Breaking News
Home / Obras Literárias / Sonata a Kreutzer

Sonata a Kreutzer

PUBLICIDADE

Clique nos links abaixo para navegar no capítulo desejado:

Leon Tolstoi

I

Estávamos no princípio da Primavera. Havia dois longos dias,
e uma não menos longa noite que viajávamos de comboio.

Em todas as estações, passageiros entravam ou saíam
do nosso compartimento. Por fim ficaram só três viajantes: uma
senhora de meia-idade, feições envelhecidas e feia, de cigarro
na boca, gorro na cabeça, e um casacão de corte masculino; um
amigo alegre que aparentava quarenta anos, com bagagens novas e elegantes;
e, afastado de todos, um homem baixo, de movimentos nervosos; não era
velho e os cabelos embranquecidos antes de tempo, ainda se conservavam ondulados.
Tinha uns olhos brilhantes e de extrema mobilidade. Vestia um casaco coçado,
com gola de cordeiro e com a marca de um bom alfaiate; na cabeça, gorro
alto da mesma pele. Sob o casaco, quando o desabotoava, via-se colete comprido
e blusa russa bordada.

Tinha ainda outra particularidade. De vez em quando, soltava sons estranhos
que se assemelhavam a um soluço ou a um riso abafado.

Durante toda a viagem não dirigiu a palavra a qualquer dos passageiros.
Lia, fumava, ou olhava pela janela; bebia chá, comia pão com
manteiga que tirava de um saco velho de couro.

Se lhe dirigiam a palavra, as respostas eram breves e secas e o seu olhar
ia perder-se na paisagem fugidia. Notei, contudo, que a solidão lhe
pesava. Tentei, por várias vezes, falar-lhe.

Parecia adivinhar o meu pensamento, e quando os nossos olhares se encontravam
— o que era frequente, pois ocupávamos lugares fronteiros —
desviava o olhar e enfronhava-se na leitura. Ao cair da noite o comboio parou
numa estação importante. O senhor de cabelos brancos desceu
para ir buscar água a ferver e fazer chá novo.

O homem das malas novas e elegantes — um advogado — desceu com
a sua companheira para ir ao bufete tomar uma chávena de chá.

Novos passageiros subiram, um velho alto com a barba feita de fresco e a
fronte sulcada de rugas, um negociante sem dúvida — envolto numa
pelica de lontra, a cabeça coberta por um boné de grande pala.
Sentou-se no lugar em frente da companheira do advogado e entabulou imediatamente
conversa com um rapaz novo, tipo de caixeiro-viajante, que entrara na mesma
carruagem e na mesma estação.

Eu estava perto deles e com o comboio parado pude ouvir alguns

 

trechos da conversa… Falaram da viagem, do comércio, de uma pessoa
que ambos conheciam e, por último, de Nijni-Novgorod.

O caixeiro quis contar o casamento de um negociante conhecido de ambos, mas
o velho interrompeu-o para descrever as pândegas em que outrora tomara
parte em Kounavino. Evocava essas recordações com certo desvanecimento,
persuadido de que essas histórias em nada prejudicavam nem o seu brio
nem a sua dignidade. Orgulhoso dessas façanhas contava, como um dia,
em Kounavino, estando embriagado, se entregara a tal orgia, que só
ao ouvido podia ser contada. O caixeiro, ao ouvir a confidência, riu
desabaladamente e, o velho, ria também, mostrando dois dentes amarelados.

A conversa não tinha interesse para mim. Desci para desentorpecer
as pernas enquanto não dava o sinal da partida.

Na gare encontrei o advogado e a sua companheira, conversando animadamente.

— Não se demore — disse ele —, o comboio vai partir.
Efectivamente, mal eu atingira a cauda do comboio, deram o segundo sinal.

Quando subi para a carruagem, o advogado e a sua cliente prosseguiam a conversa
animadíssimos. O velho negociante sentado em frente deles não
dizia uma palavra, olhando-os com ar severo e desdenhoso. Quando eu passava,
o advogado dizia, sorrindo:

— Ela então declarou ao marido que não podia, nem queria,
continuar a viver com ele, tendo-se dado o caso…

Não ouvi o resto. Passava o revisor e entravam mais passageiros. Restabelecido
o silêncio, ouvi novamente a voz do advogado, e pareceu-me que a conversa
se desviara, de um caso particular, para considerações gerais.

O advogado observava que, a questão do divórcio interessava
hoje toda a Europa e que na Rússia, os casos eram cada vez mais frequentes.
Sorriu ao notar que era o único a falar e, voltando-se para o comerciante,
perguntou-lhe:

— Era questão que não existia nos bons tempos de outrora,
não é verdade?

O comboio pôs-se em movimento. Sem responder, o velho descobriu-se,
persignou-se, murmurou uma oração em voz baixa, enterrou o boné
até às orelhas e disse:

— Existia… mas menos. Hoje não pode ser de outro modo. As
pessoas instruem-se de mais.

 

O advogado replicou. Mas o barulho do comboio, que aumentava de velocidade,
impediu-me de perceber. Aproximei-me cheio de curiosidade para ouvir a resposta
do velho. A conversa parecia interessar também o meu vizinho —
o senhor de olhos brilhantes — que prestava toda a atenção,
embora não abandonasse o seu lugar.

— Que culpa tem a instrução? — perguntou a senhora,
esboçando um sorriso. — Era melhor o casamento quando os noivos
mal se conheciam? — continuou ela, respondendo: — hábito
frequente entre as mulheres — não aos argumentos apresentados
mas àqueles que podiam ter sido.

— Amavam-se? Poder-se-iam amar? Não o sabiam. A mulher desposava
o primeiro que aparecia e habilitava-se, assim, a uma vida de tormento. Isto
era preferível? — concluiu, dirigindo-se, mais ao advogado e
a mim, do que ao velho com quem principiara a discussão.

— Nos nossos dias há demasiada instrução —
repetiu o velho, respondendo à pergunta e olhando desdenhosamente.

— Gostava de ouvi-lo explicar a ligação entre a instrução
e as desavenças conjugais — disse o advogado, disfarçando
um sorriso.

O comerciante ia responder, mas a senhora interrompeu-o:

— Esse tempo acabou.

— Permita que este senhor exponha as suas ideias — disse o advogado.

— Todas as tolices vêm da instrução — disse
o velho em tom categórico.

— Como podem entender-se pessoas que se não amam? — apressou-se
a perguntar a senhora, olhando para o advogado, depois para mim e para o caixeiro
que, de pé, encostado ao banco, seguia, sorridente, a discussão.

— Só os animais se podem acasalar, segundo a vontade do dono;
os homens têm as suas inclinações, as suas simpatias —
disse ela com a intenção de ferir o negociante.

— É um erro, minha senhora — disse o velho. — O
animal é um animal; ao homem foi dada uma lei.

— Mas como pode o homem viver sem amor? — replicou a senhora,
convencida que emitia ideias originais.

— Modernismos — teimou o velho. — Outrora não se
pensava em tal.

 

Hoje, à mais leve questão, a mulher moderna declara ao homem
que o deixa; e até as camponesas atiram com as camisas e as peúgas
ao marido para se lançarem nos braços de outro homem, por ter
o cabelo mais frisado… De que servem palavras? O dever da mulher é
respeitar o marido, o único sentimento que a mulher deve sentir é
o temor.

O caixeiro olhou para o advogado, para a senhora e para mim, reprimindo um
sorriso, pronto a ridicularizar ou a aplaudir as palavras do comerciante,
segundo a nossa atitude.

— Mas que temor? — perguntou a senhora.

— Eu explico… «As mulheres estejam sujeitas a seus maridos».

— Meu caro senhor, esse tempo já Ia vai…

— Não tanto como parece, minha senhora. Eva, a primeira mulher,
nasceu de uma costela do homem e assim permanecerá até ao fim
do mundo.

Disse isto, sacudindo a cabeça, num gesto tão triunfante e
tão severo que o caixeiro lhe concedeu os louros da vitória,
fazendo ouvir uma sonora gargalhada.

— Eis a maneira de os homens julgarem — disse a mulher, não
querendo dar-se por vencida. — Querem a liberdade para si e a escravidão
para a mulher. Aos homens tudo é permitido, não é assim?…

— O homem é outro caso…

— É essa a sua opinião?…

— Ao homem tudo é permitido?…

— Ninguém diz tal. O mau comportamento do homem não atinge
a família. A mulher é frágil como o vidro — continuou
ele. O calor das suas palavras convenceu os que o ouviam; mas a senhora não
se deu por vencida e continuou: — No entanto a mulher é pessoa
humana, tem sentimentos como o homem. Que há-de fazer, se não
amar o marido?

— Não amar o marido?… — gritou o velho. — Aprenderá
a amá-lo. Não receie…

Esta conclusão imprevista encantou o caixeiro que teve um murmúrio
de aprovação.

— Engana-se. Nunca aprenderá. O amor não se impõe.

— E se a mulher enganar o marido? — perguntou o advogado.

— É questão que se não pode pôr —
disse o velho. — Esteja-se atento.

 

— Mas se, apesar de tudo, o facto se der? São coisas que podem
acontecer…

— Noutros meios isso pode acontecer; no nosso não — disse
o velho. Todos se calaram. O caixeiro parecia agitado; aproximou-se mais e
não querendo deixar de tomar parte na conversa disse com o seu eterno
sorriso:

— Um dos meus amigos foi vítima de um escândalo bem triste.
A mulher, leviana, começou a fazer das suas. O marido era instruído
e sério. O primeiro amante da mulher foi o caixeiro-viajante O marido
tentou levá-la ao bom caminho, admoestando-a brandamente. Ela não
fez caso e desceu o máximo; começou a roubar-lhe dinheiro. Ele
bateu-lhe. A situação agravou-se. Entregou-se a um judeu e depois
a outros… Que podia ele fazer? Expulsou-a de casa, de uma vez para sempre.

Ela agora corre mundo e ele vive solteiro.

— Era um imbecil — disse o velho. — Se ele tem sabido domá-la
desde o princípio ainda hoje a teria em casa. É preciso ter
sempre as rédeas altas, em casa, à mulher, na estrada ao cavalo.

Neste momento entrou o revisor para controlar os bilhetes, antes da próxima
estação. O velho entregou o seu e continuou:

— Pode crer, as mulheres devem ser refreadas a tempo, de contrário
está tudo perdido.

— Isso não impede que se divirta com as raparigas bonitas de
Kounavino — disse o advogado, com um sorriso irónico.

— O senhor afasta-se da questão — replicou friamente o
comerciante e manteve-se num silêncio absoluto.

Daí a pouco ouviu-se um apito agudo. O comboio parava. O velho ergueu-se,
embrulhou-se na pelica, levou a mão ao boné e desceu.

II

Apenas o velho saiu, travou-se animada conversa.

— Um homem do Velho Testamento — disse o caixeiro.

 

— Um verdadeiro Demostoroi — disse a senhora. — Que ideias
atrasadas sobre o casamento!…

— Estamos ainda longe de ter sobre o casamento as ideias do resto da
Europa — disse o advogado

— Não é possível fazer compreender a esta gente
— interrompeu a senhora — que só o amor consagra o casamento
e, que, só o casamento consagrado pelo amor é realmente legítimo.

O caixeiro sorria atento, desejando reter na memória, quanto possível,
estas inteligentes opiniões, para as emitir em ocasião oportuna.

No meio da tirada da senhora, atrás de mim, ouviu-se um som semelhante
a uma gargalhada ou a um soluço. Quando me voltei vi o meu vizinho,
o senhor solitário de cabelos brancos e de olhar brilhante que, aparentemente
interessado, se tinha aproximado, durante a discussão, sem que déssemos
por isso.

Estava de pé, apoiando as mãos no estofo do banco, visivelmente
comovido, a face congestionada e estremecendo-lhe um dos músculos.

— Que amor é esse que consagra o casamento? — perguntou.

— Que amor?… — repetiu a senhora. — O amor conjugal que
santifica o casamento. O verdadeiro amor. Se esse amor existe entre o homem
e a mulher o casamento é possível.

— Está bem. Mas o que entende por verdadeiro amor? — disse
timidamente o senhor de olhar brilhante, com um sorriso contrafeito

— Todo o mundo o sabe! — disse a senhora, declarada-mente desejosa
de interromper a conversa.

— Pois eu desconheço tal amor — disse o senhor —
e gostava que me explicasse o que entende por verdadeiro amor.

— Como?… É uma coisa bem simples — disse a senhora.
E reflectindo um instante acrescentou: — O amor é a predilecção
exclusiva de um homem ou de uma mulher pelo indivíduo de sexo diferente.

— Por quanto tempo essa predilecção? Por um mês?
Por dois dias? Por meia hora? — perguntou o senhor de cabelos brancos,
desatando a rir.

— Quer dizer — interveio o advogado, designando a senhora —
que o casamento deve ter origem numa afeição, no amor, se você
quiser, e, que, se realmente o amor existe, e somente nesse caso, o casamento
tem alguma coisa de sagrado. Compreendi o seu pensamento, minha senhora?

 

A senhora aprovou com a cabeça este esclarecimento.

— Depois disto… — retomou o advogado, seguindo o curso do seu
raciocínio. Mas o primeiro senhor, que tinha agora os olhos brilhantes
e se continha com manifesta dificuldade, sem deixar o advogado acabar, começou:

— Eu falo precisamente dessa predilecção de um homem
por uma mulher ou de uma mulher por um homem entre todos ou todas. Mas pergunto
simplesmente: Predilecção por quanto tempo?

— Por quanto tempo? Por muito… por toda a vida… — disse à
senhora, sacudindo os ombros.

— Nos romances, talvez. Na vida real, nunca. É muito raro essa
preferência durar anos. Na maioria dos casos, dura meses, semanas, dias,
ou mesmo horas.

Ele sabia que estas opiniões, evidentemente, espantavam todos e sentia-se
satisfeito.

— Não, não é verdade — disseram todos. O
próprio caixeiro-viajante teve um gesto de aprovação.

— Eu sei… Os senhores falam do que deveria ser. Eu falo do que realmente
é. Todo o homem sente o que os senhores chamam amor, por qualquer mulher
bonita.

— É horrível o que o senhor diz. O amor existe, e dura,
não só meses, não só anos, mas toda a vida.

— Não. Não é verdade. Mesmo admitindo que um homem
prefira uma mulher toda a vida, essa mulher preferirá outro. Foi sempre
assim e assim continuará a ser.

Pegou na cigarreira, tirou um cigarro e acendeu-o.

— Mas a reciprocidade existe — disse o advogado.

— Não. É tão impossível como encontrarem-se
num vagão cheio de grãos, dois grãos previamente marcados.
Amar um homem, ou amar uma mulher toda a vida é teimar que uma vela
acesa pode arder eternamente — concluiu ele, aspirando avidamente o
fumo do cigarro.

— Mas o senhor refere-se somente ao amor carnal. Não admite
o amor nascido da comunhão de um mesmo ideal, de afinidades espirituais?
— disse a senhora.

— Afinidades espirituais?… Comunhão de ideal? — repetiu
ele,

 

emitindo o gemido que lhe era peculiar. — Ter o mesmo ideal não
é razão para ter o mesmo leito.

— Os factores provam o contrário — disse o advogado. —
O casamento existe, não só entre nós, mas na maioria
dos povos, e, muitos casais vivem durante muito tempo unidos e felizes.

O senhor de cabelos brancos riu novamente.

— Perdão. O senhor afirmou que o amor é a base do casamento.
Eu emito a dúvida da existência de outro amor, que não
seja o amor sensual e o senhor dá-me como prova que o casamento existe.
Mas esse casamento no nosso tempo não é senão uma impostura.

— Perdão!… — disse o advogado. — Eu disse que
houve e há ainda casamentos.

— De acordo. Mas porquê? Porque há ainda pessoas que consideram
o casamento como um acto sacramental, um laço perante Deus. Para aqueles
que assim pensam, o casamento existe realmente. Mas só para esses.

«Entre nós os homens casam sem considerar o casamento outra
coisa que não sejam benefícios materiais ou de ordem sexual;
e a ligação tende então ou para a fraude ou para o constrangimento.
Quando é fraude é fácil de suportar…

«Então o marido e a mulher procuram fazer acreditar aos outros
que vivem em monogamia quando, de facto, vivem na poligamia ou poliandria.
É repugnante. Mas quando isto acontece, e dá-se muitas vezes,
tomam como obrigação exterior viverem juntos toda a vida, quando
desde o segundo mês se odeiam, nesse tremendo inferno que leva muitos
ao suicídio, à embriaguez, a fazer desaparecer, e envenenar
o companheiro ou a companheira — isto disse o senhor de cabelos brancos
apressadamente, sem dar tempo a que ninguém abrisse a boca e entusiasmando-se
cada vez mais.

Todos se calaram. Ninguém estava à vontade.

— De facto há momentos de crise na vida conjugal — disse
o advogado para interromper uma conversa mais acalorada do que conveniente.

— Você reconheceu-me, pelo que vejo — disse o senhor de
cabelos brancos com uma voz delicada e apaziguadora. — Não. Não
tenho esse prazer.

— Não deve ser grande o prazer. Eu sou Pozdnychev, que atravessou
na sua vida conjugal um desses momentos de crise a que você fez referência;

 

momento tão crítico que matei a minha mulher — disse
ele, fitando rapidamente cada um de nós.

Ninguém encontrou palavras para responder; todos se calaram.

— E o mesmo — disse ele, produzindo aquele som mistura de soluço
e de gargalhada. — Perdoem-me, não quero incomodá-los!

— De maneira nenhuma. Esteja a sua vontade!… — disse o advogado
sem saber ao certo porque dizia aquele «à vontade».

Mas Pozdnychev virou-se bruscamente e foi de novo sentar-se no seu lugar.
O senhor e a senhora começaram a cochichar. Eu estava sentado, ao lado
de Pozdnychev e conservava-me calado, sem saber o que havia de dizer.

Havia já pouca luz. Fechei os olhos, fingindo que queria dormir. Chegámos
assim à estação seguinte.

Durante a paragem o senhor e a senhora passaram para uma outra carruagem;
tinham previamente combinado a mudança com o revisor. O caixeiro instalou-se
comodamente e deixou-se dormir…

Quanto a Pozdnychev, não parava de fumar e beber chá, que havia
preparado na estação anterior. Quando abri os olhos e olhei
para ele, voltou-se subitamente para mim e com um ar ao mesmo tempo resoluto
e exasperado perguntou-me:

— Certamente lhe é muito desagradável ficar sentado ao
pé de mim, sabendo quem eu sou. Se você quiser, vou-me embora.

— Não se vá embora, pelo amor de Deus!

— Quer então tomar uma chávena de chá? Está
muito forte. Serviu-me o chá.

— Eles dizem… Não fazem outra coisa senão mentir —
disse ele.

— De que é que está a falar? — perguntei-lhe.

— Sempre da mesma coisa, desse amor de que eles falam e do que ele
é na realidade. Tem sono?

— Nenhum.

— Então, se me dá licença, vou contar-lhe como
por esse amor eu fui arrastado ao crime.

— Se lhe não custa contar-me a história…

— O que custa é calar-me. Sirva-se de chá. Está
talvez muito forte…

 

Estava realmente muito forte. Parecia tinta de escrever; no entanto, tomei
um copo.

Neste momento entrou de novo o revisor. O meu companheiro seguiu-o com um
olhar sombrio e só começou a história quando o outro
desapareceu.

III

— Contar-lhe-ei a minha história, se, realmente, a você
lhe interessa. Repeti-lhe que a desejava ouvir.

Calou-se por momentos. Passou a mão pela cara e começou:

— Antes de me casar eu fazia a vida que fazem todos os rapazes do nosso
meio. Era proprietário. Estudava na Universidade. Meu pai era da alta
nobreza. Como todos os homens do nosso meio vivia amoralmente, convencido
de que vivia como deve viver um homem do nosso meio. Pensava, de mim para
mim, que era um rapaz encantador e de uma excelente moralidade. Não
era um sedutor, e não tinha hábitos contra a natureza; nem tinha
como fim último da minha existência os prazeres da carne —
o que acontecia com a maior parte dos rapazes da minha idade.

Procedia com medida e decência, sempre preocupado com a saúde.
Evitei relações que pudessem ter consequências sérias,
filhos ou grandes afeições. Talvez tivesse havido filhos e mesmo
ligações com raparigas desinteressadas e sérias, nunca
me interessou sabê-lo; era como se nada tivesse acontecido. E não
só achava esse procedimento moral, mas até me sentia orgulhoso
dele.

Parou e emitiu aquele som particular que fazia todas as vezes que lhe vinha
uma ideia nova.

— É uma das piores infâmias — gritou ele. —
O desregramento nunca é físico; nenhuma desordem física
é desregramento. O desregramento, o verdadeiro desregramento consiste,
precisamente, no facto de nos libertarmos de todas as ligações
morais com a mulher com que houve comércio físico. Até
então considerava uma alta virtude essa libertação. Lembro-me
do terror que senti no dia em que não paguei a uma mulher, verdadeiramente
apaixonada por mim e que se me entregou. Só me

 

tranquilizei quando lhe pude enviar o dinheiro, porque só assim me
sentia moralmente desligado dela.

«Não abane a cabeça, como se você fosse da minha
opinião — gritou ele, olhando para mim. — Conheço
a cantiga. Vós todos, e você também, se não é
uma excepção rara, vêem as coisas como eu as via. Perdoe-me,
mas o facto é horrível, horrível, horrível!…

— Mas o que é horrível? — perguntei-lhe.

— Este abismo de delírio em que vivemos com as mulheres. Eu
não posso falar calmamente; não é pelo que se deu, como
disse o outro, mas porque desde que se deu o caso, os meus olhos se abriram
e eu vejo com uma luz diferente. Tudo está ao contrário; tudo
está ao contrário…

Acendeu um cigarro e com os cotovelos apoiados nos joelhos continuou a falar.

No escuro eu não podia ver-lhe a cara. Ouvia somente a sua voz agradável
e convincente misturada ao rodar do comboio.

IV

— Foi só depois do suplício que suportei e, só
graças a ele é que compreendi onde estava a raiz do mal. Compreendi
o que devia ser e, por conseguinte, vi todo o horror do que era. Dir-lhe-ei
como começou o que me havia de levar ao momento crítico da minha
vida conjugal.

«Eu tinha dezasseis anos e frequentava o liceu; meu irmão mais
velho já era aluno do primeiro ano. Eu não era puro. Tinha sido
pervertido pêlos meus colegas, como acontece a todos os rapazes da nossa
sociedade.

«Sofria, como sofrem noventa e nove por cento dos nossos rapazes. Andava
aterrado; rezava, mas sucumbia. Tinha já o pensamento corrompido mas
ainda não transpusera o último passo.

«Foi então que um camarada de meu irmão — bom rapaz
—, por ser o pior dos biltres (foi ele que nos ensinou a beber e a jogar)
nos persuadiu, depois de nos ter embebedado, a irmos a uma casa de tolerância.
Meu irmão conspurcou-se nessa mesma noite. Imitei-o, indiferente; nunca
tinha ouvido dizer a ninguém mais velho e respeitável serem
infamantes actos, aqueles a que eu assistira. E ninguém talvez ainda
hoje seja capaz de o dizer.

 

«E verdade que há os mandamentos. Mas você sabe como os
mandamentos só servem para responder ao pároco no dia dos exames
e é assunto considerado, na ordem dos conhecimentos, inferior ao emprego
do ut nas conjunções condicionais. Nunca ouvi a nenhuma das
pessoas que respeitava, dizer serem actos condenáveis, e, pelo contrário,
ouvi a pessoas que eu respeitava, dizer que não podia ser de outro
modo.

«Afirmaram-me que, depois, da iniciação os meus sofrimentos
se aplacariam. Ouvi defender muitas vezes essa teoria. Lia-a muitas vezes
e, os meus colegas, com a sua experiência, asseguravam-mo.

«Os mais velhos diziam que era conveniente para a saúde; e consideravam-nos,
até, uma demonstração de virilidade.

«De modo que estes actos tinham muitas atenuantes.

«Perigos de contágio? De modo nenhum. O governo, cheio de solicitude,
prevê e vigia o bom funcionamento das casas de tolerância e protege
a depravação da juventude. Os próprios médicos
acham bem, e afirmam que o desregramento moral é proveitoso para a
saúde e, eles próprios, metodizam este desregramento legalizado.

«Há mães que, solícitas, cuidam desta parte da
saúde dos filhos.

«E a ciência mesmo manda-os para as casas de tolerância.»

— A ciência? — perguntei eu.

— Quem são os médicos? Sacerdotes da ciência.

«Quem perverte os jovens, afirmando que é necessário
para a saúde? Os médicos.

«E logo a seguir curam as doenças consequentes das suas receitas.
E tudo isto com uma espantosa seriedade.

— Por que se não hão-de tratar essas doenças?

— Porque a centésima parte do esforço para acabar com
as doenças venéreas devia ser empregada no combate ao desregramento
moral e, só então, elas desapareceriam totalmente.

«Mas o problema não consiste só nisto.

«O problema reside no facto que me aconteceu a mim, como acontece em
nove de dez rapazes, não somente do nosso meio, mas mesmo entre os
camponeses, o de se sucumbir ao encanto natural de uma qualquer mulher.

«Sucumbi porque o meio que me rodeava — ao que de facto é
uma

 

queda — consideravam uns uma função legítima,
necessária à saúde, outros uma distracção,
a mais natural para um rapaz, a mais perdoável, mesmo a mais inocente.

«Não compreendi então que era uma queda; e comecei a
entregar-me ao que era meio prazer, meio necessidade. Entreguei-me a este
desregramento como comecei a beber e a fumar.

«Houve entretanto na primeira queda qualquer coisa de particular e
de tocante. Lembro-me que depois de se ter consumado o acto me senti profundamente
triste. Arrasaram-se-me os olhos de lágrimas, ao pensar na profanação
da minha inocência, na eterna profanação das minhas relações
normais com a mulher. Não era o mesmo homem. Degradara-me. Considerava-me
como o fumador de ópio ou como um bêbedo. O fumador de ópio
e o bêbedo não são criaturas normais; e o mesmo acontece
ao homem que tem ligações com várias mulheres.

«Este homem poderá lutar contra as suas paixões, será
em vão. Nunca mais poderá ter relações fraternais,
puras, com qualquer rapariga.

«Até pela maneira de olhar se conhece o homem devasso.»

V

— Quando evoco as torpezas que até então cometi, sinto-me
horrorizado! E pasmo da troça que faziam de mim, dos meus escrúpulos,
os meus companheiros.

«Que juventude!… Oficiais, estudantes universitários, elegantes
parisienses!… Quando penso no ar digno — com trinta anos de devassidão
e a consciência carregada de milhentos crimes contra as mulheres —
que tomamos ao entrar numa sala de baile, muito correctos, bem barbeados e
perfumados, as camisas alvas de neve (emblema da pureza), de casaca ou de
uniforme! Que ridículo!

«Meditemos um instante no que é, e no que devia ser.

«Quando um desses desgraçados carregados de vícios se
aproxima das nossas filhas ou de alguma das nossas irmãs, nós
— que sabemos a vida que levam — devíamo-nos aproximar
e dizer-lhes ao ouvido:

— «Meu caro amigo, conheço-te, sei como passas as noites
e com

 

quem. O teu lugar não é aqui. Aqui só há raparigas
puras. Sai!»

«Eis o que devia ser. Eis o que é. Quando um senhor desta categoria
faz a sua aparição numa sala e dança, apertando nos braços
uma irmã ou uma filha, rejubilamos, se ele é rico e está
bem aparentado.

«Conheço algumas raparigas da primeira sociedade que os pais
casaram com verdadeiros estropiados físicos e morais… Que coisa abominável!

«Tempo virá em que todas estas abominações sejam
desmascaradas.»

E de novo fez ouvir o som que lhe era peculiar quando lhe ocorriam pensamentos
torpes. Voltou a tomar chá. O chá estava horrivelmente forte
e não havia água. Sentia-me agitadíssimo. Certamente
o chá produzia os mesmos efeitos sobre o nosso homem. A sua agitação
ia num crescendo terrível. Mudava a cada instante de atitude; tão
depressa tirava o boné, como o enterrava até às orelhas;
a sua fisionomia alterava-se estranhamente na penumbra que nos envolvia. A
voz tornava-se cada vez mais cantante e expressiva.

— Assim vivi até aos trinta anos, sem contudo perder a ideia
de me casar com uma rapariga pura e realizar uma vida conjugal perfeitamente
sã e nobre. Nessa ideia comecei a deitar as minhas vistas para rapariga
que me conviesse. E embora continuasse a minha vida desregrada, atrevia-me
a procurar raparigas dignas de mim. Houve muitas raparigas que eu pus de lado
por não as achar perfeitamente puras para presidirem aos destinos do
meu lar.

«Por fim encontrei a filha de um proprietário da província
de Penza que outrora fora muito rico e estava arruinado.

«Fomos dar um passeio de barco. Era uma noite de luar. Sentei-me a
seu lado onde podia admirar a beleza dos seus cabelos caprichosamente ondulados,
e as formas harmoniosas modeladas pelo jersey. Naquele momento decidi escolhê-la
para companheira do meu lar.

«Pareceu-me naquela noite que ela compreendia tudo o que eu sentia
e pensava. Os meus pensamentos eram nesse momento os mais elevados e puros.
Contudo, nada de extraordinário se passara; somente o seu jersey lhe
moldava particularmente as formas e os cabelos emolduravam-lhe graciosamente
o rosto, tornando-a encantadora. Desde esse momento desejei uma aproximação
mais íntima.

«É estranha a ilusão de que a beleza é o único
bem total!

 

«Se uma mulher bonita diz coisas estúpidas, escutamo-la e, longe
de a acharmos estúpida, consideramo-la um espírito brilhante.
Ela não faz nem diz senão disparates, mas nós achamo-la
encantadora. E, quando não diz nem faz senão parvoíces,
desde que seja bonita, persuadimo-nos de que ela é estupendamente inteligente
e de uma estranha moralidade.

«Voltei para casa convencido de que encontrara a perfeição.
Profundamente emocionado, decidi que seria esta, a minha mulher.

«No dia seguinte pedia-a em casamento.

«Que confusão!… Em milhares de homens que se casam, no nosso
meio e infelizmente entre o povo, encontrar-se-á, talvez, um que seja
puro, que não tenha sido um outro D. Juan, antes do casamento.

«Há hoje rapazes, segundo creio, e pelo que ouço dizer
e eu próprio tenho observado, para quem o casamento não é
uma brincadeira, mas grande obra. Deus os ajude!… No meu tempo, haveria
um em dez mil. Todos o sabem, mas fingem ignorá-lo.

«Nos romances descrevem-se com todos os pormenores os sentimentos dos
heróis, as suas façanhas, os seus devotamentos às grandes
causas, mas nunca se faz referência às acções infamantes
cometidas por eles.

«Ao pintarem o amor dos heróis por suas damas, nem de longe
se referem às humildes criaturas que serviram de divertimento a essas
extraordinárias personagens.

«Os romances que abordam esses assuntos são interditos às
raparigas a quem mais interessava dar a conhecer.

«Procura esconder-se das raparigas o cancro social que ocupa metade
da vida dos rapazes; depois habituamo-nos de tal modo a uma vida de dissimulação
que chegamos, como os Ingleses, a convencermo-nos de que somos todos gente
muito de bem e vivemos num mundo moral.

«As raparigas acreditam em tudo isto. A minha desgraçada mulher,
como de resto a maior parte das raparigas, acreditava na pureza do sentimento.

«Quando ainda era noivo mostrei-lhe o diário onde ela podia
descobrir uma parte da minha vida e, sobretudo, ter conhecimento da minha
última ligação, e de que entendi dever falar-lhe para
que o não viesse a saber por outros. Lembro-me do seu horror, do seu
desespero ao compreender do que se tratava. Tenho a certeza de que, nesse
momento, ela teve a intenção de cortar comigo. Por que o não
teria feito?…»

 

Repetiu o soluço estrangulado. Calou-se. Bebeu mais um gole de chá.

VI

— Talvez não… Talvez fosse melhor assim. Recebi o castigo
merecido. Mas não é disso que se trata.

«Afirmo que na maioria dos casos, as raparigas são vilmente
enganadas. As mães nada ignoram. Fingem acreditar na pureza das intenções
dos homens, mas procedem como quem não tem ilusões. Conhecem
o anzol com que hão-de engodar os rapazes. Os homens, esses, não
vêem, porque não querem ver. As mulheres sabem perfeitamente
que o amor, mesmo o mais elevado, o mais, poético — como nós
dizemos — depende mais dos dotes físicos do que dos méritos.
Perturba mais uma cabeça bem penteada, um vestido de bom corte, modelando
bem as formas do que uma frase reveladora de excelsas qualidades morais.

«Pergunte a uma mulher experimentada qual é preferível,
passar por mentirosa ou aparecer mal arranjada ao homem que pretende cativar.
Ela preferirá a primeira alternativa.

«Sabem perfeitamente que mentimos quando falamos de sentimentos puros.
Sabem que só fisicamente as pretendemos. E perdoamos mais facilmente
uma vilania do que o ridículo de um vestido de mau gosto.

«As mulheres experimentadas procedem conscientes; as rapariguinhas
inocentes fazem-no inconscientemente.

«As mulheres casadas sabem que, por mais atraente que seja a conversa
de uma mulher, o que interessa ao homem, quando se aproxima, é tudo
o que lhe desperte os sentidos. E por isso, procuram, principalmente, o que
possa torná-las mais provocadoras. Não sei quando estes costumes
entraram na sociedade, mas parece-me que toda esta sociedade é uma
imensa casa de tolerância. Que diz você?… Permita que lho demonstre.
Diz que as senhoras da nossa sociedade têm interesses diferentes das
mulheres toleradas, eu afirmo o contrário e provo-o.

«Se as pessoas diferem pêlos seus fins, pelo conteúdo
interno da sua vida, essa diversidade reflectir-se-á inevitavelmente
no exterior, e esse exterior será diferente.

 

«Comparemos agora essas desgraçadas infelizes de todo o mundo
com algumas outras mulheres: as roupas interiores, os gestos, o modo de andar,
os braços nus, as espáduas desnudadas, a nudez do peito, o jeito
de bambolear o corpo, a paixão das jóias e dos objectos brilhantes,
os divertimentos, as danças, a música e as canções,
tudo é igual. Umas e outras procuram seduzir. Só há uma
diferença, umas são as senhoras bem, outras, as banidas da sociedade.»

VII

— Assim caí na ratoeira dos jersey, dos penteados e enfeites
postiços. Era, aliás, fácil de conseguir, porque fui
educado nas condições em que se criam e formam os jovens amorosos,
como pepinos em viveiros.

«Com efeito, a alimentação excitante e abundante, sem
nenhum exercício, são estimulantes sistemáticos do desejo
físico. Embora isto lhe cause admiração é assim
mesmo. Eu próprio, até há pouco, não via nada
disto, mas agora vejo. O que me tortura é que ninguém nota estas
anormalidades. E a maior parte diz baboseiras, como há pouco aquela
senhora.

«Na Primavera, quando os camponeses trabalhavam perto da minha casa
num aterro do caminho-de-ferro, assisti à refeição habitual
de um camponês, que é constituída por pão, kuass
e alhos; o camponês é vivo, são e realiza o seu trabalho
do campo, com facilidade.

«Quando vem para o trabalho no caminho-de-ferro distribuem-lhe todos
os dias gruau e uma libra de carne; aumentam-lhe a ração e tornam-lha
mais forte; e ele con-some-a, trabalhando dezasseis horas por dia, puxando
uma carrinha. É o que é preciso.

«Nós, que absorvemos, cada um, duas libras de carne de veado
ou javali e todas as espécies de petiscos picantes e bebidas alcoólicas;
onde desgastamos esses alimentos? Em excessos sexuais. Se abrimos a válvula
de segurança, tudo vai bem, mas se a fechamos, como eu a fechei várias
vezes, produz-se a tal excitação doentia, que, sob a influência
da música e dos romances, acaba por apresentar todos os sintomas do
amor.

«Apaixonei-me como toda a gente. Conheci as deliciosas emoções,
os poéticos enternecimentos, os enlevos que lembram êxtases.

 

«E, afinal, esta paixão era obra da mãe e da modista,
das refeições suculentas e da falta de exercício físico.

«Se não fossem os passeios de barco, os vestidos que modelam
as formas e realçam a elegância, nunca me teria apaixonado! Nunca
teria caído no laço!»

VIII

— Desta vez o plano teve êxito. O passeio de barco, um vestido
elegante e o meu estado de espírito deram resultado. Vinte vezes o
plano falhara. Não estou a brincar. Desta vez a ratoeira fora bem armada.

«Hoje prepara-se um casamento como quem prepara uma esparrela.

«É natural que, quando a rapariga chega à idade de casar,
seja preciso casá-la, e é fácil, quando não é
um monstro e há homens que se encontram na mesma situação.

«Assim se procedia outrora; quando chegava esse momento, os pais casavam
as filhas. É isto o que se passava e se continua a passar em toda a
humanidade; é o que se passa entre os chineses, os hindus, os maometanos
e entre o nosso povo em todo o género humano, numa proporção
de noventa e nove por cento.

«Mas a centésima parte, os devassos, não considerámos
bem e que era necessário encontrar alguma coisa de novo. E qual foi
essa coisa nova?… — Nas salas, nos salões, nos passeios públicos
as raparigas sentam-se e os homens passeiam de diante para trás e de
trás para diante, fazendo a sua escolha.

«As raparigas esperam e pensam sem ousar dizer: — A mim, meu
querido!… Não repares nas outras… Repara em mim… Repara como
são belas as minhas espáduas e bem lançado o meu colo…

«Os homens continuam a passar, tornam a passar, despem-nas com os olhos
e sentem-se satisfeitos e vão passando e dizendo, às vezes:
— A mim não me apanham vocês.

«Sentimo-nos vaidosos por a feira se fazer por nossa causa, mas, sem
darmos conta, lá vamos cair na ratoeira que habilidosamente nos foi
preparada.»

 

— Mas como proceder de outro modo?… Deverá ser a mulher a
pedir o homem em casamento?

— Verdadeiramente, não sei o que lhes hei-de responder. Mas,
se se fala em direitos da mulher, que haja realmente igualdade. Achavam o
pedido de casamento humilhante, mas o que se passa é muito pior. A
mulher correria os mesmos riscos que o homem. Assim, ou é escrava no
mercado, ou isco no anzol.

«Experimente dizer às mães, ou às filhas que estão
preparando a rede onde há-de cair o noivo… Meu Deus! Que grave ofensa!…

«Contudo não procedem de outro modo. É horrível
saber as raparigas absorvidas sempre por este pensamento. E, se ao menos,
as coisas se passassem de uma forma clara e séria!… Mas há
qualquer coisa de bruxaria…

«Diz a mãe: Que interessante é o estudo da origem das
espécies… — Lisa é uma apaixonada da pintura!… Você
vai à exposição? É muito interessante e instrutiva…
— A minha Lisa adora a música… Você costuma ir aos concertos….
Têm estado estupendos!… Você não calcula!… Vocês
deviam entender-se…

«E é sempre o mesmo pansamento: casa com a minha Lisa…»

— Que abjecção! Que mentira! — concluiu ele. E
como tinha acabado de tomar o último gole de chá começou
a arrumar as chávenas e tudo de que se servira.

IX

— Você acredite — continuou ele, metendo o chá e
o açúcar no saco de couro. — O domínio da mulher
que nós sentimos, vem afinal somente de um interesse físico.

— Mas que domínio? — perguntei eu. — Todos os direitos
e privilégios estão na posse do homem.

— Justamente — interrompeu ele. — É um facto curioso.
Por um lado é perfeitamente justo dizermos que a mulher está
numa situação humilhante, por outro que ela é dominadora.

«As mulheres têm a mesma situação que os judeus,
que se vingam da opressão em que vivem pelo poder do dinheiro.

 

«— Vocês querem que não passemos de comerciantes?
Pois bem.

Como comerciantes nós vos dominaremos — dizem os judeus.

«— Vocês só nos consideram como objecto de sensualidade?
Pois bem, será pela sensualidade que vos dominaremos.

«A ausência de direitos na mulher não está no facto
de ela não poder votar ou de não ser juiz (ocuparmo-nos dos
nossos interesses não é um direito); está no facto de
ela poder ter o direito de escolher e não ser escolhida. Você
diz que não é conveniente. Mas então que o homem seja
privado dessas regalias. Por agora a mulher está privada desse direito
e, como compensação, ela actua sobre a sensualidade do homem,
submete-o pêlos sentidos de tal forma que, na realidade, quem escolhe
é a mulher. Quando a mulher possui a arte de seduzir, abusa dela e
adquire um terrível ascendente.

— Mas como me prova esse poder temível da mulher? Como se manifesta?
— perguntei-lhe eu.

— Manifesta-se em tudo e por toda a parte. Visite os grandes armazéns
de qualquer cidade, não importa qual. Verá objectos avaliados
em milhões, trabalho gigantesco, quase incalculável, só
para a mulher.

«Quantos vendem artigos para homens? Dez em cem.

«Todo o luxo da existência é exigido e mantido pela mulher.
A maior parte das fábricas produz, na sua grande maioria, ornamentos
fúteis…

«Milhões de homens, gerações de escravos, morrem
no decorrer desses trabalhos forçados unicamente pelo capricho das
mulheres. Elas são como imperatrizes, e têm na escravatura de
um trabalho extenuante, nove décimos da humanidade. E tudo isto porque
as mulheres vivem em situação humilhante; porque lhe recusamos
direitos iguais aos homens. Vingam-se, actuando sobre os nossos sentidos.
E todo o problema gira à volta deste tema.

«Desde que um homem se aproxima de uma mulher, deixa-se influenciar
pêlos seus sortilégios e torna-se louco.

«Outrora sentia-me sempre mal quando via uma mulher metida no seu vestido
de baile. Agora isso inspira-me terror. Vejo, nitidamente, qualquer coisa
de perigoso, qualquer coisa de ilegal e tenho vontade de chamar a polícia,
de exigir que a levem como um objecto terrível.

«Você ri-se — exclamou ele, olhando para mim. — Não
é coisa para rir. Estou convencido de que virá depressa o tempo,
mais depressa do que nós supomos e em que todos compreenderão
e se espantarão que tenha podido existir uma sociedade em que se tolerem
actos tão contrários à

 

tranquilidade pública e à felicidade das famílias, como
é a maneira de expor o corpo das mulheres, tão provocantemente.

«Por toda a parte surgem mulheres hediondamente vestidas, nas praças,
nos passeios públicos, nos caminhos, nos bailes, nos concertos e até
nas próprias famílias. Verdadeiras emboscadas aos nossos sentidos.

«Por que se proíbem os jogos de azar e se consente que, publicamente,
apareçam mulheres seminuas, o que é mil vezes mais imoral?

«Estranho critério!…»

X

— E assim fui apanhado. E assim fiquei enamorado. Não só
considerava a minha noiva a mulher mais perfeita, mas eu próprio me
considerei, durante o noivado, o mais perfeito dos homens.

«Não há ninguém tão mau que não
encontre outro pior. E este pensamento é um manancial de prazer e de
orgulho. Era este o meu caso.

«Não casava por dinheiro, como sucedia à maior parte
dos meus amigos. Eu era rico, ela era pobre. E outra coisa me envaidecia.
Os outros casavam, mas com a intenção de continuarem a viver
na poligamia, como antes do casamento. Eu estava absolutamente resolvido a
manter-me em monogamia, depois de casado. Era um miserável mas julgava-me
um anjo.

«O período de noivado durou pouco. Não posso lembrar
esta época sem corar de vergonha.

«Que ignomínia!

«Se o amor é espiritual, só por palavras deve exprimir-se.
Mas não é. Quando estávamos juntos era-nos difícil
sustentar uma conversa. O assunto esgotara-se. Nada tínhamos para dizer.
Tudo, sobre a nossa vida futura, estava dito. Se fôssemos animais sabíamos,
de antemão, que não era assunto de conversa. Connosco o caso
era diferente. Éramos obrigados a falar e não tínhamos
nada para dizer. O assunto que nos interessava não se resolvia com
palavras. E havia ainda o terrível costume de oferecer bombons, comer
gulodices e tratar dos abjectos preparativos para o novo lar: escolha da casa,
do quarto de cama, do leito nupcial e de todas as pequenas coisas da futura
vida doméstica.

 

«Se nos casássemos, segundo os preceitos de Demostoroi, como
queria o velho senhor do comboio, os edredons e o enxoval do leito eram pormenores
que faziam parte do sacramento. Mas para nós, em que dez pessoas que
contraem casamento só uma crê no sacramento, ou pelo menos pensa
que é um dever; quando em cem homens há apenas um, que não
tenha faltado à castidade e que não esteja na disposição
de atraiçoar a mulher legítima; para nós em que a maior
parte considera o ir à igreja uma mera formalidade para ter a posse
de uma mulher, em particular, que significação podem ter os
preparativos pré-nupciais?

«É uma espécie de mercado. Vende-se uma filha a um devasso
mas a venda faz-se sob as mais puras e poéticas aparências.»

XI

— Casei-me como qualquer pessoa e começou a tão desejada
lua-de-mel. Como é reles esta expressão! — disse entredentes.
— Um dia em Paris fui assistir a todos os espectáculos e entrei,
também, levado por um excitante anúncio, a ver uma mulher com
barbas e um cão aquático; a mulher era um homem com um vestido
decotado e o cão estava metido na pele de uma foca e nadava numa banheira,
cheia de água; à primeira vista isto nada tem de comum com a
lua-de-mel e nada tem de interessante. Quando saí, porém, o
homem que fazia a arenga acompanhou-me amavelmente e dirigindo-se ao público,
mesmo à entrada disse, apontando para mim:

«— Perguntem a este senhor se não vale a pena ver tão
estupendo espectáculo! Entrai! Entrai! É um escudo por pessoa!»

« Não ousei desmenti-lo, claro, e o charlatão tinha a
certeza disso. É isto o que provavelmente acontece aos que experimentaram
a abominação da lua-de-mel e não têm coragem para
desfazer as ilusões dos outros e as suas próprias ilusões.

«Mas eu não desenganei ninguém. Hoje, no entanto, não
vejo razão para que não os desengane. Julgo mesmo que é
necessário dizer toda a verdade sobre o assunto. A lua-de-mel, como
se pratica, é uma coisa terrível, abjecta, insuportável
de tédio e cansaço. É, mais ou memos, o que acontece
quando se principia a fumar; vontade de vomitar, náuseas, e vai-se
engolindo a saliva para fingir que se tem um grande prazer. O cigarro, como
o

 

casamento, só provoca prazer depois do hábito, quer dizer,
depois da adaptação dos casados.

«É necessário que os esposos saibam regular o vício
para que desses actos lhe venham compensações.»

— Regular o vício?… — perguntei eu. — Que vício?
Você esquece-se de que é uma das manifestações
mais naturais da espécie humana.

— Natural? — exclamou ele. — Natural? Não, pelo
contrário. Cheguei à conclusão de que não é
um acto natural. Não é, de nenhum modo, natural. Tive uma irmã
que se casou muito nova com um homem dez vezes mais velho do que ela, um devasso.
Lembro-me do nosso espanto quando na noite do casamento fugiu de casa e, toda
a tremer, nos disse que por nada no mundo… por nada do mundo… nos podia
dizer o que ele pretendia dela.

«Você diz que é uma coisa natural!… Natural é
comer. Comer é uma coisa agradável, fácil e alegre; não
inspira vergonha nem mesmo no princípio. Mas isto é uma coisa
abjecta, vergonhosa e dolorosa. Não. Não é uma coisa
natural. E uma rapariga pura, estou convencido, odiará sempre esse
acto.»

— Mas, diga-me… Como se reproduziria o género humano?

— Sim. É verdade. Conquanto que o género humano não
acabe! — disse ele com uma cruel ironia e como se esperasse esta réplica
habitual e de má-fé.

«Pregar que se devem evitar os filhos para que os lordes ingleses possam
comer mais à vontade… é possível.

«Pregar que se abstenham de ter filhos para que a vida seja mais fácil
e se possa gozá-la melhor… é possível.

«Mas insinuar que se devem evitar os filhos a bem da moral…

«Meu Deus, que calamidade! Mas irá o género humano desaparecer
porque uma dúzia ou vinte homens desejam não viver como porcos?

«Dá-me licença?… A luz incomoda-me, posso apagada?»,
perguntou ele, apontando para a lâmpada.

— É-me indiferente…

Precipitadamente, como tudo o que fazia, subiu ao banco e apagou a lâmpada.

— De qualquer maneira — disse eu. — Se dessa teoria se
fizesse uma lei, o género humano desapareceria. Ele não respondeu
imediatamente.

 

— Você quer saber como se perpetuaria o género humano?
— disse ele, instalando-se de novo na minha frente, e abriu as pernas,
apoiando os cotovelos sobre os joelhos. — Para quê perpetuar o
género humano? Para quê?

— Para quê?… Sem isso deixaríamos de existir.

— E para quê existir?

— Para quê?! Para vivermos…

— Mas viver para quê? Se não se tem um fim na vida, se
a vida nos foi dada por si mesma não há razão para vivermos.
Se isto é assim os Schopenhauer, ou os Hartman e todos os budistas
têm razão. Se há um fim, desde que é atingido,
a vida deve cessar. É esta a conclusão a que chegamos»,
disse ele com manifesta emoção (dava muita importância
ao seu pensamento).

«Se o fim da vida é o bem, o amor, como você o entende;
se o fim da humanidade é o que dizem as profecias, que todos os homens
se unirão pelo amor, e que hão-de forjar-se foices com os ferros
das lanças; o que se opõe à realização
desse fim? As paixões.

«E de todas as paixões, a mais forte, a mais pérfida,
a mais obstinada é a paixão da carne. Por consequência,
se suprimirem as paixões, e principalmente a maior de todas, realizar-se-á
a profecia; os homens unir-se-ão, o fim da humanidade será atingido
e, portanto, não haverá razão para existirmos. Mas enquanto
dura a humanidade ela tem de realizar o seu ideal que não é
de maneira nenhuma o ideal dos coelhos nem dos porcos que é o de se
reproduzirem o mais depressa possível, nem o dos macacos ou dos parisienses
que é tirarem o máximo rendimento dos prazeres sexuais. Mas
sim o ideal do bem que se atinge pela continência e pela pureza. É
para aí que tendem os homens e sempre tenderão.

«Veja o que daqui resulta. Resulta que o amor carnal é uma válvula
de segurança. Se a geração dos homens actualmente viva
não atinge esse fim é unicamente porque tem paixões e
a mais forte de todas, a paixão dos sentidos. Virá então
uma geração que talvez cumpra a lei, mas se essa não
atingir o fim para que foi criada outra virá até que se realize
a profecia, a união de todos os homens. O amor sensual é o sinal
do desprezo pela lei. Enquanto esse amor existir ir-se-ão formando
gerações umas após outras até que a lei se cumpra.

«A espécie mais elevada dos animais, a espécie humana,
devia, para se manter na luta contra os outros animais, assemelhar-se em tudo
a um

 

enxame de abelhas; não se multiplicar até ao infinito. Devia,
como as abelhas, criar assexuados, isto é, caminhar para a continência
e não para o sensualismo para o qual está organizada a vida
moderna.»

Calou-se por momentos.

— O género humano deve desaparecer? De qualquer maneira que
encaremos o problema não se pode duvidar. É certo como a morte.
Segundo a doutrina da Igreja o mundo terá um fim; segundo os ensinamentos
da ciência esse fim é indubitável. Que admira pois que
o ensino da moral nos conduza à mesma conclusão?

Esteve calado durante muito tempo, depois bebeu mais um gole de chá,
acabou o cigarro, tirou outros do saco e meteu-os na sua velha cigarreira.

— Compreendo o seu pensamento, os Shakers sustentam uma tese, mais
ou menos parecida.

— Sim. Eles têm razão. A paixão sexual, qualquer
que seja o cenário que a envolva é um mal horrível que
é preciso combater e não encorajar como se procede entre nós.

«Quando o Evangelho diz que um homem que olha para uma mulher com cobiça
já cometeu com ela adultério no seu coração —
tem em vista não só as mulheres dos outros mas expressamente,
e sobretudo, a sua própria mulher.»

XII

— Na nossa sociedade é exactamente o contrário; se um
homem pensa quando é solteiro que deve ser continente, ao casar entende
que tem de deixar de o ser.

«As viagens depois da cerimónia nupcial, o isolamento em que
se colocam os recém-casados, com a autorização dos pais,
não são outra coisa que a permissão de se entregarem
ao prazer.

«Apesar de todos os meus esforços eu não consegui organizar
a minha lua-de-mel.

«Esta época da minha vida foi horrorosamente aborrecida e ignominiosa.
E muito depressa se tornou intolerável. Começou cedo. No terceiro
ou quarto dia pareceu-me que a minha mulher estava triste e,

 

pensando que ela precisava de carinhos, perguntei-lhe o que tinha e tentei
beijá-la; repeliu-me e desatou a chorar. Porquê?… ela não
o sabia dizer. Estava triste e mal disposta. Sem dúvida os nervos gastos
deixaram-na compreender a verdade sobre a infâmia das nossas relações.
Mas ela não o sabia explicar. Como eu continuasse a interrogá-la,
confessou-me que sentia muito a falta da mãe. Tive a impressão
de que não era verdade. Sem lhe falar na mãe, comecei a chamá-la
à razão.

«Eu compreendera que ela atravessava um momento difícil e a
razão que me dera era um pretexto.

«Ofendeu-se por lhe não ter falado na mãe e por não
a ter acreditado. Confessou-me que percebia, claramente, que eu já
não a amava. Censurei-a por ser caprichosa. Então a sua fisionomia
alterou-se completamente. Em vez de tristeza exprimia irritação
e, em frases mordazes, censurou o meu egoísmo e a minha crueldade.
Fitei-a. Não parecia a mesma. A expressão era de hostilidade,
quase ódio. Lembro-me que senti pavor ao fazer esta descoberta.

— Como pode isto ser — pensei eu. — O amor é a
união das almas.

«Tentei acalmá-la, mas embati num muro tão intransponível
de hostilidade e frio amargor que, antes de ter tempo de me vencer, tomou-me
uma funda irritação e vomitámos um sobre o outro uma
avalanche de palavras desagradáveis.

«A impressão do primeiro desentendimento foi atroz. Chamo a
isto desentendimento, mas não foi desentendimento foi a revelação
do abismo que, na realidade, nos separava. Era a consequência do amortecimento
das nossas relações mais íntimas. Eu não compreendi
logo, porque esta hostilidade nos primeiros tempos desvanecia-se com um novo
sobressalto dos nossos sentidos.

«Julguei a princípio que estas cenas não recomeçariam.
Porém, passada a lua-de-mel houve um novo período de saciedade.
Deixámos de precisar um do outro e deu-se uma nova discussão.

«Esta segunda disputa feriu-me mais do que a primeira, porque surgiu
sob um pretexto inverosímil; por causa de uma economia de dinheiro
que eu era incapaz de fazer para mim e muito menos para a minha mulher.

«Lembro-me dela ter conseguido virar completamente o sentido de uma
expressão que eu empregara e servir-se dela como argumento para provar
que eu a queria subjugar pela força do meu dinheiro… Foi insuportável,
estúpida, reles, indigna dela e de mim.

«Irritei-me. Reprovei-lhe a sua falta de delicadeza. Ela censurou-me

 

asperamente e tudo recomeçou. Nas palavras pronunciadas e na expressão
da sua fisionomia e no seu olhar percebi, de novo, essa mesma hostilidade
dos primeiros dias que tanto me ferira.

«Discuti muitas vezes com meu irmão, com os meus amigos, com
meu pai, mas, nunca entre nós se manifestou o ressentimento pessoal
e venenoso que notei na minha mulher. Mais uma vez ainda este ódio
recíproco se atenuou com um novo sobressalto dos sentidos e eu cheguei
a ter esperança de que estas discussões eram reparáveis.
Mas outros desentendimentos surgiram por tudo e por nada e eu compreendi que
não era o acaso, e, era este, para sempre, o inferno que me esperava.

«Além disso estava convencido de que só a mim isto acontecia,
ser eu o único a suportar esta dolorosa vida com a minha própria
mulher e em todos os outros lares as coisas se passavam de modo diferente.

«Nessa época eu ignorava que é esta a sorte comum da
maior parte das famílias, mas todos, como eu, se julgam casos únicos
e guardam para si esta desgraçada vergonha. Esta situação
começou nos primeiros dias e continuou sempre e, cada vez, com maior
intensidade.

«No fundo da minha alma eu compreendi depois das primeiras semanas
ter caído na ratoeira: nada do que se passava era o que eu esperava
e o casamento não só não dava felicidade mas era qualquer
coisa de amargurante. Como toda a gente eu recusava-me a confessá-lo
(eu não o confessaria ainda hoje, se não se tivesse dado o trágico
desenlace) e guardei dos outros, e até de mim, esta verdade.

«Admiro-me agora de não ter visto, de princípio, a minha
verdadeira situação. E eu podia tê-la visto desde essa
época, porque as nossas discussões começavam por tais
ninharias que quando acabavam era impossível saber por que tinham principiado.
Mas se os motivos das discussões eram inverosímeis muito mais
inverosímeis eram os motivos da reconciliação. Algumas
vezes eram só palavras, explicações e mesmo lágrimas
de parte a parte, mas algumas vezes… repugna-me lembrá-lo. As insinuações
mais cruéis transformavam-se, de súbito, sem uma palavra, em
sorrisos, beijos e profundos enternecimentos.

«Que abominação!… Por que não compreendi então
toda a abjecção do nosso procedimento?»

 

XIII

Entraram dois novos viajantes e instalaram-se num lugar afastado. Ele calou-se,
enquanto eles se instalaram, mas logo que cessou o burburinho continuou, dando
a impressão de que não perdera o fio do pensamento:

— … O que é imundo é que, em teoria, se considere o
amor como uma coisa ideal, nobre, quando afinal a prática do amor é
qualquer coisa de sórdido que nos avilta e nos põe a par dos
porcos, coisa abominável e vergonhosa de se falar em frente de quem
quer que seja! Mas os homens querem tornar admirável e superior o que
não é senão sórdido e reles.

«Quais foram os primeiros sinais do meu amor?… Entregar-me a uma
exuberância animal. E não só não tinha vergonha
mas blasonava desta minha possibilidade de transportes físicos, sem
pensar na vida espiritual nem mesmo na vida física.

«Muitas vezes procurei a razão da nossa profunda animosidade
um contra o outro, e contudo era bem compreensível e claro: esta animosidade
não era outra coisa do que o protesto da natureza humana contra a animalidade
que a abafava. Confrangia-me a nossa aversão; mas não podia
ser de outro modo. Esta aversão não era outra coisa do que o
ódio recíproco dos cúmplices de um crime… por instigação
e por participação. Era um verdadeiro crime.

«Minha mulher concebeu desde o primeiro mês e, apesar disso,
a nossa vida em comum continuou, como verdadeiros animais.

«Julga que me estou a afastar do assunto? De maneira nenhuma. Continuo
a contar-lhe como matei a minha mulher.

«No tribunal perguntaram-me com que havia morto minha mulher. Cambada
de imbecis!… Estavam convencidos de que a havia morto no dia cinco de Outubro,
com uma faca. Não foi nesse dia que a matei; foi muito antes. Como
eles matam continuamente…»

— Mas, não percebo… Como matam?…

— Eis o que é espantoso; ninguém quer saber o que é
evidente e claro, o que devem saber e difundir os médicos e é
horrorosamente simples.

«O homem e a mulher foram criados como os animais de tal modo que,
depois do amor carnal começa a gestação, depois o aleitamento,
estados em que o amor carnal é nocivo à criança e à
mulher.

«Não é necessário uma grande ciência para
se concluir que, como afinal concluem os animais, no período de gestação
e aleitamento deve haver continência. Mas não. A ciência
já chegou a descobrir não sei que leucócitos que correm
no sangue e outras inépcias que não servem para nada mas não
pôde ou não quis descobrir isto. Pelo menos nunca ouvi dizer
que tenha sido abordado tal assunto. De modo que para a mulher só há
duas saídas: a primeira fazer de si própria um monstro, destruir
ou tentar destruir em si, segundo as necessidades, a faculdade de ser mulher,
isto é, mãe, a fim de que o homem possa, tranquilamente e de
uma maneira constante, satisfazer-se; a segunda modalidade, que não
é um expediente mas a violação directa, simples e grosseira
das leis da natureza e se pratica em todas as famílias consideradas
honestas. A mulher, violentando a sua própria natureza deve ser ao
mesmo tempo grávida, ama e amante e deve ser rebaixada até onde
não são os animais.

«Esgotam-se-lhe as forças. E daí provêm os muitos
casos de histeria; de doenças de nervos e no povo… as possessas.
Note você que os casos das possessas não se encontram entre raparigas
puras, mas somente entre as mulheres casadas e entre as casadas as que coabitam
com os maridos.

«E assim entre nós e é assim na Europa. Os hospitais
estão cheios de mulheres histéricas porque infringiram as leis
da natureza.

«As possessas e as doentes de Charcot são verdadeiras doentes,
e o mundo está cheio de estropiadas.

«Se pensássemos na grande obra que se realiza na mulher quando
ela traz dentro de si um filho, ou quando o amamenta!…

«O que ela traz em si é a nossa continuação, quem
nos substituirá… e esta obra sagrada é comprometida… Porquê?

«É acabrunhante meditar nisto. Fala-se muito nos direitos da
mulher e, afinal, é como se os antropófagos engordassem os prisioneiros
para os comer, afirmando contudo que muito os interessa os direitos e liberdade
desses mesmos prisioneiros.»

Tudo isto era novo para mim e interessou-me:

— Mas nesse caso um homem só pode amar a mulher uma vez, de
dois em dois anos, e o homem…

— E o homem não pode sujeitar-se a tanto…

«Os ilustres sacerdotes da ciência assim o fazem crer a todo
o mundo. Gostaria de poder obrigar estes magos da ciência a substituir
as mulheres

 

nestas obrigações que, segundo eles, são indispensáveis
aos homens.

«Convença um homem de que é indispensável à
vida a vodca, o tabaco, o ópio e tudo isto se tornará indispensável.

«Deus porque não consultou esses adivinhos da ciência,
não compreendeu o que era necessário e falhou. Há portanto
qualquer coisa que não está certa.

«Se para o homem (os magos assim o determinam) é uma necessidade
satisfazer a sua concupiscência e se a procriação e o
aleitamento são um obstáculo à satisfação
dessa necessidade, que fazer então? Dirigirem-se aos magos e tudo se
arranja. Eles têm a solução para todos os problemas.

«Quando serão destronados estes adivinhos e as suas imposturices?…

É tempo!

«Veja ao que chegamos; uns enlouquecem, outros suicidam-se, e tudo
tem a mesma causa.

«Mas como proceder de outro modo?

«Os animais parecem compreender que a descendência assegura a
continuidade da espécie e observam a esse propósito a lei que
a regula. Só um animal a ignora e faz por ignorar. De quem se trata?
Do rei da natureza. Do homem!

«Note que os animais se acasalam quando pressentem que podem ter descendência,
e que ao imundo rei da natureza todo o tempo lhe serve, conquanto tire disso
proveito. E ainda mais, esta ocupação de macaco é exaltada
como a pérola da criação, o amor. Em nome deste amor,
ou melhor, desta abominação, assegura a perda de quem? De metade
do género humano! De todas as mulheres que deveriam ser suas colaboradoras
na evolução da humanidade para o bem e para a verdade, mas em
nome do prazer se fazem, não auxiliares, mas inimigas.

«Observe o que refreia o movimento de avanço da humanidade:
as mulheres. E porquê? Unicamente por isto. Sim. Sim», repetiu
ele várias vezes e pôs-se muito agitado. Procurou os cigarros,
acendeu um com o desejo evidente de se acalmar.

XIV

— Vivi assim, como um porco — continuou ele no mesmo tom que

 

dantes.

«E o pior era que levando esta vida infame, considerava-me —
porque não seduzia outras mulheres e levava uma existência conjugal
honesta — um homem irrepreensível. Não me sentia culpado
e atribuía as questões que surgiam, entre nós, ao mau
carácter da minha mulher.

«Mas não era ela a culpada. Ela era como a maior parte.

«Tinha sido educada como são quase todas as mulheres da nossa
sociedade. Há quem se queixe da forma como a mulher é educada.
Há quem deseje dar-lhe outra orientação. É fogo
de vista.

«A mulher recebe e receberá a educação dentro
do espírito em que a considerem. A educação da mulher
corresponderá sempre à maneira como o homem a julgue.

«Sabemos todos o que o homem pensa da mulher.

«Tanto na poesia, como na pintura ou na escultura, só se considera
a mulher como instrumento de prazer; começando pela poesia amorosa,
pelas Vénus e as Phrineas nuas todas elas e isto é assim em
Trouba, em Gratchevka e nos bailes da corte. Quando se fala de voluptuosidade
e de prazer pensa-se na mulher.

«No princípio, os cavaleiros divinizavam a mulher (divinizavam-na
mas, mesmo assim consideravam-na um instrumento de prazer).

«Hoje pretende dizer-se que se respeita a mulher. E assim uns cedem-lhe
os seus lugares e apanham-lhe o lenço; outros reconhecem-lhe o direito
de exercer todas as funções e de tomarem parte na administração.

«Fazem tudo isto, mas a opinião é sempre a mesma: o corpo
da mulher é um instrumento de prazer. E a mulher sabe-o. Esta atitude
não difere muito da escravatura. A escravatura é a exploração
por uns do trabalho forçado de um grande número. Para que não
haja escravatura é necessário que os homens não queiram
usufruir o trabalho forçado de outros e considerem isto como pecado
ou uma desonra. Enquanto isto se não der suprime-se a forma exterior
da escravatura, tomam-se disposições para impedir os mercados
de escravas e fica-se persuadido de que a escravatura foi abolida. Não
vêem, não querem ver que a escravatura continua a existir porque
se continua a amar da mesma maneira, e se julga bom e justo aproveitar o trabalho
forçado dos outros. E porque se julga bom este procedimento haverá
sempre mais fortes e mais manhosos para passarem do pensamento aos actos.
O mesmo se dá com a emancipação das mulheres. A

 

escravatura da mulher consiste só no facto de os homens a considerarem
como instrumento de prazer. Modernamente emancipam-na, concedem-lhe todos
os direitos do homem, mas como é imprescindível para a satisfação
das suas necessidades fisiológicas educam-na neste sentido desde a
infância. Assim ela é uma escrava, humilhada, pervertida, e o
homem um corrompido senhor de escravos.

«Emancipam a mulher nas universidades e nos parlamentos mas, de facto,
só a consideram escrava dos sentidos. Ensinai-a como entre nós
a considerá-la da mesma maneira e a mulher será sempre uma criatura
inferior.

E com a ajuda dos médicos ela impedirá a concepção,
e cruelmente diremos que não passa de uma prostituta, descerá
ao mais baixo nível, descerá abaixo dos animais e será
um objecto ou em muitos casos, uma doente moral, uma histérica, uma
infeliz, o que elas são na realidade sem possibilidades de se desenvolverem
espiritualmente.

«Os liceus e as universidades não têm possibilidades de
modificar este estado de coisas. Só a mudança radical da opinião
que os homens têm das mulheres e as mulheres não têm dos
homens pode modificar um tal estado de coisas. Isto acabará quando
a mulher se convencer de que o estado mais perfeito é o da virgindade.

«Enquanto o ideal de toda a rapariga, qualquer que seja a sua formação,
for o de atrair o maior número de homens para poder fazer a sua escolha,
nada mudará.

«Ou seja instruída nas matemáticas ou saiba executar
maravilhosamente trechos de harpa nada mudará…

«A mulher só é absolutamente feliz se obtém o
que pode desejar, isto é, conseguir embruxar um homem. Será
sempre assim… Isto passa-se na nossa sociedade, na vida das raparigas solteiras,
e depois, na vida de casadas, o fim é sempre o mesmo: dominar o homem.

«A única coisa que põe termo a esta situação
é o nascimento dos filhos.

E quando a mulher não é um monstro, a sua criação.

«É então que intervêm mais uma vez os sacerdotes
da ciência.

«Minha mulher, que quis, por todos os modos amamentar o primeiro filho
e alimentou todos os outros cinco teve durante a primeira gravidez umas pequenas
crises.

«Os médicos cinicamente obrigavam-na a despir-se, apalpavam-na
em todos os sentidos (e eu tive que lhes pagar por esse trabalho) e por fim

 

estes caros doutores decretaram que ela não devia criar o bebé
e assim ficou privada durante os primeiros tempos do único meio de
se subtrair à coqueteria.

«O nosso primeiro filho foi criado por ama e dizendo por forma mais
rude: “Aproveitámos a miséria, a indigência, e a
ignorância de uma pobre mulher tirámo-la ao filho e sob este
pretexto enfeitámos-lhe a cabeça com uma coifa de fitas.”
Mas não é disso que se trata.

«O problema é que desde que ela se libertou da gravidez e da
criação a coqueteria feminina que estava entorpecida despertou
com uma força particular. E ao mesmo tempo sobrevieram-me, paralelamente
e com a mesma força, os tormentos do ciúme.

«Dilaceraram-me sem tréguas durante todo o tempo que vivi com
minha mulher da mesma maneira que dilaceram todos os casais que vivem com
as suas mulheres como eu vivia, isto é, de uma maneira perfeitamente
imoral.»

XV

— Durante todo o tempo que vivi com a minha mulher nunca deixei de
experimentar os tormentos do ciúme. E houve mesmo períodos em
que sofri com profunda acuidade. Um desses períodos foi depois do nascimento
do primeiro filho quando os médicos proibiram que minha mulher o amamentasse.

«Sofri horrorosamente, primeiro porque minha mulher sentia uma inquietação
própria de todos os que sem razão perturbam a marcha regular
da existência; segundo porque vendo-a enjeitar a sua responsabilidade
de mãe conclui, inconscientemente, que lhe seria fácil fugir
às suas responsabilidades de mulher casada, tanto mais que ela estava
de perfeita saúde. Apesar da interdição dos médicos
ela criou ao peito todos os outros filhos.»

— Decididamente você não gosta dos médicos —
disse-lhe eu. Notara que sempre que falava dos médicos dava uma entoação
particularmente odiosa às palavras.

— Não é questão de gostar ou não gostar;
arruinaram-me a vida como arruinaram e continuam a arruinar a vida de milhares,
de centenas de milhar

 

de pessoas. Compreendo que eles desejem ganhar dinheiro, como os advogados
e outros profissionais.

«Conceder-lhes-ia metade dos meus rendimentos e todas as pessoas, se
compreendessem bem o que eles fazem, lhes cederiam, de bom grado, metade dos
seus rendimentos, só para que eles se não metessem na nossa
vida.

«Não juntei todas as minhas informações, mas conheço
dezenas de casos e há muitos mais em que, umas vezes mataram o filho
no ventre da mãe, outras vezes mataram a mãe sobre o pretexto
de não sei que operação. É impossível de
enumerar os crimes que cometeram. Mas todos estes crimes não são
nada comparados com a corrupção moral e com o materialismo que
eles têm introduzido no mundo, por intermédio das mulheres. Eu
não falo das prescrições que eles exigem (a respeito
por exemplo dos contágios) e fazem a desunião entre os homens;
segundo eles devíamos andar sempre com uma seringa de fenol na boca.
Mas isto não é nada. O principal veneno é a corrupção
dos seres, principalmente das mulheres. Hoje é quase impossível
dizer: “Vives mal, procura viver melhor.” Não se pode dizer
isto nem a si próprio nem a ninguém. Se se vive mal a causa
está no mau funcionamento dos nervos ou outra qualquer coisa do mesmo
género. Então vamos a correr ao médico e prescrevem-nos
trinta e cinco copeques de medicamentos e devoramo-los. Você piora,
corre a outros médicos, são precisas novas drogas, outros médicos!
Uma fantochada! Mas a questão não é essa.

«A minha mulher amamentou perfeitamente os filhos e só a gravidez
e a amamentação me salvaram da tortura dos ciúmes e sem
os filhos, o que aconteceu, ter-se-ia dado mais cedo… Os filhos salvaram-na
e salvaram-me. Em oito anos deu à luz cinco filhos. E foi ela quem
os amamentou.»

— Onde estão agora os seus filhos? — perguntei.

— Onde estão os meus filhos?— repetiu ele com um ar desvairado.

— Desculpe, talvez lhe custe responder-me.

— Não. É-me indiferente. Os irmãos de minha mulher
tomaram conta deles. Não mós entregaram. Deixei-lhes os meus
bens, mas eles não mós entregaram. Sabe, eu sou uma espécie
de louco. Venho agora de casa deles.

Vi-os. Mas não mós entregarão. Porque eu os educaria
de modo diferente, para que não fossem como os pais. Ora é preciso
que eles sejam como os pais. Que fazer? Compreendo que eles mós não
entreguem e que não tenham confiança em mim. Nem sei mesmo se
teria força para os educar. Penso que não. Eu sou uma ruína,
um estropiado. Não há senão uma coisa para mim.

 

Eu sei. Sim. É verdade. Eu sei o que os outros não saberão
tão cedo. Sim, os meus filhos estão vivos. E crescem como selvagens,
como todos em volta deles. Vi-os umas três vezes ao todo. Não
posso fazer nada por eles. Nada. Por agora vou para minha casa no Sul. Eu
tenho uma casita e um jardim pequeno.

«Não. Não é tão cedo que os outros saberão
o que eu sei. Dentro em breve saber-se-á que no Sol e nas estrelas
há muito ferro e outros metais… saber-se-á em breve… Mas
o que mascara a nossa vilania… é difícil, muito difícil…
horrivelmente difícil de saber.

«Você ao menos ouve-me e eu estou-lhe muito reconhecido.»

XVI

— Você falou-me dos filhos. A propósito dos filhos tem-se
espalhado lamentáveis mentiras. Os filhos são uma bênção
do céu. Os filhos são a alegria da casa.

«Outrora tudo isto era verdade, mas agora não existe nada de
semelhante. Os filhos são um tormento e, nada mais. A maior parte das
mães sentem-no e dizem-no francamente. Pergunte à maior parte
das senhoras da nossa sociedade, à classe das pessoas abastadas e elas
responder-lhe-ão de que o medo de que os filhos adoeçam ou morram
faz com que elas os evitem. Não os querem ter; e se os têm não
os querem amamentar para não se prenderem e não sofrer. O prazer
que lhes proporciona o filho pela graça do pequenino corpo, das mãozinhas,
dos pezitos, não compensa o sofrimento que tem com o pensamento que
o pequenino ser possa adoecer. E não falamos na doença de facto…
e da possível morte. Pesando os prós e os contras verifica-se
que não é vantajoso ter filhos e portanto não são
desejáveis. Elas dizem-no abertamente e orgulhosamente convencidas
de que estes sentimentos provêm do amor, de um sentimento nobre de que
se sentem ufanas. E não compreendem que com este raciocínio
negam o amor e não mostram senão egoísmo. Elas encontram
mais sofrimento do que prazer na graça do filho. Não querem
sacrificar-se por um ser amado, elas imolam a si próprias um ser que
devia ser amado. Não é amor é egoísmo.

«Quando penso ainda agora na vida e no estado da minha mulher nos primeiros
tempos quando tínhamos três e depois quatro filhos e ela estava

 

completamente absorvida por eles apodera-se de mim um verdadeiro terror.

Não era vida era um perigo perpétuo mal se aproximava a salvação;
surgia logo de seguida outro perigo, fazíamos esforços desesperados…
vivíamos em permanente alerta como num navio em perigo de naufrágio.

«Algumas vezes tive a impressão de que se servia da doença
dos filhos para me vencer. Ela resolvia assim os problemas em seu proveito,
e tudo o que fazia e dizia nessas ocasiões era premeditado.

«Os filhos eram uma constante tortura para ela e para mim. Não
podia estar sem se atormentar. A necessidade de alimentar os filhos, de os
adormecer, de os defender, existia nela como na maior parte das mulheres.

«Mas ela não era como os animais: tinha raciocínio e
imaginação.

«A galinha não receia o que pode acontecer aos pintos, porque
ignora as doenças que os podem matar, desconhece os meios pêlos
quais os homens estão convencidos de que se preservam da doença
e da morte. Ela faz pêlos pintos o que é natural e agradável
fazer; os pintos são para a mãe um motivo de alegria. Se um
pinto cai doente os seus cuidados estão determinados: aquece-os, alimenta-os.
Fazendo isto, ela sabe que faz tudo o que é necessário.

Se um pinto morre não lhe interessa saber qual a razão por
que morreu, solta alguns cacarejes e continua depois a sua vida de galinha.

«Mas para as nossas infelizes mulheres, e portanto para a minha, a
coisa é muito diferente. Sem mesmo falar das doenças e da maneira
de as tratar e de educar os filhos, ela procurava por todos os modos elementos
que a auxiliassem em tudo o que lhes dizia respeito. Nas conversas, nas leituras,
procurava regras de conduta que variam até ao infinito e mudam a todo
o momento.

«Devem alimentar-se sob certas regras, vestirem-se, e beberem, dormirem,
apanharem ar. Nós, mas muito principalmente ela, descobríamos
todos os dias novos preceitos. Como se fosse a primeira vez que nascessem
bebés. Fora dessas regras se as crianças não se alimentavam
como devia ser, se não se lhes dava banho com os preceitos requeridos:
e, por fim, se a criança ficava doente era ela que tinha a culpa, porque
não tinha feito o que era aconselhável. Isto em períodos
de perfeita saúde. E já era um suplício. Mas se algum
dos filhos caía doente era o fim do mundo. Um verdadeiro inferno. Admitimos
perfeitamente que se trate uma doença. Há para isso uma ciência
e homens que sabem, os médicos; nem todos, mas os melhores.

«Uma criança adoece, se conseguimos apanhar o médico,
a criança salva-se. Mas se não se encontra o médico ou
se não se vive no lugar em que

 

o médico vive a criança morre, com certeza.

«Não é uma característica só da minha mulher
é de todas as mulheres do seu meio e de todos os lados não se
ouve dizer senão: “Catarina Semenova perdeu dois filhos porque
não foi chamado a tempo, o doutor Zakharitch; Ivan Zakharitch salvou
a filha mais velha de Ivanovna… Em casa dos Petrov acautelaram-se a tempo.
A conselho do médico separaram todos os filhos, que doutro modo se
não salvariam. Um outro bebé fraquinho a conselho do médico
foi instalar-se no Sul e salvou-se…”

«Como não nos inquietarmos e não se perturbar toda a
vida familiar quando a vida das crianças — às quais se
está ligado de uma maneira animal — depende do que dirá
Ivan Zakharitch? E o que dirá Ivan, ninguém o sabe, como ele
próprio não sabe. Perfeitamente só sabe que não
sabe nada e nada pode fazer; anda às cegas. Mas é preciso que
todos estejam convencidos de que ele sabe qualquer coisa. Se ela fosse um
animal não se atormentaria, e se fosse, de facto, uma pessoa humana,
teria fé em Deus, diria e pensaria como as camponesas crentes: “Deus
mo deu, Deus mo tirou; estamos todas nas mãos de Deus.” Pensaria
que a vida e morte de todos os seres como o das crianças escapam ao
poder dos homens. Confiaria em Deus e não se atormentaria, julgando
que estava na sua mão poder conjurar a doença e a morte dos
filhos.

«Mas não. Sentia por eles um amor animal, apaixonado. Eram-lhe
confiados mas eram-lhe interditos os meios de os salvaguardar enquanto outras
pessoas os possuíam — estranhos cujos serviços e conselhos
só podíamos adquirir por muito alto preço, e nem sempre.

«A vida dos filhos foi para a minha mulher e, consequentemente, para
mim também, uma tortura. Como não nos atormentarmos? Ela atormentava-se
por tudo e por nada.

«Mal saíamos de uma cena de ciúmes ou de uma simples
questão e pensávamos poder viver, ler ou reflectir um pouco
e empreendíamos qualquer trabalho, sabia-se de repente que, Vassia
vomitava, que Macha perdia sangue, que André tinha uma erupção,
e era o fim. Não se podia fazer mais nada.

«A que médico devíamos recorrer? Como isolar as crianças?
E então começava a cena dos clisteres, das temperaturas, das
visitas médicas.

«Mal acabava uma logo começava outra. Não tínhamos
vida de família sólida nem regular.

«Era, como lhes digo, uma luta constante contra perigos reais e

 

imaginários.

«E aliás isto o que acontece assim, agora, na maior parte das
famílias.

«Mas na minha tinha uma acuidade particular. A minha mulher era especialmente
mãe e crédula. A existência de filhos em vez de nos facilitar
a vida envenenava-a. Os filhos eram para nós motivo de contínuos
dissabores. Desde o momento em que os filhos apareceram e depois cresceram
a maior parte das vezes só serviram, como pretexto, da nossa desunião.
Eles foram não só os elementos de desunião mas instrumento
de combate; batíamo-nos, de qualquer maneira, através dos filhos.
Cada um de nós tinha a sua preferência, o seu instrumento de
combate. E ainda não é tudo. Quando os filhos começaram
a crescer e se foram desenhando os seus caracteres tornaram-se aliados que
nós atraímos para o nosso campo. Sofriam horrorosamente, os
pobres pequenos, mas na nossa guerra perpétua não tínhamos
tempo para pensar neles. A rapariga pertencia ao meu partido; o mais velho
dos rapazes, que se parecia muito com a mãe e era o seu preferido,
tornou-se-me muitas vezes odioso.»

XVII

— E assim íamos vivendo. As nossas relações foram-se
tornando cada vez mais hostis. E chegámos à situação
de serem os nossos dissentimentos que criaram a animosidade e não a
animosidade que criava os dissentimentos. Eu estava sempre contra o que ela
defendia, e o mesmo se dava com ela.

«Ao quarto ano de casados desistimos de nos compreendermos, de tentar
explicar-nos e nem sequer nos podíamos ouvir.

«Nas coisas mais simples mas, principalmente em tudo o que se tratasse
dos filhos, mantínhamo-nos em atitudes irredutíveis. Na maioria
dos casos eu poderia ter cedido nas minhas opiniões; mas isso significava
dar-lhe razão e era o que eu de maneira nenhuma queria. Não
podíamos mais, nem ela nem eu. Cada um de nós entendia ter sempre
razão, e eu até me considerava um santo.

«Qualquer animal podia manter as conversas que nós tínhamos
quando estávamos sós — estou disso completamente convencido.

«Que horas são? Que temos hoje para o jantar? …. Onde iremos
passar

 

a noite?… Que dizem os jornais?… É preciso ir chamar o médico…
A Macha tem a garganta inflamada…

«Se os temas da conversação se afastassem um cabelo deste
colóquio, a discussão atingia o auge. Tivemos discussões
violentíssimas por causa do café, da toalha da mesa, da carruagem,
assuntos que, de resto, não tinham o mais pequeno interesse para nós.

«No fundo de mim borbulhava continuamente um ódio hediondo.
Odiava-a por tudo, porque levava a colher à boca, porque sorvia o chá,
porque balançava a ponta do pé, como se todos estes actos fossem
indignos.

«Nunca tinha dado conta de que os períodos de ódio surgiam
regularmente e paralelos aos períodos a que chamamos amor. Um período
de amor, um período de ódio; um período de amor intenso,
um período longo de ódio, pequenas manifestações
de amor, curto período de ódio.

«Não compreendíamos que o amor e o ódio eram manifestações
diferentes do mesmo sentimento animal. Seria horrível compreender a
situação em que nos encontrávamos, mas, nem sequer a
víamos.

«E ao mesmo tempo a salvação e o castigo do homem.

«Quando levamos uma vida irregular envolve-nos uma neblina que nos
não deixa distinguir o carácter desastroso do nosso procedimento.
Era o que se dava connosco. Ela procurava atordoar-se na tensão e frenesim
das suas ocupações de mãe de família: o arranjo
da casa, das suas toilettes e da dos filhos, dos estudos e da saúde
dos pequenos. Por meu lado tinha a agitação do trabalho, da
caça e do jogo. Estávamos sempre ocupados. Sentíamos
que, quanto mais tempo estivéssemos ocupados, mais nos feriamos um
ao outro.

«“Podes fingir à vontade; massacraste-me toda a noite
e eu tenho de ir para uma sessão”, pensava eu. Por seu turno
ela não somente pensava mas dizia: “Tu todo repimpado; e eu não
consegui pregar olho porque o filho levou a noite inteira a chorar.”

«Vivíamos envolvidos por perpétuo nevoeiro, sem vermos
a situação que criáramos. Se o que aconteceu não
tivesse acontecido e se continuássemos a viver assim até à
velhice, ao morrer pensaríamos que tínhamos levado uma vida
muito boa, não particularmente boa, mas como a de toda a gente, e não
teríamos compreendido o abismo de infelicidade e odiosa mentira em
que nos debatíamos.

«Éramos dois forçados presos à mesma grilheta,
odiando-nos

 

mutuamente, e mutuamente nos envenenando a existência e procurando
ocultarmo-nos de nós próprios. Eu desconhecia que a maior parte
dos casais, noventa e nove por cento, vivem no inferno em que eu vivia e não
podia ser de outro modo.

«Há uma série de pormenores nas vidas irregulares como
na vida regular. Quando os pais tornam a vida intolerável é
indispensável instalar-se a família na cidade, não só
para a educação dos filhos como também para serem menos
possíveis as questões.»

Aproximávamo-nos de uma estação.

— Que horas tem? — perguntou ele. Vi as horas; eram já
duas da manhã.

— Você já está cansado?— perguntou ele.

— Não. Você é que deve estar extenuado.

— Eu sufoco. Se me dá licença vou andar um bocado e beber
um copo de água.

Atravessou a carruagem cambaleando. Fiquei sozinho e fui recapitulando o
que ele me dissera e de tal forma estava entregue aos meus pensamentos que
o não vi entrar por uma outra portinhola.

XVIII

— Deixo-me arrastar pelo sofrimento — começou ele. —
As minhas opiniões evoluíram e há muitas coisas que encaro,
hoje, de forma diferente, mas eu tenho necessidade de desabafar.

«Instalámo-nos na cidade. A vida na cidade é mais suportável
para as pessoas infelizes… Um homem pode viver cem anos na cidade, estar
há muito morto e putrefacto sem que ninguém dê por isso.

«Nunca há tempo de fazer exame de consciência. Estamos
sempre ocupados com negócios, com as relações sociais,
com as artes, com a saúde e com as doenças dos filhos e com
a sua educação. É sempre necessário visitarmos
a casa de um ou de outro. Nas cidades há sempre três ou quatro
grandes acontecimentos a que se não pode faltar.

«Vivíamos melhor assim e sentíamos menos o sofrimento
que nos

 

acarretava a coabitação.

«Nos primeiros tempos da mudança tivemos ocupações
milagrosas, a nova instalação e as frequentes deslocações
da cidade para o campo e do campo para a cidade.

«Passou assim um Inverno.

«No segundo Inverno, porém, deu-se um acontecimento insignificante
na aparência, que passou quase despercebido e foi, afinal, a origem
de toda a tragédia.

«Ela adoeceu. Os tratantes dos médicos aconselharam-na a não
ter filhos e ensinaram-lhe o processo de não conceber. Esta determinação
causou-me horror. Tive de aceitar como boa uma decisão que me repugnava,
mas que tinha atacado com fraco ardor. Era a última justificação
para a nossa vida de porcos. Roubaram-nos os filhos; a nossa situação
tornou-se mais abjecta.

«Ao camponês são-lhe necessários os filhos, ainda
que lhes custe a educá-los e há por isso uma justificação
para as suas relações conjugais. Para nós, porém,
que já temos muitos filhos e não temos necessidade deles, os
filhos só representam aumento de despesas e são, afinal, uma
carga pesada e não temos, por isso, maneira de justificar a nossa vida
de porcos. E então ou nos livramos dos filhos artificialmente ou os
consideramos uma calamidade como a consequência de uma imprudência,
o que é ainda mais repugnante. Caímos tão baixo que nem
sequer sentimos necessidade de uma justificação.

A maior parte da sociedade, pretensiosamente, cultivada entrega-se a esta
forma de prazer sem o menor remorso. Não há remorso porque não
há consciência do pecado.

«Se nos podemos exprimir assim só conta a consciência
da opinião pública e a do Código Penal. E quase nem uma
nem outra se perturbam. Quase não vale a pena importar-mo-nos com a
opinião pública. Todos fazem o mesmo: Maria Pavlovna como Ivan
Zakharitch. Não devemos por isso ter escrúpulos, nem temer o
Código.

«Só as raparigas de má vida e as mulheres dos soldados
deitam os filhos recém-nascidos nos poços e nos lagos; esses,
está bem, devem ser castigados, devem ser metidos na cadeia. Entre
nós tudo se faz a tempo e com limpeza.

«Vivemos assim dois anos. O processo usado por aqueles velhacos deu
excelentes resultados. Ela readquiriu a sua elegância antiga. Engordou
um pouco. Era já uma formosura de Outono. Ela percebia isso e tinha
muito

 

cuidado consigo. Criou uma beleza provocante e inquietante.

«Possuía toda a pujança de uma mulher de trinta anos.
Não concebia e alimentava-se bem. O seu aspecto era perturbador. Era
uma égua bem tratada que estivesse muito tempo presa e a quem tivessem
soltado as rédeas, como de resto noventa e nove por cento das mulheres.
Pressentia isso e tive medo.»

XIX

De repente levantou-se e foi sentar-se junto da janela.

— Desculpe-me — disse ele e esteve três minutos com o olhar
fixo. Suspirou profundamente e voltou, de novo, a sentar-se junto de mim.

A sua fisionomia alterara-se de uma maneira estranha, os olhos tinham uma
expressão implorante e os lábios um sorriso contrafeito e incompreensível.

— Estou um pouco fatigado mas quero continuar. Nós temos ainda
muito tempo, o dia ainda não vai nascer. Acendeu um novo cigarro.

— Ela recompôs-se desde que deixou de ter o sofrimento do parto
e as perturbações da gravidez. Voltou a ter bom senso e apercebeu
todo o mundo criado por Deus, com a alegria que tinha esquecido ou não
soubera viver.

«E preciso não deixar escapar esta ocasião. O tempo urge;
não se pode voltar atrás… Julgo que era isto que ela pensava
ou melhor sentia. Aliás, ela não podia nem sentir, nem pensar
de outro modo; fora educada assim; não há outro objecto digno
de atenção senão o amor. Quando casou recebeu uma parte
desse amor, mas nem era o amor como ela o idealizara nem o que lhe haviam
prometido. Tinha experimentado dolorosas desilusões, muitos sofrimentos
e acima de tudo os filhos. Esse tormento tinha-a esgotado completamente.

«Mas eis que os médicos complacentes lhe fazem compreender que
ela podia passar sem filhos. Ficou contentíssima, pôs o conselho
à prova e começou a viver para o amor que ela conhecia. Mas
não era o amor com um marido diminuído pelo ciúme, e
por todas as espécies de furor. Começou a pensar no outro amor,
um amor puro completamente diferente do que até aí sentira —
era, pelo menos, o que eu pensava.

 

«Pôs-se a olhar em volta à espera que surgisse qualquer
coisa. Notei todas estas modificações e não pude deixar
de me alarmar.

«Falando indirectamente comigo, como fazia quase sempre — quer
dizer, falando comigo por intermédio dos outros —, defendia a
ideia de que os cuidados das mães eram um erro e que não valia
a pena consagrarmo-nos aos filhos quando se é nova e se pode ainda
gozar a vida, esquecida de que horas antes tinha defendido opiniões
contrárias.

«Ocupava-se muito menos dos filhos e sem o frenesim dos primeiro tempos,
cuidava muito mais de si, das suas toilettes, da sua cultura, do seu aperfeiçoamento
exterior. Começou a dedicar-se, com entusiasmo, ao piano que, há
muito, pusera de parte. E tudo começou assim.

«Voltou de novo para a janela, os olhos cansados mas, retomou, de novo,
o fio da narrativa, fazendo um esforço visível…

«Foi então que apareceu o homem…»

Perdeu o sangue-frio e emitiu duas ou três vezes, pelo nariz, os sons
que lhe eram peculiares. Compreendi perfeitamente que lhe era doloroso dizer
o nome do homem, de o lembrar e de falar dele, mas dominou-se, e, como se
tivesse conseguido vencer um obstáculo que o detinha, continuou resolutamente:

«Era uma personagem medíocre, um miserável, não
porque tivesse alguma importância para mim, mas porque era tal qual
eu pensara dele, um miserável…

«O facto de ele ser medíocre era a prova da irresponsabilidade
da minha mulher. Se não fosse este seria outro. Tinha que se dar. —
Calou-se mais uma vez. Depois continuou. — Era um músico, um
violinista não profissional. Era um meio profissional meio homem de
sociedade.

«O pai era proprietário e nosso vizinho. Arruinara-se. Três
dos filhos estabeleceram-se; o mais novo, porém, foi para casa de uma
madrinha, em Paris. Entrou para o Conservatório porque era dotado para
a música; tirou o curso de violinista e deu alguns concertos.

«Era um homem… — teve a tentação de dizer mal
mas conteve-se e disse rapidamente: — Eu não sei como ele viveu
em Paris; sei que nesse ano reapareceu na Rússia e veio visitar-me.

«Era um rapaz bonito mas banal… olhos rasgados em amêndoa e
húmidos, lábios onde se instalara um sorriso sempre igual, bigode
frisado e penteado segundo a última moda; de aspecto fraco, traseiro
bastante

 

desenvolvido como nas mulheres e nos hotentotes que, segundo creio, também
são músicos. Correcto e afável, muito digno, punha-se
sempre à parte em qualquer discussão. Tinha um ar parisiense,
usava botas abotoadas de lado, gravatas de cores garridas, tudo o que surpreende
os estrangeiros em Paris e que, pela originalidade, atrai as mulheres. Apresentava-se
sempre bem-disposto. Falava por metáforas e sem sequência, como
se soubéssemos, de antemão, o que ele queria dizer e pudéssemos
concluir por nós.

«Este homem e o seu violino foram os promotores da catástrofe…

«No processo apresentaram a questão como se o móbil do
crime fosse o ciúme. Nada disso. Não quero dizer que não
fosse uma das causas. Mas não foi tudo. No julgamento decidiram que
eu era um marido ultrajado que matara a minha mulher para defender a honra
(é assim que eles se exprimem).

«Fui absolvido por esta razão.

«Durante as audiências, contudo, tentei explicar-lhes as verdadeiras
razões do crime mas eles supuseram que eu queria reabilitá-la.

«As suas relações com o músico não tiveram
a maior importância nem para mim, nem para ela. O que foi importante
foi a minha torpeza. Tudo se deu porque entre nós havia um incomensurável
abismo, uma terrível tensão provocada pelo ódio recíproco
que o mais insignificante pretexto faria explodir.

«Nos últimos tempos as nossas discussões eram aterradoras
por um lado, e tanto mais impressionantes porque eram seguidas de cenas de
uma sensualidade animal e exasperante. Se não se tivesse dado a infâmia
com o músico dar-se-ia com outro. Insisto neste ponto para que todos
os maridos que vivem como eu vivia ou se entreguem a uma vida de licenciosidade
ou matem as mulheres.

«Se há algum que escape é uma excepção.
Antes do crime eu estive várias vezes à beira do suicídio
e ela tentou envenenar-se.»

XX

— Assim levávamos a vida.

«Passámos uns tempos tranquilos, pequenas tréguas, que
não

 

tínhamos razão aparente para quebrar. De repente conversava-se
a propósito de um cão; eu afirmava que o cão tinha recebido
na exposição uma medalha de ouro; ela sustentava que não
tinha sido medalha, mas menção honrosa. Levantou-se a discussão.
Passámos de uns assuntos para outros. Fizemo-nos censuras recíprocas:

«Sim…. Sim…

«Conheço-te, é sempre a mesma coisa… Tu disseste…
Eu não disse tal… Queres dizer que minto?…

«Depois disto desencadearam-se cenas horrorosas em que tive a tentação
de me suicidar ou de a matar. Era iminente o perigo. Temia-o como o fogo,
e queria-me dominar mas a cólera invadia todo o meu ser. Era o mesmo
o estado dela, senão pior; desvirtuava o sentido das frases. Cada uma
das suas palavras escorria veneno; procurava ferir-me nos pontos mais dolorosos.
E ia aumentando de intensidade as insinuações e os insultos.

«“Cala-te!”, gritei-lhe eu, ou outra qualquer frase…

«Ela saiu correndo do quarto para onde se encontravam os filhos.

«Procurei detê-la e agarrei-a por um braço.

«Fingiu que eu a magoara e gritou:

«“Meus filhos, o pai está a bater-me!”

«Verdadeiramente espantado exclamei:

«“Tu mentes!…”

«Os filhos acorrem aflitos. Ela sossega-os.

«Eu disse-lhe:

«“Não faças comédia…”

«“Para ti tudo é comédia… És capaz de
matar um homem e afirmares que está a fazer de morto. Percebo-te muito
bem. E é isso o que tu queres…”

«“Oh, se tu estoirasses!…), gritei fora de mim.”

«Lembro-me de que estas palavras me aterrorizaram. Nunca me supus capaz
de as pronunciar tão grosseiras e tão repugnantes. Admiro-me
como me puderam escapar.

«Depois de ter gritado esta frase abominável meti-me no meu
gabinete, sentei-me e pus-me a fumar. Senti-a passar pela antecâmara
e preparar-se para sair. Perguntei-lhe para onde ia. Não respondeu.

 

«“Que a leve o diabo…”, disse para mim mesmo.

«Voltei para o meu gabinete, estiracei-me e voltei a fumar…

«E então no meu espírito formaram-se planos de vingança,
para me ver livre dela sem que ninguém o percebesse. Passei em revista
todo o passado, fumando cigarros uns após outros.

«Pensei em fugir, esconder-me, partir para a América.

«Depois, de novo me assaltaram os pensamentos de me libertar, ligando-me
a outra mulher, uma mulher diferente. Mas para me livrar dela era necessário
ou que ela morresse ou que nos divorciássemos e principiei a estudar
os meios de chegar a um desses resultados.

«Senti que desfalecia, o pensamento diluía-se mas continuava
a fumar.

«Entretanto a vida da casa continuava como sempre…

«A governanta veio perguntar-me:

«“Onde está a senhora? Ela volta?”

«“O criado diz-me: “Posso servir o chá?…”

«Fui para a casa de jantar. Os filhos e, principalmente Lisa, a mais
velha e que pressente o que se passa, fitou-me com um olhar, ao mesmo tempo
interrogador e de censura. Não trocamos uma palavra durante o chá.

«Passou-se a tarde… Passou-se a noite sem ela voltar.

«Dois sentimentos cresciam a par, na minha alma: o rancor por me atormentar
a mim e aos filhos e a ansiedade por que atentasse contra a existência,
embora eu tivesse a certeza de que ela voltaria.

«Pensei em ir procurá-la Mas aonde? A casa da irmã?…
Seria estúpido ir atormentar mais família. Tanto pior para ela
se nos quer atormentar; que sofra também. É isso que ela pretende
e só isso… Para a próxima vez fará pior…

«E se não está em casa da irmã?… Se tentou suicidar-se?…
Se se suicida?…

«Deram as onze horas… a meia-noite…

«Não consegui ir para o quarto; seria idiota tentar dormir.

«Comecei a escrever cartas; tentei ler. Não consegui fazer nada.

«Por fim deixei-me estar sentado completamente só,

 

atormentando-me. Cheguei à última forma de desespero. Pus o
ouvido à escuta na esperança de a ouvir chegar. Três horas…
Quatro horas… Não regressou. De manhã deixei-me dormir. Quando
acordei não tinha ainda regressado.

«Em casa tudo, aparentemente, corria como antes mas todos estavam perplexos,
e olhavam-me com ar interrogador e, ao mesmo tempo, cheio de censura.

«Atribuíam-me toda a culpa.

«Dentro de mim os mesmos dois sentimentos se digladiavam: o rancor
e a inquietação.

«Às onze horas da manhã chegou a irmã como medianeira.
A história começou como sempre:

«“Ela está num estado deplorável… Que é
que tudo isto quer dizer?… Não se passou nada?…”

«Queixei-me do seu carácter impossível e confessei que
lhe não tinha feito mal.

«“Isto não pode continuar assim….”, disse-me a
irmã.

«“Isso é com ela; não é comigo. Eu não
darei o primeiro passo. Se ela se quer divorciar, divorciar-nos-emos.”

«A minha cunhada foi-se como tinha vindo.

«Tinha-lhe falado duramente e afirmara-lhe que não daria um
passo, mas quando depois da sua partida vi os filhos pálidos, abatidos,
resolvi dar o primeiro passo. Sentia nisso contentamento mas, não sabia
ao certo, como havia de proceder.

«Pus-me a andar de um lado para o outro e a fumar.

«Ao almoço bebi vodca e vinho e comecei a pressentir o fim para
que, inconscientemente, era levado.

«Às três horas da tarde ela voltou. Fui ao seu encontro;
não me deu uma palavra. Julgando-a calma tentei explicar-me, que me
excedera levado pelas suas censuras injustas.

«Numa atitude agressiva disse-me que não vinha para ouvir explicações.
Vinha para levar os filhos e não podia nem queria viver comigo.

«Quis convencê-la de que não era eu o culpado, e que fora
ela quem me provocara. Olhou-me friamente e com ar solene disse-me:

 

«“Não digas mais; tu hás-de arrepender-te. “

«Repeti-lhe:

«“Não posso suportar comédias…”

«Começou a gritar, meteu-se no quarto e fechou-se por dentro.

«Bati. Ninguém respondeu. Afastei-me desesperado.

«Meia hora depois Lisa veio ter comigo debulhada em lágrimas.

«“Que há?… Aconteceu alguma coisa?…”

«“Não se ouve nada no quarto da mamã.”

«“Vamos lá.”

«Meti os ombros à porta. O fecho estava mal corrido e os dois
batentes cederam.

«Aproximei-me da cama. Estava sem sentidos meio despida e calçada,
numa posição incómoda. Na mesa de toüette um frasquinho
de ópio vazio. Fizemo-la vir a si. Lágrimas. A reconciliação…

«Mas dentro da alma de cada um, a mesma animosidade, multiplicada pelo
desespero da última questão cujas razões imputávamos
um ao outro.

«A vida retomou o seu ramerrão.

«Questões como estas surgiram uma vez por semana, por mês,
todos os dias… E eram sempre as mesmas consequências.

«De uma das vezes eu tinha já o passaporte. A zanga durava já
há dois dias. Mas houve de novo uma meia explicação,
uma meia reconciliação, e eu desisti da partida.»

XXI

— Eis como as coisas corriam, pouco tempo antes de aparecer esse homem.

«Pouco tempo depois de ter chegado a Moscovo, Troukhatchevski veio
visitar-me. Era de manhã. Recebi-o. Antigamente havíamo-nos
tratado por tu. Por várias vezes ele usou o “tu”, mas eu
acentuei bem o emprego da

 

segunda pessoa do plural e ele desistiu da primitiva familiaridade.

«Desagradou-me profundamente, logo à primeira vista, mas uma
força estranha, fatal, arrastava-me para ele, obrigava-me a não
o afastar, pelo contrário, levava-me a atraí-lo. De facto era
simples evitar as relações; bastava que o recebesse friamente
durante alguns instantes e despedi-lo sem o apresentar a minha mulher. Mas
não procedi assim e, propositadamente, levei a conversa para o assunto
que lhe interessava, dizendo-lhe que soubera que ele abandonara o estudo do
violino. Respondeu-me que, mais do que nunca, se dedicava à música.
Lembrou-se de que eu antigamente também tocava. Respondi-lhe que pusera
de parte a música, mas minha mulher tocava piano muito bem.

«Coisa assombrosa!… A minha atitude perante ele desde o primeiro
dia do nosso encontro foi o que pode dizer-se uma preparação
para o que havia de acontecer. Havia em mim qualquer coisa de premeditado.
Observava cada uma das suas palavras, das expressões que empregava
e atribuía-lhes muita importância.

«Apresentei-o a minha mulher. A conversa, como é natural, imediatamente
deslizou para a música e ele pôs-se logo à disposição
para a acompanhar.

«Ela apresentou-se, como nestes últimos tempos, muito elegante,
atraente e de uma beleza inquietadora. Ele agradou-lhe desde o primeiro momento
e ficou encantada por poder tocar em conjunto. Apreciava muito tocar e, de
tempos a tempos, contratava um violinista do teatro para a acompanhar. A alegria
reflectia-se-lhe no rosto. Mas quando reparou na minha reacção
e compreendeu os meus sentimentos, mudou a sua atitude. Começou assim,
entre nós, uma série de disfarces.

«Eu sorria amavelmente, mostrando-me encantado.

«Ele olhava para a minha mulher, como sabem olhar os libertinos para
as mulheres bonitas, mas simulava interesse só pelo assunto da conversa,
embora o assunto nada lhe interessasse.

«Ela, coitada, esforçava-se por parecer indiferente, mas a minha
expressão falsamente amável e sorridente de homem roído
de ciúmes e, que ela conhecia perfeitamente, exaltavam-na, coincidindo
com o olhar ávido do outro.

«O olhar dela tinha um novo esplendor e, sem dúvida, o meu ciúme
tinha estabelecido entre ambos uma espécie de corrente eléctrica
que deixava transparecer no rosto de ambos expressões e sorrisos muito
semelhantes.

 

Tudo era simulado entre eles.

«Falámos de música, de Paris, de um sem-número
de bagatelas.

«Entretanto ele fez menção de se retirar, com um sorriso
nos lábios, inclinando-se um pouco na nossa frente, olhando, ora para
mim, ora para ela, à espera do que iríamos fazer.

Lembro-me perfeitamente desse momento, porque eu podia ter deixado de o convidar
e nada teria acontecido.

«Olhei para ele, olhei para a minha mulher e disse mentalmente: “Não
penses que tenho ciúmes de ti… Nem que te temo, acrescentei interiormente,
dirigindo-me a ele e convidando-o a trazer o violino para acompanhar minha
mulher, numa qualquer noite.

«Ela olhou-me aterrorizada e quis libertar-se, afirmando que não
tocava bem.

«Esta recusa irritou-me e insisti no convite.

«Recordo-me do sentimento bizarro que experimentei ao contemplar a
nuca de Troukhatchevski e o pescoço sobre que caíam os cabelos
compridos, apartados no meio; caminhando aos saltinhos lembrava um pássaro.

«A presença deste homem torturava-me.

«“Mas, afinal, só depende de mim impedir que este homem
volte”, pensava eu.

«Mas, proceder assim é confessar que o temo.

«“Não. Eu não o temo, seria demasiado humilhantes”.
E insisti para que ele viesse nessa mesma noite, para o ouvirmos.

«Aceitou o convite e saiu. À noite chegou mas durante algum
tempo eles não conseguiram acompanhar-se porque as partituras de que
precisavam não estavam em nossa casa e minha mulher precisava de as
estudar.

«Eu gostava muito de música e interessava-me conhecer a execução
dele. Fui eu que lhe preparei a estante e lhe voltei a página. Executaram
algumas romanças sem palavras e uma sonata de Mozart. Ele tocava admiravelmente.
Tinha uma dedilhação perfeita. Um gosto delicado e superior
que não correspondia ao seu carácter. Era muito mais artista
que minha mulher. Aconselhou-a, elogiando cortesmente a sua execução.

«Minha mulher tomara uma atitude simples e natural, parecendo só
se interessar pela música.

 

«Quanto a mim, fingindo interessar-me pela música, toda a noite
e continuamente fui torturado pelo ciúme.

«Desde que tinham cruzado o primeiro olhar, desdenhando a sua condição
e as conversações sociais, despertado o animal que cada um traz
dentro de si, eles interrogavam-se:

«“É possível? Mas sem dúvida…”

«Ele não supunha poder encontrar, numa moscovita, uma mulher
tão atraente e ficou deslumbrado. Não duvidou um instante de
que era correspondido. Tudo consistia em afastar o marido para os não
importunar.

«Se eu fosse um homem honesto não teria compreendido nada disto,
mas como a maioria dos homens antes do casamento, eu considerava as mulheres
como Troukhatchevski e podia ler-lhes na alma como num livro aberto.

«Fazia-me sofrer a ideia de que minha mulher sentia por mim só
irritação, entrecortada, uma vez ou outra, de acessos de sensualidade.

«Por esse homem elegante e de indubitável talento ela sentia-se
agradavelmente atraída.

«A intimidade que criava a colaboração musical, a influência
da própria música, muito particularmente o violino, que actua
profundamente nas naturezas impressionáveis fazia-me pressentir que
esse homem a venceria, a dominaria e a dobraria à sua vontade, fazendo
dela o que desejasse.

«Eu já não o podia ver e sofria horrivelmente. E entretanto
uma força, que se opunha à minha vontade, constrangia-me não
só a ser delicado mas a ser afável. Não sei se procedia
assim por causa de minha mulher — para provar que o não temia
— ou para me enganar a mim próprio. Ignoro-o. O facto é
que nunca fui simples nas relações com ele. Eu fugia ao desejo
de o matar, lisonjeando-o.

«À ceia servi-lhe vinhos finíssimos, elogiei-lhe a execução,
falei-lhe sempre com um sorriso amável, convidando-o para jantar no
domingo seguinte e para tocar, acompanhando minha mulher. Convidaria mesmo
alguns amigos para terem o prazer de o ouvir. Assim terminou o primeiro serão.»

Pozdnichev, extraordinariamente emocionado, mudou de posição
e soltou aquele gemido que lhe era particular.

— É estranha a maneira como a personalidade desse homem agiu

 

sobre mim — disse ele, fazendo um esforço para se acalmar.

«Passado um dia ou dois, ao voltar de uma exposição,
senti, ao entrar, como se uma pedra me caísse no coração.
Não percebi porquê. Só depois de ter entrado no meu gabinete
me ocorreu que vira qualquer coisa que me lembrara Troukhatchevski. Voltei
ao vestíbulo para confirmar a minha suspeita. Não me tinha enganado.
Pendurado no cabide estava o casacão dele. Era impossível ter-me
passado despercebido porque eu fixava doentiamente tudo o que lhe dissesse
respeito.

«Em vez de atravessar a sala de entrada, dirigi-me ao quarto de estudo.
Lisa, a minha filha mais velha, estava a ler e a ama, perto da mesa com o
mais pequenino, fazia girar uma tampa.

«Eu ouvia os harpejos e o ruído das vozes através da
porta fechada. Pus-me a escutar mas não distingui as palavras. Sem
dúvida o piano era um pretexto para abafar as palavras e, talvez, os
beijos.

«Meu Deus! Neste momento cresceu em mim uma raiva surda. Quando me
lembro do animal furioso que reapareceu, o horror abate-me.

«Apertou-se-me o coração bruscamente, tive a sensação
que ele deixara de bater. Depois voltou a bater violentamente. O sentimento
dominante nos momentos de cólera era o enternecimento por mim próprio.
Diante dos filhos!… Diante dos criados!…

«Nesse instante eu devia meter medo, porque Lisa olhava para mim aterrorizada.

«“Que devo fazer?”, perguntei a mim próprio. “Entrar?…
É impossível… Não sei o que faria… Mas não
podia afastar-me.”

«A criada das crianças olhava-me espantada, compreendendo a
minha situação.

«“E impossível não entrar…”, disse eu,
e abri a porta subitamente.

«Ele estava sentado ao piano, tocando harpejos; os dedos muito brancos
e altamente recurvados. Ela estava de pé, junto ao piano, e seguia
a partitura. Ou me pressentiu ou me ouviu e olhou para mim. Teve medo mas
dissimulou ou não teve realmente medo?… O que é certo é
que se não mexeu e nem levemente pestanejou. Corou um pouco.

«“Como estou contente por teres vindo!… Nós estávamos
a escolher o que havemos de tocar no domingo” disse-me ela com uma expressão
que não usaria se estivéssemos sós. Esta circunstância
e o facto de ela ter empregado o “nós”, referindo-se a
ele e a ela, perturbaram-me. Cumprimentei-o sem

 

pronunciar uma palavra. Correspondeu ao meu cumprimento com um sorriso que
me pareceu francamente irónico e começou a explicar-me que estavam
indecisos sobre o que deveriam executar — uma obra clássica e
difícil como uma sonata de Beethoven para piano e violino ou trechos
mais curtos e de menos responsabilidade. Aparentemente tudo era natural e
simples e não havia razão para me escandalizar. Mas eu estava
convencido que tudo era mentira e disfarce e tinham já combinado a
maneira de me enganar.

«As convenções sociais favorecem a maior e mais perigosa
intimidade entre homens e mulheres e são torturantes para os homens
ciumentos (na nossa sociedade todos os homens são ciumentos).

«Expor-nos-íamos ao ridículo se tentássemos impedir
a intimidade nos bailes, a intimidade entre o médico e a doente, a
intimidade criada pelo estudo em comum das artes, da pintura e, muito particularmente,
da música.

«Entregam-se ao estudo da mais bela das artes duas almas e a mais profunda
intimidade cresce; nada disto tem aparentemente nada de repreensível
ou censurável; só um marido estúpido e ciumento pode
reconhecer nesta intimidade qualquer coisa de menos digno. Contudo sabe-se
que a maioria dos casos de adultério, na nossa sociedade, tem a sua
origem na intimidade artística e intelectual de homens e mulheres.

«Trespassei-lhes a perturbação que me acometera. Durante
momentos não pude articular uma palavra.

«Eu era como uma garrafa voltada para baixo que não deixa correr
a água por estar muito cheia. Tinha a tentação de a insultar
e de correr com ele mas, simultaneamente, compreendia que era necessário
ser afável e cortês.

«Assim procedi. Fingi aprovar tudo o que disseram e, sob a acção
de um sentimento bizarro, tratei-o com tanta mais afabilidade quanto mais
as suas palavras e a sua presença me torturavam. Afirmei-lhe que confiava
no seu bom gosto e aconselhei minha mulher a proceder do mesmo modo. Depois
das minhas palavras ficou só o tempo necessário para tentar
desvanecer a impressão dolorosa da minha entrada súbita na sala,
do meu aspecto desorientado e do meu mutismo. Despediu-se asseverando que
ficara escolhido já o programa que tocariam no dia seguinte. Eu estava
convencido, no entanto, que comparado ao que os preocupava a escolha do trecho
que haviam de tocar lhes era totalmente indiferente.

«Conduzi-o até ao vestíbulo com uma delicadeza demasiadamente
vincada (como não conduzir para fora de casa um homem que vinha

 

perturbar e comprometer a felicidade de uma família inteira?…)

«Apertei-lhe a mão efusivamente, a sua mão branca e flácida.»

XXII

— Durante todo o dia não dirigi a palavra a minha mulher. Não
podia.

A sua presença provocava-me um tal ódio que sentia medo de
mim próprio.

«Ao jantar, em frente dos filhos, perguntou-me quando me ia embora…

«Eu tinha de tomar parte num congresso, na província. Disse-lhe
quando tencionava partir. Ela pretendeu saber se era necessário alguma
coisa para a viagem. Não respondi. Fiquei à mesa, sem pronunciar
uma palavra. Retirei-me para o meu gabinete.

«Nos últimos tempos ela nunca vinha aos meus aposentos, principalmente
depois do jantar.

«Estendi-me no divã. Tinha a alma cheia de rancor.

«De repente senti aproximarem-se uns passos conhecidos. Um pensamento
diabólico me ocorreu. Tal como a mulher de Urias, ela queria esconder
o pecado já consumado e, por essa razão, vinha ter comigo a
esta hora imprópria.

«“Será possível que ela venha aqui?”, perguntei
a mim mesmo, sentindo que os passos se aproximavam cada vez mais. Era verdade.
Eu tinha razão. E na minha alma o ódio crescia de uma maneira
indizível. Os passos iam-se aproximando cada vez mais. Certamente irá
para o salão… Não entrará… Mas a porta rangeu e,
no limiar, surgiu a silhueta alta e harmoniosa. Na sua fisionomia transparecia
o desejo de agradar, que contudo pretendia esconder, mas de que eu conhecia,
muito bem, o significado.

«Parecia-me que sufocava tão longo foi o momento em que retive
a respiração. Sem deixar de a fitar, abri a cigarreira e acendi
um cigarro.

«“Então?… Venho passar um bocadinho contigo e acendes
um cigarro?…”

«Sentou-se no divã a meu lado e encostou-se a mim. Afastei-me
para lhe não tocar.

 

«“Eu sinto perfeitamente que estás aborrecido por causa
do concerto de domingo”, disse ela.

«“De modo nenhum…”, respondi-lhe.

«“Tu julgas que eu não percebo?…”

«“Muito bem. Felicito-te. Quanto a mim, não percebo mais
nada a não ser que te comportas como uma mulher”

«“Se continuas a falar como um carroceiro vou-me embora.”

«“Vai. Fica sabendo que se tu não ligas importância
à dignidade da família, eu, não por ti (que o diabo te
leve!), mas pela própria família, pela sua honra, tenho de me
importar.”

«“Como?… Como?…”

«“Vai-te embora pelo amor de Deus. Vai-te…”

«Eu não sei se ela compreendeu as minhas alusões, ou
realmente não compreendeu porque se ofendeu e ficou vexadíssima.
Levantou-se mas, em vez de sair, ficou de pé, no meio do quarto.

«“Decididamente, tu estás a tornar-te impossível”
começou ela, “tens um carácter que só os santos
poderiam suportar…”

«E, esforçando-se por me ferir profundamente, referiu-se ao
meu procedimento com a irmã (ela sabia que me atormentava, relembrando
as palavras grosseiras que, num momento de exaltação, eu proferira).

«“Depois do que se passou nada me admira, vindo de ti…”

«“É assim mesmo. Ofendes-me, humilhas-me, desonras-me
e atiras com as culpas para cima de mim.”

«E, subitamente, fui invadido por um sentimento de ódio tão
horrível que, pela primeira vez, experimentei a sensação
de expressar fisicamente esse ódio.

«Ergui-me bruscamente e aproximei-me. Mas, no momento preciso em que
me levantei tive a consciência do que ia fazer e pensei se valeria a
pena.

«Mas reconsiderei e disse para mim: “Talvez seja salutar. Ela
terá medo”, e assim, foi crescendo em mim a cólera.

«“Foge ou mato-te!”, gritei e, aproximando-me dela agarrei-a
por um braço.

 

«Eu tinha propositadamente exagerado o tom de fúria das minhas
palavras

«E devia ter uma aparência de endemoninhado, porque ela perdeu
o sangue-frio, não teve força para sair e limitou-se a dizer:

«“Vassia, que tens tu, que te aconteceu?…”

«“Sai-me daqui!”, gritei com força. “Só
tu és capaz de me pôr neste estado. Eu não respondo por
mim…”

«Deixei-me vencer absolutamente pela raiva, senti-me como embriagado
e tive vontade de fazer qualquer coisa de extraordinário que pudesse
mostrar a extensão do meu desespero.

«Tinha o desejo terrível de lhe bater, de a matar, mas sabia
que era impossível e para dar vazão à minha cólera
agarrei num pesa-papéis que estava sobre a mesa, atirei-o para o chão,
na direcção dela e gritei:

«“Sai-me da vista!…”

«Ela afastou-se. Não saiu. Parou à entrada da porta.

«Enquanto ela me podia ver, agarrei de cima da mesa em diferentes objectos,
no tinteiro, nos castiçais e atirei-os ao chão, gritando:

«“Vai-te, bruxa! Eu não respondo por mim…”

«Ela saiu. No momento em que a deixei de ver acalmei-me.

«Passada uma hora a criada dos pequenos veio prevenir-me de que minha
mulher estava com uma crise de nervos. Fui vê-la. Ora soluçava,
ora se ria; não podia falar e tremia convulsivamente. Não era
comédia; ela estava realmente doente.

«De manhã acalmou-se; reconciliámo-nos sob a influência
do sentimento a que chamamos amor.

«Quando lhe confessei que tinha ciúmes de Troukhatchevski ela
não se perturbou, pôs-se a rir com a maior naturalidade, de tal
forma lhe parecia estranho que alguém se pudesse apaixonar por um tal
homem.

«“Acreditas possível que uma mulher decente se possa apaixonar
por um homem como Troukhatchevski? O único sentimento possível
é o prazer de o ouvir tocar.”

«“Se tu quiseres, não o tornarei a ver e é fácil
impedi-lo de vir a nossa casa; basta que o previnas de que estou adoentada,
e não posso tocar. Só é aborrecido no domingo por termos
convidado muita gente e se poder pensar

 

que temos medo dele e que o consideramos perigoso. Sou realmente bastante
orgulhosa para poder permitir que se pense tal coisa.”

«Ela não mentia. Ela acreditava no que dizia. Queria convencer-se
da verdade das suas palavras, e fazer nascer em si própria o desprezo
por ele e defender-se do perigo que, inconscientemente, temia. Não
o conseguiu. Tudo estava contra ela e, em particular, a música maldita.
Naquele dia tudo acabou em bem.»

XXIII

— É escusado dizer que me sentia vaidoso; se não somos
vaidosos na vida quotidiana, que é a nossa vida, não há
razão de viver.

«No domingo seguinte ocupei-me com muito prazer das preparativos para
o jantar do nosso serão musical. Fiz eu próprio os convites
e as compras.

«Pelas seis horas começaram a chegar os convidados. Ele entrou
um pouco mais tarde, de casaca, o peitilho da camisa abotoado com brilhantes
de muito mau gosto. Tinha um grande à-vontade, correspondendo a todos
com um ar afectuoso, sorridente e compreensivo dando a entender que o que
fazíamos e dizíamos era justamente o que esperava.

«Nessa noite notei com particular alegria tudo o que nele era defeituoso.

«Essas observações contribuíram para me sossegar
e mostravam-me que minha mulher o considerava, com razão, de um nível
tão inferior que não podia — conforme me afirmava —
baixar-se a ele. Eu não tinha, por isso, razão para ter ciúmes.

«Além de que o último sofrimento arrasara-me e eu sentia
a necessidade absoluta de repouso; precisava de acreditar na minha mulher;
e acreditava.

«Durante todo o jantar, na primeira parte do serão, antes de
começar o concerto, embora eu não tivesse ciúmes havia
em mim qualquer coisa de afectado nas atitudes que tomava. Inconscientemente
eu vigiava todos os actos deles.

«O jantar foi, como todos os jantares, uma cerimoniosa maçada.

«Como me lembro de todos os pormenores desse triste serão!…

 

«Ele chegou. Abriu o estojo, tirou para fora a cobertura bordada por
uma admiradora e começou imediatamente a afinar o violino. Minha mulher
sentou-se ao piano com um ar .aparentemente indiferente e sob o qual pretendia
esconder a sua timidez… timidez provocada pela destreza do violinista.

«Depois dos “lás” habituais da afinação,
foram os pizzicatti do violino e por fim colocaram-se as partituras nas estantes.
Recordo o olhar que trocaram; voltaram-se um instante para a assistência,
disseram umas breves palavras e começaram o concerto.

«Ela atacou o primeiro acorde. Então a fisionomia de Troukhatchevski
tomou uma expressão simpática, severa, séria, e atenta
aos próprios sons do violino. Fez vibrar as cordas com os dedos finos
e ágeis e respondeu aos acordes do piano. Assim começou tudo.»

Pozdnichev parou de novo. Depois emitiu várias vezes os sons que lhe
eram peculiares — gargalhada ou soluço abafado. Quis continuar.
Fungou. E parou de novo.

— Tocaram a Sonata a Kreutzer, de Beethoven.

«“Conhece o primeiro presto? Conhece-o?…”, gritou ele.
“Que coisa horrível essa Sonata, sobretudo, esse andamento…
A música é qualquer coisa de horrível…”

«O que é exactamente a música?… Eu não o apreendo.

«Qual é a sua acção?

«Dizem que a música actua elevando a alma… Que falsidade!…
Que estupidez!

«A música actua de uma maneira terrível, eu falo por
mim.

«A música não eleva a alma. A música também
não diminui a alma. A música exaspera-a. Nem sei como me hei-de
explicar…

«A música obriga a esquecermo-nos da nossa verdadeira personalidade,
transporta-nos a um estado que não é o nosso. Sob a influência
da música temos a impressão de que sentimos o que não
sentimos; que compreendemos o que na realidade não compreendemos; que
podemos o que não podemos. É como o bocejo ou o riso. Não
temos sono mas bocejamos quando vimos alguém bocejar. Não temos
vontade de rir, mas rimo-nos, ouvindo rir. A música transporta-nos,
de surpresa e imediatamente, ao estado de alma em que se encontrava o artista
no momento da criação, confundimos a nossa alma com a dele e
passamos de

 

um estado a outro sem saber por que o fazemos.

«Beethoven quando escreveu a Sonata a Kreutzer sabia por que se encontrava
naquele estado de criação, que o levava à prática
de determinados actos que tinham para ele um significado. Para nós
que somos levados pela música não tem significação.

«A música exaspera, não conclui.

«Se tocam uma marcha militar e os soldados marcham ao seu ritmo, a
música atinge o seu fim. Se a música é de dança
e dançamos, a música atinge o seu fim. Se se toca a missa e
comungamos a música atinge o seu fim. De outro modo é uma sobreexcitação.
Por isso às vezes a música exerce uma acção tremenda…
A música na China é negócio de Estado. E assim devia
ser. Não é de admitir que qualquer desconhecido possa, a seu
bel-prazer, hipnotizar uma ou várias pessoas e as maneje. E que por
vezes o hipnotizador seja o primeiro homem de maus costumes que se encontrou
no caminho.

«Tomemos para exemplo a Sonata a Kreutzer — primeiro andamento.
Deve tocar-se este presto numa sala entre mulheres decotadas; aplaudi-la;
comer gelados; contar a última anedota da semana?

«Esses trechos só deviam ser tocados em momentos graves e quando
é necessário realizar acções que estejam em harmonia
com o assunto da música. De outro modo esse chamamento inoportuno a
sentimentos que não têm ensejo de se manifestar não podem
ter senão um resultado nefasto. Sobre mim, pelo menos, produziu um
efeito desastroso. Sentimentos novos, possibilidades até então
desconhecidas revelaram-se em mim. Tudo era diferente da vida que até
então eu vivera. Eu não podia avaliar o elemento que descobrira
mas a consciência deste novo estado dava-me alegria.

«As fisionomias que eram sempre as mesmas, e, no número das
quais havia a de minha mulher e a de Troukhatchevski apareciam-me com um aspecto
diferente.

«Depois do presto executaram o andante que é belo mas sem originalidade,
com variantes banais e um final fraco.

«Em seguida, a pedido dos convidados executaram uma elegia de Ernst
e vários pequenos trechos. Todas estas peças eram muito boas,
mas nenhuma produziu, em mim, nem um décimo da impressão que
me causou a primeira obra. Tudo o mais que senti estava subordinado à
impressão que me causara a Sonata.

 

«Sentia-me leve, alegre toda a noite. Quanto a minha mulher, nunca
a tinha visto como naquela noite. Os olhos brilhantes, um leve sorriso extasiado,
uma espécie de abandono total enquanto tocava e uma severa expressão
quando terminou o concerto. Vi tudo isto mas não lhe liguei nenhuma
importância particular.

«Ela experimentava as mesmas sensações que eu. Sentimentos
novos e desconhecidos até aí surgiam dentro de mim e dela.

«O serão acabou muito bem. Cada um regressou aos seus aposentos.

«Troukhatchevski ao saber que tinha de partir para um congresso na
província disse que esperava ter o prazer de renovar, quando regressasse,
o serão que lhe havíamos proporcionado tão agradavelmente.

«Concluí das suas palavras que ele não voltaria a minha
casa enquanto eu estivesse por fora. Esta resolução foi-me particularmente
agradável. Não nos tornaríamos a ver, porquanto eu não
regressaria antes da partida dele. Pela primeira vez eu lhe apertei a mão
com verdadeira alegria e lhe agradeci os momentos de agradável convívio
que tivéramos. Os cumprimentos de despedida a minha mulher foram convenientes
e naturais. Tudo parecia perfeito.

«Eu e minha mulher sentíamo-nos contentes pela forma como decorrera
o serão.»

XXIV

— Parti no dia seguinte para o congresso. Despedi-me de minha mulher
nas melhores disposições.

«Na capital do distrito eu tinha sempre muito trabalho; cheguei a passar
dez horas sentado à secretária. Era uma vida à parte,
um pequeno universo particular.

«No dia seguinte ao da minha chegada trouxeram-me uma carta de minha
mulher. Falava-me dos filhos, de um nosso tio, da criada, das despesas que
fizera, e entre outras coisas, como de uma coisa banal, referia-se a uma visita
de Troukhatchevski. Tinha ido levar-lhe umas partituras que lhe prometera.
Tinha-se também oferecido para a acompanhar, mas ela recusara. Eu não
me lembrava que ele lhe houvesse prometido tais partituras. Julgava

 

até que ele se despedira definitivamente. Esta notícia chocou-me
desagradavelmente. Tinha, no entanto, que fazer e não tive tempo de
pensar mais na carta. À noite, porém, quando reli a carta, reflecti
no que me escrevera minha mulher e a carta então pareceu-me afectada.
Estranhei que Troukhatchevski tivesse ido visitar minha mulher na minha ausência.

«A fera raivosa do ciúme pôs-se a rugir dentro de mim.
Mas tive medo dela e prendi-a.

«“Que sentimento abjecto é o ciúme”, disse
para comigo. “Nada mais natural do que o que ela me escreveu.”

«Deitei-me. Pensei só nos assuntos que tinha para resolver no
dia seguinte.

«Quando vinha tomar parte nestes congressos o que mais me custava era
ter que dormir num quarto que não era o meu. Desta vez, porém,
adormeci rápida e profundamente.

«Nunca lhe aconteceu por vezes ser acordado por uma espécie
de descarga eléctrica que nos atravessa? Acordei debaixo dessa impressão.
Levantei-me com o pensamento em minha mulher, no amor que, apesar de tudo,
sentia por ela, e em Troukhatchevski. Acabrunhava-me o pensamento de que entre
ela e ele alguma coisa se consumara. O terror e o ódio apertavam-me
o coração. Tentei acalmar-me.

«“Que tolice!”, disse para comigo. “Isto não
tem razão de ser! Não há nenhum fundamento! Não
é possível. Nada se passou! Como posso rebaixar-me e rebaixá-la,
pensando tais horrores?”

«“Ele é um violinista a quem se paga, conhecido por ser
um pobre homem.”

«“Minha mulher é uma senhora respeitável, uma honrada
mãe de família. Que absurdo!”, pensava eu.

«Por outro lado eu considerava que casara com minha mulher por ter
necessidade dela, e que a necessidade que eu sentia também outros a
sentiam e, entre muitos, esse músico.

«Não era casado. Tinha uma esplêndida saúde. Lembro-me
perfeitamente do prazer com que ele trincava os ossos das costeletas e a avidez
com que bebia o vinho que lhe deitavam nos copos. Homem bem alimentado, sem
princípios, ou melhor, tendo como princípio gozar todos os prazeres
da vida.

«A música, esse terrível excitante, a forma mais perfeita
do desejo

 

deveria sem dúvida ser um elo entre eles. O que a pode conter a ela?
Nada.

Pelo contrário, tudo a atrai.

«Minha mulher foi sempre para mim um enigma. Eu não a conhecia,
senão no período animal. Aos animais ninguém os pode
conter.

«E assim me foram vindo à memória pormenores esquecidos.
A fisionomia dos dois quando acabaram de tocar um trecho apaixonante cujo
autor não me recordo, e que é uma página sensual, até
à impudência.

«“Como me atrevi a partir?…”, pensei, depois de ter notado
estes pormenores. “Tudo se consumou entre eles, esta noite.”

«Lembrava-me do sorriso de felicidade, ténue e amoroso que ela
tinha enquanto passava o lenço pelas faces rosadas, quando me aproximei
do piano.

«Eles, é certo, evitavam olhar-se. Somente durante a ceia, quando
ele lhe servia a água, os olhos se encontraram e entre si trocaram
um sorriso quase imperceptível. Lembrava-me com horror desse olhar
e desse sorriso que captara.

«Dentro de mim uma voz dizia-me:

«“Tudo acabou.” Mas outra voz me segredava uma outra linguagem.

«“O que te prende? E impossível…”

«Não pude mais estar às escuras. Acendi um fósforo.
E senti verdadeiro horror nesse quarto pequeno. Fumei um cigarro. É
sempre assim quando o pensamento gira em volta de contradições
insolúveis. Fuma-se. Acendi cigarros uns após outros. Envolvi-me
num nevoeiro em que os pensamentos se suspendiam, sem nenhuma consistência.
Em toda a noite não dormi uma hora. Às cinco horas da manhã
compreendi que não podia por mais tempo manter-me nesta situação.
Resolvi partir. Levantei-me. Acordei o criado. Mandei-o chamar uma equipagem.
Escrevi para o congresso, pedindo que me fizessem substituir por outro congressista.
Fora chamado a Moscovo subitamente.

«Às oito horas subia para um tarantass e partia.»

XXV

O revisor entrou. E tendo notado que a luz se extinguia acabou por a apagar
completamente sem a substituir. Lá fora o dia começava a aparecer.

 

Pozdnichev manteve-se calado enquanto o revisor ficou na carruagem, suspirando
profundamente. Só tornou a falar quando o revisor saiu. No nosso compartimento,
completamente às escuras, só se sentia o estremecimento dos
vidros produzido pêlos solavancos do comboio e o ressonar regular do
caixeiro-viajante. Na meia-luz do amanhecer eu não o via.

Somente a sua voz cada vez mais emocionada, cada vez mais dorida, se ouvia
acima de todos os outros sons.

— Eu tinha de percorrer trinta e cinco verstas de carruagem e oito
horas de caminho-de-ferro. O percurso de carruagem foi agradável.

«Estava um dia de Outono frio. O sol era brilhante. Era a época
em que as rodas dos carros vão deixando sulcos pêlos caminhos
— você conhece certamente. A luz era esplêndida, o ar vivificante.
Eu sentia-me perfeitamente livre dentro do tarantass.

«Quando o dia nasceu e me pus a caminho sentia-me bem-disposto.

«Olhando os campos, reparando nos cavalos, vendo as pessoas que se
cruzavam no caminho, esquecia-me ao que ia. De tempos a tempos, tinha a impressão
de que era uma simples viagem de recreio e nenhum outro motivo me levava para
casa.

«Sentia alegria por me esquecer. Se porventura me vinha ao pensamento
o que ia fazer dizia para mim:

«“Não pensemos… Depois se verá.”

«Durante o percurso, a meio do caminho, deu-se um desastre. O tarantass
avariou-se e foi necessário repará-lo. Este incidente teve muita
importância. Em vez de chegar a Moscovo às cinco horas, como
tinha previsto, cheguei à meia-noite; cheguei a minha casa à
uma hora, porque perdi o expresso e tive de apanhar um omnibus. Procurar abrigo,
assistir às reparações, pagar, tomar chá na estalagem,
dois dedos de cavaco ao estalajadeiro tudo contribuiu para me distrair. Ao
fim do dia tudo estava pronto, e de novo, nos pusemos a caminho.

«A viagem de noite ainda foi mais agradável.

«Caía neve e a lua iluminava a estrada lindíssima. Os
cavalos eram esplêndidos e o cocheiro um bom tagarela. Caminhava, saboreando
estes momentos sem quase me lembrar do que me esperava, ou talvez, eu experimentasse
esta alegria tanto mais intensa quanto sabia que dizia adeus para sempre ao
que na vida é belo.

 

«A paz que neste momento gozava parou no mesmo momento em que parou
a viagem de tarantass. Desde que me meti no comboio tudo se transformou. O
percurso de comboio foi torturante. Nunca o poderei esquecer. Não sei
se era a trepidação do comboio que me excitava, se a ideia de
que me ia aproximando de casa. Desde que subi para o comboio não pude
mais dominar a imaginação. De uma maneira vivíssima pintavam-se-me
quadros, cada uns mais lúbricos um do que o outro e que me excitavam
o ciúme. O assunto era sempre o mesmo, o que nessa noite se passava
em minha casa e a maneira como ela me enganava. O ciúme, a raiva, a
indignação e o sentimento de humilhação ao representarem-se-me
estas imagens disputavam-se, dilacerando-me o coração, como
abutres esfaimados. Eu não podia deixar de os ver; via-os sempre e
quanto mais as imagens se detinham no meu pensamento mais eu acreditava na
sua realidade. Um demónio comprazia-se em me torturar, trazendo-me
à memória as piores cenas de luxúria.

«Veio-me então à lembrança a conversa que tivera
com um irmão de Troukhatchevski em que lhe perguntara se frequentava
casas de má nota; ele respondera que um homem não tem necessidade
de ir a lugares anti-higiénicos e sórdidos, onde corre risco
de apanhar doenças, quando é fácil encontrar uma mulher
honesta da qual nada há a temer.

«Eu agora pensava que o irmão tinha encontrado essa mulher,
a minha própria mulher. Não era muito nova, faltava-lhe um dente
e estava um pouco alentada, mas — que fazer? — é preciso
aproveitar as ocasiões.

«“Sim”, pensava eu. “Ele condescende em a aproveitar
para amante… não tem perigo para a sua saúde.”

«“Não!… É impossível!… Como posso pensar
tais coisas?…”, pensava eu horrorizado. “Não tenho razões
para pensar nada disto… Ela afirmou-me que se sentia humilhada por eu ter
ciúmes dele.”

«Eram mentirosos os seus protestos… Ela mentia-me… E de novo me
vinham ao pensamento os mais lúbricos quadros.

«No meu compartimento iam mais dois passageiros, um homem e uma senhora,
ambos pouco faladores. Desceram na primeira estação e eu fiquei
só.

«Era uma fera enjaulada.

«Levantava-me. Sentava-me. Debruçava-me da portinhola, batia
os pés como se os meus movimentos contribuíssem para apressar
a marcha do comboio.

 

«Os vidros e os bancos do comboio estremeciam a todo o momento, exactamente
como acontece a estes.»

Pozdnichev levantou-se, deu duas ou três voltas febris e voltou a sentar-se.

— Toda a carruagem me metia pavor. Sentia-me gelar… Sentei-me. Tentei
pensar noutra coisa. Por exemplo no dono da estalagem onde tinha tomado chá.
Mas surgiu-me na imaginação o criado com a sua barba comprida
e o neto, um garotinho da mesma idade que o meu Vassia. O meu Vassia!… Ele
com certeza assiste à mãe ser beijada pelo músico.

«Que se passará na sua pobre alma? Ela não faz caso.
Está apaixonada.

E de repente tudo em mim se reavivou.

«Não… Não… Eu quero pensar na consulta no hospital.
Ontem um doente queixou-se ao médico.. O médico tinha os mesmos
bigodes que Troukhatchevski…

«E o pensamento voltava ao mesmo ponto. Com que impudência eles
me enganam!

«E tudo voltava de novo. O principal sofrimento era a ignorância,
a dúvida, a duplicidade no facto de eu próprio não saber
se a devia amar, se a devia odiar.

«O meu sofrimento era tão horrível que me veio a tentação
— lembro-me perfeitamente — de descer à linha, deitar-me
sobre os rails sob o comboio e acabar definitivamente. Esta ideia dava-me
satisfação. Não teria mais dúvidas nem hesitações.
Reteve-me a piedade que sentia por mim próprio e que fez nascer imediatamente
o ódio contra a minha própria mulher. Por ele, eu sentia o sentimento
bizarro, misto de ódio e da consciência da minha humilhação
e da sua vitória. Por ela eu sentia um ódio pavoroso.

«“Eu não quero suicidar-me. Não quero deixá-la.
E preciso que ela sofra, pelo menos um pouco, para que compreenda o que eu
sofro.”

«Desci em todas as estações para mudar de ideias. Numa
delas vi que serviam bebidas no bufete, fui imediatamente tomar uma vodca.
Perto de mim um judeu bebia também. Meteu conversa e para não
ficar sozinho no meu compartimento acompanhei-o à terceira classe,
suja, cheia de fumo e juncada de invólucros de sementes de girassol.
Sentei-me a seu lado. Ele conversou durante muito tempo. Contou-me inúmeras
anedotas. Escutava-o, mas sem compreender, porque ia seguindo o fio dos meus
desgraçados

 

pensamentos. A certa altura ele percebeu e quis prender-me a atenção.
Nessa altura levantei-me e voltei para o meu compartimento.

«“É preciso que eu me concentre. Se o que eu penso é
a verdade tenho razão para me torturar?”

«Sentei-me com a intenção de pensar calmamente, mas depressa,
em vez de pensamentos calmos tudo recomeçou. As mesmas imagens me perseguiam,
as mesmas representações…

«Entretanto pensava:

«“Quantas vezes fui atormentado (lembrava-me então das
cenas de ciúmes que tantas vezes sentira e em tudo semelhantes a esta)
e depois tudo terminava em bem.”

«“Será talvez, hoje, como outrora. Certamente vou encontrá-la
a dormir sossegada; ela acordará contente por me voltar a ver e as
suas palavras, o seu olhar dar-me-ão a certeza de que nada se terá
passado e que tudo eram tolices forjadas pela minha imaginação
doentia. Ah! Como seria maravilhoso que, tudo se passasse assim!”

«Mas não. Isto repetiu-se muitas vezes. Desta vez não
será assim — dizia-me uma voz, e tudo recomeçava. O que
era horrível é que eu considerava-me com direito incontestável
sobre o seu corpo. Como se fosse realmente o meu próprio corpo e ao
mesmo tempo reconhecia que aquele corpo não me pertencia, que ela não
podia dispor dele como quisesse e que o desejo que ela manifestava não
era conforme ao meu. Se ela não tivesse tido nada com ele mas o desejasse,
e eu sabia que ela o desejava, era pior ainda. Mais valia que tivesse havido
alguma coisa então eu o saberia e não mais haveria incertezas.
Eu já não sabia o que queria. Sentia-me enlouquecer.»

XXVI

— Antes da última estação, quando o revisor veio
controlar os bilhetes, juntei as bagagens e saí para a plataforma.
O sentimento do que se ia passar, aumentou a minha emoção. Tinha
frio de tal modo que batia os queixos e tremia-me o corpo. Saí da gare
maquinalmente juntamente com a multidão. Tomei um fiacre, subi e parti.
Durante o percurso ia olhando os raros passeantes daquela hora nocturna, os
porteiros, as sombras projectadas pêlos revérberos e pela minha
própria carruagem, umas vezes pela frente,

 

outras vezes pela parte de trás. Não pensava em nada. Depois
de ter percorrido meia versta, tive frio nos pés e lembrei-me de que
tinha tirado as minhas peúgas de lã e as tinha metido no saco.
E agora onde estava o saco? E o meu cesto? Lembrei-me então que na
precipitação me esquecera das bagagens. Pensei que não
valia a pena voltar para trás e de que tinha em meu poder a guia.

«Apesar de todos os meus esforços, não posso lembrar-me
do estado em que me encontrava então. Em que pensava eu? Ignoro. Lembro-me
somente que tinha o sentimento do que ia acontecer, qualquer coisa de tremendo
e de muito importante para a minha existência. Este acontecimento medonho
deu-se porque eu pensava nele ou porque o pressentia?… Não sei. Talvez
também tudo o que se passou nos minutos que precederam o que aconteceu
tomou na minha lembrança uma cor sombria.

«Cheguei diante do pátio da minha casa. Passava da meia-noite.
Vários fiacres estavam parados em frente à porta, esperando
fregueses eventuais porque havia luz nas janelas (nas do salão e nas
da sala de jantar do nosso apartamento).

«Sem tentar perceber porque estariam iluminadas as janelas, galguei
as escadas, bati à porta com o mesmo sentimento de que qualquer coisa
de horrível ia acontecer. O nosso criado de quarto, Egor, homem honesto
e dedicadíssimo, abriu-me a porta. O primeiro objecto que me saltou
à vista foi, logo na entrada, o casaco de Troukhatchevski, pendurado
no cabide juntamente com outros.

«Eu devia ter ficado surpreendido, mas não. Parece que contava
com isso.

«“Está bem”, disse para mim.

«Quando perguntei a Egor quem estava com a senhora ele respondeu-me
que era Troukhatchevski. Perguntei-lhe se havia mais alguém. Ele respondeu-me
negativamente.

«Lembro-me agora que a resposta dele tinha uma intenção
particular. Como se ele desejasse ser-me agradável e desvanecer em
mim qualquer má impressão, a propósito de qualquer outra
pessoa.

«“Ninguém mais! Ninguém mais”, repetia eu.

«“E os meninos?”

«“Graças a Deus estão bem. Adormeceram há
já muito tempo.” Eu não podia suster a respiração,
nem fazer parar o tremor dos queixos.

 

«Afinal era o que eu pensava. Antigamente eu pensava numa desgraça
mas na realidade tudo se passava bem. Agora não era como antigamente.
Tudo o que eu imaginara, tudo o que eu pensara era a realidade. Desta vez
era verdade.

«Ia começar a chorar mas, de repente, um demónio soprou-me
ao ouvidos:

«“Chora, arma ao sentimento, eles terão tempo de se separarem
tranquilamente. Não terás provas e toda a vida viverás
na dúvida e te atormentarás.”

«Imediatamente desapareceu o enternecimento por mim próprio
e um estranho sentimento surgiu — talvez você não acredite
— um sentimento de alegria, ao pensar que as minhas torturas iam acabar
e eu a podia castigar, livrar-me dela e podia finalmente satisfazer o meu
desejo de vingança. Tornei-me um animal enraivecido, um animal mau
e manhoso.

«“Não é preciso nada”, disse eu a Egor que
me queria acompanhar ao salão. “Tu tens que ir fazer imediatamente
isto. Mete-te num fiacre e vai levantar as minhas bagagens. Tens aqui a guia.
Apressa-te.”

«Ele meteu-se pelo corredor para ir buscar o casacão. Temendo
que os fosse prevenir, acompanhei-o até ao quarto e só o deixei
quando ele já estava pronto para sair.

«No salão que ficava afastado dos quartos continuavam a ouvir-se
vozes e o tilintar dos talheres e dos pratos. Estavam à mesa e não
tinham ouvido a campainha da entrada.

«“Deus queira que eles não saiam”, dizia de mim
para mim.

«Egor pôs o casacão de gola de astracã e partiu.
Logo que saiu fechei a porta à chave e fui tomado de verdadeiro pavor
quando percebi que estava completamente só e que era preciso agir imediatamente.

«Não sabia ainda como tudo iria acabar. Mas sabia que tudo terminaria
porque não havia maneira de ela poder provar a sua inocência
e eu tinha de a castigar e pôr fim às nossas relações.

«Noutras ocasiões eu dizia:

«“Talvez não seja verdade. Pode ser que eu me engane.”

«Neste momento tudo desaparecera. Decidira irrevogavelmente.

«“Às minhas escondidas, numa entrevista durante a noite!…”
Era o esquecimento de tudo. Ou pior ainda. Este despudor, esta impertinência
do

 

crime eram propositadas para testemunhar a sua inocência. Tudo era
claro.

Não podia haver dúvidas.

«Eu só tinha medo que eles se escapassem, inventando uma qualquer
artimanha, privando-me de uma prova retumbante e da possibilidade de os castigar.
Para os surpreender mais depressa, dirigi-me em bicos de pés para o
salão onde se encontravam, não passando pela salinha, mas atravessando
o corredor e o quarto dos pequenos.

«No primeiro quarto dormiam os rapazes. No segundo a criada mexeu-se
e esteve quase a acordar. Nesse momento pensei o que imaginaria ela quando
tivesse conhecimento do que tinha acontecido e senti uma pena tão grande
de mim mesmo que não pude suster as lágrimas. Para não
ser sentido pêlos pequenos saí a correr para fora do quarto em
bicos de pés para o corredor. Entrei no meu gabinete e desatei a chorar
convulsivamente enterrado no divã.

«“Que desgraça! Um homem honesto, filho de gente honradíssima,
que toda a vida sonhou com a felicidade de um lar!… Cinco filhos e ela beija
um músico porque ele tem os lábios vermelhos. Não. Ela
não é um ser humano. Ela é uma cadela, uma cadela vil…
Junto do quarto dos filhos que ela fingia amar acima de tudo… Escrever o
que ela me escreveu e envolvê-lo de seguida nos seus braços.”

«“Talvez tivesse sido sempre assim… Talvez os nossos filhos
sejam filhos dalgum dos meus criados.”

«“Se eu tivesse chegado de manhã ela teria vindo ao meu
encontro sorridente, formosa com as seus movimentos ondulantes e graciosos
(eu revia a sua figura atraente e odiosa) e então a besta raivosa do
ciúme ficaria para sempre no meu coração a esfrangalhá-lo.”

«“Que vão pensar o Egor e a criada? E a pobrezinha da
Lisa? Ela parece compreender alguma coisa. Que imprudência! Que impostora!”

«Quis levantar-me mas foi em vão. O coração batia-me
com tal violência que me não conseguia ter nas pernas. Sem dúvida
eu vou morrer de um ataque. Ela mata-me. Era o que era preciso. Era muito
cómodo. Não. Não será assim. Seria cómodo
de mais. Eu não lhe darei essa satisfação. Muito bonito.
Eu aqui sentado sem me poder mexer e eles, comendo, rindo e… Sim. Embora
ela não esteja na juventude, ele julgou-a digna dele. Apesar de tudo
ela ainda não está má e sobretudo não é
um perigo para a sua preciosa saúde.

«“Por que a não estrangulei no outro dia?”, pensava
eu recordando a cena em que lhe atirara todos os objectos que tinha sobre
a secretária e a tinha

 

expulsado do meu gabinete. Lembrava-me perfeitamente do estado em que me
encontrava então; não somente eu recordava nitidamente tudo,
mas sentia também a mesma necessidade de bater e de destruir que me
assaltara naquele momento.

«Recordo-me de que desejava agir e que todas as espécies de
lucubrações fora daquelas que eram necessárias para agir
me saíam do cérebro.

«Entrei nas disposições de um animal feroz ou, antes,
nas de um homem que está sob a influência de uma excitação
física no momento de um perigo. Age com precisão, sem pressa,
mas sem perder um minuto e tudo com um fim determinado.»

XXVII

— A primeira coisa que fiz foi descalçar os sapatos. Em peúgas
fui até à parede por cima do divã onde estavam penduradas
as espingardas e os punhais. Tirei um punhal curvo marchetado, terrivelmente
agudo que nunca tinha servido. Tirei-o da bainha que caiu para trás
do divã. Lembro-me que pensei procurá-la mais tarde para que
se não perdesse. Depois tirei o sobretudo que tivera vestido todo esse
tempo e, caminhando com passos silenciosos sem as botas, dirigi-me para o
salão. Depois de ter chegado até à porta, sem nenhum
ruído abri-a bruscamente. Lembro-me das suas expressões. Lembro-me
perfeitamente, pela alegria que senti perante o horror que elas exprimiam.
Era precisamente o que eu pretendia. Eu não posso jamais esquecer o
terror desvairado, pintado nas feições dos dois, durante o primeiro
segundo… quando eles me viram.

«Ele estava — parece-me — sentado à mesa; ao ver-me,
ou melhor, ao sentir-me levantou-se repentinamente e ficou de pé, de
costas para o armário.

O seu rosto traduzia verdadeiro terror. A cara da minha mulher tinha a mesma
expressão. Se a sua fisionomia só tivesse traduzido terror talvez
o que aconteceu não tivesse acontecido. Mas ela exprimia — pelo
menos foi essa a minha impressão à primeira vista — despeito,
desagrado por ter sido interrompida nos seus amores, na sua felicidade com
ele. Parecia querer dizer que não a importunassem, que não precisava
de nada, porque só precisava, naquele momento, de ser feliz. Mas tudo
isto se passou num relance. O terror da expressão de Troukhatchevski
foi substituído por um ar

 

interrogador.

«“Devemos mentir ou não? Se devemos mentir tem que ser
já, senão outra coisa vai acontecer.”

«Mas o quê? Ele olhou para ela como a interrogá-la. Sobre
a face de minha mulher desapareceram os sinais de desapontamento e tédio
para darem lugar à inquietação pelo que podia ir acontecer
a Troukhatchevski.

«Fiquei um instante no limiar da porta, com o punhal atrás das
costas. Neste preciso momento ele sorriu e começou num ar absolutamente
indiferente até ao absurdo:

«“Fazíamos um pouco de música…”

«Por sua vez ela disse:

«“Eu não te esperava!”

«Usou o mesmo tom que ele.

«Nem um nem outro ousaram acabar a frase. A raiva que semanas antes
me acometera apoderou-se de mim. Senti novamente o desejo de destruir tudo,
uma necessidade de violência, de exaltação. Abandonava-me
ao meu furor. Os dois deixaram a sua frase inacabada. Aquela coisa que ele,
inconscientemente, temia e que quebrava tudo o que eles diziam começou.
Atirei-me a ela, escondendo sempre o punhal que trazia comigo para que ele
não me impedisse de a ferir de lado, um pouco abaixo do seio. Desde
o princípio que eu escolhera aquele lugar. No momento em que me atirei
a ela ele viu o punhal (eu não pensei que ele fosse capaz de proceder
assim). Agarrou-me pelo braço e gritou:

«“Acalme-se! Que é que você vai fazer? Socorro!”

«Desprendi o braço brutalmente e sem dizer uma palavra atirei-me
a ele. O seu olhar encontrou-se com o meu, tornou-se, como o meu, branco como
a cal, os próprios lábios embranqueceram. Os olhos adquiriram
um brilho estranho e depois (eu não esperava este desenlace) ele esgueirou-se
por debaixo do piano e desapareceu pela porta. Corri atrás dele mas,
de repente, senti um peso no meu braço. Era ela. Atirei-me. Ela fez-se
mais pesada, reteve-me. Este obstáculo imprevisto, este peso e o seu
contacto odioso excitaram-me mais ainda. Eu sentia que estava completa-mente
descontrolado, que devia ter um aspecto medonho e sentia-me alegre. Levantei
o braço esquerdo com todas as minhas forças e o cotovelo bateu-lhe
em cheio na cara. Ela soltou um grito e largou-me o braço. Tentei ainda
ir atrás dele mas pensei que seria ridículo correr em meias
atrás do amante da

 

minha mulher; eu não queria ser ridículo, queria ser terrível.
Apesar do meu frenesim eu tinha a consciência da impressão que
causava aos outros e era essa impressão que me guiava. Voltei-me para
ela. Tinha caído sobre uma chaise-longue e fitava-me, protegendo com
as mãos os olhos feridos. A sua expressão era de ódio
e temor; o ódio do inimigo, o do rato quando se abre a ratoeira onde
se deixou cair. Pelo menos era o que eu via, horror e medo de mim. Era o horror
e o medo que lhe deviam ter feito nascer o amor por outro homem. Eu talvez
tivesse conseguido dominar-me e não teria acontecido o que aconteceu
se ela não tivesse falado. Mas ela começou a falar e agarrou-me
a mão com que eu segurava o punhal.

«“Acalma-te! Que fazes tu?… O que aconteceu? Não há
nada… nada… nada… Juro-te!”

«Eu talvez tivesse detido a minha fúria, mas as últimas
palavras de que eu tirei a conclusão ao contrário, isto é,
que tudo estava consumado, exigiam uma resposta. E a resposta devia ser conforme
ao estado em que me encontrava e que ia num crescendo e devia continuar a
ampliar-se. A cólera também tem os seus direitos.

«“Não mintas, prostituta!”, berrava eu, e com a
mão esquerda agarrei-lhe o braço.

«Mas ela conseguiu libertar-se. Então sem largar o punhal, agarrei-a
pela garganta com a mão esquerda, deitei-a para trás e tentei
estrangulá-la. Como o seu pescoço era duro! Ela agarrou-se com
as duas mãos às minhas, para tentar tirá-las da garganta…
e então como se eu não esperasse senão isto, feri-a duas
vezes, com muita força, com o punhal no lado esquerdo, abaixo das costelas.

«Quando se afirma que nos não lembramos de nada, num acesso
de furor, é uma tolice, e uma mentira. Eu lembro-me de tudo e nem um
momento deixei de me lembrar. Quanto mais violenta era a minha cólera
mais intenso era o fogo da consciência, à luz da qual eu não
podia deixar de ver tudo o que fazia. Em todos os momentos sabia o que estava
a fazer. Não poderei dizer que eu sabia de antemão o que ia
fazer mas, no momento em que agia, mesmo um pouco antes, sabia bem o que fazia
para que fosse possível arrepender-me, e de qualquer maneira, me pudesse
deter. Sabia que a feria sob as costelas e que o punhal entrava. Nesse momento,
sabia que cometia qualquer coisa de muito horrível, que nunca tinha
feito nada de semelhante e que seriam terríveis as consequências.
Mas esta consciência desapareceu como um relâmpago e imediatamente
o acto se seguiu. Também tenho a consciência nítida do
acto. Senti (lembro-me perfeitamente) a

 

resistência do espartilho e depois enterrar-se o punhal em qualquer
coisa mole. Ela agarrara a lâmina com as duas mãos e feriu-se
mas não a pôde segurar.

«Muito tempo depois, na prisão, quando uma revolução
moral se operou em mim, eu meditei nesse minuto, reconstituindo o mais que
podia. Lembro-me que num abrir e fechar de olhos durante o segundo que precedeu
o meu acto, eu tive o sentimento terrificante de matar, de ter morto uma mulher,
uma criatura sem defesa, a minha própria mulher. Lembro-me do horror
desse instante e concluí que depois de ter enterrado o punhal eu o
tirei (tenho disso uma vaga ideia) com o desejo de reparar o mal, de impedir
o que já estava feito. Estive um momento imóvel, esperando o
que ia acontecer, se a poderiam salvar. Ela levantou-se bruscamente e gritou:

«“Ama! Ele matou-me!”

«A criada dos pequenos que tinha ouvido barulho estava no limiar da
porta. Eu fiquei pregado ao chão, à espera, sem poder render-me
à evidência. Neste momento mesmo, o sangue jorrou através
do espartilho. Só então compreendi que não poderiam reparar
o que tinha feito e verifiquei que era inútil: era precisamente o que
eu queria e desejara realizar completamente. Eu esperava que ela caísse.
A criada correu para ela gritando:

«“Meu Deus!”

«Então arremessei o punhal para longe e deixei o quarto.

«“É necessário que eu não me perturbe, é
preciso que saiba o que faço”, dizia eu, sem olhar, nem para
a minha mulher nem para a criada.

«A criada gritava e chamava a outra criada. Eu passei no corredor,
mandei a criada para junto de minha mulher e fui para os meus aposentos.

«“Que fazer agora?”, perguntei a mim mesmo e compreendi
o que tinha de fazer. Entrando no meu gabinete dirigi-me imediatamente para
a parede onde estavam as armas. Tirei um revólver, examinei-o (estava
carregado) e coloquei-o em cima da mesa. Em seguida procurei a bainha do punhal
e sentei-me sobre o divã.

«Fiquei durante muito tempo assim. Eu não pensava em nada; não
me lembrava de nada. Pareceu-me ouvir que transportavam qualquer coisa. Chegou
alguém, depois chegou ainda outra pessoa. Em seguida senti e vi Egor
trazer para o meu gabinete a bagagem que tinha ficado na gare, como se alguém
tivesse necessidade de alguma coisa.

«“Ouviste dizer o que aconteceu? Diz ao porteiro que chame a

 

polícia.”

«Ele calou-se e pouco depois saiu. Levantei-me. Fechei a porta à
chave e depois de ter ido buscar cigarros e fósforos pus-me a fumar.

«Ainda não tinha acabado de fumar um cigarro quando o sono me
invadiu e me venceu. Dormi, provavelmente, perto de duas horas. Lembro-me
que sonhei que éramos bons amigos. Tínhamo-nos zangado mas tínhamos
feito as pazes; havia qualquer coisa que nos aborrecia mas éramos bons
amigos. Acordei ouvindo bater à porta.

«“É a polícia!”, pensei eu, acordando. “Parece-me
que a matei. Ou talvez seja ela e não se tenha passado nada.”

«Tornaram a bater à porta. Eu não respondi, esforçando-me
por resolver a questão. Aconteceu ou não aconteceu? Sim, aconteceu.
Lembrava-me da resistência do espartilho, o punhal que se enterrava
e tive um estremecimento de horror, que me gelou. Sim, aconteceu. Agora é
a minha vez. Mas, dizendo isto, eu tinha a certeza que não me mataria.
Contudo levantei-me e peguei de novo no revólver. Facto estranho. Lembro-me
de que antes disto tinha estado muitas vezes à beira de me suicidar.
No dia anterior, no caminho-de-ferro, isso ter-me-ia parecido fácil,
precisamente porque supunha dar-lhe um desgosto. Neste momento eu não
podia pensar assim.

«“Por que hei-de fazer isto?”, perguntava a mim próprio
sem encontrar resposta.

«Bateram de novo à porta. “É preciso saber quem
é. Eu tenho tempo.” Pus de nova o revólver sobre a mesa
e cobri-o com um jornal. Fui à porta e abri-a. Era a irmã da
minha mulher, uma viúva, ao mesmo tempo boa e estúpida.

«“Vassia! Que aconteceu?”, disse-me ela entre lágrimas
sempre prontas a correr.

«“O que é que tu queres?”, respondi bruscamente.
Reconhecia que era perfeitamente inútil e injusto ser brutal com ela
mas não podia falar de cutro modo.

«“Vassia! Ela vai morrer. Disse-o Ivan Fédorovitch.”
Era o médico, o seu médico, o seu conselheiro.

«“Ele está cá?”, perguntei eu. De novo me
veio uma grande má vontade contra ela. “E depois?”

«“Vassia, vai vê-la. Ah! É horrível!”

 

«“Ir vê-la?”, perguntei a mim próprio. Era
necessário ir vê-la. Com certeza era costume. Quando um marido,
como eu, mata a mulher é necessário, com certeza, ir vê-la.

«“Se é costume, irei vê-la. Há sempre tempo”,
pensei eu a propósito da minha intenção de me suicidar
e fui para os aposentos de minha mulher.

“Certamente vai haver frases e gestos mas eu não me deixarei
comover.”

«“Espera um pouco”, disse eu para a minha cunhada. «“É
estúpido ir em peúgas. Deixa-me, ao menos, calçar as
pantufas.”»

XXVIII

— Coisa extraordinária! Quando saí do meu gabinete e
atravessei os compartimentos que me eram familiares tive ainda a esperança
de que nada se tivesse passado. Mas o cheiro dos desinfectantes que são
prescritos pêlos médicos, o fenol, o iodofórmio, abateram-me.
Sim. Era verdade. Quando passei no corredor, em frente do quarto dos filhos,
vi Lisa. Fixou-me com os olhos apavorados. Tive mesmo a impressão de
que todos os filhos olhavam para mim. Cheguei à porta do quarto; a
criada abriu-a e saiu.

«A primeira coisa que me saltou aos olhos foi o vestido de minha mulher,
um vestido de seda cinzento, em cima de uma cadeira, e todo manchado de sangue.
Estava deitada na nossa cama no meu lugar (era o mais acessível), estendida,
mas com os joelhos levantados. Tinha o corpete desabotoado e sobre a ferida
tinham-lhe colocado qualquer coisa.

«O quarto estava impregnado do cheiro do clorofórmio. Mas o
que me horrorizou, antes de mais nada, foi a cara inchada e coberta de nódoas
negras num dos olhos e numa parte do nariz. Era o efeito da enorme pancada
que eu lhe dera quando ela me agarrou.

«Tinha perdido toda a sua beleza e tinha mesmo um ar repugnante. Parei
à entrada.

«“Aproxima-te, vai até junto dela”, disse-me a minha
cunhada.

«“Quererá ela confessar-me toda a verdade? Devo perdoar-lhe?
Sim. Ela vai morrer, eu devo perdoar”, pensei e esforçando-me
por ter um ar magnânimo. Cheguei-me um pouco para mais perto dela. Ergueu
para mim, com grande custo, os olhos fatigados (tinha um olho inchadíssimo)
e com

 

grande dificuldade e entrecortadamente articulou:

«“Conseguiste o teu fim, mataste-me…” E na sua cara,
apesar de todo o sofrimento físico e até da aproximação
da morte eu vi o antigo ódio frio e animal que me era familiar. “Mas…
os filhos… eu não tos deixarei… Será ela (a sua irmã)
que tomará conta deles.”

«Mas do que era mais importante para mim, da sua falta, da sua traição,
ela entendia que não valia a pena falar.

«“Revê a tua obra”, disse ela olhando para a porta
e desatando a soluçar. A minha cunhada estava à entrada da porta
com todos os filhos. “Eis o que tu fizeste.”

«Olhei para os filhos, depois para a sua cara coberta de equimoses,
e pela primeira vez esqueci a minha personalidade, os meus direitos, o meu
orgulho, vi nela um ser humano. Tudo o que me ofendia, todo o meu ciúme
era nada perante a acção que tinha cometido. E tive a tentação
de encostar a cabeça à sua mão e pedir-lhe que me perdoasse.
Mas não tive coragem. Ela ficou calada, os olhos fechados, visivelmente
já fora de si. Depois a cara comple-tamente deformada contraiu-se e
cobriu-se de rugas. Repeliu-me.

«“Porquê tudo isto? Porquê?”

«“Perdoa-me”, disse-lhe eu.

«“Perdoar? Tudo isto é absurdo!… O que eu queria era
viver”, gritou ela. Soergueu-se, os olhos tinham um brilho febril e
fixaram-me: “Conseguiste os teus fins!… Odeio-te. Ai!… Ai!…”
Subitamente, em delírio, sob uma impressão de terror. “Mata-me!
Mata-me! Eu não tenho medo… Somente… peço-te, mata-nos a
todos, e a ele também. Ele foi-se embora… ele foi-se embora!…”

«Nunca mais deixou de delirar. Já não conhecia ninguém.
Morreu nesse mesmo dia, pelo meio-dia.

«Às oito horas tinham-me levado para o comissariado e daí
para a prisão. Depois de onze meses de prisão em que esperei
pela organização do processo, reflecti durante esse tempo sobre
a minha maneira de ser e proceder, sobre todo o meu passado e compreendi então
tudo. Logo dois dias depois comecei a compreender. E dois dias depois entrava
na prisão…»

Ele quis acrescentar mais alguma coisa mas não pôde reter por
mais tempo os soluços. Parou a narração. Encheu-se de
coragem e continuou:

— Eu nada tinha compreendido até que a vi no caixão.
— Voltou a soluçar mas continuou precipitadamente: — Foi
só quando vi a sua cara de

 

morta, pálida como cera, que compreendi tudo o que tinha feito. Compreendi
que a tinha assassinado e que dependera de mim a sua vida, o que a animava,
o seu calor, a sua felicidade; e, que por mim, ela se tornara inerte, fria,
cor de cera; e eu não podia reparar o mal que fizera em nenhum tempo,
em nenhum lugar, de nenhuma maneira. Quem não passou por isto não
pode compreender. Que horror!… Que horror!… — gritou ele por diversas
vezes. Depois, veio-lhe de novo a calma. Ficámos silenciosos por muito
tempo. Ele chorava desabaladamente, sem dizer uma palavra na minha frente,
sacudido a todos os instantes, pêlos solavancos do comboio.

— Perdoe-me!…

Voltou-se. Estendeu-se ao comprido no banco e tapou-se com a manta de viagem.
Na estação em que eu me devia apear (eram perto de oito horas
da manhã) aproximei-me dele para me despedir. Não sei se dormia
se fazia que dormia. Não tinha sequer um leve estremecimento. Toquei-lhe
com a mão e afastando a manta que o cobria vi que ele estava acordado.

— Adeus — disse-lhe estendendo-lhe a mão. Estendeu-me
a sua com um sorriso tão lamentavelmente triste que tive vontade de
chorar.

— Perdoe-me — disse-me ele, repetindo as mesmas palavras que
dissera quando concluíra a sua narrativa.

 

POSFÁCIO

Recebi e continuo a receber muitas cartas de desconhecidos, pedindo-me que
explique em termos simples e claros o que penso acerca da narrativa que escrevi
e intitulei Sonata a Kreutzer.

Vou tentar exprimir brevemente, na medida do possível, o conteúdo
do que eu quis dizer nesta narrativa e as conclusões que segundo o
meu parecer se podem daqui tirar.

Primeiramente, quis dizer que na nossa sociedade se formou a convicção
sólida, comum a todas as classes e aprovada por uma falsa ciência
de que as relações sexuais são indispensáveis
à saúde; e que portanto, quando o casamento se não torna
possível, o comércio sexual, não obrigando o homem a
outra preocupação que não seja a de uma determinada despesa,
é uma actividade perfeitamente natural e por consequência deve
ser encorajada.

Esta convicção tornou-se tão geral e tão sólida
que os pais, a conselho dos médicos, asseguram a depravação
dos filhos; os governos cujo único fim é o cuidado do bem-estar
moral dos seus concidadãos fazem do desregramento físico uma
instituição, isto é, regularizam a existência de
uma classe de mulheres destinadas a morrer não só física
como moralmente para satisfação das pretensas necessidades dos
homens, de tal modo que os celibatários entregam-se ao deboche com
a consciência perfeitamente tranquila.

Eu quis, portanto, provar que esta tese está errada porque é
impossível que para a saúde de uns seja necessário fazer
morrer os corpos e as almas dos outros, da mesma maneira que não é
possível que para a saúde de uns seja necessário beber
o sangue dos outros.

A conclusão que tiramos é de que não se deve ceder a
esta aberração e falsidade.

Para não ceder é necessário primeiro não acreditar
nas doutrinas imorais, quer elas sejam pseudociências em que se arvoram
e, segundo, compreender que a prática das relações sexuais
desta espécie nas quais os homens ou se libertam das consequências
possíveis — os filhos —, ou então fazem recair todo
o peso sobre a mulher, ou obstam à possibilidade concepcional; as relações
deste género são na verdade uma transgressão da mais
simples exigência moral, uma infâmia e os homens solteiros que
não

 

querem ter uma vida infame não devem proceder desta maneira.

Para se poderem abster é preciso além disso levar uma vida
conforme à natureza; não beber, não se empanturrar de
comida, não comer carne, não fugir ao trabalho (não ginástica
mas um trabalho extenuante, que não tenha nada de divertimento), afastar
do pensamento a possibilidade de relações físicas com
mulheres de outros, da mesma maneira que qualquer homem afasta a possibilidade
de ligações desse género entre ele e a mãe, os
irmãos, os pais e as mulheres dos amigos.

A continência é possível e muito menos perigosa e prejudicial
à saúde que a incontinência. Todos os homens encontrarão
à sua volta centenas de provas.

Este é o primeiro ponto.

Segundo ponto: na nossa sociedade considera-se o comércio amoroso
não só como uma condição essencial à saúde
e um prazer mas uma felicidade poética e sublime; a infidelidade conjugal
em todas as classes (sobretudo entre os camponeses — graças ao
serviço militar) é um fenómeno corrente.

Eu considero isto mal. A conclusão que daqui resulta é de que
se não deve fazer isto.

Para não fazer isto é necessário considerar o amor carnal
de uma outra maneira. É preciso que os homens e as mulheres sejam educados
nas famílias e na opinião pública de tal maneira que
antes e depois do casamento eles considerem o desejo e o amor físico
que estão entre si ligados, não como um estado poético
e superior, como se considera presentemente, mas como um estado animal degradante
para o ser humano e que a violação da promessa de fidelidade,
dada no momento do casamento, seja castigada pela opinião pública
pelo menos, da mesma maneira que o não pagamento de uma dívida,
ou fraude comercial, e não seja celebrada, como se faz agora, nos romances,
na poesia, nas canções, nas óperas, etc.

Este é o segundo ponto.

Terceiro ponto: na nossa sociedade, sempre, como consequência do significado
errado atribuído ao amor carnal, a procriação perdeu
o seu verdadeiro significado: em vez de ser o fim e a qualificação
das ligações conjugais ela não é senão
um obstáculo ao prolongamento agradável das relações
amorosas. Consequentemente, tanto fora como dentro do casamento, sob o conselho
dos servidores da ciência médica, por um lado, o emprego de processos
para privarem a mulher da possibilidade de conceber começou a espalhar-se,
por outro lado, uma prática que não existia outrora nas famílias

 

patriarcais camponesas começa a entrar em uso: a continuação
das relações conjugais durante a gravidez e o aleitamento.

Eu considero isso um mal. É um mal o emprego dos processos anticoncepcionais;
primeiro porque liberta as pessoas dos cuidados e dos sofrimentos que dão
os filhos e eram um resgate do amor carnal; segundo, porque é qualquer
coisa muito próxima do acto que mais repugna à consciência
humana, o assassínio. A incontinência durante a gravidez e o
aleitamento é reprovável porque atinge a mulher nas suas forças
físicas e sobretudo morais.

A conclusão que daqui resulta é de que se não deve fazer
isto. E para não o fazer é necessário compreender que
a continência, condição essencial da dignidade humana
fora do casamento, é ainda mais necessária no matrimónio.

Este é o terceiro ponto.

Quarto ponto: na nossa sociedade, em que os filhos são considerados,
tanto como um obstáculo à felicidade, tanto como um perigo desastroso
ou como uma felicidade quando se lhes determina o número de antemão,
os filhos são criados não no sentido das tarefas da vida humana
que os espera como seres inteligentes e amáveis mas somente no sentido
dos prazeres que eles podem proporcionar aos pais.

Por consequência, os filhos dos homens são criados como animaizinhos
e o principal cuidado dos pais não é prepará-los para
as actividades dignas dos homens mas (e nisto os pais são sustentados
pela falsa ciência a que se chama medicina) de os fartar o mais possível,
de fazer deles homens de boa estatura, musculosos, brancos, gordos e bonitos
(se não se faz o mesmo nas classes inferiores é unicamente porque
a necessidade se opõe, mas o critério é o mesmo). É
entre as crianças molengas como entre os animais superalimentados,
manifesta-se cedo e anormalmente uma sensualidade invencível que lhes
causa tormentos horríveis na adolescência. Os enfeites, as leituras,
os espectáculos, a música, as danças, as guloseimas,
todo o cenário da vida, desde os bonecos das caixas de bombons até
aos romances, novelas e poemas, incitam e exaltam ainda mais a sensualidade;
em consequência disto surgem as mais tremendas depravações
e as doenças sexuais tornam-se o elemento habitual no crescimento das
crianças dos dois sexos e permanecem, muitas vezes, até na idade
adulta.

Eu considero isto um mal. A conclusão que se pode tirar é que
é necessário deixar de educar os filhos dos homens como os filhos
dos animais e para educar os filhos dos homens devem fixar-se outras regras
que não

 

sejam as de criar corpos bonitos e amimados.

É o quarto ponto.

Quinto ponto: na nossa sociedade em que a paixão entre um rapaz e
uma rapariga, cuja base é o amor carnal, é considerada no plano
de um resultado nobre e poético das aspirações dos seres
(toda a arte e a poesia da nossa sociedade são disso testemunhos) os
jovens consagram-lhe grande parte da vida: os homens a procurar o objecto
mais digno do seu amor e tomar posse dele ou sob a forma de uma ligação
ou de um casamento; as mulheres e as raparigas a seduzir e a atrair os homens
para uma ligação ou para o casamento.

Deste modo, as melhores forças dos indivíduos são empregadas
numa tarefa não somente improdutiva, mas aborrecida. Daí provém
a maior parte do luxo insensato da nossa vida quotidiana, daí a ociosidade
dos homens, o impudor das mulheres que não hesitam em expor, com a
ajuda das modas provenientes de mulheres notoriamente depravadas, as partes
do corpo mais provocantes para os sentidos.

Ora eu considero isto um mal.

E mal porque a procura da união, no casamento ou fora do casamento,
com o objecto amado, qualquer que seja a maneira como o poetizem é
um fim indigno do homem, da mesma maneira que é indigno do homem andar
à procura (embora seja para muitos o maior bem) de uma alimentação
saborosa e abundante. A conclusão que devemos tirar é de que
o amor carnal nada tem de particularmente nobre e que a finalidade superior
do homem, quer seja o serviço da humanidade, da pátria, da ciência,
da arte (não falando no serviço de Deus) não se atinge
através da união com o objecto amado, no casamento ou fora dele.
Pelo contrário, o amor, a união com o objecto amado —
é debalde que se procura demonstrar o contrário, seja em prosa,
seja em verso — não facilita o alcance desse fim, antes o dificulta.

É este o quinto ponto.

Resumindo era isto o que eu queria dizer e julgara mesmo tê-lo dito
na minha narrativa. Supunha que o mal que a minha tese denuncia faria reflectir
no meio de remediar mal tão profundo.

É impossível rebater os argumentos que apresentei, primeiro
porque estão em acordo perfeito com o progresso da humanidade que tende
para a castidade, com a consciência moral da sociedade, com a nossa
consciência pessoal que condenou sempre a incontinência e apreciou
a pureza; segundo porque os argumentos apresentados são a consequência
inevitável dos

 

ensinamentos do Evangelho que praticamos, ou pelo menos, reconhecemos, por
vezes inconscientemente, como fundamento da nossa concepção
moral. Ninguém, certamente, contesta os argumentos que condenam o desregramento,
antes e depois do casamento, nem os de que se não deve impedir a concepção;
nem que os filhos não devem ser motivo de divertimento, nem que se
deve colocar acima de tudo a união carnal; ninguém negará
que a castidade é preferível à libertinagem.

Argumenta-se: se o celibato é um estado mais perfeito do que o casamento,
evidentemente devemos praticar o que é melhor, mas nesse caso desaparecerá
o género humano. Ora, o ideal do género humano não deve
ser o seu aniquilamento.

O aniquilamento do género humano não é uma concepção
nova. É um dogma para os crentes. É uma dedução
inevitável das observações para os cientistas. Há
nesta objecção um grande mal-entendido (que não é
de hoje e está muito espalhado).

Se os homens atingem o ideal da perfeita castidade aniquilam-se, logo o ideal
é falso. Os que afirmam isto misturam, consciente ou inconscientemente,
duas coisas de natureza diferente, a lei (a prescrição) e o
ideal.

A castidade não é uma lei, é ideal, ou melhor, uma das
condições do ideal. E o ideal só é ideal quando
a sua realização não é possível, senão
como ideia e pensamento. O ideal só deve ser possível de atingir
no infinito e por consequência a possibilidade de aproximação
é infinita. Se o ideal se atinge e podemos representar a sua realização
deixa de ser ideal. Tal é o ideal de Cristo.

O advento do reino de Deus sobre a Terra, ideal já anunciado pêlos
profetas e em que os homens instruídos por Deus transformariam o ferro
das espadas em charruas, as lanças em foices, o leão se deitaria
ao lado do cordeiro e os homens estariam unidos pelo Amor.

Todo o sentido da vida humana é um movimento que tende para este ideal;
no seu conjunto e aspiração para o ideal cristão, e em
particular a castidade como uma das condições deste ideal, não
exclui a possibilidade da vida mas pelo contrário a ausência
deste ideal cristão impede toda a possibilidade da vida.

A hipótese de que o género humano acabaria se os homens tendessem
para uma castidade perfeita assemelha-se à de que o género humano
poderia acabar se os homens em vez de lutarem pela existência tendessem
para

 

realizar perfeitamente a caridade amando o próximo como a si próprio,
amigos e inimigos, todos os seres vivos.

Estas afirmações derivam da incompreensão da diferença
dos dois aspectos da conduta moral.

Assim como se pode indicar de duas maneiras o caminho ao viajante que o procura,
há duas regras de conduta moral para o homem que procura a verdade.
Uma consiste em mostrar ao homem objectos que tem de encontrar e ele orienta-se
segundo esses objectos. A outra consiste em dar ao homem somente uma direcção
indicada pela bússola que o homem traz consigo e em que é marcada
a direcção imutável e por consequência ele poderá
apreciar os seus próprios desvios.

A primeira regra de conduta moral baseia-se em regras exteriores —
determinam-se ao homem actos determinados que ele pode ou não realizar.

— Respeita o sábado — emprega a circuncisão, não
bebas bebidas alcoólicas, não mates seres vivos, dá o
dinheiro aos pobres, não cometas adultério, faz as tuas abluções,
reza cinco vezes por dia, baptiza-te, comunga, etc. Eis os pontos das doutrinas
exteriores das religiões, bramânica, budista, muçulmana,
hebraica, eclesiástica, abusivamente chamada cristã.

A outra regra mostra ao homem uma perfeição impossível
de atingir, à qual ele aspira no fundo de si próprio; indica-se
ao homem um ideal e ele pode sempre medir a distância que o separa.

— Ama a Deus com todo o coração, com toda a tua alma,
com toda a tua razão, e ao teu próximo como a ti mesmo. Sede
perfeitos como vosso Pai Celeste.

É a doutrina de Cristo.

Pode-se verificar a realização das doutrinas exteriores da
religião pela concordância dos actos com os pontos destas doutrinas,
esta concordância é possível.

Pode-se verificar a realização da doutrina de Cristo pela consciência
do grau de afastamento do ideal de perfeição. (O grau de aproximação
não é visível; não se apreende senão a
distância que nos separa da perfeição.)

O homem, praticando a lei exterior, é um homem de pé à
luz de uma lanterna aparafusada num poste. Se ele se mantém na luz
desta lanterna vê claro, e não tem necessidade de ir mais longe.
O homem que pratica a doutrina de Cristo assemelha-se a um homem que traz
uma lanterna diante dele ao fim de uma vara mais ou menos comprida; a luz
está sempre diante

 

dele, incita-o continuamente a continuar o seu caminho e revela-lhe a todos
os momentos um espaço novo que ela ilumina.

O fariseu dá graças a Deus porque cumpriu todos os seus deveres.

O rapaz rico também cumpriu todos os deveres desde a infância
e não vê o que pode faltar-lhe. Eles não podem pensar
de outra maneira e não há mais nada a que possam aspirar. Pagam
o dízimo, observam o sábado, respeitam os pais, não cometem
adultério, nem roubo, nem assassínio. Que mais é preciso?

Mas para o que pratica a doutrina cristã, o acesso a cada grau da
perfeição faz nascer a necessidade de subir ao grau seguinte
de onde se descobre um outro, ainda mais elevado. O que pratica a lei de Cristo
está perpetuamente na situação do publicano. Ele sente-se
sempre imperfeito; não vê o caminho percorrido, mas vê
sempre o caminho que ainda lhe é necessário percorrer.

E aqui que se encontra a diferença entre a doutrina de Cristo e todas
as outras doutrinas religiosas; esta diferença reside não nas
exigências mas na maneira de dirigir os homens. Cristo não deu
nenhuma regra de vida; ele nem mesmo instituiu o matrimónio —
mas as pessoas que não compreendem a singularidade da doutrina de Cristo,
habituadas às doutrinas exteriores e desejosas de se sentirem justas
da mesma maneira que o fariseu se sente justo — contrariamente a todo
o espírito da doutrina de Cristo —, tomaram os seus ensinamentos
à letra e fizeram um conjunto de regras exteriores, chamado doutrina
cristã da Igreja e que substitui a verdadeira doutrina de ideal de
Cristo.

Este ensino da Igreja que se baptiza cristã instituiu no lugar do
ensino do ideal em tudo o que concerne às regras exteriores contrárias
ao espírito da doutrina — isto no que diz respeito ao poder da
justiça, do exército, da Igreja, do culto e também no
que diz respeito ao casamento; se bem que Cristo nunca tenha instituído
o matrimónio, mas, se se procuram as regras exteriores, tenha antes
negado (deixa a tua mulher e segue-me), o ensino da Igreja que se baptiza
cristã, instituiu o casamento como base da vida cristã —
dizendo de outro modo, fixou as condições exteriores, graças
às quais o amor carnal pode parecer ao cristão perfeitamente
inocente e legítimo. Mas como na verdade a doutrina cristã não
tem nenhuma base para a instituição do casamento, resulta que
as pessoas do mundo deixaram uma margem sem abordar à outra: eles não
crêem no fundo nas disposições da Igreja que dizem respeito
ao casamento, porque sentem que esta instituição não
tem fundamento na doutrina cristã e ao mesmo tempo perdem de vista
o ideal de

 

Cristo, escondido pelo ensino da Igreja, a aspiração para uma
castidade absoluta, e ficam quanto ao casamento sem nenhuma direcção.
Daí vem este fenómeno que a princípio pareceu estranho:
entre os judeus, os maometanos, os lamaístas e outros que professam
doutrinas religiosas de um nível muito mais baixo que o cristianismo,
mas que têm regras exteriores do casamento precisas, o princípio
filial e a fidelidade conjugal são incomparavelmente mais firmes que
entre os nossos pretensos cristãos.

Eles praticam uma concubinagem, uma poligamia regulamentada, fechada dentro
de certos limites. Enquanto entre nós, a desvergonha absoluta, a concubinagem,
a poligamia e a poliandria, escapando a todas as regras, revestem o aspecto
de uma monogamia imaginária.

Unicamente porque, para uma certa classe o clero celebra, por dinheiro, uma
determinada cerimónia chamada matrimónio cristão. As
pessoas do mundo então, inocente ou hipocritamente, imaginam que vivem
na monogamia.

Não houve nunca nem pode haver matrimónio cristão como
não há nem nunca poderia haver culto cristão, nem professores
ou padres cristãos, nem propriedade cristã, nem exército,
nem justiça ou estados cristãos. Isto foi sempre compreendido
pêlos verdadeiros cristãos dos primeiros séculos e dos
séculos seguintes.

O ideal cristão é o amor de Deus e do próximo, é
a renúncia a si próprio para servir Deus e o próximo;
o amor carnal, o matrimónio, não é serviço senão
de si próprio e assim ele é em todos os casos um obstáculo
ao serviço de Deus e os homens, por consequência, sob o ponto
de vista cristão estão em pecado. O facto de se contrair matrimónio
não é prestar serviço a Deus nem mesmo no caso em que
os contratantes têm como fim a propagação da espécie.
Em vez dessa gente contrair matrimónio a fim de procriarem vidas infantis
seria muito mais simples sustentar e salvar milhares de crianças que
morrem à nossa volta à míngua de alimentos — já
não digo de alimento espiritual, mas material.

Um cristão não deveria contrair matrimónio sem a consciência
de pecado senão no caso em que ele visse e soubesse que a vida de todas
as crianças que existem está assegurada. Pode-se não
aceitar a doutrina de Cristo, doutrina que impregna toda a nossa vida e sobre
a qual assenta toda a moral; mas se se aceita não se pode negar que
ela nos indica um ideal de perfeita castidade.

Diz-se claramente no Evangelho e sem nenhuma possibilidade de outra interpretação,
primeiramente, que um homem casado não pode

 

repudiar a sua mulher para tomar outra mas deve viver com aquela à
qual se uniu uma vez — segundo, que é pecado geral, e então
tanto para o homem casado como para o que o não é, considerar
a mulher como um objecto de prazer; terceiro, que um homem não casado,
melhor é não casar, quer dizer, deve guardar castidade.

Para um grande número estas ideias parecem estranhas e contraditórias.
Elas são realmente contraditórias mas não entre si; elas
contradizem toda a nossa vida, de tal modo que se levanta involuntariamente
uma dúvida: quem tem razão? Estas ideias ou a vida de milhões
de seres, compreendendo a minha? Eu próprio tenho experimentado este
sentimento no mais alto ponto quando cheguei às convicções
a que cheguei e exponho nesta narrativa — nunca pensei que o desenvolvimento
dos meus pensamentos me levasse até aqui. Tive medo perante as minhas
conclusões e tentei não lhes juntar fé, mas era impossível.
Estas conclusões contradizem toda a ordem da nossa vida, contradizem
o que pensei e expus outrora, mas devo aceitá-las. Não são
senão considerações gerais, são talvez justas,
mas reportam-se à doutrina de Cristo e não obrigam senão
aqueles que a professam; a vida é a vida e não se pode, depois
de se ter mostrado o ideal inacessível de Cristo, abandonar os povos
no seio de um dos problemas mais intensos, os mais gerais e os mais geradores
de catástrofes, só com este ideal, sem nenhuma espécie
de direcção.

Um rapaz apaixonado será, a princípio, guiado por este ideal,
mas não perseverará; desligar-se-á dele, e sem conhecer,
nem reconhecer outra regra, cairá no deboche.

Assim se raciocina ordinariamente:

«O ideal de Cristo é inacessível, portanto, não
pode seguir-nos de guia na vida; pode-se falar dele e sonhá-lo mas
não aplicá-lo à vida, portanto, é preciso abandoná-lo.
O que nos é preciso não é um ideal, é uma regra,
uma conduta correspondente às nossas forças, ao nível
médio das forças morais da nossa sociedade: o matrimónio
honesto da Igreja, ou mesmo o casamento não completamente honesto,
no qual um dos contratantes, entre nós o homem, se uniu já a
muitas mulheres, ou mesmo o casamento com possibilidade de divórcio,
ou mesmo o casamento civil, ou mesmo (se vamos por este caminho) o matrimónio
japonês a prazo… e porque não então as casas de tolerância?
Diz-se que vale mais do que a aliciação na rua. É justamente
essa a desgraça: quando se pode baixar um ideal ao nível da
sua própria fraqueza, não se pode achar o limite onde devemos
parar.»

Este raciocínio é falso desde o princípio; antes de
mais nada é falso

 

dizer que um ideal de perfeição absoluta não pode ser
guia na vida e que devemos contemplando-o, ou renunciar a esse ideal, dizendo
que nos não serve para nada porque não conseguimos atingi-lo,
ou então baixá-lo até ao nível em que se mantém
a nossa fraqueza. Raciocinar assim é agir como um navegador que dissesse:
Como não posso seguir a direcção que me indica a bússola,
vou deitá-la fora ou vou deixar de me guiar por ela, quer dizer abandonarei
o meu ideal; ou melhor, ligarei a agulha da bússola ao lugar que corresponderá
à marcha do navio, num movimento dado e assim baixarei o meu ideal
ao nível da minha fraqueza.

O ideal de perfeição dado por Cristo, não é um
sonho, nem assunto de discurso retórico, é guia necessário
e acessível a todos da vida moral dos homens, da mesma maneira que
a bússola é um guia necessário e acessível da
navegação; somente o que é necessário é
acreditar tanto num como noutro.

Em qualquer situação que se encontre um homem encontrará
sempre na doutrina cristã as directivas mais seguras quanto aos actos
que lhe convém ou não realizar — mas é preciso
acreditar completamente nesses ensinamentos, deixar de acreditar nos ensinamentos
de outras doutrinas, da mesma maneira que o navegador deve acreditar na bússola,
e cessar de examinar o que vê ao lado dele. É necessário
sabermo-nos guiar com o auxílio da doutrina cristã como com
o auxílio da bússola e para isto é preciso antes de mais
nada compreender a sua situação e não temer de determinar
com precisão a distância que nos separa da direcção
ideal dada. Em qualquer nível que se encontre um homem, há sempre
para ele uma possibilidade de se aproximar deste ideal — e não
pode haver para ele situação em que possa dizer que atingiu
o ideal e não possa aspirar a aproximar-se cada vez mais. Tal é
a tendência do homem para o ideal cristão em geral e para a castidade
em particular.

Se considerarmos, no que diz respeito ao problema sexual, as mais diferentes
situações (desde a infância até ao casamento),
nas quais não se observa a continência, em cada passo, entre
estas duas posições, a doutrina de Cristo e o ideal que nela
se expõe servirá sempre de guia claro e preciso para o que o
homem deve ou não deve fazer em cada um desses passos.

Como devem proceder um adolescente e uma rapariga pura? Evitar as tentações
a fim de poder consagrar-se completamente ao serviço de Deus e dos
homens, e tender para uma pureza cada vez maior em pensamento e desejo.

Que devem fazer um adolescente e uma rapariga que sucumbiram às

 

tentações, absorvidos pelo pensamento de um amor sem objecto,
ou de um amor por um ser determinado, e tendo perdido, de facto uma parte
da faculdade de servir a Deus e aos homens? A mesma coisa: não renovar
a queda sabendo que «deixar ir», longe de os libertar da tentação,
não faz mais do que reforçá-la, e tender sempre da mesma
maneira para uma pureza cada vez maior a fim de poder servir plenamente Deus
e os homens.

Que devem fazer os que se deixaram vencer nesta luta e que caíram?
Considerar a sua queda não como uma alegria legítima, como se
faz agora quando essa queda é absolvida pelo rito do casamento, nem
como prazer acidental que se pode repetir como outros, nem como uma desgraça
quando a queda se consumou com um ser que não é nosso igual
e sem rito, mas considerar esta primeira queda como a única, como a
conclusão de um casamento indissolúvel. O facto de contrair
casamento acarretando uma consequência: a concepção de
filhos, determina para os esposos uma nova forma mais limitada do serviço
de Deus e dos homens. Antes do casamento, o homem, directamente, sob as formas
mais variadas, podia servir a Deus e aos homens; o facto de contrair casamento
reduz o seu raio de acção e obriga-o a criar e a educar a sua
descendência, composta de futuros servidores de Deus e dos homens.

Que devem fazer um homem e uma mulher que vivam no casamento, e completam
este serviço limitado de Deus e dos homens, através da educação
e da instrução dos filhos que derivam da sua posição?

A mesma coisa: aspirar em conjunto a libertar-se das tentações,
a purificar-se, a abster-se de pecar, a substituir as relações
conjugais, que se opõem ao serviço geral e particular de Deus
e dos homens; substituir o amor carnal pelas relações puras
de um homem e de uma irmã.

É por isso que é falso dizer que não podemos guiar-nos
segundo o ideal de Cristo porque é demasiado elevado, demasiado perfeito
e inacessível; se não nos podemos guiar segundo o ideal de Cristo,
é unicamente porque mentimos a nós próprios e nos procuramos
enganar.

Com efeito, quando dizemos que temos necessidade de regras mais praticáveis
que o ideal de Cristo e que de outro modo, porque não podemos atingir
esse ideal, caímos no deboche, não dizemos que o ideal de Cristo
é demasiado elevado para nós mas somente que não acreditamos
na nossa vontade de conformar os nossos actos com os seus ensinamentos.

Dizendo que uma vez caídos, tornaremos a cair no deboche, dizemos
somente que antecipadamente, tínhamos já decidido que a queda
com uma inferior não é um pecado, mas um divertimento, um arrebatamento
que não

 

somos obrigados a reparar por aquilo a que chamamos casamento. Em contrapartida,
se compreendêssemos que a queda é um pecado que deve ser resgatado
e não pode sê-lo senão pela indissolubilidade do casamento
e por toda a actividade que ressalta da educação dos filhos
nascidos desse casamento, da queda não poderia jamais resultar a recaída
no deboche. É exactamente como se um cultivador recusasse o nome de
sementeira às sementeiras que não tivessem resultado e não
chamasse verdadeiras sementeiras, depois de semear várias terras, senão
às que tivessem germinado.

Visivelmente este homem malbarataria muitas terras e sementeiras e nunca
aprenderia a semear.

Fazei da castidade um ideal, considerai que toda a queda de quem quer que
seja, com quem quer que seja, é um casamento único e indissolúvel
para toda a vida e será evidente que a linha de conduta que nos deu
Cristo é não só suficiente mas a única possível.

O homem é fraco, é preciso dar-lhe uma tarefa segundo as suas
forças, diz o povo. Isto quer exactamente dizer: os meus braços
são fracos e não posso seguir a linha que deveria ser direita
— isto é, a mais curta distância de um ponto a outro; contudo,
para me consolar, desejando seguir essa linha directa, vou tomar como modelo
uma linha curva ou quebrada. Quanto mais fraco é o braço, maior
é a necessidade de um modelo perfeito.

Desde que uma vez se compreendeu a doutrina cristã do ideal, não
se pode proceder como se a desconhecêssemos e substituí-la por
regras exteriores. A doutrina cristã do ideal foi revelada à
humanidade precisamente porque pode dirigi-la na idade que ela agora atingiu.
A humanidade ultrapassou o período das regras religiosas exteriores
mas ninguém acredita nisso. A doutrina cristã do ideal é
a única doutrina capaz de conduzir a humanidade. Não se pode,
não se deve substituir o ideal de Cristo por regras exteriores, é
preciso, ao contrário, manter firmemente este ideal diante de si, em
toda a sua pureza e sobretudo acreditar. A um homem que navegue perto da margem
poder-se-ia dizer: orienta-te por esta iminência, por este cabo, por
esta torre, etc. Mas chega o momento em que o navegador se afasta da margem,
onde só os astros são acessíveis e a bússola que
lhe indica a direcção devem e podem servir-lhe de guia.

São-nos dados um e outro.

Veja também

O Soldado e a Trombeta

Fábula de Esopo por Olavo Bilac PUBLICIDADE Um velho soldado Um dia por terra A …

O Credo – Olavo Bilac

Olavo Bilac PUBLICIDADE Crê no Dever e na Virtude! É um combate insano e rude …

O Remédio – Olavo Bilac

PUBLICIDADE A Amelinha está doente, Chora, tem febre, delira; Em casa, está toda gente Aflita, …

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Time limit is exhausted. Please reload the CAPTCHA.