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DECLÍNIO DO ANARQUISMO

ALGUMAS DE SUAS CAUSAS!!!

"Mas uma grande idéia não pode germinar num só dia, por mais rápida que seja a elaboração e a difusão de idéias durante os períodos revolucionários."

Piotr Kropotkin

O declínio histórico do anarquismo tem sido ao longo de décadas apresentado por seus opositores - em particular os marxistas - como uma decorrência do processo histórico de transição de sociedades pré-capitalistas para o capitalismo, e de substituição dos artesãos pelo proletariado industrial. Essa tese que tem como expoentes historiadores do tipo de Eric Hobsbawn dificilmente resiste a uma análise mais detalhada. Apresentando-se sob o rótulo da cientificidade da história e sua "neutralidade", mas logo denunciada pelos impulsos exegéticos da dogmática leninista de Hobsbawn sempre que se refere ao anarquismo, chegando às raias da má-fé e de distorção da realidade histórica em vários de suas obras *. Outros historiadores mais conhecedores do anarquismo como Rudolf de Jong ou Carlos da Fonseca já demonstraram como o movimento anarquista do século XX estava amplamente implantado entre os tralhadores industriais e nos principais centros operários da época: "Que Paris, Toulouse, Barcelona, Milão, Rio de Janeiro, São Paulo, Buenos Aires, Montevideo ou Tóquio aí ocupem lugares de grande importância constitui a negação das raízes rurais do movimento." **

Mas se para os pensadores liberais ou para os marxistas o declínio do anarquismo é uma natural inevitabilidade histórica, para muitos anarquistas é um incompreensível acidente, nos dois casos tem ficado sistematicamente ocultas as razões que explicam tal declínio.

Para compreendermos a situação atual do anarquismo, os principais problemas com que se confronta e as possibilidades que se abrem, teremos de rever sua fase de declínio, que se estendeu pelas décadas de 20 e 30 e culminou com a derrota da Revolução Libertária de 1939 na Espanha.

A conjugação de múltiplos fatores adversos, que os anarquistas foram incapazes de entender ou de contornar na conjuntura política e social da época, é o que explica esse esvaziamento progressivo do movimento.

a) Se existe uma causa que deva ser apontada em primeiro lugar essa é a resultante das transformações sofridas pelo capitalismo e pelo Estado, nessas primeiras décadas do século.

A intensificação das lutas operárias a partir de finais do século XIX, o espectro da Revolução Social e as mudanças tecnológicas e organizacionais levaram o Capital a iniciar uma política redistributiva nos países industrializados, o que permitiu uma expansão do processo produtivo e acima de tudo a adesão dos trabalhadores ao sistema. O acesso ao consumo tornou-se assim o antídoto contra a revolta e foi um fator primordial para a adesão dos trabalhadores à lógica normativa do capitalismo.

O surgimento do Estado intervencionista, que se insere neste processo de mudanças estruturais - seja na sua versão corporativista-fascista, seja na de Estado de Direito Social -, levou ao reconhecimento dos direitos econômicos e sociais dos trabalhadores e a uma demarcação de limites ao capitalismo de livre concorrência e livre exploração do século XIX.

A educação e a saúde pública tornaram-se objetivos de Estado e os direitos trabalhista: descanso, férias, assistência social e reforma, passaram a fazer parte das políticas de governo. O movimento operário conseguiu impor algumas das suas reivindicações históricas, mas a troco de uma sujeição ao Estado que se traduziu na institucionalização dos conflitos laborais, através de regras de arbitragem ditadas por esse mesmo Estado. Os governos criaram um novo departamento da conciliação social: o Ministério do Trabalho, que juntamente com tribunais e outros órgãos especializados passaram a interferir nas lutas operárias, na tentativa de desarticular a tática radical do confronto de classes aplicada pelo sindicalismo revolucionário e pelo anarco-sindicalismo.

O ordenamento jurídico passou a reconhecer como direitos as organizações operárias, as reuniões, as manifestações e greves, mas deu-lhes um enquadramento legal que lhes retirava todo o potencial conflitivo. Em contrapartida a ação direta, a sabotagem, o boicote e a greve de solidariedade passaram a ser criminalizadas e reprimidas de forma ainda mais violenta, estabelecendo-se claramente o limite admissível para o sindicalismo: a representação corporativa dos problemas operários.

Também o capital passou a aceitar o sindicalismo dentro desses limites, usando um duplo critério negocial: ao fazer concessões às exigências de sindicatos confiáveis e reprimir as que tivessem uma dinâmica radical. Os episódios do "pistoleirismo" capitalista nessa época, da Espanha aos EUA, são por demais conhecidos. O sindicalismo que nascera como emanação da vontade de emancipação do movimento operário, e sua forma auto-organizativa por excelência, tornou-se a partir de então um reflexo das intervenções - diretas e indiretas - do Estado e seu ordenamento jurídico.

O direito trabalhista, a institucionalização das negociações sindicais, sujeitas a ardilosas análises jurídicas e econômicas, favoreceram a burocratização dos sindicatos e em muitos casos exigiram-na. Só através da criação de estruturas administrativas e de assessoria de especialistas do acordo: advogados, economistas, sociólogos e um sem número de funcionários exteriores ao movimento operário, poderiam os sindicatos enquadrar-se neste contexto negocial e nele obter vantagens. A tentação corporativista que nunca chegou a desaparecer do sindicalismo, mesmo nas fases em que se potenciavam mais as formas revolucionárias do confronto de classes , tendo inclusive originado em quase todos os países históricas polêmicas entre anarquistas e sindicalistas, tornavam-se agora preponderantes. *

A combatividade dos sindicatos e dos militantes operários, passava a não ter correspondência direta com a eficácia na conquista de melhorias contratuais. Os mais eficazes passaram a ser os mais hábeis nas negociações, o que normalmente se traduzia na cedência sistemática perante as imposições estratégicas do Capital.

Estavam assim criadas as condições para a derrota do sindicalismo anarquista, que se sustentava na consciência revolucionária, na ação direta e na auto-organização. Tornava-se "impossível" um sindicalismo onde não cabiam funcionários e dirigentes profissionais e para quem - evocando a consigna do sindicalismo revolucionário dos EUA da IWW - "trabalhadores e capitalistas não têm nada em comum".

Neste panorama de conciliação, em que o Estado ganhava uma autonomia relativa em relação às classes dominantes, assumindo um rosto pacificador, independente, social, deixava de haver condições para a inteligibilidade do discurso anti-estatista dos anarquistas. A maioria dos trabalhadores começaram a ver o Estado como uma entidade beneficente que garantia a educação, a saúde, a habitação e a velhice dos cidadãos e não mais como aparelho central de gestão da dominação.

b) Uma segunda causa pode ser apontada: o aparecimento de ditaduras terroristas em várias regiões do mundo. Desde logo o nazi-fascismo e suas variantes ibéricas, bem como os governos de ocupação resultantes da expansão alemã. As ditaduras na América Latina de Vargas e Perón e na Rússia dos burocratas comunistas.

A repressão desencadeada tornava impossível a sobrevivência do anarquismo como movimento amplo e aberto, principalmente das organizações anarco-sindicalistas. O anarco-sindicalismo que foi a estratégia que abriu caminho à influência generalizada das idéias anarquistas na maioria dos países, não tinha condições de sobreviver em tal situação de repressão. Só um movimento estruturado clandestinamente baseado em grupos de afinidade poderia resistir. * Mas, mesmo nesse caso, a sobrevivência dependeria a longo prazo de apoio externo, seja na forma de auxílio material, seja na de território de exílio e articulação. E os anarquistas jamais dispuseram de forma continuada dessas condições. **

A prisão, morte e exílio de um número incalculável de militantes, juntamente com a impossibilidade de manter a propaganda e intervenção no movimento social, iria levar, em muitos países, ao quase esvaziamento do movimento e a uma ruptura entre gerações.

Quando se tornou possível a rearticulação, os anarquistas estavam cindidos em duas gerações distanciadas por décadas, que só com dificuldade se comunicavam e relacionavam.

c) Finalmente a terceira causa teve a ver com a vitória na Revolução Russa do leninismo e a subsequente criação dos partidos comunistas. Ao se tornar a estratégia da vitória sobre a burguesia - ou ao ser interpretado como tal - reintroduziu o marxismo com carisma revolucionário no movimento operário internacional. A ilusão de que era esse o melhor, ou o mais eficiente, caminho para chegar ao socialismo, somado à falta de informação sobre os rumos da revolução soviética, levou muitos anarquistas e outros trabalhadores ao leninismo. Uma adesão mais pragmática que teórica, que os fazia ver na sociedade russa uma concretização das idéias libertárias. E os empurrava à criação de organizações que misturavam na sua forma e no seu discurso os princípios anarquistas com um maximalismo ou leninismo incipiente. Em muitos países os partidos comunistas nasceram de rupturas no seio da corrente social-democrata, mas em quase todos houve uma participação significativa de trabalhadores oriundos do anarco-sindicalismo. No caso de Portugal e do Brasil, os Partidos Comunistas foram uma criação de anarquistas. Esta atração pelo leninismo viria a ser ainda maior entre os intelectuais anti-capitalistas que se deixaram conquistar pela idéia de criar o socialismo a partir do Estado, uma manifestação de despotismo esclarecido, baseado na concepção de que o marxismo seria a "ciência" da transformação social; e que aos intelectuais estaria reservado um papel especial na vanguarda dirigente. Nascia assim o "socialismo dos intelectuais", tão bem dissecado por Makhaiski.

Mas foi no movimento operário que as divisões introduzidas pelas divergentes concepções de socialismo, teriam maiores conseqüências, já que diminuíram a própria capacidade de resistência às ditaduras que se começavam a instalar. Esta situação se agravou após a adoção pelos comunistas de uma estratégia internacional definida pelo COMITERN e ISV de infiltração e cisão dos sindicatos de orientação anarco-sindicalista.

A ação insidiosa dos comunistas foi determinante para desarticular o anarco-sindicalismo e possibilitou-lhes a criação dos sindicatos atrelados, correias de transmissão do partido, já que para o leninismo era essa a função instrumental das organizações operárias.

Com o agudizar da repressão e, na medida em que os comunistas conseguiram sobreviver na clandestinidade, tornaram-se para muitos trabalhadores a única força capaz de articular as lutas operárias contra as ditaduras e o capitalismo. Soma-se a isso a maleabilidade tática que os levava a não desprezar a luta pelas pequenas reivindicações e a integrar conceitos conservadores e nacionalistas em seu discurso, o que se adequava a um movimento social em que se expandia o reformismo. Começava assim a dar-se a hegemonia comunista nos meios operários, processo que estava concluído nos finais da década de 40.

A derrota da Revolução em Espanha, foi o culminar desta tendência e sua mais evidente demonstração. Aquele que foi o mais avançado esboço de transformação social libertária, foi empalmado entre fascistas e estalinistas, ante a indiferença conivente dos Estados democráticos, na mais sinistra combinação de forças contra-revolucionárias de nossa época. Essa seria a última grande mobilização popular das idéias anarquistas e a mais trágica das derrotas. O socialismo libertário, que desde o século XIX tinha tido um dos seus bastiões na Península Ibérica, era esmagado após uma guerra civil que levaria à morte e ao exílio milhões de militantes. Episódio da história social contemporânea que reúne contraditoriamente os erros, os limites e as possibilidades criadoras do anarquismo. Nunca o anarquismo teve um papel tão decisivo nas mudanças profundas de uma sociedade quanto na Revolução Espanhola, mas também nunca ficou tão próximo de se descaraterizar como alternativa às instituições estatizantes e burocráticas. A participação de alguns de seus mais conhecidos militantes no governo, mesmo não colhendo a adesão de parte do movimento, nem chegando a gerar um anarquismo político de feição maximalista, foi um colaboracionismo que deixou seqüelas profundas no movimento libertário. * Dessa experiência também não conseguiram os anarquistas extrair uma teoria e uma prática adequada para lidar com o fenômeno do Estado e do Poder, nem desenvolverem a partir das realizações construtivas da Revolução - para empregar as palavras de Gaston Leval - uma alternativa de autogestão generalizada para as modernas sociedades complexas.

Hoje, poderemos a partir destas mesmas causas que se combinaram para debilitar o movimento anarquista, entender as perspectivas abertas pela derrocada de dois mitos: o do Estado Socialista e o do Estado do Bem Estar Social. Agora, mais de cinqüenta anos após a Revolução Espanhola de 1936, talvez os anarquistas possam refletir sobre todo esse período de esperanças e derrotas dos movimentos libertários.

Mesmo que hoje tenham desaparecido as causas fundamentais do declínio do anarquismo, isso ocorre numa fase em que o pensamento e a prática libertária atingiram seu ponto mínimo e quando a homogeneização ideológica do sistema capitalista atingiu seu ápice. Certamente por essa razão o desgaste do Estado e da representação política só tenha gerado um generalizado desinteresse cínico com os destinos da sociedade e não mais uma busca de uma alternativa ao existente.

Essa descrença generalizada, contraditoriamente, pode representar o começo de uma nova esperança: se não mais acreditamos no Estado e na democracia representativa, então podemos nos auto-organizar e começar a imaginar formas de autogoverno para as sociedades. E aí nos reencontramos com o velho desafio do anarquismo!

UMA ÉPOCA DE DESENCONTROS!!!

"Os bois passam debaixo da canga

os cegos vão aonde a gente queira levá-los

Mas o homem que nasce livre tem o seu próprio caminho..."

Herbert Read

A partir dos anos 40 o anarquismo tornou-se uma pálida imagem do que fora no passado, não possuindo sequer já o vigor, a combatividade e a obstinação dos primeiros grupos que se formaram na década de 60, no século XIX. A fragilidade do movimento - que se prolonga até agora - manifesta-se na sua quase ausência dos movimentos sociais, na sua incapacidade associativa e na reduzida influência no pensamento crítico atual. Derrotado em Espanha, enfraquecido pelas mortes e prisões, dividido pelas mágoas do exílio, o anarquismo perdeu a sua última grande referência. Por todo o lado, na Europa e na América, os movimentos sociais reapareciam enfeudados a populismos estatizantes ou atrelados à estratégia comunista das "correias de transmissão", sendo meros instrumentos da política partidária.

Gradualmente o anarquismo perdia a sua principal vitalidade das décadas anteriores que lhe era dada pelos camponeses das diferentes comunidades do estado espanhol, pelos operários de Barcelona, Rio de Janeiro, Buenos Aires, pelos núcleos libertários da Ásia e pelos internacionalistas que corriam a América e a Europa agitando as idéias de uma sociedade sem Estado.

Os grupos que persistiam em países como França e Itália era o que sobrava desse velho movimento proletário e revolucionário que tinha agitado a Europa nos últimos cem anos, mas a sua incapacidade de penetração nos movimentos sociais e entre a juventude era uma constatação evidente.

Foi então, que de forma imprevisível, no final dos anos 60, irromperam novamente as idéias libertárias, a partir de uma geração quase sem contato com o movimento anarquista histórico.

A crítica da sociedade industrial, a ecologia, o pacifismo e o comunitarismo nascidos no movimento contracultural da América do Norte, desenvolveram-se em paralelo ao anti-capitalismo radical dos jovens estudantes e proletários da Europa de 68. Os valores libertários que os anarquistas tinham assumido no movimento social, ao longo de décadas, emergiam novamente de forma criativa e espontânea. Esta nova geração, ao se aproximar do velho movimento iria se confrontar com o problema da distância que os separava dos militantes provindos das lutas dos anos 30, na sua quase totalidade operários autodidatas. Seria complexa e difícil essa integração: a visão do mundo, o discurso, a estratégia, a origem social - e até os comportamentos - eram distintos, dificultando que a experiência e a história que esses velhos militantes representavam se somasse ao voluntarismo e criatividade das novas gerações.

Passaram a coexistir dois movimentos paralelos, com suas publicações e grupos claramente identificáveis, que umas vezes se completavam, mas em outras conflitavam. Com o tempo acabaram por estabelecer alguns contatos, ligações e colaborações entre si, sem no entanto vencer definitivamente essa barreira que os separava. Não era o resultado do envelhecimento ou dogmatismo dos velhos militantes como alguns afirmavam, mas tão só a barreira inexorável do tempo que afastava esses experimentados ativistas da realidade da prática social; e que aos jovens impedia de apreender o conhecimento e a experiência que o movimento histórico havia acumulado. Os grupos surgidos a partir do começo dos anos 70, iriam ainda ser marcados por uma fraqueza congênita, já que eram constituídos por estratos sociais que se definem por sua transitoriedade e descontinuidade: jovens e estudantes. Não conseguindo superar o maior problema com que se debatia o anarquismo nas últimas décadas, o da sua implantação nos movimentos sociais.

O anarquismo, ao contrário do marxismo, não acredita na existência de um sujeito histórico único e predestinado, uma classe ou grupo social capaz de realizar, em função de um destino histórico, a mudança social. As forças sociais que os libertários consideravam mobilizáveis para um projeto de mudança, eram mais vastas e plurais. Desde Bakunin e Kropotkin, sempre estiveram no centro do pensamento anarquista, ao lado do proletariado, os camponeses, todos os explorados e excluídos, os marginais e jovens, mas enquanto pessoas concretas, sujeitos capazes de assumirem sua liberdade e se autodeterminarem historicamente. * No entanto, é condição necessária para a concretização de um projeto de transformação social, que esses sujeitos sejam parte de grupos e classes sociais com uma afinidade de interesses e com uma estabilidade e continuidade estrutural, que possibilitem formas de associação e de luta a prazos mais longos.

O movimento anarquista só terá condições de retomar uma presença significativa nos movimentos sociais, se participar das suas lutas, principalmente as que nascem das condições básicas de produção e da resistência às relações de dominação. Já que as fábricas, os escritórios e os outros locais de trabalho dos assalariados, serão sempre - enquanto não existir a robotização total da produção e prestação de serviços - o centro das relações fundamentais de dominação e, consequentemente, o núcleo potencial da resistência ao capitalismo, onde pode germinar uma alternativa social. O anarquismo não conseguiu até hoje retomar sua relação histórica com os movimento sociais e, particularmente, com a luta operária. O renascimento do anarco-sindicalismo em Espanha, nos anos 70, foi um caso único que resultou de uma longa história do anarco-sindicalismo e da tradição libertária nesse país. Mas mesmo aí, não se traduziu numa recriação da estratégia anarco-sindicalista adaptando-a às profundas transformações da economia e da própria condição operária, que haviam sido decisivas para debilitar o movimento.

Os problemas com que se tem debatido a CNT após sua reconstrução em 1977 resultam em parte - já que temos de reconhecer que existiram tentativas de infiltração e cerco por parte do Estado -, de duas causas: a primeira foi a incapacidade da CNT romper com o fantasma da história e se abrir ao novo movimento libertário que renascia nos anos 70, em Espanha; por outro lado do fato da estratégia anarco-sindicalista, como se definiu historicamente, não se mostrar operante numa sociedade em que o Capital e o Estado tinham passado por mutações profundas. Esta constatação não significa aceitar como certa e inevitável a teoria que o sindicalismo morreu ou é, hoje, inevitavelmente integrador, e menos ainda, que não existe espaço para uma estratégia autônoma de confronto anti-capitalista nas atuais relações de trabalho. Embora tenhamos de reconhecer que essa margem se reduziu na maioria dos países de capitalismo maduro, onde a consciência da sujeição desapareceu perante a perspectiva de acesso ao consumo. E onde uma nova e radical divisão se cria no mundo do trabalho: a que nasce da oposição entre os garantidos e os excluídos das relações de produção.

Mesmo assim a existência de organizações anarco-sindicalistas em Espanha, em França e na Suécia, e de diversos núcleos sindicalistas revolucionários em outros países, não deixam de ser um desafio que se mede pela distância que vai desse sindicalismo autônomo ao sindicalismo atrelado, corporativista, e burocrático. *

Mesmo assim temos de reconhecer com lucidez os limites atuais da prática sindical que tende a se desvirtuar na prática negocial - esse é o drama da CGT em Espanha - , ou a se encurralar na intransigência do confronto, impedindo os ganhos imediatos, que são uma componente necessária dessa forma de organização. Ao contrário da visão simplista de alguns anarquistas, o sindicalismo burocrático e corporativo predominante atualmente, não é um produto da traição de dirigentes reformistas, mas a expressão do movimento operário que aderiu aos valores e à lógica do capitalismo. A burocracia sindical, tal como a burocracia política, só reflete a imagem dos movimentos sociais contemporâneos.

Esta reavaliação das relações anarquismo X sindicalismo, e a definição de uma estratégia atual para a ação no mundo do trabalho não deixam de ser importantes, mesmo que, levando em consideração a situação atual na maioria dos países, as perspectivas para os anarquistas são, quando muito, a de contribuir para a criação de núcleos de autonomia e auto-organização nos locais de trabalho, aplicando as idéias e táticas do anarco-sindicalismo adequadas a cada situação.

Hoje o sindicalismo para ser revolucionário, teria de se tornar mais abrangente, mesmo ao nível reivindicativo, rompendo as amarras do reacionarismo corporativo. Além das tradicionais lutas salariais, de redução de horário, de melhoria das condições de trabalho e contra o desemprego, teria de passar a intervir no redimensionamento do papel do trabalho e da função do trabalhador. E, indo mais além, atuar nas questões que envolvem o mundo do trabalho, como os transportes, habitação, urbanismo, consumo e qualidade de vida, já que são aspetos fundamentais, se partirmos de uma visão integrada das relações de dominação e de suas conseqüências na existência quotidiana dos assalariados. ** O sindicalismo revolucionário teria de retomar a tradição perdida de ser o espaço de construção de relações de afinidade e solidariedade e de criação de uma contracultura de resistência. Rompendo a barreira contemporânea estabelecida entre os trabalhadores garantidos e excluídos, entre os que possuem trabalho precário e trabalho seguro, criando formas de organização e luta solidária junto com os desempregados e aposentados.

As mudanças estruturais por que está passando a sociedade capitalista tem como uma de suas conseqüências mais importantes o declínio da coesão e consciência dos trabalhadores, bem como a perda da identidade construída ao longo do século XIX e primeiras décadas do nosso século. O Estado do Bem-Estar, a sociedade de consumo e as tecnologias de massificação, em particular o rádio e a televisão, podem ser apontadas como algumas das razões fundamentais para esta realidade que se manifesta de forma clara no primeiro mundo e já adquire os mesmos contornos nos países do sul industrializados e urbanizados. Onde o espaço comunitário e da socialização dá lugar à realidade mediática da televisão omnipresente. Se num primeiro momento o sindicalismo e o anarquismo conseguiram se apropriar da tecnologia da imprensa e a partir dela construir uma cultura operária e libertária, o mesmo processo não ocorreu em relação à rádio, televisão, vídeo e agora em relação à informática, que foram usados quase exclusivamente pelo sistema para unificar ideológica e culturalmente toda a sociedade, destruindo as diferenças e neutralizando a resistência cultural que se havia gerado a partir da crítica anti-capitalista. Essa estratégia teve um outro desdobramento, que foi o da fragmentação do espaço coletivo quotidiano das classes dominadas, induzidas por essas mesmas tecnologias a se fecharem sob o espaço individual e privado do lar. A reconstrução desse espaço perdido da sociabilidade, da comunicação e da cultura dos "de baixo", é possivelmente o maior desafio que um projeto libertário terá de enfrentar.

O anarco-sindicalismo, principal responsável pela criação dessa cultura operária em muitos países, foi um exemplo de criatividade dos operários libertários e de sua adaptação às necessidades de luta da época em que surgiu. Foi também a aplicação concreta de estruturas auto-controláveis e auto-dirigidas à sociedade industrial.

Sua recriação atual, terá de afastar qualquer pretensão hegemonista ou de imitação saudosista e considerar que é uma das estratégias possíveis de luta anti-capitalista. Talvez a que maiores potencialidades ainda tem entre os setores sociais sujeitos as condições de trabalho violentas ou em regiões do mundo onde o quotidiano de miséria e exploração mantém desperto o instinto combativo dos assalariados.

Mas não se pode perder de vista que toda a análise social, centrada exclusivamente sobre as relações de produção, não dá conta de muitos problemas já levantados no passado e, menos ainda, dos que adquiriram maior importância nos últimos anos, através dos novos movimentos sociais, nascidos como resposta auto-organizativa a situações e conflitos diferenciados. O anarquismo que já no passado se manifestava e agia nas mais diferentes áreas, do anti-militarismo e pacifismo, ao naturismo, do esperanto às experiências educacionais, deveria estar especialmente atento às potencialidades libertárias destes novos movimentos. Mas, sem deixar de lhes apontar a principal limitação que é a de assumirem uma visão fragmentada dos problemas estruturais da sociedade, perdendo a noção do todo social.

Da organização dos consumidores, ao ambientalismo, da ecologia ao feminismo, do anti-militarismo às prisões, muitos são os objetivos e as formas de associação que potenciam a auto-organização de diferentes setores da sociedade em defesa dos seus interesses e, certamente, em todos os casos pode haver uma proposta e uma presença libertária que potencie a articulação e globalização de cada uma dessas lutas.

A ecologia social e o anti-militarismo, pelas suas tradicionais afinidades com os valores libertários, são áreas onde a militância anarquista mais se tem exprimido, mas também aí as potencialidades são limitadas, se for perdido o sentido da estratégia global de ruptura. * Não é possível construir uma alternativa social a partir do espaço fragmentado da particularidade e da diferença, mas somente a partir da cooperação em torno de um projeto de mudança que una diferentes grupos e tendências sociais. Caso contrário acabarão engolidos - como temos assistido nos últimos tempos - pelo movimento permanente de integração, através do qual o sistema tende a recuperar em seu benefício toda a crítica parcelar.

Também as lutas relativas às liberdades se tem tornado mais comuns nos chamados países democráticos, sendo decisivas para impedir a expansão do Estado autoritário. Os anarquistas não se podem omitir com o inócuo pretexto de que em muitas delas estão em causa apenas regras jurídicas, já que são estes espaços de liberdade que o movimento social impôs ao Estado, como seus direitos que estão ameaçados.

As garantias penais e processuais, os direitos dos presos, o direito de asilo e de emigração, são entre muitos outros, os que os Estados vêm paulativamente eliminando ou reduzindo. A nossa crítica ao Estado se concretiza no estabelecimento de metas imediatas para a luta social nesta área. Contrariamente a uma recusa abstrata ou a uma concepção doutrinária, devemos apoiar uma prática radical anti-estatista, que em cada caso e situação se oponha à expansão e hegemonia das relações de Poder, e favoreça a autonomia e a criação de espaços de liberdade a partir da própria sociedade.

Todas estas possibilidades, em aberto, para nossa intervenção, estão condicionadas pela capacidade de nos articularmos e associarmos, já que só movimentos sociais organizados têm condições para transformar qualquer situação social. Nossa fragilidade organizativa: incapacidade de associação e coordenação em cada região e mais ainda internacionalmente, são por demais evidentes para não serem vistas como um dos problemas chaves do que genericamente chamamos de movimento libertário. Não se solucionando isto, será impossível qualquer ativismo profícuo, qualquer resultado duradouro para a nossa militância ou a transmissão de uma cultura libertária entre gerações.

O processo de globalização da sociedade industrial, está entrando num momento decisivo, onde o internacionalismo e a solidariedade dos povos é o único antídoto contra a xenofobia e a ghuetização de um mundo repartido entre o desperdício da abundância, no Norte, e a mais absurda das misérias no Sul. Usando as palavras de Noam Chomsky : "o principal hoje é que se a resistência popular quiser ter alguma significância, terá que ser internacional..., isto começa a ser compreendido e é preciso que haja algum tipo de reação em escala internacional, um tipo de solidariedade transnacional entre pobres e trabalhadores".

Por essa razão podemos afirmar que, de forma imediata, teremos de encarar a questão da associação, articulação e coordenação de nossas práticas. O que passa também pela clarificação do papel da organização libertária, que é, antes do mais, o de criação de um espaço coletivo, livre e fraterno, onde se forjem novas relações sociais e se viva de acordo com os valores da cultura libertária, como aconteceu no passado quando "os trabalhadores e os pobres não estavam nem de longe tão isolados e nem submetidos ao monopólio ideológico da mídia dos negócios." * Foi por isso que a esperança e a utopia se reproduziam nesses espaços libertados onde viviam os excluídos. É esta uma das funções que temos de recuperar para as associações libertárias, ao mesmo tempo que se assumam como um núcleo de difusão das idéias anarquistas e de articulação da luta de resistência anti-capitalista.

As formas concretas de associação podem ser diversas, das organizações anarco-sindicalistas, às federações de grupos de afinidade, das redes de informação, às associações de ateneus e centros de cultura. O fundamental é federalizar e coletivizar práticas e experiências isoladas, ampliando assim as possibilidades de intervenção social. A ruptura com o isolamento e o individualismo do cidadão-consumidor-espectador - papel que o Sistema nos quer impor - é o passo mais decisivo no caminho da reconstrução do espaço coletivo da alternativa social.

Só através de um associativismo libertário que respeite a autonomia, singularidade e diferença entre cada indivíduo ou grupo, mas que seja capaz de potencializar, acima de tudo, o que temos em comum, fundamento de qualquer relação de afinidade, solidariedade e apoio mútuo, poderemos criar uma dinâmica nova no movimento e concretizarmos de imediato as formas organizacionais que propomos para a sociedade.

Este é o modelo reconhecido por qualquer anarquista, mas que tantas vezes negamos ao adotar posturas dogmáticas e arrogantes, confrontos personalizados, criticismos inconseqüentes, resultantes do descomprometimento com a ética anarquista. Essa ética que nos leva a exigir uma adequação dos meios aos fins um ponto importante da nossa crítica ao socialismo autoritário deve assumir um papel central na militância libertária, condicionando imperativamente nossa prática social. Uma realidade em que estão presentes tensões permanentes, resultantes das pressões do meio social, da introjeção dos valores dominantes e das limitações pessoais, mas que será sempre o critério determinante para a avaliação da coerência de cada um de nós.

A ética anarquista e os valores libertários tornam-se, assim, pontos da ruptura radical com as ideologias autoritárias, constituindo a mais profunda clivagem com o socialismo autoritário. A rebeldia, a transformação social só podem ser um produto da vontade livre de sujeitos autodeterminados e solidários vivendo dentro de uma dada realidade histórica e social. Jamais produto das condições materiais de produção. Essas sempre potenciarão a maximização da alienação e da sujeição.

Nenhum materialismo vulgar poderá explicar Miguel Angiolillo. Um operário italiano refugiado em Londres, que depois de conhecer os depoimentos de anarquistas

espanhóis vítimas de prisão e tortura, decide em 1896, calma e pacientemente procurar o primeiro ministro de um país estranho e o assassinar, morrendo no garrote após realizar o que para si era imperativo pessoal de solidariedade.

Fonte: www.anarquia.oi.com.br

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