
nada tão difícil. Vão ser distribuídos, aos indigentes
que trabalham, e sobretudo aos pobres operários, os bens imensos de
certos ociosos que fizeram voto de pobreza. Essa gente de mão-morta
não mais terá, por sua vez, escravos de mão-morta. Não
mais se verão esbirros de monges escorraçar da casa paterna
órfãos reduzidos à mendicidade, para enriquecerem com
os seus despojos a um convento no gozo de direitos senhoriais, que são
os direitos dos antigos conquistadores. Não mais se verão famílias
inteiras pedindo inutilmente esmola à porta do convento que as despoja.
Praza aos Céus. Nada é mais digno de um rei. O rei da Sardenha
acabou com esse abominável abuso, Queira Deus que esse abuso seja exterminado
em França.

“Não ouvis, minha mãe, todas essas vozes que dizem:
Os casamentos de cem mil famílias úteis ao Estado não
mais serão considerados concubinagens; e os filhos não mais
serão declarados bastardos pela lei? A natureza, a justiça e
vós, minha mãe, tudo reclama para esse assunto um sábio
regulamento, que seja compatível com o repouso do Estado e com os direitos
de todos os homens,
“Tornar-se-á a profissão de soldado tão digna que
ninguém mais será tentado a desertar. A coisa é possível
mas delicada.

“As pequenas faltas não serão punidas como grandes crimes,
pois que em tudo é preciso proporção. Uma lei bárbara,
obscuramente enunciada, mal interpretada não mais fará perecer
nas barras de ferro e nas chamas a jovens indiscretos e imprudentes, como
se tivessem assassinado os próprios pais.

Deveria ser este o primeiro axioma da justiça penal.

“Não mais serão confiscados os bens de um pai de família,
pois os filhos não devem morrer de fome por causa das faltas dos pais,
e o rei não tem nenhuma necessidade desse miserável confisco.
Maravilhoso! Isso é digno da magnanimidade do soberano.

“A tortura, Inventada outrora pelos ladrões de estrada para
forçar as vítimas a revelar seu tesouro, e empregada hoje em
pequeno número de nações, para salvar o culpado robusto
e perder o inocente fraco de corpo e de espírito, só será
utilizada nos crimes de lesa-sociedade, na pessoa do chefe, e somente para
conseguir a revelação dos cúmplices. Mas tais crimes
jamais serão cometidos. Nada melhor. Eis os votos que ouço por
toda parte, e escreverei todas essas grandes mudanças nos meus anais,
eu que sou a Verdade.

“Ouço ainda proferir em torno de mim, em todos os tribunais,
estas palavras notáveis: Não citaremos jamais os dois poderes,
pois só pode existir um: o do, rei, ou da lei, em uma monarquia; o
da nação, em uma república. O poder divino é de
natureza tão diferente, tão superior, que não deve ficar
comprometido por uma mescla profana com as leis humanas. O infinito não
se pode juntar ao finito. Gregório VII foi quem primeiro ousou chamar
o infinito em seu auxílio, nas suas guerras, até então
inauditas, contra Henrique IV, imperador demasiado finito; quero dizer: limitado.
Por muito tempo essas guerras ensangüentaram a Europa; mas, afinal separaram
essas entidades veneráveis, que nada têm em comum: e é
o único meio de garantir a paz.

“Essas coisas, que proferem todos os ministros das leis, me parecem
assaz fortes. Sei que não se reconhecem dois poderes nem na China,
nem na Índia, nem na Pérsia, nem em Constantinopla, nem em Moscou,
nem em Londres, etc… Mas fio-me em vós, minha mãe. Nada escreverei
que não me seja ditado por vós.”
Respondeu-lhe a Razão:
— Bem vês, minha filha, que eu sinto mais ou menos as mesmas coisas,
e muitas outras Tudo isso demanda tempo e reflexão. Sempre fiquei muito
contente quando, em meio às minhas dores, consegui parte do alívio
que desejava.

“Não te lembras do tempo em que quase todos os reis da terra,
estando em completa paz, se divertiam em decifrar enigmas, e em que a bela
rainha de Sabá ia em pessoa propor logogrifos a Salomão?”

— Sim, minha mãe; bom tempo aquele, mas não durou muito.

Pois bem – tornou a mãe, – este é infinitamente
melhor; só se pensava então em mostrar um pouco de espírito;
e vejo que há dez ou doze anos os europeus se vêm empenhando
nas artes e virtudes que abrandam a amargura da vida. Parece que em geral
se combinaram para pensar mais solidamente do que o haviam feito durante milhares
de séculos. Tu, que nunca pudeste mentir, dize-me que tempo terias
preferido ao presente para morar na França.

— Tenho a reputação – respondeu a filha –
de gostar de dizer coisas assaz duras às pessoas entre as quais me
encontro; mas confesso que só tenho a louvar o tempo presente, a despeito
de tantos autores que só louvam o passado.

“Devo atestar à posteridade que foi nesta época que
os homens aprenderam a garantir-se de uma doença terrível e
mortal, tornando-a menos funesta na transmissão; a restituir à
vida aqueles que a perdem por afogamento; a governar e desafiar ao raio; a
prover ao ponto fixo que em vão se deseja do ocidente ao oriente. Muito
mais se fez em moral. Ousou-se pedir justiça às leis contra
leis que haviam, condenado a virtude ao suplício; e essa justiça
foi algumas vezes obtida. 0usou-se, enfim, pronunciar o nome da tolerância.”

— Pois bem, minha filha, gozemos destes belos dias; fiquemos por aqui,
se durarem; e, se vierem tempestades, voltemos a nosso poço.

O CARREGADOR ZAROLHO

Os dois olhos que temos em nada melhoram a nossa condição;
serve-nos um para ver os bens, e o outro para ver os males da vida. Muita
gente possui o mau hábito de fechar o primeiro, e poucos fecham o segundo;
eis por que há tantas pessoas que prefeririam ser cegos a ver, tudo
o que vêem. Felizes os zarolhos que só são privados desse
olho mau que estraga tudo quanto a gente olha! Era o caso de Mesrour.

Seria preciso ser cego para não ver que Mesrour era zarolho. Era-o
de nascença; mas era um zarolho tão satisfeito com a sua condição
que jamais se lembrara de desejar outro olho. Não eram os dons da fortuna
que o consolavam dos malefícios da natureza, pois não passava
de um simples carregador e não tinha outro tesouro senão os
seus ombros; mas era feliz, e mostrava que mais um olho e menos trabalho pouco
contribuem para a felicidade. O dinheiro e o apetite lhe vinham sempre em
proporção com o exercício que fazia; trabalhava de manhã,
comia e bebia de tarde, dormia de noite, e considerava cada dia como uma vida
à parte, de modo que a preocupação do futuro jamais lhe
perturbava o gozo do presente. Era (como o vedes) ao mesmo tempo zarolho,
carregador e filósofo.

Viu por acaso passar numa suntuosa carruagem uma grande princesa que tinha
um olho mais do que ele, o que não o impediu de achá-la muito
bela, e, como os zarolhos não diferem dos outros homens senão
em que têm um olho de menos, apaixonou-se perdidamente pela princesa.
Dirão talvez que, quando se é carregador e zarolho, o melhor
é a gente não se apaixonar, principalmente por uma grande princesa
e, o que é mais, uma princesa que tem dois olhos; no entanto, como
não há amor sem esperança, e como o nosso carregador
amava, ousou esperar.

Tendo mais pernas que olhos, e boas pernas, seguiu durante quatro léguas
o carro da sua deusa, que seis grandes cavalos brancos puxavam velozmente.
Era moda, naqueles tempos, entre as damas, viajar sem lacaios e sem cocheiro,
conduzindo elas próprias o carro; queriam os maridos que elas andassem
sempre sozinhas, para ficar mais seguros da sua virtude; o que é diametralmente
oposto ao parecer dos moralistas, que dizem que não há virtude
na solidão.

Mesrour continuava a correr junto às rodas do carro, voltando seu
olho bom na direção da dama, espantada de ver um zarolho com
tamanha agilidade. Enquanto ele provava assim o quanto se é infatigável
quando se ama, um animal selvagem, perseguido por caçadores, atravessou
a estrada, espantando os cavalos, que tomaram o freio nos dentes e já
arrastavam a bela para um precipício. Seu novo apaixonado, ainda mais
assustado do que ela, embora a princesa o estivesse bastante, cortou as correias
com maravilhosa habilidade; somente os seis cavalos deram o salto mortal,
e a dama, que não estava menos branca do que eles, apenas passou por
um grande susto.

— Quem quer que sejas – disse-lhe ela; – jamais esquecerei
que te devo a vida; pede-me o que quiseres: tudo o que tenho está a
teu dispor.

— Ah! com muito mais razão – respondeu Mesrour –
posso eu oferecer-vos outro tanto; mas, assim fazendo, sempre vos oferecerei
menos; pois só tenho um olho, e vós tendes dois; mas um olho
que vos contempla vale mais que dois olhos que não vêem os vossos.

A dama sorriu: pois as galanterias de um zarolho são sempre galanterias;
e as galanterias sempre fazem sorrir.

— Eu desejaria dar-te um outro olho – disse ela – mas
só a tua mãe podia dar-te esse presente; mas continua a acompanhar-me.

Dizendo essas palavras, desce ela do carro e prossegue o caminho a pé;
seu cãozinho também desceu e marchava ao lado da dona, ladrando
para a estranha figura do seu escudeiro. Faço mal em lhe dar o título
de escudeiro, porque, por mais que ele lhe oferecesse o braço, não
quis a dama aceitá-lo, sob o pretexto de que o braço estava
muito sujo; e ides ver agora como a princesa foi vítima de seu próprio
asseio. Tinha ela uns pequeninos pés, e uns sapatinhos ainda menores,
de maneira que não era feita para longas caminhadas, nem estava devidamente
calçada para isso.

Lindos pezinhos consolam de ter pernas débeis, quando se passa a
vida numa espreguiçadeira, em meio de uma porção de peralvilhos;
mas de que servem sapatos bordados e lantejoulados em um caminho pedregoso,
onde só podem ser vistos por um carregador e, ainda por cima, por um
carregador que só tem um olho?
Melinade (é este o nome da dama, que tive minhas razões para
calar até agora, visto que ainda não fora inventado), Melinade
avançava como podia, amaldiçoando o seu sapateiro, escorchando
os pés, e dando um mau jeito a cada passo. Fazia hora e meia que ela
marchava como as grandes damas, isto é, já fizera perto de um
quarto de légua, quando tombou de fadiga.

Mesrour, cujos serviços ela recusara enquanto estava de pé,
hesitava em lhos oferecer, por medo de a macular com o seu contato; pois bem
sabia que não estava limpo (a dama claramente lho dera a entender),
e a comparação que fizera em caminho entre a sua pessoa e a
da sua amada ainda lho mostrava com maior clareza. Tinha ela um leve vestido
cor de prata, semeado de guirlandas, que lhe ressaltava a beleza do talhe;
e ele, um blusão pardacento, todo manchado, rasgado e remendado, e
de tal maneira que os remendos ficavam ao lado dos buracos e não por
baixo, onde estariam mais no seu lugar. Havia comparado as suas mãos
musculosas e cobertas de calos com as duas pequenas mãos mais brancas
e delicadas do que lírios. Vira enfim os lindos cabelos loiros de Melinade,
que se entremostravam através de um véu de gaze, penteados em
tranças e cachos; e ele, para colocar ao lado disso, não tinha
mais que umas eriçadas crinas negras, cujo único ornamento era
um turbante roto.

No entanto Melinade tenta erguer-se, mas tomba em seguida, e tão
desastradamente, que o que ela deixou ver a Mesrour tirou-lhe o pouco de razão
que a vista de seu rosto pudera deixar-lhe. Esqueceu que era carregador, que
era zarolho, e não mais pensou na distância que a fortuna pusera
entre ambos; mal se lembrou que amava, pois faltou à delicadeza que
dizem inseparável de um verdadeiro amor, e que às vezes lhe
constitui o encanto, e muitas vezes o aborrecimento; serviu-se dos direitos
à brutalidade que lhe dava a sua condição de carregador;
foi brutal e feliz. A princesa, então, estava, sem dúvida desmaiada,
ou lamentava a sua sorte; mas, como tinha um espírito justo, abençoava
decerto o destino pelo fato de todo infortúnio trazer consigo o seu
próprio consolo.

A noite estendera os véus no horizonte, e ocultava na sua sombra
a verdadeira felicidade de Mesrour e a pretensa desgraça de Melinade;
Mesrour desfrutava os prazeres dos perfeitos amantes, e desfrutava-os como
carregador, quer dizer (para vergonha da humanidade) da maneira mais perfeita;
os desmaios de Melinade voltavam-lhe a cada momento, e a cada momento o seu
amante recuperava forças.

— Poderoso Maomé – disse ele uma vez, como homem arrebatado,
mas como péssimo católico, – só o que falta à
minha felicidade é ser sentida por aquela que a causa; enquanto estou
no teu paraíso, divino profeta, concede-me ainda um favor, o de ser
para os olhos de Melinade o que ela seria para os meus olhos, se houvesse
luz.

Acabou de rezar e continuou a gozar. A aurora, sempre demasiado diligente
para os amantes, surpreendeu a ambos na atitude onde ela própria poderia
ter sido surpreendida um momento antes, com Titono. Mas qual não foi
o espanto de Melinade quando, abrindo os olhos aos primeiros raios do dia,
viu-se num lugar encantado, com um homem de nobre estrutura, cujo rosto se
assemelhava ao astro cuja volta a terra aguardava! Tinha faces de rosa, lábios
de coral; seus grandes olhos, ao mesmo tempo ternos e vivos, exprimiam e inspiravam
volúpia; seu carcaz de ouro, ornado de pedrarias, pendia-lhe do ombro
e só o prazer fazia ressoar as suas flechas; sua longa cabeleira, presa
por um atilho de diamantes, flutuava-lhe livremente sobre os rins, e um tecido
transparente, bordado de pérolas lhe servia de veste, sem nada ocultar
da beleza do seu corpo.

— Onde estou, e quem és – exclamou Melinade no auge da
surpresa.

— Estais – respondeu ele – com o miserável que
teve a ventura de vos salvar a vida, e que tão bem cobrou o seu trabalho.

Melinade, tão satisfeita quanto espantada, lamentou que a metamorfose
de Mesrour não tivesse começado mais cedo. Aproxima-se de um
magnífico palácio que lhe atraíra o olhar e lê
esta inscrição na porta: “Afastai-vos, profanos; estas
portas só se abrirão para o senhor do anel.” Mesrour aproxima-se
por sua vez para ler a mesma inscrição, mas viu outros caracteres
e leu estas palavras: “Bate sem receio.” Bateu, e em seguida as
portas se abriram por si mesmas com fragor. Os dois amantes entraram, ao som
de mil vozes e de mil instrumentos, num vestíbulo de mármore
de Paros; dali passaram para uma sala soberba, onde os esperava há
mil duzentos e cinqüenta anos um festim delicioso, sem que nenhum dos
pratos houvesse esfriado: puseram-se à. mesa e foram servidos cada
um por mil escravas da maior formosura; a refeição foi entremeada
de concertos e danças; e, quando terminou, todos os gênios vieram,
na maior ordem, em diferentes grupos, com vestuários tão suntuosos
quão singulares, prestar juramento de fidelidade ao senhor do anel,
e beijar o dedo sagrado que o carregava.

Ora, havia em Bagdad um muçulmano muito devoto que, não podendo
ir lavar-se na mesquita, fazia a água da mesquita vir à sua
casa, mediante uma pequena retribuição que pagava ao sacerdote.
Acabava ele de fazer a quinta ablução, a fim de se preparar
para a quinta prece. E a sua criada, rapariga estouvada e muito pouco devota,
desembaraçou-se da água santa lançando-a pela janela.
A água caiu sobre um infeliz profundamente adormecido junto a um marco
que lhe servia de apoio. Acordou-se com o choque. Era o pobre Mesrour que,
voltando do seu passeio encantado, perdera na viagem o anel de Salomão.
Deixara as soberbas vestes e retomara o seu blusão; seu belo carcaz
de ouro havia-se transformado num porta-fardos de madeira e, para cúmulo
da desgraça, tinha deixado um dos olhos no caminho. Lembrou-se então
de que bebera na véspera grande quantidade de aguardente, que lhe adormentara
os sentidos e aquecera a imaginação. E Mesrour, que até
aquele instante amara essa bebida por gosto, começou a amá-la
por gratidão, e voltou alegremente ao trabalho, resolvido a empregar
o salário daquele dia na aquisição dos meios para tornar
a ver a sua querida Melinade. Qualquer outro ficaria desolado de ser um mísero
zarolho depois de ter tido dois lindos olhos; de sofrer as recusas das varredeiras
do palácio depois de haver gozado os favores de uma princesa mais bela
do que as amantes do califa; e de estar a serviço de todos os burgueses
de Bagdad depois de haver reinado sobre todos os gênios; mas Mesrour
não possuía o olho que vê o lado mau das coisas.

COSI-SANCTA UM PEQUENO MAL POR UM GRANDE BEM

É uma das tantas máximas falsamente acreditadas, essa de que
não é permitido fazer um pequeno mal de que possa resultar um
bem maior. Mas era assim que pensava Santo Agostinho, como se pode depreender
da narrativa desta pequena aventura acontecida na sua diocese, sob o proconsulado
de Septímio Acindino, e que vem no livro da Cidade de Deus.

Havia em Hipona um velho cura, grande inventor de confrarias, confessor
de todas as raparigas da vizinhança, e que passava por homem inspirado
de Deus, pois costumava deitar sortes, ofício de que se desempenhava
assaz passavelmente.

Levaram-lhe um dia uma jovem chamada Cosi-Sancta; era a mais bela criatura
da província. Tinha pais jansenistas que a haviam educado nos princípios
da mais rígida virtude; e, de todos os pretendentes que tivera, não
houvera um só que lhe causasse um momento de distração
nas suas preces. Fazia alguns dias que fora ela prometida a um velhote encarquilhado,
chamado Capito, conselheiro do presidial de Hipona. Era um homenzinho brusco
e rabugento a quem não faltava inteligência, mas que era ríspido
de conversação, escarninho, e amante de brincadeiras de mau
gosto; e, de resto, ciumento como um veneziano, e que por nada no mundo se
teria conformado em ser amigo dos galanteadores da esposa. A jovem criatura
fazia o possível para amá-lo, pois que ele deveria ser seu marido;
mas por maior boa-fé com que se empenhasse em tal coisa não
conseguia nada.

Foi pois consultar o seu cura para saber se seria feliz no casamento. O
nosso padre disse-lhe num tom profético:
Minha filha, a tua virtude causará desgraças, mas serás
um dia canonizada por teres sido três vezes infiel a teu esposo.

Esse espantoso oráculo escandalizou cruelmente a inocência
da bela rapariga. Ela pôs-se a chorar; depois pediu explicações,
julgando que tais palavras ocultavam, algum sentido místico; mas a
única explicação que conseguiu foi que as três
vezes não deviam ser interpretadas como três encontros com o
mesmo amante, mas sim como três aventuras diferentes.

Cosi-Sancta pôs-se então aos gritos; chegou até a dizer
algumas injúrias ao bom do cura, e jurou que nunca seria canonizada.
E no entanto o foi, como já ides ver.

Casou-se pouco depois: as núpcias foram esplêndidas; ela suportou
muito bem todos os maus discursos que teve de ouvir, todos os trocadilhos
sem graça, todas as grosserias mal disfarçadas com que costumam
constranger o pudor das noivas. Dançou de bom grado com alguns jovens
muito bem parecidos e com os quais o marido não simpatizou absolutamente.

E foi deitar-se ao lado do pequeno Capito, com um pouco de repugnância.
Passou boa parte da noite a dormir; e acordou-se muito pensativa. Mas o assunto
das suas cismas não era tanto o marido, e sim um jovem chamado Ribaldos,
que lhe tomara conta do pensamento, sem que ela propriamente o suspeitasse.
Esse jovem parecia formado pelas mãos do Amor, de quem tinha as graças,
a ousadia e o espírito travesso; era um pouco indiscreto, mas só
com aquelas que no fundo assim queriam: era a coqueluche de Hipona. Incompatibilizara
todas as mulheres da cidade umas com as outras e, por sua vez, estava incompatibilizado
com todos os maridos e todas as mães. Amava, de ordinário, por
estouvamento, e um pouco por vaidade; mas amou Cosi-Sancta por gosto, e tanto
mais perdidamente quanto mais difícil se lhe antolhava a conquista.

Como homem de espírito que era, aplicou-se de início em agradar
ao marido. Fazia-lhe mil cumprimentos, felicitava-o por sua boa fisionomia
e seu espírito arejado e galante. Perdia para ele no jogo, e todos
os dias lhe fazia alguma pequena confidência. Cosi-Sancta achava-o a
criatura mais amável do mundo. Já o amava mais do que supunha;
era verdade que não o suspeitava, mas o marido suspeitou por ela. Embora
tivesse todo o amor-próprio que um homenzinho possa ter, não
deixou de desconfiar que as visitas de Ribaldos não eram somente para
ele. Rompeu com este sob qualquer pretexto, e proibiu-lhe a entrada em casa.

Cosi-Sancta ficou muito aborrecida, mas não ousou dizê-lo;
e Ribaldos, cujo amor crescera com as dificuldades, passava todo o tempo a
espiar uma oportunidade para a ver. Disfarçou-se de monge, de vendedora
de roupas, de apresentador de títeres. Mas não fez o bastante
para triunfar de sua amada, e fez demasiado para que não fosse reconhecido
pelo esposo. Se Cosi-Sancta estivesse em combinação com ele,
saberiam ambos como tomar as necessárias medidas para que o marido
nada suspeitasse; mas, visto que ela combatia as suas inclinações,
e nada tinha a censurar-se, salvava tudo, fora as aparências, e o marido
a julgava culpabilíssima.

O homenzinho, que era muito colérico e que imaginava que a sua honra
dependia da fidelidade da mulher, ultrajou-a cruelmente, e puniu-a pelo fato
de a acharem bela. E Cosi-Sancta se viu na mais horrível situação
em que possa estar uma mulher: acusada injustamente e maltratada por um marido
a quem era fiel, e dilacerada por uma paixão violenta que procurava
dominar.

Achou que, se o seu apaixonado parasse com as perseguições,
poderia o marido parar com as injustiças, e que ela se daria por muito
feliz curando-se de um amor que nada mais alimentava. Nessa intenção,
aventurou-se a escrever a Ribaldos a seguinte carta:
Se tendes virtude, deixai de tornar-me infeliz: vós me amais, e o vosso
amor me expõe às suspeitas e às violências de um
senhor que eu me impus para o resto da vida. Quem dera que fosse esse o único
risco em que eu incorro! Por piedade, deixai de perseguir-me; conjuro-vos
a isso por este mesmo amor que constitui vossa desgraça e a minha,
e que jamais vos poderá fazer feliz.

Não previra a pobre Cosi-Sancta que uma carta tão terna, embora
tão virtuosa, causasse um efeito inteiramente contrário ao que
esperava. Só serviu para inflamar mais do que nunca o coração
de seu enamorado, que resolveu expor a vida para avistar-se com ela..

Capito, que era assaz tolo para querer ser informado de tudo e que tinha
bons espiões, foi avisado de que Ribaldos se disfarçara em carmelita
pedinte para ir implorar caridade à sua mulher. Julgou-se perdido:
imaginou que um hábito de carmelita era muito mais perigoso que qualquer
outro para a honra de um marido. Contratou alguns homens para darem uma sova
no irmão Ribaldos, no que foi muito bem servido. O jovem, ao entrar
na casa, foi recebido pelos tais senhores: por mais que bradasse que era um
honrado carmelita e que não era assim que se tratavam pobres religiosos,
recebeu valente sova, vindo a morrer dali a quinze dias de um golpe que recebera
na cabeça. Choraram-no todas as mulheres da cidade. Cosi-Sancta ficou
inconsolável. O próprio Capito aborreceu-se muito, mas por outro
motivo: é que se metera numa terrível situação.

Ribaldos era parente do procônsul Acindino. Quis esse romano dar um
castigo exemplar àquele assassínio, e, como outrora tivera algumas
questões com o presidia de Hispano, não se incomodou em achar
tal pretexto para enforcar um conselheiro; e ainda mais se agradou de que
a sorte coubesse a Capito, que era na verdade o mais vaidoso e insuportável
togado da região.

Cosi-Sancta vira pois assassinarem o seu apaixonado, e estava prestes a
ver enforcarem o marido; e tudo isso por ter sido virtuosa. Porque, como já
disse, se houvesse concedido seus favores a Ribaldos, o marido teria sido
muito menos enganado.

Eis como se cumprira a metade da predição do cura. Cosi-Sancta
lembrou-se então do oráculo, e muito se arreceou de cumprir
o resto. Mas, tendo refletido que não se pode vencer o destino, entregou-se
à Providência, que a levou ao fim pelos mais honestos caminhos
do mundo.

O procônsul Asinino era um homem mais debochado que voluptuoso, que
muito pouco se divertia nas preliminares, um sujeito brutal, sem cerimônias,
verdadeiro herói de guarnição, muito temido na província,
e com quem todas as mulheres de Hispano haviam tido um caso, unicamente para
evitar complicações.

Mandou chamar a senhora Cosi-Sancta. Ela chegou banhada em lágrimas,
o que não deixava de lhe aumentar os encantos.

— Vosso marido, Senhora, vai ser enforcado, e só de vós
depende a sua salvação.

— Eu daria a minha vida pela sua – respondeu-lhe a dama.

— Ha! mas não é isso que se vos pede – replicou
o procônsul.

— Que é preciso então fazer? – indagou ela.

— Desejo apenas unia de vossas noites – tornou o procônsul.

— Elas não me pertencem – disse Cosi-Sancta. –
São um bem de meu marido. Darei meu sangue para salvá-lo, mas
não posso dar a minha honra.

— Mas se vosso marido consentir? – perguntou o procônsul.

— Ele é o proprietário – respondeu a dama –
e cada qual tem o direito de dispor dos seus bens como lhe aprouver. Mas conheço
meu marido, não abrirá mão de nada; é um sujeitinho
cabeçudo, que preferirá deixar-se enforcar a permitir que me
toquem com um dedo.

— É o que veremos – disse o juiz, encolerizado.

Imediatamente manda chamar o criminoso; propõe-lhe ou a forca ou
um par de ornamentos: não havia outra alternativa. O homenzinho começou
com coisas. Mas afinal fez o que qualquer outro teria feito no seu lugar.
Sua esposa, por pura caridade, salvou-lhe a vida. E foi essa a primeira das
três vezes.

No mesmo dia o seu filho caiu doente de uma enfermidade assaz extraordinária
e que nenhum médico de Hipona conhecia. Só havia um que estava
a par dos segredos dessa doença, mas que morava em Áquila, a
algumas léguas de Hipona. Era então proibido que um médico
estabelecido numa cidade saísse desta para ir exercer em outra a sua
profissão. Cosi-Sancta viu-se obrigada a ir procurá-lo pessoalmente
em Áquila, com um irmão que tinha e a quem estimava muito. No
caminho foi detida por salteadores. O chefe dos referidos cavalheiros achou-a
muito bonita. E, como o irmão de Cosi-Sancta estava prestes a ser morto,
aproximou-se e disse-lhe que, se ela tivesse um pouco de complacência,
não lhe matariam o irmão e que isso afinal não lhe custaria
nada. A coisa era urgente. Cosi-Sancta acabava de salvar a vida do marido,
a quem não amava; ia perder um irmão a quem estimava muito;
por outro lado, alarmava-a o perigo de seu filho; não havia um minuto
a perder. Ela encomendou-se a Deus, e fez tudo o que quiseram. E foi essa
a segunda das três vezes.

No mesmo dia chegou em Áquila e foi ter com o médico. Era
um desses médicos da moda que as mulheres mandam chamar quando têm
vapores ou quando não têm absolutamente nada. Era confidente
de umas e amante de outras; homem polido, condescendente, um pouco estremecido
aliás com a Faculdade, contra a qual fizera a propósito uns
bem aplicados gracejos.

Cosi-Sancta lhe expôs a doença do filho e ofereceu-lhe um sestércio
grande. (E notai que um desses sestércios corresponde, em moeda de
França, a mais de mil escudos.)
— Não é. com essa moeda que eu pretendo ser pago, Senhora
– respondeu o galante médico. – Eu próprio vos ofereceria
todos os meus haveres, se quisésseis cobrar as curas que podeis fazer:
curai-me apenas do mal que me causais, e eu devolverei a saúde a vosso
filho. –
A proposta pareceu extravagante à dama, mas o destino a acostumara
às coisas mais estranhas. O médico era um teimoso que não
queria outro preço pelo seu remédio. Cosi-Sancta não
tinha o marido à mão, para o consultar. Mas como deixar morrer
um filho a quem adorava, por falta daquele pequeno auxílio que ela
lhe poderia dar?! Era tão boa mãe quanto boa irmã. Comprou
o remédio pelo preço que lhe pediram. E foi essa a última
das três vezes.

Voltou a Hipona com o irmão, que não cessava de agradecer-lhe,
durante o caminho, a coragem com que lhe salvara a vida.

Assim Cosi-Sancta, por ter sido, demasiado virtuosa, fez morrer o seu amado
e condenar o marido à morte, e, por ter sido complacente, conservou
os dias do irmão, do filho e do marido. Acharam que uma mulher como
essa era muito necessária em uma família, canonizaram-na após
a morte, por ter feito tanto bem a seus parentes, mortificando-se, e gravaram-lhe
no túmulo: UM PEQUENO MAL POR UM GRANDE BEM.

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